PAIDEIA: A formação do homem grego (tradução do original PAIDEIA: Die Formung des griechischen Menschen)

Tradução de ARTUR M. PARREIRA

Adaptação para a edição brasileira de MONICA STAHEL

Revisão de GILSON CÉSAR CARDOSO DE SOUZA

5. ed., SP: WMF Martins Fontes, 2010.

Alguns livros são muito longos para ler em vida. Por isso, eu reduzi o conteúdo de 1413 páginas para 329, para que você pudesse ler também! A perda em conteúdo foi a mínima possível, assim espero. Com comentários meus e ilustrações de fora do livro.


ÍNDICE REMISSIVO [CONTROL+F]

I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA

1.1 NOBREZA E ARETE

1.2 CULTURA E EDUCAÇÃO DA NOBREZA HOMÉRICA

1.3 HOMERO COMO EDUCADOR

1.4 HESÍODO E A VIDA DO CAMPO

1.5 O ESTADO JURÍDICO E O SEU IDEAL DE CIDADÃO

1.6 A AUTOFORMAÇÃO DO INDIVÍDUO NA POESIA JÔNICO-EÓLICA

1.7 SÓLON COMEÇO DA FORMAÇÃO POLÍTICA DE ATENAS

1.8 O PENSAMENTO FILOSÓFICO E A DESCOBERTA DO COSMOS

1.9 LUTA E TRANSFORMAÇÃO DA NOBREZA

1.10 A POLÍTICA CULTURAL DOS TIRANOS

LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO

2.1 O DRAMA DE ÉSQUILO

2.2 O HOMEM TRÁGICO DE SÓFOCLES

2.3 OS SOFISTAS

2.4 EURÍPIDES E O SEU TEMPO

2.5 A COMÉDIA DE ARISTÓFANES

2.6 TUCÍDIDES COMO PENSADOR POLÍTICO

LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO

3.1 PRÓLOGO

3.2 SÉCULO IV

3.3 SÓCRATES

3.4 A IMAGEM DE PLATÃO NA HISTÓRIA

3.5 DIÁLOGOS SOCRÁTICOS MENORES DE PLATÃO

3.6 O PROTÁGORAS

3.7 O GÓRGIAS

3.8 O MÊNON

3.9 O BANQUETE

3.10 A REPÚBLICA – I

3.11 A REPÚBLICA – II

3.12 A REPÚBLICA – III

LIVRO QUARTO: O CONFLITO DOS IDEAIS DE CULTURA NO SÉCULO IV

4.1 A MEDICINA COMO PAIDEIA

4.2 A RETÓRICA DE ISÓCRATES E O SEU IDEAL DE CULTURA

4.3 EDUCAÇÃO POLÍTICA E IDEAL PAN-HELÊNICO

4.4 A EDUCAÇÃO DO PRÍNCIPE

4.5 AUTORIDADE E LIBERDADE NA DEMOCRACIA RADICAL

4.6 ISÓCRATES DEFENDE A SUA PAIDEIA

4.7 XENOFONTE: O CAVALEIRO E O SOLDADO IDEAIS

4.8 O FEDRO DE PLATÃO: FILOSOFIA E RETÓRICA

4.9 PLATÃO E DIONÍSIO: A TRAGÉDIA DA PAIDEIA

4.10 AS LEIS

EPÍLOGO – TRANSIÇÃO

E.1 DEMÓSTENES: AGONIA E TRANSFORMAÇÃO DA CIDADE-ESTADO


I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Sem dúvida, a estabilidade não é indício de saúde, porque reina também nos estados de rigidez senil, nos momentos finais de uma cultura: assim sucede na China confucionista pré-revolucionária

Por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas, religiosas e políticas dos povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura só começa com os gregos.”

este retorno à Grécia, esta espontânea renovação da sua influência, não significa que lhe tenhamos conferido, pela sua grandeza espiritual, uma autoridade imutável, fixa e independente do nosso destino. O fundamento do nosso regresso reside nas nossas próprias necessidades vitais, por mais variadas que elas sejam através da História.”

O conhecimento do fenômeno original pressupõe uma estrutura espiritual análoga à dos gregos, atitude semelhante à que Goethe adota na consideração da natureza” “Precisamente num momento histórico em que (…) o complicado mecanismo da cultura se tornou hostil às virtudes heróicas do Homem, é preciso, por profunda necessidade histórica, voltar os olhos para as fontes de onde brota o impulso criador do nosso povo.”

Quanto maior é o perigo de até o mais elevado bem se degradar no uso diário, com tanto mais vigor sobressai o profundo valor das forças conscientes do espírito que se destacaram na obscuridade do coração humano e estruturaram, no frescor matinal e com o gênio criador dos povos jovens, as mais altas formas de cultura.”

Em contraste com a exaltação oriental dos homens-deuses, solitários, acima de toda a medida natural; (…) em contraste com a opressão das massas, sem a qual não seria concebível a exaltação dos soberanos (…) o início da história grega surge como princípio de uma valoração nova do Homem” Em busca do Santo Graal que não reluz como ouro – mas é-o –, o Re-Renascimento.

Do ponto de vista oriental, é impossível compreender como os artistas gregos conseguiram representar o corpo humano, livre e descontraído, fundados, não na imitação de movimentos e atitudes individuais escolhidas ao acaso, mas sim na intuição das leis que governam a estrutura, o equilíbrio e o movimento do corpo. (…) Os gregos tiveram o senso inato do que significa <natureza>.” Kant acerta aqui (livro 3): não se captou um modelo, mas abstraiu-se como ele seria, em existindo. Uma essência traduzida no fenomênico das pinceladas e/ou cinzeladas.

A mais alta obra de arte a que seu anelo se propôs foi a criação do Homem vivo. Os gregos viram pela 1ª vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente.” “A palavra alemã Bildung (formação, configuração) é a que designa do modo mais intuitivo a essência da educação no sentido grego e platônico.”

entre os povos, o grego é o antropoplástico.”

Acima do Homem como ser gregário ou como suposto eu autônomo, ergue-se o Homem como idéia.” Nada de ciência política clássica, nada de liberalismo.

O humanismo e o classicismo de outros tempos ignoraram este fato, ao falarem da <humanidade>, da <cultura>, do <espírito> dos gregos ou dos antigos, como expressão de uma humanidade intemporal e absoluta. O povo grego transmitiu, sem dúvida, à posteridade, de forma imorredoura, um tesouro de conhecimentos imperecíveis. Mas seria um erro fatal ver na ânsia de forma dos gregos uma norma rígida e definitiva. A geometria euclidiana e a lógica aristotélica são, sem dúvida, fundamentos permanentes do espírito humano, válidos ainda em nossos dias, e dos quais não é possível prescindir. [quem sabe] Mas até essas formas universalmente válidas (…) são (…) inteiramente gregas e não excluem a coexistência de outras formas de intuição e de pensamento lógico e matemático.”

Nesse tempo em que a história grega desembocou no Império Romano e deixou de constituir uma nação independente, o único e mais elevado ideal da sua vida foi a veneração das suas antigas tradições. Desse modo foram eles os criadores daquela teologia classicista do espírito que é característica do humanismo. A sua estética vita contemplativa é a forma originária do humanismo e da vida erudita dos tempos modernos.”

Também o neo-humanismo alemão do tempo de Goethe considerou o grego como manifestação da verdadeira natureza humana num período da História definido e único, o que é uma atitude mais próxima do racionalismo da <Época das Luzes>” “Quando, atualmente, com o perigo inverso de um historicismo sem limite nem fim, nesta noite em que todos os gatos são pardos, voltamos aos valores permanentes da Antiguidade, não podemos considerá-los de novo como ídolos intemporais.”

no melhor período da Grécia era tão inconcebível um espírito alheio ao Estado como um Estado alheio ao espírito.” “…desde a idade heróica de Homero até o Estado autoritário de Platão, dominado pelos filósofos, e no qual o indivíduo e a comunidade social travam a sua última batalha no terreno da filosofia.”

A trindade grega do poeta, do Homem de Estado e do sábio encarna a mais alta direção da nação.”

Assim se eleva a <literatura> grega clássica acima da esfera do puramente estético, onde a quiseram em vão encerrar, e exerce um influxo incomensurável através dos séculos.”

Não é possível compreender o ideal agônico, revelado nos cantos pindáricos aos vencedores, sem conhecer as estátuas que nos mostram os vencedores olímpicos na sua encarnação corporal, ou as dos deuses, como encarnação das idéias gregas sobre a dignidade da alma e do corpo humano.”

Sem dúvida, os verdadeiros representantes da paideia grega não são os artistas mudos – escultores, pintores, arquitetos –, mas os poetas e músicos, os filósofos, os retóricos e os oradores, quer dizer, os homens de Estado. No pensamento grego, o legislador encontra-se, em certo aspecto, muito mais próximo do poeta que o artista plástico (…) os gregos nunca falam da ação educadora da contemplação e da intuição das obras de arte, no sentido de Winckelmann.”

a história da educação grega coincide substancialmente com a da literatura.”

Será colocado de forma nova um problema velho: o fato de o processo educativo ter sido vinculado desde sempre ao estudo da Antiguidade.” “O nascimento da moderna história da Antiguidade, considerada como disciplina científica, trouxe consigo uma mudança fundamental da nossa atitude para com ela.” “Mas, ao lado desta história enciclopédica e objetiva da Antiguidade, menos livre de valorações do que imaginam os seus mais eminentes promotores, permanece o perene influxo da <cultura clássica>

Pois bem: quando a nossa cultura toda, abalada por uma experiência histórica monstruosa,¹ se vê forçada a um novo exame dos seus próprios fundamentos, propõe-se outra vez à investigação da Antiguidade o problema, último e decisivo para o nosso próprio destino, da forma e do valor da educação clássica.”

¹ Monstro: parte da nossa essência de que não lembrávamos mais.

#TítulodeLivro

O MONSTRO & O FILÓSOFO

Usar a História para compreender a Metafísica. Nunca ao contrário.

LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA

1.1 Nobreza e arete

educação e formação tem raízes diversas (…) Já Platão comparou a formação ao adestramento de cães de raça. (…) O kalos kagathos grego dos tempos clássicos revela esta origem tão claramente como o gentleman inglês.”

Mesmo onde a diferença de formação conduz à constituição de castas rígidas, o princípio da herança que nelas domina é corrigido e compensado pela ascensão de novas forças procedentes do povo. (…) Uma vez que a mais antiga tradição escrita nos mostra uma cultura aristocrática que se eleva acima do povo, importa que a investigação histórica a tenha como ponto de partida. Toda a formação posterior, por mais elevada que seja, e ainda que mude de conteúdo, conserva bem clara a marca da sua origem. A formação não é outra coisa senão a forma aristocrática, cada vez mais espiritualizada, de uma nação.”

não se pode utilizar a história da palavra paideia como fio condutor para estudar a origem da formação grega, porque esta palavra só aparece no séc. V. O mais antigo traço é Ésquilo, Sete contra Tebas, 18. (…) no início do séc. V a palavra tinha o simples significado de <criação dos meninos>, em nada semelhante ao sentido elevado que adquiriu mais tarde (…) O tema essencial da história da formação grega é antes o conceito de arete, que remonta aos tempos mais antigos. Não temos na língua portuguesa um equivalente para este termo; mas a palavra <virtude>, na sua acepção não-atenuada pelo uso puramente moral,¹ e como expressão do mais alto ideal cavaleiresco unido a uma conduta cortês e distinta e ao heroísmo guerreiro, talvez pudesse exprimir o sentido da palavra grega.” Discordo: hoje é impossível transmitir essa equivalência através desta palavra. Mas a discordância se dirige só ao tradutor, evidentemente. O mais próximo seria “nobreza de caráter”.

¹ A besta-loira é um animal deficiente.

O testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica é Homero”

Tanto em Homero quanto nos séculos posteriores, o conceito de arete é freqüentemente usado no seu sentido mais amplo, isto é, não só para designar a excelência humana, como também a superioridade de seres não-humanos: a força dos deuses ou a coragem e rapidez dos cavalos de raça.(*)

(*) Para a arete do cavalo: [vide além (capítulo sobre Xenofonte] e também em Platão, Rep., 335 B, onde se fala da arete dos cães e dos cavalos. Em 353 B, fala-se da arete dos olhos; arete dos deuses: I, 498.”

Vigor e saúde são a arete do corpo; sagacidade e penetração, a arete do espírito. (…) É verdade que arete tem com freqüência o sentido de aceitação social, significando então <respeito>, <prestígio>. Mas isto é secundário, e deve-se à grande influência social de todas as valorações do homem nos primeiros tempos. (…) uma força que (…) constituía a perfeição [do indivíduo].”

Só uma vez, nos livros finais, Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em geral (…) heroísmo, considerado não no nosso sentido de ação mortal e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.” Os hindus que se jogam debaixo das rodas das charretes nas cerimônias religiosas não teriam, portanto, arete.

morreu como um herói esforçado”: contraponto do patético “morreu como uma pomba” da lavra cristã.

O nome de aristoi convém a um grupo numeroso; mas, no seio deste grupo, que se ergue acima da massa, há luta pelo prêmio da arete. (…) A palavra aristeia, empregada mais tarde para os combates singulares dos grandes heróis épicos, corresponde plenamente àquela concepção.”

De certo modo pode-se dizer que a arete heróica só se aperfeiçoa com a morte física do herói. Ela reside no homem mortal, ou melhor, ela é o próprio homem mortal; mas perpetua-se, mesmo depois da morte, na sua fama, i.e., na imagem da sua arete, tal como o acompanhou e dirigiu na vida. (…) Os deuses de Homero são, por assim dizer, uma sociedade imortal de nobres (…) Ser piedoso quer dizer <honrar a divindade>.”

O amor da pátria, que hoje resolveria a dificuldade, era alheio aos antigos nobres. Agamemnon só consegue apelar para o seu poder soberano através de um ato despótico, pois tal poder nem sequer é admitido pelo sentimento aristocrático, que o reconhece apenas como primus inter pares. No sentimento de Aquiles perante a negação da honra que por suas façanhas lhe é devida, imiscui-se também esta sensação da opressão despótica. (…) As armas de Aquiles, caído em combate, são concedidas a Ulisses, não obstante os superiores merecimentos de Ájax; e a tragédia deste acaba na loucura e no suicídio.”

A filosofia sublima e universaliza os conceitos que capta na sua limitação originária, mas com isso se confirma e se define a sua verdade permanente e indestrutível idealidade.”

Aspirar à <beleza> (que para os gregos significa ao mesmo tempo nobreza e eleição) e fazê-la sua é não perder nenhuma ocasião de conquistar o prêmio da mais alta arete.”

Quem estima a si próprio deve ser infatigável na defesa dos amigos, sacrificar-se pela pátria, abandonar prontamente dinheiro, bens e honrarias para <fazer sua a beleza>. Esta frase curiosa repete-se com insistência, o que mostra até que ponto a mais sublime entrega a um ideal é para Aristóteles prova de um elevado amor-próprio. Quem está impregnado de auto-estima deseja antes viver um breve período no mais alto gozo a passar uma longa existência em indolente repouso; prefere viver só um ano por um fim nobre, a uma vasta vida por nada; escolhe antes executar uma única ação grande e magnífica a fazer uma série de pequenas insignificâncias.

Nestas palavras revela-se o que há de mais peculiar e original no sentimento de vida dos gregos, aquilo por que nos sentimos essencialmente unidos a eles: o heroísmo.”

Entre os dois grandes filósofos e os poemas de Homero, estende-se a cadeia ininterrupta de testemunhos da persistência da idéia de arete, própria dos primeiros tempos da Grécia.”

1.2 Cultura e educação da nobreza homérica

Atualmente não é possível considerar a Ilíada e a Odisséia – fontes da primitiva história da Grécia – como uma unidade, quer dizer, como obra de um só poeta, embora na prática continuemos a falar de Homero como a princípio fizeram os antigos, agrupando sob este nome diversos poemas épicos. O fato de a Grécia clássica, desprovida de senso histórico, ter separado daquela massa os dois poemas, considerando-os superiores de um ponto de vista puramente artístico e declarando os outros indignos de Homero, não afeta o nosso juízo científico nem pode ser considerado como tradição no sentido próprio da palavra. Do ponto de vista histórico, a Ilíada é um poema muito mais antigo. A Odisséia reflete um estágio muito posterior da história da cultura. Com esta verificação, ganha a maior importância o problema da determinação do século a que uma e outra pertencem. A fonte principal para chegar à solução deste problema são os próprios poemas. Apesar de toda a perspicácia consagrada a este assunto, reina quanto a ele a maior insegurança. As escavações dos últimos 50 anos enriqueceram, sem dúvida de modo fundamental, o nosso conhecimento da Antiguidade grega, e sobretudo ofereceram-nos soluções precisas no que se refere à questão do núcleo histórico da tradição heróica; mas nem por isso avançamos um passo na determinação da época exata dos nossos poemas, que vários séculos separam do nascimento das sagas.” Curioso que Adorno não seja citado nem uma única vez. Apenas eu mesmo o citei numa observação, neste post.

É principalmente a Wilamowitz que devemos o fato de ter relacionado as primeiras análises realizadas segundo um critério exclusivamente lógico e artístico com os nossos conhecimentos históricos sobre a cultura grega primitiva.” Veja adiante indicações de leitura do autor Wilam.

A propensão expressa a renunciar por completo à análise de Homero manifesta-se em trabalhos recentes como o de F. DORNSEIFF, Archaische Mythenerzählung (Berlim, 1933) e F. JACOBY, ‘Die geistige Physiognomie der Odissee’, Die Antike, vol. 9, 159.”

será impossível considerar a Odisséia como uma imagem da vida da nobreza primitiva, se as suas partes mais importantes procederem da segunda metade do séc. VI, como atualmente crêem cientistas qualificados. E. SCHWARTZ, Die Odyssee (Munique, 1924), p. 294 e WILAMOWITZ, Die Heimkehr des Odysseus (Berlim, 1927), especialmente pp. 171-ss.: <Quem em questões de linguagem, religião ou costumes mistura a Ilíada e a Odisséia, quem, com Aristarco, as separa do resto como [GREGO], não pode pretender ser levado em conta.>” Curioso!

julgo ter demonstrado que o I canto da Odisséia – aceito pela crítica, depois de Kirchoff, como uma das últimas elaborações da epopéia – já era considerado obra de Homero por Sólon, e mesmo, pelo que tudo indica, antes do seu arcontado (594), i.e., no séc. VII, pelo menos.” “Parece-me fora de dúvida que a Odisséia, quanto ao essencial, já devia existir no tempo de Hesíodo.”

HIPERTROFIA DA HISTORIOGRAFIA: “O desejo compreensível dos investigadores de quererem saber mais do que aquilo que realmente podemos saber acarretou freqüentemente o descrédito injustificado da investigação como tal.”

Os heróis da Ilíada, que se revelam no seu gosto pela guerra e na sua aspiração à honra como autênticos representantes da sua classe, são, todavia, quanto ao resto da sua conduta, acima de tudo grandes senhores, com todas as suas excelências, mas também com todas as suas imprescindíveis debilidades. É impossível imaginá-los vivendo em paz: pertencem ao campo de batalha.”

Quando a Odisséia pinta a existência do herói depois da guerra, as suas viagens aventurosas e a sua vida caseira com a família e os amigos, inspira-se na vida real dos nobres do seu tempo e projeta-a com ingênua vivacidade numa época mais primitiva. [Todo o argumento da Dialética do Esclarecimento] Ela é, deste modo, a nossa fonte principal para conhecermos a situação da antiga cultura aristocrática. Pertence aos jônios, em cuja terra nasceu (…) Vê-se claramente que as suas descrições não pertencem à tradição dos velhos cantos heróicos, mas assentam na observação direta e realista das coisas contemporâneas.”

Se a periferia da imagem do mundo da Odisséia nos arrasta para a fantasia aventureira dos poetas, para as sagas heróicas e mesmo para o mundo do fabuloso e do maravilhoso, é com tanto maior força que a sua descrição das relações familiares nos aproxima da realidade.” “Só um ou outro traço realista e político, como a cena de Tersites, revela o tempo relativamente tardio do nascimento da Ilíada na sua forma atual. Nessa cena, Tersites, o <atrevido>, adita na presença dos nobres mais proeminentes um tom desdenhoso. Tersites é a única caricatura realmente maliciosa de toda a obra de Homero.” Conferir o excelente Tersites shakespeariano: https://seclusao.art.blog/2018/12/16/troilus-and-cressida/.

Os rapsodos não pertenciam, provavelmente, à classe nobre. Na lírica, na elegia e no iambo, pelo contrário, encontramos com freqüência poetas aristocráticos.” Wilamowitz

A vergonhosa conduta dos pretendentes [de Penélope] é constantemente estigmatizada como uma ignomínia para eles e para a sua classe. Ninguém pode contemplá-la sem indignação e é, depois, severamente expiada.”

A figura do aventureiro astuto e rico de recursos é criação do tempo das viagens marítimas dos jônios. A necessidade de glorificar o seu herói liga-se ao ciclo dos poemas troianos, e principalmente aos que se referem à destruição de Ílion.”

A arete própria da mulher é a formosura. (…) A mulher, todavia, não surge apenas como objeto da solicitação erótica do homem, como Helena ou Penélope, mas também na sua firme posição social e jurídica de dona de casa.” “Na Odisséia, Helena, de volta a Esparta com o primeiro marido, aparece como o protótipo da grande dama, modelo de distinta elegância e de soberana forma e representação social.”

A posição social da mulher nunca mais voltou a ser tão elevada [da perspectiva grega] como no período da cavalaria homérica. Arete, a esposa do príncipe Feace, é venerada pelo povo como uma divindade.”

Quando Agamemnon decide levar para a terra Criseida, capturada como despojo de guerra, e declara perante a assembléia que a prefere a Clitemnestra, pois não a acha inferior a ela nem pela presença ou pela estatura, nem pela prudência ou linhagem, é possível que isso seja fruto do caráter particular de Agamemnon – e já os antigos comentadores observaram que toda a arete da mulher está aqui descrita num só verso – mas a maneira imperiosa como o homem procede, acima de toda a consideração, não é coisa isolada no decurso da Ilíada. Amíntor, pai de Fênix, desentende-se com o filho por causa da amante, pela qual abandona a esposa; e o filho, incitado pela própria mãe, faz a côrte àquela, roubando-a do pai.¹ E não se trata de costumes de guerreiros embrutecidos. Acontece em tempo de paz.”

¹ Para tristeza de Platão em Leis XI!

É na mais alta, íntima e pessoal relação do herói com a sua deusa Palas Atena, a qual o guia nas suas andanças e jamais o abandona, que o poder espiritual da mulher como inspiradora e guia acha a sua expressão mais bela.” E curiosamente não é uma mulher de carne!

O mestre dos heróis por excelência era, naquele tempo, o prudente centauro Quíron, que vivia nos desfiladeiros selvosos, de abundantes nascentes, das montanhas de Pélion, na Tessália. Diz a tradição que uma longa série de heróis foi sua discípula e que Peleu, abandonado por Tétis, confiou-lhe a guarda de seu filho Aquiles.” “Embora o poeta do canto nono ponha Fênix em lugar de Quíron, Pátroclo é convidado a aplicar num guerreiro ferido um remédio que aprendeu de Aquiles, o qual por sua vez o aprendera outrora de Quíron” “O poeta da <Embaixada a Aquiles> não pôde utilizar o tosco centauro como medianeiro, ao lado de Ájax e Ulisses, pois só um herói cavaleiresco podia surgir como educador de outro herói. (…) Para substituto de Quíron foi escolhido Fênix, que era vassalo de Peleu e príncipe dos dólopes.”

A Fênix era permitido exprimir verdades que Ulisses não poderia dizer. Na boca daquele, este intento supremo de vergar a inquebrantável vontade do herói e chamá-lo à razão adquire o seu mais grave e íntimo vigor: deixa antever, no caso do seu fracasso, o trágico desenlace da ação como conseqüência da inflexível negativa de Aquiles.” “Todo leitor sente e compartilha intimamente, em toda a sua gravidade, a decisão definitiva do herói, da qual depende o destino dos gregos e do seu melhor amigo Pátroclo e, por fim, o seu próprio destino.” “Peleu entrega o seu filho Aquiles, sem qualquer experiência na arte da palavra e na conduta guerreira, ao seu leal vassalo (…) Fênix ficou junto dele e considerou-o como filho quando lhe foram recusados os próprios filhos pela trágica maldição de seu pai Amíntor.”

Contra a poderosa força irracional do desvario, da deusa Ate, são impotentes toda a arte da educação humana e todo o conselho razoável.”

o íntimo conflito entre as paixões cegas e a mais perfeita intuição, tido como o autêntico problema de toda a educação no mais profundo sentido da palavra. Isto não tem nenhuma relação com o moderno conceito de decisão livre nem com a correspondente idéia de culpa. A concepção antiga é muito mais ampla e, por isso mesmo, mais trágica.”

A figura antitética do rebelde peleida é Telêmaco, cuja educação o poeta nos descreve no primeiro livro da Odisséia. Enquanto Aquiles lança ao vento as doutrinas de Fênix e se precipita para a perdição, Telêmaco presta atenção às advertências da deusa, disfarçada sob a figura do amigo e hóspede de seu pai, Mentes. (…) o costume dos jovens da alta nobreza de serem acompanhados nas suas viagens por um aio ou mordomo.”

A bonita relação de Telêmaco com Mentor, cujo nome serviu desde o Telêmaco de Fénelon para designar o velho amigo protetor, guia e mestre, fundamenta-se no desenvolvimento do tema pedagógico”

A análise crítica do aparecimento da Odisséia levanta um problema decisivo. A Telemaquia foi um poema originariamente independente ou esteve desde o início incluído na epopéia tal como o encontramos hoje?”

O conjunto da Odisséia constitui uma linda criação composta de duas partes separadas: Ulisses, ausente e retido na ilha da ninfa apaixonada, rodeado de mar, e o seu filho inativo, à espera dele no lar abandonado.”

Este jovem passivo, amável, sensível, dolorido e sem esperança teria sido um aliado inútil para a luta rude e decisiva da vingança de Ulisses, que no seu regresso ao lar seria forçado a enfrentar os pretendentes sem nenhuma ajuda. Mas Atena converte-o no companheiro de luta, valente, ousado e decidido.

Objetou-se, contra a afirmação de uma formação pedagógica consciente da figura de Telêmaco, nos quatro primeiros cantos da Odisséia, que a poesia grega não nos dá nenhum quadro do desenvolvimento interno de um caráter. A Odisséia não é, efetivamente, uma novela pedagógica moderna, e por isso a transformação de Telêmaco não pode ser apontada como desenvolvimento, no sentido atual. Naquele tempo só podia ser explicada como obra da inspiração divina. Mas essa inspiração não surge, como é freqüente na epopéia, de modo puramente mecânico, por ordem de um Deus ou simplesmente em sonhos.”

os dois grandes aristocratas, Píndaro e Platão.”

Não falta nenhum traço essencial nesta Telemachou paideia: nem os conselhos de um velho amigo experiente; nem o influxo delicado e sensível da mãe temerosa e cheia de cuidados pelo seu filho único (e não será conveniente consultá-la no momento decisivo, porque seria muito mais capaz de, com os seus temores, refrear o filho, por longo tempo mimado, do que compreender-lhe a súbita elevação)” Uma ficção em que Platão tivesse conseguido, senão erigir a República, pelo menos falsificar Homero, de forma que a Odisséia a que temos acesso seja da sua pena, e não mais antiga!

É com a mais calorosa simpatia que o poeta pinta a confusão íntima de Telêmaco quando este, educado na simplicidade da nobreza rural, é recebido numa pequena ilha como hóspede de grandes senhores e entra pela primeira vez no grande mundo para ele desconhecido.”

Agamemnon foi morto logo após o regresso de Tróia; Ulisses esteve 20 anos afastado do lar. Este espaço de tempo bastou ao poeta para poder situar o ato e a estada de Orestes na Fócida, antes do começo da ação da Odisséia. [Tudo mui bem pensado. Poderia de fato ser um o autor? Ainda mais sempre o pai de todos?] O acontecimento era recente, mas a fama de Orestes estendera-se já a toda a Terra, e Atena refere-o a Telêmaco em palavras inflamadas.”

1.3 Homero como educador

foi o cristianismo [neste caso, Platão como seu mentor!] que, por fim, converteu a avaliação puramente estética da poesia em atitude espiritual predominante. É que isso lhe possibilitava rejeitar, como errôneo e ímpio, a maior parte do conteúdo ético e religioso dos antigos poetas e, ao mesmo tempo, aceitar a forma clássica como instrumento de educação e fonte de prazer.” “Repugna-nos naturalmente ver a tardia poética filosófica do helenismo interpretar a educação em Homero como uma árida e racionalista fabula docet ou, de acordo com o modelo dos sofistas, fazer da epopéia uma enciclopédia de todas as artes e ciências. Mas esta quimera da escolástica não é senão a degenerescência de um pensamento em si mesmo correto, o qual, como tudo quanto é belo e verdadeiro, se torna grosseiro em mãos grosseiras.”

A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os gregos chamaram psicagogia.”

Na epopéia manifesta-se a peculiaridade da educação helênica como em nenhum outro poema. Nenhum outro povo criou por si mesmo formas de espírito comparáveis àquelas da literatura grega posterior. Dela nos vêm a tragédia, a comédia, o tratado filosófico, o diálogo, o tratado científico sistemático, a história crítica, a biografia, a oratória jurídica e panegírica, a descrição de viagens e as memórias, as coleções de cartas, as confissões e os ensaios.”

E, como sucedeu entre os gregos, também entre os indianos, germanos, romanos, finlandeses e alguns povos nômades da Ásia Central nasceu dos cantos heróicos uma epopéia.”

Os poeirentos manuscritos da épica medieval da Canção de Rolando, do Beowulf e dos Nibelungos, dormitavam nas bibliotecas e foi preciso que uma erudição prévia os redescobrisse e trouxesse à luz. A Divina Comédia de Dante é o único poema da Idade Média que desempenhou papel análogo ao de Homero, não só na vida da sua própria nação, mas até de toda a humanidade.”

Hölderlin disse: O que permanece é obra dos poetas. Este verso exprime a lei fundamental da história da educação helênica.”

Na nossa grande epopéia, precedida de longa evolução dos cantos heróicos, estes epítetos, com o uso, perderam a vitalidade, mas são impostos pela convenção do estilo épico. Os epítetos isolados já não são empregados sempre com um significado individual e característico. São em grande medida ornamentais.”

Tudo quanto é baixo, desprezível e falho de nobreza é suprimido do mundo épico.”

Homero tudo engrandeceu: animais e plantas, a água e a terra, as armas e os cavalos. Podemos afirmar que não deixou nada sem elogio e sem louvor. Mesmo Tersites, o único que ele difamou, denomina-o orador de voz clara.” Dión de Prusa

a poesia mélica nasce de canções populares; o iambo, dos cantos das festas dionisíacas; os hinos e o prosodion, dos serviços divinos; os epitalâmios, das cerimônias populares das bodas; as comédias, dos komos; as tragédias, dos ditirambos. Podemos dividir assim as formas originais a partir das quais se desenvolvem os gêneros poéticos posteriores”

A didática e a elegia seguem os passos da épica e aproximam-se dela pela forma. Dela recebem o espírito educador que passa mais tarde a outros gêneros, como os iambos e os cantos corais. A tragédia, tanto pelo seu material mítico como pelo seu espírito, é a herdeira integral da epopéia. É unicamente à sua ligação com a epopéia e não à sua origem dionisíaca que ela deve o seu espírito ético e educador.”

As descrições de batalhas campais só conseguem despertar o nosso interesse nas cenas dominadas por grandes heróis individuais.”

Em vez de uma história da guerra troiana ou da vida inteira de Aquiles, apresenta apenas, com prodigiosa segurança, as grandes crises, alguns momentos de significação representativa e da mais alta fecundidade poética, o que permite concentrar e evocar, em breve espaço de tempo, dez anos de guerra com todos os seus combates e vicissitudes, passadas, presentes e futuras.”

A Ilíada começa no instante em que Aquiles, colérico, retira-se da luta, o que põe os gregos no maior apuro.”

do mesmo modo o final não se compara ao êxito triunfante de uma aristeia comum. Aquiles não fica satisfeito com a sua vitória sobre Heitor. Toda a história finda com a tristeza inconsolável do herói, com aquelas espantosas lamentações de morte de gregos e troianos perante Pátroclo e Heitor, e com a sombria certeza que o vencedor tem a respeito do seu próprio destino.

Quem pretende suprimir o último Canto ou continuar a ação até a morte de Aquiles, e quiser fazer da Ilíada uma aquileida ou pensar que ela era originariamente assim, estará encarando o problema de um ponto de vista histórico e de conteúdo, não do ponto de vista artístico da forma. (…) É o triunfo do herói, não a sua ruína, que pertence à autêntica aristeia. A tragédia contida na resolução de Aquiles de vingar em Heitor a morte de Pátroclo, apesar de saber que após a queda de Heitor o espera a ele, por sua vez, uma morte certa, não encontrará a sua plenitude até a consumação da catástrofe.”

À cegueira de Agamemnon, junta-se, no Canto IX, a de Aquiles, de conseqüências bem mais graves, porque <não sabe ceder> e, cego pela cólera, ultrapassa todas as medidas humanas. Quando já é tarde demais é que fala cheio de arrependimento. Maldiz então o rancor que o levou a ser infiel ao seu destino heróico, a permanecer ocioso e a sacrificar o seu amigo mais querido. Agamemnon, depois da sua reconciliação com Aquiles, lamenta igualmente a sua própria cegueira numa ampla alegoria sobre os efeitos mortais de ate. Homero concebe a ate, tal como a moira, de modo estritamente religioso, como força divina a que o homem mal pode resistir.”

A frase de Heráclito situa-se no final do caminho percorrido pelos gregos no conhecimento do destino humano. O poeta que criou a figura de Aquiles está no início desse caminho.”

A ação não se desentranha como uma desconexa sucessão temporal. Impera sempre nela o princípio da razão suficiente.” “Homero, no entanto, não é autor moderno que considera tudo simplesmente no seu desenvolvimento interno, como experiência ou fenômeno de uma consciência humana. No mundo em que vive, nada de grande acontece sem a cooperação de uma força divina, e a mesma coisa acontece na epopéia.”

Os deuses estão sempre interessados no jogo das ações humanas. Tomam partido por este ou por aquele, conforme desejam repartir os seus favores ou tirar vantagem. (…) Também na Ilíada os deuses se dividem em dois campos. Isto é crença antiga. Mas são novas algumas facetas da sua elaboração, como o esforço do poeta para manter, tanto quanto possível, na dissensão que a guerra de Tróia provoca no Olimpo, a lealdade mútua dos deuses, a unidade do seu poder e a estabilidade do seu reino divino. A causa última de todos os acontecimentos é a decisão de Zeus. (…) A consideração psicológica e a metafísica de um mesmo acontecimento não se excluem de modo nenhum.” “A epopéia conserva, assim, uma duplicidade característica. Qualquer ação deve ser encarada ao mesmo tempo sob o ponto de vista humano e sob o ponto de vista divino.”

Basta pensar na epopéia cristã medieval escrita em língua românica ou germânica, onde nenhuma força divina interfere e todos os acontecimentos decorrem sob o prisma do acontecer subjetivo e da atividade puramente humana, para nos darmos conta da diferença da concepção poética da realidade própria de Homero.”

Quando dois povos lutam entre si e imploram com preces e sacrifícios o auxílio dos seus deuses, põem os deuses em situação delicada, sobretudo dentro de um pensamento que acredita na onipotência e na justiça imparcial do poder divino.” “Em contraste, (…) vê-se na Ilíada um sentimento religioso cuja representação da divindade, e principalmente do soberano supremo do mundo, serve de alimento às idéias mais sublimes da arte e da filosofia posteriores. Só na Odisséia, porém, descobrimos uma concepção mais coerente e sistemática do governo dos deuses.

Recebe da Ilíada a idéia de um concílio dos deuses, no início dos Cantos I e V; mas cai na vista a diferença entre as cenas tumultuosas do Olimpo da Ilíada e os maravilhosos concílios de personalidades sobre-humanas da Odisséia. Na Ilíada os deuses chegam quase a passar a vias de fato.” “os deuses empregam na sua luta meios humanos – humanos demais” “O Zeus que preside ao concílio dos deuses no começo da Odisséia representa uma elevada consciência filosófica do mundo.” “É através desse prisma ético e religioso que o poeta encara os sofrimentos de Ulisses e a hybris [hubris] dos pretendentes, expiada com a morte.”

Cada personagem conserva firmemente a sua atitude e o seu caráter. Esta rígida construção ética pertence, provavelmente, aos últimos estágios da elaboração poética da Odisséia.”

1.4 Hesíodo e a vida do campo

A vida despreocupada da classe senhorial, em Homero, não deve induzir-nos em erro: a Grécia exige dos seus habitantes uma vida de trabalho.”

O seu solo é formado de múltiplos vales estreitos e paisagens cortadas por montanhas. Quase não tem as vastas planícies, fáceis de cultivar, do norte da Europa, o que obriga a uma luta incessante com o solo para arrancar dele o que só assim ele consegue dar. A agricultura e o pastoreio foram sempre as ocupações mais importantes e mais características dos gregos. Só no litoral prevaleceu, mais tarde, a navegação. Nos tempos mais remotos predominou em absoluto a atividade agrícola.”

Hesíodo conta no conhecido proêmio da Teogonia como despertou para a vocação de poeta: era um simples pastor e guardava os seus rebanhos no sopé do Hélicon, quando um dia recebeu a inspiração das musas, que lhe puseram nas mãos o bastão do rapsodo.”

Embora não se possa, num povo tão multiforme como o grego, generalizar a partir da situação da Beócia, as condições desta são, em grande medida, típicas. (…) Não existe a escravatura e nada indica, mesmo remotamente, que aqueles camponeses e pastores que viviam do trabalho das suas mãos descendessem de uma raça subjugada na época das grandes migrações, como acontecia na Lacônia.”

para Hesíodo o mundo heróico pertence a outra época, diferente e melhor do que a atual, <a idade do ferro> que descreve com cores tão sombrias nos Erga. Não há nada de tão característico no sentimento pessimista do povo trabalhador como a história das cinco idades do mundo, que começa com os tempos dourados, sob o domínio de Cronos, e leva, pouco a pouco, em linha descendente, à subversão do direito, da moral e da felicidade humana nos duros tempos atuais.”

<Camponês> ainda não quer dizer <inculto>. As próprias cidades dos tempos antigos, principalmente na metrópole grega, são acima de tudo cidades rurais e continuam a sê-lo mais tarde”

O seu poema dirige-se primordialmente aos homens da sua condição e parte do princípio de que os seus ouvintes entendem a linguagem artística de Homero, que é a que ele próprio emprega.”

Na grande massa das sagas da Teogonia encontramos muitos temas antiquíssimos, já conhecidos de Homero, mas também muitos outros que nele não aparecem. (…) Os preferidos são os mitos que exprimem a concepção da vida realista e pessimista daquela classe ou as causas das misérias e necessidades da vida social que os oprimem: o mito de Prometeu, no qual Hesíodo encontra a solução para o problema do cansaço e dos sofrimentos da vida humana; (…) o mito de Pandora, que é alheio ao pensamento cavaleiresco e exprime a concepção triste e prosaica da mulher como fonte de todos os males. (…) O modo como, p.ex., conta as histórias de Prometeu e Pandora pressupõe nitidamente que já eram conhecidas dos seus ouvintes. (…) todas as classes sociais possuem o seu próprio tesouro de mitos.”

A grande novidade desta obra está em o poeta falar na primeira pessoa. (…) É o enlace imediato do poema com a disputa jurídica sustentada contra o seu irmão Perses que justifica esta ousada inovação.”

Zeus, que humilha os poderosos e exalta os humildes” Já ouvi isso nalgum lugar!

Só o ricaço, que tem os celeiros cheios e não está apertado pelo cuidado da própria subsistência, pode entregar-se à inútil mania das disputas. Ele pode fazer maquinações contra a fazenda e os bens dos outros, e desperdiçar o tempo no mercado.”

Insensatos, não sabem quão verdadeira é a máxima que diz que a metade é maior que o todo e qual é a bênção contida na erva mais humilde que a terra faz crescer para o homem, a malva [flor púrpura] e o asfódelo.” Erga, 40

A tendência causal nascente encontrou satisfação na construção sagaz de uma genealogia completa dos deuses. (…) o Caos, que também encontramos nos mitos nórdicos, é evidentemente uma idéia originária das raças indo-germânicas. (…) O pensamento da Teogonia não se contenta em pôr em interação os deuses reconhecidos e venerados nos cultos nem se atém aos conceitos tradicionais da religião em vigor.”

logo no relato introdutório sobre a Éris boa e a má vê-se que a Teogonia e os Erga, apesar da diferença dos assuntos, não estavam separadas na mente do poeta e o pensamento do teólogo penetra o do moralista, assim como o deste se manifesta claramente na Teogonia.”

O trabalho e os sofrimentos devem ter aparecido em algum momento no mundo. Não podem ter feito parte, desde a origem, da ordem divina e perfeita das coisas. Hesíodo assinala-lhes como causa a sinistra ação de Prometeu, o roubo do fogo divino, que encara do ponto de vista moral. Como castigo, Zeus criou a primeira mulher, a astuta Pandora, mãe de todo o gênero humano. Da caixa de Pandora saíram os demônios da doença, da velhice, e outros males mil que hoje povoam a Terra e o mar.”

Não merecemos mais o mito.

Este uso normativo do mito revela-se com maior nitidez porque Hesíodo, nos Erga, coloca a narração das 5 idades do mundo logo em seguida à história de Prometeu, mediante uma fórmula de transição que talvez não tenha estilo, mas é sumamente característica para o que nos interessa. Se quiseres, contar-te-ei com arte uma segunda história até o fim. Acolhe-a, porém, no teu coração. (Erga, 106).”

Hesíodo não viu que, na realidade, os dois mitos se excluem (…) Enumera como causas da desventura cada vez maior dos homens o aumenta da irreflexão, o desaparecimento do temor dos deuses, a guerra e a violência. Na quinta idade, a do ferro, em que o poeta lamenta ser forçado a viver, domina só o direito do mais forte. Nela só prosperam os malfeitores.” Shishio/Meruem

Somos todos Prometeus. Somos promessas prestes a não vingar.

Homero e Píndaro chamam ainos também aos exemplos míticos. Só mais tarde o conceito se circunscreve às fábulas de animais. Possui o sentido já conhecido de advertência ou conselho. Assim, não é apenas a fábula do falcão e do rouxinol que é ainos. Ela é só um exemplo que Hesíodo dá aos juízes.”

A identificação da vontade divina de Zeus com a idéia do direito e a criação de uma nova personagem divina, Dike, tão intimamente ligada a Zeus, o deus supremo, são a imediata conseqüência da força religiosa e da seriedade moral com que a classe camponesa nascente e os habitantes da cidade sentiram a exigência da proteção do direito.”

Deixa-me aconselhar-te com verdadeiro conhecimento, Perses, minha criança grande. (…) Os deuses imortais puseram o suor antes do êxito. A senda que a ele conduz é íngreme e comprida, e de início penosa.”

O trabalho é celebrado como o único caminho, ainda que difícil, para alcançar a arete. (…) Não se trata da arete guerreira da antiga nobreza, nem da arete da classe proprietária, baseada na riqueza, mas sim da arete do homem trabalhador, que tem a sua expressão numa posse de bens moderada.” “Hesíodo quer com plena consciência colocar ao lado do adestramento dos nobres, tal como se espelha na epopéia homérica, uma educação popular, uma doutrina da arete do homem simples.”

Perses, e quem quer que ouça as doutrinas do poeta, deve estar disposto a deixar-se guiar por ele, caso não seja capaz de conhecer intimamente o que lhe é proveitoso e o que lhe é prejudicial. (…) Estes versos constituíram, na ética filosófica posterior, o fundamento primeiro de toda a doutrina moral e pedagógica. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles aceita-os integralmente nas suas considerações preliminares sobre o princípio adequado do ensino moral. (…) Perses não tem uma concepção justa. Mas o poeta tem de admitir que ela pode ser ensinada, na medida em que procura transmitir-lhe a sua própria convicção e influenciá-lo.”

Quem vive na pobreza é aborrecido pelos deuses e pelos homens; é comparável ao zangão, que devora o penoso trabalho das abelhas. Procura um prazer justo, dando-te ao trabalho numa medida equilibrada. (…) O trabalho é a única coisa justa na tua condição”

Esta corrente imemorial que brota da terra, inconsciente ainda de si própria, é a parte mais comovedora de Hesíodo e a causa principal da sua fôrça.”

Hesíodo é o primeiro poeta grego que fala do seu ambiente em seu próprio nome. Deste modo ergue-se acima da esfera épica, que apregoa a fama e interpreta as sagas, até a realidade e as lutas atuais. (…) Surge aqui pela primeira vez uma pretensão a guia, que não se fundamenta numa ascendência aristocrática nem numa função oficial reconhecida. Ressalta imediatamente a semelhança com os profetas de Israel, já salientada de tempos antigos. No entanto, é com Hesíodo, o primeiro dos poetas gregos a apresentar-se com a pretensão de falar publicamente à comunidade, baseado na superioridade do seu conhecimento, que o helenismo se anuncia como uma época nova na história da sociedade.”

É característica pessoal do poeta-profeta grego querer guiar o Homem transviado para o caminho correto, por meio do conhecimento mais profundo das conexões do mundo e da vida.”

1.4 Educação estatal de Esparta

Renunciaríamos de antemão a compreender a história dos gregos se, em conformidade com as divisões habituais do assunto, deixássemos o Estado aos historiadores <políticos> e aos investigadores do direito público e nos limitássemos ao conteúdo da vida espiritual. Pode-se escrever uma história da cultura alemã num longo período sem aludir à política. Esta só é fundamental nos tempos modernos. Por causa disso estudou-se durante muito tempo o povo grego e sua cultura predominantemente sob um prisma estético. Mas isto é um violento deslocamento do centro de gravidade. Só na polis se pode encontrar aquilo que abrange todas as esferas da vida espiritual e humana e determina de modo decisivo a sua estrutura. No período primitivo da cultura grega, todos os ramos da atividade espiritual brotam diretamente da raiz unitária da vida em comunidade.”

É da maior importância para o nosso intuito ver como o espírito da polis grega encontrou a sua expressão, primeiro na poesia e logo a seguir na prosa”

A mescla de dialetos diferentes, visível na epopéia, prova que a criação artística da poesia homérica é fruto da colaboração de várias raças e povos na elaboração do vocabulário, estilo e métrica dos poemas. (…) A investigação histórica jamais poderá desligar do nosso Homero cantos inteiros que apresentem uma tonalidade unitária de dialetos eólios. As particularidades do espírito dórico e jônico, ao contrário, revelam-se de maneira precisa nas formas da vida das cidades e na fisionomia espiritual da polis. Ambos os tipos se juntam na Atenas dos séculos V e IV. Enquanto a vida real do Estado ateniense recebe o influxo decisivo do ideal jônico, na esfera espiritual, por influência aristocrática da filosofia ática, vive a idéia espartana de uma regeneração que, no ideal platônico da formação, funde-se numa unidade superior com a idéia fundamental jônico-ática, despojada da sua forma democrática, de um Estado regido pelo direito.”

em vão se buscaria um nome espartano entre os moralistas e filósofos gregos. Em contrapartida, Esparta tem, de pleno direito, um lugar na história da educação.”

ao contrário de Homero e Hesíodo, na elegia de Tirteu encontramos apenas a formulação de um ideal, como é próprio da essência dessa poesia de puro pensamento.”

O nosso testemunho principal, a Constituição dos Lacedemônios, de Xenofonte, é fruto do romantismo meio filosófico meio político do séc. IV a.C. (…) A admiração de Xenofonte baseava-se ainda no conhecimento de Esparta através de uma íntima experiência pessoal, enquanto o enlevo romântico que se revela na biografia de Licurgo, por Plutarco,¹ baseia-se apenas num saber adquirido em antigas fontes literárias de valor heterogêneo.”

¹ Nunca será o bastante alertar o leitor desatento: Plutarco não tem quase valor histórico; todas as suas biografias devem ser lidas com suspeição a priori, como anedotas folclóricas guardando esparsos fundos de verdade.

ORIGEM DA DISTINÇÃO DOS NOMES LACEDEMÔNIA E ESPARTA

A crença de que a educação espartana era uma preparação militar unilateral deriva da Política de Aristóteles. (…) Depois da vitória na guerra do Peloponeso, Esparta conseguiu na Grécia uma hegemonia indiscutível, que perdeu ao fim de 30 anos, após a catástrofe de Leuctra.” “O dinheiro, que antes Esparta mal conhecia, entrou na cidade em torrentes, e <foi descoberto> um velho oráculo, segundo o qual a ambição arruinaria Esparta. Nesta época, dominada por uma política de expansão fria e calculista, ao estilo de Lisandro, em que os Lacedemônios se tinham apoderado despoticamente das acrópoles de quase todas as cidades gregas e as liberdades políticas das chamadas cidades autônomas haviam sido todas destruídas, a antiga disciplina espartana surgiu involuntariamente à luz do uso maquiavélico que dela fazia Esparta.”

A migração dórica, de que os gregos sempre guardaram uma recordação indelével, é o último dos movimentos de povos, possivelmente originários da Europa Central, que a partir da península balcânica penetraram na Grécia e se misturaram com os povoadores de outras raças mediterrânicas ali fixadas primitivamente, constituindo assim o povo grego que a história nos apresenta. O tipo característico dos invasores conservou em Esparta a sua maior pureza. A raça dórica ofereceu a Píndaro o seu ideal de homem loiro, de alta estirpe, tal como era representado não só o Menelau homérico, mas também o herói Aquiles, e em geral todos os <helenos de loira cabeleira> da Antiguidade heróica. A primeira coisa a levar em conta é que os espartanos constituíam, entre a população lacônia, apenas uma reduzida classe dominante, de formação tardia. Sob o seu domínio estava uma classe popular, livre, operária e camponesa, os periecos, bem como os servos hilotas, a massa dos submetidos, quase sem quaisquer direitos. Os antigos relatos dão-nos de Esparta a imagem de um acampamento militar permanente. Essa aparência vinha muito mais da constituição inteira da comunidade do que de uma ânsia de conquista. (…) A assembléia do povo espartano não é outra coisa senão a antiga comunidade guerreira. Não há nela qualquer discussão. Limita-se a votar SIM ou NÃO em face de uma proposta definida do conselho dos anciãos. [Daí poderia advir o orgulho nacionalista hegeliano diante de uma origem bárbara da cultura superior, não só d’A República como também do Estado Germânico, suposto fim da História e consumação do Espírito!] Este tem direito a dissolver a assembléia e pode retirar da votação as propostas com resultado desfavorável. (…) A sua organização representa um poder moderador no conflito de forças entre os senhores e o povo. (…) É significativo que o eforato [conselho de anciãos] seja a única instituição não-atribuída à legislação de Licurgo.”

quanto mais importância se concede à educação e à tradição oral, menor é a coação mecânica e externa da lei sobre todos os detalhes da vida.”

A participação de todos os cidadãos espartanos na educação militar torna-os uma espécie de casta aristocrática. Aliás, muitos traços dessa educação lembram a formação da antiga nobreza grega. Mas o fato de ter sido estendida aos que não eram nobres prova que houve uma evolução que modificou neste sentido o presumível domínio original dos nobres.”

Tirteu é ainda a nossa única fonte em relação às guerras messênicas, dado que a crítica moderna demonstrou ser total ou predominantemente fictícia a tradição dos historiadores mais recentes. O impulso da sua inspiração foi suscitado pela grande sublevação dos messênios, três gerações após a sua primeira subjugação. Durante 19 anos lutaram sem cessar, armados de lanças, os pais de nossos pais, com paciente coração; no 20º ano, os inimigos abandonaram os férteis campos e fugiram para as altas montanhas de Ithoma.

Em nenhum outro lugar a poesia grega revela tão claramente como a criação poética brota da vida da comunidade humana. (…) Por isso se exprime com freqüência na 1ª pessoa do plural: Lutemos!, Morramos!.”

A estreita ligação entre o indivíduo e a cidade estava, em tempo de paz, simplesmente latente para o cidadão médio, mesmo num Estado como o espartano. No caso de perigo, todavia, a idéia da totalidade manifestava-se subitamente com a maior força. A dura necessidade da longa e duvidosa guerra que acabava de eclodir foi a base férrea em que o Estado espartano se cimentou. Não precisava só de políticos e militares, naquela conjuntura. Precisava também encontrar expressão adequada para os novos valores humanos que na guerra se revelavam.” “a lenda fez de Tirteu um enviado de Apolo.”

Do ponto de vista formal, a elegia de Tirteu não é uma criação original. Os elementos formais lhe foram dados. A forma métrica da elegia – o dístico – é indubitavelmente mais antiga.”

DICOTOMIA ELEGIA X ODE: “A elegia não possui forma <interna> como chegaram a julgar os gramáticos da Antiguidade. Guiados pela evolução posterior do gênero e por uma falsa etimologia, quiseram reduzir todas as formas da elegia a uma raiz comum: o canto fúnebre. A elegia (…) só tinha um elemento constante: o fato de ser dirigida a alguém, indivíduo ou multidão. (…) Até o nosso fragmento, que começa num tom aparentemente mais reflexivo, atinge o seu acme e o seu termo sob a forma da exortação (…) simplesmente tal como a poesia didática dos Erga hesiódicos, dirige-se de maneira mais direta e intencional a uma personalidade determinada.” “Veste com a linguagem da epopéia um assunto contemporâneo.”

E ainda que fosse mais belo que Titono e mais rico do que Midas e Ciniras, mais régio que Pélops, filho de Tântalo, e dotado de uma língua mais lisonjeira que Adrasto, se tivesse todas as glórias do mundo, mas não possuísse o valor guerreiro, não quereria honrá-lo. Não dará boas provas de si na luta se não for capaz de encarar a morte sangrenta na peleja e de lutar corpo-a-corpo com o adversário.”

Mas aquele que cai entre os combatentes e perde a vida bem-amada cobre de glória a sua cidade, os seus concidadãos e o seu pai, ao ser chorado por todos, novos e velhos, quando jaz, com o peito, o côncavo escudo e a armadura trespassados por muitos projéteis; a sua dolorosa memória enche a cidade inteira e são honrados entre os homens o seu sepulcro e os seus filhos, e os filhos dos seus filhos e toda a sua linhagem; a honra do seu nome não se extingue jamais e, mesmo que jaza no seio da terra, torna-se imortal.”

a <polisação> do conceito da arete heróica deriva da <polisação> da idéia da glória heróica” (…) O <nome> é preservado com segurança da fugacidade do presente, pela vida duradoura da comunidade. § os gregos primitivos não conheceram a imortalidade da <alma>. O Homem morria com a morte do corpo. A psyche homérica significa antes o contrário: a imagem corpórea do próprio Homem, que vagueia no Hades como uma sombra: um puro nada.”

O homem político alcança a perfeição através da perenidade da sua memória na comunidade pela qual viveu ou morreu. Só o crescente menosprezo pelo Estado, próprio das épocas seguintes, e a progressiva valorização da alma individual, que alcança o apogeu com o Cristianismo, possibilitaram aos filósofos tomarem o desprezo da glória por uma exigência moral. Nada de semelhante se encontra ainda na concepção do Estado de Demóstenes e de Cícero. É com a elegia de Tirteu que se inicia o desenvolvimento da ética do Estado.”

O poeta contrasta a morte gloriosa no campo de batalha com a vida desventurada e errante, destino inevitável do homem que não cumpriu na guerra os seus deveres de cidadão (…) Anda pelo mundo errante, com o pai, a mãe, a mulher e os filhos. Na sua pobreza e indigência, é um estranho onde quer que vá e todos o fitam com olhos hostis.”

Não estabelece qualquer diferença entre os que foram desterrados por uma necessidade estatal de exceção, porque fugiram ante o inimigo, e os que abandonaram voluntariamente o país para escaparem ao serviço militar, sendo forçados por isso a viver como estranhos em outra cidade.” “O novo ideal da arete política exprime, em face da arete da epopéia, uma transformação da concepção religiosa. A polis é a suma de todas as coisas humanas e divinas.”

O pensamento que impregna a Eunomia tem a maior importância para o conhecimento da atitude pessoal de Tirteu e da sua oposição ao espírito político da Jônia e de Atenas. Enquanto estas nunca se sentiram vinculadas à autoridade da tradição e do mito, mas se empenharam em regular a distribuição dos direitos políticos segundo um pensamento mais ou menos universal, social e justo, Tirteu, à moda antiga, faz derivar do poder dos deuses a eunomia espartana e vê nessa origem a sua garantia mais alta e inviolável. Foi o próprio Zeus, filho de Crono, esposo da coroada Hera, que aos Heráclidas [tradição de haver dois reis, inicialmente, na cidade – descendentes de Heracles] deu esta cidade. Abandonamos com eles o ventoso Erineus e viemos até a vasta ilha de Pélops.

os reis são o único elo legítimo entre o Estado atual e o ato de doação divina que no passado o fundou. O oráculo de Delfos fundamentou para sempre a posição legítima dos reis.”

O Tirteu da Eunomia pertence a Esparta. O Tirteu das elegias guerreiras pertence à Grécia inteira.”

Para ilustrar a posição dos guerreiros no seu Estado ideal, Platão toma Tirteu como modelo, quando propõe honrar os guerreiros acima dos vencedores em Olímpia.”

É a autêntica idéia grega da formação. Uma vez modelada, a forma conserva o seu valor mesmo em estágios posteriores e mais elevados e qualquer novidade precisa confrontar-se com ela. Assim, o filósofo Xenófanes de Cólofon, cem anos após Tirteu, aplica-se em transformar aquelas idéias e sustenta que só à força espiritual cabe, no Estado, a mais alta posição”

A crítica de Platão dirige-se menos contra Tirteu que contra os excessos de força do Estado espartano da época, cujo fundamento encontra nos poemas guerreiros daquele. Nem mesmo os seus maiores admiradores poderiam descobrir naquela Esparta inflexível e unilateral qualquer vestígio de espírito musical e poético. Nesse sentido, são eloqüentes o silêncio de Xenofonte e os esforços fracassados de Plutarco para preencherem aquela lacuna. (…) Felizmente, apesar da fragmentação das nossas tradições e documentos, podemos provar que a antiga Esparta dos tempos heróicos do séc. VII tinha uma vida mais rica e estava totalmente livre da pobreza espiritual que a sua imagem histórica nos apresenta de modo tão vigoroso.”

foi chamado o grande músico Terpandro de Lesbos, inventor da cítara de 7 cordas, para dirigir o coro das festas religiosas e organizá-lo segundo o sentido das suas inovações. A Esparta das épocas subseqüentes adotou rigidamente os padrões de Terpandro e considerou toda a evolução posterior como uma revolução contra o Estado. Mas esta própria rigidez mostra até que ponto a antiga Esparta encarou a educação musical como coisa essencial para a formação do ethos humano”

Os abundantes resquícios de poesias corais de Alcman, lírico originário de Sardes e naturalizado espartano, completam de modo perfeito a imagem da Esparta arcaica.” “Os seus versos, escritos para os coros das jovens espartanas, jorram do humor jovial e da força realista da raça dórica, que só em traços isolados se manifestam através da estilização homérica das elegias de Tirteu. As canções de Alcman, que mencionam os nomes das jovens do coro e apregoam os seus méritos e as suas pequenas ambições e invejas, transportam-nos com idêntica vivacidade e realismo às rivalidades dos concursos musicais da antiga Esparta e revelam-nos que o espírito de emulação do sexo feminino não era inferior ao dos homens. Vê-se por elas também, com toda a clareza, que a condição da mulher na vida pública e privada de Esparta era muito mais livre que entre os Jônios, influenciados pelos costumes asiáticos, e que em Atenas, por sua vez influenciada pelos Jônios.”

1.5 O Estado jurídico e o seu ideal de cidadão

Aos jônios, como a todos os gregos da Ásia Menor, falta energia política construtiva, e em nenhum lugar deixaram uma formação estatal permanente e ativa.”

A estreiteza da faixa costeira em que ocorreu a série de invasões e a impossibilidade de penetrar profundamente no interior do país, ocupado por povos politicamente desorganizados e bárbaros, como os lídios, frígios e cários, atraiu cada vez mais as cidades da costa para o comércio marítimo, com o aumento da segurança na navegação. Isto converteu logo a nobreza de proprietária rural em empresária.”

A ação da Odisséia chega, para leste, até a Fenícia e Cólquida; para sul, até o Egito; para o ocidente, até a Sicília e a Etiópia Ocidental; e para o norte, no Mar Negro, até o país dos cimérios. É perfeitamente a narração do encontro do navegante com uma frota de navios e mercadores fenícios, cujo comércio se estendia a todo o Mediterrâneo e fazia a mais perigosa concorrência aos gregos. A viagem dos argonautas, com as suas maravilhosas descrições de povos e países longínquos, é também uma autêntica epopéia marítima.”

Esta elevada estima pelo direito por parte dos poetas e dos filósofos não precede a realidade, como se poderia pensar. Pelo contrário, é apenas o reflexo da importância fundamental que aqueles progressos deviam ter na vida pública daqueles tempos, i.e., desde o séc. VII até o início do séc. VI.”

o aumento da oposição entre os nobres e os cidadãos livres, a qual deve ter surgido em conseqüência do enriquecimento dos cidadãos alheios à nobreza, gerou facilmente o abuso político da magistratura e levou o povo a exigir leis escritas. As censuras de Hesíodo contra os senhores venais, que na sua função judicial atropelavam o direito, eram o antecedente necessário dessa reclamação universal.”

Dizia-se das partes contenciosas que <dão e recebem dike>. Assim se compendiava numa palavra só a decisão e o cumprimento da pena. O culpado <dá dike>, o que equivale originariamente a uma indenização, ou compensação. O lesado, cujo direito é reconduzido pelo julgamento, <recebe dike>. O juiz <reparte dike>. Assim, o significado fundamental de dike equivale aproximadamente a dar a cada um o que lhe é devido. (…) O alto sentido que a palavra recebe na vida da polis posterior aos tempos homéricos não se desenvolve a partir desse significado exterior, e sobretudo técnico, mas sim do elemento normativo que encontra no fundo daquelas antigas formas jurídicas, conhecidas de todo mundo. (…) hybris [ou hubris] – palavra cujo significado original corresponde à ação contrária ao direito. [arrogância, prepotência: arroga-se um direito que efetivamente não tem, não segue o caminho justo] Enquanto themis refere-se principalmente à autoridade do direito, sua legalidade e sua validade, dike significa o cumprimento da justiça. Assim se compreende que a palavra dike se tenha convertido necessariamente em grito de combate de uma época em que se batia pela consecução do direito uma classe que até então o recebera apenas como themis, quer dizer, como lei autoritária.”

Os próprios nobres tinham de submeter-se ao novo ideal político que surgiu da consciência jurídica e se tornou medida para todos. (…) Encontramos, desde os tempos mais recuados, uma série de palavras que designam certos gêneros de delitos, como adultério, assassínio, rapto, furto. Mas falta-nos um conceito genérico para designar a propriedade pela qual evitamos aquelas transgressões e nos mantemos dentro dos justos limites.”

O conceito de justiça, tida como a forma de arete que engloba e satisfaz todas as exigências do perfeito cidadão, supera naturalmente todas as formas anteriores. Todavia, os graus anteriores da arete não são por isso suprimidos: ao contrário, são elevados a uma nova forma.”

A raiz da ética filosófica de Platão e Aristóteles na ética da velha polis foi desconhecida dos tempos posteriores, habituados a encará-la como a ética absoluta e intemporal. Quando a Igreja cristã começou a estudá-la, achou estranho que Platão e Aristóteles chamassem virtudes morais à fortaleza e à justiça. Mas teve de conformar-se com este fato original da consciência moral dos gregos. (…) fizeram-se por isso inúmeras teses sobre a questão de saber se a fortaleza é uma virtude e como é que pode sê-lo. A aceitação consciente da antiga ética da polis pela moral filosófica posterior e a influência que por meio desta ela exerceu sobre o futuro são para nós um processo perfeitamente natural da história do espírito.”

A educação pública dos jovens é, porém, uma exigência que a filosofia do séc. IV foi a primeira a formular. Esparta é o único dos Estados mais antigos a exercer influência imediata na formação da juventude.”

É com razão que Platão denomina <antiga formação> a ginástica e a música. O cuidado que as cidades dedicaram, sob a forma de grandes e onerosos concursos, a esta formação, originalmente aristocrática, não se limitava a desenvolver o espírito de luta e o interesse musical. Era na competição que se formava o verdadeiro espírito comunitário. Assim se compreende facilmente o orgulho que os cidadãos gregos tinham em serem membros da sua polis. Para a identificação total de um grego exigia-se não só o seu nome e o do seu pai, mas também o da sua cidade natal.”

Com razão, o legislador era considerado educador do seu povo, e é característico do pensamento grego que ele seja freqüentemente colocado ao lado do poeta, e as determinações da lei junto das máximas da sabedoria poética.”

Mas na filosofia da natureza de Anaximandro de Mileto, por volta do séc. VI, ainda achamos um reflexo mais primitivo da idéia de lei. Transpõe para o reino da natureza a representação da dike da vida social da polis e explica a conexão causal da geração e corrupção das coisas como contenda jurídica, em que, por sentença do tempo, elas terão de expiar e pagar indenização conforme as injustiças que cometeram.” “vê-se bem como é profunda a conexão entre o nascimento da consciência filosófica nos jônios e a origem do Estado jurídico.”

O homem não é só <idiota>; é <político> também. Precisa ter, ao lado da habilidade profissional, uma virtude cívica genérica, pela qual se põe em relações de cooperação e inteligência com os outros, no espaço vital da polis. (…) a nova política do homem não pode estar vinculada, como a educação popular de Hesíodo,¹ à idéia do trabalho humano. (…) Se contemplarmos o processo evolutivo da educação grega a partir do ponto de vista hodierno inclinar-nos-emos a crer que o novo movimento teria de aceitar o programa de Hesíodo: substituir a formação geral da personalidade, própria dos nobres, por um novo conceito de educação popular, em que se avaliaria cada homem pela eficácia do seu trabalho específico, e o bem da comunidade resultaria de cada um realizar com a máxima perfeição possível o seu trabalho particular,¹ tal como o aristocrata Platão exigia no Estado autoritário da sua República, dirigido por uma minoria espiritualmente superior. Estaria de acordo com o tipo de vida popular e a diversidade dos seus mestres; o trabalho não seria uma vergonha, mas o fundamento único da consideração citadina. No entanto, e sem prejuízo do reconhecimento deste importante fato social, a evolução real seguiu um curso completamente diverso.”

¹ O camponês utilitário

² O trecho sublinhado soa familiar?

Esta aptidão <geral>, política, pertencia até então unicamente aos nobres. (…) O novo Estado não podia esquecer esta arete, se compreendia corretamente os seus próprios interesses.” “o ideal do cidadão permaneceu o que Fênix já ensinara a Aquiles: estar apto a proferir belas palavras e a realizar ações. Os homens dirigentes da burguesia ascendente¹ deviam atingir este ideal, e até os indivíduos da grande massa deviam participar, em certa medida, no pensamento desta arete.”

¹ Muito me incomoda este tipo de vocábulo anacrônico de Jaeger ao longo de toda a obra: até que ponto é lícito chamar uma classe não-plebéia porém não-aristocrática nascente na Antiguidade de “burguesia”, termo insólito no contexto? Vou criticar o mesmo de novo mais adiante!

Cabe a questão: o Homem ainda é um animal político? A sociedade parece mais com um vespeiro.

Para Sócrates, filho de um pedreiro, um simples operário,¹ constituía um paradoxo surpreendente o fato de um sapateiro, um alfaiate ou um carpinteiro precisarem no seu trabalho de um certo saber autêntico, ao passo que ao político bastava uma educação genérica, de conteúdo bastante indeterminado, embora o seu <ofício> tratasse de coisas muito mais importantes. (…) Observada por este prisma, a falta daquela habilidade especial aparecia diretamente como a essência da democracia. (…) Quando o novo estado (sic) jurídico apareceu, a virtude dos cidadãos consistiu na livre submissão de todos, sem distinção de dignidade ou de sangue, à nova autoridade da lei. (…) Neste sentido, não existia o problema da cooperação.”

¹ De novo… Operário!

O ANTI-MESSIAS & O HOMEM-URBANO: “Aristóteles designa o Homem como ser político e, assim, distingue-o do animal pela sua qualidade de cidadão. Esta identificação da humanitas, do ser-homem, com o Estado, compreende-se apenas na estrutura vital da antiga cultura da polis grega, para a qual a vida em comum é a súmula da vida mais elevada e adquire até uma qualidade divina.”

Platão dá-nos uma transcrição fiel do sentido originário da <cultura geral>, segundo o espírito da primitiva polis grega. (…) A verdadeira educação é para Platão uma formação <geral>, porque o sentido do político é o sentido do geral.” O homem acusado de precipitar o mundo em decadência (Nietzsche), veja só, não passava de um inveterado nostálgico de tempos insondáveis!

A antiga cidade-estado (sic) é o 1º estágio, depois da educação nobre, na caminhada do ideal <humanista> para uma educação ético-política geral e humana. Aliás, podemos dizer que foi esta a sua verdadeira missão histórica. (…) Não se pode calcular o seu valor nem pelo gênio de cada um dos chefes, cuja aparição depende de condições excepcionais, nem pela sua utilidade para a multidão, à qual não se pode transmitir sem um efeito nivelador sobre as 2 partes. (…) O ideal de uma arete política geral é indispensável, dada a necessidade da formação contínua de uma camada de dirigentes, sem a qual nenhum povo ou Estado pode subsistir, qualquer que seja a sua constituição.” A Europa é um verdadeiro milagre!

1.6 A autoformação do indivíduo na poesia jônico-eólica

Todavia, (…) não achamos, à primeira vista, uma expressão equivalente do novo ideal de cidadão na poesia da época.” “Apenas podemos mencionar as histórias relativas à fundação de certas cidades, redigidas num estilo épico convencional. Mas nenhuma destas obras da cultura citadina primitiva, já numericamente raras, se eleva à importância de uma verdadeira epopéia do Estado, como entre os romanos foi a Eneida de Virgílio, a última das grandes obras do gênero. (…) foi na criação da prosa que o novo ethos do Estado encontrou a sua verdadeira expressão revolucionária.”

nenhum escritor jônico ou eólico captou o heroísmo político interior de Sólon, que se tornaria a fonte de uma nova grande poesia.”

As conexões causais entre o espiritual e o material permanecem na maior obscuridade por ausência completa de qualquer tradição relativa às condições econômicas da época. (…) E este vestígio do espírito jônico tem a maior importância para a história dos gregos e da humanidade.”

Até os animais, nas disputas das fábulas, reclamam uns aos outros os <seus direitos>, em humorística imitação das relações humanas.”

COISAS QUE HEGEL NÃO VÊ: “É altamente significativo que o tipo de individualismo que com assombrosa independência se manifesta nestas poesias pela primeira vez, não se exprima, à maneira moderna, como simples experiência da sensibilidade do eu” “Este moderno tipo de individualismo poético não é mais do que um retorno às formas primitivas e naturais da arte” “Nada é mais insensato do que julgar que foram os gregos os primeiros a trazerem ao mundo o sentimento e o pensamento individual. Pelo contrário (…) a lírica chinesa, tão aparentada à moderna.”

não nos é fácil conceber com clareza e precisão o que Arquíloco e outros poetas da sua espécie entenderam por individualidade.” “As manifestações da individualidade nunca são exclusivamente subjetivas. Seria preferível dizer que, numa poesia como a de Arquíloco, o eu individual busca exprimir e representar em si próprio a totalidade do mundo objetivo e suas leis.”

Os heróis homéricos teriam sentido a perda do Escudo como a ruína de sua honra e prefeririam sacrificar a vida a sofrer semelhante afronta. O novo herói de Paros exprime as suas reservas neste ponto e está certo de provocar o riso dos seus contemporâneos, quando diz: Um dos Saios, nossos inimigos, regozija-se agora com o meu escudo, arma impecável que sem querer deixei ficar num matagal. No entanto, escapei à morte, que é o fim de tudo. Quero lá saber deste escudo! Comprarei outro melhor. A deliciosa mescla do moderno¹ humor naturalista (alheio a qualquer tipo de ilusões, e segundo o qual até um herói só tem uma vida para perder) com a nobre ressonância da retórica épica, que nos fala de <arma impecável> e da morte que <é o fim de tudo>, é fonte inesgotável de efeitos cômicos. Protegido por eles, o esforçado desertor pode aventurar a sua insolente conclusão e afirmar com sinceridade desconcertante: Comprarei outro melhor! Que é um escudo, afinal, senão um pedaço de pele de boi curtida, com uns adornos de metal brilhante!

¹ Novamente o incômodo com a palavra.

na audaciosa afirmação pessoal de Arquíloco em face das limitações do decoro tradicional e na decidida franqueza com que a mantém, já se encontra implícita a consciência de poder ser não apenas mais descarado, mas também mais espontâneo e sincero do que aquele que está submetido com mais rigor ao código moral.”

Se nos afligimos com a maledicência do povo, não desfrutamos o prazer da vida. A inércia e o comodismo da natureza humana tiveram certamente neste processo de emancipação um papel não-desprezível, e é evidentemente nesta direção que aponta a raiz da palavra.”

Já Homero ensinava que o espírito do Homem é tão mutável como os dias que Zeus ilumina. Arquíloco aplica ao mundo da vida que o rodeia esta sabedoria homérica. (…) A ética da antiga nobreza venerava a Fama como uma força superior, porque tinha dela uma idéia muito diferente: a honra das grandes façanhas e o seu jovial reconhecimento no círculo dos espíritos nobres. Transferida para a massa invejosa, que mede tudo que é grande pela sua própria e acanhada medida, perde qualquer sentido.”

Foi com certa precipitação que se atribuiu a condições de caráter pessoais a totalidade da poesia iâmbica, de conteúdo em grande parte exprobratório. Julga-se legítimo, neste como em qualquer outro gênero de poesia, pensar numa explicação puramente psicológica e encarar a poesia como resultante da expansão imediata da subjetividade amarga do seu criador. Esquece-se, assim, que a aparição da sátira literária da primitiva cidade grega é um fenômeno característico da época em que se expande a importância crescente do demos. Originariamente, o iambo era de uso corrente nas festas públicas de Dionisos (sic) e correspondia antes à explosão de um sentimento popular do que à expressão de um rancor pessoal. Prova disso é que o espírito do iambo se incorpora com a maior fidelidade e continua na comédia ática, onde o poeta aparece claramente como o porta-voz da crítica possível.”

Quero contar-vos uma fábula…, assim começa a história do macaco e da raposa. A fábula da raposa e da águia começa do mesmo modo: Existe entre os homens uma fábula que reza assim…

Porque em Hesíodo encontra-se freqüentemente esse tema, quis-se deduzir a sua hostilidade pelas mulheres de certo romance passional cuja experiência amarga se teria refletido dessa maneira. Todavia, a troça contra as mulheres e o sexo feminino é um dos temas mais antigos da sátira popular em reuniões públicas. A sua repetição em Semônides de Amorgos não é só uma débil imitação de Hesíodo; ela se vincula, sim, com o antigo e verdadeiro iambo, que nunca consistiu na simples injúria e difamação pública de uma pessoa a quem se quer mal. (…) a sua contrapartida, a sátira contra os homens, também não faltou, embora antes de Aristófanes não a encontremos na poesia.”

E qual podia ser o valor ideal ou artístico da simples explosão do ódio ou da raiva pessoal, mesmo expressos da forma mais bela? Se assim fosse, não se teria escutado muitos séculos depois, a voz de Arquíloco ao lado daquela de Homero, nos concursos musicais, não o teriam considerado, como testemunha Heráclito, mestre dos gregos, não teriam captado a íntima ligação dos seus poemas como a consciência geral do mundo circundante.”

Píndaro, o mestre da educação com base no elogio das virtudes nobres, diz: Vi ao longo o satirizante Arquíloco, desamparado e na maior indigência, a cevar-se nas mais violentas e ofensivas inimizades.

A religiosidade de Arquíloco tem raízes no problema da tyche. A sua experiência de Deus é a experiência da tyche. O conteúdo destas considerações, e em parte o seu vocabulário, vem de Homero. Mas a luta do Homem contra o destino é transferida do mundo sublime dos heróis para a esfera da vida cotidiana.” “A partir daí, o desenvolvimento da idéia de tyche entre os gregos segue os passos do desenvolvimento do problema da liberdade humana. O esforço para alcançar a independência significa, em grande medida, a renúncia a muito do que o Homem recebeu da tyche como dom.”

Este primeiro grande monólogo da literatura grega surge da transferência da exortação a outra pessoa, tal como era de uso no iambo e na elegia, para a própria pessoa daquele que fala e que assim se desdobra e é, por um lado, orador, e, por outro, espírito que pensa e quer.”

Não te deves pavonear perante o mundo, quando venceres, nem abater-te e lamentar-te quando fores vencido; alegra-te com o que é digno de alegria, não desfaleças em excesso; na desgraça, conhece o ritmo que mantém os homens nos seus limites.”

A aplicação da palavra ao movimento da dança e à música, da qual deriva a nossa palavra, é secundária e esconde o seu significado fundamental. Antes de mais nada, devemos perguntar como é que os gregos entenderam a essência da dança e da música.”

Ritmo é aqui o que impõe firmeza e limites ao movimento e ao fluxo. (…) Também Demócrito fala do ritmo do átomo no primitivo e autêntico sentido e por ele entende não o movimento do átomo, mas sim, como já Aristóteles corretamente interpretou, o seu <esquema>. (…) É evidente que, quando os gregos falam do ritmo de um edifício ou de uma estátua, não se trata da transposição metafórica da linguagem musical. E a intuição originária que se encontra no âmago da descoberta grega do ritmo da dança e da música não se refere à fluência destas, mas sim, pelo contrário, as suas pausas e à constante limitação do movimento.”

Revela-se uma auto-submissão às próprias limitações, consciente e livre da autoridade da mera tradição. O pensamento humano torna-se dono de si próprio e, assim como aspira a submeter a vida da polis a leis universalmente válidas, também penetra, para além destes limites, na esfera da interioridade humana e também coloca balizas no caos das paixões. Nos séculos seguintes, o palco desta luta é a poesia, dado que a filosofia só mais tarde, e em segundo plano, nela toma parte.”

A poesia da nova época nasce da necessidade, experimentada pelo indivíduo livre, de separar progressivamente o humano do conteúdo mítico da epopéia, na qual se havia exprimido até então.”

Seres de um só dia, como os animais no prado, vivemos ignorantes do modo que a divindade usará para levar cada coisa a seu fim. Vivemos todos da esperança e da ilusão; os seus desígnios, porém, nos são inacessíveis. …”

Semônides, frag. 1

Enquanto dura a flor dos anos, os mortais andam de coração leve e traçam mil planos irrealizáveis. Ninguém pensa na velhice ou na morte. E, enquanto têm saúde, não curam da enfermidade. Insensatos os que assim pensam e não sabem que para os mortais é breve o tempo da juventude e da existência. Aprende tu isto e, meditando no fim da vida, deixa a tua alma gozar um pouco de prazer. A juventude surge aqui como fonte de todas as ilusões exageradas e de todos os empreendimentos desmedidos, porque não tem presente a sabedoria de Homero, que recorda a brevidade da vida. Singular e nova é a conseqüência tirada desta afirmação pelo poeta: a exortação a gozar os prazeres da vida enquanto é tempo. Isto não se encontra em Homero.”

Foi na Jônia que pela 1ª vez surgiu uma poesia hedonista”

O que em Arquíloco age mais como o extravasamento acidental de uma natureza forte e de um sentimento pessoal e passageiro torna-se, para os seus sucessores, a sabedoria total da vida e traduz-se em exigência universal, no ideal de uma vida que desejam partilhada por todos os homens. Sem a loira Afrodite não há vida nem prazer! Preferia estar morto – proclama Mimnermose tivesse de não mais gozar dela. Nada haveria de mais errôneo do que imaginar um poeta como Mimnermo um sensual voluptuoso e decadente. De Semônides não conhecemos o bastante para formarmos uma idéia cabal da sua personalidade. Alguns poemas de Mimnermo possuem um tom político e guerreiro e atestam pelos seus versos homéricos, tensos e vigorosos, uma consciência e tradição cavaleiresca.”

Do ponto de vista histórico, a poesia hedonista é um dos momentos críticos mais importantes da evolução grega. Só é preciso lembrar que o pensamento grego colocava sempre o problema do indivíduo, na ética e na estrutura do Estado, como um conflito no predomínio do prazer e da nobreza. Na sofística revela-se abertamente o conflito entre estes dois impulsos de toda a ação humana, e a filosofia de Platão culmina com a vitória sobre a aspiração do prazer a tornar-se o mais alto bem da vida humana.”

para que se chegasse, por fim, a uma fórmula harmônica tal como oferece o ideal da personalidade humana proposto por Aristóteles, foi preciso que a busca da alegria plena de viver e do gozo do prazer achasse uma afirmação resoluta e fundamental em face da exigência da nobreza, mantida pela epopéia e pela antiga elegia.”

não se pode esquecer que Arquíloco é um precursor da lírica eólica, embora os seus poemas, inclusive os de ódio, em que se manifesta com paixão a sua subjetividade, se orientem ainda por normas universais da sensibilidade moral. A lírica eólica, principalmente em Safo, chega muito mais longe e converte-se em pura expressão do sentimento.”

a conexão viva das canções de Alceu dedicadas à bebida com os banquetes masculinos, e das canções nupciais e amorosas de Safo com os círculos musicais das jovens companheiras que se agrupam em redor da poetisa”

Reflexões piedosas, serenas ou resignadas sobre o curso do mundo e o destino enlaçam-se de forma totalmente nova com uma filosofia de bebedores que sepulta todas as agruras da vida pessoal na embriaguez dionisíaca. Assim, o tom individual desta lírica não é incompatível com a convivência da sociedade dos homens, embora se vá estreitando o círculo das pessoas ante as quais se pode manifestar a personalidade individual.”

Na prece, o Homem encontra-se também na atitude original, na sua nua solidão pessoal, perante o Ser. Ao dirigir-se à força divina como a um tu invisível mas presente, o suplicante converte-se ainda mais em órgão de expressão dos seus próprios sentimentos e emoções, e expande-se, liberto de qualquer testemunha humana. Em parte alguma isto se manifesta de maneira tão bela como em Safo. § Tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar o último passo no mundo da intimidade do sentimento subjetivo. Os gregos deviam ter sentido isto como algo de muito grande quando, no dizer de Platão, honraram Safo como a décima musa. A poesia feminina não é insólita na Grécia. Mas nenhuma colega na arte chegou à altura de Safo. Esta é singular. Comparada, porém, com a riqueza da poesia de Alceu, a lírica de Safo é muito limitada. Está circunscrita ao mundo das mulheres que a rodeiam, e ainda assim sob o ponto de vista da vida em comum entre a poetisa e o círculo das suas donzelas. A mulher como mãe, amante, ou esposa, que aparece na poesia grega com a maior freqüência e é celebrada pelos poetas de todos os tempos, dado que é com essa imagem que vive na poesia do homem, não aparece na poesia de Safo senão fortuitamente, por motivo do ingresso ou da saída de alguma das donzelas do seu círculo. Não é objeto de inspiração poética para Safo. A mulher entra no seu círculo como a garotinha que acaba de deixar o seio materno. Sob a proteção de uma mulher solteira, cuja vida está votada, como a de uma sacerdotisa, ao serviço das musas, recebe a consagração da beleza, por meio de danças, cânticos e jogos.”

Entre a casa paterna e a vida matrimonial situa-se uma espécie de mundo ideal intermediário que só podemos conceber como uma educação da mulher de acordo com a mais alta nobreza da alma feminina. A existência do círculo de Safo pressupõe a concepção educativa da poesia, evidente para os gregos desse tempo.”

Salta aos olhos desprevenidos o paralelo entre o eros platônico e o eros sáfico. § Esse eros feminino, cujas flores poéticas nos encantam pela delicadeza do seu aroma e pelo esmalte das suas cores, teve força suficiente para fundar uma verdadeira comunidade humana. (…) Existia na charis sensual dos jogos e danças e encarnava na grandeza da forma que estava presente como modelo na comunidade das companheiras. A lírica sáfica atinge os seus momentos culminantes na solicitação quente ao coração agreste e ainda não aberto de uma donzela”

Agora interessa-nos aqui muito menos a verificação da existência de um aspecto sensual na erótica sáfica do que a plenitude de sentimento que abala poderosamente a totalidade da alma humana. A poesia de amor masculina nunca atingiu na Grécia a profundidade espiritual da lírica de Safo. Só mais tarde a polaridade do espiritual e do sensual ganhou real importância na vida erótica, até penetrar profundamente na alma e preencher a vida inteira. § Esta transformação da sensibilidade masculina foi considerada uma efeminação helenística. Em todo o caso, nos primeiros tempos só a mulher era capaz daquela entrega total da alma e dos sentidos, único sentimento que, para nós, merece a designação de amor. (…) Naquele tempo, ainda estranho ao conceito de matrimônio por amor, era difícil surgir na mulher o amor pelo homem. Do mesmo modo, foi apenas na forma do eros platônico que o amor do homem, na sua mais elevada espiritualização, conseguiu em relação à mulher a sua expressão poética. Seria anacronismo interpretar o amor de Safo, sempre ligado à sensibilidade sensual, como o equivalente do anseio metafísico da alma platônica pela Idéia, que é o segredo do seu eros. No entanto, (…) É daqui que deriva a grande dor que dá à poesia de Safo não só o terno encanto da melancolia, mas ainda a elevada nobreza da verdadeira tragédia humana.

A lenda, que cedo se apoderou da sua figura, explicou o mistério que envolve a sua pessoa e a sua vida sentimental por meio da história de um amor infeliz por um belo homem de nome Fáon, e pintou a sua tragédia no dramático salto dos rochedos de Lêucade abaixo. Mas o homem está completamente ausente do seu mundo. Aparece, quando muito, à margem desse mundo, como pretendente de uma das suas queridas pequenas, e é olhado com indiferença.”

Basta-me ver-te e ficam mudos os meus lábios, ata-se a minha língua, um fogo sutil corre sob a minha pele, tudo escurece ante o meu olhar, zunem-me os ouvidos, escorre por mim o suor, acometem-me tremores e fico mais pálida que a palha; dir-se-ia que estou morta.”

Onde encontraremos na arte ocidental algo que, antes de Goethe, se compare a ela?”

Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira.”

1.7 Sólon: começo da formação política de Atenas

A pujança ática só atingiu o apogeu um século depois, com a tragédia de Ésquilo.”

Imaginemos que se tivessem perdido todos os vestígios dos poemas de Sólon. Sem eles não estaríamos em condições de compreender o que há de mais grandioso e memorável na poesia ática contemporânea da tragédia e nem a vida espiritual inteira de Atenas – a perfeita interpenetração de toda a produção espiritual grega com a idéia do Estado.”

A SÍNTESE ESPARTA-JÔNIA-ATENAS: “Em Esparta faltava o traço de união entre a força educadora implícita na nova ordem jurídica que regia a vida política e a liberdade sem rédeas dos poetas jônicos, no pensamento e na palavra. A cultura ática foi a primeira a equilibrar as duas forças”

Os monumentos clássicos da cultura política grega, de Sólon até Platão, Tucídides e Demóstenes, são, na sua totalidade, criação dos filhos da Ática.”

O primeiro passo para a edificação do direito do sangue, as proverbiais <leis draconianas>, significou mais uma consolidação das relações recebidas que um rompimento com a tradição. Tampouco as leis de Sólon queriam suprimir o domínio dos nobres como tal. Foi a reforma de Clístenes, após a queda da tirania dos Pisistrátidas, que acabou violentamente com ele.”

Os conceituados proprietários apreciadores de cavalos, que nos vasos arcaicos vemos pintados, conduzindo os seus carros velozes por ocasião de uma festa ou, mais freqüentemente, para assistirem ao funeral de algum companheiro, opunham-se aos servos que trabalhavam no campo como massa compacta. O mais egoísta espírito de casta e a distância altaneira dos superiores e terratenentes em face das classes inferiores opunham uma barreira inamovível às exigências da população, cuja situação desesperada Sólon descreve comovido, no seu grande iambo.”

A proibição, por Sólon, do fausto asiático e das lamentações das mulheres, em uso até então nas cerimônias fúnebres dos senhores mais importantes, foi uma concessão ao sentimento popular.”

No que se refere ao tempo de Sólon, a deusa sentada do museu de Berlim é a representação perfeita da altivez feminina nesta antiga aristocracia ática.” Talvez se refira a esta escultura de Perséfone:

Sem o estímulo do Oriente jônico, seria inconcebível principalmente o movimento político nascido da massa economicamente fraca com a figura de Sólon, seu chefe proeminente, em que se interpenetram inseparavelmente o ático e o jônico.” “A sua linhagem poética é o jônico mesclado de formas áticas, pois, naquele tempo, o ático ainda não estava apto a ser empregado na alta poesia.”

A Eunomia é, como Dike, uma divindade – Hesíodo dá-lhe o nome de irmãs na Teogonia – e tem também uma ação imanente.” “Convém recordar que na Jônia Tales e Anaximandro, filósofos da natureza milesianos, ensaiavam por essa época as primeiras passadas na ousada senda do conhecimento de uma lei estável do devir eterno da natureza.”

A tirania, i.e., o domínio exercido sobre a aristocracia restante por uma estirpe nobre e o seu chefe, apoiados na massa popular, era o perigo mais temível que Sólon podia pintar aos olhos da sociedade ática dos eupátridas (…) É altamente significativo que ele nos fale do perigo da democracia. Por imaturidade das multidões, esse perigo era longínquo ainda.” “é característico da natureza humana que, apesar desta intuição, Atenas se tenha visto igualmente forçada a passar pela regência dos tiranos.”

Se foi por debilidade vossa que haveis sofrido o mal, não lanceis sobre os deuses o peso da culpa. Fostes vós próprios que permitistes a esta gente que se engrandecesse, dando-lhe a força e caindo por isso em vergonhosa servidão.”

Sólon, frag. 8

Moira torna fundamentalmente inseguros todos os esforços humanos, por mais sérios e coerentes que pareçam, e não há previsão que possa evitar esta Moira, como era evitada a desgraça proveniente da culpa pessoal, na primeira parte do poema. Atinge os bons e os maus, sem distinção. É totalmente irracional a relação entre o nosso esforço e o nosso êxito.” “A insegurança do êxito dos melhores esforços não acarreta a resignação nem a renúncia ao próprio esforço.”

A interpretação da divina Moira como força de equilíbrio necessária nas inevitáveis diferenças econômicas entre os homens prescreve uma linha de conduta a sua ação política.”

Jamais um estadista se elevou tão acima da mera vontade de poder como Sólon, que deixou o país e partiu em longa viagem, assim que deu por finda a sua obra legislativa. Não se cansa de salientar que não aproveitou a sua situação para enriquecer ou tornar-se um tirano, como em seu lugar teria feito a maioria, e preza-se de ser alcunhado de néscio por não ter aproveitado a ocasião.”

Semônides ensinou ser a vida tão breve e tão fértil em dores e canseiras que não devemos chorar um defunto por mais que um dia após a morte.”

Não há homem feliz. Todos os mortais debaixo do sol estão mergulhados em canseiras.”

Sólon, frag. 5

À massa basta submeter-se às leis que lhe são impostas. Mas aquele que as impõe precisa ter uma alta medida, que não se encontra afixada em parte alguma.”

Pela sua união do Estado e do espírito, da comunidade e do indivíduo, Sólon é realmente o primeiro ateniense.”

1.8 O pensamento filosófico e a descoberta do cosmos

Os <pré-socráticos> constituíram, desde Aristóteles, o problema histórico e o fundamento sistemático da filosofia ática clássica, i.e., o platonismo.”

A sofística é um acontecimento de tipo educativo, no sentido mais próprio. Só uma história da educação pode dar-lhe o verdadeiro valor. Em geral, o conteúdo teórico da sua doutrina é escasso.”

A filosofia jônica da natureza sucede a epopéia sem solução de continuidade.” “Não é fácil definir se a idéia dos poemas homéricos, segundo a qual o Oceano é a origem de todas as coisas, difere da concepção de Tales, que considera a água o princípio original do mundo; seja como for, é evidente que a representação do mar inesgotável colaborou para a sua expressão.”

Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão e, em Aristóteles, o amor das coisas pelo motor imóvel do mundo.”

Se representarmos o mundo por uma série de círculos concêntricos, a partir da exterioridade da periferia para a interioridade do centro, veremos que o processo pelo qual o pensamento racional toma posse do mundo se realiza na forma de uma penetração progressiva que vai das esferas exteriores para as mais profundas e interiores, até chegar, com Sócrates e Platão, ao centro, quer dizer, à alma. A partir deste ponto, realiza-se, no neoplatonismo, um movimento inverso até o fim da filosofia antiga.”

Se juntarmos à filosofia da natureza tudo o que a poesia jônica a partir de Arquíloco e a poesia de Sólon trouxeram ao pensamento construtivo no campo religioso e ético-político, ficará evidente que nos basta quebrar os limites que separam a prosa da poesia para obtermos uma imagem completa da evolução do pensamento filosófico, na qual também está compreendido o reino humano.”

O problema do Homem não foi encarado pelos gregos, a princípio, do ponto de vista teórico. Mais tarde, no estudo dos problemas do mundo externo e particularmente da Medicina e da Matemática, é que se descobriram intuições do tipo de uma techne exata, que serviram de modelo para a investigação do homem interior. Recordemos as palavras de Hegel: o rodeio é o caminho do espírito.”

O que logo se evidencia na figura humana destes primeiros filósofos – que, naturalmente, não deram a si próprios este nome platônico – é a sua típica atitude espiritual: devotamento incondicional ao conhecimento, estudo e aprofundamento do ser, em si mesmo. (…) A tranqüila indiferença daqueles investigadores pelas coisas que aos demais homens pareciam importantes, como o dinheiro, as honras e até o lar e a família, a sua aparente cegueira com relação aos seus próprios interesses e a sua indiferença perante as emoções da praça pública deram origem às conhecidas anedotas sobre a atitude espiritual daqueles pensadores. Recolhidas principalmente pela Academia platônica e pela escola peripatética, foram propostas como exemplo e modelo do BIOS POLITIKOS, considerado por Platão como a autêntica práxis dos filósofos.”

WHY THE SKY? “O sábio Tales, absorto na contemplação de um fenômeno celeste qualquer, cai dentro de um poço, e a sua criada trácia faz pouco dele, por querer saber as coisas do céu e não ver o que está sob os seus pés. Pitágoras, quando lhe perguntam para quê vive, responde: para contemplar o céu e as estrelas. Anaxágoras, acusado de não se interessar pela família nem pela pátria, aponta com a mão o céu e diz: eis a minha pátria. É comum a todos aquele incompreensível devotamento ao conhecimento do cosmos, à <meteorologia>, como então se dizia num sentido mais vasto e mais profundo, i.e., a ciência das coisas do alto. A conduta e as aspirações dos filósofos são desmedidas e extravagantes, no sentido do povo, e é crença popular dos gregos que aqueles homens sutis e sonhadores são infelizes (…) [Este sentimento] refere-se evidentemente à hybris, pois o pensador ultrapassa os limites impostos ao espírito humano pela inveja dos deuses.

Existências deste tipo, audaciosas e solitárias, só na Jônia, numa atmosfera da maior liberdade pessoal, podiam desabrochar. Esta gente insólita era, ali, deixada em paz, quando em qualquer outro local teria suscitado escândalo e enfrentado toda a espécie de dificuldades. Na Jônia, homens da classe de Tales de Mileto cedo ganhavam popularidade, eram transmitidas com interesse as suas sentenças e afirmações e contavam-se anedotas a seu respeito.”

Pelo que sabemos, foi Anaximandro o primeiro que teve a coragem de escrever em prosa as suas idéias e de difundi-las, tal como o legislador escrevia as suas tábuas. O filósofo elimina com isso a intimidade do seu pensamento”

Hecateu de Mileto começa o seu tratado genealógico com estas palavras ingênuas: Diz Hecateu de Mileto: variados e ridículos são os discursos dos gregos; eu, porém, Hecateu, digo o seguinte.

Só é verdade o que <eu> posso explicar por razões concludentes, aquilo que o <meu> pensamento consegue justificar perante si próprio. Toda a literatura jônica, desde Hecateu e Heródoto, criador da Geografia e da Etnologia e pai da História, até os médicos, em cujos escritos se encontram os fundamentos da ciência médica durante vários séculos, está impregnada deste espírito e usa nas suas críticas aquela forma pessoal característica.”

No conceito grego de physis estavam, inseparáveis, as duas coisas: o problema da origem – que obriga o pensamento a ultrapassar os limites do que é dado na experiência sensorial – e a compreensão, por meio da investigação empírica, do que deriva daquela origem e existe atualmente.”

A conexão do nascimento da filosofia naturalista com Mileto, a metrópole da cultura jônica, torna-se clara, se notamos que os seus 3 primeiros pensadores – Tales, Anaximandro e Anaxímenes – viveram no tempo da destruição de Mileto pelos persas (início do séc. V).”

Tomaremos o exemplo de Anaximandro, a figura mais imponente dos físicos milesianos, para elucidarmos o espírito daquela filosofia arcaica. É ele o único de cuja concepção de mundo podemos obter uma representação exata. Nele se revela a prodigiosa amplitude do pensamento jônico. Foi ele quem primeiro criou uma imagem do mundo de verdadeira profundidade metafísica e rigorosa unidade arquitetônica. Foi ele também o criador do primeiro mapa da Terra e da geografia científica.” “O mundo de Anaximandro é construído segundo rigorosas proporções matemáticas. O disco terrestre da concepção homérica não passa de uma representação ilusória. Na realidade o caminho diário do Sol do Oriente para o Ocidente passa por baixo da Terra, de modo a reaparecer no Oriente, no seu ponto de partida. O mundo não é, assim, uma meia-esfera, mas uma esfera completa, em cujo centro se situa a Terra.”

E o diâmetro da Terra tem 3 vezes a sua altura, pois a Terra tem a forma de um cilindro achatado. Não se apóia numa base sólida nem cresce para o ar, como uma árvore, a partir de raízes invisíveis e profundas.(*) Está suspensa no espaço do mundo.

(*) Na cosmogonia órfica de FERECIDES, que em parte se liga às concepções míticas mais antigas, fala-se de um <carvalho alado>. Combina a doutrina de Anaximandro da livre suspensão com a representação da árvore que tem as raízes do infinito. PARMÊNIDES (frag. 15a) diz que a Terra <está enraizada na água>.”

não tenho qualquer escrúpulo em fazer retroceder até Anaximandro o germe dos esquemas cartográficos que Heródoto, Scylax e outros autores atribuem a Hecateu. A superfície da Terra divide-se em 2 partes aproximadamente iguais: a Europa e a Ásia. Aparece em separado um trecho da última: a Líbia. Rios caudalosos constituem as fronteiras. A Europa e a Líbia são divididas em 2 partes iguais, a primeira pelo Danúbio e a segunda pelo Nilo.” “o Oceano, nunca visto por olhos humanos, pelo menos a leste e ao norte.”

aquela grande máxima, a única de Anaximandro que nos foi diretamente transmitida: Onde estiver a origem do que é aí também deve estar o seu fim, segundo o decreto do destino. Porque as coisas têm de pagar umas às outras castigo e pena, conforme a sentença do tempo.

Muito se escreveu sobre esta frase, desde Nietzsche até Erwin Rhode, e várias interpretações místicas foram tentadas.”

A idéia de Sólon é esta: a dike não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. Portanto, a sua inexorabilidade é o <castigo de Zeus>, a <paga dos deuses>. Anaximandro vai muito além. Essa compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres.” “Temos, portanto, o direito de caracterizar a concepção do mundo de Anaximandro como a íntima descoberta do cosmos. Esta descoberta não se podia fazer senão no fundo da alma humana. Nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica. Foi da mesma faculdade intuitiva que brotou a idéia de infinidade dos mundos, atribuída a Anaximandro pela tradição.”

o Prometeu de Ésquilo chama a descoberta do número de obra-prima da sabedoria criadora da cultura.”

Assim, como freqüentemente sucede, deparamos com um conhecimento perene e infinitamente fecundo unido a uma aplicação prática equivocada. Esta audaciosa supervalorização aparece em todos os grandes momentos do pensamento racional.”

Só o conhecimento da essência da harmonia e do ritmo que dela brota já seria suficiente para garantir aos gregos a imortalidade na história da educação humana. É quase ilimitada a possibilidade de aplicação daquele conhecimento a todas as esferas da vida.”

A harmonia exprime a relação das partes com o todo. Está nela implícito o conceito matemático de proporção que o pensamento grego se figura em forma geométrica e intuitiva. A harmonia do mundo é um conceito complexo em que estão compreendidas a representação da bela combinação dos sons no sentido musical e a do rigor dos números, a regularidade geométrica e a articulação tectônica. É incalculável a influência da idéia de harmonia em todos os aspectos da vida grega dos tempos subseqüentes. Abrange a arquitetura, a poesia e a retórica, a religião e a ética.”

É para a história das religiões um mistério a estreita vizinhança que no culto délfico une Apolo e Dionisos. (…) Nenhum outro deus intervém tão profundamente na conduta pessoal. É provável que o espírito de limitação, ordem a clareza de Apolo nunca tivesse abalado tão profundamente a alma humana, se a funda e excitante comoção dionisíaca não houvesse previamente preparado o terreno, arredando toda a eukosmia burguesa. A religião délfica penetrou então de modo tão vivo e tão íntimo, que demonstrou ser apta a conduzir e colocar a seu serviço todas as forças construtivas da nação. Os <sete sábios>, os reis mais poderosos e os tiranos do séc. VI reconheceram naquele deus profético a suprema instância do conselho justo. No séc. V, Píndaro e Heródoto estavam profundamente imbuídos do espírito délfico e são os seus testemunhos mais notáveis.”

O sentido da sophrosyne grega seria mal-compreendido se interpretado como expressão de uma natureza inata, de uma índole harmônica e jamais perturbada. Para compreendê-la, basta perguntar por que foi justamente naquele tempo que ela irrompeu de forma tão imperativa, de modo a penetrar subitamente, nas profundezas mais inesperadas da existência e, principalmente, da intimidade humana. (…) A maior ofensa aos deuses é <não pensar humanamente> e aspirar à elevação exclusiva. A idéia da hybris, originariamente concebida de modo perfeitamente concreto na sua oposição à dike e limitada à esfera terrena do direito, cedo se estende à esfera religiosa. Compreende agora a pleonexia do Homem em face da divindade.” “A felicidade dos mortais é mutável como os dias. O Homem não deve, portanto, aspirar ao que está alto demais.” “O sóbrio relancear do espírito de investigação pela profundidade da natureza oferece ao Homem o espetáculo da geração e da corrupção incessantes, governado por uma legalidade universal indiferente ao Homem e ao seu insignificante destino, e que transcende com a sua férrea <justiça> a nossa breve felicidade.”

A fantasia dos simples pinta a imagem de uma vida futura no além, como uma vida de gozos sensíveis; o espírito dos nobres luta pela própria afirmação no meio da voragem do mundo, com a esperança de uma redenção pela consumação do seu caminho. Ambos, porém, coincidem na certeza do seu destino superior.”

Também eu sou da raça dos deuses. (DIELS, Vorsokratiker [5ª ed.] I, 15 [ORFEU, frags. 17-ss.]) Estas palavras estão gravadas, como passaporte para a viagem para o outro mundo, nas pequenas tábuas órficas de ouro, achadas nos sepulcros do sul da Itália. § O conceito órfico da alma representa um passo essencial no desenvolvimento da consciência pessoal humana. Sem ele seria impensável a concepção platônica e aristotélica da divindade do espírito e a distinção entre o Homem meramente sensível e o seu próprio eu, que constitui sua vocação plena.” “Empédocles exalta Pitágoras no seu poema órfico, Purificação. Interpenetram-se em Empédocles as crenças órficas da alma e a filosofia jônica da natureza.”

Assim sou eu, como um exilado de Deus, que vagueia daqui para ali”

Empédocles, frag. 115, 13

Com Xenófanes de Cólofon, o segundo dos grandes emigrados jônicos que estabeleceram o seu campo de ação no ocidente do mundo helênico, deixamos a linha dos pensadores rigorosos.” “Xenófanes é um poeta. Com ele, o espírito filosófico apoderou-se da poesia. Isto é sinal inequívoco de que o espírito filosófico começa a tornar-se uma força educativa, pois a poesia continua a ser como sempre a expressão autêntica da formação nacional.” “A nova prosa jônica só gradualmente alarga o seu campo e, por estar expressa num dialeto limitado a um círculo reduzido, nunca adquire a ressonância da poesia, que se serve da linguagem de Homero e é, por conseguinte, pan-helênica.”

Até um pensador abstrato e rigoroso como Parmênides, ou um filósofo da natureza como Empédocles, adotam a forma hesiódica da poesia didática. Talvez tenham sido incitados a fazê-lo pelo exemplo de Xenófanes que, embora não tenha sido um verdadeiro pensador nem tenha escrito nunca um poema didático sobre a natureza, como se disse freqüentemente, foi um dos iniciadores da exposição poética da doutrina filosófica. (*) (…) K. REINHARDT, no seu Parmênides (Bonn, 1916), refuta a opinião corrente¹ segundo a qual Xenófanes é o fundador do eleatismo. Todavia, não me parece ter razão ao considerá-lo como discípulo de Parmênides.” Neste ponto, me auto-re-remeto às instrutivas “leituras CAPES” (projeto ou ciclo OUSIA) (Ver no Seclusão)

¹ Hegelianismo!

Além dos seus poemas filosóficos, Xenófanes escreveu ainda um poema épico, A fundação de Cólofon, e A fundação da Colônia de Eléia.¹ Este homem inquieto, que aos 92 anos escreve um poema em que contempla uma vida de 67 anos [segundo seu Fragmento 7] de incansáveis peregrinações, iniciada provavelmente com as emigrações de Cólofon para a Itália meridional, erige, com o primeiro, um monumento a sua antiga pátria. Talvez tenha pessoalmente tomado parte na fundação de Eléia. Contudo, nestes poemas aparentemente impessoais, o sentimento pessoal toma uma parte muito maior do que era hábito. (…) foi considerado como um rapsodo que na praça pública recitava Homero, e em círculos reduzidos dirigia as suas sátiras contra Homero e Hesíodo. Isto não combina com a unidade da sua personalidade,² que imprime um caráter inequívoco a todas as palavras que dele se conservaram. Apóia-se numa má interpretação da tradição.”

¹ Infelizmente obras quase que integralmente perdidas.

² Não teria sido seu ganha-pão? Normalmente o grande homem precisa se contradizer para sobreviver…

Ordena ao poema que cale as vergonhosas dissensões dos deuses e as lutas dos titãs, gigantes e centauros, invenções dos tempos idos, que nos banquetes os cantores gostam de celebrar.” Velho rabugento!

Comia à mesa dos ricos e das personalidades eminentes, como mostra a anedota da sua engenhosa conversa com o tirano Hierão de Siracusa. Mas nunca encontrou naquele ambiente nem a estima inteligente nem a elevada consideração social que obteve na sua própria pátria jônica: permaneceu só.” Nisso ele foi bem filosofal!

Em parte alguma da história da cultura grega vemos de modo tão claro o choque violento e inevitável entre a velha cultura aristocrática e os homens da nova filosofia, que pela primeira vez aqui lutam por conquistar um lugar na sociedade e no Estado” “O subseqüente desenvolvimento da história dá razão à segurança do seu gesto. Destruíram o domínio absoluto do ideal agonístico. Já não é possível a Xenófanes ver, como Píndaro, a revelação da divina arete do vencedor em cada vitória olímpica, na palestra ou no pugilismo, nas corridas a pé ou a cavalo.”

O conceito de arete alcança, com esta fase, o tempo da sua evolução: coragem [Aquiles], prudência [Ulisses/Odisseu], justiça [Atena(s)] e, por fim, sabedoria [os superdotados] – tais são as qualidades que ainda para Platão formam o conteúdo da arete cívica. (…) Deu-se o passo que leva da mera intuição da verdade à crítica e condução da vida humana.” “Com armas pedidas a Xenófanes, ainda Eurípides ataca o tradicional apreço dos gregos pelo atletismo, e a crítica de Platão ao valor educativo dos mitos homéricos segue a mesma linha. (…) Na antiga filosofia da natureza, são outras as forças que imperam: a fantasia dirigida e controlado pelo intelecto, que, de acordo com o eminente sentido plástico e arquitetônico dos gregos, procura articular e ordenar o mundo sensível, e pelo pensamento simbólico, que interpreta a partir da vida humana a existência não-humana.” “As proposições de Parmênides constituem um encadeamento rigorosamente lógico, impregnado da consciência da força construtiva da conseqüência das idéias.” “A força com que Parmênides expõe aos ouvintes as suas doutrinas fundamentais não deriva de uma convicção dogmática, mas da vitória da necessidade do pensamento. O conhecimento é também uma absoluta ananke para Parmênides, que ainda o denomina dike ou moira, evidentemente por influência de Anaximandro.” “A Dike de Parmênides (…) é a necessidade implícita no conceito do Ser (…) Nas frases insistentemente repetidas <o Ser é, o não-Ser não é; e: o que é não pode não-ser>, Parmênides exprime a necessidade do pensamento da qual deriva a impossibilidade de realizar no conhecimento a contradição lógica.” “Parmênides é o primeiro pensador que levanta conscientemente o problema do método científico e o primeiro que distingue com clareza os dois caminhos principais que a filosofia posterior há de seguir: a percepção e o pensamento.”

Heráclito de Éfeso realiza a revolução mais completa. A história da Filosofia considerou-o por longo tempo um filósofo da natureza e colocou o seu princípio originário, o fogo, na mesma linha da água de Tales e do ar de Anaximandro. O vigor significativo das misteriosas proposições do <Obscuro>, freqüentemente expressas em forma de aforismos, já devia ter evitado aos historiadores a confusão deste temperamento duramente recalcado com o de um investigador consagrado unicamente à fundamentação dos fatos.”

O logos de Heráclito não é o pensamento conceitual de Parmênides, cuja lógica puramente analítica exclui a representação figurada de uma intimidade espiritual sem limites.” Será assim mesmo? Minha impressão é a de que foram mais lentos ainda para compreender Parmênides do que Heráclito!

O ethos é o daimon do Homem.”

Os homens, é certo, vivem como se cada um tivesse a sua razão particular.”

Tal como a polis, também o universo inteiro tem a sua lei. É a primeira vez que aparece esta idéia tipicamente grega. (…) O logos de Heráclito é o espírito, enquanto órgão do sentido do cosmos.”

A dike só aparece na luta. A nova idéia pitagórica da harmonia serve agora para dar sentido ao ponto de vista de Anaximandro. Só se une o que se opõe; é da diferença que brota a mais bela harmonia. (…) Toda a natureza está repleta de violentos contrastes: o dia e a noite, o verão e o inverno, o calor e o frio, a guerra e a paz, a vida e a morte sucedem-se em eterna mudança. (…) É um eterno caminho, ascendente e descendente. É mudando que repousa. A vida e a morte, a vigília e o sono, a mocidade e a velhice são, no fundo, uma e a mesma coisa. Uma transforma-se na outra, e esta volta a ser o que era primeiro.

O arco e a lira são o símbolo de Heráclito para a harmonia dos contrários no cosmos. Executam ambos a sua obra, pela sua ação tensa, recíproca e oposta. Ao vocabulário filosófico faltava ainda o conceito genérico de tensão. (…) Só no nosso tempo foi apreciada no seu justo valor.” “A doutrina de Heráclito surge como a primeira antropologia filosófica, em face dos filósofos primitivos.”

O Uno, que é o único sábio e prudente, quer e não quer ser chamado Zeus. O sentimento político dos gregos desse tempo inclina-se a pensar como tirânico o governo de um só.” “A antiga filosofia da natureza não tinha formulado expressamente o problema religioso. A sua concepção do mundo oferecia uma visão do Ser separado do humano. A religião órfica preenchia este vazio e sustentava a crença no caráter divino da alma, em meio ao turbilhão destruidor do devir universal onde a filosofia da natureza parecia precipitar o Homem. Mas a filosofia da natureza, no seu conceito de cosmos dominado pela Dike, oferecia um ponto de cristalização à consciência religiosa. Foi nele que Heráclito inseriu a sua interpretação do Homem (…) Foi pelo conceito heracliteano de alma que a religião órfica se ergueu a um estágio mais alto. Pelo seu parentesco com o <fogo eternamente vivo> do cosmos, a alma filosófica é capaz de conhecer a divina sabedoria e de nela se manter. Assim, a oposição entre o pensamento cosmológico e o pensamento religioso do séc. VI aparece superada e unificada na síntese de Heráclito – que vive já no umbral da centúria seguinte.”

1.9 Luta e transformação da nobreza

Embora Píndaro pertença à lírica coral e Teógnis à poesia gnômica, do ponto de vista da história da educação formam uma unidade. Neles encarna o despertar da consciência aristocrática o sentimento superior da sua particular vocação e proeminência” “Este ethos consciente e educador é característico, não apenas de Hesíodo, Tirteu e Sólon, mas também de Píndaro e Teógnis, e opõe-se à ingênua espontaneidade com que, entre os jônios, irrompe o espírito em todas as suas formas.”

A longa duração do domínio dos nobres e da cultura aristocrática – manancial da mais alta vontade educadora da nação – em terras da metrópole pode ter contribuído de modo essencial a que nada de novo pudesse prosperar nela, sem que lhe fosse oposta a tradição, como ideal definido de uma forma perfeita do humano.”

Píndaro e Teógnis lutam por um mundo agonizante. Os seus poemas não produzem um renascimento da nobreza na ordem política exterior, mas sim a perenidade dos seus ideais, no momento em que as novas forças do tempo os punham em maior risco, e a incorporação do seu vigor social e construtivo ao patrimônio da nação helênica. § Se hoje possuímos uma imagem da vida e condições sociais da nobreza nos sécs. VI e V, é só à poesia que o devemos. (…) É até disso perdemos muito. (…) A descoberta da lírica coral de Baquílides, quase desconhecida até agora, mostra apenas que, para o nosso objetivo, não precisamos sair de Píndaro. Começaremos por Teógnis, porque é, provavelmente, o mais antigo dos dois. Oferece, além disso, a vantagem de nos revelar as difíceis condições sociais em que se debatia a nobreza de então – elas aparecem em primeiro plano nos poemas de Teógnis –, enquanto Píndaro nos mostra antes a cultura aristocrática quanto as suas convicções religiosas e aos seus mais altos ideais de perfeição humana.”

Por mais interessantes que em si mesmos sejam estes temas filológicos, não os trataria com tanto detalhe, se a tradição que nos revela o poeta não nos fizesse, ao mesmo tempo, penetrar tão profundamente naqueles fragmentos da educação grega, tão intimamente ligados ao influxo posterior de Teógnis. § A coleção que, por puro acaso, nos foi transmitida sob o nome de Teógnis devia já existir no séc. IV (…) A pesquisa recente dedicou uma quantidade apreciável de trabalho primoroso à análise deste livro singular. Na sua forma atual, mal deve ter passado pelo fogo purificador da crítica filológica alexandrina. Foi corretamente usado nos banquetes dos sécs. V e IV, até a época em que esta importante corrente da vida <política> dos gregos foi desaparecendo gradualmente; depois foi lido e propagado apenas como curiosidade literária. Foi logo relacionado com o nome de Teógnis, porque um livro desse poeta serviu de núcleo a um florilégio de máximas e poemas de vários poetas anteriores e posteriores (do séc. VII ao V). Todos foram cantados nos banquetes, ao som da flauta. (…) A antologia não inclui poetas posteriores ao séc. V, o que coincide com a época da morte política da nobreza. (…) A íntima união do banquete e do eros, que Platão nos mostra na sua forma mais elevada no seu Banquete,¹ reflete-se também claramente na história da coleção de Teógnis, visto que o chamado livro II – na realidade um livro independente – tem por objeto o eros, que se festejava naquelas ocasiões. § Felizmente, basta-nos a sensibilidade estilística e espiritual para separar e distinguir nitidamente os poemas de Teógnis daqueles dos outros poetas da antologia. (…) Não se trata de um poema orgânico, mas de uma coleção de máximas. Foi só esta característica que permitiu incorporar aos versos de Teógnis aqueles que lhe são estranhos. (…) Apesar da independência exterior das máximas, observa-se nelas o progresso de uma idéia, e elas têm um prólogo e uma conclusão, que se separam nitidamente das que a seguem. Para reconhecer a autenticidade deste velho livro de Teógnis ajuda-nos muito (…) também a forma constantemente repetida dos discursos do poeta, ao amado jovem a quem dedica sua doutrina (…) O fato de expor a sua doutrina em forma de máximas dá-lhe ocasião de repetir freqüentemente a invocação a <Cirno> ou ao <filho de Polipaides>, embora não em todas as máximas. Na velha poesia proverbial dos nórdicos deparamos também com a mesma forma. Também nela se repete periodicamente o nome da pessoa a que se dirige. (…) Simplesmente, enquanto no livro de máximas de Teógnis aparece com muita freqüência, nas outras partes aparece raras vezes e em trechos próximos uns dos outros. (…) É evidente que a última parte da coleção constituía originalmente uma coleção independente, que incluía fragmentos de Teógnis ao lado dos fragmentos de outros poetas. (…) Platão atesta nas Leis a existência de antologias semelhantes nas escolas da época. (…) O fato de ninguém se ter dado ao trabalho de evitar as repetições que indicamos mostra bem o quanto se procedeu toscamente. (…) o livro de máximas a Cirno é o fundamento autêntico a que se deve referir tudo o mais.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/04/07/o-banquete-ou-do-homossexualismo-supremo/.

#DitadoMegaPopular

Cirno, tive a sensata idéia de estampar nos meus versos o meu selo, de tal modo que nunca ninguém possa roubá-los clandestinamente nem tomar por mau o que neles há de bom, mas digam todos: estes são versos de Teógnis de Mégara, famoso entre todos os homens. Não posso agradar a toda a gente da nossa cidade. Não há nisso maravilha alguma, filho de Polipao, pois nem Zeus consegue agradar a todos, quando manda chuva ou estiagem.

Versos 19-23

Este traço individualista é particularmente interessante num aristocrata tradicional do tipo de Teógnis, pois por ele se vê que o espírito do tempo o tinha afetado muito mais profundamente do que ele julgava. (…) Não era totalmente novo mencionar o nome do poeta no começo da obra. Mas o exemplo de Hesíodo na Teogonia não suscitara imitadores e apenas um imediato predecessor de Teógnis, o poeta gnômico Focílides de Mileto, tinha se servido deste artifício para assinalar a propriedade das suas máximas, pela razão evidente do seu tipo de versos se poder tornar facilmente propriedade comum, na qualidade de provérbios. De fato, os famosos versos de Focílides e de Teógnis foram citados como provérbios, sem o nome dos autores, pelos escritores subseqüentes. (…) Seguindo-lhe o exemplo, o tirano Hiparco, filho de Pisístrato, ao escrever as máximas que haviam de ser gravadas nos Hermes das estradas áticas, encimou-as com as palavras: Isto é de Hiparco, para logo prosseguir: Não enganes o teu amigo, ou: Segue sempre o reto caminho. (PSEUDO-PLATÃO, Hiparco, 228C)” TRECHOS DESTA OBRA EM: https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/

Os autores atuais não precisam empregar este meio porque o nome do autor e o título da obra vêm no frontispício. Não era isso que ocorria no séc. VI a.C.. A única solução era a que Hecateu, Heródoto e Tucídides adotaram: começar os livros com a menção do seu nome e a consignação dos seus intentos. Não se seguiu este costume nos livros de medicina que nos chegaram nas coleções de Hipócrates; por isso, os autores de tais livros continuam a ser um mistério para nós.” “a palavra selo se converte na expressão técnica para designar o lugar em que consta o nome do autor.”

PSEUDO-TEÓGNIS: “Mas Teógnis não podia prever as dificuldades com que os eruditos deparariam, dois milênios e meio depois, quando só existisse um exemplar do seu livro. É esta a nossa situação em face do único manuscrito antigo do qual depende toda a nossa tradição de Teógnis. Ele esperava que o livro chegasse a todas as mãos. Mas não era fácil que pudesse pensar em milênios. Não podia prever que, ao fim de cem anos, o seu livro de máximas seria impiedosamente abreviado, compendiado e finalmente agrupado num livro, com os de outros desconhecidos, para cantar nos banquetes. Muito menos podia suspeitar que a incorporação do seu nome ao prólogo do livro, em vez de protegê-lo contra o furto espiritual, pudesse contribuir para que ele fosse considerado como autor de todos os poemas anônimos com ele reunidos na coleção.”

Focílides oferece-nos regras gerais para a conduta prática da vida. A originalidade de Teógnis aparece claramente, quando se contrapõe àquele ou a Hesíodo. Quer ensinar a formação integral dos nobres, aqueles preceitos sagrados que até agora só oralmente foram transmitidos de geração em geração.” “O jovem a quem se dirige está ligado ao poeta pelos laços do eros. É evidente que estes formam, para o poeta, o pressuposto essencial da sua relação educadora. A sua união deve apresentar algo de típico aos olhos da classe a que ambos pertencem. É significativo que da primeira vez que encaramos de perto a cultura da nobreza dórica nos surja o eros masculino como fenômeno de importância tão decisiva.”

Não se deve esquecer que o eros do homem pelos jovens ou adolescentes era um elemento histórico essencial na constituição da primitiva sociedade aristocrática, e inseparavelmente vinculado aos seus ideais éticos e à sua posição. Falou-se de amor dórico pelos adolescentes. É perfeitamente justificada a atribuição, pois aquela prática sempre foi mais ou menos alheia ao sentimento popular dos jônios e dos áticos, como a comédia, principalmente, o revela.¹ As formas de vida das classes superiores transmitem-se naturalmente à burguesia rica.”

¹ Jaeger não sabe aqui pesar o surgimento do gênero da Comédia justamente no ocaso da civilização grega.

desde Sólon – em cujos poemas o amor dos adolescentes aparece ao lado do amor das mulheres e dos esportes nobres como um dos maiores bens da vida – até Platão. Sempre a nobreza helênica esteve profundamente influenciada pelos dórios.”

a relação do amante com o amado podia ser comparada à autoridade educadora dos pais em relação aos filhos. Aliás, até mesmo a superava em múltiplos aspectos, na idade em que o jovem começa a libertar-se da tradição e da autoridade familiar e atinge a maturidade viril. Ninguém pode duvidar das numerosas afirmações dessa força educadora, cuja história atinge o apogeu no Banquete de Platão. A doutrina da nobreza, em Teógnis, que mergulha a raiz no mesmo círculo de vida, nasce integralmente deste impulso educador cujo aspecto erótico facilmente esquecemos, devido a sua apaixonada gravidade moral.”

Dei-te asas com que possas voar sobre terras e mares. Em todas as festas e banquetes te verás na boca das pessoas. Jovens encantadores te cantarão o nome à música das flautas. E mesmo após a tua descida ao Hades continuarás a andar por Hellas e pelas ilhas, e atravessarás o mar para seres cantado pelos homens futuros, enquanto durarem a Terra e o Sol. Então já nada serei para ti e, como a um garoto, me iludirás com palavras.”

O poeta prevê que o Estado, nessa altura ainda em paz, cairá em guerra civil, cujo termo será a tirania. A única via salvadora é o regresso à justa desigualdade e ao governo dos nobres. E isto já não tem qualquer viabilidade.”

Homens (…) que antes cobriam a sua nudez com grosseiras vestes de pele de cabra e viviam como selvagens fora da cidade são agora, Cirno, as pessoas importantes (…) Espetáculo insuportável! Troçam secretamente uns dos outros e enganam-se, ignorantes de qualquer norma tradicional. Cirno, por nenhum pretexto faças teu amigo um homem destes. Sê amável quando lhes falares, mas não te associes a eles para nenhum desígnio sério. Convém que conheças a mentalidade destes sujeitos miseráveis e saibas que não se pode confiar neles. Esta sociedade perdida só ama a fraude, a perfídia e a impostura.”

Teó., Versos 53-68

Seria demais esperar da parte do representante da velha nobreza decaída o pleno reconhecimento daquela justiça.” “As queixas contra a violação do direito enchem a primeira parte do poema de Hesíodo tal como do poema de Teógnis.” “Ambos os poetas são levados por impulso pessoal e pelas necessidades de ocasião a formular as suas verdades em proposições de validade universal, de acordo com o estilo arcaico.”

Toda revolução gera na sociedade uma crise de confiança. Os que têm convicções parecidas unem-se estreitamente porque a traição espreita por todo lado. O próprio Teógnis diz que, em ocasião de discórdia política, um homem seguro vale mais do que o outro. Será isto ainda a velha ética aristocrática? § É certo que propôs como exemplo as amizades ideais de Teseu e Peirítoo, de Aquiles e Pátroclo, e que pertence ao mais antigo estágio da educação aristocrática o culto do bom exemplo.”

os nobres não tiveram outro remédio senão inserir-se de qualquer modo no todo. Podiam considerar-se um Estado secreto, injustamente submetido ao Estado, e aspirar à restauração do primeiro. Se, porém, o considerarmos com atenção, a verdade é que se converteram num simples partido em luta pelo poder (…) A antiga exigência de uma boa escolha das amizades transforma-se em exagerado exclusivismo político.”

ECOS PARMENÍDEOS: “Teógnis aconselha o seu jovem amigo a adaptar-se exteriormente às circunstâncias vigentes. Segue pela via média, como eu faço.” “Na luta com o demos é preciso também um mimetismo protetor. A dificuldade moral desta luta é não ser, devido a sua natureza específica, uma luta aberta. Mas Teógnis está convencido de que um homem nobre continua sempre nobre.”

A posição da velha aristocracia fundava-se na posse de propriedades rurais. O aparecimento da moeda afetou-lhe a prosperidade. (…) Esta alteração das condições econômicas afetou profundamente o conceito de arete, pois este englobava a estima social e a posse de bens. Sem ela, era impossível exercer algumas das qualidades essenciais ao homem nobre, como a liberalidade e a magnanimidade. Até entre os camponeses era evidente que a riqueza implicava arete e consideração social, como se vê pelas palavras de Hesíodo.”

A desigualdade econômica não era para Sólon contrária à vontade divina, pois além do dinheiro e das propriedades havia outra riqueza: a posse de membros sãos e a alegria de viver. Se tivesse de escolher entre a arete e as riquezas teria dado preferência à primeira. Percebemos o que há de revolucionário, forte e positivo nestas idéias se pensarmos que Teógnis não se cansa de lamentar e maldizer a pobreza, atribuindo-lhe um poder ilimitado sobre os homens. (…) A experiência dos odiados novos-ricos ensinou-lhe o quanto é fácil se harmonizarem e se juntarem o dinheiro e a vulgaridade.”

As considerações de Sólon apenas suscitam em Teógnis um humor resignado e melancólico. Está, pelas suas próprias experiências, profundamente convencido de que o Homem nunca é responsável pelos seus êxitos ou fracassos. Os homens nada mais podem fazer do que entregar-se à vontade dos deuses. Em nada podem contribuir para a determinação do seu próprio destino. Até na riqueza, no sucesso e nas honras se encontra o germe da desventura. Não temos outro remédio, portanto, senão implorar tyche. De que serve o dinheiro ao homem vulgar se não tem o espírito reto! Só pode precipitá-lo na perdição.”

DIGNIDADE X DINHEIRO EM TODOS OS TEMPOS: “onde quer que houvesse um nobre a lutar pela sua sobrevivência e pela sua idiossincrasia, foi seu espelho a sabedoria pedagógica de Teógnis de Mégara. Muitas das suas idéias reviveram em fase posterior, na luta da burguesia contra o proletariado.” [!]

A poesia de Píndaro é arcaica. Mas ela o é num sentido muito diverso das obras dos seus contemporâneos e mesmo dos poetas pré-clássicos mais antigos. Perto dele, os iambos de Sólon parecem modernos quanto ao vocabulário e ao sentimento. (…) Quando, a partir da <antiga> cultura da Jônia, nos aproximamos de Píndaro, temos a impressão de sair fora (sic) da unidade da evolução espiritual que da epopéia de Homero irradia em linha reta para a lírica individual e para a filosofia jônica da natureza, e de ingressarmos em outro mundo.” “É que, por mais que a fé aristocrática de Píndaro tenha em comum com a epopéia, o que em Homero aparece já quase só como jovial brincadeira tem para Píndaro a mais grave seriedade. Isto, naturalmente, depende em parte da diferença entre a poesia épica e os hinos pindáricos. Nos segundos trata-se de preceitos religiosos; na primeira, de uma colorida narração da vida.”

Foi porventura nos jogos fúnebres celebrados em Olímpia em honra de Pélops, semelhantes aos que a Ilíada descreve em honra de Pátroclo, que as festividades olímpicas e as posteriores tiveram origem. É sabido que os jogos fúnebres também podiam ser celebrados periodicamente, como os de Adrasto em Sicyon, embora o caráter destes fosse diferente. Festas assim podiam ter sido celebradas muito cedo em honra do Zeus Olímpico. E a descoberta, nos mais antigos santuários, de oferendas com figuras de cavalos permite supor a existência de corridas de carros nos mais primitivos cultos daqueles lugares, muito tempo antes do que a tradição relativa aos jogos olímpicos nos diz sobre o primeiro triunfo de Coroibos nas corridas pedestres.”

A unidade do físico e espiritual que nas obras-primas da escultura grega admiramos, e que para nós está irremediavelmente perdida, aponta-nos o caminho para chegarmos à compreensão da grandeza humana do ideal agonístico, embora a realidade nunca lhe tenha correspondido.”

É em Píndaro que pela primeira vez os hinos aos vencedores se convertem numa espécie de poesia religiosa.”

Hoje ninguém pode mais pensar numa entrega genial e espontânea aos ditames da fantasia, como no tempo do Sturm und Drang se pensou, atribuindo a Píndaro o que era característico das convicções particulares desse tempo. E quando ainda hoje se acolhe inconscientemente essa interpretação, na presença da forma total dos hinos pindáricos, isto não está de acordo com a tendência das últimas gerações a não se fixarem só na originalidade da sua arte, mas também, cada vez mais, no seu elementos técnico e profissional.”

Muitas vezes, o destino precipita o Homem numa desgraça sem-saída, que não lhe permite alcançar a perfeição. Só é perfeita a divindade. O Homem não o pode ser, quando o toca o dedo do destino.”

Simônides, apesar de ser insubstituível para a história do problema da idéia grega da arete – na interpretação dos seus escólios, que Sócrates discute com os sofistas no Protágoras¹ de Platão –, não é o representante pleno da ética aristotélica, no sentido de Píndaro.” “É ele o primeiro sofista.”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/03/02/protagoras-outros/

A arete só é divina porque um deus ou um herói foi antepassado da família que a possui. Dimana dele a força da arete, a qual se renova sem cessar nos indivíduos que constituem a série das gerações.” “O elogio tem um lugar firme nos epinícios. É pelo ingresso neste coro que o vencedor se situa ao lado dos deuses e dos heróis. A que deus, a que herói, a que homem celebrarei? – começa o 2º poema olímpico.”

O tempo não pode desfazer o que está feito; mas pode, em parte, sobrevir com o esquecimento, Latha, quando um homem daimon intervém no seu destino. Apesar da sua tenaz repugnância, a aflição morre dominada pela nobre alegria, quando a moira de Deus concede a rica prosperidade de uma ventura superior.”

Daí resulta para Píndaro um grave problema: explicar como é possível que, após uma longa sucessão de homens famosos, uma família desapareça repentinamente. Isto aparece como uma ruptura inexplicável na cadeia de testemunhos da força divina de uma estirpe, que une aos tempos heróicos a atualidade do poeta. (…) Píndaro fala desta interrupção da areta (sic) humana, no 6º hino nemeu. A raça dos homens e a raça dos deuses estão profundamente separadas.”

Assim, hoje, Alcímidas, vencedor das competições juvenis, prova que no seu sangue palpita uma força análoga à dos deuses. Parece desaparecer no seu pai, mas reaparece no pai do seu pai, Praxídamas, grande vencedor em Olímpia, no Istmo e em Neméia. Com as suas vitórias acabou com o obscuro esquecimento de seu pai Socleides, filho sem glória de um pai glorioso. Acontece o mesmo que com os campos, os quais ora dão aos homens o pão de cada dia, ora lhe recusam. (…) Para o pensamentos grego é evidente que com o aumento das gerações de uma casa pode aparecer uma colheita má, uma aphoria, idéia que voltamos a encontrar em tempos pós-cristãos, quando o autor do estudo Do Sublime investiga as causas do desaparecimento dos grandes espíritos criadores, na época dos epígonos.” Schiller?

É nisto que se distingue dos cantos impessoais de Homero. Os seus heróis são homens que vivem e lutam no seu tempo, mas que ele situa no mundo dos mitos”

A máxima <torna-te quem és> oferece a suma da sua educação inteira. É este o sentido de todos os modelos míticos que se propõe aos homens. Revela-se neles a imagem mais alta do seu próprio ser.” “Não se diz uma palavra sobre Píndaro nas introduções às nossas edições de Platão. Em contrapartida, sempre nelas surgem, como eterna doença e na forma de incrustações estranhas, as matérias-primas dos hilozoístas [hilozoísmo: espécie de panteísmo jônico].”

O amor filial é, depois da veneração de Zeus, senhor do céu, o dever principal da antiga ética cavaleiresca. Já Quíron, o sábio centauro, protótipo do educador dos tempos heróicos, o imprimiu na mente do peleida Aquiles, quando o teve a seu cuidado.”

O poeta vive e move-se inteiramente num mundo em que o mito é tão real como a própria realidade; e quer celebre o triunfo de um antigo nobre, quer o de algum tirano que rapidamente alcançou o apogeu, ou o do filho de um burguês sem ascendência, a todos eleva a honras quase divinas, de que se tornaram credores pelo contato da varinha mágica da sua sabedoria sobre o alto sentido destas coisas.” “Mas será possível educar, com a convicção de que é no sangue que se encontra a arete? Píndaro tomou várias vezes posição em face deste problema. Na realidade o problema já fôra levantado por Homero, no canto da Ilíada em que Aquiles é posto em face do educador Fênix, no momento decisivo, e a admoestação deste se mostra ineficaz ante o endurecido coração do herói. No entanto, ali se trata do problema da possibilidade de moldar o caráter inato, ao passo que em Píndaro surge a moderna questão de saber se a verdadeira virtude pode ser ensinada ou se reside no sangue. Não esqueçamos que em Platão surge constantemente uma questão análoga.”

Píndaro quebra o sigilo e apresenta a sua resposta no terceiro Canto nemeu:

A glória só tem pleno valor

quando é inata. Quem só tem

o que aprendeu é um homem obscuro e indeciso,

jamais caminha com um passo firme.

Apenas esquadrinha

com imaturo espírito

mil coisas altas.”

A arte do poeta, como a arete das Olimpíadas, também não pode ser ensinada. É, por natureza, <sabedoria>.”

Mas a águia é a mais rápida entre todas as aves. Rapidamente enxerga ao longe e captura a sangrenta presa. Os corvos crocitam e alimentam-se aqui embaixo.”

E com isto deixamos o mundo aristocrático, que parece afundar-se gradualmente no silêncio, e de novo nos confiamos à torrente da História, que rumorejante passa por cima dele, quando parecia deter-se.”

Parece ser uma lei na vida do espírito que, quando um tipo de existência atinge o seu tempo, encontre a força necessária para formular o seu ideal e atingir o seu conhecimento mais profundo (…) Assim, a decadência da cultura nobre da Grécia produziu Píndaro; a da cidade-Estado, Platão e Demóstenes; e a hierarquia da igreja medieval, no momento em que ia transpor a linha do seu apogeu, produziu Dante.”

1.10 A política cultural dos tiranos

Neste posto avançado do mundo grego, a Sicília, em face do crescente poderio de Cartago sobre o mar e o comércio, foi muito mais duradouro do que na Grécia propriamente dita o <domínio de um só>.”

A crescente expansão da economia monetária frente à economia natural operou uma revolução no valor das propriedades dos nobres que até então haviam sido o fundamento da ordem política. Agarrados às antigas formas da economia, os nobres estavam num plano inferior em face dos possuidores das novas fortunas adquiridas no comércio e na indústria. E até entre as antigas estirpes se cavava um abismo com a mudança de posição de algumas das velhas famílias, que também se dedicaram ao comércio. Como Teógnis menciona, algumas famílias empobreceram e não puderam conservar a sua antiga posição social. Outras, como os Alcmeônidas da Ática, reuniram tal fortuna, que o seu poderio se tornou insuportável para os seus companheiros de classe, que não puderam resistir à tentação de lutarem pela consecução do poder político.”

Apesar de serem fenômeno de política puramente interna, ou talvez por isso mesmo, os tiranos estavam ligados uns aos outros por uma solidariedade internacional, freqüentemente baseada em laços matrimoniais. Anuncia-se a solidariedade, tão habitual no séc. V, entre as democracias e as oligarquias. É assim que nasce pela primeira vez – e isso é um fato memorável – uma política de largos vôos que, p.ex., em Atenas, Corinto e Mégara, levou à fundação de colônias.”

Enquanto a importância de Pisístrato reside no fato de ter preparado a futura grandeza de Atenas, Periandro elevou Corinto a uma altura que, após sua morte, jamais voltou a ser alcançada.”

Em nenhum lugar os tiranos se agüentavam por mais de 2 ou 3 gerações. A maioria das vezes eram novamente derrubados pela nobreza, já experimentada na política e ciente de seu objetivo. Não obstante, porém, a maior parte das vezes o usufruto da revolução cai logo sob o domínio do povo, como em Atenas. Como observa Políbio na sua teoria das crises e transformações dos regimes políticos, a causa principal da queda dos tiranos é, em geral, a incapacidade dos filhos e netos, que só herdam do pai a força, e não o vigor espiritual, assim como a má utilização do poder recebido do povo num despotismo arbitrário.” “Como diz engenhosamente Burckhardt, havia um tirano em cada grego e ser tirano constituía para todos tal sonho de felicidade que Arquíloco não achou melhor maneira de caracterizar o seu alegre sapateiro do que declarar que ele não aspirava à tirania. Os gregos achavam que o domínio de um homem só, de bondade realmente incomum, estava <de acordo com a natureza> (Aristóteles) e submetiam-se a ele de melhor ou pior grado.”

A impopularidade desta pressão, que nem sequer o hábito foi capaz de suavizar, obrigou os tiranos a contrabalançá-la por meio da cuidadosa manutenção das formas exteriores de eleição para os cargos, pelo cultivo sistemático da lealdade e pela busca de uma política econômica favorável ao público. Pisístrato compareceu algumas vezes perante os tribunais de justiça, quando estava implicado em alguma demanda, para provar o domínio ilimitado do direito e da lei. Isto produzia no povo uma forte impressão.”

Os nobres que podiam converter-se em rivais perigosos eram desterrados ou eram encarregados de tarefas honrosas em outros lugares do país.”

A tirania foi por muitos chamada <o reino de Cronos>, i.e., a idade de ouro, e contava-se todo tipo de histórias sobre as visitas pessoais do senhor aos campos e suas conversas com o povo simples e trabalhador, cujo coração ganhava com a sua afabilidade e com a diminuição das contribuições.” “O tirano é o protótipo do homem de Estado que surgiu mais tarde, embora carecesse da responsabilidade deste. Deu o primeiro exemplo de uma ação de previsão e de visão ampla, realizada pelo cálculo dos fins e dos meios internos e externos, e ordenada segundo um plano. Foi ele na verdade o verdadeiro político.”

No séc. IV, quando despertou o interesse geral pelas individualidades importantes, e a biografia nasceu como gênero literário novo, o objeto preferido das suas descrições foram os poetas, os filósofos e os tiranos. Entre os chamados 7 sábios, que alcançaram a celebridade no começo do séc. VI, encontramos tiranos como Periandro e Pítaco, ao lado de legisladores, poetas e outras personagens desse tipo. É especialmente significativo que quase todos os poetas daquele tempo tenham passado a vida na côrte dos tiranos. A individualidade não é, pois, um fenômeno de massa, uma nivelação geral do espírito, mas uma verdadeira e íntima independência – razão de sobra para que as cabeças independentes procurassem unir-se entre si.”

Foi nesse tempo que Atenas conquistou pela 1ª vez o título de cidade das musas, que conservou para sempre.” “Num diálogo falsamente atribuído a Platão, Hiparco, o filho mais novo de Pisístrato, é chamado o 1º esteta, o <erótico e amante da arte>.” https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/

O interesse do Estado pela cultura é um sinal inequívoco do amor dos tiranos pelo povo. Depois da queda deles, continuou no Estado democrático, que não fez mais do que seguir o exemplo dos seus predecessores.”

O mecenato de muitos tiranos do Renascimento e das côrtes régias posteriores surge-nos, apesar de todos os serviços prestados à vida espiritual de seu tempo, como algo forçado, como se aquele tipo de cultura não tivesse raízes profundas nem na aristocracia nem no povo e fosse apenas o capricho luxuoso de uma pequena camada social. É importante não esquecer que já na Grécia também aconteceu coisa parecida. As côrtes dos tiranos gregos, no fim do período arcaico, são parecidas com as dos primeiros Medici.” “É porque se sentem privilegiados que o homem de espírito e o seu protetor se juntam, apesar até do seu mútuo desdém.”

Quando a côrte de Samos fechou as portas e o tirano Polícrates foi crucificado pelos persas, Anacreonte mudou a tenda para a côrte de Hiparco, em Atenas, tendo ido buscá-lo um navio de 50 remos. E quando o último rebento dos Pisistrátidas de Atenas caiu e foi condenado ao exílio, Simônides passou-se para a côrte dos Escópadas da Tessália até que, também ali, caiu o teto da sala e pereceu a dinastia inteira. É altamente simbólica a história que nos diz ter sido Simônides o único sobrevivente. Velho de 80 anos, emigrou ainda para a côrte do tirano Hierão de Siracusa. A cultura destes homens era como a sua vida.”

LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO

2.1 O drama de Ésquilo

Até a morte de Péricles, foram nobres os chefes do Estado democrático de Atenas, e o poeta mais importante da jovem república, Ésquilo, filho de Eufórion e primeiro grande representante do espírito ático, como Sólon cem anos antes, era filho da nobreza rural.”

São raras na história as batalhas travadas com tão grande pureza por uma idéia, como as de Maratona e Salamina. Dado que os atenienses abandonaram a cidade e se fizeram ao mar <com todo o povo>, a bordo dos navios, devemos crer que Ésquilo tenha participado da batalha naval, ainda que Íon de Quio não o tenha mencionado nas suas memórias de viagens, escritas uma geração depois. (…) Conduzido pela superioridade espiritual de um ateniense e inflamado por um novo heroísmo, um pequeno exército vencera, na luta pela independência, as multidões de XerxesCf. Ésquilo, Os Persas

Píndaro anseia pela restauração do mundo aristocrático em todo o seu esplendor, de acordo com o espírito da submissão tradicional. A tragédia de Ésquilo é a ressurreição do homem heróico dentro do espírito da liberdade. É o caminho direto e necessário que vai de Píndaro a Platão, da aristocracia do sangue à aristocracia do espírito e do conhecimento.” “Desapareceu o luxuoso vestuário jônico, para dar lugar às vestes dóricas simples e varonis. Desaparece também do rosto das esculturas desta década o sorriso convencional e inexpressivo derivado do ideal jônico de beleza, sendo substituído por uma seriedade profunda e quase severa. É a geração de Sófocles a primeira a encontrar, no meio dos dois extremos, o equilíbrio da harmonia clássica.” “Sófocles, Eurípides e Sócrates são filhos da burguesia. O primeiro descende de uma família de industriais; os pais de Eurípides eram pequenos proprietários rurais; o pai de Sócrates era um honrado carpinteiro [romantização?] de um pequeno arrabalde.”

A tragédia devolve à poesia grega a capacidade de abarcar a unidade de todo o humano. Neste sentido, só a epopéia homérica se pode comparar a ela. Apesar da grande fecundidade da literatura, nos séculos intermediários, só a epopéia a iguala quanto à riqueza do conteúdo, à força estruturadora e amplitude do seu espírito criador.” “nos épicos dos chamados ciclos renasce o interesse pelo conteúdo material das sagas relativas à guerra de Tróia. Falta a estes poetas a compreensão da grandeza artística e espiritual da Ilíada e da Odisséia. Só querem narrar o que sucedeu antes e depois.” “Esta atitude histórica era inevitável, dado que primitivamente as memórias das sagas eram tidas por história autêntica. A poesia de catálogos, atribuída a Hesíodo por causa do parentesco do estilo do seu autor com o deste, e que vinha satisfazer o interesse dos cavaleiros em descobrirem uma genealogia nobre que os unisse à árvore genealógica dos deuses e dos heróis, dá mais um passo neste processo de historização dos mitos.”

No momento em que as forças mais poderosas pareciam afastar-se do heroísmo com crescente decisão, e em que florescia o conhecimento reflexivo e a aptidão para as emoções mais sensíveis (como a literatura jônica mostra), nasce das mesmas raízes um novo espírito de heroísmo mais interior e mais profundo, estreitamente vinculado ao mito e à forma do ser que dele provém.”

Os novos ensaios para determinar, a partir de um ponto de vista filológico, a origem histórica e a essência da tragédia deixam à margem esta questão. Quando derivam a nova criação de uma outra qualquer forma anterior puramente literária e crêem talvez que os ditirambos dionisíacos <adquiriram forma séria> no instante em que uma cabeça original os pôs em contato com o conteúdo dos antigos cantos heróicos, limitam-se a considerar as condições exteriores do problema. A tragédia ática não passaria de um fragmento dramatizado dos cantos heróicos, representado por um coro dos cidadãos de Atenas.” “Infelizmente não temos qualquer idéia precisa das mais antigas formas da tragédia, e portanto só podemos julgar as formas superiores da sua evolução.”

Tentaremos só avaliá-la como objetivação espiritual da nova forma de homem que naquela altura se desenvolveu, e da força educadora que irradia daquela realização imperecível do espírito grego. É tão considerável o volume das obras conservadas dos trágicos gregos que teremos de olhá-la de uma distância adequada se não quisermos consagrar-lhe um livro inteiro. (…) é a mais alta manifestação de uma humanidade para a qual a religião, a arte e a filosofia formam uma unidade indivisível.” “As épocas em que a história da cultura e da educação humana seguiram total ou predominantemente os caminhos separados destas formas espirituais são forçosamente unilaterais, por mais profundas que sejam as razões históricas daquela unilateralidade.”

Se encarássemos o desenvolvimento da tragédia grega, desde Ésquilo até Sófocles e Eurípides, do ponto de vista da estética pura, seria totalmente diverso o nosso juízo a seu respeito; mas, do ponto de vista da história da formação humana, (…) é assim que surge o seu processo, como reflete (…) o espelho da consciência pública que é a comédia desse tempo. Os contemporâneos não consideravam nunca a natureza e a influência da tragédia de um ponto de vista exclusivamente artístico. Era a tal ponto a rainha, que a tornavam responsável pelo espírito da comunidade. E embora devamos pensar, como os historiadores, que os grandes poetas não eram só criadores, mas também os representantes daquele espírito, isto não altera em nada a responsabilidade da sua função diretiva, que o povo helênico achou maior e mais grave que a dos chefes políticos que se sucederam no governo constitucional. Só a partir deste ponto de vista é que se pode compreender a intervenção do Estado platônico na liberdade da criação poética, tão inexplicável e insustentável para o pensamento liberal. Sem embargo, este sentido da responsabilidade da poesia trágica não pode ter sido o originário, se pensarmos que no tempo de Pisístrato a poesia era considerada apenas como objeto de prazer.” “Os festivais dramáticos de Atenas constituíam o ideal de um teatro nacional, do tipo daquele que os poetas e diretores de cena alemães da nossa época clássica se esforçaram em vão por implantar.”

O impulso dionisíaco convinha mais aos dramas cômicos, satíricos e burlescos”

O poeta não enfrentava, nos bancos dispostos em torno do local das danças, um público de gosto literário estragado, mas sim um público capaz de sentir a força da psicagogia, um povo inteiro disposto a emocionar-se num instante como jamais o teriam podido conseguir os rapsodos, com os cantos de Homero.”

Ó tu, o primeiro dos gregos, que ergueste as palavras à altura da mais alta nobreza!, assim evoca a sombra de Ésquilo um poeta de uma geração posterior.”

Outro elemento era a magnificência do espetáculo, que seria vã curiosidade tentar reconstruir. Quando muito, a sua lembrança pode ajudar o leitor moderno a libertar-se da imagem do teatro fechado, totalmente contrária ao estilo da tragédia grega. Basta recordar a máscara trágica, tão freqüente na arte grega, para notar esta diferença. Torna-se patente nela a diferença essencial entre a tragédia grega e qualquer outra arte dramática posterior. Era tão grande o seu afastamento da realidade comum que a fina sensibilidade dos gregos descobriu na paródia e transposição das suas palavras para as situações da vida cotidiana uma fonte inesgotável de efeitos cômicos.”

A concentração de um destino humano inteiro no breve e impressionante curso dos acontecimentos, que no drama se desenrolam ante os olhos e os ouvidos dos espectadores, representa, em relação à epopéia, um aumento enorme do efeito instantâneo produzido na experiência vital das pessoas

Como diz o seu nome, a tragédia nasceu das festas dionisíacas dos coros de bodes. Bastou para tanto que um poeta visse a fecundidade artística do entusiasmo ditirâmbico (tal como o vemos na concentração do mito da antiga lírica coral siciliana) e fosse capaz de traduzi-la numa representação cênica e de transferir os seus próprios sentimentos para o eu estranho do ator. Assim, o coro, de narrador lírico, converteu-se em ator e, portanto, em sujeito dos sentimentos que até então apenas havia partilhado e acompanhado com as suas emoções.”

Já n’As Suplicantes, uma das tragédias mais antigas, que não era ação, mas pura paixão, a força da sympatheia, que suscitava a participação sentimental dos ouvintes por meio dos lamentos do coro, serviu para dirigir a atenção para o destino que, enviado pelos deuses, produzia aqueles abalos na vida dos homens. Sem este problema da tyche ou da moira, que a lírica dos jônios fizera chegar à consciência daquele tempo, jamais se teria gerado uma tragédia autêntica a partir dos antiquíssimos <ditirambos de conteúdo mítico>. (…) Deles até Ésquilo, vai um passo gigantesco.”

As lendas tradicionais são vistas através das mais íntimas convicções da atualidade. Os sucessos de Ésquilo, Eurípides principalmente, foram mais além, a ponto de converterem a tragédia mítica numa representação da vida cotidiana.”

O próprio Agamemnon de Ésquilo se comporta de modo totalmente diverso do Agamemnon de Homero. É um filho genuíno do tempo da religião e da ética de Delfos, constantemente perturbado pelo medo de, como vencedor, na plenitude da força e da ventura, incorrer na hybris. Está completamente impregnado da crença de Sólon, segundo a qual a abundância conduz à hybris e a hybris à ruína. (…) Prometeu é concebido como o principal conselheiro, caído em desgraça, do jovem tirano ciumento e desconfiado que lhe deve a consolidação do seu poder alcançado recentemente pela força e que com ele não o quer partilhar, porque Prometeu o quer aplicar à realização dos seus planos secretos de salvação da humanidade sofredora. Na figura de Prometeu misturam-se o político e o sofista, como o prova a repetida designação do herói por meio do último termo, nessa época ainda honroso também.”

as longas enumerações de países, rios e povos, que vemos no Prometeu Agrilhoado e no Prometeu Libertado,¹ não constituem só um adorno poético, mas caracterizam ao mesmo tempo a onisciência do herói.”

¹ Só restaram fragmentos.

Foi Welcker o primeiro a notar que Ésquilo não compunha, em geral, tragédias isoladas, mas trilogias. Mais tarde, no entanto, quando foi abandonada esta forma de composição, continuaram a ser representadas igualmente 3 peças do mesmo autor.” “Um dos mais intrincados problemas das crenças de Sólon, partilhadas pelo poeta, era a transmissão das maldições familiares de pais a filhos, e muitas vezes até dos culpados aos inocentes.” “O problema do drama de Ésquilo não é o Homem. O Homem é o portador do destino. O destino é que é o problema. A atmosfera está carregada de tormenta desde o primeiro verso, sob a opressão do daimon que pesa sobre a casa inteira. Dentre todos os autores dramáticos da literatura universal, Ésquilo é o mestre supremo da exposição trágica.” “É precisamente na contínua intromissão de Deus e do Destino que a mão do poeta se revela. Nada de semelhante vemos no mito. Tudo o que acontece na tragédia encontra-se sob a preocupação dominante do problema teológico, tal como Sólon o desenvolve nos seus poemas, a partir da epopéia mais recente.” “Os erros que arrastam o Homem para a ruína são de uma força demoníaca à qual ninguém pode resistir. É ela que induz Helena a abandonar a casa do marido para fugir com Páris, e é ela que endurece o coração de Aquiles perante a embaixada que o exército lhe envia para dar explicações para a reparação da sua honra ultrajada, e perante as admoestações do seu velho preceptor.”

como é freqüente a divindade dar sucessos aos insensatos e aos maus, e permitir que fracassem os esforços dos justos, ainda quando são norteados pelas melhores idéias e intenções! É indiscutível a presença desta <infelicidade imprevisível> no mundo. É o resíduo irredutível da velha Ate de que fala Homero e que conserva a sua verdade, ao lado do reconhecimento da própria culpa. Está intimamente vinculada à experiência humana que os mortais denominam sorte, pois esta se transforma facilmente na mais profunda dor, assim que os homens se deixam seduzir pela hybris.”

O drama Os Persas mostra do modo mais simples como a tragédia esquiliana provém daquela raiz. É digno de nota que ela não pertença a nenhuma trilogia, o que tem para nós a vantagem de nos permitir ver o desenvolvimento da tragédia no espaço mais reduzido de uma unidade fechada. Mas Os Persas é um exemplo único pela ausência do elemento mítico. O poeta elabora em forma de tragédia um acontecimento histórico que viveu pessoalmente.” “Maravilharam-se alguns, ingenuamente, pelo fato de os poetas gregos não terem usado com mais freqüência <temas históricos>. É simples a razão disso. A maioria dos acontecimentos históricos não reúne as condições requeridas pela tragédia grega.” “Tudo se reduz ao efeito do destino na alma daquele que o experimenta.” “A própria experiência da dor não interessa por si mesma. (…) A dor acarreta a agudeza do conhecimento. (…) Existe um grau intermediário no <conhece-te a ti mesmo> do deus de Delfos, que exige o conhecimento dos limites do humano”

Nenhum poeta antes dele experimentou e exprimiu com tanta força e vivacidade a essência do demoníaco. Até a fé mais inquebrantável na força ética do conhecimento é forçada a convir em que a Ate continua a ser sempre a Ate“Aquilo que nós chamamos caráter não é essencial na tragédia de Ésquilo.”

Na Oréstia alcançam o apogeu não só a imaginação criadora da linguagem e a arte construtiva do poeta, mas também a tensão e o vigor do problema moral e religioso. E parece incrível que Ésquilo tenha escrito esta obra dramática, a mais pujante e viril que a história conhece, na velhice, e pouco tempo antes de morrer.” “A culpa de Orestes não se fundamenta de modo nenhum no seu caráter, nem é a este, como tal que, a intenção do poeta se dirige. Ele é apenas o filho infeliz, amarrado pela vingança do sangue. No instante em que atinge a virilidade, espera-o a maldição sinistra que o levará à perdição, ainda antes de ter começado a gozar a vida. O deus de Delfos compele-o com renovado vigor, sem que nada o possa desviar do destino que o espera.”

A idéia de Sólon de que os filhos devem expiar as culpas dos pais gera em Sete contra Tebas, final da trilogia relativa aos reis tebanos, um drama que ultrapassa a Oréstia em força trágica, não só pelo parricídio com que termina, mas ainda por outros aspectos. Os irmãos Etéocles e Polinices são vitimados pela maldição que pesa sobre a raça dos Labdácidas, e que Ésquilo fundamenta nas culpas dos antepassados. Sem este fundo, teria sido completamente impossível para o seu sentimento religioso um acontecimento como o que o drama apresenta.” “A arete pessoal e o destino superpessoal atingem aqui a sua tensão máxima.” “Tem-se a impressão de que a culpa dos antepassados em terceiro grau não é uma amarra suficientemente forte para agüentar o peso ingente do sofrimento.”

os padecimentos e os erros de Prometeu têm origem nele mesmo, na sua natureza e na sua ação. (…) Para Hesíodo, era apenas o prevaricador castigado pelo crime de ter roubado o fogo de Zeus. Com a força de uma fantasia que nunca os séculos poderão honrar e admirar suficientemente, Ésquilo descobriu nesta façanha o germe de um símbolo humano imortal”

Estava reservado ao gênio grego a criação deste símbolo do heroísmo doloroso e militante de toda criação humana, como a mais alta expressão da tragédia da sua própria natureza. Só o Ecce Homo, saído de um espírito completamente diverso, com a sua dor pelos pecados do mundo, conseguiu criar um novo símbolo eternamente válido de humanidade, sem no entanto roubar nada à validade do anterior.” “É certo que o Prometeu Libertado deveria completar aquela imagem”

Esta fusão do coro com os espectadores representa uma nova etapa no desenvolvimento da arte coral de Ésquilo. Em As Suplicantes, o verdadeiro ator é ainda o coro das Danaides. Não há outro herói. Que esta era a essência original do coro foi Nietzsche quem pela 1ª vez o exprimiu com toda clareza [em] A Origem da Tragédia, obra genial da juventude, ainda que mesclada de elementos incompatíveis.”

Uma das raízes mais vigorosas da força educativa da tragédia grega consiste no coro que, com seus cantos de simpatia, objetiva na orquestra as experiências trágicas da ação.”

2.2 O homem trágico de Sófocles

Foi com plena consciência que Sófocles aceitou o papel de sucessor de Ésquilo” “Não deixa de ter razão a crítica de Aristófanes e dos seus contemporâneos, quando vê em Eurípides não o corruptor da tragédia de Sófocles, mas sim da tragédia de Ésquilo.”

não nos inclinamos a encarar como preconceito que é necessário superar o entusiástico juízo dos classicistas que considera Sófocles o apogeu do drama grego, pelo rigor da sua forma artística e pela sua luminosa objetividade. É assim que a ciência e o moderno gosto psicológico que a acompanha orientam as preferências para o tosco arcaísmo de Ésquilo e para o refinado subjetivismo dos últimos tempos da tragédia ática” Jaeger banca o apologeta sem igual de todos aqueles que descreve, no final nos tornando vacilantes quanto a qualquer um de seus juízos.

A impiedade de Eurípides – no sentido que lhe deu a tradição – é mais religiosa, apesar de tudo, que a tranqüila credulidade de Sófocles.”

Temos que partir do efeito cênico que produz, o qual não se esgota com a compreensão da sua técnica inteligente e superior.”

como explicar o fracasso, salvo algumas experiências com o público mais ou menos especializado, de todas as naturais tentativas modernas para encenar as tragédias de Ésquilo e de Eurípides, ao passo que Sófocles é o único dramaturgo grego que se agüenta nos repertórios dos nossos teatros? Isto não é certamente fruto de um preconceito classicista. A tragédia de Ésquilo não consegue agüentar-se nos palcos modernos, pela rigidez nada dramática do coro que a domina e que o peso das idéias e da expressão não compensa, sobretudo se faltam o canto e a dança. É certo que, numa época perturbada como a nossa, a dialética de Eurípides desperta um eco de simpática afinidade. Mas não há coisa mais mutável que os problemas da sociedade burguesa. Basta pensar o quanto estão longe de nós Ibsen ou Zola, no entanto incomparavelmente mais próximos do que Eurípides, para compreender que aquilo que constituiria a força de Eurípides, no seu tempo, representa precisamente para nós uma barreira intransponível.”

Se nos perguntarmos quais são as criações dos trágicos gregos que vivem na fantasia dos homens independentemente do palco e da sua ligação com o drama, veremos que em primeiro lugar estão as de Sófocles. Esta sobrevivência isolada das figuras enquanto tais jamais teria podido ser obtida pelo mero domínio da técnica cênica, cujo efeito é sempre momentâneo. Talvez nada nos custe mais a compreender do que o enigma da sabedoria tranqüila, simples, natural, com que ele ergueu aquelas figuras humanas de carne e osso, repletas das paixões mais violentas e dos sentimentos mais ternos, de grandeza heróica e altiva e de autêntica humanidade, tão semelhantes a nós e ao mesmo tempo dotadas de tão alta nobreza. Nada nelas é artificial ou exorbitante. (…) A verdadeira monumentalidade é sempre simples e natural. O seu segredo reside no abandono do que na aparência é acidental e não essencial, de modo que a lei interior, oculta ao olhar comum, resplandeça com perfeita clareza.”

Nascem todos de uma necessidade que não é nem a generalidade vazia do tipo nem a simples determinação do caráter individual: é a própria essencialidade, oposta ao que não tem essência.”

quando chamamos Sófocles de o plástico da tragédia, trata-se de uma qualidade que nenhum outro partilha e que exclui qualquer comparação dos trágicos com a evolução das formas plásticas.”

O monumento perene do espírito ático na época da sua maturidade é constituído pela tragédia de Sófocles e pela escultura de Fídias. Ambos representam a arte do tempo de Péricles.”

Podemos, assim, chamar Sófocles de clássico, no sentido de que atinge o ponto culminante no desenvolvimento da tragédia. A tragédia consuma nele a <sua natureza>, como diria Aristóteles.”

Um escultor de homens como Sófocles pertence à história da educação humana, como nenhum outro poeta grego, num sentido inteiramente novo.” “É algo totalmente diverso da ação educadora, no sentido de Homero, ou da vontade educacional, no sentido de Ésquilo. Pressupõe a existência de uma sociedade humana, para a qual a <educação>, a formação humana na sua pureza, e por si mesma, converteu-se no ideal mais alto.” “Quase se poderia considerá-la uma arte educativa, como em outra época e em condições de tempo muito mais artificiais o foi a batalha de Goethe no Tasso, para descobrir a forma na vida e na arte.”

É lenda, sem dúvida, o relato que descreve Sófocles na flor da mocidade, a dançar no coro que celebrava a vitória de Salamina, onde Ésquilo combateu. Mas o fato de que a vida do jovem se tenha iniciado na época em que a tempestade acabava de passar é para nós muito elucidativo. Sófocles encontra-se no estreito e altaneiro píncaro do brilhante meio-dia do povo ateniense, e que tão velozmente havia de passar. É na serenidade, sem vento e sem nuvens, do dia incomparável cuja aurora despontou com a vitória de Salamina que a sua obra desabrocha. Pouquíssimo tempo antes de Aristófanes conjurar a sombra do grande Ésquilo, para que este salvasse da ruína a cidade, Sófocles fechou os olhos. Não viu a derrota de Atenas. Morreu depois da vitória de Arginusas ter despertado a última grande esperança de Atenas; e agora lá embaixo – assim o representa Aristófanes pouco depois da sua morte – vive consigo próprio e com o mundo na mesma harmonia com que viveu na Terra.”

Orgulhosa dessa nova forma das relações humanas, aquela época criou para elas uma nova palavra, <urbano>, a qual duas décadas mais tarde se encontrava em uso pleno entre todos os prosadores áticos, em Xenofonte, nos oradores, em Platão.”

a arte e a anedota encarnam em Sófocles e Péricles a síntese da mais alta nobreza da kalokagathia ática, tal como corresponde ao espírito do tempo.”

Não é por mera casualidade de temperamento pessoal que Sófocles é o mestre do meio-tom, ao passo que Ésquilo nunca o poderia conseguir. Em nenhuma outra parte é a forma, de modo tão imediato, a expressão adequada, ou melhor, a revelação do ser e do seu sentido metafísico. Sófocles não responde à pergunta sobre a essência e sentido do ser com uma concepção do mundo ou uma teodicéia, como Ésquilo, mas sim com a forma dos seus discursos e a figura dos seus personagens.”

Não é sem razão que o coro das tragédias de Sófocles repete constantemente que a fonte de todo o mal é a ausência de medida.” “esta consciência das normas ideais do Homem é peculiar à época em que a sofística se inicia. O problema da arete humana é agora estudado com extraordinária intensidade do ponto de vista da educação. O homem <tal como deve ser> é o grande tema da época e a meta de todos os esforços dos sofistas. Até agora, os poetas buscaram só fundamentar os valores da vida humana. Mas não podiam ficar indiferentes à nova vontade educacional.”

A <alma> é objetivamente reconhecida como o centro do Homem. (…) Há muito tempo a escultura tinha descoberto as leis do corpo humano e dele fizera o objeto do mais fervoroso estudo. Voltava a descobrir na <harmonia> do corpo o princípio do cosmos, que o pensamento filosófico já confirmara para a totalidade. A partir do cosmos chega agora o mundo grego à descoberta do espiritual.” “é o único reino do ser que, embora sujeito a uma ordem jurídica, ainda não tinha sido penetrado pela idéia cósmica. É evidente que, à semelhança do corpo, a alma também tem o seu ritmo e a sua harmonia. Entramos com isso na idéia de uma estrutura da alma.” “Protágoras fala da educação da alma por meio da verdadeira eurhytmia e euharmostia.”

Só entre o povo grego a idéia da educação podia brotar das normas da arte escultórica. (…) Naquele tempo, a educação, a poesia e a escultura estavam intimamente ligadas.”

É esta tendência antropocêntrica do espírito ático que dá lugar ao nascimento da <humanidade>, não no sentido do amor humano pelos outros membros da comunidade, que os gregos chamaram filantropia, mas sim no sentido do conhecimento da verdadeira e essencial forma humana.

É especialmente significativo que seja a 1ª vez que a mulher aparece como representante do humano, ao lado do homem, com idêntica dignidade. As numerosas figuras femininas de Sófocles, como Antígona, Electra, Dejanira, Tecmesa, Jocasta, para não falar de outras secundárias, como Clitemnestra, Ismena e Crisótemis, iluminam com o maior fulgor a elevação e amplitude da humanidade de Sófocles. A descoberta da mulher é a conseqüência necessária da descoberta do homem como objeto próprio da tragédia.”

