Trechos selecionados de antigas postagens do primeiro blog do autor, de 18 de setembro de 2009 e 6 de novembro de 2009. Duas obras serviram de bibliografia para as citações e comentários: Vida de Federico, biografia de Daniel Halevy traduzida ao espanhol e My Sister and I, obra anônima, falsamente atribuída a Nietzsche, ambas, se e quando vertidas ao português, citadas em traduções minhas. Exemplares consultados na biblioteca da Universidade de Brasília à época.
* * *
Carl Ludwig. Pai luterano e também enfermiço. Gosto pela música e pela solidão! Tinha os reis em alta conta, daí provindo o nome do filho, Frederico Guilherme.
Desde sempre muito introspectivo: só foi falar aos 2 anos e meio!
Famoso registro de um sonho que teve aos 14 anos: prenúncio da morte de seu irmão caçula.
“el Señor de los cielos fue nuestro único consuelo”
“el pastorcito”, assim N. era chamado no círculo familiar.
Intensa produtividade literária já aos dez anos. Eu também tive esses impulsos – que pena que tratavam de jogar tudo o que eu fazia no lixo!
Pp. 19-30: ausentes do exemplar que li.
“Embriagado de si mesmo, escreveu a história de sua infância” em 14 dias!
P. 37: será que seu ódio pela cerveja tem origens em um embebedamento que o fez se machucar a cavalo?
Na escola, gostava de brigar e chamar para o duelo.
“Esta alegría infantil dura poco”
Hiato poético. Aluno de Ritschl.
SOBRE OS POSITIVISTAS: “N. os leu… mas não os releu”
Hegel, Fichte e Schelling viviam o seu auge no ambiente acadêmico.
Iniciou estudos em Bonn, mas transferiu-se para Leipzig. Na festa local, a do centenário da entrada de Goethe na instituição, o reitor desaconselha ser como ele (Goethe): um mau aluno! Um paradoxo: reconhece-se o fermento do grande homem, mas o homem erudito se recusa a replicá-lo.
“este brônzeo monstro de força”, em referência a Schopenhauer. O pai que N. arranjou para si mesmo na idade em que é preciso ter um, biológico ou não (20).
CRISE FILOLÓGICA (PP. 53-4): “Que uma multidão de cabeças medíocres se ocupe de coisas cuja importância e conseqüência sejam graves e reais é um pensamento aterrador.”
Míope e aquartelado durante a guerra. Cai do cavalo e quebra uma costela.
“A sutileza e a doçura platônica mostram já os signos da decadência.” Hipérbole!
“Os gregos criam, então, como hoje os europeus, na fatalidade das forças naturais. E criam também que o homem deve se criar a si mesmo, e a suas virtudes e seus deuses. Um sentimento trágico, um valente pessimismo, que não os apartava da vida, pelo contrário, animava-os.”
Quando Nietzsche começa a ler Montaigne, ele mesmo o declara, sua desde sempre frágil amizade com Wagner, homem de outra geração, começa espiritualmente a derrocar…
“Ciência, arte e filosofia crescem tão bem-ligadas em mim que creio que darei a luz a um centauro.”
“no leía nunca los periódicos”
1870: A reunificação alemã em seu ápice imperialista, engolindo o sul ainda rupestre e provincial.
Aqui recomenda-se a leitura de “De Dioniso a Bismarck. Tragédia e Política em Nietzsche”, tradução de um artigo de Baeumler, 1931.
“as guerras modernas são supérfluas”
Burckhardt
Na época de Nascimento da Tragédia Nietzsche soa como um discípulo hegeliano envergonhado. Seu objetivo é buscar uma finalidade na História a fim de lutar por ela – um longo caminho até Vontade de Potência…
“E se é certo que os gregos foram destruídos pela escravidão, ainda é mais certa esta outra afirmação: a falta de escravidão é causa de que essa nossa época pereça” Como negar? Criticar a democracia só pode significar apologia de um novo sistema hierárquico (não-burguês). Os direitos humanos nunca funcionaram na prática, não há senhores, apenas escravos. O artista é o protótipo do homem superior: não pensa no trabalho como trabalho, não pensa na riqueza como dinheiro. Tem fins maiores em vista.
Será que nos distanciamos tanto assim da ética da guerra antiga, em que os vencidos se tornavam escravos dos vencedores? O que se tornarão os ucranianos para os europeus desde este instante? Os ucranianos que não preferirem se tornar o que são, i.e., russos?
