OVERKILL, A BANDA CLASSE ‘A’ SEM UM ÚNICO ÁLBUM RUIM QUE É POUCO FALADA NO MEIO THRASH

Overkill (OK), de Nova York, ativa há 42 anos e contando. Principal gênero musical: thrash metal. Não só tornou-se, no decorrer da carreira, a banda do estilo com mais álbuns e músicas lançados, como sempre acompanhou a quantidade com a qualidade. E no entanto Bobby Blitz, vocalista e “membro eterno”, & seus comparsas nunca receberam a cobertura midiática que merecem. Mesmo bandas muito menores e questionáveis, como o Voivod, são muito mais conhecidas e celebradas pelo público especializado. Não é meu objetivo desvendar este mistério do show business, mas apenas enaltecer o Overkill pelos muitos “discos rodados” no meu som (ainda que seja apenas uma metáfora para a reprodução de arquivos digitais num HD ou streamings via Spotify), o que significa dizer que me proporcionaram muita alegria, euforia, admiração e até espanto, com discos se superando sem descanso.

Para falar dessa banda com um catálogo monstruoso, vale a pena ser introduzido primeiro aos álbuns por seus nomes e sua característica mais notável: considero todos os trabalhos do Overkill acima da nota 8. E não pense aquele que gosta de Overkill tanto quanto eu que estou sendo severo ao descontar, sem mais nem menos, 2 pontos de obras consideradas quase sempre próximas ao pináculo do gênero possível a cada momento. Faço essa concessão, sobretudo, para diferenciar os álbuns do Overkill nota “8 e alguma coisa” dos álbuns “9 ou mais”, pois por menor que seja a diferença de qualidade entre um trabalho e outro (o que não tem nada a ver com a dinâmica e versatilidade das composições) é necessário colocar os melhores dos melhores num pedestal. Chamemos 8, se preferível, de rank A, já considerada a primeira prateleira do thrash; e 9, se do gosto do cliente, de rank S, obra-prima, daquelas que a história conta nos dedos e, mais do que isso, que nenhuma banda, por mais clássica, indispensável e imortal, lança o tempo todo e a seu bel prazer. Qualquer grupo com trabalhos de ranking S está automaticamente no panteão dos deuses do metal. Bandas com múltiplos álbuns nessa categoria são – ame-os ou suporte-os, porque sua crítica será o mesmo que jogar palavras ao vento – fenômenos consensuais o bastante para estarem sempre no centro dos holofotes, e para marcar gerações sem conta. Com rank S quero me referir a álbuns como Reign in Blood, Ride The Lightning, Master of Puppets, Rust in Peace, Alice in Hell, Seven Churches, Beneath The Remains, Among The Living… Acho que deu para entender. Portanto, apresento-lhes, na minha imodesta opinião, os discos do Overkill até o último, de 2019, divididos nessas 2 categorias (excepcionalmente bons ou lendários!):

Inacreditável, não parece? Independentemente da minha subjetividade altamente incrustada na tabela acima, falo a princípio do fato de uma banda fundada em 1980, dum estilo rápido e agressivo, continuar lançando trabalhos de estúdio no mínimo competentes e relevantes, em intervalos curtos, mesmo com seus membros em idade mais avançada, quando não é fácil fazer turnês, manter a proficiência em seus respectivos instrumentos e – mais importante – a empolgação e a criatividade. Dezenove discos é uma estatística absurda, espetacular. Se são rank B, C, ou se menos álbuns acima são rank S para os leitores e ouvintes, isso é o de menos! Minha didática tem lá seus propósitos. Vou falar um pouco da carreira da banda de forma não-cronológica, citando cada um dos 2 grupos de discos a seu tempo:

Quem pode adivinhar o significado dos sublinhados tracejados da tabela acima? Eles significam sempre a demarcação de intervalos, entre o disco sublinhado e o seguinte, em que a banda atravessou uma fase ou efetuou uma mudança um pouco mais drástica na sua estética. Para todos os propósitos, nesse artigo entenda estética sempre como sinonímia de som, não de roupas ou temas líricos.

A primeira era do Overkill foi de um speed metal (ainda aquém da variedade e distorção de um verdadeiro thrash) muito infundido de punk. Alguns resumem essa mistureba que dá um ar selvagem e urbano a certos grupos através do rótulo street metal. Feel The Fire e Taking Over são o mais próximo de Hirax que você escutará o Overkill tocando. Uma barragem sonora frenética atrás da outra, competindo por cada segundo no CD ou bolachudo, é disso que eu chamaria. A chegada de uma banda ao mercado pede que ela “chegue chegando”, ponha todas as cartas na mesa, suba na mesa, beba a tequila e o conhaque dos inadvertidos convidados da festa, pegue o microfone e faça escândalo – se possível mije na parede depois! Tudo com classe, é claro. Se ninguém ouve muito falar desses dois trabalhos seminais do Overkill, não foi por falta de estilo e de atitude, esteja certo.

Pulando os verdadeiros anos de amadurecimento dos caras, que deixaremos para mais adiante, Horrorscope já vê um grupo que, a despeito da não-fama fora do nicho, vive para fazer música – o que pode até não parecer, mas faz uma diferença e tanto nas escolhas compositivas a partir deste momento de mais estabilidade financeira. A banda sempre teve um tema ou outro voltado para coisas de terror, como em Raising the Dead do primeiro disco, mas resolveu elevar o conceito a protagonista da sonzeira só no quinto trabalho. Horrorscope tem na sua principal composição um riff de Sexta-Feira 13. Continua e aprofunda a parte mais macabra do Years of Decay, mas, ao meu ver, principalmente na produção e na loucura que é o baixo neste lançamento – à propos, nenhuma banda do heavy metal inteiro, salvo os titãs do Black Sabbath, e só direi isso uma vez, tem um baixo tão proeminente e audível nas gravações quanto o Overkill, eis uma de suas marcas distintivas, e que é a favorita de muita gente –, loucura maior do que a média já insana da banda. Ou seja: confirmação de que o grupo toca uma variedade de technical thrash com certos elementos NWOBHM dos mais sacanas e frenéticos, mostrando que o conjunto chegou a um nível genial e elegante de composição sem por isso se desenraizar do punk. O NWOBHM sem o punk não seria nada, não custa lembrar!

I Hear Black é como o Overkill, muito inteligentemente, reagiu à onda grunge que quase pulverizou o thrash metal, transformando a maioria de seus expoentes em groove metal bands, se é que não tirando mesmo qualquer veterano insistente do radar – não com o Overkill, meus caros! Isso sem falar nas novas bandas: nenhuma, apesar da influência óbvia, tocaria igual o Metallica e o Slayer em seus anos seminais. O thrash tinha de súbito virado coisa do passado, era o que se dizia. Nem mesmo Metallica e Slayer tocariam igual o Metallica e o Slayer! Esse era o profundo significado da mudança de estética. Não havia qualquer medida comum entre todas essas bandas citadas nos anos 90 – a pior década para a existência do heavy metal, até aqui – a ponto de conseguirmos fazer comparações simplistas entre elas. O fato é que o Overkill optou por um retorno às origens como lhe cabia: compôs seu material mais derivado de Black Sabbath de que se tem notícia até o momento, tornando-se ao mesmo tempo palatável para qualquer fã de Machine Head e Pantera, porém sem que possamos dizer “virou uma banda de groove com resíduos thrash”. Na verdade é o único exemplo que eu conheço de uma banda ainda essencialmente thrash mas cheia de elementos – bem-implementados, acredite! – de groove e de doom (o que, veremos, não era inédito para a banda mesmo considerando o ano 1993). Em suma, o Overkill conseguiu encorpar seu som sem transformar a própria essência num rip-off de Vulgar Display of Power. Para quem não fosse rumar ao metal extremo nem deixar o som bem mais acessível (hard rock pra baixo, na escala da descomplicação), esse era o único jeito de seguir sua trajetória sem perder de imediato os fãs dos anos 80. As produções do thrash oitentista, os tons das guitarras, quase tudo relacionado aos discos seminais, haviam se tornado ultrapassados num período de tempo tão curto que o que antes era considerado riff pesado virou “linha de guitarra fina e enjoativa”. Como o Overkill não quis virar uma banda de rock’n’roll nem o próximo Cannibal Corpse, resgatou elementos do doom metal antes de ser doom metal e incorporou-os nas suas inconfundíveis canções aceleradas, só que deixando a velocidade menos rápida para dar ao paladar do ouvinte a chance de provar da coisa, saborear, passar a língua, e aí sim consumir direito a guloseima, isto é, a música. Se êxitos extraordinários em processos de adaptação valessem um Oscar, ou pelo menos um Prêmio Darwin, os músicos do Overkill teriam mais o que contar a seus netinhos do que têm hoje! Essa metamorfose, porém, como quase toda a carreira da banda, passou relativamente despercebida pelos olhos do headbanger médio, aquele que só vai em show grande, que ocupa estádios e arenas inteiras.

W.F.O. é a acentuação máxima do ataque dos baixos. Nunca antes uma banda de heavy metal deixou um baixo tão alto (eu sei que esse tipo de frase sempre gera piadinhas) num trabalho de estúdio, a ponto de haver gente que jura que o que ocorreu foi um desastre, uma má produção do disco. Considere apenas uma coisa: não tem como esse efeito não ter sido intencional. Escute e concorde comigo. O baixo é a maior estrela do disco, e é com certeza um exemplo do que chamam na gringa de acquired taste, talvez o caso mais claro na discografia do OK. W.F.O. encerra esta que é a fase mais experimental da banda, depois da rotação ao Black Sabbath de I Hear, e parece mais um Under The Influence, só que com o mesmo peso e “me(n)talidade” (fugindo um pouco do NWOBHM) do Horrorscope.

Em 1996 Killing Kind trouxe novidades na forma de um som sem dúvida mais pesado, mais dependente do groove e menos do metal clássico do Sabbath ou de pinceladas hard rock e derivações do punk. E de novo eu destaco: dependente do subgênero groove, porém com o thrash puxando a carroça. A banda encontrou uma espécie de terreno em que se consolidaria, lançando depois novas variantes e interpretações possíveis de uma mesma estética – mas não digo que o grupo estacionou, atolou ou se confinou neste terreno. É bom mudar; e é bom manter uma identidade. Embora nenhum disco do Overkill pareça ser de outra banda, faz sentido dizer que mudar em excesso a cada novo lançamento também não é um bom caminho, seja para atingir o potencial artístico, seja para simplesmente vender e lucrar. Por alguma felicidade do destino, o Overkill achou o seu jeito anos 90/2000 de fazer metal no Killing Kind, e com o protótipo em mãos só foi afiando a faca e aperfeiçoando o bagulho até o big bang de 2010. From The Underground and Below, Necroshine, Bloodletting, Killbox 13, ReliXIV e Immortalis nada têm de genéricos. Se passo rapidamente por eles, é só por questões de tamanho do texto! Não me deixam mentir canções-grude como Thunderhead, uma das poucas composições clássicas dos anos 90 diante das quais um marmanjo não sentiria vergonha ao cabecear em público. Faço referência ao nü metal, em ascensão meteórica no período 95-2000, talvez até um pouco além: mesmo quando uma banda ou outra tinha uma música boa, os headbangers, murchados, encolhiam os ombros, fingindo não curtir, a não ser em sigilo. Overkill tem um tipo de metal dinâmico tradicional o suficiente para não ser considerado nü metal e, por isso, é uma audição confortável para ouvintes velhos e ortodoxos. Velhos ou… envelhecidos, seria melhor dizer. E, ao mesmo tempo, o Overkill era um dos poucos bastiões do thrash ainda NO thrash capazes de competir com “o som da moda”, de Slipknot, System of a Down e congêneres, justamente por ser um metal mesclando tantas influências e composto de forma tão sem-amarras e inteligente.

Passemos agora ao lado B, digo, ao lado S. Under The Influence representa um grande salto estético para o Overkill. A banda conseguiu juntar seu anterior espírito hiraxiano ao melhor que bandas como Iron Maiden nos começos e Motörhead ou Suicidal Tendencies (“frenesi urbanóide” resume bem a atmosfera, eu diria) poderiam oferecer. Clássico imediato ou instantâneo, como apelidam os críticos. Shred faz o que o título indica: tritura, destrói. Talvez apenas millennials como eu saibam ou se lembrem, mas Shredder, o vilão de Tartarugas Ninja (e estamos, nessa jornada discográfica, em 1989, quando esse seriado estava em alta!) virou Destruidor no Brasil. Parece que nossas primeiras lições de inglês derivam dos desenhos animados… Hello from the Gutter também faz o que o título indica: um cartão de visitas da banda sujo como um Morlock residente do subterrâneo, sem direito a pizza. Os borderline speed metals de Mad Gone World, Brainfade, Drunken Wisdom e End of the Line parecem uma mistura de desabafo pessoal com olimpíadas de mosh pit. Um ditado popular é apropriado pelo punk trevoso na bem-batizada Never Say Never. Head First, que por incrível que pareça não narra um ato sexual, é minha canção predileta do (não vá parar na) U.T.I. Por fim, a banda saca de suas entranhas o terceiro capítulo de sua canção mega-épica (à la Unforgiven), Overkill: Under the Influence. A canção-tema da banda seria encerrada (por enquanto) no quinto episódio, no ainda distante Immortalis, mais uma pista de que os anos 2007-10 representam uma era de significativas mudanças conceituais na carreira dos caras.

Mas é pelo álbum seguinte, The Years of Decay, que o Overkill se tornaria majoritariamente reconhecido. Não há como não dizer que é o Master of Puppets da banda. Não só porque é seu maior sucesso comercial como até sonoramente é impossível negar que MoP foi uma grande influência para as composições. Se parece estranho que o divisor de águas do Metallica, de 1986, tenha repercutido no Overkill só 3 anos depois, havendo ainda o Taking Over e o Under The Influence no meio do caminho, lembre-se que não estamos falando de uma banda comum, maria-vai-com-as-outras! O Overkill não é daqueles grupos que surfam numa onda sem um bom motivo e sem saberem o que estão fazendo. Não se trata de uma ficha que demora a cair, mas do reconhecimento já objetivo e impessoal, distanciado do momento, de que MoP modificou o thrash e a música pesada em geral para todo o sempre. O ritmo deu uma acalmada e o impacto dos riffs ganhou uma bela ênfase. Nem os mais maliciosos poderiam dizer que se trata de um clone tentando aproveitar o vácuo deixado por Master: The Years se assemelha mais a um MoP gravado numa realidade alternativa, com músicas igualmente originais, embora sigam aquele template imortalizado por Hetfield, Ulrich & cia. Não se trata tampouco de dizer que há um melhor e um pior, nos limites deste artigo. O disco “Os anos de decadência” são 56 minutos de puro orgasmo técnico-furioso sem fillers. Quase todas as canções são presença obrigatória em shows do OK: Time to Kill, Elimination, I Hate, Birth of Tension, o tema-título e E.vil N.ever D.ies são o front agressivo por excelência. Pelas beiradas a banda ataca com o que mais chega próximo de uma balada neste disco, Who Tends The Fire. E para quem nem com os petardos acima se dobrou a essa proposta de som, Playing with Spiders/Skullkrusher (10:15 de duração) são (e digo isso porque o título já reconhece que são duas suites ou segmentos numa faixa só) a parte doom do festival de pérolas genuínas; assim como Welcome Home e The Thing that Should Not Be de sua musa inspiradora, este conjunto trovador com certeza não recebeu os aplausos devidos quando exibiu seu lado alternativo ao mundo. Muitos consideram essa faixa o calcanhar-de-aquiles do CD. Nada mais falso. As letras e a performance revolta de Blitz dão aquela pimenta a mais que o autocontido Metallica já tinha ‘castrado’ desde a era Ride the Lightning, para quem gosta de comparações e achou que o autor supostamente covarde deste texto ficaria 100% em cima do muro! Se amor é prosa, este é o sobrenome dos californianos do Metallica; Overkill é puro sexo, digo, poesia, mais direto e sem-vergonha. Espera… Tem algo de errado neste ditado! I Hate é um hino antifa. Só o amor ao ódio aos fascistas pode derrotá-los. O fato de Years of Decay ter vindo depois de …And Justice for All é um sintoma de que o OK também estava entendendo a rápida mutação no subterrâneo, e já tinha a estratégia para mergulhar, de cabeça (Head First!) nos anos 90, o que você viu mais acima. Agora um salto à distância de Maurren Maggi. Já estamos em 2010, ainda ontem!

Na década de 2010 o thrash, considerado morto e enterrado há tempos, entidade assassinada pela ascensão de cometas como Nirvana, Pantera e seus sequazes, e até pelas próprias mutações internas do Metallica, quem capitaneava o movimento em escala primeiro estadunidense, depois global (para ojeriza de um grande contingente!), dentre outros artistas, sofreu um intenso e quase incompreensível revival, e se reestabeleceu na cena, mainstream ou underground (onde, sejamos sinceros, nunca morreu, mas, sim, estagnou um pouquinho em termos de fertilidade e criatividade das composições). Eu poderia afirmar com arrogância que Ironbound (2010) foi uma das forças-motrizes do movimento, porque seria uma hipótese bastante plausível, haja vista o status de cult classic desse disco do Overkill que caiu como uma porrada para quem “entende do assunto”, e justo no comecinho da década. Porém, como é óbvio, tal oportunismo enfraqueceria de forma fatal meu outro argumento, que creio ser o mais fácil de comprovar, o sustentáculo deste artigo, afinal: sendo generalista, os metaleiros não conhecem ou não dão bola para o Overkill (ou seja, não conhecem, porque se conhecessem bem, dariam muita bola!). Então seria contraditório dizer que este álbum ajudou de forma decisiva para o movimento de revivalismo do thrash que vimos no decorrer desta década terminada segundo os calendários, mas que continua pujante durante os anos 2020, quando o assunto é o neo-thrash (a década que não terminou?). Tanto antigos grupos que fundaram a cena nos 80 como bandas de integrantes jovens, como o Evile, recolocaram o thrash na boca e nos ouvidos do “povo”. A onda “renascentista” é fenômeno observável no nosso país, com representantes de ponta como o Violator, da minha querida cidade natal.

Como descrever, portanto, o Ironbound, agora que conhecemos o contexto? Certamente a Zeitgeist afetou o Overkill. De outra forma não poderíamos explicar como raios um álbum como este veio surgir precisamente nessa época! Ainda hoje este é considerado um petardo extemporâneo, um clássico do nível dos estabelecedores do gênero nascido na “época errada”. Mesmo quem torcia o nariz para o estilo mais groovado do Overkill antes desse lançamento engoliu em seco e deu o braço a torcer: acabou por enaltecer o disco sem economia verbal.

The Goal is Your Soul  (4:37) tem o mesmo riff animal de pelo menos 3 canções clássicas do thrash de 3 das 4 bandas do aclamado “Big Four” californiano: Metallica (Phantom Lord), Megadeth (This Was My Life) e Anthrax (A Skeleton in The Closet).

Devo insistir, todavia, que o Overkill não é uma banda pura – ela é herege. Herege e… tradicionalista: jamais nega suas raízes, jamais se transforma completamente. Seu thrash, mesmo após a onda revivalista, continua sempre groovado, com algo a mais. Thrash metal é algo, a rigor, histórico e pitoresco, jamais repetível. Neo-thrash? Ressurreição?! Nós é que, tão perto da história cultural se realizando, não sabemos expressar com palavras esse fenômeno, e temos que recorrer a velhos vocábulos e formalismos classificatórios…

Dois anos depois, Electric Age, o álbum sucedâneo, já estava na praça. Ele, como também depois o White Devil Armory e o Grinding Wheel fariam, reaproveitou o template mas, na minha opinião, melhorando-o, por sua vez.

Wings of War é uma estória um pouco diferente, e por isso coloquei uma linha tracejada entre GW e WW. Em canções do último full-length da banda até a data deste artigo, como Welcome to the Garden State, Blitz se aproxima de Ozzy Osbourne na voz. É como ouvir, por alguns minutos, o clássico vocalista do Black Sabbath seguindo em sua carreira-solo, só que com uma banda instrumental ainda mais qualificada, isso quando sabemos que O.O. tem uma das trajetórias – mesmo depois da separação do BS, e antes das várias reunions ocorridas com os velhos amigos Butler e Iommi – mais dignas e respeitadas do hard rock/heavy metal. Como Blitz continua alcançando as mesmas notas nos graves e agudos que o celebrizaram como grande cantor nas canções mais “feijão-com-arroz” do disco, essa é assumidamente uma opção artística. Uma ampliação do cartel de proezas do frontman. Sem falar que Hole in my Soul, outra das faixas, parece mesmo título de música do Sabbath setentista! Se estas mutações demarcam o início de uma tendência a ser desenvolvida e completada ou são só um desvio episódico na carreira da banda, é cedo demais para afirmar. O que eu sei é que é o trabalho o mais genial que o Overkill já ofereceu composicionalmente. É sempre difícil afirmar de boca cheia algo dessa magnitude, sobretudo na época em que um lançamento ainda está quente no mercado. Mas já se passaram 3 anos, e escutei muito o Wings of War, sem que minha empolgação em relação a ele tenha minguado! Se a primeira hipótese se confirmar, mesmo sem precisar, os veteraníssimos do OK parecem ter achado “outro novo rumo”… Aquela fórmula do “em time que está ganhando não se mexe” com certeza não se aplica a músicos experientes, que sabem mudar para melhor mesmo quando, se fossem uma equipe esportiva, estão nitidamente liderando o campeonato que disputam!

PALAVRAS FINAIS

Vivemos uma nova era de ouro do estilo em que se convencionou classificar o Overkill. Vivemos, na minha opinião, além disso, o grande ápice desta banda em particular. São músicos que, em anos de carreira, superam em muito minha idade. Os membros do OK são, portanto, indivíduos avizinhando-se do que costumávamos chamar até outro dia de “terceira idade”. Os tempos mudam, dizem: a longevidade das pessoas aumenta, e com isso a duração de sua atividade em seus ofícios ou profissões. Só que não deixa, por isso, de ser uma ocorrência espantosa. Menos pelo lado físico da coisa, já que os profissionais de hoje tomam cuidado como nunca, desconstruindo esse estereótipo cretino do roqueiro que é sempre um drogado que morre jovem. Falo mais do lado essencialmente artístico: medicina e hábitos saudáveis aparte, que estes “senhores” (tem que ter respeito!), há décadas no ramo da música, continuem criando em altíssimo nível, ou seja, sigam com a alma jovem e queimando intensamente, isso sim eu considero sem precedentes e verdadeiramente assustador e admirável, toda vez que paro e penso em sua comprida trajetória. São artistas que há bastante tempo se provaram e não devem nada a ninguém. Cabe lembrar que, ao contrário da literatura, por exemplo, o auge dos artistas no campo musical se dá, historicamente, muito mais cedo. Ressalva: dá-se ou dava-se: pois é, os tempos mudam; e talvez estejamos diante de uma subversão de dados sociológicos das grandes, acompanhando tudo ao vivo!

Sagrado Inferno, Devorador de Almas (2019)

Esta banda mineira também explorou o riff mais conhecido do thrash metal, o de The Goal is Your Soul, alongando-o e distorcendo-o um pouquinho, a bem da verdade – a conferir abaixo para quem tem Spotify (segundos 1:45 a 2:35; e de novo depois de 3:20):

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A POLÊMICA ARISTÓTELES X SCHOPENHAUER NO TOCANTE AO PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO

O princípio aristotélico (ou princípio da não-contradição) talvez seja o mais importante da Primeira Filosofia (ironia das ironias, ele não é um conceito meta-Lógico, i.e., não deveria servir para elaborar metafísica, e sim apenas para discussões práticas). Uma rápida demonstração da aplicação do princípio: se A é não-B, e se B é não-A, logo: A não pode ser não-A (auto-evidente); não-A é B; B não pode ser não-B; não-B é A.

O que seria o ‘nada negativo’ que Schopenhauer enumera ao lado da contraparte aristotélico-kantiana do ‘nada positivo’ ou ainda ‘nada (meramente) privativo’? Aquilo que não existe formalmente: um A = não-A ou B = não-B; ou ainda: um superveniente C que se identificasse com A e B ao mesmo tempo (o que seria chamado, desde Aristóteles, também de absurdo ou impossibilidade). O nada não tem lugar no mundo dos fenômenos.

Mas a fim de transcender esse ‘sistema’, teríamos de imaginar um mundo ou uma filosofia contraditórios, i.e., transgredir esse princípio básico da não-contradição, aceitar e abraçar o absurdo e o paradoxal. Essa luta de Schopenhauer pelo reconhecimento do nada negativo também nos ajuda a compreender por que o autor “santifica” seu bem ascético, i.e., dá um status de bem absoluto à negação da Vontade, em que pese dizer que o “bem absoluto” é uma contradição e que só existe o bem relativo. Dentro deste quadro de superação-de- ou de aplicação-literal-e-extrema-de-Aristóteles, o filósofo alemão consegue ser coerente consigo mesmo (ele representa o C que se identifica ao mesmo tempo com o A e o B) – levando a lógica às últimas conseqüências do lado de cá (do mundo das aparências ou fenomênico e, paradoxalmente, do mundo moderno-cristão, que justamente nega por inteiro este mesmo mundo em sua doutrina mais purificada!).

CURSOS DE ESTÉTICA Vol. I/IV (ou: TELEOLOGIA IDEALISTA DA ARTE) – Hegel (trad. Marco Aurélio Werle) (Edusp, 2001, 2.ed.)

NOTA DO TRADUTOR

Para distinguir a ‘idéia’, em sentido hegeliano, do termo corrente ‘idéia’, optamos por marcá-la com maiúscula: ‘Idéia’.”

Preferimos traduzir Gestalt por ‘forma’ e não por ‘figura’, em razão da conotação estética que o termo ‘figura’ apresenta nas artes visuais. Ressalte-se, porém, que a tradução para ‘figura’ não é incorreta, tanto que em alguns momentos optamos por ela, p.ex. no caso de caracteres, personagens de uma tragédia, e quando se tratava de uma figura matemática, p.ex. um triângulo.” “Gestalt é ‘forma’ enquanto Form é ‘Forma’.” O sentido de Form é mais universal. Ex: Gestalte de arte: simbolismo, classicismo, romantismo; Formen de arte: um objeto particular numa dada pintura. Toda Gestalt é uma Form, nem toda Form é uma Gestalt.

O termo Darstellung na maior parte das vezes foi traduzido por ‘exposição’; algumas vezes, porém, por ‘representação’ (com acréscimo do termo alemão entre colchetes), tendo em vista que o termo ‘exposição’ pode facilmente ser confundido com ‘mostra’, no sentido de uma ‘mostra de arte’. Nesta opção de Darstellung por ‘representação’, porém, apresenta-se o perigo do falseamento de uma distinção importante da filosofia pós-kantiana e idealista, a saber, entre Darstellung e Vorstellung, termo este que mais propriamente corresponde a ‘representação’ em português.” “‘representação’ quando traduz Darstellung deve ser tomada no sentido de uma ‘representação plena’ (onde não há separação entre interior e exterior), de uma ‘apresentação’ ou ‘manifestação’ total do espírito e não no sentido estrito de ‘re-presentação’ ou de mera ‘concepção’.”

um erro grave: confundir ‘estado’ (Zustand) com ‘Estado’ (Staat) no subitem ‘O estado universal do mundo’ da 1ª parte. Esta é a mesma tradução que se encontra reproduzida, em parte, no volume Hegel da Col. ‘Os Pensadores’ (SP, Abril Cultural) e que recentemente foi reeditada na íntegra pela Ed. Martins Fontes, SP, 1996-7, em 2 vols. (vol. I: O Belo na Arte, 1996 e vol. 2: O Sistema das Artes, 1997).”

algumas vezes optamos por desmembrar alguns períodos longos, para adaptar o texto alemão à estrutura da língua portuguesa.”

PREFÁCIO DE HEINRICH GUSTAV HOTHO PARA A 1ª EDIÇÃO DOS CURSOS DE ESTÉTICA

Como com História da Filosofia: “o texto dos Cursos de Estética não foi publicado pelo próprio Hegel e sim é uma reconstituição feita por um de seus alunos.”

É difícil compreender como o próprio Hegel na cátedra sempre conseguia se orientar no fluxo das preleções a partir destes cadernos com seu vocabulário lacônico e notas marginais confusas escritas umas por cima das outras e ampliadas ano após ano. Pois mesmo o leitor mais experiente não consegue orientar-se na leitura destes manuscritos valendo-se do reconhecimento dos sinais que apontam para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda e ao dispô-los adequadamente.”

ouvir e ler são coisas distintas e o próprio Hegel, como se mostra pelos manuscritos, nunca escreveu assim como falava.”

manter (…) o colorido de sua dicção, que se imprimia vivamente em todos os que mais demoradamente se familiarizavam com seus escritos e preleções.” Todo editor acha que seu próprio método é superior, fim.

INTRODUÇÃO

Em virtude da inadequação ou, mais precisamente, por causa da superficialidade deste nome, [a Estética propriamente wolffiana] procuraram-se também formar outras denominações, como o nome kalística (do grego kallos).”

(*) Wolff (1679-1754) foi o último expoente da filosofia na Alemanha anterior ao Kantismo. “O termo latino aesthetica foi pela 1ª vez aplicado a esta nova ciência por Alexander Baumgarten (1714-62) em sua Methaphysica (1739) e Aesthetica (1750-8). O termo deriva do grego aisthanesthai: ‘perceber’; aisthesis: ‘percepção’; aisthetikos: ‘o que é capaz de percepção’.”

enquanto mero vocábulo, ele é para nós indiferente e uma vez que já penetrou na linguagem comum pode ser mantido como um nome. A autêntica expressão para nossa ciência é, porém, filosofia da arte, mais precisamente filosofia da bela-arte.” Contradiz-se.

Pois a beleza artística é a beleza nascida e renascida do espírito e, quanto mais o espírito e suas produções estão colocadas acima da natureza e seus fenômenos, tanto mais o belo artístico está acima da beleza da natureza.”

A superioridade do espírito e de sua beleza artística perante a natureza, porém, não é apenas algo relativo, pois somente o espírito é o verdadeiro, que tudo abrange em si mesmo, de modo que tudo o que é belo só é verdadeiramente belo quando toma parte desta superioridade e é por ela gerada.”

parece que sempre permanecerá prejudicial para a arte o fato de necessitar da ilusão [Täuschung], mesmo que de fato se submeta a fins sérios e produza efeitos sérios.”

A arte tem à sua disposição não somente todo o reino das configurações naturais em suas aparências múltiplas e coloridas, mas também a imaginação criadora que pode ainda, além disso, manifestar-se em produções próprias inesgotáveis. Perante esta plenitude incomensurável da fantasia e de seus produtos livres, o pensamento parece que tem de perder a coragem para trazê-los em sua completude diante de si, para julgá-los e enquadrá-los em suas fórmulas gerais.”

Segundo todos estes aspectos parece que a bela-arte, tanto em sua origem quanto em seu efeito e âmbito de abrangência, em vez de se mostrar adequada ao esforço científico, antes resiste em sua autonomia contra a atividade reguladora do pensamento e não se mostra adequada à autêntica investigação científica.”

[segundo a estética seminal francesa, anterior à minha filosofia – diz Hegel] não podem existir leis gerais do belo e do gosto, uma vez que as representações do belo são tão infinitamente variadas e, por isso, algo de particular.”

a arte não é de fato independente e livre, mas servil. Entretanto, o que nós pretendemos examinar é a arte livre tanto em seus fins quanto em seus meios.” “a ciência [também] pode ser empregada como entendimento servil para fins finitos e meios casuais e assim não adquire sua determinação a partir de si mesma, mas a partir de outros objetos e relações”

A bela-arte é, pois, apenas nesta sua liberdade verdadeira arte e leva a termo a sua mais alta tarefa quando se situa na mesma esfera da religião e da filosofia e torna-se apenas um modo de trazer à consciência e exprimir o divino, os interesses mais profundos da humanidade, as verdades mais abrangentes do espírito.”

trata-se da liberdade do conhecimento pensante, que se desobriga do aquém, ou seja, da efetividade sensível e da finitude.”

toda esta esfera do mundo empírico interior e exterior não é o mundo da verdadeira efetividade e deve com mais rigor do que a aparência artística ser denominada de uma mera aparência e de uma ilusão mais dura.”

As representações [Darstellungen] artísticas tampouco podem ser consideradas uma aparência ilusória perante as representações [Darstellungen] mais verazes da historiografia. Pois a histor. não possui como elemento de suas descrições a existência imediata, mas sua aparência espiritual. (…) [Já] a obra de arte coloca diante de nós as forças eternas que regem a história, desligadas do presente sensível imediato e de sua inconsistente aparência.”

A penetração do espírito na Idéia é-lhe mais penosa quando passa pela dura casca da natureza e do mundo cotidiano do que lhe é pelas obras de arte.”

sobretudo o espírito do mundo atual, ou melhor, o espírito de nossa religião e de nossa formação racional se mostra como tendo ultrapassado o estágio no qual a arte constitui o modo mais alto do absoluto se tornar consciente [, ao contrário do mundo grego].”

O pensamento e a reflexão sobrepujaram a bela-arte.”

ou podemos lamentar a miséria do presente, o estado intrincado da vida burguesa e política, que não permite que o ânimo aprisionado a interesses mesquinhos possa libertar-se para os fins superiores da arte. Já que a própria inteligência, nas ciências, está a serviço dessa miséria e de seus interesses, e as ciências, só tendo utilidade para tais fins, se deixam seduzir e envolver por essa aridez.”

Os belos dias da arte grega assim como a época de ouro da Baixa Idade Média passaram.”

o estado de coisas da nossa época não é favorável à arte. Mesmo o artista experiente não escapa desta situação.” “a natureza de toda a cultura espiritual faz com que ele esteja justamente no centro desse mundo reflexivo e de suas relações. Ele não pode abstraí-lo por vontade e decisão pessoais; nem por meio de uma educação específica ou de um distanciamento das relações humanas fabricar e formar uma solidão particular, restauradora do que se perdeu.”

A ciência da arte é, pois, em nossa época muito mais necessária do que em épocas na qual a arte por si só, enquanto arte, proporcionava plena satisfação.” Já não suportamos mais a crítica. Fora com ela!

considero o filosofar completamente inseparável da cientificidade, sejam quais forem as concepções que se possa ter da filosofia e do filosofar.”

Nesta ocupação com o outro de si mesmo, o espírito pensante nem se trai, a ponto de esquecer-se e de abandonar-se, nem é tão impotente, a ponto de não poder apreender o que se distingue dele. Na verdade, ele apreende conceitualmente a si e a seu oposto. (…) É por isso que a obra de arte, na qual o pensamento se aliena, pertence ao âmbito do pensamento conceitual. (…) A arte, porém, longe de ser a Forma suprema do espírito, como ainda veremos de um modo mais detido, apenas na ciência alcança sua autêntica legitimidade.”


FILOSOFIA ABSTRATA E PARTICULARISTA DO BELO (1)

X

FILOSOFIA UNIVERSALISTA DA ARTE (2)

  1. tem o empírico como ponto de partida – é o caminho necessário para aquele que pretende tornar-se um erudito em arte [ESTETA, CRÍTICO]. E, assim como atualmente quem não se dedica à física deve estar de posse dos conhecimentos físicos mais essenciais, do mesmo modo tornou-se necessário a um homem culto genérico possuir alguns conhecimentos de arte. [um crítico a meias! mas seria melhor saber zero!] A pretensão de se apresentar como DILETANTE ou CONHECEDOR DE ARTE é bastante difundida.”

  2. a reflexão totalmente teórica, a que se esforça por conhecer o belo como tal a partir dele mesmo e por fundamentar sua Idéia.”

1(a). “Mas, para serem realmente reconhecidos como erudição, estes conhecimentos devem possuir uma natureza variada e uma ampla abrangência. Isso porque a 1ª exigência é a exata familiaridade com o âmbito incomensurável das obras de arte individuais de épocas antigas ou recentes. Trata-se de obras de arte que em parte já sucumbiram na efetividade e em parte pertencem a nações ou recantos distantes do mundo; e que o desfavor do destino suprimiu ao nosso olhar. (…) toda obra de arte pertence à sua época, ao seu povo, ao seu ambiente, e depende de concepções e fins particulares, históricos e de outra ordem. Neste sentido, a erudição em arte exige igualmente uma ampla riqueza de conhecimentos históricos, que devem ser, além disso, muito especializados, tendo em vista que a própria natureza individual da obra de arte está referida ao singular e necessita do que é especializado para sua compreensão e esclarecimento. – Esta erudição (…) não requer somente memória (…) necessita (…) imaginação aguçada” Sem a imagem do todo da obra de arte (e, o que é mais, de inúmeros e variegados detalhes muito sutis mas proporcionalmente importantes), nada feito, e o erudito cai em descrédito!

1(b). “Assim como em outras ciências que possuem um início empírico, estes pontos de vista (…) formam critérios e enunciados gerais ou, numa generalização ainda mais formal, as teorias das artes. (…) P.ex., da Poética arist., cuja teoria da tragédia ainda hoje tem interesse. Ainda entre os antigos é a Ars Poetica de Horácio e o escrito de Longino sobre o sublime que podem nos dar uma concepção geral do modo de como tal teorizar era tratado.” Em geral, tratava-se de preceitos e regras para seguir numa época de decadência da arte.

boa parte de tais determinações são reflexões muito triviais que em sua generalidade não levam a nenhuma verificação do particular, embora seja disso que principalmente se trate. A epístola de Horácio (…) está cheia delas”

outro tipo de interesse dessas teorias não consiste em propiciar diretamente a produção de obras de arte autênticas, mas na intenção de formar o juízo sobre obras de arte e o gosto.”

Exemplos modernos: Home, Elementos de Crítica, 1762; Batteux em geral; Ramler, Introdução às Ciências do Belo (4 vols., 1756-58) (que é efetivamente uma tradução de Batteux).

No início, a análise do gosto pertencia exclusivamente à psicologia: “uma vez que a formação do gosto apenas se dirigia ao que era exterior e escasso e, além do mais, tomava igualmente suas prescrições apenas de um círculo estreito de obras de arte e de uma formação estreita do entendimento do ânimo, sua esfera era insuficiente e incapaz de captar o que é interior e verdadeiro ou de aguçar o olhar na consideração das obras.” Resultado final: o belo e seus vários lados.

Meyer, História das Artes Plásticas na Grécia

o caricatural apresenta-se como o característico do feio, o qual certamente é uma desfiguração.” Conceito de belo ainda muito limitado, o desta época!

1(c). “O direito do gênio”

A antropologia da arte de uma geração próxima à de Hegel começa a valorizar as artes não-européias. O Romantismo é já sintoma desta mudança de percepção sobre a arte clássica.

É claro que se o romantismo invadiu o Germanismo (apud Hegel), ele seria muito enaltecido em sua Estética – óbvio ululante!

Somente a erudição da história da arte manteve seu valor permanente e deverá mantê-lo tanto mais quanto, em virtude da ampliação acima referida da receptividade espiritual, seu horizonte se alargar em todos os sentidos.” O especialista geral e o especialista especialista em alguma vertente artística!

Foi o que fez Goethe, que escreveu muito sobre arte e obras de arte [sem ser um filisteu].”

2. (prolongamento)

Aquele que entendeu Platão apenas a meias (mas esse é um defeito de incontáveis alemães!): a falta de conteúdo inerente à idéia platônica não mais satisfaz as necessidades filosóficas mais ricas de nosso espírito atual. É claro que também na filosofia da arte necessitamos partir da Idéia do belo, mas não devemos somente nos ater àquele modo abstrato de filosofar das idéias platônicas, que representam só o começo do filosofar sobre o belo.”

Então Hegel propõe uma síntese de 1+2 = (3)

3. “O [autêntico] conceito filosófico do belo” “princípios substanciais, necessários e totais.”

temos de começar com o seu conceito.”

Se começamos com o próprio conceito de belo artístico, (Platão) este passa a ser imediatamente uma pressuposição e mera hipótese; o método filosófico, contudo,… (blá, blá, blá)


Gostaríamos de tratar com poucas palavras esta dificuldade própria à introdução a toda disciplina filosófica considerada de um modo autônomo por si mesma.”

  1. delimitação do objeto;

  2. o que é o objeto.

Poderia inclusive parecer risível se para a astronomia e para a física fosse imposta a exigência de provar que existe o sol, o firmamento, os fenômenos magnéticos, etc. Nestas ciências, que se ocupam com algo que existe sensivelmente, os objetos são tomados da experiência externa e, em vez de demonstrá-los, considera-se suficiente mostrá-los. Contudo, mesmo no interior das disciplinas não-filosóficas podem emergir dúvidas sobre a existência [Sein] de seus objetos [éter, buraco negro, etc.]”

Essa dúvida sobre a existência ou não de um objeto da representação ou intuição interiores, essa contingência da consciência subjetiva de tê-lo gerado em si mesma e a dúvida sobre a correspondência do objeto em seu em-si-e-para-si com a maneira de concebê-lo, suscita no homem precisamente a mais alta necessidade científica” A velha lorota de requerer-se uma prova daquilo que (supostamente) não é captado pela apercepção (o belo)…

Não resta mais nada, portanto, a não ser aceitar o conceito da arte, por assim dizer, lematicamente.¹ Isto é o que ocorre com todas as ciências filosóficas particulares, quando são tratadas de modo isolado.” Segundas filosofias…

¹ Derivado de lemático, lema. Mas não vejo no que diferiria de tematicamente, então ainda suspeito que possa ser erro ortográfico.

No momento, não é nossa finalidade demonstrar a Idéia do belo, que é nosso ponto de partida, i.e., deduzi-la segundo a necessidade dos pressupostos que antecedem as ciências, de cujo seio ela nasce. Tal trabalho é próprio de um desenvolvimento enciclopédico de toda a filosofia e de suas disciplinas particulares.” A.k.a.: agora vamos sem pensar, depois vamos parar no mesmo lugar! (going full circle ‘round the object)


À página 47 de minha edição, últimas linhas, começa a CONCLUSÃO DA INTRODUÇÃO (sim, com H. é sempre complicado neste nível!).

período do gênio, período que foi instituído pelas primeiras produções poéticas de Goethe e, então, pelas de Schiller. [Inauguração do Tempestade e Ímpeto] Em suas primeiras obras estes poetas partiram do zero ao pôr de lado todas as regras que na época eram fabricadas e ao agir intencionalmente contra elas, no que também ultrapassaram amplamente outras. Não pretendo, contudo, esmiuçar as confusões que imperaram sobre o conceito de entusiasmo e de gênio, e sobre a confusão que ainda hoje impera acerca do que o entusiasmo por si mesmo é capaz de gerar.”

a obra de arte tem um lado puramente técnico, que se estende até o artesanal, especialmente na arquitetura e na escultura, menos na pintura e na música e menos ainda na poesia.”

é por sua vez pelo estudo que o artista toma consciência deste Conteúdo¹ e conquista a matéria e o conteúdo de suas concepções.”

¹ Por ser altamente brega, esta será a única vez em que respeito a grafia da tradução, com “c” maiúsculo.

A música, p.ex., que somente se ocupa com o movimento totalmente indeterminado do interior espiritual, com o ressoar por assim dizer do sentimento destituído de pensamento, tem pouca ou nenhuma necessidade de matéria espiritual na consciência. O talento musical se anuncia, por isso, geralmente na juventude muito precoce, em cabeças ainda vazias e em ânimos pouco exercitados, sendo que pode muito cedo já ter chegado a uma altura bastante significativa, antes mesmo de ter experimento espírito e vida.”

Bem diverso é o caso da poesia. Nela se trata da exposição cheia de conteúdo e pensamentos feita pelo homem, de seus interesses profundos e das potências que o movem.”

Os primeiros produtos de Goethe e de Schiller são de uma tal imaturidade, até mesmo de uma crueza e barbaridade, que chegam a assustar.”

H. contrapõe aqui o entusiasmo barato, fogo-de-palha, ao verdadeiro entusiasmo do poeta formado e completo.

Deles [na maturidade] podemos dizer que foram os primeiros que souberam dar à nossa nação obras poéticas e são nossos poetas nacionais, assim como apenas o velho Homero buscou inspiração para seus cantos imortais e eternos e os produziu.”

tudo o que é espiritual é melhor do que qualquer produto natural. Aliás, nenhum ser natural expõe ideais divinos, como a arte o faz.”

D. é tão ativo na produção artística quanto nos fenômenos da natureza. O divino, porém, adquiriu um ponto de passagem correspondente a sua existência [Existenz] [existência do Espírito] no modo como se deixa conhecer na obra de arte, ao ser esta gerada pelo espírito, ao passo que a existência [Dasein] [fenomenológica] na sensibilidade sem consciência da natureza não é um modo de aparecer adequado ao divino.”


capricho & necessidade

com capricho necessário arrematei minha obra


Não podemos ainda responder completamente a esta questão acerca da necessidade não-casual, mas absoluta da arte, uma vez que ela é mais concreta do que a resposta que poderia ser dada neste momento. [dentro da metafísica ocidental!]


O homem não é, mas é ao quadrado. é²

Penso, logo atuo.

Só o homem pensa.

As ações dos outros animais não são ações, se se quer que haja apenas uma palavra para o que ação é no seu mais íntimo profundo.

E tudo se torna ainda mais complicado quando pensamos que nem toda cultura antropologiza! Poderíamos considerar o auge do Romantismo como uma arte de cachorro!


Temor, angústia, preocupação, susto, p.ex., são decerto algumas modificações de um e mesmo modo de sentir, embora em parte sejam apenas gradações quantitativas, em parte formas que não têm nada a ver com seu conteúdo, pois lhe são indiferentes.”

Descrição do temor como uma mescla de [+] e [-] batalhando no sujeito.

expectância da prevalência de uma presença ou de sua destruição

O que resta é minha afecção meramente subjetiva na qual desaparece a coisa concreta ao ser comprimida na esfera mais abstrata. Por isso, a investigação sobre os sentimentos que a arte suscita ou deve suscitar permanece totalmente numa indeterminação e é uma consideração que abstrai justamente do autêntico conteúdo

No sentimento, no entanto, esta subjetividade destituída de conteúdo não só se mantém, mas é a coisa principal, e por isso os homens gostam tanto de sentir.” Os imbecis cinematográficos de hoje em dia. Como andar de montanha-russa ou usar uma droga.

A profundidade da coisa permaneceu inacessível para o gosto” “É por isso que o assim chamado bom gosto se amedronta diante de todos os efeitos mais profundos, silencia onde a própria coisa vem à tona e desaparecem os aspectos exteriores e secundários.” O limite do gosto são os meios de produção da sociedade burguesa.

o conhecimento de arte, e este é seu ponto fraco, pode prender-se ao estudo dos aspectos puramente exteriores, do que é técnico, histórico e assim por diante, e não perceber muita coisa ou mesmo ignorar por completo a verdadeira natureza da obra de arte. (…) No entanto, se sua natureza for autêntica, o conhecimento de arte se volta ao menos para princípios e conhecimentos determinados e para um juízo com base no entendimento, ao que se junta também a apreciação da obra de arte e as mais precisas distinções de seus diversos aspectos”

Por isso, a obra de arte, embora possua existência sensível, [Existenz] não necessita de uma existência sensível-concreta [Dasein] e de uma vitalidade natural.” desejo da carne x desejo do espírito “Pois a inteligência racional não pertence, como os desejos, [em H. desejo é apenas desejo da carne, que se entenda bem] ao sujeito particular enquanto tal, mas somente ao particular como imediatamente universal em si mesmo. (…) Por meio disso, o homem busca restabelecer a essência interior das coisas que a existência sensível não pode imediatamente mostrar, embora esta constitua seu fundamento. Assim como não tem nada em comum com os impulsos dos desejos apenas práticos, a arte também não compartilha do interesse teórico na forma científica, cuja satisfação é tarefa da ciência.” Nem pura sensação nem pura abstração. A arte não é uma equação ou heroína injetada nas veias.

Como a obra de arte é um objeto exterior que se manifesta numa determinidade imediata e singularidade sensível, segundo a cor, a forma, o som ou a intuição particular e assim por diante, a reflexão sobre arte não pode transcender a objetividade imediata que lhe é oferecida e querer captar o conceito desta objetividade como conceito universal, como faz a ciência.”

O interesse artístico se distingue do interesse prático do desejo pelo fato de deixar seu objeto subsistir livremente em si mesmo (…) Em contrapartida, a consideração artística se distingue de modo inverso da consideração teórica da inteligência científica, dado que se interessa pelo objeto em sua existência particular e não age para transformá-lo em seu pensamento e conceito” Nem o sexo nem o conhecimento biológico das enzimas secretadas durante o ato sexual: apenas o que significa simbolicamente o sexo para o homem, i.e., eu, talvez apenas este sexo, nesta circunstância, com esta mulher. No fundo, o sexo com o Ser. O sexo com o meu duplo. A retroalimentação desta experiência passada, presente, futura na minha existência.

a obra de arte se situa no meio, entre a sensibilidade imediata e o pensamento ideal.”

o olfato, o paladar e o tato ficam excluídos da obra de arte.”

a arte produz intencionalmente a partir do sensível apenas um mundo de sombras de formas, sons e visões e não se deve pensar que é por mera impotência ou limitação que o homem sabe apenas apresentar uma superfície do sensível e esquemas quando cria obras de arte.” “ressonância e eco”

Podemos comparar [a atividade artística] com o modo de agir de um homem experiente, espirituoso e inteligente que, embora conheça profundamente a vida, a substância comum a todos os homens, aquilo que os move e os domina, no entanto, nem submete estes conhecimentos, para si próprios, a regras gerais, nem sabe explicitá-los aos outros por meio de reflexões universais” “Tal tipo de imaginação se baseia antes na memória (…) [que na] criatividade em si.” Essa seria a fantasia artística média, em H..

A fantasia artística produtiva, porém, é a fantasia de um grande espírito e de um grande ânimo, é o conceber e criar representações e figurações, mais precisamente, figurações dos mais profundos e universais interesses humanos numa exposição imagética totalmente determinada e sensível.”

Assim, pode-se dizer com mais razão que não há um talento científico específico, no sentido de um mero dom natural. A fantasia, pelo contrário, possui um modo de produção ao mesmo tempo instintivo, na medida em que o imagético e a sensibilidade essenciais da obra de arte devem estar subjetivamente presentes no artista como dom e impulso naturais; como agir inconsciente devem também pertencer ao lado natural do homem.” “É por isso que todos podem, em maior ou menor grau, fazer arte, mas para alcançar o ponto em que a arte verdadeiramente começa é necessário talento artístico inato.”

Na maior parte das vezes tal talento enquanto disposição natural já se anuncia na precoce juventude e se revela numa ansiedade turbulenta – viva e ativamente – para dar forma de modo imediato a um material sensível determinado, e em considerar esse tipo de expressão e comunicação como o único ou como o principal e o mais adequado.”

Quando James Bruce, em sua viagem à Abissínia, mostrou pinturas de peixes a um turco, deixou-o imediatamente perplexo, mas logo em seguida recebeu a resposta: <Se este peixe no dia do Juízo Final se levantar contra ti e disser que ganhou um corpo, mas não uma alma viva, como tu te justificarás perante tal acusação?>

HIPER-REALISMO ANTIGO: “há exemplos de reprodução perfeitamente ilusória. As uvas pintadas por Zêuxis (cf. Plínio, História Natural) foram consideradas, desde sempre, como triunfo da arte e, ao mesmo tempo, como triunfo do princípio da imitação da natureza, pois pombas vivas as teriam picado.” Hoje as pombas implumes saem do cinema convencidas da realidade de todas as imagens, e menos convencidas, em proporção, de qualquer possível metafísica comunicada pela tela.

quanto mais a reprodução for parecida com o modelo natural, tão mais rapidamente esta alegria e admiração também se tornarão por si mesmas geladas e frias ou se transformarão em tédio e antipatia. Já se falou com espírito sobre retratos que se parecem tanto com o retratado que chegam a ser repugnantes.”

Kant cita (…) que (…) tão logo descobrimos que o autor do canto do rouxinol que apreciamos era na verdade uma pessoa, imediatamente ficamos enfastiados com tal canto.”

(N. da T.) “Note-se, entretanto, que K. cita este exemplo para afirmar a superioridade do belo natural sobre a tentativa de sua mera reprodução, ao passo que para H. o acento está colocado na questão da inferioridade da mera imitação em relação à natureza enquanto tal [e mais ainda em relação à autêntica arte].” No fundo, duas formas de dizer a mesma coisa.

artifício e imitação (Kunststück) x arte efetiva (Kunstwerk)

a esta competição abstratamente imitativa devemos comparar o artifício de alguém que, sem errar, aprendeu a lançar ervilhas por um pequeno orifício. Tal homem se apresentou com esta habilidade para Alexandre e este o presenteou com um alqueire de ervilhas como recompensa por esta arte inútil e sem conteúdo.”

se entre os homens acontece que nem todo marido ache sua mulher bela, todo noivo julga bela a sua noiva – e até mesmo exclusivamente bela; e é uma sorte para as 2 partes que o gosto subjetivo não tenha nenhuma regra rigorosa para esta beleza.”

[nem] a exigência de naturalidade enquanto tal é, porém, o substancial e primordial que fundamenta a arte” Neste trecho, subentende-se que H. desaprovaria, e com acerto, a escola naturalista das artes plásticas, mas também sua manifestação literária posterior, que lhe são póstumas.

A arte deve efetivar em nós aquele conhecido enunciado Nihil humani a me alienum puto

ensinar a conhecer intimamente tudo o que é horrível e horripilante assim como o que é prazeroso e beato” linha de um contínuo K. H. N.

para que as experiências da vida não nos deixem insensíveis”

apriorisionamento dos imediatistas

Teria H. ido além de Aristóteles-Schopenhauer na teoria da catarse? “Pois a determinação de que a arte deve refrear a brutalidade, formar as paixões, permaneceu totalmente formal e universal, de modo que se tratava novamente de uma espécie determinada e do objetivo essencial desta formação. § A perspectiva da purificação das paixões, na verdade, sofre da mesma deficiência encontrada anteriormente na suavização dos desejos, embora ressalte pelo menos mais vivamente a necessidade de uma medida para as representações [Darstellungen] artísticas, por meio da qual possa ser averiguada a dignidade ou não da arte. Esta medida é justamente a eficiência na separação do puro e do impuro nas paixões. Por isso, ela precisa de um conteúdo que seja capaz de manifestar esta força purificadora; e na medida em que a finalidade substancial da arte deve ser a produção de tal efeito, o conteúdo purificador deve tornar-se consciente segundo sua universalidade e essencialidade.” Ainda não escapa do imperativo categórico! Mas sigamos, pois aqui H. está analisando a validade do argumento, ainda…


Enfim, queremos criar um novo mundo ou apenas estudar as belas-artes do atual valor dos valores? Pois Platão está justificado em “romper com Homero (e, portanto, a poesia até sua época em conjunto)” apenas diante do niilismo que grassava a polis (o mal maior).

fabula docet

A degradação ocidental da Ars poetica de Horácio


a arte foi o primeiro mestre dos povos.” Poderá ser o último, numa civilização decadente?

Não se pode, é óbvio, querer politizar Shakespeare – porque ele já está politizado!

E assim chegamos ao limite em que a arte precisa deixar de ser arte, deixar de ser finalidade para si mesma, já que foi rebaixada a um mero jogo de entretenimento ou a um mero meio de instrução.” Já antecipa a própria crítica da arte pela arte e da arte como meio de uma só vez. A arte sempre está no meio… de dois extremos empíricos impróprios. O precário equilíbrio da existência…

[OUTRA HIPÓTESE:] a arte, por meio do conhecimento do bem verdadeiramente moral e, assim, por meio da instrução, deve ao mesmo tempo incitar à purificação e somente então deve realizar o aperfeiçoamento do ser humano enquanto sua utilidade e finalidade suprema.”

O “ARGUMENTO MORTAL KOMBAT”: “É fácil aceitar que em seu princípio a arte não pode ter como intenção a imoralidade e sua promoção. Contudo, há uma diferença entre ter como finalidade explícita da exposição a imoralidade e não ter como finalidade explícita da exposição o que é moral. De toda obra de arte autêntica podemos tirar uma boa moral, embora isso dependa de uma explicação e, desse modo, de quem extrai a moral. Assim, alguém pode defender descrições as mais contrárias à ética baseado no fato de que é preciso conhecer o mal e o pecado para que se possa agir moralmente. Em contrapartida, falou-se que a representação [Darstellung] de Maria Madalena, a bela pecadora que depois fez penitência, já levou muita gente ao pecado, já que a arte faz parecer belo praticar penitência, e para isso é preciso antes pecar. – Mas a doutrina do melhoramento moral, apresentada de modo conseqüente, não se contentará em também poder extrair uma moral da arte; pelo contrário, ela irá querer que a doutrina moral brilhe claramente como finalidade substancial da obra de arte e, inclusive, querer expressamente apenas permitir que sejam expostos objetos, caracteres, ações e acontecimentos morais. Pois a arte pode escolher seus objetos, ao contrário da historiografia ou das ciências, para as quais a matéria é dada.”

Um homem eticamente virtuoso não é já por si mesmo moral.” “o homem (…) somente faz o bem porque adquiriu a certeza de que isso é o bem. (…) a universalidade abstrata da vontade, que possui sua contraposição direta na natureza” A ponto de chegarmos a civilizações em que o estado natural é a norma, ou seja, onde o homem é um HOBBES DE PONTA-CABEÇA!

Diagnóstico: faltava ao século XIX (parte I!) a consideração de um ângulo extra-moral…

No espírito [esta luta interior] se mostra no que é sensível e espiritual no homem, como a luta do espírito contra a carne; do dever pelo dever, da lei fria com o interesse particular, o ânimo caloroso, as inclinações e propensões sensíveis e o individual em geral; como a dura contraposição entre a liberdade interior e a necessidade da natureza exterior; além disso, como a contradição entre o conceito morto, em si mesmo vazio, e a vitalidade completa e concreta, entre a teoria, o pensamento subjetivo e a existência objetiva e a experiência.”

JOGUETE DA CONSCIÊNCIA INFELIZ: “A formação espiritual, o entendimento moderno, produzem no homem esta contraposição que o torna anfíbio, pois ele precisa viver em 2 mundos que se contradizem” “a consciência permanece, por isso, num mero dever [Sollen] e o presente e a efetividade se movimentam apenas na inquieta oscilação entre 2 alternativas, na busca de uma reconciliação sem encontrá-la.”

O IDEALISMO COMO FALSA CHAVE: “Se a formação universal incorreu em tal contradição, torna-se tarefa da filosofia superar estas contraposições, i.e., mostrar que nem um em sua abstração nem outro em idêntica unilateralidade possuem a verdade, mas ambos se solucionam por si”

AUTO-ILUSÃO: “Este conhecimento coincide imediatamente com a crença e volição espontâneos, que justamente tem constantemente esta contraposição solucionada na representação e a estabelecem e realizam para si como finalidade na ação.”

Na medida em que o derradeiro fim último, o aperfeiçoamento moral, apontou para um ponto de vista superior, necessitamos também reclamá-lo para a arte.” A arte é ser-no-mundo, não objeto utilitário. Espelha o sistema filosófico do pensador. Prefigura-se aqui a completa autonomia da arte, ainda que obviamente inscrita no campo ético. Mas, enfim, arte & niilismo são duas faces da mesma moeda… Não é possível venerar um sem querer o outro. Eu sou um niilista. Eu não acredito em nada, só acredito na arte!

Este reconhecimento do caráter absoluto da razão em si mesma, que nos tempos modernos provocou a virada da filosofia, este ponto de partida absoluto deve ser reconhecido e não deve ser refutado na filosofia kantiana, mesmo que se a tome como insatisfatória.”

CONFUNDINDO O PONTO DE CHEGADA COM O DE PARTIDA: “A crítica kantiana constitui o ponto de partida para a verdadeira apreensão [Begreifen] do belo artístico, apreensão que, todavia, somente se pôde fazer valer, por meio da superação das deficiências kantianas,¹ como a apreensão superior da verdadeira unidade da necessidade e da liberdade, do particular e do universal, do sensível e do racional.”

¹ Isso decerto não aconteceu até muito depois de Hegel morrer, muito menos nos epígonos alemães do Romantismo!

Devemos a Schiller o grande mérito de ter rompido com a subjetividade e abstração kantianas do pensamento e de ter ousado ultrapassá-las, [haha!] concebendo a unidade e a reconciliação como o verdadeiro, e de efetivá-las artisticamente.”

Neste contexto, Schiller [cujos poemas são inferiores porque tenta filosofar por meio deles] enquanto poeta apenas pagou tributo a sua época, e isso de um modo que apenas honrou esta alma sublime e ânimo profundo, e para o proveito da ciência e do conhecimento.”

Schi., Cartas sobre a educação estética: “Nesta obra, Schi. parte do ponto principal de que cada homem individual possui em si mesmo a disposição para um homem ideal. Este verdadeiro homem é representado pelo Estado”

Por causa disso, a ciência alcançou por meio de Schelling seu ponto de vista absoluto” “Friedrich von Schlegel, desejoso do novo, na busca ávida de distinção e do surpreendente, se apropriou da Idéia filosófica tanto quanto era capaz sua natureza que, aliás, não era filosófica, mas essencialmente crítica.” A dinastia dos Sch.!

Winckelmann deve ser visto como um daqueles que no campo da arte soube descobrir um novo órgão para o espírito e também modos de consideração totalmente novos.”

A partir desta direção, e especialmente do modo de pensar e das doutrinas de Schleg., desenvolveu-se em seguida sob diversas configurações a chamada ironia. A ironia encontrou seu profundo fundamento [hmm], segundo um de seus aspectos, na filosofia de Fichte, na medida em que os princípios dessa filosofia foram aplicados à arte.”

[Segundo o FICHTISMO – fictismo, pouco realista!] eu vivo como artista quando todo o meu agir e manifestar em geral, na medida em que se refere a algum conteúdo, somente permanece para mim uma aparência e assume uma forma que está totalmente em meu poder.” “Minha aparição [Erscheinung], na qual me ofereço aos outros, pode até ser algo sério para eles, na medida em que me tomam como se eu estivesse tratando mesmo de algo sério; no entanto, deste modo eles apenas se enganam, são pobres sujeitos limitados que não possuem o órgão e a capacidade de apreender a altura do meu ponto de vista.” “Essa virtuosidade de uma vida irônica e artística se concebe, pois, como genialidade divina, para a qual tudo e todos são apenas uma criação sem essência, na qual o criador livre, que se sabe desvencilhado e livre de tudo, não se prende, pois pode tanto destruí-la quanto criá-la. Aquele que se encontra em tal ponto de vista da genialidade divina observa do alto com distinção todos os outros homens, que são considerados limitados e rasos, na medida em que o direito, a eticidade, etc., ainda valem para eles como algo de sólido, de obrigatório e de essencial. É claro que tal indivíduo, que assim vive como artista, mantém relações com outras pessoas, vive com amigos e com as pessoas que gosta, mas como gênio, tal relação com sua efetividade determinada, com suas ações particulares, assim como com o em-si-e-para-si universal é para ele ao mesmo tempo algo nulo e ele se relaciona ironicamente com tudo isso.” “beatitude do gozo próprio” Mas não foi Fichte que a inventou, e sim Schlegel! E, como diz H., “muitos outros a macaquearam ou a repetirão sempre novamente.”


CRÔNICAS DE UM ADOLESCENTE QUE LEU NIETZSCHE NUM TEMPO COMPRIMIDO: “A forma mais imediata desta negatividade da ironia é a vaidadeE o que Deus mesmo faria em tal caso? Procuraria um centro! Impelido pela verdade, o autoproclamado solitário e ensimesmado morrerá asfixiado pelas paredes de seu próprio gênio inimitável e sem-precedentes… Se torna um artista nostálgico, um fichteano, em suma. Misto de asceta descontente e lasso vadio urbanoide, pálido e doentio, este deus acamado, tirano de seu quarto, prefere não sair para respirar ao ar livre, para apenas agravar o quadro. Sim, ele se tornará um desses poetas apaixonados que morrem aos 23 anos! Um Dom Quixote tão menos nobre… Sua donzela mal vale um meio moinho enguiçado… Chega-se ao cúmulo de afirmar em sua insânia: posto que não era tão elevado quanto pensava, não há elevação! Se não posso ser Deus, ninguém será! Será este rapaz engraçado (ridículo) ou digno de pena e comiseração? Herói de araque demais para pertencer ao ramo do trágico, ele não morre no final, mas pega um cruzeiro para fora da Europa!… Sim, porque tudo que é sórdido desmancha no ar fuliginoso! E assim termina a carreira do promissor poeta, antes de sequer começar…

Versão melhorada e final em: https://www.recantodasletras.com.br/prosapoetica/7412429


Tal ironia da ausência de caráter ama a ironia.”

má fé x perseverança

Ainda bem que tais naturezas nostálgicas e sem conteúdo não agradam: é um consolo saber que esta improbidade e hipocrisia não são bem-recebidas e que as pessoas, pelo contrário, anseiam tanto por interesses completos e verdadeiros quanto por caráteres que permanecem fiéis a seu conteúdo grave.”

Solger não era como os outros que se satisfaziam com uma formação filosófica superficial, pois uma necessidade interna autenticamente especulativa [como esse binômio envelheceu mal!] o impelia a descer na profundidade da Idéia filosófica. E assim ele chegou ao momento dialético da Idéia, ao estágio que denomino de <infinita negatividade absoluta>Chegou aos céticos da Idade Clássica.

esta negatividade é (…) contudo apenas um momento.” PA DUM TSSS

E Solger não viveu como o poeta romântico-niilista de mais acima, mas apenas escreveu como tal, o que é sumamente diferente. Bem-vindo ao clube, jovem Solger (que não alcançou idades avançadas, como já posso dizer que seja a minha)! (Mentira. Solger viveu 38/9 anos. Porém é razoável dizer que, se emocionalmente ainda somos adolescentes na casa dos 30 nesta década de 2020, maturamos enquanto artistas já muito antes, graças aos meios à disposição.)

Em vez de testemunhar a dissolução irônica do Bem, eu quero poder ver a dissolução literal do Estado… Este é(seria) MEU MOMENTO!

O HOMEM QUE NÃO SEGUIA SUA PRÓPRIA FILOSOFIA:Tieck exige constantemente ironia; mas, quando ele mesmo se dedica ao julgamento de grandes obras de arte, seu reconhecimento e descrição da grandeza delas são realmente primorosos.”

Se enunciamos que Deus é o uno simples, o mais alto ser enquanto tal, apenas expressamos uma abstração morta do entendimento irracional.” “Daí os judeus e os turcos não terem podido expor pela arte seu Deus de um modo positivo como os cristãos, pois seu Deus não é nem ao menos uma tal abstração do entendimento.” “também a arte exige a mesma concreção [da Santíssima Trindade]”

Pois a arte não assume esta forma apenas porque ela se encontra à disposição e porque não há outra, [!!!] mas porque no conteúdo concreto reside também propriamente o momento do fenômeno exterior e efetivo e, igualmente, sensível. (…) o exterior da forma, através do qual o conteúdo torna-se intuível e representável, tem a finalidade de somente existir para o nosso ânimo e espírito.”

No entanto, [face às ocorrências da natureza] a obra de arte não é tão despreocupada por si, mas é essencialmente uma pergunta, uma interpelação ao coração que ressoa, um chamado aos ânimos e aos espíritos.”

O deus grego não é abstrato, mas individual, e está próximo da forma natural; o Deus cristão também é uma personalidade concreta e isso enquanto pura espiritualidade, e deve ser sabido no espírito como espírito. Seu elemento de existência é, assim, essencialmente o saber interior e não a forma exterior natural, por meio da qual ele apenas de modo incompleto é passível de exposição, mas não segundo toda a profundidade de seu conceito.”

P. 89 (edição impressa): difícil de justificar mais essa divisão tripartida hegeliana: a- ciência da arte geral/ideal; b- ciência da arte particular (em progressão gradual de formas!); c- ciência da arte particular (em progressão gradual de conteúdos!).

Por exemplo, os chineses, os indianos e os egípcios permaneceram em suas configurações artísticas (sic – conservaram) figuras de deuses e ídolos desprovidos de Forma ou com uma determinidade ruim ou não-verdadeira da Forma e não souberam dominar a verdadeira beleza porque suas representações mitológicas, o conteúdo e o pensamento de suas obras de arte ainda eram em si mesmos indeterminados ou de uma determinidade ruim, e não eram ainda o conteúdo em si mesmo absoluto.”

A determinidade é como que a ponte para o fenômeno.”

princípio do modo de aparição particular”

Deste modo, é somente a Idéia verdadeiramente concreta que produz a verdadeira forma, e esta correspondência de ambos é o ideal.”

b- “a doutrina das Formas da arte”

Por isso, as Formas da arte nada mais são do que as diferentes relações de conteúdo e forma, relações que nascem da própria Idéia e, assim, fornecem o verdadeiro fundamento de divisão desta esfera. Pois a divisão deve sempre residir no conceito, do qual é a particularização e a divisão.” A divisão é a divisão do conceito! Imagina ser ouvinte nesta aula…

forma de arte simbólica” como estágio primitivo da obra de arte. “determinidade abstrata” Ex: leão=força

Segue-se ao puro símbolo, conforme Hegel, uma fase de jactância, sublimidade ou exuberância, caricata ou estilística. “a Idéia é aqui ainda o mais ou menos indeterminado” – insatisfação ou inadequação da Idéia consigo mesma.

Estes aspectos constituem, em termos gerais, o caráter do 1º panteísmo artístico do oriente”

bizarro, grotesco e destituído de gosto”

Na segunda Forma de arte, que gostaríamos de designar como sendo a clássica, a dupla deficiência da Forma de arte simbólica está eliminada.” “a concordância entre o significado e a forma deve sempre permanecer deficiente e apenas abstrata.” “é a Forma clássica que pela 1ª vez oferece a produção e intuição do ideal completo e o apresenta como efetivado.” “a espiritualidade concreta; pois somente a espiritualidade é a verdadeira interioridade.”

O último esteta “de respeito” a rebaixar o mundo clássico em relação ao próprio mundo moderno na Arte?

Há de ser o próprio conceito originário que inventou [erfunden] a forma para a espiritualidade concreta, de tal modo que agora o conceito subjetivo apenas a encontrou [gefunden] e, enquanto existência natural figurada, a tornou adequada à livre espiritualidade individual.” Seria brilhante se não fosse uma hipóstase.

Esta (…) é a forma humana

É certo que freqüentemente a personificação e a antropomorfização foram denegridas como se fossem uma degradação do espírito” Apenas pelos monoteístas!

PARADOXO DE PROTEU (TUDO É HUMANO, OU APENAS O BOM É HUMANO, ENQUANTO O MAL É LENTAMENTE ALOJADO NA CATEGORIA RESIDUAL DOS ANIMAIS!): “Neste contexto, a migração da alma é uma representação abstrata, sendo que a fisiologia deve ter tido como um de seus princípios que a vitalidade em seu desenvolvimento necessariamente precisa progredir para a forma do homem como sendo este o único fenômeno sensível adequado ao espírito.”

Para H., apenas um anúncio que “exige a passagem para uma 3ª Forma de arte mais elevada, a saber, a romântica

A Forma de arte clássica, de fato, alcançou o ponto mais alto que a sensibilização da arte foi capaz de alcançar”

O Romantismo é o falseamento da realidade outorgando-se ser mais-do-que-o-real-NECESSARIAMENTE-simplificado-do-clássico. (JUÍZO MEU, obviamente ausente em H.)

a Forma romântica (…) adquiriu um conteúdo que transcende esta Forma [clássica] e seu modo de expressão. Este conteúdo – para lembrar representações já conhecidas – coincide com o que o cristianismo afirma acerca de Deus como espírito, à diferença da crença nos deuses dos gregos que constitui o conteúdo essencial e o mais adequado para a arte clássica.”

O deus grego se destina à intuição espontânea e à representação sensível e, por isso, sua forma é o corpo do homem, o círculo de sua potência e de sua essência é individual e particular, é uma substância e poder perante o sujeito, com os quais a interioridade subjetiva apenas em si está em unidade, mas não tem esta unidade como saber subjetivo interior e próprio.” E quem liga para este saber! Só porque não durou eternamente e foi sucedido por outras formas de culto não significa que o Olimpo seja inferior!

pelo fato de saber que é animal, deixa de sê-lo e se dá o saber de si como espírito.”

Eu poderia acrescentar: pelo fato de se saber isento da desmesura, o modelo grego deixa de ser humano (falível) e se torna de facto divino!

H. não compreendeu a completude grega, que projeta no dogma cristão: “Do mesmo modo, a unidade da natureza humana e divina é algo sabido e apenas por meio do saber espiritual e no espírito é uma unidade realizada. O novo conteúdo assim conquistado [a posteriori, com lendas, no papel] não está, portanto, atado à exposição sensível, como a que lhe corresponde, mas está livre desta existência imediata que deve ser estabelecida, superada e refletida negativamente na unidade espiritual. Deste modo, a arte romântica é a arte se ultrapassando [Hinausgehen] a si própria, mas no interior de seu próprio âmbito e na própria Forma artística.”

3. O indivíduo e seu “ânimo” como a grande 3ª Forma hegeliana!

A interioridade comemora seu triunfo sobre a exterioridade e faz com que esta vitória apareça no próprio exterior e por intermédio dele, fazendo com que o fenômeno sensível desapareça na falta de valor.” Hegel

A exterioridade comemora seu triunfo sobre a interioridade e faz com que esta vitória apareça no próprio interior e por intermédio dele, fazendo com que o metafísico e espiritual desapareçam na falta de valor.” Eu!

O lado da existência exterior é entregue à contingência e abandonado à aventura da fantasia, cuja arbitrariedade pode tanto espelhar o que está presente, tal como está presente, como também embaralhar e distorcer grotescamente as configurações do mundo exterior. (…) e é capaz de conservar ou reconquistar esta reconciliação consigo mesmo em todo tipo de contingência e acidentalidade que por si mesmo se configura, em todo infortúnio e dor e até mesmo no próprio crime. Por meio disso surge novamente a indiferença, inadequação e separação entre a Idéia e a forma – como no simbólico –, mas com a diferença essencial de que no romântico a Idéia deve aparecer em si mesma completa como espírito e ânimo. Por esta razão, esta perfeição superior se priva da correspondente união com a exterioridade, sendo que somente pode buscar e completar sua verdadeira realidade e aparição [Erscheinung] em si mesma.”

Em termos gerais (…) As 3 Formas consistem na aspiração, na conquista e na ultrapassagem do ideal como a verdadeira Idéia da beleza.”

as Formas de arte universais devem nesta terceira parte se mostrar também como determinação fundamental para a divisão e identificação das artes particulares

por um lado, as artes particulares pertencem especificamente a uma das Formas de arte universais e constituem sua adequada efetividade artística exterior; por outro lado, apresentam a totalidade das Formas de arte 2º seu modo de configuração exterior.”

A primeira das artes particulares (…) é a bela arquitetura.” “o tipo fundamental da arquitetura é a Forma de arte simbólica.”

Ela permite que uma envoltura se erga para o alto para a reunião dos fiéis – enquanto proteção contra a ameaça da tempestade, contra a chuva, o mau tempo e animais selvagens”

é por meio da arquitetura que o mundo exterior inorgânico é purificado, ordenado simetricamente”

Em segundo lugar, neste templo entra então o próprio Deus, na medida em que o raio da individualidade bate na massa inerte, a penetra, e a própria Forma infinita do espírito, não mais meramente simétrica, concentra e configura a corporeidade. Esta é a tarefa da escultura.” “assume a Forma de arte clássica como seu tipo fundamental.”

Nesse esquema ridículo de Hegel, a terceira manifestação não é a terceira arte, como se poderia imaginar, mas praticamente a soma de todas as artes tipicamente modernas.

temos a pintura, a música e a poesia.”

A primeira arte, que ainda se encontra próxima da escultura, é a pintura.” Não diga, Einstein.

A segunda arte (…) é a música.” Todo poeta se põe em último (e com isso quero dizer 1º) lugar.

o som, o sensível estabelecido negativamente”

ARQUITETURA HEGELIANA (COF, COF!): “a música constitui novamente o ponto central das artes românticas e o ponto de transição entre a sensibilidade espacial abstrata da pintura e a espiritualidade abstrata da poesia.”

A aparição do cinema refuta toda a Estética hegeliana.

música poesia

sensação signo

E nessa teimosia, H. pensa ganhar alguma coisa…

o audível e o visível se rebaixaram à mera alusão do espírito.”

Mas, exatamente neste estágio supremo, a arte também ultrapassa a si mesma, na medida em que abandona o elemento da sensibilização reconciliada do espírito, e da poesia da representação passa para a prosa do pensamento.”

Na verdade, tentaram-se muitas vezes outros tipos de divisões, pois a obra de arte oferece tal riqueza de aspectos que, como muitas vezes ocorreu, podemos estabelecer ora este, ora aquele como fundamento de divisão” Não pode ser deus dos filósofos aquele que sequer sabe dançar.

Último parágrafo da introdução: “Portanto, o que as artes particulares realizam em obras de arte singulares, segundo o conceito, são apenas as Formas universais da Idéia de beleza que a si se desenvolve; enquanto que na sua efetivação exterior ergue-se o amplo panteão da arte, cujo construtor e mestre de obras é o espírito do belo que se apreende a si mesmo, mas que a história mundial irá consumar apenas em seu desenvolvimento de milênios.”

PARTE I. A IDÉIA DO BELO ARTÍSTICO OU O IDEAL

POSIÇÃO DA ARTE EM RELAÇÃO À EFETIVIDADE FINITA E À RELIGIÃO E À FILOSOFIA

Mas, como subjetividade, o espírito é primeiramente apenas em si a verdade da natureza, na medida em que ainda não tornou seu verdadeiro conceito para si mesmo. A natureza não lhe está contraposta como o outro posto por meio dele, no qual ele retorna a si mesmo, mas como ser-outro [Andersseins] insuperado e limitado, ao qual, como se o outro fosse um objeto encontrado à frente, o espírito permanece relacionado enquanto o subjetivo em sua existência de saber e de vontade e apenas pode figurar em natureza o outro lado.” grifos do autor, como nas próximas citações.

Este é o ponto de vista do espírito apenas finito, temporal, contraditório e, por isso, passageiro, insatisfeito e não-beato.”

O espírito apreende a própria finitude como o negativo de si mesmo e conquista a partir disso sua infinitude. (…) por meio disso ele se torna para-si-mesmo (…) O próprio absoluto se torna objeto do espírito, na medida em que o espírito entra no estágio da consciência e se diferencia em si mesmo como aquele que sabe [Wissendes] e, em face desse saber, como objeto absoluto do saber.” “Mas na consideração especulativa superior, é o próprio espírito absoluto, para ser para-si o saber-de-si-mesmo, diferencia-se (sic) em-si-mesmo e, assim, põe a finitude do espírito, no seio da qual ele se torna objeto absoluto do saber-de-si-mesmo. Assim, ele é espírito absoluto em sua comunidade, o absoluto efetivo como espírito e saber-de-si-mesmo. § Este é o ponto pelo qual devemos começar na filosofia da arte.”

O fato de as coisas serem assim, podemos aqui apenas indicar; a demonstração científica compete às disciplinas filosóficas precedentes; à lógica, cujo conteúdo é a Idéia absoluta enquanto tal, à filosofia natural como à filosofia das esferas finitas do espírito.” Nunca é função da filosofia demonstrar nada empiricamente.

a partir das relações contingentes de sua mundanidade e do conteúdo finito de seus fins e interesses, se abre para a consideração e execução de seu ser-em-si-e-para-si.”

Em primeiro lugar, temos o amplo sistema das necessidades físicas, para as quais trabalham os grandes círculos da indústria em sua larga produção e conexão, o comércio, a navegação e as artes técnicas; mais acima está o mundo do direito, das leis, da vida em família, a divisão em classes, todo o âmbito abrangente do Estado; a seguir, a necessidade da religião que se encontra em cada ânimo e se satisfaz na vida religiosa; por fim, a atividade multiplamente dividida e intrincada na ciência, o conjunto dos dados e conhecimentos, que tudo abarca em si mesmo. No seio destes círculos também se apresenta a atividade na arte, o interesse pela beleza e a satisfação espiritual com as suas configurações. Aqui surge então a questão acerca da necessidade interna de uma tal necessidade no contexto dos restantes âmbitos da vida e do mundo.”

O conteúdo de um livro, p.ex., pode ser indicado em algumas palavras ou períodos e nele não deve aparecer outra coisa a não ser o universal já indicado no índice. [E vai fazer o quê se eu incluir outra coisa? Matar minha mãe? Brincadeiras à parte, é realmente uma péssima idéia hegeliana, não digo tradução, pois não é o caso, faz-se o que se consegue fazer: índice e conteúdo são a mesma palavra em alemão, Inhalt. Ok, um livro não possui mais que seu conteúdo, não a representação de seu conteúdo, mas seu conteúdo em si.] O abstrato é este elemento simples, que corresponde ao tema e constitui o fundamento para a execução; o concreto, em contrapartida, é a execução.”

Passar por este processo de contraposição, de contradição e de solução da contradição é o privilégio superior das naturezas vivas. O que por si é e permanece apenas afirmativo, é e permanece sem vida. A vida caminha para a negação e para a dor que acompanha a negação e é somente afirmativa por si mesma por meio da eliminação da contraposição e da contradição.”

Os animais vivem em satisfação consigo e com as coisas que estão à sua volta, mas a natureza espiritual do homem impulsiona a dualidade e o dilaceramento, em cuja contradição ele se debate.”

Podemos designar de modo universal a vida desta esfera, este gozo da verdade que, enquanto sentimento, é beatitude e, enquanto pensamento, é conhecimento, como a vida na religião.”

A arte, por meio da ocupação com o verdadeiro enquanto objeto absoluto da consciência, também pertence à esfera absoluta do espírito e, por isso, segundo seu conteúdo, encontra-se no mesmo terreno da religião, no sentido mais específico do termo, e da filosofia.”

a filosofia não possui outro objeto a não ser Deus, sendo assim essencialmente teologia racional e, por estar a serviço da verdade, é culto divino continuado.”

os poetas e os artistas foram para os gregos os criadores de seus deuses, i.e., os artistas deram à nação a representação determinada do fazer, da vida e da atuação dos deuses, portanto o conteúdo determinado da religião. E certamente não no sentido de que estas representações e ensinamentos já estavam presentes antes da poesia num modo abstrato da consciência, enquanto proposições universais religiosas e determinações do pensamento que a seguir foram por artistas revestidas em imagens e envoltas externamente com o enfeite da poesia. Antes, pelo contrário, o modo da produção artística era tal que aqueles poetas apenas podiam destacar o que neles fermentava nesta forma da arte e da poesia.” “Esta seria a posição original, verdadeira, da arte enquanto primeira auto-satisfação imediata do espírito absoluto.” “no caso de Platão, que já se opôs com veemência aos deuses de Homero e Hesíodo. No progresso da formação cultural, surge em geral em cada povo uma época em que a arte aponta para além de si mesma.”

Podemos bem ter a esperança de que a arte vá sempre progredir mais e se consumar, mas sua forma deixou de ser a mais alta necessidade do espírito.” “Podemos descrever este progresso da arte para a religião dizendo que a arte é apenas um aspecto para a consciência religiosa.” “a devoção não pertence à arte enquanto tal.” “A devoção é este culto da comunidade em sua forma mais pura, interior e subjetiva”

PRIMEIRO CAPÍTULO. CONCEITO DO BELO EM GERAL

A Idéia é um todo segundo os 2 lados do conceito subjetivo e objetivo, mas ao mesmo tempo a concordância e unidade mediadas, que eternamente se realizam e se realizaram, dessas totalidades. Apenas assim a Idéia é a verdade e toda verdade.” “O fenômeno não é ainda verdadeiro apenas porque tem existência [Dasein] interior ou exterior e é em geral realidade, mas somente porque esta realidade corresponde ao conceito. (…) E, de fato, verdade não em sentido subjetivo, quando uma existência se mostra adequada às minhas representações, mas na significação objetiva, quando o eu ou um objeto exterior, a ação, o acontecimento e o estado, realizam em sua efetividade o próprio conceito. Se esta identidade não se dá, o existente [Daseiende] é apenas um fenômeno no qual, em vez de se objetivar o conceito total, apenas se objetiva algum aspecto abstrato dele; aspecto que pode atrofiar-se até a oposição contra o verdadeiro conceito, na medida em que se autonomiza em si mesmo contra a totalidade e unidade.”

A Idéia é verdadeira tal como ela é segundo seu em-si e princípio universal e, enquanto tal, é pensada. (…) O belo se determina como aparência [Scheinen] sensível da Idéia. Pois o sensível e objetivo em geral não guardam na beleza nenhuma autonomia em si mesmos, mas têm de abdicar da imediatez de seu ser, já que este ser é apenas existência e objetividade do conceito e é posto enquanto uma realidade que expõe o conceito enquanto em unidade com sua objetividade e, por isso, nesta existência objetiva, que apenas vale como aparência do conceito, expõe a própria Idéia.”

o entendimento sempre permanece preso ao finito, unilateral e não-verdadeiro.”

o conceito não permite à existência [Existenz] exterior seguir por si mesma leis próprias no belo, mas determina a partir de si sua articulação e forma fenomênicas que, enquanto concordância do conceito consigo mesmo, constituem igualmente em sua existência [Dasein] a essência do belo.”

Enquanto inteligência finita, sentimos os objetos interiores e exteriores, os observamos e percebemos de modo sensível, deixamos que venham à nossa intuição e representação e inclusive às abstrações de nosso entendimento pensante, que lhes dá a forma abstrata da universalidade. Neste caso, a finitude e a não-liberdade residem no fato de as coisas serem pressupostas como autônomas. Por isso, nos orientamos pelas coisas, deixamos que elas atuem e mantemos nossa representação, etc., presa à crença nas coisas, já que estamos convencidos de apenas apreender corretamente os objetos quando nos portamos de modo passivo e limitamos toda a nossa atividade à formalidade da atenção e ao impedimento negativo de nossas imaginações [Einbildungen], opiniões prévias e preconceitos. Mediante esta liberdade unilateral dos objetos está imediatamente posta a não-liberdade da apreensão subjetiva. Pois, para a apreensão subjetiva, o conteúdo está dado [gegeben] e, no lugar da autodeterminação subjetiva, surge a mera recepção e o acolhimento do existente, tal como se encontra à nossa frente enquanto objetividade. A verdade só deve ser alcançada pela submissão da subjetividade.

A mesma coisa tem lugar junto à volição finita, mesmo que de um modo oposto. Aqui os interesses, os fins e as intenções estão no sujeito que quer fazer valê-los contra o ser as propriedades das coisas. (…) Agora, pois, retira-se a autonomia das coisas, na medida em que o sujeito as coloca a seu serviço e as observa e manipula como úteis (…) de tal modo que sua relação, na verdade sua relação utilitária com fins subjetivos, constitua sua autêntica essência.”

O sujeito é finito e não-livre no teorizar por meio das coisas, cuja autonomia é pressuposta; no campo prático não é livre por causa da unilateralidade, da luta e da contradição interna dos fins e dos impulsos e paixões suscitados a partir do exterior, bem como por causa da resistência nunca totalmente eliminada dos objetos.”

Idêntica finitude e não-liberdade atinge o objeto em ambas as relações. Embora pressuposta, sua autonomia no teórico é apenas uma liberdade aparente. Pois a objetividade enquanto tal apenas é, sem que seu conceito como unidade e universalidade subjetivas seja em seu seio para ela. O conceito está fora dela. (…) Na relação prática, esta dependência enquanto tal é expressamente posta [gesetzt], e a resistência das coisas diante da vontade permanece relativa, sem que possua em si mesma a potência da autonomia última.”

Um modo um tanto desajeitado de expor a ‘realidade das coisas’: “a consideração do belo é de natureza liberal, um deixar-atuar os objetos enquanto em si mesmos livres e infinitos, e não um querer-possuir-e-utilizá-los-como-úteis para necessidades e intenções finitas, de modo que o objeto como belo também não aparecerá nem oprimido e forçado por nós, nem combatido e superado pelas demais coisas externas.”

Mediante esta liberdade e infinitude, que o conceito do belo assim como a bela objetividade e sua consideração subjetiva trazem em si mesmos, o âmbito do belo é arrancado da relatividade das relações finitas e elevado ao reino absoluto da Idéia e de sua verdade.”

SEGUNDO CAPÍTULO. O BELO NATURAL

O inanimado: “Este é o 1º modo da existência do conceito.” “tais corpos isolados em si mesmos são existências abstratas defeituosas.”

A objetividade: “a separação [Auseinandertreten] autônoma das diferenças do conceito.” “P.ex. o sistema solar. O sol, os cometas, as luas e os planetas aparecem, por um lado, como corpos celestes autônomos separados uns dos outros; por outro lado, porém, eles são o que são apenas por meio de sua posição determinada no seio de um sistema total de corpos.”

O conceito, contudo, não permanece preso a esta unidade meramente existente-em-si [an sich seienden] dos corpos particulares autonomamente. Além da diferença, a unidade tem de tornar-se real.”

A unidade ideal: “estágio da existência real, corporal e autônoma contra a própria separação recíproca. No sistema solar, podemos falar do sol. – Mas esta unidade ideal ainda é insuficiente. Se o sol for a alma do sistema, tem ele mesmo ainda uma subsistência autônoma fora dos membros que são a explicação desta alma. Ele mesmo é apenas um momento do conceito, uma unidade incompleta”

A unidade concreta: “a luz do sol é ainda uma luz qualquer, abstrata” Também assim não se avança (um momento do real não é o real).

A negação da negação da unidade: “as diferenças retornaram à unidade subjetiva.” “O conceito não permanece mais mergulhado na realidade, mas vem à existência nela, enquanto a própria identidade e universalidade interiores constituem sua essência.”

Somente este terceiro modo do fenômeno natural [da unidade conforme exposto aqui] é uma existência da Idéia e a Idéia, enquanto natural, é a vida. A natureza morta inorgânica não é adequada à Idéia e apenas a natureza viva orgânica é uma efetividade dela.”

não devemos conceber a identidade da alma e do corpo como mera conexão, mas de um modo mais profundo.”

doença (…) a vitalidade ruim e atrofiada”

Este pôr e solucionar a contradição da unidade ideal e da separação recíproca real dos membros constitui o constante processo e a vida apenas existe enquanto processo (Prozess).”

idealista não é apenas a filosofia, e sim já a natureza enquanto vida faz faticamente (faktisch) o mesmo que a filosofia idealista realiza em seu campo espiritual.”

A realidade, que a Idéia enquanto vitalidade natural conquista, é, por isso, realidade fenomênica. O fenômeno, a saber, não significa nada mais a não ser que uma realidade existe (existiert) e que não tem, todavia, imediatamente, seu ser-em-si-mesma, e sim é ao mesmo tempo em sua existência (Dasein) posta negativamente.”

Até o momento consideramos o real particular em sua particularidade acabada enquanto o afirmativo. Esta autonomia, entretanto, é negada no vivente e apenas a unidade ideal no seio do organismo corporal conquista a potência da relação afirmativa sobre-si-mesma. (…) Se, portanto, é a alma que aparece no corpo, [e não o corpo na alma, absurdo epistemologicamente, embora indiferente da perspectiva de quem entende a união indissolúvel corpoalma] o fenômeno é simultaneamente afirmativo.”

Alma: “potência contra a particularização autônoma dos membros; mas é também a escultora deles”

o exterior que apenas permanece exterior nada mais é do que uma abstração e unilateralidade. Entretanto, no organismo vivo temos um exterior no qual aparece o interior”

uma vez que na objetividade o conceito enquanto conceito é a subjetividade que se refere a si [uma vez que a realidade é forçosamente subjetiva], em sua realidade existente para-si, a vida existe apenas como algo vivo (Lebendiges), enquanto singularidade. (…) este ponto de união é negativo porque o ser-para-si subjetivo apenas pode surgir por meio do pôr-idealmente (Ideelsetzen) as diferenças reais enquanto apenas reais, ao que está ligada, porém, ao mesmo tempo a unidade subjetiva e afirmativa do ser-para-si.” Só podemos existir como diferença dinâmica do que não é real (objetivo) para nós.

esta totalidade não está determinada a partir de fora e é mutável, pois se configura e se processa a partir de si mesma, estando assim sempre referida a si como unidade subjetiva e finalidade própria.”

Selbstbewegung

se o movimento dos planetas e assim por diante não aparece como impulso exterior e enquanto estranho aos corpos, este movimento está, todavia, ligado a uma lei fixa e a sua necessidade abstrata.”

o animal ainda tem em seu organismo espacialidade sensível a partir dele mesmo e a vitalidade é automovimento no seio desta realidade, como circulação sangüínea, movimento dos membros e assim por diante.”

o belo natural vivo não é nem belo para-si mesmo nem produzido-a-partir-de-si-mesmo como belo e em vista da bela aparição (Erscheinung). A beleza natural é apenas bela para um outro, i.e., para nós, para a consciência que concebe a beleza.”

A música, a dança, certamente possuem movimento em si mesmas; este, porém, não é apenas casual e arbitrário como o do animal, mas em si mesmo conforme a leis, determinado, concreto e mensurável – mesmo que ainda façamos totalmente abstração do significado, de quem o movimento é a bela expressão.” “Nem a intuição sensível dos desejos singulares e casuais, dos movimentos e satisfações arbitrários nem a consideração do entendimento da conformidade a fins do organismo transformam, para nós, a vitalidade animal em belo natural”

Na sensação (Empfindung) e em sua expressão mostra-se a alma como alma.”

O hábito é apenas uma necessidade subjetiva. Segundo este critério, podemos achar os animais feios, porque mostram um organismo que se afasta de nossas intuições habituais ou as contradiz.”

designamos organismos animais de bizarros (…) por exemplo, peixes cujo corpo grande de modo desproporcional acaba num rabo curto e cujos olhos, num lado, estão um ao lado do outro. Quanto às plantas, [nós europeus] já estamos mais acostumados com os mais variados desvios, embora os cactos com seus espinhos e a formação mais retilínea de seus braços angulares possam parecer estranhos. Quem possui formação e conhecimento vastos de história natural, a este respeito irá tanto conhecer precisamente as partes singulares como também guardará na memória a maior quantidade de tipos, segundo sua coesão recíproca, de tal modo que pouca coisa incomum lhe aparecerá diante dos olhos.”

Cuvier era famoso por, pela visão de um só osso – fosse ele fóssil ou não –, poder estabelecer a qual espécie animal o indivíduo detentor deste osso pertencia.”

ex ungue leonem: da unha o leão

das garras, do fêmur, é extraída a constituição dos dentes, destes a figura do osso ilíaco [relativo à cintura], a forma da vértebra dorsal.”

Sentido:

a) órgão da apreensão imediata – ôntico, fenomenal

b) significado universal – ontológico, essencial

Qual é o sentido do ser? A visão ontológica!

Aquele que além de tudo ainda foi um mestre naturalista (polímata desgraçado!): “Goethe abordou de modo ingênuo os objetos, mediante consideração sensível, e possuía ao mesmo tempo o completo pressentimento de sua conexão de ordem conceitual. Também a história pode ser assim apreendida e narrada, de modo que por meio dos acontecimentos e indivíduos singulares transpareçam secretamente sua significação essencial e sua conexão necessária.”

a natureza em geral, como exposição sensível do conceito concreto e da Idéia, haveria de determinar-se bela, na medida em que [n]a intuição das configurações naturais de ordem conceitual é pressentida uma tal correspondência, e na consideração sensível nasce, ao mesmo tempo, para o sentido, a necessidade e a conco[r]dância da articulação total. [Mas] a intuição da natureza enquanto bela não avança para além desse pressentimento” Essa edição da tradução possui muitos erros tipográficos (complemento com meus colchetes).

Quase se pode formular: quanto mais idiota é a pessoa, mais ela tende a se maravilhar com “as belezas naturais” contingentes. Os verdadeiros grandes espíritos admiram a natureza a sua maneira: conceitualmente, com um olhar sobre o todo, não sobre o caos que predomina nas partes.

o cristal natural nos causa admiração por meio de sua forma regular que não é produzida por nenhuma influência mecânica apenas externa, mas por meio da determinação interior peculiar e força livre, livre do ponto de vista do próprio objeto.”

O bicho-preguiça, [adiciono aqui também o panda, embora atualmente sintamos muita simpatia por esse tipo de animal ‘indolente’!] pelo fato de apenas se arrastar com dificuldade e cuja totalidade do hábito apresenta a incapacidade para o movimento rápido e a atividade, desagrada por causa desta preguiça sonolenta.”

A SAPOMANIA PÓS-MODERNA: “Igualmente não podemos achar belos os anfíbios, alguns tipos de peixes, crocodilos, sapos, tantas espécies de insetos, etc. Mas em particular, seres híbridos, que constituem a passagem de uma forma determinada para outra e mesclam sua forma, poderão chamar nossa atenção, embora apareçam como feios, como o ornitorrinco, que é uma mistura de pássaro e animal quadrúpede. Também este modo de julgar pode primeiramente parecer mero hábito, na medida em que concebemos um tipo sólido dos gêneros animais.”

Disposição anímica (Gemütstimmung): simplesmente aquilo que Kant chamaria de sublime, por mexer com nossas emoções.

ORIGENS DO MITO DE YGGDRASIL? <A ÁRVORE QUE NÃO PÁRA DE CRESCER, ATÉ SE TORNAR FONTE DE TODA A VITALIDADE DA TERRA>… “O animal certamente também cresce, mas permanece estagnado num determinado ponto de grandeza e se reproduz enquanto autoconservação de um e mesmo indivíduo. Já a planta cresce sem parar; o aumento de seus galhos, folhas e assim por diante se suspende apenas com a sua morte.” “cada galho é uma nova planta e não é como no organismo animal apenas um membro singularizado.” “Falta à planta sua unidade ideal de sensação.”

NIETZSCHE NÃO ESCOLHE FIGURAS DE LINGUAGEM AO ACASO: “Este caráter do constante impulsionar-se-a-si-sobre-si-para-fora¹ (Sich-über-sich-Hinaustreibens) no exterior, transforma, pois, também a regularidade e a simetria, enquanto unidade no exterior-a-si-mesmo (Sichselberäusserlichen), em um momento principal para as configurações vegetais.”

¹ Rudimentos do contínuo superar-se-a-si-mesmo-e-transvalorar-se humano!

Também no orgânico, portanto, a regularidade tem o seu direito de ordem conceitual, mas apenas junto aos membros que fornecem os instrumentos para a relação imediata com o mundo exterior e não operam a referência do organismo a si mesmo enquanto subjetividade da vida que retorna a si mesma.” Possuímos dois olhos, dois ouvidos, um nariz bipartido, lábios simétricos, membros, etc., para nos relacionarmos com o mundo, porém o que há de mais importante, i.e., estômago, intestino, pulmões (até certo ponto, isto é, pois também se relacionam ao externo, mesmo em localidade ‘invisível’, para coletar oxigênio), coração e cérebro, já não possuem essa regularidade dual, assim como a musculatura do lado esquerdo (inverso do hemisfério nervoso das paixões – vontade) se desenvolve diferentemente da musculatura do lado direito (inverso do hemisfério nervoso do intelecto). Outrossim, a ambidestria é incomum, mesmo impossível, se não for perfeitamente forçada.

A linha oval possui liberdade superior na interior conformidade a leis. Ela é conforme a leis, todavia não se conseguiu encontrar matematicamente a sua lei. Ela não é uma elipse, e sim está curvada no alto de modo diferente do que embaixo.”

A última superação do meramente regular na conformidade a leis encontra-se nas linhas que, semelhantes às linhas ovais, porém seccionadas segundo seu eixo maior, fornecem metades desiguais, na medida em que um lado não se repete no outro, mas oscila de modo diferente. A assim chamada linha ondulante é desta espécie, tal como Hogarth(*) a designou como linha da beleza. Assim, p.ex., as linhas do braço giram num lado de modo diferente do que noutro. Há aqui conformidade a leis sem mera regularidade. Tal espécie de conformidade a leis determina em grande variedade as formas dos organismos vivos superiores.

(*) William Hogarth (1697-1764), pintor inglês, autor de uma obra de estética, A Análise da beleza (1753), onde a linha serpenteada é considerada como elemento primordial do belo, superior à linha reta (N.T.).”

A harmonia: “Assim, p.ex., o azul, o amarelo, o verde e o vermelho são diferenças de cor necessárias que residem na própria essência da cor. Nelas não temos apenas desigualdades como na simetria, que se combinam regularmente para a unidade externa, mas contraposições diretas, como a do amarelo e do azul e sua neutralização e identidade concreta.” “A exigência de tal totalidade pode ir tão longe a ponto de, como diz Goethe, o olho, mesmo tendo apenas uma cor enquanto objeto à frente, ver de modo subjetivo igualmente a outra.” “Mas também a harmonia enquanto tal ainda não é a subjetividade e a alma livres e ideais. Nestas a unidade não é mera correspondência recíproca e concordância, mas um pôr-negativo-das-diferenças, mediante as quais se realiza apenas sua unidade ideal. A harmonia não chega a tal idealidade.”

Principalmente os dialetos apresentam sons impuros, sons intermediários como ao.” “as línguas nórdicas freqüentemente deformam o som das vogais por meio de suas consoantes, ao passo que a língua italiana mantém esta pureza e por isso é tão cantante.”

Chama cores primárias de “cores cardinais”. Cores derivadas são “abafadas”.

Até o momento consideramos o belo natural como a 1ª existência do belo; é preciso agora perguntar como o belo natural se distingue do belo artístico.” “por que a natureza é necessariamente imperfeita em sua beleza e de onde brota esta imperfeição?”

A idéia platônica ainda não é o verdadeiramente concreto, pois, apreendida em seu conceito e em sua universalidade, ela já vale como o verdadeiro. Tomada nesta universalidade, porém, ela ainda não se efetivou e não é em sua efetividade o verdadeiro por si mesmo. Ela permanece presa ao mero em-si.”

indigência universal”

Esta é a prosa do mundo, tal como aparece à consciência tanto de um quanto de outro indivíduo, um mundo da finitude e da mutabilidade, do entrelaçamento no relativo e da pressão da necessidade à qual o indivíduo singular não é capaz de se subtrair. Pois cada vivente singular permanece preso à contradição de ser para si mesmo fechado enquanto este ser uno e igualmente depender dos outros; e a luta pela solução da contradição não consegue ultrapassar a tentativa e a continuação da constante guerra.”

#(relativo)OFFTOPIC: O que é o além-homem nietzschiano (da ótica do devir estético humano descrito por Hegel em seus Cursos de Estética)? Pensando em termos de teoria da evolução das espécies segundo Darwin, póstuma a Hegel mas com certeza prefigurada em seus contornos e bastante de seu conteúdo pelo filósofo idealista alemão, o além-homem (tradução melhor para o ambíguo super-homem do português do original “Übermensch”) seria o primeiro animal autodeterminado. Pela primeira vez a seleção do devir da espécie pode ser um adestramento, adestramento de si próprio, a construção de uma humanidade propriamente dita (ainda inexistente), ao contrário da seleção entregue às puras contingências externas. Um projeto de além-homem inclui desde o último homem ou sub-homem (o obstáculo a superar), o homem (espécie de consciência intermediária, os que não são obstáculos reativos e reacionários, mas não são ativos nessa transvaloração dos valores ou conscientes da questão) e os filósofos de vanguarda, entregues à “causa”. Com o decorrer do tempo, num mundo já pós-ocidental (num nível não-concebido por nós, que de certa forma já vivemos num contexto de superação da metafísica ocidental), inclui(rá) o próprio ente que se vê nessa transição epocal (Zaratustras? enunciadores, ainda aquém do além-homem em si) e, finalmente, o próprio além-homem, que não é mais “homem”, mas que só poderá existir pelo esforço do que um dia já foi homem, e provavelmente coexistiria com ele eternamente, qualquer que seja a nova conformação social. Seria como se realmente, sem recorrer a algo transcendental, um sujeito hipostasiado que explique a evolução (em Darwin é a própria cientificidade de sua teoria, p.ex.), pudéssemos ver o peixe, o anfíbio e os (depois dos répteis, evidentemente, até chegar a nossa identidade no reino dos) mamíferos como atores e autores do seu próprio projeto de “viagem do mar à terra”, faces de um mesmo todo. Obviamente, apenas o homem é capacitado para integrar um projeto multifacetado como este (aquilo que deve ser conscientemente superado). A tríade peixe-anfíbio-animal terrestre não passa, em contraposição, de um caos tornado destino, por se localizar em nosso passado, evolução involuntária, impessoal, figuras que não dialogam entre si (precisamente por não discursarem ou dialogarem em absoluto, atributo definidor de “homem”).

A contingência das formas não encontra fim. Por isso, quanto ao conjunto, as crianças são as mais belas, porque nelas ainda estão adormecidas todas as particularidades como num embrião fechado e em silêncio, na medida em que ainda nenhuma paixão limitada revolve seu peito e nenhum dos múltiplos interesses humanos, com a expressão de sua miséria, a[s]fix[i]ou-se firmemente nos traços passageiros. Mas, embora a criança em sua vitalidade apareça como a possibilidade de tudo, faltam a esta inocência igualmente os traços profundos do espírito, que é impelido a exercer-se-a-si-em-si-mesmo e a encontrar direções e fins essenciais.”

[Nossa carência congênita] é a razão porque (sic) o espírito não pode reencontrar a visão e o gozo imediatos desta sua verdadeira liberdade na finitude da existência (…) e, por isso, [busca-se] um terreno superior (…) a arte e sua efetividade ideal.”

conquista[-se] um fenômeno exterior, no qual não mais aparece a indigência da natureza e da prosa, mas uma existência digna da verdade que, por seu lado, permanece em livre autonomia, na medida em que possui sua determinação em si mesma”

TERCEIRO CAPÍTULO. O BELO ARTÍSTICO OU O IDEAL

se perguntarmos em qual órgão particular o todo da alma enquanto alma aparece, indicaremos imediatamente o olho; pois no olho se concentra a alma e ela não apenas olha através dele, mas também é vista nele.”

como exclama Platão no célebre dístico a Aster: [onde encontrar?]

Quisera ser eu o céu, ó minha estrela, quando você olha as estrelas!

Para observá-la do alto com mil olhos!”

Segundo Hegel, a sensibilidade artística, se fosse uma pele, seria uma pele inteiramente revestida por olhos. Não é à toa que quimeras e criaturas mitológicas com um “corpo de cem ou mil olhos” são comuns em praticamente qualquer cultura, transpassando para a vida moderna (The Legend of Zelda – Jabu-Jabu’s Belly –, Hunter x Hunter – Youpi –, e mesmo na figura derivada do corpo-que-é-um-grande-olho de Lord of The Rings – Sauron –, etc.).

Utilizei os exemplos acima antes de ler o trecho seguinte: “a arte transforma cada uma de suas configurações num Argos(*) de mil olhos, para que a alma e a espiritualidade internas sejam vistas em todos os pontos.

(*) (…) filho de Arestor (…) Hera o encarregou de vigiar a vaca Io, mas Hermes, seguindo ordens de Zeus, matou o monstro. Para imortalizar o servidor, Hera tirou-lhe os olhos e os espalhou pela cauda do pavão, ave que lhe era consagrada. (N.T.)”

É algo completamente diferente se o retratista apenas em geral imita a fisionomia tal como se encontra a sua frente em sua superfície e forma exterior silenciosa ou se sabe expor os traços verdadeiros que são a expressão da mais própria alma do sujeito.”

as assim chamadas imagens vivas, que recentemente se tornaram moda, imitam conforme a fins e alegremente obras-primas famosas e reproduzem exatamente o detalhe, o drapê, etc.; mas, para a expressão espiritual das formas, vê-se muitas vezes o emprego de rostos do cotidiano e isso tem um efeito contraproducente.” “As Madonas de Rafael, em contrapartida, nos mostram formas do rosto, da face, dos olhos, do nariz, da boca que, enquanto formas em geral, já são adequadas ao amor materno beato, alegre e ao mesmo tempo piedoso e humilde.”

E se hoje a musa,

A livre deusa da dança e do canto,

Seu antigo direito alemão, o jogo da rima,

Modestamente de novo exige – não a recriminem!

Antes a agradeçam por lançar a imagem sombria

Da verdade no reino sereno da arte,

Por destruir ela mesma, com lealdade,

A ilusão que cria, e não imputar,

Enganosamente, à verdade sua aparência;

Séria é a vida, serena é a arte.”

Schiller

O homem subjugado ao destino [Geschick] pode perder sua vida, mas não a liberdade. Este repouso-sobre-si é o que permite que, ainda na própria dor, se mantenha e se deixe aparecer a serenidade do repouso.”

se não a fealdade, pelo menos a não-beleza (Unschönheit).”

MORBIDEZ QUE PARA HEGEL ERA SUBLIMIDADE: “Embora na arte romântica o sofrimento e a dor atinjam de modo mais profundo o ânimo e o interior [Innere] subjetivo do que nos antigos, nela, todavia, também pode vir à exposição uma interioridade [Innigkeit] espiritual, uma alegria na resignação, uma beatitude na dor e um encanto no sofrimento, mesmo uma voluptuosidade até no martírio. Mesmo na música religiosa-séria italiana este prazer e transfiguração da dor perpassem a expressão da lamentação. [único jeito das frígidas gozarem] No romântico, em geral, esta expressão é o sorriso através de lágrimas.”

Jakob Balde (1604-1688), Cid (em latim, traduzido para todas as línguas român(t)icas). Havia certa confusão nessa época na hora da atribuição do autor (quase todos apontavam os tradutores locais como reais autores da obra, etc.). Esse mesmo cavaleiro Cid, no entanto, parece ter sido uma figura quase tão universal ou pelo menos policultural quanto Fausto.

(*) “Carl Maria von Weber (1786-1826), compositor alemão. O Freischütz (O Franco-atirador) é uma ópera de 1821, baseada na obra de mesmo nome do escritor Johann August Apel (1771-1816). Primeiro sucesso de Weber no domínio da ópera e única de suas obras que permaneceu popular, o Freischütz ilustra bem a tendência romântica ao satanismo, pois o personagem central não é Max, o herói frágil, mas o malvado Kaspar, que vendeu sua alma ao diabo.”

O riso em geral é um desencadeamento explosivo que, contudo, não deve permanecer incontrolado, caso o ideal não deva ser percebido.”

CÂNONES VAGOS E RUINS DE HEGEL: “Sob certo aspecto, o princípio da moderna ironia também possui neste axioma a sua justificação, só que a ironia, por um lado, freqüentemente está destituída de toda seriedade verdadeira e ama principalmente o deleite com objetos ruins; por outro lado, acaba em mera nostalgia do ânimo em vez do agir e do ser efetivos; como Novalis, p.ex., um dos ânimos mais nobres que se encontrava neste terreno, que foi impulsionado ao vazio de interesses determinados, a esta timidez perante a efetividade e, se assim se pode dizer, [não, não pode!], alçado a esta tísica do espírito.” H. nunca escondeu, nessa e noutras obras e coletâneas de aulas, que não nutre lá uma opinião muito favorável de Novalis…

Assim, encontra-se sem dúvida na ironia aquela absoluta negatividade, na qual o sujeito se refere a si-mesmo na aniquilação das determinidades e unilateralidades; mas na medida em que a aniquilação não se refere como no cômico apenas ao que é em-si-mesmo nulo e que se manifesta em seu caráter vazio, mas na mesma medida também a tudo o que é excelente e consistente em-si, a ironia – assim como aquela nostalgia – mantém o aspecto da incompostura interior não-artística.” O erro aqui não está em atribuir “absoluta negatividade” à ironia, nem em qualquer suposto exagero ao atribuir ao sujeito irônico a capacidade da “aniquilação das determinidades e unilateralidades”: está em não dar a devida importância a este niilismo que Hegel sabia descrever mas não destacar ou valorar como necessidade ocidental (para o bem e para o mal).

a arte em geral, e de modo especial a pintura, já se afastaram, mediante outros estímulos, desta mania pelos assim chamados ideais [fala aqui no sentido da arte imitativa dos modernos, emulando o estilo clássico dos antigos] e, em seu caminho, tentaram ao menos alcançar coisas mais substanciais e mais vivas em formas e conteúdo, por meio da renovação do interesse pela pintura mais antiga italiana e alemã, assim como pela pintura holandesa tardia.

Do mesmo modo que ficamos fartos daqueles ideais abstratos, também o ficamos da naturalidade em voga na arte. No teatro, toda a gente está de coração cansado das histórias familiares banais e de sua exposição fiel à natureza. A lamentação dos homens com a mulher, os filhos e filhas, com o soldo, com a subsistência, com a dependência de ministros e intrigas dos camareiros e secretários, e igualmente a dificuldade da mulher com as criadas na cozinha e com os assuntos amorosos e sentimentais – todas estas preocupações e lamúrias cada um encontra de modo mais fiel e melhor em sua própria casa.”

(*) “A escola de Düsseldorf [na qual H. mete o pau inclementemente] constituiu um movimento de amplitude européia (e mesmo americana), cujos integrantes principais foram F. Lessing (1808-1880), autor de quadros históricos, e Ludwig Richter (1803-1884) de Dresden, que possuía um gosto por lendas populares. Mas o seu artista mais importante, que morreu ainda jovem, foi Alfred Rethel (1816-1859), grande ilustrador obcecado pelo tema da morte.”

O DELEITE DO VIRTUAL: “os objetos não nos deleitam porque são de tal modo naturais, mas porque são feitos [gemacht] tão naturalmente.”

o famoso Denner(*) não deve ser tomado como modelo em sua assim chamada naturalidade.

(*) Balthasar Denner (1685-1749), retratista e miniaturista alemão conhecido por sua técnica de representar a natureza de modo exageradamente fiel.”

[na pintura e na escultura moderna, dado nosso vestuário,] as jaquetas e as calças não variam, quer movimentemos os braços e as pernas desse ou daquele modo. No máximo as pregas se esticam de modo diferenciado, mas sempre segundo uma costura firme, como as calças na estátua de Scharnhorst(*).

(*) Gerhard von Scharnhorst (1755-1813), herói militar prussiano.”

falsa imitação da Forma natural“

Os holandeses escolheram o conteúdo de suas representações a partir deles mesmos, do presente [Gegenwar] de sua própria vida, e não se deve censurá-los por terem pela arte efetivado mais uma vez este presente [Präsente].” A Europa já se havia saturado de pinturas cristãs!

O holandês construiu em grande parte ele próprio o terreno onde mora e vive, e é forçado a defendê-lo e mantê-lo continuadamente contra o ataque do mar” “O conteúdo universal de suas imagens é constituído por esta cidadania e vontade de empreendimento nas coisas pequenas e grandes, no próprio país quanto no vasto mar” “Foi neste sentido de nacionalidade robusta que Rembrandt pintou sua famosa Ronda Noturna em Amsterdan, que Van Dyck pintou tantos de seus retratos, Wouwerman suas cenas de cavaleiros, e mesmo aqueles banquetes, jovialidades e festas agradáveis dos camponeses se situam neste contexto.”

Rembrandt, Ronda Noturna

Num sentido semelhante, os meninos mendigos de Murillo (na galeria central de Munique) são primorosos. Considerado segundo o exterior, o objeto aqui também é da natureza comum: a mãe cata piolhos em um dos meninos enquanto ele come seu pão em silêncio; outros dois num quadro semelhante, esfarrapados e miseráveis, comem melancias e uvas. Mas precisamente nesta pobreza e quase nudez brilha interna e externamente nada mais do que a total indiferença e despreocupação; um Dervixe [asceta hindu] não as poderia ter melhor” “Em Paris há um retrato de menino de Rafael: a cabeça está apoiada preguiçosamente sobre o braço e olha com tal beatitude de satisfação destituída de preocupação para o horizonte e para o vazio que não conseguimos parar de observar esta imagem de saúde alegre e espiritual.”

Tais quadros de gêneros, porém, devem ser pequenos e aparecer em todo o seu aspecto sensível como algo insignificante, como algo que já superamos no que diz respeito ao objeto exterior e ao conteúdo. Seria insuportável vê-los executados em tamanho natural e, assim, com a pretensão de que pudessem efetivamente nos satisfazer em sua totalidade.”

Von Rumohr (o “Anti-Winckelmann”), Investigações Italianas, vol. I: “o senhor Rumohr parece acreditar que o prolongamento do abdômen, que Winckelmann em História da Arte da Antiguidade (1764), livro 5, cap. 4, #2, designa como característica dos ideais das formas antigas, é deduzida de estátuas romanas.” “a beleza a mais importante repousa sobre aquele simbolismo das formas, dado na natureza e não-fundado sobre o arbítrio humano”

As formas naturais existentes do conteúdo espiritual devem ser tomadas como simbólicas no sentido universal, já que não valem por si imediatamente” Agora H. melhorou um pouco o tal sr. Rumor!

as esculturas gregas descobertas recentemente como de fato pertencentes a Fídias impõem-se sobretudo pela vitalidade profunda [de fisionomias universais].”

[já] Homero [- em seu meio literário -] pôde descrever o caráter de Aquiles igualmente tanto como duro e atroz quanto como suave e cordial e segundo ainda tantos outros traços d’alma.”

Em pinturas alemãs e holandesas antigas encontra-se freqüentemente reproduzido o mecenas com sua família, mulher, filhos e filhas. Eles devem todos aparecer imersos em devoção, e a religiosidade brilha efetivamente em todos os traços (…) reconhecemos nos homens bravos guerreiros (…) muito experimentados na vida e na paixão, e nas mulheres (…) esposas de semelhante qualidade (…) Se, nestas pinturas, que são famosas no que diz respeito a suas fisionomias verdadeiramente naturais, compararmos estas fisionomias com Maria ou com os santos e apóstolos que estão presentes ao lado, podemos, em contrapartida, ler nestes rostos apenas uma expressão, e todas as formas, a estrutura óssea, os músculos, os traços de repouso e de movimento estão concentrados nesta única expressão. A diferença entre o autêntico ideal e o retrato é dada pelo que apenas se ajusta ao conjunto.”

Agora vem uma chuva de teologia historicista aborrecida pra caralho:

em 1º lugar, a única substância divina se cinde e se dispersa em uma pluralidade de deuses que repousam em si mesmos de modo autônomo, tal como na intuição politeísta da arte grega; e também para a representação cristã o Deus aparece, perante sua unidade puramente espiritual, imediatamente como homem entrelaçado no âmbito do terreno.”

2º lugar: os santinhos do pau oco etc.

3º lugar: o indivíduo (o protestante!) – logo, temos Luteros também na pintura e demais artes

Começa-se a rezar para passar em medicina, etc.

OS FABULOSOS X-OLIMPIANOS: O Olimpo é um gibi da Marvel: termina, se bem que não, pois não lembramos do que aconteceu primeiro e do sucedâneo e do desfecho, i.e., lembramos particularidades, momentos isolados, mas sequer conseguimos pô-los em ordem cronológica. A lógica do pai de Zeus não existe mais!

Mesmo os deuses eternos do politeísmo não vivem em paz eterna. Eles se dividem em facções e lutas com paixões e fins opostos e devem submeter-se ao destino. Mesmo o Deus cristão não está subtraído à passagem pela humilhação do sofrimento, inclusive pelo opróbrio da morte e não é libertado da dor da alma, na qual ele deve gritar: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

a potência consiste apenas em manter-se no negativo de si.” “Pois é pela vontade que o espírito em geral penetra na existência”

H. adoraria o Windows e suas subpastas…

A vingança de Orestes, p.ex., foi justa, mas ele apenas a executou segundo a lei de sua virtude particular, e não segundo o juízo e o direito. – No estado que reivindicamos para a representação artística, o ético e o justo devem, portanto, conservar sem exceção forma individual

arete (heroísmo clássico) vs. virtus (reino da anti-arte)

Ser um romano apenas de modo abstrato e representar na própria subjetividade enérgica apenas o Estado romano, a pátria e sua grandeza e potência: é esta a seriedade e dignidade da virtude romana. Os heróis, em contrapartida, são indivíduos que a partir da autonomia de seu caráter e de seu arbítrio assumem a responsabilidade pelo todo de uma ação e a realizam e junto aos quais o justo e o ético aparecem como modo de pensar singular.”

(*) “Téspio possuía 50 filhas e desejava netos nascidos do herói Hércules. Este se alojava em sua casa e em cada noite encontrava uma bela mulher em seu leito. Possuía-a, pensando tratar-se sempre da mesma. E assim conceberam de sua semente as 50 filhas de Téspio.” Comprem óculos para o filho de Zeus urgente!

HOMERO & PÉRSIA: “Os heróis da antiga poesia árabe também surgem com uma autonomia idêntica, não-ligados a nenhuma ordem estabelecida desde sempre e não como meras partículas desta ordem”

(*) “Xá-namé ou Livros dos Reis, imensa epopéia de 6 mil dísticos composta no séc. X pelo poeta persa Ferdúsi.”

Desta espécie são os heróis da Távola Redonda assim como o círculo dos heróis, cujo ponto central é constituído por Carlos Magno.” “mesmo que Carlos também queira agitar-se como Júpiter no Olimpo, ainda assim eles o abandonam com seus empreendimentos e partem autonomamente para a aventura. O modelo completo para esta relação encontramos mais adiante no Cid.” “Uma imagem semelhante e admirável de autonomia independente oferecem os heróis sarracenos que se mostram para nós numa figura ainda mais áspera. – Mesmo o Reineke Fuchs(*) renova para nós a visão de um semelhante estado.

(*) (…) <epopéia animal>(*) [de Heinrich, 1180]. O gênero, fortemente carregado de crítica social, foi fixado na literatura alemã por um Volksbuch em alto-alemão, publicado em 1544. Goethe compôs um poema épico do mesmo título em 1794.

(*) O leão é decerto sr. e rei, mas o lobo e o urso etc. fazem igualmente parte do conselho.”

A consistência e a totalidade autônoma do caráter heróico não quer dividir a culpa e não sabe nada desta contraposição das intenções subjetivas e do ato objetivo com suas conseqüências, ao passo que na complicação e na ramificação do agir atual cada um recorre a todos os outros e afasta o quanto pode a culpa de si.”

toda uma linhagem sofre pelo primeiro criminoso” “Entre nós, os efeitos dos antepassados não honram os filhos e os netos; os crimes e os castigos daqueles não desonram os descendentes e muito menos podem macular seu caráter (…) mesmo o confisco dos bens familiares constitui um castigo que lesa o sujeito.”

o herói é o que seus pais eram, sofreram, fizeram.”

É preciso imaginar um Hércules kafkiano.

De modo mais preciso, uma época heróica possui então a vantagem diante de um estado mais formado e tardio” “Shakespeare, p.ex., tirou muitas matérias para as suas tragédias de crônicas ou de novelas antigas que falam de um [E]stado que ainda não se desprendeu para uma ordem completamente estabelecida, e sim na qual a vitalidade do indivíduo, em sua resolução e execução, ainda prevalece e é determinante. Seus dramas propriamente históricos possuem um ingrediente principal do histórico meramente exterior e, por isso, estão mais afastados do modo de exposição ideal, embora também aqui os estados e as ações sejam sustentados e elevados por meio da dura autonomia e teimosia dos caracteres.”

AS PASTORAIS: “o idílico vale apenas como um refúgio e diversão do ânimo”

Gessner, Idílios, 1756.

Devemos admirar o genius de Goethe, pelo fato de em Hermann e Dorotéia¹ concentrar-se num âmbito semelhante, na medida em que escolhe uma particularidade estreitamente limitada da vida do presente, mas ao mesmo tempo traz à tona, como pano de fundo e como atmosfera nos quais se move este círculo, os grandes interesses da revolução e da própria pátria, e coloca a matéria por si limitada em relação com os acontecimentos mundiais os mais potentes e abrangentes.”

¹ Peça em verso no melhor estilo Shakes., porém sem rimas brancas! “Epopéia burguesa”.

A arte preferiria narrar a vida dos reis porque neles ainda impera a “a-“lei do mais forte. Obviamente que hoje não se imagina um Zola escrevendo O Germinal com a família real inglesa como pano de fundo…

o Götz(*) de Goethe. A época de Götz e Franz é a interessante época na qual a cavalaria, com a autonomia nobre de seus indivíduos, encontra sua decadência por causa de uma ordem e legalidade objetivas em vias de nascer. A escolha deste contato e desta colisão entre a época heróica medieval e a vida moderna legal, enquanto primeiro tema, testemunha a grande sensibilidade de Goethe. Pois Götz e Sickingen ainda são heróis que, a partir de suas personalidades, coragem e sentido justo e reto, querem regular de modo autônomo os Estados em seus círculos mais estreitos ou mais amplos; mas a nova ordem das coisas leva o próprio Götz à injustiça e o condena a sucumbir. Pois apenas a cavalaria e o sist. feudal são na Idade Média o terreno autêntico para esta espécie de autonomia. – Mas se a ordem legal se constituiu de modo mais completo em sua forma prosaica e se tornou predominante, a autonomia aventureira dos indivíduos cavalheirescos sai de relação e, se ela ainda quer afirmar-se-a-si como o que é unicamente válido, regular a injustiça no sentido da cavalaria e proporcionar ajuda aos oprimidos, ela se torna ridícula como Dom Quixote, tal como descreve Cervantes.

(*) Primeiro drama de G., Götz von Berlichingen é do ano de 1773 e se situa no fim do séc. XV. Seu personagem principal é o cavaleiro Götz; Franz von Sickingen é o seu melhor amigo.”

poderíamos mesmo dar o nome de poesia de ocasião ao Werther.(*) Pois por meio do Werther Goethe elaborou seu próprio dilaceramento e dor interiores do coração, os acontecimentos de seu próprio peito, numa obra de arte, tal como o poeta lírico, em geral, desafoga seu coração e expressa aquilo que o afeta nele mesmo enquanto sujeito.

(*) Die Leiden des jungen Werthers é um célebre romance epistolar de Goethe do ano de 1774, escrito sob a impressão de vivências pessoais com Charlotte Buff em Wetzlar. Sua atmosfera sentimental também é determinada pelo romance sentimental de Rousseau, a Nova Heloísa (1761), e pelo aparecimento dos poemas de Ossian.”

a violação é uma modificação do Estado que, sem ela, é harmônico, modificação que ela mesma deve novamente ser modificada.”

as trilogias dos antigos são continuações no sentido da colisão [o que fundamenta uma violação] surgir do fim de uma obra dramática para uma 2ª obra, que novamente exige sua solução em uma 3ª.” Mas não diga!

a situação plena de colisão é principalmente objeto da arte dramática”

não é possível estabelecer determinações universais da fronteira até a qual a dissonância pode ser impulsionada, uma vez que cada arte segue seu caráter peculiar.” “a poesia tem o direito de prosseguir para o interior até a proximidade do tormento mais extremo do desespero e, no exterior, até a feiúra enquanto tal. Nas artes plásticas, porém, na pintura e mais ainda na escultura, a forma exterior se apresenta firme e permanente, sem novamente ser superada e, assim como os sons da música, logo novamente desaparecer de modo fugaz.”

O direito da sucessão ao trono, enquanto motivo de colisões que aqui se situam, não necessita já estar regulado e estabelecido por si mesmo, porque então o conflito logo se torna de uma espécie inteiramente diferente. Se a sucessão ainda não foi estabelecida por leis positivas e sua ordem vigente, não pode ser considerado como injusto o fato de que tanto o irmão mais velho quanto o irmão mais novo ou um outro parente da casa real devam reinar.” “A inimizade entre irmãos é uma colisão presente em todas as épocas da arte, que já começa com Caim (…) Também no Xá-namé” “Uma colisão semelhante encontra-se na base do Macbeth de Shakespeare. Duncan é rei, Macbeth seu parente próximo mais velho e, por isso, o autêntico herdeiro do trono, ainda antes dos filhos de Duncan. E assim, a 1ª ocasião para o crime de Macbeth também é a injustiça que o rei lhe fez ao nomear seu próprio filho como sucessor do trono. Esta justificação de Macbeth, que se depreende das crônicas, Shakespeare deixou totalmente de lado, porque sua finalidade era apenas salientar o elemento horrendo na paixão de Macbeth, para assim adular o rei Jacó, [?] que deve ter tido algum interesse em ver Macbeth representado como criminoso. Por isso, segundo o tratamento de Shakespeare, permanece imotivado o fato de Macbeth também não matar os filhos de Duncan, e sim permitir a sua fuga e de também nenhum dos grandes lembrar deles.”

SEM ALFA NEM ÔMEGA: “Na casa de Agamenon, Ifigênia reconcilia em Táurida a culpa e o infortúnio da casa. Aqui o início constituiria a salvação de Ifigênia por Diana que a leva a Táurida; esta circunstância, porém, é apenas a seqüência de outros acontecimentos, a saber, do sacrifício em Áulis que novamente é condicionado pela ofensa de Menelau, de quem Páris rapta Helena e assim sucessivamente até o famoso ovo de Leda. Igualmente a matéria que é manuseada na Ifigênia em Táurida contém de novo como pressuposto o assassínio de Agamenon e toda a seqüência de delitos na casa de Tântalo. Algo semelhante se passa com o ciclo mitológico tebano.” “tal execução já se tornou algo enfadonho e foi considerada como questão da prosa, em vista de cuja minúcia se estabeleceu como lei da poesia a exigência de conduzir o ouvinte imediatamente in media res [ao meio das coisas].” “Homero começa na Ilíada imediatamente, de modo determinado, com a questão que lhe importa, a raiva de Aquiles, e não relata antes os acontecimentos precedentes ou a história da vida de Aquiles, e sim nos oferece imediatamente o conflito específico e, na verdade, de um modo que um grande interesse constitui o pano de fundo de seu quadro.”

P. 214: O erro sobre Antígona apontado por Jaeger.

Shakespeare nos apresenta em Lear o mal em toda a sua atrocidade. O velho Lear divide o reino entre suas filhas e é tão insensato a ponto de confiar nas palavras falsas e aduladoras delas e ignorar a muda e fiel Cordélia. Tal coisa já é por si insensata e demente, e assim a ignominiosa ingratidão e indignidade das filhas mais velhas e de seus maridos o levam à loucura efetiva.”

tanto a livre autonomia dos deuses quanto a liberdade dos indivíduos agentes encontram-se colocadas em perigo.” “o espírito de Deus conduz a Deus. Mas então o interior humano pode aparecer como o terreno meramente passivo sobre o qual atua o espírito de Deus” “Mesmo grandes poetas não conseguiram manter-se livres da exterioridade recíproca entre os deuses e os homens.” Deus ex machina: Freeza tem de perder, e o show tem de continuar…

Quando ouvimos nos antigos que Vênus ou Amor forçaram o coração, Vênus e Amor são inicialmente sem dúvida forças externas ao ser humano, mas o amor é do mesmo modo um movimento e uma paixão que pertence ao peito humano enquanto tal e constitui seu próprio interior.” “Esta interrupção interior da ira, este freio que é um poder estranho à ira, o poeta épico tem aqui o pleno direito de expor como um acontecimento externo, porque Aquiles aparece de início inteiramente apenas tomado pela ira.”

Goethe realizou em sua Ifigênia em Táurida o que há de mais admirável e belo a este respeito.” (*) “…indicamos a tradução de Carlos Alberto Nunes

Senhora Atena, quem ouvindo os deuses não os obedece não tem juízo. Pois como poderia ser bela a luta com os deuses poderosos?”

O personagem Toas de Eurípides

Que Goethe seja superior a Eurípides, não se depreende que seja o suficiente para a modernidade se arrogar a coroa, Hegel! De fato não é tão meritório “ser superior a Eurípides”, como que um coadjuvante esforçado no seu contexto!

Hat denn zur unerhörten Tat der Mann „Apenas o homem tem, pois, direito

Allein das Recht? drückt denn Unmögliches ao ato inaudito? Apenas ele imprime

Nur er an die gewaltge Heldenbrust?“ a impossibilidade no valente peito heróico?”