Em Sófocles, passam a uma posição secundária as exigências da teodicéia, que tinha dominado o pensamento religioso, desde Sólon até Teógnis e Ésquilo. O que em Sófocles é trágico é a impossibilidade de evitar a dor. É este o rosto inevitável do destino, do ponto de vista humano. Não é que seja abandonada a concepção religiosa do mundo, de Ésquilo; de modo nenhum. Simplesmente já não é nela que se coloca a ênfase. Vê-se isso com especial clareza numa das primeiras obras de Sófocles, a Antígona, onde ainda aparece com vigoroso relevo aquela concepção do mundo.

A maldição familiar da casa dos Labdácidas, cuja ação aniquiladora Ésquilo acompanha durante várias gerações na trilogia tebana, permanece ainda em Sófocles a causa originária, mas situada num plano de fundo. Antígona cai como sua última vítima, do mesmo modo que em Sete de Ésquilo, Etéocles e Polinices. Sófocles leva Antígona e o seu opositor Creonte a participarem na realização do seu destino pelo vigor das suas ações, e o coro não se cansa de falar da transgressão da medida e da participação de ambos no seu infortúnio.”

Antígona está determinada para a dor, pela sua própria natureza; poderíamos até dizer que foi eleita para ela, visto que a sua dor consciente converte-se numa nova forma de nobreza. Esta eleição para a dor, naturalmente alheia a qualquer representação cristã, revela-se de modo eminente no diálogo do prólogo entre Antígona e as suas irmãs. A ternura juvenil de Ismena retrocede aterrada perante a deliberada escolha da sua própria ruína.”

com a peculiar ironia trágica de Sófocles, no momento em que o coro acaba de celebrar o direito e o Estado, proclamando a expulsão para fora de qualquer sociedade humana daquele que despreza a lei, Antígona é agrilhoada. Para cumprir a lei não-escrita e obedecer ao mais simples dever fraterno, afronta com plena consciência o decreto tirânico do rei que, baseado na força do Estado, proíbe-lhe, sob pena de morte, que dê sepultura ao seu irmão Polinices, morto em combate contra a própria pátria. No mesmo instante aparece ao espírito do espectador um outro aspecto da natureza humana. O orgulhoso hino emudece perante o súbito e trágico conhecimento da debilidade e da miséria humana.

Foi com uma intuição profunda que Hegel viu na Antígona o trágico conflito de 2 princípios morais: a lei do Estado e o direito familiar.” Uau, que profundo, o grande Hegel… Porém, H. emitiu o parecer errado: não é a lei do Estado que prevalece – como poderia se equivocar de tal maneira? Não que o direito familiar seja o vitorioso: a vitória cabe ao indivíduo realizando-se em sua liberdade ética e antagonizando até o último momento o arbítrio – não dos deuses, mas do próprio homem.

ainda que se fale de hybris e da falta de medida e de compreensão, não é no centro que estes conceitos se encontram, como na obra de Ésquilo, mas sim na periferia.” ???

A irracionalidade desta Ate, que inquietou o sentido da justiça de Sólon e preocupou a época inteira, é um pressuposto do trágico, mas não constitui o problema da tragédia. Ésquilo procura resolver o problema. Sófocles pressupõe a Ate. Mas não é de mera passividade a sua posição perante o fato inevitável da dor enviada pelos deuses, que desde a sua origem a velha lírica lamentou. Não partilha as resignadas palavras de Simônides, segundo as quais o Homem tem de perder necessariamente a arete, quando o infortúnio inexorável o derruba. A elevação dos seus grandes sofredores à mais alta nobreza é o Sim que Sófocles dá a esta realidade, a esfinge cujo enigma fatal consegue resolver. É o homem trágico de Sófocles o 1º a elevar-se a uma autêntica grandeza humana, pela completa destruição da sua felicidade terrena ou da sua existência física e social.”

Esta arte chega ao auge de sua perfeição na cena do reconhecimento de Electra e de Orestes. O disfarce intencional do salvador, o seu regresso à casa paterna e a maneira gradual como ele deixa cair as suas vestes fazem a dor de Electra passar por todos os graus, desde o céu até o inferno.”

Exilado da pátria e cego, o velho Édipo vagueia mundo afora, esmolando, pela mão de sua filha Antígona, outra das figuras preferidas que o poeta jamais abandona. Nada é mais característico da essência da tragédia de Sófocles que a compaixão do poeta para com as suas próprias figuras. Nunca o abandonou a idéia do que seria feito de Édipo.”

Na plenitude da vida Sófocles achou plena satisfação em colocar Édipo no meio da tempestade do aniquilamento. Põe-no diante dos olhos do espectador no momento em que se amaldiçoa e quer aniquilar, desesperado, a sua existência, tal como já com as próprias mãos havia apagado a luz dos olhos. Também em Electra, no instante em que a personagem atinge a plenitude da tragédia o poeta corta, subitamente, o fio da ação.

É altamente significativo que Sófocles tenha retomado o tema de Édipo, pouco antes da sua morte. Seria errôneo esperar desse segundo Édipo a resolução final do problema. Quem tentasse interpretar neste sentido a apaixonada autodefesa do velho Édipo, a sua repetida insistência em que foi na ignorância que realizou todos os seus atos, confundiria Sófocles com Eurípides. [Interpretação corrente!] Nem o destino nem Édipo são absolvidos ou condenados. No entanto, é a uma luz mais alta que o poeta parece encarar aqui a dor. É um último encontro com o velho peregrino sem descanso, pouco antes de chegar ao seu termo. A sua nobre natureza continua inquebrantável na sua força impetuosa, apesar do infortúnio e da velhice. A consciência ajuda-o a suportar a dor, esta velha companheira insuperável que nem nas últimas horas o abandona. Esta imagem agreste não dá nenhum lugar à ternura sentimental. No entanto, a dor torna Édipo venerável. O coro sente-lhe o terror, mas ainda mais a grandeza, e o rei de Atenas recebe o mendigo cego com as honras devidas a um hóspede ilustre. Era no solo ático que ele devia encontrar o último repouso, rezava um oráculo divino. A morte de Édipo está envolta em mistério. Sai sozinho e sem guia para o bosque e ninguém mais o volta a ver. Tão incompreensível como a senda da dor, pela qual a divindade conduz Édipo, é o milagre da salvação que no fim o espera. (…) Não se pode saber como, mas a consagração à dor aproxima-o dos deuses e separa-o do resto dos homens. Agora repousa na colina de Colono, na pátria querida do poeta, nos bosques sempre verdejantes das Eumênides, em cujos ramos canta o rouxinol. Nenhum pé humano pode pisar o lugar. Mas é dele que irradia a bênção para toda a terra da Ática.”

2.3 Os sofistas

Foi com os sofistas que a palavra paideia, que no século IV e durante o helenismo e o império haveria de ampliar cada vez mais a sua importância e a amplitude do seu significado, pela 1ª vez foi referida à mais alta arete humana e, a partir da <criação dos meninos> – em cujo simples sentido a vemos em Ésquilo, pela primeira vez (Sete contra Tebas, 18) –, acaba por englobar o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais, que formam a kalokagathia, no sentido de uma formação espiritual consciente.”

se excetuarmos Esparta, onde desde Tirteu se tinha estruturado uma forma peculiar de educação cívica, a agoge (que não tem nada de semelhante no resto da Grécia), não havia nem podia haver nenhuma forma de educação estatal comparável às que a Odisséia, Teógnis e Píndaro nos mostram; e as iniciativas privadas desenvolviam-se muito lentamente.” “A educação profissional, herdada do pai pelo filho que lhe seguia o ofício ou a indústria, não se podia comparar à educação total de espírito e de corpo do nobre” “Era uma simples ampliação do conceito de comunidade de sangue, com a única diferença de que a vinculação da estirpe substituíra o antigo conceito aristocrático do Estado patriarcal. Não era possível pensar em outro fundamento. Por mais forte que fosse o sentimento da individualidade, era impossível conceber que a educação se fundamentasse em outra coisa que não a comunidade da estirpe e do Estado.”

E se a moderna cidade-Estado se apropriara da arete física da nobreza, por meio da instituição da ginástica, por que não seria possível alcançar, através de uma educação consciente pela via espiritual, as inegáveis qualidades diretivas, que eram patrimônio daquela classe?”

Não tem importância para nós, agora, a apreciação da forma democrática da organização do Estado ático” “Problemas como o da educação política do Homem e da formação de minorias dirigentes, da liberdade e da autoridade, só neste grau da evolução espiritual podem surgir e só nele podem alcançar a sua plena urgência e importância para o destino.” “Prova disso é o pensamento dos grandes educadores e filósofos nascidos daquela experiência ter conseguido prontas soluções, que transcendem ousadamente as formas existentes do Estado e cuja fecundidade é inesgotável para qualquer outra situação análoga.”

o problema das relações das grandes personalidades espirituais com a comunidade, problema que preocupou todos os pensadores até o fim da cidade-Estado, sem que chegassem a entrar em acordo. No caso de Péricles, foi encontrada uma feliz solução para o indivíduo e para a sociedade.”

Esta necessidade fez-se sentir mais desde a entrada de Atenas no mundo internacional, com a economia, o comércio e a política subseqüentes às guerras contra os persas. Atenas ficou devendo a salvação a um só homem e a sua superioridade espiritual. Depois da vitória, não pôde suportar muito tempo, já que o seu poder era incompatível com o antiquado conceito da <isonomia>, e ele aparecia como um tirano dissimulado. Assim, por uma evolução lógica, chegou-se à convicção de que a manutenção da ordem democrática do Estado dependia cada vez mais da justa eleição da personalidade dirigente. Para a democracia, o problema dos problemas era ter de se reduzir a si própria ad absurdum, a partir do momento em que quis ser mais que uma forma rigorosa do poder político e se converteu no domínio real da massa sobre o Estado.

Já desde o começo a finalidade do movimento educacional comandado pelos sofistas não era a educação do povo, mas a dos chefes. No fundo não era senão uma nova forma da educação dos nobres.”

Era a eles que acorriam os que desejavam formar-se para a política e tornar-se um dia dirigentes do Estado.” “Não deviam limitar-se a cumprir, mas tinham de criar as leis do Estado e, além da experiência que se adquire na prática da vida política, era-lhes indispensável uma intelecção universal da essência das coisas humanas. É certo que as qualidades fundamentais de um homem de Estado não se podem adquirir. São inatos o tato, a presença de espírito e a previsão, qualidades que Tucídides exalta acima das outras em Temístocles. Pode-se, no entanto, desenvolver o dom de pronunciar discursos convincentes e oportunos.”

a força que as musas concedem ao rei (…) A faculdade oratória situa-se em plano idêntico ao da inspiração das musas aos poetas.”

A idade clássica chama de orador o político meramente retórico. A palavra não tinha o sentido puramente formal que mais tarde adquiriu, mas abrangia também o próprio conceito.”

Esta falsa modernização do conceito grego de arete peca essencialmente por fazer surgir aos olhos do homem atual como arrogância ingênua e sem-sentido a pretensão dos sofistas ou mestres da sabedoria, como os contemporâneos os chamavam e a si próprios eles se intitulavam.”

É natural que encaremos os sofistas retrospectivamente, pelo ponto de vista cético de Platão, para quem o princípio de todo o conhecimento filosófico é a dúvida socrática sobre a possibilidade de ensinar a virtude. É, porém, historicamente incorreto e inibe toda a compreensão autêntica daquela importante época da história da educação humana sobrecarregá-la de problemas que aparecem apenas numa fase posterior da reflexão filosófica. Do ponto de vista histórico, a sofística é um fenômeno tão importante como Sócrates ou Platão. Além disso não é possível concebê-los sem ela.”

A racionalização da educação política não passa de um caso particular da racionalização da vida inteira, que mais do que nunca se baseia na ação e no êxito.” “O ético, que <se compreende por si próprio>, cede involuntariamente o passo ao intelectual, que se situa em primeiro plano.” “É o tempo em que o ideal da arete do Homem recolhe em si todos os valores que a ética aristotélica reúne mais tarde como prerrogativas espirituais, e que, com os valores éticos do Homem, procura juntar numa unidade mais alta.” “os seus pressupostos pedagógicos eram tão justos como a dúvida racional de Sócrates.”

deparamos nos sofistas com duas modalidades distintas de educação do espírito: a transmissão de um saber enciclopédico e a formação do espírito nos seus diversos campos. Claramente se vê que o antagonismo espiritual destes dois métodos de educação só pode alcançar unidade no conceito superior de educação espiritual. Ambas as formas de ensino sobreviveram até o presente, mais sob a forma de compromisso que na sua unilateralidade.”

A poesia e a música eram para Protágoras as principais forças modeladoras da alma, ao lado da gramática, da retórica e da dialética. É na política e na ética que mergulham as raízes desta terceira forma de educação sofística. Distingue-se da formal e da enciclopédica, porque já não considera o homem abstratamente, mas como membro da sociedade.”

Em todo caso, é uma afirmação superficial dizer que aquilo que de novo o de único que liga todos os sofistas é o ideal educativo da retórica: isso é comum a todos os representantes da sofística, ao passo que diferem na apreciação do resto das coisas, a ponto de não ter havido sofistas, como Górgias, que só foram retóricos, e não ensinaram outra coisa. Comum a todos é antes o fato de serem mestres da arete política e aspirarem a alcançá-la mediante o fomento da formação espiritual, qualquer que fosse a sua opinião sobre a maneira de realizá-la.”

É claro que a nova educação (…) se arriscava a cair nas maiores parcialidades, caso não se fundamentasse numa investigação séria e num pensamento filosófico rigoroso (…) Foi a partir deste ponto de vista que Platão e Aristóteles impugnaram mais tarde o sistema total da educação sofística e o abalaram nos seus próprios fundamentos.”

A história da filosofia que Aristóteles nos dá na Metafísica não inclui os sofistas. As mais recentes histórias da filosofia consideram-nos como fundadores do subjetivismo e do relativismo filosóficos. O esboço de uma teoria por parte de Protágoras não justifica tais generalizações e é um erro evidente de perspectiva histórica pôr os mestres da arete ao lado de pensadores do estilo de Anaximandro, Parmênides ou Heráclito. [Entendi o sentido de ‘pôr ao lado’ neste contexto; porém, se fosse um comentário elogioso, os sofistas deveriam se sentir honrados de dividir honras com Parmênides.]

A cosmologia dos milesianos mostra-nos até que ponto o afã investigador da <história> jônica estava originariamente distante de todo o humano e de toda a ação educacional e prática. [será?] (…) A audaciosa tentativa de Xenófanes para fundamentar a arete no conhecimento racional de Deus coloca este conhecimento em íntima ligação com o ideal educativo; e parecia, em instantâneo vislumbre, que a filosofia da natureza iria, pela aceitação da poesia, obter o domínio da formação e da vida da nação. Mas Xenófanes é um fenômeno isolado (…) Heráclito foi o único dos grandes pensadores capaz de articular o Homem na construção jurídica do cosmos regido por um princípio unitário. E Heráclito não é um fisiólogo. (…) Com Anaxágoras de Clazômenas, que situa na origem do ser o espírito, como força ordenadora e diretiva, entra na cosmogonia a tendência antropocêntrica do tempo. No entanto, continua sem solução de continuidade a concepção mecanicista da natureza. (…) Empédocles de Agrigento é um centauro filosófico. Na sua alma biforme convivem em rara união a física jônica dos elementos e a religião da salvação órfica.”

Até um pensador tão estritamente naturalista como Demócrito não pôde deixar de lado o problema do Homem e do seu mundo moral específico. (…) prefere traçar uma linha divisória entre a filosofia da natureza e a sabedoria ética e educativa, que deixa de ser uma ciência teórica para de novo adotar a forma tradicional da parênese.”

O interesse cada vez maior da filosofia pelos problemas do Homem, cujo objeto determina com exatidão cada vez maior, é mais uma prova da necessidade histórica do advento dos sofistas. Todavia, a exigência que eles vêm satisfazer não é de ordem teórica e científica, mas sim de ordem estritamente prática. É esta a razão profunda pela qual tiveram em Atenas uma ação tão forte, ao passo que a ciência dos fisiólogos jônicos não pôde lançar ali quaisquer raízes. Sem compreenderem nada desta investigação separada da vida, os sofistas vinculam-se à tradição educativa dos poetas, a Homero e a Hesíodo, a Teógnis, a Simônides e a Píndaro.”

Simônides já é, no fundo, um sofista típico.(*) Os sofistas deram o último passo. Transplantaram para a nova prosa artística, em que eram mestres, os vários gêneros de poesia parenética onde o elemento pedagógico se revelava com maior vigor, e entraram assim em consciente emulação, na forma e no conteúdo, com a poesia. Esta transposição do conteúdo da poesia para a prosa é sinal da sua racionalização definitiva.

(*) Disse-o já PLATÃO, Prot., 339 A.”

Foram os primeiros intérpretes metódicos dos grandes poetas aos quais vincularam, com predileção, os seus ensinamentos. Não se deve, porém, esperar uma interpretação no sentido em que nós a entendemos. Encaravam os poetas de modo imediato e intemporal e os situavam despreocupadamente na atualidade, como o revela graciosamente o Protágoras de Platão.”

Homero é para os sofistas uma enciclopédia de todos os conhecimentos humanos, desde a construção de carros até a estratégia, e uma mina de regras prudentes para a vida.(*) A educação heróica da epopéia e da tragédia é interpretada de um ponto de vista francamente utilitário.

(*) PLATÃO, Rep. 598 E, mostra este tipo de interpretação sofística de Homero num quadro cheio de precisão.”

Tudo isto recorda os literatos do Renascimento. Renasce neles a independência, o cosmopolitismo e a despreocupação que os sofistas trouxeram ao mundo. Hípias de Élis, que falava de todos os ramos do saber, ensinava todas as artes e só ostentava no corpo vestes e adornos feitos por suas mãos, é o perfeito uomo universale. [aqui, self-made man] (PLATÃO, Híp. Men., 368 B.)”

Não tinham cidadania fixa, devido a sua vida constantemente andarilha. Que na Grécia tenha sido possível este modo de vida tão independente é o mais evidente sintoma do aparecimento de um tipo de educação completamente novo, individualista na sua raiz mais íntima, por mais que se falasse de educação para a comunidade e da virtude dos melhores cidadãos. Os sofistas são, com efeito, as individualidades mais representativas de uma época que na sua totalidade tende para o individualismo. Os seus contemporâneos tinham razão, quando os consideravam os autênticos representantes do espírito do tempo. É também sinal dos tempos viverem da educação. Esta era <importada> como uma mercadoria e exposta à venda. Encerra algo de profundamente verdadeiro esta maliciosa comparação de Platão. Não devemos, porém, tomá-la por crítica aos sofistas e às doutrinas deles, mas antes por um sintoma espiritual.”

Podemos, pois, considerá-los um estágio da maior importância no desenvolvimento do humanismo, embora este só tenha encontrado a sua verdadeira e mais alta forma após a luta entre os sofistas e sua superação por Platão. Há sempre neles algo de incompleto e imperfeito. A sofística não é um movimento científico, mas sim a invasão do espírito da antiga física e <história> dos jônios por outros interesses da vida e sobretudo pelos problemas pedagógicos e sociais que surgiram em conseqüência da transformação do Estado econômico e social. O seu primeiro efeito, porém, foi suplantar a ciência, tal como nos tempos modernos aconteceu com o florescimento da pedagogia, da sociologia, e do jornalismo. Na medida em que (…) formulou um conceito de educação, a sofística levou a uma ampliação dos domínios da ciência jônica nos aspectos ético e social, e abriu o caminho a uma verdadeira filosofia e ética, ao lado e mesmo acima da ciência da natureza. PLATÃO, no Hípias Maior¹ (281 C), salienta a oposição entre a tendência prática dos sofistas e a antiga filosofia separada da vida.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/11/10/pseudo-hipias-maior-ou-o-que-e-o-belo/

Ainda agora está por resolver a questão de saber se a pedagogia é uma ciência ou uma arte; e não foi ciência mas sim techne que os sofistas chamaram a sua teoria e arte da educação.” “A conversão da educação numa técnica é um caso particular da tendência geral do tempo a dividir a vida inteira numa série de compartimentos separados, concebidos com vistas a uma finalidade e teoricamente fundamentados num saber adequado e transmissível. É sobretudo em matemática, medicina, ginástica, teoria musical, arte dramática, etc. que nós encontramos especialistas e obras especializadas. Até os escultores, como Policleto, escrevem a teoria da sua arte. § Por outro lado, os sofistas consideravam a sua arte o coroamento de todas as artes.”

Enquanto o dom de Prometeu, o saber técnico, só pertence aos especialistas, Zeus infundiu em todos os homens o sentido da justiça e da lei, pois sem ele o Estado não subsistiria. Existe, porém, um grau mais alto de intelecção do direito do Estado. É o que a techne política dos sofistas ensina, e que é, para Protágoras, a verdadeira educação e o vínculo espiritual que conserva unidas a comunidade e a civilização humanas. § Nem todos os sofistas atingiram tão elevado conceito da sua profissão. O sofista mediano dava-se por satisfeito em transmitir a sabedoria.”

Convém evitar a identificação da techne com o sentido moderno do conceito de <vocação>, cuja origem cristã o distingue do conceito de techne. Cf. KARL HOLL, Die geschichte des Worts Beruf, Sitz. Berl. Akad., 1924.”

a língua grega não tem outra palavra para exprimir o poder e o saber que o político adquire por meio da ação. E é perfeitamente visível que Protágoras se esforça por distinguir esta techne das técnicas profissionais, em sentido estrito, e por lhe dar um sentido de totalidade e de universalidade.”

Esta educação ética e política é um traço fundamental da essência da verdadeira paideia. (…) Não é como exemplo histórico, meramente aproximado, que usamos o termo humanismo; é com plena reflexão, para designarmos o ideal de formação humana que com a sofística penetra nas profundezas da evolução do espírito grego e no seu sentido mais essencial. Para os tempos modernos, o conceito de humanismo refere-se de modo expresso à educação e à cultura da Antiguidade.”

Platão e Isócrates adotam as idéias educacionais dos sofistas e nelas introduzem diversas modificações. Não há nada que caracteriza tão bem esta transformação como o fato de Platão, chegado ao termo da sua vida e do seu saber, ter transformado, nas Leis, a célebre frase de Protágoras (tão característica, na sua própria ambigüidade, do tipo de humanismo dele): O Homem é a medida de todas as coisas, no axioma: A medida de todas as coisas é Deus.

são essenciais ao humanismo a indiferença religiosa, o <relativismo> epistemológico e o ceticismo que Platão combate e que fazem dele o mais duro adversário dos sofistas. (…) Na nossa exposição posterior voltaremos a abordar este problema, assim como a luta da educação e da cultura para fazerem reconhecer a religião e a filosofia, luta que na história universal atinge o ponto culminante com a aceitação do cristianismo no período final da Antiguidade. § Aqui só podemos adiantar uma resposta sumária. A velha educação helênica, anterior aos sofistas, ignora a distinção entre religião e cultura. Está profundamente enraizada no religioso. A cisão tem lugar no tempo dos sofistas, que é ao mesmo tempo a época da criação da idéia consciente da educação.”

1000AGRE ÚNICO: “Provavelmente o humanismo só podia brotar das grandes tradições educacionais helênicas, no momento histórico em que entravam em crise os mais altos valores educativos.”

Do ponto de vista histórico, é preciso determinar, antes de tudo, se Platão destruiu ou completou o humanismo dos sofistas – o primeiro que a História conheceu. (…) considerando-se as coisas exclusivamente à luz da História, parece que há muito está decidido que o ideal de formação humana propugnado pelos sofistas tem em si um grande futuro, mas não é uma criação acabada. A sua clara consciência da forma tem tido uma inestimável eficácia prática na educação, até o dia de hoje. Mas era precisamente pelo que as suas aspirações tinham de superlativo que ela necessitava de um fundamento mais profundo de ordem filosófica e religiosa. (…) Platão ultrapassa a idéia de educação dos sofistas, precisamente porque volta atrás, e remonta à origem.”

Foi então que pela 1ª vez surgiu uma paideia do homem adulto. O conceito, que originariamente designava apenas o processo da educação como tal, estendeu ao aspecto objetivo e de conteúdo a esfera do seu significado, exatamente como a palavra alemã Bildung (formação) ou a equivalente latina cultura, do processo de formação passam a designar o ser formado e o próprio conteúdo da cultura, e por fim abarcam, na totalidade, o mundo da cultura espiritual”

Adquirir consciência é uma grandeza, mas é a grandeza da posteridade.” “conserva toda a sua força a frase de Hegel que diz que a coruja de Atena só levanta vôo ao declinar o dia. Foi só à causa da sua juventude que o espírito grego, cujos mensageiros são os sofistas, alcançou o domínio do mundo. Assim se compreende que Nietzsche e Bachofen tenham visto na época de Homero ou na tragédia, antes do despertar da ratio, o apogeu dos tempos. Mas não se pode aceitar esta valoração absoluta e romântica dos tempos primitivos.” “Sentimos com dor a perda que acarreta o desenvolvimento do espírito.” “É necessariamente esta a nossa posição; encontramo-nos num estágio avançado da cultura, e em muitos aspectos procedemos também dos sofistas. Estão muito mais <próximos> de nós do que Platão ou Ésquilo. Por isso é que precisamos tanto destes.”

A razão desta carência de notícias está em não terem deixado nenhum escrito que a eles sobrevivesse por muito tempo. Os escritos de Protágoras, que nisto como em tudo tinha um lugar de preferência, ainda eram lidos no final da Antiguidade; mas também foram esquecidos, a partir de então. Cf. PROTÁGORAS, frag. 2, Diels (conservado por Porfírio).”

A Medicina permanecera largo tempo no estado de arte de curar, mesclada de exorcismos e de superstições populares. O progresso do conhecimento da natureza entre os jônios e o estabelecimento de uma ciência empírica influenciaram a arte de curar e levaram os médicos a realizar observações científicas do corpo humanos e seus fenômenos.” “Transpôs-se da totalidade do universo para a individualidade humana o conceito de physis, que recebeu, assim, um matiz peculiar.”

O homem desgraçado ou inclinado ao mal constitui exceção. Foi, neste ponto que em todos os tempos se fundamentou a crítica religiosa cristã do humanismo. É certo que nesta questão o otimismo pedagógico dos sofistas não é a última palavra do espírito grego. Todavia, se os gregos tivessem partido da consciência universal do pecado e não do ideal de formação do Homem, jamais teriam chegado a criar uma pedagogia nem um ideal de cultura.”

Píndaro e Platão jamais partilharam as ilusões democráticas sobre a educação das massas por meio da instrução. Foi o plebeu Sócrates quem redescobriu estas dúvidas aristocráticas relativas à educação. Recordem-se as palavras resignadas de Platão, na Carta Sétima, sobre a estreiteza dos limites dentro dos quais o influxo do conhecimento se pode exercer sobre a massa dos homens, e as razões que ele invoca para se dirigir antes a um círculo restrito e não à multidão inumerável, como portador de uma mensagem de salvação.”

É precisamente nesta íntima antinomia entre a grave dúvida sobre a possibilidade da educação e a vontade inquebrantável de realizá-la que residem a grandeza e a fecundidade do espírito grego. Há lugar entre os dois pólos para a consciência do pecado e pessimismo cultural do cristianismo e para o otimismo educativo dos sofistas.”

As diferenças individuais entre os métodos educativos dos sofistas, de que os seus descobridores se mostram tão orgulhosos, não passam de um objeto de divertimento para Platão. Apresenta juntas as personalidades de Protágoras de Abdera, Hípias de Élis e Pródico de Ceos, que são hóspedes simultâneos do rico ateniense Cálias, cuja casa se tornara pousada de celebridades espirituais. Assim se faz salientar que, apesar de todas as diferenças, há entre todos os sofistas um parentesco espiritual.”

Prêmios e castigos são outorgados pela sociedade, lá onde se trata de bens que podem ser alcançados pelo esforço consciente e pela aprendizagem.” “A virtude cívica é o fundamento do Estado. Sem ela, nenhuma sociedade poderá subsistir. Quem nela não participa deve ser treinado, castigado e corrigido, até que se torne melhor; se for incurável, terá de ser banido da sociedade e até morto. Assim, não é só a justiça punitiva, mas o Estado inteiro, que é para Protágoras uma força educadora. A rigor, é o espírito político do Estado constitucional e jurídico, tal como se realiza em Atenas”

É digno de nota que os sofistas nunca tenham propugnado a oficialização da educação, embora esta exigência esteja muito próxima do ponto de vista de Protágoras. Supriram esta falta oferecendo a educação por meio de contratos privados.”

Pelo ensino da música a criança é educada na sophrosyne e afastada das más ações. Segue-se o estudo dos poetas líricos, cujas obras são apresentadas em forma de composições musicais. Introduzem o ritmo e a harmonia na alma do jovem, para que este saiba dominar-se, uma vez que a vida do Homem precisa da euritmia e da justa harmonia. Esta deve manifestar-se em todas as palavras e ações de um homem realmente educado. O jovem é mais tarde levado à escola de ginástica, onde os paidotribes lhe fortalecem o corpo, para que seja servo fiel de um espírito vigoroso e para que o homem nunca fracasse na vida por culpa da debilidade do corpo.” “Os filhos dos ricos começam a aprender antes e acabam mais tarde a sua educação.” “É característico do novo conceito o fato de Protágoras pensar que a educação não acaba com a saída da escola. Em certo sentido, poderia dizer-se que é precisamente nossa época que começa.”

O conhecimento que por meio do ensino penetra na alma não tem para com ela a mesma relação que a semente tem para com a terra. A educação não é um mero processo de crescimento que o educador alimenta, favorece e guia deliberadamente.”

É indiferente que talvez tenha sido Platão o primeiro a empregar a expressão <formar>. A idéia de formação está implícita na aspiração de Protágoras a formar uma alma rítmica e harmônica por meio da impressão do ritmo e da harmonia musical.”

Antes dos sofistas não se fala de gramática, de retórica ou de dialética.”

Perderam-se os seus escritos gramaticais; mas os gramáticos posteriores, peripatéticos e alexandrinos, os reelaboraram. As paródias de Platão oferecem-nos vislumbres da sinonímia de Pródico de Ceos, e sabemos ainda alguma coisa da classificação dos diversos tipos de palavras, de Protágoras, bem como da doutrina de Hípias sobre o significado das letras e das sílabas. Perderam-se também as retóricas dos sofistas, que eram manuais destinados à publicidade. Um remanescente deste tipo de livros é a retórica de Anaxímenes, em grande parte elaborada com conceitos recebidos.” “É certo que se perdeu sua obra capital, as Antilogias de Protágoras.”

Foi na escola de Platão que a lógica surgiu em 1º lugar, e as caricaturas que o Eutidemo¹ traça dos jogos erísticos de alguns sofistas de 2º plano, cujos excessos a filosofia séria impugna, mostram até que ponto se empregou, desde o início, o vigor da nova arte de discutir como arma nos combates oratórios. Está aqui muito mais próximo da retórica que da lógica teórica e científica.”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/08/31/eutidemo-ou-do-disputador-ou-da-mentira-sofistica-frente-a-verdade-dialetica/.

como num teclado, os oradores dominam os tons mais diversos. Tal é a <ginástica do espírito>, cuja falta tão freqüentemente notamos nos discursos e escritos atuais.”

Os gregos deram o nome de agon aos debates judiciais, porque tinham sempre a impressão de se tratar de uma luta entre 2 rivais, sujeita à forma e à lei. Novas investigações mostraram como a argumentação lógica da prova, introduzida pela retórica, foi substituindo, na oratória jurídica do tempo dos sofistas, as antigas provas jurídicas de testemunhas, torturas e julgamentos.” “A retórica é a forma de educação predominante nos últimos tempos da Antiguidade. Estava tão perfeitamente adaptada à predisposição formal do povo grego, que se converteu numa fatalidade, ao desenvolver-se por cima de tudo o mais, como uma trepadeira.”

Unida à gramática e à dialética, a retórica tornou-se o fundamento da formação formal do Ocidente. Desde os últimos tempos da Antiguidade formaram juntas o chamado trivium, que juntamente com o quadrivium constituía as 7 artes liberais, que, sob esta forma escolar, sobreviveram a todo o esplendor da arte e da cultura gregas. Ainda hoje as classes superiores dos liceus franceses conservam, como sinal da ininterrupta tradição da educação sofística, os nomes destas disciplinas, herdadas das escolas monásticas medievais. § Os sofistas não uniram ainda aquelas três artes formais à Aritmética, Geometria, Música e Astronomia, que formaram posteriormente o sistema das 7 artes liberais.”

Antes deles, a música constituía apenas um ensino prático, como mostra a descrição que Protágoras faz da essência da educação dominante. A instrução musical estava nas mãos dos mestres de lira. A ela uniram os sofistas a doutrina teórica dos pitagóricos sobre a harmonia.”

O que hoje denominamos cultura humanista no estrito sentido da palavra, e que é impossível sem o conhecimento das literaturas clássicas na sua língua original, só podia florescer num solo não-grego, mas influenciado no que tinha de mais profundo pelo espírito helênico, como foi o povo romano. A educação baseada nas 2 línguas, grega e latina, é, na sua concepção plena, uma criação do humanismo do Renascimento.”

Uma objeção capital da crítica pública contra este aspecto da educação sofista era a inutilidade das matemáticas para a vida prática. Como se sabe, Platão, no seu plano de estudos, considera a Matemática uma propedêutica para a Filosofia. Nada mais alheio aos sofistas do que esta concepção. (…) Isócrates, um discípulo da retórica sofística que após longos anos de oposição acabou por conceder um certo valor à Matemática” “As Mathemata representam o elemento real da educação sofística; a gramática, a retórica e a dialética, o elemento formal. A posterior divisão das artes liberais no trivium e no quadrivium depõe também a favor daquela separação em 2 grupos de disciplina.”

PLATÃO, Hípias Maior, 285 B mostra unicamente a enciclopédica variedade do saber de Hípias; Hípias Menor,¹ 368 B, o seu consciente esforço para a universalidade, pois tinha o orgulho de dominar todas as artes.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/11/13/hipias-menor-ou-da-mentira/

É a primeira vez que se reconhece o valor do puramente teórico para a formação do espírito. (…) Pelo conhecimento matemático alcança-se a capacidade de construir e ordenar e, de modo geral, a força espiritual. Os sofistas nunca chegaram a formular uma teoria desta ação. Foram Platão e Aristóteles os que primeiro alcançaram uma consciência plena da importância educacional da ciência pura.”

Nos tempos antigos, só por exceção esta atitude espiritual aparecia em algumas personalidades excepcionais, que pelo seu afastamento da vida citadina corrente e seus interesses, e pela sua originalidade entre admirável e ridícula, granjeavam respeito, consideração e amável indulgência. Agora as coisas eram bem outras. Este saber aspirava a converter-se na autêntica e <superior> educação e a suplantar a educação tradicional. § A oposição não podia brotar do povo trabalhador, que desde o início se viu excluído desta educação, pois era <inútil>, cara e dirigida às esferas dirigentes. A crítica só era possível no seio das classes superiores, que sempre haviam possuído uma alta formação e uma medida certa e que, mesmo sob a democracia, mantinham intacto, quanto ao essencial, o seu ideal de gentleman, a kalokagathia. Políticos eminentes como Péricles, e altas personalidades sociais, como Cálias, o homem mais rico de Atenas, davam o exemplo de um apaixonado amor ao estudo, e muitas pessoas de destaque mandavam os filhos às conferências dos sofistas. (…) [os pais] não queriam que seus filhos se convertessem em sofistas. Alguns discípulos mais bem-dotados dos sofistas seguiam os seus mestres de cidade em cidade e aspiravam a fazer profissão dos ensinamentos recebidos. Em contrapartida, os jovens distintos que assistiam as suas conferências não os julgavam modelos dignos de imitação. Pelo contrário, acentuavam a diferença de classe que os separava dos sofistas, todos procedentes de famílias burguesas, e estabeleciam um limite além do qual não podia passar a sua influência. (…) Lembra a discussão entre <Sócrates> – que neste caso se identifica com Platão – e o nobre ateniense Cálicles, no Górgias,¹ sobre o valor da investigação pura para a formação do homem superior que aspira à ação política. Cálicles repele violentamente a ciência como vocação da vida inteira. É boa e útil para preservar os jovens contra tendências perniciosas na perigosa idade em que ocorrem (…) Quem não tiver sentido bem cedo estes interesses não chegará nunca a ser um homem completo e permanecerá sempre numa fase imatura do seu desenvolvimento quem encerrar a sua vida toda nesta atmosfera acanhada. Cálicles estabelece os limites da idade em que é necessário ocupar-se deste saber, ao afirmar que deve ser adquirido <com propósito educativo>, i.e., durante uma idade que serve de simples transição. Cálicles é o tipo da sua classe social. Não nos podemos ocupar aqui da atitude que Platão assume diante dele. O mundo distinto de Atenas e toda a sociedade burguesa participam em maior ou menor grau do ceticismo de Cálicles perante o novo entusiasmo espiritual da sua juventude. (…) Cálicles pertence também à escola sofística, como todas as suas palavras manifestam. Mas aprendeu depois, como político, a subordinar esse grau da sua educação ao curso total da sua carreira de estadista. Cita Eurípides, cuja obra é espelho de todos os problemas do seu tempo.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/03/02/gorgias-ou-da-retorica/.

Philosophari sed paucis” Cícero

Filosofar é coisa rara

foi originariamente proferida por um grego essa <máxima romana> que emociona tantos dos nossos filo-helenistas.”

Ocupar-se da investigação <só por mor da educação> e na medida em que esta faz falta era a fórmula da cultura do tempo de Péricles, uma vez que essa cultura era integralmente prática e política. O seu fundamento era o império ateniense, que tinha por finalidade obter o domínio do mundo helênico. Até Platão, quando após a ruína do império pregava o ideal da <vida filosófica>, justificava o seu intento pelo valor prático em prol da edificação do Estado. (…) E foi só depois de desaparecida a grandeza ateniense que, em Alexandria, reapareceu a ciência jônica.”

O Estado aparece na teoria de Protágoras como fonte de todas as energias educadoras. Além disso, o Estado é uma grande organização educacional que impregna deste espírito todas as suas leis e instituições sociais.”

Foi entre estes 2 pólos – educação e poder – que o Estado dos tempos clássicos se realizou, em tensão constante. Esta tensão gera-se em todos os casos em que o Estado educa os homens exclusivamente para si. A exigência da consagração da vida individual aos objetivos do Estado pressupõe a concordância destes objetivos com o bem-estar do todo e de cada uma de suas partes, entendido corretamente.”

Segundo Protágoras, a educação para o Estado significa educação para a justiça. É precisamente neste ponto que, no tempo dos sofistas, se origina a crise do Estado, a qual se converte ao mesmo tempo na mais grave crise da educação. É superestimar a influência dos sofistas considerá-los, e isso ocorre com freqüência, os executores desta evolução. Aparece mais sensível nas suas doutrinas porque é nelas que se espelham com maior nitidez os problemas do tempo e porque a educação acusa com o maior vigor qualquer perturbação da autoridade legítima.”

a guerra do Peloponeso foi uma prova final para o crescente e irresistível poder de Atenas. Após a morte de Péricles, afetou gravemente a autoridade do Estado e o próprio Estado até, e tornou apaixonada a luta pelo poder interno. Ambos os partidos utilizaram a retórica e a arte de discutir dos sofistas. Mas não se pode afirmar que pelas suas concepções políticas os sofistas deveriam necessariamente pertencer a um dos partidos.” “de uma simples luta de partidos converteu-se numa luta espiritual que corroía os princípios fundamentais da ordem vigente.”

Cálicles impugna a educação segundo o espírito de Protágoras, i.e., segundo o espírito dos ideais tradicionais da <justiça>, com um pathos que deixa transparecer com paixão uma transmutação total de todos os valores.”

Desde a meninice que tratamos como leões os melhores e mais poderosos de nós: oprimimo-los, enganamo-los e subjugamo-los, ao dizer-lhes que devem contentar-se com ser iguais aos outros e que é isto o nobre e o justo. Quando, porém, surge um homem de natureza realmente poderosa, sacode tudo isto, rompe as cadeias e liberta-se, calcando aos pés todo o nosso amontoado de letras e sortilégios, as nossas artes mágicas e as nossas leis contra a natureza; e ele, o escravo, levanta-se e aparece como senhor nosso: é então que brilha em todo o seu esplendor o direito da natureza.”

Górgias, 483 E

Palavras tão belas e sinceras quanto perigosas e ambíguas. Toda a ciência política moderna gravitará em torno delas, interpretando-as bem ou mal.

o conceito de direito, no sentido da lei, perdeu a sua íntima autoridade moral. Na boca de um aristocrata ateniense, é o anúncio declarado da revolução. Com efeito, o golpe de estado de 403, depois da derrota de Atenas, estava animado deste espírito.”

Para a consciência atual, a política e a moral pertencem, com ou sem razão, a 2 reinos separados, e as normas de ação não são as mesmas em ambos os domínios. Nenhuma tentativa teórica para superar essa cisão pode mudar qualquer coisa no fato histórico de que a nossa ética provém da religião cristã e a nossa política do Estado antigo.” “Esta divergência, sancionada pelos séculos e em relação à qual a filosofia moderna várias vezes tentou fazer da necessidade virtude, era desconhecida dos gregos.” “era (…) quase uma tautologia a convicção de que o Estado era a única fonte das normas morais” Maldito rebelde de Nazaré!

Devemos abstrair-nos aqui da nossa idéia de consciência pessoal. Também ela é oriunda da Grécia, mas desabrochou em época muito posterior. Só havia 2 possibilidades para os bregos do séc. V: ou a lei do Estado é a norma suprema da vida humana e está em concordância com a ordenação divina da existência, de tal maneira que o Homem e o cidadão são uma e a mesma coisa; ou as normas do Estado estão em contradição com as normas estabelecidas pela natureza ou pela divindade, caso em que o Homem pode deixar de reconhecer as leis do Estado.” // Sófocles, Antígona

É no momento em que se cava o abismo entre as leis do Estado e as leis cósmicas que se abre o caminho que leva ao cosmopolitismo da época helenística.”

Senhores, todos quantos aqui estais presentes, sois a meus olhos semelhantes, parentes e concidadãos, não pela lei, mas pela natureza. Segundo a natureza, o semelhante é parente do semelhante; mas a lei, tirano dos homens, força a muitas coisas contra a natureza.”

Protágoras, 337 C

Hípias quer estender a igualdade e a fraternidade a todos os seres que têm rosto humano. Do mesmo modo se exprime o sofista ateniense Antifonte no seu livro A Verdade, de que recentemente se acharam numerosos fragmentos.(*) Bárbaros e Gregos, temos todos a mesma natureza, em todos os aspectos.

(*) Oxyrh. Pap. XI n. 1364 Hunt, publicado já em DIELS, Vorsok, II (Nachtr. XXXIII) frag. B col. 2, 10 ss. (4ª ed.).”

Este ideal de igualdade internacional, tão alheio à democracia grega, representa a mais extrema oposição às críticas de Cálicles.”

Do ponto de vista da política realista, as teorias de Antifonte e de Hípias, com as suas idéias de igualitarismo abstrato, não representavam, de momento, grande perigo para o Estado vigente.”

Já nos poemas homéricos podem-se enxergar os vestígios mais antigos desta maneira de pensar, que estava bem de acordo com o espírito grego. A sua aptidão inata para considerar as coisas na sua totalidade podia atuar de maneiras muito diferentes no pensamento e na conduta do Homem.” “Um preferia morrer heroicamente a perder o seu escudo. Outro abandonava-o e comprava um novo, pois a vida era-lhe mais querida.”

Se queremos viver num Estado, temos de nos conformar às suas normas. Mas acontecerá o mesmo se quisermos viver em outro. A lei carece, pois, de força compulsiva absoluta.”

se falta a coação interna, se a justiça consiste só na legalidade externa dos usos de comportamento e no evitar o prejuízo da pena, então não há qualquer motivo para proceder segundo a lei, nos casos em que não há ocasião nem perigo de faltar às aparências e em que não existem testemunhas da nossa ação.”

as palavras de Aristóteles na Política, segundo as quais é melhor para o Estado ter leis ruins, mas estáveis, do que leis em contínua mudança, por melhores que sejam. A penosa impressão do forjamento de leis pela massa e da luta dos partidos políticos, com todas as suas contingências e fraquezas humanas, tinha forçosamente de abrir o caminho ao relativismo.” Vivemos nesse quadro desolador.

Nem todos os sofistas aceitaram tão aberta e integralmente o hedonismo e o naturalismo. Protágoras não o podia ter aceitado, pois nega da maneira mais decidida ter partilhado este ponto de vista, quando Sócrates procura levá-lo a ele, no diálogo platônico do seu nome, e só a sutil dialética socrática consegue que o varão venerável acabe por confessar que deixou aberta na sua doutrina uma brecha por onde o hedonismo, que ele recusava, podia penetrar.”

O simples conceito de <obediência à lei>, que nos primeiros tempos da constituição do novo Estado jurídico fôra um elemento de liberdade e de grandeza, já não era suficiente para exprimir as exigências da nova e mais profunda consciência moral.”

2.4 Eurípides e o seu tempo

Entre Eurípides e Sófocles pusemos a sofística de permeio, visto que, nos dramas que se conservaram e que pertencem todos aos seus últimos anos, o <poeta do iluminismo grego>, como foi chamado, está impregnado das idéias e da arte retórica dos sofistas.” “A sofística tem uma cabeça de Jano, da qual um dos rostos é o de Sófocles e o outro o de Eurípides.” “Sófocles caminha sobre os íngremes píncaros dos tempos. Eurípides é a revelação da tragédia cultural que arruinou a sua época.”

Nunca as múltiplas ramificações do povo heleno – que só tardiamente se atribuíram esse nome comum – tinham na sua história vivido uma tal concentração de forças estatais, econômicas e espirituais, como a que na Acrópole produziu o maravilhoso Pártenon, para honrar a deusa Atena, desde então considerada a alma divina do seu Estado e do seu povo.”

Quanto maior era a grandeza com que a época se manifestava em todos os seus empreendimentos, e a elasticidade, reflexão e entusiasmo com que cada indivíduo se consagrava às suas próprias tarefas e às da comunidade, tanto mais intensamente se sentia o inaudito crescimento da mentira e da hipocrisia – por cujo preço se comprava aquele esplendor – e a íntima insegurança de uma existência que se via forçada a todos os esforços para alcançar o progresso externo.”

Na sua atitude puramente clínica, essa análise da enfermidade constitui um paralelo emocionante com a célebre descrição da peste que nos primeiros anos da guerra minou a saúde física e a resistência do povo.”

a recordação das revoluções passadas e das paixões associadas a elas aumenta a gravidade dos nossos próprios transtornos.”

a amplitude e a popularidade de uma cultura não-erudita, mas vivida simplesmente, tal como existe na Atenas da 2ª metade dos sécs. V e IV, é fenômeno único na História e talvez só tivesse sido possível nos estreitos limites de uma comunidade citadina em que o espírito e a vida pública chegaram a uma interpenetração tão perfeita.”

A transformação que a poesia operou nos banquetes (que já não eram mera ocasião para a bebida, a exaltação e o divertimento, mas sim um foco da vida espiritual mais séria) mostra bem a mudança enorme que desde os tempos aristocráticos se operou na sociedade.” “A luta de morte entre a educação antiga e a nova educação libertária e sofística penetra nos banquetes do tempo de Eurípides e marca-o como etapa decisiva na história da educação.”

De fato, em comparação com uma atmosfera tão inquieta como a de Atenas, na qual pululavam todos os germes daquelas críticas da tradição e onde qualquer indivíduo exigia no campo do espírito uma liberdade de pensamento e de palavra análoga à que a democracia outorgava aos cidadãos na assembléia do povo, pouco significava, em suma, a rude ousadia emancipadora de alguns poetas ou pensadores isolados, no meio de uma comunidade citadina que vivia dentro das normas habituais. Aquilo era completamente estranho e alarmante para a essência do Estado antigo, mesmo na sua fora democrática, e tinha necessariamente de produzir um choque entre esta liberdade individualista não-garantida por nenhuma instituição e as forças conservadoras do Estado. Assim se viu no processo movido a Anaxágoras, sob acusação de impiedade, ou em ataques ocasionais contra os sofistas, cujas doutrinas iluministas eram em parte francamente hostis ao Estado. Geralmente, porém, o Estado era tolerante para com todos os movimentos espirituais e orgulhava-se até da nova liberdade dos seus cidadãos. Não devemos esquecer que a democracia ateniense daquela época e das seguintes serviu a Platão de modelo para a sua crítica da constituição democrática, por ele considerada uma anarquia intelectual e moral.”

A acusação contra o filósofo Anaxágoras era antes dirigida contra seu protetor e partidário, Péricles.”

Ganhou foros de cidadania o espírito estrangeiro, que originariamente era um meteco. Mas desta vez não foram os poetas que entraram em Atenas, embora não faltassem também, pois Atenas assumira a direção incontestada em tudo o que se referia às massas.”

Durante a sua juventude, Platão seguiu Crátilo, discípulo de Heráclito. [mais detalhes em 3.3]

Não se fala dos que não viveram em Atenas ou lá não apareceram com freqüência.”

o Estado, a religião, a moral e a poesia. O Estado racional realiza na concepção histórica de Tucídides a sua última façanha espiritual, em que eterniza a sua essência. Por isso, o grande historiador permanece mais confinado ao seu tempo que os seus 2 grandes concidadãos. O seu profundo conhecimento disse, aliás, menos à Grécia posterior do que a nós, pois não se repetiu tão cedo como ele teria podido pensar a situação histórica para a qual escreveu a sua obra.”

Eurípides é o último poeta grego, no sentido antigo da palavra. Mas também ele tem um pé num campo distante daquele em que a tragédia grega nasceu. A Antiguidade o chamou o filósofo do palco.”

Para definir a atitude dessa época historicista e racional em face do mito, temos o fato significativo de o historiador Tucídides sustentar que a investigação da verdade não é nada menos que a destruição do mito.”

Ésquilo já não tinha adaptado as antigas sagas às representações e aos anseios do seu tempo? Não tinha Sófocles, por razões semelhantes, humanizado os antigos heróis? E a assombrosa renovação, no drama dos últimos 100 anos, do mito que já parecia morto na epopéia mais tardia, o que era ela senão a transfusão de sangue e vida nova ao corpo daquele mundo longo tempo exânime?”

É evidente que convinha mais à consciência grega a projeção do mito num mundo fictício e idealizado, convencional e estético, como o da lírica coral do séc. VI e dos últimos tempos da epopéia, do que a sua adaptação à realidade comum, que, comparada ao mito, correspondia para o espírito grego ao que nós entendemos por profano.”

Como em toda a poesia grega verdadeiramente viva, a forma surge em Eurípides organicamente de um conteúdo determinado, é inseparável dele e é por ele condicionada na própria formação lingüística da palavra e na estrutura da frase.” “As novas formas que contribuíram para a formação do drama de Eurípides foram o realismo burguês, a retórica e a filosofia. Esta mudança de estilo tem o maior alcance para a história do espírito, pois anuncia-se nela o futuro domínio destas 3 forças decisivas para a formação do helenismo posterior.”

Para a época de Eurípides, o aburguesamento da vida significava o mesmo que para nós a proletarização. Muitas vezes faz alusão a ele quando faz entrar em cena, em vez dos heróis trágicos do passado, mendigos maltrapilhos. Era precisamente contra esta degradação da alta poesia que os seus adversários se insurgiam.”

Discute-se o casamento. São trazidas à luz da publicidade as relações sexuais, que durante muitos séculos tinham constituído um noli me tangere da convenção. São uma luta, como qualquer relação na natureza. Não reina aqui, como sempre sobre a Terra, o direito do mais forte? Assim, já na fábula de Jasão que abandona Medéia descobre o poeta os sofrimentos do seu tempo, e introduz nela problemas desconhecidos do mito original, incorporando-os à grandiosa plástica da representação. § Não eram precisamente Medéias as mulheres da Atenas de então. Eram para isso toscas e oprimidas demais ou cultas demais. Por isso escolhe o poeta a bárbara Medéia que mata os filhos com o intuito de ultrajar o marido infiel, para mostrar a natureza elementar da mulher, livre das limitações da moral grega. Jasão, que para a sensibilidade geral dos gregos era um herói sem mancha, ainda que não certamente um marido fiel, torna-se um covarde oportunista. Não age por paixão, mas sim por cálculo frio. Isso era necessário para fazer da infanticida do mito uma figura trágica. O poeta empresta-lhe toda a sua simpatia, em parte porque considera deplorável o destino da mulher, o qual fica eclipsado, à luz do mito, pelo fulgor do herói masculino, cujas façanhas e fama são as únicas dignas de louvor; mas sobretudo porque o poeta quer fazer de Medéia a heroína da tragédia matrimonial burguesa, tal como se manifesta na Atenas daquele tempo, embora não de forma extrema. (…) Medéia é um autêntico drama do seu tempo, pelo conflito entre o egoísmo ilimitado do homem e a ilimitada paixão da mulher. São essencialmente burguesas as disputas, os impropérios e os arrazoados de ambas as partes. Jasão ostenta prudência e generosidade. Medéia faz reflexões filosóficas sobre a posição social da mulher, sobre a desonrosa violência da entrega sexual a um homem estranho, a quem é preciso seguir no casamento e comprar por um rico dote. E explica que o parto dos filhos é muito mais perigoso e heróico que as façanhas dos heróis na guerra.”

Em Orestes – que não lembra em nada Ésquilo ou Sófocles – Menelau e Helena, de novo unidos após longa separação, regressam da sua viagem, no momento em que a pena pelo assassínio da mãe afunda Orestes numa comoção nervosa diante da ameaça de linchamento pela justiça popular. Orestes implora o auxílio do tio. Menelau puxa sua bolsa. Mas, embora se sinta compadecido no seu coração, é covarde demais para jogar por seu sobrinho e pela sobrinha Electra a sua felicidade, penosamente reconquistada. Sobretudo porque o seu sogro Tíndaro, avô de Orestes e pai da falecida Clitemnestra, está furioso e sedento de vingança. Isto completa o drama familiar. Movido pelos agitadores, o povo condena Orestes e Electra à morte, por falta de um defesa apropriada. É então que aparece o fiel Pílades, que jura matar a formosa Helena para vingar Orestes da conduta de Menelau. Isso, porém, não chega a acontecer, porque os deuses, que simpatizam com a heroína, raptam-na e a levam para o céu. Em vez dela, Orestes e Pílades querem assassinar-lhe a filha Hermíone e incendiar-lhe a casa. Impede-os, porém, o aparecimento de Apolo, como deus ex machina, e a peça acaba bem.”

A introdução da retórica na poesia é um fenômeno de não menos graves conseqüências. Era um caminho que levaria à total dissolução da poesia oratória.”

Assim como de início a prosa buscou na poesia os seus processos, mais tarde a própria prosa produziu uma reação na poesia.”

Os discursos de personagens míticos constituem um dos mais constantes exercícios das escolas retóricas, como o mostra a defesa de Palamedes por Górgias e o elogio que este faz de Helena.”

Foi atribuída a Antístenes uma luta retórica entre Ájax e Ulisses diante dos juízes, e a Alcidamante uma acusação de Ulisses contra Palamedes. Quanto mais aventuroso era o tema, mais apto estava a demonstrar a difícil arte <de converter a pior coisa na melhor>, ensinada pelos sofistas.”

A retórica sofista procura defender o direito do ponto de vista subjetivo do acusado, por todos os processos de persuasão.” “O antigo conceito de culpa era totalmente objetivo.” “Ésquilo e Sófocles ainda estão impregnados dessa antiga idéia religiosa, mas procuram atenuá-la, dando ao Homem sobre o qual recai a maldição uma participação mais ativa na elaboração do seu destino (…) Os personagens são <culpados> no sentido da maldição que pesa sobre eles, mas são <inocentes> para a nossa concepção subjetiva.”

O velho Sófocles apresenta-nos o seu Édipo em Colono, defendendo-se do decreto de expulsão promulgado pelos habitantes do lugar onde se acolheu, com a alegação da sua inocência e de que foi sem conhecimento nem vontade que cometeu os seus crimes de parricídio e incesto. Alguma coisa aprendeu de Eurípides a este respeito.”

Como sabemos, a subjetivação do problema da responsabilidade jurídica no direito penal e na defesa perante os tribunais do tempo de Péricles ameaçava esfumar as fronteiras entre a culpabilidade e a inocência.”

a Helena de Eurípides analisa o seu adultério e considera-o perpetrado sob a compulsão da paixão erótica.” // As Troianas, 948

A sua intelectualidade sensível, que parece débil em comparação com a força vital profundamente enraizada de Ésquilo, torna-se o instrumento espiritual de uma arte trágica que precisa cimentar e espicaçar, por meio de uma dialética febril, o seu arrebatamento subjetivo.”

A impiedosa crítica que os homens dirigem contra os deuses é um motivo que sempre acompanha a ação trágica, mas é sempre acidental.”

em As Troianas, os seus heróis, orgulho da nação, são desmascarados como homens de brutal ambição e animados de simples fúria de destruição.”

Eurípides desenvolve o elemento lírico que desde o início fôra essencial ao drama, mas o transpõe do coro para os personagens.”

A comédia, com as suas contínuas censuras à música moderna da arte de Eurípides, prova que perdemos com ela algo de essencial.”

Em As Bacantes, obra da velhice, o poeta atinge a elevação máxima da sua força lírica, com a irrupção elementar da embriaguez dionisíaca, que constitui, em todo o âmbito das nossas tradições antigas, a mais genuína manifestação desta estranha loucura orgiástica, e mesmo atualmente nos deixa pressentir com a maior nitidez a força de Dioniso nas almas arrebatadas por aquela fúria.”

Eurípides é o primeiro psicólogo.” “É a primeira vez que, com despreocupado naturalismo, introduz-se no palco a loucura”

Na Medéia e no Hipólito, descobre os trágicos efeitos da patologia erótica e da erótica deficiente. Em contrapartida, na Hécuba, descreve o efeito deformador da dor excessiva sobre o caráter, a espantosa e bestial degenerescência da nobre dama que tudo perdeu.”

O Homem já não quer nem pode submeter-se a uma concepção da existência que não o tome como medida última.”

A comédia infiltra-se cada vez mais nas cenas trágicas. A comédia de Menandro representa a continuação dessa tendência.”

Não é de se suspeitar de que foi precisamente por ter compreendido tudo a seu respeito e a respeito do seu mundo, com visão cética, que ele aprendeu a celebrar a felicidade da fé humilde dos antigos, baseada numa verdade religiosa que ultrapassava os limites da razão e que a ele próprio faltava?” “Eurípides é o criador de um tipo de arte que já não se fundamenta na cidadania, mas na própria vida.”

Os seus retratos mostram-nos a fronte negligentemente cercada de emaranhadas mechas de cabelo, tal como era típico das artes plásticas caracterizar as cabeças dos filósofos.”

Existem poetas infelizes na vida que na sua obra parecem completamente felizes. Sófocles conseguiu na vida aquela harmonia que a sua arte irradia.”

O prejuízo causado por Eurípides ao teatro ateniense é compensado pela sua incalculável ação sobre os séculos seguintes.”

2.5 A comédia de Aristófanes

Só a poesia nos permite apreender a vida de uma época em toda a riqueza das suas formas e tonalidades e na eternidade da sua essência humana. Daí o paradoxo, por outro lado perfeitamente natural, de talvez nenhum período histórico, nem sequer do passado mais próximo, poder ser apresentado e tão intimamente compreendido como o da comédia ática.”

A cena de Tersites na Ilíada, que expõe o repugnante e odioso agitador à troça pública, é uma cena genuinamente popular, uma pequena comédia entre as múltiplas tragédias que a epopéia homérica encerra. E na farsa divina que a contra-vontade representa o par de enamorados Ades e Afrodite, são os próprios deuses olímpicos que se tornam objeto das joviais gargalhadas dos expectadores.

O fato de que até os altos deuses pudessem ser tema e objeto do riso cômico prova que, no sentir dos gregos, em todos os homens e em todos os seres de forma humana reside, ao lado da força que leva ao pathos heróico e à grave dignidade, a aptidão e a necessidade do riso. Alguns filósofos posteriores definiram o Homem como único animal capaz de rir – embora na maioria das vezes ele seja definido como o animal que fala e pensa. Deste modo, colocam o riso no mesmo plano da linguagem e do pensamento, como expressão da liberdade espiritual. Se fizermos uma ligação entre o riso dos deuses homéricos e esta idéia filosófica do Homem, não poderemos negar a alta origem da comédia, apesar da menor dignidade deste gênero e dos seus motivos espirituais.”

O espírito moderno só conseguirá compreender o encanto ímpar da comédia aristofânica desde que se liberte do preconceito histórico que a encara apenas como uma primeira fase, genial mas ainda tosca e informe, da comédia burguesa.”

As vestes fálicas dos atores e os disfarces do coro, especialmente por meio de máscaras de animais – rãs, vespas, pássaros –, provêm de uma antiquíssima tradição, pois já se encontram presentes em velhos autores cômicos, em quem esta memória se mantém bem viva”

Dificilmente pode ser obra da pura casualidade o fato de que tenha sido Aristófanes o único sobrevivente da tríade de poetas cômicos – Cratino, Eupolis e ele – estabelecida como clássica pelos filólogos alexandrinos. Este cânon, procedente sem dúvida do paralelismo com a tríade dos poetas trágicos, era uma simples sutileza da história literária e não refletia o valor efetivo daqueles poetas, nem sequer para os tempos helenísticos.” “Platão teve razão em introduzir Aristófanes no Banquete, como representante exclusivo da comédia.” “Quando com a idade perdiam sutileza e engenho, fontes elementares do seu êxito, até os poetas preferidos eram vaiados sem compaixão. É esse o destino de todos os palhaços.”

Parece indubitável que até o velho bêbado Cratino, que Aristófanes, na parábase de Os Cavaleiros, propõe que seja retirado do palco urgentemente e conservado no Pritaneu até a morte, em estado de honorável embriaguez, baseava toda a sua força e todo o seu prestígio na sua sátira contra personagens políticos de notória impopularidade. É este o autêntico iambo antigo, nascido da sátira política. Mesmo Eupolis e Aristófanes, os brilhantes Dióscoros da jovem geração, que começaram como amigos, escrevendo as suas peças em colaboração, e acabaram como inimigos violentos, acusando-se mutuamente de plagiadores, são sucessores de Cratino nas suas invectivas contra Cléon e Hipérbolo.”

a sátira trivial à calvície de alguns espectadores, o ritmo indecente da dança do córdax, a galhofa das cenas de pancadaria, por meio das quais o autor disfarçava a idiotice das suas piadas.”

As Nuvens confessa abertamente o quanto se sente superior aos seus predecessores (e não apenas a eles) e em que medida confia no poder da sua arte e da sua palavra. Sente-se orgulhoso por introduzir todos os anos uma <idéia> nova, pondo simultaneamente a força inventiva da nova poesia cômica não só frente à antiga, mas também frente à tragédia, que operava constantemente sobre um material dado. (…) Um poeta cômico podia, com um desafio destes, concitar o interesse universal, do mesmo modo que um jovem político podia lançar-se brilhantemente encarregando-se da acusação num grande processo político de escândalo. Só era preciso ter coragem para isso.”

Foi na comédia que o excesso de liberdade gerou, por assim dizer, o seu próprio antídoto. Superou-se a si própria e estendeu a liberdade de expressão, a parrhesia, até às coisas e instâncias que mesmo as constituições mais livres consideram tabu.”

Em Atenas, a função censora pertencia à comédia. É isso que dá à graça de Aristófanes, a qual supera muitas vezes as suas chicotadas, a inaudita seriedade que se oculta por trás das suas alegres máscaras.”

O fato de que a educação tenha ocupado na comédia, apesar da agitação daqueles dias de guerra, um lugar tão amplo e mesmo predominante, ao lado da política, demonstra a sua enorme importância naquele tempo. Só através da comédia podemos chegar a conhecer a violenta paixão que gerou e as causas de que procede a luta pela educação.”

Quando a caricatura atingia os homens do governo com uma despreocupação artística análoga à imagem de Sócrates que As Nuvens nos apresenta, era humano que os atingidos empregassem a força para se defender, ao passo que os particulares, como Sócrates, estavam desamparados, como diz Platão, à mercê das troças populares da comédia.”

As palavras de Goethe em Poesia e Verdade descrevem perfeitamente os efeitos deste gênero de nostalgia do passado, na poesia. Causa universal prazer recordar com engenho a história de uma nação; congratulamo-nos com as virtudes dos nossos maiores e sorrimos perante as faltas que julgamos ter superado há muito tempo.”

Na Alemanha, foi com o despertar da vida política que despertou (sic) o interesse pela comédia política de Aristófanes. Mas só nas últimas décadas os problemas políticos chegaram a atingir a agudeza que tiveram em Atenas, no final do séc. V. Os dados fundamentais são os mesmos: estão em jogo as forças opostas da comunidade e do indivíduo, da multidão e da inteligência, dos pobres e dos ricos, da liberdade e da opressão, da tradição e do iluminismo.”

Tudo o que Aristófanes descreve pertence a um capítulo imoral: o humano, excessivamente humano. (…) O real dissolve-se continuamente numa realidade intemporal mais elevada, fantástica ou alegórica. O poeta alcança nisto a sua maior profundidade”

Aristófanes pinta em Os Comilões a ação deformadora do ensino sofístico sobre a juventude e nessa peça já vai muito mais ao fundo. Um camponês ático educou um dos filhos em casa, à moda antiga, e mandou o outro para a cidade, a fim de desfrutar as vantagens da nova educação. Este regressa transformado, moralmente corrompido e inútil para as tarefas do campo. (…) O pai fica consternado ao ver que ele já não sabe cantar nos festins as velhas obras de Alceu e Anacreonte. Em vez das antigas palavras de Homero, só entende as glosas às leis de Sólon, pois a educação política agora sobrepuja tudo. O nome do retórico Trasímaco aparece num verso em que se trata de uma discussão sobre o uso das palavras. Mas, em conjunto, a peça não parece ter ultrapassado os limites da troça inofensiva.”

O capricho da natureza tinha até cuidado da máscara cômica de Sócrates, dando-lhe um aspecto de sileno, de nariz chato, lábios protuberantes e olhos saltados.” “Embora na realidade quase todo o dia se passasse no mercado, misteriosamente colocou o seu Sócrates fantástico numa estreita tenda de pensador, onde, suspenso de um balanço sobre o pátio, e de pescoço torcido, investigava o <Sol>, enquanto os seus discípulos, sentados no chão, enterravam na areia os seus pálidos rostos, no intuito de perscrutarem o mundo subterrâneo. É costume estudar As Nuvens à luz da história da filosofia e, no melhor dos casos, desculpa-se Aristófanes. Summum ius, summa iniuria. É uma iniqüidade fazer com que o burlesco Sócrates da comédia compareça no tribunal da rigorosa justiça histórica. (…) O seu herói é um iluminista distante do povo e um homem de ciência ateu. Por meio de alguns traços tomados de Sócrates, personifica-se nesta figura o cômico típico do sábio vaidoso e satisfeito consigo próprio. § Para quem tem em mente a imagem que Platão nos dá de Sócrates, esta caricatura não tem graça. A autêntica graça está na descoberta de semelhanças ocultas, e aqui não enxergamos semelhança nenhuma.”

A ânsia de Sócrates pelos conceitos parecia superar até a dos sofistas. Não se pode exigir do poeta a quem o racionalismo em voga, sob qualquer forma que se apresentasse, parecia igualmente demolidor, finos matizes entre um e os outros. (…) Aristófanes vê com clarividência a dissolução de toda a herança espiritual do passado e não consegue contemplá-la impassivelmente. É certo que se teria visto na maior perplexidade se alguém lhe tivesse perguntado a sua <íntima convicção> a respeito dos deuses antigos. Mas, como poeta cômico, achava ridículo que os meteorólogos classificassem o éter de divino e procurava representar isso de modo vivo na prece de Sócrates ao Turbilhão (…) ou às Nuvens, cujas formas imateriais suspensas no ar apresentavam uma tão evidente semelhança com as doutrinas dos filósofos. (…) a atmosfera encontrava-se excessivamente saturada de ceticismo perante os resultados do pensamento humano”

ENVELHECEU MAL: “No tempo em que florescia o logos justo e se exigia uma conduta virtuosa, nunca se ouvia uma criança recalcitrar. Todas seguiam na rua ordeiramente a caminho da escola e não levavam capa, ainda que caíssem flocos de neve como flocos de farinha. Eram rigorosamente ensinadas a cantar velhas canções, com melodias dos antepassados. Se alguma cantasse com adornos e floreados, à moda dos músicos de agora, teria sido açoitada. Era assim que se educava uma geração como a dos vencedores de Maratona. Hoje enfraquecem-se as crianças, envolvendo-as em mantas, e uma pessoa arde em fúria ao ver a maneira mole e desleixada como os jovens seguram sobre o ventre os escudos, nas danças de armas das Panatenéias. O logos justo promete aos mocinhos que se entregam a ele e a sua educação ensiná-los a odiar a ágora e os banhos, a se envergonharem de toda conduta vergonhosa (sic), a se indignarem quando troçam deles, a se levantarem na presença dos anciãos e a lhes cederam o lugar, a honrarem os deuses e a venerarem a imagem da Modéstia, a não andarem com[o?] bailarinas e a não responderem ao pai. Devem exercitar-se no ginásio, untando com azeite o corpo vigoroso, em vez de discursarem na ágora ou se deixarem levar aos tribunais para discutirem sobre bagatelas. Coroados de canas, disputarão com camaradas belos e decentes as corridas sob as oliveiras da academia, cheirando a madressilva e a folhas de choupo; em seguida, gozarão a plenitude da primavera. O coro exalta os homens ditosos que viveram nos belos tempos antigos, em que reinava esta educação, e goza o doce aroma da sophrosyne que se desprende das palavras do logos justo.”

Os oradores da epopéia deram às normas ideais um sentido paradigmático e este uso foi seguido pela poesia mais antiga. Os sofistas aproveitam essa tradição e colecionam exemplos míticos, que ao seu relativismo naturalista e dissolvente podiam servir para todos os fins. Enquanto antes no tribunal a defesa procurava demonstrar que o caso estava em conformidade com a lei, agora ataca as leis e os costumes, e tenta demonstrar que são deficientes. A fim de rebater a afirmação de que os banhos quentes debilitam o corpo, o logos injusto aduz o herói nacional Hércules, o qual, para se regalar, pediu a Atena que fizesse brotar da terra fontes de água quente, nas Termópilas. Elogia o costume de permanecer e discursar na ágora, que o logos justo reprova, e para isso invoca a eloqüência de Nestor e de outros heróis homéricos.”

Se queres seguir o meu conselho, dá livre curso à natureza, salta e ri, não te detenhas ante o vergonhoso. Se fores acusado de adultério, nega a tua falta e invoca Zeus que também não teve força bastante para resistir a Eros e às mulheres. Não é possível que tu, simples mortal, sejas mais forte que um deus. É a mesma argumentação da Helena de Eurípides, ou da ama, no Hipólito. A discussão culmina no ponto em que o elogio tecido pelo logos injusto a sua moral relaxada provoca as gargalhadas do público.”

Qual era a posição do poeta na luta entre a velha e a nova educação? (…) Ele próprio foi beneficiário da educação moderna e a comédia seria inconcebível nos bons tempos antigos a que o seu coração pertencia e que, no entanto, o teriam vaiado.” Normal.

A evocação da antiga paideia não significa um convite a regressar ao passado. Aristófanes não é um reacionário dogmático e rígido. Mas o sentimento de se ver arrastado pela corrente do tempo e de ver substituído por algo de novo também valioso, era vigorosamente suscitado nesta época de transição e enchia de receio os espíritos clarividentes. Nada tinha a ver com o moderno conhecimento das linhas históricas e nem com a crença geral na evolução e no <progresso>.”

Para nós é paradoxal que este aspecto da nova educação seja escarnecido numa peça cujo herói é Sócrates. Na economia da comédia, pelo menos como chegou até nós, a própria cena da discussão entre o logos justo e o injusto pouco tem a ver com Sócrates, que, por outro lado, não estava presente. Mas o final de As Rãs prova que Sócrates é também, para o poeta, o protótipo de um novo espírito que matava o tempo com sofísticas sutilezas, abstrusas e minuciosas, desprezando os valores insubstituíveis da música e da tragédia.”

A crítica a Eurípides visa a toda a sua criação poética e converte-se finalmente numa quase perseguição.” “Ficou órfã a tragédia. Atingiu-se evidentemente uma encruzilhada histórica. Mais tarde, na comédia de Aristófanes, Gerytades, apareceram os tristes epígonos, o trágico Meleto, o ditirâmbico Cinesias e o cômico Sanírio, como enviados ao mundo subterrâneo para ali receberem o conselho dos grandes poetas. Assim a época ironizava a si mesma.”

Dioniso em pessoa desce ao mundo subterrâneo para de novo trazer Eurípides. Até o maior adversário do defunto era forçado a reconhecer que era este o desejo mais ardente do público. O seu deus Dioniso é a personificação simbólica do público do teatro, com todas as suas cômicas fraquezas, grandes e pequenas.” “Aristófanes abandona as suas troças anteriores, na maioria ocasionais e que teriam sido inadequadas àquele momento, para penetrar até o fundo do problema.” “A descida ao mundo subterrâneo era um tema predileto da comédia. Esta atitude põe As Rãs em contato com os Demoi de Êupolis, onde os antigos estadistas e estrategos atenienses são chamados do Hades para auxiliarem o Estado, mal-avisado. Pela união desta idéia com a do concurso dos poetas, Aristófanes chega a uma solução surpreendente: Dioniso, que desceu ao Hades para buscar Eurípides, traz por fim, depois de um triunfo de Ésquilo, em lugar do seu adversário, o velho poeta, para salvar a pátria.”

O que para os meninos é o mestre

que lhes mostra o reto caminho

isso nós, os poetas, somos para os adultos.

Por isso lhes devemos dizer sempre o que há de mais nobre.”

O Ésquilo de Aristófanes

E, embora Aristófanes saiba perfeitamente que Eurípides não é um espantalho, mas sim um artista imortal a quem a sua própria arte deve imensas coisas, e embora os seus sentimentos estejam de fato muito mais perto de Eurípides que de Ésquilo, seu ideal não pode ignorar que esta nova arte não está em condições de dar à cidade o que Ésquilo deu aos cidadãos do seu tempo, e que nenhuma outra coisa podia salvar a sua pátria na amarga necessidade do momento.”

Adeus, Ésquilo, sai já daqui,

vai salvar a cidade com sãos conselhos

e educar os néscios, que são inumeráveis.

Há muito a tragédia não era capaz de tomar a atitude e usar a linguagem que a comédia aqui ousa empregar. O seu âmbito vital era ainda a vida pública e o que nela se move, ao passo que a tragédia abandonara muito antes os seus profundos problemas e se refugiara na intimidade humana.”

2.6 Tucídides como pensador político

Não é Tucídides o primeiro dos historiadores gregos. Por conseguinte, o primeiro passo para compreendê-lo é tomar conhecimento do grau de desenvolvimento da consciência histórica. É claro que antes dele nada há que se lhe compare; e a História posterior enveredou por caminhos totalmente diversos, pois tomou a sua forma e os seus pontos de vista das tendências espirituais dominantes na sua própria época. Mas há ligação entre Tucídides e os seus predecessores.”

Tanto quanto sabemos, é Hecateu, oriundo, como os primeiros grandes fisiólogos, do centro cultural de Mileto, o primeiro que transfere a <pesquisa> da physis para a terra habitada, que até então fôra estudada apenas como parte do cosmos e na sua estrutura mais superficial e genérica.”

Foi Heródoto que deu o segundo passo: ainda mantém unitária a ciência dos povos e dos países, mas já situa o Homem no centro. Viajou por todo o mundo civilizado de então – Oriente Próximo, Egito, Ásia Menor e Grécia –, estudou a descreveu todos os tipos de costumes e maneiras estranhas e a maravilhosa sabedoria dos povos mais antigos, descreveu a magnificência dos seus templos e palácios e contou a história dos seus reis e de muitos homens importantes e notáveis, mostrando como neles se manifestavam o poder da divindade e os altos e baixos da mutável sorte humana. É pela sua referência ao grande tema da luta entre o Oriente e o Ocidente, desde a sua primeira manifestação no combate dos gregos com o vizinho reino da Lídia, no reinado de Creso, até as guerras pérsicas, que esta arcaica e variegada multiplicidade de dados ganha unidade. Com uma complacência e uma habilidade narrativa análogas às de Homero, relata para a posteridade, na sua prosa só aparentemente ingênua e despretensiosa – que os seus contemporâneos saboreiam como os antigos tempos saboreavam os versos da epopéia –, a glória dos feitos dos helenos e dos bárbaros.”

Tucídides é o criador da história política. Este conceito não se aplica a Heródoto, embora sejam as guerras pérsicas o ponto culminante da sua obra.”

Comparado com o vasto horizonte universal da descrição de povos e países por Heródoto, cuja serena contemplação se estende a todas as coisas divinas e humanas de toda a terra conhecida, é restrito o campo visual de Tucídides. Não se estende para além da esfera de influência da polis grega. Mas este objeto tão restrito está carregado dos mais graves problemas e é experimentado e analisado com a mais profunda intensidade.”

A história que Heródoto traça dos povos não teria, por si só, desembocado na história política. Mas Atenas, voltada para o presente e concentrada nele, cedo se viu arrastada num remoinho do destino, em que o pensamento político desperto viu-se forçado a completar-se com o conhecimento histórico, embora em sentido diverso e com conteúdo diferente: era necessário chegar ao conhecimento da necessidade histórica que empurrava a evolução da cidade de Atenas para a sua grande crise. Não é que a história se torne política; o pensamento político é que se torna histórico.”

fundamentalmente, só se preocupa com a guerra do Peloponeso, i.e., com a história vivida no seu próprio tempo. Ele próprio diz, no primeiro parágrafo do seu livro, que começou a sua obra com o começo da guerra, por estar convencido da importância daquele acontecimento.” “Era, pois, muito diferente daquilo que geralmente entendemos por historiador. E as suas excursões por terras do passado, por mais que apreciemos o seu sentido crítico, são sempre incidentais ou escritas para fazer sobressair, em contraste com o passado, a importância do presente. § O melhor exemplo disto é a chamada Arqueologia, no início do livro I. O seu fim primordial é demonstrar que o passado não tem importância”

Parece-lhe sem importância o passado dos povos gregos, mesmo nos seus empreendimentos mais elevados e mais famosos, porque a vida daqueles sempre era estruturalmente incapaz de uma organização estatal ou do poder digna deste nome. Não tinha tráfico nem comércio, no moderno sentido da palavra.” “As partes mais favoráveis do país eram precisamente as mais disputadas e os seus habitantes mudavam com a maior freqüência.” “O espírito desta pré-história é análogo ao das construções dos sofistas sobre o começo da civilização humana. (…) Encara o passado com uma visão de político moderno, i.e., do ponto de vista do poder. A própria cultura, a técnica e a economia são consideradas apenas como pressupostos para o desenvolvimento de um poder autêntico. Este consiste principalmente na formação de grandes capitais e extensas riquezas territoriais apoiadas num grande poderio marítimo. (…) O imperialismo de Atenas, do qual já pouco resta, dá-lhe a medida para a avaliação da história primitiva.

A história de Tucídides é de uma independência perfeita, tanto na escolha do ponto de vista como na aplicação destes princípios. Homero é estudado, sem quaisquer preconceitos ou romantismo, com o olhar de um político da força. O reino de Agamemnon é considerado por Tucídides o primeiro grande poderio helênico de que se tem notícia. De um verso de Homero, interpretado com exagero enorme, conclui com uma penetração inexorável que o seu império se estendeu através dos mares e foi sustentado por uma grande marinha. O catálogo dos navios da Ilíada desperta-lhe o maior interesse, e, apesar do seu ceticismo quanto às tradições poéticas, mostra-se disposto a aceitar as suas referências precisas sobre o potencial dos contingentes gregos na guerra de Tróia, porque confirmam as suas idéias sobre a falta de importância dos instrumentos de poder daquele tempo. (…) Com a entrada das ilhas e das cidades da Ásia Menor na liga ática, cria-se no mundo dos Estados gregos um poder capaz de contrabalançar o poderio de Esparta, até então predominante. A história subseqüente não é mais do que a competição entre estes 2 poderes, com os conseqüentes incidentes e conflitos, até que explode a guerra final, em face da qual as anteriores parecem brincadeiras de moleques.”

Novamente o bisonho problema do anacronismo em Jaeger.

O meu ponto de vista difere do de W. SCHADEWALDT (Die Geschichtschreibung des Thukydides, Berlim, 1929), que, de acordo com E. SCHWARTZ (Das Geschichtswerk des Thukydides, Bona, 1919), defende que a arqueologia é a parte mais antiga de Tucídides e tenta interpretar, a partir dela, o espírito do Tucídides anterior, <o discípulo dos sofistas>.”

Talvez a minha obra pareça pouco divertida por falta de lindas histórias. Será útil, no entanto, a todo aquele que queira formar um juízo adequado e examinar objetivamente o que aconteceu e o quê, de acordo com a natureza humana, acontecerá certamente no futuro, do mesmo modo ou de modo semelhante. Isto é mais uma aquisição de valor permanente do que uma peça de luxo para satisfação momentânea.”

A essência do acontecer histórico não reside para ele numa ética qualquer ou numa filosofia da história, nem numa idéia religiosa. A política é um mundo regulado por peculiares leis imanentes, que só se podem descobrir se considerarmos os acontecimentos, não isoladamente, mas em ligação com o seu curso total.”

O conceito de Tucídides sobre o conhecimento da história política não pode ser caracterizado melhor do que por umas célebres palavras do Novum Organon de Bacon, onde opõe à Escolástica o seu próprio ideal científico: Scientia et potentia humana in idem coincidunt, quia ignoratio causae destituit effectum. Natura enim non nisi parendo vincitur. Et quod in contemplatione instar causae est, id in operatione instar regulae est. [A ciência e a potência humana (política) coincidem,¹ uma vez que a ignorância da causa invalida seus efeitos. A natureza só pode ser vencida pelo conhecimento das causas. A causa (teórica) observada pelo método da contemplação nos conduz a operações regulares (regras práticas).]

[¹ Outra interpretação mais atual: as Humanidades e as Ciências Exatas. Ambas são objetos lógicos de estudo no infinito otimismo da era baconiana.]

A peculiaridade do pensamento de Tucídides sobre o Estado é a sua carência de qualquer doutrina abstrata, de qualquer fabula docet, ao contrário da concepção religiosa de Sólon e das filosofias do Estado dos sofistas ou de Platão. (…) A concepção de Tucídides seria inconcebível independentemente do tempo em que ele viveu.”

Buscar nos discursos de Tucídides os vestígios de algo realmente pronunciado na época é um empreendimento tão estéril como procurar descobrir nos deuses de Fídias determinados modelos humanos.”

O conceito de causa provém do vocabulário da Medicina (…) Foi ela que pela 1ª vez estabeleceu a distinção científica entre a verdadeira causa de uma enfermidade e o seu mero sintoma.”

O conhecimento desta causa tem algo de libertador, pois coloca aquele que o possui acima das odiosas lutas dos partidos e do espinhoso problema da culpa e da inocência. Mas também tem algo de opressivo, pois faz aparecer como resultantes de um longo processo, condicionado por uma mais alta necessidade

Von Ranke, História da Prússia, 2ª ed., 1871.

Como 2ª potência comercial da Hélade e, portanto, como naturais competidores de Atenas, os coríntios são os seus inimigos mais encarniçados. (…) Vemos surgir diante de nós uma imagem do caráter do povo ático de uma força nunca igualada por nenhum orador ateniense, ao tecer o louvor da sua pátria, nem sequer pela oração fúnebre de Péricles, composta livremente pelo próprio Tucídides, que dela conservou não poucos traços no discurso dos coríntios. Com certeza não se trata realmente de um discurso mantido pelos coríntios em Esparta, mas sim de uma criação essencialmente livre de Tucídides. Este louvor de um inimigo diante dos inimigos é uma peça de grande refinamento retórico que, além da sua imediata finalidade agitadora, desempenha para o historiador um papel importantíssimo: dá-nos uma análise incomparável dos fundamentos psicológicos do desenvolvimento do poderio de Atenas.”

Nos primeiros dias da guerra, a opinião pública via em Atenas a encarnação da tirania e em Esparta o refúgio da liberdade.”

O continuador de Tucídides, Xenofonte, prova até que ponto os contemporâneos estavam longe de compreender a idéia de uma legalidade imanente a todo o poder político.”

Assim como a tragédia grega se distingue do drama posterior pelo coro, cujas emoções refletem sem cessar o curso da ação e lhe acentuam a importância, também a narração histórica de Tucídides distingue-se da história política dos seus sucessores pelo fato de o assunto vir constantemente acompanhado de uma elaboração intelectual que o explica, converte os fatos em acontecimentos espirituais e por meio de discursos torna-os patentes ao leitor.”

Nem no resultado da campanha siciliana nem no resultado final da guerra reconhece ele uma obscura necessidade histórica. Podemos imaginar um tipo de pensamento histórico absoluto que julgue intolerável ver ali o efeito de uma necessidade, mas sim o resultado de um falso cálculo ou o simples jogo do puro acaso.”

LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO

3.1 Prólogo

A época helenística será tratada num livro à parte. Aristóteles, Teofrasto, Menandro e Epicuro deverão ser estudados no começo do período helenístico, cujas raízes de vida remontam ao séc. IV. Tal como Sócrates, Aristóteles é uma figura que marca a transição entre duas épocas. Em Aristóteles, porém, mestre dos sábios, a concepção da paideia sofre uma notável diminuição da sua intensidade, o que torna difícil situar esta figura ao lado da de Platão, o verdadeiro filósofo da paideia.”

Se isso dependesse apenas da vontade do autor, os seus estudos fechariam com uma descrição do vasto processo histórico pelo qual foi helenizada a cristandade e cristianizada a civilização helênica.” “Este livro sublinha muitas vezes que não foi pela destruição das suas bases prévias, mas sempre pela sua transformação, que a cultura grega evoluiu. (…) A regra de Fílon¹ dominou a cultura grega desde Homero até o neoplatonismo e os padres cristãos da baixa Antiguidade.”

¹ “20BC-circa 50AD), also called Philo Judaeus, was a Hellenist Jewish philosopher who lived in Alexandria, in Egypt. (…) He adopted allegorical instead of literal interpretations of the Hebrew Bible. (…) He represented the Alexandrian Jews in a delegation to the Roman Emperor Gaius Caligula following civil strife between the Alexandrian Jewish and Greek communities. (…) His ethics were strongly influenced by Aristotelianism and Stoicism, preferring a morality of virtues without passions

(…)

Some of Philo’s works have been preserved in Greek, while others have survived through Armenian translations, and a smaller amount survives in a Latin translation. Exact date of writing and original plan of organization is not known for much of the text attributed to Philo.”

Obras recomendadas: Against Flaccus, Embassy to Gaius, On the Eternity of the World. Cf. http://www.earlyjewishwritings.com/philo.html

O historiador deve deixar o filósofo resolver as suas antinomias. Isto não significa, porém, que a história do espírito seja um puro relativismo. Mas é indubitável que o historiador não se deve aventurar a decidir quem é que tem a verdade absoluta.”

Na baixa Antiguidade, os documentos escolhidos para serem conservados eram-no inteiramente em função de sua importância para o ideal da paideia, e praticamente deixava-se de lado qualquer livro que se considerasse falho de valor representativo, segundo este ponto de vista. A história da paideia grega está completamente fundida com a história da transmissão e conservação dos textos clássicos mediante manuscritos.”

JAEGER, Platos Stellung im Aufbau der grieschischen Bildung, Berlim, 1928.

______, Platos Staatsethik, Berlim, 1924. (ensaio)

______, Aristóteles

Os meus estudos preliminares para o capítulo sobre a medicina grega transcenderam os limites desta obra e foram publicados em livro separado (Diokles von Karystos).”

3.2 Século IV

A queda brusca de Atenas do alto da sua posição abalou o mundo helênico porque deixava nos limites do Estado grego um vazio difícil de preencher.” “É assombrosa a rapidez com que o Estado ateniense se recompôs da sua derrota e soube encontrar novas fontes de energia material e espiritual.” “Também agora Atenas continuava a ser – ou, antes, foi agora que ela começou a ser de verdade – a paideusis da Hélade.” “O séc. IV é a época clássica da história da paideia, se entendemos por esta o despertar de um ideal consciente de educação e de cultura. É com razão que coincide com um século tão problemático.” “O século anterior decorrera sob o signo da plena realização da democracia. Quaisquer que sejam as objeções contra a viabilidade política deste ideal jamais realizado de uma autonomia extensiva a todos os cidadãos livres, é indubitável que o mundo lhe deve a criação de uma personalidade humana responsável diante de si própria.” “O Estado ateniense não pareceu reconhecer o fato de o seu ideal, apesar da sua grande superioridade material, ter sucumbido na luta. Não é no terreno constitucional que se devem buscar os traços da vitória espartana, mas sim na órbita da filosofia e da paideia.” “Despontava a convicção de que Esparta era menos uma determinada constituição do que um sistema educacional aplicado até as suas últimas conseqüências.” “Isto sugeria a idéia de fazer da educação o ponto de Arquimedes, em que era necessário apoiar-se para mover o mundo político.” “Na literatura do séc. IV deparamos com todos os matizes da realização desta idéia, desde a admiração simplista e superficial do princípio espartano da educação coletiva até a sua recusa absoluta e a sua substituição por um ideal novo e superior de formação humana e de ligação do indivíduo à coletividade.” “o caráter privado de toda a anterior educação de Atenas aparecia como um sistema fundamentalmente falso e ineficaz, que devia ceder o passo ao ideal da educação pública, embora o próprio Estado não soubesse fazer o mínimo uso desta idéia. Mas a mesma idéia abriu largo caminho através da filosofia, que a assimilou” “Aconteceu o que na História acontece tantas vezes: a consciência salvadora chegou tarde.”

Licurgo, Discurso contra Leócrates

A sua caminhada em direção a uma nova paideia partiu da convicção de que era necessário um ideal novo e mais alto do Estado e da sociedade, e acabou por ser a busca de um novo Deus.” O eterno cotejo Protágoras x Platão.

A poesia perdeu o seu poder de direção da vida espiritual. O público exige em proporção cada vez maior a representação regular das obras procedentes dos velhos mestres do séc. anterior, e a lei acaba por ordená-la.”

A comédia definha e já não é a política que ocupa o centro dela. É com facilidade excessiva que temos tendência a esquecer que foi ainda imensa a produção poética desta época, sobretudo em matéria de comédias. É que a tradição sepultou todos estes milhares de obras. Só se conservaram as dos prosadores: Platão, Xenofonte, Isócrates, Demóstenes e Aristóteles, além das de não raros autores secundários.” “É tão significativa a supremacia espiritual da prosa sobre a poesia, que ela acaba por extinguir totalmente pelos séculos afora a recordação desta.”

Os discursos de Isócrates e de Demóstenes permitem-nos tomar parte na história dos sofrimentos e na problemática do Estado grego, nesta fase final da sua vida. E é com os escritos docentes de Aristóteles que pela 1ª vez a ciência e a filosofia gregas patenteiam à posteridade o interior do laboratório das suas investigações.”

Uma história da literatura que partisse da simples forma do eidos estilístico não conseguiria captar esta unidade vital interior da época.” “O triunfo da prosa sobre a poesia foi obtido graças à aliança entre as vigorosas forças pedagógicas, que já na poesia grega atuavam cada vez em maior grau, e o pensamento racional da época, que penetrava agora cada vez mais fundo nos verdadeiros problemas vitais do Homem. Finalmente, o conteúdo filosófico e imperativo da poesia despoja-se da sua forma poética e modela no discurso livre uma nova forma que corresponde mais perfeitamente a suas necessidades, e chega até a ver nessa forma um tipo novo e superior de poesia.”

a nova orientação implica um perigoso isolamento do espírito e um fatal menosprezo da sua função de cultura coletiva.” “são poucos os que injetam sangue na massa; e falham no instante decisivo. É fácil dizer que as pessoas cultas teriam podido transpor este abismo, por si próprias. Platão, a mais importante figura da época e a que viu mais claramente que nenhuma outra o problema da estrutura da comunidade e do Estado em conjunto, tomou na sua velhice a palavra sobre este tema e explicou por que não conseguira trazer uma mensagem para todos.” “O que acontece é que os esforços se concentravam primeiro no problema do modo como se podiam formar os governantes e os guias do povo, e só em segundo lugar nos meios pelos quais estes homens dirigentes podiam formar o conjunto do povo.” Além da formação do líder político, a formação do rebanho.

3.3 Sócrates

Do homem de carne e osso e do cidadão ateniense nascido em 469 a.C. e condenado à morte e executado no ano 399 a.C. poucos traços ficaram gravados na história da humanidade, quando esta o elevou à categoria de um dos seus poucos <representantes>. Para a formação desta imagem não contribuíram tanto a sua vida e a sua doutrina, se é que realmente professava alguma, como a sua morte, sofrida por causa das suas convicções. A posteridade cristã outorgou-lhe a coroa de mártir pré-cristão, e o grande humanista da época da Reforma, Erasmo de Roterdam, incluía-o ousadamente entre os seus santos e orava: Sancte Socrates, ora pro nobis!

Na Idade Média, Sócrates não fôra mais que um nome famoso transmitido à posteridade por Aristóteles e Cícero. A sua estrela começa agora a se elevar, enquanto a de Aristóteles, o príncipe da Escolástica, entra em declínio. Sócrates torna-se o guia de todo o Iluminismo e de toda a filosofia moderna; o apóstolo da liberdade moral, separado de todo dogma e de toda tradição, sem outro governo além daquele da sua própria pessoa e obediente apenas aos ditames da voz interior da sua consciência”

Escrever a história da representação de Sócrates seria uma empresa gigantesca. O mais eficaz será fazê-lo segundo determinados períodos. Uma tentativa deste gênero encontra-se, p.ex., na obra de Benno BÖHM, Sokrates im 18. Jahrhundert: Studien zum Werdegang des modernen Persönlichkeitsbewusstseins [Sócrates no século XVIII: Estudos sobre o desenvolvimento da consciência da personalidade moderna], Leipzig, 1929.”

No entanto, seria uma posição completamente falsa crer que todo este empenho em edificar sob a égide de Sócrates uma nova <humanidade> terrena fosse dirigida contra o Cristianismo, em vez do que se fizera na Idade Média, ao colocar Aristóteles como o fundamento de toda a filosofia cristã. Pelo contrário, ao filósofo pagão era agora confiada a missão de contribuir para criar uma religião moderna, em que o conteúdo imperecível da religião de Jesus se fundisse com certos traços essenciais do ideal helênico do homem.” “quando veio a Reforma, com o seu esforço por levar a sério, pela 1ª vez, a volta à forma <pura> do Evangelho, surgiu como reação e contrapartida o culto socrático da época <iluminada>. Esse culto, porém, não pretendia desbancar o Cristianismo, antes lhe infundia forças que naquela época se julgavam indispensáveis. Até o pietismo, produto da reação do sentimento cristão puro contra uma religião cerebral e teológica já exaurida, abrigava-se junto a Sócrates e julgava descobrir nele uma certa afinidade espiritual.”

Foi nos nossos dias, a partir do momento em que Nietzsche se desligou do Cristianismo e proclamou o advento do super-homem, que o sábio ateniense teve de pagar o ilimitado poder que desde o início da Idade Moderna exercera, como protótipo da anima naturaliter christiana. À força de aparecer ao longo dos séculos vinculado a ele, Sócrates parecia tão indissoluvelmente unido àquele ideal cristão de vida dualista, desdobrada em corpo e alma, que não se podia imaginar como não sucumbiria com ele. Ao mesmo tempo, na tendência anti-socrática de Nietzsche renascia, sob nova forma, o velho ódio do humanismo erasmiano contra o humanismo conceitual dos escolásticos.”

Eduard Zeller, História da filosofia grega

Dizer pré-socrático equivalia a dizer pré-filosófico, uma vez que os pensadores do mundo arcaico eram agora fundidos com a grande poesia e a grande música da sua época, para formarem o quadro da <época trágica> dos gregos.”

…Deste modo, Sócrates era apeado do pedestal firme, embora sem ser de 1ª categoria, onde o colocara a filosofia idealista do séc. XIX, de acordo com a sua própria imagem da História, e de novo se via arrastado para o turbilhão das lutas do presente. (…) A luta travada por Nietzsche é, depois de muito tempo, o 1º indício de que a antiga força atlética de Sócrates permanece intacta e ameaça, mais que nenhuma outra, a segurança interior do super-homem moderno. (…) Ninguém teria mais direito a ser compreendido a partir da sua própria <situação> do que o próprio Sócrates, um homem que não quis deixar à posteridade nem uma só palavra escrita por sua mão, pois se entregou por completo à missão que o seu presente lhe apontava. Esta situação da sua época, que Nietzsche, na sua luta implacável contra os excessos da extrema racionalização da vida moderna, não tinha interesse nem paciência para compreender em detalhe, foi por nós exposta com todo o rigor como a <crise do espírito ático> (pp. 283-ss.) [LIVRO SEGUNDO].”

Entre os especialistas modernos que situam o nascimento dos diálogos socráticos como forma literária já em vida do próprio Sócrates, citaremos apenas Constantin RITTER, Platon (Munique, 1910), t. I, p. 202, e WILAMOWITZ, Platon (Berlim, 1919), t. I, p. 150. Esta hipótese cronológica sobre os primeiros diálogos platônicos está relacionada com a concepção que os citados autores têm da essência e do conteúdo filosófico destas obras.”

A semelhança entre as condições em que nasce a literatura socrática e aquelas de que datam os mais antigos relatos cristãos sobre a vida e a doutrina de Jesus foi muitas vezes destacada e, de fato, salta à vista.”

O abalo deste acontecimento deixou na vida deles um traço fundo e forte. E tudo parece indicar que foi precisamente esta catástrofe que os levou a representar o seu mestre em escritos. Esta opinião foi fundamentada em detalhe, contra Ritter, por Heinrich MAIER, Sokrates (Tubing, 1913), pp. 106-ss. Também A.E. TAYLOR, Sócrates (Edimburgo, 1932; trad. esp. México, 1961), p. 10, adere ao seu ponto de vista.”

A socrática converte-se no eixo literário e espiritual do novo século e, depois da queda do poder temporal de Atenas, o movimento que dela nasce passa a ser a fonte mais importante do seu poder espiritual sobre todo o mundo.”

O retrato literário de Sócrates é a única imagem fiel, decalcada sobre a realidade viva de uma individualidade grande e original, que a era clássica grega nos transmitiu. E o móbil a que este esforço respondia não era a fria curiosidade psicológica nem a ânsia de proceder a uma dissecação moral, mas antes o desejo de viver o que nós denominamos personalidade, ainda quando à linguagem faltavam a idéia e o termo necessários à expressão deste valor.”

Cf. R. HIRZEL, Der Dialog (Lepzig, 1895), t. I, pp. 2-ss., sobre o desenvolvimento anterior do diálogo, e pp. 83-ss. sobre as formas dos diálogos socráticos e seus representantes literários.”

O círculo socrático durou poucos anos. Cada um dos discípulos aferrava-se apaixonadamente a sua concepção e surgiram até diversas escolas socráticas. É por este motivo que nos encontramos na situação paradoxal de até hoje não termos sido capazes de nos pôr de acordo quanto à verdadeira significação da sua figura, apesar de ser ele a personalidade de pensador da Antiguidade que chegou até nós com uma tradição mais rica.”

Platão, dramaturgo inato, já escrevera tragédias antes de entrar em contato com Sócrates. A tradição afirma que ele as queimou todas, quando, sob a impressão dos ensinamentos deste mestre, dedicou-se à investigação filosófica da verdade. Mas, quando, após a morte de Sócrates, resolveu manter viva, a seu modo, a imagem do mestre, descobriu na imitação artística do diálogo socrático a missão que lhe permitiria colocar o seu gênio dramático a serviço da filosofia.”

Os informes de Xenofonte só coincidem com os de Platão num pequeno trecho, para além do qual nos deixa sobre brasas, com a sensação de que Xenofonte peca por falta, enquanto, em contrapartida, Platão peca por excesso. Já Aristóteles inclinava-se a crer que a maior parte dos pensamentos filosóficos do Sócrates de Platão devem ser considerados doutrina deste e não daquele.” “Creio que K. von FRITZ (Rheinisches Museum, t. 80, pp. 36-8) aduz novas e concludentes razões contra a autenticidade da Apologia de Xenofonte.”

Xenofonte conheceu a venerou Sócrates na sua juventude, sem nunca, porém, ter chegado a incluir-se entre os seus verdadeiros discípulos.” “Xenofonte não tornou a ver Sócrates. Foi algumas décadas mais tarde que escreveu as suas obras socráticas. A única que parece anterior é a que agora se conhece com o nome de <Defesa>.(*) Trata-se de uma alegação em defesa de Sócrates contra uma <acusação>, segundo todas as aparências puramente literária e fictícia, e onde se julgou descobrir um folheto do sofista Polícrates, publicado durante a década de noventa do séc. IV.(**) A este folheto responderam sobretudo Lísias e Isócrates, e pelas Memoráveis de Xenofonte chegamos à conclusão de que também ele tomou a palavra por aquele motivo.

(*) Seguindo H. MAIER e outros, aplicamos este nome aos 2 primeiros capítulos das Memoráveis de XENOFONTE.

(**) Xenofonte fala sempre do <acusador> no singular, enquanto Platão, na Apologia,¹ se refere sempre aos <acusadores> no plural, como corresponde realmente à situação gerada durante o processo. É certo que, no princípio, Xenofonte refere-se também à acusação judicial, mas depois dedica-se principalmente a refutar as censuras feitas posteriormente a Sócrates, segundo nos informam outras fontes, no panfleto de Polícrates.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/10/18/apologia-de-socrates-atualizado-e-ampliado/

Temos um exemplo de como Xenofonte incorporou mais tarde numa unidade mais ampla um escrito concebido nas suas origens como independente, no princípio das Helênicas (1-II, 2). Originariamente esta parte propunha-se a acabar a obra histórica de Tucídides. Termina, como é natural, com a guerra do Peloponeso. Mais tarde, Xenofonte ligou com este escrito o seu relato da história da Grécia de 404 a 362.”

Nos diálogos de Platão, Sócrates aparece como filósofo que expõe a teoria das idéias, pressupondo-a expressamente, como algo familiar ao círculo dos seus discípulos.”

Aristóteles (…) fornece indicações importantes sobre a relação que existe entre Sócrates e Platão:

Na primeira época dos seus estudos, Platão seguira os ensinamentos de Crátilo, discípulo de Heráclito, o qual ensinava que na natureza tudo flui e nada possui uma consistência firme e estável. Quando conheceu Sócrates, Platão viu abrir-se diante de si outro mundo. (…) Platão acabou por se persuadir que ambos, Sócrates e Crátilo, tinham razão, dado que se referiam a dois mundos completamente diversos. (…)

(…) nos diálogos que (…) devem ser considerados como as primeiras obras de Platão, todas as investigações de Sócrates assumem a forma de perguntas e respostas sobre conceitos universais: O que é a coragem? O que é a piedade? O que é o autodomínio? E até o próprio Xenofonte nota expressamente, embora só de passagem, que Sócrates desenvolvia incessantes investigações desse tipo, esforçando-se por chegar a uma determinação dos conceitos. (Mem., 6) (…) Mas, com o tempo, não podia satisfazer, pois o Sócrates que nos apresenta parece ser uma mediocridade e a sua filosofia dos conceitos uma banalidade. Era precisamente contra este pedante homem de conceitos que investiam os ataques de Nietzsche. Foi por isso que estes ataques não fizeram mais do que minar a confiança em Aristóteles como testemunho histórico, naqueles cuja fé na grandeza de Sócrates e na sua força revolucionária universal não se deixou abalar. Estaria Aristóteles tão desinteressado do problema das origens da teoria platônica das idéias, que ele próprio combate com tão grande violência? (…) Esta vacilação aparece caracterizada com clareza pelas 2 tentativas mais notáveis e mais cientificamente sistematizadas que nestes últimos anos se fizeram para penetrar no Sócrates histórico: a grande obra do filósofo berlinense H. Maier sobre Sócrates e os trabalhos da escola escocesa, representada pelo filólogo J. Burnet (Greek Philosophy, 1924, além do verbete ‘Socrates’ na Hastings Encyclopaedia of Religion and Ethics, vol. XI) e pelo filósofo A.E. Taylor (op. cit.).” “Como fontes históricas sobre o Sócrates real, Maier considera sobretudo os escritos <pessoais> de Platão: a Apologia e o Críton;¹ ao lado destes, reconhece como relatos de livre criação, mas no fundo fiéis à verdade, uma série de diálogos menores de Platão, tais como o Laques,² o Cármides,³ o Lísis,4 o Íon, o Eutífron6 e os dois Hípias.”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/01/29/criton-ou-do-dever/

² https://seclusao.art.blog/2019/11/03/laques-ou-do-valor-ou-da-prevalencia-da-virtude-sobre-a-valentia-platao/

³ https://seclusao.art.blog/2019/11/25/carmides-ou-da-sabedoria/

4 https://seclusao.art.blog/2019/12/14/lisis-ou-da-amizade-amorosa/

6 https://seclusao.art.blog/2017/11/16/socrates-o-maior-dos-sofistas/

Sócrates proclama o evangelho do domínio do Homem sobre si próprio e da <autarquia> da personalidade moral. Isto faz dele a contrafigura ocidental de Cristo e da religião oriental da redenção.”

Não tem a mínima verossimilhança interna a pretensão de distinguir artificiosamente entre o Platão da primeira fase e o da última, para assim se chegar à conclusão de que só o primeiro se propõe [a] oferecer um retrato de Sócrates, enquanto o segundo toma-o só como máscara para expor a sua própria filosofia, tal como ela se desenvolveu ao longo dos anos. (…) Na realidade, já que não tencionava expor a doutrina de Sócrates, mas sim os seus próprios pensamentos, Platão abandona Sócrates como figura principal dos seus diálogos e a substitui por outras personagens estranhas ou anônimas. Sócrates era efetivamente tal como Platão o pinta: o criador da teoria das idéias, da teoria da reminiscência e da preexistência da alma, da teoria da imortalidade da alma¹ e da teoria do Estado ideal. Numa palavra: era o pai da metafísica ocidental.”

¹ Não grifo porque a teoria da imortalidade é um sine qua non da teoria das reminiscências e das idéias, bem como estas são sine qua non da primeira, ou seja, estão em inextricável dependência no corpus (supostamente socrático-)platônico.

Quem pretender descobrir no campo da teoria e do pensamento sistemático a sua grandeza terá de lhe atribuir demais, à custa de Platão, ou então duvidará radicalmente da sua importância pessoal. (…) a importância desta figura não vem continuar nenhuma tradição científica nem pode ser derivada de nenhuma constelação sistemática na história da filosofia. Sócrates é o homem do momento, num sentido absolutamente elementar. A sua volta sopra uma aragem verdadeiramente histórica.”

É a segunda vez que na história da Grécia o espírito ático invoca as forças centrípetas da alma helênica contra as suas forças centrífugas, opondo ao cosmos físico das forças naturais em luta, criação do espírito investigador da Jônia, uma ordem dos valores humanos. Sólon descobrira as leis naturais da comunidade social e política. Sócrates embrenha-se na própria alma, a fim de penetrar no cosmos moral.”

Na idade madura, Sócrates viveu o apogeu do poder ateniense e o florescimento clássico da poesia e da arte de Atenas, e visitava a casa de Péricles e de Aspásia. Foram seus discípulos governantes tão discutidos como Alcibíades e Crítias.”

Sócrates era um grande amigo do povo, mas era considerado mau democrata. (…) era indubitável que ele tinha declarado defeituoso, como norma fundamental, o princípio socrático dominante em Atenas, segundo o qual o governo era incumbência da maioria do próprio povo (…) É caso para pensar que esta posição se ia formando dentro dele, diante da crescente degenerescência da democracia ateniense, durante a guerra do Peloponeso. Para quem, como ele, tinha sido educado no espírito dominante na época das guerras pérsicas e assistira ao apogeu do Estado, era forte demais aquele contraste para não provocar toda uma série de dúvidas críticas.” Um grande homem jamais deixará de ser um aristocrata no seu íntimo.

é importante compreender que na Atenas daqueles dias também se considerava atuação política o fato de permanecer à margem dos manejos políticos do momento e que os problemas do Estado determinavam de modo decisivo os pensamentos e a conduta de qualquer homem, sem exceção.”

Segundo os informes do Fédon,¹ Sócrates, através desta crítica da filosofia da natureza, chegava à teoria das idéias, a qual, no entanto, de acordo com os dados convincentes da Aristóteles, não se pode atribuir ainda ao Sócrates histórico.” Jaeger se contradiz.

¹ https://seclusao.art.blog/2019/01/25/fedon-ou-da-alma/

Na Antiguidade, qualquer referência de princípios à experiência, como fundamento de toda a ciência exata da realidade, estava sempre associada à Medicina (…) É da Medicina grega, e não da filosofia grega, que é filho o empirismo filosófico dos tempos modernos.”

Há uma certa analogia interior entre o diálogo socrático e o ato de se desnudar para ser examinado pelo médico ou pelo ginasta, antes de se lançar no combate, na arena. (…) O ateniense daqueles tempos sentia-se mais no seu meio no ginásio do que entre as 4 paredes da sua casa, onde dormia e comia. Era ali, sob a transparência do céu da Grécia, que diariamente se reuniam novos e velhos para se dedicarem ao cultivo do corpo.”

O palco, onde, em longo solilóquio, brilham os sofistas é a casa particular ou a sala improvisada. Em contrapartida, Sócrates é o cidadão simples, a quem todos conhecem. A sua ação passa quase despercebida; a conversa com ele agarra-se quase espontaneamente, e como sem querer, a qualquer tema de ocasião. Não se dedica ao ensino nem tem discípulos; assim o afirma, pelo menos. Só tem amigos, camaradas. A juventude sente-se fascinada pelo fio cortante daquele espírito, ao qual não há nada que resista.”

E quem julga que se pode retrair, intratável, perante ele, ou encolher os ombros com indiferença ante a forma pedante das suas perguntas ou a intelectual banalidade dos seus exemplos, não tarda a baixar da pretensa altura do seu pedestal. (…) Por outro lado, é compreensível que as nossas histórias escolares da filosofia deixem tudo isso de lado, por o considerarem meros adornos poéticos da imagem que Platão traça de Sócrates.”

É certo que o próprio Sócrates designa a sua <ação> – que palavra significativa! – pelos nomes de <filosofia> e <filosofar>; e, na Apologia platônica, afiança aos seus juízes que não se afastará dela enquanto viver e respirar. Mas não devemos dar a estas palavras o significado que vieram a ganhar em séculos posteriores, ao cabo de uma longa evolução (…) Toda a literatura dos socráticos se manifesta unanimemente contra esta possibilidade de separar a doutrina da pessoa.”

A palavra <alma>, pelas suas origens na história do espírito, tem sempre para nós uma conotação de valor ético ou religioso. Tem um tom cristão, como as expressões <serviço de Deus> e <cuidado da alma>. Ora, é nas prédicas protrépticas de Sócrates que a palavra <alma> adquire pela 1ª vez este alto significado.”

Se consultarmos a clássica obra-prima de Erwin Rohde, Psique, chegaremos à conclusão de que Sócrates não tem significado especial dentro deste processo histórico. Este autor passa-o por alto. Rohde, à p. 240, apenas nos sabe dizer de Sócrates, na única passagem da sua obra em que o cita, que ele não acreditava na imortalidade da alma. Para tal contribui o preconceito contra Sócrates, <o racionalista>, que Rohde já partilhara com Nietzsche desde a sua juventude”

BURNET, “The Socratic Doctrine of the Soul”, em Proceedings of the British Academy for 1915-6.

A origem da forma do discurso exortatório ou diatribe, como tal, remonta naturalmente aos tempos primitivos. No entanto, a forma educacional e moral da prédica que prevalece nas homilias cristãs ao lado da dogmática e da exegética adquire o seu caráter literário na socrática, que, por sua vez, remonta à protréptica oral de Sócrates.”

Seria a socrática uma antecipação do Cristianismo, ou poderá mesmo afirmar-se que com Sócrates irrompe na evolução do helenismo um espírito estranho, oriental, o qual, graças à posição da filosofia grega como grande potência educadora, se traduz logo em efeitos de envergadura histórica universal, impelindo à união com o Oriente?”

Quis-se atribuir a Sócrates a teoria da imortalidade do Fédon platônico e até a teoria da preexistência do Mênon,¹ mas estas duas idéias complementares têm origem claramente platônica. A posição socrática em face do problema da subsistência da alma aparece certamente bem-definida na Apologia, onde, em presença da morte, não se diz qual será a sua sorte depois desta.”

¹ https://seclusao.art.blog/2020/01/22/menon-ou-da-virtude-ou-da-inexistencia-de-uma-ciencia-politica-ultima-traducao-do-ciclo-platao-obras-completas-virginia-woolf-ao-final/

se aceitarmos a afirmação de Aristóteles de que a teoria das idéias não é de Sócrates mas de Platão, teremos de defender idêntica posição no que se refere à teoria da imortalidade do Fédon, que se baseia na teoria das idéias.”

têm origem puramente helênica todos os traços aliciantes que na prédica socrática nos parecem cristãos. (…) É na poesia e na filosofia que floresce a evolução religiosa superior do espírito grego, e não no culto dos deuses, que costumamos encarar quase sempre como o conteúdo principal da história da religião helênica.”

É indubitável que a religião dionisíaca e órfica dos gregos, bem como a dos mistérios, apresentam certas <fases preliminares> e analogias; mas não se pode explicar este fenômeno dizendo que as formas socráticas do discurso e da representação derivam de uma seita religiosa que se pode afastar a seu bel-prazer como estranhas aos gregos, ou aceitar como oriental. Tratando-se de Sócrates, o mais sóbrio dos homens, seria verdadeiramente absurdo pressupor a existência de uma influência eficaz destas seitas orgiásticas nas camadas irracionais da sua alma.”

A alma de que Sócrates fala só pode ser compreendida com acerto se é concebida em conjunto com o corpo, mas ambos como dois aspectos distintos da mesma natureza humana.”

Sócrates não pode crer que só o Homem tenha espírito.”

A virtude física e a virtude espiritual não são, pela sua essência cósmica, mais do que a <simetria das partes> em cuja cooperação corpo e alma assentam. É a partir daqui que o conceito socrático do <bom>, o mais intraduzível e o mais exposto a equívocos de todos os seus conceitos, se diferencia do conceito análogo na ética moderna. Será mais inteligível para nós o seu sentido grego se em vez de dizermos <o bom> dissermos <o bem>, acepção que engloba simultaneamente a sua relação com quem o possui e com aquele para quem é bom.” Não melhora muito, sinceramente… Pelo contrário, até piora: além do bem e do mal; o bem desta frase já se tornou estanque. Já em o espírito superior é bom, é o melhor, depreende-se que ele é bom porque é mais que os outros homens, está acima do ruim (não mau, porém estragado).

Se o conceito da vida, do bios (que designa a existência humana, não como um simples processo temporal, mas como uma unidade plástica cheia de sentido, como uma forma consciente de vida) ocupa doravante uma posição de tão grande relevo na filosofia e na ética, é à vida real do próprio Sócrates que, numa parte muito considerável, isso se deve. A sua vida foi uma antecipação do novo bios, baseado integralmente no valor interior do Homem.”

A sua descoberta da alma não significa a separação dela e do corpo, como tantas vezes se afirma em desabono da verdade, mas antes o domínio da primeira sobre o segundo. Mens sana in corpore sano é uma frase que corresponde a um autêntico sentido socrático.”

Os sofistas eram os mestres desta arte que, apresentada desta forma, constituía coisa nova. Sócrates parece ligar-se plenamente a eles, para logo seguir o seu próprio caminho. (…) A paideia dos sofistas era uma colorida mistura de materiais de origem vária. O seu objetivo era a disciplina do espírito, mas não existia entre eles unanimidade quanto ao saber mais indicado para atingi-la, pois cada um deles seguia estudos especializados e, naturalmente, considerava a sua disciplina como a mais conveniente de todas. Sócrates não negava o valor que havia em ocupar-se de todas as coisas que eles ensinavam, mas o seu apelo ao cuidado da alma continha já potencialmente um critério de limitação dos conhecimentos recomendados por aqueles educadores.”

Os gregos, aliás, consideravam geralmente o mundo cósmico como algo de sobrenatural e imperscrutável para os simples mortais. E [o] Sócrates [de Xenofonte] partilhava este temor popular contra o qual ainda Aristóteles teve de se erguer no início da sua Metafísica. Reservas semelhantes Sócrates fazia também em relação aos estudos matemáticos e astronômicos dos sofistas de orientação mais realista” “Contrapôs-se então a ele o Sócrates de Platão, que na República preconiza a educação matemática como único caminho certo da filosofia. Este ponto de vista está, porém, condicionado pela própria evolução platônica para a dialética e para a teoria do conhecimento”

Platão e Xenofonte coincidem em que Sócrates era um mestre de política. Só assim se compreende o seu choque com o Estado e o seu processo [judicial].” Não tem a ver com a acusação de monoteísmo – ou não como entendemos a questão hoje (de forma puramente teológica).

Esta passagem em Memoráveis I demonstra que o que nós denominamos <ético>, separando-o como um mundo à parte, estava indissoluvelmente ligado ao político, não só para Xenofonte, mas também para Platão e Aristóteles.” Os fins são os meios.

CORRUPTOR DE MENORES: “Aquilo de que Sócrates era acusado era precisamente o uso que Alcibíades e Crítias fizeram da sua cultura, na vida política. Segundo Xenofonte, porém, esta censura devia servir-lhe antes de desculpa, visto que um tal uso dos seus ensinamentos era contrário às intenções do mestre.” O grande jamais corromperá o pequeno. Mas não poderá tampouco salvá-lo de sua condição ou moira.

O homem que é educado para governar tem de aprender a antepor o cumprimento dos deveres mais prementes à satisfação das necessidades físicas. Tem de se sobrepor à fome e à sede. Tem de se acostumar a dormir pouco, a deitar-se tarde e a se levantar cedo.” Exigente demais!

Quem não é capaz de tudo isto fica condenado a figurar entre as massas governadas.” “O ascetismo socrático não é a virtude monacal, mas sim a virtude do homem destinado a mandar.”

A enkrateia não constitui uma virtude especial, mas, como acertadamente diz Xenofonte, a <base de todas as virtudes>, pois equivale a emancipar a razão da tirania da natureza animal do homem e a estabilizar o império legal do espírito sobre os instintos. (…) podemos traduzir o conceito de enkrateia (…) pela expressão (…) <autodomínio>.”

nesta época, a palavra <livre> é primordialmente o que se opõe à palavra escravo. Não tem aquele sentido universal, indefinível, ético e metafísico, do moderno conceito de liberdade.”

MEGERA INDOMADA: “O diálogo com o seu próprio filho Lâmpocles, que se revoltava contra o mau humor de Xantipa, sua mãe, mostra o quanto estava longe Sócrates de dar razão àqueles que condenavam precipitadamente os pais, ou denotavam uma impaciência pouco piedosa em relação ao seu feitio ou até aos seus defeitos manifestos.”

Em Homero, a amizade é a camaradagem do soldado; e na educação da nobreza, em Teógnis, apresenta-se como proteção e baluarte contra os perigos da vida pública, em tempos de convulsões políticas.”

É certo que a experiência ensina que até entre os homens bons e que aspiram a fins elevados nem sempre reinam a amizade e a benevolência, mas, ao contrário, impera com grande freqüência um antagonismo mais feroz que entre as criaturas pouco dignas. Aqui está uma experiência particularmente desanimadora.”

A amizade começa pelo aperfeiçoamento da própria personalidade. Mas necessita, além disso, dos dons do <erótico>, que ironicamente Sócrates gosta de predicar de si próprio, do homem que precisa dos outros e corre atrás deles, que recebeu da natureza o dom, logo por ele tornado arte, de agradar a quem lhe agrada. Não é como a Cila de Homero, que imediatamente se agarrava aos homens, os quais, assim, fugiam dela ao vê-la de longe. Parece antes a sereia, que atrai o homem de muito longe, com o seu canto suave.”

Sócrates nunca fala em <discípulos> e rejeita também a pretensão de ser <mestre> de quem quer que seja. Limita-se a manter <convivência> com os homens, seja qual for a sua idade, e <conversa> com eles.”

Um dos grandes paradoxos é este homem, o maior educador que se conhece, não ter querido falar de paideia com referência a sua própria atividade, embora todo mundo visse nele a mais perfeita personificação desse conceito. É claro que a palavra não se podia evitar indefinidamente, e tanto Platão como Xenofonte a usam freqüentemente para designarem as aspirações de Sócrates e caracterizarem a sua filosofia. Mas Sócrates encontrou esta palavra carregada pela prática e teoria <pedagógicas> do seu tempo: considerava como representantes típicos da paideia moderna Górgias, Pródico e Hípias.” “E através desta ironia genuinamente socrática descobre-se a consciência da missão da verdadeira educação e da magnitude da sua dificuldade, da qual o resto do mundo não tem a menor idéia.”

É Platão que, baseado nas tentativas de um novo conceito do saber que descobre em Sócrates, elabora a lógica e o conceito; segundo este autor, Sócrates foi apenas o pregador, o profeta da autonomia moral. No entanto, esta explicação esbarra com dificuldades tão grandes como a opinião contrária, a de que em Sócrates já vem defendida a teoria das idéias.”

Nenhum dos diálogos socráticos de Platão chega a definir realmente o conceito moral que nele se investiga; mais ainda, existiu por muito tempo a opinião geral de que nenhum destes diálogos chega realmente a um resultado.”

O conhecimento do bem, que Sócrates descobre na base de todas e cada uma das chamadas virtudes humanas, não é uma operação da inteligência, mas antes, como acertadamente Platão compreendeu, a expressão consciente de um ser interior do Homem.”

a idéia socrática contém implícita a premissa de que não pode existir a ilegalidade consciente, porque isso implicaria a existência de ilegalidades voluntárias.”

a natureza do bem implica que cada um o reconheça como quiser. A vontade humana situa-se, assim, no centro das nossas considerações.”

A verdadeira essência da educação é dar ao Homem condições para alcançar o fim autêntico da sua vida. Identifica-se com a aspiração socrática ao conhecimento do bem, com a phronesis. E esta aspiração não se pode restringir aos poucos anos de uma chamada cultura superior. Só pode alcançar seu objetivo ao longo de toda a vida do Homem” “O Homem, assim concebido, nasceu para a paideia. Esta é o seu único patrimônio verdadeiro. Como todos os socráticos são unânimes nesta concepção, o seu autor deve ter sido Sócrates, ainda que ele afirmasse de si próprio que não sabia <educar os homens>.”

É certo que Sócrates, ao contrário de Platão, não parece partir fundamentalmente da idéia de que os Estados atuais não têm remédio.”

Quantas vezes ele insiste em que não é ele, Sócrates, mas sim o logos quem diz isto ou aquilo! (…) No fundo, o conflito com o Estado nasce para a filosofia e para a ciência a partir do momento em que a investigação se exerce sobre a natureza das <coisas humanas>, i.e., sobre o problema do Estado e da arete e surge em face desta questão como razão normativa. É o instante em que a filosofia troca a herança de Tales pelo legado de Sólon.”

Foi nem mais nem menos Hegel quem negou à razão subjetiva o direito de criticar a moral do Estado, que é por si a fonte e a concreta razão de ser de toda a moral sobre a Terra. Eis um pensamento totalmente inspirado na Antiguidade e que nos ajuda a compreender a atitude do Estado ateniense para com Sócrates.”

Platão era o único que se sentia, como ateniense e como político, à altura de compreender Sócrates plenamente. Indica no Górgias como a tragédia se vem aproximando.”

Pessoalmente, Sócrates está muito longe das conseqüências que Platão deriva da sua morte. E mais longe ainda da valorização e da interpretação histórico-espiritual que se dá ao acontecimento de que foi vítima. A inteligência histórica, se tivesse existido naquele tempo, teria destruído o sentido trágico deste destino. (…) É um privilégio muito duvidoso o de ver à luz da história a própria época e mesmo a própria vida.” “Platão afirma o homem político no domínio da Idéia, mas por isso mesmo afasta-se da realidade política, ou procura realizar o seu ideal em outra parte qualquer do mundo, em que existam melhores condições para ele.”

O pouco apreço pela ciência e pela erudição, o gosto pela dialética e pelos debates em torno aos problemas do valor são características atenienses, tanto quanto o sentido do Estado, dos bons costumes, do temor de Deus, se deixar para trás a charis espiritual que paira sobre tudo.”

O mais provável é não ter Platão escrito estas palavras em Atenas. Por certo, deve ter fugido para Mégara, com os demais discípulos de Sócrates, após a morte deste, e foi ali ou nas suas viagens que escreveu as suas primeiras obras socráticas.”

3.4 A imagem de Platão na história

É só a partir da cultura antiga que se pode compreender uma figura como a de Santo Agostinho, que traçou a fronteira histórico-filosófica da concepção medieval do mundo, por meio da sua Cidade de Deus, tradução cristã da República de Platão. A própria filosofia aristotélica, com a recepção da qual a cultura dos povos medievais do Oriente e do Ocidente, no seu apogeu, assimilou o conceito universal do mundo da filosofia antiga, não era senão uma outra forma do platonismo.”

COISA MAIS BIZA…RRA! “O Platão que o teólogo e místico bizantino Gemistos Plethon transmitiu aos italianos do quattrocento e cujas doutrinas Marsílio Ficino professava na Academia platônica de Lourenço de Médici, em Florença, era um Platão visto pelos olhos de Plotino (…) Para aqueles tempos, Platão era acima de tudo o profeta e o místico religioso

Até agora tentara-se reconstruir a filosofia à maneira do séc. XVIII, esforçando-se por abstrair dos seus diálogos o conteúdo dogmático, quando o tinham. Depois, com base nas teses assim estabelecidas e tomando como modelo as filosofias posteriores, procurava-se penetrar na metafísica e na ética platônicas, e edificar com todas estas disciplinas um sistema, já que só se concebia a existência de um pensador sob esta forma. O mérito de Schleiermacher consiste em ter visto bem, com certeiro golpe de vista que os românticos tinham para desentranhar a forma como expressão da individualidade espiritual, que aquilo que a filosofia platônica tinha de característico era precisamente não tender para a forma de um sistema fechado, mas sim manifestar-se por meio do diálogo filosófico inquisitivo.”

podemos até afirmar que, assim como na Antiguidade a filosofia alexandrina foi desenvolvendo os seus métodos à luz da investigação da obra de Homero, também a ciência histórica do espírito alcançou no séc. XIX o seu máximo apuro, com a luta para conseguir compreender o problema platônico.”

Tanto a explicação pormenorizada do texto como a investigação da autenticidade das diversas obras chegadas até nós sob o nome de Platão abriram o caminho a um estudo concreto que se ia especializando sem cessar, de modo que o problema platônico parecia ir afundando cada vez mais nesta direção. Foi então que, a partir de C.F. Hermann, os intérpretes se foram habituando a encarar as obras deste filósofo como a expressão de uma evolução progressiva e gradual da sua filosofia”

É certo que, após alguns êxitos iniciais, este caminho da investigação acabou por se desacreditar, em consequência dos seus exageros, pois veio cair na ilusão de que seria possível situar no tempo todos e cada um dos diálogos, através de uma estatística filológica perfeitamente mecanizada. Seria ingratidão, porém, esquecer que foi uma descoberta puramente filológica que determinou a maior reviravolta operada, desde Schleiermacher, nos estudos platônicos.” “é possível distinguir três grupos principais de obras, onde se podem distribuir com boa verossimilhança os diálogos mais importantes. § Este resultado das investigações filosóficas da 2ª metade do séc. XIX tinha, por força, de abalar a imagem schleiermacheriana de Platão, já considerada clássica, uma vez que se verificou serem obras maduras, correspondentes a sua senectude, vários diálogos platônicos por ele tidos como primeiros e introdutórios, e que versavam sobre problemas metódicos. (…) Agora eram rapidamente puxados para o centro da discussão os diálogos <dialéticos>, como o Parmênides,¹ o Sofista² e o Político,³ nos quais o Platão do último período parece discutir com a sua própria teoria das idéias.” Confrontar com o que diz Azcárate. Missão para depois.

¹ https://seclusao.art.blog/2018/09/14/parmenides-ou-das-ideias/

² https://seclusao.art.blog/2018/09/09/o-sofista-ou-do-ser/

³ https://seclusao.art.blog/2019/05/27/o-politico-ou-da-soberania/

Não é, pois, nada estranho que este neokantismo se tenha sentido surpreendido e fascinado por tão inesperada projeção dos seus próprios problemas na evolução dos últimos anos de Platão” Aqui: revigoramento do ceticismo em oposição ao ultra-romantismo.

nesta nova concepção de conjunto, a importância de Platão para a filosofia moderna assentava no aspecto metódico, com a mesma unilateralidade com que para a filosofia metafísica do meio século anterior assentava no apoio que a metafísica platônica e aristotélica lhe dava, na sua luta contra a crítica de Kant.” “A nova forma de conceber este filósofo culminava na tentativa de infirmar, como falsas, as objeções de Aristóteles à teoria platônica das idéias, tentativa que vinha mostrar indiretamente que essa nova forma se deixava guiar por Aristóteles, mesmo sem aceitar o seu modo de ver, pois concentrava no mesmo ponto a sua interpretação da doutrina platônica.”

as Leis, que representa mais da quinta parte de toda a obra escrita de Platão e onde a teoria das idéias não desempenha o menor papel.”

IRONIAS DE FERRO: Enquanto bilhões vivem sem uma metafísica, certos indivíduos têm o privilégio de viver ativamente 2 ou 3 projetos destas. Onde quer que o sol nasça e bata, Platão é que ri de nós.

Foi de novo uma descoberta filológica que permitiu um passo fundamental e que, sem pretensões filosóficas de nenhum tipo, levou a derrubar os limites demasiado estreitos em que estava encerrada esta concepção da obra platônica. Desta vez, não foi a cronologia a afetada pela descoberta, mas sim a crítica da autenticidade dos textos. Já desde a Antiguidade sabia-se que a coleção dos escritos platônicos transmitida pelos séculos continha muitas coisas inautênticas, mas foi a partir do séc. XIX que a crítica textual atingiu o máximo grau de intensidade. É certo que no seu cepticismo visava muito além do alvo e acabou por ficar paralisada. (…) as suspeitas caíram apenas, essencialmente, sobre escritos de qualidade duvidosa. Julgavam-se falsas também as cartas de Platão: a existência indubitável de peças e fragmentos falsos na coleção de cartas que chegou até nós sob o seu nome levava os críticos a repudiar a coleção em bloco; e, como era indiscutível que algumas destas cartas continham um material histórico valioso acerca da vida de Platão e das suas viagens à côrte do tirano Dionísio de Siracusa, recorria-se à hipótese do autor destes documentos apócrifos ter utilizado na sua redação informes muito apreciáveis. Historiadores como Eduard Meyer, levando em conta o grande valor das cartas como fonte histórica, advogaram a sua autenticidade, e logo o seu exemplo foi seguido pelos filólogos, a partir do momento em que Wilamowitz confirmou a autenticidade das cartas sexta, sétima e oitava, i.e., das peças mais importantes da coleção.”

COMPELIDOS À MISANTROPIA: “O patético relato de Platão sobre suas repetidas tentativas de intervenção ativa na vida política dava ao seu biógrafo a possibilidade de pintar algumas cenas ricas de colorido, que vinham quebrar dramaticamente o recolhimento da vida do filósofo no seio da Academia e descobriam, além disso, o complicado fundo psicológico desta vida, cuja atitude contemplativa, como agora se mostrava, tinha sido imposta pela trágica pressão das condições desfavoráveis de seu tempo a um caráter inato de dominador. Vistas por este prisma, as repetidas vezes que Platão tentou uma carreira de estadista não apareciam de modo nenhum como episódios infelizes de uma vida puramente intelectual, nos quais Platão procurara concretizar certos princípios éticos da sua filosofia. Todavia, a convicção de que é o Platão autêntico e real o homem que na Carta VII nos fala da sua própria evolução espiritual e dos objetivos da sua vida, a partir dos quais adota uma posição diante da sua própria filosofia, tem também uma importância decisiva para a concepção de conjunto da sua obra filosófica.” “A esta concepção da filosofia platônica chegara eu em longos anos de esforço incessante dirigido à captação da sua verdadeira essência, sem prestar grande atenção às cartas, uma vez que desde a juventude partilhava o preconceito filológico contra a sua autenticidade.”

podem reunir-se em grupo à parte os diálogos menores; (I) mas as obras extensas como o Protágoras, o Górgias, o Mênon, o Banquete e o Fedroonde estão contidas as idéias platônicas essenciais sobre a educação, merecem ser examinadas separadamente e uma a uma (II) (…) A República e as Leis são, naturalmente, as obras que devem formar o verdadeiro nervo central deste estudo. (III)”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/03/17/fedro-ou-da-beleza-ou-ainda-do-caralho-voador/

A sua filosofia, encarada como o apogeu de uma cultura (paideia) tornada já histórica, deve ser focada, mais do que geralmente se costuma fazer, na sua função orgânica dentro do processo total do espírito grego e da história da tradição helênica, e não como um mero sistema de conceitos com existência própria.”

A história da paideia, encarada como a morfologia genética das relações entre o homem e a polis, é o fundo filosófico indispensável no qual se deve projetar a compreensão da obra platônica.” “A sua obra de reformador está animada do espírito educador da socrática, que não se contenta em contemplar a essência das coisas, mas quer criar o bem.”

3.5 Diálogos socráticos menores de Platão

São muito reduzidas as proporções exteriores destas obras, que correspondem pouco mais ou menos a uma conversa travada por casualidade.” “o dialeto ático neles usado não tem paralelo na literatura grega, pela sua graça natural, espontaneidade e genuína vivacidade de colorido.” “estes diálogos, do tipo do Laques, do Eutífron e do Cármides, revelar-se-iam pelo seu brilho e pelo seu frescor, como as obras de juventude de Platão.”

Já no Eutífron fala-se do processo movido contra Sócrates, e como a Apologia e o Críton, ambos tratando do desenlace de Sócrates, se encaixam no mesmo grupo é provável que todas as obras reunidas neste grupo tivessem sido escritas logo depois da morte do mestre.”

<Petulância juvenil> é a rubrica sob a qual WILAMOWITZ agrupa estas obras alegres, que considera as mais antigas de todas.”

Já na velhice Platão escreveu um diálogo, o Filebo,¹ onde Sócrates aparece como figura central, apesar de nas demais obras da velhice, nos chamados diálogos dialéticos, o Parmênides, o Sofista e o Político, e no diálogo sobre a filosofia da natureza intitulado Timeu,² Sócrates desempenhar um papel secundário e ser nas Leis substituído pela figura do estrangeiro ateniense.”

¹ https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/

² https://seclusao.art.blog/2019/06/08/timeu-ou-da-natureza/

Não foi da dúvida que os primeiros diálogos platônicos nasceram. Que não é assim já o indica a soberana segurança com que é vincada a linha interior daquelas conversas, não tanto em cada obra de per si, mas principalmente no conjunto delas.” Opinião distinta da de Azcárate.

É preciso ser muito ingênuo para, do fato de nenhum destes diálogos terminar com a definição didática do tema discutido, tirar a conclusão de que estamos diante de um principiante que arrisca os primeiros passos, falhados, num campo ainda inexplorado teoricamente.” “O nosso pensamento, associando-se ao dos outros, procura adiantar-se ao andamento da discussão (…) Se se tratasse de uma conversa real a que tivéssemos assistido, poderíamos atribuir ao acaso este resultado negativo.” “A falta de saída, que era para Sócrates um estado permanente, converte-se para Platão no estímulo que o impele à resolução da aporia.”

Sobre a história da interpretação moderna de Platão, cf. o livro (já antiquado mas ainda útil para certos pormenores) de F. UEBERWEG, Untersuchungen über die Echtheit und Zeitfolge platonischer Schriften, etc. (Viena, 1861)

A ciência política apresenta-se já no Cármides, como no Górgias, em paralelo com a ciência médica.”

A maior censura que se pode fazer a muitos representantes do método histórico-evolutivo, tanto no que se refere a sua defeituosa concepção artística como quanto a sua deficiente concepção filosófica, é partirem da hipótese de que, em todas e cada uma das suas obras, Platão diz tudo o que sabe e pensa.”

Platão e seus irmãos Glauco e Adimanto, que ele, de modo muito significativo, apresenta precisamente na República como discípulos e interlocutores de Sócrates, pertenciam evidentemente, como Crítias e Alcibíades, àquela juventude da antiga nobreza ática que, de acordo com as tradições familiares, sentia-se chamada a dirigir o Estado e buscava em Sócrates o mestre da virtude política.” “Mas, enquanto para homens como Alcibíades e Crítias esta doutrina não fazia mais do que atiçar a fogueira dos seus ambiciosos planos de golpes de Estado, para Platão, que o seu tio Crítias convidou a colaborar no novo Estado autocrático, após a derrocada da constituição democrática vigente, era visível a incompatibilidade daquele regime com as idéias de Sócrates, e foi por isso que ele se negou a cooperar.”

A duplicidade deste acontecimento gerou a certeza de que não foram a constituição democrática ou oligárquica, como tais, mas sim única e exclusivamente a degenerescência moral do Estado vigente, fossem quais fossem as suas formas, o que o arrastou a um conflito mortal com o mais justo dos seus cidadãos.”

profunda resignação” “Chegara à convicção de que para um homem como ele, plenamente possuído da vontade educacional de Sócrates, seria um absurdo esbanjamento de si próprio imiscuir-se ativamente na vida política de Atenas, pois lhe parecia que o Estado existente, e não só o ateniense mas todos eles, estava condenado a desaparecer, se não o salvasse um milagre divino. E que esta concepção não é precisamente resultado da sua evolução posterior, mas sim que já vivia nele desde o princípio, prova-o a Apologia, 31E, e a recapitulação dos mesmos pontos em Apol., 36B.”

a pretensão de tornar os filósofos reis ou os governantes filósofos, para que o Estado possa ser melhorado.” “Enquanto a Carta Sétima foi tida por apócrifa, considerou-se este indício evidente da sua falsidade; o falsificador, pensava-se, quisera dar-lhe um cunho de autenticidade e para isso reproduzira uma das idéias mais conhecidas de Platão; mas incorrera no descuido de apresentar como já existente na década de 90 a República, obra donde a frase procede e que, segundo os resultados da moderna investigação, não fôra escrita antes da década de 70 do séc. IV. (…) Não havia a mínima dúvida de que se tratava de uma citação de si próprio feita por Platão, e ele, naturalmente, não podia ignorar quando escrevera aquela obra.” “ora, o mais verossímil é que as idéias proclamadas nos seus diálogos tenham sido expostas e discutidas muitas vezes no seu ensinamento oral, antes de serem dadas a conhecer por escrito ao mundo exterior”

Julius STENZEL, Plato’s Method of Dialectic (barato na Amazon)

O SEGUNDO MUNDO: SENSÍVEL, ETERNO

Aristóteles já assimila com toda a clareza teórica os métodos lógicos da abstração. A pergunta socrática o que é o bom?, o que é o justo?, não implicava de modo nenhum o conhecimento teórico do que eram logicamente os conceitos universais. Portanto, quando Aristóteles diz que Sócrates ainda não chegara a hipostasiar, como algo distinto da realidade sensível, os conceitos universais que investigava (o que Platão faz), essa afirmação não se deve interpretar no sentido de que Sócrates já teria chegado à teoria aristotélica do universal e de que Platão cometeu mais tarde o erro inconcebível de duplicar de certo modo esses conceitos gerais, já antes conhecidos por Sócrates na sua natureza abstrata, e de colocar ao lado do conceito do justo uma idéia do justo existente em si mesma. (…) as idéias platônicas (…) representam para Aristóteles uma duplicação inútil do mundo sensível. Ele é supérfluo para Aristóteles, pois este já atingiu a natureza abstrata do conhecimento universal.”


Aristóteles:
“o universal está no devir. Eu sou a síntese de Sócrates, Heráclito e Parmênides.”

Quando Platão aponta dentro do múltiplo o uno, que o método dialético procura captar como forma ou, dito em grego, como idéia ou eidos, apóia-se na terminologia da Medicina do seu tempo” “Partindo daqui, vemos como o movimento dialético se vai elevando já nos primeiros diálogos até chegar à virtude em si, na unidade da qual Sócrates sintetizava as várias virtudes particulares. A investigação da virtude particular leva constantemente, não a distingui-la das outras, como a princípio poderia parecer, mas sim àquela unidade superior a tudo o que é virtude, ao bem em si e ao seu conhecimento.” “Rep., II, 537C: o verdadeiro dialético é o sinóptico, capaz de abarcar as coisas no conjunto. A mesma descrição do dialético aparece no Fedro, 265D. A síntese do diverso na unidade da idéia.”

O cotejo do emprego dos conceitos eidos e idea nos diálogos de Platão, para chegar a resultados concludentes, teria de abarcar também outras palavras e expressões usadas para descrever o uno no múltiplo”

Nenhuma das suas obras contém uma completa exposição da teoria das idéias, neste sentido, nem sequer na época em que a existência desta teoria se pode comprovar por meio de repetidas referências a ela.” “São poucas as passagens em que Platão entra no exame dos problemas mais espinhosos da teoria das idéias. Pelas informações pormenorizadas de Aristóteles sobre a chamada fase matemática da teoria das idéias, na qual Platão procura explicar as idéias com a ajuda dos números, verificamos com assombro que ele e os seus discípulos elaboraram na Academia uma doutrina de cuja existência os diálogos daquele período nem sequer nos permitem suspeitar”

Aliás, nem é certo que as primeiras obras de Platão não contivessem qualquer alusão à existência da teoria das idéias, pois já no Eutífron, que todos os autores classificam entre os diálogos da primeira fase, fala-se do objeto da investigação dialética como de uma idéia

CRITER, Neue Untersuchungen über Platon (Munique, 1910)

Os diálogos menores surgem assim como uma introdução ao problema central do pensamento platônico, nos seus dois aspectos: o intrínseco e o formal.”

O que se pode assegurar, sim, porque é evidente, é que a tendência histórico-evolutiva do séc. XIX liga pouco demais para as numerosas linhas de conexão que Platão traça entre umas e outras obras, e por meio das quais nos dá a entender que todas elas vão gradualmente cobrindo um grande problema de conjunto e formam uma grande unidade em que o primeiro passo só é plenamente explicado pelo último. (…) SHOREY, The Unity of Plato’s Thought (Chicago, 1904)

O repetido fracasso dos esforços empregados em descobrir a verdade e presenciados pelo leitor faz com que este compreenda pouco a pouco, com clareza cada vez maior, a dificuldade de chegar a um conhecimento real e adquira a consciência das premissas que até então admitia como evidentes e que constituem o fundamento da sua própria existência.”

A ETERNIZAÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA: “O poder educador de Sócrates (…) iria (…) conquistar o mundoPlatão como o proporcionador de uma grande maiêutica, de uma vida inteira, como se reproduzira então o “diálogo da vida”. Transmitindo para o futuro as sementes da oralidade original mas restrita no tempo de Sócrates. Neste escopo, Aristóteles devia julgar-se o “aluno perfeito”, que Sócrates e Platão sempre haviam procurado.

3.6 O Protágoras

Permitimo-nos, por razões de brevidade, conservar a tradução tradicional das palavras gregas arete e episteme por <virtude> e <saber>, respectivamente, apesar de serem ambas equívocas porque têm as conhecidas acepções concomitantes modernas, que as palavras gregas não possuíam. (…) não dar à palavra <saber> o sentido que tem presentemente a palavra <ciência>, em vez do significado espiritual dos valores, daquilo a que os gregos chamam phronesis

Protágoras, o diálogo, está envolto num esplendor de alegria juvenil, de engenho e finura espiritual, que não encontramos em nenhuma outra obra platônica.”

Um jovem discípulo e amigo de Sócrates, Hipócrates, desperta-o, alta madrugada, batendo com força a sua porta e rogando-lhe que o deixe entrar. É que ao regressar a Atenas, na noite do dia anterior, ouviu dizer que Protágoras se encontra na cidade; e tão grande acontecimento emociona-o. (…) E vem ter com Sócrates tão cedo, para lhe rogar que o apresente ao mestre. Como prelúdio do diálogo principal surge agora, no ambiente do pátio da casa onde os 2 personagens passeiam até despontar o dia, uma conversa de puro estilo socrático, na qual Sócrates tenta sondar a firmeza da decisão do jovem Hipócrates e fazer-lhe compreender a aventura em que se vai meter.”

Neste diálogo, Sócrates não é um ancião venerável como o sofista Protágoras, mas sim um homem na força da idade, o que contribui para acentuar a falta de respeito que inspira. Hipócrates vê nele apenas o conselheiro e o amigo encarregado de lhe facilitar o aceso a Protágoras. (…) se o jovem se quisesse tornar médico, diz-lhe, devia receber o ensino do mais importante dos médicos de seu tempo, o seu homônimo Hipócrates de Cós; se desejasse ser escultor, o de Policleto ou Fídias; portanto, ao dirigir-se a Protágoras para se fazer seu discípulo, parece disposto a abraçar a carreira de sofista. Hipócrates, porém, repele decididamente esta insinuação e é aqui que se acusa uma diferença essencial entre a educação sofística e o ensino dos profissionais: os discípulos particulares do sofista são os únicos que estudam a sua arte com o intuito de mais tarde a exercerem como profissão; os mancebos atenienses de famílias distintas que se juntam a sua volta não têm em vista outra finalidade que não a de o escutarem para <se cultivarem>. O que o jovem do diálogo não sabe dizer é em que consiste esta cultura (paideia), e fica-se com a sensação de que a sua atitude é típica da juventude do seu tempo, ansiosa por se cultivar.”

NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES! “Protágoras (…) considerado com realismo, assemelha-se, pois, como fenômeno social, ao mercador e vendedor ambulantes que oferecem ao comprador, por dinheiro, as mercadorias importadas.”

É claro que Sócrates não se apresenta, de modo nenhum, como um médico desse tipo; mas, uma vez que afirma que para a alimentação do corpo se devem consultar em caso de dúvida, na qualidade de peritos, o médico ou o mestre de ginástica, por si mesma desponta a interrogação de quem será o perito chamado a sentenciar sobre o alimento adequado à alma, quando isso for necessário.”

Preocupados com o problema da essência do verdadeiro educador, ambos os personagens se põem a caminho para a residência de Cálias, pois fez-se dia e têm de se apressar para visitar o sofista, assediado por visitantes de manhã à noite. O porteiro daquela casa rica já está em estado de irritação, sinal de que não são Hipócrates e Sócrates os primeiros a chegar.”

profiteri, donde é derivado o termo professor, empregado no Império Romano para designar o sofista dedicado ao ensino.”

Circus comes to town.

Saber é lucrar. Arquétipo: Agostinho.

Parece contraditório que Platão, por sua vez fundador de uma escola, manifeste-se tão violentamente contra o profissionalismo dos sofistas. A sua escola, porém, baseava-se no princípio socrático da amizade e pretendia continuar, através da sua dialética, a velha forma da educação por meio do trato pessoal.”

Acostumado a apoiar-se no prestígio educacional dos grandes poetas da Antiguidade, desde Homero até Simônides, e na herança da sua sabedoria, que os sofistas se esforçavam por transformar numa sabedoria escolar sensata e moralizadora, Protágoras inverte os papéis e vê os antecessores da sua arte naqueles heróis do espírito, que sob o manto da poesia queriam ocultar à desconfiada sociedade do seu tempo a sua (de todos e de cada um deles) qualidade de sofistas.”

Sócrates repara que Protágoras sente-se orgulhoso dos seus novos admiradores, e sugere que se convidem também Pródico e Hípias para a conferência, o que Protágoras acolhe com satisfação.”

Se um jovem entrasse para aluno de Zêuxis e este prometesse torná-lo melhor, todo mundo saberia em quê: na pintura. Se com o mesmo propósito acorresse a Ortágoras de Tebas, ninguém tampouco ignoraria que neste caso o progresso se referiria à sua instrução como tocador de flauta. Pois bem, em que campo progredirá para o melhor quem receber o ensino de Protágoras?” “À pergunta feita Protágoras não pode responder em nome de todos os que exibem o nome de sofistas, pois entre eles também não existe unanimidade de critério quanto a este ponto. P.ex., Hípias, ali presente é representante das <artes liberais>, sobretudo do que mais tarde se chamaria quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música. Estes ramos do ensino sofístico eram os que melhor podiam fazer jus à pergunta de Sócrates, pois apresentavam o desejado caráter técnico; mas na sua educação Protágoras dá preferência incondicional aos ramos sociais do saber. Entende que os jovens que passaram pelo habitual ensino de tipo elementar e agora aspiram a completá-lo por meio de uma cultura superior que os prepare, não para uma profissão determinada, mas para a carreira política, não desejam entregar-se a novos estudos técnicos determinados, porque é de outra coisa que necessitam, e é isto que ele lhes quer ensinar: a capacidade de se orientarem retamente a si próprios, de orientarem os outros sobre o melhor processo de administrarem a sua casa, e de dirigirem com êxito, em palavras e ações, os assuntos do Estado.”

Sócrates reconhece que esta é uma elevada finalidade, mas expõe as suas dúvidas acerca da possibilidade de estimular por meio do ensino esta virtude” “Os homens que mais se salientam pelas suas qualidades espirituais e morais não dispõem de meios para transmitirem aos outros as qualidades que os distinguem, a sua arete. Péricles, pai dos dois jovens aqui presentes, deu-lhes uma educação excelente em tudo aquilo para que existem professores, mas naquilo em que a sua própria grandeza se firma ele não os educa nem os entrega a outro para que os eduque, antes os deixa andar à solta, para <instruírem-se livremente>, como se a arete fosse por si própria pousar sobre eles.” O bom nobre à nobreza torna.

Recolhe, assim, sob forma filosófica, uma idéia fundamental da aristocracia, que Píndaro apresentara e que a pedagogia racionalista dos sofistas preferia deixar de parte, em vez de se deter para refutá-la. Parecia não conhecer limites o otimismo pedagógico dos sofistas; a sua vigorosa concepção intelectual do objetivo da educação contribuía para alentar este otimismo, que parecia, aliás, corresponder à tendência geral do tempo, sobretudo à evolução da maioria dos Estados para a democracia.”

É evidente que, ao procurar encontrar assim um processo moderno que substituísse, em bases racionais, a antiga e rigorosa educação dada à nobreza, Protágoras demonstrava um sentido muito arguto para captar as necessidades do presente e a mudança operada na situação; mas era precisamente neste ponto que melhor se revelava a falha da paideia sofística.”

A objeção de Sócrates tem tal caráter de objeção de princípio que obriga Protágoras, desde logo, a desviar a conversa do campo meramente técnico-didático para um plano espiritual superior. Nem todos os sofistas teriam sido capazes de seguir neste terreno o crítico da sua pedagogia, mas Protágoras era o homem indicado para isso. Nas intervenções em que responde a Sócrates detidamente, Platão apresenta-nos com mão de mestre um adversário nada desprezível. Teria sido um mau representante da época pedagógica se não tivesse tomado posição diante daquele problema fundamental de toda a educação ou não estivesse em condições de lutar por ela. A dúvida suscitada sobre a possibilidade de educar o homem partia de experiências individuais contra as quais não havia nada a alegar. É por isso que Protágoras desloca habilmente o ponto de partida e examina o problema sob o ponto de vista dos seus novos conhecimentos sociológicos” “sem aceitar como premissa a possibilidade de educar a natureza humana, todas estas instituições, que de fato existiam, perderiam o sentido e a razão de ser.”

Esta vasta exposição de princípios permite a Platão fazer com que o grande sofista – que é ao mesmo tempo um mestre da forma – brilhe em todas as modalidades da retórica. Sócrates confessa-se arrebatado e vencido” “A força de Sócrates não está na graça com que narra mitos ou faz longas exposições doutrinais, mas antes na tensão dialética das suas perguntas certeiras, às quais é forçoso retorquir. Esta arte dialética de Sócrates revela-se triunfalmente na tentativa seguinte de atrair o adversário ao seu próprio terreno.”

não é à luz de uma virtude concreta que Sócrates aponta aqui as relações entre a parte e o todo, mas sim por meio da comparação integral de todas as virtudes entre si, com o que se propõe demonstrar a unidade delas. Que ele, ao fazer isto, proceda, em certos aspectos concretos, de modo mais sumário que nos diálogos menores, não obedece apenas à circunstância de o seu propósito de estabelecer uma comparação completa obrigá-lo precisamente a percorrer um caminho mais longo, e a encurtar, portanto, as etapas; é importante ver também que uma minúcia maior o faria incorrer em repetições, já por si inevitáveis, aliás.”

Sócrates procura arrancar ao seu interlocutor a concessão de que a justiça e a piedade são essencialmente a mesma coisa ou, pelo menos, coisas muito semelhantes e afins, o que Protágoras aceita, embora contra [a] vontade. Sócrates pretende aduzir a mesma prova a respeito das outras parelhas de virtudes mencionadas, deixando para o fim a valentia, por esta ser de todas as virtudes a que mais se diferencia psicologicamente das outras.”

A crescente indisposição de Protágoras obriga Sócrates a interromper aqui a conversa, antes de ser ter atingido o seu objetivo” “Protágoras (…) se aproveita para desviar a conversa sobre a virtude e a possibilidade de ensiná-la para outro terreno, o da explicação poética, uma das formas essenciais da paideia sofística.”

ele tira dos versos de Simônides um sentido congruente com a sua conhecida tese de que nenhum homem pratica voluntariamente o mal.” Diante do fascismo, é mera questão semântica de somenos importância: que em sua cabeça o fascista esteja fazendo o bem, tanto faz. Deve ser execrado e neutralizado da mesma forma que se a tese contrária fosse prevalente (a de que o malvado têm ciência da própria maldade e liberdade de escolha).

Sócrates interroga a multidão em profundidade, para averiguar a razão por que considera neste caso que o prazer procurado é nocivo, em última instância. E obriga-a a reconhecer que não sabe dar outra razão a não ser que o prazer desfrutado acarreta como conseqüência um mal maior. Por outras palavras: a meta final (TELOS), em relação à qual a multidão reconhece diferenças de valor entre umas e outras sensações de prazer, é, por sua vez, o prazer e só o prazer. É nesta passagem que o conceito fundamental da finalidade aparece pela primeira vez em Platão.” “Pelo fato de isso ser certo é que o <deixar-se arrastar pelo prazer>, que a multidão invoca como motivo, significa apenas que se cometeu um erro de cálculo escolhendo o prazer menor em vez do maior, pela simples razão de ser o que estava mais perto no momento da opção.”

Investigaremos em outra ocasião, continua Sócrates, qual é esta arte da medida e em que consiste a sua essência; mas o que desde já podemos assegurar é que são um saber e um conhecimento tais que nos podem fornecer a pauta para a nossa conduta, bastando para isso demonstrar o ponto de vista defendido por Protágoras e por mim (Prot., 357). O conceito da medida e da arte de medir (metretike), que se emprega aqui repetidamente e com grande insistência, tem uma importância fundamental para a concepção platônica da paideia e do saber. Aqui aparece primeiramente como simples postulado e, além disso, aplicado para determinar o bem supremo, o qual não pode ser concebido, de modo nenhum, em sentido socrático.”

Sócrates sublinha expressamente a sua concordância com a tese de que o bom é o agradável e de que isto é, portanto, o critério da vontade e da conduta do Homem. O próprio Protágoras, animado pelo consenso geral, também adere agora, tacitamente, à tese que antes via com certo receio (Qui tacet, consentire videtur [Quem cala consente]). Deste modo, todas as sumidades em educação ali agrupadas sob o mesmo teto acabam por se harmonizar, unânimes, ao nível dos polloi, de que Sócrates partira. Sócrates tem-nos todos presos na armadilha.”

Com isto, Sócrates obriga os sofistas a aceitarem o seu conhecido paradoxo de que ninguém <procede mal> voluntariamente (…) Partindo dessa concepção é fácil, para ele, resolver o problema, não resolvido ainda, das relações entre a valentia e o saber, acrescentando assim o último elo que faltava a sua cadeia demonstrativa da unidade da virtude, ainda incompleta.”

Pois bem, se definimos o medo como o pressentimento de um mal, a conseqüência será que Protágoras, ao conceber a valentia como o não-retroceder perante aquilo sobre que incide o temor, incorre em contradição com a tese que todos acabam de assinar, e que afirma que ninguém avança conscientemente para o que considera um mal.” “Chegamos assim à conclusão de que a valentia é essencialmente o mesmo que sabedoria: o conhecimento do que na realidade se deve ou não temer.”

Sócrates, que não achava a virtude suscetível de ser ensinada, agora busca provar por todos os meios que a virtude é, sob todas as formas, um saber; e Protágoras, que a considerava matéria apta para ensino, faz, ao contrário, grandes esforços para demonstrar que ela é tudo menos um saber (…) O drama finda com o espanto mostrado por Sócrates em face deste resultado aparentemente contraditório”

Suspeitamos de que Sócrates, dada a descontração com que se manifesta no Protágoras, troça de todos os sofistas e de nós mesmos. E por fim exigimos que nos fale a sério de um problema de tanta seriedade. É isto que ele faz no Górgias, que é, sob muitos pontos de vista, o perfeito irmão gêmeo do Protágoras e o indispensável complemento sério do humor travesso vazado neste.” Velhos não podem sorrir (obra mais tardia de Platão)

3.7 O Górgias

O ponto de vista extremo nesta questão é o aplicado por WILAMOWITZ, no seu Platon t. I, aos diferentes diálogos. Uma obra como o Fedro, p.ex., onde se investigam as relações entre a retórica e a dialética, é exposta por esta autor sob o lírico título de <Um venturoso dia de Verão>. Não se pode passar por alto da relação entre o ponto de vista de Wilamowitz e o livro de Dilthey intitulado Vida e poesia. A fórmula <vida e poesia>, tirada da lírica moderna, não serve para interpretar os diálogos de Platão.”

a seriedade do Górgias não se deve exatamente ao fato de nele se refletir um estado de ânimo momentaneamente ensombrado, e a proximidade temporal da morte de Sócrates não é necessária para explicar o pathos grandioso que esta obra respira, como não o é para explicar o fúnebre dramatismo do Fédon, que os mesmos intérpretes situam, no tempo, muito longe da morte de Sócrates e bem perto do jovial Banquete.”

Górgias de Leontinos, criador da retórica, na forma em que ela havia de pautar os últimos decênios do séc. V, é para Platão a personificação desta arte, tal como Protágoras é da sofística no diálogo que tem o seu nome.” Existe sofística sem retórica e retórica sem sofística?

UMA RETÓRICA AINDA ÉTICA: “a sofística, que é um fenômeno meramente pedagógico (…) Rhetor continua ainda na época clássica a ser o nome para designar o estadista, que num regime democrático precisa sobretudo ser orador. A retórica de Górgias propõe-se formar retóricos neste sentido da palavra.”

Górgias cita até casos em que a palavra do retórico convenceu um enfermo da necessidade de tomar um remédio ou de se submeter a uma operação, depois de o médico competente ter fracassado nesse intento.”

É a sua arte que aponta para todo tipo ao qual deverão submeter o seu saber. Não foram os arquitetos e engenheiros navais, cujo saber Sócrates enaltece como modelo, quem levantou as fortificações e os portos de Atenas, mas sim Temístocles e Péricles, que, apoiados no poder da retórica, convenceram o povo da necessidade de realizar estas obras.” “Se um atleta usar a sua força para estrangular pai e mãe, não haverá motivo para disso tornar responsável o seu mestre, pois este lhe transmitiu a sua arte, para que fizesse bom uso dela.” “Quando Górgias afirma que o retórico transmite aos seus discípulos a sua arte para que eles façam <bom uso> dela, parece pressupor que o mestre nesta arte sabe o que é bom e justo e que os seus discípulos já albergam neles, ou recebem do mestre, um saber igual.”

A descrição deste antagonismo entre o sentimento de poder, ainda meio envergonhado e tingido de moral, da velha geração inventora da retórica e o consciente e cínico amoralismo da nova geração revela a grande arte de Platão para desenvolver dialeticamente, por meio de uma gradação de cambiantes, um tipo espiritual, em todas as suas formas características. (…) três formas fundamentais (…) o aparecimento de cada tipo novo recrudesce a luta (…) Às figuras de Górgias e do seu discípulo Polo vem juntar-se mais tarde, como terceiro e mais coerente representante do <homem retórico>, o estadista Cálicles, que proclama abertamente o direito do mais forte como moral suprema.”

FALAR É CRIAR PODER: “A crítica da segunda parte do Górgias parte da tese que afirma ser a retórica uma techne. O nosso conceito de arte não reflete adequadamente o sentido da palavra grega. Esta tem em comum com a arte a tendência à aplicação e ao aspecto prático. Por outro lado, em oposição à tendência individual criadora não submetida a nenhuma regra (para muitos implícita hoje na palavra arte), acentua o fator concreto do saber e da aptidão, que para nós estão ligados ao conceito de especialidade. [um anti-saber platônico]” “Designa toda profissão prática baseada em determinados conhecimentos especializados e, portanto, não só a pintura, a escultura, a arquitetura e a música, mas também, e talvez com maior razão ainda, a medicina, a estratégia militar ou a arte da navegação.” “neste sentido, o grego techne corresponde freqüentemente, na terminologia filosófica de Platão e Aristóteles, à moderna palavra teoria (…) Techne, por sua vez, distingue-se, como teoria, da <teoria> no sentido platônico de <ciência pura>, já que aquela teoria (a techne) é sempre concebida em função de uma prática.”

Conforme os contextos, pode acontecer em Platão a palavra episteme em vez da palavra techne, quando lhe interessa destacar o fato de esta <arte> política ter como base um verdadeiro <saber>.”

Sócrates (…) divide a lisonja em 4 classes: a sofística, a retórica, a <arte> da perfumaria e a <arte> culinária.” Paladar, olfato, tato (social!)… só faltaram a <arte> de ler ou contemplar esculturas e a <arte> de ouvir música.

A vida do Homem divide-se em vida da alma e vida do corpo, e ambas requerem uma arte especial para velar por elas. Os cuidados da alma incumbem à política ou arte do Estado (e esta correlação, surpreendente para nós, lança uma luz esplendorosa sobre o objetivo final de Platão, ou seja, a arte do Estado, e sobre o sentido completamente novo que ele dá a este conceito) [uma sociedade em que a psicologia se tornou um ramo epistemológico é uma sociedade falida, a necrose da política]; a arte destinada a velar pelo corpo carece de nome especial. E ambas as artes – a que consiste em velar pela alma e a que versa sobre os cuidados do corpo – subdividem-se por sua vez em duas espécies, das quais uma corresponde à alma sã ou ao corpo são e a outra vela pelo corpo ou alma enfermos. O ramo da política chamado a velar pela alma sã é a legislação, enquanto a alma enferma reclama os cuidados da administração prática da justiça. Dos cuidados do corpo sadio se encarrega a ginástica; os do corpo doente são matéria da Medicina. As 4 artes encaminham-se para a consecução do melhor (…) Como variantes da lisonja, correspondem-lhes 4 imagens ilusórias: à legislação, a sofística; à justiça, a retórica; à ginástica, a <arte> da perfumaria; e à Medicina, a <arte> culinária. [!] Estas já não visam à consecução do melhor no Homem, mas aspiram somente a lhe agradar. Para isso, agem à base da mera experiência e não, como as verdadeiras artes, sobre o fundamento de um princípio firme e do conhecimento”

As características essenciais do conceito de techne são: primeira, é um saber baseado no conhecimento da verdadeira natureza do seu objeto; segunda, é capaz de dar conta das suas atividades sempre que tem consciência das razões

O modelo que Platão apresenta nesta análise da essência de uma verdadeira techne é a Medicina. (…) A <arte política>, que é a meta da filosofia e da cultura novas que se procuram fundar, é concebida como uma medicina da alma.”

Tal como no Protágoras, Platão pretende aqui demonstrar que os sofistas e retóricos, embora tenham aperfeiçoado até o requinte os meios técnicos de cultura e de influência sobre os homens, continuam a dar guarida às idéias mais primitivas (…) Platão opõe um novo humanismo ao humanismo dos sofistas e retóricos.”

Polo (…) não consegue compreender como Sócrates pode não julgar apetecível o poder do tirano. E resta-lhe ainda o último trunfo, que ele joga, ao perguntar se porventura não se deve julgar ditoso o rei dos persas. E, como Sócrates responde: Não sei, pois ignoro qual é a sua paideia e a sua justiça, [sua formação e adestramento, sua criação e seu autofreio] Polo, sem se poder conter, atira-lhe esta pergunta surpreendente: Como? É nisso que se baseia toda a felicidade?

Temos de optar entre a filosofia do poder e a filosofia da educação.”

Rep., 444C-E. A arete é a saúde da alma; é portanto, o estado normal, a verdadeira natureza do Homem.”

Sempre se suspeitou que por trás de Cálicles se ocultava uma certa personagem histórica da alta sociedade ateniense daquele tempo. Essa hipótese é muito verossímil e tem até certa probabilidade psicológica. (…) É, sem dúvida, uma figura tão histórica como Anito, inimigo de Sócrates e adversário dos sofistas, que aparece no Mênon; no caso, é indiferente que Cálicles fosse o nome real do personagem ou simplesmente um pseudônimo.”

Cálicles é o 1º dos defensores da retórica que ao ataque moral de Sócrates contra ela opõe um pathos de verdade própria. Reata desse modo a discussão sobre a retórica, encarada como instrumento da vontade de poder, discussão que Sócrates, com a inversão dialética do conceito de poder, fizera derivar, em seu favor, para o ético.”

No conceito de Cálicles, poder defender-se a si próprio constitui o critério do verdadeiro homem e uma espécie de justificação ética da tendência ao poder, como se o Estado primitivo se prolongasse até o presente. Quem não puder defender-se quando sofrer uma injustiça, mais lhe valerá morrer. Cf. Górg., 483B.” “As leis, a massa é quem faz, quer dizer, os fracos, que são os que concedem louvores e censuras segundo o padrão das suas conveniências.”

quando entra em cena um homem verdadeiramente forte, pisa em todo aquele amontoado de letras que são as nossas leis e instituições contrárias à natureza, e imediatamente volta a brilhar a chama do direito natural.” No caso de ser um homem verdadeiramente fraco, ídolo e ícone dos lumpen, chegou-se à desintegração máxima. É o direito natural não de uma casta legisladora na verdadeira acepção da palavra, mas o direito natural das bestas-feras.