P. 116: Os sanguessugas inevitáveis do Estado-nação moderno: o general, o empresário obscuro (o oficial que nunca foi soldado, burocrata, homem de gabinete, anti-herói). Efeito colateral da “onda pacifista” européia. Homens da paz: homens do dinheiro. Assim como a humanidade não é mais digna de reis, não é mais digna de comandantes militares à antiga, apenas chefes nominais, farsas. O que se viu nos avanços bélicos da Prússia imperialista foram gritos de desespero de uma Alemanha nostálgica dos tempos nobres e épicos das guerras. Hoje continuariam havendo mais e mais gritos nostálgicos (mais do que os que já ocorrem por todo o planeta) não fosse a constatação de que quase todo conflito militar que se tem a intenção de iniciar não seria estrategicamente interessante, i.e., NÃO GERARIA LUCRO. “Lucro” é o único ser vivo do planeta habitado pelos economistas de Estado. Como dança uma nação atrofiada: tudo o que ela faz acaba por matar – dos miseráveis aos burgueses.
Polêmica contra o sufrágio universal: historicamente, é justificado como uma recompensa pela bravura da sociedade, dos nossos ancestrais. Efeito colateral: esteriliza as populações.
“Quando um Estado não pode alcançar seu mais alto fim, cresce desmesuradamente. O império mundial dos romanos não tem nada de sublime frente a Atenas”: denúncia do perigo expansionista. Ademais, exemplar pulverização da teoria do espaço vital, a Lebensraum alemã.
N. se torna pensionista da Universidade da Basiléia aos 27 anos de idade devido à precarização de sua saúde.
P. 123: pérola do autor da biografia: “Nascimento da Tragédia, único verdadeiro livro que N. levara a cabo.”
“Será o filósofo sempre um ser inútil para os homens?” “um lírico que não chega a ser artista”
De 3 mil em 3 mil anos as palavras se invertem? Há também um esgotamento do homem artístico, um niilismo às avessas? Morre-se de sede e afogado sucessivamente na História?!
“Talvez se possa falar dos fins inconscientes de um formigueiro; mas de todos os formigueiros da Terra?…” Alusão à abstração do conceito de humanidade.
“TALES – tudo deriva de um único elemento.
ANAXIMANDRO – a fuga das coisas é seu castigo.
HERÁCLITO – uma lei rege a fuga e a permanência das coisas.
PARMÊNIDES – a fuga e a permanência são mera ilusão. Apenas o Um existe.
ANAXÁGORAS – todas as qualidades são eternas: nelas não há devir.
PITAGÓRICOS – todas as qualidades são quantidades.
EMPÉDOCLES – todas as causas são mágicas.
DEMÓCRITO – todas as causas são mecânicas.
SÓCRATES – só o pensamento é imperturbável.”
Todos estão certos. Os germes mais antigos. Contra e por Homero.
“De vez em quando me sobrevém uma repugnância infantil pelo papel impresso; parece-me não ver nele senão papel manchado.”
DAVID STRAUSS, A PRIMEIRA VÍTIMA: “Federico ha encontrado al hombre que desea destruir”
As idades do homem de Flaubert: paganismo, cristianismo e porquismo.
NIETZSCHE & ENGELS: O Anti-Dühring poderia ser uma obra conjunta, pois ambos gostavam de detratar o mesmo intelectual!
P. 206: “Me alimento quase exclusivamente de leite.”
IMPRESSÕES GERAIS DA FIGURA DE NIETZSCHE: “voz musical (…) falar lento (…) vista fixa (…) cabelos curtos escovados para trás (…) maçã do rosto eslava”
O método peripatético não diz respeito só a “filosofar em movimento”, como muito se veicula. Maneira de aprendizagem horizontal de dois ou mais sábios – significaria que Aristóteles não se considerava um mestre de escola nem que possuía “discípulos” no rigor da palavra. Uma conversa enquanto se passeia pelo bosque, por exemplo.
“Não deves amar nem odiar o povo¹
Não te deves ocupar da política²
Não deves ser rico nem indigente³
Deves evitar o caminho dos ilustres e poderosos
Deves desposar uma mulher estrangeira4
Deves deixar a teus amigos o cuidado de educar teus filhos
Não deves aceitar nenhuma das cerimônias da Igreja”
¹ Anti-Dostoievski!
² Não deves ser ativista político se queres ser filósofo, que se ocupa, entretanto, totalmente da política.
³ Está muito além da própria escolha individual, mas sem dúvida seria um filtro para o exercício da vocação do filosofar.
4 Indecifrável em relação a tudo que deixou por escrito.
A influência da estilística de Pascal e La Rochefoucauld sobre a escrita de N.
Pseudônimos e iniciais: a salvação dos imorais! Que pena que a Constituição veda o anonimato. Não é mais possível fazer boa literatura de polêmica sem ser processado.
