[ARQUIVO] IMPOSSÍVEL SER CLÁSSICO (no senso nietzschiano)

Originalmente postado em 2 de janeiro de 2010. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.

Já abdiquei desse intuito nostálgico. O metal e seu caráter iconoclasta não poderiam existir sem que se estivesse “perdendo o jogo”, e os gregos não o estavam… Minha condição de duplo gauche não é por acaso. Há ainda o cigarro, as pernas fracas que não me permitem sonhar sequer com caminhadas homéricas montanha acima ou simples trilhas cachoeiras abaixo. Sou um simplório, mas um grande simplório! Não estou em busca de uma nova arte sublime, mas estou interessado tão-somente em chegar às culminâncias entrópicas do desenvolvimento de uma das mais antigas, uma bem judia… Para isso eu não preciso ser um anjo, aliás, pairar tão além do bem e do mal a ponto de subverter a ascese pela própria ascese!

[ARQUIVO] O ÓRFÃO

Originalmente postado em 30 de dezembro de 2009. Atualizado em 24 de dezembro de 2023, incluindo a revelação, via tratamento artístico, da inspiração ficcional que percorre o texto – a conhecida opressão dos saiyajins pelo monstro Freeza (o que não quer dizer que meu pai não seja um tirano) e seu melancólico final…

Querer o mal de um filho é muito mais cruel e insidioso do que desejar o mesmo para um pai? E quando essas não são as intenções declaradas, mas há a verificação desse prejuízo, de igual modo? Dolo ou culpa importa aqui? Não posso carregar o mundo nas costas!

Aquele que se volta contra quem o pôs no mundo, o lugar de onde afinal saiu, desencadeia um contra-senso fisiológico, mas se auto-golpear-se é possível e até mesmo bem razoável, essa cena trágica se mostra quase que uma regra, com regularidade na História. Há aí um despeito provocado por antecedentes, coisas que não dizem respeito ao ente desafiante. Assim parece ser com todos os homens desde Adão, a erguer a vista para os céus e indagar: “Por quê, Deus-Pai?”. Postura compreensível, se bem que o fim seja tristonho. A humanidade ainda não é forte e estabelecida o suficiente para sair do quintal de casa? Prefere ser tiranizada pelo dono do barro que a moldou? Fim da adolescência: momento de passos hesitantes, será que dá pra ir?, e se quiser voltar? Insustentável… “É terrível! Ele foi cortado em dois!” As histórias de rebeldia juvenil, escravização intra-genos/clã e tentativa de parricídio me atraem…

O sujeito que decide atacar, menospreza em demasia ou fere de fato a própria criatura que inseriu no mundo – essa é uma maldade genuinamente nascida ali, sem antecedentes, gerada numa realidade em corte, independente das situações antigas… porque aí recairíamos no problema do rabo da cobra! Que espécie de covardia louca é essa? Há mais tempo no mundo, muito mais chances de vencer! Provocar um inimigo que a gente sabe que vai derrubar. Existe algum mérito nisso? Em última instância, o filho está sempre num beco sem-saídas… a menos que haja um deus ex machina – mas se Deus é o inimigo! O ódio do filho contra o pai é sempre mais inocente, porque foi estimulado pela faísca pervertida do mais poderoso! Em nenhuma época uma classe mais alta cedeu caminho voluntariamente à mais baixa. A passagem de cetro é traumática. E se cada família, ou determinado número de famílias, for essa história do universo em microcosmo? Mas o filho não mata o pai! Ele furta o lugar do pai: “a cabeceira da mesa é minha!”. O último filho… é um sortudo ou um azarado? Às vezes o ar rabugento e despretensioso do dia a dia acaba levando à esterilidade do próprio sistema reprodutor, da própria extensão do sistema reprodutor! O egoísmo e a cegueira que fatiam inclusive o derradeiro tablete de carne, fazem respingar o último filete de sangue! Uma raça que já sofreu deveras!

Fazer mal inconscientemente não é desculpa. Parece que esse sempre foi o problema: títulos e fachadas. O mundo seria menos bárbaro se houvesse menos santos. No momento em que vem à tona o que a divindade fez… ela tem que se emendar! Se Ele resolve dissimular a tranqüilidade de um dia após o outro rumo ao infinito e não presta contas dos próprios atos, não pode haver mais mundo, senhor de que inteligência? Tombo, amargura e leito de morte. Os dinossauros se extinguiram por ambíguas imprudência e frieza glacial.

Vou narrar a história de um filho adotivo e orgulhoso de sua origem supostamente real, em algum confim do universo… Seu pai – o único de que se recorda – era um homem muito rico que odiava compartilhar as suas posses. Seu filho foi educado para construir seu próprio império a sua maneira, única forma de demonstrar seu valor e pedigree. Mas ai! O mundo muda! Se torna mais duro e impressionante, sob o preço de enfraquecer seus habitantes! O que o mais antigo fez, o novo e ainda valente já não podia! Pois cortam suas asas… O príncipe era sistematicamente humilhado pelo Rei na frente de seus humildes servos e também diante de seus asseclas, os nobres da côrte.

E sob as vistas, outrossim, dos amigos daquele. E como tais rapazes eram em parte afetados pela depreciação e pelas grosserias perpetradas pelo todo-poderoso, se solidarizavam. Assim ocorre com os mais fracos – se juntam para sofrer em bando. Foram formuladas as promessas de um destino melhor: ter, conquistar o império. E não devia haver mais impérios, aquele era o único, já englobava tudo! Para isso, o eterno empecilho teria que ser afastado! Isso era uma labuta incalculável. A muito custo, só se podia amealhar parcas migalhas… ah, mas se se era tenaz, e sangue daquele sangue… O mais perigoso era, ainda antes da idade, crer que descobriu um atalho. Não há atalhos para o Grande Poder! E nem satisfaz ser o segundo em Roma.

Foi aí que aconteceu de encontrar, em meio às peregrinações pelas províncias, um outro aventureiro-solo bastante combativo. Talvez fosse outro deserdado, a crescer longe dos auspícios do pai. Fato é que tinha muita sede de alguma coisa. O príncipe e seu bando viraram inimigos desse guerreiro e salteador anônimo. Pensando bem, tudo que esse tipo devia querer eram boas histórias para contar aos netos. E o bando principesco foi aniquilado por este inusitado personagem até o protagonista de nossa lenda se encontrar terrivelmente solitário.

Sem poder vencer seu adversário, mas tendo, em contrapartida, eliminado muitas vidas e deixado o algoz alquebrado, partiu em debandada. Orgulho ferido e, ambivalentemente, ampliado – era só cicatrizar as feridas. Tinha rompido com o pai, não pretendia mais se sujeitar aos caprichos e despotismos do Rei, mas precisava de seus médicos. Felizmente, descobriu que ele estava em viagem ao chegar ao seu palácio e, como fosse muito querido ali, dele cuidaram em segredo. O que de sua cabeça tomava conta era um misto de sensações estranhas… Do cumprimento final de seus planos à simples realização da vingança contra o último verme que se lhe opôs e o deixou nesse estado. Até que desse choque de idéias brotou uma conveniência.

Uma iluminação! Reordenar os peões, convocar os traidores, promover fissuras nas fileiras do exército paterno, torná-lo vulnerável a ameaças externas, ver o céu azul transmutar num verdadeiro caos de deposição de governo! Tudo isso graças ao forasteiro petulante! Iria pedir uma trégua. Seu sangue azul se enojava, mas era por nobre causa! Finalmente se aproximava, o dia com que tanto sonhara!

O príncipe e o forte guerreiro em farrapos e sem status, que só podia contar com a bravura, estabeleceram aliança. Um novo equilíbrio de forças era necessário para matar o Rei. Cheio de artimanhas e de astúcia, o príncipe agiu nos bastidores o quanto pôde e minou as forças da base de sustentação da Coroa de seu padrasto. O resto teria de ser em um duelo franco, mas se imaginava que um capitão resfriado já não podia com uma nau prestes a virar! Assim latejava o pulso do príncipe-escravo, à beira da planejada assinatura da alforria… Tantos anos pela frente para praticar o que quisesse, sem a “intervenção divina”!

O seu auxiliar, que com ele dividiria a vitória, não era problema para agora. Não havia espaço em seu coração mutilado pelo fado do berço! Na batalha final, o cruzamento crepuscular entre as hostes insurgentes e a cavalaria oficial, a exibição cavalar e inesperada de um poder que se mantinha latente só para enganar os jovens e os de memória desafortunada… Era assombroso o que o Rei era capaz de fazer. Depois de tantos anos, esmagaria o ingrato do filho adotivo, junto com aquela raça de depravados e taberneiros que levava consigo. A abelhinha e o enxame. Mas não podiam fazer muito mal. Eram insetos contra o “homem mais rico” – é ganancioso. A crueldade monstruosa vem sempre do mesmo lado. Do lado de quem está ganhando. E a justiça é medida em atos: quem morre merece morrer.

Por isso, meus irmãos, é que eu disse que inexistem atalhos. E o penetra plebeu não é alvo de nosso conto nuclear e de intrigas entre gerações, por isso não nos importa o que lhe aconteceu. Resta que o espectador saiba: o filho fracassou por subestimar aquele ímpeto oculto de alguém que ainda se mantém de pernas fortes e que já foi filho um dia. Na decisão, a diferença de forças flagrante paralisou os músculos do príncipe. Um ex-herdeiro angustiado, derramando suas primeiras lágrimas, em prantos, ou nem isso, pois perdeu a vontade de tudo. A marreta desce-lhe cachola abaixo. Estatelado, ainda grita encolerizado para o reino do nada o seu estribilho de oprimido. A última cólera. Que lhe estiola a alma, exaure o naco reserva de energia para soerguer-se e tentar lutar. Pouco importa. Nenhuma quantidade de esforço empregado surtiria efeito, o outro lado resistirá incólume. Esse é o superlativo da anemia e do fracasso, e da náusea, para quem lê. Uma vítima – desenhada desde os tempos antigos? A estrela não brilhou para este Édipo pela metade. Não era hora de arriscar.

Não agora, não ainda!

Por que montanhas levam milênios para se porem duras – e o caráter leva um pouco menos…

E a vida do Rei não perdeu o sentido, porque na posteridade haveria uma legião de descontentes de quem cuidar – talvez nos dois sentidos, bajular, absorver, converter, depois estar pronto para quando a cria resolver se desvencilhar, contra-atacar, arremessa-lo de encontro às pedras! –, muitos noviços e imprudentes, impacientes para tomar o lugar deste Júlio César de outras galáxias! E o hábito afia o tirano!

Consolo: no tempo apropriado, até o juízo de reis vacila, cambaleia, a justiça trai a pujança ancestral. A digestão do ódio não é imediata!

[ARQUIVO] QUE FIM VENCEU QUEM LEVOU A MOSCA NÃO SABE A SOPA

Originalmente postado em 19 de dezembro de 2009.

 

O que acontece com os irmãos? O que acontece com a namorada? O que acontece ao amigo? O agon

 

QUEM VENCEU?

 

O barroco.

 

Eu fui belo.

Espetáculo inconsciente infantil.

 

Uma estória de um vencedor? Só que podia ter tomado uns descaminhos e não ter sido assim…

Às vezes é melhor deixar sem conclusão.

Porque a morte não sabe à conclusão.

A vida não é longa, a vida é

Majestade agora

            Não tão amplo sacrifício

Esse é o auge e percebi

 

 

[ARQUIVO] DO PARADOXO DO PARTO

Originalmente publicado em 17 de dezembro de 2007. Alterado e ampliado nas datas 15 de junho de 2008 e 17 de dezembro de 2009.

I. DO PARADOXO DO PARTO

Nasceu. A criatura sem dono e cuja descendência é ainda um mistério. Promovedora da iconoclastia, cultuada ou combatido pelos homens póstumos atingirá seu objetivo final invariavelmente. Ser desgraçado, que parece não-socializado, ignora ou aparenta nada além de desdenhar toda a coação vigente. Parece ter vindo do alto da montanha. Mas sua serenidade, seu ascetismo inoculado por uma estranha empáfia, fenecem se comparados, em caráter temporário, à brutalidade de ações pontuais. Ações outras que evocam uma furiosa correnteza, que desvirtua qualquer posição emérita entre estes que, ele sim – e somente –, denomina fracos. Ele, o denominador (e destruidor), o rebento anti-civilização. A figura marginal que pouco ameaçava, agora no papel de protagonista. Todas as certezas ocidentais, se é que ainda mereceriam tal designação, de repente soltas no vácuo, se assimilam ao próprio nada em que trafegam. Cada vez mais. Os contornos dos valores erigidos em milênios ficam difusos. Confundem-se contornos de dois ou mais objetos antigamente rijos; bem como contornos conjuntamente alinhados ou contrapostos e o fundo inócuo, onde se deveriam assentar todas as justificativas…

Quem é essa criatura, potencialmente a inutilizadora futura de quem dela trata, uma vez que a linguagem corre sério risco? A encarnação niilista e quase amorfa – ainda é feita do que o conclamado saber instrumental chamaria de carne – da História do mundo, ela própria fragmentada em multimundos pede, ou exige, o tombamento de todas as ideologias. Artigos de luxo e vindouras exposições e simulacros. A forma perfeita de entender, pela abstração laboratorial, a vitória irrevogável da própria ausência de qualquer entendimento. Alguém ainda respirará abaixo dos escombros após tempo suficiente? Talvez os bárbaros sucedâneos. Mas que visão impossível é a sociedade dos bizarros, clones (mal-feitos, o que significa que a intenção original fôra cumprida) do primeiro, justamente no que constitui uma não-sociedade, o esmagamento da interação discursiva mais simplória. Um ser, na hora apropriada, rui cem por cento dos pressupostos e exibe, glorioso, a coroação do pastiche? Por quê? Que fragilidade “inauditamente projetada” houve nas estradas, cidades, portões e desertos? Tecnicamente, a presença do ser, carnudo, jamais pôde ser exposta doutro modo que não uma descrição desonesta para com a própria falta de relevância?