Cálicles vê na educação apenas adestramento orientado no sentido de extraviar e iludir sistematicamente as naturezas fortes e a manter de pé o poder dos fracos. [Suma do Capital: pedagogia moderna] A formação começa na infância, como com os animais selvagens que se quer domesticar.” “Na concepção da lei como uma prisão contrária à natureza, Cálicles coincide com o sofista Antifonte e com a sua teoria do nomos e da physis.”

como cairá no ridículo sempre que pretender agir como pessoa privada ou pública, cada vez irá refugiando-se mais nos seus estudos, pois só neles se sentirá seguro. De tudo isto se depreende que, para fins de formação de paideia, é conveniente não se dedicar à filosofia senão durante certo tempo, pois, se o prazo deste estudo se prolonga, uma pessoa liberal torna-se servil, num estudo que agrilhoa o espírito e rouba totalmente a garra ao Homem. Esta maneira de encarar a paideia como uma simples fase da formação, para a qual se requerem só uns tantos anos, manifesta um perfeito antagonismo em relação ao elevado conceito de Platão, para quem ela abarca toda a vida do Homem.”

De que lhe adiantaria – diz – a sua filosofia da resignação perante a injustiça, se um belo dia o sepultassem na prisão e o acusassem injustamente de qualquer delito? Poderia acontecer que o acusassem de crime de morte, sem que ele <pudesse defender-se>. Podia acontecer que o esbofeteassem e que o autor da injúria se retirasse impune. A alusão à morte de Sócrates realça a força das palavras do cru realista aos olhos do leitor desta cena, que se supõe ocorrida muito tempo antes da condenação de Sócrates à morte.¹

Sócrates está satisfeito por ter enfim encontrado um adversário que diz abertamente o que pensa. Se conseguir fazê-lo incorrer também em contradição, já ninguém poderá objetar que Cálicles não exprimiu a sua verdadeira opinião, como Górgias e Polo.”

¹ Ao leitor cristão é inevitável também a associação com Cristo: sua altíssima e exigente moral demanda que a bofetada não seja paga nem defendida. Ninguém é digno de seguir esta elevada moral. Não há, no caso de Cristo, sentimento interno de injúria, nem ressentimento pela impunidade daquele que esbofeteia. Desde a bofetada já há uma corrupção: o não-nobre não está no lugar de esbofetear o nobre. Sequer passa pela sua cabeça – não se trata de sanção judicial ao ato vil. Isso, claro, numa República. Está errado bater como também está errado apanhar. É como a situação da mendicância na contemporaneidade: o princípio do justo caminho já foi perdido. Diante deste quadro, e somente deste quadro, tudo é permitido, nobres e vilões estão em equanimidade. Era do chorume.

Os modernos intérpretes de Platão fizeram muitas vezes da contradição entre esta maneira de definir o telos e a definição hedonística que dele se dá no Protágoras o ponto de partida para toda a sua concepção da evolução platônica, dando por certo que, até o Górgias, Platão não se elevou à altura moral do Fédon, com cuja tendência ao ascetismo e à positiva valoração ética da <morte> aquele coincide também.”

basta substituir, como norma, o prazer pelo bem, que é considerada a mais exata de todas as medidas por Platão, no Filebo, e por Aristóteles no Político, obra de juventude ainda acentuadamente platonizante.” O Político aristotélico não deve ser confundido com a sua Política, muito menos com o Político platônico.

E, como inequivocamente o Górgias nos ensina, a arete é aquilo cuja parousia faz os bons serem bons: quer dizer, é a Idéia, o protótipo de tudo o que é bom.”

Se o prazer e o desprazer não podem servir de norma à nossa conduta, a retórica tem de abandonar o posto diretivo que os seus representantes lhe atribuíam nos mais importantes assuntos da vida do Homem” “A escolha acertada do agradável e do desagradável, que só tenha a preocupação de saber se é bom ou mau: eis a missão decisiva da vida humana. Isto, porém, como o próprio Cálicles concede laconicamente a Sócrates, não incumbe a qualquer um.”

É agora que ganha significado pleno a interrogação de Sócrates sobre o caráter da retórica como saber, com que o Górgias principia. (…) dois tipos de vida (bioi) diferentes. Um baseia-se nas artes da lisonja, que na realidade não são artes, mas simples imagens enganosas delas. Atentando para a modalidade principal deste gênero, nós a chamamos de ideal retórico da vida.” “Em face dele aparece o tipo de vida filosófico. (…) trata-se, portanto, de uma verdadeira techne no pleno sentido da palavra (…) Esta terapêutica não existe só para o indivíduo, mas também para a coletividade. Por conseguinte, também a lisonja pode incidir sobre o indivíduo e sobre a massa. Platão aduz como exemplos da 2ª vários gêneros de poesia e de música, a música de flauta, a poesia coral e ditirâmbica e a tragédia. Todos eles visam exclusivamente [a]o prazer e, se neles descontarmos o ritmo, o metro e a melodia, ficará só a pura demegoria e a eloqüência pública (para a atitude negativa de Platão contribui, pois, a degeneração virtuosista da arte, na sua época). Esta concepção da poesia como parte da eloqüência, que mais tarde, adiantada já a Antiguidade, se generalizaria, aparece aqui pela 1ª vez, e tem em Platão um sentido francamente pejorativo.” “A análise da poesia segue a mesma linha que a da sofística e a da retórica, no Protágoras e no Górgias (…) O demos perante o qual o poeta aparece como retórico não é somente a parte masculina da cidade, mas uma massa mista de crianças, mulheres e homens, de livres e de escravos. No entanto, a retórica de primeiro plano, a que se dirige aos homens da cidade, ou seja, a retórica política, também não é melhor que o gênero por nós denominado poesia”

Se a grandeza de um estadista consiste realmente em satisfazer os seus próprios apetites e os da massa, então é indubitável que tais políticos merecem a fama que a História lhes confere. Porém, se a missão do estadista é infundir às suas obras determinada forma, um eidos tão perfeito quanto possível, para em seguida se orientar por ele, como fazem o pintor, o arquiteto, o construtor naval e todo e qualquer técnico, ordenando de modo lógico as partes do todo para que se ajustem bem, então chegaremos à conclusão de que aqueles estadistas não passaram de uns incompetentes. Assim como toda a produção de arte tem a sua forma e a sua ordem, de cuja realização depende a sua perfeição, e assim como o corpo humano tem o seu próprio cosmos, que chamamos de saúde, também na alma existe um cosmos e uma ordem.”

É certo que antes de Platão a língua grega não usa o termo cosmos neste sentido de ordem legal interior da alma; conhece, porém, o adjetivo kosmios, para exprimir uma conduta refletida e disciplinada. Também a lei de Sólon falava da eukosmia da conduta pública dos cidadãos e principalmente da juventude.”

devendo recordar-se que, no grego, a palavra <bom> não tem apenas o estrito sentido <ético> que hoje se dá a ela, mas é o adjetivo correspondente ao substantivo arete, e portanto designa toda a classe de virtude ou excelência.” “quando a língua grega designa o bem-estar com a expressão <fazer bem>, esta expressão encerra, para Platão, uma sabedoria mais profunda que a advertida por aqueles que a empregam: (…) <fazer bem> assenta pura e exclusivamente no <agir bem>.”

O que entre os deuses e os homens tem vigor não é a pleonexia, a ambição por mais; é a proporção geométrica. Mas de geometria nada entende Cálicles.”

Se se tratasse de se proteger contra as injustiças sofridas, não haveria outro caminho senão o de submeter-se incondicionalmente ao sistema político vigente na sua época. Quando um tirano furioso e desprovido de paideia domina o Estado, não tem outro remédio senão temer todo aquele que esteja espiritualmente acima dele. Jamais se poderá, pois, tornar seu amigo, e desprezará, ao mesmo tempo, os que forem piores do que ele. Por conseguinte, o tirano não poderá ter por amigos senão os que lhe sejam semelhantes, os que louvem e censurem o mesmo que ele louva e censura, e estejam, além disso, dispostos a se deixarem dominar por ele.”

Ambos aparecem colocados diante do mesmo problema: o de como se devem comportar para com o <tirano> do seu Estado – o demos ateniense – que exige sejam (sic) incondicionalmente respeitados os seus desejos. Sócrates mostrou que não ignora as conseqüências que a sua franqueza lhe pode acarretar e que está disposto a afrontá-las pelo bem da pátria. É Sócrates, o representante da virtude, quem é o herói. Cálicles, o defensor da moral do senhor, do direito do mais forte, é na realidade o homem fraco, que se adapta exteriormente para dominar, mediante a hábil flexibilidade do homem de palavras.”

Cálicles e Sócrates aparecem agora como a mais perfeita encarnação destes dois tipos de homem: o adulador e o lutador.”

É Platão quem, seguindo correntemente o hábito socrático da indagação dialética, introduz o conceito de exame na educação superior. Na República edifica totalmente sobre esta base a cultura do governante. Trata-se de um conceito tirado das technai dos especialistas: do médico, do arquiteto, etc., como o próprio Platão nos dá a entender pelos exemplos.”

Pelo que os seus críticos dizem dele, Péricles tornou os atenienses ociosos, covardes, tagarelas e ambiciosos, quando introduziu o pagamento de gratificações. Recebeu-os relativamente sossegados das mãos dos seus predecessores para convertê-los num povo revoltado, como a sua própria sorte o prova. Címon e Temístocles foram por esse povo enviados para o exílio, e Milcíades esteve para ser lançado no Hades.”

PRINCÍPIO DA ARETE DO S-H: “Ainda não existiu um estadista no sentido socrático da palavra. Os estadistas famosos de Atenas foram meros servidores do Estado, em vez de serem educadores do povo. Converteram-se no instrumento das fraquezas da natureza humana, que procuraram explorar, em vez de as superarem por meio da persuasão e da coação.”

Ninguém fale, porém, de ingratidão do povo que derrubar e expulsar os seus governantes. É o velho subterfúgio dos sofistas que têm a pretensão de educar os homens na virtude e se queixam de ingratidão quando os discípulos se portam mal para com eles e se recusam a pagar-lhes os honorários. Entre o sofista e o retórico não há diferença essencial, a não ser que por ela entendamos ser o retórico, que com tão grande desdém olha o sofista, muito inferior a ele na realidade, exatamente como o juiz o é em relação ao legislador e o médico em relação ao ginasta. Quando o retórico ou o sofista acusam quem dizem ter <educado>, é a si próprios e a sua educação que na realidade acusam.”

A opção pré-existencial da sorte da vida no além, que Platão pinta no final da República (617B-620D), serve de fundo metafísico a esta opção terrestre. A passagem do Górgias é, por sua vez, o desenvolvimento do tema da Apologia (29D) em que Sócrates opta também, ante o perigo iminente que ameaça a sua vida, pela conservação do seu bios filosófico.”

creio que somos pouquíssimos os atenienses (para não dizer que sou eu só) que nos esforçamos por praticar a verdadeira arte do Estado; talvez seja eu o único a defender a causa do Estado entre os homens deste tempo.”

É no Górgias que Platão abandona pela 1ª vez a simples atitude de exame e investigação predominante nos diálogos anteriores; apresenta ali o filósofo, na época em que esta investigação, de aparência meramente intelectual, e à qual ele atribui um tão alto valor para uma conduta reta, desvenda toda a sua profundidade, e em que o jogo, que ele veio seguindo de modo tão inexplicavelmente apaixonado, se transforma em luta contra o mundo inteiro, luta que exige o sacrifício da própria vida. Nos primeiros diálogos de Platão, a partir do Críton, soam de preferência os arpejos claros e alegres desta música filosófica, os quais atraem todos os amantes das musas. Mas quem não treme quando de repente ouve ressoar no Górgias as vozes profundas e brônzeas da sinfonia socrática e por trás daquela perfeita alegria capta o motivo da resignação diante da morte? Pela 1ª vez desde a Apologia aparecem aqui fundidas num todo a vida e a doutrina de Sócrates. Por entre a aparente indecisão lógica dos diálogos de Sócrates resplandece aqui a resolução incondicional da existência socrática, certa da sua meta final, uma existência, portanto, que já de algum modo deve possuir aquele saber tão ardentemente desejado e que exclui qualquer possibilidade de uma opção errônea da vontade.”

Platão expõe-no com a certeza – adquirida na unidade da palavra e da realidade na pessoa do seu mestre – de isto ser pura e simplesmente o autêntico Ser. O Górgias desvenda ao nosso olhar uma nova valoração da vida.”

Não é fácil considerar o Sócrates histórico o autor destas livres adaptações literárias dos mitos religiosos, mesmo que de vez em quando neles prendesse a atenção. Mas também não se pode aceitar, por corresponder a uma concepção excessivamente tosca da verdade espiritual, a hipótese tão difundida de que foi nas suas viagens ou de outro modo qualquer que Platão assimilou a influência dos mistérios órficos ou outros mitos parecidos, e os combinou, na sua concepção, com a ética socrática. [talvez se refira principalmente a Nietzsche? Pouco provável, haja vista a nota de rodapé a seguir.] Os mitos platônicos sobre o destino da alma no além-morte não são produtos dogmáticos de nenhum sincretismo histórico-religioso.(*) Interpretá-los assim seria menosprezar completamente a capacidade poética criadora de Platão, que neles atinge um dos seus pontos culminantes.

(*) Neste erro incorre a maioria dos investigadores que abordam o elemento órfico de Platão, movidos pelo interesse do historiador das religiões. O que vai mais longe neste sentido é Macchioro, que faz derivar do orfismo a maior parte da filosofia de Platão.”

Há 3 mundos e 4 reinos aquáticos no mais inferior deles (Fédon), mas quem liga, se somos apenas homens da segunda caverna que irão parar no Hades ou não? Nossa integridade ética ou a falta dela não se alterarão por causa disso.

SOBRE O VALOR DOS VALORES DE UM PONTO DE VISTA EXTRA-MORAL: “Sem um tal ponto de apoio num mundo invisível, a existência do homem que vive e pensa como Sócrates perderia o equilíbrio, pelo menos se for vista pelos olhos de seres limitados ao mundo dos sentidos. A verdade da valoração socrática da vida só se podia compreender se referida a um <além>, tal como o descrevia a linguagem vigorosa e sensível das representações órficas da vida post-mortem: uma morada onde se podia emitir um juízo definitivo sobre o valor e o desvalor, a felicidade e a ruína do Homem, onde a <própria alma> era julgada pela <própria alma>, sem o invólucro protetor e enganoso da beleza, da posição social, da riqueza e do poder. Este <juízo>, que a imaginação religiosa transpõe para uma 2ª vida, situada para além da morte, torna-se para Platão uma verdade superior, quando procura desenvolver até o fim o conceito socrático da personalidade humana como um valor puramente interior, baseado em si próprio.”

as injustiças passadas perduram na alma e formam a essência dela.”

As incuráveis – na maioria almas de tiranos e homens de poder, que já não é possível salvar com nenhuma terapêutica – são erigidas em exemplos eternos, paradeigmata,¹ para benefício das outras.”

¹ Paradigma e também arquétipo, norma.

Platão põe agora na pessoa do seu mestre a sua própria convicção apaixonada de ser Sócrates o verdadeiro educador de que o Estado precisa, e faz com que Sócrates, cheio de um sentimento da própria personalidade e com um pathos nada socrático, mas inteiramente platônico, denomine-se, baseado na sua pedagogia, o único estadista do seu tempo.”

Enquanto na Apologia este conflito podia ainda aparecer aos olhos de certos leitores como uma catástrofe isolada, o Górgias põe a descoberto que o pensamento de Platão gira sem cessar em torno daquele conflito.” “A Carta Sétima esclarece com precisão a perene importância filosófica que esta experiência vivida tem para Platão, e o faz com tal brilho que a obra e o testemunho pessoal se completam do modo mais perfeito.”

A crítica do Górgias dirige-se de maneira tão exclusiva contra os estadistas atenienses do presente e do passado, que há a aparência de que a vontade reformadora de Platão admitiria ainda a possibilidade de uma transformação política na sua própria pátria. No entanto, a Carta Sétima prova que já naquela época Platão não admitia tal possibilidade. Como é que o espírito socrático podia penetrar num Estado refratário até a medula, como o ateniense? Por trás do Górgias ergue-se já a idéia do Estado dos filósofos. A crítica demolidora do Estado histórico, contida nesta obra, não tende para a revolução violenta nem é a explosão de um fatalismo sombrio, de um estado de espírito calamitoso, o qual teria sido compreensível depois da bancarrota interna e externa de Atenas, subseqüente à guerra do Peloponeso.” O que é então? Um ligeiro escapismo que duraria 3 mil anos.

Para a maneira moderna de sentir confundem-se aqui duas missões distintas que, pelo menos até há pouco, era costume separarmos com rigor. A nossa política é política realista, a nossa ética individual, idealista.” “Foi no tempo de Sócrates que esta unidade sofreu o primeiro abalo sério. As razões do Estado e o sentimento moral dos indivíduos começaram a divorciar-se cada vez mais abertamente, à medida que se embrutecia a vida política e se tornava independente e mais afinado o sentimento moral dos melhores indivíduos. Esta ruptura da 1ª harmonia entre a virtude humana e a virtude cívica (…) constitui a premissa histórica do pensamento platônico sobre a filosofia do Estado. Era agora revelado que o poder do Estado de submeter os espíritos ao seu império – poder evidente na antiga cidade-Estado – tinha o seu reverso perigoso. Com o tempo, forçosamente levaria os indivíduos de cultura superior a enveredarem por atalhos e a afastarem-se do Estado ou a aplicarem-lhe a sua norma ética ideal, gerando desse modo um conflito insolúvel entre o seu modo de ver e o Estado real.”

A Idéia de Ser do Filho de Deus não é animada, mas um quadro na parede.

segundo o modo de ver de Platão, o Estado não pode ficar para trás em face desta evolução moral e tem de encetar o caminho de se converter em educador e médico de almas ou então resignar-se, caso não queira assumir esta missão, a ser considerado um organismo degenerado e indigno da sua autoridade.”

Longe de se opor ao saber profissional, é deste que ele tira o seu ideal.” “É precisamente ao chegar ao ponto da evolução em que esperamos deparar com o moderno conceito de consciência pessoal e de livre decisão moral do indivíduo que nós vemos este conceito ser de novo eliminado e em seu lugar instaurada uma verdade filosófica objetiva que reivindica para si o direito de dominar toda a vida da comunidade humana e, portanto, do indivíduo.”

Aquela brincadeira de infância: o último a chegar é a mulher do tirano.

3.8 O Mênon

No Protágoras, Sócrates procurara ganhar os sofistas para a sua causa. Mas quanto mais tentava aprofundar a sua tese de que a virtude só podia ser, em última instância, um saber, afastando-se assim da sua primitiva negação da possibilidade de a virtude ser ensinada, mais Protágoras resistia a aceitar que a sua pretensão de passar por mestre da virtude só podia ser salvaguardada mediante a aceitação do axioma socrático de que a virtude é um saber.”

uma vez estabelecida a equivalência entre a virtude e o saber e esclarecida a importância deste saber-virtude para toda a educação, tornava-se urgentemente necessária uma investigação especial do problema do que era o saber assim concebido. Pois bem, o Mênon é o primeiro diálogo em que se aborda esta investigação. Esta é, aliás, a obra mais chegada no tempo ao grupo de diálogos que anteriormente comentamos, e constitui, portanto, a resposta mais imediata de Platão ao problema colocado no Protágoras: que espécie de saber é aquele que Sócrates considera fundamental para a arete?” “Em nenhum momento poderia haver um programa da sua escola que limitasse a filosofia ao problema do saber, principalmente se esta palavra se concebe com a generalidade abstrata da moderna teoria do conhecimento e da lógica moderna.”

Segundo Platão, é em começar por inquirir primeiro o que é a arete em si, antes de se aventurar a dizer como se entra na posse dela, que se baseia a nova formulação do problema por Sócrates. Quando Sócrates condiciona a aquisição da arete à solução do problema da sua essência, ou seja, a um difícil e complexo processo intelectual, isto significa que a arete passou a ser algo problemático para ele e para a sua época.”

Mênon aprendeu com Górgias, seu mestre, a distinguir a virtude do homem e a da mulher, a do adulto e a da criança, a do homem livre e a do escravo.”

Este algo, a partir de cujo ponto de vista as virtudes não aparecem múltiplas e distintas, mas, ao contrário, são todas uma e a mesma virtude, é o que Platão denomina eidos. (…) A locução <olhando para> aparece com freqüência na pena de Platão e exprime plasticamente a essência do que ele entende por eidos ou idea.” O Ser grego é acessível através da visão, e não da reflexão cartesiana da representação. O olho reflete a luz (as cores, a forma) assim como na era moderna a ‘mente’ reflete a própria ‘idéia’ (o próprio olho refletindo a forma)!

o eidos platônico se elabora de maneira absolutamente concreta, com base no problema da virtude (arete). Se queremos saber o que é a saúde, não vamos averiguar se ela se manifesta de modo diverso no homem, na mulher, etc., mas procuramos, sim, captar o eidos, sempre e em todas as partes idêntico, da saúde.”

Precisamente, o eidos do bem ou da arete, do qual Platão fala, não é outra coisa senão esta concepção do bem <em totalidade>. O característico disso é que este bem <em totalidade> é ao mesmo tempo designado por Platão como o verdadeiro real e existente, o que repugna a uma equiparação com o nosso <conceito> lógico, com o universal. No Mênon, tal como nos diálogos anteriores, não deparamos nunca com uma verdadeira definição da arete, e é evidente, aliás, que semelhante definição não tem de momento nada que ver com o problema da virtude em si, quer dizer, da idéia. O <que é> é explicado como idéia e não como definição.”

É Aristóteles quem, de certo modo, rompe a marcha por este caminho errado, ao sustentar que foi Sócrates quem primeiro procurou definir os conceitos universais, que Platão hipostasiou em uma realidade ontológica e assim inutilmente duplicou.” “A maioria dos lógicos modernos segue os passos de Aristóteles nesta reconstituição do processo interior que levou Platão a estabelecer a teoria das idéias. A <escola de Marburgo>, que durante algum tempo preconizou com grande insistência e em numerosas publicações uma nova interpretação platônica, declarou-se energicamente contrária à concepção aristotélica. Veja-se principalmente Paul NATORP, Platos Ideenlehre (Marburgo, 1910). Esta reação não levou diretamente a esclarecer a compreensão da verdadeira posição histórica dos dois grandes filósofos, porque pecava em sentido contrário. (…) Julius STENZEL, no seu primeiro livro, Studien zur Entwicklung der platonischen Dialektik (Breslau, 1917, trad. inglesa de D.J. Allan, Oxford, 1940 [op. cit. em negrito]), foi quem soube tirar as conclusões acertadas desta tentativa frustrada da escola de Marburgo e aprofundar a verdadeira situação histórica da lógica platônica do Ser.”

Este conceito lógico universal parece tão evidente aos olhos de um moderno que se considera simples apêndice fastidioso e problemático aquilo em que a idéia platônica ultrapassa este conceito (…) ainda que nós distingamos claramente em Platão os 2 aspectos – o do lógico universal e o do ontológico real –, o certo é que para ele formam absolutamente uma unidade.”

os equívocos dos intérpretes modernos não provêm tanto de se interpretarem mal as palavras do próprio Platão, coisa dificilmente concebível em si mesma, como do fato de para elas terem transferido certas noções lógicas de origem posterior.” “Na opinião de Aristóteles, Platão fizera dos conceitos universais entidades metafísicas, atribuindo-lhes uma existência independente, separada das coisas captadas pelos sentidos. A verdade é que Platão nunca deu o segundo passo (o de <hipostasiar> os conceitos), simplesmente porque também não dera o primeiro, ou seja, a abstração dos conceitos universais como tais. Longe disso: para ele, o conceito lógico aparece ainda completamente envolto na roupagem da idéia.”

A relação destes esforços dialéticos comuns com o ato de visão intelectual que aparece no fim deste caminho esclarece-se na Carta VII, por meio da comparação com o ato de friccionar 2 pedaços de madeira até fazerem fogo.”

Além do alto grau de consciência lógica que Platão revela constantemente neste diálogo, é eloqüente neste sentido principalmente a grande quantidade de termos técnicos que ele usa para designar os seus diferentes passos metódicos. Para fazer um <exercício>, como Platão faz aqui, é necessário dominar as regras que se querem tomar como base. Neste sentido, é muito instrutiva a arte consciente da ilustração dos processos lógicos por meio de exemplos (paradigmas), cuja função Platão põe continuamente em relevo.”

a essência não admite, como p.ex. o Fédon ensina, um mais e um menos, e nenhuma figura o é em maior ou menor grau que outra qualquer. O círculo não é figura em grau mais alto do que o retângulo. Cf. Fédon, 93B-D et Mênon 74E.” // Geometria aristotélica: círculo é a figura por excelência.

arte experimental x a priori autocontido em si mesmo

Enquanto o Górgias, para traçar o esboço de uma nova techne ético-política, tomava antes a Medicina por modelo, o Mênon segue principalmente o exemplo das matemáticas.”

A transposição acima, da arte médico-hipocrática às matemáticas, obriga a entrada da reminiscência no arcabouço platônico. A idéia de reminiscência se torna uma necessidade filosófica (reminiscência como visão interior preexistente):

Para se aproximar da natureza desta intuição interior, Platão recorre ao mundo de idéias do mito religioso. E como os gregos não podem representar-se nenhuma intuição sem objeto real, e por outro lado o espírito do Homem – p.ex., o do escravo da investigação geométrica anterior – não viu nem conhece ainda nada de semelhante, Platão interpreta a existência potencial do conhecimento matemático na alma como uma visão comunicada a esta numa vida anterior.”

Interessa menos a Platão a idéia da imortalidade, como base necessária para o seu conceito da personalidade moral, do que a possibilidade de essa idéia servir de fundo a sua nova teoria de um saber de certo modo inato na alma do Homem. Sem aquele fundo, este saber ficará reduzido a uma idéia pálida e vaga. Em contrapartida, em conexão com a preexistência, abrem-se perspectivas inimagináveis em várias direções, e o conhecimento do Bem em si, que se investiga, alcança a completa independência em relação a qualquer experiência exterior e uma dignidade quase religiosa.”

Sócrates sempre se detivera no não-saber. Platão, ao contrário, sente-se impetuosamente impelido a ir avançando até alcançar o saber [impossível por definição, caso em que nos tornaríamos deuses, cf. O Banquete]. Apesar disso, é na ausência de saber que ele vê o sinal da verdadeira grandeza de Sócrates, pois Platão interpreta-a como as dores do parto de um tipo completamente novo de saber, que Sócrates trazia nas entranhas. Trata-se daquele conhecimento interior da alma que o Mênon procura captar com precisão e descrever pela 1ª vez: a intuição das idéias. (…) E não foi porque só a partir desse momento Platão tivesse sido capaz de vê-la assim; é que ele só a julgou possível de assim ser explicada aos outros a partir do momento em que abordou a tarefa de expor a natureza maravilhosa deste saber, que descobria dentro de si próprio a raiz da sua certeza.” “Platão demonstra logo, à luz do exemplo matemático do episódio do escravo, que a aporia é precisamente a fonte do conhecimento e da compreensão.” “A digressão matemática do Mênon serviu para pôr em destaque a fecundidade educadora das aporias e para as apresentar como a primeira fase na senda do conhecimento positivo da verdade.” “No Mênon não faz mais do que indicar a teoria de que o saber socrático é reminiscência, bem como a teoria da imortalidade e da preexistência, que haviam de ser desenvolvidas mais tarde, no Fédon, na República, no Fedro e nas Leis. (…) A aspiração à verdade não é outra coisa senão a expansão na alma do conteúdo que por natureza ela contém.” “Não é por alguém lhe ensinar, mas sim por tirar do seu próprio espírito o saber, que o escravo descobre a verdade da regra matemática.”

A coragem de investigar aparece aqui como a característica da verdadeira virilidade. Trata-se, evidentemente, de explicar as censuras de críticos como Cálicles, segundo os quais a entrega permanente à filosofia produzia efeito deprimente e tirava a virilidade ao homem.”

Fica, todavia, sem determinação plena a relação entre a justiça e a virtude por antonomásia e vemos que a essência desta não fica esclarecida por aquela definição, em que se comete o erro lógico de querer explicar a essência da virtude mediante uma parte dela, que é a justiça.” Só o sábio (detentor do valor dos valores) pode arbitrar. Não se arbitra sobre o valor dos valores, apenas sobre os valores, com base no valor dos valores.

a experiência parece demonstrar que não existem professores de virtude, e que até hoje nem os homens mais importantes do passado e do presente de Atenas foram capazes de transmitir aos próprios filhos as suas virtudes e o seu caráter. Sócrates está disposto a admitir que aqueles homens possuíam a arete, mas, se esta consistisse num saber, teria por força de se ter manifestado como força educadora.”

EU SEI, MAS NÃO SEI COMO SEI: “Assim, ao terminar o Mênon, continuamos, aparentemente, no mesmo lugar em que estávamos no Protágoras. Mas isto é só aparência, pois na realidade o novo conceito do saber que com o auxílio dos exemplos matemáticos adquirimos na parte central do Mênon abre-nos as perspectivas para um tipo de conhecimento que não é suscetível de ser ensinado do exterior, mas nasce na própria alma de quem o inquire com base numa orientação correta do seu pensamento. Em Platão, o encanto da arte socrática do diálogo consiste em que nem sequer aqui, quando estamos tão próximos de alcançar o resultado, ele nos serve por suas mãos, mas faz com que o encontremos nós próprios.” “Com efeito, a nova paideia não é suscetível de <ensino>, tal como os sofistas o concebiam, e deste ponto de vista Sócrates tinha razão ao negar a possibilidade de educar os homens pelo simples fato de instruí-los.”

uma vez que o ensino dos sofistas não conduz à arete e a arete que os estadistas possuem por natureza não pode transmitir-se a outros, parece que só por obra do acaso divino a arete pode existir no mundo, a não ser que se encontre um estadista capaz de converter em estadista um outro homem. Todavia, esta expressão <a não ser que>, que facilmente poderia passar despercebida, contém na realidade a solução do dilema, pois já sabemos pelo Górgias que, segundo a paradoxal tese de Platão, é Sócrates o único verdadeiro estadistas que torna os homens melhores.”

um talento e um dom naturais que não saibam dar razão de si próprios.”

Já antes de abandonar o corpo, o espírito de Sócrates paira no Fédon, como o cisne apolíneo sobre as pradarias do Ser puro; no Banquete, em contrapartida, Platão apresenta o filósofo como a forma suprema do homem dionisíaco e o conhecimento da beleza eterna, a cuja visão ele se eleva, como a satisfação suprema do primitivo impulso humano, do eros, do grande daimon que mantém coeso, interior e exteriormente, o cosmos. Na República, finalmente, o saber do filósofo revela-se como a fonte, na alma, de toda a força legisladora e criadora de comunidades.”

o conhecimento do <sentido> é a força criadora que tudo dirige e tudo ordena.”

3.9 O Banquete

Já no Lísis, um dos seus mais graciosos diálogos menores, Platão colocara o problema da essência da amizade, frisando com isso um dos temas fundamentais da sua filosofia, que mais tarde desenvolveria em toda a sua plenitude, nas grandes obras da sua maturidade que tratam do eros: o Banquete e o Fedro.”

A sua teoria da amizade constitui o nervo de um modo de considerar o Estado, no qual vê primordialmente uma força educadora. Na República e na Carta Sétima, Platão fundamenta o seu afastamento de qualquer atividade política na carência total de amigos e camaradas certos que o pudessem ajudar na empresa da renovação da polis.¹ Quando a comunidade sofre de uma doença orgânica que lhe afeta o conjunto ou é destruída, a obra da sua reconstrução só pode partir de um grupo reduzido, mas fundamentalmente são, de homens com idênticas idéias, o qual sirva de célula germinal para um novo organismo”

¹ Eis o mal de todo “bom filosófo”!

É, portanto, um problema que ultrapassa em muito o âmbito que nas modernas sociedades, extremamente individualizadas, chamamos amizade. Para compreendermos claramente o verdadeiro alcance do conceito grego da philia, precisamos apenas seguir o desenvolvimento posterior deste conceito até chegarmos à teoria da amizade, sutilmente matizada, da Ética a Nicômaco.”

A psicologia trivial que em tempos de Platão se esforçava, com pouco êxito, por encontrar uma explicação para a amizade atribuía-a quer à semelhança de caráter quer à atração dos contrários. Elevando-se acima deste campo exterior de simples comparações psicológicas, o Lísis de Platão, em audacioso avanço, descobre o novo conceito de <primeiro amado>, que Platão exige e pressupõe como fonte e origem de toda a amizade entre os homens.” “por trás daquele <primeiro amado>, em virtude do qual amamos tudo o mais, estava o supremo valor, que o Bem encerra em si. A data do Lísis e a sua significação para o problema da evolução filosófica de Platão foram objeto de uma interessante polêmica entre M. POHLENZ (em Göttinger Gelehrte Anzeigen, 1916, núm. 5) e H. VON ARNIM (em Rheinisches Museum, Nova Série, t. LXXI, 1916, p. 364). A minha opinião coincide com a de Arnim quanto à origem mais antiga do Lísis.”

Com o próprio título da obra Platão indica já que, ao contrário do que ocorre na maioria dos seus diálogos, ela não gira em torno de uma figura central. Não estamos diante de um drama dialético como o Protágoras ou o Górgias. E ainda menos a podemos comparar a obras puramente científicas do tipo do Teeteto¹ ou do Parmênides, onde se expõe sobriamente o esforço realizado para resolver determinado problema.”

¹ https://seclusao.art.blog/2018/08/24/teeteto-ou-da-natureza-do-saber-ou-do-conhecimento-ou-acerca-da-nocao-de-silaba-e-sobre-narizes-achatados/

À volta da mesa do poeta trágico Ágaton, congregam-se representantes de todos os tipos de cultura espiritual da Grécia. Aquele poeta acaba de alcançar no agon dramático um brilhante triunfo e é ao mesmo tempo o festejado e o anfitrião. Mas é Sócrates quem, dentro de um círculo restrito, alcança o triunfo no agon dos discursos, um triunfo mais poderoso que o aplauso das 30 mil ou mais pessoas que no dia anterior aclamaram Ágaton no teatro. (…) Além do trágico, está presente Aristófanes, o melhor comediógrafo da época; e, dado que os discursos destas figuras marcam indubitavelmente o ponto culminante de todo o diálogo, antes de Sócrates, como último de todos, começar a falar, o resultado é o Banquete se tornar a encarnação visível do primado da filosofia sobre a poesia, primado que Platão postula na República. Para alcançar esta dignidade, a filosofia teve de converter-se também em poesia, ou pelo menos criar obras poéticas de 1ª grandeza, que, graças a sua força imortal e independentemente de toda a luta de opiniões, patenteassem ao nosso olhar a sua essência.”

A combinação da paideia aristocrática de Teógnis com o amor do poeta pelo distinto jovem Cirno, a quem dirige as suas exortações, ilumina a relação existente entre o banquete e o eros educacional que inspirou o Banquete platônico. (…) os banquetes (…) figuravam entre as formas fixas de sociabilidade de mestres e alunos”

Entre os títulos das obras perdidas de Aristóteles e outros discípulos de Platão aparecem mencionadas leis minuciosas destinadas a regulamentar os banquetes, semelhantes às que Platão preconizava nas Leis.(*) No início desta obra dedica um livro inteiro ao valor educacional do beber e das reuniões de bebedores, defendendo estas práticas contra os ataques de que eram alvo.

(*) Segundo ATENEU, V, Xenócrates, discípulo e segundo sucessor de Platão, escreveu as Leis para o banquete, destinadas à Academia; e outro tanto fez Aristóteles para a escola peripatética.”

A escola de Isócrates adota a atitude contrária. Reflete-se nela a sobriedade do mestre, que via no excesso de bebida a ruína da juventude ateniense. E nem sobre o eros pensava diferentemente. Mas Platão obriga as duas forças, Eros e Dioniso, a se colocarem a serviço da sua idéia. (…) Ele julga que, sem o impulso e o entusiasmo inesgotáveis e incessantemente renovados das forças irracionais do Homem, jamais será possível atingir o cume daquela transfiguração suprema que atinge o espírito, quando este contempla a idéia do Belo. A união do eros e da paideia, eis a idéia central do Banquete.”

Desconhecemos as experiências pessoais vivas que serviram de base a este processo de purificação. Sabemos que inspiraram uma das maiores obras poéticas da literatura universal.”

Censura os poetas, porque tendo por missão cantar em hinos os deuses, esqueceram-se de Eros, e propõe-se, em conseqüência, preencher esta lacuna, cantando em prosa o panegírico deste deus.”

Pausânias, sem abandonar o tom mitologizante do discurso de Fedro e firmando-se na dupla natureza de Afrodite, a serviço da qual se encontra Eros, distingue o Eros Pândemos e o Eros Urânios.” “O eros usual e corrente, o instinto irrefletido e vulgar, é vil e repudiável, porque tende à mera satisfação dos apetites sensuais; em contrapartida, o outro é de origem divina e o impulsiona o zelo de servir ao verdadeiro bem e à perfeição do amado.”

Na Élida e na Beócia, i.e., nas regiões da Grécia espiritualmente menos desenvolvidas e estagnadas numa fase de cultura arcaica, considera-se o eros como algo simplesmente intocável. Sucede o contrário na Jônia, quer dizer, de acordo com a interpretação de Pausânias, na parte do mundo helênico mais afim da maneira de ser asiática, onde o eros é rigorosamente castigado. O orador explica o fato pela influência dos bárbaros e das suas concepções políticas.” “Também não se pode negar que, segundo a lenda histórica, a democracia ateniense foi fundada por uma dupla de tiranicidas, Harmódio e Aristogeíton, unidos pelo eros para a vida e para a morte.” “Ao contrário da atitude de outros Estados que se citam, a atitude de Atenas e de Esparta não é de aprovação nem de condenação, mas antes equívoca e complexa.”

a opinião defendida por Pausânias procede essencialmente da própria Esparta, como também acontece com a prática da pederastia como tal. Este costume, derivado da vida nos acampamentos militantes da época das migrações das tribos – época muito mais próxima entre os dórios que entre os demais gregos e que se prolongava no modo de vida da casta guerreira espartana (…) Quando Esparta caiu e a sua influência específica desapareceu, o que sucedeu pouco depois da época em que nasceu o Banquete, a pederastia declinou rapidamente, pelo menos como ideal ético, e só perdurou nos séculos posteriores da Antiguidade como prática viciosa e desprezível dos cinaedi.” Werner escreve de uma perspectiva inevitavelmente homofóbica. Mas estes cinaedi com certeza são depravados sadomasoquistas da decadente Roma, como a palavra indica: usavam chicotes para torturar e lacerar suas vítimas, i.e., interesse libidinal e amoroso, assim como o doentio Ultra-Romantismo vai idealizar em obras como Venus in Furs.

A Platão, acontece-lhe com o eros o mesmo que com a polis e com a fé da velha Grécia, na qual se baseava: como poucos espíritos daquela época de transição, sente de maneira forte e pura todas aquelas idéias, mas transmite ao novo mundo, em cujo centro metafísico a projeta, apenas a imagem transfigurada da essência ideal delas.” Amizade platônica: essência ideal da pederastia. O gozo do professor em ensinar e do aluno em aprender.

Uma terceira forma de tradição espiritual é a que se manifesta no discurso de Erixímaco. Como médico, parte da observação da natureza, sendo que o seu horizonte visual não se limita ao Homem” “Erixímaco defende sistematicamente o poder gerador de Eros como princípio do devir de todo o mundo físico (…) À primeira vista, parece impossível estabelecer, do ponto de vista da physis, qualquer divisão entre as diferentes formas ou modalidades do eros, por um critério de valor moral, como Pausânias procurara fazer, partindo do nomos vigente na sociedade humana. (…) Na sua opinião, o denominador comum a que aquela distinção de ordem moral deve reduzir-se é a distinção entre o são e o enfermo.” “Compreendemos agora por que Platão escolheu um médico para representante da concepção naturalista. Ele o fez precisamente em vista desta distinção, que conduz à submissão do eros a um critério valorativo.” “O seu conceito da concórdia harmônica baseia-se na teoria heracliteana dos contrários, que aliás desempenhava também considerável papel no pensamento médico da época, como revela principalmente a obra pseudo-hipocrática Da Dieta.” Littré pende mais para “hipocratizar” ambos os livros “hipocráticos” sobre dieta alimentar.

Devem conceder-se todos os favores ao homem casto e conservar o seu eros; mais ainda, é preciso empregá-lo como meio para transplantar esse recato e essa moral para os homens que ainda os não possuem. Tal é o eros uranios, o amor pela musa Urânia. Em contrapartida, deve ser aplicado com cautela o eros pandemos, a inclinação para a musa Polímnia. (…) algo assim como o médico usa e fiscaliza as artes do cozinheiro.

Na sua intervenção, Erixímaco faz do eros uma potência alegórica tão universal, que a sua substância corre o risco de desaparecer no seio do geral. Em contrapartida, o comediógrafo Aristófanes volta, no seu engenhoso e genial discurso, a orientar-se para os fenômenos humanos concretos do amor”

Este impulso nostálgico todo-poderoso que em nós palpita só pode ser compreendido pela especial natureza do gênero humano. No grotesco mito da forma esférica do homem primitivo (…) vemos expressos, com a profundidade da fantasia cômica de Aristófanes, a idéia que até agora buscamos em vão nos discursos dos outros. O eros nasce do anseio metafísico do Homem por uma totalidade do Ser, inacessível para sempre à natureza do indivíduo.” “O amor por outro ser humano é aqui focalizado à luz do processo de aperfeiçoamento do próprio eu. Esta perfeição só é atingível na relação com um tu (…) Aristófanes focaliza o problema em toda a sua extensão, não só como amor entre 2 seres do mesmo sexo, mas sob todas as formas em que se apresenta. (…) Não é, evidentemente, a união física que faz com que um sinta um prazer tão grande com a presença do outro e a ela aspire com tanta força, mas é indubitavelmente uma coisa diferente o que a alma de ambos quer”

Assim como o saber era concebido no Mênon como um voltar a recordar o ser puro contemplado na preexistência, assim o eros aparece agora como a nostalgia da totalidade da natureza primitiva do Homem, tal como numa era anterior do mundo existiu, e portanto como orientação estimuladora em direção a algo que eternamente devia ser.” Um quê já de desembocadura no niilismo.

se pusermos este mito diante do espelho do discurso de Diotima, veremos bem que já se entrevê de maneira vaga, através dele, a norma do Bem, na qual encontram realização plena todo verdadeiro amor humano e toda amizade autêntica.

O último discurso antes daquele de Sócrates, reverso consciente da franca e expressiva pintura burlesca do poeta cômico, é o panegírico do jovem Ágaton (…) o mito de Aristófanes elevara o tema do eros acima da amizade masculina e convertera-o no problema da essência do amor em geral; na subseqüente declamação do poeta trágico em moda, tão aplaudido, a quem a comédia coeva [daquele tempo] motejava por ser amigo das mulheres, o tema da pederastia passa completamente para o segundo plano¹ (…) A imagem do eros traçada por Ágaton é a menos psicológica do mundo, coisa surpreendente, sobretudo se a compararmos com o discurso imediatamente anterior de Aristófanes, baseado inteiramente na ação exercida pelo eros sobre a alma humana. Ao contrário, o relato de Ágaton tem forte tendência para o idealismo.”

¹ Podemos dizer com confiança: como na obra de Jaeger inteira.

É a sua própria imagem refletida num espelho que ele nos pinta com enleio narcisista, na sua descrição de Eros.” “É este discurso que Platão escolhe para fundo imediato do discurso de Sócrates. Põe o esteta, sensualmente refinado e conhecedor, em contraste com o asceta filósofo”

Todo o eros representa um anseio por qualquer coisa que não se tem e se deseja ter. Por conseguinte, se Eros aspira ao Belo, é porque não é ele próprio o Belo (…) É a partir desta base dialética negativa que Platão desenvolve a teoria de Sócrates e de Diotima. Não é, contudo, em forma didática que ele a desenvolve, mas sim sob a forma do mito em que Eros aparece como descendente de Poros (riqueza) e de Penia (pobreza)”

Sócrates deixa Ágaton em paz assim que este, após as primeiras perguntas, lhe confessa, alardeando amável fraqueza, que já se sente como se não soubesse absolutamente nada de tudo o que acabava de falar. Assim se atam os pés à ânsia de saber mais que os outros, ânsia malsoante em boa sociedade. Mas a conversa é levada dialeticamente ao seu termo pelo recurso da sua deslocação para um passado remoto e da conversão de Sócrates, de interrogador molesto e temido que era, em ingênuo interrogado. Põe-se a contar aos convidados uma conversa que teve há muito tempo com a profetisa de Mantinéia, Diotima, acerca do eros.”

No domínio da religião grega, a forma dos mistérios era a forma mais pessoal da fé e Sócrates descreve aqui, como visão por ele vivida pessoalmente, a ascensão do filósofo até o mais alto cume, onde se conserva a nostalgia do eternamente belo, que palpita no fundo de todo o eros.”

Também não é um ser moral; é, sim, algo intermediário entre o moral e o imoral, um grande daimon que age como intérprete entre os deuses e os homens.”

Os deuses não filosofam nem aprendem, porque estão na posse de toda a sabedoria. Por sua vez, os tolos e os ignorantes não aspiram a adquirir conhecimento, pois o verdadeiro mal da incultura reside precisamente em que, sem nada saber, julga saber muito. Só o filósofo aspira a conhecer, pois sabe que não conhece e sente necessidade de conhecer. O filósofo ocupa um lugar intermediário entre a sabedoria e a ignorância; é por isso que só ele está apto para a cultura e se esforça sincera e seriamente por adquiri-la.”

À imagem do Eros traçada por Ágaton, a qual era simplesmente uma representação do ser amável e amado, Platão opõe, por conseguinte, uma imagem que tira os seus traços da essência do amante.”

O fato de que, apesar de tudo, a linguagem não chame de eros ou eran toda a vontade, mas reserve aquele nome e aquele verbo para exprimir certos anseios, tem, segundo Platão, o seu paralelo em outras palavras, como poiesis, ‘poesia’, a qual, embora signifique apenas ‘criação’, foi no entanto reservada pelo uso para um determinado tipo de atividade criadora. Na realidade, esta nova consciência de quanto há de arbitrário nesta ‘delimitação’ do significado de termos como eros ou poiesis não é senão um fenômeno concomitante do alargamento deste conceito, por obra de Platão e da operação pela qual ele procura enchê-lo de um conteúdo universal.”

São as palavras de Diotima o melhor e mais conciso comentário deste platonizante conceito aristotélico [?] do amor de si próprio.”

Por outro lado, esta transmutação parece privar o eros do seu sentido finito, verdadeiro e imediato, que é o desejo de algo concretamente belo. É por isso que Platão lhe faz justiça na parte seguinte do discurso de Diotima.” “A vontade física da procriação ultrapassa amplamente a esfera humana. Se partirmos do fato de que todo o eros é ânsia de ajudar o eu próprio autêntico a realizar-se, o impulso à procriação e perpetuação dos animais e dos homens aparecerá como a expressão do impulso de deixar no mundo um ser igual a eles próprios.”

Todo o eros espiritual é procriação, ânsia de cada um eternizar a si próprio numa façanha ou numa obra amorosa de criação pessoal que perdure e continue a viver na recordação dos homens. Todos os grandes poetas e artistas foram procriadores deste tipo e o são igualmente, no mais alto grau, os criadores e modeladores da comunidade estatal e doméstica.”

Para ele só é digna de se viver uma vida que decorra na constante contemplação desta beleza eterna. Não se trata portanto de um ato de contemplação a partir de um momento especial, de um momento estético de deslumbramento. A exigência de Platão só pode ser satisfeita por uma vida humana inteira projetada para esta meta (TELOS).”

O belo e o bom não passam de dois aspectos gêmeos de uma única realidade, que a linguagem corrente dos gregos funde numa unidade, ao designar a suprema arete do Homem como <ser belo e bom> (KALOKAGATHIA).” “Ora, para Platão existe absoluta harmonia entre o cosmos físico e o cosmos moral.”

já no amor pela beleza corpórea, fala-se dos ‘formosos discursos’ que provoca.”

Não é no afastamento do mundo daquele que conhece que se deve traduzir na prática esta separação da idéia universal do Belo das suas manifestações finitas.”

O sentido e razão de ser de toda a paideia é fazer triunfar o Homem dentro do homem. A distinção entre o homem-individualidade-fortuita e o homem superior serve de base para todo humanismo. Foi Platão quem tornou possível a existência do humanismo com esta concepção filosófica consciente, e o Banquete é a obra em que pela 1ª vez se expõe esta doutrina.”

Platão não deixa a obra terminar pelo afastamento do véu que cobre a idéia do Belo e pela interpretação filosófica do eros. A obra culmina na cena em que Alcibíades, à cabeça de um bando de companheiros ébrios,¹ irrompe casa adentro e em audacioso discurso aclama Sócrates como mestre do eros (…) A sua paixão pedagógica impele-o para todos os jovens belos e bem-dotados, mas no caso de Alcibíades é a profunda força de atração espiritual, que irradia de Sócrates, que surte efeito e que, invertendo a relação normal de amante e amado, faz com que seja o próprio Alcibíades a aspirar em vão pelo amor de Sócrates”

¹ O coro.

A tragédia do amor de Alcibíades por Sócrates, a quem procura e de quem ao mesmo tempo quer fugir, pois Sócrates é a consciência que o acusa a ele mesmo, é a tragédia de uma natureza filosófica esplendidamente dotada” “É a instintiva veneração do forte por aquilo que compreende ser a força (…) e a aversão que a debilidade do ambicioso e do invejoso sente contra a grandeza moral da verdadeira personalidade” “É indubitável que Alcibíades queria ser discípulo de Sócrates, mas a sua natureza não o deixa separar-se de si próprio. Alcibíades encarna o tipo que melhor podia servir a Platão para ilustrar que era aquele tipo que realmente Sócrates queria: é o jovem de aspirações geniais que toma nas suas mãos os assuntos dos atenienses, sem contudo preocupar-se consigo mesmo, embora isso lhe fosse tão necessário (Banq., 216 A). (…) Alcibíades queria trabalhar na edificação do Estado antes de edificar o <Estado dentro de si mesmo> (cf. Rep. IX, final).

Afinal de contas – flashback –: a virtude pode ser ensinada?

R: Não para alces!

3.10 A República – I

R.L. NETTLESHIP, The Theory of Education in the Republic of Plato (Chicago, 1906).

Nem o próprio Aristóteles, a quem costumamos chamar o sistemático por antonomásia, emprega ainda a palavra <sistema> com este significado.”

A criação de um tipo elevado de Homem, de que nos fala o Estado platônico, nada tem a ver com o povo em conjunto, concebido como raça.”

Os idiotas do Hades ou fundo oceânico.

ocupam livros inteiros (os livros 2 e 3) os debates sobre a música e a poesia; o problema do valor das ciências abstratas é colocado num lugar central (livros 5 a 7), e no livro 10 volta a ser examinado o problema da poesia, a partir de novos pontos de vista. Uma aparente exceção ao que foi dito é a investigação das formas de governo nos livros 8 e 9.”

Grandioso tema para os juristas, não só do nosso tempo, mas também da época de Platão, que pela primeira vez fez surgir a ciência comparada do Estado! Mas nem sequer sob este ponto de vista a atenção do filósofo incide sobre a vida jurídica real; é na teoria das ‘partes da alma’ que desemboca a investigação do problema do que é justo.”

O intérprete neoplatônico Porfírio sublinhava acertadamente que a teoria das partes da alma em Platão não é psicologia no sentido corrente, mas sim psicologia moral. Aristóteles não a adota na sua obra de psicologia, mas usa-a nos trabalhos éticos. O seu significado é pedagógico. Veja-se o meu Nemesios von Emesa (Berlim, 1913), p. 61.”

Cf. GOMPERZ, Griechische Denker, t. II. Gomperz defende que a descrição da educação dos governantes da República (livros 6-7) é apenas um pretexto para expor a epistemologia e a ontologia próprias de Platão. No mesmo sentido, Gomperz vê na educação dos guardiões, nos livros 2-3, outro pretexto que torna possível para Platão examinar extensamente toda a espécie de problemas nos diferentes campos da mitologia, da religião, da música, da poesia e da ginástica. Como se mostrará com a nossa análise da República, a essência da paideia platônica requer todos os elementos que Gomperz enumera, e teria sido impossível fazer a sua exposição sem a relacionar com eles num sentido filosófico. A paideia não é um simples elo externo que faz da obra um todo; constitui a sua verdadeira unidade interna.”

esta atitude (…) é típica da incompreensão do séc. XIX por esta obra de Platão. A ciência, que se elevava a uma orgulhosa altura a partir da sabedoria acadêmica do humanismo, já era (…) incapaz de compreender a sua própria origem. Este ideal científico desenvolveu-se nas ciências naturais, onde o foi buscar a filologia, com um desconhecimento total da sua própria essência.”

Um século antes, Jean-Jacques Rousseau soubera aproximar-se bem mais do Estado platônico, ao declarar que a República não era uma teoria do Estado, como pensavam aqueles que só julgavam os livros pelos títulos, mas sim o mais formoso estudo jamais escrito sobre educação.”

Hipódamo e Faleas, cujas utopias ainda conhecemos, nas suas linhas gerais, pela Política de Aristóteles, apresentam, como é próprio do espírito da época do racionalismo, esboços de uma ordem social justa e duradoura, cuja forma esquemática recorda, de certo modo, a geometria dos planos arquitetônicos traçados para a cidade pelo mesmo Hipódamo.

Veja-se o ‘Anônimo de Jâmbico’ em DIELS, Vorsokratiker, t. II 5ª.ed.”

Para o discípulo de Sócrates, já não pode significar a mera obediência às leis do Estado a legalidade que tinha sido outrora o baluarte protetor do Estado jurídico, perante um mundo de poderes feudais anárquicos e revolucionários.” “A lei, que fôra calculada para uma vigência longa e até eterna, mostrou-se necessitada de reformas ou ampliações.” “O direito torna-se uma simples função do poder.”

Como representante da filosofia da força de Cálicles, é escolhido na República o belicoso sofista Trasímaco; além disso, apesar da lúcida arte platônica da variação, deparamos também com algumas repetições da cena do Górgias.”

Glauco e Adimanto, em dois discursos que se sucedem um ao outro, expõem belicosamente o problema, numa forma rigorosa, a única que pode satisfazer a juventude da sua geração: é a justiça um bem que se deva buscar por si próprio ou apenas um meio que acarreta determinada utilidade? Ou figurará entre as coisas que amamos tanto por elas mesmas como pelos seus benéficos resultados?”

Quem dentre nós, na posse de um tal anel, teria na alma a firmeza adamantina necessária para resistir ao poder da tentação? (…) Já mencionamos a importância que tem o problema de o Homem, na presença de testemunhas, agir com tanta freqüência diferentemente de quando está só. (…) O conto do anel de Giges é em Platão símbolo genial desta concepção naturalista do poder e das aspirações humanas. Se queremos conhecer o verdadeiro valor da justiça para a vida do Homem, não temos outro caminho senão comparar a vida de uma pessoa completamente injusta, mas cujo verdadeiro caráter permaneça oculto, e a vida de um homem que, sendo verdadeiramente justo, não saiba ou não queira guardar sempre com o maior cuidado as aparências externas do direito, tão importantes.” “Porventura não exaltaram igualmente este ideal apenas pela recompensa que os deuses concedem ao justo?”

Adimanto fala impelido visivelmente por uma verdadeira angústia interior e, sobretudo para o final do discurso, as suas palavras respiram a sua experiência pessoal. Platão o faz representante da geração a que ele próprio pertencia. É assim que se tem de interpretar a escolha dos seus irmãos como interlocutores chamados a impulsionar a investigação e a formular em termos exatos, perante Sócrates, o problema que ele procura resolver.”

cada palavra sua é um golpe de crítica vibrado contra a educação até ali misturada, precisamente à base daqueles velhos poetas clássicos e daquelas famosíssimas autoridades morais, que na alma da juventude, tão reta no seu pensar, deixam cravado o espinho da dúvida. Platão e os seus irmãos eram o produto daquela antiga educação e consideravam-se vítimas dela.” “Adimanto insiste em que ao avaliar a justiça se prescinda completamente da utilidade social que traz consigo (…) A expressão que corresponde à utilidade social da arete é doxa. Na ética grega antiga, esta palavra corresponde sempre à arete e é equivalente a esta. Um bom exemplo de doxa neste sentido (reputação) está em SÓLON (frag. 1,4 Diehl). Portanto, Platão pretende aqui desligar a arete da sua vinculação a esta doxa.”

As pequenas censuras da voz interior, diz Adimanto, são facilmente abafadas pela experiência de que a injustiça permanece quase sempre ignorada; e a consciência religiosa de que o olhar de Deus nos vê pode ser contrariada com um pouquinho de ateísmo ou com as fórmulas rituais de qualquer religião de mistérios que permita ao Homem purificar-se das suas culpas.” “Formulado assim o problema da justiça, a investigação eleva-se a uma altura contemplativa a partir da qual todo o sentido da vida – tanto o valor moral como a felicidade – aparece deslocado exclusivamente para a vida interior do Homem. (…) não há outro caminho senão este, para se fugir ao completo relativismo implícito na teoria do direito do mais forte.”

A julgar pelo título da obra, pensar-se-á que o Estado será finalmente proclamado como a verdadeira e fundamental finalidade da longa investigação sobre a justiça. Mas Platão trata esse tema pura e simplesmente como um meio para um fim, e o fim é pôr em relevo a essência e a função da justiça na alma do Homem.”

A conseqüência inevitável desta elefantíase dos Estados, que se conservam tanto mais saudáveis quanto menores forem as suas proporções, é a ânsia territorial, pelo desmembramento e anexação de pedaços dos Estados vizinhos. Desvendamos assim a origem da guerra, que sempre nasce de causas econômicas. Platão refere-se aqui à guerra como um fato dado, reservando expressamente para outra investigação o problema de saber se a guerra é boa ou má. Como é natural, o passo imediato é a criação do ofício de guerreiro.” “O fato de lhes dar o nome de ‘guardiões’ já tem implícita a limitação das suas funções à defesa.”

logo nos vemos convertidos em escultores, aos quais é entregue a missão de formar, por assim dizer, com mão de artista, através da seleção dos caracteres mais adequados e da sua educação, o tipo de ‘guardião inteligente e valoroso’.”

Para o guerreiro ser um bom guardião dos seus, a sua alma tem de reunir, como os bons cães, duas qualidades aparentemente contraditórias: doçura para com os seus e agressividade contra os estranhos. E a ironia de Platão vê nesta qualidade um traço filosófico, já que tanto os cães como os ‘guardiães’ avaliam a diferença entre as pessoas conhecidas e as desconhecidas, como critério do que julgam seu e do que reputam estranho.”

quanto mais entramos nos pormenores da paideia dos ‘guardiões’, tanto mais nos penetra a sensação de irmos perdendo completamente de vista a chamada investigação fundamental sobre a justiça. É certo que, numa obra que se apresenta na forma de um diálogo tão ramificado, temos de aceitar como impostas de certo modo pelo tipo de composição muitas coisas que submetem a dura prova o nosso sentido sistemático da ordem

A educação dos ‘guardiões’ de acordo com um sistema legalmente estabelecido pelo Estado é uma inovação revolucionária de alcance histórico incalculável. É a ela que em última instância remonta a exigência do Estado moderno sobre a regulamentação autoritária da educação dos cidadãos, defendida principalmente desde o Século das Luzes e a época do absolutismo por todos os Estados, qualquer que fosse a sua forma de governo.” “em nenhum lado, fora de Esparta, existia, segundo testemunha Aristóteles, uma educação organizada pelo próprio Estado e pelas autoridades.”

Para ele, a solução do duplo problema da formação do corpo e da alma é a paideia da Grécia Antiga, com a sua divisão em ginástica e música, paideia que, portanto, ele conserva como base.”

o que é decisivo assenta precisamente na fecunda tensão entre o seu radicalismo conceitual e o seu sentido conservador a respeito da tradição espiritualmente plasmada. Por isso, antes de darmos ouvidos à sua crítica, é importante deixar claro que é sobre a paideia da antiga Grécia (por mais reformas que nela se introduzam) que a sua nova concepção filosófica repousa.” “Este debate não é, por conseguinte, um problema filosófico acessório, como o crítico moderno costuma pensar, mas tem para Platão uma importância filosófica absoluta.”

não há nada mais despropositado que o à-vontade com que nos pomos a contar às crianças histórias sobre qualquer tipo de homens. (…) aqueles que contam histórias e lendas devem ser vigiados, pois deixam na alma da criança um traço mais duradouro que as mãos dos que lhe cuidam do corpo. (…) É certo que um fundador de Estados não pode ser, como tal, um poeta, mas deve, sim, ter uma consciência clara dos tipos gerais que os poetas tomam como base das suas narrações. (…) Diante do olhar do leitor atual de Homero ou de Hesíodo aparecem imediatamente numerosas cenas que ele não julgaria diferentemente de Platão, se as medisse pela tabela do seu próprio sentimento moral.”

Só se pode recomeçar do zero porque o zero absoluto se chama Heleno.

Ser belo ou não? Eis o dilema do atraente.

Há uma continuidade ininterrupta que vai destes antiquíssimos testemunhos de condenação religiosa e moral de Homero até os Padres cristãos da Igreja, os quais não poucas vezes tiram das obras destes filósofos pagãos os seus argumentos e até as suas palavras contra o antropomorfismo dos deuses gregos. No fundo, a série começa logo com o próprio poeta da Odisséia, visivelmente preocupado em atribuir aos seus deuses, e de modo especial a Zeus, uma atitude mais digna do que a manifestada na Ilíada.”

É por isso que esta atitude se torna de tão difícil compreensão para o homem atual, visto não haver muito tempo que a ‘arte’ moderna teve de libertar-se, entre dores ingentes, do moralismo do Século das Luzes. Aqui está por que razão é para muitos de nós inabalável a tese de que o gozo de uma obra de ‘arte’ é moralmente indiferente. Não é que seja nosso propósito inquirir aqui da verdade ou falsidade desta teoria; a única coisa que nos interessa é deixar claro uma vez mais que ela não corresponde à maneira de sentir dos gregos.”

O EVANGELHO DE ENTÃO: “Na realidade, a chamada lei não-escrita encontra-se edificada na poesia. À falta de fundamentação racional, um verso de Homero é sempre o melhor argumento de autoridade, que nem os próprios filósofos desdenham. Esta autoridade só se pode comparar à da Bíblia e à dos Padres da Igreja, nos primeiros tempos do Cristianismo. § Só esta vigência universal da poesia como suma e compêndio de toda a cultura permite-nos compreender a crítica a que Platão a submete (…) O mundo que os poetas nos descrevem como real degrada-se em mundo de mera aparência, quando medido pelo conhecimento do Ser puro” Platão inimigo do moralismo, não da espontaneidade, como sempre é o filósofo. Jeane e o anel de Giges (mulher de César sem a substância, a mulher-contorno).

Nas apreciações modernas, nem sempre se dá conta, com a devida clareza, da relação existente entre a crítica platônica da poesia e a peculiar posição que o poeta ocupava entre os gregos, como educador do povo. O pensamento ‘histórico’ do séc. XIX também não foi em absoluto capaz de, no seu modo de encarar o passado, sobrepor-se às premissas ideológicas do seu próprio tempo. Buscávamos argumentos para desculpar Platão ou para apresentar os seus preceitos como mais inocentes do que na realidade são. Eram psicologicamente interpretados como a rebelião das forças racionais da alma do filósofo contra a sua própria natureza poética, ou explicava-se o seu desprezo dos poetas pela decadência cada vez mais acentuada da poesia, no próprio tempo dele.” A mesma posição intrincada em que se encontra hoje o crítico da ciência, porque não se pode fazer entender por virtualmente ninguém! Passa por místico, negacionista e charlatão aquele que é o mais científico de todos, na boa acepção. A mediatriz de Popper e Kuhn, tão abaixo de si, é sua nêmese, é a força gigantesca da ralé e do rebotalho dos reprodutores irrefletidos. Dos comunicólogos e formadores de opinião!

Encarava-se o problema com uma tendência excessiva a situar-se no ponto de vista da liberdade da arte. (…) retocava-se o quadro para evitar que Platão caísse na vizinhança da polícia artística da burocracia moderna.”

supondo que o tirano Dionísio se tivesse resolvido a pôr em prática o Estado platônico, teria fracassado neste ponto, ou então seria preciso proibir antes de mais nada os seus próprios dramas, caso fosse atendida a sentença judicial de Platão. No Estado platônico, a reforma da arte poética tem um alcance puramente espiritual e só é política na medida em que toda a finalidade espiritual encerra, em última instância, uma força de formação política.”

Essa poesia não tem cabimento no Estado seco e cheio de nervo que ele procura edificar, mas só em outros mais ricos e suntuosos. § É assim que a dignidade ímpar com que os gregos tinham envolvido a poesia converte-se na perdição dela.”

Como na realidade, porém, a poesia e o Estado não mudarão, fica aparentemente de pé, como único resultado visível aos olhos da crítica platônica, o abismo insuperável que daí por diante dividirá a alma grega.”

Mas por que é que Platão não declara sem rodeios que são as suas obras que se devem pôr nas mãos dos educadores e educandos como verdadeira poesia? É exclusivamente a ficção do diálogo falado que o impede. Na obra da senectude já abandona esta ilusão e pede que as Leis se propaguem no mundo degenerado, como o tipo de poesia de que ele necessita. E desta forma a poesia agonizante afirma uma vez mais o seu primado na obra do seu grande acusador.”

A sua crítica e seleção dos mitos, segundo a tabela do conteúdo de verdade moral e religiosa que contêm, pressupõem um princípio irrefutável.”

Rep., 379A (…) é a passagem onde a palavra teologia aparece pela primeira vez na história do espírito humano. Platão é o seu criador.”

Foda-se, eu sou o Poeta (a lei)!

A aspiração ideal do Homem culmina na arete heróica, mas sobre ela impera a moira, com a sua inelutável necessidade, e é a ela que também se acham submetidos, em última instância, a vontade e o êxito dos mortais. O espírito da poesia helênica é ‘trágico’, porque professa a conexão de tudo, mesmo das supremas aspirações do Homem, com o governo do sobre-humano em todos os destinos mortais. E nem a consciência da própria responsabilidade do indivíduo atuante pelos seus atos e desditas, consciência que foi crescendo à medida que se ia racionalizando a vida no séc. VI, pôde diminuir, no sentido moral de um Sólon, um Teógnis, um Simônides ou um Ésquilo, aquele último núcleo indestrutível da antiga fé na moira, que vive na tragédia do séc. V”

O conflito entre este ponto de vista religioso e a idéia moral da responsabilidade do homem que age mantém-se latente ao longo de toda a obra poética dos gregos.¹ Tinha necessariamente que instalar [sic – estalar] em ruptura aberta no momento em que o postulado ético radical de Sócrates fosse aplicado como pauta à interpretação da vida inteira. O mundo da arete em que Platão constrói a sua nova ordem fundamenta-se na premissa da autodeterminação moral do próprio eu sobre a base do conhecimento do bem. (…) se a divindade fosse tal que enredasse o homem ambicioso nas malhas da culpa, viveríamos todos num mundo em que a paideia careceria de toda razão de ser.²”

¹ O verdadeiramente trágico é que o cristianismo está do lado da responsabilidade demasiado humana, e é como um ateísmo quando comparado ao poder consolatório do politeísmo olímpico. Desta feita, a balança pende apenas para a culpa e um ideal inatingível, do mesmo lado, sem qualquer contrapeso. Um híbrido repulsivo de livre-arbítrio e destino manifesto ao qual o indivíduo moderno não pode se subtrair.

² Cristianismo.

No mundo visto pelos olhos de Demócrito, em que impera a lei da causalidade, não se concebe uma paideia como a platônica.”

Toda a crítica da antiga paideia se fundamenta, como princípio de divisão, na teoria platônica das 4 virtudes cardeais: a piedade, a valentia, o domínio de si próprio e a justiça. Esta última não é aqui levada em conta, o que expressamente se explica no final, alegando em abono disso o fato de ainda não se ter esclarecido o que é na realidade a justiça e o que significa para a vida e para a felicidade do Homem.”

A espantosa descrição que Homero faz do mundo infernal educaria no medo da morte os ‘guardiões’. Platão não pretende, naturalmente, desterrar Homero totalmente, mas submete-o a mutilações” “Ao zeloso guarda filológico da tradição parecerá isto, e é lógico, a mais terrível congeminação da arbitrariedade e da tirania. Para este, é intangível a palavra original do poeta.” “Mas, se atentarmos bem, veremos que a época em que a poesia era ainda coisa viva mostrava já certas tentativas curiosas e passos preliminares desta exigência platônica de recriação poética, os quais nos fazem ver com outros olhos aquela sua pretensão, considerada arbitrária. A necessidade de recriar poeticamente um verso já plasmado, nós a vemos, p.ex., sustentada por Sólon diante de um poeta do seu tempo, Mimnermo, o qual defendera, com sereno pessimismo, que o homem devia morrer quando atingisse os 60 anos. Sólon convida-o a modificar o sentido da poesia, fixando aos 80 anos o limite da idade.” Homero mesmo nunca foi Homero, convenhamos.

Essa eparnothosis [figura de linguagem; nesse sentido, aplicar interpretações mais atenuadas ou enfáticas, conforme o espírito do tempo exige] é aplicada generalizadamente pelos filósofos antigos na sua interpretação dos poetas, e deles se transmite mais tarde aos escritores cristãos. (…) É por isso que a censura de incompreensão racionalista dos poetas do passado, feita a Platão, não deixa de revelar, por sua vez, uma certa incompreensão histórica da parte dos críticos modernos, a respeito do que a tradição poética do seu povo significava para ele e para os seus contemporâneos. Quando, p.ex., Platão sustenta nas Leis que é preciso recriar poeticamente o antigo poeta espartano Tirteu – que enaltecia a bravura como a cúpula das virtudes cívicas e cuja obra continuava a ser a Bíblia do povo espartano – para em lugar da bravura pôr a virtude da justiça, capta-se diretamente a grandeza da força de persuasão que o verso de Tirteu devia ter alcançado na alma de quem só por meio de uma recriação poética julgava poder cumprir ao mesmo tempo o seu dever para com o poeta e para com a verdade.”

quanto mais intenso é o prazer, maior é a eficácia formativa de uma obra de arte sobre quem a contempla. Compreende-se, pois, que esta idéia da formação surgisse precisamente no seio do povo mais artístico do mundo, os gregos, onde a capacidade do prazer estético alcançou um grau mais elevado do que em nenhum outro povo da História.”

Aquiles, que aceita de Príamo um resgate pelo cadáver de Heitor e indenização monetária da parte de Agamemnon, lesa o sentimento moral dos séculos posteriores, como lesa o seu mestre Fênix, que o aconselha a reconciliar-se com Agamemnon, por uma compensação material. [?] As provocadoras palavras de Aquiles contra Esperqueu, o deus-rio, o ultraje que faz ao deus Apolo, a profanação do cadáver do nobre Heitor e a matança dos prisioneiros nas fogueiras de Pátroclo não merecem que se lhes dê crédito.”

O Inferno deveria ser só para incutir o medo de não ter vivido como se podia.

Esta verdade é a mais completa inversão do que nós entendemos por realismo artístico e do que já existia como tal na geração anterior a Platão.” Quem inverte apenas tem de se haver com o problema mais adiante.

a raivosa tenacidade com que ele trata o combate tem a sua mais profunda razão de ser na convicção de que a força educadora das imagens poéticas e musicais provadas pelos séculos é insubstituível. Segundo Platão, mesmo que a filosofia fosse capaz de descobrir o conhecimento redentor de uma norma suprema de viver, a sua missão educacional só seria cumprida pela metade

Não é só no conteúdo, mas sobretudo na forma, que se apóia o efeito da obra das musas.” Que alguém demonstrasse a verdade num tratado insípido, nada estaria provado – a não ser que se pode ser insípido até nas ações mais grandiosas!

Na maioria dos casos, nem sequer um ator trágico é capaz de representar bem a comédia, e um recitador de epopéias raras vezes está em condições de desempenhar um papel dramático.”

Não era[m] bons especialistas, mas apenas bons cidadãos em geral que a antiga paideia se propunha a formar.” “Constitui fenômeno raro, mas psicologicamente compreensível, a nítida predileção pela purificação das profissões especializadas, num gênio universal como o de Platão.”

O conceito platônico da mimesis dramática, no sentido da renúncia de si mesmo, é um conceito paidêutico; o da imitação da natureza, pura e simplesmente um conceito técnico.”

Aos artistas desse gênero moderno e cheio de encantos são prestadas no Estado platônico todas as honras e toda a admiração, ungem-lhes a cabeça e a adornam com fitas de lã; mas, uma vez honrados, acompanham-nos a outra cidade, visto que não há lugar para eles no Estado puramente educador. Nesse Estado admitem-se unicamente poetas mais secos e menos geradores de prazer.” “Platão, que no seu período pré-socrático tinha um grande fraco pela tragédia, teria seguramente conhecido por experiência própria, na sua pessoa e na de outros, o lado negativo destas paixões.”

as melodias ou harmonias como tais, desligadas da palavra, essas, sim, exigem a nossa atenção.” “Assim como no palco o espetáculo domina a poesia e criou o que Platão chama de teatrocracia, nos concertos a poesia era serva da música. (…) A música emancipada torna-se demagoga do reino dos sons.”

Não podemos escrever em detalhe a ginástica ou a música gregas, os fundamentos em que assentava a paideia do período antigo e do clássico, porque nisso não consente o legado da tradição. É por isso que na nossa exposição esses temas não são tratados em capítulo à parte, mas nos ocupamos deles onde quer que a sua imagem se apresente nos monumentos e discussões da Antiguidade”

Igualmente se reprovam as melodias lânguidas, quer jônicas quer lídias, boas para as orgias, mas inaceitáveis aqui, porque nem a embriaguez nem a languidez ficam bem aos ‘guardiões’. (…) Glauco (…) dá-se conta de que, nessas condições prevalecerão só as melodias dórica e frígia, mas Sócrates não se deixa arrastar a tais pormenores. Platão pinta-o assim, conscientemente, como o homem de verdadeira cultura, cujo olhar mergulha na essência das coisas, mas a quem não compete rivalizar com os especialistas. A precisão, que é no perito exigência natural, seria no homem culto pedantismo e não seria julgada digna de um homem livre. (…) E tal como as melodias ricas também a riqueza de instrumentos musicais se abandona. (…) São inteiramente suprimidas as flautas, as harpas e os címbalos, [grosso modo, a bateria ancestral] e conservam-se só a lira e a cítara [outro tipo de lira; curiosamente, porém, a harpa é outra lira, mais complexa que a lira e a cítara, talvez – isso é especulação – mais antiga que ambas], instrumentos adequados a melodias simples; no campo deverão soar apenas as gaitas dos pastores. Recordamos a este propósito a narração de que as autoridades espartanas proibiram a atuação do genial inovador Timóteo, mestre da música moderna daquele tempo, porque ele não utilizava a cítara de 7 cordas de Terpandro, santificada pela tradição, mas sim um instrumento com mais cordas e maior riqueza harmônica.”

Já acima dissemos que, pela sua origem, o termo grego ‘ritmo’ não implica a acepção de movimento, mas exprime em numerosas passagens o ‘momento’ de uma posição ou ordenação fixa de objetos [capítulo 1.6]. O olhar do grego descobre-o tanto no estado de quietude como no de movimento, no compasso da dança, do canto ou do discurso, principalmente se for em verso. Conforme o número de longas e breves de um ritmo e o seu nexo mútuo, produz-se uma ordenação distinta no passo ou na voz.”

a teoria do ethos na harmonia e no ritmo. É desta teoria que deriva o que Platão ensina sobre a seleção das harmonias

O DAIMON DA MÚSICA: “também na Poética de Aristóteles e na de Horácio a maneira de tratar os metros da poesia parte do mesmo ponto de vista, a saber: quais são os métodos mais indicados para cada conteúdo. Assistimos aqui a uma continuidade da tradição anterior a Platão, embora exista a tendência para identificar com ele este modo paidêutico de abordar o problema da música.”

Mas até o simples fato de esta teoria ser tirada de Dámon, o maior teórico musical do tempo de Sócrates, prova que não estamos diante de algo especificamente platônico, mas que é, antes, uma concepção da música peculiar aos gregos, a qual (…) foi desde o início decisiva para a posição dominante que a harmonia e o ritmo desempenhavam na cultura grega. § Aristóteles continua a desenvolver a teoria do ethos na música, no esboço sobre educação, contido no livro VIII da sua Política. Segue para isso na esteira de Platão, mas, como costuma acontecer-lhe em maior grau ainda que ao seu mestre, é intérprete da maneira de pensar do conjunto da Grécia.Uma espécie de sintetizador, jamais criador. Aristóteles, o Primeiro Enciclopedista.

Mas não concede nenhum ethos, em geral, às impressões transmitidas pela visão através das artes plásticas. Entende que este tipo de efeitos se limita a certas figuras pictóricas e escultóricas, e mesmo nestas só o reconhece em proporções restritas. Aliás, segundo Aristóteles, também não é de verdadeiros reflexos de um ethos que se trata, mas de meros sinais dele, expressos em cores e figuras. Nenhum ethos, p.ex., transparece nas obras do pintor Pauson, mas ele existe, em contrapartida, nas de Polignoto e nas de certos escultores. As obras musicais, pelo contrário, são imitações diretas de um ethos. O admirador da arte plástica dos gregos sentir-se-á inclinado a negar ao filósofo olhos de artista, e assim explicará a sua maneira diferente de julgar o conteúdo ético da música e o da pintura e escultura. Talvez com isso se pudesse relacionar a sua tese de que, nos sentidos humanos, é o ouvido o órgão espiritual por excelência, ao passo que Platão atribuía aos olhos a suprema afinidade com o espírito. [quanta contradição! se Platão privilegia a visão e ainda assim a música é hierarquicamente superior às artes plásticas – a-sonoras – em seu corpus!] Mas apesar de tudo fica de pé o fato de nenhum grego jamais se ter lembrado de reservar na paideia um lugar para as artes plásticas e a sua contemplação”

As palavras correspondentes, <educação> e <nutrição>, que a princípio tinham um significado quase idêntico, continuam a ser sempre termos gêmeos.”

Platão reconhece que a cultura do espírito exige também certos pressupostos de clima e certas condições de desenvolvimento. (…) O Estado é necessário como meio ambiente, como a atmosfera que o indivíduo respira. (…) É necessário que desde a mais tenra infância todo mundo respire neste ambiente qualquer coisa como o ar de uma região saudável.”

Uma pessoa corretamente educada na música, pelo fato de a assimilar espiritualmente, sente desabrochar dentro de si, desde a sua mocidade, e numa fase ainda inconsciente do desenvolvimento, uma certeza infalível de satisfação pelo belo e de repugnância pelo feio, a qual a habilita mais tarde a saudar elegantemente, como algo que lhe é afim, o conhecimento consciente, quando ele se apresenta.” “Esta educação adquire um novo significado, como fase prévia irrecusável para o conhecimento filosófico puro, que sem a base da cultura musical ficaria flutuando no ar.”

Segundo a teoria de Platão, por mais arguta que seja a inteligência, não tem acesso direto ao mundo dos valores, que, em última instância, é o que interessa à filosofia platônica. Na Carta Sétima, o processo de conhecer é descrito como um processo gradual que faz a alma parecer-se cada vez mais com a essência dos valores que aspira a conhecer.” “Para Platão, a educação do caráter é a via que conduz à educação dos olhos da inteligência, e modifica de tal maneira a sua natureza que lhe é possível alcançar o princípio supremo

Platão não toma de forma alguma por modelo as regras que os atletas têm de observar quanto à alimentação; estas regras tornam os atletas excessivamente sensíveis e sujeitam-nos em demasia à sua dieta; e principalmente o seu hábito de dormir muito não é o mais indicado para quem deve ser a vigilância em pessoa. Os ‘guardiões’ devem poder adaptar-se a todas as mudanças de comida, de bebida e de clima, sem que por causa disso corra perigo a sua saúde. Platão reclama para eles um tipo de ginástica totalmente diferente e mais simples”

Há duas coisas que para Platão constituem sintomas infalíveis de má paideia: os tribunais de justiça e os estabelecimentos de saúde. O grande desenvolvimento destas instituições é tudo, menos o orgulho da civilização. O objetivo do educador deve ser conseguir que se tornem supérfluas dentro do seu Estado.” “como é que um carpinteiro que adoece poderia entregar-se durante muito tempo a um tratamento que o impedisse de exercer a sua profissão? Não tem outro remédio senão trabalhar ou morrer.” E no entanto hoje o motorista de aplicativo não tem qualquer noção da verdadeira saúde. É tão aniquilado como cada um de nós, os “servos legalizados”. Sequer tem um pressentimento da possibilidade da consciência sobre seu grande problema.

existe uma natural afinidade eletiva entre a filosofia platônica e um corpo ao qual uma educação rigorosa põe na posse de uma saúde perfeita. (…) É certo que Platão postula no Fédon a necessidade de a alma voltar as costas ao mundo do corpo e dos sentidos, para se poder concentrar no exame das verdades puramente abstratas, mas o espírito que na República inspirava a paideia ginástica é um perfeito complemento deste quadro.”

ASPIRINAS PARA AQUILES: “Foi para os homens sãos, cujo corpo sofria passageiramente algum dano local, e com o fim de eliminar esse dano, que Asclépio inventou a arte da medicina. Em contrapartida, nunca nos poemas homéricos este deus ou os seus filhos se ocupam dos corpos minados pela doença. [o que é até objeto de uma famosa tragédia]” “Em contrapartida, o médico deve deixar morrer os corpos totalmente enfermos, como o juiz mata os homens cuja alma está incuravelmente enferma à força de crimes.” “Heródico¹ foi pondo obstáculos à morte, à força de prolongá-la artificialmente”

¹ “Herodicus was a 5th century BC Greek physician, dietician, sophist, and gymnastic-master. He was born in the city of Selymbria, a colony of the city-state Megara, and practiced medicine in various Greek cities including Selymbria, Megara, Athens, and Cnidos.”

O princípio da seleção rigorosa e consciente tem também a sua importância, do ponto de vista político, para a estrutura do Estado platônico, pois é sobre ela que assenta a possibilidade de manter de pé o sistema da diferenciação por escalões.”

Neste Estado não existe a mínima garantia de tipo constitucional contra o abuso dos poderes extraordinários e quase ilimitados que põe nas mãos daqueles que o regem. A única garantia efetiva de que de guardiões do Estado não se converterão em donos e senhores dele, de que não degenerarão de cães de guarda em lobos que devoram o rebanho que lhes cumpre guardar, reside, segundo o filósofo, numa boa educação.” “ele não se interessa aqui pelo Estado como problema técnico ou psicológico, mas o aborda simplesmente como delimitação e como fundo de um sistema perfeito de educação.”

NO MUNDO DA INOVAÇÃO JURÍDICA, DAMOS UM TAPA NA TESTA E GEMEMOS: “A idéia de um Estado ideal tem implícita a idéia de que tudo o que dele difere é necessariamente pior do que ele próprio. O que é simplesmente perfeito não deixa margem a nenhum desejo de progresso, mas apenas à vontade de conservá-lo. E para conservá-lo, não se dispõe de outros meios que não sejam os empregados para criá-lo. Depende tudo apenas de não se inovar nada na educação.”

O desprezo pela maquinaria administrativa e legislativa do Estado moderno, a substituição da legislação concreta pela força do costume e por um sistema público educacional que presidisse à vida inteira, a instituição de refeições coletivas para os ‘guardiões’, a supervisão governamental da música e a concepção dela como firme cidadela do Estado, são todos traços genuinamente espartanos. Mas só um filósofo da época da degenerescência da democracia ateniense e formado em oposição a ela podia oferecer esta interpretação de Esparta como o tipo de Estado em que se conseguia evitar com êxito o individualismo extremista.”

A renúncia de Platão a estas conquistas constitui, naturalmente, um extremo só explicável pela desesperada situação espiritual da Atenas daquele tempo. Platão chegou à trágica convicção de que até as leis e as constituições não passam de meras formas, que só têm valor quando no povo existe uma substância moral que as alimenta e conserva. Espíritos conservadores julgavam notar precisamente na democracia que aquilo que mantinha coeso esse Estado era, no fundo, uma coisa diferente daquilo que a sua ideologia própria fazia passar por tal.”

A perduração ininterrupta dessa lei não-escrita é que tinha sido o forte da democracia ateniense na sua época heróica; foi a sua decadência que, apesar de todas as leis em vigor, converteu em arbitrariedade a liberdade dela. Segundo Platão, uma educação do tipo daquela de Licurgo era o único caminho para restaurar, não a aristocracia de nascimento pela qual suspiravam muitos dos seus companheiros de classe, mas sim os antigos costumes e, por meio destes, consolidar de novo o Estado.”

ao atingirmos a meta da verdadeira educação, teríamos realizado também a verdadeira justiça”

Visto que, à exceção da justiça, se atribuiu a cada uma das 4 virtudes cardeais da antiga política o respectivo lugar dentro do Estado, pela sua localização numa classe especial da população, já não resta à justiça nenhum lugar especial nem classe nenhuma da qual seja patrimônio; e então surge intuitivamente perante o nosso olhar a solução do problema: a justiça consiste na perfeição com que cada classe dentro do Estado abraça a sua virtude específica e cumpre a missão especial que lhe cabe.

Lembramos, todavia que, na realidade, este estado de coisas não é a justiça no verdadeiro sentido da palavra, mas simplesmente a sua imagem refletida e ampliada na estrutura da comunidade; procuremos, pois, a essência e a raiz dela no próprio interior do Homem.”

Não é, pois, na ordem orgânica do Estado, em virtude da qual o sapateiro deve trabalhar como sapateiro e o carpinteiro desempenhar o seu ofício próprio, que a justiça consiste. Ela consiste na conformação interior da alma, de acordo com a qual cada uma das partes faz o que lhe compete e o Homem é capaz de se dominar e de congraçar numa unidade a multiplicidade contraditória das suas forças internas.”

Assim como a saúde é o bem supremo do corpo, a justiça é o bem supremo da alma. Com isto se vota ao mais completo ridículo a pergunta sobre se ela será saudável e útil para a vida (…) Não merece ser vivida a vida sem justiça, tal como não vale a pena viver uma vida sem saúde.”

se só existe uma forma de justiça, existem, em contrapartida, muitas formas de degenerescência dela, com o que desperta de novo em nós a recordação da medicina e da saúde.”

Não há no Estado platônico nenhum traço que tenha produzido nos contemporâneos e na posteridade uma sensação tão grande como a digressão sobre o regime da comunidade de mulheres e de prole, entre os ‘guardiões’. O próprio Platão tem de vencer certa resistência para exprimir na República o seu paradoxal critério sobre este ponto, pois teme a tempestade de indignação que irá levantar.” Note-se que se diz da comunidade de prole dos guardiães. A ralé segue sendo ralé, e portanto seus núcleos familiares, que são indiferentes à máxima coesão deste Estado, não sofrem interferência em relação ao costume tradicional. Tradicional ou contemporâneo a Platão e à história conhecida da Antiguidade? Pois temos muitas razões para inferir que a civilização provém de castas em que tudo era estruturado comunalmente.

Quem como ele é educado para se devotar completamente ao serviço da coletividade, quem não tem casa própria nem propriedade alguma nem vida privada, como poderá possuir e governar uma família? Se toda a acumulação de propriedade particular é reprovável, por fomentar o egoísmo econômico e familiar e entorpecer, dessa forma, a realização da verdadeira unidade entre os cidadãos, é natural que nem sequer diante da família, como instituição jurídica e ética, Platão se detenha, mas tal como o resto a sacrifique também.”

Em Esparta, onde o homem da classe dominante vivia entregue quase por inteiro ao cumprimento de seus deveres cívicos e militares, durante a vida inteira, a vida de família desempenhava só um papel secundário e os costumes da mulher, neste estado tão severo em tudo o mais, tinham na Grécia fama de licenciosos.” Esparta eram os Cantões Suíços daquele tempo. Atenas, uma Paris ou Berlim.

É bem significativo que a sua comunidade de mulheres e de filhos se limite à classe dos ‘guardiões’, que estão a serviço direto do Estado, e não se torne extensiva à massa da população trabalhadora. A Igreja resolveria mais tarde este problema, pela imposição do dever de celibato aos sacerdotes, que nela representam a classe dominante. Mas Platão, que pessoalmente era celibatário, não acreditava que esta forma se pudesse levar em consideração dentro do seu Estado” Pois compreendia a força do instinto mesmo diante do Estado ideal. “O lema da exclusão de toda a propriedade individual, incluindo a da mulher, combinado com o princípio da seleção da raça, leva à exigência da comunidade de mulheres e de filhos para os ‘guardiões’.” Um sistema ainda menos hereditário que a democracia moderna, para não dizer da monarquia eurocêntrica, uma vez que hoje basta com ter Kubitschek ou Brizola no sobrenome para estar virtualmente eleito. Perversão da meritocracia platônica, nada platônica, se é que me faço entender.

Não partilha a opinião dominante no seu país, segundo a qual a mulher é destinada pela natureza exclusivamente a conceber e a criar filhos e a governar a casa. É certo que reconhece que a mulher é em geral mais fraca do que o homem, mas não crê que isto seja obstáculo para ela participar nas funções e nos deveres de ‘guardiões’.”

Platão prevê com toda a clareza as conseqüências a que esta lei se expõe e que parecem ameaçar com a maldição do ridículo as suas revolucionárias inovações. As mulheres deverão, nuas, alternar com os homens na palestra, e não só as jovens, mas também as enrugadas mulheres de idade, do mesmo modo que nos ginásios é freqüente ver muitos homens já idosos praticando os seus exercícios. Mas Platão não acredita que esta norma ponha a moral em perigo; e que se pense disto o que se quiser, o certo é que o mero fato de ele poder formular tal proposição demonstra a mudança imensa de sensibilidade que se operara em relação à posição do homem perante a mulher, desde a época anterior a Péricles, em que Heródoto escrevia, na sua narração sobre Giges e Candaules, que ao despojar-se do vestido a mulher despojava-se também do poder. Platão observa que os bárbaros consideravam a nudez desonrosa também para o homem e que o sentimento moral dos gregos da Ásia Menor, influenciado por aqueles, tinha certa afinidade com tal maneira de pensar. O sentimento moral dos gregos da Ásia Menor revela-se na sua arte do séc. VI, que, sob este aspecto, é muito diferente da arte do Peloponeso.”

A figura do corpo nu do atleta varão convertera-se há muito em tema fundamental das artes plásticas, sob a influência da ginástica e do seu ideal de arete física e também sob a ação do seu sentimento do moralmente decente e decoroso.” “há quanto tempo a implantação da ginástica nua entre os homens levantou a mesma tempestade de troça e indignação que hoje levanta a proposta de tornar esta prática extensiva à mulher?”

não existem profissões só acessíveis ao homem ou à mulher.”

IVO BRUNS, Vorträge und Aufsätze [Conferências e ensaios] (Munique, 1905) (sobre a emancipação da mulher em Atenas)

o conceito de ‘os melhores’ não se pode definir no seu sentido pleno, enquanto não se explicitar o princípio da seleção” “É na melhor educação que se deve basear o governo dos melhores; aquela, por sua vez, exige como terreno de cultura as melhores aptidões naturais. Esta idéia era corrente no tempo de Platão e provinha principalmente da teoria pedagógica dos sofistas.”

Já Teógnis, nos seus poemas exortativos, profetizara à nobreza arruinada da sua cidade pátria, ansiosa por se restaurar financeiramente por meio de casamentos com filhas de plebeus ricos, as desastrosas conseqüências que esta mistura de raças traria à conservação da antiga arete dos nobres.” “O velho Teógnis não sonhara sequer chegar a tais conseqüências. Entre a moral racional de Teógnis e o sistema platônico de ‘controle’ estatal, cabia como solução intermediária a paideia espartana, preocupada em velar pela procriação de uma descendência saudável, no caso da camada senhorial da sociedade.”

Estas medidas eugenésicas de Platão, baseadas nas suas intenções educacionais, seguem as normas da medicina grega”

O cuidado dos recém-nascidos deve subtrair-se absolutamente à jurisdição das mães.” “As mães só terão acesso às crianças para amamentá-las, mas nem sequer conhecerão os próprios filhos, pois deverão querer a todos por igual.” “O objetivo supremo de Platão era conseguir que as alegrias e as dores de cada um fossem as alegrias e dores de todos.”

Devem eles ser iniciados na guerra logo desde a infância, tal como os filhos dos oleiros aprendem a arte da olaria, vendo o pai trabalhar ou dando-lhe uma ajuda na sua tarefa.” “Poder-se-ia pensar que a mera contemplação das batalhas é menos eficaz, como meio de educação bélica, do que o adestramento regular da juventude em jogos guerreiros, onde ela possa participar ativamente. (…) Trata-se de um processo de enrijecimento espiritual, por meio do contato com a espantosa mecânica da guerra autêntica.”

Tirteu e Platão são os psicólogos da batalha e vêem o verdadeiro problema que ela implica para um ser humano.”

ele proíbe a devastação dos campos e o incêndio das casas, fatos que também não são habituais nas guerras civis de um Estado civilizado do séc. IV, mas atraem sobre a cabeça dos culpados a maldição dos deuses” “Despojar por mera sede de lucro os caídos no campo de batalha é punido como indigno de um homem livre, bem como impedir que se levantem do campo os mortos. As armas são a única coisa que um guerreiro pode arrebatar ao inimigo caído.”

Ainda na obra De iure belli ac pacis, escrita no séc. XVI pelo grande humanista e pai do direito internacional Hugo Grócio, reconhecia-se como não-contrário à natureza o direito de escravizar os inimigos, em caso de guerra.” “na opinião de Grócio só sob o cristianismo se conseguiu o que o Sócrates platônico em vão pregara aos gregos como um preceito do instinto nacional de autoconservação. Mas o próprio Grócio observa que também os maometanos seguiam esta mesma regra de direito internacional, nas lutas contra povos da sua religião. Devemos, portanto, generalizar a sua tese no sentido de que não foi o Estado antigo nem a idéia nacional do séc. IV, mas sim a comunidade de fé das religiões universais, a qual se estendia a povos diversos, que assentou os fundamentos que possibilitaram a realização parcial dos postulados de Platão.”

a grande verdade educacional que a República ilustra plasticamente é a estrita correlação entre a forma e o espaço. Não é só de um princípio artístico que se trata, mas sim de uma lei do mundo moral. O homem perfeito só num Estado perfeito se pode formar”

É sobre estes 2 conceitos procedentes da Grécia primitiva, o de paradigma e o de mimesis, modelo e imitação, que toda a paideia grega assenta. A República de Platão representa uma nova etapa dentro dela.”

É certo que os Estados atuais, como o Górgias punha em relevo, fazem da aspiração ao poder um fim em si, e por isso não estão habilitados a cumprir a missão educacional na qual Platão vê a essência do Estado. Enquanto o poder político e o espírito filosófico não coincidirem, Platão julga impossível uma solução construtiva do problema grego da formação do Homem, em sentido socrático, e portanto da superação dos males da sociedade presente. Surge assim a famosa tese platônica segundo a qual não acabará a miséria política do mundo enquanto os filósofos não se tornarem reis ou os reis não começarem a investigar de forma verdadeiramente filosófica. É este postulado que ocupa o lugar central da República. Não se trata de uma engenhosa frase incidental, mas da fórmula que oferece a solução ideal para aquele trágico divórcio entre o Estado e a educação filosófica que vimos em obras anteriores de Platão.” Enunciado perene, ainda vigente no “pós-Marx” e no “pós-Nietzsche”!

E assim, na República, a Filosofia aparece pela primeira vez no primeiro plano da atenção.”

Platão não condena o poder como uma coisa ‘má em si’; submete apenas o seu conceito a um esclarecimento dialético radical, que o limpa da mancha do egoísmo. Liberta-o da arbitrariedade e volta a reduzi-lo à vontade pura, cuja meta inamovível é, por natureza, o Bem. Nenhum ser humano pode voluntariamente enganar-se naquilo que considera bom e salutar. O verdadeiro poder só pode consistir na capacidade de realizar a aspiração natural que lança o Homem para aquela meta. A sua premissa é, portanto, o conhecimento real do Bem. E é assim que a filosofia torna-se paradoxalmente o caminho para o verdadeiro poder.”

a economia artística da República solicita a ilusão de, por assim dizer, ser aqui a 1ª vez que o leitor se vê obrigado a meditar sobre a filosofia” “No seu isolamento atual, ela própria tem dificuldade em compreender que foi só batalhando com aqueles problemas que conseguiu forjar o grandioso caráter que na sua 1ª fase criadora a distinguiu. A resignada frase de Hegel, dizendo que a coruja de Atena só se levanta ao entardecer, contém sem dúvida uma certa verdade e a consciência dela estende a sua sombra trágica sobre o esforço heróico que o espírito humano se dispõe a realizar à última hora, com a tentativa platônica de salvação do Estado.”

ele [o filósofo] pode dizer o que é justo e belo por si; as opiniões da massa a respeito destas e das demais coisas oscilam na penumbra entre o não-ser e o verdadeiro Ser. E nisto não diferem da massa os estadistas.” “os caprichos da massa tornam-se a pauta suprema da conduta política e o espírito desta adaptação vai pouco a pouco se infiltrando em todas as manifestações da vida. Este sistema de adaptação exclui a possibilidade de uma autêntica educação do Homem, orientada de acordo com a pauta dos valores imutáveis.” “É o conhecimento da verdade que deve ocupar o trono do Estado reconstruído.” “O conhecimento da norma suprema, que o filósofo abriga na sua alma, é o fecho da cúpula do sistema do Estado educacional platônico.”

Platão não parece subscrever o clamor dos sofistas e humanistas contra o profissionalismo da cultura. Parece paradoxal esta atitude, num homem que como ele tem em tão alto apreço o saber pelo próprio saber.” “Platão volta ao conceito de techne política que formulara no Górgias, e isso nos lembra ao mesmo tempo as dúvidas iniciais apontadas por Sócrates no Protágoras sobre a possibilidade de ensinar a virtude política. (…) Na República, Platão já não deixa Sócrates albergar nenhuma dúvida.”

Platão não leva muito a sério as dúvidas formuladas sobre a missão política do filósofo. O exame destas dúvidas serve-lhe de pretexto para se desvencilhar de muitos daqueles que se arrogam o nome de filósofos. Mas a par disto defende com o máximo rigor a verdadeira filosofia e considera qualquer concessão feita aos críticos como uma acusação contra o mundo. A imagem por ele traçada do destino do filósofo converte-se numa tragédia impressionante. Se nas obras de Platão há alguma página escrita com o sangue do seu coração, é esta. Já não é só o destino de Sócrates, feito símbolo, o que move a sua pena. Mistura-se a ele, aqui, a história da sua própria ambição suprema e o ‘fracasso’ das suas forças ante a missão que outrora se julgara especificamente chamado a cumprir.”

dá-nos uma definição filosófica, indispensável para a compreensão da sua tese sobre os governantes-filósofos, principalmente para o leitor atual, que facilmente pode associar à palavra grega incorporada aos nossos idiomas a idéia de erudito. O seu ‘filósofo’ não é exatamente um professor de Filosofia, que se arrogue um título destes, baseado nos conhecimentos que tem da sua especialidade. E ainda menos é um ‘pensador original’, pois não seria possível existirem simultaneamente tantos pensadores quanto os ‘filósofos’ de que Platão precisa para governar o seu Estado.”

amante da cultura” “a personalidade humana altamente cultivada”

QUANDO CULTURA ERA SABER, E NÃO UM “SABER NÃO-TÉCNICO”: “Platão concebe o filósofo como um homem de grande memória, de percepção rápida e sedento de saber. Um tal homem despreza tudo o que é minúsculo, o seu olhar eleva-se sempre ao aspecto global das coisas e abarca, de uma vigia altíssima, a existência e o tempo. Não tem a vida em grande apreço nem sente grande apego aos bens exteriores. É estranho a ele tudo o que seja gabolice. É grande em tudo, mas sem por isso deixar de possuir um certo encanto.” Comparar com os atributos dos últimos homens e de Zaratustra.

Vivemos a Era da Crítica (Sofística 2.0).

o representante da arete perfeita (…) O filósofo platônico não é senão a forma do kaloskagathos, quer dizer, a forma do ideal supremo de cultura do período grego clássico, renovada num sentido socrático.”

DE TALES A SCHOPENHAUER: “A censura da incapacidade destes homens recai, na realidade, sobre aqueles que não sabem usar a sua capacidade. (…) Cada um dos dotes, se é desenvolvido de forma unilateral e desligado dos outros, torna-se um obstáculo a uma formação verdadeiramente filosófica. (…) O desenvolvimento são do Homem é condicionado por uma boa alimentação, pela estação do ano e pela região; esta norma geral, que vigora para todas as plantas e animais, afeta de maneira especial os temperamentos melhores e mais vigorosos. (…) Um temperamento filosófico, que em terreno propício é chamado a florescer maravilhosamente, produz como fruto o contrário dos seus magníficos dotes, se for semeado ou plantado no solo de uma má educação” O caso do tirano erudito.

Platão defende a idéia deste destino inapreensível para a inteligência humana e que as mentes religiosas não consideram fruto do mero acaso, mas antes obra de um poder miraculoso.”

da maneira como os temperamentos filosóficos se salvam milagrosamente de todos os obstáculos com que o ambiente corrupto ameaça desde o primeiro instante a trajetória da sua formação. Segundo Platão, o que infunde caráter trágico à existência do homem filosófico neste mundo é o fato de só pelo influxo de uma graça ou tyche divina especial ele poder sobrepujar os obstáculos” O leão na caverna (Z4)

Os que culpam os sofistas da degenerescência da juventude é que são os piores sofistas. Na realidade, é a influência do Estado e da sociedade que educa os homens e faz deles o que quer.” “Nenhum caráter, nenhuma personalidade se pode formar senão de acordo com esta paideia exercida pela massa, e não ser que venha em seu auxílio a graça especial dos deuses.” “professores e educadores só podem educar as pessoas naquilo que a massa lhes ordena e que impera na opinião pública.” “Os educadores que melhor entendem as palavras e o tom mais de agrado da ‘grande besta’. São os homens que fazem profissão da adaptação.”

a salvação dos temperamentos filosóficos pode acontecer neste mundo. Aqui, aparece tacitamente aos olhos do leitor o nexo causal entre a salvação pessoal de Platão e o fato de ter encontrado em Sócrates o verdadeiro educador. Estamos na presença do caso excepcional em que uma personalidade individual pode transmitir aos discípulos bens de valor eterno. Longe, porém, de receber qualquer recompensa, este educador de educadores teve de pagar com a vida a sua independência em relação à educação da massa.” Um Sócrates pode ensinar a outro Sócrates a virtude. Singularidade radical e extrema.

O conhecimento do que é bom em si é uma característica essencial do filósofo. Falar de uma massa filosófica constitui para Platão uma contradição em si. É precisamente a hostilidade mútua a relação natural entre a massa e a Filosofia’

missão interior”

caracteres como os de Alcibíades e Crítias, cujos defeitos se haviam tentado imputar a Sócrates e ao seu sistema educacional.” “logo foram corrompidos pelo meio ambiente” “têm um grande ímpeto e um fulgor espiritual que os levam a se distinguirem da massa.”

São raríssimos os caracteres espirituais que conseguem furtar-se à corrupção. Talvez o consiga um homem muito culto e de caráter nobre, que se veja obrigado a viver no exílio como um estranho e a quem este isolamento involuntário sirva de tábua de salvação para não cair sob a influência corruptora, uma grande alma que tenha nascido numa cidade pequena e que, por se desinteressar dela, se volte para o mundo espiritual; ou então o representante de uma especialidade, que com razão compreenda a mesquinhez dela e lhe vire as costas para enveredar pela senda da Filosofia. (cf. Rep. 496 B-C)”

a mais profunda das resignações”

E quando vê os outros viverem no meio da impureza, sente-se satisfeito por se ver limpo da injustiça e poder viver a trabalhar no que é seu e deixar um dia este mundo no final da sua carreira”

Bem longe da crença de poder transformar o Estado real do seu tempo, e rebelde também à idéia de se lançar na arena da luta política, volta a ser aqui o que era lá: o verdadeiro homem desconhecido para a opinião do mundo.” “É o seu afastamento de toda a atuação pública que constitui a sua verdadeira força. Platão já na Apologia descrevera Sócrates como o homem que sabia perfeitamente por que é que o seu daimon o desviara sempre, ao longo de toda a sua vida, de atuar na política.” “Quem realmente quiser lutar em prol da justiça é na vida privada que tem de fazê-lo” “foi a morte de Sócrates que gerou a grande crise na vontade política de Platão.” “O filósofo faz da necessidade da minoria uma virtude.”

Professores e alunos sempre tinham existido, mas seria um anacronismo histórico considerar escolas do tipo platônico as coletividades deste gênero que conhecemos da filosofia pré-socrática. (…) as circunstâncias de Platão ter fundado a Academia logo após a sua primeira viagem ao Ocidente grego, na qual teve ocasião de estabelecer um contato bastante estreito com os pitagóricos, indica que existia entre estes fatos uma íntima relação.”

J.L. Stocks fez uma tentativa para salvar a historicidade da tradição contida em CÍCERO, Tusc. Disp., V, 3, 8, segundo a qual foi Pitágoras quem empregou a reivindicou para si a palavra filósofo. Eu, porém, nunca pude aceitar os argumentos do meu excelente amigo cuja morte prematura foi uma perda considerável para os estudos clássicos.”

Apesar da especulação platônica sobre o Estado, a escola de Platão não agia como grupo político na vida da sua cidade natal, como agiam os pitagóricos, antes da destruição da sua Ordem.”

Na realidade, a Academia não teria podido existir senão no seio da democracia ateniense, que deixava Platão falar, ainda quando criticava o seu próprio Estado. Havia já muito tempo que nela se considerava um erro grave ter condenado Sócrates, e via-se no seu herdeiro principalmente o homem que aumentava o renome espiritual da cidade, que, apesar de vacilar na sua posição externa de poder, se ia tornando cada vez mais o centro espiritual do mundo helênico.”

Depois de o filósofo baixar à resignação da grandeza ignorada e do retraimento perante o mundo, é difícil voltar à idéia do que representa o homem chamado a dominar o Estado futuro.” “O filósofo é uma planta divina que necessariamente irá degenerar ou adaptar-se, quando transplantada para o solo árido dos Estados atuais.” “Na penúria em que Platão vive, a sua filosofia é unicamente formação de si mesmo, e não cultura.”

Persevera na sua disposição permanente e de certo modo escatológica de se entregar como força auxiliar ao mundo divinamente perfeito que pertence ao ‘porvir’.” “protege o conceito de ‘porvir’, para o qual o filósofo se forma, do perigo de escorregar para o imaginário” “É esta posição intermediária – que ele ocupa entre a pura investigação, desligada de todo o fim ético e prático, e a cultura meramente pragmática, política, dos sofistas – que faz o humanismo platônico ser realmente superior a ambos.”

3.11 A República – II

Platão não procura, no que se segue, definir em sentido rigoroso a natureza do Bem-em-si. Em nenhuma das suas obras o faz, apesar da freqüência com que elas, no final da investigação, conduzem a este ponto. O Filebo é dentre as obras de Platão aquela em que se investiga de forma mais sistemática o problema aqui proposto: se é o prazer ou a razão o bem supremo. Mas nem sequer ali se chega no fim a qualquer definição do que é o Bem. O que se faz é apenas deduzir 3 das suas características: a beleza, a simetria e a verdade”

recusando tudo o que seja excessivamente técnico-filosófico e exemplificando em vez disso, por meio de uma analogia plástica, a posição e a ação do Bem no mundo. Uma alegoria, em que a máxima força poética conjuga-se com a sutileza plástica do traçado lógico, descobre repentinamente o lugar e o sentido da idéia do Bem, como princípio supremo da filosofia platônica, lugar e sentido que até agora se tinham conservado deliberadamente obscuros nas obras de Platão, ou então como um ponto esboçado na distância.”

A ‘contemplação’ era na dialética platônica a expressão da função espiritual em virtude da qual se vê no múltiplo a unidade da idéia e que o próprio Platão caracteriza por vezes com o nome de synopsis. Mas como, ao chegar ao seu último pedaço, já se não pode exarar por escrito o caminho dialético que conduz à contemplação da idéia do Bem, substitui-o pela contemplação sensível do seu ‘análogo’ no mundo visível.”

Podemos dizer que a visão é o mais solar dos nossos sentidos, mas a capacidade de ver provém principalmente da luz que o Sol difunde e que banha aquela, do exterior.”

O SER-DO-ENTE: “Ao mundo do visível não dá o Sol apenas a visibilidade, mas o nascimento, o crescimento e a nutrição. (…) também o mundo do cognoscível não recebe da idéia do bem só a cognoscibilidade, mas ainda o ser, embora o Bem em si não seja o Ser, mas algo superior a ele pela sua posição e pelo seu poder.” “O mesmo se diz de Deus em ARISTÓTELES (Dial. frag., edição WALZER, P. 100, frag. 49 ROSE) (…) As vacilações (…) implicam (…) uma alternativa, ou seja, duas afirmações coincidentes com a verdade.” O melhor discípulo de Parmênides.

JAEGER, The Theology of the Early Greek Philosophers (La teología de los primeros filósofos griegos, FCE, 1952)

No livro VIII da Cidade de Deus, que elaborou conscientemente para enfrentar a República de Platão, Santo Agostinho entrega a este o cetro de toda a teologia anterior ao Cristianismo.”

Karl STUMPF, Verhältnis des platonischen Gottes zur Idee des Guten (Halle, 1869)

Hermann Lotze, pai da moderna teoria filosófica do <valor>”

SOLMSEN, Plato’s Theology, 1942

BOVET, Le Dieu de Platon (Tese de Genebra), 1902

A pergunta socrática sobre qual é a natureza e unidade da arete revela-se finalmente como problema do Bem divino, a ‘medida de todas as coisas’ (como se define Deus nas Leis).”

já alguns dos filósofos pré-platônicos evitavam a palavra THEOS ou preferiam falar de <o divino>”

Platão parece deter-se apenas no aspecto metafísico da idéia do Bem. Parece ter perdido completamente de vista a relação que ela tem com a missão da cultura do Homem. É isto que leva constantemente os intérpretes a arrancarem a comparação do solo em que está enraizada e a encará-la como um símbolo auto-suficiente da metafísica ou da teoria do conhecimento de Platão, sobretudo quando têm em conta que ela forma o final do livro VI, aparecendo assim (contra a intenção platônica) como o remate da sua exposição e desligada do que vem a seguir.” “Uma antologia que culmina na idéia do Bem: eis a metafísica da paideia. O ser de que Platão fala não está desligado do Homem e da sua vontade.”

Mas a meta fica além do mundo dos fenômenos diretamente dado e está oculta ao olhar do homem sensorial por um múltiplo invólucro. Romper estes invólucros impeditivos é o primeiro passo que se tem de dar para que a luz do Bem jorre no olhar da alma e lhe faça ver o mundo da verdade.” O mundo-verdade de Nietzsche é uma ficção; o mundo da verdade platônico é, dessa mesma perspectiva, ainda o aquém, “aparência”. Platão entendido corretamente nega o platonismo.

Só ao chegarmos ao segundo segmento principal da linha saímos do campo das meras opiniões para entrarmos no do conhecimento e da investigação científica, no reino da verdade, quer dizer, na esfera em que se processará a educação platônica dos governantes-filósofos.”

Só quando entramos na segunda e última fase do mundo inteligível alcançamos um tipo de conhecimento que, embora parta de hipóteses também, não as aceita, à maneira das matemáticas, como princípios, mas simplesmente como o que a própria palavra indica, ou seja, como premissas e degraus, para a partir deles erguer-se logo a seguir até o absoluto, até o princípio universal. É este método de conhecimento que é o verdadeiro logos, o logos puro.” “Mas é visível que Platão não pretende explanar aqui, numa página, os últimos segredos da sua teoria do método e da sua lógica, como parecem pensar a maioria dos intérpretes, que sempre aqui viram o seu paraíso”

meras conjeturas” (1)

percepção sensorial dos objetos reais (…) simples imagem refletida” (2)

uma esfera de madeira” (3)

(a esfera em si)” (4)

Platão não afirma que o Ser sobre o qual versa o conhecimento matemático seja um reflexo do que a dialética concebe. Mas é algo semelhante a isto que ele parece pensar quando diz que as teses mais gerais que o matemático aceita como princípios são meras hipóteses para o filósofo, que delas parte para se elevar (…) A proporção matemática que ilustra as 4 fases vai desde a alegoria do Sol, que constitui o final e ponto culminante do livro VI, até a alegoria da caverna, com que o VII começa; e a ascensão do conhecimento até a idéia do Bem, que até aqui apenas de maneira abstrata fôra exposta, aparece neste livro plasmada como símbolo, com uma força poética insuperável.”

OS 4 NÍVEIS:

(1) Sombras;

(2) Reflexos;

(3) Imagens;

(4) e a imagem-em-si. RAZÃO (mas não é a Verdade ou o Absoluto).

Um quinto nível, inatingível, SOL, seria, portanto, a Idéia no sentido de Além.

A princípio não poderia ver senão sombras, em seguida já conseguiria ver as imagens dos homens e das coisas refletidas na água, e só por fim estaria apto a ver diretamente as próprias coisas. Contemplaria depois o céu e as estrelas da noite e a sua luz (…) considera-se feliz pela mudança ocorrida e lamenta os seus antigos irmãos de cativeiro. (…) preferiria ser o mais humilde jornaleiro do mundo da luz do espírito a ser o rei daquele mundo de sombras. E se por acaso voltasse outra vez ao interior da caverna e se pusesse, como antigamente, a rivalizar com os outros cativos, cairia no ridículo, pois já não conseguiria ver nada nas sombras e lhe diriam que arruinara os olhos ao sair para a luz. E se procurasse libertar qualquer dos outros e arrancá-los das trevas, correria o risco de o matarem, caso pudessem apoderar-se da sua pessoa.”

O conceito de esperança é aqui empregado com especial referência à expectativa que o iniciado nos mistérios experimenta em relação ao além. A idéia da passagem do terreno à outra vida é aqui transferida para a passagem da alma do reino do visível ao reino do invisível.”

A repugnância do verdadeiro filósofo em se ocupar dos assuntos humanos e a sua ânsia de permanecer nas alturas nada tem de surpreendente, se esta comparação corresponde à realidade; e é perfeitamente compreensível que o filósofo tenha de cair por força no ridículo, ao regressar deste espetáculo divino às misérias do mundo dos homens (…) os transtornos desorientadores da visão que afetam os olhos da alma, quando ela desce da luz às trevas, são diferentes dos que se produzem ao passar das sombras da ignorância para a luz, e quem chegar ao fundo do problema não se rirá, mas considerará, num caso, feliz a alma, e no outro a lamentará.”

Diante das profundas comparações contidas nesta passagem, que desde a Antiguidade foi inúmeras vezes interpretada nos mais diversos sentidos, estamos nós em situação extraordinariamente favorável, porque o próprio Platão encarregou-se de comentá-la e esclarecê-la, de maneira suficientemente clara, completa e concisa.”

A comparação do Sol e da caverna, agrupadas numa unidade, como vimos pela proporção matemática das 4 gradações do Ser, representam uma só encarnação simbólica da essência da paideia.”

no primeiro parágrafo do livro VII (…) Platão aponta a caverna expressamente como uma alegoria da paideia. Para falar mais exatamente, apresenta-a como uma alegoria da natureza humana e da sua atitude perante a cultura e a incultura, a paideia e a apaideusia. Para o leitor capaz de compreender de uma só vez o encadeamento lógico de mais de uma tese, está implícita nela uma dupla referência para trás e para frente.”

Novo Protágoras: o Sol é a medida de todas as coisas.

A paideia não é focalizada aqui do ponto de vista do absoluto, como na alegoria do Sol, mas antes do ponto de vista do Homem: como transformação e purificação da alma para poder contemplar o Ser supremo. Ao desviar a nossa atenção da meta para o pathos deste processo interior de cultura, Platão aproxima-nos ao mesmo tempo da verdadeira exposição da sua trajetória metódica, no ensino das matemáticas e da dialética.”

No fundo, é logo desde as primeiras obras que Platão se esforça por fazer compreender a ignorância socrática como a aporia de um homem que caminha para a superação e aprofundamento do saber até então dominante. O que se diz na República sobre este problema não pode, naturalmente, ser comparado, quanto à precisão, com os diálogos especialmente consagrados ao tema do saber, mas limita-se a ordenar os seus resultados.”

CONTRA A INOCUIDADE DO DISCURSO <LEIAM LIVROS>: “A verdadeira educação consiste em despertar os dotes que dormitam na alma. Põe em funcionamento o órgão por meio do qual se aprende e se compreende; e conservando a metáfora do olhar e da capacidade visual poderíamos dizer que a cultura do Homem consiste em orientar acertadamente a alma para a fonte da luz, do conhecimento. Assim como os nossos olhos não poderiam voltar-se para a luz a não ser dirigindo o corpo inteiro para ela,¹ também nos devemos desviar <com toda a alma> do corpo do devir, até que ela esteja em condições de suportar a contemplação das camadas mais luminosas do Ser.

[¹ O “falso” desprezo pelo corpo (o cristianismo como inversão do Platonismo, e não sua consumação).]

Portanto, é numa <conversão>, no sentido original, espacialmente simbólico, desta palavra que a essência da educação filosófica consiste. É um volver ou fazer girar <toda a alma> para a luz da idéia do Bem, que é a origem de tudo.(*) Este processo distingue-se, por um lado, do mesmo fenômeno na fé cristã, para o qual mais tarde foi transposto este conceito filosófico da conversão, porque este conhecer radica num ser objetivo; por outro lado, tal como Platão o concebe, está completamente isento do intelectualismo¹ que sem qualquer razão se censura nele.

(*) Cf. A. NOCK, Conversion (Oxford 1933). Este autor procura no helenismo clássico os antecedentes do fenômeno religioso cristão da conversão e menciona, entre outros, o passo platônico.”

¹ op. cit.

(*) “entre a alma do Homem e Deus interpõe-se, segundo a concepção platônica, o longo e duro caminho da perfeição. Sem perfeição não pode existir a arete. A ponte que Platão estende entre a alma e Deus é a paideia. Esta é incremento do verdadeiro Ser.”

O Estado das Leis é um Estado teônomo, não em oposição ao Estado da República, mas pelo contrário a sua imagem e semelhança. Guarda este princípio supremo, ainda que ele apareça nas Leis aplicado de maneira diferente e não deixe ao conhecimento filosófico senão a margem que corresponde ao grau inferior do Ser, sobre o qual assenta. Platão diz no Fédon que a descoberta do Bem e da causa final constitui a encruzilhada histórica dos caminhos da concepção da natureza, onde se separam o mundo pré-socrático e o mundo pós-socrático.”

Não pode haver a menor dúvida de que os discípulos viram na proclamação platônica do Bem como causa última do mundo – e assim o prova a elegia do altar de Philia, em Aristóteles – a fundação de uma religião nova e, ao menos uma vez neste mundo, viram realizada na pessoa do seu mestre, à guisa de exemplo, a fé platônica na identidade do bem e da felicidade.”

Platão é o criador do conceito de teologia, e a obra em que pela 1ª vez na História universal aparece este conceito revolucionário é a República, onde, com vistas a aplicar à educação o conhecimento de Deus (concebido como bem) são traçadas as linhas fundamentais da Teologia. A Teologia, i.e., o estudo dos problemas supremos pela inteligência filosófica, é um produto especificamente grego. É um fruto da suprema audácia do espírito, e os discípulos de Platão bateram-se contra o preconceito pan-helênico, na realidade um preconceito popular, segundo o qual a inveja dos deuses negava ao Homem a possibilidade de compreender estas coisas tão elevadas. Não eram apoiados na autoridade de uma revelação divina, na posse da qual julgassem se encontrar, que lutava contra eles, mas sim em nome do conhecimento da idéia do Bem, que Platão lhes ensinara e cuja essência é a total ausência de inveja.”

Podemos muito bem adotar o título de Spinoza e chamar à República – a obra fundamental de Platão, na qual se assentam as bases ideais da paideiaTractatus Theologico-Politicus.”

A imagem das ilhas da bem-aventurança, escolhida para caracterizar o paraíso da vida contemplativa, é tão feliz que conseguiu impor-se para sempre. Voltaremos a encontrá-la no Protréptico do jovem Aristóteles, obra em que o discípulo de Platão apregoa o seu ideal de vida, de onde aquela fórmula passa à literatura da Antiguidade e se difunde para além dela.”

É precisamente no momento da sua tensão máxima que o sentido político originário de toda a paideia grega triunfa no conteúdo ético e espiritual que Platão lhe infunde de novo.”

o filósofo deve descer outra vez à caverna.” Base do Zaratustra.

É este forte sentimento de responsabilidade social que distingue da filosofia dos pensadores pré-socráticos o ideal platônico da suprema cultura espiritual. O paradoxo histórico é que estes sábios, mais preocupados com o conhecimento da natureza do que com o Homem, tiveram uma ação política prática mais intensa do que Platão, apesar de todo o pensamento deste girar em torno dos problemas práticos.” “uma parte dos antigos historiadores da Filosofia apresentava os pensadores mais antigos precisamente como modelos da devida associação da ação e da idéia, ao passo que os filósofos posteriores se foram consagrando cada vez mais à teoria pura.”

Não sente nenhum dever de gratidão ativa para com o Estado degenerado da realidade, porque, embora também nele possam nascer filósofos, não é pelo fato de a opinião pública ou os órgãos deste Estado os estimularem que eles nascem lá.”

* * *

3.11.a. As matemáticas como propaideia

A lenda atribui a paternidade desta ciência ao herói Palamedes, que combateu em frente de Tróia e de quem se diz que ensinou ao chefe supremo Agamemnon o uso da nova arte para fins estratégicos e táticos. Platão ri daqueles que assim pensam, pois segundo isto Agamemnon não teria sido capaz até então sequer de contar os dedos, e muito menos os contingentes do seu exército e da sua frota.” “é sabido que o desenvolvimento da ciência da guerra no séc. IV requeria um conhecimento cada vez maior das matemáticas.” “É um estudo humanístico, pois sem ele o Homem não seria Homem.”

Não devemos esperar da sua maneira de enfocar o assunto que ele entre a fundo no conteúdo dos problemas matemáticos e muito menos que exponha todo um curso didático desta ciência.¹ Exatamente como faz ao tratar da música e da ginástica, Platão limita-se a traçar as linhas diretivas mais simples, segundo o espírito das quais se devem estudar estes problemas.”

¹ Não, por Zeus! Só um pouquinho de matemática já está ótimo…

A senda através da Filosofia, que Platão prescreve a esta cultura, exige dos futuros ‘governantes’ um anelo tão puro de cultura, que a referência à importância prática que estes conhecimentos possam vir a adquirir para eles quase pode ser considerada um perigo para a verdadeira fundamentação dos estudos matemáticos. Diz-nos a tradição que Platão levou a sério este problema quando lhe pediram que educasse o tirano Dionísio II para governar segundo as suas concepções. PLUTARCO, Díon, c. 13, informa que o príncipe e toda a côrte dedicaram-se durante certo tempo ao estudo das matemáticas e que o ar ficava cheio do pó que a multidão levantava ao traçar as figuras geométricas no chão. É principalmente a geometria que lhe fornece ocasião para polemizar contra os matemáticos que desenvolvem ridiculamente as suas demonstrações, como se as operações geométricas implicassem um fazer (praxis) e não um conhecer (gnosis).”

(*) “W.A. HEIDEL, ‘The Pythagoreans and Greek Mathematics’, em American Journal of Philology, 61 (1940), pp. 1-33, traça o desenvolvimento dos estudos matemáticos na Grécia mais primitiva, tanto quanto lhe permitem as provas que existem, em círculos não-pitagóricos, especialmente na Jônia.” Visão corroborada pelo recentíssimo (e excelente) trabalho de Tatiana Roque, História da Matemática.

Os pitagóricos medem as harmonias e os tons audíveis entre si e buscam neles o número, mas a sua missão termina onde começam os ‘problemas’, cuja investigação o nosso filósofo considera a verdadeira meta da sua cultura e que põe igualmente em relevo, ao tratar da geometria e da Astronomia.”

a regularidade matemática dos fenômenos celestes pressupõe a existência de agentes dotados de consciência racional.” No astrônomo/observador!

(*) “Timeu, 38 D. Repele-se aqui o exame pormenorizado da teoria das esferas, dizendo-se que este método daria maior importância ao secundário que à finalidade que deve servir. De modo diferente procede ARISTÓTELES na sua Metafísica, 8, onde critica as razões que dão os astrônomos para fixar o número exato das esferas embora se equivoquem ao fazer o cálculo.” Aristóteles dá sempre a impressão, em sua Metafísica, de não reconhecer qualquer diferença entre a Academia (platonismo, com que rompeu) e os pitagóricos (entre o Número e a Idéia enquanto entidades).

Sócrates aparece sempre como o homem que tudo sabe, seja qual for o ponto que se focalize, e embora só lhe interesse o que ele considera fundamental, quando a ocasião se apresenta revela um domínio assombroso em campos de conhecimento que, parece, deveriam ser-lhe estranhos.” “Nesse ponto, temos de controlar muito bem a liberdade soberana com que nos seus diálogos Platão faz de Sócrates o advogado dos seus próprios pensamentos.”

O Sócrates histórico¹ não teria repreendido severamente o seu interlocutor, como o Sócrates platônico, ao ouvi-lo justificar o valor da Astronomia pela sua utilidade para a agricultura, para a navegação e para a arte da guerra.”

¹ Reza a lenda (assim digo porque nunca o li) que Xenofonte é a melhor fonte. Xeno ‘é a melhor’ fonte!

O olhar para o alto em que a Astronomia estudada matematicamente educa a alma é perfeitamente diverso de voltar os olhos para o céu, como fazem os astrônomos profissionais.” Perfeitamente como meu próprio desenvolvimento cognitivo: a física teórica era o que me interessava porque eu desconhecia a metafísica e o ético, mas já queria olhar para dentro de mim mesmo mais do que olhar para um ponto espacial elevado.

A introdução da estereometria constitui uma surpresa e permite a Platão variar um pouco esta parte do seu estudo. A influência da prática de ensino na Academia transparece aqui, indubitavelmente. A tradição da história das matemáticas, que data da baixa Antiguidade e sobe até a obra fundamental de Eudemo, discípulo de Aristóteles, considera autor da estereometria o notável matemático Teeteto de Atenas, em memória do qual Platão escreveu, poucos anos depois da República, o diálogo que tem o seu nome. SUIDAS, Escol., em EUCL., Elem., XIII (t. 5, p. 654, 1-10, Heilberg). A atribuição do descobrimento dos 5 poliedros regulares a Pitágoras por Proclo (no índice geométrico) é lendária, como o provaram de modo irrefutável as recentes investigações de G. Junge, H. Vogt e E. Sachs.”

O conteúdo do último livro (o XIII, dedicado à estereometria dos Elementos de Euclides, a obra fundamental e imorredoura das matemáticas gregas, a qual apareceu uma só geração depois, devia ter essencialmente como base as descobertas de Teeteto.” Cf. T.L. HEATH, A Manual of Greek Mathematics (Oxford, 1931), p. 134.

Como nos encontramos separados por mais de 2 mil anos da época em que as matemáticas gregas receberam de Euclides a forma científica consagrada como clássica, a qual ainda hoje se conserva em vigor dentro dos limites então traçados, não se torna fácil para nós retroceder até a situação espiritual em que esta forma se encontrava ainda em gestação ou tendia a consumar-se. Se levarmos em conta que foi obra de poucas gerações, compreenderemos como o labor concentrado de um punhado de investigadores geniais, empenhados em impulsionar o seu progresso, criou uma atmosfera de confiança, mais ainda, de certeza na vitória”

Nem a filosofia platônica nem qualquer outra grande filosofia poderia ser concebida sem a influência fecundante dos novos problemas levantados e das novas soluções apresentadas pela ciência daquele tempo. Ao lado da Medicina, cuja influência podemos constantemente verificar, foram principalmente as matemáticas que a impulsionaram.” “O mais antigo contato de Platão com as matemáticas deve ter sido anterior às suas relações com os pitagóricos, uma vez que diálogos como o Protágoras e o Górgias, os quais revelam já um nítido interesse pelas matemáticas, foram escritos antes da 1ª viagem do filósofo à Sicília.”

As obras platônicas contemplam um Teodoro velho (Teodoro de Cirene, matemático de uma geração anterior a Teeteto) e um Teodoro jovem (não-matemático).

a tradição assenta numa reduplicação errônea acerca do que aconteceu na 3ª viagem; porém, quem Platão ia visitar na 1ª viagem à Itália, antes de ir a Siracusa (no ano de 388), senão os pitagóricos? É certo que DIÓGENES LAÉRCIO, III, 6, que dá informações sobre o caso, só menciona Filolau e Eurito, mas não Arquitas, como motivo da 1ª viagem.”

Há um dado da antiga biografia de Aristóteles que afirma ter ele cursado a escola de Platão ‘sob Eudoxo’. deste dado concluímos que houve um estreito contato da Academia com o grande matemático deste nome e com a sua escola; esse contato transparece por todas as vias na nossa tradição e nas relações pessoais de Aristóteles com ele, referidas na Ética, e as quais remontam a uma longa permanência de Eudoxo na escola platônica, cuja data se poderia fixar com precisão no ano em que Arist. entrou para a Academia (ano 367).”

Estes fatos indicam-nos insistentemente que nunca devemos perder de vista que o que se desdobra perante os nossos olhos nas obras literárias de Platão é apenas a fachada do edifício científico e das atividades docentes da Academia, cuja estrutura interna ele esboça.” “O fato de as críticas dirigidas a Platão versarem precisamente sobre a hipertrofia das matemáticas prova que era nestas que se via a pedra angular do seu sistema de cultura.”

PLATÃO PRECAVIDO CONTRA O DESPONTAR DO NIILISMO: “O moderno conceito da ciência, que traça a esta limites tão vastos como aqueles que a experiência humana pode alcançar, faz com que a hegemonia exclusiva das matemáticas na paideia platônica nos pareça, se bem que grandiosa, unilateral; isso nos inclina, talvez, a vermos também nesse fenômeno o efeito da supremacia temporal das matemáticas da sua época. Todavia, por mais que a consciência do progresso que irradiava dos seus grandes descobridores houvesse necessariamente de contribuir para a posição de predomínio que as matemáticas desfrutavam na Academia, a verdadeira razão disso deve ser buscada, em última instância, no caráter da própria filosofia platônica e no seu conceito do saber, que excluía da cultura os ramos puramente empíricos do saber. (…) O fato de depararmos, nos fragmentos conservados da comédia ática daquele tempo, com motejos às intermináveis disputas sustentadas por Platão e seus discípulos em torno da determinação do conceito das plantas e dos animais, e sua divisão, não contradiz em nada a imagem projetada diretamente pelos diálogos platônicos.”

* * *

o pensamento está para as opiniões como o Ser está para o devir”

o dialético é o homem que compreende a essência de cada coisa e sabe dar conta dela.”

O nome de ‘guardiões’ – em si estranho –, dado por Platão à classe dominante, foi escolhido, ao que parece, na previsão da virtude filosófica deste supremo estado de vigilância espiritual em que se trata de educá-los.”

Deverão ficar aborrecidos consigo próprios, quando se demonstrar para eles que trabalham em erro, em vez de se rebolarem como os porcos no esterco da sua própria incultura.”

Todas essas idéias são totalmente novas no tempo de Platão e encontram-se em oposição à fé cega no saudável senso comum daqueles que não aprenderam nada além do seu trabalho diário. Desde então têm aparecido no mundo escolas e exames em grande abundância e todavia, se Platão vivesse hoje entre nós, é muito duvidoso que ele pudesse concluir que as exigências estavam cumpridas em todos os requisitos.”

toda a iniciação prematura na cultura espiritual tropeça com um obstáculo enorme: a falta de interesse da criança em aprender. Esta falta de interesse não se pode combater pela coação, pois não há nada de mais oposto à essência profunda da cultura livre que o aprender pelo medo servil a um castigo.” Quem mais se aproxima deste legado pedagógico platônico na modernidade é Rousseau.

A educação espiritual descansará completamente durante este prazo, pois as fadigas e o cansaço são incompatíveis com o estudo.” “O princípio de que a educação espiritual deve reatar-se aos 20 anos tem esse corolário: aquela formação gímnica, que Platão trata de distinguir bem da participação voluntária, mais adiantada ou mais tardia, em outros exercícios de ginástica, deve preencher o período dos 17 aos 20 anos. É a idade em que Atenas instruía como efebos os moços varões aptos para o serviço das armas. O seu tempo de serviço durava 2 anos e começava aos 18.”

A longa duração da formação dialética, que na sua totalidade abrange 15 anos, e nem sequer neste período alcança o seu verdadeiro fim, põe em relevo, melhor do que outra coisa qualquer, o conceito platônico do saber e a essência desta trajetória nas suas diversas fases. A exigência deste plano de estudos parece à 1ª vista o sonho e o anseio de um especialista a quem os planos de ensino da sua disciplina não deixam nunca a margem de tempo que ele julga precisar para a consecução perfeita dos seus objetivos e que, pondo-se a ruminar uma utopia pedagógica, reclama para o estudo das suas matérias tantos anos de ensino quantos os meses que lhe são dedicados ao plano real.” “de um estudo da Filosofia limitado a alguns anos, como era habitual na sua época e ainda hoje continua a ser, nada havia a esperar, nem quanto à formação filosófica nem quanto à educação dos governantes.” Interessante. Quem sabe a completa marginalização da filosofia pelo Estado não seja o melhor que poderia acontecer?

A formação dialética de 15 anos que vai dos 20 aos 35 é, neste plano, o fundamento intelectual sobre o qual assenta a cultura dos governantes. E é extraordinariamente elucidativo que este ensino finde, como parecia natural, com o conhecimento da idéia do Bem: entre o período de formação dialética e esta base suprema, Platão intercala um 2º período de estudos de 15 anos, que vai dos 35 aos 50.”

Platão vê o perigo da dialética criar um sentimento de pretensa superioridade que leve os adeptos a usarem a arte recém-adquirida para refutar os outros e a fazerem deste jogo um fim em si.”

Platão esforça-se sempre por fazer compreender a diferença existente entre a paideia e a paidia, quer dizer entre a cultura e o mero passatempo.” “palavras que em grego têm, além do mais, a mesma raiz, já que ambas se relacionam originariamente com os atos da criança, do pais. (…) É curioso que os gregos tenham encontrado o problema do jogo na época em que aspiravam a penetrar de um modo filosófico mais profundo na paideia, matéria que eles levavam tão a sério. Contudo, a passagem do jogo para a máxima seriedade foi desde sempre o autenticamente natural”

a dialética conduz à refutação das idéias dominantes sobre o justo e o belo, i.e., das leis e costumes em vigor, sob os quais os jovens se criaram como se fossem seus pais.”

Platão entende que a garantia fundamental contra a anarquia reside na trajetória da cultura dialética acabar o mais tarde possível – é por isso que fixa seu final aos 50 anos”

O problema do número não é importante, uma vez que não afeta a própria essência da constituição. Podemos caracterizá-la como uma aristocracia no verdadeiro sentido da palavra. A cultura grega tivera por ponto de partida a nobreza de sangue; agora, no final de toda a evolução reaparece na visão platônica o princípio seletivo de uma nobreza do espírito, quer ela governe quer não.”

Não é um novo Estado, como nas Leis, que Platão toma como ponto de partida, mas sim uma polis já existente, que importa transformar.” Curiosamente o estereótipo é contrário (Leis como programa mais pragmático e, portanto, como se usara outra base). E isso porque a geografia ou formalidade da polis nada tem que ver: espiritualmente, o povo que migra já tem as condições mínimas (não ideais, mas satisfatórias mundanamante) para a instituição das Leis; já a República se fará aos poucos, como dito acima, não importa que no mesmo território, erradicando de tijolo em tijolo a moral corrompida dos pais dos primeiros guardiães, até consolidar-se o Estado ideal, e transformar a Filosofia numa crisálida, o que não significa tornar-se estanque: se é a melhor das Filosofias, ela justamente não decai nem corrompe, nem é substituída, por ser autêntica e dinâmica a cada florescer de uma nova gerações de guardiães. Na forja do Estado ideal não tem-se uma colônia desabitada para povoamento, mas tem-se todo o tempo do mundo. Se apenas a Europa moderna soubesse o verniz do primeiro…

3.11.b. A doutrina das formas de Estado como patologia da alma humana [Aristóteles como “o psiquiatra”]

só existe um Estado perfeito, ao passo que são numerosíssimas as variedades do Estado defeituoso.”

Também Aristóteles, na sua Política, enlaça numa unidade a teoria do Estado perfeito com a das formas falsas do Estado. O fato de que uma só ciência se encarrega destas 2 missões, aparentemente tão distintas, é considerado por ele um problema, que trata a fundo. [Aí seria necessária uma Ciência (da Grande) Política] Arist. (…) começa a investigar uma a uma todas as formas de Estado existentes, algumas das quais reconhece como acertadas, para finalmente expor o que entende por Estado perfeito [estudo de caso, mera observação empírica do que estava-ali]. É exatamente ao contrário de Platão que procede: este parte do problema da justiça absoluta e do Estado ideal em que ela se realiza, apresentando a seguir todas as demais formas do Estado como desvios da norma, e portanto como fenômenos de degenerescência.” Deus é a medida.

Podemos dar a questão por perdida quando a Política passa a ser um problema político, e não mais educacional. Neste mundo, não há “medicinas alternativas”!

O fato de existirem poucos homens, animais ou plantas perfeitamente sãos não converte a enfermidade em saúde nem faz da média deficiente, acusada na experiência, a norma.”

As formas reais do Estado são todas fenômenos de enfermidade e degenerescência.”

O DEVIR E O BEM: “Toda a teoria de Platão e de Arist. sobre as transformações do Estado não é senão uma teoria da stasis, palavra que tem em grego um significado mais vasto que o nosso conceito de ‘revolução’.”

Ainda na patologia vegetal de Teofrasto, que tem a forma clássica na sua obra Das Causas das Plantas, vemos claramente refletida a luta entre o conceito rigorosamente platônico da norma como a forma melhor e mais conveniente da planta, i.e., como a sua arete, e o conceito puramente estatístico do normal.”

É talvez pelo seu realismo e pela maneira como capta os pontos fracos, que a análise que Platão faz do tipo democrático se distingue da glorificação de Atenas feita na oração fúnebre de Péricles; e distingue-se também do panfleto crítico Constituição de Atenas, pela ausência de qualquer ressentimento oligárquico.”

O Estado real que mais se aproxima do Estado perfeito é o espartano” “A exposição deste sistema, para o qual Platão cria o conceito novo da timocracia, atendendo ao lado de que se ajusta por inteiro à pauta da honra, apresenta o encanto especial da individualização histórica, ao contrário das outras formas de Estado”

é conveniente estabelecer um paralelo entre a sua imagem de Esparta e o seu ideal de Estado, para ver o que no Estado platônico difere conscientemente do Estado espartano. Ainda mais importante, a este respeito, é a crítica direta do Estado espartano, nas Leis, livros I-II. É a falsa liga dos ‘metais’ que determina a composição contraditória do tipo espartano de homem. O elemento de ferro e de bronze nele existente impele-o ao lucro, à aquisição de dinheiro e de bens imóveis. Esse elemento, que é um elemento pobre da alma, tende a equilibrar-se por meio da riqueza exterior. Em contrapartida, o elemento de ouro e de prata impulsiona-o para a arete e o reconduz ao estado originário.” “Desta forma os elementos fundidos no caráter espartano entrechocam-se, até que por fim chegam a um compromisso entre a aristocracia e a oligarquia.” “os membros das classes inferiores, que antes gozavam da proteção daquela [a aristocracia] e eram chamados amigos e sustentáculos dos governantes, vêem-se reduzidos à escravidão e são doravante considerados periecos e hilotas. Vigiá-los torna-se para a camada dominante, em que se convertem os governantes, uma tarefa não menos importante que a de salvaguardar militarmente o Estado contra os perigos do exterior.” Vigiar é diferente de guardar.

Esparta inclina-se para o tipo de homem simples e corajoso, mais apto para a guerra do que para a paz.” “No exterior ostenta máxima sobriedade, mas as habitações privadas são verdadeiros tesouros e ninhos de luxo e dissipação.” “como crianças às escondidas dos pais, entregam-se voluptuosamente e em segredo aos prazeres proibidos, à margem da lei, que o Estado se glorifica de personificar.” “Esta hipocrisia é o produto inevitável da educação espartana, que não se baseia na convicção interior do Homem, mas numa rotina imposta à força. É a seqüela da carência de uma cultura verdadeiramente musical, que vem sempre unida à razão e à ânsia de saber.”

MÉTODO ANTI-HISTÓRICO: “Em toda esta parte da República, Platão invoca de novo o princípio fundamental a que o filósofo da paideia se deve ater: o método de fazer ressaltar o típico. O homem espartano (…) é, por isso, uma invenção platônica.”

TODO VALOR-BASE (VALOR DOS VALORES) IMPLICA UMA HIERARQUIA, E UMA HIERARQUIA, A ASSUNÇÃO DE UMA PERSPECTIVA: “Para Platão, o tipo representa a personificação de um valor ou de uma determinada fase de valor.” Enquanto, inversamente, na modernidade, o tipo-ideal de Weber, p.ex., pretende-se axiologicamente neutro.

autárquico, amigo das musas, embora de per si bem pouco musical; amigo de ouvir, mas perfeitamente incapaz de falar. É áspero para os escravos: ‘em vez de ser indiferente para com os escravos, como é o homem realmente culto.’ (Rep., 549 A 2)”

é obediente aos superiores, mas cobiçoso de poder e desejoso de se distinguir.” “Talvez despreze o dinheiro na juventude, mas, à medida que envelhece, vai nele se instalando a avareza.” “Talvez tenha um pai excelente que vive num estado mal-governado, o que o leva a se conservar o mais afastado possível das honras e dos cargos, e a velar um pouco o seu brilho, para não atrair sobre si atenções demais. Mas a mãe é uma mulher ambiciosa, que se sente insatisfeita com a posição ocupada na sociedade pelo marido. (…) Aborrece-a também que ele não a tenha em maior estima, e se limite a prestar-lhe a atenção estritamente necessária. Tudo isso a leva a inculcar no filho a idéia de que o pai é pouco viril e é preguiçoso, e todas aquelas coisas que as mulheres sempre dizem dos maridos deste tipo.¹ Também os escravos ganham suas simpatias, dizendo-lhe ao ouvido que o seu pai não é tão respeitado como devia ser, porque as pessoas como ele são consideradas palermas. Deste modo, a alma do filho é seduzida e arrastada, pois, enquanto o pai ‘rega’ e fortalece nele a parte racional da alma, as demais pessoas que o cercam estimulam nele a parte ambiciosa e impulsiva”

¹ Preconceito sexista?

O que essencialmente interessa a Platão, no seu estudo comparativo das diversas constituições, é captar estas diferenças típicas de estrutura do homem individual em cada uma das diferentes formas de Estado.”

O mais provável é que a sua análise do homem espartano fosse escrita um pouco antes da bancarrota do poder de Esparta, que ninguém esperava.”

seu Estado educacional, longe de representar o ponto culminante do império espiritual do ideal espartano, é de fato o golpe mais rude vibrado neste ideal.” “em Platão (…) a Esparta real desce das alturas de um ideal absoluto para a categoria da melhor das formas imperfeitas do Estado.”

É pela tirania que Platão sente a aversão mais profunda. Mas este sentimento fundamental, que parece ligá-lo à democracia clássica, separa-o, na realidade, desta forma de regime do seu tempo.” “Entre a liberdade e a escravidão não é só uma antítese que existe, pois os extremos às vezes se tocam”

A oligarquia é, por assim dizer, uma aristocracia baseada na crença materialista de que é a riqueza que constitui a essência da distinção.”

a falta de disposição dos ricos de contribuírem para os encargos da guerra.”

Ao chegar aqui, deparamos com uma reflexão muito detalhada sobre questões econômicas, a que não se deu importância nenhuma ao traçar a estrutura do Estado perfeito, porque este se preocupava exclusivamente com a missão educacional e deixava de lado todo o resto. Platão estabelecerá mais tarde nas Leis, de modo positivo e de forma legal, o que aqui expõe de forma crítica e de passagem, no plano dos princípios.”

a evolução operada no jovem” “Mata na alma a ambição em que o pai o educara e com ela a parte egoísta e impulsiva da qual brotam todos os atos ambiciosos. Humilhado pela pobreza, dedica-se à poupança e ao trabalho, e vai juntando moeda após moeda.”

“‘democratas moderados’, chamados de ‘oligarcas’ pelos democratas radicais.”

Platão domina maravilhosamente a arte de evitar a repetição pedante das mesmas idéias fundamentais em cada nova metabasis, ocultando-as por detrás de imagens que exprimem com grande força plástica as três partes da alma e as relações normais que entre elas devem existir.”

o homem oligárquico: homem poupador, trabalhador, eficiente, que em sóbria disciplina submete todos os outros anseios à ânsia única de acumular dinheiro, que desdenha as formas belas e não tem o mínimo sentido para a cultura, para a paideia, como o prova o fato de ele eleger um cego, Plutos, para chefe do coro. A sua incultura (apaideusia) estimula nele os impulsos do zangão, os instintos do pobre e do delinqüente, nascidos da mesma raiz da cobiça de dinheiro.” “sabe comedir-se (…) por medo” “visto de fora, o homem de dinheiro aparece como um tipo extraordinariamente belo e correto, mas há nele muito de fariseu, pois essa classe de homens não conhece o que é a verdadeira virtude e a harmonia interior.”

A existência de uma camada cada vez mais vasta de pessoas empobrecidas, exploradas pelos ricos, e o predomínio da usura e do juro acabam por se converter em causa de mal-estar e de perturbações sociais.” Quanta diferença para os tempos do “mercantilista” Montesquieu!

Nunca o realismo platônico se eleva a tão grande altura como quando descreve a psicologia do homem simples que, queimado pelo sol, nervoso e musculado, luta na guerra ao lado de um daqueles homens ricos, a quem vê debater-se, impotente, sob a gordura inútil”

Num abrir e fechar de olhos o Estado oligárquico desaparece e se instala a democracia.”

NASCE O LUGAR DE FALA: “Todos os cidadãos alcançam direitos iguais e os cargos são preenchidos por sorteio. É este traço, para Platão, a verdadeira característica essencial da democracia”

De um ponto de vista histórico, confunde-se aqui um fenômeno degenerativo com a própria essência da coisa, pois os próprios criadores da democracia ateniense coincidiram na crítica à mecanização da idéia de igualdade, tal como ela se manifesta na provisão de cargos por sorteio.”

No Menexeno,¹ seguindo a velha prática das orações fúnebres dos guerreiros, Platão exalta os méritos da democracia, por ter salvo a nação nas guerras pérsicas; mas na República não se faz nenhuma alusão a eles.”

¹ https://seclusao.art.blog/2019/12/01/menexeno/.

a idéia do dever de prestar contas, que é, segundo Os Persas de Ésquilo, o que distingue a forma de Estado ateniense do despotismo asiático.”

O indivíduo triunfa no seu caráter fortuito, naturalista; mas é precisamente isto que faz com que ‘o Homem’ e a sua verdadeira natureza sejam preteridos. Esta emancipação do indivíduo prejudica tanto o Homem como o sistema da coação e da disciplina exagerada que oprime o indivíduo. O que Platão descreve como o homem democrático é o que hoje chamaríamos de tipo individualista, que, tal como o tipo ambicioso, o avarento e o tirânico, surge efetivamente em todas as formas de Estado, mas constitui um perigo especial para a democracia.”

Platão acha duvidoso o valor desta liberdade porque todo mundo a goza.”

essa é a tua opinião, mas a minha é outra. Ao chegar aqui, o educador, que nesta atmosfera de incontrolabilidade sente-se como poderia sentir-se o peixe na terra seca, entra em choque com a tolerância política, que prefere escutar uma opinião insensata a reprimi-la pela violência.”

Aquele que se vir destituído do seu cargo pela lei ou por uma decisão judicial, continua apesar disso a governar,(*) [pelo dinheiro] sem que ninguém lhe impeça. O espírito da tolerância impera aqui sobre a justiça.

(*) Rep. 557 E.”

Por sua vez, são os próprios patrióticos guardas desta constituição ateniense que mais tendem a censurar estes defeitos do sistema, embora não se mostrem dispostos por isso a renunciar a suas vantagens.”

Enviam para o exílio o respeito (aidos), o qual chamam de tolice, e procedem à troca de nomes de todos os conceitos de valor. À prudência chamam agora falta de virilidade, à moderação e à ordem, mesquinhez inculta; e desterram dali todas as virtudes. Sob roupagens sedutoras, entronizam entre gritos de louvor tudo o que é contrário ao que elas representam, e chamam a anarquia de liberdade, a dilapidação dos bens do Estado de magnanimidade, e a desvergonha de valentia.”

TUCÍDIDES, III, 82, 4. Tal como aqui Platão, também ISÓCRATES no Areopagítico, 20, está evidentemente influenciado pela análise das crises políticas e dos seus sintomas em Tucídides. Esta teoria das crises adaptava-se magnificamente à concepção médica que Platão tinha dos fenômenos que se processavam no Estado e na alma dos indivíduos. Já acima, p. 452s., mostramos, à luz do exemplo do problema da causa da guerra, quanto estava o próprio pensamento de Tucídides fortemente influenciado pelo modelo da Medicina. Um novíssimo rebento do ponto de vista de Tucídides é a teoria das crises políticas que Jacob BURCKHARDT sustenta nas suas Weltgeschichtlichen Betrachtungen.”

Fiel a sua premissa, atribui ao homem democrático como tal a culpa exclusiva do que o historiador apresenta para a Grécia inteira como conseqüência deplorável da guerra do Peloponeso.”

Tão cedo viverá entre canções e vinho, como beberá água e emagrecerá; tão cedo se dedicará ao esporte como se sentirá mole e inativo ou entregue apenas aos interesses espirituais. Às vezes lança-se na política, levanta-se e fala, outras vezes retira-se para o campo, por achar formosa a vida rural, ou então dedica-se à especulação. A sua vida carece de ordem, mas ele a chama de vida formosa, liberal e feliz. Este homem é uma antologia de diversos caracteres e alberga um tesouro de idéias que se excluem uns aos outros.

A valorização platônica do homem democrático é absolutamente determinada pela conexão psíquica direta entre este tipo e as origens da tirania. É certo que a tirania é aparentemente a forma que mais se aproxima do Estado que Platão considera melhor. Tal como a monarquia do sábio e justo assenta no império de uma só pessoa.”

é apenas a forma da concentração e da unidade suprema de uma vontade, que tanto pode ser justa como absolutamente injusta. A injustiça é o princípio em que se baseia a tirania. Este antagonismo que se encerra sob uma forma exteriormente semelhante converte a tirania na caricatura do Estado ideal, para Platão, e a aproximação dela é o critério do mal. A tirania se caracteriza por um máximo de falta de liberdade. E é precisamente isso que explica que ela provenha da democracia, um regime que outorga um máximo de liberdade, visto que a exaltação extrema de qualquer estado de coisas, ao tornar-se um exagero, faz com que ele se transforme no contrário.” “Esta explicação médica do processo político baseia-se, naturalmente, na experiência do último quarto de século transcorrido desde a guerra do Peloponeso. A tirania antiga surgira com a passagem da aristocracia à democracia; a chamada tirania nova, do tempo de Platão, era a forma típica de liquidar a democracia, na altura em que esta chegava à fase mais radical e já irreversível da sua evolução.”

a experiência histórica posterior parece dar-lhe razão”

Para impedir esta passagem, a República romana chegou até, em épocas difíceis, a realizar a tentativa vitoriosa de converter em instituição legal da democracia o império de um único indivíduo, durante um período limitado: era este, com efeito, o significado do cargo de ditador.”

É certo que a teoria platônica das passagens de umas formas de Estado para outras não pretende apresentar nenhuma sucessão histórica; mas, pela maneira como apresenta a crise da liberdade, é o futuro de Atenas que Platão encara nos anos da última reintegração aparente que estava reservada a sua cidade. Talvez a história tivesse realmente seguido este caminho durante mais ou menos tempo, se o Estado ateniense pudesse continuar a se desenvolver, sujeito a meras leis internas. A tirania, porém, não surgira no próprio seio da democracia, mas seria imposta a ela por uma potência externa.”

Os pais adaptam-se ao nível da idade infantil e têm medo dos filhos; estes portam-se como adultos prematuros e pensam como velhos. Não sentem o mínimo respeito pelos pais nem dão guarida a nenhum sentimento de pudor, já que ambas as coisas chocariam o seu sentimento da verdadeira liberdade. Pessoas estranhas e estrangeiras arrogam-se a mesma posição que se fossem cidadãos do Estado, e os cidadãos vivem dentro do Estado desinteressados dele, como se fossem estrangeiros.” “Entre os jovens reina um espírito de maturidade próprio da velhice, ao passo que entre os velhos está na moda o espírito juvenil e nada se evita com tanto cuidado como a aparência de dureza e de rigor ‘despótico’.” Nada parece resumir com mais franqueza a impressão que tenho dos meus anos 2005-2016.

Parece-lhe que em nenhum lugar como no Estado democrático os cães, os burros e os cavalos andam com tanta liberdade, com tanto desembaraço e com tão grande sentimento de si próprios. Parecem querer dizer a todos os que encontram na rua: se você não sair da frente, não sou eu que vou lhe dar passagem.” O acabamento da Antropologia pede a supremacia da Veterinária.

Os zangões, cujo efeito pernicioso já pudemos observar no Estado oligárquico, são igualmente na democracia os germes das doenças que põem em perigo a vida coletiva. Um sábio apicultor elimina-os a tempo, do povo, a fim de salvar o conjunto da colméia. Os zangões são os demagogos que falam e atuam na tribuna, enquanto a massa zumbe a sua volta e não consente que ninguém exteriorize uma opinião diferente. O mel é a fortuna dos ricos e constitui o verdadeiro alimento dos zangões. A massa da população politicamente inativa, que vive do trabalho das suas mãos, não possui nada de grande, mas é chamada a decidir nas assembléias, e os demagogos pagam-lhe com um pouco de mel, quando ela se decide a confiscar a fortuna dos ricos; mas é para si próprios que os zangões guardam a maior parte dessa fortuna. Os abastados lançam-se na política para se defenderem com as únicas armas eficazes dentro do Estado. [as palavras] Por outro lado, porém, a sua resistência é interpretada como um grito de combate e a massa confere ao seu chefe poderes ilimitados. E assim nasce a tirania.” Perfeito.

Para proteger a vida, cerca-se de uma guarda pessoal que deliberadamente lhe entrega a multidão, a qual é suficientemente tola para se preocupar mais com ele do que consigo própria.”

Começa a agir como amigo do povo e seduz todo mundo com o seu trato afável. Nega que o seu governo tenha algo de comum com a tirania e faz ao povo grandes promessas” “Mas, para se tornar indispensável como chefe, vê-se forçado a procurar pretextos contínuos para realizar empreendimentos bélicos. Isto vai pouco a pouco atraindo sobre ele o ódio cada vez maior do povo, e as críticas sobem mesmo aos lábios dos seus sequazes mais fiéis e dos conselheiros mais chegados, os quais o ajudaram a subir ao poder e hoje ocupam elevados postos. E não tem outro remédio senão afastá-los todos, se quiser manter o seu poder. Os homens mais valentes, os mais puros e os mais sábios vêem-se obrigados a tornarem-se seus inimigos”

E para poder sustentar um séquito tão grande, precisa praticar mais um desacato: o confisco dos bens sagrados para o Estado. Finalmente o povo repara no que criou. Para fugir da sombra da escravidão que receava da parte de homens livres, caiu num despotismo entregue em mãos de escravos.”

Platão é o pai da psicanálise. É ele o primeiro que desmascara a monstruosidade do complexo de Édipo, a volúpia de se unir sexualmente à própria mãe, como sendo parte do eu inconsciente, que ele traz para a luz por meio da investigação das experiências dos sonhos; e apresenta ainda toda uma série de recalcados complexos de desejos análogos a este, que vão até o comércio sexual com os deuses,¹ a sodomia e o simples desejo de matar. Rep. 571 C-D” O leitor do século XX é mesmo um imbecil! O lado esclerosado de Platão, no que se refere à homofobia de um ateniense. (!!) Chega a ser incrível cunhar a frase. Curioso, aliás, como a sodomia faz Grécia e “Israel” confluírem.

¹ Ao quê isso hoje se equipara? Ex-Big Bosta Brasil, Anitta?…

LEI SOCIOLÓGICA: Quanto mais homofobia, mais gays. A sina LGBT.

SÓCRATES NA CELA (FÉDON): “Assim como, na sua opinião, é no irracional que se preforma o racional, também é no inconsciente que o irracional se forma. Da descoberta platônica das conexões existentes entre a vida dos sonhos e os atos do homem desperto tira Aristóteles sugestões importantes para as suas investigações sobre os sonhos; mas as investigações aristotélicas têm mais um caráter de ciências naturais” Não diga! E por isso não chegam a conclusão alguma. Bom, pelo menos ele tampouco inventa conclusões, como Freud!

Esta pedagogia do sono teve grande influência nos últimos tempos da Antiguidade.” “Não é moral, mas dietética, a receita que Platão dá à alma para o sono.”

O exemplo que nos 4 casos apresenta para pôr em destaque a deterioração da fase seguinte é o de um jovem que forma as suas opiniões e os seus ideais em oposição com os do pai.” “À medida que o pai exagera unilateralmente a sua tendência para o ideal que persegue, tendência legítima dentro de certos limites, a resistência natural da juventude perante os velhos, a qual se agita na alma do filho, vê alimentada a sua repugnância contra a adaptação integral ao tipo paterno da arete.”

tanto na alma como no Estado, o que fomenta a anarquia é o problema dos desempregados.”

A experiência mostra que a essência do tirânico está sempre associada principalmente a 3 forças psíquicas de destruição: o erotismo, o alcoolismo e a depressão maníaca. É quando o homem se torna, por predisposição, por hábito ou pelas duas coisas ao mesmo tempo, alcoólico, erótico ou melancólico, que a alma tirânica surge.”

Eros, o grande tirano, arrasta-o a todas as loucuras”

o tirânico existe em todos os tamanhos, desde o pequeno ladrão e salteador até o homem que as pequenas almas de tirano conseguem elevar ao poder supremo do Estado (…) Finalmente, repete-se numa fase superior o mesmo espetáculo de violência que a princípio o pequeno tirano dava em relação ao pai e à mãe e que agora o tirano grande faz contra a sua pátria-mãe e pai.”

Dáimon é o deus na sua ação e significado voltados para o Homem.”

Existem em grego várias palavras para exprimir o que nós chamamos ‘vida’: aion designa a vida como duração e tempo delimitado de viver; zoe significa antes o fenômeno natural da vida, o fato de estar vivo; bios é a vida considerada como unidade de vida individual, a que a morte põe termo, e também como subsistência: é, por conseguinte, a vida enquanto qualitativamente distinta daquela de outros seres humanos.”

São como os gregos que, às portas de Tróia lutavam pela recuperação de Helena sem saberem que a Helena de Tróia não passava de uma imagem enganosa e que, como conta Estesícoro, a verdadeira Helena se encontrava no Egito.” “E Platão leva tão longe o seu jogo irônico que determina as distâncias relativas a que os tipos de Homem correspondentes às diversas formas de Estado se encontram do verdadeiro prazer, calculando que o tirano vive 729 vezes menos agradavelmente que o homem platônico.”

O leão é o Homem considerado como ser temperamental, com os seus sentimentos de cólera, de pudor, de coragem, de entusiasmo. Mas o verdadeiro Homem, ou o Homem no homem, como este novo conceito é maravilhosamente explicado na alegoria platônica, é a parte espiritual da alma.”

Platão pediu-nos que o acompanhássemos na descoberta do Estado, e em vez dele descobrimos o Homem. Quer o Estado ideal seja realizável no futuro, quer seja irrealizável, podemos e devemos construir sem cessar o ‘Estado em nós’.” “este é o maior de todos os paradoxos forjados pelo pensamento de Platão.”

Na luta pela renovação da polis, esta renovação do próprio indivíduo era originariamente concebida como o germe de uma nova ordem universal. Porém, a interioridade da alma revela-se por fim como o último refúgio da inquebrantável vontade normativa do antigo homem da polis grega, que soubera construir outrora a cidade-Estado, mas que agora já não encontra no mundo nenhuma pátria.”

A seriedade com que nos tempos primitivos e no período clássico do Helenismo tinham sido concebidas as relações entre o indivíduo e a comunidade pareceu durante muito tempo traduzir-se num entrelaçamento sem par da vida do indivíduo com o espírito da polis. Do ponto de vista de Platão, contudo, compreendemos que precisamente este entrelaçamento total, caso se leve a cabo coerentemente, nos faz sair fora da esfera terrestre do Estado e nos eleva ao único mundo onde real e verdadeiramente pode imperar: o mundo divino.”

3.12 A República – III

como costuma acontecer em Platão, o problema da forma implica um profundo problema filosófico”

Na educação posterior dos governantes, baseada já num saber puramente filosófico, a poesia e a cultura musical não desempenham papel importante, razão pela qual Platão não teve até agora ocasião de dizer a sua última palavra acerca da missão educativa da poesia, do ponto de vista da Filosofia, i.e., do puro conhecimento da verdade. (…) Portanto, justifica-se absolutamente que Platão examine uma vez mais, sobre esta base, a questão da poesia.”

esta última batalha decisiva entre a Filosofia e a poesia. (…) Do ponto de vista ‘moderno’, que encara a poesia como simples literatura, é difícil de compreender esta exigência, que parece uma ordem tirânica, uma usurpação de direitos alheios. Mas, à luz da concepção grega da poesia como representante principal de toda a paideia, o debate entre a Filosofia e a poesia tem necessariamente de recrudescer no momento em que a Filosofia ganha consciência de si própria como paideia e por sua vez reivindica para si o primado da educação.

Este problema converte-se forçosamente num ataque a Homero, entre outras coisas porque todos amam este poeta, e portanto se compreenderá melhor quanto é sério o problema levantado, se o ataque incidir sobre ele, o poeta por antonomásia. (…) Dissuadiram-no até agora de professar publicamente estas opiniões uma timidez e um respeito santos para com o poeta, sentidos desde criança.”

É contra a poesia trágica que é dirigida a força principal do ataque, pois é nela que se manifesta mais vigoroso o elemento ‘patético’ impulsionador da ação que a poesia exerce sobre a alma.”

(*) “A descrição que em Íon, 531 C, Sócrates faz do conteúdo tão complexo do mundo das idéias homéricas parece muito com a de Rep., 598 E.”

Ainda na obra de Plutarco sobre a vida dos poetas, pertencente à época imperial, deparamos com igual feição realístico-escolar de considerar a poesia homérica a fornte de toda a sabedoria.”

Encontramo-nos aqui numa viragem da história da paideia grega. A luta trava-se em nome da verdade contra a aparência. (…) E como nunca nem em parte alguma, talvez, se poderá vir a realizar o Estado ideal, como Platão acaba de declarar, o repúdio da poesia não significa tanto o seu afastamento violento da vida do Homem, como uma delimitação nítida da sua influência espiritual para quantos aderirem às conclusões de Platão. A poesia estraga o espírito dos que a ouvem, se eles não possuírem o remédio do conhecimento da verdade. Isto quer dizer que se deve fazer descer a poesia para degrau mais baixo. Continuará sempre a ser matéria de gozo artístico, mas não lhe será acessível a dignidade suprema: a de se converter em educadora do Homem.” Terá sido fortuito meu gosto pela poesia ter despertado apenas mais tarde?

ATRÁS DO FILÓSOFO E DO MÚSICO: “a relação que existe entre a poesia e a verdade e entre a poesia e o Ser.” “Tal como alguém que pretendesse criar um segundo mundo, colocando a imagem deste no espelho, assim o pintor se limita a traçar a simples imagem refletida das coisas e da sua realidade aparente.” “O pintor é, assim, o criador imitativo de um produto que, à luz da verdade, ocupa o terceiro lugar. O poeta pertence à mesma categoria”

só lhe interessa saber se possuía a arte política e se era realmente capaz de educar os homens. Pergunta ao poeta, como num exame com todas as regras, se alguma vez melhorou uma cidade ou aperfeiçoou as suas instituições, como os antigos legisladores, ou se ganhou uma guerra, ou se, como Pitágoras e os seus discípulos, ofereceu aos homens, na vida privada, o modelo de uma vida nova (bios). Mas é indubitável que nunca chegou a congregar em redor de si, como os sofistas, os mestres da educação contemporâneos, discípulos e seguidores dedicados a cantar-lhe a fama. Isso era, sem dúvida, uma sátira manifesta aos sofistas, que consideravam Homero e os poetas antigos como seus iguais” Séculos nos separam como se fosse ontem!

A poesia é como o esplendor juvenil de um rosto humano, que em si não é belo e cujos encantos, por isso, desaparecem com a juventude.” Atribui à Poesia a crítica que Cálicles atribui à Filosofia.

É a consciência profunda de que a poesia não é uma planta que floresça em qualquer estação, idéia que pela 1ª vez começa a desenhar-se no espírito grego.”

A elevação do eu moral acima do Estado em decomposição, a substituição do espírito criador pela forma poética da criação, o retorno da alma a si própria, tudo isso são rasgos que só um gênio de primeira grandeza, como Platão, podia captar como visão de uma nova realidade.”

A sua obra é o reflexo dos preconceitos e ideais dominantes, mas falta-lhe a verdadeira arte da medida, sem a qual não é possível sobrepor-se à aparência. Em todo este diálogo é notável a ironia de Sócrates, que veste as suas profundas reflexões com a conhecida roupagem pedante e deixa ao leitor muita coisa em que pensar, com a escolha dos exemplos das mesas e das cadeiras.”

Mas a poesia coloca-se na fase infantil e, à semelhança da criança, que, ao sentir uma dor, leva a mão à parte dolorosa do corpo e chora, também ela acentua ainda mais o sentimento de dor que representa, imitando-a.”

Oh, I can no more!” – quão insuportável se tornou ler Dumas Filho e Eça de Queirós!

a parte passional da alma está sempre excitada e aparece sob múltiplas formas e, portanto, é mais fácil de imitar.” Um ator mediano não seria capaz de imitar o “ébrio contido”, tal qual Sócrates no Banquete. Já Alcibíades é um tipo muito simples e acessível!