Du glaubst, es höre

Der rohe Skythe, der Barbar, die Stimme

Der Wahrheit und der Mesnchlichkeit, die Atreus,

Der Grieche, nicht vernahm?“

Bringst du die Schwester, die auf Tauris‘ Ufer

Im Heilligtume wider Willen bleibt,

Nach Griechenland, so löset sich der Fluch“

Gleich einem heilgen Bilde,

Daran der Stadt unwandelbar Geschick

Durch ein geheimes Götterwort gebannt ist,

Nahm sie dich weg, dich Schützerin des Hauses;

Bewahrte dich einer heilgen Stille

Zum Segen deines Bruders und der Deinen.

Da alle Rettung auf der weiten Erde

Verloren schien, gibst du uns alles wieder.“

In deinen Armen fasste

Das Übel mich mit allen seinen Klauen

Zum letztenmal und schüttelte das Mark

Entsetzlich mir zusammen; dann entfloh’s

Wie eine Schlange zu der Höhle. Neu

Geniess ich num durch dich das weite Licht

Des Tages.“

Pior do que nas matérias antigas se encontra a situação nas matérias cristãs.” Nisso sim há um mérito gigantesco da Era Goethe: mais, mais claridade solar do Pagão!

Objetou-se a Shakespeare por causa desta ausência de atividade, e se o recriminou porque a peça do Hamlet parecia em parte não querer sair do lugar. Hamlet é, porém, uma natureza fraca em termos práticos, um belo ânimo retraído-em-si-mesmo, que dificilmente consegue decidir-se a sair desta harmonia interna; é melancólico, pensativo, hipocondríaco e meditativo, e, por isso, não-inclinado a um ato rápido; tal como também Goethe insistiu na representação que S. teria querido descrever: [Wilhelm Meister] impôs um grande ato sobre uma alma que não estava à altura do ato. E neste sentido ele encontra a peça completamente elaborada.” “Hamlet vacila porque não acredita às cegas no espírito.” “Vemos aqui que a aparição [duplo sentido: a idéia da vingança e o ectoplasma de seu pai] enquanto tal não dispõe de Hamlet sem resistência, mas ele duvida e quer alcançar a certeza pelos próprios meios, antes de empreender o agir.”

As potências universais, por fim, que não se apresentam apenas por si em sua autonomia, mas estão igualmente vivas no peito humano e movem o ânimo humano no seu ser mais íntimo, podemos designar, segundo os antigos, com a expressão pathos. Esta palavra é de difícil tradução, pois <paixão> (Leidenschaft) sempre subentende aquilo que é mesquinho, baixo, ao passo que exigimos do ser humano que ele não permaneça preso às paixões (Leidenschaftlichkeit). (…) [o] pathos [não é] repreensível nem teimoso.”

o sagrado amor fraterno de Antígona é um pathos

Orestes, p.ex., mata sua mãe não baseado numa paixão, e sim o pathos o impulsiona”

Quanto a isso, também não podemos dizer que os deuses possuem pathos.” Pois os deuses são estóicos involuntários! Cada deus olímpico é na verdade uma das emoções autônomas do pathos que necessitam do veículo humano.

O pathos constitui, pois, o verdadeiro ponto central, o autêntico domínio da arte; a exposição dele é o que principalmente atua e produz efeito na obra de arte assim como no espectador. Pois o pathos toca numa corda que ressoa em cada peito humano” “O pathos move porque é a potência-em-si-e-para-si na existência humana.”

A comoção (Rührung), em termos gerais, é com-moção [Mitbewegung] enquanto sentimento, e os seres humanos, principalmente hoje em dia, são em parte fáceis de comover.”

O Timon shakespeariano é um misantropo inteiramente exterior; os amigos comeram às custas dele, dilapidaram sua fortuna e quando ele mesmo precisou de dinheiro o abandonaram. A partir disso, torna-se um inimigo apaixonado dos homens. Tal coisa é concebível e natural, mas não é nenhum pathos legítimo. Na obra juvenil de Schiller, O Misantropo, o ódio semelhante é ainda uma mania (Grille) moderna. Pois aqui o inimigo da humanidade é um homem de reflexão, pleno de conhecimentos e sumamente nobre, generoso com seus camponeses, os quais libertou da servidão, e cheio de amor para com sua filha tanto bela quanto digna de ser amada. De modo semelhante é que Quinctius Heymeran von Flaming se atormenta no romance de August Lafontaine com o capricho das raças humanas.”

Os antigos estavam acostumados a explicitar em sua profundidade o pathos que anima os indivíduos, sem por meio disso cair em reflexões frias ou em palavrório. Também os franceses são a este respeito patéticos (pathetisch) e sua eloquência da paixão não é sempre apenas um mero revolvimento de palavras, tal como muitas vezes nós alemães, no retraimento de nosso ânimo, o consideramos, na medida em que a vasta expressão do sentimento aparece para nós como uma injustiça imputada ao sentimento. Houve neste sentido, na Alemanha, uma época da poesia, na qual principalmente os ânimos jovens, saturados da retórica agu[a]da [aguada no original!] francesa e exigindo naturalidade, chegaram, pois, a uma força que principalmente se expressava apenas em interjeições. A questão não se resolve, todavia, com o mero ah! e oh! ou com a maldição da ira, com o arremessar-se e com o exceder-se. A força de meras interjeições é uma má força e o modo de manifestação de uma alma ainda rude. O espírito individual, no qual o pathos se expõe, deve ser um espírito pleno em si mesmo, capaz de se expandir.”

Goethe é menos patético do que Schiller” “seus cantos deixam perceber o que pretendem, sem se explicitarem completamente.”

De modo semelhante, Claudius (1740-1815), no Mensageiro de Wandsbecker (vol. I), contrapôs Voltaire e Shakespeare, de modo que um é o que o outro parece: <Mestre Arouet diz: eu choro; e Shakespeare chora>. Mas é justamente em torno do dizer e do parecer que se trata na arte. Se Shakespeare literalmente apenas chorasse, seria um mau poeta.”

o pathos na atividade concreta é o caráter humano.”

A um ser humano verdadeiro pertencem muitos deuses, e ele guarda em seu coração todas as potências que estão dispersas no círculo dos deuses” Mal posso acreditar que este é H.!

Com efeito, quanto mais cultos eram os gregos, tanto mais deuses eles possuíam, e seus deuses mais antigos eram embotados, não-configurados (herausgestaltet) para a individualidade e determinidades.”

Em Homero, cada herói é todo um âmbito total e vital de propriedades e traços de caráter.”

Com Aquiles podemos dizer: isto é um homem!”

Em contrapartida, que individualidades rasas, pálidas, mesmo se também vigorosas, são o córneo Siegfried, o Hagen de Tronje e mesmo Volker, o menestrel!”

Um outro modo da falta de postura do caráter constituiu-se, principalmente em produções alemãs recentes, na fraqueza interior do sentimentalismo, que na Alemanha reinou por tempo suficiente. Como primeiro exemplo famoso deve ser mencionado o Werther” “A bela alma (Schönseelichkeit) de Jacobi, em seu Woldemar, [também] se insere neste caso.”

A pedantice e a impertinência de não ser capaz de suportar pequenas circunstâncias e inépcias – que, porém, um grande e forte caráter supera incólume –, ultrapassa qualquer representação, e justamente a coisa mais insignificante leva tal ânimo ao supremo desespero.”

De uma outra maneira, esta deficiência na solidez substancial interior do caráter também foi desenvolvida de modo que tais magnificências superiores esquisitas do ânimo fossem inversamente hipostasiadas e apreendidas como potências autônomas. Aqui se situam a magia, o magnetismo, o demoníaco, a fantasmagoria-elefante do visionário, a doença do sonâmbulo, etc.” “as potências escuras devem justamente ser banidas do âmbito da arte, pois nela não há nada de escuro, e sim tudo é claro e transparente, e com estes presbitismos [hipermetropia] apenas é dada a palavra à doença do espírito e a poesia é lançada no nebuloso, no vaidoso e no vazio, do qual nos fornecem exemplos Hoffmann e Heinrich von Kleist, este em seu Príncipe de Homburg. O caráter verdadeiramente ideal não tem nada vindo do além e de fantasmagórico, e sim tem por seu conteúdo e pathos interesses efetivos, nos quais ele está consigo mesmo. Principalmente a clarividência tornou-se trivial e comum na poesia recente. No Wilhelm Tell de Schiller, em contrapartida, quando o velho Attinghausen, no momento da morte, proclama o destino da sua pátria, tal profecia é empregada em lugar oportuno.”

Hamlet é em si mesmo certamente indeciso, mas não tem dúvida pelo que tem de realizar e sim pelo como tem de realizar algo. Agora, contudo, há quem também transforme os caracteres de Shakespeare em fantasmas e pense que a nulidade e a insuficiência na oscilação e na mudança de posição, que este disparate, deve justamente interessar por si mesmo. Mas o ideal consiste no fato de que a Idéia é efetiva, e a esta efetividade pertence o ser humano enquanto sujeito e, desse modo, como ser uno firme-em-si-mesmo.”

À existência efetiva do ser humano pertence um mundo circundante, assim como à estátua do deus pertence um templo.”

A arte deve nos liberar (…) da espirituosidade (Witz) [esperteza] que o ser humano está acostumado a esbanjar no campo social.” “Esta aparência de idealidade, contudo, é em parte apenas uma abstração nobre da subjetividade moderna [COVARDIA], à qual falta a coragem de travar relações com a exterioridade; em parte é também uma espécie de violência que o sujeito se impõe para colocar-se fora deste círculo por-meio-de-si-mesmo, se já não está em-si-e-para-si alçado acima desse círculo por meio do nascimento, estamento e situação.”

não é o conteúdo espiritual, a alma concreta do sentimento, que nos fala pelos sons; muito menos é o som enquanto som que nos move no mais íntimo; e sim é esta unidade abstrata introduzida pelo sujeito no tempo que ressoa na mesma unidade do sujeito.”

os pintores antigos destinavam as cores fundamentais, em sua pureza, às vestimentas das pessoas principais, e as cores misturadas às figuras secundárias (Nebengestalten). Maria geralmente usa um manto azul, pelo fato do repouso suavizante do azul corresponder à quietude e suavidade interiores; mais raramente ela usa um vestido em vermelho vivo.”

Na pintura as cores não devem ser impuras e cinzentas, e sim claras, determinadas e em si mesmas simples.”

QUE SACO A ARTE MODERNA! “Igualmente o som da voz humana deve desenvolver-se pura e livremente a partir da garganta e do peito, sem deixar o órgão vibrar junto ou, como é o caso em sons mais roucos, sem deixar notar de modo perturbador qualquer impedimento não-superado.”

Homero, embora não forneça descrições da natureza, é, em suas designações e referências, tão fiel e nos fornece uma intuição tão exata de Scamandro, do Simois, das costas, das baías, que ainda hoje pôde ser situada geograficamente a mesma paisagem concordando com a sua descrição.”

Também os mestres cantores, quando colocam em verso antigas histórias bíblicas e têm Jerusalém como local, nada oferecem a não ser o nome. No Livros dos Heróis algo parecido acontece; Ortnit cavalga entre os pinheiros, luta com o dragão, sem ambiente humano, lugares definidos, etc., de modo que nesta relação não é oferecido praticamente nada à intuição. Mesmo na canção dos Nibelungos não é diferente; ouvimos certamente algo sobre Worms, o Reno e o Danúbio; mas também aqui fica-se preso ao indeterminado e árido.”

Na direção oposta, a lírica expõe de modo predominante apenas o ânimo interior, e não necessita, desse modo, quando acolhe o exterior, mostrá-lo para uma visão tão determinada.”

a pintura, segundo sua natureza, penetra a este respeito mais do que qualquer outra arte, principalmente no particular.” O problema do cinema foi potencializar isso 10 vezes.

O árabe é uno com sua natureza e apenas pode ser compreendido com seu céu, suas estrelas, seus desertos quentes, suas tendas e cavalos.”

Na estátua de Palas em Atenas e de Zeus em Olímpia não foi economizado ouro e marfim; em quase todos os povos os templos dos deuses, as igrejas, as imagens dos santos, os palácios dos reis dão um exemplo de esplendor e luxo, e desde sempre as nações se alegraram por ter, em suas divindades, sua própria riqueza diante dos olhos, assim como se alegraram com o luxo dos príncipes, pelo fato de tal coisa existir e decorrer de seu meio. [MORAL DE ESCRAVOS] Podemos sem dúvida perturbar um tal gozo por meio dos assim chamados pensamentos morais, se estabelecermos a reflexão de quantos atenienses pobres poderiam ter sido saciados com o manto de Palas, de quantos escravos poderiam ter sido resgatados; e em momentos de grandes necessidades do Estado tais riquezas também nos antigos foram empregadas para fins úteis, tal como hoje entre nós são empregados os tesouros de mosteiros e igrejas.” “rememoramos a necessidade e a carência, cuja eliminação é justamente exigida pela arte, de modo que para cada povo apenas pode redundar em fama e honra suprema a doação de seus tesouros a uma esfera que se eleva prodigamente sobre todas as necessidades comezinhas.”

O primeiro modo segundo o qual a arte procurou remover todas estas esferas constitui a representação de uma assim chamada época de ouro ou também de um estado idílico.” “[Mas o]s escritos de Gessner, p.ex., são hoje pouco lidos, e se os lemos não podemos neles nos sentir em casa.” “O ser humano não deve viver em tal pobreza espiritual idílica, ele deve trabalhar.”

Dante nos apresenta de modo comovedor apenas em poucos traços a morte por inanição de Ugolino. Quando Gerstenberg(*) em sua tragédia de mesmo nome descreve amplamente, passando por todos os graus do horror, como primeiramente os 3 filhos e por fim o próprio Ugolino morrem de fome, trata-se de uma matéria que repugna completamente à exposição artística.

(*) Heinrich Wilhelm von Gerstenberg. Foi este autor dinamarquês, de grande influência sobre Klopstock, que <lançou> Shakespeare e Homero na Alemanha em torno de 1760. (N.T.)”

Surge, em meio a esta formação industrial e exploração recíproca de um pelo outro a utilização dos demais indivíduos, em parte a mais dura crueldade da pobreza, em parte, se a necessidade deve ser afastada, os indivíduos devem aparecer como ricos, de tal (sic) como que ficam livres do trabalho para suas necessidades e podem entregar-se a interesses superiores.”

Ou somos artesãos angustiados ou não vivemos em casa, embora tranquilos e apáticos.

[N.T. #73] “Johan Heinrich Voss (1751-1826), tradutor de Homero, autor de epopéias idílicas em hexâmetros, ricas em descrições quase realistas da vida cotidiana. A Luise é de 1783.”

Ora, café e açúcar são produtos que não poderiam ter saído de um tal círculo e imediatamente apontam para uma conexão totalmente diferente, para um mundo estranho e suas múltiplas mediações do comércio, das fábricas, em geral, da moderna indústria.” Ora, está dizendo que a arte se subordina ao comércio! Linhas depois justifica o mesmo procedimento quando empregado por Goethe. Assaz previsível.

Os poemas homéricos, tenha Homero efetivamente vivido ou não como o único poeta da Ilíada e da Odisséia, estão pelo menos 4 séculos separados da época da guerra de Tróia e um espaço de tempo 2x maior ainda separa os grandes trágicos gregos dos dias dos antigos heróis, dos quais transportam o conteúdo de sua poesia ao seu presente.”

as obras de arte autênticas, imortais, permanecem desfrutáveis para todas as épocas e nações, mas mesmo então é preciso, para a sua completa compreensão por povos e séculos estranhos, um vasto aparato de notícias, de conhecimentos e de informações geográficas, históricas e até mesmo filosóficas.”

Encontramos de modo mais forte esta espécie de ingenuidade puramente nostálgica e hermética em Hans Sachs que, certamente com um frescor da intuição e um ânimo alegre, <nüremberguizou>, no sentido mais próprio, Nosso Senhor Deus Pai, Adão, Eva e os patriarcas. Deus Pai, em certo momento, instrui e dá uma aula para Abel, Caim e os outros filhos de Adão, assumindo completamente a maneira e o tom de um mestre de escola daquela época; ele os catequiza sobre os 10 mandamentos e o pai-nosso; Abel sabe tudo muito bem e mostra-se piedoso; Caim, porém, se comporta mal e responde como um rapaz perverso e ateu (…) Pilatos aparece como um magistrado malcriado, rude e soberbo; os soldados, totalmente segundo a vulgaridade de nosso tempo, oferecem tabaco para Cristo na cruz; ele despreza e então eles enfiam o rapé com violência pelas narinas e todo o povo encontra nisso sua diversão, por ser totalmente piedoso e devoto; inclusive, tanto mais devoto quanto mais o interior da representação religiosa se torna para eles vivo nesta presencialidade imediata” “nada mais se mostra a não ser uma contradição burlesca.”

#IDÉIA: Escrever uma fan fiction – livre transposição moderna – do episódio do homicídio fraterno de Caim, em que ele não logra êxito. Pois Abel é um desconfiado hipocondríaco dos nossos tempos, enquanto que Caim, um assassino hesitante, um Raskholnikov. Desta feita, não só Caim, se lograsse êxito, não suportaria a culpa, como na realidade Abel consegue antever os passos de seu algoz de berço e ou foge ou mata o ainda-não-assassino em legítima defesa, e pela legítima defesa ser um argumento jurídico válido em nossa época é que Deus o perdoa.

Voltaire foi injusto ao dizer que os franceses melhoraram as obras dos antigos; eles apenas as nacionalizaram, e nesta transformação procederam com tanto mais antipatia infinita com tudo o que era estrangeiro e individual à medida que seu gosto exigia uma formação social perfeitamente cortês, uma regularidade e universalidade convencional do sentido e da representação. A mesma abstração de uma formação delicada eles também transferiram para a dicção. Nenhum poeta podia dizer cochon ou mencionar colher e garfo e milhares de outras coisas. Em vez de colher ou garfo, dizia-se um instrumento com o qual se leva alimentos líquidos ou sólidos à boca e outras coisas do gênero. Mas justamente por isso seu gosto permaneceu sumamente limitado.

Por isso foram os franceses os que menos puderam se dar bem com Shakespeare e, quando se dedicavam a ele, sempre eliminavam justamente o que para nós alemães teria sido nele o mais agradável.”

E assim, em suas obras de arte também os chineses, americanos ou heróis gregos e romanos deviam falar e se portar totalmente como cortesãos franceses. O Aquiles da Ifigênia em Áulida é um príncipe francês completo, e se não fosse pelo nome ninguém encontraria nele um Aquiles. No teatro, ele certamente estava vestido como grego e guarnecido com o escudo e a couraça, mas ao mesmo tempo com os cabelos penteados e polvilhados, as ancas alargadas por almofadas e com saltos vermelhos nos sapatos amarrados com fitas coloridas.”

De acordo com um princípio semelhante, na França freqüentemente não se pratica a historiografia em vista dela mesma e de seu objeto, mas por causa dos interesses de época, para poder fornecer boas doutrinas ao governo ou para torná-las odiosas.”

(*) “August Kotzebue (1761-1819), autor de peças de divertimentos particularmente insípidas: foi assassinado em 23/03/1819 por um estudante seguidor de Hegel, cujo assassinato ocasionou a publicação dos <decretos de Karlsbad> e uma onda de repressão antiliberal que ameaçou o próprio Hegel.”

ao contrário dos franceses, somos em geral os arquivadores os mais cuidadosos de todas as particularidades estrangeiras e, por isso, também na arte requeremos fidelidade à época, ao lugar, aos usos, às vestimentas, às armas. Tampouco nos falta a paciência para estudar, mediante esforço árduo e erudição, o modo de pensar e intuir das nações estrangeiras e de séculos longínquos”

cachorros e gatos, e até mesmo objetos repugnantes, nos são agradáveis”

síndrome de Schlegel

não há nada de mais vazio e frio do que quando nas óperas se diz: Ó deuses!, Ó Júpiter! ou mesmo Ó Ísis e Osíris! – e ainda mais quando se acrescenta a miséria dos oráculos – e raramente eles não aparecem nas óperas –, em cujo lugar apenas agora surgem na tragédia a loucura e a clarividência.”

Na canção dos Nibelungos, estamos certamente, em termos geográficos, sob terreno familiar, mas os burgúndios e o rei Átila estão tão distantes de todas as relações de nossa formação atual e seus interesses pátrios que mesmo sem erudição podemos nos sentir muito mais familiarizados com os poemas homéricos. Assim, Klopstock certamente foi motivado por meio do impulso como que pátrio a colocar os deuses escandinavos no lugar da mitologia grega, mas Wodan, Walhalla e Freia permaneceram meros nomes, que pertencem ainda menos do que Júpiter e Olimpo à nossa representação ou falam ainda menos do que eles ao nosso ânimo.”

Sófocles não deixava que Filoctetes, Antígona, Ájax, Orestes, Édipo e seus corifeus e coros falassem tal como falariam em sua época. De modo idêntico os espanhóis possuem os seus romances do Cid; Tasso canta em sua Jerusalém Libertada a questão universal da cristandade católica; Camões descreve a descoberta do caminho para as Índias Orientais em torno do Cabo da Boa Esperança e os feitos em si mesmos infinitamente importantes dos heróis marítimos, e estes feitos eram os de sua nação; Shakespeare dramatizou a história trágica de seu país e o próprio Voltaire a sua Henriade.”

A Noachida de Bodmer (1698-1783) e o Messias de Klopstock estão fora de modo, como também não vale mais a opinião de que pertence à honra de uma nação possuir também seu Homero e, além disso, seu Píndaro, Sófocles e Anacreonte.”

A ninguém ocorreria hoje fazer um poema a Vênus, Júpiter ou Palas.”

Nas peças históricas de Shakespeare há muita coisa que permanece para nós estranha e pouco pode nos interessar. Na leitura ficamos certamente satisfeitos com isso, no teatro não.”

Quando Falstaff fala de pistolas, isto é indiferente. Mais sério, porém, é quando Orfeu se mostra com um violino na mão, na medida em que aqui a contradição entre os dias míticos e um tal instrumento moderno, do qual cada um sabe que em épocas tão antigas ainda não havia sido inventado, se apresenta de modo muito forte.”

muitos procuram, em vão, mesmo nas mais belas canções de amor, seus próprios sentimentos e, por isso, declaram a exposição como igualmente falsa, ao passo que outros, que apenas conhecem o amor pelos romances, acreditam não serem amados na efetividade até que reencontram em-si-mesmos, em-torno-de-si, os sentimentos e situações completamente iguais àqueles dos romances.”

fantasia criadora X imaginação passiva

Ele deve ter visto muito, ouvido muito e conservado muito em si mesmo, como em geral os grandes indivíduos quase sempre se distinguem por uma grande memória.”

(*) “Begeisterung na tradição latina também é traduzida por ‘inspiração’. Preferimos entusiasmo apoiando-nos, neste caso, no sentido grego do enthousiasmos enquanto <exaltação criadora> (N.T.).”

A primeira exigência constitui este dom e interesse de uma apreensão determinada do que é efetivo em sua forma real bem como a retenção do que foi intuído. Inversamente, é preciso unir ao conhecimento da forma exterior a familiaridade com o interior do ser humano, com todos os fins do peito humano” “ele deve ter refletido sobre o essencial e verdadeiro, segundo toda a sua amplitude e toda a sua profundidade. (…) em toda grande obra de arte também se percebe que a matéria foi por muito tempo e profundamente ponderada e meditada segundo todas as direções.”

seu coração já deve ter sido golpeado e movido em profundidade (…) o genius certamente efervesce na juventude, como foi o caso com Goethe e Schiller, mas somente a idade madura e avançada pode levar a uma completude a autêntica maturidade da obra de arte.”

genius X talento; ou genius & talento

o talento sem o gênio não consegue ir muito além da habilidade exterior.”

Os absolutos primeiros poemas de Goethe: Canto de Maio, Boas-Vindas e Adeus.

Fauriel (filólogo, 1772-1844) publicou uma coletânea de cantos dos gregos modernos, em parte tomado da boca das mulheres, amas e criadas, as quais não conseguiam parar de se admirar pelo assombro que ele demonstrava por seus cantos.”

Um italiano ainda hoje improvisa dramas de 5 atos e isso sem ter decorado nada, mas tudo nasce do conhecimento das paixões e situações humanas e do entusiasmo profundamente atual.”

Aquele que apenas se propõe a ser entusiasmado para fazer um poema ou pintar um quadro e inventar uma melodia, sem trazer já em-si-mesmo algum conteúdo como estímulo vivo, e necessita primeiramente procurar aqui e ali por uma matéria, ele ainda não produzirá (fassen), a partir desta mera intenção, não obstante todo o talento, nenhuma bela concepção ou não será capaz de produzir uma obra de arte consistente.”

Inspiração como diferente, mais que a soma de vontade, determinação, sensibilidade.

Porém a inspiração retém, quando quer que ela se manifeste. Não é como se a janela de oportunidade do bom artista fosse tão estreita.

As odes encomiásticas de Píndaro nasceram muitas delas por encomenda. Igualmente por infinitas vezes a finalidade e o objeto para os edifícios e os quadros foram propostos aos artistas” “Inclusive ouvimos freqüentemente entre os artistas a queixa de que lhes faltam as matérias [os gatilhos] que poderiam trabalhar.”

Shakespeare se inspirava por lendas, antigas baladas, novelas e crônicas”

Se questionarmos a seguir em que consiste o entusiasmo artístico, veremos que ele nada mais é do que ser preenchido completamente pela coisa, estar totalmente presente na coisa e não descansar até o momento em que a forma artística estiver exprimida e em-si-mesma acabada.”

mau entusiasmo”

(*) “Jean Paul Friedrich Richter (1763-1825), denominado Jean-Paul, uma das mais importantes figuras do romantismo alemão, autor de sátiras, idílios humorísticos e grandes romances (Hesperus, Flegeljahre, Titan) bem como de uma obra de estética, Vorschule der Ästhetik (Curso Elementar de Estética), 1804, na qual desenvolve uma teoria do humor como <inversão sublime>. (N.T.)”

Não possuir nenhuma maneira foi desde sempre a única grande maneira, e somente neste sentido Homero, Sófocles, Rafael e Shakespeare hão de ser chamados originais.”

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

GLOSSÁRIO ALEMÃO (& FRANCÊS) RESIDUAL:

Anschaubarkeit: intuitibilidade

Beschlossenheit: fechamento :: closure

Entzweiung: cisão

être en negligé: interessante faceta do idioma francês – literalidade que passa ao simbólico – para se dizer “estar em roupão”, i.e., em negação!

Geistererscheinung: aparição de espíritos

Hinaussetzen: situar-se fora

seinsollende: dever-ser

Spaltung: discórdia

Tüchtigen: consistência

verleiblichte: encarnado

Verwicklung: trama

O QUE É O ALÉM-HOMEM NIETZSCHIANO, DESCRITO DA ÓTICA DO DEVIR ESTÉTICO HUMANO DOS ‘CURSOS DE ESTÉTICA’ DE HEGEL?

Pensando em termos de teoria da evolução das espécies segundo Darwin, póstuma a Hegel mas com certeza prefigurada em seus contornos e bastante de seu conteúdo pelo filósofo idealista alemão, o além-homem (tradução melhor para o ambíguo super-homem do português do original “Übermensch”) seria o primeiro animal autodeterminado. Pela primeira vez a seleção do devir da espécie pode ser um adestramento, adestramento de si próprio, a construção de uma humanidade propriamente dita (ainda inexistente), ao contrário da seleção entregue às puras contingências externas. Um projeto de além-homem inclui desde o último homem ou sub-homem (o obstáculo a superar), o homem (espécie de consciência intermediária, os que não são obstáculos reativos e reacionários, mas não são ativos nessa transvaloração dos valores ou conscientes da questão) e os filósofos de vanguarda, entregues à “causa”. Com o decorrer do tempo, num mundo já pós-ocidental (num nível não-concebido por nós, que de certa forma já vivemos num contexto de superação da metafísica ocidental), inclui(rá) o próprio ente que se vê nessa transição epocal (Zaratustras? enunciadores, ainda aquém do além-homem em si) e, finalmente, o próprio além-homem, que não é mais “homem”, mas que só poderá existir pelo esforço do que um dia já foi homem, e provavelmente coexistiria com ele eternamente, qualquer que seja a nova conformação social. Seria como se realmente, sem recorrer a algo transcendental, um sujeito hipostasiado que explique a evolução (em Darwin é a própria cientificidade de sua teoria, p.ex.), pudéssemos ver o peixe, o anfíbio e os (depois dos répteis, evidentemente, até chegar a nossa identidade no reino dos) mamíferos como atores e autores do seu próprio projeto de “viagem do mar à terra”, faces de um mesmo todo. Obviamente, apenas o homem é capacitado para integrar um projeto multifacetado como este (aquilo que deve ser conscientemente superado). A tríade peixe-anfíbio-animal terrestre não passa, em contraposição, de um caos tornado destino, por se localizar em nosso passado, evolução involuntária, impessoal, figuras que não dialogam entre si (precisamente por não discursarem ou dialogarem em absoluto, atributo definidor de “homem”).

O LEGADO DE GEORG GRODDECK: Genuinidade e Originalidade (mestrado em Psicossomática e Psicologia Hospitalar, PUC/SP, 2009, 1ª versão) – Maria Consuelo da Costa Oliveira e Silva

Escrita péssima! Mais abaixo entrarei em pormenores!

INTRODUÇÃO

O que é Psicossomática?

Como uma primeira tentativa de responder esta questão, a autora deu início ao Mestrado na área de Psicossomática e Psicologia Hospitalar. A partir deste momento, passou a se aprofundar em alguns autores, citados como referência nesta temática: Joyce McDougall, Pierre Marty, Rosine Debray, Franz Alexandre, (sic) entre outros. Porém, um autor em particular chamou a atenção, não só por ser um autor considerado como o ‘Pai da Psicossomática’, mas também, e principalmente, por sempre vê-lo citado como referência pelos autores acima mencionados.”

Os estudantes foram maçados com fórmulas e hipóteses que precisavam esquecer para poderem ajudar os seus doentes” GG

Médico, ou o Açougueiro

Este autor é de quem FRAUD tomou emprestado por sua vez o termo ‘Id’, porém caracterizando-o a seu gosto e deformando-o para que se encaixasse em suas idéias. Groddeck não pode tolerar isto e se afasta da psicanálise.” Editado onde é óbvio.

Tese baseada em fontes primárias mas que não consulta as fontes primárias (apenas traduções dos originais em alemão)!

Diferente de Freud, que estava fortemente influenciado pelas ciências naturais e seu determinismo, reducionismo e mecanicismo, Groddeck estava impregnado pelo Romantismo.” Aleksandar Dimitrijevic, 2008erro crasso: Henri Ellenberger e eu sabemos o quanto FRAUD é tributário do Romantismo em ainda mais alto grau (ampliando seus defeitos e aporias). Isso será repisado na seqüência.

Em 1909, Groddeck profere um ciclo de conferências, ‘Rumo ao Deus-Natureza’ e o nome de Goethe é mencionado como alguém que disse: Deve-se considerar cada coisa como parte de um todo. Observem o todo na parte, e a parte no todo. […] Goethe foi maior como pesquisador da natureza do que como poeta. (GRODDECK, 2001, p. 26).”

W.G., Bei Betrachtung von Schillers Schädel

Agora a atenção se desloca para outro autor, Carl Gustav Carus (médico e paisagista), não citado por Groddeck, autor de um livro sobre Goethe (1843) e cartas a respeito de Fausto (1835).”

Carus, Lições sobre psicologia

C., Psyche, Zur Entwicklungsgeschichte der Seele

É importante lembrar que ele falava de si mesmo como o ‘quinto’ Groddeck e derivou uma série de raciocínios a partir do número cinco. E o que significa esta lembrança? O período de vida deste clínico geral começa em 1866 (cinco anos antes da unificação da Alemanha) e morre em 1934 (cinco anos antes da invasão da Polônia pela Alemanha e do início da Segunda Guerra Mundial).”

É importante ressaltar que os pacientes atendidos por Groddeck padeciam, na maioria dos casos, de doenças orgânicas e que ele não era psiquiatra, mas sim clínico geral.”

(*) “Sandor Ferenczi assumiu uma posição distante e crítica às idéias do médico de Baden-Baden e mesmo assim aceitou escrever uma resenha favorável ao primeiro texto que Freud leu de Groddeck. No final de 1921, Ferenczi resolveu tratar-se no sanatório de Groddeck em Mariennhöle, sem que isso significasse que tivesse se tornado adepto das idéias proferidas neste local. Mas a partir deste instante iniciou-se uma longa amizade entre esses dois homens, com uma intensa e significativa troca de correspondência, que começa com um pedido de compreensão [??] que está presente numa carta escrita por Ferenczi no Natal de 1921. Este pedido de vínculo envolverá vários aspectos da vida amorosa de Ferenczi, sua insatisfação com Freud e com a sua análise, o pedido e a necessidade dele por análises mútuas, e como este pedido revela alto grau de honestidade

emocional, Groddeck se converte no companheiro analítico mútuo o (sic) que Freud não chegou a ser. E esta relação de amizade e confiança profunda, com visitas constantes, principalmente de Ferenczi a Baden-Baden, durará até a morte deste em 22 de maio de 1933.”

(*) “Nas suas Memórias Groddeck se refere a Keyserling como sendo […] o mais brilhante interlocutor que jamais encontrei, um completo homem do mundo no melhor sentido da palavra e um homem que sabia dar e receber. Encontram-se com bastante freqüência os que sabem dar, pelo menos se se tiver o dom de se deixar presentear; os que sabem receber já são mais raros, pois cada um se desacostuma o mais rápido e radicalmente possível do ingênuo receber da criança, para logo pisar com prazer na lama do pagar e quitar, igual a todos os outros; como se algum dia algo pudesse ser pago. […] Então, homens que sabem dar e receber quase não existem. Considero uma graça especial do destino ter conhecido Keyserling. […] Conheço muito bem a sua paixão pela sabedoria, o que se pode chamar de filosofia, e foi assim que ele a chamou. E sendo ele o único entre milhares que suspeita do que seja sabedoria, considero justo que tenha dado à instituição de Darmstadt o nome de ‘Escola de Sabedoria’. […] Estive várias vezes em Darmstadt e existe o fato de que Keyserling é capaz de harmonizar de forma perfeita os pensamentos de homens de tão diferentes correntes de espírito e índoles, como Scheler, Jung, Frobenius, de tal forma que o ouvinte, mediante um claro conhecimento de cada personalidade individual e através de um interesse atento pela lei individual sob a qual vive o orador, pode facilmente absorver e assimilar o humano em geral; este fato dá a Keyserling o direito de afirmar que, em Darmstadt, se está realizando algo de diferente que não é oferecido em nenhum outro lugar e que só pode ser realizado por ele. (GRODDECK 1970, 1994, p. 322–323).”

(*) “Em 10 de junho de 1934 morre em Zurique, com a idade de 67 anos, o médico de Baden-Baden Georg Groddeck, o único autêntico e qualificado continuador da escola de Schweninger. Com ele desapareceu um dos homens mais extraordinários que eu jamais havia encontrado. Era a única pessoa minha conhecida que sempre me fazia pensar em Lao-Tsé: seu não-fazer era criativo, a um nível inclusive mágico. Ele se atribuía o princípio de que o médico não sabe nada, nada pode fazer e pouco tem o que fazer: deverá somente, com sua presença, despertar as forças curativas inatas no paciente. Naturalmente, esta técnica de não-saber, de não fazer por si só, não lhe daria condições de manter ativa sua clínica em Baden-Baden. Portanto, ele curava fazendo uso de uma combinação de psicanálise e massagens. […] Foi assim que Groddeck me curou, em menos de uma semana, de uma flebite recorrente.¹ […] Sem dúvida, em Georg Groddeck, eu não amava e respeitava tanto o médico como o sábio paradoxal. Ele não pertencia a nenhuma escola: sobre cada coisa tinha suas opiniões estritamente pessoais e freqüentemente heréticas. E todas elas eram entendidas no sentido justo, não muito ajustadas ao literal, opiniões profundas. Não conheço nenhum filósofo da natureza que como ele tenha ressaltado a condição da infância; até quase se poderia dizer que seu ideal era o ovo, posto que nenhum organismo já formado saberia do que o ‘Isso’ é capaz. […] Porém, como acontece freqüentemente com as pessoas de vida rica, a presença pessoal de Groddeck contava muito, muito mais do que aquilo que ele expressava em suas palavras e em suas teorias. Disso puderam se interar, (sic) até agora, os participantes dos seminários da ‘Escola da Sabedoria’ em Darmstadt: onde apesar de que muitas vezes ele tomava a palavra, era sobretudo sua simplicidade, sua presença viva o que fazia de Groddeck um participante único daquelas reuniões (sic) pensar por si mesmo. […] Porém, no íntimo, foi um dos homens mais cálidos, mais carinhosos, mais preocupados pelo bem-estar alheio que jamais havia encontrado. Epílogo a El Libro del Ello, de Georg Groddeck de (sic) Hermann Keyserling”

¹ “Inflamação de uma veia, a qual geralmente afeta os membros inferiores, podendo provocar a formação de um coágulo (tromboflebite, causa de embolias). Os anticoagulantes evitam esses acidentes.”

1. OBJETIVO

O objetivo deste trabalho é fazer uma leitura detalhada da obra de Georg Groddeck, dentro de um espaço de tempo definido como período pré-psicanalítico.”

2. PANORAMA HISTÓRICO ANTERIOR À OBRA DE GRODDECK

A primeira conseqüência da Reforma foi o isolamento da Alemanha durante cerca de dois séculos, divorciando-se da cultura latina. Depois, segue-se uma série de movimentos subseqüentes, que tendem não só a integrar a Alemanha na Europa, mas sobretudo a reabilitar os seus valores. No século XVIII surge o primeiro desses movimentos, a Aufklärung que deve ser compreendida como um esforço de assimilação da cultura européia. Em seguida, o Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), um Pré-Romantismo rebelado contra o classicismo francês e desperto aos valores germânicos. Depois o classicismo alemão, alheio a exclusivismos exacerbados, tendendo a realizar uma síntese européia da cultura. E finalmente, o Romantismo, no qual a Alemanha atinge a sua máxima maturidade cultural. Com o Romantismo, os papéis se invertem. Se a Alemanha vence o ‘obscurantismo’ graças à influência do Classicismo latino, o seu Romantismo impõe-se a toda Europa. (GERD BORNHEIM, in J. GUINSBURG, p. 78, 1997).”

A palavra deriva do francês Roman, que se refere a uma história, usualmente uma história militar de criaturas medonhas, cavaleiros heróicos e amor cavalheiresco. Quando a palavra entra na Alemanha, próximo ao final do século XVIII, ela carrega o significado de romanhaft, semelhante a uma novela, especialmente o tipo de história ou atitude típica do gênero. […] [Schlegel] deseja empregar o termo mais especificamente para descrever uma forma de literatura poética desenvolvida no período moderno que expressava os interesses subjetivos do artista” Robert Richards, 2002

a tarefa dos românticos não é a rejeição mas a transformação da ciência, ir além do estabelecido. O seu propósito tem que ser ampliado, a ciência deve se dirigir para as profundidades como também para as alturas.” Correto, pequena Gaia-Padawan!

A NEO-SEITA DA FILOSOFIA NATURAL: “Os filósofos da natureza estão associados com a filosofia idealista alemã, e abordam a natureza a partir do pólo do pensamento puro.” Zajonc, 1998

A partir de Descartes e Newton, até Hume e Kant, o mecanicismo foi empregado como o conceito básico pelo qual é possível compreender não somente o universo inanimado como também a realidade viva.”

O mecanismo do relógio em si mesmo é fundamentalmente atemporal e então a-histórico. Mas a natureza como autogerativa, como orgânica, pode ter uma história. […] A infusão do tempo na natureza não foi meramente uma condição necessária para o aparecimento das teorias evolutivas; ela constitui essas mesmas teorias durante os séculos XVIII e XIX.” Richards

1) Romantismo Inicial (Die Frühromantiker), situado em Jena. Alguns autores que canonicamente definem este primeiro romantismo: os irmãos Wilhelm e Friedrich Schlegel, suas esposas Caroline e Dorothea, o teólogo Friedrich Schleiermacher, os poetas e novelistas Ludwig Tieck e Friedrich von Hardenberg (Novalis), o teórico das artes Wilhelm Wackenroder e o filosofo Friedrich Schelling.

2) Romantismo Médio ou Segundo Romantismo, centrado em Heidelberg, inclui autores como os escritores Achim von Arnim, Clerius Brentano e o pintor Caspar David Friedrich.

3) Romantismo Tardio ou Terceiro Romantismo, ativo em Viena, Berlin e Munique. Este grupo mantém alguns membros do Primeiro Romantismo, como o crítico literário e historiador Friedrich Schlegel e o filosofo (sic) Friedrich Schelling e também novos participantes como os escritores Johann Ludwig Uhland e E.T.A. Hoffman.”

O ato de fundação da Filosofia da Natureza pode ser estabelecido em 1797 quando Schelling publica a sua obra Ideen zur einer Philosophie der Natur.”

a antiga idéia platônica de um principio (sic) vivificante que perpassaria a totalidade do mundo” interpretação não-autorizada

SÁBIO GOETHE: “Com efeito, ele disse ser ‘politeísta’ como poeta e ‘panteísta’ como cientista, mas ainda assim abria a possibilidade para um Deus pessoal”

De todos os precursores, Carus chama maior atenção da psicologia porque a sua apresentação do inconsciente mostra-o principalmente como um psicólogo. Sua idéia do inconsciente, não é nem um flash poético nem um sistema filosófico especulativo, como nas mãos do jovem von Hartmann [ou seja, já caiu nas minhas graças!] […] nem tampouco é um conceito médico heurístico, semi-neurológico e útil para explicar processos mentais desconhecidos. […] Carus descreve processos psicológicos em detalhe e ainda assim mantém uma visão holística” James Hillman, 1989

Carus nasceu em 3 de janeiro de 1789, em Leipzig. Nesta cidade cursou a Universidade, estudou medicina em função de seu interesse pela ciência da natureza, começou a dar palestras no campo da anatomia comparada, recebeu seu Doutorado (sic) com 22 anos e no mesmo ano casou-se (1811).” Ai, os românticos… Tão apressadinhos para viver!

Carus pertence à história da arte como um reconhecido pintor de paisagens, tendo deixado uma coleção de 420 pinturas e 1100 desenhos.” “Seu período de vida abrange desde a Revolução Francesa até a era do moderno positivismo, liberalismo e nacionalismo.”

Durante seus primeiros anos em Dresden, Carus primeiramente se aproximou de Goethe que, apesar de ser 40 anos mais velho que ele, muito o admirava. Carus escreveu um livro, Goethe (1843) e publicou, em 1835, uma série de cartas sobre o Fausto. Goethe refere-se a Carus em suas cartas e notas. Ele era particularmente entusiasmado com as Lectures on Psychology (1831) vendo-o como um herdeiro de sua abordagem da natureza e da vida.”

Na bibliografia de Groddeck é possível perceber que em momento algum Carus é citado. No entanto a forma como Groddeck concebe o inconsciente, principalmente a relação entre o inconsciente e a doença, e também ao reconhecer a capacidade curativa presente na natureza[,] é muito semelhante à de Carus.”

Nasa (a natureza cura) (…)

Mecu (médico cuida).

Já a Nasa americana não irá nos salvar…

3. MÉTODO

capítulo inútil

4. CRONOGRAMA DOS ESCRITOS DE GRODDECK

Somente os mais interessantes (em aparência):

Konstipation, 1896

Ein Frauenproblem, 1903

As núpcias [Hochzeit] de Dioniso, 1908 (poesia)

Tragödie oder Komödie? Eine Frage an die Ibsenleser, 1910

5. O LEGADO P.D.

5.1. GEORG GRODDECK – DO NASCIMENTO ATÉ SUA ADOLESCÊNCIA.

Eram filhos do doutor Carl Theodor Groddeck (1826-1885), epidemiólogo e posteriormente médico ‘termal’, e de Caroline Koberstein (1825-1892). Antes de prosseguir com as notas biográficas de Groddeck, é necessário fazer um breve percurso em torno da cidade onde ele nasceu e posteriormente pela biografia dos pais.”

Duvido que esmiúce a questão do protonazismo do pai de Gr.

LINDA HISTÓRIA (sem ironia!): “Isto nos faz retomar a biografia dos pais de Groddeck. O pai, Carl Groddeck, era filho de um deputado de Danzing, sua cidade natal, no norte da Alemanha. Já sua mãe, Caroline, era filha do professor August Koberstein, historiador da literatura alemã e professor em Pforte por 50 anos. Caroline e Carl se conheceram quando ele ainda era estudante em Pforte. O jovem estudante era pensionista na casa dos Koberstein e foi acometido por um distúrbio cardíaco que perduraria por toda a vida. Durante a convalescença, Carl permaneceu na casa do professor, o que proporcionou o tempo e a intimidade suficientes para que os dois jovens se apaixonassem. A Senhora Koberstein era quem se ocupava do paciente, e por este motivo Carl tinha muito apreço por ela. Por sua vez a filha, Caroline, nunca falava de sua mãe com muita admiração, diferente de como se referia a seu pai. A mãe era uma mulher totalmente comum, mas com uma facilidade para atrair pessoas, o que para a filha era um defeito. Independente de como a Senhora Koberstein era vista por sua filha, para os demais, no entanto, era uma pessoa notável.”

Em 1849, Carl Groddeck formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Berlim, com a tese com o título em latim De morbo democratico, nova insaniae forma. Em 1850, Carl apresenta-a em público, revista e ampliada, agora com o título em alemão: Die Demokratische Krankheit, Eine Neue Wahnsinnsform.” Que pretendo logo ler.

Nas suas Memórias, Groddeck escreve sobre seu pai:

[…] Como era normal na época – eram os anos em torno de 1848 – aquele que estivesse mais próximo da política se tornava o centro do círculo; era o meu pai. Tirando o fato de ter ele, como filho de um deputado, sido atraído para o movimento com mais força do que os outros, ele pusera na cabeça mostrar-se ativo e, pela necessidade de ser incomum – uma necessidade que infelizmente adotei e que levei uma grande parte da minha vida para neutralizar – ele o fez de um modo característico: escolheu para sua tese de doutoramento o tema: (…) A doença democrática, uma nova forma de loucura. Foi esta a única vez que meu pai se apresentou publicamente, e não ficou pouco orgulhoso deste grande momento; já idoso, ele me contou com grande alegria como tudo teria acontecido, como o pequeno salão não foi suficiente para a afluência do público e todos passaram para o grande salão da universidade, como foi assaltado por todos os lados e escarnecido e como a situação se tornou difícil por ter que se defender em latim, de mais a mais, contra 2 dos melhores mestres de línguas antigas. Naturalmente, tornou-se desse modo o herói de seus amigos. (GRODDECK 1929, 1994, p. 326)

Na carta ao Prof. H. Vaihinger, citada anteriormente, o editor adiciona a nota de rodapé 9 que amplia o tema da dissertação de Carl Groddeck, sua importância e relevância para a obra de Nietzsche. No prefácio à 5ª edição, de 1930, de seu livro Nietzsche als Philosoph, Vaihinger escreve:

A posição antidemocrática de Nietzsche é fortemente influenciada pela dissertação de Carl Theodor Groddeck, De modo democratico, nova insaniae forma, tese aprovada pela Faculdade de Medicina de Berlim no ano da Revolução de 1849 e famosa e muito discutida nos círculos mais amplos. […] A defesa pública da tese, em 21 de dezembro de 1849, tornou-se um acontecimento político de grandes proporções: líderes do Partido Democrático apresentaram-se como oponentes, como, por exemplo, Krüger, o importante filólogo clássico e gramático. Enquanto o original latino é encontrado em todas as bibliotecas universitárias alemães entre as teses de medicina, a edição alemã, publicada pelo próprio Groddeck em 1850, Die Demokratische Krankheit, Eine Neue Wahnsinnsform, tornou-se muito rara. […] A tese de Carl Theodor Groddeck […] é extremamente séria, e como tal deve ser considerada: em conexão com a literatura psiquiátrica da época, especialmente com a teoria de Hecker sobre as doenças mentais contagiosas, Groddeck descreve o movimento democrático espalhado por toda a Europa como uma epidemia do espírito. – O título e o assunto parecem menos escandalosos, se considerarmos que os ‘democratas’ de então não podem ser identificados ao partido político tão característico hoje em dia. Pois os ‘democratas’ de 1848 abrangiam não só os constitucionalistas e os republicanos de todas as correntes como também os socialistas, comunistas e anarquistas. [Não, é justamente por isso que o assunto parece mais escandaloso a nossos olhos!] […] Friedrich Nietzsche foi interno em Schulpforta, de 1858 a 64, onde manteve estreitas relações com o diretor Koberstein, em cuja casa conheceu também Carl. T. Groddeck. Na casa de Koberstein falou-se muito do texto sobre a doença democrática, e desse modo Nietzsche absorveu com certeza o espírito antidemocrático e provavelmente também leu o livro. Pois muita coisa que Nietzsche diz, em inúmeras passagens das suas obras, deriva[,] quase palavra por palavra, das concepções de Carl. T. Groddeck. [a conferir!] (VAIHINGER in GRODDECK 1930, 1994. p. 117/9)“

[mas] o que é possível afirmar da presença das idéias do pai no pensamento futuro do filho? A resposta a esta questão será dada por Jacquy Chemouni:

Escolhendo a mesma profissão que seu pai, Groddeck não poderia deixar de conhecer sua tese de doutorado. Sua influência direta não é possível de ser percebida, mas os problemas que ela propõe produziram efeitos alguns anos mais tarde em seu filho. No entanto, o que de fato vai marcar o futuro psicanalista é a maneira própria como seu pai praticava a medicina. (CHEMOUNI, 1984, p. 23)”

De resto[,] era tão pouco neurologista quanto eu, mas um simples médico clínico, aliás, muito avançado em relação ao seu tempo, talvez também bastante distante das opiniões remanescentes da sua época, conforme se quer. Nos seus últimos anos de vida, estudou, para uso médico particular, o livro de Rademacher, o redescobridor de Paracelso, então quase desconhecido. Eu já havia lido, no tempo do colégio, esta ‘terapêutica’ pela experiência de Rademacher; para minha formação médica e humana, foi tão importante quanto a minha relação de estudante e de amigo com Schweninger. (GRODDECK 1930, 1994, p. 118)”

Movido por um fato externo e enfrentando certa resistência da família, ambos casam-se em 14 de setembro de 1852 (RIVERAS, 2004). O fato externo que acelera o matrimônio é uma epidemia de cólera e tifo que se alastra pela Prússia, o que faz com que Carl receba o cargo de epidemiólogo na cidade de Marienburg.

O período passado em Marienburg é marcado por dois fatos importantes: em 22 de junho de 1853, a primeira filha morre um mês após seu nascimento e, em 1854, após a epidemia estar praticamente controlada, Carl contrai tifo e fica muito doente. A situação da família se torna mais equilibrada só a partir de 1855 com a mudança para Kösen, e conforme vimos, ali estabelecem uma clínica termal, que graças à atitude firme da mãe, se manteria por mais de duas décadas. Ali fixados, tiveram cinco filhos. (RIVERAS, 2004, p.23)”

Em relação ao respeito pela ciência não era possível encontrar qualquer vestígio disso em suas palavras e atos.” Quem nos dera os doutores acadêmicos de hoje assim o fossem, na prática!

Sobre o relacionamento entre seus pais, desde pequeno Georg Groddeck percebia que existia uma distância irreparável entre os dois, e discorre sobre as atitudes que o pai tinha, com o intuito de agradar a esposa: ‘Creio que tentou honradamente converter-se em um Koberstein’. (apud GROSSMAN, 1967, p.18). Por este motivo, se comportava como se a medicina significasse apenas uma forma de viver, pois para Caroline era a Literatura que valia a pena, e não a medicina.” “para Groddeck, o pai era o homem mais forte e mais sábio do mundo. Era um pai severo, porém afetuoso, que os filhos adoravam, mas que nunca encontrou a aceitação plena da esposa.”

Para Groddeck, o fato de ter sido amamentado por uma ama-de-leite e ter uma mãe verdadeira que lhe dava carinho o colocava em dúvida sobre qual das mulheres amar, dilema que tornaria todas as suas escolhas mais difíceis”

Você já imaginou as atribulações de uma criança amamentada por uma ama? É uma situação complicada, pelo menos quando a mãe verdadeira gosta da criança. De um lado a mãe, em cuja barriga a gente viveu durante nove meses, sem nenhuma preocupação[,] no quentinho, nadando na felicidade. Como não gostar dela? E depois, uma segunda pessoa, em cujo seio a gente se alimenta todo dia, cujo leite a gente bebe, sentindo sua pele fresca e respirando seu cheiro. Como não se afeiçoar por ela? E então, a quem se apegar? Alimentado pela ama, o bebê se coloca num estado de incerteza do qual nunca conseguirá sair. Sua capacidade de crença se vê abalada em suas bases e a escolha torna-se para ele mais difícil do que para os outros.” Eu, como alguém amamentado por uma “ama-de-leite”, digo: tudo isso é uma grande besteira fraudiana avant Fraud!

Próximo de completar 6 anos foi à primeira escola, juntamente com sua irmã Lina. Era uma escola de meninas, uma Mädchenschule. Na época, os filhos de pais bem situados começavam seus estudos em escolas femininas. Era uma escola dirigida por três irmãs, e foi descrita por Groddeck com riqueza de detalhes:

As três irmãs Hochbohm dirigiam a escola; cada uma era mais gorda do que a outra, e a mais magra – Marie – era a mais temida. Entre outras coisas, ela nos ensinava aritmética. Sua influência, a influência do medo, foi muito grande e ainda hoje tem vestígios […]. A irmã do meio, Emma Hochbohm, era a diretora do instituto; por causa da sua obesidade, foi apelidada de ‘carrossel de duas pernas’. […] A mais velha das irmãs Hochbohm era a mais gorda; na verdade era tão gorda que não podia lecionar, porque as crianças não queriam e não podiam ser ensinadas por ela. Diziam as más línguas que ela, com toda aquela gordura, não podia passar pelo portão da igreja, mas tinha de se lançar com o ombro à frente. (GRODDECK 1929, 1994, p. 269)” Ah, as memórias infantis!

Ao sair dessa escola, Groddeck sabia ler e escrever corretamente, embora sua letra, durante a vida, não tenha mudado muito. Como diria, sua letra se manteve como a de uma criança de 8 anos. (RIVERAS, 2004)”

Este fato parece ter incomodado Groddeck, pois ele próprio se definia como ‘um pagãozinho’, que até deixar a casa paterna nunca havia entrado em uma igreja. Mas, apesar deste fato, foi nesta escola que descobriu o verdadeiro sentido do escrever” Tantas e tantas semelhanças entre nós, sr. Groddeck Jr.!

Aos 11 anos, segundo ele próprio, a desgraça se abateu sobre sua família. Seu pai havia se envolvido em negócios imobiliários e, aparentemente devido a um golpe dado por um sócio, perdeu todas as posses. A casa onde Groddeck havia nascido e passado toda a infância foi leiloada, assim como os móveis aos quais o seu coração estava ligado. O pai, sem outra saída, resolveu deixar a cidade e tentou se estabelecer em Berlim, porém não obteve o número de pacientes que esperava. Retornou a Bad-Kösen no verão para tentar ganhar algum dinheiro. A sua mãe, no intuito de ajudar a família, empregou-se como dama de companhia. Georg Groddeck entendeu este afastamento da mãe como uma traição. Pior que tudo isso, antes da dissolução da casa e de que tomasse conhecimento da situação, sua irmã, a companheira de toda a infância, foi mandada à casa de um tio para lá viver, passando a trabalhar como babá. A ferida aberta por este fato nunca cicatrizaria. Só posteriormente Groddeck descobriria que isso havia sido, de certa forma, bom para ele. (RIVERAS, 2004)”

EIS O QUARTO OU QUINTO PONTO EM COMUM ENTRE NÓS: “Pforte resultou em tudo que ele havia temido. A escola é descrita como uma fortaleza, rodeada de muros altos feitos de pedra, uma verdadeira prisão. [também, com este nome! Rockman & Pforte!] O jovem Groddeck foi um pecador desde o início, parecia desejar tudo aquilo que estava proibido: jogos de cartas, trepar sobre os muros e fumar. E depois de ser um magnífico estudante durante anos, se tornou um estudante medíocre (GROSSMAN, 1967).”

Ouvi pela primeira vez o nome de Schweninger. Meu pai falou com entusiasmo sobre ele, que devia ser um médico sob a graça divina, pois conseguira obrigar Bismarck a obedecer. Eu nunca tinha ouvido da boca do meu pai um elogio a qualquer médico e estava sinceramente convencido de que só ele compreendia a Medicina. (GRODDECK 1929, 1994, p. 332)”

Em toda a Alemanha levantou-se um tumultuoso alarido contra a violação da liberdade científica pelo tirano Bismarck. […] A gritaria chegou até a vida tranqüila de Pforte, e mesmo um tímido como eu foi arrastado para o conflito. Tomei o partido de Schweninger, e o teria feito mesmo que não tivesse ouvido a observação do meu pai sobre a genialidade de Schweninger; pois eu estava na idade em que naturezas hipersensíveis procuram abrigo no cinismo. Esta briga de dormitório decidiu a minha vida. Sem ela, eu não teria sido capaz, sendo um rapaz ignorante, de absorver as idéias de Schweninger. Quando o conheci, já gostei dele, como se gosta de algo que se defendeu com força e sorte. E como não podia ser diferente, desde então começou a minha veneração por Bismarck. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333 e 334)”

E quando finalmente cheguei e fui instalado em cima de um colchão, um novo medo me assaltou. Eu ainda molhava a cama na época, fi-lo até os meus 14 anos. Meu irmão me prometeu uma boa surra se eu sujasse a cama numa casa estranha. Tive sorte, todavia, à custa do melhor sono. (GRODDECK 1929, 1994, p. 287)”

5.2 FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Apesar de a escola militar ser gratuita, é necessário uma participação financeira para a manutenção do filho na escola e isto só será possível com a ajuda de alguns amigos mais abastados e próximos à família.”

aprendi a conhecer a atividade médica não com doentes, mas com pessoas sadias. Isso foi de valor inestimável para mim.”

Meu pai não percebia que eu não tinha qualquer conhecimento do latim médico, de que me eram totalmente incompreensíveis as receitas que me ditava e de que não era melhor com os nomes de doenças que eu tinha de anotar aos livros. E ficava impaciente quando eu lhe pedia que repetisse uma palavra.”

nessa época, teve lugar o acontecimento que de algum modo me tirou da minha vida de sonhos e deu a direção decisiva à minha carreira: no meio de uma consulta, meu pai sofreu um derrame. […] Na noite de 19 para 20 de setembro meu pai faleceu. (GRODDECK 1927, 1994, p. 380, 381, 385)”

Finalmente em 1° de outubro de 1885, Groddeck começa o seu curso de medicina. Um dado importante acerca do Instituto é que para poder frequentar esta instituição o aluno deveria preencher uma série de exigências, como por exemplo, ser alemão, ser filho legítimo, ter menos de 21 anos, apresentar o certificado de alistamento militar e se dispor a prestar um ano de serviço militar voluntário. Concluídos os estudos, era previsto um serviço de 8 anos como médico militar para um período de aperfeiçoamento. O estudante então, ao mesmo tempo em que assistia às aulas de seu curso de medicina, estava submetido ao regulamento militar.”

Servi sob o comando do Conde Hardenberg apenas 4 semanas. Nada sei sobre ele, nunca mais o encontrei, mas ainda assim seu nome está gravado tão profundamente na minha memória que quase diariamente penso nele. Por alguma razão totalmente injustificada, atribuo-lhe a culpa pela tosse com que eu mesmo me divirto e atormento os outros; não sei por que o faço e persisto nisso, embora saiba que não há a menor ligação entre ele e meu doce hábito de tossir claro [sic – clara] e ruidosamente a tudo o que não me agrada. (GRODDECK, 1929, 1994, p. 368)”

em Pforte ele havia sido educado dentro do espírito da cultura clássica e na tradição do humanismo, mas a partir de agora deve confrontar-se com o estudo de uma ciência com características eminentemente empíricas, permeada pelo paradigma da ciência natural (MARTYNKEWICZ, 2005). Ao perceber este choque de formação e ao mesmo tempo a permanência de Groddeck em seu esforço de se formar médico, é possível dividir este período de estudo em duas etapas. Uma primeira, na qual ocorre um encontro entre a formação e os interesses anteriores de Groddeck com esse modelo de medicina, tal como ensinado na Alemanha, encontro que, apesar das turbulências que causam, não o impedem de continuar estudando. E uma segunda etapa, que se inicia em torno da metade de seu percurso acadêmico, e que corresponde ao seu encontro com Schweninger.”

5.3 PRIMEIRA ETAPA DA FORMAÇÃO DE GRODDECK EM MEDICINA

Neste momento se faz necessário interromper a biografia de Groddeck para descrever o método de ensino da medicina da sua época e que terá influência em sua prática clínica e em sua construção teórica.”

…de um lado o hospital, principalmente os grandes hospitais públicos em Paris, e de outro o laboratório, em Berlim.” Os franceses “pouco valor deram à terapêutica”.

JACQUES LE FATALISTE: “É possível falar de uma atitude médica, que tem um tom até certo ponto fatalista, chamada de ‘niilismo terapêutico’ e que segundo Roy Porter se define como a capacidade da medicina […] em compreender as doenças de que as pessoas morriam, mas não conseguir impedi-las de morrer. (PORTER, 2004, p. 57)”

Excetue-se o ópio, excetuem-se alguns medicamentos específicos, excetue-se o vinho, que é um alimento, e os vapores que produzem o milagre da anestesia, e creio firmemente que, se toda a matéria médica, tal como é hoje usada, fosse atirada no fundo do mar, seria muito melhor para a humanidade – e muito pior para os peixes.” Oliver Wendell Holmes, Medical Essays, 1891.

para Pierre Louis e seus colegas, a medicina clínica era uma ciência da observação, a ser aprendida nos pavilhões hospitalares e nos necrotérios, através da anotação e da explicação dos fatos. A formação médica devia ser uma disciplina da explicação dos aspectos visuais, dos sons e dos odores da doença – uma educação dos sentidos.” Típico da França. Se não fede, não ensina.

isto é conhecido como teoria ontológica da doença.” Porter

a Fisiologia, que atingiu sua maioridade, como disciplina experimental de status superior. Seu pioneiro foi Johannes Muller, professor de fisiologia e anatomia em Berlim a partir de 1833. […] foi um professor inspirador, e seus alunos – Theodor Schwann, Hermann von Helmholtz, Emil Du Bois-Reymond, Karl Ludwig, Ernst Brücke, Jacob Henle, Rudolf Virchow e muitos outros – tornaram-se os dirigentes da pesquisa científica e médica no mundo alemão e ganharam fama internacional. (PORTER, 2004, p. 103)”

Com a fisiologia científica nasce um novo paradigma que se impõe sobre o conceito vitalista dominante no início do século XIX e sob a influência do naturalismo romântico de Friedrich Wilhelm Schelling. A fisiologia inspirada na filosofia da natureza de Schelling postulava a unidade da natureza e do espírito, indagava o conceito de vida e refutava qualquer descrição fisiológica isolada de um fenômeno singular.” MARTYNKEWICZ, 2005, p. 93.

Como foi dito anteriormente, um dos discípulos de Johannes Muller foi Rudolf Virchow, considerado o mais criativo dos pesquisadores médicos alemães. Virchow é conhecido, entre outros resultados, pela sua máxima Omnis cellula e cellula (todas as células provêm de células)”

O câncer, demonstrou Virchow brilhantemente, surgia de mudanças anormais nas células, que então se multiplicavam de maneira descontrolada através da divisão (metástase). (…) Assim, Virchow defendeu uma concepção interna da doença; por essa razão, em parte, ele veio depois a suspeitar da bacteriologia pasteuriana, a qual considerava muito superficial, por ela ver a doença como sendo de causa essencialmente externa.” Porter

Assim, minha mãe entrou em contato com a sociedade bom-tom de Berlim e soube angariar prestígio. Entre outros, Rudolf Virchow foi um dos seus admiradores. Quando mais tarde, fui reprovado nos exames estaduais de medicina por Virchow, por falta de conhecimento em anatomia patológica, tentei atribuir este fato à atitude pouco amável da minha mãe para com ele, uma tolice vaidosa que repeti muitas vezes em outras ocasiões e que ainda repito de tempos em tempos quando falho em alguma coisa por minha própria negligência.”

Influenciou essa postura também o fato do nome de Virchow desde muito cedo estar mencionado à Groddeck de uma forma muito negativa, seja pela posição que ele assume, contrária à nomeação de Schweninger como médico do Charité [Hospital da Universidade de Berlim], como também pelas opiniões contrárias à Virchow emitidas pelo seu pai, não só em relação aos seus métodos de cura como também por suas opiniões políticas.”

A imagem que tem do médico e da medicina foi influenciada pelo pai e pelas ideias românticas e vitalísticas. […] A cientifização da formação e a estandartização [sic – estandardização] do nível profissional foram introduzidos no início dos Oitocentos, mas se afirmaram só na segunda metade do século. Em 1861 o estudo da física foi inserido no curso de medicina em lugar da filosofia. O paradigma da ciência natural se sobrepõe ao filosófico. A linguagem do médico é separada daquela da filosofia. Isso é visível, não apenas no encontro entre o médico e o paciente: a pergunta do médico não é mais: ‘O que tens?’, mas sim ‘O que te faz mal?’. (…) O médico na tradição hipocrática era um tipo de adivinho que se aproximava do corpo à distância e o observava como uma trama, se afastando do visível e penetrando na profundidade do corpo. Muda a angulação. (…) Neste caso, Groddeck se encontra em dificuldade: como a maior parte dos estudantes de medicina daquele tempo[,] ele também chegou à universidade com uma formação humanística e que não era muito adaptada às necessidades da disciplina. Havia aprendido a interpretar, a abrir e a descrever, mas não a separar, a dividir e a fixar. O olhar anatômico, que coloca a verdade da doença no corpo morto, teve sobre ele um efeito repugnante. Ele duvida desta verdade que se manifesta somente na morte, no cadáver. Só com grande fadiga consegue assimilar o argumento da lesão e a seguir o programa. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 98, 99)”

5.4 SEGUNDA ETAPA DA FORMAÇÃO MÉDICA DE GRODDECK: SCHWENINGER

Ciência não é erudição, não é saber, mas aquilo que o saber cria; é o alicerce imprescindível sobre o qual se constroem saber, conhecimento e talento. E um homem de ciência é apenas aquele que lança tal alicerce ou, pelo menos, trabalha nesse alicerce. Quem compreende este sentido da palavra ciência não confunde o saber médico, a soma dos conhecimentos anatômicos, fisiológicos, diagnósticos ou terapêuticos, com ciência médica. Quando alguém é chamado um homem de ciência médica, isto significa: esse homem descobriu a essência do pensamento e do agir médico, estudou conscienciosamente a base e o terreno e, de acordo com esse terreno e conforme a finalidade do ser médico, a partir do seu espírito e pensamento traçou um plano de construção e lançou os fundamentos aos quais poderiam ater-se os mestres de obras, até que seja imaginado um plano novo, verdadeira ou aparentemente melhor. O essencial para o criador da ciência médica é, portanto, o conhecimento da finalidade do médico e o pensamento e o trabalho independentes para esta finalidade e, finalmente, o que é mais importante, o acerto desse trabalho (GRODDECK 1925, 1994, p. 139, 140).”

O nome dele não está associado a nenhuma descoberta científica significativa e dentro da história da medicina normalmente seu nome é ignorado ou pouco mencionado e isto se deve principalmente ao fato de Schweninger pouco ter produzido teoricamente; somente em 1906 publicou sua obra maior Der Arzt, livro que enfoca a questão da relação médico-paciente.”

Atualmente o nome de Schweninger parece totalmente desconhecido. As grandes enciclopédias francesas, inglesas ou americanas não o mencionam. Nós encontramos, na Der Grosse Brockhaus in Zwölf Banden (1980) três ou quatro linhas indicando, além da sua data de nascimento e do seu falecimento, sua qualidade de médico de Bismarck. Ao contrário, a grande Encyclopédie Française, do fim do século passado[,] consagrou em seu tomo 29 linhas a Schweninger: ‘Schweninger, Ernst: médico alemão contemporâneo, nascido em Freistadt (Baviera) em 15 de junho de 1850. Assistente de Buhl em Munique em 1870, torna-se professor titular em 1875. Ele conta com alguns favores especiais de Bismarck, e foi nomeado, graças a ele, professor da Universidade de Berlim em 1884, depois membro extraordinário do escritório de saúde, e diretor da clínica dermatológica no Hospital Charité. Em 1886, criou em Heidelberg um sanatório especial para a cura da obesidade’ […] Quanto aos historiadores da medicina, as diferentes obras consultadas ignoram totalmente o nome de Schweninger. (CHEMOUNI, 1984, p. 37, nota 1)”

[…] A apresentação de Schweninger, aqui no circo dos tagarelas, foi um verdadeiro desastre! Não compareci, é claro; em vez disso, presenteei-me com uma audição do nosso velho amigo Mark Twain, em pessoa, o que foi um deleite absoluto.” FRAUD, 1986, p. 300.

Sei que a máxima ‘Natura sanat, medicus curat’ não foi descoberta por Schweninger. Mas Schweninger foi o primeiro e, durante dezenas de anos, o único médico moderno a reconhecê-la como ponto de partida, barreira e objetivo da ciência médica.” GRODDECK, Nasamecu

(*) “De fato, esta sentença é muito antiga, formulada inicialmente em latim arcaico conforme podemos ler no Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas. O seu autor, Renzo Tosi, ao comentar a sentença ‘Vis medicatrix naturae’ (‘A força saneadora da natureza’), que de acordo com ele significa que a cura só é possível pela capacidade natural de reação, escreve: […] Este conceito, porém, já se encontra em Hipócrates (por exemplo, De fractoris 1,2); ainda goza de certa fama a medieval Medicus curat, natura sanat (TOSI, 2000, p. 353).”

O relato de Groddeck sobre o tratamento de Bismarck é parcial [no sentido de pouco informativo, não de tendencioso] e isto se deve, em parte, a esta observação sobre a postura e a discrição de Schweninger:

(Schweninger) me contou alguma coisa sobre o caso Bismarck; uma coisa dessa era muito rara, pois Schweninger era a própria discrição. Nos 25 anos em que fui seu aluno predileto, não falou quase nada de suas atividades junto a Bismarck, nunca disse também a mínima coisa que estivesse fora do puramente médico. (GRODDECK 1929, 1994, p. 340)”

através da observação incansável dos hábitos de vida do Príncipe, Schweninger havia curado Bismarck de uma grave e perigosa doença, depois que cem médicos o tentaram inutilmente. O próprio Bismarck disse a sua maneira (…) como Schweninger o conseguiu: ‘Até agora eu tratei de todos os médicos; o senhor é o primeiro que trata de mim’. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333)”

Meu príncipe – Schweninger nunca se referia a Bismarck a não ser com esta denominação – estava acostumado a grandes refeições e grande quantidade de líquidos, e como achavam que ele tinha câncer quando o conheci, reforçam a sua tendência a comer e beber muito, em vez de reprimi-la. O segredo do meu sucesso foi que lhe dei para comer somente arenques salgados¹ e contra a sede apenas a água que ele mesmo pegava do poço. Sempre se afirmou que eu o fizera emagrecer. Não é nada disso; ao contrário, com muito esforço conseguiu aumentar os seus cem quilos. Portanto, apesar de toda a comida intensa, ele emagreceu e, apesar de toda a fome, aumentou de peso. Não importa o que o homem come, mas como utiliza o que come. Desde então, os arenques de Bismarck viraram moda. Mas o que o Príncipe recebeu para comer não eram aqueles arenques artísticos já preparados, mas simples arenques salgados.”

¹ “Gênero de peixes da família dos clupeídeos, de dorso azul-esverdeado e ventre prateado, de hábitos migratórios, comum no canal da Mancha e nos mares setentrionais; reúnem-se em cardumes para pôr os ovos, sendo pesca muito procurada e apreciada. (Compr.: de 20 a 30 cm.).”

Mas antes de seguir adiante, um comentário é necessário a respeito da biografia escrita pelos Grossman. É o primeiro relato biográfico de Groddeck – a sua edição original em inglês é de 1965 e posteriormente traduzido em diversos idiomas – e, apesar da variedade e da riqueza das informações contidas, não apresenta, pelo menos nas duas edições consultadas,(*) a mínima referência bibliográfica, não citando as suas fontes; o que se (sic) faz com que qualquer citação ou referência a esta obra seja feita sob o signo da cautela.

(*) El Psicoanalista Profano, Fondo de Cultura Económica, México (1967); L’analyste sauvage, Press Universitaires de France, Paris (1978).” Por que mudar o título de um livro na sua nova edição é um mistério. A não ser que realmente tenham verificado que chamar um bom médico de pseudanalista é um grande insulto! Ou se trata tão-somente de uma localização (a França, terra da pseudanálise, oculta a parte psico- da alcunha! Além disso, profano dá a idéia de seita que tem essa… seita; o que é diminuído quando se fala simplesmente selvagem…).

Faz com que o chanceler se levante às oito da manhã para fazer exercícios com pesos; durante todo o dia o paciente não deve comer senão arenques. Quando Bismarck exclama: ‘Você deve estar completamente louco’, Schweninger responde: ‘Muito bem, Alteza, será melhor que chame a um veterinário.’ Dito isto Schweninger se vai. Este procedimento estabelece seu poder sobre Bismarck, que se submete. Agora o doutor leva 15 dias sem abandonar a casa de seu paciente. Os alimentos e a bebida, a hora de levantar-se e de deitar-se, o trabalho e o sono, são meticulosamente vigiados. Ao final deste período houve uma melhora notável. Schweninger abandona a casa pela primeira vez. Neste momento, o paciente ordena ‘uma porção tripla de creme’. Isto provoca uma violenta gastralgia, seguida de icterícia e partida para Friedrischsruh. Ali o doutor volta a vigiá-lo de perto e depois em Kissingen e Gastein não o deixa só um dia. [sic – um só dia] Depois de 2 meses, o paciente está praticamente curado e reconhece que pode voltar, rejuvenescido[,] à fadiga do trabalho. Dominando em vez de deixar-se dominar, Schweninger salva a vida de Bismarck.”

Médicos excelentes haviam fracassado com Bismarck porque se deixavam intimidar pelo paciente. Schweninger não se deixava intimidar por nada. Porém nas escolas de medicina não se fabricam autocratas: era difícil para ele ensinar seu método.” GROSSMAN & GROSSMAN, 1967

Depois de seu restabelecimento, Bismarck expressou o desejo de que Schweninger permanecesse em Berlim e primeiro tentou amistosamente conseguir para seu médico preferido um cargo de professor e uma clínica através de decisão da faculdade de medicina. Teria sido muito fácil, pois Schweninger era hábil em todas as ciências, se Bismarck não tivesse tantos inimigos entre os eruditos da universidade, sobretudo se Virchow não estivesse lá. […] Mas a sua perícia ia no máximo a odiar Bismarck e a opor-se a ele sempre que possível, [frase muito mal-traduzida] e já que o Príncipe nunca soube tratar com afabilidade os seus adversários querelantes, o erudito se enchera de tanta amargura que se aproveitou com prazer da oportunidade de frustrar o desejo ardente de Bismarck. Ele obstou, juntamente com um grande número de presunçosos moralistas, uma decisão da faculdade em favor de Schweninger. […] Talvez Bismarck tivesse encontrado outro meio para conseguir a posição para o genial salvador de sua vida; pois, na verdade, Schweninger estaria muito mal na camarilha administrativa das universidades alemães da época. Mas era teimoso, e o que não podia obter por bem, agora forçava por mal. Por um ato autoritário, Schweninger recebeu o cargo de professor de doenças dermatológicas e uma clínica para doentes de pele. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333 e 334)”

Ele promove uma medicina da expectativa. O médico não deve intervir no processo de cura natural, mas só sustentar e reforçar as defesas. Em cada doença existe um determinismo que ao se retirar a ação médica (sic) pode levar à morte ou à cura […] Ele rejeita a procura da causa oculta de uma doença; ao centro de sua teoria (sic) não busca aquilo que produz a doença, mas aquilo que o libera dela. Não se interessa como respira uma pessoa e que coisa significa respirar bem ou normalmente, a ele interessa como ajudar e aliviar o sofrimento daquele que respira mal. Reprovará a medicina científica de estudar a gênese da doença (sic) abstraindo-a do processo vital. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 101, 102)”

5.4 TESE DE DOUTORADO

Em 1889, Schweninger oferece como sugestão a Groddeck uma pesquisa com um novo remédio para as doenças da pele, a Hidroxilamina,¹ e que serviria como tema para seu trabalho de doutoramento. A sugestão de Schweninger tem uma conotação no mínimo curiosa, principalmente em épocas de pesquisas e êxitos científicos:

Schweninger, porém[,] não esperava de seu formando resultados necessariamente positivos, mas uma documentação detalhada da completa ineficácia do remédio. Groddeck deve (sic – devia) escrever uma crítica destrutiva sobre o remédio e enfrenta com prazer esta tarefa. […] Tanto o orientador quanto o formando, com os resultados do trabalho[,] visavam um confronto com alguma autoridade importante do grupo de médicos que estavam sugerindo fartamente este remédio. A pesquisa sobre a hidroxilamina deve ser a ocasião para criticar em geral a produção e difusão desregrada de remédios. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 105)” Qualquer semelhança com o CFM em governos bolsonaristas é mera coincidência.

¹ “Base NH2OH, que se forma na redução dos nitratos.”

Executei escrupulosamente, com grande afinco, todos os experimentos, recorrendo ao pincelamento, aplicação do ungüento e sabão, e aqui percebia zero esperança de obter resultados positivos. Quando percebi que não havia me enganado me propus a estender o protocolo, que de um lado reportava um conjunto escarnecedor dos insucessos, e de outro, ao contrário, oferecia uma visão harmônica bem-exitosa da teoria de Schweninger. (Texto de Groddeck citado em: MARTYNKEWICZ, 2005, p. 105)”

Os colegas que introduziram o novo remédio acreditam poder contribuir deste modo com o progresso da nossa arte? Talvez desta maneira estejam acrescentando um nome à farmacopéia, para o horror de todos os candidatos ao exame de habilitação, mas não fornecem alguma vantagem [sic – vantagem alguma!] à medicina.”

5.6 MORTE DA MÃE DE GRODDECK E O SEU CASAMENTO COM ELSE

Neste período de trabalho como oficial médico – que vai de 28 de junho de 1891 até março de 1897 – além das obras escritas, dois fatos pessoais relevantes e suas implicações posteriores marcam esta etapa da vida de Groddeck. Antes de mencionar os acontecimentos, é importante salientar que esse período da sua vida militar não é contínuo, tendo uma interrupção de um ano, a partir de maio de 96, por conta de uma dispensa, quando Groddeck volta a trabalhar como assistente de Schweninger em sua clínica em Berlim. Uma outra observação é que neste tempo de vida militar, que se inicia no Regimento de Infantaria Real em Brandenburgo, Groddeck é transferido 3 vezes: inicialmente para Ückermunde (1892) onde vai supervisionar a higiene das embarcações fluviais; posteriormente volta para Brandenburgo[;] e por último é transferido para a escola de formação de Oficiais em Weilburg (1894), onde permanece até obter a dispensa, por motivos de saúde, em março de 1897.”

Ainda relativamente jovem, eu obtivera um posto independente na Escola de Suboficiais de Weilburg, o que eu podia e devia considerar uma distinção. Tinha pouca coisa a fazer, esse pouco eu podia organizar como quisesse, era adulado por jovens e velhos, por patentes altas e baixas, enfim, tudo poderia ter sido bom, se não fossem os relatórios. Na minha guarnição anterior, como se eu fosse totalmente incapaz de desempenhar essa tarefa, deixei-a a cargo do escriturário do hospital militar. Mas, em Weilburg, o titular desse posto era mais bobo do que eu. Não consegui uma única vez fazer um relatório sem erros, sempre recebia de volta com o amável pedido para corrigi-los. (Meu superior) me transferiu, por algumas semanas, para Frankfurt e encarregou um antigo médico do quartel de me introduzir nos segredos dos relatórios militares. O plano falhou. […] E continua assim até hoje, e se muitas vezes pensei na possibilidade de desistir do meu sanatório, a razão principal para isso é a obrigação de preencher todo ano um questionário simples – em três cópias. O estranho é que, só no ano passado, descobri que o questionário pode ser preenchido por qualquer outra pessoa que não eu. Tenho grande prazer na leitura de estatísticas; só que não acredito nelas. (GRODDECK 1929, 1994, p. 291, 292)” HHAAHAHAHA!

Depois da morte do meu pai, minha mãe tentou novamente criar para si mesma um campo de atividade: empregou uma pequena herança que recebera de uma amiga de juventude – eram apenas algumas centenas de marcos – para fundar um lar para moças; para isso, mudou-se para Ilmenau. […] Passei com ela em Ilmenau algumas semanas e lembro-me desse tempo com uma especial sensação de prazer. O natural nas relações entre mim e minha mãe voltara a ser como no tempo da infância, só que era diferente o plano em que este convívio de compreensão [???] era vivido no falar e no calar; assim continuou até a morte de minha mãe, éramos adultos dados um ao outro com caminhos próprios. (GRODDECK 1929, 1994, p. 377)”

Quando a mãe morre de infarto em 20 de setembro de 1892, Groddeck tem um forte sentimento de culpa. Exteriormente[,] isto poderia estar relacionado sobretudo à sua chegada atrasada ao funeral da mãe e ao fato de não ter conseguido vê-la mais consciente. A sua última visita apressada, as cartas escritas de forma irregular e com um longo intervalo, tudo isso serve para agravar seu ânimo. (GRODDECK in MARTYNKEWICZ, 2005, p. 117)”

Aposto diariamente sempre mais na massagem e este é o campo no qual gostaria de te ver. Talvez tenha muito sucesso porque faço tudo sozinho. E tu não tens vontade? Faz poucos anos que a massagem tem uma grande relevância na cura das doenças femininas. Uma mulher que seja capaz de fazê-la poderá contar com um ganho de muitos milhares de marcos. Deste modo serás completamente autônoma. Com cuidado posso te ensinar coisas que nenhum outro pode.” Trecho de uma carta de Georg Groddeck a Lina Groddeck, sua irmã (17 de novembro de 1892).

A mudança mais importante deste período está sem dúvida ligada ao encontro com Else von der Goltz. Groddeck a conheceu como paciente. Era a mulher do conselheiro regional Friedrich von der Goltz, 14 anos mais velho do que ela. Quando se casaram a mulher não havia ainda completado 19 anos. Do casamento nasceram 2 crianças: Ursula (11 de setembro de 1889) e Joachim (19 de março de 1892). No período no qual Else encontr[ou] Groddeck, o casamento estava em crise e a separação é [sic – foi] só uma questão de tempo. Else von der Goltz, que no diário Groddeck chama de Elfie, é de uma beleza extraordinária, é culta e possui um grande talento musical. Antes do casamento com Friedrich Von der Goltz se apresentava como pianista e cantora e os seus dotes provocavam a admiração geral.”

No dia 28 de março de 1896, Else se divorcia e em 20 de setembro do mesmo ano Else e Groddeck se casam em Berlin. Após obter a dispensa definitiva do exército e tendo aceitado o convite de Schweninger para que assumisse uma clínica que ele dirigia em Baden-Baden,(*) Groddeck, a esposa, seus enteados e sua irmã Lina mudam-se para esta cidade termal em 18 de março de 1897.

(*) Era uma clínica, o Lichtenfelder-Kreiskrankenhaus, famosa por seu atendimento e por ter bons resultados no tratamento e cura de emagrecimento.”

No final de 1897, Lina aluga a vila Monbijou, situada no número 16 da Werderstrasse e, em fevereiro de 1898, abrem um novo espaço para atendimento. Este espaço sofrerá uma nova alteração de endereço quando, em 1899, o comerciante Gustav Bazoche oferece a Lina uma casa situada na Werderstrasse 14, a pensão Marienhöhe. A irmã de Groddeck se sente encorajada a realizar a compra, mesmo não tendo os recursos necessários, tanto pela sensação de ser independente quanto pela esperança de enriquecer tendo sua própria casa. Os recursos são obtidos a partir de um empréstimo com a paciente Margarethe Hermann (50 mil marcos) e de um banco em Zurique (70 mil). Em 31 de julho, Lina assina o contrato de compra e venda e após algumas reformas, em 6 de março de 1900, a clínica Marienhöhe abre suas portas.”

5.7 ALGUNS ESCRITOS TEÓRICOS

A medicina não está à disposição do doente. O doente é que está à disposição da medicina. O trabalho segue a onda de um mal-estar geral que se percebe no século XIX no confronto do progresso científico e se utiliza de uma linguagem formal e polêmica.”

Kunst und Wissenschaft in der Medizin representa o início programático e indica a direção: em nome da totalidade, da originalidade e da naturalidade a medicina deve novamente ocupar-se do texto da vida e com isso explicar e compreender os sintomas da doença.”

Enquanto Virchow pensava poder controlar algumas doenças com uma melhora das condições de vida, das condições de higiene, da cultura e da educação, Groddeck é muito mais pessimista […] Aquilo que faz adoecer o homem depende no fundo da disposição pessoal e do caso singular. (…) No princípio da personalização emerge o ceticismo contra os métodos de cura que tendem a generalizar e a esquematizar. Na escola de Schweninger a personalização é sustentada com particular ênfase e se mescla em igual quantidade contra a medicina científica e contra a social.” Infelizmente Reich regrediu muito neste último aspecto.

Somente no trabalho sobre constipação, publicado em 1896, fala pela primeira [vez] de certo influxo do fator psíquico. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 115)”

A respeito de toda ‘cura’ é necessário criar uma unidade, a ‘cura personalizada’. […] É a única que tem validade geral. Essa na verdade supõe uma acurada apreciação de todos os pontos vitais acessíveis, exteriores e interiores.” GG, Kur und Kuren

O homem, segundo Groddeck, não vive daquilo que ingere, mas daquilo que digere e como digere, vive daquilo que utiliza e consome e que o seu corpo assimila. (…) No fundo, diz Groddeck, não é absolutamente importante aquilo que o homem come, mas sim com que intervalo e em qual porção assume o alimento.”

Então, segundo Martynkewicz, no texto Krankendiät Groddeck expõe algumas críticas ao modelo proposto por Schweninger, e seu escrito por sua vez é criticado por Schweninger que o considera destituído de conotações positivas. Este descompasso revela um primeiro sinal de que Groddeck começa a propor seu próprio modelo”

Ele, em cada um dos escritos[,] é extremista e dirige ataques selvagens contra a ciência e a fé na religião. Schweninger, porém não deseja uma revolução, agora pelo menos não mais, e deseja um espírito mais conciliador. No período em que esteve junto de Bismarck, havia conduzido uma batalha particular contra a medicina universitária […] Nos anos noventa a medicina científica está[va] em crise, em parte por motivos internos, e com isso perdeu (sic – perdera) um pouco do seu prestígio. As idéias de Schweninger na universidade são agora muitas vezes consideradas extravagantes, mas a sua cura e terapia se tornaram reconhecidas, sobretudo no ambiente das pessoas ricas e nobres. […] Que Schweninger consegue (sic – conseguisse) pacientes sempre mais industriais e menos no ambiente da política é [era] um fato sintomático e corresponde [correspondia] à mudança súbita da sociedade no final do século XIX. A Alemanha se transformou em uma das nações mais industrializadas, sobretudo no setor do carvão e do ferro.”

Um certo desencantamento de Groddeck com estas novas atitudes de Schweninger, que de certa maneira perdeu o espírito crítico e combativo, faz com que escreva em seu diário: ‘Schweninger está cansado e facilmente influenciável’.”

Duas são as possibilidades concretas: entrar em um ambulatório como assistente, para que um dia possa tornar-se independente, ou então, como o aconselha seu irmão Carl, afirmar-se como oficial médico em Weilburg e, talvez, esperar sem demora fazer carreira militar.

Mas a solução oferecida pela vida e pelas circunstâncias foi uma solução intermediária: ao obter uma dispensa da atividade militar em março de 1896, Groddeck vai trabalhar como médico-assistente da clínica de Schweninger em Berlim.”

5.8 MÉTODO DE TRATAMENTO MINISTRADO POR GR.

A massagem, refere-se Cohn, é aplicada três vezes ao dia pelo médico em pessoa, com ‘um método muito particular’ […] antes do café da manhã, antes do almoço e antes do jantar, cada vez durante um quarto de hora. O paciente fica deitado sob [SOB?!?] um divã, com as coxas ligeiramente levantadas contra o busto e os joelhos juntos, para forçar os músculos do abdômen, enquanto segura a cabeça com as mãos. Cohn subdivide o procedimento da massagem em três fases: na primeira o médico ‘dá dois golpes’ com punho fechado na região da fossa epigástrica, inicialmente levemente, depois pressionando sempre mais, até afundar o máximo possível o punho; tudo isto enquanto o paciente deve procurar respirar profundamente. No primeiro dia não é possível fazer mais do que cinco vezes, porque o movimento do diafragma, sob esta pressão[,] é muito cansativo. Segue depois a fase chamada por Cohn de ‘beliscar’: o médico prende com as mãos aquele estrato do abdômen, com a máxima extensão e na horizontal, apertando depois o ‘pneu’ com tal força que sob a pele se formam manchas marrons e azuis. Durante esta operação o doente chora e se lamenta: é a parte mais dolorosa de todo o tratamento. Por fim, diz Cohn, ‘o médico salta com todo seu peso sob o abdômen do paciente, de maneira tal que consegue afundar o joelho em profundidade na fossa epigástrica. O médico fica de joelho sob[re] o doente até que este faça, no início cinco, sete, depois dez respirações profundas, até chegar a trinta. […] O Doutor Groddeck é particularmente hábil e preciso neste tipo de massagem’.

Como segundo componente do tratamento vem descrito o banho quente. Não se trata aqui de banho integral, mas de banho de partes específicas do corpo. No primeiro dia, pela manhã, depois da massagem, vem prescrito o banho quente dos braços; no segundo o banho quente dos pés[;] e no terceiro o banho quente das nádegas, e assim continua cada dia nesta ordem. Schweninger havia construído vasos específicos para os braços e para os pés. Os vasos para os braços são grandes vasos de lata, colocados numa mesa, possuem uma tampa com 2 furos e são cheios com água a 36o Réamur (NB. Nesta escala térmica a temperatura de ebulição é de 80). Na parte superior existe um bocal de afluxo e ao lado um tubo ligado a uma torneira, esta à entrada de um balde grande. O doente coloca na bacia o braço até o ombro, deixando o antebraço e a mão sob a cinta esticada no interior do vaso. O braço permanece 20 minutos no banho, enquanto é colocada continuamente nova água quente, até quando a temperatura atinge lentamente os 40o Réamur. […] O vaso para os pés se distingue dos baldes pelo fato de serem em forma de bota, de modo que toda a base do pé possa pousar comodamente, enquanto a perna permanece em ângulo reto. […] No terceiro dia era realizado o banho das nádegas, à mesma temperatura.

O terceiro componente da cura de Schweninger é a dieta. Antes de falar das iguarias, Cohn relata como a massa era servida em porções pequenas e em louças pequenas. Os copos são aqueles de brinquedo que contém menos de 50 gramas de água. Mesmo os pratos são de boneca, que podem conter no máximo uma fatia de carne. A faca e o garfo são também muito pequenos. Em tudo isto há uma ação sugestiva benéfica: imagina haver bebido e comido muito quando na realidade não é tanto quanto recebeu. Além dessa forma exterior, segundo Cohn, se cuida, sobretudo[, d]o ritmo de fornecimento da massa. Com grande pontualidade, [a] cada três horas são servidas (sic – É SERVIDA) uma nova alimentação, o café da manhã às sete e meia, a segunda refeição em torno das dez e meia, a uma e meia o almoço, às quatro e meia o lanche e o jantar às sete e meia.

Com o passar do tempo, Groddeck modifica e integra a cura. A massagem e o banho quente permanecem substancialmente iguais; a importância da dieta é, no entanto, redimensionada e no final é[,] sem dúvida[,] considerada um procedimento danoso. A cura[,] no momento[,] é de tipo puramente fisioterápico, deve somente reforçar as resistências do corpo e favorecer o processo natural de cura. [REDUNDANTE] Um papel central, sobretudo para a massagem e para o banho quente, é atribuído à dor[,] tratada como [sic – com] um escopo terapêutico, que sobre o homem deverá ter valor educativo.”

5.9 TEXTOS MÉDICOS E ESCRITOS LITERÁRIOS

Ein Frauenproblem (1903) é o primeiro texto literário, não-médico de Groddeck: ‘à minha mulher, pelo Natal’ é a dedicatória[;] e como escreve Martynkewicz: ‘no caso de Groddeck[,] a dedicatória e o conteúdo do livro são extremamente correlatos. Aquilo que ele diz neste livro gira sempre em torno da mulher e […] este presente de Natal é uma carta e contemporaneamente um manifesto da misoginia. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 164).

Sobre a forma de apresentação dos temas deste texto e seu impacto no público, Groddeck escreve ao seu irmão Carl (24 de fevereiro de 1905): O Problema da Mulher foi mal entendido por todos que o leram. Sobre isso, eu só censuro a mim mesmo. Não se deve escrever por enigmas.’” // Outra tradução, se não conseguir encontrar no original nem em português: Un Problème de Femme.

O homem desaparecerá, mas a mulher é eterna”

tornar-se criança, condição do tornar-se ser humano”

ÚLTIMA SENTENÇA DO LIVRO: “O sol brilha unicamente para ela, as árvores carregam frutos unicamente para ela, a mãe vive unicamente para ela. A criança cria seu próprio mundo, para ser livre e liberar. […] Por eles, tu te tornarás livre, por eles, tu te tornarás uma criança, e mais ainda: um ser humano. […] Saudemos ao ser humano, à criança realizada em um mundo realizado. (GRODDECK 1903, 1992, p.117)”

Da mesma maneira que Winnicott e que a Escola Psicanalítica Húngara, mas de forma totalmente diferente, [?!] ele estabeleceu uma psicanálise centrada exclusivamente na mãe, [isso cheira mal] sobre o espaço que ela instaura durante a vida de cada ser humano” Chemouni

Não era mais possível remover Schweninger. Ele conhece o trecho que escrevi sobre ele, e eu não gostaria de magoá-lo, ele que sempre foi amável comigo, mudando agora alguma coisa.” Carta ao irmão

Em 30 de março, sai o romance em 2 volumes Ein Kind der Erde [Uma Criança da Terra] e ‘em abril a editora envia a Groddeck uma breve crítica, que poderia ser considerada como positiva. […] Em julho a editora comunica que o livro não está vendendo bem’.”

O contínuo insucesso da minha atividade literária infundiu em mim uma aversão contra este tipo de ocupação, e, como, de quebra, perdi há algum tempo a minha caneta costumeira, considerei isso um mau agouro. Talvez ela me tenha sido furtada por algum deus benevolente. Para arquivar, portanto, as atas desse período já encerrado, informo-lhe que a minha novela foi rejeitada em toda parte. Eu a havia escrito inicialmente por um prêmio de 5 mil marcos, que o Daheim tinha proposto pela melhor novela. Evidentemente, lá ela não foi lida, pelo menos é o que deduzo do estado inato do manuscrito, e teve a mesma sorte em diferentes mesas de redação. (GRODDECK 1908, 1994, p. 89-90)”

De resto, só posso repetir: essa novela é a melhor coisa que você escreveu. Não quero ir tão longe e afirmar que não há erros; na primeira versão, o final está fraco, e temo que isso não melhorou muito desde então. Mas encontrei aqui em você, pela primeira vez, um pedaço de vida, em lugar de invenções penosamente criadas.” O irmão Carl Groddeck em carta de consolo (?) ao médico diletante literato!

Em 1906, Schweninger publica Der Arzt, livro que é uma síntese de suas idéias e que pode ser visto como um guia de sua prática como médico, ou[,] ainda, como seu testamento teórico. A obra foi editada numa coleção dedicada a publicar estudos sócio-psicológicos que era dirigida por Martin Buber.”

Decididamente, nisto Schweninger tem mais sorte. Do seu O Médico foram impressos 14 mil exemplares e está esgotado. Além disso, recebeu 700 marcos como honorários pela primeira edição. O restante, o editor meteu no bolso. O mais estranho para mim é que a crítica elogia quase unanimemente O Médico. Não invejo o reconhecimento tardio do meu mestre tão difamado pelo bando científico; gostaria apenas que ele também fosse apreciado em outros campos, estritamente científicos, pelos quais tanto fez. (GRODDECK 1907, 1994, p. 87)“

A ideia central da filosofia de Schweninger é que o médico não é um cientista mas um artista. Com esclarecimentos diferentes – histórico, sociológico, filosófico, etc. – ele tenta dizer que a prática médica é uma arte. A arte é eterna. […] Em certo sentido, a arte não constitui um saber mas resulta de uma atividade inata. Ela se eleva contra a idéia, ainda prevalente, que a atividade do médico consiste essencialmente em aplicar os conhecimentos científicos. A ciência é de pouco auxílio na relação médico-doente. […] o fato de cuidar é idêntico através dos tempos. […] Hipócrates, pela sua arte de cuidar, pode ser considerado hoje em dia como médico. […] Sua arte de cuidar não é inferior à dos médicos formados na Universidade. Aquilo que o médico é capaz de aportar a seu paciente é idêntico ao longo do tempo, somente a forma muda. Não se pode imaginar melhores relações médico-paciente só porque vivemos no século XX, as condições humanas serão sempre as mesmas. […] Somente os meios colocados à disposição do médico se modificam, a qualidade de seu trabalho, essencialmente relacional, é constante. A arte do médico resulta de um saber inato: ele é inerente ao homem. A arte não é mais do que a forma visível deste saber. A riqueza técnico-científica não poderá mudá-la. […] Arte e ciência se opõe[m] como o natural ao cultural. Só a experiência serve como denominador comum.” Jacquy Chemouni

Schweninger critica a formação do médico, refutando que um diploma possa sancionar a profissão médica. […] é médico a partir da sua capacidade de estabelecer com o outro uma relação que seja a mais pessoal e íntima possível. J.C.

Natura sanat, medicus curat, isto quer dizer que a natureza [é que] cura e o médico [só] cuida.”

Mas quem foi a Senhorita G.? Será que ela existiu de fato ou ela resume vários casos tratados por Groddeck no período anterior à Primeira Guerra Mundial? Como vimos acima, este personagem só é mencionado por Groddeck algum tempo depois de ter ocorrido o processo de tratamento. A resposta a estas perguntas será dada por W. Martynkewicz:

O caso da Senhorita G. serve claramente a Groddeck para construir um novo início […] No estado atual do conhecimento do legado não se pode ainda afirmar com certeza se esta análise havia de fato ocorrido e se existia uma figura de referência real para a Senhorita G. No que diz respeito a esta última questão, venho colocando ênfase, e em parte também o próprio Groddeck, em diversos pacientes. (…) Margareth Fellinger se torna a ‘cara Grete’ (que poderia ser desdobrada na abreviação ‘G.’). Também o quadro de sintomas apresenta alguma correspondência. Mas nas cartas a Margareth Fellinger não fica claro o tipo de tratamento psicanalítico; a psicanálise não entra em jogo nem ao menos como terminologia. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 197)”

Que Groddeck no período que precede a Primeira Guerra Mundial havia efetuado um movimento em direção à psicanálise é, sobretudo, uma auto-mistificação na qual os seus seguidores, no entanto, prontamente acreditaram.”

Natureza! Estamos cercados e envolvidos por ela – impotentes para deixá-la e impotentes para adentrá-la mais profundamente. Sem aviso, e sem ser chamada, ela nos varre para longe nas voltas da sua dança e continua a dançar até que caiamos exaustos dos seus braços. Ela sempre gera formas novas: o que existia, nunca tinha existido antes, o que era, nunca voltará. Tudo é novo, e, no entanto, velho para sempre. […] Todos os esforços dela parecem inclinados à individualidade, e ela não se preocupa com indivíduos. Ela constrói sempre, destrói sempre, e sua área de trabalho está além do nosso alcance. […] A sua coroa é o amor. Somente através do amor nós chegamos a ela. Ela abre um abismo entre todos os seres, e um quer devorar o outro. Ela separa todos para depois juntá-los, com uns poucos goles da sua taça de amor. Ela torna boa uma vida cheia de labuta. Ela é tudo. Ela se recompensa e se pune, deleita e atormenta a si mesma. Ela é rude e gentil, agradável e terrível, impotente e toda poderosa [sic- todo-poderosa], tudo está eternamente presente nela. Ela nada sabe de passado e futuro. O presente é eternidade para ela.”

Goethe, A Natureza

(…)

5.12 O ‘ISSO’

Não existe nenhum eu, é uma mentira, uma desfiguração quando se diz: eu penso, eu vivo. Dever-se-ia dizer: isso pensa, isso vive. ‘Isso’ quer dizer o grande mistério do mundo. Não existe um eu. […] Tudo flui. Com toda a certeza não existe um eu. É um erro da linguagem e lamentavelmente um erro fatal. Porque ninguém é capaz de libertar-se dessa palavra ‘eu’.”

5.13 CÍRCULOS DE DISCUSSÃO POPULAR E A COOPERATIVA DE CONSUMO

O tradutor de Nasamecu para o francês, P.S. Vilain, faz o seguinte comentário:

Esta obra não tem nada de um tratado científico: ela é o resultado de um ciclo de conversas populares, que Groddeck […] realizou diante de um público modesto, em benefício da associação cooperativa, [para venda de alimentos, inflacionados no verão, a custo de produção] quando foi um animador despretensioso. O autor se contentou em revê-las brevemente com o propósito de publicá-las sob a forma de um livro. Assim colocado, o leitor não se surpreenderá de reencontrar em diferentes capítulos, de forma repetitiva, os temas favoritos deste clínico geral. […] A definição do homem doente, o papel e o poder do médico, a admiração diante do milagre do organismo humano; ele não se surpreenderá de encontrar, por exemplo, no capítulo que trata dos ossos, um desenvolvimento dos nervos da pele, ou, naquele que é dedicado aos músculos, as idéias de Groddeck acerca da informação sexual […] ele se esforça em ver o homem que sofre dentro do conjunto de suas condições de existência e considerar os elementos do corpo humano em suas interdependências (VILAIN in GRODDECK 1980, p. X)”

5.14. NASAMECU

O título do livro é uma fórmula abreviada, Natura sanat, Medicus curat, a mesma é a ordem inversa de uma sentença medieval: Medicus curat, Natura sanat.”

DICIONÁRIO LATIM!

Sanat: cura;

Sanativus: própria para a cura;

Sanator, -oris: o que cura.

Medicus: tratar de um enfermo, medicar, aplicar remédio.

Curat: aplicação, tratamento;

cura, curae: cuidado, diligência;

curate: com cuidado, com diligência;

Curator, Curatoris: o que tem cuidado.”

A sentença aparece três vezes ao longo do livro, sendo inclusive [su]a última frase (…) na primeira vez em que é mencionada, Groddeck explica exatamente qual é o seu significado: ‘É a natureza que cura e não mais o médico, que só cuida [presta atenção]’.”

Apesar de estar sempre procurando reconhecer e valorizar o diálogo entre o médico e a natureza, Groddeck privilegia a segunda parte da frase, ou seja, a posição e o valor do médico.”

com o Nasamecu nós estamos no coração dos ensinamentos e do pensamento de Schweninger, tudo o que é específico nesta obra […] nós o encontramos na obra de Schweninger e em particular na sua obra intitulada Der Arzt. (CHEMOUNI, 1984)”

é bem por isso, e em função da grande ignorância das pessoas, que eu escrevi este livro. É tempo de elas adquirirem algum conhecimento a fim de não mais se comportarem na vida como uma criança. O médico, sem mais razão, necessita de conhecimentos, mas ele estará mal-colocado se estes conhecimentos forem exclusivamente de ordem médica.”

A partir destas colocações, Groddeck justifica o seu modelo de trabalho, como clínico geral, não ambulatorial, mas privilegiando o internamento por um período de tempo, em um espaço terapêutico: ‘O sucesso que obtêm os hospitais, as estações termais, etc., se explica em grande parte pela mudança mais ou menos bruta e brusca de todas as condições de vida do paciente.’ (GRODDECK 1913, 1980, p. 8)” Isso se chama: férias.

O médico deve dominar seu paciente. […] O dom inato de dominar é mais indispensável que todo o resto e é seu dever desenvolver este dom. O médico deve dispor de uma personalidade, reunir em sua pessoa numerosas personalidades. […] Ele deve conhecer as inúmeras facetas das constituições possíveis do caráter humano.” Será que o vestibulando de hoje ainda consegue fazer isso depois de torrar o cérebro para entrar numa faculdade – provido do dom da cura ou não?

a tarefa do médico é outra: ele é chamado a dominar, a dirigir este mini-universo que se chama um ser humano, que se mete em seu caminho dizendo: ‘ajude-me caso eu esteja doente’”

Nestas citações sobre a natureza do médico é possível perceber que os 2 verbos preferidos por Groddeck para definir a ação do médico são: dominar e dirigir; e que a conjugação destes verbos não é algo que se aprende, é como um dom inato. Para Groddeck, a personalidade do médico é o principal elemento da relação médica, ocupando um papel preponderante sobre seus conhecimentos científicos e o método terapêutico escolhido. Outra característica é a ação do médico como arte. O exercício dessa arte faz com que o médico fique a serviço da natureza (vida) e não possa agir em oposição a ela.”

Groddeck recomenda: Cuide [sic – Cuida] da tua língua, atenção às conseqüências de tuas palavras! Essa sugestão se dirige principalmente ao que ele chama de: a mania dos diagnósticos. E à sua dúvida: em que o diagnóstico ajuda o paciente?”

Neste momento, os problemas sociais são ainda parte integrante da medicina de nossos dias.” Afasta-te do médico bolsonarista mais do que o diabo se afastaria da cruz, porque neste problema social ele é claramente o problema!

cada época é, assim, tanto saudável quanto não-saudável, da mesma maneira que cada ser humano é simultaneamente sadio e doente.” Temo que este aforismo não sobreviveria à análise de Groddeck se este ressuscitasse no séc. XXI!

o erro antigo que considera que a doença é um agente externo que agride o homem desde fora. […] é bom admitir que a doença não é jamais um elemento externo ao corpo, mas um processo da vida […] que o elemento decisivo para a evolução da vida no sentido da saúde ou da doença não é o bacilo, mas o próprio homem.” Antigo mas bem recente: data da invenção da microscopia. Hipócrates já tinha a mesma visão sistêmica da psicossomática. Não é o maldito vírus, mas o verme do vírus (o homem).

As tendências de cura estão incluídas na própria doença. Existem mesmo no câncer, mesmo na morte; a vida persegue a sua ação ordenadora, procura curar e trazer à saúde, criar, mesmo quando as condições são más, a melhor existência possível: ela comove a sensibilidade do doente.”

Quer estejamos doentes ou bem, portanto, a vida é uma aposta na ordem. Sem se cansar ela diz ao homem: ‘coloque ordem’ […] porque o caos está em você [sic – ti] mesmo, aqui está a doença que tem a missão de colocar a ordem no teu caos.” A ansiedade busca fundir o organismo humano tão previsível e estático perante o caos do capitalismo tardio num caos sui generis, numa – sem dúvida, de algum prisma possível – ordem convivível… Mas isso não podemos deixar, já vai além do propósito da vida… Seria preferível morrer em catalepsia e apatia a se adaptar a um mundo tão cruel. Diga, Groddeck, você teria se rebaixado a usar Prozac?

É doente, no meu significado, o indivíduo diminuído em seus desempenhos e que se credita como tal. Para mim, todos os outros são saudáveis, pouco me importa que a Faculdade os tenha declarado gravemente doentes.”

Qualquer um que se sinta doente é conveniente se considerar doente, mesmo que o exame não descubra nada de patológico sobre ele ou nele.”

A cada indivíduo correspondem critérios que permitem determinar ou não a existência de uma patologia. (CHEMOUNI, 1984, p. 34)”

Vale salientar que Groddeck não tinha uma teoria do psíquico, tanto em seus aspectos estruturais quanto dinâmicos. A sua noção de inconsciente era pensada dentro do espírito romântico como desconhecido, um aspecto oculto da natureza e do sujeito, material sem estrutura que se expressa principalmente na poesia, nos sonhos e na enfermidade mental. Como clínico geral, Groddeck, nesse primeiro momento, situa o inconsciente e faz seus comentários a respeito dele como o desconhecido das funções somáticas

…e, nessa ampliação é necessário que se desloque sua perspectiva do Romantismo para a Psicanálise conforme pensada por Freud.” O Fraudismo é o puro Romance (só falta o Amor, claro)… Para “se deslocar” do Romantismo das concepções simbólicas do inconsciente a uma verve mais pseudanalítica do pensamento, Groddeck não teve de dar um só passo!

Quem não estuda está condenado a repetir a História. Neste caso que nos cabe agora, quem não estuda está condenado a repetir erradamente que Fraud foi pioneiro em alguma coisa, e um escritor honesto. Alguns parágrafos ilegíveis…

Queremos a esperança da cura. Bem mais: no fundo, não esperamos, desde o primeiro momento, a ajuda, mas a certeza da cura. Não se sabe mais apreciar a sua [nossa] situação, perdeu-se [perdemos] a [nossa] confiança em si [nós]. Essas duas coisas espera-se do médico.” E isso era tudo o que a pseudanálise não podia dar. Mas a autora da tese de mestrado não sabia disso…

O médico, sem dúvida, existe para todos os que sofrem, e ele deve dar ao seu tratamento a forma mais simples possível, a fim de que todo mundo, ricos e pobres, possam (sic)¹ aproveitar; diante do médico todos os homens são iguais, ele age sem considerar a pessoa” Outro preceito NADA seguido pelos instintos semitas da fantástica arte de extirpar neuroses com a força dos fundos movimentados pelos cheques – que perdeu um pouco da parte ‘artística’ conforme as décadas foram corroendo seus métodos estelionatários…

¹ As traduções da autora também são péssimas. Deixei este trecho como lembrete, num erro de concordância primário; porém, foram muitas as instâncias em que tive de corrigir aspectos básicos como a pontuação e a sintaxe elementar, que a criatura (nunca traduzindo do alemão, o vernáculo de Groddeck, mas do italiano ou do francês!) transcrevia diretamente do idioma original, como se o português fosse acentuado como seus primos latinos, tivesse ritmo idêntico – no francês isso é particularmente bisonho, pois, sabe, os, franceses… amam, vírgulas, Paulos, Coelhos, e três… pontinhos!… e exclamações. Só à guisa de comparação vamos recitar o trecho acima conforme citado na nota de rodapé da tese, antes da versão da autora:

« le médecin, n’est ce pas, existe pour tous ceux qui souffrent, et il doit donner à sa thèrapeutique la forme la plus simple possible, afin que tout le monde, riches ou pauvres, puisse [curioso! o erro de concordância não existia aqui!] en profiter, devant le médecin, tout les hommes sont égaux, il agit san[s] considération de la personne. » Não houve o cuidado, como denota o [s], nem de copiar os trechos com 100% de fidelidade.

Antes da Psicanálise se estabelecer como modelo terapêutico hegemônico na Europa e na América, a hipnose e a sugestão eram os procedimentos terapêuticos dominantes. Foi Liébault quem estabeleceu a doutrina da sugestão terapêutica.” Verdades e mentiras mescladas numa frase mesquinha.

Os membros da família, mesmo quando estão de boa vontade e sobretudo em função das suas boas intenções, constituem um obstáculo ao tratamento. Todo mundo, desde a infância, gosta de brincar de médico, e quando um membro querido da família fica doente, desamparado, você o socorre dando conselhos a torto e a direito e, em seu zelo excessivo, acaba atrapalhando.”

EXCELENTE: “Supo[nha]mos que, a partir de agora, nós dispomos de todo o conhecimento que a humanidade acumulará nos milênios que virão; nós não seríamos capazes de curar um simples resfriado: nunca poderemos fazer mais do que tratar. Este mesmo tratamento, que é a nossa única tarefa, e privilégio só nosso, será sempre limitado pelo poder da própria vida. A vida tolera com rigor que tiremos uma articulação doente, por exemplo, do joelho, substituindo-a por outra; ma[i]s ainda, é possível pensar que ela nos permitirá um dia transplantar de um indivíduo a outro, a fim de substituir os órgãos deficientes, o[s] rins, os ovários ou os olhos saudáveis. Mas, sempre, ela [Mas ela sempre – aprender a traduzir, dona Maria Consuelo!] se reservará [a]o direito de fazer viver ou não esses órgãos, se eles serão recebidos ou não dentro da unidade do corpo humano.”¹

¹ Esta última frase, de novo, evidência cristalina dos péssimos dotes da tradutora de improviso. Eis minha versão: “Sempre, porém, é a vida quem se reservará ao direito de deixar que sobrevivam ou não estes órgãos, de recebê-los ou não na unidade do corpo humano.” O “dentro da” como tradução de dans é típico de um estudante de primeiro período de francês que nunca aprendeu o conceito-base de tradução como tradução do conteúdo global e não simples ‘termo a termo’ o que nunca existiu fora dos recônditos da subliteratura. E a subliteratura não devia estar presente em nenhuma pós-graduação; nem num modelo hiper-expansionista, tendente ao universalismo (o chinês, por exemplo).

Tive que corrigir a próxima tradução inteira, de tão capenga:

Oliveira e Silva: “Levavam, pelo contrário, mais profundamente inscrito no seu coração que nós não fazemos, esta verdade, essencial do exercício do médico: a saber que somente a vida tem o poder de curar, o fato mesmo de estar vivo, é o verdadeiro médico.”

Rafael Aguiar: Seus corações, ao contrário, traziam inscrita, mais profundamente do que nos nossos, esta verdade essencial do exercício do médico: que somente a vida tem o poder da cura; que a vida, o fato mesmo de se estar vivo, é o verdadeiro médico.

Mesmo se fosse uma noviça no francês, caso tivesse alguma noção de escrita (do próprio recurso lingüístico padrão, i.e., do português!) e um pouquinho de teoria da tradução incorporada, poderia disfarçar facilmente a falta de estilo. Mas é um estilo todo cru, cego, cheio de arestas. Se é que não é o puro suco do google translate! Depois querem que eu diga por que um homem de altas qualificações como eu não quer perder 2 anos de sua vida sendo avaliado por pares – e que pares! Olhem o que deixam entrar e, portanto, titular-se (porque ninguém reprova num mestrado a não ser por falta)! Alguém incapaz de inverter a ordem frasal na translação entre dois idiomas, porque não tem a sensibilidade DE LEITOR suficiente para notar que ao não fazê-lo o português fica severamente prejudicado! Alguém que disso não sabe não pode se meter a ensinar medicina ou psicologia. Seria confissão de charlatanismo.

Estraçalhar o estilo, retalhar seu autor favorito, remover dele toda sua poesia: é isso que você faria como “homenagem” num trabalho? Num trabalho que imortalizará seu nome, pelo menos por algumas gerações, num arquivo mofado de universidade, para consultas de olhos curiosos de uma ávida geração distante?! Sugiro destinos melhores! Mas só posso ficar na sugestão. Minha sugestão não tem poder hipnótico!

5.15 PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (?)

No dia 28 de junho, ao entrar na cidade em carro aberto, alguém jogou uma bomba contra ele. Ferdinand empurrou o artefato para perto de outro veículo. Sua sorte não durou muito. Após comparecer a uma recepção na prefeitura, o arquiduque foi visitar os feridos do atentado. O estudante bósnio Gavrilo Princip avançou em direção a seu carro e disparou 3 tiros, matando Franz Ferdinand e sua mulher, Sophie. Esse ato, que agitou as engrenagens de alianças nacionais, alimentadas por nacionalismo e temor, foi o estopim da Primeira Guerra.”

Viena exigiu que Belgrado censurasse publicações anti-austríacas e prendesse ativistas anti-monarquistas. A Sérvia rejeitou essas exigências, aceitou outras e pediu uma arbitragem internacional. As autoridades austríacas, decididas a subjugar os sérvios, recusaram a interferência externa.” The same dirty old game and tricks by the pigs, pigs, PIGS!…

Em um mês, Montenegro lutava ao lado dos sérvios, o Japão junto a sua aliada britânica e a Turquia em defesa dos germânicos.” Com essas alianças bizarras, difícil considerar a Segunda Guerra como segunda e não como parte orgânica da primeira e única guerra total da História (como Poderoso Chefão 2, nem é uma continuação, é o próprio filme original).

E o que acontece com Groddeck neste período inicial da guerra? Ele é convocado, não para atuar no front, mas para ser o diretor-médico do Hospital Militar da Cruz Vermelha em Badischer Hof.”

Para uma apresentação, causas, implicações e desdobramentos políticos e culturais da Primeira Guerra Mundial, ver: A Sagração da Primavera, Modris Eksteins. Rocco, Rio de Janeiro, 1991

Sendo fiel ao seu projeto de trabalho, Groddeck não consegue se adaptar às pressões do tempo, imposto [SIC – IMPOSTAS] pelas exigências próprias de uma guerra[; n]e[m] muito menos se adequar às características próprias de um hospital para militares feridos. Como consequência, acabou tendo problemas com o restante do corpo clínico.

Aqueles dois outros colegas do Badischer Hof assumiram uma posição completamente diversa e logo[,] em pouco tempo[,] renuncia[ra]m a colaborar naquele projeto de cura. A sua atividade está sendo [SIC – foi] considerada de modo crítico mesmo pelas autoridades médicas sanitárias. (MARTYNKEWICZ, 2005)”

Groddeck se irrita e manda¹ rapidamente uma carta de protesto à autoridade sanitária, na qual reivindica o ‘direito fundamental do médico’, que mesmo na guerra deve poder curar ‘em seu critério’ e não ser ‘influenciado por alguma ordem’. A autoridade, segundo ele, não teria direito de criticar de nenhum modo a sua ação médica ou de impor-lhe regras; como médico ele afirma não se submeter às leis da guerra. A autoridade militar não se deixa impressionar e intervém, depois de haver tomado uma outra posição, […] na metade de maio Groddeck é exonerado do cargo de diretor médico do Badischer Hof. […] O licenciamento representa uma degradação oficial e uma declaração de incompetência.” Groddeck se mostrou tão ético e íntegro que vou chamá-lo de ANTI-FREUD!

¹ Provavelmente a autora pensa que o passé literário francês é o presente do indicativo, daí tantas frases estranhas nesta linha.

Além destas questões ligadas à sua atividade como médico de um Hospital da Cruz Vermelha, 2 fatos pessoais ocorrem neste período: em setembro de 1914, morre o ‘último Groddeck’, seu irmão Hans; outro fato acontece neste período, mas que terá efeito e desdobramentos significativos pelo resto da vida de Groddeck: em maio de 15 chega ao sanatório uma viúva sueca, Emmy Martina von Voigt. Fica pouco tempo na clínica como paciente e, quando retorna em julho do mesmo ano, Groddeck a convida para ser sua colaborada e assistente; em suas memórias escreve: ‘Em 1915 conheci minha futura esposa. Isto me fez progredir rapidamente.’

E abruptamente (nessas aspas mesmo!) termina a tese. Bizarro. Capítulo fora do lugar este da 1ª guerra? Sim; mas a tese em si é fraca, então não é um erro grosseiro. Isto é, diante do quadro geral é até perdoável!

NOTAS

Para Ber[n]heim e a escola de Nancy, [a] terapia de sugestão consistia na deliberada manipulação do crédito, fé e expectativa sob a orientação da sugestão e auto-sugestão no tratamento de uma vasta gama de condições físicas e psicológicas.” Shamdasani

CONCLUSÃO

Se dermos um texto não identificado escrito por Groddeck para um estudante de medicina que esteja lendo sobre Humanização, este possivelmente acreditará se tratar de um texto contemporâneo, e não um texto escrito a mais de nove décadas.” Se aos pacientes se der tanta atenção quanto à penteada na gramática desta tese, estão bem fudidos e desumanizados! Se não tem tempo de revisar o próprio texto, saia da academia. Mas o orientador e a banca ainda conseguem ser mais malditos… Uma revisão de literatura tosca de nível de terceiro semestre de uma graduação de humanas (mesmo sendo uma especialização, aparenta generalidade total, quer em medicina, em psicologia, em história das idéias, quer em epistemologia…). Este é meu parecer honoris causa.

COMO FILOSOFAR COM (A FOICE E) O MARTELO: SUPERANDO ELON MUSKS E O BUDISMO EUROPEU

Lutero demarca o início da transformação do misticismo nazareno na autodisciplina intramundana do trabalho incessante ligado paradoxalmente à avareza e acumulação de capital, que vemos estudada em detalhe em Weber – da abnegação espiritual sincera à completa venalidade materialista do indivíduo contemporâneo. É exatamente essa faceta do protestantismo que torna esta religião tão exitosa em salvar drogados e ex-satanistas ou bandidos. A mais completa apologia do status quo. Nada mais anticristão. Até entendo por que pessoas como o Tadeu confundem o amor fati com esta definição filistéia! E agora parece que cheguei a uma compreensão aperfeiçoada do que Nietzsche queria indicar com ‘budismo europeu’ – a passagem à re-espiritualização é dura, pois implica primeiro numa aceitação-do-mundo-como-ele-é, para poder superá-lo (essencialmente é uma interiorização da luta de classes marxista e superação do capitalismo global, a forja de um mundo material em que o espiritual não está mais corrompido). O budismo europeu é quando a civilização hoje tornada mundial está cansada deste mundo e está tentada a dele desistir. O problema é que desistir deste presente passageiro (embora maior que o tempo de vida de um indivíduo) é o mesmo que atirar pela janela toda a existência. Em suma, aqui é que se situa mais explicitamente a oposição fundamental e irreconciliável entre Nietzsche e Schopenhauer. Onde verdadeiramente se continua (se deveria continuar) após a última linha do primeiro tomo de O mundo como vontade(…), não rumando ao misticismo novamente, mas indo-além-no-mundo, em oposição à vida seca e material daquela Europa do XIX. Figuras como Elon Musk, espécies de líderes ideológicos da atualidade ou representantes do Zeitgeist, ainda estão situadas no positivismo otimista do progresso ilimitado, avatar tão velho! Falta muito ainda. Ainda não é o tempo de espiritualizar-se, primeiro deve-se usar o martelo e a foice o suficiente… O budismo europeu se concretaria quando o mais próspero dos bilionários já não for capaz de sentir a menor centelha de prazer na vida! Predominância e universalização da ética de escravos. Todos na Terra já são, nesse momento por vir, encarnações de Jesus de Nazaré. Aí está a brecha para a ascensão de uma nova casta de senhores fortes, espiritualmente amante da vida e inimiga dos valores vigentes. É neste exato sentido que se deve ler o “O Cristianismo estava à beira do colapso, quando essa tragédia, o luteranismo, despontou e ressuscitou o cadáver!”, ou aforismo parecido, no Anti-Cristo. Dá até saudade da concupiscência imoral de um Bórgia – ao contrário, nos deparamos hoje com a de um Edir Macedo (urgh)! É porque de um neo-protestantismo (no fundo apenas, ainda, o bom e velho protestantismo) não nascerá outra doutrina CRISTÃ para salvar novamente o monoteísmo que este ciclo ou esta era terão um dia irremediável fim histórico…

EL LIBRO NEGRO DEL PSICOANÁLISIS: Vivir, pensar y sentirse mejor sin Freud – Catherine Meyer (org.)

INTRODUÇÃO

En Francia, cuando los alumnos preparan el bachillerato y durante toda la formación de los maestros de escuela, las ideas de Freud – el complejo de Édipo, el desarrollo afectivo del niño en las fases oral, anal y fálica – se enseñan como verdades incontestables. Incluso entre aquellos que nunca han oído hablar de Freud, el lenguaje corriente ha adoptado numerosos conceptos freudianos, utilizados a diestro y siniestro (<un trabajo de duelo>, <rechazo>, <hacer una transferencia>, <una mujer castrante>, etc.).” Ainda é melhor do que as crendices brasileiras…

Los psicoanalistas ocupan una posición dominante en el universo de la salud mental. De un total de 13 mil psiquiatras, el 70% practican el psicoanálisis o terapias de inspiración psicoanalítica.” Acredite, podia ser MUITO pior… Podíamos estar dominados pela TCC!

La historia oficial del freudismo ha sido progresivamente cuestionada por aquellos a los que en inglés se denomina <Freud scholars>, en traducción literal, los <eruditos de Freud>. Estos han revelado muchas mentiras en la obra original. Paralelamente, el psicoanálisis en tanto que terapia ha perdido consideración. En la Europa del Norte y en los países anglosajones, prácticamente no se enseña en las facultades de psicología y ha encontrado refugio en las facultades de letras o de filosofía. En Holanda, la nación en la que se consumen menos ansiolíticos, el psicoanálisis es casi inexistente en tanto que terapia.”

La célebre Sociedad psicoanalítica de Nueva York pena a diario para reclutar candidatos. El Myers, ese manual que sirve de referencia a los estudiantes de psicología del otro lado del Atlántico, sólo consagra 11 páginas a las teorías freudianas, de un total de 740 páginas. ¿Tendrán Francia y Argentina razón, ellas solas, contra el resto del mundo?”

Las grandes figuras de los años 70 (Françoise Dolto, Bruno Bettelheim, Jacques Lacan) siguen siendo referencias incontestables, a veces incluso mitos.” “La división, particularmente violenta entre bastidores, nunca ha sido abordada de frente en la escena pública. Los insurgentes de ayer se han convertido en guardianes del templo. El psicoanálisis se vivió por la generación de Mayo del 68 como un viento de libertad; en adelante toma la forma de un dogma intocable. Los psicoanalistas más influyentes, principalmente los lacanianos, intentan sistemáticamente matar el debate antes de que nazca. Excomulgan y anatematizan, arrojando regularmente a sus detractores al terreno (a elección) ¡de la extrema derecha antisemita, los lobbies farmacéuticos o los conservadores americanos!”

Como un símbolo, los herederos de Jacques Lacan obtuvieron así, en febrero de 2005, de Philippe Douste-Blazy, entonces ministro de Sanidad, que recusara e hiciera desaparecer de la página Web de su ministerio un informe del INSERM (Institut Nacional de la Santé et des Recherches Medicales). Este organismo había realizado una evaluación de las diferentes terapias, realizada a petición de asociaciones de pacientes, cuyas conclusiones eran desfavorables al psicoanálisis.”

En Estados Unidos cualquier persona cultivada conoce la triste suerte de Emma Eckstein, una de las víctimas históricas del psicoanálisis; todos están informados de las imposturas de Bruno Bettelheim; los argumentos de los <Freud scholars> han convencido, más allá de los especialistas.”

Así, en Inglaterra, en los años 70, el filósofo Frank Cioffi, uno de los autores de nuestro Libro negro, creó una oleada de emoción considerable consagrando una memorable emisión de la BBC al siguiente tema: ¿Era Freud un mentiroso? Más recientemente, en los Estados Unidos, una gran encuesta, Freud desconocido, de Frederick Crews, que igualmente participa en nuestro libro, aparecida en la New York Review of Books provocó el envío de miles de cartas indignadas.”

Hay una cierta embriaguez y un gran consuelo en poder dar un sentido a cada pequeño momento, incluso fallido, de nuestra vida. Hay pacientes que se han sentido ventajosamente después de un análisis; algunos incluso se han curado. Hombres y mujeres inteligentes han sido conquistados por el psicoanálisis, su romanticismo y su lenguaje misterioso. Todo eso no se borra con unas líneas.” “Hay una vida después de Freud: se puede, en terapia, trabajar sobre un inconsciente no-freudiano, se puede uno también interesar en la infancia, en la sexualidad, en la historia y en las emociones de cada uno sin adherirse a los conceptos freudianos.”

Este cuarteto ha dado la tonalidad a esta obra: no-sectaria, [mais ou menos…] internacional, [mais para menos: só fala de França, França, França…] multidisciplinar, preocupada por los lectores y abierta a la crítica. Gracias a ellos y a menudo a su intermediación, he podido solicitar a los mejores expertos en estudios freudianos, que, desde hace varias decenas de años, estudian los textos del padre del psicoanálisis y ponen al descubierto, en alguna de las 6226 páginas que comporta esa obra colosal, las numerosas incoherencias y ocasiones en las que FRAUD tomó sus deseos por realidades.”

Este libro da, en fin, la palabra a los pacientes, tan frecuentemente olvidados en los debates.”

Una persona de cada 2 está confrontada o se enfrentará a lo largo de su vida con la enfermedad psíquica, y 1 de cada 5 presentará una forma grave de trastorno psicológico.” “¿A quien recurrir en caso de depresión o de trastornos ansiosos? ¿Qué tratamientos se han demostrado eficaces en la esquizofrenia? ¿Cómo enfrentarse a la anorexia? Todos estamos, de una u otra forma, concernidos por estas preguntas.”

Sigmund Freud ha influido nuestra manera de vivir, es evidente. El psicoanálisis forma parte de nuestro pasado. Moldea nuestro presente. Queda por saber en qué medida formará parte también de nuestro futuro.”

Mikkel BORCH-JACOBSEN, es danés-francés-americano. Filósofo de formación, consagró su tesis al Sujeto freudiano y enseñó brevemente en el departamento de psicoanálisis de Vincennes, bastión de Lacan. Instalado en los Estados Unidos desde 1980, donde es profesor de literatura comparada en la Universidad de Washington, es autor de 7 libros sobre el psicoanálisis y la historia de la psiquiatría, traducidos a 6 idiomas, entre los cuales Lacan, el dueño absoluto, hoy convertido en un clásico, y Anna O., una mistificación centenaria, que suscitó una viva polémica en el momento de su publicación en 1995. Sus trabajos se inscriben en la nueva historia del psicoanálisis y de la psiquiatría.”

Jean COTTRAUX, psiquiatra de hospitales, dirige la Unidad de tratamiento de la ansiedad en el CHU de Lyon. Ha consagrado más 35 años a aquellos que sufren trastornos ansiosos. Se formó en terapias comportamentales y cognitivas (TCC) en Inglaterra y Estados Unidos. Encargado de curso en la universidad de Lyon-1, ha creado un diploma de TCC gracias al cual ha formado a numerosos practicantes. Es autor de varios libros de referencia para profesionales y de obras que han tenido un gran éxito como La Repetición de escenarios de vida.”

Jacques VAN RILLAER es profesor de psicología de la universidad de Louvain-la-Neuve (Bélgica). Conoce el psicoanálisis <desde el interior> puesto que fue durante más de 10 años miembro de la Escuela belga de psicoanálisis. Durante mucho tiempo practicó el método freudiano antes de su deconversión que narró en un libro, Las ilusiones del psicoanálisis (1980), en el que reconstruye el sistema freudiano. Según él, los hijos de Freud, que se presentan como maestros-pensadores de la desmitificación, son ellos mismos, a menudo sin saberlo, propagadores de ilusiones y artesanos de alienaciones. Esta obra, convertida en un clásico [por que eu nunca ouvi falar?], marcó a numerosos psicólogos y psiquiatras. Es, desde entonces, autor de siete libros entre los cuales Psicología de la vida cotidiana [hahaha, tripudiou!].”

Jean-Jacques DÉGLON es psiquiatra, director de la Fondation Phénix en Ginebra y se consagra desde hace 35 años a los toxicómanos. Contra el parecer de los psicoanalistas franceses, luchó por los tratamientos de sustitución a base de metadona, que han permitido salvar miles de vidas.”

Violaine GUÉRITAULT es doctora en psicología, formada en la universidad de Atlanta (Estados Unidos) especialista en el síndrome del burn-out [eu gostaria de saber o que diabos é isso – especialista em burning out! Um nome chiquérrimo para depressão no capitalismo avançado…] y autora de El agotamiento emocional y físico de las madres.”

Philippe PIGNARRE es director de ediciones Les Empêcheurs de penser en rond y encargado de curso en París VIII. Trabajó cerca de 17 años en la industria farmacéutica y es autor de Cómo la depresión se ha convertido en una epidemia, y de El gran secreto de la industria farmacéutica.”

