[ARQUIVO] BRINCADEIRA DO OBITUÁRIO

Baseada nos perfis dos militares brasileiros publicados pela Revista VEJA, mortos no terremoto haitiano do começo de 2010:

Rafael de Araújo Aguiar, de 21 anos, soldado, Brasília-DF. Mais jovem de toda a expedição de paz, Rafael também era o único que provinha da capital do país e de uma família de classe média alta, que em tese não deseja para os filhos uma carreira militar que principie na base (postos como o de soldado em detrimento de exames que podem qualificar alguém já para as patentes de sargento ou tenente). Seus pais são civis. Seu falecido avô, pai de sua mãe, havia se reformado pela Marinha. Amigos não sabem como ele foi parar na América Central ao certo, já que Rafael sempre havia manifestado repúdio pelas rígidas hierarquia e disciplina do Colégio Militar, onde havia estudado por 4 anos e meio, além de manifestar especial interesse por autores da filosofia e escritores clássicos e ser conhecido na cena punk e metaleira local como assíduo freqüentador de concertos de bandas com letras anti-militaristas e por ostentar uma invejável cabeleira. Por fim, era muito míope e havia sido dispensado do serviço militar obrigatório. Algo no ano de 2009 o fez mudar de idéia: provavelmente necessitava com urgência de renda própria para realizar seus planos. Não constam informações de que estivesse comprometido; havia trancado o curso de sociologia no quarto semestre e rumado sem mais explicações ao Haiti, ao ser aprovado em novo teste físico no quartel. Os mais próximos alegam que tal decisão foi o ápice de uma tendência crescente de se afastar das outras pessoas e de emudecer cada vez mais sua personalidade comunicativa.

[ARQUIVO] METALLICA!NDO ou A ODISSÉIA MAGNÉTICA

UMA CRÔNICA RETARDADA [ANA-CRÔNICA], MAS QUEM SABE ISENTA DE FALHAS, NO ESPAÇO-TEMPO: MEU SONHO REALIZADO EM SÃO PAULO

Rafael de Araújo Aguiar, de Brasília, madrugadas de 18 e 19 de janeiro de 2011, praticamente um ano depois do ocorrido:

A) ANTECEDENTES

Não escondo de ninguém que há algum tempo minha banda favorita é o Metallica (ironicamente, roubou o cetro, em minha preferência pessoal, do grupo que muitos consideram seu principal concorrente, o Megadeth). E se torna desnecessário expressar o quanto é significativo e elevado quando se tem a oportunidade de presenciar uma exibição dos seus artistas prediletos. Muitas vezes isso acontece quando eles excursionam pela América do Sul, pelo Brasil, e passam, conseqüentemente, pela sua cidade. Mas com o Metallica seria diferente: exigentes, fariam seus maiores fãs atravessarem o Brasil de Norte a Sul para que pudessem ser vistos. Essa frase não é uma simples alegoria: com shows agendados apenas para o Rio Grande do Sul e São Paulo (nem respeitaram o famoso Eixo Rio-SP de atrações culturais de renome!), aqueles das partes centrais e setentrionais do país que quisessem prestigiar um bom e velho thrash metal ou hard rock (a depender da fase da banda) precisariam desembolsar uma boa grana e energia. Isso, confesso, só aumentava minha vontade de estar lá, para depois narrar o quanto fora difícil e recompensador viver o momento! Só não esperava que depois de tudo não sentiria a necessidade de compartilhar os eventos, pelo menos não de forma imediata. Deixei o tempo correr e, 12 meses depois, o que era música em minha cabeça finalmente merece ser convertido em palavras – estou sereno o bastante para isso! Porque com as palavras, sabe-se, é preciso lidar com cuidado.

Soube da vinda do Metallica aproximadamente em setembro ou outubro de 2009, e comecei a mexer meus pauzinhos. Na realidade havia uma grande expectativa pela inclusão de uma data para Brasília na turnê brasileira do Death Magnetic (nome do último álbum da banda). Após a decepção gerada pelo anúncio oficial de apenas dois shows em território nacional, ambos longe daqui, soube que teria de pedir ajuda a meus pais por não estar trabalhando e não ter como obter o dinheiro para essa aventura. E o pior de tudo não seria o deslocamento, pois quando metaleiros se reúnem para fretar ônibus o custo baixa bastante. Mas as empresas que organizam essa variedade de mega-espetáculos são realmente exploradoras num sentido, eu diria, de capitalismo arcaico, com exceção da alta burocracia e dos lucros envolvidos. Porque tratar o consumidor como gado não é próprio, ou não deveria ser próprio, de um serviço de luxo contemporâneo. De luxo, sim, pois é uma ocasião especial, e nem todos têm as condições de pagar para usufruí-la. É claro que só vai quem quer, e não se pode reclamar de uma viagem até um estádio apinhado numa megalópole onde seria possível conhecer, nem que um pouquinho de longe e mais pelo telão, os lendários três sobreviventes da formação original (ou quase isso) do maior grupo de metal da História: James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich. Os preços não seriam camaradas sequer para o padrão classe média alta, com ingressos premium passando dos 500 reais, sem o valor da meia-entrada. Muito já se discutiu sobre a legalidade da questão das meias-entradas em atrações de música ou semelhantes, e juro que não entrarei nesse mérito, pois isso seria repetir literatura. Só o que preciso informar é que desisti, a princípio, sabendo que não havia mais a meia-entrada para pista premium ou mesmo para a pista comum, e que talvez não valesse a pena vir de Brasília para acompanhar o show das cadeiras do estádio. Agora não me recordo se elas também estavam preenchidas em seus valores de meia-entrada para estudantes. É bem possível. Foi duro ter de abdicar, depois de todas as expectativas geradas, mas ir ao Metallica parecia ter sido mesmo um devaneio temporário, sorte demais para ser realidade.

Semanas depois, entretanto, foi confirmado um segundo show paulista, um dia depois do primeiro, em atendimento à demanda gigantesca inesperada. (Fala a verdade, inesperada? Eu não duvidaria nunca do apelo exagerado de fãs e até de não-fãs por entradas para a volta do Metallica ao Brasil, depois de 11 anos – com direito a um “bolo” no meio do caminho, devido a uma desistência e cancelamento de apresentação em 2003, já depois de iniciada a venda de ingressos!) E a informação era de que as coisas seriam mais calmas dessa vez, pois dificilmente o estádio do Morumbi receberia lotação máxima uma segunda vez. Esperei ansiosamente pela abertura das vendas no portal da internet e novamente foi impossível a compra de uma meia-entrada para o setor mais badalado (entradas premium com desconto esgotadas na pré-venda!). Me contentei com a meia da pista comum. Não haveria excursões rodoviárias rumo a São Paulo, porque o sujeito que mais cuidava dessa parte se encarregou da fretagem de veículo apenas para o primeiro dia, antes que se soubesse de uma segunda data, e não manifestou interesse nem houve muita movimentação relativa ao segundo show. Ficou decidido, portanto, que eu iria de avião, porém como não pertenço a nenhum grupo sólido ou fechado, mesmo no meio do metal brasiliense, não combinei com ninguém em específico, e, quando pude contatar as pessoas mais próximas e que poderiam estar no mesmo hotel que eu quando chegasse a São Paulo – os músicos da banda cover de Metallica de Brasília, Fierce Fire, soube que elas pegariam vôos que seriam uma opção questionável para mim, restando-me apenas o subterfúgio de encontrá-los já em São Paulo; ou seja, ir e vir por minha própria conta e risco (isso se verificaria uma boa idéia, pois fiz uma nova amizade já no vôo de ida, como veremos). Os integrantes da Fierce Fire eram três: Arthur Silva, vocais e guitarra-base; Hara Dessano, o guitarrista principal; e Renato Mendes, baterista, aquele com quem tinha a amizade mais antiga, desde os tempos em que iniciei meu inacabado curso de jornalismo. A banda se encontrava sem baixista no momento.

A compra foi por volta do dia 20 de dezembro e eu passei o mês de janeiro inteiro dormindo mal, pensando em todos os preparativos para o show, além, claro, de tentar projetar em minha mente cada emoção que invadiria meu corpo durante aquelas 2, somente 2, porém mágicas, horas de som ininterrupto. O último dia do primeiro mês do ano é que abrigaria esse marco. No meio do caminho, dia 16 de janeiro, ainda encarei um aperitivo, Deicide em Brasília! Confesso que uma das minhas maiores preocupações era com relação ao consumo de álcool: deveria aproveitar bastante a viagem e não me poupar de nenhum prazer, mas que isso não significasse perder a linha, prejudicar-me e ter muitas dores de cabeça depois, tendo em vista estar sozinho em uma cidade até então por mim desconhecida, com fama de violenta e caótica, com dinheiro e documentos importantes a resguardar. E seria lamentável se eu por algum motivo me encontrasse fora do ar, me perdesse ou não conservasse na memória algum dos minutos da experiência única que é ver a banda (“a” banda!) entrando no palco e percorrer todo o set list até a saideira (que apesar de perfeitamente previsível não seria nem um pouco monótona)! Então, tomei a precaução de conversar bastante com uma amiga por enquanto só de de internet residente em SP, a Natália “Bowie”; também cansei de analisar mapas da capital no Google Maps, e mesmo do restante do estado (uma vez que eu desembarcaria num aeroporto periférico, o de Guarulhos, em Cumbica, praticamente fora da cidade, e precisaria bolar uma forma de me deslocar para não pagar uma onerosa corrida de táxi, o que incluía aprender de cara a usar o intrincado sistema de metrô sincronizado com bilhetes para ônibus naquela capital). Para um pacato candango que mal sabe direito o que é um metrô, quem dirá um metrô superlotado, isso exigiria um bocado de atenção! Havia também o lado de “curtir as músicas”, na verdade estudá-las, memorizar as que eu conhecia menos, enfim, deliciar-me com a banda para chegar com as melodias na ponta dos cascos, porque a goela não seria perdoada na hora fatal! Obviamente, a etapa de convencimento dos pais já havia sido superada, de forma que entenderam o quanto isso seria relevante para mim e que, ao contrário de muitos filhos da minha idade ou até mais novos, eu nunca tinha feito uma viagem-solo, e seria ótimo para sair um pouco de debaixo desse mesmo teto e da rotina e previsibilidade. É, depois de tantos anos eu merecia um “presentinho de aniversário fora de época”… Eu voaria pela Webjet, chegando um dia antes, o suficiente para conhecer algo em São Paulo além da sede do evento, o Morumbi, e voltaria na manhã consecutiva ao show. Me hospedaria num famoso hotel para universitários e/ou aventureiros econômicos num lugar bem acessível, o Formule One, onde racharia um quarto com mais dois do Fierce Fire. A última coisa que faltava dizer nesse item “A” é que a sede do evento, o Estádio Roberto Pompeu de Toledo, era também o do meu clube de coração¹ e – se não era para ver um jogo da minha equipe – meu grande anseio era que conhecer o “templo” fosse acompanhado de uma emoção e sobressalto pelo menos comparáveis aos de uma final de Libertadores: bingo!

¹ [Nota 2025] À época.

B) EM TERRAS “ESTRANGEIRAS” [Duplo sentido: O METAL É SEMPRE UMA NO MAN’S LAND!]

A princípio pensei que a velha máxima, de que tudo de errado acontece consigo no dia em que o azar menos poderia atacar, estava se concretizando: meu irmão, a pessoa que combinara de me levar ao aeroporto, não aparecia de jeito nenhum em casa. Minha mala tão aprumada e eu, devidamente trajado, estávamos à espera de notícias do motorista da tarde. Não quis usar o telefone até que o relógio marcasse realmente uma hora que me parecesse desesperadora; e foi o que fiz. Diogo atendeu e disse que inesperadamente um amigo seu começou a prendê-lao em determinado local com papos intermináveis e solicitações fúteis, típicas de quem bebeu umas a mais e parece retirar prazer de empatar a vida de alguém que está atrasado para um compromisso sério!! Meu irmão me garantiu que iria livrar-se desse estorvo e dispensar o amigo bebum nesse exato momento em que falava, deixando-o em casa ou algum ponto próximo a ela (segundo o que entendi, esse amigo queria uma carona para um lugar mais distante que, se fosse realmente acontecer, atrasaria completamente meu check-in!). Para o bem desse relato, seja como foi, Diogo cumpriu com o acordado e me deixou não muito cedo no Aeroporto Internacional de Brasília, mas também não muito tarde. Lembro que até trotei, engoli em seco, bufei e tremi, na fila do bilhete eletrônico. Isso é fácil de explicar: nunca havia deixado Brasília sem outras pessoas ao meu lado, e se eu perdesse alguma coisa agora, se deixasse qualquer coisa, como a identidade ou os ingressos, cair do meu bolso, me sentiria frustrado até a morte! Reconheço que eu e a paranóia, exceto por alguns rompimentos esporádicos, convivemos muito bem um ao lado da outra.

