O QUE É LOLICON? Debate acadêmico compreensivo e supramoral.

Na cultura pop nipônica, lolicon (ロリコン, em algumas instâncias transliterado lolicom) é um gênero de mídia ficcional em que garotas jovens (ou apenas de aparência jovem) surgem em contextos sexuais ou ao menos românticos. O termo, um portmanteau (contração, fusão) das palavras inglesas “Lolita” e “complexo” (como em “complexo de Édipo” – ironicamente, Vladimir Nabokov, autor de Lolita, odiava a psicanálise; para um conceito de complexo “melhorado” no reino da psicologia, cfr. Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo). Mas lolicon pode também significar afeto ou desejo, por parte do consumidor, direcionado a personagens com essa característica (ロリ, as lolis), e por extensão ser empregado para designar fãs dos respectivos personagens ou obras que os contemplam.

Associado com formas irrealistas e estilizadas presentes nos mangás, animes e videogames, [conforme abaixo] lolicon na cultura otaku é entendido como diferente da atração por materiais reais vinculados a garotas jovens ou atração direta por garotas jovens (parafilia, pedofilia, efobofilia) (Galbraith 2016, McLelland 2011b, Kittredge 2014). Dessa forma, o conceito de lolicon cruza com o de moe.

POLÊMICA ATRÁS DE POLÊMICA:

SOCIOLOGIA, PSICOLOGIA, SEXOLOGIA, LITERATURA, ECONOMIA, RELIGIÃO, HISTÓRIA JAPONESA E DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA NOS SÉCULOS XX E XXI: Não há esfera que fique de fora da discussão!

O primeiro termo deriva da novela Lolita, vertida pela primeira vez ao japonês na década de 1970, época em que no Japão imagens hoje chamadas “do gênero shōjo” (idealização artística da mulher não-adulta) se expandiam e adquiriam imensa popularidade. Durante o “lolicon boom”, como chamaremos esse período iniciado nos anos 1970 e completamente desenvolvido nos anos 80 (no Japão), a terminologia se sedimentou entre os otakus, querendo dizer atração por bishōjo (idealização artística da mulher não-adulta considerada esteticamente bela – é isso que o prefixo bi- acrescenta à conceituação de shoujo dada acima: a idéia, ademais, de beleza) precoces.

Onde, no shoujo, a idade da “heroína” pode flutuar dos 8 aos 18 anos, aproximadamente, o acréscimo do adjetivo jovem tende a restringir o alvo da atração do leitor a uma faixa etária mais estrita e inferior, flutuando entre os 8 e os 15, genericamente falando, isto é, a pubescência tardia ou a maturidade do desenvolvimento feminino são descartadas, havendo preferência por personagens mais jovens que “colegiais” (equivalentes à idade em que cursariam o ensino médio).

Com o tempo, essa restrição etária, baseada nas preferências dos otakus, foi baixando, isto é, se tornando ainda mais estreitamente intervalada. O alvo da atração ou afeição recuou para uma preferência por representações mais infantis, variando dos 8 aos 12 anos, de forma geral, excluindo-se, agora, as séries finais do ensino fundamental, oitavo e nono ano, antigas sétima e oitava série (para tomar as séries escolares como referência-base). Doze anos era a idade da protagonista da novela de Vladimir Nabokov (idade em que, se espera, conclua-se a sexta série ou sétimo ano).

O artwork comum nesse boom (explosão, em termos midiáticos) foi fortemente influenciado pelo caráter arredondado dos traços dos mangás shōjo já existentes antes do fenômeno (é importante destacar que inicialmente este gênero é/era marqueteado, no Japão, para garotas como leitoras-padrão ou consumidoras finais). Isso significa que na arte destinada aos homens houve um recuo do realismo dos traços para favorecer formas mais “graciosas” e estilizadas, o que por fim é entendido como a aproximação a um conceito de “eroticismo” ou “erotização” fofos (kawaii ero). Nos anos 80 este era um estilo artístico subcultural, porém hoje em dia, em escala global, trata-se de fenômeno mainstream.

Para quem desconhece o histórico do fenômeno, no entanto, pareceria que o lolicon boom seria extinto no fim da década 1980 e não seria exportado do Japão, pois houve um grande arrefecimento do movimento e o que sobrou do subgênero foram alguns poucos mangás de natureza abertamente erótica. O que explica que o fenômeno tenha se revigorado desde então, após um hiato que será discutido mais abaixo, e com receio de tornar-me repetitivo aqui, é que o lolicon boom representava um tempo em que o material era dirigido a garotas jovens e no entanto houve a reapropriação do material pelo público masculino como efeito colateral imprevisto (podemos dizer, então, que duas vezes num período de 20 anos). Quando o público reage de uma forma diferente e amplia-se a base de consumo, mudam as regras da produção cultural.

Além disso, uma onda de pânico moral direcionado contra “mangás [ditos] perniciosos”, especificamente na década de 90, quando atingiu seu auge, tornou lolicon quase uma palavra proibida ou maculada, sendo a explicação “extra-estética” de sua decadência temporária. Leis de pornografia infantil em certos países abrangem material ficcional (desenhos provocativos de crianças), enquanto que noutros a legislação é mais branda, incluindo o próprio Japão (McLelland 2016). Logo houve uma divisão geral em dois campos mutuamente opostos, ditos militantes ou ativistas, nos pólos mais extremos: os adversários e os apoiadores da tese de que representar crianças imageticamente em atos pré-sexuais ou sexuais seria um crime de abuso sexual e contra os direitos da infância.

Críticos de mídia geralmente associam o lolicon a uma separação muito mais discernível entre ficção e realidade do que seria permitido, antes de tudo, para que o debate acima referido fizesse sentido. Antes de tudo – a repetição da expressão não é à toa –, o que se quer entender é a sexualidade sui generis daqueles que se enquadram no rótulo otaku (parte desse complexo debate já foi empreendida nos primeiros artigos enciclopédicos desta série no rafazardly, que chega com este post ao terceiro episódio, e faz sua primeira ‘ponta’ ou participação no blog-afiliado Seclusão Anagógica, devido à natureza eminentemente mais filosófica da discussão; os dois anteriores tratavam diretamente do fenômeno moe – recomendo a leitura, aqui e aqui).

Embora a referência principal seja ao trabalho de Nabokov,¹ os japoneses também extraíram sua concepção de “Lolita”, “loli” e “Lolita complex” do livro – e particularmente do título do livro – de outro autor, quase no mesmo período, que leu ou não leu Nabokov (certamente sabia do livro e do título do livro), mas que escreveu de forma não-ficcional sobre o assunto: Russell Trainer, The Lolita Complex (1966, traduzido ao japonês em 1969) (Takatsuki 2010).

¹ Que, a essa altura do campeonato (embora me seja irritante ter de esclarecer algo tão patente e óbvio), exige a imediata clarificação, para evitar mal-entendidos e novos pânicos morais: a novela de Nabokov que – eu dizia – NÃO faz apologia à pedofilia (concepção muito difundida por quem não leu ou leu mal o livro), sendo um trabalho de ficção que antes contém uma mensagem subjacente contrária, pois retrata Dolores Haze –“Lolita”– como uma criança abusada cuja infância foi roubada pelo protagonista e narrador. Este seu abusador, primeiro padrasto e depois amante de Lolita (ou talvez primeiro amante e depois padrasto, dependendo da perspectiva), auto-apelidando-se Humber Humbert, vem a ser claramente, na novela, desde as primeiras páginas, quando inicia sua história num presídio, como confessa, um doente psiquiátrico, além de criminoso e homicida (ele não assassina Lolita, receio dar o spoiler, mas quem ainda quiser conferir a obra depois deste alerta, não tendo-o feito até hoje, fique à vontade para descobrir a que me refiro quando chamo o protagonista de autor de um homicídio…).

O livro de Trainer é o que se pode chamar de um tratado de psicologia “popular” (compreensível para não-iniciados) em que seu autor usa o termo complexo de Lolita para designar os homens adultos que sentem atração por garotas pré-pubescentes e púberes (Stapleton 2016). A única diferença entre o sentido antigo de Trainer (década de 70) e o mais atual do termo, usado na esfera otaku, seria a transposição da atração erótica, de forma completa, de pessoas reais para representações gráficas e ficcionais, o que Trainer não pesquisou. Daí ser este um assunto necessariamente polêmico, mas não-necessariamente condenável, ao menos para quem puder manter uma posição impessoal e algo compreensiva ou tolerante (no sentido de que não é preciso concordar com uma determinada estética para entender que ela é possível de existir, ou que mesmo que seja repulsiva isso não signifique automaticamente que é criminosa ou apologética da prática da pedofilia; no sentido, ainda, de que concepções morais de um pesquisador, sobretudo ocidental, não deveriam preestabelecer o resultado de suas pesquisas e antecipar suas conclusões sobre o assunto) (Matt 2014, Galbraith 2021).

Por fim, lolicon, defendem outros estudos mais recentes que a exposição de Trainer, seria apenas um macrocosmo de representações visuais em que o erotismo velado ou o erotismo explícito (pornografia) representam apenas microcosmos, de forma que o conteúdo leve e associado apenas ao carisma de tais personagens costuma recair sob o manto do conceito de moe, o que complexifica sobremaneira a questão, fazendo ver que existem no mínimo duas vertentes do que vem se chamando todo este tempo de lolicon. Portanto, a primeira asserção que podemos elaborar em resposta à pergunta mais imediata que com certeza o parágrafo inicial deste artigo suscita é (a pergunta seria: “Lolicon é pornografia?”): Depende. Há obras lolicon pornográficas e obras lolicon não-pornográficas.

PULSÃO & SENTIMENTO:

Tentando equilibrar extremos inconciliáveis

Conforme Akira Akagi (1993), que além de acadêmico ocupa posição editorial no mercado japonês, o termo se afastou muito do que seria intuível de acordo com a novela de Nabokov: a anteposição de um parceiro, homem, muito mais velho a uma – basicamente – criança do sexo feminino. Para Akagi não há dúvida de que lolicon descreve ou exprime um desejo ou necessidade por coisas “fofas, agradáveis, bonitas […] impregnadas de feminilidade infantil” nas páginas dos mangás e nos quadros dos animes lidos e assistidos pelo público otaku ou lolicon em específico. Além disso, Akagi já não vê o fenômeno como confinado ao universo masculino, nem ao adulto masculino: essa pulsão viria de diferentes extratos do público, tanto homens quanto mulheres, de qualquer faixa etária.

Galbraith pesquisou enfaticamente a obsessão do público japonês pelo 2D da questão: a bidimensionalidade e inanidade do alvo da preferência loli, citando os conceito parelhos de “two-dimensional fetishism” (nijikon fechi, fetichismo bidimensional) e “two-dimensional syndrome” (nijikon shōkōgun, síndrome bidimensional ou síndrome das duas dimensões).

Por mais que soe repulsiva ao leitor-padrão qualquer tentativa de tolerar esse comportamento considerado “anômalo” por nossos standards, é salutar observar que, como todas as fake news e qualquer clima de histeria suscitado em nossas sociedades, os eventos repressivos ao lolicon boom dos anos 90 no Japão sucederam a um gatilho sensacionalista que partiu da dita imprensa marrom ou de tablóide estilo inglês, como sói acontecer: por causa de manchetes de jornais pouco esclarecedoras e artigos no geral contendo assunções, lolicon passou a ser uma ofensa ou estigma, sobretudo depois da prisão, em 1989, de Tsutomu Miyazaki, serial killer (incomum o suficiente na sociedade japonesa) de garotas jovens reputadas como lolitas. Miyazaki foi retratado como o estereótipo perfeito do que queriam demonizar como otakulolicon. Mais adiante entraremos em detalhes sobre os crimes de Miyazaki e seus traços de personalidade. O que nos interessa agora, independentemente da veracidade das alegações, seria colocar o caso num contexto adequado de causa-efeito sem tentar extrapolá-lo ou situá-lo como o big bang de vários males sociais que – sim – existem na cultura conservadora do Japão.

Para esse fim gosto de evocar um exemplo mais próximo de nós. Culpar toda a indústria e todos os fãs de um determinado gênero pelas ações de um criminoso, seja uma série de crimes ou um crime, seria como dizer que um assassino em série brasileiro que fosse fã da seleção brasileira exemplificaria que o futebol é pernicioso para as pessoas. Uma hipérbole simplificadora. Faz-nos lembrar como o Ocidente passou a demonizar os videogames em inúmeras instâncias, principalmente na era Mortal Kombat – também nos “puritanos” 90, mas dessa vez nos Estados Unidos – e depois, de novo, após o Massacre de Columbine (o que é uma longa, longa história para ser tratada aqui…). Até hoje nenhum estudo concluiu que videogames aumentam a violência no mundo real e, creia-me, há milhares deles, partindo de todos os espectros – portanto, ajamos com prudência e cautela neste assunto “parente” (violência e sexo parecem estar sempre coligados em nossa sociedade, seja a ocidental específica ou quando travamos conhecimento e intercâmbio com os gostos orientais, já repararam?).

(*) Aproveito este ponto da discussão para explicar o termo “supramoral” presente no título do post: aplico-o aqui no mesmo sentido de “extra-moral” no artigo de Nietzsche, Sobre a Verdade e a Mentira em um Sentido Extra-Moral, uma lição de humildade em epistemologia e perspectivismo (algumas traduções trazem não-moral no lugar, mas esse termo tende a confundir o leitor, sendo mais próximo de amoral ou mesmo de imoral, o que geraria o que aqui queremos evitar, o clássico pânico moral). Como Nietzsche também escreveu Muito além do bem e do mal, continuando suas idéias deste primeiro artigo em época mais madura de sua filosofia, super- ou supra- é um bom termo ou prefixo para designar a tentativa de uma discussão que esteja ou pretenda estar acima da moral (burguesa, em que vivemos), não sem prescindir da ética, mas tentando desviar de suas principais armadilhas limitadoras (a moral de uma época e sua capacidade de achatar e deformar o pensamento dos observadores, efeito jamais subestimado o bastante, i.e., a noção de que o bem e o mal são conceitos absolutos definidos desde o início dos tempos e imutáveis).

Esse mesmo episódio catalisador (a prisão de Miyazaki) pode ter influenciado a criação, na subcultura otaku, do termo moe, justamente para evitar as conotações pejorativas que contaminaram o termo lolicon (Galbraith 2016), pelo menos durante a postura da mídia japonesa de atacar o fenômeno (o que foi revertido posteriormente). O termo lolicon, no entanto, nunca foi abandonado de todo. Desde a passagem do ápice do pânico moral da grande mídia e do “furacão caso Miyazaki” parece ser menos pejorativo e menos malvisto (embora eu não tenha como avaliar como se dá seu uso cotidiano no próprio território japonês em diferentes contextos públicos).

A LONGA HISTÓRIA DO MANGÁ E O ETERNO BINARISMO SHOUNEN-SHOUJO/BISHOUNEN-BISHOUJO

Por incrível que possa parecer, o que vem acima foi tencionado como mera introdução ao tópico! Primeiro precisamos traçar o histórico do veículo mangá antes de compreendermos ainda melhor o lolicon (dos três meios de comunicação de massa invariavelmente citados ao lado dessa estética, o mangá é o mais influente de todos, tendo ditado vários cânones às animações televisivas e cinematográficas e aos jogos eletrônicos).

Após certa estagnação (seja de vendas ou de inovações estéticas) nos mangás direcionados ao público feminino jovem durante os anos 50 e 60, os anos 1970 foram muito prolíficos no terreno do shōjo. Novas maneiras de desenho, novas narrativas e roteiros, novos temas envolvidos nas páginas, como conflitos psicológicos, papéis sociais e, por que não, a sexualidade. Inegavelmente foi a incorporação deste último tema pelos mangakas que atraiu mais homens a consumir também shoujo em detrimento de apenas seus “mangás típicos”, os shounen. Alguma assimetria pode ser percebida aqui: enquanto que hoje muitas mulheres lêem shounen, tendo esse termo perdido seu significado de raiz, nos anos 70 era menos comum que garotas lessem mangás de garotos, ou pelo menos não na mesma proporção avassaladora que os gostos masculinos se metamorfosearam. O que acontece com a cultura japonesa e é difícil para um não-iniciado introjetar é que a intenção mercadológica não determinou o interesse público neste contexto, e lá a indústria tentara segmentar as leituras por sexo, o que, se é feito aqui, tem contornos menos pronunciados. Por exemplo: nunca fui censurado ou tratado pejorativamente porque via Powerpuff Girls na infância; meninas não são necessariamente tomboy só porque lêem Marvel e DC (excluamos os gatekeepers da análise, os fãs tóxicos, que existem em qualquer terreno cultural!).

Sucede que o fenômeno japonês não é nada curioso, olhando de uma perspectiva mais afastada. Continuando com exemplificações, e mal comparando, seria como se Alice no País das Maravilhas, um livro em tese destinado a crianças, fosse um dia lido por gente adulta, e muito comentado e pesquisado –– Ora, isso realmente aconteceu e acontece, contrariando “o intuito original do criador”, se é que Lewis Carroll pensava que sua multifacetada obra era tão unidimensional assim… Talvez os editores ingleses da época tivessem uma visão mais estreita? De todo modo, pouco adiantou, e o público, que é também agente, seguiu seus próprios gostos e orientações.

Por falar em Alice e Carroll, a primeira aparição do termo “Lolita complex” num mangá (e não num livro de psicologia) deu-se precisamente em Kyabetsu-batake de Tsumazuite, Stumbling Upon a Cabbage Patch [Deparando-se com/Tropeçando em uma folha de repolho é como eu traduzo, mas não cacei uma tradução oficial em português], inspirado em Alice no País das Maravilhas, serialização iniciada em junho de 1974 na revista de shoujo Bessatsu Margaret. Shinji Wada, o autor, desenhou uma cena em que um personagem masculino diz num balão que “Lewis Carroll era um homem de caráter bizarro por gostar só de crianças pequenas”, fala que evidentemente não deve ser confundida com a opinião do autor nem servir para subestimar o leitor, que não encara falas ficcionais como verdades, ainda mais tendo em conta que era um mangá humorístico. Uma piada inocente, estilo Michael Jackson, que não é nada estranha a qualquer conhecedor 101 de Alice no País das Maravilhas e o processo de criação do livro, parte da biografia do matemático e poeta Lewis Carroll. (Mais um caso em que teremos que encerrar o debate ou recorrer a opiniões infundadas, pois não há nada que comprove mais do que realmente se sabe, i.e., que Carroll era um sujeito apartado e nunca cometeu nenhum ato de pedofilia nem manifestava expressa atração por “garotinhas”, nem por Alice Liddell, sua “musinha” inspiradora – inclusive esse epíteto é questionável; ela apenas recebeu o livro, mas a heroína parece ter sido criada com outros arquétipos infantis em vista, fora da família Liddell, talvez uma síntese mental de todas as crianças vitorianas, como sói acontecer com escritores. Dou a mesma margem de presunção de inocência ao vilipendiado rei do pop Michael Jackson até que me provem o contrário.)

COMPLICAÇÕES:

A CULTURA JAPONESA NÃO É PARA PRINCIPIANTES!

Os primeiros exemplos da estética lolicon foram influenciados por desenhistas homens que conscientemente introjetaram traços shōjo em sua técnica (Schodt 1996, Kinsella 1998), bem como por mangás eróticos criados por mulheres mesmas, material esse em tese dirigido a homens conforme os editoriais das revistas em que era publicado (Shigematsu 1999). O nu artístico, fotografia de crianças reais, no âmbito shōjo, era popular na época (anos 70): uma coleção intitulada Nymphet: The Myth of the 12-Year-Old (Ninfeta: O mito dos doze anos de idade) foi publicado na Terra do Sol Nascente em 1969, até antes da década em estudo. Em 1972 e 1973 é que se reportam “ondas de Alice” ou um Alice boom específico, dentro do boom shoujo maior. Nessa onda estratificada, fotos de pessoas reais eram o tema.¹

¹ Mais uma vez: sobre fotografias nudistas de crianças (não-pornográficas) e a época vitoriana de Carroll, indico a leitura cuidadosa de https://seclusao.org/2023/12/02/lewis-carroll-serieosultimospolimatas/, em particular as seções “Hobby (em alto nível) da fotografia (1856–1880)”, “Sexualidade de Carroll & Algumas considerações sobre o surgimento da arte da fotografia” e “Os diários perdidos”.

A tendência não se limitou aos mangás. Na mídia impressa, revistas dedicadas ao homem adulto possuíam fotos eróticas, relatos ficcionais e ensaios sobre a beleza única da garota jovem. Por que essa evolução da preferência do homem japonês, entretanto? Teoriza-se que a própria legislação coercitiva fomentou esse gosto: havia a interdição de mostrar pêlos das partes íntimas; uma saída menos óbvia – talvez para nós – do que promover ensaios com mulheres em idade legal que praticavam a raspagem total (o que nós só fomos adotar também mais tarde, no Ocidente, como “prática higiênica” ou “padrão”) foi então adotada pelas editoras: procurar modelos femininas na idade em que ainda não exibiam pelugem. Essa lei “anti-obscenidade” que data do Japão imperial só foi corrigida de fato em 1991, quando já não importava muito. Mesmo assim, a lei continua proibindo pêlos, por exemplo, na indústria pornô. Mas em representações artísticas e desenhos a restrição caiu. Às vezes parece que as autoridades japonesas se preocupam mais com a aparição de pêlos vaginais ou escrotais que com toda a psique do ser humano, todavia.

Primeira página do mangá mais famoso de Hideo Azuma (1950-2019), Cybele. Gō Itō identifica este trabalho como a transposição do erotismo ficcional para figuras mais redondas e irrealistas (Circularidade, redondez – atributos que raramente associamos a imagens que suscitem sex appeal no Ocidente, pelo menos nas últimas décadas – nosso ideal de beleza prefere linhas magras nas personagens, tornando o trabalho de Azuma imensamente inocente e pueril a quaisquer olhos contemporâneos!), mais próximas aos traços revolucionários e à “redondez” ou rotundidade dos personagens (totalmente a-sexualizados) de Osamu Tezuka nos anos 50 (Tezuka é praticamente o Pai do Mangá, e sua arte é AINDA MAIS RECHONCHUDA que o visto acima!).

ANOS 80:

FORMAÇÃO DA ESTÉTICA LOLI & IMPORTÂNCIA DAS CONVENÇÕES OU ANIME EVENTS NIPÔNICOS

O advento do lolicon não teria sido possível sem a criação da Comiket (sigla para Comic Market), uma convenção feita principalmente para comercializar dōjinshi (material de fãs, sem intermediação de editoras) entre o público leitor e autores amadores. A feira foi criada em 1975 pelo grupo Meikyu (Labirinto), composta por homens adultos fãs dos traços shōjo. Em 1979 apareceu o fanzine Cybele, de Hideo Azuma, que continha em seu primeiro exemplar uma paródia erótica do conto da Chapeuzinho Vermelho. Azuma seria batizado posteriormente como o “fundador oficial” do lolicon. Antes de Cybele o estilo dominante nos seinen (o shoujo para adultos) e nos mangás abertamente pornográficos era o gekiga, resumível em seu ultra-realismo, ângulos pontudos, certa atmosfera carregada (sombria e séria) e dark hatching (não traduzirei o termo – para entendê-lo, verificar o esquema de cores, digo, sombreamentos, já que mangás nascem em preto e branco, de Berserk, que personifica muito bem essa técnica). Em suma, havia mangás eróticos até esse momento, basicamente fotorrealistas em suas representações. O que o trabalho de Azuma fez foi uma abrangente estilização imagética, com sombreamentos, quando necessários, bastante tendentes ao branco ou cinza mais claro, linhas circulares, atmosfera fantástica, tomada de empréstimo dos shōjo, segundo o próprio Azuma. Essa indicação é muito importante na compreensão do fenômeno loli como, se é que é, uma perversão ficcional, que se desconecta do desejo por crianças do mundo real.

Embora as figuras tenham deixado de ter tão “circulares” ou “rechonchudas” quanto eram sob o lápis de Azuma, o espírito de “irrealismo” cartunesco das personagens foi o que perdurou na estética lolicon até a atualidade. Mas além do fator erótico Azuma nunca se levou a sério – todas as suas criações eram mangás de humor ou sátira. Em que pese Azuma achar que seus cartuns tivessem um apelo erótico, somente uma minoria concordava consigo a princípio. Porém, gradualmente o gekiga foi sendo deixado de lado mesmo pelos leitores de pornografia, que aderiram a sua revolução no traço. Houve um período de transição com corpos mais realistas e faces infantilizadas, até que o azumismo (tanto corpo quanto rosto) se tornasse hegemônico no mangá.

E a feira Comiket, introduzida acima, ironicamente criada por homens para receber majoritariamente mulheres, teve uma “invasão” de otakus homens em edições de anos subseqüentes. Registra-se que no primeiro ano do evento, 1975, 9 em cada 10 participantes eram do sexo feminino. Em 1981 a demografia já era parelha (50-50%) (Lam 2010). Argumenta-se, ainda, que o lolicon ganhou força como reação ao yaoi (mangá com imagens homoeróticas de homens vendido mais entre as mulheres, e desenhados também por autoras mulheres).

Faltava a “profissionalização” do fenômeno de nicho, que veio a acontecer principalmente por intermédio das publicações de grande porte Lemon People e Manga Burikko, ambas iniciadas em 1982. No primeiro editorial, a Lemon People até declarava com orgulho: “Temos o monopólio dos quadrinhos lolicon!”, demonstrando que naqueles anos pioneiros o termo não era derrogatório (como se tornou nos 90) (Kimi 2021). Houve ainda magazines (mensais, com vários mangás serializados dentro) como Manga Hot Milk (nome sugestivo…), Melon Comice Halfliter. Tudo como que se confundia nessa época despida ainda dos conceitos norteadores da atualidade: ilustrativamente, a própria palavra otaku só foi cunhada na própria revista Burikko, e em 1983!

Inicialmente uma revista sem fins lucrativos exclusivamente com arte gekiga, a Burikko se transformou totalmente um ano depois, esse mesmo 1983, quando passou a ser editada por Eiji Ōtsuka (Nagayama 2020), que sempre propalou a idéia de “vender mangás shoujo para garotos”. Em novembro daquele ano, ainda dividindo páginas entre gekiga e lolicon, a equipe da revista começou a receber cartas de leitores solicitando que parassem com os traços gekiga. De dezembro em diante o subtítulo da Burikko se tornou “Totally Bishōjo Comic Magazine” [revista para quadrinhos completamente bishoujo].¹

¹ Se não é uma instância de dessexualização popular de uma mídia consumível, diria que é pelo menos uma bidimensionalização e caricaturização dessa sexualização (além do caráter 2D associado a fotografias em contraste com as “mulheres reais”, as mesmas que são fotografadas, é importante reparar no “salto” da foto ao desenho, retirando os resquícios de 3D que ainda havia no hobby, e em seguida o salto do desenho realístico ao desenho cada vez mais auto-referente ou inverossímil).

Manga artists mulheres ficaram famosas durante esse boom de publicações, como Kyoko Okazaki e Erika Sakurazawa. Essas eram “rainhas” ou precursoras do movimento. Se há um “pai do lolicon”, Azuma, há um “rei do loli”, Aki Uchiyama, quem produzia 160 páginas de mangá por mês para cumprir suas metas.¹ Uchiyama teve mangás publicados não só na Lemon People como na revista ainda mais mainstream Shōnen Champion.

¹ Mais de 5 páginas por dia. Levando em conta que os autores de shounen que adoecem cumprindo agendas de séries semanais com poucos recessos anuais precisam cumprir uma cota de aproximadamente 3 páginas/dia hoje, essa cifra é assustadora e terrível na esfera das leis trabalhistas japonesas – quanta desumanidade!

Imagens de Clarisse (1979) são mais difíceis de encontrar do que se pensa! Créditos: https://fullfrontal.moe/

AS PRIMEIRAS ANIMAÇÕES DE MANGÁS EROGE

&

AS PRIMEIRAS VEDETES (ASSEXUALIZADAS COMO ROBÔS)

O primeiro anime pornô foi o nada-criativamente-batizado Lolita Anime, que durou de 1984 a 1985. Personagens icônicas desse período são Clarisse do filme Lupin III: Castle of Cagliostro (1979) e Lana do desenho para TV Future Boy Conan (1978), ambos dirigidos por Hayao Miyazaki (que odeia o fato de Clarisse ter se tornado um ícone loli). Clarisse se tornou instantaneamente objeto de culto, ajudada por resenhas em Gekkan Out, Animec e Animage. Uma série de zines ou mangás amadores com novas estórias de Clarisse era tão numerosa que virou um subgênero em si: Clarisse mangas! Essas mangás quase nunca eram abertamente eróticos, tendiam mais para uma leitura segura para garotas e garotos a partir dos 14 ou 15 anos.

Uma peculiaridade que só mesmo sendo japonês para entender por completo é que muitas das primeiras personagens lolicon nasceram do entrecruzamento entre mecha e bishoujo, mecha sendo o segmento com estórias que contenham e que se centrem em máquinas futuristas.¹ Kaoru Nagayama destaca a estréia de Daicon III Opening Animation (um anime que nem veio a ser comercializado ou terminado, mas que hoje é cultuado apenas com base na sua abertura, um grande feito técnico para o período, tendo sido mostrada numa convenção em 1981) como o marco zero desse crossover tão bizarro lolicon/sci-fi.

¹ A versão japonesa de “carros possantes e mulheres”? Cremos que não falte o elemento musical (os japoneses adoram o rock), mas com certeza a cerveja, ou doses copiosas de saquê, não entram nessa equação tríplice ou quádrupla!

Como já foi verificado neste artigo, animes inicialmente propagandeados para meninas, como Magical Princess Minky Momo (1982–1983), um dos primeiros do subgênero hoje profuso magical girls/isekai, explodiram em audiência – de ambos os sexos. Helen McCarthy sugere que os animes (diferente dos mangás, mais antigos, lembre-se) lolicon estão enraizados em shows de garotas com poderes mágicos como Minky Momo, pois a presença de heroínas metamorfas teria o poder de nublar as linhas entre a menina e a mulher (McCarthy & Clements 1998).¹,²

¹ Eu como criança não podia esconder a fascinação que as seqüências de transformação das sailors me provocavam – mesmo que eu fosse um pirralho de 7-8 anos vendo o anime na finada Rede Manchete. OBS: Repare no tamanho das pernocas – sempre me dizem, gracejando, que 2/3 do corpo dessas beldades são pura perna. Nada chubby como a arte dos 70/80-85, e tampouco nada loli: são legítimas adolescentes (no enredo) com aparência/corpo de mulher, diria Naoko Takeuchi, autora do mangá que explodiu mesmo quando virou anime. Isso se explica pelo que será dito no próximo tópico, já que Sailor Moon é dos anos 90. Acima, Minako, a Sailor Venus, como “garota normal” e depois de se transformar com a ajuda do broche, com uniforme estilizado de marinheiro. Veremos o “fetiche do uniforme” ressurgir em comentários sobre Evangelion e Kill la Kill, mais abaixo!

² Quantas teorias da genealogia do lolicon já percorremos? Isso mostra a complexidade do fenômeno. Com o perdão da expressão, a complexidade do complexo…

FLUTUAÇÕES: RETRAÇÃO DO BOOM E REVIVAL 90

(+ TODO PAÍS TEM SEU CHARLES MANSON)

Na reta final do boom, que extinguir-se-ia por si mesmo, segundo alguns, porque “os leitores/espectadores não tinham qualquer compromisso com o loliconper see “não tinham meninas jovens como seu objeto sexual”, a maioria dos criadores e consumidores do nicho erótico já havia migrado para um estilo mais diversificado e mesclado de traço bishoujo, resumível em “caras de bebê e peitões”, híbrido fetichista menina-mulher o que já não se consideram aspectos lolicon. Na própria Comiket, mangás lolicon declinaram sensivelmente em popularidade a partir de 1989, sendo substituídos por dōjinshi eróticos nas novas bases, abrangendo “novos tipos de fetiche” e uma onda de “erotismo softcore” que caía e ainda cai bem, segundo as demografias, entre homens e mulheres indistintamente, em particular quando se fala de yuri (subgênero de mangá de romance lésbico).¹

¹ Uma coisa que me chama a atenção é que o mangá erótico homem-homem surgiu e proliferou primeiro que o lésbico no Japão: normalmente em sociedades patriarcais a aceitação do lesbianismo se dá muito antes, ou desde o início (vide a Grécia Antiga), enquanto que o homoerotismo macho-macho é visto com muito mais reticência, senão completa interdição (Europa moderna ~1500-~1950). Os gregos tinham uma sociedade regulada pelo amor pederasta homem mais velho-moço, mas havia um código de ética tão estrito sobre essas relações que este assunto não podia ser discutido em público nem interferir na vida familiar heteronormativa da polis (seria mais grave que pular a cerca entre casados entre nós – não, pior do que falar abertamente sobre ‘ser traído’ pelo parceiro formal!). Já o lesbianismo era “ignorado” e não sofria sanções (ainda falando de Grécia Antiga), ao passo que imaginamos que, se uma mulher sáfica fosse descoberta, em coordenadas geográficas não muito distantes de onde floresceu a Filosofia, 1000 anos depois, seria levada imediatamente às torturas, ao “julgamento” (unilateral da Igreja Católica) e à sentença de queimar na fogueira.