“envelheci dez anos em uns poucos meses.”
“um enfermo não tem o direito de ser pessimista.”
“…e a saúde recomeça seu jogo mágico.” – Muitas das convalescenças de N. foram no clima prazenteiro do sul da Itália.
“O espírito voltado para a oposição da dor vê as coisas debaixo de uma nova luz; e o indizível encanto que acompanha toda luz nova basta às vezes para vencer a tentação do suicídio, e para fazer a vida desejável. Aquele que sofre pensa com desprezo no mundo vago, tíbio e cômodo em que se compraz o homem são; pensa com desprezo nas ilusões mais nobres e mais queridas em que se deixa absorver; este desprezo é seu gozo, o contrapeso que o ajuda a se defrontar com o sofrimento físico, contrapeso cuja necessidade sente então… Seu orgulho se rebela como jamais se havia rebelado: defende com deleite a vida contra um tirano como o sofrimento, contra todas as insinuações desse tirano que nos quis obrigar a blasfemar contra a vida. Representar a vida frente a esse tirano é uma tarefa de incomparável sedução.”
Aurora
Este aforismo sempre representou minha vida. Atualmente dedico-o a W.O.
“Uma independência que não moleste a ninguém; um orgulho doce, velado, um orgulho que, não invejando as honras e satisfações dos demais e se abstendo de burlas, não incomode a gente… Um sono ligeiro, uns modos livres e pacíficos; ausência de álcool, de amizades ilustres ou principescas, de mulheres e de jornais, de honras e de sociedade – que não seja a de espíritos superiores e, à falta destes, de gente humilde (da que é tão impossível prescindir quanto da contemplação de uma vegetação poderosa e sã) –; os pratos mais fáceis de preparar, se possível preparados por mim mesmo, ou que mal tenham necessidade de preparação.” Curiosidades insólitas e sem valor.
“Por fim encontra N. aquela idéia cujo pressentimento o agita com tanta violência. Um dia em que caminhava pelos bosques de Sils-Maria, em direção a Silvaplana, sentou-se, não longe de Surlee, ao pé de uma rocha piramidal; naquele momento e naquele local concebeu o eterno retorno.” Romantização de biógrafo precoce.
“a música e a nostalgia de um passado melhor”
Observações pessoais minhas: Cabal, Senhorita, 2005 – sensação de potência desperdiçada – por quê? À época eu apenas queria ser o que sou hoje, a própria vontade niet. Porém iludo-me dalguma forma, querendo retroagir para reaver estas possibilidades perdidas. E contudo, como minha cabeça era ali, só podia me levar até aqui – o INESPERADO, apenas agora verificável. Se eu voltasse no tempo com ESTA consciência, amadurecida, todas as cores imaginadas desbotariam em desprezo – não foi o mundo que piorou em 3 (18!) anos. Eu me tornei mais sensível em relação à essência deste mundo. Atenuante invencível: 2005 e sua sensação de estar no topo de um monte sagrado, isso se repetirá INDEFINIDAMENTE…
Pp. 265-6: “O tempo, cuja duração é infinita, deve repetir, de período em período, uma disposição idêntica das coisas. Isto é inadiável, uma necessidade; logo é necessário que todas as coisas voltem a ser. Dentro de tal número de dias, número imprevisível, imenso, apesar de limitado, um homem, semelhante em tudo a mim, eu mesmo, em suma, sentado à sombra deste rochedo, encontrarei de novo esta mesma idéia. E esta mesma idéia voltará a se encontrar com este homem, não somente uma vez, mas um número infinito de vezes, pois o movimento que repete as coisas é infinito. Logo devemos abandonar toda esperança e pensar firmemente: nenhum mundo celestial receberá os homens, nem os consolará nenhum destino melhor. Somos as sombras de uma natureza cega e monótona, os prisioneiros de cada instante. Mas não esqueçamos que esta tremenda idéia que nos proíbe toda esperança enobrece e exalta cada minuto de nossas vidas; se o instante se repete eternamente em um monumento eterno, dotado de valor infinito e – se a palavra divino tem algum sentido – divino. (…) Ápice da meditação.” (1881)
“Aurora não teve o menor êxito [comercial]”
“Eis aqui a pedra em formato de pirâmide, no lugar da qual, em 600, 1000 anos, se erigirá uma estátua ao autor de Aurora.” Carta a Paul Rée. Demorou muito menos do que isso.