Dentro do avião, foi fácil perceber o quanto o show do Metallica mexia com a vida de pessoas do país inteiro: vários ali estavam indo para fazer o mesmo que eu, e logo entabulamos conversa. Em especial, eu e um trio de pessoas aparentemente da minha idade ou um pouco mais novas. Eram da Ceilândia. A única pessoa com quem falei depois desse dia e de cujo nome me lembro é o Philippe “D.R.I.”, como gostava de ser chamado (de Dirty Rotten Imbeciles), que comentou que ainda pretendia voltar a SP para ver o NOFX, dali a um ou dois meses. Como seu amigo estava com uma camisa do Palmeiras, e eu com a do meu clube, o papo logo recaiu para esse lado, e a garota que estava com eles não participou muito. O Philippe era flamenguista. Ambos iriam nas duas datas do Metallica e se hospedariam com um tio. Separamo-nos meia hora depois do desembarque, mas trocamos telefones. Soube que não iria precisar levar a efeito meu complicado cálculo de horários e estações a fim de chegar ao hotel com menos de 10 reais gastos (por causa do sistema de bilhete único!), mas que seria muito mais conveniente pagar 30 reais para pegar um ônibus que me deixaria virtualmente na frente do referido hotel, que passava de 2 em 2h, e dali a 40 minutos reapareceria na frente de Guarulhos. O engraçado é que soube depois que se eu rachasse o táxi com alguém poderia ter gastado ainda menos, o que não correspondia à absurda estimativa da Natália de uma corrida de 100 reais entre Cumbica e o Centro! Telefonei para ela e combinei de ligar outra vez quando me assentasse no hotel: Nanee Bowie seria minha guia turística por uma noite nos bares da Rua Augusta e nos points de relevo da Paulista, me apresentando ao maior número de loucuras possíveis. Ou iríamos desfrutar bem pouco, até o horário dos últimos ônibus do dia, ou viraríamos a noite inteira, e a segunda opção foi afinal de contas a eleita. Preferia perigar me sentir cansado no maior show da minha vida e ter esse convívio com ela e com a vida noturna da cidade esticados do que simplesmente achar depois que perdi grandes oportunidades e que não voltaria a São Paulo tão cedo. Eu sabia que mesmo que não me restasse mais energia eu a tiraria de algum lugar quando as músicas do Metallica começassem, assim mesmo, sem nenhum argumento científico ao qual me remeter, apenas com uma convicção sobrenatural no êxito do meu plano ébrio mirabolante, convicção que, como veremos, não era lá muito infundada…

A primeira pessoa, as primeiras pessoas, que encontrei já no saguão do Formule One foram o guitarrista do Fierce Fire e sua namorada e um amigo da banda que o Renato disse que eu conheceria, e que precisava mesmo conhecer, pois era uma peça, o Kleuber. Subi para meu quarto no segundo andar, e nenhum dos dois que dividiam as diárias comigo estava. O Arthur já tinha se deslocado para o Morumbi, pois veria o Metallica nos dois dias. O Renato logo estaria de volta, havia saído com o pai para comer ou passear em outros lugares. Arrumei as coisas no quarto, liguei para minha mãe e para a Natália, desci, fumei um pouco no pórtico do hotel e vi a gremista radicada em São Paulo que gosta de David Bowie aparecer e gentilmente servir de bengala a este cego que mal podia imaginar o que iria encontrar nas esquinas e botecos desse centro amalucado… Infelizmente não serei muito preciso nessa narrativa, mas garanto que isso não guarda a menor relação com o consumo de álcool: foi uma noite até agora jamais repetida em minha vida em que bebi cerveja por 17 horas consecutivas sem me sentir alcoolizado, embora bastante eufórico, naturalmente, a cada minuto, me sentindo mais como uma criança, por causa das conversas sobre o Metallica e as diferenças da vida urbana paulista e da (ausência de) vida urbana brasiliense. Foram muitos os bares em que abrimos conta, e eu retribuí esse grande favor da Natália de me “amparar” naquele ninho de pessoas e poluição interminável (embora eu não tenha presenciado engarrafamentos, chatices e grosserias dos transeuntes – do que eu sinceramente não esperava me esquivar, quando pensei nos costumes de uma cidade tão grande). O fato é que as pessoas podiam ser relativamente indiferentes a você, pois estavam acostumadas com todo tipo de cidadão, turista ou aberração possível, enfim, a um circo diante de suas caras todo santo dia, cosmopolitas que eram, mas uma vez solicitadas se mostravam polidas e de uma elegância que eu imaginaria ser viável apenas em Buenos Aires ou coisa do tipo. Não recordarei tantos nomes (acho que Augusta e Paulista são, em si, suficientes). Só sei que nada ali podia ser posto no mesmo patamar do sossego (eufemismo para tédio!) candango, onde o medo de ser assaltado por ser o único alvo na rua à noite é o oposto desse lugar que, às quatro da manhã, parecia a muvuca de um recreio de escola, com pessoas indo e vindo num fluxo incessante. Eu só não achei esse continuum mais assustador durante aquele dia porque não tive tempo de raciocinar que era simplesmente uma situação perpétua! Em nenhum dos 365 dias haveria calmaria naquelas ruas. Pode parecer irritante para alguns essa aparente tentativa, por minha parte, de engrandecer uma ligeira visita por um lugar tão prosaico e, para muitos, estúpido, velho, ultrapassado. Mas eu senti como se não tivessem sido 3 dias, ou 1 e meio, a se considerar que cheguei ao fim de uma tarde e me despedi no transcurso de outra manhã, mas vários deles! Após essa maratona de cervejada e os mais variados papos, com pessoas se retirando e voltando, partindo e não mais vindo ou simplesmente aparecendo tarde demais na história, ali estava um Rafael um tanto mais maravilhado com a vida e uns 80 reais mais miserável, de volta ao pórtico do hotel, não bêbado-bêbado, porque de alguma forma o ritmo lento e comedido dos goles e a espécie de ar úmido de São Paulo o impediram de sair de si. Ou talvez fosse o juízo, o intenso zelo com que me propus a atravessar essa viagem sem perrengues e com sensação de dever cumprido ao máximo. A medicina ou meu discurso não explicariam, deixa pra lá! Enquanto o taxista (da minha ida ao aeroporto, dia 1 de fevereiro, pós-show) espirrava, só para citar, reclamando das partículas de poeira, eu sentia minhas narinas desentupidas como nunca antes, como se só então eu me desse conta de que vivendo no cerrado eu estava sempre puxando menos ar do que a capacidade natural dos meus pulmões permitia. Estranho, deveras!

Natália se foi (depois de ter ficado um tanto íntima do senhor Kleuber!) – tendo chegado a cogitar comprar a entrada para o show, pois seu primo de 11 anos começava a gostar da banda por causa do Guitar Hero; mas ter de comprar outro ingresso pra ele lhe quebraria as pernas, então ela mudou de idéia, se despediu e desejou um bom show – e então todos pareceram perder o ânimo. Simplesmente todo o pessoal do hotel foi dormir (os que ainda não tinham ido, mas o Renato e outros mais comportados já se encontravam no oitavo sono) e repor as energias. Os últimos a sair foram uns caras de outros quartos que vieram de Manaus (!) para ver o Metallica, que já estavam se dirigindo ao aeroporto, não sem antes descreverem tudo de mais espetacular que viram na noite de sábado (meu show era no domingo). Tão felizes estavam que um deles parecia pouco se importar com o bico desse tamanho que a namorada amuada fazia na hora de entrar no táxi, gabando-se de que ela não sabia o que estava perdendo, se trancava no quarto do hotel e deixava de conhecer as pessoas, não suspeitava de que nós vivíamos uma coisa única, pois o mais provável é que nunca voltaríamos a nos ver de novo, mas que esse diálogo estaria registrado na história do mundo e que não poderia ser deletado. Esse “nós”, claro, era o jeito do amazonense se referir a todo e qualquer fã fervoroso do Metallica que estava vindo de praias distantes (ou mangues distantes!) para aproveitar ao máximo cada minuto, sem recusar encontros e contingências divertidas, mesmo que isso lhe custasse um namoro.

Pois bem! Depois dessa rica apreensão (que eu realmente demorei para mastigar – na hora fiquei pensando se tudo aquilo não ia entrar por um ouvido e sair pelo outro!), eu de repente me vi sozinho empunhando uma latinha na frente do Formule One, numa cidade grande que não pára, apesar de as pessoas dormirem (só mudam os rostos)! Finalmente percebi que também eu não era nenhum Highlander e precisava me recolher, por pouco tempo que fosse, me desligar daquela simbiose entre mim e todo aquele concreto – me pareceu que se dependesse exclusivamente de mim, nunca iríamos parar de circular (eu e São Paulo éramos um só)… E como o tédio até a hora do show iria grassar (principalmente porque um dos lugares que mais gostaria de conhecer, a Galeria do Rock, pelo menos foi o que me disseram, fecha aos domingos), era a hora apropriada para uma sesta. Novamente, ninguém na área ou, antes um Renato bastante abatido, quase sumindo debaixo das cobertas, com inflamação na garganta, que já não sabia se estaria no show de logo mais. Foi ao hospital tomar injeção para ver se melhorava imediatamente (sim, de fato isso ocorreu e ele não se desgraçou), e enquanto isso eu cometi a atrocidade de baixar a temperatura do ar condicionado do nosso quarto para DOZE graus, sem perceber, apagando em seguida. Fui despertado pelo Hara e pelo Kleuber quase dentro de um esquife de gelo! Duas ou três horas, no máximo, foi o que eu dormi, mas encontrei um ambiente diferente. Voltei a me sentir apenas uma pessoa que mal e mal se adaptava ao ambiente, fusão desfeita com aquele circo louco de carros e barrigas esfomeadas. Porque antes parecia que eu poderia rir e beber cervejas até o mundo acabar, e todos do hotel me cumprimentariam com um sorriso. Mas toda farra chega ao fim – claro que a principal sequer havia começado, mas voltei a me centrar na sobriedade da missão (uma farra séria!): o Metallica exigiria um dia menos hedonista, decerto, porque eu vim para testemunhar cada segundo de uma obra artística na qual eu não devia interferir, muito menos “arruinar” com algum entorpecente.

Fui com o Arthur primeiro ao Banco do Brasil e depois a um shopping qualquer da cidade, a pé mesmo, para almoçarmos. Depois todos da banda estavam reunidos num táxi que ficou bem barato. A única ressalva é que todos iriam assistir o Metallica na pista premium menos eu. Uma garoa chata resolveu aparecer antes de sairmos do carro, mas eu achei que não era tão incômoda a ponto de comprar aquelas capinhas descartáveis. Quando me vi do lado de fora do Morumbi exclamei para mim mesmo que estava no meio-termo mais perigoso daquela viagem: entre o tudo e o nada, pois se de repente sumisse meu ingresso seria um desapontamento inigualável, um “quase” bem acre de se engolir! Também imaginava, nas minhas melhores perspectivas, que encontraria uma aglomeração de cabeludos malucos do lado de fora e conversaria bastante antes de entrar, só que o Morumbi era tão gigantesco e a chuva parecia afugentar tanto os outros que eu não encontrei aglomerações e decidi passar de uma vez. Lacrimejei quando olhei para o entorno de dentro, pela primeira vez. Não quis bancar o são-paulino emotivo diante de um público numeroso, contudo, para não dar margens a piadinhas… E eu não cansei de ir e vir de um lado a outro daquela imensa pista ou tablado, lona, colocada em cima do gramado, para me locupletar, esbaforido, com a sensação de ser um jogador cobrindo várias funções na mesma partida, marcando e depois atacando, reconhecendo cada montículo de grama do campo. Ah, sim, a grama! Pude arrancar um tufo quando me aproximei do escudo do São Paulo Futebol Clube, onde terminava a lona (e, se querem que faça mais uma dessas observações rápidas entre parênteses, não levei câmera fotográfica, não registrei nada disso, mas agora vocês vêem que 1 ano não foi suficiente para avariar meu HD, que era o que realmente importava: gravar tudo na retina e depois estocar essas informações no meu precioso disco rígido, que nem milhões de cervejas seriam capazes de formatar!).¹ Eis que, justo quando admirava aquele ícone (o escudo do meu time, de aproximadamente 15 metros quadrados, rente ao solo, próximo a um dos setores de arquibancadas), centenas de vezes visto apenas pela TV, foi que encontrei por pura casualidade um fã de Metallica que foi quem me apresentou à banda, em 2001! Outrora melhor amigo, não mais meu vizinho, não deixa de ser inusitado e ao mesmo tempo justo, perfeito, que o destino nos quisesse fazer esbarrar tão longe de nossas casas. Um cumprimento entre mim e o Aloísio foi sucedido por saudações a seus amigos, todos de capas de chuva e que diziam querer “pular o show do Sepultura”, pois não vieram para isso. Aparentemente, tinha um grupo com quem curtir o show. Mas não queria estar com aquela galera, com quem pouco me identificava, que não parecia curtir o Metallica exatamente do jeito que eu curtia e ainda curto, do modo sujo e agressivo que eu escolhi para apreciá-lo, da maneira deferente e old school com que eu insisto em me referir ao grupo. É, a música preferida do Aloísio é The Outlaw Torn, algo impensável para quem sabe, como os próprios membros da banda, o posto secundário ou mesmo terciário que ocupam os álbuns Load na indústria fonográfica, ou diante do grande público (no fim das contas, essas coisas são a mesma coisa, porque não há populacho sem os barões das gravadoras e eles precisam entusiasmar alguns banguelas meio surdos para vender seu peixe!). Então eu me dirigi ao banheiro, prometendo voltar, mas preferi ir me posicionar no canto oposto ao que eles escolheram para acompanhar o show. E cada vez mais pessoas que vinham chegando impediriam qualquer tentativa de procurar quem quer que fosse, mesmo se eu quisesse! Era quase verdade que para se situar ali o jeito era driblar para um lado e para o outro, como um jogador que encontra todos os companheiros sob cerrada marcação. A parte de não tomar uma cervejinha para ver os shows (pois eu queria muito ver o Sepultura, banda de entrada, também!) não se devia exclusivamente à possibilidade de ficar “bobo demais” de forma indevida, mas a um problema que tenho, e que penso ser mais acentuado em mim do que em qualquer outra pessoa: o de me dirigir ao banheiro a intervalos cada vez mais curtos conforme vou virando a bebida, sem poder mesmo reter a urina, porque isso me deixa quase paralisado de dor, sem poder andar ou pular. Não queria estar desconfortável e pedindo para que o show passasse depressa, isso seria contraditório demais depois de toda a luta para estar ali! Estipulei 1h30 antes da hora marcada para o Metallica, ou um pouco menos que isso (porque não sou inglês) como uma boa margem de segurança, e de resto me limitei a fumar um ou outro cigarro. O Sepultura começava agora a se apresentar, a chuva diminuía até a intermitência de pingos esquizofrênicos, e eu tinha a certeza de aproveitar uma boa banda, ótima banda, brasileira e de respeito, para me elevar em êxtase, ainda de forma tímida, é verdade, sem pressa, ciente de que o ápice viria em hora melhor. Não podia mesmo agitar demais, primeiro porque só agora sentia mais que antes o cansaço por tudo aquilo que havia feito, virando a noite daquele jeito, comendo pouco, tendo deixado de repousar (como se eu fosse conseguir dormir a madrugada inteira trancado no hotel, com a cabeça a mil!), e certo princípio de cãibra nos braços, dores nas juntas, nas pernas, e sabia que ficaria em pé sem ter onde escorar por várias horas.