Apesar de ser um parágrafo policialesco, temos que cobrir esta parte da história também: no mesmo 1989, lolicon e otaku se transformaram da noite para o dia em tópicos controversos, com o pânico moral pós-prisão de Tsutomu Miyazaki, um adulto na casa dos 20 anos que seqüestrou e matou 4 garotas entre os 4 e os 7 anos, além de violar os corpos já sem vida. Fotos do quarto de Miyazaki abarrotaram os jornais de então: uma extensa coleção de VHS, incluindo filmes de terror/slashers (subgênero de maníaco que age sozinho e mata suas vítimas com armas brancas em estórias ficcionais) supostas inspirações de seus atos; volumes de mangá, dentre eles shōjo e lolicon, etc. A “culpa” dos atos de Miyazaki foi atribuída pelo jornalismo japonês à cultura de então (poderíamos dizer que a mídia estava culpando a própria mídia? sim, o nicho ultra-conservador dos telejornais e mídia impressa para velhos ortodoxos culpando mídias que não compreendiam ou que eram fenômenos de menos de 20 anos de idade). Diziam que ao ler e assistir o que leu e assistiu Miyazaki sentiu sua inibição para cometer crimes reduzida, e achou mais fácil trafegar a tênue linha que separa ficção de realidade. Todos argumentos espúrios. Até onde sei a linha que separa páginas de mangá ou o écran da vida real continua sendo grossíssima! Curiosamente, nenhum outro Miyazaki apareceu, para confirmar a “empiria” da tese criminalística… De qualquer forma, o que aqui nos interessa é que este serial killer foi tachado de otaku, e a imagem do otaku impressa na população nacional como “gente social e sexualmente imatura”. Talvez os imperadores pedófilos que causavam guerras envolvendo milhões de vidas fossem gente social e sexualmente muito mais madura – que regressão, meu Japão!! (contém #ironia) A conseqüência natural e imediata foi um expurgo das redações, estúdios, bancas e livrarias de material “tendente ao grotesco” ou a estéticas ditadas pelo mundo otaku. Muitos subgêneros de mangá foram considerados perniciosos por um tempo. Alguns artistas da subcultura dōjinshi foram presos na esteira do escândalo Miyazaki. E demoraria alguns anos até a poeira voltar a baixar…

Em suma, os anos 90 viveram basicamente da volta da dicotomia shounen/shoujo, com séries como Sailor Moon (vide nota acima) e Magic Knight Rayearth supostamente fazendo sucesso apenas com seu público tencionado: garotas. Não sei se aqui no Brasil é que a atração por algo tão “diferente do que estávamos acostumados” funcionou diferente, mas desconfio que o fenômeno do “macho que assistiu/leu Sailor Moon religiosamente” no Japão está subestimado pela fonte bibliográfica do artigo da Wikipédia e outros consultados!

Como tudo na vida, a estética lolicon não mais parecia decadente e enjoativa para o público otaku e nem voltou a ser problematizada com o mesmo ardor pelos veículos de comunicação quando voltou a despontar no fim do milênio e começo dos 2000. A principal revista mensal com compilados de capítulos de mangás lolicon deste período revivalista foi a Comic LO

¹ Obviamente que LOli era um trocadilho intencional a ser evocado, mas o O também é acrônimo para “only”: “Só” lolitas.

E ENTÃO, O QUE É (UM)A LOLITA JAPONESA?

Deu para perceber que nenhum conceito de lolicon é exaustivo e definitivo – infelizmente. Alguns persistem em defini-lo com base na idade dos personagens expostos (mas principalmente personagens femininas), outros entendem ser um tipo de traço, estilo ou técnica de desenho, resultando em personagens necessariamente pequenos, normalmente representando mulheres de busto chato, independentemente da idade (adultas podem ser lolis, segundo a cultura japonesa, modificando o que Nabokov instalou com sua obra). Para tentar adicionar algum conteúdo a tais definições já tentadas, diríamos que a maioria dos lolicon works fixa-se em tropos como personagens ingênuos, antagonizando ou contrastando com personagens “precoces” (com um senso anômalo de perversão ou conhecimento erótico-sexual), ou personagens nuançados, coquettes. Para complicar, lolicon é usado indiscriminadamente para artes explicitamente eróticas, implicitamente eróticas ou com zero erotismo (Aoki 2019).

Kaoru Nagayama (2020) constata que leitores de mangá eles mesmos definem lolicon como mangás a conter “heroínas [protagonistas] de idade inferior à de uma estudante do ensino médio”, o que novamente não nos ajuda, pois os tais “leitores de mangá” discordam entre si, segundo o próprio Nagayama. Outros nichos “preferem” caracterizar o lolicon como estrelando “qualquer figura menor de idade”, outros dizem que “abrange a sociedade inteira, desde que as personagens se enquadrem na estética”, outros vão além e citam “que não tenham excedido o ensino primário” (ala fanática e considerada abertamente pedofílica em seus gostos). Elisabeth Klar (2013) observa que female characters “oscilam em idade”, seja porque cada mangá estabelece seus parâmetros, seja porque uma mesma personagem pode apresentar uma idade física “x” com comportamento atribuível a uma idade mental “y”, e Klar alega que é esse contraste, o mais das vezes, que gera o conflito que possibilita o relato da estória, ou sua categorização no lolicon. Ilustração peculiar seria a roribabā, (arquétipo da “Lolita vovó”), deliberadamente de design infantil e que se porta como alguém idoso. Ao contrário do que se disse acima (que quando o fenômeno arrefeceu nos 80 os traços mais curvilíneos para o corpo já não eram loli), traços secundários que denotem madurez corporal podem ser tolerados ou catalogados dentro do lolicon (Galbraith 2011). Argumentos da plot podem ainda justificar a aparência demasiado jovem de entidades não-humanas ou sobre-humanas (vampiras, bruxas, monstros que tomaram a forma humana) (Galbraith 2009).¹

¹ Me reservo ao direito de explicar, neste momento, um personagem que vem a calhar para enriquecer a discussão: trata-se de Biscuit Krüger de Hunter X Hunter, que considero uma subversão ou paródia do tropo. Sempre faço questão de ressaltar, para os que não sabem, que o autor do mangá, Yoshihiro Togashi, é casado com Takeuchi, a autora de Sailor Moon. Não significa que ela o influenciou – mas ao mesmo tempo significa. Explico: Togashi com certeza está informado e influenciado por toda a repercussão do shoujo que veio antes de sua própria produção. Ambos são quase da mesma idade, mas Hunter X Hunter, sendo um mangá de 1999, incorpora todas as lições dos anos 90, diferentemente de Yu Yu Hakusho, mangá de Togashi contemporâneo a Sailor Moon e, com efeito, bastante diferente – enquanto que HxH produz uma quebra do binarismo de gêneros e é mais do que nunca uma aproximação com o shoujo – na época de YYH ambos não eram casados, então podemos considerar que Togashi era um de Takeuchi (talvez vice-versa?), mais famosa então –: Togashi não tinha como não se interessar por uma produção tão influente como foi Sailor Moon, independentemente de quem a criou. Sigamos à personagem que para mim sintetiza uma forma de “contar a estória de uma loli de forma inusitada para o fã, sem desagradá-lo” (e destaco que só seria loli segundo aqueles que defendem que o lolicon é definível pelo traço, não pelo psicológico ou idade das personagens):

TRANSITANDO ENTRE O LOLI E O NÃO-LOLI:

Estudo de caso de Biscuit Krüger

Biscuit Krueger (Bisky ou Bisky-chan para os íntimos) é uma mulher de 57 anos, mestra do shingen-ryu (espécie de karate neste mundo ficcional) e é um hunter (caçador) de 2 estrelas. Na obra de Togashi, hunters são as criaturas mais poderosas, pois a seleção para se tornar um caçador são bastante rigorosas e secretivas; dentre os próprios hunters, aqueles que obtêm mais destaque (como possuir 2 estrelas de mérito, das 3 possíveis) são a nata em termos de poder e eficiência. Eis uma dessas pessoas, no frágil corpo que se contempla acima. Embora muito nos interessasse discorrer sobre todas as suas técnicas e um pouco do sistema de poder do anime, nos ateremos ao que é necessário para a discussão do lolicon (ou crítica ao lolicon) aqui.

Introduzida num momento tardio da estória, ela é supostamente, por alguns episódios, uma antagonista dos 2 co-protagonistas, garotos de 12 anos de idade (Gon e Killua): “Garotinhos são tão inocentes. E é tão divertido arruinar suas amizades…”, ela diz, de si para si, enquanto banca a stalker ou parte rumo à captura de suas presas, em sentido metafórico.

Porém, sua antipatia por ambos era só uma fachada para conseguir aproximar-se: testemunhando a inexperiência conjugada com o talento não-polido de ambos durante a missão em que os três estavam envolvidos (vencer um jogo entre caçadores numa ilha gigantesca), ela não pode evitar, dada sua natureza de “mãezona”, se converter de imediato em figura de mestre e conselheira para os dois (a segunda mestra oficial de nen da dupla – nen sendo o equivalente ao ki ou força vital neste universo). “Vou treinar vocês a partir de agora, e de graça. Mas definitivamente não pegarei leve!!” (aos dois) / “Por que coisas que brilham como pérolas polidas sempre aceleram o meu coração?” (para si mesma)

A primeira subversão vem do fato de que Bisky não é um “artefato”, “coisa”, cobiçado(a) por homens mais velhos e que ignora suas intenções (paradigma dos personagens ingênuos ou tapados), resiste ou tenta “transitar” entre os dois (tornando-se uma companheira coquete do bando). Antes, a relação dela com os personagens é absolutamente assexual – mesmo quando Gon e Killua pensavam que ela fosse apenas uma garota, como eles – Bisky não está em relação com homens mais velhos, então o estereótipo de loli fica comprometido –– por outro lado seu design evoca o lolicon… E, ao mesmo tempo, bem no princípio parecia que ela seria a predadora e eles os predados… Dupla, tripla subversão…

Cedo na estória – desde a introdução de Biscuit, i.e. – o espectador aprende algo que os garotos continuarão ignorando por um bom tempo, através de outro personagem (Gon, em realidade, a série inteira; Killua sendo o único a desvendar o segredo, eventualmente): Binolt, um assassino infiltrado no jogo, possui o talento de aprender tudo sobre o físico e mental de seu adversário ao comer fios de seu cabelo. É nesse momento que o personagem ergue sua guarda e entra em desesperação, pois ao “comer” alguns cachos de Biscuit após cortá-los com sua tesoura de assassino, se dá conta de que seu alvo não é uma pobre e vulnerável criança, mas uma verdadeira senhora in disguise, a Loba e não Chapeuzinho num vestido mais claro… Porém os motivos de por que Biscuit é ou está dessa maneira são ainda obscuros para o expectador por mais alguns episódios… Pode ter a ver com sua técnica antropomórfica, uma espécie de boneca espiritual massagista que ajuda usuários de nen a relaxar e conservar por mais tempo a juventude… Mas isso fica como hipótese ou conjetura – e ainda não explica o ar cutesy e a falta de intenção de Bisky de confessar sua idade (ela até a revela para os garotos, mas há evidentemente alguma peça faltando, e isso aumenta a intriga de quem acompanha a trama…).

Como caçadora de tesouros, ela ingressa na ilha atrás de uma das cartas, que para o vencedor será convertida no item que contém; mas durante a competição, ao treinar os protagonistas, o presente sai melhor do que a encomenda: ela descobriu duas jóias humanas que ajudou a polir. Sua personalidade deliberadamente astuta e mentirosa num corpo “que não deveria ser o seu” é o cerne da personagem. E o talento de Biscuit para ludibriar é atestado quando o grupo é forçado a se aliar temporariamente com uma figura ambígua, pode-se dizer, um rival do tenro passado de Gon: o veterano e caprichoso hunter Hisoka. Bisky percebe instintiva e instantaneamente que ele mente, porque está acostumada a mentir e enganar pessoas, sendo sincero no que diz, mas escondendo coisas dos garotos. Ela própria consegue enganá-lo, ou mantê-lo curto na coleira, demonstrando que é mestra no quesito.

Vários eventos depois, fica claro que para ganhar o jogo o trio teria de lutar fisicamente com um esquadrão terrorista que estava mais perto de coletar as cartas necessárias para se sagrarem campeões. O problema é que esse trio de rivais não cogitava a possibilidade de dividir o prêmio nem travar um duelo honroso, recorrendo a táticas extremas, manipulando e matando suas vítimas se necessário. E – um dos charmes do anime em todo seu curso, aliás – Killua e Gon especialmente são mais fracos que os três adultos: eles são hunters (o que já é excepcional o bastante) crianças tentando sobreviver entre outros hunters adultos. Pelo menos dessa vez eles estão acompanhados de Bisky, que sabe muito bem o que fazer. O trio forma um plano cuidadoso e há lutas individuais para sanar a situação (o grupo de Gon não cederá as cartas a Genthru, o Bomber, usuário de um nen com características literalmente explosivas). No momento mais fenomenal da personagem, Biscuit se isola com um dos lutadores do trio Bomber. Ele não entende por que ela se afastaria de seus amigos, se isso a deixaria em visível desvantagem, afinal ela era a “menininha” do trio. Mostrando seu grande trunfo, ela responde que seu oponente é um tolo e não percebeu a diferença de nível de poder entre os dois: ela quer eliminá-lo sem testemunhas (nesse momento Bara, o alvo, sente o suor frio descer-lhe a nuca). Bisky começa a reverter de forma: seu corpo adquire uma massa incomparável e ela libera sua verdadeira força, ficando com este aspecto:

Com um só soco ela deixa seu adversário inconsciente – parece que não precisava matá-lo, afinal de contas. Mas antes disso ele havia, de olhos arregalados, perguntado por que ela se escondia sob a aparência de uma criança. Ela diz que tem dois motivos: 1) esconder seu real potencial dos inimigos; 2) ela odeia sua aparência verdadeira e pouco feminina. O tropo que Togashi gostaria de comentar fica aqui muito mais claro: por conveniência, até personagens que não são loli gostariam de ser loli se pudessem, sendo algo esteticamente mais aprazível e bastante vantajoso num shounen ou coisa do tipo (mangá de batalhas). É como uma queda da quarta parede na discussão do lolismo. Gostaria de me estender ainda mais sobre essa personagem fascinante que ainda ajuda os dois garotos-protagonistas ulteriormente no enredo, porém sairia do escopo do artigo!

Folha de designs de Bisky, incluindo sua “massagista de nen”, criatura artificial.

Coloração equivocada: não é tão raro nas adaptações mangá-anime. No mangá, obviamente, ela possui um design preto e branco, exceto quando aparece na capa (e o erro parece ter decorrido daí mesmo, cf. capa do volume 15, que não deve ter tido a aprovação prévia de Togashi), que DEVERIA CORRESPONDER à iteração mais conhecida de Bisky (o anime iniciado em 2011, retificado). Antes disso, porém, o anime de 1999 (num arco OVA) a representou com base no cabelo e olhos colorizados de forma errônea na capa do vol. 15, em que aparece com mechas castanhas e íris azul no lugar dos olhos rosa e cachos louros canônicos (talvez internamente não tenham entendido que Togashi quis realmente posicionar apenas a boneca que serviu de inspiração para o design da personagem como cover da edição, e não a personagem per se!). Essa Bisky “equivocada” dos anos 90 é hoje considerado um design mais realista (?) devido às cores mais escuras e expressões mais sérias dos rostos como eram a praxe então.

Um exemplo mais moderno, ainda “em execução” ou “em andamento”, do “tropo comentado/invertido” da loli ou do pós-loli, como eu batizaria, é Jewelry Bonney de One Piece. Esperaria o término do mangá ou de sua participação no mangá antes de uma análise idêntica à que fiz com Bisky.

FUTURO E INOVAÇÕES?¹

¹ Este tópico do Wikipedia já estaria mais para “passado”, por isso eu o abreviei aqui.

O lolicon é proeminente hoje no Superflat,¹ a uma espécie de escola de arte fundada por Takashi Murakami. Entre os desenhistas desse movimento encontramos Mr. (esse é o nome estilizado do artista!) e Henmaru Machino (Darling 2001). Murakami ficou famoso por promover um ensaio de fotos com Britney Spears na temática lolicon¹ para a capa da revista japonesa Pop (Ashcraft 2010).

¹ Sobre o SUPOSTO envolvimento da pop idol ocidental e Princess of Pop em controvérsias relativas à sexualização de under-age girls no Japão (!), vide a partir do 3º parágrafo do tópico “ANATOMIA DO LOLICONISMO”, abaixo!

LOLICON X MOE

A resposta típica a moe characters seria o amor platônico. No lolicon isso não é tão simples. Estamos presos numa tempestade nebulosa aqui: o moe está incluso, inclui o lolicon, ou ambos são antagônicos, ou interpenetram-se em alguns pontos? Por exemplo: em Neon Genesis Evangelion, qual é o “coeficiente de sexualização das personagens”? Das colegiais e da principal adulta da trama, Misato, que num spin-off beija o protagonista Shinji de 14 anos de idade (para apimentar aqui a discussão), um beijo romântico, não apenas “selinho” – na cena, a personagem adulta sabia que morreria nos segundos subseqüentes e que o destino da criança era provavelmente o mesmo… na sua opinião isso atenua o impacto do “beijo molhado” na cena? Asuka e Rei, para começo de conversa, são moe ou loli? É possível que sejam moe e loli? O que elas insinuam e não mostram pode ser catalogado como “do gênero”? Por exemplo, não vemos nada erótico partindo de Asuka, vemos cenas semi-eróticas de Rei; por outro lado, Asuka fala quase sempre em sexo, e Rei é “frígida” e andrógina. São designs fofos, mas são também atraentes para o público masculino mais velho? E qual das pulsões prevalece no final, se é possível dar uma resposta unívoca? O autor de Neon Genesis Evangelion evoca em várias entrevistas a vontade de subverter o próprio gênero anime como um todo, quem dirá as sub-noções a ele atreladas de moe e lolicon – porém não podemos deixar o autor falar pela obra, até porque: 1) ele pode estar errado; 2) pode estar apenas fazendo campanha de marketing, autopromoção. Para complicar a equação, Shinji tem um envolvimento homoerótico velado – talvez interpretável como narcisismo, uma vez que a criatura em questão, Kaworu, não é humana, é, aliás, no lore de Evangelion, um anjo, denominação per se de entidades assexuadas – no anime clássico; mais explícito nos filmes Rebuild – mas não se consuma, é um relacionamento platônico. Já com Asuka, o “herói melindroso e realista” Shinji divide seu primeiro beijo…

Com o perdão da rima, menos em comum com o moe/loli, mais em comum com a estética adulta e angular de Sailor Moon. Além disso, Asuka “se transforma” num mecha, componente essencial dos anos 70 resgatado por Anno 20 anos depois.

Kaworu Nagisa, “o último anjo” ou “a tentação final”, um anjo antropomorfo que dá a liberdade de escolha ao EVA-01 e provavelmente serve de gatilho para o fim do projeto da Instrumentalidade Humana (fim da individuação, e da humanidade como a conhecemos, o bad ending da estória).

A icônica cena no elevador entre Asuka e Rei, o que mais se aproxima de uma DR entre “amigas” em NGE.

Curiosamente, no último filme de Evangelion (Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon A Time), que estende a estória original (na verdade contradizendo-a, inclusive no sobrenome de personagens como Asuka), Shinji, envolto no acidente que demarca o fim do antigo anime, fica suspenso em criogenia por alguns anos. A realidade que ele conhecia (se o anime já era pós-apocalíptico, digamos que este quarto filme da série final de Hideaki Anno seria pós-pós-apocalíptico em seu máximo) não existe mais. Todos os seus companheiros de escola se tornaram pessoas adultas. Mesmo o seu novo interesse amoroso (ou antes o interesse é que parte dela…), Mari Makinami (não mais Asuka) – que é capaz de se abrir quanto aos sentimentos mais íntimos, ao contrário de Asuka –, é uma mulher mais velha (não tanto quanto Misao, que já está morta) – menos Rei, mas Rei descobre não ser humana, num sentido bastante melancólico… Fato é que os personagens da trama foram tão deslocados do ambiente original que já não há qualquer traço de loliconismo feminino na produção (antes, há lolilaconismo, se puderem perdoar o poeta). A vedetização das heroínas em seus supersuits e supermechas obliterando Anjos (os “vilões” da narrativa) ainda são presença obrigatória, servindo de pretextos excitantes por alguns minutos, mas num soft adult mode, conjugado com o carisma moe de suas atuações e falas um tanto infantis ou menos pretensiosas que o enredo total no meio das trocas de tiro.

Redesign anos 2010 de Asuka e a personagem-piloto exclusiva da tetralogia Rebuild of Evangelion, Mari Makinami (“retirando sex-appeal da piloto-mulher”, diriam alguns). Sobre Asuka Langley: “O character designer, Yoshiyuki Sadamoto, concebeu Asuka para ser a protagonista da série, mas ao contemplar melhor as opções percebeu que haveria muita verossimilhança com outros animes já co-digiridos por Anno e desenhados por ele, como Gunbuster e Nadia.” Sobre este último anime, conferir a dinâmica do casal protagonista Jean-Nadia, dita como protótipo da relação Shinji-Asuka.

John Oppliger da AnimeNation identifica Ro-Kyu-Bu!, Kodomo no Jikan e Moetan como exemplos de séries que desafiam a distinção entre moe e lolicon mediante o uso de innuendos sexuais: “Satiriza-se a santidade casta do moe; “Essas produções não hesitam em brincar com os espectadores e demonstrar como as linhas demarcatórias entre loli e moe são puramente perspectivísticas e idiossincráticas”. Por fim: “O ’moe-style’ lolicon apresenta um erotismo leve e  domado, com meros traços gráficos eróticos, como vislumbres de roupa íntima, desistindo de qualquer cena sexual propriamente dita”

¹ TERCEIRO ESTUDO DE CASO?

Bom, quase tudo sobre isso eu já expressei em minha análise de NGE acima. Gostaria de citar Kill la Kill como outra produção (também do estúdio Gainax, não há coincidência aí) como obra (deliberadamente) divisiva, com uma protagonista andrógina, tomboy, voz grossa – demorou até o episódio 2 para eu identificar que era do sexo feminino –, obrigada a vestir um uniforme de batalha sexy (ridiculamente sexy, over-the-top, como se diz na gringa, e que parece nada tapar, quase só mesmo os mamilos e a própria vagina) – uma entidade viva – para ganhar poderes, embora com o tempo ela se torne a melhor amiga do dito uniforme e o introjete casualmente, como faria uma sailor transformada. A protagonista, Ryuko Matoi, não deixa de lutar de maneira rude e bárbara, exibindo tantos panty-shots (panchira, grande tropo do gênero) quantos murros e golpes no estilo JoJo’s Bizarre Adventure old school ou Hokuto no Ken (protótipos da porradaria de macho alfa, com ligeiras nuances de romance bem no pano de fundo), ao contrário de Sailor Moon e seus movimentos de balé graciosos e magia ou os mechs envenenados e que entram em “modo berserk” de Evangelion (sendo, numa palavra, uma protagonista badass). Neste caso, porém, há um innuendo, como o artigo original do Wikipedia dizia – innuendo é insinuação –, de que, se há, o interesse amoroso de Ryuko é sua melhor amiga Mako, mas o final é “aberto” nesse sentido.

Numa só palavra, sendo grosseiro como não permite um artigo acadêmico: se Ryuko Matoi fosse de verdade, e se nós fôssemos outro personagem do enredo, preferencialmente um(a) colega de sua idade, gostaríamos tanto de abraçá-la, compadecendo-nos de seu indizível sofrimento emocional durante a saga, quanto de fodê-la e de sermos seu/sua namoradinho(a) e andarmos de mãos dadas por aí. De novo a Gainax acertou no meio da cultura otaku, com bombas de efeito moral (pun intended) capazes de confundir os próprios otakus-receptores tanto ou mais que a crítica especializada e as autoridades “policialescas” (já que não podemos dizer que haja padrecos ou crentes “enchendo o saco” por bobagens no Japão como os há por aqui).

Nota extra: meu primeiro pensamento sobre a série, confirmado, diria, em sua maior parte após terminar de assistir o curto anime, foi que Kill la Kill é a mais ambiciosa e mais bem-conduzida paródia-hômage a Sailor Moon jamais produzida. Se pode ser argumentado qualquer ponto antitético a essa tese e “pró-moe” em relação a Kill la Kill é que apesar de ser mais velha que uma sailor no começo da estória de Takeuchi (14), Ryuko, 17, parece mais jovem.

A comilona Mako Mankanshoku: essa cena faz sem dúvida referência ao último episódio de Evangelion clássico, em que, após a recusa da instrumentalidade humana, Rei aparece correndo para a aula atrasada, também com trajes azuis, segurando uma torrada com a boca.

ANATOMIA DO LOLICONISMO E MESCLA COM DADDY ISSUES OCIDENTAIS

(Inútil, inútil, inútil!…, diria Dio Brando)

Akira Akagi identificou 5 temas primordiais dos lolicon mangas em sua análise de 1993: sadomasoquismo, “objetos tentaculares” [agora eu ri] (literalmente tentáculos aliens ou robôs em formato peniano), fetiches “mecha” [isso não estaria incluso no tema anterior?] (fusão máquina-mulher), paródias eróticas de animes e mangás do mainstream e “material simplesmente indecente ou pervertido”, observando também [mas que observador tendencioso… quase me arrependo de tê-lo colocado nesse artigo, pois ele retirou a discussão das profundezas oceânicas e a atirou na superfície de uma piscina de plástico!] “lesbianismo” e “masturbação” [ou seja, esse autor carola considera que lolicon representa tudo que é degenerado, e na mente de pessoas caducas tudo é degenerado… mesmo o amor sáfico ou o ato de masturbar-se!]. O crítico de mídia [creio que a esse ponto da minha matéria, que traduz alguns trechos da Wikipedia, devo esclarecer que no Brasil essa expressão certamente seria substituída por “antropólogo” ou “sociólogo”, que são as faculdades que formam os críticos dos mass media por excelência – nada tem que ver com jornalismo, embora um jornalista possa ser crítico de mídia também…] Setsu Shigematsu argumenta que essas formas de substituição e mímica possibilitam ao lolicon “transformar o sexo heteronormativo e tradicional numa paródia completa da sociedade”. Obras mais extremas neste universo figuram ainda coerção, estupro, incesto, bondage [já foi citado acima em sadomasoquismo] e hermafroditismo [não há nada de extremo nisso!!!], este último tópico corroborado por Matthews 2011.

Nagayama, terceiro estudioso citado neste subtítulo, diz que maioria dos mangás lolicon PORNOGRÁFICOS [agora sim foi traçada uma linha, porque o lolicon-sem-mais não pode ser resumido aos atributos do parágrafo precedente de forma alguma] lidam com “a consciência do pecado”, ou servem como sensibilizantes de tabus, da culpa e da compulsão [isso por si só explicaria sua origem específica na sociedade japonesa – mas hoje trata-se de fenômeno mundial]. Alguns mangás retratam a mulher como a beneficiária da experiência libertadora como resultado, a parceira realmente ativa da relação, a sedutora de homens. Noutros, o tropo e a realidade misógina do “homem como mal absoluto que preda vítimas indefesas” têm mais relevância. Seria uma exposição nua e crua da fragilidade dos personagens, ou quase sempre das personagens, das mulheres. O autor alega que se um mangá mostra o sexo entre duas crianças estaria isento da “consciência do pecado” validado pela inocência mútua do ato, além de evocar no leitor nostalgia e uma visão idealizada do passado, mais puro. Outros mangás tentam instilar esse desejo de nostalgia-agora, de repetir a infância, na psique problemática de seus personagens, principalmente nos mais abstratos em termos de estória e também character design. Mas Nagayama alerta: “É só porque é ficção e porque a ficção se distingue claramente da realidade que alguém experiencia a parte moe, estando implícito na fala que a “parte lolicon” é o resto maldito da equação. Não saberia o público (especificamente lolicon) apreciar a diferença entre ficção e realidade mais – teria perdido essa capacidade, que presumo inata no homem?

O governo da cidade de Tóquio já lançou campanhas maciças de banimento de artes eróticas questionáveis em animes, mangás e videogames. Durante um destes fuzuês que parecem cíclicos, My Wife Is A Grade Schooler [Minha Esposa é uma Colegial], mangá hoje fora de circulação, foi lançado. E esse trabalho foi a maior vítima da campanha. Quando o mangá foi mostrado na TV (não como anime, mas em canais de notícia, que filmaram suas páginas), post-its foram usados para censurar os locais mais sugestivos das caricaturas. Porém, aí ocorreu um efeito histérico reverso: os tais post-its induziram o público a imaginar as cenas ainda mais sugestivas do que eram de fato. O mangá era de “humor extremo” ou gag manga e criticava o cinismo da sociedade japonesa, incluindo sua hipocrisia pedofílica. Não são poucas as teorias de que o mangá foi parar no noticiário para servir de bode expiatório para toda uma geração de content creators, mas, novamente, o público underground passou a ter mais acesso à obra graças a essa tática asinina (mostrar o que se quer esconder… e mostrar apenas de forma censurada). Faremos um cruzamento inesperado do mundo totalmente japa ao mundo mais american way impossível ao descrever a capa do primeiro tankoubon de My Wife… como bastante alusivo a uma série de fotografias da super pop idol Britney Spears… Com efeito, a ascensão de Britney ao estrelato coincide com a exportação definitiva (segunda, terceira onda, não importa qual onda, mas dessa vez sem a recessão das outras, pois que vige até o momento) do modelo mangá-anime-videogames com estética japonesa traduzidos para os nossos continentes. Basta ver que digitando-se o nome do mangá “proibido” o google remete primeiro a sites sobre Britney Spears. Como se deu essa súbita associação transoceânica inimaginável? Não sei se essa capa e esse material é tão difícil de encontrar mesmo hoje na internet, mas vejo paródias-de-paródias como “If my wife became a high school student…” aparecendo na pesquisa… o que isso conota é o famoso meme: a namorada pergunta ao namorado: “Você ainda me amaria se eu virasse um verme?”. E creio que fique no terreno do meme. Ou, o que é mais grave e sensacionalista por parte da mídia ocidental, existe a hipótese de que o título japonês sempre tenha comportado a restritiva “se…” e que não estejamos falando de um mangá que parodia um gag manga, i.e., o círculo completo da auto-paródia, mas apenas de um e mesmo produto, da década passada, conforme encontrei visualmente na seguinte forma:

No que isso divergiria de um Goku magicamente transformado em criança num shounen absolutamente de classificação livre, ainda casado com uma idosa, faz meu cérebro coçar… pois não há resposta possível! Talvez o problema seja que a estória aqui contada seja mais interessante que Dragon Ball GT (uma chance de mais de 99,9%)… Realmente indignante para os puritanos. Desculpe não manter um tom neutro, mas às vezes a neutralidade é mentirosa, e aqui a desfaçatez da “discussão” (nem chamaria disso) ultrapassa todos os limites da inocuidade das picuinhas humanas… Que políticos japoneses percam tempo com esse tipo de palavrório contra “esse tipo de mangá” em vez de convencer sua população de que precisam de emigrantes (do ponto de vista do resto do globo), e jovens, e racialmente ecléticos, isso sim me deixa possesso! Uma sociedade que prefere, sendo uma exportadora de cultura, deixar-se morrer aos poucos por pura e simples xenofobia… Não deixa de ser irônico!