Ora, nasceu também o relato. Uma peça elaborada, galgada no mundo já embebido, em sua essência, pela soma das lápides. Que quer dizer então? O indizível. A alegoria da caverna de Platão tampouco melhora as coisas…

II. DOS MAIS DIVERSOS RAIOS DE LUZ QUE OFUSCAM: ECCE CIÊNCIA PRAGMÁTICA!

O fim encetou pelo primeiro cerco. Balbucios arautos da verdade. A verdade do jogo, ou seja, uma cópia eternamente imperfeita da sede, grega ou cinematográfica. Estática ou com rotações digitais. Há a intriga, cotidiana, há o combate paulatino, existe a rebelião única e também já foi visto o projeto monumental da conversão da luz exterior em nova sombra das paredes. Destas todas, o homem se dá sobretudo pior com a luz irritante, porque onipresente mas sequer intensa, dos interesses diários, entre os quais, inclusive em vida, a mínima metafísica ou teleologia é deixada de lado e os prejuízos são imprevisíveis mesmo para o mais amoral (e não falo do ser). Claro, porque – ativada a linguagem – a noção de prejuízo é forte em demasia perante os corações – ou os olhos.

III. DA SUPERAÇÃO, VIA CORPO

Cingir a realidade não é o caminho. As ganas de conhecer fora-de-si são vontade de ser pedra. Institucionalizo essa condição para a correspondente volição. As pantomimas na tal luz encontram subsídio. Desejo a experiência máxima? A verdade é real; encontra-se no corpo. A verdade não é. O verdadeiro sempre corre, conquanto não foge de alcance ao bom usufruidor. O impulso de deus sombreou. Na estalactite da caverna a dor, sem ter como alegar que para além da cruz esbarra-se com o antídoto. Deterioram-se as panacéias débeis. Questão de tempo que o entardecer ensine à carne depauperada a dialética da não-contradição: torna-te aquilo que tu és.

IV. DO INAUDITO

Somente sei que o que jorra agora é o sangue, e a gargalhada parece o correr de um rio. Não há mais pingue-pongue. É a vida embebida na imortalidade dolorosa da carne. Benévola, livre, a criatura se refestela. Já não é a verdade que se isola, que não ecoa para outro senão para si. O homem se reconciliou com seus pais: a volição e a matéria.

[ARQUIVO] OITO DE DEZEMBRO COMEÇADO DEITADO

Originalmente publicado em 8 de dezembro de 2009

Perdi o gosto por comer. Perdi o gosto por ler. Perdi o gosto por reclamar. O que acontece quando se perde o gosto até pela obrigatoriedade de cagar? Hoje parece cada vez mais nítido que é demandado que eu não leia a fim de ainda viver respeitosamente. Comer, não precisamos estar tão a fim, podemos até nos empanturrar de cara feia. Eu até acho que cheguei ao absurdo do insípido e da indiferença: tanto faz meu pai ser um tolo. O que me move adiante é a inércia da reação automática e o princípio da equivalência. O conformismo é um pragmatismo ou “o”, porque o não-cumprimento é uma implosão. Dor de estômago crônica, parte já de mim, garganta ferrada… quanto tempo até expelir pus, complicar de fato? Sobreviver também é “secundário”; a missão, outra coisa que não importa, relativamente, vem à frente. Viver o presente. A riqueza e a beleza dum momento interminável indecifrável impoetizável. E a dor muscular e aquela vontade de fenecer, nem sei se respeito minha própria fadiga, minha própria necessidade fisiológica de sexo, meu remoto interesse por remoer sonhos. Que há? Nunca vi desbotado tão colorido. É o fim-meio de uma estações. Penso também na leveza pós-opressão. Na deposição dessa carcaça chamada curso. Aliás, de vivos e mortos, e de latrinas ambulantes. Melhor do que ver que já esqueceram da minha presença é saber que eu ainda me antecipo e os supero na má educação. Resignar-se até a uma das constatações mais duras, a da ausência de um amor, rompimentos que geram rompimentos, saber que as primeiras foram as últimas e matar a esperança de fome – pra ter indícios de que ainda vale a pena, pois ninguém me sufoca. A preocupação máxima é estilística: se vocês vão gostar, se vão parar.

[ARQUIVO] O PEN-XA DO FLA: Nelson Rodrigues virado no Jiraiya

Originalmente publicado em 7 de dezembro de 2009

Jasão, versão portuguesa do nome Jason, é o herói grego que mata o tio para se sagrar o rei da Tessália e rejeita a feiticeira Medéia, por ele apaixonada, depois que esta foi a principal colaboradora da conspiração que lhe devolveu o trono. Jasão é também o primeiro marinheiro de que se tem registro na História. Audacioso e precursor, apesar de ter sido morto posteriormente devido aos ciúmes da própria Medéia (o que é que as mulheres ressentidas não são capazes de fazer?), pode-se dizer que Jasão ficou imortalizado para a humanidade, tanto é que suas façanhas ecoam ainda no terceiro milênio da era cristã (que esperamos seja o último)…

O nome de Jasão atravessou várias léguas submarinas até chegar à terra do futebol, onde batiza um clube que estabeleceu hegemonia nos torneios nacionais nos últimos anos: o São Paulo Futebol Clube. Não é um vexame ver esse elenco de argonautas em terceiro na classificação final, até porque ele repetiu a dobradinha da zaga de prata no prêmio da ESPN/Placar.

Terceira posição que aliás é o tema central de uma música dos são-paulinos¹ do Ultraje a Rigor:

Não botaram fé porque não ia dar pé

Não ia dar pé porque não botaram fé

De qualquer forma eu pego um bronze

porque eu gosto da cor

Por isso eu sempre sou

Terceiro!

¹ [P.S. 2023: Naturalmente fascistas.]

Claro que não foi o cenário ideal dos vitoriosos, nem foi tão decepcionante a ponto de um torcedor fazer piada com essa música, afinal os caras terminaram fuzilando o rebaixado Sport Recife e soterrando as esperanças do rival Palmeiras de conquistar o título (caso os dois primeiros na tabela também falhassem na última rodada). Mas colei esses versos porque eles vêm muito bem a calhar para o Seu Dunga, que ano passado levou a seleção da CBF a um “honroso” bronze olímpico!

Tirada de sarro fora de hora? Talvez… Fica o alerta, porém: quando a competição é importante e realmente ambicionada pela Amarelinha, que já ganhou quase tudo que dá para ganhar, não se tolera ser um profissional (?) conformado ou, mais precisamente, um cavalo paraguaio.

O Paraguai que, se é que esteve encarnado em um clube brasileiro em 2009, certamente foi lembrado pelo Atlético. Precisamos de mais pesquisas para saber o que se passa na cabeça da calorosa torcida do Galo – talvez eles apenas estejam com febre, há pelo menos uns 30 anos, ou tenham se entusiasmado com as facilidades do microondas para aprontar comidinha… Mas sobre os pipoqueiros eu volto a falar mais tarde!

Jason, Freddy… O campeonato está cheio de bizarrices saídas de um halloween que ainda não terminou… E as cartas marcadas que tentaram roubar um pouco da luz dessas criaturas cinematográficas? Washington, ex-Fluminense, fez 5 gols nos últimos 2 jogos, bem mais que seu colega de profissão Fred Flueger. Quem é melhor? Pergunta que ofende quem está sem paciência (eu o tempo todo). Talvez para os entendidos e que não agüentam mais floreios, é mais sensato questionar: afinal, o Washington joga bola ou não joga? Assim, seco e de primeira (como uma boa assistência ou toquinho à la Romário direto para as redes), sem comparações exageradas…

(Ligeiro tempo para pensar numa resposta. Mas tem que ser mais ligeiro que o Magno Alves no auge!)

Independentemente da sua resposta, o sujeito grandão e desengonçado que desagrada uns e outros mas que guarda lá os seus já tem uma nova meta a perseguir nos seus anos finais… Foi contrato pelo São Paulo para 2010. E o SPFC caiu no grupo do Once Caldas, seu carrasco de 2004, na Libertadores da América de 2010: Once Caldas, once goles?


EXTRA! EXTRA! KLÉBER TIRA PALMEIRAS DA LIBERTADORES!

E a Mancha Verde já está correndo atrás dele para agredi-lo. Belluzzo é um dos marginais que grita palavras de ordem com um pau na mão.


Por falar no time que estava verde demais para atingir qualquer objetivo nesse campeonato, estou começando a comprovar minha antiga “teoria da camisa trocada”: se os mesmos jogadores atuarem com uma camisa mais “campeã”, renderão mais, terão tranqüilidade e não peidarão na farofa – já imaginou o Obina com a camisa do São Paulo? Não é à toa que disseram que o casaco da S.E. Palmeiras ficava muito frouxo no Muricy…

Se o Muricy Ramalho terminou o campeonato pianinho depois de vomitar [verd]ad[es] cegas sobre a imprensa e se o Vanderlei não foi menos fracassado e suas entrevistas acabaram ainda mais vazias de conteúdo (futebolístico não-publicitário)¹ do que de costume, será que pode baixar a baixada do santo do professor arrogante no Mário Sérgio (de modo mais simples: baixar o santo… da humildade… só cuidado para não se embananar e acabar rebaixando o Santos)?

¹ [P.S. 2023: É fantástico, quimérico e mitológico que essa criatura tenha continuado a habitar o folclore tupiniquim NESTE ANO em que escrevo esta nota! Sempre tem espaço para um boi-tatá, para um Joel Santana, gordo ou magro, casual ou de terno, no nosso futebol…]

No Santos (falando no diabo entre parênteses): nova idade média (e não falo de um levantamento etário do elenco)? O sujeito do terninho mais perdeu do que ganhou na Vila ou foi impressão minha? O time da Baixada (rs) se sustém na Série A com base em um ********¹ que aparece a cada 3 décadas?² De volta ao marasmo não-competitivo?

¹ [P.S. 2023: Usei um vocábulo que em 14 anos se tornou racista, mesmo quando não aplicado a um indivíduo não-branco.]

² [P.S. 2023: Duas, se contarmos com o Neymídia.]

* * *

Imprensa: ímpia.

Os comentaristas da ESPN me lembram o homem machista: assim como este diz “Mas nem todo homem…”, as Oddities do canal enchem o peito para falar “Mas nem toda a mídia… o que é ‘a mídia’? Informação é nosso esp… e blá-blá-blá”.

Já, já complemento o juízo tão breve (ímpia).

* * *

Tu és… time de armação

Mala, horror e extorsão

Rouba, Mengo!

Só uma brincadeira de um cara que já ouviu muita farra de flamenguista de ontem pra hoje, mas que reconhece, sim, o título conquistado dentro de campo – seja hexa, penta ou o que for que este caneco represente… A CBF não sabe da própria seleção, vai saber contar título de clube?!

Para ilustrar o que 17 anos não fazem com um time, e o quanto o São Paulo está “acostumado” aos títulos e o Clube de Regatas não está, vale a cena na sala de estar da casa de são-paulinos onde vi o jogo final, que contava com um intruso: o torcedor rubro-negro não sabia o que fazer diante da tela; do outro lado da membrana o Maracanã em polvorosa. Depois de nos mandar, a todos, “chupar” (sem o complemento apropriado),¹ se prostrou no sofá, ameaçou beijar o escudo, continuou olhando o entorno de olhos marejados… Ficha em queda livre… Tentamos resgatar nosso amigo “perdido no tempo e no espaço”, com a piadinha do bem-sucedido a longo prazo: “Bacana, né? Você vai ver que esse negócio de ser campeão do Brasil na era dos pontos corridos nem é tão difícil quando chegar no terceiro”.² Bem-vindos ao clube, rubro-negros! (e o Inter, tri-vice, sempre bate à porta, e ninguém deixa entrar… o corinthiano se mantém com um trabuco e uma liminar…³ o santista com um pôster do Robinho… o cruzeirense com um do Alex…)

¹ [P.S. 2023: Um canavial de rola.]

² [P.S. 2023: Malditas palavras proféticas!]

³ [P.S. 2023: Palavras suicidas e cruéis, vindas dum futuro convertido ao corinthianismo!]