Richard POLLACK es periodista de investigación, basado en Nueva York, y autor de numerosas novelas y documentos. (…) Recientemente ha escrito un libro, Bettelheim o la fabricación de un mito, que ha tenido un gran éxito en los Estados Unidos.”

Se as psicoterapias são tão PLURAIS por que todos os co-autores desse livro só são da TCC?!?

Edward SHORTER es historiador de la medicina. Enseña en la facultad de medicina de la universidad de Toronto. Es autor de numerosas obras, entre las que se destacan una historia de las enfermedades psicosomáticas y una monumental Historia de la psiquiatría: De la era del asilo a la era del Prozac aparecida en 1998.”

Frank SULLOWAY es historiador de las ciencias en Berkeley (California). Su libro Freud, biólogo de la mente: Más allá de la leyenda psicoanalítica, aparecido en 1979, (ver no Seclusão) es un análisis radical de los orígenes y de la validez del psicoanálisis. Recibió la MacArthur Grant, más conocida como la <bolsa de los genios>. En un libro más reciente, Los niños rebeldes, estudia la forma en que la dinámica familiar afecta al desarrollo de la personalidad, incluyendo la de los genios creadores, y subraya la influencia del orden de nacimiento sobre la personalidad y el comportamiento.” Ouvi dizer que não obteve muito sucesso nessa tese… De fato não passa da fraca aplicação de um dos motes da psicologia individual adleriana…

Peter J. SWALES es una autoridad reconocida en el campo de la historia del psicoanálisis. Conocido por sus escritos sobre la vida y obra de Sigmund Freud, Marilyn Monroe, William S. Burroughs et Shirley Mason (alias Sybil)

PRIMERA PARTE

LA CARA OCULTA DE LA HISTORIA FREUDIANA

1. MITOS Y LEYENDAS DEL PSICOANÁLISIS

A) ÉRASE UNA VEZ… – BORCH-JACOBSEN

Su único amigo durante esos años terribles fue Wilhelm Fliess, un otorrinolaringólogo de Berlín que sostenía teorías estrafalarias sobre la periodicidad sexual en ambos sexos y en el que Fraud encontró, a falta de algo mejor, una escucha para los descubrimientos espectaculares que hacía cada día en su consulta.”

Fraud, confiando como siempre en su material clínico, había extraído en 1896 una teoría según la cual la histeria y la neurosis obsesiva eran invariablemente debidas a ‘seducciones’ infantiles de este tipo, para gran escándalo de sus colegas para los que una frecuencia tal de incestos en la buena burguesía vienesa era simplemente impensable. Un año más tarde, sin embargo, Freud tuvo que rendirse a la evidencia: las descripciones de incesto y de perversión de sus pacientes carecían de fundamento (…) Esta dolorosa constatación, que hubiera desanimado definitivamente a cualquier otro investigador, coincidió con el heroico autoanálisis que emprendió en agosto de 1897.”

B) LA VERDAD SOBRE EL CASO ANNA O.

Está pues completamente claro que la famosa talking cure, modelo original de todas las curas psicoanalíticas del mundo, había sido un fiasco total y que Breuer lo sabía pertinentemente. Sucede lo mismo con Freud, al que Breuer tenía al corriente de la evolución de su ex-paciente.”

Es evidentemente una conclusión muy embarazosa para el psicoanálisis, y he sido severamente atacado por los psicoanalistas desde que la avancé en mi libro. André Green, por ejemplo, me reprochó desde las columnas de Le Monde que no sabía de lo que hablaba, dado que era evidente para cualquier psiquiatra que el restablecimiento de Bertha Pappenheim había sido una curación <en diferido>.” “La verdad es que nadie sabe lo que provocó la curación de Bertha Pappenheim y que atribuirse el mérito, como lo hicieron con toda verosimilitud Breuer y Freud, es simplemente un abuso de confianza.” “Freud, por tanto, invirtió los papeles de los 2 protagonistas para sugerir la naturaleza sexual de la histeria de Anna O.”

Como buen alumno, Eitingon se empleó en demostrar que la sintomatología de Anna O. traicionaba las fantasías incestuosas de ésta con respecto a su padre, particularmente una fantasía de embarazo, que enseguida transfirió sobre Breuer, tomado como figura paternal (…) Es pues esta fantasía de embarazo, de hecho hipotético, reconstruido por alguien que no conocía a ninguno de los protagonistas del asunto, el que Fraud transformó inmediatamente en embarazo histérico real, con el fin de ridiculizar a Breuer y cerrar el pico a sus críticos.”

El procedimiento es perfectamente mezquino, y en cualquier otro terreno se calificaría de habladuría o calumnia. En psicoanálisis, a esto se le llama ‘construcción’.”

C) LA TEORÍA DE LA SEDUCCIÓN: UN MITO PARA NUESTRO TIEMPO – ESTERSON

Freud modificó retroactivamente la teoría que había defendido originalmente a fin de hacer plausible la nueva teoría, suprimiendo por ejemplo el hecho de que en 1896 había insistido en el carácter brutal de muchos de los atentados sexuales sobre los que construía su hipótesis.”

D) LA TEORÍA DE LA SEDUCCIÓN: UNA IDEA QUE NO FUNCIONÓ – ISRAËLS (entrevista)

Freud simplemente tuvo una idea, y no funcionó. Lo intentó a fondo, pero fue un fracaso. Entonces decidió abandonarla. Es tan tonto como esto.”

E) ERA FREUD UN MENTIROSO? – DUFRESNE, CIOFFI & ESTERSON

Los documentos y los análisis que en la actualidad son de dominio público hacen que no se pueda tomar en serio lo que Freud declaraba en esa época, está claro. No es sólo que sus declaraciones sean contradictorias. Igualmente están las incoherencias internas. Por ejemplo, Freud nos dice que los pacientes recibieron abusos de una forma particularmente atroz – habla en particular de penetraciones anales. Pero sostiene al mismo tiempo que, cuando recordaban esos episodios, sus pacientes pretendían no haber pensado nada en la época. ¿Cómo es posible que un niño que ha sido sodomizado no piense nada?”

Roy Porter, un historiador de la medicina universalmente conocido que acaba de morir recientemente, rehusaba admitir que los informes tradicionales del episodio de la teoría de la seducción fueran falsos. Al contrario, su último libro (póstumo) sigue vehiculando la versión tradicional del error de la teoría de la seducción. Todo esto es por supuesto muy irónico. Se supone que estas personas están liberadas de toda idealización – y sin embargo se reafirman en una visión idealizada e indefendible de Fraud y del pseudanálisis. La verdad, es que el movimiento psicoanalítico en su conjunto es uno de los movimientos intelectuales más corruptos de la historia. Es corrupto por consideraciones políticas, por opiniones indefendibles que siguen siendo repetidas únicamente a causa de relaciones personales y de consideraciones de carrera.”

Nos queda todavía por explicar por qué los mejores y los más inteligentes, dentro de nuestra cultura, han rechazado utilizar los métodos normales de investigación intelectual en lo que se refiere a Fraud. Sería un completo error creer que la presente actitud crítica con respecto a Fraud es resultado de la investigación de los últimos 20 años. Las pruebas de que el psicoanálisis no es una empresa seria existen desde hace por lo menos 50 años para cualquiera que quiera molestarse en leer de cerca los escritos del propio Freud. No se necesita nada excitante para darse cuenta – ni cartas escondidas, ni relaciones secretas con la cuñada, etc. La pregunta es pues ¿por qué? Me permitiría sugerir que es en parte porque Fraud ha tenido una influencia enormemente positiva, una influencia liberadora sobre la cultura del siglo XX. Gracias a él, podemos, por ejemplo, utilizar argumentos bidón [¿?] a propósito de los efectos nocivos de la represión sexual a fin de inducir a la gente a relajarse, a no ser tan estrictos con la vida sexual de los demás. Es muy positivo. Qué pena que haya sido necesario utilizar una teoría de neurosis de pacotilla para llegar a este fin, ¡pero el fin es cuanto menos muy deseable!”

F) FREUD RECICLADOR: CRIPTOBIOLOGÍA Y PSEUDOCIENCIA – SULLOWAY

(*) “Freud no había ‘descubierto’ nada en absoluto: había simplemente reemplazado una teoría traumática de las neurosis, inspirada en Charcot y en Janet, por otra teoría, de inspiración biológica y ‘fliessiana’: el psicoanálisis era, según el término de Sulloway, una <criptobiología>, una teoría biogenética disfrazada de psicología clínica para esconder su carácter perfectamente especulativo. Prosiguiendo sus investigaciones, Sulloway consiguió establecer que todos los elementos principales de la teoría freudiana de la sexualidad – la <bisexualidad>, las <zonas erógenas>, la <perversión polimorfa>, la <regresión>, la <libido>, la <represión primaria>, etc., provenían en línea más o menos directa de la sexología de la época (Krafft-Ebing, Albert Moll, Havelock Ellis), lo que demolía con un solo golpe el mito del aislamiento intelectual de F. y el pretendido <puritanismo> de sus colegas.”

(*) “La ley biogenética de Haeckel – según la cual <la ontogénesis resume la filogénesis> – era muy influyente en la biología y las ciencias humanas a finales del siglo XIX.”

Ernest Jones presenta a Fraud como un hombre que se había hecho muy impopular porque hablaba de sexualidad infantil, pero eso no se corresponde en absoluto con lo que se desprende de su correspondencia con Fliess. Fliess aceptaba aparentemente la sexualidad infantil como evidente y participaba sin reticencias en toda esta discusión.”

Cuando empecé el libro, abordé a Freud como la mayor parte de las gentes de la época, de la forma en que habría abordado a una de las grandes mentes del siglo XX, alguien comparable a Copérnico y a Darwin, tal como el mismo pretendía. Pero cuanto más estudiaba el desarrollo del psicoanálisis, más descubría que estaba fundado en hipótesis científicas que databan del siglo XIX y que habían sido definitivamente refutadas por el redescubrimiento de la ley de Mendel sobre la genética, por el abandono de la teoría de Lamarck por parte de la biología evolucionista, y por el rechazo de las diferentes hipótesis fisiológicas de Helmholtz, sin embargo tan decisivas para la teoría freudiana de la histeria y más en general en la formación de los síntomas neuróticos.”

Acabé, en todo caso, viendo más claramente al psicoanálisis como una especie de tragedia, como una disciplina que había pasado de una ciencia muy prometedora a una pseudociencia muy decepcionante. La ciencia es un proceso que comprende 2 etapas. La primera consiste en formular hipótesis, y, en ese momento, importa poco que las hipótesis sean verdaderas o falsas. En otros términos, Fraud podía de hecho tener hipótesis erróneas, fundadas en ideas o suposiciones corrientes en su época, pero que más adelante se demostraron falsas. Este no es el punto en el que la ciencia tropieza. Es en la segunda etapa en la que la ciencia se extravía más comúnmente, cuando se trata de poner a prueba estas hipótesis y de abandonarlas si se demuestra que son erróneas.”

¡El gran asunto es que Freud descubrió en su infancia cosas similares a las que precisamente estaba leyendo! No hay nada de espectacular, es de una banalidad sin nombre.”

Este autoanálisis está entre las más grandes leyendas de la historia de las ciencias. Incluso aunque Freud no hubiera el mismo propagado este aspecto de la leyenda freudiana, es interesante observar que no hizo nada para contradecirlo. [Em Biologist of the Mind Sulloway está muito mais ameno neste tema, curioso!… https://seclusao.art.blog/2021/06/02/freud-biologist-of-the-mind-beyond-the-psychoanalytic-legend-frank-sulloway-1983/]

Fue Fritz Wittels el primero que afirmó, en su biografía de Freud de 1924, que Freud debió de descubrir la sexualidad infantil en el curso de su autoanálisis. Freud leyó esta biografía con mucha atención y corrigió ciertos errores, pero nunca corrigió este, porque a mi manera de ver esta versión le convenía. Era completamente falsa, pero era el tipo de anécdota biográfica que habría tenido que ser verdadera en virtud de la teoría psicoanalítica.”

En tanto que historiador de las ciencias que ha estudiado los caminos de científicos eminentes como Copérnico, Galileo, Newton y Darwin, a menudo me he enfrentado a todo tipo de leyendas análogas. Desde este punto de vista, diría sin dudar que nunca en la historia de las ciencias una leyenda de orígenes ha sido desarrollada de manera tan elaborada como esta. El psicoanálisis es la única teoría en la historia de las ciencias que exige que su propia historia sea perfectamente coherente con la teoría elaborada por su inventor. (…) Desde un punto de vista historiográfico, este tipo de lógica circular puede ser muy nefasto. Si la teoría de Freud fuera cierta al cien por cien, se hubiera quizás podido hacer una buena historia con este enfoque conceptual. Pero, en la medida en que esta teoría es problemática, lo que se obtiene es forzosamente una historia en sí problemática – y más verosímilmente aun una historia complaciente y llena de defectos. Esta exigencia extraordinaria – que la historia de los orígenes de la teoría se explique por la teoría actual – ha creado a la historia del psicoanálisis un problema que nunca ha afrontado ninguna otra disciplina en la historia de las ciencias.”

El darwinismo triunfó; la gente se dio cuenta rápido de que Darwin tenía razón, y, hoy en día, ningún científico digno de ese nombre pone en cuestión la veracidad fundamental de la teoría evolucionista. Incluso si Darwin suscitó leyendas, éstas no fueron concebidas para proteger sus teorías, ni para inmunizarlas contra la crítica. En tanto que disciplina, el psicoanálisis nunca triunfó como lo hicieron las teorías de Darwin, y la leyenda freudiana ha continuado jugando un papel útil, políticamente hablando. Incluso hoy en día, los partidarios de la teoría psicoanalítica no dudan en utilizar indebidamente la historia para servir a sus propios intereses.

Sin embargo, no voy a decir que Fraud y sus discípulos se sentaran alrededor de una mesa y decidieran deliberadamente mentir sobre su historia. El proceso se hizo de manera mucho más sutil. En ciertos casos, estos diversos mitos fundadores que constituyeron la leyenda freudiana (he identificado a más de 20 en mi libro) eran casi inocentes puesto que, en el contexto de la teoría psicoanalítica, parecían perfectamente plausibles. Tales mitos, en cualquier caso, no eran en general explícitamente deshonestos. Pero sus formas de historia legendaria implicaban una ceguera masiva autoimpuesta. Desde el momento en que la ceguera autoimpuesta entra en juego, es siempre difícil estimar la parte de franca deshonestidad, como ha resaltado Allen Esterson a propósito de las conclusiones clínicas de Freud, que son a menudo de una falsedad flagrante. Es como preguntarse cual era la parte de deshonestidad en los agitados debates políticos que se mantenían en la Convención durante la Revolución francesa, cuando los diputados se caricaturizaban unos a otros y se condenaban mutuamente a la guillotina. Es importante comprender que cada parte creía en su propia propaganda. A.A. Brill describió la forma en que los primeros discípulos del hospital psiquiátrico de Burghölzli de Bleuler se analizaban entre ellos desde el momento en que uno solo de ellos hacía alguna cosa que se saliera de lo ordinario, como dejar caer una cuchara u olvidar su propio nombre.”

Los psicoanalistas parecen poseer efectivamente anticuerpos que los inmunizan a los cara a cara de la historia, sobre todo porque en psicoanálisis nada se considera que es lo que parece. El contenido <manifiesto> de los pensamientos y de los sueños, por ejemplo, nunca es más que una capa superficial y deformada del contenido <latente> u oculto. El trabajo histórico de un psicoanalista consiste a menudo en mostrar que aquello que un historiador no-psicoanalista ha podido escribir sobre tal o cual asunto – ya se trate de la historia del movimiento psicoanalítico o de cualquier otro aspecto de la psicohistoria – es erróneo.”

Si el principio fundador de un pensamiento ‘científico’ es que nada es lo que parece ser, se llega pronto a una situación en la que nada puede ser demostrado, ya que no te puedes fiar de nada (si no es lo que confirma lo que se creía ya). Supongamos que produzco un conjunto de documentos históricos sobre, digamos, una idea que Fraud habría sacado de Richard von Krafft-Ebing. Bien, el psicoanalista medio que tiende a defender la originalidad de Freud dirá: <¡Ah, esto no es más que una prueba superficial – una prueba del tipo ‘contenido manifiesto’! Freud utilizó de una forma radicalmente diferente esta idea que tomó prestada de Krafft-Ebing, puesto que Freud es un verdadero genio original, no un gorrón intelectual>.”

el psicoanálisis volvió a la escolástica y a la tradición medieval que precedían a la revolución científica, creando pequeños institutos privados en el seno de los cuales el saber podía enseñarse de forma dogmática y donde se enseñaba a los alumnos a superar sus ‘resistencias’ a la teoría.”

Es imposible esperar que un alumno, que ha pasado algunos años en las condiciones artificiales y en ocasiones confinadas del análisis didáctico y del que su carrera profesional depende del nivel de satisfacción de su analista en lo que concierne a su capacidad de superar sus ‘resistencias’, pueda tener los medios de defender su integridad científica contra las teorías y las prácticas de su analista. Cuanto más permanece en el análisis didáctico, menos es capaz de hacerlo. Puesto que según su analista, las objeciones del estudiante a sus interpretaciones revelan ‘resistencia’. En una palabra, hay una tendencia inherente a la situación del análisis didáctico a persistir en el error.”

Edward Glover

Él es directamente responsable de la privatización de la formación psicoanalítica, y esta privatización equivalía de dejar de poner a prueba la validez de sus hipótesis, en otros términos de rechazar los principios científicos conquistados tras dura lucha en el curso de los 4 últimos siglos y por tanto a rechazar las más importantes conquistas de la revolución científica.”

El psicoanálisis quizás fue una ciencia en 1895, quizás aun en 1900; pero a partir de 1915 o 1920 – es decir, en la época en la que hizo del análisis didáctico un elemento obligado de la formación psicoanalítica –, esta disciplina ya no podía pretender ser realmente científica. A partir del hecho de su modo de formación rígido, el psicoanálisis ha dejado de ser una ciencia, y cuando una disciplina deja de ser una ciencia, se convierte en una pseudo-ciencia.”

En los años 70, apareció un magnífico artículo escrito por George Weisz, consagrado a los aspectos sectarios del psicoanálisis, y creo que nadie hasta ahora ha tratado mejor este tema que este análisis penetrante. Incluso los propios discípulos de Freud, como Hanns Sachs o Max Graf, han evocado a menudo los aspectos sectarios de la comunidad psicoanalítica.”

2. LAS FALSAS CURACIONES

A) FREUD COCAÍNOTERAPEUTA – ISRAËLS

Antes de practicar el psicoanálisis, Freud realizó en efecto algunas experiencias con la cocaína: con la ayuda de este producto, intentó liberar a una persona de su dependencia de la morfina. Tenemos aquí uno de los raros casos en los que podemos controlar las afirmaciones de Freud concernientes a uno de sus tratamientos.”

algunos meses después del inicio del tratamiento, Freud escribía a su prometida que no se sentía bien y que, por esta razón, había pedido a Fleischl un poco de cocaína – una sustancia que, según Freud, su amigo consumía entonces regularmente.”

Algunos meses más tarde, Freud escribía a Martha que Fleischl había recibido una carta de un fabricante alemán de cocaína. El fabricante había constatado que Fleischl consumía mucha cocaína y le preguntaba lo que sabía de los efectos que producía. Es probable que el fabricante pensara que Fleischl la utilizaba para experiencias científicas. Fleischl había remitido al fabricante a Freud, y éste escribió a su prometida que esperaba sacar provecho de ese contacto con el fabricante. Parece que Fleischl utilizaba cantidades importantes de cocaína, pero a Freud – al decir de sus cartas – no parecía inquietarle mucho. No fue hasta 6 meses más tarde, cuando Freud escribió a su prometida que Fleischl iba muy mal. Estaba en una situación tal que Freud lo velaba de forma regular durante la noche. En mayo de 1885, un año después del inicio del tratamiento, Freud apuntaba en una carta a Martha que Fleischl sólo se mantenía con la ayuda de cocaína y morfina, y que había utilizado grandes cantidades de cocaína en los últimos meses. El consumo había sido tal que había provocado una intoxicación crónica que había acarreado un grave insomnio y una especie de delirium tremens. Fleischl sufría ataques de pánico. Creía sentir a pequeños animales circulando por su piel y se rascaba los brazos hasta sangrar. Iba tan mal que decía que se suicidaría en el momento en que sus padres murieran.”

Freud no demostraba ningún escrúpulo en presentar una terapia desastrosa como un éxito espectacular. Un investigador que comunica sus resultados de esta manera no merece ser tomado en serio.”

Gracias a las cartas de Freud a su prometida sabemos hasta qué punto embelleció sus resultados. Esas cartas se conservan en la biblioteca del Congreso en Washington, pero la mayor parte de ellas se mantuvieron en secreto hasta el principio de los años 2000. Una de las raras personas que pudo consultarlas antes de esa fecha es Ernest Jones, el biógrafo autorizado de Freud. Para conocer el tratamiento de Fleischl, puede leerse el primer tomo de su obra, aparecido en 1953.”

Freud escribió alrededor de mil cartas a su prometida. Solamente están publicadas un centenar. En éstas, no se dice nada del desarrollo dramático del tratamiento de Fleischl. Al principio de los años 90, pude leer la trascripción de 300 cartas no-publicadas. Sobre esta base, he podido reconstruir el tratamiento de Fleischl. He dado cuenta de ello, de forma detallada en mi libro Le Cas Freud, escrito en holandés, traducido al alemán y al español.”

B) EL MÉDICO IMAGINARIO – BORCH-JACOBSEN

Una de las razones por las que ha sido necesario tanto tiempo para hacerse una idea más precisa de la eficacia de los análisis practicados por Fraud es, evidentemente, que no se conocía la identidad real de sus pacientes. Protegido por el secreto médico, Freud podía pues permitirse escribir no importa qué, y sólo de forma muy progresiva la realidad ha salido a la luz, a medida que los historiadores conseguían identificar a las personas que se escondían detrás de los pintorescos nombres de Elisabeth von R., del Hombre de los lobos o del Pequeño Hans. En la actualidad es cosa hecha (sólo Miss Lucy R. sigue desafiando obstinadamente las investigaciones de los historiadores) se empezar a realizar un balance más realista de los resultados terapéuticos obtenidos por Freud.”

Anna von Lieben (…) Su hija hubo de declarar más tarde a Kurt Eissler, que la entrevistaba para los Archivos Freud, que la familia detestaba cordialmente a Freud (<lo odiamos todos>) y que la propia paciente se interesaba bastante menos por la cura catártica que por las dosis de morfina que el doctor le administraba liberalmente:”

De hecho, Ida Bauer no manifestó ningún signo de neurosis o de inestabilidad psíquica en su vida ulterior. En 1923, Felix Deutsch, el médico personal de Freud, escribía a su mujer Hélène que había encontrado a la <Dora> del Profesor y que <no tenía nada bueno que decir a propósito del análisis>

Según los cálculos de Stadlen, es <muy probable> que Ida Bauer, contrariamente a lo que escribe Freud, no tuviera más de 13 años en el momento de este episodio, lo que evidentemente convertiría su reacción en algo aun más comprensible (y los acosos pedófilos de M. Zellenka en francamente criminales a los ojos de la ley austriaca de la época); ver Anthony Stadlen, ‘Just how interesting psychoanalysis really is’, Arc de Cercle, An International Journal of the History of the Mind-Sciences. vol. 1, nº 1, 2003, p. 158, n. 29.”

La historia de la ‘enfermedad y curación’ del pequeño Herbert Graf no es una más, como la de Aurelia Kronich o la de Ida Bauer. Freud y su padre, Max Graf, derrocharon tesoros de ingeniosidad psicoanalítica para curarlo de lo que Fraud llamaba una fobia a los caballos, que se consideraba que provenía del complejo de castración del niño. Herbert, que parece haber tenido considerablemente más sentido común que sus 2 terapeutas, atribuía su miedo a los caballos y a los animales grandes a un accidente de ómnibus del que había sido testigo, en el curso del cual 2 caballos habían caído al suelo sobre sus espaldas. Con esta segunda hipótesis, bastante más simple y prosaica, no hay que sorprenderse de que las angustias con respecto a los animales del niño fueran atenuándose espontáneamente después de algún tiempo. ¡Lo sorprendente es que Herbert saliera indemne del espantoso interrogatorio edipiano-policial al que le sometieron su padre y Freud!”

sesenta años después, Pankejeff seguía siendo un sujeto con pensamientos obsesivos y accesos de depresión profunda”

Lo que es inexcusable es la constancia con la que pretendió obtener resultados profundos y duraderos mientras sabía pertinentemente que no tenía nada, incitando a innumerables pacientes a lanzarse a análisis largos y costosos en lugar de inclinarse por terapias menos ambiciosas y quizás más eficaces.”

C) ¿QUIÉN TEME AL HOMBRE DE LOS LOBOS? – SULLOWAY

Strachey dijo de este caso que era <el más documentado y sin ninguna duda el más importante de todos los casos históricos de Freud>. Es generalmente considerado por los psicoanalistas como un éxito terapéutico considerable.” “Gracias a los esfuerzos de una periodista austríaca, Karin Obholzer, que consiguió seguir el rastro del Hombre de los lobos en Viena a principio de los años 70, tenemos ahora acceso a las propias impresiones de éste sobre su análisis con Fraud.”

La teoría era, le decía a Obholzer, que Freud me había curado al cien por cien… Y por esa razón Muriel Gardiner me animó a escribir mis memorias.”

Los psicoanalistas son un problema, no hay ninguna duda en eso”

Cuando el Hombre de los lobos manifestó su deseo de emigrar a América para huir de esta situación costosa y desagradable, se le disuadió de su petición de forma repetida, aparentemente porque el movimiento psicoanalítico prefería procurarle un sostén financiero en Viena, donde vivía en el anonimato, antes de correr el riesgo de que este paciente célebre – y altamente neurótico – de Freud fuera descubierto en América. (¡Imagínenle a punto de <hablar de todo> en el plató de una de las grandes cadenas de televisión americanas!) Eissler y otros analistas desplegaron igualmente esfuerzos sostenidos para disuadir al Hombre de los lobos de que se entrevistara con Karin Obholzer, cuyos esfuerzos sólo tuvieron éxito gracias a su extraordinaria perseverancia y a la promesa que hizo a su informador, que tenía miedo, de no publicar sus entrevistas hasta después de su muerte. Estas entrevistas constituyen, podría decirse, la última protesta del Hombre de los lobos hacia las falsas promesas y las decepciones del psicoanálisis.”

Como demostró Eysenck, el fracaso del psicoanálisis en alcanzar las tasas superiores que se había fijado debería ser considerado como una prueba manifiesta de su fracaso teórico.”

D) EL ANÁLISIS INTERMINABLE, O CÓMO NO CURARSE POR MALAS RAZONES – STENGERS (entrevista em grupo)

(*) “En su libro El corazón y la razón, uno de esos raros libros que en Francia ha osado atacar de frente las pretensiones del psicoanálisis, la filósofa de las ciencias Isabelle Stengers y el psicoanalista-hipnoterapeuta [¡?] Léon Chertok han analizado el fracaso del proyecto teórico-terapéutico freudiano y la forma en que la comunidad analítica ha evitado extraer las consecuencias enorgulleciéndose de no curar a la gente de forma ilusoria (entendámonos: de forma contraria a la teoría analítica del momento).”

La grandeza de Fraud fue plantear el desafío de la ciencia en un terreno que escapaba de ella, intentando crear un fenómeno fiable a partir del cual una discusión fuera posible. Pero era aquí también donde debía forzosamente fracasar.”

En ese artículo de 37, Freud confiesa en términos muy claros el fracaso de toda su empresa, y es solamente, dicen ustedes, porque la comunidad psicoanalítica se organizó para disimular o minimizar las cosas, que no nos hemos dado cuenta de la enormidad de esa confesión del fundador del psicoanálisis.

Digamos que se puede leer esa confesión de 2 maneras. Se puede leer, y es lo que nosotros hicimos, como el último de los escritos técnicos de Freud. Desde este punto de vista, te preguntas verdaderamente por qué no figura al final del volumen que se considera que reúne en francés los escritos técnicos de Freud. Es evidente que es un texto que tiene la misma esencia, los mismos ingredientes que los demás escritos en los que Fraud presenta su técnica terapéutica. O, si se lo lee en continuidad con los demás escritos técnicos, lo único que podemos ver es una confesión de fracaso, totalmente claro y totalmente explícito. Fraud muestra con enorme insistencia que la relación de fuerza entre el paciente y el analista es desfavorable a este último, en el sentido de que todo lo que éste puede movilizar contra las resistencias del paciente no es suficiente, casi nunca para eliminarlas. Por tanto la técnica psicoanalítica no había cumplido sus promesas, decepcionó al viejo Fraud exactamente de la misma manera que la hipnosis le había decepcionado en los tiempos del inicio del psicoanálisis. Desde este punto de vista, este artículo traza una línea sobre el psicoanálisis, una línea verdaderamente final, y, si se lee desde esa perspectiva, como hicimos, es completamente evidente.”

Fue el factor cuantitativo, dicho de otra manera, la eficacia alegada de la cura psicoanalítica la que le sirvió para promocionar el análisis como una psicoterapia diferente a las demás. De repente, se dice que este ‘tenemos razón cualitativamente’ suena muy hueco. Flota en el aire, ya que ha perdido el apoyo que Fraud le había dado antes. En realidad, este ‘cualitativamente tenemos razón’ equivale simplemente a un ‘existimos y vamos a continuar existiendo’. Y es así como lo han entendido los psicoanalistas”

No se puede hablar de resistencia salvo en la medida en que se puede vencer a la resistencia, y es precisamente lo que pretendía Fraud al inicio, al hacer coincidir el análisis de transferencia, la curación y la prueba.”

Nuestra práctica es una estafa, embaucar [engañar], asombrar a la gente, deslumbrarla con palabras afectadas, o por lo menos eso que se llama habitualmente afectación. […] desde el punto de vista ético, nuestra profesión es insostenible; y desde luego por eso estoy enfermo, porque tengo, como todo el mundo, un superego. […] Se trata de saber si Fraud es o no un acontecimiento histórico. Yo creo que falló el golpe. Es como yo, en poco tiempo, todo el mundo se cachondeará [troçará] del psicoanálisis.

J. Lacan, extractos de una conferencia pronunciada en Bruselas el 26 de febrero de 1977 en Le Nouvel Observateur nº 880, septiembre 1981, p. 88. En su seminario del 15 de marzo de 1977 en París, Lacan matizaba lo que había soltado en Bruselas:

Creo que, como estáis informados por los belgas, habrá llegado a vuestros oídos que hablé del psicoanálisis como si pudiera ser una estafa. […] El psicoanálisis es quizás una estafa, pero esto no es una estafa cualquiera – es una estafa que cuadra en relación a lo que es significativo, es decir algo muy especial, que tiene efectos de sentido

in: Ornicar?”

3. LA FABRICACIÓN DE LOS DATOS PSICOANALÍTICOS

A) SCHREBER Y SU PADRE – SULLOWAY

El caso de Daniel Paul Schreber concierne a un magistrado alemán afecto de psicosis que Freud nunca contó, pero que analizó a partir de las Memorias que aquel publicó y en las que describía su enfermedad. Los numerosos defectos de su análisis han sido puestos en evidencia por los eruditos Niederland, Schatzman, Israëls y Lothane. Dos aspectos de este caso han sido significativamente reconsiderados por estos investigadores: la relación de Schreber con su padre y por otra parte su supuesta homosexualidad.”

Fraud, que ya había elaborado su teoría de la paranoia antes de tropezar con las Memorias de Schreber, ni siquiera se tomó la molestia de leer los trabajos del padre. Sin embargo, parece que hay una relación entre las alucinaciones del hijo (sensación de tener el pecho oprimido, la cabeza comprimida, los cabellos estirados) y varios aparatos cuya utilización recomendaba el padre para forzar a los niños a mantenerse derechos. Por ejemplo, Moritz Schreber alababa los méritos de un ‘enderezador’ que impedía que el niño se inclinara hacia delante cuando escribía o leía. El instrumento consistía en una barra horizontal fijada a la mesa frente al niño y que oprimía su pecho a la altura de los hombros y las clavículas. Otro aparato, el ‘soportador de cabezas’, animaba al niño a mantener derecha su cabeza tirándole del pelo cada vez que la dejaba caer. Se ignora si Daniel Paul Schreber fue alguna vez sometido a una de estas máquinas, pero Niederland y Schatzman han argumentado con razón que las alucinaciones, que Freud interpreta como signos de una homosexualidad reprimida, tienen una relación con los métodos de educación de su padre.”

Si Moritz Schreber era severo en el tema de la compostura de sus hijos y les imponía ideales sociales elevados, recomendaba también ser ‘alegre con el niño, hablarle, reír, cantar y jugar con él’, y subrayaba la importancia de hacerle a menudo elogios. Sobre todo, decía, no había que hacer del ‘niño el esclavo de una voluntad que no era la suya’. Algo que ni Niederland ni Schatzman mencionan.

Pero si Niederland y Schatzman deformaron efectivamente la figura del padre que era Moritz Schreber, Fraud fue mucho más lejos omitiendo pruebas concretas y determinantes de su personalidad y de sus convicciones pedagógicas. Si esta omisión se hubiera hecho por ignorancia, sería comprensible. Pero, en realidad, Fraud era muy consciente de ciertos hechos que contradecían sus afirmaciones con respecto al padre. En una carta notable a Sándor Ferenczi, escrita mientras trabajaba en el caso Schreber, describía a Moritz con los rasgos de un ‘tirano doméstico’. Sabía eso a través del doctor Arnold Georg Stegmann, un adepto del psicoanálisis que conocía no solamente a los diferentes psiquiatras que habían tratado a Daniel Paul Schreber, sino también a ciertos miembros de su familia. De forma sorprendente, Fraud suprimió esta información en su relato del caso, donde describe por el contrario a Moritz Schreber como un ‘padre excelente’.”

Fraud estaba deseoso de mostrar que la paranoia era causada por una homosexualidad reprimida y, en el caso preciso de Schreber, por un deseo homosexual reprimido hacia su padre. Antes de su enfermedad, Schreber no había dado prueba de inclinaciones homosexuales. Sin embargo, justo antes de una de sus hospitalizaciones, mientras estaba aun medio dormido, Schreber había sido súbitamente presa del pensamiento ‘particularmente extraño’ de que ‘debe ser muy agradable ser una mujer experimentando el acoplamiento sexual’.”

Lothane concluye después de un examen minucioso de las Memorias de Schreber que Fraud ‘manipuló los acontecimientos descritos por Schreber y los transformó para que correspondieran a su teoría’. Estas distorsiones incluían la imputación a Schreber de deseos homosexuales bajo los pretextos más dudosos y el silencio observado por Fraud sobre la rabia de Schreber contra su psiquiatra cuando éste le hizo internar en un asilo para incurables (Schreber había sido ya tratado y curado por ese mismo psiquiatra 10 años antes). Después de que su delirio se estabilizara en una serie de alucinaciones inofensivas, Schreber luchó varios años para obtener su salida del asilo. Utilizando brillantes argumentos jurídicos para su defensa, ganó finalmente la causa ante un tribunal alemán, a despecho de las protestas obstinadas del director del asilo.”

Fuera lo que fuera, Fraud evidentemente consideró que el retrato de un Moritz Schreber déspota y perseguidor de sus hijos sólo podía debilitar su hipótesis de una homosexualidad y de un complejo de Édipo invertido en el origen de la enfermedad del hijo. Un padre de tal manera superior, dice Fraud, era evidentemente propicio a su transformación en Dios en la memoria afectuosa de su hijo. En efecto, según Freud, es ‘el hecho de que la tonalidad del complejo paternal era positiva’ y ‘sin nubes’ lo que permitió finalmente a Schreber aceptar sus fantasías homosexuales y conseguir una curación parcial.”

B) EL HOMBRE DE LAS RATAS COMO ESCAPARATE DEL PSICOANÁLISIS – SULLOWAY

Incluso los relatos de casos atendidos por Freud más completos y aparentemente con éxito están manchados por ‘construcciones’ inciertas y por la ausencia de un seguimiento adecuado. El caso del hombre de las ratas ilustra particularmente bien esta afirmación. Fraud publicó esta historia porque le hacía falta demostrar al mundo que el psicoanálisis podía obtener resultados terapéuticos satisfactorios. Como el Hombre de las ratas había consultado previamente a Julius von Wagner-Jauregg, el eminente psiquiatra y colega de Fraud en la Universidad de Viena, su caso constituía una puesta a prueba decisiva de los dones terapéuticos de Freud. Antes del mes de octubre de 1908, cuando consagró una comunicación a este caso en el I Congreso de psicoanálisis de Salzburgo, no había publicado aun los resultados de un psicoanálisis con éxito. Por sorprendente que esto pueda parecer, no se sabía si había tenido éxito en los análisis después de que Dora huyera de su consulta en 1900. No tengo ningún caso terminado y que pueda ser considerado como un todo’, advertía a Carl Jung en una carta del 19 de abril de 1908, solamente una semana antes del Congreso de Salzburgo. Freud también había considerado presentar extractos del relato de caso del pequeño Hans, del que supervisaba en aquel momento el tratamiento. Pero el pequeño Hans rehusó ser curado en la fecha prevista, y el Hombre de las ratas se convirtió, parece ser que por defecto, en la primera comunicación pública de Fraud con respecto a una curación psicoanalítica.”

Lanzer – en tanto que rata y mordedor – tenía una fantasía inconsciente de relación anal con su padre y su amiguita. Este espantoso pensamiento, reprimido en el inconsciente por Lanzer, había sido la causa de sus síntomas obsesivos. Como análisis final, su motivo psicológico era la agresividad de Lanzer con respecto a su padre del que Freud pensaba, sobre la base de una reconstrucción psicoanalítica suplementaria, que había interrumpido la vida sexual precoz de su hijo y había amenazado con castrarlo. Según Freud, la comunicación de esta reconstrucción edipiana ‘había conducido a la restauración completa de la personalidad del paciente, y a la supresión de sus inhibiciones’.

Mahony ha puesto en evidencia numerosas e importantes contradicciones entre el relato de caso publicado por Fraud y sus notas de análisis encontradas entre sus papeles después de su muerte. Según Mahony, que es a su vez analista y que se adhiere a los principios del psicoanálisis, la versión del caso publicada por Freud presenta los hechos de forma ‘confusa’ e ‘inconsistente’, y comporta omisiones ‘flagrantes’. En particular, Fraud otorga una importancia exagerada al papel del padre en detrimento del de la madre. Mahony muestra además que Freud dio una apreciación engañosa de la duración del tratamiento de su paciente. Las notas del análisis revelan que Fraud siguió cotidianamente a su paciente durante apenas un poco más de 3 meses. El análisis fue irregular los 3 meses siguientes y a lo sumo esporádico después de eso. (De hecho, no hay ningún rastro de tratamiento pasados los 6 primeros meses.) Freud sin embargo pretendía haber tratado a su paciente ‘durante más de 11 meses’, lo que según Mahony es de hecho imposible y representa pues una distorsión ‘deliberada’ por su parte.”

Más bien, la relación entre la masturbación del Hombre de las ratas y la muerte de su padre fue en gran parte creada por Freud y no propuesta espontáneamente por su paciente por ‘libre asociación de ideas’. Con el fin de hacer su explicación aun más convincente, Freud suprimió la palabra ‘alrededor’ de la frase original (‘alrededor de 21 años’) e insertó las palabras ‘poco tiempo’ en la frase ‘después de la muerte de su padre’. En realidad, el padre había muerto 2 años antes, cuando Lanzer tenía 19 años.”

El Hombre de las ratas – curado o no – fue manifiestamente utilizado como un escaparate por el naciente movimiento psicoanalítico. Que le vaya bien a este título que este caso haya entrado en la historia (y que haya permanecido en los ojos de los fieles), es lo que muestra la conclusión de Peter Gay, según la cual ‘sirvió para apuntalar las teorías de Fraud, particularmente aquellas que postulaban que la neurosis está enraizada en la infancia… Fraud no era lo bastante masoquista como para no publicar más que un problema de ajedrez’.”

C) UN CIUDADANO POR ENCIMA DE TODA SOSPECHA – BORCH-JACOBSEN

Durante mucho tiempo, Fraud fue considerado como un ciudadano por encima de toda sospecha, cuya probidad y rigor no se sabría poner en cuestión. Pero, desde que la duda se instaló en cuanto a la fiabilidad de sus observaciones y relatos de casos, los historiadores no dejan de descubrir en sus textos anomalías muy alarmantes. Todo sucede como si hubiera sido necesario desembarazarse de la imagen idealizada del fundador para ver finalmente extravagancias que deberían de haber saltado a los ojos de no importa cual investigador un poco atento.”

Está claro que Fraud no dudaba un solo instante en modificar los datos a su disposición cuando éstos no coincidían con sus hipótesis, al estilo de un matemático ‘redondeando’ sus cálculos para tener un resultado justo. No es sorprendente, en estas condiciones, que sus análisis sean a menudo tan convincentes: ¡todo lo que podría contradecirlos había sido silenciosamente eliminado, o subrepticiamente modificado!”

El análisis de Fraud es muy satisfactorio para la mente, pero choca con un detallito testarudo: Fraud, que no era particularmente versado en historia del arte, verosímilmente no conocía el nombre de Boltraffio en el momento en que se dirigía en tren hacia Trebinje en Herzegovina, es decir, alrededor del 6 de septiembre de 1898. Según la minuciosa reconstrucción cronológica de Swales, no fue hasta varios días más tarde, con ocasión de una estancia en Milán entre el 14 y el 17 de septiembre, cuando pudo observar la estatua de Boltraffio bajo un monumento erigido por Magni en honor de Leonardo da Vinci, en la Piazza della Scala (se acordaba todavía en 1907 cuando el psiquiatra Paul Näcke le reprochaba, sin razón, haber deletreado mal el nombre del pintor). Fue también en Milán – exactamente el 14 de septiembre – cuando Freud adquirió el libro del famoso anatomista/historiador del arte Giovanni Morelli, Della pintura italiana, en el que se encuentra un pasaje sobre Boltraffio (al que le remite significativamente Fraud, en su respuesta a Näcke). Fue sin duda en esta ocasión cuando Fraud supo que Morelli (un autor de método con el que compararía más tarde el suyo) había legado su colección de pinturas del renacimiento a una escuela de arte de Bérgamo, ya que fue allí donde se presentó de improviso el 17 de septiembre después de dejar Milán. Entonces, recorriendo las piezas de la Galleria Morelli en el orden indicado por el catálogo, Fraud no pudo dejar de ir a parar a los números 20, 21 y 22:

Luca SIGNORELLl, Madonna col Bambino

Sandro BOTTICELLI, Ritratto di Giuliano dei Medici

Giovanni Antonio BOLTRAFFIO, Salvator Mundi

Como resalta Swales, la probabilidad de que obras de estos 3 pintores estuvieran colgadas en un mismo muro eran mínimas, dado el carácter relativamente oscuro de Boltraffio. En cuanto a las probabilidades de que Fraud reuniera en el pensamiento precisamente a esos 3 pintores 2 semanas antes de tropezar al azar con el mismo trío en Bérgamo, tienden a cero. A menos que admitamos una coincidencia tan sorprendente, debemos pensar que el episodio del olvido del nombre de ‘Signorelli’ y su reemplazo por ‘Boltraffio’ y ‘Botticelli’, si tuvo lugar como Fraud nos cuenta, data del 17 de septiembre o poco después (el 22 de septiembre, Fraud exponía ya el principio de su análisis a Fliess). Pero, si ese es el caso, la sustitución la sustitución de ‘Signorelli’ por ‘Boltraffio’ y ‘Botticelli’ se explica por simple contigüidad, sin que sea necesario hacer intervenir la compleja reflexión inconsciente alegada por Fraud. Esta es una construcción perfectamente gratuita y artificial, destinada a epatar [asombrar] a los lectores, y Fraud no podía ignorarlo en el momento en que lo comunicó a Fliess: ‘¿Cómo voy, pues, a hacer esto creíble a alguien?’. Sin duda esta es la razón por la que experimentó la necesidad de antedatar su olvido, colocándolo antes de su visita a Bérgamo: debía serle particularmente penoso reconocer que estaba inventando.”

¿pero y si Fraud y ‘Monsieur Aliquis’ fueran la misma la persona?” “El análisis de Swales fue durante tiempo (sic) muy controvertido, pero recibió recientemente una confirmación independiente de lo más sorprendente. Resulta en efecto, que el domingo 23 de septiembre de 1900, sólo un día antes de que Fraud anunciara a Fliess que iba a iniciar la redacción de la Psicopatología de la vida cotidiana, la Neue Freie Presse, el periódico que Fraud leía religiosamente todas las mañanas, había publicado un artículo del gran crítico danés Georg Brandes que evocaba largamente… la capilla de San Gennaro en Nápoles y el milagro de la licuefacción de la sangre – es decir, ¡el mismo milagro que Freud afirmaría incesantemente que había venido a la mente de un cierto ‘Monsieur Aliquis’ durante el verano anterior! Esta sorprendente coincidencia, revelada por Richard Skues, hay que ponerla en relación con el hecho de que Brandes, una de las grandes admiraciones de Fraud, había publicado una biografía de Ferdinand Lassalle a la que Fraud había tomado de prestado el epígrafe de su propia Interpretación de los sueños (Flectere si nequeo superos Acheronta movebo) y en la que se encontraba igualmente mencionado en buen lugar… el verso de Virgilio ‘Exoriar(e) aliquis…’, citado por Lassalle en uno de sus famosos discursos. Si se añade a esto el testimonio de Jung, según el cual Freud tenía la costumbre de citar este mismo verso, difícilmente podemos escapar a la conclusión de que el ‘Monsieur Aliquis’ de la Psicopatología de la vida cotidiana no es otro que el mismo Sigmund.”

Igual que en el caso del olvido del nombre ‘Signorelli’, el hecho de que Fraud omita señalar su lectura reciente del artículo de Brandes y proyecte el episodio del olvido a una fecha anterior demuestra bastante que intenta disimular la relación de otro modo flagrante entre los dos.”

Parece que pasa exactamente lo mismo con ciertas asociaciones citadas en el famoso análisis del ‘sueño de la inyección puesta a Irma’ que abre La interpretación de los sueños. Fraud había tenido ese sueño la noche del 23 al 24 de julio de 1895, y fue el primero, nos dice, que ‘sometió a una interpretación en profundidad’. Es por tanto poco probable que hiciera ese análisis ‘en profundidad’ el mismo día, ya que la interpretación de ese sueño que se encuentra en el Proyecto de una psicología enviado a Fliess 3 meses más tarde es extremadamente frustrante cuando se la compara con la propuesta en 1899 en La interpretación de los sueños. No solamente falta la teoría de la consecución del deseo, como ha observado Frank Sulloway, sino que se buscan en vano las múltiples asociaciones entrecruzadas que hacen el análisis de La Interpretación de los sueños tan eminentemente convincente.”

¿Hay que admitir entonces que añadió a posteriori asociaciones que no había hecho en 1895, con el fin de adornar su análisis y de dar una ilustración más impactante de su nuevo método de interpretación? No solamente es muy plausible, sino que Robert Wilcocks, un profesor de literatura comparada de la Universidad de Alberta, cree haber encontrado la prueba.

En el curso de su análisis del sueño, Fraud hace en efecto alusión a la difteria de su hija Mathilde, que había estado a punto de morir: ‘La mancha blanca (en la garganta de Irma) recuerda a la difteria y así la amiga de Irma, pero además la grave afección de mi hija mayor hace cerca de 2 años y todo el espanto de ese mal periodo’. Algunas líneas más adelante, Fraud asocia a su hija con una de sus pacientes, Mathilde Schleicher, a la que involuntariamente había causado la muerte al prescribirle Sulfonal. Lo que Fraud no menciona, pero que ciertamente jugó un papel en su asociación entre las dos Mathildes, es el hecho de que Mathilde Schleicher, poco antes de morir de una porfiria aguda causada por el Sulfonal, tenía la orina roja, al igual que la difteria de Mathilde Fraud había provocado albuminuria. (El tema de la albuminuria en la orina reaparece un poco más adelante en las asociaciones de Fraud, pero sin la referencia explícita a Mathilde Fraud.) ¿Entonces cuando había Mathilde Fraud había tenido una difteria seguida de una albuminuria? Gracias a la edición completa (es decir, no-censurada) de las cartas a Fliess, lo sabemos ahora: fue en marzo de 1897, es decir ¡2 años después del sueño de la inyección que le pusieron a Irma! Freud pues, interpoló en sus asociaciones un elemento que no pudo, evidentemente, jugar el menor papel en su sueño. El procedimiento es tan grosero que basta para poner en el ridículo más absoluto el método de interpretación de los sueños promovido por Fraud en sus célebres páginas.

Dada la importancia de lo que hay en juego, el hallazgo de Wilcocks fue objeto de una de esas disputas eruditas que agitan regularmente el pequeño mundo de los estudios fraudianos. Peter Swales y Richard Skues, entre otros, objetaron que no se puede excluir a priori que Mathilde Fraud hubiera estado afecta una 1ª vez de difteria (o de otra enfermedad falsamente diagnosticada como tal) en 1893, aunque no se encuentre por ninguna parte en la correspondencia de Fraud. Contrariamente a lo que afirmaba Wilcocks sobre la base de informaciones aportadas por colegas de la facultad de medicina de Alberta, es en efecto posible (aunque muy raro) reinfectarse una 2ª vez, y eso es lo que parece indicar una carta de Fraud a Fliess del 9 de noviembre de 1899, en la que escribía que ‘cuando Mathilde tuvo la difteria por 2ª vez’, un colega había preguntado al portero ‘si la hija de Fraud había muerto ya’. Esto, sin embargo, entra en conflicto con el testimonio unánime de los propios miembros de la familia Fraud.” “Si los investigadores retroceden de nuevo a partir de ahora frente a la desagradable hipótesis de la mentira, a Fraud se le concederá automáticamente el beneficio de la duda a pesar de haber equivocado a menudo a sus lectores. Por el contrario, es la desconfianza la que se convierte actualmente en la regla. Fraud ya no es un ciudadano por encima toda sospecha.”

D) EL HOMBRE DEL BUITRE: FREUD Y LEONARDO DA VINCI – ISRÄELS

Aê Urubuzada! Aê Milhafrada!

Basándose en un recuerdo de infancia, muy corto y curioso, Freud cree poder explicar varios aspectos de la personalidad de da Vinci, su genio científico y el hecho de que habría sido homosexual. [como se maioria dos italianos do renascimento não o fosse!] Después de la publicación de su libro Un recuerdo de la infancia de Leonardo da Vinci, el detalle del recuerdo sobre el que se basaba la demostración de Fraud se demostró inexacto. Sin embargo, Fraud no puso en absoluto en cuestión su interpretación. Puede deducirse que el razonamiento psicoanalítico tiene menos necesidad de material de lo que el propio analista pensaba en un principio. Incluso un pequeño detalle no es necesario: el psicoanálisis funciona igualmente bien cuando se basa en un hecho inexistente.”

Fraud no duda en hacer lo que ningún historiador del arte ha osado hacer. Afirma que da Vinci pasó los primeros años de su vida solo con su madre. Esta situación – vivir solo con una madre soltera durante los primeros años de la infancia – tuvo, según Fraud, consecuencias muy pesadas”

En el curso de un vuelo, el buitre abre su vagina y se hace fecundar por el viento. Esta leyenda egipcia fue utilizada por los Padres de la Iglesia para acreditar la creencia en la concepción de Jesús por María sin intervención de un hombre.”

Un chico que ha crecido viviendo solo con su madre se une a ella hasta un punto en que no querría, más adelante, serle infiel amando a otras mujeres. Se convertirá pues en homosexual. Fraud explica así por qué da Vinci debía ser homosexual.”

En 1923, el historiador del arte Eric Maclagan reveló que toda la construcción de Fraud se basaba en un error de traducción. Da Vinci había escrito que el ave de su recuerdo era un ‘nibio’ – que hoy en día se escribe nibbio. Resulta que un nibbio no es un buitre sino un milano. El milano no juega ningún papel en la mitología egipcia y no sirvió a los Padres de la Iglesia para hacer comprensible la concepción de Jesús por una virgen.” “En ruso, la palabra korshun designa igualmente a un buitre y a un milano. El traductor alemán había cometido el error de elegir el primero de esos dos términos. Pero poco importa, el psicoanálisis funciona incluso cuando se basa en cosas que no han tenido lugar”

Yo mismo he publicado las pruebas del hecho de que Fraud había sido perfectamente informado de la denominación correcta de la rapaz, un milano, pero no pudo por menos que continuar repitiendo la construcción elaborada sobre un buitre. Aquí como en otras ocasiones, Freud no se preocupó demasiado de la realidad de los hechos.”

E) ¿UN ERROR DE TRADUCCIÓN? – BORCH-JACOBSEN

Hasta el presente, se admitía generalmente que el error de Fraud a propósito del pretendido ‘buitre’ de Leonardo era imputable a las traducciones alemanas del pasaje sobre el nibbio a las que había tenido acceso, en particular la de Leonardo da Vinci, una novela histórica de la época próxima al siglo XV del escritor ruso Dimitri Sergeievitch Merejkovski. En esta biografía novelada que Fraud citaba en 1907 entre sus libros preferidos y que parece haber aportado el punto de partida de su investigación sobre Leonardo, nibbio en efecto había sido traducido en alemán como Geir (buitre) en lugar de Hühnergeier (milano) – un error del traductor, ya que el propio Merejkovski había traducido correctamente el término en ruso. Estamos por tanto tentados a pensar que es esta traducción de Merejkovski la que inicialmente lanzó a Fraud sobre una pista falsa. Esto, sin embargo, encaja mal con el hecho de que Fraud, en su ensayo, da su propia traducción del texto de Leonardo, citando por añadidura el original italiano en una nota, mientras que en el resto del texto cita sistemáticamente las traducciones alemanas cada vez que es posible.”

Como demostró Han Israëls en su artículo sobre Fraud y Leonardo, el pasaje de este último sobre el milano de su infancia se encuentra reproducido en 4 de las obras en alemán citadas por Fraud en su ensayo: la biografía de Merejkovski y las más académicas de Woldemar von Seidlitz, de Edmondo Solmi y de Marie Herzfeld. Si las traducciones de Merejkovki y de Solmi dan las 2 Geier, von Seidlitz y Herzfeld dan la traducción correcta”

Se sabe, en efecto, que Fraud, poco respetuoso con sus libros [haha], tenía la costumbre de señalar con un trazo vertical a lápiz verde o marrón los pasajes que le interesaban o que contaba con citar más adelante. Cualquiera puede pues, tomarse la molestia de ir al Freud Museum de Londres y consultar el ejemplar del libro de Herzfeld que se encuentra en la biblioteca de Fraud, con el fin de verificar por sí mismo si el gran hombre había o no prestado atención a la traducción propuesta por el autor. Abriendo el libro por la página V, en el lugar preciso donde se encuentra citado el pasaje de Leonardo sobre el Hühnergeier de su infancia, el escéptico podrá constatar con sus propios ojos que Freud trazó en el margen no uno, sino 2 trazos verticales con un lápiz marrón…”

El error de traducción de Fraud es un error completamente voluntario, deliberado. Al darse cuenta de que su construcción se rompía por un pequeño detalle incómodo, eligió mantenerla a despecho de todo, reescribiendo (retraduciendo) el recuerdo de Leonardo para que encajara con sus deseos teóricos. El procedimiento es tanto más extravagante en cuanto que Fraud, sin duda para cubrirse las espaldas en caso de que se le acusara de falsificación, reprodujo simultáneamente el texto original en italiano. ¿Cómo, en estas condiciones, podía esperar que su maniobra escapara durante tiempo a la detección? La impresión que se saca de este extraño episodio es la de un hombre tan firmemente convencido de su infalibilidad que no podía imaginar que la realidad se le resistiera. Difícil encontrar mejor ilustración a lo que el mismo denominaba la ‘omnipotencia de los pensamientos’…”

F) EL DIARIO DE UNA ADOLESCENTE DE LA DRA. HUG-HELLMUTH – ISRÄELS

En 1919, las Ediciones psicoanalíticas de Viena publicaban el diario de una adolescente: Tagebuch eines halbwüchsigen Mädchens. El autor permanecía en el anonimato. Igualmente, la persona que había aportado el documento a las Ediciones psicoanalíticas de Viena había deseado no desvelar su identidad. En el prefacio de la obra, esta persona citaba una carta de Fraud, que calificaba este diario de ‘pequeña joya’, porque en él, se encontraba descrito con una precisión excepcional el desarrollo de la vida sexual. La descripción, en efecto, era considerable: la evolución sexual de la joven correspondía punto por punto con la teoría fraudiana.”

En esos círculos, algunos dudaban de la autenticidad del texto, mientras que otros consideraban esas dudas totalmente fuera de lugar. Así, la célebre psicoanalista Helene Deutsch escribía, algunos años más tarde:

En lo que me concierne, estoy completamente convencida de la autenticidad del diario publicado por Hug-Hellmuth. Las descripciones son tan justas y vivas que sólo una chica joven ha podido vivir y escribir todo lo que se encuentra en él […]. El libro es de una veracidad psicológica tal que se puede decir que es una joya de la literatura psicoanalítica.”

En 22, un resumen de la traducción inglesa del Diario fue publicado en el British Journal of Medical Psychology. El autor del resumen era Cyril Burt entonces joven miembro de la Asociación inglesa de psicoanálisis. Por varias razones, emitía dudas en cuanto a la autenticidad de la obra: en ningún lugar encontraba el lector alguna dificultad de comprensión, no se revelaba necesaria ninguna nota explicativa, cada personaje era presentado brevemente cuando hacía su primera aparición, numerosos pasajes estaban hasta tal punto elaborados que el autor había tenido que consagrarles sin duda un mínimo de 5 horas diarias. Menos de 1 año después, la revista inglesa publicaba una carta de la Dra. Hermina Hug-Hellmuth. La psicoanalista revelaba que era ella quien había aportado el Diario al editor, subrayaba que era una persona respetada en el mundo del psicoanálisis y que conocía personalmente al profesor Fraud. Afirmaba con fuerza que el Diario era auténtico y que ella no había cambiado nada, aparte de nombres y lugares. Un pequeño comentario de Cyril Burt seguía a la publicación de esta carta. Burt explicaba que había escrito a Hug-Hellmuth antes de publicar su resumen y que había esperado durante mucho tiempo una respuesta. Hug-Hellmuth había terminado por escribirle que había estado ausente durante mucho tiempo, que la autora del Diario había muerto y que el manuscrito ya no estaba disponible. Esta respuesta terminó por convencer a Burt de que su resumen, entonces en la imprenta, podía aparecer sin modificaciones.

Bastantes años después, Cyril Burt se convirtió en un célebre psicólogo. No fue hasta después de su muerte cuando se desvelaron los fraudes que había cometido en investigaciones empíricas. Como en su caso, el engaño de Hug-Hellmuth no fue claramente establecido hasta después de su deceso.”

El engaño no fue definitivamente desenmascarado hasta 1926, 2 años después de la muerte trágica de la Dra. Hug-Hellmuth. Un cierto Josef Krug puso en evidencia que sucede frecuentemente, en el Diario, que entre los 2 mismos días de la semana el número de días no es un múltiplo de 7. Por otra parte, las fechas de una serie de días festivos son erróneas. Así, durante 3 años consecutivos, el día de Pascua, que se menciona, es en cada ocasión un día después del anterior. El prefacio de la 3ª edición menciona que los acontecimientos descritos se desarrollaron entre 1903 y 1907. En el Diario, el sistema de boletines escolares, que se menciona, no fue introducido en la enseñanza hasta 1908 (Josef Krug era maestro en una escuela de secundaria en Viena). El autor del Diario utiliza cabinas públicas de teléfono: en Viena, la primera de este tipo data de 1908. Está la cuestión de un grupo de oficiales de la Fuerza aérea: la primera aparición de un avión de caza austriaco data de 1909. Está aun la cuestión de un libro que no fue escrito hasta 1909. Krug podía pues concluir que el Diario ‘es solamente un documento psicológico, en el sentido en que testimonia la forma en la que muchos adultos se representan el mundo vivido por una niña que crece’.

La redacción de la revista que publicaba el artículo de Krug, señalaba que había pedido a los psicoanalistas una réplica y que su respuesta se publicaría en el número siguiente. No apareció ninguna réplica. Sin embargo, un año más tarde, las Ediciones psicoanalíticas hacían un llamamiento, en el boletín de las librerías alemanas, para recuperar todos los ejemplares de la obra aun a la venta, porque habían surgido dudas en cuanto a la autenticidad del texto.

A despecho de todo esto, la carrera del Diario no había terminado. Observemos la colección de libros de bolsillo del célebre editor alemán Suhrkamp. ¡Encontraremos desde 87 el mismo Tagebuch eines halbwüchsigen Mädchens! Si usted no conoce el libro y lo consulta, es poco probable que usted pueda descubrir que se trata de una superchería [fraude]. La portada del libro cita solamente un extracto del elogio escrito por Freud. La obra contiene un nuevo prefacio, escrito por Alice Miller, la célebre pedagoga antiautoritaria, autora de libros de éxito como el Drama del niño dotado. Según Alice Miller, los niños no son – como sugiere el psicoanálisis – pequeños monstruos del egoísmo; son los adultos los que se conducen demasiado a menudo de forma monstruosa, malsana e hipócrita. Según ella, la educación se reduce frecuentemente al aprendizaje de la hipocresía y de la mendacidad que caracterizan el mundo de los adultos.” “En el prefacio, puede leerse que la obra desapareció de las librerías alemanas en 27, pero la verdadera explicación no se aporta. Sin embargo se sugiere una razón: el autor escribe que el diario había sido ‘prohibido en Inglaterra porque constituía un peligro para las buenas costumbres’.” “En Inglaterra, la obra sobrevivió a todas las controversias. Una segunda edición vio la luz en 36 y una tercera en 52, disponible hasta los años 70. En la contraportada de esta 3ª edición puede leerse, en negrita: ‘La obra no es una novela, sino lo que pretende ser: un diario no reelaborado y no expurgado’. En esta edición, no aparece el nombre de Hug-Hellmuth, ni una evocación de las dudas concernientes a la autenticidad del Diario. Apareció en una colección donde se encuentran obras de Fraud y de otros psicoanalistas. Manifiestamente, en el mundo psicoanalítico, Hug-Hellmuth no era la única que, por una buena causa, no dudaba en engañar conscientemente al público.”

4. ¿LA ÉTICA DEL PSICOANÁLISIS?

(*) “¿por qué los psicoanalistas piden precios tan superiores a los de otras psicoterapias? ¿por qué insisten tan a menudo en cobrar en efectivo? ¿por qué el psicoanálisis ha sido siempre, en lo esencial, un asunto de gente con fortuna (y por tanto bien situada)? y ¿por qué las instituciones psicoanalíticas reciben tan a menudo legados y donaciones de pacientes reconocidos? es esta cuestión particularmente explosiva del dinero y del abuso de poder (undue influence) ejercido por los psicoanalistas el que plantea el historiador Peter Swales, destruyendo de una vez por todas el mito del desinterés del buen doctor de Viena.”

FREUD, LUCRO Y ABUSO DE PODER

Mi estado mental depende muy fuertemente de lo que gane. Para mí, el dinero es como un gas hilarante” F.

Los editores de las cartas a Fliess, Marie Bonaparte, Anna Freud y Ernst Kris, suprimieron las alusiones al ‘pescado de oro’ para designar a su paciente, y al ‘gas hilarante’ para designar al dinero – así como las citas anteriores sobre los ‘negros’ –, con el pretexto de que no tenían razón de ser en una biografía científica.”

un día conocí la extrema pobreza y tuve angustia de ella. Si esta ciudad me concede medios confortables de subsistencia, verá, mi estilo mejorará y mis ideas serán más precisas.”

Es sin duda verdad – como afirma Alexandre, el hermano más joven de Freud – que, más adelante en su vida, Freud exageró las privaciones que había sufrido en su juventud.”

intentó escapar de esa pobreza sórdida, precipitar su matrimonio y salvar su carrera en la investigación pura reclutando gloria y riqueza por sus trabajos sobre el alcaloide de la cocaína. Pero la mala suerte quiso que fracasara totalmente, de entrada cuando se vio adelantado por un colega en el importante descubrimiento de uso de la cocaína como anestésico en cirugía local, después cuando un amigo, al que había intentado deshabituar de la morfina dándole cocaína, se convirtió de hecho en dependiente de ambas sustancias.”

en 87, Freud empezó a tratar a Frau Anna von Lieben, baronesa de nacimiento y esposa de un célebre banquero, que era una de las mujeres más ricas de Viena. Aproximadamente en la misma época, parece que empezó a atender a Frau Elise Gomperz, que se había casado con un tío de Anna von Lieben y se había convertido así en miembro de una de las familias más influyentes de Viena y de la vecina Moravia. Poco después, Fraud empezó el tratamiento de Frau Fanny Moser, la viuda de un industrial de origen ruso y suizo, reputada como una de las mujeres más ricas de Europa central. Así, apenas 2 o 3 años después de haber abierto su consulta médica, Fraud se había de hecho convertido en el psicoterapeuta de algunas de las mujeres más ricas del mundo, gracias al prestigio relacionado con su asociación con Charcot, a las recomendaciones de sus padrinos Josef Breuer y Rudolf Chrobak, pero también a Hermann Nothnagel, Richard von Krafft-Ebing y Moriz Benedikt.

En otoño de 87, Anna von Lieben fue remitida a Fraud por Breuer, el médico internista de esta última, y Chrobak, su ginecólogo: para ambos había llegado el punto de no saber qué hacer con esa cuarentona obesa, histérica, a la que ningún médico había conseguido realmente satisfacer, por no hablar ya de ayudarla. Inmediatamente, el joven doctor se puso a la tarea, y le insinuó sus buenos oficios rindiéndole visitas cotidianas en su lujosa residencia del centro de la ciudad. Pero, a continuación, noche y día durante 6 años, Fraud se encontró progresivamente a las órdenes de su paciente. En efecto, 2 veces al día, estaba obligado a calmar las crisis emocionales explosivas por medio de sesiones de sugestión bajo hipnosis, conversaciones interminables, e inyecciones de morfina – hasta tal punto la paciente devoraba prácticamente a su médico, que le amenazaba con interrumpir sus vacaciones de verano en el campo con mujer e hijos. Freud expresó así sus frustraciones en una carta de 1889 a su cuñada, Minna Bernays, después de que le sacaran de la cama la noche anterior: ‘El coloso piensa siempre únicamente en sus nervios, y simplemente no entiende de otra cosa’. La sumisión crónica de Freud a su dominadora formaba parte de una dependencia simbiótica, ya que, para él, la mujer continuaba representando la gallina de los huevos de oro. En 1890, escribió a Fliess para declinar la invitación de éste para ir a Berlín explicando: ‘Mi principal cliente atraviesa justo en este momento una especie de crisis nerviosa, y puede que durante mi ausencia, su estado mejore’.”

Varios miembros del círculo familiar sospechaban desde hacía tiempo que Fraud no era más que un charlatán ávido de llenarse los bolsillos gracias a los ingresos sustanciales que le procuraba el tratamiento de una aristócrata inmensamente rica. Al no constatar ningún signo de mejoría – y temiendo que ciertamente su hipernerviosismo fuera de origen iatrogénico [culpa del propio tratamiento] –, se opusieron categóricamente a esas interminables sesiones cotidianas. Así, quizás no fue accidental que, algunos meses más tarde, dado que el estado de esta mujer no había mejorado demasiado desde su primer encuentro con Freud 6 años antes, la locura a 2 terminó, sin duda a instancias de la familia o de la propia paciente, y a pesar del consejo de Freud.”

Quemado con Breuer, sin duda el médico internista más respetado y más próspero de la ciudad, ya no podía contar con las recomendaciones de este último. No es sorprendente que a continuación, ese año, decepcionado por sus ingresos, Freud imagine poder mejorar de manera drástica su situación material con su nueva teoría según la cual la única fuente de la histeria reside en los abusos sexuales de la primera infancia. Sin embargo, demasiado pronto, debió rendirse a la evidencia de que los ensayos en los que proclamaba su gran descubrimiento eran acogidos con un silencio burlón por sus colegas médicos.”

En febrero de 97, cuando un colega de más edad le anunció que, de acuerdo con otros 2 colegas, tenía la intención de someter una demanda de promoción en su favor al ministro de Educación, tuvo razones para esperar que sus ambiciones fueran por fin a ser recompensadas. Pero, al mismo tiempo, Fraud sabía que era mejor no confiarlo todo a eso, ya que el antisemitismo se hacía cada día más fuerte y corrompía insidiosamente el clima político. Podía aparentemente ganarse aun correctamente la vida con los largos tratamientos de sus ricas pacientes neuróticas – por lo menos mientras que le pudieran llegar de países como Rusia, Polonia, Hungría y Rumania. Pero seguía inquietándose por la manera en que podría alcanzar los 2 objetivos y estaba ansioso a propósito del futuro. En verano de 98, se planteó, de forma quizás no tan frívola, ser invitado a Rusia durante 1 año para atender al zar, al que había diagnosticado a distancia como afecto de ideas obsesivas, y pensó que eso le reportaría tanto dinero que tendría la posibilidad no sólo de viajar, sino de seguir atendiendo a sus pacientes ‘por nada’.”

As confissões mais degradantes e sórdidas vêm sempre das cartas censuradas a Fliess: “El pescado de oro (Marie von Ferstel, de soltera Torsch, una pariente lejana de mi esposa) ha mordido el anzuelo, pero disfrutará aun de su libertad hasta finales de octubre, ya que por el momento se queda en el campo”

Para el hombre muy ambicioso que era Fraud, era como si la humanidad rechazara la iluminación que el ofrecía – con su Interpretación de los sueños, pero también con su teoría de la histeria –, como si hubiera fracasado en dejar su pisada en el mundo y en reclutar la gloria y la riqueza que, según él, se le debían.”

Yo mismo me sentiría extremadamente feliz cambiando 5 felicitaciones por un caso conveniente, susceptible de ser seguido de un tratamiento prolongado. He aprendido que el Viejo Mundo está gobernado por la jerarquía mientras que el Nuevo Mundo lo está por el dólar. Por primera vez, me he sometido a ella, y tengo derecho de esperar una recompensa. Si el efecto producido sobre círculos de influencia más grandes es tan prodigioso que sobre círculos restringidos, entonces tengo razones para la esperanza.”

De novo, F. a Fl.

Que Fraud pasara sus vacaciones con su mujer y sus hijos no era en sí un problema, ya que una calurosa amistad se estaba anudando entre la baronesa, su marido y los miembros de la familia Fraud, hasta tal punto que los hijos de Fraud estaban invitados a festejar la Navidad en casa de ella. Pero, según el profesor Renée Gicklhorn de la Universidad de Viena, cuya informadora era una sobrina de la paciente, al estarse enamorando la baronesa de Fraud y, actuando bajo su influencia, le había cedido, por acta notarial, una villa en el campo cerca de Viena, quizás en Perchtoldsdorf, con el fin de consolidar la seguridad financiera de sus 6 hijos. Fraud, como está documentado, revendió la villa poco tiempo después.

Según Gicklhorn, la familia de Marie von Ferstel estaba ferozmente opuesta a que su entusiasmo por Fraud continuara. Después de que ella le ofreciera la villa – que pertenecía a sus bienes personales –, sus padres le bloquearon el acceso al patrimonio inmobiliario de la familia, de tal suerte que ella ya no tuvo medio de pagar los honorarios de su tratamiento.”

Ser calumniado y consumido a causa del amor que es nuestro útil de trabajo – tales son los riesgos de nuestro oficio, que ciertamente no vamos a abandonar a causa de lo que ellas cuenten.”

En septiembre de 02, Fraud envió un ejemplar de su Interpretación de los sueños al célebre Theodor Herzl, con la esperanza de que el folletinista hiciera un comentario del libro en el importante periódico de Viena, Neue Freie Presse. Pero Herzl emitió reservas, diciendo que no se sentía competente para hacerlo.”

Fraud, el especialista en enfermedades nerviosas, se autoproclamó desde entonces psiquiatra y, como los miembros de su nuevo movimiento dirigían una campaña sistemática en su favor, afirmó su hegemonía sobre este reino – y, por extensión, sobre el campo de la psicología en su conjunto. A pesar de su éxito y del aumento significativo de sus ingresos, siguió fundamentalmente insatisfecho por su situación financiera: el dinero, como resalta en una carta de Carl G. Jung en 1909, era <el complejo que supero menos bien, por razones que se remontan a mi infancia>.”

Estoy absolutamente desolado de que no podáis estar conmigo. Pero para disfrutar de todo esto con vosotros… hubiera sido necesario que no fuera psiquiatra y que no fundara una nueva escuela, sino que fuera fabricante de productos útiles como el papel higiénico, las cerillas o los cordones para los zapatos. Es demasiado tarde ahora para cambiar de oficio, así que continúo – egoístamente pero de hecho, a disgusto – disfrutando de todo esto solo.”

Tres años más tarde, en un ensayo titulado Algunas recomendaciones sobre la técnica del psicoanálisis, Freud abordó la cuestión de los honorarios, un tema que omitirá profundizar más en la obra publicada – de una forma bastante lamentable, hay que resaltarlo, recomendaba a los practicantes adoptar desde el principio una actitud muy franca. Debían convenir expresamente, con audacia y sin escrúpulos, honorarios suficientemente elevados para que los clientes potenciales tuvieran la impresión de que la prestación que se les proponía tenía valor. A la <pregunta molesta> de la duración del tratamiento – una cuestión <a la que, de hecho, es casi imposible responder> – Fraud respondía que un analista podía solamente dar garantías del hecho de que duraría <más tiempo del que preveía el paciente>. Freud mantenía que los honorarios elevados estaban justificados por el hecho de que, independientemente de la duración del tratamiento, el psicoanálisis mantendría su promesa de partida: la curación de la neurosis. Era por tanto con consideraciones terapéuticas en mente que recomendaba esta actitud interesada; después de todo, la reducción progresiva del tamaño de la cartera o de los bolsillos del paciente podía actuar como potente motivación para sentirse mejor. En virtud de este razonamiento y de la idea de que el pago de honorarios permite mantener la relación entre el doctor y su paciente sobre un plano estrictamente profesional, el psicoanalista estaba entonces por la fuerza de las cosas ante la imposibilidad de seguir a pacientes por caridad – algo que, de todas maneras, teniendo en cuenta el tiempo empleado, hubiera sido fuertemente perjudicial para sus ingresos.”

Con la inflación y la reducción de su clientela durante la Primera Guerra Mundial, Freud perdió todas sus economías y, a pesar de las sumas de dinero enviadas por un rico cuñado de América, temió al fin de la guerra estar completamente arruinado. Preocupado esencialmente por cuestiones materiales, Fraud se puso a soñar que podría obtener el Premio Nobel. Pero, en 1919, para su sorpresa, empezó a recibir visitantes de Gran Bretaña, América, Suiza, que estaban ávidos de conocer sus teorías, y estaban dispuestos a pagar por psicoanálisis prolongados, cada uno en su moneda de origen y comparativamente no-devaluada.”

A principios del año 1921, Horace Frink, un psiquiatra muy conocido, decidió quedarse algún tiempo en Viena para seguir un psicoanálisis, y Fraud reconoció instantáneamente en él a un hombre perfectamente adaptado para tomar la dirección del movimiento psicoanalítico en el Nuevo Mundo. Frink tenía a una esposa amante y 2 hijos jóvenes, pero, después de varios años, mantenía una familiaridad indebida con una paciente, Angelika Bijur, heredera de una familia de banqueros, casada a su vez. En el curso de las primeras semanas de análisis, Fraud intentó convencer a su alumno de que estaba enamorado de su paciente. Dejando caer la amenaza de que, si no, Frink se convertiría en homosexual y que Bijur tendría una depresión nerviosa, les presionó para divorciarse de sus respectivos esposos y casarse, de manera que Frink pudiera obtener la gratificación sexual y el amor que no había podido encontrar con su mujer. Al principio, Frink se resistió a los esfuerzos de persuasión de Fraud, pero, después de transcurridos 6 meses en el diván legendario, se unió a la opinión del gran Menschenkenner. Anunciando a su mujer el fin de su matrimonio, le pidió a Bijur que se casara con él, lo que ella aceptó, con gran enfado del cornudo de su marido.”

Al rehacer una biografía de Freud más moderna, <para nuestro tiempo>, Peter Gay, el actual guardián del sueño de este mundo hinchado de sueños que es el psicoanálisis, relega lo esencial de la historia de Frink a una nota a pie de página y disculpa a Freud como actuando <con la mejor voluntad del mundo pero también con una forma de arrogancia despreocupada>, siendo esta última verosímilmente <inconsciente>. Además, en una entrevista, desaconseja juzgar demasiado severamente a Fraud a propósito de los acontecimientos de 1921-22: <La mayor parte de ellos se desarrollaron en 1923-1924 [¿?]. En esa época, Freud había sabido que tenía un cáncer y pensaba que quizás muriera.> De hecho, después del inicio del siglo, Fraud cobraba el equivalente a $10/h – unos honorarios muy elevados para la época – y veía de 8 a 10 pacientes por día, en general 6 días a la semana; después de saber que tenía un cáncer en 1923, no veía más que a 5 paciente por día, pero dobló sus honorarios hasta $20, que había que pagar en divisas extranjeras. Desde entonces, las consultas le reportaban al <león> alrededor de 500 dólares por semana – el equivalente actual a un poder adquisitivo 10x superior –, y lejos de él la idea de rehusar los demás legados y regalos de sus <negros>. Jones declara que Fraud defraudaba probablemente en sus impuestos, algo ampliamente extendido en aquella época en Austria. Lo hizo ciertamente omitiendo declarar sus honorarios y derechos de autor pagados en divisas extranjeras y depositados en 1 o 2 cuentas bancarias en la Haya, en Holanda.”

Anotações do diario de Ferenczi (aspas sempre de F.): “Los paciente son basuras (ein Gesindel)”, “buenos sólo para sacarles dinero y para ser considerados como objetos de estudio”, “no podemos un ningún caso ayudarlos”, “es posible que el psicoanálisis no tenga ningún valor terapéutico”…

Los propagandistas de la doctrina fraudiana no pusieron en cuestión, al menos oficialmente, este autorretrato altruista de Fraud. Al contrario, con el tiempo, construyeron y embellecieron el mito del héroe y trabajaron activamente en su deificación en un verdadero Moisés de la cultura moderna. Después de todo, describir a Fraud como un investigador desinteresado, de una integridad a toda prueba, servía para autentificar y legitimar la empresa psicoanalítica desde un punto de vista no solamente científico, sino también ético. Se daba así a entender al público no-iniciado que los psicoanalistas, al igual que su maestro cuyo retrato estaba habitualmente colgado en los muros de sus consultas, eran ellos también profesionales devotos de la salud mental, sin intenciones ocultas y teniendo en su corazón los intereses de sus pacientes. A la luz de los datos históricos y en particular de las informaciones contenidas en la correspondencia privada de Fraud, junto con otros documentos que fueron exhumados o que se hicieron accesibles después de su edificación, este retrato del médico y del científico con motivaciones irreprochables y con una conducta sin tacha debe ser inmediatamente descolgado. Funditus.

En efecto, el fenómeno del <abuso de poder> (undue influence) – se trate de donaciones, legados, análisis interminables, relaciones sexuales con los pacientes o de la actual imitación mutuamente consentida de recuerdos de la 1ª infancia – es virtualmente endémica en una profesión que, después de todo, debe su propia existencia y su propagación a una plétora de personas crédulas, dispuestas a pagarse el lujo de abdicar de su soberanía mental en otro y tentando demasiado a menudo desesperadamente descargarse de la responsabilidad moral del naufragio de su vida. Estas personas colaboran, de buen corazón o sin darse cuenta de lo que les pasa, con un grupo muy organizado de profesionales interesados, que están persuadidos del valor de su título, ciegamente convencidos de haber superado sus <represiones> después de años de tratamientos costosos y de tener una intuición especial de trabajo íntimo de la mente del que es privado en general, el no-iniciado. Pero una evocación así del papel profundamente nocivo del <abuso de poder> en la historia psicoanalítica moderna – un tema raramente abordado en la literatura profesional, aunque sea removido de vez en cuando por los periodistas – sobrepasaría el alcance de este ensayo, que quiere ser únicamente una contribución a los estudios freudianos. Quizás estas páginas tengan al menos algún valor para el gran público en tanto que constituyen un consejo y un cuento moral.”

SEGUNDA PARTE

¿POR QUÉ EL PSICOANÁLISIS HA TENIDO TANTO ÉXITO?

1. A LA CONQUISTA DEL MUNDO

A) ESPLENDOR Y DECADENCIA DEL PSICOANÁLISIS – EDWARD SHORTER (traducción de Violaine Guéritault)

A medida que el psicoanálisis se desarrollaba como movimiento, 2 tipos de médicos le prestaron atención: los psiquiatras, que trabajaban en asilos psiquiátricos, y los neurólogos que ejercían en privado (Prácticamente no existían psiquiatras privados antes de la I Guerra mundial; la psicoterapia dependía del terreno de competencia de los neurólogos.)”

Todo el mundo está de acuerdo en el hecho de que fue Angelo Hesnard, un estudiante de Régis, el que introdujo el psicoanálisis en Francia en 1913 publicando una serie de artículos en L’Encéphale.

El psicoanálisis estuvo de moda en París hacia 1925, en la época en que Eugène Minkowski se convirtió en uno de los fundadores de la publicación L’Évolution psychiatrique, el órgano principal del grupo vagamente pro-psicoanalítico del mismo nombre, y cuyas bases filosóficas descansaban en los escritos de Henri Bergson y en la fenomenología de Edmund Husserl.”

Desde 1914, Karl Bonhoeffer, profesor de psiquiatría en Berlín, introdujo, en los exámenes de sus estudiantes, preguntas del tipo: ‘¿Cuál es el papel que representa el psicoanálisis en la psiquiatría?’ Después de la guerra, el aprendizaje del nuevo ‘seelische Behandlung’ hacía furor entre los jóvenes psiquiatras y neurólogos. Alrededor del año 1925, estaba muy de moda hablar de su ‘Minko’ (es decir su Minderwerligkeitskomplex, o complejo de inferioridad) en las veladas de alto copete de Berlín.

Irónicamente, fue en los Estados Unidos, país habitualmente indiferente a las influencias europeas, donde el psicoanálisis se expandió más. Esta tendencia se explica fácilmente por la fuerte emigración a Nueva York, Washington y Los Ángeles de analistas alemanes y austríacos perseguidos consecutivamente en sus propios países tras el ascenso del nazismo.” “50 de los 250 psiquiatras alemanes que emigran a los Estados Unidos después de 1933 son psicoanalistas, y de gran renombre para algunos.

Un sondeo efectuado años más tarde (1980) identifica entre los 10 analistas más reputados del país a 8 emigrados entre los cuales Heinz Hartmann, Ernst Kris y Erik Erikson. Se deduce de otro sondeo realizado mucho antes que los psiquiatras interrogados sobre a qué colegas juzgaban particularmente influyentes en la profesión colocaban a Anna Freud en cabeza de la lista, sin contar que casi todos los nombre citados eran psicoanalistas.”

Todos estos programas universitarios orientados al psicoanálisis ejercieron una gran influencia sobre los psiquiatras americanos que no eran en ese momento psicoanalistas (solamente el 10% de ellos lo eran) pero cuya orientación profesional estaba basada en la psicodinámica. Dos tercios de los psiquiatras americanos en 1970 parecían utilizar el ‘Enfoque dinámico’. El psiquiatra canadiense Heinz Lehman, también emigrado, decía mucho más tarde: ‘Entre 1930 y 50, el modelo psicosocial reinaba como un dueño absoluto en los Estados Unidos. Cualquier otro enfoque había desaparecido y eras juzgado como anacrónico, simplista y sin ninguna cultura si pensabas que la fisiología, bajo la forma que fuera era capaz de aportar respuestas a las cuestiones esenciales. Eso no tenía ningún sentido, y ciertamente no osabas emitir este tipo de ideas’.”

Incluso la tradición de la patología del cuerpo, tan influyente en Europa a lo largo del siglo XIX, tenía aun su lugar después de la Segunda Guerra mundial (mientras que había desaparecido casi totalmente en los Estados Unidos) y conducía a ciertos descubrimientos como la base biológica del síndrome de La Tourette.”

Pasó en seguida una cosa sorprendente. Al final de los años 60, la corriente de pensamiento psicoanalítico conoció una verdadera recrudescencia en Francia, en Alemania, en Italia así como en otros países europeos. Los acontecimientos de mayo de 68 en Francia sirvieron de trampolín a esa recuperación del interés en el psicoanálisis. Cuando los jóvenes estudiantes de medicina furiosos ocuparon el despacho de Jean Delay, exigieron el fin de los tratamientos con electrochoques (uno de los raros tratamientos en psiquiatría verdaderamente eficaces), así como la integración del psicoanálisis en el programa de medicina y en los hospitales. En Holanda, en 65, el anuncio de que el psiquiatra Hermann Van Praag, conocido por sus trabajos en psicofarmacología, venía de los Estados Unidos para abrir un servicio de psiquiatría biológica en Groningen fue vivido como un verdadero drama por los intelectuales de la época. Cuando en 77 Van Praag, conocido con el nombre de ‘Señor Psiquiatría biológica’, se convirtió en titular de una cátedra en Utrecht, la reacción fue aun más violenta ya que recibió amenazas de muerte. En Italia, donde se mostró poco interés en enfoques del tipo ‘psicología de las profundidades’ antes de los años 60, el psicoanálisis se identificó prácticamente con la psiquiatría (y sigue siendo el caso hoy en día: Italia parece una especie de museo de la psiquiatría de los años 60, en donde se oye aun hablar de Fraud en la prensa y en donde se lee que (…) todos los hospitales psiquiátricos han cerrado sus puertas).

¿Cuál es la causa de este ascenso tardío en el poder del psicoanálisis en países que o bien habían sostenido la dictadura de Hitler, o la habían padecido? Se puede entender fácilmente el espíritu de rebelión de los años 60, marcado por el rechazo a la autoridad médica, a los asilos de alienados y al poder que tenían los psiquiatras de disponer de la libertad de sus pacientes.”

Entre los activistas de los años 60, el simple término ‘psicopatología’ inspiraba desprecio, como si la patología en cuestión residiera en la mente y no en el cuerpo del paciente. Franco Basaglia, psiquiatra italiano reputado por sus opiniones a propósito de la psiquiatría, hablaba con desdén de las corrientes ‘antropofenomenológicas’ que simbolizaban todo lo que le parecía erróneo en la psiquiatría institucional tradicional. Basaglia, adepto convencido de la psiquiatría social y comunitaria, no se adhería particularmente al psicoanálisis. Sin embargo, tanto los analistas como los activistas sociales estaban de acuerdo con el hecho de que las enfermedades psiquiátricas no existían y que sólo los problemas personales y sociales exteriores debaten a la gente entre la buena salud y la enfermedad.” “Es así como las doctrinas de Fraud conocieron un resurgimiento importante en esa época, porque representaban una terapia de elección para los intelectuales. Y los activistas de los años 60, apasionados por Marx y Marcuse, formaban ciertamente parte del grupo.”

La historia de la psicofarmacología debuta en París con el descubrimiento en 1952 en el hospital Val-de-Grâce de un compuesto químico, la clorpromazina producida por Rhône Poulenc, cuyos efectos sobre las ‘manías’ eran espectaculares. Jean Delay y su asistente Pierre Deniker sometieron a la clorpromazina, a punto de ser comercializada bajo el nombre de Largactil, a una serie de test clínicos y se dieron cuenta de la extraordinaria eficacia de este medicamento en las psicosis. La clorpromazina, el primer neuroléptico, tenía la ventaja de calmar a numerosos pacientes haciendo desaparecer sus alucinaciones sin tener que administrarles tranquilizantes. Después de 52, un amplio mercado farmacológico se abrió a la comercialización de los antidepresivos (el primero, la imipramina, hizo su aparición en 57); de ansiolíticos (el primero, la benzodiacepina, Librium, cuya apelación genérica es clordiazepóxido, se comercializó en Estados Unidos en 60 y en Francia en 61); y de los timoreguladores (el litio se comercializó en los años 60)”

La terapia por electrochoques se demostró muy eficaz en el tratamiento de los trastornos del humor.”

La primera versión de este manual que ponía el acento en las ‘reacciones’ psiquiátricas descritas por el psiquiatra Adolf Meyer de la Universidad John Hopkins apareció en 1952; una segunda edición, redactada bajo la influencia del movimiento psicoanalítico que describía todos los trastornos como ‘neurosis’, se publicó en 1968. Finalmente, en 1980, la 3ª edición del Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales, también llamado DSM-III, hizo su aparición. Al contrario que las ediciones precedentes, el DSM-III se pretendía absolutamente agnóstico en lo que concernía a las causas de los trastornos mentales.” DESCONFIE!

(Una versión francesa de la edición siguiente, DSM-III-R (1987), se publicó en 1989 bajo el nombre: Manuel diagnostique et statistique des troubles mentaux.)” Versão Remis Deluxe

A partir de 90, los analistas abandonan prácticamente por completo ciertas neurosis como los trastornos obsesivo-compulsivos (o TOC) – dejados desde entonces en manos de la psicofarmacología y de las terapias comportamentales y cognitivas – y se interesan por la patología de la personalidad, y en la ocurrencia de trastornos de la personalidad que no están reportados en el DSM.”

O resultado é que, não importa o que tenhamos, estamos todos fodidos.

Es un poco como la última persona que aprenda esperanto. ¿Quién será el último en ser psicoanalizado? Preguntaba Adam Gopnik en el New Yorker. Es parecido al cómo ‘lo vivió el primer hombre en ser hipnotizado o en ser sangrado con sanguijuelas. O aun como el último hombre… en llevarle a un alquimista un trozo de plomo con la esperanza sincera de poder transformarlo en oro’.”

Szasz, The Myth of Psychotherapy

B) PSICOANÁLISIS, MARCA REGISTRADA – SONU SHAMDASANI (traducción de Marie Olivier)

El 29 de noviembre de 93, la revista Time ponía en portada la pregunta siguiente: ¿Ha muerto Freud? Sus partidarios y sus detractores están por lo menos de acuerdo en un punto; el psicoanálisis está actualmente en declive; el lugar esencial que ocupaba en otro tiempo en la psiquiatría americana ha sido eclipsado por el auge de los medicamentos psicotropos, y cada vez más compite peor en el mercado con la plétora de psicoterapias, ayudas sociopsicológicas u medicinas alternativas.” A Time já ficou famosa por assassinar pessoas ou entidades extemporaneamente, pergunte ao Ozzy!

La publicación de la obra de Henri Ellenberger El Descubrimiento del Inconsciente constituyó el desencadenante decisivo. Pasando revista a la historia del psicoanálisis del siglo XX, nos enfrentamos a un problema: ha sido sin cesar reformulada y adaptada a las psicologías y tradiciones intelectuales de cada país, aunque a fin de cuentas a menudo no tiene gran cosa que ver con la obra de Fraud.”

en la Historia del psicoanálisis en Francia de Elisabeth Roudinesco, los psicólogos y psiquiatras no-freudianos se describen en general como oscurantistas que pasaron de lado por esa ruptura epistemológica que representaba el psicoanálisis: éste constituye para la autora una verdad con valor de axioma.”

A continuación de Ellenberger, Sulloway demostró como el movimiento freudiano había construido una leyenda heroica muy elaborada alrededor de la persona de Freud, leyenda indispensable para la ascensión del psicoanálisis.”

Freud y sus sucesores minimizaron invariablemente la herencia de la hipnosis en el psicoanálisis y se extraviaron proclamando una gran ruptura epistemológica con la era de las terapias basadas en la hipnosis y la sugestión.”

Bernheim, considerando simplemente a la hipnosis como un estado exacerbado de sugestibilidad, favorecía el uso terapéutico de la hipnosis y de la sugestión, uso que enseguida se generalizó. El término ‘psicoterapia’ se convirtió en intercambiable con el de ‘hipnosis’.”

Hay que ganarse completamente la confianza del paciente a través del afecto e inmiscuyéndose en su vida mental; hay que simpatizar con todos sus sentimientos, hacerle contar su vida, revivirla completamente con él, y ‘entrar en las emociones’ del paciente. Pero nunca hay que perder de vista el aspecto sexual, que difiere enormemente de una persona a la otra, y que puede constituir un peligro real… Hay que comprender que no es suficiente con aplicar el examen clínico clásico, que consiste en prestar atención a la emisión de esperma, al coito y al embarazo; es necesario tomar muy en cuenta todas las regiones del intelecto, del humor y de la voluntad, que están más o menos asociadas a la esfera sexual. Una vez hecho, conviene definir en grandes líneas un objetivo adecuado para el paciente, y lanzarlo por ese camino, con energía y seguridad.” Forel, Hypnotism

Las recomendaciones de Forel se parecen mucho a las que Freud llamará más adelante la regla fundamental del psicoanálisis: la libre asociación y el ‘análisis de resistencias’. Freud conocía bien la obra de Forel ya que la había compendiado.”

Bernheim puso en cuestión el estatuto ontológico de los resultados presentados por Charcot; se trataban según él de artefactos, que, en lugar de revelar la naturaleza de la hipnosis y de la histeria, eran simplemente el resultado de las sugestiones de Charcot. Para Bernheim, las experiencias de Charcot no podían reproducirse fuera de su entorno específico. Freud, que había asistido a las conferencias de Charcot durante el invierno de 1885, se aprestó a defender la objetividad de las observaciones del profesor de París” “Freud indicó en su justa medida las consecuencias que resultarían del abandono de este punto de vista: el hipnotizador podría generar cualquier sintomatología, y el estudio de la hipnosis no revelaría otra cosa que el proceso arbitrario que llevaría a la producción de las diferentes nosografías o entidades mórbidas. § El punto de vista que Freud se empleaba en descartar era precisamente la conclusión adoptada por William James en 1890. Este sostenía que las propiedades atribuidas al trance eran producto de la sugestión.”

Toda particularidad propia de un individuo, toda manipulación que se manifieste accidentalmente en un sujeto, puede, al llamar la atención, convertirse en un estereotipo y servir de modelo para ilustrar las teorías de una escuela. El primer sujeto de la experiencia ‘forma’ al hipnotizador, que a su vez forma a los sujetos siguientes, y todos contribuyen así de buena fe a la elaboración de un resultado perfectamente arbitrario.” James

James y Delboeuf estimaban que las escuelas de hipnotismo se habían convertido en verdaderas máquinas de influenciar y de generar pruebas. El hecho de que se pueda presentar con ostentación diferentes características como constitutivas de la esencia de la hipnosis y que estos resultados sean confirmados por otros indicaba que el propio modo de institucionalización estaba sometido a los efectos de la hipnosis y la sugestión, que no podían ser neutralizados. Para Delboeuf y James, los conflictos que oponían a las diferentes escuelas eran insolubles ya que ninguna de ellas podía aportar pruebas que apoyaran su propia teoría. Todas estas escuelas ‘tenían razón’ – en la medida en que podían aportar casos que justificaran sus teorías – pero eso llevaba a negar el estatuto universal reivindicado por esas teorías. Lo que se ponía en cuestión era la posibilidad de una metodología clínica que permitiera aportar bases para una psicología general.”

Freud se había extraviado cometiendo precisamente los errores predichos por Delboeuf y James. El problema no era la falta de pruebas (ni la necesidad de fabricarlas) sino el exceso de pruebas. § Sin embargo, si Freud modificó a continuación sus teorías de la histeria y de las neurosis, siguió unido a la idea de que el encuentro clínico podía aportar una base objetiva de pruebas para una psicología general.”

Las teorías freudianas no serían hoy más conocidas que las de Delboeuf si Freud no hubiera agrupado a su alrededor un grupo de discípulos. En 1902, algunos (Alfred Adler, Max Kahane, Rudolf Reitler y Wilhelm Stekel) empezaron a reunirse regularmente alrededor de Freud.” “Algunos años más tarde, la situación evolucionó. Freud supo por Eugen Bleuler, el sucesor de Forel en el Burghölzli, que estudiaban su obra. Fue con la llegada de Jung y de la escuela de Zurich cuando el movimiento psicoanalítico se hizo verdaderamente internacional.”

El modelo de enseñanza abierta practicado en el Burghölzli contribuyó mucho a la propagación del psicoanálisis. Sin embargo, escapó rápidamente a la estructura feudal que había puesto en pie Freud.”

Psiquiatras como Ludwig Frank y Dumeng Bezzola (dos estudiantes de Forel) defendieron el tratamiento catártico de Breuer y Freud contra los desarrollos ulteriores del psicoanálisis freudiano.”

Fraud pretendía que la técnica psicoanalítica no podía aprenderse en los libros y que sólo alguien competente en este terreno podía enseñarla.” Foi a primeira coisa que meu psicanalista falou quando entrei na sala, à 1ª sessão.

Como han establecido los historiadores, las nociones de discriminación o boicot contra el psicoanálisis pertenecen a la leyenda heroica del movimiento. En efecto, fue en función de la política freudiana cada vez más aislacionista frente a la psiquiatría y a la medicina en general por lo que Bleuler se dimitió de la API en 1911.”

La institución de un análisis didáctico jugó un papel crucial aportando una base financiera para la práctica privada del psicoanálisis haciendo atrayente esa profesión.”

Siegfried Bernfeld recuerda que numerosos miembros de la Asociación experimentaban la necesidad de un análisis, pero no deseaban confiar sus secretos a un analista que viviera en la misma ciudad que ellos. Así, se invitó a Hanns Sachs, que vino a Berlín a analizar a los analistas.”

Ernst Falzeder resalta que los institutos de Berlín, Budapest, Londres y Viena ‘eran dirigidos por miembros del comité secreto, que ejercían pues no sólo un control político sobre el movimiento psicoanalítico, sino también una influencia directa sobre los futuros analistas en formación’.” “Cuando alguien se alejaba de la ortodoxia, había dos formas de actuar: la expulsión pura y simple de los disidentes, o lo que se podría llamar una gestión de crisis interna: se autorizaban las innovaciones considerándolas como subcorrientes legítimas de la teoría psicoanalítica. Lo que resulta chocante es que el juicio de secesión o de subcorriente legítima, realizado sobre un desarrollo particular, no dependía en principio del alejamiento más o menos grande de la teoría psicoanalítica; en efecto, a medida que las instituciones se hicieron más sólidas, se autorizó una mayor latitud. Lo irónico del caso, en muchos aspectos, es que las posiciones heréticas defendidas por Adler, Jung, Rank y otros son mucho más acordes con la principal corriente psicoanalítica de hoy en día que con la ortodoxia de la época.” “Son las mismas ideas que permitieron a los psicoterapeutas continuar llamando a su disciplina ‘psicoanálisis’ y a la profesión subsistir, aunque Fraud los denunciara como heréticos.”

cuando se estimó que la obra de Rank se alejara demasiado de la ortodoxia psicoanalítica, fue tratado de enfermo mental por Brill, excluido de la Asociación americana y los analistas que le habían formado tuvieron que dimitirse o ser reanalizados por un analista ortodoxo”

Es la eficacia de las estructuras institucionales del psicoanálisis la que le ha otorgado una notoriedad tal que los debates culturales sobre la nueva psicología se formulan en lenguaje psicoanalítico.”

Es un desprecio al asunto de la naturaleza de estas sustituciones lo que condujo a la extrema exageración actual de la importancia del psicoanálisis en la cultura del siglo XX.”

El éxito de estas escuelas concurrentes, que adoptaron las mismas estructuras institucionales que el psicoanálisis haciéndolas más accesibles, contribuyó en gran medida al estado del psicoanálisis hoy en día: está completamente sitiado.”

el sujeto preferido de la investigación psicoanalítica es el bebé: un sujeto incapaz de testimoniar verbalmente y por tanto de contradecir las construcciones analíticas. Más en serio, las escuelas psicoanalíticas concurrentes – desde el análisis jungiano hasta la terapia de regresión a vidas anteriores – detentan por igual múltiples ‘pruebas’ en forma de testimonios en primera persona, y si se considera como válida una de ellas, difícilmente se pueden rechazar las otras formas a falta de criterios para diferenciarlas.”

Estos testimonios, subrayémoslo, no son simples relatos de sujetos sobre acontecimientos particulares que les han sucedido, sino relatos en los cuales los propios sujetos afirman haber sufrido una transformación. En este sentido, estos testimonios se parecen a los relatos de experiencias religiosas como las estudiadas por James.”

B) UNA TEORÍA CERO – BORCH-JACOBSEN

Si la validez de una teoría se midiera por el rasero de su éxito cultural, deberíamos tener en cuenta a las diversas religiones entre las teorías científicas.” “Se dirá incluso que el ascenso del psicoanálisis al principio del siglo XX correspondió a la propagación del darwinismo, o bien que aportó una ideología a la sociedad capitalista y al individualismo moderno, o bien que sirvió de refugio a los decepcionados del marxismo”

es precisamente porque está perfectamente vacía, perfectamente hueca, que esta teoría pudo propagarse como lo hizo y adaptarse a contextos tan diferentes.” “El psicoanálisis no existe – es una nebulosa sin consistencia, una diana en perpetuo movimiento.”

¿Qué tienen en común las teorías de Freud y las de Rank, de Ferenczi, de Reich, de Melanie Klein, de Karen Horney, d’Imre Hermann, de Winnicot, de Bion, de Bowlby, de Kohut, de Lacan, de Laplanche, de André Green, de Slavoj Zizek, [¡] de Julia Kristeva, de Juliet Mitchell? Mejor aun, ¿qué hay en común entre la teoría de la histeria profesada por Freud en 1895, la teoría de la seducción de los años 96-97, la teoría de la sexualidad de los años 1900, la segunda teoría de las pulsiones de 14, la segunda y la tercera teoría de las pulsiones de los años 20? Basta con consultar no importa que artículo del Diccionario del psicoanálisis de Laplanche y Pontalis (https://seclusao.art.blog/2020/02/01/glossario-psicanalitico-ou-a-fantastica-fabrica-de-casos-ou-ainda-novela-das-nojeiras-e-sujidades-das-biografias-dos-psicanalistas-ate-aqui-2001-por-falta-de-dados-mais-atuais/)¹ para darse cuenta de que el ‘psicoanálisis’ ha sido desde el inicio una teoría en renovación (o en fluctuación) permanente, capaz de tomar las curvas más inesperadas. § La única cosa que permanece constante, es la afirmación del inconsciente, acoplada con la pretensión de los psicoanalistas de interpretar sus mensajes.”

¹ É uma miscelânea de trechos marcantes tanto do DICIONÁRIO de Roudinesco quanto do dicionário (no Brasil impresso como VOCABULÁRIO DA PSICANÁLISE) de Lap. & Pont..

El analista puede por consiguiente hacer decir al inconsciente lo que quiera, sin temor a ser desmentido ya que el inconsciente no habla más que a través de él (y que el testimonio de los pacientes, en cuanto a él, se descalifica como ‘resistencia’). De ahí los múltiples conflictos de interpretación que surgieron inmediatamente entre los primeros psicoanalistas: allí donde Freud decía Edipo, otros decían Electra; allí donde decía libido, otros decían pulsión de agresión o inferioridad de órgano; allí donde decía complejo paternal, otros decían complejo maternal o traumatismo del nacimiento.”

A parte de todo esto, lo que firma el carácter pseudo-científico del psicoanálisis a los ojos de un falsacionista como Popper es precisamente la razón de su increíble éxito. La teoría psicoanalista al estar perfectamente vacía, es también a la vez, asombrosamente adaptable.”

¿Tal o cual aspecto de la teoría se demuestran difícilmente defendibles, o incluso francamente embarazosos, como la relación establecida por Freud entre neurastenia y masturbación, por ejemplo, o el ‘deseo de pene’ considerado como el rector de la sexualidad femenina, o el carácter de ‘perversión’ de la homosexualidad? Bien, basta con dejarlos caer silenciosamente y sacar un nuevo conejo teórico de la chistera inagotable del inconsciente. Esto es lo que los psicoanalistas gustan de describir como ‘progresos’ del psicoanálisis, como si cada analista se adentrara más allá en el continente del inconsciente, rectificando los errores de sus predecesores. De hecho, cada escuela de psicoanálisis tiene su propia idea de lo que es el progreso, vigorosamente contestada por las otras, y buscaríamos en vano en esas disputas lo que podría ser un desarrollo acumulativo. Desde este punto de vista, nada ha cambiado desde las monumentales disputas entre Freud y Adler, Jung, Stekel, Rank, Melanie Klein o Ferenczi. Lo que se presenta como un ‘progreso del psicoanálisis’ no es nunca más que la última interpretación hasta la fecha, es decir la más aceptable en un determinado contexto institucional, histórico y cultural.” “Al no ser nada en particular, puede evadirse de todo. El psicoanálisis es como el símbolo cero del que habla Lévi-Strauss: es un ‘truco’, una ‘máquina’ que puede servir para designar no importa qué, una teoría de la vida en la que sea lícito rellenar con lo que se quiera.”

¿Se objetaba desde todas partes a Freud su insistencia con la sexualidad? ¿Que eso no se sostiene?, desarrolla la teoría del narcisismo y del análisis del yo, tomándolas silenciosamente prestadas de algunos de sus críticos (Jung, Adler). ¿Las neurosis traumáticas de la guerra de 1914-18 había demostrado que se podían sufrir síntomas histéricos por razones no-sexuales? Freud saca inmediatamente de su chistera la teoría de la compulsión de repetición y de la pulsión de muerte. A menudo se alaba a Freud por haber cambiado sus teorías cuando se percataba de que estaban siendo invalidadas por los hechos (Clark Glymour, Adolf Grünbaum), pero se confundía el rigor falsacionista y el oportunismo teórico”

Encontramos ese mismo oportunismo en sus sucesores. Cuando los emigrados vieneses llegaron a los Estados Unidos, la primera cosa que hicieron fue enmendar la doctrina promoviendo una ego psychology compatible con la psicología del desarrollo de la época. Inversamente, cuando el positivismo de Freud se demostró difícil de vender a un público europeo imbuido de fenomenología y dialéctica, los partidarios de la reforma hermenéutica del psicoanálisis (Habermas, Ricoeur) decidieron que se trataba de una ‘automalainterpretación’ por su parte, que bastaba simplemente con rectificar. El mismo Lacan dejó caer el biologismo freudiano en provecho de un concepto de ‘deseo’ entendido como pura negatividad, adecuado para complacer a los lectores de Alexandre Kojève y a los ‘existencialistas’ de los años 50, después de lo cual mezcló eso con las teorías de Saussure y de Lévi-Strauss cuando el estructuralismo invadió las ciencias humanas. En nuestros días, los narrativistas americanos no creen en la ‘verdad histórica’ de lo que les cuentan sus pacientes, ya que se han hecho irresolublemente post-modernos y no se comprometen más que por los relatos y la ‘verdad narrativa’. Sus colegas ‘terapeutas de la memoria reencontrada’, por el contrario, vuelven a la veja teoría de la seducción del fundador y exhuman en sus pacientes recuerdos de abusos sexuales infantiles perfectamente conformes a las predicciones de las feministas americanas radicales de los años 80. En cuanto a los más astutos, esbozan en la actualidad un acercamiento entre psicoanálisis y neurociencias, con el fin de no perder el tren del siglo XXI.”

Hace decir al inconsciente lo que cada una de sus clientelas quiere escuchar, creando en cada ocasión un pequeño universo terapéutico en el que la oferta corresponde exactamente a la demanda. Que haya tantos universos de este tipo como demandas no es de ninguna manera preocupante para el psicoanálisis ya que es precisamente así como se propaga y sobrevive a su propia inconsistencia teórica. (…) nunca ha habido ‘psicoanálisis’, solamente una miríada de conversaciones terapéuticas tan diversas como sus participantes.”

C) LITERATURA, CINE Y PSIQUIATRÍA: UN JUEGO DE ESPEJOS – JEAN COTTRAUX

En otros tiempos, todo discurso de ingreso en la Academia francesa debía hacer el elogio empurpurado al cardenal Richelieu; ahora todo artista debe rendir homenaje a Freud, verdadero Danubio del pensamiento. Poco a poco, el psicoanálisis se ha convertido en el Conservatorio nacional superior de los clichés. Rindámosle, al menos, esta justicia: sólo ha conseguido imponer su manierismo a artistas que ya no saben donde buscar inspiración.”

Uno de los primeros surrealistas, Émile Malespine afirmaba: ‘Para comprender a Freud, colóquense los testículos en forma de gafas’. Numerosos surrealistas estaban próximos al Partido Comunista que consideraba al psicoanálisis como una práctica por lo demás burguesa. Tristan Tzara que había tenido contactos con la escuela psicoanalítica de Zurich escribió en el manifiesto Dada de 1918: ‘El psicoanálisis es una enfermedad peligrosa, adormece las inclinaciones antirreales del hombre y sistematiza la burguesía’. Este era el clima de atracción-repulsión que marcó las relaciones del psicoanálisis con los artistas de este movimiento particularmente inventivo.”

A partir de 1919, los surrealistas pondrán en funcionamiento los procedimientos de escritura automática originales. Al contrario que Janet, consideran la actividad automática como una actividad superior que permite alcanzar la fuente de la creación poética liberada de la tiranía de la razón.”

El psicoanálisis no sería verdaderamente comprendido hasta después de la publicación de la traducción de Psicopatología de la vida cotidiana en 1922, después de la Interpretación de los sueños traducida al francés bajo el título: La Ciencia de los sueños,¹ en 1926. Anteriormente, Breton sólo había leído documentos de segunda mano, y algunos artículos dispersos de Freud. Los surrealistas no leían alemán.”

¹ Achei que isso tinha sido idéia de Lacan…

Freud contaba mucho más con Henri René Lenormand, un escritor francés hoy olvidado, para propagar la causa freudiana en Francia. A pesar de su descontento, Breton apoyó el psicoanálisis, pero con la boca pequeña.” A propósito, o leitor está convidado aos meus destaques e à minha crítica de Breton em:

https://seclusao.art.blog/2020/12/22/manifesto-of-surrealism-andre-breton-1924/.

René Crevel, aunque psicoanalista, hizo de él una crítica virulenta: Un uniforme para un maniquí abstracto. La revista El surrealismo al servicio de la Revolución abrió una rúbrica titulada: las tonterías psicoanalíticas. Podía encontrarse allí una referencia al libro del psicoanalista René Laforgue, El Fracaso de Baudelaire, con el siguiente comentario: Predominancia de la Imbecilidad.”

René Crevel, ainda que psicanalista, fez uma crítica virulenta à psicanálise: Um uniforme para um manequim abstrato. A revista O surrealismo a serviço da Revolução abriu uma rubrica intitulada: as tolices psicanalíticas. Podia-se encontrar ali uma referência ao livro do psicanalista René Laforgue, O Fracasso de Baudelaire, com o seguinte comentário: Predominância da Imbecilidade.”

Breton tuvo también influencia sobre Lacan. Varios conceptos faro del lacanismo: la dialéctica del deseo, el imaginario y el inconsciente estructurado como un lenguaje, parecen inspirarse en 2 obras del papa del surrealismo”

La irreverencia de los surrealistas les permitió resistir a la tiranía de la teoría psicoanalítica, como a otras tiranías. Sacaron el mejor partido que pudieron de los trabajos de Janet y de Freud, para construir sus propios métodos de exploración de las fuentes escondidas de la metáfora. Hacían más bien su miel con trabajos alucinados sobre el espiritismo y dirigieron una carta de felicitaciones a los videntes. Enviaron, igualmente, una carta de insultos a los médicos de los asilos psiquiátricos, considerados incapaces de entender otra cosa en el delirio que una ensalada de palabras.” Muito bom ler ese trecho justamente ao som de Welcome Home (Sanitarium)!

Un verdadero poeta ve siempre más allá de la punta de su pluma.”

El psicoanálisis nació al mismo tiempo que el cine. La primera película que tuvo un escenario psicoanalítico vio la luz en contra de la opinión de Freud, al que el cine no le gustaba demasiado. Con la aprobación de Karl Abraham, G.W. Pabst realizó una película muda: Los Misterios de un alma (1926). En ella se cuenta la historia de un hombre obsesionado por el impulso de matar a su mujer. Esta película no tuvo éxito e implicó una ruptura entre Fraud, que aparecía en genérico en contra de su voluntad, y Karl Abraham.¹ Menos tímidos, 2 surrealistas, Luís Buñuel y Salvador Dalí realizaron un film onírico mucho más acabado: Un perro andaluz, en 1929, cuya primera imagen era la de un ojo cortado por una navaja de afeitar.”

¹ O “nervos-suscetíveis”!

La época clásica va desde la invención del cine hablado en 1929 a 1962: en esta época la imagen del psiquiatra es, en general, positiva. Es la imagen del liberador o del oráculo. Es objeto de burlas pero con ternura y sobre músicas peripuestas. El film emblemático de esta época es Amanda de Mark Sandrich (Carefree 1938). El psicoanalista, representado por Fred Astaire, es un amable charlatán que se aprovecha de su situación para seducir a sus pacientes y se encuentra atrapado en el juego del amor. Puede también tener el papel dramático de un liberador que ayuda a una paciente a salir de una situación traumática y a reencontrar su identidad: es el caso de Montgomery Clift, en De pronto el último verano de Joseph L. Mankiewicz (1959). En fin, llega a exhibir el aspecto barbudo de un clon de Freud, que parte, en compañía de su alumna Ingrid Bergman, en busca del vacío de la memoria donde se encuentra la verdad de la historia de un desdichado neurótico. Es lo que cuenta Hitchcock en La Casa del doctor Edwards (Spellbound, 1945), en la que la gran escena onírica lleva la firma de Salvador Dalí.

La época moderna debuta en los años 1960: la imagen del psiquiatra se degrada, y ya no se cuenta más que con psicoanalistas locos. Este tema se observa en Pulsiones de Brian De Palma (Dressed to Kill, 1981), donde un psicoanalista que tiene un desdoblamiento de personalidad se traviste para matar a mujeres jóvenes que se portan mal. Antes de ser desenmascarado, mata a una de sus clientes, interpretada por una Angie Dickinson madura, que le cuenta sus ‘líos’ con amantes encontrados al azar en las calles de Nueva York, algo que él no puede soportar. En esta época, aparece otro cliché en el cine americano: en diferentes escenarios, los psicoanalistas tienen relaciones sexuales con sus pacientes.

En la era postmoderna, en los años 1990, la imagen del psicoanalista de deconstruye aun más, y su identidad se hace cada vez más borrosa. Ya no es una referencia y se distingue mal de sus pacientes. A cambio, se le adjudica a menudo un policía bueno que lleva por el buen camino y juega el papel de embajador de la realidad. El psiquiatra polar a la francesa nos pasea alegremente por este juego de espejos. El mejor film de este género sigue siendo: Mortel Transfert (2001) de Jean- Jacques Beineix.”

Welcome to the Jung, le psychanaliste, sucesso da banda Édipos & neuRoses.

Paul Bourget es sin duda el primer novelista francés en hablar del psicoanálisis en Némésis, en 1918. Lenormand, en 1922, escribe una pieza sobre el psicoanálisis: El Comedor de sueños, que tuvo un gran éxito en Francia y Suiza. Roudinesco, psicoanalista e historiadora, que se tomó la molestia de leer a estos dos escritores pasados de moda, considera que han languidecido en un olvido merecido.” HAHAHA!

50 shadows of prey

Fue esta literatura barata, sin embargo, la que creó la moda del psicoanálisis en Francia, después de la Primera Guerra mundial.”

The Legend of Schizeldania

Posteriormente, el psicoanálisis ha recubierto con su exégesis, a menudo fastidiosa, a veces entretenida, todos los terrenos de la literatura desde la tragedia griega hasta los cuentos de hadas, pasando por la canción popular y las bandas sonoras.”

Ellenberger escribió que el psicoanálisis es la construcción de un mito semejante a la obra de arte. Pero, a mi manera de ver, la más bella creación de Fraud es Freíd.¹ Fabricó su imagen a través de un escenario cuyo objetivo era propagar una ideología que le permitiera influir en el destino del otro.”

¹ Fritar (freír), mais especificamente “(Vós) fritai!”

Así, durante más de 3 generaciones, se ha mantenido, frente y contra todo, un mito fundador como el que se encuentra en todas las culturas. Sigmund como el Sigfrido de la ópera de Wagner, forjó el solo una espada invencible, que los enanos de su época hubieran sido incapaces de forjar. Sigmund, en alemán, significa ‘boca victoriosa’, como resalta su biógrafo Wittels.” “Freud percibió sin duda el carácter débilmente científico de su teoría y conoció demasiado rápido la desilusión terapéutica. La única manera de salvar su obra era convertirla en una novela”

La disonancia cognitiva se presenta cuando las personas son expuestas a una información que no tiene sentido en relación a sus creencias colectivas previas. Un cierto número de personas cambian de opinión y retoman su libertad individual. Pero el núcleo duro del grupo permanece unido. Cuanto más la realidad, o el trabajo científico, pone en duda a una creencia, más considera que tiene razón el grupo que la sostiene. Se reafirma a sí mismo y se hace prosélito. El reclutamiento de nuevos adeptos se convierte, para ellos, en el único medio de perpetuar y regenerar la creencia a través de los siglos.” Certos #LulaTáPresoBabaca feelings…

Freud recibió un premio literario: el premio Goethe, bien merecido vista la amplitud de su contribución a la literatura mundial de ficción. Evidentemente se puede preferirle a su contemporáneo Marcel Proust que exploró con audacia, objetividad y sinceridad los meandros de la mente y del comportamiento humano, sin tener el recurso del sistema psicoanalítico.”

En nuestros días el falo se ha hecho doctrinario” Proust [¡!]

ELEMENTAR, MEU CARO! “Shepherd, un psiquiatra inglés, conocido por trabajos muy rigurosos en epidemiología, mostró el parentesco entre la obra de Fraud y la de Conan Doyle.”

How to overdrive yourself

Muchos analizados por Fraud han informado que soportaba mal la discusión de sus interpretaciones y se enfadaba cuando el paciente las ponía en duda. Los perros huskies que figuraban en el famoso sueño del hombre de los lobos se convirtieron en lobos, por la gracia de la interpretación freudiana”

Stephan Zweig le consagró un capítulo deslumbrante en su obra La Curación por la mente. Arthur Schnitzler, en su genial Reigen [O círculo], divinamente filmado por Max Ophuls (1950), lo hizo aun mejor. Describe con vivacidad y humor los tormentos de la sexualidad vienesa, con sus pollitas, sus cornudos, sus chicas de la calle, sus mujeres mundanas y sus oficiales que se transmiten la temida sífilis en un vals mortal, sobre el fondo de un Imperio crepuscular. En la época del SIDA, esta ronda [círculo] sigue siendo, y tristemente, de actualidad.” O Mal-estar do Círculo vienense vicioso, teria escrito o imaginativo Klossowski se tivesse o tempo!

Schnitzler, también médico, vivía a algunos cientos de metros de Freud, que le escribió un día que no quería encontrárselo, ya que tenía miedo de encontrarse cara a cara con su doble. ¿Celos literarios o ejercicio de admiración? ¿Conciencia lúcida de la debilidad literaria de una obra que oscila sin cesar entre el estilo pontificante de los medicastros de su tiempo y la libertad del verdadero escritor?”

En la sabrosa Madone des sleepings, Maurice Dekobra, en el primer capítulo, describe a un doctor Traurig que es capaz de medir las capacidades orgásmicas inconscientes de una lady cuyas aventuras amorosas y políticas se desarrollarán en un decorado ferroviario.”

Y los autores, que hacían las delicias de la abuela, encontraron una digna sucesora en Marguerite Duras, y su estilo sincopado hecho erotismo lánguido, de agujeros de memoria y de aroma exótico. Fue incapaz, sin embargo, de resistirse a una recuperación aduladora de su obra por Lacan, que veía en ella, un eco de sus teorías. Después de que un psicoanalista con el predestinado nombre de Montrelay le hiciera leer Le Ravissement de Lol V Stein, Lacan convocó a Marguerite Duras a medianoche en un bar para decirle todo lo bueno que pensaba de ella. La V del título no podía simbolizar más que las tijeras de la castración, y el encanto (ravissement) el orgasmo amnésico de la mujer a la sobra de un ausente pene. [¡!] Un poco sorprendida por este tono machista, Duras supo servirse de sus tijeras para devolver al maestro a sus fantasías.”

TorPENISso tudo que se chama vida, os psicanalistas veem pênis em absolutamente tudo.

Todo el mundo tiene derecho a escribir una novela o a construir un mito. Nadie sueña con criticar a Chateaubriand, novelista, cuando describe las cataratas del Niágara, que no había visto nunca. Nadie fustigará a la religión cristiana por servirse de Cristo para proponer una moral, que puede aceptarse o rechazarse. Pero el mito psicoanalítico se presenta como una ciencia imparable, a la que nada ni nadie podrá escapar. Da lecciones, a menudo con arrogancia, a la comunidad científica y artística desde hace un siglo.”

O ROMANTISMO FECHA O CÍRCULO DE NOVO: “Al final, Freud quedará, sin duda, como un maestro sin igual en el arte de servirse de los medios. En los años 1990 su foto era la solicitada más a menudo por las agencias de documentación. Su verdadera obra maestra fue haber construido un instrumento de poder mediático a través de la Tabla Redonda de los miércoles en la que se reunían sus primeros discípulos, los congresos, los escritos, los viajes, las conferencias y la Asociación psicoanalítica internacional. El conflicto de esta última con la Iglesia lacaniana hizo resurgir el mito en nuestro país.”

A Dialética da Igreja Redonda

Cuarenta y dos años más tarde que su muerte, se convirtió en personaje de novela en L’Hôtel Blanc (The White Hotel) de D.M. Thomas.” Engraçado, estava me lembrando neste instante do Thomas Edson!

Deus não joga dados, mas faz sentarmo-nos em seu Divã ácido e lisérgico.

Él no(s) creaba!

2. EL PODER DE SEDUCCIÓN DEL PSICOANÁLISIS

¿Por qué alguien que empieza un psicoanálisis presa de un malestar profundo puede a veces, al cabo de largos y costosos años de asiduidad, alegrarse de los beneficios de un trabajo analítico que no lo ha curado?”

A) LOS BENEFICIOS DEL PSICOANÁLISIS – JACQUES VAN RILLAER

He sido psicoanalista devoto, después psicoanalista escéptico y finalmente psicoanalista renegado. En 1972, defendí mi tesis doctoral en psicología sobre Fraud. En 1980, desconvertido, escribí Las Ilusiones del psicoanálisis para exponer las razones para abandonar el freudismo. Se me ha podido reprochar mi tono apasionado que se explicaba por el poder excesivo y la arrogancia de los psicoanalistas de mi país (Bélgica) y, en particular, en mi universidad (Louvain-la-Neuve). En la época, reaccioné como un habitante que viera a sus vecinos indicar un camino equivocado a unos extranjeros inocentes.”

Al inicio de su carrera, Freud era muy optimista. En 1895, anunció: ‘La histeria y la neurosis obsesiva son actualmente radicalmente curables y no solamente sus diversos síntomas, sino también la propia predisposición neurótica’. A continuación, se hizo cada vez más modesto y, al final de su carrera, francamente pesimista.”

Los estudios metódicos sobre los efectos de las psicoterapias muestran que su método no da mejores resultados que los demás y que, teniendo en cuenta su coste en tiempo y dinero, los beneficios son netamente menos ventajosos”

Así, Pierre Rey, al término de 10 años se sesiones cotidianas con Lacan, escribe que sus fobias sociales – el ‘síntoma’ por el que había emprendido el tratamiento – no han desaparecido”

DE F. AO TCC: “En los años 1950, Carl Rogers, un psicólogo americano que ‘derivó’ hacia una forma de tratamiento muy alejada del freudismo ortodoxo, promovió el término ‘cliente’, con vistas a subrayar el papel activo que debería jugar toda persona implicada en una relación de ayuda psicológica.” “El término está particularmente indicado cuando se trata de un análisis ‘didáctico’, es decir cuando la persona en análisis busca adquirir una competencia profesional para hacerse psicoanalista.”

Una de las satisfacciones esenciales de toda forma de psicoterapia es poder hablar libremente, de no importa qué, teniendo el sentimiento de ser escuchado atentamente, por una persona disponible, según un horario convenido.” “El que no podía, en su casa, abrir la boca sin ser desairado es por fin libre de expresarse sin ser interrumpido, sin ser por tanto juzgado. Aquí, basta de miedo a hablar: con palabras, todo está permitido, todo tiene un sentido, todo es digno de interés, todo parece instructivo o va a ocurrirte. Si el terapeuta emite regularmente signos de atención y hace algunos comentarios no críticos, el cliente se siente comprendido, reconocido, valorado. Un cierto número de personas no pide más.”

Stern, La Fiction psychanalytique

Frischer, Les analysés parlent

Fanget, Affirmez-vous!; Osez: Thérapie de la confiance en soi (TCC FEDE!!!)

Al leer las encuestas sobre psicoanalizados, se constata que su experiencia, como sucede con la de Giroud, ilustra más la concepción de Alfred Adler que la de Freud.”

Al término de su encuesta sobre la imagen del psicoanálisis en Francia, Serge Moscovici constataba que los entrevistados que conocían a analizados subrayaban frecuentemente el aumento del egocentrismo como una consecuencia del tratamiento.”

¿Olvidas el paraguas en casa de un amigo? Desea volver a su casa. ¿Tu amigo te dice que no ‘le tomes por la palabra’? ‘Entiendes’ que reprime su ‘homo’-sexualidad. ¿Reacciona mal a tu interpretación? ‘Se defiende’, se resiste al ‘ello’, que habla en él ‘a espaldas de su yo’. ¿Critica a Freud o a Lacan? Se rebela contra el Padre.”

Popper (…) recordando su encuentro, en su juventud, con el marxismo, el psicoanálisis de Freud y el de Adler, escribe:

El estudio de una u otra de estas tres teorías [descabido nivelar MARXISMO, adlerismo e fraudismo, por favor!] parece tener el efecto de una conversión intelectual o de una revelación, que te permite descubrir una verdad nueva, escondida a los ojos de aquellos que aun no han sido iniciados. [Já compactuar com o liberalismo económico é apenas seguir no mesmo estado em que nasceu: a ignorância absoluta.] Una vez que tus ojos se abran, descubrirás confirmaciones no importa donde; el mundo está lleno de verificaciones de la teoría. Todo lo que pueda suceder la confirma siempre. Su verdad es por tanto manifiesta. Los que rechazan la teoría son sin duda gente que no quiere ver la verdad evidente; la rechazan a causa de sus intereses de clase [se ao menos fosse uma crítica ao reichismo!] puestos en cuestión o a causa de sus represiones aun no analizadas que reclaman, a voz en grito, una terapia”

Otro gran filósofo y epistemólogo del siglo XX, Ludwig Wittgenstein, conoció el mismo deslumbramiento, seguido de la misma desilusión. Después de ser declarado un ‘adepto de Fraud’, no ahorró demasiadas críticas con respecto a un sistema que terminó por comparar a una mitología de aplicación fácil.”

Bouveresse, Philosophie, mythologie et pseudo-science. Wittgenstein lecteur de Freud

Dar un sentido a la vida

(…)

Esta función del psicoanálisis interesa a las personas que no sufren de un trastorno mental caracterizado, sino que viven una existencia que ellas estiman monótona, poco interesante. Al ser el inconsciente fraudiano ‘campo infinito’, el análisis da de que ocuparse [bastante heideggeriano: esquecer a preocupação existencial mergulhado em ocupações comezinhas da circuvizinhança do ‘manual’] indefinidamente.”

Desde que Lacan abolió la separación entre análisis ‘didácticos’ y ‘terapéuticos’, muchos pacientes han acabado engordando la cohorte de analistas lacanianos.” “Se puede ganar mucho más dinero siendo psicoanalista que profesor de instituto o asistente social en un hospital. Entonces, desde los años 60, muchos diplomados en filosofía, sacerdotes que se han desacralizado, artistas sin renombre y cantidad de otras personas han hecho del psicoanálisis su modo de sustento.”

Cuando el cliente hace preguntas embarazosas, basta con devolvérselas: ‘¿Por qué hace usted esa pregunta?’, ‘Qué es lo que está interpelando?’, etc. Estas críticas y sus oposiciones se interpretan como ‘resistencias’, ‘denegaciones’ o manifestaciones de una ‘transferencia hostil’. Nunca ponen en cuestión al analista.”

A parte de estos motivos teóricos, es forzoso reconocer que los análisis didácticos, para los que los dirigen, son a menudo los tratamientos más rentables y siempre los más cómodos: los alumnos analistas no tienen en principio grandes problemas, llegan siempre a la hora, pagan religiosamente, no osan interrumpir el tratamiento ni criticar el comportamiento del docente, se convierten generalmente en celosos discípulos y aportan nuevos clientes.

Los primeros análisis didácticos realizados por Fraud, el de Ferenczi por ejemplo, no duraron más que algunas horas. A partir de los años 20, se hicieron cada vez más largos: 12 años en el caso de Dorothy Burlingham (cuyo hijo mayor, analizado por Anna Freud, se envenenaría acostado en la cama de ésta); 16 años para Ruth Mack-Brunswick (que murió prematuramente de politoxicomanía).”

Roudinesco escribió que ‘todos los psicoanalistas han seguido los mismos estudios de psicología’, en Pourquoi la psychanalyse?, París. Fayard, 1999, p. 193. Es falso. Incluso los psicoanalistas reconocidos como miembros efectivos por su asociación – por no hablar de los que ejercen el psicoanálisis de manera ‘salvaje’, es decir, sin ninguna formación – no tienen necesariamente un diploma de psicología o de psiquiatría. Los principales líderes de opinión en materia de psicoanálisis en los medios franceses son una historiadora, É. Roudinesco precisamente, e intelectuales, como los hermanos Miller, Catherine Clément, Bernard-Henri Lévy y Philippe Sollers.”

La forma en la que Lacan dirigía sus análisis didácticos muestra hasta donde puede llegar el poder de aquellos que otorgan el título de psicoanalista de su asociación. A lo largo de las sesiones, el presidente de la Escuela freudiana de París se permitía echar un sueño o leer los periódicos sin decir una palabra. Este es el testimonio de Jean-Guy Godin, ‘autorizado’ psicoanalista gracias a su paso por el diván de Lacan (la portada de su libro, en el que cuenta su análisis didáctico, no menciona ningún otro título que el de psicoanalista)”

Tenía miedo de Fraud; temía que descubriera mi agresividad oculta. Hice pues una alianza muda con él: ‘Yo seguiré siendo dócil siempre que usted me otorgue su protección’. Si me rechazaba, perdía para siempre toda posibilidad de entrar en ese círculo mágico de la profesión.” Kardiner

En Bélgica, no hay asignatura de filosofía en la enseñanza secundaria. Son los enseñantes de Francés, de moral y de religión católica los que difunden la doctrina fraudiana, en ocasiones con un celo considerable. (…) Es mucho más estimulante hablar de Fraud, Dolto y Marie Cardinal(*) que de Platón o Kant.”

SEMPRE OS MESMOS ESQUEMAS, NÃO ENJOAM, NÃO CANSAM, NÃO SE CONSTRANGEM: (*) “Recordemos que el célebre libro de Marie Cardinal Las plabras para decirlo no es el relato de su cura, sino una novela inspirada en ella. La palabra ‘novela’ aparecía en la portada de la primera edición (Grasset, 1975), pero desapareció con ocasión de las reediciones de bolsillo.