Mesma mochila vermelha, [parece que a obra da capa acima É a original; logo, a tradução anglófona da Wikipedia conduz a um erro fatal] mesma camisa de malha azul, vestido de noiva tal qual. Não é coincidência. Murakami, fotógrafo, dentre outros ofícios, e Seiji Matsuyama, o autor de My Wife Is A Grade Schooler (IF MY WIFE WAS, retificando, o que é grotescamente diferente, ainda mais no mundo da ficção – aliás, IF já denota que é ficção!), estiveram conversando no twitter sobre fotografia e sua relação com mangás ero. Matsuyama postou alguns links da Pop Magazine em seu website, com trabalhos que ele realizou como freela. Matsuyama chama suas criações de “Takashi Murakami x Britney Spears x My Wife Is A Grade Schooler collaboration” (uma tríade do mangá do polêmico autor, do ditocujo autor e do fotógrafo avant-garde com a cantora – diria influencer se essa palavra já existisse até seu auge lá pelos 2007 – que mais vendia no momento, e ainda sustenta inúmeros recordes que, se pensarmos nas mudanças no mercado da música, parecem inquebrantáveis para sempre). Murakami defende no twitter que esse tipo de projeto se destina precipuamente a indicar que mangá é arte. Aqui eu pego o bonde sensacionalista de um artigo da Kotaku (que não sabe se é pró-ocidente, pró-oriente, anti-todo mundo, site de fofoca, de games…).¹ Ashcraft (jornalista da Kotaku) pondera, a respeito:

“Se a legislação [japonesa] sobre crianças virtuais deveria ter passado [sido aprovada] ou se essas imagens são arte ou pornografia [veremos abaixo que COM CERTEZA não são (mais) pornografia, in this day an age, e felizmente!] está além do escopo deste artigo [5 parágrafos mal-redigidos!]. O que está em discussão aqui é se Britney Spears ‘sabia o que estava fazendo’. Ela sabia que estava participando? [em quê, esclareça o leitor! nas filmagens de Eyes Wide Shut, de Kubrick por acaso?!?] Estava por dentro do plano? Que essas imagens nessas fotografias estão conectadas ao que alguns críticos [que críticos?] estão chamando de pornografia infantil?”

Título isentão da matéria: Was Britney Spears Bamboozled Into Virtual Child Porn Protest Art?

¹ Pergunte-se por que Tim Rogers, o mais celebrado resenhista de lá, pulou do barco e hoje consegue muito mais audiência em seu canal-solo no YouTube!

MINHA PRAGMÁTICA E SUPRAMORAL OPINIÃO SOBRE TODA ESSA POLÊMICA-CHINFRIM, NÃO SEM ANTES APRESENTAR AS TAIS FOTOS DO “POLÊMICO” ENSAIO DE BRITNEY POR MURAKAMI, SE É QUE PRECISA (Hollywood, você já foi bem melhor com suas vedetes!):

Uma coisa podemos dizer: não é uma mulher recatada e do lar! Ah, e nem de longe as poses mais provocativas da diva, sou obrigado a dizer a quem não sabe ainda… Acho que homens babões atrás de mero fetiche imagético ficaram bastante decepcionados… E peraí… quantos anos Britney tem aqui? “Pornografia infantil”?!? Faz-me rir!

Se algo o desagrada, você, leitor, censor, ou se algo soa-lhe eticamente inconveniente, ignore, faça shadow ban, mas NÃO TENTE SUPRIMIR O MATERIAL com a ajuda de leis governamentais – isso fomentará a circulação do material de forma ilícita. Esse raciocínio ÓBVIO ainda não chegou à mente da maioria do público nem muito menos das autoridades escandalizadas, por sinal, daí a profusão de polêmicas inócuas com que lidamos! E especificamente sobre Spears: não subestimem a inteligência desta mulher e artista! “Sim e não”, caro Ashcraft (repórter homem sem qualquer tipo de suscetibilidade ou mesmo libido, imagino, o que inclui senso artístico); ela sabia “no que estava se metendo”, mas sua opinião era de que essas fotos ingénues nada tinham a ver com pornografia infantil, nem com pornografia dela mesma – fim do debate e da “polêmica”!

Meme que flagrei hoje, 20 de janeiro de 2024, na minha timeline: “If my father was a…?” parece ser a “idéia” central, para além de algumas referências implícitas a alguns animes para quem souber saborear os detalhes. Memes não possuem uma lógica que deva ser encarada com um códice moral ou olhar de julgador, simplesmente se ri deles ou se os ignora… Quanto mais eu demorar para publicar este artigo, mais referencial memético encontrarei para acrescentar, então é melhor terminar de uma vez!

PALAVRAS FINAIS, POR ORA

(estou ficando cansado…)

Em 2014 estabeleceu-se que obras lolicon ficariam de fora das leis de restrição japonesas em pornografia infantil. Um jurista do caso declarou que “Pornografia de mangá, anime e feita em CG [computer graphics] não viola diretamente os direitos de garotas e garotos. Não foi cientificamente validado que esse material possa vir a causar danos mesmo de modo indireto. Sem essa validação, punir autores, veiculadores e usuários se torna ditatorial”.

Estatisticamente, o abuso de menores está em queda no Japão desde os anos 60-70, justamente anos do boom lolicon. McLelland diz que “garotos” ou “garotas”, personagens desse tipo de mídia, são na verdade a hipóstase de um “terceiro gênero”. Steven Smet defende que o lolicon é um “exorcismo de fantasias” que inclusive ajuda a explicar a queda da criminalidade sexual no país. Galbraith sustenta ainda que esse tipo de arte e movimento, tornando-se profundo, promove o debate aberto dos temas da otaku culture com os meios de comunicação de massa, pondo a descoberto seus principais problemas éticos.

Um estudo de 2012 da Sexologisk Klinik (governo dinamarquês) não encontrou evidências de que desenhos que ilustrem explícito abuso sexual de crianças conduzam a abusos no mundo real. Sharalyn Orbaugh defende que mangás que contêm menores vítimas de abuso ou pelo menos engajados em atividades sexuais podem ser uma ferramenta de auxílio para menores que foram vítimas lidarem com o trauma.

Hiroshi Nakasatomi, do campo do direito, diz que a estética lolicon pode distorcer os desejos sexuais do leitor e induzir a crimes [alguém do direito falando em causa-efeito de forma tão simples, quanta novidade!]. Nakasatomi crê ainda que esse tipo de arte viola os direitos da criança, visão compartilhada pela ONG CASPAR (fundada em meio à repercussão do caso do serial killer Miyazaki).

A feminista Kuniko Funabashi entende que o lolicon contribui, sim, para a violência sexual por iconografar principalmente garotas em posições passivas e subordinadas e “apresentar o corpo feminino como uma posse do homem”. Mais um do Direito, o sr. Shin’ichirou Harata, toma o cuidado de ressalvar que qualquer lei sobre o assunto não pode indistintamente tratar material ficcional e real sob o mesmo crivo, cabendo ao “fã” ter discrição e “noção da quarta parede” em trabalhos potencialmente ambivalentes. Este jurista acredita que há ética no meio, e que o selo moe representaria justamente o lado ou metade “mais benigno(a)” deste universo, sendo o baluarte de uma ética otaku (a segunda vez que lemos essa opinião nesta espécie de suma de resenha crítica que vimos desempenhando).

Dilton Rocha Ferraz Ribeiro analisa que até o momento atual leis para restrição e leis que são contra restrição de materiais lolicon se mantêm estáveis nos últimos anos, sem tendência para reviravoltas acentuadas seja para um lado, seja para outro. Catherine Driscoll e Liam Grealy acreditam que há pressão internacional sobre o Japão para aprovar leis de censura e que no direito local tende-se a falar de um “excepcionalismo cultural” aplicável à cultura nipo. Deveríamos nos perguntar também por que legislações anti-armamentistas aprovadas pela própria ONU não encontram qualquer salvaguarda nos Estados Unidos da América, se não queremos ser aqui hipócritas!

Alguns mangakás e estudiosos dos mangás comparam o caso do lolicon (obviamente a taxa de pedófilos entre os leitores é muito baixa, como em qualquer segmento social) com a do público yaoi: a maioria dos leitores habituais desses mangás com enredos homossexuais masculinos é composta por heteros. Uma preferência literária não-condizente com a sexualidade cotidiana, portanto.

O teórico queer Yuu Matsuura (não confundir com o personagem fictício de mesmo nome) afirma em alto e bom som que personagens 2D são artefatos não-humanos e que desejo orientado a tais dispositivos não é qualificável como desejo sexual, a não ser que fosse de uma outra espécie não-humana, não-animal, figurativa, nova, sem precedentes, mesmo no campo do imaginário (pois é diferente até de ler um romance de cavalaria e sonhar com uma consumação platônica ou carnal). Matsuura diz que quem qualifica lolicon como “pornografia infantil” incorre num conceito para isso por ele formulado, “hiper-sexualismo antropomorfo”(*), alegando que há mais na natureza e nas pulsões humanas que essa visão clássica e ultrapassada. Segundo Matsuura essa tendência possui implicações bem desumanas, quer seja, a marginalização dos classificáveis como adeptos do nijikon, palavra que apareceu mais cedo no texto quando expusemos Galbraith (se quisermos passar grosso modo por esse conceito sem perder tanto de seu conteúdo originário, pensar basicamente na categorização “assexual” que cunhamos no Ocidente em tempos recentes). Só o que sabemos é que, enquanto seres vivos, temos pulsão-por-algo, esse algo não necessitando ser de nossa espécie, ou mesmo tridimensional, ou real.

(*) 対人性愛中心主義, taijin seiai chūshin shugi.

Akira Akagi entende que de décadas para cá a idealização do herói típica do público masculino sofreu intensa metamorfose (fenômeno ligado à decadência do gekiga): “Leitores de lolicon não necessitam de um pênis para ter prazer, eles sentem necessidade de êxtase por uma garota. […] Identificam-se COM A garota, e sentem com isso um prazer que o Ocidente até Freud classificaria de masoquista”. Gō Itō vai além e diz que já ouviu em entrevistas com mangakás: “A criança loli que eu desenhei sendo estuprada era eu”. Ele entende esse tipo de comentário, generalizadamente, como uma metáfora: o sujeito sendo estuprado pela sociedade e seu grito de protesto.

Kaoru Nagayama complementa essas posições dizendo que o leitor de lolicon não é estático e flui entre a perspectiva do observador voyeur onisciente e insensível num segundo para no outro identificar-se com cada personagem da trama e seus sofrimentos ou deleites, fazendo sínteses existenciais dessa experiência em poucos instantes. Co-autora do Book of Otaku (1989), a feminista Chizuko Ueno entende que o lolicon, sendo uma orientação clara para o bishōjo fictivo, é “completamente alheio à pedofilia”, e não perdeu a essência cute atribuída ao fenômeno moe em nenhum momento de sua evolução. Teria sido, sim, uma resposta masculina, dos que se sentiam excluídos dessa estética mais “fofa”, para também passarem a fazer parte do circuito bishoujo, apesar da demografia das editoras inicialmente direcionar-lhes apenas material shoujo. Em outros termos, o “homem”, para o “japonês médio”, já não é o mesmo, dos anos 50 para cá. Isso é tão óbvio, e tão corrente para nós, que até esquecemos que o Japão viveu um sistema rígido de patriarcado muito mais severo e estendido que os nossos diferentes patriarcados (considerando os dois tipos de colonização da América, a Europa, a Oceania, a Rússia, etc.), e que a revolução de costumes deles, ao menos nos meios de expressão artística, foi muito mais acelerada.

Partindo para a análise da sexualidade japonesa e deixando um pouco de lado os mangás, abstraindo o fenômeno evidente de que “a arte-influencia-a-vida-e-a-própria-arte” por um parágrafo apenas, e considerando somente as mudanças sociais e seus efeitos na arte (análise de causação linear), o sociólogo Kimio Itou atribui a emergência do lolicon às mudanças progressivas das relações intergênero no país. Para Itou a resposta mais óbvia que a juventude masculina japonesa do pós-guerra encontrou ao se sentir inferiorizada e imatura diante de mulheres cada vez mais independentes e assertivas, liberadas para o mercado de trabalho, foi procurar um refúgio imediato em formas de arte em que “dispunham de objetos passionais ainda fáceis de administrar, como na época de seus próprios pais [pais no coletivo de ‘apenas homens’] para com suas esposas submissas”. Eixo simplista de pensamento, como o dos que espumam por uma isonomia completa entre material de ficção e realidade para punição por pedofilia, porém agrega à discussão, sem dúvida, pois é uma das facetas do fenômeno.

Kinsella, informado pelo comentário de Itou, concorda, mas diz que há obviamente a influência feminina: a parcela das consumidoras mulheres também se interessa por ver homens mais vulneráveis e “desnudos”, mais convincentes e vulneráveis, em suas estórias, o que efetivamente acontece nos mangás que derrubam os tropos clássicos do shounen. Kinsella resume: o lolicon é um modo de lidar com a ansiedade social, prevalente na sociedade japonesa, em que participam ambos os sexos.

Este artigo é parte de uma série de traduções da Wikipédia inglesa sobre animes ou tópicos tangentes, mas acrescento ou removo detalhes ou conteúdos conforme minha predileção – a ponto de o artigo final se tornar quase irreconhecível se cotejado ao artigo da Wikipedia, tantas modificações e inserções eu faço. De fato, se tornou meu artigo em vez de apenas mera tradução. Às vezes – mas não sempre –, com o intuito de facilitar ao leitor, grifo os trechos mais pessoais de azul. Meus hiper-links não conduzem ao próprio site wikia, mas a outros artigos do rafazardly ou do seclusão (meus blogs), quando presentes.   

próximo da série “anime & mangá”: O QUE É SHOTACON? (o oposto diametral de LOLICON, ou antes a complementaridade de sexo do LOLICON, i.e., o mesmo fenômeno, só que espelhado para o masculino)

A QUARTA TEORIA POLÍTICA. Ou “Nunca assuma que entendeu Platão” – Alexandr Dugin

A QUARTA TEORIA POLÍTICA. Ou “Nunca assuma que entendeu Platão” – Alexandr Dugin

Observação inicial: a edição encontrável na internet em português precisa urgentemente de um revisor! Eu mesmo ‘melhorei’ muitas e muitas aspas abaixo. Às vezes demarquei minha intervenção com colchetes, às vezes não…

É significativo que o livro Contra o Liberalismo, pelo bem-sucedido intelectual francês Alain de Benoist, que também é publicado em russo pela editora Amphora, possui como subtítulo Em direção à Quarta Teoria Política.”

PRESSUPOSTO MUITO RASO E POBRE: “E se para alguém essa é uma questão de liberdade de escolha, a realização da vontade política, que sempre pode ser dirigida tanto a uma asserção e sua negação, então – para a Rússia – essa é uma questão de vida e morte, a eterna questão de Hamlet. Se a Rússia decidir ‘ser’, então isso significa automaticamente a criação de uma Quarta Teoria Política. Do contrário, para a Rússia resta apenas a opção de ‘não-ser’ e então deixar o palco histórico e mundial, e se dissolver no mundo global, nem criado nem governado por nós.”

Se, nos séculos anteriores, religião, dinastias, Estados, classes e Estados-nações desempenharam um enorme papel na vida de pessoas e sociedades, então, no século XX, a política passou a um reino puramente ideológico, tendo redesenhado o mapa do mundo, de etnias e civilizações de uma nova maneira.”

Todas as ideologias políticas, tendo alcançado o pico de sua distribuição e influência no século XX[,] foram o produto da nova Era Moderna, incorporando o espírito da modernidade, ainda que de diferentes modos e mesmo através de diferentes símbolos.”

A primeira teoria política é o liberalismo. Ele emergiu primeiro, tão cedo quanto o século XVIII[,] e acabou sendo a ideologia mais estável e bem-sucedida, tendo finalmente prevalecido sobre seus rivais nessa batalha histórica.”

…o desejo dos conservadores de liderar uma revolução ao invés de resistir a ela, levando sua sociedade na direção oposta, i.e. Arthur Moeller van den Bruck, Dmitry Merezhkovsky, etc.” Quem foram?

(*) “Arthur Wilhelm Ernst Victor Moeller van den Bruck (23 April 1876 – 30 May 1925) was a German cultural historian, philosopher and writer best known for his controversial 1923 book Das Dritte Reich (The Third Reich), which promoted German nationalism and strongly influenced the Conservative Revolutionary movement and then the Nazi Party, despite his open opposition and numerous criticisms of Adolf Hitler.” <Neocon> da época!

(**) “Merezhkovsky became a 9-time nominee for the Nobel Prize in literature, which he came closest to winning in 1933. However, because he was close to the Nazis, he has been virtually forgotten after World War II.”

Conclusão: a princípio, não nos interessam.

O fascismo emergiu depois das outras grandes teorias políticas e desapareceu antes delas. A aliança da primeira teoria política com a segunda teoria política, bem como os equívocos geopolíticos suicidas de Hitler, o derrubaram no meio do caminho.” E no entanto Hitler não era o fascismo.

DUGIN E SEU ÍMPETO DE ESCREVER UM ROMANCE (B): “Portanto, esse fantasma vampiresco sangrento, tinindo com uma aura de ‘maldade global’, é atraente aos gostos decadentes da pós-modernidade, ainda amedrontando a humanidade em grande medida.”

So far, so Fukuyama… So What?

Ele não era tão dogmático quanto o marxismo, mas não era menos filosófico, gracioso e refinado. Ideologicamente ele se opunha ao marxismo e ao fascismo, não apenas empreendendo uma guerra tecnológica pela sobrevivência, mas também defendendo seu direito de monopolizar sua própria imagem do futuro.” Até aí, nenhuma diferença em relação aos outros dois.

BOLSONARISMO: “…e a ideologia dos ‘direitos humanos’ se torna amplamente aceita, ao menos em teoria e é praticamente compulsória.” E ao menos em teoria é na prática compulsória. Vivas a Dugin ou a seu péssimo tradutor!

governo mundial” “globalismo”

grande narrativa”

identidade…até mesmo de gênero”

O ‘fim da história’ de Fukuyama chega, a economia na forma do mercado capitalista global substitui a política, e estados e nações são dissolvidas no caldeirão da globalização mundial.” “economia como destino”

A necessidade da Quarta Teoria Política deriva dessa avaliação.” Muitíssimo conveniente.

O filósofo francês Alain de Benoist chama isso de ‘la gouvernance’, ou ‘microgerenciamento’.”

Alguns poderiam argüir que os liberais mentem quando falam sobre o ‘fim da ideologia’ (este foi o tema [do] meu debate com o filósofo Aleksandr Zinoviev)” Não, eles realmente acreditam nisso.

Zinoviev: só mais um “russo propagado e ‘amado’ pelo Ocidente por ser contrário à URSS: “…was one of the symbols of the rebirth of philosophical thought in the Soviet Union. After the publication in the West of the screening book Yawning Heights, which brought Zinoviev world fame, in 1978 he was expelled from the country and deprived of Soviet citizenship. He returned to Russia in 1999. [and died in 2006]Yawning books…

ideologia fato existencial

virtualidade”

Ó, fez o dever de casa! leu Baudrillard!

ver a resenha do período soviético como uma versão ‘escatológica’ especial da sociedade tradicional por Mikhail S. Agurskii ou Sergei Kara-MurzaContemporâneos sem muita relevância.

Esse [quarto] ponto de partida é possível (…) porque ele emerge do livre-arbítrio do homem, de seu espírito, ao invés de um processo histórico impessoal.” Eu conto ou vocês contam?

Também leu Nietzsche, mas não sabe dar meio passo além (atrás sabe muitos): “Porém, essa essência é algo completamente novo, previamente desconhecido e apenas deduzido intuitiva e fragmentariamente durante as fases primitivas da história e do conflito ideológicos.”

é impossível determinar onde a Direita e a Esquerda estão localizadas em relação ao pós-liberalismo. Há apenas duas posições: conformidade (o centro) e dissenso (a periferia). Ambas as posições são globais.”

A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular” (Marcos 12:10) Hahaha! A Bíblia, é sério isso?!

O DESAFIO FANTASMA: O INIMIGO AGORA É TODOS: “A Quarta Teoria Política lida com a nova reencarnação de um velho inimigo. Ela desafia o liberalismo, muito como a segunda e terceira teorias políticas do passado, mas ela o faz sob novas condições.”

Teoricamente, o fim da história poderia ter sido diferente: um ‘Reich planetário’, se os nazistas tivessem vencido, ou o ‘comunismo global’, se os comunistas estivessem certos.” Um filósofo juvenil. Eu poderia ter escrito isso 15 anos atrás, e nem por isso me orgulharia da ‘obra’…

Alexandre Kojève¹ foi um dos primeiros a prev[ê-lo]; suas idéias foram depois reproduzidas por Francis Fukuyama.”

¹ “Although not an orthodox Marxist, Kojève was known as an influential and idiosyncratic interpreter of Hegel, reading him through the lens of both Karl Marx and Martin Heidegger. The well-known end of history thesis advanced the idea that ideological history in a limited sense had ended with the French Revolution and the regime of Napoleon and that there was no longer a need for violent struggle to establish the ‘rational supremacy of the regime of rights and equal recognition’.” Principais obras: Introduction to the Reading of Hegel: Lectures on the Phenomenology of Spirit, Outline of a Phenomenology of Right, Carl Schmitt and Alexandre Kojève Correspondence, ‘Colonialism from a European Perspective’, Essai d’une histoire raisonée de la philosophie païenne, Kant, Le concept, Le temps et le discours.

Por essa razão, a questão da modernidade, e, incidentalmente da modernização, pode ser removida da agenda. Agora a batalha pela pós-modernidade começa.” “A ditadura das idéias é substituída pela ditadura das coisas, senhas de login e códigos de barra.” Muh…

Nós devemos apenas averiguar a localização desses novos pontos vulneráveis no sistema global e decifrar suas senhas de login de modo à hackear seu sistema.” Ele NÃO disse isso!…

Em qualquer caso, primeiro e mais importante, nós devemos entender a pós-modernidade e a nova situação não menos profundamente do que Marx entendeu a estrutura do capitalismo industrial.” Hm, boa sorte…

A segunda e terceira teorias políticas são inaceitáveis como pontos de partida para resistir ao liberalismo” Se você diz…

Perdendo, elas provaram que não pertenciam ao espírito da modernidade, o qual, por sua vez, levou à matrix pós-liberal.” Hahaha

Fazer uma leitura cruzada delas seria muito mais produtivo: ‘Marx através de uma perspectiva positiva da Direita’ ou ‘Evola através de uma perspectiva positiva da Esquerda’.” Você chegou demasiado tarde à moda dos crossovers… Isso já cheira à naftalina.

Essa fascinante iniciativa ‘nacional-bolchevique’, no espírito de Nikolai V. Ustrialov ou Ernst Niekisch, não é suficiente por si mesma.” O sufixo da segunda palavra está errado!

Esse exercício metodológico é útil como um aquecimento antes de começar uma elaboração completa da Quarta Teoria Política.” Sinto lhe dizer, mas este jogo você irá perder…

A Tradição (religião, hierarquia, família) e seus valores foram sobrepujados na aurora da modernidade.” Mesmo? Porque não parece…

Em verdade, todas as três teorias políticas foram concebidas como construções ideológicas artificiais por pessoas que compreenderam, de vários modos, ‘a morte de Deus’ (Friedrich Nietzsche), o ‘desencanto do mundo’ (Max Weber) e o ‘fim do sagrado’.” Aqui o autor se contradiz ferozmente: duas dessas teorias nasceram antes de Deus morrer… A única realmente órfã foi o fascismo.

Em qualquer caso, a era da perseguição à Tradição acabou, ainda que, seguindo a lógica do pós-liberalismo, isso provavelmente levará à criação de uma nova pseudo-religião global, baseada nos restos de cultos sincréticos disparatados, no ecumenismo caótico desenfreado e na ‘tolerância’.”

Agora é seguro instituir como programa político aquilo que foi banido pela modernidade.” Agora é seguro sair de seu quarto, seus papais não estão mais bravos…

Não é por acaso que os heróis da pós-modernidade são ‘aberrações’ e ‘monstros’, ‘travestis’ e ‘degenerados’ – essa é a lei do estilo.” Hahaha

Agora esta não é simplesmente uma metáfora capaz de mobilizar as massas, mas um fato religioso – o fato do Apocalipse.” “Se nós rejeitamos a idéia de progresso inerente à modernidade (que como nós vimos, acabou), então tudo que é antigo ganha valor e credibilidade simplesmente por ser antigo. ‘Antigo’ significa bom e quanto mais antigo – melhor.” É um niilista de capciosa má-fé que mergulha rápido em suas conclusões, com medo de tropeçar pelo caminho.

E[,] finalmente, nós podemos identificar a mais profunda – ontológica! [!] – fundação para a Quarta Teoria Política. Aqui, nós devemos prestar atenção não apenas em teólogos e mitologias, mas também na experiência filosófica reflexiva de um pensador particular que fez uma tentativa única de construir uma ontologia fundamental – o estudo mais resumido, [?] paradoxal, profundo e penetrante do Ser. Eu estou me referindo à (sic)¹ Martin Heidegger.”

¹ Um adolescente deve ter traduzido essa obra!

Uma breve descrição do conceito de Heidegger [breve, e portanto mutilada] é como segue. Na aurora do pensamento filosófico, as pessoas (mais especificamente, os europeus e, ainda mais especificamente, os gregos), [e não qualquer grego – só os filósofos, a nata da nata] levantaram a questão do Ser como ponto focal de seu pensamento. Mas, pela sua tematização, elas se arriscaram a se confundir [?] pelas nuances do relacionamento complicado entre Ser e pensamento, [caberia melhor: ser e aparência; idéia e devir, etc.] entre puro Ser (Seyn) e sua expressão na existência – um ser (Seiende), entre Ser-no-mundo (Dasein – ser-aí) e Ser-em-si (Sein). [não explica as 3 categorias – não explica porque, a seguir, Platão…] Essa falha […falhou – falhou mesmo? Ou simplesmente se deu conta e chegou ao limite possível?] já ocorreu no ensinamento de Heráclito sobre a physis e o logos. [Tampouco explica no que consistiria a falha de Her. nem detalha a natureza e a razão em Her., para não dizer em outros pré-socráticos mais importantes] Logo,” QUE LOGO, QUE NADA! Você não pode resumir 2 milênios de Ontologia em um parágrafo mesquinho. Mas ele procede a esse tipo de “se …isso e aquilo… então forçosamente e inequivocamente …isso…”, infantilmente, ao longo de toda a obra. Vá mais devagar, respire!

O Um Parmenídeo é exatamente a explicitação desse problema dualista inextricável. A via da opinião e a via da Verdade, interdependentes, embora não simetricamente. Isso Dugin passa por alto…

Logo, ela é óbvia na obra de Parmênides¹ e, finalmente, em Platão, que colocou as idéias entre o homem e a existência [difiro – grosso modo, a idéia é “deus”, enquanto o máximo, mas alcançável pelo homem, daí a problemática da palavra, que remete qualquer leitor moderno simplesmente a um Deus onipotente, em 1º lugar… A idéia não está entre, está acima, e a existência tampouco está separada do homem, como este é um contínuo com a própria idéia, que só existe por ele e para ele enquanto ele flui no tempo, a idéia sendo o que existe eternamente nesta passagem do tempo, sempre perdido mas sempre passível de ser recuperado…] e que definiu a verdade como sua correspondência, a teoria referencial do conhecimento, essa falha alcançou sua culminação.”²

¹ A falha é óbvia em Parmênides! Quem teve estatura até hoje para entender Parmênides? Apostaria que não um Dugin. Onde estão os esboços e rascunhos mais longos de onde Dugin tirou esse resumo prensado de desenvolvimentos tão complicados?

² De modo algum. A teoria referencial do conhecimento seria como Aristóteles apreendeu (mal) a filosofia de seu mestre. Em Platão há o Absoluto, deus é a medida de todas as coisas, não se trata de um reflexo, ou melhor, de uma protoforma, cujo reflexo imperfeito, o conhecimento, está relegado a se desenvolver em bases mais baixas e segregadas.

Isso deu origem a uma alienação que eventualmente levou ao ‘pensamento calculista’ (das rechnende Denken) e então ao desenvolvimento da tecnologia.” Se isso está em Heidegger, não foi desenvolvido nas obras que eu li. Mas não se pode culpar Platão por Descartes (‘calculista’) e sucessores…

Pouco a pouco, o homem perdeu de vistas o puro Ser e entrou no caminho do niilismo. A essência da tecnologia (baseada no relacionamento-técnico-com-o-mundo) expressa esse niilismo continuamente cumulativo. Na Nova Era, essa tendência alcança seu pináculo – o desenvolvimento técnico (Gestell) finalmente substitui o Ser e coroa o ‘Nada’. Heidegger odiava amargamente o liberalismo, o considerando uma expressão da ‘fonte calculista’ que reside no coração do ‘niilismo ocidental’.” Ok. Nada tenho a objetar nesta sentença. Porém, até aí ainda podemos imaginar um Heidegger – e um Nietzsche – marxistas…

A pós-modernidade, que Heidegger não viveu para ver, é, em todos os sentidos, o esquecimento último do Ser, é aquela ‘meia-noite’, quando o Nada (niilismo) começa a escorrer de todas as rachaduras.” Heidegger não viveu para ver, mas Nietzsche viu em vida (um dos grandes paradoxos de nosso bem-posicionado filósofo do séc. XIX).

Porém essa filosofia não era desesperançosamente pessimista. Ele acreditava que o próprio Nada é o outro lado do puro Ser, o qual – de modo tão paradoxal! – lembra a humanidade de sua existência.” Sim, basta ler Nie.

Se nós decifrarmos corretamente a lógica [nada aristotélica] por trás do desdobramento do Ser, então a humanidade pensante [Quem é a humanidade pensante? Uma, duas, três pessoas? O governo russo?] poderá salvar a si mesma com máxima rapidez no momento de maior risco.” A paz mundial rapidamente pactuada após a II Guerra por meio da proliferação de armas nucleares não teria sido uma rápida solução num momento de maior risco (holocausto nuclear)? E no entanto como explicar que a pós-modernidade é um fenômeno posterior a esse impasse resolvido? Enfim, o problema é que já pode ter passado muito da “meia-noite”…

Heidegger usa um termo especial, ‘Ereignis’ – o ‘Evento’, para descrever esse retorno súbito do Ser. Ele ocorre exatamente à meia-noite da noite do mundo – no momento mais escuro da história. O próprio Heidegger constantemente vacilava quanto a esse ponto já ter sido alcançado ou – ‘ainda não’. O eterno ‘ainda não’…” Como todos nós, demasiadamente humanos e filósofos.

A filosofia de Heidegger pode provar ser aquele eixo central conectando tudo ao seu redor – das segunda e terceira teorias políticas reinterpretadas ao retorno da teologia e da mitologia.” Um salto súbito, sem dúvida, bem duginiano…

Assim, no coração da Quarta Teoria Política, em seu centro magnético, está a trajetória da Ereignis (o ‘Evento’) iminente, que incorporará o retorno triunfante do Ser no exato momento em que a humanidade o esquece de uma vez por todas a ponto de que seus últimos traços desaparecem.” O advento do EVENTO não é algo hegeliano, ideal, fatídico. Não adianta ser supersticioso e otimista quanto a isso. Marx e Nietzsche não foram. Isso é Cristianismo, i.e., o Deus obsoleto está vivo demais nessa crença da iminência fatal…

Primeiro, o Estado global e o governo mundial estão gradualmente abolindo todos os Estados-nações em geral.” Não existe Estado global ou governo mundial. Hipóstase. O Estado-nação segue soberano. Para alegria do autor, um deles se chama Rússia. Só um bobo-da-côrte em aula de introdução ao pós-modernismo poderia comprar a idéia inversa.

Mais importante é o fato de que a totalidade da história russa é um argumento dialético com o Ocidente e contra a cultura ocidental, a luta pela defesa de nossa própria (muitas vezes apenas intuitivamente compreendida) verdade russa, nossa própria ideia messiânica e nossa própria versão do ‘fim da história’” A existência desse livro em um idioma não-russo é a maior das contradições. Será que a verdade russa não é exatamente a verdade platônica que quem não nasceu para entender Platão se nega (metaforicamente, claro, já que disso não é capaz, não adianta querer) a intuir?

As mentes russas mais brilhantes viram claramente que o Ocidente estava se dirigindo para o abismo.” Me parece que o ser-russo não é exatamente uma nacionalidade

Dugin acertadamente contesta que a Rússia se tornou o paraíso do neoliberalismo nos anos 90.

A atual crise econômica global é apenas o começo. O pior ainda está por vir. A inércia dos processos pós-liberais é tamanha que uma mudança de curso é impossível: para salvar o Ocidente, a ‘tecnologia emancipada’ irrestrita (Oswald Spengler) buscará por meios tecnológicos mais eficientes, porém meramente técnicos.”

a economia globalista e as estruturas da sociedade pós-industrial tornam a noite da humanidade mais e mais negra.” Mas afinal não havíamos chegado à meia-noite, ó poeta?

NOITES BRANCAS: “Ela é tão negra, na verdade, que nós gradualmente esquecemos que está de noite. ‘O que é luz?’ se perguntam as pessoas[,] jamais a tendo visto.” É isso o que acontece com quem não sabe que não sabe Platão, e volta ao início do conto da caverna…

É claro que a Rússia precisa seguir um caminho diferente. O seu próprio. Aqui está a questão e o paradoxo. Escapar da lógica da pós-modernidade em um ‘único país’ não será tão simples.” Será impossível, adolescente.