* * *

Sou tricolor de coração

Sou do clube tantas vezes campeão

Esse hino me comove há anos (coisa de irmandade tricolor?), mas reprimia isso, especialmente ano passado, conforme alguns argonautas americanos lembrarão…¹

P.S. 2023: Eu comecei essa crônica citando o argonauta da mitologia grega Jasão, mas a referência aqui é a outra crônica, O VICE-CAMPEONATO MAIS ARDIDO DE TODOS OS TEMPOS, publicada no primeiro volume do meu livro Cila ou Caribde, que você pode ler gratuitamente no Seclusão: https://seclusao.art.blog/2021/07/11/o-vice-campeonato-mais-ardido-de-todos-os-tempos/. O assunto, ali, era o tropeço homérico do Fluminense Foot-ball Club diante da LDU… Este 2023 está realmente revirando as coisas, quando não confirma tendências: o Internacional de Porto Alegre segue sendo o time grande há mais tempo sem levantar um caneco nacional, mais anos até que o pobre Botafogo… que está desfalecendo neste momento em que redijo… de forma ainda mais vergonhosa e contundente que o Palmeiras 2009 e que o São Paulo 2020/2021… “Diniz, de 45 anos, chega ao São Paulo um mês depois de ter sido demitido do Fluminense, que ele deixou na zona de rebaixamento.” – trecho de uma antiga reportagem da ESPN Brasil, de 2019… As voltas que o mundo dá… Autodemonstrando que não é plano. Lembre-se: ainda na flat earth dos negacionistas, a única certeza em termos de futebol brasileiro é a seguinte: o plano é não ter planos, quem tem plano acaba afundando… Longa nota de rodapé, certo, rapaziada? Só faltou falar que isso de “reprimir” no futebol é uma coisa muito comum… quando se trata dos meus próprios sentimentos, ao menos… Em 2008 eu odiava mortalmente o Fluminense… Em 2009 fui-lhe simpático… Por décadas confundi amor pelo Corinthians com ódio e desprezo]

* * *

Como prometido, de volta à imprensa: alguns figurões já amanheceram dando uma bronca nos “chorões” que não souberam reconhecer os méritos flamenguistas na temporada. “O título do Flamengo é autêntico.” Tudo bem que seja – mas se é legítimo, não é porque babacas microfonados como o Calçade resolveram ratificar. Afinal, a mídia DEVE ratificar o título do campeão, seja ele quem for, caso contrário as ruas serão tomadas por vândalos como os de Curitiba.¹ Exemplo máximo é o de 2005: hoje os jornalistas mais corajosos até admitem a farsa corintianesca, mas na época era um imperativo ético colocar aquele “primeiro lugar” acima de qualquer suspeita!² Não acredite nos jornalistas. Acredite no bom senso. E lembre-se: se quiser vida fácil, saiba que esta é uma “carreira” que não necessita de diploma…³

¹ [P.S. 2023: Sempre os de Curitiba, já notaram?]

² [P.S. 2023: Ao meu eu do passado e a quem ainda não aceitou, só posso dizer: PÕE NO DVD!]

³ [P.S. 2023: Para quem não sabe, já fui jornalista esportivo. Abandonei o curso 2 anos e 3 experiências em veículos de imprensa depois de “ingressar nessa vida”. Pouquíssimo tempo depois, quando eu cursava o 2º ou o 3º semestre de sociologia, foi divulgado que o diploma de comunicação social tinha deixado de ser obrigatório para profissionais da área. Houve muitos protestos de alunos e certa resistência dos próprios jornais, que permanece até hoje, tornando a não-obrigação, na prática, nula.]

O pau quebrou lá no sul, e aqueles 10 minutos de “mídia passando o que a mídia quer coibir” (atos de violência brutal – nunca entendi essa lógica!) foram melhores que os 90 minutos de qualquer partida da 38ª rodada!

Agora imagina só uma humilhação parecida no Centenário do Corinthians! Se num ano comum eles já fizeram três vezes pior no Morumbi (massacre do River, eliminação na Libertadores) que os gorduchos sulinos do Couto Pereira ontem, quem dirá o que pode acontecer se o freio de mão puxado pelo Mano (das quebrada”) não for desativado a tempo para o ano que vem? Cuidado!¹

¹ [P.S. 2023: Estou batizado, Rafael do passado! E estamos de novo com o Mano Menezes, trafegando perto da zona – sem aflição e desespero! É o que tem pra hoje.]

* * *

Para fechar: Pernambuco: por um dia (ou por um ano), pior que o Maranhão? Os pernambucanos estão na mesma ressaca do Imperador, que não foi buscar sua Bola de Ouro no programa da ESPN, adivinha por quê…¹

¹ [P.S. 2023: Não lembro o motivo de alguns desses trocadilhos por trás dos nomes dos estados, mas nós já tivemos muitos Juninhos Pernambucanos e jogadores com “apodo” Maranhão, então suponho que se referia a algo nessa linha. Já Adriano o Imperador… que sabemos que não estava na cidade de Imperatriz-MA… esse comemorou bastante o título do pen-xa do Fla – muita cachaça na cabeça!]

[ARQUIVO] O MESSIAS & O HOMEM RURAL: Uma novela pós-apocalíptica.

Originalmente publicado em 3 de dezembro de 2009. 

Não foi preciso uma legião de bombas atômicas. O Estado nos abandonou. Polícia? Se não pagam impostos, são menos que lixo! O modelo de organização do Ocidente, uma vez adotado na China, o velho reacionarismo europeu… Tudo isso prejudicou ainda mais a situação americana. Não existem informações sobre a África. O número de pessoas impossível, a desertificação… A inflação… Ninguém mais tinha carteira assinada ou dinheiro para bens industriais. É uma escravidão sem senhor… Conseguem comida aqueles que dispõem de cavalos… Em uma antiga capital de país de terceiro mundo faz muito calor – e ainda tentam dar sentido e dignidade à existência.

Se há algo que não decaiu é o volume de arquivos. Toda a literatura está lá, embora envolta em pó e de utilidade duvidosa. O onanismo é o último remédio. Alguns foram viver entre os bichos. Há insistentes que se organizam em células de autossuficiência. Uma delas, localizada da forma mais ordinária, chama a atenção das chaminés, nuvens ácidas e do intenso sol. Não há nada que seja ilegal, embora a ausência de leis tenha findado a distinção. Alguém de alma jovem ainda caça novos valores. O que é um valor? No mundo sem mídia sequer se propaga o ideal do amor… Que animal político tem um intento, sórdido que seja? Esta é uma história que nenhum almanaque poderia conter… Seu registro estará apenas na brasa do fogo de um neo-Prometeu qualquer, que remeta à condição uma vez humana. De uma vez por todas chegou o ano (206X? A contagem tornou-se imprecisa.) da responsabilidade. Esta coisa estorvada que sempre pairou um pouco acima do solo sem sentir o seco, sem oprimir ninguém. Uma ventura sem rebanho! É demandado fazer-se deus.

Mostrar-se-á a degradação em pormenores e também o momento culminante da guerra dos indivíduos… Quando o exército de desabrigados, caravana ou bandeirantes da desolação, surge para implodir o que já estava semi-soterrado: a propriedade privada. Em busca de valores, cada um se apegava a seus apartamentos – ou ao que deles sobrou… As intempéries são piores à noite, mas não tem um indizível sabor achar-se o último, desobrigado de tudo e por isso mesmo soberano? Tempo é de incerteza e amor à vida. Este momento não tem comparação: somente é igual a ele mesmo…


Esboço de capítulos

O primeiro sábio sem nome

O artista supremo

A vida como ela é!

Todos os males vêm para o bem… Porque os males vêm para e por si mesmos.

Ulisses nunca termina de viajar, eis apenas um episódio…

Penélope Charmosa, rainha da costura

Diretrizes para a imortalidade…


RE-ESCRAVIZAÇÃO DOS FRACOS (que são os fortes de hoje)

Nada de ágoras ou interrupção da hereditariedade. Porém é certo que “pai” será apenas associação afetiva bem posterior ao nascimento, porque origem genética e fidelidade do casal são impossíveis de se verificar como padrão. Uma espécie de fluxo incessante entre transeuntes de povoação em povoação.

Valorização da sorte e das infinitas ou múltiplas alternativas. Não existem leis, todos criam e destroem e têm qualidades diferentes – e um poderio, em variável absoluta, quiçá maior porém sempre temporário e revogável.

Interiorização da ética artística, fusão de ética e estética, cristãos mantidos sob controle, embora se cace adeptos e se expurgue os indolentes que porventura nascerem entre os poderosos. GRANDES COMPETIÇÕES E EXPEDIÇÕES!

[ARQUIVO] O INCOMUNICÁVEL

Publicado originalmente em 1º de dezembro de 2009.

Um dia de saldo zero que vai ficar para mim. Quatro cigarros fumados, um não achado. Pingos e pingos e pingos. Aquela chuva capaz de humilhar um homem, pois é fraca demais para que se seja visto de guarda-chuva em punho, mas é irritante o suficiente para afundar o moral, molhar os papéis em embaçar a vista de um míope. Do que me servem os papéis, se sempre tenho de refazê-los? Eu sou o homem-projeto, tudo o que eu não tenho é um projeto. Estou sempre em primeiro, mas isso parece ser estar em último. Estou sem identidade. Talvez devesse ficar assim.

Eu gosto de estar com febre (a febre do ânimo).

Férias?

No dia em que a hesitação oral se me escapou, em que me senti professor pela primeira vez, vi meu sonho chafurdar com pancadas insolentes, num recinto fechado, escuro e úmido, no subsolo de um campus semi-abandonado. Greve de fome para contornar as caganeiras. O que para mim é o impossível e inconcretizável, mistério, interrogação, loucura e crepúsculo feliz de um menino doente, é para os outros a obrigação sem gosto, ou o facilmente evitável, suplantável, por novas metas. O “pesadelo” deles é o meu sonho. Qualquer um pode sonhar com Freddy Krueger, cometer pecados e ir para o inferno. Mas o eldorado, o eldorado terreno que eu escolhi, esse é meu além. O dia em que eu morrerei de fome, farei trabalho braçal ou escorrerá sangue do meu peito, e eu estatelado na quina daquela passarela como um Vincent conformado, esse dia há de ser um dos meus milhares. Só mais uma sessão de jazz mortífero de um precoce guitarrista dos limites da distorção…

Todo começo de mês parece excepcional…

[ARQUIVO] OS NATUREBAS E OS DIGITAIS: L’ART, O PORNÔ, O GAUCHE E O BLASÉ… O que ser?

Publicado originalmente em 19 de novembro de 2009.

Me divido atualmente entre dois grandes vícios. Quis dizer: a humanidade se divide atualmente em duas grandes necessidades: atender à demanda irresistível pelo novo, diferente e mais bem-acabado tecnologicamente, ampliando o abraço orgiástico de todos com todos na malha digital; manter a fisiologia sã nos imprescindíveis momentos de (auto-)desligamento (desse gigante mecânico-biótipo, maníaco-depressivo, ambivalente, dentro e fora de nós), com práticas contraditórias como fumar, beber, repousar, contemplar, dançar, dissipar ou simplesmente se esconder. O perfeito blasé se acha um idiota no espelho. A crise do palhaço, começar o discurso (de que se vai arrepender depois), é intrínseca a esse comportamento, uma reação ao embotamento das sensações. À superexcitação, a máquina sofre solavancos que sabemos não serem fatais, embora desgastantes e, retroativamente falando, “evitáveis”.

Ou correto – ou impossível – está em idealizar o natural ou o digital? Em contra-atacar improficuamente com a alopatia ou a homeopatia? É sempre ineficaz. Mas ainda assim, somos artilheiros. Atacar com o quê? Isolar-se e adoecer encolhido diante do verme familial, tentando tecer um futuro finalmente não-monótono nem embaraçoso (de quantas drogas fazemos uso sem sequer nos darmos conta?)? Não dar atenção a ninguém – mas contar com o melindre embutido de que eles também o apagaram do mapa. Ou ter possibilidades, só que completamente amarradas pelo exército com ilimitadas reposições das pessoinhas? Desativado ou excessivamente ligado? Não se destrói afetos, mas é preferível concentrá-los diante dos punhos ou insistir em pisar em baratas? De qualquer jeito, com este arranjo, somos sempre abertos apesar de sermos entrópicos. Ninguém nunca sabe com quem vai topar amanhã na calçada enquanto divagava de cabeça baixa. Desgoverno como chance de governo? E a intolerância pesa no momento em que a troca seria o mais válido. Dar. Cooptar? O que levar aos olhos? O que chega aos meus ouvidos? Tateio alguma coisa.

Em suma, não preciso de tantas perguntas. Tendo perdido um bocado de viagens, efetuado várias recapitulações, saldo – finjamos – meio que zerado… Embarcar ou não?

Nossa alma é grande e cabe um pouco de tudo. Até um meio-termo.

[ARQUIVO] 15 MINUTOS DE FAMA (DOS NINFOMANÍACOS DA UNB)

Publicado originalmente em 18 de novembro de 2009.