Interessa-lhe um aspecto da alma diferente do psicofísico, interessa-lhe a alma como receptáculo de valores morais.”

Tal como o Estado, também a alma do Homem não se mostra nunca sob a sua forma perfeita, quando encarnada na realidade terrena. Só a vemos no estado em que Glauco a pinta, no emergir da ressaca da vida, coberta de algas e de conchas, alquebrada e gerida aqui e ali, estragada pelas ondas, mais semelhante a um bicho do que ao seu verdadeiro ser.”

A estrela polar do homem platônico já não pode ser a fama alcançada entre os seus concidadãos, como o fôra durante todos aqueles séculos de esplendor da antiga polis grega, mas apenas a fama perante Deus.” O Homem ou representantes da arete.

Faz uma tentativa audaciosa para conciliar a consciência moral do dever, que vive em nós, com a antiga e oposta fé grega no daimon, que encadeia magicamente todos os atos do Homem, desde o princípio até o fim. § A idéia da paideia pressupõe a liberdade de opção;(*) mas a ação do daimon pertence à esfera da ananke.

(*) (…) O conceito de opção em sentido ético, aparece desde muito cedo em Platão, relacionado com o problema da reta conduta (…) É sobre esta base que depois Arist. constrói na Ética a sua teoria da vontade.”

O único saber com valor é saber escolher, pois dá ao Homem a capacidade de adotar a verdadeira decisão. É este o sentido do mito, que o próprio Platão explica.”

LIVRO QUARTO: O CONFLITO DOS IDEAIS DE CULTURA NO SÉCULO IV

Este livro parte do mesmo ponto do que o precede, mas segue uma linha de desenvolvimento intelectual diferente. (…) O livro regressa na 2ª parte a Platão e estuda a fase posterior da sua carreira como filósofo.

4.1 A Medicina como paideia

Pode-se afirmar sem exagero que sem o modelo da Medicina seria inconcebível a ciência ética de Sócrates, a qual ocupa o lugar central nos diálogos de Platão.”

Apesar de tão evoluída, a Medicina dos nossos dias, fruto do renascimento da literatura médica da Antiguidade clássica na época do humanismo, é, pela sua especialização rigorosamente profissional, algo de totalmente distinto da ciência médica antiga.”

(*) “Anteriormente, ao contrário, era de Tales que se fazia partir a história da Medicina grega, de acordo com a teoria de CELSO (I Proem., 6), segundo a qual a filosofia onicientífica abarcava primitivamente todas as ciências. Isto é uma construção histórica romântica da época helenística.”

A Medicina jamais teria conseguido chegar a ciência, sem as investigações dos primeiros filósofos jônicos da natureza”

(*) “J.H. BREASTED, The Edwin Smith Surgical Papyrus published in Facsimile and Hieroglyphic Transliteration with Translation and Commentary (2 vols, Chicago, 1930). Cf. Abel REY, La Science Orientale avant les Grecs (Paris, 1930) (…) MEYERHOF, ‘Über den Papyrus Edwin Smith, das älteste chirurgiebuch der Welt’ in Deutsche Zeitschrift für Chirurgie, t. 231 (1931), pp. 545-90. »

Aos médicos egípcios não faltava por certo especialização, muito acentuada entre eles, nem empirismo. A solução do enigma não pode ser mais simples: reside pura e simplesmente no fato de aqueles homens não terem do conjunto da natureza o ponto de vista filosófico que os jônios tinham. Sabemos hoje que a Medicina egípcia já era bastante forte para superar a fase de magia e de bruxaria que a metrópole grega ainda conheceu no mundo arcaico que rodeava Píndaro.”

Quando um médico [todos os profissionais eram peripatéticos, ambulantes] chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posição que ela ocupa em relação às várias correntes de ar e ao curso do Sol … assim como anotar o que se refere às águas … e à qualidade do solo … Se conhecer o que diz respeito à mudança das estações e do clima, e o nascimento e o ocaso dos astros … conhecerá antecipadamente a qualidade do ano … Pode ser que alguém julgue isto demasiadamente orientado para a ciência, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a Astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudança nas doenças do homem está relacionada com a mudança do clima.” Hipócrates, Dos Ventos, Águas e Regiões

É o mesmo espírito da filosofia milesiana da natureza que inspira as memoráveis palavras do ensaio Da Doença Sagrada (a epilepsia), as quais asseveram que a dita enfermidade sagrada não é nem mais nem menos divina que outra qualquer e depende de causas naturais, como as restantes. Todas as doenças são divinas e humanas. (ver especialmente caps. I e XXI).”

As mais recentes investigações científicas a eles consagradas provaram em grande parte que os escritos que formam esta coleção – os quais se contradizem mutuamente em muitos trechos e até se combatem – não podem provir do mesmo autor, conclusão a que já a filologia hipocrática da Antiguidade havia chegado. Esta filologia, tal como a dedicada a Aristóteles, surgiu como fenômeno concomitante do renascimento espiritual daqueles dois grandes mestres do período helenístico e existiu enquanto permaneceram de pé a cultura grega e a ciência médica, como parte integrante dela. Os extensos e eruditos comentários de Galeno às obras de Hipócrates e todo o resto que nos chegou fragmentado ou na integridade – contribuições lexicográficas e outros escritos acerca daquele autor – e que é proveniente de uma etapa posterior da Antiguidade, põem-nos diante dos olhos uma imagem daquelas investigações eruditas que infunde respeito pela sua ciência e pela sua capacidade; mas ao mesmo tempo ficamos céticos perante a sua confiança excessiva em poder tornar a descobrir o autêntico Hipócrates, entre a massa dos escritos hipocráticos.”

É o mesmo fenômeno com que deparamos quando se trata de pôr em ordem a herança literária dos chefes de grandes escolas filosóficas, como Platão(*) e Arist., embora em menor grau do que no caso de Hipócrates.

(*) (…) Henri ALLINE, Histoire du Texte de Platon (Paris, 1915)

O ‘juramento’ hipocrático, que deviam prestar os que queriam ingressar na agremiação, continha entre outras a obrigação solene de guardar o segredo da doutrina. Era geralmente de pais a filhos que ela se transmitia, uma vez que estes podiam suceder àqueles no exercício da profissão. As pessoas estranhas, ao serem aceitas como discípulos, eram equiparadas aos filhos. Em troca, obrigavam-se a transmitir gratuitamente a arte médica aos filhos que o seu mestre deixasse ao morrer. Outro traço muito típico era também o de os discípulos se casarem, tal como os aprendizes, dentro da corporação. Do genro de Hipócrates, Polibo, expressamente se nos diz que era médico. Por acaso é o único membro da escola de Cós de quem Arist. cita nominalmente uma pormenorizada descrição do sistema circulatório.”

na profissão médica é tão forte ainda a solidariedade grupal que na prática profissional não é corrente frisar a paternidade individual de determinadas idéias e doutrinas. Era evidentemente na exposição oral dos ensinamentos perante o grande público que o médico investigador expunha em seu próprio nome as suas idéias pessoais.”

está comprovada pelas investigações do século passado a existência de uma escola médica em Cnido (Ásia Menor) e de outra escola grega ocidental, siciliana.”

…a progressiva tecnicização da vida e a diferenciação em profissões mais especializadas, para as quais se requer uma formação especial com altas exigências espirituais e éticas, mas só acessível a um reduzido número de pessoas. É significativo que as obras dos médicos falem muito de leigos e de profissionais. É uma distinção prenhe de conseqüências, que encontramos pela 1ª vez. A palavra leigo provém da linguagem da Igreja medieval e nas suas origens servia para designar os não-clérigos e mais tarde, em sentido lato, os não-professos; em contrapartida, o termo grego idiotes, que exprime a mesma idéia, tem origem político-social. Designa o indivíduo que não está enquadrado no Estado e na comunidade humana, mas vive a seu bel-prazer. Em oposição a ele, o médico sente-se um demiurgo, i.e., um homem de ação pública, nome também dado, aliás, a qualquer artífice que se dedique a produzir roupas ou ferramentas para o povo. Os leigos, encarados como objeto da atividade demiúrgica do médico, costumam também ser designados por membros do demos.”

O médico grego partilha com o artista a carência de um nome que diferencie das atividades do artífice, em sentido moderno, a sua alta capacidade.”

Quanto ao resto, as palavras citadas indicam desde logo que se sentia como problema a posição isolada, ainda que altíssima, que o novo tipo de médico ocupava no conjunto da comunidade.”

Surge uma literatura médica especial, destinada a pessoas estranhas à profissão. Felizmente chegaram até nós os 2 gêneros de literatura, a profissional e a destinada ao grande público. É à 1ª que pertence a grande massa das obras médicas conservadas. Estas obras não podem ser aqui apreciadas, porque o nosso interesse incide primordialmente na 2ª classe.”

(*) “Importa distinguir as conferências iatro-sofistas sobre temas genéricos, em prosa retórica, dos escritos redigidos em forma sóbria e objetiva, dirigidos igualmente ao grande público, como as obras Da Medicina Antiga, Da Doença Sagrada e Da Natureza do Homem. Os 4 livros Da Dieta são também obra literária. Esta literatura destina-se ao ensino dos leigos e à própria propaganda, necessária num mundo onde ainda não existia uma profissão médica autorizada pelo Estado. Cf. De Vet. Med., 1 e 12; De Arte, 1; De Victu ac., 8.”

É no jovem Eutidemo, que mais tarde se converteria em ardente partidário de Sócrates, que Xenofonte pinta este novo tipo de culto. Só tem interesses espirituais e já comprou uma biblioteca inteira. Compõem-na obras de Arquitetura, de Geometria, de Astronomia, e principalmente muitos livros de Medicina.”

também dentro dos campos especiais existe indubitavelmente uma forma de homem culto que corresponde àquele tipo de homem de cultura geral.” ARIST., Part. An., I, 1, 639 a 1

O conceito aristotélico de homem culto em matéria de Medicina ou de ciência natural é menos confuso que o tipo descrito por Platão e Xenofonte.”

O aparecimento dessa esfera intermediária entre a ciência profissional e o campo do profano integral é um fenômeno característico da história da cultura grega do período pós-sofístico.”

Hipócrates – diz-nos – ensina a perguntar sempre em 1º lugar se é simples ou multiforme a natureza do objeto acerca do qual queremos adquirir um verdadeiro saber e uma verdadeira capacidade e, no caso de ser simples, a continuar a investigar até que ponto é capaz de exercer influxo sobre outro objeto determinado ou de lhe sofrer a influência; se, pelo contrário, apresenta múltiplas formas ensina-nos a enumerar estas formas ou tipos e a verificar para cada uma delas o que verificaríamos se se tratasse de um objeto simples: como influi sobre os outros ou como é suscetível de por eles ser influenciado.”

Arist. distingue essencialmente entre a educação individual e a coletiva, apoiando-se para isso no exemplo da Medicina.”

bastará lembrar que para Arist. a ética versa sobre a regulação dos impulsos humanos do prazer e da dor.” “Por conseguinte, o comportamento moral é a tendência a concentrar-se no justo meio que para cada qual existe entre o excesso e o defeito. Os termos aqui usados por Ar., o conceito de excesso e de defeito, de ponto médio e de justa medida (…) e o do tato seguro, a recusa de uma regra absoluta e a exigência de uma norma adequada às características de cada caso concreto, são tudo termos e critérios tirados diretamente da [pior parte da] Medicina” “Ao tomarem por fundamento uma fase de conhecimento alcançada já num terreno paralelo, Platão e Ar. infundem a sua doutrina uma autoridade maior. Tudo está relacionado na estrutura da vida grega e uma pedra assenta sobre outra.”

Ainda não se fez até hoje nenhuma tentativa sistemática para definir o conceito de natureza na antiga literatura médica dos gregos, apesar da importância que isso teria para toda a história do espírito no mundo de então e na posteridade.”

Platão censura no Fédon a antiga filosofia da natureza, por não ter tido em conta o fator, imanente no cosmos, da adequação a um fim, fator relacionado da forma mais estreita com o método orgânico de investigação. O que nos filósofos da natureza faltava encontrava-o ele na ciência médica.” Acabo de ler (não há nem 5 dias!) a mesma observação na HISTÓRIA DA FILOSOFIA de Hegel (também no Seclusão: https://seclusao.art.blog/2021/10/04/historia-das-ideias-2-hegelianismos-o-pensamento-unico-que-falhou/; https://seclusao.art.blog/2021/08/12/lecciones-sobre-la-historia-de-la-filosofia-vol-ii-iii-hegel-trad-wenceslao-roces-fondo-de-cultura-economica-1833-1955-mexico/).

W. THEILER, Geschichte der Teleologischen Naturbetrachtung bis auf Aristoteles (Zurich, 1925)

A. BIER, ‘Beiträge Zur Heikunde’, in Münschener Medizinische Wochenschrift, 1931, nos. 9ss.

Em oposição a Galeno, Hipócrates era considerado um empirista puro, e com isto julgava-se estabelecida a incompatibilidade do ponto de vista teleológico com Hipócrates. Este era reputado um dos grandes representantes antigos da atitude puramente mecânico-causal em face da natureza. (cf. GOMPERZ, Griechische Denker, t. I)”

não nos espanta depararmos também com a palavra arete nas obras que condensam o pensamento médico antigo. Não é sob a influência de Platão que este termo penetra na Medicina. Pelo contrário (…) É especialmente nas doenças que na ação da natureza se revela a adequação a um fim. [que frase porcamente traduzida!] (…) Os sintomas da doença, e sobretudo a febre, representam já de si o início do processo de restabelecimento do estado normal. (…) o médico limita-se a averiguar onde pode intervir para ajudar o processo natural encaminhado à cura. A natureza a si própria se ajuda. O apressuramento da psyche em acudir à parte do corpo ferida – que Heráclito, frag. 67a, compara à precipitação da aranha em correr para o local da teia rasgada pela mosca – recorda a precipitação da natureza em acudir em auxílio do corpo, contra as doenças, segundo a doutrina dos hipocráticos. Este passo dá mais a impressão de uma teoria médica que de um aforismo de Heráclito.”

É neste ponto que o moderno vitalismo introduz, como nível intermédio entre o consciente e o inconsciente, o conceito fisiológico de estímulo[,] fonte das reações teleológicas do organismo. Em Hipócrates este conceito não aparece ainda.”

a edição de Hipócrates por Littré (pouco satisfatória de um ponto de vista crítico, [!] mas extraordinariamente meritória para o seu tempo e que ainda hoje temos de utilizar, à falta de outras edições melhores de muitas das obras daquele autor)” Cf. https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/.

Embora a Medicina tentasse a princípio invadir o campo da ginástica, as obras dietéticas que se conservam atestam que não tardou a estabelecer-se uma divisão de jurisdições, em que o médico se submetia para certas coisas à autoridade do ginasta.”

Perderam-se as obras mais antigas sobre higiene. Se o critério cronológico vigente fosse certo, disporíamos para a época dos fins do séc. V e começos do IV, em que se principiou a desenvolver este aspecto da cultura física grega, de 2 testemunhos, além do breve escrito De um Regime de Vida Saudável e 4 livros Da Dieta, obra famosa na baixa Antiguidade; e ainda os extensos fragmentos, conservados por escritores posteriores, da obra perdida do importante médico Díocles de Caristo.”

Caráter totalmente diverso tem a obra verdadeiramente enciclopédica Da Dieta, que o autor empreendeu com o propósito de resumir e completar onde fosse preciso toda a literatura sobre o assunto, que já era muito copiosa na sua época. O autor é um filósofo e um sistemático, e caracterizá-lo-íamos com pouca justiça se o qualificássemos de simples compilador. É mais que duvidoso que as tentativas de análise desta obra, que até agora se fizeram e a retalharam para atribuir uns pedaços a um sofista heraclitizante, outros a um discípulo de Anaxágoras e outros ao dietético Heródico, representem a solução do enigma.” “Temos de nos decidir a situar Da Dieta não mais antes de começos do século, mas sim bem dentro, do séc. IV.”

Um conhecido fragmento do dramaturgo Epícrates, procedente desta época, fala de algumas tentativas de classificação de todo o mundo animal e vegetal feitas na Academia, na presença de um médico siciliano, entre outros.” “Foi mais tarde, nas obras de Espeusipo e Aristóteles, que vieram à luz da publicidade as investigações da Academia sobre a classificação do reino animal e vegetal. O sistema do dietético apresenta certas semelhanças com os daqueles dois.”

Os numerosos pontos de contato da sua interpretação casuística dos vários tipos de imagens projetadas nos sonhos com os livros de sonhos hindus e babilônicos de época anterior e posterior levaram já outros investigadores à conclusão de que estamos perante uma influência direta do Oriente na ciência médica dos gregos. Essa influência oriental pode ter-se produzido por si mesma também em época anterior. Mas em nenhuma época se enquadra melhor do que no séc. IV, na Jônia de Eudoxo de Cnido” “Os gregos não podiam ser acessíveis à sabedoria e superstição orientais sobre a vida dos sonhos, antes que a alma se convertesse para eles próprios no centro do pensamento, o que nesta forma científico-teórica não sucedeu antes do séc. IV.” “O escrito de Arist. ‘Da Profecia dos Sonhos’, chegado até nós, prova que o problema do valor de realidade dos sonhos reaparece no séc. IV já numa fase científica.”

Também a linguagem Da Dieta encaixa melhor nos meados do que no começo do séc. IV ou em período anterior. Ainda se continuou a escrever em dialeto jônico ao longo de todo este séc., e os períodos construídos aqui e além, corretamente longos, antitéticos e isocóricos [simétricos, de dimensão e ênfase paralelas], indicam mais a época de Isócrates e da sua retórica que a de Górgias. Um estilo como o do dietético é inconcebível ao lado da redação perfeitamente despida de retórica e simplista das obras de medicina profissional que com certa segurança podemos situar na época de Hipócrates ou na geração posterior a ele. Diferem também consideravelmente das obras de uma época anterior, dirigidas a um vasto público e fortemente influenciadas pela prosa sofística.”

Observamos primeiro a influência da antiga filosofia da natureza sobre a Medicina do séc. V e em seguida a repercussão da nova Medicina empírica sobre a filosofia de Platão e Aristóteles. Em Díocles, autor que se encontra visivelmente influenciado pelas grandes escolas filosóficas de Atenas, a Medicina volta a ser a parte que recebe, embora seja certo que não recebe nada sem contribuir por sua vez com alguma coisa.”

a mais rigorosa de todas as ciências em matéria de provas, a Matemática, tem necessariamente que pressupor como fatores dados certas qualidades das grandezas ou dos números.”

não estranha que os gregos, como todos os testemunhos o indicam, fossem grandes madrugadores. Não convém levantar-se logo depois do despertar, mas deve esperar-se que a lassidão do sono se dissipe dos membros, e em seguida friccionar a cabeça e o pescoço nos locais em que estiverem expostos à pressão da almofada. Antes de defecar, recomenda-se que se esfregue o corpo inteiro com um pouco de azeite misturado com água, no Verão. [!] Friccionar-se-á o corpo, de maneira suave e uniforme, fazendo funcionar ao mesmo tempo todas as articulações. O banho imediatamente após o levantar não é indicado. [!] Deve-se esfregar o rosto e olhos com água fria e límpida, lavando previamente as mãos. Segue-se a isto uma série de pormenores precisos sobre o cuidado dos dentes, do nariz, dos ouvidos, do cabelo e do couro cabeludo. Este último deve ser conservado elástico e limpo, para a transpiração, e ao mesmo tempo rijo. [?] Realizadas todas estas operações, aquele que tiver o que fazer dirigir-se-á ao seu trabalho, depois de ter comido alguma coisa. Quem dispuser de tempo para isso, deve dar um passeio, quer antes quer depois do desjejum, passeio cujo caráter e duração devem ajustar-se à constituição física e à saúde do indivíduo.”

a pessoa deverá sentar-se para resolver seus assuntos domésticos ou para outras ocupações suas até à hora do exercício físico. Para a prática deste, os jovens irão ao ginásio e as pessoas idosas ou fracas aos banhos ou a qualquer outro local ensolarado para se friccionarem.” “É preferível que a própria pessoa se friccione a que se deixe massagear por outra, pois os próprios movimentos substituem a ginástica.” Curioso como terceirizaram tudo – da massagem à malhação!

Aos cuidados matinais do corpo segue-se o almoço que deve ser muito leve e não-flácido, para que possa ser digerido antes da ginástica da tarde. [A sabedoria espanhola!] Para logo e depois do almoço está indicada uma breve sesta em local escuro, fresco e sem correntes de ar; em seguida, alguns trabalhos caseiros e um passeio e, por fim, após breve repouso, os exercícios físicos da segunda parte do dia. Este finda com a refeição principal. Díocles não fala dos diversos exercícios; e a literatura dietética não nos informaria acerca deste ponto, o mais importante da cultura física grega, se não fosse por intermédio do autor da obra Da Dieta, que, coerente com o seu método diferente de todos os outros, faz seguir a classificação das comidas e bebidas de uma enumeração de todos os tipos de esforços físicos e psíquicos, incluindo entre eles os exercícios gímnicos. [!] Díocles, por seu lado, exclui da dieta a ginástica, que deixa inteiramente a cargo do ginasta. Edifica, porém, todo o seu plano médico diário sobre os 2 pilares dos exercícios matinais e vespertinos, no ginásio.” Até mesmo o sr. Abílio Diniz leva uma vida de escravo!

Filosofar queima calorias?, eis a questão.

Díocles, no entanto, repara naturalmente que não vive num mundo médico abstrato e por conseguinte não procede como se todos os homens vivessem exclusivamente preocupados com a conservação da saúde. O autor da obra Da Dieta compreende também este problema social e a necessidade de chegar a um acordo entre os princípios ideais do método e as condições materiais de vida do paciente.” “Em seguida, vai descontando coisas para os que também têm de trabalhar e dispõem de pouco tempo para dedicar aos cuidados do corpo. Não se deve, porém, pensar que os médicos gregos só escreviam para os ricos. Isto seria falso. Também os filósofos de então pressupunham um ócio total para o seu bios, deixando que cada qual descontasse deste ideal a parte necessária.”

O exemplo da cultura física médica revela precisamente que a polis grega era, mesmo na sua forma democrática, uma aristocracia socialUma Águas Claras pensante, sem carros, todos “tabeliães” de meio-período. Todos, i.e., 10% da população.

Nenhum dos grandes tipos de vida profissional do nosso tempo, nem o comerciante nem o político, nem o cientista, o operário ou o camponês se enquadraria no âmbito deste estilo de vida da Grécia.”

Seria um erro pensar que os kaloi kagathoi passavam todo o dia no ginásio, friccionando-se e fazendo exercícios, depilando-se e colorindo-se de areia, para voltarem a se lavar, devotados a uma atividade que até o agon livre convertia em febril trabalho especializado.”

o conceito de são é ampliado até formar um conceito normativo universal aplicável ao mundo” “A Medicina grega é simultaneamente raiz e fruto desta concepção do mundo, que constitui o seu alvo constante” “Se a Medicina pôde conquistar uma posição tão representativa da cultura grega, foi por ter sabido proclamar no campo mais próximo ao da experiência imediata do Homem a vigência inviolável desta idéia fundamental da alma grega.” Ah, a barbárie!

4.2 A retórica de Isócrates e o seu ideal de cultura

Isócrates, como mais destacado representante da retórica, personifica a antítese clássica do que Platão e a sua escola representam. A partir de então ressoa como nota fundamental através da história da cultura antiga o pleito da Filosofia e da retórica, cada uma das quais pretendendo ser a melhor forma de educação.”

(*) “H. Von ARMIN, Leben und Werke des Dion von Prusa (Berlim, 1898), pp. 4-114, faz um resumo histórico bastante completo da evolução desta polêmica.”

Nas suas fases subseqüentes, o antagonismo degenera por completo, a espaços, numa luta puramente acadêmica, uma vez que ambas as partes carecem de autêntico conteúdo vital; na época em que o debate principia, elas representam ainda as forças e necessidades verdadeiramente motoras da nação grega e é no centro do palco da vida política que o seu diálogo se trava. É isto que lhe dá o colorido dos verdadeiros acontecimentos históricos e o grande estilo que lhe assegura o interesse permanente da posteridade; mais ainda: olhando para trás, reparamos que nesta luta ganham expressão os problemas verdadeiramente decisivos da história grega daquele tempo.

Tal como Platão, também Isócrates encontrou nestes últimos tempos admiradores e expositores; e a partir do Renascimento imperou, indiscutivelmente, mais que qualquer outro mestre da Antiguidade, na prática pedagógica do humanismo. Do ponto de vista histórico, é perfeitamente legítimo que o seu nome seja destacado nas capas dos livros modernos como o pai da ‘cultura humanística’, na medida em que não são os sofistas os que têm direito a reivindicar este título.”

(*) “Cf. o livro do discípulo de E. Drerup, August BURK, Die Pädagogik des Isokrates als Grundlegung des Humanistischen Bildungsideals (Würzburg, 1923), especialmente os capítulos sobre a ‘Sobrevivência da pedagogia isocrática’, pp. 199 ss., e ‘Isócrates e o humanismo’, pp. 221 ss.. Posteriormente publicaram-se 4 conferência de Drerup, com o título Der Humanismus in seiner Gecshichte, seinem Kulterwerten und seiner Vorbereitung in Unterrichtswesen der Griechen (Paderborn, 1934). Estudiosos britânicos como Burnet [op. cit.] e Ernest Barker chamam Isócrates de pai do humanismo.” Werner e esses autores seus contemporâneos devem ter influenciado Heidegger. Um assunto deveras simples, tratado em menos de 1500 páginas!

(*) “Isto visa igualmente àqueles que numa história da paideia exigem que se comece por definir o que se entende por tal. Era o mesmo que pedir ao historiador da Filosofia que se cingisse à definição de Platão, ou à de Epicuro, à de Kant ou à de Hume, cada um dos quais entendia por Filosofia uma coisa totalmente diferente. A missão de um livro de história sobre a paideia é descrever com a maior fidelidade possível, tanto na sua peculiaridade individual como na sua ligação histórica, os diversos significados, formas de manifestação e camadas espirituais da paideia grega.”

Não deixa de ter importância saber que o que os educadores atuais consideram muitas vezes a essência do ‘humanismo’ é substancialmente a continuação da linha retórica da cultura antiga e que, na realidade, a história do humanismo chega infinitamente mais longe, pois abrange a totalidade das repercussões da paideia grega e, portanto, a ação universal da Filosofia e da ciência helênica.(*) Encarada desta forma, a consciência da autêntica paideia dos gregos converte-se diretamente na autocrítica do humanismo erudito dos tempos modernos.(**)

(*) Cf. sobre isso o meu ensaio ‘Platos Stellung in Aufbau der Griechischen Bildung‘ (Berlim, 1928), publicado pela 1ª vez em Die Antike, vol. IV, 1928, nos 1-2.

(**) (…) A habitual construção histórica do humanismo com as rígidas divisões de Idade Média e Renascimento, escolasticismo e humanismo torna-se insustentável (…) Non datur saltus in historia humanitatis.”

O antigo dualismo helênico da educação gímnica acabou por descer finalmente para um nível inferior.”

UM POLEMISTA EXTEMPORÂNEO: “É possível que o amargor e o sarcasmo lacerante com que Platão a persegue sejam em parte explicáveis pelo peculiar sentimento do vencedor, quando se vê forçado a lutar contra um inimigo que, dentro dos seus limites, parece indomável. Torna-se difícil compreender a apaixonada atitude de Platão, se pensarmos que seus ataques se dirigem exclusivamente contra os grandes sofistas da geração de Sócrates, nos quais ele vê personificado aquele tipo de cultura: Protágoras, Górgias, Hípias e Pródico. Estes homens já estavam mortos e meio esquecidos, quando Platão escreveu os seus diálogos, pois vivia-se depressa naquele século; e era necessária toda a arte de Platão para arrancar ao reino das sombras, como por encanto, a ação exercida sobre os contemporâneos por aquelas figuras, outrora célebres.”

(*) “O Protágoras e o Górgias de Platão datam da 1ª década do séc. IV; em contrapartida, a fundação da escola de Isócrates não pode ser anterior ao ano 390, pois os discursos chegados até nós permitem-nos seguir as suas atividades de redator de discursos forenses por conta de outros até fins da referida década. E talvez até a devamos situar mais próximo de nós, na década de 80.”

(*) “Em Antídosis, 270, Isócrates reivindica o título de PHILOSOPHIA só para a sua obra, entendendo que os restantes educadores, dialéticos, matemáticos e os ‘tecnógrafos’ retóricos não têm direito a usá-lo.”

Hoje, depois de se ter imposto, desde há bastantes séculos, o sentido platônico da palavra filosofia, parece pura arbitrariedade aquela inversão” “Era Isócrates quem se cingia à linguagem usual, ao incluir na categoria dos sofistas Sócrates e os seus discípulos, assim como Protágoras ou Hípias, empregando por outro lado o termo filosofia para designar todas as modalidades da formação geral do espírito, que é, p.ex., o sentido que também Tucídides lhe dá.” “Atenas fundou a cultura (PHILOSOPHIA), diz aqui Isócrates, referindo-se evidentemente, ao exprimir-se assim, ao caráter da coletividade e não ao punhado de sutis dialéticos que se agrupavam ao redor de Sócrates ou de Platão.”

(*) “BLASS assinala justamente que no tempo de Isócrates a palavra filosofia ainda significava cultura, razão pela qual nada tem de ridícula a sua pretensão de ensinar filosofia. Acha, porém, arrogância a pretensão de Isócrates a ser o único representante da verdadeira filosofia, i.e., da verdadeira cultura. Mas, no fim de contas, igual pretensão, de serem os únicos a ensinar a verdadeira cultura, tinham Platão e todas as outras escolas. Cf., p.ex., PLATÃO, Carta VII, 326 A; Rep., 490 A, etc.”

Os retóricos e os sofistas dos diálogos de Platão carecem, logo de início, de razão contra Sócrates, pelo simples fato de serem estrangeiros e por não compreenderem de modo nenhum o verdadeiro problema deste Estado e dos seus habitantes. Aparecem, sempre, no mundo ateniense, tão fechado em si mesmo, com o seu saber já definido e importado de fora. (Cf. Platão Prot., 313 C ss.) É certo que falam uma espécie de linguagem internacional que qualquer homem culto pode compreender, mas falta-lhes o tom ateniense e a graça e a espontânea facilidade do trato, sem as quais é impossível conseguir um êxito completo neste solo.”

(*) “É duvidoso até que ponto merece crédito histórico a exposição de Platão no Fedro, quando põe na boca de Sócrates uma profecia sobre o grande futuro de Isócrates. Pode ser que não tivesse mais fundamento que uma impressão passageira causada ao velho Sócrates pelo jovem retórico. Não é forçoso que tal observação correspondia a um conhecimento íntimo, e muito menos a uma relação de discípulo a mestre. No entanto encontramos em Isócrates numerosos pontos de contato com o pensamento socrático, pontos que H. GOMPERZ, em ‘Isokrates und die Socratik’ (Wiener Studien, 27, 1905, p. 163 e 28, 1906, p. 1), estudou mais profundamente que ninguém. É com razão que sugere a hipótese de Isócrates dever os seus conhecimentos à literatura socrática, o que é abonado pelo fato de não se bater contra estas idéias antes da 2ª década do séc. IV, quando já ele próprio atuava como teórico da educação. Parece-me todavia que Gomperz exagera a influência de Antístenes sobre Isócrates.”

Ele próprio conta que era um homem de constituição física fraca. Não só não tinha voz potente, mas sentia uma timidez invencível sempre que tivesse que falar em público. A massa como tal assustava-o. É evidente que, ao falar sem qualquer escrúpulo desta agorafobia, Isócrates não pretende desculpar apenas a sua abstenção completa de toda a atividade política, mas tem ainda a consciência de que esta disposição de espírito constitui um traço original, enraizado nas camadas profundas do seu ser. Tal como no caso de Sócrates, o seu afastamento da política não provém da falta de interesse, mas de uma problemática que, ao mesmo tempo, dificulta e aprofunda a sua compreensão da verdadeira missão do kairos. (…) é de outro ponto (…) que a obra de renovação deve partir.”

Habitava-o um político sonhador, cujo pensamento, no fundo, seguia os mesmos trâmites do dos políticos de fato, guiado por idéias feitas de desejos, como as de poder, fama, prosperidade, expansão.”

Platão censurava a retórica por ensinar apenas meios de persuasão, sem ser capaz de apontar nenhuma finalidade, razão pela qual só servia para fornecer aos homens armas espirituais para a consecução dos seus objetivos contrários à moral. Era um defeito inegável e constituía, além disso, para a retórica, uma fonte de perigos, numa época como aquela em que a consciência dos melhores se tornava cada vez mais sensível. Na sua orientação para a idéia pan-helênica viu Isócrates o caminho por onde se podia resolver também este problema. Tratava-se, por assim dizer, de encontrar um meio-termo (…) A nova retórica tinha de encontrar um objetivo que fosse eticamente defensável e suscetível, além disso, de aplicação política prática. Na sua opinião, era com uma nova ética nacional que isto se conseguiria.” A decadência e os nacionalistas. Ex: pan-eslavismo, etc.

Não é raro que idéias, que o mestre concebe nos seus últimos anos e com as quais entusiasma os discípulos, definam para estes a orientação de toda a sua atividade.”

Graças ao seu programa, os defeitos da sua própria natureza, tanto os do corpo como os do espírito e caráter, e ainda os da própria retórica, tornam-se quase virtudes ou pelo menos ganham a aparência de tais. Nunca o retórico, ideólogo e panfletista político voltaria a encontrar-se numa situação tão favorável nem a poder gabar-se de exercer uma influência semelhante sobre a nação inteira”

Felizmente não foram poucas as vezes que ele se exprimiu acerca da sua arte e dos seus objetivos como educador, com aquele jeito consciente que lhe era próprio e que a cada passo se interrompia para refletir em voz alta sobre o que dizia e como e por que dizia; mais ainda, no início da sua carreira escreveu várias obras de caráter programático, para esclarecer bem a posição por ele ocupada entre os outros representantes da cultura do seu tempo.”

Nada sabemos das razões nem da data da sua passagem da atividade de escritor de discursos (logógrafo, como p.ex. Lísias e Demóstenes, equivalente em certos aspectos à de um advogado, nos nossos dias) à de mestre de retórica.”

(*) “Os ‘discursos’ de Isócrates nunca foram pronunciados como tais. É pura ficção a sua forma oratória.”

(*) “Que o discurso Contra os Sofistas se deva situar no início da sua atividade docente o próprio Isócrates é quem o afirma em Antíd., 193. (…) julgo impossível evitar a conclusão de que o discurso Contra os Sofistas também ataca violentamente Platão, além de outros socráticos. Como obras suas anteriores pressupõe já o Protágoras e o Górgias, e talvez também o Mênon (…) A concepção de Muenscher, expressa na Realenziklopädie de Pauly-Wissowa (…) segundo a qual Isócrates, na época do discurso Contra os (…), se achava ainda identificado com Platão quanto ao essencial, não se fundamenta no próprio discurso (…) Esse falso ponto de vista deriva exclusivamente da localização demasiado remota do Fedro, onde Platão vê com melhores olhos Isócrates do que os retóricos do tipo de Lísias. A hipótese de sua origem imediatamente posterior ao discurso Contra os (…) levar-nos-ia necessariamente a interpretar este discurso como pró-Platão, o que forçaria a verdade.”

E tinha de fato de parecer necessariamente estranha a mudança da atitude socrática de dúvida acerca da existência de algo que se pudesse chamar educação para o pathos pedagógico dos primeiros diálogos platônicos.” “Ele próprio pretende, naturalmente, ser um educador, mas mostra certa compreensão pelos profanos que preferem não ouvir falar de educação para nada, a confiarem nas promessas dos ‘filósofos’.”

(*) “Segundo a maior probabilidade, foi a confusão entre a sua dialética e a erística – que na polêmica de Isócrates era firmemente mantida – que levou Platão a traçar no Eutidemo uma linha divisória nítida entre Sócrates e os espadachins erísticos. (…)”

Todos os traços característicos do platonismo que são evidentes para uma inteligência mediana são aqui habilmente resumidos em pouco espaço: o estranho método polêmico das perguntas e das respostas; a importância quase mística atribuída à phronesis, i.e., ao conhecimento dos valores, qual órgão especial da razão; o vigoroso intelectualismo, que espera toda a salvação do saber, e a quase religiosa transcendência da promessa de eudaimonia feita pelo filósofo. Isócrates refere-se, evidentemente, às características terminológicas do novo estilo filosófico, características que ele sabe captar com a fina intuição do conhecedor da língua para descobrir o que deverá chocar ou parecer ridículo à maioria das pessoas cultas”

os regulamentos da Academia exigem que os honorários sejam de antemão depositados num banco ateniense.” “É um argumento [isocrático] que parece de mau gosto mas que não deixa de ser engenhoso. Também Platão no Górgias argumentava maliciosamente e em termos parecidos contra os retóricos que se queixavam de que os seus discípulos abusavam da arte oratória, sem verem que com isso era na realidade a si próprios que acusavam, pois, se fosse certo que a retórica tornava os discípulos melhores, seria inconcebível que estes abusassem do que tinham aprendido.”

(*) “(…) O Górgias é agora unanimemente situado, e por motivos convincentes, na segunda metade da 1ª década do séc. IV (…)”

(*) “Devia ser mais aplicável a Antístenes do que a Platão a censura referente aos escassos honorários que os filósofos recebiam dos seus alunos; é, porém, muito pouco o que sabemos acerca destas coisas, para podermos emitir um juízo seguro. (…) Sobre os honorários dos socráticos, veja-se DIÓGENES, II, 62, 65, 80 e IV, 14.”

Nenhum domínio da vida tolera menos do que este a redução de todos os casos concretos a uma série de esquemas e formas fundamentais fixas. Platão dá o nome de idéias a estas formas fundamentais no campo das manifestações lógicas. Como vimos, foi da Medicina do seu tempo que ele tirou esse tipo de intuição plástica e o transpôs para a análise do Ser.”

(*) “É no Crátilo, no Teeteto, no Político e nas Leis que Platão compara as suas ‘idéias’ às letras do alfabeto.”

Em princípio, Isócrates não repele, nem de longe, a possibilidade de uma teoria retórica das idéias: as suas obras revelam que se ia aproximando cada vez mais dela e que edificava a sua oratória, em todos os aspectos, nas linhas do domínio destas formas fundamentais da oratória.”

Numa palavra: a arte oratória é criação poética. Não pode prescindir [d]a técnica, mas tampouco se pode deixar absorver por ela. E assim como os sofistas se julgavam os verdadeiros continuadores dos poetas e adaptaram o gênero deles a sua prosa, também Isócrates tem consciência de continuar a obra dos poetas e de assumir o papel que eles desempenhavam, até há pouco, na vida da nação.” “E quanto menos Isócrates espera ou deseja percorrer o caminho do estadista prático, mais ele necessita do sopro da poesia para a sua missão puramente espiritual”

É ele próprio que, como Píndaro, estabelece também o paralelo entre as suas criações e as dos artistas plásticos e orgulhosamente se equipara a Fídias. Em Ant., 2. Isócrates compara-se ao escultor Fídias e aos pintores Zêux[is] e Parrásio, os maiores artistas da Grécia; Platão procede da mesma forma na RepúblicaTodo escritor chega independentemente a este juízo!

Também ser escultor era para o sentimento social dos gregos da época clássica um conceito que ainda estava ligado a algo de ofício e de rotina. E no entanto este ofício englobava toda a série de cambiantes que iam desde o modesto canteiro até o genial criador do Partenon.”

É com muita cautela que Isócrates se pronuncia acerca da utilidade da educação. Reconhece que o fator decisivo são os dons naturais e confessa francamente que as pessoas de talento e sem cultura chegam freqüentemente mais longe que as pessoas cultas mas sem talento, isso supondo que se possa realmente falar de cultura sem algo que realmente valha a pena cultivar.” “Mais tarde, na República, Platão fará depender da coincidência de qualidades que raramente coexistem na realidade a consecução do supremo objetivo da cultura.”

Platão aspira a formar a alma por meio do conhecimento das idéias como normas absolutas do bom, do justo, do belo, etc., de acordo com a lei da sua estrutura imanente à própria alma, até conseguir realizar nela um cosmos inteligível que abarque a totalidade do Ser. Isócrates, ao contrário, não admite este saber universal. O órgão da cultura retórica é a simples opinião, embora admita no espírito, como ele próprio acentua repetidas vezes, uma capacidade prática para alcançar com certeza o objetivo, a qual, sem possuir um verdadeiro saber, em sentido absoluto, lhe permite optar pela solução acertada.” O <excêntrico discípulo de Parmênides>.

também Isócrates não é capaz de descrever mais que os elementos e as fases do processo cultural, por trás das quais continua a ser um mistério a formação, como tal, do Homem. (…) É portanto unicamente da justa combinação entre natureza e arte que a cultura depende.”

Os redatores de discursos trabalhavam para ganhar o pão, pois o seu artigo era, na prática, o mais procurado. Conhecemos esse gênero de trabalho pelos discursos-modelo publicados por Antifonte, Lísias, Iseu, Demóstenes e pelo próprio Isócrates nos seus primeiros tempos. Esse gênero é uma das flores mais curiosas do jardim da literatura grega, um produto específico do solo ático. A mania de litigar dos atenienses, tão ridicularizada na comédia, é o reverso do Estado jurídico, do qual tão orgulhosos se sentiam. A ela se devia o interesse geral que os debates judiciais e as competições agonísticas despertavam. Os discursos-modelo dos logógrafos servem ao mesmo tempo de propaganda dos seus automotores, [?] de modelo proposto à imitação dos discípulos e da matéria de entretenimento para o público leitor.” “Não se deve pôr em dúvida a sinceridade desta repugnância, que basta para explicar a razão por que Isócrates renunciou a esta atividade.”

Isócrates segue, pois, Platão na crítica, mas não na construção positiva. Não acredita na possibilidade de ensinar a virtude, como não acredita na possibilidade de ensinar o senso artístico, e como Platão só reserva o nome de techne para uma educação capaz de fazer isto, Isócrates julga impossível que ele exista.”

Isócrates deve ter ficado com a mesma impressão dos primeiros diálogos de Platão que era gerada na maioria dos leitores modernos até há pouco: a de tratar apenas de problemas de iniciação moral, que estranhamente apareciam em íntima relação com a dialética. Em contrapartida, a retórica tem a vantagem de ser uma cultura inteiramente política. Precisa apenas encontrar um novo caminho, uma nova atitude, para neste campo alcançar um posto espiritual diretivo. A antiga retórica não conseguira grande coisa, porque se ofereceu como instrumento à política diária, em vez de se elevar acima dela. Já se revela aqui a certeza de poder infundir à vida política da nação um pathos mais elevado. Infelizmente falta a parte principal do fragmento do discurso Contra os Sofistas que chegou até nós (…) A diversificação de Isócrates em relação ao objetivo educacional de Platão deve ter tido que mudar, necessariamente, quando aquele adquiriu consciência prática do princípio da filosofia platônica. De fato, esse princípio já se anunciava na declaração expressa no Górgias platônico de que era Sócrates o único estadista autêntico do seu tempo, visto que aspirava a tornar melhores os cidadãos. Esta declaração podia ser facilmente interpretada como simples paradoxo, sobretudo por Isócrates, que via na ânsia de originalidade e na caça aos paradoxos inéditos a motivação fundamental de todos os escritos contemporâneos e temia, com razão, que neste terreno lhe fosse difícil rivalizar com Platão e com os filósofos. Mais tarde, no Filipe, voltando os olhos para trás, a fim de abarcar a obra de Platão, pouco depois de sua morte, já o considera o grande teórico do Estado, embora, infelizmente, o seu pensamento não seja realizável. Levanta-se, assim, o problema de saber quando teria surgido nele este novo ponto de vista sobre Platão. A resposta ele nos dá em Helena, modelo de encômio, que incide sobre um tema mítico e cujo louvor nos tem de parecer, por força, tanto mais paradoxal quanto ela é, em geral, alvo de censuras.”

O HIMENEU DE PÃ E HELENA:Panegírico (380): o programa da unificação dos Estados gregos através de uma guerra nacional comum contra os bárbaros. Na 1ª década, Isócrates move-se ainda por inteiro nas águas de Górgias.”

(*) “(…) É o próprio ARISTÓTELES quem afirma, em Ret., III, 14, 1414 b 26, que não é necessário, precisamente no gênero literário dos discursos epidícticos, que o prólogo esteja organicamente ligado ao corpo principal da obra. Como exemplo, dá a Helena de Isócrates e compara o prólogo do encômio ao prelúdio (proaulion) de um concerto de flauta, unido por laços muito frouxos ao próprio concerto.”

(*) “(…) A respeito de Antístenes, cf. ARISTÓTELES, Metaf. n 29, 1204 b 33, e ainda o comentário de Alexandre de Afrodísia a esta passagem; e PLATÃO, Sofista, 251 B.”

Dessa vez, Isócrates já distingue os socráticos dos simples erísticos, que não se propõem educar ninguém, mas pretendem apenas colocar outros homens em dificuldades. Censura a todos quererem refutar outros, quando eles próprios já se encontram há muito refutados”

Isócrates exprime a sua posição perante o ideal platônico da precisão e solidez científicas, na fórmula de que o mínimo avanço no conhecimento das coisas verdadeiramente importantes deve ser preferido à maior superioridade espiritual imaginável em matérias mesquinhas e sem importância, que não têm nenhuma utilidade para a vida. Naturalmente, como psicólogo que é, compreende a predileção da juventude pela arte polêmica da dialética, pois não tem o menor interesse pelos assuntos sérios, quer públicos, quer privados, mas quanto mais inútil for o jogo mais a diverte. Merecem, porém, censura os pretensos educadores que incitam os discípulos a este passatempo, pois incorrem com isso na mesma falta que eles próprios censuram aos representantes da eloqüência forense: a de corromper a juventude.” Inconciliável com o Platonismo. O que é o mesquinho e o que é o importante? Pergunte ao Ser!

a ala radical dos socráticos: Antístenes e Aristipo.”

É por isso que a repulsa de Isócrates pelo amplo ‘rodeio’ teórico de Platão cresce à medida que ambos mais parecem coincidir no tocante ao fim prático da educação. Isócrates só reconhece o caminho direto. A sua educação nada sabe da tensão interior que existe no espírito de Platão entre a vontade propulsora que o incita a agir e o retraimento proveniente da longa preparação teórica. É certo que Isócrates está suficientemente afastado da política cotidiana e dos manejos dos estadistas do seu tempo para compreender as objeções que Platão formula contra eles. O que ele, homem do meio-termo, não compreende é a radical exigência ética da socrática, que se intromete entre os indivíduos e o Estado. Procura melhorar a vida política por um caminho diferente do da utopia. Sente indubitavelmente a arraigada repugnância do cidadão culto e abastado contra as selvagens degenerações tanto do domínio das massas como da tirania dos indivíduos (…) Não partilha, porém, o radical espírito reformador de Platão e nada está mais longe do seu espírito que o consagrar a vida inteira a tal missão.” Desconhece a arte do sacrifício.

A guerra pusera em evidência que o anterior estado de coisas era insustentável e urgia abordar uma reconstrução dos Estados gregos.”

DA HIPOCRISIA COMO NECESSIDADE FENOMÊNICA QUE INTEGRA O ABSOLUTO

Há mais semelhança entre o mundo antigo e o nosso do que pode medir qualquer vã filosofia sob o Sol! A certeza íntima que temos de que nossas utopias calarão fundo no coração de uma humanidade que sequer veremos… Porém, enquanto indivíduos deste mundo, mesmo sabendo que “já vivemos para a posteridade”, resta-nos uma máscara protetora e conciliadora: somos intelectuais de esquerda. Sem nosso lado panfletário que nos serve de mola nosso eu-ideal fica sem esteio.

4.3 Educação política e ideal pan-helênico

Em nenhuma parte a tendência a l’art pour l’art tem menos razão de ser do que na arte da expressão espiritual.”

O significado etimológico da retórica, para o bem ou para o mal, a polis.”

O problema da retórica é ser retórica demais.

A falência do Estado de Péricles colocava um problema: saber se Atenas, depois da sua lenta recuperação, devia enveredar de novo pelo mesmo caminho de expansão imperialista (que já uma vez a levara à beira do abismo).” Síndrome de Vasco da Gama. Vencer absolutamente é tombar – vide Roma.

Estava muito longe de comungar a fé numa paz eterna.”

Que o imperialismo, caso fosse inevitável, se dirigisse contra os outros povos, de nível cultural inferior e inimigos naturais dos gregos”

(*) “É por necessidade que se expõem de maneira sintética as tendências pan-helênicas surgidas antes de Isócrates; não escasseiam as investigações de detalhe. Limita-se a Isócrates o escudo (sic) de J. KESSLER, ‘Isokrates und die panhellenische Idee’ in: Studien Zur Geschichte und Kultur des Altertums, t. IV, CADERNO 3 (Paderborn, 1911). (…)“

Nas celebrações olímpicas e píticas, interrompia-se, sob a imposição da paz divina, o estrépito das armas esgrimidas entre gregos”

Trata-se de reconciliar Esparta com Atenas, para em seguida estes 2 Estados, os mais fortes, compartilharem a hegemonia sobre a Grécia.”

Isócrates traça um quadro da grandeza de Atenas que remonta até a pré-história mítica.” “Este quadro histórico baseia-se inteiramente nos princípios segundo os quais a política ateniense se interpreta a si mesma. É uma política intrinsecamente semelhante, muito semelhante mesmo, à que inspira a política externa inglesa dos tempos modernos. Por outro lado, este processo de interpretação retroativa da história antiga de Atenas à luz das pretensões políticas de agora tem um paralelo próximo na interpretação que Treitschke dá da história antiga da Prússia-Brande[m]burgo, do ponto de vista do papel diretivo nacional mais tarde assumido por este Estado. Os tempos primitivos pseudo-históricos são sempre mais próprios do que quaisquer outros posteriores e mais bem-conhecidos para se deixarem moldar neste tipo de construções.” Hitler sabia-o muito bem.

Todo o mito nacional e cultural traz consigo esta estreiteza de horizontes e esta exaltação absolutista da sua própria raça. Quer ser aceito mais como artigo de fé que como fria verdade científica. É por isso que diante dele não se podem alegar dados históricos.”

O que domina a sua filosofia da História, e sobretudo a sua construção da história primitiva de Atenas, é a sua fé na missão peculiar da cultura ateniense.” “Em oposição com o caráter exclusivista de Esparta, a cultura ateniense caracteriza-se por atrair os estrangeiros, em vez de os repudiar.” “Aos combates de força física e de destreza, desde remotos tempos característicos da Grécia inteira, juntam-se em Atenas os agones da oratória e do espírito. Estes torneios converteram as fugazes festas nacionais olímpicas e píticas numa grande panegyris ininterrupta.” “A imagem esplendorosa que Isócrates tem diante dos olhos não deixa margem para a problemática trágica em que Platão, com grande sutileza, penetra os perigos do meio.”

O logos, no duplo sentido de linguagem e espírito, converte-se para Isócrates no symbolon da paideusis.”

Segundo a tese de Isócrates, o resultado da obra espiritual de Atenas foi o nome dos gregos não designar no futuro uma raça, mas antes um grau supremo do espírito.”

À primeira vista, parece um imenso paradoxo Isócrates proclamar esta missão supranacional da cultura do seu povo, movido precisamente por um insuperável sentimento de orgulho nacional; mas esta aparente contradição desaparece logo que relacionamos a idéia supranacional do Helenismo, a sua paideia de âmbito universal, com o objetivo da conquista e colonização da Ásia pelos gregos.” “Há uma forma de sentimento nacional que se manifesta como exclusão dos outros povos: é fruto da fraqueza e do separatismo, pois nasce da consciência de que só através do isolamento artificial se poderá afirmar.”

Com base em analogias atuais poderíamos sentir-nos tentados a designar isto pelo nome de propaganda cultural e a comparar a retórica à imprensa e à publicidade modernas, precursoras da conquista econômica e militar. Contudo, a fórmula de Isócrates nasce de uma profunda visão da estrutura real do espírito e da paideia gregas, e a História prova que era algo mais (…) Sem a vigência universal da paideia grega que ele aqui proclama pela 1ª vez, não teria sido possível a existência de um império universal greco-macedônico nem a da cultura helenística universal.” Alexandre, o Isócrates prático.

Esta parte do discurso termina com uma defesa contra a crítica dos métodos do imperialismo ateniense da primeira liga marítima, crítica utilizada por Esparta, depois de ganhar a guerra, para manter Atenas em permanente sujeição, o que constituía um obstáculo moral no caminho da restauração do poder marítimo ateniense.”

O Panegírico foi definido como o programa da segunda liga marítima de Atenas.(*) Esta concepção exagera as relações existentes entre esta obra e a política real e não avalia com exatidão o elemento ideológico contido nela. É, no entanto, exata no sentido de que Isócrates exige o restabelecimento do poder de Atenas, como meio indispensável para a consecução do seu fim, que é a sujeição do reino da Pérsia.

(*) Assim pensam Wilamowitz e Drerup. Cf. também G. MATHIEU, Les idées politiques d’Isócrate (Paris, 1925). »

(*) “Já no Plataico de Isócrates vemos que o domínio marítimo ateniense apresenta um aspecto muito menos pan-helênico e muito mais particularista. Acerca da data deste opúsculo, cf. o meu Demóstenes, O Estadista e a sua Evolução, pp. 199-203 (Berlim, 1939).”

A exigência de submeter a política a valores eternos tinha de parecer exagerada a alguns; mas esta exigência de que ela fosse moldada por um princípio superior era geral, e a ética nacional de Isócrates tinha que parecer a muitos de seus discípulos uma saída feliz e oportuna, entre os extremos do ceticismo moral e da retirada filosófica para o Absoluto.” “O seu objetivo transcende a forma do Estado historicamente dada e entra no reino do ideal. Isto implicava a confissão do seu divórcio da realidade política circundante.” “Já não está por trás dele uma classe nobre superior ou todo um povo; está o círculo escolhido de um movimento espiritual ou uma escola fechada, que só pode esperar exercer uma influência mediata na vida da comunidade”

e-Sócrates

4.4 A educação do príncipe

Nicocles, filho de Evágoras (…) era discípulo de Isócrates, de cuja escola saiu, como do cavalo de Tróia, toda uma série de governantes, segundo a famosa frase de Cícero.” “O orgulho que Isócrates sente pelos discípulos, que também se manifesta abundantemente na Antídosis, é um dos aspectos amáveis da sua vaidade”

As 3 obras do grupo do Nicocles são modelos da arte pedagógica praticada na escola de Isócrates. Enquanto no Panegírico ressoa, por assim dizer, o acorde pan-helênico, o tom fundamental da intenção política em que esta educação se inspira, nas obras cipriotas surge mais claramente o ponto em que apóia, na prática, a paideia de Isócrates.” “estas obras abrem-nos os horizontes de um problema que (…) tinha forçosamente de ser de suma importância: o de a possibilidade de a cultura influir no Estado através da educação dos governantes. Este problema surge-nos na literatura do século IV, em escritores e pensadores da mais variada orientação: em toda a filosofia de Platão e nas suas tentativas práticas de influenciar o tirano Dionísio, as quais o próprio Platão descreve na Carta Sétima como a tragédia da paideia; em Isócrates, nas suas obras sobre Nicocles, na mensagem a Dionísio de Siracusa, no Arquidamo, no Filipe, e sobretudo nas relações com o seu discípulo Timóteo; na grande novela pedagógica de Xenofonte, a Ciropedia; na amizade filosófica de Aristóteles com o tirano Hermias de Atarneu, e principalmente nas relações pedagógicas daquele com o futuro dominador do mundo, Alexandre. Também o Protréptico de Arist. era um discurso exortativo dirigido a um tirano de Chipre, Témison.”

Nem todos os poetas que circulavam pelas côrtes dos tiranos do séc. IV eram simples parasitas e aduladores, que logo se punham a cantar a democracia, quando os tiranos caíam, como Platão censura aos poetas do seu tempo.”

A encarnação da verdadeira arete na imagem de uma personagem histórica individual, tal como Isócrates a traça aqui, pode comparar-se à fusão da pessoa e coisa na descrição platônica de Sócrates”

dois discursos, Nicocles e A Nicocles

Ao enquadrar assim num esquema absoluto a tirania, que os gregos de resto consideravam a suma e compêndio da arbitrariedade, legaliza-a de certo modo e insinua no tirano a vontade de governar o povo de acordo com uma lei fixa e uma norma superior. No séc. IV deparamos repetidas vezes com o problema de saber como converter a tirania numa constituição mais suave.” Como transformar o cobre em ouro.

chamamos retóricos aos homens em condições de falar diante de muitos e denominamos homens de bom juízo os que são capazes de refletir com acerto no seu foro íntimo.”

ao contrário de Platão, Isócrates não considera como missão de Estado a educação do cidadão e o seu aperfeiçoamento pessoal” “É com facilidade que Isócrates transforma em ideologia de despotismo esclarecido a sua fé fortemente materialista no bem-estar.” “Teoricamente é pessimista em face do paradoxo filosófico da possibilidade de ensinar a virtude; praticamente, porém, a sua vontade educativa permanece intacta.” “Enquanto Platão relutava em empreender o caminho de Siracusa e só o fez a instâncias e rogos insistentes dos amigos e do próprio soberano, Isócrates não espera que o convidem.

O seu sentido do direito natural exige sempre a verdadeira arete como justificação do poder sobre o Estado, e não instituições que funcionem de modo automático, mas sem personalidade. Isto, porém, não deve confundir-se, como prova ostensivamente o testemunho de Isócrates, com a glorificação do poder à margem de qualquer lei.” “O soberano deve reunir no seu caráter o amor pelo Estado. Deve, por assim dizer, unir em si a Antígona e Creonte.”

(*) “(…) Já AULO GÉLIO, Noct. Att., XIII, 7, emitia a este respeito um juízo correto ao distinguir humanitas – paideia. O conceito de filantropia não tem qualquer acepção central em Isócrates; o fulcro do seu pensamento é o conceito de paideia, que serve de base ao seu ‘humanismo’. (…)”

O trabalho deve ser lucrativo, mas a mania de pleitear deve infligir ao culpado danos sensíveis. As palavras de Isócrates refletem neste aspecto a existência do povo ateniense e a fúria processual nele desencadeada.”

Faz que a tua palavra seja mais certa que as juras dos outros. (…) Porta-te para com os Estados mais fracos como desejarias que os Estados mais fortes se portassem para contigo. (…) Não tenhas por grande o soberano que estenda a mão para coisas maiores do que as que pode alcançar, mas sim quem, aspirando a coisas elevadas saiba levar a cabo o que empreende (…) Não conceda a tua amizade a todos quantos desejem ser teus amigos, mas só a quem for digno da tua natureza. Não escolhas, para tal, os homens cujo convívio mais te agrade, mas antes os que te ajudem a governar melhor o Estado.”

o rei é o espelho do caráter da polis inteira. Aqui, como em Platão, reaparece em fase superior a idéia de modelo da antiga paideia da nobreza grega, idéia que é transposta do problema da educação individual para a educação de toda a cidade. Mas, enquanto Platão desloca o paradigma para o absoluto, para a idéia do Bem e, portanto, para Deus, medida de todas as coisas, Isócrates confina-se à idéia do modelo pessoal.” “a idéia da paideia é no seu tempo o verdadeiramente vivo e o sentido supremo da existência humana.”

A dignidade é real, mas faz o povo retrair-se. A amabilidade torna fácil e agradável o trato com os homens, mas tende a rebaixar a categoria do rei.” “Baseia a formação do monarca não no conhecimento dos supremos conceitos universais teóricos das matemáticas e da dialética, como Platão, mas sim no conhecimento da História. Aparece neste traço pela 1ª vez a influência espiritual direta da historiografia sobre o pensamento político e a cultura da época. Mesmo sem precisarmos recordar os múltiplos conhecimentos soltos que, como provamos, Isócrates deve a Tucídides, também aqui somos forçados a pensar sobretudo nele, no novo gênero de historiografia política que este historiador criou.”

A paideia de velho estilo, que se conservava dentro do âmbito da ginástica e da música, ainda não reconhecia nem o pensamento nem o saber históricos. O passado não faltava totalmente, já que que era inseparável da poesia; mas só revestia nela a forma da narração dos feitos heróicos de certas personagens ou do próprio povo, e o histórico ainda não se diferenciava claramente do mítico.”

A VERDADEIRA FILOSOFIA É ATEMPORAL: “Nos esboços platônicos de um vasto sistema de paideia científica são tomados em consideração até os ramos mais recentes das matemáticas, da Medicina e da Astronomia; mas a grande e nova criação da historiografia política fica totalmente na sombra. Aparentemente, isto poderia justificar a impressão de que a verdadeira influência de Tucídides se limitou aos círculos estritamente profissionais, i.e., aos seus imitadores isolados, que se esforçavam por escrever outro fragmento da História, segundo as orientações do mestre. Mas não devemos perder de vista, para este efeito, a outra grande representante da paideia grega do seu tempo, a retórica. Assim como o poder formativo das matemáticas só foi plenamente reconhecido, como era lógico, pela paideia filosófica, assim o novo poder educativo do saber histórico, que se revela na obra de Tucídides, encontra o seu lugar no âmbito do sistema da cultura retórica.”

Na retórica posterior, perdura este interesse pela História na forma de paradigma histórico, o qual recorda as origens paidêuticas desta atitude em face da História. Mas a eloqüência verdadeiramente política já morreu nesta época tardia, por ter perdido a base com o desaparecimento da cidade-Estado grega. Por essa razão, o emprego dos exemplos históricos passou a ser nela uma coisa morta e puramente ornamental. O sistema retórico de cultura de Isócrates, nascido ainda de debates verdadeiramente políticos e de grande estilo, é o único da Antiguidade grega em que cabe seriamente o estudo histórico. Temos paralelo disso em Roma principalmente em Cícero”

Prefere-se a pior comédia às sentenças escolhidas dos poetas mais profundos.” “Transparece aqui o sentimento de que a nova arte da retórica, posta ao serviço das concepções educativas, representa uma desvantagem decisiva em relação à poesia. Os verdadeiros mestres na direção das almas (psicagogia) são aqueles velhos poetas, aos quais todos têm de regressar constantemente depois de ouvirem as novas teorias, e isto pela simples razão de serem mais agradáveis.”

O triunfo posterior da cultura retórica sobre a filosófica, ao menos entre as camadas mais amplas da gente culta, deriva em parte da superioridade da forma, que era sempre o primordial para a retórica (…) a Filosofia e a Ciência deixaram mais tarde de rivalizar com a retórica neste campo e cederam conscientemente ao desleixo da forma, desleixo que chegaram até a equiparar à cientificidade.Nota curiosa: Heráclito, Parmênides, Platão, Kierkegaard, Nietzsche, Deleuze, Baudrillard: Os reis-filósofos são também poetas. Kant, Hegel, Sartre (nos escritos técnicos), Heidegger: estilistas inábeis.

4.5 Autoridade e liberdade na democracia radical

Da desintegração causada pelas guerras pérsicas se levantou Atenas e se converteu em guia da Hélade, pois o medo fez com que todas as suas forças espirituais se concentrassem na meta da recuperação. Mas, em seguida, do cume do poder assim conseguido de novo se precipitou subitamente na guerra do Peloponeso, pouco faltando para se ver agrilhoada à servidão. Os espartanos, por seu lado, deveram o seu antigo poderio à sóbria vida de guerreiros, em virtude da qual se foram elevando dos começos insignificantes de sua história até o domínio sobre o Peloponeso. Mas este poderio impeliu-os à soberba, até que por fim, depois de conseguirem a hegemonia por terra e por mar, se viram reduzidos à mesma situação de penúria que Atenas. Isócrates alude aqui à derrota de Esparta em Leuctra, que tão profunda impressão causou nas pessoas da época, sem excluir os admiradores incondicionais de Esparta; prova-o a mudança sofrida pelos juízos acerca de Esparta e das suas instituições estatais, na literatura política do séc. IV. Platão, Xenofonte e Aristóteles, tal como Isócrates, citam repetidas vezes o desmoronamento da hegemonia espartana na Hélade, que explicam dizendo que os espartanos não souberam usar sabiamente o seu poder.”

Sob o comando de Cononte, e principalmente sob o de seu filho Timóteo, [seria o mesmo de acima?] logramos a hegemonia sobre toda a Grécia; mas não tardamos a perdê-la outra vez, por não termos a constituição de que precisávamos para defendê-la.”

Segundo a conclusão a que Isócrates chega, os homens eram diferentes nos tempos de Sólon ou de Clístenes; portanto, o único meio de livrá-los do seu individualismo exagerado é restaurar a constituição do Estado que vigorava naquele século.” Só homens restaurados restauram códigos deteriorados.

A tarefa de formar os homens desloca-se, assim, do campo da existência espiritual para o da educação exterior, em que o Estado se converte autoritariamente em agente externo da missão educativa. Desta forma, a paideia torna-se mecânica, e este defeito ressalta com maior força do contraste entre o modo puramente técnico como Isócrates pretende realizá-la e a concepção romântica do passado, que ele assim aspira a fazer ressurgir.” Mas ao menos ele recuou de sua oposição diametral a Platão, revalorizando o papel do Estado.

É elucidativo reparar como a imagem ideal do passado que Isócrates traça para caracterizar o espírito da educação a que aspira se vai inadvertidamente convertendo num sonho utópico, em que se esfumam todas as cores do presente e se resolvem todos os problemas. Esta estranha maneira de encarar a História só se compreende quando se vê que todos os louvores tributados ao passado são simplesmente concebidos como a negação de um mal correlativo do presente.”

No tempo dos pais da democracia ateniense, Sólon e Clístenes, ainda não se confundia o desenfreio com a democracia, a arbitrariedade com a liberdade, a licenciosidade da palavra com a igualdade, a absoluta falta de domínio do comportamento com a suprema felicidade; ao contrário, os indivíduos deste jaez eram castigados e existia a preocupação de tornar melhores os homens.¹ (…) A época da decomposição da forma só conhece a paideia no sentido negativo da corrupção que se transmite do conjunto a cada um dos membros. Isócrates apresenta em termos semelhantes a paideia negativa que nasce da ambição de poder da polis e faz variar o espírito dos cidadãos. (De Pace, 77). (…) é característico da época o fato de a paideia em sentido positivo só ser possível na forma de reação consciente dos indivíduos isolados contra as tendências gerais da evolução.”

¹ O dito se aplica completamente ao presente, é só pensar na licenciosidade boçal com que uma Damares se arroga o direito de “falar o que quiser” quando pisa numa igreja com fins políticos. Uma liberdade que o texto da Constituição não lhe deu, mas que o afrouxamento dos costumes democráticos e o descaso de um Supremo Tribunal Federal, que só agora e lentamente vem revendo sua conduta, decerto semearam.

(*) “…é interessante que este mesmo lema trabalhar e poupar (…) apareça em PLATÃO, Rep., 553 C, para caracterizar o homem oligárquico. Dificilmente Isócrates teria tirado desta caricatura as cores para pintar a sua imagem ideal: é por isso que é tanto mais interessante a sua coincidência com Platão”

O restabelecimento do Areópago fez-se no 1º período dos Trinta, altura em que Teramenes e a ala moderada dos conservadores tinham uma influência decisiva na política. O regresso dos democratas após a expulsão dos Trinta anulou evidentemente estas medidas legislativas; e o fato de Teramenes, autor do lema constituição dos maiores, ter sido morto por Crítias e pelos elementos oligárquicos radicais também não contribuiu para que este grupo moderado e a sua herança espiritual fossem vistos com mais simpatia no período seguinte de restauração do governo do povo. Compreende-se, assim, que Isócrates evite intencionalmente a expressão constituição dos maiores ou a transcreva sob outras formas, para não causar escândalo.

(*) “…Contra a opinião dos que pretendiam dissuadir o autor de publicar esta obra, por acharem incurável a situação de Atenas e perigosa a hostilidade dos dirigentes radicais contra os moderados, devem naturalmente ter-se levantado vozes aconselhando a publicação, pois de outra forma jamais se teria resolvido a isso um homem tão prudente [medroso] como Isócrates….”

(*) “De modo semelhante, PLATÃO, Carta VII, 326 A, indica-nos que concebera e expusera oralmente vários decênios atrás, antes da sua 1ª viagem à Sicília, as idéias publicadas mais tarde na República….”

Os atenienses tão depressa acorrem com 300 bois para o sacrifício como deixam cair no mais completo esquecimento as festas consagradas pelos seus maiores.”

Antiquitates Rerum Humanarum et Divinarum de Varrão, obra gigantesca de erudição histórico-cultural e teológica. Esta obra nasceu de uma situação interna análoga à da época isocrática. (…) Para poder escrever coisas como as que se citaram acima, tinha de ter estudado com certa precisão as práticas religiosas e as festas da antiga Atenas”

Os pobres não conheciam ainda a inveja da classe abastada, mas os sem-fortuna partilhavam a felicidade dos outros e era com razão que olhavam a riqueza daqueles como a fonte do seu próprio sustento.” Eis o espírito contido no Coriolano de Shakespeare. Já hoje vivemos o dilema de uma “elite” que é invejosa do pobre em ascensão, incapaz de reconhecer que a felicidade desta classe emergente é e deve ser reflexo da sua própria na partilha nacional. Não se reconhecem absoluto como imbuídos da missão de sustentar essa massa, embora se jactem em dizer que criam riqueza, que portanto seriam a fonte do crescimento econômico, sem se dar conta que sem a integração pobre-rico por meio do trabalho ninguém propriamente enriquece, na competição canibal internacional. O país fica apenas mais fraco e mais isolado, e a maior riqueza do rico às expensas de explorar o trabalhador, despido de seus direitos fundamentais, converte-se numa falsa riqueza, ou pelo menos numa riqueza relativamente parca comparada a outras nações em que há maior justiça social.

períodos de industrialização e crescimento do capital” “investia-se produtivamente o dinheiro” Eu é que contextualizo para o presente; mas Jaeger, como sempre, vê essas categorias ainda não-nascentes na própria Grécia Antiga, tão antepassada do Capital! Se há uma crítica severa a fazer a sua magnum opus, sempre achei e acharei que seria esta.

Era a confiança mútua que presidia à vida dos negócios e os pobres davam tanta importância como os possuidores de grandes fortunas à segurança das relações econômicas. Ninguém escondia a própria fortuna nem temia que ela se tornasse do domínio público, mas todos a empregavam praticamente, com a convicção de que isto não só era vantajoso para a situação econômica da cidade, mas até aumentava a própria fortuna.” Exatamente o que falei acima sobre o Brasil contemporâneo! Foi com a decomposição da oligarquia ateniense que Atenas caiu. É com a decomposição ainda mais abrupta da nossa elite do atraso cada vez mais atrasada que o Brasil está sendo jogado para a periferia da periferia das lideranças mundiais.

O defeito do sistema vigente reside em se limitar em Atenas a paideia ao pais, isto é, à infância. (Areop., 37). Desde a época dos sofistas, todas as cabeças da paideia grega, Platão e Isócrates principalmente, concordavam em que a paideia não se limitava ao ensino escolar. Para eles, era cultura, formação da alma humana. É isto que distingue a paideia grega do sistema educacional das outras nações. Era um ideal absoluto. (…) no passado (…) se velava pelos adultos ainda com maior cuidado do que pelas crianças.”

Este organismo só era acessível a pessoas escolhidas pelo nascimento e que na vida tivessem dado provas de caráter irrepreensível. Este princípio de seleção fazia do Areópago a mais distinta corporação da sua classe existente na Grécia.” Talvez extremamente corporativista; nobre, todavia.

O que importa, portanto, é infundir à polis um ethos bom e não dotá-la de um amontoado cada vez maior de leis especiais para cada setor da existência. (…) Platão acreditava poder renunciar por completo a uma legislação especializada no seu Estado ideal, pois supunha que nele a educação atuaria automaticamente” A Inglaterra e sua Constituição enxuta como eterna miragem moderna. Como ser enxuto, p.ex., em legislação tributária?

Isócrates considera irrecusável que a paideia se adapte à situação de fortuna de cada indivíduo. Este ponto de vista teve certa importância na teoria dos gregos sobre a juventude” “Só na República de Platão ele é eliminado: toda a educação superior fica a cargo do Estado e da elite por ele supervisada.” “A concentração da educação no Estado devia ser encarada por Isócrates como uma exigência totalmente irreal de um radicalismo pedagógico que não serviria de fato para criar uma elite espiritual” Mas se é que o Estado tem condições de cuidar da educação, seria somente de um seletíssimo número. A educação de viés ultrapopular e abrangendo cem por cento da população, mesmo a elite, mesmo os despolitizados, vivendo de fazer concessões em prol da inclusão, seria hipócrita ou semeadora de desastres e desestabilizações futuras do governo.

A equiparação estabelecida entre a educação do espírito e as diversas modalidades do esporte é característica da concepção da paideia como um jogo distinto, concepção que Isócrates partilha com o aristocrata Cálicles do Górgias de Platão.”

o Areópago mantinha os cidadãos dentro dos limites, palavra que já em Sólon aparece e que desde então se repete com freqüência em declarações sobre a disciplina legal dos cidadãos.” “As pessoas comportavam-se com seriedade e não tinham o prurido de passar por excêntricas ou espirituosas.”

aidos, aquele sentimento respeitoso de santo temor” “não é fácil definir este sentimento de pejo ou de temor: é um fenômeno inibitório de grande complexidade espiritual, formado por múltiplos motivos sociais, morais e éticos, ou antes o sentimento de onde brota esse fenômeno.”

o seu conceito de democracia é substancialmente mais amplo do que o da maioria dos democratas do tempo.”

* * *

Ninguém repetiu este ataque à demagogia tirânica e ao materialismo da massa com maior força de convicção do que Demóstenes, campeão da liberdade democrática contra os seus opressores estrangeiros.”

Finalmente, ao afirmar que os atenienses estavam obrigados, não só para consigo mesmos, mas também pela sua missão como salvadores e protetores de toda a Grécia, a se sobreporem à presente situação economicamente ruim e de indolência e a sujeitarem-se a uma educação rigorosa, capaz de habilitar outra vez o povo a cumprir o seu destino histórico, Demóstenes fez sua também a idéia com que culmina o discurso sobre o Areópago.

A tragédia da renúncia à força reside nisto: quando as idéias de Isócrates começavam assim a lançar raízes no coração da juventude, já o seu autor abandonara definitivamente a fé no ressurgimento de Atenas como poder independente e como guia de uma grande federação de Estados. No discurso de Isócrates sobre a paz, assistimos à abdicação de todos os seus planos que visavam ressuscitar no interior do país a criação política de Timóteo e erguer o império renovado da 2ª liga marítima ateniense. Hoje não podemos ler o programa educativo contido no discurso sobre o Areópago sem pensar na renúncia que no Discurso sobre a Paz, redigido no final da guerra perdida, Isócrates recomenda ao povo ateniense em relação aos antigos confederados separados” “Isócrates aconselha agora a que se conserve a paz não só com os confederados apóstatas, mas ainda com o mundo inteiro, com o qual Atenas se encontra em litígio.”

A zona de domínio da liga ficou reduzida à terça parte do território que possuía no tempo da sua máxima expansão, sob o comando de Timóteo. E o número dos confederados baixou em proporção, uma vez que os mais importantes foram voltando as costas à liga. A situação financeira era catastrófica.”

Este programa apresenta grande afinidade com o escrito de Xenofonte sobre receitas públicas, que apareceu na mesma época e pretendia apontar uma saída à crítica situação. A direção efetiva do Estado passou para as mãos do grupo conservador, encabeçado pelo político Eubulo, cujas idéias se orientavam na mesma direção.” “é evidente (…) que os 2 discursos não podem provir da mesma época.” “isso vem também confirmar a nossa conclusão de que o discurso sobre o Areópago tem necessariamente que datar de época anterior ao agudo rebentar da crise”

UM GRANDE XADREZ ENTRE DOIS IMPÉRIOS: “No Areopagítico não há a mínima dúvida acerca da excelência do domínio marítimo nem da sua importância histórica tanto para Atenas como para a Grécia” “O Discurso sobre a Paz, levado pelo seu pessimismo, tende, pelo contrário, a provar que o princípio de todos os males foi precisamente o começo do domínio naval.” “É a completa mudança diante do problema da força operada desde o Panegírico até o Discurso sobre a Paz, que explica a apreciação antagônica da paz de Antálcidas, nas 2 obras. O Panegírico condena-a do modo mais severo, considerando-a símbolo da vergonhosa submissão dos gregos aos persas, vergonha só possível após a ruína do domínio marítimo ateniense. (…) a paz de Antálcidas aparece agora como a plataforma desejável a que importa voltar para reorganizar a quebrantada vida política da Grécia. (…) e compreende-se que os sentimentos antipersas do nosso autor voltassem a se avivar mais tarde no Filipe, assim que com o rei da Macedônia surgiu um novo campeão da causa grega.”

No Panegírico, o imperialismo é justificado pela relação que tem com o bem-estar do conjunto da nação grega; no Discurso sobre a Paz, o domínio e a tendência à expansão do poder são pura e simplesmente repudiados, afirmando-se expressamente a validade da moral privada, mesmo nas relações entre Estados. [!]” Admissão tácita de que Atenas não tinha mais vocação para liderar o mundo. No máximo, estaria já muito em vantagem, dada a situação precária vigente, se conseguisse se tornar uma polis entre iguais.

A tendência ao poder e ao domínio é apresentada como a fonte de todos os males da história grega. Isócrates considera que esta tendência é por essência análoga à tirania e, portanto, intrinsecamente incompatível com a democracia.” Muito interessante e precursor do ângulo do anti-imperialismo e constitucionalismo modernos, porém trágico para os atenienses de então.

Com efeito, a tendência ao poder está profundamente enraizada no interior do homem e é necessário um gigantesco esforço do espírito para arrancá-la pela raiz. (…) E, assim como no Areopagítico são apresentados como escola de tudo quanto é bom a legalidade e a severidade da ordem de vida dos antepassados, assim no Discurso sobre a Paz se atribui à educação do povo e dos seus dirigentes, corrompida por obra do poder, tudo o que há de mau e desregrado no presente.”

O verdadeiro modelador das almas humanas é a ânsia de poder, a aspiração a mais. Esta, quando domina o Estado e a sua ação, não tarda a converter-se também em lei suprema da conduta individual.” “A democracia converte-se, pois, como se vê, na renúncia à tendência de poder. Mas isto não equivalerá, talvez, à eliminação voluntária da única democracia importante que ainda existia, na sua luta com as outras formas de governo, que buscam o mesmo objetivo por caminho direto, sem tropeçarem nos obstáculos constitucionais das liberdades cívicas? Eis um problema realmente sugestivo. Na realidade, devemos reconhecer que a exigência de Isócrates de se renunciar ao poder arbitrário do domínio ateniense era proclamada numa época em que aquele poder já desaparecera de fato pela força dos acontecimentos. A fundamentação moral através da vontade livre não passava de uma justificação a posteriori, que de certo modo facilitava a tarefa dos impotentes herdeiros do antigo esplendor, aliviando a consciência dos patriotas cuja mentalidade discorresse ainda pelos trâmites da tradicional política de força.”

E quase parece inconcebível que o Estado ateniense, relegado por ele ao papel de funcionário aposentado, tenha podido erguer-se de novo, sob a direção de Demóstenes, para a derradeira luta, uma luta em que já não se buscava a conquista de um poder maior, mas sim a defesa da última coisa que lhe restava, após a perda do seu império: a liberdade.”

4.6 Isócrates defende a sua paideia

Isócrates fala muito de si próprio nas suas obras, mas esta necessidade encontra a sua expressão mais pura numa das suas últimas criações (…) o discurso sobre as trocas de fortuna, a Antídosis, que é o nome que este conceito tem na língua ática.”

(*) “Em Antíd., 9, indica uma idade de 82 anos. Este discurso perdera-se na sua maior parte; só o princípio e o fim dele se conservaram, até que em 1812 o grego Mistoxides descobriu a parte principal (72 a 309).

Cada uma das pessoas sobrecarregadas com o imposto da trierarquia tinha direito, se considerasse o gravame injusto, a dar o nome de um cidadão mais rico a quem se pudesse com maior razão exigir o cumprimento do mesmo dever; e para demonstrar que a riqueza desse cidadão era maior que a sua podia pedir que trocasse de fortuna consigo. Em razão deste costume foram dirigidos à pessoa e à atividade docente de Isócrates diversos ataques que, embora não rigorosamente relacionados com o fundo da questão, tinham certa relação com a sua fama de ter juntado uma grande fortuna, com as suas atividades publicitárias e educativas.”

O processo por causa da troca de fortunas é apenas o motivo para redigir uma obra em que, a pretexto de ter sido publicamente argüido, defende, i.e., situa sob o ângulo que lhe parece adequado a sua vida, o seu caráter e as suas atividades didáticas. Na mesma obra, disserta pormenorizadamente sobre a estranha mistura de discurso forense, de autodefesa e da autobiografia que a Antídosis representa e pretende que esta mescla de idéias seja apreciada como uma sutileza especial da sua arte retórica. (…) Foi Platão, na Apologia de Sócrates, o 1º a converter o discurso forense de defesa em forma literária de confissão, em que uma personalidade destacada no plano espiritual procura prestar contas dos seus atos. Esta nova forma de auto-retrato literário deve ter causado funda impressão na mentalidade egocêntrica de Isócrates, que dela se serve no discurso sobre a troca de fortunas.” “1º monumento autêntico da autobiografia que possuímos, ou antes, como 1º relato do seu espírito e da sua vida, a Antídosis interessa-nos ainda de maneira especial, por ser a exposição mais ampla que ele nos deixou sobre os objetivos e os resultados da sua paideia.”

Na Antídosis, Isócrates toma, indubitavelmente, posição perante ataques como os de Aristóteles.” “É a grandeza do seu objetivo que distingue os seus discursos de todos os outros, pois se ventilam neles os interesses da nação grega e não os deste ou daquele indivíduo.” “É por isso que a sua arte congrega a sua volta numerosos discípulos, ao passo que os redatores empíricos de discursos são incapazes de formar realmente uma escola.”

imitação, conceito que tende cada vez mais a tornar-se a verdadeira medula do seu sistema educativo.”

já no fim da vida (…) Isócrates apresenta-se à opinião literária como um clássico consumado, que propõe como modelo as suas próprias obras. É aqui que tem as suas raízes o classicismo posterior. A todas as suas obras antepõe ele o Panegírico, tanto pela exemplaridade da forma como pelo testemunho do seu sentir patriótico, nas quais não se destaca tanto o pan-helenismo como o seu consciente sentimento de ateniense. É certo que os seus concidadãos punham este último em dúvida. No entanto, depois de ter apresentado 2 anos antes a talassocracia ateniense como a raiz de todos os males, era evidente que não podia publicar sem qualquer retoque o Panegírico

Isócrates tem certeza que com este discurso voltará agora a ser calorosamente aplaudido pelos círculos patrióticos de Atenas, mas não deixa de ser significativo que, para contrabalançar essa glorificação de Atenas e da sua grandeza histórica, insira de seguida um fragmento da sua obra mais recente, o Discurso sobre a Paz, e precisamente aquela parte do discurso em que prega uma paz duradoura e a renúncia ao domínio de Atenas sobre os mares.”

Seria interessante saber se, quando fala dos legisladores, Isócrates quer se referir também a Platão, que naquela época andava entregue à redação das suas Leis. Este fato devia ser conhecido nos círculos espirituais de Atenas interessados nestas questões e jorrava uma nova e derradeira luz sobre a vontade educativa de Platão.”

das leis se louvam as mais antigas e dos discursos os mais modernos.” Antíd., 82

E a sua obra de educador tem também uma importância superior à dos filósofos ou sofistas que exortam o homem à virtude da justiça e ao autodomínio, pois é só aos indivíduos que o seu apelo à phronesis, ao conhecimento moral e a uma conduta de acordo com ele, se dirige, dando-se eles por satisfeitos quando conseguem atrair alguns homens. A atuação de Isócrates, ao contrário, dirige-se à polis inteira e procura incitá-la a realizar ações que a tornem feliz e libertem os outros gregos das suas dores.”

Para o leitor moderno, o essencial é a sua herança literária, através da qual continua a nos falar. Mas para o ateniense, sobretudo para aquele que não conhecesse com precisão a longa série de estadistas e de outras eminentes personalidades da vida pública saídos da escola de Isócrates, tal enumeração tinha de significar forçosamente mais que a mera palavra escrita.”

(*) “Hemipo, discípulo de Calímaco, compôs a obra Sobre os Estudiosos de Filosofia que se tornaram Governantes, baseando-se nas listas dos estóicos e acadêmicos de Filodemo, que haviam sido descobertas. (…) É natural que o tirano Hermias de Atarneu desempenhasse nela um papel importante, juntamente com os seus conselheiros políticos Erasto e Corisco, discípulos de Platão. (…) Por certo que em tais listas figuravam ainda Díon e alguns platônicos mais jovens, como Eudemo de Chipre e os seus correligionários, mortos em Siracusa na luta contra a tirania. Mas era também discípulo de Platão o assassino de Díon, Calipo, que a seguir se fez tirano. Em Heracléia, no Ponto, foi ainda um discípulo de Isócrates e Platão – Clearco – que se entronizou como tirano depois de derrubar e assassinar o platônico Quíon. Cf. MEYER, Geschichte des Altertums, t. V, p. 980.”

Crítias e Alcibíades. Os socráticos tinham-se esforçado naquela época por absolver o seu mestre de qualquer responsabilidade no futuro papel desempenhado por aqueles homens na história da sua pátria, durante os mais difíceis tempos da provação de Atenas.”

a tragédia da sua carreira como educador (apesar de tão cheia de êxitos, vista de fora), tragédia que é para ele, ao mesmo tempo, a do Estado ateniense. Esta tragédia radica no velho problema das relações entre as grandes personalidades e a massa, na vida da democracia grega.”

Não era um temperamento vigoroso, endurecido nos trabalhos, mas sim um homem de nervos sensíveis e de saúde delicada. Comparado com Cares, o militarão cheio de cicatrizes, o deus da guerra do partido radical, a quem Isócrates se quer evidentemente referir nesta narração, embora sem lhe mencionar o nome, Timóteo representa o ideal do estratego moderno.”

Timóteo não era inimigo do povo nem inimigo do Homem; não era soberbo nem sofria de nenhuma outra má qualidade deste gênero. O sentimento da sua própria grandeza, que lhe era tão útil como chefe militar, é o que o tornava difícil no trato diário e lhe dava uma certa aparência de homem altivo e brusco.”

É impossível contemplar esta imagem, sem pensar no exemplo de Homero, que Isócrates deve ter tido presente, ao escrever estas páginas, em que se entretecem verdade e poesia: referimo-nos ao discurso exortativo de Fênix a Aquiles, no livro IX da Ilíada. O problema que se colocava aqui era o mesmo: moderar o sentimento da megalopsychia, da grandeza de alma, pela sua inserção na estrutura de uma comunidade humana freqüentemente rebelde ao reconhecimento e à gratidão.”

Timóteo, muito embora me desse razão quando eu assim falava, era incapaz de modificar a sua natureza. Era kaloskagathos, digno da cidade e da Grécia, jamais comparável àquela classe de homens a quem incomoda tudo quanto os ultrapasse.” Antíd., 138.

a ficção de um concidadão ter solicitado judicialmente trocar com ele de patrimônio o obriga a focar também este aspecto material da sua profissão.”

Àquela data, a sua riqueza despertava quase inevitavelmente a inveja e a cobiça da massa; e, enquanto antigamente quem possuía uma grande fortuna sentia orgulho em exibi-la, no tempo de Isócrates todos procuravam ocultar o que possuíam, com medo de perdê-lo, ainda que tivesse sido adquirido por meios lícitos. Isócrates, porém, não pretende furtar-se ao problema da sua fortuna; ao contrário, este problema é visivelmente para ele um ponto cardeal para o qual pretende dirigir a atenção do leitor, uma vez que o êxito material das suas atividades docentes é, aos seus olhos e aos da maioria dos seus contemporâneos, o critério supremo para ajuizar das suas obras. Considera injusto pretender-se medir os ordenados dos professores pelos dos comediantes – que no entanto eram considerados exorbitantemente altos – e aconselha a compará-los aos de pessoas da mesma categoria e profissão. Entre estas menciona o seu mestre Górgias, que ensinou na Tessália, numa época em que os tessálios eram os homens mais ricos de toda a Grécia; e ele era tido pelo mais rico de todos os retóricos. Pois bem: quando morreu, Górgias não deixou mais de 1100 estateres.” “E não foi dos seus concidadãos que recebeu o dinheiro, mas sim de estrangeiros atraídos a Atenas pela fama do seu nome, contribuindo desta forma para a prosperidade econômica da sua cidade natal. O sólido caráter burguês de Isócrates e da sua formação ressalta neste ponto com a maior clareza, se o compararmos, p.ex., com a atitude aristocrática de Platão, que nunca explorou como negócio a educação filosófica.” “A regulamentação dos honorários era em uns e outros, bem como nos médicos, absolutamente individual. Não esqueçamos que a atitude de Platão perante estes problemas representa a exceção.”

(*) “Esta substituição da ginástica e da música pela ginástica e a filosofia (isto é, pela retórica) indica claramente que Isócrates se eleva acima da antiga paideia dos gregos, e à velha educação, baseada na poesia, substitui uma nova e mais bela forma de educação do espírito. Contudo a sua ‘filosofia’ pressupõe o adestramento ‘musical’ de estilo antigo, tal como o faz o sistema educativo ideal de Platão para os governantes filósofos, na República. Na idade avançada (Panat., 34), Isócrates acalentava o desejo de tratar a fundo a posição que a poesia ocupava no reino da cultura.” Não só na Rep. de Platão, como também no Fédon.

Assim como até o corpo mais frágil se fortalece, quando por ele se vela cuidadosamente, e os animais se podem amestrar e mudam de caráter por meio da domesticação, assim também existe uma disciplina que forma o espírito do Homem. Os profanos tendem a desdenhar a importância que o fator tempo tem aqui, e ficam céticos se não apalpam os resultados dos esforços ao cabo de poucos dias ou, quando muito, ao fim de um ano. Isócrates repete aqui a sua teoria dos diversos graus de eficiência da paideia. Mas, embora reconhecendo esta diversidade, continua a defender sem vacilar que a eficiência pode ser comprovada em todos os seres mais ou menos dotados. Todos exibem em maior ou menor medida o selo da mesma formação espiritual.”

Cita-se até, segundo uma paródia livre de Eurípides, um verso das suas lições de retórica, o qual reza assim, transcrito para prosa: Seria deplorável guardar silêncio e deixar falar Isócrates. Aristóteles propunha-se satisfazer com estes cursos a necessidade que os seus discípulos sentiam de uma cultura formal. O ensino retórico tendia a completar o estudo da dialética.”

(*) “…A mim o que parece mais verossímil é o Fedro ser posterior ao Grilo de Aristóteles (pouco depois de 362), ainda que não muito posterior. Tanto no Grilo como no Górgias, a retórica não é considerada techne, ao passo que no Fedro pode-se converter em tal. (…) Em todo caso, creio que o Fedro deve ser considerado anterior à Antídosis (ano 353).”

Ambas as coisas tinham forçosamente de atentar contra a Escola de Isócrates e provocar a sua indignação. Um dos seus discípulos, Cefisodoro, compôs contra Arist. uma extensa obra em 4 livros (…) O caráter irônico de Arist. leva-nos a pensar que a sua inovação deve por força ter originado uma polêmica mordaz, embora na sua Retórica citasse freqüentemente os discursos de Isócrates como modelos de oratória.”

Platão, apesar de todas as suas reservas, não tinha outro remédio senão compreender a diferença profunda que existia entre Isócrates e outros retóricos do tipo de Lísias. Quando põe na boca de Sócrates a profecia de que Isócrates saberá desenvolver um dia os seus dons naturais de ordem mais filosófica e criar algo de pessoal, põe-nos o problema de vermos até que ponto a trajetória posterior do retórico satisfez realmente aquelas esperanças.”

(*) “Em Antíd., 258, Isócrates afirma cautelosamente que são certos filósofos erísticos os que o difamam; estabelece, pois, distinção entre o próprio Platão e o seu discípulo Arist..”

É certo que não se pode dar o nome de Filosofia a esta cultura meramente lógica e conceitual, visto que não dá normas nem para bem falar nem para bem agir. É, no entanto, um exercício da alma e uma iniciação à verdadeira Filosofia, à cultura político-retórica.” Vd. o Político: o Jovem Sócrates, um matemático ateniense, e o Estrangeiro em busca da definição do Homem Político.

(*) “…Platão julga ter refutado no Górgias estas censuras de Cálicles, mas Isócrates volta a colhê-las na sua totalidade, prova de que este antagonismo entre os 2 ideais de cultura é eterno….”

antigos sofistas (termo com que se refere aos que hoje designamos por pré-socráticos).”

(*) “Já na Helena, 2-3, Isóc. atacara os filósofos pré-socráticos, Protágoras, Górgias, Zenão e Melisso,¹ como simples rebuscadores de paradoxos, e prevenira contra a sua imitação. Na Antídosis critica Empédocles, Íon [não se sabe se é o Íon de Quio já citado], Alcmeôn, Parmênides, Melisso e Górgias. É claro que não critica Górgias como retórico, mas sim como inventor do famoso argumento o ser não é, que foi uma exageração dos paradoxos tão do gosto dos filósofos eleatas.” Não poupava o próprio mestre – mas, mais grave, não devia saber puxar muita coisa de proveito do que lia, para atirar a torto e a direito assim e ver qualidade tão-só em si.

¹ Provavelmente um campeão da irrelevância. Só citado agora; bastante superficialmente discorrido na História da Filosofia hegeliana. Um péssimo discípulo de Zenão, caso o tenha realmente sido.

as especulações metafísicas sobre o Ser e a natureza, ligadas aos nomes de Empédocles, Parmênides, Melisso e outros são por ele consideradas pura insensatez e provocam a sua indignação. No Parmênides e no Teeteto de Platão discutem-se vivamente os problemas da escola eleata, de Heráclito e de Protágoras. Nas listas das obras de Arist. são especialmente citadas obras de Xenófanes, Zenão, Melisso, Alcmeôn, Górgias e os pitagóricos. Estes estudos nasceram do contato intensivo da Academia com os pensadores antigos e os seus frutos já se manifestaram nas partes mais antigas da Metafísica de Arist., sobretudo no livro I, que trata dos pensadores anteriores a ele.” “Isóc., involuntariamente, já não consegue mais exprimir o seu pensar discrepante senão na forma da negação do ponto de vista platônico.” O início da “síndrome” que já dura +2000 anos.

De modo esquemático:

Parmênides ——(V)—– Sócrates —– Platão

Parmênides ——(O)—– Górgias —– Isócrates,

onde (V) = Verdade e (O) = Opinião, conforme desmembrados do Um de Parm..

Segundo Isóc., a censura que Platão dirige no Górgias aos grandes estadistas do passado cai sobre aquele mesmo que a formula, pois, ao aplicar aos homens uma pauta sobre-humana, o que faz é precisamente praticar uma injustiça contra os melhores dente eles. (…) opinião acertada (…) concedida como dom divino)” DV

Ad infinitum a mesma crítica ao Übermensch

Enquanto para Platão a fase superior da arete e da paideia começa para além deste êxito baseado no instinto e na inspiração, o sistema educativo de Isócrates, sujeitando-se por si mesmo a uma limitação consciente e levado pelo seu ceticismo de princípio, move-se exclusivamente na fase do simples critério pessoal e da mera opinião. A opinião certa não é para ele um problema de conhecimento exato, mas sim de gênio, e como tal inexplicável e refratário a ser transmitido por meio do ensino.”

Em parte alguma as limitações espirituais de Isócrates ressaltam com maior clareza do que na crítica à teoria platônica da paideia.” Um aristocrata é um aristocrata, crendo num Homem ou não (somente homens).

(*) “Antíd., 274-5: uma techne do tipo da que exigem os dialéticos nunca existiu antes, tampouco existe agora. Mas antes de inventar tal paideia conviria abster-se de prometê-la aos outros….”

À essência da pleonexia (desejo de mais), profundamente enraizada na natureza do Homem, como instinto de posse, dedica ele aqui uma investigação especial, em que procura dar a este conceito um sentido positivo. É neste ponto que Isócrates traça uma nítida linha divisória entre si próprio e o Cálicles de Platão. Esta linha divisória é a da moral.”

(*) “De Pace, 33. Já nesta obra (…) se vê claramente que Isócrates é contrário ao amoralismo do Cálicles platônico e à sua teoria do direito do mais forte (…) Na Antídosis, Isó. procura separar nitidamente as duas coisas.” Sempre haverá “duas” Vontades de Potência: a do Bom (Melhor) e a dos maus. Todo mestre será malversado. E embora separáveis, sempre terão o mesmo nome. Não se trata de contestar o “princípio natural” da “sobrevivência do mais forte”, mas de estabelecer: o que é o mais forte?

(*) “Antíd., 282 e 285. Em 283, Isó. censura o abuso das palavras em que incorremos filósofos, ao transpô-las das coisas supremas para as coisas piores e mais reprováveis. Na realidade, ele próprio muda o sentido do termo pleonexia, de algo moralmente repugnante em algo ideal. Ao fazê-lo, segue sensivelmente o exemplo de Platão, que no Banq., 206 A define o eros idealizado como o impulso para a assimilação do mais belo e do melhor…”

Isócrates aceita a moral prática dos socráticos, embora sem a dialética nem a ontologia platônicas” Isócrates quer as vantagens da Filosofia sem seus efeitos colaterais! Hipertrofia que se repetiu na Alemanha: quando o culto se torna o bárbaro. E, no fundo, Caetano Veloso filosofa em alemão. Somos seus continuadores.

Não é próprio do ateniense desprezar o logos nem sentir ódio à cultura do espírito, ódio freqüente agora entre os políticos poderosos e entre a massa, e que constitui um sintoma de degenerescência do Estado ático.” “é ao espírito ático que se deve a fama da cidade no mundo inteiro.” “Ao perseguirem os representantes da cultura espiritual, os atenienses procedem como procederiam os espartanos se punissem as atividades guerreiras, ou os tessálios se anatematizassem a criação de cavalos e a equitação.”

MUDA BRASIL”, MBL, etc.: “A tendência mais extremista da democracia foi adotando uma atitude cada vez mais hostil para com a cultura, à medida que se ia definindo a ligação entre a cultura e a crítica política.” “O que revoltava a massa, a criação de uma nova aristocracia espiritual em vez da antiga nobreza de sangue, que já tinha definitivamente perdido a sua importância, era o ideal consciente da educação isocrática.”

Finge-se pronunciar estas palavras perante um tribunal, mas na realidade brotam do refúgio de um recanto, a partir do qual já não se apresenta a mínima possibilidade de influir no andamento das coisas, porque já se tornou insondável o abismo entre o indivíduo e a massa, entre a cultura e a incultura.”

Na nova estrela ascendente do rei Filipe da Macedônia, na qual os defensores da polis viam um signo funesto, viu Isó. totalmente o contrário, a luz de um futuro melhor; e no seu Filipe saudou o adversário de Atenas como o homem a quem a tyche conferira a missão de realizar o seu ideal pan-helênico.” “Dos homens que eram, em Atenas, a alma da resistência contra a Macedônia, mesmo de Demóstenes, falava só como de homens incapazes de fazerem qualquer bem à polis.”

O ancião de 97 anos [!] (…) espalha-se em considerações históricas sobre a melhor forma de governo, que consiste, segundo Isó., numa combinação correta dos 3 tipos fundamentais de constituição.” “Esta teoria influenciou os estadistas peripatéticos e através deles informou a obra do historiador Políbio – sobretudo no modo de expor o espírito do Estado romano – e ainda o ideal de Estado de Cícero, no seu De Republica.”

4.7 Xenofonte: o cavaleiro e o soldado ideais

Se deixarmos de lado (…) Platão (…) só um homem dentre os escritores do círculo socrático, Xenofonte, chegou até nós através de numerosos escritos. Em contrapartida, discípulos como Antístenes, Ésquines e Aristipo, preocupados apenas com imitar as diatribes morais do seu mestre, dificilmente representam para nós mais do que simples nomes.” Com efeito, os dois últimos estão citados apenas duas vezes nesse amplo resumo, contando com a menção acima.

Mesmo que não seja lido como o primeiro prosador grego, pela transparente simplicidade da sua linguagem (e ainda hoje assim é considerado nas nossas escolas); mesmo que o julguemos através da leitura dos grandes autores do seu século, de um Tucídides, de um Platão ou de um Demóstenes; muitas coisas que hoje nos poderiam parecer espiritualmente banais ganham, pelo encanto da sua pena, um aspecto diferente.”

Xenofonte, que nascera num dos demos atenienses, o mesmo de que Isócrates descendia, passou pelas mesmas experiências infelizes deste e de Platão, na última década da guerra do Peloponeso, época em que se tornou adulto.” “Não foi Sócrates, porém, quem marcou o destino da sua vida, mas sim a ardente inclinação para a guerra e para a aventura” “o mais brilhante dos seus livros, a Anábase ou Expedição de Ciro

ao regressar da campanha da Ásia, uniu-se diretamente aos espartanos que sob o comando de Agesilau combatiam em prol da liberdade dos gregos da Ásia Menor e voltou à Grécia com o rei”

Alfred CROISET, Xenophon, son charactère et son talent (Paris, 1873)

E teve que pagar com a extradição para fora da sua cidade as inapreciáveis experiências militares, etnográficas e geográficas adquiridas na sua campanha asiática.”

O gosto pelas variadas atividades de agricultor, juntamente com a recordação de Sócrates e a inclinação para tudo quanto fosse histórico e militar, é uma das principais características da personalidade de Xenofonte”

Xenofonte permaneceu longe da pátria durante os decênios do novo apogeu ateniense, com a 2ª liga marítima; não voltou a ser chamado a sua cidade antes da decadência desta liga, a última grande criação política de Atenas, data em que procurou contribuir com alguns pequenos escritos de caráter prático para a obra de reorganização do exército e da economia. (…) A sua vida abrange, pois, pouco mais ou menos, o mesmo período da de Platão.”

Quando redigiu o seu escrito em defesa de Sócrates, que figura agora como livro primeiro, à cabeça das suas Memoráveis, escritas muito depois – motivadas principalmente pela polêmica literária que ao final da década de noventa provocou o livro difamatório do sofista Polícrates contra Sócrates e os socráticos –, era a uma razão predominantemente política que obedecia a sua incorporação no círculo dos defensores de Sócrates: ao desejo de provar, lá do exílio, que Sócrates não devia ser identificado com as tendências de Alcibíades ou de Crítias, os quais as escolas concorrentes lhe pretendiam atribuir como discípulos, a fim de desacreditarem como suspeito de espírito antidemocrático tudo quanto tivesse qualquer relação com Sócrates. Nem sequer os acusadores do mestre se tinham atrevido a tanto, no seu processo.”

sentimentos antidemocráticos, misodemia

A redação de um capítulo como a conversa entre Sócrates e Péricles o Moço, Mem., III, 5, em que se parte do pressuposto que o principal inimigo de Atenas são os tebanos (…) só se pode conceber na altura em que Atenas e Esparta eram aliadas contra Tebas, após o início do novo apogeu desta cidade, i.e., nas décadas de 60 ou 50 do século IV.”

Embora transpareça constantemente em Xenofonte o orgulho nacional e a fé na superioridade da cultura e do talento gregos, ele está muito longe de pensar que a verdadeira arete seja um dom dos deuses depositado no berço de qualquer burguesinho helênico.” [!]

Entre os persas considerava-se incorreto cuspir e assoar o nariz”

Na imagem de Ciro traçada por Xen. aparecem intimamente associadas a helenofilia e a alta arete persa. Ciro é o Alexandre dos persas e só difere do macedônio pela sua tyche. A lança que o trespassou podia ter derrubado também Alexandre. [?] Cf. An., I, 8, 27. Alexandre professava a mesma idéia de Ciro acerca da bravura pessoal do chefe, idéia que os gregos do séc. IV consideravam romântica. Expunha-se ao perigo sem qualquer finalidade e era ferido com freqüência.” Agamemnon não podia ser um protótipo do ateniense clássico? Péricles não combatia?

[?] Já entendemos que Alexandre não era um imortal – é necessária toda essa ênfase?!

PAN-PAN-HELENISMO: “Estes gregos vislumbraram agora, embora sem terem percebido claramente, a possibilidade e as condições de uma influência da cultura grega para além das fronteiras da própria raça.”

De outra forma não teria podido surgir um livro como a Ciropedia, que apresenta aos gregos o ideal da verdadeira virtude de um monarca, encarnado na pessoa de um rei persa.

Esta obra, em cujo título figurava a palavra paideia, é para nós decepcionante, no sentido de que é só no seu começo que trata realmente da educação de Ciro.(*) Não estamos na presença de uma novela cultural da Antiguidade, mas sim de uma biografia completa, ainda que muito romanceada, do rei que fundou o império persa.

(*) (…) Também a Anábase tira o título do 1º capítulo da obra, apesar da parte principal se consagrar à narração da retirada dos gregos, i.e., da katabasis. Não faltam exemplos deste tipo de títulos na literatura grega.”

O mero fato de os gregos do séc. IV poderem entusiasmar-se com tal figura atesta como os tempos tinham mudado (…) Entramos na era da educação dos príncipes.”

O guerreiro de Xen. é o homem que confia singelamente em Deus. Na sua obra sobre os deveres do capitão de cavalaria, há uma passagem onde diz que se algum leitor se espantar de todos os seus atos começarem com Deus, é porque nunca se viu forçado a viver em perigo constante.”

O centro da sua educação é a praça pública diante do palácio real, rodeada também por outros edifícios públicos. Deste lugar estão banidos comerciantes e lojistas, para que o seu bulício não se misture à eukosmia da gente culta. É patente o contraste com o que acontecia em Atenas e na Grécia. Aqui, a praça e as imediações dos edifícios viam-se cercadas de tendas de comércio e cheias de azáfama ruidosa e agitada dos negócios.” “Os diretores da educação infantil saem das fileiras dos velhos escolhidos como mais aptos para esta função; os educadores dos jovens capazes de pegar em armas, dos <efebos>, são distintos representantes dos homens de idade madura. As crianças, como na Grécia os adultos, têm uma espécie de tribunal perante o qual podem apresentar suas queixas e agravos, contra os gatunos, assaltantes e autores de atos violentos, de fraude ou de injúria. Os autores de um desacato são disciplinarmente castigados; mas também o são aqueles que acusam inocentes. Xenofonte salienta como peculiar atributo dos persas o grave castigo com que sancionam a ingratidão. Esta é considerada a raiz de todo o impudor e, portanto, de todo o mal.”

O regime de vida das crianças é o mais simples que se possa imaginar. Trazem de casa para a escola um pedaço de pão e uma salada, bem como uma caneca para tirarem e beberem água, e todos comem juntos sob a vigilância do mestre. Este sistema de educação chega até os 16 ou 17 anos; nessa idade, o jovem ingressa no corpo dos efebos, onde permanece durante 10 anos.”

O alto apreço que se tem pelo exercício de caça é, segundo Xen., um sintoma de saúde do sistema persa. O nosso autor celebra as virtudes desta prática que enrijece o homem, e tanto aqui como na sua obra sobre o Estado dos espartanos e no Cinegético, concebe-a como um dos elementos essenciais de toda a paideia correta.”

Só ingressam na classe dos efebos as crianças cujos pais disponham de recursos para enviar os filhos a esta escola de kalokagathia, em vez de fazerem-nos trabalhar, e só alcançam a categoria de adultos e a seguir a dignidade de anciãos os efebos que completam o tempo de serviço militar.” Do contrário permanecem presos em Neverland.

Aos cidadãos espartanos com plenitude de direitos tinha, contudo, de parecer estranho que até o rei dos persas e a alta nobreza se entregassem fervorosamente à agricultura. Em Esparta eram considerados banais estes trabalhos”

Tudo isto tinha que parecer muito estranho ao público grego, se excetuarmos talvez o de Esparta (…) Isto recordará ao leitor moderno as escolas de cadetes dos Estados militares do tipo do antigo Estado prussiano, chamadas a fornecer ao exército o material humano e, assim, a formarem os seus pupilos desde a infância.” “apesar de Xen. entender que a linhagem é aqui substituída pela norma da independência financeira dos pais das crianças que se pretende educar, o mais provável é que esta categoria coincidisse quanto ao essencial com a nobreza dos proprietários de terras do Estado persa.”

No prólogo da Ciropedia volta resolutamente as costas aos persas do seu tempo e explica as razões da sua decadência. E igual atitude adota para com a Esparta dos seus dias, no final da sua obra sobre o Estado espartano. Não teria procedido assim, sem dúvida, em vida do rei Agesilau, a quem exaltou numa apologia, escrita quando a sua morte (360), como a personificação da autêntica virtude espartana.”

A exuberante vida oriental, que muitos consideram típica da Pérsia, é para ele característica da Média [país de nascimento de Parysatis, mãe de Ciro]. Foi esta a principal razão do império medo ter caído nas mãos dos persas, logo que estes tiveram consciência da sua superioridade. Este povo persa, o do tempo de Ciro, não era um povo de escravos, mas de homens livres e iguais em direitos

Em tempos de Xen. e de Platão, e com certeza muito antes, este cosmos espartano já aparecia aos olhos do mundo como uma formação acabada. Contudo, devemos exclusivamente ao interesse destes pensadores e escritores pela paideia dos espartanos o ter-se conservado algum conhecimento de Esparta digno de nota.”

Os escritos de Platão sobre o Estado são o melhor comentário ao que a mentalidade grega entendia por imitação. Os gregos tendiam menos do que nós a encarar na sua individualidade única uma criação coerente consigo própria, mesmo quando determinada pelas condições de sua essência” “É o princípio da educação como função pública que constitui a verdadeira contribuição de Esparta para a história da cultura, contribuição cuja importância é impossível exagerar.”

pela 1ª vez na literatura ganhou caráter agudo o problema do campo e da cidade.” “Este amor ao campo está tão distante do bucolismo sentimental dos poetas idílicos gregos como do espírito rústico e burlesco das cenas campestres de Aristófanes.”

Para justificar o interesse pela agricultura em geral e apresentá-la como um tipo de atividade merecedora do respeito social, Sócrates [o Sóc. xenofôntico, i.e.] lembra o exemplo dos reis persas, que só consideravam digna de se associar aos deveres militares uma única paixão: o cultivo da terra

Para velar pelos frutos da terra é mais indicada a alma tímida da mulher do que a coragem do homem, a qual é, em contrapartida, indispensável para evitar que no trabalho do campo se cometam transgressões ou desacatos. São inatos à alma feminina o amor às crianças e a abnegada devoção para cuidar delas. O homem está mais apto a suportar o calor e o frio, a percorrer caminhos longos e penosos ou a defender as terras de armas na mão.” Blablablá de capataz.

SEMENTINHA DA REV. INDUSTRIAL: “Se a presença pessoal do fazendeiro não faz os trabalhadores retesarem voluntariamente os músculos [ih, negócio meio estranho!] e trabalharem a um ritmo preciso e harmonioso, é porque o patrão carece da capacidade indispensável para o desempenho da sua missão”

Também Platão nas Leis atribui à caça um lugar na sua legislação educativa. É no final, depois das leis sobre o ensino matemático-astronômico, muito distante das normas sobre a ginástica e a instrução do soldado e bastante desligada delas, que esta seção figura. Talvez isto permita chegar à conclusão de que se trata de uma adição posterior à redação da obra. É possível que tenha sido precisamente o aparecimento da obra de Xen. que chamou a atenção de Platão para esta lacuna do seu sistema educativo. Em todo caso, a publicação do Cinegético coincide mais ou menos com os anos em que Platão trabalhava nas Leis.”

Platão não se resolve absolutamente a reconhecer como paideia tudo quanto no seu tempo se chamava caça. Não quer, porém, estabelecer nenhuma lei sobre isso e, como com tanta freqüência faz nas Leis, limita-se a misturar louvores e censuras no tocante a certos gêneros de caça. Condena severamente toda sorte de pesca de rede e de anzol, por entender que não fortalece o caráter do homem. Só autoriza, portanto, a caça a quadrúpedes e ainda por cima praticada abertamente e em pleno dia, não durante a noite ou valendo-se de redes ou armadilhas.”

Como argumento para provar o caráter apócrifo do Cinegético quis-se aduzir o fato do autor não indicar que a caça devia ser feita a cavalo, pois era esta a forma como os atenienses distintos a praticavam.” “O que deve figurar indiscutivelmente num livro sobre a caça é, isso sim, a maneira de adestrar os cães. E Xen. condensa no Cinegético a sua experiência nesta arte com inúmeros pormenores cheios de encanto, que o definem como grande conhecedor destes animais.” “ao reivindicar o reconhecimento da caça como meio e caminho para a formação da personalidade, vai contra a corrente da evolução da sua época” “a caça a feras, como o leão, o leopardo, a pantera e o urso só se praticava naquele tempo na Macedônia, na Ásia Menor e no interior da Ásia.”

A obra vem citada na relação dos escritos de Xen. por Diógenes Laércio, relação que remonta aos trabalhos de catalogação dos filólogos alexandrinos do séc. III a.C..”

É interessante notar que também em matéria de paideia existem agora peritos e leigos, ainda que neste campo o leigo exerça com maior vigor que em nenhum outro a sua crítica.”

4.8 O Fedro de Platão: filosofia e retórica

Constituía o compêndio mais resumido das idéias platônicas acerca da relação entre a palavra escrita e falada e o pensamento, e conseqüentemente era o pórtico por onde todos entravam no templo da filosofia de Platão. O entusiasmo ditirâmbico pelo qual no Fedro Sócrates se deixa arrastar nos discursos sobre o eros – entusiasmo que ele próprio ironicamente faz notar – era tido por indício seguro das origens remotas deste diálogo. Já a crítica antiga caracterizara, em parte, como mau ou ‘juvenil’ o estilo destes discursos, o que indubitavelmente equivalia a primitivo, não em sentido biológico, mas no sentido de valoração artística, i.e., de censura a um estilo excessivamente redundante.” “A condenação intrínseca do Fedro como um problema juvenil é, a meu ver, uma improvisação digna da ignorância de Diógenes Laércio. É evidente que este pensava que o verdadeiro problema do diálogo era o tema do discurso de Lísias, que figura no começo do Fedro e é, sem dúvida, um tema pueril.”

Parecia lógico que Platão fornecesse logo no início da sua carreira literária uma explicação sobre a sua atitude perante a obra de escritor em geral e sobre o valor da palavra escrita para a filosofia” “E foi precisamente com a ajuda do Fedro que Schleiermacher descobriu esta nova interpretação formal, que viria a fornecer a pauta para todo o resto. (…) Mas à medida que as investigações sobre Platão foram assimilando, no decorrer do séc. XIX, a idéia de evolução histórica (…) descobriram-se indícios que sugeriam uma origem mais tardia” “Esta viragem foi feita sobretudo por Karl Friedrich HERMANN, Geschichte und System der platonischen Philosophie (Heidelberg, 1839).”

Finalmente, via-se que a riqueza do vocabulário e a complexidade de composição com que nesta obra se expõe o pensamento platônico traíam a sua proveniência da época da sua maturidade (…) Depois de situarem durante certo tempo o Fedro na época do Banquete, i.e., no período intermédio (após a fundação da escola platônica), os intérpretes viam-se agora obrigados a deslocar de novo este diálogo para a última fase da vida do filósofo. Hermann situa o Fedro, ao lado de obras como o Menexeno, o Banquete e o Fédon, na época por ele designada como 3º período da obra escrita de Platão, antes da República, do Timeu e das Leis. Usener e Wilamowitz defendiam ainda, contra Hermann, a primitiva cronologia de Schlei.; Wilamowitz, contudo, abandonou mais tarde este ponto de vista. Mais longe ainda que Hermann foi H. von ARNIM, ao situar o Fedro entre as últimas obras de Platão, no seu livro Platos Jugenddialogue und die Entstehungzeit des Phaidros (Leipzig, 1914).”

STENZEL, Plato’s Method of Dialectic, 1940

(*) “…Isto confirma o testemunho de CIC., Or., 13, tirado dos eruditos helenísticos que classifica o Fedro como obra de velhice de Platão.”

É certo que grande parte das dificuldades que a composição da obra apresenta ao leitor deriva apenas do paralelismo, explicável mas falso, com o Banquete. Se o compararmos com esta obra, que trata toda ela do problema do eros, é fácil vermos no Fedro o 2º grande diálogo erótico de Platão.”

É nas suas relações com o problema da retórica que reside a unidade do Fedro. As 2 partes da obra dedicam-se em igual medida a este problema.” “A chamada parte erótica, ou seja, a 1ª, começa com a leitura e a crítica de um discurso de Lísias, apresentado como o dirigente da mais influente escola retórica de Atenas, e que no tempo de Sócrates estava no apogeu do seu prestígio. (…) como, a partir das falsas premissas de Lísias sobre o eros se pode tratar melhor do que ele o mesmo tema ou como deve esta questão ser exposta, quando se sabe verdadeiramente o que ela é.”

autêntica retórica” “deixa sem solução o problema de saber se alguma vez chegará a existir este tipo de retórica. Apesar disso, Platão faz Sócrates dizer que deposita grandes esperanças no jovem Isócrates, e o diálogo termina com as elogiosas palavras do mestre a este novo retórico. § Estes elogios tributados a Isóc. formam um contraste consciente com as mesmas censuras dirigidas a Lís., que encabeçam tanto a parte I como a parte II”

MESTRE DA ANACRONIA: “Embora seja difícil dizer a priori a que época da atuação de Isóc. pode corresponder este episódio, é evidente que a profecia sobre a grandeza futura deste homem não teria tido qualquer sentido na juventude de Platão, quando ainda não existia nenhuma escola sua nem nada que permitisse distingui-lo dos outros redatores de discursos. É preciso que a nova retórica já tenha apresentado provas decisivas da potência de espírito de seu autor, para que Platão pudesse pensar em cingir com o laurel daquela profecia socrática(*) a fronte do homem da mais importante das escolas de Atenas suas opositoras.

(*) CIC.: <haec de adolescentes Socrates auguratur at ea de seniore scribit Plato et scribit aequalis.>

O Fedro só pode ser compreendido como nova fase da atitude de Platão para com a retórica. Essa atitude é ainda de franca recusa no Górgias, onde a retórica é a suma de uma cultura que não se baseia na verdade mas sim na mera aparência. É certo que, separando bem, já se descobrem de vez em quando neste diálogo certas referências ao que poderíamos chamar a própria consciência retórica de Platão.”

O que é decisivo é que o ponto de partida desta obra seja a leitura de um discurso-modelo de Lís., dado por este aos discípulos para o aprenderem de cor. (…) A escolha do eros como tema do discurso obedece à freqüência com que os exercícios dos retóricos se valiam deste tema. Entre os títulos das obras perdidas de Arist. encontramos citada toda uma coleção deste tipo de teses retóricas sobre o eros.” “Também no Banquete o problema do eros, concretamente no início do duelo oral e no discurso de Fedro, aparece como um tema nitidamente retórico.”

A juventude ateniense andava muito preocupada com saber se e em que circunstâncias era lícito ceder à exigências do amante, aludindo com isto fundamentalmente à entrega física. [dar o cu] Já conhecemos este problema, pelo discurso de Pausânias contido no Banquete. Lísias vence os que consideravam lícito, com a tese perversa de que era sempre melhor para o amado entregar-se a um amigo que não se encontrasse dominado pelo eros, mas conservasse o sangue-frio. Este amigo não se deixava arrastar pelas turbulências sentimentais do amor nem prejudicaria o seu jovem amigo, isolando-o egoistamente, à força, de todos os outros homens, para prendê-lo exclusivamente a ele. No seu 1º discurso, que pronuncia de cabeça descoberta, pois não lhe passa despercebido o caráter blasfemo da tese, Sócrates reforça estes argumentos com uma rigorosa classificação e definição das diversas classes de apetites. Coincide plenamente com Lís. em considerar o eros uma modalidade do apetite sensual, edificando sobre esta premissa a sua argumentação.”

Nada é mais contrário ao alto conceito do caráter de um eros como o proclamado no discurso de Diotima (…) Mas é esta maneira forçada de abordar dialeticamente o problema que torna imprescindível que a discussão, arrastada pela força de uma necessidade interna, transcenda este tema concreto do eros e se eleve às verdadeiras alturas da contemplação filosófica.”

O eros é aqui situado no mesmo plano dos dotes poéticos e proféticos e a inspiração apresentada como sua essência comum.”

MITO DA CAVERNA II: “O discurso vai subindo àquela região supraceleste em que a alma, impelida pelo eros e seguindo o deus que lhe é afim por essência, já é digna de contemplar o Ser puro. Sócrates justifica o estilo poético do seu discurso, recorrendo a Fedro, em atenção ao qual emprega este recurso. Nem de outro modo se pode falar a um discípulo e admirador da cultura retórica. Mas Sócrates prova-lhe que o filósofo com facilidade sabe ultrapassar a sua arte, caso o pretenda. O vôo entusiástico das suas palavras não é um frio artifício como tão freqüentemente o é o estilo sublime dos retóricos”

É possível ensinar a virtude?” Só sendo virtuoso.

É possível ensinar a falta de virtude?” Não.

Tautologia, enfim: só aprende a virtude quem é virtuoso. Dormente, desencaminhado, jovem e inexperiente demais… Inconsciente… Ou apenas um virtuoso que finalmente pode abrir o coração diante de outro virtuoso. A sina do virtuoso, de ambos os lados.

É principalmente com os recursos da comparação que a argumentação dos retóricos opera.” “É o conhecimento do díspar e do semelhante que serve de base a qualquer definição lógica de um objeto. E supondo que o objetivo fosse enganar o auditório, i.e., levá-lo a conclusões falsas a partir de meras aparências, também isto pressupunha um conhecimento exato do método dialético de classificação, pois só assim se poderia penetrar nos diversos graus de semelhança das coisas.”

É importante para nós sabermos que foi da filosofia, e não da teoria artística da retórica ou dos poetas, que a exigência da unidade orgânica de uma obra literária partiu, e que ela teve de ser proclamada por um artista-filósofo, admirador da integridade orgânica da natureza e, ao mesmo tempo, um gênio da lógica.”

o que impeliu Platão a escrever o Fedro foi a clareza cada vez maior com que via a ligação entre os problemas teóricos aparentemente difíceis e abstratos da sua posterior teoria das idéias e as mais simples exigências que que se colocavam à capacidade de falar e de escrever, que, naquela época, constituíam um tema muito procurado e muito debatido.” “Em vez de se deixar arrastar pelo tom antipático ou desdenhoso da polêmica, que Isóc. gostava de usar também contra Platão, no início das suas atividades, este sabe combinar os elogios ao adversário, que respeita, com a referência às profundas conexões espirituais existentes entre os 2 campos.”

O resto da retórica, tudo o que Lísias e outros como ele ensinam aos seus alunos, não pode nunca constituir, por si, uma técnica.¹ Forma, por assim dizer, a parte pré-técnica da retórica. Platão vai enumerando de um modo deliberadamente cômico toda a terminologia das várias partes do discurso que os retóricos distinguem nos seus manuais. Todos os representantes da antiga retórica aparecem neste quadro com os seus nomes, e alguns deles com as suas invenções pessoais, que revelam certa tendência para uma crescente complicação.”

dotes naturais” X “prática”, “conhecimento”

¹ “a sua crítica da retórica anterior vai-se transformando nas suas mãos num ideal perfeitamente pessoal dessa arte, ideal cuja realização, unicamente, lhe permite converter-se de fato em techne, no verdadeiro sentido da palavra.”

A grandeza de Péricles como orador devia-se a sua profunda cultura de espírito. Era a concepção filosófica do mundo do seu amigo e protegido Anaxágoras que dava forma a todo o seu pensamento” “Estes heróis da arete da verdadeira eloquência, no mito e na história pátria, não só se citam como figuras paradigmáticas para apoiar e ilustrar o conceito platônico de retórica, mas ainda como o contrário da secura e da penúria escolasticista¹ dos técnicos e especialistas modernos da arte oratória.”

¹ Novamente, esperamos que Jaeger não esteja usando o termo escolasticista no – indiretamente associável ao, mas incabíbel, anacrônico – sentido católico do termo, e sim no sentido de doutrina ou escola, mais universal.

Quem julgar que com qualquer rotina pode ir avante achará este caminho desmedidamente longo e trabalhoso.”

É claro que, como Platão reconhece no final, a verdadeira finalidade da retórica não consiste em falar para agradar aos homens, mas sim em agradar a Deus.(*) (…) Todas as aporias das suas obras anteriores vêm agora desembocar na atitude rigorosamente teocêntrica que caracteriza a paideia da sua última fase.

(*) (…) Portanto, é naquele ponto da retórica em que transparece a concepção do mundo própria do relativismo de Protágoras e dos sofistas que se apóia um novo ideal da arte oratória, cuja norma é o Bem eterno. [Quase a prova cabal da cronologia tardia do Fedro.]

O ANTI-COMPILADOR (FALSO SABER): “Platão mostra-se muito inclinado a aceitar a arte de escrever dos retóricos profissionais. Mas nem por ser uma invenção genial se deve considerar agradável a Deus. O mito da invenção da arte da escrita, i.e., dos sinais escritos, pelo deus egípcio Toth serve para esclarecer isso. Quando o deus acorreu a Thamos de Tebas com a sua nova descoberta, gabando-se de com ela oferecer aos homens um recurso salvador para a sua memória e portanto para o seu saber, Thamos retorquiu-lhe que a invenção da escrita serviria, ao contrário, para desleixo da memória e para levar o esquecimento às almas” Uma instância em que um homem sábio ensina um deus. Este Thamos é só uma máscara para Sócrates, que anteviu o problema do “discurso charmoso”.

Toda a grandeza de Platão se revela nesta posição soberana por ele adotada ante a palavra escrita, posição que tanto o afeta, nas suas atividades de criação literária, como a produção dos retóricos.”

A posição paralela adotada no Fedro foi desde muito cedo relacionada com a forma platônica dos escritos filosóficos, ou seja, com o diálogo socrático; e viu-se nela uma razão fundamental para considerar esta obra uma exposição programática. Na realidade, é difícil de conceber que, com este ceticismo em relação à palavra escrita, o Platão da 1ª fase pudesse enfrentar a sua gigantesca obra de escritor. Em contrapartida, esta atitude perante a obra já realizada podia explicar-se psicologicamente, a posteriori, como um meio de preservar a sua liberdade mesmo em relação à própria obra escrita.” E das malversações de um futuro distante.

As suas produções caem em todas as mãos, tanto nas de quem as compreende como nas de gente falha de compreensão, [Kikuchis] e a palavra escrita é incapaz de se explicar ou defender, quando injustamente atacada. Precisa de outrem, como advogado. A verdadeira escrita é a que se grava na alma do que aprende (…) o único proveito do escrito com tinta é recordar o que já se sabe.” Ah, tantas ressonâncias… Ou diria reminiscências…

Quem se interessar pela verdadeira cultura do espírito não se contentará com os escassos frutos temporãos cultivados como desfastio no horto retórico, mas terá a necessária paciência para deixar amadurecer os frutos da autêntica cultura filosófica do espírito. [frase redundante] Já pela República e pelo Teeteto conhecemos esta defesa da cultura filosófica: o seu pressuposto é o princípio do longo rodeio, é importante ver como Platão sempre volta a ele. A semeadura da paideia platônica só pode frutificar em regime de longo convívio, como diz a Carta Sétima, e não em poucos semestres de regime escolar.”

Uma vez filósofo, sempre filósofo. Ou, posto que sempre filósofo, no arremate de uma biografia, pode finalmente declarar: foi filósofo. Princípio do anti-gracismo ou dos “filósofos por um tempo”, estagiários prostitutos do saber.

4.9 Platão e Dionísio: a tragédia da paideia

Quando a crítica filológica destes últimos decênios logrou reivindicar como testemunhos autênticos do próprio Platão as cartas sétima e oitava, durante muito tempo consideradas apócrifas, acrescentou com isso um importante capítulo à história da paideia.(*) É certo que fatos exteriores referentes às relações entre o filósofo e o mais poderoso tirano do seu tempo ficariam de pé, mesmo que estas cartas, a sétima em especial, não fossem documentos autobiográficos de 1ª categoria, mas apenas uma ficção sensacionalista de qualquer requintado falsário literário, que tivesse querido explorar como rendoso tema novelesco o contato do grande Platão com a política do tempo.

(*) (…) Sobre a autenticidade das Cartas VII e VIII, cf. WILAMOWITZ, Platon/Platão, vol. II, e recentemente G. PASCUALI, Le Lettere di Platone (Florença, 1938). Há eruditos que reconhecem a autenticidade de todas as cartas em bloco, mas tal hipótese esbarra com dificuldades insuperáveis.”

O observador histórico descobre, porém, um encanto insuperável em poder ler aqui a tragédia de Siracusa; e a maneira como Plutarco, na sua vida de Díon, adorna os acontecimentos para convertê-los em drama, não agüenta em nenhum sentido a comparação com a vida que extravasa do âmago da principal fonte de informação destes acontecimentos: a Carta VII de Platão.”

Platão insistia sempre na ação, no bios, apesar de o campo de ação tender a restringir-se cada vez mais do Estado exterior para o Estado dentro de nós.”

Os seus irmãos Adimanto e Glauco aparecem diretamente na República como a personificação da juventude ateniense apaixonada pela política. Glauco pretende enveredar pela carreira política logo aos 20 anos e Sócrates tem de se esforçar muito para o fazer desistir do seu propósito. Crítias, tio de Platão, é o célebre oligarca e cabecilha revolucionário do ano 403. Platão coloca-o mais de uma vez em seus diálogos como interlocutor e tencionava, além disso, dedicar-lhe o diálogo que traz o seu nome, obra que não chegou a acabar e que havia de encerrar a trilogia encabeçada pela República.”

ano 388: (…) empreendeu, cerca dos 40 anos, a sua viagem a Siracusa, onde a sua teoria arrebatou por completo a alma ardorosa e nobre de Díon, parente próximo e amigo do poderoso senhor de Siracusa. A tentativa de Díon para ganhar para o seu ideal o próprio Dionísio I estava, naturalmente, condenada ao fracasso. A grande confiança humana que este político realista, de cálculo frio, depositava no seu parente Díon, homem todo entusiasta (…) baseava-se mais na absoluta lealdade e pureza de caráter de Díon que na sua capacidade para contemplar o mundo do estadista de ação com os olhos do tirano. Platão diz na carta que Díon esperava que o seu parente desse a Siracusa uma constituição e governasse o Estado de acordo com as melhores leis.”

Este episódio é o prelúdio da tragédia que mais tarde se desencadearia entre Platão, Díon e Dionísio II, filho e sucessor de Dionísio I. Platão regressou a Atenas, enriquecido com uma grande experiência, e ali fundou, pouco depois, a sua escola. No entanto, as relações com Díon sobreviveram ao fracasso que havia de fortalecer Platão na sua decisão de se abster de toda a política ativa, decisão proclamada já na Apologia.”

A República de Platão saíra (…) na década de 70. Esta obra deve ter constituído um novo incitamento para as idéias de Díon, pois nela apareciam formulados em forma clássica os pensamentos que tempos atrás ouvira exprimir ao seu autor. Poucos anos depois de publicado, este livro ocupava o centro das discussões.”

certos sábios (…) pretenderam descobrir no Estado de regime de castas dos egípcios ou no Estado hierárquico-teocrático de Moisés o protótipo da paideia platônica ou algo de semelhante a ela. (…) cf. meu ensaio ‘Greeks and Jews’ in: Journal of Religion, 1938.”

O Estado perfeito é um mito, Rep. 501 E. Mas um príncipe filósofo podia torná-lo realidade, 502 A-B.” Mais do que um príncipe, uma casta inteira.

Neste plano de Díon, o único fato real intangível era o poder ilimitado do tirano, e esse fato não poderia prometer nada de bom, pois ninguém sabia o uso que seria feito do poder. Mas a fé de Díon era suficientemente audaciosa para especular com a juventude de Dionísio. Juventude queria dizer maleabilidade e, conquanto ao inexperiente jovem tivesse faltado até agora aquela amadurecida visão moral e intelectual que Platão exige do seu príncipe ideal, outro ponto de apoio não parecia surgir para converter em realidade a idéia platônica.”

Os planos de educação do tirano, iniciados após a subida deste ao trono, tinham fracassado após 2 tentativas. O poderoso Estado dos Dionísios igualmente se afundara, pois, uma vez frustrados os seus esforços educativos, Díon, desterrado pelo tirano, acabou por fazer uso da violência. Foi também de curta duração a sua vitória sobre o tirano. Após breve domínio, sucumbiu às mãos de assassinos, vítima das dissensões surgidas no seu próprio campo. A chamada carta de Platão, escrita depois do assassinato do amigo, constitui um esclarecimento e uma justificação dos seus atos perante a opinião pública, embora revista a forma de um conselho dirigido ao filho e partidários de Díon na Sicília, exortando-os a permanecerem fiéis ao ideal do falecido.”

Só a tyche divina podia tornar o governante filósofo ou o filósofo governante. (…) Quando Díon pôs Platão em contato com Dionísio, a tyche divina pareceu estender a mão. E foi ela também que guiou a um fim trágico a cadeia das causas e efeitos quando o soberano não reconheceu aquela mão e a afastou.”

No fundo, é a primitiva concepção grega da natureza humana”

Na República ainda parecia existir um largo abismo entre o princípio divino do todo, o princípio do Bem, e a vida humana autêntica. Mas o interesse de Platão dirige-se em grau crescente à forma e ao modo de executar a sua ação no reino do visível, i.e., na História, na vida, no campo do concreto.” Se foi isso, Platão ficou bastante senil; não só pelo conteúdo das Leis, o que é óbvio, mas diante da própria idéia de escrever o livro não como um tratado filosófico moral qualquer, mas como um panfleto-para-a-ação, segunda metade da conduta platônica na qual não acredito, daí sublinhar em verde este trecho de Jaeger.

O significado deste episódio ultrapassa em muito o puramente biográfico. Ganha o valor de ilustração direta da teoria da República, 2º a qual a universal experiência da inutilidade dos filósofos neste mundo equivale, realmente, a uma declaração da miséria do mundo e não diz nada contra a Filosofia.”

Díon aceitava a pessoa do soberano como um fato dado, do qual se tinha de partir, pelo que, em vez de tirar Dionísio, por seleção, da classe dos guardiões, era preciso prepará-lo a posteriori para o desempenho de uma função que na realidade já exercia. Isto representava uma limitação muito séria aos postulados estabelecidos por Platão.” “Na República, Platão apontava como condição mais importante para a educação poder prosperar a atmosfera ou meio ambiente em que se processava.” “Fala a seguir do medo que nele infundia o aventuroso empreendimento a que Díon o arrastava e justifica esse medo por meio da sua experiência pedagógica, a qual lhe dizia que a gente nova se entusiasma facilmente, mas carece de constância nos seus anseios. Estava convencido de que o caráter provado e a idade já madura de Díon eram o único ponto de apoio firme, em todas as circunstâncias.”

agia (…) pelo receio de parecer um homem só de palavras. A resignação que tão comoventemente se espelha na República já tinha implícito, no fundo, uma resposta negativa a este esforço para arrancá-lo ao seu isolamento. Platão arriscava agora a fama na tentativa de refutar com a própria conduta o seu pessimismo, bem-justificado. Como ele próprio conta, abandonou a sua atividade docente em Atenas, atividade absolutamente digna dele, para se entregar à pressão de uma tirania que de modo nenhum se harmonizava com as suas concepções filosóficas. Mas julgava conservar, assim, limpo de culpa o seu nome perante o Zeus da hospitalidade e também, em última análise, perante a sua vocação filosófica, que não lhe consentia escolher o caminho mais cômodo.”

Dionísio, o Velho, embora confiasse humanamente em Díon, e com razão, procurou subtraí-lo à influência do filósofo, mandando este embora. Seu filho, mais fraco, deu ouvidos aos inimigos invejosos de Díon, desejosos de conquistarem autoridade sobre ele próprio, os quais insinuavam que, sob o manto das suas idéias filosóficas reformadoras, Díon conspirava para derrubá-lo e tornar-se tirano. (…) Dionísio, no entanto, não abrigava suspeitas contra as intenções do filósofo e sentia-se, além disso, lisonjeado pela sua amizade com ele; nestas condições, fez precisamente o contrário do que seu pai teria feito na mesma situação: exilou Díon e procurou conquistar a amizade de Platão.”

Platão regressou, pois, a Atenas, embora tivesse que prometer que voltaria, uma vez terminada a guerra que entretanto rebentava. Evitava romper de todo com o tirano, pensando principalmente em Díon e esperançoso em ver o seu amigo voltar do exílio à pátria.” “Não é fácil compreender o que levou Platão a aceitar um novo convite de Dionísio, poucos anos depois de ter fracassado a sua 1ª missão junto dele. Como razões para justificar a sua conduta alega os incessantes pedidos dos seus amigos de Siracusa, principalmente dos pitagóricos do sul da Itália e do grande matemático Arquitas (que governava Tarento) e seus partidários. Antes de deixar Siracusa, Platão estabelecera laços políticos entre estes elementos e Dionísio; se agora recusasse o novo convite do tirano, esses laços poderiam perigar. Este mandou um barco de guerra a Atenas buscar Platão (…) prometeu-lhe além disso que o seu amigo seria chamado do exílio, caso aceitasse o convite.” “Desta vez a narração platônica passa pura e simplesmente por alto tudo quanto se refere ao seu acolhimento e à situação política com que deparou ao chegar a Siracusa, para se fixar exclusivamente no estado da educação que ali encontrou.”

Um espírito animado do verdadeiro amor ao saber sente-se fortalecido no seu desejo pela consciência dos obstáculos que se erguem diante dele, e põe em ação todas as suas forças e as do seu guia espiritual para alcançar a almejada meta; ao contrário, o homem rebelde à cultura retrocede, atemorizado, perante o esforço e o severo regime de vida que lhe é imposto, e sente-se incapaz de enveredar por este caminho.”

Pretende a tradição que Dionísio, após a queda do seu regime, se dedicou ao ensino em Corinto. Platão, aliás, menciona a existência daquele livro em que, parece, a sua doutrina era plagiada, só por ter ouvido falar, pois nunca chegou a lê-lo. Contudo, isto dá-lhe ensejo para um esclarecimento da sua obra de escritor e da relação entre ela e a sua teoria, o que não pode surpreender-nos muito, depois do que nos diz no Fedro (…) Nada tem de estranho que seja precisamente nos derradeiros anos da sua vida que se multipliquem estas declarações sobre a impossibilidade de plasmar satisfatoriamente em forma escrita a verdadeira essência dos seus conhecimentos.”

Sobre a certeza suprema que serve de ponto de apoio ao seu pensamento, nada existe nem existirá jamais escrito pelo seu punho. A teologia de Arist. é, no pensar deste pelo menos, matéria de ensino, a disciplina suprema entre outras disciplinas. É indubitável que Platão julga possível e necessário operar, através da gradação do saber que na República pinta como paideia filosófica, a catarse do espírito, a fim de purificá-lo dos elementos sensíveis apegados a ele e encaminhá-los cada vez mais para o Absoluto.” Palavra ironicamente poluída pelo mau uso sistemático.

É nesta passagem que Platão emprega a metáfora da faísca que salta e se prende à alma de quem passa por tal processo.”

a contemplação, que é finalidade da semelhança com Deus, continua a ser para Platão um arrheton. Já o Banquete pintava em termos semelhantes, como uma mistagogia, a ascensão da alma à contemplação do eternamente belo; e diz no Timeu: é difícil descobrir o criador e pai deste todo e, uma vez descoberto, é impossível declarar publicamente a sua essência.

Platão, que viveu algum tempo como prisioneiro no palácio do rei, acabou por ser alojado no quartel da guarda pessoal, que era hostil ao filósofo e constituía uma ameaça para a sua vida, até que por fim Arquitas de Tarento, secretamente informado do sucedido, consegue que o tirano consinta no regresso de Platão. Na viagem de volta encontra-se nas festas de Olímpia com o desterrado Díon. O amigo dá-lhe parte do plano que elaborou para se vingar, mas Platão nega-se a participar nos preparativos.” “Deixava, no entanto, a Díon a liberdade para recrutar adeptos entre os seus partidários, alguns dos quais se alistaram como voluntários no seu corpo de liberdade. E embora a tirania de Siracusa dificilmente pudesse vir a ser derrubada sem o apoio ativo da Academia, Platão sempre encarou o sucedido como uma tragédia e, depois da queda dos 2 beligerantes, aplicou-lhes a palavra de Sólon: foram eles próprios os culpados da sua ruína.

a diferente atitude adotada pelos 2 homens, e revelada neste episódio, só leva a separar nitidamente o idealismo de Díon, puro e otimista, mas ligeiro e superficial, da heróica resignação de Platão, baseada num instinto infalível.” “Platão recusa, por princípio, a revolução como processo político.”

constitui um importante sinal dos tempos o fato de ambos, Isóc. e Platão, se julgarem na obrigação de comparecer perante o público com o seu querer e destino pessoal.”

4.10 As Leis

Um homem tão erudito como Plutarco sentia-se orgulhoso por figurar entre o reduzido número de conhecedores das Leis; e na época bizantina a transmissão da obra esteve por um fio, como o revela o fato de provirem de um único exemplar todos os manuscritos que nos chegaram.(*) Já em pleno séc. XIX os autores não sabiam o que fazer das Leis e o mais representativo dos historiadores da filosofia neste período, Eduard Zeller, chegou mesmo a declarar, num trabalho do seu 1º período, que se tratava de uma obra apócrifa.

(*) Sobre a tradição documental das Leis, cf. L.A. POST, The Vatican Plato and its Relations (Middletown, 1934).”

E como as Leis representavam mais que 1/5 da obra escrita de Platão (…) um tal estado de coisas indica como ainda se tomava pouco a sério (…) [a sua] filosofia (…) como as Leis não eram, pelo seu conteúdo, nem lógica nem ontologia, esta obra era considerada secundária pelos filósofos.”

Tal como a República, obra em que culmina a 1ª fase literária de Platão, as Leis são uma exposição universal do bios humano. É curioso, porém, que depois de terminar aquela obra, o filósofo tenha sentido a necessidade de traçar de novo e sob outra forma aquela imagem de conjunto, erguendo um 2º Estado junto ao Estado perfeito da República. Como dizem as Leis, trata-se ali de um Estado feito só para deuses e filhos de deuses.” “o divino e perfeito do qual se aproxima, sem (…) com ele coincidir (…) se deduz (…) que (…) não significa de forma alguma o abandono do seu ideal de Estado anterior. (…) é, pois (…) no diferente grau de paideia pressuposto que a diferença entre as 2 obras reside.”

Filipe de Opunte, secretário e confidente de Platão, que depois da morte do mesmo editou e dividiu em 12 livros as Leis

(*) “…A tradição sobre a redação da Epínomis por Filipe não deve ser separada da informação segundo a qual foi ele que editou as Leis, com base nas tábuas de cera legadas por Platão (…) E esta notícia devia proceder de uma fonte antiga muito boa, provavelmente da primitiva Academia. O estilo da Epínomis confirma cabalmente o teor da informação. A.E. TAYLOR, ‘Plato and the authorship of the Epinomis’ (in Proceed. Brit. Acad., vol. XV) e H. RAEDER, ‘Platons Epinomis’ (in Danske Videnskab. Selskab., Hist.-phil. Medd., 26, 1) (…) F. MUELLER, Stilistische Untersuchüng der Epinomis (Berlim, 1927) (…) A minha investigação acerca da Epínomis (premiada em 1913 pela Academia de Berlim) está inédita.”

Nem sequer seria fácil ir traçando, como fizemos com a República, as linhas gerais deste volumoso estudo, visto que a composição das Leis e a sua unidade levantam um problema dificílimo”

Do ponto de vista da história da filosofia as Leis estão, quanto ao método, sob muitos aspectos, mais próximas de Arist.. O velho Platão procura, com os seus princípios, aprofundar uma matéria cada vez mais ampla, em lugar de ir tornando mais insondável o abismo entre a idéia e o fenômeno, como fizera nos anos anteriores.” Parmênides, Platão, Nietzsche: o caminho da opinião, o caminho da verdade. não-Um, Leis, VdP; Um, República, Zaratustra.

é demasiado tarde que a ação do legislador intervém, pois a sua missão mais importante não consiste precisamente em castigar as transgressões, mas em evitar que elas sejam praticadas. Ao dizer isto, Platão segue o exemplo da ciência médica, cuja tendência cada vez mais nítida daquele tempo era encarar como verdadeiro objeto da sua ação não o homem enfermo, mas o homem são. Daqui deriva a importância tão grande, decisiva até, que a Medicina do tempo concedia à dietética.”

(*) “O próprio Platão nos fornece diversas indicações para a compreensão do estilo, solene e lento, retorcido por vezes. Nada o repugna tanto quanto aqueles homens incultos e seguros de si, conhecidos pelo seu veloz ritmo psíquico, os intelectuais….”

Platão converte-se em legislador. Em tudo se pode comparar os grandes representantes da legislação grega; só difere deles em se elevar ao princípio modelador fundamental que as suas obras potencialmente continham: a idéia de que o legislador é o protótipo do educador.”

Foi neste conceito platônico do ‘ethos’ das Leis que se originou o famoso ensinamento de Montesquieu, L’Esprit des Lois, o qual tão grande importância haveria de ter para a vida do Estado moderno.” E ainda assim, quão pouco filosófico e limitado no alcance!

Ao lado destas 2 típicas personagens dóricas que no espiritual procedem como irmãos gêmeos, introduz Platão no seu diálogo, como 3ª personagem e principal interlocutor, o estrangeiro de Atenas, personagem misteriosa e soberanamente superior, que as outras reconhecem e respeitam de bom grado, apesar da sua marcada aversão por todo ateniense médio.”

As Leis revelam, numa forma mais concreta do que qualquer das suas outras obras, a tendência, em que Platão se inspira desde o início, a fundir numa unidade superior a essência dórica e a ática.” “Segundo Platão, o pior que podia acontecer seria misturarem-se e confundirem-se entre si todas as estirpes gregas. Isto seria para ele um mal comparável à mistura de gregos e bárbaros.” “a iminência da fundação de uma colônia. Trata-se de dar à polis cretense que vai ser fundada a melhor constituição, dentro das circunstâncias.” “É certo que na República mal se menciona a Esparta histórica, a propósito da edificação do Estado perfeito; é que Platão move-se ali totalmente no reino do ideal. Mas, na série das constituições degeneradas, a timocracia espartana figura como o tipo de constituição da realidade empírica que mais se aproxima do ideal.” “Nenhum aspecto da obra platônica oferece uma base para se falar de um espartanismo unilateral; nisto, as Leis constituem o melhor comentário à República.”

meu ensaio Tyrtaios Über die Wahre Arete, 1932

é no poeta, supremo legislador da vida humana, que deve buscar-se a idéia primordial da arete humana” “Os poetas surgem sempre como representantes clássicos dos valores vigentes. Mas, desta forma, são ao mesmo tempo referidos a uma forma suprema, e é a comprovação dialética desta norma que constitui a contribuição da filosofia para a obra da paideia.”

Para quem considera a vitória o único sentido da existência é a coragem, necessariamente, a única virtude. Seguimos acima a polêmica travada em torno da aceitação das virtudes, desde os dias em que Tirteu anunciou ao mundo a primazia do ideal varonil espartano, como um dos temas mais grandiosos que ressoam através da poesia grega. Platão retoma de novo este problema filosófico: e o velho litígio entre Tirteu, que celebrava a bravura, e Teógnis, para quem toda a arete se condensava na justiça, é decidido por Platão a favor do segundo. O passo decisivo que supera o antigo ideal dórico é a fundação do Estado jurídico.”

Os legisladores dóricos nos ensinam que se deve partir conscientemente de um determinado conceito de arete. É nisto que estes legisladores devem realmente servir de modelo”

Como já Teógnis dizia da justiça, os bens superiores têm sempre implícitos os bens ou virtudes inferiores. E a verdadeira unidade que os engloba todos, os divinos e os humanos, é a phronesis, a arete do espírito. Com este declaração Platão supera todos os conceitos de virtude que os primeiros poetas gregos (…) estabeleceram.”

o beber, tal como outros tantos chamados bens da vida, não é em si nem bom nem mau. Platão exige que nos banquetes impere severa disciplina, cujo instrumento deve ser um bom presidente de mesa, que refreie os elementos caótico e selvagens, e os encaminhe para o verdadeiro cosmos. Por trás da prolixa investigação sobre o valor dos banquetes nas Leis está o costume da celebração de banquetes na Academia platônica.” O Banquete responde todas as perguntas neste tocante: todos os convidados são refinados, exceto Alcibíades, e o modelo de conduta é Sócrates.

O estilo da sua velhice caracteriza-se pela tendência quase filosófica a dar importância a um certo problema particular, a partir do qual o autor abre em seguida caminho para considerações mais gerais.”

O problema da decadência da cultura ocupa inteiramente o seu espírito, desde o 1º instante. A decadência dos Estados, de que fala com freqüência e que lhe servia de ponto de partida, não é mais do que uma parte do problema.” “Recuperar para a sua época esta totalidade da arete, que é o mesmo que dizer a totalidade do homem e da vida, era a mais difícil das missões, a qual, pela sua importância, não sofria comparação com qualquer contribuição de conhecimentos especiais que o espírito filosófico pudesse dar.”

É característico nesta obra, como em todas as posteriores à República, falar muito do <divino> ou Deus; isto explica-se ou por Platão ter mais tarde abandonado a primitiva prevenção contra o uso desta palavra para designar o seu princípio, [de sempre, a Idéia e nada mais – sim, a Idéia é a medida de todas as coisas; a perfeição é o modelo de todas as condutas] ou pela sua aplicação sem reservas indicar outra fase de conhecimento mais próxima da doxa [muito aquém da capacidade dos guardiães da Repúblicadeus como a certeza dos ainda titubeantes, pré-requisito necessário para alçar vôos mais altos, i.e., o limite dos “pré-socráticos”, que ainda não sabem que não sabem]. No entanto, neste passo, como em geral em toda a obra, Platão mostra-se muito interessado na concatenação psicológica através da qual o princípio supremo atua na alma do homem.”

A obediência da alma ao logos é o que denominamos domínio de si. Com isto fica também esclarecido o que é a paideia: é a direção da vida humana pelo fio do logos, manejado por Deus. Platão não explana por si próprio em detalhe estas conclusões derivadas das suas premissas, mas limita-se a dizer que o leitor pode agora ver claramente o que são a arete e a maldade”

A embriaguez intensifica as sensações de prazer e debilita as energias espirituais. É como se o homem voltasse à infância. Esse estado é a pedra-de-toque para comprovar a força dos fatores inibitórios do pudor e da timidez, que atuam inconscientemente.”

a alma deve igualmente expor-se à tentação do prazer, para se fortificar contra ele. Platão não chega a explorar a casuística dos tipos de prazer para os quais esse meio de verificação foi concebido.” Estar tentado é muito melhor que estar logrado.

Na 1ª infância, a educação tem de se preocupar exclusivamente com as sensações de prazer e dor e a respectiva orientação. São elas o verdadeiro material sobre o que versa, nessa idade, a educação. Assim concebida, a paideia converte-se em pedagogia.”

Platão faz agora depender cada vez mais a educação superior da sorte que caiba na alma da criança a este precoce tratamento do ethos. Era uma descoberta inevitável para quem, como ele, fizera da equação socrática entre a vontade e o saber o ponto de partida da sua paideia.”

A ação do próprio logos só pode frutificar, numa fase posterior, com a condição do logos de outrem, do educador ou dos pais, lhe ter aberto o caminho na fase inconsciente. Toda a arete, na medida em que arete é ethos, formação moral no atual sentido da palavra, assenta na sinfonia da razão e do hábito. (…) Platão chega aqui ao ponto donde parte também a Ética de Arist.” Quem foi o meu educador? O maior mistério. Eu sou Nicômaco, mas quem foi meu Aristóteles?

Na chamada Grande Ética, nascida na antiga escola peripatética e pela tradição falsamente atribuída ao próprio Arist. [Hegel caiu], esta evolução leva a pôr totalmente em dúvida a essencial ligação da ética com o espírito e a sua cultura, e a não mais lhe reconhecer outra missão que a de educar os impulsos.” A ética a-histórica é o apequenamento da Ética. Psicanálise é o homem menor, último. Ultimado e boçal. Adorno (Minima moralia), p.ex., desespera completamente de qualquer possibilidade de arete no séc. XX.

<DE MARX A NIETZSCHE>: “Vem 1º um período em que Platão considerava como meta suprema aprofundar cada vez mais a visão e o conhecimento consciente, levado pela fé na ação que sobre toda a cultura moral da personalidade esta exaltação e este aprofundamento exerciam; depois, no fim da vida, a obra de Platão volta a colocar em 1º plano a antiga idéia grega da formação do Homem,¹ e o filósofo vê agora a sua verdade à nova luz.”

¹ Um Übermensch, neste caso! O homem com “h” maiúsculo é a medida…

aparente regresso do ideal ao histórico. Depois de atingir o ponto máximo, na sua caminhada para o puro ideal, sente a necessidade de, na medida do possível, realizar este ideal e plasmá-lo em vida, necessidade que o puxa de novo para o mundo [como com todo bom educador] e faz dele [P.] um prometéico forjador de homens.”

Trata aqui de formação no mais estrito sentido da palavra, da maneira de andar e de se comportar, e de todas as manifestações do ethos interior da alma.”

Ao contrário dos outros animais, o homem possui o sentido da ordem e da desordem nos movimentos, o que chamamos ritmo e harmonia.” Merece questionamento. Na verdade este é o erro, a separação mente-corpo promovida pelo Iluminismo de todas as épocas. Ademais, não seria a criança ainda um animal, que depois regride?

QUEM NÃO APRECIA A MÚSICA (CORRETAMENTE!) E NÃO SABE DANÇAR… “Quem não tiver passado pela escola do prazer nos movimentos rítmicos e na harmonia das canções corais é um homem inculto.” Sinto-me como um animal na pista de dança, diria o clubber nietzschiano.

Esta unidade do ético e do estéticomal existia na arte do seu tempo. É por meio da corêutica, que tem presente como modelo, que o filósofo se propõe a restaurá-la.¹ Isto pressupõe uma norma absoluta do belo e constitui o maior dos problemas para o educador que pretenda edificar tudo sobre uma base artística.”

¹ Origem da Tragédia: o Coro de Eurípides como décadence [ironia: de-cadência: falta de cadência].

Platão amplia a vista à procura de um país onde existam formas sagradas e fixas da arte, libertas de toda a ânsia de inovação e de toda a arbitrariedade. E só as encontra no Egito, onde a arte não sofre, aparentemente, evolução e conserva com todo o rigor um sentido espantoso para o que a tradição já consagrou.(*) A partir do seu ponto de vista, o filósofo julga adquirir uma nova compreensão deste estado de coisas” Paradoxal: impossível repetir Platão – ou Homero ou Sófocles –, sobretudo porque conseguir imitá-lo seria criar.

(*) “A arte egípcia tinha por força de causar aos gregos, povo de sensibilidade desperta e fugaz, a impressão de não haver nela qualquer mudança ou evolução.”

Na sua opinião, o destino da arte depende da sua capacidade para se manter independente do gosto hedonístico e materialista do público. Cícero disse uma vez que o requintado gosto do público de Atenas era tabela para apreciar a elevação do nível artístico, e atribui à ausência de tal critério a sensaboria da arte em outras terras.” A decadência de uma grande nação é, ainda, mais majestosa do que a opulência de uns bem-aventurados temporários, sortudos nanicos.

a comissão instituída por Atenas para atribuir os maiores prêmios às melhores obras apresentadas em público”

O leitor da nossa exposição não terá dificuldade em compreender o que Platão quer dizer. A discussão da arete suprema e sobre os supremos bens da vida corre ao longo de 2 séculos, através da poesia antiga. É a ela que se liga a posição conscientemente adotada por Platão nas Leis. As odes dos poetas são para ele epodos, exortações dirigidas à alma de quem as escuta, para que sob o encanto da forma assimile docilmente, como um remédio açucarado, o conteúdo sério que encerram.”

Para Platão, o que chamamos tradição histórica não é muito mais recuado do que ontem ou anteontem, comparado com as sombrias épocas pré-históricas, em que a evolução da raça humana avançava a passo de caracol. Só uma pequena parte dos homens da época anterior se salva, de cada vez, das grandes inundações da superfície da Terra, das pestes e outras calamidades semelhantes, a fim de entrar na idade seguinte”

Guiado por Homero, narra a passagem do estado ciclópico, desprovido de leis, para a submissão sistemática a normas e para o regime patriarcal.” Para fora do regime patriarcal, diria o ingênuo Hegel!

Na época em que Platão escreveu as Leis, na década 4ª ou 5ª do séc. IV, erguia-se aos olhos das pessoas reflexivas do mundo grego, como um imenso problema, o destino dos povos dóricos – a imagem da sua passada grandeza e do alto nível espiritual que outrora haviam tido, seguidos da tragédia da sua decadência, selada pela aniquilação de Esparta em Leuctra.” “Acontecia no passado, com os dórios do Peloponeso, o mesmo problema que o presente parecia pôr ao conjunto dos Estados gregos” “o que ditou a ruína dos reinos dóricos?”

ARISTÓTELES diz (…) que teriam conseguido o domínio do mundo, se se tivessem unido dentro de um só Estado. É difícil não ver nisto a influência do ideal pan-helenístico de Isócrates. (…) (cf. o final da Helena).”

A imaginação histórica de Platão via nestes acontecimentos dos sécs. VIII e VII, que no seu tempo eram quase míticos, a verdadeira e irremediável tragédia.”

Quando Platão escreveu as Leis, ainda Isóc. não pensara em Filipe da Macedônia como chefe potencial dos Estados gregos contra a Pérsia. De fato, o seu Filipe foi escrito depois da morte de Platão.”

sete axiomas de governo” “premissa que não pode ser demonstrada, da qual partimos numa dedução científica, principalmente em matemática. Segundo o testemunho de Arist., é neste campo que esta terminologia aparece pela 1ª vez.” “fundamentação geral da política (o que não exclui necessariamente a sua 1ª acepção de exigência de governo).” “Também o nº fixo dessas regras fundamentais que Platão vai enumerando (de 1 até 7) põe em destaque o seu sentido axiomático; com o nº, assinala-lhes Platão o caráter restrito, como também faz a geometria de Euclides.”

NÓS, DA ERA DO AQUÁRIO OU ERA DO AZAR: “1) os pais devem governar os filhos; 2) os nobres devem governar os não-nobres; 3) os velhos os jovens; 4) os senhores os escravos; 5) os melhores os piores; 6) os homens cultos e sensatos os incultos. O 7º axioma é o princípio democrático que diz: o que é eleito por sorte deve imperar sobre aquele em que a eleição não tenha recaído. Nesta passagem, como nas Leis em geral, Platão aceita a sorte como decisão divina e não vê nela um mecanismo sem-sentido, o que freqüentemente fazia ao criticar a democracia nas obras anteriores.”

nas Leis ele mostra-se resolutamente contrário à unificação do poder (…) O exemplo de Esparta prova que uma constituição mista é mais duradoura. A instituição da monarquia é limitada em Esparta tanto pelo regime dos reis como pela intervenção dos gerontes e dos éforos.”

os 2 homens realmente superiores que criaram este império, Ciro e Dario, não souberam educar os filhos.(*) Era nas mãos de rainhas ambiciosas, de novas ricas, que estava a paideia dos príncipes persas. Assim se explica que Cambises e Xerxes tenham em tão pouco tempo dilapidado tudo quanto seus pais conquistaram.

(*) desde então não apareceu mais na Pérsia nenhum grande rei; 695 E.”

Platão risca também a Ciropedia de Xenofonte. Nada encontra na Pérsia que possa servir de modelo aos gregos. É evidente que foi a existência de uma obra em que se louvava a paideia dos persas que deu pretexto a Platão para se deter tão demoradamente nela. (…) Platão confronta a Pérsia com Atenas, os 2 Estados politicamente antagônicos, e prova que ambos se desmoronaram pelo mesmo vício: a ausência de uma autêntica paideia. Com isto rouba à crítica o seu ferrão político partidário.”

Na descrição deste aidos, que era o que efetivamente mantinha a coesão interna do edifício social, coincide com o Areopagítico de Isóc., obra escrita na mesma época das Leis.”

faz derivar esta evolução de Atenas da decadência da música e da poesia e da sua degeneração numa indisciplina amusical.” “O quadro que Platão traça da evolução da música grega é integralmente focado do ponto de vista da sua concepção da paideia. Poderia pensar-se que os teóricos da música posteriores a ele se emanciparam deste critério, para exporem a evolução desta arte de acordo com idéias puramente artísticas, mas na obra do Pseudo-Plutarco, c. 27, a evolução da histórica da música segue uma trajetória que parte do seu primitivo caráter propedêutico para se aproximar cada vez mais do teatral, acabando, por fim, por se entregar completamente a este. O testemunho de Platão é várias vezes invocado em apoio da tese. Examinando o assunto com cuidado, vê-se que a imagem por ele traçada da história da música é tirada de Aristoxeno, historiador peripatético da música.”

Os peritos na paideusis podiam escutar até o final sem interrupções, e a multidão conservava-se ordeira, sob a batuta do mantenedor da ordem. Mas veio a seguir outra época em que os indivíduos de grandes dotes poéticos, mas sem nenhum discernimento quanto ao conteúdo normativo da arte, impelidos por um êxtase dionisíaco e arrastados pelas simples sensações, confundiam os ditirambos com os peanes e os hinos com os trenos, procurando imitar com a cítara os efeitos ruidosos da música de flauta. (…) Impunha-se assim no reino das musas a ausência de leis e incitava-se a multidão à loucura de julgar estas coisas e de exteriorizar os seus juízos com estrepitosas manifestações. O silencioso sossego do teatro transmutou-se em algaraviada e a distinção que até ali reinara neste campo foi substituída pela teatrocracia, pelo império do público inculto. Se realmente fosse uma democracia de homens livres, nada teria havido a objetar: mas era apenas a petulância e o desenfreamento de todos em tudo, desenfreamento e petulância que se não detinham perante nada.”

Por um instante pareceu que iria aqui brotar da crítica do processo histórico a estrutura do Estado ideal, uma vez que Platão estabelecia os axiomas de governo, dos quais devia partir qualquer tentativa desta natureza. Abriam-se de novo, cada vez mais vastos, os horizontes históricos, para assegurar a correta aplicação destes axiomas. Interpretados em sentido platônico, estes horizontes conduzem à idéia de uma constituição mista, que o filósofo vê realizada na antiga Esparta. A Pérsia e Atenas, ao invés, representam, na sua forma de Estado atual, os extremos exagerados da tirania e da arbitrariedade, que nascem de uma ausência de paideia.”

A conversação toma assim um rumo prático, que é o mesmo que dizer sistemático, pois a partir de agora vemos um filósofo influir na estruturação da polis.” “o 1º preceito, de acordo com o qual a cidade a fundar não deverá ser marítima, se relaciona com o critério fundamental da educação platônica. Na Constituição de Atenas, é à evolução desta cidade como potência marítima que Arist. atribui a radicalização da democracia ateniense num governo de massas. Era uma idéia originária do grupo conservador, moderado, dos democratas atenienses, que voltava à luta para impor a sua influência, precisamente na altura em que Platão escrevia as Leis e Arist. forjava na Academia as suas concepções, após a derrota da 2ª liga marítima. Platão coincide com Arist. e com o velho Isóc. tanto na atitude negativa em face do domínio marítimo ateniense como na fé numa constituição mista.” “enquanto Platão vê encarnado em Esparta o ideal da constituição mista (Leis, 629), Isóc. transplanta este ideal para a antiga Atenas”

A aversão da nobreza pelas tendências ao domínio marítimo e pelo armamento naval transparece já na crítica que os velhos elementos conservadores do Conselho de Estado fazem à política do jovem rei Xerxes, em Os Persas de Ésquilo. (…) Platão vai ainda mais longe e nega importância decisiva à batalha naval de Salamina, que constituía o título de glória nacional dos atenienses. Para ele, foi o esmagamento das forças terrestres dos persas em Maratona e Platéia que salvou a Grécia da escravidão.”

É Deus quem manda mais, a seguir vêm a tyche e o kairos e, como 3º fator, a indústria humana, a techne, que lhes acrescenta o que a arte do timoneiro faz no meio da tempestade, ajuda por certo nada desprezível.”

Segundo Platão, é só em grau, e não por essência, que as restantes formas de regime político diferem da tirania. Todas são despotismos, e a lei que nelas vigora é a expressão da vontade da classe dominante a cada momento. Contudo, não é a própria essência da lei que a torna o direito do mais forte. Platão aplica os seus axiomas a este problema e chega à conclusão de que os mais aptos para governar são os que obedecem mais rigorosamente à verdadeira lei.”

Outros pensadores gregos anteriores a Platão haviam apregoado como o divino a inesgotável unidade-totalidade, a força motriz primordial ou o espírito formador do mundo. A partir do seu ponto de vista filosófico, que parte do ético ou do educacional, Platão considera-o antes a norma das normas, a medida das medidas. Assim concebido, o conceito de Deus converte-se em centro e fonte de toda a legislação, e esta na sua expressão imediata e realização terrena.”

A sua filosofia da natureza é o fundo necessário sobre o qual se projetam a sua paideia e a sua teoria do Estado, tais quais estão expostas nas suas obras políticas mais importantes, a República e as Leis. Em rigor, seria falta de integridade excluir da exposição da sua paideia o Timeu ou outra qualquer obra platônica”

NE PLUS ULTRA: “Devemos ter presente que a Idéia é, em Platão, a mais alta realidade do que existe e que, portanto, a idéia do Bom representa o grau de bem mais poderoso, e superior a qualquer outra coisa do mundo.”

Não é a 1ª vez que vemos um poeta ou pensador grego proclamar a sua medida suprema dos valores, sob forma de correção de um antecessor famoso. (…) Em vez dos antigos deuses individuais da polis aparece Deus <medida de todas as coisas>, o agathon de Platão, forma primordial de toda a arete. O cosmos torna-se uma conexão teleológica e Deus passa a ser o pedagogo universal.” “o legislador é o homem divino que no seu íntimo alberga o verdadeiro logos e convence a polis a convertê-lo em lei; e a lei é o fio por meio do qual Deus move o seu joguete, o homem.” O Destino tem de querer o homem nobre.

…os livros X e XII das LeisA parte chata! Infelizmente nosso mundo não é digno nem de uma ciência dos astros. Efetivamente cumprimos a profecia de transformar estrelas em pó.

O preâmbulo torna-se muito mais longo do que a própria lei.”