Nessa situação, o futuro da Rússia depende diretamente de nossos esforços para desenvolver a Quarta Teoria Política.” Claro. A minha idéia. A idéia que eu criei. Fichtiano!

É difícil dizer como o processo de desenvolver essa teoria acabará.”

Uma coisa é clara: não pode ser um esforço individual ou um que seja restrito a um pequeno grupo de pessoas.” Então já começou muitíssimo mal.

O esforço deve ser compartilhado e coletivo. Dessa maneira, os representantes de outras culturas e povos (tanto na Europa como na Ásia) poderão verdadeiramente nos ajudar, já que eles sentem a tensão escatológica do momento presente de um jeito igualmente agudo e estão tão desesperadamente procurando por um caminho para fora do beco sem-saída global.” Dugin comete um erro crasso: distinguir neoliberalismo de Europa. Distinguir Estados Unidos da América de Europa. União indissolúvel.

É importante lutar contra o liberalismo aqui e agora; é importante identificar suas vulnerabilidades; é importante forjar uma visão de mundo alternativa – mas o futuro está em nossas mãos e é aberto ao invés de pré-determinado.” Vejo que me leu ali em cima!

Wallerstein, em vários graus, é um mecanicista, como qualquer marxista, enquanto de Benoist é um organicista e holista, como qualquer (verdadeiro) conservador.” Palavras ao vento significando nada.

O último item ao qual eu gostaria de chamar atenção em relação às ideias de Alain de Benoist e sua relevância é a compreensão do conceito do ‘Quarto Nomos da Terra’ de Carl Schmitt – isto é, o relacionamento entre ciência política e ‘teologia política’ com geopolítica e o novo modelo da organização política do espaço.” Carl Schmitt, nazista (terceira teoria política). Conservador. E liberal. Todo liberal é conservador. Todo conservador é liberal ou produto a longo prazo do liberalismo (fascismo).

Eu realmente não compreendo por que certas pessoas, quando confrontadas com o conceito de ‘Quarta Teoria Política’, não correm imediatamente para abrir uma garrafa de champagne e não começam a dançar e se regozijar, celebrando a revelação de um novo horizonte.” Não era pra rir? Tem certeza? Isso já está mais chulo que Bukowski.

Em certo sentido, o liberalismo incorpora tudo que estava no passado. A ‘Quarta Teoria Política’ é o nome para uma descoberta, para um novo começo.” “Conservador”! Aquele que não sabe sequer nomear sua doutrina deveria saber quanto vale sua doutrina.

Os comunistas ‘não passaram’ também. Agora, o que resta é que os liberais ‘não passem’ e ‘eles não passarão!’ (No pasarán!).” Mas que porcaria eu estou lendo?

Ainda de menos (sic) úteis são as sombras escuras do Terceiro Reich, seus ‘cadáveres independentes’,(*) inspirando apenas a brutal juventude punk¹ e os sonhos perturbadores e pervertidos de adeptos do sadomasoquismo.

(*) Nota da Tradução: O autor usa a palavra nezalezhnye em referência à revolução laranja na Ucrânia e às simpatias nazistas entre certos ucranianos do oeste.” Sim, os ucranianos são uma bosta, mas era para eles serem russos, não era? Onde está o pan-eslavismo? Curiosamente, o Donbass está mais a leste

¹ Não estudou movimentos sociais. Confunde punk com oi!. Isso para um autor de mentalidade púbere é tanto mais imperdoável…

Conseqüentemente, nós [nós quem?] sugerimos avançar de modo a sairmos da fase niilista da ‘Quarta Teoria Política’ [então a própria QTP tem sua fase adolescente? onde a noite é mais e mais escura, etc.?] em direção à positividade.” De qual tipo? Coachismo quântico ou o bom e velho Comte?

O sujeito histórico da segunda teoria política é a classe. A estrutura de classes da sociedade e a contradição entre a classe exploradora e a classe explorada são o núcleo da visão da história dramática dos comunistas. História é luta de classes. A política é sua expressão. O proletariado é um sujeito histórico dialético, que é chamado a se libertar da dominação da burguesia e a construir uma sociedade sobre novas fundações. Um indivíduo singular é concebido aqui como parte de uma totalidade de classe e adquire existência social apenas no processo de aquisição de consciência de classe.” Finalmente um bom parágrafo!

No fascismo, tudo é baseado na versão direitista do hegelianismo, já que o próprio Hegel considerava o Estado Prussiano como o ápice do desenvolvimento histórico no qual o espírito subjetivo era aperfeiçoado. Giovanni Gentile,¹ um proponente do hegelianismo, aplicou esse conceito à Itália fascista.”

¹ “Described by himself and by Benito Mussolini as the ‘philosopher of Fascism’, he was influential in providing an intellectual foundation for Italian Fascism, and ghostwrote part of The Doctrine of Fascism (1932) with Mussolini.”

raça + nação = ração

Coloquemos tudo aquilo que sabemos sobre o sujeito histórico fora da estrutura das ideologias clássicas, realizando o método husserliano de epoché e tentemos definir empiricamente aquele ‘mundo vital’, que abrirá (sic) diante de nós”

Se nós considerarmos a história política no estilo da ‘Escola dos Annales’ (método de Fernand de Braudel), então nós temos a chance de descobrir uma imagem um tanto polifônica, expandindo nosso entendimento do assunto.” Vamos reinterpretar César com as fontes que temos agora?

…na área das hipóteses exóticas de Deleuze e Guattari sobre o rizoma, um ‘corpo sem órgãos’, ‘micropolítica’, etc.[,] ou sobre o horizonte da proto-história com Baudrillard e Derrida (texto, desconstrução, ‘différance’, etc.). Eles nos oferecem novas (dessa vez, totalmente não-conservadoras) capacidades. Portanto,”

Se o sujeito é Dasein, então a ‘Quarta Teoria Política’ constituiria uma estrutura ontológica fundamental que é desenvolvida sobre a base da antropologia existencial.” Se…então. Onde eu enfio o nome que invento no meio. Se Mario é Zelda, então eu sou Pikachu.

Naturalmente, este é apenas um esboço apressado das áreas de interesse na nova ciência política.” Naturalmente você deveria melhorar seu livro mais uns 20 anos para que ele ao menos merecesse se acomodar em prateleiras de livrarias.

começando a partir de certo ponto, o desenvolvimento da ‘Quarta Teoria Política’ ganhará características razoavelmente científicas e racionais, as quais, por agora, mal são discerníveis por trás da energia de intuições inovadoras e da super tarefa (sic) revolucionária [conservadora!] de destruir as velhas ideologias.” Espera, você não era o inimigo da técnica e da ideologia do progresso?

o antissemitismo de Hitler e a doutrina de que os eslavos são ‘sub-humanos’ e devem ser colonizados é o que levou a Alemanha a entrar em guerra contra a URSS (pelo que nós pagamos com milhões de vidas), bem como ao próprio fato de que os próprios alemães perderam sua liberdade política e o direito de participar na história política por um longo tempo (senão para sempre) (agora resta para elas apenas a economia e, na melhor das hipóteses, a ecologia).” A pura verdade. Mas não creio que o alemão de hoje se ressinta disso.

O racismo hitlerista, porém, é apenas um tipo de racismo – esse tipo de racismo é o mais óbvio, direto, biológico e, portanto, o mais repulsivo. Há outras formas de racismo – racismo cultural (afirmar que há culturas superiores e inferiores), civilizacional (dividir os povos entre aqueles civilizados e os insuficientemente civilizados), tecnológico (ver o desenvolvimento tecnológico como o principal critério de valor societário), social (afirmar, no espírito da doutrina protestante de predestinação, que os ricos são melhores e superiores quando comparados com os pobres), racismo econômico (em cuja base toda a humanidade é hierarquizada segundo regiões de bem-estar material) e racismo evolucionário (para o qual é axiomático que a sociedade humana é o resultado de um desenvolvimento biológico, na qual (sic) os processos básicos de evolução das espécies – sobrevivência dos mais aptos, seleção natural, etc. – continuam hoje).” Alargou demais o escopo. Não existe racismo econômico quando quem tem capital é muçulmano, etc. Não ter dinheiro não se liga à raça (fora da causalidade racista que torna a raça discriminada pobre). Racismo cultural/civilizacional ou tecnológico internacional é xenofobia. Quando há discriminação tecnológica entre pares de uma mesma comunidade, trata-se de luta de classes, nada que ver com racismo. Já o racismo ‘evolucionário’ descrito acima foi um mélange de luta de classes com racismo ortodoxo (exatamente o hitlerismo). Sequer precisou citar cizânias religiosas, porque todas elas podem ser explicadas com base em xenofobia, racismo clássico e luta de classes.

Assim, o próprio politicamente correto e suas normas são transformados em uma disciplina totalitária de exclusões políticas, puramente racistas.” Papo de racista envergonhado.

Até mesmo africanos sofrem acusações de fascismo.” Ora, ora, mas é racista alegar que só o homem branco é capaz de chafurdar na lama e propagar as maiores burrices! Quer-se dizer que o negro não pode aprender um método com um branco, no fundo! E reproduzi-lo a posteriori no próprio país, o que sem dúvida muitos tiranos africanos fizeram.

Os tipos mais novos de racismo são o glamour, a moda e seguir as últimas tendências informacionais.” Isso se chama capitalismo!

A asserção de que o presente é melhor e mais gratificante do que o passado e a garantia de que o futuro será ainda melhor do que o presente representa a discriminação do passado e do presente, a humilhação daqueles que vivem no passado e um insulto à honra e dignidade das prévias gerações, e um certo tipo de violação dos ‘direitos dos mortos’.” Para um combatente anti-direitos humanos, é bem chiliquento! Racismo contra o tempo!?! Chega!!!!…

Nós não temos preconceito quanto aos mortos, ou não viveríamos em torno de Deus.

A globalização então não é nada mais que um modelo de etnocentrismo euro-ocidental, ou melhor, anglo-saxão, globalmente distribuído, o qual é a manifestação mais pura da ideologia racista.” Uau, demorou 74 páginas!

Como uma de suas características essenciais, a ‘Quarta Teoria Política’ rejeita todas as formas e variedades de racismo e todas as formas de hierarquização normativa de sociedades com base em fundamentos étnicos, religiosos, sociais, tecnológicos, econômicos ou culturais.” Isso é que é uma aldeia global!

Esse tipo de tentativa é não[-]científico e anti-humano.” ENTÃO é um direito humano buscar progressivamente o seu fim? LOGO, pare de me confundir, seu canalha! Sempre lembrando que é o não-superior povo russo que tem a missão de liderar a nova humanidade rumo à redenção! O russo não é melhor nem pior, ele é diferente… Ponto de vista glamouroso e na moda.

se o antirracismo diretamente atinge a ideologia do nacional-socialismo (i.e., a terceira teoria política), então ele também indiretamente alcança o comunismo, com seu ódio de classeÉ uma big mula mesmo… Seria o liberalóide um racista quando chama o comunista de comedor de criancinhas? Anti-pedofilia é racismo também (a raça das crianças!)??!?

Sem o racismo, o nacional-socialismo não é mais nacional-socialismo – seja teórica ou praticamente – ele é neutralizado e descontaminado. Nós podemos agora proceder sem medo de objetivamente analisá-lo em busca daquelas idéias que podem ser integradas na ‘Quarta Teoria Política’.” Entendi. Sua salvaguarda para ser homofóbico e misógino (que, obviamente, não são racismos – o estranho é até mesmo Dugin concordar, depois de ver racismo até em objetos inanimados transparentes)!

Primeiro e mais importante, as idéias comunistas do materialismo histórico e a noção do progresso unidirecional são inaplicáveis a nossos propósitos.” 1) Explique materialismo histórico; 2) Onde e quando progresso unidirecional é aplicado por autores marxistas?

O reducionismo materialista e o determinismo econômico compreendem o aspecto mais repulsivo do marxismo.” Quando o que mais repugna numa doutrina é o que nela não existe, contra o que ela mesma luta, já se sabe o que ser, fazer e seguir: tal doutrina.

Na prática, ele se expressou pela destruição da herança espiritual e religiosa daqueles países e sociedades nos quais o marxismo venceu historicamente.” Até hoje um total de zero países. O país que mais destruiu sua própria herança teológico-espiritual foram os Estados Unidos da América. Os anglo-saxões, como você reconheceu mais acima!

Um desprezo arrogante pelo passado…” Como em sua tese da meia-noite e da Nova Era Pluriversal!

…e a idéia de classe como o único sujeito histórico” – no capitalismo!

A crítica potencial do marxismo é extremamente útil e aplicável.” Principalmente para a Casa Branca. Ou dizer isso é racismo?

O marxismo que podemos aceitar é o marxismo sociológico-mítico.” O marxismo existente na sua própria cabeça de charlatão.

A primeira e mais proeminente contradição é a previsão não cumprida de Marx sobre o tipo de sociedades que são as mais aptas para as revoluções socialistas. Ele estava confiante de que essas ocorreriam nos países industrializados europeus com elevado nível de manufatura e um alto percentual de proletariado urbano.” Não leu Marx. Marx afirmou que a Inglaterra reunia as condições para a revolução socialista em uma das infinitas passagens de sua obra. Quantas frases contraditórias e picadas eu já não contrapus, colocando Dugin contra Dugin, e vencendo-o, em exíguas 83 páginas de letra grande?

Tais revoluções eram excluídas de ocorrer em países agrários e países com o modo asiático de produção devido a sua falta de desenvolvimento.” Falso. O modo asiático de produção foi reconhecido como ‘ainda desconhecido pelo Ocidente’ e ‘inclassificável até o presente momento’ por Marx e seus sucedâneos. Marx avaliava socraticamente a epistemologia revolucionária: eu sei que nada sei, sei que nos faltam dados. A humildade do sábio – o antípoda de Dugin.

No século XX, tudo ocorreu exatamente ao contrário.” O axioma dourado de todo liberal ao “refutar” o socialismo.

o proletariado se dissolveu na classe média e desapareceu dentro da sociedade de consumo contrariamente às expectativas e projeções.” Da Internacional Comunista, que pensava impossível uma revolução meramente nacional se contrapor ao mundo inteiro. Portanto, quem nutria falsas expectativas e projeções eram os dirigentes soviéticos encastelados em seu Capitalismo de Estado sempre na defensiva num cenário de uma pré-Guerra Nuclear.

…a obra de Alain de Benoist Contra o Liberalismo: Em Direção à Quarta Teoria Política, à qual eu continuo me referindo constantemente e conscientemente em minha explicação.” Seu livro é um mero apenso ao do seu mestre.

A neurose e os medos localizados no núcleo patogênico da filosofia liberal são vistos claramente em A Sociedade Aberta e seus Inimigos, uma obra pelo clássico do neoliberalismo, Karl Popper. Ele comparou o fascismo e o comunismo precisamente com base no fato de que ambas as ideologias integram o indivíduo em uma comunidade supraindividual, em um todo, em uma totalidade, o que Popper imediatamente qualificou como ‘totalitarismo’.” Nada que feda mais a big tech!

Em qualquer caso, a ‘Quarta Teoria Política’ pode interpretar as fobias de Popper (que o levaram, e a seus seguidores, a conclusões anedóticas – bastantes reveladoras são suas críticas patéticas a Hegel no espírito de relações públicas negativas e as acusações de fascismo dirigidas a Platão e Aristóteles!) a seu favor.” Popper é de fato um grande doente.

A ‘Quarta Teoria Política’ deveria ser a teoria da liberdade absoluta, mas não como no marxismo, na qual ela coincide com necessidade absoluta (essa correlação nega a liberdade em sua própria essência).” Como ‘nega’? Liberdade absoluta e necessidade absoluta são sinônimas.

Tendo deixado os limites da individualidade, o homem pode ser esmagado pelos elementos da vida, pelo caos perigoso. Ele pode querer estabelecer ordem. E isso está inteiramente em seu direito – o direito de um grande homem (‘homo maximus’) – um homem real de Ser e Tempo.” Um facho puro e simples.

É claro, na maioria das vezes, o homem tende para a existência ‘inautêntica’ do Dasein, tentando se esquivar da questão, para sucumbir à fofoca (Gerede) e à auto-zombaria. O Dasein liberado pode não escolher o caminho para o Ser, pode se ocultar em um esconderijo, pode, novamente, desarrumar o mundo com suas alucinações e medos, suas preocupações e intenções. Escolher o Dasein pode corromper a própria ‘Quarta Teoria Política’, transformando-a em uma auto-paródia.” Portanto…

Este é um risco, mas Ser é um risco, também.” “Porém, apenas o multiplicador de liberdade fará da escolha do Ser autêntico uma realidade – apenas então as apostas serão verdadeiramente grandes, quando o perigo for infinito.” Melhor deixar isso com o capitalismo; ele está se saindo muito bem destruindo a Terra e tornando nossa extinção cem por cento certa, virtual e infinitamente iminente. Como jovens e brutais punks!

a ‘Quarta Teoria Política’ não deve se apressar de modo a se tornar um conjunto de axiomas básicos. Talvez seja mais importante deixar algumas coisas por dizer, encontradas em expectativas e insinuações, em alegações e premonições.” Em mil anos você volta…

enraizado na visão de mundo científica, societária, política e social das ciências humanas e naturais dos séculos XVIII e XIX, quando a idéia de progresso, desenvolvimento e crescimento foi tomada como um ‘axioma’ que não estava sujeito à dúvida.”

A liberal americana Ayn Rand (Greenspan foi um de seus maiores admiradores) criou toda uma filosofia (‘Objetivismo’) baseada na seguinte ideia brusca: se alguém for rico, então ele é bom. Ela alcançou os limites da idéia weberiana sobre a origem do capitalismo na ética protestante e disse que o <rico> é sempre e necessariamente o <bom>” “Pessoas como Greenspan e o atual presidente da Reserva Federal Americana, Bernanke, são ‘objetivistas’ – isto é, aqueles que interpretam a modernização, o progresso, o crescimento econômico e o desenvolvimento seguindo a veia liberal.”

Nietzsche era um evolucionista e acreditava que, com base na lógica do desenvolvimento das espécies, o homem seria substituído pelo Super-Homem” Idiota.

O cientista americano Gregory Bateson, um teórico da etnossociologia, cibernética e ecologia, psicanalista e lingüista, descreveu o processo monotônico em seu livro Mente e Natureza.” Por que não cita apenas Bateson? Qual meu interesse em saber sua profissão, formação ou nacionalidade?

Bateson concluiu que quando esse processo ocorre na natureza ele imediatamente destrói a espécie; se estivermos falando de um aparato artificial, ele quebra (explode, entra em colapso)” “Resolver o problema dos processos monotônicos foi o principal objetivo que surgiu no desenvolvimento dos motores a vapor. Acontece que a sutileza mais importante nos motores a vapor é o feedback de retransmissão. Quando o processo alcança velocidade de cruzeiro, é necessário reiniciar o abastecimento de combustível, senão o processo monotônico tem início, tudo começa a ressonar e a velocidade do motor se eleva causando sua explosão. Foi precisamente essa solução de evitar o processo monotônico na mecânica que foi o principal problema teórico, matemático, físico e de engenharia durante a primeira fase da industrialização.”

DIVERGÊNCIAS QUANTO À CLASSIFICAÇÃO <SOCIÓLOGO>: “Émile Durkheim, Pitirim Sorokin e Georges Gurvitch,¹ os maiores sociólogos do século XX, os classicistas do pensamento sociológico, [?] afirmavam que o progresso social não existe, em contraste aos sociólogos do século XIX, como Auguste Comte ou Herbert Spencer.” O único sociólogo do séc. XIX foi Marx. Os outros estão muito abaixo da crítica, ainda que em si ‘sociólogo’ nem seja uma denominação elogiosa.

¹ Nunca os li. Sorokin: tentar Sociological Theories of Today (1966). Gurvitch: arriscar The Social Frameworks of Knowledge (1972).

Em relação a estudos culturais e filosofia, Nikolai Danilevsky, Oswald Spengler, Carl Schmitt, Ernst Jünger, Martin Heidegger e Arnold Toynbee demonstraram que todos

os processos na história da filosofia e na história da cultura são fenômenos cíclicos.”

Logo que afirmemos que a cultura americana ou russa é melhor do que a dos chukchi ou dos habitantes do norte do Cáucaso nós agimos como racistas.”

No fim, mesmo Nietzsche incorporou sua idéia da vontade de poder no conceito de eterno retorno.” Uau, como você é esperto, Dugin Jones!

O liberalismo é uma ideologia igualmente ultrapassada, cruel e misantrópica como as outras duas.” Falsas simetrias tampouco são signos de qualquer “avanço”, mesmo o avanço do puro anel…

Inevitavelmente, todas as 3 teorias foram baseadas na filosofia de Hegel. Depois de Hegel, o significado da história tornou-se o fato de que o Espírito Absoluto apartou-se de si mesmo, enfatizando-se na substância, a qual se externalizou na história, dialeticamente, até se transformar na sociedade iluminada, na monarquia esclarecida.” Carroça na frente dos bois. Quem veio primeiro, Luís XIV ou Georg Wilhelm Friedrich?

Na estrutura do nacional-socialismo, o hegelianismo foi externalizado no conceito do Reich Final” “A Quarta Teoria Política descarta completamente a ideia de irreversibilidade da história.” Defina irreversibilidade.

UM GRANDE NADA: “Nós podemos definir muitos pré-conceitos com relação à reversibilidade do tempo e Dasein/Traiectum, por isso podemos definir vários conceitos políticos do tempo e cada um deles pode ser conectado em um atual projeto político, de acordo com os princípios da Quarta Teoria Política.”

Husserl propôs estudar o tempo com o exemplo da música. A consciência de ouvir uma peça musical não é baseada na estrita identificação das notas soando em um momento concreto e discreto. Ouvir música é algo diferente de ouvir uma nota que soa agora, no presente. A consciência da música é acessada relembrando as notas passadas também, que estão se dissolvendo pouco a pouco no nada, mas sua ressonância, o eco, continua na consciência e dá à frase musical o senso estético.” “Clio e Polímnia são irmãs. Essa lembrança é necessária para dar ao presente o sentido. A anamnese de Platão tinha a mesma função.”

Isso é o novum – incompreensão espontânea do que está acontecendo.”

Esse curto-circuito faz com que todo tipo de dualidades surjam – as lógicas e as temporais. A necessidade de parar esse trauma é manifesto na criação do tempo, a articulação dos três momentos do tempo. O tempo é necessário para ocultar o presente, que é a experiência traumática da autorreferência da consciência pura. A intencionalidade e os juízos lógicos estão ambos enraizados nessa evasão da consciência em relação à dor do vazio presente no qual a consciência se apresenta a si mesma.” “A tensão é imediatamente aliviada pela expansão em todos os tipos imagináveis de dualidades que constituem as texturas dos processos contínuos.” “A consciência constitui o tempo correndo do insuportável encontro consigo. Mas esse encontro é inevitável, então o presente e sua alta precisão de percepção existencial nascem.”

Se uma mente adormece a realidade carece do gosto da existência presente. Ela está completamente imersa no contínuo e ininterrupto sonho.” Sim, e daí? Por que isso implica num livro de teoria política? Isso é curso didático de ontologia existencialista!

O objeto não tem futuro. A terra, os animais, as pedras, as máquinas, não têm futuro.” “Sem a consciência autorreferente não pode haver tempo.” “O tempo é a identidade final do homem.” “Se falta o futuro, o sujeito não terá o espaço de se evadir, de fugir do encontro impossível consigo mesmo, do curto-circuito mencionado acima. O momento congelado do presente sem o futuro é o da morte.” “A crônica dessa fuga é o sentido da história.” “O futuro faz sentido. Ele possui sentido mesmo antes de se tornar presente.” “se ele não acontecer, ele também é algo carregado com sentido, e auxílio para explicar o que se passa.” “A profecia não-realizada possui exatamente a mesma importância que a realizada.” “A história não é apenas a memória do passado. Ela também é a explicação do presente e a experiência do futuro. Quando nós compreendemos bem a história e sua lógica, nós podemos facilmente adivinhar o que seguirá, o que vai acontecer, que nota [musical] será a próxima.” “O poder do trauma afasta a atenção e o mundo vital até a periferia, que se tornou o círculo-tempo com o futuro se tornando passado, e daí em diante eternamente.” “Há o tempo tomado como a espera perpétua de algo por vir. É o tempo messiânico quiliástico. [milenarista]

As histórias de diferentes sociedades são distintas. Exatamente como distintas são as peças, os músicos, os compositores, os instrumentos, o gênero musical e os tipos de notações. É por isso que a humanidade como um todo não pode ter um futuro. Ela não tem futuro. O futuro da humanidade é bastante desprovido de sentido porque carece completamente do valor semântico, do sentido.” Também não existe ‘povo russo’ algum.

O fato de que cada povo, cada cultura, cada sociedade possui sua própria história transforma o tempo em um fenômeno local. Cada sociedade possui sua própria temporalidade. Todos os momentos dela são diferentes – passado, presente e futuro.”

É duvidoso que uma sociedade seja capaz de compreender outra sociedade no mesmo nível em que ela é compreendida por seus próprios membros. Tal possibilidade pressupõe a existência da meta-sociedade, a sociedade ‘Deus’, que poderia operar com as máximas profundezas da consciência da mesma maneira que a consciência opera com a atenção, com a noesis, com a intencionalidade, com a lógica e o tempo, e finalmente com o mundo. Obviamente, a sociedade ocidental é particularmente marcada por tal abordagem etnocêntrica e pretensão universalista enraizadas no passado racista e colonialista. Mas no século XX foi certamente provado que isso é completamente infundado e falso. Os estruturalistas, os sociólogos, os antropólogos culturais, os pós-modernistas, os fenomenologistas, os lingüistas, os existencialistas e daí em diante ofertaram argumentos convincentes demonstrando a natureza interior de tal atitude enraizada na vontade de poder e na imposição paranóica de sua própria identidade sobre a do outro. É a doença chamada racismo ocidental.”

O passado, o presente e o futuro das sociedades históricas não podem ser expostos por qualquer meta-cultura: elas jazem fundo demais e são defendidas dos olhos estrangeiros pelo poder destrutivo do momento autorreferencial, pela coragem da máxima tensão.” “O fim da história é o encerramento lógico do universalismo. O fim da história é a abolição do futuro. A história prossegue e alcança seu estado terminal. Não há mais espaço para continuar. Então com o futuro toda a estrutura do tempo é abolida – não apenas o futuro, mas também o passado e o presente. Como isso pode ser possível? Nós poderíamos compará-lo com o toque simultâneo de todas as notas, sons e melodias existentes, o que nos dará cacofonia, bater e ranger de dentes. Ao mesmo tempo, provocará silêncio absoluto, surdez e acidez.” “o curto-circuito crescerá exponencialmente sem possibilidade de ser dissipado.”

De modo a prevenir a ignição e o golpe potencializado pelo encerramento da perspectiva temporal e lógica do alívio, o mundo global tentará aprisionar a consciência nas redes e na virtualidade, na qual ela poderia fugir da pressão interna

do autoencontro sem problemas. Se tiver sucesso, o novo mundo do reino das máquinas será criado.” Nada garante essa tão fetichizada autonomia e prevalência da Técnica. Parece o relato de uma outra cultura sobre o Ocidente, mas essa é a perspectiva ocidental sobre o próprio declínio.

Ao invés de fogo nós teremos eletricidade. Algumas pessoas acreditam que Fukuyama já é um robô.” Fukuyama é menos que um robô: irrelevante. É como um canal de notícias: não teve, não tem e não terá qualquer papel.

O futuro comum não é futuro. A globalidade cancela o tempo. A globalidade cancela a subjetividade transcendental de Husserl ou o Dasein de Heidegger. Não há mais tempo, nem ser.” Não havendo diferenças de tempo entre os seres, não há Ser.

O tempo durará e o mundo como a experiência do presenciamento real será apoiado pela estrutura da subjetividade profunda.”

a formalização no Estado nacional reflete correta e exaustivamente a estrutura do sujeito transcendental como criador de história? Será o tempo histórico futuro necessariamente nacional (como na modernidade), ou ele encontrará novos caminhos? Ou talvez ele retorne às formas pré-modernas?” Só se pode concordar com a sentença duginiana de que “o tempo é reversível” se com isso ele quer dizer coisas como: Hobbes é reversívil.

As civilizações são comunidades culturais e religiosas – e não nacionais. Nós poderíamos imaginar o passo para trás – na direção pré-nacional (integração islâmica); o passo para frente – na direção pós-nacional (União Europeia ou União Eurasiática)” Já acreditei que UE significasse algo distinto ou paralelo a “Estado-nação”; hoje, não mais. O –asiática de União Eurasiática tem incomensuravelmente mais peso que o Eur-.

…ou poderíamos tolerar a civilização na forma do Estado Nacional (como com a Índia, China ou Turquia).” Errado pensar que a China é um Estado como todo outro Estado moderno, ou que sempre será. Nivelar a situação do imenso país do hinduísmo e um território europeu “alienígena” como o turco é outra temeridade ou desonestidade intelectual. Tanto quanto estereotipar o homem russo e chamar esse tratado de neofascista, vendo que não é, mas também vendo que nada tem de tratado político.

Quando alguém está vivo ele pode mudar não apenas o futuro, mas também o passado. O gesto ou movimento significativo realizado no presente acrescentará novo sentido ao passado. Apenas após uma morte resoluta o passado de alguém se torna propriedade de outro. (…) Assim a história é música e obra da Musa.”

Diferença não significa automaticamente choque e conflito. A história conhece a guerra. A história também conhece a paz. Guerra e paz existiram sempre. Guerra e paz sempre existirão. Eles servem para reviver a tensão, o estresse do presente. Elas liberam e subjugam o horror e a morte.”

A segunda opção é a globalização. Ela cancela o futuro. Ela demanda a chegada do pós-humano.” Blá-blá-blá… Sabemos que isso não existe. Mesmo o supra-homem é demasiadamente humano perto do “pós-humano literal” como o Ocidente necrosado o quereria imaginar.

Ao invés do tempo, seus duplos aparecem. Os duplos do passado, presente e futuro.” O verdadeiro inverno nuclear.

O bloqueio do sujeito transcendental lhe permite mudar o passado do mesmo modo que se coloca um vídeo alternativo no tocador. Uma versão alternativa da sociedade poderia ser carregada como prequela.”

Era uma vez eu e meu duplo. Bebemos e vimos quatro de nós.

NÃO FUGIU DA LUTA DE CLASSES: “Lidar com o presente é um pouco mais complicado e sofisticado. Para removê-lo, nós devemos não apenas bloquear a subjetividade transcendental, nós devemos erradicá-la. [irreversível?] Isso presume a transição do humano ao pós-humano.”

Vamos assumir que a multipolaridade desapareceu, a história terminou e o projeto da globalização tornou-se uma realidade. Como será organizado o exorcismo final da subjetividade transcendental? Como será implementada ‘a decisão final’ sobre a abolição de Dasein? Antes de tudo, enquanto a sociedade e o homem estiverem presentes, eles devem tomar essa decisão em relação a si mesmos. É impossível fazer apelo a um outro alguém o qual poderia ser culpado por isso ou elogiado. A referência ao outro é aceitável somente quando nós temos o mesmo. Se nós estamos perdendo qualquer identidade, nós não iremos mais ter a alteridade. Então o fim da história é feito por nós e sobre nós mesmos e ninguém mais.”

Assim, com a figura do outro sendo excluída resta explicar como o homem pode realizar o último gesto de autodissolução e como ele pode transferir as iniciativas de existência para o mundo pós-humano, que desaparecerão imediatamente após o último homem – não haverá mais testemunhas.” Só se a existência for um erro. E até onde sabemos, via lógica da essência da existência, Schopenhauer estava errado. O otimismo supremo do pessimismo filosófico é que a “realidade vence”, i.e., o último homem é sempre passageiro.

A globalização e o fim da história não podem ser reduzidos à vontade de alguém que teria sido diferente daquele (sic) que é a fonte do tempo. Pelo menos nos limites de (sic) filosofia imanente.” A tradução nunca ajuda!

nas profundezas da subjetividade transcendental, há outra camada que Husserl não cavou. Husserl estava convicto de que aquela descoberta feita por ele era a última. (…) Tinha [de] haver outra dimensão (…)

Nós podemos designá-la como o Sujeito Radical. Se a subjetividade transcendental de Husserl constitui a realidade através da experiência da manifestação autorreferencial, o Sujeito Radical deve ser encontrado não no caminho para fora, mas sim no caminho para dentro.

Ele se mostra apenas no momento da máxima catástrofe histórica, na drástica experiência do curto-circuito que dura por um momento mais longo e mais poderoso do que é possível suportar.”