Abaixei as calças, deixei-me fotografar, tornei-me uma celebridade. A vida andava meio… entediante. Mas salvei o dia! Amanhã eu penso em outra traquinagem boa o suficiente para interessar a um jornalista. Tarefa essa cada vez mais capciosa, uma vez que os jovens estão “botando pra quebrar”. E há jovens de todas as idades…¹

Terei eu logrado a eternidade, com um pequeno espaço no pior papel do mundo (aquele que desmancha quando chove)? Me impressiona as pessoas ainda terem olhos para penetrar nesse preto borrado depois de três séculos! (Me refiro aos jornais.) Borrado por borrado, prefiro pagar para lerem meu destino no fundo da xícara de café.

E não somos uns carolas reacionários puritanos? Até aqueles à flor da pele acham histriônica a idéia da nudez. Uns ridículos de reitoria desfazendo os anos 60…

Pergunta: por que só tem mulher horrorosa nesses “atos”? (Sobre o ATO – como vulgarizar peças de teATrO: chamando o burburinho dos rebeldes sem-causa de AÇÃO. Muito fácil ser ator!)¹

Unindo o útil ao agradável: quem luta pensa que “sofre pelos outros”. Sofrendo estou eu, nesse calor, com vontade de tirar a roupa mas guardando lá minha dignidade e inocência – quando fico pelado, não é para causar sensação, mas para lembrar que ainda sou gente.

¹ P.S. Essa crítica a um protesto cujo motivo agora me escapa (provando que não possuía qualquer importância, além de errarem no método), realizado no Minhocão por estudantes da UnB à época, contando com nudismo e striptease, quando circulei o manuscrito pela sala de aula, fez até com que uma senhora de 60 e poucos anos do curso de ciências sociais – que declarou seu amor ao professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas no meio da aula da dita matéria!a –, minha veterana, parasse de falar comigo pelo restante do semestre (na prática, para sempre), sem sequer explicar seus motivos (me deixando 3 dias no escuro sobre a bizarrice de seu súbito mutismo após eu lhe haver perguntado, na fila da cantina, sobre os ingredientes de um salgado que estava na estufa, e ela se recusar a me responder, fitando-me o tempo todo!). Obs.: Eu não sabia que ela tinha participado do ato, daí minha sincera surpresa – ter acertado o cuco com uma paulada aleatória! A referência a “jovens de todas as idades” no fim do 1º parágrafo não procurava provocar ninguém em específico, já que havia outras pessoas mais velhas no ato.

a Em conseqüência dessa anedota um tanto engraçada que não tinha por que estar neste artigo ou panfleto satírico, ouvi o fora mais patético e despropositado de toda a minha vida, por isso o registro é mais do que merecido! Ao ouvir da aluna “experiente” que ela queria que ele fosse seu namorado, o ranzinza e estrambótico professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas, de quem omito a identidade para não constrangê-lo no pudico e cerimonioso ambiente da Academia perante seus pares que tudo ouvem e tudo vêem (num departamento de Universidade, todos aqueles que se bicam têm sentidos anormalmente agudos para esse tipo de fofoca mesquinha a fim de arruinar reputações do dia para a noite e beliscar algum cargo ou, enfim, apenas rir da mancha no Lattes do desafeto!), assim se dirigiu à pretendente: “Isto não está posto!”, e seguiu dando sua (insossa) aula. Terá sido um pretexto para ensiná-la em privado sobre fenomenologia husserliana?! Os patronos da sociologia, onde quer que estejam, saberão – e ninguém mais!

[ARQUIVO] “EXISTENCIALISMO AOS 7” – AS ABELHAS, OS HOMENS E A ESPINHA METAFÍSICA

Publicado originalmente em 20 de outubro de 2009. Revisado.

Hoje minha mãe me apresentou uma pequena reflexão minha – de quando eu nem sabia o que era reflexão, e leria a palavra sexo como se lê “seixo” – na altura da 1ª série, sobre a vida. Apresentar-me é bem o termo, já que a gente se esquece com facilidade. Talvez tenha sido o passo inicial desta minha verve literária; impossível saber, mas é o que a arqueologia nos permite resgatar. Dizia mais ou menos assim: “Vida – Eu tenho 7 anos, meu irmão mais velho tem 14 anos, uns são mais novos, outros mais velhos, e assim a vida vai… A mulher mais velha tem 124 anos, a criança quando sai da barriga da mãe é a pessoa mais nova e tem 1 segundo”. Deve ser a segunda vez em período recente que minha mãe remexe em suas caixas repletas de recordações e vem me mostrar – como eu disse, a gente esquece, até as coisas de ontem –, não só esse tipo de protofilosofia como cartõezinhos de dia das mães e meus dentes-de-leite…

Não parece estranho que nossa vida comece aos 7? O que é o primeiro segundo? Talvez condiga em importância com os seis primeiros anos inteiros, a infância clássica. Que ela deve haver, disso não há dúvida. Que hoje reproduzimos aqueles sonhos, ou melhor, rememoramos o grande sonho, ainda mais certo. Os anos de jardim de infância são inconscientes. O pediatra moderno é um fraco. A força da criança reside na impossibilidade de abraçá-la no humano – ela é tão autêntica como um inseto. Azar dos homens, que hoje são menos do que insetos… Uma mosca ou uma abelha, por mais filosóficas que sejam, não possuem uma morte impactante. Seu pathos voador passa fulminante. Um cisco de poder que facilmente perde a autonomia. Uma palma da mão enfezada transforma uma perspectiva no zero, puro tecido em decomposição, nada de drama em câmera lenta. Considerar a infância sagrada é já um sinal… O bom velho é o menino…

A dor ou o prazer, seu antípoda o anestésico, nada representam para o precoce. O importante é seu reflexo no consciente mais tarde. O trauma torna-se desumano e criminoso quando a história do indivíduo realmente começa e ele toma suas escolhas baseado naquilo que ele nunca foi, a fim de ser o que é agora! O inconsciente. O inconsciente e a abelha verde. Esses foram meus principais amigos dos meus anos pré-existenciais. Talvez fossem as duas únicas entidades conhecidas! Todas as vezes que ia brincar no parquinho da escola, perto da gangorra ou do carrossel, ou da amarelinha pintada no chão, eu via uma abelha verde. Ela batia as asas como um beija-flor, deixava um rastro para meu olho incompetente adivinhar o que seria. Um bicho que nunca se cansa; e as abelhas verdes estão sempre no mesmo lugar. Aqui em Brasília posso encontrar diversas delas. Todas as vezes cruzo com uma, na ida e na volta, desde que faço o caminho para a Universidade. Retorno. Àquele tempo eu sabia – premeditava com bastante frieza – que chegaria o dia (utópico?) em que essa abelha seria o tema de um texto. Quem sabe não é a mesma abelha? Qual é a magnânima resistência de um ser vivo desses? Se a persistência com que se sustém no ar for a mesma com que enfrenta cada primavera… Ah, claro: primavera, época de flores (embora as estações não sejam bem-definidas no Cerrado), ela aparece bem mais. Parece que, para uma abelha, 50 dias são 50 anos. Elas começam a viver no 7º dia também? Não, a abelha não se perde como o homem…

Na nossa Odisséia, o significativo é a volta. A guerra o tornou herói, mas parece que não foi você. Está na hora de protagonizar de fato o roteiro. Hoje tenho o triplo daquela idade (1995-2009). [Hoje, que retranscrevo minhas palavras de 2009, o quíntuplo da idade!] O quanto o número 14 é emblemático para mim? [Intervalo 2009-2023] O quanto eu desejaria viver 1[2]4 anos? A escola parece eterna. A substância cotidiana permanece intacta. Imaculada rotina, transfigurada em novo linguajar. Consciente. Dolorosa. Mas sensível. Sempre pensei no meu inconsciente como um deus caprichoso. Direitos Humanos se preocupando com a saúde divina, quanta perda de tempo! Não é que não se deva mexer com crianças porque elas são sagradas; tabus mundanos… O sagrado é imexível, os costumes só existem para ser quebrados. Invertendo o axioma, elas são sagradas, daí que não seja possível a mediação humana. Atena não poderia ser prejudicada por Ulisses. Tolices!

A jogatina de dados de Deus deu no que deu(s)! Mortes inconscientes são não-mortes. 0 a 5 anos, latência. Esquecimento, imprescindível ferramenta. O fundamento do mundo é coisa para ficar debaixo do tapete. Aí inventarão as câmeras; e monitorarão todos os passos. Aí partirão numa máquina do tempo, só para testemunhar o 1º momento. Que revelação, voltar e pisar… na mesma sala! A vida é a máquina do tempo… Você foi primeiro, antes disso foi só o que seu consciente ainda não conscientizou e vai pegar de empréstimo – só para ter o gosto sem-fim de esquecer.

Abelhas não saem na chuva. A chuva dissipa os pensamentos. Sol sim; trovão não (o cachorro late ao raio – sabedoria ancestral?). Tenho a soberana impressão de que os céus são a extensão do meu estômago. Lubrificação aquosa. Palavras são águas… amanhã… Uma idéia que escapa é só uma idéia que ainda não estava pronta… O mais importante é a trama. Homo somnambuli? Non sapiens? A trama acaba como a teia de uma aranha de um recinto reaberto e devidamente higienizado…

Assinado,

A Mosca Filosófica

[ARQUIVO] IMBRÓGLIOS DE DOMINGO À TARDE

Publicado originalmente em 19 de outubro de 2009.

Faz três anos: “O fim do monopólio nas transmissões de futebol: ano que vem a Globo dará tchau à exclusividade” e papos assim rondando… Uma das melhores notícias que o fã de futebol poderia receber. Promessa é dívida: até agora, nada. Se o pay-per-view irrita, ver a fórmula do campeonato brasileiro voltar a ser mata-mata só para poder ver os jogos decisivos e aumentar os pontos ligados na emissora irritaria mais ainda. E, olhe bem, já fiz muitos amigos em mesa de bar… Tá certo que não gosto de ver jogo com chiado, chororô e cabeças se intrometendo na frente, mas é bom nos acostumarmos com o “clima de Copa”…

Data da edição da Veja de 7 de junho de 2006 a matéria “Torcedor em Festa”. Diziam que, se o futebol nacional continuasse sob os auspícios dos Marinho, ainda assim outras operadoras de TV a cabo como a Mais TV, pobrezinhas e coitadinhas, poderiam contar com os canais elitizados da Globosat, passando os melhores programas para mais alguns milhões de telespectadores ao redor do país, sem que eles tivessem que pagar mais de 100 reais para contar com a benesse dos jogos de São Paulo, Vasco, Cruzeiro, Grêmio, etc., mais do que 2 vezes por semana (conforme na TV aberta – ó, a quem estou enganando, os marajás transmitem apenas Flamengo e Fluminense, a comédia e a tragédia do futebol tupiniquim!)… Isso era lasanha podre para gato, já que indigesto mesmo são os 400 reais para ter tudo ao alcance dos botões, sofá, pipoca, 24h de partidas decentes… O pior é que, estragada ou não, a comida não vem; e continuamos vendo o restaurante funcionar ao lado, alguns cuspindo em seus pratos.

Mas hein?! Que papo é esse de campeonato brasileiro em mata-mata? Quando já nos achávamos europeizados, o complexo de vira-lata nos assalta novamente. Se a CBF sucumbir à tentação tribal e transformar o certame de turno e returno em Copa do Brasil II: A Missão,(*) pararei de acompanhar futebol. Perderei o tesão. Ou voltarei a fetichizar a liga italiana, sensata em suas marmeladas rodada a rodada… Já ouvi falar de muitos velhos morrendo do coração nos estádios, mas esse negócio de “emoção” é para quadrúpede fazer a sesta… A Globo podia passar jogos internacionais, se o problema é a incompetência dos brasileiros nos torneios eliminatórios sul-americanos… Aí vem o velho papo da bandeira e do hino, que ninguém, afinal, sabe… Como se doletas e merrecas não falassem a mesma língua… Só que, nessa Babel, a plim-plinzada carioca não manjou que campeão nacional é o maior somador de pontos, não o time das “cagadas”….

(*) Flamenguista, por exemplo, se acha o valentão das decisões, sem saber que em campeonato sem final qualquer batida em bêbado já é um clássico imortal; os poderosos estão se cansando da hegemonia são-paulina; os pequeninos quererão um pedaço da pizza – com 8, vai dar: é impossível chegar ao topo da tabela, mas quem sabe aos 33% mais bem-colocados! Ou quase metade, 8/20, 4/10, ! Isso mesmo, insólitos 40%, percentual digno de um Náutico –; e a Globo é a “paladina do povão”…

O Brasil tem sempre que ser diferente de tudo e de todos – por que não inventam uma bola com pontas? Ou uma bola-melancia? Ousaram até um pijama para árbitros… Tá na hora de reabrir a fábrica de craques, pois o melhor do brasileirão já foi um argentino e agora é um sujeito que nasceu num país que nem existe mais… Sem dindim, sem “aquele meia”… A TV Bobo faz questão de ficar com toda a verdinhada, os clubes que se danem, não dá nada! Só tem igreja na televisão, e eu achando que o futebol era a saída dos pagãos. 

[ARQUIVO] O DEUS QUE DESCEU À TERRA E QUE SE MISTUROU COM OS HOMENS

Originalmente postado em 19 de outubro de 2009. Com alterações.