“ninguém se interessa por esse Zaratustra”
N. supostamente interdito de lecionar em Leipzig por seu “ateísmo” – como se tivera saúde restante para tal!
Inicialmente, por ter passado um hiato sem editor, Assim Falou Zaratustra foi entregue apenas para 7 chegados: a irmã Elizabeth, Erwin Rohde, Overbeck, Paul Lanzky (jovem admirador niet., desconhecido hoje), Peter Gast (futuro co-editor), Mme. von Maysenbug e Burckhardt. Outro contato de N., Gersdorff, aparentemente já falecera. Rohde como que já havia rompido com o antigo amigo.
P. 380: páginas devotadas a Dostoievski e o “cristianismo revolucionário russo”.
P. 399: “As tendências humanitárias não são anti-vitais, pois convêm às massas, que vivem com lentidão; e, convindo a elas, convêm à humanidade, que necessita da satisfação das massas. As tendências cristãs são igualmente bonacheironas, e nada é tão desejável como a sua permanência, pois convém a todos os que sofrem, todos os débeis, e é necessário para a saúde das sociedades humanas que o sofrimento e as debilidades inevitáveis sejam recebidos sem rebelião, de modo submisso e, se possível, amorosamente. § Diga o que diga o cristianismo, não posso esquecer que lhe devo as melhores experiências da minha vida espiritual, e espero não ser nunca ingrato com ele no fundo do coração…” Já se imaginou tamanha isenção intelectual? Um homem que entende que o melhor para o futuro e para outros homens não é ou não será aquilo que é ou foi melhor para si mesmo? Houve filósofo mais probo?
P. 411: “Quando se estudam os últimos meses dessa vida, parece como se se assistisse ao trabalho de uma máquina de guerra que a mão humana já não governa mais”
O Código ou as Leis de Manu teriam sido uma das últimas leituras de N. Livro extenso e cansativo. Estou lendo-o há meses (agora em hiato).
* * *
O primeiro ou principal a refutar a obra Minha Irmã e Eu (Ich und meine Schwester) como de autoria nietzschiana foi Walter Kaufmann (1952, 1955). WIKI: “If legitimate, My Sister and I would be Nietzsche’s second autobiographical and final overall work, chronologically following his Wahnbriefe (Madness Letters), written during his extended time of mental collapse. (…) The book was tied quickly to controversial publisher Samuel Roth, the putative owner of Seven Sirens, who had spent jail time for the unlawful distribution of a version of James Joyce’s Ulysses (1922). In the book’s introduction, an anonymous publisher claimed to have received the manuscript from a fellow inmate of Nietzsche’s in Jena and to have hired Oscar Levy to translate the work only to have both German and English manuscripts confiscated, with only the latter surviving. (…) Kaufmann claimed in a footnote in his Nietzsche: Philosopher, Psychologist, Antichrist (first published 1950) to have received a ghostwriting confession from minor author David George Plotkin in 1965.” Creio que não preciso opinar que segundo o cânone da arquivologia ou filologia é impossível ceder e duvidar de que seja uma fraude. A ausência do manuscrito original e o lapso de tempo até o misterioso aparecimento das cópias são dois detrimentos inexcusáveis para o sucesso da teoria da autenticidade, por mais que seja um livro bem-escrito e prazeroso, e o estilo de N. seja até replicado com sucesso em suas páginas! Ainda assim: “Nietzsche scholar Walter K. Stewart, in his 185 page monograph Nietzsche: My Sister and I — A Critical Study published in 2007, argues for the original’s potential legitimacy by conducting a point-by-point analysis of Kaufmann’s book review.”
As informações mais sensacionalistas nessa pseudo-segunda autobiografia de N. são que teve envolvimento amoroso-incestuoso (assexual) com “Lama” Förster (como N. chamava sua irmã Elizabeth), que podemos dizer com segurança que ele odiava, e profundamente, e com Cosima Wagner, viúva de Richard Wagner – é até engraçado!! À época (2009), eu cria na possibilidade da autenticidade desta fabulosa história, tecendo o comentário de que os ciúmes muito intensos por Elizabeth demonstrados nas cartas de N. não eram “normais”. Porém, não levava em conta então costumes de família na Alemanha do séc. XIX, uma sociedade muito mais androcêntrica.
Eis a desculpa médica para tornar a história da escrita desse livro plausível: “Sua deterioração cerebral prejudicou seriamente a capacidade de N. responder as pessoas, mas seu fluxo de pensamentos não tinha sofrido alterações significativas, e ele não verificava, ao despejar suas idéias no papel, a mesma hesitação do contato falado.”
O primeiro capítulo já abre com uma “paródia” do relato niet. do sonho com a morte do irmão menor: no asilo, sonhava com a morte da mãe. A mãe de N. morreu poucos meses antes do próprio.