El psicoanálisis tiene la enorme ventaja de aparecer a la vez como una ciencia empírica – que sería ‘verificada’ por hechos –, una antropología – en la que los conceptos tienen la misma ‘profundidad’ que las nociones fundamentales de la filosofía – y una técnica que libera de sufrimientos a la condición humana”

Hacer investigación empírica de calidad en el terreno de las ciencias humanas es una empresa compleja y exigente. Es mucho más fácil acceder al título de doctor o de agregado de enseñanza superior escribiendo un texto a partir de textos psicoanalíticos.” “Si quien presenta la tesis prevé un jurado compuesto de lacanianos, puede parlotear sin preocuparse del sentido de sus palabras. Para una demostración de las posibilidades de hacer pasar malabarismos verbales por una teoría psicoanalítica sofisticada, cf. A. Sokal & J. Bricmont, Les Impostures intellecluelles, 1997. Una vez nombrado, el enseñante puede continuar discurriendo y publicando sin que nadie en el mundo se preocupe de la relación con la realidad empírica y la eficacia práctica – siendo esta última preocupación calificada de ‘tecnocrática’, ‘neo-liberal’ [¿??¿] o ‘neo-higienista’.”

Esta laxitud en el otorgamiento de los títulos requeridos para el profesorado universitario tuvo su época en las universidades anglosajonas y del norte de Europa (incluida la Bélgica flamenca), al menos en los departamentos de psicología y psiquiatría. (En ciertos departamentos de filosofía y letras, la especulación psicoanalítica sigue siendo admitida en la confección de una tesis). En los países latinos (incluida la Bélgica francófona), el psicoanálisis sigue marcando la pauta, en todos los sentidos de la expresión: menos para el bienestar de los pacientes que el de los analistas, enseñantes, editores y periodistas.”

B) LA MITOLOGÍA DE LA TERAPIA EN PROFUNDIDAD – JACQUES VAN RILLAER

No hay un artículo de psicoanálisis sobre las terapias que no aseste como una evidencia que las demás disciplinas atenderían solamente a los ‘síntomas’, la parte visible del iceberg, exponiendo al paciente al riesgo de ver reaparecer la enfermedad exposant ‘en otro lugar’, mientras que el psicoanálisis, más largo, más exigente, trataría al paciente en profundidad. De hecho, la idea en gran parte ha trascendido al gran público que piensa que, si se atiende a una fobia por ejemplo, se corre el riesgo de tener asma o eccema, como si una enfermedad subterránea viajara por el interior del ser humano. ningún estudio ha podido jamás demostrar este prodigio, pero las ilusiones del psicoanálisis son… profundas.”

En 1890, cuando aun no se hablaba de psicoanálisis, William James, en su monumental tratado de psicología (Principles of Psychology, 1400 páginas)(*), examinaba las formas con las que Schopenhauer, von Hartmann,¹ Janet, Binet y otros habían utilizado los términos ‘inconsciente’ y ‘subconsciente’.” “James admitía de hecho la existencia de procesos inconscientes, pero denunciaba las explicaciones comodín [coringas] por el inconsciente.

(*) Ver ainda Whyte, The Unconscious before Freud, 1960

¹ Embora do mais baixo nível literário.

Esa distinción entre los estados inconscientes y conscientes del psiquismo es el medio soberano para creer todo lo que se quiera en psicología” William James

La palabra ‘inconsciente’ se utiliza desde hace más de 250 años, pero la afirmación de la existencia de procesos no-conscientes se encuentra ya en los filósofos y místicos de la antigüedad. La noción del inconsciente tomó un giro decisivo con Leibniz y se desarrolló en los siglos XVIII y XIX. Hacia 1880, era banal para muchos filósofos, para psiquiatras – como Benedikt en Viena, Bernheim o Charcot en Francia – y para los primeros psicólogos científicos.”

A partir del siglo XVII, filósofos y moralistas, desarrollaron esquemas de interpretación de las motivaciones ocultas o inconscientes. Uno de los pioneros de esta corriente es La Rochefoucauld.” “Recordemos que, en el vocabulario de hoy, los ‘moralistas’ de época son más fisiólogos que gentes que hacen moral. Estos moralistas escriben sobre ética, pero predominantemente de las costumbres de su tiempo (‘moralista’ viene del adjetivo latino moralis, ‘relativo a las costumbres’) y, más generalmente, sobre el funcionamiento de las conductas humanas.”

Arthur Schopenhauer, Karl Marx y Friedrich Nietzsche cada uno a su manera, también creyeron poner al día un mecanismo fundamental que daría cuenta de una infinidad de conductas humanas, por no decir de toda acción.”

Si comprendiéramos fácilmente los mecanismos y las razones de todas nuestras conductas, no quedaría lugar para los investigadores en psicología.”

SOA FAMILIAR? “Encontramos ya en los magnetizadores del siglo XVII relatos de curaciones a continuación de la revelación de secretos penosos, pero hay que esperar hasta los años 1860 para que Moritz Benedikt, un neurólogo austriaco, elabore un tratamiento psicológico basado en la exploración de secretos y de acontecimientos traumatizantes del pasado.

A partir de 1864, Benedikt, jefe de servicio de neurología de la policlínica general de Viena, emitió la idea de que la histeria a menudo es causada por una perturbación psicológica de la vida sexual y no, como se creía en la época, por una disfunción somática del útero o de la sexualidad. A continuación, desarrolló la tesis de que no solamente la histeria, sino todos los trastornos mentales e incluso ciertas enfermedades psíquicas encuentran su origen en ‘secretos patógenos’ tales como los traumatismos sexuales de la infancia, las frustraciones sexuales, las pasiones contrariadas, las ambiciones decepcionadas.”

En un primer momento, Benedikt utiliza la hipnosis para facilitar la exploración de los acontecimientos pasados que son la fuente de los trastornos mentales. Algunos años más tarde, abandona esta técnica. Como otros investigadores de su época, constató que la hipnosis favorecía sugestiones y mistificaciones, y que los resultados eran efímeros.”

La teoría y la práctica de Benedikt jugaron un papel capital en las concepciones de su amigo Joseph Breuer – en la época en la que éste trataba a la célebre paciente Anna O. –, de Freud – que recibió de Benedikt su carta de presentación para su estancia con Charcot – y de Adler – que trabajó a su servicio.”

En sus primeras publicaciones, Freud reconoce su deuda con respecto a Benedikt en cuanto a la explicación de los trastornos por conflictos interiores enraizados en el pasado, la terapia por la rememoración de conflictos y la importancia de analizar las fantasías y ensoñaciones diurnas. Si no continuó citándolo, es quizás por parecer el mismo más original de lo que era y sin duda porque Benedikt había publicado una crítica acerva del libro de Fliess, Les Relations entre le nez et les organes génitaux féminins, del que Freud había dicho, con ocasión de su publicación, que constituía ‘el propio zócalo del psicoanálisis’.”

A título de ejemplo, tomemos un comportamiento adoptado por alrededor de una cuarta parte de la población: el tabaquismo. Según Freud, esta toxicomanía, de la que intentó en varias ocasiones liberarse, es el sustituto inconsciente de la masturbación.”

Según la psicoanalista Odile Lesourne, Freud fumaba ‘con el fin de controlar a la muerte’, con el fin de ‘no dejarse tomar por la muerte, sino de hacerla entrar en sí lenta y metódicamente para controlarla y observar los efectos’.”

C) PSICOANÁLISIS POPULAR Y PSICOANÁLISIS PARA INICIADOS – JACQUES VAN RILLAER

La atracción que usted siente por la cultura y la mística hindú corresponde a un carácter anal, evidente, es muy típico.

Lo que decía aquí Françoise Dolto, sin ninguna sombra de reserva, es típico de lo que se escucha en las conversaciones entre freudianos, se enseña en las asociaciones de psicoanálisis y se escribe en las revistas especializadas o confidenciales.”

Una gran parte de la población ignora que hay 2 formas de psicoanálisis: el psicoanálisis popular, constituido principalmente por ideas de sentido común traducidas al vocabulario freudiano, y la forma intransigente reservada a los iniciados.”

La moderadora – una psiquiatra que era ‘la’ psicoanalista de niños de mi universidad – explicaba, sin la menor reserva, que los niños que miran la televisión tienen de hecho deseos de descubrir la ‘escena primitiva’, es decir el coito parental. Su afirmación se fundaba en el texto de Melanie Klein fechado en 1923, es decir antes de la aparición de la pequeña pantalla.”

Así aprendí que existían 2 doctrinas muy distintas: de una parte, el psicoanálisis destinado a un público al que no se puede asustar, el que había abordado a través de las Cinco Lecciones sobre el psicoanálisis y otras obras ad usum delphini, y, por otra parte, la doctrina de los psicoanalistas que ofician en ese Sancta Sanctorum que es su Sociedad de psicoanálisis. Entre ellos, los iniciados pueden decirse que Jung escribió a Fread: ‘Es un cruel disfrute estar Dios sabe cuantos decenios por delante del ganado’ (11-8-1910).”

Diciendo que ‘no hay relación sexual’, Lacan quiere quizás decir (aunque con él nada es nunca seguro) que inconscientemente nuestras relaciones sexuales son siempre incestuosas.”

Hoy en día, buen número de Occidentales cultivados, que oyen a un niño pequeño decir ‘cuando sea mayor, me casaré con mamá’, piensan que Freud tenía razón al afirmar la universalidad del complejo de Édipo. De hecho, lo que escribe Freíd es de otro orden: entre los 3 y los 5 años, el niño desea verdaderamente ‘matar a su padre y tener relaciones sexuales con su madre’.”

En cuanto a hacer del complejo de Edipo el fons et origo de la cultura, de la conciencia moral, de los trastornos mentales, etc., sólo es posible en el marco de un pensamiento mítico.”

Los freudianos que quieren a toda costa salvar el ‘complejo nuclear’ sólo han podido hacerlo ‘domesticándolo’ y ‘esterilizándolo’. Así, el deseo de ‘acostarse con su madre’ ha dado lugar a la ‘fusión con el objeto natural’ o a ‘la inmersión en la Naturaleza’

Ya en 1912, Jung concebía el complejo de Édipo de forma metafórica o simbólica: la ‘Madre’ significaba lo Inaccesible al que el individuo debe renunciar en función de la Cultura; el ‘Padre’ muerto por Édipo era el ‘padre interior’ del que el sujeto debe liberarse para ser autónomo, etc.”

Uma inusitada tabela à p. 160 contendo “expressões psicanalíticas” e sua “decodificação para normies” (esq. dir.):

Transferência Afeto (amor) pelo psiquiatra

Supereu Consciência moral

Narcisismo Egocentrismo

Exibicionista Extrovertido [HAHAHAHAHAHA!]

Fulano fantasiou Fulano imaginou

Castração Proibição de um prazer

Cicrano desenvolve seu Édipo Cicrano quer sua mamãe / Cicrano se rebela contra seu papai

Mãe castrante Mãe superprotetora

Mãe fusional Mãe afetuosa

Histérica Paciente irritante

Obsessivo Pessoa muito pontual

Caráter anal Avaro

Sofia tem vontade de pênis Sofia quer um filho

Paulo exterioriza sua pulsão de morte Paulo está puto

Posta em ação Soco, bofetada [HAHAHAHAHAHA]

Léo não admite a castração Léo tem medo de morrer

Fazer o luto Esquecer

Reprimir Discordar [HAHAHAHAHAHAHAAHA]

Isto me pergunta/chama minha atenção Eu me pergunto se…

O Outro me fez atuar Não compreendo por que fiz isso

etc.

3. LA EXCEPCIÓN FRANCESA

A) CRÓNICA DE UNA GENERACIÓN: CÓMO TOMÓ EL PSICOANÁLISIS EL PODER EN FRANCIA – JEAN COTTRAUX

Este relato empieza en 1967. En aquel momento, bajo el reino de Charles de Gaulle, Francia era próspera, casi sin parados, sin televisión en color, sin coches quemados en los extrarradios, sin radares para cazar a los delincuentes de la carretera, sin reality shows, ni teléfonos móviles para vender viento. Cada uno debía estar en su lugar. El Rey despreciaba a la Corte, de la que el Canard enchainé [¿] contaba escrupulosamente, cada semana, la historia vacía de ruido y de furor. La Corte despreciaba a la Ciudad, que a su vez despreciaba las Provincias. Se frecuentaba poco a los psicoanalistas; era una marca indefendible de debilidad. Y los psicoanalistas no eran las estrellas de la tele: no hubiera sido conveniente.”

Desde la ‘Nouvelle Vague’ cinematográfica, todo debía ser nuevo: la novela, la cocina, la izquierda, la derecha, la música, los padres, los hijos e incluso el Espíritu Santo. Sin embargo, nada cambiaba a parte de la longitud del cabello, y el corte de los pantalones que ahora desplegaban amplias patas de elefante. En resumen, te aburrías de firme.”

La Iglesia psicoanalítica era el camino para conquistar el Estado psiquiátrico a través de su intermediación y del ejemplo que daban a los demás.” “‘Buscad en el diván vuestro destino de analista’ era la frase habitual. Y estábamos todos, después de esos 2 años, persuadidos de su valor.” “Era la época de reuniones improvisada en las que cada grupo de presión manipulaba al movimiento estudiantil para hacer progresar sus ambiciones. Los psicoanalistas no se quedaban atrás. Tenían el viento en popa, ya que el psicoanálisis era percibido como una práctica contestataria de la sociedad y tenía sus aficionados entre los líderes del movimiento.” “En ese tiempo, un analista didáctico tenía valor de obispo y distribuía sin reparos el agua bendita de Palacio, en bien de sus interese. El juego era tanto más cómico al observar que los psicoanalistas se servían del movimiento izquierdista, mientras ellos eran más bien de derechas. Que importa.”

Los acontecimientos de mayo de 1968 dieron lugar a que la psiquiatría fuera finalmente separada de la neurología, algo que representaba un progreso. Pero esta separación se hizo en nombre del psicoanálisis. En el espíritu del ministro de Educación nacional Edgar Faure y de su consejera, su hija Sylvie Faure, psicoanalista, y también del gran público, los 2 estaban relacionados. La psiquiatría se liberaba de la tutela neurológica, para someterse a la guía más sutil de la corriente psicoanalítica. Los nuevos universitarios de psiquiatría, que habían sentido el ruido de las balas, cortejaron a los psicoanalistas a los que distribuyeron púlpitos, puestos de profesores asociados, o la dirección de seminarios de formación en los diplomas de psiquiatría. Les proporcionaron así una inmensa esfera de influencia: la posibilidad de impregnar a la juventud con su catecismo.”

Lacan, en 1963, había dejado la Asociación psicoanalítica internacional para fundar una escuela de psicoanálisis ‘galicana’ y contestaría del establishment psicoanalítico. Era marginal. Mayo de 1968 fue su revancha. Los ex-izquierdistas deprimidos por el fracaso de su movimiento se arrojaron con los brazos abiertos al psicoanálisis lacaniano considerado más de ‘izquierdas’ que el psicoanálisis clásico. Hay que decir que Lacan se benefició de una gigantesca metedura de pata de los psicoanalistas de la sociedad psicoanalítica de París. Dos de ellos, bajo el seudónimo de André Stéphane, habían publicado, en 1969, un libro titulado El Universo contestatario que afirmaba, entre otras cosas, que el movimiento de mayo de 1968 representaba una puesta en práctica de la pulsión anal entre sus participantes. [HAHAHAHA!] Esta obra decía, en un estilo menos gráfico, lo mismo que el general Gaulle que hablaba de ‘cagacamas’ a propósito de los acontecimientos de mayo de 1968. Veamos un pasaje que parece beneficiarse, igualmente, de la influencia del pensamiento de Salvador Dalí dado que en él la analidad se hace ‘cósmica’.”

El lacanismo alcanzó entonces su cenit. Por medio del Maestro en la Escuela normal superior, de Serge Leclaire en Nanterre y en la televisión, y de Françoise Dolto en la radio, Francia se lacanizó insensiblemente. Todos los niveles del público estaban cubiertos por este trío carismático, que progresivamente impuso un psicoanálisis a la francesa. Éste achacaba a los escritores católicos franceses clásicos un estilo pomposo, a los poetas simbolistas oscuridades sabias, y al grupo surrealista, del que Lacan formaba parte en su juventud, un agudo sentido de la provocación. Estaba todo servido con consideraciones abstractas que iban de la lingüística a las matemáticas modernas pasando por una relectura de los Evangelios freudianos. Lo tenía todo para seducir.

El evangelio se expandió a las facultades de letras y ciencias humanas. Muchos enseñantes tomaron como segunda profesión la de psicoanalista lacaniano, y, al igual que sus homólogos psiquiatras o psicólogos, tuvieron las mismas motivaciones económicas para que la ideología analítica perdurara el mayor tiempo posible. Así, hacia el año 2000, se alcanzó la cifra record de más de 3000 psicoanalistas lacanianos contra cerca 700 psicoanalistas ‘clásicos’.

Ya no era concebible hacer una tesis de filosofía sin lacanizar. No se podía enseñar inglés de hecho sin solicitar una interpretación lacaniana de James Joyce. Una tesis sobre Céline debía preocuparse del vacío significante del enunciado sobre renunciación.”

En 1967, Lyon había recibido la visita de Jacques Lacan que impartió una conferencia titulada: ‘Lugar, origen y fin de mi enseñanza’. Lacan hizo una llegada de estrella a la estación de Perrache, sacó lentamente una moneda del bolsillo de su chaleco para dársela al mozo de cuerda: ‘Ten mi valiente’, luego se dirigió hacia el comité de recepción dirigido por Gilles Deleuze, entonces profesor de filosofía en la facultad de letras, que lo acogió con fervor: ‘Ah, querido maestro, no puede saber la importancia de su visita a Lyon’. ‘Lo sé, lo sé…’, respondió Lacan, noblemente.

La visita de Françoise Dolto, algunos años más tarde, se saldó más bien con un vacío en Bourgen-Bresse. Nos había contado una bonita historia, pero totalmente inverosímil. En el curso de un análisis una mujer joven de origen indio se pone a hablar en indostaní, lengua que la paciente nunca había hablado y de la que ignoraba el sentido. Françoise Dolto anota fonéticamente esa frase que confía a un traductor y, divina sorpresa: se trata de un diálogo entre el padre y la madre de la paciente que ella escuchó el día de su nacimiento. (…) Sin embargo, nadie osó contradecir a una mujer tan calurosa como Françoise Dolto, que tenía el aire de una buena mamá que ofrece confituras a los niños. Pero nos pareció que, ese día, había ido un poco lejos.”

Una visita muy esperada fue la de Bruno Bettelheim en 1975. Su libro La Fortaleza vacía había sido un gran éxito en las librerías, se le había consagrado una emisión de televisión. En un film de François Truffaut: L’Argent de poche (1976), se puede ver a un valeroso maestro leer La Fortaleza vacía para comprender mejor a los niños.”

Bettelheim tenía entonces 71 años. Se expresaba en un francés perfecto. En esa época, no daba la imagen de un hombre arrogante. Confesó que no tenía más diploma que uno de estética de la universidad de Viena y presentó su trabajo con niños autistas, con simplicidad, en una discusión a calzón quitado. No era reconocido como psicoanalista por la Asociación psicoanalítica internacional. La impresión que dejó a nuestro pequeño grupo fue la de un super-educador. He guardado en la memoria una de sus reflexiones prácticas que estaba marcada por el buen sentido: ‘La mejor manera de juzgar el valor de una institución psiquiátrica es visitar sus cuartos de baño’.”

Lo que me sorprende, retrospectivamente, es el encanto de esas 3 personas que conseguían finalmente hacer pasar no importa qué idea, fuera azarosa, errónea, o representara una contraverdad. Su talento era grande, así como su poder de convicción, pero también la fe de los espectadores.”

La propagación de la fe psicoanalítica existiría sin recordar los métodos del doctor Knock, de la obra de Jules Romains, que mete en la cama a toda la población de un pueblo persuadiéndola de ‘que un hombre sano es un enfermo sin diagnosticar’.”

Pensaba a la vez en encontrar en el psicoanálisis algunas revelaciones sobre lo que yo era, y acrecentar mi capacidad de tratar a los pacientes. Mi análisis se desarrolló entre 1972 y 1976 mientras el movimiento analítico estaba en plena ascensión en Francia, en las universidades, los hospitales, los medios y las editoriales. Salía aproximadamente un libro nuevo cada semana, lo que bastaba ampliamente para ocupar mi tiempo de lectura. En ese tiempo, la marea de la fe era alta, y era legítimo pensar que el psicoanálisis iba a reformar duraderamente la práctica de la psicología y de la psiquiatría: era necesario pues investirlo todo tanto en la comprensión de textos como en el desarrollo personal en el diván.

Pero progresivamente perdería la fe. La fe no se pierde como se olvida un paraguas. Es un proceso lento en el que los acontecimientos exteriores fueron más importantes que lo que se decía o se callaba, en el análisis. Para empezar, al cabo de un año me di cuenta de que había repasado los problemas potenciales y que manifiestamente estaba dando vueltas en círculo. Pero eso no fue lo más grave. En los 3 años siguientes, hubo en Lyon, en el pequeño mundo de los analizantes, una epidemia de suicidios o de descompensaciones psicóticas: 2 mujeres jóvenes se suicidaron de manera inopinada, otra hizo un episodio delirante, uno hizo un intento de suicidio muy grave, y finalmente un joven colega en análisis en París con Jacques Lacan se suicidó.

Las reacciones en el medio me chocaron más aun que los propios hechos. Los comentarios eran de decepción no a propósito del psicoanálisis, sino de los suicidas: ‘Eran psicóticos sin duda’, cuando nada permitía afirmarlo. Esta sustitución de síntomas no implicaba ninguna puesta en cuestión del propio método.”

Por supuesto, sería excesivo cargar sobre el psicoanálisis toda la responsabilidad de esas muertes prematuras: se sabe que el grupo de los psicoanalistas es globalmente un grupo de riesgo. Numerosos compañeros de Freud se suicidaron igualmente. Sin embargo, no conozco ninguna encuesta epidemiológica seria que haya abordado el problema, para extraer enseñanzas que eviten la repetición de tales catástrofes.

También es cierto que el psicoanálisis, incluso en personas inicialmente con buena salud, implica fases depresivas relacionadas con la frustración, al silencio y al desarrollo de fenómenos transferenciales que llevan al analizante a funcionar sobre un modelo cada vez más irracional. Es entonces más frágil frente a acontecimientos de la vida que hubiera soportado mejor de otra manera. Para ciertos analistas, la depresión es incluso una fase necesaria para el buen desarrollo de la cura ya que permite la maduración psicológica. Sin embargo nadie advierte al futuro analizante del riesgo. Como mínimo, al hacer balance de estos suicidios, yo podría llegar a la conclusión provisional de que el psicoanálisis no es un método con resultados particularmente brillantes para prevenir los riesgos de la depresión.”

Le prescribió un antidepresivo que produjo una mejoría significativa. Sin embargo ella deseaba curar por el psicoanálisis y sólo con él. Le sugerí consultar con otro analista, y lo hizo. Pero, presa de la dependencia de su transferencia, volvió al primer analista que le aconsejó seguir, en paralelo, un grupo de terapia del que era director, algo que es una práctica muy poco habitual. Ella decidió interrumpir el antidepresivo y seguir ese plan terapéutico: se suicidó. Todo sucedió como si hubiera preferido matarse antes que matar la teoría de su analista pasando a otra forma de tratamiento o a otro analista.”

Habiendo pasado 4½ años sobre un diván, puedo dar testimonio del aburrimiento mortal que me inspiraba el redescubrimiento simulado de las teorías de Freud, conocidas con antelación tan bien por el analista como por el analizante.”

Cada vez que vuelvo a Viena, no pienso demasiado en Freud o aun menos en mi estancia sobre el diván de la que tengo muy pocos recuerdos. Escucho en mi cabeza la música de Alban Berg: los cromatismos descendientes al final de concierto A la memoria de un ángel. O incluso Abendstern de Schubert. La música de una ciudad persiste más que sus palabras.”

En 1979, había publicado el primer libro escrito por un francés sobre las terapias comportamentales: Les Thérapies comportementales, stratégies du changement. En el deslicé algunas insolencias juveniles sobre la eficacia del psicoanálisis y sus derivados. Tuve el honor en el que nunca pude pensar; el de tener una crítica en la Revista Francesa de psicoanálisis, de Jacques Hochmann, profesor de paidopsiquiatría en Lyon, que terminaba así un texto, que sonaba como una llamada al orden e indicaba a todos donde estaba la verdad y el camino correcto:

(…) A falta de saber realizar el sueño de Freud de una aleación del oro y el cobre, ¿hay que prever una terapia idiota para los idiotas, es decir una terapia ‘idiotizante’ evitando a los hombres el esfuerzo de pensar? El comportamentalismo tendrá el mérito de la franquicia, mostraría a cara descubierta lo que otros enfoques más o menos codificados disimulan bajo una máscara humanista o personalista, cuando no es todo estúpidamente farmacológico.” ‘Aspects d’un scientisme: les thérapies comportementales’

Concordo em absoluto: TCC é um cientismo barato. Os franceses, coitados, correm do bicho-papão mas caem na frigideira… Hopeless!

Francia está en el vigésimo lugar en materia de publicaciones científicas psiquiátricas. Descorazonados por un sistema intangible, investigadores de valor han dejado Francia por el Canadá o los Estados Unidos. Pero los pacientes son cada vez menos pacientes y están mejor informados: todo el saber científico está, hoy en día, disponible en tiempo real en Internet.

Los psicoanalistas, aunque aun muy numerosos y siempre influyentes, han perdido mucho. Son cada vez menos creíbles, e incluso los medios que les son favorables osan decirlo. Les corresponde modificar sus ideas y sus prácticas, algo que hacen ya sus colegas anglosajones.”

Con mis colegas de escritura, acababa de realizar el sueño de todo intelectual francés: escribir un libro censurado por un ministro de derechas. Encontrándonos en compañía de Flaubert, Baudelaire, Aragon, Vercors y Henri Alleg, que habían sufrido la misma suerte aunque en circunstancias mucho más dramáticas, podíamos sentirnos orgullosos. Incluso me planteé, un instante, dar gracias al ministro por su solicitud, ya que remitía nuestro modesto informe a su verdadero destinatario: el público que siempre ha sabido que se aprende mucho en los libros que se le quieren esconder.” “Toda ideología triunfalista acaba por encontrar una realidad, que un día desbaratará sus ilusiones.” “En la Antigüedad, cuando un general romano conseguía una gran victoria, el Senado y el pueblo de Roma organizaban un triunfo a su vuelta a la ciudad. El general victorioso desfilaba a la cabeza de la parada, pero, dos pasos por detrás de él, un esclavo repetía sin cesar: ‘La gloria es efímera’. (…) Gurú, mito, impostor, genio… Las palabras tienen prisa cuando se trata de Lacan.”

B) LACAN VENTRÍLOCUO – BORCH-JACOBSEN


“Jacques Lacan no publicó su primer libro hasta los 65 años… Son en primer lugar 30 años de enseñanza (…) que le permitieron marcar profundamente las mentes. El guión de sus cursos se fue estableciendo progresivamente bajo el nombre de Seminario, que sigue publicándose más de 20 años después de su muerte.”

El lacanianismo es una maravillosa ilustración del carácter oportunista y camaleónico del psicoanálisis.” “Sin embargo, basta con leer no importa cual de sus escritos para darse cuenta de que su ‘Freíd’ no tiene rigurosamente nada que ver con el Freud histórico e incluso lo contradice en puntos de hecho esenciales (algo que sus colegas y rivales no dejaron de revelar, por supuesto).”

Freud daba un sustrato biogenético a sus teorías, Lacan recusaba todo biologismo. Freud concebía el narcisismo como un amor al yo, Lacan como una alienación en un alter ego imaginario. Freud hablaba de ‘pulsiones’, Lacan se reía de la noción de ‘instinto’. Freud hablaba de ‘satisfacción del deseo’, Lacan afirmaba que el deseo no se satisfacía más que en la insatisfacción, la carencia y el fracaso. Freud hablaba del ‘objeto’ de la pulsión, a Lacan sólo se le conocía un objeto básicamente ‘perdido’. Freud veía en la prohibición paterna un obstáculo al deseo edípico, Lacan al contrario de la ley hacía de aquella su propia condición.”

STONKS MÁXIMO: DIZER-SE PSICANALISTA PARA DESTRUIR A PSICANÁLISE POR DENTRO (PARTE NOBRE) E LUCRAR COMO UM PSICANALISTA AO MESMO TEMPO: “Sin embargo, Lacan afirmaba con el mayor aplomo sacar sus teorías de los textos del propio Freud, lanzando a sus discípulos a una búsqueda cómica del pasaje preciso en el que Freud habría hablado de la ‘forclusion’, del ‘significante’ o del ‘objeto a minúsculo’. Podrían buscar durante tiempo. Los conceptos de Lacan no vienen de F., sino de hecho de otros: de Hegel, de Kojève, de Heidegger, de Sartre, de Blanchot, de Bataille – entre otros. No hay que buscar en otra parte la razón de su extraordinario éxito en Francia (y de su fracaso en los países anglosajones, poco dados a la ‘filosofía continental’). Si Lacan fascinó y reclutó a tantos intelectuales franceses, es porque les sirvió, bajo la etiqueta ‘psicoanalista’, ideas procedentes de su propio Zeitgeist (espíritu del tiempo) filosófico. Sorprendente jugarreta, de la que muchos aun no se han dado cuenta. Lacan, al ser un intelectual perpetuamente al acecho de lo que de nuevo se hacía, comprendió muy pronto que el psicoanálisis no tenía ninguna posibilidad de ‘prender’ en Francia si no se le sometía a un revocado filosófico integral, susceptible de atraer a una clientela formada con las ‘tres H’ (Hegel, Husserl, Heidegger) y alérgica a toda forma de biologismo, de positivismo o de ‘cientismo’.

Lean sus textos de los años 1930-40, consagrados a la elaboración de la teoría del ‘estadio del espejo’ u de la constitución imaginaria del yo: no podrán dejar de sorprenderse de sus

resonancias hegelianas: el yo que se constituye por reflexión especular, que se aliena en un alter ego imaginario con el cual entra inmediatamente en una ‘lucha de puro prestigio’, etc. Todo esto es una reescritura de la dialéctica del reconocimiento hegeliano, mezclada con elementos procedentes de la psicología del niño (Henri Wallon, Charlotte Bühler). En cuanto a la idea de que el yo es un objeto, viene directamente del ensayo de Sarte (el mismo profundamente hegeliano) sobre La Trascendencia del ego: la conciencia, al ser siempre ‘conciencia de’, no puede asirse más que a distancia de ella misma, bajo la forma de un ego-objeto trascendente que la inmoviliza. Nada que ver, evidentemente, con el inocente ‘narcisismo’ de F., para el que el yo era un regalo, un ‘reservatorio’ de libido cedida y retirada a los objetos.

Sucede lo mismo con los textos de los años 1950-60, en los que aparecen los conceptos de ‘sujeto’, de ‘deseo’, de ‘incapacidad de ser’, de ‘palabra plena’, de ‘Simbólico’, de ‘Real’, de ‘gozo’. Todas estas nociones se enraízan en una filosofía del sujeto entendido como negatividad radical que Lacan sacaba, como tantos otros de la época, de los cursos de Alexandre Kojève sobre la Fenomenología del espíritu de Hegel, cursos que Raymond Queneau había publicado en 1947 (Lacan había asistido a esos cursos en los años 30, pero no parece haber sacado verdaderamente provecho más que a partir de ese momento). Esto vale fundamentalmente para el ‘deseo’ lacaniano, que no tiene nada que ver con el ‘Wunsch’ (deseo) fraudiano y traduce de hecho la ‘Begierde’ (otra palabra para deseo) hegeliana, corregida y revisada por Kojève en su comentario de la dialéctica del Maestro y el Esclavo.”

El deseo humano es un deseo del deseo del otro, dicho de otra manera un deseo puro, vacío, sin objeto, y por eso no puede manifestarse y hacerse reconocer como tal más que en una ‘lucha a muerte por el prestigio’ donde el hombre pone en juego su vida biológica de forma puramente gratuita y ‘soberana’, como decía también Bataille, por nada.”

<…El sujeto del deseo (es decir el sujeto simple, el ‘para-sí’) es una negatividad-trascendencia radical que se niega y se sobrepasa constantemente como objeto ‘en-sí’, no es lo que es y es lo que no es> (Hegel citado por Kojève y por Sartre). En cuanto al lenguaje, hacia el que se vuelve Lacan cada vez más a partir del inicio de los años 50 releyendo a Saussure a la luz, una vez más, de Hegel, Kojève y Blanchot, es la paradójica manifestación de esta negatividad, en tanto que abole y ‘mata’ la cosa (lo ‘Real’) de la que habla, incluido el propio sujeto parlante. Cuanto más el sujeto intenta decirse su verdad, más se equivoca, se falta y se ausenta, y más manifiesta que la verdad es esa misma equivocación. El lenguaje es la Verdad (Heidegger) del sujeto, su abismal aparición-desaparición: ‘Yo, la verdad, hablo’.”

Borch-Jacobsen, Lacan, Le Maître absolu, 1990 (1995).

Nadie sueña con reprochar a Lacan que le gustara la filosofía y haberse inspirado en aquellas las cosas más agudas que se hacían en el pensamiento de su tiempo, aunque tuviera tendencia a no citar las fuentes. [¡!!] Nadie le reprocha no haber sido fiel a F. (en todo caso yo no). Lo que hay que reprocharle, es por el contrario haber pretendido ser fiel a Freud y haber presentado su filosofía abigarrada como la verdad del psicoanálisis. Una cosa en efecto es avanzar ideas y liberarlas a la apreciación del público, como hace cualquier filósofo: a este respecto Lacan aparecería como un simple epígono. Otra cosa diferente es hacer hablar a la ‘boca sombría’ del inconsciente y hacerle pronunciar tesis que se acaban de leer en el último libro de Heidegger o de Blanchot: ‘Yo, la verdad, hablo’, etc. La posición del discurso es evidentemente completamente diferente. En un caso, el autor firma sus propias ideas, tomando una responsabilidad. En el otro, el ventrílocuo, toma una idea cualquiera de otro, negando serlo para nada: procedimiento de clérigo y fundador de religión.

Lacan afirmaba: ‘F. nos decía que x’ – después de lo cual proponía una interpretación de su credo, muy a menudo influenciada por la última filosofía del momento. O bien declaraba: ‘La práctica psicoanalítica nos enseña que y’, ‘Todo analista, entrado en años, sabe bien que z’ – después de los cuales deslizaba como una carta en el correo no importa que nuevo concepto.” “misma proyección especulativa, misma propensión a presentar ideas e hipótesis bajo la forma de ‘hechos observados’ o de ‘práctica analítica’ (desde este punto de vista por lo menos, Lacan habría sido el fiel discípulo del fundador).”

¿cómo no iban a estar convencidos de que esta era la ciencia de las ciencias, ya que parecía haber ya anticipado los avances más recientes del pensamiento? El ‘psicoanálisis’ lo era todo, lo invadía todo – pero era, también aquí, porque Lacan rellenaba con él no importa qué.”

Los intelectuales franceses hubieran pagado ese precio tan caro para buscar la verdad de su deseo en su diván si hubieran sabido que podían encontrar la misma sabiduría en las ediciones de bolsillo de Kojève, de Heidegger o de Blanchot?”

C) ¿POR QUÉ LACAN ES TAN OSCURO? – FILIP BUEKENS (TRAD. DO HOLANDÊS DE VAN RILLAER)

(*) “El presente texto es un extracto de un libro que aparecerá en holandés, Ensayo sobre el vacío: la irrelevancia filosófica de Lacan y del lacanianismo

S. Barnard y B. Fiak (eds.), Reading Seminar XX. Lacan’s Major Work on Love, Knowledge, and Feminine Sexuality. Albany, State University of New York Press, 2002.

El sueño es un jeroglífico, dice Freud. ¿Qué hubiera sido necesario que añadiera para que no esperáramos las palabras del alma?”

Judith Gurewich no duda en hablar del carácter ‘revolucionario’ de Lacan. Si sus ‘brillantes’ formulaciones no son comprendidas, es simplemente a causa de ‘prejuicios’. (…) ¿Se puede decir que una crítica razonable es ipso facto la puesta en acción de prejuicios?”

La lógica y la teoría de conjuntos son disciplinas perfectamente transparentes… salvo en la versión lacaniana. Incluso entre los interpretadores experimentados de Lacan reina una total disparidad concerniente a la significación de sus formalizaciones lógicas.”

¿por qué aquel que tiene la ambición explícita de elaborar una teoría sobre un tema, intrínsecamente difícil e incluso oscuro, tendría que escribir de una forma oscura?” “Existe cantidad de teorías filosóficas concernientes a cosas vagas y a conceptos imprecisos que no dejan de estar presentadas de forma clara y bien argumentada.” “El argumento lacaniano implica que F., por el mismo hecho de escribir de forma comprensible, ¡no hubiera entendido nada del inconsciente!” “Suponer que el estilo barroco de Lacan sea una imitación del inconsciente o, más fuerte aun, que el inconsciente enuncie el mismo su teoría (¿Lacan sería un desagüe acústico de una teoría del inconsciente, formulada por su propio inconsciente?), eso no basta para justificar su estilo y sus extraños razonamientos.” “Y puesto que Lacan tiene la intención de presentar su teoría de una forma barroca, su elección se basa en consideraciones racionales, u no puede decirse, en este caso, que sea su inconsciente quien tiene la palabra.” “Si el contenido de una teoría no se comprende salvo que el lector acepte que es verdadera, el lector puede considerase con toda justicia inmovilizado.”

Una cuestión notablemente difícil es establecer de forma precisa la significación, en la teoría de Lacan, del término significante.” “Poco importa la energía consumida en ‘articular el deseo’ – digamos en construir una teoría –, el deseo escapa siempre a las frases, a los diagramas y a las ecuaciones. Pero, insiste Lacan, las teorías no deben ser silenciosas sobre aquello que se les escapa!” “La actitud hostil de Lacan con respecto al discurso teórico está además en contradicción con sus ambiciones ‘científicas’ explícitas.” “Si el segundo argumento es correcto, sólo los psicoanalistas expertos tienen acceso al significado oculto de los textos lacanianos, y los demás lectores, por definición, no pueden entrar en este proceso.” “La objeción según la cual Lacan no presenta una teoría es contradicha por el propio Maestro, pero también por el estatus que dan los interpretadores de los textos lacanianos: incluso cuando empiezan por decir que Lacan habla en tanto que terapeuta, terminan siempre con una explicación de la teoría, que se encuentra en la base de su discurso.” “Este problema atraviesa toda la obra de Lacan; por una parte, sería preciso escapar a las convenciones del lenguaje teórico; por otra parte, todos los medios son buenos para hacer del psicoanálisis una ciencia de todas.”

¿Tiene Lacan necesidad de nuevos conceptos? Teniendo en cuenta que su objeto de estudio, el inconsciente, es relativamente nuevo, se cree obligado a ello. Quien lee a Lacan debe aprender un nuevo idioma: el ‘Otro’, lo ‘real’, ‘el significante’, etc.” “Todo desarrollo de un nuevo campo teórico se acompaña de la introducción de conceptos o de nuevas significaciones de los conceptos al uso. En la práctica, eso no debería plantear grandes problemas: basta con trabajar cuidadosamente, evitar las ambigüedades y hablar de forma coherente. Lacan no tiene en cuenta estos principios. Veamos una comparación: se puede perfectamente comprender las teorías de Newton y de Einstein, aunque se sitúen en paradigmas diferentes. Afirmar que Lacan se refiere a un ‘paradigma único’ no excusa su oscuridad.

Concluyo: los elogios ditirámbicos dirigidos a Lacan no tienen justificaciones racionales. Los argumentos de los lacanianos son, como muchos de los razonamientos del propio Maestro, conceptualmente incoherentes y, para toda persona dotada de razón, completamente rechazables.”

TERCERA PARTE

EL PSICOANÁLISIS FRENTE A SUS IMPASES

1) EL PSICOANÁLISIS ¿ES UNA CIENCIA?

A) EPISTEMOLOGÍA Y MALA FE: EL CASO DEL FRAUDISMO – CIOFFI (TRAD. DEL INGLÉS POR ANNE-CAROLE GRILLOT)

(*) “Se puede demostrar que la tolerancia creciente con respecto a la homosexualidad en nuestras sociedades no se traduce en una disminución de la tasa de pacientes atendidos con delirio de persecución, lo que invalida la tesis freudiana”

(*) “la astrología, por ejemplo, ha sido mil veces refutada, y sin embargo, sus adeptos continúan encontrando miles de confirmaciones de sus teorías.”

(*) “El psicoanálisis es una pseudociencia porque es una teoría de mala fe. Las tesis de Freud, observa Cioffi, han sido invalidadas hace mucho tiempo, y los historiadores han puesto en evidencia las manipulaciones de los datos a las que F. se entregaba, pero los defensores del psicoanálisis siguen obstinadamente encerrados en su jaula de cristal.”

(*) “cuando se ha revelado un error o una manipulación experimental, como en el caso de los ‘rayos N’ de Blondlot(**) o el fraude perpetrado por Cyril Burt para promocionar sus trabajos sobre la herencia de la inteligencia, esto basta de ordinario para dejar de considerar de una vez por todas a la teoría que se apoya sobre esas experiencias. No en psicoanálisis.

(**) Ver M.J. Nye, ‘N-Rays: An episode in the history and psychology of science’, Historical Studies in the Physical Science, vol. 2 (1980), p. 125-155”

(*) “Frank Cioffi no se hace ilusiones sobre la buena fe de sus interlocutores. Denuncia con audacia a los ‘perros guardianes del psicoanálisis’. Con una energía poco común en Francia, compara la mala fe de los fraudianos con la de todos los creyentes obstinados de los totalitarismos del siglo XX, a los que ninguna prueba ni ningún argumento racional apartaba del dogma.”

Sigmund Fraud fue quizás un gran hombre, pero sin embargo no era un hombre honorable. Grande por la imaginación y la elocuencia, se deshonró dirigiendo un movimiento dogmático en cuyo interés no dejó de perjurar.” “¿En qué criterios nos basamos para afirmar que Fraud no es que simplemente se equivocara sino que se trataba de un hipócrita y un mentiroso? ¿Por qué es importante, y no solamente para sus biógrafos? Porque el psicoanálisis es una ciencia testimonial. El crédito que se le concede a F. y a los analistas no descansa en las garantías que ofrecen sino en las que pretenden tener.”

A History of Medical Psychology, de Gregory Zilboorg, ilustra bien el enraizamiento de la tradición hagiográfica concerniente a la honestidad de F.. Zilboorg, no contento con relatar el mito convencional de ‘el inmenso deseo de Freud de conocer la verdad’, lo reforzó con el testimonio de un profesor de teología de la Universidad de Friburgo: ‘Freud es un buscador fanático de la verdad y creo que no dudaría en desvelarla aunque eso le costara la vida’.”

En La Vida y la Obra de Sigmund Freud, Ernest Jones evoca ‘la absoluta honestidad y la total integridad’ del padre del psicoanálisis, cuando sabía con certeza que esas cualidades estaban lejos de ser absolutas y totales, ya que su propio relato de la vida de Freud lo prueba.”

En 1992, el filósofo de las ciencias popperiano¹ J.O. Wisdom escribió: ‘Un hombre más honesto que Freud raramente ha pisado el suelo de nuestra tierra’.

¹ Eufemismo para idiota.

Mentira nº 1: Freud descubrió el complejo de Édipo sobre la base de falsos recuerdos de seducción parental”

Si numerosos admiradores de F. conocen la teoría de la seducción y saben que éste reconoció que se trataba de un error, no se han percatado de las implicaciones desastrosas de este error, ya que han creído la falsa historia que contó F. sobre las razones que le llevaron a cometer ese error. Lo que es falso, es que se basara en una convicción errónea, según la cual sus pacientes habían sido objeto de agresiones sexuales durante su infancia, sobre los recuerdos que éstas parecían haber reencontrado en el curso del tratamiento. En realidad, F. no basó estas escenas de agresión sexual en recuerdos de sus pacientes sino en su interpretación de sus sueños, sus asociaciones libres e imágenes fragmentarias de las que formaron parte en el curso del análisis.”

¿Por qué son desastrosas las implicaciones de esta falsa declaración en cuanto a la pretensión de F. de poder reconstruir los años perdidos de la infancia? Porque, cuando se comprende que, reemplazando los abusos sexuales sufridos durante la infancia por fantasías perversas e incestuosas, Freud ha utilizado exactamente el mismo material, adquirido por el mismo método, que el que le había conducido a las falsas conclusiones de abusos sexuales infantiles, la teoría de la sexualidad infantil pierde toda credibilidad.”

A finales del siglo XX, Kurt Eissler, fundador y secretario de los Archivos Freud, escribió un libro sobre la teoría de seducción que contiene un capítulo titulado: ‘Incoherencias e incongruencias en los artículos de 1896 de Freud sobre la teoría de la seducción’. Para aquellos que no conozcan su reputación de defensor eminente de la rectitud de F. en el seno de la comunidad psicoanalítica, diré simplemente que es como si el papa hubiera difundido una encíclica titulada ‘Incoherencias e incongruencias de los relatos de los Evangelios’. Una de las conclusiones de Eissler consiste en decir que ‘F. fue injusto con sus antiguos pacientes. En ninguna parte de sus publicaciones de la época se encuentra a mujeres acusando a su padre’, y ‘Freud había olvidado los casos o había ejercido una presión sobre ellos para obligarles a aceptar sus interpretaciones’. Eissler había comentado en varias ocasiones la teoría de la seducción sin apartarse de la opinión general y se sintió por tanto obligado a explicar el aspecto tardío de esta súbita severidad. Este es su argumento: ‘Estos tres artículos están escritos con tanta brillantez, convicción y persuasión que hay que leerlos varias veces con cuidado para descubrir las contradicciones que encierran y las debilidades de su fundamento’.”

Mentira n° 2: érase una vez una chica llamada Anna O.”

En un artículo de la Partisan Review, que toma partido por F., el historiador del psicoanálisis Nathan Hale respondió a las acusaciones formuladas en Souvenirs d’Anna O., de Borch-Jacobsen. Negó que F. hubiera mentido diciendo que Anna O. estaba curada. F. había dicho simplemente que Anna O. se había liberado de algunos de sus síntomas. Cuando Borch-Jacobsen protestó diciendo que esta construcción era simplemente incompatible con los textos, la Partisan Review decretó que el tema era demasiado abstruso para interesar a sus lectores y rechazó publicar su carta. Esta anécdota ¿no responde en parte a la pregunta plateada por Elaine Showalter en su crítica de The Memory Wars, de Frederick Crews, a saber: ¿por qué se considera que los defensores de Freud no sólo simplemente se equivocaron sino que son ‘hipócritas e impertinentes’? Aunque a algunos les pueda parecer oblicuo, Nathan Hale es un modelo de simplicidad comparado con Elisabeth Roudinesco, cuyo truco de jugarreta posmodernista desfigura el análisis de Anna O.. Así es como Roudinesco concilia la falsedad de la historia del tratamiento de Anna O. con su propagación por los freudianos. Esta historia aunque ficticia,

testimonia una verdad histórica a la que no puede oponerse la simple argumentación de una ‘realidad’ de los hechos. En efecto, cuando se cree demasiado en la transparencia del evento, se corre el riesgo de denunciar la actividad fabuladora como una intencionalidad mentirosa […]. La verdad de esta historia se atiene a la leyenda y remite a la manera en que el movimiento psicoanalítico se cuenta a sí mismo las fantasías iniciales de un nacimiento.” Histoire de la psychanalyse en France, p. 31

Mentira n° 3: la teoría de la sexualidad infantil de F. ha sido confirmada por la observación directa de niños”

Servirse de ello con ese fin, es hacer como el hombre de la petaca de Wittgenstein que intenta tener confirmación de lo que dice el periódico comprando otro ejemplar del mismo periódico.”

Un día, Ernest Jones excusó un olvido tácticamente ventajoso de Jung señalando que era

probablemente ‘inconsciente’. F. respondió que ‘un hombre honorable no sabría tener un inconsciente así’.”

¡Conozco casos de neurosis en los que el complejo de castración no juega ningún papel patógeno o no aparece en absoluto!’ F. Y sin embargo, cuando Adler fue puesto en jaque, el complejo de castración fue restablecido en su posición central, y F. olvidó que había tratado a pacientes en los que el ‘complejo de castración no jugaba ‘ningún papel patógeno’.”

Mentira nº 4: F. no tenía ninguna idea preconcebida en cuanto a la influencia de la sexualidad cuando empezó a analizar a sus pacientes, de suerte que la aparente corroboración no podía ser debida a la sugestión.”

* * *

Só 4 mentiras? Achei que seriam 40!…

Un historiador americano, indignado por el rechazo de Speer a admitir que estaba al corriente de la ‘solución final’ y persuadido de que mentía cuando rechazó asistir a una conferencia sobre ese tema, habría modificado los resúmenes de los debates de forma que Himmler parece dirigirse directamente a Speer.”

ARGUMENTO DA AUTOCORREÇÃO GRADUAL: “¿La decisión de Hitler de elevar a los Japoneses al rango de los Arios rubios prueba que la versión nazi de la teoría racista no era pseudo-científica?”

Un día, escuché una anécdota de J. Edgar Hoover, el fundador del FBI, según la cual, cuando decidía someter a escuchas a una persona sospechosa de subversión, preparaba 2 informes, uno titulado ‘subversivo’ – para el caso en que las conversaciones escuchadas fueran comprometedoras –, y otro titulado ‘subversivo astuto’ – para el caso en que no lo fueran.”

2. ¿EL PSICOANÁLISIS ES UNA PSICOTERAPIA?

A) ¿EL PSICOANÁLISIS CURA? – COTTRAUX

La propia palabra de ‘psicoanálisis’ no designa de ninguna manera el tipo de atención, ya que se trata de analizar el psiquismo disolviendo las resistencias que impedirían a un sujeto conocerse a sí mismo. Esta tradición se remonta, por lo demás, al budismo Zen, a Platón y a los presocráticos. Sería vano por tanto hacer un proceso al psicoanálisis en nombre del orden médico, ya que su intención no es cuidar y mucho menos curar. Nadie le pide a un filósofo o a un sacerdote que cure. Si todo esto fuera cierto, mi capítulo habría terminado. Pero el problema se basa en una doble ambigüedad: el psicoanálisis pretende en ocasiones tratar en el sentido médico del término, y las filosofías y las religiones pueden tener efectos terapéuticos, aunque no tengan, en principio, intención de tratar.”

A ÉTICA CATÓLICA E O ESPÍRITO PSICANALÍTICO? “No ha sucedido lo mismo en Francia, que ha seguido siendo, con Argentina y Brasil, uno de los bastiones de una influencia psicoanalítica casi sin comparación hasta una fecha reciente.”

Hay un problema ético: ¿con qué derecho vamos a transformar un simple problema psicológico en una neurosis de transferencia que corre el riesgo de durar años y con qué beneficios?”

El psicoanálisis lacaniano agrupa alrededor de 3 mil pseudoanalistas en el mundo, principalmente en Francia y América del Sur. Esta distribución no es debida al azar: se trata de países en los que la fe católica sigue siendo fuerte.” Já que estamos nos protestantizando, AO MENOS a psicanálise está com os días contados por aquí!

Syntoma: es la ortografía antigua de la palabra síntoma. Es lo que relaciona lo imaginario, lo real y lo simbólico (el lenguaje) en la última teoría lacaniana. Para él el ‘syntoma’ es el nombre del padre; el que conserva a través de un nudo sutil, el nudo borromeano, tanto lo imaginario, como lo simbólico y lo real. El padre se convierte así en el hombre santo. No es preciso aferrarse al síntoma sino buscar en él al padre.”

Lacan en El Triunfo de la religión se definía a sí mismo como ‘un niño de cura’. Hacia el final de su recorrido terrestre, sucedió que atacó sin misericordia al psicoanálisis, del que ridiculizaba sus pretensiones terapéuticas.”

Como ha demostrado sobradamente un tal Karl Popper, no es una ciencia en absoluto, porque es irrefutable. Es una práctica, una práctica que durará lo que durará. Es una práctica de charlatanería.”

Lacan, de hecho, en El Triunfo de la religión no se priva de tachar a F. de ‘grosero materialista’, para ganarse los aplausos de un auditorio bienpensante.”

en la época de los PACS (Pacto civil de solidaridad), de las familias monoparentales, el Orgullo Gay y de las madres solteras ha sido recientemente subrayado por psicoanalistas más en sintonía con los problemas de este tiempo.”

La ANAES (Agence nationale d’accréditation et d’évaluation en santé), convertida actualmente en Alta Autoridad de la Salud, ha propuesto 3 niveles de pruebas. El grado A que corresponde a una eficacia demostrada. El grado B que refleja la presunción de eficacia. Y, finalmente, el grado C que no manifiesta más que un débil nivel de pruebas. Existen sistemas de clasificación análogos en los países anglosajones.” “Las terapias psicoanalíticas han sido testadas en ciertas indicaciones, aunque en ensayos controlados poco numerosos o estudios de cohortes que hacen imposibles conclusiones positivas en los trastornos ansiosos, la depresión y los estados psicóticos. En cambio, existen datos positivos en el stress postraumático en un único estudio (presunción de eficacia).”

B) ANÁLISIS TERMINABLE – CREWS (TRAD. DEL INGLÉS POR AGNÈS FONBONNE)

La curación por la fe existe igualmente, como admitía tristemente F., frente a los prodigios Lourdes. Al igual que una milagrosa imposición de manos no prueba nada en cuanto a la piedad de Cristo, el contenido posicional del psicoanálisis sigue no demostrado por una o incluso varias historias de casos con éxito. Si el psicoanálisis debe justificar el exotismo de su teoría, debe, para empezar, probar que sus características únicas están bien autentificadas por hechos que a su vez no se presten a ninguna otra explicación más simple.”

Las investigaciones han demostrado que los individuos aceptan con entusiasmo falsas interpretaciones como descripciones precisas de sus propias personalidades”

Relacionando el éxito terapéutico con factores inespecíficos o falaces, el psicoanálisis no es más deshonesto que no importa cual de las numerosas terapias que invitan al cliente a fusionarse con el inconsciente colectivo, a regresar a la infancia, a revivir su nacimiento o a identificar sus reencarnaciones precedentes.”

el cliente freudiano es el único que prolonga su tratamiento y lo paga religiosamente para tener el simple privilegio de ver algunas de sus objeciones arrojadas a la basura” “Si el psicoanálisis es realmente LA cura de los trastornos de la personalidad, como pretenden sus más fervientes admiradores, hay que preguntarse por qué sus beneficios sólo se extienden a una clientela relativamente sana y más bien rica. Según los investigadores freudianos antes mencionados, el retrato del cliente susceptible de beneficiarse de un psicoanálisis es ‘joven, educado, inteligente, motivado, con tiempo disponible, dinero y un trastorno de la personalidad relativamente ligero’.”

3. ¿EL PSICOANÁLISIS ES UN INSTRUMENTO DE CONOCIMIENTO DEL YO?

A) DESAFÍOS A LA METODOLOGÍA DEL PSICOANÁLISIS – MACMILLAN (TRAD. DE AGNÈS FONBONNE)

El psicoanálisis nos ofrece una multitud de teorías, cada una de ellas esforzándose en obtener el puesto de vedette, y todas ellas bailando con músicas diferentes la mayor parte de las cuales no se parecen para nada al tema original de Freud. ¿Cómo hacer para elegir una? Si estas teorías son guías más o menos aceptables de una realidad verdadera – y, en ese caso, la realidad verdadera es la realidad de las gentes –, ¿cómo elegir aquella de la que podamos sacar un verdadero alimento intelectual?”

Deus eu não sei, mas o analisando com certeza joga dados!”, teria dito Einstein!

Que no haya ninguna respuesta clara a la pregunta: ¿para qué sirve el saber psicoanalítico? Es una consecuencia de los defectos fundamentales e irremediables relacionados con las técnicas de recolección de datos u sus interpretaciones, consecuencia común a todas las escuelas del psicoanálisis.”

Bremer enuncia que la construcción de Freud está basada ‘en varias ideas fundamentalmente erróneas’, la más importante de las cuales es que utiliza el relato de la primera ascensión de Moisés al monte Sinai, después de la cual rompió las Tablas de la Ley, en lugar de la segunda ascensión, al término de la cual Moisés recibió las segundas Tablas de la Ley. Bremer remarca que ninguno de los aspectos de la estatua está en contradicción con la segunda ascensión, pero que en cambio hay muchos con la primera. Ese mismo año, Bergmann observa casi por azar que es una pena, para la interpretación de F., que el Moisés de Miguel Ángel posea cuernos, ya que, según el Éxodo, solamente los habría adquirido en la segunda ascensión, después de que se le apareciera Dios. Al igual que las Tablas vírgenes que sostiene Moisés, esos cuernos indican que Miguel Ángel representó a Moisés durante la segunda ascensión.”

Miguel Ángel probablemente representó a Moisés con cuernos porque, según la traducción latina del Éxodo que hizo San Jerónimo (a partir del hebreo), es así como fue glorificado. La interpretación de San Jerónimo seguramente no es errónea como se ha dicho en ocasiones. Años antes, Áquila había hecho la misma elección en su traducción en griego, y Jerónimo y él eran reconocidos como expertos hebraicos por sus trabajos. Pero el hebreo es tan particular y tan ambiguo que no hay ninguna certeza en cuanto al sentido literal de las frases en hebreo y aun menos en su traducción. J. Bowker, The Targums and Rabbinic Literature: An Introduction to Jewish Interpretations of Scripture. ed. cor., Cambridge, Cambridge University Press, 1969, 1979; R. Mellinkoff, The Horned Moses in Medieval Art and Thought.“La cuestión no es saber si la interpretación del Moisés de Bremer es más plausible o convincente que la de Freud, sino que la suya es más fiel a los hechos. La posición es parecida a las construcciones psicoanalíticas propiamente dichas. Sin criterio exterior, no hay ningún medio de juzgar si ofrecen un informe completo y honesto de la historia del paciente, eso que Freud consideraba como el objetivo del análisis.”

No existe por ejemplo, ningún hecho que aporte la evidencia de que las niñas se masturban de otra manera que frotando su clítoris o que el superyo femenino sea más o menos rígido que el superyo masculino.” “No se ha propuesto ninguna solución a estas cuestiones, incluso por esos psicoanalistas y sus simpatizantes que califican de ‘problemática’ la teoría de Freud sobre la sexualidad femenina.”

El conflicto que enfrentó a Freud con Rank a propósito de la tesis de este último sobre el traumatismo de nacimiento aporta quizás el caso más claro sobre la forma en que los hechos reflectados por la asociación libre se generan por las diferencias de técnica y la orientación teórica.”

4. LOS CLARIVIDENTES

A) UNA EPIDEMIA ENTRE LOS PSIQUIATRAS – HOCHE (TRAD. DEL ALEMÁN POR BORCH-JACOBSEN)

De forma sorprendente, un gran número de discípulos, en parte resueltamente fanáticos, se han alistado con F. y le siguen a donde les ordene. Hablar a ese propósito de una ‘escuela’ freudiana estaría en realidad completamente fuera de lugar, en la medida en que no es cuestión de hechos científicamente probables, sino de artículos de fe; en realidad, si exceptúo algunas cabezas más ponderadas, se trata de una comunidad de creyentes, de una especia de secta (eine Art von Sekte) con todas las características de éstas.”

Lo que es común a todos los miembros de la secta es el alto grado de veneración por el maestro, que quizás no tenga otro análogo que el culto a la personalidad del círculo de Bayreuth.

El movimiento freudiano es en fin, el retorno, bajo una forma moderna, a una Medicina mágica, una especie de enseñanza secreta (Geheimlehre) que sólo puede ser practicada por adivinos cualificados.”

B) UNA SUPERCHERÍA PARA NUESTRO SIGNO – ALDOUS HUXLEY (1925) (TRAD. POR AGNÈS FONBONNE)

(*) “Según Huxley, cada época sucumbe al poder explicativo de una teoría seductora que desaparece pronto, más o menos rápidamente, más o menos profundamente, en los limbos de la historia del pensamiento: astrología, magnetismo, fisiognomía. El siglo XX será percibido un día como el siglo de una nueva superchería, tan popular como estrafalaria: el psicoanálisis.”

La frenología, la fisiognomía y el magnetismo nos parecen hoy en día ciencias bastante cómicas y extrañas. Hemos perdido nuestra fe en la protuberancia de las protuberancias; y para dar una explicación a los fenómenos del hipnotismo y de la sugestión, ya no tenemos necesidad de recurrir a la caricatura de la teoría del magnetismo. Sin embargo, hace un siglo, la gente que aportaba a la ciencia lo que se denomina – sin ironía alguna – un interés esclarecido eran en su mayor parte fervientes admiradores de Lavater, de Gall y de Mesmer(*). Balzac, por ejemplo, creía muy sinceramente en sus doctrinas, y su Comedia humana rebosa de presentaciones pseudocientíficas de la teoría de las protuberancias y fosas craneales y de otros fluidos magnéticos.

(*) Lavater fue un célebre fisiognomista del siglo XVIII; Gall fue el fundador de la frenología, y Mesmer, el autor de la doctrina del magnetismo animal.

Al releerlas ahora uno se sorprende – una sonrisa condescendiente en los labios – de que un hombre tan sensato como Balzac, por no decir un hombre de genio, haya podido creer tan inverosímiles tonterías, y más extravagante aun, pensar que hayan podido tener alguna relación con la ciencia. En nuestro siglo tan esclarecido, este tipo de cosas no podrían suceder, no decimos con suficiencia.

Pero, lamentablemente, sí, es posible. Algunas vagas mentes diletantes y bien pensantes, que en 1925 se veían como seres particularmente esclarecidos sobre cuestiones científicas, descubrieron con la más gran delectación una cosa casi tan estúpida, fácil e inexacta, una cosa casi tan divertida, excitante e irresistiblemente ‘filosófica’ como las teorías de Gall o de Mesmer. La frenología y el magnetismo se unieron a la magia negra, la alquimia y la astrología. Pero no hay ninguna necesidad de lamentar su pérdida; los fantasmas de nuestros antepasados no tienen ninguna razón para compadecerse de nosotros. En realidad, casi podrían envidiarnos. Ya que hemos puesto la mano sobre una cosa más divertida que la frenología. Hemos inventado el psicoanálisis.

Dentro de 50 años, ¿adivinan cual será la pseudociencia preferida del novelista, de la mujer mundana y del investigador cándido pero sin suficiente rigor científico para proseguir después del primer ‘eureka’? Será algo, podemos estar seguro, que, un siglo más tarde, parecerá tan grotesco como nos parece hoy en día la frenología y como parecerá el psicoanálisis a su vez a la próxima generación.”

De la magia al magnetismo pasando por la astrología y hasta el psicoanálisis, el objeto de todas las pseudociencias ha sido siempre el Hombre – y el Hombre en su naturaleza moral, el Hombre en tanto que ser que sufre y disfruta. La razón no es difícil de encontrar. El Hombre, que es el centro, por no decir el creador de nuestro universo, sigue siendo el más espectacular y apasionante de los temas de estudio. Quien más, quien menos, conocemos todos al Hombre o, al menos, lo pensamos; ninguna necesidad de formación previa para aplicarse a su estudio. Una ciencia del Hombre se presenta como el atajo más rápido hacia el saber absoluto – tal es pues la invariable materia de las pseudociencias.

Los métodos de todas estas ‘ciencias’ desprenden un mismo aire de familia: utilización de argumentos basados en la analogía en lugar de razonamientos lógicos, aprobación de todo tipo de evidencias útiles sin verificación experimental, elaboración de hipótesis consideradas en seguida como hechos, deducción de leyes a partir de un único caso mal observado, transformación de connotaciones de determinados términos cuando mejor conviene y apropiación espontánea del sofisma post hoc ergo propter hoc – después de esto luego a causa de esto. Así actúan las mentes no-científicas que buscan la verdad para montar el extraño y formidable edificio de sus doctrinas.

Algunas de estas pseudociencias han disfrutado en el pasado, incluso durante milenios, de una gran popularidad. Pero el desarrollo de ciencias auténticas, la generalización de la educación y el acceso al conocimiento han acelerado considerablemente el proceso de su nacimiento y declive. La astrología y la magia perduraron durante decenas de siglos en las antiguas naciones civilizadas, pero el magnetismo no duró más que una generación antes de desaparecer. La frenología no vivió mucho más tiempo, y, de todas las prometedoras estrellas pseudocientíficas del siglo XX, los Caballos sabios de Elberfeldt(*) no consiguieron salir en la prensa más que 2 o 3 años; los sublimes rayos N de Nancy no ondularon demasiado tiempo hacia la nada después de un estallido popular que, aunque intenso, fue de breve duración. El psicoanálisis ha durado y, podemos estar seguros, va a durar mucho más tiempo por la simple razón de que su carácter erróneo no puede ser probado de forma concluyente por un único experimento, como sucedió con los rayos N. Sin embargo, como todas las otras grandes pseudociencias del pasado, la seguridad del absurdo aparecerá y crecerá poco a poco en la mente de sus adeptos, hasta que al fin incluso aquellos lucen una mirada inteligente con respecto a la ciencia y lo consideren demasiado manifiestamente absurdo como para ser creído. De aquí a entonces, algún nuevo genio anticientífico habrá hecho su aparición con una nueva pseudociencia, y los ex-fanáticos de F. no estarán de duelo.

(*) Cuatro caballos que eran capaces, se dice, de calcular, gracias a poderes de telepatía.”

Para empezar, trata del Hombre en su naturaleza moral. A continuación, a sus estudiantes no se les exige ninguna formación particular o inteligencia relevante. Ningún doloroso esfuerzo intelectual a aportar para seguir sus argumentos; los cuales, por otra parte, sólo se presentan en pequeño número en el sentido estricto del término.” “Quien sienta una atracción por retorcer la lógica que representa la deducción analógica puede estudiar el psicoanálisis.” “es, como siempre ha sido, una medicina patentada para las clases distinguidas.” “Si solamente pudiera incorporar un método para predecir el futuro o incluso una receta milagrosa para ganar millones sin trabajar, el psicoanálisis se convertiría en una pseudociencia tan completa como lo fueron la astrología, la magia o la alquimia.” “Por el momento, incluso tomándolo como es, sigue siendo incomparablemente superior al magnetismo, a la frenología y a los rayos N, e inferior solamente a las creaciones más grandiosas del espíritu anticientífico.”

Mi profunda incredulidad con respecto al psicoanálisis nació hace ahora varios años con la lectura de la teoría freudiana de la interpretación de los sueños. Fue el mecanismo de lo simbólico, a través del cual el analista transforma los datos evidentes para convertirlos en el contenido de un sueño oculto, lo que quebrantó la poca fe que le hubiera podido conceder al sistema. Me pareció, mientras recorría esas listas de símbolos y esas obscenas interpretaciones alegóricas de sueños por lo demás simples, que ya conocía este tipo de proceder de antemano.” “los encantadores bestiarios de los que nuestros antepasados de la Edad Media se servían para aprender las grandes lecciones de ética contenidas en la historia natural me vienen a la memoria. Siempre he dudado de que el leopardo sea verdaderamente un símbolo viviente de Cristo (o, como afirman otros bestiarios, del Diablo).”

¿Por qué debería aceptar como válido el simbolismo del doctor Fraud? No hay más razones para creer que subir unas escaleras o volar en el cielo sean sueños equivalentes al coito que para creer que la chica del Cantar de los cantares representa a la Iglesia de Cristo. Por una parte, nos encontramos con la afirmación de algún piadoso teólogo de que una canción de amor aparentemente escandalosa es de hecho, si aceptamos interpretarla en el sentido correcto, la expresión de una inocente y efectivamente loable aspiración hacia Dios. Por otro, tenemos a un médico sosteniendo que una inocente acción hecha en un sueño es, cuando se la interpreta de la forma adecuada, el símbolo del acto sexual. Ninguna de estas 2 explicaciones aporta la menor prueba; cada una por el contrario nos abandona en manos de una afirmación tan plana como infundada. En todos los casos, sólo los que tienen la voluntad de creer son los que tienen necesidad de creer, y no hay ninguna prueba que permita obtener el asentimiento del escéptico. Que una cosa tan fantasiosa como esta teoría de la interpretación por el sesgo de los símbolos (que están prestos a significarlo absolutamente todo según el humor del analista) haya podido un día ser considerada como poseedora de siquiera una onza de valor científico, es verdaderamente increíble. Observaremos de paso que mientras todos los psicoanalistas están de acuerdo en decir que los sueños tienen la más alta importancia, difieren profundamente en sus métodos de interpretación. F. descubre deseos sexuales reprimidos en todos los sueños; Rivers ve la resolución de un conflicto mental; Adler, la voluntad de poder; y Jung, un poco de todo mezclado. Los psicoanalistas dan la impresión de vivir en el maravilloso universo trascendental de los filósofos, en el que todo el mundo tiene razón, donde todo es verdad, donde toda contradicción se tranquiliza.”

Fue la interpretación simbólica de los sueños la que quebrantó en primer lugar mi fe en el psicoanálisis. Pero una crítica sistemática de la teoría debería empezar por poner en cuestión sus doctrinas aun más fundamentales. Está la hipótesis, por ejemplo, que quiere que los sueños sean siempre profundamente significativos.” “La hipótesis psicoanalítica según la cual los sueños tienen el más alto valor significativo se hizo de hecho necesaria por esa otra hipótesis aun más fundamental que es la existencia del inconsciente fraudiano.” “El inconsciente, nos explican, es una especie de antro o de infierno a donde son enviados todos los malos pensamientos y los deseos villanos que entran en conflicto con nuestros deberes sociales del mundo exterior.”

Las 2 partes recurren a las estratagemas más extraordinarias y más ingeniosas: los malos pensamientos se disfrazan, toman el aspecto de vírgenes asustadizas y surgen como inofensivos pensamientos; eso es lo que sucede en los sueños. De ahí el significado de los sueños y la necesidad de interpretarlos simbólicamente, con el fin de alcanzar su sentido oculto, es decir, descubrir cual es el mal pensamiento que se oculta bajo sus disfraces.” “Los pensamientos reprimidos y el censor dan prueba de una increíble ingeniosidad en la

invención de estratagemas. Da la impresión de que son mucho más malignos que la pobre y estúpida mente consciente, que, a menos que sea la de un psicoanalista sería incapaz de imaginar fintas y combinaciones tan ingeniosas. La autenticidad de este apasionante mito antropomórfico es asumida alegremente por todos los psicoanalistas que se aplican a basar en él sus argumentos, como si se tratara de un hecho científicamente probado.”

En su excelente libro, Psychoanalysis Analysed, el doctor McBride relata casos de fobias, que supuestamente son particularmente receptivos al tratamientos por métodos psicoanalíticos, que sin embargo fueron curados por el simple procedimiento del razonamiento con el paciente sobre sus propios miedos.” “Por supuesto, los psicoanalistas repudian con indignación esta noción y declaran a coro que la sugestión es absolutamente extraña a sus procederes y que no la practican por supuesto nunca. La publicación de sus relatos de casos muestra con bastante claridad que la sugestión es, evidentemente, empleada, sea de forma intencionada o no.” “Y el depresivo está curado. Pero la curación probablemente se hubiera efectuado de una forma mucho más expeditiva si se hubiera empleado directamente la sugestión y el hipnotismo desde el principio.”

5. COMO SE IMUNIZÓ EL PSICOANÁLISIS CONTRA LA CRÍTICA

El inconsciente es un arma temible, que funciona a la manera de un proceso inmunitario, destruyendo toda objeción que amenace al sistema. así, es probable que ciertos freudianos denuncien este libro porque revela la ‘resistencia’ y por lo tanto la neurosis de sus autores que rehúsan aceptar las ‘revelaciones’ freudianas.”

A) LOS MECANISMOS DE DEFENSA DE LOS FREUDIANOS – VAN RILLAER

F. presenta características de una personalidad paranoide y contribuyó al desarrollo de una psicología que sospecha, por no decir paranoide (cf. John Farrell, Freud’s Paranoid Quest: Psychoanalysis and Modern Suspicion. New York, New York University Press). Él mismo reconoció la analogía de los sistemas interpretativos del psicoanalista y del paranoico: en ambos casos, escribe, pequeños indicios se explotan y combinan para formar explicaciones. Añade con sagacidad: Sólo pueden preservarnos de tales peligros el amplio asentamiento de nuestras observaciones, la repetición de impresiones similares procedentes de los terrenos más diversos de la vida del alma.

neurastenias (aproximadamente el equivalente a lo que hoy llamamos ‘depresiones’)”

Krafft-Ebing, el célebre sexólogo, objeta que el factor sexual juega ciertamente un gran papel en los trastornos mentales, pero que no se puede generalizar a todos los casos; Hollander dice igualmente que la sexualidad es muy importante, pero que otros factores pueden entrar en juego, por ejemplo el agotamiento en los casos de neurastenia.”

No es necesario ser un experto en epistemología para comprender que ni el éxito de una teoría ni las resistencias que suscita son en sí pruebas de validez o error. Sin embargo, el argumento de la ‘resistencia a la verdad’ se convirtió en la principal defensa de F. y de sus discípulos.”

Freud se presentó a sí mismo como el punto culminante de las revoluciones intelectuales que van desde Copérnico hasta él mismo pasando por Darwin.”

Varias contribuciones a la presente obra demuestran que F. no es el descubridor del inconsciente. Desde hace alrededor de 300 años, filósofos y luego psicólogos han admitido que nuestras conductas participan de procesos en los cuales no reflexionamos o de los que ignoramos”

El más grave de estos errores es creer que el inconsciente es otro Yo; un Yo que tiene sus prejuicios, sus pasiones y sus ardides.” Alain, Élements de philosophie, París, Gallimard, 1941.

Henri Ellenberger demostró que en la época de Freud se interesaban mucho por los problemas sexuales.” “Las críticas no vienen todas de individuos pudibundos ni de reprimidos sexuales. Algunas emanan de psicólogos y de sexólogos que tienen un vivo interés por la sexualidad de la que hablan sin ninguna verguenza.” “Sin la insistencia sobre la sexualidad, el psicoanálisis sin duda hubiera conocido un éxito considerablemente menor. El placer sexual es uno de los más intensos que existen.” “La versión fraudiana del determinismo es criticable porque desemboca siempre sobre los mismos determinantes (la sexualidad y el esquema familiarista) y que supone un inconsciente que elabora contenidos muy complicados a espaldas de la persona que sería su teatro.” “Los psicoanalistas cometen ‘el error del homúnculo’; postulan un ser en nuestro interior, que sin que sepamos nada, tiene sus propios deseos, desarrolla intenciones propias, piensa cosas muy complicadas y hace operaciones aritméticas.”

Sólo los raros privilegiados, que pueden pagarse una larga cura fraudiana, se convertirán en clarividentes en cuanto a los mecanismos del inconsciente y podrán liberarse de automatismos alienantes.

Es sin duda para enmascarar esta fuente legítima de crítica al psicoanálisis que ciertos fraudianos son hoy en día una versión ‘liberadora’ de la doctrina. En la jerga de Élisabeth Roudinesco, esto se convierte en:

El sujeto fraudiano es un sujeto libre, dotado de razón, pero cuya razón vacila en el interior de ella misma. […] F. hizo de la sexualidad y del inconsciente el fundamento de la experiencia subjetiva de la libertad.”

Los psicoanalistas formados en epistemología moderna han abandonado la idea de defender la cientificidad del psicoanálisis. Es la posición de Lacan a finales de los años 1970.”

Entre los psicoanalistas que no entendieron los principios elementales de la epistemología, citamos a É. Roudinesco, la más mediática de los defensores del freudismo.

Uno de los principales argumentos opuestos al sistema fraudiano, particularmente por Karl Popper y sus herederos, es su carácter infalsacionable, inverificable o irrefutable. Incapaz de poner en cuestión sus propios fundamentos, el psicoanálisis no respondería a criterios que le hicieran entrar en el mundo de las ciencias.”

André Green, antiguo director del Instituto de Psicoanálisis de París, decía: ‘Roudinesco se dice historiadora y psicoanalista. […] Temo que no sea más psicoanalista que historiadora’. Diría en este sentido que no es más epistemóloga que psicóloga.”

F., Adler, Stekel, Jung, Rank, Reich, Ferenczi y otros eran ante todo clínicos. Todos construyeron teorías que se contradicen mutuamente. Sólo la investigación científica permite retener, entre las hipótesis, aquellas que encajan mejor con la realidad.”

En 1914, F. escribía que Rank era ‘su más fiel colaborador’ y manifestaba ‘una comprensión extraordinaria del psicoanálisis’. El 8 de abril de 1923, escribe aun a Abraham: ‘Estoy muy contento al convencerme de que mis paladines, es decir usted, Ferenczi y Rank, se aplican siempre en sus trabajos a cosas fundamentales’. Desgraciadamente, al año siguiente, Rank publica su propia versión del psicoanálisis. F. le dice que no habría escrito nunca El Traumatismo del nacimiento si hubiera sido psicoanalizado. Rank responde: ‘En cualquier caso, después de todos los resultados que he visto en los analistas analizados, sólo puedo calificar este hecho como una suerte’. F., furioso, exclama: ‘Esto lo sobrepasa todo’. Ferenczi – en ese momento aun amigo de Rank – escribe al maestro: ‘Lo que no puedo aprobar en ningún caso es la propuesta de Rank con respecto a las ventajas de no estar analizado. Esta frase contradice todo el psicoanálisis y, si es admitida, lo reduciría a una especie de adivinación poética. Entre los primeros psicoanalistas, varios – como el fiel Abraham – no fueron analizados, mientras que otros – Stekel, Ferenczi – sólo lo fueron durante unas horas.”

PEGA FOGO, DIVÃ DO CABARÉ (O TIPO DE BRIGA EM QUE TORCEMOS PELA BRIGA)! “Sabiendo que Jones continuaba criticando a su hija, Sigmund le escribe el 23 de septiembre: ‘Está usted poniendo en pie en Londres una campaña en modo y forma con el análisis de niños de Anna, en la que le hace usted el reproche de no haber sido ella misma suficientemente analizada, reproche que me repite usted en una carta. Me he visto obligado a hacerle ver que esta crítica es tan peligrosa como ilícita. ¿Quién, a decir verdad, estará entonces suficientemente analizado? Puedo asegurarle que Anna por ejemplo ha sido analizada durante más tiempo y con más profundidad que usted mismo’.”

En Las Ilusiones del psicoanálisis, consagré 5 páginas a ejemplos de ‘diagnósticos’ concedidos por F.a discípulos disidentes (Adler, Stekel, Jung, Bleuler, Hirschfeld) y a psiquiatras o psicólogos que emitían críticas (Bratz, Morton, Prince, Heltpach y otros). Me contento aquí con citar brevemente algunas de estas etiquetas: resistencia homosexual, ambivalencia obsesiva, inconsciente perverso, yo paranoico, imbecilidad afectiva, tonto arrogante, rabieta homosexual, delirio de grandeza, loco rematado.”

Por ejemplo, se puede explicar la omnipresencia del tema de la sexualidad en la teoría fraudiana por el hecho de que F., a partir de 1893, sufre importantes frustraciones sexuales, pero sólo observaciones metódicas permiten validar o refutar esta teoría.” HAHAHAHA!

F. publicó resultados falsos. Los fraudianos minimizan esas mentiras, declaran que muchos otros investigadores cometieron fraude y que, de todas formas, F. sigue siendo un genial descubridor.”

en los años 1880, Hans Gross, el padre de la psicología judicial, daba una serie de ejemplos de acusados y de falsos testimonios que se habían traicionado por lapsus y otros actos fallidos. En 1895, Rudolf Meringer, un filólogo, y Karl Mayer, un psiquiatra, publicaban una obra completa sobre los lapsus. El célebre lapsus, citado por F., del presidente de la Cámara austríaca de diputados diciendo ‘Señores, constato la presencia de tantos diputados y declaro, por consiguiente, cerrada la sesión!’ es precisamente un ejemplo dado previamente por otros autores.” “Heath Bawden explicaba, apoyándose en la teoría de Herbart, que los lapsus resultan de un ‘conflicto de sistemas mentales’. El libro de F. sobre los actos fallidos no aparecería hasta 1901. Su originalidad consiste en producir asociaciones de ideas, a partir de los lapsus, hasta llegar a un contenido sexual incluso cuando éste no parezca tener nada que ver.”

F. no era particularmente demócrata. Escribió que ‘no puede evitarse la dominación de la masa por una minoría, ya las masas son inertes y desprovistas de discernimiento’ y que ‘los hombres son, por término medio y en gran parte, una miserable canalla’ (esta última palabra fue muy utilizada por Lacan y luego por su yerno J.A. Miller). Su sistema de pensamiento favorece una ‘subjetivización’ o ‘sobreindividualización’ de todos los problemas psicológicos: la explicación final se encuentra siempre en la vida ‘interior’, los eternos elementos del ‘alma’ (libido, pulsiones de vida y muerte, complejos de Édipo y de castración, deseo de pene) y las vivencias de la primera infancia.” “Se comprenden por tanto las críticas de los psicólogos científicos (que conceden importancia a las interacciones con el entorno y no solamente con las de la primera infancia), los sociólogos y los marxistas.”

En junio de 1949, la revista marxista Nouvelle Critique publicaba un texto, que se hizo célebre: ‘El psicoanálisis, ideología reaccionaria’. Se explicaba que el psicoanálisis, bajo su cubierta de cientificidad, es en realidad un instrumento político. Despolitiza al individuo, hace del revolucionario un ‘neurótico’ y sirve de opio para las clases medias. ‘El psicoanálisis viene a reforzar la psicotécnica ordinaria en un trabajo policial que funciona al servicio del patrono y del ocupante americano con vistas a la eliminación de los no dóciles y de los resistentes.’ Es divertido constatar que, desde la publicación del informe del INSERM sobre las psicoterapias en 2004, los lacanianos utilizaron sin cesar el mismo vocabulario contentándose con reemplazar ‘psicoanálisis’ por ‘TCC’.

En el curso de los años 70, Lacan consiguió interesar a los intelectuales marxistas. Una de las razones se relacionaba con su discurso anti-institucional, que Turkie llamó ‘el protestantismo psicoanalítico’. Para Lacan, ‘la única regla debe ser que no hay reglas establecidas […] el analista no se autoriza más que a sí mismo. […] El psicoanálisis es más una vocación que una carrera y ninguna institución puede garantizar la fuerza que ejerce interiormente la llamada de una vocación en un individuo’.”

Hoy en día, un cierto número de lacanianos presentan al psicoanálisis como la muralla contra el totalitarismo. [Infelizmente vemos a refutação desse pressuposto na França de Le Pen] Si se les cree, los psicoanalistas serían en todo y siempre los héroes de la libertad y de la resistencia a la opresión. Élisabeth Roudinesco llega decir que ‘el pseudoanálisis siempre y en todo lugar ha visto prohibida su enseñanza y práctica por parte de todos los poderes dictatoriales, empezando por el que pusieron en pie los nazis. [… ] Varios representantes [del psicoanálisis] fueron perseguidos, exterminados, torturados a causa de sus ideas’ Olvida lo que escribía 5 años antes: ‘Las dictaduras militares no han impedido la expansión del psicoanálisis en América latina (particularmente en Brasil y Argentina)’. En efecto, Argentina, bajo el régimen de los generales, era nada menos, según la expresión de Serge Leclaire, que el ‘Eldorado del psicoanálisis’. É. Roudinesco no cita un solo nombre de pseudoanalista exterminado o torturado únicamente a causa de su calificación de pseudoanalista (evidentemente hubo pseudoanalistas judíos exterminados, porque eran judíos). Recordemos también que varios pseudoanalistas – por ejemplo Boehm y Müller-Braunschweig – se unieron a la causa nazi y continuaron trabajando como pseudoanalistas en el seno del Instituto Göring.”

El pseudoanálisis molesta al poder absoluto, pero no más, o quizás mucho menos, que algunos hombres de Iglesia incapaces de soportar la esclavitud, que un sindicato movido por la justicia, que un grupúsculo de estudiantes decididos que no temen a la muerte” François Roustang

CUARTA PARTE

LAS VÍCTIMAS DEL PSEUDOANÁLISIS

1. LAS VÍCTIMAS HISTÓRICAS

A) LA HISTORIA TRÁGICA Y VERÍDICA DE HORACE FRINK, MANIPULADO POR LAS NECESIDADES DE LA CAUSA – EDMUNDS (trad. Agnès Fonbonne)

En febrero de 1921, Horace Frink parte hacia Europa con el fin de iniciar un análisis con F.. Tenía entonces 38 años, formaba parte de esa multitud de jóvenes intelectuales irresistiblemente atraídos por el 19 Berggasse en Viena, para estudiar allí, bajo la férula del ‘maestro’, como le llamaban sus aprendices. Frink es de esos que aspiran a formarse en la Maestría del Arte pagando 10 dólares la hora de diván, para deshojar sueños y fantasías. Freud enseña en parte el pseudoanálisis aplicándolo simplemente a sus estudiantes.” “Además, subraya Roazen, Frink no es judío, una particularidad que F., que si lo es, encuentra importante si quiere sobrepasar las fronteras de los intelectuales de Nueva York.”

Cuando conocí a Fraud, me aconsejó que me divorciara en nombre de mi propia existencia que no estaba terminada… y porque si dejaba al doctor Frink ahora, no conseguiría nunca volver a la normalidad y desarrollaría probablemente una homosexualidad extremadamente reprimida.”

Angelika Frink

Pero, tan rápidamente como se había calentado, el proyecto de Frink y de Angelika empieza a torcerse. Tanto el uno como la otra dudan de lo bien fundado que sería dejar a sus parejas respectivas, su compatibilidad de pareja y la sombra amenazante de la salud mental de Frink”

No creo que sea útil que prosiga usted su análisis… Su trabajo está terminado…” Carta de Fraud

Angie querida, te mando una copia del correo de Fraud que, espero, te aliviará tanto como me ha aliviado a mí. Quiero conservar el original, podría un día interesar a nuestros hijos. Soy tan, tan feliz.”

Desgraciada e inocente, Doris Best no dice siquiera a sus vecinos a donde huye. Su matrimonio está destruido, Horace la ha abandonado por una relación sin futuro, y ella ha rechazado embarcarse en un análisis con él. Deprimida pero conciliadora, Doris debe asumir la ruptura, el traslado y el arte de economizar, viviendo en hoteles y pensiones, flanqueada de Helen aun bebé, y de Jack, su hijo mayor.”

Dr. Fraud,

Recientemente, 2 de sus pacientes, un hombre y una mujer, me han informado de que fueron a verle con el fin de que usted diera claramente su acuerdo o su rechazo a su matrimonio. Por el momento, ese hombre está casado con otra mujer, padre de 2 hijos y ligado a la ética de una profesión que exige no sacar ningún privilegio de la confidencialidad debida a sus pacientes y a su descendencia inmediata. La mujer con la que quiere casarse ahora es una de sus antiguas pacientes. El sostiene que usted autoriza ese divorcio y ese nuevo matrimonio, aunque usted nunca haya visto a su esposa legítima ni analizado sus sentimientos, sus intereses, incluidos sus deseos reales. La mujer con la que quiere casarse es la mía… ¿Cómo puede usted ponerse en mi lugar? ¿Cómo puede usted prescribir un diagnóstico tal que va a arruinar la felicidad y la vida de familia de un hombre y una mujer, sin conocer al menos a las víctimas, sin al menos verificar que éstas merecen tal castigo, sin preguntarles si no existiría una solución mejor?…

¿Será usted un charlatán, muy querido Doktor? Respóndame por favor, esta mujer es la mujer a la que amo…” O marido de Angelika no papel

Afortunadamente quizás para Frink, Bijur muere de cáncer en mayo de 1922, antes de que su carta se publique. Su psicoanalista envió una copia a Fraud, que le respondió que ese correo era estúpido y alimentaba simplemente la hipocresía de la opinión pública americana.” Teria sido talvez o fim antecipado da lenda Fraud!

La joven está muy inquieta por el estado de su amante y descubre pronto que no sólo está afectado por episodios maniaco-depresivos, sino que está afectado por la enfermedad desde 1908 (como Frink afirmará de hecho más tarde a Meyer). En tratamiento por tercera vez, Frink es entonces víctima de alucinaciones, y se acuerda incluso de <delirios>.”

El 23 de diciembre, Fraud ha declarado brutalmente que su psicoanálisis estaba terminado, que el doctor Frink le utilizaba en la actualidad para mantener su neurosis, que tenía que casarse, tener hijos y conseguiría pronto vivir feliz en las condiciones que el mismo habría conseguido.” Angelika

La joven pareja parte en viaje de novios a Egipto. De vuelta a Nueva York, se evita un escándalo público, aunque la mayor parte de los miembros de la Sociedad psicoanalítica de Nueva York no hayan sido engañados por el estado de la salud mental de Frink y de este matrimonio tan turbio. Acabado de salir de su análisis y a pesar de la elección marcada por Fraud para colocar a su protegido en la presidencia del círculo, Frink no obtiene la preferencia de todos los americanos de la Sociedad.

Fraud, que busca sin pausa los medios para hacerse conocer en los Estados Unidos, se inquieta por que el caso Frink, si se publicara, frenara el estallido del movimiento.”

Doris Best muere el 4 de mayo.” “Después de su muerte, recuerda la cuñada de Doris, le dejamos entrar. Se quedó sentado al lado de la cama durante media hora, mientras nosotros esperábamos en el salón. Cuando bajó, miraba fijamente frente a él, después dejó la casa sin una palabra, sin una mirada para nosotros. Nunca más volvimos a verlo o a oír hablar de él.”

La custodia de los 2 niños es atribuida a Horace y Angelika. Poco tiempo después, Frink cae aun más profundamente en un estado de confusión y se muestra agresivo hacia su nueva mujer. Una noche, deja la casa sin una palabra; en otra ocasión, la pega y le pone un ojo morado. Rápidamente, Frink se hace indeseable para la Sociedad psicoanalítica, y, en marzo de 1924, el presidente interino lee públicamente una carta explicando la ausencia de Frink por razones de salud mental. Durante ese tiempo, el antiguo paciente de Fraud es internado voluntariamente en la clínica psiquiátrica Phipps. Revisando su periodo vienés, Horace, pero sobre todo Angelika empiezan a pensar que son víctimas del pseudoanálisis y no sus beneficiarios. Cuando ella informa a Fraud de la degradación de su matrimonio, el Maestro le responde por telegrama: ‘Desolado. Pero el dinero es lo que les ha hecho fracasar’. Angelika ya había empezado a pensar que favoreciendo este matrimonio Fraud esperaba obtener fondos de apoyo para el movimiento psicoanalítico en los Estados Unidos.”

Sintiéndose maltratada por Fraud (sentimiento que crece con los años), Angelika intenta ser más perspicaz con Meyer. Fuerte, con criterios claros, apremia al psiquiatra suizo con largas cartas en las que explica su escepticismo a propósito del pseudoanálisis (<Hasta ahora, nunca he encontrado a un pseudoanalista que no me pareciera manifiestamente neurótico, perdido en sus teorías e incapaz de enfrentarse a la vida…>).”

De vuelta a la clínica en otoño, Meyer anuncia a Frink la decisión de Angelika de obtener el divorcio. (…) <Hubiera deseado quedar con mi primera mujer. Si estuviera aun con vida, volvería con ella>.

A medida que avanza el procedimiento del divorcio, más se hunde Horace en la depresión. Parte para Nueva York para reunirse con los abogados y toma una sobredosis de diversos somníferos el 27 de octubre, en casa de su viejo amigo y médico Swepson Brooks, que lo aloja durante su estancia en la ciudad. Más remontada que nunca, Angelika toma este acontecimiento como una vulgar tentativa de recuperación y previene a su abogado de que considera una muerte por suicidio idéntica a las que produce una neumonía. Según ella, son la misma cosa. Quiere terminar.”

Frink sostiene que Fraud no ha entendido nada de las psicosis, que el campo del pseudoanálisis se limita a las neurosis y que Fraud lo sabía. Según él, Fraud nunca debería haber intentado tratarle cuando estaba en fase psicótica. El tratamiento y los consejos que le daba eran todos perjudiciales, aplicados en detrimento de los intereses de su paciente. Su mujer es también tan feroz como él hacia Fraud y en cierto sentido, hacia su marido.”

Aunque nunca había escrito otros libros y practicó muy poco su profesión, Frink parecía feliz y no mencionó a su familia el papel que había jugado Fraud en su vida. La familia se mudó a Chapel Hill donde Jack, su hijo mayor, entró en la universidad de Carolina del Norte. Su padre dio allí algunas conferencias, atendió a algunos pacientes, y en 1935 se casó con Ruth Frye, una profesora que había conocido en Southern Fines. § Horace Frink murió de una enfermedad cardíaca el 19 de abril de 1936, a los 53 años.” Antes do vaso ruim!

B) LA SANGRÍA DE EMMA & EL CASO TAUSK – BORCH-JACOBSEN

Emma Eckstein (1865-1924) empezó su análisis con Fraud en 1892 y lo prosiguió, por lo que se sabe, hasta 1897. Esto hace de ella una de las primeras pacientes en beneficiarse del nuevo tratamiento ‘pseudoanalítico’ inventado por Freud. No se sabe muy bien que síntomas presentaba, a parte de que sufría de molestias gástricas y de dismenorrea (es decir de reglas dolorosas). Lo que parece haber sido la razón por la que Fraud recurrió a su amigo Wilhelm Fliess a finales del año 1894.” “Fraud era un ferviente adepto de la <terapia nasal> de su amigo y prescribía generosamente cocaína a sus pacientes para todo tipo de síntomas psicosomáticos y neurasténicos.”

O CASO DA GAZE DEIXADA NO NARIZ: “La desastrosa operación de Fliess la dejó desfigurada de por vida, con un hundimiento en el lugar donde el hueso de la nariz se había roto. Y, sin embargo, de forma sorprendente, Emma no parece que odiara a los 2 aprendices de brujo que le habían impuesto ese calvario. No solamente prosiguió su análisis con Fraud como si nada hubiera pasado, sino que continuó venerando el recuerdo de Fliess. (…) Bello ejemplo de amor de transferencia, como dirían los pseudoanalistas.” Esto-y colm-ad-o!

En resumen, si Emma había sangrado hasta casi morir, ¡era porque ella (o su inconsciente) así lo había querido! Tenemos aquí una de las primeras menciones de Fraud a la idea de la consecución fantástica del deseo, y, en esta ocasión sirve, de forma particularmente absurda y odiosa, para disculpar al médico haciendo a la paciente responsable de su propia enfermedad.”

Al final del mismo año, Fraud recompensó la fidelidad sin fallos de Emma enviándole pacientes, en los que ella encontró inmediatamente escenas de seducción paterna rigurosamente idénticas a las postuladas por su analista. ¡El primer pseudonálisis didáctico de la historia había funcionado de maravilla! En 1904, Emma Eckstein publicó un pequeño libro sobre La Cuestión sexual en la educación de los niños en el que retomaba las tesis de Fraud y de Fliess sobre lo nocivo de la masturbación, un tema que parece haberle llegado particularmente al corazón. Fraud, como se sabe por su correspondencia con ella, la había ayudado con sus consejos durante la redacción de su libro e incluso había escrito una reseña favorable, que fue rechazada por la Neue Freie Presse.”

Hubo que esperar hasta 1966 para saber de su existencia por un artículo de Max Schur y a 1985, fecha de la publicación de las cartas completas de Fraud a Fliess en inglés, para poder tener directamente conocimiento de la triste historia de sus relaciones con Fraud. En la edición precedente, todos los pasajes en los que se la mencionaba habían sido cuidadosamente expurgados.”

La profesión de pseudoanalista no carece de peligro, a juzgar por la tasa de suicidios entre sus filas. Según los cálculos de Elke Mühlleitner (Biograpfisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytischen Vereinigung 1902-1939. Tübingen, Edition Diskord, 1992), de los 149 miembros de la Sociedad psicoanalítica de Viena entre 1902 y 1938, 9 se suicidaron, es decir 1 persona de cada 17. Como Fraud le comentaba a Jung después de que el asistente de éste, Jakob Honeggerse quitara también la vida: Sabe, creo que no usamos mal a la gente’.”

el 3 de julio de 19, al amanecer, Tausk escribía una larga carta a Fraud para expresar todo el respecto y la admiración que sentía por él. Luego se subió a una silla, se anudó el cordón de una cortina alrededor del cuello y se disparó un tiro en la sien con su pistola de oficial. Le encontraron colgado.”

Fraud redactó una necrológica en la que alababa las múltiples contribuciones de Tausk al psicoanálisis. A Lou Andreas-Salomé, por el contrario, le expresó sin ambages su alivio por haberse librado por fin de ese discípulo fiel, demasiado fiel”

Reconozco que no lo hecho de menos: hace mucho tiempo que me di cuenta de que ya no podía estar a nuestro servicio, que, de hecho constituía una amenaza para el futuro.”

Paul Federn escribió a su mujer que Tausk se había suicidado porque había tenido la mala suerte de disgustar a F.. ¿Era esa la razón? Lo que empuja a un hombre a terminar es siempre oscuro. Pero, lo menos que puede decirse, es que, en el caso de Viktor Tausk, el pseudoanálisis NO contribuyó demasiado a darle la alegría de vivir.”

C) FRAUD TERAPEUTA DE FAMILIA – PATRICK MAHONY (TRAD. MARIE-CÉCILE POLITZER)

Freud inventó la primera terapia de familia cuando, para bien y sobre todo para mal, inició a su hija en una tratamiento incestuoso e imposible.” “El primer análisis de Anna duró de octubre de 19 al verano de 22, a razón de 6 sesiones por semana, sesiones que se desarrollaban a las 10 de la noche.”

El análisis incestuoso de Anna encontró su derivada en un ensayo publicado en 23, Fantasía de ser vencido y ensoñación diurna, texto que le permitió igualmente entrar en la Sociedad psicoanalítica de Viena.” “quizás por 1ª vez (¿y la única?) en la historia del análisis, el artículo sobre el que un candidato debía ser juzgado se basaba en su propio análisis y el presidente de honor del comité en cuestión era nada menos que su propio padre y analista!” “Se puede por tanto decir que el artículo autobiográfico que Anna propuso en el momento de su candidatura a la Sociedad psicoanalítica era a la vez un trabajo de reescritura del trabajo de su padre analista y su propia versión del relato biográfico que el había hecho de ella (Pegan a un niño).”

A mi manera de ver el ‘present temps’ que utiliza el inglés para traducir este título (A Child Is Being Beaten, es decir están golpeando a un niño) refleja la actividad clínica paralela de Freud y Anna. Estaba, de hecho, golpeándola. Al reinterpretar a domicilio la escena del retorno de lo reprimido, y adaptando a su posición a la vez paterna y profesional la teoría de la seducción, Freud operaba sobre su hija un proceso de seducción yatrógena y de violación. Las fantasías de ser golpeada de ésta se veían así redobladas.”

Entre los 5 y 6 años, nos enseña Young-Bruehl en la fiable reconstrucción que hace de la juventud de Anna Fraud, la niña fantaseó en varias ocasiones una escena de amor incestuosa entre ella y su padre. Estas fantasías, asimiladas a una regresión al estadio anal, afloraron a continuación a la superficie en forma de fantasías de ser golpeada durante las cuales se masturbaba. Entre los 8 y 10 años, las fantasías de ser golpeada fueron reemplazadas, a pesar de algunos retornos intermitentes, por lo que ella llamaba <bonitas historias>, en las que un débil y joven malhechor de sexo masculino se encontraba a la merced de un hombre de más edad y más fuerte que él. Después de un cierto número de escenas en las que la tensión subía y en las que al joven se le prometía el castigo de sus faltas, era finalmente perdonado.”

Sophie Fraud, la madre de Ernst y de su hermano pequeño, murió en Hamburgo en enero de 1920. Anna pasó a continuación mucho tiempo en Hamburgo para ocuparse de sus 2 sobrinos. Perpetuó la dramática tradición familiar intentando, a su manera y como aficionada, someterlos a análisis mientras jugaba con ellos, como si llevara en ella el demonio de la repetición que describió su padre. (…) Su propia análisis continuaba incluso a distancia durante ese verano al principio del cual su padre puso punto final a Más allá del principio del placer.

Un año después del final de este primer análisis, Fraud sufrió la primera operación destinada a curarle de un cáncer. Anna se prometió entonces no abandonarle nunca.”

Al principio de 25, mientras Anna acumula las funciones de enfermera y de paciente, Freud emprende la escritura de Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos(*), que termina durante el verano que pasa en compañía de Anna y de Andreas-Salomé. Esta última fantaseaba con algún tipo de oficio de segunda analista a la vez para F. y su hija; así, al igual que Anna, prodigó sus consejos a Fraud mientras redactaba su ensayo. Tanto la propia terapia como su informe escrito implican pues a 3 personas comprometidas en una especie de vals analítico.”

(*)“Cuando supera la relación entre su ausencia de pene y un castigo que se le inflige, y a la que atribuye la generalidad de ese carácter sexual, empieza a compartir el menosprecio que los hombres experimentan por un sexo que les resulta inferior en ese terreno tan esencial, y hace todo lo posible por ser un hombre, para no sostener esa opinión.” Se os casos de operações transexuais fossem mais comuns no sentido mulherhomem poderíamos até acusar justamente Fraud de o principal culpado deste “mal do século XXI”!

O mundo ainda não completou sua terapia para se livrar de Fraud.

Un nuevo episodio empieza en el otoño de 25: Anna ya no está en análisis, y Dorothy Burlingham, separada de su marido, llega a Viena con sus 4 hijos. Pone a 2 de ellos en análisis con Anna Fraud (los otros 2 siguieron su ejemplo algunos años más tarde). Durante este tiempo, avergonzada de la atracción bastante súbita que siente por Dorothy Burlingham e incapaz de hablar de ello con su padre, Anna eleva a Max Eitingon al rango de analista epistolar.”

TÃO BOA QUANTO SEU PAPI: “una de las hijas, a la que Anna consideraba el <más coronado de éxito> de los 10 primeros casos que había analizado, se administró una sobredosis de medicamentos una noche en el 20 Mansfield Gardens, en los apartamentos de su madre y su analista – murió en el hospital 2 semanas después.”

2. PADRES E HIJOS, PRIMERAS VÍCTIMAS

A) EDUCACIÓN Y PSEUDOANÁLISIS – DIDIER PLEUX

A primeira educação integralmente psicanalítica de uma criança (talvez excetuando a de Anna) termina com um matricídio.

Detrás de la leyenda, hay que saber que se oculta otra realidad. Los padres, Max Graf, musicólogo, y Olga König, actriz, hicieron ambos un análisis al nacer Herbert (Hans) en 1903. Decidieron educar a su hijo según los principios fraudianos y le enseñaron todo sobre la teoría de la sexualidad. ¡Así, siguiendo los <estadios libidinales> de Fraud, y evitando toda <represión>, el niño sólo podría ser feliz! Para Fraud, era una víctoria: si los padres aplicaban la teoría psicoanalítica en su modo de educación, los niños estarían protegidos contra las futuras neurosis. Decide publicar a este respecto, pero el pequeño Herbert Graf, modelo de la educación fraudiana en 1907, presenta trastornos y se convierte en el caso Hans, <modelo de perversión> en 1908. Fraud diagnostica una <histeria de angustia>, lo que llamamos hoy en día simplemente fobia”

Ahí está el peligro: lo que hasta ahora no eran más que afirmaciones de especialistas va a ser ampliamente difundido. Las ideas que no eran más que hipótesis surgidas de la psicopatología van a ser asentadas como verdades educativas. La evolución de los escritos y las intervenciones radiofónicas de Françoise Dolto dan testimonio de ello.”

PSICANÁLISE JAMES DEAN: “todo comportamiento <desviado> tiene un sentido oculto, es el síntoma revelador de un trastorno más anclado.”

1970: “Si se altera demasiado al adolescente, en esta época en la que es tan ‘frágil’, se arriesga a convertirse en delincuente, a drogarse, a hacer tentativas de suicidio y a fracasar escolarmente. En adelante, los padres quieren asegurarse y no pueden más que adherirse a los consejos educativos, aunque sean a veces extraños, de una mujer que habla con tanto calor, humanidad y sentido en las ondas.”

Después del enorme éxito de las emisiones radiofónicas, Françoise Dolto se consagraría desde 78 a la formación, a las conferencias y participaría cada vez más en emisiones de radio o de televisión.”

La educación incluye por supuesto su aspecto dinámico, ‘de desarrollo’, dirían los especialistas: los padres van a amar, acompañar, proteger pero también formar, instruir, aconsejar, proponer, prohibir. Para el psicoanálisis, en cambio, no se trataría en origen más que de prevenir patologías para luchar contra el determinismo que él mismo ha instalado.”

La mayor parte de las obras de divulgación científica proponen un solo enfoque del niño y de su desarrollo afectivo, el enfoque pseudoanalítico: Marcel Rufo, es coautor con Christine Schilte, Aldo Naouri, Claude Halmos, Edwige Antier, Maryse Vaillant, Nicole Fabre, Caroline Etlacheff, entre los más conocidos. Siempre el mismo determinismo – todo se decide en los primeros años, en esa 1ª relación que une al niño con sus padres y con su madre en particular –, los mismos conceptos, y el mismo miedo a actuar mal, de <equivocar> la construcción afectiva de su hijo. Françoise Dolto, autora de los años 70, sigue, y quizás más que nunca, de actualidad. Incluso se escriben libros para clarificar sus tesis a los padres, ente ellos el de J.C. Liaudet, Dolto explicada a los padres.”

En cuanto a las dificultades de aprendizaje de las matemáticas o discalculia, ¡incluso son interpretadas por el pseudoanálisis en tanto que patología de la ‘relación’!”

DESCRIÇÃO DAS COISAS COMO SÃO NA FRANÇA: “Desde el último curso de bachillerato (en filosofía y letras) a los estudios universitarios, el alumno no aprenderá más que una cosa: sólo el pseudoanálisis trata los problemas psíquicos.”

Si decide ser periodista, no retendrá más que la enseñanza única, por lo que el discurso fraudiano de numerosos redactores y entrevistadores <psiquiátricos> de revistas dichas especializadas que no son, por la mayoría de sus artículos, más que revistas de pseudoanálisis aplicado, a menudo por ignorancia de los otros enfoques.”

Me pergunto se em todo país com prevalência psicanalítica os direitos dos homossexuais não estão mais atrasados que em quaisquer outras partes do planeta (excluindo ditaduras e teocracias)!

La alimentación (pecho o biberón), el control de esfínteres, el nacimiento de otro hijo, todo es una apuesta esencial, un momento para no equivocarse bajo el riesgo de dejar para siempre cicatrices indelebles en el inconsciente del niño.”

O ERRO DA TCC É ACHAR QUE ESTÁ CERTA SÓ PORQUE A PSICANÁLISE ESTÁ COMPLETAMENTE EQUIVOCADA, COMO SE FOSSE APENAS YIN-YANG E BINARISMO, E ESTAS DUAS CORRENTES ADOTADAS POR UM MUNDO DECADENTE E FRACO ENGLOBASSEM TODAS AS POSSIBILIDADES DE ATINGIMENTO DE UMA VERDADEIRA REPÚBLICA DE PLATÃO! AINDA HÁ MUITO QUE APRENDER NO CAMPO DA PEDAGOGIA-PSICOLOGIA… “¿Cómo no adherirse a alguien que contestaba por fin a la sacrosanta familia?… Habíamos tenido a Marx y su voluntad de rebelarse contra el sistema capitalista y su explotación del hombre por el hombre; Fraud nos había abierto los ojos sobre la represión sexual general de los decenios precedentes; no nos quedaba más que vencer los diktats familiares, el autoritarismo de los pater familias o de las matronas de todo tipo.”

La propia Dolto era víctima de esas madres que rechazaban: decía cuanto había sufrido a la muerte de su hermana mayor Jacqueline. A la pérdida de esa hermana se había añadido esa reflexión mordaz de su madre de que hubiera preferido que fuera ella, la pequeña Françoise, entonces de 12 años, la que desapareciera. Un trauma afectivo real y más tarde el encuentro con la interpretación psicoanalítica que los explicará todo: la madre abusiva es el origen del malestar de la joven Françoise Dolto. ¿Quién no ha encontrado en un momento u otro tales heridas producidas por torpezas parentales? En esa época, eran legión: el niño era a menudo el chivo expiatorio de tensiones familiares y debía sufrir al mundo adulto para forjarse un carácter.” “Por supuesto no es sólo cuestión de temperamentos introvertidos o extrovertidos, sino también de actitudes. Entre las actitudes infantiles de ansiedad, de desvalorización o de intolerancia a las frustraciones, ¡cuantas diferencias! ¡Y cuantas actitudes parentales diferentes necesarias!”

PSICANÁLISE À LA CARTE (Ao gozo do cliente): “según el humor del especialista, encontraremos complejos de Édipo precoces, a los 3 años, o tardíos, en la adolescencia… Una vez más, todo se hace para corresponder a la teoría y evitar toda crítica”

A psicanálise com seu “inconsciente” nada tem de nietzschiana ou schopenhaueriana, mas tudo tem de hegeliana: é o Espírito se fazendo no supereu/eu/id por necessidade. A primazia do invisível sobre qualquer dado fenomênico, mas sem nada em aberto, i.e., com uma teleologia bem-determinada a priori!

De Melanie Klein a René Spitz y Françoise Dolto, el determinismo reina en los fundadores del psicoanálisis de niños”

Me quejaba de que un solo caso basta para validar la tesis de un doctorando en psicopatología (opción psicoanalítica) mientras yo estaba obligado por grupos-testigo sabiamente estratificados para verificar algunas hipótesis de trabajo en psicología del desarrollo.”

No es encerrar al niño en un status de ‘perverso polimorfo’, es simplemente ser lúcido sobre la madurez del niño: se hará maduro pero eso no se hará ni rápidamente ni de forma natural. Eso se hará con la educación de los adultos. <Un hombre, eso compromete>, esta reflexión del padre de A. Camus define bien lo que no es todavía el niño y lo que es realmente: un hombre por venir pero aun no un adulto.”

O PROBLEMA DE SEMPRE SUPERINTERPRETAR: “A través de sus actos, ¿el niño quiere significar siempre alguna cosa? En ocasiones ese es el caso, pero no siempre.” “Un niño pequeño puede aullar en un supermercado únicamente porque quiere la golosina que se le ha negado.” “En la cena, puede rechazar un plato nuevo porque no quiere comer otra cosa que dulces y filete. Igual en la cantina, puede rechazar la comida de la escuela porque no le gusta lo que le proponen y no porque esté evitando una situación relacional angustiante.”

D. Pieux. De l’enfant roi a l’enfant tyran. París, Odile Jacob, 2002. Seria uma boa oportunidade de avaliar o grau de relevância da TEORIA TCC (já que a PRÁTICA, já sabemos, é péssima, tendo em vista os péssimos psicólogos). Nada contra os psicólogos: vivemos num mundo do mau profissional, generalizadamente!

Si, por supuesto, hay cosas positivas en ciertas afirmaciones fraudianas, más a menudo le veo el verdadero crisol de la permisividad parental dado que los límites educativos se anulan ante la omnipotencia del inconsciente.” “Ya no es el padre el que detenta el poder absoluto, es el propio niño el que, a través de su inconsciente, filtra, integra, interpreta todo lo que hacemos, un nuevo Gran Hermano está trabajando: el inconsciente del niño lo oye todo, lo ve todo, lo detecta todo, incluso las cosas más ocultas, las más íntimas.”

Un niño no tiene necesidad de ser abrazado.”

Abrazarlo, ¡es comerlo!”

Después de los 3 años, abrazarlo no es bueno.”

Muy malo un niño en la cama de los padres… inconscientemente, eso puede ser muy peligroso”

Pérolas de Françoise Dolto

Dar un beso en la boca a niño, ¡es un abuso!” Edwige Antier

Según Françoise Dolto, el padre es el salvador, que permite al niño emanciparse de <la asfixiante tutela materna>. Siempre esta angustia de los psiquiatras por ver a los niños aplastados por la fusión materna y de la que también se hace eco Marcel Rufo.”

En mi consultorio, cuando uno de los cónyuges toma un rol de autoridad, sea la madre o no, no veo ningún problema de desarrollo o de comportamiento. En cambio, cuando los padres no saben ‘quien’ debe dar pruebas de autoridad y se esperan incansablemente, el niño hace crecer su omnipotencia.”

Françoise Dolto fue indispensable cuando intentaba dar un punto de inflexión a la cultura tradicional de las familias entre los años 1940 y 60. Sin ella, no habría contrapeso a la clonación educativa que rechazaba considerar al niño con un individuo con todas sus consecuencias. Con el mayo del 68 y su justa protesta, no pudimos más que adherirnos a aquellos que como ella, rechazaban la educación tradicional, esa fabricación de objetos que, a través de blusas grises y de la autoridad de los adultos (padres o enseñantes) no pretendían otra cosa que aniquilar toda veleidad de individualismo.”

O PROBLEMA DAS CRIANÇAS NORTE-AMERICANAS: “cuando me alisté en el ejército fue cuando me sentí libre… se acabaron las discusiones sin fin para explicarlo todo cuando lo que yo esperaba era un sí o un no, ¡a las claras!…” É atualmente o modelo mais perto da abolição da família que o socialismo real previa… Soldadinhos de Tio Sam!

Las víctimas de la permisividad llaman a menudo al retorno al autoritarismo, la mala vertiente de la autoridad” E aí temos os bozolóides!

Este livro não serve para o terceiro mundo. Nós todos que crescemos tiranizados e sem poder algum para fazermos o que nos desse na telha SOCIALMENTE. A contradição com o dito logo acima sobre os “bozolóides” é apenas aparente: assim como temos “pobres de direita”, em perfeita sintonia com as contradições do modo de produção vigente, temos também os reacionários que se pensam revoltados (revolucionários), quando os vemos, após terem tido pais autoritários e anacrônicos, pedirem, mesmo assim, MAIS FAMÍLIA TRADICIONAL, MAIS PÁTRIA, MAIS DEUS, isto de que já estamos fartos há milênios! Neste sentido é que a TCC-em-sua-cruzada-contra-os-pais-permissivos só faz sentido na Europa branca (com exclusão evidente dos imigrantes em situação social deletéria): ainda vivemos tempos pré-fraudianos em que os pais continuam a abusar de seu poder. Não conhecemos as neuroses do ócio e do tédio, porque ainda estamos enfrentando as da opressão e repressão por todos os lados: sem voz em casa, sem voz no trabalho, sem voz no trânsito mesmo; nem os espaços midiáticos nos pertencem; e aqueles que deveriam nos abrir às reivindicações são apenas bolhas de sabão infladas das mesmas coisas antiquíssimas (o Instagram mais parece uma extensão da rede Record, e não um espaço em que o negro e o gay dêem seus gritos de ‘Maio de 68’ ou black lives matter!).

se pasa de la enuresis de provocación del pequeño a la anorexia del adolescente, de enfermedades diplomáticas de repetición a los chantajes de suicidio… y no puedo olvidar las adicciones que aterrorizan a los padres, las provocaciones en actitudes de marginalización si no obtienen en seguida su libertad.”

Hoy en día, frente a esta toma de conciencia de un necesario restablecimiento de la autoridad, el bofetón está legitimado, banalizado e incluso reivindicado por ciertos autores. No estoy de acuerdo: es preciso combatir la zurra que marca siempre el desbordamiento emocional y la impotencia de los padres. Para seguir en lo educativo, mejor proponer una reparación que una violencia. La bofetada por un vaso roto nunca ha sido tan eficaz como que el niño recoja los cristales rotos o compre uno de repuesto.”

El ‘bajón’ después del cannabis, el disgusto por relaciones sexuales demasiado frecuentes, a menudo sin sentimientos, sólo por ‘diversión’, su angustia por repetir tal curso, por ver su curso escolar hundirse cuando tienen un potencial formidable. Un sentimiento de fracaso: lo han tenido todo, hecho todo, se han hecho adultos antes de tiempo.” “Han jugado al adulto y van a encontrarse en la realidad después de haber quemado etapas. No tienen armas para luchar con este mundo, se han hecho vulnerables. Los niños reyes o tiranos están desnudos.”

BUDISMO EUROPEU: PARA QUÊ? “Al final de la secundaria, el bachillerato seleccionará, terminará, después de todos estos años con el laissez-faire.”

Cuando veo a las numerosas falsas dislexias que llenan las consultas de los ortofonistas y a todos esos pseudo-superdotados que los psicólogos escolares no dejan de mandarme cada año…”

UM EDUCADOR LIBERAL! “Sin duda menos politizados que antes, muchos jóvenes no dudan en invertir en acciones humanitarias, caritativas o de protección del ambiente: algunos incluso saben actuar y no quedarse en la charla <revolucionaria> de las salas de estudiantes de sus mayores. <Hacen> y hablan menos.” Entendo cada vez mais o fenômeno antivaxx em sua vertente Egalité, liberté, fraternité! As vacinas realmente são muito progressistas, temos de nos adaptar ao mundo real, esta merda que <está dada> (como se a vacinação em massa não estivesse)! A moral da história é que há muito abismo entre Marx e Fraud, muito mais do que os normies franceses poderiam reconhecer com suas lentes míopes atuais… Mas eles pensam que porque uma cosmovisão está errada, a outra deva ser também demonizada… Mesmo que haja zero de relação real e empírica (metafísica também!) entre ambas!

el niño no puede desarrollarse como persona en un clima de negación, de sumisión, de obediencia ciega al autoritarismo parental. Fue una época en la que sufría de todas partes un mismo pensamiento único sobre la educación: el individuo debe plegarse a la realidad adulta y aceptar sus fundamentos, sus valores, poco importa su singularidad.”

B) LAS MADRES, FORZOSAMENTE CULPABLES – VIOLAINE GUÉRINAULT

E. Fuller Torrey, Freudian Fraud: The Malignant Effect of Freud’s Theory on American Thought and Culture, New York, Harper Collins, 1992.

<Cuando Dios creó a la Madre, probablemente rió de satisfacción y decidió no cambiarla, de tal manera su concepción era rica, profunda, llena de alma, de poder y de belleza>, escribía Henry Ward Beecher en los años 1800. Parece que, desde entonces, la aureola de la que estaban investidas las madres se haya marchitado considerablemente al paso del huracán psicoanalítico, con su visión culpabilizante del papel materno.”

Fraud incluso reconoció a las mujeres la invención de la tejeduría, actividad esencialmente femenina que tiene como único objetivo la creación de vestimentas que les permiten ocultar su ausencia de pene, causa de su desesperación profunda y sobre todo no resuelta.”

las primeras estudiantes de filosofía son admitidas en la universidad de Zurich en 1846, la Escuela normal superior de Sèvres se funda en 1880, y las chichas son admitidas en Cambridge en 1881.”

A partir de los años 1950-60, las madres fueron consideradas por el psicoanálisis como responsables y culpables de la esquizofrenia o del autismo del niño.” “Esta expresión de madre esquizofrenógena, literalmente madre productora de esquizofrenia, fue ampliamente retomada por los psiquiatras de la época en cruzada contra el mal desconcertante. Fue martilleada sin piedad en los oídos de varias generaciones de madres acusadas de ser la fuente de los sufrimientos de su hijo.”

a pesar de que Tietze nunca fue una figura emblemática en psiquiatría, sus ideas hicieron una bola de nieve, que desencadenó un verdadero alud. En menos de 2 años, la noción de <mala madre> se había convertido en moneda corriente, y las conclusiones no verificadas de Tietze se habían transformado en una evidencia para todo el mundo.”

Los sucesores de F. Reichmann y de Tietze se mostraron aún más intolerantes hacia las madres. Harold Searles, uno de los expertos más respetados sobre la esquizofrenia en los años 1950-60, fue un poco más lejos en este ataque en regla contra las madres. Para él, la confusión mental que caracteriza a las esquizofrenias es debida a los mensajes contradictorios que reciben de su madre.”

Alguien abandonado a su suerte siempre saldrá adelante. Por el contrario ser rodeado de ternura y afecto un instante y totalmente aislado psicológicamente al siguiente, constituye un verdadero obstáculo al buen desarrollo de una persona”

Searles fue seguido por otro psiquiatra, John Rosen, cuya popularidad en los años 70 era innegable ya que fue nombrado ‘Hombre del año en 1971 por la Academia americana de psicoterapia’. La técnica de Rosen, bautizada <análisis directo>, descansaba en gran parte en su convicción de que las madres eran responsables de la esquizofrenia de sus hijos.”

Bruno Bettelheim, otro mascarón de proa del psicoanálisis después de la guerra, tuvo un impacto resonante en el estudio y la pretendida comprensión del autismo.”

El niño que desarrolla una esquizofrenia infantil1 parece percibir su vida y a sí mismo exactamente como lo haría un prisionero en un campo de concentración: sin ninguna esperanza y a merced de fuerzas exteriores irracionales y destructoras que lo utilizan para sus propios intereses.”

Fortaleza vacía

Pero Bettelheim fue aun más lejos ya que pretendía que los prisioneros a merced de los guardias SS estaban en mucha mejor situación que los niños autistas en la casa de sus padres, en la medida en que los prisioneros tenían al menos la posibilidad de conocer otra cosa previamente.”

A lo largo de este libro, expongo mi convicción de que el factor determinante en el autismo infantil es el deseo del padre de que el niño no exista”

Los estados Unidos contribuyeron durante mucho tiempo a vehicular esas teorías culpabilizantes frente a la madre, hasta que la corriente de pensamiento fraudiano perdió progresivamente vigor en los años 1980 y 90.” “La franca retirada de las teorías psicoanalíticas en ese país fue motivada por un espíritu crítico cada vez más desarrollado” No país do McDonalds, nos anos Reagan? Nem pensar!

Quem lê esse livro e ignora as coisas além-mar pensa que os Estados Unidos são um país não-sociopático – que o problema se confina ao Hexágono!

3. EL DRAMA DEL AUTISMO

Durante más de 40 años, Bruno Bettelheim fue considerado por el gran público internacional como uno de los psicoanalistas más influyentes del mundo, un intelectual vienés que, según las palabras de uno de sus admiradores, representaba <uno de los pocos auténticos herederos freudianos de nuestro tiempo>. Pero, como describe Richard Pollak en Bruno Bettelheim o la Fabricación de un Mito, una Biografía (2003), era un negociante de maderas que se inventó un pasado académico glorioso después de su emigración a los Estados Unidos en 39. De estafa en engaño, Bettelheim afirmó haber frecuentado el círculo fraudiano, curado niños autistas en Viena, interrogado a 1500 presos en su famoso estudio psicológico sobre los comportamientos en campos de concentración y sostenido que debía su liberación de Buchenwald a la intervención de Eleanor Roosevelt.” “En su biografía, Pollak muestra como en la Escuela de Ortogenia, el ‘Dr B.’, como le llama, pierde a menudo la sangre fría y maltrata física y emocionalmente a los niños, mientras que, en sus artículos, sus libros, y desde lo alto de su pupitre de conferenciante, clama que tales castigos están prohibidos. Nos explica también como Bettelheim plagió ciertas partes de Psicoanálisis de los cuentos de hadas, su célebre libro que obtuvo numerosos premios literarios, entre otros el National Book Award.”

A) BETTELHEIM EL IMPOSTOR – RICHARD POLLAK

BOLSONARISTA AVANT LA LETTRE: “Bettelheim declara igualmente haber obtenido varios doctorados summa cum laude en filosofía, en historia del arte y en psicología, mientras que los registros universitarios no muestran más que un doctorado en filosofía, sin ninguna mención.”

Después de todo, es un judío perseguido que acaba de pasar 10 meses en Dachau y Buchenwald. Como tantos otros inmigrantes judíos acosados por el III Reich durante los primeros años, Bettelheim llega a los Estados Unidos sin un chavo.” “Incluso en el caso poco probable en el que la administración de la universidad de Chicago hubiera deseado verificar el CV de Bettelheim y la autenticidad de sus afirmaciones, difícilmente lo hubiera conseguido, teniendo en cuenta los bombardeos de las fuerzas aliadas que empezaban sobre Viena. Además, muchos universitarios estaban impresionados por Bettelheim; no tanto por las 14 páginas de su CV como por la certeza vienesa que desplegaba y por el aura fraudiana que le acompañaba.”

Bettelheim fue liberado en la primavera de 1939 con cientos de otros prisioneros porque los oficiales nazis temían que el tifus y las otras epidemias que devastaban entonces el campo superpoblado no llegaran a Weimar y contaminaran a las comunidades vecinas. Hitler incluso concedió su imprimatur al éxodo declarando oficialmente la amnistía de esos prisioneros el 20 de abril, día de su 50º aniversario.”

Al inicio, Bettelheim dice que se ocupa de una niña americana llamada Patsy, durante los 7 años que vivió con él y su mujer Gina, en los años 30. Una vez más, los periodistas y la mayor parte de los colegas de Bettelheim aceptaron esta historia sin ponerla en cuestión.” “Patsy, cuyo nombre completo es Patricia Lyne, fue la única niña que Gina y Bruno Bettelheim acogieron en su casa, en Viena, y nunca fue diagnosticada de autismo. Editha Sterba, que la siguió en los años 30, no hubiera podido hacerlo porque no fue hasta 43 cuando el término ‘autismo’ fue inventado por azar en los Estados Unidos por Leo Kanner y por Hans Asperger en Austria, para describir a esos niños encerrados en su universo e incapaces de comunicar con el mundo que les rodea.” “A diferencia de la mayor parte de los niños autistas, Patsy era capaz de efectuar ciertas acciones elaboradas de la vida cotidiana, como tomar el tranvía para los viajes a la escuela cada día. Muchos niños autistas no hablan en absoluto o emiten algunas palabras y sonidos que tienen poca o ninguna significación para el interlocutor. Aunque muy cerrada en sí misma, Patsy habla de manera coherente a su llegada a Viena, lo que hace posibles las 3 sesiones semanales en las que participa en la consulta de Editha Sterba.” “Al contrario de lo que quería hacer creer Bettelheim a un periodista que los entrevistaba, Patsy no era el fruto de un “encuentro furtivo” vivido por su madre mientras estaba bebida. El padre de Patsy es de hecho un americano de nombre Elmer Ward Lyne que se casó con Agnes Piel el 19 de septiembre de 1922. Patsy nace 18 meses después, y la pareja se divorcia en 1928 cuando la niña tiene 4 años.” “No hay ninguna duda de que al principio Bettelheim y sus colaboradores del establecimiento se consagraron verdaderamente a encontrar una solución para curar el autismo, mezclando el psicoanálisis con otros métodos terapéuticos. Pero casi nunca lo consiguieron.” “Retrospectivamente, Jacquelyn Sanders piensa que, si las esperanzas de los educadores hubieran sido más modestas, hubieran podido contentarse con progresiones más lentas en lugar de esperar inocentemente avances espectaculares.”

Durante un año, supervisé el trabajo de una educadora que intentaba hacer hablar a un niño autista; nunca obtuvimos de él una sola palabra”

Jérôme Kavka

A mediados de los años 60, los dossiers de la escuela ortogénica demuestran que Bettelheim ya no recibe a niños autistas. Según Howell Wright, responsable de pediatría de la universidad y que se ocupaba de los cuidados médicos de los jóvenes pensionistas, Bettelheim baja los brazos porque el tratamiento de sus residentes sale muy caro para <resultados nunca logrados>”.

Al final de los años 80, D. Patrick Zimmerman, coordinador de investigación de la escuela ortogénica, emprende un estudio de los archivos con respecto a los dossiers de ingresos y altas del establecimiento.” “De 220 niños acogidos en la escuela ortogénica entre 1944 y 73, datos del reino de Bettelheim, solamente 13 tenían un diagnóstico de autismo. Dado que no se puede acceder a los informes del personal educativo ni a las informaciones contenidas en cada uno de los dossiers de los niños, en particular a las valoraciones de los psiquiatras, es imposible si no sería simplemente una hipótesis el diagnóstico de autismo de esos 13 residentes. Igualmente, no puede hacerse ninguna evaluación precisa con respecto a los otros niños que fueron acogidos con diagnósticos diferentes como esquizofrenia, desarrollo atípico, depresión o diagnósticos <no precisados>.” “Jacquelyn Sanders se acuerda que diagnosticaban autismo en algunos de sus pacientes <después de un acuerdo mutuo>, pero recuerda a Bettelheim poniendo igualmente diagnósticos de una <forma retrospectiva>.”

Kanner llamaba a La Fortaleza vacía <el libro vacío>, pero, antes de su publicación en 67, un cierto número de profesionales habían empezado a sospechar que Bettelheim hacía <interpretaciones poéticas> y ponían en cuestión lo que uno de ellos llamaría más tarde sus <reflexiones muy a menudo desenfrenadas y sus conjeturas extravagantes … así como su falta de circunspección cuando considera las cosas como evidentes>.”

Peter Gay, historiador de la universidad de Yale, escribe en el New Yorker que Bettelheim ha realizado un estudio del autismo <con un cuidado profundo…>.”

B) ENTENDER Y CUIDAR DE OTRA MANERA: A PROPÓSITO DEL AUTISMO – CATHERINE BARTHÉLÉMY

El gran público se interesa por el autismo, no solamente los expertos o los padres implicados, como lo testimonian numerosas obras, emisiones o films que se le dedican.” “El autismo afecta a 5 niños de cada 10 mil en su forma clásica, la mayor parte varones (4 niños por cada niña).” Sem dúvidas humanos parcialmente incapazes de alteridade (se o foram 100% mal poderiam merecer o epíteto humanos!) é algo fascinante para qualquer não-autista!

la causa o mejor dicho las casas del autismo son neurobiológicas. Los padres no son de ninguna manera responsables de la enfermedad de su hijo. Ciertamente, hay una interacción entre una predisposición biológica y factores internos y externos, de suerte que se puede proteger al niño del riesgo o por el contrario aumentar el riesgo y su expresión clínica. Pero, en ningún caso, la enfermedad es generada por una carencia afectiva, lo que quiere decir que la búsqueda de una causa <oculta> que pudiera explicar, es decir curar la enfermedad es un engaño.”

Sus percepciones sensoriales (gusto, visión, olfato, audición…) están deformadas y desorganizadas en relación a las nuestras. Por ejemplo, no oye siempre con la misma intensidad los sonidos y en particular la palabra. Así, mientras parece sordo a la voz humana, reacciona violentamente a ciertos ruidos ordinarios, incluso de débil intensidad, o incluso está fascinado por otros. Además, no percibe siempre correctamente lo que está en movimiento y es incapaz de manejar informaciones simultáneas. Algunos padres dicen: <Cuando mira, se diría que no oye, cuando escucha, se diría que no ve>.”

mientras que los bebés se ven atraídos preferentemente por los rostros, los niños afectos de autismo se interesan más bien por objetos inanimados. Esta constatación clínica es conocida desde hace tiempo. En 2000, un equipo de la universidad de Yale dirigido por Fred Volionar intentó confirmar y comprender este fenómeno gracias a las técnicas de imagen cerebral (imagen por resonancia magnética funcional).”

Nadie a día de hoy puede pretender <curar> al niño. En cambio, se pueden mejorar considerablemente sus capacidades”

No resumimos el autismo a su dimensión afectiva (como hicieron las terapias psicoanalíticas)”

Ejercitar <directamente> el sistema nervioso central, es de alguna manera habilitarlo, <ponerlo en funcionamiento>: haciendo descubrir al niño que puede mirar, escuchar, imitar, asociar, mejoramos sus capacidades relacionales y hacemos retroceder las extravagancias de su comportamiento. Gracias al ejercicio regular de funciones esenciales (la atención conjunta, la imitación, la actividad orientada a un objetivo, el contacto), permitimos al niño restaurar los circuitos cerebrales existentes o crear otros circuitos.”

En los años 70, Gilbert Lelord ya había propuesto la hipótesis de que los trastornos del desarrollo del niño estaban relacionados con un mal funcionamiento cerebral y no con un problema parental. Por eso había tenido la idea de instalar, en el centro del hospital, un electroencefalógrafo: ya que las psicoterapias no eran operativas, quizás pudieran ponerse a punto otras técnicas, del tipo de la rehabilitación funcional, que pudieran ayudar a los niños.”