A idade matrimonial do homem é fixada entre os 30 e os 35 anos. Os que permanecerem celibatários depois de atingirem esta idade são obrigados a pagar uma multa anual em dinheiro, processo destinado a impedir que o celibato fosse explorado como meio para enriquecer. Os celibatários estão, além disso, excluídos das honras que na polis os mais jovens tributam aos anciãos. Nunca são <anciãos> em sentido social.”

A instituição dos cargos públicos e a definição das atribuições a eles inerentes deve preceder o corpo das leis, de acordo com as quais os funcionários irão governar.”

Ivo BRUNS, Platos Gesetze, pp. 189s., considera 734 E 6 – 735 A 4 um fragmento erradio do 1º projeto de Platão.”

Um dos encantos principais das Leis consiste precisamente em elas se ocuparem a fundo de um problema que não só a República omite por completo, mas que, além disso, nunca fôra seriamente abordado nas discussões sobre a verdadeira educação, desde que o movimento sofístico principiara.”

paideia do povo” “É o último passo para a realização plena do programa do movimento socrático, um passo chamado a ter uma importância incalculável, apesar de nenhum legislador do seu tempo se ter sentido tentado a tornar realidade o ideal platônico de uma educação geral da massa do povo. Como se pôs em evidência, foi quando a educação pretendeu ser mais do que uma aprendizagem meramente técnica e profissional, com o primitivo ideal aristocrático de formação da personalidade humana no seu conjunto, que, como sempre sucede, a história da paideia grega começou.” “mas, mesmo na democracia ateniense, esta missão estava inteiramente confiada à iniciativa privada individual. O passo revolucionário que Platão dá nas Leis e que constitui a sua última palavra sobre o Estado e a educação consiste em instituir uma verdadeira educação popular a cargo do Estado.”

(*) “A aceitação da existência de uma casa e de uma família no Estado das Leis já representa uma aproximação da realidade vigente. Os fundamentos desta ordem social são assentes na parte da obra que trata da distribuição da propriedade territorial (735 B s.). (…) a consagração da propriedade privada é por sua vez, como Platão observa (740 A), a expressão de uma determinada fase da educação de cultura: a do presente

No atual estado de coisas, a educação privada segue em direções contrárias conforme as diversas famílias, sem que o legislador possa opor-se a estas contradições, que as mais das vezes se manifestam em coisas pequenas, quase imperceptíveis. Se, porém, atentarmos nos seus efeitos de conjunto, veremos que estas diferenças na concepção do que deve ser uma educação acertada chegam mesmo a pôr em questão a obra da legislação escrita.”

TESTEMUNHAS DE DIANA: “Não é uma seleção dos esposos a cargo do Estado, como faz na República para os ‘guardiões’ (…) Mas recomenda aos cônjuges que dediquem a estes problemas uma atenção especial e cria uma comissão de mulheres que devem instalar-se no templo de Ilithya, deusa dos partos. Têm neste templo as suas horas de serviço, em que realizam as suas deliberações. Outorga-se-lhes um direito de inspeção sobre os matrimônios, como o período de procriação, extensivo aos 10 anos subseqüentes a sua celebração. Esta comissão de mulheres intervém quando os cônjuges são incapazes de procriar. No 2º caso, dissolve-se o matrimônio.”

Estatui-se um sistema penal bastante desenvolvido, sobretudo no tocante à honra, para castigar os que de maneira consciente e obstinada agirem contra o que os bons conselhos e a razão indicam.”

Ao prescrever a necessidade de a criança se mover ainda antes de sair do seio materno, não faz mais do que estender a este campo o sistema de exercícios físicos a que a Medicina do seu tempo dedicava um interesse primordial. Platão lembra o exemplo dos galos de briga ou outras aves pequenas criadas para a luta, às quais os donos treinam para a sua missão, levando-as consigo no braço ou sob a axila, em longos passeios.” “Platão não quer que as crianças andem antes dos 3 anos, com medo de que fiquem canejas [parecidas com cães!]. As amas têm de ser suficientemente fortes para as carregarem no colo até aquela idade. Exagera-se sem dúvida”

da teoria do tratamento físico do recém-nascido passa diretamente à teoria do caráter.”

O descontentamento e o mau humor contribuem para a sensação de medo. Platão preconiza o justo meio-termo entre a brandura e a opressão. A primeira torna a criança hipersensível e excessivamente caprichosa, a 2ª mata nela a liberdade e torna-a hipócrita¹ e misantropa. O educador deve evitar com o maior cuidado criar na criança o que hoje denominaríamos um complexo de inferioridade, resultado a que facilmente conduz uma educação opressiva. O objetivo deve ser educar a criança na alegria

¹ Em que sentido? De que emulará o pai ruim quando for pai, oprimindo os outros e alegando que “foi assim que fui criado”? Se assim for, é outra superestimação da psicologia da infância de Platão.

O hábito tem grande força, a ponto de Platão derivar a palavra caráter de hábito em grego.” “Não é como leis, mas como usos não-escritos que Platão encara estas normas.”

ANTROPOLOGIA ANTIGA: “Está por trás desta obra, como o atestam as muitas e interessantes citações de costumes de povos estrangeiros nas Leis, um estudo dos nomina gregos e bárbaros suficientemente extenso para poder estabelecer uma comparação com as próprias leis. Platão menciona e dá como exemplos os costumes dos espartanos, celtas, iberos, persas, cartagineses, citas, trácios, saurômatas, cretenses e muitas outras cidades e regiões gregas.”

PEDAGOGIA AINDA MUITO AVANÇADA:Dos 3 aos 6 anos (…) Nesta idade, são as crianças, quando se juntam, que devem inventar os seus jogos, sem que estes lhes sejam prescritos. Platão quer que estas reuniões de crianças se efetuem nos lugares sagrados de cada bairro da cidade. Precede deste modo a moderna aquisição dos jardins de infância.” “A educação dos meninos e meninas deve estar entregue às mulheres, em regime de co-educação, até os 6 anos. A partir dos +6 anos, Platão estabelece a separação dos 2 sexos. A formação da criança deve adestrar tanto a mão esquerda como a direita e não uma só.”

O serviço militar obrigatório de todos os cidadãos não era originariamente apenas uma instituição espartana; era também a base jurídica em que assentava a existência civil da democracia ateniense. Não só não era considerada antidemocrática, mas, ao contrário, via-se nela o pressuposto evidente das liberdades que todo cidadão deste Estado desfrutava. Dadas a freqüência das guerras que Atenas se viu obrigada a travar no séc. V, a época do seu maior poder, impunha-se como evidente por si próprio o cumprimento deste dever. Com o aparecimento do regime de mercenários no séc. IV, começam as queixas universais contra a decadência da capacidade e do espírito militar dos cidadãos. Subsistiu, contudo, o serviço militar obrigatório de 2 anos para os efebos, o qual, à vista daquilo, foi considerado uma exigência de maior importância que anteriormente para a educação da juventude.” “Mas nessa altura a liberdade já se perdera para sempre. O remédio aplicou-se tarde demais para poder surtir efeito; é que a grande massa dos cidadãos só compreendeu a necessidade de reforçar a sua capacidade militar quando se viu perante o fato consumado da derrota que acabou definitivamente com a democracia ateniense.”

A palavra antigo não tem qualquer sentido depreciativo, como acontece na era atual, em que tanto mudam as modas. Novos jogos significam um novo espírito na juventude, o qual, por seu turno, exige novas leis. Toda mudança (a não ser que se trate de mudar o que está mal) é, em si, perigosa, quer se processe no tocante ao clima, quer se refira à dieta corporal, ou ao caráter da pessoa.”

as Leis proíbem tudo o que não sejam canções e danças oficiais. O termo nomos tem em grego a dupla acepção de lei e de canção.” “As normas dadas aos poetas vivos, que devem ter sempre presente, como pauta, o espírito das leis, estão sem dúvida concebidas somente para a época subseqüente à fundação do novo Estado, uma vez que depois não se deve introduzir nem a mínima alteração nas canções admitidas.”

Quando tentamos imaginar o edifício educativo de Platão como um Estado, ele nos parece surpreendente; quando, porém, pensamos na maior instituição educativa do mundo pós-clássico, a Igreja Católica, vemos que a obra de Platão é uma espécie de antecipação profética de muitos traços da essência do Catolicismo.(*) O que hoje aparece desdobrado em Estado e Igreja constituía ainda para Platão uma unidade, dentro do conceito da polis. Mas nada contribuiu tanto para desfazer esta unidade e criar um reino espiritual, ao lado do terrestre e acima dele, como as imensas exigências que Platão faz à potência espiritual educativa da sociedade humana.

(*) Platão castiga com a pena de morte os que negarem a verdade do sistema e duvidarem da existência de Deus [do seu sistema, da Constituição; portanto, não há nada de medieval nisso]: cf. Leis, liv. X, 907 D – 909 D.” Essa tese é completamente absurda: Platão antecipa o sistema universal de educação pública, moderno, laico, porém com tolerância religiosa.

a escolaridade geral obrigatória; a equitação para a mulher; a construção de escolas e ginásios públicos; a educação para os 2 sexos, que na República Platão reservava aos ‘guardiões’; a rigorosa divisão do tempo nas tarefas diárias; o trabalho noturno (totalmente ignorado dos gregos) para as pessoas com postos diretivos na vida pública e privada; a fiscalização dos professores; e a criação, no Estado, de uma autoridade suprema em matéria de instrução, com um ministro da educação à frente.” “todos os funcionários se reúnem no Santuário de Apolo e, em votação secreta, elegem o membro do conselho secreto do Estado, o guardião da lei que cada qual julgar mais capaz para dirigir os assuntos da educação. Os seus colegas mais chegados não participam na prova para verificação da dignidade da pessoa eleita. A duração do cargo é de 5 anos, no termo dos quais não se pode reeleger o titular do posto. Ao abandonar, porém, as suas funções, incorporar-se-á como membro ao conselho noturno do Estado, ao qual pertencerá, natural e automaticamente, em 1º lugar, como inspetor-geral da paideia.”

Aprendiam-se de cor poemas inteiros, como outras fontes da mesma época confirmam (XENOFONTE, Banq., IV, 6), tendência que obedecia à concepção da poesia como enciclopédia de todo o saber e que Platão combate na República.” “Para não sobrecarregar a memória em demasia, pensa que só se devem assimilar trechos soltos de obras poéticas.” “No fundo vemos espreitar, naturalmente, o perigo de muitos elogiarem esta obra unicamente com a intenção de ocuparem um cargo.” A Bíblia como única leitura da vida de um enorme contingente de pessoas parece o descalabro supremo. Li hoje mesmo (18/11/21) em Memórias da Casa dos Mortos, Dosto., que na prisão na Sibéria este era o único livro permitido.

A introdução legal das próprias obras de Platão como objeto de ensino, em vez dos poetas antigos, nas escolas e orquestras do seu Estado do futuro, é o último passo lógico e coerente dado neste caminho.” Aqui, Nietzsche 2 milênios depois, foi bastante mais humilde, reconhecendo que sua obra era mera destruição, o negativo do que adviria…

É elucidativo ver como o filósofo que na República fundava sobre a dialética e as matemáticas a cultura dos governantes, se põe a cogitar nas Leis sobre se este tipo de saber é realmente aconselhável para a cultura do povo.” “O que Platão exige da matemática no livro VII das Leis corresponde ao nível popular de cultura. Cf. 735 A 4.” Infelizmente o mundo moderno acrescentou muito conhecimento teórico inútil a esta disciplina. E o nível popular de cultura sabe, tragicamente, menos que os gregos.

O que Platão expõe aqui corresponde, evidentemente, a uma informação mais recente sobre o nível de conhecimento das matemáticas egípcias. Este conhecimento devia-o, provavelmente, a Eudoxo, que vivera e fizera observações no Egito, durante muito tempo. (DIÓGENES LAÉRCIO, VIII, 87) [Compilador suspeito. De toda forma, isso vai contra o palpite nietzschiano do “estágio egípcio” de Sócrates ou Platão.]” “Que deve ter sido Eudoxo o veículo da informação confirma-o quase com caráter de certeza o fato de Platão relacionar esta referência com a introdução de outra teoria desconhecida também dos gregos daquele tempo e que tinha a maior importância para o culto divino. Referimo-nos à teoria astronômica segundo a qual os planetas ostentam o seu nome sem qualquer razão, pois, ao invés do que parece à 1ª vista, não se movem no firmamento 1º para diante e depois em sentido inverso: descrevem, sim, um movimento de translação sempre no mesmo sentido. Esta teoria fôra estabelecida por Eudoxo e a ela se devia o conhecimento – que neste ponto Platão menciona concretamente – de o planeta Saturno, que parecia mover-se mais lentamente, ser na realidade o mais rápido de todos e o que percorria uma órbita maior. T.L. HEATH, op. cit., p. 188 … sistema ‘filolaico’” “Daqui, a exigência do ensino matemático e astronômico na escola primária desemboca diretamente na peculiar teologia das Leis, que vê na contemplação do ciclo matemático eterno dos astros uma fonte essencial da sua fé em Deus.” Se é verdade que quanto menos sabemos dos astros menos temos uma cultura, como explicar nosso estágio atual, de uma Física hipertrofiada e cultura estanque? Existe uma justa medida? PARADOXO: Querendo instituir o monoteísmo (o reconhecimento de uma norma absoluta), Platão acaba por exaltar e reacalorar o entusiasmo e a devoção aos deuses do Olimpo (na forma dos planetas conhecidos). O importante é o eterno retorno das órbitas do sistema solar, que um dia reseta, recomeça, não os corpos celestes em separado.

MAIS UM PRECEDENTE PERIGOSO: “Mas também no campo espiritual se deve isolar contra todas as influências ocasionais do exterior que possam desviar a ação das suas leis perfeitas. As viagens ao estrangeiro só serão autorizadas aos mensageiros, embaixadores e theoroi. (…) [estes eram] ‘observadores’ da cultura e das leis de outros homens [nasce a antropologia institucional] (…) Sem um conhecimento dos homens, bons e maus, nenhum Estado pode tornar-se perfeito nem conservar as suas leis. A finalidade principal destas viagens de estudo ao estrangeiro é levar os theoroi a travarem relações com as poucas personalidades superiores, homens divinos, que existem no meio da multidão e com os quais vale a pena falar e chegar a um entendimento. [Metalinguagem – formato escolhido para as Leis!]” “a tyche divina torna também possível, excepcionalmente, o aparecimento destes homens num meio hostil. [Ou já não possuiríamos nenhum sábio.] O próprio Platão viveu muito tempo ausente de Atenas e a lei sobre as viagens ou missões ao estrangeiro dos homens espiritualmente mais notáveis provém, segundo todos os indícios, das suas experiências pessoais.” “Depois de deixar o seu cargo, Sólon fez uma viagem através da Ásia e do Egito para se informar por si mesmo“Só a homens experientes, com os 50 anos já completos, se encomenda uma tal missão. Ao regressarem à pátria é-lhes facultado livre acesso ao órgão supremo da autoridade, o conselho secreto e noturno do Estado.” “Os que regressam do estrangeiro, depois de terem observado de perto as instituições dos outros homens, devem dar parte de todas as sugestões que dos outros tenham recebido em matéria de legislação e educação, bem como das suas próprias observações. Os seus conselhos devem, todavia, ser submetidos a uma crítica severa, para que a sua aplicação não sirva de veículo a influências perturbadoras.”

(*) “O órgão do Estado que deve conhecer o objetivo é o conselho noturno 962 C 5. Os governantes são definidos na República, no mesmo sentido, como aqueles que possuem o conhecimento do paradigma, a Idéia do Bem.”

#Pesquisa futura: a relação entre o Um parmenídeo e o Bem em Platão.

Hoje, relendo, creio que nem é necessário ou possível efetuar tal pesquisa! Ambos são indistinguíveis ou um o dégradé do outro.

a conhecida hipótese moderna, segundo a qual Platão abandonou a teoria das idéias, nos últimos anos da sua vida. Cf. Jackson, Lutoslawki e outros [homens que estão errados].” Jamais ouvira falar disso!

VALOR, O ALFA E O ÔMEGA DA VIDA SÁBIA

no livro XII, Platão remete para a dialética, dando por suposto que se trata de algo conhecido dos seus leitores; voltar a tratar do seu valor cultural seria apenas repetir o que já expusera“Neste ponto capital, o pensamento de Platão mantém-se inabalável desde a 1ª à última das suas obras.” “No que se refere à formação filosófica, os componentes do conselho noturno não ficam atrás dos guardiões da República.” “A verdade que os governantes devem possuir é o conhecimento dos valores, i.e., das coisas de que vale a pena preocuparem-se na ação.” “Para poderem aplicar praticamente esta pauta nas leis e na vida, o legislador e os órgãos do governo devem possuir o conhecimento de Deus como ser e valor supremo.”

A uma história da paideia grega não lhe interessa entrar numa análise pormenorizada da estrutura conceitual desta teologia. É uma questão que compete a uma história da teologia filosófica dos gregos e que nesta perspectiva trataremos em outro lugar. A paideia e a teologia filosófica dos gregos foram as 2 formas principais por cujo meio o helenismo influiu na História Universal, durante os sécs. em que praticamente nada se conservava da ciência e da arte gregas. Ambas as coisas, a arete humana e o ideal divino, aparecem primitivamente ligadas em Homero. Platão restaura esta ligação, num grau diferente.” Efetivamente hoje entendo de forma menos crítica (menos discordante e rabugenta, quero dizer) que quando li as Leis pela 1ª vez: a palavra deus e o que implica não podem estar ausentes de uma discussão sobre a formação e o valor dos valores. Não Jeová, mas outra abstração… Nesse sentido, também é talvez precipitado chamar de teologia o estudo desses valores gregos – até que se entenda que teologia filosófica nada tem a ver com as religiões monoteístas hoje em voga.

O ponto culminante desta trajetória é o final das Leis, a que devemos juntar o livro X, inteiramente consagrado ao problema de Deus. O prolongamento histórico da metafísica platônica na teologia de Arist. e de outros discípulos de Platão vem confirmar que por trás das soluções esboçadas no final desta criação plat. se esconde nada mais nada menos que o projeto desta ciência das coisas supremas (…) Não se acusa aqui nenhuma diferença entre um simples saber cultural e um supremo saber, contra o que ultimamente se procurou estabelecer (MAX SCHELER, Die Formen des Wissens und die Bildung)” A quem caberia o cetro do ministério na modernidade: o sacerdote, o legislador, o pedagogo ou o filósofo? Nós não podemos reconciliar as especialidades.

Desde Arist., que das Leis de Platão encaminhou para a sua teologia estas 2 fontes da certeza de Deus,(*) até a Crítica da Razão Prática, de Kant, que, no fim de todas as suas idéias teóricas destinadas a derrubá-lo, voltou outra vez a desembocar praticamente nele, nunca a humanidade logrou, com a filosofia, erguer-se acima deste conhecimento. Estes fatos, dignos de sobre eles se meditar, foram reunidos e apreciados no meu Aristóteles, pp. 187 s.

(*) “corpos celestes”, “alma”

Kant reduziu a fé no conhecimento a um mínimo na Crítica da Razão Pura, mas deu uma volta de 180º logo depois. A Faculdade do Juízo pode ser considerada um anexo, pois não retoma o ceticismo moral do 1º volume, apenas estabelece, em que pese Deus, a autonomia do artista. Deleuze faz escândalo da pretensa “revolução de fim da vida” de Kant – mas bem conhecemos Deleuze! Meu máximo respeito: Kant, assim como Nietzsche e Platão, buscava o máximo conhecimento, num nível tremendamente superior aos empreendimentos de Aristóteles e Hegel, p.ex. E foi íntegro nas suas fases tão distintas durante a “trilogia”: como Platão, detectou o niilismo moral-epistemológico passível de nascer da crítica acabada da Razão pura; não só seu imperativo categórico atacou o problema, mas o ceticismo foi revisado da ótica “sobrenatural” do dom estético anos mais tarde…

EPÍLOGO – TRANSIÇÃO

E.1 Demóstenes: agonia e transformação da cidade-Estado

(*) “Georges CLEMENCEAU, Démosthène (Paris, 1926). Acerca das vacilações e diferenças nacionais que nos tempos modernos se notam nos juízos sobre Demóstenes, cf. Charles Darwin ADAMS, Demosthenes and his influences (Londres, 1927) na série ‘Our Debt to Greece and Rome’. O autor mostra claramente a predileção que os democratas do séc. XVIII sentiam por Demóstenes e a repulsa que esta figura desperta nos modernos historiadores alemães.”

Engelbert DRERUP, Imagens de uma Antiga República de Advogados / Demosthenes um Urteil des Altertums, 1923

O mais erudito representante da ortodoxia demosteniana de velho estilo é Arnold SCHAEFER, Demosthenes und Seine Zeit, 3 vols. (Leipzig, 1856).”

GLOTZ & CLOCHÉ, Démosthène, 1937

P. TREVES, Demostene e la libertà Grega, 1933

meu livro, Demóstenes: O Estadista e a sua Evolução.”

mundos que até há poucos decênios pareciam hermeticamente fechados e independentes, como a história do Estado e da filosofia, do jornalismo e da retórica, aparecem agora como membros vivos de uma unidade orgânica, participando no mesmo grande processo vital da nação.”

A polis, considerada como forma definitiva da vida política e espiritual, é o dado fundamental da história grega nos sécs. que vão de Homero a Alexandre.” “O melhor livro recente sobre a polis é o de G. GLOTZ, La Cité Grecque, 1928.”

O problema da autonomia da polis não mais acalmou desde a sua 1ª transgressão pela política imperial ateniense de Péricles, que rebaixou os confederados ao plano de simples súditos.” “o abandono do Estado autônomo da polis era tão incompatível com a mentalidade política dos gregos como até hoje o tem sido, praticamente, com a nossa própria mentalidade política, a renúncia ao princípio dos Estados nacionais para adotarmos formas de Estado mais amplas na Europa.”

Enquanto com Platão o espírito filosófico da época se vira com todas as suas forças para o problema espiritual do Estado e aborda a missão da sua reconstrução moral, independentemente das condições de tempo e de espaço, o Estado ateniense real vai, pouco a pouco, se sobrepondo a seu abatimento e recupera uma liberdade de movimento que lhe abre perspectivas para um lento fortalecimento do seu poder.” “Atenas, apoiada pelos que anteriormente tinham sido aliados de Esparta, por Tebas e Corinto, conseguiu reconquistar gradualmente a sua posição no mundo dos Estados gregos e reconstruir, com dinheiro persa, as fortificações que tinha sido obrigada a destruir depois da guerra. Depois veio o 2º passo: Tebas desligou-se de Esparta, o que brindou Atenas com a possibilidade de fundar a 2ª liga marítima, a qual, evitando a política excessivamente centralizada da 1ª liga, soube estreitar os vínculos de Atenas com os seus aliados. A sua cabeça destacaram-se políticos e soldados de verdadeira grandeza, como Timóteo, Cabrias, Ifícrates e Calístrato; e o abnegado impulso do sentimento patriótico dos anos que se seguiram à fundação da nova liga marítima deu, na guerra dos 7 anos contra Esparta, travada ao lado de Tebas, o magnífico fruto da paz do ano 371, que conferiu a Atenas a indiscutível primazia no mar e legalizou definitivamente a nova liga, mediante tratados internacionais.”

esta nova juventude sente-se atraída para o turbilhão do movimento político; e são os jovens metecos estrangeiros das pequenas cidades e de países vizinhos da Grécia, como Aristóteles, Xenófanes, Heráclides e Filipe de Opunte aqueles que se consagram inteiramente à vida platônica de uma pura investigação.”

Foi o florescimento outonal da vida do Estado ateniense na época de Demóstenes que desenvolveu a eloqüência política como gênero admiradíssimo de arte literária.”

PLUTARCO, Demóstenes

Os discursos de Péricles como estadista, tal como realmente tinham sido pronunciados por ele, não puderam servir de modelo ao jovem Demóstenes, pois não tinham sido publicados literariamente nem se conservam. Com efeito, o único eco da eloqüência política de Atenas na época do seu esplendor eram os discursos reproduzidos na obra de Tucídides, cujo perfil artístico e espiritual e cuja profundidade de pensamento sobrepujavam toda a prática da oratória política, tal como a realidade a oferecia.”

Sobre a análise da forma oratória em Demóstenes deve consultar-se principalmente a obra de F. BLASS, Geschichte der Attischen Beredsamkeit, t. III, parte I.” “os seus discursos não são mera ficção literária, como a crítica moderna muitas vezes julga”

Atenas, que estivera 1º ao lado de Tebas contra Esparta, separou-se dos seus aliados tebanos na paz de 371, para guardar a tempo nos seus celeiros a colheita da guerra.” “Neste momento a política ateniense de Calístrato mudou de quadrante e firmou abertamente aliança com Esparta, para contrabalançar o poder da sua antiga aliada (…) Nascia assim a idéia do equilíbrio, que deu forma à política ateniense das décadas seguintes e com a qual se procurou estabelecer um novo sistema no mundo dos Estados gregos.”

Demóstenes teve de pôr-se desde muito cedo em contato com os tribunais, forçado pela própria experiência da sua vida: a dilapidação da grande fortuna que lhe legara seu pai, levada a cabo pelos seus autores; e depois de ter comparecido pessoalmente ante os juízes, como orador em defesa da sua própria causa, escolheu a carreira de redator de discursos forenses e de conselheiro jurídico. (DEMÓSTENES, Contra Afobo e Contra Onetor)” + Contra Andrócio, Contra Timócrates e Contra Leptines.

a coerência sistemática da sua conduta se revela a principal força de Demó., ainda que naquela altura fosse para outros e sob a direção de outros que ele trabalhasse.” “É sobre o problema de política externa que o seu interesse incide logo desde o início”

A concepção política, representada no campo literário por Isóc., e no campo da política efetiva por Eubulo, principal dirigente da corrente de oposição da classe opulenta, rejeitava conseqüentemente toda a atividade política externa por parte do Estado enfraquecido, e via o seu futuro na sua limitação consciente aos problemas de uma prudente política interna e econômica.”

Desde o surpreendente aparecimento de Tebas como 3ª potência ao lado de Esparta e Atenas, este plano de equilíbrio tinha que se impor necessariamente como o testamento e a herança clássica do mais eficiente período da política ateniense, depois de Péricles.”

Desde a perda de Anfípolis, cidade marítima macedônica, cuja posse se discutia desde tempos remotos, que o rei Filipe se encontrava em guerra com Atenas, que reivindicava para si este antigo ponto de apoio do seu comércio e da sua frota.” “Interveio em seguida na guerra entre Tebas e a Fócida, derrotou os focenses e já se dispunha a penetrar na Grécia central pelas Termópilas, para aí se impor como árbitro, quando os atenienses se ergueram e enviarem àquele desfiladeiro, fácil de defender, um corpo de exército que barrou o caminho a Filipe (Arnaldo MOMIGLIANO, Filippo il Macedone (Florença, 1934). Este não procurou forçar a passagem: dirigiu-se para o norte; marchou através da Trácia sem encontrar resistência séria e, de súbito, ameaçou Atenas nos Dardanelos, onde ninguém o esperava. Todos os cálculos de Demóstenes quanto à proteção dos estreitos contra os trácios se tornaram inúteis de um só golpe: o quadro mudara por completo e o perigo macedônio revelava-se fulminantemente em toda a sua grandeza.” “Agora já não se tratava de uma luta de princípios entre a intervenção e a não-intervenção.” “O não ter tomado a sério a guerra de bloqueio colocava Atenas, inesperadamente, na defensiva.”

É um problema de difícil solução saber se Demóstenes, em condições mais favoráveis, teria podido converter-se num desses estadistas construtivos e criadores cuja existência pressupõe um país de energias em crescimento. O que se pode afirmar é que, na Atenas do seu tempo, teria sido inconcebível sem um adversário como Filipe da Macedônia, que o obrigou a pôr em ação a sua profunda e ampla visão, a sua decisão e tenaz coerência.”

A ciência do séc. XIX excede não raras vezes, na aplicação do seu ceticismo, os limites do suscetível de ser provado, e foi o que também neste caso aconteceu. (…) Já os antigos reuniram estes discursos numa categoria especial, sob o nome de Filípicas, mas não é unicamente o terem sido pronunciados contra o mesmo adversário que os caracteriza e distingue dos discursos anteriores. É na grandiosa idéia da educação do povo que a sua unidade se baseia, idéia que foi expressa de maneira concisa e lapidar na tese do discurso sobre o armamento.”

Nos povos governados democraticamente, a decisão de lutar não dimana das ordens do <governo>: é, sim, do íntimo do cidadão que ela deve brotar, pois todos tomam parte na decisão. As Filípicas de Demó. são todas dedicadas à formidável tarefa de preparar o povo para tomar esta decisão, para a qual faltava à maioria desse povo clareza de visão e capacidade de sacrifício.” “só por uma completa ausência de capacidade espiritual de distinção se poderia confundir com a demagogia corrente o dom de Demóstenes para se servir ocasionalmente desta linguagem.” Jaeger exagera? Só lendo Demóstenes para descobrir!

D. tinha 31 anos quando subiu à tribuna com o seu programa de ação.”

E assim como em Sólon o problema da participação dos deuses no infortúnio do Estado anda ligado à idéia da tyche, assim também esta idéia reaparece, sob novas variantes, nos discursos em que D. põe em guarda contra Filipe. (…) O adiantado processo de individualização desta época faz com que os homens, na sua ânsia de liberdade, sintam com maior intensidade a sua submissão efetiva ao curso exterior do mundo. O séc. que se inicia com as tragédia de Eurípides encontra-se, mais que nenhum outro, penetrado pela idéia de tyche, e tende cada vez mais a abandonar-se à resignação.”

Isto confere uma especial importância ao fator ético nos discursos de D. procedentes desta época, fator sem paralelo nos discursos de política externa de outros autores, que a literatura grega conservou.” “É precisamente aqui, na forma como aprofunda a psicologia e a moral do simples cidadão, que D. se revela um verdadeiro educador.”

(*) “A obra de Virgínia (sic) WOODS, Types of Rulers in the Tragedies of Aeschylus (tese de doutoramento pela Universidade de Chicago, 1941), contém uma análise completa do ethos político dos governantes, no drama ateniense do 1º período. Este estudo foi feito por sugestão minha.”

É no estilo que o sentido trágico desta época deixa sua marca. As suas profundas sombras patéticas reaparecem nos rostos das mais grandiosas obras de arte plástica do mesmo período, modeladas por Escopas

GREECE – CIRCA 2002: Head of Atalanta, by Skopas (420-340 BC), sculpture from the Athena Alea Temple in Tagea, (Greece). Greek Civilization, 4th Century BC. Athens, Ethnikó Arheologikó Moussío (National Archaeological Museum) (Photo by DeAgostini/Getty Images)

D. não teria conseguido tornar-se o maior dos clássicos da época helenística, em que se integrava mal o seu ideal político, se não tivesse sabido dar uma expressão perfeita ao tom das suas emoções espirituais.” “O orador e o estadista confundem-se e formam nele uma unidade. A forma oratória pura não seria nada sem o peso específico do espírito do homem de Estado, que força por se exprimir nela.”

A queda de Olinto e a destruição das numerosas e florescentes cidades da península da Cálcida, as quais formavam a Liga Olíntica, obrigaram Atenas a negociar a paz com Filipe da Macedônia. Esta paz foi firmada no ano 346 e Demóstenes encontrava-se também entre aqueles que a desejavam por razões de princípio. Opôs-se, contudo, à aceitação das condições propostas pelo adversário, pois lhe entregavam, sem proteção, os territórios da Grécia central e deixavam Atenas à mercê de um cerco cada vez mais apertado. Não pôde, porém, impedir que a paz se firmasse nestas bases e, no seu Discurso sobre a Paz, teve até que se pronunciar contra a resistência armada, quando já era um fato a ocupação pelo macedônio do território da Fócida e das Termópilas, tão importantes para o domínio da Grécia central.”

O Discurso sobre as Simorias e o que defende a liberdade dos ródios são testemunhos clássicos da sua contínua e vigilante disposição de acalmar a mera verborréia da embriaguez sentimental chauvinista.” “Até hoje, nem os seus críticos nem os simples políticos sentimentais que se lhe seguiram souberam compreendê-lo, e é isso que explica que tenham atribuído a vacilações de caráter o que não é senão rigorosa coerência de pensamento, expressa numa conduta elasticamente variável.”

A unificação da Hélade não podia ser levada a cabo sob a forma de absorção dos diversos Estados autônomos num Estado nacional unitário, ainda que o progressivo enfraquecimento dos Estados já estivesse adiantado como o estava agora. Só de fora podia vir. A resistência contra o inimigo comum era o único fator que poderia fundir todos os gregos, unificando-os como nação. O fato de Isóc. considerar como inimigo o império persa, cujo ataque fizera, há 50 anos, esquecer aos gregos as suas dissensões internas, e não a Macedônia, que era no presente o único perigo sério e real, podia explicar-se pela força da inércia, visto que Isóc. já vinha pregando havia várias décadas a idéia desta cruzada.(*) Todavia, era um erro político imperdoável pensar que podia afastar o perigo macedônio, aclamando Filipe, o inimigo da liberdade de Atenas e de todos os gregos, como chefe predestinado desta futura guerra nacional.

(*) U. WILCKEN, ‘Philip II von Makedonien und die Panhellenische Idee’, in Ber. Berl. Akad., 1929.”

Filipe soube compreender com perspicácia que era possível vencer um povo como o grego com as suas próprias armas, pois onde imperam a cultura e a liberdade existem sempre a desunião e a discrepância quanto ao caminho a seguir nos problemas mais importantes. A multidão é demasiado míope para descobrir logo o caminho certo. D. fala muito da agitação a favor da Maced., explorada em todas as cidades gregas.” “D. não se propunha a persuadir nenhum conselho secreto da coroa, mas um povo desinteressado e mal-dirigido”

Os seus discursos proferidos em tempo de paz são uma série ininterrupta de tentativas destinadas a opor este seu pan-helenismo ao pan-helenismo pró-macedônio de Isóc.”

e agora Tebas, que teria sido naquela ocasião mais importante para Atenas que a própria Esparta, sentia-se mais estreitamente ligada a Filipe do que lhes aconselhava o seu próprio interesse; a isso fôra forçada pela política de Atenas e de Esparta, que apoiavam os seus adversários da Fócida. D. considerou sempre má política aquele apoio dado aos focenses somente por ódio contra Tebas. E eis que agora o rei da Fócida oferecia a Filipe a ocasião para intervir na Grécia central.”


“Mas a aliança com Tebas só à última hora, antes da
batalha de Queronéia, foi levada a efeito: cf. o Discurso da Coroa, 174-9. Foi um triunfo trágico para D.. No meio de uma Grécia como esta, dividida e desintegrada, parecia trabalho de Sísifo formar uma frente pan-helênica de combate contra Filipe. E mesmo assim D. conseguiu-o, após longos anos de esforço. Esta sua evolução até se tornar paladino da liberdade grega é tanto mais surpreendente quanto a realização política da idéia do pan-helenismo parecia um sonho, mesmo depois de ter sido proclamada pela retórica.”

nenhuma contradição irredutível medeia entre a atitude política realista dos primeiros discursos e o programa da luta pan-helênica da última fase de D., assim como não há contradição entre o Bismarck da 1ª fase, defensor dos interesses puramente prussianos, e o fundador da unidade política dos alemães em 1870.”

Na grande batalha espiritual de rompimento que são o Discurso do Quersoneso e a Terceira Filípica, pouco antes do começo da guerra, D. reaparece a nossos olhos como o dirigente popular dos primeiros discursos contra Filipe, anteriores à paz do ano 346.” “Mas os gregos continuam inativos diante da expansão aniquiladora da potência de Filipe, como diante de uma tempestade ou uma catástrofe elementar da natureza, que o homem contempla passivamente, dominado pelo sentimento de total impotência, esperando que o raio caia, talvez, na casa do vizinho.”

Olinto, Erétria, Oreos reconhecem hoje: se o tivéssemos visto antes, não teríamos sido aniquiladas; mas agora é tarde.” Fil., III

Quando as vagas podem mais que o leme, já todo o esforço é vão.”

O sentido de lucro da massa e a corrupção dos oradores têm de se render e render-se-ão em face do espírito heróico daquela Grécia que outrora venceu a guerra contra os persas.”

Muitos anos atrás D. já se tinha perguntado inevitavelmente, face desse paralelo histórico, se os atenienses do seu tempo não seriam uma raça degenerada, diferente da do passado. Ele, porém, não é nem um historiador, nem um teórico da cultura, unicamente preocupado em verificar fatos. Neste campo é também, forçosamente, o educador que vê diante de si uma missão a cumprir. Por muito desfavoráveis que os sinais pareçam, não acredita na degenerescência do caráter do povo. Um homem como ele jamais seria capaz de renunciar ao Estado ateniense e de lhe voltar as costas como a um doente incurável. É certo que os atos deste povo se converteram em atos mesquinhos e lucrativos, mas como poderia ser outra a mentalidade destes homens? O que é que lhes poderia infundir um sentido mais elevado da existência, um ímpeto mais audacioso? Isóc. só sabe tirar do paralelo histórico com o passado uma conclusão: a de que este passado desapareceu para sempre. Mas um estadista ávido de ação não podia aceitar esta conclusão, enquanto restasse na sua fortaleza um baluarte para defender.”

K. JOST, Das Beispiel und Vorbild der Vorfahren bei den attischen Rednern und Geschichtschreibern bis Demosthenes (Paderborn, 1936)

Mesmo que o abismo entre o ontem e o hoje fosse ainda mais profundo, Atenas não poderia separar-se da sua história sem renunciar a si mesma. Quanto maior a grandeza da história de um povo, mais ela se lhe impõe como destino nas épocas de decadência, mais trágica é a possibilidade de se furtar ao seu dever, ainda que este seja irrealizável.(*) É indubitável que D. não se enganava conscientemente, nem empurrava levianamente os atenienses para uma aventura.

(*) <Que havia, pois, de fazer a polis, ó Ésquines, quando viu que como Filipe tentava estabelecer o seu império e a sua tirania sobre a Hélade? Ou que havia de dizer ou propor o homem que, como eu, se sentia conselheiro do povo de Atenas, e que desde os seus começos até o dia em que subiu à tribuna dos oradores não fez outra coisa senão lutar pela pátria e pelos supremos lauréis da sua honra e da sua fama?> Discurso da Coroa”

a arte do possível” “político realista” “existência ideal”

Até o mais sábio dos estadistas se vê aqui diante de um mistério da natureza que a razão humana é incapaz de resolver de antemão. Logo que os fatos se verificam, sucede com bastante freqüência aparecerem como verdadeiros estadistas pessoas para quem isto não era mais que um novo problema de cálculo e para quem, portanto, não era fácil fugir a um risco que não se sentiam interiormente obrigados a correr nem pela fé no seu povo, nem pelo sentimento da sua própria dignidade, nem pela intuição de um destino inelutável. Neste momento decisivo foi D. o homem em quem a feição heróica do espírito da polis grega encontrou esta grave expressão. Basta-nos contemplar o seu rosto toldado por sombrias preocupações, sulcado de rugas, tal como a obra do artista o conservou, para compreendermos que também ele não era por natureza nem um Aquiles nem um Diomedes, mas simplesmente, como os demais, um filho do seu tempo. Mas quem não vê precisamente que a luta parece tanto mais nobre quanto mais sobre-humanos parecem os deveres por ele pregados a uma geração de nervos tão sensíveis e com uma vida interior individualista?” “Já Tucídides dissera que os atenienses só eram capazes de enfrentar um perigo com plena consciência dele, e não como outros, cuja valentia nascia não raras vezes da ignorância do perigo.”

D. pensa que Atenas estará perdida, se aguardar que o inimigo penetre no país. (…) Já antes forcejara por atrair a Pérsia a sua causa; e, à vista da queda deste império logo após Filipe da M. ter conseguido submeter os gregos, a neutralidade da Pérsia perante a sorte de Atenas revelou-se uma enganosa ilusão. D. acreditara que a força da sua lógica de estadista conseguiria convencer o grande rei do que aguardava a Pérsia, se Filipe derrotasse os gregos.”

Na Quarta Filípica faz pressão para se chegar a um acordo, a um compromisso pelo menos, a uma desintoxicação da atmosfera.”

Os antigos Estados, apesar de se terem agrupado para travar a última batalha pela liberdade, já não foram capazes de fazer frente ao poder militar organizado do reino macedônio. A sua história desembocou no grande império que Alexandre, depois da súbita morte violenta do rei Filipe em mãos assassinas, fundou na sua irresistível campanha de conquistas que realizou através da Ásia, sobre as ruínas do império persa. Com a colonização, a economia e a ciência gregas viram abrir-se novos e imprevistos horizontes de desenvolvimento, mesmo depois da desintegração do império de Alexandre, nos Estados dos diádocos, logo a seguir à morte prematura do seu fundador.”

A morte poupou a Isóc. a dor de ter de reconhecer demasiado tarde que a vitória, sobre um inimigo imaginário, de um povo que perdeu a sua independência não representa nunca uma verdadeira exaltação do sentimento nacional, e que a unidade imposta de fora não pode nunca solucionar o problema da desintegração dos Estados. Todos os verdadeiros gregos teriam preferido durante a campanha de Alexandre receber a notícia da morte do novo Aquiles, a implorá-lo (sic) como deus, obedecendo a ordens supremas. A espera febril dessa notícia por todos os patriotas, com as suas alternativas de sucessivos desenganos e de precipitadas tentativas de insurreição, constitui por si só uma tragédia.”

Ainda que as suas armas tivessem triunfado, os gregos não teriam mais futuro político, nem fora do domínio estrangeiro nem sob o seu jugo. A forma histórica de vida do seu Estado já havia caducado e nenhuma nova organização artificial podia substituí-la. É falso medir a sua evolução pela pauta do moderno Estado nacional.”

Só uma vez, na batalha de D. em prol da independência da sua pátria, se produziu na história da Grécia uma onda de sentimento nacional, traduzido na realidade política pela existência comum, frente ao inimigo exterior. Foi neste instante do seu derradeiro esforço para manter a sua existência e o seu ideal que o Estado agonizante da polis alcançou nos discursos de D. a imortalidade.”

Demóstenes confessa com espírito verdadeiramente trágico a verdade dos seus atos e exorta o povo a não desejar ter tomado outra decisão senão a que o passado lhe impunha.”

RESSUBLIMADOS PELO SISTEMA!

temporariamente eterno enquanto dure depois que acabe e permaneça como cicatriz até sarar de nascença

muito infantil para compreender coisas de adulto

muito adulto para compreender criancices

mas, engraçado, só o adolescente não se entende!

A cidade de pedra branca onde tudo transcorre tão bem é Roma!

os meios justificam a agonia tenebrosa

IRREVERSÍVEL

Ainda cremos que possa haver um retorno, uma reconciliação. Mas a morte do outro encerra essa esperança. Por exemplo: não choro nem fico de luto se meu pai perde uma perna ou envelhece. Muito menos quando envelhece, pois esse é um processo gradual. Mas arrebento em lágrimas se no telefone dizem: o velho acaba de falecer. Infelizmente forte ou fraco ninguém está imune.

.0 (PONTO ZERO)

A mesma mente que formulou a noção do nada havia necessariamente de pensar e pinçar o conceito de ponto, o enunciado-mor da matemática, “a” ciência niilista. Pois considerando tudo o que há, só o que não pode haver seriam o vazio e o ponto. Na verdade um é o desdobramento lógico do outro. De um ponto (singularidade metafísica) estão excluídos tempo e espaço. Presente, mais conhecido como ponto, ou negação de todas as negações ou zero dos zeros.

Gravidade negativa é negar a verdade… viva, viva, viva!

DA HIPOCRISIA COMO NECESSIDADE FENOMÊNICA QUE INTEGRA O ABSOLUTO

Há mais semelhança entre o mundo antigo e o nosso do que pode medir qualquer vã filosofia sob o Sol! A certeza íntima que temos de que nossas utopias calarão fundo no coração de uma humanidade que sequer veremos… Porém, enquanto indivíduos deste mundo, mesmo sabendo que “já vivemos para a posteridade”, resta-nos uma máscara protetora e conciliadora: somos intelectuais de esquerda. Sem nosso lado panfletário que nos serve de mola nosso eu-ideal fica sem esteio.

ELOGIO DE LA ANCIANIDAD O DEL ARTE DE CONSERVARSE BUENO (Epístolas morales a Lucilio) – Séneca, trad. Jaime Bofill. Folio ed., 2007 (Colección Grandes Ideas).

Anotações e transcrições feitas entre 15/07/2016 e 19/10/2016. Da Ciudad de México e Brasília.

Elogio de la Ancianidad corresponde a los cap. I-III de Cartas Morales a Lucilio (tomo I)”

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Como que uma autojustificação oportuna desse meu AquiAgora: “Créeme Lucilio, resérvate para ti mismo y el tempo que hasta hoy te han estado tomando, te han estado robando o que te ha huido, recógelo y aprovéchalo.”

trabalho vaidades doenças trânsito maquiagem

a maior parte da vida a passamos entregados ao mal; outra parte, e não minguada, sem fazer nada, e toda a vida fazendo o que não devêramos fazer.”

Quem sabe um dia chega o hoje.

deixa só eu pagar esse bolsista

perder esta conta

ser um herói-dos-outros e não de-mim-mesmo!

CAPESlocksista o CANTO MACROSCÓPICO DO MICROCHIP.

Toda a porção de nossa vida que fica para trás de nós pertence ao domínio da morte.”

Frankenstein esculpidor de relógios.

Quiçá perguntes-me que faço eu que ando repartindo conselhos.”

radiopejorativo

Los hippies imbéciles; no tienen un cuerpo

Mesmero sempre o mesmo

peso sempre um peso desconto %

a raiva do caixa longe dólar perto rima com inferno

aperto 1 desperto 2 A.M.

O Wikipedianesco pé-dantesco

Às vezes algumas culturas não sentem o mau hálito

não há nem B nem sê

A uruca de Pachuca

Os bem-intencionados e suas risadas pouco produtivas

O EternO DesobedIente nO Vácuo Preenchido pelo Frio desta época

quando eu era mais burro eu era mais (inteli)gente

meu amigo dick cionário

por lo tanto, ergo sum

para lo poco, no sé aun

bajo doom barroom

3,14URO mais de 10 reais menos de 9 Stephen Hawkings

a cura épica do anti-estróina boina &u,Demonista e Irene

Já passou o tempo contado dos reis

eu não tenho nenhuma vaca, sou um pobre

nada que ver con viejos, ahn?

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não andas vagando e não te empenhas em mudar de lugar. Estas mutações são de alma enferma.”

quem se afana se rouba, roubado não é achado então é desesperado, não-aguardado, não-guardado, muito exposto às vicissitudes. Quem não espera sempre se(ba)lança.

muito af8 muito assí2 mucho ha sido ácido com amigos

esta é a base do sentimentir

Atenção, porém, para que esta leitura de muitos volumes e muitos autores não tenha algo de caprichoso e inconstante. Precisas se demorar em certas mentalidades, e nutrir-se delas, se queres alcançar proveito que possa permanecer assentado em tua alma. Quem está em todo lugar não está em parte alguma.

não é assimilado pelo corpo o alimento que se vomita logo que penetra no estômago. Nada tão nocivo à saúde quanto sempre trocar os remédios.”

S

EL

O C

ILA D

E QUAL

IDADE

NOTÍ

VAG

A

Fumar não é o Rubinho mas desacelera…

basta que tenhas o que podes ler” So, so!

Lês sempre autores consagrados, e se alguma vez te vier a vontade de te distraíres em outro, volta aos primeiros.”

depois de ter percorrido um sem-número de pensamentos, escolhe um a fim de comandá-lo aquele dia.”

THE GAME IS ON: ETERNAL RECURRENCE OF THE MOST TRAGIC UNCONSCIOUS

Spock, a Cerveja Universal

Observa-me do passado ou eu te devoro.

Perfeições virtuais letra&jogabilidade redondas como um homo-e-lette.

Te pone un desafio hermoso, vamos muchacho

Amar la gente judía y mercadera, por ejemplo.

Usar a camisa da Argentina na Avenida Paulista – level Hard.

Aquele familiar imbecil que pode te parar, o Tio T. TILT

oh mon lit(etature)

A ARTE DE TUITAR FORA DA INTERNET

piupiupiu purple-urina

o fan roda o ídolo age culposo.

afiliação ao partido da aflição

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encontrei em Epicuro – já que costumo passar também para os campos inimigos, não como desertor, mas como explorador –” Richinhas d’época.

Se tens alguém por amigo e nele não confias tanto como em ti mesmo, te equivocas gravemente e não alcanças o conhecimento necessário da força da verdadeira amizade.”

o [recomendável] preceito de Teofrasto”: só julgar depois de amar, e amar depois de julgar também.

alguns ensinaram a enganar temendo ser enganados e com suas suspeitas acabam por dar azo à infidelidade.”

(I) Alguns contam ao primeiro que encontrarem aquilo que só a um amigo se deve confiar, e descarregam sobre qualquer amigo o que puderem fisgar de seus âmagos; (II) outros, pelo contrário, afogariam qualquer segredo em si, desconfiados até da própria sombra.” “ambas são posturas viciosas: tanto confiar em todo mundo quanto não confiar em ninguém, ainda que eu diga que a primeira é algo mais nobre e a segunda mais segura.”

Sempre que eu esvazio o copo, encho de novo. Punição grega?

Alguns se refugiam de tal maneira em rincões sombrios que têm por turvo tudo o que está à luz.” Pompônio

Enfim, na 4ª carta, a revelação de que Lucílio é um velho, como Sêneca: “temos o autoritarismo dos anciãos e os defeitos dos rapazes, e não só dos rapazes, mas até dos meninos: aqueles se assustam com coisas leves; estes, com coisas falsas; nós, com umas e com outras.”

A maioria flutua miseravelmente entre o temor da morte e os tormentos da vida, sem querer viver nem saber morrer.”

e de coisa alguma é tão fácil sofrer a perda como daquela que, uma vez perdida não pode ser recuperada.”

Vinde a MIM Muriçocas in Mexico

Não confie na calma de hoje: o mar se revira e engole os navios no mesmo lugar em que eles tinham folgado naquela mesma manhã.”

todo aquele que menospreza sua vida é senhor da tua. Lembra-te dos exemplos daqueles que foram mortos em insídias domésticas…” A insígnia da insigne insídia.

Por que te enganas a ti mesmo e não te dás conta até agora do perigo que sempre estiveste correndo? Eu te digo que desde que nasceste caminhas para a morte.”

Através daquela janela tá faltando ele, e a saudade da queda tá doendo em mim…

Para nos livrarmos da fome e da sede não precisamos andar assediando o umbral do poderoso, não é mister suportar grandes desdéns, nem desonrosas proteções, nem se aventurar pelos mares, nem matraquear por aí. O que a Natureza reclama é acessível e fácil de achar.” Este (dito!) aqui envelheceu um tanto…

P. 18: “Foge do rústico desasseio, dos cabelos em desordem, da barba mal-cuidada, de declarar teu ódio às jóias, de fazer-te a cama no chão, e de qualquer outra coisa que persiga o prestígio por falsos caminhos” ?!

O filósofo como o babaca que se importa demais com o juízo alheio: “Qué acontecería si comenzásemos a separarnos de las usanzas corrientes en los hombres? Bien que sea distinto nuestro interior, pero nuestro exterior tiene que mostrarse concorde con el del pueblo. Que no sea manchada nuestra toga, pero que no resplandezca; no debemos poseer platería incrustada con cinceladas de oro macizo, aunque no debemos tener por cierto indicio de frugalidad la carencia de oro y plata.”

O ponto que torna Sêneca e eu irreconciliáveis: “A filosofia exige frugalidade, mas não castigo.” Quem é você para dizer isso, seu Aloísio de Outros Tempos?

he encontrado en nuestro Hecatón que el fin de los deseos significa igualmente el fin de los temores.” Y de la vida.

Viajamos já querendo estar de volta.

o temor segue à esperança. Não me maravilha que seja deste modo, já que ambos são próprios a uma alma carente de resolução, angustiada ante o porvir.”

As feras fogem dos perigos que vêem, e quando já fugiram estão tranquilas: nós nos atormentamos pelo futuro e pelo passado.” “Não há ninguém que seja desgraçado só pelas coisas presentes.”

O próprio fato de enxergar os próprios defeitos, antes ignorados, já é uma amostra de que a alma melhorou.”

e me gozo aprendendo para poder logo ensinar.”

Hecato de Rodes: <Me perguntas que progresso realizei? Comecei a ser amigo de mim mesmo.>

pronto te confessarei minha fraqueza: nunca da turba volto com o mesmo temperamento com o que a ela havia acudido.”

Mas nada existe de tão prejudicial aos bons costumes que o comparecimento a espetáculos, já que aí, por meio dos prazeres, os vícios penetram mais facilmente em nós.”

agora já não são jogos, antes verdadeiros homicídios”

Pela manhã os homens são colocados ante ossos e leões; ao meio-dia, ante os espectadores.”

O espetáculo é interrompido: <Enquanto isso, para não ficarmos sem fazer nada, que afoguem homens.>

Guarda-te que a vanglória de fazer notório o teu talento não te decida a te apresentares ante o público a fim de ler ou dissertar; coisa que te deixaria fazer se pudesses oferecer uma mercadoria adequada a esta gente, nas ninguém pode entender-te. Talvez só poderás ganhar um ou dois, e terás que formá-los para que te entendam.”

CONSELHO SAÍDO DO FORNO: Age como se sempre fôra este o teu último ano na CAPES. E, como foi no Gisno, tu só queres uma coisa: fechar com chave de ouro. Ah, sim, claro: teus nervos têm limite, não te forces tanto! não-professor e não-efetivo… muita coisa ainda pode mudar na sua esquematizada existência…

Quando não estou pesado, os outros estão, então que diferença faz? Eu nunca terei essa ataraxia cotidiana típica do advogado boêmio e bom filho e namorado Miguel Jesús Rodriguez, então só posso tentar ajeitar meu pé para não ser arrancado pela próxima mina – meu trabalho e meu ócio são ambos batalhas campais. Aqui, em Fortaleza, Rio, Brasília, França ou Belém, estaria sempre igual… No hiatus!

Poderia escrever um livro sobre como conviver com cada um: Pablo, João, Ione, Graça, Davi, Renato, Diogo, crente 1, crente 2, moralista 3, porra-louca 4… D.E. Deixa estar. Ou Deus explodiu, escapou, evadiu? Com quem mais tenho que conviver: médicos, farmacêuticos, ar condicionados, anti-tabagistas, revistas de corredores de elite, Bolsonaros marombados… Conselheiros que dirão: “nossa, como seu último texto está reclamão!”… Laughing and coughing and sleeping… let’s see how life fucks me within my own superiority dreams…

Assinado O Homem de um Leitor Só

Sou dolente

Saiba que o homem tão a coberto se acha sob palha como sob o ouro.”

É necessário servir à filosofia se queremos alcançar nossa verdadeira liberdade. Não será retardado por ela quem se submeta em doação total, será liberado sem tardança, já que o próprio servir à filosofia significa ser livre.”

o sábio não sente necessidade de nada, mas lhe fazem falta muitas coisas; enquanto que o néscio, ao contrário, não sente necessidade de nada, afinal não sabe servir-se de coisa nenhuma, mas lhe fazem falta todas as coisas.”

Crisipo

Se uma enfermidade, ou um inimigo, lhe corta uma mão; se um azar lhe arranca um olho, ou dois olhos, sentir-se-á satisfeito com os membros que lhe fiquem, e com um corpo amputado e diminuído se sentirá tão gozoso como havia se sentido com um corpo íntegro; mas os membros pelos quais não suspira que lhe faltam, preferiria, em verdade, que não lhe faltassem.”

sofre pacientemente a perda do amigo. O sábio, em verdade, jamais carecerá de amigo, já que tem em seu poder o podê-lo substituir.”

Em nossos filhos rende maiores frutos a adolescência, mas possui mais encantos a infância.”

O sábio basta a si mesmo para viver feliz, mas não para sobreviver.”

por muito que se baste a si mesmo, deseja ter um amigo, um vizinho, um camarada.”

Gera grande prazer não só o costume de uma amizade antiga e firme, como também o começo e a aquisição de outra nova.”

Qual será a vida do sábio se, falto de amigos, se encontra sozinho em uma nação estrangeira? Fica em companhia de si mesmo.”

Toda nescidade sofre do fastio de si mesma.”

o amor pode ser definido como uma amizade enlouquecida”

Para o artista, é mais doce pintar que haver pintado” Atalo

Com o escrever parece ser o exato contrário…

É coisa de outros quanto possam obter teus desejos”

Não é teu o que fez teu a fortuna” Lucílio

<Não pode ser venturoso quem não crê sê-lo.> Epicuro

Que te importa qual seja em realidade tua situação, se a ti te parece má?” Solução: apenas te creias venturoso.

por que transmito tão belas palavras de Epicuro com preferência às dos nossos? Mas por que razão crês que estas frases são de Epicuro e não de domínio público? Quantos poetas não disseram coisas que deveriam ter sido ditas pelos filósofos? Não me referirei aos trágicos nem a nossos dramas, uma vez que estes últimos importam alguma gravidade e ocupam um lugar intermediário entre as comédias e as tragédias. Quantos versos eloqüentíssimos dormem em nós mesmos! Quantas palavras mais dignas de ser declamadas com coturno que de pés descalços!”

Caída sua pátria, perdidos os olhos e a esposa, tendo escapado dos apuros com vida só ele, e apesar de tudo contente, do incêndio generalizado, Estilbão foi perguntado por Demétrio, aquele a quem chamaram Poliorcetes, devido ao número de cidades que destruiu, se havia perdido algo [Ou: Necessitas algo? – O imperador a Diógenes O Cínico]; e o filósofo contestou: Todos os meus bens estão em mim.”

Enquanto o homem buscar uma parte dele fora de si mesmo, cairá sob a escravidão da fortuna.”

a amizade tem para nós uma doçura inata.”

Já que nenhuma sabedoria pode apagar nossas imperfeições naturais, o que aparece congenitamente inscrito em nós, a arte pode suavizar, mas não extirpar. Alguns, e mesmo dentre os mais firmes, não podem comparecer ante o povo sem suar; tal qual sói acontecer aos que estão fatigados e aos acalorados; a outros, do ponto em que tomam a palavra seus joelhos tremem; a outros, batem os dentes, trava-se-lhes a língua, não podem separar os lábios. Dessas coisas não nos podem proteger nem as lições nem a prática, pois nelas a Natureza nos revela seu império; elas se manifestam mesmo nos de ânimo mais resolvido. Entre elas devemos contar também o rubor, que se difunde pelo rosto até dos mais veneráveis varões. É certo que resulta mais perceptível nos jovens, que possuem mais calor natural e um rosto mais delicado.”

Certos dentre a massa nunca são tão temíveis senão quando ruborizam, como se com o rubor tivessem se livrado de toda a vergonha. Sila, quando o sangue lhe subia à cabeça, mostrava-se sempre mais violento. Ninguém, nesse sentido, foi mais impressionável que Pompeu, que nunca pôde ver-se ante vários sem ruborizar, especialmente numa assembléia. Recordo que Fabiano, introduzido no Senado como testemunha, ruborizou, e este rubor lhe caía admiravelmente. Ele não advém da timidez de caráter, mas da novidade da coisa, que aos não-acostumados, quando não os faz vacilar, comove-os se são a isso inclinados por compleição natural, pois enquanto alguns têm o sangue calmo, outros o têm excitável e movediço de forma que facilmente aflui ao rosto.”

Os atores, imitadores das paixões, que expressam o medo e o temor, que representam a tristeza, na hora de simular a vergonha acodem ao procedimento de baixar a cabeça, falar em voz baixa, fixar os olhos deprimidos no chão. Mas não podem fazer nascer o rubor, já que ele nem se evita nem se provoca.”

É mister escolher e ter sempre diante de nossos olhos algum homem virtuoso, a fim de viver como se nos vira e de olhar como se ele nos contemplasse.”

Epicuro

Mas quem? Pedro Jabur, Antonádia? Anti-exemplos (Gegenbeispiele): Aloísio, Thomas Edson, Igor, Bruce, Judeuzinho – o norte, sul, leste e oeste dos perdidos – Os 5 pecam por insipidez e excesso simultaneamente, seja em caráter político, moral, religioso, científico ou até mesmo artístico (ALERTAS VIVOS PARA MIM MESMO, AINDA QUE MUITOS DESTES, EM MEU COTIDIANO, JÁ ESTEJAM MORTOS).¹

¹ [Nota de 2022] Todos, agora, efetivamente. Mesmo de vista só corro o risco de me deparar com um, que não abre a boca nem para piar, entretanto.

Uma grande parte dos pecados se evitaria se os pecadores tivessem testemunhas.” (Davi)

Ó, tão feliz é aquele que nos faz melhorar, não só com sua presença, mas também com sua mera recordação!” “Quem de tal sorte possa venerar, de tal sorte será venerado. Escolhe Catão; mas se te parece muito rígido, fica com Lilio (?) [p. 41], varão de espírito benigno.”

(?) Provavelmente Lílio em Português. O mais célebre personagem histórico com este nome no Wikipédia é posterior a Sêneca, e não há desambiguação. É difícil encontrar qualquer informação sobre este Lílio na internet.

Nunca é tão valorosa a fruta como quando amadureceu; o maior encanto da infância está no seu fim”

O mais voluptuoso em todo prazer se guarda para o final.”

ninguém é tão velho que não possa aguardar mais um dia.”

a vida, o conjunto da qual consta de círculos, os menores encerrados nos maiores.” “eis aqui por que Heráclito, a quem por seu estilo se concedeu o apelido de ‘o Obscuro’, disse que ‘um dia se parece com todos’.”

A SABEDORIA É DE DOMÍNIO PÚBLICO, MAS NINGUÉM QUER “COMPRAR”: “Ora, que temos a ver com um estranho? Sinto como meu aquilo que for verdadeiro. Persisto em infiltrar-te idéias de Epicuro, a fim de que todos que juram seguir as palavras do mestre, sem atendê-las na verdade, mas somente pensando no nome do mestre, saibam que as grandes sentenças pertencem a todos.”

Más numerosas son, Lucilio, las cosas que nos asustan que las que verdaderamente nos atormentan, pues a menudo nos hace sufrir más la aprensión que la realidad.”

nós, os estóicos, andamos dizendo que todas aquelas coisas que nos arrancam gemidos e lamentos são leves e depreciáveis”

O que te recomendo é que não te faças desgraçado antes do tempo, já que talvez não cheguem nunca aqueles males que tiveste por iminentes”

Ou exageramos nossa dor, ou no-la forjamos, ou no0la antecipamos.”

Estou careca de saber que há quem ria debaixo de açoites e há quem gema por um simples bofetão.”

Outorga-me apenas que, cada vez que te rodeiem para te persuadir que és desgraçado, não faças tu caso do que escutas” Fora o Gardenismo! Tu não podes merecer o que nem os mais dignos que tu obtiveram! Essa é tua culpa!

Por que tem de compadecer-se de mim essa gente? Que é tanto que os faz tremer, que os faz temer até entrar em contato comigo, como se a tribulação fosse contagiosa? Há em minha tribulação algum mal, ou pode essa coisa ser mais mal-vista que má em si mesma? (…) quando minhas angústias têm um fundamento real ou são fantásticas? (…) ou nos atormentamos pelas coisas presentes, ou pelas futuras, ou por umas e por outras. (…) se teu corpo goza de liberdade e de saúde e não sentes o aguilhão de injúria alguma, veremos o que acontece amanhã, já que por hoje não sentimos nenhuma inquietude.”

nunca pomos em discussão as coisas que nos inspiram temor, não as submetemos a exame algum”

alarme falso” “os males quiméricos alarmam mais”

não existem temores tão perniciosos e irremediáveis como os terrores pânicos, já que os outros nos arrebatam a reflexão, mas os primeiros a própria razão.” Razão e reflexão para Sêneca:

DILEMA DO ANSIOSO: “Quantos males caíram sobre nós, sem que os aguardássemos! Quantos que eram esperados e jamais chegaram! E ainda que deva vir um mal, não vejo por que precisamos sair a seu encontro!”

Às vezes o espírito se forja imagens falsas; ou empresta o pior sentido a uma palavra duvidosa, ou converte em mais grave do que realmente era uma ofensa recebida, enquanto medita, não sobre a ira que dominava o ofensor, mas em até onde alcançava seu poder.”

Pondera, então, a esperança e o medo, e sempre que o resultado for duvidoso inclina-te ao mais favorável.”

a cicuta fez grande a Sócrates”

a fealdade que significa a prontidão dos homens em a cvada dia se erigirem novos fundamentos, em conceber a cada vez novas e inéditas esperanças, mesmo na hora da morte. (…) tu verás anciãos ainda dispostos à intriga política (…) Haveria algo mais vergonhoso que um ancião que começa a viver?”

É mister que nos comportemos, não como aquele que tem que viver para o corpo, mas como aquele que não pode viver sem o corpo. Um amor excessivo a este nos inquieta com temores, nos carrega de afãs, nos expõe a afrontas.”

os motivos de temor, os quais podem ser de 3 sortes: [orgulho ferido; saúde depredada; pança vazia]”

Os males naturais, a miséria e a doença, entram silenciosamente, sem nos infundir terror algum aos olhos e ouvidos; mas a outra calamidade mostra um aparato bem pomposo”

Imagina agora o pau que atravessa o homem, saindo-lhe pela boca, e os membros esquartejados por carros que arrancam em direções distintas, e aquela túnica impregnada e tecida de materiais inflamáveis (…) das coisas que subjugam e dominam nossas almas, as mais eficazes são as que chegam com maior espetáculo”

Quando foste à Sicília, cruzaste o mar. Um piloto temerário menosprezou as ameaças do Austro, o vento que alvoroça ou revolve o mar da Sicília, e no lugar de singrar até a margem esquerda, se dirigiu àquela na qual a vizinhança de Caribdis agita o mar. (…) aquela região tristemente famosa por seus abismos vorazes.”

Quando fugimos de algo, de fato o acusamos.”

ante o que anda desnudo de riquezas o bandido passa ao largo, e mesmo o caminho infestado de ladrões é tranqüilo para o pobre.”

é de se temer que o receio à inveja nos faça cair em menosprezo; que não querendo pisar, façamo-nos bons para sermos pisados.”

Que outra coisa fez Catão senão vociderar e lançar gritos inúteis quando, arrastado pelas mãos do povo, coberto de cusparadas, foi expulso do Fórum, ou quando foi conduzido do Senado à prisão?”

esta é de Epicuro, ou de Metrodoro, ou de qualquer outro daquela fornada. Que importa quem a disse?”

Já que é coisa néscia, querido Lucílio, e, no todo, bem pouco adequada a um homem instruído ocupar-se em exercitar os músculos e alargar o pescoço e reforçar o peito; por muita fortuna que possas ter na empresa de engordar-te, nunca poderás igualar as forças de um boi corpulento nem chegarás a ter seu peso.”

Primeiramente os exercícios, que pelo esforço que exigem esgotam o espírito e tornam-no inábil para a atenção e os estudos sérios; depois, uma alimentação abundante faz da inteligência obtusa.”

homens que repartem seu tempo entre o óleo e o vinho e têm o dia por bem-aplicado quando suaram o suficiente, e para reparar o líquido que desta forma perderam haviam ingerido, previamente, em jejum, muita bebida para que penetrasse no fundo. [???] Beber e suar constitui a vida dos que padecem de mal de coração. [?] Há exercícios breves e fáceis que cansam o corpo com presteza e nos economizam tempo, que é o que se precisa ter em conta: corridas, o movimento das mãos com algum peso, o salto, seja de altura, seja de extensão, seja aquele que podemos chamar <salio> [sacerdote de Marte] ou, menos decorosamente, <salto del fulón> [intraduzível]; adota de quaisquer destes exercícios um uso simples e fácil. Faça o que fizeres, volta logo do corpo à alma; exercita-a de dia e de noite; um trabalho modesto basta para alimentá-la. Nem o frio nem o calor, nem a velhice, podem te impedir este exercício; cultiva, pois então, esta riqueza que os anos vão melhorando. Não te peço que estejas sempre com a cara nos livros ou nas lutas; é mister dar à alma algum descanso que sem dissipá-la a distenda. O estar deitado tranqüiliza o corpo, mas não impede o estudo; permite ler, ditar, falar, escutar, coisas que nem o caminhar a pé nos impede.” Sentar mesmo é que é ruim.

não faltará quem te meça os passos e regule o movimento de tua boca ao comer, e chegarão tão longe quanto permitam sua paciência e tua credulidade.”

Quem disse essas palavras? O mesmo de antes.”

Que vida crês tu que é tida por néscia? (…) a nossa, a quem se algo pudesse satisfazer já estaria satisfeita.”

Quem vai por um caminho encontra um termo; o andar fora do caminho não conhece acabamento.”

A frugalidade não é mais que uma pobreza voluntária. Abandona semelhantes desculpas: <Ainda não tenho o suficiente; assim que alcançar tal soma me entregarei por inteiro à filosofia.>

Quebrar a tela do celular pode ser difícil justamente para aquele que o tenta com afinco…

À Gardene: “Preferirias, pois, à pobreza que sacia, a riqueza que nos faz famintos?”

Mas como sair desse ciclo vicioso? Por onde quiseres. Pensa em quantas temeridades incoerreste por amor ao dinheiro, quantos trabalhos suportaste por amor às honras! Bem podes tentar algo pelo ócio; por outro lado, em meio aos afãs do governo das províncias e das magistraturas, envelhecerás entre o tumulto e a agitação sempre renovados, que nenhuma temperança poderá evitar, nem suavidade alguma no viver. E que acontecerá se lhe permites a ela crescer ainda mais? Quanto mais se avizinha aos êxitos, tanto mais se avizinha aos temores.”

<A própria altura aturde os topos.> Se queres saber em que livro se o disse, te comunicarei que foi no que leva por título Prometeu. Com esta frase, quis significar que os saguões estão expostos às tempestades.” “Mecenas foi homem de gênio, que teria podido oferecer a Roma um grande modelo de eloqüência se não tivesse sido enervado pela felicidade, que pode-se dizer que o castrou.”

Primeiro, antes de considerar o quê comes e bebes, deves considerar com quem comos e bebes, pois comer e beber sem um amigo é viver como os leões e os lobos.”

Epicuro

O homem atarefado e agoniado por seus bens não achará mal pior do que crer seus amigos aqueles de quem de fato não é um amigo; do que crer que suas boas ações lhe servem para ganhar os corações, quando, na verdade, muitos o odeiam mais à medida que mais lhe devem. Uma dívida pequena faz um devedor; uma dívida importante faz um inimigo.”

a constante igualdade do homem consigo mesmo”

ninguém tem formado um propósito; e se o tem, nele não persevera, antes o renega, e não para mudar de meta, mas para voltar, depois à mesma de antes, à mesma que havia abandonado e espinafrado. (…) Os homens não sabem o que querem, só o momento em que querem.”

Oh, quando chegará o dia em que ninguém mentirá para lisonjeá-lo!”

Quem conheceria hoje a Idomeneu se Epicuro não houvesse tratado dele em suas cartas? O mais profundo esquecimento apagou o nome de todos aqueles magnatas e sátrapas, e ainda o do mesmo rei do qual Idomeneu recebera o poder.” “Profundamente nos cobrirá o alto-mar dos séculos, poucos gênios assomarão a cabeça por cima das águas” Para anotações pessoais consultar Os Segredos da Mosca em data próxima.

A diferença entre professores de educação básica de uma escolinha no cafundó e austeros analistas, assistentes, técnicos e auxiliares em C&T uma ilustre autarquia federal é que os primeiros sabem que “não fazem nada de importante, i.e., talvez algo de suma importância, que não passa, não obstante, de sua obrigação.”

Qual é a diferença entre alguém que ama um idioma e alguém que ama idiomas? Agora que estão na mesma sala aprendendo, nenhuma.

eu te prometo, Lucílio: eu gozarei do favor da posteridade, terei o privilégio de remover da deriva, junto com o meu nome, o de outros.”

deseos deoses

Eu creio que na filosofia tem-se que tentar aquilo que se fez no Senado: se alguém expõe um parecer que me agrada parcialmente, faço com que a proposição seja dividida em partes e sigo a que me parece mais aceitável.”

O ventre não escuta ordens: reclama, exige. Mas não é um credor molesto; com pouca coisa se o despacha enquanto se o dá o que é devido, não aquilo que poderias dar.”

tens de desatar, antes que romper, o nó que desgraçadamente enredaste, porém, se não houver maneira, rompa-o.”

Não existe ninguém tão covarde que não prefira cair de uma vez a estar sempre frustrado.”

Contenta-te com os negócios em que te embaraçaste. Não te enredes em outros novos.” Estou precisando muito seguir este aforismo.

amam os frutos das misérias enquanto que detestam as misérias.”

Todo mundo sai da vida como se acabasse de entrar nela.”

Epicuro

Que coisa pode existir de mais vergonhosa do que sentir-se inquieto no próprio umbral da maior segurança?”

As minas dos metais pobres são superficiais; as dos metais mais ricos são aquelas cujas veias se escondem no mais profundo, mas recompensam com mais generosidade aos que as escavam com constância.”

o prazer é um declive pelo qual deslizamos até a dor se não nos armamos de comedimento.”

É mister proceder como se sempre se tivesse vivido já bastante.”

náusea da náusea, náusea de não ter náusea

Sócrates dissertou no cárcere, e havendo-lhe alguém oferecido a fuga, não quis sair, preferiu permanecer ali para fazer os homens perderem o temor a 2 coisas gravíssimas: a morte e o cárcere.”

Repara na nossa época, de cuja moleza e languidez nos lamentamos.” Parece que não há limite para o nível de languidez de uma época.

Me atarão. E daí? É que porventura ando desatado? Eis que a Natureza nos ata à pesadez do corpo.”

Não sou tão torpe como para seguir agora a música de Epicuro, acrescentando que são vãos os temores do Inferno, que nem Íxion gira com sua roda, nem Sísifo empurra a pedra com seus ombros, nem é possível que umas entranhas renasçam continuamente para ser devoradas. Não há alguém tão menino que tema o Cérbero, as trevas e os fantasmas que só consistem de ossos descarnados.” Não se trata somente de aproveitar o dia, mas saber que o ajuste de contas inexiste.

É desonroso dizer uma coisa e sentir outra. E ainda mais escrever uma coisa e sentir outra!”

até quando crescemos, nossa vida decresce. Perdemos a infância, depois a mocidade, depois a juventude. Até o dia de ontem, todo o tempo passado está morto e mesmo o próprio dia de hoje nós repartimos com a morte.”

A morte não vem toda de uma vez: aquela que nos leva é a última morte.”

Lucílio

É tanta a imprudência e a loucura dos homens que alguns deles se vêem forçados a morrer por temor à morte.”

O homem sábio e forte não tem que fugir da vida, e sim saber sair dela.”

Alguns sentem o desânimo por terem de ver e fazer sempre as mesmas coisas; não é um ódio, antes um aborrecimento da vida, no qual caímos empurrados pela própria filosofia quando andamos dizendo: <Até quando as mesmas coisas? Despertar e dormir, ter apetite e saciar-se, ter frio, ter calor. Não há nada que acabe, antes pode-se dizer que todas as coisas da Natureza ficam enlaçadas, fogem, perseguem-se. A noite empurra o dia, o dia a noite, o verão termina no outono, o outono é espoliado pelo inverno, o qual é empurrado pela primavera (…) Nem faço nada novo nem vejo nada novo, isto também produz náuseas.> Existem homens que não encontram a vida amarga, mas supérflua.”

não somente os atos de amanhã nos podem causar dano, como também os de ontem.”

o [desmemoriado] rico Calvino Sabino (…) tramou este expeditivo¹ procedimento: empregou uma grande quantidade na compra de escravos, um que soubesse Homero de cabeça; outro, Hesíodo, e outros 9, um para cada poeta lírico.”

¹ Ora, nada há de eficaz nisso: será que na época o escravo era mais barato que a própria obra? De toda maneira, que adianta que um saiba Homero, se é ele que sabe e não quem quer saber, considerando o problema da perspectiva de quem quer saber?

Santílio Quadrato, um mordaz crítico de ricos néscios e, é escusado acrescentar, grande adulador deles, e, coisa que sói ir junta também, um belo companheiro para contar piadas, persuadiu este mesmo Calvino Sabino aprocurar gramáticas e dicionários. Sabino, havendo-o contestado que cada um de seus escravos lhe custava 100 mil sestércios, aquele respondeu: <Por menos, teria comprado eu outros tantos manuscritos.>”¹

¹ Eis a resposta à dúvida acima: mesmo que o valor do escravo fosse tão baixo, o dos textos não era tampouco nada alto!

O mesmo Santílio o aconselhou a se dedicar à luta, apesar de ser o rico um homem pálido, enfermiço e débil. Depois da resposta de Sabino: <E poderia eu fazê-lo, se mal me sustento de pé?>, disse-lhe: <Não o digas! Não vês quantos escravos robustíssimos possuis?> O bom senso não se compra nem se toma emprestado, e se se vendesse, creio que não acharia comprador. Em compensação, a insensatez encontra todo dia partidários.”

nunca se disse o bastante aquilo que nunca seria o bastante compreendido. A alguns basta mostrar-lhes remédios, a outros é mister impor-lhes à força.”

GLOSSÁRIO:

afrenta: afronta = AGRAVIO

desgana: tédio; inapetência; falta de aplicação.

pellejo: odre; casca; pele.

pendiente: rampa, declive; calha; brinco; que não foi resolvido.

poner hitos: demarcar; compactar.

postreto: último, final

rastrojo: palha

CURTO CIRCUITO DO SABER (MAS AINDA LONGO DEMAIS PARA PERCORRER UMA VEZ SEQUER)

Um homem que decidisse, no dia de hoje, refundar suas investigações filosóficas efetuando o que Descartes efetuou no século XVII, sobre um novo método contrário ao escolástico, obedecendo aos seus sentidos, descrevendo o que vê e ouve, por exemplo, seria internado num presídio de segurança máxima (não existem mais manicômios, só o grande manicômio a céu aberto).

Isso é DUPLAMENTE desalentador: 1. No sentido em que o que é tido socialmente como óbvio não é o óbvio, mesmo se a descrição empírica tivesse o valor de verdade que já possuiu 300 anos atrás; 2. Pior ainda, pois concluímos que a internação desse estranho inovador, no final, estaria correta (o que é triste e aflitivo diante da presumível inocência de um novo ser humano na sua jornada de descoberta despida de má-fé). Aquele que ignora o que está mais oculto aos sentidos imediatos, mas que todos intuímos como o universal, é definitivamente o louco da história: este Descartes, ou sombra do Descartes original, é um átomo incapaz de notar a exploração inerente ao trabalho, a regra de ouro que rege o dueto miséria-riqueza das nações e, portanto, incapaz de se estabelecer como Homem, o “escravo dotado de agência”. É este o nível dos epistemólogos chamados fascistas, exaltadores dos grilhões, subjugados pela moral e no entanto idólatras desta mesma moral. Quer homem mais cego que este observador (e portanto cúmplice) do-que-está-aí? Um terço do eleitorado nacional clama como Verdade o que (um terço do eleitorado) escolheu ver, escolheu ouvir, escolheu sentir, lentamente, há anos, com uma persistência e consistência de formiga. Para este átomo que se acha um homem, o “social” significa: seu próprio cotidiano, sem quaisquer ajustes, reparos, parênteses, restrições, considerações. Tal qual é em sua perfeição instantânea, nascida assim, inclusive idêntica a uma pintura, sem palavras; ou então, paramentada com uma tempestade de palavras, de LOGOI, subsumida em formato de missa (mero ritual), quando reza a conveniência.

Imaginávamos que um dos maiores problemas da teoria do conhecimento na Era da Técnica seria o abismo cada vez maior entre a sabedoria de uns acerca do geral e a sabedoria de outros acerca do particular, e o choque civilizacional provocado por este descompasso entre “holistas” e “especialistas”, uma vez que um sábio nunca pode ser um sábio duplo, em simultâneo. Quem dera fosse este nosso dilema número um hoje! O Senhor Óbvio, que sabe todas as coisas, que é este milagre quântico dos dois sábios arquetípicos ao mesmo tempo, ocupa agora a Ágora. Infelizmente quem não se esqueceu, quem entendeu a, no fundo, única mensagem de Sócrates, foragiu-se para não ser linchado. Sócrates, esse Prometeu da Filosofia, com dados historiográficos e não apenas mitológicos, acendeu as primeiras fagulhas de sabedoria ao proclamar que sabia quão pouco o indivíduo tem condições de vir a saber. Um terço do eleitorado do país tem uma certeza doentia no seu mundo quimérico, que já se fundiu com seus sentidos mais imediatos. O um terço se chama Senhor Óbvio, nada lhe escapa. Oniscientes transitórios.

Perde o interesse para nós, para os outros dois terços, se o conhecimento da exploração do homem pelo homem faz parte de um saber genérico ou de um saber especial: é um saber que, muito a sério, não se leva a sério quando o assunto é autoclassificação. O que sabemos, o “nada” que sabemos, é que seu maior inimigo é a presunção cotidiana, a obviedade dos sentidos embotados, que já deram sua última palavra, equivalente a uma sentença inquisitorial. A certeza daqueles que já estão findados no mesmo lugar e instante em que começaram. Talvez advenha daí essa fobia do círculo, esse desejo pelo horizonte sem-fim retilíneo… O próprio sentido da visão do Senhor Óbvio não poderia apontar-lhe que tanto remou e nada progrediu, ou que voltou ao mesmo lugar – seria um baque muito grande para alguém que, como já se disse, desvendou tudo que havia entre o A e o Z, o alfa e o ômega, não admite autolimitações. Cega-se, que é para continuar vendo a visão antiga e desejada.

Como velhos Átlas (o Titã, não o álbum que demonstra, em contradição com os sentidos imediatos, que a Terra não é plana), carregamos nas costas muito do que sentimos por esta época ser o que é. Toda a cegueira do Senhor Óbvio é algo muito SENTIDO por nossa piedade colossal, porque caminhamos devagar NUM SENTIDO, e, ainda bem!, ignoramos quantos desertos ainda atravessaremos. Pois absorver tudo num único instante certamente nos desencaminharia de Sócrates, dessa ética titânica do ser-homem, convertendo-nos de novo em tolos que confiam demais nos cinco SENTIDOS.

ALGUMAS POUCAS PALAVRAS SOBRE MAGNETISMO ANIMAL, WILHELM REICH, A LIBIDO E A PERSEGUIÇÃO AOS COMUNISTAS

Vejo agora quase de forma clarividente que Reich se enganou completamente com o seu orgone: é apenas uma pseudociência derivada destas fantasias do século XVIII. Novamente um médico que não sabe separar suas pesquisas empíricas de meras superstições. Inventa acumuladores de algo que não se pode provar diretamente. Não com dolo, mas com fé. E estiliza a questão da satisfação e repressão sexual no ser humano. Seus pacientes acabam por se sentir melhores pela velha e sempre bem-vinda confiança no tratamento médico e sobretudo porque, além de receberem ‘sessões de orgone’ como se fosse um bronzeamento invisível, recebiam massagens, se autoaplicavam massagens liberadoras, e praticavam – fora da clínica, evidentemente – sexo livre de misticismos e tabus, praticavam, enfim, o amor livre comunista dos tempos áureos, sem dúvida uma solução para muitos tipos de neuroses, mas nunca de todos, e nunca completamente – pois que a questão social, insistia o próprio Reich, era o mais importante. Está claro também que Reich foi perseguido pelos motivos errados, e que seu acumulador de orgone ou que sua doutrina não podiam fazer mal a ninguém. Eis o fim de todos os inovadores – estejam integralmente certos ou não!

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3: SCHOPENHAUER: MULTIFACETAS

As citações e comentários a seguir são baseados exclusivamente na obra O Mundo como Vontade e como Representação. O post com mais aspas e comentários deste livro está em data mais remota no Seclusão. Todas as citações do 2º e 3º volume, que não existem em Português, foram traduzidas por mim para esta compilação.

ÍNDICE (usar CTRL+F para pular para o tópico desejado)

Em negrito, o capítulo (tópico de capítulo) mais importante.

1. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO A ENTENDER KANT, O PRIMEIRO FENOMENÓLOGO DA IDADE MODERNA

1.1 COISA-EM-SI = VONTADE

2. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO NÃO-SOCIALISTA A DENUNCIAR E REFUTAR O IDEALISMO HEGELIANO: COMO DESCONTAMINAR-SE DE HEGEL, O CHARLATÃO

3. CRÍTICA DA RELIGIÃO: A ESCOLÁSTICA DUROU ATÉ KANT, MAS FOI CONTINUADA PELO HEGELIANISMO: A verdadeira filosofia deve compreender que nunca estará dissociada das religiões e se situar honestamente no campo

3.1 CRISTIANISMO, FIGURA AMBIVALENTE PARA SCHOPENHAUER

3.1.1 CRISTIANISMO PRIMITIVO, NOVO TESTAMENTO & DOGMAS

3.1.2 O PODER SECULAR DO CATOLICISMO

3.1.3 REFORMA PROTESTANTE

3.2 PRECURSOR ORIENTALISTA: EXALTAÇÃO DO HINDUÍSMO E DO BUDISMO

3.3 POLITEÍSMO, PANTEÍSMO, GNOSTICISMO, RELIGIÕES MENORES

3.4 ÉTICA: O DILEMA DE CILA OU CARIBDE: ACEITAÇÃO DO FENÔMENO OU ASCETISMO

3.4.1 A VIDA DO HOMEM SANTO

4. O FILÓSOFO QUE COMPREENDEU PLATÃO A MEIAS: POR QUE A IDÉIA DE PLATÃO DEVE SER LIDA COMO A ANTI-IDÉIA POR EXCELÊNCIA, I.E., COMO VONTADE, ASSIM ENUNCIADA DESDE A ANTIGUIDADE

5. O ANTI-ARISTÓTELES: CONSEQÜÊNCIA DA HIPER-VALORIZAÇÃO ARISTOTÉLICA PROMOVIDA PELO(A) HEGELIANISMO/ESCOLÁSTICA: O Aristotelismo deve ser superado

6. POR QUE SCHOPENHAUER E NIETZSCHE ESTÃO, ESSENCIALMENTE, EM PÓLOS OPOSTOS NA FILOSOFIA – E NÃO O CONTRÁRIO – MESMO QUE AQUELE SEJA O PRINCIPAL PRECURSOR DESTE

7. DESPROPÓSITO DA VIDA HUMANA CONSCIENTE: A EXISTÊNCIA É SÓ UM SONHO

8. SOBRE O SUICÍDIO

9. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS NATURAIS

9.1 A MATEMÁTICA E A LÓGICA: ARISTÓTELES E NIILISMO

9.2 A ASTRONOMIA

9.3 A FÍSICA

9.4 A BIOLOGIA

10. A MEDICINA

10.1 CONTRIBUIÇÕES À PSIQUIATRIA (FISIOLOGIA DO GÊNIO)

11. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS

11.1 A HISTÓRIA

11.2 O DIREITO

11.3 SOBRE A EVOLUÇÃO E A IMPORTÂNCIA DAS LÍNGUAS: SUMA DEPRECIAÇÃO DO HOMEM ALEMÃO

12. SCHOPENHAUER E A ESTÉTICA: APERFEIÇOADOR DE KANT

12.1 ARQUITETURA

12.2 ESCULTURA

12.3 PINTURA

12.4 POESIA E TEATRO

12.5 METAFÍSICA DO GÊNIO

12.6 MÚSICA, O PALIATIVO FINAL

13. A FAMOSA MISOGINIA SCHOPENHAUERIANA

14. RESÍDUOS: AFORISMOS, PASSAGENS DIFÍCEIS DE CLASSIFICAR, CONSOLAÇÕES OU INVECTIVAS CONTRA FILÓSOFOS OU PERSONALIDADES MENORES

1. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO A ENTENDER KANT, O PRIMEIRO FENOMENÓLOGO DA IDADE MODERNA

Com Locke a coisa-em-si é sem cor, som, cheiro, gosto, não é nem quente nem fria, nem mole nem rígida, nem macia nem áspera; e no entanto ela conserva extensão e forma, é impenetrável, está em repouso ou movimento, possui massa e número. Com Kant, a coisa-em-si já se despiu de todas essas últimas qualidades, porque elas só são possíveis por intermédio do tempo, espaço e da causalidade, e este trio emana do intelecto (cérebro), assim como as cores, os tons, os aromas, etc., se originam dos nervos dos órgãos dos sentidos.”

Em geral, este é o ponto em que a filosofia de Kant conduz à minha, ou em que esta brota daquela como um galho do tronco. Os leitores se convencerão disso quando lerem com atenção na Crítica da razão pura p. 536 e 537 (V, 564), e depois ainda compararem com esta passagem a introdução à Crítica da faculdade de juízo, p. XVIII e XIX da 3ªed., ou p. 13 da edição Rosenkranz, em que é até mesmo dito: ‘O conceito de liberdade pode tornar representável uma coisa-em-si (que é de fato a vontade) em seu objeto (Objekt), mas não na intuição; ao contrário, o conceito de natureza pode tornar de fato representável seu objeto (Gegenstand) na intuição, mas não como coisa-em-si.’Resumo: o sentido da vida não está dado! Por isso existe o mundo: para o Ser ser!

Queremos conhecer a significação dessas representações. Perguntamos se este mundo não é nada além de representação, caso em que teria de desfilar diante de nós como um sonho inessencial ou um fantasma vaporoso, sem merecer nossa atenção.” Será a conclusão nas últimas linhas do primeiro tomo, mesmo que inadvertida. Em resumo, este momento é o pulo do gato ainda-kantiano-demais da filosofia schopenhaueriana…

Já na audição se dá algo completamente diferente. Tons podem provocar dores imediatamente e, sem referência à harmonia ou à melodia, podem ser também de imediato sensualmente agradáveis. O tato, enquanto uno com o sentimento do corpo inteiro, está ainda mais submetido a esse influxo imediato sobre a vontade, embora também haja tato destituído de dor ou agrado. O odor, entretanto, é sempre agradável ou desagradável; o paladar ainda mais. Portanto, estes 2 últimos sentidos são os mais intimamente ligados à vontade. Eis por que sempre foram chamados de sentidos menos nobres e, por Kant, de sentidos subjetivos.”

O excelente livro de Thomas Reid,¹ Inquiry into the Human Mind on the Principles of Common Sense [o livro não tem tradução ao português, mas se uma houvesse, seria Investigação da mente humana segundo os princípios do senso comum; em breve, tradução completa minha no Seclusão], serve de prova negativa das verdades kantianas, e nos convence piamente da inadequação dos sentidos para produzirem a percepção objetiva das coisas, e nos convence também da origem não-empírica da percepção do espaço e do tempo. (…) O livro de Thomas Reid é, enfim, muito instrutivo e digno de nosso tempo – dez vezes mais digno do que a soma de toda a filosofia que vem sendo escrita desde Kant.”

¹ 1710-1796, adversário de David Hume.

O intelecto deve, primeiro de tudo, unir em um ponto todas as impressões, ao tempo em que gera suas implicações de acordo com suas respectivas funções, seja se resumindo a meras percepções ou atingindo concepções, um ponto que será, por assim dizer, o foco de todas as suas ramificações, tudo a fim de que a unidade da consciência se apresente como idêntica ao eu volitivo, cuja mera função do conhecimento ela é. Esse ponto de convergência da consciência, ou o eu teórico, é simplesmente a unidade sintética da apercepção kantiana, a partir da qual todas as idéias se estendem, como num colar de contas ou ramo de árvore, e com base no que o <eu penso>, como o fio condutor de tudo que é derivado, <deve ser capaz de acompanhar todas as idéias que formulamos>.”

1.1 COISA-EM-SI = VONTADE

a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento que aparece como indivíduo. Tal palavra se chama VONTADE.” “Isso que se furta a toda fundamentação, contudo, é justamente a coisa-em-si, aquilo que essencialmente não é representação, não é objeto do conhecimento e só se torna cognoscível quando entra naquela forma.”

a vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo é o conhecimento a posteriori da vontade. – Decisões da vontade referentes ao futuro são simples ponderações da razão sobre o que se vai querer um dia (…) apenas a execução estampa a decisão, que até então não passa de propósito cambiável, existente apenas in abstracto na razão. Só na reflexão o querer e o agir se diferenciam; na efetividade são uma única e mesma coisa.” “No entanto, é totalmente incorreto denominar a dor e o prazer representações, o que de modo algum são, mas afecções imediatas da vontade em seu fenômeno, o corpo, vale dizer, um querer ou não-querer impositivo e instantâneo sofrido por ele.” Grande erro de Schopenhauer: frase responsável pela hedionda vitória da psicanálise (fracasso da humanidade) no século XX.

Fenômeno se chama representação, e nada mais.” Este “…e nada mais”, até este e nada mais!, Freud copiou de Sch., em seu Projeto para uma Psicologia [Pseudo]científica (1895). Também no Seclusão: https://seclusao.art.blog/2021/02/27/escritos-precoces-de-freud-incluindo-o-projeto/.

COISA-EM-SI, entretanto, é apenas a VONTADE. (…) Aparece em cada força da natureza que faz efeito cegamente, na ação ponderada do ser humano: se ambas diferem, isso concerne tão-somente ao grau da aparição, não à essência do que aparece.” Erro fundamental reparado por Nietzsche.

Também me compreenderá mal quem pensar que é indiferente se indico a essência em si de cada fenômeno por vontade ou qualquer outra palavra. Este seria o caso se a coisa-em-si fosse algo cuja existência pudéssemos simplesmente DEDUZIR e, assim, conhecê-la apenas mediatamente, in abstracto. Então se poderia denominá-la como bem se quisesse. O nome seria um mero sinal de uma grandeza desconhecida. (…) Até os dias atuais subsumiu-se o conceito de VONTADE sob o conceito de FORÇA.” “renunciamos ao único conhecimento imediato que temos da essência íntima do mundo: fazemos tal conhecimento se dissipar num conceito abstraído do fenômeno, com o qual nunca poderemos ir além deste último.Ao mesmo tempo que sentimos a segurança e verdade por trás destas palavras, ou nestas palavras, sentimos também a hesitação, dúvida e autocontradição do sistema schopenhaueriano (mas somente quem já chegou ao final do livro quarto e voltou a comparar algumas afirmações clássicas do autor pode reparar nesta segunda parte).

SÍNTESE IMPECÁVEL DA OBRA: “A totalidade do processo é o auto-conhecimento da Vontade; começa nisso e retorna a isso, e constitui o que Kant chamara de fenômeno em oposição à coisa-em-si.” “Assim sendo, a totalidade é, em última instância, a Vontade, que de e por si mesma se converte em representação, e é essa unidade fenomenal que chamamos com letra maiúscula de a Representação.”

Kant assumira afoitamente que, aparte o conhecimento objetivo, quer seja, aparte o mundo como representação, nada nos é dado salvo a consciência, a partir da qual ele elaborou aquele mínimo que ainda lhe restava de propriamente metafísico, i.e., sua teologia moral, à qual ele atribuiu, não obstante, e de forma conseqüente, por um lado, validade exclusivamente prática, e absolutamente nenhuma validade teórica para existir. Ele pecou ao não ver que (…) nossa própria natureza fenomênica deve também estar enquadrada no mundo da coisa-em-si, isto é, na raiz das representações, a Vontade [que é imoral].”

A polêmica de Lucrécio (IV, pp. 824-58) contra a teleologia é tão crua e desajeitada que refuta a si mesma e nos convence do oposto. Agora quanto à de Bacon (De augm. scient., III, 4), ele não faz, em 1º lugar, distinção no tocante ao uso de causas finais entre naturezas organizadas e não-organizadas (o que seria o ponto focal); em seus exemplos de causas finais, mistura a ambas. A partir daí, Bacon bane as causas finais da física e da metafísica, de uma só vez; mas esta última é, de acordo consigo, o que é a metafísica para muitos ainda hoje, idêntica à teologia especulativa. (…) Por fim, Spinoza (Ética, I, proposição 36, apêndice) torna bastante claro que ele identifica a teleologia com a físico-teologia – contra a qual se expressa com amargura – de tal maneira que chega a enunciar Natura nihil frustra agere: hoc est, quod in usum hominum non sit [A natureza não age em vão, i.e., nunca faz nada que não seja de proveito para o homem], bem como que Deus fez tudo para dirigir o homem,¹ etc.” “Seu propósito era meramente bloquear a passagem ao teísmo; e, confessemos, ele reconheceu de maneira acertada que a prova físico-teológica² é o maior adversário do teísmo. Mas estava reservado a Kant o encargo de refutar esta prova, e a mim o de fornecer a correta exposição da filosofia kantiana, de modo que satisfiz à velha máxima: Est enim verum index sui et falsi [Há uma medida verdadeira do que é verdadeiro e do que é falso], ou seja, há um critério avaliador das aparências, que supera o ceticismo.”

¹ E que, portanto, existindo o homem, deus se retira de todo do mundo e não é mais necessário.

² Aquilo que os escolásticos tanto buscaram e desenvolveram até seus últimos limites. Mais detalhes em uma das notas de rodapé das próximas aspas.

Com efeito, toda mente sã e funcional deve, considerando a natureza organizada, no mínimo chegar à teleologia spinozista, a não ser que esta mente seja deturpada por opiniões preconcebidas, ou físico-teológicas¹ ou antropo-teleológicas,² as primeiras absorvidas por Spinoza em seu argumento teleológico panteísta, as segundas condenadas, pela mesma razão, no spinozismo.”

¹ Neste trecho se torna ainda mais claro o que Sch. entende por físico-teologia, i.e., uma física com primado do último termo, da teologia: um saber das causas finais aplicado aos mandamentos da religião, como se assim se pudesse extrair os desígnios morais últimos de qualquer credo, monoteísta ou politeísta.

² A antropo-teleologia é a ciência dos fins aplicada ao homem, considerando-o “emancipado” da natureza. Em Spinoza, dizer que a natureza tem seus fins últimos é o mesmo que dizer: o Deus que criou as religiões e o homem tem seus fins últimos; com efeito, ele é a própria natureza. Chega-se a uma espécie de determinismo ou finalismo ateu absoluto. Já em Hegel encontramos a contraposição a Spinoza, porém de uma forma simetricamente deficiente: em vez de considerar que não há finalidades últimas, nossos destinos estando em aberto, por termos “dominado a natureza”, respondemos, segundo o hegelianismo, à História, que é a forma de manifestação da Razão ou do Espírito, da Essência Absoluta. Ou seja, a História é o desenrolar das causas finais de acordo com os próprios parâmetros do Espírito em sua jornada temporal de auto-reconhecimento. Mas sabemos o quanto Hegel é desprezado por Sch. (vide 2., em instantes). Mais valeria dizer: o homem não tem um sentido a cumprir na História; se ele é joguete ou escravo de alguma coisa, se há algo a que sua liberdade empírica e ética responde, este algo se chama Vontade e faz parte de nós e de nossos corpos, por mais que dela não possamos conhecer em sua totalidade, ao contrário da ciência hegeliana que dá todos os instrumentos para concluir sobre as causas últimas do Espírito na Fenomenologia do Espírito, Ciência da Lógica e Enciclopédia Filosófica. Resumindo em 2 frases a tese (anti-)teleológica schopenhaueriana: Temos olhos para ver, ouvidos para escutar, dentes para triturar a comida… Não temos um projeto de humanidade realizável através de um Estado-nação nem pretendemos encontrar a (re)conciliação com o Deus cristão neste, o único mundo.

Toda observação do mundo com o fito de explicar qual é a tarefa do filósofo confirma e comprova que vontade de vida, longe de ser uma invenção arbitrária ou uma expressão vazia, é a única expressão genuína acerca da natureza mais íntima do mundo.”

2. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO NÃO-SOCIALISTA A DENUNCIAR E REFUTAR O IDEALISMO HEGELIANO: COMO DESCONTAMINAR-SE DE HEGEL, O CHARLATÃO

Com exceção de Feuerbach, Marx e Engels (falamos apenas de figuras proeminentes de livros-textos de filosofia), Arthur Schopenhauer foi o primeiro a compreender a fragilidade do sistema hegeliano, contrapô-lo como um todo e descrever de forma límpida e facilmente compreensível os erros e absurdos do Hegelianismo. É, portanto, o primeiro filósofo fora do movimento dos jovens hegelianos de esquerda e socialistas que romperiam posteriormente com seu mentor ideológico, chegando ou não a uma teoria completa pós-hegeliana (Feuerbach ficou no meio do caminho, paralisado criativamente após a crítica a Hegel; Marx & Engels fundaram o materialismo histórico). Schopenhauer é o primeiro filósofo independente de correntes sócio-políticas amplas a ser um Anti-Hegel de envergadura.

A filosofia [hegeliana] da identidade, nascida em nosso tempo e de todos conhecida, poderia não ser compreendida sob a citada oposição, [sujeito e objeto] na medida em que não torna o sujeito nem o objeto o ponto de partida propriamente dito, mas um terceiro, o absoluto cognoscível por intuição-racional, que não é sujeito nem objeto, mas o indiferenciado. Embora a ausência completa de qualquer intuição-racional me impeça de falar da mencionada indiferenciação e do absoluto, todavia, na medida em que tenho acesso a todos os protocolos dos contempladores-racionais, [o deboche!…] também abertos a nós profanos, tenho de observar que a dita filosofia não pode ser excluída da oposição anteriormente estabelecida entre os 2 erros, já que, apesar da identidade entre sujeito e objeto (não-pensável, e intuível apenas intelectualmente, ou experienciada por imersão nela), a referida filosofia une em si os 2 erros quando os decompõe em 2 disciplinas, a citar: o idealismo transcendental, que é a doutrina-do-eu de Fichte e, por conseqüência, em conformidade com o princípio de razão, faz o objeto ser produzido ou tecido fio a fio a partir do sujeito; e a filosofia da natureza, que, semelhantemente, faz o sujeito surgir aos poucos a partir do objeto mediante o uso de um método denominado construção, que me é pouco claro, mas o suficiente para bem notar que se trata de um progresso conforme o princípio de razão em várias figuras. Renuncio à profunda sabedoria contida nesta construção.HAHAHA!

pobreza espiritual, confusão, perversidade vão vestir-se a si mesmas com os termos mais rebuscados, as expressões mais obscuras, para assim, em frases difíceis e pomposas, mascararem pensamentos miúdos, triviais, insossos, cotidianos”

CRÍTICA DO IDEALISMO ALEMÃO, MAIS CONHECIDO COMO HISTORICISMO: “Semelhante FORMA HISTÓRICA DE FILOSOFAR fornece na maioria das vezes uma cosmogonia, a qual admite muitas variedades, ou então um sistema da emanação, doutrina da queda; ou ainda, por parte da dúvida desesperadora advinda dessas tentativas estéreis, é-se levado a um último caminho, oferecendo-se uma doutrina do constante vir-a-ser, brotar, nascer, vir a lume a partir da escuridão, do fundamento obscuro, do fundamento originário, do fundamento infundado e outros semelhantes disparates.” “toda uma eternidade (…) já transcorreu até o momento presente, pelo que tudo o que pode e deve vir-a-ser já teve de vir a ser. Todas essas filosofias históricas, não importa seus ares, fazem de conta que Kant nunca existiu e tomam O TEMPO por uma determinação da coisa-em-si

O autêntico modo de consideração filosófico do mundo, ou seja, aquele que nos ensina a conhecer a sua essência íntima e, dessa maneira, nos conduz para além do fenômeno, é exatamente aquele que não pergunta ‘de onde’, ‘para onde’, ‘por quê’, mas sempre em toda parte pergunta apenas pelo QUÊ do mundo” Antes não seria pelo ‘que’ (conjunção conectiva)?

OS LIMITES DA FILOSOFIA CONTINENTAL (Ponto de concordância com H.): “Repetir abstratamente toda natureza íntima do mundo de maneira distinta e universal, por conceitos, e assim depositá-la como imagem refletida nos conceitos permanentes, sempre disponíveis, da razão, isso, e nada mais, é filosofia.” Trecho mal-redigido ou traduzido?! Seria como escrever: “Repetir conceitual, distinta e universalmente toda natureza íntima do mundo, e assim depositá-la como imagem¹ da razão: apenas isso é filosofia.”

¹ Pois toda reflexão é abstrata, conceitual – ou seja: o autor repete 4x a mesma terminologia inútil. Além disso, o próprio “razão” já é quase uma quinta referência ao mesmo arcabouço de idéias (conceitos!), em menos de 3 linhas completas! Um pot-pourri de pleonasmos… Mas o pior é que acho que nenhum filósofo negaria sua afirmação, que foi feita para ser polêmica

A despeito de tudo que possa ser dito, nada é tão persistentemente e tão reiteradamente incompreendido como o Idealismo, porque ele é interpretado como significando que se nega a realidade empírica do mundo exterior.” Memento: o idealismo hegeliano é somente uma forma de idealismo.

Gradativamente essas amplas e desnecessárias concepções passam a ser usadas quase que como símbolos algébricos, e são manipuladas a torto e a direito como estes últimos na matemática; assim, a filosofia fica reduzida a um mero processo combinatório, um tipo de ajuste de contas que (como todo cálculo) nada emprega nem demanda senão as faculdades inferiores. Disso finalmente resulta um mero malabarismo de palavras, do qual o exemplo mais chocante nos é apresentado pelo acéfalo Hegelianismo, em que dito malabarismo é levado ao extremo do puro nonsense.”

O nobre escolástico Pico de Mirandula já havia percebido que a razão é a faculdade das idéias abstratas, e o entendimento a faculdade das idéias da percepção, como se vê pelo seu livro De Imaginatione, cap. 11 (…) Spinoza também caracteriza a razão de modo sumamente correto como a faculdade de elaborar concepções gerais (Ética, 2, proposição 40, escólio 2). Essas filigranas nem precisariam ser citadas se não fossem as artimanhas lançadas nos últimos 50 anos pela totalidade dos filosofastros da Alemanha para descrever o conceito de razão.”

Pode-se verificar o quanto a escolha das palavras em filosofia é importante diante do fato de que aquela expressão inepta – a Idéia –, e todos os mal-entendidos dela decorrentes, tornaram-se o solo e fundação de toda a pseudofilosofia hegeliana, que ocupou os alemães por 25 longos anos.”

ressalto, de passagem, que meu antípoda direto entre os filósofos é Anaxágoras [o queridinho de Hegel entre os pré-socráticos]. Ele assume arbitrariamente como aquilo que é primigênio e originário, aquilo de que tudo o mais procede, o nous, uma inteligência, um sujeito de representações, e é considerado o primeiro a promulgar tal visão racionalista.” “de acordo comigo, os pensamentos, pelo contrário, são a última aparição.” “Toda essa teologia física (ou física teológica) é uma insistência e persistência no erro, o exato oposto da verdade expressa no início deste capítulo. O erro que consiste em afirmar que a forma mais perfeita da origem das coisas é unicamente aquela pensada, racionalizada por um intelecto. § Desde o tempo de Sócrates até o tempo vigente nós vemos que a principal questão das disputas intermináveis dos filósofos foi e é o ens rationis, a alma.”

o velho dogmatismo construiu uma ontologia quando só tinha material para uma dianoiologia [ciência das faculdades intelectuais ou do pensamento – em outras palavras, seu cume é a filosofia hegeliana].”

Os hegelianos, fanáticos que vêem a filosofia da história como o fim último de toda filosofia, fariam melhor em ler Platão, que infatigavelmente repete que objeto da filosofia é aquilo que é inalterável e que sempre permanece, e não aquilo que agora é assim, depois assado.”

Todos os filósofos cometeram o mesmo erro: eles situam o elemento eterno, metafísico e indestrutível do homem invairavelmente no intelecto.”

A contradição é que do ponto de vista do conhecimento ou intelecto (ou ainda da representação, ou ainda: dos fenômenos) os filósofos sempre tentaram provar com persuasivas razões que a morte não é um mal; e não obstante o medo da morte permanece inevitável para todos, porque está enraizado não no conhecimento, mas na vontade.”

GROSSO MODO, ASSIM SCH. RESUME A PROBLEMÁTICA HISTÓRICO-FILOSÓFICA:

politeísmo (onde se subscreve a moral socrática) monoteísmo (infantilização/regressão) panteísmo (antítese completa do estágio anterior, e por isso, no extremo da amoralidade ou imoralidade, tão daninha quanto a hipermoralidade beata) recuperação com Spinoza (resgate parcial da discussão ética SECULAR do indivíduo) + menção honrosa para o ceticismo ou exposição ético-negativa de Hume e Voltaire. Filisteísmo (interpretação ainda mais espúria e materialista da ‘fraca’ Ética spinozista) Hegel (uma queda abrupta, posto que fetichizando a Santíssima Trindade, como seria fácil de imaginar) (Sabidamente, Schopenhauer diz que não só ele mesmo ainda não podia ser compreendido, como nem mesmo Kant o tinha sido em sua época.) Discípulos de Hegel (o fundo do poço, relativização de todos os valores e a neura do Estado-nação como ‘indivíduo’, como se se pudesse falar de ética nessa esfera da pura aparência). |Schopenhauer| (síntese final).

Quem quer que tenha compreendido minha filosofia da ascese não mais encarará como além de todas as medidas da extravagância que faquires se sentem e, contemplando a ponta de seus narizes, busquem banir todo pensamento e percepção; e que em muitas passagens dos Upanishads encontrem-se prescrições para o indivíduo mergulhar silenciosamente em si mesmo pronunciando o misterioso mantra Om, até acessar o imo do ser, onde sujeito e objeto e conhecimento desaparecem.” Parágrafo feito de encomenda para polemizar com Hegel. Ver também 3.2.

3. CRÍTICA DA RELIGIÃO: A ESCOLÁSTICA DUROU ATÉ KANT, MAS FOI CONTINUADA PELO HEGELIANISMO: A verdadeira filosofia deve compreender que nunca estará dissociada das religiões e se situar honestamente no campo

3.1 CRISTIANISMO, FIGURA AMBIVALENTE PARA SCHOPENHAUER

aquela doutrina considera cada indivíduo de um lado como idêntico a Adão, o representante da afirmação da vida e, nesse sentido, entregue ao pecado (original),¹ ao sofrimento e à morte; de outro, o conhecimento da Idéia mostra cada indivíduo como idêntico ao redentor,² ao representante da negação da Vontade de vida e, nesse sentido, partícipe de seu auto-sacrifício, redimido por seu mérito, salvo das amarras do pecado e da morte, i.e., do mundo. (Romanos 5:12-21³)”

¹ Não diria isso: aquele constringido pelo pecado original nega esta vida (efeito involuntário da fé cristã).

² Este, também, é claro, nega esta vida (cristão idôneo que verdadeiramente entendeu sua fé). No fim de contas, nenhum dos dois é capaz de afirmar a vida, a não ser no além, o que é o mesmo que negar absolutamente a vida (o fenômeno, mas também a Vontade subjacente).

³ A propósito, um dos trechos mais mal-escritos da Bíblia inteira!

o sublime fundador do cristianismo teve necessariamente de adaptar-se em parte consciente, em parte inconscientemente, ao judaísmo, de modo que o cristianismo é composto de 2 elementos bastante heterogêneos, dentre os quais prefiro o puramente ético, nomeando-o exclusivamente cristão, para distingui-lo do dogmatismo judeu com o qual é confundido. Se – como amiúde se temeu, em especial nos dias atuais – essa religião excelente e salutar entrar definitivamente no ocaso, eu procuraria a razão disso apenas no fato de ela consistir não de um elemento simples, mas de 2 elementos originariamente heterogêneos postos em combinação pelo curso mundano dos eventos. Ora, daí só poderia resultar a dissolução, devido à degeneração provocada por parentesco desigual e pela reação ao espírito avançado do tempo. (…) o lado puramente ético (…) é indestrutível.”

Recorri aqui aos dogmas da religião cristã (eles mesmos estranhos à filosofia) tão-somente para mostrar que a ética oriunda de toda a nossa consideração – a 1ª sendo no todo coerente e concordante com as partes da 2ª –, embora nova e surpreendente em sua expressão, de modo algum o é em sua essência; ao contrário, concorda totalmente com todos os dogmas propriamente cristãos, e no essencial já se achava nestes.” E é o terrível aspecto derivado disso que torna suas conclusões completamente equivocados, Schopenhauer! – diria Nietzsche!

ensinar que alguém que veio recentemente do nada, e conseqüentemente por toda uma eternidade foi um nada, e que esse alguém, no entanto, será imperecível é o mesmo que ensinar a alguém que, embora ele seja produto do trabalho de um pai e uma mãe, num devido tempo e local, assim mesmo ele terá de se responsabilizar por suas ações por toda a eternidade.”

o tempo em que eu não mais serei chegará objetivamente; mas subjetivamente nunca pode chegar. Deve ser perguntado, então, a que ponto cada qual, em seu coração, estende sua crença numa coisa que é absolutamente inconcebível” “Nisso o Antigo Testamento é perfeitamente consistente; porque nenhuma doutrina da imortalidade é cabível partindo-se duma criação do nada. O cristianismo do Novo Testamento possui tal doutrina por ser hindu em espírito, muito provavelmente também indiano de origem, muito embora apenas indiretamente, através do Egito. Mas com o talo judeu, sobre o qual essa sabedoria indiana teve de ser enxertada na Terra Sagrada, esta doutrina é tão pouco compatível como é o livre-arbítrio com seu determinismo”

Eu admiro as origens orientais do cristianismo, mas não sua própria roupagem.”

Embora o cristianismo, em todas as partes essenciais, tenha pregado somente o que a Ásia sempre soube muito antes, e de forma até melhor, reconheço que para a Europa ele foi uma coisa nova e uma grande revelação, elevando em muito a tendência espiritual das bárbaras nações européias.”

3.1.1 CRISTIANISMO PRIMITIVO, NOVO TESTAMENTO & DOGMAS

não é mais necessária liberdade alguma no operari, [agir] pois ela se encontra no esse, [essência] e justamente aqui reside também o pecado, enquanto pecado original. (…) rejeita-se o que é genuinamente cristão e retorna-se ao judaísmo. (…) todo dogma arruína a teologia, bem como qualquer ciência. De fato, se se estuda a teologia de Agostinho nos livros De civitate Dei (especialmente no 14º livro), experienciamos algo análogo ao caso em que tentamos manter em pé um corpo cujo centro gravitacional está fora dele: não importa como se o gire ou se o mude de lugar, sempre cairá novamente.” Schopenhauer ofereceu as armas para a própria tréplica “neo-pelaginiana”, pelo visto… Porém, comentando o trecho em vermelho, o dogma é o sine qua non da teologia ou crença, enquanto que ele define um campo científico, mas não seu teor, dentro de amplos limites (ex: o dogma da Física são algumas leis fundamentais, mas tudo o que se inscrever nelas e for debatível entre os físicos não será dogmático – o dia em que os dogmas da Física qua Física forem insustentáveis, acabará esta disciplina).

Onde é que já houve verdadeira liberdade no pensar? Já foi muito gabada e alardeada, mas sempre que essa liberdade quer se exceder um milímetro além das convenções dos mais precários dogmas da religião de um país, um sagrado estremecimento parece se apoderar dos tão tolerantes profetas, e eles acabam por dizer: <Nenhum passo adiante!>. Que progresso da metafísica seria possível sob tamanha opressão?” “em metafísica os antigos ainda são nossos professores.” “Considere-se a que pico de arrogância o sacerdócio de qualquer religião não chegaria se a crença em suas doutrinas fosse tão firme e cega quanto eles realmente desejam. Dê-se uma olhada também nas guerras do passado, nos distúrbios, rebeliões e revoluções da Europa do oitavo ao décimo oitavo século; quão poucas não encontraremos que não possuíam como sua essência ou pretexto alguma controvérsia sobre credos, i.e., um problema metafísico, que se tornara ocasião de suscitar nações contra nações. (…) Eu gostaria de ter uma lista autêntica de todos os crimes que a cristandade realmente evitara, e de todas as boas ações que ela realmente praticou, para assim poder colocar ambas como contrapeso, no outro lado da balança.” “A filosofia não passa essencialmente de sabedoria mundana: seu problema é o mundo. A ela concerne isso e somente isso, deixando os deuses em paz – mas ela espera, em troca, ser também deixada em paz pelos deuses.”

a conexão entre o Novo e o Velho Testamento é no fundo apenas externa, acidental e forçada. A única conexão visível entre o cristianismo e o judaísmo está na estória da Queda, que, de toda forma, encontra-se isolada dentro da estrutura do próprio Velho Testamento; diria até que esquecida pelos últimos profetas, pois desse mito fundador não se deriva nenhum dogma após os primeiros livros. De acordo com as próprias palavras das Escrituras, referendando meu entendimento, só os adeptos mais ortodoxos do Velho Testamento é que insistem na questão da crucificação de Cristo, porque consideram seus ensinamentos em conflito com os dos judeus.”

É interessante ver como Clemente mistura o Novo e o Velho Testamento, tentando estabelecer uma coesão entre ambos; mas, no afã de realizar seus esforços, só o que ele conseguiu, em grande parte, foi preterir o Novo Testamento em prol dos dogmas do Antigo. No começo do terceiro capítulo de sua obra ele objeta ao marcianismo que eles derivem para o paganismo de Platão e Pitágoras ao considerar a criação uma falha ou erro. Marcião, com efeito, ensina que a natureza é má, feita de um material imperfeito, ou seja, invariavelmente má desde a raiz. Para Marcião, não se deve povoar este mundo, mas se abster do casamento.” Schopenhauer, famoso anti-natalista, teve, obviamente, muitos precursores, cristãos ou não.

3.1.2 O PODER SECULAR DO CATOLICISMO

entre os povos monoteístas, ateísmo, ou a falta de Deus, tornou-se sinônimo de ausência de moralidade. Aos padres tais confusões conceituais são bem-vindas e apenas em conseqüência delas pôde originar-se aquele monstro assombroso, o fanatismo, imperando não só sobre indivíduos isolados, perversos e maus além de toda medida, mas também sobre povos inteiros, e, finalmente, o que para a honra da humanidade só aconteceu uma vez em sua história, corporificando-se neste Ocidente como Inquisição, a qual, segundo as mais novas informações finalmente autênticas, somente em Madri (no resto da Espanha havia muito mais desses queimadouros religiosos) em 300 anos matou de modo torturante na fogueira 300 mil pessoas por questões de fé. Convém lembrar tudo isso a todos os fanáticos, sempre que eles queiram levantar a sua voz.”

Por que uma religião necessitaria do sufrágio de uma filosofia? Ela já tem tudo a seu lado – a revelação, a tradição, os milagres, as profecias, o governo, a aristocracia, o consentimento e a reverência da massa, mil templos onde é pregada e praticada, um séquito de vocacionados sob a alcunha de padres e, o que é ainda mais importante que todo o resto, o privilégio nunca superestimado de contar com a liberdade de imprensa para suas doutrinas e o direito de inculcar-se seus dogmas aos novos rebentos por toda parte, o que os converte praticamente em idéias inatas.” “Teria sido mutuamente benéfico se a metafísica cristã ou teologia se tivesse mantido aparte da metafísica laica. Ambas se desenvolveriam a contento em suas próprias potencialidades. Ao invés disso vemos, durante toda a era cristã, o esforço de se engendrar uma fusão de ambas, porque os conceitos e dogmas de uma são aplicados à outra, de forma que as duas se deterioraram.”

Spinoza tinha seus motivos para nomear o que sobrara de Deus em seu sistema substância; assim, se não a coisa, a palavra estava preservada. As estacas de Giordano Bruno e de Vanini estavam ainda frescas na memória; ambos também foram sacrificados por esse Deus em nome de quem um número incomparavelmente maior de homens serviu de bode expiatório no altar consagrado, altar do qual jorrou mais sangue do que os de todos os deuses pagãos dos dois hemisférios somados. Se, considerando esse histórico, Spinoza, nas entrelinhas, chama o mundo de Deus, isso não passa de um subterfúgio para escapar de sua época, e é como se fosse Rousseau, no seu Contrat social, denominando a massa, o conjunto dos homens e cidadãos, de o soberano.”

quando vejo com que cuidado essa época incrédula finaliza as igrejas góticas deixadas inacabadas na crédula Idade Média, me parece que o que desejam é embalsamar uma cristandade morta.”

3.1.3 REFORMA PROTESTANTE

[Que nossas ações são predeterminadas] é uma doutrina cristã original dos evangelhos, defendida por Agostinho, em acordo com os mestres da Igreja, contra as rasteirices dos pelagianos¹ e cuja purificação dos erros e restabelecimento foi o objetivo principal dos esforços de LUTERO, como este o declara expressamente em seu livro De servo arbitrio: a tese de que a VONTADE NÃO É LIVRE² mas está originariamente propensa ao que é mau.”

¹ Cristãos contra a doutrina do pecado original e a favor do livre-arbítrio e de certa faculdade de auto-divinização no homem. Me pergunto como tal seita sobrevive no cristianismo a ponto de ter um verbete no Wikipédia – certamente os primeiros pelagianos foram todos queimados na fogueira; mas imaginar que ainda se organizem!… Parecem mais um braço do paganismo que agride a crença cristã a partir de seu interior! Atenção para a pérola: John Rawls era um crítico do pelagianismo, uma atitude que ele manteve mesmo depois de se converter em ateu. Suas idéias anti-pelagianas influenciaram seu livro A Theory of Justice [mantive no original por não saber qual a tradução oficial – Uma Teoria de Justiça é minha tradução literal], onde ele argumenta que diferenças na produtividade entre os seres humanos são um resultado de ‘arbítrios morais’ e que, em conseqüência, níveis de renda desiguais são imerecidos.” Será uma crítica ao pelagianismo algo central num livro de Direito/Economia?!? Disso eu jamais ouvira falar! Além disso, por mais que eu seja um “justiceiro social”, essa tese é prática e barata como uma mula manca adornada de ouro!

² Não entender este trecho no sentido da Vontade de potência livre/não-livre (diferença traçável entre Sch./Nietzsche num nível metafísico, cf. 6.), mas apenas como negação do livre-arbítrio na discussão te(le)ológica sobre o determinismo (liberdade X necessidade) nas ações e nos assuntos humanos (muito em voga, na religião, na época da reforma protestante e, nas ciências humanas, no século XIX, embora, claro, seja uma discussão infindável).

a contradição entre a bondade de Deus e a miséria do mundo, e entre a liberdade da vontade e a presciência divina, é o tema inesgotável de uma controvérsia quase secular entre cartesianos, Malebranche, Leibniz, Bayle, Klarke, Arnauld (…) todos eles giram incessantemente em círculos (…) i.e., tentam resolver uma soma aritmética que nunca chega a um bom resultado (…) Apenas Bayle mostra que percebeu este problema.” Ainda não tive a felicidade de ler nada “autoral” deste “enciclopedista” avant la lettre! (O Dicionário histórico e crítico é sua obra mais famosa, contendo sinopses das vidas dos maiores pensadores e personalidades – em breve no Seclusão.)

Não se compreende Hume sem antes ler sua História da Religião Natural nem seus Diálogos sobre a Religião Natural. Ali vê-se-o no seu máximo, e ambas as obras, perfiladas com o Ensaio n. 21, ‘Dos caráteres nacionais’, são os escritos que fazem deste homem – e não conheço nenhum outro livro ou ensaio que justifique tanto sua fama – tão odiado pelo clero anglicano até os dias atuais.”

O protestantismo, desde que eliminou o ascetismo e seu ponto central, a santidade do celibato, abandonou, portanto, o que restava do núcleo mais profundo da religião cristã, de modo que chegará o tempo em que reconhecerão que o protestantismo é uma nova religião, separada do cristianismo. Em nossos dias essa tendência se tornou aparente através da lenta transformação dos dogmas protestantes em racionalismo barato, um pelagianismo moderno, que por fim degenera na doutrina do Pai amoroso, quem teria criado o mundo a fim de que as coisas se dessem sempre em felicidade e harmonia (sinal evidente de que ele falhou no processo!), quem também, caso se interprete de forma diferente e se aceitem apenas algumas palavras da Bíblia, promete um mundo futuro ainda mais belo (é uma pena que a entrada para este mundo seja tão sofrida!). Essa pode ser uma boa religião para pastores letrados, casados e bem-estabelecidos economicamente; mas isso nada tem que ver com cristianismo. Cristianismo é a doutrina da profunda culpa da raça humana condenada a viver só, e da esperança de libertação deste estado de miséria, que, porém, só pode ser obtida via os maiores sacrifícios e a negação de si mesmo, ou seja, via uma completa inversão da natureza humana. Lutero pode estar repleto de razão do ponto de vista prático, i.e., quanto aos escândalos da Igreja de seu tempo, que ele queria purificar, mas, quanto à teoria, se engana cabalmente. Quão mais sublime uma doutrina é, mais está exposta a abusos nas mãos da natureza humana, que, como um todo, é de disposição mesquinha e má: natural que o catolicismo se tornasse muito mais vilipendiado que o protestantismo. Em suma, Lutero foi demasiado longe na sua interpretação da Palavra, longe o bastante para aniquilar a nobreza da crença em questão.”

3.2 PRECURSOR ORIENTALISTA: EXALTAÇÃO DO HINDUÍSMO E DO BUDISMO

A mais sábia de todas as mitologias, a indiana, exprime isso dando ao Deus que simboliza a destruição e a morte (como Brama, o deus mais pecaminoso e menos elevado do Trimurti, simboliza a geração e o nascimento, e Vishnu a conservação), Shiva, o atributo do colar de caveiras e, ao mesmo tempo, o linga, símbolo da geração, que aparece como contrapartida da morte.” “Eis por que os sábios ancestrais do povo da Índia expressaram diretamente esse conhecimento nos Vedas, permitido somente às 3 castas regeneradas, ou nas doutrinas sapienciais esotéricas, e isso até onde o conceito e a linguagem o podem apreender e até onde era possível a suas formas de exposição pictórica e rapsódica; na religião popular, todavia, ou doutrina exotérica, isso foi comunicado apenas de maneira mítica.” “Esta [mitologia hindu] é o fim de todas as doutrinas religiosas, na medida em que são roupagens míticas completas da verdade inacessível à tosca inteligência comum.”

Nunca as nossas religiões deitaram ou irão deitar raízes na Índia; a sabedoria ancestral da raça humana não será reprimida pelos acontecimentos na Galiléia. Ao contrário, a sabedoria indiana avança sobre a Europa e produzirá uma mudança fundamental em nosso saber e pensamento.”

Propriamente falando, aquela justiça exacerbada do hindu é mais que justiça, a saber, é já efetiva renúncia, negação da Vontade de vida, ascese (…) Por outro lado, viver sem fazer nada, servindo-se das forças de outrem em meio à riqueza herdada e sem realizar coisa alguma, já pode ser visto como algo moralmente injusto, embora, segundo as leis positivas, tenha de permanecer algo justo.”

Parece-me que, assim como as línguas mais antigas são as mais perfeitas, assim também com as mais antigas religiões. Se eu tomasse os resultados da minha filosofia como o padrão da verdade, seria obrigado a conceder a preeminência ao budismo contra todo o resto.” “Até 1818, quando primeiro apareceu meu trabalho, havia muito pouca informação, excessivamente incompleta e minguada, sobre o budismo na Europa, limitada inteiramente a uns quantos ensaios nos primeiros volumes das Asiatic Researches [Pesquisas Asiáticas, série enciclopédica de várias tendências e autores, segmentada em muitos livros-compilações – mas não superestimar sua relevância contemporânea, já que se trata de pré-antropologia bastante etnocêntrica], focados no budismo dos burmese. Só a partir de então mais dados sobre essa religião nos chegaram, principalmente através dos instrutivos e profundos ensaios do meritório membro da Academia de São Petersburgo J.J. Schmidt, nos relatórios e anuários daquela academia; de pouco em pouco também estudiosos britânicos e franceses enriqueceram o material, a ponto de que eu finalmente pude fornecer uma copiosa lista dos melhores trabalhos em religião, o que fiz em Sobre a Vontade na Natureza, na portada Sinologia. Desafortunadamente Csoma Körösi,¹ húngaro perseverante, que, para estudar a língua e os escritos sagrados do budismo, permaneceu tantos anos no Tibete, e quase sempre em monastérios budistas, morreu justo quando começava a pôr no papel os resultados de suas vastas pesquisas.”

¹ Livros do autor, apesar de sua morte precoce:

Essay towards a Dictionary, Tibetan and English. Prepared, with assistance of Bandé Sangs-rgyas Phuntshogs, Calcutta: Baptist Mission Press, 1834. (parcial ou totalmente disponibilizado pelo Google Books – ainda preciso checar): https://books.google.com/books?id=a78IAAAAQAAJ&printsec=frontcover&dq=csoma&redir_esc=y#v=onepage&q=csoma&f=false;

Analysis of the Dulva, part of the Kangyur, Asiatic Researches, Calcutta, 1836, vol. 20-1, pp. 41-93;

A Grammar of the Tibetan Language in English. Prepared under the patronage of the Government and the auspices of the Asiatic Society of Bengal, Calcutta: Baptist Mission Press, 1834;

Collected works of Alexander Csoma de Körös, Budapest: Akadémiai Kiadó, 1984.

Todos conhecem apenas um ser na imediatez – sua própria vontade autoconsciente. Tudo o mais sabe-se apenas indiretamente, e é julgado em analogia com a própria vontade. Este processo o homem leva adiante na proporção do grau de seus poderes reflexivos. Mesmo estes só emanam em última instância em virtude do fato de que na realidade há apenas um ser; a ilusão do múltiplo (Maja), que provém das formas da compreensão objetiva do exterior, não poderia penetrar a consciência interior, simples e una” Alta relação com 6.

Os ditos filósofos e glorificadores da história são meros realistas, e também otimistas e eudemonistas, conseqüentemente cabeças ocas e o tipo ideal do filisteu. Por fim, são a escória do cristianismo, já que o espírito autêntico, o cerne do cristianismo, como outrossim o do bramanismo e do budismo, é o conhecimento da vaidade da felicidade terrena, o completo desprezo por ela, e o virar o rosto para as aparências, preferindo uma existência de outro tipo, digo, de um tipo oposto. (…) mesmo o budismo ateísta está muito mais relacionado ao cristianismo que o judaísmo otimista ou sua cria, o islamismo.”

os deuses hindus são conhecidos por não piscar os olhos quando aparecem em forma humana.”

Encontramos a doutrina da metempsicose, florescendo nos tempos mais nobres e antanhos da raça humana, espalhada e com efeito sendo a crença sincera da maioria da humanidade; no fundo, até de todas as religiões, com exceção do credo judeu e dos 2 que dele descenderam. Na forma mais sutil de todas, entretanto, esta verdade está exposta na doutrina esotérica do budismo. Enquanto os cristãos se consolam com a idéia de se reencontrarem no outro mundo, no qual o indivíduo recuperaria todos os seus traços de personalidade e reconheceria qualquer face familiar da Terra instantaneamente, nas outras religiões o reencontro com os outros está se dando exatamente agora, só que sem o conhecimento das partes.” O Espiritismo é a terceira e última subreligião monoteísta da decadência. Claro, na outra mão, que se o budismo “tomasse conta da terra”, no sentido nietzschiano, qualquer progresso estaria comprometido, ou ao menos hibernado…

a resignação perfeita, que é o espírito mais íntimo tanto do cristianismo quanto da sabedoria indiana, a renúncia a todo querer, a viragem, a supressão da Vontade e, com esta, da essência inteira do mundo, portanto a redenção.”

No Veda (…) diz-se que quando um homem morre, sua faculdade de ver se torna una com o sol, seu olfato com a terra, seu paladar com a água, sua audição com o ar, sua fala com o fogo, e assim por diante (Upanixade, I, p. 249-ss.); e ainda pelo fato de que, em cerimônia especial, a pessoa moribunda transfere um por um seus sentidos e faculdades inteiras ao filho, como se fosse continuar a viver nele (ibid., II, p. 82-ss.).”

3.3 POLITEÍSMO, PANTEÍSMO, GNOSTICISMO, RELIGIÕES MENORES

Consideremos, por exemplo, o Alcorão. Esse livro deplorável foi o bastante para fundar uma religião ecumênica, de proporções globais, satisfazendo as necessidades metafísicas de inúmeros milhões de homens por 1200 anos, tornando-se o fundamento de sua moral, uma que, aliás, não nutre pouco desprezo pela morte, capaz de inspirar os fiéis a guerras sangrentas e a grandes campanhas militares. O islamismo é a forma mais triste e pobre de teísmo. Decerto que muito pode ter-se perdido nas traduções; mas nunca descobri um só pensamento de valor neste credo. Esse exemplo demonstra que capacidade metafísica não anda de mãos dadas com necessidade metafísica.”

esse estranho hermafrodita ou centauro, a assim chamada filosofia da religião, que, como uma espécie de gnose, tenta interpretar as religiões estabelecidas e explicar o que é o verdadeiro sensu allegorico [sentido alegórico – das Escrituras] mediante algo que seria um verdadeiro sensu proprio [sentido próprio, verdade absoluta – em suma a fil. da rel. tenta interpretar a mensagem espiritual contida nos símbolos, recorrendo à própria mensagem, um absurdo]. Mas para isso teríamos de possuir a verdade em seu sensu proprio desde o início; e neste caso uma interpretação seria supérflua.”

Os judeus decerto foram exitosos, com o fogo e a espada, em expulsar da Europa e de parte da Ásia aquela crença consoladora primitiva da humanidade; mas resta duvidoso por quanto tempo. Quão árdua foi essa tarefa é bem-exposto nas mais antigas histórias da igreja. Maior parte dos hereges era perseguida em virtude da crença na metempsicose neste mundo mesmo; p.ex. os simonistas, os basilidianos, os valentinianos, os marcionistas, os gnósticos e os maniqueus ou maniqueístas. Os judeus mesmo caíram, em parte, nessa heresia, como Tertuliano e Justino (em seus diálogos) nos informam. No Talmud é dito que a alma de Abel migrou para o corpo de Seth, e depois para o de Moisés.”

o que no Novo Testamento nos é, por assim dizer, visivelmente envolto em véu e névoa, aparece-nos desvelado nas obras dos místicos com total clareza e distinção.”

O místico se encontra em oposição ao filósofo por ser aquele que começa pela interioridade, enquanto o filósofo começa pelo mundo exterior.” “O filósofo deve, sendo assim, guardar-se do perigo de cair na senda mística e, p.ex., seguindo intuições intelectuais ou pretensas apreensões imediatas da razão, enveredar pela vã exposição de um conhecimento positivo sobre aquilo que está perpetuamente inacessível a toda modalidade do conhecimento, ou no máximo pode ser filosoficamente obtido pela via indireta do conhecimento negativo facultado ao filósofo.” “Eis que o que se acaba de dizer explica por que meu sistema, quando atinge o ponto culminante, assume um caráter de negação. Meu sistema só pode falar daquilo que é negado, daquilo de que desistimos: o que, com isso, se ganha, o que se torna patrimônio humano, é minha obrigação moral dizer: nada [corroborando as famosas últimas palavras de seu primeiro tomo]. Tudo que se pode acrescentar, ademais, é a consolação de que esse nada é meramente relativo, não um absoluto. Porque se algo é nada, este algo representando tudo aquilo que sabemos, essa conclusão serve para nós, falando em termos gerais. Isso é nada, para o homem. Não segue necessariamente dessa premissa que de qualquer ponto de vista imaginável e em todo sentido possível o que se ganha deva ser nada, mas somente que nós estamos limitados a um conhecimento completamente negativo do que excede o fenômeno, o que justifica a asserção óbvia de que a perspectiva humana é em si mesma imperfeita, errática, insuficiente. Aqui é onde o místico procede de forma positiva, então não recaio em contradição se digo que, a partir desse ponto, só resta a experiência mística. Para aqueles que desejam esse tipo de suplemento ao conhecimento negativo que é o ponto culminante da filosofia ocidental, recomendo escritos místicos os mais ricos e belos que conheço, o Oupnekhat [este nome é o da 1ª tradução européia dos Upanishads, livros sagrados do hinduísmo]. Para além disso, prescrevo as Enéadas (ννεάδες) de Plotino, [o motivo do nome é porque cada capítulo está dividido em 9 partes] os escritos de João Escoto Erígena, certas passagens de Jakob Böhm; e em especial o maravilhoso livro da Madame de Guion, Les Torrens, e o autor Angelus Silesius. Finalmente, não poderia deixar de fora os poemas dos sufistas, [místicos islâmicos] que podem ser encontrados em latim vertidos por Tholuk, além de já existir também em alemão. Os sufistas são o mesmo para o Islã que os gnósticos representam no Ocidente. O teísmo, calculado com referência à capacidade do múltiplo, coloca a fonte da existência fora de nós, como um objeto. Todo misticismo, logo também o sufismo, de acordo com os vários graus de sua iniciação, reposiciona essa fonte gradualmente de volta em nós, como sujeitos, de forma que o adepto reconhece com espanto e deleite que ele mesmo é essa fonte. Esse procedimento, comum a todo misticismo, achamos expresso não só pelo Mestre Eckhart, o pai do misticismo teutônico, na forma de um preceito para o ascetismo perfeito, <o homem não deve procurar Deus fora de si> (edição de Pfeiffer, volume 1), mas também de forma muito ingênua pela própria ‘filha espiritual’ de Eckhart, que procurava Deus no exterior até experimentar a conversão em seu imo. Contando desta etapa de sua vida, ela escreve: <Senhor, rejubila-te comigo, eu me tornei Deus>. O misticismo dos sufistas também se expressa através de uma concórdia análoga com esse espírito, apoiado principalmente na revelação que desperta na consciência de que cada um é o cerne do mundo e a fonte de toda a existência, a quem tudo retorna.” “Correspondendo a essa diferença de concepção, o misticismo maometano apresenta um caráter muito sereno; o misticismo cristão, um melancólico e sombrio; ao passo que o hindu, posando sobre todos os demais, é como que um meio-termo destes extremos.” “A seita quietista, o ascetismo e o misticismo estão inextricavelmente entrelaçados. Todo aquele que prega um deles, ao tomar conhecimento dos ensinamentos dos outros 2 deve necessariamente aceitá-los, mesmo contra seus próprios desígnios.” “Mas a palavra seita, usada em virtude da influência da Igreja no julgamento destas minorias, não deve ser encarada a sério. O membro de uma seita adere, defende e propaga um dogma favorito assim que a ela se converte. Os místicos indianos, cristãos e muçulmanos, os quietistas e os ascéticos são, contudo, diferentes dessa caracterização, salvo na significância interior e espiritual de seus ensinamentos.”

Quem quer que tenha lido tais escritos, comparando seu estilo ao do ascetismo e do quietismo, vendo como este mesmo estilo percorre todas as obras do bramanismo e do budismo, onde se fala, a cada página, das mesmas noções gerais, admitirá, ao cabo, que toda filosofia, que deve, para ser coerente e consistente, rejeitar todo esse modo de pensar, coisa que ela só pode fazer denominando os representantes místicos de impostores ou loucos, deve com toda probabilidade ser falsa. Todos os sistemas europeus, com exceção do meu, são abarcados por esta crítica.” “Nenhuma filosofia pode deixar o tema do quietismo e do ascetismo isento de resolução. Esse tema é, em seu conteúdo, idêntico ao de todas as metafísicas e éticas já elaboradas. Eu espero e desejo que toda filosofia otimista declare-se como tal. Se, no julgamento dos contemporâneos, a coincidência paradóxica e sem precedentes encontrada entre minha filosofia e o ascetismo e o quietismo, se parece com uma enorme rocha que obstrui o caminho, eu, ao contrário, vejo nessa circunstância a prova de sua corretude e de sua verdade, e também um fundamento explicativo de por que minha filosofia é ignorada e na verdade mantida o mais escondida possível pelas universidades protestantes. Porque não somente as religiões do Oriente, mas o próprio cristinismo autêntico estão permeados deste caráter ascético fundamental que minha filosofia explica como a negação da vontade de vida. Vejo que o protestantismo vigente quer a todo custo ocultar essa verdade.” “a cabeça desses homens, infelizmente, bem como a cabeça de milhares de outros na Alemanha do tempo presente, encontra-se distorcida e corrompida pelo hegelianismo miserável, essa escola de tédio, esse centro da incompreensão e ignorância, esse destruidor de mentes, sabedoria espúria, que, ao menos, e já demasiado tarde, começa a ser reconhecido por aquilo que é; logo a veneração de Hegel será relegada à Academia dinamarquesa, para quem até um grosseiro charlatão como ele é um summus philosophus [é o mestre de todos os outros filósofos]HAHAHAHAAHA! O destino de Hegel lembra um pouco o de Wagner: esculhambado por Schopenhauer/Nietzsche, vive até hoje entre nós, bastante arranhado, é verdade, mas ainda ‘recomendado’.

O maniqueísmo é de certo modo um meio-termo entre o otimismo e o pessimismo, uma ponte entre o judaísmo e o cristianismo, como o significado de seu próprio nome já aduz. No Zend-Avesta, Ormuzd, o bom deus, é antagonizado pelo pessimismo de Ahriman. E foi do maniqueísmo que o judaísmo proveio, como J.G. Rhode comprovou extensivamente em seu livro Die heilige Sage des Zendvolks [A palavra sagada dos povos Zend]. Ormuzd é o protótipo de Jeová, e Ahriman o de Satã, que, no entanto, passa a exercer um papel demasiado secundário no credo semita (…) destarte, o mito da queda é o único que permanece como elemento pessimista do Antigo Testamento, e isto ainda assim por mera derivação do maniqueísmo.”

Ocorre que Ormuzd é derivado do bramanismo, embora de uma vertente mais vulgar do bramanismo primitivo. Ele é o avatar de Indra, o deus subordinado do firmamento e da atmosfera, que é representado freqüentemente em rivalidade com os homens. Esta identidade foi muito claramente estabelecida por J.J. Schmidt em seu livro sobre a relação das doutrinas gnóstico-teosóficas com as religiões do Oriente. Indra-Ormuzd-Jeová viria a assumir a figura da divindade cristã, porque essa última religião nasceu na Judéia. No entanto, devido ao caráter cosmopolita do Cristianismo, seu nome foi esquecido e passou-se a denotá-lo pela palavra de cada língua para seres supra-humanos, i.e., TEOS, Deus, que vem do sânscrito Deva (a origem mútua de deus e demônio), ou ainda, entre os gótico-germânicos, God, Gott, que vém de Odin Wodan, Guodan, Godan. Da mesma forma foi que o Islã batizou seu deus de Allah, que também era um nome de divindade na antiga Arábia.” “Na China, a 1ª dificuldade dos missionários proveio do fato de que em Mandarim não há apelação do tipo, nem mesmo palavra que equivalha a ‘criação’; as 3 principais religiões chinesas desconhecem deuses, no plural ou no singular.”

A singular seita dos shakers dos Estados Unidos [desconheço o termo em português para se referir a eles], fundada por uma britânica, Anne Lee, em 1774, possui cerca de 6 mil praticantes, divididos em 15 comunidades. Eles povoam diversos vilarejos dos estados de Nova York e Kentucky, sobretudo no distrito de New Lebanon, perto da cidade de Nassau. A característica fundamental desta vertente cristã é o celibato absoluto e a completa abstenção de qualquer prazer sexual. É unanimemente admito, mesmo pelos ingleses e americanos que os visitam, que deles troçam em qualquer outro respeito, que essa regra é estrita e perfeitamente observada, apesar de que irmãos e irmãs [no sentido lato, i.e., homens e mulheres] ocupem comumemnte as mesmas casas, comam na mesma mesa, até dancem juntos nas cerimônias religiosas da igreja. Quem se abstém honestamente levando adiante o maior autosacrifício instintual pode e deve dançar diante do Senhor, é a idéia central da seita.” O problema de uma seita rara em que ninguém se reproduz (ninguém faz sexo!) é que ela está destinada do começo à mais lenta e morosa das extinções. Veja o Wikipedia dos shakers (link acima para artigo completo), com números um pouco diferentes dos apresentados por Sch. para o séc. XIX (mais comunidades, mas menos membros). “Em 2019, só um vilarejo shaker resta: Sabbathday Lake Shaker Village [a Cidade Shaker do Lago de Sábado], no Maine. Conseqüentemente, muitos dos acampamentos e vilas Shakers antigos, hoje despovoados, se transformaram em museus.” (tradução do Wikipedia English)

Não há famílias e, destarte, não há propriedade privada. Todos se vestem igual, à moda quaker, com grande asseio. São industriosos e diligentes: preguiça e indolência são repudiados. Outra regra da seita é proibir qualquer barulho desnecessário, como gritos, batidas de porta, estalar de chicotes [o terror de Schopenhauer, que já escreveu longamente a respeito dessa prática na Alemanha!], batidas fortes, etc. (…) Eles têm a política de jamais pregar em busca de novos adeptos, mas testam rigorosamente aqueles que se apresentam voluntariamente ao noviciado, durante vários anos. Além disso, todos são livres para deixar a comunidade; o índice de excomunhões por mau comportamento é baixíssimo. Crianças adotadas são educadas muito de perto, mas de modo leigo, sem os dogmas mais severos da crença, e quando se tornam maiores é que podem escolher se juntar à seita. Dizem que nas controvérsias entre os ministros shakers e o clero anglicano, o último costuma levar a pior, porque os shakers argumentam solidamente com base em passagens do Novo Testamento. Mais informações sobre a seita podem ser obtidas em Run through the United States de Maxwell (1841) e em History of all Religions de Benecit (1830)”

Os antigos, embora tão mais avançados quanto a tudo o mais, continuaram crianças com respeito ao principal, e foram superados nesse quesito até mesmo pelos druidas, que ao menos ensinavam a metempsicose. Que um ou dois filósofos, como Pitágoras e Platão, pensassem diferente do resto dos gregos não muda nada.” Enigma: quem é mais burro, aquele que só entende alegorias ou aquele que só entende a mensagem direta? Ao contrário do que Schopenhauer pensa, creio que tanto a religião quanto a filosofia sejam um híbrido destas duas (para ele a filosofia é uma vocação seleta por lidar com a mensagem direta, a bíblia, p.ex., apenas conta estórias morais, etc.). Nada mais ilusório. Nesse sentido, Platão seria um superfilósofo inacessível até para os prosaicos filósofos… E o que dizer da simplicidade com que a massa abraça um culto tão ‘esotérico’? Talvez porque ele não o seja (tanto).

3.4 ÉTICA: O DILEMA DE CILA OU CARIBDE: ACEITAÇÃO DO FENÔMENO OU ASCETISMO

remanesce sempre a forma do tempo, e o ser objeto e sujeito do conhecimento em geral. Nessa sabedoria inerente a coisa-em-si despiu, em grande medida, seu véu, mas não está ainda de todo nua. Em virtude da forma que o tempo possui, sempre aderido a esta coisa-em-si, todo mundo conhece sua vontade somente em seus atos sucessivos, e nunca como um todo, em e para si: por conseguinte, ninguém conhece seu caráter a priori, senão que aprende a conhecê-lo através da experiência, e sempre de modo incompleto.”

OLAVO DE CARVALHO IN A NUTSHELL: “Nada é mais exasperante, quando debatemos contra um homem sem razões e muito menos argumentos, de modo que nós tentamos de tudo para convencê-lo de nossa perspectiva, sob a impressão de que tudo que importa no problema é seu entendimento, nada é mais exasperante, eu dizia –– que descobrir de súbito que ele não quer entender, ou antes que ele quer não-entender; que nossa única maneira de vencer o debate seria apelando para sua vontade e disposição, que se encontra fechada contra a verdade. E quando esta disposição fechada se torna pública, essa circunstância só estimula seu dono a invectivar contra os outros ainda mais, utilizando-se de barafundas deliberadas, chicanas e sofismas, a fim de se entrincheirar detrás de seu falto entendimento e de sua falta de insight, crendo-se, através desse método agressivo, refugiar em lugar seguro. Logo, enquanto assim for, esse homem não será enleado e manterá suas convicções, porque bons argumentos e provas aplicadas contra a vontade (o temperamento) são como os golpes de um fantasma desferidos contra um corpo sólido.”

Não posso estabelecer, como é sempre estabelecida, a diferença fundamental entre todas as religiões sobre a questão de se são monoteístas, politeístas, panteístas ou ateístas, mas unicamente sobre a questão de se elas são otimistas ou pessimistas, quer seja, se apresentam a existência do mundo como justificada em si mesma, e destarte a louvam e valorizam, ou se entendem a existência como mera conseqüência de nossa culpa, e destarte concluem que não deveríamos ser, pois reconhecem que a dor e a morte nada têm que ver com a ordem eterna, original e imutável de todas as coisas, como o mundo devera ser. O poder que permitiu ao cristianismo superar o judaísmo, e depois todo o paganismo greco-romano, subjaz tão-só em seu pessimismo, na confissão de que nossa condição é igualmente pecaminosa e amaldiçoada, ao passo que o judaísmo e o helenismo eram otimistas.”

maldade extraordinária (…) exemplos desse tipo são: Ricardo III, Iago em Otelo, Shylok em O mercador de Veneza, Franz Moor [Schiller], Fedra de Eurípides, Creonte em Antígona“Shakespeare nos apresenta na figura do Cardeal de Beaufort (Henrique VI Parte II) o terrível fim de um facínora que morre cheio de desespero, pois nem sofrimento nem morte podem quebrar sua vontade veemente, que ia até o extremo da crueldade.”

seria tão tolo esperar que nossos sistemas morais e éticos criassem caracteres virtuosos, nobres e santos quanto que nossas estéticas produzissem poetas, artistas plásticos e músicos.”

neste livro de ética não se devem esperar prescrições nem doutrinas do dever, muito menos o estabelecimento de um princípio moral absoluto parecido a uma receita universal para a produção de todas as virtudes. Também não falaremos de ‘DEVER INCONDICIONADO’, porque este (…) contém uma contradição, nem tampouco falaremos de uma ‘lei para a liberdade’Clara oposição a Kant.

A filosofia de Bruno não possui uma ética propriamente dita, e a ética da filosofia de Spinoza não procede absolutamente da essência de sua doutrina, mas, apesar de bela e louvável, é adicionada a ela simplesmente por meio de fracos e palpáveis sofismas.”

Meu único fim, pois, só pode ser expor a afirmação e a negação, [da vontade de vida] trazendo-as ao conhecimento distinto da faculdade racional, sem prescrever nem recomendar uma ou outra”

toda pessoa tosca, seguindo seu sentimento, defende ardorosamente a plena liberdade das ações individuais, embora os grandes pensadores de todas as épocas, inclusive os doutrinadores religiosos mais profundos, a tenham negado.”

Ponderemos pelo que decidiremos no momento da aparição das circunstâncias, que nos permitiriam atividade e decisão livres. Na maioria das vezes a ponderação racional, que vê longe, fala antes em favor de uma decisão; já a inclinação imediata, por sua vez, fala em favor de outra. Enquanto, compelidos, permanecemos passivos, o lado da razão aparentemente tende a ganhar a preponderância; entretanto, já antevemos fortemente o quanto o outro lado irá nos atrair quando a oportunidade para agir se fizer presente. Porém, até lá nos esforçaremos zelosamente, por fria meditação dos pro et contra, em alumiar o mais claramente os motivos dos 2 lados, a fim de que cada um possa com toda a sua força fazer efeitos sobre a vontade quando o momento preciso se apresentar, e, com isso, nenhum erro da parte do intelecto desvie a vontade para decidir-se de modo diferente do que faria se tudo fizesse efeito equanimemente. Semelhante desdobrar distinto dos motivos em dois lados é, no entanto, tudo o que o intelecto pode fazer em relação à escolha. A decisão propriamente dita é por ele esperada de modo tão passivo e com a mesma curiosidade tensa como se fosse a de uma vontade alheia. De seu ponto de vista, entretanto, as duas decisões têm de parecer igualmente possíveis: isso justamente é o engano da liberdade empírica da vontade. (…) O intelecto nada pode fazer senão clarear a natureza dos motivos em todos os seus aspectos, porém sem ter condições de ele mesmo determinar a vontade, pois esta lhe é completamente inacessível, sim, até mesmo, como vimos, insondável.”

como Kant ensina, e toda a minha exposição torna necessário, se a coisa-em-si reside fora do tempo e de toda forma do princípio de razão, segue-se que não apenas o indivíduo tem de agir de maneira igual em situação igual e que cada ação má tem de ser a garantia segura de inumeráveis outras que ele TEM DE levar a cabo, e não PODE deixar de fazê-lo, mas também que, como Kant ainda diz, caso apenas fossem dados, de maneira completa, o caráter empírico e os motivos, a conduta futura do homem poderia ser calculada como um eclipse do sol ou da lua. (…) A Vontade, cujo fenômeno é toda a existência e vida do homem, não pode mentir no caso particular. O que o homem quer em geral sempre quererá no particular.

A defesa de uma liberdade empírica da vontade, vale dizer, do liberi arbitrii indifferentiae, está intimamente ligada ao fato de se ter colocado a essência íntima do homem numa ALMA, a qual seria originariamente uma entidade QUE CONHECE, sim, propriamente dizendo, uma entidade abstrata QUE PENSA, e só em conseqüência disto algo QUE QUER. Considerou-se, assim, a Vontade como de natureza secundária, quando em realidade o conhecimento o é. A Vontade foi até mesmo considerada como um ato de pensamento e identificada com o juízo, especialmente por Descartes e Spinoza. De acordo com isso, todo homem teria se tornado o que é somente em conseqüência de seu CONHECIMENTO. Chegaria ao mundo como um zero moral

Seu caráter é originário, pois querer é a base de seu ser. Pelo conhecimento adicionado ele aprende no decorrer da experiência o QUÊ ele é, ou seja, chega a conhecer seu caráter. [e não mudar]

o homem é sua própria obra antes de todo conhecimento, e este é meramente adicionado para iluminá-la. Daí não poder decidir ser isto ou aquilo, nem tornar-se outrem, mas É de uma vez por todas, e sucessivamente conhece o QUÊ é. Pela citada tradição, ele QUER o que conhece; em mim ele CONHECE o que quer.” Em última instância, como será aprofundado em 6., conhecer-se a si mesmo (Sócrates) e tornar-se aquilo que se é (Nietzsche) são uma e a mesma coisa.

o dogma da predestinação (…) Romanos 9:11-24, o qual é manifestamente derivado da intelecção do homem como imutável, de tal maneira que sua vida e conduta, o seu caráter empírico, são apenas o desdobramento do caráter inteligível, são apenas o desenvolvimento de decididas e imutáveis disposições já reconhecíveis na criança.”

a conduta de um homem pode variar notavelmente sem que com isso se deva concluir sobre a mudança em seu caráter. O que o homem realmente e em geral quer, a tendência de seu ser mais íntimo e o fim que persegue em conformidade a ela, nunca pode mudar por ação exterior sobre ele, via instrução, do contrário, poderíamos recriá-lo.”

a uma juventude arrebatada, selvagem, pode seguir-se uma idade madura, ordenada e judiciosa.”

no começo somos todos inocentes, e isto apenas significa que nem nós, nem os outros, conhecemos o mal de nossa própria natureza (…) Ao fim, nos conhecemos de maneira completamente diferente do que a priori nos considerávamos, e então amiúde nos espantamos conosco mesmos.

ARREPENDIMENTO nunca se origina da Vontade ter mudado (algo impossível), mas de o conhecimento ter mudado.”

para enganar a si mesmas, as pessoas fingem precipitações aparentes, que em realidade são ações secretamente ponderadas. Porém mediante tais truques sutis não enganamos nem adulamos ninguém, senão a nós mesmos.”

O peso de consciência em relação a atos já cometidos não é arrependimento, mas dor sobre o conhecimento de nosso si mesmo

pensamentos abstratos. São estes que amiúde nos são insuportáveis, criam tormentos, em comparação com os quais o sofrimento do mundo animal é bastante pequeno.”

seria esforço vão trabalhar numa melhora do próprio caráter (…) sendo preferível submeter-se ao fatídico, entregando-se a toda inclinação, mesmo as más.”

Ao lado do caráter inteligível e do empírico, deve-se ainda mencionar um terceiro, diferente dos dois anteriores, a saber, o CARÁTER ADQUIRIDO, o qual se obtém na vida pelo comércio com o mundo e ao qual é feita referência quando se elogia uma pessoa por ter caráter, ou se a censura por não o ter.” Schopenhauer só se complica tentando aperfeiçoar seu sistema e acrescentar cada vez mais coisas. Se ele tivesse feito uma obra bem menor, seria um clássico imortal da filosofia, coisa que quase já é, sem reparos a acrescentar! Não existem 2 caráteres, muito menos 3!

Ora, se a pessoa segue apenas as aspirações que são conformes ao seu caráter, sente, em certos momentos e disposições particulares, estímulo para aspirações exatamente contrárias e incompatíveis entre si: nesse sentido, se quiser seguir aquelas primeiras sem incômodo, estas últimas têm de ser completamente refreadas.” “assim como, de acordo com a doutrina do direito de Hobbes, cada um de nós tem originariamente o direito a todas as coisas, mas não o exclusivo a cada uma delas, e no entanto se pode obter o direito exclusivo a coisas individuais renunciando-se ao direito a todas as demais, enquanto os outros fazem o mesmo em relação ao que escolheram; exatamente assim também se passa na vida, quando só podemos seguir com seriedade e sucesso alguma aspiração determinada, seja por prazer, honra, riqueza, ciência, arte ou virtude, após descartarmos todas as aspirações que lhe são estranhas, renunciando a tudo o mais.”

embora (…) siga o próprio caminho guiado por seu demônio interior (…) a muitos invejará em virtude de posição e condição que, no entanto, convêm exclusivamente ao caráter deles, não ao seu, e nas quais se sentiria antes infeliz, até mesmo sem as conseguir suportar. Pois assim como o peixe só se sente bem na água, o pássaro no ar, a toupeira debaixo da terra, todo homem só se sente bem na sua atmosfera apropriada.”

muitos fazem os mais diversos e fracassados tipos de tentativa, violam o próprio caráter no particular e ainda têm de se render novamente a ele no todo: aquilo que conseguem tão penosamente contra a própria natureza não lhes dá prazer algum. O que assim aprendem permanece morto. Até mesmo do ponto de vista ético, um ato demasiado nobre para o seu caráter e nascido não de um impulso puro, imediato, mas de um concerto, de um dogma, perderá todo o mérito até mesmo aos seus olhos num posterior arrependimento egoístico.”

Assim como só pela experiência nos tornamos cônscios da inflexibilidade do caráter alheio e até então acreditávamos de modo pueril poder através de representações abstratas, pedidos e súplicas, exemplos e nobreza de caráter fazê-lo abandonar seu caminho, mudar seu modo de agir, despedir-se de seu modo de pensar, ou até mesmo ampliar suas capacidades; assim também se passa conosco.” “Conhecemos, portanto, o gênero e a medida de nossos poderes e fraquezas, economizando assim muita dor.” Guardaremo-nos de tentar aquilo que não nos permitirá ser bem-sucedidos.” “Amiúde alguém assim partilhará a alegria em sentir seus poderes e raramente experimentará a dor em ser lembrado de suas fraquezas, o que se chama humilhação” “Eis por que nada é mais salutar para nossa tranqüilidade de ânimo que a consideração do já-acontecido a partir do ponto de vista da necessidade, de onde todos os acasos aparecem como instrumentos de um destino soberano.”

A ESTAGNAÇÃO SCHOPENHAUER-CAMUS: “O desenvolvimento mais claro de tudo isso, o tema capital deste último livro, foi-nos preparado e facilitado pelas considerações entrementes expostas sobre liberdade, necessidade e caráter. Porém, tais considerações se tornarão ainda mais claras após as termos colocado novamente e dirigirmos nosso olhar para a vida mesma, cujo querer ou não-querer é a grande questão” A vida só quer.

De modo algum o tédio é um mal a ser desprezado; por fim ele pinta verdadeiro desespero no rosto.” “Também em toda parte, por meio da prudência estatal, são implementadas medidas públicas contra o tédio, como contra outras calamidades universais; porque esse mal, tanto quanto seu extremo oposto, a fome, pode impulsionar o homem aos maiores excessos: o povo precisa panem et circenses. O rígido sistema penitenciário da Filadélfia torna, pela solidão e inatividade, o mero tédio um instrumento de punição (…) Na vida civil, o tédio é representado pelo domingo, e a necessidade pelos 6 dias da semana.” “Quando desejo e satisfação se alternam em intervalos não muito curtos nem muito longos, o sofrimento ocasionado por eles é diminuído ao mais baixo grau, fazendo o decurso de vida o mais feliz possível.”

os obtusos: (…) para a maioria dos homens, as fruições intelectuais são inacessíveis. Eles são quase incapazes de alegria no puro conhecimento: estão completamente entregues ao querer.”

os jogos de carta, que, no sentido mais próprio do termo, são a expressão do lado deplorável da humanidade.” Entender como nossos jogos de azar.

Os esforços infindáveis para acabar com o sofrimento só conseguem a simples mudança da sua figura, que é originariamente carência, necessidade, preocupação com a conservação da vida. Se, o que é muito difícil, obtém-se sucesso ao reprimir a dor nesta figura, logo ela ressurge em cena, em milhares de outras formas (variando de acordo com a idade e as circunstâncias), como impulso sexual, amor apaixonado, ciúme, inveja, ódio, angústia, ambição, avareza, doença, etc. Finalmente, caso não ache a entrada em nenhuma outra figura, assume a roupagem triste, cinza do fastio e do tédio, contra os quais todos os meios são tentados. Mesmo se em última instância se consegue afugentar a estes, dificilmente isso ocorrerá sem que a dor assuma uma das figuras anteriores, e assim a dança recomeça do início, pois entre dor e tédio, daqui para acolá, é atirada a vida do homem.”

uma convicção viva produzirá um grau significativo de equanimidade estóica, e reduzirá consideravelmente a preocupação angustiada acerca do próprio bem-estar. Contudo, em realidade um tal controle tão poderoso da razão sobre o sofrimento imediatamente sentido raramente ou nunca é encontrado.”

a paradoxal mas não absurda hipótese de que em cada indivíduo a medida da dor que lhe é essencial se encontraria para sempre determinada através de sua natureza

grandes sofrimentos tornam todos os pequenos totalmente insensíveis e, ao inverso, na ausência de grandes sofrimentos até mesmo as menores contrariedades nos irritam e atormentam (…) quando uma grande infelicidade, cujo mero pensamento antes nos estremecia, de fato ocorre, nossa disposição permanece no todo inalterável após a imediata superação da primeira dor; por outro lado, logo após o aparecimento de uma felicidade longamente ansiada, não nos sentimos no todo e duradouramente muito melhores ou mais contentes do que antes.”

CONCORDE COM GRODDECK, O PAI DA PSICOSSOMÁTICA: “o motivo externo de tristeza não passa daquilo que para o corpo é um vesicatório,¹ o qual atrai para si todos os humores ruins que, do contrário, espalhar-se-iam pelo organismo. A dor encontrada em nosso ser nesse período de tempo, e portanto inevitável, seria, sem as causas exteriores determinadas do sofrimento, repartida em centenas de pontos, aparecendo na figura de centenas de outras contrariedades ou caprichos sobre coisas que agora ignoramos inteiramente”

¹ “Que faz nascer bolhas na pele” (para combater um mal maior).

tanto o júbilo quanto a dor excessivos se fundam sempre sobre um erro ou um engano: conseqüentemente, essas duas tensões excessivas da mente podem ser evitadas por intelecção.” “A ética estóica empenhava-se sobretudo por livrar a mente de todo esse engano e suas conseqüências”

E assim se passam as coisas, ao infinito, ou, o que é mais raro e pressupõe uma certa força de caráter, até que encontremos um desejo que não pode ser satisfeito nem suprimido: então, por assim dizer, temos aquilo que procurávamos, a saber, algo que a todo momento poderíamos acusar, em vez do nosso próprio ser, como a fonte dos sofrimentos, que nos divorcia de nossa sorte, porém nos reconcilia com a nossa existência, na medida em que novamente temos conhecimento de que, a ela mesma, o sofrimento é essencial e a satisfação verdadeira é impossível. A conseqüência dessa última forma de desenvolvimento é uma certa disposição melancólica, o sustento contínuo de uma única, grande dor, que faz desdenhar todos os sofrimentos ou alegrias pequenos; por conseguinte um fenômeno muito mais digno que a frenética correria por sempre novas formas de ilusão, coisa muito mais usual.”

É sempre uma exceção se um semelhante decurso de vida sofre uma interferência e, devido a um conhecer independente do serviço da vontade e direcionado à essência do mundo em geral, conduz à demanda pela contemplação estética ou à demanda pela renúncia ética.” Schopenahuer confunde: onde advém a contemplação, não é certo que deva haver renúncia ética (à ação). Nem onde há participação coletiva há necessariamente sua presença. Além disso, aquilo que é independente da Vontade, e portanto se escora exclusivamente no fenômeno, certamente se interessa pelas coisas do mundo, de forma ativa, não-contemplativa. Um estóico que descobrisse a Vontade antes de Sch. estaria além do envolvimento ou contemplação (gozo) estético, e, aí sim, sem dúvida, seria o perfeito indiferente ético. Porém essa figura é utópica.

A justiça eterna furta-se ao olhar turvado pelo conhecimento que segue o princípio de razão, o principium individuationis. (…) Vê o homem mau, após perfídias e crueldades de todo tipo, viver em alegria e deixar o mundo sem ser incomodado. Vê o oprimido arrastar-se numa vida cheia de sofrimento, até o seu fim, sem que apareça um vingador ou retaliador. Mas só conceberá e aprenderá a justiça eterna quem se elevar por sobre o conhecimento que segue o fio condutor do princípio de razão, atado às coisas particulares; assim fazendo, conhece as Idéias [a Vontade; vide 4.], vê através do principium individuationis e percebe que as formas do fenômeno não concernem à coisa-em-si. É só uma pessoa assim que, em virtude desse mesmo conhecimento, pode compreender a essência verdadeira da virtude

EXPLICITAÇÃO DA FÓRMULA DO NIILISMO NEGATIVO: “podemos, metafórica e figurativamente, chamar a total auto-supressão e negação da Vontade, sua verdadeira ausência, unicamente o que acalma e cessa o ímpeto da Vontade para todo o sempre” “podemos chamar essa total auto-supressão e negação da Vontade de bem absoluto, summum bonum, e vê-la como o único e radical meio de cura da doença [a existência mesma] contra a qual todos os outros meios são anódinos, meros paliativos.”

mediante a moral e o conhecimento abstrato em geral, nenhuma virtude autêntica pode fazer efeito, mas esta tem de brotar do conhecimento intuitivo, [temperamento, caráter] o qual reconhece no outro indivíduo a mesma essência que a própria.” “pode-se tão pouco formar um virtuoso por meio de discursos morais e sermões quanto formar um único poeta com todas as estéticas desde Aristóteles.”