“Para o odiador, a Alemanha é o lugar. Em primeiro lugar, há o kaiser, que se pode detestar a vida inteira.”
“Tenho mãos e pés pequenos como os de uma mulher. Teria sido eu destinado a ser mulher? Sou acaso um descuido de Deus?”
“meu cérebro vai se tornando pedra” “Como uma múmia egípcia que esqueceu de morrer por inteiro, eu sou o expectador da minha própria morte, sentindo meus olhos se tornarem poeira”
“Esse é o paradoxo da minha existência? eu amei a vida ao máximo, mas não pude direcionar essa paixão do modo clássico” “Essa grande mente, a maior desde Aristóteles, está sendo dissolvida na imbecilidade da massa”
“Eu cortei a história do mundo em duas ao escrever o Ecce Homo”
“Antes de mim os filósofos guerreavam em trincheiras contra o cristianismo. Eu promovi uma guerra total, e isso me deixou sem amigos.” Veja o anacronismo das expressões guerra de trincheiras e guerra total, compreensíveis apenas a partir dos anos 30 do séc. XX!
“Sócrates e Schopenhauer são eunucos que perderam a capacidade de amar”
“Na Grécia Antiga a riqueza de um homem era avaliada por seu número de filhos – em correlação positiva”
“Voltaire foi a França que respirava aquele ar de liberdade ideológica inglês”
“Todo pensador socialista falha ao não entender que a distribuição desigual de sabedoria, poder e talento é essencial em uma comunidade, para o contínuo exercício, ali, de sentimentos como piedade, compaixão, generosidade e proteção, que são os ingredientes das únicas civilizações que tiveram qualquer tipo de duração” O autor se esquece de que a ditadura do proletariado leva tudo isso em conta – como não levaria?
“Talvez a autêntica tragédia na história do homem tenha se dado, não quando o homem se viu pela 1ª vez nu diante de sua comparsa, mas quando percebeu que era necessário sair de si para mostrar tributo à divindade. Ele não sabia que tinha sido expulso do Paraíso até se ver do lado de fora do portão.”
“É difícil crer que aqueles pés das estátuas gregas precisavam mesmo da mediação de sandálias. Se tivéssemos pés tão fortes provavelmente arruiná-los-íamos com pedicures!”
“Uma nação que tenha abdicado do sonho da conquista já abdicou há muito do sonho de viver” E no entanto isso colide com a crítica das nações expansionistas, vista mais acima.
“Estamos excedendo as contas em tudo. O universo não é, para começar, tão grande quanto se relata. O mundo como um organismo é tremendamente importante para si mesmo, mas da mais banal significância para o sujeito. E, com todas as suas perfeições creditadas, o homem é uma criatura extremamente imperfeita! Sendo assim, poderíamos deixar de lado o sentimento de extravagância sobre o que não temos, ou de angústia pelo que possivelmente deixamos de fazer ou experimentar. Tudo humano que valha a pena está contido em alguns prédios em Roma, Paris e Londres, e eu não trocaria o resto do universo pelo conteúdo de um deles. Ainda assim, no momento em que escrevo pode ser que as forças armadas da humanidade estejam se preparando para devastar esses prédios para começar uma briguinha de homens, cuja real potencialidade é tal que se fossem estes os últimos e únicos homens sobre o globo toda a raça teria de morrer sem deixar herdeiros.”
CRISES ECONÔMICAS COMO CRISES PERMANENTES DE QUALQUER ESTADO E MORAL QUE NÃO SÃO INSTITUÍDAS POR UM POETA-LEGISLADOR
“Como resultado da mistura dos economistas com leis científicas puras, sem legislação, certos princípios de economia aparentemente adquiriram um caráter duplo – o da generalização científica e o das regras que serão impunemente desobedecidas.”
“Você por acaso já viu uma única jovem com a metade da beleza do mais abandonado dos gatos de rua?”
“Se eu puder voltar a minha casa de novo, lerei o Livro dos Mortos egípcio” Mais sobre esta obra a seguir.
“O europeu aspira a uma sinceridade cristã no viver, mas treina sua consciência de modo que solte uma risada sempre que cruza uma igreja”
“Decidir o destino da comunidade via voto igualitário é tão razoável quanto escolher a mulher via loteria”
“Quatro mulheres em minha vida: duas, prostitutas, me fizeram feliz. Felicidade de momento.” Mais um aforismo nada característico da pudicícia nietzschiana em revelar detalhes íntimos que encerra o debate sério sobre a inautenticidade deste livro.