¹ [Nota 2025] Engraçado como 2010 ainda não era uma época de ubiqüidade de celulares com câmera!

E se o leitor realmente está se perguntando se eu fiz uma boa escolha ao me desfiliar da turma do Aloísio (e como já estava separado do pessoal da Fierce e de qualquer outro, se foi apropriado passar o show sozinho), afirmo que fiz exatamente o que quase sempre faço (no show do Megadeth foi a mesma coisa!), e não poderia imaginar nada melhor do que não parar para conversar com ninguém ou simular algum tipo de reação, positiva ou negativa, em relação a qualquer coisa, que não fosse exatamente aquilo que eu estava sentindo, só para agradar os outros, como tantas vezes acontece! Apesar de ter puxado papo com inúmeros grupos e apurado que um grosso contingente provinha de regiões do interior como Campinas, e que o Morumbi àquela altura tinha mais corinthianos do que qualquer coisa, eu sabia que aquele momento era de mim para mim mesmo e que não cabiam interferências externas. E após o show do Sepultura, com o atraso do Metallica e o escurecimento do céu, esse cansaço crescente foi apertando, de forma que quase me arrependi de todo esse auto-isolamento e achei que não seria uma boa noite. Mas essa ligeira apatia seria pulverizada e convertida em cinzas quando de repente as luzes do local foram totalmente apagadas (e senti muito medo, então, de eventualmente desmaiar e ser pisoteado!) prenunciando a entrada triunfal do quarteto mais importante. Os primeiros acordes não deixavam dúvidas: eu extrairia energias de onde fosse preciso, uma certa anestesia estava já sendo inoculada pelo meu próprio sistema de defesa; e se eu tivesse de pagar alguma coisa por isso, que fosse depois, bem depois de sair dali! Aí sim eu enfrentaria 10 dias seguidos de ressaca de bom grado, quando já estivesse em Brasília e esse momento fosse parte do passado gostoso de lembrar! Não sei mesmo como eu me sentia tão detonado ao fim da primeira música, Creeping Death, que achei que não conseguiria mais erguer o braço direito, e como eu estava incorporado por uma entidade na décima primeira música, de forma que poder-se-ia pensar que descansei a semana toda esperando apenas a hora de One, minha faixa preferida! Ou seja, a cada música que passava eu me sentia mais revigorado, uma espécie de Benjamin Button do Metal! A bateria de batidas de cabeça para o violento trecho final de One excedeu todo o “treino” a que me submeti em casa, foi insano! Retirei meus óculos e não parei de me contorcer para todos os lados ao ritmo do thrash mais encardido do …And Justice for All, e talvez do universo!, sabendo que aquela era a apoteose. E que havia esse tempo todo um tanque energético em stand-by aguardando o gatilho, que foi disparado junto com os sons de metralhadoras e morteiros da introdução da faixa (ainda estou falando do hino anti-bélico One!). Parece-me que o veterano Lars Ulrich não tem o mesmo ímpeto para gastar, mas isso já nem tinha tanta importância… Confesso que me constrangi, tendo de me impedir de me entusiasmar, por uma questão de honra, sendo ainda assim trabalhoso fazê-lo, nas canções mais marqueteiras do Metallica, que agradavam sobretudo os casaizinhos que eu sentia serem muito mais fãs estilo Aloísio do que headbangers, penetras no espetáculo (se bem que ultimamente os verdadeiros metaleiros andam tão escassos que eu devia ser o penetra ali!). Mas que se dane. Fuel e Nothing Else Matters¹ quase se desmancham como episódios inofensivos do que no geral era um impecável massacre, que, afinal, precisava ser intercalado com essas “baladinhas”. That Was Just your Life felizmente mostrou que o Metallica ainda sabe ressuscitar o ímpeto dos anos 80, se os músicos entrarem em acordo, se é isso realmente que eles querem. Sad But True e Welcome Home (Sanitarium) apresentam a sintonia perfeita entre a velha guarda e os que estavam ali por causa da influência assombrosa do Metallica no mundo pop que se deu desde o lançamento do [untitled]/Black Album. Porque Welcome Home, apesar de ser de uma fase pregressa, apresenta já a característica de olhar para os dois lados, vista no álbum negro: o peso, sim, mas o verniz também! Não faltaram os clássicos que seria imperdoável ver de fora, como Ride The Lightning, Fight Fire With Fire, Master of Puppets (que eu homenageava através da minha camisa, sem perceber na hora, porque nada mais me importava além do som e do rosto do James no telão – e dos punhos do Hammett, eventualmente, cabendo ao Trujillo uma leve figuração, ideal para ele, ideal aliás para qualquer baixista)… E até o tradicional cover de Diamond Head, embora fosse com a inesperada Helpless! Esse encontro assimétrico, em que eu venero os que estão lá, mas no qual eles gritam o nome da cidade, e nunca o meu (se bem que eu era São Paulo naquele momento!), só podia mesmo terminar com dois petardos primitivos, Hit the Lights e Seek & Destroy (que me fizeram prometer que, se um segundo encontro acontecesse, seriam objeto do meu tributo, com uma camisa do Kill ‘em All, da próxima vez). E eu já nem sabia como saía do chão com essa história de fazer um escaneamento na cena daquela cidade àquela noite, procurando alguém pra começar uma briga (primeira estrofe), porque achei que o gás final fôra dado em One, lá atrás! Só que a loucura é contagiosa, e eu só via gente energizada ao meu redor, então achei que não seria falta de nobreza roubar um pouquinho da deles. É verdade, também, que, depois, já mergulhado no silêncio (pois ainda estava em êxtase e sequer ouvia os bochichos das pessoas ao meu redor), eu demorava 10 segundos para dar dois passos e precisei remar na contra-mão das pessoas que saíam do estádio, rumo aos banheiros. E que depois não sabia se cantava ou não, junto com os são-paulinos, no túnel, que o Corinthians não tinha nenhuma Libertadores e que por isso não precisava ser levado a sério.² O Metallica merece vários estudos de caso: como pode agradar a tanta gente tão diferente?!

¹ [Nota 2025] Curiosamente hoje eu aprecio muito mais essas músicas dos anos 90!

² [Nota 2025] Não demoraria muito para ter (2 anos e alguns meses, para ser exato).

Estranhamente, me senti em casa. Sim, porque não parava de pensar o quanto eu era uma ilha ali, o quanto era absurdo penar tanto para ver apenas 2h, ou quiçá 1h40, de 4 excêntricos empunhando instrumentos pouco ortodoxos, que não emitiam nada, porque o que emitia alguma coisa eram caixas monstruosas bem longe da banda; os responsáveis por todos os transes eram muito menos místicos do que quereríamos, eram computadores, fios, máquinas, engenharia fina, cálculo frio… Agora se pergunte se o fã não se sente vingado de toda essa impessoalidade quando se vê nas letras…

Dormi pouco, reencontrei o Philippe no aeroporto, também voamos de volta juntos embora não tivéssemos combinado nada disso, e até apertamos a mão do Rodolfo ex-Raimundos e Rodox, que quase passa despercebido em meio àquela gente, sem fãs nem moscas rondando sua cabeça, andando com sua esposa entre as lojas, prestes a embarcar sei lá para onde (outra grande ironia, chegar a conhecê-lo longe da capital de Brasília, onde nós dois crescemos, embora ele seja de uma ou duas gerações anteriores à minha). Até voltei mais rápido do que imaginava à morosidade candanga, a ouvir outras bandas que destoam do padrão Metallica (a meu ver, isso iria demorar, depois da magnitude do concerto!). Mas ficou algo pendente e entalado. Não quis descrever tão pormenorizadamente por muito tempo tudo que vivi. Acho que fiquei com medo de que tudo isso se diluísse com comentários dos outros, que não poderiam imaginar com fidedignidade minha experiência difícil de pôr em palavras… Eu até esqueci de dizer, por exemplo, que a garoa fina cessou completamente logo após o “até a próxima!” do Sepultura… Como se o Metallica controlasse até o clima. É claro que esses detalhes só parecem poesia na visão dos presentes ao espetáculo. Só o tempo é que romantiza de uma forma menos pitoresca essas facetas, e nos permite quebrar o silêncio! I’m not, anymore, trapped under ice!

PINGOS NOS IS

Estou sumamente confuso com relação a minha orientação política. Meu meio é muito conservador. Ao mesmo tempo, sou empurrado pela “ala à esquerda” a posições mais reacionárias… Resta saber: que ala à esquerda é essa? Não seriam militantes por conveniência? Feministas e trans por mero oportunismo? Novamente esse maldito dilema: como classe média branco hetero e homem de esquerda me cobram um alto “pedágio” por assumir posições progressistas. Exigem que eu corte da própria carne como se tivesse de provar lealdade a alguma coisa. Estou automaticamente em dívida – frente a essas pessoas e a minha consciência. Preciso perder o pouco poder que ainda tenho pela “causa maior”, ceder em posicionamentos. Como se o espectro oposto também não quisesse ao mesmo tempo me massacrar e aliciar! Exige-se a convivência pacífica em prol da minha saúde, o que é impossível, a menos que me comporte de modo hipócrita. Querem que eu engula ao mesmo tempo o papel do macho encolhido, o fenômeno dos homens que “se sentem mulheres” e a homofobia generalizada, ou concepções racistas e até auto-racistas, como, aliás, se o brasileiro não fosse uma minoria mundial! O suficiente para levar qualquer um menos preparado à loucura…

Teoricamente, o que sou eu, se sou anticapitalista e antifascista mas rejeito o pressuposto de que a massa possa ser educada? Sou uma espécie de elitista. A revolução não dará certo – uma minoria seguirá no poder. O que importa para mim é que eu seja representante dessa minoria. Estética e intelectualmente já o sou. Não é algo de que se abdique. É preciso sofrer disso como sofrer de vestir a própria pele. Não defendemos caos ou orgias aqui, embora minha indiferença (não aversão) em relação às últimas não venha ao caso!

Que mundo é aceitável? Que mundo é possível? Em que mundo eu vivo?

Um mundo da indiferença, para a própria proteção. Não se igualar aos outros, extremistas em eterna mutação tanto quanto arrependimento. É aceitável um mundo em que se passa fome? Não. Mas como não será possível regular a superprodução no século XXI meu único e modesto objetivo é não me tornar um faminto. Tanto faz ignorar ou não os que solicitam diretamente a minha ajuda.

Não suporto gente burra – não importa que sejam gays, mulheres ou negros se forem estúpidos. Senso de independência. Externamente a mesma fachada, agora felizmente mais calma. Como se fosse um famoso, discrição e recato na internet (onde exclusivamente parece haver revolucionários hoje em dia – os indispostos a conversar e que impõem barreiras e condições).

No fundo o T. não era um cêntimo melhor que o Valdemar da Costa Neto… que a comparação seja entendida.

Fã de modelos que vão até as últimas conseqüências, tal qual o marxismo. (O fascismo não vai até as últimas conseqüências. Ideologia dos medrosos.) Ainda assim, parece que o presente é um véu impenetrável até para os olhos de águia da Antiguidade serena e sábia… Elitismo cultural. Platão e o anti-demos. Nietzsche e o anti-demos: NADA MUDOU. Curva e elipse para atingir o mesmo destino. Polemista. Pessimista. Religiões, ainda que anti-religioso: nenhum incômodo, ou estou errado?! Solidão e espaço. “Impersonamento.” Tarde demais para tratar melhor quem eu destratei. Cedo para bancar o cordial com os que estão-aí…

Como quem diz valorizar o conhecimento pode valorizar as massas? Não é possível massificar o conhecimento, mas o intento é (foi) nobre… Só é possível o avesso: conhecer a massa. Criatura disforme condenada a permanecer disforme.

[ARQUIVO] ONE-DIMENSIONAL MAN: Estudos em Ideologia da Sociedade Industrial Avançada, 1964. – Herbert Marcuse

Originalmente publicado em 12 de fevereiro de 2010.

INTRODUÇÃO: A Paralisia da Crítica

Até mesmo a análise mais empírica das alternativas históricas parece especulação irreal, e a adesão a ela uma questão de preferência pessoal (ou grupal).”

  1. AS NOVAS FORMAS DE CONTROLE

Impressões: texto charmoso, períodos curtos e um conhecimento extraordinário: um pastiche de tudo que eu mesmo sei. Não sei se é meu estado de espírito de momento, mas estou rindo das definições do nosso querido Ocidente totalitário.

Como toda a teoria exposta já é minha conhecida (eu diria que é uma arte trezentos sujeitos dizerem a mesma coisa de formas diferentes), vou anotar minhas sensações:

Eu costumo viciar no texto e orientar meu dia por ele – enquanto leio e enquanto a experiência é recente, torturo-me com a perspectiva de “esquecê-lo” e ficar idiota, no que já percebo um auto-deboche, pois não sou eu exatamente, mas o inexorável quadro de humores e superficialidades a que logo somos dragados. E veja: durante o dia 18 conversarei alegremente sobre este livro – hoje, na madrugada do dia 17, eu ainda penso: jamais falarei uma palavra, é “inútil”. Como se minha necessidade fisiológica não estivesse acima dos parâmetros funcionais.