Para ele, o tempo – em todas as formas e configurações – não é nada mais do que uma armadilha, o truque, o artificial, atrasando a real decisão. Para o Sujeito Radical[,] não somente a virtualidade e a rede, mas a [própria] realidade já é a prisão, o campo de concentração, o sofrimento, a tortura. O levo (sic) cochilo da história é algo contrário à condição na qual ele poderia ser, completar a si mesmo, se tornar.”

O Sujeito Radical é incompatível como todos os tipos de tempo. Ele veementemente demanda o anti-tempo, baseado no fogo exaltado da eternidade transfigurada na luz radical. Quando todo mundo se foi, restarão somente aqueles que não puderam ir.” “em essência nós simplesmente lidamos com uma versão atualizada e continuada do universalismo ocidental que foi transmitido desde o Império Romano, ao cristianismo medieval, à modernidade com o Iluminismo e [à] colonização, até o atual pós-modernismo e ultra-individualismo.”

A duradoura aliança entre os EUA e a Arábia Saudita representa o exemplo perfeito desse realismo na política externa na prática.”

A economia política chinesa está tentando reestabelecer sua independência da hegemonia global dos EUA e pode tornar-se o principal fator de competição econômica. Rússia, Irã, Venezuela e alguns outros países relativamente independentes que controlam grandes reservas dos recursos naturais remanescentes do mundo colocam um limite sobre a influência econômica americana. A economia da União Européia e o potencial econômico japonês representam dois possíveis pólos de competição econômica para os EUA dentro do esquema econômico-estratégico do Ocidente.” Pode esquecer!

Os neocons proclamando o Novo Século Americano estão otimistas em relação ao futuro Império Americano, porém no caso deles é óbvio que eles têm uma clara, se não necessariamente realista, visão de um futuro domínio americano. Nesse caso a ordem mundial será uma Ordem Imperial Americana baseada na geopolítica unipolar. Pelo menos teoricamente ela tem um ponto redentor: é clara e honesta sobre seus objetivos e intenções.”

Mais nebulosa ainda é a visão extrema de governança global prevista pelos promotores da globalização acelerada. Parece ser possível para efetivamente derrubar a ordem existente dos Estados-nações soberanos, mas em muitos casos isso somente irá abrir a porta para conflitos mais arcaicos, locais, de forças religiosas ou étnicas.”

1. Aqueles Estados que tentam adaptar suas sociedades aos padrões ocidentais e manter relações amigáveis com o Ocidente e os EUA, mas tentam evitar a dessoberanização direta e total; incluindo Índia, Turquia, Brasil e até certo ponto Rússia e Cazaquistão;

2. Aqueles Estados que estão prontos para cooperar com os EUA, mas sob a condição de não-interferência em seus negócios domésticos, como Arábia Saudita e Paquistão;

3. Aqueles Estados que, enquanto cooperam com os EUA, estritamente observam a particularidade de suas sociedades pela filtragem permanente do que é compatível na cultura ocidental com suas culturas domésticas e o que não é, e, ao mesmo tempo, tentando usar os dividendos recebidos por essa cooperação para fortalecer sua independência nacional, como a China e, às vezes, Rússia; (A Rússia é secundária nessa nova geopolítica, pois a China tem maiores condições de ser estritamente deste terceiro grupo.)

4. Aqueles Estados que tentam se opor aos EUA diretamente, rejeitando os valores ocidentais, a unipolaridade e hegemonia ocidental e americana, incluindo Irã, Venezuela [meu máximo respeito] e Coréia do Norte.”

Suas posições podem ser definidas como reativas. Essa estratégia de oposição reativa, variando da rejeição à adaptação, algumas vezes é efetiva, outras não.”

o sistema vestfaliano de Estado soberano”

Outro desses projetos pode ser definido como o plano neo-socialista transnacional representado na esquerda sul-americana e pessoalmente por Hugo Chávez. Este é uma nova edição da crítica marxista do capitalismo, fortalecida pela emoção nacionalista e, em alguns casos, como com os zapatistas e na Bolívia, por sentimentos étnicos ou críticas ecológicas ambientalistas. Alguns regimes árabes, como até há pouco tempo a Jamahiriya árabe líbia sob Qaddafi, podem ser consideradas na mesma linha. (…) A transição liderada pelos EUA e pelo Ocidente é vista por esse grupo como uma encarnação do imperialismo clássico criticado por Lênin.”

Os Estados-nações carecem de visão e ideologia, e os movimentos carecem de infra-estrutura e recursos suficientes para colocar suas idéias em prática. Se em alguma circunstância fosse possível superar essa fenda, levando em consideração o crescente peso demográfico, econômico e estratégico do mundo não-ocidental ou ‘o Resto’, uma alternativa para a transição liderada pelos EUA e pelo Ocidente poderia obter forma realista e ser considerada”

A diferença entre essas duas categorias é que o conceito político do homem é o conceito do homem ‘como tal’, que está instalado em nós pelo Estado ou pelo sistema político, enquanto o homem político é um meio particular, proposto para correlacionar com esse Estado.” “Nós acreditamos que somos causa sui e somente então encontramos a nós mesmos na esfera política.”

BOOMER DUGIN: “Uma discoteca contemporânea, o caos, pode ser considerada uma metáfora para essa trans-individualidade. É possível distinguir entre pares, figuras, passos, expressões, sexos durante a quadrilha ou ainda na dança de rock ‘n’ roll, que é a recente modernidade. [Logo fará 100 anos, o que quer que se chame de ‘dança de roque & rola’… diante dum cenário de esvaziamento das artes e de tecnologias e estéticas que se super-impõem na velocidade da luz, considero um século – ou pouco mais de 70 anos, vá lá – uma verdadeira eternidade…] Mas em uma discoteca há criaturas de sexo incerto, aparência indefinida e identidade vazia, com um lento e regular balançar ao tato da música.” A homofobia é um valor completamente globalista, completamente ianque e ocidental! Não se pode ser localista sem ser homossexual, já diziam os gregos, os verdadeiros universalistas! Se, não obstante, Dugin falou do caos de maneira positiva (o que fica complicado, pois não vejo como identidade vazia pode ser olhada com bons olhos…), o que fará com mais clareza na parte final da obra, digamos que sua metáfora patentemente leiga não foi das mais felizes…

assim a antropologia política, empregando essa ou aquela constituição do indivíduo, se dissipa e se dispersa no espaço da poeira rizomática.” “para denunciar ativamente a política, a vontade política é necessária. Isso revela que a pós-modernidade está carregada de significado político. E que está carregada com uma obsessão epistemológica e imperiosa pelo significado político da apolitização. Isto é, não é pura entropia da estrutura política, é um contra-projeto revolucionário, um esquema teórico da pós-antropologia política.” = Foucault; ou seja, muito aquém do que se espera de um autor contemporâneo…

o soldado político [noção de 1930, provavelmente de Schmitt (implícito no texto)] difere do comum pelo fato de que ele mata e morre pela política. Sua matança e morte pessoal se tornam um elemento existencial da manifestação da Política, assim, para ele, a Política adquire uma dimensão existencial. O político, diferente do soldado político, trata da Política, mas não mata ou morre por ela.”

As palavras de Nietzsche podem ilustrar seu papel na história do século XX: ‘Hoje, no século XIX, as pessoas fazem guerras por recursos e valores materiais, mas prevejo um tempo em que estarão matando por ideais’. Quando é este tempo? Está no século XX.” Mais uma interpretação errônea de Nietzsche. Ele nunca escreveu sobre pequena-política. O McCarthismo, poder-se-ia pensar, é uma guerra ideológica anti-comunista – mas nada disso existiria se não fossem os poços de petróleo e as armas nucleares… Então ainda estamos muito longe da consumação desse tempo. O século XX foi um tanto superestimado por Dugin.

Nós acreditamos que ao nível (sic) da antropologia política esse soldado político está confrontando o andróide pós-humano rizomático.” Basta trocar ‘nós’ por ‘não’ e temos uma sentença impecável.

E seu espaço antropológico está sendo ocupado [pós-modernos e seus gerúndios improfícuos…] por uma nova personalidade, uma personalidade muito astuta e suspeita, que não é o soldado político, mas, ao mesmo tempo, não está relacionado (sic) ao sub-indivíduo twitteiro sibilante e rizomático. Essa personalidade é o simulacro do homem político. É algo que imita o soldado político, do mesmo modo que a pós-modernidade imita a modernidade. (…) Isso é o porquê temos esse fenômeno do fascismo contemporâneo, que é um excelente ilustrador dessa condição.” HAHAHAHAHA! Ler isso num livro é surreal – é como estar lendo um comentário de internet. Estou cercado de sub-indivíduos!

Todo pedaço do fascismo, que constituiu a estrutura do soldado político, se perdeu depois de 1945. Cada e todo fascista declarado depois de 1945 é um simulacro. Os medos dos liberais, tomando a forma dos fascistas, são uma completa paródia, eles não diferem tanto das massas decompostas e semi-dissolvidas.”

É tanto a aflição fantasmagórica, a qual Baudrillard deu, (sic) descrevendo o mundo com categorias pós-históricas radicais, quanto o sentimento de que não estamos satisfeitos com esse invólucro, [deleuziano] com essa perspectiva pós-antropológica.” “Tendo trazido a questão da antropologia, devemos procurar uma solução e ao mesmo tempo reconhecer essa pós-antropologia, que é não esperar o vindouro vir e sim considerar que está-aí.”

a teologia política pressupõe a existência do telos político, que pode ser feito por humanos, como o Leviatã de Hobbes, [uma péssima solução – além disso teologia e teleologia são duas coisas diferentes, embora se pareçam, admitamos] ou por não-humanos, como o modelo católico do ‘imperium’, que estava próximo ao coração de Schmitt.”

É impossível falar sobre antropologia política enquanto se descreve o modelo pós-antropológico da política atual.” “nós observamos epistemas paradigmáticos que são empurrados e promovidos do mesmo modo como foram em quadros da política clássica. Eles permanecem aqui, estão ficando[,] e isso significa que a Política em seu sentido mais amplo está-aí, não é apenas que nem mesmo o homem ou sequer Deus estejam lá [fora do alcance da política moderna, agora que foi suplantada pela política pós-moderna].”

NEM DEUS NEM O SOCIUS (HOMEM) – corpo sem-órgãos ou humanista, ou outro modelo qualquer –, MAS SEMIDEUSES (avaliadores de valores):[minha] Angelopoliteia (política angelical), que é uma modificação da teologia política para a angeologia política. O que queremos dizer é que a esfera da Política está começando a ser controlada por e está começando a aterrar em confronto[s] das [entre as] entidades supra-humanas.” “Realmente há um centro de comando na pós-política, há atores, há decisões, mas eles estão todos desumanizados na pós-modernidade, estão além dos quadros da antropologia.”

DESTINO VS. ATOR POLÍTICO: “O resto não dependerá do homem[;] (…) será uma guerra de anjos, guerra de deuses, um confronto de entidades, não-amarradas pelas leis e padrões históricos e econômicos, que não se identificam com certas elites políticas nem religiões.” Porém, o mesmo poder-se-ia dizer do materialismo histórico radicalmente interpretado. Somos vontades não-livres.

A angeologia política deve ser pensada como uma metáfora que é também científica e racional.” Dugin não é muito bom com metáforas!

O anjo é o gênio? Não considerado como indivíduo superior, mas como o espírito aconselhador socrático, que intervém em momentos-chave? Enfim, demonologia política seria uma nomenclatura cem vezes mais interessante…

COMING FULL CIRCLE (PLATÃO-MARX): “Não há uma palavra como ‘coisa’ em grego e isso é muito importante, porque significa que o conceito de realidade é também ausente.” “existem as palavras gregas pragma, existente e prática para o latim res. Pragma é a ação e o objeto ao mesmo tempo. § É muito interessante: a totalidade da metafísica grega evolui entre ‘teoria’ como contemplação e ‘ação’ (praxis)[,] mantendo distância da grave subjetividade latina, ‘coisificação’ escondida no termo res.”

Se ampliarmos à (sic) mencionada dualidade do gráfico supracitado nos depararíamos com o modelo guénoniano de ‘princípio-manifestação’.” René Guénon: autor relativamente desconhecido. E no entanto o que se pesquisa sobre ele não é nada auspicioso (esotérico; leitura benquista por O. de Carvalho, o câncer do Brasil, etc.)… Não existem coisas como ‘dogmas’ em metafísica, noção que nos é apresentada como sendo dele, já num primeiro resumo sobre sua obra – a não ser para os charlatães; estes definem seus dogmas tão arbitrária quanto convenientemente a fim de se tornarem best-sellers imerecidos… Se é que devemos estudar as obras de alguém antes de julgá-lo com propriedade, porém, valeria a pena, a quem interessar possa, tendo tempo, checar esta sua 1ª obra (em que pese ser um ocidental, portanto devemos ser duplamente céticos quanto à possibilidade de um westerner compreender profundamente como os orientais compreendem eles mesmos sua própria metafísca – o interesse está muito mais no tema que no escritor): “In 1921, Guénon published his first book: an Introduction to the Study of the Hindu Doctrines [procurar a versão francesa]. His goal, as he writes it, is an attempt at presenting to westerners eastern metaphysics and spirituality as they are understood and thought by easterners themselves, while pointing at what René Guénon describes as all the erroneous interpretations and misunderstandings of western orientalism and “neospiritualism’ (for the latter, notably the proponents of Madame Blavatsky’s Theosophy). Right from that time, he presents a rigorous understanding, not only of Hindu doctrines, but also of eastern metaphysics in general.” “For all his intellectual skills might be, it seems unlikely that he succeeded just by himself or with the help of a few books in getting the profound and enlightening understanding of the Vêdânta he seems to have acquired by the age of 23.” As últimas aspas são de David Bisson. Muito suspeito, realmente!

Vamos relembrar a definição grega original de mito: mito é uma história contada durante o ritual. A dualidade mito e ritual é um dos itens básicos tanto da história da religião quanto da antropologia social e é amplamente discutida. Então vamos para a filosofia e vemos¹ mentalidade-atividade (esse par de termos é muito semelhante a teoria-prática). E finalmente, a tecnologia é bastante simples [?] – esta é a dualidade do projeto e sua realização.”

¹ “vamos para a filosofia e vemos” é uma construção frasal de oitava série em português. Creio nunca ser demais expor a ruindade desse ‘escritor’. Será que apenas russos com português como 2ª língua no campo da tradução se interessam por Dugin?

<A> TAREFA: “Não é por acaso que falamos sobre Dasein como o assunto da teoria política. Dasein é o exemplo sugerido e proposto por H. como uma aspiração para superar o dualismo sujeito-objeto” “O personagem principal do Dasein é ser ‘entre’.” Todo esse ‘tempo’ de livro e só agora faz esse tipo de observação…

Não devemos usar o sistema de dualismo político clássico, a topografia cientifica tanto nova como do tempo de Aristóteles,¹ ao falar sobre a Quarta Teoria Política e presumir este fato de que o sujeito e o núcleo, o exemplo básico do pólo da Quarta Teoria Politica[,] é Dasein.” Porque seria e não seria ao mesmo tempo.

¹ O pensamento lógico deve ser superado… logicamente.

Heidegger disse que se queremos compreender o Dasein devemos perceber e formar a ontologia fundamental, que seria não perder contato com as raízes ônticas do Dasein [o ‘metafísico banal’, o presente] e não ascender ou sublimar (cedo ou tarde) a qualquer coisa relacionada com a construção filosófica geral de 2 mil anos atrás (se seguirmos o caminho de Platão ou os mais recentes filósofos pré-socráticos até Nietzsche) em que o tempo moderno se baseia.” “Do ponto de vista da análise do Dasein, ambos, sujeito e objeto, são construções ontológicas, crescidas a partir do ‘entre’, inzwischen ôntico.”

Porém, há um grande problema: implicaria que a praxis marxiana não é já esse entre entre teoria-prática, o ‘-’ do dualismo. Dugin ejeta a praxis para sinonímia de prática stricto sensu, prática revolucionária, e nesse ponto erra sua exegese de Marx, pois o subestima.

Ao contrário do Hegelianismo, do Marxismo, teoria comunicacional e toda estrutura moderna, em princípio não estamos interessados em qualquer coisa sobre a linha entre teoria e prática.” “a questão da prioridade tanto da consciência como da matéria durante o período soviético é completamente idiota.” Se se dá primazia a alguma, sim; mas não há primazia, o resto é revisionismo. Dugin age como o mais idiota da escola dos liberais, que ele mesmo já criticou e ainda criticará neste livro, como Popper, o bruxo farsesco de Hollywood (alusão a Harry Potter), mais para bufão ou ‘clown da côrte pós-moderna’,¹ ao ‘refutar’ Marx via discurso sonambúlico ‘socialismo <<<real>>> na URSS fracassou’, etc.

¹ Acho que, mesmo sem ser espetacular, sou muito melhor com metáforas que nosso querido autor russo!

DO NADA… “Assim, devemos adiar tais itens como espírito e dimensão divina, e avançar em direção ao caos e outros itens orientados profunda e verticalmente.” E como sempre, Nietzsche é citado perto da palavra caos. Como fica claro no trecho sublinhado, Dugin quer de alguma forma ver a sociedade se tornar aquela discoteca cheia de identidades vazias dançando rockabilly ou o que quer que o valha…

O “MARX” DE MARX (não funciona): “O que é a Quarta Prática Política? É uma contemplação. O que é a manifestação da Quarta Prática Política? É um princípio a ser revelado.” Dugin pensa criar algo novo, e não retroagir a Hegel, ao estipular o seguinte, após o historicamente dado: Hegel – Marx (inversão de Hegel) – Dugin (inversão de Marx). Falácia primária. Quer fugir também de Weber (gaiola de ferro) ao remar de volta ao Alemão clássico (herdeiro ao mesmo tempo do Romantismo e do zero absoluto do romantismo em Kant): “É um princípio de atitude mágica [anti-burocrática, anti-cristã, anti-moderna] para o próprio mundo baseado na idéia de que o imaginável é o único com o que nos deparamos e tudo com que nos deparamos não é nada mais que um pensamento. Que tipo de pensamento é este? O pensamento puro.” Abstração kant-hegeliana. Espero não ler elogios à alquimia nas próximas páginas, cof, cof…

tínhamos aniquilado quaisquer outros espaços antes de declararmos, não na consumação, mas logo no início, antes de declararmos num contexto pré-ontológico.” O mundo já foi conquistado (Heidegger). Só há uma geopolítica do zero em 2000.

DESTRUINDO COM O MARTELO, &C, &C… “Esse monte de sucata que tem se manifestado não é acidental e possui uma lógica profunda. Metafísica Primordial, primordialidade expressa nas técnicas, modernas e pós-modernas.” “ou nossa luta política é soteriológica [redentora] e escatológica [pós-apocalíptica, pós-escatológica, já que o apocalipse já aconteceu na Política do século XX] ou não faz sentido.”

A virtualidade [reino da mentira, distopia pós-modernista] é mais próxima do modelo mais-que-original da Quarta Teoria e Prática Política que qualquer outro elemento.” E aqui, de novo, Dugin sabe mentir ao criticar Nietzsche parecendo que não o compreendeu e usando sempre seus expedientes, sem crédito, dentre os quais, agora fica evidente, o saber mentir (“maneira divina de pensar”, Vontade de Potência, paradoxo da árvore que quanto mais cresce no firmamento mais enterra suas raízes no ‘maléfico’ do subsolo, etc.).

Podemos dizer que o rizoma de Deleuze é uma paródia pós-moderna e pós-estruturalista do Dasein de Heidegger.” “Porém, prestemos atenção ao fato de como faz o pós-modernismo para resolver o problema invertendo a ordem da coluna, através da atração para a superfície, sendo esta a idéia principal que vemos em Deleuze. Lembremo-nos de sua interpretação do ‘corpo sem órgãos’ de Artaud, da sua interpretação da necessidade da destruição, do nivelamento das estruturas e sua interpretação da capa epidérmica do homem (a pele) como base para uma tela onde as imagens são projetadas.” UMA BOLA DE CARNE QUE ATROPELARÁ O CAPITAL.

Deleuze disse: ‘Libertem o Homo demens!’.” “Aí vem a ‘máquina de desejo’, o processo rizomático, com ideias iônicas e temporalmente crônicas. Esta demência pós-moderna é muito parecida com a Quarta Teoria Política” Esquizodaseinanalyse de novo? Ou esquizod’a[sei]nalyse

Finalmente, quero dizer que o fim dos tempos e o significado escatológico da política não vão acontecer sozinhos, [ó!] vamos esperar pelo fim em vão. O fim nunca virá se esperarmos por ele e ele nunca virá se não o fizermos.” Porém, como já enunciado, ele será feito. Ele nos fará fazer.

Este é um grande arsenal do assim chamado (…) ‘noch nicht’.” De novo (estou ficando repetitivo): tirando conhecimento de Marx e Nietzsche. O problema de qualquer leitor ‘não-iniciado’ é que tomará os dizeres ao pé-da-letra. Devemos avisá-los de que nenhum botão vermelho será pressionado.

Inclusive anteriormente ao Cristianismo [a sociedade proto-européia] era também patriarcal, até nos tempos imemoriais que foram estudados no mediterrâneo por Bachofen no seu O Direito Materno.” De acordo.

Assim, nas sociedades arcaicas, somente quem sofreu a iniciação pode ser considerado como um homem, caso contrário este alguém não possui sexo social, ou seja, um gênero[;] e é privado das funções sociais masculinas (casamento, participação na caça e ritual).” Mas nessas tribos patriarcais não ter sexo é o mesmo que ser mulher, objetificado(a).

em algumas sociedades escravistas, os escravos não eram identificados com homens, eles usavam roupas de mulher.”

Para Dugin, o liberalismo é mais machista até que o fascismo.

a mulher de negócios é uma mulher que manifesta qualidade masculina, feminina – cidadã, uma mulher – branca.” A mulher negra: a última barreira.

Logo, o feminismo liberal, ou a aspiração de dar à mulher liberdade, significa identificar a mulher com o homem e equalizá-los social e politicamente, isto é, representar socialmente a mulher como um homem.” “Uma mulher que se senta ao volante é um homem ou uma caricatura de homem.”

O conceito de igualdade de gênero da segunda teoria política [socialismo] se diferencia qualitativamente da compreensão de igualdade da primeira teoria política. [liberalismo] O feminismo, o igualitarismo de gênero no marxismo, acredita que ambos, homens e mulheres, serão envolvidos na [nova] ideologia (…) como uma questão de fato, deixa de ser homens e mulheres que constituem o padrão e o imperativo de gênero do liberalismo.”

O filósofo neomarxista húngaro [Meszaros? Por que não citá-lo?] disse que ‘o proletariado é aquilo em que sujeito e objeto são os mesmos’. [correto] Partindo de tal formulação, marxistas consistentes [o que seria um marxista inconsistente?] clamam pela insanidade, [!] por uma esquizofrenia, por uma esquizo-revolucionária (sic) (Deleuze).” Não misture alhos com bugalhos.

o indiferenciado reino do trabalho, onde não há diferença qualitativa entre a ‘boa cozinheira’, o marinheiro ou o herói masculino. Vladimir Lênin uma vez disse: ‘Sob o socialismo, qualquer boa cozinheira poderia com a mesma facilidade governar um Estado’.” E Hannah Arendt acha isso ruim!

A boa cozinheira à copa não torna. Lugar de mulher é onde ela quiser.

O marxismo oferece algo ainda mais baixo, onde nada sobra das hierarquias de gênero e estratégias.” Estragou tudo, sr. Dugin!

O fascismo aceita o conhecido modelo dos citadinos, brancos, europeus, sensatos, ricos e o exalta. Se o liberalismo aceita este modelo como norma, o fascismo começa a preencher o homem com propriedades adicionais. Ele não deve ser um simples branco nórdico, não apenas racional, mas unicamente racional (da forma como somente os germânicos possuem racionalidade).” “Além disso, a masculinidade é exaltada e as mulheres eram incitadas a se envolver com KKK: Kinder, Kirchen, küchen.

Se virmos razão, riqueza, responsabilidade, cidade, pele branca, sacamos uma arma e atiramos. Este homem precisa morrer, ele não tem chance de sobreviver, pois é fechado num impasse histórico moderno, ele reproduz hierarquias pequenas e não pode ir além de suas próprias fronteiras.”

Atributos positivos do homem, para além do paradigma moderno: não-adulto. O sujeito da Quarta Teoria Política é um macho não-adulto. [péssimo, ainda como metáfora] Por exemplo, Le Grand Jeu (nome do grupo literário próximo ao surrealismo) de Gilbert-Lecomte e René Daumal, que se ofereceram para construir uma vida sem amadurecimento, para permanecerem crianças brincando. Isto pode ser considerado como um convite para desenvolver os princípios de gênero da Quarta Teoria Política” E que foi deles com essa dadaíce toda?

Aqui usamos da antropologia social e da etnologia de Lévi-Strauss, isto é, a partir da análise das experiências de muitas sociedade[s] não-brancas. Além disso, a loucura: são todas formas de transgressão intelectual, a prática da insanidade voluntária de Friedrich Hölderlin e Nietzsche até Bataille, Artaud.” Aqui há um mal-entendido e fetichização. Não há loucura voluntária. Isso até o limitado Deleuze sabia. Doido é o Dugin. Quando não inventa demais, Dugin se mostra um antropólogo razoável.

RED NECKS NOT ALLOWED: “Em geral, não-branco, insano, não-urbano ou inserido em uma paisagem. Por exemplo, o ecologista, o representante de uma comunidade, isto é, uma pessoa que não rompeu com a natureza, como Redfield em seu The Folk Society [jornal].”

A Quarta Teoria Política pode ser dirigida ao ser andrógino, e este gênero é o andrógino? Talvez, mas somente se não o projetamos nos óbvios modelos andróginos de divisão de sexo como metades.”

Quem é Gilbert Durand? Só aparecem prováveis homônimos não-relacionados no google…

Agora estamos no momento de uma reextensão e ruptura final de um gênero. Etapas dessa ruptura são o feminismo, o homossexualismo e a operação de mudança de sexo.” Não! Armadilha neoliberal… E tradutor incauto com isso de –ismo… Dugin fala tanto de raiz, cita a raiz do termo grego, radicula, mas ignora o feminismo radical… Trocando as bolas não se muda o jogo: é necessário refundá-las (profundo…)!

Esqueçam esse maldito triângulo edipiano re-re-reencarnado chamado Artaud-Foucault-Deleuze!

Elementos do fascismo na pós-modernidade são representados pela prática do BDSM.” Sim, essa frase apareceu sem qualquer transição ou contexto!

A BOMBA A-SSEXUAL

Contra a bomba de H.idrogênio, a bomba de Estrogênio…

Plantar uma sexualidade vegetal em vez de minas…

Este é o momento mais perigoso da filosofia da liberdade que começa a retirar a liberdade de dizer ‘não’ sob os auspícios da absolutização da liberdade.”

Uma máquina de corte é o argumento absoluto dos defensores do progresso.” Agora entendi a obsessão de Deleuze com ela! “Tudo poderia ser compreendido, mas uma vida sem uma máquina de corte? Esta é uma afirmação verdadeiramente não-científica: uma vida sem uma máquina de corte é impossível. Não há vida. A vida é uma máquina de corte. Este é o poder do argumento liberal em operação que se manifesta com seu lado totalitário.” HAHAHA

Isso [o grande engano sobre o ideal de liberdade] deve ser buscado não na época em que Descartes, Nietzsche ou o século XX emergiram, mas em algum lugar da filosofia pré-socrática. Heidegger viu esse momento no conceito de physis e na desvelação (sic) suficiente do estudo platônico das Idéias.” Engraçado que há algumas páginas prescrevia “parar de se preocupar com o passado de dois milênios de filosofia continental e focar no presente, no ser-aí atrás da compreensão do Dasein (o que pode até ser verdade – pun intended –, mas repetido centenas de vezes por Heidegger & sucedâneos sem qualquer indicação ou descoberta mais exata e que avance a questão já cheira a filosofia de boteco).

IRONIAS TRÁGICAS NO REINO DA CULTURA

Para Dugin, o comunismo submergiu – eia, enterro sempiterno! O conservadorismo, tradicionalismo, seja lá que nome rupestre e bucólico se dê a essa doença nostálgica, também submergiu… mas não há problema em ressuscitar esse cadáver, nenhum problema, basta querer! Os socialistas, pelo visto, não querem com a força materialista devida! Para D., aliás, os fundamentalistas islâmicos, que cavaram tão fundo que acharam petróleo, devem ter realmente encontrado a origem ontológica de todos os problemas, numa conversa com os japoneses do outro lado do túnel, digo, do poço! Agora, deixando de esquizopoetizar, é deveras trágico que os muçulmanos, que ajudaram a salvar a sabedoria antiga para que renascera entre os ocidentais, hoje sejam seus principais adversários ideológicos, pelo menos na acepção explosiva do termo (não se trata de piada ou jogo de palavras, já que a oposição chinesa é mais resignada e petrificada, durará mil anos se for preciso).

O sobrinho-neto de Jacob Burckhardt é um branco suíço neo-alquimista pseudo-polímata idiota!

Louis Pauwels e Jacques Bergier, os autores de O Amanhecer dos Mágicos escreveram: ‘O fascismo é guénonismo¹ com mais essas divisões’.”

¹ Triste (vide acima os wikia sobre Guénon). O gnosticismo e o esoterismo da antropologia da religião mediana costumam ser apenas peneiras que falham ao ocultar o sol nazi que ilumina a cena por trás.

Em um dos congressos em Roma dedicados ao vigésimo aniversário da morte de Evola, eu dei uma palestra, ‘Evola – visto da sinistra’ (Evola – uma visão desde a esquerda) na qual eu sugeri examinar Evola desde posições esquerdistas (ainda que

ele se considerasse de direita, até mesmo de extrema-direita).” Parabéns pra você! (DV) Apropriações de Evola pelo campo democrático me dão náusea.

Outra coisa que me chama a atenção: Dugin falar tanto da televisão, em termos quase que bourdieusianos, num livro da década passada! O tiktok vaporizou o campeão olímpico de zapping! Gex é um atleta de elite perto do millennial padrão. Cavando rumo ao abismo, não se pode imaginar nada mais raso: depois disso, começarão a devorar enciclopédias em mosteiros – tem de haver um ponto de inflexão em que o buraco negro começa a vomitar matéria!

Eu realmente não imagino Putin meia hora com Dugin – ou 15 minutos LENDO Dugin…

Velhos crentes parecem ‘retardados’ para nós, mas eles não o são. Eles são diferentes, eles agem dentro de outro tópico.” HAHAAHAHAHAHAHA

Eles são tão retardados que reagirão em 2050.

Lévy-Bruhl: more like Lévy-BRUH

bruhromance, o livro secreto de Bachofengshui

A MANDO DA CIA: “Primeiro, Fukuyama pensou que a política havia desaparecido e que ela estava prestes a ser substituída pelo ‘mercado global’, no qual não haverá nações, Estados, etnias, culturas ou religiões. Mas então ele decidiu que seria melhor desacelerar um pouco e implementar a pós-modernidade mais calmamente, sem revoluções. Porque revoluções podem estar acompanhadas por algo indesejável que poderia atrapalhar o plano do ‘fim da história’. Então Fukuyama começou a escrever que era necessário fortalecer os Estados-nação momentaneamente – este é o conservadorismo liberal.”

primeiro o filósofo inglês Edmund Burke simpatizava com o Iluminismo, mas após a Revolução Francesa ele o rejeitou e desenvolveu uma teoria conservadora liberal com uma crítica frontal da revolução e das esquerdas.” E hoje sabemos que ele era ignaro em relação à França.

Eles podem até mesmo gritar em algum momento: parem! Vendo o que a pós-modernidade está trazendo [mais sintaxe horrorosa…]¹ e olhando duramente para o rizoma de Deleuze, eles se sentem como se estivessem no lugar errado.² Ademais, eles temem que uma desconstrução acelerada da modernidade, despontando na pós-modernidade, possa libertar a pré-modernidade.”

¹ Experimentasse um: Ao ver o que a pós-modernidade traz, com dureza no olhar… Enfim, não se pode chamar um “tradutor em tempo real” de tradutor, ainda mais se ele tem todo o tempo do mundo para revisar o texto, diferente do tradutor oral em evento ao vivo!

² Nem sempre uma tradução precisa ser mais longa que o trecho original (o que não tenho como comparar, pois não sei russo): sentem-se no lugar errado, mais uma sugestão para o tradutor deste trabalho, se um dia puder ler-me e incorporar algumas lições! Ah, é uma profusão de eles, eles, eles… Aqui D. está falando dos liberais, para contextualizar.

Por exemplo, o liberal Habermas (An Unfinished Project?, 1992), outrora da esquerda,¹ diz que se ‘nós não salvarmos um rígido espírito do iluminismo agora, uma fidelidade aos ideais do sujeito livre, uma liberação moral, se não segurarmos a humanidade na margem, não apenas cairemos no caos, mas também voltaremos à sombra da tradição, cujo meio de enfrentamento é a própria modernidade’.”