“Já fui tão maior que Schopenhauer que duvido que terei um sucessor” Alguém tendo-o escrito nos anos 50 tinha já cem por cento de segurança na afirmação…
“A vitória militar, se por algum engano do destino for nossa, não vai nem ao menos por isso curar nosso jeito azedo e turrão”
“Eu preferia ser um psicólogo do que o Deus do Gênesis”
“Como a Alemanha é a negação da França, a Rússia é a negação da Alemanha. A Rússia tem 2 vantagens em relação a nós: tem mais salas onde se lutar e mais judeus com quem lutar.”
“Uma querela entre 2 filósofos deve ser levada tão a sério quanto uma discussão filosófica entre 2 pedreiros.”
“Toda mulher é uma prostituta no coração e até compreender isso um homem não pode conhecer a pureza virgem de seu ser”
“Não só eu, mas os sofistas modernos estão em seu pôr-do-sol: por sofistas da modernidade quero dizer os humanistas, os empiristas, os relativistas, os utilitaristas e os individualistas.”
“Um Aristófanes [comediante, sátiro] do séc. XX vai me tachar como um Demócrito, pilhando-me como este foi pilhado: Longa vida ao Deus Furacão que destronou Zeus!”
“quando em Turim eu vi um cavalo ser açoitado pelo cocheiro eu corri da minha casa e abracei o animal, preocupando-me com seu devir. [esse detalhe biográfico de N. é autêntico] § Essa foi a causa de minha ruína: a divisória entre minha pregação e minha prática, e isto foi parte também da grande linha entre o antes e o depois do pensamento ocidental, que como eu ficará louco.”
“Se Deus tem pena de nós, ele está jogando com um dado interminável.”
“Aquilo sobre o que outros filósofos escrevem livros eu me contento em escrever parágrafos.”
“Só desenvolvemos 3 sistemas numéricos – contra mil línguas e 10 mil sistemas de raciocínio”
“Kant teria sido um filósofo melhor se tivesse dado ao menos 10 anos de aula de Filologia, o que ter-lhe-ia aclarado a importância de se fazer entender antes de ter certeza de que é entendido”
“A democracia é de números e é sustentada diretamente pelos matemáticos anônimos cujas obras foram destruídas no incêndio da biblioteca de Alexandria. Que pena que a natureza humana não é delineada pelas simples linhas, vamos dizer, das proposições euclidianas!”
“Se você é incapaz de ler Platão pelo simples prazer de lê-lo, leia-o visando ao ensinamento que ‘grita’ nas entrelinhas de cada diálogo: há somente um mundo, o mundo da experiência dos homens.”
CITAÇÃO DE MARX: “Os egípcios nos legaram uma verdadeira história de seu caráter nacional no Livro dos Mortos. Para caracterizar nosso tempo alguém deveria escrever um Livro dos Alemães Renegados – para incluir alguns que quiseram escapar mas não conseguiram – como eu. Se – os céus me proíbam – eu me tornasse o autor de tal obra, abriria com uma dedicatória a Heinrich Heine e encerraria com um comentário sobre Karl Marx, diante de quem os fins da criação teriam servido muito melhor se ele tivesse permanecido na Prússia, onde ele seria finalmente germanizado ou levaria um tiro. Como se sabe, Marx encontrou resguardo do germanismo na Inglaterra, de onde ainda nos dispara suas teorias pelo Canal da Mancha. [O humor do anacronismo do falsificador, o ‘Pseudo-Nietzsche’ que compôs a obra, é que isto devera ter sido escrito, se pela mão nietzschiana, em 1989, porém Marx morrera já em 1983 – tudo indica que jamais tendo ouvido falar de Nietzsche, e vice-versa.] Nesse cenário eu me desejaria qualquer lugar no centro, onde, aproximadamente, estou. [referência ao manicômio de Naumburg – wiki: “Naumburg is a town in the district Burgenlandkreis, in the state of Saxony-Anhalt, Central Germany.”]”
“Quanto a Marx, ele escreve num alemão tão ruim, o qual ele adorna com copiosas citações do latim e do francês [ironicamente a mesma crítica de estilo, pelo menos na parte das citações, poderia ser facilmente atribuída ao próprio N.] – línguas que ele parece não conhecer muito bem – a fim de impressionar a massa e confundir aqueles que esperavam poder entender.” Exagero evidente. Comparar Kant e Marx em questão estilística, p.ex., seria uma heresia – o segundo leva ampla vantagem!