Talvez – talvez – eu esteja ficando maluco e a única medicação que posso tomar é: dosar as leituras em cronogramas diários mais fixos que aqueles que vinha tomando (foda-se O AMANHÃ, pensemos apenas em termos de saúde mental), e bem mais modestos. No máximo 2 capítulos por dia em horário sem sol se o teor deles for tão pesado quanto o deste 1(+INTRO). Logo, para que eu não me sinta mal por estar sendo lerdo ou aquém do que deveria ser na bosta da universidade, me autorizo aqui, expressamente, a demorar… O engraçado é que eu vicio nessa coisa maldita, não consigo passar o dia sem ler. Mas… toda vez que me sentir culpado: “EU NÃO PRECISO MAIS LER NADA NO MUNDO SE NÃO QUISER!”.

  1. O FECHAMENTO DO UNIVERSO POLÍTICO

(…)

  1. A CONQUISTA DA CONSCIÊNCIA INFELIZ: DESSUBLIMAÇÃO REPRESSIVA

Eros e Civilização é considerado a continuação desta obra.

DES-sub… não é perda da OPORTUNIDADE de sublimar, mas é esvaziar o sentido da ação sublimante, quer seja: o onanismo não é mais “proibido”, então como pode constituir alívio quando executado? Banal. Ora, isso (essa liberalização, tolerância) indica a marcha rumo à condição trágica. Sexo como não-vergonha. O sujeito se revoltará menos à medida que a sociedade dá mais vazão a seu inconsciente.

  1. O FECHAMENTO DO UNIVERSO DA LOCUÇÃO

(…)

  1. PENSAMENTO NEGATIVO: A DERROTADA LÓGICA DO PROTESTO

(…)

  1. DO PENSAMENTO NEGATIVO PARA O POSITIVO: RACIONALIDADE TECNOLÓGICA E A LÓGICA DA DOMINAÇÃO

(…)

  1. A VITÓRIA DO PENSAMENTO POSITIVO: FILOSOFIA UNIDIMENSIONAL

Para uma história do positivismo: Saint-Simon, Comte e Fourier.

Wittgenstein: como NÃO filosofar com o martelo.

A limitação da filosofia à descrição degustativa do abacaxi (analítica): não é um problema fundamental, como de onde vem a fruta ou o que se faz para comprá-la, quem dirá “o que é o ser?”.

essa aceitação radical do empírico viola o empírico”

Sim, pode-se falar e pensar daquilo e naquilo que não é”

  1. O COMPROMISSO HISTÓRICO DA FILOSOFIA

(…)

  1. CATÁSTROFE DA LIBERTAÇÃO

(…)

  1. CONCLUSÃO

A verdadeira fisionomia de nossa época se mostra nas novelas de Samuel Beckett”

O protesto social não só não é eficaz como é prejudicial, por iludir a massa de sua eficácia pontual – omitindo a conversão do povo, outrora força revolucionária, em força de coesão.

[ARQUIVO] TURNING POINT PARTE II

Originalmente publicado em 8 de fevereiro de 2010.

Me sinto potente para recomeçar! Demorou para me sentir assim – de novo… A novela da sucessão de erros culminando no ulterior sublime se re-representa… Uma pulsão, momentos e novos planos, ilusórios e hipotéticos, eu sei, mas jogados aqui, encenados aqui, encarnados neste frigorífico aqui! Energia bela e forte o suficiente para justificar e apagar… A borracha da primeira vez tinha sido aniquilada pelo ferro-velho sentimental da segunda onda de rancor. Quando eu fechei aquela ferida horrenda… ou melhor, quando a competente médica a suturou… esqueci-me da injustiça do pior ano da minha vida, me redimi e me considerei merecedor e renovado.

Então essa mesma criatura arrancou os pontos, e se fosse na barriga eu diria: as tripas pularam todas para fora! Só que o ferido de guerra nunca sabe que o último inimigo de pé e as caixas de primeiros socorros estão tão próximos! Cada brisa, cada baque, cada comando conspira a favor – CUIDADOS CHEGARÃO A TEMPO! Quando já se tornava contraproducente ao soldado lembrar a remoer seus tempos abortados de quartel – é como se antes o peso da lista de preocupações tivesse de dobrar, porque o espírito queria recordar todas as dores juntas… e aí as características da reconfortante amnésia das chagas foram dando seus sinais, um a um. Já não tenho que responder pelo que foi quase hoje! Já estou esquecendo, me despedindo de, o que me levou a essa reincidente paragem. É verdade que febres – e textos (e letras ruins!) – fecham ciclos? Na Fortaleza eu quis queimar etapas mas eu ERGUI mais etapas…

Mão amiga, logo ali, porque aprendi a confiar; até naqueles sobre quem deveríamos permanecer mais céticos! A espuma, o ciclone, vai passar? Preciso de um terceiro olho, me deslocar! O horizonte é belo, rumo à próxima ilha. Desencane, dessa vez não serei enganado… com noções de paraíso. A vida é como um rio. Eu me rio.

Estou um caco, que devo fazer? Insista! Há coisas que não são como copos d’água, que é o que menos vicia: apenas mais para cativar, para se domar! Estou procurando essa mulher nada aquosa: aquela que dá por si só a sede!

[ARQUIVO] WHEELS OF CONFUSION

Originalmente publicado em 29 de janeiro de 2010.

Escrever reviews foi minha forma de “burlar” o calendário e a agenda de uma pessoa crescida? Foi uma fuga covarde das responsabilidades e necessidades de novidades? Ou eu apenas vivi bem? A imaturidade para trabalhar é um resquício da vontade de jamais ser, vir a ser, outra coisa? Muito apegado, até aos romances do passado? Tentando cavar sempre alguma coisa insólita? Mas eis que a quebra de um ciclo talvez seja o principal fato gerador da minha persona: até ali eu não era nada; eu era só mais um. Então fui chacoalhado e deixado abandonado. Descobri um cobertor, me enrolei e fui me aquecendo aos poucos. Então, saltei de pára-quedas como um louco… Me esborrachei e acho que o hospital não funcionou muito bem comigo… Mas dois grandes giros depois, aqui estou eu, tatu renovado. Somos ruminantes num vaivém excitante de 4… anos? Eu até acho que essa nova empreitada – e a cada uma eu pareço querer armar escândalo – pode resultar na minha morte! Antes de conhecer muita coisa, mas também “já vai tarde”! Melhor a rotina a qualquer custo, mesmo a um negro custo? Mas aqui estou eu e por ora – e talvez para sempre – este é o único juízo comprovável.

Ei! Não é um mistério perceber depois de tudo que a vida é só um jogo? Que não precisava dar reset, ou que tanto faz, desde que não toque no “desliga”? Talvez haja um defeito de fabricação, ou este novo console acolchoado já não se preocupa com esse layout ultrapassado? E que graça tem vencer?

Was it illusion?

[ARQUIVO] O POODLE PRETO DE HANA, A RAIVA DOS AMIGOS

Originalmente publicado em 4 de fevereiro de 2009.

Eu matava Max Cavalera com um tiro no meio de um show – continuava no local e horas depois conseguiam me identificar na gravação da câmera de segurança. Acho que não era linchado só porque a representação terminava antes disso!

Não me lembro de sentir tanto remorso por uma coisa em toda minha vida real. Só conseguia pensar: “minha sede de sangue destruiu meu futuro” (curiosamente, o segundo sonho que vou contar não está destacado deste, pois eu tenho lembranças de estar no mesmo local acompanhando mais shows até que tarde da noite ia embora para casa a pé e…).

…Hana me dava sua mão. Não nos víamos há meses. Ela tinha um cão do tamanho de uma van que babava um copo d’água nosso a cada gota de si. Uma coisa enorme que manipulava a dona como um doce brinquedo – tal qual o frango do Ralph, um outro cão que conheço. Parecia brincalhão, manso. A dado ponto Hana não estava mais a meu lado, mas eu cuidava de sua cadelinha preta (um segundo cão). Passava por um quintal repleto de cães raivosos e dois nanicos começavam a persegui-la. Eu estava lá pela 707 norte, naquelas ruelas entre residências baratas e comércios… Acabava matando a dupla de tanto espreme-los nas mãos, mas por engano também assassinava aquela que queria proteger.

Não consegui salvar a amizade…

[ARQUIVO] GÊNIO PRECOCE? GENEALOGIA DE UM MAL, VISLUMBRE DA CURA.

Original – e PROFETICAMENTE – publicado em 14 de outubro de 2006! Com trechos censurados, por motivos óbvios.

Sou Rafael e Araújo Aguiar, 18 anos, cursando jornalismo (2º semestre, turno noturno) pelo UniCEUB-DF. Estou no projeto Abrigo Polar¹ por intermédio de B., o qual conheci por M., antigo vizinho e estudante do Colégio Militar de Brasília, onde estive detido por quatro anos e meio.

¹ (P.S. 2024) Era um blog com mais três pessoas, nenhuma delas do curso de jornalismo.

Como bicho solto, vejo o mundo de uma forma ainda pior e mais ácida. Minha cefaléia deve decorrer das relações invariavelmente atritantes com pessoas de intelecto inferior (porém, em oposição à capacidade cerebral, insinuantes demais), que proliferam no meio em que me encontro.

Sempre tive uma rotina de postar em blogs, de traduzir matérias do inglês, de divulga-las entre amigos, no MSN Messenger e mais recentemente no Orkut, além do finado IRC, é claro. Às vezes me cansa ser tão atarefado. Mas pela primeira vez em muito tempo pareço sentir aquela lesão por esforço repetitivo nos meus dedos ao digitar este excerto, e uma fadiga muscular generalizada. (…)

Sinteticamente, eu não sei quando farei meu regresso com matérias palatáveis. Meu estado físico-mental é muito mais lastimável do que a descrição permite imaginar. Não tenho certeza do meu futuro como jornalista, muito embora esteja virtualmente certo de que vá me formar. O curso em si me agrada, não obstante os estágios nas redações me dêem calafrios. Todos são deveras burros, seu eufemismos: burros. Talvez seja coisa de jornalista esportivo. Talvez seja coisa de jornaleco da capital. Não gosto de apurar matérias na rua ou falar ao telefone. Gosto de “googlar”. (…) até ter um espaço de livre emissão de opinião um profissional do ramo sofre muitas perdas, para as quais não me julgo preparado. Ou, se assim me julgo, meu sistema nervoso me faria ser demitido antes do tempo.

Recentemente briguei com o staff do horariodebrasilia.com e larguei o “projeto” (“pôjéto do pôfêxô”, como diria Vanderlei Luxemburgo). Veja que o Abrigo Polar é PROJETO, sem aspas.¹ É que no HdB são todos muito burros. Sem exceção. Nem hipérboles. Não são “iniciantes”, “caras com falhas”. São arrogantes, prepotentes, cínicos, despreparados gramatical e intelectualmente, e se julgam no direito de oprimir – os mais fortes –, quanta petulância! Não têm coisas produtivas a dizer, e tudo que explicitam o fazem de modo incrivelmente abestado. Abestado, um adjetivo bem nordestino; gosto de remontar a minhas origens (…) Eles mudavam meus textos, depois de enviados, sem que me avisassem dessas insidiosas alterações. “Manipulação do repórter.” Ah, se eu não tivesse olhos de águia (envoltos por lentes de 7 graus e meio de miopia)…

¹ (P.S. 2024) Embora tenha durado tanto quanto as calotas polares estão destinadas a durar frente às protelações na redução da emissão de CO2 pelos países ricos, dentre outras medidas.

Eu vou dar a volta por cima. Eu vou colocar todos os burros em seus devidos lugares. Eu juro. Nem que seja como professor de sociologia, distribuindo conceitos II e MI. Nem que seja como funcionário público que trabalha pouco, ganha bem e dedica seu tempo ao ócio cibernético. Como jornalista minhas chances serão menores, sem embargo permitam-me assim denominar-me ao menos pelos próximos 4 anos.

Eu grito com as pessoas quando não gosto. Alto. Se é pela internet, dizem que é ainda pior – e eu não uso microfone.

Sou Rafael de Araújo Aguiar do Abrigo Polar. Em meu iglu vou aguardar, até a dor de cabeça passar.

[ARQUIVO] DIÁRIO DE UMA VIAGEM A FORTALEZA

Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010. Escrito entre 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2008.

30/01/2008

Talvez também sob influência de meu pessimismo contumaz, das minhas mais recentes leituras (num prazo de dois anos) e do desprezo que sinto por interlocutores de pensamento vil é que apresento este fragmento. É necessário deixar claro que o “interlocutor vil” em questão é um magnata cearense de nome Pelé, sem embargo, não conservo a mínima vergonha de meus antecedentes familiares (ele vem a ser meu tio-primo), resquício algum de racismo regional (vulgo xenofobia) ou aversão por cidadãos financeiramente afortunados. O que não tolero é a incapacidade dos ricos em complementar sua educação socratizando-se um pouco que seja – para ser mais atual-televisivo: vestindo as sandálias da humildade. Tampouco apresento, então, a essa altura, qualquer desprezo pela nomenclatura do maior atleta da História deste universo! É só um codinome, e ter chegado a ele tem lá seu método… Seu erro, meu algoz, foi ter aberto a boca demais! Isso e apenas isso…

Eu, tão lento para apreender opiniões concisas acerca de terceiros, descrevê-lo-ia como um sujeito de mediano para bom no entender político, no que dependesse de nosso primeiro encontro. Mas, de segunda, afirmo: és um parvo, um paspalho! Das coisas da vida, da essência invisível, do mundinho paralelo, do faz-de-conta de que I. falou tu nada entendes! Como aquele povaréu de Tianguá, só há uma coisa que mova sua vida: o dinheiro. É inútil encobrir teus anseios com esta capa, homúnculo! Para essas futilidades se é sempre competente, se desejável. De resto você não passa de um velhaco com alma de menino – não, nada de “puro”… Apenas parece distante do olhar filosófico e próximo demais do seu útero-sol, padece de um complexo de Édipo mal-resolvido. Por tabela, é um amoral inconsciente. E não são estas bestas (ou burros de carga) da igreja os mais perigosos? A filha, N., não pode julgá-lo porque não o conhece. Olha para cima ao divisá-lo – aliás, como toda e qualquer Electra. Eu não sofro desse problema, incontornável na terra (não-física) do cabresto, onde ser de elite não significa muito, no meu mundo de (não-)valores.