¹ Os desistentes da esquerda são os piores dentre os reacionários.

Normalmente, conservadores liberais não fazem uma análise da correlação entre liberalismo e comunismo como a que fizemos, e assim eles continuam a temer o comunismo.” “Mas alguns liberais efetivamente crêem hoje que ‘os comunistas perderam terreno apenas temporariamente’ e ainda podem retornar. Extrapolando medos equivocados, o anticomunismo contemporâneo cria quimeras, fantasmas, simulacros em um grau ainda maior que o antifascismo contemporâneo.”

É HOLLYWOOD, E, AFINAL, ELES APRENDEM VENDO (E FAZENDO) FILMES DE TERROR: “Mas o conservadorismo liberal, em regra, é alheio a essa ironia [Che Guevara em outdoors, etc.] e não está inclinado a zombar de ‘vermelhos’ ou ‘marrons’. A razão disso é que o conservadorismo liberal teme a relativização do logos na pós-modernidade, ao mesmo tempo estando incerto de que o inimigo foi completamente destruído. Ele sonha que um cadáver estirado ainda se move e é por isso que ele não recomenda chegar muito perto, zombar e brincar com ele.” Vejo nesse ‘homem’ liberal a característica dadaísta acima: os “machos não-adultos” na arte, agora na política e economia…

UMA ETIQUETA MUITO FROUXA (E PORTANTO INSERVÍVEL): “Outros pensadores que pertencem a essa escola [‘conservadorismo revolucionário’, hahaha!]¹ são: Martin Heidegger, os irmãos Ernst & Friedrich Jünger, Carl Schmitt, Oswald Spengler, Werner Sombart, Othmar Spann, Friedrich Hielscher, Ernst Niekisch e toda uma plêiade de autores, principalmente alemães. Algumas vezes, eles são chamados de ‘os dissidentes do nacional-socialismo’² (…) Muitos deles participaram em atividades antifascistas subterrâneas e ajudaram judeus a fugir. [que bom! redimiram-se na vida privada, pelo menos…] Particularmente, Friedrich Hielscher, um conservador revolucionário de primeira linha³ e apoiador do renascimento nacional alemão[,] ajudou o famoso filósofo judeu Martin Buber a escapar.”

¹ Outros oxímoros para rir: reacionarismo avant-garde, vanguardismo gradual, radicais moderados.

² A mais pura coincidência!

³ Esse tipo de expressão devia ser banido do léxico.

Uma Play AD de autores.

Um termo geral na filosofia heideggeriana descrevendo a essência do crescente domínio da técnica é Ge-stell, isto é[,] a construção de modelos cada vez mais alienantes e niilistas.” “Mas se um homem acentua a realidade objetiva como um ‘universal’ (koinon) apenas sobre o que existe (idéia de physis), ele perde [de] vista o nada que o lembra de si mesmo, levando a filosofia ao niilismo – através do Ge-Stell.”

nothing to worry about…

No devido tempo essa lógica foi seguida por um grupo de surrealistas-dadaístas (Arthur Cravan, Jacques Rigaut, Julien Torma, Jacques Vaché) que glorificaram o suicídio. Mas os críticos [corretamente] consideravam isso uma bazófia vazia. Em dado momento eles cometeram suicídio publicamente, o que provou que arte e surrealismo eram algo tão grande para eles que por isso eles deram a vida.” L’art pour l’art = shit. E Dugin criticava o “soldado da política” previamente, lembram-se?

Aqui podemos nos lembrar de Kirillov de Os Possuídos de Dostoyevsky (título original russo ‘Besy – Бесы’) para quem o suicídio se tornou uma expressão da liberdade completa que foi revelada após a ‘morte de Deus’.” E devemos lembrar que Kirillov era um tolo!

Há mais uma orientação – o assim chamado conservadorismo de esquerda ou social-conservadorismo. Um típico representante seu é Georges Sorel (Reflexões sobre a Violência, 1906).” Dugin hipostasia centenas de categorias… Sorel é apenas um reacionário!

O conservadorismo de esquerda é próximo ao nacional-bolchevismo russo de Nikolay Ustryalov.” “o nacional-socialismo de esquerda de Strasser” Ih… que foi que eu falei?! É com esse tipo de taxonomia irresponsável que os think tanks neofascistas ianques assolaram as economias frágeis e periféricas em sua estratégia de fake news, a ponto de gente com resíduos de miolos na cabeça passarem a se perguntar (os que afirmam taxativamente não passam de isentos de qualquer resquício de miolo na cabeça) ‘nazismo era de esquerda?’. Porque quando apólogos do nazismo começam a vincular o nazismo à esquerda apenas por questões de marketing (já que o nazismo é crime na democracia saudável) significa que uma tentativa de golpe de Estado está em curso (‘acuse-os daquilo que você é/faz’).

Essa orientação está sendo desenvolvida hoje por Andrey Isaev. No outro polo da ‘Rússia Unida’, está o conservadorismo liberal de Pligin.”

eurasianistas de esquerda” Quanto mais se multiplicam os nomes, mais irrelevantes são (se não forem PERIGOSOS). Se com isso se quer dizer os pró-China e anti-imperialismo ianque, que gostariam de ver uma aliança “ilimitada” entre China e Rússia para que o mundo volte à multipolaridade, poderiam simplesmente chamá-los de “neo-comunistas”, ou defensores da causa do “comunismo 2.0” ou, francamente, Realpolitik, pois disso depende hoje, dependerá amanhã e sempre dependeu o próprio resfriamento nuclear e nossa simples sobrevivência.

SALADA DE FRUTAS PODRES: “A única coisa que não é aceitável para eurasianistas – é o conservadorismo liberal.” Diria que sentariam na mesma mesa que eu, pois da forma como Putin descreve essa ‘corrente’, são os social-democratas russos, muito distintos dos tais nacional-bolcheviques. Uma rara (?) instância em que um binômio de duas palavras deletérias (conservadorismo e liberalismo) é muito mais benquisto que um binômio aparentemente maniqueísta ou até benigno-neutro, como temos a impressão diante das palavras isoladas “nacionalismo” (soviético, por exemplo) e bolchevismo (que perde toda conotação positiva quando inscrito ‘para inglês ver’ em movimentos neofascistas, da mesma forma e usando a mesma estratégia do ‘nacional-socialismo’, que, inexoravelmente de direita desde que foi elaborado até os fins dos tempos, nada mais é do que nazismo e totalitarismo, com um nome criado para roubar os eleitores do forte partido comunista alemão e fragmentar a classe operária com a máquina de propaganda do Führer).

Este é um caráter específico do eurasianismo: ele considera a cultura ocidental como um fenômeno local e temporário.”

Coincidência nenhuma que o primeiro entre os autores russos que se referiu ao livro de Guénon Oriente e Ocidente tenha sido o eurasianista N.N. Alekseev.” Um europeu escreve sobre o Oriente. Um eurasianista então se interessa pelo tema – uau, que inusitado!

neoeurasianismo” Chega de neo- isso, neo- aquilo! Aposente o prefixo! E novamente: o problema está no uso indiscriminado. Mas para resumir essa citação na obra, Dugin dirá que neoeurasianismo = eurasianismo + Heidegger. E o mais engraçado (vide logo abaixo) é que Heidegger é na verdade anterior aos que Dugin chamará de autores eurasianistas (neodaseinismo?).

neœurasianismo

neopósestruturalismœurasiano!…

Periódicos eurasianos são publicados hoje na Itália, França, Turquia.” Isso é pouco, muito pouco.

Um distanciamento da cultura ocidental permite determinar uma distância se devendo ao fato de que é possível compreender toda a modernidade e dizer a tudo um ‘não’ fundamental.” Tudo ainda a primeira fase do Zaratustra de Nie. – ou a fase do camelo.

Aqui deve ser relembrado que os eurasianistas, os fundadores da fonologia e os maiores representantes da lingüística estrutural, Roman Jakobson(*) e Nikolay Trubetzkoy,(**) foram os mentores de Lévi-Strauss e ensinaram a ele as técnicas de análise estrutural.” Mas em que sentido eram eurasianistas? Na própria lingüística? O que quereria dizer?

(*) Role of linguistic indications in the comparative mythology – VII”

(**) “The Legacy of Genghis Khan” Autores que viveram e produziram depois da morte de Heidegger.

Assim, uma cadeia intelectual pode ser retraçada – eurasianismoestruturalismo-neoeurasianismo.”

E uma vez que estamos em um período de transição incompleta – há uma grande confusão de termos: [não use isso para justificar tanto neologismo] alguns interpretam os termos básicos de acordo com seu sentido histórico original, alguns já olham para o futuro, sentindo a necessidade de mudanças semânticas (que ainda não chegaram), alguns sonham (e podem se aproximar do futuro ou simplesmente entregar-se a alucinações individualistas irrelevantes), alguns estão simplesmente confusos.” Outros ‘ficam inventando’ (como diria o tradutor espúrio) nominhos e sinônimos que não levam a lugar algum, mas servem para passar o tempo.

Oswald Spengler em seu famoso livro O Declínio do Ocidente, opôs civilização e cultura, considerando a última como uma expressão do espírito vital orgânico da humanidade e a primeira como o esfriamento desse espírito nas formas mecânicas e tecnológicas. Para Spengler, a civilização é produto da morte cultural. No entanto, essa observação espirituosa, que interpreta corretamente algumas características da civilização ocidental, não recebeu aceitação universal e mais freqüentemente os termos civilização e cultura são usados como sinônimos.” O bom artista é o sujeito incivilizado. Finalmente uma ocasião em que faz diferença, neste livro, distinguir dois termos “parecidos”! Pena que encerra o parágrafo com chave-de-bosta: “De qualquer forma, cada pesquisador pode ter sua própria opinião.” Não é bem assim, não, amigo! O Dasein é a prova mais concreta disso: ele independe de opiniões… Ele institui toda e qualquer opinião, e não é aquilo que eu, você nem Heidegger necessariamente quer. E a cultura é o reino do Dasein.

Mas depois de Nietzsche, o assim chamados ‘filósofo da suspeita’, esse axioma otimista foi questionado.” “Na crítica pós-moderna do otimismo histórico, o universalismo e o historicismo adquiriram um caráter sistemático e criaram os pré-requisitos doutrinais para uma total revisão do aparato conceitual da Filosofia Ocidental. A revisão em si mesma não foi plenamente implementada, mas o que foi feito (Lévi-Strauss, Barthes, Ricoeur, Foucault, Deleuze, Derrida, etc.) já é suficiente para assegurar a impossibilidade de usar o Dicionário da Modernidade sem sua completa e meticulosa desconstrução.”

Ricoeur, generalizando a tese do filósofo da suspeita[,] mostra o seguinte quadro: homem e sociedade consistem em um componente racional-consciente (o que Bultmanu chamou de querigma e Marx de superestrutura) e um componente inconsciente (de fato a ‘estrutura’ no sentido estruturalista, a infra-estrutura, vontade de poder).” “Marx considerou as ‘forças produtivas’ e ‘relações produtivas’ como inconscientes.” É por isso que Marx é Marx.

Isso explica a grande diferença entre a prática histórica das nações e sociedades, cheias de guerras, violência, crueldade, desordens mentais; e a intenção de uma existência harmoniosa, pacífica e iluminada sob a sombra do progresso e do desenvolvimento. § Assim, a tradição crítica, o estruturalismo e a filosofia do pós-modernismo forçaram a mudança de uma interpretação predominantemente diacrônica [dividida em estágios] da civilização, que era norma no séc. XIX e continuou a prevalecer, [em menor medida, no século XX] para [um]a [interpretação predominantemente] sincrônica.” “Podemos agora imaginar a ‘civilização’ como o numerador e ‘selvageria-e-barbárie’ como o denominador da fração condicional.”

À primeira vista, o universalismo inclusivo parece ser uma completa antítese do particularismo exclusivo que é comum nas comunidades tribais e de clãs do período ‘pré-civilizado’. Mas, historicamente, a alegação de universalidade da civilização – ecumene e assim, singular – constantemente se depara com o fato de que, além dos povos bárbaros, além das fronteiras dessa civilização, existiam outras civilizações com sua própria e excelente versão de universalismo.” “A origem da palavra bárbaro é uma descrição de alguém cuja fala não faz sentido e é uma coleção de sons animalescos. (…) as tribos eslavas, por sinal, eram chamadas os ‘germanos’ ou ‘burros’, pois não sabiam a língua russa.”

Chegou-se ao ponto [na Pérsia antiga] das conexões endógamas absolutas e da normalização do incesto – [tudo para] o espírito solar dos Iranianos (Ahura Mazda) não ser profanado pela mistura com os filhos de Angra Manyu [diabo].”

Tribos são baseadas na iniciação, durante a qual o neófito é informado sobre a base da mitologia tribal. No nível da civilização, a mesma função é realizada pelas instituições religiosas e em tempos mais recentes por um sistema de educação universal, claramente ideológico.” “Parece que, atualmente, apenas conservadores opõem civilização e barbárie, presos no Nouveau Compte acrítico, ou nas pesquisas de Bentham.” Não faltam esquerdistas ‘formadores de opinião’ acusando ingenuamente tudo que nos é antagônico de ‘barbárie’ e proclamando amar a ‘ciência ocidental’.

Enfrentamos tal onda de ignorância acrítica quando reformistas liberais tentaram apresentar a história da Rússia como uma corrente contínua de persistência ante a barbárie. (…) o primeiro McDonald’s, bancos privados, filmes e bandas de rock na televisão soviética são percebidos como ‘objetos sagrados’.” O religioso não suporta que tenhamos vindo do macaco porque seu inconsciente sabe que é ainda “pior” (melhor, indiferente): SOMOS macacos.

Civilização no contexto do séc. XXI significa exatamente isso: uma área de influência enraizada e estável de algum estilo sociocultural, às vezes (mas não necessariamente) coincidente com as grandes religiões.”

Hoje observamos que pensar economicamente, falar sobre Estado nacional e interesses nacionais e, mais ainda, colocar no centro da análise atitudes classistas ou raciais[,] é cada vez menos aceito. Por outro lado, raramente qualquer discurso de um político é feito sem mencionar a palavra ‘civilização’ e certamente em todo texto analítico este termo é talvez o mais comum.”

Falar seriamente sobre raça não é provável depois da trágica história do fascismo europeu[; e a] análise de classe se tornou irrelevante depois do colapso do bloco soviético e da União Soviética.” Não foi por isso: se tornou irrelevante por causa da ascensão da classe média ocidental, ou seja, por conta do êxito soviético das décadas anteriores, não do seu fracasso. Como que “por coincidência” agora as classes médias de todos os países “democráticos” sofrem arrochos sem precedentes. Não há mais uma “ideologia inimiga” e a necessidade de demonstrar que ‘somos economicamente mais felizes’.

Pode parecer que o único paradigma da ciência política é o liberalismo. Isso criou a impressão de que as fronteiras dos Estados homogêneos, essencialmente liberal-democratas, não mais enfrentam nenhum outro sistema que possa alegar uma alternativa global (…) e logo seriam abolidas, para que fossem criados um governo global e um Estado mundial, uma economia de mercado homogênea, com democracia parlamentar (Parlamento Mundial), sistema liberal de valores e informação tecnológica e de infraestrutura comuns.” A incapacidade de exportar o Super Bowl por si só comprovaria o contrário para todos os liberalóides incrédulos que desejassem reduzir um grau em miopia…

ZIZEK VS. PETERSON 1990s EDITION: “O desenvolvimento dos anos 90 mostrou que Huntington estava mais perto da verdade e Fukuyama foi forçado a revisar suas visões [e reconhecer] que (…) se apressou.” “F. então fez a seguinte abordagem conceitual: ele propôs adiar o fim da história por tempo indefinido e fortalecer as estruturas sociopolíticas, que eram o núcleo da ideologia liberal em estágios anteriores.” Simples: nós também adiamos o advento do comunismo global! Enfim, cada espectro político tem a Rosa Luxemburgo que merece!

Para Thomas Burnett (e D. Bell [? Fringe??? hahaha]) ‘tecnologia é destino’ e ela incorpora a quintessência da civilização, entendida tecnicamente, quase como Spengler fez, mas com sentido positivo.” Seu cu sendo penetrado de modo inamistoso é o destino!

O próprio Fukuyama, analisando criticamente suas anteriores colocações otimistas, ocupa uma posição intermediária [perto do otimismo tecnológico do bonachão acima]Fukuyama é como um Reinaldo Azevedo? Foi ficando mais inteligente ou ‘menos vendido aos patrões’ com o tempo? A utopia fukuyamiana durou menos que o motor de um bom e velho Monza!

“‘Choque’ ou ‘diálogo’? – é uma questão secundária e o consenso principal de que ‘civilização’ é agora o principal sujeito da análise da política internacional[,] muito mais importante.” “Declarar a civilização como sujeito principal e atriz da política mundial é o curso ideológico mais promissor para aqueles que querem estimar o estado real das coisas na política mundial, para aqueles que buscam encontrar uma ferramenta adequada para generalizações da ciência política de uma nova era” “Civilização como conceito, interpretada no contexto filosófico contemporâneo, é o centro de uma nova ideologia. Essa ideologia pode ser definida com multipolaridade.” Good enough.

GRETA THUNBERG VS. GOLIAS II: “A oposição ao globalismo, que está se declarando em todos os níveis e todos os lugares do mundo, ainda não formou um sistema específico de crenças. E esta é a fraqueza do movimento antiglobalização – ele não é sistematizado, falta harmonia ideológica, nesse sistema elementos fragmentários e caóticos dominam e geralmente representam uma vaga mistura de anarquismo e esquerdismo irrelevante, ecologismo e até outras idéias mais extravagantes e marginais.” “Os 3 níveis [Jihad, tradicionalistas e países subdesenvolvidos] existentes de oposição ao globalismo e à hegemonia americana não podem liderar uma estratégia comum e uma ideologia coerente que uniria as várias e espalhadas forças, geralmente diferentes em tamanho.” “Conflitos e alianças são possíveis aqui. O mundo multipolar que surge nesse caso criará pré-requisitos reais para a continuidade da história política da humanidade, adotando uma diversidade regulatória de sistemas religiosos, econômicos, culturais, sociopolíticos e de valores.” “Fazer da civilização um sujeito na política mundial do séc. XXI permitirá a ‘globalização regional’ – uma união de países e nações pertencendo à mesma civilização. [entender civilização no sentido não-depreciativo aqui empregado simplesmente como cultura] Isso levará à vantagem da inclusão social, mas não com respeito a todos sem distinção, mas primeiramente àqueles que pertencem ao tipo comum da civilização. [todos os anti-imperialistas, anti-americanos]” “reconhecendo o direito dos europeus formarem uma nova entidade política [novas entidades políticas, pois a Europa é completamente fragmentária, caldeirão cultural – a revanche do colonialismo!] baseada em suas diferenças civilizacionais, é natural assumir processos similares na civilização islâmica, China, Eurásia, América Latina e África.”

O Grande Espaço é outro nome para o que chamamos de ‘civilização’ no seu sentido geopolítico, cultural e espacial.” “Em vários grandes espaços o fator de integração pode variar – em alguns será a religião, outros, uma origem étnica comum, outros uma forma cultural comum, em outros ainda o tipo sociopolítico ou a simples localização geográfica.”

Huntington identifica as seguintes [8 civilizações]: ocidental; confuciana (chinesa); japonesa; [tenho minhas dúvidas…] islâmica; hindu; eslavo-ortodoxa; latino-americana; e possivelmente a africana.”

Na civilização ocidental, Huntington inclui os Estados Unidos (com o Canadá) e a Europa. Historicamente isso é verdade, mas atualmente, de um ponto de vista geopolítico, eles formam na relação entre si dois ‘grandes espaços’ diferentes e seus interesses estratégicos, econômicos e até geopolíticos divergem mais e mais.” A Alemanha não soube ler a Guerra da OTAN-Ucrânia… Perdeu uma janela de oportunidade…

A Europa tem 2 identidades – ‘atlantista’ (que pode ser definida com a Europa e a América do Norte) e ‘continental’ (que tende, pelo contrário, a não ser somente o trampolim militar do ‘grande irmão’ norte-americano, mas a conduzir uma política independente e voltar a fazer da Europa um ator independente).

O euroatlantismo tem sua base no Reino Unido e nos países da Europa Oriental (direcionados pela russofobia) e o eurocontinentalismo tem sua base na França e Alemanha, com apoio da Espanha e Itália (a clássica Velha Europa).”

O mundo Islâmico (…) no entanto, é dividido em vários ‘grandes espaços’ – o ‘mundo Árabe’, a ‘zona continental do Islã’ (Irã, Afeganistão e Paquistão) e a região do Pacífico com influência muçulmana. Um lugar especial nessa situação pertence à África Muçulmana, assim como às crescentes comunidades muçulmanas na Europa e América.

É difícil estabelecer as fronteiras entre as zonas de influência das civilizações chinesa e japonesa no Pacífico, cuja identidade civilizacional continua [em] abert[o].

E claro, é difícil falar da consciência geral dos habitantes da África, ainda que [n]o futuro essa situação possa mudar, pois este processo tem pelo menos 2 precedentes históricos: a Liga das Nações Africanas e os ideais Pan-Africanos.

A reaproximação dos países latino-americanos é evidente, mas dada a pressão norte-americana nos últimos anos, não podemos falar em nenhum processo de integração ali.”

A fronteira ocidental da civilização eurasiana é em algum lugar ao leste da fronteira ocidental da Ucrânia, fazendo esse Estado ser frágil e insustentável.” Importantíssimo.

Não existirá padrão universal – nem material nem espiritual. Cada civilização finalmente proclamará que ela própria é uma medida das coisas. Em alguns lugares a medida será o homem, em outros – religião, em outros – ética, em outros – a matéria.”

O dia atual não dá oportunidade para falar de qualquer espaço estritamente definido para qualquer projeto esquerdista (social, socialista ou comunista), se comparado com o contraste da situação que por um século predominou no campo das ideias e projetos políticos.” Podemos chamar a primeira metade do século XXI de TROTSKISTA por excelência (“dividirmo-nos para sermos conquistados!”).

Primeiramente, ela foi causada pelo colapso da União Soviética e pela desintegração do campo socialista bem como pelo declínio de influência e prestígio do marxismo europeu” Como os idiotas reacionários que não entendem o niilismo, toma o efeito pela causa. É impressionante e aterrador, no pior dos sentidos, verificar que um russo tido como sábio, atuante em diversos campos das humanas, ainda que anti-propaganda ocidental, não se dê conta de que a reproduz nesses pontos mais cruciais! Está pavlovianamente condicionado a repetir, como um cão da CIA além-mar que o colapso da União Soviética isso e aquilo. Dispersar forças, causar dissensão nos tais blocos multipolares que almeja formar (chega a ser absurdo!), retardar, atrapalhar: faz tudo que o Ocidente quer e não espera que nem o melhor espião instalado na Rússia consiga!

Inicialmente, a filosofia da esquerda era considerada como sendo uma crítica fundamental, unificada e sistematizada do capitalismo liberal. Em meados do século XX um fenômeno como a crítica sistemática do projeto esquerdista emergiu (tanto dos liberais – Hayek, Popper, Aron, [a ‘bancada evangélica das ciências sociais’] etc. – quanto e dos neomarxistas e marxistas freudianos). Escolas filosóficas fizeram o mesmo à ideologia da esquerda que o projeto esquerdista fez ao capitalismo liberal 100-150 anos atrás.”

Desde a perspectiva da experiência histórica hodierna, há 3 tendências básicas na filosofia política esquerdista,¹ que ou continuam projetos ideológicos prévios em uma nova fase, ou reconsideram o passado, ou sugerem algo radicalmente novo.”

¹ O imbecil que traduziu isso fez para sacanear: “da esquerda” é a única opção não-pejorativa.

AS 3 TENDÊNCIAS DA ESQUERDA APUD DUGIN:

  • Vetero-gauchistes;

  • Nazbol; [ERRO CRASSO – DESCONSIDERAR EM UMA ANÁLISE SÉRIA]

  • Esquerda pós-moderna [deleuzianos]

Realmente estamos fodidos se acompanhados de nacionalistas e criptoliberais (o que os próprios liberais chamam de ‘identitários’, grosso modo)!

Faz ainda o desfavor de subdividir os “veteranos” (nome que não tem como não soar pejorativo também) em mais 4 ‘seitas’.

Pós-social-democratas (defensores da ‘Terceira Via’, segundo Giddens).” Isso faz um zero absoluto de sentido! Viuvinhas de Castro (no sentido de que ‘depois ele, nada será como antes’, ou seja, são apenas abutres deletérios, não veteranos clássicos)?! Como veremos mais adiante, é ainda pior do que isso, e o termo, que parece só um infeliz homônimo, realmente parece ter guiado neocons dos anos 90 (pós triunvirato do mal Reagan-Thatcher-Clinton): o herdeiro Tony Blair, o suposto criador do termo ‘terceira via’ para designar uma forma disfarçada de neoliberalismo, continuando a desmobilizar a classe trabalhadora, não instituindo o Estado do Bem-Estar, apenas que sem a mesma bala na agulha da administração da Donzela de Ferro para ferrar os britânicos populares. Bom, Giddens é inglês, devia ser o Dugin de Blair! Ou seja: o trabalhismo britânico pode ir para o inferno com seu ‘Lorde’ (título concedido a Giddens). O irônico é que, avatar da globalização (o termo neutro), ainda é considerado por D. um esquerdista, em flagrante contradição com suas invectivas antiglobalistas! Que intelectual de esquerda em sã consciência se declara pró-globalização? Alguém no poder, num país rico, é óbvio! (Portanto, pode estar à esquerda de alguns países na Europa, mas nada tem de esquerda.) Além de haver sido o braço forte de Blair, recebeu este prêmio: ‘Prémio Príncipe das Astúrias para as Ciências Sociais’. De sociólogos babacas com títulos honoríficos, já estamos cheios no Brasil, tendo um deles até ocupado o assento da presidência e retardado em mais algumas décadas qualquer colaboração regional interessante e geopoliticamente relevante com nossos vizinhos!

PÉSSIMO, PÉSSIMO, PÉSSIMO: “A inércia preserva sua existência nos países europeus, nos EUA e no Terceiro Mundo onde eles continuam a se apegar às fundações básicas da doutrina marxista. [quem dera!] Muitas vezes estando politicamente incorporados em partidos comunistas, eles professam sua ideologia relevante. [Se o Brasil tem um partido comunista funcional, será já demasiado! Quem seria capaz de apontá-lo?] Geralmente, estes marxistas ortodoxos mitigam suavemente (no espírito do eurocomunismo [nada aqui se assemelha a essa configuração muito específica, geo-histórica, européia!]) o radicalismo da doutrina marxista e rejeitam o apelo pelo levante social e pelo estabelecimento da ditadura do proletariado. [então não são ortodoxos, ó, Einstein!] O movimento trotskista (Quarta Internacional) provou ser a forma mais estável da Ortodoxia Marxista” Quem precisa de inimigos quando a Q.I. pode apunhalá-lo pelas costas? Triste afirmação a do último parágrafo. Quando o liberalismo revisionista é seriamente considerado como a raiz do marxismo atual, algo vai muito mal! E o mais irônico: Que tem a tal revolução permanente (conceito trotskista) a ver com uma suposta inércia (destacada acima)? Justamente nada; pulverizaram o marxismo.

Tipicamente, os seguidores mais ortodoxos de Marx podem ser encontrados nos países que não passaram por qualquer revolução proletária socialista” “Essa versão de Velhos Esquerdistas¹ rejeita a experiência soviética como um exagero histórico [não diria que rejeita – é menos radical do que isto] e não acreditam (sic) no sucesso das previsões marxistas. [segundo Dugin, sem base] Porém, ela continua a sustentar suas crenças como adesão a um ‘sentimento moral’ [nada como ser da minoria nutrida de caráter!] e a uma ‘tradição ideológica’ ao invés de realmente esperar uma revolta do proletariado (que parece não existir enquanto classe no mundo ocidental moderno – nesse sentido ela se fundiu com a pequena-burguesia).” Nada esperamos, realmente. Sabemos que não há condições materiais de realizá-la no cenário imperialista atual, antes de forjar as alianças multipolares de amplo alcance tão bem-enumeradas por D.

¹ Sempre detratando… É por isso que eu jamais deixo de detratar Dugin nessa análise quase parágrafo-a-parágrafo, em retaliação!

O principal defeito dos marxistas ortodoxos ocidentais é que eles continuam a usar termos da sociedade industrializada, [é verdade; porém os malefícios desse suposto atraso são superestimados] enquanto a sociedade euro-ocidental e particularmente a americana já passaram a uma nova fase – a fase da sociedade pós-industrial (de informação).¹ E ela não foi mencionada por nenhum dos clássicos marxistas,² exceto por uma vaga intuição do jovem Marx sobre ‘a dominação real do capital’. Esta – na ausência ou em caso da derrota das revoluções socialistas – pode substituir a ‘dominação formal do capital’, inerente à fase industrializada. Porém, os marxistas ortodoxos, via de regra, não têm interesse nessas menções fragmentárias.” E nem deviam. A única coisa fragmentária que vale a pena são os aforismos nietzschianos.

¹ É como dizer que se agora tudo que está na moda é o pós-estruturalismo, nunca devemos mexer com metafísica. Um comentário suicida do ‘conservador’ Dugin, que quer uma ‘revolução civilizatória tradicionalista’!!

² O “clássico”, por definição, não abordaria o pós-industrialismo!

Quase todos os aderentes dessa direção ideológica desconfiam de outras forças antiliberais, estão fechados para o diálogo e se degeneram em uma seita.” Hahahaha! Se o antifascismo é uma seita, eu quero ser carola! O ruim de Dugin é que ele parece estar descrevendo o PCO – ou melhor, ele ESTÁ descrevendo o PCO – enquanto tenta compreender amplos espectros sociais como a esquerda latino-americana, o lulismo, o petismo, o PSOLismo, os próprios sociais-democratas, que, todos, em maior ou menor medida, se uniram num pacto, demonstrando imensa capacidade de diálogo. Submetendo-se a alianças com o Centrão menos captado pelo bolsonarismo e até mesmo a antigos adversários e antíteses ideológicas como o Camarada Alckmin! Não é um feito pequeno de pé de página! Dugin, entretanto, perpassa-o com a profundidade de uma arraia…

Os social-democratas europeus são um pouco diferentes dos comunistas ortodoxos. Essa tendência política se separou do marxismo, e desde o tempo de Kautsky ela escolheu a via evolucionária ao invés da revolucionária, rejeitando o radicalismo e objetivando construir a influência da esquerda (justiça social, Estado de Bem-Estar Social – Estado-Providência e daí em diante)¹ por meios políticos e através de movimentos sindicais organizados.” Onde Dugin situaria o PT se ele estivesse na Europa – chamemos de menchevismo,² se se tratar, p.ex., de um petista anti-estalinista (o pior tipo). E parece que movimentos sindicais organizados já pressupõem a inclusão da esquerda daquele país no marxismo ortodoxo, em tempos de completa erosão da luta de classes!

¹ Desmontados a cada crise cíclica do Capital.

² MENCHEVISMO vs. TROTSKISMO E REVISIONISMO: O leitor mais crítico e desconfiado me perguntaria: Ora, e qual a diferença entre o menchevique do séc. XXI (partidos de esquerda do Terceiro Mundo da atualidade; partidos europeus da época do pós-guerra, antes da onda neoliberal) e o trotskista? É que nós não escondemos o que somos, somos sociais-democratas, a contragosto e como fato estratégico, por demasiado senso de realidade (não haverá uma revolução local enquanto os EUA derem as cartas no mundo – não diria nem que padecemos de falta de esperança ou ceticismo, somos apenas bons observadores, não pessimistas, mas sábios); os trotskistas só querem a continuação do que está aí, mas mesmo assim se chamam de bolcheviques mais autênticos que os soviéticos mais abnegados em sua época. E cá entre nós: quem não gosta de um Estado do Bem-Estar Social? O problema é que onde há uma Cuba, há Estados Unidos destruindo e boicotando tudo. A China (ou Eurásia) é sim uma boa-nova, no horizonte…

Os social-democratas defendem:

  • Imposto de renda progressivo (vs. liberais defendem uma alíquota proporcional);

  • Nacionalização dos grandes monopólios (vs. liberais – privatização); [isso por si só, na Venezuela, quase causa uma invasão direta norte-americana (diferente da ‘guerra de procuração dos 2 Vietnãs-satélites de EUA/URSS) – a primeira da História contra um país ‘comunista’ ou ‘claramente não-neoliberal’ – ainda mais quando falamos de monopólio de empresas petrolíferas!]