“Em Heine os judeus nos deram muito; em Marx, muito pouco”
“Marx está para a lei da oferta e da demanda como Darwin está para a lei de sobrevivência do mais forte. Ambas as leis são o resultado de uma nova paixão produzida pelo séc. XVIII – pesquisa com ponto de vista.” Divertido especular sobre este comentário, sabendo que foi produzido no séc XX. Darwin não formulou a lei de sobrevivência do mais apto fora do reino animal, mas influenciou decisivamente seu emprego nas gerações posteriores. O que acontece com Marx sobre a lei de oferta-procura/demanda é um pouco diferente: ela é anterior a ele (efetivamente do próprio séc. XVIII); porém ele deve ser estudado mesmo pelos economistas liberais para que outros fundamentos da economia sejam compreendidos em relação com ela. Não há nada de correto em Adam Smith que não esteja em Marx, mas a lei da oferta e da demanda não é nada diante do escopo d’O Capital. Como Darwin deve ter muito mais informações preciosas em seus diários de viagem do que essa infame conseqüência política involuntária que gerou!
“A verdade ainda ludibria; mas não é mais aquela moça formosa, e sim uma velha rabugenta e desdentada.”
“Não quero ser mal-entendido: eu evito ler Marx tão apaixonadamente quanto enveredo por cada nova estrofe de Heine.”
“O Capital descobriu duas coisas que são os temas básicos dos congressos socialistas: 1) a mais-valia, pois o operário trabalha para gerar mais do que é vitalmente necessário para si, e até para si e para o capitalista juntos; 2) esse novo poder de exploração da classe trabalhadora é levado a um extremo tal que o burguês se torna, no mundo do dinheiro, tão poderoso e superior aos homens quanto uma vez fôra o divino senhor feudal.”
“O que não conseguirmos pela fé conseguiremos através dos métodos mágicos”
“Hegel é um Spinoza guiado pela velocidade de nossa idade industrial”
“É melhor que o mundo não saiba – ao menos enquanto ela viver – que Elizabeth cumpriu o mesmo papel em minha vida reservado a Augusta frente a seu [meio-]irmão caçula Byron.” WIKI: “Augusta Maria Leigh was the only daughter of John ‘Mad Jack’ Byron, the poet Lord Byron’s father, by his first wife, Amelia, née Darcy.” Aparentemente, todo o significado do dito é que N. usava as cartas para E. a fim de caluniar sua mãe: “Augusta’s half-brother, George Lord Byron, did not meet her until he went to Harrow School, and even then only very rarely. From 1804 onward, however, she wrote to him regularly and became his confidante, especially in his quarrels with his mother. Their correspondence ceased for 2 years after Byron had gone abroad, and was not resumed until she sent him a letter expressing her sympathy on the death of his mother, Catherine in 1811.” Não gostaria de crer que o autor-falsificador de Minha Irmã & Eu quisesse pôr em evidência o ‘lado negro’ da relação entre Byron e sua irmã: “Not having been brought up together, they were almost like strangers to each other. But they got on well together and appear to have fallen in love with each other. When Byron’s marriage collapsed and he sailed away from England never to return, rumours of incest were rife.” Seja como for, a quem interessar possa: “Augusta is also the subject of Byron’s Epistle to Augusta (1816) and Stanzas to Augusta.”
“Cinquenta anos depois de minha morte, quando eu tiver me tornado um mito, minha estrela brilhará no firmamento enquanto o Ocidente será eclipsado na escuridão, e pela própria luz que eu emito. Minha filosofia do poder será reexaminada, então, não como poder [político] mas como Providência.”
“Mulheres são a única propriedade privada que tem total controle sobre seu proprietário.”
“A idéia da transmigração das almas não é tão tola quanto parece, e meu conceito do eterno retorno é meramente a reencarnação moderna do credo pitagórico. Uma vez fomos cães e ainda regressaremos ao domínio primata dos caninos.”
IRA-ATA: AINDA VAMOS REGRESSAR AO DOMÍNIO PRIMATA DOS CANINOS
Torturando, espremendo cães. Qual foi o último que eu vi? Hoje sonhei de novo. Meus sonhos agora se relacionam a estar preso com os pais em algum lugar que não é a minha casa, e algo sem forma me tortura, algo de que eu não podia me esquecer. Foi o cão da Connie o último que toquei. Eu beijava a R. e de alguma forma me ocultava dos anfitriões indesejados. E por que tantos banheiros? Supra-homem Bill Lunch. “I spread disease like a dog…” Ter vivenciado caninamente a idade média não é absurdo, mas nada seria sem a CONDIÇÃO HUMANA, esse pathos que olha para baixo e para cima das cadeias com seus próprios olhos. Também já fui pedra e fui estrela. O pequeno príncipe me revive um tipo de consciência cósmica longamente entalada. A National Acrobat. Raul Seixas. Engraçado… o que eu estava fazendo dia 19 de janeiro de 2008? Tianguá e o demente. Surpreendente autocontrole. E interesse pelo tio-avô tão camponês. Moscas malditas e R. Eu sou a bomba atômica e sou a flor.