Sua infantil presunção de que, assim se julga e não esconde nem por um minuto à mesa, se trata de um homem culto quase me comove. Porque homens cultos não podem afirmar a juventude como único período de erro. Sua concepção assoberbada da vida, neste ponto, só já não me assustava pelas prévias revelações de seu caráter fascista.

No momento troco poucas frases com meu tio – menos pretensioso e de raciocínio mais ligeiro que o de Pelé, o pseudo-mecenas da família Ferreira. Mas tais balbuciações já se afiguram como material suficiente, meu caro “Maluco Beleza das Metamorfoses Ambulantes”, para tecer o único elogio à pessoa aqui em evidência: seu correr na praia – ou caminhada, já que é um frágil, mesmo – é meu escrever. Sim, que falta me faz descascá-lo, debulhá-lo nestas folhas como insípido feijão que vem a ser! Enquanto isso (já não sei mais se falo dele ou para você – de você ou para ele; com você ou 2ª pessoa, com tu ou a terceira), nosso nobre magnata precisa de seu retiro existencial bi-semanal. Pode me enganar, vou fingir que no pacote não está inclusa aquela masturbadela na água quentinha do nascer do sol – coisas bem-aceitas para um cara casado que enfrenta a crise da meia-idade.

Mas o papo, comigo, raras vezes esteve ou foi tão prosaico. Parece (ou mais do que parece) que peguei uma raiva excessiva do sujeito. É que realmente usar Darwin para a raça humana é chumbo grosso… E um indivíduo, ou menos, ente, que se auto-define como conhecer e interessado em buscar mais conhecimento, tolerante, bom ouvinte, reflexivo, sempre aberto a novas quebras de paradigmas (e que não sabe por certo o que representa um sintagma, p.ex.), não pode ter 10% do utilitarismo neo-yuppie (ops, embaralhei dois nomes) apresentado na pior festa que freqüentei desde que boêmio sou (o churrasco do enterro e da fossa). Se foi uma ocasião ruim é por dois (e entrelaçados) motivos: não bebi o suficiente e você (de novo minha mistura pronominal, já não dou um dedo mínimo) estava presente. (Mesmo Dostoievsky mistura pessoas na conjugação.)

O que depõe a meu favor neste cenário de aparente sordidez é que, se não bebi e não usufruí dos dotes das convidadas como mais desejaria (além dos regalos alimentícios), ao menos posso lembrar de cada ato falho seu (do Pelé!) sem a mínima distorção. O caro colega, deixe-me ver, acredita no bem e no mal. Nunca ouvira falar de Nietzsche. E nem que o Raul é um dos brasileiros mais escutados e idolatrados fora de palco de todos os últimos 400 anos. O que pode ser mais ridículo que um homem que acredita no diploma universitário como sinônimo de credibilidade irrefutável? Nem Descartes e Kant juntos!

31/01/08

(fim do 1º mês de um ano de até agora agonia gástrica)

Sabe o que é bastante interessante também?”

O quê?

Que em virtude de meu atual patamar…”

Vá às favas, com todo o respeito que seu ar grisalho merece mas que as ligações neurais comprometem!

Eu sob a mais crônica das diarréias certamente tenho, ainda, um pensamento mais ajustado e coerente que o seu! [Neste ponto decidi-me pelo emprego definitivo da interpelação direta, num misto de falta de vontade de escrever “fascista” a cada duas linhas e de excesso de disposição de fantasiar uma repulsa à la genro-sogro – explicando melhor: gosto da alternativa impossível em que sou um desafiante jovem, apontando o dedo de maneira não-acovardada para a cara do tolo pai de uma princesinha metida a roqueira… Em termos mais breves: meus devaneios com o corpo, o sorriso, a ginga e a burrice da distante prima N. — infelizmente distante em vários sentidos – parecem tornar Pelé alguém mais custoso de engolir, até porque a filha já é comida o suficiente]

01/02/08

Torcendo para escapar do Inferno…

#offtopic MEGADETH et al. (A luz no fim do túnel)

(comentando execuções aleatórias no meu MP3 player.)

  1. Train of Consequences

A estória de um assaltante de trem cargueiro e a moral por trás de seus atos me convocam novamente a uma série de questionamentos de natureza recente: o bem, o mal, os subjugados a eles e os acima dos valores. Minha opinião não é escutada por ninguém que não eu mesmo. A teoria dos grupos de influência não precisa ser lembrada aqui porque considero as pessoas suficientemente autônomas para escolherem seus veículos de comunicação, interlocutores e ações por si próprias. Eu sou apenas mais um canal, uma fonte informativa, integrante de um todo mais complexo ou descartável.

Figuras como Deus são ambíguas, duais. E representações como o diabo ou o ladrão são consideradas “puras” no sentido da essência. Mas hoje ouço falar tão pouco no diabo! Ninguém razoável e com mais de 6 anos realmente acredita em uma forma de vida (ou de morte) parecida, pois já incorporou as lições fundamentais do processo de socialização: o mal está no homem, que ejeta os direitos humanos não por outro motivo que a necessidade de controlar seus sórdidos e irrefreáveis (doutro modo) impulsos.

Fazer o certo e fazer o errado. Ser sacana e ter peso na consciência. Receber o castigo merecido. Essas discussões estão enredadas ao passado. Na situação da sociedade dos jogos ou niilista o único valor de si é aquele percebido por si mesmo, imortalizado em alguma imagem auto-louvável. O ladrão de cargas dilapida todas as vidas dos passageiros e trabalhadores do trem ao pilhar seus pertences. Conquanto não se é um deles, seus atos variam da aprovação à indiferença, em cujo trajeto mora a inveja. Às vezes penso como a vida do roubo é fácil: um sujeito se apropriou do meu televisor e do meu micro sem executar nenhuma transação financeira. Usou da violência, da imprevisibilidade física. Mas o complicado é cogitar-se pondo em prática esse “fácil”. Por que eles podem e eu não posso? Questões de berço (não literalmente, mas de uma ótica fatalista – há os furtadores provenientes de berços de ouro maciço).

  1. Killing Yourself to Live (Black Sabbath)

O ano deve ser um dos da irreversível crise do welfare state. “This is not the way the world was meant” e “Take a look around, what do you see? Pain, suffering and misery”. Além, claro, do título da música. Um ambiente de insegurança suportável graças às benesses teatrais da liquidez do dinheiro. Só o que almejo é o mesmo lar doce lar alheio, e com menos papel-moeda. O montante suficiente, que seja.

A onda de violência obriga o indivíduo a desconfiar de todos e se ver seguro – se possível – apenas dentro de seus próprios portões, ou jaula, a dita propriedade privada, capaz de resguardar até certo ponto todos os outros, tudo que já perdeu sua liquidez e não é mais pertencente a nada nem ninguém. Nem ao capital estrangeiro.

  1. Gears of War

Se a cultura não fosse a simples negação da natureza e respeitasse mais os princípios de sua Mãe o ser humano, além de cagar novas vidas e impor-lhes o ônus do trabalho, não fabricaria um arsenal nuclear, terminando, com tal atitude, por mais desestabilizar que “ajudar” (não precisa ser ajudada) sua biosfera. Uma mente tão corrupta olha a Terra com bons olhos só enquanto não coleciona as prometidas colônias espaciais que permitirão nossa continuidade. Vã continuidade. Viagem modorrenta. Muito curioso esse desenvolvimento, no sentido cíclico mesmo. Nada de linhas retas ascendentes. As marchas da guerra [ou equipamentos, armas] não pensam na preservação da espécie. Não há a menor garantia de que uma hora a rachadura não abra de vez. É um empreendimento de incomensurável risco, bem ao gosto do modo de produção ocidental e… está caduco dizer ocidental. No passado foram os muçulmanos, depois os soviéticos, japoneses… Agora qualquer olhos-puxados. O mundo. A família acabou. O Eu a engoliu juntamente com tudo. Os co(o)rporativistas ainda carregam aqueles livros debaixo do braço, mas, tal qual qualquer imbecil adaptado ou jogado de lado, só aguardam uma brecha para aparecer. Cada um com sua colossal melancia, preocupados que estão todos em se mostrar. Saldo final: não há um singular juiz. Os tecnicistas criaram um monstro que pode reduzir toda a filosofia ao nada instantaneamente… É… venceram!

* * *

Esses boletins sonoros estão me agradando e podem “intervir” na programação futura (Filosofia – Chauí).¹ Terei cerca de cem possibilidades extras…

¹ Este foi um presente de um primo distante do meu pai pelo qual sou muito grato, especialmente dado meu momento desarticulado em terras estranhas e possuído pelas terríveis marcas da saudade (do quê é que não sei, mas tenho certeza que é a parte de maior desamparo no anthropological blues). Neste preciso momento o amigo atencioso está em seus últimos minutos de praia e já vai retornar a seu meio. Eu não. Acrescento que, para saldar honrosamente meu débito, devo reler esses fragmentos ao chegar em casa e cumprir com o combinado: enviar-lhe por e-mail as ementas solicitadas da área de sociologia da UnB. a Mesmo que seu presente – e o meu futuro – não lhe – me – tenha custado nada, considero a necessidade dessa troca para a continuidade sem turbulências do cotidiano; afinal, humanos, culturalmente, vivem se devendo favores.

a Aposto que me esqueci disso!

Uma de minhas maiores vontades momentâneas é tomar uma cerveja gelada, não obstante meu sistema digestório-excretor precisar de um tempo até se restabelecer. Consolar-me-ei em pensar – e só pensar – no dia em que serei auto-sustentável e terei um novo lar – ainda que eu esteja pensando no aluguel: enquanto se pagar em dia, é todo seu. A independência… Uma cerveja gelada é um pedaço disso, por isso a quero tanto. Porém, conforme venho tentando me ensinar ultimamente, em lembretes mentais esporádicos, vive-se um dia de cada vez e, exilado, é-se plenamente impotente, o inverso de plenipotente. Um exílio implica em um outro exílio ao fim do primeiro, pois a terra natal terá mudado, eu mesmo terei, e será necessária uma readaptação ao local e aos afazeres de origem. E em verdade desconheço se poderei fazê-los todos, esses afazeres. Depende muito das circunstâncias. Ainda assim, ainda se puder, teimosamente deles prorrogarei minha licença, em prol de um só: as leituras atrasadas, que só parecem se agigantar enquanto os prazos encolhem e se tornam onerosos. Pelo menos já me livrei da autofobia e, no horizonte, nem o amor eu vejo. Agora bastam as músicas e as renovações, transferências, trancamentos e reda(reden)ções…

[ARQUIVO] SAÚDE NOS MAUS HÁBITOS

Originalmente postado em 8 de janeiro de 2010. de novembro de 2009. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.

Excluindo-se uma piora sensível da saúde, parece concludente que não consigo suportar mais do que 5 dias sem ao menos um cigarro.

Se é verdade que o ser humano viciado tem livre-arbítrio, a escolha é entre:

– sustentá-lo;

– explodir de outras maneiras.

Como as condições vigentes não me permitem exercer as atividades de artista quando eu bem quiser (posso passar imensos períodos lidando apenas com procedimentos burocráticos), isso significa eminentemente: duelos familiares. Muitas acusações e nenhum resultado.

Portanto, sei que minha garganta se condói, e o calor é infernal, mas a carteira deve estar sempre à mão. Horas em que morar sozinho não é só ilusão de autonomia…

Ciclo semanal (esse que só eu percebo):

inviabilização do fumo principalmente na dolorosa terça-feira. Prerrogativas, prerrogativas… Canário que não sou…

De resto, parece um paliativo ao efeito Diogo. Mal-aproveitado até aqui. Fumar com música e fumar em silêncio: ambos me agradam.

Apenas não esquecer que até os doentes têm uma saída…

[ARQUIVO] PARTICIPAÇÃO EM SUBLEVAÇÕES II

Originalmente postado em 7 de janeiro de 2010.

Ah, se apenas me afetasse!

Lembro do bloqueio do trânsito (da reflexão? Modo de ficar bêbado de cara limpa.) da W3 no 1º mês do CEUB: aquela censura poderia num curto espaço de tempo redirecionar minha carreira…

Vejamos se fosse hoje e com um texto realmente meu: eu me limitaria a assistir e a agradecer àquele bando de jovens, torceria mesmo para outros se juntarem. Além do mais havia ali outra incumbência: a de “noticiar” (até “participar”!) do representante de turma… Eu via muitos burgueses, não esse tipo de playboy sujismundo artificial da UnB.

Para não discutirmos acerca de duas medidas, o que é que geraria um efeito parecido?

R: Se suprimissem a licenciatura, a-rá!

Há muita coisa pela qual eu faria isso – mas dançando…

Que aula mais monológica!

[ARQUIVO] IMPOSSÍVEL SER CLÁSSICO (no senso nietzschiano)

Originalmente postado em 2 de janeiro de 2010. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.

Já abdiquei desse intuito nostálgico. O metal e seu caráter iconoclasta não poderiam existir sem que se estivesse “perdendo o jogo”, e os gregos não o estavam… Minha condição de duplo gauche não é por acaso. Há ainda o cigarro, as pernas fracas que não me permitem sonhar sequer com caminhadas homéricas montanha acima ou simples trilhas cachoeiras abaixo. Sou um simplório, mas um grande simplório! Não estou em busca de uma nova arte sublime, mas estou interessado tão-somente em chegar às culminâncias entrópicas do desenvolvimento de uma das mais antigas, uma bem judia… Para isso eu não preciso ser um anjo, aliás, pairar tão além do bem e do mal a ponto de subverter a ascese pela própria ascese!