En el seno de un mismo servicio, un equipo de clínicos y de neurofisiólogos trabaja en atender a niños autistas, evaluarlos, comprender sus disfunciones y aportarles un proyecto de cuidados personalizados. No está de una parte el terapeuta, por otra el científico, frente al niño y más lejos los padres”

La terapia propiamente dicha se desarrolla en sesiones de 20 a 30 minutos. A diferencia de los que proponen otras técnicas educativas, fundamentalmente americanas, colocamos el juego en el centro de los intercambios: la dimensión lúdica es esencial (juegos sonoros, pastelería, talleres de lenguaje). El contacto y el intercambio se construyen en el placer compartido. Dicho de otro modo, es el juego el que permite ejercitar las funciones frágiles y reeducar los sectores deficitarios. En cierto modo, retomamos los medios que las madres utilizan intuitivamente desde siempre para favorecer el desarrollo de su hijo. La diferencia, por supuesto, es que se trata de niños enfermos, que nuestra acción se fundamenta en bases médicas y que no improvisamos.”

4. HERIDOS POR EL PSICOANÁLISIS

A) LA PECADORA, EL CRÍO Y LA GÓRGONA – AGNÈS FONBONNE

Tengo 32 años y tres hijos, de los cuales uno es un enigma. Pertenezco a esa generación a la que se ha instilado que ningún camino tiene sentido sin el recurso del inconsciente, que la menor de las iniciativas está forzosamente regulada por el diktat de su intimidad desconocida. Estoy socialmente, políticamente, formateada según ese modo de pensar. Vivo, río, beso, pienso y voto a la izquierda según ese protocolo. ¡Conócete a ti misma! Soy moderna, pero la vieja máxima conserva todo su encanto. En un mundo tranquilo donde no pasa nada, ¿qué aventura más bella que observar sus oscuros trasfondos? A penas los conozco, a esos abismos de mi alma, sin embargo sé que existen, que me sostienen y pueden también hacerme zozobrar. Sin su profundidad, no podría hacer nada. Todo el mundo lo tiene, y todos lo saben.

<La mente psicoanalítica>, es como La Marsellesa que cantaba en el coro de la escuela cuando había las entregas de premios: no se pone en cuestión. Es más que una cultura, más que un patrimonio. Es la sabiduría de lo convenido de antemano, que se multiplica rápidamente en nuestros inconscientes, hace hijos en cada intersticio de la vida, en el menor rincón del sueño, en los vacíos del menor dolor de barriga.”

Soy una madre que lo rechaza o es devoradora… seguramente las dos cosas. El amor innombrable que profeso está envenenado. Soy una madre tóxica. He malogrado a mi cachorro, he hecho mal su salida del cubil…”

Leo como una hambrienta, no me la jugarán. Mezclo en desorden los consejos de Winnicott, Minkowski y Dodson, los de mi querida abuela, de Dolto, mis compañeras, Bettelheim y mi panadera… Lo sé todo sobre el saber-vivir.” “Y descubro yo sola un lugar que se diría mágico. Nadie me fuerza a meterme en la boca del lobo, me lanzo, orgullosa de haber sabido encontrar el lugar-medicina donde socorrer a mi hijo.”

La Magnani [apelidou a psicanalista de Anna Magnani, atriz italiana, pela sua aparência] es una voyeur frustrada. Empiezo a percibirla como una terrorista y la sorprendo a veces como una incapaz afectiva.”

En gran inquisidor, me arranca incluso sollozos que seco púdicamente. ¡Es tan fácil de obtener bajo tortura! Hábleme de usted…”

Mi progesterona pesa toneladas, y paso a las confesiones con una facilidad desconcertante…”

La Magnani niega lo sensorial, lo ligero, lo puro. Parece haberlo olvidado todo de la voluptuosidad del hombrecito. La analogía sin retorno entre el cordón y el cordón umbilical le parece límpida. ¡Es preciso que eso sangre! Y ahí está saliendo de pesca. Simplemente no me lo llego a creer. ¡El propio Fraud nunca se hubiera atrevido con tal facilidad!”

Ve a Víctor ocupar el lugar de ese antiguo amante abandonado demasiado rápido, demasiado pronto, ¡demasiado mal! He amado a mi hijo dentro, en mi vientre fusional y no puedo permitirme amarlo fuera, ahora que ha nacido. Su presencia me conduciría a sensaciones insoportables… ¡Dios mío! Es verdad…”

Mi pequeño por el suelo, como resultado de los amores marchitos de su madre? ¡Seguramente eso le va a enseñar a caminar! Lo que siento me pertenece, no le cederé una onza de mis territorios privados.”

Ya no hablamos el mismo idioma. Ella pierde pié, divaga, rehace mi vida y se entusiasma. No la escucho ya. La mano sobre mi inicio de barriga, respiro profundamente para que no me toque nunca más y prometo bajito a Víctor que no nos volverá a atrapar. De todas maneras, tengo más Kleenex.”

¿Qué hace este bonito equipo pluridisciplinar, especialistas en psicomotricidad, masajistas y educadores a los que no vemos nunca? ¿Por qué Víctor no tiene derecho a ellos, él que sólo pide crecer bien?”

Sus dos hermanos se han puesto también a ello en casa. Lo tientan como un bello diablo, lo acarician y lo mueven como a un gatito. Pero sus manos son inactivas e insuficientes. Víctor no los mira o tan poco. Sigue perdido en su follaje y continúa mirando cosas que nadie más ve. Incluso los ruidos le son extraños. He dado palmas mil veces a su espalda, mil veces he agitado esa campanilla en sus orejas mudas. No rechista. ¿Qué hay que hacer para ayudarle?”

¡Por fin ha soltado la palabra! ¡El Deseo!”

Ella espera que el tiempo pase para tocar su cheque a fin de mes, seguramente… Su padre vuelve de la cita con la rabia dentro. Echa pestes y vitupera a la charlatana. Incluso nos peleamos. Un psicoanalista en una vida, ¡raramente mantiene la paz en las parejas! Nos peleamos porque dudamos. Dudamos de nosotros, de ella, de todo. Nos acusamos. El instinto, ¡eso no vale nada frente a la barbarie cerebral!”

Esto va a tener sentido y a derramarse en el significante. Los psicoanalistas son necrófagos distinguidos, comedores de mierda respetados por el inconsciente colectivo.”

Tiene poca imaginación, un sentido poético limitado, pero su violencia y su toque cínico alcanzan a veces su objetivo, gratuitamente, en nombre de la terapia. La señora sabe dar donde duele. No es muy bonito cuando ves a quien se dirige… ¡pero es su trabajo! Su dominio de partera de la palabra le da un vigor tenaz.” “Magnani no tiene cura…”

Nunca he dejado llorar a ninguno de mis hijos. ¡Tendrá que ser precisamente el más desfavorecido y al que le faltan tantas cosas al que no respete en su grito!”

Aun no está preparado, afirma calmadamente Cruella.” “¡gracias por sólo querer la desestabilización para asentar mejor su poder manipulador!” “Provoco con placer porque adquiero la certeza de que es ella la Mala y de que no seré nunca otra cosa que una buena madre, que una <madre suficientemente buena>… como dice el otro maleducado de Winnicott.”

Agito un bebé marciano, un vientre fértil y un cráneo rapado que ella se permite comentar en la siguiente sesión. ¡Intimidad fatal! ¡No eres mi madre ni mi compañera! Este pelo de pincho se convierte un poco en mi primera pintura de guerra. Una cabellera tan rasa, eso la desestabiliza un poco, eso hace menos madre… ¡pero le da un poco el aspecto de combate callejero!”

En efecto, verán, no es porque su hijo tenga una pérdida en los agudos por lo que no oye… Hay parámetros mucho más importantes que las cifras… Algunos niños seleccionan la información sonora… Sólo oyen lo que eligen… ¡Bah veamos! Ahora, ¡Víctor no está listo para escuchar! ¡Es preciso comprenderlo!” “Supongo que es mejor oír eso que ser sordo…”

un médico del establecimiento nos lleva un día como a delincuentes a un rincón sombrío del corredor para aconsejarnos vivamente que demos la espalda a esos ineptos y no volvamos nunca. Va en ello el porvenir de Víctor. Aquí no hay nada bueno para él, no hay que escucharles más e irse rápidamente. Juramos no decir nada, se juega su trabajo. Desconcertados, prometemos, pero comprendemos también que hay peligro en la demora.”

B) 7 AÑOS DE PSICOANÁLISIS – ANNIE GRUYER

Numa pesquisa no google, parece que grande parte dessas vítimas da psicanálise compartilham um estranho ponto em comum: são hoje fotógrafxs!

Sólo me sentía bien con personas que se me parecían, a través de sus diferencias. Siempre me percibí como una extranjera para mis camaradas, ya fuera en la guardería, en primaria y luego en el instituto.”

¿Cómo se puede no trabajar cuando no se tiene ninguna herida, ningún mal físico es visible? ¿Cómo puede permitirse uno, un lujo así?”

Yo que habitualmente hablo poco, comprendo que, para salir de este mal paso, debo lanzarme a una especie de logorrea: no puedo soportar esos silencios y esas miradas.”

No debía plantear ninguna pregunta personal, ni siquiera la más anodina. Sólo tenía que entregarme y esperar las deducciones que ella consiguiera hacer de mis declaraciones. De hecho, si lo pienso, es lo que preocupaba, no era que yo no sabía nada sobre ella, era más bien la manera en la que ella ponía distancia entre nosotros, debería decir mejor ‘altura’.”

No conseguí integrarme hasta el día en que comprendí (sin psicoterapeuta) que el humor provocaba innegablemente la simpatía. Me convertí desde entonces hasta en fin de mis ‘años de colegio’, a veces a mi costa, en el payasete de servicio que hacía sonreír, reír…” “Pero, de todo esto, no hablaba con la psicóloga, hablaba poco o nada de mis dificultades en la escuela ya que ella no me interrogaba nunca en ese sentido.”

Sin embargo, mis sueños tenían al menos el mérito de atraer la atención de la psicóloga sobre mí, ya que a veces parecía aburrirse mucho. Se ‘distraía’ a través de la nube de humo que provocaba cada uno de los cigarrillos consumidos en su despacho. La niebla se espesaba.”

Al pasar los años, mi tendencia a ser ansiosa e introvertida se transformó en diferentes fobias cada vez más invalidantes.”

Pues es bastante simple. ¿Nunca te has mirado desnuda en un espejo y has observado tu sexo?… ¿No? ¿Nunca? No es normal a tu edad. No eres curiosa. Tu cuerpo no debe serte extraño. Lo que da miedo, lo sabes, es cuando la verga del hombre se hincha, cuando el músculo se estira hasta el punto en que las venas y las arterias sobresalen. Es parecido para ti, los labios mayores se llenan de sangre.”

¿Dices que había leche en los cubos? Pero, de hecho, ¿no sería otra cosa?”

Estaba claro como el agua de roca: según ella, tenía ganas de que el psiquiatra me diera su esperma. Del blanco, mis juegos habían cambiado al rojo, luego fue el blanco del silencio y del malestar, frío, glacial.”

Me replegaba sobre mí misma, colocándome en clase cerca de la salida, o en el fondo para no someterme a la pesada mirada de mis camaradas. Mis resultados escolares vacilaban como mi salud. Mi fobia a la sangre me obligó a estar liberada del curso de ciencias naturales y de biología. Entrar en el aula implicaba sudores fríos y sofocaciones.”

A finales de los años 80, el estante de psicología en la librería se titulaba ‘psicoanálisis’. Eso no me planteaba demasiados problemas ya que entonces yo creía que la psicología ERA el psicoanálisis.”

Además, tuve la decepción de la asignatura de filosofía en el último curso. Esperaba codearme con los grandes conceptos: la libertad, la autoridad, el libre albedrío, la felicidad, la sabiduría y los gigantes del pensamiento: Platón, Rousseau, Kant… Otra desilusión. El profesor limitaba su curso a 2 palabras: deseo y sueño, Fraud y más Fraud, que sin embargo no era para nada filósofo.”

Tomé así conciencia de que el freudismo no se limitaba a la consulta del analista sino que ocupaba de forma tentacular nuestro terreno cultural; en el instituto, en las bibliotecas, el cine, la tele. Entonces, ¿cómo salir del laberinto del Minotauro que devora los males de sus pacientes para volver a sacar, aun más deshumanizantes, sus teorías inmóviles desde hace un siglo?”

Renuncié al instituto, al deporte, a las salidas. Mi vida se encogía cada vez más. Y, sin embargo, ningún diagnóstico, ningún interés más grande en ayudarme por parte de la psicóloga que sabía que me veía obligada a ir a las consultas rodeadas por mis 2 padres y en taxi (vivía a 10 minutos caminando).” “Un día, se dignó aconsejarme que cogiera mi bicicleta ya que no podía coger el metro o el autobús. No comprendía que el transporte que utilizara no cambiaba nada mi terror a salir de casa.”

Los días que siguieron fueron terribles para mí. No osaba mirar a los ojos a mi padre. Por primera vez en mi vida, dudaba de él, mi propio padre. No osaba tocar una estilográfica, ni mirar un póster en el que figuraba el cohete Ariane. Había sexos de hombres por todas partes.”

C) MIS PSEUDOANALISTAS Y YO – MARIE-CHRISTINE LORENTZ

El Sr. C. se divertía con esa tía que buscaba un nuevo compañero por Internet y le contaba sus encuentros, sus esperanzas, sus desengaños. Además me había prescrito un antidepresivo en la primera sesión.”

tenía de nuevo depresiones de repetición, que perduraban mientras que había encontrado un compañero con el que me sentía muy bien. Incluso habíamos decidido terminar juntos nuestros días, como se dice. Sin embargo, empezaba a encadenar bajas laborales por depresión. § Entre todo esto, mi nuevo compañero murió. Brutalmente y sin signos premonitorios, mientras yo dormía.

Y he aquí que no reacciono exactamente como podría esperarse. <Pensaba encontrarla postrada, me dice el Sr. C., y la veo muy agitada. Duerme demasiado poco, hay que prestar atención, sino va a hacer usted una depresión severa.>

Entre mediados de julio y final de agosto, ente 2 crisis de desesperación, estaba en un estado de euforia nunca visto antes, hablando a todo el mundo – yo la tímida –, arreglando el menor problema sin ningún esfuerzo.

Como dormía 2 horas por la noche, me recetaron un regulador del humor. Ignoraba lo que era, pero el efecto fue radical. En unos días, me puse a llorar y entré en un periodo de depresión intensa.”

Tengo 2 grandes reproches con respecto al Sr. C.: por una parte no haberme dicho de lo que sufría, por otra no haber respetado el protocolo de tratamiento de esa enfermedad dejándome suspender el Tegretol, mi timoregulador.”

Luego un Sr. E. entró en el paisaje. Pienso que voy a poder dejar de agotar el alfabeto: es un especialista reconocido en bipolaridad. En el momento en el que escribo estas líneas, 4 meses después del inicio de mi nuevo tratamiento, únicamente medicamentoso, siento volver la alegría de vivir que me ha faltado desde hace tantos años.” Hmmm.

Texto muito ruim! Pular os próximos 3 micro-relatos é imprescindível a fim de continuar a suportar a leitura deste livro. Não é que seu conteúdo seja inaproveitável, pelo contrário: toda antipseudanálise é útil! Mas seu estilo é horrendo, sua escrita é escabrosa!

5. UN CASO EJEMPLAR: LA TOXICOMANÍA

A) COMO LAS TEORÍAS PSEUDOANALÍTICAS BLOQUEARON EL TRATAMIENTO EFICAZ DE LOS TOXICÓMANOS Y CONTRIBUYERON A LA MUERTE DE MILES DE INDIVIDUOS – JEAN-JACQUES DÉGLON

Apenas déjà vu sobre a hegemonia da psicanálise na França.

QUINTA PARTE

UNA VIDA DESPUÉS DE FRAUD

1. LA REVOLUCIÓN DE LAS NEUROCIENCIAS [se foi a própria limitação desta ciência que nos brindou com a pseudanálise!!!]

A) EL MODELO FRAUDIANO DE LOS SUEÑOS NO ES PLAUSIBLE (1992) – ALLAN HOBSON

Se puede continuar interpretando los sueños como metáforas, o incluso en términos de inconsciente dinámicamente reprimido, si nos empeñamos. Pero semejante cuestión ya no es ni necesaria ni suficiente para explicar tanto el origen como la naturaleza del sueño.

A diferencia de Fraud, pienso que la mayoría de los sueños no son ni oscuros ni expurgados, sino, al contrario, claros y de fabricación en bruto. Contienen pulsiones altamente conflictivas, sin disfrazar y perfectamente comprensibles, que merecen la pena que sean anotadas por el soñador (y por cualquier participante en la interpretación). Mi concepto se hace eco del de Jung de un sueño claramente comprensible. Se desembaraza de toda distinción entre contenido manifiesto y contenido latente. Mientras que los psicoanalistas conservadores continúan defendiendo y aplicando, sin modificación seria, la teoría de Fraud sobre el sueño, otros, más liberales (los de la <hermenéutica>), se separan explícitamente de la neurología y del paradigma de causa, procedente de las ciencias físicas.”

AMBIÇÃO DE SOBRA, COMPETÊNCIA DE MENOS: “El punto de partida de Fraud en sus Apuntes de una psicología científica es rigurosamente científico. Expresa claramente su ambición de construir una teoría de la mente que sería una junto con su teoría del cerebro. La teoría del sueño no es más que una traducción de las nociones derivadas de la neurobiología que utiliza en sus Apuntes.

La teoría psicoanalítica del sueño se apoya en la idea errónea de que el sistema nervioso, a falta de una energía propia, encuentra su energía en dos fuentes no neuronales: el mundo exterior y los impulsos somáticos. Sabemos hoy en día que el cerebro produce su propia energía y, al hacerlo, no es dependiente ni del mundo exterior ni de los impulsos somáticos.”

La potencia exigida al sistema energético es relativamente débil; Fraud, por el contrario, la creía elevada. Además, el psicoanálisis considera la forma del contenido onírico como procedente principalmente de las ideas (los pensamientos latentes del sueño); la hipótesis de activación-síntesis tiene una fuerte influencia sensorio-motora (no hay diferencia entre el contenido latente y el contenido manifiesto).”

La activación-síntesis no tiene ninguna necesidad de un postulado de regresión: afirma que es una característica intrínseca del estado onírico de tener primero un carácter sensorial, porque los sistemas sensoriales del cerebro están intrínseca y primordialmente activados. Y considero ese aspecto sensorial como progresivo más que regresivo, porque el sistema es autoactivo y autocreativo.” O sistema é sem-tempo, não é progressivo tampouco!

El contenido de la mayor parte de los sueños es directamente leíble sin decodificación. Al ser el estado onírico abierto, los sueños de los individuos pueden efectivamente revelar estilos de conocimiento, aspectos de la visión que un individuo tiene del mundo y de las experiencias históricas específicas de ese individuo.”

3. LAS PSICOTERAPIAS DE HOY [TCC, TCC E MAIS TCC…]

(…)

* * *

À página 536 (a 3 do fim!) cita-se como que em nota de pé-de-página a Gestalt: “Fundada por Fritz Perls, representa sin duda la forma más sofisticada del enfoque humanista.” E não diz mais do que 3 frases além disso…

THE WEAK TRIAL OF SOCRATES – I.F. Stone

PREFACE

In my youth I was drawn both by philosophy and journalism. I read the fragments of Heraclitus the summer after I graduated from high school. I majored in philosophy at college, but I was also working my way as a journalist full time when I dropped out in my junior year and made newspaper work my lifelong career.”

I soon felt that I could not fully understand the English 17th-century revolutions without a fuller knowledge of the Protestant Reformation, and the close connection between the struggle for religious liberty and the struggle for free expression.

To understand the Reformation it was necessary to go farther back again and probe into those premonitory stirrings and adventurous thinkers in the Middle Ages who sowed the seeds of free thought. This in turn was closely associated, of course, with the impact on Western Europe when Aristotle was rediscovered through Arabic and Hebrew translations and commentaries in the 12th century.”

When I first got back to ancient Athens, I thought in my ignorance that I would be able to do a cursory survey, based on standard sources, of free thought in classical antiquity. But I soon found that there were no standard sources. Almost every point in classical studies was engulfed in fierce controversy. Our knowledge resembles a giant jigsaw puzzle, many parts of which are forever lost. Scholars of equal eminence are able to fashion from the surviving fragments contradictory reconstructions of a vanished reality. These tend to reflect the preconceptions with which they began.

So I turned to the sources for myself. There I found that one could not make valid political or philosophical inferences from translations, not because the translators were incompetent but because the Greek terms were not fully congruent — as one would say in geometry — with their English equivalents.”

To understand a Greek conceptual term, one had to learn at least enough Greek to grapple with it in the original, for only in the original could one grasp the full potential implications and color of the term.

How can one understand the word logos, for example, from any one English translation, when the definition of this famous term — in all its rich complexity and creative evolution — requires more than 5 full columns of small type in the massive unabridged Liddell-Scott-Jones Greek-English Lexicon?” Talvez não seja possível filosofar em inglês, e isso é tudo.

In my day, even in a country high school, one had 4 years of Latin to prepare for college, and Catullus and Lucretius were among my early enthusiasms. But I had only one semester of Greek in college before I dropped out in my junior year.”

I started on my own with a bilingual edition of the Gospel of St. John, then went to the first book of the Iliad. But the study of Greek soon led me far afield into the Greek poets and Greek literature generally. Their exploration continues to be a joy.”

Premissa completamente equivocada: Atenas não era livre, nem uma democracia.

PRELUDE

The Socrates of Xenophon is rather platitudinous and banal, sometimes a downright philistine, capable even in one passage of Xenophon’s Memorabilia — his recollections of Socrates — of jokingly offering to act as a panderer [cafetão ou bajulador!] to a well-known Athenian courtesan.”

It was Plato who created the Socrates of our imagination, and to this day no one can be sure how much of his portrait is the real Socrates and how much is the embellishing genius of Plato. The search for the historical Socrates, like the search for the historical Jesus, continues to generate an ever more enormous literature, a vast sea of speculation and learned controversy.

The debt of Socrates to Plato is, however, no greater than the debt of Plato to Socrates. It is to Plato’s literary genius that Socrates owes his preeminent position as a secular saint of Western civilization. And it is Socrates who keeps Plato on the best-seller lists. Plato is the only philosopher who turned metaphysics into drama. Without the enigmatic and engaging Socrates as the principal character of his dialogues, Plato would not be the only philosopher who continues to charm a wide audience in every generation. No one reads Aristotle or Aquinas or Kant as literature.” Nossa reverência católica mal-disfarçada tem de se referir a ele como São Tomás, enquanto os outros o chamam simplesmente de Aquino!

The Platonic account is theater at its highest level. Socrates is as much a tragic hero as Oedipus or Hamlet.”

How does a reporter cover a trial that was held almost 2,400 years ago?” “Scholar X attacks Scholar Y’s criticism of Scholar Z’s interpretation of an ancient text.” “Three contemporary portraits of Socrates have survived. In addition to the accounts by Plato and Xenophon, we also have the portrait that emerges from the comedies of his friend Aristophanes, a friendship attested by the Symposium of Plato.”

A VELHA FALA DO MEU PROFESSOR DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA EM 2006 AINDA REPERCUTE: “Indeed, Aristotle and Plato may be read together as an ongoing philosophical and political debate; even in our own time, Platonists and Aristotelians are not always on speaking terms.”

To study the voting procedures and rules of debate in the popular assemblies of the Roman Republic side by side with the Athenian assembly is to see clearly the contrast between the two political systems, the former a thinly disguised oligarchy, the other a full and direct democracy.” Mais ou menos…

PART I. SOCRATES AND ATHENS

1. THEIR BASIC DIFFERENCES

Was it, as Greeks would have said, a polis — a free city? Or was it, as Socrates so often said, a herd?” “to oppose self-government was to be not just antidemocratic but antipolitical. This is how Socrates looked to most of his contemporaries. Socrates was neither an oligarch nor a democrat. He stood apart from either side.” Não creio que seja simples assim, Stone: republicanos ou democratas… haha

In 5th– and 4th-century Athens, advocacy of kingship must have looked as quirky as a monarchist political party would in 20th-century America — too quaint and eccentric even to be alarming.” Tudo bem TRINTA tiranos, mas UM, nem pensar!

In the Memorabilia, Socrates set himself up as an opponent of all forms of existing government. He itemized — and rejected — them one by one.”

Uma bela versão alternativa da hierarquia de governos da República, só que dessa vez sem uma apresentação hierárquica, apenas negativa:

FORMAS OBSOLETAS DE GOVERNO

MONARQUIA rei – “cetro” como símbolo da transcendência – descendência de Zeus (Deus morreu há muito mais tempo do que costumamos pensar. Como ele é Deus e não está no tempo, a ele é facultado morrer antes mesmo de começar o seu reinado… Penso aqui no Zaratustra, é claro.)

DEMOCRACIA o favorito – povo – sufrágio universal e identidade absoluta entre representante e representados

??? sorteado – assembléia que sorteia os incumbidos de governar – uma para-democracia, quando muito.

TIRANIA tirano – força e astúcia

Sócrates refuta estas 4, sem dar pelas aristocracias, pelos critérios de plural ou singular, “bom” ou “ruim”, apenas para afirmar o mesmo que Platão: O SÁBIO.

In Xenophon, Socrates defended his advocacy of absolute rule with analogies also familiar in the Platonic dialogues.”

in spinning wool . . . the women govern the men because they know how to do it and men do not.”

ERROS FILOSÓFICOS 101: “Plato was a theorist, Aristotle a scientific observer.”

Um livro de 1988 não pode chamar a República de utopia, pelo amor de Zeus! Isso me desabona muito a continuar…

Talvez o anão que sempre volte seja Aristóteles: o rei-dos-burros, ineliminável na História… Obdurate imbeciles that know-what-they-know, but only that. The last that are.

Antisthenes, the oldest disciple of Socrates, considered monarchy the ideal form of government and agreed with Xenophon that Cyrus was the ideal monarch. These views were presumably expressed in his lost dialogue, the Statesman, mentioned by Athenaeus.”

Travel abroad was severely restricted to keep the community from ‘spiritual pollution’ [n’As Leis, que sabe-se lá por que diabos ele chama de ‘livro político mais moderado de Platão] — as the Chinese Communists now say — by foreign ideas. These Platonic innovations in thought-control went beyond any kingship the Greeks had ever known. They were in fact the first sketches of what we now call totalitarian societies.” Stone é mais um desses americanos idiotizados que falam em Jefferson e democracia sem entender nada a respeito. Mesmo discurso mccarthista de sempre.

LA CRÈME DE LA CRÈME DES ‘ESSAYS OF MICHEL DE MONTAIGNE’

Tradução ao inglês de Charles Cotton, editor William Carew Hazlitt, 1877.

Texto integral em http://www.gutenberg.org/files/3600/3600-h/3600-h.htm#link2H_PREF

PREFACE

His Essays, which are at once the most celebrated and the most permanent of his productions, form a magazine out of which such minds as those of Bacon and Shakespeare did not disdain to help themselves; and, indeed, as Hallam observes, the Frenchman’s literary importance largely results from the share which his mind had in influencing other minds, coeval and subsequent.”

He was, without being aware of it, the leader of a new school in letters and morals. His book was different from all others which were at that date in the world. It diverted the ancient currents of thought into new channels. It told its readers, with unexampled frankness, what its writer’s opinion was about men and things, and threw what must have been a strange kind of new light on many matters but darkly understood. Above all, the essayist uncased himself, and made his intellectual and physical organism public property. He took the world into his confidence on all subjects.” “Of all egotists, Montaigne, if not the greatest, was the most fascinating, because, perhaps, he was the least affected and most truthful.”

The text of these volumes is taken from the first edition of Cotton’s version, printed in 3 vols. 8vo, 1685-6, and republished in 1693, 1700, 1711, 1738, and 1743, in the same number of volumes and the same size. In the earliest impression the errors of the press are corrected merely as far as page 240 of the 1st volume, and all the editions follow one another. That of 1685-6 was the only one which the translator lived to see. He died in 1687, leaving behind him an interesting and little-known collection of poems, which appeared posthumously, 8vo, 1689.

It was considered imperative to correct Cotton’s translation by a careful collation with the ‘variorum’ edition of the original, Paris, 1854, 4 vols. 8vo or 12mo, and parallel passages from Florin[ou Florio?]’s earlier undertaking have occasionally been inserted at the foot of the page. A Life of the Author and all his recovered Letters, 16 in number, have also been given; but, as regards the correspondence, it can scarcely be doubted that it is in a purely fragmentary state.”

* * *

ALGUNS EXCERTOS DE CARTAS

they say that a sensible person may take a wife indeed, but that to espouse her is to act like a fool.”

Let us live, my wife, you and I, in the old French method. Now, you may recollect that the late M. de la Boétie, my brother and inseparable companion, gave me, on his death-bed, all his books and papers, which have remained ever since the most precious part of my effects. I do not wish to keep them niggardly to myself alone, nor do I deserve to have the exclusive use of them; so that I have resolved to communicate them to my friends; and because I have none, I believe, more particularly intimate than you, I send you the Consolatory Letter written by Plutarch to his Wife, translated by him into French”

* * *

(Ao rei Henrique IV, que, como, a parecer, todos os reis do período, se encontrava em contínuas campanhas de conquista…)

If there is to be severity and punishment, let it be deferred till success has been assured. A great conqueror of past times boasts that he gave his enemies as great an inducement to love him, as his friends. And here we feel already some effect of the favourable impression produced upon our rebellious towns by the contrast between their rude treatment, and that of those which are loyal to you.”

* * *

FIRST BOOK

CHAPTER I——THAT MEN BY VARIOUS WAYS ARRIVE AT THE SAME END.

The Emperor Conrad III having besieged Guelph, Duke of Bavaria, [In 1140, in Weinsberg, Upper Bavaria.] would not be prevailed (…) to condescend to milder conditions than that the ladies and gentlewomen only who were in the town with the duke might go out without violation of their honour, on foot, and with so much only as they could carry about them. Whereupon they, out of magnanimity of heart, presently contrived to carry out, upon their shoulders, their husbands and children, and the duke himself; a sight at which the emperor was so pleased, that, ravished with the generosity of the action, he wept for joy, and immediately extinguishing in his heart the mortal and capital hatred he had conceived against this duke, he from that time forward treated him and his with all humanity.” Algo parecido com o conto do Barão de Munchhausen!

And yet pity is reputed a vice amongst the Stoics, who will that we succour the afflicted, but not that we should be so affected with their sufferings as to suffer with them.”

Man (in good earnest) is a marvellous vain, fickle, and unstable subject, and on whom it is very hard to form any certain and uniform judgment. For Pompey could pardon the whole city of the Mamertines, though furiously incensed against it, upon the single account of the virtue and magnanimity of one citizen, Zeno, who took the fault of the public wholly upon himself; neither entreated other favour, but alone to undergo the punishment for all. And yet Sylla’s host, having in the city of Perugia manifested the same virtue, obtained nothing by it, either for himself or his fellow-citizens.

And, directly contrary to my first examples, the bravest of all men, and who was reputed so gracious to all those he overcame, Alexander, having, after many great difficulties, forced the city of Gaza, and, entering, found Betis, who commanded there, and of whose valour in the time of this siege he had most marvellous manifest proof, alone, forsaken by all his soldiers, his armour hacked and hewed to pieces, covered all over with blood and wounds, and yet still fighting in the crowd of a number of Macedonians, who were laying on him on all sides, he said to him, nettled at so dear-bought a victory (for, in addition to the other damage, Alexander had two wounds newly received in his own person), <Thou shalt not die, Betis, as thou dost intend; be sure thou shall suffer all the torments that can be inflicted on a captive.> To which menace the other returning no other answer, but only a fierce and disdainful look; <What,> says Alexander, observing his haughty and obstinate silence, <is he too stiff to bend a knee! Is he too proud to utter one suppliant word! Truly, I will conquer this silence; and if I cannot force a word from his mouth, I will, at least, extract a groan from his heart.> And thereupon converting his anger into fury, presently commanded his heels to be bored through [atravessados], causing him, alive, to be dragged, mangled, and dismembered at a cart’s tail.(Quintus Curtius, 4. 6. This act of cruelty has been doubted, notwithstanding the statement of Curtius.)—Was it that the height of courage was so natural and familiar to this conqueror, that because he could not admire, he respected it the less? Or was it that he conceived valour to be a virtue so peculiar to himself, that his pride could not, without envy, endure it in another? Or was it that the natural impetuosity of his fury was incapable of opposition? Certainly, had it been capable of moderation, it is to be believed that in the sack and desolation of Thebes, to see so many valiant men, lost and totally destitute of any further defence, cruelly massacred before his eyes, would have appeased it: where there were above 6,000 put to the sword, of whom not one was seen to fly, or heard to cry out for quarter; but, on the contrary, every one running here and there to seek out and to provoke the victorious enemy to help them to an honourable end. Not one was seen who, however weakened with wounds, did not in his last gasp yet endeavour to revenge himself, and with all the arms of a brave despair, to sweeten his own death in the death of an enemy. Yet did their valour create no pity, and the length of one day was not enough to satiate the thirst of the conqueror’s revenge, but the slaughter continued to the last drop of blood that was capable of being shed, and stopped not till it met with none but unarmed persons, old men, women, and children, of them to carry away to the number of 30,000 slaves.” Discordo dos devaneios morais de Montaigne. Todo essa massacre, toda essa matança, que ele atribui à empáfia alexandrina, poderiam ter sido evitados se esses homens simplesmente se rendessem, o que é nobre, pois que contra o mesmo orgulho invencível que Montaigne tanto ataca no parágrafo.

CHAPTER II——OF SORROW

The Italians have more fitly baptized by this name—(La tristezza)—malignity; for ‘tis a quality always hurtful, always idle and vain; and as being cowardly, mean, and base, it is by the Stoics expressly and particularly forbidden to their sages.”

Quem mais pranteia no enterro é quem menos sofre.

Petrified with her misfortunes.—Ovid, Met., vi. 304.Penso que li isso em algum outro lugar – Virginia Woolf cita, talvez? Agora entendo o contexto: a mãe que, de tanto perder filhos, não podendo expressar externamente sua tristeza, converteu-se súbito em pedra.

oppressed with accidents greater than we are able to bear.”

He who can say how he burns with love, has little fire”

Petrarca, Sonetto 137.

hence that frigidity which by the force of an immoderate ardour seizes him even in the very lap of fruition”

Light griefs can speak: deep sorrows are dumb.”

Seneca, Hippolytus, act ii. scene 3.

Besides the examples of the Roman lady, who died for joy to see her son safe returned from the defeat of Cannae; and of Sophocles (…) who died [laughing, reportedly]” Suspeito quando se fala do obituário de alguém famoso, mas demos crédito quando a pessoa é anônima!

And for a more notable testimony of the imbecility of human nature, it is recorded by the ancients—(Pliny)—that Diodorus the dialectician died upon the spot, out of an extreme passion of shame, for not having been able in his own school, and in the presence of a great auditory, to disengage himself from a nice argument that was propounded to him. I, for my part, am very little subject to these violent passions; I am naturally of a stubborn apprehension, which also, by reasoning, I everyday harden and fortify.”

(…)

CHAPTER IV——THAT THE SOUL EXPENDS ITS PASSIONS UPON FALSE OBJECTS, WHERE THE TRUE ARE WANTING

So it seems that the soul, being transported and discomposed, turns its violence upon itself, if not supplied with something to oppose it, and therefore always requires an object at which to aim, and whereon to act. Plutarch says of those who are delighted with little dogs and monkeys, that the amorous part that is in us, for want of a legitimate object, rather than lie idle, does after that manner forge and create one false and frivolous. And we see that the soul, in its passions, inclines rather to deceive itself, by creating a false and fantastical a subject, even contrary to its own belief, than not to have something to work upon. After this manner brute beasts direct their fury to fall upon the stone or weapon that has hurt them”

And the philosopher Bion said pleasantly of the king, who by handsful pulled his hair off his head for sorrow, <Does this man think that baldness is a remedy for grief?>—(Cicero, Tusc. Quest., iii. 26.)—Who has not seen peevish gamesters chew and swallow the cards, and swallow the dice, in revenge for the loss of their money? Xerxes whipped the sea, and wrote a challenge to Mount Athos; Cyrus employed a whole army several days at work, to revenge himself of the river Gyndas, for the fright it had put him into in passing over it; and Caligula demolished a very beautiful palace for the pleasure his mother had once enjoyed there.”

I remember there was a story current, when I was a boy, that one of our neighbouring kings—(Probably Alfonso XI. of Castile)—having received a blow from the hand of God, swore he would be revenged, and in order to it, made proclamation that for 10 years to come no one should pray to Him, or so much as mention Him throughout his dominions, or, so far as his authority went, believe in Him; by which they meant to paint not so much the folly as the vainglory of the nation of which this tale was told. They are vices that always go together, but in truth such actions as these have in them still more of presumption than want of wit. Augustus Caesar, having been tossed with a tempest at sea, fell to defying Neptune, and in the pomp of the Circensian games, to be revenged, deposed his statue from the place it had amongst the other deities. Wherein he was still less excusable than the former, and less than he was afterwards when, having lost a battle under Quintilius Varus in Germany, in rage and despair he went running his head against the wall, crying out, <O Varus! give me back my legions!> for these exceed all folly, forasmuch as impiety is joined therewith, invading God Himself, or at least Fortune, as if she had ears that were subject to our batteries; like the Thracians, who when it thunders or lightens, fall to shooting against heaven with Titanian vengeance, as if by flights of arrows they intended to bring God to reason.” Fantástico!

CHAPTER V——WHETHER THE GOVERNOR OF A PLACE BESIEGED OUGHT HIMSELF TO GO OUT TO PARLEY

Astúcia: um longo enredo de Tróia ao leão de Zaratustra.

Orgulho ferido, mas nada amputado.

In the kingdom of Ternate, amongst those nations which we so broadly call barbarians, they have a custom never to commence war, till it be first proclaimed; adding withal an ample declaration of what means they have to do it with, with what and how many men, what ammunitions, and what, both offensive and defensive, arms; but also, that being done, if their enemies do not yield and come to an agreement, they conceive it lawful to employ without reproach in their wars any means which may help them to conquer.” So?

The ancient Florentines were so far from seeking to obtain any advantage over their enemies by surprise, that they always gave them a month’s warning before they drew their army into the field, by the continual tolling of a bell they called Martinella.”

Where the lion’s skin is too short, we must eke it out with a bit from that of a fox”

(…)

CHAPTER VII——THAT THE INTENTION IS JUDGE OF OUR ACTIONS

Death discharges us of all our obligations.”

Henry VII, King of England, articled with Don Philip, son to Maximilian the emperor, or (to place him more honourably) father to the Emperor Charles V, that the said Philip should deliver up the Duke of Suffolk of the White Rose, his enemy, who was fled into the Low Countries, into his hands; which Philip accordingly did, but upon condition, nevertheless, that Henry should attempt nothing against the life of the said Duke; but coming to die, the king in his last will commanded his son to put him to death immediately after his decease. (…) Unjust judges, who defer judgment to a time wherein they can have no knowledge of the cause!”

(…)

CHAPTER IX——OF LIARS

above all, old men who retain the memory of things past, and forget how often they have told them, are dangerous company”

It is not without good reason said <that he who has not a good memory should never take upon him the trade of lying.> I know very well that the grammarians distinguish betwixt an untruth and a lie, and say that to tell an untruth is to tell a thing that is false, but that we ourselves believe to be true; and that the definition of the word to lie in Latin, from which our French is taken, is to tell a thing which we know in our conscience to be untrue; and it is of this last sort of liars only that I now speak.”

I see that parents commonly, and with indiscretion enough, correct their children for little innocent faults, and torment them for wanton tricks, that have neither impression nor consequence; whereas, in my opinion, lying only, and, which is of something a lower form, obstinacy, are the faults which are to be severely whipped out of them, both in their infancy and in their progress, otherwise they grow up and increase with them; and after a tongue has once got the knack of lying, ‘tis not to be imagined how impossible it is to reclaim it whence it comes to pass that we see some, who are otherwise very honest men, so subject and enslaved to this vice.”

a dog we know is better company than a man whose language we do not understand.”

CHAPTER X——OF QUICK OR SLOW SPEECH

All graces were never yet given to any one man.”

So we see in the gift of eloquence, wherein some have such a facility and promptness, and that which we call a present wit so easy, that they are ever ready upon all occasions, and never to be surprised; and others more heavy and slow, never venture to utter anything but what they have long premeditated, and taken great care and pains to fit and prepare.”

O PADRE E O ADVOGADO: “If I were worthy to advise, the slow speaker, methinks, should be more proper for the pulpit, and the other for the bar: and that because the employment of the first does naturally allow him all the leisure he can desire to prepare himself, and besides, his career is performed in an even and unintermitted line, without stop or interruption; whereas the pleader’s business and interest compels him to enter the lists upon all occasions, and the unexpected objections and replies of his adverse party jostle him out of his course, and put him, upon the instant, to pump for new and extempore answers and defences.”

But he who remains totally silent, for want of leisure to prepare himself to speak well, and he also whom leisure does noways benefit to better speaking, are equally unhappy.”

I know, experimentally, the disposition of nature so impatient of tedious and elaborate premeditation, that if it do not go frankly and gaily to work, it can perform nothing to purpose.”

I am always worst in my own possession, and when wholly at my own disposition: accident has more title to anything that comes from me than I; occasion, company, and even the very rising and falling of my own voice, extract more from my fancy than I can find, when I sound and employ it by myself. By which means, the things I say are better than those I write, if either were to be preferred, where neither is worth anything.”

when I come to speak, I am already so lost that I know not what I was about to say, and in such cases a stranger often finds it out before me.”

CHAPTER XI——OF PROGNOSTICATIONS

Socrates’ demon might, perhaps, be no other but a certain impulsion of the will, which obtruded itself upon him without the advice or consent of his judgment; and in a soul so enlightened as his was, and so prepared by a continual exercise of wisdom and virtue, ‘tis to be supposed those inclinations of his, though sudden and undigested, were very important and worthy to be followed. Every one finds in himself some image of such agitations, of a prompt, vehement, and fortuitous opinion; and I may well allow them some authority, who attribute so little to our prudence, and who also myself have had some, weak in reason, but violent in persuasion and dissuasion, by which I have suffered myself to be carried away so fortunately, and so much to my own advantage, that they might have been judged to have had something in them of a divine inspiration.”

CHAPTER XII——OF CONSTANCY

there is no supple [flexível] motion of body, nor any movement in the handling of arms, how irregular or ungraceful soever, that we need condemn, if they serve to protect us from the blow that is made against us.”

Neither do the Stoics pretend that the soul of their philosopher need be proof against the first visions and fantasies that surprise him; but, as to a natural subjection, consent that he should tremble at the terrible noise of thunder, or the sudden clatter of some falling ruin, and be affrighted even to paleness and convulsion; and so in other passions, provided his judgment remain sound and entire, and that the seat of his reason suffer no concussion nor alteration, and that he yield no consent to his fright and discomposure.”

CHAPTER XIII——THE CEREMONY OF THE INTERVIEW OF PRINCES

To what end do we avoid the servile attendance of courts, if we bring the same trouble home to our own private houses?”

CHAPTER XV——OF THE PUNISHMENT OF COWARDICE

But as to cowardice, it is certain that the most usual way of chastising it is by ignominy and it is supposed that this practice brought into use by the legislator Charondas; and that, before his time, the laws of Greece punished those with death who fled from a battle; whereas he ordained only that they be for 3 days exposed in the public dressed in woman’s attire, hoping yet for some service from them, having awakened their courage by this open shame:

Suffundere malis hominis sanguinem, quam effundere. //

Rather bring the blood into a man’s cheek than let it out of his body. (Tertullian in his Apologetics.)” Não sei como isso pode infundir coragem, entretanto…

CHAPTER XVI——A PROCEEDING OF SOME AMBASSADORS [O PERIGO DE QUERER-SER-POLÍMATA-TENDO-APENAS-UM-GRANDE-TALENTO-QUE-EXCEDE-TODOS-OS-OUTROS-DE-DILETANTE – PRINCIPALMENTE NO QUE CONCERNE AO MONARCA, PARA NÃO SE TORNAR MAU GOVERNANTE OU MESMO DÉSPOTA]

I observe in my travels this custom, ever to learn something from the information of those with whom I confer (which is the best school of all others), and to put my company upon those subjects they are the best able to speak of:—

Basti al nocchiero ragionar de’ venti,

Al bifolco dei tori; et le sue piaghe

Conti’l guerrier; conti’l pastor gli armenti.

Let the sailor content himself with talking of the winds; the cowherd of his oxen; the soldier of his wounds; the shepherd of his flocks.—An Italian translation of Propertius, ii. i, 43

For it often falls out that, on the contrary, every one will rather choose to be prating of another man’s province than his own, thinking it so much new reputation acquired; witness the jeer Archidamus put upon Pertander, <that he had quitted the glory of being an excellent physician to gain the repute of a very bad poet>.—And do but observe how large and ample Caesar is to make us understand his inventions of building bridges and contriving engines of war,—and how succinct and reserved in comparison, where he speaks of the offices of his profession, his own valour, and military conduct. His exploits sufficiently prove him a great captain, and that he knew well enough; but he would be thought an excellent engineer to boot; a quality something different, and not necessary to be expected in him.”

By this course a man shall never improve himself, nor arrive at any perfection in anything. He must, therefore, make it his business always to put the architect, the painter, the statuary, every mechanic artisan, upon discourse of their own capacities.”

I have, in my time, known men of command checked for having rather obeyed the express words of the king’s letters, than the necessity of the affairs they had in hand. Men of understanding do yet, to this day, condemn the custom of the kings of Persia to give their lieutenants and agents so little rein, that, upon the least arising difficulties, they must fain have recourse to their further commands; this delay, in so vast an extent of dominion, having often very much prejudiced their affairs; and Crassus, writing to a man whose profession it was best to understand those things, and pre-acquainting him to what use this mast was designed, did he not seem to consult his advice, and in a manner invite him to interpose his better judgment?”

CHAPTER XVII——OF FEAR

So much does fear dread even the means of safety.”—Quint. Curt., ii. II.

And the many people who, impatient of the perpetual alarms of fear, have hanged or drowned themselves, or dashed themselves to pieces, give us sufficiently to understand that fear is more importunate and insupportable than death itself.”

CHAPTER XVIII——THAT MEN ARE NOT TO JUDGE OF OUR HAPPINESS TILL AFTER DEATH.

And, in this sense, this good advice of Solon may reasonably be taken; but he, being a philosopher (with which sort of men the favours and disgraces of Fortune stand for nothing, either to the making a man happy or unhappy, and with whom grandeurs and powers are accidents of a quality almost indifferent) I am apt to think that he had some further aim, and that his meaning was, that the very felicity of life itself, which depends upon the tranquillity and contentment of a well-descended spirit, and the resolution and assurance of a well-ordered soul, ought never to be attributed to any man till he has first been seen to play the last, and, doubtless, the hardest act of his part.”

To death do I refer the assay of the fruit of all my studies: we shall then see whether my discourses came only from my mouth or from my heart. I have seen many by their death give a good or an ill repute to their whole life.”

that I may die well—that is, patiently and tranquilly.”

CHAPTER XIX——THAT TO STUDY PHILOSOPY IS TO LEARN TO DIE

The reason of which is, because study and contemplation do in some sort withdraw from us our soul, and employ it separately from the body, which is a kind of apprenticeship and a resemblance of death; or, else, because all the wisdom and reasoning in the world do in the end conclude in this point, to teach us not to fear to die.”

All the opinions of the world agree in this, that pleasure is our end, though we make use of divers means to attain it: they would, otherwise, be rejected at the first motion; for who would give ear to him that should propose affliction and misery for his end?”

Let the philosophers say what they will, the thing at which we all aim, even in virtue is pleasure. (…) This pleasure, for being more gay, more sinewy, more robust and more manly, is only the more seriously voluptuous, and we ought give it the name of pleasure, as that which is more favourable, gentle, and natural, and not that from which we have denominated it.”

The felicity and beatitude that glitters in Virtue, shines throughout all her appurtenances and avenues, even to the first entry and utmost limits. Now, of all the benefits that virtue confers upon us, the contempt of death is one of the greatest, as the means that accommodates human life with a soft and easy tranquillity, and gives us a pure and pleasant taste of living, without which all other pleasure would be extinct.”

Xenophilus the musician, who lived 106 years in a perfect and continual health”

The end of our race is death; ‘tis the necessary object of our aim, which, if it fright us, how is it possible to advance a step without a fit of ague? The remedy the vulgar use is not to think on’t; but from what brutish stupidity can they derive so gross a blindness?”

They affright people with the very mention of death, and many cross themselves, as it were the name of the devil. And because the making a man’s will is in reference to dying, not a man will be persuaded to take a pen in hand to that purpose, till the physician has passed sentence upon and totally given him over, and then betwixt and terror, God knows in how fit a condition of understanding he is to do it.”

Young and old die upon the same terms; no one departs out of life otherwise than if he had but just before entered into it; neither is any man so old and decrepit, who, having heard of Methuselah, does not think he has yet 20 good years to come. Fool that thou art! who has assured unto thee the term of life? Thou dependest upon physicians’ tales: rather consult effects and experience.”

thou wilt find more who have died before than after 35 years of age.” “He ended His life at 33 years. The greatest man, that was no more than a man, Alexander, died also at the same age.”

Aeschylus, threatened with the fall of a house, was to much purpose circumspect to avoid that danger, seeing that he was knocked on the head by a tortoise falling out of an eagle’s talons in the air.” “Ésquilo, com sua vida ameaçada pelo soterramento de uma casa, foi circunspecto o bastante para se prevenir desse perigo, mas não para deixar de ser atingido na cabeça por uma tartaruga que caiu das garras duma águia – e assim ele morreu.”

Se, porém, devo completar os casos com um de meu próprio sangue, meu irmão, Capitão St. Martin, muito jovem ainda, 23 anos, que já havia dado provas de seu valor, jogando um duelo de tênis, recebeu uma bolada um pouco acima da orelha direita; sem nada sentir da gravidade da lesão no momento, ele nem sequer achou prudente interromper a partida. Cinco ou seis horas depois ele faleceu de uma apoplexia causada por essa mesma contusão.”

But ‘tis folly to think of doing anything that way. They go, they come, they gallop and dance, and not a word of death. All this is very fine; but withal, when it comes either to themselves, their wives, their children, or friends, surprising them at unawares and unprepared, then, what torment, what outcries, what madness and despair! Did you ever see anything so subdued, so changed, and so confounded? A man must, therefore, make more early provision for it; and this brutish negligence, could it possibly lodge in the brain of any man of sense (which I think utterly impossible), sells us its merchandise too dear.”

Let him hide beneath iron or brass in his fear, death will pull his head out of his armour.” Propertius

let us converse and be familiar with him, and have nothing so frequent in our thoughts as death. Upon all occasions represent him to our imagination in his every shape; at the stumbling of a horse, at the falling of a tile, at the least prick with a pin, let us presently consider, Well, and what if it had been death itself?

The Egyptians were wont to do after this manner, who in the height of their feasting and mirth, caused a dried skeleton of a man to be brought into the room to serve for a memento to their guests:

Omnem crede diem tibi diluxisse supremum

Grata superveniet, quae non sperabitur, hora.

Think each day when past is thy last; the next day, as unexpected, will be the more welcome.—Hor., Ep., i. 4, 13.”

he who has learned to die has unlearned to serve. There is nothing evil in life for him who rightly comprehends that the privation of life is no evil: to know how to die delivers us from all subjection and constraint.”

In truth, in all things, if nature do not help a little, it is very hard for art and industry to perform anything to purpose. I am in my own nature not melancholic, but meditative; and there is nothing I have more continually entertained myself withal than imaginations of death, even in the most wanton time of my age” “In the company of ladies, and at games, some have perhaps thought me possessed with some jealousy, or the uncertainty of some hope, whilst I was entertaining myself with the remembrance of some one, surprised, a few days before, with a burning fever of which he died, returning from an entertainment like this, with his head full of idle fancies of love and jollity, as mine was then, and that, for aught I knew, the same destiny was attending me.” “Every minute, methinks, I am escaping, and it eternally runs in my mind, that what may be done to-morrow, may be done to-day.” “A friend of mine the other day turning over my tablets, found therein a memorandum of something I would have done after my decease, whereupon I told him, as it was really true, that though I was no more than a league’s distance only from my own house, and merry and well, yet when that thing came into my head, I made haste to write it down there, because I was not certain to live till I came home. As a man that am eternally brooding over my own thoughts, and confine them to my own particular concerns, I am at all hours as well prepared as I am ever like to be, and death, whenever he shall come, can bring nothing along with him I did not expect long before. We should always, as near as we can, be booted and spurred, and ready to go, and, above all things, take care, at that time, to have no business with anyone but one’s self” Montaigne era um hipocondríaco.

Why for so short a life tease ourselves with so many projects?” Hor.

LADRAR O CÃO SABIA: “One man complains, more than of death, that he is thereby prevented of a glorious victory; another, that he must die before he has married his daughter, or educated his children; a third seems only troubled that he must lose the society of his wife; a fourth, the conversation of his son, as the principal comfort and concern of his being. For my part, I am, thanks be to God, at this instant in such a condition, that I am ready to dislodge, whenever it shall please Him, without regret for anything whatsoever. I disengage myself throughout from all worldly relations; my leave is soon taken of all but myself. Never did any one prepare to bid adieu to the world more absolutely and unreservedly, and to shake hands with all manner of interest in it, than I expect to do. The deadest deaths are the best”

We are to discharge ourselves from these vulgar and hurtful humours. To this purpose it was that men first appointed the places of sepulture adjoining the churches, and in the most frequented places of the city, to accustom, says Lycurgus, the common people, women, and children, that they should not be startled at the sight of a corpse, and to the end, that the continual spectacle of bones, graves, and funeral obsequies should put us in mind of our frail condition”

It was formerly the custom to enliven banquets with slaughter, and to combine with the repast the dire spectacle of men contending with the sword, the dying in many cases falling upon the cups, and covering the tables with blood.”Silius Italicus, xi. 51.

If I were a writer of books, I would compile a register, with a comment, of the various deaths of men: he who should teach men to die would at the same time teach them to live.”

The vigour wherein I now am, the cheerfulness and delight wherein I now live, make the contrary estate appear in so great a disproportion to my present condition, that, by imagination, I magnify those inconveniences by one-half, and apprehend them to be much more troublesome than I find them really to be, when they lie the most heavy upon me; I hope to find death the same.”

Caesar, to an old weather-beaten soldier of his guards, who came to ask him leave that he might kill himself, taking notice of his withered body and decrepit motion, pleasantly answered, <Thou fanciest, then, that thou art yet alive.>

Should a man fall into this condition on the sudden, I do not think humanity capable of enduring such a change: but nature, leading us by the hand, an easy and, as it were, an insensible pace, step by step conducts us to that miserable state, and by that means makes it familiar to us, so that we are insensible of the stroke when our youth dies in us, though it be really a harder death than the final dissolution of a languishing body, than the death of old age; forasmuch as the fall is not so great from an uneasy being to none at all, as it is from a sprightly and flourishing being to one that is troublesome and painful.” Esse luto eu já atravessei há muito tempo…

I will keep thee in fetters and chains, in custody of a savage keeper.—A god will when I ask Him, set me free. This god I think is death. Death is the term of all things.” —Hor.

why should we fear to lose a thing, which being lost, cannot be lamented?”

To him that told Socrates, <The 30 tyrants have sentenced thee to death>; <And nature them>, said he.—(CORRECTION: Socrates was not condemned to death by the 30, but by the Athenians. As in Diogenes Laertius, ii.35.)”

to lament that we shall not be alive 100 years hence, is the same folly as to be sorry we were not alive 100 years ago. Death is the beginning of another life. So did we weep, and so much it cost us to enter into this, and so did we put off our former veil in entering into it. Nothing can be a grievance that is but once.”

Long life, and short, are by death made all one; for there is no long, nor short, to things that are no more. Aristotle tells us that there are certain little beasts upon the banks of the river Hypanis, that never live above a day: they which die at 8 of the clock in the morning, die in their youth, and those that die at 5 in the evening, in their decrepitude: which of us would not laugh to see this moment of continuance put into the consideration of weal or woe? The most and the least, of ours, in comparison with eternity, or yet with the duration of mountains, rivers, stars, trees, and even of some animals, is no less ridiculous.”

Your death is a part of the order of the universe, ‘tis a part of the life of the world.”

Shall I exchange for you this beautiful contexture of things? ‘Tis the condition of your creation; death is a part of you, and whilst you endeavour to evade it, you evade yourselves. This very being of yours that you now enjoy is equally divided betwixt life and death. The day of your birth is one day’s advance towards the grave”

The first hour that gave us life took away also an hour.”

Seneca

Why not depart from life as a sated guest from a feast?”

Lucretius

But: “If you have not known how to make the best use of it, if it was unprofitable to you, what need you care to lose it, to what end would you desire longer to keep it?”

Life in itself is neither good nor evil; it is the scene of good or evil as you make it.”

if you have lived a day, you have seen all”

There is no other light, no other shade; this very sun, this moon, these very stars, this very order and disposition of things, is the same your ancestors enjoyed, and that shall also entertain your posterity” Eu gostaria de ver o sol alaranjado ou vermelho de meio-dia: o crepúsculo da civilização ocidental!

Your grandsires saw no other thing; nor will your posterity.”

Manilius

And, come the worst that can come, the distribution and variety of all the acts of my comedy are performed in a year. If you have observed the revolution of my 4 seasons, they comprehend the infancy, the youth, the virility, and the old age of the world: the year has played his part, and knows no other art but to begin again; it will always be the same thing”

We are turning in the same circle, ever therein confined.”

Lucretius

I am not prepared to create for you any new recreations”

Give place to others, as others have given place to you. Equality is the soul of equity. Who can complain of being comprehended in the same destiny, wherein all are involved? Besides, live as long as you can, you shall by that nothing shorten the space you are to be dead; ‘tis all to no purpose; you shall be every whit as long in the condition you so much fear, as if you had died at nurse”

Know you not that, when dead, there can be no other living self to lament you dead, standing on your grave?”

Death is less to be feared than nothing, if there could be anything less than nothing.”

Make use of time while it is present with you. It depends upon your will, and not upon the number of days, to have a sufficient length of life. Is it possible you can imagine never to arrive at the place towards which you are continually going?”

No night has followed day, no day has followed night, in which there has not been heard sobs and sorrowing cries, the companions of death and funerals.”

To what end should you endeavour to draw back, if there be no possibility to evade it? you have seen examples enough of those who have been well pleased to die, as thereby delivered from heavy miseries; but have you ever found any who have been dissatisfied with dying? It must, therefore, needs be very foolish to condemn a thing you have neither experimented in your own person, nor by that of any other. Why dost thou complain of me and of destiny? Do we do thee any wrong? Is it for thee to govern us, or for us to govern thee? Though, peradventure, thy age may not be accomplished, yet thy life is: a man of low stature is as much a man as a giant; neither men nor their lives are measured by the ell. Chiron refused to be immortal, when he was acquainted with the conditions under which he was to enjoy it, by the god of time itself and its duration, his father Saturn. Do but seriously consider how much more insupportable and painful an immortal life would be to man than what I have already given him. If you had not death, you would eternally curse me for having deprived you of it”

It was I that taught Thales, the most eminent of your sages, that to live and to die were indifferent; which made him, very wisely, answer him, ‘Why then he did not die?’ ‘Because,’ said he, ‘it is indifferent.’

Why dost thou fear thy last day? it contributes no more to thy dissolution, than every one of the rest” “Every day travels towards death; the last only arrives at it.”

* * * “These are the good lessons our mother Nature teaches.” * * *

I believe, in truth, that it is those terrible ceremonies and preparations wherewith we set it out, that more terrify us than the thing itself (…) our beds environed with physicians and divines; in sum, nothing but ghostliness and horror round about us; we seem dead and buried already.”

Children are afraid even of those they are best acquainted with, when disguised in a visor; and so ‘tis with us; the visor must be removed as well from things as from persons, that being taken away, we shall find nothing underneath but the very same death that a mean servant or a poor chambermaid died a day or two ago, without any manner of apprehension. Happy is the death that deprives us of leisure for preparing such ceremonials.” Die young!

CHAPTER XX——OF THE FORCE OF IMAGINATION [OU SOBRE HERMAFRODITAS]

A imaginação não precisa de eventos, mas os eventos sempre precisam de imaginação…

A perpetual cough in another tickles my lungs and throat. (…) Simon Thomas was a great physician of his time: I remember, that happening one day at Toulouse to meet him at a rich old fellow’s house, who was troubled with weak lungs, and discoursing with the patient about the method of his cure, he told him, that one thing which would be very conducive to it, was to give me such occasion to be pleased with his company, that I might come often to see him, by which means, and by fixing his eyes upon the freshness of my complexion, and his imagination upon the sprightliness and vigour that glowed in my youth, and possessing all his senses with the flourishing age wherein I then was, his habit of body might, peradventure, be amended; but he forgot to say that mine, at the same time, might be made worse. Gallus Vibius so much bent his mind to find out the essence and motions of madness, that, in the end, he himself went out of his wits, and to such a degree, that he could never after recover his judgment, and might brag that he was become a fool by too much wisdom.”

We start, tremble, turn pale, and blush, as we are variously moved by imagination; and, being a-bed, feel our bodies agitated with its power to that degree, as even sometimes to expiring.”

Although it be no new thing to see horns grown in a night on the forehead of one that had none when he went to bed, notwithstanding, what befell Cippus, King of Italy, is memorable; who having one day been a very delighted spectator of a bullfight, and having all the night dreamed that he had horns on his head, did, by the force of imagination, really cause them to grow there. Passion gave to the son of Croesus the voice which nature had denied him. And Antiochus fell into a fever, inflamed with the beauty of Stratonice, too deeply imprinted in his soul. Pliny pretends to have seen Lucius Cossitius, who from a woman was turned into a man upon her very wedding-day. Pontanus and others report the like metamorphosis to have happened in these latter days in Italy.”

Myself passing by Vitry le François, saw a man the Bishop of Soissons had, in confirmation, called Germain, whom all the inhabitants of the place had known to be a girl till 22 years of age, called Mary. He was, at the time of my being there, very full of beard, old, and not married. He told us, that by straining himself in a leap his male organs came out; and the girls of that place have, to this day, a song, wherein they advise one another not to take too great strides, for fear of being turned into men, as Mary Germain was.” HAHAHAHAHA!

to the end it may not so often relapse into the same thought and violence of desire, it were better, once for all, to give these young wenches the things they long for.”

St. Augustine makes mention of another, who, upon the hearing of any lamentable or doleful cries, would presently fall into a swoon, and be so far out of himself, that it was in vain to call, bawl in his ears, pinch or burn him, till he voluntarily came to himself; and then he would say, that he had heard voices as it were afar off, and did feel when they pinched and burned him; and, to prove that this was no obstinate dissimulation in defiance of his sense of feeling, it was manifest, that all the while he had neither pulse nor breathing.”

I am not satisfied whether those pleasant ligatures—(Les nouements d’aiguillettes, as they were called, knots tied by some one, at a wedding, on a strip of leather, cotton, or silk, and which, especially when passed through the wedding-ring, were supposed to have the magical effect of preventing a consummation of the marriage until they were untied. See Louandre, La Sorcellerie, 1853, p. 73. The same superstition and appliance existed in England. – NT)—with which this age of ours is so occupied, that there is almost no other talk, are not mere voluntary impressions of apprehension and fear; for I know, by experience, in the case of a particular friend of mine, one for whom I can be as responsible as for myself, and a man that cannot possibly fall under any manner of suspicion of insufficiency, and as little of being enchanted, who having heard a companion of his make a relation of an unusual frigidity that surprised him at a very unseasonable time; being afterwards himself engaged upon the same account, the horror of the former story on a sudden so strangely possessed his imagination, that he ran the same fortune the other had done; and from that time forward, the scurvy remembrance of his disaster running in his mind and tyrannising over him, he was subject to relapse into the same misfortune. He found some remedy, however, for this fancy in another fancy, by himself frankly confessing and declaring beforehand to the party with whom he was to have to do, this subjection of his, by which means, the agitation of his soul was, in some sort, appeased; and knowing that, now, some such misbehaviour was expected from him, the restraint upon his faculties grew less. And afterwards, at such times as he was in no such apprehension, when setting about the act (his thoughts being then disengaged and free, and his body in its true and natural estate) he was at leisure to cause the part to be handled and communicated to the knowledge of the other party, he was totally freed from that vexatious infirmity. After a man has once done a woman right, he is never after in danger of misbehaving himself with that person, unless upon the account of some excusable weakness. Neither is this disaster to be feared, but in adventures, where the soul is overextended with desire or respect, and, especially, where the opportunity is of an unforeseen and pressing nature; in those cases, there is no means for a man to defend himself from such a surprise, as shall put him altogether out of sorts. I have known some, who have secured themselves from this mischance, by coming half-sated elsewhere, purposely to abate the ardour of the fury, and others, who, being grown old, find themselves less impotent by being less able; and one, who found an advantage in being assured by a friend of his, that he had a counter-charm of enchantments that would secure him from this disgrace.” Quanto jogo de esconde para falar de impotência sexual, a.k.a. pinto mole! Será que o termo frígido era unissex, pois?

Amasis, King of Egypt, having married Laodice, a very beautiful Greek virgin, though noted for his abilities elsewhere, found himself quite another man with his wife, and could by no means enjoy her; at which he was so enraged, that he threatened to kill her, suspecting her to be a witch. As ‘tis usual in things that consist in fancy, she put him upon devotion, and having accordingly made his vows to Venus, he found himself divinely restored the very first night after his oblations and sacrifices. Now women are to blame to entertain us with that disdainful, coy, and angry countenance, which extinguishes our vigour, as it kindles our desire; which made the daughter-in-law of Pythagoras—(Theano, the lady in question was the wife, not the daughter-in-law of Pythagoras.)— say, <That the woman who goes to bed to a man, must put off her modesty with her petticoat, and put it on again with the same.>

Married people, having all their time before them, ought never to compel or so much as to offer at the feat, if they do not find themselves quite ready”

8=====D “The indocile liberty of this member is very remarkable, [HAHAHAHA] so importunately unruly in its tumidity and impatience, when we do not require it, and so unseasonably disobedient, when we stand most in need of it: so imperiously contesting in authority with the will, and with so much haughty obstinacy denying all solicitation, both of hand and mind. (…) For let any one consider, whether there is any one part of our bodies that does not often refuse to perform its office at the precept of the will, and that does not often exercise its function in defiance of her command.” “The same cause that animates this member, does also, without our knowledge, animate the lungs, pulse, and heart, the sight of a pleasing object imperceptibly diffusing a flame through all our parts, with a feverish motion. Is there nothing but these veins and muscles that swell and flag without the consent, not only of the will, but even of our knowledge also? We do not command our hairs to stand on end, nor our skin to shiver either with fear or desire; the hands often convey themselves to parts to which we do not direct them; the tongue will be interdict, and the voice congealed, when we know not how to help it. When we have nothing to eat, and would willingly forbid it, the appetite does not, for all that, forbear to stir up the parts that are subject to it, no more nor less than the other appetite we were speaking of, and in like manner, as unseasonably leaves us, when it thinks fit. The vessels that serve to discharge the belly have their own proper dilatations and compressions, without and beyond our concurrence, as well as those which are destined to purge the reins; and that which, to justify the prerogative of the will, St. Augustine urges, of having seen a man who could command his rear to discharge as often together as he pleased, Vives, his commentator, yet further fortifies with another example in his time,—of one that could break wind in tune; but these cases do not suppose anymore pure obedience in that part; for is anything commonly more tumultuary or indiscreet? To which let me add, that I myself knew one so rude and ungoverned, as for 40 years together made his master vent with one continued and unintermitted outbursting, and ‘tis like will do so till he die of it.”

A woman fancying she had swallowed a pin in a piece of bread, cried and lamented as though she had an intolerable pain in her throat, where she thought she felt it stick; but an ingenious fellow that was brought to her, seeing no outward tumour nor alteration, supposing it to be only a conceit taken at some crust of bread that had hurt her as it went down, caused her to vomit, and, unseen, threw a crooked pin into the basin, which the woman no sooner saw, but believing she had cast it up, she presently found herself eased of her pain.”

witness dogs, who die of grief for the loss of their masters; and bark and tremble and start in their sleep; so horses will kick and whinny in their sleep.”

When we look at people with sore eyes, our own eyes become sore.

Many things are hurtful to our bodies by transition.”

Ovid

Tortoises and ostriches hatch their eggs with only looking on them, which infers that their eyes have in them some ejaculative virtue. And the eyes of witches are said to be assailant and hurtful”

There was at my house, a little while ago, a cat seen watching a bird upon the top of a tree: these, for some time, mutually fixing their eyes one upon another, the bird at last let herself fall dead into the cat’s claws, either dazzled by the force of its own imagination, or drawn by some attractive power of the cat.”

For my part, I think it less hazardous to write of things past, than present, by how much the writer is only to give an account of things every one knows he must of necessity borrow upon trust.” Não foi o que vimos em vários relatos de médicos e de noivos logo acima!

there is nothing so contrary to my style as a continued narrative; I so often interrupt and cut myself short in my writing for want of breath; I have neither composition nor explanation worth anything, and am ignorant, beyond a child, of the phrases and even the very words proper to express the most common things; and for that reason it is, that I have undertaken to say only what I can say, and have accommodated my subject to my strength.” “Plutarch would say of what he has delivered to us, that it is the work of others: that his examples are all and everywhere exactly true: that they are useful to posterity, and are presented with a lustre that will light us the way to virtue, is his own work. It is not of so dangerous consequence, as in a medicinal drug, whether an old story be so or so.”

CHAPTER XXI——THAT THE PROFIT OF ONE MAN IS THE DAMAGE OF ANOTHER

Demades the Athenian—(Seneca, De Beneficiis, 6:38, whence nearly the whole of this chapter is taken.)—condemned one of his city, whose trade it was to sell the necessaries for funeral ceremonies, upon pretence that he demanded unreasonable profit, and that that profit could not accrue to him, but by the death of a great number of people. A judgment that appears to be ill grounded, forasmuch as no profit whatever can possibly be made but at the expense of another, and that by the same rule he should condemn all gain of what kind soever. The merchant only thrives by the debauchery of youth, the husband man by the dearness of grain, the architect by the ruin of buildings, lawyers and officers of justice by the suits and contentions of men: nay, even the honour and office of divines are derived from our death and vices. A physician takes no pleasure in the health even of his friends, says the ancient Greek comic writer, nor a soldier in the peace of his country, and so of the rest. And, which is yet worse, let every one but dive into his own bosom, and he will find his private wishes spring and his secret hopes grow up at another’s expense. Upon which consideration it comes into my head, that nature does not in this swerve from her general polity; for physicians hold, that the birth, nourishment, and increase of everything is the dissolution and corruption of another”

CHAPTER XXII——OF CUSTOM, AND THAT WE SHOULD NOT EASILY CHANGE A LAW RECEIVED

He seems to me to have had a right and true apprehension of the power of custom, who first invented the story of a country-woman who, having accustomed herself to play with and carry a young calf in her arms, and daily continuing to do so as it grew up, obtained this by custom, that, when grown to be a great ox, she was still able to bear it. For, in truth, custom is a violent and treacherous schoolmistress. She, by little and little, slily and unperceived, slips in the foot of her authority, but having by this gentle and humble beginning, with the benefit of time, fixed and established it, she then unmasks a furious and tyrannic countenance, against which we have no more the courage or the power so much as to lift up our eyes. We see her, at every turn, forcing and violating the rules of nature”

I refer to her Plato’s cave in his Republic, and the physicians, who so often submit the reasons of their art to her authority; as the story of that king, who by custom brought his stomach to that pass, as to live by poison, and the maid that Albertus reports to have lived upon spiders. In that new world of the Indies, there were found great nations, and in very differing climates, who were of the same diet, made provision of them, and fed them for their tables; as also, they did grasshoppers, mice, lizards, and bats; and in a time of scarcity of such delicacies, a toad was sold for 6 crowns, all which they cook, and dish up with several sauces. There were also others found, to whom our diet, and the flesh we eat, were venomous and mortal”

The power of custom is very great: huntsmen will lie out all night in the snow, or suffer themselves to be burned up by the sun on the mountains; boxers, hurt by the caestus [a luva romana, de ferro e couro], never utter a groan.”—Cicero

NOISE – ACQUIRED TASTE: “what philosophers believe of the music of the spheres, that the bodies of those circles being solid and smooth, and coming to touch and rub upon one another, cannot fail of creating a marvellous harmony, the changes and cadences of which cause the revolutions and dances of the stars; but that the hearing sense of all creatures here below, being universally, like that of the Egyptians, deafened, and stupefied with the continual noise, cannot, how great soever, perceive it(This passage is taken from Cicero, Dream of Scipio; see his De Republica, 6:2. The Egyptians were said to be stunned by the noise of the Cataracts.)— Smiths, millers, pewterers, forgemen, and armourers could never be able to live in the perpetual noise of their own trades, did it strike their ears with the same violence that it does ours.” Schopenhauer e Goethe discordam.

I myself lie at home in a tower, where every morning and evening a very great bell rings out the Ave Maria: the noise shakes my very tower, and at first seemed insupportable to me; but I am so used to it, that I hear it without any manner of offence, and often without awaking at it.”

Mothers are mightily pleased to see a child writhe off the neck of a chicken, or to please itself with hurting a dog or a cat; and such wise fathers there are in the world, who look upon it as a notable mark of a martial spirit, when they hear a son miscall, or see him domineer over a poor peasant, or a lackey, that dares not reply, nor turn again; and a great sign of wit, when they see him cheat and overreach his playfellow by some malicious treachery and deceit. Yet these are the true seeds and roots of cruelty, tyranny, and treason; they bud and put out there, and afterwards shoot up vigorously, and grow to prodigious bulk, cultivated by custom. And it is a very dangerous mistake to excuse these vile inclinations upon the tenderness of their age, and the triviality of the subject: first, it is nature that speaks, whose declaration is then more sincere, and inward thoughts more undisguised, as it is more weak and young; secondly, the deformity of cozenage does not consist nor depend upon the difference betwixt crowns and pins; but I rather hold it more just to conclude thus: why should he not cozen in crowns since he does it in pins, than as they do, who say they only play for pins, they would not do it if it were for money?”

I know very well, for what concerns myself, that from having been brought up in my childhood to a plain and straightforward way of dealing, and from having had an aversion to all manner of juggling and foul play in my childish sports and recreations (and, indeed, it is to be noted, that the plays of children are not performed in play, but are to be judged in them as their most serious actions), there is no game so small wherein from my own bosom naturally, and without study or endeavour, I have not an extreme aversion from deceit.”

I saw the other day, at my own house, a little fellow, a native of Nantes, born without arms, who has so well taught his feet to perform the services his hands should have done him, that truly these have half forgotten their natural office; and, indeed, the fellow calls them his hands; with them he cuts anything, charges and discharges a pistol, threads a needle, sews, writes, puts off his hat, combs his head, plays at cards and dice, and all this with as much dexterity as any other could do who had more, and more proper limbs to assist him. The money I gave him—for he gains his living by showing these feats—he took in his foot, as we do in our hand. I have seen another who, being yet a boy, flourished a 2-handed sword, and, if I may so say, handled a halberd with the mere motions of his neck and shoulders for want of hands; tossed them into the air, and caught them again, darted a dagger, and cracked a whip as well as any coachman in France.”

Is it not a shame for a natural philosopher, that is, for an observer and hunter of nature, to seek testimony of the truth from minds prepossessed by custom?”

A French gentleman was always wont to blow his nose with his fingers (a thing very much against our fashion), and he justifying himself for so doing, and he was a man famous for pleasant repartees, he asked me, what privilege this filthy excrement had, that we must carry about us a fine handkerchief to receive it, and, which was more, afterwards to lap it carefully up, and carry it all day about in our pockets, which, he said, could not but be much more nauseous and offensive, than to see it thrown away, as we did all other evacuations. I found that what he said was not altogether without reason, and by being frequently in his company, that slovenly action of his was at last grown familiar to me; which nevertheless we make a face at, when we hear it reported of another country.”

There are peoples, where, his wife and children excepted, no one speaks to the king but through a tube. In one and the same nation, the virgins discover those parts that modesty should persuade them to hide, and the married women carefully cover and conceal them. To which, this custom, in another place, has some relation, where chastity, but in marriage, is of no esteem, for unmarried women may prostitute themselves to as many as they please, and being got with child, may lawfully take physic, in the sight of every one, to destroy their fruit. And, in another place, if a tradesman marry, all of the same condition, who are invited to the wedding, lie with the bride before him; and the greater number of them there is, the greater is her honour, and the opinion of her ability and strength: if an officer marry, ‘tis the same, the same with a labourer, or one of mean condition; but then it belongs to the lord of the place to perform that office; and yet a severe loyalty during marriage is afterward strictly enjoined. There are places where brothels of young men are kept for the pleasure of women; where the wives go to war as well as the husbands, and not only share in the dangers of battle, but, moreover, in the honours of command. Others, where they wear rings not only through their noses, lips, cheeks, and on their toes, but also weighty gimmals of gold thrust through their paps and buttocks; where, in eating, they wipe their fingers upon their thighs, genitories, and the soles of their feet: where children are excluded, and brothers and nephews only inherit; and elsewhere, nephews only, saving in the succession of the prince: where, for the regulation of community in goods and estates, observed in the country, certain sovereign magistrates have committed to them the universal charge and overseeing of the agriculture, and distribution of the fruits, according to the necessity of everyone where they lament the death of children, and feast at the decease of old men: where they lie 10 or 12 in a bed, men and their wives together: where women, whose husbands come to violent ends, may marry again, and others not: where the condition of women is looked upon with such contempt, that they kill all the native females, and buy wives of their neighbours to supply their use; where husbands may repudiate their wives, without showing any cause, but wives cannot part from their husbands, for what cause soever; where husbands may sell their wives in case of sterility; where they boil the bodies of their dead, and afterward pound them to a pulp, which they mix with their wine, and drink it; where the most coveted sepulture is to be eaten by dogs, and elsewhere by birds; where they believe the souls of the blessed live in all manner of liberty, in delightful fields, furnished with all sorts of delicacies, and that it is these souls, repeating the words we utter, which we call Echo; where they fight in the water, and shoot their arrows with the most mortal aim, swimming; where, for a sign of subjection, they lift up their shoulders, and hang down their heads; where they put off their shoes when they enter the king’s palace; where the eunuchs, who take charge of the sacred women, have, moreover, their lips and noses cut off, that they may not be loved; where the priests put out their own eyes, to be better acquainted with their demons, and the better to receive their oracles; where every one makes to himself a deity of what he likes best; the hunter of a lion or a fox, the fisher of some fish; idols of every human action or passion; in which place, the sun, the moon, and the earth are the principal deities, and the form of taking an oath is, to touch the earth, looking up to heaven; where both flesh and fish is eaten raw; where the greatest oath they take is, to swear by the name of some dead person of reputation, laying their hand upon his tomb; where the new-year’s gift the king sends every year to the princes, his vassals, is fire, which being brought, all the old fire is put out, and the neighbouring people are bound to fetch of the new, every one for themselves, upon pain of high treason; where, when the king, to betake himself wholly to devotion, retires from his administration (which often falls out), his next successor is obliged to do the same, and the right of the kingdom devolves to the 3rd in succession: where they vary the form of government, according to the seeming necessity of affairs: depose the king when they think good, substituting certain elders to govern in his stead, and sometimes transferring it into the hands of the commonality: where men and women are both circumcised and also baptized: where the soldier, who in one or several engagements, has been so fortunate as to present 7 of the enemies’ heads to the king, is made noble: where they live in that rare and unsociable opinion of the mortality of the soul: where the women are delivered without pain or fear: where the women wear copper leggings upon both legs, and if a louse [piolho] bite them, are bound in magnanimity to bite them again, and dare not marry, till first they have made their king a tender of their virginity, if he please to accept it: where the ordinary way of salutation is by putting a finger down to the earth, and then pointing it up toward heaven: where men carry burdens upon their heads, and women on their shoulders; where the women make water standing, and the men squatting: where they send their blood in token of friendship, and offer incense to the men they would honour, like gods: where, not only to the 4th, but in any other remote degree, kindred are not permitted to marry: where the children are 4 years at nurse, and often 12; in which place, also, it is accounted mortal to give the child suck the 1st day after it is born: where the correction of the male children is peculiarly designed to the fathers, and to the mothers of the girls; the punishment being to hang them by the heels in the smoke: where they circumcise the women: (DV) where they eat all sorts of herbs, without other scruple than of the badness of the smell: where all things are open the finest houses, furnished in the richest manner, without doors, windows, trunks, or chests to lock, a thief being there punished double what they are in other places: where they crack lice with their teeth like monkeys, and abhor to see them killed with one’s nails: where in all their lives they neither cut their hair nor pare their nails; and, in another place, pare those of the right hand only, letting the left grow for ornament and bravery: where they suffer the hair on the right side to grow as long as it will, and shave the other; and in the neighbouring provinces, some let their hair grow long before, and some behind, shaving close the rest: where parents let out their children, and husbands their wives, to their guests to hire: where a man may get his own mother with child, and fathers make use of their own daughters or sons, without scandal: [fake news] where, at their solemn feasts, they interchangeably lend their children to one another, without any consideration of nearness of blood. In one place, men feed upon human flesh; in another, ‘tis reputed a pious office for a man to kill his father at a certain age; elsewhere, the fathers dispose of their children, whilst yet in their mothers’ wombs, some to be preserved and carefully brought up, and others to be abandoned or made away. Elsewhere the old husbands lend their wives to young men; and in another place they are in common without offence; in one place particularly, the women take it for a mark of honour to have as many gay fringed tassels at the bottom of their garment, as they have lain with several men. Moreover, has not custom made a republic of women separately by themselves? has it not put arms into their hands, and made them raise armies and fight battles? And does she not, by her own precept, instruct the most ignorant vulgar, and make them perfect in things which all the philosophy in the world could never beat into the heads of the wisest men? For we know entire nations, where death was not only despised, but entertained with the greatest triumph; where children of 7 years old suffered themselves to be whipped to death, without changing countenance; where riches were in such contempt, that the meanest citizen would not have deigned to stoop to take up a purse of crowns. And we know regions, very fruitful in all manner of provisions, where, notwithstanding, the most ordinary diet, and that they are most pleased with, is only bread, cresses, [agrião] and water. Did not custom, moreover, work that miracle in Chios that, in 700 years, it was never known that ever maid or wife committed any act to the prejudice of her honour?”

Darius asking certain Greeks what they would take to assume the custom of the Indians, of eating the dead bodies of their fathers (for that was their use, believing they could not give them a better nor more noble sepulture than to bury them in their own bodies), they made answer, that nothing in the world should hire them to do it; but having also tried to persuade the Indians to leave their custom, and, after the Greek manner, to burn the bodies of their fathers, they conceived a still greater horror at the motion. (Herodotus, 3:38)”

testemunhai Crísipo (Sextus Empiricus, Pyyrhon. Hypotyp., 1:14), quem, em tantos de seus escritos, espargiu sua soberana indiferença frente a conjunções incestuosas, não importa quão próximo fosse o grau de parentesco entre os partícipes.”

I shall ask him, what can be more strange than to see a people obliged to obey laws they never understood; bound in all their domestic affairs, as marriages, donations, wills, sales, and purchases, to rules they cannot possibly know, being neither written nor published in their own language, and of which they are of necessity to purchase both the interpretation and the use? Not according to the ingenious opinion of Isocrates,—(Discourse to Nicocles)—who counselled his king to make the traffics and negotiations of his subjects, free, frank, and of profit to them, and their quarrels and disputes burdensome, and laden with heavy impositions and penalties; but, by a prodigious opinion, to make sale of reason itself, and to give to laws a course of merchandise. I think myself obliged to fortune that, as our historians report, it was a Gascon gentleman, a countryman of mine, who first opposed Charlemagne, when he attempted to impose upon us Latin and imperial laws.”

there are double laws, those of honour and those of justice, in many things altogether opposite one to another; the nobles as rigorously condemning a lie taken, as the other do a lie revenged: by the law of arms, he shall be degraded from all nobility and honour who puts up with an affront; and by the civil law, he who vindicates his reputation by revenge incurs a capital punishment: he who applies himself to the law for reparation of an offence done to his honour, disgraces himself; and he who does not, is censured and punished by the law. Yet of these 2 so different things, both of them referring to one head, the one has the charge of peace, the other of war; those have the profit, these the honour; those the wisdom, these the virtue; those the word, these the action; those justice, these valour; those reason, these force; those the long robe, these the short;—divided betwixt them.”

for the most fantastic, in my opinion, that can be imagined, I will instance amongst others, our flat caps, that long tail of velvet that hangs down from our women’s heads, with its party-coloured trappings; and that vain and futile model of a member we cannot in modesty so much as name, which, nevertheless, we make show and parade of in public.” Curiosamente análogo ao trecho narrado por Dolgoruki em O Adolescente

The Ephoros who so rudely cut the 2 strings that Phrynis had added to music never stood to examine whether that addition made better harmony, or that by its means the instrument was more full and complete; it was enough for him to condemn the invention, that it was a novelty, and an alteration of the old fashion. Which also is the meaning of the old rusty sword carried before the magistracy of Marseilles.” Não entendeu o mundo grego.

O QUE AGUARDA JAIR BOLSONARO: “Alas! The wounds were made by my own weapons.

Ovid, Ep. Phyll. Demophoonti, vers. 48.

They who give the first shock to a state, are almost naturally the first overwhelmed in its ruin; the fruits of public commotion are seldom enjoyed by him who was the first motor; he beats and disturbs the water for another’s net.”

CHAPTER XXIII——VARIOUS EVENTS FROM THE SAME COUNSEL

What then, is it possible that I am to live in perpetual anxiety and alarm, and suffer my would-be assassin, meantime, to walk abroad at liberty? Shall he go unpunished, after having conspired against my life, a life that I have hitherto defended in so many civil wars, in so many battles by land and by sea? And after having settled the universal peace of the whole world, shall this man be pardoned, who has conspired not only to murder, but to sacrifice me?” Júlio (ou Augusto?) César

<Why livest thou, if it be for the good of so many that thou shouldst die? must there be no end of thy revenges and cruelties? Is thy life of so great value, that so many mischiefs must be done to preserve it?> His wife Livia, seeing him in this perplexity: <Will you take a woman’s counsel?> said she. <Do as the physicians do, who, when the ordinary recipes will do no good, make trial of the contrary. By severity you have hitherto prevailed nothing; Lepidus has followed Salvidienus; Murena, Lepidus; Caepio, Murena; Egnatius, Caepio. Begin now, and try how sweetness and clemency will succeed. Cinna is convict; forgive him, he will never henceforth have the heart to hurt thee, and it will be an act to thy glory.> Augustus was well pleased that he had met with an advocate of his own humour; wherefore, having thanked his wife, and, in the morning, countermanded his friends he had before summoned to council, he commanded Cinna all alone to be brought to him; who being accordingly come, and a chair by his appointment set him, having ordered all the rest out of the room, he spake to him after this manner: <In the first place, Cinna, I demand of thee patient audience; do not interrupt me in what I am about to say, and I will afterwards give thee time and leisure to answer. Thou knowest, Cinna, that having taken thee prisoner in the enemy’s camp, and thou an enemy, not only so become, but born so, I gave thee thy life, restored to thee all thy goods, and, finally, put thee in so good a posture, by my bounty, of living well and at thy ease, that the victorious envied the conquered. The sacerdotal office which thou madest suit to me for, I conferred upon thee, after having denied it to others, whose fathers have ever borne arms in my service. After so many obligations, thou hast undertaken to kill me.” At which Cinna crying out that he was very far from entertaining any so wicked a thought: <Thou dost not keep thy promise, Cinna, that thou wouldst not interrupt me. Yes, thou hast undertaken to murder me in such a place, on such a day, in such and such company, and in such a manner.> At which words, seeing Cinna astounded and silent, not upon the account of his promise so to be, but interdict with the weight of his conscience: <Why, to what end wouldst thou do it? Is it to be emperor? Believe me, the Republic is in very ill condition, if I am the only man betwixt thee and the empire. Thou art not able so much as to defend thy own house, and but t’other day was baffled in a suit, by the opposed interest of a mere manumitted slave. What, hast thou neither means nor power in any other thing, but only to undertake Caesar? I quit the throne, if there be no other than I to obstruct thy hopes. Canst thou believe that Paulus, that Fabius, that the Cossii and the Servilii, and so many noble Romans, not only so in title, but who by their virtue, honour and their nobility, would suffer or endure thee?> After this, and a great deal more that he said to him (for he was 2 long hours in speaking), <Now go, Cinna, go thy way: I give thee that life as traitor and parricide, which I before gave thee in the quality of an enemy. Let friendship from this time forward begin betwixt us, and let us show whether I have given, or thou hast received thy life with the better faith>; and so departed from him. Some time after, he preferred him to the consular dignity, complaining that he had not the confidence to demand it; had him everafter for his very great friend, and was, at last, made by him sole heir to all his estate. Now, from the time of this accident which befell Augustus in the 40th year of his age, he never had any conspiracy or attempt against him, and so reaped the due reward of this his so generous clemency. But—so vain and futile a thing is human prudence; throughout all our projects, counsels and precautions, Fortune will still be mistress of events. “

The poetic raptures, the flights of fancy, that ravish and transport the author out of himself, why should we not attribute them to his good fortune, since he himself confesses that they exceed his sufficiency and force, and acknowledges them to proceed from something else than himself, and that he has them no more in his power than the orators say they have those extraordinary motions and agitations that sometimes push them beyond their design? It is the same in painting, where touches shall sometimes slip from the hand of the painter, so surpassing both his conception and his art, as to beget his own admiration and astonishment. But Fortune does yet more evidently manifest the share she has in all things of this kind, by the graces and elegances we find in them, not only beyond the intention, but even without the knowledge of the workman: a competent reader often discovers in other men’s writings other perfections than the author himself either intended or perceived, a richer sense and more quaint expression.”

all that our wisdom can do alone is no great matter; the more piercing, quick, and apprehensive it is, the weaker it finds itself, and is by so much more apt to mistrust itself. I am of Sylla’s opinion (<Who freed his great deeds from envy by ever attributing them to his good fortune, and finally by surnaming himself Faustus, the Lucky.>—Plutarch, How far a Man may praise Himself, IX); and when I closely examine the most glorious exploits of war, I perceive, methinks, that those who carry them on make use of counsel and debate only for custom’s sake, and leave the best part of the enterprise to Fortune, and relying upon her aid, transgress, at every turn, the bounds of military conduct and the rules of war.”

You will read in history, of many who have been in such apprehension, that the most part have taken the course to meet and anticipate conspiracies against them by punishment and revenge; but I find very few who have reaped any advantage by this proceeding; witness so many Roman emperors. Whoever finds himself in this danger, ought not to expect much either from his vigilance or power; for how hard a thing is it for a man to secure himself from an enemy, who lies concealed under the countenance of the most assiduous friend we have, and to discover and know the wills and inward thoughts of those who are in our personal service.”

whosoever despises his own life, is always master of that of another man.” Sêneca

And moreover, this continual suspicion, that makes a prince jealous of all the world, must of necessity be a strange torment to him. Therefore it was, that Dion, being advertised that Callippus watched all opportunities to take away his life, had never the heart to inquire more particularly into it, saying, that he had rather die than live in that misery, that he must continually stand upon his guard, not only against his enemies, but his friends also”

Those who preach to princes so circumspect and vigilant a jealousy and distrust, under colour of security, preach to them ruin and dishonour: nothing noble can be performed without danger. Those who preach to princes so circumspect and vigilant a jealousy and distrust, under colour of security, preach to them ruin and dishonour: nothing noble can be performed without danger.”

Courage, the reputation and glory of which men seek with so greedy an appetite, presents itself, when need requires, as magnificently in cuerpo, as in full armour; in a closet, as in a camp; with arms pendant, as with arms raised.” E tudo aquilo foi como se não fôra nada… Quando olhei para trás, em retrospecto, já havia sido corajoso!

Confiança obriga à fidelidade. O que é uma verdade tanto para o senhor quanto para o súdito.

The most mistrustful of our kings—Louis XI—established his affairs principally by voluntarily committing his life and liberty into his enemies’ hands, by that action manifesting that he had absolute confidence in them, to the end they might repose as great an assurance in him.”

Só merece ser temido quem escolhe não temer.

to represent a pretended resolution with a pale and doubtful countenance and trembling limbs, for the service of an important reconciliation, will effect nothing to purpose.”

There is nothing so little to be expected or hoped for from this many-headed monster, in its fury, as humanity and good nature”

I look upon Julius Caesar’s way of winning men to him as the best and finest that can be put in practice. First, he tried by clemency to make himself beloved even by his very enemies, contenting himself, in detected conspiracies, only publicly to declare, that he was pre-acquainted with them; which being done, he took a noble resolution to await without solicitude or fear, whatever might be the event, wholly resigning himself to the protection of the gods and fortune: for, questionless, in this state he was at the time when he was killed.”

A stranger having publicly said, that he could teach Dionysius, the tyrant of Syracuse, an infallible way to find out and discover all the conspiracies his subjects could contrive against him, if he would give him a good sum of money for his pains, Dionysius hearing of it, caused the man to be brought to him, that he might learn an art so necessary to his preservation. The man made answer, that all the art he knew was that he should give him a talent, and afterwards boast that he had obtained a singular secret from him. Dionysius liked the invention, and accordingly caused 600 crowns to be counted out to him. It was not likely he should give so great a sum to a person unknown, but upon the account of some extraordinary discovery, and the belief of this served to keep his enemies in awe. Princes, however, do wisely to publish the informations they receive of all the practices against their lives, to possess men with an opinion they have so good intelligence that nothing can be plotted against them, but they have present notice of it.”

To invite a man’s enemies to come and cut his throat, seems a resolution a little extravagant and odd; and yet I think he did better to take that course, than to live in continual feverish fear of an accident for which there was no cure. But seeing all the remedies a man can apply to such a disease are full of unquietness and uncertainty, ‘tis better with a manly courage to prepare one’s self for the worst that can happen, and to extract some consolation from this, that we are not certain the thing we fear will ever come to pass.”

CHAPTER XXIV——OF PEDANTRY

as plants are suffocated and drowned with too much nourishment, and lamps with too much oil, so with too much study and matter is the active part of the understanding which, being embarrassed, and confounded with a great diversity of things, loses the force and power to disengage itself, and by the pressure of this weight, is bowed, subjected, and doubled up.”

the philosopher is so ignorant of what his neighbour does, that he scarce knows whether he is a man, or some other animal” Plato – Montaigne pensa que isso é uma crítica, mas é um elogio ao filósofo.

For what concerns the philosophers, as I have said, if they were in science, they were yet much greater in action. And, as it is said of the geometrician of Syracuse (Archimedes), who having been disturbed from his contemplation, to put some of his skill in practice for the defence of his country, that he suddenly set on foot dreadful and prodigious engines, that wrought effects beyond all human expectation; himself, notwithstanding, disdaining all his handiwork, and thinking in this he had played the mere mechanic, and violated the dignity of his art, of which these performances of his he accounted but trivial experiments and playthings so they, whenever they have been put upon the proof of action, have been seen to fly to so high a pitch, as made it very well appear, their souls were marvellously elevated, and enriched by the knowledge of things.”

In plain truth, the cares and expense our parents are at in our education point at nothing but to furnish our heads with knowledge; but not a word of judgment and virtue.”

so our pedants go picking knowledge here and there, out of books, and hold it at the tongue’s end, only to spit it out and distribute it abroad. (…) do I not the same thing throughout almost this whole composition? I go here and there, culling out of several books the sentences that best please me, not to keep them (for I have no memory to retain them in), but to transplant them into this; where, to say the truth, they are no more mine than in their first places. (…) We can say, Cicero says thus; these were the manners of Plato; these are the very words of Aristotle: but what do we say ourselves? What do we judge? A parrot would say as much as that.”

I know one, who, when I question him what he knows, he presently calls for a book to show me, and dares not venture to tell me so much, as that he has piles in his posteriors, till first he has consulted his dictionary, what piles and what posteriors are.”

We are in this very like him who, having need of fire, went to a neighbour’s house to fetch it, and finding a very good one there, sat down to warm himself without remembering to carry any with him home.” Plutarch, How a Man should Listen

What good does it do us to have the stomach full of meat, if it do not digest, if it be not incorporated with us, if it does not nourish and support us?” Cicero

Would I fortify myself against the fear of death, it must be at the expense of Seneca: would I extract consolation for myself or my friend, I borrow it from Cicero. I might have found it in myself, had I been trained to make use of my own reason.”

Diogenes the cynic laughed at the grammarians, who set themselves to inquire into the miseries of Ulysses, and were ignorant of their own; at musicians, who were so exact in tuning their instruments, and never tuned their manners; at orators, who made it a study to declare what is justice, but never took care to do it. If the mind be not better disposed, if the judgment be no better settled, I had much rather my scholar had spent his time at tennis, for, at least, his body would by that means be in better exercise and breath. Do but observe him when he comes back from school, after 15 or 16 years that he has been there; there is nothing so unfit for employment; all you shall find he has got is that his Latin and Greek have only made him a greater coxcomb [dândi] than when he went from home.”

These pedants of ours, as Plato says of the Sophists, their cousin-germans, are, of all men, they who most pretend to be useful to mankind, and who not only do not better and improve that which is committed to them, as a carpenter or a mason would do, but make them much worse, and make us pay them for making them worse, to boot.”

you see the husbandman and the cobbler go simply and fairly about their business, speaking only of what they know and understand; whereas these fellows, to make parade and to get opinion, mustering this ridiculous knowledge of theirs, that floats on the superficies of the brain, are perpetually perplexing, and entangling themselves in their own nonsense.”

They are wonderfully well acquainted with Galen, but not at all with the disease of the patient; they have already deafened you with a long ribble-row of laws, but understand nothing of the case in hand; they have the theory of all things, let who will put it in practice.”

O you, of patrician blood, to whom it is permitted to live without eyes in the back of your head, beware of grimaces at you from behind.”

Whosoever shall narrowly pry into and thoroughly sift this sort of people, wherewith the world is so pestered, will, as I have done, find, that for the most part, they neither understand others, nor themselves; and that their memories are full enough, but the judgment totally void and empty; some excepted, whose own nature has of itself formed them into better fashion. As I have observed, for example, in Adrian Turnebus, who having never made other profession than that of mere learning only, and in that, in my opinion, he was the greatest man that has been these thousand years, had nothing at all in him of the pedant, but the wearing of his gown, and a little exterior fashion, that could not be civilised to courtier ways, which in themselves are nothing. I hate our people, who can worse endure an ill-contrived robe than an ill-contrived mind, and take their measure by the leg a man makes, by his behaviour, and so much as the very fashion of his boots, what kind of man he is.”

For it is not for knowledge to enlighten a soul that is dark of itself, nor to make a blind man see. Her business is not to find a man’s eyes, but to guide, govern, and direct them, provided he have sound feet and straight legs to go upon. Knowledge is an excellent drug, but no drug has virtue enough to preserve itself from corruption and decay, if the vessel be tainted and impure wherein it is put to keep.”

Plato’s principal institution in his Republic is to fit his citizens with employments suitable to their nature. Nature can do all, and does all. Cripples are very unfit for exercises of the body, and lame souls for exercises of the mind. Degenerate and vulgar souls are unworthy of philosophy. If we see a shoemaker with his shoes out at the toes, we say, ‘tis no wonder; for, commonly, none go worse shod than they. In like manner, experience often presents us a physician worse physicked, a divine less reformed, and (constantly) a scholar of less sufficiency, than other people.”

Old Aristo of Chios had reason to say that philosophers did their auditors harm, forasmuch as most of the souls of those that heard them were not capable of deriving benefit from instruction, which, if not applied to good, would certainly be applied to ill”

They proceeded effeminate debauchees from the school of Aristippus, cynics from that of Zeno.”

Cicero, De Natura Deor., iii., 31.

It is a thing worthy of very great consideration, that in that excellent and, in truth, for its perfection, prodigious form of civil regimen set down by Lycurgus, though so solicitous of the education of children, as a thing of the greatest concern, and even in the very seat of the Muses, he should make so little mention of learning; as if that generous youth, disdaining all other subjection but that of virtue, ought to be supplied, instead of tutors to read to them arts and sciences, with such masters as should only instruct them in valour, prudence, and justice; an example that Plato has followed in his laws.”

A great boy in our school, having a little short cassock, by force took a longer from another that was not so tall as he, and gave him his own in exchange: whereupon I, being appointed judge of the controversy, gave judgment, that I thought it best each should keep the coat he had, for that they both of them were better fitted with that of one another than with their own: upon which my master told me I had done ill, in that I had only considered the fitness of the garments, whereas I ought to have considered the justice of the thing, which required that no one should have anything forcibly taken from him that is his own.” Ciro, o rei persa

it is nothing strange if, when Antipater demanded of the spartans 50 children for hostages, they made answer, quite contrary to what we should do, that they would rather give him twice as many full-grown men, so much did they value the loss of their country’s education.”

The most potent empire that at this day appears to be in the whole world is that of the Turks, a people equally inured to the estimation of arms and the contempt of letters. I find Rome was more valiant before she grew so learned. The most warlike nations at this time in being are the most rude and ignorant: the Scythians, the Parthians, Tamerlane, serve for sufficient proof of this. When the Goths overran Greece, the only thing that preserved all the libraries from the fire was that some one possessed them with an opinion that they were to leave this kind of furniture entire to the enemy, as being most proper to divert them from the exercise of arms, and to fix them to a lazy and sedentary life. When our King Charles VIII, almost without striking a blow, saw himself possessed of the kingdom of Naples and a considerable part of Tuscany, the nobles about him attributed this unexpected facility of conquest to this, that the princes and nobles of Italy more studied to render themselves ingenious and learned than vigorous and warlike.”

CHAPTER XXV——OF THE EDUCATION OF CHILDREN

I never seriously settled myself to the reading any book of solid learning but Plutarch and Seneca; and there, like the Danaides, I eternally fill, and it as constantly runs out; something of which drops upon this paper, but little or nothing stays with me.” Quem acompanha o blog há algum tempo sabe que Plutarco é um mentiroso patológico, mero criptomitólogo!

many words so dull, so insipid, so void of all wit or common sense, that indeed they were only French words!”

the greatest and most important difficulty of human science is the education of children.” “The symptoms of their inclinations in that tender age are so obscure, and the promises so uncertain and fallacious, that it is very hard to establish any solid judgment or conjecture upon them.” “we often take very great pains, and consume a good part of our time in training up children to things, for which, by their natural constitution, they are totally unfit.”

“‘Tis the custom of pedagogues to be eternally thundering in their pupil’s ears, as they were pouring into a funnel, whilst the business of the pupil is only to repeat what the others have said” “Socrates, and since him Arcesilaus, made first their scholars speak, and then they spoke to them”

Such as, according to our common way of teaching, undertake, with one and the same lesson, and the same measure of direction, to instruct several boys of differing and unequal capacities, are infinitely mistaken; and ‘tis no wonder, if in a whole multitude of scholars, there are not found above two or three who bring away any good account of their time and discipline. Let the master not only examine him about the grammatical construction of the bare words of his lesson, but about the sense and let him judge of the profit he has made, not by the testimony of his memory, but by that of his life.”

I was privately carried at Pisa to see a very honest man, but so great an Aristotelian, that his most usual thesis was: <That the touchstone and square of all solid imagination, and of all truth, was an absolute conformity to Aristotle’s doctrine; and that all besides was nothing but inanity and chimera; for that he had seen all, and said all.>“Who follows another, follows nothing, finds nothing, nay, is inquisitive after nothing.”

and no matter if he forget where he had his learning, provided he know how to apply it to his own use.”

Men that live upon pillage and borrowing expose their purchases and buildings to everyone’s view: but do not proclaim how they came by the money.”

I would that a boy should be sent abroad very young, and first, so as to kill two birds with one stone, into those neighbouring nations whose language is most differing from our own, and to which, if it be not formed betimes, the tongue will grow too stiff to bend.”

when wrestlers counterfeit the philosophers in patience, ‘tis rather strength of nerves than stoutness of heart.”

O trabalho enobrece ou termina de estragar.™

When the vines of my village are nipped with the frost, my parish priest presently concludes, that the indignation of God has gone out against all the human race, and that the cannibals have already got the pip. Who is it that, seeing the havoc of these civil wars of ours, does not cry out, that the machine of the world is near dissolution, and that the day of judgment is at hand; without considering, that many worse things have been seen, and that in the meantime, people are very merry in a thousand other parts of the earth for all this? For my part, considering the licence and impunity that always attend such commotions, I wonder they are so moderate, and that there is no more mischief done. To him who feels the hailstones patter about his ears, the whole hemisphere appears to be in storm and tempest; like the ridiculous Savoyard, who said very gravely, that if that simple king of France could have managed his fortune as he should have done, he might in time have come to have been steward of the household to the duke his master: the fellow could not, in his shallow imagination, conceive that there could be anything greater than a Duke of Savoy. And, in truth, we are all of us, insensibly, in this error, an error of a very great weight and very pernicious consequence. But whoever shall represent to his fancy, as in a picture, that great image of our mother nature, in her full majesty and lustre, whoever in her face shall read so general and so constant a variety, whoever shall observe himself in that figure, and not himself but a whole kingdom, no bigger than the least touch or prick of a pencil in comparison of the whole, that man alone is able to value things according to their true estimate and grandeur.”

So many humours, so many sects, so many judgments, opinions, laws, and customs, teach us to judge aright of our own, and inform our understanding to discover its imperfection and natural infirmity, which is no trivial speculation. So many mutations of states and kingdoms, and so many turns and revolutions of public fortune will make us wise enough to make no great wonder of our own. So many great names, so many famous victories and conquests drowned and swallowed in oblivion, render our hopes ridiculous of eternising our names by the taking of half-a-score of light horse, or a henroost, [galinheiro] which only derives its memory from its ruin.”

“‘Tis a great foolery to teach our children what influence Pisces have, or the sign of angry Leo, or Capricorn, washed by the Hesperian wave.”—Propertius

To what purpose should I trouble myself in searching out the secrets of the stars, having death or slavery continually before my eyes?” Anaximenes to Pythagoras

“‘Tis for such as are puzzled about inquiring whether the future tense of the verb ——— is spelt with a double A, or that hunt after the derivation of the comparatives ——- and ——-, and the superlatives —— and ———, to knit their brows whilst discoursing of their science: but as to philosophical discourses, they always divert and cheer up those that entertain them, and never deject them or make them sad.” Heracleon the Megarean

“‘Tis Baroco and Baralipton—(Two terms of the ancient scholastic logic.)—that render their disciples so dirty and ill-favoured, and not philosophy; they do not so much as know her but by hearsay. What! It is she that calms and appeases the storms and tempests of the soul, and who teaches famine and fevers to laugh and sing; and that, not by certain imaginary epicycles, but by natural and manifest reasons.”

If this pupil shall happen to be of so contrary a disposition, that he had rather hear a tale of a tub than the true narrative of some noble expedition or some wise and learned discourse; who at the beat of drum, that excites the youthful ardour of his companions, leaves that to follow another that calls to a morris [baile campesino] or the bears; who would not wish, and find it more delightful and more excellent, to return all dust and sweat victorious from a battle than from tennis or from a ball, with the prize of those exercises; I see no other remedy, but that he be bound prentice in some good town to learn to make minced pies, though he were the son of a duke; according to Plato’s precept, that children are to be placed out and disposed of, not according to the wealth, qualities, or condition of the father, but according to the faculties and the capacity of their own souls.”

They begin to teach us to live when we have almost done living.”

And how many have I seen in my time totally brutified by an immoderate thirst after knowledge? Carneades was so besotted with it, that he would not find time so much as to comb his head or to pare his nails.”

(*)Hobbes said that if he had been at college as long as other people he should have been as great a blockhead as they. And Bacon, before Hobbes’ time had discussed the futility of university teaching.” (nota do editor, séc. XIX.)

To our little monsieur, a closet, a garden, the table, his bed, solitude, and company, morning and evening, all hours shall be the same, and all places to him a study. Philosophy, who, as the formatrix of judgment and manners, shall be his principal lesson, has that privilege to have a hand in everything.”

As to the rest, this method of education ought to be carried on with a severe sweetness, quite contrary to the practice of our pedants, who, instead of tempting and alluring children to letters by apt and gentle ways, do in truth present nothing before them but rods and ferules, horror and cruelty.” “‘Tis a real house of correction of imprisoned youth. They are made debauched by being punished before they are so. Do but come in when they are about their lesson, and you shall hear nothing but the outcries of boys under execution, with the thundering noise of their pedagogues drunk with fury. A very pretty way this, to tempt these tender and timorous souls to love their book, with a furious countenance, and a rod in hand!”

“‘Tis marvellous to see how solicitous Plato is in his Laws concerning the gaiety and diversion of the youth of his city, and how much and often he enlarges upon the races, sports, songs, leaps, and dances: of which, he says, that antiquity has given the ordering and patronage particularly to the gods themselves, to Apollo, Minerva, and the Muses. He insists long upon, and is very particular in, giving innumerable precepts for exercises; but as to the lettered sciences, says very little, and only seems particularly to recommend poetry upon the account of music.” Misconception on poetry! E eu devo ter perdido essa parte tão ‘despojada’ d’As Leis! No máximo, a ênfase na ‘liberdade do exercício’ deve ser uma concessão à unilateralidade oposta (e também excessiva) d’A República

All singularity in our manners and conditions is to be avoided, as inconsistent with civil society.”

There is a vast difference betwixt forbearing to sin, and not knowing how to sin.”—Seneca

Uma coisa é verdade: deve-se comer pimenta entre os mexicanos, e não se deve ser um grande devasso no Tibete!

A Westfalia ham makes a man drink; drink quenches thirst: ergo a Westfalia ham quenches thirst. Why [what will our boy do?], let him laugh at it; it will be more discretion to do so, than to go about to answer it”

Most of those I converse with, speak the same language I here write; but whether they think the same thoughts I cannot say.”

Not that fine speaking is not a very good and commendable quality; but not so excellent and so necessary as some would make it; and I am scandalised that our whole life should be spent in nothing else. I would first understand my own language, and that of my neighbours, with whom most of my business and conversation lies.”

SOPA CONTRADITÓRIA DE IDÉIAS: “No doubt but Greek and Latin are very great ornaments, and of very great use, but we buy them too dear. (…) I was above 6 years of age before I understood either French or Perigordin, any more than Arabic; and without art, book, grammar, or precept, whipping, or the expense of a tear, I had, by that time, learned to speak as pure Latin as my master himself, for I had no means of mixing it up with any other. If, for example, they were to give me a theme after the college fashion, they gave it to others in French; but to me they were to give it in bad Latin, to turn it into that which was good.”

CHAPTER XXVI——THAT IT IS FOLLY TO MEASURE TRUTH AND ERROR BY OUR OWN CAPACITY

If we give the names of monster and miracle to everything our reason cannot comprehend, how many are continually presented before our eyes?”

CHAPTER XXVII——OF FRIENDSHIP

La Boétie escreveu sua Servidão voluntária antes dos 18 anos.

But he has left nothing behind him, save this treatise only (and that too by chance, for I believe he never saw it after it first went out of his hands), and some observations upon that edict of January (1562, which granted to the Huguenots the public exercise of their religion.) made famous by our civil wars, which also shall elsewhere, peradventure, find a place. These were all I could recover of his remains, I to whom with so affectionate a remembrance, upon his death-bed, he by his last will bequeathed his library and papers, the little book of his works only excepted, which I committed to the press. And this particular obligation I have to this treatise of his, that it was the occasion of my first coming acquainted with him; for it was showed to me long before I had the good fortune to know him; and the first knowledge of his name, proving the first cause and foundation of a friendship, which we afterwards improved and maintained, so long as God was pleased to continue us together, so perfect, inviolate, and entire, that certainly the like is hardly to be found in story, and amongst the men of this age, there is no sign nor trace of any such thing in use”

The father and the son may be of quite contrary humours, and so of brothers: he is my son, he is my brother; but he is passionate, ill-natured, or a fool.”

As the hunter pursues the hare, in cold and heat, to the mountain, to the shore, nor cares for it farther when he sees it taken, and only delights in chasing that which flees from him.”—Aristo of Cuios, x. 7.

O my friends, there is no friend” Aristotle

If two at the same time should call to you for succour, to which of them would you run? Should they require of you contrary offices, how could you serve them both? Should one commit a thing to your silence that it were of importance to the other to know, how would you disengage yourself? A unique and particular friendship dissolves all other obligations whatsoever: the secret I have sworn not to reveal to any other, I may without perjury communicate to him who is not another, but myself. ‘Tis miracle enough certainly, for a man to double himself, and those that talk of tripling, talk they know not of what.”

CHAPTER XXIX——OF MODERATION

Those who say there is never any excess in virtue, forasmuch as it is not virtue when it once becomes excess, only play upon words”

An immoderate zeal, even to that which is good, even though it does not offend, astonishes me, and puts me to study what name to give it.”

The archer that shoots over, misses as much as he that falls short, and ‘tis equally troublesome to my sight, to look up at a great light, and to look down into a dark abyss.”

Marriage is a solemn and religious tie, and therefore the pleasure we extract from it should be a sober and serious delight, and mixed with a certain kind of gravity; it should be a sort of discreet and conscientious pleasure.” “Aelius Verus, the emperor, answered his wife, who reproached him with his love to other women, that he did it upon a conscientious account, forasmuch as marriage was a name of honour and dignity, not of wanton and lascivious desire”

CHAPTER XXX——OF CANNIBALS

I am sorry that Lycurgus and Plato had no knowledge of them; for to my apprehension, what we now see in those nations does not only surpass all the pictures with which the poets have adorned the golden age, and all their inventions in feigning a happy state of man, but, moreover, the fancy and even the wish and desire of philosophy itself; so native and so pure a simplicity, as we by experience see to be in them, could never enter into their imagination, nor could they ever believe that human society could have been maintained with so little artifice and human patchwork. I should tell Plato that it is a nation wherein there is no manner of traffic, no knowledge of letters, no science of numbers, no name of magistrate or political superiority; no use of service, riches or poverty, no contracts, no successions, no dividends, no properties, no employments, but those of leisure, no respect of kindred, but common, no clothing, no agriculture, no metal, no use of corn or wine; the very words that signify lying, treachery, dissimulation, avarice, envy, detraction, pardon, never heard of.

(This is the famous passage which Shakespeare, through Florio’s version, 1603, or ed. 1613, p. 102, has employed in the Tempest, ii. 1.]” PLAGIÁRIO!

As to the rest, they live in a country very pleasant and temperate, so that, as my witnesses inform me, ‘tis rare to hear of a sick person, and they moreover assure me that they never saw any of the natives, either paralytic, bleareyed, toothless, or crooked with age. The situation of their country is along the sea-shore, enclosed on the other side towards the land, with great and high mountains, having about 100 leagues in breadth between. They have great store of fish and flesh, that have no resemblance to those of ours: which they eat without any other cookery, than plain boiling, roasting, and broiling. The first that rode a horse thither, though in several other voyages he had contracted an acquaintance and familiarity with them, put them into so terrible a fright, with his centaur appearance, that they killed him with their arrows before they could come to discover who he was. [HAHAHA] Their buildings are very long, and of capacity to hold 200 or 300 people, made of the barks of tall trees, reared with one end upon the ground, and leaning to and supporting one another at the top, like some of our barns, of which the covering hangs down to the very ground, and serves for the side walls. They have wood so hard, that they cut with it, and make their swords of it, and their grills of it to broil their meat. Their beds are of cotton, hung swinging from the roof, like our seamen’s hammocks, every man his own, for the wives lie apart from their husbands. They rise with the sun, and so soon as they are up, eat for all day, for they have no more meals but that; they do not then drink, as Suidas reports of some other people of the East that never drank at their meals; but drink very often all day after, and sometimes to a rousing pitch. Their drink is made of a certain root, and is of the colour of our claret, and they never drink it but lukewarm. It will not keep above 2 or 3 days; it has a somewhat sharp, brisk taste, is nothing heady, but very comfortable to the stomach; laxative to strangers, but a very pleasant beverage to such as are accustomed to it. They make use, instead of bread, of a certain white compound, like coriander seeds; I have tasted of it; the taste is sweet and a little flat. The whole day is spent in dancing. Their young men go a-hunting after wild beasts with bows and arrows; one part of their women are employed in preparing their drink the while, which is their chief employment. One of their old men, in the morning before they fall to eating, preaches to the whole family, walking from the one end of the house to the other, and several times repeating the same sentence, till he has finished the round, for their houses are at least 100 yards long. Valour towards their enemies and love towards their wives, are the two heads of his discourse, never failing in the close, to put them in mind, that ‘tis their wives who provide them their drink warm and well seasoned. The fashion of their beds, ropes, swords, and of the wooden bracelets they tie about their wrists, when they go to fight, and of the great canes, bored hollow at one end, by the sound of which they keep the cadence of their dances, are to be seen in several places, and amongst others, at my house. They shave all over, and much more neatly than we, without other razor than one of wood or stone. They believe in the immortality of the soul, and that those who have merited well of the gods are lodged in that part of heaven where the sun rises, and the accursed in the west.

They have I know not what kind of priests and prophets, who very rarely present themselves to the people, having their abode in the mountains. At their arrival, there is a great feast, and solemn assembly of many villages: each house, as I have described, makes a village, and they are about a French league distant from one another. This prophet declaims to them in public, exhorting them to virtue and their duty: but all their ethics are comprised in these 2 articles, resolution in war, and affection to their wives. He also prophesies to them events to come, and the issues they are to expect from their enterprises, and prompts them to or diverts them from war: but let him look to’t; for if he fail in his divination, and anything happens otherwise than he has foretold, he is cut into a thousand pieces, if he be caught, and condemned for a false prophet: [HAHAHA] for that reason, if any of them has been mistaken, he is no more heard of.”

They have continual war with the nations that live further within the mainland, beyond their mountains, to which they go naked, and without other arms than their bows and wooden swords, fashioned at one end like the head of our javelins. The obstinacy of their battles is wonderful, and they never end without great effusion of blood: for as to running away, they know not what it is. Every one for a trophy brings home the head of an enemy he has killed, which he fixes over the door of his house. After having a long time treated their prisoners very well, and given them all the regales they can think of, he to whom the prisoner belongs, invites a great assembly of his friends. They being come, he ties a rope to one of the arms of the prisoner, of which, at a distance, out of his reach, he holds the one end himself, and gives to the friend he loves best the other arm to hold after the same manner; which being done, they 2, in the presence of all the assembly, despatch him with their swords. After that, they roast him, eat him amongst them, and send some chops to their absent friends. They do not do this, as some think, for nourishment, as the Scythians anciently did, but as a representation of an extreme revenge; as will appear by this: that having observed the Portuguese, who were in league with their enemies, to inflict another sort of death upon any of them they took prisoners, which was to set them up to the girdle in the earth, to shoot at the remaining part till it was stuck full of arrows, and then to hang them, they thought those people of the other world (as being men who had sown the knowledge of a great many vices amongst their neighbours, and who were much greater masters in all sorts of mischief than they) did not exercise this sort of revenge without a meaning, and that it must needs be more painful than theirs, they began to leave their old way, and to follow this. [Querer imputar o costume da antropofagia aos portugueses é ir longe demais!] I am not sorry that we should here take notice of the barbarous horror of so cruel an action, but that, seeing so clearly into their faults, we should be so blind to our own. I conceive there is more barbarity in eating a man alive, than when he is dead; in tearing a body limb from limb by racks and torments, that is yet in perfect sense; in roasting it by degrees; in causing it to be bitten and worried by dogs and swine (as we have not only read, but lately seen, not amongst inveterate and mortal enemies, but among neighbours and fellow-citizens, and, which is worse, under colour of piety and religion), than to roast and eat him after he is dead.” Surpreendente apologia do canibalismo das Américas. Não esperava essa “mente aberta” do cristão e pudico Montaigne!

Chrysippus and Zeno, the 2 heads of the Stoic sect, were of opinion that there was no hurt in making use of our dead carcasses, in what way soever for our necessity, and in feeding upon them too; as our own ancestors, who being besieged by Caesar in the city Alexia, resolved to sustain the famine of the siege with the bodies of their old men, women, and other persons who were incapable of bearing arms.”

We may then call these people barbarous, in respect to the rules of reason: but not in respect to ourselves, who in all sorts of barbarity exceed them. Their wars are throughout noble and generous, and carry as much excuse and fair pretence, as that human malady is capable of; having with them no other foundation than the sole jealousy of valour. Their disputes are not for the conquest of new lands, for these they already possess are so fruitful by nature, as to supply them without labour or concern, with all things necessary, in such abundance that they have no need to enlarge their borders. And they are, moreover, happy in this, that they only covet so much as their natural necessities require: all beyond that is superfluous to them: men of the same age call one another generally brothers, those who are younger, children; and the old men are fathers to all. These leave to their heirs in common the full possession of goods, without any manner of division, or other title than what nature bestows upon her creatures, in bringing them into the world. If their neighbours pass over the mountains to assault them, and obtain a victory, all the victors gain by it is glory only, and the advantage of having proved themselves the better in valour and virtue: for they never meddle with the goods of the conquered, but presently return into their own country, where they have no want of anything necessary, nor of this greatest of all goods, to know happily how to enjoy their condition and to be content. And those in turn do the same; they demand of their prisoners no other ransom, than acknowledgment that they are overcome: but there is not one found in an age, who will not rather choose to die than make such a confession, or either by word or look recede from the entire grandeur of an invincible courage. There is not a man amongst them who had not rather be killed and eaten, than so much as to open his mouth to entreat he may not. They use them with all liberality and freedom, to the end their lives may be so much the dearer to them; but frequently entertain them with menaces of their approaching death, of the torments they are to suffer, of the preparations making in order to it, of the mangling their limbs, and of the feast that is to be made, where their carcass is to be the only dish. All which they do, to no other end, but only to extort some gentle or submissive word from them, or to frighten them so as to make them run away, to obtain this advantage that they were terrified, and that their constancy was shaken; and indeed, if rightly taken, it is in this point only that a true victory consists”

The Hungarians, a very warlike people, never pretend further than to reduce the enemy to their discretion; for having forced this confession from them, they let them go without injury or ransom, excepting, at the most, to make them engage their word never to bear arms against them again. We have sufficient advantages over our enemies that are borrowed and not truly our own; it is the quality of a porter, and no effect of virtue, to have stronger arms and legs; it is a dead and corporeal quality to set in array; ‘tis a turn of fortune to make our enemy stumble, or to dazzle him with the light of the sun; ‘tis a trick of science and art, and that may happen in a mean base fellow, to be a good fencer. The estimate and value of a man consist in the heart and in the will: there his true honour lies. Valour is stability, not of legs and arms, but of the courage and the soul; it does not lie in the goodness of our horse or our arms but in our own.”

The part that true conquering is to play lies in the encounter, not in the coming off; and the honour of valour consists in fighting, not in subduing.”

Those that paint these people dying after this manner, represent the prisoner spitting in the faces of his executioners and making wry mouths at them. And ‘tis most certain, that to the very last gasp, they never cease to brave and defy them both in word and gesture. In plain truth, these men are very savage in comparison of us; of necessity, they must either be absolutely so or else we are savages; for there is a vast difference betwixt their manners and ours.”

the same jealousy our wives have to hinder and divert us from the friendship and familiarity of other women, those employ to promote their husbands’ desires, and to procure them many spouses; for being above all things solicitous of their husbands’ honour, ‘tis their chiefest care to seek out, and to bring in the most companions they can, forasmuch as it is a testimony of the husband’s virtue. [Só na vontade da poligamia, né, pervertido!] Most of our ladies will cry out, that ‘tis monstrous; whereas in truth it is not so, but a truly matrimonial virtue, and of the highest form. In the Bible, Sarah, with Leah and Rachel, the 2 wives of Jacob, gave the most beautiful of their handmaids to their husbands” Mais um motivo para achar tal postura condenável.

To which it may be added, that their language is soft, of a pleasing accent, and something bordering upon the Greek termination.”

CHAPTER XXXI——THAT A MAN IS SOBERLY TO JUDGE OF THE DIVINE ORDINANCES

In a nation of the Indies, there is this commendable custom, that when anything befalls them amiss in any encounter or battle, they publicly ask pardon of the sun, who is their god, as having committed an unjust action, always imputing their good or evil fortune to the divine justice, and to that submitting their own judgment and reason.”

CHAPTER XXXIII——THAT FORTUNE IS OFTEN-TIMES OBSERVED TO ACT BY THE RULE OF REASON

(*) “The term Fortune, so often employed by Montaigne, and in passages where he might have used Providence, was censured by the doctors who examined his Essays when he was at Rome in 1581. See his Travels

The Duc de Valentinois,—(Caesar Borgia)—having resolved to poison Adrian, Cardinal of Corneto, with whom Pope Alexander VI his father and himself were to sup in the Vatican, he sent before a bottle of poisoned wine, and withal, strict order to the butler to keep it very safe. The Pope being come before his son, and calling for drink, the butler supposing this wine had not been so strictly recommended to his care but only upon the account of its excellency, presented it forthwith to the Pope, and the duke himself coming in presently after, and being confident they had not meddled with his bottle, took also his cup; so that the father died immediately upon the spot,(*) and the son, after having been long tormented with sickness, was reserved to another and a worse fortune.”

(*) “Other historians assign the Pope several days of misery prior to death.”

Constantine, son of Helen, founded the empire of Constantinople, and so many ages after, Constantine, the son of Helen, put an end to it.”

CHAPTER XXXV——OF THE CUSTOM OF WEARING CLOTHES

I was disputing with myself in this shivering season, whether the fashion of going naked in those nations lately discovered is imposed upon them by the hot temperature of the air, as we say of the Indians and Moors, or whether it be the original fashion of mankind. Men of understanding, forasmuch as all things under the sun, as the Holy Writ declares, are subject to the same laws, were wont in such considerations as these, where we are to distinguish the natural laws from those which have been imposed by man’s invention, to have recourse to the general polity of the world, where there can be nothing counterfeit. Now, all other creatures being sufficiently furnished with all things necessary for the support of their being it is not to be imagined that we only are brought into the world in a defective and indigent condition, and in such a state as cannot subsist without external aid.”

of those nations who have no manner of knowledge of clothing, some are situated under the same temperature that we are, and some in much colder climates. And besides, our most tender parts are always exposed to the air, as the eyes, mouth, nose, and ears; and our country labourers, like our ancestors in former times, go with their breasts and bellies open. Had we been born with a necessity upon us of wearing petticoats and breeches, there is no doubt but nature would have fortified those parts she intended should be exposed to the fury of the seasons with a thicker skin, as she has done the finger-ends and the soles of the feet. And why should this seem hard to believe? I observe much greater distance betwixt my habit and that of one of our country boors, than betwixt his and that of a man who has no other covering but his skin. How many men, especially in Turkey, go naked upon the account of devotion? Someone asked a beggar, whom he saw in his shirt in the depth of winter, as brisk and frolic as he who goes muffled up to the ears in furs, how he was able to endure to go so? ‘Why, sir,’ he answered, ‘you go with your face bare: I am all face.’

Herodotus tells us, that in the battles fought betwixt the Egyptians and the Persians, it was observed both by himself and by others, that of those who were left dead upon the field, the heads of the Egyptians were without comparison harder than those of the Persians, by reason that the last had gone with their heads always covered from their infancy, first with biggins, and then with turbans, and the others always shaved and bare. King Agesilaus continued to a decrepit age to wear always the same clothes in winter that he did in summer. Caesar, says Suetonius, marched always at the head of his army, for the most part on foot, with his head bare, whether it was rain or sunshine, and as much is said of Hannibal

and Plato very earnestly advises for the health of the whole body, to give the head and the feet no other clothing than what nature has bestowed. He whom the Poles have elected for their king,—Stephen Bathory—since ours came thence, who is, indeed, one of the greatest princes of this age, never wears any gloves, and in winter or whatever weather can come, never wears other cap abroad than that he wears at home. Whereas I cannot endure to go unbuttoned or untied; my neighbouring labourers would think themselves in chains, if they were so braced.”

Varro is of opinion, that when it was ordained we should be bare in the presence of the gods and before the magistrate, it was so ordered rather upon the score of health, and to inure us to the injuries of weather, than upon the account of reverence”

At the mouth of Lake Maeotis the frosts are so very sharp, that in the very same place where Mithridates’ lieutenant had fought the enemy dryfoot and given them a notable defeat, the summer following he obtained over them a naval victory. The Romans fought at a very great disadvantage, in the engagement they had with the Carthaginians near Piacenza, by reason that they went to the charge with their blood congealed and their limbs numbed with cold, whereas Hannibal had caused great fires to be dispersed quite through his camp to warm his soldiers, and oil to be distributed amongst them, to the end that anointing themselves, they might render their nerves more supple and active, and fortify the pores against the violence of the air and freezing wind, which raged in that season.” Gostaria de confirmar estes relatos futuramente. Bom, pelo menos não vêm de Plutarco, o que já é bom sinal!

But, so far as clothes go, the King of Mexico changed 4 times a day his apparel, and never put it on again, employing that he left off in his continual liberalities and rewards; and neither pot, dish, nor other utensil of his kitchen or table was ever served twice.”

CHAPTER XXXVI——OF CATO THE YOUNGER

These rare forms, that are culled out by the consent of the wisest men of all ages, for the world’s example, I should not stick to augment in honour, as far as my invention would permit, in all the circumstances of favourable interpretation; and we may well believe that the force of our invention is infinitely short of their merit.”

as Plutarch [ihhh…] complains that in his time some attributed the cause of the younger Cato’s death to his fear of Caesar, at which he seems very angry, and with good reason; and by this a man may guess how much more he would have been offended with those who have attributed it to ambition. Senseless people! He would rather have performed a noble, just, and generous action, and to have had ignominy for his reward, than for glory. That man was in truth a pattern that nature chose out to show to what height human virtue and constancy could arrive.”

we have far more poets than judges and interpreters of poetry”

But who is Cato (general romano//Merivale)? Pois é. Parece que até onde cheguei na História Romana do autor, só li sobre Cato the Old.

CHAPTER XXXVII——THAT WE LAUGH AND CRY FOR THE SAME THING

When Pompey’s head was presented to Caesar, the histories tell us that he turned away his face, as from a sad and unpleasing object.”

Who for seeing me onewhile cold and presently very fond towards my wife, believes the one or the other to be counterfeited, is an ass.”

“‘Tis said, that the light of the sun is not one continuous thing, but that he darts new rays so thick one upon another that we cannot perceive the intermission”

We have resolutely pursued the revenge of an injury received, and been sensible of a singular contentment for the victory; but we shall weep notwithstanding. ‘Tis not for the victory, though, that we shall weep: there is nothing altered in that but the soul looks upon things with another eye and represents them to itself with another kind of face; for everything has many faces and several aspects.”

When Timoleon laments the murder he had committed upon so mature and generous deliberation, he does not lament the liberty restored to his country, he does not lament the tyrant; but he laments his brother: one part of his duty is performed; let us give him leave to perform the other.”

CHAPTER XXXVIII——OF SOLITUDE

Let us tell ambition that it is she herself who gives us a taste of solitude; for what does she so much avoid as society? What does she so much seek as elbowroom?”

“‘Tis not that a wise man may not live everywhere content, and be alone in the very crowd of a palace; but if it be left to his own choice, the schoolman will tell you that he should fly the very sight of the crowd”

There is nothing so unsociable and sociable as man, the one by his vice, the other by his nature.”

there is little less trouble in governing a private family than a whole kingdom.”

One telling Socrates that such a one was nothing improved by his travels, he answered: I very well believe it, for he took himself along with him”

If a man do not first discharge both himself and his mind of the burden with which he finds himself oppressed, motion will but make it press the harder and sit the heavier, as the lading of a ship is of less encumbrance when fast and bestowed in a settled posture. You do a sick man more harm than good in removing him from place to place; you fix and establish the disease by motion, as stakes sink deeper and more firmly into the earth by being moved up and down in the place where they are designed to stand.”