Pássaro-homem. Alcance de um novo campo. Filosofia com estilo e verve de artista. O primeiro grande pensador da moral e grande estilista desde Platão. Subsumiu na própria carreira meteórica a noção de progresso, de civilização. Desvendou o fenômeno da decadência – projeção do Pecado Original na história do homem até aqui. Abriu horizontes, consolidou tempo e espaço sem origem ou escatologia. Resgatou a vontade de vida e a busca por um propósito válido. Um deserdado de seu tempo, companheiro de todos os deserdados em seus respectivos tempos.

Todo bom educador retorna de seu vôo para ensinar o caminho. Ligar céu e terra, habitat dos homens. Poesia & Torrente final.

A delimitação de suas “duas fases epistemológicas”:

A. POESIA

Humano, Demasiado Humano, Aurora e O Alegre Saber como preparações para sua aleg[o]ria-mor. Zaratustra, o enunciador do supra-homem, hoje sua “biografia” é chamada de o quinto evangelho. Maior condensação do saber milenar desde A República de Platão. Críptico. Reunião de todos os elementos de sua filosofia mascarados por símbolos muito bem-escolhidos.

B. TORRENTE FINAL OU “ESCLARECIMENTO”

Nietzsche sentiu que deveria dar algumas pistas sobre sua poesia esotérica. Labor mundano novamente, pois a parte do destruidor de mitos não se esconde detrás do artista (quando ambas habitam a mesmalma). Admissão de falibilidade, fraquezas, tibiezas, depressões, desesperos, precariedades. Discurso direto e enfático, sem lugar a dúvidas. Confirmação dupla, não uma volta atrás ou arrependimento, palavra que odiava. A volubilidade máxima do gênio máximo. Frágeis como vidro são os homens que mudaram a humanidade, hoje, ontem e sempre. Negro como piche rabiscando em giz em vez de em pincéis de todas as cores. Uma roda gigante une o epílogo d’O Alegre Saber, Assim Falou Zaratustra e todos os trabalhos de prosa e aforismos executados para explicar sua megalegoria. Seria como Platão abandonando por completo o diálogo em sua terceira idade. Sabemos, por exemplo, que suas cartas, que hoje temos, não eram destinadas à publicação (Carta VII, outro grande escrito de Platão). O cúmulo: inclusive como nuvem – sujeitos a trovoadas todos os que se abrigarem debaixo: Ecce Homo, a autobiografia… autobibliografia?! Complicada gênese imoralAlém de todo absoluto, de toda personalidade, usando apodos e epítetos camaleônicos para inverter o calendário (depois de Cristo, antes de outra qualquer coisa que nada é em si). Casos para esmiuçar, vontade final do defunto deve-se respeitar. Cuidado com meus administradores, ele já advertia. Não disse admiradores: disse mesmo administradores. Filosofia impermeável a razões de Estado (intempestiva). Pode entender uma pista quem não percorreu ainda toda a pista? Pode reconhecer um anel quem não vive em todos os tempos? Resgate do presente roubado. Contra dor não tome anestésicos, tome tônicos; contra música chiada, use amplificadores e termine o trabalho, ladeira abaixo. Descascamento da divindade. Autodissecção. Para quem já tinha erigido, toda a destruição pedagógica não passava de passatempo (letal). Modo de produção ao mesmo tempo assassino e prolífico em esterco, eugenista e proibidor da eutanásia e da vasectomia. Mesmo assim, isso não é razão para negar este mundo – o absurdo não é absurdo, só um obstáculo fungível no caminho. Um prazer sádico no agravamento do “niilismo”, termo sempre entre aspas dentre os verdadeiros exegetas deste filósofo. Depois dele a filosofia ficou sem sentido, mas o que ganhou com isso foram todas as outras áreas.

Em 2009 eu dizia que aos 20 a vida começa, podemos ir direto para nossos artismos depois de perder tempo considerável com muitas coisas… Hoje estou mais próximo da frase clássica e não-emendada dos 40… Nos desobrigamos de todo o trabalho tóxico de mineiro, “B”, num mundo pós-torrencial e esclarecido. Podemos iniciar novas viagens lingüísticas construtivas…

Palavras finais: O supra-homem é metafísico, conquanto exista, justamente porque ele não é desse mundo, não pode ser desse mundo… Ele vem a ser no que chamamos de “mundo” (caos).

[ARQUIVO] O POETA ESCATOLÓGICO: A MORTE NÃO É PARA SER CHEIROSA

Originalmente postado em 15 de outubro de 2009.

DECADÊNCIA – Não é este o GRANDE PONTO? Não parece perfeito que quanto mais a vida se torna feia mais bela fica esta obra em execução? PESSIMISMO E EXCITAÇÃO E TERNURA PELO ACRE, PELO BOLOR, PELO DESAFINADO, PELO TILT, pela minha própria derrota, pela decomposição, pelo desmembramento, esquartejamento e decapitação e funeral, vontade de homenagear tudo isso com um prato de gozo e troça… Os pais morrem, o grande amor o abandona, as contas chegam, você se vai incapacitando e tendo cada vez mais saudade e mais tesão do próprio estado patético atual, que promete denegrir-se ainda mais. As obras que você completa são cada vez mais sábias e profundas e o vão manchando de carvão, até você ser menos do que um cocô vivo. Tudo isso é a meta; livrar-se dos amigos e da piedade coletiva, pretender ser o sofredor, frustrado com mulheres, cada vez mais só, doente e desprotegido, alvo de espinhos invisíveis… Feliz, no fundo feliz! Agradecer a Lilith de todas as formas (doentes) mentais por ter me oferecido isso! Não importa a consciência, é questão instintiva e contínua, mas sabemos a intervalos. Baratas, mosquitos e suor, todos se juntam numa festa, você é o anfitrião! Morrer de fome como banquete principal, ovelha negra da família, cancerígeno, malcompreendido e malvisto, se é que ainda reparam em você, bactéria humana! Cada vez menos leitores, mais verdades, menos paciência e mais singularidade! Ferir a mão de quem ousar ajudar. Cair na armadilha de quem quiser empurrar. Não reclamar, não reclamar! Apenas se amar.

[ARQUIVO] SOLA DO PÉ

Originalmente postado em 10 de outubro de 2009.

A gente sabe muito mais do que a gente pensa que sabe – já tracei todos os planos para a “galerinha”. Seria óbvio dispêndio desmedido de energia tomar consciência de todas essas medidas profiláticas. Um sanitarista é o que eu sou. Lido com saúde pública, condições de higiene e remoção do lixo. Lixo: por definição, o indesejável. O que é lixo para uns não é lixo para outros. Pouco a pouco engatinha até mim o exército de Anti-Édipos. É preciso ter o lado cômico; e é preciso ter o lado perfeito. Se soubessem que tipo de verdadeiro tesouro se concentra neste magro – magro! – corpo!… E quão precárias são as fundações desse incalculável monstro sacro da engenharia. Me admira que os religiosinhos sejam os últimos a enxergar qualquer traço messiânico em mim! Quem está em ostracismo agora? Eu conto a história do meu tempo para todo bem-instruído do porvir que queira saber. A única perspectiva humana e que os trouxe – sim, a ponte!

[ARQUIVO] PIOR CENÁRIO, MELHOR PESSOA: A OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA

Originalmente postado em 10 de outubro de 2009, aos 21 anos. Apenas acrescentei uma nota de rodapé ao 4º parágrafo e negritei alguns trechos.

Detesto o contraste promovido pelas visitas à casa dos outros. Entender minha superioridade é trabalhoso para mim. Não achar minha franqueza algo espantoso, só mesmo por estar na minha carne e saber o quanto eu sou constante. O viajante cansado parece um saco de bosta para os outros. Seu esforço não deixa de ser a regularidade da sua alma por isso. Imprevisível só para quem está longe de efetuar minha compreensão… Os jovens não percebem que sempre são mais burros que pessoas de 40 anos, por mais que se tenham por gênios. Acham que é fácil ser o que eu sou!

Querer só as vantagens de ser bem-dotado – já passei dessa fase. Se não posso acreditar o quão longe cheguei, as braçadas que dei, os canais e abismos que atravessei, as chamas que transpus… Meu instinto não falha quando me dou conta da facilidade da vida dos outros. Como são lisos e reclamões! Deveriam entender o que implica ser eu.

Bandejas cheias de uva, sala de estar abarrotada de balões, dias repletos de paparicos, família desprovida de dinamite. Carta branca para deitar e rolar, fazer da vida o que quiser. Não conviver com pressões. Não estar à beira de um colapso, não saber o que é conviver com a morte, fazer pouco caso dela (inúmeras vezes)!

A única coisa que deveria me deixar boquiaberto: estar vivo. E tão bem. Estou tão sozinho e em posição desprivilegiada em casa, acuado, o bode perfeito para o ataque, que até o irmão é apenas um episódio a mais, um algoz a mais. Não é outra vítima preferencial. Não se trata de alguém que atingiu a independência. Quem dirá um alienado. É um pai fracassado – no sentido em que é mais jovem, bruto, estúpido, preguiçoso, débil e imprevidente que o primeiro (mas o molde é o mesmo). Nem se pode dizer que essa vontade de ser golpista, essas espertezas irrisórias, cheiram à ambição. É antes de tudo um sujeito que quer passar a perna em meio mundo, mas é o primeiro a se dar uma rasteira. Em suma, um estagnado. Aquele tipo de membro, de zero, de estorvo, que não é “o primogênito”; fica até difícil de defender o ponto de vista de que os outros vêm tomar o que é dele. É uma existência tão mesquinha, que eu, o caçula, posso dizer: a única função, a única característica de peso, o singular traço de relevo desta presença, é que ele me atrapalha. Por isso passa a ser considerado. O inexpressivo que consegue ser um incômodo. Idade de marmanjo, vivência de moleque. Um mau vigarista, conquanto experiente, porque não consegue encontrar outro ofício.¹ Um corpo anômalo. Uma perfeita aberração. O lado da balança que deveria me favorecer, equilibrar a equação, nivelar a disputa. Mas esse empatar é diferente! Trata-se de um lixo que deveria ser removido. Só que é tão degradante, sem propósito, um amontoado de ridículo… Um sugador de energia, esta que é tão necessária!

¹ Hoje, aos 35 anos, percebo mais do que nunca, mais do que àquela época, o quanto meu pai biológico e meu irmão mais velho são almas gêmeas. Nenhuma dessemelhança de caráter e temperamento entre ambos.

Caso semelhante eu não averigüei. Uma mortalha que arrisca me assombrar até a hora da minha partida, “outro pai”, dessa vez um que necessita ser sustentado, espécime mais aproveitador, vil, dissimulado que o anterior. Vendo o quanto eu produzi, os picos em que finquei bandeira… E o pensamento de que se não tivesse tantas camisas-de-força para me desperdiçar eu não poderia sonhar com as coisas que faço sobrevém – o supremo consolo!

Nos céus límpidos ao lado… Nada perturba, nada machuca, nem existem marimbondos sobrevoando. Apenas uma cegueira disfarçada de azar. A culpa é sempre dos outros, eles próprios não precisam melhorar, maturar, insistir, eles só têm de esperar… Eu sou o que vocês chamam de milagre. Mas não passo de um acontecimento tão banal quanto as suas lamentações. Uma condição óbvia, embora diferente.

[ARQUIVO] A SOCIOLOGIA E A SUA VIDA / BODES EXPIATÓRIOS & CÉREBROS VIRANDO GELEIA

Originalmente postado em 5 de outubro de 2009. Parágrafo novo no final.

Sob o que paira tão alto, sua casa e sua família. Contornos mais nítidos, mas coração mais apertado. O que é sensível para nós seria falável, se não fosse doloroso falar do que mais se conhece! Quanto ao insensível e incorpóreo, tanto faz que tenhamos imparcialidade, ele é obscuro e distante mesmo… Claro, até voltar a ser familiar; digo, familial. E o quanto das cabeças dos nossos pais não é absolutamente indecifrável, por mais autômato e robótico?

Escrevo para tentar parar de pensar sem cessar no mesmo corpo de problemas todos os dias, o que vem me atrapalhando a manter minha rotina de leituras. Não me importam a sociologia e seus entreveros entre autores, todos corretos e todos errados ao mesmo tempo. Chega!

Só me importam alguns pontos, tais quais: se um sujeito bem gordo completa a travessia de uma ponte de madeira sobre um rio, envergando-a para baixo, e um segundo sujeito, magrinho, apenas pele e osso, tenta passar e racha a madeira, caindo na água quando estava justamente no meio do caminho, de quem é a culpa? O cristão instaurará um inquérito de imediato. Estes ocasionaram o Estado, a polícia. Se o gordo não é ricaço, a culpa é dele, ele vai preso. Ou, se não houver provas de que alguém ali passou antes, o ônus vai todo para o magricela. Bodes expiatórios são unidades carnais. Cristo era um homem. Nesse nosso mundo não é costume a partilha de responsabilidades. Vai ver é por isso que a Terra está assim, que a camada de ozônio…

Ninguém? Deus? Não falemos de vazios, sigamos no Mundo dos Homens falando de Homens, e não de Idéias. Afinal, em tudo que importa, só Homem, o ato, a matéria, o tangível, é que entram na conta. E que se dane se o gordão fez de propósito ou o magro estava sendo coagido. O que você faz não é voluntário nem desinteressado.