Seria em realidade muito funesto se a principal coisa da vida humana, o seu valor ético, válido pela eternidade, dependesse de algo cuja obtenção está submetida tão ao acaso quanto os dogmas, as crenças religiosas, os filosofemas.”¹ “Decerto os dogmas podem ter uma forte influência sobre a CONDUTA, sobre os atos exteriores, assim como o têm o hábito e o exemplo (neste último caso porque o homem ordinário não confia em seu juízo, de cuja fraqueza está consciente, seguindo apenas a experiência própria ou de outrem); mas com isso a disposição de caráter não mudou. (…) Todo conhecimento comunicável só pode fazer efeito sobre a vontade exclusivamente como motivo. (…) o que o homem verdadeiramente e em geral quer sempre permanece o mesmo. Se adquirir outros pensamentos, foi meramente sobre as vias para alcançar esse fim; motivos imaginários podem guiá-lo como se fossem reais.”

¹ Aqui vale lembrar: Gustave Le Bon tampouco foi um pioneiro.

Eis por que quase nunca podemos julgar com acerto moral os atos de outrem e raras vezes os nossos. – Os atos e as maneiras de agir de um indivíduo e de um povo podem ser bastante modificados por dogmas, pelo exemplo e pelo hábito. Porém, em si, todos os atos (opera operata) são meras imagens vazias; só a disposição de caráter que conduz a eles fornece-lhes sentido moral. Este, por sua vez, pode em realidade ser o mesmo, apesar da diversidade exterior dos fenômenos. Com grau igual de maldade um homem pode morrer na guilhotina e outro pacificamente no regaço de seus parentes. Pode ser o mesmo grau de maldade o que se expressa em UM povo nos traços crus do assassino e do canibalismo, e em OUTRO fina e delicadamente in miniature nas intrigas da côrte.”

O homem nobre nota que a diferença entre si e outrem, que para o mau é um grande abismo, pertence apenas a um fenômeno passageiro e ilusório, reconhece imediatamente, sem cálculos, que o Em-si do seu fenômeno é também o Em-si do fenômeno alheio, a saber, aquela Vontade de vida constitutiva da essência de qualquer coisa, que vive em tudo”

O direito do homem à vida e à força dos animais baseia-se no fato de que, com o aumento da clareza de consciência, cresce em igual medida o sofrimento, e a dor, que o animal sofre através da morte e do trabalho, não é tão grande quanto aquela que o homem sofreria com a privação de carne ou de força do animal. O homem, pois, na afirmação de sua existência, pode ir até a negação da existência do animal, e a Vontade de vida no todo suporta aí menos sofrimento que no caso inverso. Isso ao mesmo tempo determina o grau de uso que se pode fazer das forças animais sem cometer injustiça, o que, entretanto, é freqüentemente desrespeitado, particularmente em relação aos animais de carga e aos cães de caça; contra o quê, portanto, a sociedade protetora dos animais em especial orienta sua atividade. Aquele direito do homem, na minha opinião, não se estende à vivissecção, sobretudo em animais superiores. Já o inseto não sofre tanto através da sua morte quanto o homem sofre com a sua picada. – Isto os hindus não o perceberam.” “Parece até mesmo que a difícil passagem da Bíblia, Romanos 8:21-24, pode ser interpretada nesse sentido.”

o estado de voluntária renúncia, resignação, verdadeira serenidade (…) [E seu oposto:] As promessas da esperança, as adulações do tempo presente, a doçura dos gozos, o bem-estar que fazem a nossa pessoa partícipe da penúria de um mundo sofrente sob o império do acaso e do erro atraem-nos novamente ao mundo e reforçam os nossos laços de ligação com ele.”

Sua Vontade se vira; ela não mais afirma a própria essência espelhada no fenômeno, mas a nega. (…) a transição da virtude à ASCESE.”

Quem atingiu o 2º patamar ainda sempre sente – como corpo animado pela vida, fenômeno concreto da Vontade – uma tendência natural à volição de todo tipo, porém a refreia intencionalmente, ao compelir a si mesmo a nada fazer do que em realidade gostaria de fazer: ao contrário, faz tudo o que não gostaria de fazer, mesmo se isto não tiver nenhum outro fim senão justamente o de servir à mortificação da Vontade.” Nesse ‘estágio’ “o lado doce da vida” fica eternamente trancado – porém reavivado com persistência – dentro dos sonhos.

ISSO ESTÁ PARA ALÉM DO ESTÓICO (UTÓPICO ALÉM DO UTÓPICO): “todo sofrimento exterior trazido por acaso ou maldade, cada injúria, cada ignomínia, cada dano são-lhe bem-vindos. Recebe-os alegremente como ocasião para dar a si mesmo a certeza de que não mais afirma a Vontade, mas alegremente toma partido de cada inimigo fenomênico da Vontade, inimigo esse que é a sua própria pessoa.” Talvez, portanto, quando diz “dar a outra face”, o Evangelho seja mais impraticável que o próprio estoicismo, tido tantas vezes como um Sermão da Montanha exagerado…

SUPERVALORIZAÇÃO? “sua obra-prima imortal Fausto, exposição essa ao meu ver inigualável poeticamente, na história do sofrimento de Gretchen. Esta é um perfeito modelo do segundo caminho que conduz à negação da Vontade, não, como o primeiro, pelo mero conhecimento adquirido livremente do sofrer de um mundo inteiro, mas através da dor excessiva sentida na própria pessoa.” Schopenhauer às vezes parece um garoto que tudo vê pelas lentes de sua idéia fixa. Mas todos os filósofos devem ser crianças, em grau menor ou maior!

Um caráter deveras nobre é sempre pensado por nós com um certo traço de tristeza silenciosa, que de modo algum se deve ao constante desgosto ligado às contrariedades cotidianas (este seria antes um traço ignóbil e faria temer uma disposição má de caráter mau).”

a negação da Vontade de vida, ou – é o mesmo – a resignação completa

Ora, como em conseqüência de tal efeito da graça toda a essência do homem é radicalmente mudada e revertida, de tal forma que ele nada quer do que até então veementemente queria, logo, em conseqüência do efeito da graça, RENASCIMENTO. Pois o que ela chama de HOMEM NATURAL, a quem nega toda capacidade para o bem, é justamente a Vontade de vida – que tem de ser negada, caso a redenção de uma existência como a nossa deva ser alcançada. Em realidade, por trás da nossa existência encrava-se algo outro, só acessível caso nos livremos do mundo.” Um papel lamentável de carrasco, senhor Último Homem! Essencialmente, um Platão insatisfeito… Em seguida seu “trunfo” é citar Romanos 8:3, como se ainda estivéssemos na idade média e não no século XIX!

CIRCUNSTÂNCIA X CONSTÂNCIA, CARÁTER X APARÊNCIA, ESSÊNCIA X SUPERFÍCIE, DOR E PRAZER CONTRA O INCONSCIENTE OU GÊNIO PESSOAL: “Se, por exemplo, sozinhos conosco mesmos, pensamos sobre nossas circunstâncias mais pessoais e, eventualmente, representamos vivamente e no nosso presente imediato a ameaça de um perigo verossímil e a possibilidade de um desfecho trágico após sua ocorrência, logo a ansiedade se produz, comprimindo nosso coração, diminuindo a circulação do sangue nas veias. Mas se, logo em seguida, nosso intelecto passa de uma possibilidade indesejada para seu oposto, dando asas à imaginação e livre curso a esperanças e alegrias longamente cultivadas, nosso pulso se acelera novamente, o sangue corre impetuoso e o coração se sente leve como uma pluma, pelo menos até o intelecto acordar de seu devaneio. Suponha então que uma ocasião suscite à memória insultos e agravos sofridos muito tempo atrás: de supetão, a raiva e o amargor encherão nosso peito, que há um segundo estava imerso em tranqüilidade. Imagine também que venha à tona, por acidente, a imagem de um antigo amor, agora perdido, carregando consigo toda a cadeia de pensamentos a ele atrelada: todas as nuances do romance uma vez vivido, seus momentos mais mágicos em relevo; essa raiva que havia brotado de súbito dará lugar instantaneamente a um profundo pesar e à melancolia. E, finalmente, se nos ocorre algum incidente humilhante e vexatório, afundamos e desmilingüimos de pronto. Gostaríamos de desaparecer da vista de todos, e da nossa mesma. Ruborizamos, acanhados. Nossa reação mais natural é tentar distrair o espírito emitindo alguma exclamação, como se fosse para espantar um espírito mau. Vê-se que o intelecto joga, brinca, manipula: a Vontade apenas dança conforme a música. Sim, o intelecto é o maestro dessa composição,¹ e faz a Vontade representar o papel duma criança jogada de um lado para outro em cenários de dor e prazer, de exuberância e de pavor alternados, conforme uma babá que conta uma estória bem variada, multifacetada e envolvente. Isso só é possível porque a Vontade existe por si mesma sem conhecimento, e nossa faculdade do entendimento, [o a priori kantiano] uma vez aplicada a ela, não dispõe, por si mesma, de uma <Vontade>. Assim, parece que a primeira é uma eterna marionete, a última um titereiro, único canal para a manifestação dos motivos dos movimentos do boneco.

[¹ Talvez apenas no homem fraco, vencido?]

Em que pese esse esquema desalentador, a primazia última da Vontade se torna uma certeza absoluta no juízo do analista perspicaz e insistente, isto é, do homem que conquista um certo autodomínio e procede à reversão desta Vontade: [autodomínio: subjugação do intelecto, pois ele é naturalmente incontrolável, e a Vontade é que deve sobrepujá-lo por completo, deixar de ser só a carroça!] de joguete do intelecto, a Vontade passa em última instância a exercer importantes proibições ao intelecto (à imaginação). [Mas esta disciplina schopenhaueriana parece ainda muito fraca diante do que tenho em mente quando falo da verdadeira supremacia da Vontade sobre a cognição!] Associações inteiras de idéias são em última instância bloqueadas. É um aprendizado derivado do próprio intelecto, [e por isso tão limitado] utilizável pela Vontade. O sujeito, após repetidas teatralizações e recorrências do mesmo vendaval de sentimentos, chega à conclusão de que, deixado desimpedido, o intelecto despertaria emoções nem sempre interessantes à Vontade, como as circunstâncias debilitantes descritas mais acima. Neste ponto – e só neste ponto –, ocorre uma inflexão, análoga ao do cavaleiro sobre a cavalgadura. É bem esse o vocabulário: a Vontade toma as rédeas, e dirige o intelecto a fim de evitar, doravante, certas estradas e paisagens já conhecidas e indesejadas. A princípio essa reviravolta de marionete em cavaleiro parece fantástica, mas todo aquele que já sentiu o vigor do impulso inicial da Vontade decidida em empreender essa torção sabe que a continuidade do processo ocorre mais por inércia do que por esforço continuado: o essencial é a decisão original da Vontade em virar o jogo e inverter os papéis.² A resistência nesse novo jogo de jóquei não provém do intelecto, como se poderia pensar, pois a imaginação do sujeito se conserva eternamente indiferente às emoções – a resistência vem da própria Vontade, quando não decidida o suficiente. A Vontade é sempre instável e oscilante, [não seria o intelecto? e o intelecto que deixa a Vontade assim?] e terá, ora mais ora menos, certa inclinação ou propensão a uma determinada variante de representações coerentes entre si. Jamais as inclinações da Vontade deixarão de ser ambíguas num certo grau, porque a Vontade em si mesma, impossível de ser ‘flagrada’ diretamente, se apresentará ao sujeito (a Si mesmo, à Vontade mesma, por intermédio do intelecto, que a interpreta) ora sob um aspecto em que exalta e endeusa uma idéia, ora sob um outro aspecto em que abomina e odeia esta mesma idéia – como que por capricho. O que move a Vontade é um interesse não-valorativo, i.e., tal coisa instiga, excita a Vontade – não interessa o prazer ou o desprazer desta excitação em si mesma. O conhecimento abstrato – o intelecto – do sujeito é que revelará, com o passar do tempo, que determinada representação ou idéia seguirá ‘atormentando’ o sujeito, sem meta clara nem qualquer lógica.³ Então por que um teatro tão exaustivo? Em conformidade com o aprendizado do conhecimento abstrato, a Vontade dirigirá sua propensão a evitar ao máximo a sensação do tormento, [mas deveria apenas ignorá-lo!] de modo a dirigir com mais sentido sua ‘busca’ ou ‘atuação’. É assim, mediante as próprias descobertas, que o intelecto abstrato acaba sendo compelido a colaborar mais e mais com a Vontade, que antes submetia por completo. Na linguagem das ruas, a aquisição desta sabedoria e desta capacidade de torná-la prática e configuradora do caráter individual é o que se chamaria <tornar-se o senhor de si mesmo>. [ou tornar-se o que se é] Não há dúvida de que o senhor desta frase é a Vontade, e o servo (o si mesmo) é o intelecto. É sempre a Vontade que prevalece[ria] no homem que se desenvolve até a última instância, [o homem redimido, transvalorado] sendo seu verdadeiro núcleo, o íntimo do Ser mesmo.”

² Isso é o mesmo que o salto da fé de Kierkegaard.

³ Cf. o protagonista de O Eterno marido, de Dostoievski.

Eu não acredito que Baltasar Gracián estava correto quando disse (Discreto, p. 406), <Não há simplório que não seja malicioso>, embora ele tenha o provérbio espanhol em seu favor: <Nunca a necedade caminhou sem malícia>. Porém, pode acontecer de muitas pessoas estúpidas se tornarem maliciosas pela mesma razão de muitos corcundas, por amargor diante da negligência sofrida em face da natureza, e porque elas pensam poder, eventualmente, compensar aquilo de que prescindem (entendimento) através da esperteza e astúcia, procurando assim ligeiros triunfos. Sob essa luz, a propósito, torna-se compreensível porque quase todo mundo se torna malicioso na presença de uma natureza muito superior.” “Grande superioridade intelectual isola mais do que qualquer outra coisa, e faz do homem em questão, nem que apenas veladamente, odiado. É o contrário disso que faz pessoas estúpidas tão queridas no geral; especialmente quando muitos só conseguem ver nelas aquilo que tanto procuram (distanciar-se de grandes espíritos).”

Se um homem é tolo, perdoamo-lo alegando que ele não tem culpa; mas, na hora de desculpar um homem maligno, recorrer à falta de culpa seria o mesmo que se tornar objeto do riso geral. E ainda assim tanto uma coisa quanto a outra, a tolice e a maldade, são inatas. Mas isso serve para provar mais uma vez que a Vontade é o homem propriamente falando, e que o intelecto é uma mera ferramenta.”

Se, olhando para fora de nós, refletimos que há vita brevis, ars longa, [vida breve, arte¹ longa] e consideramos como as mais belas e maiores mentes, o mais das vezes antes mesmo ou logo após atingirem seu platô, e os maiores mestres, não muito tempo após chegarem ao domínio pleno de sua ciência, são logo varridos da existência, recebemos essa confirmação: que o sentido e o propósito da vida não é intelectual, mas moral.”

¹ Trabalho ou desempenho de alguma atividade, i.e., em latim esta palavra assume uma conotação bem mais ampla. No final, a frase quer dizer: pouco tempo para muito o que fazer e aprimorar.

o intelecto sofre mudanças muito consideráveis com o tempo, enquanto que a vontade e o caráter remanescem intocados por ele.”

O avanço da idade, que gradualmente consome os poderes do intelecto, deixa as qualidades morais intocadas. (…) malícia, despeito, avareza, dureza de coração, infidelidade, egoísmo e vilezas de todo tipo se mantêm, e justamente pelo novo contraste se tornam muito mais aparentes.”

Um enigma é resolvido, um enigma tão velho quanto o próprio mundo, simplesmente porque esse tempo todo ele estava sendo analisado de cabeça para baixo. A liberdade persistentemente buscada no Operari, [ação, por extensão fenômeno] a necessidade no Esse. [ser] (…) [no meu sistema,] a liberdade é transferida para o Esse, e a necessidade limitada ao Operari.” “Para salvar a liberdade do destino e da sorte, ela teve de ser transferida da ação para a existência.” Nasce aqui formalmente o existencialismo, pois todas as condições já estão postas para Nietzsche, Husserl, Heidegger e Sartre o desenvolverem posteriormente.

Inclinação é toda forte suscetibilidade da vontade a motivos de certo jaez. Paixão é uma inclinação tão poderosa que os motivos que a excitam exercem um poder sobre a vontade, que é mais forte que o poder de qualquer motivo possível que poderia se opor ao primeiro; destarte, seu domínio sobre a vontade se torna absoluto, [confuuuuuuuuso – isto é a própria vontade! e pior: a vontade desintelectualizada, ou seja, nua e crua] e conseqüentemente, com referência à paixão, a vontade é passiva ou sofrimento.¹ Deve ser ressalvado, entretanto, que é raro que as paixões atinjam tal grau em que se as possa chamar conforme meu conceito. O mais das vezes afetos ganham o nome de paixões meramente por aproximação nuançada: nesse estágio mais assíduo das paixões, há ainda contra-motivos atuantes para, ao menos, restringir o efeito passional, que às vezes não pode mesmo ser distinguido pela consciência (paixão fraca).”

¹ Eis que Schopenhauer involuntariamente descobriu a fuga final, desta vez uma que funciona: viver apaixonado!

O TUDO É PERMITIDO (DOSTOIEVSKI) AVANT LA LETTRE E SUA SUPERAÇÃO: “Depois de ser desmerecidamente negligenciado por mais de um século, Spinoza foi, em geral, superestimado neste século pela reação causada pelo efeito do vaivém do pêndulo da opinião. Todo panteísmo deve necessariamente ser descartado em prol das demandas inevitáveis da ética, e depois pelo mal e sofrimento do mundo. Se o mundo é uma teofania, então tudo que o homem, ou mesmo o animal, faz é igualmente divino e excelente; nada pode ser censurável, e nada pode ser mais enaltecido que o restante: destarte, inexiste ética.

Um homem que assimilasse firmemente em seu modo de pensar as verdades até agora referidas e, ao mesmo tempo, não tivesse chegado a conhecer por experiência própria ou por uma intelecção mais ampla que o sofrimento contínuo é essencial a toda a vida; e na vida encontrasse satisfação e de bom grado nela se deleitasse, e, ainda, por calma ponderação, desejasse que o decurso de sua vida, tal qual até então foi experimentado, devesse ser de duração infinda ou de retorno sempre novo; cujo ânimo vital fosse tão grande que, no retorno dos gozos da vida, de boa vontade e com prazer assumisse as suas deficiências e tormentos aos quais está submetido; um tal homem, ia dizer, se situaria ‘com firmes, resistentes ossos sobre o arredondado e duradouro solo da terra’ e nada teria a temer. Armado com o conhecimento que lhe conferimos, veria com indiferença a morte voando em sua direção nas asas do tempo, considerando-a como uma falsa aparência, um fantasma impotente, amedrontador para os fracos, mas sem poder algum sobre si, que sabe: ele mesmo é a Vontade, da qual o mundo inteiro é objetivação ou cópia; ele, assim, tem não só uma vida certa mas também o presente por todo o tempo, presente que é propriamente a forma única do fenômeno da Vontade; portanto, nenhum passado ou futuro infinitos, no qual não existiria, pode lhe amedrontar, pois considera a estes como uma miragem vazia e um Véu de Maia. Por conseguinte, teria tão pouco temor da morte quanto o sol tem da noite. – No Bhagavad-Gita Krishna coloca seu noviço Arjuna nesse ponto de vista, quando este, cheio de desgosto (parecido a Xerxes) pela visão dos exércitos prontos para o combate, perde a coragem e quer evitar a luta, a fim de evitar o sucumbir de tantos milhares. É quando Krishna o conduz a esse ponto de vista, e, assim, a morte daqueles milhares não o pode mais deter: dá então o sinal para a batalha.”

3.4.1 A VIDA DO HOMEM SANTO

Portanto, aqui talvez tenhamos pela 1ª vez expresso abstratamente e purificado de todo elemento mítico a essência íntima da santidade, da auto-abnegação, da mortificação da vontade própria, da ascese como NEGAÇÃO DA VONTADE DE VIDA que entra em cena após o conhecimento acabado de sua essência ter-se tornado o quietivo de todo querer.”

Desenvolvem escrúpulos de consciência em cada prazer inocente ou em cada pequena agitação da própria vaidade, a qual também morre por último, e, entre todas as inclinações do homem, é a mais difícil de destruir, a mais ativa e a mais tola. – Sob o termo, por mim já amiúde empregado, de ASCESE, entendo no seu sentido estrito essa quebra PROPOSITAL da Vontade pela recusa do agradável e a procura do desagradável, mediante o modo de vida penitente voluntariamente escolhido e a autocastidade, tendo em vista a mortificação contínua da Vontade.”

O grau supremo dessa justiça de disposição – sempre associada à autêntica bondade, sendo que o caráter desta não é mais meramente negativo – vai tão longe que a pessoa pode até questionar o próprio direito à propriedade herdada e assim desejar manter o seu corpo apenas com as próprias forças, espirituais ou físicas, sentindo todo serviço prestado por outros, todo luxo, como uma repreenda, inclusive podendo entregar-se por fim à pobreza voluntária. Desse modo, vemos PASCAL, após assumir orientação ascética, não mais querer serviços de ninguém, apesar dos seus vários serviçais; e, em que pesasse sua doença crônica, fazia a própria cama e buscava a refeição na cozinha, etc. (Vie de Pascal par sa soeur, p. 19).” Uau, que independente esse Pascal!

Um santo pode estar convencido das mais absurdas superstições, ou, ao contrário, ser um filósofo; é indiferente. Apenas a sua conduta o evidencia como santo.”

A literatura indiana, a julgar pelo pouco que podemos conhecer do até agora traduzido, é bastante rica em descrições da vida dos santos e penitentes, chamados samanas, saniasis, etc.” “Também entre os cristãos não faltam casos em favor das elucidações aqui intentadas. Leiam-se as, na maioria das vezes, pessimamente escritas biografias daquelas pessoas denominadas almas santas ou pietistas, quietistas, entusiastas pios, etc. Coleções dessas biografias foram feitas em várias épocas, como a Vida das almas santas de Tersteegen, a História dos renascidos de Reiz. Em nossos dias confira-se a coleção de Kanne que, misturada ao muito de ruim, contém várias coisas boas, entre as quais a Vida da Beata Sturmin. A essa categoria pertence por inteiro a vida de São Francisco de Assis, verdadeira personificação da ascese e modelo de todos os monges mendicantes. (…) Vita S. Francisci a S. Bonaventura concinnata (Soest, 1847). (…) Histoire de S. François d’Assise, par Chavin de Mallan (1845). (…) Spence Hardy: Eastern monachism, an account of the order of mendicants, founded by Gotama Budha (1850) (…) recomendo a autobiografia de Madame de Guion, esta bela e grandiosa alma, cuja lembrança sempre me enche de reverência, que deve ser gratificante a todo espírito nobre conhecer, e fazer justiça à excelência de sua disposição de caráter, vendo com indulgência as superstições de sua razão, apesar de saber que, às pessoas de espírito comum, i.e., a maioria, aquele livro sempre terá um péssimo crédito, pois em geral e em toda parte cada um só pode apreciar aquilo que lhe é de algum modo análogo (…) a conhecida biografia de Spinoza, se usarmos como chave para ela a sua excelente introdução ao deficiente ensaio De emendatione intellectus; pois se trata do intróito mais eficiente que conheço como calmante para a tempestade das paixões (…) inclusive Goethe, por mais grego que fosse, não considerou indigno de sua pena mostrar-nos esse lado mais belo da humanidade, em límpido espelho da poesia, quando expôs de forma idealizada a vida da senhorita Klettenberg, em Confissões de uma bela alma.”

as descrições da vida dos homens santos e auto-abnegados são para o filósofo – apesar de na maioria das vezes serem muito mal-escritas e narradas com uma mescla de superstição e absurdo –, devido ao significado de seu estofo, incomparavelmente mais instrutivas e importantes até mesmo que Plutarco e Lívio.”

Mateus 16:24-25; Marcos 8:34-35; Lucas 9:23-24, 14:26-27 e 14:33. Essa tendência foi gradativamente desenvolvida e deu origem aos penitentes, aos anacoretas, aos monges”

Teologia alemã, da qual Lutero diz, no prefácio a ela aditado, que de nenhum livro, excetuando-se a Bíblia e Agostinho, mais aprendeu o que seja Deus, Cristo e o homem.” Prequel da Ideologia alemã? Hahaha.

Entretanto, esta consideração é a única que nos pode consolar duradouramente, quando, de um lado, reconhecemos que sofrimento incurável e tormento sem fim são essenciais ao fenômeno da Vontade, ao mundo e, de outro, vemos, pela Vontade suprimida, o mundo desaparecer e pairar diante de nós apenas o nada.” C0nstrução linguística infeliz, porque insuficiente, porque demonstrativa do não-resultado ou do resultado aquém do esperado que a filosofia da representação e da Vontade de Schopenhauer manejou conquistar: quietivo tímido da vontade, mesmo para indivíduos santos, nada de supressão, a não ser de maneira hiper-figurada. Qual é a utilidade da filosofia schopenhaueriana, pois? Não epistemológica, sem dúvida; apenas ética, como espécie de prolegômenos para a vida prática (nem se pode chamar de ‘guia’ o que não contem senão uma base precária em direção a uma). Uma ética de não levar a existência demasiado a sério e, portanto, bastante limitada, em que pese realista. Com efeito, limitada porque realista. Esta citação também é a frase final do livro.

O próprio tradutor achou necessário acrescentar em nota de rodapé ao último parágrafo: “a linguagem fracassa nesse momento final de sua filosofia”. Por que outro motivo haveria de fazê-lo senão porque o empreendimento schopenhaueriano deixou a desejar?

Ressalva: nada destas minhas críticas incisivas e mordazes diminui a importância do autor no panorama filosófico ocidental, pois ele foi continuado por outros pensadores e sua noção de Vontade segue tendo uma repercussão tremenda.

4. O FILÓSOFO QUE COMPREENDEU PLATÃO A MEIAS: POR QUE A IDÉIA DE PLATÃO DEVE SER LIDA COMO A ANTI-IDÉIA POR EXCELÊNCIA, I.E., COMO VONTADE, ASSIM ENUNCIADA DESDE A ANTIGUIDADE

os GRAUS DE OBJETIVAÇÃO DA VONTADE, ia dizer, não são outra coisa senão as IDÉIAS DE PLATÃO.” “Se para nós a Vontade é a COISA-EM-SI e as IDÉIAS a sua objetidade imediata num grau determinado, encontramos, todavia, a coisa-em-si de Kant e a Idéia de Platão – único que verdadeiramente é –, estes dois grandes e obscuros paradoxos dos dois maiores filósofos do Ocidente, de fato não como idênticas, mas como intimamente aparentadas e diferentes apenas em uma única determinação.”

Platão diz o seguinte:

(…) Sim, cada um veria inclusive a si mesmo e aos outros apenas como sombras na parede à frente. Sua sabedoria, então, consistiria em predizer aquela sucessão de sombras apreendida na experiência. Ao contrário, apenas as imagens arquetípicas reais daquelas sombras, as Idéias eternas, formas arquetípicas de todas as coisas, é que podem ser ditas verdadeiras, pois elas SEMPRE SÃO, MAS NUNCA VÊM-A-SER. [Aqui parou Kant] A elas não convém PLURALIDADE, pois cada uma, conforme sua essência, é una, já que é a imagem arquetípica mesma, cujas cópias ou sombras são as coisas efêmeras isoladas da mesma espécie e de igual nome.”

Platão não chegou a essa expressão superior e só indiretamente pôde isentar as Idéias dessas formas, na medida em que nega às Idéias o que só é possível por elas, a saber, pluralidade do igual, nascer e perecer.”

só a Idéia é a mais ADEQUADA OBJETIDADE possível da Vontade ou coisa-em-si; é a própria coisa-em-si, apenas sob a forma da representação” Interpretação platônica desautorizada!

O tempo é meramente a visão esparsa e fragmentada que um ser individual tem das Idéias, as quais estão fora do tempo, [Como representação? Por isso o grifo verde acima em ‘sob a forma’!] portanto são ETERNAS.” Acaba de contradizer o precedente. Se ao menos aqui fosse IDÉIA, e à p. 242 (página da citação anterior) IDÉIAS, no plural, poderíamos ceder a palmatória a Sch…. O problema é que o autor inverteu os termos. A representação nunca é Una. E o que está fora do tempo é sempre, no autor, o Um, “a” Vontade.

Antes, muitos dos exemplos platônicos de Idéia e as elucidações de Platão sobre as mesmas são aplicáveis apenas aos conceitos.”

PLATÃO, O INFINITO: “Não podemos admitir que uma obra artística seja intencional e deliberadamente a expressão de um conceito, como é o caso da ALEGORIA. Uma alegoria é uma obra de arte que significa algo outro que o exposto nela.” “Com a POESIA, a alegoria tem uma relação completamente diferente do que com a arte plástica. Se nesta é repreensível, naquela é admissível (…) aqui o que é dado imediatamente em palavras é o conceito, e o próximo passo é sempre ir deste ao intuitivo, cuja exposição tem de ser executada pela fantasia do ouvinte.”

Visto que, como já dito, toda esta obra é apenas o desdobramento de um pensamento único (…) é requerida a lembrança do leitor não apenas de coisas há pouco ditas, como também das precedentes, para assim poder conectá-las com o lido a todo momento, por mais que já tenha sido dito de outro modo. Exigência esta também feita por Platão aos seus leitores nas digressões complexas e tortuosas de seus diálogos, os quais só depois de longos episódios retomam o pensamento principal; contudo, exatamente por isso, o pensamento se torna mais claro.” “Daqui a necessidade de um estudo repetido do livro, unicamente por meio do qual a conexão de todas as suas partes se torna distinta” Ok, Sch., não precisa dizer de novo!

Nunca houve, nem nunca haverá, um mito tão intimamente ligado à verdade filosófica, no entanto acessível a tão poucos, quanto esta doutrina ancestral [a transmigração das almas] do povo mais nobre e antigo (…) no entanto, já Pitágoras e Platão apreenderam com admiração aquele non plus ultra da exposição mítica, adquirida da Índia, ou do Egito, e a respeitaram, aplicaram-na e, embora não saibamos em que extensão, até mesmo nela acreditaram. – Nós, por outro lado, agora a enviamos aos brames, [?] clergymen ingleses e tecelões da confraria morávia, [??] a fim de por compaixão doutriná-los melhor, fazendo-lhes entender [na seqüência, i.e., em separado à doutrina da transmigração tentar catequizar os outros, supondo que o cristianismo é melhor ou superior] que foram criados do nada e devem agradecer e alegrar-se com isso.” HAHAHA!

[?] O mesmo que brâmane no português de Portugal. Porém, neste caso, seria um reenvio, já que a doutrina veio de lá (da Índia, da Ásia)!

[??] A Morávia é atualmente uma região da República Tcheca. No geral, essas aspas são complicadas de entender, provavelmente devido à tradução ruim.

Platão encetou pela geometria. [Ele começou a vida com outros estudos prévios à filosofia, e entendeu que seus discípulos, ou os filósofos d’A República, também o deveriam, para não cometer o tipo de erro metafísico dos jovens…] Da mesma maneira, somos incitados a tomar a geometria, em Platão, como um exercício preliminar através do qual a mente do pupilo se acostumará a lidar com objetos incorpóreos, tendo até ali, em sua vida prática, travado relações somente com coisas corpóreas.” Porém, círculos imaginados ou desenhos no papel tem muito mais a ver com rodas e távolas perfeitamente redondas que com a Idéia do círculo.

A Idéia de Platão é o pináculo: pura representação, zero vontade. (…) Sendo assim, em Platão, o gênio poderia ser definido como o mais alto grau de objetividade do conhecimento.” Terrível salada! A Idéia de Platão já encerra a consideração do subjacente no mundo das aparências, portanto é um conceito-mestre entre os conceitos que já espelha a resolução nietzschiana da metafísica ocidental, em seu portentoso início antigo. Apenas no século XX, mas lentamente, num processo ascendente ainda não-finalizado, os filósofos começaram a compreender Platão em toda a sua magnitude ontológica. Além disso, na frase em negrito Sch. contraria tudo que dissera até então sobre a Idéia de Platão. As Idéias são tudo, menos representação! Quanto à tipificação do gênio como aquele que dominou a objetividade, a razão em detrimento da vontade, temos os maiores motivos para inverter a equação: o gênio é aquele que coloca as rédeas da razão nas mãos da Vontade, como na metáfora já utilizada mais acima. Mas são acima de tudo um debate e uma dicotomia tolas: se o gênio se funde com o universo no momento da criação da obra-prima, ele só está sendo ele mesmo – e ele é o universo – ou o universo está sendo ele? Irrelevante jogo de palavras. Mas observador imparcial ele não é, e se Sch. usa o termo objetividade nesse sentido mais bem-compreendido por nós na filosofia e no mundo técnico-acadêmico, digamos que é um uso bastante infeliz do termo, onde subjetividade caberia mil vezes melhor. De todo modo, o artista e o filósofo – há, não por acidente, uma completa identidade neste aspecto – não são aqueles capazes de verem a Verdade, mas de sê-la ou produzi-la. A visão está ligada à contemplação passiva, ao objeto; o ser e produzir à atividade, ao sujeito.

5. O ANTI-ARISTÓTELES: CONSEQÜÊNCIA DA HIPER-VALORIZAÇÃO ARISTOTÉLICA PROMOVIDA PELO(A) HEGELIANISMO/ESCOLÁSTICA: O Aristotelismo deve ser superado

a forma substantialis de Aristóteles designa exatamente Aquilo que aqui nomeio o grau de objetivação da Vontade em uma coisa.” Ou seja: substância em Aristóteles e Idéia em Platão são – PARA SCHOPENHAUER – um e o mesmo.

o horror íntimo do malvado em relação aos seus próprios atos, o qual ele tenta ocultar de si, contém ao mesmo tempo, junto ao pressentimento da nulidade e mera aparência do principium individuationis [esta terminologia é aristotélica: é um ataque direto a sua filosofia] e da diferença por este posta entre si e outrem, também o conhecimento da veemência da própria vontade, da violência com a qual se entregou e apegou à vida, precisamente esta vida observada diante de si em seu lado terrível no tormento provocado em alguém por ele oprimido, e com quem, entretanto, é tão firmemente enlaçado que, exatamente dessa forma, o que há de mais horrível sai de si mesmo como um meio para a afirmação completa da sua vontade.” “Eis por que coisas que aconteceram há muito tempo ainda continuam a pesar na consciência.” “o mau (…) [v]ê a extensão em que pertence ao mundo e quão firmemente está ligado a ele.” “Fica em aberto se isto alguma vez irá quebrar e suplantar a veemência de sua vontade.” “quem reconhece e aceita voluntariamente o limite moral entre o injusto e o justo, mesmo ali onde o Estado ou outro poder não se imponha, quem, conseqüentemente, de acordo com a nossa explanação, jamais, na afirmação da própria vontade, vai até a negação da vontade que se expõe em outro indivíduo – é JUSTO.” “vê através do Véu de Maia [além do princípio de individuação] e iguala a si o ser que lhe é exterior, sem injuriá-lo.”

Quase insiro estas passagens no capítulo sobre ética, mas me contive.

O que há de mais proveitoso em Aristóteles são as opiniões dos filósofos mais arcaicos, que ele cita. (…) Aristóteles (…) fiel a seu método costumeiro, desliza pela superfície das coisas, confina-se a características isoladas e concepções fixadas por expressões correntes [a-filosóficas, vulgares] e afirma que sem sensação não pode haver desejo, e que plantas não possuem sensação. Ele se põe, entretanto, em considerável embaraço, como demonstra sua linguagem confusa, quando ele mesmo afirma: <ali onde falha a compreensão, uma palavra toma o lugar como deputada de tudo que ela quer dizer>, isto é, vira uma nutriz do saber. Plantas o possuiriam, segundo o autor, então fariam jus ao que se chama de alma. (…) [Esse termo, saber,] é, portanto, um mau substituto para toda a investigação realmente profunda de seus antecessores, que ele não perde tempo em criticar de forma rasteira (Empédocles, Anaxágoras, Platão).”

DA BOTÂNICA AOS ASTROS: “Vemos ainda, no segundo capítulo [do livro Das Plantas], que Empédocles chegou mesmo a reconhecer a [bis]sexualidade das plantas; o que Aristóteles também rejeita, e oculta sua falta de conhecimento específico atrás de proposições gerais, como essa: as plantas não poderiam ter ambos os sexos combinados, pois isso significaria que elas são mais completas que os animais. Por um procedimento praticamente análogo ele rejeita o correto sistema astronômico de Pitágoras, e graças a seus absurdos princípios fundamentais, que Aristóteles expõe detalhadamente nos seus livros intitulados Do céu, valida no seu lugar o sistema de Ptolomeu, procedimento que fez a humanidade retroagir em 2 mil anos. [!]Pitágoras havia de fato formulado um sistema heliocêntrico? A resposta, conforme a Wikipédia, abaixo, é: mais que heliocêntrico – de alguma forma, Filolau, pitagórico (a fonte é Estobeu), intuiu que o sistema solar não representava o centro do universo! Segue minha tradução dos trechos relevantes da enciclopédia pública em sua página inglesa: “Um sistema astronômico posicionando a Terra, a Lua, o Sol e outros planetas revolvendo ao redor de um <Fogo Central> invisível foi desenvolvido já no quinto século antes de Cristo e fôra atribuído ao filósofo pitagórico Filolau. O sistema foi chamado de <o primeiro coerente em que corpos celestiais se movem em círculos>, antecipando Copérnico em 2 mil anos ao deslocar <a Terra do centro do cosmo, (e) fazendo dela um planeta como os outros>. Embora seus conceitos de um Fogo Central distinto do Sol e de uma <Anti-Terra>¹ fossem errôneos, o sistema continha o insight de que <o movimento aparente dos corpos celestes> se dava (em grande medida) devido ao <próprio observador encontrar-se em movimento>.”

¹ Conhecida invenção teórica dos pitagóricos para que o sistema solar conhecido, contando com a Terra, a lua e o sol, apresentasse 10 e não 9 corpos celestes, sendo o 10 um número <divino> no pitagorismo.

Quanto a Aristóteles de forma geral, gostaria de chamar a atenção ao fato de que seus ensinamentos, enquanto referentes à natureza não-organizada, são muito deficitários e hoje inutilizáveis, tanto mais que, nas concepções mecânicas e físicas fundamentais ele admite os erros mais grosseiros, o que é tanto menos perdoável quanto, antes dele, os pitagóricos e Empédocles já haviam ensinado, na matéria, o caminho das pedras, chegando a conhecimentos superiores.¹ Empédocles, como lemos no próprio Aristóteles, Do céu, 2º livro, capítulo I, p. 284, já havia exprimido a concepção de uma força tangencial decorrente da rotação da Terra, servindo de contraparte à gravidade, o que Aristóteles cita, porém rejeita. Quanto à investigação aristotélica da natureza organizada, entretanto, podemos dizer que esse é seu campo por excelência. Aqui, a riqueza de seu conhecimento, a agudeza de suas observações, a profundidade de seus insights, nos assombram.” Aristóteles, o Biólogo Vocacionado.

¹ Isto representa uma grande rocha demolidora de toda a exegese hegeliana na História da Filosofia, muito calcada no aristotelismo, inclusive na Física aristotélica. E não devemos nos esquecer, ainda que Schopenhauer não o cite, de Epicuro, que interpretou os pré-socráticos (principalmente os atomistas) no sentido correto, evitando os enganos de Aristóteles neste setor de sua filosofia.

6. POR QUE SCHOPENHAUER E NIETZSCHE ESTÃO, ESSENCIALMENTE, EM PÓLOS OPOSTOS NA FILOSOFIA – E NÃO O CONTRÁRIO – MESMO QUE AQUELE SEJA O PRINCIPAL PRECURSOR DESTE

A Vontade é, pois, livre de toda PLURALIDADE, apesar de seus fenômenos no espaço e no tempo serem inumeráveis.” A vontade de potência, em Nietzsche, é múltipla e autocontraditória, jamais unitária. Um homem que cavou tão fundo só não viu que um jogo não é jogado com apenas peças brancas, ou com apenas peças pretas, sem adversário e nada mais. O jogo do universo exige vários jogadores, vontades colidindo, competindo para ver qual vai mais longe e perdura mais na humanidade.

O QUANTIFICADOR DO NADA: “Se a coisa-em-si, como acredito ter demonstrado de modo claro e suficiente, é a VONTADE, então esta, considerada nela mesma e apartada de seu fenômeno, permanece exterior ao tempo e ao espaço; por conseguinte não conhece pluralidade alguma, portanto é UNA [só porque está-se tratando da Vontade enquanto coisa-em-si, o que ela não é]. Mas, como já disse, uma não no sentido de que um indivíduo ou um conceito é uno, mas como algo alheio àquilo que possibilita a pluralidade, o principium individuationis.” Se acrescentasse que é autocontraditória, não obstante, até poderíamos aceitá-la como a versão definitiva da vontade. “Por conseqüência, a pluralidade das coisas no espaço e no tempo, que em conjunto são uma OBJETIDADE, não lhe concerne, e ela, apesar dessa pluralidade, permanece indivisa.” Desnecessário dizer que, em Nietzsche, a Vontade é a verdadeira encarnação de “objetividade”, inapurável diretamente pelo ser humano (como as Idéias de Platão).

Assim, em toda parte na natureza vemos conflito, luta e alternância da vitória, e aí reconhecemos com distinção a discórdia essencial da Vontade consigo mesma. [autocontraditória – CHECK – Will leveled up!] Cada grau de objetivação da Vontade combate com outros por matéria, espaço e tempo. Constantemente o que subsiste tem de mudar de forma, na medida em que, pelo fio condutor da causalidade, fenômenos mecânicos, químicos, orgânicos anseiam avidamente por entrar em cena e assim arrebatam uns aos outros a matéria, pois cada um quer manifestar a própria Idéia.¹ Esse conflito pode ser observado em toda a natureza.”

¹ Na medida em que Sch. emprega o verbo “manifestar”, ou seja “evidenciar”, ou seja representar, para sua concepção de Idéia (que por colocar em letra maiúscula deve equiparar à platônica, o que como já bem-mostrado é exatamente seu oposto, uma ANTI-IDÉIA), além de depois comentar que o “conflito pode ser observado” na natureza, ele fala aqui da Vontade aplicada ao reino dos sentidos, da sua Representação (PARTES 1&3 do TOMO 1). Ou ele interpreta mal a Idéia de Platão, no que não acredito neste contexto, ou o sentido da frase seria: manifestar o imanifestável (o que se esconde por trás do fenômeno). Obviamente, uma vez que a Idéia seja aplicada ao reino das aparências, não são mais as Idéias platônicas aquilo de que se fala. Essa nota de rodapé se justifica devido à péssima escolha de título para a tradução inglesa dos TOMOS 2&3, “WILL & IDEA”, que, obviamente, eu retifiquei em todos os momentos para “WILL & REPRESENTATION”, que é o que quis dizer o tradutor atrapalhado. “Manifestar a própria representação” seria contraditório no trecho acima, e não partiria da boca de Schopenhauer (felizmente é um trecho em português). O que pode confundir o leitor é que a noção de manifestar algo oculto foi conjugada com a observação direta dos fenômenos naturais, logo à frase seguinte! Mas quando assim aparecesse na versão inglesa (to manifest the representation itself) significaria que Sch. sem dúvida quisera denominar o fenômeno, e não a Vontade. Se o tradutor quisesse manter algum tipo de fidelidade simétrica e ao mesmo tempo o trambolho-palavra IDEA, deveria ter pensado em “World as IDEA & REPRESENTATION”. Representação fenomênica não poderia em caso algum ter ficado de fora do título desta obra que é, essencialmente, bipartida (torna-se quadripartida por uma espécie de chacota schopenhaueriana misturada com homenagem a Kant). Para fechar o raciocínio: supondo que Sch. se expressa corretamente no original e que o tradutor inglês quisesse efetuar ‘o melhor trabalho’, como Jair o fez pelo menos nesse trecho, podemos admitir ainda que “quer manifestar” não é o mesmo que “manifestar”, e aí sim usar “(platonic) Idea”, algo que os múltiplos fenômenos gostariam de manifestar embora não possam (would wish/aim/long/yearn/crave/urge to manifest its own Will/Idea).

No fundo, tudo isso se assenta no fato de a Vontade ter de devorar a si mesma, já que nada existe de exterior a ela, e ela é uma Vontade faminta. Daí a caça, a angústia, o sofrimento.” “Cada vontade é vontade de alguma coisa. Tem um objeto, um fim de seu querer.”

Por diversos momentos Schopenhauer parece poder desembocar numa filosofia que seria perfeitamente precursora do nietzschianismo, da transvaloração de todos os valores, do enunciado de um Übermensch, da morte de Deus ou de um eterno retorno, porém, na prática, Schopenhauer sempre retroage dessa ousadia teórica e recai no que podemos chamar, da ótica de Nietzsche, de um niilismo passivo, conforme fica claro no título sobre a relação de Schopenhauer com o cristianismo e o próprio budismo. Nietzsche soube utilizar os elementos vanguardistas de Sch. e seperar o joio do trigo em sua filosofia, i.e., evitar o caráter reacionário da falta de vontade de viver, problema do agravamento do niilismo cultural que Sch. tão engenhosamente nos revelou, mas ao qual não deu uma resposta positiva e fenomênica. Podemos dizer que o conceito schopenhaueriano de vontade é estático; em Nie. ele é dinâmico.

a translação dos planetas, a obliqüidade da elíptica, a rotação da terra, a separação entre terra firme e oceanos, a atmosfera, a luz, o calor e todos os fenômenos semelhantes, que na natureza são aquilo que o baixo fundamental é na harmonia, acomodam-se plenos de pressentimento à geração futura de seres vivos, dos quais serão o sustentáculo mantenedor. Do mesmo modo, o solo se adapta à alimentação das plantas, estas à alimentação dos animais, estes à alimentação dos predadores, e todos estes àquele primeiro.” Inconciliável: Vontade UNA / Idéias MÚLTIPLAS. Inconciliável dum ponto de vista lógico, anyway… Chutando para o espaço sideral o princípio de não-contradição, tudo isto é lícito, legítimo, coerente, irretocável.

O autoconhecimento da Vontade e, daí, a sua decidida afirmação ou negação é o único evento em si.” Parágrafo 35 in a nutshell: #EternoRetorno #Nietzsche; e depois retrocesso a #Camus. Nem infinito, nem retorno, nem negação: só afirmação-nova-no-tempo.

Resta apenas o mundo como representação; o mundo como Vontade desapareceu.” Resumo do objetivo de Sch. no livro 3.

Vontade livre” O alvo de ataque do Nietzsche maduro – porém, não se pode chamar a Vontade não-livre deste de “ressurreição” do imperativo categórico. Até porque não é universal nem voluntária: faz parte do caráter de poucos escolhidos, que não podem ser auto-escolhidos. Uma casta-diretriz dos valores da humanidade, os avaliadores de valores. Dizer que a vontade é livre para devorar a si mesma é negar que ela tenha outra escolha ou que a parte devorada da vontade (no final, sempre a vontade como um todo) seja parte desse mesmo destino de uma vontade una.

Que a Vontade enquanto tal seja LIVRE segue-se naturalmente de nossa visão, que a considera como a coisa-em-si, o conteúdo de qualquer fenômeno.” Novamente, é correto, do ponto de vista schopenhaueriano, pois para ele a Vontade = COISA-EM-SI (1.1).

A necessidade do agir individual foi suficientemente demonstrada por Priestley em sua Doctrine of philosophical necessity. Foi Kant, todavia, cujo mérito a este respeito é em especial magnânimo, o primeiro a demonstrar a coexistência dessa necessidade com a liberdade da Vontade-em-si (…) estabelecendo a diferença entre caráter inteligível e empírico, a qual conservo por inteiro,¹ conquanto o primeiro é a Vontade como coisa-em-si a manifestar-se em fenômenos num determinado indivíduo e num determinado grau, [neste caso o nome ‘caráter inteligível’ está pessimamente auferido – melhor seria dizer caráter metafísico ou, respeitando a própria nomenclatura do autor, caráter-em-si] já o segundo é este fenômeno mesmo tal qual ele se expõe no modo de ação segundo o tempo,¹ e já na corporização segundo o espaço. A fim de tornar mais clara a relação entre ambos, a melhor expressão a ser empregada é aquela presente no meu ensaio introdutório sobre o princípio de razão, ou seja, que o caráter inteligível de cada homem deve ser considerado como um ato extratemporal, [?] indivisível e imutável da Vontade,² cujo fenômeno, desenvolvido e espraiado em tempo, espaço e em todas as formas do princípio de razão, é o caráter empírico como este se expõe conforme a experiência, vale dizer, no modo de ação e no decurso de vida do homem.”

¹ Eis a procurada refutação de que as Vontades de Nie. e Sch. sejam sinonímias, in loco.

² Esse remendo só é necessário ao sistema schopenhaueriano porque ele não abria mão de uma Vontade una, ao invés de múltiplas Vontades em eterno conflito. Não existe unidade na natureza, apenas a aparência conceitual de tal (i.e., a palavra fenômeno quando aplicada a todo fenômeno ao mesmo tempo).

O mito aqui aludido é o da transmigração das almas. Ele ensina que todos os sofrimentos infligidos em vida pelo homem a outros seres têm de ser expiados numa vida posterior neste mundo e precisamente pelos mesmos sofrimentos. [ou em outros mundos renascidos após a destruição do atual, como prega o budismo] Tal ensinamento vai tão longe que quem apenas mata um animal nascerá no tempo infinito exatamente como este animal, sofrendo a mesma morte.” Esse quadro é muito mais horripilante que o eterno retorno da sua própria vida, Sch. – como conciliar tal contradição?

BOM (…) BELO e VERDADEIRO (…) Dentre as pessoas familiarizadas com os escritos de nossos tempos, quem não se enfastiou com aquelas 3 palavras, por mais que elas apontem coisas originariamente admiráveis? Quem não se enfastiou após ver milhares de vezes como os mais incapazes de pensamento acreditam, com boca escancarada e ares de bronco inspirado, poder apenas com a pronúncia das mencionadas palavras transmitir grande sabedoria?” “tudo o que é favorável à Vontade em alguma de suas exteriorizações e satisfaz seus fins é pensado pelo conceito BOM, por mais diferentes que essas coisas possam ser noutros aspectos. (…) tudo o que é exatamente como queremos que seja.” “felicidade (…) como sendo idêntica ou conseqüência da virtude, e isso sempre de maneira sofística (…) Ao contrário, em (…) nossa consideração, a essência íntima da virtude resultará de um esforço em direção totalmente oposta à da felicidade, ou seja, oposta à direção do bem-estar e da vida.” Estes trechos estão nesta seção porque cremos que, quando Schopenhauer se põe como adversário do cristianismo (o que ele não faz senão de modo hesitante), pode muito bem ser considerado o verdadeiro precursor de livros póstumos como O Anticristo e Muito Além do Bem e do Mal. Aliás, às vezes penso que, em contundência, e até por ter vindo primeiro, Sch. paradoxalmente aparece como o maior dentre os detratores do cristianismo. Hoje mesmo, 4/7/22, lia o personagem canastrão Fomá Fomitch, de A aldeia de Stepantchikovo de Dostoievski, declarar, em capítulos sucessivos, 1º que a virtude é o mesmo que a felicidade, para logo no seguinte, bufão que é, em 2º, dizer que a virtude é o contrário da felicidade, e que por isso se comprazeria em sofrer virtuosamente. Ao contrário de um asceta ou do próprio Sch., entretanto, este personagem dostoievskiano é incapaz de viver sem os luxos da vida nobre um dia sequer.

O BOM (sic) ABSOLUTO é uma contradição.” Reitera-se: o núcleo nietzschiano já estava bem-preparado. 1. Não há absoluto; 2. A existência do bem exige que ele seja relativo a um mal. Ambos os conceitos são relativos, posto que criados, convencionados.

o homem bom de modo algum deve ser considerado como um fenômeno da Vontade originariamente mais fraco em comparação ao homem mau.” Comentário nitidamente antitético com tomos anteriores. Porque aqui Sch. parece duvidar de si mesmo, enquanto que Nietzsche diria isso de peito aberto e muito mais convicção. Em Nietzsche, o mau, o pior, o terrível – no sentido não-depreciativo – é aquilo que tem força para transformar a si mesmo em parâmetro ou valor dos valores do que é bom e excelente. Daí a controvérsia sobre o sentido de sua vontade de poder, que é entendida por leitores incautos como alguma espécie de apologia à supremacia do mais forte, como alguma defesa do caos da natureza puro e simples ou do emprego da força bruta, em forma física ou na forma ampliada e estatal (política), o que não passa de mau uso da palavra “forte” em Nie., alguém claramente anti-darwinista e anti-Estado, antifascista avant la lettre.

O ANTI-HEGEL, O PRÉ-NIETZSCHE: “essa doutrina tão repetida de que o homem caminha progressivamente para um nível de perfeição cada vez maior, ou qualquer fé que deposita no devir o processo de desenvolvimento mundial, está em completa oposição ao conhecimento a priori de que em qualquer ponto do tempo um tempo infinito já correu, e, em conseqüência, de que tudo aquilo que deveria advir com o tempo já deve necessariamente ter existido; dessa forma abre-se uma lista interminável das contradições de assunções dogmáticas sobre a realidade dada das coisas. Por outro lado, devo veementemente recusar que qualquer doutrina de minha filosofia poderia ser adicionada a essa mesma lista, porque cada uma de minhas premissas foi pensada em presença da realidade perceptível, e nenhum pensamento importante meu tem sua raiz puramente em abstrações conceituais. Há, ainda, na minha filosofia, um pensamento fundamental aplicado a todos os fenômenos do mundo como chave; [fala da descoberta da invisível Vontade] mas esse raciocínio se prova o alfabeto correto mediante o qual todos os mundos e sentenças adquirem sentido e significado. [!] (…) Sendo assim, até agora minha filosofia é como uma soma que produz o resultado absolutamente esperado, porém não no sentido de que ela soluciona todos os problemas ou responde todas as perguntas. Afirmar qualquer coisa do gênero seria uma negação presunçosa dos limites do conhecimento humano em geral. Qualquer que seja a tocha que conduzamos à frente, e qualquer que seja o terreno iluminado por ela, nosso horizonte sempre remanescerá envolto em profunda noite. A solução definitiva do enigma do mundo está necessariamente ligada às coisas-em-si-mesmas, jamais aos fenômenos.”

O conhecimento condicionado deve repousar na fundação de toda obra de arte genuína. A mudança objetiva requerida para isso não pode proceder da vontade, justamente por tal mudança consistir na eliminação de todas as volições; a arte não pode ser ato da vontade, i.e., não pode repousar em nossa escolha.” Mas é justamente a liberdade (do intelecto) que pressuporia a negação da Vontade; o artista é o oposto da figura que Sch. descreve: um hiper-concentrador de Vontade! Significa que Schopenhauer erra duplamente no aforismo: 1) não é o intelecto o mecanismo que explica o dom (irracional); 2) ainda que o fosse, ele implicaria que o artista poderia escolher seus meios, sua forma de expressão da obra de arte, e Sch. termina a passagem contradizendo-se! Em suma, é verdade que nada disso depende de nossa escolha, mas isso depõe a favor da Vontade como protagonista do processo artístico. Como Nietzsche é muito insistente nesse ponto (o que eu defendi, contra Sch.), incluí estas aspas aqui, mas há comentários mais extensos na seção 12.5.

Não há contraste maior do que aquele entre o incessante devir do tempo, que leva todos os conteúdos consigo, e a rígida imobilidade do que é atual e presente, o que em todos os tempos é um e o mesmo. Se desse ponto de vista observamos os eventos da vida, i.e., de um ponto de vista puramente objetivo, o Nunc stans [eternidade] se torna claro e visível para nós no centro da roda do tempo. Aos olhos de um ser de vida incomparavelmente mais longa, que de um só vistaço compreendesse a raça humana em todo seu percurso, incluindo a alternação constante de nascimento e morte, nossa existência assemelhar-se-ia a uma vibração contínua. Não ocorreria a este ser interpretar nossa condição como o emergir de algo novo ou o retorno ao nada em momento algum. Assim como para nós a faísca revolvendo em círculo em alta velocidade parece um círculo contínuo, para os olhos desta criatura privilegiada em relação a nós a morte e a vida como um todo não apareceriam como mais do que vibrações daquilo que tem um Ser e permanência indiscutíveis.”

Aquele que refletir que até o agora, quando se existe, um tempo infinito já decorreu, e com ele uma infinidade de mudanças, reconhecerá sua existência como uma necessidade. Toda a extensão dos estados possíveis já se exauriu sem que com isso a existência tivesse logrado a autodestruição. Se fosse possível que o indivíduo não fosse, ele já não seria agora. A infinitude do tempo já decorrido, com a exaustão das possibilidades de eventos dela decorrente, garante que o que existe deve existir.” Veraz a acusação de Wagner de que Nietzsche apenas reproduzia Schopenhauer em seus livros mais polêmicos? [1/3] – Gaia é mais forte que bombas de hidrogênio: uma espécie de paradoxo do avô se instala no presente: no futuro ninguém apertará o botão vermelho.

Mas o grande equívoco reside de fato na palavra eu“Mas o ‘eu’ é um ponto escuro na consciência, como na retina o ponto exato em que o nervo da visão entra é cego, como o próprio cérebro, que concede ao corpo a faculdade da sensação, é inteiramente desprovido de sensação, como o corpo do sol é negro, e como o olho tudo vê, exceto a si mesmo.” [2/3] Tudo isso também foi repetido e ruminado por Nietzsche.

Porém, o seguinte aspecto deve ainda ser levado em consideração: a individualidade da imensa maioria dos homens é tão miserável e destituída de valor que com sua perda o sujeito em questão na verdade nada perde. Só naqueles em que ainda pode residir algum valor está o elemento humano universal” Imensa maioria dos homens: substrato do último homem, eterno como qualquer Um. Aqueles em que ainda pode residir algum valor: substrato do além-homem nietzschiano. [3/3!]

a mais excitante das questões metafísicas. Começo, fim e continuação são concepções que derivam simples e tão-somente do tempo, e são válidas, portanto, exclusivamente com ele em vista. Mas o tempo não tem uma existência absoluta; não é o modo de dizer da coisa-em-si, mas meramente o modo de nosso conhecimento de nossa existência e natureza, conhecimento que é aliás um tanto imperfeito e limitado aos fenômenos. Uma resposta às perguntas nascidas das nossas concepções do tempo é impossível,¹ e toda asserção nesse sentido, num ou noutro sentido, está sempre aberta a objeções convincentes.” “Tudo isso apenas quer dizer: o problema é transcendente. A morte permanece um mistério.”

¹ O que invalida qualquer possibilidade de conclusão do projeto heideggeriano de Ser e Tempo: livro que, não à toa, Heidegger jamais veio a terminar. Provavelmente porque soubesse que qualquer continuação dos dois primeiros volumes estaria aquém do projeto inicialmente traçado, que era ter essa visão ‘extra-humana’ do tempo para assim compreender o sentido do ser.

O sujeito atua na vida como executando um serviço compulsório que lhe cabe. Mas quem contraiu a dívida? – Seu progenitor, na fruição dos prazeres sensuais. Logo, porque um aproveitou, o outro deve viver, sofrer e morrer. (…) Mas minha filosofia é a única que confere à ética seus direitos totais; porque só se a verdadeira natureza do homem é sua própria vontade, e conseqüentemente ele é, no sentido mais estrito, sua própria obra, suas dívidas ou faltas pertencem de fato e inteiramente a ele próprio e devem ser pagas por ele mesmo e não por outrem. Sempre que o homem tem uma outra origem, que é obra de seres diferentes dele mesmo, [nas outras filosofias e religiões] sua culpa volta à origem.” É importante assinalar esse parágrafo nesta seção porque a tomada de responsabilidade do indivíduo pela própria vida e existência é o imperativo ético essencial implicado no eterno retorno. E o único imperativo ético que pode dar certo é anticristão, pois não temos culpa de nada; Adão não tem culpa de nada; a existência não tem culpa de nada.

Dessa forma, o problema discutido na época socrática é agora, pela 1ª vez, finalmente resolvido, e a demanda por pensar a razão enquanto moral é satisfeita.” “Minha doutrina atinge esse limite na vontade de vida, que em sua própria manifestação afirma ou nega a si mesma. (…) Devemos interromper nossa reflexão aqui” Nietzsche seguiu todos os passos de Schopenhauer, mas não parou ou se interrompeu ‘aqui’.

Um homem, ao fim de sua vida, se fosse igualmente sincero e clarividente, talvez jamais a desejasse de novo, porém, antes, preferiria a total não-existência. O conteúdo essencial do célebre monólogo em Hamlet, quando resumido, é este: nossa condição é tão miserável que o decididamente preferível seria a completa não-existência.¹ Se o suicídio efetivamente nos oferecesse esta última, de tal modo que a alternativa ‘ser ou não ser’ fosse posta no sentido pleno da palavra, então aquele seria incondicionalmente escolhido como um desenlace altamente desejável (a consumation devoutly to be wish’d). No entanto, algo em nós diz que não é bem assim”

¹ Formulação do odium fati. Mas não é essa a questão: o passado não é aniquilado. O cadáver de Hamlet não quer ter vergonhas nem arrependimentos…

7. DESPROPÓSITO DA VIDA HUMANA CONSCIENTE: A EXISTÊNCIA É SÓ UM SONHO

Eis por que de bom grado nunca ficam sozinhos com a natureza; precisam de sociedade, ao menos de um livro. Seu conhecer permanece servil à Vontade. Procuram, por conseguinte, só por aqueles objetos que têm alguma relação com o seu querer e, de tudo que não possua uma tal relação, ecoa em seu interior, semelhante a um baixo fundamental, um repetitivo e inconsolável ‘de nada serve’. Assim, na solidão, até mesmo a mais bela cercania assume para eles um aspecto desolado, cinza, estranho, hostil.”

a supressão do caráter da espécie mediante o caráter do indivíduo é caricatura, e a supressão do caráter individual mediante o caráter da espécie é ausência de significação.”

Esses indivíduos que aparecem sucessivamente estão por inteiro sozinhos, visto que a massa e a multidão da posteridade sempre será e permanecerá tão perversa e obtusa quanto a massa e a multidão de todos os tempos. – Que se leiam os lamentos dos grandes espíritos em todos os séculos sobre os seus contemporâneos: soam sem exceção como hoje, porque o gênero humano sempre foi o mesmo.”

Dom Quixote (…) alegorizava a vida de um homem que, diferentemente dos demais, não tem em vista apenas cuidar do próprio bem-estar mas persegue um fim objetivo, ideal, que se apossou de seu pensamento e querer, com o que se sente, obviamente, isolado neste mundo.”

Hamlet, a quem Horácio gostaria de seguir voluntariamente; porém, aquele pede que permaneça e respire por mais algum tempo neste ingrato mundo de dores, a fim de esclarecer o destino de Hamlet e zelar por sua memória.” “A palavra final no Maomé de Voltaire expressa isso literalmente, quando a agonizante Palmira diz a Maomé: ‘O mundo é para tiranos, vive!’

as críticas obtusas (…) que o Dr. Samuel Johnson dirige a peças isoladas de Shakespeare, censurando a sua licenciosidade: qual fato levou as Ofélias, as Desdêmonas, as Cordélias a serem culpáveis? – Só a visão de mundo rasa, otimista, racional-protestante, ou, melhor dizendo, judaica, fará a exigência de justiça poética para, com a satisfação desta, encontrar a sua própria. O sentido verdadeiro da tragédia reside na profunda intelecção de que os heróis não expiam os seus pecados individuais, mas o pecado original, i.e., a culpa da existência mesma

ADEUS, QUERIDO COCÔ (ESCREVI-O COM (C)ALMA)! “Ora, assim como estamos a todo momento contentes em conservar a forma, sem lamentar a matéria perdida, também temos de nos comportar do mesmo modo quando na morte ocorre o mesmo, porém numa potência mais elevada” “Do mesmo modo que somos indiferentes num caso, não devemos tremer no outro.” “parece tão tolo embalsamar cadáveres como o seria conservar nossos excrementos.”

Naturalmente, se pensarmos retrospectivamente nos milênios transcorridos, nos milhões de pessoas que neles viveram, perguntaremos: que foram elas? Que se fez delas? Por outro lado, precisamos só evocar o passado de nossas vidas e vìvidamente renovar suas cenas na fantasia para de novo perguntar: que foi tudo isso? Que foi feito deles? Como no caso de nossa vida, assim também no caso da vida daqueles muitos milhões. Ou deveríamos supor que o passado alcançou uma nova existência ao receber o selo da morte? Nosso próprio passado, inclusive o dia mais recente e o anterior, é tão-somente um sonho nulo da fantasia; o mesmo é o passado de todos aqueles milhões. Que foi? Que é? A Vontade, cujo espelho é a vida, e o conhecer destituído de volição, que mira claramente a Vontade nesse espelho. Quem ainda não reconheceu isso ou não o quer reconhecer pode acrescentar à questão anterior, sobre o destino das gerações passadas, ainda esta: Por que precisamente ele, o questionador, é tão feliz em possuir este tempo presente precioso e fugidio, único real, enquanto aquelas centenas de gerações de homens, sim, os heróis e os sábios daqueles tempos, naufragaram na noite do passado e assim se tornaram nada, enquanto ele, seu insignificante eu, existe realmente? Ou, de maneira mais sucinta, embora estranha: Por que este agora, seu agora, é precisamente agora, e não FOI há muito tempo?”

quem está satisfeito com a vida como ela é, quem a afirma em todas as suas maneiras, pode confiantemente considerá-la como sem fim e banir o medo da morte como uma ilusão a infundir-lhe o tolo temor de que poderia ser despojado do presente, ludibriando-o sobre um tempo destituído de presente, parecido com aquela ilusão relativa ao espaço, em virtude da qual alguém fantasia a exata posição ocupada por si no globo terrestre como a de cima, e as restantes como a de baixo.” “temer a morte porque ela nos arrebata o presente não é mais sábio do que temer deslizar para baixo no globo terrestre redondo, a partir do topo, onde felizmente nos encontramos agora.” “meio-dia sempiterno”¹ “se um homem teme a morte como seu aniquilamento, é simplesmente como se pudesse pensar que o sol se lamentaria diante da noite(*) (…) Contrariamente, quem está oprimido pelo peso da vida e ainda assim a deseja e afirma (…) não pode esperar da morte a libertação, nem pode salvar a si mesmo pelo suicídio. Apenas com aparências falsas lhe seduz o frio e tenebroso Orco, como se fôra o porto da paz.

[¹ Nietzsche puro!]

(*) Eckermann, Conversas com Goethe: (…) Goethe diz: ‘Nosso espírito é um ser de natureza totalmente indestrutível: ele faz efeito continuamente de eternidade a eternidade. É comparável ao sol, que parece se pôr apenas aos nossos olhos terrenos, mas que em realidade nunca se põe, brilhando incessantemente.’ – Goethe tomou a comparação de mim, não eu dele. [!] Sem dúvida ele a utilizou nessa conversa de 1824, em virtude de uma reminiscência, talvez inconsciente, da passagem acima escrita, pois esta aparece, com os mesmos termos aqui empregados, na 1ª ed. de minha obra, p. 401, e também ocorre novamente na p. 528, bem como na conclusão do §65. Aquela 1ª ed. lhe foi enviada em dezembro de 1818, e em março de 1819 ele mandou, por minha irmã, uma carta de congratulação para Nápoles, onde então me encontrava. À carta adicionava uma papeleta, onde assinalava os números de algumas páginas que especialmente lhe agradaram. Logo, ele lera o meu livro.”

Os males imediatamente necessários e absolutamente universais, p.ex., a necessidade no avanço da idade e a morte, bem como os muitos incômodos cotidianos, normalmente não nos entristecem.”

É realmente inacreditável o quanto a vida da maioria dos homens, quando vista do exterior, decorre insignificante, vazia de sentido e, quando percebida no seu interior, decorre de maneira tosca e irrefletida. Trata-se de um anseio e tormento obscuro, um vaguear sonolento pelas 4 idades da vida em direção à morte, acompanhado por uma série de pensamentos triviais. Assemelham-se a relógios aos quais se deu corda e funcionam sem saber por quê. Todas as vezes que um homem é gerado e nasce, o relógio da vida humana novamente tece a corda, para mais uma vez repetir o seu estribilho inúmeras vezes tocado: frase por frase, medida por medida, com insignificantes variações. – Todo indivíduo, todo rosto humano e seu decurso de vida é apenas um sonho curto a mais do espírito infinito da natureza, da permanente Vontade de vida; é apenas um esboço fugidio a mais traçado por ela em sua folha de desenho infinito, ou seja, espaço e tempo, esboço que existe ali por um mero instante se for comparado a ela, e depois é apagado, cedendo lugar a outros. Contudo, e aqui reside o lado sério da vida, cada um desses esboços fugidios, desses contornos vazios, tem de ser pago com toda a Vontade de vida em sua plena veemência, mediante muitas e profundas dores e, ao fim, com uma amarga morte, longamente temida e que finalmente entra em cena. Eis por que a visão de um cadáver nos torna de súbito graves.

A vida do indivíduo, quando vista no seu todo e em geral, quando apenas seus traços mais significativos são enfatizados, é realmente uma tragédia; porém, percorrida em detalhes, possui o caráter de comédia, pois as labutas e vicissitudes do dia, os incômodos incessantes dos momentos, os desejos e temores da semana, os acidentes de cada hora, sempre produzidos por diatribes do acaso brincalhão, são puras cenas de comédia.”

Se se conduzisse o mais obstinado otimista através dos hospitais, enfermarias, mesas cirúrgicas, prisões, câmaras de tortura e senzalas, pelos campos de batalha e praças de execução, e depois lhe abríssemos todas as moradas sombrias onde a miséria se esconde do olhar frio do curioso; se, ao fim, lhe fosse permitida uma mirada na torre da fome de Ungolino, ele certamente também veria de que tipo é este meilleur des mondes possibles.”

Cada um mira a própria morte como o fim do mundo; já a morte dos seus conhecidos é de fato ouvida com indiferença” “O lado terrível disso se encontra na vida dos grandes tiranos e facínoras, nas guerras que devastam o mundo, enquanto o seu lado hilariante é objeto da comédia, e aparece sobretudo na presunção e na vaidade, o que Rochefoucauld, melhor que qualquer outro escritor, conseguiu apreender e expor in abstracto.”

Éris (…) expulsa do conflito dos indivíduos por meio da instituição estatal, retorna de fora como guerra entre os povos e então exige, no seu total e numa só parcela, como débito acumulado, sacrifícios sangrentos, os quais se lhe haviam evitado ao recorrer-se à astuta precaução. Sim, supondo-se que tudo isso fosse, ao cabo, ultrapassado e posto de lado por uma prudência acumulada pela experiência de milênios, o resultado seria a efetiva superpopulação de todo o planeta, cujo horrível mal só uma imaginação audaciosa poderia agora tornar presente.”

Os dias passam cada vez mais rápido, os eventos perdem sua significância, tudo se torna lívido. O homem avançado em idade tateia ao redor mancando ou permanece num canto como uma sombra, um fantasma de seu antigo eu. O que restaria acaso para a morte destruir?”

Que uma mosca que zumbe agora em meus ouvidos vá dormir esta noite, e zumba de novo amanhã, ou morra nessa mesma noite, e então na primavera seguinte outra mosca que nasceu dos ovos daquela antiga zumba novamente: tudo isso em si mesmo é a mesma coisa

Repare em seu cachorro. Quão despreocupado e pacificamente ele vive! Muitos milhares de cães tiveram de perecer até que chegasse a vez desse exemplar viver. Mas a morte dessa infinidade de antepassados não afetou em nada a Representação do cachorro. O cão de hoje existe tão fresco e dotado com força vital quanto os indivíduos mais primitivos da espécie. Todo dia ele vive como se fosse seu primeiro dia e como se nunca um dia pudesse ser seu último. Nos seus olhos brilha o princípio indestrutível dessa vida cíclica e inexaurível, o archaeus [arquétipo].”

FILOSOFIA VAMPÍRICA AVANT LA LETTRE: “Desejar que a individualidade fôra imortal não significa nada mais que desejar a perpetuação de um erro infinitamente. Pois no fundo toda individualidade é apenas um erro singular, um passo em falso, algo que era melhor jamais ter sido”

Eis o ponto em que a filosofia transcendental se conecta à ética. (…) o medo de que, com a morte, tudo terminará se iguala ao caso daquele que imagina, num sonho, que há apenas sonhos sem um sonhador.”

Os terrores da morte dependem em maioria da falsa impressão de que se o ego desaparece agora, o mundo continua. Mas na verdade é o oposto” O rio Lethe da Vontade é a morte de um indivíduo. Com o esquecimento, a Vontade está livre e inexausta novamente para poder desejar, noutro invólucro.

8. SOBRE O SUICÍDIO

o suicídio já se nos apresenta aqui como um ato inútil e, por conseguinte, tolo. Quando tivermos avançado ainda mais em nossa consideração, ele aparecerá numa luz menos favorável ainda.” Nem para o moribundo incurável que já sentiu o doce mel da vida entre os lábios?

Eis por que nas maiores dores espirituais a pessoa arranca os cabelos, golpeia-se no peito, arranha o rosto, atira-se ao chão: tudo sendo propriamente apenas meios violentos de distração em face de um pensamento de fato insuportável. E justamente porque a dor espiritual, como a mais aguda de todas, torna alguém insensível à dor física, o suicídio é bastante fácil para quem se encontra desesperado ou imerso em desânimo crônico, embora antes, em estado confortável, tremesse com tal pensamento. De maneira semelhante, preocupações e paixões, portanto o jogo do pensamento, abalam o corpo muito mais freqüente e intensamente que deficiências físicas.”

o suicídio não fornece salvação alguma: o que cada um QUER em seu íntimo, isto ele deve SER; e o que cada um É, precisamente isto ele QUER.”

terrível e lenta autopunição para a completa mortificação da Vontade: o que ao fim pode conduzir à morte voluntária mediante jejum, atirar-se aos crocodilos ou precipitar-se do pico sagrado do alto do Himalaia ou ser sepultado vivo, e também mediante o lançar-se sob as rodas do carro colossal que passeia as imagens de deuses entre o canto, o júbilo e a dança das bailadeiras (apsaras). [hinduísmo]” “Tanta concordância em épocas e povos tão diferentes é uma prova factual de que aqui se expressa não uma excentricidade ou distúrbio mental, como a visão otimista rasteira de bom grado o afirma, mas um lado essencial da natureza humana, e que, se raramente aparece, é tão-só em virtude de sua qualidade superior.”

O suicídio, em realidade, é a obra-prima de Maia na forma do mais gritante índice de contradição da Vontade de vida consigo mesma.”

o suicida se assemelha a um doente que, após ter começado uma dolorosa operação de cura radical, não permite o seu término, preferindo permanecer doente. (…) Eis por que todas as éticas, tanto filosóficas quanto religiosas, condenam o suicídio, embora elas mesmas nada possam fornecer senão estranhos argumentos sofísticos.” “quietivo final”

Reconhecidamente, de tempos em tempos repetem-se casos nos quais o suicídio é estendido às crianças. O pai mata os filhos que tanto ama e em seguida a si próprio. Se tivermos em mente que a consciência moral, a religião e todos os conceitos tradicionais fazem reconhecer no assassinato o pior crime; e que, porém, o pai o comete na hora da própria morte e em verdade sem ter nessa ocasião motivo egoístico algum, então o ato só pode ser explanado como se segue. A vontade do indivíduo se reconhece imediatamente nas crianças, enredada na ilusão que envolve o fenômeno como se fosse a essência-em-si e, ademais, profundamento abalado pelo conhecimento da miséria de toda vida, acredita que, ao suprimir o fenômeno, também suprime a essência mesma; portanto, deseja resgatar a si e aos filhos da existência e de suas penúrias.”

Entre esta morte voluntária resultante do extremo da ascese e aquela comum resultante do desespero, deve haver muitos graus intermediários e combinações, sem dúvida difíceis de explanar. Contudo, a mente humana tem profundezas, obscuridades e complicações cuja elucidação e detalhamento são de extrema dificuldade.”

A tendência ao suicídio é especialmente hereditária.”

9. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS NATURAIS

o fim e ideal de qualquer ciência da natureza é, no fundo, um materialismo desenvolvido até as suas últimas consequências.”

o fim da ciência não é a certeza máxima, pois esta pode ser igualmente encontrada até mesmo no conhecimento singular, mais desconexo, mas a facilitação do saber mediante a sua forma (…) dizer (…) que a cientificidade do conhecimento reside na sua maior certeza é uma opinião equivocada, como também é falsa a afirmação daí proveniente de que só a matemática e a lógica seriam ciências no sentido estrito do termo, visto que somente nestas, devido a sua completa aprioridade, tem-se certeza irrefutável do conhecimento.” “o velho erro de que somente aquilo que é demonstrado é completamente verdadeiro (…) Antes, ao contrário, cada demonstração precisa de uma verdade indemonstrável que em última instância sustenta a ela ou a sua demonstração.” Heidegger plagiará essas aspas em Ser e Tempo, sem dar o crédito.

Ora, como todas as demonstrações são silogísticas, não é preciso primeiro procurar demonstração para uma nova verdade, mas uma evidência imediata. Só pelo tempo em que esta se encontra ausente é que a demonstração pode ser provisoriamente fornecida. Nenhuma ciência pode ser absolutamente demonstrável, tampouco quanto um edifício pode sustentar-se no ar. Todas as suas demonstrações têm de ser remetidas a algo intuitivo, por conseguinte não mais demonstrável. (…) Toda evidência última, i.e., originária, é INTUITIVA, o que a palavra já o indica.”

DEBATEDORES E REFUTADORES DE REDES SOCIAIS: “Demonstrações são destinadas não tanto aos que estudam mas antes aos que querem disputar. Estes negam obstinadamente a intelecção imediatamente fundamentada.”

nenhum ramo das ciências naturais, p.ex., a física, a astronomia, a fisiologia, pode ser descoberto de uma só vez, como foi possível com a matemática e a lógica, mas precisaram e precisam de experiências completas e comparadas de muitos séculos.”

Ciências “quantitativas” para o autor: história natural, fisiologia, mineralogia, geologia, mecânica, físico-química…

Chamaríamos, no lugar do “quantitativo” de Sch., de ciências meramente descritivas. Poderia incluir a própria psicologia se fosse uma disciplina formada em sua época.

9.1 A MATEMÁTICA E A LÓGICA: ARISTÓTELES E NIILISMO

De nossa parte exigimos a remissão de cada fundamentação lógica a uma intuitiva. A matemática euclidiana, ao contrário, empenha-se com grande afinco, em todo lugar, em descartar deliberadamente a evidência intuitiva sempre ao alcance da mão, substituindo-a por uma evidência lógica.” “Euclides (…) em vez (…) de nos dar uma intelecção fundamental da essência do triângulo, simplesmente formula algumas proposições desconectadas e escolhidas arbitrariamente acerca dessa figura, fornecendo dela um fundamento de conhecimento lógico por meio de uma demonstração laboriosa conduzida segundo o princípio de contradição. (…) Quase se tem a sensação desconfortável parecida àquela produzida por um truque.” “Outras vezes, como no teorema de Pitágoras, linhas são traçadas sem se saber ao certo por quê; depois se nota que eram laços estendidos para capturar desprevenida a concordância do leitor, o qual, atônito, tem de admitir o que, em seu foro íntimo, permanece completamente inconcebível, tanto mais que pode estudar a matemática euclidiana inteira sem ganhar uma intelecção propriamente dita das leis das relações espaciais, mas apenas aprende de memória alguns de seus resultados.” “Entretanto, a maneira como tudo isso foi conduzido por Euclides mereceu toda a admiração que os séculos lhe dedicaram, indo tão longe a ponto de seu método de tratamento da matemática ter sido declarado modelo de todas as exposições científicas, segundo o qual se procurou modelar as demais ciências.”

É em geral o método analítico o que desejo para a exposição da matemática, em vez do sintético, usado por Euclides.” “Na Alemanha começa esporadicamente a mudar a exposição da matemática, e o caminho analítico é trilhado mais vezes.”

o princípio de contradição mesmo, que é uma verdade metalógica e fundamento universal de toda demonstração lógica. Quem nega a necessidade intuitivamente exposta das relações de uma proposição expressa espacialmente pode com igual direito negar os axiomas, a conclusão enquanto conseqüência das premissas, sim, pode até mesmo negar o princípio de contradição: pois tudo isso são coisas igualmente indemonstráveis, imediatamente evidentes e conhecidas a priori.”

É esse Hobbes o mesmo que, em seu livro De principiis Geometrarum, caracteriza estranhamente seu modo de pensamento, no todo empírico, negando por completo a matemática propriamente pura, ao afirmar, obstinadamente que o ponto possui extensão e a linha possui largura, e, como nunca podemos exibir-lhe um ponto sem extensão e uma linha sem largura, tampouco podemos fazer-lhe compreender a aprioridade da matemática ou a aprioridade do direito, visto que ele se fecha a qualquer conhecimento não-empírico.”

A dependência do fator tempo em toda contagem é-nos revelada pelo fato de que em todas as línguas ‘multiplicação’ é expressa exatamente por tempo, i.e., por um conceito-de-tempo: sexies, six fois, sex mal [seis vezes].” Vez no dicionário: período igual de tempo, do latim para ‘sucessão’.

o conceito de NADA é essencialmente relativo e sempre se refere a algo determinado, que ele nega. Essa qualidade foi atribuída (especialmente por Kant) apenas ao nihil privativum que, sinalizado com (-) em oposição a (+), podia, de um ponto de vista invertido, tornar-se (+). Ora, em oposição ao nihil privativum foi estabelecido o nihil negativum, o qual em toda relação sempre seria nada, utilizando-se como exemplo a contradição lógica,¹ que se suprime a si mesma.” Belo trecho dessa vez, significativamente elucidativo! A propósito, o matemático curioso com relação à filosofia, porém essencialmente leigo, que, lendo passagens como essa, lançasse a hipótese de que a filosofia continental (até Sch., pelo menos) nada mais é que “discussões excessivamente abstratas de matemáticos entre si” estaria de certa forma correto

¹ Princípio aristotélico (princípio da não-contradição), talvez o mais importante da Primeira Filosofia (ironia das ironias, ele não é um conceito meta-Lógico, i.e., não deveria servir para elaborar metafísica, e sim apenas para discussões práticas): Se A é não-B, e se B é não-A, logo: A não pode ser não-A (auto-evidente); não-A é B; B não pode ser não-B; não-B é A. O que seria o ‘nada negativo’ que Schopenhauer enumera? Aquilo que não existe formalmente: um A = não-A ou B = não-B; ou ainda: um superveniente C que se identificasse com A e B ao mesmo tempo (o que seria chamado, desde Aristóteles, também de absurdo ou impossibilidade). O nada não tem lugar no mundo dos fenômenos. Para transcender esse ‘sistema’, teríamos de imaginar um mundo ou uma filosofia contraditórios, i.e., transgredir esse princípio básico da não-contradição, aceitar e abraçar o absurdo e o paradoxal. Este trecho também nos ajuda a compreender por que Schopenhauer “santifica” seu bem ascético, i.e., dá um status de bem absoluto à negação da Vontade, em que pese dizer que o “bem absoluto” é uma contradição e que só existe o bem relativo. Dentro deste quadro de superação-de- ou de aplicação-literal-e-extrema-de-Aristóteles, o filósofo consegue ser coerente consigo mesmo (ele representa o C que se identifica ao mesmo tempo com o A e o B) – levando a lógica às últimas conseqüências do lado de cá (do mundo das aparências e, paradoxalmente, do mundo cristão, que justamente nega por inteiro este mundo das aparências!).

qualquer nada (…) subsumido em um conceito mais amplo é sempre apenas um nihil privativum. (…) exemplo do não-pensável, necessariamente requerido na lógica para demonstrar as leis do pensamento.” “O universalmente tomado como positivo, o qual denominamos SER, e cuja negação é expressa pelo conceito NADA na sua significação mais geral, é exatamente o mundo como representação

Negação, supressão, viragem da Vontade é também supressão e desaparecimento do mundo, seu espelho. Se não miramos mais a Vontade neste espelho, então perguntamos debalde para que direção ela se virou, e em seguida, já que não há mais onde e quando, lamentamos que ela se perdeu no nada.” Mais fácil falar e especular do que escapar efetivamente do problema do nada negativo ou absoluto, do qual não se escapa. Enquanto houver fenômeno, há Vontade. Sempre.

9.2 A ASTRONOMIA

CÉU, O LABORATÓRIO PERFEITO: “Eis o material inteiro da astronomia que, tanto pela sua simplicidade quanto pela sua segurança, conduz a resultados definitivos e muito interessantes, fazendo jus à grandeza e importância de seus temas. P.ex., se conheço a massa de um planeta e a distância de seu satélite, posso concluir com certeza o período de translação do último conforme a segunda lei de Kepler. O fundamento dessa lei é que, a essa distância, apenas essa velocidade determinada é capaz de manter o satélite orbitando em torno do seu planeta, impedindo que caia nele.”

o movimento aparente dos planetas é conhecido empiricamente. Depois de muitas hipóteses falsas sobre a relação espacial desse movimento (órbita planetária), a hipótese verdadeira foi finalmente encontrada, bem como as leis que o movimento segue (as leis de Kepler). Por fim, também a causa destes (gravitação universal) e a concordância empiricamente conhecida de todos os casos observados com o conjunto inteiro das hipóteses e suas conseqüências (…) forneceram a certeza completa.”

não se deve procurar nenhum primeiro empuxo para a força centrífuga, mas ela, nos planetas, conforme a hipótese de Kant e Laplace, é o resíduo da rotação originária do corpo central, de onde os planetas se separaram e esse corpo se contraiu, e ao qual o movimento é essencial: ele ainda possui rotação e vaga ao mesmo tempo no espaço sem fim, ou translada talvez em torno de um corpo central maior, invisível para nós. Essa visão concorda inteiramente com a conjetura dos astrônomos acerca de um sol central e também com o distanciamento observado de todo o nosso sistema solar, e talvez de toda a galáxia à qual pertence o nosso sol” Toda periferia tem um centro, e o centro mesmo é uma periferia de outro centro maior e no entanto mais ignoto.

9.3 A FÍSICA

Ah, se não se fosse tão estúpido a ponto de se ver quase que paralisado por conta dos grandes fenômenos! Assim como, erradamente, criaram uma alma para o cérebro, deveriam, seguindo o exemplo, ter explicado a digestão por uma alma no estômago, a vegetação por uma alma na planta, a afinidade química por uma alma nos reagentes, aliás, até a queda de uma pedra pela alma da pedra.”

sempre restarão forças originárias; sempre restará, como resíduo insolúvel, um conteúdo do fenômeno que não pode ser remetido a sua forma; sempre restará, portanto, algo não mais explanável por outra coisa senão, e em conformidade com, o princípio de razão.

A altura a que as ciências naturais se alçaram em nosso tempo ridiculariza todos os séculos passados, e este é um píncaro que a humanidade atinge pela primeira vez. Mas não importa quão majestosos sejam os avanços que a física (entendida no amplo sentido dos antigos) nos possa proporcionar, nem o menor dos passos foi dado no caminho de uma metafísica, assim como um avião jamais obterá proporcionalmente mais espaço cúbico (volume) por ser maior longitudinalmente. E não é só: mesmo que o homem viajasse por todos os planetas e estrelas fixas, ainda nem por isso ter-se-ia aproximado um passo dessa metafísica. É justamente o caso contrário: o de que quão maiores forem os avanços na física mais sentiremos a necessidade de uma metafísica.

Somente se nos privarmos à força dessa primária e simples informação [de que tudo tem uma causa] podemos por um breve período nos maravilharmos com o processo de nossas próprias ações corpóreas como um milagre, quer seja, o de que entre o ato da vontade e a ação do corpo não há, realmente, conexão causal, posto que são diretamente idênticos, sua aparente diferença residindo na simples circunstância de que, aqui, o que é um e o mesmo é apreendido por nós como 2 modos diferentes de conhecimento, o externo e o interno [movimento material x intenção].”

Na Alemanha, os ensinamentos de Kant preveniram a continuidade irrestrita das absurdidades da física atomística e puramente mecânica; muito embora no presente mais imediato essas concepções prevaleçam por aqui, isto é conseqüência da frivolidade, opacidade, crueza e tontice reintroduzidas por Hegel em nosso meio.”

O materialismo inevitavelmente se converte em atomismo; como já aconteceu em sua infância nas mãos de Leucipo e Demócrito, e vem acontecendo novamente na sua segunda infância, causada pela idade; com os franceses porque eles nunca chegaram à filosofia kantiana, e com os alemães porque eles a esqueceram. E esse movimento é levado muito além nessa segunda infância. Não só corpos sólidos são ditos como consistindo de átomos, mas até os líquidos, a água, e depois o ar, os gases, não, mesmo a luz, que, dizem as teorias materialistas, consiste em ondulações de um éter completamente hipotético, impassível de prova mesmo pelo dogmatismo empiricista. Segundo eles a luz consistiria de átomos, explicando-se as diferentes cores pela rapidez variável dessas ondulações. Essa é uma hipótese científica que, como com a velha teoria das 7 cores de Newton, começa a partir de uma analogia com a música, inteiramente arbitrária e violentamente levada adiante.”

CRÍTICA AOS NEOMATERIALISTAS OU MATERIALISTAS MECANICISTAS E DETERMINISTAS (Schopenhauer nunca chegou a conhecer o Marxismo): “Diferentes movimentos perpétuos são então atribuídos a todos os átomos, rotações, vibrações, &c., de acordo com a função de cada qual; da mesma forma todo átomo tem sua atmosfera ou éter, ou então algo mais, e tudo que for necessário para dar plausibilidade à teoria é posteriormente acrescentado. As inventividades da filosofia da natureza de Schelling e seus discípulos eram, pelo menos, engenhosas, altivas, ou no mínimo sagazes; mas estes, [refere-se aos materialistas ruins de sua época] pelo contrário, são desajeitados, insípidos, reles e estranhos; há agora a legítima produção de mentes que são, acima de tudo, incapazes de conceber qualquer outra realidade que não a de uma matéria fabulosa, sem-qualidade. Essa matéria é um objeto absoluto, a saber, um objeto sem sujeito. Em segundo lugar, esses neo-materialistas não pensam em nenhuma outra atividade que não seja movimento e impacto: esses dois, e somente esses dois, são-lhes compreensíveis. Que tudo possa ser reduzido a movimento e impacto é sua afirmação a priori; é a coisa-em-si deles.” “Para eles o curso do mundo é como o de um relógio depois que o relojoeiro montou todas as peças e lhe deu corda, isto é, aqueceu-o, estimulou-o, tornou-o frenético. Daí que, deste ponto de vista artificial e incontestável, vemos o universo convertido em mera máquina ou engrenagem, cujo propósito nos é insondável. Mas ainda que, mesmo sem justificativas palpáveis para isso, aliás, no fundo, a despeito de toda o caráter concebível da coisa e de se a imaginar regida perfeitamente por leis físicas, ainda que alguém assumisse a seu bel prazer um primeiro começo, nada seria por isso essencialmente modificado. Pois a primeira condição das coisas, arbitrariamente estabelecida, por óbvio, determinaria de antemão e automaticamente, fixando-os irrevogavelmente – dos mínimos detalhes ao todo do sistema –, todos os estados sucedâneos.” Não deixaria de ser um postulado totalmente correto – tirante que não se aplica, evidentemente, à natureza humana que é a da responsabilidade pela própria existência! Ou seja: se a estética pudesse viver sem a ética e vice-versa, até que estes toscos materialistas poderiam ser sábios; no mundo como ele é, entretanto, são apenas uns parvos.

Se um insight direto dos trabalhos da natureza nos fosse possível, forçosamente reconheceríamos que o espanto e admiração provocados pela teleologia são análogos aos sentimentos experimentados pelo selvagem descrito por Kant em sua explicação do cômico e do riso na Crítica da faculdade do juízo. O selvagem em questão, quando viu espuma jorrar de uma garrafa de cerveja recém-aberta, disse assim: Não é que eu esteja espantado pelo jeito como esta espuma saiu da garrafa; estou espantado que qualquer um consiga colocá-la aí dentro!Não podemos responder como o que existe, existe; apenas confessar que existem e conformarmo-nos.

9.4 A BIOLOGIA

Tampouco a explanação fisiológica da vida vegetativa (functiones naturales, vitales), por mais longe que se vá, pode suprimir a verdade de que toda vida animal a se desenvolver nesses moldes é ela mesma fenômeno da Vontade. De modo geral, como foi elucidado antes, cada explanação etiológica só pode fornecer a posição necessariamente determinada no espaço e no tempo de um fenômeno particular, seu aparecimento necessário conforme uma regra fixa. Mas por essa via a essência íntima do fenômeno permanece sempre infundada, sendo pressuposta por qualquer explanação etiológica, e apenas indicada pelo nome força, lei natural ou, caso se trate de ações, caráter, vontade.”

O cão está para o homem como a taça de vidro está para a taça de metal, e é por isso que o cão é-nos tão querido: dá-nos imenso prazer perceber nele todas essas inclinações e emoções que nós mesmos, em nosso cotidiano, escondemos e disfarçamos tão bem de nossos iguais; e exibidas, o que é mais, de modo tão simples e franco por cada exemplar diante de seu dono.”

a opinião, tão afetada e forçada em nossos dias, de que há vida no que não é organizado, aliás no globo em si mesmo, e de que, também, o sistema planetário inteiro seria um organismo, é inteiramente inadmissível.” Curioso, porém: atende-se ao pré-requisito estabelecido por Schopenhauer para seres organizados da manutenção da forma (circular, cíclica), com mudança constante de material, isto é, sol, cometas, asteróides e planetas não estão quimicamente congelados no tempo e mantêm entre si uma certa homeostase ‘individual’ e ‘sistemática’. Poder-se-ia objetar que o núcleo da terra ou do sol não poderiam se manter com uma simples troca atômica (mudança de material), mas poderá ser que as constantes mudanças na superfície da terra e da lua – para citarmos só dois corpos celestes – não afetam sua existência? Na verdade essa questão não faz sentido justamente por não se tratar de vida – forma-conteúdo são unos na transformação climática que está acontecendo, p.ex..

Para muitos filósofos de baixa qualidade, toda teleologia é ao mesmo tempo uma teologia, e a cada instância de finalidade reconhecida na natureza, em vez de pensar e aprender a compreendê-la, eles prorrompem no seu grito infantilizado, ‘Propósito! Propósito!’, começam a usar os refrões da velha e sempre subsistente filosofia de comadronas (o ápice do pensamento domesticado) e se tornam surdos a qualquer argumento da razão, como, p.ex., o grande Hume já lhes tinha lançado antes mesmo de eles nascerem.” Traduzindo este parágrafo para uma linguagem mais direta e acessível: se é para fazer metafísica de baixa qualidade, o melhor mesmo é seguir em investigações empíricas sobre a natureza, sem tecer nenhuma hipótese maior que as próprias pernas.

Por que o indivíduo existe seria respondido de forma clara; mas por que existe a espécie mesma? Essa é uma pergunta que a natureza, quando considerada de forma meramente objetiva, não pode responder.”

Devo aqui expressar a minha opinião de que não há pele de cor branca natural no homem. Originalmente ele só pode ter tido pele negra ou parda, como nossos ancestrais os hindus. Um homem branco nunca nasceu do útero da Mãe-Natureza; não há o que chamam de ‘raça branca’. Todo homem branco de hoje é resultado do desbotamento gradual da cor, de um clareamento artificial de gerações. (…) Os ciganos, uma raça indiana que migrou à Europa há não mais do que 400 anos, demonstram o estado de transição entre a compleição dos hindus e a nossa. Nos impulsos de procriação, a natureza que fala no homem deseja o retorno dos cabelos negros e dos olhos marrons, que são o fenótipo primitivo.”

10. A MEDICINA

Não está ao nosso alcance ensinar e aprender in abstracto uma Fisionômica, porque as nuances são aqui tão sutis que conceito algum tem flexibilidade para lhes corresponder. Conseqüentemente, o saber abstrato está para elas como uma imagem de mosaico está para um quadro de VAN DER WERF ou DENNER.” Gall e Lavater como imbecis altamente intuitivos que creram poder ensinar algo inócuo e amorfo – sobre formas! – em calhamaços… Sua sensação de que “ninguém houve de semelhante antes de mim” induziu-os ao erro de se crerem gênios, mas tão-só lidavam com algo que não era passível de ser ensinado, e ninguém intuitivo como eles quis ser tão temerário.

Por isso sou da opinião de que a [ciência] fisionômica não pode avançar com segurança a não ser até o estabelecimento de algumas regras muito gerais, como p.ex. estas: na testa e nos olhos pode-se ler o que há de intelectual numa pessoa, já na boca e na metade inferior da face o que há de ético, as manifestações da vontade. Testa e olhos se explicitam reciprocamente: tomados isoladamente são compreensíveis apenas pela metade. O gênio nunca é sem uma testa alta, larga, belamente arqueada, mas a recíproca amiúde não é verdadeira. O espírito pode ser inferido de um semblante espirituoso tanto mais seguramente quanto mais feia for a face, e, de um semblante estúpido pode-se inferir tanto mais seguramente a estupidez quanto mais bela for a face; porque a beleza, enquanto correspondência com o tipo da espécie, já porta em e por si a expressão da clareza espiritual, o contrário ocorrendo com a fealdade, etc.” Varg Vikernes possui uma face estúpida quando jovem; depois, uma expressão austera, que no entanto nos ludibria (feiúra encobridora), posto que ele não é um sábio (confirmação da regra).

A sensibilidade em si mesma é totalmente incapaz de contrair um músculo sequer. Isso só pode ser realizado pelo próprio músculo, e sua capacidade para realizá-lo é chamada irritabilidade, i.e., suscetibilidade ao estímulo.” “a Vontade é o substrato metafísico da irritabilidade do músculo”

Ultimamente, a perspectiva fisiológica tem, finalmente, prevalecido na Patologia. Segundo esta, doenças são em si um processo curativo da natureza, que esta última introduz a fim de remover, superando suas causas, uma desordem que de alguma forma inoculou-se no organismo. Na batalha decisiva, a crise, esse processo regenerador é ou vitorioso, reconquistando a saúde para o organismo, ou derrotado.” “Por outro lado, que a vontade¹ seja ela própria a enfermidade, como afirmou Brandis repetidas vezes em sua obra Über die Anwendung der Kälte, [Sobre o emprego do frio (para a cura das doenças)] que citei na 1ª parte do meu ensaio Sobre a Vontade na Natureza, isso não passa de um grande mal-entendido.”

¹ Entendo que se esteja empregando o termo aqui no sentido mais fisiológico da coisa, i.e., temperamento ou disposição do paciente, daí a tradução pela letra minúscula.

As reflexões de Bichat e as minhas apóiam-se reciprocamente: sua obra é o comentário fisiológico da minha; e a minha é o comentário filosófico da dele. Seria melhor para o leitor isolado de qualquer um de nós que lesse o outro, para melhor entender cada qual.” “Como anatomista e fisiologista ele principia pelo objetivo, i.e., a consciência de outras coisas; eu, como filósofo, principio pelo subjetivo, a auto-consciência.”

um corpo desajeitado e atrapalhado indica pensamentos desajeitados e atrapalhados, e será visto como sinal de estupidez tanto em indivíduos quanto no caráter geral das nações, tanto como a ausência de autocontrole e a vacuidade do olhar. Outro sintoma do estado fisiológico em questão (a falta de inteligência) é o fato corrente de que muitas pessoas, ao dialogarem em movimento, se vêem obrigadas a parar no meio do passeio sempre que a conversação com um outro, que siga caminhando normalmente, comece a estabelecer múltiplas conexões e entrelaçamentos temáticos; o cérebro destes primeiros, tão limitado, assim que se vê premido a juntar pensamentos abstratos de ordem não tão mesquinha, vê-se sem reservas energéticas e tem de usar também o poder de concentração que lhe era necessário a fim de manter os membros em livre movimentação, isto é, a motricidade nervosa do tolo tem de se dedicar à conversa, uma vez que no mundo das pessoas que vivem mergulhadas nas aparências o que há de mais profundo para elas ainda está muito perto da superfície mais elementar, é tudo uma coisa só. [!!]As pessoas que não conhecem o – ou nunca fixaram o olhar no – abismo.

10.1 CONTRIBUIÇÕES À PSIQUIATRIA (FISIOLOGIA DO GÊNIO)

Que veementes sofrimentos espirituais ou terríveis e inesperados eventos com freqüência ocasionam a loucura, explano-o da seguinte maneira. Todo sofrimento desse tipo está sempre limitado, enquanto acontecimento real, ao presente. Nesse sentido, é sempre transitório e, assim, nunca excessivamente grave.” “quando um tal desgosto, um tal saber doloroso, ou pensamento, é tão atormentador que se torna absolutamente insuportável e o indivíduo poderia sucumbir a ele, a natureza assim angustiada recorre à LOUCURA como último meio de salvação da vida.” “Como exemplo considere-se o furioso Ajax, o rei Lear e Ofélia.”

um pulso enérgico e até mesmo, de acordo com Bichat, um pescoço enxuto, são pré-requisito para atividades de ordem superior no cérebro. (…) Mas o oposto do acima também ocorre: desejos veementes, caráter afetado e violento, tudo isso aliado a um baixo intelecto, i.e., cérebro pequeno de má conformação num crânio não obstante largo. Este é um fenômeno tão comum quanto repulsivo: podemos compará-lo à aparência da beterraba.”

A ESTUPIDIFICAÇÃO DO SEU PRINCIPAL SUCESSOR (HEBETUDE RETARDADA): “mediante o esforço repetitivo nosso intelecto se afadiga até a completa estupefação, se torna exausto, como uma pilha voltaica depois de sucessivos choques. Sendo assim, todo labor mental contínuo demanda pausas e descanso; de outra forma a estupidez e a incapacidade seguem, a princípio, é claro, apenas temporariamente; mas se esse descanso é persistentemente negligenciado ao intelecto, ele tornar-se-á excessiva e ininterruptamente cansado, e a conseqüência é uma deterioração permanente, que num homem já velho passa por completa incapacidade, infantilidade, imbecilidade, e finalmente loucura. Esta não deve ser atribuída à idade, em e por si mesma, mas a esforços cerebrais demasiados, tiranicamente longos e incessantes, no caso de sobrevir no fim da vida. Essa é a razão de Swift ter terminado louco, de Kant se ter tornado infantil, de Walter Scott, mas também Wordsworth, Southey e muita minorum gentium [gente pequena, anônimos] acabarem como tolos ineptos. Goethe permaneceu até o fim lúcido, vigoroso e de mente muito ativa, porque ele, que nunca deixou de ser um homem do mundo e um cortesão, nunca transformou suas ocupações em compulsão. O mesmo pode-se dizer positivamente de Wieland e Kuebel, este último vivo até os 91, e também de Voltaire. Tudo que acabei de dizer prova quão subordinado e material, e que mera ferramenta, o intelecto é. É por isso que seu cultivo requer, pela terça parte da vida, sua suspensão no estado do sono, i.e., o repouso do cérebro, do qual o intelecto é mera função, tanto que não existe intelecto sem cérebro apesar de poder existir o contrário, além do estômago necessariamente preceder a digestão, ou o corpo preceder suas impulsões, de modo que em idade avançada não só o corpo como os instintos se debilitam e decaem. A Vontade, por outro lado, como a coisa-em-si, nunca é lerda, é absolutamente incansável, sua atividade é sua essência, nunca deixa de desejar, e quando, durante o sono profundo, abandona o intelecto, e assim não pode agir exteriormente por motivos compreensíveis, é ativa como a força vital, preocupa-se sem cessar com a economia interna do organismo e, enquanto vis naturae medicatrix (vontade natural regeneradora), trata de pôr em ordem as irregularidades que nele vicejavam.”

Supostamente chegamos ao ápice das condições físicas e mentais ao redor do trigésimo aniversário, por conta da dependência que temos da pressão do sangue e do efeito da pulsação sobre o cérebro, época em que também passa a haver a predominância do sistema arterial sobre o venoso, produzindo a maior elasticidade das fibras cerebrais, sendo que ainda por cima nesta etapa não declinamos em relação ao sistema genital despertado na adolescência. Já por volta do 35º ano, uma leve diminuição da energia física do cérebro se torna perceptível, e o sistema venoso voltando a se tornar preponderante, bem como ocorrendo um relativo endurecimento da consistência do tecido cerebral, tudo isso – que é ainda mais notável no sujeito sedentário que não exercita o corpo, no sujeito que não utiliza as faculdades mentais com constância, no sujeito que não aprende com experiências ou não atravessa muitas experiências, no sujeito que não acumula conhecimento, no sujeito que não cultiva uma habilidade de caráter holístico, coisas que como que contrabalançam todas essas perdas – pode ainda decair de modo gradual e pouco acentuado até uma idade muito avançada. Em suma, é o cérebro similar a um instrumento que vai se desgastando aos poucos, e a velocidade do desgaste depende daquele que o utiliza.”

Montaigne diz de si mesmo que sempre foi um dorminhoco. Que passou uma larga parte de sua vida dormindo, e que na velhice ainda dormia de 8 a 9 horas por noite (III, capítulo 13). Descartes, segundo consta, também era um grande dorminhoco (Baillet, Vie de Descartes, 1693, p. 288). Kant se permitia 7 horas de sono somente, mas era tão difícil para ele despertar que acabou ordenando a seu mordomo que o forçasse, contra sua vontade, sem ouvir qualquer objeção sua de manhã; só assim para conseguir ficar de pé (Jachmann, Immanuel Kant, p. 162). Isso se explica pela razão de que quanto mais um homem é desperto, quer seja, quão mais clara e ativa é sua consciência, maior é sua necessidade de sono, tanto em qualidade quanto em quantidade. Naturezas pensantes ou árduos exercitadores de trabalhos cerebrais devem reservar para seu organismo mais tempo para regenerar as energias. Que um exercício muscular continuado também nos deixa sonolentos pode ser explicado pelo fato de que o cérebro, através da medula oblongata, a medula espinhal e os nervos motores, distribui o estímulo aos músculos, gerando sua irritabilidade, e dessa forma, prolongando-se o esforço, exaure sua força. A fadiga observada nos braços e pernas tem, portanto, origem no cérebro; a dor que essas partes ‘sentem’ é em realidade experimentada pelo cérebro, conectado aos nervos motores tanto quanto aos nervos dos sentidos.”

No sonambulismo magnético a consciência é duplicada: 2 correntes de pensamento, cada uma auto-suficiente, mas um tanto diferentes uma da outra, surgem; a consciência desperta nada sabe da sonambúlica. Mas o temperamento e o caráter são idênticos em ambas, eles são invariáveis no indivíduo; ambas as personalidades exprimem as mesmas inclinações e aversões. A função pode até estar duplicada, mas não a natureza essencial.” À luz do que os otimistas da protopsiquiatria e da primeira psiquiatria dinâmica do séc. XIX afirmavam, Sch. se mostra, novamente, pelo menos meio século à frente de seu tempo neste assunto (magnetismo animal). Janet o corrobora por inteiro em seu Automatismo psicológico.

A Vontade em si está presente em todo o organismo, já que este é meramente sua forma visível; o sistema nervoso existe em todas as partes meramente para o propósito de possibilitar o direcionamento da ação adjudicando-se o controle, como se o corpo servisse à Vontade como um espelho, para que esta veja aquilo que executa, assim como nós usamos um espelho para nos barbearmos.”

OS TESTARUDOS: “O cérebro desses seres deve ter uma conformação muito original em relação aos outros. Seu desenvolvimento é, na comparação, descomunal, em magnitude física tanto quanto em características espirituais. O cérebro do gênio é particularmente largo e alto. Na outra mão, sua profundidade será inferior, e o cerebrum preponderará de forma anormal em proporção ao cerebellum(…) Mas nosso conhecimento não é ainda suficiente para determinar as relações das partes com o todo no cérebro com exatidão, embora reconheçamos facilmente aquela forma craniana que indica inteligência elevada e nobreza.² (…) decerto que a proporção quantitativa da matéria branca para a matéria cinzenta tem influência decisiva, o que, lamentavelmente, não podemos especificar mais no momento.³ O estudo post-mortem do corpo de Byron (apud Medwin) demonstrou que em seu caso a matéria branca estava em uma proporção desusadamente superior comparada com a matéria cinza; constatou-se, também, que o cérebro pesava 2,72kg.” O que é matéria cinzenta num mundo de ruído branco? O que é matéria branca num mundo poluído e cinzento?

¹ Essencialmente Schopenhauer postula uma preponderância muito maior dos setores cerebrais ligados à inteligência e emoção que do setor ligado ao trabalho muscular e regulação da postura. Se a anatomia cerebral continua tão simplista quanto em sua época (sem endeusar qualquer neurologia, mas creio que não vem a ser inteiramente o caso), podemos ter certeza de que nenhum gênio no futebol é um gênio no sentido filosófico aqui tratado, e todos possuem cerebelos bem avantajados!

² E essa ignorância das relações entre as partes do nosso sistema nervoso permanecem, 150 anos depois. Ninguém pode afirmar nada nessa área sem correr um grande risco de desmentido.

³ O engraçado é que a matéria cinzenta é popular e pelo visto cientificamente mais associada hoje ao que Sch. atribuía à matéria branca, cf. Wikipédia: “Enquanto a substância cinzenta (composta de neurônios) é primeiramente relacionada com processamento e cognição, a substância branca (composta de axônios mielíticos) modula a distribuição de ações potenciais, agindo como um reléa e coordenando a comunicação entre diferentes regiões cerebrais.” Mais um motivo, ironicamente, para o gênio ter realmente mais matéria branca, como se disse de Byron, e para Sch. estar errado quanto a sua tese da preponderância do intelecto, e não da vontade, no gênio (ver 12.5 para mais detalhes).

a “relé, s.m. Aparelho que retransmite o sinal que recebe, amplificando-o consideravelmente; Aparelho capaz de fazer com que uma energia menor [o cerebellum, invertendo o que Sch. disse, anormalmente maior no gênio] controle outra maior [o cerebrum].”

Mesmo a delicadeza da conformação nervosa no indivíduo não é suficiente para suscitar o fenômeno do gênio se a herança do pai não é adicionada,¹ um temperamento vívido e apaixonado, que se exibe somaticamente como energia transbordante – anormal – provinda do coração, e conseqüentemente da circulação do sangue, especialmente no que toca à irrigação da cabeça.”

¹ Schopenhauer tem a idéia fixa de que o gênio está estritamente associado ao caráter do masculino. Isso interfere com sua misoginia exacerbada, mais explorada num tópico à parte, o nº 13.

A condição descrita acima, i.e., a herança do temperamento paterno, porém num cérebro mal-organizado, dá vivacidade sem presença de espírito, acaloramento sem luz, gera pessoas irritáveis, homens de uma insuportável motricidade e petulância. Que em dois irmãos só um tenha gênio, e esse geralmente o mais velho, o caso de Kant, p.ex., é em primeiro lugar explicado pelo fato de que o pai estava na idade do vigor e da paixão somente à concepção do gênio.” Idiossincrasias schopenhauerianas sem qualquer fundamento.

11. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS

Quando concebemos uma hipótese, temos olhos de lince para qualquer dado que a confirme, e olhos de míope para qualquer coisa que a contradiga.”

Podemos considerar o ponto em que o entendimento faz a transição da mera sensação sobre a retina à causa dessa sensação como as fronteiras entre o mundo como vontade e o mundo como representação.”

11.1 A HISTÓRIA

As ciências propriamente classificatórias: zoologia, botânica, também a física e a química (na medida em que reduzem todo fazer-efeito inorgânico a poucas forças fundamentais), possuem o maior número de subordinações. A história, ao contrário, propriamente dizendo, não possui subordinação alguma, pois o universal nela consiste apenas na visão panorâmica dos principais períodos, dos quais, porém, não se podem deduzir eventos particulares – os quais estão subordinados só ao tempo e coordenados segundo o conceito. Conseqüentemente, a história, tomada em sentido estrito, é sem dúvida um saber, mas não uma ciência.”

A verdadeira sabedoria não é adquirida medindo-se o mundo ilimitado ou, o que seria mais pertinente, sobrevoando pessoalmente o espaço infinito, mas antes investigando qualquer coisa em particular, procurando conhecer e compreender perfeitamente a sua essência verdadeira e própria.” Quem não entende a ausência-de-fim do momento presente não pode ser historiador.

Também a experiência e a história ensinam a conhecer o homem; contudo, mais freqüentemente OS homens e não O homem”

Agora vemos como também os historiadores antigos seguiam o preceito de Winckelmann de que o retrato deve ser o ideal do indivíduo (…) Já os novos historiadores, diferentemente, salvo raras exceções, apresentam na maioria das vezes apenas ‘um barril de entulhos e inutilidades, e quando muito uma ação principal de Estado’.”

É errado afirmar que as autobiografias são cheias de engodo e dissimulação. A mentira é em toda parte possível, mas talvez em nenhum outro lugar é mais difícil do que justamente na autobiografia.”

Verificamos que as 3 raças de homem que, tanto em traços fisiológicos como lingüísticos, são indubitavelmente independentes em suas origens, quer seja, os caucasianos, os mongóis e o etíopes, encontram-se em casa apenas no Velho Mundo. A América é povoada pela raça mongol misturada e climaticamente modificada, que com toda a probabilidade veio da Ásia.”

A história será mais interessante quão mais especializada for sua narração, mas assim perde em credibilidade, pois adquire ares de romance.”

Ao passo em que a história nos ensina que a cada ocasião algo mais ocorreu, a filosofia tenta convencer o sujeito da constatação única de que todos os tempos e lugares foram, são e serão exatamente os mesmos.”

Histórias construtivas, guiadas por um otimismo e idéia de raça ou povo como fins em si, sempre se consumam num Estado gordo, rico e confortável, com uma constituição bem-regulada, boa justiça e polícia, artes úteis, indústrias integradas ao social e, sobretudo, numa atmosfera de perfeição intelectual. Esse quadro não é ruim para uma ficção: o bom ficcionista ou teleologista sabe que a moral permanece essencialmente inalterável.”

Aquele que leu Heródoto já estudou história o bastante, do ponto de vista filosófico. Tudo que forjará a história dos próximos séculos já está lá: os esforços, ações, sofrimentos, e o destino da raça humana.”

A história deve ser vista como a razão, ou a consciência reflexiva, da raça humana, e ocupa o lugar de uma autoconsciência imediata comum a todos, de modo que só através dela a raça humana vem a ser um todo, vem a ser humanidade.”

Da mesma forma, o que a linguagem é para a razão dos indivíduos, como condição indispensável de seu uso, a escrita é para a razão da coletividade humana; porque só depois da escrita é que sua existência real começa, como a existência de cada um principia com a aquisição da linguagem. Escrever serve para restaurar a unidade da consciência coletiva, que é constantemente interrompida pela morte, e portanto é fragmentária. Assim, o pensamento do antepassado é pensado pelo seu descendente remoto. A escrita é o remédio para a cisão da humanidade e da consciência dessa humanidade em um número infinito de individualidades efêmeras, e é também, portanto, um clamor contra o próprio tempo, que sempre favorece o esquecimento. E não só a escrita: para completar essa memória, devemos prestar atenção nos monumentos de pedra, que em grande parte são mais antigos que aquela. Quem acreditaria, não fossem os grandes monumentos, que houve um tempo em que, a um custo incalculável, alguns poucos indivíduos mobilizaram com seu poder uma multidão de milhares por tantos anos a fim de construir as pirâmides do Egito, monolitos, tumbas rochosas, obeliscos, templos e outras construções que sobreviveram milênios? Comparadas a essa magnitude temporal, quão mesquinha não é a vida do indivíduo, insuficiente em si mesma para ver o início e o fim de uma obra desse vulto? Por gerações sem conta os faraós mantiveram de pé o fim ostensivo que tinham em mente, usando a ignorância da maioria como meio. E que fim era esse? Falar a seus descendentes remotos, conectar-se a eles, estabelecer, a sua maneira, a unidade da consciência da humanidade. Os edifícios dos hindus, dos egípcios, mesmo dos gregos e romanos, foram calculados para durar milhares de anos, porque do alto de sua cultura elevada eles enxergavam um horizonte mais amplo. Já as edificações da Idade Média e dos tempos modernos só tem sua função imediata em vista, e não foram erguidas para durar mais que alguns séculos, no máximo. Em parte, confessemos, isso se deve já ao fato de o homem depois da Antiguidade depositar mais confiança na difusão da escrita para cumprir o papel desse elo histórico de gerações. Desde o nascimento da arte da imprensa, isso ganha uma proeminência extraordinária. Não é dizer que morreu o desejo de, através da arquitetura contemporânea, preservar um legado, falar com a posteridade. É sempre uma desgraça quando um grande monumento é destruído ou desfigurado para servir a fins utilitários vis. Monumentos da escrita têm menos a temer dos elementos, em comparação com os bárbaros.¹ Os egípcios bem quiseram combinar ambas as formas (arquitetura + escritura), pois supriram suas construções com hieróglifos, ou melhor, adicionaram mesmo pinturas em caso de que os hieróglifos não pudessem mais ser decriptados.”

¹ Antecipa brilhantemente o nazismo, a época neo-inquisitorial em que se queimaram pilhas de livros. Ou seja: temos menos a temer de tsunamis e terremotos que do próprio lobo do homem.

A história está para a poesia como a pintura de retratos está para a pintura histórica, pois a história dá o verdadeiro no particular, a poesia no universal.”

11.2 O DIREITO

O conceito de injustiça – sua negação da justiça, conceito originariamente MORAL – torna-se JURÍDICO pela mudança do ponto de partida do lado ativo para o passivo, ou seja, por inversão. Isso, ao lado da doutrina do direito de Kant, a qual, do imperativo categórico, deduz falsamente a fundação do Estado como um dever moral, deu origem aqui e ali, nos novos tempos, ao erro bastante esquisito e grosseiro de que o Estado seria uma instituição para o fomento da moralidade [e não seu contrário!] e que teria se originado graças aos contínuos esforços em promover essa moralidade, sendo, portanto, orientado contra o egoísmo. [quando obviamente estabelece um poder político concentrado onde antes havia de facto uma política e uma governança em alguma medida altruístas]“Mais disparatado ainda é o teorema de que o Estado seria condição da liberdade em sentido moral e, com isso, da própria existência da moralidade.”

Kant faz a afirmação fundamentalmente falsa de que, exteriormente ao Estado, não há direito algum de propriedade. Só que, em conformidade com a nossa dedução recém-feita, há sim propriedade no Estado de natureza, lastreada em direito perfeitamente natural, i.e., moral, o qual não pode ser violado sem injustiça, podendo pois ser defendido sem injustiça. Por outro lado, e isto também é certo, fora do Estado não há DIREITO PENAL. Todo direito de punir é estabelecido exclusivamente pela lei positiva, que, ANTES do delito mesmo, determinou uma punição para ele e cuja ameaça, como contra-motivo, deve sobrepor-se a todo possível motivo que conduz ao delito. Essa lei positiva deve ser vista como reconhecida e sancionada por todos os cidadãos do Estado. Ela, portanto, funda-se sobre um contrato comum, a cujo cumprimento os membros do Estado estão obrigados em todas as circunstâncias. Destarte, deve-se, de um lado, infligir a punição ou, de outro, recebê-la. Destarte, a aceitação de uma punição é algo que pode ser imposto pelo direito. De toda essa cadeia se segue que o imediato OBJETIVO DA PUNIÇÃO num caso particular é CUMPRIR A LEI COMO UM CONTRATO. Por sua vez, o único objetivo da LEI é IMPEDIR o menosprezo dos direitos alheios, pois, para que cada um seja protegido do sofrimento da injustiça, unem-se todos em Estado, renunciando à prática da injustiça e assumindo o fardo da manutenção dele.”

Retaliação do mal, com o mal sem ulterior finalidade, não é moralmente, nem de qualquer outra maneira, justificável, porque inexiste um fundamento da razão para tal, e a jus talionis estabelecida como um princípio independente e último do direito penal carece de sentido. Por conseguinte, a teoria kantiana da punição, concebida como retaliação pela vontade de retaliação, é uma visão totalmente infundada, perversa. No entanto, seus vestígios sempre se fazem presentes nos escritos dos jurisconsultos, na forma de perífrases imponentes, verborragia oca, como aquela de que, pela punição, o delito é expiado ou neutralizado ou suprimido e coisas semelhantes.”

11.3 SOBRE A EVOLUÇÃO E A IMPORTÂNCIA DAS LÍNGUAS: SUMA DEPRECIAÇÃO DO HOMEM ALEMÃO

A necessidade mais imediata de se aprender os idiomas antigos se liga aos arcaicos termini technici, e eles estão cada vez sob maior perigo de negligência mediante o uso de línguas contemporâneas nas investigações eruditas. Se efetivamente esse aprendizado [do latim e do grego] vier a caducar, se o espírito dos antigos, indissociável de suas línguas, desaparecer da educação liberal, toda essa rudeza, insipidez e vulgaridade tomarão posse completa da literatura. As obras dos antigos são a estrela-guia de todo esforço literário ou artístico; se estas obras desaparecem, a literatura e a arte vão junto. Hoje mesmo somos testemunha da miséria e puerilidade de estilo da grande maioria dos escritores – e parte disso se justifica pelo fato de essa geração nunca ter escrito em latim. Uma das maiores utilidades do estudo dos antigos é nos resguardar da verbosidade; os antigos não medem esforços para escrever de modo conciso e calculado. O erro básico dos modernos é a prolixidade, o que os escritores da atualidade começam a tentar disfarçar cortando cada vez mais letras e sílabas e inventando abreviaturas que se tornam lugares-comuns. Sendo assim, é um imperativo empreender o estudo dos antigos por toda a nossa vida, muito embora depois de um tempo as horas dedicados a esses autores possam diminuir bastante. Os antigos sabiam dessa verdade: não se deve escrever como se fala. Os modernos, por outro lado, não têm sequer vergonha de imprimir aulas e congressos que ministram! O estudo dos autores clássicos é muito convenientemente chamado de estudos nas Humanidades, porque através deles o aluno, antes de tudo, torna-se novamente homem, pois ingressa naquele mundo que era ainda livre das absurdidades da idade média e do romantismo, que vieram a penetrar tão fundo na população européia que mesmo na atualidade [meados do século XIX] qualquer recém-nascido já nasce soterrado por esses escombros (preconceitos). Nossa primeira obrigação é nos livrar de todo esse lixo para voltarmos a sermos homens. Jamais pensemos que nossa sabedoria moderna poderá um dia fazer as vezes dessa peculiar iniciação na condição humana; não nascemos, como os gregos e romanos, livres, desacorrentados, filhos diretos da natureza. O que primeiro somos? Filhos e herdeiros da cavernícola era medieval e sua loucura, suas pregações infames, e também da cavalaria, essa coisa meio-brutal, meio-infantil. E apesar de vermos o romantismo e o medievalismo caminhando lentamente para seu esgotamento, é mister notar que o homem moderno não se ergue sobre os próprios pés. Sem a escola dos antigos nossa literatura degenerará em fofoca vulgar e filisteísmo inócuo. Tudo isso me leva ao bem-intencionado conselho de pôr termo de vez a essa mania germanófila tão condenável.”

no lugar de Untersuchung agora se escreve Untersuch; [investigação] pior ainda, no lugar de allmälig, mälig; [gradualmente – as grafias em voga são allmähllich ou mähllich, até mais longas!] em vez de beständig, ständig. [incessante, remanescente, constante, perpétuo]¹ No lugar de beinahe [quase], nahe [perto]. Ora, se um francês começasse a escrever près no lugar de presque, [perto no lugar de quase], ou se um inglês escrevesse most [mais] em vez de almost [quase], seriam objeto de ridículo; mas na Alemanha quem quer que faça esse tipo de supressão passa por original. Nossos químicos já escrevem löslich [solúvel] e unlöslich [insolúvel] no lugar de unauflöslich, [indissolúvel ou irreconciliável/inconciliável] e se os gramáticos não quebrarem suas juntas e articulações eles roubarão da língua uma valiosa palavra. Nós, cadarços, e também conglomerados dos quais o cimento é amolecido, bem como qualquer coisa análoga, são löslich [desatados, afrouxados, quando esta palavra era exclusiva para esta conotação]; mas aquilo que é auflöslich, [dissolúvel]² ao contrário, é tudo que desaparece num líquido, como o sal na água. Auflösen [dissolver, derreter, desintegrar] é o terminus ad hoc, [termo técnico, importado da ciência cosmopolita européia] que diz isso e nada mais, precisando um conceito. Nossos agudos improvisadores da língua, porém (…) por coerência e contigüidade, seriam obrigados a fazer de lösen sinônimo ou substituto de ablösen [aliviar, abrandar, até substituir ou revezar, e guardar], auslösen, [liberar, causar, lançar] einlösen, [resgatar, honrar, redimir]³ etc. Neste andar da carruagem, a língua se tornará de uma uniformidade boçal e estéril. Lembremos, contudo, que empobrecer o idioma em uma só palavra significa, ao mesmo tempo, tornar o pensamento da nação mais pobre em um conceito inteiro. Essa é, apesar de tudo, a tendência dos esforços conjuntos de quase qualquer autor dos últimos 10 ou 20 anos. O que demonstrei com a ajuda de um caso poderia ser corroborado por cem mais, e essa abjeta economia de sílabas se dissemina como uma doença. Os malditos desgraçados contam mesmo as letras, e não hesitam em mutilar uma palavra, ou usar outra num falso sentido, sempre que assim puderem ganhar 2 caracteres. Aquele incapaz de novos pensamentos irá trazer ao menos algumas novas palavras ao mercado, e todo desperdiçador de tinta ainda ousa considerar sua vocação melhorar a língua! Os jornalistas são os mais desavergonhados; os jornais, devido à natureza trivial de seus conteúdos, possuem, logicamente, os maiores públicos; de fato um público que na maioria das vezes lê jornais e apenas jornais. E através dos jornais cria-se a mais nefanda ameaça à língua. Eu recomendaria, portanto, que se submetesse essa classe profissional a uma CENSURA ORTOGRÁFICA, ou que pelo menos pagassem uma multa por cada palavra estrambótica ou mutilada. Afinal, o que é que pode ser mais descabido do que essas mudanças na língua procederem das camadas mais baixas da literatura? A língua, em especial uma língua, relativamente falando, original como a alemã, é a herança mais valiosa de uma nação, sendo ao mesmo tempo uma obra de arte excessivamente complicada, facilmente danificável, e impossível de ser restaurada – um caso clássico de noli me tangere. [não-me-toque, i.e., o princípio daquilo que não deve ser mexido se isso puder ser evitado, sob pena de acabar estragando a coisa] Outras nações já passaram pelo mesmo, demonstrando grande compaixão por seus idiomas, ainda que fossem idiomas ou dialetos muito menos singulares que o alemão. A língua de Dante e de Petrarca difere em ninharias do italiano vigente; Montaigne é bastante legível ainda hoje, assim como Shakespeare, até em suas edições mais remotas. Para o cidadão alemão é melhor ter palavras mais longas em sua boca, uma vez que ele pensa devagar, e as palavras compridas dão-lhe tempo para refletir. Esse estado dominante da economia lingüística dos alemães se exibe em fenômenos ainda mais característicos. Por exemplo: em completa oposição à lógica e à gramática, o alemão usa o imperfeito no lugar do perfeito e do mais-que-perfeito; o verbo auxiliar não sai de seus bolsos; prefere o ablativo ao genitivo; unicamente para omitir uma ou duas partículas lógicas elaboram-se sentenças tão intrincadas que é necessário reler 3 vezes para se entender; é só o papel, e não o tempo do leitor, que os escrevinhadores se importam em poupar. Em nomes próprios, como é a maneira dos hotentotes, [comentário com matiz racista de Schopenhauer, se referindo a um povo africano] não se dignam a indicar o caso pela inflexão do próprio substantivo ou pela desinência do artigo: que o leitor o adivinhe! Mas, ah!, o alemão tem ainda uma predileção toda especial por contrair a vogal dupla e suprimir o h, que é sempre pronunciado, essas letras sagradas para a prosódia [entonação]

¹ A bem da verdade, as formas com prefixos ou afixos, as mais longas, ainda são dicionarizadas. O estrago não foi tão considerável quanto Schopenhauer previa. No português, uma mudança ortográfica vulgarizadora análoga poderia ser: de (fazer uma) investigação, termo “erudito”, para (dar uma) investigada (coloquial).

² Hoje, com efeito, unlöslich possui apenas o significado químico (in)solúvel, mas lösen possui tanto o químico quanto o de desatar um nó (embora haja variados sinônimos, como binden e zubinden), ao passo que auflöslich caiu em completo desuso. Para comparar com uma mudança em português correlata que suprima afixos e morfemas mas mantenha a palavra na mesma ordem simbólica, poderíamos citar indissolúvel e dissolúvel, onde o -dis- é facultativo, e eu já havia sublinhado no texto principal. Curiosamente, na nossa língua a semântica de (dis)solver também guarda relação com o ato de (des)atar, que associamos imediatamente a cadarço ou nó; mas, no caso, usamos o primeiro apenas para operações abstratas (resolver, solucionar um problema; quando muito, podemos desatar um nó górdio, figura de linguagem).

³ Hoje redimir pode ser expresso em alemão tanto com ablösen quanto com einlösen. Digamos que o einlösen é mais pertinente a contextos como honrar ou redimir uma dívida ou – no uso arcaico que se preservou – uma mulher, uma virgem, honrá-la, etc., casando-se com ela, p.ex..

Redigir Literatur no lugar do correto Litteratur é também muito benquisto, pois salva uma letra. Em defesa desse procedimento, o particípio do verbo linere é citado como raiz da palavra. [esse termo saiu de uso] Ocorre que linere significa difamar; por uma estranha coincidência, a nova grafia pode muito bem ser acertada para dar conta da maior parte da impressão de livros dos alemães; assim distingue-se mais facilmente uma rara Litteratur de uma muito prolífica e interminável Literatur.” [!!!] Hoje, Litteratur desapareceu do léxico…

A fim de escrever com concisão, um homem deve melhorar seu estilo e drenar todo falatório e tagarelice, o que dispensará cortes de sílabas e letras em virtude do custo do papel. Mas escrever tantas páginas inúteis, tantos artigos inúteis, tantos livros inúteis, e depois querer compensar o desperdício de matéria e de tempo às custas de sílabas e letras inocentes – isso é que é o superlativo do que na língua inglesa chamam de <being penny wise and pound foolish>: avaro com centavos e ninharias, extremamente perdulário no que realmente importa e é o olho da cara.”

É de se lamentar a ausência de uma Academia Germânica para cuidar da língua contra o pedestrismo literário, especialmente numa era em que mesmo os ignaros das línguas antigas se aventuram a empregar as prensas.”

Toda vez que iniciamos o aprendizado de uma língua nova, temos de repetir todo o processo do zero. Mas se aprendemos uma língua para o uso passivo e não o ativo – isto é, unicamente para ler, mas não para falar, como, p.ex., muitos de nós aprendem o grego – a conexão é unidimensional, pois as concepções ocorrem em nós juntas com as palavras; na outra mão, a palavra nem sempre nos ocorre junto com a concepção. Isso acontece em miniatura quando aprendemos novos vocábulos numa língua que já dominamos, particularmente com nomes de lugares e pessoas.”

12. SCHOPENHAUER E A ESTÉTICA: APERFEIÇOADOR DE KANT

Aquele conhecimento profundo, puro e verdadeiro da essência do mundo se torna um fim em si para o artista, que se detém nele. Eis porque um tal conhecimento não se torna para ele um quietivo da Vontade¹

¹ Seria o desejável. Mas é assim de fato com a classe artística? Ou não seria antes o caso da exceção?

O quanto não sofreu Schopenhauer, que não foi santo nem poeta (músico, pintor…), apenas filósofo sem coroa! Sua norma, a Vontade, também não foi acolhida pelas futuras constituições dos homens…

O que é nobre e sábio raramente consegue fazer sua aparição ou encontra eficácia e eco; mas o absurdo e o perverso no domínio do pensamento, o rasteiro e de mau gosto na esfera da arte, o mau e fraudulento na esfera dos atos, realmente afirmam sua supremacia, obstados apenas por pequenas interrupções. Ao contrário, o insigne de todo tipo não passa, sempre, de uma exceção, um caso entre milhões: por conseguinte, se porventura tiver se anunciado numa obra duradoura, ela permanece subseqüentemente isolada após ter sobrevivido ao rancor de seus contemporâneos, sendo conservada como uma espécie de meteorito vindo de uma outra ordem de coisas, diferente da aqui imperante.”

A boa vontade é, em moralidade, tudo; mas na arte não é nada.”

A filosofia está para a arte como o vinho para as uvas.” A filosofia descobre o cerne da aparência. O contrário também poderia ser afirmado sem que a veritas cedesse em 1 milímetro para o erro. Cristo era mais artista que filósofo. Carpinteiro. O dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo da Estética: Dá-me uvas boas o bastante e meus pés saberão amassá-las numa boa bebida que fermentarei.

Na série de artes expostas por mim, a arquitetura e a música são os dois extremos da escala.”

12.1 ARQUITETURA

a luta entre gravidade e rigidez é propriamente o único tema estético da bela arquitetura.” “A nossa alegria numa semelhante obra seria de súbito bastante diminuída se nos fosse revelado que o material de construção é pedra-pomes, pois assim ela apareceria como uma espécie de construção ilusória. O mesmo efeito seria produzido pela informação de que se trata apenas de um edifício de madeira, quando até então pensávamos ser de pedra, precisamente porque isso doravante muda, altera a relação entre rigidez e gravidade e, com isso, a significação e a necessidade de todas as partes”

Todo o exposto demonstra precisamente que a arquitetura faz efeito não apenas matemática mas também dinamicamente, e que aquilo a falar-nos por ela não é meramente a forma e a simetria, mas antes as forças fundamentais da natureza, as Idéias primeiras, graus mais baixos de objetividade da Vontade.”

Se alguém pudesse trazer um grego antigo para diante de nossas mais celebradas catedrais góticas, o que ele lhe diria? — βάρβαρος!” Aqui a língua portuguesa (senão muitas outras!) dá espaço para um belo trocadilho: barbaroi!, i.e., bárbaros! Que um edifício ou qualquer outra coisa seja bárbaro poder-se-ia entender como elogio. Que livro maravilhoso, a caracterização do herói ficou bárbara! A despeito disso, o grego em questão só quis mesmo depreciar nosso estilo arquitetônico forasteiro e irracional diante do cânone clássico. Isto lá é arte?!

12.2 ESCULTURA

Ele imprime no mármore duro a beleza da forma que a natureza malogrou em milhares de tentativas, coloca-a diante dela e lhe brada: ‘Eis o que querias dizer!’. Para em seguida ouvir a concordância do conhecedor: ‘Era isso mesmo!’. Só assim pôde o gênio grego descobrir o tipo arquetípico da figura humana e estabelecê-lo como cânone da escultura.”

Que Laocoonte, no famoso grupo de esculturas, não grite, é algo manifesto. A estranheza geral e sempre repetida em face disso deve ser atribuída a que, na sua situação, todos nós gritaríamos: e assim também o exige a natureza. Pois, no caso da dor física mais intensa e do súbito aparecimento da maior das angústias corporais, toda reflexão que poderia conduzir a uma resignação silenciosa é subitamente reprimida da consciência e a natureza se alivia pelo grito, exprimindo assim a dor e a angústia, ao mesmo tempo em que invoca alguém salvador e espanta o agressor. Já Winckelmann sentia falta da expressão do grito. No entanto, na medida em que procurava uma justificativa para o artista, transformou, propriamente dizendo, Laocoonte num estóico, o qual considerava inadequado à sua dignidade gritar secundum naturam, e assim acrescentar à própria dor a coerção inútil de evitar a sua manifestação. Em conseqüência, W. vê em Lao. ‘o espírito de um grande homem posto à prova, um mártir procurando suprimir e reter em si mesmo a expressão do sentimento: ele não irrompe em sonoros gritos, como o faz em Virgílio, mas somente emite gemidos lamentosos’ (…) Esta opinião é por sua vez criticada por Lessing (…) no lugar do fundamento psicológico, ele coloca o fundamento puramente estético, ou seja, que a beleza, princípio da arte antiga, não admite a expressão do grito. Outro argumento por ele aduzido, de que um estado completamente passageiro e incapaz de qualquer duração não pode ser exposto numa obra de arte imóvel, tem contra si centenas de exemplos de figuras maravilhosas, captadas em movimentos inteiramente fugidios, dançando, lutando, correndo etc. Goethe mesmo, em seu estudo sobre Lao., que abre os Propileus (p. 8), considera a escolha de um semelhante momento passageiro absolutamente necessária.” “Sobre o palco Laocoonte obrigatoriamente tinha de gritar. Também Sófocles faz Filoctetes gritar: de fato, nos palcos antigos ele efetivamente devia gritar. (…) um grito pintado ou destituído de voz seria ainda mais risível do que música pintada” O grito pode ser desenhado como onda; além disso já existe música pintada, acreditem!

na escultura o drapejado é em certa medida o que na pintura é o escorço: ambos são alusões, mas não simbólicas, e sim tais que, se bem-executadas, compelem imediatamente o entendimento a intuir o aludido, como se ele realmente tivesse sido dado.”

A escultura grega apela à intuição, pelo que é ESTÉTICA. Já a escultura indiana apela ao conceito, pelo que é SIMBÓLICA.”

A escultura moderna, o que quer que realize, ainda é análoga à poesia moderna em latim, e, como esta, é uma filha da imitação, nascida de reminiscências. Se tenta ser original, cai no nonsense, especialmente quando toma o mau caminho de se conformar à natureza [crítica às esculturas realista e naturalista] em vez de às proporções clássicas dos gregos.”

12.3 PINTURA

DA GULA AO PORNÔ: “Frutas pintadas ainda são aceitáveis, visto que, como um desenvolvimento tardio de flores, e pela sua forma e cor, oferecem-se como um belo produto natural, sem que se seja obrigado a pensar na sua comestibilidade. Mas, infelizmente, encontramos com freqüência, pintadas com naturalidade ilusória, iguarias preparadas e servidas, ostras, arenques, lagostas, pães amanteigados, cerveja, vinho, etc.; tudo isso é bastante repreensível. – Na pintura de gênero e na escultura o excitante consiste nas suas figuras nuas, cujo posicionamento, semipanejamento e todo o modo de execução são calculados para despertar a lubricidade do espectador, pelo que a pura consideração estética é de imediato suprimida e a obra se posta contra a finalidade da arte.”

Alguma vez a natureza produziu um homem perfeitamente belo em todas as suas partes? – Opinou-se que o artista tem de estudar conjuntamente as muitas partes belas isoladas distribuídas por muitos homens e delas compor um todo belo. Eis uma opinião disparatada. (…) de onde deve o artista reconhecer que precisamente estas formas isoladas são belas e não as outras? – Também vemos até onde foram (…) os antigos pintores alemães. Considerem-se suas figuras nuas. – Conhecimento algum do belo é possível de maneira puramente a posteriori.”

A PINTURA NÃO NECESSITA SER HISTÓRICO-CRISTÃ: “Indivíduo algum ou ação alguma podem ser sem-significado [o quanto isso não contrasta com o teor do livro 4!] (…) Eis por que nenhum evento da vida humana deve ser excluído da pintura. Em conseqüência, é-se muito injusto com os maravilhosos pintores da escola neerlandesa ao apreciar somente suas habilidades técnicas, desprezando-os no resto, alegando-se que, na maioria das vezes, só expõem objetos da vida cotidiana, enquanto se consideram como significativos, ao contrário, somente os eventos da história universal ou bíblica.” “Até mesmo a fugacidade dos momentos que a arte fixou em tais obras (hoje em dia denominadas pinturas de gênero) desperta uma leve e específica comoção: pois, fixar o mundo fugaz (em constante transformação) em imagens duradouras de eventos particulares a fazerem as vezes do todo é uma realização da arte da pintura pela qual esta parece trazer o tempo mesmo ao repouso, na medida em que eleva o indivíduo à Idéia de sua espécie.” “é em geral uma grande infelicidade que o povo cuja cultura deveria servir de base para a nossa não seja o indiano nem o grego, ou mesmo o romano, mas justamente esse povo judeu; o que foi nefasto em especial para os pintores geniais da Itália, nos séc. XV e XVI, arbitrariamente restritos a uma esfera limitada de temas, na maioria das vezes mesquinharias de todo tipo. Pois o Novo Testamento, em sua parte histórica, é para a pintura tão desfavorável quanto o Antigo, e a história subseqüente dos mártires e Padres da Igreja é um tema mais infeliz ainda.”

TISCHBEIN, pintor filosófico ou o filósofo que pinta. A metade superior de um seu desenho representa mulheres cujos filhos estão sendo raptados, mulheres que, em diferentes grupos e posições, expressam variada e profundamente a dor materna, angústia, desespero; a parte inferior mostra, em agrupamento e ordenação inteiramente iguais, ovelhas, das quais as crias também são retiradas: de forma que a cada cabeça e a cada posição humana da metade superior do desenho corresponde, na metade inferior, um análogo animal, com o que se vê distintamente em que moldes a dor possível na abafada consciência animal se relaciona com o devastador tormento unicamente possível pela distinção do conhecimento, pela claridade de consciência.”

Diante de um quadro, como diante de um príncipe, todos devem aguardar, de pé, o que ele dirá, se é que dirá alguma coisa.”

A escultura parece quadrar melhor como a afirmação, a pintura como a negação da vontade de vida. Esse ponto de vista seria autodemonstrável a partir do fato de a escultura ser a arte dos antigos por excelência, enquanto a pintura tem sido até aqui a arte da era cristã.” Agora nem mesmo a vontade de morrer se manifesta – em suspenso num ecrã nem frio nem quente,diria Marshall McLuhan…

12.4 POESIA E TEATRO

Assim como o químico combina 2 fluidos perfeitamente claros e transparentes e dessa combinação resulta um precipitado sólido, também o poeta, a partir da universalidade transparente e abstrata dos conceitos, sabe combiná-los e obter um precipitado concreto, individual, a representação intuitiva.”

a crítica e a sátira, sem nenhuma condescendência, deveriam açoitar os poetas medíocres (…) Pois, se até mesmo a torpeza de um imbecil deixou irado o brando Deus das musas, a ponto de dilacerar Mársias, não vejo onde a poesia medíocre possa basear sua pretensão à tolerância.”

O puro e simples historiador, que trabalha exclusivamente conforme os dados, assemelha-se a alguém que, sem conhecimento algum da matemática, investiga e mede por traços a proporção das figuras encontradas casualmente; com isso o estabelecimento dessas medidas encontradas empiricamente está todo ele sujeito aos erros das figuras assinaladas. O poeta, ao contrário, assemelha-se ao matemático que constrói aquelas relações a priori, na pura intuição, expressando-as não como a figura efetivamente assinalada as possui, mas como as mesmas são na Idéia e que o desenho deve tornar sensível.”

Embora nas artes apenas o gênio autêntico possa realizar algo de bom, parece que unicamente a poesia lírica constitui uma exceção, pois até homens no todo não tão eminentes podem, às vezes, mediante forte estímulo proveniente do exterior e um entusiasmo momentâneo, elevar suas faculdades espirituais acima de sua medida comum, e assim produzir uma bela canção.” “Reproduzem-se na poesia lírica do genuíno poeta o íntimo da humanidade inteira e tudo o que milhões de homens passados, presentes e futuros sentiram e sentirão nas mesmas situações”

Justamente por isso o jovem se prende tanto ao lado intuitivo e exterior das coisas; justamente por isso se inclina à poesia lírica e, só quando se torna adulto, à dramática. Podemos pensar o ancião no máximo como poeta épico, semelhante a Ossian e Homero, pois narrar pertence ao caráter de quem é idoso.”

O jovem que foi iniciado na poesia antes que na própria realidade passa a desejar desta última o que só a primeira pode dar; essa é a principal fonte do desconforto que oprime o peito dos jovens talentosos.”

ninguém pode prescrever ao poeta o dever de ser nobre e sublime, moralista, pio, cristão, isso ou aquilo, muito menos censurá-lo por ter este e não outro caráter. O poeta é o espelho da humanidade, e traz à consciência dela o que ela sente e pratica.”

Os poetas conduzem seus heróis por milhares de dificuldades e perigos até o fim almejado; porém, assim que este é alcançado, de imediato deixam a cortina cair, pois a única coisa ainda a ser mostrada seria que o fim glorioso no qual o herói esperava encontrar a felicidade foi em realidade um ludibrio, de modo que após atingi-lo não se encontra num estado melhor que o anterior.”

a genialidade propriamente dita só serve para conquistas teóricas, é só para isso que liga o gênio, que, por isso mesmo, não se impacienta na hora de aguardar o tempo certo para lançar suas idéias e para obter o reconhecimento (muitas vezes, póstumo). Quanto à ocasião para meditar e avançar em seu trabalho, o gênio oportunamente escolhe os momentos de repouso, em que nenhuma comoção o atinge, nenhuma onda afeta a superfície lisa do lago que é sua mente, um espelho que reflete perfeitamente a possibilidade da compreensão do mundo.¹ (…) O Torquato Tasso de Goethe é inteiramente redigido deste ponto de vista. (…) em confirmação deste pressuposto, vemos como em todas as eras grandes generais e ministros, os tipos eficientes e práticos, aparecem, sempre que meras condições externas se mostram favoráveis. Grandes poetas e filósofos, por outro lado, só surgem realmente de séculos em séculos.”

¹ Hoje isso seria impraticável no Brasil.

Quão mais corretamente, quão mais estritamente de acordo com as leis da natureza seus personagens são apresentados, maior é sua fama; daí que Shakespeare se encontre no topo.”

repetida, mas variada e distintamente, a pergunta atravessa o pensar como um relâmpago, O que é tudo isso?, ou então, Como tudo isso está configurado? A 1ª questão, se se mantém continuamente presente na cabeça, desenvolve o filósofo; a outra, reiteração após reiteração, nas mesmas condições, forja o artista ou poeta.”

Minha própria experiência de muitos anos me ditou a opinião de que a loucura ocorre proporcionalmente, com mais freqüência, entre os atores. Quão mal eles não empregam sua memória! Diariamente eles têm de aprender um novo texto ou recordar um antigo; mas esses textos não possuem conexão nenhuma entre si, são aliás contraditórios e contrastantes um com o outro, e toda noite o ator se esforça por esquecer dele mesmo por inteiro e por ser uma pessoa bastante diferente. Esse tipo de coisa pavimenta o caminho da loucura.”

as artes plásticas e pictóricas não são indispensáveis: nações inteiras – p.ex. os povos muçulmanos – não as têm, mas nenhum povo é sem música e poesia.

O melhor reconhece a si mesmo como melhor uma vez que ele contempla quão superficial é a visão dos outros, quanto a sua se encontra além daquela, muito além do que os outros são capazes de reproduzir, porque quem não produz, muito menos poderia reproduzir. Se hipoteticamente o poeta superior enxergasse os poetas superficiais tão mal quanto ele mesmo é enxergado por eles, era mister que o poeta superior desesperasse; sendo necessário um homem extraordinário para fazer-lhe justiça, é de lei que os poetas de baixa extração poderão estimá-lo tão pouco quanto ele poderá estimar poetastros. É preciso que ele viva longamente baseado apenas em auto-aprovação antes que o mundo o enxergue e o aprove. Enquanto esse dia não chega, na praça pública ele é despido mesmo do selo de auto-aprovação, porque a sociedade requer modéstia. Mas é tão impossível que aquele que tem mérito – e que sabe quanto ele custa – seja cego ao mérito quanto que um homem de 1,80m não se dê conta de que é mais alto que a multidão.” “Horácio, Lucrécio, Ovídio e praticamente todos os antigos falaram de si com altivez, assim como Dante, Shakespeare, Bacon de Verulam e tantos outros. Que um homem possa ser grandioso sem nisso reparar é uma absurdidade de que só uma mente irremediavelmente incapaz poderia se convencer” “mérito e modéstia nada têm em comum, salvo a primeira letra.”

Se tivéssemos acesso à oficina dos poetas, verificaríamos que o pensamento é posto à frente da rima dez vezes para cada vez que a rima tem a prevalência”

Assim que uma última sílaba recebeu um som equivalente em verso posterior, seu efeito está exaurido; a terceira recorrência da mesma nota seria meramente uma segunda rima que atinge acidentalmente o mesmo som, mas sem sublinhar o efeito; o terceiro verso se conecta aos dois preexistentes, mas não ajuda a elevar ou criar impressão. Isso porque a primeira nota não soa antes de ser repetida, mas quando é de novo repetida não volta a soar: seria um pleonasmo estético que isso acontecesse. Sonetos, terza rima [terceira rima] e oitavas [ottava rima] são muitas vezes penosas e torturantes de se ler graças à redundância do efeito. Não valem o que se sacrifica para obter as rimas. Que o grande gênio poético supere ocasionalmente até a limitação dessas formas, continuando a se mover com sutileza e graça, só prova que um gênio é gênio, mas não é uma carta de recomendação dessas formas em si, porque elas continuam a ser, a despeito dos grandes poetas, difíceis e ineficazes.” “Sendo assim, vejo como prova de bom gosto, e não como evidência de ignorância, que Shakespeare em seus sonetos tenha atribuído rimas diferentes a cada quadra. De qualquer forma, seu efeito acústico não diminui por isso, e o pensamento, em troca, obtém assim muito mais ressonância do que poderia com a preservação e reprise das palavras à la española.”

Quando a poesia romântica transfere suas cenas para a Grécia ou a Roma antigas ela perde a concretude e o detalhe, se torna insuficiente e fragmentária, abstrata, generalista, sem individuação. (…) Só Shakespeare, em suas peças de época, é que está livre desta crítica. Sem hesitar, ele apresentou, sob nomes greco-romanos, ingleses de seu próprio tempo.”

AS TRÊS PRATELEIRAS DOS ANIMADORES DE PERSONAGENS: “Os poetas de maior calibre são como ventríloquos, em que ora o herói, ora a donzela, ora o antagonista são apresentados sucessivamente com as mais variadas cores, todos de forma convincente. Isso se vê em Shakespeare e Goethe. Os poetas de segunda safra transformam o protagonista num alter ego próprio. Esse é o proceder de Byron. Nele e nos seus semelhantes os personagens secundários são insípidos, borrões. Já no poeta medíocre, nenhum personagem escapa dessa sina.”

Somos capazes de detectar a qualidade do todo de uma obra literária lendo não mais do que algumas páginas. (…) Com apenas uma amostra sentimos o ritmo, a flexibilidade e a leveza do autor de gênio, pressentimos com pouco material a que elevação sua mente pode chegar em seu máximo. Mas, na outra mão, também captamos instantaneamente o enfado, a rigidez, a tolice e o pesadume de uma pena. Assim como a língua é a expressão do intelecto de uma nação, o estilo vem [a] ser a expressão mais imediata do intelecto de um autor, mais até que sua fisiognomonia. Deixamos um livro de lado quando percebemos que através de suas páginas tudo que atingimos é uma região mais obscura que a nossa mesma, a menos que nosso objetivo seja unicamente nos instruir de fatos ali relatados; jamais de pensamentos.”

12.5 METAFÍSICA DO GÊNIO

nossa consciência tem dois lados; uma metade é a consciência de nós próprios, que é a Vontade; a outra metade é a consciência das outras coisas, ou seja, primariamente conhecimento, mediante a percepção, do mundo externo, a apreensão dos objetos.” Isso já havia sido dito com outras palavras no livro – o que ocorre é que, neste contexto, que é a Estética e o processo de criação, o artista e sua obra se tornam indistinguíveis (Consciência máxima! Objetividade, se já existiu alguma). Só se voltam a separar no momento da crítica: autor de um lado, obra do outro. A crítica imparcial bem-sucedida é o exercício da subjetividade do logos. Neste ínterim, portanto, não há que se falar em autoconsciência como sinônimo da Vontade.

Só apreendemos o mundo de forma puramente objetiva quando não mais sabemos que a ele pertencemos; e todas as coisas parecem mais e mais belas à medida que delas e somente delas somos conscientes, e quanto menos somos conscientes de nós próprios.” Está correto se se refere puramente ao processo da crítica da arte, com alguns ajustes – Sinal trocado: de forma puramente SUBJETIVA quanto mais somos conscientes de nós próprios (o crítico apreende a obra como algo estranho, sujeito x objeto, esqueceu que a criação do artista, sua objetividade, está em ser o objeto enquanto o objeto é consciência, na fusão dos pólos). Propriamente falando, o artista não julga o que é ou não é o belo, pois se torna provisoriamente o próprio belo. Como pode a beleza argumentar intelectualmente sobre a beleza? Ela apenas é. Narciso não se reconhece ao espelho, está menos consciente de si, pode julgar seu reflexo (o outro) como belo. Narciso é o crítico – quem está desinteressado de si está interessado no outro (a obra). Nele, sujeito e objeto estão divorciados, Narciso não é a imagem de Narciso. O artista é todo consciência-de-si, ele e a obra são cegos à outridade, entendem apenas os reflexos (o espelho que reflete a si próprios), estão fechados em si numa subjetividade infinita – mas como não há outro, apenas mesmidade, identidade, trata-se da OBJETIVIDADE PERFEITA E AUTO-SUFICIENTE DO QUE É IGUAL A SI MESMO. Narciso, o crítico, se afoga porque carece, busca o complemento, a beleza (Narciso não é a beleza, ele é inconsciente de si, seu corpo não está em consideração a não ser como outro, infinitamente separado por um abismo). O reflexo (a obra) não quer nada. Sujeito e objeto aqui são um, o mundo. O exterior e o interior simultâneo. O Ser. Não há logos, só recursividade tautológica. Vênus é. O amor é cego e no entanto não deseja enxergar (interagir com o exterior). O amor é o processo de criação. O amor está na boca do mundo, é discursado pelos loucos da subjetividade irrestrita. Só neste sentido, o amor é a Poesia (subjetividade) e a crítica é a Verdade (objetiva). Homero descreve o mundo; a verdade desmistifica-o. A verdade é a verdade dos homens, discurso, sempre carente da serena objetividade muda e inacessível da beleza.

Goethe compreendeu esta antítese, e por isso sua autobiografia se chama Poesia & Verdade. Poesia é a sua obra, verdade o indivíduo biografado. Por ser uma obra, versando sobre a obra e a crítica, é Poesia, como foram antes seus poemas que não falavam de poemas, mas uma poesia sem objeto, inacabada. Por ser uma crítica, prosando sobre a crítica e a obra, é Verdade, verdade clínica e impessoal de sua vida. Beleza deficitária, crítica consumada. Tentativa de uma síntese impossível a não ser dentro da obra de arte que é o artista enquanto indivíduo. O jeito do belo ver, elogiar, participar – a possibilidade da crítica ser bela e definitiva.

Sch. se contradiz – e muito – em estética! Se o objetivo é o instinto da espécie, é óbvio que o artista terá mais instinto que o plebeu – mas Sch. vê a recepção da obra como algo objetivo, e não o inverso, ao mesmo tempo em que nele o plebeu tem mais instinto, e menos autoconsciência. Sua teoria está de ponta-cabeça.

só o gênio é capaz de um esquecimento completo da própria pessoa e de suas relações; segue-se que a GENIALIDADE nada é senão a OBJETIVIDADE mais perfeita, ou seja, orientação objetiva do espírito, em oposição à subjetiva que vai de par com a própria pessoa, i.e., com a [própria] vontade.” “como diz Goethe, fixar em pensamentos duradouros o que aparece oscilante no fenômeno.” “claro olho cósmico” No entanto, continua confuso e ambivalente. Quando quer, joga a Vontade para o fenômeno, com mediação da IDÉIA. Schopenhauer troca objetividade e subjetividade o tempo todo nas suas definições da genialidade.

excedente de conhecimento livre”

purificado de Vontade, [Mas o abandono da razão é o contrário!] espelho claro da essência do mundoDaí se explica a vivacidade que beira a inquietude,¹ em indivíduos geniais, na medida em que o presente quase nunca lhes basta, já que não preenche a sua consciência. Daí resulta aquela tendência ao desassossego, aquela procura incansável por novos objetos dignos de consideração, o anseio quase nunca satisfeito por seres que lhes sejam semelhantes e que os ombreiem e com os quais possa se comunicar. Já o filho comum da terra, ao contrário, plenamente satisfeito com o presente comum, absorve-se nele e em toda parte encontra o seu igual, possuindo aquele conforto especial na vida cotidiana que é negado ao gênio.”

¹ Aquele que cessa de desejar – que corta o fluxo do tempo, na obra de arte, tornando-se OBJETIVO – torna-se vivaz? Como explicar esse tipo de contradição schopenhaueriana?!

ETNÓGRAFOS DOS MORTOS: “Portanto, a fantasia põe o gênio na condição de, a partir do pouco que chegou a sua apercepção efetiva, construir todo o resto e assim deixar desfilar diante de si quase todas as imagens possíveis da vida. (…) o gênio precisa da fantasia para ver nas coisas não o que a natureza efetivamente formou, mas o que se esforçava para formar, mas que, devido à luta de suas formas entre si, não pôde levar a bom termo.” Uma teoria do gênio correta encaixada no molde errado (sua “Vontade” kantiana).

há grandes espaços intermédios no qual (sic) o indivíduo de gênio, tanto no que diz respeito aos méritos quanto às carências, em muito se aproxima do indivíduo comum.” “o fazer-efeito de um ser supra-humano diferente do próprio indivíduo e que apenas periodicamente se apossa dele. A aversão do gênio em direcionar sua atenção ao conteúdo do princípio de razão mostra-se primeiro em referência ao fundamento de ser, enquanto aversão à matemática, cuja consideração segue as formas mais gerais do fenômeno, espaço e tempo”

a impressão do presente é bastante poderosa sobre o gênio, arrasta-o para o irrefletido, o afeto, a paixão.” “ele julga e narra de maneira extremamente objetiva [subjetiva, sincera] aquilo que diz respeito aos seus próprios interesses, sem ocultar o que seria prudente ocultar (…) inclinam-se a monólogos e podem em geral mostrar muitas fraquezas que de fato os aproximam da loucura.” “todo aquele que conheceu as Idéias eternas nas coisas efêmeras aparece como louco.”

ele vê em toda parte o extremo, e, justamente por isso, o seu agir atinge extremos. Ele não consegue encontrar a justa medida, falta-lhe a fleuma (…) O gênio conhece as Idéias perfeitamente, mas não os indivíduos. Eis por que, como já se observou, um poeta pode conhecer profunda e essencialmente O ser humano, porém de maneira muito ruim OS homens. O gênio, pois, é facilmente enganado e se torna um joguete nas mãos de astutos.”

DE-KANT-AÇÃO: “Que a Idéia se nos apresente mais facilmente a partir da obra de arte do que imediatamente a partir da natureza ou da efetividade, isso se deve ao fato de o artista, que conheceu só a Idéia e não mais a efetividade, também ter reproduzido puramente em sua obra a Idéia, separada da realidade efetiva com todas as suas contingências perturbadoras. O artista nos permite olhar para o mundo mediante os seus olhos. Que ele possua tais olhos a desvelar-lhe o essencial das coisas, independentemente de suas relações, eis aí precisamente o dom do gênio, o que lhe é inato. E, ademais, que ele esteja em condições de também nos emprestar esse dom, como se pusesse em nós os seus olhos, eis aí o adquirido, a técnica da arte.”

(N.T.) “para diferenciar Sch. de Kant, que opera uma ‘transição’ (Übergang) definitiva entre o belo e o sublime no capítulo 23 da Crítica da faculdade de juízo. (…) Como dito linhas antes pelo autor, o sentimento do sublime em sua determinação fundamental (Idéia intuída) é ‘uno’ com o do belo, distinguindo-se deste apenas pelo ‘acréscimo’ do elevar-se do contemplador para além da relação conhecida como desfavorável do objeto com a Vontade. Tanto é que Sch. falará mais adiante do ‘sublime no belo’ (Erhabenen am Schönen). Com isso, o termo gradação funcionou melhor porque indica os graus seqüenciais em que suavemente o belo e o sublime se confundem de acordo com o estado estético em que se está, sem porém distinguirem-se em natureza.”

ANTI-GORE: “se reconheceu desde sempre que o excitante negativo (repugnante) é inadmissível na arte, na qual até mesmo o feio é suportável, desde que não repugnante, e seja posto em lugar adequado

O fato de todos reconhecermos a beleza, caso a vejamos, sendo que no caso do artista autêntico isso ocorre com uma tal clareza que ele a mostra como nunca se vira e, por conseguinte, supera a natureza com sua exposição, tudo isso é apenas possível devido ao fato de que a Vontade – cuja objetivação adequada em seu grau mais elevado deve aqui ser descoberta e julgada – SOMOS NÓS MESMOS.”

A possibilidade de uma tal antecipação a priori do belo no artista, bem como o seu reconhecimento a posteriori no espectador, reside no fato de ambos serem o mesmo em-si da natureza, a Vontade que se objetiva. Pois, como disse Empédocles, apenas pelo igual é o igual reconhecido; apenas a natureza pode entender a si mesma; apenas a natureza pode aprofundar-se em si. E também apenas pelo espírito é o espírito compreendido.”

O CONCEITO é (…) alcançável e apreensível (…) comunicável por palavras sem ulterior determinação, esgotável por inteiro em sua definição.¹ A IDÉIA (…) é absolutamente intuitiva (…) nunca sendo conhecida pelo simples indivíduo enquanto tal (…) [mas pelo] puro sujeito do conhecimento (…) alcançável apenas pelo gênio, em seguida por aquele que (…) está numa disposição genial. (…) a medida do seu próprio valor intelectual.”

¹ Subordinado ao espaço-tempo.

O conceito é a medida do homem;

A Idéia a medida de deus. Deus em Platão como a perfeição humana.

A verdadeira e única fonte de qualquer obra de arte é a Idéia” “Justamente porque a Idéia é e permanece intuitiva, o artista não está consciente in abstracto da intenção e do fim de sua obra” “não pode relatar sua atividade” “Por sua vez, imitadores, maneiristas, imitatores, servum pecus procedem na arte a partir do conceito.” “Na medida em que sugam o seu alimento de obras alheias, assemelham-se a plantas parasitas; também se assemelham aos pólipos, que assumem as cores daquilo de que se apropriam.” “Só o gênio, contrariamente, é comparável a um corpo orgânico que assimila, transforma e produz.” “a elevada formação do gênio jamais prejudica a sua originalidade. (…) tais obras maneiristas encontram com freqüência, e rapidamente, a aprovação sonora dos contemporâneos (…) Contudo, após alguns anos, tais obras já são inapreciáveis, visto que (…) mudaram.”

tenho de naturalmente rejeitar essa e outras semelhantes colocações de Winckelmann sobre a metafísica do belo propriamente dita, embora de resto o respeite muito. Por aí se nota como se pode ter a maior receptividade para o belo da arte, e ter o juízo mais correto sobre as obras artísticas sem no entanto estar em condição de oferecer uma descrição abstrata, propriamente filosófica, de sua essência.”

numa carta (…) ao contrário da conversação, perde-se a medida da impressão que se provocaria sobre outrem. O destinatário de uma carta a perscruta de modo sereno e numa disposição alheia à do remetente, a lê repetidas vezes, em diferentes ocasiões, podendo facilmente desmascarar a intenção secreta. Conhece-se melhor e mais fácil um autor, também como homem, a partir de seu livro, pois todas aquelas condições fazem efeito na escritura de um livro de modo ainda mais vigoroso e constante.”

PODERIA SER AO MESMO TEMPO A CRÍTICA DEFINITIVA E UMA TOLERÂNCIA QUANTO À EXISTÊNCIA DA PSICANÁLISE, ESSA PSICOLOGIA DO MEDÍOCRE COTIDIANO: “As ciências empíricas perseguidas como fim em si e sem qualquer tendência filosófica são como um rosto sem olhos. Elas são, entretanto, uma ocupação válida para homens de boa capacidade que contudo não são homens excelentes. Para as mentes superiores, esse tipo de investigação minuciosa e irrelevante seria mesmo uma perturbação e um incômodo.”

Uma elevada capacidade mental sempre foi olhada como um dom da natureza ou dos deuses; por essa razão essa capacidade foi chamada Gaben [talento em alemão], Begabung [idem], ingenii dotes [mais uma vez o mesmo significado, no latim], dádiva (um homem ‘gifted’ de ‘gift’, presente, prêmio, doação, em inglês [em português diríamos dadivoso, superdotado]), de modo que se via e se vê o portador de tal capacidade como alguém diferente do homem mesmo, alguém que apenas cumpre um destino, graças a um favor emanando de fora ou de cima.” “todas as religiões prometem um prêmio [mas não no sentido de presente, e sim de recompensa, i.e., algo que não vem gratuitamente] após a morte, i.e., na vida eterna, pela sublimidade no campo da vontade durante a vida (a Vontade está associada ao coração), mas nenhuma gratifica, em si, o ser bom da cabeça ou sábio. A virtude, mundanamente entendida, espera sua recompensa nesse mundo mesmo; a prudência outrossim; já o gênio, a genialidade, em lugar algum (nem neste mundo, nem no próximo); o gênio é sua própria recompensa. A vontade é considerada a metade eterna do ser humano, o intelecto a metade perecível e temporal.”

Qualidades brilhantes do espírito conquistam admiração, porém nunca afeição; esta se encontra reservada para a moral, as qualidades do caráter.”

O FUNESTO DESTINO DE LISA SIMPSON: “Nossos anos escolares podem ser comparados àqueles da vida futura, na maioria dos casos, como os dumb shows entre-atos de algumas das tragédias de Shakespeare se comparam à peça mesma: esses espetáculos desempenhados por bobos da côrte apenas com mímica antecipam, para quem prestar atenção, muitos dos diálogos e acontecimentos da peça principal, que nada mais é que nossa vida futura. § Porém, isso não quer dizer que seja possível, por quaisquer meios, prognosticar, da mesma forma, o futuro das capacidades intelectuais do homem pela sua inteligência quando garoto; ao contrário, via de regra os ingenia praecocia [gênios precoces], meninos-prodígios, acabam como uns cabeças-ocas. Já o gênio costuma ser, na infância, lento em suas concepções, e compreende com dificuldade, justamente porque compreende profundamente.”

devido ao fato de que toda ansiedade provém da vontade, e o conhecimento, ao revés, é indolor e sereno para si mesmo, o gênio adquire sobrancelhas desdenhosas e altaneiras, conjugadas com um olhar límpido, perscrutador, parte do rosto que não está subjugada à vontade e seus caprichos, aquela aparência de magnanimidade, de uma serenidade quase sobrenatural que de tempos em tempos deixa-se observar na sua plenitude, e que contrasta poderosamente com a melancolia de todas as demais feições do gênioespecialmente com sua boca, totalmente subordinada à vontade.”