Wives, children, and goods must be had, and especially health, by him that can get it; but we are not so to set our hearts upon them that our happiness must have its dependence upon them; we must reserve a backshop, wholly our own and entirely free, wherein to settle our true liberty, our principal solitude and retreat.” “as if without wife, children, goods, train, or attendance, to the end that when it shall so fall out that we must lose any or all of these, it may be no new thing to be without them.”

In our ordinary actions there is not one of a thousand that concerns ourselves. (…) our own affairs do not afford us anxiety enough; let us undertake those of our neighbours and friends, still more to break our brains and torment us” “We have lived enough for others; let us at least live out the small remnant of life for ourselves; let us now call in our thoughts and intentions to ourselves, and to our own ease and repose. ‘Tis no light thing to make a sure retreat; it will be enough for us to do without mixing other enterprises. Since God gives us leisure to order our removal, let us make ready, truss our baggage, take leave betimes of the company, and disentangle ourselves from those violent importunities that engage us elsewhere and separate us from ourselves.” Fala como um tonto que não entende a si mesmo. Não existe essa falsa oposição. Para quem eu escrevo senão para os outros?

CHAPTER XXXIX——A CONSIDERATION UPON CICERO

they both [Cicero and Pliny the younger], in the sight of all the world, solicit the historians of their time not to forget them in their memoirs; and fortune, as if in spite, has made the vanity of those requests live upon record down to this age of ours, while she has long since consigned the histories themselves to oblivion.”

as if a man should commend a king for being a good painter, a good architect, a good marksman, or a good runner at the ring: commendations that add no honour, unless mentioned altogether and in the train of those that are properly applicable to him, namely, justice and the science of governing and conducting his people both in peace and war.” Isso fica muito mal para “Cícero, o Orador”!

Demosthenes’ companions in the embassy to Philip, extolling that prince as handsome, eloquent, and a stout drinker, Demosthenes said that those were commendations more proper for a woman, an advocate, or a sponge, than for a king” Sobre essa embaixada, que buscava salvar Atenas quando ela – e a Grécia inteira – já estavam condenadas, ver o relato do principal oponente de Demóstenes, Ésquines.

Plutarch says, moreover, that to appear so excellent in these less necessary qualities is to produce witness against a man’s self, that he has spent his time and applied his study ill, which ought to have been employed in the acquisition of more necessary and more useful things. So that Philip, king of Macedon, having heard that great Alexander his son sung once at a feast to the wonder of the best musicians there: ‘Art thou not ashamed, said he to him, to sing so well?’ And to the same Philip a musician, with whom he was disputing about some things concerning his art: ‘Heaven forbid, sir, said he, that so great a misfortune should ever befall you as to understand these things better than I.’ A king should be able to answer as Iphicrates did the orator, who pressed upon him in his invective after this manner: ‘And what art thou that thou bravest it at this rate? art thou a man at arms, art thou an archer, art thou a pikeman?’‘I am none of all this; but I know how to command all these.’

And how many stories have I scattered up and down in this book that I only touch upon, which, should anyone more curiously search into, they would find matter enough to produce infinite essays.” Indeed. Not a good thing, though!

But returning to the speaking virtue: I find no great choice betwixt not knowing to speak anything but ill, and not knowing to speak anything but well.”

There is something like this in these 2 other philosophers, for they also promise eternity to the letters they write to their friends; but ‘tis after another manner, and by accommodating themselves, for a good end, to the vanity of another; for they write to them that if the concern of making themselves known to future ages, and the thirst of glory, do yet detain them in the management of public affairs, and make them fear the solitude and retirement to which they would persuade them, let them never trouble themselves more about it, forasmuch as they shall have credit enough with posterity to ensure them that were there nothing else but the letters thus written to them, those letters will render their names as known and famous as their own public actions could do.” Se isso é um elogio, eu não queria ser elogiado…

For to traffic with the wind, as some others have done, and to forge vain names to direct my letters to, in a serious subject, I could never do it but in a dream, being a sworn enemy to all manner of falsification. I should have been more diligent and more confident had I had a judicious and indulgent friend whom to address, than thus to expose myself to the various judgments of a whole people, and I am deceived if I had not succeeded better. I have naturally a humorous and familiar style; but it is a style of my own, not proper for public business, but, like the language I speak, too compact, irregular, abrupt, and singular; and as to letters of ceremony that have no other substance than a fine contexture of courteous words, I am wholly to seek. I have neither faculty nor relish for those tedious tenders of service and affection; I believe little in them from others, and I should not forgive myself should I say to others more than I myself believe.” Freud ganharia tendo-o lido, M.!

The Italians are great printers of letters; I do believe I have at least 100 several volumes of them; of all which those of Annibale Caro seem to me to be the best. If all the paper I have scribbled to the ladies at the time when my hand was really prompted by my passion were now in being, there might, peradventure, be found a page worthy to be communicated to our young inamoratos, that are besotted with that fury.”

CHAPTER XL——THAT THE RELISH FOR GOOD AND EVIL DEPENDS IN GREAT MEASURE UPON THE OPINION WE HAVE OF THEM

And amongst that mean-souled race of men, the buffoons, there have been some who would not leave their fooling at the very moment of death.”

What a world of people do we see in the wars betwixt the Turks and the Greeks rather embrace a cruel death than uncircumcise themselves to admit of baptism? An example of which no sort of religion is incapable.”

Should I here produce a long catalogue of those, of all sexes and conditions and sects, even in the most happy ages, who have either with great constancy looked death in the face, or voluntarily sought it, and sought it not only to avoid the evils of this life, but some purely to avoid the satiety of living, and others for the hope of a better condition elsewhere, I should never have done. Nay, the number is so infinite that in truth I should have a better bargain on’t to reckon up those who have feared it. This one therefore shall serve for all: Pyrrho the philosopher being one day in a boat in a very great tempest, showed to those he saw the most affrighted about him, and encouraged them, by the example of a hog that was there, nothing at all concerned at the storm. Shall we then dare to say that this advantage of reason, of which we so much boast, and upon the account of which we think ourselves masters and emperors over the rest of all creation, was given us for a torment? To what end serves the knowledge of things if it renders us more unmanly? if we thereby lose the tranquillity and repose we should enjoy without it? and if it put us into a worse condition than Pyrrho’s hog? Shall we employ the understanding that was conferred upon us for our greatest good to our own ruin; setting ourselves against the design of nature and the universal order of things, which intend that everyone should make use of the faculties, members, and means he has to his own best advantage?”

Posidonius being extremely tormented with a sharp and painful disease, Pompeius came to visit him, excusing himself that he had taken so unseasonable a time to come to hear him discourse of philosophy. ‘The gods forbid,’ said Posidonius to him, ‘that pain should ever have the power to hinder me from talking,’ and thereupon fell immediately upon a discourse of the contempt of pain: but, in the meantime, his own infirmity was playing his part, and plagued him to purpose; to which he cried out, ‘Thou mayest work thy will, pain, and torment me with all the power thou hast, but thou shalt never make me say that thou art an evil.’

Death has been, or will come: there is nothing of the present in it.”

Étienne de la Boétie, Satires

The delay of death is more painful than death itself.”

Ovid, Ep. Ariadne to Theseus, v. 42.

All ills that carry no other danger along with them but simply the evils themselves, we treat as things of no danger: the toothache or the gout, painful as they are, yet being not reputed mortal, who reckons them in the catalogue of diseases?”

Courage is greedy of danger.”

Seneca, De Providentia, c. 4

As an enemy is made more fierce by our flight, so pain grows proud to see us truckle under her. She will surrender upon much better terms to them who make head against her: a man must oppose and stoutly set himself against her. In retiring and giving ground, we invite and pull upon ourselves the ruin that threatens us.”

We are more sensible of one little touch of a surgeon’s lancet than of 20 wounds with a sword in the heat of fight. The pains of childbearing, said by the physicians and by God himself to be great, and which we pass through with so many ceremonies—there are whole nations that make nothing of them. I set aside the Lacedaemonian women, but what else do you find in the Swiss among our foot-soldiers, if not that, as they trot after their husbands, you see them today carry the child at their necks that they carried yesterday in their bellies?”

CHAPTER XLI——NOT TO COMMUNICATE A MAN’S HONOUR

we lend our goods and stake our lives for the necessity and service of our friends; but to communicate a man’s honour, and to robe another with a man’s own glory, is very rarely seen.”

. . .

BASES CONSTITUTIONNELLES DE LA RÉPUBLIQUE DU GENRE HUMAIN, 1793 – Anacharsis Cloots

BASES CONSTITUTIONNELLES DE LA RÉPUBLIQUE DU GENRE HUMAIN, 1793 – Anacharsis Cloots

« il a prévu que la déclaration des droits, passée d’Amérique en France, serait un jour la théologie sociale des hommes et la morale des familles humaines, vulgairement appelées nations. Il était Prussien et noble, et il s’est fait homme. [!] » J.P. Rabaut

AVANT-PROPOS

« La sans-culotterie me comprendra parfaitement; la culotterie ne voudra pas me comprendre. »

« or, il ne faut que 12 apòtres pour aller fort loin dans ce monde. J’ai le malheur de ne pas être de mon siècle »

« Emmanuel Sieyes, avec son tiers-état, n’aurait pas joué un plus sot rôle dans un lit-de-justice à Versailles, que moi avec mon genre humain parmi nos hommes d’état. Au moins à la cour de Versailles n’était-on pas inconséquent ; on ne s’y piquait pas de professer la vérité, d’établir la liberté et l’égalité sus les droits de l’homme ; on n’y reconnaissait que le droit français. Et moi qui fonde ma constitution sur la déclaration des droits universels, je rencontre des Français d’autrefois, des Huns et des Goths, des grands enfans dans le sein d’une assemblée qui invoque les droits de l’homme. Certes, si tous les Français étaient à Coblentz ou à la Guiane, la brave sans-culotterie de nos 86 ou 87 départements mettrait à bas tous les tyrans de l’Europe. La tyrannie n’a pas d’auxiliaire plus robuste que le mensonge ; et sans la sagesse du peuple, on ne se contenterait pas de me rire au nez comme à Copernic, mais on me persécuterait corporellement comme Galilée et Jean Jacques. »

« Le systême d’Anacharsis Cloots est la meilleure apologie de la révolution française, a dit un penseur Anglais : et des Français non émigrés me jettent la pierre ! Je nargue les mêmes puissances qui voulurent empêcher l’assemblée constituante de faire la déclaration des droits de l’homme. En effet, ces droits là ne s’accordent guère avec la politique des scélérats qui tiennent leur couronne de Dieu et de leur épée. »

« Le peuple adopte mon systême qui le délivre à jamais de la guerre étrangère et de la guerre civile, et même de la rebellion locale. Les troubles du dedans proviennent des troubles du dehors. Les fanatiques de la Vendée oseraient-ils lever la tête, si nous n’étions pas environnés de tyrans, si nous n’étions pas resserrés dans des frontières onéreuses et absurdes ? Les cabinet de Saint-James encourage les rebelles par ses intrigues et ses escadres ; mais si l’Angleterre était libre, nous verrions, au contraire, les gardes nationales de Londres et de Portsmouth accourir en deçà du canal et au-delà des Tropiques pour exterminer les ennemis de la raison universelle. »

« Toujours les gouvernés ont été plus philosophes que les gouvernans. »

« Studium reipublicae omnia superat. » Salústio

« Tous les peuples demanderont à se réunir départementalement à la France. Nous ne saurions répondre à cette demande fraternelle qu’après avoir posé des bases et développé des principes qui tiennent essentiellement à la conservation de la liberté que nous avons conquise avec tant de peine et de gloire. Le peuple Romain s’étudiait à perpétuer l’esclavage de l’univers ; le peuple Français va s’ocupper des moyens de perpétuer la liberté universelle. »

« La conquête est aisée, la conservation est difficile. Au lieu de 4 années révolutionnaires, nos convulsions politiques n’auraient pas duré 4 mois, si une bonne constitution se fût élevée sur les ruines de la bastille. »

« Nous ne sommes pas libres, si un seul obstacle moral arrête notre marche physique sur un seul point du globe. »

« J’ai dit, et le répète, que le genre humain est Dieu, les aristocrates sont des athées. »

« le Peuple-Dieu dont la France est le berceau et le point de ralliement. »

« Un roi que s’obstine à garder sa couronne, et un peuple qui s’obstine à s’isoler, sont des rebelles qu’il faut dompter, ou des errans qu’il faut ramener avec le flambeau des droits de l’homme, sous le giron de l’assemblée, de l’association universelle. Si, par exemple, Genève ne voulait pas se réunir à nous, nous prierions Genève de nous réunir à elle. Comment aurait-elle l’impiété de refuser una demande fondée sur des principes éternels, sur la raison invariable ? »

« Newton a réuni tous les philosophes par sa découverte physique ; je réunirai tous les hommes par ma découverte politique. »

« une seule NATION dont la paix ne sera jamais troublée par des voisins jaloux, ni par des factieux turbulens. »

« Les 14 ou 15 prétendus souverains de L’Amérique Septentrionale ont été forcés, par la nature, de remettre la souveraineté provisoire dans la grande communauté que représente le congrès, [ ? ] pendant que chaque section particulière conserve una dénomination sans objet, et une législature inutile. Ces sections, décorées du titre d’états, ne tarderont pas à être proportionnées sur une mesure commune, et administrées sur un plan uniforme. Les fédérés Français communiqueront aux fédéralistes Américains le vrai systême social, par la fusion des masses, par la confédération des individus. La liberté n’a qu’un formulaire. Ce sont les systêmes aristocratiques de la Hollande, de l’Italie, de la Suisse, de l’Angleterre qui se multiplient hideusement sous 50 masques désorganisateurs. L’Américain, en secouant le joug du Breton, était imbu de toutes les extravagances Européennes ; il a cru que la sage division administrative entrâinait l’absurde morcèlement de la souveraineté. Permis à chaque canton, à chaque individu de se gouverner à sa guise, pourvu que sa manière d’être ne nuise pas à celle d’un canton voisin ou éloigné ; le charbonnier est maître de faire chez luis tout ce qui ne nuit pas à autrui. Il en est de même d’une commune, d’un district, d’un département et de toutes le peuplades qui se croient souveraines. Le genre humain ne doit trouver aucune résistance nulle part : il agit comme bon lui semble, il ne souffre point de co-associé. Ce contrat primitif, cette condition éternelle est le seul cachet de la souveraineté. »

« Deux souverains sur notre planète impliquent contradiction. »

« qu’est-ce que l’impôt dans une république sans voisins ? »

« La différence des costumes, des cultures et des cultes ne troublera point l’harmonie sociale. »

« La récolte du riz est-elle nuisible dans certains climats ? les habitans du lieu seront les maîtres de prohiber les rizières insalubres. »

« voyez les productions sublimes d’un Raphaël, d’un David ; les disciples dociles de nature sont les premiers maîtres dans tous les arts. J’ai pâli sur les livres qui contiennent les différentes constitutions humaines »

« Le département de la Pensylvanie s’est imaginé que le petit département de Rhode-Island ne pouvait pas s’étendre géométriquement sans empiéter sur les domaines, sur la souveraineté de ses voisins, comme si le domaine des hommes libres pris en masse, n’était pas un être de raison ; comme s’il y avait une autre propriété que celle des individus, une autre communauté que celle de la liberté. »

« Une portion du genre humain se saurait s’isoler sans être rebelle, et le privilège dont elle se targue est un crime de lèse-démocratie. »

« La souveraineté d’une république de Raguse est aussi dérisoire que celle d’un roi Louis Capet. »

« Qui dit souverain dit despote »

« Je demanderai aux Français qui désirent un gouvernement fédératif, s’ils veulent déchirer leur patrie en 2 divisions, en 2 congrès ; ou s’ils ne veulent qu’une seule division fédérale, un seul congrès ? Dans le premier cas ils seront moins prudent que le sénat Romain qui rejeta unanimement cette proposition, après la prise de Veyes ; et la même motion renouvelée de nos jours en Amérique éprouva la même défaveur. »

« Voudrions-nous imiter leurs défauts après avoir imité leurs vertus ? »

« Deux horloges d’une construction différente sonneront également l’heure » Não na física pós-newtoniana!

« Doublerons-nous la dépense et les inquiétudes du gouvernement, en multipliant les capitales, les assemblées législatives, les conseils exécutifs, les armées, les forteresses et les flottes, les accises et les douanes ? »

« L’Amérique s’avance à grands pas vers la perfection sociale, elle se dégoûte de la superfétation d’un sénat et de la prépondérance d’un président-monarque : elle conçoit l’absurdité d’une souveraineté intermédiaire entre l’individu et la masse totale des individus. »

« Paris est à la France ce qu’un point mathématique est pour les géomètres : 80 et tant de rayons aboutissent à la commune nationale. »

« En effet, les rois n’ont jamais aimé Paris, mais les sans-culottes l’aimeront toujours. »

« On lit dans l’histoire d’Angleterre de Hume que le roi Henri VII observa que certaines gens ressemblaient dans leurs provinces à des vaisseaux en rade, et dans Londres à des vaisseaux en pleine mer, qu’on distingue à peine d’une chaloupe ou d’une barque de pêcheur. »

« Le site fortuné de Paris est abordable de toute part, et par la mer d’Allemagne et la Méditerranée, et la Manche et l’Océan Atlantique. »

« C’est par les nombreux épicycles d’une fausse astronomie que nous sommes entrés dans le sphère simple et vraie du Prussien Copernic. »

« la catholicité de nos principes doit frapper l’oreille de tous les hommes. Les dénominations de Français et d’Universel vont devenir synonymes »

« Je me suis demandé pourquoi les italiens de Gênes et de Venise s’armaient et se battaient pour la moindre altercation, pendant que les français de Marseille et de Bordeaux accomodent leurs différences par une simple procédure ? N’est-il pas évident que l’ignorance de la volonté universelle est la cause immédiate de toutes les guerre ? » Não é verdade que tal unidade universal seria o tão temido Budismo Europeu?

« Les Républiques grecques, les Républiques helvétiennes, les Républiques flamandes ont cru remédier aux lenteurs, aux incohérences, aux contradictions de leurs systêmes erronés, par des transactions pénibles qui, en augmentant l’influence du plus puissant ou du plus intrigant, font désirer aux plus faibles, aux plus débonnaires, la médiations d’un stadholder, d’un président, d’un avoyer ; on s’accoutume à la protection d’un homme au-dedans ou d’un homme au-dehors. Et voilà comment les Macédoniens et les Romains furent appelés dans la Grèce fédérative ; les rois de France et de Sardaigne, dans la Suisse fédérative ; les rois d’Angleterre et de Prusse, dans la Hollande fédérative. L’insolence du grand canton de Berne et celle de la grande maison d’Orange sont assises sur le morcèlement de la souveraineté. »

« Si les princes ont pris la place des principes, c’est en rappelant les principes que nous chasserons les princes. »

« Les commerce est la principale cause des dissentions humaines ; or, les Républiques sont plus commerçantes que les royaumes. N’avons pas de voisins si nous ne voulons pas avoir d’ennemis. Ennemi et voisin sont termes synonymes dans les langues anciennes. »

« Rome et Albe, Gênes et Pise, Bolognes et Modène, Florence et Sienne, Venise et Trieste, Marseille et Nice, Metz et Nancy, Amsterdan et Anvers se portaient une haine dont les historiens et les poëtes nous ont transmis les relations lamentables. »

OS ESTADOS UNIDOS SE ARMAM CONTRA OS MARCIANOS: “Sans les étrangers nous économiserions les ¾ de nos dépenses publiques, nous supprimerions la plupart des rouages de l’horloge politique. Le genre humain delivré imitera un jour la nature qui ne connaît point d’étrangers ; et la sagesse régnera sur les 2 hémisphères, dans la république des Individus-Unis. » Infelizmente palavras que podem ser apropriadas de modo fácil por uma Le Pen.

« Le rapport d’um décret précipité est um remède préférable au veto anglican. Cela perdrait un sénat aristocratique, cela sauve une assemblée nationale. »

« Quel inconvénient y aurait-il de composer le conseil exécutif de 7 ministres, en ajoutant le département des arts, des sciences, de l’agriculture, des manufactures et du commerce aux 6 départements existans ? »

« On n’évitera jamais l’inconvénient d’avoir un ministre qui déplaise à un côté de la salle »

« L’esprit de corps renaîtrait de ses cendres, et les orages de la rivalité troubleraient bientôt l’harmonie républicaine. »

« Les repas et les danses champêtres donneront une plus haute idée de l’allégresse, de la puissance nationale, que les banquets et les menuets d’un fastueux Versailles. »

« L’opinion publique fortement prononcée est le seul veto tolérable. »

« Sans les droits de l’homme tout gouvernement est aristocratique et provocateur des séditions, des insurrections, des commotions turbulents. »

« Les bureaux de la guerre, de la marine, de la diplomatie, des colonies et des finances deviendront inutiles, si nous sortons triomphans de la crise actuelle:  ce triomphe est indubitable. »

« Le ministère de l’intérieur et celui de la justice seront la seule occupation de la législature, du bureau officiel de correspondance »

« La république universelle remplacera l’église catholique »

« L’unité théologique a produit tous les maux ; l’unité politique produira tous les biens. »

« Il n’y aura plus ni dette, ni emprunt, ni remboursement. »

« la balance du commerce ne sera plus mesurée sur la balance politique. »

« La paix perpétuelle maintiendra un niveau perpétuel entre la consommation et les consommateurs, entre l’ouvrage et les ouvriers. »

« L’étranger ! expression barbare dont nous commençons à rougir et dont nous laisserons la jouissance à ces hordes féroces que la charrue des hommes civilisés fera disparaître sans efforts. »

« Les ambassades sèment à grands frais la zizanie [a cizânia] (…) Tout les peuples se touchent par un commerce frauduleux, par des transactions criminelles, par des hostilités sourdes ou sanglantes, par des actes de navigations à la Cromwell. »

« Les Alpes et les Pyrénées, le Rhin et l’Océan, dans les siècles ténébreux, n’ont pas été des barrières pour les Carthaginais et les Romains, pour les Grecs et les Scythes, pour les Goths et les Normands ; et l’on nous répétera un adage que nos possessions dans les 2 Indes réfutent aussi victorieusement que les armées d’Annibal et de César, de Charlemagne et de Charle-Quint. »

« le démembrement et le suicide répugnent à l’un et à l’autre. Les Marius et les Sylla, les Catilina et les César seront des êtres imaginaires parmi des hommes dont le nivellement s’oppose à l’existence d’un seul esclave sur la terre. »

« Appartenir à la France, c’est appartenir à soi-même » « L’assemblée nationale de France est un résumé de la mappemonde des Philantropes. »

« Mais pour effacer tous les prétextes et tous les mal-entendus, et pour ôter aux tyrans, à nos ennemis, une arme perfide, je demande la suppression du nom Français, à l’in( ? )tar de ceux de Bourguignon, de Normand, de Gascon. Tous les hommes voudront appartenir à la république universelle ; mais tout les peuples ne voudront pas être Français. La prévention de l’Angleterre, de l’Espagne, de l’Allemagne, ressemble à celle du Languedoc, de l’Artois, de la Bretagne, qui substituèrent leur dénomination particulière à celle de la France »

« et comme notre association est une véritable union fraternelle, le nom de Germain nous conviendrait parfaitement. La république des Germains, par l’heureuse influence d’un préjugé souvent homicide, ne tarderait pas à s’étendre sur tous les cercles germaniques. » Um homem muito à frente de seu tempo!

« Ceux qui ne sentiraient pas la philosophie de cette pensée, seraient aussi récusables au tribunal de la raison qu’un sophiste qui prétendrait que les articles de la déclaration des droits n’appartiennent pas à tous les hommes, à tous les climats. »

« Tâchons de nous élever à l’instinct des animaux, soumettons-nous aux lois invariables. Les droits naturels ne sont pas distincts des droits civils et politiques, car l’état social est aussi naturel à l’homme qu’à abeille et à la fourmi. »

« Les réformateurs Indiens, Chinois, Egyptiens, Hébreux et Chrétiens se sont étrangement abusés en prêchant les prétendus droits de Dieu. »

« J’ai prouvé dans différens écrits que Dieu n’existe point. » « Celui que admet un dieu raisonne mal, et un mauvais raisonnement en produit d’autres. Ne soyez pas l’esclave du ciel, si vous voulez être libre sur la terre. »

« Les croyans disent que le monde ne s’est pas fait lui-même, et certainement ils ont raison ; mais Dieu nun plus ne s’est pas fait lui-même, et vous n’en concluerez pas qu’il existe un être plus ancien que Dieu. Cette progression nous menerait à la torture des Indiens. »

« La question sur l’existence de Dieu (Théos) est mal posée ; cair il faut savoir préalablement si le monde (Cosmos) est un ouvrage. Demandez donc la question préalable, et vous passerez à l’ordre du jour dans le silence de vos adversaires stupéfaits. »

« Tout ce qui ls compose existe éternellement : ce que nous appellons vulgairement l’enfant de la nature est aussi vieux que sa mère. »

« Vous cherchez l’Éternel hors du monde, et je le trouve dans le monde. »

« Supposons maintenant que le monde disparût, et que la vision du père Mallebranche se réalisât, vous verriez tout en dieu, vous admireriez toutes les conceptions de l’entendement divin. L’ordre et les phénomènes qui vous auraient étonné dans le monde, seraient des jeux puériles auprès de l’ordre et des merveilles qui frapperaient votre imagination dans le sein de la divinité. N’est-il pas vrai que vous traiteriez d’impie, d’extravagant, celui que oserait douter de l’peternité de cet être merveilleux ? (…) Laissons au visionnaire Mallebranche son Théos indéfinissable, nous absorberons toutes nos pensées dans le spectacle de la nature éternelle. »

« La nature est une bonne mère qui se plaît à voir naître et renaître ses enfans sous des combinaisons différentes. Un profond sommeil ne laisse pas que d’avoir son mérite. »

« Je le répète : penser, c’est sentir, et il faudrait avoir aussi peu de sentiment qu’un théologien, pour se refuser à l’évidence de ma démonstration, qui dispensera de la lecture de mille et un traités sur la métaphysique. »

« Nous n’aurons jamais la guerre avec la Savoie, car elle ne s’est pas unie à la France par juxta-position ; mais ces 2 contrées ont formé une amalgame, une confédération d’individus qui ne laisse plus aucune trace de la ci-devant Savoie. »

 « Voice 3 articles, 3 résultats d’une méditation profonde que je soumets à la sagesse de mes collègues.

P R O J E T D E D É C R E T .

La convention nationale voulant mettre um terme aux erreurs, aux inconséquences, aux prétentions contradictoires des corporations et des individus qui se disent souverains, déclare solemnellement sous les auspices des Droits de l’Homme :

ARTICLE PREMIER .

Il n’y a pas d’autre souverain que le genre humain.

I I

Tout individu, toute commune qui reconnaîtra ce principe lumineux et immuable, sera reçu de droit dans notre association fraternelle, dans la république des Hommes, des Germains, des Universels.

I I I

À défaut de contiguité ou de communication maritime, on attendra la propagation de la vérité, pour admettre les communes, les enclaves lointaines.

Nota. S’il restait encore le moindre doute aux hommes de bonne volonté, je les prierais de lire mon livre de l’Orateur du Genre Humain, et mon livre de la République Universelle, et ma dernière brochure intitulée : E[n?]trennés de l’Orateur du Genre Humain aux Cosmopolites. »

EVOLUTION OF THE CULT – PARTE II – Immortal

DEPOIS DA CALMARIA, VEM A IMORTALIDADE…

ÚLTIMA PRETENSÃO (DISCLAIMER): Quero “continuar” este livro, já que o autor ignorou algumas bandas e fez um sobrevôo por várias delas quando saíam do movimento black metal ou simplesmente chegava-se mais perto da contemporaneidade, supostamente por falta de espaço (afinal, um bom livro investigativo tem mesmo de ser mais profundo e delimitado, é o preço que se paga). Já que é assim, que tal se eu mesmo, com minhas fontes, puder descrever os álbuns 1990-atualidade do Venom, do Mercyful Fate, as bandas principais que ficaram de fora dos 50 capítulos, etc.? Não é um projeto de fácil nem rápida execução, mas fica aqui registrado o intuito, para que, se não se realizar, a culpa não possa ser atribuída a um “esquecimento casual”! Obs.: A idéia não é necessariamente escrever resenhas dos discos, mas tampouco me satisfaria apenas uma cronologia muito “individualizada” de cada banda, formato que este autor elegeu. Há um meio-caminho entre essas duas coisas passível de explorarmos! Esse approach eu deixo para a PARTE III, em que pretendo ir contando duma tacada só as principais evoluções do gênero nos anos 90, falando mais de Venom e Mercyful Fate. Neste segundo capítulo, ou segundo volume do “livro que não comecei mas que irei complementar”, dedico-me, por meio de várias seções incluindo entrevistas, overviews do impacto da banda na cultura cult extrema e, claro, notas pessoais pormenorizadas de cada álbum, o que fez muita falta no Evolution of The Cult que muitos passaram a conhecer lendo os trechos que publiquei no Seclusão. Outra sugestão, ainda não confirmada, para a parte IV, seria um artigo especial sobre o Black Metal finlandês, um dos meus prediletos. O sueco também não está fora de cogitação para uma possível parte V… Podem aguardar meses ou anos, mas sejam otimistas: dificilmente desisto dos meus projetos!

O Immortal foi formado quando uma nova banda na praça, o Amputation, começou a recrutar membros do Old Funeral em decomposição (e realmente amputações e funerais costumam desencadear com certa rapidez a ocorrência biológica ou literal desse fenômeno, decomposição). Ambos eram grupos noruegueses de death metal. Em 1988, Demonaz forma o Amputation com 2 ex-membros do Old Funeral. Abbath, um terceiro ex-integrante do Old Funeral, se juntaria ao trio logo em seguida para completar o então ainda ativo e ambicioso Amputation.

1. OVERVIEW

Uma característica de relevo quando se fala em Immortal e a cena incipiente norueguesa é que os membros deste grupo nunca se envolveram nas atividades controversas de muitos dos partícipes da segunda onda do black metal, constituída principalmente pelos jovens que freqüentavam a Helvete, loja de discos de Euronymous.

Tampouco os temas do Immortal giraram de alguma forma em torno de satanismo ou de apologias pagãs, muito menos posicionamentos políticos de qualquer natureza. Seu foco lírico é nas forças da escuridão, no mal como uma essência capturável e num gélido mundo fantástico cheio de nomes próprios e neologismos.

A primeira mudança realmente impactante na formação (embora os primeiros álbuns sejam recheados delas) foi a saída do membro fundador Demonaz do posto de guitarrista, em 1997, devido a um quadro severo de tendinite nos dois pulsos ao mesmo tempo. Ele seguiu na banda contribuindo com letras e ocasionalmente como empresário e agenciador. Conforme veremos, em 2013, surpreendendo a muitos, Demonaz, após uma ou mais cirurgias braçais e muita dedicação na recuperação total, voltou a empunhar o instrumento e a tocar no seu velho estilo ágil.

O primeiro hiato da banda se deu em 2003: Abbath, Demonaz e Horgh, o trio que então constituía o Immortal, decidiu parar temporariamente por certas divergências artísticas. Abbath começou a tocar numa banda cover de Motörhead pela mesma época, a Bömbers, na companhia de Tore Bratseth (antigo companheiro de Old Funeral, e também ex-Desekrator) e Pez; também data desta época o projeto-solo de Abbath que adotava uma linha mais comercial, de composição de heavy metal, intitulado minimalisticamente I (Eu).

O Immortal voltou de seu 1º hiato em junho de 2006 com a mesma formação e lançou mais um álbum de estúdio em 2009; em março de 2015, porém, as diferenças entre os membros se mostraram inconciliáveis, quando o grupo novamente se dissolveu. Abbath fundou uma banda com seu próprio nome para seguir a carreira.

A banda foi inusitadamente reativada poucos meses depois, em agosto, apenas com Demonaz e Horgh. Dizem que Abbath não licenciou o nome, dando a brecha para que seus ex-companheiros seguissem trabalhando sob a mesma alcunha. Apollyon seria posteriormente convidado para reestabelecer o power trio que configurou o Immortal na maioria de seu tempo inativo. Em 2018 esta formação lançou um álbum, até a data deste texto o último do Immortal.

Atualmente (já há mais de um ano), Demonaz e Horgh travam uma batalha judicial entre si pela propriedade exclusiva ou dividida do nome da banda, sem contar que Abbath nunca desistiu do assunto. Curioso que Demonaz insista no tema, haja vista considerar-se mais “qualificado” para sustentar o nome Immortal, sendo membro fundador. Horgh, que pulou no barco consideravelmente depois, considera que, embora Demonaz deva ser justamente reconhecido como associado à marca, também trabalhou o suficiente no projeto para compartilhar deste direito.

2. AMPUTATION: OS PRIMÓRDIOS

Sob a alcunha Amputation existem duas demos. É impossível determinar a residência norueguesa da banda pela sonoridade, já que ela se diferencia inclusive do som do Old Funeral, considerado bem genérico. Tampouco podem-se distinguir influências puras ou inspiração muito clara das verves sueca ou floridiana que então grassavam no death metal. Trata-se mais de um híbrido enfurecido de deathrash – na 1ª demo – similar ao que se produziu por aqui, no Brasil, em anos pretéritos, pelo Sarcófago e principalmente durante a fase Schizophrenia do Sepultura, não só nas composições mas até na atmosfera e na qualidade análoga da produção (como se não bastasse, Abbath consegue lembrar bastante o gutural do Max Cavaleira neste material!).

Na 2ª demo os elementos de death se sobrepujaram, diminuindo-se a velocidade e aumentando a ambientação, o que sinaliza claramente uma transição entre o death, ou pelo menos o BM de 1ª onda (característico dos anos 80), e o BM em si (de 2ª onda), se cotejamos com a primeira demo do já assim cognominado Immortal (i.e., com a 3ª demo desde a montagem do grupo, caso ele continuasse se chamando Amputation).

O que mais chama a atenção na primeiríssima demo são os vocais de Abbath, com balbuceios semi-gritados, cheios de interjeições à guisa de Tom G. Warrior – ewww!!!, ahhhhh!!, etc. –, risadas maníacas e uma série de esguichos primitivos. O inglês é entrecortado, nem todas as sílabas são pronunciadas, e o sotaque de Abbath é visivelmente estrangeiro, o que só aumenta o charme da exibição. Seria mais ou menos como fundir os estilos vocais do cantor do Incubus da primeira gravação do Serpent Temptation¹ e do Angel da brasileiríssima Vulcano.

¹ Lembrando que esta banda de deathrash gringa regravou este álbum com outro vocalista logo depois. Então, se você ouviu o disco, não necessariamente ouviu na voz em comento!

Na primeira demo o Amputation não economiza em velocidade e intensidade, com raros interlúdios mid-tempo com palm-mute na guitarra. Os solos estão bem-espalhados pelas composições e tornam o som ainda mais abrasivo. A bateria parece um cavalo de batalha. O blast beating é mandatório já nesta fase do death, ainda que estejamos falando de uma banda com um pé no thrash, sem se fechar num só subgênero. Portanto, podemos dizer que é um dos materiais mais extremos do death metal norueguês ainda em desenvolvimento naquele 1989.

Slaughtered in the Arms of God, o título da segunda demonstração, é o Amputation em contínua mutação. Quem fizesse o download em duas ocasiões separadas poderia nem notar qualquer vínculo entre ambas as demos e julgar que a homonímia na autoria fosse só uma coincidência! A qualidade do material nos faz perguntar como raios o Old Funeral é hoje bem mais conhecido que o próprio Amputation… Talvez a razão não tenha qualquer fundamentação estética ou musical: lembremos que o OF contou com a breve presença de Varg Vikernes no baixo (já depois da saída de Abbath).

Se a primeira demo era um incontestável deathrash, a 2ª puxa mais para um dark death, resvalando inclusive no gótico, bem soturno e maligno. Embora o thrash não tenha sido completamente olvidado por contarmos com linhas de guitarra derivadas de Possessed e Autopsy, deu-se mais um passo para fugir do template amarradão do “metal mainstream”, se assim podemos dizer, numa cena que estava mudando tão rápido que de vanguarda em poucos anos o thrash estava se tornando a cada novo dia mais sinônimo de clichê. Os blast beats continuam, mas o ritmo não é tão frenético quanto o da primeira demo. O vocal segue na mesma linha, senão mais grave e cavernoso – é quase admirável que se trate do mesmo dono dos guinchos roucos e ásperos dos dois primeiros álbuns do Immortal (não que Abbath não tenha continuado por muitos e muitos discos como vocal, mas mudou, reconhecidamente, o estilo ainda mais, posteriormente, para algo um pouco mais parecido com um vocal death, o que ainda não é deixar seu terceiro estilo de canto condizente com o primeiro!). Não é exagero dizer que nesses registros Abbath pode ter mandado vocais mais baixos e graves que os do próprio Chris Barnes no começo do Cannibal Corpse – para que o leitor entenda o nível quase inumano de gutural aqui alcançado! Nessa “reformatada a meias” que a banda deu no seu estilo de uma demo para a outra, podemos dizer que desincorporou-se um pouco do Deathcrush (Mayhem) que estava injetado no grupo e injetou-se, em troca, mais de Morbid Angel.

Nesse som mais devagar, intenso e controlado, a banda quis transmitir, quiçá, uma maior coordenação sobre seus movimentos, maior domínio conceitual sobre cada instrumento, alterando a feição do som num lapso de poucos meses – com o fito de duas, uma: ou queriam divulgar inteligentemente e com esforços mínimos (6 canções) duas faces de seu versátil talento a fim de atrair o maior número possível de gravadoras; ou a evolução foi autêntica e sincera das unhas à raiz dos cabelos e os músicos treinaram e compuseram muito nessa época, buscando realmente deixar a sonoridade da 1ª demo completamente enterrada. A segunda demo é mais limitada que a irmã mais velha no quesito dimensão, pois apresenta somente 2 faixas. O mais engraçado é que a próxima demo, já como Immortal, será mais diferente da segunda do que a segunda era em relação à primeira: adentraremos no completo raw black metal sem meios-termos!

3. DESAMPUTADO E IMORTAL, MAS RESSAQUEADO?

Hervé Herbaut, dono da Osmose Productions, foi o primeiro representante de gravadora fisgado pelo som do Amputation e se lembra muito bem da transição do som da banda, que observou detidamente. Seria uma história de sucesso com 2 lados felizes: Immortal e Osmose estariam juntos por 6 full-lengths. “O que me atraiu em direção a eles foi esse deslocamento do death metal ao black metal em tão pouco tempo. Falava muito ao telefone com o Demonaz, que sempre nos prometia algo diferente do que ouvimos nas demos do Amputation, e isso foi cumprido quando saiu o primeiro disco do Immortal. Mudando de assunto, a primeira vez que eles vieram fazer entrevistas por telefone à imprensa especializada, no nosso antigo escritório, lembro que o Abbath não parava de vomitar de tão bêbado.”

4. A ERA TRVEANTI-TRVE: STORYLINE DA BANDA

A primeira demo do Immortal veio um ano depois da banda abraçar por completo o death metal sob a alcunha Amputation. Incrivelmente, o som estava mais primitivo do que nunca. Mais primitivo e, aliás, menos brutal – como mandava a estética do novo movimento. Não literalmente falando: a estética estava sendo criada, não era imposta, não existam ainda cânones, e o Immortal fez parte dessa forja que se tornaria legendária. O timbre da guitarra e o ritmo inclemente passam uma atmosfera de aspereza gelada, de som frio e setentrional. Esse sentimento inefável ao ouvir a técnica musical do grupo seria depois elevado a trademark do novo gênero, o True Black Metal (o True, em letra maiúscula, servindo para identificar o trio como norueguês, berço territorial da estética que seria exportada mundialmente).

Adeus definitivo aos vocais guturais e estupidamente abissais de Abbath: seu novo estilo era um silvo, ainda gutural, é lógico, agudo, que não vinha mais das entranhas mas da própria garganta, como se o ar não tivesse mais tempo de se elevar dos pulmões e tivesse de ser expelido imediatamente na cara do ouvinte, deparado com o sistema fonador de um ente alienígena alvinegro (referência a sua icônica maquiagem minimalista e monocromática inspirada no K.I.S.S., da qual ainda falaremos bastante). A produção não pode ser considerada perfeita para o mainstream listener, mas é exatamente o som que muitas bandas do reduto black procurariam ano após ano: muito reverb (eco), as notas das cordas e o bumbo tribal da bateria saindo abafados, como duma caverna mefítica. Das duas exíguas faixas dessa demo reinstauradora, Cold Winds Of Funeral Frost (rebatizada …Funeral Dust para o “álbum cheio” na seqüência) seria o destaque máximo.

O que pouca gente comenta é que o Immortal é cronologicamente a primeira banda de black metal norueguesa da second wave. Que me desculpem o maior relevo na cena do Mayhem e o óbvio primor de execuções primordiais (com as desculpas pelo trocadilho cacofônico) do próprio Mayhem (no template BM em si, no De Mysteriis, 1994) e de outros virtuoses como Emperor e Burzum – mas este patinho feio Diabolical Fullmoon Mysticism é quem merece os louros do pioneirismo mais bruto, tosco, cru daquele distante 1992. O som de catacumba das inúmeras demos do BM de garagem do Ildjarn já está todo aqui, em germe; parece que os membros da banda estão tocando a 20 metros do ouvinte, e cada um a pelo menos 5 ou 7m um do outro! A aura é inacreditável.

Dizem que a melhor aclimatação com este álbum (ou este tipo de álbum) só pode ser obtida ouvindo-se-o no meio de uma nevasca noturna. Infelizmente, nós habitantes de terras tropicais jamais saberemos o que é isso. Podemos, todavia, elogiar a sensação de sermos transportados para longe enquanto ouvimos suas faixas em pleno verão ou estação das secas em Brasília, como é o meu caso, e até à luz do sol de meio-dia.

Não que musicalmente seja algo tão inédito. Blood, Fire, Death e The Sign of the Black Mark, para citar só 2 obras do Bathory, têm certamente sua cota de influência nas composições de Fullmoon. Ainda assim, se é que há grande quantidade de imitadores por aí, é raro até os dias de hoje ouvir uma obra de BM que replique exatamente essa atmosfera.

Blashyrkh, uma espécie de nirvana macabro e horrendo, refúgio dos horrores da raça humana, onde se encontra a serenidade em face da imponência da natureza, com suas montanhas de gelo eterno e desertos de neve, espécie de dimensão não-euclidiana “acessada” pelos membros do Immortal e descrita esparsamente nas letras de quase todos os seus álbuns, surge modestamente em Fullmoon, num par de versos perto do final do disco. É na penúltima faixa, Blacker Then Darkness, talvez o ataque mais intenso (a segunda canção mais rápida, e certamente aquela com mais wall of sound e atmosfera mais ominosa) desferido no disco. Depois o conceito seria revelado mais integralmente aos fãs em canções como A Sign for the Norse Hordes to Ride (Pure Holocaust) e o tema-título de At The Heart of Winter, e ganharia seu próprio hino, Blashyrkh (Mighty Ravendark), epílogo do 3º disco, Battles in the North.

A explicação lógica para essa criação do imaginário vem de Demonaz: “Quando começamos nisso, nos sentíamos realmente sozinhos; era uma comunidade muito reduzida de pessoas no extreme black metal aqui em Bergen. Talvez 4 ou 5 pessoas, contando comigo e o Abbath. Nos sentíamos em antagonismo para com todos os outros. Já que quando nos reuníamos entrávamos no nosso próprio mundo, formamos o reino de Blashyrkh. Ele evoluiu ao longo dos anos, e de cada novo álbum, mas essencialmente ainda é o mesmo, se baseia no mesmo espírito. É um lugar que só nós temos a chave para abrir. Não é uma mitologia, uma criação literária, por exemplo. É uma forma de sentir o poder. Uma mística, uma experiência. São nossos lados negros, propriamente falando, que atravessam. O Immortal compõe dentro do Blashhyrkh. É nossa maneira sui generis de descrever nossos entornos e imediações.”

Até as efêmeras partes com guitarra acústica compõem maravilhosamente bem os interstícios de Fullmoon. Ao contrário de outros raw black metal, este disco possui até solos. Nada perto de Van Halen ou do thrash; mas nada tão repudiável como um risco de giz no quadro negro feito de sacanagem pelo professor que requer a atenção da turma, nem nada tão baixo ou encorpado como um solo de Pantera, que faria um fã de Immortal torcer o nariz. São mais melódicos e longos do que uma banda primitiva costuma acoplar a suas composições; entretanto, pode-se dizer que não são estranhos ao contexto.

Pesando todos os fatores, talvez seja este o canal mais acessível do forasteiro ao movimento True Norwegian Black Metal, pois há mais elementos do protoblack metal (anos 80) que nas demais bandas da cena (Gorgoroth, Enslaved, Darkthrone), o que não significa falta de inovação, já que teclados não eram solução comum em 92 para esse gênero tão iconoclasta, e o Outro (desfecho) do disco utiliza-o magistralmente para dar aquele toque de minimalismo e melancolia, não muito distante do timbre de guitarra mais depressivo e esquizofrênico de um Burzum, em termos de efeito ocasionado no ouvinte.

Aquele que se aventurar, eu diria, pelos 3 primeiros alguns do Immortal, deverá ser avisado: a ênfase está menos na memória individual das composições e mais no efeito hipnótico que a reprodução de todas as faixas em conjunto produz no ouvinte. Ia dizer no efeito hipnótico que desperta – mas seria uma contradição em termos. Ao ouvido destreinado ou intolerante, soará repetitivo, sem dúvida. Ninguém será visto assoviando riffs de Fullmoon Mysticism ou Pure Holocaust no meio da rua ou na fila do caixa…

Vale lembrar que Armagedda, baterista seminal da banda, gravou o Fullmoon mas já não estava no Pure Holocaust, de 93, cuja bateria foi gravada pelo próprio hiperativo Abbath, guitarras/vocais/batera da banda nestes tempos. Abbath não largaria a percussão até o 4º disco. Para apresentações ao vivo no período, foi recrutado Erick “Grim” Brødreskift, que se suicidaria em 1999 (ele também passou por outros grandes do gênero como o Gorgoroth). Em tributo, o Nargaroth compor-lhe-ia Erick, May Thou Rape The Angels (Erick, Que tu estupres os anjos). Singelo!

O Pure Holocaust foi marcante pra mim”, diz Peter Tägtgren, frontman do Hypocrisy e produtor dos 4 álbuns do Immortal entre At The Heart of Winter e All Shall Fall (1999-2009), além de empunhador do baixo em algumas exibições ao vivo da banda no século XXI. “Sempre estive na cola da Osmose para tentar trazer os caras para minha gravadora. Por uma ou outra razão, nunca ‘captaram minha mensagem’, isso até que se passasse meia década.” Essa entrevista foi concedida em 2009. Do Pure Holocaust aos 5 anos citados, migramos, assim, de 93 a 98, ano em que Tägtgren finalmente firmou contrato com o Immortal.

Com sua capa branca cor da neve – faceta sem precedentes no black metal – Battles in The North (1995) cimentou a lenda Immortal – imortalizou os membros no hall da fama? Mais ou menos. Não é que o Immortal não tenha produzido e não produza sempre barulho, clamor e algazarra em discussões exaltadas sobre o BM. O que não está nunca garantido de antemão é se se trata de louvor do mais enaltecedor ou de puro repúdio e ojeriza. Numa palavra, o Immortal ingressou no hall da (in)fâm(i)a do black metal, por colidir com vários cânones do gênero (que eles ajudaram a fundar, veja a ironia). Sinceramente, a “capa branca de neve” foi só um pretexto para os fundamentalistas empilharem outras razões de “por que não vamos com a cara do Immortal”. Começaram a pipocar questões como: “Por que Euronymous (do Mayhem) ajudou esses caras? Eles não são satanistas de verdade, nem pagãos, nem fascistas, nem queimam igrejas! Não são homofóbicos, não ameaçam outros membros certinhos da cena, não brigam, não matam – eles só tocam música mesmo?! O que eles fazem usando a label black metal – e, pior, True Norwegian?! Quem o Abbath pensa que é pra inventar um novo estilo vocal no subgênero, esse coachar de sapo irritante? E que poses ridículas são essas nos clipes e apresentações? Eles são uma auto-sátira? Qual é a desse corpse paint mainstream e fanfarrão? Por que eles melhoraram a produção depois do 1º CD e agora incorporam elementos do ‘inimigo’ thrash?” Todas questões, como se vê, irrelevantíssimas ou boçais, se é que não meramente retóricas, posto que de respostas muito óbvias. Mas é justamente por isso que tais questões são de importância para o fã xiita da “cena underground”, o imbecil médio das legiões de adoradores (e odiadores, na maioria do tempo).

O videoclipe da música Grim and Frostbitten Kingdoms, icônico até mesmo para comentaristas de Youtube deste 2022, não ajudou a diminuir a “polêmica” em torno do trio à época, ousando usar a paleta de cores “inversa” à preconizada pelos “metaleiros extremos”. Dizem que os ouvintes mais contumazes da banda podiam morrer de overdose de vocábulos como frostbitten (quando tecidos orgânicos ficam inutilizados ou gangrenados devido ao frio intenso) ou grim (vários adjetivos em português, todos eles ominosos – eis um deles!). Ou seja: bandas com personalidade e uma estética definida, se não fosse uma estética ou outra (de uma das outras três bandas trve do movimento, todas de Oslo ou Bergen), estavam terminantemente proibidas – “FORA IMMORTAL!!!”

A despeito do exagero [não era tão preto-no-branco (pun) assim, a banda sempre dividiu opiniões, mesmo nesses setores mais subterrâneos cheios de “opiniões instintivas”, i.e. acéfalas, nunca sendo consensualmente idolatrada ou execrada, para dizer a verdade e ser mais fiel aos fatos] que eu promovi nos 2 parágrafos anteriores, ele é simétrico ao exagero caricato dos críticos linha-dura, por isso o estilo histriônico veio bem a calhar para falar da singularidade chamada Immortal dentro desta outra singularidade chamada cena black-norueguesa. Seja como for, um elemento discreto que chama muito a atenção neste clipe minimalista acima citado é Jan Axel “Hellhammer” Blomberg, o baterista mais rodado da galáxia. Aparentemente ele não quis usar corpse paint para gravar – o que significa que ele achava coisa de poser o tipo de maquiagem adotado por Abbath e Demonaz… ou que isso fazia parte de alguma piada ou sarro do trio perante o público preconceituoso, ou nenhuma dessas duas coisas… Só estou aqui especulando para alimentar mais debates xiitas, cof cof… Fato é que o baterista em questão parece um Jesus Cristo deslocado no clipe! O que deve ter aumentado a raiva de alguns não-simpatizantes é que Hellhammer é tido por muitos (pelo menos na década de 90) como o baterista de técnica mais abençoada no gênero. Impossível ter alguém mais trve no kit, em outros termos. Quem acha que o Immortal não é trve, perdeu uma grande batalha ou recaiu em contradição quando meteu o pau no clipe…

O Battles In The North vem a ser o disco do Immortal favorito de Herbaut, chefão do estúdio que o lançou: “Foi arriscado lançar essa arte branca, fomos e ainda somos muito insultados por causa disso. Mas, musicalmente falando, eu estava totalmente boquiaberto com a direção que a banda adotou, e muito confiante nos resultados!”

Blizzard Beasts (1997) é a quarta obra de estúdio. A partir do processo de elaboração de BB e da turnê subseqüente, Horgh passou a ocupar o posto de baterista, onde se sedimentaria. Porém, não é segredo de ninguém que em muitas das gravações, tanto na deste quanto na de 2 dos discos pretéritos, Abbath é que “sujou as mãos” no kit. Este álbum é bastante criticado, e autocriticado, diríamos, pois assim se expressou Abbath sobre BB (em 2007): “Tentamos tocar rápido além da conta”. Até o fã de longa data e futuro produtor Tägtgren tende a concordar. Blizzard Beasts foi um álbum caótico. Eu não conseguia acreditar nos meus ouvidos quando pus o disco para tocar a 1ª vez. Puta merda! Que porra é essa?! Era tudo muito intenso, muita coisa rolando, e o som estava uma merda! Eu fiquei sem entender!” Adianto que discordo ao extremo: Blizzard Beasts é meu favorito do Immortal. Mas chegaremos num espaço em que eu tenha mais espaço para emitir esses juízos pessoais, se é que me entendem…

Segundo a perspectiva da própria banda e do novo encarregado dos últimos retoques de estúdio, a obra seguinte, At The Heart of Winter (1999), foi a redenção, uma gélida e polar vingança do jeito que o Immortal gosta de promover. Foi neste ínterim que a grave tendinite de Demonaz arrancou-lhe a guitarra. Abbath tocaria, portanto, os dois instrumentos de cordas em estúdio. A crítica especializada gostou da injeção criativa que esta mudança não-planejada trouxe ao som: a conceituada Terrorizer deu nota 9/10 ao trabalho. At The Heart of Winter não deixa de ser um ponto de transição para todos nós. O Peter nos ajudou a achar o som correto para a banda.”

Antes de gravar Damned in Black no ano seguinte, Abbath passou o baixo para Stian “Iscariah” Smørholm para se concentrar na guitarra e na voz. O pessoal também não curtiu muito este álbum “preto” (na estética de capa e no título) e “death”, i.e., conceitualmente oposto ao black como a água ao óleo ou o yin ao yang. Foi o capítulo de encerramento com a produtora Osmose. Herbaut diz que isso não teve nada a ver com qualquer discórdia, já que a decisão de sair foi da própria banda. “E a verdade é que nós não tínhamos a grana que eles pediram para renovar, o que eu acredito que fossem uns 280 mil euros, se não me engano.”

Como se já não abundassem os motivos para serem repelidos por facções ortodoxas do underground, o Immortal fechou com o selo main Nuclear Blast. Sua nova “casa” seriam os estúdios e as pastagens bem verdes de Donzdorf, Alemanha. Até hoje o contrato é confidencial, então ninguém sabe o vulto da grana envolvida. No começo de 2002 saiu o primeiro filho desta parceria, Sons of Northern Darkness, título que saiu de um verso da canção Storming Through Red Clouds and Holocaustwinds (Pure Holocaust, 1993). Considerou-se um “retorno ao acme” para os artistas. Mas seria a última gravação da banda por pelo menos 7 anos e meio.

No quesito “exaltar a magnitude das paisagens naturais”, talvez o Immortal seja a legítima primeira eco-black metal band, antecedendo-se em muito à hoje popular Wolves in The Throne Room e suas tantas loas à região setentrional da Cascádia (abrangendo o ecossistema de vários estados dos EUA e do Canadá), zona de proteção ambiental que seguirá tanto melhor quanto menos for tocada pelas oleosas mãos do homem capitalista. Ao todo, o Immortal compôs cânticos ecológicos e macabros (no sentido blackmetaliano) 15 anos mais cedo; mas por alguma razão insistem em se lembrar mais dos passinhos de caranguejo do Abbath…

Eu não me envolvo com política ou religião, e o Immortal não é um palco ideológico ou um culto – isso é para bandas punk”, esclarece Demonaz. Nisso, Wolves in The Throne Room são realmente outros quinhentos: eles são notórios anti-trumpistas, “esquerdopatas”. Os europeus são infinitamente mais comedidos nesse tocante. “O que nos mobiliza ou concerne são o épico, o apocalíptico, o sentido sombrio das coisas, que leve uma assinatura escandinava – sempre do ponto de vista da Escandinávia. Sou indiferente à religião; não tenho o que dizer sobre pessoas que pregam ou profetizam; nem contra ou a favor, porque esses fenômenos não me tocam, eu desconheço qualquer relação com esta esfera. Claro que eu posso dizer que me associo a humores diabólicos, a uma atmosfera nebulosa e densa, coisas que existem de verdade. Posso considerar como nosso tema a escuridão de um modo geral.”

Sobre a Mãe-natureza e seu lado imprevisível e decerto retaliador, Demonaz considera que não teremos tempo para testemunhar as piores hecatombes conscientemente: “Penso que as pessoas subestimam a natureza. Acho que a maioria esmagadora não tem qualquer conexão com ela, não a freqüenta nem a busca, portanto não a sente. A natureza não julga moralmente; não teria qualquer problema ou hesitação em destruir a humanidade de uma vez; pode acontecer de repente, a qualquer dia. Eu acho que de alguma forma nossa era é a era desse final, que se aproxima. É meu sentimento profundo. Quando penso nas coisas que o homem promoveu em larga escala, creio que, se pudesse encarnar emoções humanas, ter algum propósito, a natureza gostaria de executar uma vingança sobre nós. Esse aliás é o principal mote do nosso All Shall Fall (2009).”

Oitavo full-length desta incansável horda de guerreiros monocromáticos, construído sobre um pântano de riffagens monstruosas, degelos, abominações e as promo photos intencionalmente ridículas de sempre, ASF, dentre nós há mais de uma década, ainda pela Nuclear Blast, é um daqueles retornos comemorados ou contemplados com assombro. Não é só a mãe-natureza que parece ter uma agenda maligna por meio deste disco: o trio, saído de um exílio auto-imposto, parece querer congelar e brutalizar todo o público musical a seu alcance em mais uma empreitada.

Por que a banda jogou a toalha por tanto tempo? Abbath Doom Occulta (primeira vez que cito o nome artístico completo de Olve Eikemo, que também quase nunca é conhecido pelo seu nome de batismo!), guitarra e vocais, Reidar “Horgh” Horghagen, o baterista que acaba de entrar no seu radar, e Stian “Iscariah” Smørholm (ex-baixista, que não voltou com a formação do All Shall Fall) haviam decidido fechar as portas por tempo indeterminado, embora seguissem bastante ativos musicalmente. Cada um deles se dedicou a projetos paralelos de menor ou maior porte. Iscariah se incorporou ao Dead to This World, grupo de blackthrash. Horgh pulou no barco do Grimfist, um grupo de thrashers mais puristas (além de ter participado do Virus, álbum de 2005 dos compadres do Hypocrisy), e Abbath, por fim, fundou um supergrupo chamado I, como já antecipáramos. Só tinha faltado dizer que Armagedda, o primeiro baterista do próprio Immortal, voltou a trabalhar com Abbath. Demonaz que nunca abandonou o Immortal de verdade, estando sempre nas composições e nos bastidores após a séria lesão em seus braços, também empreendeu sua jornada individual-conquanto-em-equipe, i.e., decidiu colaborar novamente com seu grande amigo Abbath, que por sinal é também seu ex-cunhado (podendo-se dizer que o filho de Abbath sempre o chamará de tio, ou seja, que os dois, além de um vínculo artístico de décadas, são praticamente parentes de sangue). As letras do material gravado pelo I, portanto, são da pena de Demonaz. O único full até hoje, Between Two Worlds (2006), é elogiadíssimo.

A verdade é que precisávamos dar um tempo. Há muitos porquês, mas não quero entrar em detalhes sobre isso. Não éramos inimigos internamente, mas lidávamos com um nível considerável de problemas, vindos sobretudo de fora, e isso repercutia em nossa relação, evidentemente. Nós 3 sabíamos, do fundo de nossos corações, que era só um hiato, não um fim, mas também não queríamos sair e divulgar isso para a imprensa, falar em datas, deixar pessoas na expectativa. Trabalhei no I e quando me apercebi já estávamos reunidos em estúdio gravando material novo, isto é, o Immortal estava ressuscitado. Eu sempre soube que esse dia chegaria, e não tive nenhuma ânsia, para que acontecesse de forma natural.”

Abbath

É fácil cair numa armadilha deixada por uma de dezenas de companhias e grandes gravadoras, e ver vários pedaços seus sendo abocanhados por manchetes insidiosas, uma pessoa aqui, outra ali. Os interesseiros. Não quisemos que o Immortal afundasse nesse ciclo. Antes que saísse do controle, preservaríamos a instituição.”

Demonaz

A propósito, já que essa entrevista da qual peguei a maioria das declarações dos membros do Immortal que traduzi foi realizada em 2009, ano do penúltimo álbum do artista, e já que todo blackmetaleiro gosta duma fofoca ordinária, Abbath foi perguntado sobre seu ex-colega Varg Vikernes, solto da prisão em maio de 2009. Depois de 16 anos de reclusão pelo assassinato do guitarrista Øystein “Euronymous” Aarseth, queriam saber do músico se ele já havia trocado uma idéia com o antigo companheiro de banda, o que ele gostaria de dizer a respeito disso tudo, etc.: “Não tenho nada contra o Varg; ele não fez nada comigo ou contra mim. O que ele fez, o que aconteceu, foi trágico; e não gostaria de tocar nesse assunto. Ele serviu seu tempo e está livre, e desejo que tome decisões melhores no restante de sua vida.” Inteligentemente, e sem ser grosseiro, Abbath mostrou que não tem nada a ver com os ‘feitos’ do outro, e a entrevista seguiu rumos mais objetivos!

A capa do novo álbum (All Shall Fall) retrata os portões de Blashyrkh”, elucida Demonaz. É apenas o 2º disco da banda sem uma foto do grupo, com algo simbólico no lugar dos rostos dos músicos em maquiagem pesadíssima. O formato do portão é o de um corvo bicéfalo – portanto, temos a paleta de cores mais escura dessa vez, se alguém se importar. “Não foi demorado conversar com o Abbath sobre a arte e chegar à conclusão de que era hora de deixar o público conhecer um pouco mais de Blashyrkh, ainda que apenas o umbral, a entrada. Sempre gostei do conceito por trás de Beyond The Gates do Possessed. Acho que o espírito aqui é o mesmo.”

Para mim a era da internet é a idade das trevas. As pessoas podem ver tudo sem se conectar com mais ninguém. Acho que isso esconde uma espécie de desespero generalizado. Muitos grupos musicais estão neste mesmo desespero. Farão qualquer coisa para ser notados. Não pensam duas vezes em se inscrever para programas como o American Idol, se expor numa variedade de reality shows… O limite da vida privada que eles expõem no MySpace ou Facebook quase não existe! Tudo, absolutamente tudo hoje, é na base da autoexposição. As pessoas são inseguras, estão lá, sentadas em casa, tirando centenas de fotos delas mesmas e publicando na internet. Acho que uma quantidade relevante de pessoas sente uma crise de identidade por tocar a vida dessa maneira.”

Demonaz

Depois de conseguir derrubar uma série de perfis do Facebook que se faziam passar por ele, Abbath concorda com a perspectiva de Demonaz sobre a Era da Interfossa, como chamam. “Não tenho redes sociais, só uso a internet para trocar e-mails. Fiz nosso agente postar no nosso site oficial sobre impostores: qualquer um que aparecer se dizendo o Abbath, que os fãs saibam que não sou eu, não dêem ibope. Não tenho problemas com o pessoal dos memes, do humor, que tira sarro da estética do grupo e tal. Mas somando iniciativas particulares tudo isso pode virar um oceano caótico. Tudo bem parar um pouco e se divertir, mas dedicar a vida a emular um determinado outro, ou a opinar sobre o outro? Essa é sua vida? Que porra é essa que o mundo virou?”

Demonaz é ligeiramente mais conciliador que seu parceiro: tem um MySpace (lembre-se de que a entrevista é de 2009) e, claro, um endereço eletrônico de caixa postal. Mas ele diz que o negócio é “não moscar” nesses espaços. “Lido com as novas tecnologias a minha maneira. Todos se deixam afetar demais por essa coisa toda; respiram a world wide web, não podem viver sem ou fora. Olha, me sinto muito feliz de ter crescido antes de tudo isso. Meu público, meu trabalho já estavam sedimentados quando começou essa era. Bom, diria que ter um equilíbrio na vida pessoal só ficou mais difícil nesse novo milênio – eu até diria que o Blashyrkh faz parte da nossa resposta para esse dilema, a busca de um equilíbrio pessoal, de uma integridade apesar da sociedade da informação lá fora.”

Pode-se dizer que a maquiagem do Immortal é a mais característica e marcante desde o K.I.S.S. Muitas vezes a “arte facial” de Abbath é sinônima de black metal em si, goste-se ou não. “É simples e direta. No comecinho da banda, usávamos só a parte branca da maquiagem. Um dia fiquei de frente para o espelho e comecei a experimentar uns lances. Fiz isso que você está vendo aí, uma coisa meio Gene Simmons mesmo, com a maquiagem preta, e encaixei no restante da maquiagem branca que já usava. Imediatamente senti que era isso! Mostrei pro Demonaz e ele foi tão rápido quanto eu em concordar. Muita gente acha graça, acha burlesco. A gente se fode pra isso. Nós damos a última risada sempre!”

Para Abbath, a “pintura de guerra” (corpse paint pode ser chamada também de war paint no estilo) é o que facilita sua transformação de Olve Eikemo para uma besta da tormenta parecendo um urso bípede de armadura ou um emissário do deus-trovão, uma espécie de Hermes que deve comungar com as massas: “A maquiagem me torna Abbath; eu sempre sonhei com isso, desde moleque. Como Alice Cooper diz que foi o caso dele no documentário Don’t Blame Me, sou do clube dos dupla-personalidade!”

Para Demonaz o ritual não é menos importante, embora no momento desta entrevista ele não subisse mais ao palco. “Mesmo assim eu ainda me maquio, como nos velhos tempos. A última vez foi para a sessão de fotos do All Shall Fall.” Talvez de um modo ainda mais crucial, a maquiagem demarca a separação dessas entidades, Demonaz e Abbath: Com o I e sua banda particular cover de Motörhead, Abbath não usa corpse paint. Demonaz, da mesma forma, está usando o rosto limpo nas promo photos do seu próximo projeto, dessa vez individual mesmo (sem Abbath), epônimo. (O álbum, March of The Norse, é de 2011, mas como eu-lírico de quem realizou recentemente uma entrevista, ficaria meio esquisito jogar a obra para um passado remoto!¹ Por razões que ficarão evidentes ao longo desta matéria, MoTN foi o único álbum do copyright Demonaz.) “Neste caso, o cosmético representa muita coisa: sem maquiagem, sem Immortal!”, ambos são concordes.

¹ Juízo pessoal acerca da obra: muita espuma para pouca qualidade. Um disco de power metal “sujo” e lento aparentemente apreciado pela crítica; para mim, riffs sem-graça repetidos ao longo de arrastados 40min. Dispensável. Veja este parágrafo de uma resenha: “É fato que escutar um mesmo padrão simplificado de novo e de novo pode causar ou induzir um estado de transe. Simples como são, as composições geram esse efeito. Após muitas ouvidas, cheguei à conclusão de que o efeito foi pensado antes da composição, este álbum foi planejado milimetricamente. É como se cada música fosse um riff e MotN se reduzisse a uma única canção com 9 riffs.” É exatamente isso: chatice – se planejada ou não, deixo a critério do ouvinte! Para encerrar, mais um fragmento, de outra resenha, para o pessoal técnico que entende de notação musical: “Eu posso jurar que, tirando a intro acústica e o interlúdio, TODA FAIXA DO DISCO TEM O MESMO 6/8 COM GALLOPS!”

Nunca vou esquecer uma certa noite de 1991. Eu e o Abbath estávamos remando num barco da vó dele, do lugar que a gente morava até uma ilha. Usávamos maquiagem completa e caminhamos em terra a noite toda bebendo uísque quando chegamos. Nos separamos e trilhamos por uma hora até nos reencontrarmos. Queríamos sentir a atmosfera, aquele silêncio. Havia uns turistas lá e acho que nós demos um puta susto neles. O pânico deles era ver, na calada da noite, dois elementos que eles não compreendiam, que eles não esperavam em absoluto encontrar. Lá pelas 5 ou 6 da manhã, voltando para a casa do Abbath, vimos que as ruas estavam estranhamente desertas, ninguém por perto. Um ônibus escolar estava parado na estrada de terra, o motorista sozinho. Acho que se ele pudesse esconder o veículo no mato ele o teria feito, quando nos viu. Tudo isso foi porque aqueles turistas nos viram e logo espalharam a notícia que dois malucos, selvagens talvez, demônios, estavam andando por aí. Realmente é de se pensar: o que eles achavam que nós queríamos com eles ou o que nós estávamos fazendo de verdade?” Demonaz

Essas sessões de varar a noite com corpse paint se tornariam a base para a comunidade místico-xamanística que foi criada entre Abbath e Demonaz, sempre com um terceiro membro alternativo, em meio à atmosfera enclausurada do Immortal. No ano de 2009 os dois foram em setembro para uma espécie de “acampamento” ou “jornada” por Lofoten, nas regiões setentrionais mais remotas da Noruega. Esse é o conceito de férias (e nunca diga “férias de verão” quando o assunto for Immortal!) desta dupla! “É um lugar sensacional de onde se pesca praticamente todo o bacalhau norueguês”, Abbath esclarece. “Nós vamos a essas montanhas e sempre encontramos novas inspirações boreais para novas composições!”

Já divorciado, Abbath no entanto revela que mantém uma relação muito amistosa e próxima com a ex-mulher, irmã de Demonaz, conforme já situamos. Hoje (2022) o filho desse casamento tem 27 ou 28 anos. Para eles, parentesco genealógico é um de seus vínculos secundários ou casuais, em que quase nunca meditam. “Eu e o Demonaz compartilhamos da mesma cosmovisão, ele é minha outra metade; cruzamos a mesma encruzilhada – sempre foi, sempre será. Raramente nos desentendemos.” Mais adiante vamos ver que sinuosas curvas essa relação umbilical apresentou ao longo do tempo!

O Abbath pode me ligar no meio da madrugada e sem esperar nenhuma frase eu vou interrompê-lo para dizer: ‘Caralho, eu tava pensando nuns riffs!’… E ele: ‘Pois é, foi por isso que eu te liguei!’. Estamos em diálogo sem estar, é assim continuamente. É quase telepático.”

Como dito, Demonaz teve uma séria lesão nos braços que o impossibilitou de continuar tocando em alto nível (ainda mais riffs de metal extremo) em 1999, mas ele nunca deixou de estar em todo show, no camarim, trabalhando com a banda, estabelecendo contatos, fazendo o social e participando da parte criativa em si: “E se eu não estiver lá na hora, o Abbath não vai tocar do mesmo jeito. Temos essa conexão espiritual. Trabalhamos juntos há pelo menos 20 anos, não é como se fosse uma coisa de ontem!”

Não seria o Immortal sem o Demonaz e suas letras, então é bom tê-lo ao lado para os shows”, Abbath endossa. “Ele está sentado ao meu lado no hotel enquanto faço a maquiagem. Temos um papo, eu ponho Motörhead nos fones – eu sempre coloco Motörhead quando estou fazendo esse ritual pré-show. Durante o show ele fica entre o cara da mesa de som e o cara das luzes e vai controlando e gerenciando tudo de um ponto de vista privilegiado: ‘Mais fumaça! mais gelo seco, porra!’.”

Para Demonaz, esse ritual tão consagrado do amigo é “parte da magia”: “Um dos melhores momentos para mim sempre vai ser essa meia hora antes de uma apresentação, antes de subir no palco, quando o Abbath está retocando o rosto e estou por perto. Sentimos evidentemente aquele frio na barriga de mostrar ao mundo e aos interessados o nosso trabalho, as nossas entranhas. Adoro essa parte: eu gosto quando antes da batalha soam as trombetas!”

Em 2007, por exemplo, a banda, quase sempre em trio sem contar o “quarto elemento” Demonaz, isto é, a dupla fixa do Immortal mais 2 músicos de estúdio e de palco, preparava-se para expandir a irmandade dando as boas vindas a O.J. “Apollyon” Moe, numa das constantes mudanças de membros seja no baixo ou na bateria, os instrumentos não-originariamente manipulados por Abbath a não ser em caso de necessidade. Apollyon é mais conhecido por seu desempenho no posto de baixista com a banda de black-thrash de Oslo Aura Noir. “Foi um convite bem direto e informal do Abbath para me juntar à banda, e meu sim foi imediato. Immortal é uma das poucas bandas que me fariam dar esse aceite instantâneo, sem reflexão. Gosto de todas as fases do Immortal. Sobretudo nos shows – o Abbath é um rei do entretenimento, e o Horgh tem uma presença de palco inigualável. E em vez de recear a responsabilidade só me veio à mente: com tudo isso, eu não posso arruinar nada, vai dar certo com certeza!”

Como Apollyon mora a 10 horas de carro da sede dos ensaios do Immortal, eles não se reuniam tanto assim nessa formação. “Não, não fazemos tanto, no quesito quantidade, mas compensamos em intensidade quando por fim nos reunimos. Antes de um show específico ou uma turnê, faço uma viagem para ficar uma semana ‘enterrado’ no estúdio e ensaiamos todo santo dia. Mas é aquela coisa: somos veteranos, não precisamos mais ensaiar tanto como antigamente, tudo que cada um de nós faz já fez muito na vida! É até perigoso ensaiar demais porque você acaba cansando do seu material, e você pode identificar um músico enjoado de suas performances assistindo-o. É fácil notar a diferença do artista estimulado para aquele que não está. Então creio que esse é o melhor arranjo de todos.”

No momento dessa entrevista que transcrevo, a banda, curiosamente, antes mesmo da turnê do All Shall Fall, vislumbrava um rápido próximo disco, já contando com 4 canções inéditas. Não sei se saberemos um dia exatamente quais eram, nesse ponto. Abbath declarou àquela época que não levariam outros 8 anos para lançar mais uma obra. Ironias da vida… Abbath atribuía à mãe-natureza, de qualquer maneira, a última palavra, misturando, mais ou menos, o destino da banda, as letras do Immortal e o papo anterior sobre Juízo Final: “A humanidade nunca mudou tanto em tão pouco tempo. Não sei se veremos o fim do mundo, mas será definitivamente o fim do que costumava ser. Prepare-se para o caos com um belo sorriso no rosto – encare a coisa sem medo. Ouça Immortal.” O carrasco ou Anjo marqueteiro? Talvez. Carismático? Com toda a certeza!

Depois de ler tantas menções a uma relação transcendental de amizade e trabalho entre Abbath e Demonaz, aspecto que eu desconhecia antes de entrar nessa “terceira ou quarta” jornada de “Immortal da manhã à noite”, me propondo a pesquisar mais sobre a banda para completar a história do EVOLUTION OF THE CULT, fiquei ainda mais pasmo com o desenrolar dos últimos acontecimentos, i.e., o que aconteceu com o Immortal de 6, 7 anos pra cá. Vamos por partes!

Sobre o Northern, se escutá-lo bem você entenderá por que não aposentamos a banda. Tivemos complicações e desentendimentos no passado, com o Abbath, em 2003, então o melhor foi parar por um tempo. Quando aconteceu uma segunda vez (2015), para mim ficou claro que tínhamos de seguir cada qual seu caminho. E confesso que esse álbum não estava nos planos [lembra que eles já estavam com este novo álbum semi-gravado?]. Quer dizer, na verdade, sempre que eu sento para criar e compor, com quem quer que eu esteja trabalhando, sempre sento para criar o álbum definitivo do Immortal. Com cada álbum foi assim. Estamos bem sem o Abbath, podemos lidar com isso. Aconteceu, e ele está em outra e nós estamos aqui, simples assim.”

Não acho que seja simples assim!…

Não trabalhamos conceitualmente. Fomos gravando canção por canção. Tudo foi inspiração natural. Quando se fala em tocar guitarra, todo mundo tem um estilo que se desenvolve de acordo com os anos e se torna sua assinatura, de certa forma. Em nosso inconsciente, certamente queríamos trazer à tona algo que fosse 110% Immortal. Começamos do zero em 2015 com a faixa de abertura do novo álbum. Queríamos algo bem veloz. Daí nós seguimos o flow, criando o álbum composição por composição. Não havia planos prévios de forjar o material numa unidade de estilo assim ou assado, e acho que nunca estivemos tão focados no songwriting (na composição) como agora. Quando você faz parte duma banda, seu maior desejo é fazer uma gravação melhor ainda que a última em que trabalhou. Com este, não acho que deixamos o último (agora penúltimo) do Immortal para trás, acho que simplesmente nos deslocamos da estética de muitos deles. (Risos)¹ Tem muito de um feeling old school neste disco. Claro que, ao meu ver, este feeling brilha junto com nossas influências thrash de sempre.”²

¹ O que queria dizer Demonaz? Que ele não gostava das opções criativas de Abbath? Não ouvi essa entrevista, mas pelo texto sinto uma espécie de sarcasmo amargurado!

² Notou o paradoxo?! O Immortal já foi uma unidade, uma dualidade ou trindade, metamorfoseando-se muito no passado. (Abbath+Demonaz+alguém nos atribulados 1990, ou ainda Abbath+Horgh+Iscariah de 1999 a 2002 ou Abbath+Horgh+Apollyon de 2006 a 2015, a formação mais estável até hoje – Demonaz, desde 1997, por sinal, era apenas o “quarto elemento” nessa conjugação trinitária, atuando nos bastidores ou “das sombras”, com o beneplácito de Abbath, é claro; não uso “das sombras” aqui em qualquer sentido pejorativo, mas o fato é que devido a sua lesão ele não era membro oficial – ou pelo menos instrumentista – da banda, ele não subia aos palcos, exercia relativamente pouca influência e controle artisticamente falando; podemos dizer que um engenheiro de som possuía o mesmo peso que ele na banda, descontando as contribuições de lyrics, que, aí sim, são algo mais mensurável em termos de criação compositiva – parece-me que ele não criou hora alguma riffs ou solos de guitarra, p.ex.! A formação atual é tão descaracterizada que o Immortal, que quase sempre foi um trio – configuração já considerada exceção em bandas com guitarra e baixo –, atualmente – ou oficialmente até 2020, já que por ora o nome encontra-se impugnado, e não temos acesso a muito mais informação que isso – é constituído somente de Horgh e Demonaz, e Apollyon, o baixista das gravações de Northern Chaos Gods, saiu da banda antes do lançamento do álbum, ainda em 2017…) Agora que o matrimônio se esgotara, Demonaz tenta abstrair todo o passado, e, sobre aquela coisa de irmãos criativos, que trabalhavam por telepatia, nada mais resta – mas não engana ninguém, sabemos que ele compartilha muito do estilo estético do próprio Abbath. Criticá-lo seria fazer uma autocrítica. Elogiar o novo som da banda é a mesma coisa que elogiar as origens e os trabalhos com o Abbath – que sinuca de bico, hein, meu velho?! Para músicos que já passaram dos 50, é praticamente impossível, ainda mais mantendo-se no subgênero, reinventar-se, a essa altura do campeonato. Ele mesmo o sabe, pelo que declarou sobre como um guitarrista compõe e toca, mas não o admite abertamente – o marketing sempre fez e sempre fará parte do black metal, por mais autêntico que ele seja face a outros estilos “modinha”. Nós, a crítica, só estamos aqui para apontar essa contradição, que os fanáticos do gênero querem chutar para debaixo do tapete, mal disfarçando o volume de poeira! É claro que quando um décimo segundo jogador de um time entra em campo, ele vai ser vaiado ou aplaudido de acordo com o desempenho de toda a equipe, e o mérito ou a culpa nunca é todo(a) dele – é essa analogia que eu faço aqui.

Abbath o grupo, segunda formação. A quarta da esquerda para a direita é a brasileira Mia Wallace, do Nervosa.

A banda aluga um espaço para ensaios, e os custos vinham sendo divididos entre os últimos três membros da banda, Abbath, Demonaz (Harald Naevdal) e Horgh (Horghagen Reidar). Harald e Reidar não queriam mais pagar sua parte do aluguel, já que a banda, na opinião deles, estava inativa. Olve (Abbath), como songwriter hegemônico da banda, dependia pessoalmente desse espaço, e manifestou interesse em continuar arcando com o aluguel sozinho. Os outros dois simplesmente abandonaram o arranjo e deixaram por isso. Olve entendeu esse gesto como uma dissolução da banda.”

Advogado de Abbath, via comunicado à imprensa.

Esta carta divulgada à imprensa ainda argumenta que Nævdal (Demonaz), por ter estado 18 anos sem tocar guitarra, e Horgh(agen), por ter-se limitado a tocar a bateria, não sendo compositor majoritário de canções, não poderiam responder em nome do Immortal. Além do mais, Abbath alega, e de forma muito convincente, aliás, que ele e seu pseudônimo se tornaram praticamente sinônimos da marca IMMORTAL™, sendo compositor principal e frontman, i.e., aquele que fala – além de cantar – pela banda – todos sabem que o vocalista é o mais filmado e visualizado, aquele que sai centralizado nas fotos de divulgação, etc., etc.! Co-fundou a banda e nunca esteve de fora de nenhum trabalho da mesma. Como musicista profissional, desta forma, Abbath, diz, não poderia viver, ou seria injusto e complicado viver, sem os dividendos resultantes do vínculo empregatício com o Immortal. Ou seja, para Abbath, quando os dois colegas saíram da jogada, a banda se dissolvera, mas ele ainda era a banda, e para ele estava fora de cogitação enterrá-la definitivamente.

A mesma carta, em outro trecho não-transcrito, ainda revelou que o Immortal estava obrigado por força de contrato a lançar mais um disco, mesmo após o lançamento de Northern Chaos Gods, pelo selo Nuclear Blast. Não só isso, mas que Abbath já teria quase completado um CD de canções inéditas, em parceria com outros músicos.

Mais um trecho:

[A objeção de Nævdal e de Horghagen ao pleito de Eikemo de usar o nome da banda] soa como uma tentativa de vedar a prática da própria profissão a Olve Eikemo. Ele passou 25 anos incorporando o personagem Abbath e atrelando sua imagem e sua música à marca IMMORTAL. Não me parece razoável que ex-membros de uma banda possam prevenir Eikemo de registrar a marca IMMORTAL para si, especialmente uma vez que ele atende mais pré-requisitos para esta operação do que eles próprios, que presumivelmente, após o lançamento clandestino de um novo álbum, não têm planos para o futuro do nome da banda.”

Nævdal teria respondido o seguinte à divulgação da carta: “Eu li, e nosso advogado leu. Viremos com uma resposta. A carta [deles] contém informações equivocadas.”

Em 2008, em entrevista à revista Guitar World, Abbath comentou sobre a (primeira) ruptura da banda, a de 2003: “Claro que foi por razões pessoais. A banda é pessoal. Somos família. Somos irmãos. É como um casamento. Quando você se casa com alguém, você acredita no casamento. E quer continuar, mas às vezes precisa de um tempo. Muitas bandas só mamam os úberes (fazem dinheiro fácil). Podíamos ter continuado e feito muita grana. Mas nunca o fizemos. Foda-se o $$ e a fama. Nada disso significa alguma coisa se você não tem alma. E estávamos começando a perder aquela chama interior. Não somos estúpidos. Somos muito inteligentes quando se trata do nosso negócio, do que sabemos fazer melhor. Pensamos a longo prazo. Para citar Paul Stanley: ‘O K.I.S.S. não é a última moda, é um estilo de vida.’ O mesmo vale para o IMMORTAL. É da nossa vida que se trata.”

Aguardando ansiosamente pelas cenas dos próximos capítulos de “Immortal Inc. – o processo judicial”…

5. UM GOSTINHO DE CADA DISCO: PRÓS E CONTRAS, OU SÓ PRÓS E SÓ CONTRAS DE CADA ÁLBUM DOS IMORTAIS.

Primeiro, um reiteramento do que meio-mundo já sabe: comunidades, ainda mais no metal, para mim sempre tem um sentido pejorativo. Principalmente do lado crítico: tudo aquilo de que eles reclamam só tem interesse histórico para mim; normalmente ignoro ou sou veementemente contrário ao ponto de vista da dita “maioria”, ou de vozes barulhentas embora isoladas que acabo lendo ou escutando por aí. Quanto aos prós, podemos dar um desconto, e amiúde nos identificamos com as virtudes que os próprios xiitas apontam na banda, então serve como um bom norte, bússola ou termômetro (para ficarmos nas metáforas de temperatura, tão pertinentes à banda). Então como o tal do underground listener aprecia cada álbum da banda, cabendo uma pincelada minha no processo? É ao que se dedicam os próximos parágrafos. Como já falamos mais dos três primeiros álbuns na seção anterior, as informações novas mesmo surgirão a partir do 4º grupo de resenhas.

DIABOLICAL FULLMOON MYSTICISM

Em várias dimensões, escolhas estilísticas deste álbum foram usadas por outras bandas da cena (mais notadamente o Satyricon, cujo debute é bem similar – e não podemos negar a semelhança da técnica vocal entre Abbath e Satyr): as ternas e atmosféricas passagens acústicas, que não são longas, mas deixam sua marca nos exíguos ~35min desta obra-prima; a estética fantástica e ‘amadeirada’ (não, isso não é uma resenha de enólogo – em vez de sentir, como nos outros álbuns do Immortal, um frio congelante e a aspereza de uma localidade nefasta e remota, sente-se a estada num bosque ou em grutas mais cálidos, jamais pisados pelo homem), os teclados ‘barrocos’, pelo menos no sentido de evocar catedrais góticas. Diabolical Fullmoon Mysticism nem parece um primeiro álbum de banda (finjamos por um momento que o Immortal não nasceu das cinzas de outras bandas do espectro extremo), possuindo certa maturidade composicional. As músicas fluem como se fossem suites de uma mesma canção, sem conotação alguma com a “monotonia dinâmica” do gênero progressivo, onde o termo suíte é muito usado. Diria que os próximos discos são mais focados na pureza do conceito e da expressão, enquanto esta é uma obra mais total, se é que me faço entender. Um belo cartão de apresentação.

Voltando ao tema das guitarras acústicas, me parece que o Ulver leva excessivo crédito pela sua implementação, quando cronológica e até qualitativamente vemos o Immortal antecedê-los e superá-los palpavelmente. O melhor é o contraste dessas passagens escolhidas a dedo com o tom mais “crunchy” (não gosto da tradução ao português “crocante”, que faz parecer que estamos analisando um cardápio de sorveteria e descrevendo pistaches) e sujo, confuso, embaralhado… A melodia acústica, portanto, torna-se o complemento perfeito, porque estranho, a cereja sobre as bolas deste sorvete artesanal. Além disso, esse tom mais “intimista” também contrasta com os secos blast beats da bateria, intensificando a sensação de prazer doloroso constante nos clássicos do BM. Os “whoa!” de Abbath também são uma peculiaridade que favorece a obra – a intervenção vocálica como puro instrumento, quando não comunica uma mensagem verbal, mas apenas um som esquisito e, por que não?, sinistro. Não é uma sessão de música comum, senão que ao mesmo tempo se configura como um ritual.

Armagedda, aliás, não é um baterista excepcional e brilhante; não que Abbath, o baterista improvisado das próximas gravações, tenha talento nesta posição, ou uma técnica comparável a um baterista nato, mas justamente pelo amadorismo de Abbath é que a bateria dos próximos discos é algo único e inimitável, superior às batidas de Fullmoon, um pouco presas e acanhadas, com medo de fazer mais que o básico. Terá sido apenas coincidência a saída precoce de Armagedda da banda? Obviamente temos que dar um desconto, pois a qualidade da gravação e mixagem é a mais pobre de toda a discografia do Immortal, tornando a comparação algo injusta. O reverb pode beneficiar a guitarra, o baixo, o eventual teclado e os vocais, mas tem um efeito deletério para a bateria, que parece obstruída por um tapume em relação aos outros músicos. É quase possível ter uma idéia geográfica dos artistas num estúdio bastante amplo e visualizar suas posições – embora tudo possa ser falso, e ao fim e ao cabo o estúdio pudesse se resumir a uma saleta com os três músicos bastante espremidos (vale lembrar que Abbath também gravou o baixo).

A Perfect Vision of the Rising Northland, o ambicioso outro de 9min, talvez seja o destaque maior. Reminiscente dos experimentos minimalistas e envolventes de Quorthon no Bathory, é aqui que a brutalidade e o trecho acústico ao final, sem que se contradigam, mais brilham. Os riffs desta canção apresentam um caráter hipnótico (mais do que nas 5 canções anteriores, já hipnóticas em si), e há um solo de guitarra dos melhores da carreira de Demonaz. Em 1992 não era comum o uso de solos melódicos no BM, e esta pode ser considerada outra nuance em que o Immortal foi pioneiro.

Por fim, mesmo que soe repetitivo, tenho de exaltar aquele que rouba as atenções no disco: Abbath. Muito criticado pelo metaleiro médio por seus frog croacking vocals, vemos pela primeira vez (já que ele mudou seu estilo em relação ao grave do Amputation) como o estilo gutural seco pode se juntar aos instrumentos em vez de se chocar com eles, e pode retratar complexas emoções com a ajuda das letras, ao passo que outras bandas tentam copiar o estilo mas falham na parte da expressão de emoções via vocais. Abbath pode ter um alcance limitado em termos de freqüências ou notas, mas sem dúvida é convincente como ator. Não digo de forma pejorativa: o BM é o estilo de metal mais calcado na performance de palco, na incorporação de outras personas em suas apresentações, como no palco do teatro. Não só no gestual, mas nas cordas vocais, Abbath cumpre o requisito do “showman das trevas”. Tem alma, enquanto muitos outros vocalistas do gênero parecem zumbis desencarnados e unidimensionais.

PURE HOLOCAUST

Quase todas as capas do Immortal têm os rostos dos músicos estampados, mas Pure Holocaust se sobressai a todos no quesito “carisma”. É uma capa instantaneamente icônica. O mais irônico é que, apesar do amor da banda pelas paisagens nevoentas, justo nesta foto não há nada que evoque neve, e os fundamentalistas sem dúvida apreciam o fato de a cor predominante ser o preto.

Para compreender a proposta do novo álbum e o amadurecimento natural da banda é preciso voltar ao epílogo do primogênito, Diabolical Fullmoon Mysticism, no formato da já enaltecida faixa A Perfect Vision of the Rising Northland, cujo título inclusive trai todo o simbolismo que carrega como “portal” ou “marco” para a banda – uma passagem para algo muito mais insólito, que o grupo denominou Blashyrkh. A letra termina com a descrição do firmamento se abrindo para engolir o eu-lírico, transportando-o a outra dimensão, uma espécie de cemitério de almas não-euclidiano de gelo eterno.

Pure Holocaust é já esta dimensão não-euclidiana, espécie de alternativa igualmente assombrosa e carregada de inversões estéticas aos contos de terror de Lovecraft e a mitologia Cthullhu, com um matiz norueguês que lhe é todo original em relação ao escritor estadunidense. Temos a primeira versão do Immortal que se consagraria: o de um caos controlado em estúdio, diferente do approach atmosférico do primeiro álbum. Não que PH não seja atmosférico, em absoluto. Mas seria estereotipá-lo dizer que só se trata disso, uma vez que a violência musical cai como uma bigorna na cabeça dos ouvintes. Onde Fullmoon era uma meditação quase estóica e indiferente sobre a lúgubre condição humana, PH mais parece uma luta de machados em punho contra a única coisa que não se pode vencer: a própria natureza.

O tremolo das guitarras é quase incessante. A bateria é uma descarga de blast beats, com o jeito sui generis de um estranho à função de tocar o instrumento. É uma nevasca na tundra em formato sonoro. Talvez a única reminiscência dos experimentos semi-acústicos do primeiro álbum esteja na breve utilização de sintetizadores em As The Eternity Opens, sétima e penúltima faixa deste assalto de quase 34min.

Se DFM ajudou a moldar o gênero BM, PH é já uma exploração de seus limites possíveis, tão cedo quanto o ano de 1993 permitia. Simplificação é força e definição, neste caso: velocidade, aspereza vocal crescente, esta aura de “incômodo” voluntário ao ouvinte que tenta não lhe deixar qualquer zona de respiro. Até por isso é muito importante que este álbum não tenha excedido a quantia dos 40 minutos, ou seria declarado explicitamente como tortura pelos tribunais noruegueses!

Não tem-se muito o que falar de PH, na verdade: a fórmula foi repetida com cada vez mais intensidade nos dois próximos álbuns, por isso todo o template foi lançado aqui, e o que se disser sobre os 2 próximos trabalhos do Immortal no fundo também se aplica ao sophomore release.

BATTLES IN THE NORTH

Não escute Batalhas no Norte casualmente: não vai descer bem. Sente-se à noitinha num canto frio da sua sala em plena estação invernal – ou, ok, se for atrapalhar demais e produzir sensações desagradáveis em seu corpo, sente-se numa poltrona perto da lareira, desde que num dia realmente gelado – e deixe que essa música mágica chegue até você.”

gradymayhem, Metallum Encyclopaedia

Muitos vêem essa obra como um passo atrás depois do elogiado porém pouco melódico e marcante, talvez homogêneo demais, Pure Holocaust, na minha opinião pessoal o pior (menos melhor!) da banda. Aqui temos 33 minutos em 10 canções que reviram os conceitos dos dois primeiros discos do avesso, muito embora hoje todas as características de BiTN sejam consideradas canônicas do black metal. Ou seja, quer dizer que o grupo evoluiu girando 180 graus, e todavia permaneceu nos moldes do subgênero de origem norueguesa. O tempo das músicas é extremamente acelerado e, se havia alguma referência ou alusão ocultista a Satanás e Belzebu antes, ela foi completamente abolida das letras deste álbum branco, cujo tema obsessivo é só e tão-só a neve, as tempestades e nevascas e a desolação abaixo de zero!

Uma solidez branca, sempiterna e polar, sem começo nem fim. Apenas um eterno estado de auto-realização no campo de batalha mais inóspito. Assim eu descreveria o sugestivo Batalhas no Norte. Propositalmente as músicas foram editadas para não terem “começo” ou “fim” lógicos. O ouvinte já está imerso no pântano absoluto de agressividade musical desde o primeiro segundo e não é possível prever quando será feito o arbitrário corte na composição, dando uma sensação de boxeador caluniado pelo árbitro: ele queria descansar entre 2 rounds, mas sem sequer ouvir o gongo descobriu que já tinha voltado a apanhar do adversário e ser empurrado às cordas, sem a menor transição. Uma bela duma ousadia aniquiladora de cânones da música!

Eu também achava este álbum quase impenetrável, de começo. Hoje suas melodias cravam fundo, vejo-o como “mais comercial” (se é possível dizer isso no BM ortodoxo ou que ainda estava sendo definido em sua ortodoxia!) que as empreitadas anteriores: as canções são instantaneamente memoráveis, pelo menos comparadas ao Pure Holocaust. O som é seco, muito seco. Parece com calotas polares que jamais derreterão. Sem dúvida uma das marcas registradas dos trabalhos do engenheiro de som e produtor Eirik Hundvin, mais conhecido apenas como Pytten. Abbath parece mais impessoal e inumano. Ao contrário do que muitos pensam, isso nada tem a ver com uma suposta deterioração vocal, muito menos com uma péssima escolha estilística (pelo menos na minha opinião) ou, o que é pior, e muitos alardeiam no BM, incompetência técnica. Este é o único tipo de vocal que parece poder habitar no Blashyrkh criado pela banda. Qualquer outro tipo de rendição de voz “humana” teria de ser criticada. Abbath, o abbathismo (seus croaking vocals únicos) e o Immortal “clássico” (diria que deste, o 3º, até o 6º disco, de onde tiro o quinto, não obstante – embora muitos creiam que o 5º é que é justamente a magnum opus da banda, juízo do qual sou obrigado a diferir) são uma Trindade indissociável. Um álbum sem Abbath (como o último da banda no momento em que escrevo) deveria ser crime…

Onde PH, numa espécie de transição, ainda usava algum reverb atmosférico, BiTN elimina qualquer indício de “atmosfera artificial” e aposta tudo no timbre espaçoso e hiper-crocante de guitarra-baixo para engolfar de vez o ouvinte. O que 2 anos não fazem na indústria musical – em 1993, Pure Holocaust parecia já ter chegado ao limite do estilo! Não seria crível que a banda optasse por um estilo ainda mais brutal que aquele – e dessa vez é mais pegajoso e marcante, quase um milagre Coisas que devem acontecer em temperaturas extremas e negativas, tipo de “mágica” cujos bastidores o brasileiro se resigna a admirar, desconhecendo seus fundamentos.

Em contraste com as novas obras, portanto, é que finalmente DFM parece até caloroso e muito disciplinado – mas a percepção de quem ouvia a banda estreando, em 92, deve ter sido bem diferente. Só posso cogitar sobre isso, já que do prisma do século XXI é impossível ir além em especulações sócio-históricas deste tipo. Já conheci o Immortal completamente ultimado dos discos posteriores e incorporei esse som mais cedo do que o ritualístico Fullmoon em minhas funções cognitivas… Você que ouviu a discografia do Immortal na ordem linear e não tinha muito contato com o estilo –– quais são as suas próprias impressões a respeito da evolução da banda?

Respeitando as aspas que abrem a “resenha” deste disco, a primeira coisa a praticar antes de mergulhar em Battles in The North é: assista ao clipe de Grim and Frostbitten Kingdoms, linkado mais acima! Um dos audiovisuais mais originais já produzidos… Curiosamente, a bateria que se escuta não é tocada pelo convidado do clipe. O notável Jan Axel “Hellhammer” Blomberg faz apenas uma representação cenográfica (e que representação, sem pedais, em meio a uma montanha desolada, vestindo roupas inapropriadas para o frio!). O áudio foi tirado dos esforços de Abbath na batera, e assim temos o segundo e último CD em que o cara acumula nada menos do que três funções: vocais – é claro! –, percussão e também o baixo.

É simbólico que o outro (décima canção – cada álbum vai se apresentando, na história inicial do Immortal, com cada vez mais faixas ou composições individualizadas, movimento que parece inteiramente orgânico e lógico) seja batizado Blashyrkh (Mighty Ravendark) (pronuncia-se BLAQUÍRK, aliás). É como se a banda finalmente dissesse: É, chegou a hora de intitular uma música com o nome de nosso recanto extra-dimensional; finalmente chegamos ao som que queríamos desde o início; os dois primeiros álbuns ainda não mereciam que este título figurasse diretamente no caput de nenhuma música, só na letra, discretamente… O tempo da música é o mais lento de todo o BiTN e a atmosfera torna-se mais épica do que nunca, a ponto de até os detratores do 3º disco, todos que conheço, confessarem: Blashyrkh (…) é uma das melhores canções da banda!

É muito comum para quem ainda está conhecendo o catálogo do Immortal pensar que acabou de pôr as mãos numa demo dos caras, tamanho é o caos deste trabalho. A wall of sound só vai ceder com o auxílio da disposição e interesse do ouvinte, e algumas necessárias repetições do bolachudo na vitrola. Ao contrário das primeiras impressões de inacessibilidade e desorganização, para gente como eu logo BiTN passará a ser considerado frio (no pun intended) e calculado em cada passo, criação de artistas entrando em seu apogeu e maturidade.

Embora as guitarras não sejam tão cheias quanto em PH, sem usar tantas tracks na gravação nem padrões intrincados no mesmo nível, Demonaz sabe para onde ruma com um verniz mais thrash infundido no black metal ortodoxo do Immortal (E por que thrash e não death? Porque a produção é menos pesada que no metal sueco old school e o jeito de tocar é um pouco mais dinâmico e solto que no 2º estilo). Power chords são a exceção, havendo tempestades de tremolo nos riffs, em perfeito contraste com a agressividade aparentemente irrefletida e incontível da batera semi-amadora sem constrangimento de meter blast beat atrás de blast beat (ideal para o contexto!) e a rispidez vocálica do mesmo homem (já o baixo, o terceiro instrumento de Abbath, é confessá-lo-ei, é humanamente inaudível!… claro, entretanto, que faz diferença como ‘eco’ da guitarra do parceiro Demonaz). Abbath, na realidade, parece gravar tão perto do microfone que o segredo de seu chiado raspado característico é praticamente revelado: um bom técnico vocal poderia dizer quais os movimentos que sua glote está fazendo, como ele está puxando o ar e quanto ele usa o nariz em cada estrofe, imagino, sem ter de recorrer a imagens! Porém, nem todos nós somos técnicos vocais: lembram que eu pedi para verem o clipe Grim and Frostbitten (…) antes? É muito importante para “pegar” o espírito dos vocais, já que no próprio clipe Abbath é mostrado em zoom facial, com seus dentes brancos, e mostraria as próprias cordas vocais se a pele do pescoço fosse transparente – a lente da câmera está no olho do furacão, salpicada de pingos de chuva, enquanto o rosto do frontman (nada menos que o rosto da entidade Immortal) é o foco indelével desta miniprodução.

Eu amo o fato de que nenhuma faixa se estenda por muito mais que 4 minutos. Também era essencial, como nos lançamentos anteriores, que essa “barragem” não chegasse a durar 40 minutos, ou o valor do álbum certamente diminuiria alguns pontos, pois nosso nível de concentração começaria a baixar. Um belo contraponto aos lançamentos de digipack com conteúdos bônus de hoje – BiTN envelheceu excepcionalmente bem para quem odeia as convenções da indústria fonográfica, i.e., qualquer black metaller sério!

Com a chegada de Dimmu Borgir e Cradle of Filth ao grande público em 1995, o vagão do black metal inteiro se aproximava perigosamente de um território kitsch e extravagante. Eu pessoalmente adoro Cradle of Filth. E o Immortal é considerado como visualmente ridículo por muitos fundamentalistas, então tem esse ponto em comum com is ingleses… Mas essa característica não deixa de merecer menção: Dimmu Borgir, preenchendo suas composições com teclados (ou, diria, afogando-as em teclados!), e Cradle of Filth, na Ilha da Rainha, alcançando imensa popularidade ao fundir elementos primitivos do BM ao gothic, ameaçavam, mesmo que involuntariamente, o futuro do BM sem polidez e destinado ao consumo underground, esse de que falamos aqui.

BiTN adquire ainda mais importância histórica tendo aparecido nesse estranho umbral que marca a metade dos anos 90… Diria que para o período foi o cume do cume do death black metal (standards de brutalidade auditiva aparentemente ainda não-superados), já que o pouco de thrash destilado na obra é tão furioso que acaba resvalando para o gênero extremo primo ou irmão mais velho do BM, ironicamente o território em que o Immortal começara sua carreira. Hoje, obviamente, temos marcos muito mais extremos desse mesmo deathened black metal, como Panzer Division Marduk do Marduk. Só que álbuns desse patamar só foram possíveis graças a Battles in The North, que ensinou-lhes o caminho. Por outro lado, a extensão atmosférica dessa exaltação da natureza (ainda que em seu pior, i.e., algo que oprime qualquer ser humano!) faz deste álbum uma perfeita contraparte para qualquer trabalho do Nargaroth, os reis da “ambiência” (rios correndo calmos, pássaros gorjeando). Obs: não escute faixas desse disco avulsas em “playlists” por aí – ouça-o inteiro e organicamente, como produto da natureza que é!

BLIZZARD BEASTS

Esse petardo de 1997 vem a ser, no frigir dos ovos, ou no congelamento perpétuo das montanhas, como seria mais adequado em se falando de Immortal, meu favorito da banda. É o Immortal em seu auge criativo e igualmente na apoteose de sua fúria instrumental. Oito músicas precedidas por uma instrumental aclimatadora (intro) em escassos 29 minutos, o que significa que aqui as notas se conjugam de forma densa, cada segundo trazendo muita arte nas “costas”. Maioria das canções vai de 2 a 3 minutos e meio.

Horgh é o novo baterista, posição que ocupa até hoje. Demonaz começou a desenvolver sua tendinite mais ou menos nessa época, supomos que devido à incrível ferocidade dos riffs deste trabalho de estúdio. Segundo consta, para finalizarem o álbum, o Abbath já teria suprido algumas das partes de guitarra, com Demonaz levando como podia e, num ponto crítico, se aposentando da função após reiteradas consultas médicas, e após averiguar a gravidade de suas lesões, intratáveis para os recursos da época (embora já tenhamos visto que nada é tão irreversível assim quando se trata de lesões esportivas ou de artistas cuja performance tende a se nivelar com a dos melhores atletas de alta performance!).

Fato é que as guitarras do Immortal nunca foram tão técnicas e velozes como em BB. As influências de death metal começam a se fazer sentir, embora fossem totalmente relegadas para o próximo trabalho, voltando só no Damned in Black. As mais insanas e complexas melodias de Battles in The North são levadas ao extremo. A bateria está ainda mais alta na produção, embora comprimida em qualidade, o que acho que foi intencional. Novamente, para não fugir à regra, os vocais foram bem-masterizados na produção final.

Embora eu possa entender por que as pessoas costumam preferir álbuns mais tardios, com Abbath 100% cuidando das guitarras (e, nessa toada, possa até ver como conseqüência lógica por que At The Heart of Winter, o sucessor imediato, e Sons of Northern Darkness, tendem a ser tão populares na fan base), quando a banda se dirigiu a proporções mais épicas, dignas de tocar em festivais como o Wacken Open Air e atrair multidões de fora do movimento BM, se não existisse essa tetralogia de álbuns da era Demonaz como executor (e não só compositor e letrista) estou certo de que nada do futuro seria possível ou atingiria um tão alto nível, visto que constituem a base de todas as evoluções subseqüentes, e acho que nem pessoas como Peter Tägtgren entendem a dimensão dessa minha afirmação, pois denigrem o BB o quanto podem, como nas entrevistas acima.

Blizzard Beasts traz, embora com alguma maquiagem, influências dos riffs de Morbid Angel à tona. Trey Azagthot, em decorrência, deve ser visto como um dos maiores influenciadores deste trabalho magnânimo da banda. Só ouvindo após algumas vezes é que o verdadeiro apreciador poderá demarcar esses elementos death metal, que estão normalmente escondidos debaixo das camadas permanentes de neve das letras e dos furiosos ataques instrumentais! É realmente algo bem sutil, ou eu estou completamente equivocado e imaginando coisas…

A atmosfera congelada sempre foi um must para o Immortal, e desde o despontar dos 90 cada novo trabalho sempre conseguiu ser mais do que a soma de cada parte. Embora o debute, Diabolical Fullmoon Mysticism, comparativamente falando, seja hoje sentido como um álbum mais ‘quente’, digamos que nada nele é verão: no máximo, é a transição outonal em que a secura do frio e o desaparecimento progressivo do sol ao longo dos dias da estação vai tomando perceptivelmente o lugar da umidade abafada e mormacenta mais ligada ao outono, i.e., não estamos, nem ali, subjetiva e cronologicamente distantes do inverno arquetípico.

Se o desenvolvimento da banda continuar sendo comparado ao ir e vir cíclico das estações, podemos dizer que Blizzard Beasts é o momento culminante e mais característico do inverno total. Não coincidentemente, depois dessa blitzkrieg na neve que não dava espaço para muitos outros matizes e emoções, a banda mudou para um conjunto mais focado no bom acabamento de composições individuais, começando a abandonar aos poucos a atmosfera opressiva e abraçar tecnicismos. Não significa mudar do vinho para a água ou entrar em decadência, apenas uma mudança de foco em que troca-se a percepção imersiva do disco como um todo por outras maravilhas com mais personalidade e impacto individual. São duas formas de uma banda extrema cativar seus consumidores. Muitas bandas nascem e morrem em um desses departamentos, sem saber desempenhar essa “transição outonal” que, em verdade, é um revigoramento, afinal as estações nunca cessam de passar e nenhum declínio deve ser entendido como outra coisa senão uma metáfora.

As faixas de BB consistem em uma série de barragens sonoras que acertam rapidamente no rosto, e comparando-se uma com a outra não se vêem muitas fissuras no gelo: tudo é muito consistente, internamente. Com um tempo de menos de meia hora para tudo se desenrolar isso se torna mais exeqüível. Mas quem disser que falta qualquer momento memorável que impregna na cabeça está se esquecendo de Mountains of Might, o grande hit de BB. Suas proporções épicas, prefigurando At The Heart (…), aliadas a um refrão monolítico, insistente e pegajoso, contrastam levemente com as demais faixas.

Ao passo que as canções são centradas em riffs de frente crocantes, o Immortal integra como ninguém as diversas instâncias que fazem uma composição, isto é, tornam o todo exuberante e melhor que as partes (ou movimentos ou ainda temas, se falássemos de música clássica – e cá entre nós, não é este o Immortal clássico no palco-estúdio?). Tremolos gelados representam algumas dessas ligações, afora solos épicos que só esta banda sabe fazer no BM inteiro, sem com isso escapolir do próprio gênero BM (não é uma banda híbrida com outros estilos, i.e., apesar de mesclar muito death e thrash, ninguém se refere ao Immortal como uma banda de death/black metal, porque todas as influências “estranhas” servem a um propósito uno: a grandiosidade e singularidade de seu black metal), e tudo isso em composições compactas, sem a duração esperada de behemoths do metal progressivo! Afinal, o ritmo da bateria e dos instrumentos de corda é lancinante demais para imaginarmos uma música de 12 minutos. Longas composições até existem na discogradia do Immortal, mas sempre que isso acontecem eles alternam a velocidade, chegando às fronteiras do doom – enquanto que em BB composições “golias” não têm vez.

As mais longas do CD, que não são longas, mas apenas relativamente maiores, cotejadas com suas irmãs efêmeras do disco, dão uma pista do que viria na seqüência. Falo de Nebular Ravens Winter (aperfeiçoada em 2016) e Battlefields, ainda mais coesas que a média do álbum, com nuances de um epic thrash a ser desenvolvido propriamente apenas na era …Winter, cuja descrição ocorre poucas linhas abaixo. Para dar uma imagem do que se pode estar ouvindo sem ter um conhecimento profundo de muitas bandas do estilo metal (extremo ou não) ou sem ter chegado a ouvir Blizzard Beasts antes de ler a resenha, o leitor e futuro ouvinte deverá primeiro ouvir Pleasure to Kill do Kreator e pensar como esta música ficaria se transportada para a cena norueguesa 10 anos depois. Mas ainda tem um toque mainstream, uma certa reminiscência do tom cheio, abrasivo, melodioso mas linearmente bronco, i.e., uma sensação de resistência do mesmo som apesar da necessidade da dinâmica interna, o que o Metallica realizou bastante bem em …And Justice for All (que tem 10 minutos de duração e, assim como a faixa do Kreator, batiza o próprio álbum em que apareceu). Alemanha mais Califórnia desemboca na Noruega. Tudo isso, claro, apenas subliminarmente, mais obscuro e glacial quando assimilado pelos músicos aqui em questão. Nos vocais, Abbath está mais para o Bathory mais precoce.

Simplesmente incompreensível o discurso hegemônico de que Blizzard Beasts é o patinho feio (corvo lindo e branco?) da discografia do grupo. Finalmente estabilizados na formação há algum tempo (o que, desafortunadamente não duraria demasiado), esta magnum opus é o resultado de dedicação, inspiração e um ataque frontal sem tergiversações, utilizando tudo que de mais demente e demolidor já tinha sido manifestado por bandas vinculadas de perto ou de longe ao movimento do metal negro.

AT THE HEART OF WINTER

Muitos consideram este trabalho o casamento (não o primeiro, mas um arquetípico) entre o (progressive) thrash e o black metal. Porém, onde muitos vêem o epítome da criatividade da banda e o capítulo mais proeminente dessa fusão, eu vejo sinais de estafa, como se sair do subgênero fosse a única maneira de gravar um álbum de inéditas àquela altura, ou como se, para não criar clones de trabalhos passados, mesclar um “thrash melancólico” à fórmula tivesse sido a única maneira encontrada de prestar dinamismo ao material. Explicando como posso, embora o thrash não seja um elemento estranho para o Immortal nem mesmo a essa altura, é sim a primeira vez que a metade thrash parece obliterar por completo a atmosfera ominosa do black metal norueguês – isso tem uma nomenclatura mais fácil do que a explicação, sem ouvir o disco: trata-se de thrash metal melódico, e não sua vertente mais negra, viril, de first wave BM e com aquela sujidade digna de um Bathory. Tem lá seus momentos. Confesso que devo ter tendências metafísicas a torcer o nariz para obras relativamente unânimes, ou de clamor exacerbado e imerecido.

Também não gosto tanto da divisão das músicas: apenas 6, com tempos que variam de 6:03 a 8:56, ou seja, uma ruptura completa com o que se via até BB. O tom da guitarra parece sempre o mesmo, uma espécie de cripto-acústico, evidentemente com a propriedade estética de nos transmitir uma sensação de degelo soturno. Falta espessura, faltam as estalactites da caverna. Acho que Blashyrkh acabou derretendo um pouco, ficando menos majestosa e mais pantanosa. Incidentalmente, chamam Sons of Northern Darkness, o clássico mais moderno da banda, de At The Heart of Winter mal-produzido, e com “mal-produzido”, entender: BEM-produzido! Como no black metal os valores se invertem, acham a produção muito… moderna, limpa, polida, e em detrimento dos valores do old school… Mas a verdade é que o estilo de ambos se parece, e entendo por que não estejam entre meus momentos favoritos do grupo.

O que eu mais detesto sobre At The Heart of Winter, a música-título, é que o riff central me parece uma antiga abertura de programa da Globo cagada e cuspida, um programa que por mais que me esforce não consigo me lembrar, nem encontrar qualquer comprovação na internet! Globo Comunidade ou qualquer coisa bem cult dos anos 90. Às vezes essas coincidências acontecem, qual é o problema? É que essa má impressão de ver o Immortal associado a algo de segunda classe nunca me abandona… Um comentário de resenha que me chamou muito a atenção, por conter o juízo exatamente oposto ao meu é: “Isso não é um epic black metal estéril e redundante repetindo as mesmas uma ou duas seções de novo e de novo por oito longos minutos; a música é dinâmica e nunca se demora demais no mesmo tema.” Mas o pior é que <as mesmas uma ou duas seções de novo e de novo por xxx longos minutos> são a melhor descrição que encontrei para ATHOW! Ao mesmo tempo em que os entusiastas tentam defender o álbum da acusação de esnobismo, comum quando uma banda produz algo muito mais “progressivo” e “dinâmico” para os próprios padrões, deixam escapar que na verdade estamos diante de uma peça de wankerismo puro e simples, pois “Abbath [guitarrista no disco pela 1ª vez] usa todo o espectro das notas musicais”. Tudo bem, mas essa não é necessariamente uma virtude nem mesmo num disco do Pink Floyd!

Como de praxe, nada a contestar sobre os vocais abbathianos. Numa nota alta, a segunda metade da faixa de encerramento, a otimamente batizada Years of Silent Sorrow, é meu destaque pessoal.

DAMNED IN BLACK

Um álbum “odiado” e que eu exalto com a ajuda de todas as minhas entranhas, só para variar! Adeus sacarina do mar de resenhas do álbum anterior (a internet está aí para se ver que eu sou realmente um estranho no ninho em relação ao Heart of Winter, uma lasca de gelo descolada do continente) – bem-vindos, de novo, os detratores de um suposto simplismo compositivo! E de volta com as capas icônicas e ainda mais absolutamente massacradas e ridicularizadas – ô, o Immortal voltou! Só faltava mesmo xingarem a capa por ser quase toda preta (Blackshyrk?), e destoar das picturizações invernais da banda, já que com Battles in The North o chilique foi o contrário!

Onde a proeminência cabia ao melodic thrash no trabalho anterior, vejo o mesmo destaque sendo dado à virulência de um bem-forjado death metal, achatando e comprimindo o rolo atmosférico com que a banda passa por cima dos deuses e do mundo, como um disco do Immortal tem de fazer (com faixas individuais num espectro de duração mais estreito de 3-7min). Uma das razões para uma paleta escura na capa já pode ser detectada nos títulos das faixas: nem tudo, dessa vez, gira cicloneamente em torno de neve e de borrascas e precipitações do céu carregado! Tudo soa como a continuação lógica de Blizzard Beasts, talvez do outro lado do espectro, já que yin-yang precisam do branco e do preto para funcionar – é como se Heart of Winter nunca tivesse acontecido, mais ou menos o cumprimento retroativo de um desejo meu, que em 2000 ainda estava longe de conhecer o Immortal e, aliás, de começar a gostar de música, e música boa!

É interessante observar a hipocrisia do resenhista-médio de DiB: critica os blast beats unilaterais do álbum, mas há quantos deles o Immortal não apresenta a mesma bateria? Inclusive no mimado Heart of Winter – só que lá a produção tíbia jogava todo o ímpeto das viradas e pezadas incessantes para o fundo, sonicamente falando!

SONS OF NORTHERN DARKNESS

Entramos na era da internet – o que possibilitou a intensa popularidade do Immortal, mesmo entre a nova safra de metaleiros, mediante um trenzinho de memes nunca enjoativos! – e os já veteraníssimos noruegueses continuam empilhando bíblias (!) de composições do gênero que ajudaram a forjar. Seria impossível usar um medidor para situá-los entre o orthodox e o modern BM porque eles conseguem encastelar todo tipo de referência retrô com novos takes, experimentalismos e produção moderna sem que o jogo dos caras soe forçado ou deslocado em relação ao espírito da banda, sempre mutante – seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo, um amigo me dizia…

No comando dos riffs de guitarra mais uma vez, Abbath continua a roubar a cena e monopolizar os holofotes. Seu estilo no Sons of Northern Darkness em particular remete muito ao de Dave Mustaine no Rust in Peace, pelo menos em momentos definidos. Por mais estranha que essa observação pareça, ela é verdadeira: One by One possui gallops de guitarra idênticos a Take No Prisoners ou Polaris!

Além disso, para manter a tradição de álbuns realmente inéditos da banda, ao contrário de tantos grupos que se limitam a relançar o mesmo trabalho com letras diferentes e replicar a mesma e velha fórmula com micro-randomizações, as guitarras foram afinadas um tom inteiro abaixo (na linguagem técnica, D standard): isso mais os riffs reminiscentes do thrash dão ao álbum um quê de peso que o distingue de quase tudo do black metal gravado àquele tempo. É diferente até da secura dos adoráveis e repelentes ao mesmo tempo, se é que o fã entende, Blizzard Beasts e Battles in The North. A faixa Demonium parece mesmo uma revistada em BB com uma produção muito mais avantajada e classuda. A esse ponto na carreira, aliás, não é só a produção que adquiriu um “outro patamar”: ouso dizer que o Immortal chegou ao auge da maturidade em termos de intercalar momentos abrasivos e lentos com porradas inclementes nas composições. Destaque para o efeito de reverb nos vocais de Abbath em In My Kingdom Cold que fazem parecer que ele canta no meio da tempestade, decrescendo ainda mais a “temperatura do Himalaia”.

Era inegável que a simbiose do grupo com o produtor Peter Tägtgren crescia a cada trabalho. Dá para perceber, com menos rodadas do disco, cada nota e inovação. Sons of Northern Darkness agrada, portanto, aquela ala mais tolerante do BM que preza a técnica e uma guitarra bem-tocada e com boas possibilidades de ser ouvida em cada evolução. Para uma comprovação da afirmação, ouvir à antiteticamente batizada (porque a Antártida fica no sul!) Antarctica. Ou eu deveria dizer que ela não é o polar oposto de todas as letras sobre Blashyrkh? Uma grande curiosidade sobre este álbum para disfarçar o constrangimento pela piada inopo(lar)tuna: é o primeiro da banda na Nuclear Blast, i.e., Immortal praticamente “goes pop”! Dizem que a Nuclear Blast quase mudou de nome para Nuclear Blast Beats em 2002… Parece irônico que no começo mesmo dessa nova história a banda iria se dissolver pela primeira vez, ainda mais levando em conta a sincronia de estúdio – os músicos começam a se desentender justamente em meio ao processo criativo. Para se ver a que custo algumas obras de arte são paridas…

ALL SHALL FALL

Dizem que neste disco o Immortal se tornou menos metal, e nisso menos black metal, o que fãs dificilmente perdoam, e mais rock ‘n’ roll. Ou pelo menos black ‘n’ roll, para não acharmos que foi algo tão drástico ou mesmo facilmente detectável para ouvintes de primeira viagem. Os mais fanáticos dirão que foi o último prego no caixão da segunda onda do black metal, capitaneado pela Noruega. Quanto drama! O hiato forçoso da banda teria feito os músicos perderem a intimidade com os instrumentos e o entrosamento com os colegas, sem volta?! Ah, claro! Nenhuma narrativa de banda de black metal que desagrada os fãs após álbuns bombásticos está completa sem o capítulo de quando eles se venderam (ou quando compraram de volta a alma a um desapontado Lúcifer) ou efetuaram seu sold-out. E, francamente falando, isso acontece com – quase – todas as BM bands que eu tive o imenso prazer de conhecer, então se tornou um tropo ou clichê da relação destes músicos com estes seu exigente público. Público extremamente exigente, justificando o gênero a que dizem pertencer…

All Shall Fall já diz essa verdade íntima no próprio nome: tudo deve cair, desabar… Mas quer saber? Quem disse que não há quedas de pé e grandiosas? Essa expertise da banda para bons riffs e toda a sabedoria no songwriting não desaparece do dia para a noite, nem por causa de alguns anos em hibernação. Afirmemos e reafirmemos: All Shall Fall está longe de ser o melhor momento da instituição Immortal mas, se pensarmos no destino geral das bandas de 2nd wave, seja por demérito próprio ou apenas por difamação de ex-entusiastas, o Immortal parece ser o que leva a melhor. Não falemos daquele ex-ser humano que virou o Gandalf e renegou completamente o estilo. O Mayhem, de quem eu tanto gosto em sua fase contemporânea, incansável na arte de surpreender, é detonado pelos puritanos, que os consideram menos do que cinzas do que já foram. Na verdade não importa o que o Mayhem fizesse desde a morte do Euronymous, a recepção seria fatalmente a mesma. Quem sabe desde a morte ainda anterior do Dead! Bandas norueguesas da segunda onda que seguem quase todas ativas e inovando, mas, para os “autoproclamados especialistas”, que traíram ou saíram por completo do movimento. Chame-se-o de segunda onda ou não, eles não traíram nada, eles estão carregando a tocha e revitalizando o movimento em seu núcleo, independentemente da qualidade que surge na terceira onda, onde onde quer que nos encontremos neste momento (quarta onda? não faço idéia!). Mas esse é um papo para outro texto…

Sete anos. Número cabalístico. O que terão representado na vida dos músicos e na manutenção ou queda de qualidade de suas performances? Na verdade há certa contigüidade entre estes trabalhos tão distantes no tempo, assim mesmo: Sons of Northern Darkness já demonstrava certa tendência a incorporar cada vez mais interlúdios (que não são interlúdios reais, presentes na enumerção das faixas, i.e., estão dentro das músicas e não constituem produções independentes) limpos e outsiders. Isso só foi mais intensificado. Os maledicentes dirão que o supergrupo de Abbath montado no meio do caminho, que o fez curtir um “retorno ao rock” durante a paralisação da banda principal, a banda I, foi mais um degrau, antes de chegarmos a esse, nessa transição. Between Two Worlds (que não será resenhado aqui) parecia mais heavy metal, mas do tipo black ‘n’ roll, que uma dessas cartadas extremas que os membros do Immortal, como bons jogadores de pôquer, viviam dando. Antes de criticar a mudança, devemos pensar primeiro na pressão sobre os caras para “manter o nível”, surpreender ainda outra vez, et.. Conservadores ou não, Abbath & cia. resolveram apostar nas suas forças mais consolidadas e que não os trairiam nesse comeback: os riffs em profusão e sua concatenação meticulosa. É um trabalho de guitarra, principalmente. Saudosos da atmosfera reinante nos primeiros álbuns têm todos os motivos para se chatear! Quem liga pra eles? O novo Immortal, mais corpulento na produção e no volume sonoro, não podia fazer milagres e nada sacrificar aos deuses de Blashyrkh a fim de obter um novo trabalho nível “A”.

Enfim, vamos ser curtos e grossos: All Shall Fall é o mais hard rock dos álbuns do Immortal. Viva-se com isso. Mesmo assim, é raro ver hard rock com croak vocals! O croachar do sapo nunca morre… Confiram só o solo de Norden on Fire. Nada a ver com Diabolical Fullmoon, não é verdade? Não esqueçamos que essas coisas acontecem debaixo de nossas vistas e, quando não desejamos reconhecê-las, inconscientemente passam batidas. Pure Holocaust, a segunda obra, já parecia uma estreitada no som, para torná-lo mais mainstream, se comparada com o 1º trabalho de estúdio. Ninguém reclamou na época – e por quê? Porque ainda era demasiadamente black metal (mas quem afirma o que é ou não é black metal são os revisionistas, a cada ano!). Como se houvesse só um black metal! Talvez se reconhecesse isso. Mas quando a mudança se dirige a algo como o acessível hard rock e não a experimentalismos bárbaros e obscuros, sai de baixo! Menos pode não ser sempre mais, mas sem dúvida é uma tentativa válida, e cria novos discos inéditos. All Shall Fall é exatamente isso. E sem dúvida a Nuclear Blast gastou uma porção de dindim para manter o áudio perfeito para os caras. E não deve ter economizado no marketing, idem. Esse é o epítome do profissionalismo da banda, e isso alguns por aí não podem ignorar… Escutam, para depois apenas maldizer.

Claro que não é isso que explica a recepção do álbum. Houve problemas. Problemas de verdade, os não-intencionais. O processo de composição foi indubitavelmente acelerado porque os integrantes voltaram a se bicar. Romperam em 2003, ficaram oficialmente desativados como banda por 3 anos até se reunirem, e o álbum durou um bom ciclo de “Copa do Mundo” para sair (4 anos). Significa que o trabalho em equipe se mostrou mais árduo do que eles mesmos, conhecendo o passado, esperavam. Nesses casos, muito do que acontece é chegarem ao seguinte plano de carreira: Olha, vamos nos concentrar em turnês, tocar nossos velhos hits, não precisamos matar uns aos outros agora enquanto criamos novas músicas, já que cada um tem um conceito sobre música, e sem dúvida o conceito de cada um mudou com o tempo, de forma diferente do conceito dos outros membros. Vamos aproveitar a fama e essa reunion da banda! Black metal nem sempre se resume a lançar novos trabalhos e superar-se a si mesmo sem a menor tolerância para deslizes… Façamos as coisas com calma, não somos iniciantes! Imagino que, se esse não rolou como papo, deve ter ficado ao menos subentendido entre eles…

E sobre a composição de material novo, lembrando que eles estavam sob contrato para fazê-lo, teve de acontecer em algum momento. Suspeito que um pouco “em cima demais” do deadline estabelecido pela gravadora, para azar deles e o nosso. Suponho que eles passaram no máximo 2 anos escrevendo estas 7 canções, porque tem ainda todas as semanas que envolvem gravá-las, mixá-las, masterizá-las e promover o álbum antes do lançamento, o dia designado pelos chefões da parte comercial! Dois anos não é um bom tempo de preparação para uma banda já veterana, que não precisa compor com tanta velocidade para se exibir ao mundo. Ainda mais com um álbum com poucas músicas. Cada uma tem de ser muito boa, ou as pontuações nas resenhas já sofrem consideravelmente. Além disso, nenhuma delas se tornou um novo clássico da banda, o que também não ajudou a estabelecer concessões ou contemporizações. Acabaram julgando o pacote de forma homogênea. Mas sem dúvida sempre há canções melhores, as que chamamos de canções para singles, para clipes, para abrir ou fechar o álbum, e outras consideradas mais medíocres ou menos chamativas. Normal.

Muitos fãs de longa data entram em negação e quase não consideram All Shall Fall como um episódio legítimo da trajetória da banda. Mas sem dúvida o público que compra lançamentos da Nuclear Blast não se resume a uma rodinha de cricris, então o Immortal foi à mídia e mostrou do que são capazes no estado pré-nova ruptura em que se encontravam (nunca diga “ruptura definitiva”!), como que dizendo nas entrelinhas: Se querem conhecer nosso catálogo, cheio de coisas ainda melhores, comece por aqui, e depois cave mais!

NORTHERN CHAOS GODS

O fim? Sem dúvida não há consenso nem para isso, não importa a perspectiva de quem resenhe ou acompanhe uma banda. Mas, na minha opinião, sem Abbath, este é “o álbum que não deveria existir”. Não se trata de qualidade vocálica nem qualquer detalhe mais específico, mas uma espécie de “conceito da banda”, que neste caso não pode funcionar sem uma figura multi-talentosa e longeva como Abbath. Demonaz não canta mal. É até mais energético que Abbath na função, e mais “black metal”, mas isso não significa que combine com o legado do Immortal. Em alguns momentos parece mesmo que Demonaz tenta imitar o estilo do ex-parceiro (cf. Into Battle Ride). Este com certeza é um álbum mais veloz que os dois últimos, mas falta algo. Where Mountains Rise chega inclusive a repetir o riff de At The Heart of Winter (a música), o que pra mim é bem revelador: nenhuma idéia nova, apenas saudosismo barato. Nesse ponto, a necessidade de fechar um álbum com uma track de maior duração já se tornou um clichê vergonhoso, veja só a duração da última canção!

Não deixe o papo simplista e bipolar dos fãs enganá-lo, contudo: não é o álbum para quem considerou o comeback de All Shall Fall fraco, nem muito menos o inverso. Podemos dizer com a segurança de quem não irá gerar polêmica que nem o último de Abbath nem o único sem Abbath têm o que os demais discos da discografia do Immortal oferecem. E é por isso que, para não encerrar a matéria numa nota baixa, recorro a mais uma curta resenha…

ABBATH, BY ABBATH, BANDA DO ABBATH

…Se um Immortal sem Abbath ainda pode ser considerado Immortal, é mais do que justo cobrir o outro terço do “núcleo da banda” (sem esquecer Tägtgren, Apollyon e outros que colaboraram nos registros mais recentes). Abbath continua produzindo um som derivativo do gélido black metal do Immortal e certamente ouviríamos essas canções sob esse moniker não fossem, por enquanto, os desdobramentos de uma batalha judicial que ora se mostra desfavorável ao músico, porém cujo desfecho é imprevisível. Por razões de “coerência” e “extensão”, não irei resenhar o segundo álbum do projeto-solo do Abbath, nem acrescentar o terceiro, que já está às vésperas de sair no momento em que redijo. Fica como um contraponto único ao Northern Chaos Gods, até por ser o meu favorito desta nova banda, pelo menos no momento atual, e, acessoriamente, por vir com a cara do Abbath estampada em close na capa – nada mais direto podia ligar essa maquiagem icônica ao legado do Immortal!

Álbuns de black metal super bem-produzidos: polêmicos, dividem a fanbase. No caso de Abbath, Abbath (2016), tirando os fanáticos, a crítica é positiva. Dag Erik Nygaard e Danial Bergstrand, os engenheiros de som, criaram uma wall of sound com muita distorção, preservando o senso melódico das guitarras, que poucos álbuns no estilo old school poderiam replicar. Esse tipo de produção mais clean permite que a sempre subestimada performance de Abbath como guitarrista brilhe em meio à escuridão temática e atmosférica de sua nova banda. Ao que consta, ele não é o lead guitar da formação, só cuida da guitarra-base, mas isso não o impede de soltar um ou outro solo mais trad metal que não vêm, esteja certo, em detrimento do resultado final. Outro instrumento sobressalente é a bateria muito bem-coordenada de Creature, que sabe revezar os blast beats com batidas estilo hard rock enriquecendo o trabalho – que podemos classificar como black ‘n’ roll mais uma vez, sem medo das vaias dos ouvintes ortodoxos. Acontece que em produções top-notch como essa na verdade perde o sentido falar de “instrumentos sobressalentes”, porque até o baixo de King ov Hell faz a diferença e é audível em inúmeros segmentos. Enfim, tudo que os músicos performam realmente aparece na gravação final. E é quase um alívio poder ouvir o baixo num álbum de metal em pleno 2016, já às portas da aposentadoria do Matusalém Black Sabbath (que parou em 2017), reconhecido até hoje como um dos únicos do gênero em que o baixo cumpre uma função de primeiro plano!

Sair – ou ser expulso – da marca Immortal parece não ter reduzido a auto-estima de Abbath Doom Oculta; antes, pelo contrário. Além da performance dual digna de crédito, não é justo que ele não recolha o mérito de, em pouco tempo, ter juntado músicos capazes e comprometidos com o projeto composicional em que, obviamente, ele é a força criadora principal, para que tudo fluísse em ordem (uma caótica ordem, em se tratando de um subgênero de black metal que bebe da fonte do Immortal).