[ARQUIVO] O ÓRFÃO

Originalmente postado em 30 de dezembro de 2009. Atualizado em 24 de dezembro de 2023, incluindo a revelação, via tratamento artístico, da inspiração ficcional que percorre o texto – a conhecida opressão dos saiyajins pelo monstro Freeza (o que não quer dizer que meu pai não seja um tirano) e seu melancólico final…

Querer o mal de um filho é muito mais cruel e insidioso do que desejar o mesmo para um pai? E quando essas não são as intenções declaradas, mas há a verificação desse prejuízo, de igual modo? Dolo ou culpa importa aqui? Não posso carregar o mundo nas costas!

Aquele que se volta contra quem o pôs no mundo, o lugar de onde afinal saiu, desencadeia um contra-senso fisiológico, mas se auto-golpear-se é possível e até mesmo bem razoável, essa cena trágica se mostra quase que uma regra, com regularidade na História. Há aí um despeito provocado por antecedentes, coisas que não dizem respeito ao ente desafiante. Assim parece ser com todos os homens desde Adão, a erguer a vista para os céus e indagar: “Por quê, Deus-Pai?”. Postura compreensível, se bem que o fim seja tristonho. A humanidade ainda não é forte e estabelecida o suficiente para sair do quintal de casa? Prefere ser tiranizada pelo dono do barro que a moldou? Fim da adolescência: momento de passos hesitantes, será que dá pra ir?, e se quiser voltar? Insustentável… “É terrível! Ele foi cortado em dois!” As histórias de rebeldia juvenil, escravização intra-genos/clã e tentativa de parricídio me atraem…

O sujeito que decide atacar, menospreza em demasia ou fere de fato a própria criatura que inseriu no mundo – essa é uma maldade genuinamente nascida ali, sem antecedentes, gerada numa realidade em corte, independente das situações antigas… porque aí recairíamos no problema do rabo da cobra! Que espécie de covardia louca é essa? Há mais tempo no mundo, muito mais chances de vencer! Provocar um inimigo que a gente sabe que vai derrubar. Existe algum mérito nisso? Em última instância, o filho está sempre num beco sem-saídas… a menos que haja um deus ex machina – mas se Deus é o inimigo! O ódio do filho contra o pai é sempre mais inocente, porque foi estimulado pela faísca pervertida do mais poderoso! Em nenhuma época uma classe mais alta cedeu caminho voluntariamente à mais baixa. A passagem de cetro é traumática. E se cada família, ou determinado número de famílias, for essa história do universo em microcosmo? Mas o filho não mata o pai! Ele furta o lugar do pai: “a cabeceira da mesa é minha!”. O último filho… é um sortudo ou um azarado? Às vezes o ar rabugento e despretensioso do dia a dia acaba levando à esterilidade do próprio sistema reprodutor, da própria extensão do sistema reprodutor! O egoísmo e a cegueira que fatiam inclusive o derradeiro tablete de carne, fazem respingar o último filete de sangue! Uma raça que já sofreu deveras!

Fazer mal inconscientemente não é desculpa. Parece que esse sempre foi o problema: títulos e fachadas. O mundo seria menos bárbaro se houvesse menos santos. No momento em que vem à tona o que a divindade fez… ela tem que se emendar! Se Ele resolve dissimular a tranqüilidade de um dia após o outro rumo ao infinito e não presta contas dos próprios atos, não pode haver mais mundo, senhor de que inteligência? Tombo, amargura e leito de morte. Os dinossauros se extinguiram por ambíguas imprudência e frieza glacial.

Vou narrar a história de um filho adotivo e orgulhoso de sua origem supostamente real, em algum confim do universo… Seu pai – o único de que se recorda – era um homem muito rico que odiava compartilhar as suas posses. Seu filho foi educado para construir seu próprio império a sua maneira, única forma de demonstrar seu valor e pedigree. Mas ai! O mundo muda! Se torna mais duro e impressionante, sob o preço de enfraquecer seus habitantes! O que o mais antigo fez, o novo e ainda valente já não podia! Pois cortam suas asas… O príncipe era sistematicamente humilhado pelo Rei na frente de seus humildes servos e também diante de seus asseclas, os nobres da côrte.

E sob as vistas, outrossim, dos amigos daquele. E como tais rapazes eram em parte afetados pela depreciação e pelas grosserias perpetradas pelo todo-poderoso, se solidarizavam. Assim ocorre com os mais fracos – se juntam para sofrer em bando. Foram formuladas as promessas de um destino melhor: ter, conquistar o império. E não devia haver mais impérios, aquele era o único, já englobava tudo! Para isso, o eterno empecilho teria que ser afastado! Isso era uma labuta incalculável. A muito custo, só se podia amealhar parcas migalhas… ah, mas se se era tenaz, e sangue daquele sangue… O mais perigoso era, ainda antes da idade, crer que descobriu um atalho. Não há atalhos para o Grande Poder! E nem satisfaz ser o segundo em Roma.

Foi aí que aconteceu de encontrar, em meio às peregrinações pelas províncias, um outro aventureiro-solo bastante combativo. Talvez fosse outro deserdado, a crescer longe dos auspícios do pai. Fato é que tinha muita sede de alguma coisa. O príncipe e seu bando viraram inimigos desse guerreiro e salteador anônimo. Pensando bem, tudo que esse tipo devia querer eram boas histórias para contar aos netos. E o bando principesco foi aniquilado por este inusitado personagem até o protagonista de nossa lenda se encontrar terrivelmente solitário.

Sem poder vencer seu adversário, mas tendo, em contrapartida, eliminado muitas vidas e deixado o algoz alquebrado, partiu em debandada. Orgulho ferido e, ambivalentemente, ampliado – era só cicatrizar as feridas. Tinha rompido com o pai, não pretendia mais se sujeitar aos caprichos e despotismos do Rei, mas precisava de seus médicos. Felizmente, descobriu que ele estava em viagem ao chegar ao seu palácio e, como fosse muito querido ali, dele cuidaram em segredo. O que de sua cabeça tomava conta era um misto de sensações estranhas… Do cumprimento final de seus planos à simples realização da vingança contra o último verme que se lhe opôs e o deixou nesse estado. Até que desse choque de idéias brotou uma conveniência.

Uma iluminação! Reordenar os peões, convocar os traidores, promover fissuras nas fileiras do exército paterno, torná-lo vulnerável a ameaças externas, ver o céu azul transmutar num verdadeiro caos de deposição de governo! Tudo isso graças ao forasteiro petulante! Iria pedir uma trégua. Seu sangue azul se enojava, mas era por nobre causa! Finalmente se aproximava, o dia com que tanto sonhara!

O príncipe e o forte guerreiro em farrapos e sem status, que só podia contar com a bravura, estabeleceram aliança. Um novo equilíbrio de forças era necessário para matar o Rei. Cheio de artimanhas e de astúcia, o príncipe agiu nos bastidores o quanto pôde e minou as forças da base de sustentação da Coroa de seu padrasto. O resto teria de ser em um duelo franco, mas se imaginava que um capitão resfriado já não podia com uma nau prestes a virar! Assim latejava o pulso do príncipe-escravo, à beira da planejada assinatura da alforria… Tantos anos pela frente para praticar o que quisesse, sem a “intervenção divina”!

O seu auxiliar, que com ele dividiria a vitória, não era problema para agora. Não havia espaço em seu coração mutilado pelo fado do berço! Na batalha final, o cruzamento crepuscular entre as hostes insurgentes e a cavalaria oficial, a exibição cavalar e inesperada de um poder que se mantinha latente só para enganar os jovens e os de memória desafortunada… Era assombroso o que o Rei era capaz de fazer. Depois de tantos anos, esmagaria o ingrato do filho adotivo, junto com aquela raça de depravados e taberneiros que levava consigo. A abelhinha e o enxame. Mas não podiam fazer muito mal. Eram insetos contra o “homem mais rico” – é ganancioso. A crueldade monstruosa vem sempre do mesmo lado. Do lado de quem está ganhando. E a justiça é medida em atos: quem morre merece morrer.

Por isso, meus irmãos, é que eu disse que inexistem atalhos. E o penetra plebeu não é alvo de nosso conto nuclear e de intrigas entre gerações, por isso não nos importa o que lhe aconteceu. Resta que o espectador saiba: o filho fracassou por subestimar aquele ímpeto oculto de alguém que ainda se mantém de pernas fortes e que já foi filho um dia. Na decisão, a diferença de forças flagrante paralisou os músculos do príncipe. Um ex-herdeiro angustiado, derramando suas primeiras lágrimas, em prantos, ou nem isso, pois perdeu a vontade de tudo. A marreta desce-lhe cachola abaixo. Estatelado, ainda grita encolerizado para o reino do nada o seu estribilho de oprimido. A última cólera. Que lhe estiola a alma, exaure o naco reserva de energia para soerguer-se e tentar lutar. Pouco importa. Nenhuma quantidade de esforço empregado surtiria efeito, o outro lado resistirá incólume. Esse é o superlativo da anemia e do fracasso, e da náusea, para quem lê. Uma vítima – desenhada desde os tempos antigos? A estrela não brilhou para este Édipo pela metade. Não era hora de arriscar.

Não agora, não ainda!

Por que montanhas levam milênios para se porem duras – e o caráter leva um pouco menos…

E a vida do Rei não perdeu o sentido, porque na posteridade haveria uma legião de descontentes de quem cuidar – talvez nos dois sentidos, bajular, absorver, converter, depois estar pronto para quando a cria resolver se desvencilhar, contra-atacar, arremessa-lo de encontro às pedras! –, muitos noviços e imprudentes, impacientes para tomar o lugar deste Júlio César de outras galáxias! E o hábito afia o tirano!

Consolo: no tempo apropriado, até o juízo de reis vacila, cambaleia, a justiça trai a pujança ancestral. A digestão do ódio não é imediata!

[ARQUIVO] DIMITRI E O BILHETE

Originalmente publicado em 17 de dezembro de 2009

                Dimitri,

Preciso despejar algumas coisas aqui. Tive um pesadelo, aliás, uma cadeia de pesadelos, horrível (Pleonasmo? Logo explico) na madrugada (nesta madrugada, porém não lhe poderei enviar hoje) de 7 para 8 de fevereiro [de 2008], mais precisamente cerca de 1h40, num quartinho de uma casa aconchegante na cidade de Sousa, na Paraíba, a 2 mil km de Brasília e a 500km de Fortaleza, onde escolhemos dormir porque é para onde se mudou um grande amigo dos meus pais, que vieram a ser padrinhos do primeiro filho deste homem. Deixando de lado as redundâncias, você sabe que sou um cara iconoclasta que jamais teria medo consciente de manifestações de seu inconsciente que tratassem de instituições perfeitamente repressivas como a Igreja ou a Ciência, ou de imagens míticas como o diabo ou um ET (se não deu para entender, só quis dizer que não sou de me assustar, estando de olhos abertos, e temer fechar os olhos outra vez, após um pesadelo, qualquer que seja seu conteúdo, uma vez já propriamente desperto, na cama, num exercício de recuperação do sonho que acabara de ter). Aliás, neste meu fluxo de consciência que agora tenho ao escrever-lhe esta não-convencional carta, por enquanto à mão, rebusco duas coisas ditas por você nos comentários daquele texto:

1) Você questionou meu niilismo (na cozinha do Landscape você afirmou literalmente “eu questionei SEU niilismo”), ou afirmou a existência de vários tipos de niilismo, não é? Fale mais sobre.

2) Havia esquecido de comentar acerca do ciclo. Não funcionamos para esta “bestagem de trabalhar”, em suma (mas vejo que você está melhor do que eu, porque não se envergonha de ser sustentado pelo resto da vida).¹

¹ (P.S. 2023: Isso tudo eram idéias, debates, monólogos até… Dimitri, a pessoa real, hoje é servidor do senado federal.)

Passada a idéia desses 1) e 2) do fluxo, prossigo: tive uma série de 4 ou 5 (já não me recordo) de um sonho conhecido como “espiral”; se não me falha a memória, o pesadelo de ânsia de acordar terrível que, segundo Freud, representa 4 de cada 10 de uma criança, que muito acorda durante as noites sem ser capaz de recapitular os conteúdos. Esse tipo de manifestação do inconsciente se mostra raro nas fases posteriores da vida. Pois bem: recordo, também, que, fora da infância, só durante mais uma noite, antes de hoje, vivi tal inconveniente. Foi no mesmo dia em que consultei The Interpretation of Dreams, do Freud, em PDF, para saber o que acabei de relatar. Ou seja: foi uma experiência de metalinguagem… Alguma expiação ou teste, traquinagem do eu reprimido. Dá calafrios só de pensar. Veja…

Hoje tive o sonho de ansiedade. (É sufocante. Você percebe que está no sonho e quer acordar… Por mais que leve segundos, a sensação momentânea e pavorosa é a de que você não irá conseguir) Agora são 3 da manhã. Eu parto às 4. Todos dormem e estou na cozinha. O pesadelo em que você estava e que me interessa analisar é o primeiro da série. Respeitando o que eu observei sobre o sonho em espiral – teste no dia em que li F. –, acho que o que ocorreu hoje e pode continuar ocorrendo é uma maquinação metalingüística. Tudo começa por razões tais quais:

A) Você comentou sobre F. no meu texto de Sartre e do vagão;¹

¹ [P.S. 2023: No primeiro volume de CILA OU CARIBDE. <link>]

B) Coincidentemente, após longo tempo desinteressado nesse curioso autor de um “irracionalismo determinista”, me cai nas mãos um livro de filosofia para ensino médio da Marilena Chauí, em plena viagem a Fortaleza. O livro veio antes de eu conversar com você aquele primeiro dia pela internet, alguns minutos. Encontramos aqui um primo do meu pai, também de Brasília, professor. Ele mo mostrou e eu demonstrei entusiasmo pelo capítulo de Metafísica. Ele sugeriu que eu ficasse logo com o livro, pois ele poderia pegar outro de graça assim que quisesse. Mas foi um dia depois que li seus comentários que, na minha leitura pré-sono linear, cheguei às páginas que explicam F. genericamente. (No capítulo Razão na idade contemporânea – 1 – como esta geladeira emite ruídos detestáveis; 2 – você teve F. na escola? Eu jamais.) Li aquela coisa previsível sobre o recalque do ego e etc. Poxa, até atos falhos e lapsos não passam de dribles da censura, mas e daí? 1 – essa geladeira vai desmontar… 2 – descubro que estou trêmulo de fome; 3 – sim, deixe-me completar o que principiei lá atrás: o pesadelo em que você figurava me deixa de pêlo eriçado até este preciso e abominável segundo (logo iremos a ele).