  • Atribuir maior responsabilidade ao Estado no setor privado;

  • Saúde, educação e aposentadoria gratuitas (vs. liberais – redução da intervenção do Estado na economia, saúde privada, educação privada e planos de aposentadoria privada). [os social-democratas representam minha visão de paraíso]

Ora, se eu não posso ter ainda os dedos, eu quero os anéis, um por um! Não vejo problema…

Os social-democratas tentam implementar essas demandas através de mecanismos eleitorais parlamentares e, se confrontados com situações críticas, através da mobilização de sindicatos e organizações públicas até a realização de greves. [ambos vêm se demonstrando ineficazes: parlamentos conservadores mesmo em governos de esquerda; desintegração dos direitos trabalhistas.]

É significativo que os social-democratas usem slogans libertários (não confundir com liberais!):

  • Legalização das drogas leves;

  • Proteção de minorias sexuais e étnicas e dos casamentos homossexuais;

  • Extensão dos direitos civis e liberdades individuais; [aborto, etc.]

  • Ecologia; [nome bonito e inofensivo para sobrevivência]

  • Mitigação da legislação (abolição da pena de morte), etc. [para casos irreversíveis de desumanização – bolsonarismo –, sou a favor da pena de morte]

Além disso, social-democratas clássicos normalmente defendem:

  • Progresso; [vago e inócuo]

  • Luta contra preconceitos arcaicos e religiosos;

  • Ciência e cultura. [Somente num país que nunca teve ciência – como nunca tivemos, não é possível exagerar nela – diferente da Alemanha do séc. XIX… Pulamos a parte da Ilustração quando conseguimos repeti-los em seu pior, o que vem depois: ascensão de um Hitler.]

São os defensores da Terceira Via que são renegados dos movimentos esquerdistas, de fato. E apenas ex-trotskistas vão mais longe do que isso (os trotskistas americanos – os principais teóricos neoconservadores; e os trotskistas europeus, por exemplo, Barroso, o presidente português da Comissão Européia), que mudaram suas visões do comunismo extremista e do socialismo revolucionário para uma igualmente radical defesa do liberalismo, do mercado e da desigualdade econômica.

O ‘Nacional-Esquerdismo’ deveria ser considerado um fenômeno muito especial. Diferentemente do marxismo ortodoxo e da social-democracia, essa tendência tem sido pouco explorada e sua interpretação correta é uma tarefa do futuro. O caso é que o próprio Nacional Esquerdismo (sic) quase nunca faz propaganda de sua idéia nacional, a oculta ou até abertamente a critica. Conseqüentemente, o estudo do discurso aberto ou direto do movimento, partidos e regimes nacional-comunistas são dificultados devido ao fato de que as teses discursadas ou correspondem com a realidade apenas parcialmente, ou de jeito algum.”

Nacional-comunistas se consideram ‘apenas comunistas’, ‘marxistas ortodoxos’, que seguem estritamente as ideias clássicas marxistas.” Achar que somente os países “não-preparados para o comunismo” efetivamente atingiram revoluções comunistas, como Dugin faz, é uma forma mal-disfarçada de acreditar no progresso e na linearidade da História: chegará o dia em que…, só deu errado porque…, nada até aqui comprova a tese do adversário…, todos os problemas serão resolvidos amanhã…, etc. Não há regras fixas e imutáveis. O pior é que Dugin tenta passar essa mesma mensagem seu livro inteiro e não percebe que recai em contradição. Cabe perguntar: para Dugin, China e Venezuela seriam nacional-comunistas? A China tenta reorganizar o mundo em frentes multipolares, como líder do movimento anti-imperialista; a Venezuela, sem forças para liderar, é no entanto agente ativo e colabora com o projeto político chinês. São realmente comunistas. O fato de não haver um comunismo mundial ou pelo menos entre os próprios vizinhos de ambas as nações em nada contraria essa classificação.

O nacional-comunismo predominou na URSS, na China comunista, na Coréia, no Vietnã, na Albânia, no Camboja e em um número de movimentos comunistas nos países do terceiro mundo – dos ‘Chiapas’ mexicanos e do ‘Sendero Luminoso’ peruano ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão e ao socialismo islâmico.” “o nacional-socialismo anti-hitlerista de esquerda dos irmãos Strasser”

Evo Morales é o primeiro líder latino-americano de origem indígena” Até Dugin reconhece o óbvio pioneirismo desta façanha.

a China, nas condições atuais, mais e mais focando no componente nacional de seu modelo social e político, prova que esta base, transformada no tempo adequado e de modo delicado, pode permanecer competitiva mesmo após o triunfo global do capitalismo liberal. Por outro lado, a experiência da Venezuela e da Bolívia demonstra que os regimes nacional-comunistas aparecem hoje em dia e demonstram sua viabilidade mesmo diante de sérias pressões.” Conclusão: não existe nacional-comunismo, apenas comunismo do século XXI.

Ausência de conceitualização e racionalização do componente nacional em toda a idéia-complexo dos movimentos e ideologias Nacional-Comunistas (a maioria dos aderentes dessa direção ideológica se considera ‘apenas marxistas’ e ‘socialistas’)” Dugin não percebe que com bastante probabilidade isso significa tão-só que não existe esse tal <nacional-comunismo>, categoria forjada dentro de sua própria cabeça.

Algo que hoje deve corresponder quase completamente com a combinação de palavras ‘projeto da esquerda’ é chamado ‘neoesquerdismo’ ou ‘pós-modernismo’. Em todo o espectro de idéias esquerdistas no início do século XXI essa direção não apenas é a mais inteligente, mas também a mais pensada, intelectualmente regulada e sistematizada.” Caiu no conto de Washington. É a idéia mais pensada (não a mais sábia!) e a menos agida, digamos assim.

Através de Sartre, clássico dos ‘novos esquerdistas’, [!] Martin Heidegger e a problemática existencialista influenciaram profundamente o movimento esquerdista.” “No sentido filosófico, os ‘novos esquerdistas’ eram estruturalistas, porém, desde meados da década de 80 eles passaram ao ‘pós-estruturalismo’, desenvolvendo ainda mais esse impulso[,] filosófico e começaram a criticar suas próprias perspectivas das décadas de 60 e 70.” O círculo se fecha sem deixar herdeiros ou legado. O círculo estéril.

Os ‘novos esquerdistas’ reduziram todas as versões do deciframento da ‘infraestrutura’ ao esquema integrante, no qual o papel da ‘infraestrutura’ enquanto tal – independentemente da tendência filosófica específica – foi transferido para o conceito de ‘estrutura’.” “Os novos esquerdistas reencarnaram as idéias de Rousseau sobre um nobre selvagem e ofereceram um panorama da sociedade ideal, na qual não se pode encontrar exploração, alienação, mentira, supressão, exclusão, em analogia com grupos arcaicos praticantes da ‘economia da dádiva’.” “O livro de A. Negri e M. Hardt, Império, no qual as teses dos novos esquerdistas são simplificadas até a primitividade, pode ser considerado um manifesto político dessas tendências.” “O movimento antiglobalização como um todo é orientado por este projeto futuro. E eventos como o Foro de SP,¹ no qual os globalistas pela primeira vez tentaram definir uma estratégia geral, indicam que o projeto da Nova Esquerda tenta formar uma implementação política específica.” “…os protestos generalizados dos novos sindicatos, mais e mais reminiscentes do carnaval…” [?]

¹ Hahaha. Em outros termos, o tal Foro de SP, bode expiatório criado pela extrema-direita, é apenas um movimento da direita (ou Velha Direita, se o Neofascismo Antiglobalista for a Nova).

Ademais, o pós-modernismo como estilo de arte, o que se tornou corrente na arte ocidental moderna, expressa simplesmente esta filosofia política da ‘Nova Esquerda’, penetrando em nossa vida quotidiana através de pintura, designs e filmes de Tarantino e Rodriguez desprovidos de análise política e filosófica preliminar, deixando para trás uma escolha consciente e se impondo contra nossa vontade.” Quem disse que toda a arte pós-moderna é de esquerda?

Na prática, nós vemos que não há ‘velhos esquerdistas’ no sentido completo nesse país, bem como no tempo soviético. O grupo dos dissidentes soviéticos (Zinoviev, Shchedrovitsky, Medvedev) não conta, na medida em que eles não conseguiram desenvolver qualquer escola notável. [seria a quarta teoria política de D. uma ‘escola notável? e se for, este é um critério válido para estabelecê-la como preferível à ideologia destes dissidentes?]

Por outro lado, os nacional-comunistas representam uma camada social, psicológica e política ampla com o Partido Comunista da Federação Russa a sua frente. Como toda a história soviética – marcada [pela] vitória do socialismo (um garantido sinal de base arcaica) – é a história do nacional-esquerdismo inconsciente, essa tendência dificilmente é surpreendente.” Haja -ente, diria Heidegger.

o social-conservadorismo da Rússia Unida e de Putin”

Enquanto [isso,] os grupos marginais que imitam o neo-nazismo europeu e tentam usar ‘nacional-socialismo’ em seus nomes jamais foram ‘nacional-esquerdistas’, já que eles imitam (como resultado de uma inferioridade mental) [hahaha!] as bugigangas do regime hitlerista, continuam a brincar de soldados e assistem à série de TV Seventeen Moments of Spring,¹ admirando o uniforme negro de Bronevoy-Mueller. [hahahahaha!] O projeto do PNB (Partido Nacional-Bolchevique), o qual ia desenvolver em um autêntico Nacional-Esquerdismo russo [enfia essa nomenclatura na bunda!] baseado nas idéias de Ustrialov, Niekisch e dos eurasianistas de esquerda, infelizmente, ao fim da década de 90[,] havia degenerado em uma formação barulhenta e insignificante[;] e depois começou a servir a forças ultraliberais antirrussas ‘laranjas’, alimentadas pelo Ocidente (contradizendo objetivos fundamentais do ‘nacional-bolchevismo’, o qual é tanto em teoria como na prática um projeto consciente de esquerda… [acabou de afirmar que a história da Rússia é a história do nacional-esquerdismo inconsciente… como conciliar ambas as passagens, tão próximas no texto?])”

¹ “Seventeen Moments of Spring (Russian: Семнадцать мгновений весны, romanized: Semnadtsat’ mgnoveniy vesny) is a 1973 Soviet 12-part television series, directed by Tatyana Lioznova and based on the novel of the same title by Yulian Semyonov. The series portrays the exploits of Maxim Isaev, a Soviet spy operating in Nazi Germany under the name Max Otto von Stierlitz, portrayed by Vyacheslav Tikhonov. Stierlitz is planted in 1927, well before the Nazi takeover of pre-war Germany. He then enlists in the NSDAP and rises through the ranks, becoming an important Nazi counterintelligence officer. He recruits several agents from among dissident German intellectuals and persecuted clergy. Stierlitz discovers, and later schemes to disrupt, the secret negotiations between Karl Wolffa and Allen Dulles taking place in Switzerland, aimed at forging a separate peace between Germany and the western Allies. Meanwhile, the Gestapo under Heinrich Müllerb searches for the unidentified Soviet resident spy and his ring. The series is considered the most successful Soviet spy thriller ever made and is one of the most popular television series in Soviet history.” “Within the novel Semyonov mentions the phrase seventeen moments of spring in reference to the lyrics of a song sung by Marika Rökk, a popular star in Nazi Germany.” “Broadcast at 19:30 by the channel Programme One between 8 July and 24 August 1973, Seventeen Moments of Spring was immensely popular in the Soviet Union: Klaus Mehnert reported that during its original run, the estimated audience for each episode was between 50 and 80 million viewers, making it the most successful television show of its time. Ivan Zasursky described the series’ reception by the public: ‘during its first showing, city streets would empty. It was a larger-than-life hit, attracting greater audiences than hockey matches.’ Crime rates dropped significantly during the broadcasts; power stations had to increase production at the same time, since the activation of many television sets caused a surge in electricity consumption. Oleg Kharkhordin wrote that Seventeen Moments of Spring became a ‘cult’ series, and Richard Stites added it was ‘a television blockbuster’. According to his personal assistant Alexei Chernayev, Leonid Brezhnev was a devoted fan of Seventeen Moments of Spring, and watched the entire series some 20 times. Author Anthony Olcott claimed that it was rumored Brezhnev moved meetings of the Central Committee of the Communist Party of the Soviet Union in order not to miss episodes. Seventeen Moments of Spring remained highly popular after its first run in 1973. It was re-aired annually until the dissolution of the USSR, usually around Victory Day, and continued to be broadcast in Russian television afterwards. In 1983, a writer of the Paris-based Polish magazine Kultura described Seventeen Moments of Spring as ‘the most successful television production in the history of the Soviet Union’. In 1995, after another re-run, Russian commentator Divanov noted: ‘Just like 20 years before, city streets were empty during the showing … A drop in the crime level almost to zero was noted in cities, which testifies to the popularity of Seventeen Moments.’“Vladimir Putin told that his decision to join the organization was motivated by the spy thrillers of his childhood, among them Lioznova’s series.”

a “He escaped prosecution at the Nuremberg Trials, apparently as a result of his participation in Operation Sunrise. In 1962, Wolff was prosecuted in West Germany for the deportation of Italian Jews, and he was sentenced to 15 years in prison for being an accessory to murder in 1964. He was released in 1971 due to his failing health, and died 13 years later.”

b “He was known as Gestapo Müller to distinguish him from another SS general named Heinrich Müller. (…) He was last seen in the Führerbunker in Berlin on 1 May 1945 and remains the most senior figure of the Nazi regime who was never captured or confirmed to have died.”

Project MKUltra (or MK-Ultra) was an illegal human experimentation program designed and undertaken by the U.S. Central Intelligence Agency (CIA), intended to develop procedures and identify drugs that could be used in interrogations to weaken individuals and force confessions through brainwashing and psychological torture. It began in 1953 and was halted in 1973. MKUltra used numerous methods to manipulate its subjects’ mental states and brain functions, such as the covert administration of high doses of psychoactive drugs (especially LSD) and other chemicals without the subjects’ consent, electroshocks, hypnosis, sensory deprivation, isolation, verbal and sexual abuse, and other forms of torture.” “In areas under American control in the early 1950s in Europe and East Asia, mostly Japan, Germany and the Philippines, the CIA created secret detention centers so that the U.S. could avoid criminal prosecution. The CIA captured people suspected of being enemy agents and other people it deemed ‘expendable’ to undertake various types of torture and human experimentation on them. The prisoners were interrogated while being administered psychoactive drugs, electroshocked and subjected to extremes of temperature, sensory isolation and the like to develop a better understanding of how to destroy and to control human minds.” “In 1973, amid a government-wide panic caused by Watergate, CIA Director Richard Helms ordered all MKUltra files destroyed. Pursuant to this order, most CIA documents regarding the project were destroyed, making a full investigation of MKUltra impossible. A cache of some 20,000 documents survived Helms’s purge, as they had been incorrectly stored in a financial records building and were discovered following a FOIA request in 1977. These documents were fully investigated during the Senate Hearings of 1977.”

The Bay of Pigs Invasion (Spanish: Invasión de Bahía de Cochinos, sometimes called Invasión de Playa Girón or Batalla de Playa Girón after the Playa Girón) was a failed military landing operation on the southwestern coast of Cuba in 1961 by Cuban exiles, covertly financed and directed by the United States. It was aimed at overthrowing Fidel Castro’s communist government. The operation took place at the height of the Cold War, and its failure influenced relations between Cuba, the United States, and the Soviet Union.”

Novos esquerdistas e pós-modernistas estão quase ausentes no espectro político russo; o discurso filosófico pós-moderno é complicado demais para eles.” “Na arte russa – em particular em Vinzavod, na galeria Guelman, bem como nos filmes russos – tendências pós-modernas são claramente visíveis, e sua expressão artística é às vezes impressionante. Os livros de Sorokin ou Pelevin representam o pós-moderno em uma forma literária.” “A Rússia desempenha um papel de consumidor inativo, que não entende o sentido político e ideológico daquilo que automaticamente consome – seguindo a moda e tendências globais”

Niekisch, Hitler: Desastre para a Alemanha: “Niekisch confrontou o Nazismo e os nazistas, e previu mais cedo e mais precisamente do que outros quais seriam as consequências de seu domínio sanguinário para a Alemanha e para a humanidade.”

Nos casos extremos, os liberais apóiam não apenas a liberdade de aborto, mas até mesmo a liberdade de diferenciação sexual (apoiando os direitos de homossexuais, transexuais e daí em diante).”

Tal Estado-Nação (État-Nation) não possuía qualquer objetivo histórico comum, qualquer missão determinada. Ela (sic) concebia a si mesma como uma ‘corporação’ ou empresa estabelecida pelo acordo recíproco de seus participantes e que teoricamente pode ser dissolvida a partir das mesmas bases.”

Na metade do século XX o filósofo francês, hegeliano de origem russa, Alexander Kojève sugeriu que o ‘fim da história’ hegeliano marcaria uma revolução comunista mundial.”

crítico francês dos EUA, Hubert Vedrin, sugeriu que os EUA deveriam daí em diante ser chamados não de uma superpotência, mas de uma hiperpotência, enfatizando sua solidão e sua superioridade assimétrica.” “Não é simplesmente colonização ou uma nova forma de imperialismo, este é um programa de implementação total do único sistema ideológico, copiado da ideologia liberal americana.” “tanto amigos como inimigos estão sujeitos à reformatação, como estão aqueles que desejam permanecer neutros. Este é o sentido do ‘século americano’: o liberalismo, tendo derrotado seus inimigos formais, penetra completamente.”

E não é acidente que os neoconservadores emergiram do trotskismo.” “São precisamente os neoconservadores, determinando o tom da política americana contemporânea, que compreendem mais profundamente o sentido ideológico do destino dos ensinamentos políticos na alvorada do século XXI.”

O princípio da separação de poderes se transmuta na idéia de um referendo eletrônico constante”

até o último momento da queda da URSS, os líderes do liberalismo russo elogiavam o Partido Comunista, as idéias de Marx, o Socialismo Planificado, enquanto os oligarcas ‘ganhavam o pão’ no Comitê dos Komsomols ou serviam na KGB.”

Quando Putin chegou ao poder e tentou reverter o processo de desintegração da Rússia, ele não encontrou, em grande medida, nenhuma oposição ideológica. Ele foi desafiado por clãs econômicos concretos, em cujos interesses ele discerniu a mais ativa agência de influência, profundamente entrincheirada na espionagem a serviço do Ocidente.” “Mesmo figuras icônicas do liberalismo russo – Gaydar, Chubais, etc. – se comportaram como oportunistas banais: eles não davam a mínima para o conteúdo ideológico das reformas de Putin.” “Intuitivamente buscando preservar e consolidar a soberania russa, Putin entrou em conflito com o Ocidente liberal e seus planos de globalização, mas sem formar suas ações em uma ideologia alternativa. Isso ocorreu principalmente porque havia muito poucos liberais convictos na Rússia.” “Se as pessoas passam a agir como liberais apenas quando o liberalismo é permitido, está na moda, ou até mesmo é obrigatório, prontos diante da primeira dificuldade para repudiar esses princípios, esse ‘liberalismo’ não tem nenhuma relação com o tipo real. Parece que Khodorkovsky, o ‘ícone’ dos russos liberais contemporâneos, entendeu isso tendo passado algum tempo na prisão. Mas nisso, me parece, ele é uma exceção entre os liberais que permanecem livres.”

A revolução é um fato empírico. Isso significa que a revolução foi, é e será.” “Em anos recentes, um paternoster sociológico, que diz que a Rússia exauriu seu limite para a revolução, se tornou bastante relevante.” “O sentido da revolução se encontra na insatisfação com o que existe, e na declaração [de] que deve haver algo mais. A revolução é uma busca pela superação do que é presente nesse momento.” “Vive-se na revolução apenas; em outros tempos se está delirando, sonhando, se vive aguardando a revolução.” “Nós somos tentados a nos convencermos de que não houve Revolução de Outubro, esta última sendo chamada de uma reviravolta, uma conspiração, uma influência de ‘forças sombrias’, com instrumentos conspiratórios sendo utilizados, com tudo sendo traduzido ao plano dos modelos econômicos.” “Apenas o tempo revolucionário é um tempo realmente, porque não possui duração, já que é tempo de mudança, uma ruptura, um tempo de aparecimento do novo, um tempo de Ereignis. Segundo Heidegger, a noção de ‘Evento’ (Ereignis)é ruptura de rotina, um encontro com algo, que não havia sido. Essa é a essência antropológica, ontológica e temporal da revolução. É por isso que o tempo da revolução é o oposto de qualquer outro tempo, porque o homem se torna ele mesmo nesse tempo. No resto do tempo o homem está essencialmente adormecido aguardando pela revolução.” “Durante esse período onírico entre duas revoluções o homem considera sua identidade como positiva, isso quer dizer que ele começa a se associar não com a deficiência, mas com algo presente (com comida, bem-estar, cuidado, detalhes pequenos da realidade). (…) O homem não vive como parte de sua existência, ele está sendo substituído por das Man, e a existência humana genuína, o Dasein, está ausente.” “Assim, a revolução é empírica, ontológica e conceitual em sua natureza. Agora nós podemos abordar a perspectiva da revolução em seu aspecto tecnológico.”

Pareto incita a deixar de lado as questões relativas à teleologia da revolução e que o foco da atenção deve ser uma fórmula segundo a qual há duas categorias: aqueles que mandam e aqueles que obedecem (…) Segundo suas teses, a elite é um mestre sociológico, um tipo social, que só pode governar, e não pode se recusar a governar” “E muito de seu trabalho foi dedicado à descrição de como as elites liberais camuflam seus verdadeiros objetivos (governar e controlar) sob os nomes de democracia, direitos humanos e liberdade econômica.” Muito mais útil como analista que 80% da “esquerda”.

alguma parte da elite não possui o poder e ocupa seu lugar (a contra-elite), o qual não é legítimo. E segundo Pareto, tal elite, desprovida de acesso ao poder, porém, não é uma massa. (…) Tal elite constantemente sente que ela não está em seu lugar de direito.”

aquele que pertence à elite é o mais próximo à categoria do Mangelwesen [homem carente, condição humana] e assim ele é mais humano. Ele quer governar sobre outros, porque ele sente repulsa por si mesmo, ele é insuficiente para si mesmo, ele precisa se expressar de algum jeito, lançar sua figura sobre a sociedade, de outro modo sua vida é inteiramente insatisfatória. A massa, por sua vez, paga por sua vida

tranqüila e relativamente segura com seu status de escrava. E a elite é o mestre, que encara uma escolha entre morte e poder”

O segundo modo de lidar com a contra-elite, segundo Pareto, é ignorá-la completamente, dando atenção apenas à massa. Esse é o caminho para o suicídio da elite governante, porque a contra-elite, estando entre as massas, começa a transformá-la, e se agrega à anti-elite. A anti-elite, por sua vez, que é um complexo de pervertidos e desviados, começa a corromper as massas.” “O próximo passo é afastar as massas da elite com a ajuda de elementos anti-elite, e a tomada do lugar da elite pela contra-elite.”

A modernidade é um regime que disse ‘sim’ à revolução, que a tornou aceitável e casual.” “Mas se a revolução foi um ponto da modernidade, na pós-modernidade ela se torna impossível, na medida em que a própria modernidade se tornou impossível.” “Ela compreende bem que, de modo a prevenir a revolução, esta deve ser simulada.” “Nas condições atuais é muito difícil chegar ao fato de que o homem é um Mangelwesen, porque a fronteira entre o que está vazio e o que não está vazio, entre presença e ausência, hoje está diluída.”

E se a elite governante se posiciona como liberal, então a contra-elite terá que ser anti-liberal. Aqui, a plataforma mais apropriada será a ideologia de Louis Dumont e sua obra Ensaios sobre o Individualismo.

Nessa obra o autor insiste que a principal força de oposição ao liberalismo não é o marxismo, mas a sociologia (holista) como disciplina científica. Nos esquemas da sociologia (holista) uma tese sobre a primazia da sociedade em relação ao indivíduo possui um potencial revolucionário.”

Em relação [à contra-revolução], nós deveríamos prestar atenção à obra de Christopher Lasch – A Revolta das Elites. Se a versão anterior do padrão sociológico de Ortega y Gasset foi o fato de que na vanguarda da sociedade apareciam novos tipos sociais, que são incapazes de fazer história, então Lasch aponta que novas elites na verdade refletem o conteúdo e as principais qualidades e características das massas.” “Nossas novas elites consistem em pessoas comuns, de classe média, da pequena-burguesia, de pessoas com uma visão de mundo medíocre. Ademais, a elite moderna evita seus deveres elitistas e se torna um duplo simulacro.” “Quando há apenas uma instância para decidir quem está certo e quem está errado e quem deveria ser punido e quem não deveria, nós temos um tipo de ditadura global. Eu estou convencido de que isso não é aceitável.” “O Império Americano deve ser destruído. E em algum ponto, ele será.”

Espiritualmente, a globalização é a criação da Grande Paródia, o reino do Anticristo. E os Estados Unidos são o centro da sua expansão.” “Nossas idéias podem ser diferentes, mas nós temos uma característica muito forte em comum: o ódio pela realidade social atual.” Diferenças entre etnias não resultam em superioridade ou inferioridade. As diferenças devem ser aceitas e afirmadas sem nenhum tipo de sentimento ou consideração racista. Não existe uma medida comum ou universal para julgar diferentes grupos étnicos. Quando uma sociedade tenta julgar a outra, ela aplica os seus próprios critérios, portanto, comete violência intelectual.”

Se nós libertarmos o socialismo das suas características materialistas, [depreendo que no sentido chulo de morte do espírito e olvido da condição da natureza, que é per se mágica, ‘não-científica’] ateístas [avatar final do monoteísmo] e modernistas, [degenerescência ocidental] e se nós rejeitarmos o racismo e os nacionalismos doutrinários (…) nós chegamos a uma ideologia política completamente nova.” Marx + Nietzsche com um deus que saiba dançar.

Mas este é apenas o primeiro passo. A adição mecânica de profundamente revisadas versões das ideologias antiliberais do passado não nos dá um resultado final.” “Aí nós temos o Estado ideal platônico, a sociedade hierárquica medieval e as visões teológicas do sistema social e normativo (cristão, islâmico, budista, judeu ou hindu). Estas fontes pré-modernas são muito importantes para desenvolver a síntese”

nós devemos rejeitar categoricamente o anti-comunismo” “Ao mesmo tempo, nós devemos nos opor fortemente a qualquer tipo de confronto entre as várias crenças religiosas – muçulmanos contra cristãos, judeus contra muçulmanos, muçulmanos contra hindus, e daí em diante.” “Não é fácil formar uma aliança tão diversificada. Mas nós devemos tentar se quisermos derrotar o inimigo.”

O que é crucial considerar, é a autenticidade ou inautenticidade da existência do Dasein. A Quarta Teoria Política insiste na autenticidade da existência. Para que ela seja a antítese de qualquer forma de alienação – social, econômica, nacional, religiosa ou metafísica.” “Valores como justiça social, soberania nacional e espiritualidade tradicional podem nos servir como fundação.”

A importância do conceito de nous (intelecto), desenvolvido pelo filósofo grego Plotino, corresponde ao nosso ideal.” “O mundo futuro precisa ser noético de algum modo – multiplicidade e diversidade deveriam ser tomadas como riquezas e como tesouro, e não como razão para o conflito inevitável”

falar sobre a Pós-Modernidade é interessante, excitante e arriscado ao mesmo tempo. É um processo com um fim desconhecido e um sentido desconhecido. Ainda é possível afetar esse fim e esse sentido. A história (aparentemente) acabou e a pós-história está apenas ‘começando’, devemos procurar nela por um espaço de luta, ganhar este espaço e expandi-lo.”

[O pós-Estado] é uma espécie de república pirata localizada no ciberespaço. Ou um carnaval brasileiro, que substituiu a rotina.” “completos idiotas são designados como acadêmicos e membros correspondentes” “no centro das atenções, incluindo o debate político, estão os mais íntimos detalhes da vida pessoal” “senadores (anciãos [etimologia da palavra]) são eleitos recém-saídos das escolas (se, por exemplo, eles são parentes de figuras influentes)” “clemência com os criminosos aumentando, atribuição da culpa para a vítima, etc.”

Não existe mais ontem e amanhã, nem mesmo hoje. Existe apenas o agora. Agora são Google e Twitter, mas em um momento estes serão eventos pré-históricos, como o processador Lexicon ou PC286.” “Revoluções pelo Twitter no Mundo Árabe ou presidentes com iPads são claros sinais de pós-antropologia política e do fenômeno do Pós-Estado. A revolta das elites e a oscilação do nível de intensidade da consciência dos grupos dominantes estão ‘próximos de zero’. Um exemplo clássico é um estrategista político viciado em drogas.” O que achou dessa, Aécio?

O soldado político é o mediastino da antropologia política da Modernidade.” “Hoje não temos a chance de conhecer um soldado político, apenas podemos conhecer seu dublê, seu simulacro, seu impostor.”

MEDIASTINO Espaço compreendido entre os dois pulmões e dividido em duas partes pelas pregas das pleuras. (O mediastino anterior encerra o coração e o timo; o mediastino posterior contém o esôfago, a aorta e o canal torácico.).”

O drama dos últimos homens lutando contra pós-homens na oposição política. Heroicamente, tragicamente, poeticamente e irremediavelmente.” “Aqui está a dobra [double bind?] (Deleuze) da antropologia pós-moderna: um simulacro se encontra com um simulacro.”

O feminismo ultra-esquerdista (gauchisme) é um programa de liberação do sexo como uma forma de construção social hierárquica. Falamos aqui não da liberação da essência feminina, mas sobre superar o sexo como ele é. Se a atenção é presa em particulares de outro sexo (por Simone de Beauvoir, Julia Kristeva ou Luce Irigaray), isso é apenas para a relativização da masculinidade no caminho para a libertação. O

desejo não tem sexo. Liberdade é uma liberdade em relação ao sexo.”

A outra direção do ultraliberalismo é a loucura sadomaso nazi-satanista; exaltação da masculinidade burguesa em uma soberania sexual individualista do indivíduo atomizado. Estes são os ‘faça o que quiser’ e ‘com quem quiser’ adicionando uma compensação financeira [?] e um princípio de voluntariedade de Crowley.” Baboseira!

O ‘neo-nazi’ hoje é uma paródia patológica que vem do pasquim barato de Visconti (Os Malditos) ou da exploração tosca e mentalmente fraca no estilo de Recepcionista da Noite. [Eu acrescentaria Venus in Furs, um dos piores livros que já li, do próprio Masoch.] Na área do gênero ‘neo-nazi’ está sempre presente um atributo de entretenimento – clubes gays [estética dos motoqueiros] e decorações clássicas de sex shop.”

Heidegger, que estava no contexto do nazismo, mas representou um molde para a Quarta Teoria Política, viu o Machenschaft [techne, o fazer do homem, o mundo social do trabalho] também naquele. E rascunhou no sentido de superá-lo e recusá-lo. Existem passagens expressivas sobre o tema em Geschichte des Seyns [História do Ser].” “A idéia de Marx de ‘mudar o mundo’ é próxima à compreensão de Heidegger do conceito marxista em sua essência tecnológica.”

P. 419: sobre o clamor heideggeriano

Heidegger pensou muito no problema ‘noch nicht’. Estamos perto do ponto da grande meia-noite.” Heidegger e Dugin: meros plagiários do acabamento da filosofia continental (ontologia clássica – Platão-Nietzsche).

Se colocarmos a quarta prática política em superar a distância intransponível (paradoxo de Zenão sobre Aquiles e a tartaruga …) do ‘ainda não’, vamos ficar para sempre no labirinto do ‘fim dos tempos infinito’.”

P. 420: Morin e o “homo demens”

et passim: nomenclaturas abstrusas à Lacan…

Segundo Heidegger, a existência é finita. Seu último e mais alto mistério está nessa finitude. A finitude se manifesta em Ereignis. Ereignis é exatamente a factualidade da praxis.”

A partir do século XIX, com os filósofos europeus mais brilhantes e importantes como Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e depois os pós-modernistas contemporâneos, o homem europeu começa a suspeitar que o logos estava se aproximando de seu fim.”

A filosofia européia foi baseada no princípio logocêntrico correspondente ao princípio de exclusão, a diferenciação, a diaresis grega.” Aristóteles repartiu as fatias do bolo para consumo em 2500 anos. A teoria acadêmica do caos é mais do mesmo (raspagem final do logos, últimos restos do bolo no prato). Caos primitivo: não confundir origem com o resto (Baudrillard).