A produção clean não deve nunca soar pejorativa mesmo num estilo tão subversivo, porque até as linhas de guitarra mais imundas ficam mais distinguíveis ao ouvido humano, ainda que percam alguns pontinhos insignificantes em termos de atmosfera. Significa que os riffs mais ortodoxos ganham certa aura de destaque em meio aos demais, mais próximos do heavy metal clássico. Os vocais de Abbath, embora muita gente diga que são estacionários, sempre evoluem de gravação para gravação. Mantêm o inconfundível tom raspado e contam com um minimal reverb para resultar diabólico e ameaçador.

Embora o Immortal desde sempre tenha prestado ênfase ao riff work, esse talvez seja o primeiro CD em muito tempo em que podemos dizer que o riff work conduz as composições acima de todo o resto e o resultado é tão superior (volto a me referir ao indelével Blizzard Beasts). Dessa forma, podemos detectar influências de death-thrash mais do que em qualquer outro trabalho-solo do homem (isto é, contando as seqüências a esse disco e o disco único do I), parecendo-se, em alguns momentos, com um Blizzard Beasts Vol. II.

Para os mais “classicistas”, Root of the Mountain fará um sorriso aparecer no rosto, com suas linhas de baixo indiscutivelmente derivadas do Deep Purple no seu auge (a referência clara é o petardo Black Night).

Winter Bane, por outro lado, tem os vocais mais versáteis de Abbath num longo período e um videoclipe de alto nível. São quase 7 minutos de peso e conservação de fôlego em meio a toda uma algazarra que não deixa a peteca cair. Ao contrário da iniciativa de Horgh e Demonaz, temos um trabalho com originalidade, não uma compostagem do que o Immortal já foi só para atender aos fãs menos críticos (e com menos críticos queremos dizer, paradoxalmente, aqueles que mais reclamam, mas de ninharias, evidente).

O easter-egg essencial dos ursos-coelhos em preto-e-branco é um cover de Nebular Ravens Winter, do inimitável – 3ª citação! – Blizzard Beasts (e é notável que no 4º verso dessa canção encontremos a expressão “Winters bane”, explicando a referência no contexto do álbum). Ainda tem um outro, menor: um cover de uma lado B do Judas Priest.

Para arrematar, o álbum é literalmente, em conteúdo, embora não formalmente, uma continuação do que a banda Immortal deveria seguir sendo.

TIMON OF ATHENS

ACT I

SCENE I. Athens. A hall in Timon’s house.

You see how all conditions, how all minds,

As well of glib and slippery creatures as

Of grave and austere quality, tender down

Their services to Lord Timon: his large fortune

Upon his good and gracious nature hanging

Subdues and properties to his love and tendance

All sorts of hearts; yea, from the glass-faced flatterer

To Apemantus, that few things loves better

Than to abhor himself: even he drops down

The knee before him, and returns in peace

Most rich in Timon’s nod.”

When Fortune in her shift and change of mood

Spurns down her late beloved, all his dependants

Which labour’d after him to the mountain’s top

Even on their knees and hands, let him slip down,

Not one accompanying his declining foot.”

TIMON

Painting is welcome.

The painting is almost the natural man;

or since dishonour traffics with man’s nature,

He is but outside: these pencill’d figures are

Even such as they give out. I like your work;

And you shall find I like it: wait attendance

Till you hear further from me.”

Painter

You’re a dog.

APEMANTUS

Thy mother’s of my generation: what’s she, if I be a dog?

TIMON

Wilt dine with me, Apemantus?

APEMANTUS

No; I eat not lords.

TIMON

An thou shouldst, thou ‘ldst anger ladies.

APEMANTUS

O, they eat lords; so they come by great bellies.

TIMON

That’s a lascivious apprehension.

APEMANTUS

So thou apprehendest it: take it for thy labour.

TIMON

How dost thou like this jewel, Apemantus?

APEMANTUS

Not so well as plain-dealing, which will not cost a

man a doit.

TIMON

What dost thou think ‘tis worth?

APEMANTUS

Not worth my thinking. How now, poet!

Poet

How now, philosopher!

APEMANTUS

Thou liest.

Poet

Art not one?

APEMANTUS

Yes.

Poet

Then I lie not.

APEMANTUS

Art not a poet?

Poet

Yes.

APEMANTUS

Then thou liest: look in thy last work, where thou

hast feigned him a worthy fellow.

Poet

That’s not feigned; he is so.

APEMANTUS

Yes, he is worthy of thee, and to pay thee for thy

labour: he that loves to be flattered is worthy o’

the flatterer. Heavens, that I were a lord!

TIMON

What wouldst do then, Apemantus?

APEMANTUS

E’en as Apemantus does now; hate a lord with my heart.

TIMON

What, thyself?

APEMANTUS

Ay.

TIMON

Wherefore?

APEMANTUS

That I had no angry wit to be a lord.

Art not thou a merchant?

Merchant

Ay, Apemantus.

APEMANTUS

Traffic confound thee, if the gods will not!

Merchant

If traffic do it, the gods do it.

APEMANTUS

Traffic’s thy god; and thy god confound thee!”

Enter ALCIBIADES, with the rest

Most welcome, sir!”

First Lord

What time o’ day is’t, Apemantus?

APEMANTUS

Time to be honest.

First Lord

That time serves still.

APEMANTUS

The more accursed thou, that still omitt’st it.

Second Lord

Thou art going to Lord Timon’s feast?

APEMANTUS

Ay, to see meat fill knaves and wine heat fools.

Second Lord

Fare thee well, fare thee well.

APEMANTUS

Thou art a fool to bid me farewell twice.

Second Lord

Why, Apemantus?

APEMANTUS

Shouldst have kept one to thyself, for I mean to

give thee none.

First Lord

Hang thyself!

APEMANTUS

No, I will do nothing at thy bidding: make thy

requests to thy friend.

Second Lord

Away, unpeaceable dog, or I’ll spurn thee hence!

APEMANTUS

I will fly, like a dog, the heels o’ the ass.

Exit

First Lord

He’s opposite to humanity. Come, shall we in,

And taste Lord Timon’s bounty? he outgoes

The very heart of kindness.

SCENE II. A banqueting-room in Timon’s house.

VENTIDIUS

Most honour’d Timon,

It hath pleased the gods to remember my father’s age,

And call him to long peace.

He is gone happy, and has left me rich:

Then, as in grateful virtue I am bound

To your free heart, I do return those talents,

Doubled with thanks and service, from whose help

I derived liberty.

TIMON

O, by no means,

Honest Ventidius; you mistake my love:

I gave it freely ever; and there’s none

Can truly say he gives, if he receives:

If our betters play at that game, we must not dare

To imitate them; faults that are rich are fair.

VENTIDIUS

A noble spirit!”

TIMON

O, Apemantus, you are welcome.

APEMANTUS

No;

You shall not make me welcome:

I come to have thee thrust me out of doors.

TIMON

Fie, thou’rt a churl; ye’ve got a humour there

Does not become a man: ‘tis much to blame.

They say, my lords, ‘ira furor brevis est;’ but yond

man is ever angry. Go, let him have a table by

himself, for he does neither affect company, nor is

he fit for’t, indeed.

APEMANTUS

Let me stay at thine apperil, Timon: I come to

observe; I give thee warning on’t.

TIMON

I take no heed of thee; thou’rt an Athenian,

therefore welcome: I myself would have no power;

prithee, let my meat make thee silent.

APEMANTUS

I scorn thy meat; ‘twould choke me, for I should

ne’er flatter thee. O you gods, what a number of

men eat Timon, and he sees ‘em not! It grieves me

to see so many dip their meat in one man’s blood;

and all the madness is, he cheers them up too.

I wonder men dare trust themselves with men:

Methinks they should invite them without knives;

Good for their meat, and safer for their lives.

There’s much example for’t; the fellow that sits

next him now, parts bread with him, pledges the

breath of him in a divided draught, is the readiest

man to kill him: ‘t has been proved. If I were a

huge man, I should fear to drink at meals;

Lest they should spy my windpipe’s dangerous notes:

Great men should drink with harness on their throats.

This and my food are equals; there’s no odds:

Feasts are too proud to give thanks to the gods.

Apemantus’ grace.

Immortal gods, I crave no pelf;

I pray for no man but myself:

Grant I may never prove so fond,

To trust man on his oath or bond;

Or a harlot, for her weeping;

Or a dog, that seems a-sleeping:

Or a keeper with my freedom;

Or my friends, if I should need ‘em.

Amen. So fall to’t:

Rich men sin, and I eat root.”

TIMON

Captain Alcibiades, your heart’s in the field now.

ALCIBIADES

My heart is ever at your service, my lord.

TIMON

You had rather be at a breakfast of enemies than a

dinner of friends.

ALCIBIADES

So the were bleeding-new, my lord, there’s no meat

like ‘em: I could wish my best friend at such a feast.

APEMANTUS

Would all those fatterers were thine enemies then,

that then thou mightst kill ‘em and bid me to ‘em!”

Enter Cupid

Cupid

Hail to thee, worthy Timon, and to all

That of his bounties taste! The five best senses

Acknowledge thee their patron; and come freely

To gratulate thy plenteous bosom: th’ ear,

Taste, touch and smell, pleased from thy tale rise;

They only now come but to feast thine eyes.”

Music. Re-enter Cupid with a mask of Ladies as Amazons, with lutes in their hands, dancing and playing

APEMANTUS

Hoy-day, what a sweep of vanity comes this way!

They dance! they are mad women.

Like madness is the glory of this life.

As this pomp shows to a little oil and root.

We make ourselves fools, to disport ourselves;

And spend our flatteries, to drink those men

Upon whose age we void it up again,

With poisonous spite and envy.

Who lives that’s not depraved or depraves?

Who dies, that bears not one spurn to their graves

Of their friends’ gift?

I should fear those that dance before me now

Would one day stamp upon me: ‘t has been done;

Men shut their doors against a setting sun.”

FLAVIUS

(…)

‘Tis pity bounty had not eyes behind,

That man might ne’er be wretched for his mind.”

Servant

My lord, there are certain nobles of the senate

Newly alighted, and come to visit you.

TIMON

They are fairly welcome.

FLAVIUS

I beseech your honour,

Vouchsafe me a word; it does concern you near.

TIMON

Near! why then, another time I’ll hear thee:

I prithee, let’s be provided to show them

entertainment.

FLAVIUS

[Aside] I scarce know how.”

How now! what news?

Third Servant

Please you, my lord, that honourable

gentleman, Lord Lucullus, entreats your company

to-morrow to hunt with him, and has sent your honour

two brace of greyhounds.

TIMON

I’ll hunt with him; and let them be received,

Not without fair reward.”

FLAVIUS

[Aside] What will this come to?

He commands us to provide, and give great gifts,

And all out of an empty coffer:

Nor will he know his purse, or yield me this,

To show him what a beggar his heart is,

Being of no power to make his wishes good:

His promises fly so beyond his state

That what he speaks is all in debt; he owes

For every word: he is so kind that he now

Pays interest for ‘t; his land’s put to their books.

Well, would I were gently put out of office

Before I were forced out!

Happier is he that has no friend to feed

Than such that do e’en enemies exceed.

I bleed inwardly for my lord.”

TIMON

I take all and your several visitations

So kind to heart, ‘tis not enough to give;

Methinks, I could deal kingdoms to my friends,

And ne’er be weary. Alcibiades,

Thou art a soldier, therefore seldom rich;

It comes in charity to thee: for all thy living

Is ‘mongst the dead, and all the lands thou hast

Lie in a pitch’d field.

ALCIBIADES

Ay, defiled land, my lord.”

Exeunt all but APEMANTUS and TIMON

APEMANTUS

What a coil’s here!

Serving of becks and jutting-out of bums!

I doubt whether their legs be worth the sums

That are given for ‘em. Friendship’s full of dregs:

Methinks, false hearts should never have sound legs,

Thus honest fools lay out their wealth on court’sies.

TIMON

Now, Apemantus, if thou wert not sullen, I would be

good to thee.

APEMANTUS

No, I’ll nothing: for if I should be bribed too,

there would be none left to rail upon thee, and then

thou wouldst sin the faster. Thou givest so long,

Timon, I fear me thou wilt give away thyself in

paper shortly: what need these feasts, pomps and

vain-glories?

TIMON

Nay, an you begin to rail on society once, I am

sworn not to give regard to you. Farewell; and come

with better music.”

O, that men’s ears should be

To counsel deaf, but not to flattery!”

ACT II

SCENE I. A Senator’s house.

Senator

(…)

If I want gold, steal but a beggar’s dog,

And give it Timon, why, the dog coins gold.

If I would sell my horse, and buy twenty more

Better than he, why, give my horse to Timon,

Ask nothing, give it him, it foals me, straight,

And able horses. No porter at his gate,

But rather one that smiles and still invites”

Senator

(…) I love and honour him,

But must not break my back to heal his finger;

Immediate are my needs, and my relief

Must not be toss’d and turn’d to me in words,

But find supply immediate. Get you gone:

Put on a most importunate aspect,

A visage of demand; for, I do fear,

When every feather sticks in his own wing,

Lord Timon will be left a naked gull,

Which flashes now a phoenix. Get you gone.

CAPHIS

I go, sir.”

SCENE II. The same. A hall in Timon’s house.

All Servants

What are we, Apemantus?

APEMANTUS

Asses.

All Servants

Why?

APEMANTUS

That you ask me what you are, and do not know

yourselves. Speak to ‘em, fool.

Fool

How do you, gentlemen?

All Servants

Gramercies, good fool: how does your mistress?

Fool

She’s e’en setting on water to scald such chickens

as you are. Would we could see you at Corinth!

APEMANTUS

Good! gramercy.”

Fool

I think no usurer but has a fool to his servant: my

mistress is one, and I am her fool. When men come

to borrow of your masters, they approach sadly, and

go away merry; but they enter my mistress’ house

merrily, and go away sadly: the reason of this?”

TIMON

You make me marvel: wherefore ere this time

Had you not fully laid my state before me,

That I might so have rated my expense,

As I had leave of means?

FLAVIUS

You would not hear me,

At many leisures I proposed.

TIMON

Go to:

Perchance some single vantages you took.

When my indisposition put you back:

And that unaptness made your minister,

Thus to excuse yourself.”

TIMON

To Lacedaemon did my land extend.

FLAVIUS

O my good lord, the world is but a word:

Were it all yours to give it in a breath,

How quickly were it gone!”

What heart, head, sword, force, means, but is

Lord Timon’s?

Great Timon, noble, worthy, royal Timon!

Ah, when the means are gone that buy this praise,

The breath is gone whereof this praise is made:

Feast-won, fast-lost; one cloud of winter showers,

These flies are couch’d.

TIMON

Come, sermon me no further:

No villanous bounty yet hath pass’d my heart;

Unwisely, not ignobly, have I given.

Why dost thou weep? Canst thou the conscience lack,

To think I shall lack friends? Secure thy heart;

If I would broach the vessels of my love,

And try the argument of hearts by borrowing,

Men and men’s fortunes could I frankly use

As I can bid thee speak.”

TIMON

And, in some sort, these wants of mine are crown’d,

That I account them blessings; for by these

Shall I try friends: you shall perceive how you

Mistake my fortunes; I am wealthy in my friends.

Within there! Flaminius! Servilius!”

That had, give’t these fellows

To whom ‘tis instant due. Ne’er speak, or think,

That Timon’s fortunes ‘mong his friends can sink.

FLAVIUS

I would I could not think it: that thought is

bounty’s foe;

Being free itself, it thinks all others so.

Exeunt”

ACT III

SCENE I. A room in Lucullus’ house.

Draw nearer, honest Flaminius. Thy lord’s a

bountiful gentleman: but thou art wise; and thou

knowest well enough, although thou comest to me,

that this is no time to lend money, especially upon

bare friendship, without security. Here’s three

solidares for thee: good boy, wink at me, and say

thou sawest me not. Fare thee well.

FLAMINIUS

Is’t possible the world should so much differ,

And we alive that lived? Fly, damned baseness,

To him that worships thee!

Throwing the money back

LUCULLUS

Ha! now I see thou art a fool, and fit for thy master.

Exit”

Has friendship such a faint and milky heart,

It turns in less than two nights? O you gods,

I feel master’s passion!”

SCENE II. A public place.

First Stranger

We know him for no less, though we are but strangers

to him. But I can tell you one thing, my lord, and

which I hear from common rumours: now Lord Timon’s

happy hours are done and past, and his estate

shrinks from him.”

LUCILIUS

What a strange case was that! now, before the gods,

I am ashamed on’t. Denied that honourable man!

there was very little honour showed in’t. For my own

part, I must needs confess, I have received some

small kindnesses from him, as money, plate, jewels

and such-like trifles, nothing comparing to his;

yet, had he mistook him and sent to me, I should

ne’er have denied his occasion so many talents.”

SERVILIUS

Has only sent his present occasion now, my lord;

requesting your lordship to supply his instant use

with so many talents.

LUCILIUS

I know his lordship is but merry with me;

He cannot want fifty five hundred talents.”

Commend me bountifully to his good lordship; and I

hope his honour will conceive the fairest of me,

because I have no power to be kind: and tell him

this from me, I count it one of my greatest

afflictions, say, that I cannot pleasure such an

honourable gentleman. Good Servilius, will you

befriend me so far, as to use mine own words to him?”

True as you said, Timon is shrunk indeed;

And he that’s once denied will hardly speed.”

First Stranger

Do you observe this, Hostilius?

Second Stranger

Ay, too well.

First Stranger

Why, this is the world’s soul; and just of the

same piece

Is every flatterer’s spirit. Who can call him

His friend that dips in the same dish? for, in

My knowing, Timon has been this lord’s father,

And kept his credit with his purse,

Supported his estate; nay, Timon’s money

Has paid his men their wages: he ne’er drinks,

But Timon’s silver treads upon his lip;

And yet–O, see the monstrousness of man

When he looks out in an ungrateful shape!–

He does deny him, in respect of his,

What charitable men afford to beggars.”

SCENE III. A room in Sempronius’ house.

SEMPRONIUS

Must he needs trouble me in ‘t,–hum!–‘bove

all others?

He might have tried Lord Lucius or Lucullus;

And now Ventidius is wealthy too,

Whom he redeem’d from prison: all these

Owe their estates unto him.

Servant

My lord,

They have all been touch’d and found base metal, for

They have all denied him.”

Must I be his last refuge! His friends, like

physicians,

Thrive, give him over: must I take the cure upon me?

Has much disgraced me in’t; I’m angry at him,

That might have known my place: I see no sense for’t,

But his occasion might have woo’d me first;

For, in my conscience, I was the first man

That e’er received gift from him:

And does he think so backwardly of me now,

That I’ll requite its last? No:

So it may prove an argument of laughter

To the rest, and ‘mongst lords I be thought a fool.

I’ld rather than the worth of thrice the sum,

Had sent to me first, but for my mind’s sake;

I’d such a courage to do him good. But now return,

And with their faint reply this answer join;

Who bates mine honour shall not know my coin.

Exit”

The devil knew not what he did when he made man politic; he crossed himself by ‘t: and I cannot think but, in the end, the villainies of man will set him clear.”

This was my lord’s best hope; now all are fled,

Save only the gods: now his friends are dead,

Doors, that were ne’er acquainted with their wards

Many a bounteous year must be employ’d

Now to guard sure their master.

And this is all a liberal course allows;

Who cannot keep his wealth must keep his house.”

SCENE IV. The same. A hall in Timon’s house.

PHILOTUS

(…)

You must consider that a prodigal course

Is like the sun’s; but not, like his, recoverable.

I fear ‘tis deepest winter in Lord Timon’s purse;

That is one may reach deep enough, and yet

Find little.”

HORTENSIUS

I’m weary of this charge, the gods can witness:

I know my lord hath spent of Timon’s wealth,

And now ingratitude makes it worse than stealth.

Varro’s First Servant

Yes, mine’s three thousand crowns: what’s yours?

Lucilius’ Servant

Five thousand mine.

Varro’s First Servant

‘Tis much deep: and it should seem by the sun,

Your master’s confidence was above mine;

Else, surely, his had equall’d.”

FLAVIUS

Ay,

If money were as certain as your waiting,

‘Twere sure enough.

Why then preferr’d you not your sums and bills,

When your false masters eat of my lord’s meat?

Then they could smile and fawn upon his debts

And take down the interest into their

gluttonous maws.

You do yourselves but wrong to stir me up;

Let me pass quietly:

Believe ‘t, my lord and I have made an end;

I have no more to reckon, he to spend.

Lucilius’ Servant

Ay, but this answer will not serve.

FLAVIUS

If ‘twill not serve,’tis not so base as you;

For you serve knaves.

Exit”

Second Servant

No matter what; he’s poor, and that’s revenge

enough. Who can speak broader than he that has no

house to put his head in? such may rail against

great buildings.”

FLAVIUS

O my lord,

You only speak from your distracted soul;

There is not so much left, to furnish out

A moderate table.

TIMON

Be’t not in thy care; go,

I charge thee, invite them all: let in the tide

Of knaves once more; my cook and I’ll provide.

Exeunt”

SCENE V. The same. The senate-house. The Senate sitting.

ALCIBIADES

(…)

Who cannot condemn rashness in cold blood?

To kill, I grant, is sin’s extremest gust;

But, in defence, by mercy, ‘tis most just.

To be in anger is impiety;

But who is man that is not angry?

Weigh but the crime with this.”

ALCIBIADES

I say, my lords, he has done fair service,

And slain in fight many of your enemies:

How full of valour did he bear himself

In the last conflict, and made plenteous wounds!”

ALCIBIADES

Hard fate! he might have died in war.

My lords, if not for any parts in him–

Though his right arm might purchase his own time

And be in debt to none–yet, more to move you,

Take my deserts to his, and join ‘em both:

And, for I know your reverend ages love

Security, I’ll pawn my victories, all

My honours to you, upon his good returns.

If by this crime he owes the law his life,

Why, let the war receive ‘t in valiant gore

For law is strict, and war is nothing more.

First Senator

We are for law: he dies; urge it no more,

On height of our displeasure: friend or brother,

He forfeits his own blood that spills another.”

ALCIBIADES

Banish me!

Banish your dotage; banish usury,

That makes the senate ugly.

First Senator

If, after two days’ shine, Athens contain thee,

Attend our weightier judgment. And, not to swell

our spirit,

He shall be executed presently.

Exeunt Senators”

“…Banishment!

It comes not ill; I hate not to be banish’d;

It is a cause worthy my spleen and fury,

That I may strike at Athens. I’ll cheer up

My discontented troops, and lay for hearts.

‘Tis honour with most lands to be at odds;

Soldiers should brook as little wrongs as gods.

Exit”

SCENE VI. The same. A banqueting-room in Timon’s house.

Enter TIMON and Attendants

TIMON

With all my heart, gentlemen both; and how fare you?

First Lord

Ever at the best, hearing well of your lordship.”

“…Gentlemen, our dinner will not

recompense this long stay: feast your ears with the

music awhile, if they will fare so harshly o’ the

trumpet’s sound; we shall to ‘t presently.”

Second Lord

My most honourable lord, I am e’en sick of shame,

that, when your lordship this other day sent to me,

I was so unfortunate a beggar.

TIMON

Think not on ‘t, sir.

Second Lord

If you had sent but two hours before,–

TIMON

Let it not cumber your better remembrance.

The banquet brought in”

Third Lord

Alcibiades is banished: hear you of it?

First Lord, Second Lord

Alcibiades banished!

Third Lord

‘Tis so, be sure of it.

First Lord

How! how!

Second Lord

I pray you, upon what?

TIMON

My worthy friends, will you draw near?

Third Lord

I’ll tell you more anon. Here’s a noble feast toward.

Second Lord

This is the old man still.

Third Lord

Will ‘t hold? will ‘t hold?

Second Lord

It does: but time will–and so–

Third Lord

I do conceive.

TIMON

Each man to his stool, with that spur as he would to

the lip of his mistress: your diet shall be in all

places alike. Make not a city feast of it, to let

the meat cool ere we can agree upon the first place:

sit, sit. The gods require our thanks.

You great benefactors, sprinkle our society with

thankfulness. For your own gifts, make yourselves

praised: but reserve still to give, lest your

deities be despised. Lend to each man enough, that

one need not lend to another; for, were your

godheads to borrow of men, men would forsake the

gods. Make the meat be beloved more than the man

that gives it. Let no assembly of twenty be without

a score of villains: if there sit twelve women at

the table, let a dozen of them be–as they are. The

rest of your fees, O gods–the senators of Athens,

together with the common lag of people–what is

amiss in them, you gods, make suitable for

destruction. For these my present friends, as they

are to me nothing, so in nothing bless them, and to

nothing are they welcome.

Uncover, dogs, and lap.

The dishes are uncovered and seen to be full of warm water”

Some Speak

What does his lordship mean?

Some Others

I know not.

TIMON

May you a better feast never behold,

You knot of mouth-friends I smoke and lukewarm water

Is your perfection. This is Timon’s last;

Who, stuck and spangled with your flatteries,

Washes it off, and sprinkles in your faces

Your reeking villany.

Throwing the water in their faces

Live loathed and long,

Most smiling, smooth, detested parasites,

Courteous destroyers, affable wolves, meek bears,

You fools of fortune, trencher-friends, time’s flies,

Cap and knee slaves, vapours, and minute-jacks!

Of man and beast the infinite malady

Crust you quite o’er! What, dost thou go?

Soft! take thy physic first–thou too–and thou;–

Stay, I will lend thee money, borrow none.

Throws the dishes at them, and drives them out

What, all in motion? Henceforth be no feast,

Whereat a villain’s not a welcome guest.

Burn, house! sink, Athens! henceforth hated be

Of Timon man and all humanity!

Exit”

First Lord

He’s but a mad lord, and nought but humour sways him.

He gave me a jewel th’ other day, and now he has

beat it out of my hat: did you see my jewel?

Third Lord

Did you see my cap?

Second Lord

Here ‘tis.

Fourth Lord

Here lies my gown.

First Lord

Let’s make no stay.

Second Lord

Lord Timon’s mad.

Third Lord

I feel ‘t upon my bones.

Fourth Lord

One day he gives us diamonds, next day stones.

Exeunt”

ACT IV

SCENE I. Without the walls of Athens.

Enter TIMON

TIMON

Let me look back upon thee. O thou wall,

That girdlest in those wolves, dive in the earth,

And fence not Athens! Matrons, turn incontinent!

Obedience fail in children! slaves and fools,

Pluck the grave wrinkled senate from the bench,

And minister in their steads! to general filths

Convert o’ the instant, green virginity,

Do ‘t in your parents’ eyes! bankrupts, hold fast;

Rather than render back, out with your knives,

And cut your trusters’ throats! bound servants, steal!

Large-handed robbers your grave masters are,

And pill by law. Maid, to thy master’s bed;

Thy mistress is o’ the brothel! Son of sixteen,

pluck the lined crutch from thy old limping sire,

With it beat out his brains! Piety, and fear,

Religion to the gods, peace, justice, truth,

Domestic awe, night-rest, and neighbourhood,

Instruction, manners, mysteries, and trades,

Degrees, observances, customs, and laws,

Decline to your confounding contraries,

And let confusion live! Plagues, incident to men,

Your potent and infectious fevers heap

On Athens, ripe for stroke! Thou cold sciatica,

Cripple our senators, that their limbs may halt

As lamely as their manners. Lust and liberty

Creep in the minds and marrows of our youth,

That ‘gainst the stream of virtue they may strive,

And drown themselves in riot! Itches, blains,

Sow all the Athenian bosoms; and their crop

Be general leprosy! Breath infect breath,

at their society, as their friendship, may

merely poison! Nothing I’ll bear from thee,

But nakedness, thou detestable town!

Take thou that too, with multiplying bans!

Timon will to the woods; where he shall find

The unkindest beast more kinder than mankind.

The gods confound–hear me, you good gods all–

The Athenians both within and out that wall!

And grant, as Timon grows, his hate may grow

To the whole race of mankind, high and low! Amen.”

SCENE II. Athens. A room in Timon’s house.

First Servant

Hear you, master steward, where’s our master?

Are we undone? cast off? nothing remaining?

FLAVIUS

Alack, my fellows, what should I say to you?

Let me be recorded by the righteous gods,

I am as poor as you.”

Enter other Servants

FLAVIUS

All broken implements of a ruin’d house.

Third Servant

Yet do our hearts wear Timon’s livery;

That see I by our faces; we are fellows still,

Serving alike in sorrow: leak’d is our bark,

And we, poor mates, stand on the dying deck,

Hearing the surges threat: we must all part

Into this sea of air.”

O, the fierce wretchedness that glory brings us!

Who would not wish to be from wealth exempt,

Since riches point to misery and contempt?

Who would be so mock’d with glory? or to live

But in a dream of friendship?

To have his pomp and all what state compounds

But only painted, like his varnish’d friends?

(…)

I’ll follow and inquire him out:

I’ll ever serve his mind with my best will;

Whilst I have gold, I’ll be his steward still.”

SCENE III. Woods and cave, near the seashore.

The senator shall bear contempt hereditary,

The beggar native honour.

It is the pasture lards the rother’s sides,

The want that makes him lean. Who dares, who dares,

In purity of manhood stand upright,

And say ‘This man’s a flatterer?’ if one be,

So are they all; for every grise of fortune

Is smooth’d by that below: the learned pate

Ducks to the golden fool: all is oblique;

There’s nothing level in our cursed natures,

But direct villany. Therefore, be abhorr’d

All feasts, societies, and throngs of men!”

Ha, you gods! why this? what this, you gods? Why, this

Will lug your priests and servants from your sides,

Pluck stout men’s pillows from below their heads:

This yellow slave

Will knit and break religions, bless the accursed,

Make the hoar leprosy adored, place thieves

And give them title, knee and approbation

With senators on the bench: this is it

That makes the wappen’d widow wed again;

She, whom the spital-house and ulcerous sores

Would cast the gorge at, this embalms and spices

To the April day again. Come, damned earth,

Thou common whore of mankind, that put’st odds

Among the route of nations, I will make thee

Do thy right nature.”

ALCIBIADES

What art thou there? speak.

TIMON

A beast, as thou art. The canker gnaw thy heart,

For showing me again the eyes of man!

ALCIBIADES

What is thy name? Is man so hateful to thee,

That art thyself a man?

TIMON

I am Misanthropos, and hate mankind.

For thy part, I do wish thou wert a dog,

That I might love thee something.”

Religious canons, civil laws are cruel;

Then what should war be? This fell whore of thine

Hath in her more destruction than thy sword,

For all her cherubim look.

PHRYNIA

Thy lips rot off!

TIMON

I will not kiss thee; then the rot returns

To thine own lips again.

ALCIBIADES

How came the noble Timon to this change?

TIMON

As the moon does, by wanting light to give:

But then renew I could not, like the moon;

There were no suns to borrow of.

ALCIBIADES

Noble Timon,

What friendship may I do thee?

TIMON

None, but to

Maintain my opinion.

ALCIBIADES

What is it, Timon?

TIMON

Promise me friendship, but perform none: if thou

wilt not promise, the gods plague thee, for thou art

a man! if thou dost perform, confound thee, for

thou art a man!

ALCIBIADES

I have heard in some sort of thy miseries.

TIMON

Thou saw’st them, when I had prosperity.

ALCIBIADES

I see them now; then was a blessed time.

TIMON

As thine is now, held with a brace of harlots.

TIMANDRA

Is this the Athenian minion, whom the world

Voiced so regardfully?

TIMON

Art thou Timandra?

TIMANDRA

Yes.

TIMON

Be a whore still: they love thee not that use thee;

Give them diseases, leaving with thee their lust.

Make use of thy salt hours: season the slaves

For tubs and baths; bring down rose-cheeked youth

To the tub-fast and the diet.”

TIMON

I prithee, beat thy drum, and get thee gone.

ALCIBIADES

I am thy friend, and pity thee, dear Timon.

TIMON

How dost thou pity him whom thou dost trouble?

I had rather be alone.

ALCIBIADES

Why, fare thee well:

Here is some gold for thee.

TIMON

Keep it, I cannot eat it.

ALCIBIADES

When I have laid proud Athens on a heap,–

TIMON

Warr’st thou ‘gainst Athens?

ALCIBIADES

Ay, Timon, and have cause.

TIMON

The gods confound them all in thy conquest;

And thee after, when thou hast conquer’d!

ALCIBIADES

Why me, Timon?

TIMON

That, by killing of villains,

Thou wast born to conquer my country.

Put up thy gold: go on,–here’s gold,–go on;

Be as a planetary plague, when Jove

Will o’er some high-viced city hang his poison

In the sick air: let not thy sword skip one:

Pity not honour’d age for his white beard;

He is an usurer: strike me the counterfeit matron;

It is her habit only that is honest,

Herself’s a bawd: let not the virgin’s cheek

Make soft thy trenchant sword; for those milk-paps,

That through the window-bars bore at men’s eyes,

Are not within the leaf of pity writ,

But set them down horrible traitors: spare not the babe,

Whose dimpled smiles from fools exhaust their mercy;

Think it a bastard, whom the oracle

Hath doubtfully pronounced thy throat shall cut,

And mince it sans remorse: swear against objects;

Put armour on thine ears and on thine eyes;

Whose proof, nor yells of mothers, maids, nor babes,

Nor sight of priests in holy vestments bleeding,

Shall pierce a jot. There’s gold to pay soldiers:

Make large confusion; and, thy fury spent,

Confounded be thyself! Speak not, be gone.

ALCIBIADES

Hast thou gold yet? I’ll take the gold thou

givest me,

Not all thy counsel.

TIMON

Dost thou, or dost thou not, heaven’s curse

upon thee!

PHRYNIA TIMANDRA

Give us some gold, good Timon: hast thou more?”

“…Hold up, you sluts,

Your aprons mountant: you are not oathable,

Although, I know, you ‘ll swear, terribly swear

Into strong shudders and to heavenly agues

The immortal gods that hear you,–spare your oaths,

I’ll trust to your conditions: be whores still;

And he whose pious breath seeks to convert you,

Be strong in whore, allure him, burn him up;

Let your close fire predominate his smoke,

And be no turncoats: yet may your pains, six months,

Be quite contrary: and thatch your poor thin roofs

With burthens of the dead;–some that were hang’d,

No matter:–wear them, betray with them: whore still;

Paint till a horse may mire upon your face,

A pox of wrinkles!”

“…Crack the lawyer’s voice,

That he may never more false title plead,

Nor sound his quillets shrilly: hoar the flamen,

That scolds against the quality of flesh,

And not believes himself: down with the nose,

Down with it flat; take the bridge quite away

Of him that, his particular to foresee,

Smells from the general weal: make curl’d-pate

ruffians bald”

That your activity may defeat and quell

The source of all erection. There’s more gold:

Do you damn others, and let this damn you,

And ditches grave you all!

PHRYNIA, TIMANDRA

More counsel with more money, bounteous Timon.

TIMON

More whore, more mischief first; I have given you earnest.”

ALCIBIADES

(…)

If I thrive well, I’ll visit thee again.

TIMON

If I hope well, I’ll never see thee more.

ALCIBIADES

I never did thee harm.

TIMON

Yes, thou spokest well of me.

ALCIBIADES

Call’st thou that harm?

TIMON

Men daily find it. Get thee away, and take

Thy beagles with thee.

ALCIBIADES

We but offend him. Strike!”

Go great with tigers, dragons, wolves, and bears;

Teem with new monsters, whom thy upward face

Hath to the marbled mansion all above

Never presented!–O, a root,–dear thanks!–

Dry up thy marrows, vines, and plough-torn leas;

Whereof ungrateful man, with liquorish draughts

And morsels unctuous, greases his pure mind,

That from it all consideration slips!

Enter APEMANTUS

More man? plague, plague!

APEMANTUS

I was directed hither: men report

Thou dost affect my manners, and dost use them.

TIMON

‘Tis, then, because thou dost not keep a dog,

Whom I would imitate: consumption catch thee!”

Thy flatterers yet wear silk, drink wine, lie soft;

Hug their diseased perfumes, and have forgot

That ever Timon was. Shame not these woods,

By putting on the cunning of a carper.

Be thou a flatterer now, and seek to thrive

By that which has undone thee: hinge thy knee,

And let his very breath, whom thou’lt observe,

Blow off thy cap; praise his most vicious strain,

And call it excellent: thou wast told thus;

Thou gavest thine ears like tapsters that bid welcome

To knaves and all approachers: ‘tis most just

That thou turn rascal; hadst thou wealth again,

Rascals should have ‘t. Do not assume my likeness.”

A madman so long, now a fool. What, think’st

That the bleak air, thy boisterous chamberlain,

Will put thy shirt on warm? will these moss’d trees,

That have outlived the eagle, page thy heels,

And skip where thou point’st out? will the

cold brook,

Candied with ice, caudle thy morning taste,

To cure thy o’er-night’s surfeit? Call the creatures

Whose naked natures live in an the spite

Of wreakful heaven, whose bare unhoused trunks,

To the conflicting elements exposed,

Answer mere nature; bid them flatter thee;

O, thou shalt find–

TIMON

A fool of thee: depart.

APEMANTUS

I love thee better now than e’er I did.

TIMON

I hate thee worse.

APEMANTUS

Why?

TIMON

Thou flatter’st misery.

APEMANTUS

I flatter not; but say thou art a caitiff.

TIMON

Why dost thou seek me out?

APEMANTUS

To vex thee.

TIMON

Always a villain’s office or a fool’s.

Dost please thyself in’t?

APEMANTUS

Ay.

TIMON

What! a knave too?

APEMANTUS

If thou didst put this sour-cold habit on

To castigate thy pride, ‘twere well: but thou

Dost it enforcedly; thou’ldst courtier be again,

Wert thou not beggar. Willing misery

Outlives encertain pomp, is crown’d before:

The one is filling still, never complete;

The other, at high wish: best state, contentless,

Hath a distracted and most wretched being,

Worse than the worst, content.

Thou shouldst desire to die, being miserable.”

“…But myself,

Who had the world as my confectionary,

The mouths, the tongues, the eyes and hearts of men

At duty, more than I could frame employment,

That numberless upon me stuck as leaves

Do on the oak, hive with one winter’s brush

Fell from their boughs and left me open, bare

For every storm that blows: I, to bear this,

That never knew but better, is some burden:

Thy nature did commence in sufferance, time

Hath made thee hard in’t. Why shouldst thou hate men?

They never flatter’d thee: what hast thou given?

If thou wilt curse, thy father, that poor rag,

Must be thy subject, who in spite put stuff

To some she beggar and compounded thee

Poor rogue hereditary. Hence, be gone!

If thou hadst not been born the worst of men,

Thou hadst been a knave and flatterer.”

That the whole life of Athens were in this!

Thus would I eat it.

Eating a root”

APEMANTUS

What wouldst thou have to Athens?

TIMON

Thee thither in a whirlwind. If thou wilt,

Tell them there I have gold; look, so I have.

APEMANTUS

Here is no use for gold.

TIMON

The best and truest;

For here it sleeps, and does no hired harm.

APEMANTUS

Where liest o’ nights, Timon?

TIMON

Under that’s above me.

Where feed’st thou o’ days, Apemantus?

APEMANTUS

Where my stomach finds meat; or, rather, where I eat

it.

TIMON

Would poison were obedient and knew my mind!

APEMANTUS

Where wouldst thou send it?

TIMON

To sauce thy dishes.

APEMANTUS

The middle of humanity thou never knewest, but the

extremity of both ends: when thou wast in thy gilt

and thy perfume, they mocked thee for too much

curiosity; in thy rags thou knowest none, but art

despised for the contrary. There’s a medlar for

thee, eat it.

TIMON

On what I hate I feed not.

APEMANTUS

Dost hate a medlar?

TIMON

Ay, though it look like thee.

APEMANTUS

An thou hadst hated meddlers sooner, thou shouldst

have loved thyself better now. What man didst thou

ever know unthrift that was beloved after his means?”

APEMANTUS

What things in the world canst thou nearest compare

to thy flatterers?

TIMON

Women nearest; but men, men are the things

themselves. What wouldst thou do with the world,

Apemantus, if it lay in thy power?

APEMANTUS

Give it the beasts, to be rid of the men.”

TIMON

A beastly ambition, which the gods grant thee t’

attain to! If thou wert the lion, the fox would

beguile thee; if thou wert the lamb, the fox would

eat three: if thou wert the fox, the lion would

suspect thee, when peradventure thou wert accused by

the ass: if thou wert the ass, thy dulness would

torment thee, and still thou livedst but as a

breakfast to the wolf: if thou wert the wolf, thy

greediness would afflict thee, and oft thou shouldst

hazard thy life for thy dinner: wert thou the

unicorn, pride and wrath would confound thee and

make thine own self the conquest of thy fury: wert

thou a bear, thou wouldst be killed by the horse:

wert thou a horse, thou wouldst be seized by the

leopard: wert thou a leopard, thou wert german to

the lion and the spots of thy kindred were jurors on

thy life: all thy safety were remotion and thy

defence absence. What beast couldst thou be, that

were not subject to a beast? and what a beast art

thou already, that seest not thy loss in

transformation!

APEMANTUS

If thou couldst please me with speaking to me, thou

mightst have hit upon it here: the commonwealth of

Athens is become a forest of beasts.

TIMON

How has the ass broke the wall, that thou art out of the city?

APEMANTUS

Yonder comes a poet and a painter: the plague of

company light upon thee! I will fear to catch it

and give way: when I know not what else to do, I’ll

see thee again.

TIMON

When there is nothing living but thee, thou shalt be

welcome. I had rather be a beggar’s dog than Apemantus.”

TIMON

Would thou wert clean enough to spit upon!

APEMANTUS

A plague on thee! thou art too bad to curse.

TIMON

All villains that do stand by thee are pure.

APEMANTUS

There is no leprosy but what thou speak’st.

TIMON

If I name thee.

I’ll beat thee, but I should infect my hands.

APEMANTUS

I would my tongue could rot them off!

TIMON

Away, thou issue of a mangy dog!

Choler does kill me that thou art alive;

I swound to see thee.

APEMANTUS

Would thou wouldst burst!

TIMON

Away,

Thou tedious rogue! I am sorry I shall lose

A stone by thee.

Throws a stone at him

APEMANTUS

Beast!

TIMON

Slave!

APEMANTUS

Toad!

TIMON

Rogue, rogue, rogue!

I am sick of this false world, and will love nought

But even the mere necessities upon ‘t.

Then, Timon, presently prepare thy grave;

Lie where the light foam the sea may beat

Thy grave-stone daily: make thine epitaph,

That death in me at others’ lives may laugh.”

APEMANTUS

Live, and love thy misery.

TIMON

Long live so, and so die.

Exit APEMANTUS

I am quit.

Moe things like men! Eat, Timon, and abhor them.

Enter Banditti

First Bandit

Where should he have this gold? It is some poor

fragment, some slender sort of his remainder: the

mere want of gold, and the falling-from of his

friends, drove him into this melancholy.”

Banditti

Save thee, Timon.

TIMON

Now, thieves?

Banditti

Soldiers, not thieves.

TIMON

Both too; and women’s sons.

Banditti

We are not thieves, but men that much do want.”

First Bandit

We cannot live on grass, on berries, water,

As beasts and birds and fishes.

TIMON

Nor on the beasts themselves, the birds, and fishes;

You must eat men. Yet thanks I must you con

That you are thieves profess’d, that you work not

In holier shapes: for there is boundless theft

In limited professions. Rascal thieves,

Here’s gold. Go, suck the subtle blood o’ the grape,

Till the high fever seethe your blood to froth,

And so ‘scape hanging: trust not the physician;

His antidotes are poison, and he slays

Moe than you rob: take wealth and lives together;

Do villany, do, since you protest to do’t,

Like workmen. I’ll example you with thievery.

The sun’s a thief, and with his great attraction

Robs the vast sea: the moon’s an arrant thief,

And her pale fire she snatches from the sun:

The sea’s a thief, whose liquid surge resolves

The moon into salt tears: the earth’s a thief,

That feeds and breeds by a composture stolen

From general excrement: each thing’s a thief:

The laws, your curb and whip, in their rough power

Have uncheque’d theft. Love not yourselves: away,

Rob one another. There’s more gold. Cut throats:

All that you meet are thieves: to Athens go,

Break open shops; nothing can you steal,

But thieves do lose it: steal no less for this

I give you; and gold confound you howsoe’er! Amen.”

What an alteration of honour

Has desperate want made!

What viler thing upon the earth than friends

Who can bring noblest minds to basest ends!

How rarely does it meet with this time’s guise,

When man was wish’d to love his enemies!

Grant I may ever love, and rather woo

Those that would mischief me than those that do!

Has caught me in his eye: I will present

My honest grief unto him; and, as my lord,

Still serve him with my life. My dearest master!

TIMON

Away! what art thou?

FLAVIUS

Have you forgot me, sir?”

I never had honest man about me, I; all

I kept were knaves, to serve in meat to villains.

FLAVIUS

The gods are witness,

Ne’er did poor steward wear a truer grief

For his undone lord than mine eyes for you.”

TIMON

What, dost thou weep? Come nearer. Then I

love thee,

Because thou art a woman, and disclaim’st

Flinty mankind; whose eyes do never give

But thorough lust and laughter. Pity’s sleeping:

Strange times, that weep with laughing, not with weeping!”

TIMON

Had I a steward

So true, so just, and now so comfortable?

It almost turns my dangerous nature mild.

Let me behold thy face. Surely, this man

Was born of woman.

Forgive my general and exceptless rashness,

You perpetual-sober gods! I do proclaim

One honest man–mistake me not–but one;

No more, I pray,–and he’s a steward.

How fain would I have hated all mankind!

And thou redeem’st thyself: but all, save thee,

I fell with curses.

Methinks thou art more honest now than wise;

For, by oppressing and betraying me,

Thou mightst have sooner got another service:

For many so arrive at second masters,

Upon their first lord’s neck. But tell me true–

For I must ever doubt, though ne’er so sure–

Is not thy kindness subtle, covetous,

If not a usuring kindness, and, as rich men deal gifts,

Expecting in return twenty for one?”

That which I show, heaven knows, is merely love,

Duty and zeal to your unmatched mind,

Care of your food and living; and, believe it,

My most honour’d lord,

For any benefit that points to me,

Either in hope or present, I’ld exchange

For this one wish, that you had power and wealth

To requite me, by making rich yourself.

TIMON

Look thee, ‘tis so! Thou singly honest man,

Here, take: the gods out of my misery

Have sent thee treasure. Go, live rich and happy;

But thus condition’d: thou shalt build from men;

Hate all, curse all, show charity to none,

But let the famish’d flesh slide from the bone,

Ere thou relieve the beggar; give to dogs

What thou deny’st to men; let prisons swallow ‘em,

Debts wither ‘em to nothing; be men like

blasted woods,

And may diseases lick up their false bloods!

And so farewell and thrive.”

ACT V

SCENE I. The woods. Before Timon’s cave.

Painter

Good as the best. Promising is the very air o’ the

time: it opens the eyes of expectation:

performance is ever the duller for his act; and,

but in the plainer and simpler kind of people, the

deed of saying is quite out of use. To promise is

most courtly and fashionable: performance is a kind

of will or testament which argues a great sickness

in his judgment that makes it.”

First Senator

O, forget

What we are sorry for ourselves in thee.

The senators with one consent of love

Entreat thee back to Athens; who have thought

On special dignities, which vacant lie

For thy best use and wearing.

Second Senator

They confess

Toward thee forgetfulness too general, gross:

Which now the public body, which doth seldom

Play the recanter, feeling in itself

A lack of Timon’s aid, hath sense withal

Of its own fail, restraining aid to Timon;

And send forth us, to make their sorrow’d render,

Together with a recompense more fruitful

Than their offence can weigh down by the dram;

Ay, even such heaps and sums of love and wealth

As shall to thee blot out what wrongs were theirs

And write in thee the figures of their love,

Ever to read them thine.”

TIMON

Well, sir, I will; therefore, I will, sir; thus:

If Alcibiades kill my countrymen,

Let Alcibiades know this of Timon,

That Timon cares not. But if be sack fair Athens,

And take our goodly aged men by the beards,

Giving our holy virgins to the stain

Of contumelious, beastly, mad-brain’d war,

Then let him know, and tell him Timon speaks it,

In pity of our aged and our youth,

I cannot choose but tell him, that I care not,

And let him take’t at worst; for their knives care not,

While you have throats to answer: for myself,

There’s not a whittle in the unruly camp

But I do prize it at my love before

The reverend’st throat in Athens. So I leave you

To the protection of the prosperous gods,

As thieves to keepers.

FLAVIUS

Stay not, all’s in vain.”

TIMON

I have a tree, which grows here in my close,

That mine own use invites me to cut down,

And shortly must I fell it: tell my friends,

Tell Athens, in the sequence of degree

From high to low throughout, that whoso please

To stop affliction, let him take his haste,

Come hither, ere my tree hath felt the axe,

And hang himself. I pray you, do my greeting.”

TIMON

Come not to me again: but say to Athens,

Timon hath made his everlasting mansion

Upon the beached verge of the salt flood;

Who once a day with his embossed froth

The turbulent surge shall cover: thither come,

And let my grave-stone be your oracle.

Lips, let sour words go by and language end:

What is amiss plague and infection mend!

Graves only be men’s works and death their gain!

Sun, hide thy beams! Timon hath done his reign.

Retires to his cave”

SCENE II. Before the walls of Athens.

.

.

.

SCENE III. The woods. Timon’s cave, and a rude tomb seen.

Soldier

(…)

Timon is dead, who hath outstretch’d his span:

Some beast rear’d this; there does not live a man.

Dead, sure; and this his grave. What’s on this tomb

I cannot read; the character I’ll take with wax:

Our captain hath in every figure skill,

An aged interpreter, though young in days:

Before proud Athens he’s set down by this,

Whose fall the mark of his ambition is.

Exit”

SCENE IV. Before the walls of Athens.

First Senator

All have not offended;

For those that were, it is not square to take

On those that are, revenges: crimes, like lands,

Are not inherited. Then, dear countryman,

Bring in thy ranks, but leave without thy rage:

Spare thy Athenian cradle and those kin

Which in the bluster of thy wrath must fall

With those that have offended: like a shepherd,

Approach the fold and cull the infected forth,

But kill not all together.”

Second Senator

Throw thy glove,

Or any token of thine honour else,

That thou wilt use the wars as thy redress

And not as our confusion, all thy powers

Shall make their harbour in our town, till we

Have seal’d thy full desire.

ALCIBIADES

Then there’s my glove;

Descend, and open your uncharged ports:

Those enemies of Timon’s and mine own

Whom you yourselves shall set out for reproof

Fall and no more: and, to atone your fears

With my more noble meaning, not a man

Shall pass his quarter, or offend the stream

Of regular justice in your city’s bounds,

But shall be render’d to your public laws

At heaviest answer.

Both

‘Tis most nobly spoken.

ALCIBIADES

Descend, and keep your words.

The Senators descend, and open the gates

Enter Soldier

Soldier

My noble general, Timon is dead;

Entomb’d upon the very hem o’ the sea;

And on his grave-stone this insculpture, which

With wax I brought away, whose soft impression

Interprets for my poor ignorance.

ALCIBIADES

[Reads the epitaph] ‘Here lies a

wretched corse, of wretched soul bereft:

Seek not my name: a plague consume you wicked

caitiffs left!

Here lie I, Timon; who, alive, all living men did hate:

Pass by and curse thy fill, but pass and stay

not here thy gait.’

(…) Dead

Is noble Timon: of whose memory

Hereafter more. Bring me into your city,

And I will use the olive with my sword,

Make war breed peace, make peace stint war, make each

Prescribe to other as each other’s leech.

Let our drums strike.

Exeunt

The End”

SER E TEMPO – Heidegger (trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback, Ed. Universitária São Francisco)

15ª edição, 2005, Vozes.

APRESENTAÇÃO – Emmnauel Carneiro Leão

Não tanto o rigor sistemático como, sobretudo, o caráter provocador do questionamento fizeram da questão de Ser e Tempo o maior desafio para o pensar do séc. XX. Em ritmo revolucionário, Ser e Tempo se pôs à altura da Fenomenologia do Espírito (…) e do Zaratustra (…)”

tudo é pensável a não ser a condição de possibilidade da própria representação.” Emulação simples de Schopenhauer

Para o pensamento não há lugar preenchido num tempo ocupado.”

Esta imersão nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de falar e dizer o que é o ser.”

ainda não chegamos ao <coração intrépido do des-velamento da circularidade perfeita>”

viagem de retraimento de um horizonte que, longe de nos repelir, nos atrai e arrasta.”

atravessar o esquematismo” atravessar o pântano hegeliano!

As peculiaridades e estranhezas da linguagem de Ser e Tempo não provêm de idiossincrasias do autor. São exigências e imposições da própria viagem da questão, pelas vias das línguas.” “A tradução brasileira de Márcia Sá Cavalcanti se sobrecarrega das dificuldades inerentes ao estágio atual da língua portuguesa.” “Sem um mínimo de respeito, sem o menor esforço de naturalização, transplantam-se as palavras técnicas, os termos científicos, as siglas publicitárias das línguas exportadoras de bens, serviços e invenções para as línguas importadoras. … e em conseqüência se esvai a vitalidade no falar e dizer” “O português ainda não explorou nem desenvolveu o suficiente os recursos de seu espírito criador com tentativas renovadas de pensamento filosófico, poético ou inventivo. Por isso não tem [sequer] muita tradição de fracasso na vida do pensamento. E, sem fracasso em tentativas de dizer e escutar o gênio da linguagem nas aventuras do discurso, não se aprende nem a pensar o não-dito da fala e do silêncio, nem a esperar o inesperado nas esperas e esperanças de um povo empenhado pela identidade” Bela prosa cacofônico-poética!

o silêncio do sentido (…) nada criativo” Na verdade o prefaciador perdeu uma excepcional oportunidade: calar-se.

OBSERVAÇÃO PRELIMINAR À 7ª EDIÇÃO, 1953 (25 anos depois…)

O que pode querer dizer um livro inacabado que foi desistido de ser acabado? Heidegger desacredita de sua própria obra ou tinha forçosamente de ser assim, desde o momento mais originário?

remete-se à [He.] Introdução à metafísica

* * *

Será que hoje temos uma resposta para a pergunta sobre o que queremos dizer com a palavra <ente> [coisa]? De forma alguma.”

Será que hoje estamos em aporia por não compreendermos a expressão <ser>? De forma alguma.”

A elaboração concreta da questão sobre o sentido do <ser> é o propósito do presente tratado. A interpretação do tempo como horizonte possível de toda e qualquer compreensão do ser em geral é sua meta provisória.” O leitor está avisado: propor-se-á a questão, sem qualquer rudimento seguro de resposta. Num longo e denso tratado. Ao menos eu o “encolhi” nesta seleção dos trechos fundamentais (explicados e criticados)!

EXPOSIÇÃO DA QUESTÃO SOBRE O SENTIDO DO SER [INTRODUÇÃO]

1. NECESSIDADE, ESTRUTURA E PRIMADO DA QUESTÃO DO SER

O que Aristóteles e Platão conquistaram manteve-se, em muitas distorções e <recauchutagens>, até a Lógica de Hegel. E o que se arrancou aos fenômenos encontra-se trivializado.”

evidência meridiana”

Illud, quod primo cadit sub apprehensione, est ens, cuius intellectus includitur in omnibus, quaecumque quis apprehendit.” Tomás de Aquino

Uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se apreende na coisa.”

Unidade da analogia: com essa descoberta, Aristóteles colocou numa base nova o problema do ser, apesar de toda dependência da questão ontológica de Platão. No entanto, ele também não esclareceu a obscuridade desses nexos categoriais. A ontologia medieval discutiu variadamente o problema, sobretudo nas escolas tomista e escotista, sem, no entanto, chegar a uma clareza de princípio. E quando, por fim, Hegel determina o <ser> como o <imediato indeterminado> e coloca essa determinação à base de todas as ulteriores explicações categoriais de sua Lógica, ele ainda permanece na mesma direção da antiga ontologia com a diferença de que abandona o problema já colocado por Aristóteles da unidade do ser face à variedade multiforme das <categorias> reais. Quando se diz, portanto, que o <ser> é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro

de fato, o <ser> não pode ser concebido como ente; enti non additur aliqua natura: o <ser> não pode ser determinado acrescentando-lhe um ente. [alternativamente: o ente não acrescenta à compreensão da natureza]Aqui, ente = essência, em si, já dado. Por isso a construção heideggeriana famosa é ser-do-ente, sujeito-implícito-inerente-ao-objeto, e não um absurdo ente-do-ser, posto que o sujeito é uma irredutível.

A impossibilidade de se definir o ser [afirmada por Pascal] não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige.” Questionável.

essa compreensão comum demonstra apenas a incompreensão.”

um enigma já está sempre inserido a priori em todo ater-se e ser para o ente enquanto ente.”

O <evidente> deve ser e permanecer o tema explícito da analítica (<o ofício dos filósofos>).”

Repetir a questão do ser significa, pois, elaborar primeiro, de maneira suficiente, a colocação da questão.”

Questionar é procurar cientemente o ente naquilo que ele é e como ele é. A procura ciente pode transformar-se em <investigação> se o que se questiona for determinado de maneira libertadora.”

Todo questionamento de… é, de algum modo, um interrogatório acerca de…”

tornar transparente” “orientação prévia”

nós nos mantemos numa compreensão do <é>, sem que possamos fixar conceitualmente o que significa esse <é>.”

mero conhecimento verbal”

O que é o inessencial da essência?

O ser-dos-entes não <é> em si mesmo um outro ente.

modo próprio de demonstração”

Na medida em que o ser constitui o questionado e ser diz sempre ser-de-um-ente, o que resulta como interrogado na questão do ser é o próprio ente. Este é como que interrogado em seu ser. (…) o ente já deve se ter feito acessível antes, tal como é em si mesmo.”

Em qual dos entes deve-se ler o sentido do ser? De que ente deve partir a saída para o ser? O ponto de partida é arbitrário ou será que um determinado ente possui primazia na elaboração da questão do ser? Qual é este ente exemplar e em que sentido possui ele uma primazia?”

E qual é o ser-do-sentido? De que adianta portanto apurar o sentido de algo obscuro sempiterno?

Esse ente que cada um de nós somos [se o ser fosse uma mera coisa…] e que, entre outras, possui em seu ser a possibilidade de questionar, nós o designamos com o termo pre-sença. [Dasein ou ser-aí]” Todos são pre-senças, mas cada pre-sença é singular (cada ser tem seu aí).

(*) “Pre-sença não é sinônimo de existência e nem de homem. A palavra Dasein é comumente traduzida por existência [mas quer sim dizer existência particular, e só um tolo interpretaria Existenz e Dasein trocando-os um pelo outro quando se apercebesse do contexto]. Em Ser e Tempo, traduz-se, em geral, para as línguas neolatinas pela expressão <ser-aí>, être-là, esser-ci, etc. Optamos pela tradução de pre-sença pelos seguintes motivos: 1) para que não se fique aprisionado às implicações do binômio metafísico essência-existência; 2) para superar o imobilismo de uma localização estática que o <ser-aí> poderia sugerir. O <pre>¹ remete ao movimento da aproximação, constitutivo da dinâmica do ser, através das localizações; 3) para evitar um desvio de interpretação que o <ex> de <existência>² suscitaria caso permaneça no sentido metafísico de exteriorização, atualização, realização, objetivação e operacionalização de uma essência. O <ex> firma uma exterioridade, mas interior e exterior fundam-se na estruturação da pre-sença e não o contrário³”

Referencia nesta nota de rodapé entrevista de Heidegger ao Der Spiegel, Rev. Tempo Brasileiro, n. 50, jul/set 1977.

¹ Implementação das mais absurdas de um tradutor já vistas: nada significa isolado, tem lugar indefinido e intuitivamente transitório e deveria ter sido privilegiado na transposição ao português.

² No máximo poderíamos dizer: desistência – de ler Heidegger!

³ PRECAUÇÕES DESNECESSÁRIAS! Quem há de entender, entenderia mesmo assim; quem não há de entender, não há de entender mesmo assim…

é sempre estéril recorrer a objeções formais como a acusação de um <círculo vicioso>, facilmente aduzível, no âmbito de uma reflexão sobre os princípios. Essas objeções formais não contribuem em nada para a compreensão do problema”

O ser é pressuposto, mas não como um conceito disponível, não como o que é procurado.”

visualização preliminar do ser”

Não pode haver <círculo vicioso> na colocação da questão sobre o sentido do ser porque não está em jogo, na resposta, uma fundamentação dedutiva, mas uma exposição de-monstrativa das fundações.” O círculo é sempre feliz e completo, virtuoso.

O que se insinuou foi apenas um primado da pre-sença.”

A elaboração do setor em suas estruturas fundamentais já foi, de certo modo, efetuada pela experiência e interpretação pré-científicas da região do ser que delimita o próprio setor de objetos. Os <conceitos fundamentais> assim produzidos constituem, de início, o fio condutor da primeira abertura concreta do setor.”

O <movimento> próprio das ciências se desenrola através da revisão mais ou menos radical e invisível para elas próprias dos conceitos fundamentais. O nível de uma ciência determina-se pela sua capacidade de sofrer uma crise em seus conceitos fundamentais. Nessas crises imanentes da ciência, vacila e se vê abalado o relacionamento das investigações positivas com as próprias coisas em si mesmas.”

BECOS SEM-SAÍDA NÃO IMPORTA O CÁLCULO: “A ciência mais rigorosa e de estrutura mais consistente, a matemática, parece sofrer uma <crise de fundamentos>.” “A teoria da relatividade na física nasceu da tendência de apresentar o nexo próprio da natureza tal como ele <em si> mesmo se constitui. Como teoria das condições de acesso à própria natureza, a teoria da relatividade procura preservar a imutabilidade das leis do movimento através de uma determinação de toda a relatividade [novo absoluto fenomenológico, nova variável empírica de eleição], com isso, coloca-se diante da questão da estrutura do setor de objetos por ela pressuposto, i.e., do problema da matéria.”

a história literária se torna história dos problemas.”

Pouco a pouco a teologia começa a entender de novo a visão de Lutero para quem a sistematização dogmática repousa sobre um questionamento que, em sua origem, não advém de um questionamento da fé, e cuja conceituação, mais do que insuficiente para a problemática teológica, a encobre e até mesmo deturpa.”

Essas investigações devem anteceder às ciências positivas. E isso é possível. O trabalho de Platão e Aristóteles são uma prova.” “A <lógica> é um esforço subseqüente e claudicante que analisa o estado momentâneo de uma ciência em seu <método>.” Ora, nossa lógica é aristotélica.

Assim, o que é primeiro filosoficamente não é uma teoria da conceituação da história, nem a teoria do conhecimento histórico e nem a epistemologia do acontecer histórico enquanto objeto da ciência histórica, mas sim a interpretação daquele ente propriamente histórico em sua historicidade.”

A lógica transcendental [Kant] é uma lógica do objeto a priori, a natureza, enquanto setor ontológico. § O questionamento,¹ porém – a ontologia no sentido mais amplo – independente de correntes e tendências ontológicas –, necessita de um fio condutor. [vocês ainda enjoarão desse binômio!] Sem dúvida, o questionamento ontológico é mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências positivas. No entanto, permanecerá ingênuo e opaco, se as suas investigações sobre o ser-dos-entes deixarem sem discussão o sentido do ser em geral.”

¹ Depreende-se que em contraposição à lógica transcendental do Iluminismo He. propõe uma lógica do questionamento como metodologia para a filosofia? Nome um tanto estranho!

A questão do ser visa às condições de possibilidade das próprias ontologias que antecedem e fundam as ciências ônticas.”

Chamamos existência [Existenz] ao próprio ser com o qual a pre-sença pode se comportar dessa ou daquela maneira e com o qual ela sempre se comporta de alguma maneira [simplificando, o universo, a matéria]. Como a determinação essencial desse ente [o próprio universo! obviamente ele só pode ser um ser, um modo, nunca um objeto para nós…] não pode ser efetuada mediante a indicação de um conteúdo qüididativo [o quê? quem?], já que sua essência reside, ao contrário, no fato de dever sempre assumir o próprio ser como seu, escolheu-se o termo pre-sença [SER-AÍ] para designá-lo enquanto pura expressão de ser.”

(*) “A palavra existência resulta da aglutinação da preposição ek e do verbo sistere. (…) Nessa acepção, só o homem existe [tem presença]. Deus é mas não existe. O carro é mas não existe. [ambos só existem em nossa consciência, i.e., somente são em…]Ref. Carta sobre o Humanismo – cheira a uma refutação de Sartre.

Questionamento existenciário [existenziell] como algo banal (mera constatação: toda era tem seu Zeitgeist; por que eu sou isso ou aquilo? por condições históricas determinadas, condições de possibilidade de sê-lo tal qual – basicamente existencialismo 101 mal-aplicado, e muito aplicado, por-aí…), inferior ao questionamento existencial [Existenzialität]. nível ôntico x nível ontológico

(*) “co-pertinência originária de existência, existencial, existenciário nas épocas da pre-sença.”

Assim, a compreensão do ser, própria da pre-sença, inclui, de maneira igualmente originária, a compreensão de <mundo> e a compreensão do ser-dos-entes que se tornam acessíveis dentro do mundo.”

primado ôntico: a pre-sença é um ente determinado em seu ser pela existência.” “primado ontológico: com base em sua determinação da existência, a pre-sença é em si mesma <ontológica>.” “terceiro primado que é a condição ôntico-ontológica da possibilidade de todas as ontologias [missão: determinar a ontologia ou o ente de todos os entes que não têm ser, i.e., que não são (n)o próprio (modo do) ser-aí].”

raízes existenciárias, i.e., ônticas” “Só existe a possibilidade de uma abertura da existencialidade da existência, e com isso a possibilidade de se captar qualquer problemática ontológica suficientemente fundamentada, caso se assuma existenciariamente o próprio questionamento da investigação filosófica como uma possibilidade de ser da pre-sença, sempre existente. Assim esclarece-se também o primado ôntico da questão do ser.” Resumindo: tem-se de começar de algum lugar, e esse lugar é sempre pouco ambicioso…

Já cedo se percebeu o primado ôntico-ontológico da pre-sença, embora não se tenha apreendido a pre-sença em sua estrutura ontológica genuína nem se tenha problematizado a pre-sença nesse sentido.”

A comprovação do privilégio ôntico-ontológico da questão do ser se funda na indicação provisória do primado ôntico-ontológico da pre-sença.”

2. AS DUAS TAREFAS DE UMA ELABORAÇÃO DA QUESTÃO DO SER: O método e o sumário da investigação

Na verdade, a pre-sença não somente está onticamente próxima ou é o mais próximo. Nós mesmos a somos cada vez. Apesar disso, ou justamente por isso, é o que está mais distante do ponto de vista ontológico.” O modo normal do ser-aí em todos os tempos é uma compreensão pré-ontológica de si mesmo. Acontece que agora o Ocidente pede o acabamento de uma metafísica… Momento privilegiado. Entender agora na acepção de vários séculos…

São dificuldades que estão enraizadas no modo de ser do próprio tema e da própria atitude temática e não numa possível insuficiência do aparelhamento de nossa capacidade cognoscitiva ou numa deficiência de conceituação adequada”, o que aliás seria muito conveniente para nós se assim o fosse.

a psicologia filosófica, a antropologia, a ética, a <política>, a poesia, a biografia e historiografia já pesquisaram as atitudes, potências, forças, possibilidades e envios da pre-sença.” “Será que essas interpretações se fizeram de maneira tão originariamente existencial como talvez tenham sido originariamente existenciárias? [Ele faz perguntas para as quais é evidente que responde NÃO.] Ambas as maneiras não precisam coincidir necessariamente, embora também não se excluam.”

Somente depois de se elaborar, de modo suficiente, as estruturas da pre-sença, seguindo uma orientação explícita do problema do ser, é que os resultados obtidos até aqui poderão receber uma justificativa existencial.” E isso apenas no segundo volume.

Da cotidianidade, não se devem extrair estruturas ocasionais e acidentais, mas sim estruturas essenciais. Essenciais são as estruturas que se mantêm ontologicamente determinantes em todo modo de ser de fato da pre-semça.”

Trata-se, sem dúvida, de uma ontologia que se deverá edificar caso uma antropologia <filosófica> se deva apoiar em bases filosóficas suficientes.” “A análise da pre-sença, porém, não é somente incompleta mas também provisória. (…) O que lhe compete é liberar o horizonte para a mais originária das interpretações do ser. Uma vez alcançado esse horizonte, a análise preparatória da pre-sença exige uma repetição em bases ontológicas mais elevadas e autênticas.Estaria de antemão se referindo à parte jamais escrita?

A temporalidade (Zeitlichkeit) será de-monstrada como o sentido da pre-sença.” Mas nada verdadeiro se ganhará com isso, como havemos de ver. Ou ainda melhor: sentido da pre-sença é uma coisa, do ser é outra coisa…

deve-se agora mostrar que o tempo é o ponto de partida do qual a pre-sença sempre compreende e interpreta implicitamente o ser.” O tempo é o horizonte ou norte. O tempo é o próprio espaço subsumido, afinal. Isso é o que Hegel diz. Mas Heidegger refutará esse conceito de tempo mais à frente. Ou dirá: esse é o tempo; o tempo é mero modo ôntico; o modo ontológico do tempo é o(a) temporal/temporalidade.

tempo como ser-do-ser-aí”

o conceito vulgar de tempo (…) consolidad[o] (…) desde Aristóteles até depois de Bergson. Nessa tarefa, deve-se esclarecer que e como esse conceito e sua respectiva compreensão do tempo brotam e derivam da temporalidade. Com isso, restitui-se ao conceito vulgar de tempo sua razão própria em oposição à tese de Bergson para quem o tempo nele indicado é espaço. [praticamente a antítese de Hegel]

<Temporal> diz aqui sendo e estando a cada vez <no tempo>, determinação esta que, sem dúvida, é ainda bastante obscura.”

BORRASCA DO SER: “Também o <não-temporal>, o <atemporal> e o <supratemporal> são, em seu ser, <temporais>.” “Como a expressão <temporal> é usada tanto na linguagem pré-filosófica como na linguagem filosófica no sentido indicado, e como, por outro lado, essa expressão é tomada na presente investigação em outro sentido, denominaremos a determinação originária do sentido do ser e de seus modos e caracteres a partir do tempo de determinação temporária.” É mesmo um dândi. Temporalidade temporariedade

A determinação de historicidade se oferece antes [mais originariamente] daquilo a que se chama de história (acontecimento pertencente à história universal). Historicidade indica a constituição ontológica do <acontecer> próprio da pre-sença como tal. É com base na historicidade que a <história universal>, e tudo que pertence historicamente à história do mundo, se torna possível.” “a pre-sença é sempre como e <o que> ela já foi. Explicitamente ou não, a pre-sença é sempre o seu passado e não apenas no sentido do passado que sempre arrasta <atrás> de si e, desse modo, possui, como propriedades simplesmente dadas, as experiências passadas que, às vezes, agem e influem sobre a pre-sença. Não. A presença <é> o seu passado no modo de seu ser, o que significa, a grosso modo, que ela sempre <acontece> a partir de seu futuro.” “a pre-sença sempre já nasceu e cresceu dentro de uma interpretação de si mesma, herdada da tradição.” “Essa historicidade elementar da pre-sença pode permanecer escondida para ela mesma, mas pode também ser descoberta e se tornar objeto de um cuidado especial.” “A história factual (Historie) ou, mais precisamente, a factualidade historiográfica (Historizität) só é possível como modo de ser da pre-sença que questiona porque, no fundamento de seu ser, a pre-sença se determina e constitui pela historicidade.” “somente apropriando-se positivamente do passado é que ela pode entrar na posse integral das possibilidades mais próprias de seu questionamento.” “a pre-sença também de-cai em sua tradição [além de cair, sempre tendo um já dado para si própria]

TRADIÇÃO vs. SER-AÍ

A tradição até faz esquecer essa proveniência. Cria a convicção de que é inútil compreender simplesmente a necessidade do retorno às origens.” Tradição historiográfica é uma contradição em termos. Historiógrafos: aqueles sem-tradição. Mas existem historiógrafos e historiógrafos: falo do ideal, no sentido oposto ao descrito abaixo por Heidegger (historiografia da má-fé, século XIX, etc.).

A conseqüência é que, com todo o seu interesse pelos fatos historiográficos e em todo o seu empenho por uma interpretação filologicamente <objetiva>, a pre-sença já não é capaz de compreender as condições mais elementares que possibilitam um retorno positivo ao passado, no sentido de sua apropriação produtiva.”

A ontologia grega e sua história, que ainda hoje determina o aparato conceitual da filosofia, através de muitas filiações e distorções, é uma prova de que a pre-sença se compreende a si mesma e o ser em geral a partir do <mundo>.”

transformada em simples material de reelaboração (Hegel).” “Em sua cunhagem escolástica, o essencial da ontologia grega se transpôs, através das Disputationes Metaphysicae de Suárez, para a metafísica e filosofia transcendental da Idade Moderna, chegando ainda a determinar os fundamentos e objetivos da Lógica de Hegel.”

destruição do acervo da antiga ontologia” “A destruição também não tem o sentido negativo de arrasar a tradição ontológica. Ao contrário, ela deve definir e circunscrever a tradição em suas possibilidades positivas e isso quer sempre dizer em seus limites, tais como de fato se dão na colocação do campo de investigação possível. Negativamente, a destruição não se refere ao passado; a sua crítica volta-se para o <hoje> e os modos vigentes de se tratar a história da ontologia, quer esses modos tenham sido impostos pela doxografia, quer pela história da cultura ou pela história dos problemas.” Todo esse raciocínio de He. é plagiado descaradamente de Nietzsche em seus escritos sobre a História, sem citação da fonte.

Kant foi o primeiro e o único a dar um passo no caminho de investigação para a dimensão da temporariedade. Ou melhor, Kant foi o primeiro que se deixou encaminhar, nesse caminho, pela pressão dos próprios fenômenos.”

Ele próprio sabia que estava se aventurando numa região obscura: <Esse esquematismo de nosso entendimento, no tocante aos fenômenos e a sua forma, é uma arte escondida nas profundezas da alma humana, cujos mecanismos verdadeiros dificilmente poderíamos arrancar à natureza para colocá-los a descoberto diante de nossos olhos> [Crítica da razão pura]”

Também se haverá de mostrar por que Kant fracassou na tentativa de penetrar na problemática da temporariedade.” 1) a falta da questão do ser; 2) a falta da ontologia do ser-aí. “Devido a essa dupla influência da tradição, a conexão decisiva entre o <tempo> e o <eu penso> permaneceu envolta na mais completa escuridão, não chegando sequer uma vez a ser problematizada.” “Com o <cogito sum>, Descartes pretende dar à filosofia um fundamento novo e sólido. O que, porém, deixa indeterminado nesse princípio <radical> é o modo de ser da res cogitans ou, mais precisamente, o sentido do ser do <sum>. A elaboração dos fundamentos ontológicos implícitos no <cogito sum> constitui o ponto de parada na segunda estação a caminho de um retorno destrutivo à história da ontologia.”

ens creatum”

Ser criado, no sentido amplo de ser produzido, constitui um momento essencial na estrutura do antigo conceito de ser.” “Com base neste preconceito, a posteridade moderna omitiu uma análise ontológica do <ânimo>, que deveria ser conduzida pela questão do ser e, ao mesmo tempo, como uma discussão crítica da antiga ontologia legada pela tradição.”

Todo conhecedor da Idade Média percebe que Descartes <depende> da escolástica medieval. Essa descoberta, porém, não diz nada, do ponto de vista filosófico, enquanto a influência fundamental exercida pela ontologia medieval na determinação ou na não-determinação posterior da res cogitans permanecer obscura.”

O ente [em Platão] é entendido em seu ser como <vigência>, isto é, a partir de determinado modo do tempo, do <presente>.” “a pre-sença, i.e., o ser-do-homem” “É por isso que a ontologia antiga, elaborada por Platão, torna-se uma <dialética>.” Homem, o animal-que-dialoga-e-desperta-idéias-já-tidas.

Essa interpretação grega do ser foi desenvolvida sem nenhuma consciência explícita do seu fio condutor, sem saber e, sobretudo, sem compreender a função ontológica do tempo e sem penetrar no fundamento de possibilidade dessa função. Ao contrário: o próprio tempo é considerado como um ente entre outros, buscando-se apreender a estrutura do seu ser no horizonte de uma compreensão do ser orientada, implícita e ingenuamente, pelo próprio tempo.”

fundamentos da antiga ontologia – sobretudo em seu grau mais puro e elevado, alcançado por Aristóteles.” “tornar-se-á claro, retrospectivamente, que a concepção kantiana do tempo se move dentro das estruturas apresentadas por Aristóteles. Isso significa que a orientação ontológica fundamental de Kant é grega, não obstante todas as diferenças que uma nova investigação comporta.”

O método fenomenológico permanecerá altamente questionável caso se queira recorrer às ontologias historicamente dadas ou a tentativas congêneres. (…) não se pode seguir o caminho da história das ontologias para se esclarecer o método.” “O uso do termo ontologia não visa a designar uma determinada disciplina filosófica entre outras. Não se pretende, de forma alguma, cumprir a tarefa de uma dada disciplina, previamente dada. Ao contrário, é a partir da necessidade real de determinadas questões e do modo de tratar imposto pelas <coisas em si mesmas> que, em todo caso, uma disciplina pode ser elaborada.” “enquanto se compreender a si mesma, a fenomenologia não é e não pode ser nem um ponto de vista nem uma corrente. [superestima suas possibilidades] A expressão fenomenologia diz, antes de tudo, um conceito de método. Não caracteriza a qüididade [conteúdo, o que são] real dos objetos da investigação filosófica mas o seu modo, como eles o são. Quanto maior a autenticidade de um conceito de método e quanto mais abrangente determinar o movimento dos princípios de uma ciência, tanto maior a originariedade em que ele se radica numa discussão com as coisas em si mesmas e tanto mais se afastará do que chamamos de artifício técnico, tão numerosos em disciplinas teóricas.” “Exteriormente, o termo fenomenologia corresponde, no que respeita a sua formação, à teo-logia, bio-logia, sócio-logia, termos que se traduzem por ciência de Deus, da vida, da sociedade.” “A história da palavra em si, que apareceu, segundo se presume, na Escola de Wolff, não tem aqui importância.”

fenômeno = o que se mostra em si mesmo

estudo das coisas que são tais quais elas são ou parecem ser (raiz grega que combina ilusão e verdade)

aparecer, parecer, aparência

revelar, revelação, auto-revelação, automanifestação

amostra, anunciar-se de… (intermediário, imagem de algo)

Manifestação e aparência se fundam, de maneira diferente, no fenômeno. Essa multiplicidade confusa dos <fenômenos> que se apresenta nas palavras fenômeno, aparência, aparecer, parecer, manifestação, mera manifestação, só pode deixar de nos confundir quando se tiver compreendido, desde o princípio, o conceito de fenômeno: o que se mostra em si mesmo.

Quando dizemos que o significado básico de logos é discurso, essa tradução literal só terá valor completo quando se determinar o que é um discurso.” A voz da razão como perfeito pleonasmo!

Malversações ao longo do tempo: razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação, proporção!

Em Aristóteles: discurso transparente

discurso – deixar ver – diz-curso – dizer o curso das coisas – verbo, voz, imagens

Parece uma etimologia contrária à de fenômeno no sentido da elisão ou encobrimento de algo.

E, novamente, porque o LOGOS é um deixar e fazer ver, por isso é que ele pode ser verdadeiro ou falso.”

Fenomenologia, a seguir esta carreira, poderia até querer dizer explicitação do implícito, etc., dialética de mentira-verdade das coisas, etc.

Quando, hoje em dia, se determina a verdade como o que pertence <propriamente> ao juízo e se faz remontar essa tese a Aristóteles, comete-se um duplo equívoco, pois essa atribuição a Arist. não é correta e, principalmente, deturpa-se o conceito grego de verdade. Em sentido grego, o que é <verdadeiro> (…) é a simples percepção sensível de alguma coisa.” Uma cor é sempre uma cor. “Isto significa: a visão sempre descobre cores, a audição descobre sempre sons.” “o máximo que pode acontecer [em termos de falseamento] é não haver percepção

A ARTE DO DISCURSO: “O que já não possui a forma de exercício de um puro deixar e fazer ver mas que, para de-monstrar, recorre sempre a uma outra coisa e assim deixa e faz ver cada vez algo como algo, assume, junto com esta estrutura sintética, a possibilidade de en-cobrir. A <verdade do juízo>, [falsificação moderna] porém, é somente a contrapartida deste encobrir, i.e., um fenômeno de verdade derivado em muitos aspectos. Tanto o realismo quanto o idealismo se equivocam no que respeita ao sentido grego de verdade. Somente nesse conceito é que se poderá compreender a possibilidade de uma <teoria das idéias>.”

Examinando-se concretamente os resultados da interpretação de <fenômeno> e <logos>, salta aos olhos a íntima conexão que os liga.” “deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo.” “O termo fenomenologia tem, portanto, um sentido diferente das designações como teologia, etc. Estas evocam os objetos de suas respectivas ciências, em seu conteúdo qüididativo. O termo <fenomenologia> nem evoca o objeto de suas pesquisas nem caracteriza o seu conteúdo qü..”

Modo do demonstrar

Estudo o mais direto possível

Descrição de essências (fenômenos em si mesmos)

A ontologia só é possível como fenomenologia.” “<Atrás> dos fenômenos da fenomenologia não há absolutamente nada” “O conceito oposto de <fenômeno> é o conceito de encobrimento.” “Este encobrimento na forma de <desfiguração> é o mais freqüente e o mais perigoso, pois as possibilidades de engano e desorientação são particularmente severas e persistentes.” “Quer no sentido de velamento [ignorância de um fenômeno] ou entulhamento [seu ocultamento posterior à descoberta], quer ainda como desfiguração [troca de imagem para uma falsa aparência], o próprio encobrimento dispõe, por sua vez, de duplas possibilidades.” “A possibilidade de uma petrificação, endurecimento e inapreensão do que se apreendeu originariamente se acha no próprio trabalho concreto da fenomenologia.”

apreender, sentir-se apreensivo, apreensão

Fenomenologia da pre-sença é hermenêutica no sentido originário da palavra em que se designa o ofício de interpretar.” “a hermenêutica da pre-sença como interpretação ontológica de si mesma adquire um terceiro sentido específico [1) interpretação ontológica do ser; 2) interpretação ontológica dos entes ou essências, dos fenômenos destituídos de ser, i.e., ser-aí;] – sentido primário do ponto de vista filosófico – a saber, o sentido de uma analítica da existencialidade da existência. Trata-se de uma hermenêutica que elabora ontologicamente a historicidade da pre-sença como condição ôntica [sine qua non] de possibilidade da história factual.”

O ser é o transcendens pura e simplesmente. A transcendência do ser do ser-aí é privilegiada porque nela reside a possibilidade e a necessidade da individuação mais radical.” “A verdade fenomenológica (abertura do ser) é veritas transcendentalis.”

A filosofia é uma ontologia fenomenológica e universal que parte da hermenêutica do ser-aí, a qual, enquanto analítica da existência, amarra o fio de todo questionamento filosófico no lugar de onde ele brota e para onde retorna.”

As investigações que se seguem são apenas possíveis na base estabelecida por E. Husserl, cujas Investigações Lógicas fizeram nascer a fenomenologia.” “A compreensão da fenomenologia depende unicamente de se apreendê-la como possibilidade.” Rasga elogios à página 70.

<DESCULPEM-ME O LINGUAJAR PESADO>: “Caso seja lícita uma referência a investigações ontológicas anteriores, embora incomparáveis em seu nível, confrontem-se os trechos ontológicos do Parmênides de Platão ou o 4º capítulo do VII livro da Metafísica de Arist. com uma passagem narrativa de Tucídides. Ver-se-á, nas formulações, o inaudito que os filósofos exigiam dos gregos. Quando as forças são essencialmente menores e o setor do ser que se deve abrir é ontologicamente muito mais difícil do que o que foi dado aos gregos, crescerá a dificuldade de formação de conceitos e a dureza das expressões.”

Em si mesma a pre-sença é <histórica>, de maneira que o esclarecimento ontológico próprio deste ente [modo] torna-se sempre e necessariamente uma interpretação <referida a fatos históricos>.”

PRIMEIRA PARTE:

A INTERPRETAÇÃO DA PRE-SENÇA [SER-AÍ] PELA TEMPORALIDADE E A EXPLICAÇÃO DO TEMPO COMO HORIZONTE TRANSCENDENTAL DA QUESTÃO DO SER

A rigor esta é também a última parte desenvolvida por Heidegger. De certo modo, poder-se-ia parar de ler este resumo e seleção aqui, após 16 páginas, sem prejuízo algum, caso já se tenha entendido o autor…

PRIMEIRA SEÇÃO:

ANÁLISE PREPARATÓRIA DOS FUNDAMENTOS DA PRE-SENÇA

O ser-no-mundo é um a priori constituinte do ser-aí.

1. EXPOSIÇÃO DA TAREFA DE UMA ANÁLISE PREPARATÓRIA DA PRE-SENÇA

O ente que temos a tarefa de analisar somos nós mesmos (…) O ser é o que neste ente está sempre em jogo.” Não podemos encarar ser, haja vista esta frase, como outra coisa senão vida, o que já foi realizado na filosofia do XIX.

1. A <essência> deste ente está em ter de ser.”

O conteúdo deste ente depende da existência.

é tarefa ontológica mostrar que, se escolhemos a palavra existência para designar o ser-deste-ente, esta não tem nem pode ter o significado ontológico do termo tradicional existentia. Para a ontologia tradicional, existentia designa o mesmo que ser simplesmente dadoDoravante, existência será atributo exclusivo do ser-aí. (objetos ‘não existem’, segundo essa fenomenologia, existir e ser não se confundem, como já visto mais acima)

Nada está dado, a não ser pela minha consciência, e consciência histórica. Abole-se a coisa-em-si.

As características constitutivas da pre-sença são sempre modos possíveis de ser e somente isso. Toda modalidade-de-ser-deste-ente é primordialmente ser.”

Resgate da idéia (pun!) de que a imagem ou idéia platônica não se aplica, p.ex., às mesas.

o termo <pre-sença> não exprime a sua qüididade como mesa, casa, árvore, mas sim o ser.”

2. O ser é sempre meu. Neste sentido, a pre-sença nunca poderá ser apreendida ontologicamente como caso ou exemplar de um gênero [acepção aristotélica] de entes simplesmente dados. Pois, para os entes simplesmente dados, o seu <ser> é indiferente ou, mais precisamente, eles são de tal maneira que o seu ser não se lhes pode tornar nem indiferente nem não-indiferente.” Vinculação que Heidegger encontrou em Descartes num momento privilegiado da metafísica ocidental.

A pre-sença só pode perder-se ou ainda não se ter ganho porque, segundo seu modo de ser, ela é uma possibilidade própria, ou seja, é chamada a apropriar-se de si mesma.”

A im-propriedade da pre-sença não diz <ser> menos nem em grau <inferior> de ser.”

Denominamos esta indiferença cotidiana da pre-sença de medianidade. § Porque a cotidianidade mediana perfaz o que, em 1º lugar, constitui o ôntico deste ente, sempre se passou por cima dela e sempre se passará, nas explicações da pre-sença.”

Então, que há de mais próximo de mim do que eu mesmo? Decerto, eu trabalho aqui, trabalho em mim mesmo, transformei-me numa terra de dificuldades e de suor copioso”

Sto. Agostinho

no modo impróprio do ser-aí está igualmente em jogo o ser-do-ser-aí – o ser-aí se comporta e se relaciona para com este ser via a cotidianidade mediana, mesmo que seja apenas fugindo e se esquecendo dele.”

(*) “SER SIMPLESMENTE DADO = VORHANDENHEIT

Vor (antes de, no tempo) + Hand (mão). Aprioridade no sentido objetivo do materialismo mecanicista: o tipo de aprioridade externa não afetada pelo indivíduo. Na verdade é uma contradição em termos, já que o que é simplesmente dado nunca é ser.

Existenciais e categorias são as 2 possibilidades fundamentais de caracteres ontológicos. (…) o ente é um quem (existência) ou um que (dado).”

A analítica existencial da pre-sença está antes de toda psicologia, antropologia e, sobretudo, biologia.” “<Do ponto de vista epistemológico>, essas investigações são necessariamente insuficientes já pelo simples fato da estrutura de ciência destas disciplinas – o que nada tem a ver com a <cientificidade> daqueles que trabalham para o seu desenvolvimento – ter-se tornado cada vez mais questionável.”

Uma das primeiras tarefas da analítica será mostrar que o princípio de um eu e sujeito, dados como ponto de partida, deturpa, de modo fundamental, o fenômeno da pre-sença.” “Para que se possa perguntar o que deve ser entendido positivamente ao se falar de um ser não-coisificado do sujeito, da alma, da consciência, do espírito, da pessoa, é preciso já se ter verificado a proveniência ontológica da coisificação.” “Não é, portanto, por capricho terminológico que evitamos o uso desses termos bem como das expressões <vida> e <homem> para designar o ente que nós mesmos somos.” “O que chama atenção é o fato de não se questionar ontologicamente a própria <vida> como um modo de ser.”

Junto com Dilthey e Bergson, participam dessas limitações todas as correntes do <personalismo> por eles determinadas, e todas as tendências para uma antropologia filosófica. Mesmo a interpretação fenomenológica da personalidade, em princípio mais radical e lúcida, não alcança a dimensão da questão do ser da pre-sença.”

o ser-da-pessoa não pode exaurir-se em ser um sujeito de atos racionais, regidos por determinadas leis. (Scheler)” “Desde essa 1ª elaboração, Husserl desenvolveu esse problema de modo ainda mais penetrante e profundo, tendo transmitido partes essenciais desse trabalho em suas preleções de Freiburg.”

Um nível de discussão bem bobinho e trivial, como se a fenomenologia tivesse iniciado a filosofia: “A pessoa não é uma coisa, uma substância, um objeto. Com isso se ressalta e acentua a mesma coisa indicada por Husserl, ao exigir para a unidade da pessoa uma constituição essencialmente diferente das coisas da natureza.”

Atos são sempre algo não-psíquico. Pertence à essência da pessoa apenas existir no exercício de atos intencionais e, portanto, a pessoa em sua essência não é objeto algum.”

ANTI-PSICANÁLISE: “Toda objetivação psíquica, por conseguinte toda apreensão de um ato como algo psíquico, equivale a uma despersonalização [desautenticação, para não confundir com o termo psiquiátrico].”

O que, no entanto, constitui um obstáculo e desvia a questão fundamental do ser da pre-sença é a orientação corrente pela antropologia cristã da Antiguidade.” Citação de Gên 1:26

É PLATÃO IMANENTE? “Mas a idéia de <transcendência>, [a ‘má’ transcendência] segundo a qual o homem é algo que se lança para além de si mesmo, tem suas raízes na dogmática cristã, da qual não se pode querer dizer que tenha chegado sequer uma única vez a questionar ontologicamente o ser do homem.”

Na medida em que as cogitationes permanecem ontologicamente indeterminadas, sendo tomadas implicitamente como algo <evidente> e <dado>, cujo <ser> não suscita nenhuma questão, a problemática antropológica fica indeterminada quanto a seus fundamentos ontológicos decisivos.”

Biologia, a ciência do novo século, o século do ser-aí… Iron-ia de ferro.

O fato de as pesquisas positivas não verem os fundamentos e considerá-los evidentes não constitui uma prova de que eles não se achem à base e que não sejam problemáticos, num sentido mais radical do que poderá ser uma tese das ciências positivas. Abertura do a priori não é construção <apriorística>. Com Husserl, não somente voltamos a compreender o sentido de toda <empiria> filosófica autêntica, como aprendemos a manusear os instrumentos aqui necessários. (…) a pesquisa a priori exige a preparação adequada do solo fenomenal.”

BLUES/REDS: “A interpretação da pre-sença em sua cotidianidade não deve, porém, ser identificada como descrição de uma fase primitiva da pre-sença, cujo conhecimento pudesse ser transmitido empiricamente pela antropologia.” “Ainda não ficou estabelecido que a psicologia do cotidiano ou até a psicologia científica e a sociologia, de que faz uso a etnologia, dêem a garantia científica para uma possibilidade adequada de acesso, interpretação e transmissão dos fenômenos a serem investigados. (…) Mas como as ciências positivas não <podem> nem devem esperar pelo trabalho ontológico da filosofia, o desenvolvimento das pesquisas não há de assumir a forma de um <progresso>, mas sim de uma re-petição e purificação ontológica, mais transparente do que tudo que se descobriu onticamente.”

Cassirer, 1925 (do clube de amiguinhos do Husserl)

A comparação sincrética de tudo com tudo e a redução de tudo a tipos ainda não garante de per si um conhecimento autêntico da essência.”

2. O SER-NO-MUNDO EM GERAL COMO CONSTITUIÇÃO FUNDAMENTAL DA PRE-SENÇA

o que indagamos com a interrogação <quem?>”

o banco <dentro do espaço cósmico>.”

Ser simplesmente dado <dentro> de um dado, o ser simplesmente dado junto com algo dotado do mesmo modo de ser, no sentido de uma determinada relação de lugar, são caracteres ontológicos que chamamos de categorias.”

<eu sou> diz: eu moro, me detenho junto…” “O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da pre-sença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo.”

A pobre preposição tem de ser-vir (he-he!) ao ente e ao ser, com o perdão da cacofonia, ó, sujeito!

em princípio, a cadeira não pode tocar a parede mesmo que o espaço entre ambas fosse igual a zero.”

o que está feito, está feito, e não se pode fazer mais nada

até meu filho negar isso, no caso

DE FATO

Em H.: relativo ao ser facticidade

relativo ao ente outros sufixos de fa(c)t–…

ontologicamente a pre-sença é cura.” “o ser da pre-sença para com o mundo é, essencialmente, ocupação. [descurado de si]”

(*) Besorgen é ocupação, Sorge é cura. Fürsorge é preocupação.

A tradução decidiu utilizar o radical latino cura para Sorge, ocupação para Besorgen e preocupação para Fürsorge. Os motivos dessa decisão atêm-se ao fato de o próprio Ser e Tempo ter remetido à fábula latina de Higino sobre a Cura e à inexistência em português de derivados de cura na acepção de um relacionamento específico da pre-sença com os seres simplesmente dados e com os seres existentes.” Cura é o modo ontológico do ser-aí; o modo ôntico (imediato, mais baixo) é cuidado.

Não há solipsismo nem puro relativismo porque todo ser está no mundo. No mesmo mundo.

A formulação <ter um mundo circundante>, tão trivial do ponto de vista ôntico, é, do ponto de vista ontológico, um problema.”

Embora experimentado e conhecido pré-fenomenologicamente, o ser-no-mundo se torna invisível por via de uma interpretação ontologicamente inadequada. (…) Desse modo, esta interpretação torna-se o ponto de partida <evidente> para os problemas da epistemologia ou <metafísica do conhecimento>.” “Esta correlação do sujeito-objeto é um pressuposto necessário.”

a presença é obs-cura

Sujeito e objeto, porém, não coincidem com pre-sença e mundo.” “Mas reina um grande silêncio sobre o que significa positivamente o <interior> da imanência em que o conhecimento está, de início, trancado” “Em seu modo de ser originário, a pre-sença já está sempre <fora>, junto a um ente que lhe vem ao encontro no mundo já descoberto.” “E, mais uma vez, a percepção do que é conhecido não é um retorno para a <cápsula> da consciência com uma presa na mão, após se ter saído em busca de apreender alguma coisa.”

3. A MUNDANIDADE DO MUNDO

A descrição fica presa aos entes. É ôntica.”

A substancialidade é o caráter ontológico das coisas naturais, das substâncias. Esse caráter é o fundamento de tudo.”

Será o <mundo> um caráter do ser da pre-sença? Toda pre-sença não terá sempre seu mundo? Mas com isso <mundo> não seria algo <subjetivo>? Como, então, seria possível um mundo <comum> <em> que nós, sem dúvida, estamos?”

<Mundanidade> é um conceito ontológico e significa a estrutura de um momento constitutivo do ser-no-mundo.”

A tarefa de <descrição> fenomenológica do mundo é tão pouco clara que já a sua determinação suficiente exige esclarecimentos ontológicos essenciais. § A polissemia da palavra <mundo> salta aos olhos em seu uso freqüente, bem como nas considerações tecidas até aqui.”

1. Mundo é usado como um conceito ôntico [direto, empírico], significando, assim, a totalidade dos entes que se podem simplesmente dar dentro do mundo.

2. Mundo funciona como termo ontológico [invisível, essencial] e significa o ser dos entes mencionados no item 1.” Em H., “mundo” (<mundo> na minha transcrição do livro). E justo quando eu imaginava que as aspas em H. eram sempre depreciativas ou relativas ao alheio

3. … [irrelevante]

4. (…) A própria mundanidade pode modificar-se e transformar-se, cada vez, no conjunto de estruturas de <mundos> particulares, embora inclua em si o a priori da mundanidade em geral.” Talvez H. considere este seu “mundo definitivo”, daí excluir o 2 de sua fenomenologia, i.e., colocá-lo entre aspas (conceito incompleto).

você é inmundo, pois está no mundo

O ente simplesmente dado <no> mundo, designamos de intramundano ou pertencente ao mundo.”

Entendida em sentido ontológico-categorial, a natureza é um caso limite do ser de um possível ente intramundano. (…) Esse conhecimento tem o caráter de uma determinada desmundanização do mundo.”

(*) Mundo circundante = Umwelt (literalmente: mundo abrangente)

A CARTILHA DAS COORDENADAS BERGSONIANAS: “Ora, a ontologia tentou justamente interpretar o ser do <mundo> como res extensa, partindo da espacialidade. É em Descartes que se mostra a tendência mais extremada para uma ontologia do <mundo> desta espécie, ontologia edificada em contraposição à res cogitans que, porém, não coincide, nem do ponto de vista ôntico nem do ontológico, com a pre-sença.” Descartes apresenta dois eixos-entes que não se tocam. Sintomático.

A. ANÁLISE DA MUNDANIDADE CIRCUNDANTE E DA MUNDANIDADE EM GERAL

Que ente há de ser pré-tematizado e estabelecido como base pré-fenomenal?”

ao se interpelar o ente como <coisa> já se recorre implicitamente a uma caracterização ontológica prévia.”

Será possível alcançar o caráter ontológico daquilo que vem ao encontro no modo de lidar próprio da ocupação, abstraindo-se da obscuridade da estrutura – ser dotado de valor?”

Designamos o ente que vem ao encontro na ocupação com o termo instrumento [Zeug, o alemão para coisa; raiz latina: instrumentum].”

Em sua essência [seu ser], todo instrumento é <algo para…>.”

(*) SER-PARA: quando ser é o substantivo, Sein-zu (nível ontológico); quando ser é o verbo, no sentido de é-para do mero instrumento, no sentido pragmático e funcional, o termo heideggeriano é Um-zu.

se[r]-para[r]-uma-briga

(*) “MANUALIDADE = ZUHANDENHEIT

No exercício histórico da pre-sença, a mão ocupa um lugar central de concretização e desdobramento. O limite para frente desse exercício é imposto pelos seres simplesmente dados (Vor-handenheit). A doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho proporciona os seres à mão, os seres constituídos pela manualidade (Zu-handen): os instrumentos, os utensílios, os equipamentos, os dispositivos, etc.”

(*) “CIRCUNVISÃO = UMSICHT

[a visão do olho de cima, não-semita, não ‘o olho que tudo vê’, a-Argos]

A construção do mundo cotidiano das ocupações não é cega mas guiada por uma visão de conjunto, a circunVisão, que abarca o material, o usuário, o uso, a obra, em todas as suas ordens.”

quanto menos se olhar de fora a coisa martelo, mais se sabe usá-lo, mais originário se torna o relacionamento com ele e mais desentranhado é o modo em que se dá ao encontro naquilo que ele é” “A visualização puramente <teórica> das coisas carece de uma compreensão da manualidade.” “originariamente, contemplar é ocupação [e] agir possui sua visão. A atitude teórica visualiza meramente, sem circunvisão.”

O que está imediatamente à mão se caracteriza por recolher-se em sua manualidade para, justamente assim, ficar à mão. O modo de lidar cotidiano não se detém diretamente nas ferramentas em si mesmas. Aquilo com que primeiro se ocupa e, conseqüentemente, o que primeiro está à mão é a obra a ser produzida.” A casa nasce antes da pá, do muro, do cimento, do martelo…

A mata é reserva florestal” – fico dividido em dois ditos igualmente verdadeiros: 1) …e cada vez mais; 2) …e cada vez menos.

Manualidade é a determinação categorial dos entes tal como são <em si>.” “está a Manualidade fundada ontologicamente no ser simplesmente dado?”

o haver não se dá, pois não tem nada para dar

deixe-me com meus haveres, dê-me um des-canso

abrir o mundo é totalmente diferente de descobrir o mundo

quando o ser-aí se abre ele volta ao conhecimento inato de si

quando ele descobre o mundo, apenas desvela mais um de seus modos-no-mundo e ocupa algo aparentemente inédito, que ainda não é uma verdadeira abertura

o Brasil foi descoberto, mas não aberto

abrir é tarefa de macaco-velho (quem já conhece muito a terra)

gato ex-cal-dado

O conjunto instrumental não se evidencia como algo nunca visto, mas como um todo já sempre visto antecipadamente na circunvisão. Nesse todo, anuncia-se o mundo.”

O não-anunciar-se do mundo é a condição de possibilidade para que o manual não cause surpresa.”

Uma orientação exclusiva ou primordial pelo que é simplesmente dado não pode esclarecer ontologicamente o <em-si>.”

Tradução: Fiar-se somente ou principalmente no dado (empírico e a priori, no imediato da coisa) não ajuda a responder sobre a essência do em-si, isto é, não ajuda a responder essencialmente sobre a própria essência desses objetos ou coisas. Como se poderia chegar a conhecer ‘x’ (term. kantiana) apenas via observação dos fenômenos?

Ora, nem quando até essencialmente algo aparece como dado a simples descrição das aparências pode dar uma resposta metafísica à altura… Pois – ó! – as aparências enganam…

A possibilidade do conhecimento implica uma onipotência primigênia. [metempsicose]

O ser-do-ente é eterno, ou pelo menos infinitamente recorrível em seus antepassados…

O mundo é algo em que o ser-aí enquanto ente já sempre esteve, para o qual o ser-aí pode apenas retornar em qualquer advento [futuro] de algum modo explícito.” O que aconteceu (e aconteceu) acontecerá de novo.

A ocupação já é o que é, com base numa familiaridade com o mundo.” “O que é isso com que a pre-sença se familiariza e pelo que a [mundanidade das coisas] pode aparecer [alienando toda familiaridade à pre-sença]?”

preocupação – estranhamento – ansiedade (logo H. chegará a essa análise oposta).

hoje, temos a tendência de submeter todos os entes a uma <interpretação> na chave de <relação>. Trata-se de uma interpretação que sempre <dá certo> porque, no fundo, não diz nada, como o esquema de forma e conteúdo, tão facilmente utilizado.”

Recentemente, instalou-se nos veículos uma seta vermelha e móvel, cujo posicionamento mostra, cada vez, p.ex. num cruzamento, qual o caminho que o carro vai seguir. O posicionamento da seta é acionado pelo motorista. Esse sinal é um instrumento que está à mão, não apenas na ocupação (dirigir) do motorista. Também os que não estão no veículo e justamente eles fazem uso desse instrumento, esquivando-se para o lado indicado ou ficando parados. Esse sinal está à mão dentro do mundo na totalidade do conjunto instrumental dos meios de transporte e regras de trânsito. (…) essa <referência> enquanto sinal não é a estrutura ontológica do sinal enquanto instrumento.” Hahahaha. “A <referência> mostrar é a concreção ôntica [fenomênica] do para quê específico. [virar a porra do carro sem bater noutros carros nem atropelar ninguém]” “O uso de sinais permanece inteiramente no âmbito de um ser-no-mundo <imediato> [excluindo assim a sinalética dos sistemas mágicos, não-intramundanos, desta análise de sinais contemporâneos ou funcionais].”

para o homem primitivo, o sinal e o assinalado coincidem.”

Esta interpretação do sinal tinha apenas a finalidade de oferecer um apoio fenomenal para se caracterizar a referência.” Para de encher lingüiça, cara!

O caráter ontológico do manual é a conjuntura.” Marquei em verde pela fealdade da expressão, hoje inutilizável, apropriada pelos “administradores”.

Um plano cartesiano é de longe ou de perto a única coisa que não existe.

O mapa quem faz é o ser-aí, sempre ao centro, com circunvisões de novas periferias o tempo (pun) todo!

(*) “PARA QUÊ = WOZU

Porque o português só conhece onde como advérbio e não como relativo, a tradução construiu uma constelação de expressões e modos de dizer que recebeu ao longo do texto as seguintes correspondências:

Wozu = para quê [literalmente teria de ser para onde]

Woraufhin = perspectiva em que [na direção onde]

Worumwillen = em função de [pertinente aonde]

Wobei = estar-junto [onde é familiar, onde é vizinho]

Womit = estar-com [onde em conjunto]

Worin = no contexto em que [no contexto aonde]

Wohin = destino [lançando-se aonde]

Woher = proveniência [vindo donde]”

(*) CONJUNTURA = BEWANDTNIS

A tradução literal impossível seria deixar-se fazer a volta, i.e., completar um giro ou ciclo, abrir-se para a essência.

Conjuntura é o ser dos entes intramundanos em que cada um deles já, desde sempre, liberou-se.” “um perfeito a priori

O fato de se dar uma conjuntura constitui a determinação ontológica do ser deste ente e não uma afirmação ôntica sobre ele. (…) Com o para quê [sentido] da serventia, pode-se dar, novamente, uma conjuntura própria” Como tornar o martelo aquilo que ele é: construtor de moradias.

Tal familiaridade [originária] com o mundo não exige, necessariamente, uma transparência teórica das remissões que constituem o mundo como mundo.”

A significância é o que constitui a estrutura do mundo em que a pre-sença já é sempre como é.”

Essas <relações> e <relatos> do ser-para, da função, do estar-com de uma conjuntura, em seu conteúdo fenomenal [ôntico], resistem a toda funcionalização matemática” “Conceitos de função dessa espécie só se tornam ontologicamente possíveis remetendo-se a um ente cujo ser possui o caráter de pura substancialidade. Conceitos de função não são outra coisa do que conceitos formalizados de substância.” Matemática calcula (n)o reino da essência.

B. CONTRAPOSIÇÃO DA ANÁLISE DA MUNDANIDADE À INTERPRETAÇÃO DO MUNDO DE DESCARTES

O porquê da escolha do título “Ser e TEMPO”: como antítese ao espaço e às coordenadas cartesianas. ESPAÇO é essencialmente e por excelência aquilo que é incapaz de denotar e conotar o Ser. Ou apenas conotar, se assumirmos que Heidegger empregaria denotar para falar do nível ôntico do ser e conotar para se referir ao nível ontológico.

res cogitans X res corporea espírito X natureza

a falta de clareza de seus fundamentos ontológicos e dos próprios membros da oposição radica-se diretamente nessa distinção efetivada por Descartes.”

O termo para o ser de um ente em si mesmo é substantia. Essa expressão ora designa o ser de um ente como substância, substancialidade, ora o próprio ente, uma substância. Essa ambigüidade de substantia, que já trazia em si o antigo conceito de OUSIA, não é casual.”

O que constitui propriamente o ser em si mesmo da res corporea? Como se pode apreender uma substância como tal? (…) As substâncias são acessíveis em seus <atributos> e cada substância possui uma propriedade principal a partir da qual a essência da substancialidade de uma substância pode ser recolhida. Qual é esta propriedade na res corporea? (…) a extensão em comprimento, altura e largura constitui o ser propriamente dito da substância corpórea que nós chamamos <mundo>. (…) A extensão é a constituição ontológica do ente em causa que deve <ser> antes de quaisquer outras determinações ontológicas a fim de que estas possam <ser> o que são.” “Se os corpos duros, i.e., os que não cedem à pressão, trocassem de lugar com a mesma velocidade com que a mão <corre> em direção aos corpos, então nunca se chegaria a tocá-los, e a dureza nunca seria percebida, e com isso, portanto, nunca seria dureza.”

a extensão, isto é, aquilo que se pode alterar em qualquer modo de divisibilidade, figuração e movimento, o capax mutationum, o que se mantém, remanet, em todas essas alterações.”

permanência constante”

Por substância só podemos entender um ente que é de tal modo que para ser não necessite de nenhum outro ente. O ser de uma <substância> caracteriza-se por uma não-necessidade.”

Ao ser entendido como ens perfectissimum, <Deus> é aqui um título puramente ontológico.” “Todo ente que não for Deus necessita de produção em sentido amplo e de conservação. A produção de algo simplesmente dado, ou também a necessidade de se produzir, constituem o horizonte em que se compreende o <ser>.” “Entre ambos os entes, subsiste uma diferença <infinita> de ser e, apesar disso, chamamos de ente tanto o criado como o criador. Por conseguinte, usamos a palavra ser numa extensão tal, que o seu sentido abrange uma diferença <infinita>. Por isso e com certo direito, podemos chamar também o ente criado de substância. (…) dentro da região dos entes criados, do <mundo> no sentido de ens creatum, existe algo que <não necessita de um outro ente>, no tocante à produção e conservação das criaturas, p.ex. o homem.” O problema está em que, de novo, o homem é res cogitans e res corporea.

Nas afirmações <Deus é> e <o mundo é> predicamos o ser. Essa palavra <é> não pode indicar o ente cada vez referido no mesmo sentido (univoce), já que entre ambos existe uma diferença infinita de ser”

A escolástica apreende o sentido positivo da significação de <ser> como significação <analógica> para distingui-la da significação unívoca ou meramente sinônima. Apoiando-se em Aristóteles, em quem o problema já se delineou no ponto de partida da ontologia grega, fixaram-se vários modos de analogia, segundo os quais também as <Escolas> se distinguiam quanto à apreensão da função significativa de ser. No tocante à elaboração ontológica do problema, Descartes fica muito aquém da escolástica, chegando mesmo a recuar diante da questão.” “Sem dúvida, a ontologia medieval, do mesmo modo que a antiga, questionou muito pouco o que o próprio ser designa. (…) O sentido permaneceu não-esclarecido porque foi tomado por <evidente>.” “Descartes não apenas recua inteiramente diante da questão ontológica da substancialidade, como acentua explicitamente que a substância como tal, i.e., a substancialidade, já é em si mesma, de antemão, inacessível para si mesma. [Diz:] O <ser> ele mesmo não nos <afeta>, não podendo por isso ser percebido. Segundo a sentença de Kant, que apenas repete a frase de Descartes, <o ser não é um predicado real>. Com isso, renuncia-se em princípio à possibilidade de uma problemática pura do ser e busca-se uma saída pela qual se possam obter as determinações acima caracterizadas das substâncias. Porque <ser> de fato não é acessível como os entes, ele passa a ser expresso por determinações ônticas dos entes em questão, isto é, pelos atributos [fenomenológicos]. (…) pressupostos sem discussão.”

É a substância divisível? Então é real e veraz (está no espaço)”, argumenta D. de si para si.

Porque o ôntico é colocado abaixo do ontológico, a expressão substância exerce um significado ora ontológico ora ôntico, funcionando, porém, na maioria das vezes, como significado misturado.”

ENUMERO LOGO ERRO: “Que modo de ser da pre-sença é estabelecido como a via de acesso adequada ao que, enquanto extensio, Descartes identifica com o ser do <mundo>? A única via de acesso autêntica para esse ente é o conhecimento, a intellectio, no sentido do conhecimento físico-matemático. O conhecimento matemático vale como o modo de apreensão dos entes, capaz de propiciar sempre uma posse mais segura do ser dos entes nele apreendidos. (…) Propriamente só é o que sempre permanece. E é isso o que a matemática conhece. (…) Descartes não retira o modo de ser dos entes intramundanos deles mesmos. Com base numa idéia de ser[-constância] (…) prescreve ao mundo o seu ser <próprio>. Não é, portanto, principalmente o apoiar-se numa ciência particular e, por acaso, especialmente estimada, a matemática, o que determina a ontologia do mundo, mas uma orientação fundamentalmente ontológica pelo ser enquanto constância do ser simplesmente dado” “Descartes cumpre, assim, de maneira filosoficamente explícita, a virada das influências da ontologia tradicional sobre a física matemática moderna e os seus fundamentos transcendentais.”

modo de acesso ao ente ainda possível de uma percepção intuitiva”

É duro dizê-lo, mas Descartes não entendeu o conceito de rigidez! Ou melhor: não entendeu a rigidez. O conceito de rigidez nada tem que ver com a rigidez.

Coordenadas não se tocam, como entes poderiam [r]esistir mutuamente?

Divisão e descontinuidade

Com isso veda-se completamente o caminho para se ver o caráter fundado de toda percepção sensível e intelectual e para compreendê-las como uma possibilidade do ser-no-mundo.”

Será que com essas discussões críticas não se estará exigindo de Descartes uma tarefa que se encontra totalmente fora de seu horizonte?” “A discussão deve-se orientar pela tendência real da problemática mesmo que esta não ultrapasse uma compreensão vulgar.” Palavras, palavras, palavras

A análise cartesiana do <mundo> possibilita, pela 1ª vez, uma construção segura da estrutura da manualidade; necessita apenas de uma complementação, facilmente exeqüível, da coisa natural para transformá-la numa perfeita coisa de uso.”

O acréscimo de predicados de valor [não-matemáticos, i.e., qualidades] não é capaz de propiciar em nada uma nova perspectiva sobre o ser dos bens mas apenas pressupõe para estes o modo de ser de puras coisas simplesmente dadas.” “Em última instância, os valores têm sua origem ontológica unicamente no ponto de partida prévio da realidade das coisas como nível fundamental. Já a experiência pré-fenomenológica, no entanto, mostra nos entes entendidos como coisa algo que não pode ser inteiramente compreendido por meio desse caráter.”

Do ponto de vista ontológico, o que significa o ser dos valores, ou seja, <a sua valência>?” Não faz pergunta difícil, H.!

E essa reconstrução de uma coisa de uso inicialmente <descascada> não necessitaria sempre de uma visão prévia e positiva do fenômeno cuja totalidade deve ser reproduzida na reconstrução? Se, porém, a sua própria constituição ontológica não tiver sido explicitada previamente de modo adequado, a reconstrução procederá sem qualquer projeto.” Hic salta Nietzsche.

Perguntas capitais:

1. Por que (…) desde Parmênides (…) passou-se por cima do fenômeno do mundo? De onde provém a repetição contínua desse passar por cima?

2. Por que o ente intramundano se torna tema ontológico para esse fenômeno?

3. Por que este ente encontra-se, de início, na <natureza>?

4. Por que a complementação desta ontologia do mundo, que se sente necessária, cumpre-se em se recorrendo ao fenômeno dos valores?

Somente nas respostas a estas questões é que a problemática do mundo poderá alcançar uma compreensão positiva”

O método cartesiano não é ontologicamente metódico.

Heidegger é bom para perguntar, ruim para responder.

C. O CIRCUNDANTE DO MUNDO CIRCUNDANTE E A ESPACIALIDADE DA PRE-SENÇA

REVIRANDO CARTÉSIO: “O instrumento tem seu local ou então <está-por-aí>, o que se deve distinguir fundamentalmente de uma simples ocorrência numa posição arbitrária do espaço [x, y].” “O lugar é sempre o <aqui> e <lá> determinados a que pertence um instrumento.” “Chamamos de região este para-onde da possível pertinência instrumental”

Esta orientação regional da multiplicidade de locais do que está à mão constitui o circundante” “Nunca nos é dado, de início, uma multiplicidade tridimensional de possíveis posições preenchidas por coisas simplesmente dadas.” “O que continuamente está à mão não tem um local, pois é previamente levado em conta pelo ser-no-mundo da circunvisão.”

o sol cuja luz e calor são usados cotidianamente possui seus locais marcados e descobertos pela circunvisão (…): o nascente, o meio-dia, o poente, a meia-noite.” “indicações privilegiadas” “A casa tem o seu lado do sol e o seu lado da ventilação; por ele se orienta a distribuição dos <cômodos> [ou não, na periferia] e nestes, novamente, a <instalação> de acordo com o seu caráter instrumental.” “Igrejas e sepulturas, p.ex., são dispostas segundo o nascente e o poente, regiões da vida e da morte”

Distanciar diz fazer desaparecer o distante, isto é, a distância de alguma coisa diz proximidade. Em sua essência, a pre-sença é essa possibilidade de dis-tanciar.” “Assim como o intervalo, a distância é uma determinação categorial dos entes destituídos do modo de ser da pre-sença. (…) quaisquer 2 coisas, 2 pontos não estão distantes um do outro, porque nenhum deles é capaz de distanciar em seu modo próprio de ser.”

Será que o sentido da afirmação disseminada que li sobre Heidegger no tocante à Técnica é nessa possibilidade catastrófica iminente da aldeia global comprimir todo o horizonte, achatar as distâncias e tornar tudo circunvizinhança do ser-aí? “Todos os modos de aumentar a velocidade que nós, hoje, de forma mais ou menos forçada, exercemos impõem a superação da distância. Assim, p.ex., com a <radiodifusão>, a pre-sença cumpre hoje o dis-tanciamento do <mundo>, através de uma ampliação e destruição do mundo circundante cotidiano, cujo sentido para a pre-sença ainda não pode ser totalmente aniquilado.”

Mesmo quando nos servimos de medidas precisas e dizemos: <até em casa é meia hora>, essa medição deve ser tomada como uma avaliação, pois aqui <meia hora> não são 30 minutos mas uma duração que não possui <tamanho>, no sentido de extensão quantitativa.”

todo dia os caminhos corriqueiros que levam ao ente dis-tante são diferentemente longos.” “Os intervalos objetivos de coisas simplesmente dadas não coincidem com a distância e o estar próximo do manual intramundano.” “Trata-se de uma <subjetividade> que talvez descubra o mais real da <realidade> do mundo, a qual nada tem a ver com uma arbitrariedade <subjetiva> nem com <apreensões> subjetivistas de um ente <em si> diverso.”

ANTOLHOS (Da sabedoria hindu à Rei de Evangelion): “Para quem usa óculos, p.ex., que, do ponto de vista do intervalo, estão tão próximos que os <trazemos no nariz>, esse instrumento de uso, do ponto de vista do mundo circundante, acha-se mais distante do que o quadro pendurado na parede em frente.” Hoje somos míopes surdos do ventre inchado, sempre com fone e fome.

[Mas] Em seu ser-em, que instala dis-tanciamento, a pre-sença também possui o caráter de direcionamento.” “Sendo, a pre-sença, na qualidade de um ser que distancia e se direciona, possui uma região já desde sempre descoberta.” “A espacialização da pre-sença em sua <corporeidade>, a qual abriga em si uma problemática especial que não será tratada aqui, acha-se também marcada por essas direções.”

manobra”

ma[n-o]b-ra

mão inimiga no peito amigo

b-ra So fort v-in-gador

Pelo puro sentimento da diferença de meus 2 lados nunca poderia localizar-me corretamente no mundo. (Kant)” “O fato de eu já estar sempre num mundo não é menos constitutivo da possibilidade de orientação do que o sentimento de direita e esquerda.”

O CARÁTER DO ASSUNTO TEM LICENÇA POÉTICA PARA A REDUNDÂNCIA MAIS VULGAR: “A interpretação psicológica de que o eu possui algo <na memória>, no fundo, tem em mente a constituição existencial do ser-no-mundo.”

(*) “Todo ser é sempre ser-com mesmo na solidão e isolamento, a pre-sença é sempre co-presença (Mitdasein), o mundo é sempre mundo compartilhado (Mitwelt), o viver é sempre com-vivência (Miteinandersein).”

(*) “Para indicar a ação impessoal de um verbo, a língua alemã dispõe de 2 pronomes: es e man. <Es> indica uma impessoalidade indiferenciada. O sujeito da ação pode ser uma coisa, uma pessoa, uma situação [Es regnet – chove]. O <man> exprime, por sua vez, uma impessoalidade diferenciada, pois diz que ocorreu uma despersonalização de pessoas. [Man frölich ist – É-se feliz ou A gente é feliz].”

(*) “PRÓPRIO = SELBST

O termo <Selbst> e seus derivados, Selbst-sein, Selbstheit, das Selbst, Selbigkeit não designam nem a consciência, nem o inconsciente nem a personalidade, em qualquer sentido ou acepção psicológica e antropológica.”

(*) DE-MONSTRAÇÃO = AUFZEIGUNG; AUFWEISUNG

A palavra portuguesa de-monstração, tomada em sua formação etimológica, corresponde bem aos 2 termos alemães Auf-zeigung e Auf-weisung, pois ambos exprimem o movimento de mostrar, indicar, apontar, sem a conotação de seu uso lógico e matemático.”

(*) “CURIOSIDADE = NEUGIER

A voracidade insaciável de novidades pelo simples fato de ser diferente e diverso integra o mecanismo da despersonalização e descaracterização de toda autonomia e respeito da propriedade. O curioso não se interessa por transformar-se e diferenciar-se.”

CU-RIOSO

NEW-GEAR AUTO-PILOT nóiáguia

A REALLY SAD LOT

ANTI-KANT (ou SCHOPENHAUER, para todos os efeitos): “O espaço n[ão] está no sujeito (…) Ao contrário, o espaço está no mundo na medida em que o ser-no-mundo constitutivo da pre-sença já descobriu sempre um espaço. (…) É o <sujeito>, entendido ontologicamente, a pre-sença, que é espacial em sentido originário. Porque a pre-sença é nesse sentido espacial, o espaço se apresenta como a priori. Este termo não indica a pertinência prévia a um sujeito que de saída seria destituído de mundo e projetaria de si um espaço. Aprioridade significa aqui precedência do encontro com o espaço (como região) em cada encontro do manual no mundo circundante.”

A intuição formal do espaço descobre possibilidades puras de relações espaciais. Estas consistem numa seqüência hierárquica na liberação de um espaço puro e homogêneo, desde a pura morfologia das figuras espaciais, visando a uma análise da posição (situs), até às ciências puramente métricas do espaço.” “O mundo perde a especificidade de suas circundâncias, o mundo circundante transforma-se em mundo da natureza. (…) contexto de coisas extensas simplesmente dadas.” Eis a desmundanização, com seu aspecto de neutro e homogêneo do espaço.

4. O SER-NO-MUNDO COMO SER-COM E SER-PRÓPRIO. O “IMPESSOAL”

O pronome quem é aquilo que, nas mudanças de atitude e vivência, se mantém idêntico e, assim, refere-se a esta multiplicidade. Do ponto de vista ontológico, nós o entendemos como algo simplesmente dado, já sempre constantemente vigente para e numa região fechada e que, num sentido privilegiado, oferece uma base enquanto o subjectum. (…) Por mais que se rejeite a substância da alma ou o caráter de coisa da consciência e da objetividade da pessoa, ontologicamente, já no ponto de partida, fica-se atrelado a algo cujo ser guarda, explícita ou implicitamente, o sentido de ser simplesmente dado. A substancialidade é o guia ontológico da determinação dos entes a partir do qual se responde à pergunta quem.” “Ora, o ser simplesmente dado é o modo de ser de um ente que não possui o caráter da pre-sença.” “Pode ser que o quem da pre-sença cotidiana não seja sempre justamente eu mesmo.” “E se, partindo do dado do eu, a analítica existencial caísse, por assim dizer, nas tramas da própria pre-sença e de sua auto-interpretação mais corriqueira?” “O <eu> só pode ser entendido no sentido de uma indicação formal não-contingente de algo que, em cada contexto ontológico-fenomenal, pode talvez se revelar o <seu contrário>. Nesse caso, o <não-eu> não diz, de forma alguma, um ente em sua essência desprovido de <eu>, mas indica um determinado modo de ser do próprio <eu> como, p.ex., a perda de si próprio.” “a <substância> do homem é a existência e não o espírito enquanto síntese de corpo e alma.”

SER-TU: “Humboldt observou várias línguas que exprimem o <eu> pelo <aqui>, o <tu> pelo <aí>, o <ele> pelo <lá>, portanto, línguas que, numa formulação gramatical, exprimem os pronomes pessoais pelos advérbios locativos. É discutível qual o significado originário das expressões locativas, quer adverbiais, quer pronominais.” “O aqui, lá, aí, não são primariamente mera determinação de lugar dos entes intramundanos, simplesmente dados em posições espaciais, e sim caracteres da espacialidade originária da pre-sença.”

ser-aí-com (= co-pre-sença nesta tradução)

O estar-só é um modo deficiente de ser-com e [justamente] sua possibilidade é a prova disso.” “Esse fenômeno que, de maneira não muito feliz, designa-se de <simpatia> deve, por assim dizer, construir ontologicamente uma ponte entre o próprio sujeito isolado e o outro sujeito, de início, inteiramente fechado.” “<O outro é um duplo de próprio.> É fácil ver que essa reflexão aparentemente evidente apóia-se em bases pouco sólidas. A pressuposição dessa argumentação de que o ser da pre-sença é para si mesmo o ser-para-um-outro não é justa. Enquanto essa pressuposição não se comprovar evidente em sua justa determinação, permanece enigmático de que maneira ela haverá de esclarecer a relação da pre-sença-para-consigo-mesma com referência ao outro-como-outro.”

O quem não é este ou aquele, nem o próprio do impessoal, nem alguns e muito menos a soma de todos. O <quem> é o neutro, o impessoal.” “O impessoal desenvolve sua própria ditadura nesta falta de surpresa e de possibilidade de constatação. Assim, nos divertimos e entretemos como impessoalmente se faz; lemos, vemos e julgamos sobre a literatura e a arte como impessoalmente se vê e julga; também nos retiramos das <grandes multidões> como impessoalmente se retira; achamos <revoltante> o que impessoalmente se considera revoltante. O impessoal, que não é nada determinado mas que todos são, embora não como soma, prescreve o modo de ser da cotidianidade.”

Em seu ser, o impessoal coloca essencialmente em jogo a medianidade. (…) Essa medianidade, designando previamente o que se pode e deve ousar, vigia e controla toda e qualquer exceção que venha impor-se. Toda primazia é silenciosamente esmagada. Tudo que é originário se vê, da noite para o dia, nivelado como algo de há muito conhecido. O que se conquista com muita luta, torna-se banal. Todo segredo perde sua força. O cuidado [ver acima o ‘passivo’ da Cura] da medianidade desentranha também uma tendência essencial da pre-sença, que chamaremos de nivelamento de todas as possibilidades de ser.”

public-idade” limit-ações da trad-ução!

O impessoal encontra-se em toda parte, mas no modo de sempre ter escapulido quando a pre-sença exige uma decisão.” “o impessoal retira a responsabilidade de cada pre-sença.” “Pode assumir tudo com a maior facilidade e responder por tudo, já que não há ninguém que precise responsabilizar-se por alguma coisa. O impessoal sempre <foi> quem… e, no entanto, pode-se dizer que não foi <ninguém>.” “o impessoal conserva e solidifica seu domínio caturro. [grosseiro, superficial]” “o impessoal, enquanto ninguém, não é um nada. Ao contrário, neste modo de ser, a pre-sença é um ens realissimum, caso se entenda <realidade> como um ser dotado do caráter de pre-sença.” “O impessoal também não é uma espécie de <sujeito universal> que paira sobre vários outros. Essa concepção só é possível caso o ser dos <sujeitos> seja compreendido como o que não possui o caráter de pre-sença, e caso se parta da suposição de que os sujeitos são casos factuais simplesmente dados de um gênero.” “Não é de admirar que a lógica tradicional fracasse diante destes fenômenos quando se pensa que a lógica tem seu fundamento numa ontologia-das-coisas-simplesmente-dadas que, além de tudo, é precária. Por mais que se aperfeiçoe e amplie, a lógica não pode, em princípio, tornar-se mais flexível. As reformas da lógica, orientadas pelas <ciências do espírito>, só fazem aumentar a confusão ontológica.” “O próprio da pre-sença cotidiana é o próprio-impessoal que distinguimos do si mesmo em sua propriedade

O EU PRÉ-FILOSÓFICO:De início, <eu> não <sou> no sentido do propriamente si mesmo e sim os outros nos moldes do impessoal. É a partir deste e como este que, de início, eu <sou dado> a mim mesmo. De início, a pre-sença é impessoal e, na maior parte das vezes, assim permanece.”

O ser-no-mundo [finalmente] tornou-se visível em sua cotidianidade e em sua medianidade.”

A interpretação ontológica segue inicialmente esta tendência e entende a pre-sença a partir do mundo, onde a encontra como ente intramundano.”

O ser do que é próprio não repousa num estado excepcional do sujeito que se separou do impessoal. Ele é uma modificação existenciária do impessoal como existencial constitutivo.”

5. O SER-EM COMO TAL

Até aqui, a caracterização fenomenal do ser-no-mundo voltou-se para o momento estrutural mundo e para responder à questão quem deste ente em sua cotidianidade. Entretanto, já nas primeiras caracterizações das tarefas de uma análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, antecipou-se uma orientação sobre o ser-em como tal, que se demonstrou concretamente no modo de conhecer o mundo.”

Em busca do ser-da-cura (devidamente ocupado, em termos heideggerianos).

O fenômeno da igualdade originária dos momentos constitutivos foi, muitas vezes, desconsiderado na ontologia, na medida em que ela pretende, por métodos desabridos, comprovar a proveniência de tudo e de todos a partir de uma <base primordial> única e simples.”

Ser <esclarecido> [dotado de luz] significa: estar em si mesmo iluminado como ser-no-mundo, não através de um outro ente, mas de tal maneira que ele mesmo seja a claridade.”

A. A CONSTITUIÇÃO EXISTENCIAL DO PRE [-AÍ DO SER-AÍ]

Os estados de humor.

O fato de os humores poderem se deteriorar e transformar diz somente que a pre-sença já está sempre de humor.”

naquilo de que o humor faz pouco caso, a pre-sença se descobre entregue à responsabilidade do aí. É no próprio esquivar-se que o aí se abre em seu ser.”

O humor não realiza uma abertura no sentido de observar o estar-lançado [estar-aí] e sim de enviar-se e desviar-se. Na maior parte das vezes, ele faz pouco caso do caráter pesado da pre-sença que nele se revela, e muito menos ainda quando se alivia de um humor. Esse desvio é o que é, no modo da disposição.”

Mesmo que a pre-sença estivesse <segura> na fé de seu <destino> ou pretendesse saber a sua proveniência mediante um esclarecimento racional, nada disso diminuiria o seguinte fenômeno: o humor coloca a pre-sença diante do fato de seu aí que, como tal, se lhe impõe como enigma inexorável.”

O irracionalismo – enquanto o outro lado do racionalismo – fala apenas estrabicamente daquilo para o que o racionalismo é cego.” “Que um ser-aí de fato possa, deva e tenha de assenhorear-se do humor através do saber e da vontade pode, em certas possibilidades da existência, significar uma primazia da vontade e do conhecimento. (…) nunca nos assenhoreamos do humor sem humor, mas sempre a partir de um humor contrário.”

O <mero humor> abre o aí de modo mais originário, embora também o feche de modo ainda mais obstinado do que qualquer não-percepção. Isso é o que mostra o mau-humor. Nele (…) a circunvisão da ocupação se desencaminha.”

O humor se pre-cipita. Ele não vem de <fora> nem de <dentro>.”

Do ponto de vista ontológico-fundamental, devemos em princípio deixar a descoberta primária do mundo ao <simples humor>. Uma intuição pura, mesmo introduzida nas artérias mais interiores de alguma coisa simplesmente dada, jamais chegaria a descobrir algo como ameaça. [sem medo, não se sabe nem o que é destemor; ou, falando de forma mais poética, é impossível agir de modo temerário!]

A primeira investigação metafísica sobre o humor provém da Retórica de Aristóteles. Por que a Retórica e não a Psicologia (Da alma)? Segundo H., porque é a Retórica essencialmente o campo da hermenêutica sistemática do ser-com. O que seria um orador sem humor?! Não um homem…

A partir dos estóicos, o humor se limita e se conforma a ser assunto subsidiário da Filosofia.