Então por que eu aqui? Sinceramente, o que mais me preocupa no momento é dinheiro. Não dinheiro para a vida toda, não meu dinheiro, mas o dinheiro dos meus pais que vai pra mim. Atualmente, é assim que eu vivo, e até 2ª ordem continuarei pedindo toda semana algumas notas, retirando-as da carteira do meu pai sob as vistas do dono. Ele ser murrinha e eu ser um universitário desempregado são duas coisas que não casam bem. Mas tem de casar, de alguma forma – é a vida. O chefe da família diz que não há conversa nessa casa, os filhos mondrongos são os responsáveis. Eu digo que ele é um bicho-do-mato escroto que não tem solução, é um daqueles casos perdidos.

Não importa quem tem razão, nem qual é o lado fraco. Ele vai morrer como mau pai e sem conquistar os filhos. Vai viver cada segundo do resto de sua vida com o peso (será que o elefante sente?) de não ter conseguido estabelecer o mínimo diálogo intergeracional. Se há um consolo – certamente ele pensa nesses esquemas –, é que ele acha que algo extraordinário irá acontecer e ele ainda poderá realizar sua meta (opa, nós – estranhamente, ele não se encara como ator). A esperança morre só depois do defundo…

P.S. 2023: Hoje moro só e meu pai está em fase final do Alzheimer. Até hoje nunca admitiu seus erros e ainda acusa todos a sua volta por não ter-se tornado o Rei da Inglaterra.

[ARQUIVO] A vida de Federico Nietzsche, o maior dos filósofos modernos, & de sua irmã nazista, sua antípoda.

Trechos selecionados de antigas postagens do primeiro blog do autor, de 18 de setembro de 2009 e 6 de novembro de 2009. Duas obras serviram de bibliografia para as citações e comentários: Vida de Federico, biografia de Daniel Halevy traduzida ao espanhol e My Sister and I, obra anônima, falsamente atribuída a Nietzsche, ambas, se e quando vertidas ao português, citadas em traduções minhas. Exemplares consultados na biblioteca da Universidade de Brasília à época.

* * *

Carl Ludwig. Pai luterano e também enfermiço. Gosto pela música e pela solidão! Tinha os reis em alta conta, daí provindo o nome do filho, Frederico Guilherme.

Desde sempre muito introspectivo: só foi falar aos 2 anos e meio!

Famoso registro de um sonho que teve aos 14 anos: prenúncio da morte de seu irmão caçula.

el Señor de los cielos fue nuestro único consuelo”

el pastorcito”, assim N. era chamado no círculo familiar.

Intensa produtividade literária já aos dez anos. Eu também tive esses impulsos – que pena que tratavam de jogar tudo o que eu fazia no lixo!

Pp. 19-30: ausentes do exemplar que li.

Embriagado de si mesmo, escreveu a história de sua infância” em 14 dias!

P. 37: será que seu ódio pela cerveja tem origens em um embebedamento que o fez se machucar a cavalo?

Na escola, gostava de brigar e chamar para o duelo.

Esta alegría infantil dura poco”

Hiato poético. Aluno de Ritschl.

SOBRE OS POSITIVISTAS: “N. os leu… mas não os releu”

Hegel, Fichte e Schelling viviam o seu auge no ambiente acadêmico.

Iniciou estudos em Bonn, mas transferiu-se para Leipzig. Na festa local, a do centenário da entrada de Goethe na instituição, o reitor desaconselha ser como ele (Goethe): um mau aluno! Um paradoxo: reconhece-se o fermento do grande homem, mas o homem erudito se recusa a replicá-lo.

este brônzeo monstro de força”, em referência a Schopenhauer. O pai que N. arranjou para si mesmo na idade em que é preciso ter um, biológico ou não (20).

CRISE FILOLÓGICA (PP. 53-4): “Que uma multidão de cabeças medíocres se ocupe de coisas cuja importância e conseqüência sejam graves e reais é um pensamento aterrador.”

Míope e aquartelado durante a guerra. Cai do cavalo e quebra uma costela.

A sutileza e a doçura platônica mostram já os signos da decadência.” Hipérbole!

Os gregos criam, então, como hoje os europeus, na fatalidade das forças naturais. E criam também que o homem deve se criar a si mesmo, e a suas virtudes e seus deuses. Um sentimento trágico, um valente pessimismo, que não os apartava da vida, pelo contrário, animava-os.”

Quando Nietzsche começa a ler Montaigne, ele mesmo o declara, sua desde sempre frágil amizade com Wagner, homem de outra geração, começa espiritualmente a derrocar…

Ciência, arte e filosofia crescem tão bem-ligadas em mim que creio que darei a luz a um centauro.”

no leía nunca los periódicos”

1870: A reunificação alemã em seu ápice imperialista, engolindo o sul ainda rupestre e provincial.

Aqui recomenda-se a leitura de “De Dioniso a Bismarck. Tragédia e Política em Nietzsche”, tradução de um artigo de Baeumler, 1931.

as guerras modernas são supérfluas”

Burckhardt

Na época de Nascimento da Tragédia Nietzsche soa como um discípulo hegeliano envergonhado. Seu objetivo é buscar uma finalidade na História a fim de lutar por ela – um longo caminho até Vontade de Potência

E se é certo que os gregos foram destruídos pela escravidão, ainda é mais certa esta outra afirmação: a falta de escravidão é causa de que essa nossa época pereça” Como negar? Criticar a democracia só pode significar apologia de um novo sistema hierárquico (não-burguês). Os direitos humanos nunca funcionaram na prática, não há senhores, apenas escravos. O artista é o protótipo do homem superior: não pensa no trabalho como trabalho, não pensa na riqueza como dinheiro. Tem fins maiores em vista.

Será que nos distanciamos tanto assim da ética da guerra antiga, em que os vencidos se tornavam escravos dos vencedores? O que se tornarão os ucranianos para os europeus desde este instante? Os ucranianos que não preferirem se tornar o que são, i.e., russos?

P. 116: Os sanguessugas inevitáveis do Estado-nação moderno: o general, o empresário obscuro (o oficial que nunca foi soldado, burocrata, homem de gabinete, anti-herói). Efeito colateral da “onda pacifista” européia. Homens da paz: homens do dinheiro. Assim como a humanidade não é mais digna de reis, não é mais digna de comandantes militares à antiga, apenas chefes nominais, farsas. O que se viu nos avanços bélicos da Prússia imperialista foram gritos de desespero de uma Alemanha nostálgica dos tempos nobres e épicos das guerras. Hoje continuariam havendo mais e mais gritos nostálgicos (mais do que os que já ocorrem por todo o planeta) não fosse a constatação de que quase todo conflito militar que se tem a intenção de iniciar não seria estrategicamente interessante, i.e., NÃO GERARIA LUCRO. “Lucro” é o único ser vivo do planeta habitado pelos economistas de Estado. Como dança uma nação atrofiada: tudo o que ela faz acaba por matar – dos miseráveis aos burgueses.

Polêmica contra o sufrágio universal: historicamente, é justificado como uma recompensa pela bravura da sociedade, dos nossos ancestrais. Efeito colateral: esteriliza as populações.

Quando um Estado não pode alcançar seu mais alto fim, cresce desmesuradamente. O império mundial dos romanos não tem nada de sublime frente a Atenas”: denúncia do perigo expansionista. Ademais, exemplar pulverização da teoria do espaço vital, a Lebensraum alemã.

N. se torna pensionista da Universidade da Basiléia aos 27 anos de idade devido à precarização de sua saúde.

P. 123: pérola do autor da biografia: “Nascimento da Tragédia, único verdadeiro livro que N. levara a cabo.”

Será o filósofo sempre um ser inútil para os homens?” “um lírico que não chega a ser artista”

De 3 mil em 3 mil anos as palavras se invertem? Há também um esgotamento do homem artístico, um niilismo às avessas? Morre-se de sede e afogado sucessivamente na História?!

Talvez se possa falar dos fins inconscientes de um formigueiro; mas de todos os formigueiros da Terra?…” Alusão à abstração do conceito de humanidade.

TALES – tudo deriva de um único elemento.

ANAXIMANDRO – a fuga das coisas é seu castigo.

HERÁCLITO – uma lei rege a fuga e a permanência das coisas.

PARMÊNIDES – a fuga e a permanência são mera ilusão. Apenas o Um existe.

ANAXÁGORAS – todas as qualidades são eternas: nelas não há devir.

PITAGÓRICOS – todas as qualidades são quantidades.

EMPÉDOCLES – todas as causas são mágicas.

DEMÓCRITO – todas as causas são mecânicas.

SÓCRATES – só o pensamento é imperturbável.”

Todos estão certos. Os germes mais antigos. Contra e por Homero.

De vez em quando me sobrevém uma repugnância infantil pelo papel impresso; parece-me não ver nele senão papel manchado.”

DAVID STRAUSS, A PRIMEIRA VÍTIMA: “Federico ha encontrado al hombre que desea destruir”

As idades do homem de Flaubert: paganismo, cristianismo e porquismo.

NIETZSCHE & ENGELS: O Anti-Dühring poderia ser uma obra conjunta, pois ambos gostavam de detratar o mesmo intelectual!

P. 206: “Me alimento quase exclusivamente de leite.”

IMPRESSÕES GERAIS DA FIGURA DE NIETZSCHE: “voz musical (…) falar lento (…) vista fixa (…) cabelos curtos escovados para trás (…) maçã do rosto eslava”

O método peripatético não diz respeito só a “filosofar em movimento”, como muito se veicula. Maneira de aprendizagem horizontal de dois ou mais sábios – significaria que Aristóteles não se considerava um mestre de escola nem que possuía “discípulos” no rigor da palavra. Uma conversa enquanto se passeia pelo bosque, por exemplo.

Não deves amar nem odiar o povo¹

Não te deves ocupar da política²

Não deves ser rico nem indigente³

Deves evitar o caminho dos ilustres e poderosos

Deves desposar uma mulher estrangeira4

Deves deixar a teus amigos o cuidado de educar teus filhos

Não deves aceitar nenhuma das cerimônias da Igreja”

¹ Anti-Dostoievski!

² Não deves ser ativista político se queres ser filósofo, que se ocupa, entretanto, totalmente da política.

³ Está muito além da própria escolha individual, mas sem dúvida seria um filtro para o exercício da vocação do filosofar.

4 Indecifrável em relação a tudo que deixou por escrito.

A influência da estilística de Pascal e La Rochefoucauld sobre a escrita de N.

Pseudônimos e iniciais: a salvação dos imorais! Que pena que a Constituição veda o anonimato. Não é mais possível fazer boa literatura de polêmica sem ser processado.

envelheci dez anos em uns poucos meses.”

um enfermo não tem o direito de ser pessimista.”

…e a saúde recomeça seu jogo mágico.” – Muitas das convalescenças de N. foram no clima prazenteiro do sul da Itália.

O espírito voltado para a oposição da dor vê as coisas debaixo de uma nova luz; e o indizível encanto que acompanha toda luz nova basta às vezes para vencer a tentação do suicídio, e para fazer a vida desejável. Aquele que sofre pensa com desprezo no mundo vago, tíbio e cômodo em que se compraz o homem são; pensa com desprezo nas ilusões mais nobres e mais queridas em que se deixa absorver; este desprezo é seu gozo, o contrapeso que o ajuda a se defrontar com o sofrimento físico, contrapeso cuja necessidade sente então… Seu orgulho se rebela como jamais se havia rebelado: defende com deleite a vida contra um tirano como o sofrimento, contra todas as insinuações desse tirano que nos quis obrigar a blasfemar contra a vida. Representar a vida frente a esse tirano é uma tarefa de incomparável sedução.”

Aurora

Este aforismo sempre representou minha vida. Atualmente dedico-o a W.O.

Uma independência que não moleste a ninguém; um orgulho doce, velado, um orgulho que, não invejando as honras e satisfações dos demais e se abstendo de burlas, não incomode a gente… Um sono ligeiro, uns modos livres e pacíficos; ausência de álcool, de amizades ilustres ou principescas, de mulheres e de jornais, de honras e de sociedade – que não seja a de espíritos superiores e, à falta destes, de gente humilde (da que é tão impossível prescindir quanto da contemplação de uma vegetação poderosa e sã) –; os pratos mais fáceis de preparar, se possível preparados por mim mesmo, ou que mal tenham necessidade de preparação.” Curiosidades insólitas e sem valor.