Por um lado temos o conceito moderno de caos que representa a pós-ordem ou uma mistura de fragmentos contraditórios sem nenhuma unidade ou ordem, ligados entre eles por correspondências e conflitos pós-lógicos altamente sofisticados. Gilles Deleuze chamou esse fenômeno de sistema não-co-possível composto por uma multidão de mônadas (usando o conceito de mônada e co-possibilidade introduzido por Leibniz). Deleuze descreve a pós-modernidade como uma soma de fragmentos não-co-possíveis que podem coexistir. Isso não era possível na visão da realidade de Leibniz, baseada no princípio de co-possibilidade.”

As mônadas não-ordenadas e não-co-possíveis enxameando ao redor poderiam parecer caóticas, e nesse sentido [é que] usamos a palavra ‘caos’ no dia-a-dia.”

A visão épica da ascensão e queda do logos no curso do desenvolvimento da filosofia ocidental e na história ocidental foi exposta por Martin Heidegger, que argumentou que no contexto da cultura européia e ocidental o logos não é somente o mais importante princípio filosófico, mas também a base da atitude religiosa, formando o núcleo da Cristandade. Podemos também notar que o conceito de kalam ou intelecto está no centro da filosofia e teologia islâmica. O mesmo é válido para o Judaísmo (ao menos na visão do judeu Fílo [neoplatônico – fi-lo porque qui-lo!] e acima de tudo no Judaísmo Medieval e na Qabballah). Logo, na alta modernidade onde vivemos, assistimos a queda do logos acompanhada pela correspondente queda da cultura clássica greco-romana e das religiões monoteístas.” “Alguma coisa deu errado no início da história ocidental e Martin Heidegger vê esse ponto errado precisamente na afirmação da posição exclusivista do logos exclusivista (sic) no pensamento enquanto tal.” Heidegger comete o erro, entretanto, de localizar o erro grego em Platão ou antes, não em Aristóteles, o formalista. Lembremos que o Absoluto em Platão ainda nos salvará do niilismo e é nossa última salvaguarda ética nessa transição epocal. O jogo do ocultamento (paradoxo da representação) inicia propriamente com o discípulo incompetente, e não foi desmanchado até depois de Schopenhauer, o último filósofo da aletheia

A explosão desenfreada da técnica moderna é seu resultado lógico. Heidegger chama isso de Ge-stell e pensa que essa é a razão da catástrofe e aniquilação da humanidade, que inevitavelmente se aproxima.” Talvez esse Evento não possa mesmo ser evitado (dizimação da grande maioria da humanidade numa conjunção de desastre ‘natural’, hecatombe climática, agência prolongada do homem industrial e agência pontual do homem bélico). “O Outro Começo” ou “origem mais originária” em sucessão a uma Escatologia quase-integral.

ENCRUZILHADA DO DESTINO: “Então o Caos como algo que precede o logos e é abolido por ele e sua exclusividade foi manifestado e negado da mesma forma.”

Esse caminho onde a técnica encontra a ordem espiritual foi fundamentalmente explorado e estudado por Ernst Jünger, amigo de Martin Heidegger. O retorno ao classicismo acompanhado pelo apelo ao progresso técnico.” Isso não é solução, é aprochegar-se e acelerar rumo ao abismo. E de que vale a informação de que Jünger era amigo de Heidegger?

A segunda maneira é aceitar as tendências correntes e seguir a direção da Confusão envolvendo-se mais e mais na dissipação das estruturas, no pós-estruturalismo e tentar conseguir prazer no confortável deslizamento para o nada.Ainda bem que oferece uma alternativa… Porém na sentença seguinte nos decepciona drasticamente com uma falsa equivalência e demonstração de que optou pelo lado errado na birfurcação decisiva: “Essa é a posição escolhida por representantes da esquerda e liberais da pós-modernidade. É niilismo em estado puro – originalmente identificado por F. Nietzsche” Não que tenhamos de fato essa alternativa, para além do mero falatório

multitudes incalculáveis das flores de putrefação.” A última hora é a que mais demora, já disse Nie.

No entanto, podemos escolher uma terceira alternativa e tentar transcender as fronteiras do logosAhá! Topou com o muro de Deleuze no caminho…

atravessar as fronteiras do ser é ontologicamente impossível.” Inferno é vertigem. “Se insistirmos, no entanto, em fazer isso devemos apelar para o Caos no seu sentido original grego, como algo que precede o ser e a ordem, algo pré-ontológico.” “Então apenas o Caos pré-ontológico pode nos sugerir como ir além da armadilha da Pós-Modernidade. Ele foi posto de lado na criação da estrutura lógica do ser como fundamento. Agora é sua vez de vir para o jogo.”

A Modernidade matou a eternidade e a Pós-Modernidade está matando o tempo.” “É um tipo de labirinto sem saída, dobrado e torcido como a fita de Möbius. [a lógica não-euclidiana ainda é um epifenômeno da lógica euclidiana] O logos que era a garantia da retitude da ordem serve aqui para fornecer a curvatura, [a razão fomenta o ‘caos’, no sentido moderno: contra-razão; tragédia.] sendo usado para preservar a impassibilidade da fronteira ontológica com o nada contra eventuais transgressores.” Nenhuma fita de Ariadne poderia nos salvar, se A. é lógica. Uma A. & uma não-A.

E no entanto, da minha perspectiva, Dugin não entendeu que a segunda e a terceira maneira são idênticas. O deslizamento na fita de Möbius é o próprio deslizar ao nada. Não significa que é um destino inevitável e passivo, mas o homem agirá de modo a concretizá-lo, forçosamente (paradoxo lógico – por isso, bom sinal).

O logos considera a si próprio como o que é e como o que é igual a si próprio. Ele pode aceitar as diferenças dentro de si porque ele exclui o que é diferente de si fora de si. Assim a vontade de poder está atuando. A lei da soberania. Para além do logos, afirma o logos, não há nada. Então o logos excluindo tudo além de si próprio exclui o Caos. (…) o inclusivo Caos inclui também o que não é inclusivo como ele e mais do que aquilo que exclui o Caos. Então o Caos não percebe o logos como outro em relação a si próprio, ou como algo não-existente. O logos como o primeiro princípio da exclusão está incluído no Caos, presente nele, envolvido por ele e possui lugar garantido nele.” Resumo: o princípio da contradição inclui o princípio da não-contradição. Era da Grande Lógica.

Assim a mãe que carrega o bebê carrega consigo o que é uma parte dela e não é uma parte dela ao mesmo tempo.” Boa metáfora. Se bem que nesse caso seria a mãe que mata a criança, e mesmo assim continua fértil e negando-se a si mesma para reafirmar novos começos (novo paradoxo lógico-aristotélico). Isto é, a Mãe originária, que mantém a primazia. Pode-se evocar este enigma-solução como a resposta afirmativa (otimista, esperançosa) para o dilema da morte de Deus. Morte temporária (a base para afirmá-lo é o próprio princípio da finitude da existência) de um (tipo de) logos.

O Caos é o eterno nascimento do outro, ou seja, do logos.” “Então chegamos à figura do muito especial logos caótico, que é o logos completamente e absolutamente fresco, sendo eternamente revivido pelas águas do Caos. Esse logos caótico é ao mesmo tempo exclusivo [co-possível] (e é por isso que é propriamente logos) e inclusivo [não-co-possível] (sendo caótico). Trata-se da igualdade e da alteridade de forma diferente.”

Eu poderia sugerir, como exemplo, a filosofia do pensador japonês Kitaro Nishida, que construiu ‘a lógica do basho’ ou a ‘lógica dos lugares’ em vez da lógica aristotélica. Devemos explorar outras culturas além do Ocidente para tentar encontrar diferentes exemplos de filosofia inclusiva, religiões inclusivas e assim por diante.” O Ocidente não é global no senso estrito do termo, e é por isso que deslizar ao nada não é fatal como parece ser: no fundo, desliza-se ao Oriente. O problema do “rústico”: é possível uma coexistência da tecnologia tal como a modernidade a entende e a não-tecnologia. Não é necessária a abolição da tecnologia no sentido moderno (o que só pode ser uma repetição da história e regresso ao primitivo, de nossa perspectiva).

Em conclusão, gostaria de dizer que não é correto conceber o Caos como algo pertencente ao passado. O Caos é eterno, mas eternamente coexistindo com o tempo. Então o Caos é sempre absolutamente novo, fresco e espontâneo. Poderia ser considerado como uma fonte para qualquer tipo de invenção e novidade[,] porque a eternidade sempre tem em si mesma algo mais do que era, é ou vai ser no tempo.” Poderia dizer que o Caos inesgotável é a Idéia de Platão, de igual maneira.

A era astronômica que está chegando ao fim é a era da constelação de Peixes. O peixe na praia. O peixe agonizante. Então precisamos muito de água.” Disso eu não entendo. Noch nicht!

Apenas uma atitude completamente nova ante o pensamento, nova ontologia e nova gnosiologia podem salvar o logos fora da água, na praia, no deserto que cresce e cresce (como Nietzsche previu).”

A Europa tem sua atitude positiva particular para com seus vizinhos do sul e do leste. Em alguns casos os benefícios econômicos, os problemas de abastecimento de energia e de defesa comum não coincidem em nada com os americanos.” “Tal e como estão as coisas atualmente, nenhum país (exceto os Estados Unidos) pode darse ao luxo de defender sua soberania real contando apenas com seus próprios recursos internos. Nenhum deles poderia ser considerado como um pólo autônomo capaz de contrabalançar o poder atlantista.”

A EUROPA NÃO QUER, NÃO TEM FORÇA PARA ISSO: “Imaginamos esta Grande Europa como um poder geopolítico soberano, com sua própria identidade cultural, com suas próprias opções políticas e sociais (sobre a base dos princípios da tradição democrática européia), com seu próprio sistema de defesa (incluídas armas nucleares), com seu próprio aceso a recursos estratégicos e minerais (tomando suas

próprias decisões independentes sobre a paz ou guerra com outros países ou civilizações), todo o anterior em função de uma vontade européia comum e um procedimento democrático para a tomada de decisões.” Além disso, mesmo que tivesse a intenção, seu racismo e xenofobia impediriam a concretização desse projeto. A islamofobia, o envelhecimento, o problema da força de trabalho composta por imigrantes. Fazem parte do curto-circuito de decadência dos americanos, são a encarnação mesma do logos não-caótico, e se tornarão periferia ou mero “pólo concorrente” no mundo, mas não como Grande Europa, apenas como co-partícipes atlânticos, como Dugin já muito bem expôs. Trocando em miúdos, a “tradição democrática européia” é uma grande farsa. E eis porque a discordância mais decisiva entre mim e Dugin permanece sendo: o fascismo não é aliado; não só porque é somente uma transmutação esporádica do Capital, como porque a Alemanha, se tivesse direto acesso a armas nucleares, seria potencialmente inimiga da humanidade outra vez. Nisso, é bom que os EUA sejam seu freio armamentista.

HEGEL’S RACISM FOR RADICALS – Rei Terada

As work in black studies has demonstrated, the major works of Kant and Hegel set the current terms of race. They do so not only by playing race against a falsely transparent humanity, but by constructing what counts as real. One effect among many is that the real becomes aligned with the non-racial. In Hegel, historical relation functions as a medium of reality that entails that properly historical societies appear as ‘non-racial’ in their self-understanding, while non-historical societies, located in the medium of reality but without opening themselves to it, now appear as ‘racial’ in their self-understanding. A crucial characteristic that people now have, in this view, one that is symptomatic of their relation to historical reality, is their supposed practice of raciality and/or their incapacity to desire to be non-racial. Assigning non-raciality to historicity reassigns racial characteristics elsewhere – in fact, exactly where they are in systems of scientific racism, and to the same degrees. It also continues to be the case that blackness is placed inside and outside ethnic categories, as a kind of exemplary pure raciality that is more and less than Africanness. As we will see, Hegel attributes racialisation primarily to racialised people themselves. This line of thought terminates in the political priority of the non-racial.

These implications bear upon the radical, negative, non-teleological, ‘left’ Hegel specifically, and are for that reason especially pertinent as a matter for radical self-examination. The problem with the critical consensus that Hegel’s dialectical subtlety triggers ‘right’ and ‘left’ interpretations is that left Hegelians often assume that anti-Hegelians are objecting to the rightist Hegel and that their own task is therefore to explain the resources that Hegel still offers to the left. This leaves no room for left criticism of left Hegelianism, and more to the point, threatens to close the logical space for racism in radical thought. At the most, as modelled by postracialism, radical thought finds left racism in other leftists making mistakes of conceptual exclusion. My goal here isn’t to rehearse right/left arguments, and so I start with the following understandings:

(1) Hegel is radically historical rather than dogmatic. He is opposed to nature and essence, even as he preserves the extent to which communities may require some ideas of nature and essence. Further, his vision of history is neither progressive nor simply teleological, because

(2) Hegelian subjectivity and historicity centre self-division, aporia, disarticulation and negativity, and are radically non-identitarian; [BONDE DA TELEOLOGIA SEM FREIO]

(3) Hegel promotes radical openness to history as a structural necessity of relation; relation and speculation should be understood as the media of openness, and themselves incomplete and open;

(4) the speculative proposition is the container of relation in flux, and the model for all Hegelian propositions;

(5) relation in Hegel is grounded in non-relation, the Absolute of the system, and this Absolute is absolutely the opposite of the ‘given’. [NADA ESTÁ DADO – HISTÓRIA É NIILISMO]

It is in these philosophical choices that I find Hegel’s specific contribution to racial capitalism. They matter particularly much because they continue to characterise the preferences of left political theory. Despite their inadequacies, I cannot help preserving the ambiguity of the terms ‘progressive’, ‘left’ and ‘radical’ for the time being, not only because it is as difficult to say whether Hegel was radical or liberal as it is to say whether he was right or left, but because the structure of (post)racial thinking consolidated in Enlightenment philosophy affects the range of ‘progressive’ views from liberal to radical. I am concerned to make the point that radicals cannot distinguish themselves from liberals in this regard. The racism of radical circles is not a matter of inconsistency, but of the values affirmed above, which are often shared by positions that agree on little else.”

When instead we grasp that ‘racial thinking’ is not only used to subordinate others in open racism, but also projected, in a way that is itself racist, in order to cast them as less political, we may see more clearly that the set of radical Hegelian values can’t be relied on to ensure its own enlightenment. Efforts to devote radical politics to anti-racism in general are likely to be recuperated into the idea that this will make anti-racism more properly political in comparison to the practice of other groups who are still stuck in racial thinking and its errors of exclusion. Since such a radical stance is perfectly consistent with anti-blackness, a specific address to anti-blackness needs to become a radical platform in its own right. [O MOVIMENTO ANTI-RACISTA PRECISA EXISTIR, INEXORAVELMENTE, LIGADO AO MARXISMO OU ANTI-CAPITALISMO, PORÉM AUTÔNOMO, POR SI SÓ, POIS NÃO SE RESOLVE SÓ ECONOMICAMENTE, TEM UMA DINÂMICA PRÓPRIA.]

The frantic anti-blackness of Hegel’s depiction of sub-Saharan Africa in Lectures on the Philosophy of World History is well-known. Building on that knowledge, we might explore Hegel’s curious use of postracial ideals of relation there and in the less-discussed Philosophy of Religion. If Africa is ‘savage’, after all, it is because ‘Africa proper’ is ‘self-enclosed’.” RESUMINDO: HEGEL NÃO ERA SÓ RACISTA, COMO XENÓFOBO. SEU RACISMO E SUA XENOFOBIA SÃO PERFEITAMENTE COMPLEMENTARES PARA JUSTIFICAR SEU PONTO DE VISTA QUANDO É NECESSÁRIO “DESLIGAR A CHAVE RACISTA” OU “DESLIGAR A CHAVE XENOFÓBICA”, ALTERNATIVAMENTE. UM ETNOCENTRISMO BRANCO-EUROPEU DE DUAS BASES.

If Hegel’s geographical materialism predicts cultural backwardness for Africa, his theory of historical realisation, and particularly its emphasis on openness and negativity, predicts his geographical materialism. In order for Hegel’s account of Africa to be what it is, it has to be able to indict African societies for being racial. That is, ‘racial’ practices are already a benchmark of the non-political. The key element of African societies’ inferiority is their self-enclosure and ‘government … patriarchal in character’, by which Hegel means their reliance on kinship structures, or what he assumes are kinship structures. Self-enclosure and kinship-centredness collapse into one: Hegel’s causal logic here is that African societies, having no access to the foreign influences that would expand their scope, fall back into themselves and reproduce the prehistoric family unit. Insofar as kinship structures are blood ties (Hegel does not explore the possibility of a difference between the two), Hegel’s African societies are cast as racial in the way that later political science would criticise them for being ‘tribal’. The series abstract non-racial open and familialracialclosed renews the model of race that it finds in travel literature, not despite but through its greater abstraction.”

Hegel mentions, for example, that ‘the original organisation that created social distinctions’ in India ‘immediately became set in stone as natural determinations (the castes).’ In Hegel’s account of India, ‘distinctions imposed by nature’ trap consciousness of social relations at the first available moment, the moment that locates value in natural origin. Such periods of entrapment, he explains, may occur whenever ‘peoples may have had a long life without a state before they finally reach their destination.’

MENOS QUE HUMANOS, OU NA REALIDADE MENOS QUE ANIMAIS (POIS OS HINDUS, ACIMA NA ESCALA, JÁ SERIAM OS SUB-HUMANOS): “In Hegel’s account of Africa, by contrast, no impulse ever arises to make what is happening into a conscious social system, so that ‘even the family ethos is lacking in strength.’ What Hegel imagines to precede incipient social organisation is a reproductive primal horde that, if it were to be systematised, would generate a natural order, as in the example of Hegel’s imagination of caste; but Hegel’s sub-Saharan Africa does not even get that far. These imaginations function as justifications for colonisation. Yet, Hegel’s disapproval of ‘natural’ orders is taken to be something he gets right and as evidence for the extent to which he is not racist. As Joseph McCarney writes, defending Hegel from Robert Bernasconi’s explanations of his racism, ‘history is precisely, in one aspect at least, the escape of spirit from nature, its overcoming of all natural determinants such as common descent or blood relationship.’

Hegel’s posthumanist and humanist ideas of relation are shaped by his radical negativity. Diverging political uses of Hegel are made possible by this speculative destabilisation of identity. At the same time, negativity generates the historical subject and, along with it, the nonhistorical actor, as nonraciality advances by saddling nonhistorical societies with racial practices whose ‘depth’ appears as the ambiguity of blackness. Negativity is especially able to legitimate the historical subject because the historical subject is shattered in it, displaying the objectivity of historical process. Not primarily a recognition of an other, it is more fundamentally a capacity to be dismembered, and therefore formed, by the Absolute. This capacity, it turns out, cannot be taken for granted. The negativity of the historical life that ensues affords a position from which to dismiss nonhistorical life.”

A radically anti-identitarian movement of subjective undoing often walks in the tracks of subject-building, as Gayatri Spivak pointed out in her criticism of Deleuze in 1988.” Cosmopolitismos anti-historicistas que estão apenas criando neo-historicismos.

it’s problematic that Hegel substitutes pulp fiction images of Africa for something that he states he cannot comprehend (‘because it is so totally different from our own culture, and so remote and alien in relation to our own mode of consciousness’). It can seem obviously better for Hegel to stay in non-relation, and in his famous formulations Hegel calls precisely for staying with the negative, which renews itself at every moment. Yet, Hegel also makes the ‘openness’ of the negative into the measure of authentic development and then uses it to generate racist images of Africans who ‘lack’ it.”

This reasoning is more than a problem in Hegel and more than a matter of Eurocentrism, or of stereotypes. It’s a specifically postracial Enlightenment technology that imputes racism elsewhere to demand colonial access (which figures as non-racial because it demands opening) to, and disposition over, the racial human. For radical philosophy, [entendo o termo como aqui como ‘marxismo ortodoxo’, me corrijam se eu estiver errado] racism is a priori elsewhere. That’s why the defence of racial hierarchisation by ‘mention’ – the criteria are not the radical writer’s criteria – redoubles the contradiction of attributing raciality by postracial praise of the non-racial. Postracial reasoning as such creates racial elsewheres through complaints about over-valuation of kinship, attachment, and so forth on the part of the others of Europe: their lack of openness, their lack of access to and/or disinterest in relation, their failure to be properly disturbed by non-relation.”

As Donna Jones suggests, this imputed imperviousness to disarticulation (historical subjectivity) entails that ‘black people are not thought to die.’ [a crítica VINDA DA ESQUERDA de que ‘os negros não se des-essencializam como haveria de ser’] Much as they can only merit the full force of slavery by proving to be slaveholders, what Hegel believes is African indifference to foreign stimulation allows them to be the objects of a peculiarly postracial racism. In this sense, I’m not sure that blacks are being correlated to the Real of the system, in which case their non-given status would have the history-authenticating function of non-relation itself. Postracially, they are lined up before the Real along with others, and singularly fail to notice it. Thus, life in sub-Saharan Africa ‘consists of a series of contingent happenings and surprises’ – by which fact itself, however, Africans in particular cannot, according to Hegel, be surprised.” Uma espécie de PILATISMO (Pôncio Pilatos) aplicado à África.

“‘The Jewish religion’, as recent anti-political theology tracks very well, lacks the ‘latitudinarian tolerance’ of international modernity. As the historian of time [e tem como ser historiadora de outra coisa?] Vanessa Ogle points out, 19th-century coordinators of time schemes, building global capital, quickly came to perceive ‘peoples who do not partake’ in the global effort as ‘guilty of the crime of opposing it.’ Similarly, Christianity not only moralises, but invents particularity by offering itself as freedom from it. [ECUMENISMO HIPÓCRITA] Hegel stresses that he judges Judaism only by its lack of commitment to access: ‘it is only a limitation in this respect and not a limitation of the religion qua religion’necessarily, or it would otherwise be Christianity! In this way Judaic ‘particularity’, Muslim ‘excarnation’ and the provinciality of certain forms of Christianity are born only together with their vaunted open alternative, [pensar na crítica hegeliana das infinitas seitas norte-americanas] the historical real of global relation. The Christian structure of Hegel’s anti-identitariansim is as well-known as his hostility to certain actually existing forms of Christianity for still not being open enough.”

Hegel aligns them [primitives, non-political societies] with nonraciality and raciality, the political [societies] of course being nonracial. Political consciousness may now order more and less mature fractions of citizenry against the background of groups not sufficiently political, as were the racial societies of the past.”

For its part, the individual degrades into barbarism, Hegel writes, if relation does not occur. Complementarily, every time Hegel specifies that collectivity is not enough, is not yet political, he is acknowledging that societies can have every other kind of coordination and interest and still not be relational, historical or political. If, in view of the tendency for ‘authentic’ politicality to project the raciality of the insufficiently political, the political loses some lustre, that loss can enhance a radical view of the capacity of other ways of inhabiting well-being and justice.”

In a memorable footnote, Hegel compares the entity in relation to an element in chemical reaction: ‘the acid is nothing else than the specific mode of its relation to the base – that is the nature of the acid itself.’

The metaphor of acid is a fine articulation of how entities within social relation are not yet congealed into objects, a view that wholly avoids reification. A lot of radical philosophy is linked to this sentence; everyone will like it – I like it. And indeed maintaining a relational view of the world is for Hegel what it is for contemporary theory, a safeguard against reification. In the name of this safety, however, the relation becomes utter, and the entities in relation ‘nothing else than’ the relation. ‘Nothing else’ lays all attachments down at the door at considerable expense, so no complaint of easiness-on-the-self can be made. Inside the door, then, is the political, and it sounds well-earned. But an outside, and exterior interiors, have now come into being. There, myriad phenomena, which look from within relation like attachments and identities, but may be anything from agricultural arts to diverting habits, now become evidence of nonpoliticality if they are really important to a community, i.e. if they happen to be preferred to the ‘discipline of the world’ in any friction between the two. This stigma of nonpoliticality, which can now be aimed, is, as a weapon, a kind of compensation for the historical subject’s sacrificial self-nullification. [EU ABANDONEI MINHA IDENTIDADE MODERNA, VOCÊ DEVE ANULAR A SUA TAMBÉM!] It is a place where the aggression that cannot be turned against history goes. A ‘progressive’ race discourse begins to appear here, backed up by the clarity and force of belief in the real movement of history. It could never be biologically racist; it could only speak of a nonracial alliance to which anyone could belong, if they only cared to or knew how.”

Unlike Rousseau, he doesn’t consider how his ideas would be evaluated within African and Asian social systems, even as he observes their existence. The situation would not necessarily be improved if he did, and, notably, epistemic critique per se also cannot improve it even as, at the same time, I have not reached the end of it. The end of it is the fact that Hegel’s pejorative descriptions of imaginary societies indicate fictive alternative societies that Hegel also imagines in order to reject them.”

O PROFESSOR RACISTA QUE PREFERIRIA DESTRUIR SEUS PAPÉIS ANTES DE MORRER SE PUDESSE: “It is still merely studying what Hegel thinks to consider them, at the hallucinatory limit of his language. [HISTÓRIA DA ÁFRICA HEGELIANA (FICCÇÃO)] By gathering ideas that recur across his descriptions of various regions (reflecting the fact that the descriptions never describe actual regions), it is possible to piece together, as fantastic literature, what the societies of World History and Philosophy of Religion would look like if they were not being characterised as racial for not being statist. The blank pages of history aren’t completely blank: this other fictional society is in Hegel’s lectures ephemerally, a 2nd apparition reflected in their medium, [livros baseados em discursos que ‘não deveriam ter sido publicados’, provavelmente H. diria das Lectures…] and so it is also something to consider.”

Hegel has read that in India the creation of the world involves ‘going forth’, meaning that agency lies in beings that go forth rather than in an original force that expresses them. The gods themselves go forth, which implies that they are finite and that the origin is just any place at all.”

The story is problematic logically and politically, even as fiction; it is the negated, not entirely negated other of Hegel’s philosophy of history in particular, which is to say that it is primitivist – the inside-out of what he organises, in ambiguous implication. Hegel’s incidental images of other societies are able to do no more than raise the question of what he stands against. As such, whether such societies exist is not the main question to ask, but why, regardless of whether they exist or not, Hegel is so concerned to overcome these features of possible societies, and, moreover, what it means that the principles of radical history that he develops espouse their subordination as desirable, and their elimination as possible, practices. For this set of principles is racialised through and through in terms that black studies scholarship of the last 30 years makes amply available.

It is not simply that the values placed on characteristics of development and ‘tradition’, consciousness and ‘immediacy’, and so on down the line could be different, but that terms like tradition and immediacy come to be in the process of consolidating the historical in the first place, and do not function non-circularly at all. That’s why translation into any terminology other than Hegel’s own – ‘prosaic activity’ instead of ‘immediacy’, for example – illuminates the circularity of his assumptions even though there is no non-racist language to use instead.”

Hegel breathlessly fetishises the radicality of this gesture in and of itself, focused on its power rather than its function. The same ecstasis greets the torn and disarticulated historical subject; its dismemberment is told and retold as a graphic dazzle. The ‘severe’ edge of the lines that caricature it mimic the ‘discipline of the world’. No one is a stranger to the elation of the gesture, and it can be a fine thing – for instance, to put it to work toward the destruction of all, under the name of racial capitalism, that made it possible to eliminate ‘nonhistorical’ life. But the gesture, and more than gesture, the strategies that align with it cannot but apotheosise historical mentality at the expense of something that then is not properly political. In its recurrent pattern, that something has been: the supposed racialism of ‘primitive’ societies, then racialised people’s interest in racial identity, then critical conviction about the scope of a critique of antiblackness. Because the social forms that appear as essential, provincial, and so on – the contemporary ones as much as the antique – appear so within a set of values controlled by the global open, they are something else apart from that control. What they then are isn’t necessarily better, but does have to be otherwise than what they seem to be in the grammar of their totalised antagonist. Like Hegel’s unwittingly possible snapshots of polytheism and of Africans undisturbed by non-relation, the foils of political authenticity necessarily bear more possibilities, for better and worse, than can be seen from a postracial horizon.

Hegel’s philosophy of history has appeal because it makes contingency and negativity into badges of honour, but it may look different if it is thought through that, in doing so, he makes them powerfully normative of political reality for all. Dismemberment’s power to legitimate the historical subject is visible in the frequency with which contemporary Hegelians point to it, as though to say that no one would invent a subjectivity based on dismemberment. Rebecca Comay, for example, and Lacanian Marxism generally, endorses historical dislocation as Hegel’s way of being ‘dead right’, and pathologises demurral from its affirmation. (…) Because anyone can affirm historical dislocation, everyone who is anyone must.”

The complex that Hegel refines is not the only way to organise race in the early 19th century or now. It is the progressive’s way of organising it and a key to radical racism thereafter, for, unlike reaction, radical political thought needs its racism to be postracial. [mascarado, pasteurizado]”

NOTAS

On Kant, see especially R.A. Judy, (Dis)forming the American Canon: African-Arabic Slave Narratives and the Vernacular (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993); Fred Moten, ‘Black Kant (Pronounced Chant): A Theorizing Lecture’, Kelly Writers House, 27 February 2007 (http://writing.upenn.edu/pennsound/x/Moten.php#2-27-07) and ‘Knowledge of Freedom’, CR: The New Centennial Review 4 (2004); and Denise Ferreira da Silva, ‘1 (life) ÷ 0 (blackness) = ∞ − ∞ or ∞ / ∞: On Matter Beyond the Equation of Value’, E-flux 79 (2017) (unpaginated). Emmanuel Chukwudi Eze’s ‘The Color of Reason: The Idea of <Race> in Kant’s Anthropology’, in Postcolonial Philosophy: A Critical Reader (Oxford: Blackwell, 1997), J. Kameron Carter’s discussion in Race: A Theological Account (Oxford: Oxford University Press, 2008), and Robert Bernasconi’s ‘Kant as an Unfamiliar Source of Racism’, in Philosophers on Race: Critical Essays, ed. Julia K. Ward and Tommy L. Lott (Oxford: Blackwell, 2007), 145–66, show how Kant’s construction of the human and of teleology position black people as unable to survive. Eze and Bernasconi, however, preserve the value of ‘moving beyond’ race, Eze explicitly so. See Eze, Achieving Our Humanity: The Idea of the Postracial Future (New York: Routledge, 2001).

On Hegel, see especially Denise Ferreira da Silva, Toward a Global Idea of Race (Minneapolis: University of Minnesota Press, 2007). Hegel’s racialisation is dialectical whereas Kant’s is transcendental, and inclusive whereas Kant’s emphasises limits. [nenhuma diferença, na boa] Kant’s contribution ends in the ‘void’, absolutely alien space reserved to the noumenal; Hegel begins by confronting Absolute non-relation to set in motion a concrete, historically produced postracial reality, behind which (self-)racialised peoples lag. The Kant/Hegel opposition is a lose/lose situation. Hegel’s role in the double bind can be seen in dialectics’ treatment of its objects of analysis as racial or not, although my focus in these pages is on the Hegelian-postracial strategy of inclusion, made possible by mandatory relation” Ok, um é racista nominal, o outro racista prático!

G.W.F. Hegel, Lectures on the Philosophy of World History, vol. 1, ed. and trans. Robert F. Brown and Peter C. Hodgson (Oxford: Oxford University Press, 2011), 196. As usual, the question of which translation to use of Hegel’s necessarily contested lectures, assembled from sets of student notes, is not really solvable. John Sibree’s 1858 translation of the Introduction and Lectures together is still the only place to find English versions of certain material. See Hegel, The Philosophy of History, trans. John Sibree [Kitchener, Ontario: Batoche Books, 2001]. I use Brown and Hodgson, the most recent translation, where possible and fall back on Sibree as necessary. Hugh Nisbet’s less apologetic edition of the Introduction is sometimes indispensable. See Hegel, Lectures on the Philosophy of World History. Introduction: Reason in History, trans. H.B. Nisbet (Cambridge: Cambridge University Press, 1975). As Nicholas Walker observes, Brown and Hodgson’s claims to modernisation are problematic and ‘in the last analysis most of the old and many of the new problems associated with this controversial work remain largely impervious to such textual and editorial changes and revisions’ (Nicholas Walker, review of Brown and Hodgson, Notre Dame Philosophical Reviews, 14 December 2011, https://ndpr.nd.edu/news/lectures-on-the-philosophy-of-world-history-vol-i-manuscripts-of-the-introduction-and-the-lectures-of-1822-3/). I find Brown and Hodgson’s translation anodyne, [não-degradantes em relação à nomenclatura hegeliana clássica] but use it as a control.”

A political reply to the construction of caste that Hegel uses, and that is still in use, is Congress parliamentarian Shashi Tharoor’s argument that the British regime codified caste out of scattered heterogeneous practices and solidified the term ‘Hindu’. See Shashi Tharoor, An Era of Darkness: The British Empire in India (New Delhi: Aleph Book Company, 2016).”

a nationalisation of God is not exclusive to Judaism, but paradigmatic in it; when Christians act this way they are unnecessarily restricting Christianity.”