¹ DA SERIEDADE DO SUPERIOR: Chamada pelo normalman de “seriedade”. Mas o que acontece é que o gênio é ansioso em total desproporção com sua vida pessoal comezinha. Sua ansiedade transborda das criações artísticas para a vida pessoal. O estúpido e bobo leva uma vida incontáveis vezes mais serena; é claro que ele se aparvalha diante das menores tontices, que duram pouco, mas talvez não reconheça um perigo real, hegemônico e duradouro. A nova onda fascista veio nos provar isso. Nossa serenidade não é extra-mundana, mas muito, muito profana e imanente. Quando até o que assenta e está na base do próprio cotidiano das massas demonstra fissuras e rachaduras, vivemos do despertar ao adormecer intranqüilos, farejando alguma coisa. Para o normalman, tudo vai bem, ou o que vai mal não deve gerar mais inquietação do que o necessário (geralmente, a autopreservação no seu sentido mais tosco e materialista, a vantagem nos ‘pequenos negócios’). A polarização entre as forças democráticas e reativas e o fascismo opressor, que é vista com bons olhos e sinal de pujança pelo gênio (afinal o fascismo está sendo contrabalançado), desagrada essas pessoinhas sem bússola do real. No fim, não é como Sch. diz, que o gênio tem mais intelecto e menos volição que o normal ou medíocre, mas ele possui mais a ambos; ainda que proporcionalmente possam estar mais injetados do dito intelecto: têm MAIS vontade e muito mais intelecto. A condição do gênio é impassível de intuição ou pressentimento, empatia, pelo normie – os medianos tateiam, deduzem, podem acertar em cheio como podem bater na lua querendo aterrissar em Marte, a margem de erro nessas análises é a mais ampla e dilatada possível, seu método para detectarem os verdadeiros gênios é completamente caótico…

Mas mesmo o homem de grande entendimento e razão, que se pode chamar sem erro de sábio, é ainda muito diferente do gênio, e nesse tocante: que seu intelecto retém uma tendência prática, se preocupa com a escolha dos melhores meios e fins, destarte conserva-se a serviço da vontade, e conseguintemente está ocupado de um modo que é coerente de alto a baixo com sua natureza. A seriedade firme e prática da vida que os romanos denominam gravitas [gravidade, reverência] pressupõe que o intelecto jamais abandone o serviço da vontade a fim de vadiar em recantos distantes que não concernem à vontade. Desta feita, o sábio não admite essa separação entre vontade e intelecto que é a condição do gênio.” Nenhum povo defendeu jamais os gênios. Que os romanos fossem de uma moral pró-genialidade seria paradoxal – mas sim, eles eram bastante graves! Acerca dos erros grifados em verde, creio não precisar me estender muito: Schopenhauer sempre inverte a compreensão da vontade como seria necessário “flagrá-la”: o gênio é aquele que exatamente se funde com a vontade, de modo que nem conduz nem é conduzido, é outra coisa, despersonaliza-se. Não sabe, a rigor, o que é razão e intelecto enquanto é genial. E, o mais importante, o sábio, por uma limitação congênita, sempre separa o que deveria estar unido: o que ele não admite verdadeiramente é a união entre vontade e intelecção. O sábio sem gênio “está ocupado de um modo que é coerente de alto a baixo com sua natureza”: mas sua natureza é a de desrespeitar a sua vontade, sobrevalorizando a razão, espezinhando o sentimento. Não se trata aqui de negar o pathos tipicamente romano; mas este pathos se chama gravitas, não genialidade. Os recantos distantes da vida prática são o habitat insuspeito da Vontade que dirige e é dirigida pelo gênio.

Para o gênio, suas pinturas, poemas ou pensamentos são um fim; para os outros (imitadores ou observadores), um meio. Os últimos só vêem pela frente seus próprios negócios, por isso sabem muito bem como avançá-los, bajulando seus contemporâneos, servindo suas necessidades e atendendo seus humores. Sendo assim, esses outros, os normais e vulgares, vivem em sua maioria nas circunstâncias mais felizes; o primeiro, o gênio, o mais das vezes em condições miseráveis. Ele sacrifica seu bem-estar pessoal a fim de atender seu fim objetivo; e ele não pode agir ao contrário, porque toda sua seriedade e gravidade aí repousam. Os normais, seus opostos extremos, agem ao avesso; portanto, estes últimos são pequenos, mas o gênio é grande. O trabalho do gênio é atemporal, mas seu reconhecimento costuma advir apenas na posteridade: ele vive e morre como comum, em seu próprio tempo. De forma geral, só é um grande homem aquele que, em seu trabalho, prático ou teórico, não procura tirar vantagens para si mesmo, mas persegue tão-somente seu final objetivo (desinteressado).”

Portanto, esse predicado altivo pertence somente ao herói genuíno e ao gênio: contrariamente à natureza humana, estes espécimes nunca buscaram o próprio sucesso, nunca viveram para si mesmos, mas para todos, para a humanidade. E tanto como a matemática das populações obriga que a maioria seja constantemente pequena, jamais podendo aspirar à grandeza, a natureza proíbe a ocorrência contrária: a de alguém que pudesse ser constantemente grande, grande a cada momento, o que é impossível—

Porque todo homem é feito de barro,

E o costume é sempre sua nutriz.”

<Quem quer que tenha nascido com um talento, para um talento, sempre encontra nele a mais bela das existências>, diz Goethe. Quando olhamos para as vidas de grandes homens dos tempos passados, não pensamos <Ó, quão feliz deve ele estar agora, por ser ainda admirado entre nós após tanto tempo!>, mas sim: <Quão feliz deve ele ter sido no imediato fruir de sua mente, cujos traços continuam a ressuscitar ao longo dos séculos!>. Não na fama em si, mas naquilo que ele sabe que atingiu (e que originou sua fama), recai o valor que ele próprio – e portanto a humanidade póstuma – se atribuiu. Este é o íntimo prazer que compensa o sofrimento material desta raça de crianças imortais que existem em todos os tempos.”

A afinidade entre gênio e loucura, tão amiúde observada, depende primariamente daquela separação do intelecto da vontade que é essencial ao gênio, porém contrária à natureza.¹ Mas tal separação em si não indica que o gênio esteja acompanhado de uma menor intensidade de vontade. Ora, o gênio é instantaneamente reconhecido por um caráter apaixonado e veemente; mas a pessoa de excelência prática, o homem de ação, apresenta meramente o tanto de intelecto exigido por uma vontade enérgica, enquanto que a maioria massacrante dos homens carece mesmo disso; já o gênio consiste numa superabundância completamente anormal de intelecto, pelo menos em relação ao que é preciso para o uso da vontade. Baseado nessa discrepância, o homem de obras genuínas é mil vezes mais raro que o homem de ação.² É essa superfluidade anômala de intelecto que torna o gênio preponderante em suas faculdades intelectuais e liberto da vontade.³ Desenraizado daquilo que é sua origem, [a origem do homem nos instintos volitivos] ele pode exercer sua atividade com todo seu vigor e elasticidade; daí nascem todas as criações do gênio.”

¹ A impressão de loucura deriva de ver alguém que age com grandeza sem que o intelecto seja sua força-motriz. Nada mais louco que a Vontade se realizando plenamente em algo tão frágil e passageiro como o mero indivíduo. O intelecto se mantém no caminho da constância. O gênio, o artista, se despersonalizam, sobretudo da ótica do exageradamente sábio. Na próxima frase Schopenhauer parece se dar conta de seu erro primário e remedeia a afirmação.

² Aqui podemos afirmar com segurança: Napoleão foi um homem de ação, não um gênio. O gênio “não se dá bem com o seu presente”, e não se trata de mera circunstância ou azar: quão maior sua genialidade, mais essa desavença é exigida como autêntica medida do seu grau supino de genialidade.

³ Eu encaro como o homem prático aquele que se divorcia da Vontade e cujo comportamento se tornou uma quimera fictícia (tratando o fenomênico como se fosse o real fundamental – só aqui é que haveríamos de falar em loucura). O gênio, o superabundante em intelecto se compararmos com seu estoque de vontade, é aquele, no entanto, que nunca separa os galhos e a copa das suas raízes instintuais: ele é exatamente o que a natureza projeta para a raça superior de homens. É uma pena que, enxergando tão longe, sendo tão sutil durante grande parte de seu percurso, Schopenhauer não perceba algo comparativamente tão simples e seja tão grosseiro em suas conclusões cabais: o gênio só pode estar enraizado o mais profundamente na Vontade e ser a completa afirmação apaixonada do mundo mesmo! O desinteresse e o ascetismo nada têm que ver com o gênio, são duas faces da mesma moeda: do homem prático, que ignora o rizoma da existência, e do homem que ‘desistiu do mundo’, entregue à abstração vazia e ao miscitismo! Ninguém que se opõe a sua natureza e que corta seus vínculos com suas próprias origens (fica sem raiz, sem vínculo, sem origem) pode chegar longe num mundo em que realizar-se é justamente estar no mundo com o máximo ímpeto e densidade!

Árvores muito altas e bonitas não dão frutos; as árvores que dão fruto são pequenas, feias, mutiladas. A rosa do jardim cultivado não dá rosas; a rosa pequena, selvagem, quase sem cheiro, é que dá muitos botões e perpetua. Os edifícios mais bonitos não são os mais úteis; um templo não é uma moradia. Um homem de raros e elevados dons compelido a consumir-se em negócios comezinhos e cotidianos, para os quais os homens mais ordinários seriam muito mais aptos, é como um vaso caríssimo decorado de belíssimas pinturas usado como um recipiente comum de cozinha”

NOSSO TUDO OU NADA EXASPERANTE DE CADA DIA (QUE NUNCA É O ÚLTIMO, A DESPEITO DAS APARÊNCIAS): “O gênio é, acima de tudo, o servo de dois mestres (…) freqüentemente ele conturba a vontade, o que significa que o indivíduo com dom se torna mais ou menos inútil para a vida, isto é, em sua conduta se assemelha a um louco, de acordo com o homem vulgar. Devido a seu conhecimento muito elevado, tenderá a enxergar mais o universal que o particular; mas acontece que a Vontade exige o conhecimento aplicado ao particular. [ERRO CRASO: a Vontade já é esse particular, ela busca o universal, a vontade-para-o-poder, engrandecer-se.] Ocasionalmente, no entanto, assim que uma brecha se oferece, todo esse conhecimento anomalamente excessivo se dirige com todo o ímpeto [veja que o conhecimento não tem ímpeto – isso significa que é a Vontade que se expressa mediante a faculdade da sabedoria] às circunstâncias, [o particular] às misérias da vontade e da vida, [a Vontade se volta para si mesma como num espelho] com a aptidão para apreendê-las assaz vìvidamente, bem até demais, para observar tudo em cores muito nítidas, em cores tão claras que ofuscam, e de uma forma temerariamente exagerada, de onde se constata que o indivíduo genial recai ora num extremo, ora noutro.” A pulga que vira um elefante ou a síndrome de Alice ou de Mario Bros. (encolhe e engrandece várias vezes num só dia).

A SOCIEDADE DOS MEUS MELHORES AMIGOS MORTOS: “A todo o dito resta acrescer que o gênio vive essencialmente só. É demasiado raro encontrar o tipo, ainda mais na companhia dos outros homens, que o acham, e por ele mesmo são considerados, muito diferente(s) e aparte. (…) O gênio não está adaptado a conversações: os vulgares terão tão pouco prazer nele e em sua superioridade opressiva quanto este invulgar terá com os homens. (…) Para que o gênio entabule relações com um igual, via de regra, tem de agir indiretamente, consumindo as obras que os gênios do passado legaram.”

O homem talentoso é aquele que acerta com facilidade o centro do alvo que o franco-atirador normalmente não consegue atingir; o homem de gênio é aquele que acerta centros de alvos que os franco-atiradores não conseguem sequer enxergar. O gênio só é conhecido por vias indiretas, e tarde demais; ainda assim, só crê no gênio quem dá fé e confia nos relatos dos homens, pois que vendo a coisa por si mesmo o homem vulgar nada teria de mais a falar, nada perceberia de extraordinário.”

em muitos estudantes¹ uma tendência puramente intelectual e uma excentricidade sugestiva do gênio é inconfundível. Mas a natureza retoma a sua marcha; [os instintos reacionários voltam a contrabalançar a natureza excessivamente intelectual que ameaça aflorar no indivíduo] eles assumem a forma de crisálida [o desenvolvimento intelectual sofre uma pausa – período de latência] e a antiga inclinação reaparece na idade adulta, transformando-os em filisteus encarnados,² o que nos choca quando os reencontramos mais tarde na vida.”

¹ Significa que por mais que muitos alunos pareçam promissores e realmente exibam o temperamento do gênio, o número efetivo de gênios na idade adulta é mínimo.

² O emprego da expressão “incarnate Philistines” no texto que traduzi soa estranho aqui, pois não combina com o teor da frase. Philistine tem necessariamente uma conotação jocosa, e no entanto Schopenhauer quer se referir aos eruditos sob uma luz de decência! Ou Sch. quer dizer que esse “retorno do intelecto” é muito defasado na maioria dos homens? I.e., surpreendemo-nos de um completo asinino (filisteu) aos 30 ter se tornado finalmente alguém ponderado aos 50? Porém isso não faz nenhum sentido, não é realista! Sendo este o caso, entretanto, deveríamos ler assim o final da frase: …transformando-os, quando não passavam de filisteus encarnados, o que nos choca….

O entendimento, a habilidade técnica e a rotina devem preencher as frestas que a concepção e inspiração do gênio deixou para trás, e deve misturar com estas todo tipo de obra suplementar necessária como cimento das únicas partes real e genuinamente brilhantes. Isso explica por que em todas as obras, excetuando-se apenas as obras-primas perfeitas dos maiores mestres de todos os tempos (como, p.ex., o Hamlet, o Fausto, a ópera de Don Juan), notamos a mescla com qualquer coisa de insípido e enfadonho, que em alguma medida prejudica a fruição do todo. Provas vivas são o Messias [obra musical], Gerusamme liberata [outra composição sonora], mesmo O Paraíso Perdido e a Eneida; e Horácio já havia feito a observação contundente: Quandoque dormitat bonus Homerus [Às vezes até o bom Homero dormita].¹ Mas que assim seja é conseqüência das limitações das capacidades humanas em geral.”

¹ Em inglês o trecho dá azo a um excelente trocadilho: even good Homer sleeps/slips. Dorme (no ponto); desliza, vacila.

12.6 MÚSICA, O PALIATIVO FINAL

uma bela arte permaneceu excluída de nossa consideração e tinha de permanecê-lo, visto que, no encadeamento sistemático de nossa exposição, não havia lugar apropriado para ela. Trata-se da música.” “linguagem universal, cuja distinção ultrapassa até mesmo a do mundo intuitivo” “a alegoria interior com a qual o íntimo mais fundo de nosso ser é trazido à linguagem.”

o ponto de comparação da música com o mundo, a maneira pela qual a primeira está para este como cópia ou repetição, encontra-se profundamente oculto. A música foi praticada em todos os tempos sem se poder dar uma resposta a tal indagação. Ficou-se satisfeito em compreendê-la imediatamente, renunciando-se a uma concepção abstrata dessa compreensão imediata.”

ABSURDIDADE: “a música, visto que ultrapassa as Idéias e também é completamente independente do mundo fenomênico, ignorando-o por inteiro, poderia em certa medida existir ainda que não houvesse mundo [!!!!] – algo que não pode ser dito acerca das demais artes. De fato, a música é uma tão IMEDIATA objetivação e cópia de toda a VONTADE, como o mundo mesmo o é, sim, como as Idéias o são, cuja aparição multifacetada constitui o mundo das coisas particulares.¹ A música, portanto, de modo algum é semelhante às outras artes, ou seja, cópia de Idéias, mas CÓPIA DA VONTADE MESMA, [acaba de se contradizer de novo!] cuja objetidade também são as Idéias. Justamente por isso o efeito da música é tão mais poderoso e penetrante que o das outras artes, já que estas falam apenas de sombras, enquanto aquela fala da essência.”

¹ Se suas Idéias são para significar Vontade, perdem o sentido. Na realidade ressuscitar, malversando, Platão (nestes casos específicos do texto schopenhaueriano) só prejudica a compreensão moderna da Filosofia clássica e desvaloriza o próprio filosofar contemporâneo. Se há diferença, ela é não-concorde ao próprio sistema schopenhaueriano e, mesmo se não fosse, nunca é explicada pelo autor.

O desvio da correção aritmética dos intervalos mediante um temperamento qualquer, ou produzida pelo tipo escolhido de tom, é análogo ao desvio do indivíduo do tipo da espécie. Sim, as dissonâncias impuras que não formam nenhum intervalo determinado são comparáveis aos abortos monstruosos situados entre duas espécies animais, ou entre homem e animal.” Isso seria verdade para a música clássica, mas não para a música do século XX (o sobressair da dissonância).

O ÚLTIMO METAFÍSICO DO TOM: “Somente a MELODIA tem conexão intencional e plenamente significativa do começo ao fim. Ela narra a história da Vontade iluminada pela clareza de consciência, cuja impressão na efetividade é a série de seus atos. Porém, a melodia diz mais: narra a história mais secreta da Vontade, pinta cada agitação, cada esforço, cada movimento seu, tudo o que a razão resume sob o vasto e negativo conceito de sentimento”

A invenção da melodia, a revelação nela de todos os mistérios mais profundos do querer e sentir humanos, é a obra do gênio, cuja atuação aqui, mais do que em qualquer outra atividade, se dá longe de qualquer reflexão e intencionalidade consciente, e poderia chamar-se uma inspiração. Aqui o conceito é infrutífero, como na arte em geral. O compositor manifesta a essência mais íntima do mundo, expressa a sabedoria mais profunda, numa linguagem não-compreensível por sua razão: como um sonâmbulo magnético fornece informações sobre coisas das quais, desperto, não tem conceito algum. No compositor, mais do que em qualquer outro criador, o homem é completamente separado e distinto do artista. Mesmo na explanação dessa arte maravilhosa o conceito mostra a sua indigência e limites.”

Quanto ao número inesgotável de possíveis melodias, corresponde ao inesgotável da natureza na diversidade de seus indivíduos, fisionomias e decursos de vida. A passagem de uma tonalidade para outra completamente diferente, quando a conexão com a anterior é no todo interrompida, compara-se à morte, na medida em que nesta o indivíduo finda. No entanto, a Vontade que nele apareceu existe tanto quanto antes, aparecendo num outro indivíduo, cuja consciência, todavia, não possui ligação alguma com a de seu antecessor.”

A música exprime não esta ou aquela alegria singular e determinada, esta ou aquela aflição, ou dor, ou espanto, ou júbilo, ou regozijo, ou tranqüilidade de ânimo, mas eles MESMOS, i.e., a Alegria, a Aflição, a Dor, o Espanto, o Júbilo, o Regozijo, a Tranqüilidade de Ânimo, em certa medida in abstracto, o essencial deles, sem acessórios, portanto também sem os seus motivos.” “Essa é a origem do canto com palavras e, por fim, da ópera – que justamente por isso nunca devem abandonar a sua posição subordinada para se tornarem a coisa principal, fazendo da música mero meio de sua expressão, o que se constitui num grande equívoco e numa absurdez perversa.” Prelúdio d’O Caso Wagner.

Tão seguramente como a música, longe de ser mero acessório da poesia, é uma arte independente, não só independente mas a mais poderosa de todas as artes, e por conseguinte alcança seus fins inteiramente com seus próprios recursos, tão seguramente quanto isto, é possível dizer que a música não necessita das palavras das letras ou da ação de uma ópera, que são acréscimos opcionais.”

Com respeito à superioridade da música em relação a seus elementos subordinados na forma da atuação dos atores-músicos na ópera e letra da canção, e porque a música está para o libretto e a ação como o universal para o particular, como a regra para o exemplo, seria aconselhável que o libretto fosse escrito para a música e não a música composta para o libretto. No entanto, o método costumeiro (o segundo) existe porque as palavras e ações contidas no libretto conduzem o compositor, de qualquer maneira, às afetações da vontade que estão em seu imo, e despertam nele os sentimentos a ser exprimidos pela composição; agem, portanto, como meios excitantes da imaginação musical.” Atualidade total, na era das trilhas sonoras encomendadas.

Que seja possível a relação entre uma composição e uma exposição intuitiva reside no fato de as duas serem apenas expressões diversas da mesma essência íntima do mundo. Quando uma tal relação de fato está presente [é que] o compositor soube expressar na linguagem universal da música os estímulos da Vontade constitutivos do núcleo de um evento: então a melodia da canção, a música da ópera são plenamente expressivos. A analogia encontrada pelo compositor entre aquelas duas (…) tem de provir do conhecimento imediato da essência do mundo, inconsciente para a sua razão, e não pode (…) ser imitação intermediada por conceitos. Do contrário a música não expressa a essência íntima, a Vontade mesma, mas apenas imita de maneira inadequada o seu fenômeno. Isto o faz toda música imitativa propriamente dita: p.ex., As estações, de Haydn, também muitas passagens de sua Criação, em que fenômenos do mundo intuitivo são imediatamente imitados. Também é o caso de todas as peças de batalha. Tudo isso deve ser por completo rejeitado.”

a seriedade que lhe é essencial, a excluir por completo o risível do seu domínio próprio e imediato, explica-se pelo fato de seu objeto não ser a representação, exclusivamente em relação à qual o engano e o risível são possíveis” “Quão plena de sentido e de significação é a linguagem musical, testemunham-no até mesmo os sinais de repetição, junto com o da capo [do início em italiano], que seriam insuportáveis nas obras escritas com palavras. Na música, entretanto, são bastante apropriados e benéficos, pois, para apreendê-la completamente, tem-se de ouvi-la duas vezes.” Ou 200 ou 2000…

Observe que na música de ópera o pathos transmitido é sempre o mesmo, não importa se o tema teatral é a desavença entre Agamemnon e Aquiles ou numa simples família burguesa. O material suplementar é irrelevante. Como Deus vê apenas o coração dos homens, a música vê e é apenas a vontade e as paixões ocultas por detrás das aparências. Desse modo, até diante das bufonarias da ópera cômica a música verdadeira preserva sua beleza, pureza e sublimidade essenciais. Na música não existe absurdo. A significância séria e profunda de nossa existência paira sobre toda a farsa e a interminável miséria da vida humana.”

Se considerarmos a música puramente instrumental, uma sinfonia de Beethoven nos apresenta a maior das confusões, mas que não deixa de estar baseada na mais perfeita ordem, o mais veemente conflito, que é transformado no instante seguinte na mais bela concórdia. É rerum concordia discors, um quadro perfeito e verdadeiro da natureza do mundo, que flui num labirinto ilimitado de incontáveis formas, que mediante constante destruição executa uma constante reparação.” “como um mundo espiritual sem matéria”¹ “É claro que enquanto ouvimos temos a tendência se representar a música em carne e ossos e prestar-lhe uma roupagem concreta, ver através dos ouvidos cenas da vida e da natureza. Geralmente, porém, isso não é sequer requisitado para a compreensão e fruição da música, consistindo apenas em adição estranha e arbitrária inevitável dada a natureza dos sentidos.”

¹ O verdadeiro sentido de sublimação. Esqueça a psicanálise!

a música nunca nos causa tristeza verdadeira. Mesmo em suas tensões mais melancólicas, ainda é prazerosa, e com muito deleite ouvimos em sua linguagem a história secreta de nossa vontade, com todas as suas emoções e esforços, seus variegados prolongamentos, obstáculos e misérias. Em contraste, quando, na realidade e seus terrores, é a nossa vontade mesma que é afetada e atormentada, não em sua história, mas no momento atual, quando não se trata mais de tons e relações numéricas, nós mesmos somos as cordas tensas e vibrantes que são esticadas, o que é sem dúvida doloroso.”

Em regiões setentrionais, cuja vida está sujeita a condições árduas, especialmente entre os russos, a menor da escala musical prevalece, mesmo na música de igreja. Allegro in minor é característica da música francesa; é como se alguém dançasse com sapato apertado.”

13. A FAMOSA MISOGINIA SCHOPENHAUERIANA

ABSURDO FINALISMO… “A causa eficiente que se demonstra nas configurações animais também é válida para a barba no homem; a finalidade dela é, eu suponho, ocultar os signos patognômicos¹ rapidamente alternantes na expressão humana, que traem qualquer movimento da mente. Esses signos são principalmente visíveis no entorno da boca; desta feita, a natureza, i.e., o organismo humano mesmo – de forma a minimizar suas perdas, escondendo do olho penetrante do adversário essas alterações sutis, cuja percepção seria muito perigosa nos atos de barganha ou em situações-limite – trata de fazer crescer pêlos na região, o que se traduz pelo completo desenvolvimento da barba no homem adulto (outro índice de que homo homini lupus, o homem é o lobo do homem). As mulheres, ao contrário, podem dispensar essa ‘vantagem natural’; pois sua dissimulação e autodominío das feições são inatos.” Menos nas lusitanas…

¹ Normalmente a palavra faria referência a sintomas mórbidos reconhecíveis por um especialista; neste caso, Schopenhauer emprega o prefixo pathos, que é o mesmo de patologia, para designar expressamente os afetos e as emoções, a variabilidade do caráter humano e as expressões faciais que as acompanham, e que acabam por involuntariamente nos trair. Perguntem aos jogadores de pôquer!

Falta de inteligência não prejudica uma mulher aos olhos de um homem. De fato, uma fêmea extraordinariamente bem-dotada mentalmente, ou mesmo uma gênia, provavelmente gerarão repulsa no homem, por serem anomalias.”

CONTRA O SAPIOSSEXUALISMO, HAHAHA! “É uma pretensão vã e absurda quando as mulheres afirmam que estão apaixonadas pelo cérebro de um homem, ou isso é sincero mas não passa de uma mania de uma natureza degenerada.”

Os homens não têm seus instintos sexuais e amorosos determinados pelo caráter da mulher; daí haver tantos Sócrates com esposas iguais Xantipas. Alguns exemplos são Shakespeare, Albrecht Dürer, Byron.

14. RESÍDUOS: AFORISMOS, PASSAGENS DIFÍCEIS DE CLASSIFICAR, CONSOLAÇÕES OU INVECTIVAS CONTRA FILÓSOFOS OU PERSONALIDADES MENORES

é tão reduzido o verdadeiro público de um autêntico filósofo que mesmo os discípulos que o compreendem só aparecem de séculos em séculos.”

todo evento ou obra, sufocados em gérmen, ainda têm a infinitude inteiramente aberta para o seu retorno.”

Apenas a significação interior vale na arte, a exterior vale na história. Ambas são completamente independentes uma da outra, podem aparecer juntas, mas também sozinhas.”

Que é afinal a modéstia senão a fingida humildade por meio da qual, num mundo povoado de inveja, pede-se perdão pelas excelências e méritos próprios àqueles que não os possuem?”

VIOLÊNCIA ou ASTÚCIA, os quais, em termos morais, são em essência a mesma coisa.”

Quem se recusa a mostrar ao andarilho o caminho correto não pratica injustiça; mas quem lhe aponta o caminho errado, pratica-a.”

O gozo da prática da injustiça num indivíduo é sempre menor que a dor ao sofrer a injustiça de outrem” Isso é tão sintético que poderia ter salvado Kant de escrever sua tortuosa Crítica da Razão Prática!

assim como de maneira bastante engenhosa se denominou o historiador um profeta às avessas, o legislador é um moralista às avessas.”

Todo amor puro e verdadeiro é compaixão. Todo amor que não é compaixão é amor-próprio.” “Até mesmo a amizade autêntica é sempre uma mescla de amor-próprio e compaixão” “O CHORO é COMPAIXÃO CONSIGO MESMO ou, a compaixão que retorna ao seu ponto de partida.” “sente-se que quem ainda pode chorar também tem de ser necessariamente capaz de amar”

Embora a idade e a doença tivessem transformado a vida dele num tormento e, através do desamparo, um fardo pesado para o filho, ainda assim a morte [do pai] é chorada intensamente.”

A verdadeira filosofia deve ser sempre idealista; de fato, deve sê-lo se quiser ser tão-só uma filosofia honesta, ainda que falsa.”

Jacobi, em sua doutrina de que a realidade do mundo exterior é assumida com base na fé, é exatamente <o realista transcendental que se faz passar por idealista empírico> tão censurado por Kant em sua Crítica da Razão Pura

Fichte não deve ser mencionado em minha obra: ele não merece um lugar entre os verdadeiros filósofos; entre aqueles eleitos da humanidade que, com honestidade profunda, buscam não coisas pessoais, mas a verdade; aqueles, portanto, que não devem ser confundidos com outros, os que, sob essa pretensão, só se importam com miudezas egocêntricas e a própria carreira. (…) Mas quem quer que nomeie esse tal Fichte ao lado de Kant – e falando sério! – demonstra que não tem a menor noção de quem é Kant e o que ele representa.” Essa espetada é sem disfarces direcionada a Hegel, este nivelador universal!

Materialismo é a filosofia do sujeito que se esquece de levar em consideração a si mesmo.”

Chega a ser comovente como, desprovidos tanto da profundidade dos alemães como da honestidade dos ingleses, os filósofos franceses distorcem e reviram o pobre material da sensação daqui e dali, buscando incrementar sua importância, a fim de elaborar os fenômenos profundamente significativos do mundo da percepção e do pensamento.”

Poderemos nos chamar de civilização somente quando nossos ouvidos puderem viver desprotegidos sem danos, quando não for mais <direito adquirido> de cada um perturbar a paz de consciência e a tranqüilidade de quem caminha na rua através de uma infinidade de sons como assovios, berros, relinchos, marteladas, o estalar de chicotes, latidos, etc., etc. (…) Algo mais sobre este assunto é dito no 13º capítulo do segundo volume do ParergaSim, amigo, eu me lembro muito bem! Quem estiver interessado (são passagens bem divertidas!), basta clicar em https://seclusao.art.blog/2017/05/30/o-pessimismo-de-arthur-schopenhauer/ e digitar Lichtenberg na busca (ctrl + F).

SÓ SEI QUE NADA (ESPERO DE) SEI(TAS): “se pudéssemos com firmeza persuadir 3 homens de que o sol não é a causa da luz do dia, seria de se esperar que logo essa nova convicção se tornaria generalizada.”

Inferir é fácil, julgar é complicado. Falsas inferências são raras, falsos julgamentos se dão o tempo todo.”

Quanto mais um homem é capaz de uma seriedade integral, mais, também, ele pode rir de coração.”

A ironia é objetiva, isto é, direcionada sempre ao outro; mas o humor (o cômico) é subjetivo, i.e., existe primariamente apenas para si mesmo. É por essa razão que as obras-primas da ironia estão entre os antigos, mas as obras-primos do humor se acham entre os modernos.

Falar diretamente dos corpos parece aos filósofos contemporâneos excessivamente vulgar; daí que eles digam <ser>, que juram soar melhor”

GERENTE-GERAL DA FIRMA: “o filósofo deve pesquisar em todos os campos do conhecimento, e inclusive, até certos limites, estar familiarizado em cada um. Segue daí que aquele conhecimento completo que só pode mesmo ser adquirido pelo estudo do detalhe está-lhe necessariamente interdito. (…) o filósofo pode ser comparado ao maestro: deve saber a natureza e o uso de todos os instrumentos da orquestra, sem embargo não seria proveitoso saber tocar todos, nem mesmo um deles como um perito ou virtuoso. O especialista é como Penélope semi-viúva à espera, que cose só para descoser. Tanto faz seus dias, o que importa é Odisseu. Ele irá ligar os pontos e dar utilidade ao trabalho da carne, ao alfinete e ao vestido.

em si mesmas, as matemáticas deixam a mente exatamente onde elas a encontraram (…) mesmo Descartes, muito melhor matemático do que filósofo, considerava a matemática de segunda ordem, ideal para cultivar a atenção e controlar a superexcitação dos nervos”

Se tivermos lido um livro de anedotas, digamos, 50 anedotas, e depois deixamos o livro de lado, imediatamente depois da leitura pode ser que sejamos incapazes de lembrar de cor uma única anedota. (…) O mesmo com qualquer tipo de leitura. Nossa conexão com o que aprendemos lendo depende de nossas linhas de pensamento, no contexto adequado. Aprender a fundo uma língua significa fortalecer essas conexões.”

O PROBLEMA DE DAR AULAS OU FALAR EM UMA CONFERÊNCIA, AINDA MAIS QUANDO NÃO SE É UM ESPECIALISTA: “Ocasiões suscitam pensamentos; pensamentos suscitam ocasiões apenas às vezes. Se nos propomos a fazer algo num momento determinado, isso só pode se dar perfeitamente se 1) ou não pensamos em nada até a chegada deste momento, 2) ou se nesse momento determinado nós somos lembrados do pensamento por algum símbolo, com que está associado, seja uma impressão externa plantada previamente [que tal uma simples anotação?] ou um pensamento que é de novo suscitado de forma natural. [um aluno que através de uma questão recupera nossa memória]

Toda manhã quando despertamos nossa consciência é uma tabula rasa, que, no entanto, logo se enche de novo. (…) até o ponto em que tudo que nos ocupava na véspera (ontem) lá de novo está.”

algumas vezes não podemos mais nos lembrar, de manhãzinha, de uma melodia que na noite passada grudou em nossa cabeça a ponto de nausear-nos.” Mas às vezes é o oposto: acordamos ouvindo distintamente um estribilho que, estamos seguros, não nos havia ocorrido meses a fio!

A consciência é meramente a superfície de nossa mente, da qual, igual a Terra, não conhecemos as profundezas, só mesmo a crosta.”

Nossa auto-consciência tem, não o espaço, mas somente o tempo como forma. Não pensamos em três dimensões, como percebemos o mundo, mas só em uma, isto é, numa linha, sem largura ou profundidade. Essa é a fonte da maior das imperfeições essenciais do nosso intelecto.” Alguém que não dormisse seria alguém cuja linha reta do raciocínio e da consciência se tornou uma forca (uma corda que se torce sobre si mesma e asfixia nossa própria consciência).

após longa e ininterrupta reflexão sobre um mesmo tema nosso raciocínio se torna gradualmente confuso e estúpido, e termina em completo estupor. Desta feita, após um certo intervalo, que, é claro, varia de indivíduo a indivíduo, devemos nos interromper e abandonar nossa meditação ou deliberação antes de resolvê-la, e nos dar certa paz e relaxamento. Mesmo que se trate de um problema crucial e muito pessoal; ou se elimina essa perturbação da mente ainda que temporariamente, por mais opressiva que seja a ansiedade em torno dela, e nos engajamos nalguma distração indiferente e banal, ou…” “Porque quando retomarmos o fio do problema, refletiremos sobre a coisa de uma outra maneira, como se fosse todo um assunto novo. Entraremos no cerne da problemática muito mais rápido e de um outro ponto de vista, desconectado das primeiras impressões de excitação e repulsa que os pensamentos já haviam percorrido, mais distanciados dos fatos. Nossa vontade aprecia tudo de outro ângulo.” “a mesma coisa, por sinal, nos parece diferente pela manhã, à tarde, à noite, ao meio-dia, noutro dia… às vezes muito diferente”

Em geral, ocupações teóricas tornam nossa mente inábil para negócios privados, e vice-versa.”

quando o grau de cultura é mais ou menos o mesmo, a conversação entre um homem de grande intelecto e um homem ordinário é como a jornada de dois homens caminhando lado a lado, um deles cavalgando um cavalo muito fogoso, o outro indo a pé. Logo se torna incômodo para ambos continuar a travar conhecimento. Após certa duração de tempo, impossível mesmo. Porque por um breve intervalo o cavaleiro pode apear de sua montaria e acompanhar o outro na caminhada, se bem que até mesmo a impaciência de seu animal lhe dará muito que fazer!”

Não há meio-termo entre o desejo e a renúncia.”

Entre os modernos, aquele que vive DA filosofia é, via de regra, salvo raríssimas exceções, o extremo oposto daquele que vive PARA a filosofia, a ponto deste ser o antípoda secreto e irreconciliável daquele. (…) E assim com os discípulos dos grandes filósofos: aquele que em vida passou despercebido, em penúria e sem jamais colher os frutos de sua grandeza, após a morte vê-se reabilitado perante a sociedade, o que é o exato oposto dos tais <renomados professores> [seria Hegel a grande exceção?]. Porém, uma vez que o filósofo deixa um legado, as novas gerações se tornam verdadeiros parasitas: herdeiros sem mérito, rebaixam sua filosofia a seu próprio patamar mesquinho e perpetuam o ciclo da gentalha, vivendo DO seu mestre, e não PARA ele. Que Kant tenha podido viver DA e PARA a filosofia dependeu da mais rara eventualidade de que, pela primeira vez desde os imperadores Antonino e Juliano, um filósofo subira ao trono. Só mesmo sob a proteção de um tal monarca a Crítica da Razão Pura poderia ter visto a luz do dia. Mal morreu o Kaiser e Kant, ainda no meio de sua carreira, foi tomado de apreensão. Como um ex-súdito de um governante sucedido por inimigos poderosos, Kant viu-se na posição de modificar, expurgar e espoliar sua obra-prima na 2ª edição, e ainda assim quase perdera o direito de lecionar e de publicar; o que o salvou foi que Campe de Brunswick¹ se tornou seu mecenas, e Kant ganhou o posto de tutor de sua família.”

¹ Nada sei a respeito dessa figura. Até seu nome parece estar transliterado errado.

Sobre si mesmo todos sabem diretamente, sobre todos os demaisindiretamente. Nisso consistindo o problema.” Ou nem mesmo a si diretamente…

O intelecto é de fato um confidente da Vontade, mas um confidente a quem não se conta tudo.” “O intelecto fica cansado; a Vontade, nunca.”

De 10 coisas que nos importunam, 9 seriam incapazes de fazê-lo se as entendêssemos integralmente em suas causas e, destarte, conhecêssemos sua necessidade e verdadeira natureza; mas o faríamos muito mais amiúde se as tomássemos como objeto de reflexão antes de fazermos delas objeto de ira e indignação.”

Aquele sem frieza e presença de espírito só sabe o que deveria ter feito ou dito quando a oportunidade já passou.”

é muito mais fortuito nascer poeta que filósofo.”

Às vezes, por causa de uma interrupção, é inteiramente impossível retomar o fio de meu pensamento de instantes atrás, ou tentar rememorar, p.ex., de que notícia acabei de me inteirar. Acontece que, se o problema em questão tinha de qualquer ângulo o menor e mais distante interesse pessoal, a sensação que nos é deixada é conservada pela Vontade. Mesmo que não lembre o conteúdo, estou perfeitamente consciente do quanto aquilo em que meditava ou de que obtive conhecimento me afetava, agradável ou desagradavelmente, e quase posso dar com a maneira com a qual isso interagia comigo, i.e., se me envergonhava, gerava puramente ansiedade, me irritava ou me deprimia, ou então produzia o oposto dessas afeições. Quer dizer que a mera relação da coisa com minha Vontade é retida na memória mesmo após a coisa em si [sem hífen aqui: a coisa ela mesma, qualquer coisa, conteúdo banal ou de somenos importância metafisicamente falando, i.e., não é o noumeno de Kant!] ter se dissipado, e esse fato se torna a principal pista que nos conduz de volta àquela coisa.”

assim que a mente escapa do disparate da infância, cai nas ciladas de inumeráveis erros, preconceitos e quimeras, algumas vezes até mais absurdos e toscos que os da infância, sendo que agora a mente possui a qualidade de perseverar muito mais nestes erros, até que finalmente a experiência acumulada começa a remover um por um desses preconceitos, sendo que muitos deles desaparecem sem que nos demos conta. Isso demora muitos anos para se suceder, de modo que em muitas legislações adquire-se a chamada maioridade no vigésimo aniversário – mas a maturidade consumada, os anos da discrição, só muito raramente dá as caras antes do quadragésimo aniversário.”

todo esse mundo objetivo, tão vasto e ilimitado em espaço, tão infinito em tempo, tão insondável em sua perfeição, é, na verdade, só determinado movimento ou afeição provinda de uma comparativamente muito escassa matéria cinzenta confinada a um crânio.”

Podemos chamar o instinto de um caráter ou personalidade que é para além de todas as medidas unidimensional e achatado. Vide os insetos: eles são quase que o perfeito exemplo de sonâmbulos naturais (despidos de toda e qualquer individualidade).”

Só na aparência os homens são puxados pelo que vai adiante; na realidade eles são empurrados pelo que vai atrás; não é a vida¹ que os tenta a continuar, mas a necessidade que os impele para a frente.”

¹ Entender como esperança.

nenhum homem de mente sóbria pode sonhar em ser um gênio.”

Decerto que o que um homem adquire em experiência e conhecimento até a idade da puberdade é, tomado como um todo, mais do que tudo que ele futuramente aprenderá, por mais que ele chegue a uma grande erudição; porque aquele conhecimento inicial é o fundamento de todo o conhecimento posterior.”

No geral eu recomendo a todos que queiram se familiarizar com minha filosofia ler cada linha que já escrevi. Eu não sou um escritor volumoso,¹ fabricador de compêndios, não lucro com minha filosofia, meus escritos não almejam à aprovação de um ministro de Estado; em suma, não sou alguém sob a influência de fins materiais.”

¹ Mentira! Estou há anos tentando ler sua obra completa, camarada!!

Juventude sem beleza tem sempre ainda um charme; beleza sem juventude nenhum.”

o sono é um dos irmãos da morte; já o desmaio é seu irmão gêmeo.”

TUDO VAI FICAR BEM: “Mesmo à morte violenta é impossível ser dolorosa, já que até ferimentos graves não são sentidos senão algum tempo depois, amiúde não antes de que a própria vítima observe seus sinais exteriores. Se esses ferimentos levam rapidamente à morte, a consciência se esvai antes da descoberta; se os ferimentos conduzem lentamente à morte, trata-se de desfecho idêntico ao de outras doenças. Todos aqueles que perderam a consciência debaixo d’água, ou asfixiados pela fumaça, ou numa tentativa mal-sucedida de enforcamento, são conhecidos por haverem relatado não sentir a mínima dor.”

Só o homem carrega consigo em conceitos abstratos a certeza de sua morte, embora a mesma só o angustie muito raramente, em momentos particulares, quando uma ocasião a presentifica à fantasia. Contra a voz poderosa da natureza a reflexão pouco pode.” “Ninguém tem uma convicção realmente vívida da certeza da própria morte, pois, do contrário, não poderia haver diferença tão grande entre sua disposição e a do criminoso condenado.” “a consciência interna (…) evita (…) o envenenamento da vida do ser racional pelo pensamento sobre a morte, já que tal consciência é a base daquele ânimo vital que conserva cada vivente e o capacita a continuar vivendo serenamente, como se não existisse morte” “Todavia, nada impede que, quando a morte entre em cena para o indivíduo no particular e na efetividade, ou apenas na fantasia, ele tenha então de encará-la nos olhos, sendo assim assaltado pelo medo” “às vezes enfrentamos a dor mais terrível só para escapar da morte por mais alguns instantes

“NUTRINDO RAIVA, CAUSANDO DOR”, OU COMO O ROCK NEOFASCISTA TEM CONSTRUÍDO ÓDIO PELA AMÉRICA DO SUL – Pedro Carvalho Oliveira (Temáticas, Campinas, 27, (54): 39-58, ago./dez. 2019) – com comentários.

Pedro Oliveira é doutorando em História na Universidade Estadual de Maringá. Bolsista CAPES/Fundação Araucária

Foi com este espírito que os neofascismos, ou seja, a conjugação das novas formas de ação dos fascismos clássicos no presente, desembarcaram na América do Sul e ampliaram a forma de agir dos militantes neofascistas europeus. Igualmente, buscaram, assim como às suas bases políticas, readequar e reformular conceitos de nacionalismos. Estas formas de agir dos fascismos encontraram na região emblemáticas heranças da presença fascista no passado, como a Aliança Integralista Brasileira, o pioneirismo de Miguel Serrano no Chile e mesmo a Tercera Fuerza na Colômbia ou o Partido Nuevo Triunfo na Argentina. Ao mesmo tempo, adaptaram ao terreno sul-americano narrativas ideológicas que pareciam inadaptáveis, gerando, com isso, uma autenticidade bastante particular. Os neofascismos sul-americanos são tão próximos dos ideais fascistas de outrora quanto são diversos em suas peculiaridades, embrionando um caso único, distinto. Veremos isso em cada exemplo utilizado neste trabalho, analisando especialmente casos no Brasil, na Argentina e no Chile.” Ótima prosa.

Com isso, os neofascistas que produzem este tipo de música por vezes transpõem inimigos dos fascismos clássicos (como os comunistas, os liberais ou os judeus) e criam novos tendo em vista suas próprias sociedades. No Brasil, o ódio pode recair sobre os nordestinos, por exemplo, inimigo particular de parte dos neofascistas do nosso país.” Mas recai sobre o ‘comunista’ mesmo! Recai sobre o liberal, quando levamos em conta que o fascista odeia a si mesmo.

Entre os historiadores, podemos destacar os já consagrados olhares de Francisco C. Teixeira da Silva (2004) sobre a questão, além dos esforços de laboratórios como o Grupo de Estudos do Tempo Presente, da Universidade Federal de Sergipe, que há anos vem mapeando e investigando movimentos neofascistas, resultando em robustas inspeções sob a coordenação do pesquisador Dilton Maynard (2017).”

Faremos isso examinando letras das bandas Ultra Sur e Nüremberg (Argentina), Comando Blindado e Defesa Armada (Brasil) e Odal Sieg e Orgullo Sur (Chile). Assim, poderemos apresentar uma amostra de como os neofascismos sul-americanos estruturam seus discursos de ódio visando uma penetração maior no espectro social.” Essa abordagem da academia sobre grupos musicais analisando letras é muito limitada. Isso só daria conta do fenômeno se fossem poetas em vez de bandas; música não é só letra, é impossível fazer uma análise apenas escrita, a não ser que seja extremamente técnica, adorniana mesmo.

Nada de black metal aqui, apenas oi!

O rock neofascista surgiu na Inglaterra no início dos anos 1980, em meio ao boom do movimento punk e do retorno da subcultura skinhead. Devemos esclarecer que até o final dos anos 1970, a subcultura skinhead não era contaminada pelas ideias neofascistas com as quais muitos de seus integrantes passariam a se identificar. Desde os anos 1960 foi uma subcultura que incorporava elementos da cultura jamaicana e operária, não a segregação racial e nacionalista com a qual se envolveria mais tarde.” Uau. Isso é totalmente novo para mim.

No bojo desses acontecimentos, alguns skinheads foram cooptados pelos partidos neofascistas para atuarem como linha de frente da juventude, angariando possíveis eleitores e pessoas engajadas em espalhar suas ideias mesmo que pela força. Ian Stuart Donaldson foi um deles. Líder da banda londrina Skrewdriver, mudou radicalmente sua forma de compor ao passo em que mergulhou de cabeça no National Front. Suas posturas neonazistas ficaram cada vez mais claras e os discursos de ódio, em sintonia com os de seu movimento, mais acentuados. Nascia assim o rock neofascista.” grifo meu

A organização Blood & Honour, criada por Donaldson em 1987, foi fundamental para catapultar o rock neofascista pelo mundo: divulgava, produzia, organizava e distribuía material musical muito antes de a Internet se tornar um meio de comunicação comum. Quando isto ocorreu, o gênero se disseminou com maior vigor.

Organizações como a estadunidense Hammerskin e lojas virtuais como a NS88 Division organizam eventos e vendem produtos de rock neofascista desde os anos 2000 de forma simples, estando a poucos cliques de qualquer pessoa. Não estão em páginas obscuras da rede, pois podem ser facilmente encontradas em sites de busca. Redes de streaming como Spotify e Deezer abrigavam, sem saber, vastas discografias de bandas neofascistas há pouco tempo. Blogs e fóruns voltados à divulgação deste tipo de música são numerosos. Isto certamente possibilitou a amplitude do perímetro no qual [o] gênero é ouvido e produzido na América do Sul.”

Alguns autores, a exemplo de Antonio Salas (2006), referem-se a este gênero como hate music. Outros, como nós, já utilizamos o termo hate rock para reduzir sua escala de alcance e circunscrevê-lo em sua especificidade sonora. Não se trata de um gênero que abarca diversos tipos de música, mas sim um tipo específico: o rock.”

Na Argentina, a banda Comando Suicida, fundada em 1983, deixou de ser uma banda próxima à Oi! music para se converter em símbolo da penetração neofascista no país.”

Foi nos anos 1990, contudo, que vimos um crescimento assombroso do rock neofascista sul-americano. No Brasil, bandas como Locomotiva e Grupo Separatista Branco se tornaram proeminentes. A Odal Sieg deu seus primeiros passos no Chile, enquanto a Nüremberg e Ultra Sur engatinhavam na Argentina para, mais tarde, tornarem-se grandes nomes em suas respectivas cenas musicais.” Herança maldita de FhC.

Sincronicamente, nas últimas décadas do século XX, o Chile se convertia na capital sul-americana do neonazismo, sobretudo pela atuação de indivíduos como Miguel Serrano, Alex López, Ernesto Lutz e organizações como a Patria Nueva Sociedad, Frente Orden Nacional e Acción Nacional-Socialista de Chile (MOURA; MAYNARD, 2012).”

Já no México, um mapeamento da confluência de forças políticas deste tipo ainda necessita ser realizado com maior zelo, visto que ainda conhecemos muito pouco sobre eles.”

Uma das mais importantes vem do Rio Grande do Sul e se chamava Comando Blindado. Formada ainda no final dos anos 90, chegou a lançar um álbum pelo selo Zyklon-B Records, dos Estados Unidos, em 2006. Intitulado Marchando rumo à vitória, o disco tem sua capa ilustrada por soldados e bandeiras nazistas. Nele, encontramos a música ‘Nutrindo raiva, causando dor’, na qual ouvimos:

O inimigo está perto, está controlando você

Invade sua mente através do jornal e da TV

São os malditos judeus que têm o controle das massas

Que dominam a mídia e promovem tanta desgraça”

Em ‘Cada vez te odeio mais’, a banda se manifesta sobre outros alvos de seu ódio:

Cresce a violência e meu ódio aumenta mais

E o podre comunismo se alastra como doença ruim

Nordestinos vem pro Sul, que infelicidade

Estamos perdendo nossa identidade”

Constrangedor.

OS CACHORRINHOS DOS DECADENTES: “Este reducionismo, que à época era deficiente de críticas a problemática relação entre moderno-arcaico, foi amplamente utilizados por teóricos como Oliveira Viana para difundir, à luz de pseudociências eugenistas, a ideia de que o Sul-Sudeste era naturalmente superior ao Norte-Nordeste. Havia nisso uma necessidade de estabelecer vínculo com uma cultura europeia, da qual as pessoas desta região seriam majoritariamente herdeiras.”

LEITURAS RECOMENDADAS:

MAYNARD, Dilton Cândido Santo (Org.). Extremismos no Tempo Presente. Rio de Janeiro: Autografia, 2017;

SALAS, Antonio. Diário de um skinhead: um infiltrado no movimento neonazista. São Paulo: Editora Planeta, 2006.

A CAPES EM TEMPOS DE NEOFASCISMO

CAPÍTULO 15. “SEM NORTE” E “DESTRUÍDA POR DENTRO”: A CAPES RUMO AO “ESTADO ZERO” – Monique Florencio de Aguiar. In: Assédio institucional no Brasil [livro eletrônico] : avanço do autoritarismo e descon[s]trução do Estado / organização José Celso Cardoso Junior…[et al.]. — Brasília, DF : Associação dos Funcionários do Ipea : EDUEPB, 2022.PDF.

Cada instituição governamental tem a sua história e as suas particularidades, o que nos leva a repetir a consagrada ideia do Estado como um ente não-monolítico. Contudo, é possível sentir na atual estrutura estatal brasileira a influência de um modelo governamental de escopo internacional que vem sendo alvo de críticas por parte de certos líderes políticos e intelectuais devido às destruições que gera. Refiro-me aqui ao neoliberalismo autoritário, expressão usada para designar uma forma de governar que se alastrou por diversos países, a partir dos Estados Unidos, após a crise econômica mundial de 2008.”

O discurso neoliberal impregna as instituições, que seguem um modelo internacional adaptando-o às condições nacionais. Por isso, pretendi abordar a temática do neoliberalismo autoritário mediante a análise de sua racionalidade em uma instituição estatal, na Capes. Relativo a este ambiente, elegi o seguinte problema de pesquisa: quais os principais sustentáculos do processo de reorientação política na Capes e que marcas têm produzido em sua dinâmica?” De certa forma pergunta inócua, sem resposta ou de resposta evidente (propositalmente).

O que restará claro ao fim deste capítulo são as diferentes faces do Estado segundo o grupo com o qual seus representantes interagem.”

A instituição escolhida para realizar tal análise foi a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, conhecida por sua sigla como Capes. A Capes está vinculada ao Ministério da Educação (MEC) e foi instituída em 1951 com o propósito de promover a formação de ‘pessoal especializado’ que viesse a auxiliar empreendimentos públicos ou privados voltados para o desenvolvimento nacional (Nascimento et al., 2019:97). Segundo seu Regimento Interno, a Capes tem por finalidade: ‘subsidiar o Ministério da Educação na formulação de políticas e no desenvolvimento de atividades de suporte à formação de profissionais de magistério para a educação básica e superior e para o desenvolvimento científico e tecnológico do país’ (Portaria nº 105/2017). Posteriormente à sua criação, a Capes se consolidou como o principal ator do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), fazendo com que alterações no seu funcionamento afetem, em cadeia, os demais atores desse sistema.”

Para produzir conhecimento sobre a realidade desta instituição, realizei entrevistas online, no mês de agosto de 2021, com 6 funcionários públicos que nela atuam. [Feliz quase-aniversário de um ano da iniciativa!] A entrevista mais sucinta durou 1 hora e 15 minutos e as mais longas chegaram a 2 horas e 15 minutos. Obtive a primeira indicação para as entrevistas por meio de um representante da Associação de Funcionários do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Afipea). Os demais entrevistados foram indicados por meu primeiro interlocutor na Capes. Todos os colaboradores desse empreendimento textual iniciaram o seu trabalho na instituição entre os anos de 2008 e 2015, [no boomers!] além disso, nenhum deles possuía cargo comissionado. A fim de manter o sigilo quanto às identidades de meus interlocutores, farei poucas caracterizações sobre eles. Três entrevistados são do sexo masculino e 3 do sexo feminino. No decorrer do texto, eles serão nomeados como: Sônia, Iara, Bartira, Joaquim, Clóvis e Frederico.”

optei por seguir o método de análise de discurso formulado por Michel Foucault (1999, 2008, 2014).”

a atuação de um antigo grupo gestor que, mediante ações assediadoras ou autoritárias, mantém as possíveis reações de seus servidores sob estrito controle.”

No quarto [subtítulo], trato do suposto comportamento de algumas antigas chefias intermediárias, que seriam promotoras de assédios contra servidores, transformando-os em seres obedientes e pacatos e, assim, contribuindo para a manutenção de uma intacta hierarquia.”

um dos autores de maior repercussão nos últimos anos é o camaronês Achille Mbembe (2016), que formulou o conceito de necropolítica para se referir às atuais formas de gestão estatal.” Necropolítica como sinônimo de neoliberalismo a longo prazo.

Em seu texto intitulado Três Etapas para uma Antropologia Histórica do Neoliberalismo Realmente Existente, Wacquant (2012) questionou qual seria o papel do Estado nessa forma neoliberal de governar.” Cargo Wacquant.

O neoliberalismo é crítico ao Estado e, ao mesmo tempo, tem por objetivo principal capturá-lo e transformá-lo. […] o neoliberalismo pode sempre voltar a colocar a culpa no Estado e nas formações heterogêneas. E assim, como teoria da crise, pode se oferecer novamente como remédio para os males que ele próprio desencadeia, o que lhe permite seguir errando.” Andrade 2019

Diante do aparelhamento estatal, Wacquant (2012:510) salientou que o neoliberalismo não é exatamente um projeto econômico, mas um projeto político, envolvendo uma reengenharia ou reestruturação do Estado e não o seu desmantelamento ou retirada. Para ele, teríamos um Estado-centauro <que exibe rostos opostos nos 2 extremos da estrutura de classes: ele é edificante e ‘libertador’ no topo (…); mas é penalizador e restritivo na base>.”

Bruff (2013) identificou o crescimento do autoritarismo neoliberal nos países europeus por meio do qual se estabelece um insulamento que protege as ações dos governantes do conflito social e político, acarretando um Estado forte com fraca legitimidade política. O autoritarismo aqui não seria meramente o exercício da força bruta, mas uma tentativa, dentro da reconfiguração do Estado, de insular certas políticas e práticas institucionais das ações de dissidentes ou opositores políticos e sociais, por vezes, fazendo uso de instrumentos legais.” A legal-literalpolítica.

Saad-Filho considerou as variações do neoliberalismo durante o governo do Partido dos Trabalhadores (PT), nomeando como inclusivo o neoliberalismo empregado entre 2003 e 2006 e como desenvolvimentista o empregado entre 2006 e 2013.” Se o governo do PT foi neoliberal, não há nada o que fazer e esse artigo é inútil e meramente desconsolador ou até manipulador, incitando a ações inúteis que só trariam dano a seus autores (os contragolpistas).

E se for por esses crimes, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi eu quero dizer que vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais.”

Quando o Pai vai falar, calamos a boca e prestamos muita atenção. Depois damos o destaque merecido.

Os termos desdemocratização (Brown, 2019, 2021) e pós-democracia (Crouch apud Andrade, 2010:116; Rancière apud Athanasiou, 2021:188) passaram a constar em muitas bibliografias.”

após o 1o semestre de governo, o grupo neoconservador impôs algumas derrotas à ala militar, retomando o controle sobre o Ministério da Educação. O primeiro ministro, Ricardo Vélez Rodríguez, foi indicado pelo mentor da ala conservadora, Olavo de CaVEIRA, falecido recentemente e que residia nos Estados Unidos. Mas Ricardo Vélez permaneceu no cargo por apenas 3 meses, sendo substituído pelo economista Abraham Weintraub, conhecido por sua postura negacionista e extravagante. Weintraub esteve no cargo de abril de 19 a junho de 20, sendo sucedido por Milton Ribeiro, pastor evangélico formado em direito e em educação. Desse modo, consolidou-se a preeminência da ala evangélica no Ministério, que possui também uma pequena ala militar e outra olavista. [O INFERNO NA TERRA] (Revista Piauí, ago/2021. O Apagão: a obra do pastor que comanda o MEC. In: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-apagao/)”

como diria Bourdieu (1996), a administração pública é um campo de forças.” NÃO DIGA!

Para escrever sobre a Capes, é necessário antes explicitar a sua estrutura. A Capes é formada por 5 grupos de ‘órgãos’, assim temos: i) órgãos de assistência direta e imediata ao Presidente; ii) órgãos colegiados; iii) órgão executivo; iv) órgãos específicos singulares;¹ e v) órgãos seccionais. Existem 3 órgãos colegiados: o Conselho Superior (CS), o Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) e o Conselho Técnico-Científico da Educação Básica (CTC-EB). O órgão executivo é formado pela Diretoria Executiva que congrega o presidente e os 7 diretores existentes.”

¹ Um estranho nome para se referir justamente às Diretorias e coordenações, i.e., a CAPES em si.

Após o golpe jurídico-parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, realizado em 2016, a Capes teve como presidentes: Abílio Baeta Neves (2016–2019), Anderson Ribeiro Correia (2019–2020), Benedito Guimarães Aguiar Neto (2020–2021) e Cláudia Mansani Queda de Toledo (2021–atual). Para Sônia, minha entrevistada, após a gestão de Abílio Neves, as gestões seguintes foram ‘anti-Capes’ ou, de outro modo, ‘de Bolsonaro para cá: a destruição’.”

BELO PORTUGUÊS”: “Anderson é formado em engenharia civil, com doutorado pela Universidade de Calgary, situada no Canadá. Em fevereiro de 20, ele se afastou da presidência para assumir o cargo de reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), no qual já havia ocupado este cargo de 2016 a 19, bem como diversos outros cargos de gestão.”

Benedito sofreu críticas[,] ao ser empossado na Capes[,] por defender o criacionismo, ou seja, a teoria de que o universo é uma criação divina. É possível observar no currículo de Benedito tanto a influência de movimentos religiosos quanto da iniciativa privada. Por exemplo, ele foi presidente e vice-presidente da Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas (2016–20) e membro do Conselho de Estudos Avançados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP (2017–20).

Posteriormente a essa inflexão com tons religiosos, assumiu a presidência da Capes Cláudia Toledo. Cláudia é doutora pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), situada em Bauru, no interior de São Paulo.¹ Esta universidade privada foi fundada por sua família e atualmente é nomeada como Centro Universitário de Bauru.”²

¹ Eu sou doutor em Games & Animes pela Universidade Aguiar. Bom, melhor do que se autodenominar Ciranha!

² CUB – mais um pouco e seria comunista, p.ex., Centro Universitário de Bauru Autônomo (ou Ampliado) – CUBA!

O próprio ministro Milton Ribeiro, que a empossou, fez sua graduação no Instituto Toledo, bem como o advogado-geral da União, André Mendonça.” Trágico. Pior ainda quando o AGU já virou STF!

Até a VEJA (!!!) questionou o conflito de interesses na nomeação da Toledo – que fase!

oportuno destacar que uma das pós-graduações do Grupo Toledo de Ensino, a de Sistema Constitucional de Garantia de Direitos, pela qual Claudia (sic) Toledo se doutorou, obteve nota 2 na avaliação realizada pela Capes em 2017, o que não permitiria o seu funcionamento.” Meus parabéns pela façanha!

Em junho de 2020, esta pós conseguiu alcançar nota 4, após recurso junto à presidência da agência.” Quem disse que 2 + 0 não pode ser 4?! Orwelliano…

A Capes apoia a formação de profissionais principalmente por meio da concessão de bolsas de estudo (atuação que vem sofrendo restrições devido aos cortes de recursos realizados nos últimos anos) e do acompanhamento e avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação (ação que atualmente vem sendo dificultada por questionamentos, realizados pelo Ministério Público, quanto ao processo avaliativo).”

Os cortes de recursos, que materializam as medidas de austeridade fiscal, vêm rebaixando progressivamente o orçamento da Capes desde 2015. Segundo Nascimento et al., dentro de 5 anos (2015 a 2020) ocorreu ‘uma redução de cerca de 50% dos recursos disponíveis’.”

De acordo com o expresso na Plataforma Sucupira, mantida pela Capes, em 2021 o país tem 2443 cursos de doutorado e 3687 de mestrado, bem como 58 doutorados profissionais e 861 mestrados profissionais.”

Salientando a crise ou a desorganização gerada, em 14 de dezembro de 21, após a divulgação de uma Carta Aberta assinada pelos diretores da Capes em apoio à presidência, o diretor de Avaliação, Flávio Anastácio de Oliveira Camargo, mesmo tendo assinado a tal Carta, pediu exoneração do cargo.”

É oportuno citar uma das mais contestadas indicações para cargos realizada por Claudia Toledo na Capes. Ela nomeou como Diretora de Relações Internacionais, Lívia Pelli Palumbo, estudante de doutorado do Centro Universitário de Bauru e sua orientanda.”

Nos últimos anos, a própria busca por qualificação empreendida por servidores tem sido obstaculizada mediante medidas administrativas que impedem o afastamento das atividades funcionais ou a redução de carga horária para a realização de estudos pós-graduados.”

Outro sustentáculo da reengenharia estatal na Capes seriam algumas chefias intermediárias, que manteriam uma rígida hierarquia por meio da qual exerceriam um poder de caráter mais perene do que o assumido pelos indicados políticos de alto escalão. Segundo relatos, essas chefias praticariam junto aos seus subordinados ‘assédios’ que os fariam incorporar uma postura de obediência e não questionamento. O assédio pode ser entendido aqui como repetidos atos de desqualificação, em período de tempo estendido, que causam prejuízos psíquicos, físicos e sociais. Sua principal característica seria o desequilíbrio de poder entre as partes, que espelha justamente a estrutura de poder formal das instituições.”

Sônia explicou-me que, ‘organizacionalmente, a Capes tem um funcionamento por feudos’ e ‘dentro de cada feudo, a lei funciona (de forma) diferente’’

Em concordância com Sônia, Clóvis argumentou que para assumir um cargo comissionado é preciso obedecer a uma série de requisitos, no entanto pareciam (sic) haver ocasiões em que pessoas foram nomeadas sem cumpri-los. Consequentemente, concluiu [cacofonia] que a ‘legislação é só para a gente’ e acrescentou: ‘sempre fica o grupinho de DAS’, ‘ficam 20 anos mantendo DAS’, enquanto ‘gente qualificada é pouco aproveitada’. Independente da veracidade, este era o imaginário predominante entre os entrevistados.

Os ‘feudos’ teriam lugar nas diretorias de atividades finalísticas, segundo Sônia e Clóvis. De acordo com Sônia, ‘há muita continuidade’, pois tais chefias intermediárias estavam nos cargos durante os governos do PT (2003–16) e mantêm seu poder institucional ainda hoje.”

Além de gritar ou humilhar mais explicitamente, as chefias podem cumprimentar todo mundo e não falar com você, dar presentinho para um e para outro não. Certas chefias teriam influência na contratação de terceirizados e, por vezes, eles provêm de uma mesma área geográfica.”

para mudar de setor seria preciso realizar uma ‘troca’ de posições com um funcionário do local para o qual ele deseja ser removido. Como certos locais podem [acho que quis dizer ‘tendem a’] ser evitados, pelo menos em determinados períodos, a dificuldade em conseguir uma transferência seria grande.”

Soares ressaltou a dificuldade em usar estratégias de resistência ‘quando o assédio provém do superior hierárquico ou de várias pessoas’ e seria esta incapacidade de se defender que levaria as vítimas ao desespero.”

Com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência, ‘o grupo não foi tão afetado’ e, por ele aparentemente ter colaborado com o governo, [ele quem?] Iara sentenciou: ‘a Capes cedeu para o governo como nunca’. Dessa forma, os integrantes do ‘poder localizado’ teriam cooperado para efetivar a reengenharia estatal almejada pelos atuais governantes.”

os diretores não aparecem para a ralé, vivem no espaço próprio, não interagem com o servidor” Iara – mais ou menos, mais ou menos…

fazem ‘festinha’ periodicamente para ‘criar confiança’ entre eles e seus obedientes subordinados.”

hoje te cativo, amanhã…”

criou-se uma cultura em que ‘nosso servidor é muito pacato’: ‘a palavra que define o servidor é obediência’, ‘você cria uma turma de súditos’.”

muita gente já entendeu que cargo é um preço muito alto, ter cargo é penoso”

Em nossa conversa sobre assédio, Iara citou algumas conseqüências desta prática e a elegeu como o maior problema da Capes. Como o assédio envolve ‘muita sutileza’, ‘o assediado passa de doido’, ele ‘se afasta, se individualiza’, ‘o trabalho vai perdendo a graça’ e sua produtividade é atacada. A instituição ‘vira o caos, com muita gente adoecendo’.”

não vou nem culpar governo”, “o maior problema da gente, somos nós mesmos” Um bando de brasilienses almofadinhas e carreiristas, o que você queria que desse?

Nesta seção, trarei narrativas sobre o espraiamento dos ideais conservadores e neoliberais na instituição por meio do caso de uma ex-diretora da Capes e por meio da percepção dos meus colaboradores sobre o perfil da categoria de servidores da agência. Ambas as lógicas, conservadora e neoliberal, unem-se na criação e na ampliação da desigualdade socioeconômica.” “Para descrever o estilo de gestão que teria vigorado por um ano e meio na diretoria tomada como exemplo da mescla de comportamentos autoritários e conservadores, baseio-me nas informações disponibilizadas por Bartira.” “Por diversas vezes, Bartira usou as palavras ‘destruição’ e ‘desmonte’ referindo-se a programas, parcerias e cooperações.” “O ataque a parcerias teria sido deliberado, reorientando a política para promover alianças afinadas ideologicamente com o governo. Para Bartira, tais medidas gerariam uma desqualificação que traria demérito à instituição, principalmente por conter imperícia e ‘uma visão deturpada do que é C&T’.” E afinal, o que é C&T? Isso já foi importante para a CAPES?

Minha interlocutora afirmou: ‘uma relação abusiva a toda a equipe; demissão em massa, perseguição em massa’. Os funcionários terceirizados teriam sofrido mais abusos e, em geral, ‘são colocados em conflito com o servidor’. Conseqüentemente, estariam ‘esgotado(s)’, pois partiriam ‘de uma lógica de trabalho que é irracional’.”

A relação abusiva teria consistido em gritos, ligações antes do horário de trabalho, horas extras, humilhações de viés racial, classista e de gênero, entre outras. Seriam abusos diários e estímulos a conflitos, baseados em pequenas coisas. Logo, Bartira salientou a existência de servidores ‘tomando remédios controlados’, com ‘medo de represália’ e em estado de desânimo e tristeza. Muitos ‘estão doentes e não sabem’, enquanto outros pedem licença ou afastamento.”

Para Brown, teria sido a instrumentalização da raiva por parte daqueles que perderam a supremacia, vendo as suas rendas decrescerem, que contribuiu para configurar esta nova forma política em que há uma extensão do privado no espaço público, uma desconfiança da política e uma rejeição do social.” Muito abstrato.

QUEM DISSE QUE AS COSMOVISÕES MORRERAM? “os abusos se ancorariam em ‘grandes narrativas’ que revelam pautas conservadoras. Por exemplo, funcionários teriam sido chamados de ‘comunistas’ e Bartira recordou a seguinte fala: ‘eu sei que você é esquerdinha, só que você não vale nada’. Já Joaquim lembrou da seguinte frase: ‘com Marielle aqui não’.(*)

(*) Marielle Franco foi uma vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março de 2018. Era filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), situado na esquerda do espectro político, e, sendo uma mulher negra, lésbica e proveniente de uma favela carioca, representava os interesses das minorias.”

os novos despossuídos [os camisa verde-amarela] se levantam em uma rebelião política contra usurpadores sombrios imaginários. [fantasma do comunismo]

Brown, ressuscitando o linguajar de Dostoievski!

o declínio da soberania e segurança dos homens, dos brancos, do cristianismo e dos Estados-nação (sic)”

Em agosto de 2021, o próprio ministro [presidiário] Milton Ribeiro afirmou a uma emissora de rádio: ‘nós não queremos o inclusivismo, criticam essa minha terminologia, mas é essa mesmo que eu continuo a usar’.” Personagem saído de uma novela de Graciliano.

Como bem lembrou Clóvis, os programas voltados ao nordeste, considerada a região mais empobrecida do país, têm sido finalizados.”

espero a destruição, guerra de todos contra todos; qualquer coisa passa pelo fim do governo Bolsonaro” Sônia

Para Sônia, a destruição do serviço público passaria pela incorporação da razão neoliberal pelos próprios servidores da Capes.” Quanto auto-intitulado esquerdinha não é extremo-centro neste lugar!

a dificuldade é a própria categoria, oriunda da classe média brasiliense.”

DA SÍNDROME DE CÍNTIA: “Seguindo as formulações de Sônia, uma fração de classe média que tem lugar na Capes seria parte do problema, já que tais servidores seriam ‘contra o Estado’. Na medida em que aderem ao ideário do Estado mínimo e ao mito do Estado inchado, aprovam a privatização e possuem uma perspectiva mais individualista. Evocando os 2 lados opostos nesta balança, o social e o individual, Sônia afirmou que a ‘veia de nossos problemas’ seria ‘com o social, o privado é (visto como) melhor’.”

Segundo Sônia, os servidores que seriam contra o Estado teriam ido às ruas pelo Fora Dilma, pelo Estado mínimo e chegaram a criar ‘plena identificação com os fa[s]cistas’.”

para minha interlocutora, o serviço público estaria ‘destruído pela indústria do concurso’.” Precisa mesmo sair entrevistando pessoas com um mínimo de bom senso para descobri-lo?

Diante da magnitude dos problemas, a banalidade se referiria tanto à naturalização de posturas assediadoras quanto ao foco de alguns servidores em assuntos menores, como vanglória pessoal ou disponibilização de pequenos brindes em datas comemorativas.” KKKKKK. Ascapes in a nutshell.

Logo, Iara metaforicamente colocou: <O mano tocando violino – ‘você toca à beça, mas o barco está afundando’>, com referência ao filme Titanic.” Já gostei da Iara!

* * *

A UFFS foi criada em 2009, unindo as reivindicações populares e o projeto de expansão da educação pública sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003–10). Em 2005, mediante associação de entidades públicas, ONGs e movimentos sociais[,] foi criado, no local, o Movimento Pró-Universidade Federal. O projeto para a criação da universidade envolveu ‘a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul), a Via Campesina, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre outros movimentos sociais’.(*)

(*) https://www.uffs.edu.br/institucional/a_uffs/a_instituicao/historia

Com o projeto de criação concluído, o primeiro semestre letivo iniciou-se em março de 2010 em 5 campi: 2 deles situados no Paraná, 2 no Rio Grande do Sul e 1 em Santa Catarina. O caráter popular e democrático da Universidade foi ressaltado com a reserva de aproximadamente 90% das vagas para estudantes provindos de escolas públicas.

Talvez por feitos como este em seu governo, de apoiar a criação de uma universidade concebida por movimentos sociais e que atende prioritariamente alunos provindos de escolas públicas, o ex-presidente Lula tenha sido chamado de guerreiro do povo brasileiro’ durante o discurso que antecedeu a sua prisão em 2018. Tal ‘povo’ volta a ser hoje mais fortemente excluído dos processos democráticos, conduzindo-nos, como afirmou Athanasiou, a uma democracia sem o demos.

De agosto de 2019 até o presente, a UFFS está sendo gerida por um reitor-interventor. [Mais ditadura militar impossível] A eleição para escolha dos gestores foi realizada pela comunidade universitária em 29 de abril de 2019, quando os 2 nomes mais votados iniciaram suas campanhas para o 2º turno das eleições. O vencedor foi o candidato Anderson André Genro Alves Ribeiro (54,1%) e na 2a colocação ficou o candidato Antônio Inácio Andrioli (45,9%). No entanto, o candidato que alcançou a 3ª colocação, não indo para a disputa de 2º turno, foi escolhido pelo MEC e pelo presidente da República para gerir a instituição pelos 4 anos seguintes. Desse modo, em 30 de agosto de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou o decreto de nomeação de Marcelo Recktenvald para a reitoria da UFFS.”

O BRASILEIRO TEM DE SAIR ÀS RUAS!”, ELES DISSERAM E AINDA DIZEM: “Várias mobilizações foram realizadas para efetivar a posse do candidato eleito pela comunidade científica, como atos, greves, ocupações e assembleias, mas nenhuma decisão coletiva ou reivindicação surtiu efeito.” Nota de repúdio a céu aberto.

* * *

Não entendi o passeio à questão da Universidade Federal da Fronteira Sul, para depois voltar à CAPES, sem qualquer suavidade ou sinalização nas transições, mas sigamos à conclusão.

Segundo os interlocutores, as marcas produzidas na dinâmica institucional por parte de algumas chefias intermediárias seriam a pouca autonomia na execução dos trabalhos internos, a desigualdade na aplicação de normas, o amedrontamento como política de gestão. e uma espécie de servidão como regime de trabalho que, por fim, sustenta o funcionamento do neoliberalismo.”

A UFFS concebida por movimentos sociais e criada em 2009, na fase do neoliberalismo classificado por Saad-Filho como desenvolvimentista, sofreu uma intervenção, por parte do governo federal, na escolha de seu reitor.” Me diz no que ajuda chamar o Lula de neoliberal desenvolvimentista, hahaha?! Bom, foi o que eu disse mais acima, não irei me repetir.

Textinho fraco. Pelo menos utilizou O Processo de Kafka na bibliografia! Só não lembro mais onde…

NARCISO, GOETHE, A BELEZA [fragmentos]

De forma puramente SUBJETIVA quanto mais somos conscientes de nós próprios (o crítico apreende a obra como algo estranho, sujeito x objeto, esqueceu que a criação do artista, sua objetividade, está em ser o objeto enquanto o objeto é consciência, na fusão dos pólos). Propriamente falando, o artista não julga o que é ou não é o belo, pois se torna provisoriamente o próprio belo. Como pode a beleza argumentar intelectualmente sobre a beleza? Ela apenas é. Narciso não se reconhece ao espelho, está menos consciente de si, pode julgar seu reflexo (o outro) como belo. Narciso é o crítico – quem está desinteressado de si está interessado no outro (a obra). Nele, sujeito e objeto estão divorciados, Narciso não é a imagem de Narciso. O artista é todo consciência-de-si, ele e a obra são cegos à outridade, entendem apenas os reflexos (o espelho que reflete a si próprios), estão fechados em si numa subjetividade infinita – mas como não há outro, apenas mesmidade, identidade, trata-se da OBJETIVIDADE PERFEITA E AUTO-SUFICIENTE DO QUE É IGUAL A SI MESMO. Narciso, o crítico, se afoga porque carece, busca o complemento, a beleza (Narciso não é a beleza, ele é inconsciente de si, seu corpo não está em consideração a não ser como outro, infinitamente separado por um abismo). O reflexo (a obra) não quer nada. Sujeito e objeto aqui são um, o mundo. O exterior e o interior simultâneo. O Ser. Não há logos, só recursividade tautológica. Vênus é. O amor é cego e no entanto não deseja enxergar (interagir com o exterior). O amor é o processo de criação. O amor está na boca do mundo, é discursado pelos loucos da subjetividade irrestrita. Só neste sentido, o amor é a Poesia (subjetividade) e a crítica é a Verdade (objetiva). Homero descreve o mundo; a verdade desmistifica-o. A verdade é a verdade dos homens, discurso, sempre carente da serena objetividade muda e inacessível da beleza.

Goethe compreendeu esta antítese, e por isso sua autobiografia se chama Poesia & Verdade. Poesia é a sua obra, verdade o indivíduo biografado. Por ser uma obra, versando sobre a obra e a crítica, é Poesia, como foram antes seus poemas que não falavam de poemas, mas uma poesia sem objeto, inacabada. Por ser uma crítica, prosando sobre a crítica e a obra, é Verdade, verdade clínica e impessoal de sua vida. Beleza deficitária, crítica consumada. Tentativa de uma síntese impossível a não ser dentro da obra de arte que é o artista enquanto indivíduo. O jeito do belo ver, elogiar, participar – a possibilidade da crítica ser bela e definitiva.

OVERKILL, A BANDA CLASSE ‘A’ SEM UM ÚNICO ÁLBUM RUIM QUE É POUCO FALADA NO MEIO THRASH

Overkill (OK), de Nova York, ativa há 42 anos e contando. Principal gênero musical: thrash metal. Não só tornou-se, no decorrer da carreira, a banda do estilo com mais álbuns e músicas lançados, como sempre acompanhou a quantidade com a qualidade. E no entanto Bobby Blitz, vocalista e “membro eterno”, & seus comparsas nunca receberam a cobertura midiática que merecem. Mesmo bandas muito menores e questionáveis, como o Voivod, são muito mais conhecidas e celebradas pelo público especializado. Não é meu objetivo desvendar este mistério do show business, mas apenas enaltecer o Overkill pelos muitos “discos rodados” no meu som (ainda que seja apenas uma metáfora para a reprodução de arquivos digitais num HD ou streamings via Spotify), o que significa dizer que me proporcionaram muita alegria, euforia, admiração e até espanto, com discos se superando sem descanso.

Para falar dessa banda com um catálogo monstruoso, vale a pena ser introduzido primeiro aos álbuns por seus nomes e sua característica mais notável: considero todos os trabalhos do Overkill acima da nota 8. E não pense aquele que gosta de Overkill tanto quanto eu que estou sendo severo ao descontar, sem mais nem menos, 2 pontos de obras consideradas quase sempre próximas ao pináculo do gênero possível a cada momento. Faço essa concessão, sobretudo, para diferenciar os álbuns do Overkill nota “8 e alguma coisa” dos álbuns “9 ou mais”, pois por menor que seja a diferença de qualidade entre um trabalho e outro (o que não tem nada a ver com a dinâmica e versatilidade das composições) é necessário colocar os melhores dos melhores num pedestal. Chamemos 8, se preferível, de rank A, já considerada a primeira prateleira do thrash; e 9, se do gosto do cliente, de rank S, obra-prima, daquelas que a história conta nos dedos e, mais do que isso, que nenhuma banda, por mais clássica, indispensável e imortal, lança o tempo todo e a seu bel prazer. Qualquer grupo com trabalhos de ranking S está automaticamente no panteão dos deuses do metal. Bandas com múltiplos álbuns nessa categoria são – ame-os ou suporte-os, porque sua crítica será o mesmo que jogar palavras ao vento – fenômenos consensuais o bastante para estarem sempre no centro dos holofotes, e para marcar gerações sem conta. Com rank S quero me referir a álbuns como Reign in Blood, Ride The Lightning, Master of Puppets, Rust in Peace, Alice in Hell, Seven Churches, Beneath The Remains, Among The Living… Acho que deu para entender. Portanto, apresento-lhes, na minha imodesta opinião, os discos do Overkill até o último, de 2019, divididos nessas 2 categorias (excepcionalmente bons ou lendários!):

Inacreditável, não parece? Independentemente da minha subjetividade altamente incrustada na tabela acima, falo a princípio do fato de uma banda fundada em 1980, dum estilo rápido e agressivo, continuar lançando trabalhos de estúdio no mínimo competentes e relevantes, em intervalos curtos, mesmo com seus membros em idade mais avançada, quando não é fácil fazer turnês, manter a proficiência em seus respectivos instrumentos e – mais importante – a empolgação e a criatividade. Dezenove discos é uma estatística absurda, espetacular. Se são rank B, C, ou se menos álbuns acima são rank S para os leitores e ouvintes, isso é o de menos! Minha didática tem lá seus propósitos. Vou falar um pouco da carreira da banda de forma não-cronológica, citando cada um dos 2 grupos de discos a seu tempo:

Quem pode adivinhar o significado dos sublinhados tracejados da tabela acima? Eles significam sempre a demarcação de intervalos, entre o disco sublinhado e o seguinte, em que a banda atravessou uma fase ou efetuou uma mudança um pouco mais drástica na sua estética. Para todos os propósitos, nesse artigo entenda estética sempre como sinonímia de som, não de roupas ou temas líricos.

A primeira era do Overkill foi de um speed metal (ainda aquém da variedade e distorção de um verdadeiro thrash) muito infundido de punk. Alguns resumem essa mistureba que dá um ar selvagem e urbano a certos grupos através do rótulo street metal. Feel The Fire e Taking Over são o mais próximo de Hirax que você escutará o Overkill tocando. Uma barragem sonora frenética atrás da outra, competindo por cada segundo no CD ou bolachudo, é disso que eu chamaria. A chegada de uma banda ao mercado pede que ela “chegue chegando”, ponha todas as cartas na mesa, suba na mesa, beba a tequila e o conhaque dos inadvertidos convidados da festa, pegue o microfone e faça escândalo – se possível mije na parede depois! Tudo com classe, é claro. Se ninguém ouve muito falar desses dois trabalhos seminais do Overkill, não foi por falta de estilo e de atitude, esteja certo.

Pulando os verdadeiros anos de amadurecimento dos caras, que deixaremos para mais adiante, Horrorscope já vê um grupo que, a despeito da não-fama fora do nicho, vive para fazer música – o que pode até não parecer, mas faz uma diferença e tanto nas escolhas compositivas a partir deste momento de mais estabilidade financeira. A banda sempre teve um tema ou outro voltado para coisas de terror, como em Raising the Dead do primeiro disco, mas resolveu elevar o conceito a protagonista da sonzeira só no quinto trabalho. Horrorscope tem na sua principal composição um riff de Sexta-Feira 13. Continua e aprofunda a parte mais macabra do Years of Decay, mas, ao meu ver, principalmente na produção e na loucura que é o baixo neste lançamento – à propos, nenhuma banda do heavy metal inteiro, salvo os titãs do Black Sabbath, e só direi isso uma vez, tem um baixo tão proeminente e audível nas gravações quanto o Overkill, eis uma de suas marcas distintivas, e que é a favorita de muita gente –, loucura maior do que a média já insana da banda. Ou seja: confirmação de que o grupo toca uma variedade de technical thrash com certos elementos NWOBHM dos mais sacanas e frenéticos, mostrando que o conjunto chegou a um nível genial e elegante de composição sem por isso se desenraizar do punk. O NWOBHM sem o punk não seria nada, não custa lembrar!

I Hear Black é como o Overkill, muito inteligentemente, reagiu à onda grunge que quase pulverizou o thrash metal, transformando a maioria de seus expoentes em groove metal bands, se é que não tirando mesmo qualquer veterano insistente do radar – não com o Overkill, meus caros! Isso sem falar nas novas bandas: nenhuma, apesar da influência óbvia, tocaria igual o Metallica e o Slayer em seus anos seminais. O thrash tinha de súbito virado coisa do passado, era o que se dizia. Nem mesmo Metallica e Slayer tocariam igual o Metallica e o Slayer! Esse era o profundo significado da mudança de estética. Não havia qualquer medida comum entre todas essas bandas citadas nos anos 90 – a pior década para a existência do heavy metal, até aqui – a ponto de conseguirmos fazer comparações simplistas entre elas. O fato é que o Overkill optou por um retorno às origens como lhe cabia: compôs seu material mais derivado de Black Sabbath de que se tem notícia até o momento, tornando-se ao mesmo tempo palatável para qualquer fã de Machine Head e Pantera, porém sem que possamos dizer “virou uma banda de groove com resíduos thrash”. Na verdade é o único exemplo que eu conheço de uma banda ainda essencialmente thrash mas cheia de elementos – bem-implementados, acredite! – de groove e de doom (o que, veremos, não era inédito para a banda mesmo considerando o ano 1993). Em suma, o Overkill conseguiu encorpar seu som sem transformar a própria essência num rip-off de Vulgar Display of Power. Para quem não fosse rumar ao metal extremo nem deixar o som bem mais acessível (hard rock pra baixo, na escala da descomplicação), esse era o único jeito de seguir sua trajetória sem perder de imediato os fãs dos anos 80. As produções do thrash oitentista, os tons das guitarras, quase tudo relacionado aos discos seminais, haviam se tornado ultrapassados num período de tempo tão curto que o que antes era considerado riff pesado virou “linha de guitarra fina e enjoativa”. Como o Overkill não quis virar uma banda de rock’n’roll nem o próximo Cannibal Corpse, resgatou elementos do doom metal antes de ser doom metal e incorporou-os nas suas inconfundíveis canções aceleradas, só que deixando a velocidade menos rápida para dar ao paladar do ouvinte a chance de provar da coisa, saborear, passar a língua, e aí sim consumir direito a guloseima, isto é, a música. Se êxitos extraordinários em processos de adaptação valessem um Oscar, ou pelo menos um Prêmio Darwin, os músicos do Overkill teriam mais o que contar a seus netinhos do que têm hoje! Essa metamorfose, porém, como quase toda a carreira da banda, passou relativamente despercebida pelos olhos do headbanger médio, aquele que só vai em show grande, que ocupa estádios e arenas inteiras.

W.F.O. é a acentuação máxima do ataque dos baixos. Nunca antes uma banda de heavy metal deixou um baixo tão alto (eu sei que esse tipo de frase sempre gera piadinhas) num trabalho de estúdio, a ponto de haver gente que jura que o que ocorreu foi um desastre, uma má produção do disco. Considere apenas uma coisa: não tem como esse efeito não ter sido intencional. Escute e concorde comigo. O baixo é a maior estrela do disco, e é com certeza um exemplo do que chamam na gringa de acquired taste, talvez o caso mais claro na discografia do OK. W.F.O. encerra esta que é a fase mais experimental da banda, depois da rotação ao Black Sabbath de I Hear, e parece mais um Under The Influence, só que com o mesmo peso e “me(n)talidade” (fugindo um pouco do NWOBHM) do Horrorscope.

Em 1996 Killing Kind trouxe novidades na forma de um som sem dúvida mais pesado, mais dependente do groove e menos do metal clássico do Sabbath ou de pinceladas hard rock e derivações do punk. E de novo eu destaco: dependente do subgênero groove, porém com o thrash puxando a carroça. A banda encontrou uma espécie de terreno em que se consolidaria, lançando depois novas variantes e interpretações possíveis de uma mesma estética – mas não digo que o grupo estacionou, atolou ou se confinou neste terreno. É bom mudar; e é bom manter uma identidade. Embora nenhum disco do Overkill pareça ser de outra banda, faz sentido dizer que mudar em excesso a cada novo lançamento também não é um bom caminho, seja para atingir o potencial artístico, seja para simplesmente vender e lucrar. Por alguma felicidade do destino, o Overkill achou o seu jeito anos 90/2000 de fazer metal no Killing Kind, e com o protótipo em mãos só foi afiando a faca e aperfeiçoando o bagulho até o big bang de 2010. From The Underground and Below, Necroshine, Bloodletting, Killbox 13, ReliXIV e Immortalis nada têm de genéricos. Se passo rapidamente por eles, é só por questões de tamanho do texto! Não me deixam mentir canções-grude como Thunderhead, uma das poucas composições clássicas dos anos 90 diante das quais um marmanjo não sentiria vergonha ao cabecear em público. Faço referência ao nü metal, em ascensão meteórica no período 95-2000, talvez até um pouco além: mesmo quando uma banda ou outra tinha uma música boa, os headbangers, murchados, encolhiam os ombros, fingindo não curtir, a não ser em sigilo. Overkill tem um tipo de metal dinâmico tradicional o suficiente para não ser considerado nü metal e, por isso, é uma audição confortável para ouvintes velhos e ortodoxos. Velhos ou… envelhecidos, seria melhor dizer. E, ao mesmo tempo, o Overkill era um dos poucos bastiões do thrash ainda NO thrash capazes de competir com “o som da moda”, de Slipknot, System of a Down e congêneres, justamente por ser um metal mesclando tantas influências e composto de forma tão sem-amarras e inteligente.

Passemos agora ao lado B, digo, ao lado S. Under The Influence representa um grande salto estético para o Overkill. A banda conseguiu juntar seu anterior espírito hiraxiano ao melhor que bandas como Iron Maiden nos começos e Motörhead ou Suicidal Tendencies (“frenesi urbanóide” resume bem a atmosfera, eu diria) poderiam oferecer. Clássico imediato ou instantâneo, como apelidam os críticos. Shred faz o que o título indica: tritura, destrói. Talvez apenas millennials como eu saibam ou se lembrem, mas Shredder, o vilão de Tartarugas Ninja (e estamos, nessa jornada discográfica, em 1989, quando esse seriado estava em alta!) virou Destruidor no Brasil. Parece que nossas primeiras lições de inglês derivam dos desenhos animados… Hello from the Gutter também faz o que o título indica: um cartão de visitas da banda sujo como um Morlock residente do subterrâneo, sem direito a pizza. Os borderline speed metals de Mad Gone World, Brainfade, Drunken Wisdom e End of the Line parecem uma mistura de desabafo pessoal com olimpíadas de mosh pit. Um ditado popular é apropriado pelo punk trevoso na bem-batizada Never Say Never. Head First, que por incrível que pareça não narra um ato sexual, é minha canção predileta do (não vá parar na) U.T.I. Por fim, a banda saca de suas entranhas o terceiro capítulo de sua canção mega-épica (à la Unforgiven), Overkill: Under the Influence. A canção-tema da banda seria encerrada (por enquanto) no quinto episódio, no ainda distante Immortalis, mais uma pista de que os anos 2007-10 representam uma era de significativas mudanças conceituais na carreira dos caras.

Mas é pelo álbum seguinte, The Years of Decay, que o Overkill se tornaria majoritariamente reconhecido. Não há como não dizer que é o Master of Puppets da banda. Não só porque é seu maior sucesso comercial como até sonoramente é impossível negar que MoP foi uma grande influência para as composições. Se parece estranho que o divisor de águas do Metallica, de 1986, tenha repercutido no Overkill só 3 anos depois, havendo ainda o Taking Over e o Under The Influence no meio do caminho, lembre-se que não estamos falando de uma banda comum, maria-vai-com-as-outras! O Overkill não é daqueles grupos que surfam numa onda sem um bom motivo e sem saberem o que estão fazendo. Não se trata de uma ficha que demora a cair, mas do reconhecimento já objetivo e impessoal, distanciado do momento, de que MoP modificou o thrash e a música pesada em geral para todo o sempre. O ritmo deu uma acalmada e o impacto dos riffs ganhou uma bela ênfase. Nem os mais maliciosos poderiam dizer que se trata de um clone tentando aproveitar o vácuo deixado por Master: The Years se assemelha mais a um MoP gravado numa realidade alternativa, com músicas igualmente originais, embora sigam aquele template imortalizado por Hetfield, Ulrich & cia. Não se trata tampouco de dizer que há um melhor e um pior, nos limites deste artigo. O disco “Os anos de decadência” são 56 minutos de puro orgasmo técnico-furioso sem fillers. Quase todas as canções são presença obrigatória em shows do OK: Time to Kill, Elimination, I Hate, Birth of Tension, o tema-título e E.vil N.ever D.ies são o front agressivo por excelência. Pelas beiradas a banda ataca com o que mais chega próximo de uma balada neste disco, Who Tends The Fire. E para quem nem com os petardos acima se dobrou a essa proposta de som, Playing with Spiders/Skullkrusher (10:15 de duração) são (e digo isso porque o título já reconhece que são duas suites ou segmentos numa faixa só) a parte doom do festival de pérolas genuínas; assim como Welcome Home e The Thing that Should Not Be de sua musa inspiradora, este conjunto trovador com certeza não recebeu os aplausos devidos quando exibiu seu lado alternativo ao mundo. Muitos consideram essa faixa o calcanhar-de-aquiles do CD. Nada mais falso. As letras e a performance revolta de Blitz dão aquela pimenta a mais que o autocontido Metallica já tinha ‘castrado’ desde a era Ride the Lightning, para quem gosta de comparações e achou que o autor supostamente covarde deste texto ficaria 100% em cima do muro! Se amor é prosa, este é o sobrenome dos californianos do Metallica; Overkill é puro sexo, digo, poesia, mais direto e sem-vergonha. Espera… Tem algo de errado neste ditado! I Hate é um hino antifa. Só o amor ao ódio aos fascistas pode derrotá-los. O fato de Years of Decay ter vindo depois de …And Justice for All é um sintoma de que o OK também estava entendendo a rápida mutação no subterrâneo, e já tinha a estratégia para mergulhar, de cabeça (Head First!) nos anos 90, o que você viu mais acima. Agora um salto à distância de Maurren Maggi. Já estamos em 2010, ainda ontem!

Na década de 2010 o thrash, considerado morto e enterrado há tempos, entidade assassinada pela ascensão de cometas como Nirvana, Pantera e seus sequazes, e até pelas próprias mutações internas do Metallica, quem capitaneava o movimento em escala primeiro estadunidense, depois global (para ojeriza de um grande contingente!), dentre outros artistas, sofreu um intenso e quase incompreensível revival, e se reestabeleceu na cena, mainstream ou underground (onde, sejamos sinceros, nunca morreu, mas, sim, estagnou um pouquinho em termos de fertilidade e criatividade das composições). Eu poderia afirmar com arrogância que Ironbound (2010) foi uma das forças-motrizes do movimento, porque seria uma hipótese bastante plausível, haja vista o status de cult classic desse disco do Overkill que caiu como uma porrada para quem “entende do assunto”, e justo no comecinho da década. Porém, como é óbvio, tal oportunismo enfraqueceria de forma fatal meu outro argumento, que creio ser o mais fácil de comprovar, o sustentáculo deste artigo, afinal: sendo generalista, os metaleiros não conhecem ou não dão bola para o Overkill (ou seja, não conhecem, porque se conhecessem bem, dariam muita bola!). Então seria contraditório dizer que este álbum ajudou de forma decisiva para o movimento de revivalismo do thrash que vimos no decorrer desta década terminada segundo os calendários, mas que continua pujante durante os anos 2020, quando o assunto é o neo-thrash (a década que não terminou?). Tanto antigos grupos que fundaram a cena nos 80 como bandas de integrantes jovens, como o Evile, recolocaram o thrash na boca e nos ouvidos do “povo”. A onda “renascentista” é fenômeno observável no nosso país, com representantes de ponta como o Violator, da minha querida cidade natal.

Como descrever, portanto, o Ironbound, agora que conhecemos o contexto? Certamente a Zeitgeist afetou o Overkill. De outra forma não poderíamos explicar como raios um álbum como este veio surgir precisamente nessa época! Ainda hoje este é considerado um petardo extemporâneo, um clássico do nível dos estabelecedores do gênero nascido na “época errada”. Mesmo quem torcia o nariz para o estilo mais groovado do Overkill antes desse lançamento engoliu em seco e deu o braço a torcer: acabou por enaltecer o disco sem economia verbal.

The Goal is Your Soul  (4:37) tem o mesmo riff animal de pelo menos 3 canções clássicas do thrash de 3 das 4 bandas do aclamado “Big Four” californiano: Metallica (Phantom Lord), Megadeth (This Was My Life) e Anthrax (A Skeleton in The Closet).

Devo insistir, todavia, que o Overkill não é uma banda pura – ela é herege. Herege e… tradicionalista: jamais nega suas raízes, jamais se transforma completamente. Seu thrash, mesmo após a onda revivalista, continua sempre groovado, com algo a mais. Thrash metal é algo, a rigor, histórico e pitoresco, jamais repetível. Neo-thrash? Ressurreição?! Nós é que, tão perto da história cultural se realizando, não sabemos expressar com palavras esse fenômeno, e temos que recorrer a velhos vocábulos e formalismos classificatórios…

Dois anos depois, Electric Age, o álbum sucedâneo, já estava na praça. Ele, como também depois o White Devil Armory e o Grinding Wheel fariam, reaproveitou o template mas, na minha opinião, melhorando-o, por sua vez.

Wings of War é uma estória um pouco diferente, e por isso coloquei uma linha tracejada entre GW e WW. Em canções do último full-length da banda até a data deste artigo, como Welcome to the Garden State, Blitz se aproxima de Ozzy Osbourne na voz. É como ouvir, por alguns minutos, o clássico vocalista do Black Sabbath seguindo em sua carreira-solo, só que com uma banda instrumental ainda mais qualificada, isso quando sabemos que O.O. tem uma das trajetórias – mesmo depois da separação do BS, e antes das várias reunions ocorridas com os velhos amigos Butler e Iommi – mais dignas e respeitadas do hard rock/heavy metal. Como Blitz continua alcançando as mesmas notas nos graves e agudos que o celebrizaram como grande cantor nas canções mais “feijão-com-arroz” do disco, essa é assumidamente uma opção artística. Uma ampliação do cartel de proezas do frontman. Sem falar que Hole in my Soul, outra das faixas, parece mesmo título de música do Sabbath setentista! Se estas mutações demarcam o início de uma tendência a ser desenvolvida e completada ou são só um desvio episódico na carreira da banda, é cedo demais para afirmar. O que eu sei é que é o trabalho o mais genial que o Overkill já ofereceu composicionalmente. É sempre difícil afirmar de boca cheia algo dessa magnitude, sobretudo na época em que um lançamento ainda está quente no mercado. Mas já se passaram 3 anos, e escutei muito o Wings of War, sem que minha empolgação em relação a ele tenha minguado! Se a primeira hipótese se confirmar, mesmo sem precisar, os veteraníssimos do OK parecem ter achado “outro novo rumo”… Aquela fórmula do “em time que está ganhando não se mexe” com certeza não se aplica a músicos experientes, que sabem mudar para melhor mesmo quando, se fossem uma equipe esportiva, estão nitidamente liderando o campeonato que disputam!

PALAVRAS FINAIS

Vivemos uma nova era de ouro do estilo em que se convencionou classificar o Overkill. Vivemos, na minha opinião, além disso, o grande ápice desta banda em particular. São músicos que, em anos de carreira, superam em muito minha idade. Os membros do OK são, portanto, indivíduos avizinhando-se do que costumávamos chamar até outro dia de “terceira idade”. Os tempos mudam, dizem: a longevidade das pessoas aumenta, e com isso a duração de sua atividade em seus ofícios ou profissões. Só que não deixa, por isso, de ser uma ocorrência espantosa. Menos pelo lado físico da coisa, já que os profissionais de hoje tomam cuidado como nunca, desconstruindo esse estereótipo cretino do roqueiro que é sempre um drogado que morre jovem. Falo mais do lado essencialmente artístico: medicina e hábitos saudáveis aparte, que estes “senhores” (tem que ter respeito!), há décadas no ramo da música, continuem criando em altíssimo nível, ou seja, sigam com a alma jovem e queimando intensamente, isso sim eu considero sem precedentes e verdadeiramente assustador e admirável, toda vez que paro e penso em sua comprida trajetória. São artistas que há bastante tempo se provaram e não devem nada a ninguém. Cabe lembrar que, ao contrário da literatura, por exemplo, o auge dos artistas no campo musical se dá, historicamente, muito mais cedo. Ressalva: dá-se ou dava-se: pois é, os tempos mudam; e talvez estejamos diante de uma subversão de dados sociológicos das grandes, acompanhando tudo ao vivo!

Sagrado Inferno, Devorador de Almas (2019)

Esta banda mineira também explorou o riff mais conhecido do thrash metal, o de The Goal is Your Soul, alongando-o e distorcendo-o um pouquinho, a bem da verdade – a conferir abaixo para quem tem Spotify (segundos 1:45 a 2:35; e de novo depois de 3:20):

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A POLÊMICA ARISTÓTELES X SCHOPENHAUER NO TOCANTE AO PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO

O princípio aristotélico (ou princípio da não-contradição) talvez seja o mais importante da Primeira Filosofia (ironia das ironias, ele não é um conceito meta-Lógico, i.e., não deveria servir para elaborar metafísica, e sim apenas para discussões práticas). Uma rápida demonstração da aplicação do princípio: se A é não-B, e se B é não-A, logo: A não pode ser não-A (auto-evidente); não-A é B; B não pode ser não-B; não-B é A.

O que seria o ‘nada negativo’ que Schopenhauer enumera ao lado da contraparte aristotélico-kantiana do ‘nada positivo’ ou ainda ‘nada (meramente) privativo’? Aquilo que não existe formalmente: um A = não-A ou B = não-B; ou ainda: um superveniente C que se identificasse com A e B ao mesmo tempo (o que seria chamado, desde Aristóteles, também de absurdo ou impossibilidade). O nada não tem lugar no mundo dos fenômenos.

Mas a fim de transcender esse ‘sistema’, teríamos de imaginar um mundo ou uma filosofia contraditórios, i.e., transgredir esse princípio básico da não-contradição, aceitar e abraçar o absurdo e o paradoxal. Essa luta de Schopenhauer pelo reconhecimento do nada negativo também nos ajuda a compreender por que o autor “santifica” seu bem ascético, i.e., dá um status de bem absoluto à negação da Vontade, em que pese dizer que o “bem absoluto” é uma contradição e que só existe o bem relativo. Dentro deste quadro de superação-de- ou de aplicação-literal-e-extrema-de-Aristóteles, o filósofo alemão consegue ser coerente consigo mesmo (ele representa o C que se identifica ao mesmo tempo com o A e o B) – levando a lógica às últimas conseqüências do lado de cá (do mundo das aparências ou fenomênico e, paradoxalmente, do mundo moderno-cristão, que justamente nega por inteiro este mesmo mundo em sua doutrina mais purificada!).

CURSOS DE ESTÉTICA Vol. I/IV (ou: TELEOLOGIA IDEALISTA DA ARTE) – Hegel (trad. Marco Aurélio Werle) (Edusp, 2001, 2.ed.)

NOTA DO TRADUTOR

Para distinguir a ‘idéia’, em sentido hegeliano, do termo corrente ‘idéia’, optamos por marcá-la com maiúscula: ‘Idéia’.”

Preferimos traduzir Gestalt por ‘forma’ e não por ‘figura’, em razão da conotação estética que o termo ‘figura’ apresenta nas artes visuais. Ressalte-se, porém, que a tradução para ‘figura’ não é incorreta, tanto que em alguns momentos optamos por ela, p.ex. no caso de caracteres, personagens de uma tragédia, e quando se tratava de uma figura matemática, p.ex. um triângulo.” “Gestalt é ‘forma’ enquanto Form é ‘Forma’.” O sentido de Form é mais universal. Ex: Gestalte de arte: simbolismo, classicismo, romantismo; Formen de arte: um objeto particular numa dada pintura. Toda Gestalt é uma Form, nem toda Form é uma Gestalt.

O termo Darstellung na maior parte das vezes foi traduzido por ‘exposição’; algumas vezes, porém, por ‘representação’ (com acréscimo do termo alemão entre colchetes), tendo em vista que o termo ‘exposição’ pode facilmente ser confundido com ‘mostra’, no sentido de uma ‘mostra de arte’. Nesta opção de Darstellung por ‘representação’, porém, apresenta-se o perigo do falseamento de uma distinção importante da filosofia pós-kantiana e idealista, a saber, entre Darstellung e Vorstellung, termo este que mais propriamente corresponde a ‘representação’ em português.” “‘representação’ quando traduz Darstellung deve ser tomada no sentido de uma ‘representação plena’ (onde não há separação entre interior e exterior), de uma ‘apresentação’ ou ‘manifestação’ total do espírito e não no sentido estrito de ‘re-presentação’ ou de mera ‘concepção’.”

um erro grave: confundir ‘estado’ (Zustand) com ‘Estado’ (Staat) no subitem ‘O estado universal do mundo’ da 1ª parte. Esta é a mesma tradução que se encontra reproduzida, em parte, no volume Hegel da Col. ‘Os Pensadores’ (SP, Abril Cultural) e que recentemente foi reeditada na íntegra pela Ed. Martins Fontes, SP, 1996-7, em 2 vols. (vol. I: O Belo na Arte, 1996 e vol. 2: O Sistema das Artes, 1997).”

algumas vezes optamos por desmembrar alguns períodos longos, para adaptar o texto alemão à estrutura da língua portuguesa.”

PREFÁCIO DE HEINRICH GUSTAV HOTHO PARA A 1ª EDIÇÃO DOS CURSOS DE ESTÉTICA

Como com História da Filosofia: “o texto dos Cursos de Estética não foi publicado pelo próprio Hegel e sim é uma reconstituição feita por um de seus alunos.”

É difícil compreender como o próprio Hegel na cátedra sempre conseguia se orientar no fluxo das preleções a partir destes cadernos com seu vocabulário lacônico e notas marginais confusas escritas umas por cima das outras e ampliadas ano após ano. Pois mesmo o leitor mais experiente não consegue orientar-se na leitura destes manuscritos valendo-se do reconhecimento dos sinais que apontam para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda e ao dispô-los adequadamente.”

ouvir e ler são coisas distintas e o próprio Hegel, como se mostra pelos manuscritos, nunca escreveu assim como falava.”

manter (…) o colorido de sua dicção, que se imprimia vivamente em todos os que mais demoradamente se familiarizavam com seus escritos e preleções.” Todo editor acha que seu próprio método é superior, fim.

INTRODUÇÃO

Em virtude da inadequação ou, mais precisamente, por causa da superficialidade deste nome, [a Estética propriamente wolffiana] procuraram-se também formar outras denominações, como o nome kalística (do grego kallos).”

(*) Wolff (1679-1754) foi o último expoente da filosofia na Alemanha anterior ao Kantismo. “O termo latino aesthetica foi pela 1ª vez aplicado a esta nova ciência por Alexander Baumgarten (1714-62) em sua Methaphysica (1739) e Aesthetica (1750-8). O termo deriva do grego aisthanesthai: ‘perceber’; aisthesis: ‘percepção’; aisthetikos: ‘o que é capaz de percepção’.”

enquanto mero vocábulo, ele é para nós indiferente e uma vez que já penetrou na linguagem comum pode ser mantido como um nome. A autêntica expressão para nossa ciência é, porém, filosofia da arte, mais precisamente filosofia da bela-arte.” Contradiz-se.

Pois a beleza artística é a beleza nascida e renascida do espírito e, quanto mais o espírito e suas produções estão colocadas acima da natureza e seus fenômenos, tanto mais o belo artístico está acima da beleza da natureza.”

A superioridade do espírito e de sua beleza artística perante a natureza, porém, não é apenas algo relativo, pois somente o espírito é o verdadeiro, que tudo abrange em si mesmo, de modo que tudo o que é belo só é verdadeiramente belo quando toma parte desta superioridade e é por ela gerada.”

parece que sempre permanecerá prejudicial para a arte o fato de necessitar da ilusão [Täuschung], mesmo que de fato se submeta a fins sérios e produza efeitos sérios.”

A arte tem à sua disposição não somente todo o reino das configurações naturais em suas aparências múltiplas e coloridas, mas também a imaginação criadora que pode ainda, além disso, manifestar-se em produções próprias inesgotáveis. Perante esta plenitude incomensurável da fantasia e de seus produtos livres, o pensamento parece que tem de perder a coragem para trazê-los em sua completude diante de si, para julgá-los e enquadrá-los em suas fórmulas gerais.”

Segundo todos estes aspectos parece que a bela-arte, tanto em sua origem quanto em seu efeito e âmbito de abrangência, em vez de se mostrar adequada ao esforço científico, antes resiste em sua autonomia contra a atividade reguladora do pensamento e não se mostra adequada à autêntica investigação científica.”

[segundo a estética seminal francesa, anterior à minha filosofia – diz Hegel] não podem existir leis gerais do belo e do gosto, uma vez que as representações do belo são tão infinitamente variadas e, por isso, algo de particular.”

a arte não é de fato independente e livre, mas servil. Entretanto, o que nós pretendemos examinar é a arte livre tanto em seus fins quanto em seus meios.” “a ciência [também] pode ser empregada como entendimento servil para fins finitos e meios casuais e assim não adquire sua determinação a partir de si mesma, mas a partir de outros objetos e relações”

A bela-arte é, pois, apenas nesta sua liberdade verdadeira arte e leva a termo a sua mais alta tarefa quando se situa na mesma esfera da religião e da filosofia e torna-se apenas um modo de trazer à consciência e exprimir o divino, os interesses mais profundos da humanidade, as verdades mais abrangentes do espírito.”

trata-se da liberdade do conhecimento pensante, que se desobriga do aquém, ou seja, da efetividade sensível e da finitude.”

toda esta esfera do mundo empírico interior e exterior não é o mundo da verdadeira efetividade e deve com mais rigor do que a aparência artística ser denominada de uma mera aparência e de uma ilusão mais dura.”

As representações [Darstellungen] artísticas tampouco podem ser consideradas uma aparência ilusória perante as representações [Darstellungen] mais verazes da historiografia. Pois a histor. não possui como elemento de suas descrições a existência imediata, mas sua aparência espiritual. (…) [Já] a obra de arte coloca diante de nós as forças eternas que regem a história, desligadas do presente sensível imediato e de sua inconsistente aparência.”

A penetração do espírito na Idéia é-lhe mais penosa quando passa pela dura casca da natureza e do mundo cotidiano do que lhe é pelas obras de arte.”

sobretudo o espírito do mundo atual, ou melhor, o espírito de nossa religião e de nossa formação racional se mostra como tendo ultrapassado o estágio no qual a arte constitui o modo mais alto do absoluto se tornar consciente [, ao contrário do mundo grego].”

O pensamento e a reflexão sobrepujaram a bela-arte.”

ou podemos lamentar a miséria do presente, o estado intrincado da vida burguesa e política, que não permite que o ânimo aprisionado a interesses mesquinhos possa libertar-se para os fins superiores da arte. Já que a própria inteligência, nas ciências, está a serviço dessa miséria e de seus interesses, e as ciências, só tendo utilidade para tais fins, se deixam seduzir e envolver por essa aridez.”

Os belos dias da arte grega assim como a época de ouro da Baixa Idade Média passaram.”

o estado de coisas da nossa época não é favorável à arte. Mesmo o artista experiente não escapa desta situação.” “a natureza de toda a cultura espiritual faz com que ele esteja justamente no centro desse mundo reflexivo e de suas relações. Ele não pode abstraí-lo por vontade e decisão pessoais; nem por meio de uma educação específica ou de um distanciamento das relações humanas fabricar e formar uma solidão particular, restauradora do que se perdeu.”

A ciência da arte é, pois, em nossa época muito mais necessária do que em épocas na qual a arte por si só, enquanto arte, proporcionava plena satisfação.” Já não suportamos mais a crítica. Fora com ela!

considero o filosofar completamente inseparável da cientificidade, sejam quais forem as concepções que se possa ter da filosofia e do filosofar.”

Nesta ocupação com o outro de si mesmo, o espírito pensante nem se trai, a ponto de esquecer-se e de abandonar-se, nem é tão impotente, a ponto de não poder apreender o que se distingue dele. Na verdade, ele apreende conceitualmente a si e a seu oposto. (…) É por isso que a obra de arte, na qual o pensamento se aliena, pertence ao âmbito do pensamento conceitual. (…) A arte, porém, longe de ser a Forma suprema do espírito, como ainda veremos de um modo mais detido, apenas na ciência alcança sua autêntica legitimidade.”


FILOSOFIA ABSTRATA E PARTICULARISTA DO BELO (1)

X

FILOSOFIA UNIVERSALISTA DA ARTE (2)

  1. tem o empírico como ponto de partida – é o caminho necessário para aquele que pretende tornar-se um erudito em arte [ESTETA, CRÍTICO]. E, assim como atualmente quem não se dedica à física deve estar de posse dos conhecimentos físicos mais essenciais, do mesmo modo tornou-se necessário a um homem culto genérico possuir alguns conhecimentos de arte. [um crítico a meias! mas seria melhor saber zero!] A pretensão de se apresentar como DILETANTE ou CONHECEDOR DE ARTE é bastante difundida.”

  2. a reflexão totalmente teórica, a que se esforça por conhecer o belo como tal a partir dele mesmo e por fundamentar sua Idéia.”

1(a). “Mas, para serem realmente reconhecidos como erudição, estes conhecimentos devem possuir uma natureza variada e uma ampla abrangência. Isso porque a 1ª exigência é a exata familiaridade com o âmbito incomensurável das obras de arte individuais de épocas antigas ou recentes. Trata-se de obras de arte que em parte já sucumbiram na efetividade e em parte pertencem a nações ou recantos distantes do mundo; e que o desfavor do destino suprimiu ao nosso olhar. (…) toda obra de arte pertence à sua época, ao seu povo, ao seu ambiente, e depende de concepções e fins particulares, históricos e de outra ordem. Neste sentido, a erudição em arte exige igualmente uma ampla riqueza de conhecimentos históricos, que devem ser, além disso, muito especializados, tendo em vista que a própria natureza individual da obra de arte está referida ao singular e necessita do que é especializado para sua compreensão e esclarecimento. – Esta erudição (…) não requer somente memória (…) necessita (…) imaginação aguçada” Sem a imagem do todo da obra de arte (e, o que é mais, de inúmeros e variegados detalhes muito sutis mas proporcionalmente importantes), nada feito, e o erudito cai em descrédito!

1(b). “Assim como em outras ciências que possuem um início empírico, estes pontos de vista (…) formam critérios e enunciados gerais ou, numa generalização ainda mais formal, as teorias das artes. (…) P.ex., da Poética arist., cuja teoria da tragédia ainda hoje tem interesse. Ainda entre os antigos é a Ars Poetica de Horácio e o escrito de Longino sobre o sublime que podem nos dar uma concepção geral do modo de como tal teorizar era tratado.” Em geral, tratava-se de preceitos e regras para seguir numa época de decadência da arte.

boa parte de tais determinações são reflexões muito triviais que em sua generalidade não levam a nenhuma verificação do particular, embora seja disso que principalmente se trate. A epístola de Horácio (…) está cheia delas”

outro tipo de interesse dessas teorias não consiste em propiciar diretamente a produção de obras de arte autênticas, mas na intenção de formar o juízo sobre obras de arte e o gosto.”

Exemplos modernos: Home, Elementos de Crítica, 1762; Batteux em geral; Ramler, Introdução às Ciências do Belo (4 vols., 1756-58) (que é efetivamente uma tradução de Batteux).

No início, a análise do gosto pertencia exclusivamente à psicologia: “uma vez que a formação do gosto apenas se dirigia ao que era exterior e escasso e, além do mais, tomava igualmente suas prescrições apenas de um círculo estreito de obras de arte e de uma formação estreita do entendimento do ânimo, sua esfera era insuficiente e incapaz de captar o que é interior e verdadeiro ou de aguçar o olhar na consideração das obras.” Resultado final: o belo e seus vários lados.

Meyer, História das Artes Plásticas na Grécia

o caricatural apresenta-se como o característico do feio, o qual certamente é uma desfiguração.” Conceito de belo ainda muito limitado, o desta época!

1(c). “O direito do gênio”

A antropologia da arte de uma geração próxima à de Hegel começa a valorizar as artes não-européias. O Romantismo é já sintoma desta mudança de percepção sobre a arte clássica.

É claro que se o romantismo invadiu o Germanismo (apud Hegel), ele seria muito enaltecido em sua Estética – óbvio ululante!

Somente a erudição da história da arte manteve seu valor permanente e deverá mantê-lo tanto mais quanto, em virtude da ampliação acima referida da receptividade espiritual, seu horizonte se alargar em todos os sentidos.” O especialista geral e o especialista especialista em alguma vertente artística!

Foi o que fez Goethe, que escreveu muito sobre arte e obras de arte [sem ser um filisteu].”

2. (prolongamento)

Aquele que entendeu Platão apenas a meias (mas esse é um defeito de incontáveis alemães!): a falta de conteúdo inerente à idéia platônica não mais satisfaz as necessidades filosóficas mais ricas de nosso espírito atual. É claro que também na filosofia da arte necessitamos partir da Idéia do belo, mas não devemos somente nos ater àquele modo abstrato de filosofar das idéias platônicas, que representam só o começo do filosofar sobre o belo.”

Então Hegel propõe uma síntese de 1+2 = (3)

3. “O [autêntico] conceito filosófico do belo” “princípios substanciais, necessários e totais.”

temos de começar com o seu conceito.”

Se começamos com o próprio conceito de belo artístico, (Platão) este passa a ser imediatamente uma pressuposição e mera hipótese; o método filosófico, contudo,… (blá, blá, blá)


Gostaríamos de tratar com poucas palavras esta dificuldade própria à introdução a toda disciplina filosófica considerada de um modo autônomo por si mesma.”

  1. delimitação do objeto;

  2. o que é o objeto.

Poderia inclusive parecer risível se para a astronomia e para a física fosse imposta a exigência de provar que existe o sol, o firmamento, os fenômenos magnéticos, etc. Nestas ciências, que se ocupam com algo que existe sensivelmente, os objetos são tomados da experiência externa e, em vez de demonstrá-los, considera-se suficiente mostrá-los. Contudo, mesmo no interior das disciplinas não-filosóficas podem emergir dúvidas sobre a existência [Sein] de seus objetos [éter, buraco negro, etc.]”

Essa dúvida sobre a existência ou não de um objeto da representação ou intuição interiores, essa contingência da consciência subjetiva de tê-lo gerado em si mesma e a dúvida sobre a correspondência do objeto em seu em-si-e-para-si com a maneira de concebê-lo, suscita no homem precisamente a mais alta necessidade científica” A velha lorota de requerer-se uma prova daquilo que (supostamente) não é captado pela apercepção (o belo)…

Não resta mais nada, portanto, a não ser aceitar o conceito da arte, por assim dizer, lematicamente.¹ Isto é o que ocorre com todas as ciências filosóficas particulares, quando são tratadas de modo isolado.” Segundas filosofias…

¹ Derivado de lemático, lema. Mas não vejo no que diferiria de tematicamente, então ainda suspeito que possa ser erro ortográfico.

No momento, não é nossa finalidade demonstrar a Idéia do belo, que é nosso ponto de partida, i.e., deduzi-la segundo a necessidade dos pressupostos que antecedem as ciências, de cujo seio ela nasce. Tal trabalho é próprio de um desenvolvimento enciclopédico de toda a filosofia e de suas disciplinas particulares.” A.k.a.: agora vamos sem pensar, depois vamos parar no mesmo lugar! (going full circle ‘round the object)


À página 47 de minha edição, últimas linhas, começa a CONCLUSÃO DA INTRODUÇÃO (sim, com H. é sempre complicado neste nível!).

período do gênio, período que foi instituído pelas primeiras produções poéticas de Goethe e, então, pelas de Schiller. [Inauguração do Tempestade e Ímpeto] Em suas primeiras obras estes poetas partiram do zero ao pôr de lado todas as regras que na época eram fabricadas e ao agir intencionalmente contra elas, no que também ultrapassaram amplamente outras. Não pretendo, contudo, esmiuçar as confusões que imperaram sobre o conceito de entusiasmo e de gênio, e sobre a confusão que ainda hoje impera acerca do que o entusiasmo por si mesmo é capaz de gerar.”

a obra de arte tem um lado puramente técnico, que se estende até o artesanal, especialmente na arquitetura e na escultura, menos na pintura e na música e menos ainda na poesia.”

é por sua vez pelo estudo que o artista toma consciência deste Conteúdo¹ e conquista a matéria e o conteúdo de suas concepções.”

¹ Por ser altamente brega, esta será a única vez em que respeito a grafia da tradução, com “c” maiúsculo.

A música, p.ex., que somente se ocupa com o movimento totalmente indeterminado do interior espiritual, com o ressoar por assim dizer do sentimento destituído de pensamento, tem pouca ou nenhuma necessidade de matéria espiritual na consciência. O talento musical se anuncia, por isso, geralmente na juventude muito precoce, em cabeças ainda vazias e em ânimos pouco exercitados, sendo que pode muito cedo já ter chegado a uma altura bastante significativa, antes mesmo de ter experimento espírito e vida.”

Bem diverso é o caso da poesia. Nela se trata da exposição cheia de conteúdo e pensamentos feita pelo homem, de seus interesses profundos e das potências que o movem.”

Os primeiros produtos de Goethe e de Schiller são de uma tal imaturidade, até mesmo de uma crueza e barbaridade, que chegam a assustar.”

H. contrapõe aqui o entusiasmo barato, fogo-de-palha, ao verdadeiro entusiasmo do poeta formado e completo.

Deles [na maturidade] podemos dizer que foram os primeiros que souberam dar à nossa nação obras poéticas e são nossos poetas nacionais, assim como apenas o velho Homero buscou inspiração para seus cantos imortais e eternos e os produziu.”

tudo o que é espiritual é melhor do que qualquer produto natural. Aliás, nenhum ser natural expõe ideais divinos, como a arte o faz.”

D. é tão ativo na produção artística quanto nos fenômenos da natureza. O divino, porém, adquiriu um ponto de passagem correspondente a sua existência [Existenz] [existência do Espírito] no modo como se deixa conhecer na obra de arte, ao ser esta gerada pelo espírito, ao passo que a existência [Dasein] [fenomenológica] na sensibilidade sem consciência da natureza não é um modo de aparecer adequado ao divino.”


capricho & necessidade

com capricho necessário arrematei minha obra


Não podemos ainda responder completamente a esta questão acerca da necessidade não-casual, mas absoluta da arte, uma vez que ela é mais concreta do que a resposta que poderia ser dada neste momento. [dentro da metafísica ocidental!]


O homem não é, mas é ao quadrado. é²

Penso, logo atuo.

Só o homem pensa.

As ações dos outros animais não são ações, se se quer que haja apenas uma palavra para o que ação é no seu mais íntimo profundo.

E tudo se torna ainda mais complicado quando pensamos que nem toda cultura antropologiza! Poderíamos considerar o auge do Romantismo como uma arte de cachorro!


Temor, angústia, preocupação, susto, p.ex., são decerto algumas modificações de um e mesmo modo de sentir, embora em parte sejam apenas gradações quantitativas, em parte formas que não têm nada a ver com seu conteúdo, pois lhe são indiferentes.”

Descrição do temor como uma mescla de [+] e [-] batalhando no sujeito.

expectância da prevalência de uma presença ou de sua destruição

O que resta é minha afecção meramente subjetiva na qual desaparece a coisa concreta ao ser comprimida na esfera mais abstrata. Por isso, a investigação sobre os sentimentos que a arte suscita ou deve suscitar permanece totalmente numa indeterminação e é uma consideração que abstrai justamente do autêntico conteúdo

No sentimento, no entanto, esta subjetividade destituída de conteúdo não só se mantém, mas é a coisa principal, e por isso os homens gostam tanto de sentir.” Os imbecis cinematográficos de hoje em dia. Como andar de montanha-russa ou usar uma droga.

A profundidade da coisa permaneceu inacessível para o gosto” “É por isso que o assim chamado bom gosto se amedronta diante de todos os efeitos mais profundos, silencia onde a própria coisa vem à tona e desaparecem os aspectos exteriores e secundários.” O limite do gosto são os meios de produção da sociedade burguesa.

o conhecimento de arte, e este é seu ponto fraco, pode prender-se ao estudo dos aspectos puramente exteriores, do que é técnico, histórico e assim por diante, e não perceber muita coisa ou mesmo ignorar por completo a verdadeira natureza da obra de arte. (…) No entanto, se sua natureza for autêntica, o conhecimento de arte se volta ao menos para princípios e conhecimentos determinados e para um juízo com base no entendimento, ao que se junta também a apreciação da obra de arte e as mais precisas distinções de seus diversos aspectos”

Por isso, a obra de arte, embora possua existência sensível, [Existenz] não necessita de uma existência sensível-concreta [Dasein] e de uma vitalidade natural.” desejo da carne x desejo do espírito “Pois a inteligência racional não pertence, como os desejos, [em H. desejo é apenas desejo da carne, que se entenda bem] ao sujeito particular enquanto tal, mas somente ao particular como imediatamente universal em si mesmo. (…) Por meio disso, o homem busca restabelecer a essência interior das coisas que a existência sensível não pode imediatamente mostrar, embora esta constitua seu fundamento. Assim como não tem nada em comum com os impulsos dos desejos apenas práticos, a arte também não compartilha do interesse teórico na forma científica, cuja satisfação é tarefa da ciência.” Nem pura sensação nem pura abstração. A arte não é uma equação ou heroína injetada nas veias.

Como a obra de arte é um objeto exterior que se manifesta numa determinidade imediata e singularidade sensível, segundo a cor, a forma, o som ou a intuição particular e assim por diante, a reflexão sobre arte não pode transcender a objetividade imediata que lhe é oferecida e querer captar o conceito desta objetividade como conceito universal, como faz a ciência.”

O interesse artístico se distingue do interesse prático do desejo pelo fato de deixar seu objeto subsistir livremente em si mesmo (…) Em contrapartida, a consideração artística se distingue de modo inverso da consideração teórica da inteligência científica, dado que se interessa pelo objeto em sua existência particular e não age para transformá-lo em seu pensamento e conceito” Nem o sexo nem o conhecimento biológico das enzimas secretadas durante o ato sexual: apenas o que significa simbolicamente o sexo para o homem, i.e., eu, talvez apenas este sexo, nesta circunstância, com esta mulher. No fundo, o sexo com o Ser. O sexo com o meu duplo. A retroalimentação desta experiência passada, presente, futura na minha existência.

a obra de arte se situa no meio, entre a sensibilidade imediata e o pensamento ideal.”

o olfato, o paladar e o tato ficam excluídos da obra de arte.”

a arte produz intencionalmente a partir do sensível apenas um mundo de sombras de formas, sons e visões e não se deve pensar que é por mera impotência ou limitação que o homem sabe apenas apresentar uma superfície do sensível e esquemas quando cria obras de arte.” “ressonância e eco”

Podemos comparar [a atividade artística] com o modo de agir de um homem experiente, espirituoso e inteligente que, embora conheça profundamente a vida, a substância comum a todos os homens, aquilo que os move e os domina, no entanto, nem submete estes conhecimentos, para si próprios, a regras gerais, nem sabe explicitá-los aos outros por meio de reflexões universais” “Tal tipo de imaginação se baseia antes na memória (…) [que na] criatividade em si.” Essa seria a fantasia artística média, em H..

A fantasia artística produtiva, porém, é a fantasia de um grande espírito e de um grande ânimo, é o conceber e criar representações e figurações, mais precisamente, figurações dos mais profundos e universais interesses humanos numa exposição imagética totalmente determinada e sensível.”

Assim, pode-se dizer com mais razão que não há um talento científico específico, no sentido de um mero dom natural. A fantasia, pelo contrário, possui um modo de produção ao mesmo tempo instintivo, na medida em que o imagético e a sensibilidade essenciais da obra de arte devem estar subjetivamente presentes no artista como dom e impulso naturais; como agir inconsciente devem também pertencer ao lado natural do homem.” “É por isso que todos podem, em maior ou menor grau, fazer arte, mas para alcançar o ponto em que a arte verdadeiramente começa é necessário talento artístico inato.”

Na maior parte das vezes tal talento enquanto disposição natural já se anuncia na precoce juventude e se revela numa ansiedade turbulenta – viva e ativamente – para dar forma de modo imediato a um material sensível determinado, e em considerar esse tipo de expressão e comunicação como o único ou como o principal e o mais adequado.”

Quando James Bruce, em sua viagem à Abissínia, mostrou pinturas de peixes a um turco, deixou-o imediatamente perplexo, mas logo em seguida recebeu a resposta: <Se este peixe no dia do Juízo Final se levantar contra ti e disser que ganhou um corpo, mas não uma alma viva, como tu te justificarás perante tal acusação?>

HIPER-REALISMO ANTIGO: “há exemplos de reprodução perfeitamente ilusória. As uvas pintadas por Zêuxis (cf. Plínio, História Natural) foram consideradas, desde sempre, como triunfo da arte e, ao mesmo tempo, como triunfo do princípio da imitação da natureza, pois pombas vivas as teriam picado.” Hoje as pombas implumes saem do cinema convencidas da realidade de todas as imagens, e menos convencidas, em proporção, de qualquer possível metafísica comunicada pela tela.

quanto mais a reprodução for parecida com o modelo natural, tão mais rapidamente esta alegria e admiração também se tornarão por si mesmas geladas e frias ou se transformarão em tédio e antipatia. Já se falou com espírito sobre retratos que se parecem tanto com o retratado que chegam a ser repugnantes.”

Kant cita (…) que (…) tão logo descobrimos que o autor do canto do rouxinol que apreciamos era na verdade uma pessoa, imediatamente ficamos enfastiados com tal canto.”

(N. da T.) “Note-se, entretanto, que K. cita este exemplo para afirmar a superioridade do belo natural sobre a tentativa de sua mera reprodução, ao passo que para H. o acento está colocado na questão da inferioridade da mera imitação em relação à natureza enquanto tal [e mais ainda em relação à autêntica arte].” No fundo, duas formas de dizer a mesma coisa.

artifício e imitação (Kunststück) x arte efetiva (Kunstwerk)

a esta competição abstratamente imitativa devemos comparar o artifício de alguém que, sem errar, aprendeu a lançar ervilhas por um pequeno orifício. Tal homem se apresentou com esta habilidade para Alexandre e este o presenteou com um alqueire de ervilhas como recompensa por esta arte inútil e sem conteúdo.”

se entre os homens acontece que nem todo marido ache sua mulher bela, todo noivo julga bela a sua noiva – e até mesmo exclusivamente bela; e é uma sorte para as 2 partes que o gosto subjetivo não tenha nenhuma regra rigorosa para esta beleza.”

[nem] a exigência de naturalidade enquanto tal é, porém, o substancial e primordial que fundamenta a arte” Neste trecho, subentende-se que H. desaprovaria, e com acerto, a escola naturalista das artes plásticas, mas também sua manifestação literária posterior, que lhe são póstumas.

A arte deve efetivar em nós aquele conhecido enunciado Nihil humani a me alienum puto

ensinar a conhecer intimamente tudo o que é horrível e horripilante assim como o que é prazeroso e beato” linha de um contínuo K. H. N.

para que as experiências da vida não nos deixem insensíveis”

apriorisionamento dos imediatistas

Teria H. ido além de Aristóteles-Schopenhauer na teoria da catarse? “Pois a determinação de que a arte deve refrear a brutalidade, formar as paixões, permaneceu totalmente formal e universal, de modo que se tratava novamente de uma espécie determinada e do objetivo essencial desta formação. § A perspectiva da purificação das paixões, na verdade, sofre da mesma deficiência encontrada anteriormente na suavização dos desejos, embora ressalte pelo menos mais vivamente a necessidade de uma medida para as representações [Darstellungen] artísticas, por meio da qual possa ser averiguada a dignidade ou não da arte. Esta medida é justamente a eficiência na separação do puro e do impuro nas paixões. Por isso, ela precisa de um conteúdo que seja capaz de manifestar esta força purificadora; e na medida em que a finalidade substancial da arte deve ser a produção de tal efeito, o conteúdo purificador deve tornar-se consciente segundo sua universalidade e essencialidade.” Ainda não escapa do imperativo categórico! Mas sigamos, pois aqui H. está analisando a validade do argumento, ainda…


Enfim, queremos criar um novo mundo ou apenas estudar as belas-artes do atual valor dos valores? Pois Platão está justificado em “romper com Homero (e, portanto, a poesia até sua época em conjunto)” apenas diante do niilismo que grassava a polis (o mal maior).

fabula docet

A degradação ocidental da Ars poetica de Horácio


a arte foi o primeiro mestre dos povos.” Poderá ser o último, numa civilização decadente?

Não se pode, é óbvio, querer politizar Shakespeare – porque ele já está politizado!

E assim chegamos ao limite em que a arte precisa deixar de ser arte, deixar de ser finalidade para si mesma, já que foi rebaixada a um mero jogo de entretenimento ou a um mero meio de instrução.” Já antecipa a própria crítica da arte pela arte e da arte como meio de uma só vez. A arte sempre está no meio… de dois extremos empíricos impróprios. O precário equilíbrio da existência…

[OUTRA HIPÓTESE:] a arte, por meio do conhecimento do bem verdadeiramente moral e, assim, por meio da instrução, deve ao mesmo tempo incitar à purificação e somente então deve realizar o aperfeiçoamento do ser humano enquanto sua utilidade e finalidade suprema.”

O “ARGUMENTO MORTAL KOMBAT”: “É fácil aceitar que em seu princípio a arte não pode ter como intenção a imoralidade e sua promoção. Contudo, há uma diferença entre ter como finalidade explícita da exposição a imoralidade e não ter como finalidade explícita da exposição o que é moral. De toda obra de arte autêntica podemos tirar uma boa moral, embora isso dependa de uma explicação e, desse modo, de quem extrai a moral. Assim, alguém pode defender descrições as mais contrárias à ética baseado no fato de que é preciso conhecer o mal e o pecado para que se possa agir moralmente. Em contrapartida, falou-se que a representação [Darstellung] de Maria Madalena, a bela pecadora que depois fez penitência, já levou muita gente ao pecado, já que a arte faz parecer belo praticar penitência, e para isso é preciso antes pecar. – Mas a doutrina do melhoramento moral, apresentada de modo conseqüente, não se contentará em também poder extrair uma moral da arte; pelo contrário, ela irá querer que a doutrina moral brilhe claramente como finalidade substancial da obra de arte e, inclusive, querer expressamente apenas permitir que sejam expostos objetos, caracteres, ações e acontecimentos morais. Pois a arte pode escolher seus objetos, ao contrário da historiografia ou das ciências, para as quais a matéria é dada.”

Um homem eticamente virtuoso não é já por si mesmo moral.” “o homem (…) somente faz o bem porque adquiriu a certeza de que isso é o bem. (…) a universalidade abstrata da vontade, que possui sua contraposição direta na natureza” A ponto de chegarmos a civilizações em que o estado natural é a norma, ou seja, onde o homem é um HOBBES DE PONTA-CABEÇA!

Diagnóstico: faltava ao século XIX (parte I!) a consideração de um ângulo extra-moral…

No espírito [esta luta interior] se mostra no que é sensível e espiritual no homem, como a luta do espírito contra a carne; do dever pelo dever, da lei fria com o interesse particular, o ânimo caloroso, as inclinações e propensões sensíveis e o individual em geral; como a dura contraposição entre a liberdade interior e a necessidade da natureza exterior; além disso, como a contradição entre o conceito morto, em si mesmo vazio, e a vitalidade completa e concreta, entre a teoria, o pensamento subjetivo e a existência objetiva e a experiência.”

JOGUETE DA CONSCIÊNCIA INFELIZ: “A formação espiritual, o entendimento moderno, produzem no homem esta contraposição que o torna anfíbio, pois ele precisa viver em 2 mundos que se contradizem” “a consciência permanece, por isso, num mero dever [Sollen] e o presente e a efetividade se movimentam apenas na inquieta oscilação entre 2 alternativas, na busca de uma reconciliação sem encontrá-la.”

O IDEALISMO COMO FALSA CHAVE: “Se a formação universal incorreu em tal contradição, torna-se tarefa da filosofia superar estas contraposições, i.e., mostrar que nem um em sua abstração nem outro em idêntica unilateralidade possuem a verdade, mas ambos se solucionam por si”

AUTO-ILUSÃO: “Este conhecimento coincide imediatamente com a crença e volição espontâneos, que justamente tem constantemente esta contraposição solucionada na representação e a estabelecem e realizam para si como finalidade na ação.”

Na medida em que o derradeiro fim último, o aperfeiçoamento moral, apontou para um ponto de vista superior, necessitamos também reclamá-lo para a arte.” A arte é ser-no-mundo, não objeto utilitário. Espelha o sistema filosófico do pensador. Prefigura-se aqui a completa autonomia da arte, ainda que obviamente inscrita no campo ético. Mas, enfim, arte & niilismo são duas faces da mesma moeda… Não é possível venerar um sem querer o outro. Eu sou um niilista. Eu não acredito em nada, só acredito na arte!

Este reconhecimento do caráter absoluto da razão em si mesma, que nos tempos modernos provocou a virada da filosofia, este ponto de partida absoluto deve ser reconhecido e não deve ser refutado na filosofia kantiana, mesmo que se a tome como insatisfatória.”

CONFUNDINDO O PONTO DE CHEGADA COM O DE PARTIDA: “A crítica kantiana constitui o ponto de partida para a verdadeira apreensão [Begreifen] do belo artístico, apreensão que, todavia, somente se pôde fazer valer, por meio da superação das deficiências kantianas,¹ como a apreensão superior da verdadeira unidade da necessidade e da liberdade, do particular e do universal, do sensível e do racional.”

¹ Isso decerto não aconteceu até muito depois de Hegel morrer, muito menos nos epígonos alemães do Romantismo!

Devemos a Schiller o grande mérito de ter rompido com a subjetividade e abstração kantianas do pensamento e de ter ousado ultrapassá-las, [haha!] concebendo a unidade e a reconciliação como o verdadeiro, e de efetivá-las artisticamente.”

Neste contexto, Schiller [cujos poemas são inferiores porque tenta filosofar por meio deles] enquanto poeta apenas pagou tributo a sua época, e isso de um modo que apenas honrou esta alma sublime e ânimo profundo, e para o proveito da ciência e do conhecimento.”

Schi., Cartas sobre a educação estética: “Nesta obra, Schi. parte do ponto principal de que cada homem individual possui em si mesmo a disposição para um homem ideal. Este verdadeiro homem é representado pelo Estado”

Por causa disso, a ciência alcançou por meio de Schelling seu ponto de vista absoluto” “Friedrich von Schlegel, desejoso do novo, na busca ávida de distinção e do surpreendente, se apropriou da Idéia filosófica tanto quanto era capaz sua natureza que, aliás, não era filosófica, mas essencialmente crítica.” A dinastia dos Sch.!

Winckelmann deve ser visto como um daqueles que no campo da arte soube descobrir um novo órgão para o espírito e também modos de consideração totalmente novos.”

A partir desta direção, e especialmente do modo de pensar e das doutrinas de Schleg., desenvolveu-se em seguida sob diversas configurações a chamada ironia. A ironia encontrou seu profundo fundamento [hmm], segundo um de seus aspectos, na filosofia de Fichte, na medida em que os princípios dessa filosofia foram aplicados à arte.”

[Segundo o FICHTISMO – fictismo, pouco realista!] eu vivo como artista quando todo o meu agir e manifestar em geral, na medida em que se refere a algum conteúdo, somente permanece para mim uma aparência e assume uma forma que está totalmente em meu poder.” “Minha aparição [Erscheinung], na qual me ofereço aos outros, pode até ser algo sério para eles, na medida em que me tomam como se eu estivesse tratando mesmo de algo sério; no entanto, deste modo eles apenas se enganam, são pobres sujeitos limitados que não possuem o órgão e a capacidade de apreender a altura do meu ponto de vista.” “Essa virtuosidade de uma vida irônica e artística se concebe, pois, como genialidade divina, para a qual tudo e todos são apenas uma criação sem essência, na qual o criador livre, que se sabe desvencilhado e livre de tudo, não se prende, pois pode tanto destruí-la quanto criá-la. Aquele que se encontra em tal ponto de vista da genialidade divina observa do alto com distinção todos os outros homens, que são considerados limitados e rasos, na medida em que o direito, a eticidade, etc., ainda valem para eles como algo de sólido, de obrigatório e de essencial. É claro que tal indivíduo, que assim vive como artista, mantém relações com outras pessoas, vive com amigos e com as pessoas que gosta, mas como gênio, tal relação com sua efetividade determinada, com suas ações particulares, assim como com o em-si-e-para-si universal é para ele ao mesmo tempo algo nulo e ele se relaciona ironicamente com tudo isso.” “beatitude do gozo próprio” Mas não foi Fichte que a inventou, e sim Schlegel! E, como diz H., “muitos outros a macaquearam ou a repetirão sempre novamente.”


CRÔNICAS DE UM ADOLESCENTE QUE LEU NIETZSCHE NUM TEMPO COMPRIMIDO: “A forma mais imediata desta negatividade da ironia é a vaidadeE o que Deus mesmo faria em tal caso? Procuraria um centro! Impelido pela verdade, o autoproclamado solitário e ensimesmado morrerá asfixiado pelas paredes de seu próprio gênio inimitável e sem-precedentes… Se torna um artista nostálgico, um fichteano, em suma. Misto de asceta descontente e lasso vadio urbanoide, pálido e doentio, este deus acamado, tirano de seu quarto, prefere não sair para respirar ao ar livre, para apenas agravar o quadro. Sim, ele se tornará um desses poetas apaixonados que morrem aos 23 anos! Um Dom Quixote tão menos nobre… Sua donzela mal vale um meio moinho enguiçado… Chega-se ao cúmulo de afirmar em sua insânia: posto que não era tão elevado quanto pensava, não há elevação! Se não posso ser Deus, ninguém será! Será este rapaz engraçado (ridículo) ou digno de pena e comiseração? Herói de araque demais para pertencer ao ramo do trágico, ele não morre no final, mas pega um cruzeiro para fora da Europa!… Sim, porque tudo que é sórdido desmancha no ar fuliginoso! E assim termina a carreira do promissor poeta, antes de sequer começar…

Versão melhorada e final em: https://www.recantodasletras.com.br/prosapoetica/7412429


Tal ironia da ausência de caráter ama a ironia.”

má fé x perseverança

Ainda bem que tais naturezas nostálgicas e sem conteúdo não agradam: é um consolo saber que esta improbidade e hipocrisia não são bem-recebidas e que as pessoas, pelo contrário, anseiam tanto por interesses completos e verdadeiros quanto por caráteres que permanecem fiéis a seu conteúdo grave.”

Solger não era como os outros que se satisfaziam com uma formação filosófica superficial, pois uma necessidade interna autenticamente especulativa [como esse binômio envelheceu mal!] o impelia a descer na profundidade da Idéia filosófica. E assim ele chegou ao momento dialético da Idéia, ao estágio que denomino de <infinita negatividade absoluta>Chegou aos céticos da Idade Clássica.

esta negatividade é (…) contudo apenas um momento.” PA DUM TSSS

E Solger não viveu como o poeta romântico-niilista de mais acima, mas apenas escreveu como tal, o que é sumamente diferente. Bem-vindo ao clube, jovem Solger (que não alcançou idades avançadas, como já posso dizer que seja a minha)! (Mentira. Solger viveu 38/9 anos. Porém é razoável dizer que, se emocionalmente ainda somos adolescentes na casa dos 30 nesta década de 2020, maturamos enquanto artistas já muito antes, graças aos meios à disposição.)

Em vez de testemunhar a dissolução irônica do Bem, eu quero poder ver a dissolução literal do Estado… Este é(seria) MEU MOMENTO!

O HOMEM QUE NÃO SEGUIA SUA PRÓPRIA FILOSOFIA:Tieck exige constantemente ironia; mas, quando ele mesmo se dedica ao julgamento de grandes obras de arte, seu reconhecimento e descrição da grandeza delas são realmente primorosos.”

Se enunciamos que Deus é o uno simples, o mais alto ser enquanto tal, apenas expressamos uma abstração morta do entendimento irracional.” “Daí os judeus e os turcos não terem podido expor pela arte seu Deus de um modo positivo como os cristãos, pois seu Deus não é nem ao menos uma tal abstração do entendimento.” “também a arte exige a mesma concreção [da Santíssima Trindade]”

Pois a arte não assume esta forma apenas porque ela se encontra à disposição e porque não há outra, [!!!] mas porque no conteúdo concreto reside também propriamente o momento do fenômeno exterior e efetivo e, igualmente, sensível. (…) o exterior da forma, através do qual o conteúdo torna-se intuível e representável, tem a finalidade de somente existir para o nosso ânimo e espírito.”

No entanto, [face às ocorrências da natureza] a obra de arte não é tão despreocupada por si, mas é essencialmente uma pergunta, uma interpelação ao coração que ressoa, um chamado aos ânimos e aos espíritos.”

O deus grego não é abstrato, mas individual, e está próximo da forma natural; o Deus cristão também é uma personalidade concreta e isso enquanto pura espiritualidade, e deve ser sabido no espírito como espírito. Seu elemento de existência é, assim, essencialmente o saber interior e não a forma exterior natural, por meio da qual ele apenas de modo incompleto é passível de exposição, mas não segundo toda a profundidade de seu conceito.”

P. 89 (edição impressa): difícil de justificar mais essa divisão tripartida hegeliana: a- ciência da arte geral/ideal; b- ciência da arte particular (em progressão gradual de formas!); c- ciência da arte particular (em progressão gradual de conteúdos!).

Por exemplo, os chineses, os indianos e os egípcios permaneceram em suas configurações artísticas (sic – conservaram) figuras de deuses e ídolos desprovidos de Forma ou com uma determinidade ruim ou não-verdadeira da Forma e não souberam dominar a verdadeira beleza porque suas representações mitológicas, o conteúdo e o pensamento de suas obras de arte ainda eram em si mesmos indeterminados ou de uma determinidade ruim, e não eram ainda o conteúdo em si mesmo absoluto.”

A determinidade é como que a ponte para o fenômeno.”

princípio do modo de aparição particular”

Deste modo, é somente a Idéia verdadeiramente concreta que produz a verdadeira forma, e esta correspondência de ambos é o ideal.”

b- “a doutrina das Formas da arte”

Por isso, as Formas da arte nada mais são do que as diferentes relações de conteúdo e forma, relações que nascem da própria Idéia e, assim, fornecem o verdadeiro fundamento de divisão desta esfera. Pois a divisão deve sempre residir no conceito, do qual é a particularização e a divisão.” A divisão é a divisão do conceito! Imagina ser ouvinte nesta aula…

forma de arte simbólica” como estágio primitivo da obra de arte. “determinidade abstrata” Ex: leão=força

Segue-se ao puro símbolo, conforme Hegel, uma fase de jactância, sublimidade ou exuberância, caricata ou estilística. “a Idéia é aqui ainda o mais ou menos indeterminado” – insatisfação ou inadequação da Idéia consigo mesma.

Estes aspectos constituem, em termos gerais, o caráter do 1º panteísmo artístico do oriente”

bizarro, grotesco e destituído de gosto”

Na segunda Forma de arte, que gostaríamos de designar como sendo a clássica, a dupla deficiência da Forma de arte simbólica está eliminada.” “a concordância entre o significado e a forma deve sempre permanecer deficiente e apenas abstrata.” “é a Forma clássica que pela 1ª vez oferece a produção e intuição do ideal completo e o apresenta como efetivado.” “a espiritualidade concreta; pois somente a espiritualidade é a verdadeira interioridade.”

O último esteta “de respeito” a rebaixar o mundo clássico em relação ao próprio mundo moderno na Arte?

Há de ser o próprio conceito originário que inventou [erfunden] a forma para a espiritualidade concreta, de tal modo que agora o conceito subjetivo apenas a encontrou [gefunden] e, enquanto existência natural figurada, a tornou adequada à livre espiritualidade individual.” Seria brilhante se não fosse uma hipóstase.

Esta (…) é a forma humana

É certo que freqüentemente a personificação e a antropomorfização foram denegridas como se fossem uma degradação do espírito” Apenas pelos monoteístas!

PARADOXO DE PROTEU (TUDO É HUMANO, OU APENAS O BOM É HUMANO, ENQUANTO O MAL É LENTAMENTE ALOJADO NA CATEGORIA RESIDUAL DOS ANIMAIS!): “Neste contexto, a migração da alma é uma representação abstrata, sendo que a fisiologia deve ter tido como um de seus princípios que a vitalidade em seu desenvolvimento necessariamente precisa progredir para a forma do homem como sendo este o único fenômeno sensível adequado ao espírito.”

Para H., apenas um anúncio que “exige a passagem para uma 3ª Forma de arte mais elevada, a saber, a romântica

A Forma de arte clássica, de fato, alcançou o ponto mais alto que a sensibilização da arte foi capaz de alcançar”

O Romantismo é o falseamento da realidade outorgando-se ser mais-do-que-o-real-NECESSARIAMENTE-simplificado-do-clássico. (JUÍZO MEU, obviamente ausente em H.)

a Forma romântica (…) adquiriu um conteúdo que transcende esta Forma [clássica] e seu modo de expressão. Este conteúdo – para lembrar representações já conhecidas – coincide com o que o cristianismo afirma acerca de Deus como espírito, à diferença da crença nos deuses dos gregos que constitui o conteúdo essencial e o mais adequado para a arte clássica.”

O deus grego se destina à intuição espontânea e à representação sensível e, por isso, sua forma é o corpo do homem, o círculo de sua potência e de sua essência é individual e particular, é uma substância e poder perante o sujeito, com os quais a interioridade subjetiva apenas em si está em unidade, mas não tem esta unidade como saber subjetivo interior e próprio.” E quem liga para este saber! Só porque não durou eternamente e foi sucedido por outras formas de culto não significa que o Olimpo seja inferior!

pelo fato de saber que é animal, deixa de sê-lo e se dá o saber de si como espírito.”

Eu poderia acrescentar: pelo fato de se saber isento da desmesura, o modelo grego deixa de ser humano (falível) e se torna de facto divino!

H. não compreendeu a completude grega, que projeta no dogma cristão: “Do mesmo modo, a unidade da natureza humana e divina é algo sabido e apenas por meio do saber espiritual e no espírito é uma unidade realizada. O novo conteúdo assim conquistado [a posteriori, com lendas, no papel] não está, portanto, atado à exposição sensível, como a que lhe corresponde, mas está livre desta existência imediata que deve ser estabelecida, superada e refletida negativamente na unidade espiritual. Deste modo, a arte romântica é a arte se ultrapassando [Hinausgehen] a si própria, mas no interior de seu próprio âmbito e na própria Forma artística.”

3. O indivíduo e seu “ânimo” como a grande 3ª Forma hegeliana!

A interioridade comemora seu triunfo sobre a exterioridade e faz com que esta vitória apareça no próprio exterior e por intermédio dele, fazendo com que o fenômeno sensível desapareça na falta de valor.” Hegel

A exterioridade comemora seu triunfo sobre a interioridade e faz com que esta vitória apareça no próprio interior e por intermédio dele, fazendo com que o metafísico e espiritual desapareçam na falta de valor.” Eu!

O lado da existência exterior é entregue à contingência e abandonado à aventura da fantasia, cuja arbitrariedade pode tanto espelhar o que está presente, tal como está presente, como também embaralhar e distorcer grotescamente as configurações do mundo exterior. (…) e é capaz de conservar ou reconquistar esta reconciliação consigo mesmo em todo tipo de contingência e acidentalidade que por si mesmo se configura, em todo infortúnio e dor e até mesmo no próprio crime. Por meio disso surge novamente a indiferença, inadequação e separação entre a Idéia e a forma – como no simbólico –, mas com a diferença essencial de que no romântico a Idéia deve aparecer em si mesma completa como espírito e ânimo. Por esta razão, esta perfeição superior se priva da correspondente união com a exterioridade, sendo que somente pode buscar e completar sua verdadeira realidade e aparição [Erscheinung] em si mesma.”

Em termos gerais (…) As 3 Formas consistem na aspiração, na conquista e na ultrapassagem do ideal como a verdadeira Idéia da beleza.”

as Formas de arte universais devem nesta terceira parte se mostrar também como determinação fundamental para a divisão e identificação das artes particulares

por um lado, as artes particulares pertencem especificamente a uma das Formas de arte universais e constituem sua adequada efetividade artística exterior; por outro lado, apresentam a totalidade das Formas de arte 2º seu modo de configuração exterior.”

A primeira das artes particulares (…) é a bela arquitetura.” “o tipo fundamental da arquitetura é a Forma de arte simbólica.”

Ela permite que uma envoltura se erga para o alto para a reunião dos fiéis – enquanto proteção contra a ameaça da tempestade, contra a chuva, o mau tempo e animais selvagens”

é por meio da arquitetura que o mundo exterior inorgânico é purificado, ordenado simetricamente”

Em segundo lugar, neste templo entra então o próprio Deus, na medida em que o raio da individualidade bate na massa inerte, a penetra, e a própria Forma infinita do espírito, não mais meramente simétrica, concentra e configura a corporeidade. Esta é a tarefa da escultura.” “assume a Forma de arte clássica como seu tipo fundamental.”

Nesse esquema ridículo de Hegel, a terceira manifestação não é a terceira arte, como se poderia imaginar, mas praticamente a soma de todas as artes tipicamente modernas.

temos a pintura, a música e a poesia.”

A primeira arte, que ainda se encontra próxima da escultura, é a pintura.” Não diga, Einstein.

A segunda arte (…) é a música.” Todo poeta se põe em último (e com isso quero dizer 1º) lugar.

o som, o sensível estabelecido negativamente”

ARQUITETURA HEGELIANA (COF, COF!): “a música constitui novamente o ponto central das artes românticas e o ponto de transição entre a sensibilidade espacial abstrata da pintura e a espiritualidade abstrata da poesia.”

A aparição do cinema refuta toda a Estética hegeliana.

música poesia

sensação signo

E nessa teimosia, H. pensa ganhar alguma coisa…

o audível e o visível se rebaixaram à mera alusão do espírito.”

Mas, exatamente neste estágio supremo, a arte também ultrapassa a si mesma, na medida em que abandona o elemento da sensibilização reconciliada do espírito, e da poesia da representação passa para a prosa do pensamento.”

Na verdade, tentaram-se muitas vezes outros tipos de divisões, pois a obra de arte oferece tal riqueza de aspectos que, como muitas vezes ocorreu, podemos estabelecer ora este, ora aquele como fundamento de divisão” Não pode ser deus dos filósofos aquele que sequer sabe dançar.

Último parágrafo da introdução: “Portanto, o que as artes particulares realizam em obras de arte singulares, segundo o conceito, são apenas as Formas universais da Idéia de beleza que a si se desenvolve; enquanto que na sua efetivação exterior ergue-se o amplo panteão da arte, cujo construtor e mestre de obras é o espírito do belo que se apreende a si mesmo, mas que a história mundial irá consumar apenas em seu desenvolvimento de milênios.”

PARTE I. A IDÉIA DO BELO ARTÍSTICO OU O IDEAL

POSIÇÃO DA ARTE EM RELAÇÃO À EFETIVIDADE FINITA E À RELIGIÃO E À FILOSOFIA

Mas, como subjetividade, o espírito é primeiramente apenas em si a verdade da natureza, na medida em que ainda não tornou seu verdadeiro conceito para si mesmo. A natureza não lhe está contraposta como o outro posto por meio dele, no qual ele retorna a si mesmo, mas como ser-outro [Andersseins] insuperado e limitado, ao qual, como se o outro fosse um objeto encontrado à frente, o espírito permanece relacionado enquanto o subjetivo em sua existência de saber e de vontade e apenas pode figurar em natureza o outro lado.” grifos do autor, como nas próximas citações.

Este é o ponto de vista do espírito apenas finito, temporal, contraditório e, por isso, passageiro, insatisfeito e não-beato.”

O espírito apreende a própria finitude como o negativo de si mesmo e conquista a partir disso sua infinitude. (…) por meio disso ele se torna para-si-mesmo (…) O próprio absoluto se torna objeto do espírito, na medida em que o espírito entra no estágio da consciência e se diferencia em si mesmo como aquele que sabe [Wissendes] e, em face desse saber, como objeto absoluto do saber.” “Mas na consideração especulativa superior, é o próprio espírito absoluto, para ser para-si o saber-de-si-mesmo, diferencia-se (sic) em-si-mesmo e, assim, põe a finitude do espírito, no seio da qual ele se torna objeto absoluto do saber-de-si-mesmo. Assim, ele é espírito absoluto em sua comunidade, o absoluto efetivo como espírito e saber-de-si-mesmo. § Este é o ponto pelo qual devemos começar na filosofia da arte.”

O fato de as coisas serem assim, podemos aqui apenas indicar; a demonstração científica compete às disciplinas filosóficas precedentes; à lógica, cujo conteúdo é a Idéia absoluta enquanto tal, à filosofia natural como à filosofia das esferas finitas do espírito.” Nunca é função da filosofia demonstrar nada empiricamente.

a partir das relações contingentes de sua mundanidade e do conteúdo finito de seus fins e interesses, se abre para a consideração e execução de seu ser-em-si-e-para-si.”

Em primeiro lugar, temos o amplo sistema das necessidades físicas, para as quais trabalham os grandes círculos da indústria em sua larga produção e conexão, o comércio, a navegação e as artes técnicas; mais acima está o mundo do direito, das leis, da vida em família, a divisão em classes, todo o âmbito abrangente do Estado; a seguir, a necessidade da religião que se encontra em cada ânimo e se satisfaz na vida religiosa; por fim, a atividade multiplamente dividida e intrincada na ciência, o conjunto dos dados e conhecimentos, que tudo abarca em si mesmo. No seio destes círculos também se apresenta a atividade na arte, o interesse pela beleza e a satisfação espiritual com as suas configurações. Aqui surge então a questão acerca da necessidade interna de uma tal necessidade no contexto dos restantes âmbitos da vida e do mundo.”

O conteúdo de um livro, p.ex., pode ser indicado em algumas palavras ou períodos e nele não deve aparecer outra coisa a não ser o universal já indicado no índice. [E vai fazer o quê se eu incluir outra coisa? Matar minha mãe? Brincadeiras à parte, é realmente uma péssima idéia hegeliana, não digo tradução, pois não é o caso, faz-se o que se consegue fazer: índice e conteúdo são a mesma palavra em alemão, Inhalt. Ok, um livro não possui mais que seu conteúdo, não a representação de seu conteúdo, mas seu conteúdo em si.] O abstrato é este elemento simples, que corresponde ao tema e constitui o fundamento para a execução; o concreto, em contrapartida, é a execução.”

Passar por este processo de contraposição, de contradição e de solução da contradição é o privilégio superior das naturezas vivas. O que por si é e permanece apenas afirmativo, é e permanece sem vida. A vida caminha para a negação e para a dor que acompanha a negação e é somente afirmativa por si mesma por meio da eliminação da contraposição e da contradição.”

Os animais vivem em satisfação consigo e com as coisas que estão à sua volta, mas a natureza espiritual do homem impulsiona a dualidade e o dilaceramento, em cuja contradição ele se debate.”

Podemos designar de modo universal a vida desta esfera, este gozo da verdade que, enquanto sentimento, é beatitude e, enquanto pensamento, é conhecimento, como a vida na religião.”

A arte, por meio da ocupação com o verdadeiro enquanto objeto absoluto da consciência, também pertence à esfera absoluta do espírito e, por isso, segundo seu conteúdo, encontra-se no mesmo terreno da religião, no sentido mais específico do termo, e da filosofia.”

a filosofia não possui outro objeto a não ser Deus, sendo assim essencialmente teologia racional e, por estar a serviço da verdade, é culto divino continuado.”

os poetas e os artistas foram para os gregos os criadores de seus deuses, i.e., os artistas deram à nação a representação determinada do fazer, da vida e da atuação dos deuses, portanto o conteúdo determinado da religião. E certamente não no sentido de que estas representações e ensinamentos já estavam presentes antes da poesia num modo abstrato da consciência, enquanto proposições universais religiosas e determinações do pensamento que a seguir foram por artistas revestidas em imagens e envoltas externamente com o enfeite da poesia. Antes, pelo contrário, o modo da produção artística era tal que aqueles poetas apenas podiam destacar o que neles fermentava nesta forma da arte e da poesia.” “Esta seria a posição original, verdadeira, da arte enquanto primeira auto-satisfação imediata do espírito absoluto.” “no caso de Platão, que já se opôs com veemência aos deuses de Homero e Hesíodo. No progresso da formação cultural, surge em geral em cada povo uma época em que a arte aponta para além de si mesma.”

Podemos bem ter a esperança de que a arte vá sempre progredir mais e se consumar, mas sua forma deixou de ser a mais alta necessidade do espírito.” “Podemos descrever este progresso da arte para a religião dizendo que a arte é apenas um aspecto para a consciência religiosa.” “a devoção não pertence à arte enquanto tal.” “A devoção é este culto da comunidade em sua forma mais pura, interior e subjetiva”

PRIMEIRO CAPÍTULO. CONCEITO DO BELO EM GERAL

A Idéia é um todo segundo os 2 lados do conceito subjetivo e objetivo, mas ao mesmo tempo a concordância e unidade mediadas, que eternamente se realizam e se realizaram, dessas totalidades. Apenas assim a Idéia é a verdade e toda verdade.” “O fenômeno não é ainda verdadeiro apenas porque tem existência [Dasein] interior ou exterior e é em geral realidade, mas somente porque esta realidade corresponde ao conceito. (…) E, de fato, verdade não em sentido subjetivo, quando uma existência se mostra adequada às minhas representações, mas na significação objetiva, quando o eu ou um objeto exterior, a ação, o acontecimento e o estado, realizam em sua efetividade o próprio conceito. Se esta identidade não se dá, o existente [Daseiende] é apenas um fenômeno no qual, em vez de se objetivar o conceito total, apenas se objetiva algum aspecto abstrato dele; aspecto que pode atrofiar-se até a oposição contra o verdadeiro conceito, na medida em que se autonomiza em si mesmo contra a totalidade e unidade.”

A Idéia é verdadeira tal como ela é segundo seu em-si e princípio universal e, enquanto tal, é pensada. (…) O belo se determina como aparência [Scheinen] sensível da Idéia. Pois o sensível e objetivo em geral não guardam na beleza nenhuma autonomia em si mesmos, mas têm de abdicar da imediatez de seu ser, já que este ser é apenas existência e objetividade do conceito e é posto enquanto uma realidade que expõe o conceito enquanto em unidade com sua objetividade e, por isso, nesta existência objetiva, que apenas vale como aparência do conceito, expõe a própria Idéia.”

o entendimento sempre permanece preso ao finito, unilateral e não-verdadeiro.”

o conceito não permite à existência [Existenz] exterior seguir por si mesma leis próprias no belo, mas determina a partir de si sua articulação e forma fenomênicas que, enquanto concordância do conceito consigo mesmo, constituem igualmente em sua existência [Dasein] a essência do belo.”

Enquanto inteligência finita, sentimos os objetos interiores e exteriores, os observamos e percebemos de modo sensível, deixamos que venham à nossa intuição e representação e inclusive às abstrações de nosso entendimento pensante, que lhes dá a forma abstrata da universalidade. Neste caso, a finitude e a não-liberdade residem no fato de as coisas serem pressupostas como autônomas. Por isso, nos orientamos pelas coisas, deixamos que elas atuem e mantemos nossa representação, etc., presa à crença nas coisas, já que estamos convencidos de apenas apreender corretamente os objetos quando nos portamos de modo passivo e limitamos toda a nossa atividade à formalidade da atenção e ao impedimento negativo de nossas imaginações [Einbildungen], opiniões prévias e preconceitos. Mediante esta liberdade unilateral dos objetos está imediatamente posta a não-liberdade da apreensão subjetiva. Pois, para a apreensão subjetiva, o conteúdo está dado [gegeben] e, no lugar da autodeterminação subjetiva, surge a mera recepção e o acolhimento do existente, tal como se encontra à nossa frente enquanto objetividade. A verdade só deve ser alcançada pela submissão da subjetividade.

A mesma coisa tem lugar junto à volição finita, mesmo que de um modo oposto. Aqui os interesses, os fins e as intenções estão no sujeito que quer fazer valê-los contra o ser as propriedades das coisas. (…) Agora, pois, retira-se a autonomia das coisas, na medida em que o sujeito as coloca a seu serviço e as observa e manipula como úteis (…) de tal modo que sua relação, na verdade sua relação utilitária com fins subjetivos, constitua sua autêntica essência.”

O sujeito é finito e não-livre no teorizar por meio das coisas, cuja autonomia é pressuposta; no campo prático não é livre por causa da unilateralidade, da luta e da contradição interna dos fins e dos impulsos e paixões suscitados a partir do exterior, bem como por causa da resistência nunca totalmente eliminada dos objetos.”

Idêntica finitude e não-liberdade atinge o objeto em ambas as relações. Embora pressuposta, sua autonomia no teórico é apenas uma liberdade aparente. Pois a objetividade enquanto tal apenas é, sem que seu conceito como unidade e universalidade subjetivas seja em seu seio para ela. O conceito está fora dela. (…) Na relação prática, esta dependência enquanto tal é expressamente posta [gesetzt], e a resistência das coisas diante da vontade permanece relativa, sem que possua em si mesma a potência da autonomia última.”

Um modo um tanto desajeitado de expor a ‘realidade das coisas’: “a consideração do belo é de natureza liberal, um deixar-atuar os objetos enquanto em si mesmos livres e infinitos, e não um querer-possuir-e-utilizá-los-como-úteis para necessidades e intenções finitas, de modo que o objeto como belo também não aparecerá nem oprimido e forçado por nós, nem combatido e superado pelas demais coisas externas.”

Mediante esta liberdade e infinitude, que o conceito do belo assim como a bela objetividade e sua consideração subjetiva trazem em si mesmos, o âmbito do belo é arrancado da relatividade das relações finitas e elevado ao reino absoluto da Idéia e de sua verdade.”

SEGUNDO CAPÍTULO. O BELO NATURAL

O inanimado: “Este é o 1º modo da existência do conceito.” “tais corpos isolados em si mesmos são existências abstratas defeituosas.”