Por fim encontra N. aquela idéia cujo pressentimento o agita com tanta violência. Um dia em que caminhava pelos bosques de Sils-Maria, em direção a Silvaplana, sentou-se, não longe de Surlee, ao pé de uma rocha piramidal; naquele momento e naquele local concebeu o eterno retorno.” Romantização de biógrafo precoce.

a música e a nostalgia de um passado melhor”

Observações pessoais minhas: Cabal, Senhorita, 2005 – sensação de potência desperdiçada – por quê? À época eu apenas queria ser o que sou hoje, a própria vontade niet. Porém iludo-me dalguma forma, querendo retroagir para reaver estas possibilidades perdidas. E contudo, como minha cabeça era ali, só podia me levar até aqui – o INESPERADO, apenas agora verificável. Se eu voltasse no tempo com ESTA consciência, amadurecida, todas as cores imaginadas desbotariam em desprezo – não foi o mundo que piorou em 3 (18!) anos. Eu me tornei mais sensível em relação à essência deste mundo. Atenuante invencível: 2005 e sua sensação de estar no topo de um monte sagrado, isso se repetirá INDEFINIDAMENTE…

Pp. 265-6: “O tempo, cuja duração é infinita, deve repetir, de período em período, uma disposição idêntica das coisas. Isto é inadiável, uma necessidade; logo é necessário que todas as coisas voltem a ser. Dentro de tal número de dias, número imprevisível, imenso, apesar de limitado, um homem, semelhante em tudo a mim, eu mesmo, em suma, sentado à sombra deste rochedo, encontrarei de novo esta mesma idéia. E esta mesma idéia voltará a se encontrar com este homem, não somente uma vez, mas um número infinito de vezes, pois o movimento que repete as coisas é infinito. Logo devemos abandonar toda esperança e pensar firmemente: nenhum mundo celestial receberá os homens, nem os consolará nenhum destino melhor. Somos as sombras de uma natureza cega e monótona, os prisioneiros de cada instante. Mas não esqueçamos que esta tremenda idéia que nos proíbe toda esperança enobrece e exalta cada minuto de nossas vidas; se o instante se repete eternamente em um monumento eterno, dotado de valor infinito e – se a palavra divino tem algum sentido – divino. (…) Ápice da meditação.” (1881)

Aurora não teve o menor êxito [comercial]”

Eis aqui a pedra em formato de pirâmide, no lugar da qual, em 600, 1000 anos, se erigirá uma estátua ao autor de Aurora.” Carta a Paul Rée. Demorou muito menos do que isso.

ninguém se interessa por esse Zaratustra

N. supostamente interdito de lecionar em Leipzig por seu “ateísmo” – como se tivera saúde restante para tal!

Inicialmente, por ter passado um hiato sem editor, Assim Falou Zaratustra foi entregue apenas para 7 chegados: a irmã Elizabeth, Erwin Rohde, Overbeck, Paul Lanzky (jovem admirador niet., desconhecido hoje), Peter Gast (futuro co-editor), Mme. von Maysenbug e Burckhardt. Outro contato de N., Gersdorff, aparentemente já falecera. Rohde como que já havia rompido com o antigo amigo.

P. 380: páginas devotadas a Dostoievski e o “cristianismo revolucionário russo”.

P. 399: “As tendências humanitárias não são anti-vitais, pois convêm às massas, que vivem com lentidão; e, convindo a elas, convêm à humanidade, que necessita da satisfação das massas. As tendências cristãs são igualmente bonacheironas, e nada é tão desejável como a sua permanência, pois convém a todos os que sofrem, todos os débeis, e é necessário para a saúde das sociedades humanas que o sofrimento e as debilidades inevitáveis sejam recebidos sem rebelião, de modo submisso e, se possível, amorosamente. § Diga o que diga o cristianismo, não posso esquecer que lhe devo as melhores experiências da minha vida espiritual, e espero não ser nunca ingrato com ele no fundo do coração…” Já se imaginou tamanha isenção intelectual? Um homem que entende que o melhor para o futuro e para outros homens não é ou não será aquilo que é ou foi melhor para si mesmo? Houve filósofo mais probo?

P. 411: “Quando se estudam os últimos meses dessa vida, parece como se se assistisse ao trabalho de uma máquina de guerra que a mão humana já não governa mais”

O Código ou as Leis de Manu teriam sido uma das últimas leituras de N. Livro extenso e cansativo. Estou lendo-o há meses (agora em hiato).

* * *

O primeiro ou principal a refutar a obra Minha Irmã e Eu (Ich und meine Schwester) como de autoria nietzschiana foi Walter Kaufmann (1952, 1955). WIKI: “If legitimate, My Sister and I would be Nietzsche’s second autobiographical and final overall work, chronologically following his Wahnbriefe (Madness Letters), written during his extended time of mental collapse. (…) The book was tied quickly to controversial publisher Samuel Roth, the putative owner of Seven Sirens, who had spent jail time for the unlawful distribution of a version of James Joyce’s Ulysses (1922). In the book’s introduction, an anonymous publisher claimed to have received the manuscript from a fellow inmate of Nietzsche’s in Jena and to have hired Oscar Levy to translate the work only to have both German and English manuscripts confiscated, with only the latter surviving. (…) Kaufmann claimed in a footnote in his Nietzsche: Philosopher, Psychologist, Antichrist (first published 1950) to have received a ghostwriting confession from minor author David George Plotkin in 1965.” Creio que não preciso opinar que segundo o cânone da arquivologia ou filologia é impossível ceder e duvidar de que seja uma fraude. A ausência do manuscrito original e o lapso de tempo até o misterioso aparecimento das cópias são dois detrimentos inexcusáveis para o sucesso da teoria da autenticidade, por mais que seja um livro bem-escrito e prazeroso, e o estilo de N. seja até replicado com sucesso em suas páginas! Ainda assim: “Nietzsche scholar Walter K. Stewart, in his 185 page monograph Nietzsche: My Sister and I — A Critical Study published in 2007, argues for the original’s potential legitimacy by conducting a point-by-point analysis of Kaufmann’s book review.”

As informações mais sensacionalistas nessa pseudo-segunda autobiografia de N. são que teve envolvimento amoroso-incestuoso (assexual) com “Lama” Förster (como N. chamava sua irmã Elizabeth), que podemos dizer com segurança que ele odiava, e profundamente, e com Cosima Wagner, viúva de Richard Wagner – é até engraçado!! À época (2009), eu cria na possibilidade da autenticidade desta fabulosa história, tecendo o comentário de que os ciúmes muito intensos por Elizabeth demonstrados nas cartas de N. não eram “normais”. Porém, não levava em conta então costumes de família na Alemanha do séc. XIX, uma sociedade muito mais androcêntrica.

Eis a desculpa médica para tornar a história da escrita desse livro plausível: “Sua deterioração cerebral prejudicou seriamente a capacidade de N. responder as pessoas, mas seu fluxo de pensamentos não tinha sofrido alterações significativas, e ele não verificava, ao despejar suas idéias no papel, a mesma hesitação do contato falado.”

O primeiro capítulo já abre com uma “paródia” do relato niet. do sonho com a morte do irmão menor: no asilo, sonhava com a morte da mãe. A mãe de N. morreu poucos meses antes do próprio.

Para o odiador, a Alemanha é o lugar. Em primeiro lugar, há o kaiser, que se pode detestar a vida inteira.”

Tenho mãos e pés pequenos como os de uma mulher. Teria sido eu destinado a ser mulher? Sou acaso um descuido de Deus?”

meu cérebro vai se tornando pedra” “Como uma múmia egípcia que esqueceu de morrer por inteiro, eu sou o expectador da minha própria morte, sentindo meus olhos se tornarem poeira”

Esse é o paradoxo da minha existência? eu amei a vida ao máximo, mas não pude direcionar essa paixão do modo clássico” “Essa grande mente, a maior desde Aristóteles, está sendo dissolvida na imbecilidade da massa”

Eu cortei a história do mundo em duas ao escrever o Ecce Homo

Antes de mim os filósofos guerreavam em trincheiras contra o cristianismo. Eu promovi uma guerra total, e isso me deixou sem amigos.” Veja o anacronismo das expressões guerra de trincheiras e guerra total, compreensíveis apenas a partir dos anos 30 do séc. XX!

Sócrates e Schopenhauer são eunucos que perderam a capacidade de amar”

Na Grécia Antiga a riqueza de um homem era avaliada por seu número de filhos – em correlação positiva”

Voltaire foi a França que respirava aquele ar de liberdade ideológica inglês”

Todo pensador socialista falha ao não entender que a distribuição desigual de sabedoria, poder e talento é essencial em uma comunidade, para o contínuo exercício, ali, de sentimentos como piedade, compaixão, generosidade e proteção, que são os ingredientes das únicas civilizações que tiveram qualquer tipo de duração” O autor se esquece de que a ditadura do proletariado leva tudo isso em conta – como não levaria?

Talvez a autêntica tragédia na história do homem tenha se dado, não quando o homem se viu pela 1ª vez nu diante de sua comparsa, mas quando percebeu que era necessário sair de si para mostrar tributo à divindade. Ele não sabia que tinha sido expulso do Paraíso até se ver do lado de fora do portão.”

É difícil crer que aqueles pés das estátuas gregas precisavam mesmo da mediação de sandálias. Se tivéssemos pés tão fortes provavelmente arruiná-los-íamos com pedicures!”

Uma nação que tenha abdicado do sonho da conquista já abdicou há muito do sonho de viver” E no entanto isso colide com a crítica das nações expansionistas, vista mais acima.

Estamos excedendo as contas em tudo. O universo não é, para começar, tão grande quanto se relata. O mundo como um organismo é tremendamente importante para si mesmo, mas da mais banal significância para o sujeito. E, com todas as suas perfeições creditadas, o homem é uma criatura extremamente imperfeita! Sendo assim, poderíamos deixar de lado o sentimento de extravagância sobre o que não temos, ou de angústia pelo que possivelmente deixamos de fazer ou experimentar. Tudo humano que valha a pena está contido em alguns prédios em Roma, Paris e Londres, e eu não trocaria o resto do universo pelo conteúdo de um deles. Ainda assim, no momento em que escrevo pode ser que as forças armadas da humanidade estejam se preparando para devastar esses prédios para começar uma briguinha de homens, cuja real potencialidade é tal que se fossem estes os últimos e únicos homens sobre o globo toda a raça teria de morrer sem deixar herdeiros.”

CRISES ECONÔMICAS COMO CRISES PERMANENTES DE QUALQUER ESTADO E MORAL QUE NÃO SÃO INSTITUÍDAS POR UM POETA-LEGISLADOR

Como resultado da mistura dos economistas com leis científicas puras, sem legislação, certos princípios de economia aparentemente adquiriram um caráter duplo – o da generalização científica e o das regras que serão impunemente desobedecidas.”

Você por acaso já viu uma única jovem com a metade da beleza do mais abandonado dos gatos de rua?”

Se eu puder voltar a minha casa de novo, lerei o Livro dos Mortos egípcioMais sobre esta obra a seguir.

O europeu aspira a uma sinceridade cristã no viver, mas treina sua consciência de modo que solte uma risada sempre que cruza uma igreja”

Decidir o destino da comunidade via voto igualitário é tão razoável quanto escolher a mulher via loteria”

Quatro mulheres em minha vida: duas, prostitutas, me fizeram feliz. Felicidade de momento.” Mais um aforismo nada característico da pudicícia nietzschiana em revelar detalhes íntimos que encerra o debate sério sobre a inautenticidade deste livro.

Já fui tão maior que Schopenhauer que duvido que terei um sucessor” Alguém tendo-o escrito nos anos 50 tinha já cem por cento de segurança na afirmação…

A vitória militar, se por algum engano do destino for nossa, não vai nem ao menos por isso curar nosso jeito azedo e turrão”

Eu preferia ser um psicólogo do que o Deus do Gênesis”

Como a Alemanha é a negação da França, a Rússia é a negação da Alemanha. A Rússia tem 2 vantagens em relação a nós: tem mais salas onde se lutar e mais judeus com quem lutar.”

Uma querela entre 2 filósofos deve ser levada tão a sério quanto uma discussão filosófica entre 2 pedreiros.”

Toda mulher é uma prostituta no coração e até compreender isso um homem não pode conhecer a pureza virgem de seu ser”

Não só eu, mas os sofistas modernos estão em seu pôr-do-sol: por sofistas da modernidade quero dizer os humanistas, os empiristas, os relativistas, os utilitaristas e os individualistas.”

Um Aristófanes [comediante, sátiro] do séc. XX vai me tachar como um Demócrito, pilhando-me como este foi pilhado: Longa vida ao Deus Furacão que destronou Zeus!

quando em Turim eu vi um cavalo ser açoitado pelo cocheiro eu corri da minha casa e abracei o animal, preocupando-me com seu devir. [esse detalhe biográfico de N. é autêntico] § Essa foi a causa de minha ruína: a divisória entre minha pregação e minha prática, e isto foi parte também da grande linha entre o antes e o depois do pensamento ocidental, que como eu ficará louco.”

Se Deus tem pena de nós, ele está jogando com um dado interminável.”

Aquilo sobre o que outros filósofos escrevem livros eu me contento em escrever parágrafos.”

Só desenvolvemos 3 sistemas numéricos – contra mil línguas e 10 mil sistemas de raciocínio”

Kant teria sido um filósofo melhor se tivesse dado ao menos 10 anos de aula de Filologia, o que ter-lhe-ia aclarado a importância de se fazer entender antes de ter certeza de que é entendido

A democracia é de números e é sustentada diretamente pelos matemáticos anônimos cujas obras foram destruídas no incêndio da biblioteca de Alexandria. Que pena que a natureza humana não é delineada pelas simples linhas, vamos dizer, das proposições euclidianas!”