(06/11/2009)
“Hegel incorreu num sexto sentido – o senso histórico”
“O Homem do Subsolo de Dostoievski e o meu supra-homem são a mesma pessoa”
“Talvez os pregadores de Alá me inscrevam em suas memórias como o único cristão honesto da Europa – um cristão honesto demais para aceitar a escravidão moral paulina e que preferiu, como Jesus ele mesmo, cremar-se no relâmpago do Velho Testamento.”
“Salomão, o único judeu com ganas de imperador, promotor da Pax Judaica no mundo bárbaro. Seu império poderia se esticar até o fim do mundo, paraíso e terra sob a propaganda de Jeová.”
“A suprema doutrina das mulheres seria a obtenção do infinito orgasmo.”
DEMOCRACIA X EUCLIDES, O “TRIGONOMÉTRICO”
estatísticas forma
redução ao ideal não-números
paradigma do hospício potências
controle da maioria (eu sou um círculo maior)
razão desprezo das minorias¹
¹ Provável alusão ao fato de que os gregos não se preocupavam com quantidades irracionais ou desprezíveis nas exressões matemáticas.
“Há dois tipos de bárbaros; aquele que precede séculos de iluminismo e aquele que os sucede” Na mesma página cita Condillac, polímata da época iluminista.
“O idealismo moral não pode suplantar a compulsão econômica de nossa era: Ruskin, Carlyle e outros britânicos obsoletos, especialmente o cabeça-de-vento John Stuart Mill, não aprenderam o básico sobre a modernidade. Se eu não fosse César seria Cristo, o Socialista, montaria num jumento e cavalgaria até Jerusalém com Marx. A ambição de poder dos marxistas complementa a ambição de poder dos nietzschianos, mas eu prefiro chegar a Jerusalém num cavalo de batalha árabe, ao invés de no lombo dum burro proletário.”
“Brandes me chama de um anarquista aristocrático – e é exatamente o que eu sou. Quem, senão um judeu, para me desmascarar e contemplar esta face de Disraeli, o tory radical? O radical extremado e o reacionário extremado são irmãos debaixo da pele: ambos têm inclinação para demagogias liberais e humanitárias, e só conhecem um caminho rumo ao triunfo – a vontade de potência.” Moderados, demasiado moderados, assim nós da esquerda teríamos de nos classificar hoje.
“As pessoas precisam ser governados com mãos de ferro, e eu profetizo uma época de Césares proletários [Lenin e Stalin?] que agirão como Rousseaus, enquanto Marx acaba construindo e sendo a vanguarda ideológica de ditaduras democráticas onde as iniciativas da companhia de água e esgoto e do fabricante de calças [!] são identificadas como a vontade de Deus e codificadas em leis draconianas escritas em letras de sangue.”
“Dizem que por tomar o lugar do Senhor no meu sistema filosófico eu provei minha egomania. Mas na verdade eu sou extremamente modesto. Para mim, ocupar o lugar de Deus é um rebaixamento e humilhação, não uma rara promoção aos picos do Monte Sinai! § Ao invés disso, eu sequer deveria ter falado em deus na minha obra, deixando esse problema para os ingleses – Carlyles com mania de grandeza – resolverem.”
“Não há lugar que não fique tedioso a longo prazo”
“Me pergunto o que seria de Kant se tivesse sido induzido a viajar de navio”
“Só num país como a Alemanha eu, o autor de Zaratustra, teria a necessidade de pagar do próprio bolso sua quarta e última parte!” Esse fato é verdadeiro.
“O supra-homem não é uma fantasia privada: é nossa realidade biológica e transcendental”
“Se Deus não tivesse morrido seguramente o século XX não ocorreria”
“há mais segurança na caverna de Platão”
“eu sou o fulcro da História (…) ainda que também o encontrem no Príncipe de Maquiavel”
“o veneno anti-semita que cada alemão bebe do leite da mãe”
“espero não viver o suficiente para ultrapassar este século”
“Eu nunca imaginei o fim da raça humana porque eu tenho uma visão trágica da vida”
Berlioz, “o supra-homem da música”.
“Em menos de 50 anos ser chamada de ‘wagnerete’ provocará processo por calúnia e difamação contra o ofensor, e quando uma ópera wagneriana for mencionada em nobre companhia haverá mal-estar na sala.”
Me ssa lina
“Impregnemos nossas vidas com a impressão da eternidade! Vamos viver de modo que desejássemos sempre viver de novo: esse é meu credo, ontem, hoje, amanhã, e nos ontens que sucederão o amanhã.”