Desde que reli F. voltei a me reanimar a tentar dotar meus sonhos de sentido no que tange a qualquer desejo reprimido. Até aí, nada de mais. Estava tendo sonhos agradáveis, comendo umas minas adoidado (em sonhos, entenda)… Sempre era sexo, carinho… O que me anda faltando. Aliás, você conhece a parte da sublimação dos instintos de pulsão em F.? Eu só não enlouqueci ainda, edipianamente falando, porque escrevo muito.¹ Eis, agora, depois de EU E VOCÊ (explicação do CAPS LOCK depois) consentirmos que só um pedaço de F. é válido, um pesadelo capaz de me arrepiar já em estado de consciência, ao ser retrospectivo, uma vez que foi uma representação altamente filosófica, existencial, biográfica… Devo descrever com mais detalhes o possível o sonho. Apuro mais uma razão para que ele tenha vindo justo agora, 5 ou cerca disso dias depois da referida leitura: SEU comentário, do Orkut, despretensioso e banal, e MINHA resposta idem. Hoje o que acabo de receber é um ataque, uma reação totalitária, do meu ISSO (espero estar sublimando aqui para acalmá-lo, mas ele detesta ser importunado com reflexões exatamente sobre si) à minha concepção de inexistência de dogmas, da verdade e onipresença do FATOR SUBJETIVO. Engraçado, o ISSO se sentir ofendido, pois objetivo ele não é. Isso (não o ISSO, mas o sonho e minhas crenças) é muito importante para mim porque, e você verá, parece ser o meu modo de ser o problema de tudo…

¹ [P.S. 2023: Tudo babaquice. Hoje eu pisaria em cima dum livro do doutor Fraud que eu visse aberto, no meio da rua.]

[ida ao banheiro]

Você deve estar ansioso por saber logo como foi “sonhado por outrem”. Acho que estiquei tanto isso que vou acabar desapontando-o até porque não será algo TÃO preciso, mas o curioso é o EU E VOCÊ.

Encho-me de calafrios, droga… Aqui é quente, estou encharcado e não penso em dormir de novo.

NO SONHO…

Aparentemente estamos numa mesa batendo um papo. Sou EU e é VOCÊ, de algum modo eu tenho certeza. Mas se não me engano tudo é um breu filho da puta. Só que eu sinto que estamos numa espécie de quina, com pessoas sussurrando mais para frente e para a direita. Entre elas meus pais. Ocorre um momento… em que você encerra o diabo do papo, e é tudo que lembro, e não lembro direito, vai me desculpar, mas você passa um “segredo” (não quer que os outros o escutem, só que eu leia) por papel. É uma pergunta e afirmação ao mesmo tempo, não sei como explicar… SUSTO… Entraram na cozinha… Saltei da cadeira!

[bebo água – aqui é cheio de arte barroca nas paredes…]

Sei que tem um ponto de interrogação. Não lembro o conteúdo literal do bilhete, branco, dentro do breu, que você me passou. Porém, lembro a idéia que ele representa ou manifesta, o teor da mensagem, e que além de pergunta aquilo é uma resposta conclusiva, taxativa. Tem a ver com tudo o que vim procurando todos esses anos… Agora, antes de refletir mais sobre o bilhete, duas coisas que se fazem eminentes… DROGA, DAQUI A POUCO É HORA DO PESSOAL AQUI PARTIR PARA A ESTRADA.

1) Quando eu li seu bilhete… eu me senti um otário. E quando tentava articular qualquer coisa menos passiva que um bocejo eu escorregava… Meu corpo deslizava duro – TÁ CHOVENDO E A LUZ TÁ INTERMITENTE –, como pedra, da quina inferior esquerda onde estávamos até a quina oposta, avante à direita, como um tabuleiro no éter. Meu pai dizia algo como “Ih, olha ele aí… Tá perdido. Não vai falar nada? Ô Rafael!”. Nesse momento começava a espiral para acordar porque era insustentável permanecer no sadomasoquista inconsciente. A seguir, o porquê do “sadomaso-“ e do CAPS LOCK.

2) Eu sou você e você sou eu. É como um espelho nossa relação no sonho. Eu sinto que sei do que você fala no bilhete e sou eu mesmo me contando, me provocando, utilizando sua imagem, uma das únicas pessoas dotadas de bagagem tal que entende onde eu quero chegar quando exponho minhas idéias. É alguém tão inteligente quanto eu, se é que posso dizê-lo. Essa palavra está muito desgastada pela crise da razão. Não é estranho que “o conhecimento não levar a nada” seja uma sentença nascida da própria busca pelo conhecimento? Se a sentença é produto do CONHECIMENTO ACUMULADO aplicado a certa época… ???

* * *

Avise-me se estiver errado: na realidade eu entendo você ser diferente de mim. Até queria ser você, mas sociologicamente falando está fora das minhas possibilidades em virtude de minha criação. Eu diria que você é um EU desejável e impossível. Foda-se se Sartre acha que qualquer omissão ou conformismo é deliberado, pois outros homens na situação não cederiam. Só que VOCÊ também aspira a ser eu – interpreto – num aspecto daquele texto: acho que você esconde que aquilo teve até mais poder sobre você. (Paranóia minha? Me avise.) Que não é ESCOLHER MUDAR PARA FAZER VALER A PENA OU CONTINUAR ASSIM PORQUE ESTÁ VALENDO A PENA. Que é tudo como meu pessimismo incondicional. Empiricamente não posso saber, pois só vivi a minha vida. Mas suponho que todas as vidas sejam um lixo e é essa a sua tristeza. Como num pêndulo, simultaneamente eu digo que quereria ser você para provar desse DIONISO ATIVO, porque ao que parece o meu DIONISO É PASSIVO. Será que você floreia sua vida, fala de um sabor inexistente? Mas a voz mais alta diz: é como “procurar a felicidade”, “dar murro em ponta de faca”. Porque você é carne como eu e não deve ser melhor ser você do que ser eu. DIVAGUE BASTANTE SOBRE O QUE ACABEI DE DIZER. Isso termina de explicar o EU E VOCÊ. Quem é você? Você mora em mim e suas palavras me causam um impacto às vezes acre.

Prosseguindo…

O BILHETE (merece até subtítulo)

Ele me mata, ideologicamente. Denota e conota minha demolição. Na metáfora, petrifica. É uma coisa simples e profunda. Abaixo, potenciais transcrições da mensagem. Não deve ser nenhuma, não devia ter nada lá. Nos sonhos sempre leio mas ao acordar vejo que nada estava escrito… Então, às aproximações:

(Vou disseca-las, em grupo, mesmo)

(Lembre-se de que é um “segredo”, e esse fato talvez seja mais importante que qualquer transcrição – indica, talvez, que meus pais não poderiam sabê-lo sob nenhuma circunstância)

A) PARA QUE FILOSOFIA?

B) É A VERDADE, ENTENDE?

C) PRA QUE TUDO ISSO?

D) ESPERO QUE VOCÊ TENHA ENTENDIDO A IDÉIA TÁCITA NO LANCE SOBRE A VERDADE – essa é grande, engraçado, porque o espaço para caracteres no bilhete era absurdamente pequeno.

E) ENTENDEU?

F) ESSE TEMPO TODO… NOS ENGANARAM… Não. É “ME ENGANARAM”. Mas se você sou eu refletido… Essa 6ª possibilidade é a que mais me prende à idéia de “otário”. Acho que o pessoal à direita ri, ou eu sinto muito vexame, porque não tinha entendido o substrato da Filosofia. Não sei dizer se seria um dogma ou um utilitarismo… A mensagem continua… ? PRA QUE VOCÊ ACHA QUE SERVE? Acho que é esta! Tinha outro “?” no começo, era uma espécie de indagação de uma coisa já debatida, para ver se eu tinha entendido direito, se eu não era retardado e estava me fazendo de desentendido. Ou a pontuação era em espanhol. ¿PRA QUE VOCÊ ACHA QUE SERVE?

Já estou cansado, não sei se ainda posso continuar divagando em alto nível. A tensão se dissipou.

É complicado deixar isso claro. A idéia por trás da mensagem e minha fobia ou sensação de engodo posterior. Como se eu tivesse pensado ou estudado errado todos esses anos. Sei lá o que você, que dá pouco crédito a F.,¹ irá dizer. Não sei também se é possível compreender que não é só uma desilusão ou estresse com a filosofia. A frase A) é a menos condizente com o efeito provocado.

¹ [P.S. 2023: Boa, Dimitri!]

Creio que…

Você tenha escrito para ser cortês e não fazer da revelação um total embaraço, mais do que já foi. Era para me dizer uma coisa que todos que estudam filosofia entendem, apesar de tácito. Na verdade eu sinto que entendia e não conseguia falar. E escorregava. Deslizava. Se você era eu obviamente eu sabia. E estava sentindo prazer com a idéia de me afligir diante da possibilidade simultânea de não saber. (4º PRINCÍPIO DE ARISTÓTELES)

Outra chance é de que estivesse escrita uma palavra. Não sou capaz de lembrar. Ela utopicamente sintetizaria o “segredo”. É como se você (eu) me dissesse: É UMA COISA PATETICAMENTE ÓBVIA. E eu sabia mas era vexatório que QUALQUER UM não soubesse, e eu talvez ruborizasse só de pensá-lo.

                    Assinado — A Mosca Filosófica

[P.S. 2023: Hoje eu entendo este sonho como um enterro metafórico de meus pais; dali em diante, só nos afastaríamos cada vez mais, sendo impossível a compreensão.]

[ARQUIVO] OITO DE DEZEMBRO COMEÇADO DEITADO

Originalmente publicado em 8 de dezembro de 2009

Perdi o gosto por comer. Perdi o gosto por ler. Perdi o gosto por reclamar. O que acontece quando se perde o gosto até pela obrigatoriedade de cagar? Hoje parece cada vez mais nítido que é demandado que eu não leia a fim de ainda viver respeitosamente. Comer, não precisamos estar tão a fim, podemos até nos empanturrar de cara feia. Eu até acho que cheguei ao absurdo do insípido e da indiferença: tanto faz meu pai ser um tolo. O que me move adiante é a inércia da reação automática e o princípio da equivalência. O conformismo é um pragmatismo ou “o”, porque o não-cumprimento é uma implosão. Dor de estômago crônica, parte já de mim, garganta ferrada… quanto tempo até expelir pus, complicar de fato? Sobreviver também é “secundário”; a missão, outra coisa que não importa, relativamente, vem à frente. Viver o presente. A riqueza e a beleza dum momento interminável indecifrável impoetizável. E a dor muscular e aquela vontade de fenecer, nem sei se respeito minha própria fadiga, minha própria necessidade fisiológica de sexo, meu remoto interesse por remoer sonhos. Que há? Nunca vi desbotado tão colorido. É o fim-meio de uma estações. Penso também na leveza pós-opressão. Na deposição dessa carcaça chamada curso. Aliás, de vivos e mortos, e de latrinas ambulantes. Melhor do que ver que já esqueceram da minha presença é saber que eu ainda me antecipo e os supero na má educação. Resignar-se até a uma das constatações mais duras, a da ausência de um amor, rompimentos que geram rompimentos, saber que as primeiras foram as últimas e matar a esperança de fome – pra ter indícios de que ainda vale a pena, pois ninguém me sufoca. A preocupação máxima é estilística: se vocês vão gostar, se vão parar.

[ARQUIVO] O INCOMUNICÁVEL

Publicado originalmente em 1º de dezembro de 2009.

Um dia de saldo zero que vai ficar para mim. Quatro cigarros fumados, um não achado. Pingos e pingos e pingos. Aquela chuva capaz de humilhar um homem, pois é fraca demais para que se seja visto de guarda-chuva em punho, mas é irritante o suficiente para afundar o moral, molhar os papéis em embaçar a vista de um míope. Do que me servem os papéis, se sempre tenho de refazê-los? Eu sou o homem-projeto, tudo o que eu não tenho é um projeto. Estou sempre em primeiro, mas isso parece ser estar em último. Estou sem identidade. Talvez devesse ficar assim.

Eu gosto de estar com febre (a febre do ânimo).

Férias?

No dia em que a hesitação oral se me escapou, em que me senti professor pela primeira vez, vi meu sonho chafurdar com pancadas insolentes, num recinto fechado, escuro e úmido, no subsolo de um campus semi-abandonado. Greve de fome para contornar as caganeiras. O que para mim é o impossível e inconcretizável, mistério, interrogação, loucura e crepúsculo feliz de um menino doente, é para os outros a obrigação sem gosto, ou o facilmente evitável, suplantável, por novas metas. O “pesadelo” deles é o meu sonho. Qualquer um pode sonhar com Freddy Krueger, cometer pecados e ir para o inferno. Mas o eldorado, o eldorado terreno que eu escolhi, esse é meu além. O dia em que eu morrerei de fome, farei trabalho braçal ou escorrerá sangue do meu peito, e eu estatelado na quina daquela passarela como um Vincent conformado, esse dia há de ser um dos meus milhares. Só mais uma sessão de jazz mortífero de um precoce guitarrista dos limites da distorção…

Todo começo de mês parece excepcional…

[ARQUIVO] OS NATUREBAS E OS DIGITAIS: L’ART, O PORNÔ, O GAUCHE E O BLASÉ… O que ser?