A objetividade: “a separação [Auseinandertreten] autônoma das diferenças do conceito.” “P.ex. o sistema solar. O sol, os cometas, as luas e os planetas aparecem, por um lado, como corpos celestes autônomos separados uns dos outros; por outro lado, porém, eles são o que são apenas por meio de sua posição determinada no seio de um sistema total de corpos.”

O conceito, contudo, não permanece preso a esta unidade meramente existente-em-si [an sich seienden] dos corpos particulares autonomamente. Além da diferença, a unidade tem de tornar-se real.”

A unidade ideal: “estágio da existência real, corporal e autônoma contra a própria separação recíproca. No sistema solar, podemos falar do sol. – Mas esta unidade ideal ainda é insuficiente. Se o sol for a alma do sistema, tem ele mesmo ainda uma subsistência autônoma fora dos membros que são a explicação desta alma. Ele mesmo é apenas um momento do conceito, uma unidade incompleta”

A unidade concreta: “a luz do sol é ainda uma luz qualquer, abstrata” Também assim não se avança (um momento do real não é o real).

A negação da negação da unidade: “as diferenças retornaram à unidade subjetiva.” “O conceito não permanece mais mergulhado na realidade, mas vem à existência nela, enquanto a própria identidade e universalidade interiores constituem sua essência.”

Somente este terceiro modo do fenômeno natural [da unidade conforme exposto aqui] é uma existência da Idéia e a Idéia, enquanto natural, é a vida. A natureza morta inorgânica não é adequada à Idéia e apenas a natureza viva orgânica é uma efetividade dela.”

não devemos conceber a identidade da alma e do corpo como mera conexão, mas de um modo mais profundo.”

doença (…) a vitalidade ruim e atrofiada”

Este pôr e solucionar a contradição da unidade ideal e da separação recíproca real dos membros constitui o constante processo e a vida apenas existe enquanto processo (Prozess).”

idealista não é apenas a filosofia, e sim já a natureza enquanto vida faz faticamente (faktisch) o mesmo que a filosofia idealista realiza em seu campo espiritual.”

A realidade, que a Idéia enquanto vitalidade natural conquista, é, por isso, realidade fenomênica. O fenômeno, a saber, não significa nada mais a não ser que uma realidade existe (existiert) e que não tem, todavia, imediatamente, seu ser-em-si-mesma, e sim é ao mesmo tempo em sua existência (Dasein) posta negativamente.”

Até o momento consideramos o real particular em sua particularidade acabada enquanto o afirmativo. Esta autonomia, entretanto, é negada no vivente e apenas a unidade ideal no seio do organismo corporal conquista a potência da relação afirmativa sobre-si-mesma. (…) Se, portanto, é a alma que aparece no corpo, [e não o corpo na alma, absurdo epistemologicamente, embora indiferente da perspectiva de quem entende a união indissolúvel corpoalma] o fenômeno é simultaneamente afirmativo.”

Alma: “potência contra a particularização autônoma dos membros; mas é também a escultora deles”

o exterior que apenas permanece exterior nada mais é do que uma abstração e unilateralidade. Entretanto, no organismo vivo temos um exterior no qual aparece o interior”

uma vez que na objetividade o conceito enquanto conceito é a subjetividade que se refere a si [uma vez que a realidade é forçosamente subjetiva], em sua realidade existente para-si, a vida existe apenas como algo vivo (Lebendiges), enquanto singularidade. (…) este ponto de união é negativo porque o ser-para-si subjetivo apenas pode surgir por meio do pôr-idealmente (Ideelsetzen) as diferenças reais enquanto apenas reais, ao que está ligada, porém, ao mesmo tempo a unidade subjetiva e afirmativa do ser-para-si.” Só podemos existir como diferença dinâmica do que não é real (objetivo) para nós.

esta totalidade não está determinada a partir de fora e é mutável, pois se configura e se processa a partir de si mesma, estando assim sempre referida a si como unidade subjetiva e finalidade própria.”

Selbstbewegung

se o movimento dos planetas e assim por diante não aparece como impulso exterior e enquanto estranho aos corpos, este movimento está, todavia, ligado a uma lei fixa e a sua necessidade abstrata.”

o animal ainda tem em seu organismo espacialidade sensível a partir dele mesmo e a vitalidade é automovimento no seio desta realidade, como circulação sangüínea, movimento dos membros e assim por diante.”

o belo natural vivo não é nem belo para-si mesmo nem produzido-a-partir-de-si-mesmo como belo e em vista da bela aparição (Erscheinung). A beleza natural é apenas bela para um outro, i.e., para nós, para a consciência que concebe a beleza.”

A música, a dança, certamente possuem movimento em si mesmas; este, porém, não é apenas casual e arbitrário como o do animal, mas em si mesmo conforme a leis, determinado, concreto e mensurável – mesmo que ainda façamos totalmente abstração do significado, de quem o movimento é a bela expressão.” “Nem a intuição sensível dos desejos singulares e casuais, dos movimentos e satisfações arbitrários nem a consideração do entendimento da conformidade a fins do organismo transformam, para nós, a vitalidade animal em belo natural”

Na sensação (Empfindung) e em sua expressão mostra-se a alma como alma.”

O hábito é apenas uma necessidade subjetiva. Segundo este critério, podemos achar os animais feios, porque mostram um organismo que se afasta de nossas intuições habituais ou as contradiz.”

designamos organismos animais de bizarros (…) por exemplo, peixes cujo corpo grande de modo desproporcional acaba num rabo curto e cujos olhos, num lado, estão um ao lado do outro. Quanto às plantas, [nós europeus] já estamos mais acostumados com os mais variados desvios, embora os cactos com seus espinhos e a formação mais retilínea de seus braços angulares possam parecer estranhos. Quem possui formação e conhecimento vastos de história natural, a este respeito irá tanto conhecer precisamente as partes singulares como também guardará na memória a maior quantidade de tipos, segundo sua coesão recíproca, de tal modo que pouca coisa incomum lhe aparecerá diante dos olhos.”

Cuvier era famoso por, pela visão de um só osso – fosse ele fóssil ou não –, poder estabelecer a qual espécie animal o indivíduo detentor deste osso pertencia.”

ex ungue leonem: da unha o leão

das garras, do fêmur, é extraída a constituição dos dentes, destes a figura do osso ilíaco [relativo à cintura], a forma da vértebra dorsal.”

Sentido:

a) órgão da apreensão imediata – ôntico, fenomenal

b) significado universal – ontológico, essencial

Qual é o sentido do ser? A visão ontológica!

Aquele que além de tudo ainda foi um mestre naturalista (polímata desgraçado!): “Goethe abordou de modo ingênuo os objetos, mediante consideração sensível, e possuía ao mesmo tempo o completo pressentimento de sua conexão de ordem conceitual. Também a história pode ser assim apreendida e narrada, de modo que por meio dos acontecimentos e indivíduos singulares transpareçam secretamente sua significação essencial e sua conexão necessária.”

a natureza em geral, como exposição sensível do conceito concreto e da Idéia, haveria de determinar-se bela, na medida em que [n]a intuição das configurações naturais de ordem conceitual é pressentida uma tal correspondência, e na consideração sensível nasce, ao mesmo tempo, para o sentido, a necessidade e a conco[r]dância da articulação total. [Mas] a intuição da natureza enquanto bela não avança para além desse pressentimento” Essa edição da tradução possui muitos erros tipográficos (complemento com meus colchetes).

Quase se pode formular: quanto mais idiota é a pessoa, mais ela tende a se maravilhar com “as belezas naturais” contingentes. Os verdadeiros grandes espíritos admiram a natureza a sua maneira: conceitualmente, com um olhar sobre o todo, não sobre o caos que predomina nas partes.

o cristal natural nos causa admiração por meio de sua forma regular que não é produzida por nenhuma influência mecânica apenas externa, mas por meio da determinação interior peculiar e força livre, livre do ponto de vista do próprio objeto.”

O bicho-preguiça, [adiciono aqui também o panda, embora atualmente sintamos muita simpatia por esse tipo de animal ‘indolente’!] pelo fato de apenas se arrastar com dificuldade e cuja totalidade do hábito apresenta a incapacidade para o movimento rápido e a atividade, desagrada por causa desta preguiça sonolenta.”

A SAPOMANIA PÓS-MODERNA: “Igualmente não podemos achar belos os anfíbios, alguns tipos de peixes, crocodilos, sapos, tantas espécies de insetos, etc. Mas em particular, seres híbridos, que constituem a passagem de uma forma determinada para outra e mesclam sua forma, poderão chamar nossa atenção, embora apareçam como feios, como o ornitorrinco, que é uma mistura de pássaro e animal quadrúpede. Também este modo de julgar pode primeiramente parecer mero hábito, na medida em que concebemos um tipo sólido dos gêneros animais.”

Disposição anímica (Gemütstimmung): simplesmente aquilo que Kant chamaria de sublime, por mexer com nossas emoções.

ORIGENS DO MITO DE YGGDRASIL? <A ÁRVORE QUE NÃO PÁRA DE CRESCER, ATÉ SE TORNAR FONTE DE TODA A VITALIDADE DA TERRA>… “O animal certamente também cresce, mas permanece estagnado num determinado ponto de grandeza e se reproduz enquanto autoconservação de um e mesmo indivíduo. Já a planta cresce sem parar; o aumento de seus galhos, folhas e assim por diante se suspende apenas com a sua morte.” “cada galho é uma nova planta e não é como no organismo animal apenas um membro singularizado.” “Falta à planta sua unidade ideal de sensação.”

NIETZSCHE NÃO ESCOLHE FIGURAS DE LINGUAGEM AO ACASO: “Este caráter do constante impulsionar-se-a-si-sobre-si-para-fora¹ (Sich-über-sich-Hinaustreibens) no exterior, transforma, pois, também a regularidade e a simetria, enquanto unidade no exterior-a-si-mesmo (Sichselberäusserlichen), em um momento principal para as configurações vegetais.”

¹ Rudimentos do contínuo superar-se-a-si-mesmo-e-transvalorar-se humano!

Também no orgânico, portanto, a regularidade tem o seu direito de ordem conceitual, mas apenas junto aos membros que fornecem os instrumentos para a relação imediata com o mundo exterior e não operam a referência do organismo a si mesmo enquanto subjetividade da vida que retorna a si mesma.” Possuímos dois olhos, dois ouvidos, um nariz bipartido, lábios simétricos, membros, etc., para nos relacionarmos com o mundo, porém o que há de mais importante, i.e., estômago, intestino, pulmões (até certo ponto, isto é, pois também se relacionam ao externo, mesmo em localidade ‘invisível’, para coletar oxigênio), coração e cérebro, já não possuem essa regularidade dual, assim como a musculatura do lado esquerdo (inverso do hemisfério nervoso das paixões – vontade) se desenvolve diferentemente da musculatura do lado direito (inverso do hemisfério nervoso do intelecto). Outrossim, a ambidestria é incomum, mesmo impossível, se não for perfeitamente forçada.

A linha oval possui liberdade superior na interior conformidade a leis. Ela é conforme a leis, todavia não se conseguiu encontrar matematicamente a sua lei. Ela não é uma elipse, e sim está curvada no alto de modo diferente do que embaixo.”

A última superação do meramente regular na conformidade a leis encontra-se nas linhas que, semelhantes às linhas ovais, porém seccionadas segundo seu eixo maior, fornecem metades desiguais, na medida em que um lado não se repete no outro, mas oscila de modo diferente. A assim chamada linha ondulante é desta espécie, tal como Hogarth(*) a designou como linha da beleza. Assim, p.ex., as linhas do braço giram num lado de modo diferente do que noutro. Há aqui conformidade a leis sem mera regularidade. Tal espécie de conformidade a leis determina em grande variedade as formas dos organismos vivos superiores.

(*) William Hogarth (1697-1764), pintor inglês, autor de uma obra de estética, A Análise da beleza (1753), onde a linha serpenteada é considerada como elemento primordial do belo, superior à linha reta (N.T.).”

A harmonia: “Assim, p.ex., o azul, o amarelo, o verde e o vermelho são diferenças de cor necessárias que residem na própria essência da cor. Nelas não temos apenas desigualdades como na simetria, que se combinam regularmente para a unidade externa, mas contraposições diretas, como a do amarelo e do azul e sua neutralização e identidade concreta.” “A exigência de tal totalidade pode ir tão longe a ponto de, como diz Goethe, o olho, mesmo tendo apenas uma cor enquanto objeto à frente, ver de modo subjetivo igualmente a outra.” “Mas também a harmonia enquanto tal ainda não é a subjetividade e a alma livres e ideais. Nestas a unidade não é mera correspondência recíproca e concordância, mas um pôr-negativo-das-diferenças, mediante as quais se realiza apenas sua unidade ideal. A harmonia não chega a tal idealidade.”

Principalmente os dialetos apresentam sons impuros, sons intermediários como ao.” “as línguas nórdicas freqüentemente deformam o som das vogais por meio de suas consoantes, ao passo que a língua italiana mantém esta pureza e por isso é tão cantante.”

Chama cores primárias de “cores cardinais”. Cores derivadas são “abafadas”.

Até o momento consideramos o belo natural como a 1ª existência do belo; é preciso agora perguntar como o belo natural se distingue do belo artístico.” “por que a natureza é necessariamente imperfeita em sua beleza e de onde brota esta imperfeição?”

A idéia platônica ainda não é o verdadeiramente concreto, pois, apreendida em seu conceito e em sua universalidade, ela já vale como o verdadeiro. Tomada nesta universalidade, porém, ela ainda não se efetivou e não é em sua efetividade o verdadeiro por si mesmo. Ela permanece presa ao mero em-si.”

indigência universal”

Esta é a prosa do mundo, tal como aparece à consciência tanto de um quanto de outro indivíduo, um mundo da finitude e da mutabilidade, do entrelaçamento no relativo e da pressão da necessidade à qual o indivíduo singular não é capaz de se subtrair. Pois cada vivente singular permanece preso à contradição de ser para si mesmo fechado enquanto este ser uno e igualmente depender dos outros; e a luta pela solução da contradição não consegue ultrapassar a tentativa e a continuação da constante guerra.”

#(relativo)OFFTOPIC: O que é o além-homem nietzschiano (da ótica do devir estético humano descrito por Hegel em seus Cursos de Estética)? Pensando em termos de teoria da evolução das espécies segundo Darwin, póstuma a Hegel mas com certeza prefigurada em seus contornos e bastante de seu conteúdo pelo filósofo idealista alemão, o além-homem (tradução melhor para o ambíguo super-homem do português do original “Übermensch”) seria o primeiro animal autodeterminado. Pela primeira vez a seleção do devir da espécie pode ser um adestramento, adestramento de si próprio, a construção de uma humanidade propriamente dita (ainda inexistente), ao contrário da seleção entregue às puras contingências externas. Um projeto de além-homem inclui desde o último homem ou sub-homem (o obstáculo a superar), o homem (espécie de consciência intermediária, os que não são obstáculos reativos e reacionários, mas não são ativos nessa transvaloração dos valores ou conscientes da questão) e os filósofos de vanguarda, entregues à “causa”. Com o decorrer do tempo, num mundo já pós-ocidental (num nível não-concebido por nós, que de certa forma já vivemos num contexto de superação da metafísica ocidental), inclui(rá) o próprio ente que se vê nessa transição epocal (Zaratustras? enunciadores, ainda aquém do além-homem em si) e, finalmente, o próprio além-homem, que não é mais “homem”, mas que só poderá existir pelo esforço do que um dia já foi homem, e provavelmente coexistiria com ele eternamente, qualquer que seja a nova conformação social. Seria como se realmente, sem recorrer a algo transcendental, um sujeito hipostasiado que explique a evolução (em Darwin é a própria cientificidade de sua teoria, p.ex.), pudéssemos ver o peixe, o anfíbio e os (depois dos répteis, evidentemente, até chegar a nossa identidade no reino dos) mamíferos como atores e autores do seu próprio projeto de “viagem do mar à terra”, faces de um mesmo todo. Obviamente, apenas o homem é capacitado para integrar um projeto multifacetado como este (aquilo que deve ser conscientemente superado). A tríade peixe-anfíbio-animal terrestre não passa, em contraposição, de um caos tornado destino, por se localizar em nosso passado, evolução involuntária, impessoal, figuras que não dialogam entre si (precisamente por não discursarem ou dialogarem em absoluto, atributo definidor de “homem”).

A contingência das formas não encontra fim. Por isso, quanto ao conjunto, as crianças são as mais belas, porque nelas ainda estão adormecidas todas as particularidades como num embrião fechado e em silêncio, na medida em que ainda nenhuma paixão limitada revolve seu peito e nenhum dos múltiplos interesses humanos, com a expressão de sua miséria, a[s]fix[i]ou-se firmemente nos traços passageiros. Mas, embora a criança em sua vitalidade apareça como a possibilidade de tudo, faltam a esta inocência igualmente os traços profundos do espírito, que é impelido a exercer-se-a-si-em-si-mesmo e a encontrar direções e fins essenciais.”

[Nossa carência congênita] é a razão porque (sic) o espírito não pode reencontrar a visão e o gozo imediatos desta sua verdadeira liberdade na finitude da existência (…) e, por isso, [busca-se] um terreno superior (…) a arte e sua efetividade ideal.”

conquista[-se] um fenômeno exterior, no qual não mais aparece a indigência da natureza e da prosa, mas uma existência digna da verdade que, por seu lado, permanece em livre autonomia, na medida em que possui sua determinação em si mesma”

TERCEIRO CAPÍTULO. O BELO ARTÍSTICO OU O IDEAL

se perguntarmos em qual órgão particular o todo da alma enquanto alma aparece, indicaremos imediatamente o olho; pois no olho se concentra a alma e ela não apenas olha através dele, mas também é vista nele.”

como exclama Platão no célebre dístico a Aster: [onde encontrar?]

Quisera ser eu o céu, ó minha estrela, quando você olha as estrelas!

Para observá-la do alto com mil olhos!”

Segundo Hegel, a sensibilidade artística, se fosse uma pele, seria uma pele inteiramente revestida por olhos. Não é à toa que quimeras e criaturas mitológicas com um “corpo de cem ou mil olhos” são comuns em praticamente qualquer cultura, transpassando para a vida moderna (The Legend of Zelda – Jabu-Jabu’s Belly –, Hunter x Hunter – Youpi –, e mesmo na figura derivada do corpo-que-é-um-grande-olho de Lord of The Rings – Sauron –, etc.).

Utilizei os exemplos acima antes de ler o trecho seguinte: “a arte transforma cada uma de suas configurações num Argos(*) de mil olhos, para que a alma e a espiritualidade internas sejam vistas em todos os pontos.

(*) (…) filho de Arestor (…) Hera o encarregou de vigiar a vaca Io, mas Hermes, seguindo ordens de Zeus, matou o monstro. Para imortalizar o servidor, Hera tirou-lhe os olhos e os espalhou pela cauda do pavão, ave que lhe era consagrada. (N.T.)”

É algo completamente diferente se o retratista apenas em geral imita a fisionomia tal como se encontra a sua frente em sua superfície e forma exterior silenciosa ou se sabe expor os traços verdadeiros que são a expressão da mais própria alma do sujeito.”

as assim chamadas imagens vivas, que recentemente se tornaram moda, imitam conforme a fins e alegremente obras-primas famosas e reproduzem exatamente o detalhe, o drapê, etc.; mas, para a expressão espiritual das formas, vê-se muitas vezes o emprego de rostos do cotidiano e isso tem um efeito contraproducente.” “As Madonas de Rafael, em contrapartida, nos mostram formas do rosto, da face, dos olhos, do nariz, da boca que, enquanto formas em geral, já são adequadas ao amor materno beato, alegre e ao mesmo tempo piedoso e humilde.”

E se hoje a musa,

A livre deusa da dança e do canto,

Seu antigo direito alemão, o jogo da rima,

Modestamente de novo exige – não a recriminem!

Antes a agradeçam por lançar a imagem sombria

Da verdade no reino sereno da arte,

Por destruir ela mesma, com lealdade,

A ilusão que cria, e não imputar,

Enganosamente, à verdade sua aparência;

Séria é a vida, serena é a arte.”

Schiller

O homem subjugado ao destino [Geschick] pode perder sua vida, mas não a liberdade. Este repouso-sobre-si é o que permite que, ainda na própria dor, se mantenha e se deixe aparecer a serenidade do repouso.”

se não a fealdade, pelo menos a não-beleza (Unschönheit).”

MORBIDEZ QUE PARA HEGEL ERA SUBLIMIDADE: “Embora na arte romântica o sofrimento e a dor atinjam de modo mais profundo o ânimo e o interior [Innere] subjetivo do que nos antigos, nela, todavia, também pode vir à exposição uma interioridade [Innigkeit] espiritual, uma alegria na resignação, uma beatitude na dor e um encanto no sofrimento, mesmo uma voluptuosidade até no martírio. Mesmo na música religiosa-séria italiana este prazer e transfiguração da dor perpassem a expressão da lamentação. [único jeito das frígidas gozarem] No romântico, em geral, esta expressão é o sorriso através de lágrimas.”

Jakob Balde (1604-1688), Cid (em latim, traduzido para todas as línguas român(t)icas). Havia certa confusão nessa época na hora da atribuição do autor (quase todos apontavam os tradutores locais como reais autores da obra, etc.). Esse mesmo cavaleiro Cid, no entanto, parece ter sido uma figura quase tão universal ou pelo menos policultural quanto Fausto.

(*) “Carl Maria von Weber (1786-1826), compositor alemão. O Freischütz (O Franco-atirador) é uma ópera de 1821, baseada na obra de mesmo nome do escritor Johann August Apel (1771-1816). Primeiro sucesso de Weber no domínio da ópera e única de suas obras que permaneceu popular, o Freischütz ilustra bem a tendência romântica ao satanismo, pois o personagem central não é Max, o herói frágil, mas o malvado Kaspar, que vendeu sua alma ao diabo.”

O riso em geral é um desencadeamento explosivo que, contudo, não deve permanecer incontrolado, caso o ideal não deva ser percebido.”

CÂNONES VAGOS E RUINS DE HEGEL: “Sob certo aspecto, o princípio da moderna ironia também possui neste axioma a sua justificação, só que a ironia, por um lado, freqüentemente está destituída de toda seriedade verdadeira e ama principalmente o deleite com objetos ruins; por outro lado, acaba em mera nostalgia do ânimo em vez do agir e do ser efetivos; como Novalis, p.ex., um dos ânimos mais nobres que se encontrava neste terreno, que foi impulsionado ao vazio de interesses determinados, a esta timidez perante a efetividade e, se assim se pode dizer, [não, não pode!], alçado a esta tísica do espírito.” H. nunca escondeu, nessa e noutras obras e coletâneas de aulas, que não nutre lá uma opinião muito favorável de Novalis…

Assim, encontra-se sem dúvida na ironia aquela absoluta negatividade, na qual o sujeito se refere a si-mesmo na aniquilação das determinidades e unilateralidades; mas na medida em que a aniquilação não se refere como no cômico apenas ao que é em-si-mesmo nulo e que se manifesta em seu caráter vazio, mas na mesma medida também a tudo o que é excelente e consistente em-si, a ironia – assim como aquela nostalgia – mantém o aspecto da incompostura interior não-artística.” O erro aqui não está em atribuir “absoluta negatividade” à ironia, nem em qualquer suposto exagero ao atribuir ao sujeito irônico a capacidade da “aniquilação das determinidades e unilateralidades”: está em não dar a devida importância a este niilismo que Hegel sabia descrever mas não destacar ou valorar como necessidade ocidental (para o bem e para o mal).

a arte em geral, e de modo especial a pintura, já se afastaram, mediante outros estímulos, desta mania pelos assim chamados ideais [fala aqui no sentido da arte imitativa dos modernos, emulando o estilo clássico dos antigos] e, em seu caminho, tentaram ao menos alcançar coisas mais substanciais e mais vivas em formas e conteúdo, por meio da renovação do interesse pela pintura mais antiga italiana e alemã, assim como pela pintura holandesa tardia.

Do mesmo modo que ficamos fartos daqueles ideais abstratos, também o ficamos da naturalidade em voga na arte. No teatro, toda a gente está de coração cansado das histórias familiares banais e de sua exposição fiel à natureza. A lamentação dos homens com a mulher, os filhos e filhas, com o soldo, com a subsistência, com a dependência de ministros e intrigas dos camareiros e secretários, e igualmente a dificuldade da mulher com as criadas na cozinha e com os assuntos amorosos e sentimentais – todas estas preocupações e lamúrias cada um encontra de modo mais fiel e melhor em sua própria casa.”

(*) “A escola de Düsseldorf [na qual H. mete o pau inclementemente] constituiu um movimento de amplitude européia (e mesmo americana), cujos integrantes principais foram F. Lessing (1808-1880), autor de quadros históricos, e Ludwig Richter (1803-1884) de Dresden, que possuía um gosto por lendas populares. Mas o seu artista mais importante, que morreu ainda jovem, foi Alfred Rethel (1816-1859), grande ilustrador obcecado pelo tema da morte.”

O DELEITE DO VIRTUAL: “os objetos não nos deleitam porque são de tal modo naturais, mas porque são feitos [gemacht] tão naturalmente.”

o famoso Denner(*) não deve ser tomado como modelo em sua assim chamada naturalidade.

(*) Balthasar Denner (1685-1749), retratista e miniaturista alemão conhecido por sua técnica de representar a natureza de modo exageradamente fiel.”

[na pintura e na escultura moderna, dado nosso vestuário,] as jaquetas e as calças não variam, quer movimentemos os braços e as pernas desse ou daquele modo. No máximo as pregas se esticam de modo diferenciado, mas sempre segundo uma costura firme, como as calças na estátua de Scharnhorst(*).

(*) Gerhard von Scharnhorst (1755-1813), herói militar prussiano.”

falsa imitação da Forma natural“

Os holandeses escolheram o conteúdo de suas representações a partir deles mesmos, do presente [Gegenwar] de sua própria vida, e não se deve censurá-los por terem pela arte efetivado mais uma vez este presente [Präsente].” A Europa já se havia saturado de pinturas cristãs!

O holandês construiu em grande parte ele próprio o terreno onde mora e vive, e é forçado a defendê-lo e mantê-lo continuadamente contra o ataque do mar” “O conteúdo universal de suas imagens é constituído por esta cidadania e vontade de empreendimento nas coisas pequenas e grandes, no próprio país quanto no vasto mar” “Foi neste sentido de nacionalidade robusta que Rembrandt pintou sua famosa Ronda Noturna em Amsterdan, que Van Dyck pintou tantos de seus retratos, Wouwerman suas cenas de cavaleiros, e mesmo aqueles banquetes, jovialidades e festas agradáveis dos camponeses se situam neste contexto.”

Rembrandt, Ronda Noturna

Num sentido semelhante, os meninos mendigos de Murillo (na galeria central de Munique) são primorosos. Considerado segundo o exterior, o objeto aqui também é da natureza comum: a mãe cata piolhos em um dos meninos enquanto ele come seu pão em silêncio; outros dois num quadro semelhante, esfarrapados e miseráveis, comem melancias e uvas. Mas precisamente nesta pobreza e quase nudez brilha interna e externamente nada mais do que a total indiferença e despreocupação; um Dervixe [asceta hindu] não as poderia ter melhor” “Em Paris há um retrato de menino de Rafael: a cabeça está apoiada preguiçosamente sobre o braço e olha com tal beatitude de satisfação destituída de preocupação para o horizonte e para o vazio que não conseguimos parar de observar esta imagem de saúde alegre e espiritual.”

Tais quadros de gêneros, porém, devem ser pequenos e aparecer em todo o seu aspecto sensível como algo insignificante, como algo que já superamos no que diz respeito ao objeto exterior e ao conteúdo. Seria insuportável vê-los executados em tamanho natural e, assim, com a pretensão de que pudessem efetivamente nos satisfazer em sua totalidade.”

Von Rumohr (o “Anti-Winckelmann”), Investigações Italianas, vol. I: “o senhor Rumohr parece acreditar que o prolongamento do abdômen, que Winckelmann em História da Arte da Antiguidade (1764), livro 5, cap. 4, #2, designa como característica dos ideais das formas antigas, é deduzida de estátuas romanas.” “a beleza a mais importante repousa sobre aquele simbolismo das formas, dado na natureza e não-fundado sobre o arbítrio humano”

As formas naturais existentes do conteúdo espiritual devem ser tomadas como simbólicas no sentido universal, já que não valem por si imediatamente” Agora H. melhorou um pouco o tal sr. Rumor!

as esculturas gregas descobertas recentemente como de fato pertencentes a Fídias impõem-se sobretudo pela vitalidade profunda [de fisionomias universais].”

[já] Homero [- em seu meio literário -] pôde descrever o caráter de Aquiles igualmente tanto como duro e atroz quanto como suave e cordial e segundo ainda tantos outros traços d’alma.”

Em pinturas alemãs e holandesas antigas encontra-se freqüentemente reproduzido o mecenas com sua família, mulher, filhos e filhas. Eles devem todos aparecer imersos em devoção, e a religiosidade brilha efetivamente em todos os traços (…) reconhecemos nos homens bravos guerreiros (…) muito experimentados na vida e na paixão, e nas mulheres (…) esposas de semelhante qualidade (…) Se, nestas pinturas, que são famosas no que diz respeito a suas fisionomias verdadeiramente naturais, compararmos estas fisionomias com Maria ou com os santos e apóstolos que estão presentes ao lado, podemos, em contrapartida, ler nestes rostos apenas uma expressão, e todas as formas, a estrutura óssea, os músculos, os traços de repouso e de movimento estão concentrados nesta única expressão. A diferença entre o autêntico ideal e o retrato é dada pelo que apenas se ajusta ao conjunto.”

Agora vem uma chuva de teologia historicista aborrecida pra caralho:

em 1º lugar, a única substância divina se cinde e se dispersa em uma pluralidade de deuses que repousam em si mesmos de modo autônomo, tal como na intuição politeísta da arte grega; e também para a representação cristã o Deus aparece, perante sua unidade puramente espiritual, imediatamente como homem entrelaçado no âmbito do terreno.”

2º lugar: os santinhos do pau oco etc.

3º lugar: o indivíduo (o protestante!) – logo, temos Luteros também na pintura e demais artes

Começa-se a rezar para passar em medicina, etc.

OS FABULOSOS X-OLIMPIANOS: O Olimpo é um gibi da Marvel: termina, se bem que não, pois não lembramos do que aconteceu primeiro e do sucedâneo e do desfecho, i.e., lembramos particularidades, momentos isolados, mas sequer conseguimos pô-los em ordem cronológica. A lógica do pai de Zeus não existe mais!

Mesmo os deuses eternos do politeísmo não vivem em paz eterna. Eles se dividem em facções e lutas com paixões e fins opostos e devem submeter-se ao destino. Mesmo o Deus cristão não está subtraído à passagem pela humilhação do sofrimento, inclusive pelo opróbrio da morte e não é libertado da dor da alma, na qual ele deve gritar: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

a potência consiste apenas em manter-se no negativo de si.” “Pois é pela vontade que o espírito em geral penetra na existência”

H. adoraria o Windows e suas subpastas…

A vingança de Orestes, p.ex., foi justa, mas ele apenas a executou segundo a lei de sua virtude particular, e não segundo o juízo e o direito. – No estado que reivindicamos para a representação artística, o ético e o justo devem, portanto, conservar sem exceção forma individual

arete (heroísmo clássico) vs. virtus (reino da anti-arte)

Ser um romano apenas de modo abstrato e representar na própria subjetividade enérgica apenas o Estado romano, a pátria e sua grandeza e potência: é esta a seriedade e dignidade da virtude romana. Os heróis, em contrapartida, são indivíduos que a partir da autonomia de seu caráter e de seu arbítrio assumem a responsabilidade pelo todo de uma ação e a realizam e junto aos quais o justo e o ético aparecem como modo de pensar singular.”

(*) “Téspio possuía 50 filhas e desejava netos nascidos do herói Hércules. Este se alojava em sua casa e em cada noite encontrava uma bela mulher em seu leito. Possuía-a, pensando tratar-se sempre da mesma. E assim conceberam de sua semente as 50 filhas de Téspio.” Comprem óculos para o filho de Zeus urgente!

HOMERO & PÉRSIA: “Os heróis da antiga poesia árabe também surgem com uma autonomia idêntica, não-ligados a nenhuma ordem estabelecida desde sempre e não como meras partículas desta ordem”

(*) “Xá-namé ou Livros dos Reis, imensa epopéia de 6 mil dísticos composta no séc. X pelo poeta persa Ferdúsi.”

Desta espécie são os heróis da Távola Redonda assim como o círculo dos heróis, cujo ponto central é constituído por Carlos Magno.” “mesmo que Carlos também queira agitar-se como Júpiter no Olimpo, ainda assim eles o abandonam com seus empreendimentos e partem autonomamente para a aventura. O modelo completo para esta relação encontramos mais adiante no Cid.” “Uma imagem semelhante e admirável de autonomia independente oferecem os heróis sarracenos que se mostram para nós numa figura ainda mais áspera. – Mesmo o Reineke Fuchs(*) renova para nós a visão de um semelhante estado.

(*) (…) <epopéia animal>(*) [de Heinrich, 1180]. O gênero, fortemente carregado de crítica social, foi fixado na literatura alemã por um Volksbuch em alto-alemão, publicado em 1544. Goethe compôs um poema épico do mesmo título em 1794.

(*) O leão é decerto sr. e rei, mas o lobo e o urso etc. fazem igualmente parte do conselho.”

A consistência e a totalidade autônoma do caráter heróico não quer dividir a culpa e não sabe nada desta contraposição das intenções subjetivas e do ato objetivo com suas conseqüências, ao passo que na complicação e na ramificação do agir atual cada um recorre a todos os outros e afasta o quanto pode a culpa de si.”

toda uma linhagem sofre pelo primeiro criminoso” “Entre nós, os efeitos dos antepassados não honram os filhos e os netos; os crimes e os castigos daqueles não desonram os descendentes e muito menos podem macular seu caráter (…) mesmo o confisco dos bens familiares constitui um castigo que lesa o sujeito.”

o herói é o que seus pais eram, sofreram, fizeram.”

É preciso imaginar um Hércules kafkiano.

De modo mais preciso, uma época heróica possui então a vantagem diante de um estado mais formado e tardio” “Shakespeare, p.ex., tirou muitas matérias para as suas tragédias de crônicas ou de novelas antigas que falam de um [E]stado que ainda não se desprendeu para uma ordem completamente estabelecida, e sim na qual a vitalidade do indivíduo, em sua resolução e execução, ainda prevalece e é determinante. Seus dramas propriamente históricos possuem um ingrediente principal do histórico meramente exterior e, por isso, estão mais afastados do modo de exposição ideal, embora também aqui os estados e as ações sejam sustentados e elevados por meio da dura autonomia e teimosia dos caracteres.”

AS PASTORAIS: “o idílico vale apenas como um refúgio e diversão do ânimo”

Gessner, Idílios, 1756.

Devemos admirar o genius de Goethe, pelo fato de em Hermann e Dorotéia¹ concentrar-se num âmbito semelhante, na medida em que escolhe uma particularidade estreitamente limitada da vida do presente, mas ao mesmo tempo traz à tona, como pano de fundo e como atmosfera nos quais se move este círculo, os grandes interesses da revolução e da própria pátria, e coloca a matéria por si limitada em relação com os acontecimentos mundiais os mais potentes e abrangentes.”

¹ Peça em verso no melhor estilo Shakes., porém sem rimas brancas! “Epopéia burguesa”.

A arte preferiria narrar a vida dos reis porque neles ainda impera a “a-“lei do mais forte. Obviamente que hoje não se imagina um Zola escrevendo O Germinal com a família real inglesa como pano de fundo…

o Götz(*) de Goethe. A época de Götz e Franz é a interessante época na qual a cavalaria, com a autonomia nobre de seus indivíduos, encontra sua decadência por causa de uma ordem e legalidade objetivas em vias de nascer. A escolha deste contato e desta colisão entre a época heróica medieval e a vida moderna legal, enquanto primeiro tema, testemunha a grande sensibilidade de Goethe. Pois Götz e Sickingen ainda são heróis que, a partir de suas personalidades, coragem e sentido justo e reto, querem regular de modo autônomo os Estados em seus círculos mais estreitos ou mais amplos; mas a nova ordem das coisas leva o próprio Götz à injustiça e o condena a sucumbir. Pois apenas a cavalaria e o sist. feudal são na Idade Média o terreno autêntico para esta espécie de autonomia. – Mas se a ordem legal se constituiu de modo mais completo em sua forma prosaica e se tornou predominante, a autonomia aventureira dos indivíduos cavalheirescos sai de relação e, se ela ainda quer afirmar-se-a-si como o que é unicamente válido, regular a injustiça no sentido da cavalaria e proporcionar ajuda aos oprimidos, ela se torna ridícula como Dom Quixote, tal como descreve Cervantes.

(*) Primeiro drama de G., Götz von Berlichingen é do ano de 1773 e se situa no fim do séc. XV. Seu personagem principal é o cavaleiro Götz; Franz von Sickingen é o seu melhor amigo.”

poderíamos mesmo dar o nome de poesia de ocasião ao Werther.(*) Pois por meio do Werther Goethe elaborou seu próprio dilaceramento e dor interiores do coração, os acontecimentos de seu próprio peito, numa obra de arte, tal como o poeta lírico, em geral, desafoga seu coração e expressa aquilo que o afeta nele mesmo enquanto sujeito.

(*) Die Leiden des jungen Werthers é um célebre romance epistolar de Goethe do ano de 1774, escrito sob a impressão de vivências pessoais com Charlotte Buff em Wetzlar. Sua atmosfera sentimental também é determinada pelo romance sentimental de Rousseau, a Nova Heloísa (1761), e pelo aparecimento dos poemas de Ossian.”

a violação é uma modificação do Estado que, sem ela, é harmônico, modificação que ela mesma deve novamente ser modificada.”

as trilogias dos antigos são continuações no sentido da colisão [o que fundamenta uma violação] surgir do fim de uma obra dramática para uma 2ª obra, que novamente exige sua solução em uma 3ª.” Mas não diga!

a situação plena de colisão é principalmente objeto da arte dramática”

não é possível estabelecer determinações universais da fronteira até a qual a dissonância pode ser impulsionada, uma vez que cada arte segue seu caráter peculiar.” “a poesia tem o direito de prosseguir para o interior até a proximidade do tormento mais extremo do desespero e, no exterior, até a feiúra enquanto tal. Nas artes plásticas, porém, na pintura e mais ainda na escultura, a forma exterior se apresenta firme e permanente, sem novamente ser superada e, assim como os sons da música, logo novamente desaparecer de modo fugaz.”

O direito da sucessão ao trono, enquanto motivo de colisões que aqui se situam, não necessita já estar regulado e estabelecido por si mesmo, porque então o conflito logo se torna de uma espécie inteiramente diferente. Se a sucessão ainda não foi estabelecida por leis positivas e sua ordem vigente, não pode ser considerado como injusto o fato de que tanto o irmão mais velho quanto o irmão mais novo ou um outro parente da casa real devam reinar.” “A inimizade entre irmãos é uma colisão presente em todas as épocas da arte, que já começa com Caim (…) Também no Xá-namé” “Uma colisão semelhante encontra-se na base do Macbeth de Shakespeare. Duncan é rei, Macbeth seu parente próximo mais velho e, por isso, o autêntico herdeiro do trono, ainda antes dos filhos de Duncan. E assim, a 1ª ocasião para o crime de Macbeth também é a injustiça que o rei lhe fez ao nomear seu próprio filho como sucessor do trono. Esta justificação de Macbeth, que se depreende das crônicas, Shakespeare deixou totalmente de lado, porque sua finalidade era apenas salientar o elemento horrendo na paixão de Macbeth, para assim adular o rei Jacó, [?] que deve ter tido algum interesse em ver Macbeth representado como criminoso. Por isso, segundo o tratamento de Shakespeare, permanece imotivado o fato de Macbeth também não matar os filhos de Duncan, e sim permitir a sua fuga e de também nenhum dos grandes lembrar deles.”

SEM ALFA NEM ÔMEGA: “Na casa de Agamenon, Ifigênia reconcilia em Táurida a culpa e o infortúnio da casa. Aqui o início constituiria a salvação de Ifigênia por Diana que a leva a Táurida; esta circunstância, porém, é apenas a seqüência de outros acontecimentos, a saber, do sacrifício em Áulis que novamente é condicionado pela ofensa de Menelau, de quem Páris rapta Helena e assim sucessivamente até o famoso ovo de Leda. Igualmente a matéria que é manuseada na Ifigênia em Táurida contém de novo como pressuposto o assassínio de Agamenon e toda a seqüência de delitos na casa de Tântalo. Algo semelhante se passa com o ciclo mitológico tebano.” “tal execução já se tornou algo enfadonho e foi considerada como questão da prosa, em vista de cuja minúcia se estabeleceu como lei da poesia a exigência de conduzir o ouvinte imediatamente in media res [ao meio das coisas].” “Homero começa na Ilíada imediatamente, de modo determinado, com a questão que lhe importa, a raiva de Aquiles, e não relata antes os acontecimentos precedentes ou a história da vida de Aquiles, e sim nos oferece imediatamente o conflito específico e, na verdade, de um modo que um grande interesse constitui o pano de fundo de seu quadro.”

P. 214: O erro sobre Antígona apontado por Jaeger.

Shakespeare nos apresenta em Lear o mal em toda a sua atrocidade. O velho Lear divide o reino entre suas filhas e é tão insensato a ponto de confiar nas palavras falsas e aduladoras delas e ignorar a muda e fiel Cordélia. Tal coisa já é por si insensata e demente, e assim a ignominiosa ingratidão e indignidade das filhas mais velhas e de seus maridos o levam à loucura efetiva.”

tanto a livre autonomia dos deuses quanto a liberdade dos indivíduos agentes encontram-se colocadas em perigo.” “o espírito de Deus conduz a Deus. Mas então o interior humano pode aparecer como o terreno meramente passivo sobre o qual atua o espírito de Deus” “Mesmo grandes poetas não conseguiram manter-se livres da exterioridade recíproca entre os deuses e os homens.” Deus ex machina: Freeza tem de perder, e o show tem de continuar…

Quando ouvimos nos antigos que Vênus ou Amor forçaram o coração, Vênus e Amor são inicialmente sem dúvida forças externas ao ser humano, mas o amor é do mesmo modo um movimento e uma paixão que pertence ao peito humano enquanto tal e constitui seu próprio interior.” “Esta interrupção interior da ira, este freio que é um poder estranho à ira, o poeta épico tem aqui o pleno direito de expor como um acontecimento externo, porque Aquiles aparece de início inteiramente apenas tomado pela ira.”

Goethe realizou em sua Ifigênia em Táurida o que há de mais admirável e belo a este respeito.” (*) “…indicamos a tradução de Carlos Alberto Nunes

Senhora Atena, quem ouvindo os deuses não os obedece não tem juízo. Pois como poderia ser bela a luta com os deuses poderosos?”

O personagem Toas de Eurípides

Que Goethe seja superior a Eurípides, não se depreende que seja o suficiente para a modernidade se arrogar a coroa, Hegel! De fato não é tão meritório “ser superior a Eurípides”, como que um coadjuvante esforçado no seu contexto!

Hat denn zur unerhörten Tat der Mann „Apenas o homem tem, pois, direito

Allein das Recht? drückt denn Unmögliches ao ato inaudito? Apenas ele imprime

Nur er an die gewaltge Heldenbrust?“ a impossibilidade no valente peito heróico?”

Du glaubst, es höre

Der rohe Skythe, der Barbar, die Stimme

Der Wahrheit und der Mesnchlichkeit, die Atreus,

Der Grieche, nicht vernahm?“

Bringst du die Schwester, die auf Tauris‘ Ufer

Im Heilligtume wider Willen bleibt,

Nach Griechenland, so löset sich der Fluch“

Gleich einem heilgen Bilde,

Daran der Stadt unwandelbar Geschick

Durch ein geheimes Götterwort gebannt ist,

Nahm sie dich weg, dich Schützerin des Hauses;

Bewahrte dich einer heilgen Stille

Zum Segen deines Bruders und der Deinen.

Da alle Rettung auf der weiten Erde

Verloren schien, gibst du uns alles wieder.“

In deinen Armen fasste

Das Übel mich mit allen seinen Klauen

Zum letztenmal und schüttelte das Mark

Entsetzlich mir zusammen; dann entfloh’s

Wie eine Schlange zu der Höhle. Neu

Geniess ich num durch dich das weite Licht

Des Tages.“

Pior do que nas matérias antigas se encontra a situação nas matérias cristãs.” Nisso sim há um mérito gigantesco da Era Goethe: mais, mais claridade solar do Pagão!

Objetou-se a Shakespeare por causa desta ausência de atividade, e se o recriminou porque a peça do Hamlet parecia em parte não querer sair do lugar. Hamlet é, porém, uma natureza fraca em termos práticos, um belo ânimo retraído-em-si-mesmo, que dificilmente consegue decidir-se a sair desta harmonia interna; é melancólico, pensativo, hipocondríaco e meditativo, e, por isso, não-inclinado a um ato rápido; tal como também Goethe insistiu na representação que S. teria querido descrever: [Wilhelm Meister] impôs um grande ato sobre uma alma que não estava à altura do ato. E neste sentido ele encontra a peça completamente elaborada.” “Hamlet vacila porque não acredita às cegas no espírito.” “Vemos aqui que a aparição [duplo sentido: a idéia da vingança e o ectoplasma de seu pai] enquanto tal não dispõe de Hamlet sem resistência, mas ele duvida e quer alcançar a certeza pelos próprios meios, antes de empreender o agir.”

As potências universais, por fim, que não se apresentam apenas por si em sua autonomia, mas estão igualmente vivas no peito humano e movem o ânimo humano no seu ser mais íntimo, podemos designar, segundo os antigos, com a expressão pathos. Esta palavra é de difícil tradução, pois <paixão> (Leidenschaft) sempre subentende aquilo que é mesquinho, baixo, ao passo que exigimos do ser humano que ele não permaneça preso às paixões (Leidenschaftlichkeit). (…) [o] pathos [não é] repreensível nem teimoso.”

o sagrado amor fraterno de Antígona é um pathos

Orestes, p.ex., mata sua mãe não baseado numa paixão, e sim o pathos o impulsiona”

Quanto a isso, também não podemos dizer que os deuses possuem pathos.” Pois os deuses são estóicos involuntários! Cada deus olímpico é na verdade uma das emoções autônomas do pathos que necessitam do veículo humano.

O pathos constitui, pois, o verdadeiro ponto central, o autêntico domínio da arte; a exposição dele é o que principalmente atua e produz efeito na obra de arte assim como no espectador. Pois o pathos toca numa corda que ressoa em cada peito humano” “O pathos move porque é a potência-em-si-e-para-si na existência humana.”

A comoção (Rührung), em termos gerais, é com-moção [Mitbewegung] enquanto sentimento, e os seres humanos, principalmente hoje em dia, são em parte fáceis de comover.”

O Timon shakespeariano é um misantropo inteiramente exterior; os amigos comeram às custas dele, dilapidaram sua fortuna e quando ele mesmo precisou de dinheiro o abandonaram. A partir disso, torna-se um inimigo apaixonado dos homens. Tal coisa é concebível e natural, mas não é nenhum pathos legítimo. Na obra juvenil de Schiller, O Misantropo, o ódio semelhante é ainda uma mania (Grille) moderna. Pois aqui o inimigo da humanidade é um homem de reflexão, pleno de conhecimentos e sumamente nobre, generoso com seus camponeses, os quais libertou da servidão, e cheio de amor para com sua filha tanto bela quanto digna de ser amada. De modo semelhante é que Quinctius Heymeran von Flaming se atormenta no romance de August Lafontaine com o capricho das raças humanas.”

Os antigos estavam acostumados a explicitar em sua profundidade o pathos que anima os indivíduos, sem por meio disso cair em reflexões frias ou em palavrório. Também os franceses são a este respeito patéticos (pathetisch) e sua eloquência da paixão não é sempre apenas um mero revolvimento de palavras, tal como muitas vezes nós alemães, no retraimento de nosso ânimo, o consideramos, na medida em que a vasta expressão do sentimento aparece para nós como uma injustiça imputada ao sentimento. Houve neste sentido, na Alemanha, uma época da poesia, na qual principalmente os ânimos jovens, saturados da retórica agu[a]da [aguada no original!] francesa e exigindo naturalidade, chegaram, pois, a uma força que principalmente se expressava apenas em interjeições. A questão não se resolve, todavia, com o mero ah! e oh! ou com a maldição da ira, com o arremessar-se e com o exceder-se. A força de meras interjeições é uma má força e o modo de manifestação de uma alma ainda rude. O espírito individual, no qual o pathos se expõe, deve ser um espírito pleno em si mesmo, capaz de se expandir.”

Goethe é menos patético do que Schiller” “seus cantos deixam perceber o que pretendem, sem se explicitarem completamente.”

De modo semelhante, Claudius (1740-1815), no Mensageiro de Wandsbecker (vol. I), contrapôs Voltaire e Shakespeare, de modo que um é o que o outro parece: <Mestre Arouet diz: eu choro; e Shakespeare chora>. Mas é justamente em torno do dizer e do parecer que se trata na arte. Se Shakespeare literalmente apenas chorasse, seria um mau poeta.”

o pathos na atividade concreta é o caráter humano.”

A um ser humano verdadeiro pertencem muitos deuses, e ele guarda em seu coração todas as potências que estão dispersas no círculo dos deuses” Mal posso acreditar que este é H.!

Com efeito, quanto mais cultos eram os gregos, tanto mais deuses eles possuíam, e seus deuses mais antigos eram embotados, não-configurados (herausgestaltet) para a individualidade e determinidades.”

Em Homero, cada herói é todo um âmbito total e vital de propriedades e traços de caráter.”

Com Aquiles podemos dizer: isto é um homem!”

Em contrapartida, que individualidades rasas, pálidas, mesmo se também vigorosas, são o córneo Siegfried, o Hagen de Tronje e mesmo Volker, o menestrel!”

Um outro modo da falta de postura do caráter constituiu-se, principalmente em produções alemãs recentes, na fraqueza interior do sentimentalismo, que na Alemanha reinou por tempo suficiente. Como primeiro exemplo famoso deve ser mencionado o Werther” “A bela alma (Schönseelichkeit) de Jacobi, em seu Woldemar, [também] se insere neste caso.”

A pedantice e a impertinência de não ser capaz de suportar pequenas circunstâncias e inépcias – que, porém, um grande e forte caráter supera incólume –, ultrapassa qualquer representação, e justamente a coisa mais insignificante leva tal ânimo ao supremo desespero.”

De uma outra maneira, esta deficiência na solidez substancial interior do caráter também foi desenvolvida de modo que tais magnificências superiores esquisitas do ânimo fossem inversamente hipostasiadas e apreendidas como potências autônomas. Aqui se situam a magia, o magnetismo, o demoníaco, a fantasmagoria-elefante do visionário, a doença do sonâmbulo, etc.” “as potências escuras devem justamente ser banidas do âmbito da arte, pois nela não há nada de escuro, e sim tudo é claro e transparente, e com estes presbitismos [hipermetropia] apenas é dada a palavra à doença do espírito e a poesia é lançada no nebuloso, no vaidoso e no vazio, do qual nos fornecem exemplos Hoffmann e Heinrich von Kleist, este em seu Príncipe de Homburg. O caráter verdadeiramente ideal não tem nada vindo do além e de fantasmagórico, e sim tem por seu conteúdo e pathos interesses efetivos, nos quais ele está consigo mesmo. Principalmente a clarividência tornou-se trivial e comum na poesia recente. No Wilhelm Tell de Schiller, em contrapartida, quando o velho Attinghausen, no momento da morte, proclama o destino da sua pátria, tal profecia é empregada em lugar oportuno.”

Hamlet é em si mesmo certamente indeciso, mas não tem dúvida pelo que tem de realizar e sim pelo como tem de realizar algo. Agora, contudo, há quem também transforme os caracteres de Shakespeare em fantasmas e pense que a nulidade e a insuficiência na oscilação e na mudança de posição, que este disparate, deve justamente interessar por si mesmo. Mas o ideal consiste no fato de que a Idéia é efetiva, e a esta efetividade pertence o ser humano enquanto sujeito e, desse modo, como ser uno firme-em-si-mesmo.”

À existência efetiva do ser humano pertence um mundo circundante, assim como à estátua do deus pertence um templo.”

A arte deve nos liberar (…) da espirituosidade (Witz) [esperteza] que o ser humano está acostumado a esbanjar no campo social.” “Esta aparência de idealidade, contudo, é em parte apenas uma abstração nobre da subjetividade moderna [COVARDIA], à qual falta a coragem de travar relações com a exterioridade; em parte é também uma espécie de violência que o sujeito se impõe para colocar-se fora deste círculo por-meio-de-si-mesmo, se já não está em-si-e-para-si alçado acima desse círculo por meio do nascimento, estamento e situação.”

não é o conteúdo espiritual, a alma concreta do sentimento, que nos fala pelos sons; muito menos é o som enquanto som que nos move no mais íntimo; e sim é esta unidade abstrata introduzida pelo sujeito no tempo que ressoa na mesma unidade do sujeito.”

os pintores antigos destinavam as cores fundamentais, em sua pureza, às vestimentas das pessoas principais, e as cores misturadas às figuras secundárias (Nebengestalten). Maria geralmente usa um manto azul, pelo fato do repouso suavizante do azul corresponder à quietude e suavidade interiores; mais raramente ela usa um vestido em vermelho vivo.”

Na pintura as cores não devem ser impuras e cinzentas, e sim claras, determinadas e em si mesmas simples.”

QUE SACO A ARTE MODERNA! “Igualmente o som da voz humana deve desenvolver-se pura e livremente a partir da garganta e do peito, sem deixar o órgão vibrar junto ou, como é o caso em sons mais roucos, sem deixar notar de modo perturbador qualquer impedimento não-superado.”

Homero, embora não forneça descrições da natureza, é, em suas designações e referências, tão fiel e nos fornece uma intuição tão exata de Scamandro, do Simois, das costas, das baías, que ainda hoje pôde ser situada geograficamente a mesma paisagem concordando com a sua descrição.”

Também os mestres cantores, quando colocam em verso antigas histórias bíblicas e têm Jerusalém como local, nada oferecem a não ser o nome. No Livros dos Heróis algo parecido acontece; Ortnit cavalga entre os pinheiros, luta com o dragão, sem ambiente humano, lugares definidos, etc., de modo que nesta relação não é oferecido praticamente nada à intuição. Mesmo na canção dos Nibelungos não é diferente; ouvimos certamente algo sobre Worms, o Reno e o Danúbio; mas também aqui fica-se preso ao indeterminado e árido.”

Na direção oposta, a lírica expõe de modo predominante apenas o ânimo interior, e não necessita, desse modo, quando acolhe o exterior, mostrá-lo para uma visão tão determinada.”

a pintura, segundo sua natureza, penetra a este respeito mais do que qualquer outra arte, principalmente no particular.” O problema do cinema foi potencializar isso 10 vezes.

O árabe é uno com sua natureza e apenas pode ser compreendido com seu céu, suas estrelas, seus desertos quentes, suas tendas e cavalos.”

Na estátua de Palas em Atenas e de Zeus em Olímpia não foi economizado ouro e marfim; em quase todos os povos os templos dos deuses, as igrejas, as imagens dos santos, os palácios dos reis dão um exemplo de esplendor e luxo, e desde sempre as nações se alegraram por ter, em suas divindades, sua própria riqueza diante dos olhos, assim como se alegraram com o luxo dos príncipes, pelo fato de tal coisa existir e decorrer de seu meio. [MORAL DE ESCRAVOS] Podemos sem dúvida perturbar um tal gozo por meio dos assim chamados pensamentos morais, se estabelecermos a reflexão de quantos atenienses pobres poderiam ter sido saciados com o manto de Palas, de quantos escravos poderiam ter sido resgatados; e em momentos de grandes necessidades do Estado tais riquezas também nos antigos foram empregadas para fins úteis, tal como hoje entre nós são empregados os tesouros de mosteiros e igrejas.” “rememoramos a necessidade e a carência, cuja eliminação é justamente exigida pela arte, de modo que para cada povo apenas pode redundar em fama e honra suprema a doação de seus tesouros a uma esfera que se eleva prodigamente sobre todas as necessidades comezinhas.”

O primeiro modo segundo o qual a arte procurou remover todas estas esferas constitui a representação de uma assim chamada época de ouro ou também de um estado idílico.” “[Mas o]s escritos de Gessner, p.ex., são hoje pouco lidos, e se os lemos não podemos neles nos sentir em casa.” “O ser humano não deve viver em tal pobreza espiritual idílica, ele deve trabalhar.”

Dante nos apresenta de modo comovedor apenas em poucos traços a morte por inanição de Ugolino. Quando Gerstenberg(*) em sua tragédia de mesmo nome descreve amplamente, passando por todos os graus do horror, como primeiramente os 3 filhos e por fim o próprio Ugolino morrem de fome, trata-se de uma matéria que repugna completamente à exposição artística.

(*) Heinrich Wilhelm von Gerstenberg. Foi este autor dinamarquês, de grande influência sobre Klopstock, que <lançou> Shakespeare e Homero na Alemanha em torno de 1760. (N.T.)”

Surge, em meio a esta formação industrial e exploração recíproca de um pelo outro a utilização dos demais indivíduos, em parte a mais dura crueldade da pobreza, em parte, se a necessidade deve ser afastada, os indivíduos devem aparecer como ricos, de tal (sic) como que ficam livres do trabalho para suas necessidades e podem entregar-se a interesses superiores.”

Ou somos artesãos angustiados ou não vivemos em casa, embora tranquilos e apáticos.

[N.T. #73] “Johan Heinrich Voss (1751-1826), tradutor de Homero, autor de epopéias idílicas em hexâmetros, ricas em descrições quase realistas da vida cotidiana. A Luise é de 1783.”

Ora, café e açúcar são produtos que não poderiam ter saído de um tal círculo e imediatamente apontam para uma conexão totalmente diferente, para um mundo estranho e suas múltiplas mediações do comércio, das fábricas, em geral, da moderna indústria.” Ora, está dizendo que a arte se subordina ao comércio! Linhas depois justifica o mesmo procedimento quando empregado por Goethe. Assaz previsível.

Os poemas homéricos, tenha Homero efetivamente vivido ou não como o único poeta da Ilíada e da Odisséia, estão pelo menos 4 séculos separados da época da guerra de Tróia e um espaço de tempo 2x maior ainda separa os grandes trágicos gregos dos dias dos antigos heróis, dos quais transportam o conteúdo de sua poesia ao seu presente.”

as obras de arte autênticas, imortais, permanecem desfrutáveis para todas as épocas e nações, mas mesmo então é preciso, para a sua completa compreensão por povos e séculos estranhos, um vasto aparato de notícias, de conhecimentos e de informações geográficas, históricas e até mesmo filosóficas.”

Encontramos de modo mais forte esta espécie de ingenuidade puramente nostálgica e hermética em Hans Sachs que, certamente com um frescor da intuição e um ânimo alegre, <nüremberguizou>, no sentido mais próprio, Nosso Senhor Deus Pai, Adão, Eva e os patriarcas. Deus Pai, em certo momento, instrui e dá uma aula para Abel, Caim e os outros filhos de Adão, assumindo completamente a maneira e o tom de um mestre de escola daquela época; ele os catequiza sobre os 10 mandamentos e o pai-nosso; Abel sabe tudo muito bem e mostra-se piedoso; Caim, porém, se comporta mal e responde como um rapaz perverso e ateu (…) Pilatos aparece como um magistrado malcriado, rude e soberbo; os soldados, totalmente segundo a vulgaridade de nosso tempo, oferecem tabaco para Cristo na cruz; ele despreza e então eles enfiam o rapé com violência pelas narinas e todo o povo encontra nisso sua diversão, por ser totalmente piedoso e devoto; inclusive, tanto mais devoto quanto mais o interior da representação religiosa se torna para eles vivo nesta presencialidade imediata” “nada mais se mostra a não ser uma contradição burlesca.”

#IDÉIA: Escrever uma fan fiction – livre transposição moderna – do episódio do homicídio fraterno de Caim, em que ele não logra êxito. Pois Abel é um desconfiado hipocondríaco dos nossos tempos, enquanto que Caim, um assassino hesitante, um Raskholnikov. Desta feita, não só Caim, se lograsse êxito, não suportaria a culpa, como na realidade Abel consegue antever os passos de seu algoz de berço e ou foge ou mata o ainda-não-assassino em legítima defesa, e pela legítima defesa ser um argumento jurídico válido em nossa época é que Deus o perdoa.

Voltaire foi injusto ao dizer que os franceses melhoraram as obras dos antigos; eles apenas as nacionalizaram, e nesta transformação procederam com tanto mais antipatia infinita com tudo o que era estrangeiro e individual à medida que seu gosto exigia uma formação social perfeitamente cortês, uma regularidade e universalidade convencional do sentido e da representação. A mesma abstração de uma formação delicada eles também transferiram para a dicção. Nenhum poeta podia dizer cochon ou mencionar colher e garfo e milhares de outras coisas. Em vez de colher ou garfo, dizia-se um instrumento com o qual se leva alimentos líquidos ou sólidos à boca e outras coisas do gênero. Mas justamente por isso seu gosto permaneceu sumamente limitado.

Por isso foram os franceses os que menos puderam se dar bem com Shakespeare e, quando se dedicavam a ele, sempre eliminavam justamente o que para nós alemães teria sido nele o mais agradável.”

E assim, em suas obras de arte também os chineses, americanos ou heróis gregos e romanos deviam falar e se portar totalmente como cortesãos franceses. O Aquiles da Ifigênia em Áulida é um príncipe francês completo, e se não fosse pelo nome ninguém encontraria nele um Aquiles. No teatro, ele certamente estava vestido como grego e guarnecido com o escudo e a couraça, mas ao mesmo tempo com os cabelos penteados e polvilhados, as ancas alargadas por almofadas e com saltos vermelhos nos sapatos amarrados com fitas coloridas.”

De acordo com um princípio semelhante, na França freqüentemente não se pratica a historiografia em vista dela mesma e de seu objeto, mas por causa dos interesses de época, para poder fornecer boas doutrinas ao governo ou para torná-las odiosas.”

(*) “August Kotzebue (1761-1819), autor de peças de divertimentos particularmente insípidas: foi assassinado em 23/03/1819 por um estudante seguidor de Hegel, cujo assassinato ocasionou a publicação dos <decretos de Karlsbad> e uma onda de repressão antiliberal que ameaçou o próprio Hegel.”

ao contrário dos franceses, somos em geral os arquivadores os mais cuidadosos de todas as particularidades estrangeiras e, por isso, também na arte requeremos fidelidade à época, ao lugar, aos usos, às vestimentas, às armas. Tampouco nos falta a paciência para estudar, mediante esforço árduo e erudição, o modo de pensar e intuir das nações estrangeiras e de séculos longínquos”

cachorros e gatos, e até mesmo objetos repugnantes, nos são agradáveis”

síndrome de Schlegel

não há nada de mais vazio e frio do que quando nas óperas se diz: Ó deuses!, Ó Júpiter! ou mesmo Ó Ísis e Osíris! – e ainda mais quando se acrescenta a miséria dos oráculos – e raramente eles não aparecem nas óperas –, em cujo lugar apenas agora surgem na tragédia a loucura e a clarividência.”

Na canção dos Nibelungos, estamos certamente, em termos geográficos, sob terreno familiar, mas os burgúndios e o rei Átila estão tão distantes de todas as relações de nossa formação atual e seus interesses pátrios que mesmo sem erudição podemos nos sentir muito mais familiarizados com os poemas homéricos. Assim, Klopstock certamente foi motivado por meio do impulso como que pátrio a colocar os deuses escandinavos no lugar da mitologia grega, mas Wodan, Walhalla e Freia permaneceram meros nomes, que pertencem ainda menos do que Júpiter e Olimpo à nossa representação ou falam ainda menos do que eles ao nosso ânimo.”

Sófocles não deixava que Filoctetes, Antígona, Ájax, Orestes, Édipo e seus corifeus e coros falassem tal como falariam em sua época. De modo idêntico os espanhóis possuem os seus romances do Cid; Tasso canta em sua Jerusalém Libertada a questão universal da cristandade católica; Camões descreve a descoberta do caminho para as Índias Orientais em torno do Cabo da Boa Esperança e os feitos em si mesmos infinitamente importantes dos heróis marítimos, e estes feitos eram os de sua nação; Shakespeare dramatizou a história trágica de seu país e o próprio Voltaire a sua Henriade.”

A Noachida de Bodmer (1698-1783) e o Messias de Klopstock estão fora de modo, como também não vale mais a opinião de que pertence à honra de uma nação possuir também seu Homero e, além disso, seu Píndaro, Sófocles e Anacreonte.”

A ninguém ocorreria hoje fazer um poema a Vênus, Júpiter ou Palas.”

Nas peças históricas de Shakespeare há muita coisa que permanece para nós estranha e pouco pode nos interessar. Na leitura ficamos certamente satisfeitos com isso, no teatro não.”

Quando Falstaff fala de pistolas, isto é indiferente. Mais sério, porém, é quando Orfeu se mostra com um violino na mão, na medida em que aqui a contradição entre os dias míticos e um tal instrumento moderno, do qual cada um sabe que em épocas tão antigas ainda não havia sido inventado, se apresenta de modo muito forte.”

muitos procuram, em vão, mesmo nas mais belas canções de amor, seus próprios sentimentos e, por isso, declaram a exposição como igualmente falsa, ao passo que outros, que apenas conhecem o amor pelos romances, acreditam não serem amados na efetividade até que reencontram em-si-mesmos, em-torno-de-si, os sentimentos e situações completamente iguais àqueles dos romances.”

fantasia criadora X imaginação passiva

Ele deve ter visto muito, ouvido muito e conservado muito em si mesmo, como em geral os grandes indivíduos quase sempre se distinguem por uma grande memória.”

(*) “Begeisterung na tradição latina também é traduzida por ‘inspiração’. Preferimos entusiasmo apoiando-nos, neste caso, no sentido grego do enthousiasmos enquanto <exaltação criadora> (N.T.).”

A primeira exigência constitui este dom e interesse de uma apreensão determinada do que é efetivo em sua forma real bem como a retenção do que foi intuído. Inversamente, é preciso unir ao conhecimento da forma exterior a familiaridade com o interior do ser humano, com todos os fins do peito humano” “ele deve ter refletido sobre o essencial e verdadeiro, segundo toda a sua amplitude e toda a sua profundidade. (…) em toda grande obra de arte também se percebe que a matéria foi por muito tempo e profundamente ponderada e meditada segundo todas as direções.”

seu coração já deve ter sido golpeado e movido em profundidade (…) o genius certamente efervesce na juventude, como foi o caso com Goethe e Schiller, mas somente a idade madura e avançada pode levar a uma completude a autêntica maturidade da obra de arte.”

genius X talento; ou genius & talento

o talento sem o gênio não consegue ir muito além da habilidade exterior.”

Os absolutos primeiros poemas de Goethe: Canto de Maio, Boas-Vindas e Adeus.

Fauriel (filólogo, 1772-1844) publicou uma coletânea de cantos dos gregos modernos, em parte tomado da boca das mulheres, amas e criadas, as quais não conseguiam parar de se admirar pelo assombro que ele demonstrava por seus cantos.”

Um italiano ainda hoje improvisa dramas de 5 atos e isso sem ter decorado nada, mas tudo nasce do conhecimento das paixões e situações humanas e do entusiasmo profundamente atual.”

Aquele que apenas se propõe a ser entusiasmado para fazer um poema ou pintar um quadro e inventar uma melodia, sem trazer já em-si-mesmo algum conteúdo como estímulo vivo, e necessita primeiramente procurar aqui e ali por uma matéria, ele ainda não produzirá (fassen), a partir desta mera intenção, não obstante todo o talento, nenhuma bela concepção ou não será capaz de produzir uma obra de arte consistente.”

Inspiração como diferente, mais que a soma de vontade, determinação, sensibilidade.

Porém a inspiração retém, quando quer que ela se manifeste. Não é como se a janela de oportunidade do bom artista fosse tão estreita.

As odes encomiásticas de Píndaro nasceram muitas delas por encomenda. Igualmente por infinitas vezes a finalidade e o objeto para os edifícios e os quadros foram propostos aos artistas” “Inclusive ouvimos freqüentemente entre os artistas a queixa de que lhes faltam as matérias [os gatilhos] que poderiam trabalhar.”

Shakespeare se inspirava por lendas, antigas baladas, novelas e crônicas”

Se questionarmos a seguir em que consiste o entusiasmo artístico, veremos que ele nada mais é do que ser preenchido completamente pela coisa, estar totalmente presente na coisa e não descansar até o momento em que a forma artística estiver exprimida e em-si-mesma acabada.”

mau entusiasmo”

(*) “Jean Paul Friedrich Richter (1763-1825), denominado Jean-Paul, uma das mais importantes figuras do romantismo alemão, autor de sátiras, idílios humorísticos e grandes romances (Hesperus, Flegeljahre, Titan) bem como de uma obra de estética, Vorschule der Ästhetik (Curso Elementar de Estética), 1804, na qual desenvolve uma teoria do humor como <inversão sublime>. (N.T.)”

Não possuir nenhuma maneira foi desde sempre a única grande maneira, e somente neste sentido Homero, Sófocles, Rafael e Shakespeare hão de ser chamados originais.”

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

GLOSSÁRIO ALEMÃO (& FRANCÊS) RESIDUAL:

Anschaubarkeit: intuitibilidade

Beschlossenheit: fechamento :: closure

Entzweiung: cisão

être en negligé: interessante faceta do idioma francês – literalidade que passa ao simbólico – para se dizer “estar em roupão”, i.e., em negação!

Geistererscheinung: aparição de espíritos

Hinaussetzen: situar-se fora

seinsollende: dever-ser

Spaltung: discórdia

Tüchtigen: consistência

verleiblichte: encarnado

Verwicklung: trama

O QUE É O ALÉM-HOMEM NIETZSCHIANO, DESCRITO DA ÓTICA DO DEVIR ESTÉTICO HUMANO DOS ‘CURSOS DE ESTÉTICA’ DE HEGEL?

Pensando em termos de teoria da evolução das espécies segundo Darwin, póstuma a Hegel mas com certeza prefigurada em seus contornos e bastante de seu conteúdo pelo filósofo idealista alemão, o além-homem (tradução melhor para o ambíguo super-homem do português do original “Übermensch”) seria o primeiro animal autodeterminado. Pela primeira vez a seleção do devir da espécie pode ser um adestramento, adestramento de si próprio, a construção de uma humanidade propriamente dita (ainda inexistente), ao contrário da seleção entregue às puras contingências externas. Um projeto de além-homem inclui desde o último homem ou sub-homem (o obstáculo a superar), o homem (espécie de consciência intermediária, os que não são obstáculos reativos e reacionários, mas não são ativos nessa transvaloração dos valores ou conscientes da questão) e os filósofos de vanguarda, entregues à “causa”. Com o decorrer do tempo, num mundo já pós-ocidental (num nível não-concebido por nós, que de certa forma já vivemos num contexto de superação da metafísica ocidental), inclui(rá) o próprio ente que se vê nessa transição epocal (Zaratustras? enunciadores, ainda aquém do além-homem em si) e, finalmente, o próprio além-homem, que não é mais “homem”, mas que só poderá existir pelo esforço do que um dia já foi homem, e provavelmente coexistiria com ele eternamente, qualquer que seja a nova conformação social. Seria como se realmente, sem recorrer a algo transcendental, um sujeito hipostasiado que explique a evolução (em Darwin é a própria cientificidade de sua teoria, p.ex.), pudéssemos ver o peixe, o anfíbio e os (depois dos répteis, evidentemente, até chegar a nossa identidade no reino dos) mamíferos como atores e autores do seu próprio projeto de “viagem do mar à terra”, faces de um mesmo todo. Obviamente, apenas o homem é capacitado para integrar um projeto multifacetado como este (aquilo que deve ser conscientemente superado). A tríade peixe-anfíbio-animal terrestre não passa, em contraposição, de um caos tornado destino, por se localizar em nosso passado, evolução involuntária, impessoal, figuras que não dialogam entre si (precisamente por não discursarem ou dialogarem em absoluto, atributo definidor de “homem”).

O LEGADO DE GEORG GRODDECK: Genuinidade e Originalidade (mestrado em Psicossomática e Psicologia Hospitalar, PUC/SP, 2009, 1ª versão) – Maria Consuelo da Costa Oliveira e Silva

Escrita péssima! Mais abaixo entrarei em pormenores!

INTRODUÇÃO

O que é Psicossomática?

Como uma primeira tentativa de responder esta questão, a autora deu início ao Mestrado na área de Psicossomática e Psicologia Hospitalar. A partir deste momento, passou a se aprofundar em alguns autores, citados como referência nesta temática: Joyce McDougall, Pierre Marty, Rosine Debray, Franz Alexandre, (sic) entre outros. Porém, um autor em particular chamou a atenção, não só por ser um autor considerado como o ‘Pai da Psicossomática’, mas também, e principalmente, por sempre vê-lo citado como referência pelos autores acima mencionados.”

Os estudantes foram maçados com fórmulas e hipóteses que precisavam esquecer para poderem ajudar os seus doentes” GG

Médico, ou o Açougueiro

Este autor é de quem FRAUD tomou emprestado por sua vez o termo ‘Id’, porém caracterizando-o a seu gosto e deformando-o para que se encaixasse em suas idéias. Groddeck não pode tolerar isto e se afasta da psicanálise.” Editado onde é óbvio.

Tese baseada em fontes primárias mas que não consulta as fontes primárias (apenas traduções dos originais em alemão)!

Diferente de Freud, que estava fortemente influenciado pelas ciências naturais e seu determinismo, reducionismo e mecanicismo, Groddeck estava impregnado pelo Romantismo.” Aleksandar Dimitrijevic, 2008erro crasso: Henri Ellenberger e eu sabemos o quanto FRAUD é tributário do Romantismo em ainda mais alto grau (ampliando seus defeitos e aporias). Isso será repisado na seqüência.

Em 1909, Groddeck profere um ciclo de conferências, ‘Rumo ao Deus-Natureza’ e o nome de Goethe é mencionado como alguém que disse: Deve-se considerar cada coisa como parte de um todo. Observem o todo na parte, e a parte no todo. […] Goethe foi maior como pesquisador da natureza do que como poeta. (GRODDECK, 2001, p. 26).”

W.G., Bei Betrachtung von Schillers Schädel

Agora a atenção se desloca para outro autor, Carl Gustav Carus (médico e paisagista), não citado por Groddeck, autor de um livro sobre Goethe (1843) e cartas a respeito de Fausto (1835).”

Carus, Lições sobre psicologia

C., Psyche, Zur Entwicklungsgeschichte der Seele

É importante lembrar que ele falava de si mesmo como o ‘quinto’ Groddeck e derivou uma série de raciocínios a partir do número cinco. E o que significa esta lembrança? O período de vida deste clínico geral começa em 1866 (cinco anos antes da unificação da Alemanha) e morre em 1934 (cinco anos antes da invasão da Polônia pela Alemanha e do início da Segunda Guerra Mundial).”

É importante ressaltar que os pacientes atendidos por Groddeck padeciam, na maioria dos casos, de doenças orgânicas e que ele não era psiquiatra, mas sim clínico geral.”

(*) “Sandor Ferenczi assumiu uma posição distante e crítica às idéias do médico de Baden-Baden e mesmo assim aceitou escrever uma resenha favorável ao primeiro texto que Freud leu de Groddeck. No final de 1921, Ferenczi resolveu tratar-se no sanatório de Groddeck em Mariennhöle, sem que isso significasse que tivesse se tornado adepto das idéias proferidas neste local. Mas a partir deste instante iniciou-se uma longa amizade entre esses dois homens, com uma intensa e significativa troca de correspondência, que começa com um pedido de compreensão [??] que está presente numa carta escrita por Ferenczi no Natal de 1921. Este pedido de vínculo envolverá vários aspectos da vida amorosa de Ferenczi, sua insatisfação com Freud e com a sua análise, o pedido e a necessidade dele por análises mútuas, e como este pedido revela alto grau de honestidade

emocional, Groddeck se converte no companheiro analítico mútuo o (sic) que Freud não chegou a ser. E esta relação de amizade e confiança profunda, com visitas constantes, principalmente de Ferenczi a Baden-Baden, durará até a morte deste em 22 de maio de 1933.”

(*) “Nas suas Memórias Groddeck se refere a Keyserling como sendo […] o mais brilhante interlocutor que jamais encontrei, um completo homem do mundo no melhor sentido da palavra e um homem que sabia dar e receber. Encontram-se com bastante freqüência os que sabem dar, pelo menos se se tiver o dom de se deixar presentear; os que sabem receber já são mais raros, pois cada um se desacostuma o mais rápido e radicalmente possível do ingênuo receber da criança, para logo pisar com prazer na lama do pagar e quitar, igual a todos os outros; como se algum dia algo pudesse ser pago. […] Então, homens que sabem dar e receber quase não existem. Considero uma graça especial do destino ter conhecido Keyserling. […] Conheço muito bem a sua paixão pela sabedoria, o que se pode chamar de filosofia, e foi assim que ele a chamou. E sendo ele o único entre milhares que suspeita do que seja sabedoria, considero justo que tenha dado à instituição de Darmstadt o nome de ‘Escola de Sabedoria’. […] Estive várias vezes em Darmstadt e existe o fato de que Keyserling é capaz de harmonizar de forma perfeita os pensamentos de homens de tão diferentes correntes de espírito e índoles, como Scheler, Jung, Frobenius, de tal forma que o ouvinte, mediante um claro conhecimento de cada personalidade individual e através de um interesse atento pela lei individual sob a qual vive o orador, pode facilmente absorver e assimilar o humano em geral; este fato dá a Keyserling o direito de afirmar que, em Darmstadt, se está realizando algo de diferente que não é oferecido em nenhum outro lugar e que só pode ser realizado por ele. (GRODDECK 1970, 1994, p. 322–323).”

(*) “Em 10 de junho de 1934 morre em Zurique, com a idade de 67 anos, o médico de Baden-Baden Georg Groddeck, o único autêntico e qualificado continuador da escola de Schweninger. Com ele desapareceu um dos homens mais extraordinários que eu jamais havia encontrado. Era a única pessoa minha conhecida que sempre me fazia pensar em Lao-Tsé: seu não-fazer era criativo, a um nível inclusive mágico. Ele se atribuía o princípio de que o médico não sabe nada, nada pode fazer e pouco tem o que fazer: deverá somente, com sua presença, despertar as forças curativas inatas no paciente. Naturalmente, esta técnica de não-saber, de não fazer por si só, não lhe daria condições de manter ativa sua clínica em Baden-Baden. Portanto, ele curava fazendo uso de uma combinação de psicanálise e massagens. […] Foi assim que Groddeck me curou, em menos de uma semana, de uma flebite recorrente.¹ […] Sem dúvida, em Georg Groddeck, eu não amava e respeitava tanto o médico como o sábio paradoxal. Ele não pertencia a nenhuma escola: sobre cada coisa tinha suas opiniões estritamente pessoais e freqüentemente heréticas. E todas elas eram entendidas no sentido justo, não muito ajustadas ao literal, opiniões profundas. Não conheço nenhum filósofo da natureza que como ele tenha ressaltado a condição da infância; até quase se poderia dizer que seu ideal era o ovo, posto que nenhum organismo já formado saberia do que o ‘Isso’ é capaz. […] Porém, como acontece freqüentemente com as pessoas de vida rica, a presença pessoal de Groddeck contava muito, muito mais do que aquilo que ele expressava em suas palavras e em suas teorias. Disso puderam se interar, (sic) até agora, os participantes dos seminários da ‘Escola da Sabedoria’ em Darmstadt: onde apesar de que muitas vezes ele tomava a palavra, era sobretudo sua simplicidade, sua presença viva o que fazia de Groddeck um participante único daquelas reuniões (sic) pensar por si mesmo. […] Porém, no íntimo, foi um dos homens mais cálidos, mais carinhosos, mais preocupados pelo bem-estar alheio que jamais havia encontrado. Epílogo a El Libro del Ello, de Georg Groddeck de (sic) Hermann Keyserling”

¹ “Inflamação de uma veia, a qual geralmente afeta os membros inferiores, podendo provocar a formação de um coágulo (tromboflebite, causa de embolias). Os anticoagulantes evitam esses acidentes.”

1. OBJETIVO

O objetivo deste trabalho é fazer uma leitura detalhada da obra de Georg Groddeck, dentro de um espaço de tempo definido como período pré-psicanalítico.”

2. PANORAMA HISTÓRICO ANTERIOR À OBRA DE GRODDECK

A primeira conseqüência da Reforma foi o isolamento da Alemanha durante cerca de dois séculos, divorciando-se da cultura latina. Depois, segue-se uma série de movimentos subseqüentes, que tendem não só a integrar a Alemanha na Europa, mas sobretudo a reabilitar os seus valores. No século XVIII surge o primeiro desses movimentos, a Aufklärung que deve ser compreendida como um esforço de assimilação da cultura européia. Em seguida, o Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), um Pré-Romantismo rebelado contra o classicismo francês e desperto aos valores germânicos. Depois o classicismo alemão, alheio a exclusivismos exacerbados, tendendo a realizar uma síntese européia da cultura. E finalmente, o Romantismo, no qual a Alemanha atinge a sua máxima maturidade cultural. Com o Romantismo, os papéis se invertem. Se a Alemanha vence o ‘obscurantismo’ graças à influência do Classicismo latino, o seu Romantismo impõe-se a toda Europa. (GERD BORNHEIM, in J. GUINSBURG, p. 78, 1997).”

A palavra deriva do francês Roman, que se refere a uma história, usualmente uma história militar de criaturas medonhas, cavaleiros heróicos e amor cavalheiresco. Quando a palavra entra na Alemanha, próximo ao final do século XVIII, ela carrega o significado de romanhaft, semelhante a uma novela, especialmente o tipo de história ou atitude típica do gênero. […] [Schlegel] deseja empregar o termo mais especificamente para descrever uma forma de literatura poética desenvolvida no período moderno que expressava os interesses subjetivos do artista” Robert Richards, 2002

a tarefa dos românticos não é a rejeição mas a transformação da ciência, ir além do estabelecido. O seu propósito tem que ser ampliado, a ciência deve se dirigir para as profundidades como também para as alturas.” Correto, pequena Gaia-Padawan!

A NEO-SEITA DA FILOSOFIA NATURAL: “Os filósofos da natureza estão associados com a filosofia idealista alemã, e abordam a natureza a partir do pólo do pensamento puro.” Zajonc, 1998

A partir de Descartes e Newton, até Hume e Kant, o mecanicismo foi empregado como o conceito básico pelo qual é possível compreender não somente o universo inanimado como também a realidade viva.”

O mecanismo do relógio em si mesmo é fundamentalmente atemporal e então a-histórico. Mas a natureza como autogerativa, como orgânica, pode ter uma história. […] A infusão do tempo na natureza não foi meramente uma condição necessária para o aparecimento das teorias evolutivas; ela constitui essas mesmas teorias durante os séculos XVIII e XIX.” Richards

1) Romantismo Inicial (Die Frühromantiker), situado em Jena. Alguns autores que canonicamente definem este primeiro romantismo: os irmãos Wilhelm e Friedrich Schlegel, suas esposas Caroline e Dorothea, o teólogo Friedrich Schleiermacher, os poetas e novelistas Ludwig Tieck e Friedrich von Hardenberg (Novalis), o teórico das artes Wilhelm Wackenroder e o filosofo Friedrich Schelling.

2) Romantismo Médio ou Segundo Romantismo, centrado em Heidelberg, inclui autores como os escritores Achim von Arnim, Clerius Brentano e o pintor Caspar David Friedrich.

3) Romantismo Tardio ou Terceiro Romantismo, ativo em Viena, Berlin e Munique. Este grupo mantém alguns membros do Primeiro Romantismo, como o crítico literário e historiador Friedrich Schlegel e o filosofo (sic) Friedrich Schelling e também novos participantes como os escritores Johann Ludwig Uhland e E.T.A. Hoffman.”

O ato de fundação da Filosofia da Natureza pode ser estabelecido em 1797 quando Schelling publica a sua obra Ideen zur einer Philosophie der Natur.”

a antiga idéia platônica de um principio (sic) vivificante que perpassaria a totalidade do mundo” interpretação não-autorizada

SÁBIO GOETHE: “Com efeito, ele disse ser ‘politeísta’ como poeta e ‘panteísta’ como cientista, mas ainda assim abria a possibilidade para um Deus pessoal”

De todos os precursores, Carus chama maior atenção da psicologia porque a sua apresentação do inconsciente mostra-o principalmente como um psicólogo. Sua idéia do inconsciente, não é nem um flash poético nem um sistema filosófico especulativo, como nas mãos do jovem von Hartmann [ou seja, já caiu nas minhas graças!] […] nem tampouco é um conceito médico heurístico, semi-neurológico e útil para explicar processos mentais desconhecidos. […] Carus descreve processos psicológicos em detalhe e ainda assim mantém uma visão holística” James Hillman, 1989

Carus nasceu em 3 de janeiro de 1789, em Leipzig. Nesta cidade cursou a Universidade, estudou medicina em função de seu interesse pela ciência da natureza, começou a dar palestras no campo da anatomia comparada, recebeu seu Doutorado (sic) com 22 anos e no mesmo ano casou-se (1811).” Ai, os românticos… Tão apressadinhos para viver!

Carus pertence à história da arte como um reconhecido pintor de paisagens, tendo deixado uma coleção de 420 pinturas e 1100 desenhos.” “Seu período de vida abrange desde a Revolução Francesa até a era do moderno positivismo, liberalismo e nacionalismo.”

Durante seus primeiros anos em Dresden, Carus primeiramente se aproximou de Goethe que, apesar de ser 40 anos mais velho que ele, muito o admirava. Carus escreveu um livro, Goethe (1843) e publicou, em 1835, uma série de cartas sobre o Fausto. Goethe refere-se a Carus em suas cartas e notas. Ele era particularmente entusiasmado com as Lectures on Psychology (1831) vendo-o como um herdeiro de sua abordagem da natureza e da vida.”

Na bibliografia de Groddeck é possível perceber que em momento algum Carus é citado. No entanto a forma como Groddeck concebe o inconsciente, principalmente a relação entre o inconsciente e a doença, e também ao reconhecer a capacidade curativa presente na natureza[,] é muito semelhante à de Carus.”

Nasa (a natureza cura) (…)

Mecu (médico cuida).

Já a Nasa americana não irá nos salvar…

3. MÉTODO

capítulo inútil

4. CRONOGRAMA DOS ESCRITOS DE GRODDECK

Somente os mais interessantes (em aparência):

Konstipation, 1896

Ein Frauenproblem, 1903

As núpcias [Hochzeit] de Dioniso, 1908 (poesia)

Tragödie oder Komödie? Eine Frage an die Ibsenleser, 1910

5. O LEGADO P.D.

5.1. GEORG GRODDECK – DO NASCIMENTO ATÉ SUA ADOLESCÊNCIA.

Eram filhos do doutor Carl Theodor Groddeck (1826-1885), epidemiólogo e posteriormente médico ‘termal’, e de Caroline Koberstein (1825-1892). Antes de prosseguir com as notas biográficas de Groddeck, é necessário fazer um breve percurso em torno da cidade onde ele nasceu e posteriormente pela biografia dos pais.”

Duvido que esmiúce a questão do protonazismo do pai de Gr.

LINDA HISTÓRIA (sem ironia!): “Isto nos faz retomar a biografia dos pais de Groddeck. O pai, Carl Groddeck, era filho de um deputado de Danzing, sua cidade natal, no norte da Alemanha. Já sua mãe, Caroline, era filha do professor August Koberstein, historiador da literatura alemã e professor em Pforte por 50 anos. Caroline e Carl se conheceram quando ele ainda era estudante em Pforte. O jovem estudante era pensionista na casa dos Koberstein e foi acometido por um distúrbio cardíaco que perduraria por toda a vida. Durante a convalescença, Carl permaneceu na casa do professor, o que proporcionou o tempo e a intimidade suficientes para que os dois jovens se apaixonassem. A Senhora Koberstein era quem se ocupava do paciente, e por este motivo Carl tinha muito apreço por ela. Por sua vez a filha, Caroline, nunca falava de sua mãe com muita admiração, diferente de como se referia a seu pai. A mãe era uma mulher totalmente comum, mas com uma facilidade para atrair pessoas, o que para a filha era um defeito. Independente de como a Senhora Koberstein era vista por sua filha, para os demais, no entanto, era uma pessoa notável.”

Em 1849, Carl Groddeck formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Berlim, com a tese com o título em latim De morbo democratico, nova insaniae forma. Em 1850, Carl apresenta-a em público, revista e ampliada, agora com o título em alemão: Die Demokratische Krankheit, Eine Neue Wahnsinnsform.” Que pretendo logo ler.

Nas suas Memórias, Groddeck escreve sobre seu pai:

[…] Como era normal na época – eram os anos em torno de 1848 – aquele que estivesse mais próximo da política se tornava o centro do círculo; era o meu pai. Tirando o fato de ter ele, como filho de um deputado, sido atraído para o movimento com mais força do que os outros, ele pusera na cabeça mostrar-se ativo e, pela necessidade de ser incomum – uma necessidade que infelizmente adotei e que levei uma grande parte da minha vida para neutralizar – ele o fez de um modo característico: escolheu para sua tese de doutoramento o tema: (…) A doença democrática, uma nova forma de loucura. Foi esta a única vez que meu pai se apresentou publicamente, e não ficou pouco orgulhoso deste grande momento; já idoso, ele me contou com grande alegria como tudo teria acontecido, como o pequeno salão não foi suficiente para a afluência do público e todos passaram para o grande salão da universidade, como foi assaltado por todos os lados e escarnecido e como a situação se tornou difícil por ter que se defender em latim, de mais a mais, contra 2 dos melhores mestres de línguas antigas. Naturalmente, tornou-se desse modo o herói de seus amigos. (GRODDECK 1929, 1994, p. 326)

Na carta ao Prof. H. Vaihinger, citada anteriormente, o editor adiciona a nota de rodapé 9 que amplia o tema da dissertação de Carl Groddeck, sua importância e relevância para a obra de Nietzsche. No prefácio à 5ª edição, de 1930, de seu livro Nietzsche als Philosoph, Vaihinger escreve:

A posição antidemocrática de Nietzsche é fortemente influenciada pela dissertação de Carl Theodor Groddeck, De modo democratico, nova insaniae forma, tese aprovada pela Faculdade de Medicina de Berlim no ano da Revolução de 1849 e famosa e muito discutida nos círculos mais amplos. […] A defesa pública da tese, em 21 de dezembro de 1849, tornou-se um acontecimento político de grandes proporções: líderes do Partido Democrático apresentaram-se como oponentes, como, por exemplo, Krüger, o importante filólogo clássico e gramático. Enquanto o original latino é encontrado em todas as bibliotecas universitárias alemães entre as teses de medicina, a edição alemã, publicada pelo próprio Groddeck em 1850, Die Demokratische Krankheit, Eine Neue Wahnsinnsform, tornou-se muito rara. […] A tese de Carl Theodor Groddeck […] é extremamente séria, e como tal deve ser considerada: em conexão com a literatura psiquiátrica da época, especialmente com a teoria de Hecker sobre as doenças mentais contagiosas, Groddeck descreve o movimento democrático espalhado por toda a Europa como uma epidemia do espírito. – O título e o assunto parecem menos escandalosos, se considerarmos que os ‘democratas’ de então não podem ser identificados ao partido político tão característico hoje em dia. Pois os ‘democratas’ de 1848 abrangiam não só os constitucionalistas e os republicanos de todas as correntes como também os socialistas, comunistas e anarquistas. [Não, é justamente por isso que o assunto parece mais escandaloso a nossos olhos!] […] Friedrich Nietzsche foi interno em Schulpforta, de 1858 a 64, onde manteve estreitas relações com o diretor Koberstein, em cuja casa conheceu também Carl. T. Groddeck. Na casa de Koberstein falou-se muito do texto sobre a doença democrática, e desse modo Nietzsche absorveu com certeza o espírito antidemocrático e provavelmente também leu o livro. Pois muita coisa que Nietzsche diz, em inúmeras passagens das suas obras, deriva[,] quase palavra por palavra, das concepções de Carl. T. Groddeck. [a conferir!] (VAIHINGER in GRODDECK 1930, 1994. p. 117/9)“

[mas] o que é possível afirmar da presença das idéias do pai no pensamento futuro do filho? A resposta a esta questão será dada por Jacquy Chemouni:

Escolhendo a mesma profissão que seu pai, Groddeck não poderia deixar de conhecer sua tese de doutorado. Sua influência direta não é possível de ser percebida, mas os problemas que ela propõe produziram efeitos alguns anos mais tarde em seu filho. No entanto, o que de fato vai marcar o futuro psicanalista é a maneira própria como seu pai praticava a medicina. (CHEMOUNI, 1984, p. 23)”

De resto[,] era tão pouco neurologista quanto eu, mas um simples médico clínico, aliás, muito avançado em relação ao seu tempo, talvez também bastante distante das opiniões remanescentes da sua época, conforme se quer. Nos seus últimos anos de vida, estudou, para uso médico particular, o livro de Rademacher, o redescobridor de Paracelso, então quase desconhecido. Eu já havia lido, no tempo do colégio, esta ‘terapêutica’ pela experiência de Rademacher; para minha formação médica e humana, foi tão importante quanto a minha relação de estudante e de amigo com Schweninger. (GRODDECK 1930, 1994, p. 118)”

Movido por um fato externo e enfrentando certa resistência da família, ambos casam-se em 14 de setembro de 1852 (RIVERAS, 2004). O fato externo que acelera o matrimônio é uma epidemia de cólera e tifo que se alastra pela Prússia, o que faz com que Carl receba o cargo de epidemiólogo na cidade de Marienburg.

O período passado em Marienburg é marcado por dois fatos importantes: em 22 de junho de 1853, a primeira filha morre um mês após seu nascimento e, em 1854, após a epidemia estar praticamente controlada, Carl contrai tifo e fica muito doente. A situação da família se torna mais equilibrada só a partir de 1855 com a mudança para Kösen, e conforme vimos, ali estabelecem uma clínica termal, que graças à atitude firme da mãe, se manteria por mais de duas décadas. Ali fixados, tiveram cinco filhos. (RIVERAS, 2004, p.23)”

Em relação ao respeito pela ciência não era possível encontrar qualquer vestígio disso em suas palavras e atos.” Quem nos dera os doutores acadêmicos de hoje assim o fossem, na prática!

Sobre o relacionamento entre seus pais, desde pequeno Georg Groddeck percebia que existia uma distância irreparável entre os dois, e discorre sobre as atitudes que o pai tinha, com o intuito de agradar a esposa: ‘Creio que tentou honradamente converter-se em um Koberstein’. (apud GROSSMAN, 1967, p.18). Por este motivo, se comportava como se a medicina significasse apenas uma forma de viver, pois para Caroline era a Literatura que valia a pena, e não a medicina.” “para Groddeck, o pai era o homem mais forte e mais sábio do mundo. Era um pai severo, porém afetuoso, que os filhos adoravam, mas que nunca encontrou a aceitação plena da esposa.”

Para Groddeck, o fato de ter sido amamentado por uma ama-de-leite e ter uma mãe verdadeira que lhe dava carinho o colocava em dúvida sobre qual das mulheres amar, dilema que tornaria todas as suas escolhas mais difíceis”

Você já imaginou as atribulações de uma criança amamentada por uma ama? É uma situação complicada, pelo menos quando a mãe verdadeira gosta da criança. De um lado a mãe, em cuja barriga a gente viveu durante nove meses, sem nenhuma preocupação[,] no quentinho, nadando na felicidade. Como não gostar dela? E depois, uma segunda pessoa, em cujo seio a gente se alimenta todo dia, cujo leite a gente bebe, sentindo sua pele fresca e respirando seu cheiro. Como não se afeiçoar por ela? E então, a quem se apegar? Alimentado pela ama, o bebê se coloca num estado de incerteza do qual nunca conseguirá sair. Sua capacidade de crença se vê abalada em suas bases e a escolha torna-se para ele mais difícil do que para os outros.” Eu, como alguém amamentado por uma “ama-de-leite”, digo: tudo isso é uma grande besteira fraudiana avant Fraud!

Próximo de completar 6 anos foi à primeira escola, juntamente com sua irmã Lina. Era uma escola de meninas, uma Mädchenschule. Na época, os filhos de pais bem situados começavam seus estudos em escolas femininas. Era uma escola dirigida por três irmãs, e foi descrita por Groddeck com riqueza de detalhes:

As três irmãs Hochbohm dirigiam a escola; cada uma era mais gorda do que a outra, e a mais magra – Marie – era a mais temida. Entre outras coisas, ela nos ensinava aritmética. Sua influência, a influência do medo, foi muito grande e ainda hoje tem vestígios […]. A irmã do meio, Emma Hochbohm, era a diretora do instituto; por causa da sua obesidade, foi apelidada de ‘carrossel de duas pernas’. […] A mais velha das irmãs Hochbohm era a mais gorda; na verdade era tão gorda que não podia lecionar, porque as crianças não queriam e não podiam ser ensinadas por ela. Diziam as más línguas que ela, com toda aquela gordura, não podia passar pelo portão da igreja, mas tinha de se lançar com o ombro à frente. (GRODDECK 1929, 1994, p. 269)” Ah, as memórias infantis!

Ao sair dessa escola, Groddeck sabia ler e escrever corretamente, embora sua letra, durante a vida, não tenha mudado muito. Como diria, sua letra se manteve como a de uma criança de 8 anos. (RIVERAS, 2004)”

Este fato parece ter incomodado Groddeck, pois ele próprio se definia como ‘um pagãozinho’, que até deixar a casa paterna nunca havia entrado em uma igreja. Mas, apesar deste fato, foi nesta escola que descobriu o verdadeiro sentido do escrever” Tantas e tantas semelhanças entre nós, sr. Groddeck Jr.!

Aos 11 anos, segundo ele próprio, a desgraça se abateu sobre sua família. Seu pai havia se envolvido em negócios imobiliários e, aparentemente devido a um golpe dado por um sócio, perdeu todas as posses. A casa onde Groddeck havia nascido e passado toda a infância foi leiloada, assim como os móveis aos quais o seu coração estava ligado. O pai, sem outra saída, resolveu deixar a cidade e tentou se estabelecer em Berlim, porém não obteve o número de pacientes que esperava. Retornou a Bad-Kösen no verão para tentar ganhar algum dinheiro. A sua mãe, no intuito de ajudar a família, empregou-se como dama de companhia. Georg Groddeck entendeu este afastamento da mãe como uma traição. Pior que tudo isso, antes da dissolução da casa e de que tomasse conhecimento da situação, sua irmã, a companheira de toda a infância, foi mandada à casa de um tio para lá viver, passando a trabalhar como babá. A ferida aberta por este fato nunca cicatrizaria. Só posteriormente Groddeck descobriria que isso havia sido, de certa forma, bom para ele. (RIVERAS, 2004)”

EIS O QUARTO OU QUINTO PONTO EM COMUM ENTRE NÓS: “Pforte resultou em tudo que ele havia temido. A escola é descrita como uma fortaleza, rodeada de muros altos feitos de pedra, uma verdadeira prisão. [também, com este nome! Rockman & Pforte!] O jovem Groddeck foi um pecador desde o início, parecia desejar tudo aquilo que estava proibido: jogos de cartas, trepar sobre os muros e fumar. E depois de ser um magnífico estudante durante anos, se tornou um estudante medíocre (GROSSMAN, 1967).”

Ouvi pela primeira vez o nome de Schweninger. Meu pai falou com entusiasmo sobre ele, que devia ser um médico sob a graça divina, pois conseguira obrigar Bismarck a obedecer. Eu nunca tinha ouvido da boca do meu pai um elogio a qualquer médico e estava sinceramente convencido de que só ele compreendia a Medicina. (GRODDECK 1929, 1994, p. 332)”

Em toda a Alemanha levantou-se um tumultuoso alarido contra a violação da liberdade científica pelo tirano Bismarck. […] A gritaria chegou até a vida tranqüila de Pforte, e mesmo um tímido como eu foi arrastado para o conflito. Tomei o partido de Schweninger, e o teria feito mesmo que não tivesse ouvido a observação do meu pai sobre a genialidade de Schweninger; pois eu estava na idade em que naturezas hipersensíveis procuram abrigo no cinismo. Esta briga de dormitório decidiu a minha vida. Sem ela, eu não teria sido capaz, sendo um rapaz ignorante, de absorver as idéias de Schweninger. Quando o conheci, já gostei dele, como se gosta de algo que se defendeu com força e sorte. E como não podia ser diferente, desde então começou a minha veneração por Bismarck. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333 e 334)”

E quando finalmente cheguei e fui instalado em cima de um colchão, um novo medo me assaltou. Eu ainda molhava a cama na época, fi-lo até os meus 14 anos. Meu irmão me prometeu uma boa surra se eu sujasse a cama numa casa estranha. Tive sorte, todavia, à custa do melhor sono. (GRODDECK 1929, 1994, p. 287)”

5.2 FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Apesar de a escola militar ser gratuita, é necessário uma participação financeira para a manutenção do filho na escola e isto só será possível com a ajuda de alguns amigos mais abastados e próximos à família.”

aprendi a conhecer a atividade médica não com doentes, mas com pessoas sadias. Isso foi de valor inestimável para mim.”

Meu pai não percebia que eu não tinha qualquer conhecimento do latim médico, de que me eram totalmente incompreensíveis as receitas que me ditava e de que não era melhor com os nomes de doenças que eu tinha de anotar aos livros. E ficava impaciente quando eu lhe pedia que repetisse uma palavra.”

nessa época, teve lugar o acontecimento que de algum modo me tirou da minha vida de sonhos e deu a direção decisiva à minha carreira: no meio de uma consulta, meu pai sofreu um derrame. […] Na noite de 19 para 20 de setembro meu pai faleceu. (GRODDECK 1927, 1994, p. 380, 381, 385)”

Finalmente em 1° de outubro de 1885, Groddeck começa o seu curso de medicina. Um dado importante acerca do Instituto é que para poder frequentar esta instituição o aluno deveria preencher uma série de exigências, como por exemplo, ser alemão, ser filho legítimo, ter menos de 21 anos, apresentar o certificado de alistamento militar e se dispor a prestar um ano de serviço militar voluntário. Concluídos os estudos, era previsto um serviço de 8 anos como médico militar para um período de aperfeiçoamento. O estudante então, ao mesmo tempo em que assistia às aulas de seu curso de medicina, estava submetido ao regulamento militar.”

Servi sob o comando do Conde Hardenberg apenas 4 semanas. Nada sei sobre ele, nunca mais o encontrei, mas ainda assim seu nome está gravado tão profundamente na minha memória que quase diariamente penso nele. Por alguma razão totalmente injustificada, atribuo-lhe a culpa pela tosse com que eu mesmo me divirto e atormento os outros; não sei por que o faço e persisto nisso, embora saiba que não há a menor ligação entre ele e meu doce hábito de tossir claro [sic – clara] e ruidosamente a tudo o que não me agrada. (GRODDECK, 1929, 1994, p. 368)”

em Pforte ele havia sido educado dentro do espírito da cultura clássica e na tradição do humanismo, mas a partir de agora deve confrontar-se com o estudo de uma ciência com características eminentemente empíricas, permeada pelo paradigma da ciência natural (MARTYNKEWICZ, 2005). Ao perceber este choque de formação e ao mesmo tempo a permanência de Groddeck em seu esforço de se formar médico, é possível dividir este período de estudo em duas etapas. Uma primeira, na qual ocorre um encontro entre a formação e os interesses anteriores de Groddeck com esse modelo de medicina, tal como ensinado na Alemanha, encontro que, apesar das turbulências que causam, não o impedem de continuar estudando. E uma segunda etapa, que se inicia em torno da metade de seu percurso acadêmico, e que corresponde ao seu encontro com Schweninger.”

5.3 PRIMEIRA ETAPA DA FORMAÇÃO DE GRODDECK EM MEDICINA

Neste momento se faz necessário interromper a biografia de Groddeck para descrever o método de ensino da medicina da sua época e que terá influência em sua prática clínica e em sua construção teórica.”

…de um lado o hospital, principalmente os grandes hospitais públicos em Paris, e de outro o laboratório, em Berlim.” Os franceses “pouco valor deram à terapêutica”.

JACQUES LE FATALISTE: “É possível falar de uma atitude médica, que tem um tom até certo ponto fatalista, chamada de ‘niilismo terapêutico’ e que segundo Roy Porter se define como a capacidade da medicina […] em compreender as doenças de que as pessoas morriam, mas não conseguir impedi-las de morrer. (PORTER, 2004, p. 57)”

Excetue-se o ópio, excetuem-se alguns medicamentos específicos, excetue-se o vinho, que é um alimento, e os vapores que produzem o milagre da anestesia, e creio firmemente que, se toda a matéria médica, tal como é hoje usada, fosse atirada no fundo do mar, seria muito melhor para a humanidade – e muito pior para os peixes.” Oliver Wendell Holmes, Medical Essays, 1891.

para Pierre Louis e seus colegas, a medicina clínica era uma ciência da observação, a ser aprendida nos pavilhões hospitalares e nos necrotérios, através da anotação e da explicação dos fatos. A formação médica devia ser uma disciplina da explicação dos aspectos visuais, dos sons e dos odores da doença – uma educação dos sentidos.” Típico da França. Se não fede, não ensina.

isto é conhecido como teoria ontológica da doença.” Porter

a Fisiologia, que atingiu sua maioridade, como disciplina experimental de status superior. Seu pioneiro foi Johannes Muller, professor de fisiologia e anatomia em Berlim a partir de 1833. […] foi um professor inspirador, e seus alunos – Theodor Schwann, Hermann von Helmholtz, Emil Du Bois-Reymond, Karl Ludwig, Ernst Brücke, Jacob Henle, Rudolf Virchow e muitos outros – tornaram-se os dirigentes da pesquisa científica e médica no mundo alemão e ganharam fama internacional. (PORTER, 2004, p. 103)”

Com a fisiologia científica nasce um novo paradigma que se impõe sobre o conceito vitalista dominante no início do século XIX e sob a influência do naturalismo romântico de Friedrich Wilhelm Schelling. A fisiologia inspirada na filosofia da natureza de Schelling postulava a unidade da natureza e do espírito, indagava o conceito de vida e refutava qualquer descrição fisiológica isolada de um fenômeno singular.” MARTYNKEWICZ, 2005, p. 93.

Como foi dito anteriormente, um dos discípulos de Johannes Muller foi Rudolf Virchow, considerado o mais criativo dos pesquisadores médicos alemães. Virchow é conhecido, entre outros resultados, pela sua máxima Omnis cellula e cellula (todas as células provêm de células)”

O câncer, demonstrou Virchow brilhantemente, surgia de mudanças anormais nas células, que então se multiplicavam de maneira descontrolada através da divisão (metástase). (…) Assim, Virchow defendeu uma concepção interna da doença; por essa razão, em parte, ele veio depois a suspeitar da bacteriologia pasteuriana, a qual considerava muito superficial, por ela ver a doença como sendo de causa essencialmente externa.” Porter

Assim, minha mãe entrou em contato com a sociedade bom-tom de Berlim e soube angariar prestígio. Entre outros, Rudolf Virchow foi um dos seus admiradores. Quando mais tarde, fui reprovado nos exames estaduais de medicina por Virchow, por falta de conhecimento em anatomia patológica, tentei atribuir este fato à atitude pouco amável da minha mãe para com ele, uma tolice vaidosa que repeti muitas vezes em outras ocasiões e que ainda repito de tempos em tempos quando falho em alguma coisa por minha própria negligência.”

Influenciou essa postura também o fato do nome de Virchow desde muito cedo estar mencionado à Groddeck de uma forma muito negativa, seja pela posição que ele assume, contrária à nomeação de Schweninger como médico do Charité [Hospital da Universidade de Berlim], como também pelas opiniões contrárias à Virchow emitidas pelo seu pai, não só em relação aos seus métodos de cura como também por suas opiniões políticas.”

A imagem que tem do médico e da medicina foi influenciada pelo pai e pelas ideias românticas e vitalísticas. […] A cientifização da formação e a estandartização [sic – estandardização] do nível profissional foram introduzidos no início dos Oitocentos, mas se afirmaram só na segunda metade do século. Em 1861 o estudo da física foi inserido no curso de medicina em lugar da filosofia. O paradigma da ciência natural se sobrepõe ao filosófico. A linguagem do médico é separada daquela da filosofia. Isso é visível, não apenas no encontro entre o médico e o paciente: a pergunta do médico não é mais: ‘O que tens?’, mas sim ‘O que te faz mal?’. (…) O médico na tradição hipocrática era um tipo de adivinho que se aproximava do corpo à distância e o observava como uma trama, se afastando do visível e penetrando na profundidade do corpo. Muda a angulação. (…) Neste caso, Groddeck se encontra em dificuldade: como a maior parte dos estudantes de medicina daquele tempo[,] ele também chegou à universidade com uma formação humanística e que não era muito adaptada às necessidades da disciplina. Havia aprendido a interpretar, a abrir e a descrever, mas não a separar, a dividir e a fixar. O olhar anatômico, que coloca a verdade da doença no corpo morto, teve sobre ele um efeito repugnante. Ele duvida desta verdade que se manifesta somente na morte, no cadáver. Só com grande fadiga consegue assimilar o argumento da lesão e a seguir o programa. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 98, 99)”

5.4 SEGUNDA ETAPA DA FORMAÇÃO MÉDICA DE GRODDECK: SCHWENINGER

Ciência não é erudição, não é saber, mas aquilo que o saber cria; é o alicerce imprescindível sobre o qual se constroem saber, conhecimento e talento. E um homem de ciência é apenas aquele que lança tal alicerce ou, pelo menos, trabalha nesse alicerce. Quem compreende este sentido da palavra ciência não confunde o saber médico, a soma dos conhecimentos anatômicos, fisiológicos, diagnósticos ou terapêuticos, com ciência médica. Quando alguém é chamado um homem de ciência médica, isto significa: esse homem descobriu a essência do pensamento e do agir médico, estudou conscienciosamente a base e o terreno e, de acordo com esse terreno e conforme a finalidade do ser médico, a partir do seu espírito e pensamento traçou um plano de construção e lançou os fundamentos aos quais poderiam ater-se os mestres de obras, até que seja imaginado um plano novo, verdadeira ou aparentemente melhor. O essencial para o criador da ciência médica é, portanto, o conhecimento da finalidade do médico e o pensamento e o trabalho independentes para esta finalidade e, finalmente, o que é mais importante, o acerto desse trabalho (GRODDECK 1925, 1994, p. 139, 140).”

O nome dele não está associado a nenhuma descoberta científica significativa e dentro da história da medicina normalmente seu nome é ignorado ou pouco mencionado e isto se deve principalmente ao fato de Schweninger pouco ter produzido teoricamente; somente em 1906 publicou sua obra maior Der Arzt, livro que enfoca a questão da relação médico-paciente.”

Atualmente o nome de Schweninger parece totalmente desconhecido. As grandes enciclopédias francesas, inglesas ou americanas não o mencionam. Nós encontramos, na Der Grosse Brockhaus in Zwölf Banden (1980) três ou quatro linhas indicando, além da sua data de nascimento e do seu falecimento, sua qualidade de médico de Bismarck. Ao contrário, a grande Encyclopédie Française, do fim do século passado[,] consagrou em seu tomo 29 linhas a Schweninger: ‘Schweninger, Ernst: médico alemão contemporâneo, nascido em Freistadt (Baviera) em 15 de junho de 1850. Assistente de Buhl em Munique em 1870, torna-se professor titular em 1875. Ele conta com alguns favores especiais de Bismarck, e foi nomeado, graças a ele, professor da Universidade de Berlim em 1884, depois membro extraordinário do escritório de saúde, e diretor da clínica dermatológica no Hospital Charité. Em 1886, criou em Heidelberg um sanatório especial para a cura da obesidade’ […] Quanto aos historiadores da medicina, as diferentes obras consultadas ignoram totalmente o nome de Schweninger. (CHEMOUNI, 1984, p. 37, nota 1)”

[…] A apresentação de Schweninger, aqui no circo dos tagarelas, foi um verdadeiro desastre! Não compareci, é claro; em vez disso, presenteei-me com uma audição do nosso velho amigo Mark Twain, em pessoa, o que foi um deleite absoluto.” FRAUD, 1986, p. 300.

Sei que a máxima ‘Natura sanat, medicus curat’ não foi descoberta por Schweninger. Mas Schweninger foi o primeiro e, durante dezenas de anos, o único médico moderno a reconhecê-la como ponto de partida, barreira e objetivo da ciência médica.” GRODDECK, Nasamecu

(*) “De fato, esta sentença é muito antiga, formulada inicialmente em latim arcaico conforme podemos ler no Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas. O seu autor, Renzo Tosi, ao comentar a sentença ‘Vis medicatrix naturae’ (‘A força saneadora da natureza’), que de acordo com ele significa que a cura só é possível pela capacidade natural de reação, escreve: […] Este conceito, porém, já se encontra em Hipócrates (por exemplo, De fractoris 1,2); ainda goza de certa fama a medieval Medicus curat, natura sanat (TOSI, 2000, p. 353).”

O relato de Groddeck sobre o tratamento de Bismarck é parcial [no sentido de pouco informativo, não de tendencioso] e isto se deve, em parte, a esta observação sobre a postura e a discrição de Schweninger:

(Schweninger) me contou alguma coisa sobre o caso Bismarck; uma coisa dessa era muito rara, pois Schweninger era a própria discrição. Nos 25 anos em que fui seu aluno predileto, não falou quase nada de suas atividades junto a Bismarck, nunca disse também a mínima coisa que estivesse fora do puramente médico. (GRODDECK 1929, 1994, p. 340)”

através da observação incansável dos hábitos de vida do Príncipe, Schweninger havia curado Bismarck de uma grave e perigosa doença, depois que cem médicos o tentaram inutilmente. O próprio Bismarck disse a sua maneira (…) como Schweninger o conseguiu: ‘Até agora eu tratei de todos os médicos; o senhor é o primeiro que trata de mim’. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333)”

Meu príncipe – Schweninger nunca se referia a Bismarck a não ser com esta denominação – estava acostumado a grandes refeições e grande quantidade de líquidos, e como achavam que ele tinha câncer quando o conheci, reforçam a sua tendência a comer e beber muito, em vez de reprimi-la. O segredo do meu sucesso foi que lhe dei para comer somente arenques salgados¹ e contra a sede apenas a água que ele mesmo pegava do poço. Sempre se afirmou que eu o fizera emagrecer. Não é nada disso; ao contrário, com muito esforço conseguiu aumentar os seus cem quilos. Portanto, apesar de toda a comida intensa, ele emagreceu e, apesar de toda a fome, aumentou de peso. Não importa o que o homem come, mas como utiliza o que come. Desde então, os arenques de Bismarck viraram moda. Mas o que o Príncipe recebeu para comer não eram aqueles arenques artísticos já preparados, mas simples arenques salgados.”

¹ “Gênero de peixes da família dos clupeídeos, de dorso azul-esverdeado e ventre prateado, de hábitos migratórios, comum no canal da Mancha e nos mares setentrionais; reúnem-se em cardumes para pôr os ovos, sendo pesca muito procurada e apreciada. (Compr.: de 20 a 30 cm.).”

Mas antes de seguir adiante, um comentário é necessário a respeito da biografia escrita pelos Grossman. É o primeiro relato biográfico de Groddeck – a sua edição original em inglês é de 1965 e posteriormente traduzido em diversos idiomas – e, apesar da variedade e da riqueza das informações contidas, não apresenta, pelo menos nas duas edições consultadas,(*) a mínima referência bibliográfica, não citando as suas fontes; o que se (sic) faz com que qualquer citação ou referência a esta obra seja feita sob o signo da cautela.

(*) El Psicoanalista Profano, Fondo de Cultura Económica, México (1967); L’analyste sauvage, Press Universitaires de France, Paris (1978).” Por que mudar o título de um livro na sua nova edição é um mistério. A não ser que realmente tenham verificado que chamar um bom médico de pseudanalista é um grande insulto! Ou se trata tão-somente de uma localização (a França, terra da pseudanálise, oculta a parte psico- da alcunha! Além disso, profano dá a idéia de seita que tem essa… seita; o que é diminuído quando se fala simplesmente selvagem…).

Faz com que o chanceler se levante às oito da manhã para fazer exercícios com pesos; durante todo o dia o paciente não deve comer senão arenques. Quando Bismarck exclama: ‘Você deve estar completamente louco’, Schweninger responde: ‘Muito bem, Alteza, será melhor que chame a um veterinário.’ Dito isto Schweninger se vai. Este procedimento estabelece seu poder sobre Bismarck, que se submete. Agora o doutor leva 15 dias sem abandonar a casa de seu paciente. Os alimentos e a bebida, a hora de levantar-se e de deitar-se, o trabalho e o sono, são meticulosamente vigiados. Ao final deste período houve uma melhora notável. Schweninger abandona a casa pela primeira vez. Neste momento, o paciente ordena ‘uma porção tripla de creme’. Isto provoca uma violenta gastralgia, seguida de icterícia e partida para Friedrischsruh. Ali o doutor volta a vigiá-lo de perto e depois em Kissingen e Gastein não o deixa só um dia. [sic – um só dia] Depois de 2 meses, o paciente está praticamente curado e reconhece que pode voltar, rejuvenescido[,] à fadiga do trabalho. Dominando em vez de deixar-se dominar, Schweninger salva a vida de Bismarck.”

Médicos excelentes haviam fracassado com Bismarck porque se deixavam intimidar pelo paciente. Schweninger não se deixava intimidar por nada. Porém nas escolas de medicina não se fabricam autocratas: era difícil para ele ensinar seu método.” GROSSMAN & GROSSMAN, 1967

Depois de seu restabelecimento, Bismarck expressou o desejo de que Schweninger permanecesse em Berlim e primeiro tentou amistosamente conseguir para seu médico preferido um cargo de professor e uma clínica através de decisão da faculdade de medicina. Teria sido muito fácil, pois Schweninger era hábil em todas as ciências, se Bismarck não tivesse tantos inimigos entre os eruditos da universidade, sobretudo se Virchow não estivesse lá. […] Mas a sua perícia ia no máximo a odiar Bismarck e a opor-se a ele sempre que possível, [frase muito mal-traduzida] e já que o Príncipe nunca soube tratar com afabilidade os seus adversários querelantes, o erudito se enchera de tanta amargura que se aproveitou com prazer da oportunidade de frustrar o desejo ardente de Bismarck. Ele obstou, juntamente com um grande número de presunçosos moralistas, uma decisão da faculdade em favor de Schweninger. […] Talvez Bismarck tivesse encontrado outro meio para conseguir a posição para o genial salvador de sua vida; pois, na verdade, Schweninger estaria muito mal na camarilha administrativa das universidades alemães da época. Mas era teimoso, e o que não podia obter por bem, agora forçava por mal. Por um ato autoritário, Schweninger recebeu o cargo de professor de doenças dermatológicas e uma clínica para doentes de pele. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333 e 334)”

Ele promove uma medicina da expectativa. O médico não deve intervir no processo de cura natural, mas só sustentar e reforçar as defesas. Em cada doença existe um determinismo que ao se retirar a ação médica (sic) pode levar à morte ou à cura […] Ele rejeita a procura da causa oculta de uma doença; ao centro de sua teoria (sic) não busca aquilo que produz a doença, mas aquilo que o libera dela. Não se interessa como respira uma pessoa e que coisa significa respirar bem ou normalmente, a ele interessa como ajudar e aliviar o sofrimento daquele que respira mal. Reprovará a medicina científica de estudar a gênese da doença (sic) abstraindo-a do processo vital. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 101, 102)”

5.4 TESE DE DOUTORADO

Em 1889, Schweninger oferece como sugestão a Groddeck uma pesquisa com um novo remédio para as doenças da pele, a Hidroxilamina,¹ e que serviria como tema para seu trabalho de doutoramento. A sugestão de Schweninger tem uma conotação no mínimo curiosa, principalmente em épocas de pesquisas e êxitos científicos:

Schweninger, porém[,] não esperava de seu formando resultados necessariamente positivos, mas uma documentação detalhada da completa ineficácia do remédio. Groddeck deve (sic – devia) escrever uma crítica destrutiva sobre o remédio e enfrenta com prazer esta tarefa. […] Tanto o orientador quanto o formando, com os resultados do trabalho[,] visavam um confronto com alguma autoridade importante do grupo de médicos que estavam sugerindo fartamente este remédio. A pesquisa sobre a hidroxilamina deve ser a ocasião para criticar em geral a produção e difusão desregrada de remédios. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 105)” Qualquer semelhança com o CFM em governos bolsonaristas é mera coincidência.

¹ “Base NH2OH, que se forma na redução dos nitratos.”

Executei escrupulosamente, com grande afinco, todos os experimentos, recorrendo ao pincelamento, aplicação do ungüento e sabão, e aqui percebia zero esperança de obter resultados positivos. Quando percebi que não havia me enganado me propus a estender o protocolo, que de um lado reportava um conjunto escarnecedor dos insucessos, e de outro, ao contrário, oferecia uma visão harmônica bem-exitosa da teoria de Schweninger. (Texto de Groddeck citado em: MARTYNKEWICZ, 2005, p. 105)”

Os colegas que introduziram o novo remédio acreditam poder contribuir deste modo com o progresso da nossa arte? Talvez desta maneira estejam acrescentando um nome à farmacopéia, para o horror de todos os candidatos ao exame de habilitação, mas não fornecem alguma vantagem [sic – vantagem alguma!] à medicina.”

5.6 MORTE DA MÃE DE GRODDECK E O SEU CASAMENTO COM ELSE

Neste período de trabalho como oficial médico – que vai de 28 de junho de 1891 até março de 1897 – além das obras escritas, dois fatos pessoais relevantes e suas implicações posteriores marcam esta etapa da vida de Groddeck. Antes de mencionar os acontecimentos, é importante salientar que esse período da sua vida militar não é contínuo, tendo uma interrupção de um ano, a partir de maio de 96, por conta de uma dispensa, quando Groddeck volta a trabalhar como assistente de Schweninger em sua clínica em Berlim. Uma outra observação é que neste tempo de vida militar, que se inicia no Regimento de Infantaria Real em Brandenburgo, Groddeck é transferido 3 vezes: inicialmente para Ückermunde (1892) onde vai supervisionar a higiene das embarcações fluviais; posteriormente volta para Brandenburgo[;] e por último é transferido para a escola de formação de Oficiais em Weilburg (1894), onde permanece até obter a dispensa, por motivos de saúde, em março de 1897.”

Ainda relativamente jovem, eu obtivera um posto independente na Escola de Suboficiais de Weilburg, o que eu podia e devia considerar uma distinção. Tinha pouca coisa a fazer, esse pouco eu podia organizar como quisesse, era adulado por jovens e velhos, por patentes altas e baixas, enfim, tudo poderia ter sido bom, se não fossem os relatórios. Na minha guarnição anterior, como se eu fosse totalmente incapaz de desempenhar essa tarefa, deixei-a a cargo do escriturário do hospital militar. Mas, em Weilburg, o titular desse posto era mais bobo do que eu. Não consegui uma única vez fazer um relatório sem erros, sempre recebia de volta com o amável pedido para corrigi-los. (Meu superior) me transferiu, por algumas semanas, para Frankfurt e encarregou um antigo médico do quartel de me introduzir nos segredos dos relatórios militares. O plano falhou. […] E continua assim até hoje, e se muitas vezes pensei na possibilidade de desistir do meu sanatório, a razão principal para isso é a obrigação de preencher todo ano um questionário simples – em três cópias. O estranho é que, só no ano passado, descobri que o questionário pode ser preenchido por qualquer outra pessoa que não eu. Tenho grande prazer na leitura de estatísticas; só que não acredito nelas. (GRODDECK 1929, 1994, p. 291, 292)” HHAAHAHAHA!

Depois da morte do meu pai, minha mãe tentou novamente criar para si mesma um campo de atividade: empregou uma pequena herança que recebera de uma amiga de juventude – eram apenas algumas centenas de marcos – para fundar um lar para moças; para isso, mudou-se para Ilmenau. […] Passei com ela em Ilmenau algumas semanas e lembro-me desse tempo com uma especial sensação de prazer. O natural nas relações entre mim e minha mãe voltara a ser como no tempo da infância, só que era diferente o plano em que este convívio de compreensão [???] era vivido no falar e no calar; assim continuou até a morte de minha mãe, éramos adultos dados um ao outro com caminhos próprios. (GRODDECK 1929, 1994, p. 377)”

Quando a mãe morre de infarto em 20 de setembro de 1892, Groddeck tem um forte sentimento de culpa. Exteriormente[,] isto poderia estar relacionado sobretudo à sua chegada atrasada ao funeral da mãe e ao fato de não ter conseguido vê-la mais consciente. A sua última visita apressada, as cartas escritas de forma irregular e com um longo intervalo, tudo isso serve para agravar seu ânimo. (GRODDECK in MARTYNKEWICZ, 2005, p. 117)”

Aposto diariamente sempre mais na massagem e este é o campo no qual gostaria de te ver. Talvez tenha muito sucesso porque faço tudo sozinho. E tu não tens vontade? Faz poucos anos que a massagem tem uma grande relevância na cura das doenças femininas. Uma mulher que seja capaz de fazê-la poderá contar com um ganho de muitos milhares de marcos. Deste modo serás completamente autônoma. Com cuidado posso te ensinar coisas que nenhum outro pode.” Trecho de uma carta de Georg Groddeck a Lina Groddeck, sua irmã (17 de novembro de 1892).

A mudança mais importante deste período está sem dúvida ligada ao encontro com Else von der Goltz. Groddeck a conheceu como paciente. Era a mulher do conselheiro regional Friedrich von der Goltz, 14 anos mais velho do que ela. Quando se casaram a mulher não havia ainda completado 19 anos. Do casamento nasceram 2 crianças: Ursula (11 de setembro de 1889) e Joachim (19 de março de 1892). No período no qual Else encontr[ou] Groddeck, o casamento estava em crise e a separação é [sic – foi] só uma questão de tempo. Else von der Goltz, que no diário Groddeck chama de Elfie, é de uma beleza extraordinária, é culta e possui um grande talento musical. Antes do casamento com Friedrich Von der Goltz se apresentava como pianista e cantora e os seus dotes provocavam a admiração geral.”

No dia 28 de março de 1896, Else se divorcia e em 20 de setembro do mesmo ano Else e Groddeck se casam em Berlin. Após obter a dispensa definitiva do exército e tendo aceitado o convite de Schweninger para que assumisse uma clínica que ele dirigia em Baden-Baden,(*) Groddeck, a esposa, seus enteados e sua irmã Lina mudam-se para esta cidade termal em 18 de março de 1897.

(*) Era uma clínica, o Lichtenfelder-Kreiskrankenhaus, famosa por seu atendimento e por ter bons resultados no tratamento e cura de emagrecimento.”

No final de 1897, Lina aluga a vila Monbijou, situada no número 16 da Werderstrasse e, em fevereiro de 1898, abrem um novo espaço para atendimento. Este espaço sofrerá uma nova alteração de endereço quando, em 1899, o comerciante Gustav Bazoche oferece a Lina uma casa situada na Werderstrasse 14, a pensão Marienhöhe. A irmã de Groddeck se sente encorajada a realizar a compra, mesmo não tendo os recursos necessários, tanto pela sensação de ser independente quanto pela esperança de enriquecer tendo sua própria casa. Os recursos são obtidos a partir de um empréstimo com a paciente Margarethe Hermann (50 mil marcos) e de um banco em Zurique (70 mil). Em 31 de julho, Lina assina o contrato de compra e venda e após algumas reformas, em 6 de março de 1900, a clínica Marienhöhe abre suas portas.”

5.7 ALGUNS ESCRITOS TEÓRICOS

A medicina não está à disposição do doente. O doente é que está à disposição da medicina. O trabalho segue a onda de um mal-estar geral que se percebe no século XIX no confronto do progresso científico e se utiliza de uma linguagem formal e polêmica.”

Kunst und Wissenschaft in der Medizin representa o início programático e indica a direção: em nome da totalidade, da originalidade e da naturalidade a medicina deve novamente ocupar-se do texto da vida e com isso explicar e compreender os sintomas da doença.”

Enquanto Virchow pensava poder controlar algumas doenças com uma melhora das condições de vida, das condições de higiene, da cultura e da educação, Groddeck é muito mais pessimista […] Aquilo que faz adoecer o homem depende no fundo da disposição pessoal e do caso singular. (…) No princípio da personalização emerge o ceticismo contra os métodos de cura que tendem a generalizar e a esquematizar. Na escola de Schweninger a personalização é sustentada com particular ênfase e se mescla em igual quantidade contra a medicina científica e contra a social.” Infelizmente Reich regrediu muito neste último aspecto.

Somente no trabalho sobre constipação, publicado em 1896, fala pela primeira [vez] de certo influxo do fator psíquico. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 115)”

A respeito de toda ‘cura’ é necessário criar uma unidade, a ‘cura personalizada’. […] É a única que tem validade geral. Essa na verdade supõe uma acurada apreciação de todos os pontos vitais acessíveis, exteriores e interiores.” GG, Kur und Kuren

O homem, segundo Groddeck, não vive daquilo que ingere, mas daquilo que digere e como digere, vive daquilo que utiliza e consome e que o seu corpo assimila. (…) No fundo, diz Groddeck, não é absolutamente importante aquilo que o homem come, mas sim com que intervalo e em qual porção assume o alimento.”

Então, segundo Martynkewicz, no texto Krankendiät Groddeck expõe algumas críticas ao modelo proposto por Schweninger, e seu escrito por sua vez é criticado por Schweninger que o considera destituído de conotações positivas. Este descompasso revela um primeiro sinal de que Groddeck começa a propor seu próprio modelo”

Ele, em cada um dos escritos[,] é extremista e dirige ataques selvagens contra a ciência e a fé na religião. Schweninger, porém não deseja uma revolução, agora pelo menos não mais, e deseja um espírito mais conciliador. No período em que esteve junto de Bismarck, havia conduzido uma batalha particular contra a medicina universitária […] Nos anos noventa a medicina científica está[va] em crise, em parte por motivos internos, e com isso perdeu (sic – perdera) um pouco do seu prestígio. As idéias de Schweninger na universidade são agora muitas vezes consideradas extravagantes, mas a sua cura e terapia se tornaram reconhecidas, sobretudo no ambiente das pessoas ricas e nobres. […] Que Schweninger consegue (sic – conseguisse) pacientes sempre mais industriais e menos no ambiente da política é [era] um fato sintomático e corresponde [correspondia] à mudança súbita da sociedade no final do século XIX. A Alemanha se transformou em uma das nações mais industrializadas, sobretudo no setor do carvão e do ferro.”

Um certo desencantamento de Groddeck com estas novas atitudes de Schweninger, que de certa maneira perdeu o espírito crítico e combativo, faz com que escreva em seu diário: ‘Schweninger está cansado e facilmente influenciável’.”

Duas são as possibilidades concretas: entrar em um ambulatório como assistente, para que um dia possa tornar-se independente, ou então, como o aconselha seu irmão Carl, afirmar-se como oficial médico em Weilburg e, talvez, esperar sem demora fazer carreira militar.

Mas a solução oferecida pela vida e pelas circunstâncias foi uma solução intermediária: ao obter uma dispensa da atividade militar em março de 1896, Groddeck vai trabalhar como médico-assistente da clínica de Schweninger em Berlim.”

5.8 MÉTODO DE TRATAMENTO MINISTRADO POR GR.

A massagem, refere-se Cohn, é aplicada três vezes ao dia pelo médico em pessoa, com ‘um método muito particular’ […] antes do café da manhã, antes do almoço e antes do jantar, cada vez durante um quarto de hora. O paciente fica deitado sob [SOB?!?] um divã, com as coxas ligeiramente levantadas contra o busto e os joelhos juntos, para forçar os músculos do abdômen, enquanto segura a cabeça com as mãos. Cohn subdivide o procedimento da massagem em três fases: na primeira o médico ‘dá dois golpes’ com punho fechado na região da fossa epigástrica, inicialmente levemente, depois pressionando sempre mais, até afundar o máximo possível o punho; tudo isto enquanto o paciente deve procurar respirar profundamente. No primeiro dia não é possível fazer mais do que cinco vezes, porque o movimento do diafragma, sob esta pressão[,] é muito cansativo. Segue depois a fase chamada por Cohn de ‘beliscar’: o médico prende com as mãos aquele estrato do abdômen, com a máxima extensão e na horizontal, apertando depois o ‘pneu’ com tal força que sob a pele se formam manchas marrons e azuis. Durante esta operação o doente chora e se lamenta: é a parte mais dolorosa de todo o tratamento. Por fim, diz Cohn, ‘o médico salta com todo seu peso sob o abdômen do paciente, de maneira tal que consegue afundar o joelho em profundidade na fossa epigástrica. O médico fica de joelho sob[re] o doente até que este faça, no início cinco, sete, depois dez respirações profundas, até chegar a trinta. […] O Doutor Groddeck é particularmente hábil e preciso neste tipo de massagem’.

Como segundo componente do tratamento vem descrito o banho quente. Não se trata aqui de banho integral, mas de banho de partes específicas do corpo. No primeiro dia, pela manhã, depois da massagem, vem prescrito o banho quente dos braços; no segundo o banho quente dos pés[;] e no terceiro o banho quente das nádegas, e assim continua cada dia nesta ordem. Schweninger havia construído vasos específicos para os braços e para os pés. Os vasos para os braços são grandes vasos de lata, colocados numa mesa, possuem uma tampa com 2 furos e são cheios com água a 36o Réamur (NB. Nesta escala térmica a temperatura de ebulição é de 80). Na parte superior existe um bocal de afluxo e ao lado um tubo ligado a uma torneira, esta à entrada de um balde grande. O doente coloca na bacia o braço até o ombro, deixando o antebraço e a mão sob a cinta esticada no interior do vaso. O braço permanece 20 minutos no banho, enquanto é colocada continuamente nova água quente, até quando a temperatura atinge lentamente os 40o Réamur. […] O vaso para os pés se distingue dos baldes pelo fato de serem em forma de bota, de modo que toda a base do pé possa pousar comodamente, enquanto a perna permanece em ângulo reto. […] No terceiro dia era realizado o banho das nádegas, à mesma temperatura.

O terceiro componente da cura de Schweninger é a dieta. Antes de falar das iguarias, Cohn relata como a massa era servida em porções pequenas e em louças pequenas. Os copos são aqueles de brinquedo que contém menos de 50 gramas de água. Mesmo os pratos são de boneca, que podem conter no máximo uma fatia de carne. A faca e o garfo são também muito pequenos. Em tudo isto há uma ação sugestiva benéfica: imagina haver bebido e comido muito quando na realidade não é tanto quanto recebeu. Além dessa forma exterior, segundo Cohn, se cuida, sobretudo[, d]o ritmo de fornecimento da massa. Com grande pontualidade, [a] cada três horas são servidas (sic – É SERVIDA) uma nova alimentação, o café da manhã às sete e meia, a segunda refeição em torno das dez e meia, a uma e meia o almoço, às quatro e meia o lanche e o jantar às sete e meia.

Com o passar do tempo, Groddeck modifica e integra a cura. A massagem e o banho quente permanecem substancialmente iguais; a importância da dieta é, no entanto, redimensionada e no final é[,] sem dúvida[,] considerada um procedimento danoso. A cura[,] no momento[,] é de tipo puramente fisioterápico, deve somente reforçar as resistências do corpo e favorecer o processo natural de cura. [REDUNDANTE] Um papel central, sobretudo para a massagem e para o banho quente, é atribuído à dor[,] tratada como [sic – com] um escopo terapêutico, que sobre o homem deverá ter valor educativo.”

5.9 TEXTOS MÉDICOS E ESCRITOS LITERÁRIOS

Ein Frauenproblem (1903) é o primeiro texto literário, não-médico de Groddeck: ‘à minha mulher, pelo Natal’ é a dedicatória[;] e como escreve Martynkewicz: ‘no caso de Groddeck[,] a dedicatória e o conteúdo do livro são extremamente correlatos. Aquilo que ele diz neste livro gira sempre em torno da mulher e […] este presente de Natal é uma carta e contemporaneamente um manifesto da misoginia. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 164).

Sobre a forma de apresentação dos temas deste texto e seu impacto no público, Groddeck escreve ao seu irmão Carl (24 de fevereiro de 1905): O Problema da Mulher foi mal entendido por todos que o leram. Sobre isso, eu só censuro a mim mesmo. Não se deve escrever por enigmas.’” // Outra tradução, se não conseguir encontrar no original nem em português: Un Problème de Femme.

O homem desaparecerá, mas a mulher é eterna”

tornar-se criança, condição do tornar-se ser humano”

ÚLTIMA SENTENÇA DO LIVRO: “O sol brilha unicamente para ela, as árvores carregam frutos unicamente para ela, a mãe vive unicamente para ela. A criança cria seu próprio mundo, para ser livre e liberar. […] Por eles, tu te tornarás livre, por eles, tu te tornarás uma criança, e mais ainda: um ser humano. […] Saudemos ao ser humano, à criança realizada em um mundo realizado. (GRODDECK 1903, 1992, p.117)”

Da mesma maneira que Winnicott e que a Escola Psicanalítica Húngara, mas de forma totalmente diferente, [?!] ele estabeleceu uma psicanálise centrada exclusivamente na mãe, [isso cheira mal] sobre o espaço que ela instaura durante a vida de cada ser humano” Chemouni

Não era mais possível remover Schweninger. Ele conhece o trecho que escrevi sobre ele, e eu não gostaria de magoá-lo, ele que sempre foi amável comigo, mudando agora alguma coisa.” Carta ao irmão

Em 30 de março, sai o romance em 2 volumes Ein Kind der Erde [Uma Criança da Terra] e ‘em abril a editora envia a Groddeck uma breve crítica, que poderia ser considerada como positiva. […] Em julho a editora comunica que o livro não está vendendo bem’.”

O contínuo insucesso da minha atividade literária infundiu em mim uma aversão contra este tipo de ocupação, e, como, de quebra, perdi há algum tempo a minha caneta costumeira, considerei isso um mau agouro. Talvez ela me tenha sido furtada por algum deus benevolente. Para arquivar, portanto, as atas desse período já encerrado, informo-lhe que a minha novela foi rejeitada em toda parte. Eu a havia escrito inicialmente por um prêmio de 5 mil marcos, que o Daheim tinha proposto pela melhor novela. Evidentemente, lá ela não foi lida, pelo menos é o que deduzo do estado inato do manuscrito, e teve a mesma sorte em diferentes mesas de redação. (GRODDECK 1908, 1994, p. 89-90)”

De resto, só posso repetir: essa novela é a melhor coisa que você escreveu. Não quero ir tão longe e afirmar que não há erros; na primeira versão, o final está fraco, e temo que isso não melhorou muito desde então. Mas encontrei aqui em você, pela primeira vez, um pedaço de vida, em lugar de invenções penosamente criadas.” O irmão Carl Groddeck em carta de consolo (?) ao médico diletante literato!

Em 1906, Schweninger publica Der Arzt, livro que é uma síntese de suas idéias e que pode ser visto como um guia de sua prática como médico, ou[,] ainda, como seu testamento teórico. A obra foi editada numa coleção dedicada a publicar estudos sócio-psicológicos que era dirigida por Martin Buber.”

Decididamente, nisto Schweninger tem mais sorte. Do seu O Médico foram impressos 14 mil exemplares e está esgotado. Além disso, recebeu 700 marcos como honorários pela primeira edição. O restante, o editor meteu no bolso. O mais estranho para mim é que a crítica elogia quase unanimemente O Médico. Não invejo o reconhecimento tardio do meu mestre tão difamado pelo bando científico; gostaria apenas que ele também fosse apreciado em outros campos, estritamente científicos, pelos quais tanto fez. (GRODDECK 1907, 1994, p. 87)“

A ideia central da filosofia de Schweninger é que o médico não é um cientista mas um artista. Com esclarecimentos diferentes – histórico, sociológico, filosófico, etc. – ele tenta dizer que a prática médica é uma arte. A arte é eterna. […] Em certo sentido, a arte não constitui um saber mas resulta de uma atividade inata. Ela se eleva contra a idéia, ainda prevalente, que a atividade do médico consiste essencialmente em aplicar os conhecimentos científicos. A ciência é de pouco auxílio na relação médico-doente. […] o fato de cuidar é idêntico através dos tempos. […] Hipócrates, pela sua arte de cuidar, pode ser considerado hoje em dia como médico. […] Sua arte de cuidar não é inferior à dos médicos formados na Universidade. Aquilo que o médico é capaz de aportar a seu paciente é idêntico ao longo do tempo, somente a forma muda. Não se pode imaginar melhores relações médico-paciente só porque vivemos no século XX, as condições humanas serão sempre as mesmas. […] Somente os meios colocados à disposição do médico se modificam, a qualidade de seu trabalho, essencialmente relacional, é constante. A arte do médico resulta de um saber inato: ele é inerente ao homem. A arte não é mais do que a forma visível deste saber. A riqueza técnico-científica não poderá mudá-la. […] Arte e ciência se opõe[m] como o natural ao cultural. Só a experiência serve como denominador comum.” Jacquy Chemouni

Schweninger critica a formação do médico, refutando que um diploma possa sancionar a profissão médica. […] é médico a partir da sua capacidade de estabelecer com o outro uma relação que seja a mais pessoal e íntima possível. J.C.

Natura sanat, medicus curat, isto quer dizer que a natureza [é que] cura e o médico [só] cuida.”

Mas quem foi a Senhorita G.? Será que ela existiu de fato ou ela resume vários casos tratados por Groddeck no período anterior à Primeira Guerra Mundial? Como vimos acima, este personagem só é mencionado por Groddeck algum tempo depois de ter ocorrido o processo de tratamento. A resposta a estas perguntas será dada por W. Martynkewicz:

O caso da Senhorita G. serve claramente a Groddeck para construir um novo início […] No estado atual do conhecimento do legado não se pode ainda afirmar com certeza se esta análise havia de fato ocorrido e se existia uma figura de referência real para a Senhorita G. No que diz respeito a esta última questão, venho colocando ênfase, e em parte também o próprio Groddeck, em diversos pacientes. (…) Margareth Fellinger se torna a ‘cara Grete’ (que poderia ser desdobrada na abreviação ‘G.’). Também o quadro de sintomas apresenta alguma correspondência. Mas nas cartas a Margareth Fellinger não fica claro o tipo de tratamento psicanalítico; a psicanálise não entra em jogo nem ao menos como terminologia. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 197)”

Que Groddeck no período que precede a Primeira Guerra Mundial havia efetuado um movimento em direção à psicanálise é, sobretudo, uma auto-mistificação na qual os seus seguidores, no entanto, prontamente acreditaram.”

Natureza! Estamos cercados e envolvidos por ela – impotentes para deixá-la e impotentes para adentrá-la mais profundamente. Sem aviso, e sem ser chamada, ela nos varre para longe nas voltas da sua dança e continua a dançar até que caiamos exaustos dos seus braços. Ela sempre gera formas novas: o que existia, nunca tinha existido antes, o que era, nunca voltará. Tudo é novo, e, no entanto, velho para sempre. […] Todos os esforços dela parecem inclinados à individualidade, e ela não se preocupa com indivíduos. Ela constrói sempre, destrói sempre, e sua área de trabalho está além do nosso alcance. […] A sua coroa é o amor. Somente através do amor nós chegamos a ela. Ela abre um abismo entre todos os seres, e um quer devorar o outro. Ela separa todos para depois juntá-los, com uns poucos goles da sua taça de amor. Ela torna boa uma vida cheia de labuta. Ela é tudo. Ela se recompensa e se pune, deleita e atormenta a si mesma. Ela é rude e gentil, agradável e terrível, impotente e toda poderosa [sic- todo-poderosa], tudo está eternamente presente nela. Ela nada sabe de passado e futuro. O presente é eternidade para ela.”

Goethe, A Natureza

(…)

5.12 O ‘ISSO’

Não existe nenhum eu, é uma mentira, uma desfiguração quando se diz: eu penso, eu vivo. Dever-se-ia dizer: isso pensa, isso vive. ‘Isso’ quer dizer o grande mistério do mundo. Não existe um eu. […] Tudo flui. Com toda a certeza não existe um eu. É um erro da linguagem e lamentavelmente um erro fatal. Porque ninguém é capaz de libertar-se dessa palavra ‘eu’.”

5.13 CÍRCULOS DE DISCUSSÃO POPULAR E A COOPERATIVA DE CONSUMO

O tradutor de Nasamecu para o francês, P.S. Vilain, faz o seguinte comentário:

Esta obra não tem nada de um tratado científico: ela é o resultado de um ciclo de conversas populares, que Groddeck […] realizou diante de um público modesto, em benefício da associação cooperativa, [para venda de alimentos, inflacionados no verão, a custo de produção] quando foi um animador despretensioso. O autor se contentou em revê-las brevemente com o propósito de publicá-las sob a forma de um livro. Assim colocado, o leitor não se surpreenderá de reencontrar em diferentes capítulos, de forma repetitiva, os temas favoritos deste clínico geral. […] A definição do homem doente, o papel e o poder do médico, a admiração diante do milagre do organismo humano; ele não se surpreenderá de encontrar, por exemplo, no capítulo que trata dos ossos, um desenvolvimento dos nervos da pele, ou, naquele que é dedicado aos músculos, as idéias de Groddeck acerca da informação sexual […] ele se esforça em ver o homem que sofre dentro do conjunto de suas condições de existência e considerar os elementos do corpo humano em suas interdependências (VILAIN in GRODDECK 1980, p. X)”

5.14. NASAMECU

O título do livro é uma fórmula abreviada, Natura sanat, Medicus curat, a mesma é a ordem inversa de uma sentença medieval: Medicus curat, Natura sanat.”

DICIONÁRIO LATIM!

Sanat: cura;

Sanativus: própria para a cura;

Sanator, -oris: o que cura.

Medicus: tratar de um enfermo, medicar, aplicar remédio.

Curat: aplicação, tratamento;

cura, curae: cuidado, diligência;

curate: com cuidado, com diligência;

Curator, Curatoris: o que tem cuidado.”

A sentença aparece três vezes ao longo do livro, sendo inclusive [su]a última frase (…) na primeira vez em que é mencionada, Groddeck explica exatamente qual é o seu significado: ‘É a natureza que cura e não mais o médico, que só cuida [presta atenção]’.”

Apesar de estar sempre procurando reconhecer e valorizar o diálogo entre o médico e a natureza, Groddeck privilegia a segunda parte da frase, ou seja, a posição e o valor do médico.”

com o Nasamecu nós estamos no coração dos ensinamentos e do pensamento de Schweninger, tudo o que é específico nesta obra […] nós o encontramos na obra de Schweninger e em particular na sua obra intitulada Der Arzt. (CHEMOUNI, 1984)”

é bem por isso, e em função da grande ignorância das pessoas, que eu escrevi este livro. É tempo de elas adquirirem algum conhecimento a fim de não mais se comportarem na vida como uma criança. O médico, sem mais razão, necessita de conhecimentos, mas ele estará mal-colocado se estes conhecimentos forem exclusivamente de ordem médica.”

A partir destas colocações, Groddeck justifica o seu modelo de trabalho, como clínico geral, não ambulatorial, mas privilegiando o internamento por um período de tempo, em um espaço terapêutico: ‘O sucesso que obtêm os hospitais, as estações termais, etc., se explica em grande parte pela mudança mais ou menos bruta e brusca de todas as condições de vida do paciente.’ (GRODDECK 1913, 1980, p. 8)” Isso se chama: férias.

O médico deve dominar seu paciente. […] O dom inato de dominar é mais indispensável que todo o resto e é seu dever desenvolver este dom. O médico deve dispor de uma personalidade, reunir em sua pessoa numerosas personalidades. […] Ele deve conhecer as inúmeras facetas das constituições possíveis do caráter humano.” Será que o vestibulando de hoje ainda consegue fazer isso depois de torrar o cérebro para entrar numa faculdade – provido do dom da cura ou não?

a tarefa do médico é outra: ele é chamado a dominar, a dirigir este mini-universo que se chama um ser humano, que se mete em seu caminho dizendo: ‘ajude-me caso eu esteja doente’”

Nestas citações sobre a natureza do médico é possível perceber que os 2 verbos preferidos por Groddeck para definir a ação do médico são: dominar e dirigir; e que a conjugação destes verbos não é algo que se aprende, é como um dom inato. Para Groddeck, a personalidade do médico é o principal elemento da relação médica, ocupando um papel preponderante sobre seus conhecimentos científicos e o método terapêutico escolhido. Outra característica é a ação do médico como arte. O exercício dessa arte faz com que o médico fique a serviço da natureza (vida) e não possa agir em oposição a ela.”

Groddeck recomenda: Cuide [sic – Cuida] da tua língua, atenção às conseqüências de tuas palavras! Essa sugestão se dirige principalmente ao que ele chama de: a mania dos diagnósticos. E à sua dúvida: em que o diagnóstico ajuda o paciente?”

Neste momento, os problemas sociais são ainda parte integrante da medicina de nossos dias.” Afasta-te do médico bolsonarista mais do que o diabo se afastaria da cruz, porque neste problema social ele é claramente o problema!

cada época é, assim, tanto saudável quanto não-saudável, da mesma maneira que cada ser humano é simultaneamente sadio e doente.” Temo que este aforismo não sobreviveria à análise de Groddeck se este ressuscitasse no séc. XXI!

o erro antigo que considera que a doença é um agente externo que agride o homem desde fora. […] é bom admitir que a doença não é jamais um elemento externo ao corpo, mas um processo da vida […] que o elemento decisivo para a evolução da vida no sentido da saúde ou da doença não é o bacilo, mas o próprio homem.” Antigo mas bem recente: data da invenção da microscopia. Hipócrates já tinha a mesma visão sistêmica da psicossomática. Não é o maldito vírus, mas o verme do vírus (o homem).

As tendências de cura estão incluídas na própria doença. Existem mesmo no câncer, mesmo na morte; a vida persegue a sua ação ordenadora, procura curar e trazer à saúde, criar, mesmo quando as condições são más, a melhor existência possível: ela comove a sensibilidade do doente.”

Quer estejamos doentes ou bem, portanto, a vida é uma aposta na ordem. Sem se cansar ela diz ao homem: ‘coloque ordem’ […] porque o caos está em você [sic – ti] mesmo, aqui está a doença que tem a missão de colocar a ordem no teu caos.” A ansiedade busca fundir o organismo humano tão previsível e estático perante o caos do capitalismo tardio num caos sui generis, numa – sem dúvida, de algum prisma possível – ordem convivível… Mas isso não podemos deixar, já vai além do propósito da vida… Seria preferível morrer em catalepsia e apatia a se adaptar a um mundo tão cruel. Diga, Groddeck, você teria se rebaixado a usar Prozac?

É doente, no meu significado, o indivíduo diminuído em seus desempenhos e que se credita como tal. Para mim, todos os outros são saudáveis, pouco me importa que a Faculdade os tenha declarado gravemente doentes.”

Qualquer um que se sinta doente é conveniente se considerar doente, mesmo que o exame não descubra nada de patológico sobre ele ou nele.”

A cada indivíduo correspondem critérios que permitem determinar ou não a existência de uma patologia. (CHEMOUNI, 1984, p. 34)”

Vale salientar que Groddeck não tinha uma teoria do psíquico, tanto em seus aspectos estruturais quanto dinâmicos. A sua noção de inconsciente era pensada dentro do espírito romântico como desconhecido, um aspecto oculto da natureza e do sujeito, material sem estrutura que se expressa principalmente na poesia, nos sonhos e na enfermidade mental. Como clínico geral, Groddeck, nesse primeiro momento, situa o inconsciente e faz seus comentários a respeito dele como o desconhecido das funções somáticas

…e, nessa ampliação é necessário que se desloque sua perspectiva do Romantismo para a Psicanálise conforme pensada por Freud.” O Fraudismo é o puro Romance (só falta o Amor, claro)… Para “se deslocar” do Romantismo das concepções simbólicas do inconsciente a uma verve mais pseudanalítica do pensamento, Groddeck não teve de dar um só passo!

Quem não estuda está condenado a repetir a História. Neste caso que nos cabe agora, quem não estuda está condenado a repetir erradamente que Fraud foi pioneiro em alguma coisa, e um escritor honesto. Alguns parágrafos ilegíveis…

Queremos a esperança da cura. Bem mais: no fundo, não esperamos, desde o primeiro momento, a ajuda, mas a certeza da cura. Não se sabe mais apreciar a sua [nossa] situação, perdeu-se [perdemos] a [nossa] confiança em si [nós]. Essas duas coisas espera-se do médico.” E isso era tudo o que a pseudanálise não podia dar. Mas a autora da tese de mestrado não sabia disso…

O médico, sem dúvida, existe para todos os que sofrem, e ele deve dar ao seu tratamento a forma mais simples possível, a fim de que todo mundo, ricos e pobres, possam (sic)¹ aproveitar; diante do médico todos os homens são iguais, ele age sem considerar a pessoa” Outro preceito NADA seguido pelos instintos semitas da fantástica arte de extirpar neuroses com a força dos fundos movimentados pelos cheques – que perdeu um pouco da parte ‘artística’ conforme as décadas foram corroendo seus métodos estelionatários…

¹ As traduções da autora também são péssimas. Deixei este trecho como lembrete, num erro de concordância primário; porém, foram muitas as instâncias em que tive de corrigir aspectos básicos como a pontuação e a sintaxe elementar, que a criatura (nunca traduzindo do alemão, o vernáculo de Groddeck, mas do italiano ou do francês!) transcrevia diretamente do idioma original, como se o português fosse acentuado como seus primos latinos, tivesse ritmo idêntico – no francês isso é particularmente bisonho, pois, sabe, os, franceses… amam, vírgulas, Paulos, Coelhos, e três… pontinhos!… e exclamações. Só à guisa de comparação vamos recitar o trecho acima conforme citado na nota de rodapé da tese, antes da versão da autora:

« le médecin, n’est ce pas, existe pour tous ceux qui souffrent, et il doit donner à sa thèrapeutique la forme la plus simple possible, afin que tout le monde, riches ou pauvres, puisse [curioso! o erro de concordância não existia aqui!] en profiter, devant le médecin, tout les hommes sont égaux, il agit san[s] considération de la personne. » Não houve o cuidado, como denota o [s], nem de copiar os trechos com 100% de fidelidade.

Antes da Psicanálise se estabelecer como modelo terapêutico hegemônico na Europa e na América, a hipnose e a sugestão eram os procedimentos terapêuticos dominantes. Foi Liébault quem estabeleceu a doutrina da sugestão terapêutica.” Verdades e mentiras mescladas numa frase mesquinha.

Os membros da família, mesmo quando estão de boa vontade e sobretudo em função das suas boas intenções, constituem um obstáculo ao tratamento. Todo mundo, desde a infância, gosta de brincar de médico, e quando um membro querido da família fica doente, desamparado, você o socorre dando conselhos a torto e a direito e, em seu zelo excessivo, acaba atrapalhando.”

EXCELENTE: “Supo[nha]mos que, a partir de agora, nós dispomos de todo o conhecimento que a humanidade acumulará nos milênios que virão; nós não seríamos capazes de curar um simples resfriado: nunca poderemos fazer mais do que tratar. Este mesmo tratamento, que é a nossa única tarefa, e privilégio só nosso, será sempre limitado pelo poder da própria vida. A vida tolera com rigor que tiremos uma articulação doente, por exemplo, do joelho, substituindo-a por outra; ma[i]s ainda, é possível pensar que ela nos permitirá um dia transplantar de um indivíduo a outro, a fim de substituir os órgãos deficientes, o[s] rins, os ovários ou os olhos saudáveis. Mas, sempre, ela [Mas ela sempre – aprender a traduzir, dona Maria Consuelo!] se reservará [a]o direito de fazer viver ou não esses órgãos, se eles serão recebidos ou não dentro da unidade do corpo humano.”¹

¹ Esta última frase, de novo, evidência cristalina dos péssimos dotes da tradutora de improviso. Eis minha versão: “Sempre, porém, é a vida quem se reservará ao direito de deixar que sobrevivam ou não estes órgãos, de recebê-los ou não na unidade do corpo humano.” O “dentro da” como tradução de dans é típico de um estudante de primeiro período de francês que nunca aprendeu o conceito-base de tradução como tradução do conteúdo global e não simples ‘termo a termo’ o que nunca existiu fora dos recônditos da subliteratura. E a subliteratura não devia estar presente em nenhuma pós-graduação; nem num modelo hiper-expansionista, tendente ao universalismo (o chinês, por exemplo).

Tive que corrigir a próxima tradução inteira, de tão capenga:

Oliveira e Silva: “Levavam, pelo contrário, mais profundamente inscrito no seu coração que nós não fazemos, esta verdade, essencial do exercício do médico: a saber que somente a vida tem o poder de curar, o fato mesmo de estar vivo, é o verdadeiro médico.”

Rafael Aguiar: Seus corações, ao contrário, traziam inscrita, mais profundamente do que nos nossos, esta verdade essencial do exercício do médico: que somente a vida tem o poder da cura; que a vida, o fato mesmo de se estar vivo, é o verdadeiro médico.

Mesmo se fosse uma noviça no francês, caso tivesse alguma noção de escrita (do próprio recurso lingüístico padrão, i.e., do português!) e um pouquinho de teoria da tradução incorporada, poderia disfarçar facilmente a falta de estilo. Mas é um estilo todo cru, cego, cheio de arestas. Se é que não é o puro suco do google translate! Depois querem que eu diga por que um homem de altas qualificações como eu não quer perder 2 anos de sua vida sendo avaliado por pares – e que pares! Olhem o que deixam entrar e, portanto, titular-se (porque ninguém reprova num mestrado a não ser por falta)! Alguém incapaz de inverter a ordem frasal na translação entre dois idiomas, porque não tem a sensibilidade DE LEITOR suficiente para notar que ao não fazê-lo o português fica severamente prejudicado! Alguém que disso não sabe não pode se meter a ensinar medicina ou psicologia. Seria confissão de charlatanismo.

Estraçalhar o estilo, retalhar seu autor favorito, remover dele toda sua poesia: é isso que você faria como “homenagem” num trabalho? Num trabalho que imortalizará seu nome, pelo menos por algumas gerações, num arquivo mofado de universidade, para consultas de olhos curiosos de uma ávida geração distante?! Sugiro destinos melhores! Mas só posso ficar na sugestão. Minha sugestão não tem poder hipnótico!

5.15 PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (?)

No dia 28 de junho, ao entrar na cidade em carro aberto, alguém jogou uma bomba contra ele. Ferdinand empurrou o artefato para perto de outro veículo. Sua sorte não durou muito. Após comparecer a uma recepção na prefeitura, o arquiduque foi visitar os feridos do atentado. O estudante bósnio Gavrilo Princip avançou em direção a seu carro e disparou 3 tiros, matando Franz Ferdinand e sua mulher, Sophie. Esse ato, que agitou as engrenagens de alianças nacionais, alimentadas por nacionalismo e temor, foi o estopim da Primeira Guerra.”

Viena exigiu que Belgrado censurasse publicações anti-austríacas e prendesse ativistas anti-monarquistas. A Sérvia rejeitou essas exigências, aceitou outras e pediu uma arbitragem internacional. As autoridades austríacas, decididas a subjugar os sérvios, recusaram a interferência externa.” The same dirty old game and tricks by the pigs, pigs, PIGS!…

Em um mês, Montenegro lutava ao lado dos sérvios, o Japão junto a sua aliada britânica e a Turquia em defesa dos germânicos.” Com essas alianças bizarras, difícil considerar a Segunda Guerra como segunda e não como parte orgânica da primeira e única guerra total da História (como Poderoso Chefão 2, nem é uma continuação, é o próprio filme original).

E o que acontece com Groddeck neste período inicial da guerra? Ele é convocado, não para atuar no front, mas para ser o diretor-médico do Hospital Militar da Cruz Vermelha em Badischer Hof.”

Para uma apresentação, causas, implicações e desdobramentos políticos e culturais da Primeira Guerra Mundial, ver: A Sagração da Primavera, Modris Eksteins. Rocco, Rio de Janeiro, 1991

Sendo fiel ao seu projeto de trabalho, Groddeck não consegue se adaptar às pressões do tempo, imposto [SIC – IMPOSTAS] pelas exigências próprias de uma guerra[; n]e[m] muito menos se adequar às características próprias de um hospital para militares feridos. Como consequência, acabou tendo problemas com o restante do corpo clínico.

Aqueles dois outros colegas do Badischer Hof assumiram uma posição completamente diversa e logo[,] em pouco tempo[,] renuncia[ra]m a colaborar naquele projeto de cura. A sua atividade está sendo [SIC – foi] considerada de modo crítico mesmo pelas autoridades médicas sanitárias. (MARTYNKEWICZ, 2005)”

Groddeck se irrita e manda¹ rapidamente uma carta de protesto à autoridade sanitária, na qual reivindica o ‘direito fundamental do médico’, que mesmo na guerra deve poder curar ‘em seu critério’ e não ser ‘influenciado por alguma ordem’. A autoridade, segundo ele, não teria direito de criticar de nenhum modo a sua ação médica ou de impor-lhe regras; como médico ele afirma não se submeter às leis da guerra. A autoridade militar não se deixa impressionar e intervém, depois de haver tomado uma outra posição, […] na metade de maio Groddeck é exonerado do cargo de diretor médico do Badischer Hof. […] O licenciamento representa uma degradação oficial e uma declaração de incompetência.” Groddeck se mostrou tão ético e íntegro que vou chamá-lo de ANTI-FREUD!

¹ Provavelmente a autora pensa que o passé literário francês é o presente do indicativo, daí tantas frases estranhas nesta linha.

Além destas questões ligadas à sua atividade como médico de um Hospital da Cruz Vermelha, 2 fatos pessoais ocorrem neste período: em setembro de 1914, morre o ‘último Groddeck’, seu irmão Hans; outro fato acontece neste período, mas que terá efeito e desdobramentos significativos pelo resto da vida de Groddeck: em maio de 15 chega ao sanatório uma viúva sueca, Emmy Martina von Voigt. Fica pouco tempo na clínica como paciente e, quando retorna em julho do mesmo ano, Groddeck a convida para ser sua colaborada e assistente; em suas memórias escreve: ‘Em 1915 conheci minha futura esposa. Isto me fez progredir rapidamente.’

E abruptamente (nessas aspas mesmo!) termina a tese. Bizarro. Capítulo fora do lugar este da 1ª guerra? Sim; mas a tese em si é fraca, então não é um erro grosseiro. Isto é, diante do quadro geral é até perdoável!

NOTAS

Para Ber[n]heim e a escola de Nancy, [a] terapia de sugestão consistia na deliberada manipulação do crédito, fé e expectativa sob a orientação da sugestão e auto-sugestão no tratamento de uma vasta gama de condições físicas e psicológicas.” Shamdasani

CONCLUSÃO

Se dermos um texto não identificado escrito por Groddeck para um estudante de medicina que esteja lendo sobre Humanização, este possivelmente acreditará se tratar de um texto contemporâneo, e não um texto escrito a mais de nove décadas.” Se aos pacientes se der tanta atenção quanto à penteada na gramática desta tese, estão bem fudidos e desumanizados! Se não tem tempo de revisar o próprio texto, saia da academia. Mas o orientador e a banca ainda conseguem ser mais malditos… Uma revisão de literatura tosca de nível de terceiro semestre de uma graduação de humanas (mesmo sendo uma especialização, aparenta generalidade total, quer em medicina, em psicologia, em história das idéias, quer em epistemologia…). Este é meu parecer honoris causa.

COMO FILOSOFAR COM (A FOICE E) O MARTELO: SUPERANDO ELON MUSKS E O BUDISMO EUROPEU

Lutero demarca o início da transformação do misticismo nazareno na autodisciplina intramundana do trabalho incessante ligado paradoxalmente à avareza e acumulação de capital, que vemos estudada em detalhe em Weber – da abnegação espiritual sincera à completa venalidade materialista do indivíduo contemporâneo. É exatamente essa faceta do protestantismo que torna esta religião tão exitosa em salvar drogados e ex-satanistas ou bandidos. A mais completa apologia do status quo. Nada mais anticristão. Até entendo por que pessoas como o Tadeu confundem o amor fati com esta definição filistéia! E agora parece que cheguei a uma compreensão aperfeiçoada do que Nietzsche queria indicar com ‘budismo europeu’ – a passagem à re-espiritualização é dura, pois implica primeiro numa aceitação-do-mundo-como-ele-é, para poder superá-lo (essencialmente é uma interiorização da luta de classes marxista e superação do capitalismo global, a forja de um mundo material em que o espiritual não está mais corrompido). O budismo europeu é quando a civilização hoje tornada mundial está cansada deste mundo e está tentada a dele desistir. O problema é que desistir deste presente passageiro (embora maior que o tempo de vida de um indivíduo) é o mesmo que atirar pela janela toda a existência. Em suma, aqui é que se situa mais explicitamente a oposição fundamental e irreconciliável entre Nietzsche e Schopenhauer. Onde verdadeiramente se continua (se deveria continuar) após a última linha do primeiro tomo de O mundo como vontade(…), não rumando ao misticismo novamente, mas indo-além-no-mundo, em oposição à vida seca e material daquela Europa do XIX. Figuras como Elon Musk, espécies de líderes ideológicos da atualidade ou representantes do Zeitgeist, ainda estão situadas no positivismo otimista do progresso ilimitado, avatar tão velho! Falta muito ainda. Ainda não é o tempo de espiritualizar-se, primeiro deve-se usar o martelo e a foice o suficiente… O budismo europeu se concretaria quando o mais próspero dos bilionários já não for capaz de sentir a menor centelha de prazer na vida! Predominância e universalização da ética de escravos. Todos na Terra já são, nesse momento por vir, encarnações de Jesus de Nazaré. Aí está a brecha para a ascensão de uma nova casta de senhores fortes, espiritualmente amante da vida e inimiga dos valores vigentes. É neste exato sentido que se deve ler o “O Cristianismo estava à beira do colapso, quando essa tragédia, o luteranismo, despontou e ressuscitou o cadáver!”, ou aforismo parecido, no Anti-Cristo. Dá até saudade da concupiscência imoral de um Bórgia – ao contrário, nos deparamos hoje com a de um Edir Macedo (urgh)! É porque de um neo-protestantismo (no fundo apenas, ainda, o bom e velho protestantismo) não nascerá outra doutrina CRISTÃ para salvar novamente o monoteísmo que este ciclo ou esta era terão um dia irremediável fim histórico…