Se você é incapaz de ler Platão pelo simples prazer de lê-lo, leia-o visando ao ensinamento que ‘grita’ nas entrelinhas de cada diálogo: há somente um mundo, o mundo da experiência dos homens.”

CITAÇÃO DE MARX: “Os egípcios nos legaram uma verdadeira história de seu caráter nacional no Livro dos Mortos. Para caracterizar nosso tempo alguém deveria escrever um Livro dos Alemães Renegados – para incluir alguns que quiseram escapar mas não conseguiram – como eu. Se – os céus me proíbam – eu me tornasse o autor de tal obra, abriria com uma dedicatória a Heinrich Heine e encerraria com um comentário sobre Karl Marx, diante de quem os fins da criação teriam servido muito melhor se ele tivesse permanecido na Prússia, onde ele seria finalmente germanizado ou levaria um tiro. Como se sabe, Marx encontrou resguardo do germanismo na Inglaterra, de onde ainda nos dispara suas teorias pelo Canal da Mancha. [O humor do anacronismo do falsificador, o ‘Pseudo-Nietzsche’ que compôs a obra, é que isto devera ter sido escrito, se pela mão nietzschiana, em 1989, porém Marx morrera já em 1983 – tudo indica que jamais tendo ouvido falar de Nietzsche, e vice-versa.] Nesse cenário eu me desejaria qualquer lugar no centro, onde, aproximadamente, estou. [referência ao manicômio de Naumburg – wiki: “Naumburg is a town in the district Burgenlandkreis, in the state of Saxony-Anhalt, Central Germany.”]

Quanto a Marx, ele escreve num alemão tão ruim, o qual ele adorna com copiosas citações do latim e do francês [ironicamente a mesma crítica de estilo, pelo menos na parte das citações, poderia ser facilmente atribuída ao próprio N.] – línguas que ele parece não conhecer muito bem – a fim de impressionar a massa e confundir aqueles que esperavam poder entender.” Exagero evidente. Comparar Kant e Marx em questão estilística, p.ex., seria uma heresia – o segundo leva ampla vantagem!

Em Heine os judeus nos deram muito; em Marx, muito pouco”

Marx está para a lei da oferta e da demanda como Darwin está para a lei de sobrevivência do mais forte. Ambas as leis são o resultado de uma nova paixão produzida pelo séc. XVIII – pesquisa com ponto de vista.” Divertido especular sobre este comentário, sabendo que foi produzido no séc XX. Darwin não formulou a lei de sobrevivência do mais apto fora do reino animal, mas influenciou decisivamente seu emprego nas gerações posteriores. O que acontece com Marx sobre a lei de oferta-procura/demanda é um pouco diferente: ela é anterior a ele (efetivamente do próprio séc. XVIII); porém ele deve ser estudado mesmo pelos economistas liberais para que outros fundamentos da economia sejam compreendidos em relação com ela. Não há nada de correto em Adam Smith que não esteja em Marx, mas a lei da oferta e da demanda não é nada diante do escopo d’O Capital. Como Darwin deve ter muito mais informações preciosas em seus diários de viagem do que essa infame conseqüência política involuntária que gerou!

A verdade ainda ludibria; mas não é mais aquela moça formosa, e sim uma velha rabugenta e desdentada.”

Não quero ser mal-entendido: eu evito ler Marx tão apaixonadamente quanto enveredo por cada nova estrofe de Heine.”

O Capital descobriu duas coisas que são os temas básicos dos congressos socialistas: 1) a mais-valia, pois o operário trabalha para gerar mais do que é vitalmente necessário para si, e até para si e para o capitalista juntos; 2) esse novo poder de exploração da classe trabalhadora é levado a um extremo tal que o burguês se torna, no mundo do dinheiro, tão poderoso e superior aos homens quanto uma vez fôra o divino senhor feudal.”

O que não conseguirmos pela fé conseguiremos através dos métodos mágicos”

Hegel é um Spinoza guiado pela velocidade de nossa idade industrial”

É melhor que o mundo não saiba – ao menos enquanto ela viver – que Elizabeth cumpriu o mesmo papel em minha vida reservado a Augusta frente a seu [meio-]irmão caçula Byron.” WIKI: Augusta Maria Leigh was the only daughter of John ‘Mad Jack’ Byron, the poet Lord Byron’s father, by his first wife, Amelia, née Darcy.” Aparentemente, todo o significado do dito é que N. usava as cartas para E. a fim de caluniar sua mãe: “Augusta’s half-brother, George Lord Byron, did not meet her until he went to Harrow School, and even then only very rarely. From 1804 onward, however, she wrote to him regularly and became his confidante, especially in his quarrels with his mother. Their correspondence ceased for 2 years after Byron had gone abroad, and was not resumed until she sent him a letter expressing her sympathy on the death of his mother, Catherine in 1811.” Não gostaria de crer que o autor-falsificador de Minha Irmã & Eu quisesse pôr em evidência o ‘lado negro’ da relação entre Byron e sua irmã: “Not having been brought up together, they were almost like strangers to each other. But they got on well together and appear to have fallen in love with each other. When Byron’s marriage collapsed and he sailed away from England never to return, rumours of incest were rife.” Seja como for, a quem interessar possa: “Augusta is also the subject of Byron’s Epistle to Augusta (1816) and Stanzas to Augusta.”

Cinquenta anos depois de minha morte, quando eu tiver me tornado um mito, minha estrela brilhará no firmamento enquanto o Ocidente será eclipsado na escuridão, e pela própria luz que eu emito. Minha filosofia do poder será reexaminada, então, não como poder [político] mas como Providência.”

Mulheres são a única propriedade privada que tem total controle sobre seu proprietário.”

A idéia da transmigração das almas não é tão tola quanto parece, e meu conceito do eterno retorno é meramente a reencarnação moderna do credo pitagórico. Uma vez fomos cães e ainda regressaremos ao domínio primata dos caninos.”


IRA-ATA: AINDA VAMOS REGRESSAR AO DOMÍNIO PRIMATA DOS CANINOS

Torturando, espremendo cães. Qual foi o último que eu vi? Hoje sonhei de novo. Meus sonhos agora se relacionam a estar preso com os pais em algum lugar que não é a minha casa, e algo sem forma me tortura, algo de que eu não podia me esquecer. Foi o cão da Connie o último que toquei. Eu beijava a R. e de alguma forma me ocultava dos anfitriões indesejados. E por que tantos banheiros? Supra-homem Bill Lunch. “I spread disease like a dog…” Ter vivenciado caninamente a idade média não é absurdo, mas nada seria sem a CONDIÇÃO HUMANA, esse pathos que olha para baixo e para cima das cadeias com seus próprios olhos. Também já fui pedra e fui estrela. O pequeno príncipe me revive um tipo de consciência cósmica longamente entalada. A National Acrobat. Raul Seixas. Engraçado… o que eu estava fazendo dia 19 de janeiro de 2008? Tianguá e o demente. Surpreendente autocontrole. E interesse pelo tio-avô tão camponês. Moscas malditas e R. Eu sou a bomba atômica e sou a flor.

(06/11/2009)


Hegel incorreu num sexto sentido – o senso histórico”

O Homem do Subsolo de Dostoievski e o meu supra-homem são a mesma pessoa”

Talvez os pregadores de Alá me inscrevam em suas memórias como o único cristão honesto da Europa – um cristão honesto demais para aceitar a escravidão moral paulina e que preferiu, como Jesus ele mesmo, cremar-se no relâmpago do Velho Testamento.”

Salomão, o único judeu com ganas de imperador, promotor da Pax Judaica no mundo bárbaro. Seu império poderia se esticar até o fim do mundo, paraíso e terra sob a propaganda de Jeová.”

A suprema doutrina das mulheres seria a obtenção do infinito orgasmo.”


DEMOCRACIA                    X                          EUCLIDES, O “TRIGONOMÉTRICO”

estatísticas                                                                              forma

redução ao ideal                                                                não-números

paradigma do hospício                                                         potências

controle da maioria                                                  (eu sou um círculo maior)

razão                                                                           desprezo das minorias¹

¹ Provável alusão ao fato de que os gregos não se preocupavam com quantidades irracionais ou desprezíveis nas exressões matemáticas.


Há dois tipos de bárbaros; aquele que precede séculos de iluminismo e aquele que os sucede” Na mesma página cita Condillac, polímata da época iluminista.

O idealismo moral não pode suplantar a compulsão econômica de nossa era: Ruskin, Carlyle e outros britânicos obsoletos, especialmente o cabeça-de-vento John Stuart Mill, não aprenderam o básico sobre a modernidade. Se eu não fosse César seria Cristo, o Socialista, montaria num jumento e cavalgaria até Jerusalém com Marx. A ambição de poder dos marxistas complementa a ambição de poder dos nietzschianos, mas eu prefiro chegar a Jerusalém num cavalo de batalha árabe, ao invés de no lombo dum burro proletário.”

Brandes me chama de um anarquista aristocrático – e é exatamente o que eu sou. Quem, senão um judeu, para me desmascarar e contemplar esta face de Disraeli, o tory radical? O radical extremado e o reacionário extremado são irmãos debaixo da pele: ambos têm inclinação para demagogias liberais e humanitárias, e só conhecem um caminho rumo ao triunfo – a vontade de potência.” Moderados, demasiado moderados, assim nós da esquerda teríamos de nos classificar hoje.

As pessoas precisam ser governados com mãos de ferro, e eu profetizo uma época de Césares proletários [Lenin e Stalin?] que agirão como Rousseaus, enquanto Marx acaba construindo e sendo a vanguarda ideológica de ditaduras democráticas onde as iniciativas da companhia de água e esgoto e do fabricante de calças [!] são identificadas como a vontade de Deus e codificadas em leis draconianas escritas em letras de sangue.”

Dizem que por tomar o lugar do Senhor no meu sistema filosófico eu provei minha egomania. Mas na verdade eu sou extremamente modesto. Para mim, ocupar o lugar de Deus é um rebaixamento e humilhação, não uma rara promoção aos picos do Monte Sinai! § Ao invés disso, eu sequer deveria ter falado em deus na minha obra, deixando esse problema para os ingleses – Carlyles com mania de grandeza – resolverem.”

Não há lugar que não fique tedioso a longo prazo”

Me pergunto o que seria de Kant se tivesse sido induzido a viajar de navio”

Só num país como a Alemanha eu, o autor de Zaratustra, teria a necessidade de pagar do próprio bolso sua quarta e última parte!” Esse fato é verdadeiro.

O supra-homem não é uma fantasia privada: é nossa realidade biológica e transcendental”

Se Deus não tivesse morrido seguramente o século XX não ocorreria”

há mais segurança na caverna de Platão”

eu sou o fulcro da História (…) ainda que também o encontrem no Príncipe de Maquiavel”

o veneno anti-semita que cada alemão bebe do leite da mãe”

espero não viver o suficiente para ultrapassar este século”

Eu nunca imaginei o fim da raça humana porque eu tenho uma visão trágica da vida”

Berlioz, “o supra-homem da música”.

Em menos de 50 anos ser chamada de ‘wagnerete’ provocará processo por calúnia e difamação contra o ofensor, e quando uma ópera wagneriana for mencionada em nobre companhia haverá mal-estar na sala.”

Me ssa lina

Impregnemos nossas vidas com a impressão da eternidade! Vamos viver de modo que desejássemos sempre viver de novo: esse é meu credo, ontem, hoje, amanhã, e nos ontens que sucederão o amanhã.”

[ARQUIVO] NÃO TEVE GOLPE, NÃO REINA A HIPOCRISIA, E TAMPOUCO PISO EU EM OVOS DE COBRA. Ou: AS AVENTURAS DE RAFAEL NO PAÍS DO EVANGELISTÃO

Originalmente publicado em 5 de dezembro de 2016, em homenagem aos “colaboradores” e “prestadores” de (des)serviço lotados na velha Diretoria de Relações Internacionais da CAPES da gestão Michel Temer (divisão “primeiro mundo” – o dos últimos imundos).

 

Eles estão

em decomposição

Viver é uma compulsão,

abstração diuturna

Máquina ininterrupta de defecação bucal

YOUR HIGHNESS!

Gerador Rancoroso de Asneira Çalada Aparvalhada

Vertigem da intolerância encarnada numa pessoa só

“numa pessoa só”

Não-me-toque em nenhuma das minhas 2 mil caras.

Bruna Surfistinha das personalidades messiânicas e cristãs.

Caráter promíscuo quebrando a cabeça

tentando, com coração de pedra,

estilhaçar o vidro do vizinho.

Danação alheia.

Potezinho,

cheio de lágrimas de croc’

o’ dillo

Estamos todos a descoberto

Mas deixem os perfeccionistas entregues a si mesmos

Esse é um pingue-pongue fadado à imortalidade,

escolha se queres vencer pelo ímpar

ou em par

Que bonito, hein, que boniteza!

Beleza acoplada à boca escancarada.

Quem diria? Ninguém,

se justo quem hoje diz

não nos permite imaginar