Publicado originalmente em 19 de novembro de 2009.

Me divido atualmente entre dois grandes vícios. Quis dizer: a humanidade se divide atualmente em duas grandes necessidades: atender à demanda irresistível pelo novo, diferente e mais bem-acabado tecnologicamente, ampliando o abraço orgiástico de todos com todos na malha digital; manter a fisiologia sã nos imprescindíveis momentos de (auto-)desligamento (desse gigante mecânico-biótipo, maníaco-depressivo, ambivalente, dentro e fora de nós), com práticas contraditórias como fumar, beber, repousar, contemplar, dançar, dissipar ou simplesmente se esconder. O perfeito blasé se acha um idiota no espelho. A crise do palhaço, começar o discurso (de que se vai arrepender depois), é intrínseca a esse comportamento, uma reação ao embotamento das sensações. À superexcitação, a máquina sofre solavancos que sabemos não serem fatais, embora desgastantes e, retroativamente falando, “evitáveis”.

Ou correto – ou impossível – está em idealizar o natural ou o digital? Em contra-atacar improficuamente com a alopatia ou a homeopatia? É sempre ineficaz. Mas ainda assim, somos artilheiros. Atacar com o quê? Isolar-se e adoecer encolhido diante do verme familial, tentando tecer um futuro finalmente não-monótono nem embaraçoso (de quantas drogas fazemos uso sem sequer nos darmos conta?)? Não dar atenção a ninguém – mas contar com o melindre embutido de que eles também o apagaram do mapa. Ou ter possibilidades, só que completamente amarradas pelo exército com ilimitadas reposições das pessoinhas? Desativado ou excessivamente ligado? Não se destrói afetos, mas é preferível concentrá-los diante dos punhos ou insistir em pisar em baratas? De qualquer jeito, com este arranjo, somos sempre abertos apesar de sermos entrópicos. Ninguém nunca sabe com quem vai topar amanhã na calçada enquanto divagava de cabeça baixa. Desgoverno como chance de governo? E a intolerância pesa no momento em que a troca seria o mais válido. Dar. Cooptar? O que levar aos olhos? O que chega aos meus ouvidos? Tateio alguma coisa.

Em suma, não preciso de tantas perguntas. Tendo perdido um bocado de viagens, efetuado várias recapitulações, saldo – finjamos – meio que zerado… Embarcar ou não?

Nossa alma é grande e cabe um pouco de tudo. Até um meio-termo.

[ARQUIVO] 15 MINUTOS DE FAMA (DOS NINFOMANÍACOS DA UNB)

Publicado originalmente em 18 de novembro de 2009.

Abaixei as calças, deixei-me fotografar, tornei-me uma celebridade. A vida andava meio… entediante. Mas salvei o dia! Amanhã eu penso em outra traquinagem boa o suficiente para interessar a um jornalista. Tarefa essa cada vez mais capciosa, uma vez que os jovens estão “botando pra quebrar”. E há jovens de todas as idades…¹

Terei eu logrado a eternidade, com um pequeno espaço no pior papel do mundo (aquele que desmancha quando chove)? Me impressiona as pessoas ainda terem olhos para penetrar nesse preto borrado depois de três séculos! (Me refiro aos jornais.) Borrado por borrado, prefiro pagar para lerem meu destino no fundo da xícara de café.

E não somos uns carolas reacionários puritanos? Até aqueles à flor da pele acham histriônica a idéia da nudez. Uns ridículos de reitoria desfazendo os anos 60…

Pergunta: por que só tem mulher horrorosa nesses “atos”? (Sobre o ATO – como vulgarizar peças de teATrO: chamando o burburinho dos rebeldes sem-causa de AÇÃO. Muito fácil ser ator!)¹

Unindo o útil ao agradável: quem luta pensa que “sofre pelos outros”. Sofrendo estou eu, nesse calor, com vontade de tirar a roupa mas guardando lá minha dignidade e inocência – quando fico pelado, não é para causar sensação, mas para lembrar que ainda sou gente.

¹ P.S. Essa crítica a um protesto cujo motivo agora me escapa (provando que não possuía qualquer importância, além de errarem no método), realizado no Minhocão por estudantes da UnB à época, contando com nudismo e striptease, quando circulei o manuscrito pela sala de aula, fez até com que uma senhora de 60 e poucos anos do curso de ciências sociais – que declarou seu amor ao professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas no meio da aula da dita matéria!a –, minha veterana, parasse de falar comigo pelo restante do semestre (na prática, para sempre), sem sequer explicar seus motivos (me deixando 3 dias no escuro sobre a bizarrice de seu súbito mutismo após eu lhe haver perguntado, na fila da cantina, sobre os ingredientes de um salgado que estava na estufa, e ela se recusar a me responder, fitando-me o tempo todo!). Obs.: Eu não sabia que ela tinha participado do ato, daí minha sincera surpresa – ter acertado o cuco com uma paulada aleatória! A referência a “jovens de todas as idades” no fim do 1º parágrafo não procurava provocar ninguém em específico, já que havia outras pessoas mais velhas no ato.

a Em conseqüência dessa anedota um tanto engraçada que não tinha por que estar neste artigo ou panfleto satírico, ouvi o fora mais patético e despropositado de toda a minha vida, por isso o registro é mais do que merecido! Ao ouvir da aluna “experiente” que ela queria que ele fosse seu namorado, o ranzinza e estrambótico professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas, de quem omito a identidade para não constrangê-lo no pudico e cerimonioso ambiente da Academia perante seus pares que tudo ouvem e tudo vêem (num departamento de Universidade, todos aqueles que se bicam têm sentidos anormalmente agudos para esse tipo de fofoca mesquinha a fim de arruinar reputações do dia para a noite e beliscar algum cargo ou, enfim, apenas rir da mancha no Lattes do desafeto!), assim se dirigiu à pretendente: “Isto não está posto!”, e seguiu dando sua (insossa) aula. Terá sido um pretexto para ensiná-la em privado sobre fenomenologia husserliana?! Os patronos da sociologia, onde quer que estejam, saberão – e ninguém mais!

[ARQUIVO] “EXISTENCIALISMO AOS 7” – AS ABELHAS, OS HOMENS E A ESPINHA METAFÍSICA

Publicado originalmente em 20 de outubro de 2009. Revisado.

Hoje minha mãe me apresentou uma pequena reflexão minha – de quando eu nem sabia o que era reflexão, e leria a palavra sexo como se lê “seixo” – na altura da 1ª série, sobre a vida. Apresentar-me é bem o termo, já que a gente se esquece com facilidade. Talvez tenha sido o passo inicial desta minha verve literária; impossível saber, mas é o que a arqueologia nos permite resgatar. Dizia mais ou menos assim: “Vida – Eu tenho 7 anos, meu irmão mais velho tem 14 anos, uns são mais novos, outros mais velhos, e assim a vida vai… A mulher mais velha tem 124 anos, a criança quando sai da barriga da mãe é a pessoa mais nova e tem 1 segundo”. Deve ser a segunda vez em período recente que minha mãe remexe em suas caixas repletas de recordações e vem me mostrar – como eu disse, a gente esquece, até as coisas de ontem –, não só esse tipo de protofilosofia como cartõezinhos de dia das mães e meus dentes-de-leite…

Não parece estranho que nossa vida comece aos 7? O que é o primeiro segundo? Talvez condiga em importância com os seis primeiros anos inteiros, a infância clássica. Que ela deve haver, disso não há dúvida. Que hoje reproduzimos aqueles sonhos, ou melhor, rememoramos o grande sonho, ainda mais certo. Os anos de jardim de infância são inconscientes. O pediatra moderno é um fraco. A força da criança reside na impossibilidade de abraçá-la no humano – ela é tão autêntica como um inseto. Azar dos homens, que hoje são menos do que insetos… Uma mosca ou uma abelha, por mais filosóficas que sejam, não possuem uma morte impactante. Seu pathos voador passa fulminante. Um cisco de poder que facilmente perde a autonomia. Uma palma da mão enfezada transforma uma perspectiva no zero, puro tecido em decomposição, nada de drama em câmera lenta. Considerar a infância sagrada é já um sinal… O bom velho é o menino…

A dor ou o prazer, seu antípoda o anestésico, nada representam para o precoce. O importante é seu reflexo no consciente mais tarde. O trauma torna-se desumano e criminoso quando a história do indivíduo realmente começa e ele toma suas escolhas baseado naquilo que ele nunca foi, a fim de ser o que é agora! O inconsciente. O inconsciente e a abelha verde. Esses foram meus principais amigos dos meus anos pré-existenciais. Talvez fossem as duas únicas entidades conhecidas! Todas as vezes que ia brincar no parquinho da escola, perto da gangorra ou do carrossel, ou da amarelinha pintada no chão, eu via uma abelha verde. Ela batia as asas como um beija-flor, deixava um rastro para meu olho incompetente adivinhar o que seria. Um bicho que nunca se cansa; e as abelhas verdes estão sempre no mesmo lugar. Aqui em Brasília posso encontrar diversas delas. Todas as vezes cruzo com uma, na ida e na volta, desde que faço o caminho para a Universidade. Retorno. Àquele tempo eu sabia – premeditava com bastante frieza – que chegaria o dia (utópico?) em que essa abelha seria o tema de um texto. Quem sabe não é a mesma abelha? Qual é a magnânima resistência de um ser vivo desses? Se a persistência com que se sustém no ar for a mesma com que enfrenta cada primavera… Ah, claro: primavera, época de flores (embora as estações não sejam bem-definidas no Cerrado), ela aparece bem mais. Parece que, para uma abelha, 50 dias são 50 anos. Elas começam a viver no 7º dia também? Não, a abelha não se perde como o homem…

Na nossa Odisséia, o significativo é a volta. A guerra o tornou herói, mas parece que não foi você. Está na hora de protagonizar de fato o roteiro. Hoje tenho o triplo daquela idade (1995-2009). [Hoje, que retranscrevo minhas palavras de 2009, o quíntuplo da idade!] O quanto o número 14 é emblemático para mim? [Intervalo 2009-2023] O quanto eu desejaria viver 1[2]4 anos? A escola parece eterna. A substância cotidiana permanece intacta. Imaculada rotina, transfigurada em novo linguajar. Consciente. Dolorosa. Mas sensível. Sempre pensei no meu inconsciente como um deus caprichoso. Direitos Humanos se preocupando com a saúde divina, quanta perda de tempo! Não é que não se deva mexer com crianças porque elas são sagradas; tabus mundanos… O sagrado é imexível, os costumes só existem para ser quebrados. Invertendo o axioma, elas são sagradas, daí que não seja possível a mediação humana. Atena não poderia ser prejudicada por Ulisses. Tolices!

A jogatina de dados de Deus deu no que deu(s)! Mortes inconscientes são não-mortes. 0 a 5 anos, latência. Esquecimento, imprescindível ferramenta. O fundamento do mundo é coisa para ficar debaixo do tapete. Aí inventarão as câmeras; e monitorarão todos os passos. Aí partirão numa máquina do tempo, só para testemunhar o 1º momento. Que revelação, voltar e pisar… na mesma sala! A vida é a máquina do tempo… Você foi primeiro, antes disso foi só o que seu consciente ainda não conscientizou e vai pegar de empréstimo – só para ter o gosto sem-fim de esquecer.

Abelhas não saem na chuva. A chuva dissipa os pensamentos. Sol sim; trovão não (o cachorro late ao raio – sabedoria ancestral?). Tenho a soberana impressão de que os céus são a extensão do meu estômago. Lubrificação aquosa. Palavras são águas… amanhã… Uma idéia que escapa é só uma idéia que ainda não estava pronta… O mais importante é a trama. Homo somnambuli? Non sapiens? A trama acaba como a teia de uma aranha de um recinto reaberto e devidamente higienizado…

Assinado,

A Mosca Filosófica

[ARQUIVO] O POETA ESCATOLÓGICO: A MORTE NÃO É PARA SER CHEIROSA

Originalmente postado em 15 de outubro de 2009.

DECADÊNCIA – Não é este o GRANDE PONTO? Não parece perfeito que quanto mais a vida se torna feia mais bela fica esta obra em execução? PESSIMISMO E EXCITAÇÃO E TERNURA PELO ACRE, PELO BOLOR, PELO DESAFINADO, PELO TILT, pela minha própria derrota, pela decomposição, pelo desmembramento, esquartejamento e decapitação e funeral, vontade de homenagear tudo isso com um prato de gozo e troça… Os pais morrem, o grande amor o abandona, as contas chegam, você se vai incapacitando e tendo cada vez mais saudade e mais tesão do próprio estado patético atual, que promete denegrir-se ainda mais. As obras que você completa são cada vez mais sábias e profundas e o vão manchando de carvão, até você ser menos do que um cocô vivo. Tudo isso é a meta; livrar-se dos amigos e da piedade coletiva, pretender ser o sofredor, frustrado com mulheres, cada vez mais só, doente e desprotegido, alvo de espinhos invisíveis… Feliz, no fundo feliz! Agradecer a Lilith de todas as formas (doentes) mentais por ter me oferecido isso! Não importa a consciência, é questão instintiva e contínua, mas sabemos a intervalos. Baratas, mosquitos e suor, todos se juntam numa festa, você é o anfitrião! Morrer de fome como banquete principal, ovelha negra da família, cancerígeno, malcompreendido e malvisto, se é que ainda reparam em você, bactéria humana! Cada vez menos leitores, mais verdades, menos paciência e mais singularidade! Ferir a mão de quem ousar ajudar. Cair na armadilha de quem quiser empurrar. Não reclamar, não reclamar! Apenas se amar.