É um mérito da pesquisa fenomenológica ter re-criado uma visão mais livre desses fenômenos.” É porque falta a Hegel qualquer consideração nesse sentido e nessa instância (uma pascalização de sua filosofia, p.ex.) que sua filosofia é tão estanque.

O que se teme, o <temível>, é sempre um ente que vem ao encontro dentro do mundo e que possui o modo de ser do manual, ou do ser simplesmente dado ou ainda da co-pre-sença.”

o que é temível em sua temeridade?”

1. dano

2. região de dano

3. o familiar na estranheza dessa região

4. o danoso ainda é ‘meio-distante’, ou já seria outra coisa que temor. Angst

5. é terrível aquilo que até o último instante, por assim dizer, não nos revela se poderá ou não chegar

Nesse aproximar-se, o dano se irradia e seus raios apresentam o caráter de ameaça.” “Não se constata 1º um mal futuro (malum futurum) para a seguir temer. O temer também não constata 1º o que se aproxima mas, em sua temeridade, já o descobriu previamente.” “A circunvisão vê o temível por já estar na disposição do temor. Como possibilidade adormecida no ser-no-mundo disposto, o temer é <temerosidade> e, como tal, já abriu o mundo para que o temível dele possa se aproximar.”

Apenas o ente em que, sendo, está em jogo seu próprio ser, pode temer.” Cães não temem.

Ora, como se poderia temer pelo mundo? Justamente o que não estará nunca dado nem passível de se dar!

Pode-se temer em lugar de, sem sentir temor. (…) O temer em lugar de… de certa forma sabe que não é atingido, embora, na verdade, seja atingido pela co-pre-sença, pela qual se teme. (…) o temer-em-lugar-de não perde sua autenticidade específica quando <propriamente> não teme.”

Na medida em que uma ameaça, em seu <na verdade ainda não, mas a qualquer momento sim>, subitamente se abate sobre o ser-no-mundo da ocupação, o temor se transforma em pavor.” “O referente do pavor é, de início, algo conhecido e familiar. Se, ao contrário, o que ameaça possuir o caráter de algo totalmente não-familiar, o temor transforma-se em horror. E somente quando o que ameaça vem ao encontro com o caráter de horror, possuindo ao mesmo tempo o caráter de pavor, a saber, o súbito, o temor torna-se então, terror. Outras variações do temor nos são conhecidas como timidez, acanhamento, receio e estupor.”

Temeroso na essência.

Toda disposição sempre possui a sua compreensão, mesmo quando a reprime.”

Dizer que a pre-sença existindo é o seu significa, por um lado, que o mundo está <pre-sente>, a sua pre-sença é o ser-em. Este é e está igualmente <presente> como aquilo em função de que a pre-sença é.”

A compreensão é a abertura.

Significância é a perspectiva em função da qual o mundo se abre como tal. Dizer que função e significância se abrem na pre-sença significa que a pre-sença é um ente em que, como ser-no-mundo, ele próprio está em jogo.”

Eu compreendo toda a história do grunge: compreensão no sentido de encapsulamento, abrangência físicos, espácio-temporais de um fenômeno; nasci antes do grunge começar, e até hoje estou vivo conforme antigas bandas grunge e novas bandas post-grunge surgem, o que quer dizer que eu formo um conjunto em que grunge é só um subconjunto completamente contido em mim mesmo. Compreensão em sentido ôntico.

Compreensão como poder-ser. nível ontológico: “A pre-sença é a possibilidade de ser livre para o poder-ser mais próprio.” “A pre-sença é de tal maneira que ela sempre compreendeu ou não compreendeu ser dessa ou daquela maneira. (…) ela <sabe> a quantas ela mesma anda” “Esse <saber> não nasce 1º de uma percepção imanente de si mesma, mas pertence ao ser do aí/pre- do ser-aí/pre-sença que, em sua essência, é compreensão.” “E somente porque o ser-aí é na compreensão de seu aí é que ele pode-se perder e desconhecer. E na medida em que a compreensão está na disposição [humor] e, nessa condição, está lançada existencialmente, o ser-aí já sempre se perdeu e desconheceu. Em seu poder-ser, portanto, o ser-aí já se entregou à possibilidade de se reencontrar em suas possibilidades.”

possibilidade de ser-ventia” maluco genial!

Será por acaso que a questão do ser da natureza visa às <condições de sua possibilidade>?” “por que o ente, destituído do caráter de ser-aí, é compreendido em seu ser quando se abre nas condições de sua possibilidade? Kant pressupõe algo assim, talvez com razão. Mas essa pressuposição não pode mais permanecer sem verificar seu direito.”

compreensão projeto

O projeto é a constituição ontológico-existencial do espaço de articulação do poder-ser de fato.”

a pre-sença se lança no modo de ser do projeto. O projetar-se nada tem que ver com um possível relacionamento frente a um plano previamente concebido, segundo o qual o ser-aí instalaria o seu ser. Como ser-aí, ele já sempre se projetou e só é na medida em que se projeta.”

Enquanto projeto, a compreensão é o modo de ser do ser-aí em que o ser-aí é as suas possibilidades enquanto possibilidades.”

somente porque o ser do aí é tanto o que será quanto o que não será é que o ser-aí pode, ao se compreender, dizer: sé o que tu és!Torna-te aquilo que tu tens a possibilidade aberta de ser.

Sócrates Nietzsche

<Im>-própria não significa que a pre-sença rompa consigo mesma e <só> compreenda o mundo. Mundo pertence ao seu próprio ser como ser-no-mundo.”

Em seu caráter existencial de projeto, a compreensão constitui o que chamamos de visão da pre-sença. (…) Chamamos de transparência a visão que se refere primeira e totalmente à existência.” Ver é converter o simplesmente dado (existenciário) em originário ou existencial, essencial. “A tradição da filosofia, porém, orienta-se desde o princípio, primariamente pelo <ver> [entre aspas, ou seja: ocular, ôntico, vulgar] enquanto modo de acesso para o ente e para o ser.”

O olho que tudo vê na verdade é cego. Aquele que tudo pode não pode-ser. (Ver acima sobre não-ser-judeu no aspecto teleológico do deus todo-poderoso.)

retira-se [assim] da intuição pura a sua primazia que, noeticamente, corresponde à primazia ontológica tradicional do ser simplesmente dado. Intuição e pensamento já são ambos derivados distantes da compreensão. Também a intuição da essência fenomenológica está fundada na compreensão existencial.”

Mas não será que, com a explicação da constituição existencial do ser-do-aí, no sentido do projeto projetado, o ser do ser-aí não se torna ainda mais enigmático?”

fracassar com autenticidade”

Na interpretação, a compreensão se torna ela mesma e não outra coisa. (…) Interpretar não é tomar conhecimento de que se compreendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas na compreensão.” “O mundo já compreendido se interpreta.”

Ter simplesmente diante de si uma coisa [abrangê-la situacionalmente] é somente fixá-la como uma não-compreensão.” “O fato de o <como> [modo da interpretação] não ser pronunciado onticamente não deve levar a desconsiderá-lo enquanto constituição existencial a priori da compreensão.”

Tudo o que está à mão sempre já se compreende a partir da totalidade conjuntural.” “A interpretação sempre se funda numa visão préviaO que H. quer dizer com essa linguagem tão espúria é simplesmente: não existe uma situação de zero valor, não-valor, ou que antedate o valor – o valor sempre está-aí, sempre esteve aí para o homem… Desnudar valores é valorar.

Devemos supor tais fenômenos [a supremacia e ubiqüidade do valor, enquanto valor dos valores] como <realidades últimas>?” R: Sim, mas existe mais de um valor-dos-valores, embora sempre deva haver um para uma época.

CRIATÓRIO DE PALAVRAS PARA O QUE JÁ ESTAVA-AÍ (CONCRETAMENTE, NA FILOSOFIA DO XIX!): “Sentido é a perspectiva em função da qual se estrutura o projeto pela posição prévia, visão prévia e concepção prévia.”

O VELHO VÉU DE MAIA: “O ser-aí só <tem> sentido na medida em que a abertura do ser-no-mundo pode ser <preenchida> por um ente que nela se pode descobrir.” E depois: a única fuga do valor é “falsa”, é a incompreensão do valor vigente. Este é o contra-senso ou nonsense. “o <fundamento> só é acessível como sentido mesmo que, em si mesmo, seja o abismo de uma falta de sentido.”

Toda interpretação que se coloca no movimento de compreender já deve ter compreendido o que se quer interpretar. Esse fato foi sempre observado na interpretação filológica, embora apenas nos setores dos modos derivados de compreensão e interpretação.” Filologia: 2nd hand knowledge

Segundo as regras mais elementares da lógica, no entanto, o círculo é um circulus vitiosus.” “Enquanto não se abolir da compreensão esse círculo, a historiografia deve-se satisfazer com possibilidades de conhecimentos menos rigorosas.” “Mas ver nesse círculo um vício, buscar caminhos para evitá-lo e também <senti-lo> apenas como imperfeição inevitável significa um mal-entendido de princípio acerca do que é compreensão.” “O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.” A matemática não é mais rigorosa do que a história. É apenas mais restrita

Mesmo o ouvir-dizer é um ser-no-mundo e um ser-para-o-que se ouviu.”

Validade indica, por um lado, a <forma> da realidade, atribuída ao conteúdo do juízo enquanto o que permanece inalterado frente ao processo <psíquico> de julgamento, esse em contínua transformação.” “Por outro lado, validade também significa que o sentido do juízo de valor vale para o seu <objeto>, assumindo assim o significado de <validade objetiva> e objetividade em geral.” validade universal

Se ainda se defende uma epistemologia <crítica>, para a qual o sujeito propriamente <não sai de si> para alcançar o objeto, então, nesse caso, a validade como objetividade, a validade do objeto, funda-se na existência válida do sentido verdadeiro (!). As 3 acepções explicitadas de <valer>, ser ideal, objetividade, constringência [universalidade – o termo conota contração, achatamento, espécie de castração de possibilidades], não são apenas confusas em si mas se confundem entre si.”

Nós não restringimos previamente o conceito de sentido à acepção de <conteúdo de juízo>, entendendo-o como fenômeno existencial, já caracterizado, [aberto] onde o aparelhamento formal do que se pode abrir na compreensão e articular na interpretação se faz visível.”

o martelo é pesado, o peso é do martelo, o martelo tem a propriedade de ser pesado. A concepção prévia sempre presente em toda proposição permanece, na maior parte das vezes, sem surpresas, pois toda língua já guarda em si uma conceituação elaborada.” “A falta de palavra não pode ser entendida como falta de interpretação.” “Quais são as modificações ontológico-existenciais que fazem com que a interpretação da circunvisão dê origem à proposição [algo dela derivado]?” Nascimento da proposição: quando “o como é forçado a nivelar-se com o ser simplesmente dado.” O martelo do exemplo não mais em relação com o ser-aí, ser-no-mundo, mas como ente a priori martelo objetificado.

como hermenêutico-existencial X como apofântico (ver glossário ao final – limite da lógica formal aristotélica)

A demonstração é, ao mesmo tempo, uma conjunção e uma disjunção. Sem dúvida Aristóteles não levou a questão analítica até o seguinte problema: na estrutura do logos, que fenômeno permite e exige que se caracterize toda proposição como síntese e diairese [separação]?” “O fenômeno da cópula mostra até que ponto esta problemática ontológica influi na interpretação do logos e, inversamente, até que ponto o conceito de <juízo> repercute, numa reação curiosa, na problemática ontológica.” “já de saída se pressupõe [em Aristóteles, i.e., na Lógica] evidentemente a estrutura sintética, mantendo-a, então, numa função decisiva da intepretação do logos.” “O esclarecimento da 3ª acepção de proposição como comunicação (declaração) levou ao conceito de falar e dizer, até aqui propositadamente desconsiderado. O fato de somente agora se tematizar a linguagem deve indicar que este fenômeno se radica na constituição existencial da abertura do ser-aí.”

Eu falo, mas não com palavras.

Aqui vê-se a fragilidade de Deleuze: seu desejo não tem um para ou de

partilha da disposição comum”

No discurso, o ser-aí se pro[jeta]nuncia.” Só se projeta o que já está/é fora.

Escutar é o estar aberto existencial da pre-sença enquanto ser-com os outros.” “É com base nessa possibilidade de escutar, existencialmente primordial, que se torna possível ouvir [‘escuta compreensiva’].” Não se ouve ruído (som sem significado). Esses trechos confirmam o ‘surdo schopenhaueriano’ como o retardado clássico. Cf. https://seclusao.art.blog/2021/11/14/o-mundo-como-vontade-e-como-representacao-a-musica-ouvida-so-uma-vez-nunca-foi-ouvida/.

Somente quem já compreendeu é que poderá escutar.”

Quem silencia no discurso da convivência pode <dar a entender> com maior propriedade [mormente como oposição].”

a incompreensão da trivialidade”

o mudo é a tendência <para falar>.”

Quem nunca diz nada não pode silenciar

Silenciar em sentido próprio só é possível num discurso autêntico.”

Terá [a ágora grega] sido mero acaso?” “Os gregos não dispunham de uma palavra própria para linguagem porque entendiam esse fenômeno <sobretudo> como discurso.”

A tarefa de libertar a gramática da lógica necessita de uma compreensão preliminar e positiva da estrutura a priori do discurso como existencial.” “Também não basta assumir o horizonte filosófico em que Humboldt problematizou a linguagem.”

De que modo é o ser-da-linguagem para que ela possa estar <morta>? (…) Dispomos de uma ciência da linguagem, a lingüística, e, no entanto, o ser daquele ente por ela tematizado é obscuro” “A investigação filosófica deve renunciar a uma <filosofia da linguagem> a fim de poder questionar e investigar <as coisas elas mesmas> e dever colocar-se em condições de trazer uma problemática clara, do ponto de vista dos conceitos.”

B. O SER COTIDIANO DO AÍ E A DE-CADÊNCIA DO SER-AÍ

Quais são os caracteres existenciais da abertura do ser-no-mundo quando o ser-no-mundo cotidiano se detém no modo de ser do impessoal?” “Como ser-lançado-no-mundo, não será que o ser-aí foi jogado de saída na public-idade do pessoal?”

deve-se evidenciar a abertura do impessoal, quer seja, o modo de ser cotidiano do discurso, da visão e da interpretação em determinados fenômenos. Com relação a esses fenômenos, não será supérfluo observar que a interpretação tem um propósito puramente ontológico e se mantém muito distante de qualquer crítica moralizante do ser-aí cotidiano e de qualquer aspiração a uma <filosofia da cultura>.”

APOLOGIA DA FOFOCA: “A expressão <falatório> não deve ser tomada aqui em sentido pejorativo. Terminologicamente, significa um fenômeno positivo que constitui o modo de ser da compreensão e interpretação do ser-aí cotidiano.”

possibilidades da compreensão mediana”

Qual é o ser-da-fofoca? Ela que não é algo dado, pois é linguagem.

…Todos nós pegamos o bonde andando.

O empenho da comunicação é que se fale. O que se diz, o dito e a dicção se empenham agora pela autenticidade e objetividade do discurso e de sua compreensão.”

O falado no falatório arrasta consigo círculos cada vez mais amplos, assumindo um caráter autoritário. As coisas são assim como são porque delas se fala assim. Repetindo e passando adiante a fala, potencia-se a falta de solidez.” Imprensa: a fofoca ultimada.

A FECHADURA DO DISCURSO: “O falatório que qualquer um pode sorver sofregamente [ex: LULA LADRÃO] não apenas dispensa a tarefa de uma compreensão autêntica como também elabora uma compreensibilidade indiferente, da qual nada é excluído.”

Este fechamento [do discurso] é, de novo, potenciado pelo fato de o falatório pretender ter compreendido o referencial com base nessa pretensão de reprimir, postergar e retardar toda e qualquer questão e discussão.” “O predomínio da interpretação pública já decidiu até mesmo sobre as possibilidades de sintonização com o humor, i.e., sobre o modo fundamental em que o ser-aí é tocado pelo mundo.” “O falatório é (…) um contínuo desenraizamento. Do ponto de vista ontológico, isso significa: como ser-no-mundo, a pre-sença que se mantém no falatório rasgou suas remissões ontológicas primordiais, originárias e legítimas com o mundo, com a co-pre-sença e com o próprio ser-em. (…) Mais do que um não-ser, esse desenraizamento perfaz sua <realidade> mais cotidiana e mais persistente.

A estranheza da oscilação em que o ser-aí tende para uma crescente falta de solidez permanece encoberta sob a proteção de auto-evidência e autocerteza que caracterizam a interpretação mediana.”

Aquilo que se pressignou na sentença de Parmênides chega, nessa interpretação, a uma compreensão temática e explícita. O ser é tudo que se mostra numa percepção puramente intuitiva, e somente esse tipo de ver descobre o ser.” O que é esse tipo de ver? A curiosidade heideggeriana. Raiz da ontologia na Grécia.

Da intuição pura a dialética de Hegel retirou o seu moto [por mais que pense superar Kant] e somente à sua base é que se tornou possível.”

OTIUM: “A curiosidade liberada ocupa-se em ver, não para compreender o que vê, para chegar a ele num ser, mas apenas para ver. Ela busca apenas o novo” “abandonar-se ao mundo”

impermanência” (antítese da pre-sença)

não busca o ócio de uma permanência contemplativa e sim a excitação e inquietação mediante o sempre novo e as mudanças do que vem ao encontro.”

possibilidade continua de dispersão.”

A curiosidade não é o espanto inicial do filósofo na Metafísica de Aristóteles.

O falatório também rege os caminhos da curiosidade. É ele que diz o que se deve ter lido e visto.” “responsabilidade do falatório” Se pudéssemos resumir: o falatório é a burrice personificada, a curiosidade inútil, a tolerância em excesso.

Se, na convivência cotidiana, tanto o que é acessível a todo mundo quanto aquilo de que todo mundo pode dizer qualquer coisa vêm igualmente ao encontro, então já não mais se poderá distinguir, na compreensão autêntica, o que se abre do que não se abre.” “Tudo parece ter sido compreendido, captado e discutido autenticamente quando, no fundo, não foi. Ou então parece que não o foi quando, no fundo, foi.” “Não somente todo mundo conhece e discute o que se dá e ocorre, como também todo mundo já sabe discorrer sobre o que vai acontecer, o que ainda não se dá e ocorre, mas que <propriamente> deve ser feito.” “quem autenticamente <está na pista> não fala sobre isso”

DO ‘NÃO FOI GOLPE’: “Supondo que aquilo que impessoalmente se pressentiu e farejou seja, algum dia, transformado em fato, será justamente a ambigüidade quem terá cuidado para que morra imediatamente o interesse pela coisa realizada. Esse <interesse> só subsiste no modo da curiosidade e do falatório, na medida em que se dá como a possibilidade de mero pressentimento em comum, sem nenhum compromisso. Quando e enquanto se está na pista de alguma coisa, o mero estar-junto recua o compromisso do acompanhamento do momento em que se dá início à realização do que se pressentiu.” “isso qualquer um poderia ter feito” O Barão de Coubertin diria: o importante é pressentir. “Em sua ambigüidade, o falatório e a curiosidade cuidam para que aquilo que se criou de autenticamente novo já chegue envelhecido quando se torna público.”

no impessoal a compreensão da pre-sença não a si mesma em seus projetos”

onde cotidianamente tudo e, no fundo, nada acontece.”

De início, o outro <está presente> pelo que se ouviu impessoalmente dele, pelo que se sabe e se fala a seu respeito. O falatório logo se insinua dentre as formas de convivência originária. Todo mundo presta primeiro atenção em como o outro se comporta, no que ele irá dizer. A convivência no impessoal não é, de forma alguma, uma justaposição acabada e indiferente, mas um prestar-atenção-uns-aos-outros, ambíguo e tenso.”

a ambigüidade não nasce primordialmente de uma má-fé e nem é detonada primeiro por um ser-aí singular [determinado].” “o impessoal haverá sempre de objetar que essa interpretação não corresponde ao modo de ser da interpretação do impessoal.”

Por si mesma, em seu próprio poder-ser ela própria mais autêntico, a pre-sença já sempre caiu de si mesma e de-caiu no <mundo>. De-cair no <mundo> indica o empenho na convivência, na medida em que esta é conduzida pelo falatório, curiosidade e ambigüidade.” “Não ser ele mesmo é uma possibilidade positiva dos entes que se empenham essencialmente nas ocupações do mundo. Deve-se conceber esse não-ser como o modo mais próximo de ser da pre-sença em que, na maioria das vezes, ela se mantém.

Assim, a de-cadência da pre-sença também não pode ser apreendida como <queda> de um <estado original>, mais puro e superior. Disso nós não dispomos onticamente [fenomenal, diretamente] de nenhuma experiência e, ontologicamente [essencialmente], de nenhuma possibilidade e guia ontológicos para uma interpretação.” Fare thee well, Christianity!

Seria igualmente um equívoco compreender a estrutura ontológico-existencial da de-cadência, atribuindo-lhe o sentido de uma propriedade ôntica negativa que talvez pudesse vir a ser superada em estágios mais desenvolvidos da cultura humana.” Ou é uma espetada em Nietzsche (que não acerta em cheio e sequer tem nexo, pois Nietzsche não foi citado hora nenhuma até esse ponto do livro), ou de toda forma demonstra uma escolha inapropriada do termo “de-cadência” para ilustrar seu conceito de devir do ser-aí-no-mundo, já que não tem qualquer conotação de queda ou definhamento.

a própria pre-sença prepara para si mesma a tentação constante de de-cair. É que o ser-no-mundo já é em si mesmo tentador.”

A pretensão do impessoal, de nutrir e dirigir toda <vida> autêntica, tranqüiliza a pre-sença, assegurando que tudo <está em ordem> e que todas as portas estão abertas.”

pode nascer a convicção de que a compreensão das culturas mais estranhas e a sua <síntese> com a própria cultura levaria a um esclarecimento verdadeiro e total da pre-sença a seu próprio respeito. A curiosidade multidirecionada e a inquietação de tudo saber dá a ilusão de uma compreensão universal da pre-sença.”

ela busca a mais exagerada <fragmentação de si mesma>.” “A pre-sença se precipita de si mesma para si mesma na falta de solidez e na nulidade de uma cotidianidade imprópria. Mediante a interpretação pública, essa precipitação fica velada para a pre-sença, sendo interpretada como <ascensão> e <vida concreta>.” Quando ele recebeu a crítica de sua suposta magnum opus deve ter tido vontade de reescrevê-la toda para desmentir o desmentido que levou: ora, gostas de flertar com todos esses conceitos metafísicos de seus antecessores a cada página, H.!

Empilhamento de palavras exóticas, sem que se ganhe nada com isso: “turbilhão”

Debatesse com Adorno! Acho que ambos se divertiriam muitíssimo em meio ao tédio chamado séc. XX! “Será que a pre-sença pode ser compreendida como um ente em cujo ser está em jogo o poder-ser, se justamente em sua cotidianidade a pre-sença se perdeu a si mesma e, na de-cadência, <vive> fora de si mesma?”

sistematização do ser-rebanho

Mas nada de corujas e goticismo!”, teria dito Hegel II.

Dizer que a II Guerra não representa uma viragem (em qualquer sentido que se escolher) de uma autenticidade completa para uma inautenticidade completa ou vice-versa (após a guerra) seria duma má-fé excruciante. Seria, porque o livro tem a sorte de ser anterior ao evento histriônico-histórico.

A interpretação ontológico-existencial não se refere, portanto, a um discurso ôntico sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque lhe faltam os recursos necessários, mas também porque a sua problemática antecede qualquer proposição a respeito da corrupção ou da incorruptibilidade.” “Minha interpretação não se refere a um discurso parcial ou imediatista sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque minha interpretação é absolutamente nua e neutra, e cética na medida ideal, como também porque a História não tem qualquer importância para mim, estou acima dessas miudezas.”

6. A CURA COMO SER DA PRE-SENÇA

A visualização preliminar dada no início a respeito do fenômeno perdeu agora o vazio da 1ª caracterização genérica.” “a questão a que aspirava a análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, qual seja: Como se haverá de determinar, do ponto de vista ontológico-existencial, a totalidade do todo estrutural indicado?” = Qual a relação do ser-aí com a unidade existencial-factual (totalidade do real)? Qual é a relação do presente com o eterno vir-a-ser? = Afinal, o que é a Cura?

Faz-se necessária uma confirmação pré-ontológica da interpretação existencial da pre-sença como cura.”

cura mundanidade manualidade realidade

Na problemática ontológica, ser e verdade foram, desde a Antiguidade, correlacionados, embora suas razões originárias permaneçam talvez encobertas.” “Do ponto de vista existenciário, sem dúvida, a propriedade do ser-próprio se acha, na de-cadência, obstruído e fechado. (sic)”

Aquilo com que a angústia se angustia é o ser-no-mundo como tal. (…) Nada do que é simplesmente dado (…) serve para (…) angustiar-se.” “O mundo possui o caráter de total insignificância.”

Está tão próximo que sufoca a respiração, e, no entanto, em lugar algum.”

Mesmo esse nada-ter-a-ver, o único que o discurso cotidiano da circunvisão é capaz de compreender, não é um nada completo.”

é a angústia que pela 1ª vez abre o mundo como mundo.”

Essa estranheza persegue cotidianamente a pre-sença e ameaça, mesmo que implicitamente, com a perda cotidiana no impessoal.” “O ser-no-mundo tranqüilizado e familiarizado é um modo da estranheza da pre-sença e não o contrário. O não sentir-se em casa deve ser compreendido, existencial e ontologicamente, como o fenômeno mais originário.”

A angústia é condicionada fisiologicamente [, mas o] (…) disparo psicológico da angústia só é possível porque a pre-sença, no fundo de seu ser, se angustia.”

A pre-sença já está sempre <além de si mesma>, não como atitude frente aos outros entes que ela mesma não é, mas como ser-para-o-poder-ser que ela mesma é. Designamos a estrutura ontológica do <estar em jogo> como o preceder a si mesma da pre-sença.

Pertence a esse ser-no-mundo o fato de, entregando-se à responsabilidade de si mesmo, já se ter lançado em um mundo.” “Em outras palavras: existir é sempre um fato. Existencialidade determina-se essencialmente pela facticidade.”

CURA ENQUANTO ESSA PRECEDÊNCIA INERENTE: “Fica excluída dessa significação toda tendência ôntica [imediatista] como cuidado ou descuido.” “A expressão <cura de si mesmo>, de acordo com a analogia da ocupação e preocupação, seria uma tautologia.”

no preceder-a-si-mesma, o <si> indica sempre o próprio, no sentido do próprio-impessoal. Mesmo na impropriedade, a pre-sença permanece essencialmente um preceder-a-si-mesma, da mesma forma que a fuga-de-si-mesma-na-de-cadência ainda apresenta a constituição ontológica na qual está em jogo o seu ser.

Enquanto totalidade originária de sua estrutura, a cura se acha, do ponto de vista existencial-a priori, <antes> de toda <atitude> e <situação> da pre-sença, o que sempre significa dizer que ela se acha em toda atitude e situação de fato.”

Sendo em sua totalidade essencialmente indivisível, toda tentativa de reconstrução ou recondução do fenômeno da cura a atos ou impulsos particulares tais como querer ou desejar, propensão ou tendência, converte-se em fracasso.

Tanto o querer como o desejar estão enraizados, com necessidade ontológica, na pre-sença enquanto cura e, do ponto de vista ontológico, não são vivências indiferentes que ocorrem numa <corrente> inteiramente indeterminada quanto ao sentido de seu ser.”

Do ponto de vista ontológico, [sempre bom ressaltar, para os imbecis do big bang] a cura é <anterior> aos fenômenos mencionados [surgimento da vida da perspectiva da física ou da biologia] que, sem dúvida, só podem ser adequadamente <descritos> dentro de certos limites, sem que seja necessário evidenciar ou tornar conhecido o horizonte ontológico em seu todo.” “Para a presente investigação de uma ontologia fundamental, que não aspira a uma ontologia tematicamente completa da pre-sença e muito menos a uma antropologia concreta, basta que se indique como estes fenômenos se fundam existencialmente na cura.”

No querer, só se apreende um ente já compreendido, i.e., um ente já projetado em suas possibilidades como ente a ser tratado na ocupação ou a ser cuidado em seu ser na preocupação.” “Para a possibilidade ontológica do querer são constitutivos: a abertura prévia do em-função-de-que (o preceder a si mesma), a abertura do que se pode ocupar (o mundo como algo em que já se é) e o projeto de compreensão da pre-sença num poder-ser para a possibilidade de um ente <que se quis>.”

Esse nivelamento das possibilidades da pre-sença ao que se oferece, de imediato, no cotidiano realiza, ao mesmo tempo, uma obliteração do possível como tal. A cotidianidade mediana da ocupação se torna cega para as possibilidades e se tranqüiliza com o que é apenas <real>.”

…de maneira a dar a impressão de que algo está acontecendo.”

A MEGA SENA DA MECA DO FUNCIONALISMO: “No desejo, a pre-sença projeta o seu ser para possibilidades as quais não somente não são captadas na ocupação como não se pensa ou se espera, sequer uma vez, a sua realização. Ao contrário, a predominância do preceder-a-si-mesma, no modo do simples desejar, comporta uma incompreensão das possibilidades factuais. O ser-no-mundo, cujo mundo se projeta primariamente como mundo do desejo, perde-se, de modo insustentável, no que se acha disponível, e isso de tal modo que o que está disponível como o único manual jamais é suficiente à luz do que se deseja. Desejar é uma modificação existencial do projetar-se da compreensão que, na de-cadência do estar-lançado, ainda adere pura e simplesmente às possibilidades. Essa adesão fecha as possibilidades; aquilo que está ‘presente’ na adesão do desejo torna-se ‘mundo real’. Ontologicamente, desejar pressupõe a cura.”

É verdade que o desejo — cegueira e antolhos — é sempre a decadência e mundanização de uma pretensa onisciência, possível de ser concebida apenas a posteriori após a ‘decadência’ e ‘mundanização’. Isso é o que torna as pessoas tão pasmadas. O homem é aquele que nunca sacia seu desejo? Falso. Este não é o homem-no-homem! Já está saciado. O homem é aquele que estabelece sua própria prisão em vez de liberdades.

A adesão de-cadente revela a tendência da pre-sença de se <deixar viver> pelo mundo em que ela sempre está.” “[A cura] cega coloca todas as possibilidades a serviço da tendência.”

Enquanto modificação de todo ser-no-mundo, a pre-sença já é sempre cura.” Pois sua fuga redunda em achar-se e com-frontar-se consigo mesma. O ser-aí en-cara de igual para igual no mundo jamais-aplanado.

a idéia de ser é tão pouco <simples> como o ser da pre-sença.”

do ponto de vista ontológico, a <novidade> dessa interpretação é, do ponto de vista ôntico, bastante antiga.” Quer dizer que nada do que H. explica é novo ou inédito, mesmo em face da filosofia clássica dos gregos.

o ser da pre-sença se caracteriza pela historicidade que, de todo modo, só deve ser comprovada ontologicamente. Se, com base em seu ser, a pre-sença é ‘histórica’, então uma proposição oriunda de sua história e que a ela remete, sendo anterior a toda ciência, possui um peso particular, embora, sem dúvida, não seja um peso puramente ontológico.”

A auto-interpretação da pre-sença como <cura> foi apresentada numa antiga fábula.”

Como bom alemão, recorre a Fausto: (*) “Burdach mostra que Goethe extraiu de Herder a fábula que consta como a 220 das Fábulas de Higino, tendo-a trabalhado para a segunda parte de seu Fausto.”

Certa vez, atravessando um rio, Cura viu um pedaço de terra argilosa: tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. Cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como Cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o[utro] nome. Enquanto Cura e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também TELLUS [Terra]¹ querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram SATURNO como árbitro. Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente eqüitativa: <Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, Tellus, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi Cura quem primeiro o formou, ele deve pertencer à Cura enquanto viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar HOMO, pois foi feito de húmus.>²

¹ Anatomy is destiny! Júpiter ou Zeus é Mefistófeles.

² “Substância orgânica e negra, resultante da decomposição parcial de vegetais ou de animais, que se acumula sobre o solo ou a ele se mistura. Etimologia (origem da palavra húmus). Do latim humus.i, terra.” Está decidido: o homem é originariamente preto.

Carl Sagan, Shakespeare. Começa e termina com-poeira. Ca’poeira luta metafísica… Alergia à vida.

essa primazia da cura emerge no contexto da concepção conhecida em que o homem é apreendido como o composto de corpo e espírito.”

O homem é o que está vivo. O homem é originariamente irreligioso, eis sua essência mais recôndita. O animal para a vida do barro e da terra e moral. Zeus nunca é nosso responsável, i.e., nunca pagamos o preço pela venda da alma na fábula (nun-ca-veiramos, hamletianamente). Cristo como o não-homem (uma curiosidade).

Se uma moeda fôssemos, a Cura seria o valor ou o trabalho de oficialização estatal sobre o metal responsável por inseri-la em circulação (em qualquer ponto do ciclo).

origem na margem do rio – veja explicações mais completas deste raciocínio em https://www.recantodasletras.com.br/pensamentos/7485396.

esse ente não é abandonado por essa origem, mas, ao contrário, por ela mantido e dominado enquanto for e estiver no mundo.” Esse o verdadeiro sentido da frase platônica deus é a medida de todas as coisas (do homem). Mas não significa que não foi o homem que atribuiu a medida, só quer dizê-lo objetivamente. Porque o homem não existe. Seria Prometeu acorrentado, mas nós somos livres. Não haverá punição pela transgressão. Tudo menos isso. Temos a chave da própria prisão e devemos usá-la enquanto é tempo. Ou enquanto o tempo é. A chave abre e roda a cunha. E também sela (o destino).

Desde os primórdios já era uma vez.

A menos que um dia a Hindo-China nos negasse, essa seria a interpretação final final e formal.

Questões preliminares:

1. É a coisa real (transcende a consciência do ser)? Resposta condensada: Esse modo de raciocínio é uma tautologia.

2. Se real o mundo externo (inanimado, fora da consciência), essa realidade é passível de prova? Resp.cndsd: Não. Mas é absurdo cobrar a prova.

3. A coisa, no Realismo, possui um ser-em-si (diferente de coisa-em-si ou noumeno, porém igualmente impossível, conforme verificaremos)? Resp.cndsd: Só o que existe é a coisa-para-o-ser, não um ser-para-a-coisa, apesar da nomenclatura enganosa de todas as traduções!

4. O que é a coisa chamada ‘realidade’? Resp.cndsd: A filosofia tradicional (antiga + moderna), que deve ser superada!

Elaboração das respostas condensadas acima (elas se fecham num círculo, e com isso se abrem para o Ser):

1., 2.

Instrumento tradicional de estudo do real: INTUIÇÃO

Instrumento fenomenológico (ontológico originário) de estudo do “real”: “A questão se o mundo é real e se o seu ser pode ser provado, questão que a pre-sença enquanto ser-no-mundo haveria de levantar – e quem mais poderia fazê-lo? – mostra-se destituída de sentido.”

O que é o mundo? A totalidade ou apenas a circunvisão do ser-aí? Não faz sentido falar num mundo da totalidade, pois sem a circunvisão do ser-aí, ele existindo ou não, ficaria fechado ao ser, e não nos interessa em nível ontológico a discussão ou investigação de um mundo tal (ôntico). Ou seja, devemos abandonar a analítica da empiricidade das coisas e da intuição (entidade dos sentidos do fenômeno), o que Heidegger chama por várias vezes de entes já dados ou a priori. (FILOSOFIA ATÉ KANT, incluindo Hegel, pois originariamente falando Hegel vem antes de Kant, retroage em relação à precedência cronológica do primeiro. Além disso, do prisma heideggeriano, a intuição e o espaço-tempo kantianos são ainda empirismo, i.e., realismo, investigação tradicional.)

Essa confusão das questões, o confundir-se do que se quer comprovar com o que se comprova e com a comprovação, mostra-se na <refutação do idealismo> de Kant. Kant chamou de <escândalo da filosofia e da razão humana em geral> o fato de ainda não se dispor de uma prova definitiva, capaz de eliminar todo ceticismo a respeito da <presença (Dasein) das coisas fora de nós>Ou seja, ceticismo a respeito do real, nada a ver com o ser-aí. Schopenhauer sabia, ainda que pelas razões erradas, que o Idealismo era o vencedor na velha contenda Idealismo x Realismo, que pendeu para o lado do realismo durante a proeminência dos filósofos franceses e britânicos e que havia estagnado na época do criticismo kantiano, chegando a seu suposto termo metafísico dada sua solução negativa. Hegel podia até ser idealista, mas sua fé transcendental em algo completamente não-observável (a teleologia) compromete posicioná-lo ao lado de Schopenhauer em alguma coisa, ainda que coincidam em nomenclatura por poucas linhas!

De início, deve-se observar explicitamente que Kant usou o termo <presença> (Dasein) para designar o modo de ser que, na investigação precedente, nós chamamos de <ser simplesmente dado>. <Consciência de minha presença> significa para Kant: consciência de meu ser enquanto ser simplesmente dado no sentido de Descartes.” K. funde ser e ente, ou mais exatamente consciência e objeto (eis o espírito do criticismo).

A PROVA A PRIORI DOS 9: “A prova da <presença das coisas fora de mim> sustenta-se no fato de que transformação e permanência pertencem, de modo igualmente originário, à essência do tempo.”

alguma coisa permanente simplesmente dada” em Kant são espaço, tempo e causa.

Na verdade, a prova não consiste numa conclusão causal e por isso não guarda as suas inconveniências.” “Num primeiro momento, tem-se a impressão de que Kant abandonou o princípio cartesiano da preexistência de um sujeito isolado. (…) O fato de Kant fornecer uma prova da <presença das coisas fora de mim> já mostra que, nessa problemática, ele toma o sujeito, o <em mim>, como ponto de apoio. (…) a experiência do <tempo> que a prova inclui só se faz <em mim>.” Quando eu é/sou o solo, morre-se/morro no abismo, pois o eu é sempre a instância mais fraca na metafísica ocidental.

O que Kant prova é o ser simplesmente dado necessariamente em conjunto de um ente que se transforma e um que permanece. Essa equiparação de 2 seres simplesmente dados ainda não diz o simplesmente-dar-se-em-conjunto-de-sujeito-e-objeto.”

Kant pressupõe a diferença e o nexo entre <em mim> e <fora de mim> – o que é correto do ponto de vista do fato, mas incorreto no sentido a que tende a sua prova. (…) Mas mesmo que se visse o todo da diferença e o nexo entre <dentro> e <fora>, pressuposto na prova, e se concebesse ontologicamente o que nessa pressuposição é pressuposto, ainda ruiria a possibilidade de se considerar como necessária e ainda ausente a prova da <presença das coisas fora de mim>.

O <escândalo da filosofia> não reside no fato dessa prova ainda inexistir e sim no fato de sempre ainda se esperar e buscar essa prova. (…) O modo de ser desse ente que prova e exige provas é que é subdeterminado.” Chega de fora, dentro, exterior e interior! Só o que há é a unidade do ser-aí-no-mundo.

A pre-sença, entendida corretamente, resiste a tais provas porque ela já sempre é, em seu ser, aquilo que as provas posteriores supõem como o que se deve necessariamente demonstrar.”

sujeito desmundanizado ou inseguro acerca de seu mundo.”

3., 4.

O <problema da realidade>, no sentido da questão se um mundo exterior é simplesmente dado e se é passível de comprovação, apresenta-se como um problema impossível. Não porque tenha por conseqüências aporias intransponíveis, mas porque o próprio ente que é tematizado recusa esse modo de colocar a questão. O que se deve não é provar o fato e como um <mundo exterior> é simplesmente dado, e sim de-monstrar por que a pre-sença,¹ enquanto ser-no-mundo, possui a tendência de 1º sepultar epistemologicamente o <mundo exterior> em um nada negativo para então permitir que ele ressuscite mediante provas.” “Se, nessa orientação ontológica, o modo de colocar a questão for <crítico>, encontra então um mero <interior> enquanto o único ser simplesmente dado certo e seguro.”

¹ A presença ainda muito sentida de Kant!

Na medida em que, na proposição existencial, não se nega o ser simplesmente dado dos entes intramundanos, ela concorda – por assim dizer doxograficamente [como que por analogia, pois a ‘opinião’ ou o método dá no mesmo desfecho] – com a tese do realismo. (…) O que a separa do realismo é a incompreensão ontológica de que sofre o realismo. Ele tenta esclarecer a realidade onticamente mediante o contexto efetivo e real entre as coisas reais.

Com relação ao realismo, o idealismo possui uma primazia fundamental, por mais oposto e insustentável que seja no que respeita aos resultados, desde que ele próprio não se compreenda equivocadamente como idealismo <psicológico>. Quando o idealismo acentua que ser e realidade apenas se dão <na consciência>, exprime, com isso, a compreensão de que o ser não deve ser esclarecido pelo ente [mundo, neste contexto]. Na medida, porém, em que não se esclarece o fato de aqui se dar uma compreensão do ser e o que diz ontologicamente essa compreensão, i.e., como lógica da pre-sença, o idealismo constrói no vazio a interpretação da realidade.”

Se o título idealismo significar o mesmo que compreender a impossibilidade de se esclarecer o ser pelo ente mas que, para todo ente, o ser já é o <transcendental>, então é no idealismo que reside a única possibilidade adequada de uma problemática filosófica.” Como já ressaltado, de uma forma um tanto estrambótica é que Kant e Schopenhauer adquiriram este saber. Kant é uma espécie de “mago da filosofia moderna” ao reunir os epítetos de campeão dos céticos (‘o’ criticista) e ao mesmo tempo o de formador da filosofia transcendental (sintética).

Se, porém, idealismo significar a recondução de todo ente a um sujeito ou a uma consciência que, por sua vez, se caracteriza como o que permanece indeterminado em seu ser, sendo, no máximo, caracterizado negativamente como uma <não-coisa>, [PRIVILEGIADO de forma inexplicável – o limite dos idealismos ‘fajutos’ de Fichte e Hegel – apesar da clivagem notável de qualidade e profundidade entre os 2, é precisamente aqui que um é tão raso quanto o outro…] então, do ponto de vista do método, esse idealismo se mostra tão ingênuo quanto o realismo mais grosseiro.” Sch. como que evita ou faz uma administração de danos nesse tocante ao tirar da “cartola ontológica” sua Vontade. Pois não é o indivíduo que rege seu sistema: a Vontade É a coisa-em-si. Nietzsche chega ainda mais longe: descarta a coisa-em-si, ‘aperfeiçoa’ a vontade, ao imanentizá-la ao máximo (limite da metafísica pré-fenomenológica no sentido husserliano?). Heidegger vai com asserção batizar esse método na continuidade deste parágrafo, sem citar o autor: “orientação ‘perspectivista’”.

Scheler como um elo entre o kantismo e o ‘ontologismo’ husserl-heideggeriano: fracassou porque apesar dos pequenos avanços fenomenológicos insistiu em que o problema estava no refino do aparato epistemológico, o que no entanto não é verdade, pois do ponto de vista epistemológico o kantismo já havia de certo modo chegado ao limite da questão nas bases ‘clássicas’.

[Em Dilthey] Realidade é resistência ou, mais precisamente, o conjunto das resistências. A elaboração analítica do fenômeno de resistência constitui o ponto positivo do referido tratado e a melhor confirmação concreta da idéia de uma <psicologia descritiva e classificatória>.” “[Porém] O <princípio da fenomenalidade> impediu Dilthey de chegar a uma interpretação ontológica da consciência.” “…a remissão ontológica da consciência ao próprio real, tudo isso necessita de uma determinação ontológica. [de onde vêm as vontades e seus freios à consciência?]” “Interpretar ontologicamente a pre-sença, porém, não significa uma recondução ôntica a um outro ente.”

A análise ontológica dos fundamentos da <vida> não pode ser acrescentada posteriormente como uma infra-estrutura. É ela que carrega e condiciona a análise da realidade, bem como toda explicação do conjunto das resistências e de suas pressuposições fenomenais.”

abre-se algo pelo que impulso e vontade se empenham.” “O próprio empenho… que se depara com resistência, e é o único que pode se deparar, já se acha junto a uma totalidade con-juntural.” “o <ser-contra> e o <ser oposto> são sustentados pelo ser-no-mundo que já se abriu. § Resistência também não é experimentada num impulso ou vontade que <emergem> por si mesmos. Impulso e vontade mostram-se como modificações da cura.”

Resistência caracteriza o <mundo externo>, no sentido dos entes intramundanos mas nunca no sentido de mundo. <Consciência da realidade> é ela mesma um modo de ser-no-mundo.

Caso o <cogito sum> deva servir como ponto de partida da analítica existencial da pre-sença, então é preciso não apenas revertê-lo mas reconfirmar, de modo ontológico-fenomenal, o seu conteúdo. A 1ª proposição seria: <sum> no sentido de eu-sou-em-um-mundo.” “Descartes diz, ao invés: cogitationes são simplesmente dadas”

* * *

A <natureza> que nos <envolve> é, na verdade, um ente intramundano [coisa] que, no entanto, não apresenta o modo de ser do que está à mão nem de algo simplesmente dado no modo de <coisidade da natureza>.”

realidade não possui primazia no âmbito dos modos de ser dos entes intramundanos, assim como esse modo de ser não pode ser caracterizado adequadamente, do ponto de vista ontológico, como mundo ou pre-sença.”

O fato de a realidade se fundar ontologicamente no ser da pre-sença não pode significar que o real só poderá ser em si mesmo aquilo que é se e enquanto existir a pre-sença.

De fato, apenas enquanto a pre-sença é, ou seja, a possibilidade ôntica de compreensão do ser, <dá-se> ser. Se a pre-sença não existe, também nem <independência> nem <em si> podem <ser>.” Sem o sujeito observador, o real não seria real.

Agora pode-se realmente dizer que, enquanto houver compreensão do ser e com isso compreensão do ser simplesmente dado, então o ente prosseguirá a ser.

A dependência caracterizada, não dos entes, mas do ser em relação à compreensão do ser, i.e., a dependência da realidade [de um modo do real] e não do real em relação à cura, assegura o prosseguimento da analítica da pre-sença de não resvalar numa interpretação não-crítica que, guiada pela idéia de realidade, sempre de novo tenta se impor.” Não existe um sentido indiferente para realidade.

O SER-DO-ENTE É SÓ O INÍCIO: “a compreensão do ser como ente [em si] só é possível se o ente possui o modo de ser da pre-sença.” “A primeira descoberta do ser-dos-entes com Parmênides <identifica> o ser com a compreensão que percebe o ser.” Descrever aquilo que é, como ele é, implica que a coisa tenha um ser. Logo, a preocupação sempiterna dos filósofos com o ser e a verdade eram, precipuamente, a preocupação com a relação ser e coisa.

A investigação toma agora um novo princípio.” “A investigação evidenciará que a questão sobre o modo de ser da verdade pertence necessariamente à questão sobre a <essência> da verdade. Daí se segue o esclarecimento do sentido ontológico da afirmação de que <verdade se dá> e do modo em que necessariamente <se deve pressupor> que <se dá> verdade.”

A VERDADE CLÁSSICA NA ERA TRÁGICA DOS GREGOS: “1. O <lugar> da verdade é a proposição (o juízo). 2. A essência da verdade reside na <concordância> entre o juízo e seu objeto. 3. Aristóteles, o pai da lógica, não só indicou o juízo como o lugar originário da verdade, como também colocou em voga a definição da verdade como <concordância>.”

O mundo é bom. Nós só temos de achar onde.

Isaak Israelis > Avicenna > Tomás de Aquino

A antiga e famosa questão, com a qual se supunha colocar os lógicos em apuros, é a seguinte: O que é verdade? Brentano

Verdade ou aparência não se encontram no objeto na medida em que ele se dá na intuição e sim no juízo a seu respeito, na medida em que é pensado.” Ainda uma questão da justa opinião de Parmênides…

Que caráter ontológico possuem essa opinião e essa coisa?

O que significa o termo <concordância>?”

Assinalar é uma relação entre o sinal e o assinalado mas não uma concordância. Decerto, nem toda concordância significa uma espécie de convenientia, tal como se fixou na definição da verdade. [Aristóteles e escolásticos] O número 6 concorda com 16 – 10. Os números concordam e são iguais, no tocante à quantidade. Igualdade é um modo de concordância. A ela pertence estruturalmente uma espécie de <perspectiva>.”

Em que perspectiva intellectus e res concordam?”

A <concordância> tem o caráter da relação <assim como>.”

APORIA: “Segundo a opinião geral, só o conhecimento é verdadeiro. Conhecer, porém, é julgar. Em todo julgamento, deve-se distinguir a ação de julgar enquanto processo psíquico real e o conteúdo julgado enquanto conteúdo ideal. Deste último, diz-se que é <verdadeiro>. Em contrapartida, o processo psíquico real é simplesmente dado ou não.” “Será um acaso o fato desse problema há mais de 2 milênios não sair do lugar? Ou será que o descaminho da questão consiste em seu ponto de partida, ou seja, na separação ontologicamente não-esclarecida entre real e ideal?” “Não será que a realidade do conhecimento e do juízo se rompe em 2 modos de ser ou <camadas>, cuja sutura jamais chegará a alcançar o modo de ser do conhecimento?” “A definição aparentemente arbitrária, [feita por nós, os fenomenólogos] contudo, apenas traz uma interpretação necessária daquilo que a tradição mais antiga da filosofia pressentiu de maneira originária, e chegou a compreender pré-fenomenologicamente.”

A tradução pela palavra verdade e, sobretudo, as determinações teóricas de seu conceito encobrem o sentido daquilo que os gregos, numa compreensão pré-filosófica, estabeleceram como fundamento <evidente> do uso terminológico de ALETHEIA.

A adução desses testemunhos deve resguardar-se de uma mística desenfreada das palavras; entretanto, o ofício da filosofia é, em última instância, preservar a força das palavras mais elementares, em que a pre-sença se pronuncia a fim de que elas não sejam niveladas à incompreensão do entendimento comum, fonte de pseudoproblemas.”

A <definição> proposta da verdade não é um repúdio da tradição mas uma apropriação originária” “A <definição> da verdade como descoberta e ser-descobridor também não é uma mera explicação de palavras. (…) Ser-verdadeiro enquanto ser-descobridor é um modo de ser da pre-sença. O que possibilita esse descobrir em si mesmo deve ser necessariamente considerado <verdadeiro>, num sentido ainda mais originário.” “A presença [enquanto em modo de ser mais próprio, e não da impropriedade mundana e cotidiana] é e está <na verdade>.” “A verdade da existência é a abertura mais originária e mais própria que o poder-ser da pre-sença pode alcançar.” “Em sua constituição ontológica, a pre-sença é e está na <não-verdade> porque é, em sua essência, de-cadente.” “É por isso que, em sua essência, a pre-sença tem de explicitamente tomar posse do que se descobriu contra a aparência e a distorção e sempre se reassegurar da descoberta.” “A descoberta em seu fato é, ao mesmo tempo, um roubo.” “O fato da deusa-verdade de Parmênides colocá-lo diante de 2 caminhos, um do descobrimento, e outro do velamento, significa simplesmente que a pre-sença já está sempre na verdade e na não-verdade. O caminho do descobrimento só é conquistado na cisão compreensiva entre ambos e no decidir-se por um deles.”

O que se pronuncia [proposições epistemológicas] torna-se, por assim dizer, um manual intramundano que pode ser retomado e propagado.” “A proposição pronunciada é um manual de tal modo que traz em si mesma uma remissão ao ente descoberto, na medida em que preserva a descoberta.” “A própria remissão se dá como algo simplesmente dado.”

O juízo contém algo que vale para os objetos” Kant

Modo impróprio: descoberta conformidade (ouvir-dizer – a pre-sença se fecha no falatório), i.e., concordância

Com isso fica demonstrado o caráter ontologicamente derivado do conceito tradicional de verdade.” Refutação da lógica aristotélica ou não-lógica da pre-sença.

A tese de que o <lugar> genuíno da verdade é o juízo não apenas é erroneamente atribuída a Aristóteles como constitui, no que respeita a seu conteúdo, um desconhecimento da estrutura da verdade.” “A <verdade> mais originária é o <lugar> da proposição e a condição ontológica de possibilidade para que a proposição possa ser verdadeira ou falsa [juízo apofântico].”

As leis de Newton, o princípio de contradição, toda verdade em geral só é verdade enquanto a pre-sença é. Antes da pre-sença e depois da pre-sença não havia verdade e não haverá verdade porque, nesse caso, a verdade não pode ser enquanto abertura, descoberta e descobrimento.” “As leis de Newton, antes dele, não eram nem verdadeiras nem falsas. Isso não pode significar que o ente que elas, descobrindo, demonstram não existisse antes delas. As leis se tornam verdadeiras com Newton.” A mesma bastardização evidentecopiada por Latour no fim do mesmo século. “Veja que os micróbios já existiam, só não para a ciência pré-microbiológica!”

O fato de se darem <verdades absolutas> só pode ser comprovado de modo suficiente caso se logre demonstrar que, em toda a eternidade, a pre-sença foi e será. Enquanto não houver essa prova, a sentença será apenas uma afirmação fantástica que não recebe nenhuma legitimidade apenas porque os filósofos geralmente nela <acreditaram>.” Enquanto o homem existir, haverá verdade. Somos o novo absoluto. O homem e o deus-do-homem são a medida inexorável de todas as coisas.

Será que a verdade, compreendida de modo adequado, se vê lesada pelo fato de, onticamente, só ser possível no <sujeito>, e de depender do ser-do-sujeito?”

Não somos nós que pressupomos a <verdade>, mas é ela que torna ontologicamente possível que nós sejamos de modo a <pressupor> alguma coisa. A verdade possibilita pressuposições.

O que diz <pressupor>? Compreender alguma coisa como a base e o fundamento do ser de um outro ente.” “Devemos <fazer> a pressuposição de verdade porque ela já se <fez> com o ser do <nós>.”

<Em si> não se pode perceber por que o ente deve ser descoberto, por que deve haver verdade e pre-sença. A objeção corriqueira do ceticismo, a negação do ser ou da possibilidade de se conhecer a <verdade> estão a meio caminho.” O ceticismo demonstra que “a verdade pertence à[o modo de ser da] proposição”. “Ademais, desconsidera-se o fato de que, mesmo quando ninguém emite um juízo, já se pressupõe a verdade na medida em que a pre-sença é.”

O cético, quando o é de fato, no modo da negação da verdade, não precisa ser refutado. Na medida em que é e se compreendeu nesse ser, ele dissolve a pre-sença e, com isso, a verdade, no desprezo do suicídio.” “a pre-sença não pode ser colocada para si mesma à prova.”

CONTRA O SUJEITO IDEAL: “Não pertence ao a priori do sujeito de fato [empírico], ou seja, à facticidade da pre-sença, a determinação de que ela é e está, de modo igualmente originário, na verdade e na não-verdade?” A partir de qualquer instante, a partir de qualquer local. “A recusa de uma <consciência em geral> não significa a negação do a priori assim como a suposição de um sujeito idealizado não garante a aprioridade da pre-sença fundada no real. § Afirmar <verdades eternas> e confundir a <idealidade> da pre-sença, fundada nos fenômenos, com um sujeito absoluto e idealizado, pertencem aos restos da teologia cristã no seio da problemática filosófica, que de há muito não foram radicalmente expurgados.” [DV]

Mas será que com o fenômeno da Cura se abriu a constituição ontológico-existencial mais originária da pre-sença? Será que a multiplicidade estrutural, que se encontra no fenômeno da Cura, oferece a totalidade mais originária do ser de fato da pre-sença? Será que a investigação feita até aqui já permitiu ver o todo da pre-sença?” Só o tempo nos dirá, mas não no âmbito de Heidegger…

DIC:

apofântico: “[Lógica] Na lógica aristotélica, relativo aos enunciados verbais possíveis de serem falsos ou verdadeiros.” Ao dizer isso, Aristóteles diz que a palavra, isto é, o logos, conhecimento, pode ser verdadeiro ou falso, dependendo do contexto em que o discurso é enunciado ou proposto.

originário (em Heidegger): aquilo que é próprio e autêntico, pertencente ao ser-aí no seu sentido mais profundo e existencial, além de já contemplar a própria existencialidade, i.e., um projeto totalizante da vida. O mal-entendido com a função de “mais antigo” que poderia adquirir para um leitor incauto se deve à noção de “preceder-se a si mesmo” do ser-aí.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

SEGUNDA SEÇÃO:

Pre-sença e temporalidade [de certo modo decepcionante, pálido reflexo da 1ª]

Mas o que significa originariedade de uma interpretação ontológica?”

Toda interpretação possui sua posição prévia, visão prévia e concepção prévia. No momento em que, enquanto interpretação, se torna tarefa explícita de uma pesquisa, então o conjunto dessas <pressuposições>, que denominamos de situação hermenêutica, necessita de um esclarecimento prévio que, numa experiência fundamental, assegure para si o <objeto> a ser explicitado. Uma interpretação ontológica deve liberar o ente na constituição de seu próprio ser.”

Uma interpretação ontológica originária, no entanto, não exige somente uma situação hermenêutica segura e ajustada aos fenômenos, mas deve assegurar-se, explicitamente, de ter levado todo o ente tematizado a sua posição prévia. Também não é suficiente uma descrição preliminar do ser-desse-ente, mesmo que fundada em bases fenomenais. A visão prévia do ser deve respeitar-lhe, sobretudo, a unidade dos momentos estruturais possíveis e pertinentes. Só então é que se pode colocar e responder com segurança fenomenal a questão do sentido da unidade da totalidade ontológica de todo o ente.

Será que a análise existencial da pre-sença, anteriormente realizada, nasceu de uma tal situação hermenêutica, de modo a se ter conquistado uma garantia de originariedade, exigida pela ontologia fundamental?”

a caracterização ontológica da constituição existencial ainda guardou uma falta essencial.” “[Já que investigamos a pre-sença em sua medianidade a fundo apenas,] Enquanto não se incorporar a estrutura existencial do poder-ser próprio à idéia de existência, a visão prévia, orientadora de uma interpretação existencial, ressentir-se-á de originariedade.”

A cotidianidade é justamente o ser <entre> nascimento e morte.” “O ente cuja essência é constituída pela existência resiste, de modo essencial, à sua possível apreensão como ente total. A situação hermenêutica não apenas não assegurou a <posição> de todo o ente como é até questionável se isso, por fim, se pode alcançar e se uma interpretação ontológica originária da pre-sença não estará fadada ao fracasso, considerando-se o modo de ser do próprio ente tematizado.” Confissões, do ex-seminarista Martin Heidegger

O <fim> do ser-no-mundo é a morte.”

conceito existencial da morte”

a morte é um ser-para-a-morte existenciário [ôntico]”

Mas será que a pre-sença pode existir toda ela de modo próprio?”

um poder-ser próprio da pre-sença reside no querer-ter-consciência.” Já sempre quis e já sempre teve (o homem).

Provavelmente um terceiro volume teria de se embrenhar na questão: CURA & TÉCNICA.

A cotidianidade desentranha-se como modo da TEMPORALIDADE.”

a cura deve precisar de <tempo> e, assim, contar com <o tempo>.”

conceito tradicional de tempo”

temporalidade e intratemporalidade “temporalização da temporalidade”;

temporalização ainda mais originária da temporalidade”

O projeto de um sentido do ser em geral pode-se realizar no horizonte do tempo.”

(*) “No séc. XIX, Kierkegaard concebeu, explicitamente, o problema da existência como existenciário, refletindo a seu respeito com profundidade. (…) ele, contudo (…) encontra-se inteiramente sob o domínio de Hegel e da filosofia antiga vista por este último.” Como que de propósito, parece que não haverá uma singular referência ao filósofo que tem a chave potencial da hermenêutica metafísica de Heidegger…

Para aprofundamento em Kierkegaard neste blog: https://seclusao.art.blog/2017/06/14/a-dialetica-da-fe-em-kierkegaard-marieta-pinho-tese-de-mestrado/ ; https://seclusao.art.blog/2017/11/30/diario-de-um-sedutor/ .

1. A POSSIBILIDADE DA PRE-SENÇA SER-TODA E O SER-PARA-A-MORTE

A possibilidade da pre-sença ser-toda contradiz, manifestamente, a cura que, de acordo com seu sentido ontológico, constitui a totalidade do todo estrutural da pre-sença.” Tradução para nosso idioma: A possibilidade do instante em primeira pessoa (o momento presente) ser um todo universal e completo, autônomo, contradiz de forma óbvia a existência do início ao fim do ser, i.e., sua vida em si mesma, que abarca o próprio instante, aliás, milhões de instantes, sendo ela realmente a última instância.

O especial do instante é que no momento primordial da vida, ele já estava lá.

A falta de esperança, p.ex., não retira a pre-sença de suas possibilidades, sendo apenas um modo próprio de ser para essas possibilidades.” “Contudo, esse momento estrutural da cura diz, sem ambigüidades, que, na pre-sença, há sempre algo pendente, que ainda não se tornou <real>, como um poder-ser de si mesma.” E nem irá.

(*) “Reservou-se findar para exprimir o fim próprio da pre-sença [senciência] e finar para o fim dos demais seres vivos.”

(*) “A palavra portuguesa impendente exprime a experiência do que é iminente. [de forma bem ruim, eu diria!] Por conservar a mesma derivação de pendente [e no alemão –stand] traduziu-se Bevorstand por impendente.” Na verdade a tradução se escurou no Inglês, em que impending = iminente.

(*) “SELBST = SI-MESMO

Cf. N34 da 1ª parte, o termo alemão selbst exprime tanto próprio como si-mesmo. Considerando-se que na 2ª parte o que está em questão é o poder-ser todo em sentido próprio da pre-sença, a tradução deixou predominar o termo si-mesmo para diferenciar, no horizonte da identidade, de próprio (eigen).”

(*) “Ruf e todos os seus derivados provêm do verbo rufen cujo sentido é chamar. Os desdobramentos e as nuanças dessa experiência se explicitam através das derivações oriundas do acréscimo de prefixos cujas correspondências em português se procurou construir com as derivações por prefixo do étimo latino clamor.”

(*) “ENTSCHLOSSENHEIT = DE-CISÃO [DESTRANCABILIDADE, retorno à unidade]

A palavra alemã é um derivado do verbo schliessen que significa fechar, trancar. O prefixo ent acrescenta a idéia de um movimento em sentido contrário e daí o significado de destrancar, abrir. Uma das modalidades de exercício da pre-sença é o destrancar-se e abrir-se para… que, no tocante à dinâmica de si-mesma, designa a experiência de determinação, resolução. [de-terminação, re-solução, acabamento] Para exprimir toda essa envergadura de sentido, a tradução se valeu do processo semelhante designado pela palavra de-cidir, de-cisão cujo sentido primordial se constrói em torno do movimento de arrancar, separar (scindere).”

(*) DE VOLTA À ANTROPOLOGIA NIETZSCHE-MAUSSIANA (Ver O desejo de Deleuze):¹ “O sentido originário de Schuld usado por H. explica claramente no texto em que medida é justificada a tradução desse termo por débito.”

¹ https://clubedeautores.com.br/livro/o-desejo-de-deleuze – Livro autoral, cerca de R$40,00 na versão ebook. Ver especialmente pp. 49-50.

(*) “Porque Zukunft [futuro] é uma derivação de zukommen (ad-vir), a tradução guardou o termo porvir.”

(*) “GEWESENHEIT = VIGOR DE TER SIDO [era melhor simplesmente VIGORADO, que já contém a essência da explicação que segue, mantém a brevidade e a terminação de PASSADO!]

A palavra alemã é uma derivação do verbo wesen que significa vigir, vigorar, estar em vigor. Como substantivo, Gewesenheit e seus derivados conotam a dupla experiência de uma força que já se instalou e que continua atuante. Por isso a tradução optou pela expressão vigor de ter sido.”

(*) “GEGENWART = ATUALIDADE

GEGENWÄRTIGEN = ATUALIZAÇÃO

VERGEGENWÄRTIGEN = TORNAR ATUAL

A palavra Gegen-wart se compõe do verbo warten = esperar e da preposição gegen = contra e diante de. A palavra portuguesa presente não exprime, de modo algum, a conotação de adversidade e resistência ativas à espera. Uma vez que o horizonte ontológico de Gegenwart remete primordialmente à ação, a tradução reservou o termo atualidade para exprimir Gegenw.. Atualidade deriva-se do verbo agere = agir e conota a força de impor-se-a-…, guardando pois a dimensão de oposição e resistência.”

(*) “GEWÄRTIGEN = ATENDER

(…) ad-tendere = tender para, empenhar-se por.”

No momento, porém, em que a pre-sença <existe>, de tal modo que nela nada mais esteja de forma alguma pendente, ela também não-mais-está-presente. Retirar-lhe o que há de pendente significa aniquilar o seu ser. [nada de poder-ser nem responsabilidade nem pôr-se em jogo]

E não se estaria, no fundo, supondo, sem nem se dar conta, a pre-sença como ser simplesmente dado, da qual sempre escaparia algo que simplesmente ainda não se deu?” Malandro nietzschiano! “Terá a argumentação apreendido o ainda-não-ser e o <preceder> em sentido genuinamente existencial?” R: Não!

Teria a expressão <morte> um sentido biológico ou ontológico-existencial ou ainda um sentido delimitado de modo seguro e suficiente?” A despeito de que haja cem por cento de certeza que ela irá acontecer, não conte com o fenômeno da sua morte (enquanto em seu ser-aí próprio, para usar a nomenclatura de H.).

HOMEM: O animal que: pode experimentar a morte alheia.

Levando-se ao extremo, o não-mais-ser-no-mundo do morto ainda é também um ser, na acepção do ser simplesmente dado de uma coisa corpórea. (…) O fim de um ente, enquanto pre-sença, é o seu princípio como mero ser simplesmente dado.”

preocupação reverencial”

É a partir do mundo que os que ficam ainda podem ser e estar com ele.”

Esse encaminhamento me surpreendeu: “A indicação da morte dos outros como tema sucedâneo para a análise ontológica da conclusão e totalidade da pre-sença repousa ainda sobre uma pressuposição, que mostra um inteiro desconhecimento do modo de ser da pre-sença.”

Porém… “Mas será, na realidade, essa pressuposição tão desprovida de fundamento?”

O conceito médio de exitus não se identifica com o conceito de finar.” Semelhança acústica desconcertante com êxito. Exeunt.

Estar pendente e faltar são co-pertinentes.”

Estar pendente significa, portanto: o que é co-pertinente ainda não está a-juntado.”

suce-SÃO

Na coisa (ente), faltas ou pendências são determinadas por somas de outras coisas que, na terminologia heideggeriana, “estão à mão”, i.e., simplesmente dadas.

A quarta dimensão do problema do ser é, portanto, o tempo, aquilo que liga o que somos ao que falta sermos, ao que seremos.

Pode-se dizer, p.ex., da lua que o último quarto ainda está pendente até chegar à lua cheia. O ainda-não míngua com o desaparecimento da sombra que oculta.” “Esse ainda-não refere-se unicamente à apreensão perceptiva.” Porque, na lua nova, é impendente o surgimento da lua cheia. (ciclo natural)

O fruto imaturo, p.ex., encaminha-se para o seu amadurecimento.” E lá vai Hegel…

O que alcançou a maturidade quer morrer (desaparecer, regredir, etc. – aquilo que for possível segundo o objeto tratado!).

a pre-sença tem tão pouco necessidade da morte para chegar à maturidade que ela pode ultrapassá-la antes do fim.” Ex: o humano mantido em animação artificial sem sinais vitais no cérebro.

Em que sentido a morte deve ser concebida como findar da pre-sença?”

MORTE QUÂNTICA: “Na morte, a pre-sença nem se completa, nem simplesmente desaparece nem acaba e nem pode estar disponível à mão.”

A morte é um modo de ser que a pre-sença assume no momento em que é. <Para morrer basta estar vivo>.”

A tentativa de se alcançar uma compreensão da totalidade, dotado do caráter de pre-sença, tomando-se como ponto de partida um esclarecimento do ainda-não e passando-se pela caracterização do fim, não logrou sua meta. Ela só mostrou negativamente que o ainda-não, que cada pre-sença é, recusa sua interpretação como o pendente.”

Essa pesquisa ôntico-biológica da morte tem por base uma problemática ontológica. Permanece em questão como a essência da morte se determina a partir da essência ontológica da vida. De certo modo, a investigação ôntica da morte sempre-já se decidiu sobre essa questão.” O século XX seria o século-mor dessa “representação ôntica esclarecida”.

a pre-sença nunca fina.”

a presença nunca afina

agora ela não afina, nem ontem, nem amanhã,

porque ela é grossa e ríspida,

invencível insuperável!

pode te deitar por terra

num instante…

Uma <tipologia> do <morrer>, entendida como caracterização dos estados e dos modos em que se <vivencia> esse deixar de viver, já pressupõe o conceito de morte. Ademais, uma psicologia do <morrer> acaba fornecendo mais soluções sobre a <vida> <dos que morrem> do que propriamente sobre o morrer.”

Mas que bosta pára-normal se tornou esse tratado? “Caso se determine a morte como <fim> da pre-sença, i.e., do ser-no-mundo, ainda não se poderá decidir onticamente¹ se, <depois da morte>, um outro modo de ser, seja superior ou inferior, é ainda possível, se a pre-sença <continua vivendo> ou ainda se ela é <imortal>, sobrevivendo a si mesma.” Embora devamos conceder que quando H. põe entre aspas significa que não sai da “boca dele”. Ainda assim, sinto saudade da assertividade do século XIX, que FIN(D)OU no subseqüente.

¹ Verdade que – ontologicamente – a história é outra…

Por fim, tudo o que se possa discutir sob a rubrica de uma <metafísica da morte> extrapola o âmbito de uma análise existencial da morte.” Existencial, ontológico e metafísico deveriam querer dizer a mesma coisa. Esse embrulho todo não enriquece a Primeira filosofia…

Desde S. Paulo à Meditatio futurae vitae de Calvino, a antropologia elaborada na teologia cristã sempre viu a morte no seio da interpretação da <vida>. W. Dilthey, cujas tendências propriamente filosóficas se encaminham para uma ontologia da <vida>, não podia deixar de reconhecer o seu nexo com a morte.”

Unger, Herder, Novalis und Kleist. Studien über die Entwicklung des Todesproblems im Denken und Dichten von Sturm und Drand zur Romantik, 1922.

Para a pre-sença, enquanto ser-no-mundo, muitas coisas podem ser impendentes.” “o impendente privilegiadoMas impendente é tão feio que usarei sempre iminente destarte.

A iminência dos im-postos e não-postos e expostos e outpostos e sobrepostos e depostos.

A angústia com a morte é angústia <com> o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. O próprio ser-no-mundo é aquilo com que a angústia se angustia.”

Quem está lançado atinge um alvo.

Vampiros ou deuses ainda são humanos na fenomenologia.

O discurso pronunciado ou, no mais das vezes, <difuso> sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre mas, de imediato, não se é atingido pela morte.” “mas eu não; pois esse impessoal é o ninguém.” “Escapar da morte encobrindo-a domina, com tamanha teimosia, a cotidianidade que, na convivência, os <mais próximos> freqüentemente ainda convencem o <moribundo> que ele haverá de escapar da morte e, assim, retornar à cotidianidade tranqüila de seu mundo de ocupações.”

Em seu conto A Morte de Ivan Illich, Tolstoi expôs o fenômeno do abalo e do colapso desse <morre-se impessoal>.”

No domínio público, <pensar na morte> já é considerado um temor covarde, uma insegurança da pre-sença e uma fuga sinistra do mundo.” É o estóico um covarde? “A cotidianidade pára no momento em que admite ambiguamente a <certeza> da morte a fim de enfraquecê-la e de aliviar o estar-lançado na morte, encobrindo ainda mais o morrer.”

Estar-certo de um ente significa: ter por verdadeiro enquanto verdadeiro.”

Assim como o termo <verdade>, a expressão <certeza> possui um duplo significado.”

O ter-por-verdadeiro, enquanto manter-se-na-verdade, só se torna suficiente quando está fundado no próprio ente descoberto e se faz transparente como um ser-para-o-ente-assim-descoberto” “A suficiência do ter-por-verdadeiro se mede pela pretensão de verdade a que pertence.” “A certeza inadequada mantém encoberto aquilo de que está certa.”

é certo que <a> morte vem.” A morte é o inferno, porque é temática para-os-outros.

Ela permanece necessariamente aquém do maior grau de certeza, da certeza apodítica, alcançada em certas esferas do conhecimento teórico.”

pensar-na-morte cansado e ineficaz”

A indeterminação da morte certa determina as ocupações cotidianas, colocando-lhes à frente as urgências e possibilidades previsíveis do cotidiano mais próximo.”

O escape de-cadante e cotidiano da morte é um ser-para-a-morte impróprio.” “Enquanto não se elaborar e determinar ontologicamente esse ser-para-a-morte em sentido próprio, a interpretação existencial do ser-para-o-fim perpetuará uma falta essencial.”

se, como, quando

É a partir do real e com vistas a ele que o possível é absorvido no real pela espera.”

Como possibilidade a proximidade mais próxima do ser-para-a-morte se acha, face ao real, tão distante quanto possível.”

rei-vindicação

a pre-sença só pode ser propriamente ela mesma quando ela mesma dá a si essa possibilidade.” Quando o instante reflete em si mesmo, i.e., no único, no singular que é estar neste irremissível.

Antecipando, a pre-sença evita recuar para trás de si mesma e da compreensão de seu poder-ser, evitando <tornar-se velha demais para as suas vitórias> (Nietzsche).” Finalmente cita sua inspiração-mor!

Porque a antecipação da possibilidade insuperável inclui em si todas as possibilidades a sua frente, nela reside a possibilidade de se tomar previamente de modo existenciário toda a pre-sença, ou seja, a possibilidade de existir como todo o poder-ser.” Modo complicado de dizer: apreender a finitude da existência. Aprender a ocupar-se se preocupando ao mesmo tempo.

Manter-se nessa verdade, ou seja, estar certo do que se abriu, exige justamente a antecipação.” Ninguém (nenhum “jovem”) tem qualquer abertura cotidiana para o fato de que é possível que morra antes dos 50. Eu sou o único que conheço a seguir esse “prazo”. Obviamente tenho planos para além do prazo, que no caso é a extensão-prorrogação do meu atual projeto. Se isso não se cumprir, não há prejuízo (como se houvesse prejuízos para um morto)… Se isso se cumprir, não há prejuízo, porque me preparo! Digo, minha biografia não será “manchada” ou “diminuída” na 1ª hipótese. Preciso agora cuidar com “pressa não-apressada” do que eu julgo mais importante. O deadline convertido em death-line. #NowPlaying Tribulation – Lady Death

Para se alcançar a coisalidade, ou seja, a indiferença da evidência apodítica, a pre-sença precisa, primeiramente, perder-se na conjuntura das coisas – o que pode até constituir uma tarefa e uma possibilidade da cura.”

O ser ou não ser de Hamlet é uma antecipação exitosa ou falhada?

Talvez que ele só quisesse, como bom esgrimista, saber se iria ven-ser ou não ven-ser (pun intended).

Como a compreensão antecipadora se projeta para um certo poder-ser continuamente possível, de maneira que sempre fique indeterminado quando a absoluta impossibilidade da existência tornar-se-á enfim possível?” Temos que ter um plano B para cada dia após o limite auto-estipulado em que sobrevivermos.

O ser-para-a-morte-próprio é essencialmente angústia.”

SOBRE O SER-PARA-A-MORTE-IMPRÓPRIO: angústia infundada perigo real de morte temor covardia (o “não é possível que isso está acontecendo! agora não! o que farei?”, tão amado pelos filmes de terror hollywoodianos… – A PRÉ-ERA DA ANGÚSTIA)

Com isso, surge também a possibilidade de a pre-sença poder-ser toda em sentido próprio, mas somente como uma possibilidade ontológica.” “Apesar disso, esse ser-para-a-morte existencialmente <possível> permaneceu, do ponto de vista existenciário, uma suposição fantástica.” Um fenômeno fantástico.

(s)urge do nada

A questão sobre um ser todo da pre-sença em sentido próprio e sua constituição existencial só poderá ser colocada em bases fenomenais consistentes quando se conseguir atá-la a uma possível propriedade de seu ser, testemunhada pela própria pre-sença.” No fundo, o livro responde (ou se digna a tentar responder) apenas uma pergunta: quem tem a hegemonia, o impróprio ou o próprio do ser-aí?

2. O TESTEMUNHO SEGUNDO O MODO DE SER DA PRE-SENÇA, DE UM PODER-SER EM SENTIDO PRÓPRIO E A DE-CISÃO

Recuperar a escolha significa escolher essa escolha, decidir-se por um poder-ser a partir de seu próprio si-mesmo.” “A auto-interpretação cotidiana da pre-sença conhece como voz da consciência aquilo que a seguir apresentaremos como testemunho.”

A exigência de uma <prova empírico-indutiva> para o <fato> da consciência e para a legitimidade de sua <voz> significa uma deturpação ontológica desse fenômeno.” O modo de ser da consciência não é empírico.

A análise mais profunda da consciência a desentranha como clamor. O clamor é um modo de discurso.

Você (eu!) me deve uma satisfação!

A interpretação da consciência haverá não apenas de ampliar a análise anterior da abertura do mas, sobretudo, de apreendê-la de forma mais originária com vistas ao ser da pre-sença em sentido próprio.” “a pre-sença <sabe> a quantas ela mesma anda na medida em que se projetou em possibilidades de si mesma ou, afundando-se no impessoal, recebeu da interpretação pública do impessoal as suas possibilidades.”

o próprio do impessoal” X “o próprio de si-mesma”

O meu clamor se deu aos 19-21 anos. Quando eu me tornei eu mesmo.

Devemos lembrar que a verbalização não é essencial nem para o discurso e nem para o clamor.”

sobressalto brusco” “Só é atingido pelo clamor quem se quer recuperar.”

Face a um fenômeno como a consciência, salta logo aos olhos a insuficiência ontológico-antropológica da classificação das faculdades da alma ou dos atos pessoais.”

Além das interpretações da consciência empreendidas por Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche deve-se atentar para: M. Kähler, Das Gewissen, erster geschichtlicher Teil, 1878, e o artigo do mesmo autor na Realenzyklopädie f. prot. Theologie und Kirche. Além disso: A. Ritschl, Über Gewissen, 1876, reeditado nos Gesammelte Aufsätzen, 1896, p. 177s. E, por fim, a monografia há pouco publicada de H.G. Stoker, Das Gewissen (Schriften zur Philosophie und Soziologie, ed. por Max Scheler, tomo II, 1925). (…) [apesar de seus inúmeros defeitos,] A monografia de Stoker significa um avanço considerável frente à interpretação da consciência feita até hoje, mais pelo tratamento abrangente dos fenômenos da consciência e de suas ramificações do que pela de-monstração das raízes ontológicas do fenômeno.”

Para que perspectiva se aclama? Para si-mesmo em sentido próprio. E não para aquilo que vale na convivência pública, não para o que ela pode ou de que se ocupa e, sobretudo, não para aquilo que a toma ou pelo que se engajou e se deixou arrastar.” “o impessoal sucumbe em si mesmo.” “Justamente no ultrapassar, o clamor empurra o impessoal para a insignificância.”

O si-mesmo não é um cientista investigador nem o comum dos mortais movido pela curiosidade (ocupações banais, ônticas).

O que a consciência de-clama para o aclamado? Em sentido rigoroso, nada.”

nada tem para contar”

Não se trata de dialética

É um chamamento. Com toda a incompreensão associada às religiões que isso pode desencadear. Afinal, é uma re-ligação.

O discurso da consciência sempre e apenas se dá em silêncio.”

Ao sair de casa, abandone todas as esperanças (contato com-os-outros), lia-se no pórtico acima da portaria do próprio prédio, mas virado não para os pedestres ou eventuais visitas, e sim para o morador que sai para o trabalho…

O que o clamor abre é, não obstante, unívoco e preciso, mesmo que possa sofrer interpretações diversas, segundo as possibilidades de compreensão de cada pre-sença singular. [umas mais, outras menos burras]”

intramundane divine intervention

o clamor é infalível: o sabor amargo da água é mera culpa do recipiente

Heidegger pensa que está inovando e abrindo novos horizontes filosóficos, mas tudo a que chega é a uma reescritura de Platão, ou seja, esta é uma obra sobre “o que é ser filósofo, afinal?”: “Embora jamais se descaracterize, quem clama também não oferece a menor possibilidade de tornar o clamor familiar para uma compreensão da pre-sença orientada <mundanamente>.”

ele [o indeterminado] não aceita tagarelices a seu respeito.” O falatório, quem diria, é ensimesmado.

DANADINHO: “Na condição de aclamada, a pre-sença não se a-pre-senta diferentemente do que como clamante? Não será o seu poder-ser si-mesmo mais próprio o clamante?”

E a ironia do destino é que o clamor é impessoal! Outro “impessoal” que o heideggeriano…

(em azul, porque essa é minha própria história:) “O clamor <se faz> contra toda espera e mesmo contra toda vontade. Por outro lado, [ou pelo mesmo lado] o clamor, sem dúvida, não provém de um outro que é e está no mundo junto comigo. O clamor provém de mim e, no entanto, por-sobre-mim.” É o demônio de Sócrates, ingênuo Heidegger!

atribui-se [na pre-sença dos burros] essa força instalada a alguém que dela tem posse ou ainda se a toma como uma pessoa que anuncia (Deus).” O erro fatal dos escravos do ser como simplesmente dado.

Embora possa ficar velado para a pre-sença o seu porquê, o fato de ela ser de fato (sic) implica que o próprio <fato> já se tenha aberto para a pre-sença.”

Na maior parte das vezes, porém, o humor fecha o estar-lançado.”

a facilidade da liberdade pretendida pelo próprio-impessoal.” A questão é que para o filósofo o clamor é muito mais fácil do que “a liberdade lá fora”!

o fato <cru> no nada do mundo.”

O que poderia ser mais estranho para o impessoal, perdido no <mundo> das múltiplas ocupações, do que o si-mesmo singularizado na estranheza de si e lançado no nada?”

O que mais retira tão radicalmente da pre-sença a possibilidade de deturpar a compreensão e o conhecimento de si do que a entrega e o abandono de si mesma?”

Estranheza é, na verdade, o modo fundamental mas encoberto de ser-no-mundo.”

A sentença: a pre-sença é, ao mesmo tempo, quem clama e o aclamado, perde agora o seu vazio formal e a sua evidência. A consciência revela-se como clamor da cura

Conclama-se a pre-sença, aclamando-a para sair da de-cadência no impessoal”

Ei, você se precede a si mesmo, escute isso!”

Conhece-te o que és!

Torna-te aquilo que é a ti mesmo!

a mescla de me

voz universalmente obrigatória”

Essa aclamação afirmada nasce da <boa> ou da <má> consciência? Será que a consciência propicia algo positivo ou só funciona criticamente?”

O que a consciência testemunha só poderá adquirir plena determinação caso se delimite, com clareza e suficiência, o caráter que deve ter o ouvir que genuinamente corresponde ao clamor.”

Todas as experiências e interpretações da consciência convêm, de alguma maneira, que a <voz> da consciência fala de <débito>.” Ulisses, tu precisas fechar teu círculo! – demônio Atena

Quem diz que nós somos e estamos em débito e o que significa débito?” Somos Adãos (Adões?) melhorados. Porque nascemos já adultos, mas com um verdadeiro passado infantil, ao contrário do protótipo de homúnculo cristão. Aprendemos a duras penas sobre a responsabilidade, não é comendo maçãs (malus) que lá chegamos… Não há cobra nesse conto. E é uma ascensão. Homem-foguete incircunciso.

eu sou, logo devo (uma vida e uma morte)

MUNDO PRÉ-NIETZSCHIANO: “De imediato, a compreensão cotidiana toma o <ser e estar em débito> no sentido de uma <dívida>, de <ter o rabo preso com alguém>.” Da alma com o corpo. Ou antes o inverso.

ser a causa de alguma coisa”

Jesus é incompleto porque ele ainda se relaciona com o conceito de cura e débito dessa forma: pago pelos outros, sinto-culpa-com-os-outros. Porém, o clamor é apenas de si para si mesmo. A culpa verdadeira é autógena. Aquele que morreu por nós não importa mais: eu sou aquele que morrerá por mim mesmo.

EXISTIR É PESADO E SÓLIDO:

O fundamento não precisa retirar o seu nada do que é por ele fundamentado.”

Existindo, a pre-sença é o fundamento de seu poder-ser porque só pode existir como o ente que está entregue à responsabilidade de ser o ente que ela é. Embora não tendo ela mesma colocado o fundamento, a pre-sença repousa em sua gravidade que, no humor, se revela como carga.”

Ser-fundamento diz, portanto, nunca poder se apoderar do ser mais próprio em seu fundamento. [a existência]”

a própria pre-sença é um nada de si mesma.”

Sem dúvida, a ontologia e a lógica atribuíram coisas demais ao não, tornando extensamente visível a sua possibilidade sem, no entanto, o ter desentranhado ontologicamente.”

Porque toda dialética foge para a negação, sem fundamentar, dialeticamente, a própria negação mesmo que só para fixá-la como problema? Já se problematizou alguma vez a origem ontológica do nada ou, antes disso, já se buscaram as condições desse nada sobre as quais se funda o problema do não, de seu nada e de sua possibilidade?” Sim. Nie..

o bonum e a privatio possuem a mesma proveniência ontológica que a ontologia do ser simplesmente dado, que se aplica igualmente à idéia de <valor> dela <haurida>.”

Não se pode determinar o ser e estar em débito originário pela moralidade porque ela já o pressupõe.”

Conclamação do ser e estar em débito não significaria, portanto, conclamação do mal?” Por que retroagir tanto, pulando o – ou dando as costas ao – século XIX, H.?

Essa interpretação[, a] mais violenta de todas”

Algumas vezes na leitura, Heidegger parece me dizer: Só é necessário provar e comprovar aquilo que é necessário comprovar (em minha pesquisa e investigação). Mas não! Segundo seus próprios pressupostos, nem isso seria “necessário” “comprovar”!

A consciência não tem ouvidos. Ainda bem. Ou melhor: o ouvido não tem consciência.

A cotidianidade toma a pre-sença como um manual de ocupação, ou seja, como gerência e cálculo. A <vida> é um <negócio>, independentemente se ela paga ou não o seu preço.” Já ontologicamente, não há manual algum e <sempre se paga o preço>, sendo filósofo entende-se e estende-se isso para o próprio ser-aí.

METAPHYSICAL DISPLAY OF POWER

com-dicção humana

No fundo, a má consciência é tão pouco uma mera censura retroativa que ela reclama, sobretudo, numa referência antecipadora ao estar-lançado.” “Se já a caracterização da <má> consciência não alcança o fenômeno originário, isso vale ainda mais no que diz respeito à <boa> consciência, mesmo que esta seja considerada uma forma autônoma ou fundada essencialmente sobre a <má>.” “Na medida em que o discurso sobre a <boa> consciência nasce da experiência da consciência feita pela pre-sença cotidiana, isto apenas mostra que ela, mesmo quando se fala de <má> consciência, no fundo, não atinge o fenômeno.” Heidegger é desonesto em sua metodologia: devia simplesmente dizer, nessa seção do livro: eu li o livro Além do bem e do mal e remeto todos os verdadeiramente interessados pela questão do ser a ele.

A teoria do valor, seja fundamentada formal ou materialmente, também abriga uma <metafísica dos costumes>, i.e., uma ontologia da pre-sença e da existência como pressuposto ontológico implícito.” “Recorrer ao âmbito de tudo o que a experiência cotidiana da consciência conhece como única instância para a sua interpretação só pode se legitimar caso reflita, primeiramente, se, neste nível, a própria consciência pode-se fazer acessível.”

A interpretação comum pode pretender [pré-tender, hohoho!] sustentar-se nos <fatos>, limitando, nessa sua compreensão, a abrangência de abertura do clamor.” Eu, estudante universitário, deprimido, cada vez mais desimpessoalizado (na horrível nomenclatura heideggeriana), acumulando saber filosófico, à entrada da casa dos 20 anos, “transmuto-me”, muito influenciado por Nietzsche e Sartre, p.ex.. É claro que historiograficamente, i.e., onticamente, de forma rasa, tenderiam, numa biografia minha, a ver no ISOLAMENTO a causa-mor dessa “iluminação extra-moral”. Como todo incauto intérprete de Nietzsche e associados, me chamariam de louco ou pelo menos diriam “período conturbado”, “neurose criativa”, como o tal Ellenberger! Ora, é óbvio que o tal clamor tem de ter circunstâncias fenomênicas – com que tipo de exegetas infantilizados estamos lidando aqui?! Ocorre que foi indiscutivelmente a instância da abertura do meu ser-aí ao meu ser-no-mundo e ser-para-a-morte. Uma transformação absolutamente interna, tirando esse olhar crítico a posteriori, já que ninguém se deu conta, [meus colegas, professores, família] se estamos falando da compreensão platônica das coisas e não de sintomas vulgares de depressão.

É a partir da expectativa de uma indicação útil das possibilidades de <ação> seguras, disponíveis e calculáveis que se sente a falta de um conteúdo <positivo> no que se clama.” E agora, o que eu vou fazer?! Passeio na calçada entre a UnB e minha casa, tangendo o colégio CEAN. Apenas seguir descascando, ou simplesmente parar e <viver>, se me der na telha, porque a indiferença é minha para quando <eu quiser>. Me aprofundar nessas leituras, como interesse máximo. Me formar e dar aula, como interesses comezinhos, ônticos. O que isso me diz? Errei na carreira, tive uma graduação turbulenta – mas e daí? Isso não fere o projeto ontológico, obviamente. Aqui estou, dando a ele a continuidade pressentida desde sempre. E o fato de eu ter me assegurado <no mundo>, financeiramente, i.e., praticamente, também nada diz sobre <obter um êxito dissimulado> (farisaísmo da boa consciência, como Heidegger coloca). Todas essas externalidades são o realmente indiferente da minha vida. O dispor de mais ou menos tempo para seguir em meu projeto seguem como preocupação secundária “de fundo”, o que mais me importa em relação a minha existência pública ou material! E ainda assim converto algo tão obtuso em escrita, i.e., criação artística.

Com as máximas esperadas e precisamente calculadas, a consciência negaria à existência nada menos do que a possibilidade de agir.” Isso fica para o Rafael imediato, o mais profundo apenas assiste de camarote nessas horas, mas intervém se for o caso. Exemplo: Antecipe sua leitura de Ser e Tempo, está demorando demais!

O querer-ter-consciência [todo esse processo do clamor] transforma-se em presteza para a angústia. [um saber (se) ouvir sabiamente]” “A consciência só clama em silêncio, ou seja, o clamor provém da mudez da estranheza e reclama a pre-sença conclamada para aquietar-se na quietude de si mesma.” O Rafael que desde pequeno era “tagarela demais” teve de se fechar para o outro se abrir: mas o primeiro Rafael ainda existe, com-os-outros, no mundo da impessoalidade.

Chamamos de de-cisão essa abertura privilegiada e própria, testemunhada pela consciência na própria pre-sença, ou seja, o projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito mais próprio.” “Quanto a seu <conteúdo>, o <mundo> à mão não se torna um outro mundo, o círculo dos outros não se modifica, embora, agora, o ser-para o que está à mão, em sua compreensão e ocupação, e o ser-com da preocupação com os outros sejam determinados a partir de seu poder-ser mais próprio.” É o além-homem apenas um filósofo na verdadeira acepção da palavra? Aquele que se desescravizou o homo oeconomicus, a instrumentalidade ultimada?

PRIMEIRA SOCIEDADE (OU COMO SE TORNAR ÉTICO): “A pre-sença de-cidida pode se tornar <consciência>-dos-outros. Somente a partir do ser si-mesma mais próprio da de-cisão é que brota a convivência em sentido próprio.” Ou seja, um querer-compor-um-humanismo.

O decisivo é justamente o projeto e a determinação que, cada vez, abrem as possibilidades de fato. A indeterminação que caracteriza cada poder-ser de fato lançado da pre-sença pertence necessariamente à de-cisão.” “A de-cisão se apropria propriamente da não-verdade. A pre-sença já está e, talvez sempre esteja, na in-de-cisão. Esse termo designa apenas o fenômeno já interpretado como abandono à interpretação predominante do impessoal.” // Parmênides.

Enquanto conceito inverso à de-cisão em sua compreensão existencial, a in-de-cisão não significa uma qualidade ôntica e psíquica, no sentido de sobrecarga de repressões.”

Somente para-a-de-cisão é que pode ocorrer aquilo que chamamos de acaso, ou seja, o que lhe cai a partir do mundo circundante e do mundo compartilhado.” “Em contrapartida, a situação permanece essencialmente fechada, para o impessoal. Ele conhece apenas os <casos gerais> que se perdem nas <ocasiões> mais imediatas e contesta a pre-sença, calculando os <acasos>, os quais, por desconhecê-los, sustenta e professa como sua realização.” Kairos é ainda excessivamente pragmático e utilitarista enquanto conceito, pelo menos para a horda de idiotas que dele poderia querer se apropriar…

Expor os traços fundamentais e as correlações das possibilidades de fato existenciárias bem como interpretá-las em sua estrutura existencial pertencem ao âmbito das tarefas da antropologia existencial.” Cf. Psicologia da Comovisão (tenho certeza que a tradução está diferente) de Jaspers.”¹ H. alerta: esta obra não deve ser usada como um manual tipológico das cosmovisões possíveis.

¹ Psychologie der Weltanschauungen; bem que pode ser esse também: Filosofia da existência: conferências pronunciadas na Academia Alemã de Frankfurt. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1973.

Propriedade da pre-sença agora não é mais uma expressão vazia (…) Todavia, o sentido próprio do ser-para-a-morte enquanto poder-ser todo em sentido próprio, existencialmente deduzido, permanece um projeto puramente existencial, que ainda necessita de um testemunho da pre-sença.” Ou seja, H. procura a de-cisão geral desse ser-para-a-morte (do homem em geral). Digamos que a de-cisão em âmbito individual só diz respeito a nós, os superiores, nós os eleitos, etc. Mas me parece muita pretensão chegar a essa nova re-solução! Além disso, ele não sabe explicar como nós, os privilegiados, chegamos a ser privilegiados. Mas isso é inexplicável.

3. O PODER-SER TODO EM SENTIDO PRÓPRIO DA PRE-SENÇA E A TEMPORALIDADE COMO SENTIDO ONTOLÓGICO DA CURA

Demorou muito para incluir o tempo na problemática do ser, após a promessa na introdução!

Não será que a tentativa de forçar a união entre de-cisão e antecipação não leva a uma construção insuportável, de todo não-fenomenológica, que nem é capaz de reivindicar o caráter de um projeto ontológico com base fenomenal?”

Até aqui as discussões a respeito do método mantiveram-se em segundo plano.”

A determinação do sentido ontológico da cura consiste na liberação da temporalidade.”

A certeza da de-cisão significa: manter-se livre para uma retomada possível e de fato necessária.” “de-cidir com propriedade pela re-petição de si mesmo.” “A de-cisão antecipadora não é, de modo algum, um subterfúgio inventado para <superar> a morte.” “O querer-ter-consciência, determinado como ser-para-a-morte, também não significa um desprendimento do mundo, mas conduz, sem ilusões, à de-cisão do <agir>.” Quem se afasta da curiosidade mesquinha, se afasta também do mau idealismo. Não vive mais cinicamente, tampouco como um idealista sonhador caricato. O herói decidido e conclamado. Espírito-livre nietzschiano.

A filosofia nunca haverá de querer contestar as suas <pressuposições> mas também não quererá admiti-las sem discussão. A filosofia concebe as pressuposições junto com os seus referentes e os submete a um desdobramento mais penetrante.”

do ponto de vista ontológico, o ente que nós mesmos somos é o mais distante.” (DV) Vivemos no aí, sendo necessário um processo complexo de auto-reconhecimento inerente a nossa condição para vislumbrarmo-nos como ser total do nascimento à morte (como entes). É como se nos afastássemos o máximo de nós mesmos e de nossa circunvizinhança para podermos concluí-lo, impessoal, objetivamente. Concluir o quê? Essa simples verdade factual, que independe de qualquer instante, desde que já tenha sido assegurada a primeira vez.

Conquistar o infinito (perder-se indistintamente nele, a única coisa que se pode fazer perante o infinito) é fácil. O difícil é conquistar o próprio finito, sem o quê não existe destino.

tudo que vai volta” tudo que abre, fecha.

Sou, logo irei morrer e não ser.

Já vivi com tanto tato e contato!

…será que esse pre-supor possui o caráter de um projeto que compreende?”

ser-em-círculo-da-pre-sença

O DIZER-EU

O <eu> é uma mera conseqüência que acompanha todos os conceitos. Com ele, <nada se representa a não ser um sujeito transcendental dos pensamentos>.”

O eu-penso é a forma da apercepção [pré-percepção ou percepção ágrafa – o sine qua non kantiano] que precede e adere a toda experiência.” K.

Denominar este eu de <sujeito lógico> não significa que o eu em geral seja, meramente, um conceito obtido por via lógica.” Até porque, como vimos acima, o eu-penso é um não-conceito ou percepção ilógica, pré-lógica.

O <eu penso> significa <eu combino>.” Tem de haver um eu para que os conceitos se liguem, e o mundo exista.

Isso significa que [para K.] o eu penso não é algo representado e sim a estrutura formal do representar como tal, através do que, só então, se torna possível todo e qualquer representado.”

eu = eidos = base dos conceitos + conceitos

Determinar ontologicamente o eu como sujeito significa já sempre supor o eu como algo simplesmente dado. O ser-do-eu é compreendido como realidade da res cogitans.” Por isso em H. o ser-do-eu tem de se tornar ser-do-ente. (A síntese que K. pensara ter realizado se realiza.)

OBRA DE KANT: Um sistema em que a ética é um módulo do sistema, e não um componente orgânico impossível de isolar desse mesmo sistema é um sistema, falho e não-ético ou anti-ético.

CRÍTICA ULTIMADA AO CRITICISMO: “Não é preciso pensar <materialistamente> nem <racionalistamente> para se ficar, de todo, prisioneiro da ontologia da <substância> [o eu cartesiano, o simplesmente dado] de maneira ainda mais perniciosa por ser, aparentemente, evidente.”

Scheler, Der Formalismus in der Ethik und die materiale Wertethik

Kant não viu o fenômeno do mundo e foi suficientemente conseqüente ao afastar as <representações> do conteúdo a priori do <eu penso>.”

De ser-no-MUNDO a SER-NO-mundo.

Heidegger chama, desnecessariamente, o discurso mediano ao se referir a si de eu-eu ou dizer-eu-eu.

No silêncio, o ser-si-mesmo em sentido próprio justamente não diz <eu-eu> porque, na silenciosidade, ele <é> o ente-lançado que, como tal, ele propriamente pode-ser.”

Não deve ser coincidência que solidão, sozinho e solo, chão, sejam semelhantes desde o latim. Sustentáculo da alma e da ação.

O que significa sentido?” Hahaha.

sentido é o contexto no qual se mantém a possibilidade de compreensão de alguma coisa, sem que ele mesmo seja explicitado ou, tematicamente, visualizado. Sentido significa a perspectiva do projeto primordial a partir do qual alguma coisa pode ser concebida em sua possibilidade como aquilo que ela é. O projetar abre possibilidades, i.e., o que possibilita.” “Expor o sentido da cura significa portanto: perseguir o projeto orientador e fundamental da interpretação existencial originária da pre-sença para que se torne visível a perspectiva do projetado.”

Toda experiência ôntica de um ente, tanto a avaliação do que está à mão numa circunvisão como o conhecimento científico de algo simplesmente dado, está sempre fundada em projetos mais ou menos transparentes do ser do respectivo ente.”

Ex1: Rafael-escritor como ente: ter uma carreira de escritor.

Ex2: A lingüística como ente: entender diacrônica e sincronicamente o objeto de estudo, i.e., a língua (as línguas).

Este deixar-se-vir-a-si, que na possibilidade privilegiada a sustém, é o fenômeno originário do porvir.”

Somente enquanto a pre-sença é no vigor de ter sido [vigorado, passado irrevogável e pertencente ao ser do ser-aí, passado vigente, para mim] é que ela, enquanto porvir, pode vir-a-si de maneira a vir de volta.” Sempre se lembrar do projeto, da decisão e do clamor.

A de-cisão só pode ser o que é como a atualidade [presente do ser-aí, gerúndio].”

a de-cisão se atualiza na situação.”

Chamamos de temporalidade este fenômeno unificador do porvir que atualiza o vigorado.” “Temporalidade [é] (…) o sentido da cura“O uso terminológico dessa expressão deve, de início, manter distantes todos os significados impostos pelo conceito vulgar de tempo como futuro, passado e presente.”

temporalidade imprópria”

Nesse campo de investigação, violência não é arbitrariedade mas uma necessidade fundada nas coisas elas mesmas.”

JÁ & AÍ

Quando decaímos no mundo é que passa a existir o tempo.

A temporalidade possibilita a unidade de existência, facticidade e de-cadência, constituindo, assim, originariamente, a totalidade da estrutura de cura.”

A temporalidade não <é>, de forma alguma, um ente.”

A temporalidade temporaliza”

São os modos possíveis da temporalidade que possibilitam a pluralidade dos modos de ser da pre-sença, sobretudo os modos do próprio e impróprio.”

Temporalidade é o <fora de si> em si e para si mesmo originário. Chamaremos, pois, os fenômenos caracterizados de porvir, vigorado e atualidade, de ekstases¹ da temporalidade.”

¹ estase e êxtase – estase conforme o dicionário português: “parada, paralisação” – neste caso: do tempo no tempo. êxtase cf. o dic. port.: ‘fora de si’ (mesmo estando em si, modo privilegiado), dotado de vários humores, talvez todos em concatenação, incluindo a ânsia. pasmo (momento da de-cisão – a partir dele, pode-se revivê-lo sempre). Do grego “mover-se para fora”.

Sou eu, a despeito das aparências, porque se olho com des-cuido, agora não sou o que fui e o que serei, embora realmente o seja.

O característico do <tempo> acessível à compreensão vulgar consiste, entre outras coisas, justamente no fato de que, no tempo, o caráter ekstático da temporalidade originária é nivelado a uma pura seqüência de agoras, sem começo nem fim.”

4: O tempo original se desdobra em 3.

eterno-vir-a-ser (única realidade): passado-instante ou nada-futuro (inautenticidade)

autenticidade própria (limite da possibilidade do meu eu): inautenticidade do mundo que me precede e me sucede ou está invisível a mim enquanto vijo no sentido newtoniano de tempo.

Finitude não diz primordialmente término. (…) O porvir originário e próprio é o para-si, um para-si que existe como a possibilidade insuperável do nada.”

A tentação de se passar por cima da finitude do porvir originário e próprio e, com isso, da temporalidade, considerando-a <a priori> impossível, nasce da contínua imposição da compreensão vulgar do tempo.” “Somente porque o tempo originário é finito é que o tempo <derivado> pode se temporalizar como in-finito.”

autoconsistência da existência”

consistência x inconsistência

historicidade da pre-sença” (a partir da inautenticidade do mundo podemos chegar à autenticidade unitária do ser)

A civilização que matou o tempo.

Mentira, recuperou-o.

Devolveu-o ao trono.

No jogo, sempre se olha o cronômetro com muita atenção. Dele é que tudo depende. O campo é uma outra coisa…

Desgastando-se a pre-sença gasta a si mesma, ou seja, gasta o seu tempo. Gastando tempo ela conta com ele.” Quem conta, conta-com, ouvi alguém dizer. “Contar com o tempo é constitutivo do ser-no-mundo.” Duplo sentido: ser-dependente-do-tempo, não poder viver sem o tempo, e ao mesmo tempo mensurar o, criar uma unidade de, tempo.

TEMPO ÔNTICO, BE BORN! “Chamamos de intratemporalidade a determinação temporal dos entes intramundanos.” Segundo H., o limite da fenomenologia bergsoniana.

4. TEMPORALIDADE E COTIDIANIDADE

A origem ontológica do ser da pre-sença não é <inferior> ao que dela surge. A origem ontológica já o sobrepuja em poder e, no âmbito ontológico, tudo o que <surge> é degeneração. Para o senso comum, a tendência ontológica para a <origem> nunca se transforma em evidência ôntica.”

Enquanto descoberta que compreende o incompreensível, toda explicação tem suas raízes na compreensão primordial da pre-sença.”

A existência pode tornar-se digna de questionamento. Para que este <questionamento> seja possível, é necessária uma abertura.”

Sem dúvida, de início e na maior parte das vezes, a pre-sença fica in-de-cisa, ou seja, fica fechada em seu poder-ser mais próprio no qual ela só se empenha singularizando-se.” “Essa inconstância não significa, porém, que a temporalidade careça, por vezes, de porvir, mas sim que a temporalização do porvir está sujeita a mutações.”

O termo, do ponto de vista formal indiferente, para o porvir encontra-se na designação do 1º momento estrutural da cura, i.e., no preceder-se. De fato, a pre-sença continuamente se precede, mas nem sempre se antecipa

O atender [espécie de compreender ôntico] sempre já deve ter aberto o horizonte e o âmbito a partir do que algo pode ser esperado. Esperar é o modo do porvir fundado no atender que, em sentido próprio, se temporaliza como antecipação.”

Chamamos de in-stante a atualidade própria, i.e., a atualidade mantida na temporalidade própria.” “Em princípio, o fenômeno do in-stante não pode ser esclarecido pelo agora. O agora é um fenômeno temporal que pertence ao tempo da intratemporalidade (…) <No in-stante>, nada pode ocorrer. Ao contrário, enquanto atualidade em sentido próprio, é o in-stante que deixa vir ao encontro o que, estando à mão ou sendo simplesmente dado, pode ser e estar <em um tempo>.”

Foi, sem dúvida, Kierkegaard quem viu com a maior profundidade o fenômeno existenciário do in-stante, o que não significa que ele tenha logrado uma correspondente interpretação existencial.” “Quando Ki. fala de <temporalidade>, ele quer referir-se ao <ser-e-estar-no-tempo> do homem. O tempo como intratemporalidade conhece apenas o agora e nunca o in-stante.”

Por oposição ao in-stante, no sentido de atualidade própria, chamamos de atualização a atualidade imprópria. (…) in-de-cisa”

A compreensão imprópria se temporaliza como um atender atualizante a cuja unidade ekstática pertence necessariamente um vigorado, que lhe corresponde.” Chega de tecnicismos!

Chamamos de re-petição o ser o vigorado em sentido próprio.”

A ekstase (retração) do esquecimento tem o caráter de uma extração, fechada para si mesma, do vigorado em sentido mais próprio, de tal maneira que esse extrair-se de… fecha, ekstaticamente, aquilo de que se extrai e, com isso, a si mesmo.” “o esquecimento é o sentido temporal (…) que (…) na maior parte das vezes (…) eu (…) sou.”

atender esperar

esquecer recordar

Mas o que pode haver de comum entre os humores e o <tempo>?”

A recolocação não produz o vigorado, mas a disposição sempre revela, para a análise existencial, um modo do vigorado.” “A interpretação temporal limitar-se-á aos fenômenos já analisados do temor e da angústia.” “Só no atendimento é que o que ameaça pode estar de volta para o ente que eu sou e, dessa forma, a pre-sença só pode ser ameaçada caso já se tenha aberto, ekstaticamente, o endereço da volta.” “voltar para um estar-lançado mas de tal maneira que ele se fecha”

quem teme não-mais-se-reconhece no mundo circundante.”

atualização conturbada”

esquecimento de si inerente ao temor”

É sabido que o habitante de uma casa em chamas, p.ex., freqüentemente, quer <salvar> as coisas mais indiferentes por estarem mais imediatamente à mão.”

Tudo o que, além disso, pertence ao fenômeno fica sendo um <sentimento de prazer e desprazer>.”

o mundo não está me atendendo neste momento, pois está ocupado

Ela recoloca o fato puro do estar-lançado mais próprio e singular.” “Mas a angústia também não implica em uma retomada re-petitiva da existência na de-cisão.”

a angústia não pode se perder em ocupações. Quando algo assim parece ocorrer numa disposição, então se trata do temor que o entendimento cotidiano confunde com a angústia.”

A angústia só conduz para o humor de uma de-cisão possível.”

Como se pode encontrar um sentido temporal na morna ausência de humores que domina o <cotidiano cinzento>?”

e os afetos como esperança, alegria, encantamento e jovialidade?”

tédio, tristeza, melancolia e desespero”

ter esperança = ter-esperança-para-si

ter-se-conquistado”

indiferença x equanimidade (humor privilegiado da pre-sença)

Permanece um problema independente o modo em que se deve delimitar, ontologicamente, estímulo e contato dos sentidos em algo apenas-vivo, [?] e o modo, p.ex., como e onde o ser dos animais é constituído por um <tempo>.” Bem-lembrado.

má curiosidade (curiosidade sem método) dispersão desamparo: “Este modo da atualidade é o fenômeno que mais explicitamente se opõe ao in-stante.”

O desamparado está aí sem estar aí.

tentação, tranqüilização, alienação, auto-aprisionamento

O retrair-se da existência na atualização [atender, nível ôntico] não significa que a pre-sença se desligue de seu eu e de seu si-mesmo.”

A curiosidade não é <provocada> pela visibilidade sem fim do que ainda não se viu, mas pelo modo de-cadente de temporalização da atualidade que surge. Mesmo que tenha visto tudo, a curiosidade sempre inventa algo novo.”

abrir a situação-limite originária do ser-para-a-morte.”

Os tempos não surgem porque o discurso <também> se pronuncia a respeito de processos <temporais>, i.e., que vêm ao encontro <no tempo>. Seu fundamento também não é o fato de que a fala transcorre <num tempo psíquico>.”

Com a ajuda do conceito vulgar e tradicional do tempo, de que se vale forçosamente a ciência lingüística, nunca se pode colocar o problema da estrutura existencial e temporal dos tipos de ação.” Cf. Wackernagel, Vorlesungen über Syntax, vol. I, 1920.

[Só através da minha analítica] se poderá delimitar o sentido ontológico do <é>, que uma teoria artificial da sentença e do juízo desfigurou, reduzindo-o à <cópula>. O <aparecimento> do <significado> e a possibilidade de uma elaboração conceitual só podem se esclarecer e compreender, ontologicamente, com base na temporalidade do discurso, da pre-sença em geral.”

a compreensão é sempre atualidade [nível ontológico do presente] do vigorado.”

[já] a disposição se temporaliza num porvir <atualizante>. Não obstante, a atualidade <surge> ou se sustenta num porvir do vigorado.” Repete-se à exaustão.

Temporalização não significa <sucessão> de ekstases. O porvir não vem depois do vigorado e este não vem antes da atualidade.”

A unidade ekstática da temporalidade, i.e., a unidade do <fora de si> nas retrações de porvir, vigorado e atualidade é a condição de possibilidade para que um ente possa existir como o seu <aí>. O ente que carrega o título de pre-sença se <iluminou>. A luz que constitui a luminosidade da pre-sença não é uma força ou fonte ôntica simplesmente dada de uma clareza cintilante que, por vezes, ocorre neste ente. Antes de toda interpretação <temporal>, determinou-se como cura o que ilumina essencialmente esse ente, i.e., aquilo que o torna <aberto> e também <claro> para si mesmo.”

Na intenção de proteger o fenômeno das tendências de fragmentação mais evidentes e, por isso, mais fatais, interpretou-se, com maior detalhamento, o modo mais imediato e cotidiano do ser-no-mundo, a saber, o ser que se ocupa junto ao que está à mão dentro do mundo. Agora que a própria cura foi, ontologicamente, delimitada e reconduzida ao seu fundamento existencial, à temporalidade, a ocupação pode, por sua vez, ser explicitamente concebida a partir da cura e da temporalidade.”

De que modo algo como mundo é possível? Em que sentido mundo é? [DV] O que o mundo transcende e como transcende?” “A exposição ontológica destas questões ainda não é a sua resposta.”

A falta da estrutura fenomenal daquilo com que se lida tem como conseqüência um desconhecimento da constituição existencial do modo de lidar.”

nexo instrumental”

Todo <trabalhar> e pôr mãos à obra não significa vir de um nada e deparar-se com um instrumento isolado, preliminarmente dado.”

deve-se buscar a condição de possibilidade do deixar e fazer em conjunto num modo de temporalização da temporalidade.” H. quase apertando a mão de Marx.

surpresa, importunidade, impertinência

É preciso que o próprio afazer se veja perturbado para que possa vir ao encontro algo que não pode ser manuseado.”

o teste e o afastamento”

Mas como é possível <constatar> o que falta, ou seja, o que não está à mão e não apenas o que está à mão mas não é manuseável?”

o dar pela falta”

É o não-atender da atualização perdida que abre o espaço <horizontal> de jogo em que o espantoso pode sobrevir à pre-sença.”

não contar com…”

levar em conta outra coisa

Somente porque se descobre o que opõe resistência com base na temporalidade ekstática da ocupação é que a pre-sença pode, de fato, se compreender em seu abandono a um <mundo>, que ela nunca domina.”

Quais as condições de possibilidade, inerentes à constituição ontológica da pre-sença e existencialmente necessárias, para que a pre-sença possa existir no modo da pesquisa científica?” Duvido que algo mais elaborado que “desenvolvimento do capitalismo” possa ser apontado… Em outros termos, busca-se o ser-da-ciência.

Fenomenologia versus semiótica

O decisivo para o <aparecimento> do comportamento teórico residiria no desaparecimento da práxis. É justamente quando se toma a ocupação <prática> como o modo primário e predominante de ser da pre-sença que a <teoria> deve sua possibilidade ontológica à falta da práxis, ou seja, a uma privação.” “Pelo contrário (…) Abster-se do uso instrumental significa tão pouco <teoria> que, na <observação> demorada, a circunvisão permanece inteiramente atada ao instrumento ocupado e à mão. O lidar <prático> possui seus modos próprios de demorar-se.”

A observação no microscópio depende da produção de <preparados>. A escavação arqueológica, que precede à interpretação do <achado>, exige as mais intensas manipulações. E mesmo a elaboração mais <abstrata> de problemas e a fixação do que foi obtido manipulam instrumentos de escrever, p.ex..” “Para poder se tornar <objeto> de uma ciência, o que está à mão não precisa perder o seu caráter instrumental. A modificação da compreensão ontológica não parece ser um constitutivo necessário da gênese do comportamento teórico <frente às coisas>.”

Na proposição <física>, <o martelo é pesado>, não apenas se deixa ver o caráter de ferramenta deste ente que vem ao encontro, mas também o que pertence a todo instrumento à mão, a saber, o seu local. Este se torna indiferente. (…) O local se transforma em posição no espaço e no tempo, em um <ponto do mundo>, que não se distingue de nenhum outro. Isto implica que a multiplicidade de locais delimitados no mundo circundante, própria do instrumento à mão, não se transforma apenas em puro sistema de posições, mas sim que se aboliram os limites do próprio ente do mundo circundante.”

in-tegração

O exemplo clássico do desenvolvimento histórico de uma ciência, e também da gênese ontológica, é o aparecimento da física-matemática.” “projeto matemático da própria natureza”

matéria (base não-numérica) movimento, força, lugar, tempo (enumerar a matéria em suas regiões)

A fundamentação das ciências dos fatos só foi, portanto, possível na medida em que o pesquisador compreendeu que, em princípio, não existem meros fatos.” “E assim, o caráter exemplar da ciência matemática da natureza também não reside em sua exatidão específica e na obrigatoriedade para <todos>, mas no fato de que, nela, o ente temático é descoberto da única maneira em que pode ser descoberto, a saber, no projeto prévio de sua constituição ontológica.”

Chamamos de tematização a totalidade desse projeto ao qual pertencem as articulações da compreensão ontológica, a delimitação dela derivada do setor de objetos e o prelineamento da conceitualização adequada ao ente. A tematização visa liberar os entes que vêm ao encontro dentro do mundo de modo a que eles possam ser <projetados para> uma pura descoberta, i.e., que eles possam se tornar objetos. A tematização [portanto] cria objetos”

atualização privilegiada”

Agora começo a vislumbrar como e por que “ouvi dizer por aí” que Heidegger fala que o objetivo da humanidade, através da Técnica, é o “domínio do planeta”. E creio que essas vozes de falatório compreenderam mal: ele descreve o atual panorama do desenvolvimento tecnológico-histórico, mas não está abençoando este sentido.

A compreensão de ser pode permanecer neutra. Manualidade e ser simplesmente dado ainda não se diferenciam e, sobretudo, ainda não são concebidos ontologicamente.”

Como é, ontologicamente, possível a unidade de mundo e ser-aí? De que modo o mundo deve ser, para que o ser-aí possa existir enquanto ser-no-mundo?”

A condição existencial e temporal da possibilidade do mundo reside no fato de a temporalidade, enquanto unidade ekstática, possuir um horizonte.” Eu-sou-meu-mundo

Chamamos de esquema horizontal esse para-onde da ekstase.”

O fato destes entes [simplesmente dados] se descobrirem junto com o próprio aí da existência não está à mercê do ser-aí. Somente o quê, cada vez, se descobre e se abre, em que direção se faz, até onde e como se faz é que são tarefas de sua liberdade, embora sempre nos limites de seu estar-lançado.”

O mundo já está, por assim dizer, <muito mais fora> [de-cidido, ontologizado] do que qualquer objeto pode estar. Por isto, o <problema da transcendência> não pode ser reduzido à questão de como um sujeito sai de dentro de si e chega a um objeto fora de si [sem o enquadramento material e histórico no mundo]

Concebendo o <sujeito> como ser-aí que existe e cujo ser está fundado na temporalidade, deve-se então dizer: mundo é <subjetivo>. Mas do ponto de vista transcendente e temporal, este mundo <subjetivo> é mais <objetivo> do que qualquer <objeto> possível.” Porque assim interessa ao ser-no-mundo.

Contudo, a comprovação de que a espacialidade só é existencialmente possível através da temporalidade não pode pretender reduzir o espaço do tempo ou dissolvê-lo em puro tempo.”

A pre-sença introjeta – em sentido literal – o espaço.” Não seria projeta?

Existindo, ela já-sempre arrumou para si um espaço.”

a introjeção do espaço é tão pouco idêntica a uma <representação> do espacial que é esta que pressupõe aquela.”

É até mesmo questionável se a explicação até agora desenvolvida da temporalidade é suficiente para delimitar o sentido existencial da cotidianidade.”

RESUMO DA VIDA DO FILÓSOFO: “<De início> significa o modo em que a pre-sença <se revela> na convivência da public-idade, mesmo que, existenciariamente, ela tenha <no fundo> superado a cotidianidade. <Na maior parte das vezes> significa o modo em que a pre-sença nem sempre, mas <via de regra>, se mostra para todo mundo.”

A monotonia da cotidianidade considera como mudança justamente aquilo que o dia traz. A cotidianidade determina a pre-sença mesmo quando ela não escolheu para <herói> o impessoal.”

Na cotidianidade, a pre-sença pode <sofrer> de estupidez, pode mergulhar na sua estupidez ou dela escapar, buscando uma nova dispersão para fazer frente à dispersão dos negócios e tarefas.”

Mas, no fundo, o termo cotidianidade nada mais pretende indicar do que a temporalidade que possibilita o ser da pre-sença.” A totalidade orgânica do ser-aí.

5. TEMPORALIDADE E HISTORICIDADE

A pre-sença só se fez tema existindo, por assim dizer, <para frente>, deixando, com isso, <para trás> de si todo o vigorado. (…) se desconsiderou (…) a ex-tensão da pre-sença entre nascimento e morte.” “Haverá algo mais <simples> do que caracterizar o <contexto da vida> entre nascimento e morte?”

vivência e permanência

No fundo, a concepção vulgar do <contexto da vida> também não pensa numa moldura que, estando <fora> da pre-sença, a abrangesse, mas procura, com razão, esta moldura na própria pre-sença.” Torna-se patente o quanto Sartre não entendeu este livro.

De forma alguma a pre-sença só <é> real num ponto do tempo, de maneira que, além disso, estaria <cercada> pela não-realidade de seu nascimento e de sua morte.”

O SIGNIFICADO DE CURA: “De fato, a pre-sença só existe nascendo e é nascendo que ela já morre, no sentido do ser-para-a-morte.”

O ENTRE: “Chamamos de acontecer da pre-sença a movimentação específica deste estender-se na ex-tensão. A questão sobre o contexto da pre-sença é o problema ontológico de seu acontecer. Liberar a estrutura do acontecer e suas condições existenciais e temporais de possibilidade significa conquistar uma compreensão ontológica da historicidade.”

quem? consistência

Não é na ciência historiográfica que se deve buscar a história. Mesmo que o modo científico e teórico de tratar o problema da <história> não vise apenas a um esclarecimento <epistemológico> (Simmel) da apreensão histórica, nem a uma lógica da construção conceitual da exposição histórica (Rickert), mas também se oriente pelo <lado do objeto>, mesmo assim, nesse tipo de questionamento, a história só se faz acessível, em princípio, como objeto de uma ciência.” “A tematização, a abertura historiográfica da história é a pressuposição de uma possível <construção do mundo histórico pelas ciências do espírito>.”

temporalidade história, e não história temporalidade

a origem do tempo da intratemporalidade a partir da temporalidade. [sua base]” “Quanto mais o problema da história se aproximar de seu enraizamento originário, mais agudamente aparecerá a indigência dos meios <categoriais> disponíveis e a insegurança dos horizontes ontológicos primários.”

No fundo, a presente análise trata unicamente da preparação de um caminho para que a atual geração possa apropriar-se das pesquisas de Dilthey, com as quais ela ainda deve se confrontar.”

A ambigüidade do termo <história> mais imediata e freqüentemente observada, embora não seja de forma alguma <fortuita>, anuncia-se no fato de que esse termo significa tanto a <realidade histórica> como a sua possível ciência.” Primeiro passo: história =/= historiografia

o passado das coisas

passado que ‘morreu’ (definição negativa)

passado que ‘segue em nós’ (pré-vigorado) (definição positiva)

passente

ascensão-queda

autoria

passividade

marcar época

con-junto de influências

inimiga da Natureza

Darwin e o ticket de entrada do natural na própria história, revivendo com nova pujança o termo “História natural”

Será que a pre-sença de fato é primeiro <algo simplesmente dado> para depois, oportunamente, entrar <numa história>?” “uma caracterização mais precisa do curioso primado do <passado> no conceito de história é que deve preparar a exposição da constituição fundamental da historicidade.”

O que foram as coisas que hoje não são mais?”

O que passou?” “mundo”

O mundo começa com a mão.

Será a pre-sença o vigorado apenas no sentido do que vigora por ter sido pre-sente [por ter-estado-aí] ou será ela o vigorado enquanto algo atualizante e por vir [presente e futuro], ou seja, na temporalização de sua temporalidade?”

O ente não fica <mais histórico> mediante uma recondução regressiva a um passado sempre mais distante, no sentido de que o mais antigo fosse o que é mais propriamente histórico.”

A compreensão existenciária própria escapa tão pouco da interpretação legada que, no de-cisivo, ela sempre retira a possibilidade escolhida dessa interpretação, contra ela mas sempre a seu favor.” O que Heidegger quer dizer nesse trecho é que meu ser-aí, e meu ser-no-mundo, apesar de ser este mundo, sempre chega à de-cisão e vive cotidianamente, sem percebê-lo, no 2º caso, influenciado por coisas históricas que ainda não feneceram, i.e., pelo legado dos antepassados, dos mortos, de toda a cultura prévia a minha própria existência. Todos esses dados estão de tal forma embrenhados e mesclados com a ‘minha realidade contemporânea’ que se tornam indissociáveis – então, por mais que eu seja para o presente, sempre me alimento do passado, não só na minha vida mais instrumentalizada mas também no momento da ascensão filosófica. Prova disso é que fui ajudado principalmente por figuras como Nietzsche e Marx para chegar ao meu clamor. Sou um devorador de livros antigos, cujo conteúdo perpetuamente se atualiza em minha existência e realidade próprias.

Se todo bem é uma herança e se o caráter dos bens reside em possibilitar uma existência própria, então é na de-cisão que se constitui a transmissão de uma herança.” Escolho aquilo que não me serve mais e o que ainda me serve, mesmo tendo saído do seio dos meus pais.

meta incondicional”

simplificar, se apropriar e se esquivar

A pre-sença só pode sofrer golpes do destino porque, no fundo, ela é destino.” Já o in-de-ciso não tem destino.

O envio comum [nível ontológico da convivência] não se compõe de destinos singulares da mesma forma que a convivência não pode ser concebida como a ocorrência conjunta de vários sujeitos.”

SEMI-SOLIPSISMO/REPUBLICANISMO PLATÔNICO: Só alguns são homens, só alguns têm alma, só alguns vivem, os outros são matéria bruta dada para seus destinos e aconteceres.

O envio comum dos destinos da pre-sença em e com a sua <geração> constitui o acontecer pleno e próprio da pre-sença.” Para este conceito de geração, cf. Dilthey, Über das Studium der Geschichte der Wissenschaften von Menschen, der Gesselschaft und dem Staat (1875).

Não obstante impotente, o destino é a potência maior sempre pronta a enfrentar as contrariedades do projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito, em sentido próprio”

Não é necessário que a de-cisão saiba explicitamente a proveniência das possibilidades para as quais ela se projeta.”

A re-petição é a transmissão explícita, ou seja, o retorno às possibilidades da pre-sença, que vigora por ter sido pre-sente.”

o fato de a existência escolher seus heróis funda-se na de-cisão antecipadora”

MANDANDO A ÁRVORE GENEALÓGICA ÀS FAVAS: “Surgindo de um projeto de-cidido, a re-petição não se deixa persuadir pelo <passado> a fim de deixá-lo apenas retornar como o que alguma vez foi real.”

A re-petição nem se abandona ao passado nem almeja um progresso.” (isso seria retirar toda a autenticidade do ser-aí)

No in-stante, o ser-aí sai de si e do tempo vulgar para ser agora sim si-mesmo, i.e., a responsabilidade implica que não fui causado e nem perpetuo, mas inovo, ao mesmo tempo que também não carrego uma carga ou débito para todas as gerações futuras, que terão a sua própria cura para com que lidar.

Hamlet é toda a História.

Havia filósofos mesmo antes das obras da ciência histórica. A constituição do saber historiográfico é um fator apenas secundário. Embora eu saiba de onde advém o eterno-retorno, lá sei eu e Nietzsche lá sabia se isso não adviria, p.ex., de qualquer conto contado ou inclinação de algum de seus amigos ou familiares, ou dos pais deles?! Portanto a transmissão do saber foi indireta, tendo sido ele o primeiro a assumi-lo (até onde sabemos), mas sem que para isso ele houvesse de se deter e investigar o passado (hipótese assaz provável).

Segundo o que entendi até o momento, o envio comum seria por exemplo: a Alemanha escolheu o nazismo como seu destino (aplicado a nações).

HISTORICIDADE IMPRÓPRIA DA PRE-SENÇA

O mundo é ao mesmo tempo, solo e palco” Shakespeare o sabia.

DELEUZE EJACULA: “Será então o acontecer da história apenas o transcurso isolado de <fluxos vivenciais> em sujeitos singulares?”

História da compreensão humana da natureza enquanto ente histórico: sugestão de pesquisa.

O que <acontece> com o instrumento e a obra como tais [seres destituídos de pre-sença] possui um caráter próprio de movimentação que permanece, até agora, inteiramente obscuro.” Que nos importa que seja exato que erupções vulcânicas nos preservaram os fósseis de criaturas chamadas dinossauros? Este não é um passado ou vigorado, pois não importa ao homem ontologicamente, no sentido de que sempre-esteve-aí. Como o apagar do sol não é. Poderíamos dizer ser-para-o-apagar-do-sol, exagerando. Se há de existir um envio comum próprio e autêntico, teríamos a formulação: humanidade-para-o-apagar-do-sol. A cura do mundo, ele vive apenas como Gaia. O que acontece no sistema solar ou ainda mais perifericamente “não interessa ao mundo”. Cf. Gotti, Die Grenzen der Geschichte, 1904.

O único terremoto de interesse para a historicidade é o terremoto humano, Nietzsche, por exemplo.

CONTRA OS AMANTES DA HISTÓRIA À LA MARCOS (O homem vulgar é altamente imagético, precisa “aprender” “história” através de filmes de Hollywood – e por que não Bollywood? Hipocrisia.): “E, por fim, porque o sentido de ser vale como o absolutamente evidente, a questão do modo de ser da história e do mundo e da movimentação do acontecer em geral, <propriamente>, não passa de superstição verbal, infrutífera e prolixa.”

O QUE VIGORA AGORA? SÓ COISAS INVISÍVEIS QUE O PROJETO TEM DE SER SENSÍVEL A FIM DE APURAR. DISTORCER O INAPREENSÍVEL A NOSSO FAVOR (saber mentir): compreender o Império Romano no meu projeto, não como <tal qual fôra>, o que seria de todo modo uma falsificação, e sem relevância ontológica.

Um exemplo máximo de envio comum impróprio é o Brasil. A efervescência cotidiana deste país não pode nublar a consciência do filósofo.

Podemos ficar sem chão? O que é chão? Montanha é chão? Raízes de uma árvore do mundo são chão?

O ser histórico ideal é aquele que foge-da-morte, o ser-curioso-para-ninharias, como advento do comunismo sobre a Terra num futuro ultradistante (exemplo).

A historicidade própria compreende a história como o <retorno> do possível”

Pode-se, não obstante, ousar um projeto da gênese ontológica da ciência historiográfica, partindo-se da historicidade da pre-sença. Este projeto serve de preparação para o esclarecimento da tarefa de uma destruição historiográfica da filosofia, a ser posteriormente realizada.”

GENEALOGIA DA HISTORIOGRAFIA A PARTIR DA HISTORICIDADE DA PRE-SENÇA

O tema da historiografia não é nem o que aconteceu singularmente e nem um universal que paira sobre a singularidade, mas a possibilidade que de fato vigorou na existência.” E quanto mais exata é a História, mais improvável ela é.

Esta não se repete como tal [como simplesmente dada], ou seja, não é compreendida de modo propriamente historiográfico, mesmo quando distorcida pela palidez de um padrão supratemporal.”

A seleção do que deve se tornar objeto possível da historiografia já foi feita na escolha existenciária e factual da historicidade da pre-sença, onde somente a historiografia surge e unicamente é.”

Em nenhuma ciência, a <validade universal> dos parâmetros e as exigências de <universalidade>, imposta pelo impessoal e por sua compreensibilidade, são menos critérios possíveis de <verdade> do que na historiografia própria.” “Comprometendo-se previamente com a concepção de mundo de uma época, o historiógrafo ainda não comprova ter compreendido o seu objeto num modo propriamente histórico e não apenas estético.”

a historicidade própria de um <tempo> também não se comprova pelo interesse historiográfico altamente diferenciado, que abrange até mesmo as culturas mais primitivas e distantes. Ter aparecido o problema do historicismo é o sinal mais claro de que a historiografia pretende alienar o ser-aí da sua historicidade própria. (…) Épocas sem historiografia não são, em si mesmas, sem história.”

UHU, DE QUEM TERÁ PUXADO A INSPIRAÇÃO?!… “A possibilidade de a historiografia em geral poder ser tanto uma <utilidade> como uma <desvantagem> <para a vida> funda-se no fato de esta ser, em sua raiz, histórica e, portanto, enquanto existindo de fato, sempre já se ter decidido por uma historicidade própria ou imprópria. Na Segunda Consideração Intempestiva (1874), Nietzsche reconheceu o essencial a respeito da <utilidade e desvantagem da historiografia para a vida>, tendo-se pronunciado de maneira precisa e penetrante. Ele distingue 3 espécies de historiografia: a monumental, a antiquária e a crítica, sem, no entanto, de-monstrar, explicitamente, a necessidade dessa tríade e o fundamento de sua unidade. A tríade da historiografia está prelineada na historicidade do ser-aí. É ela também que permite compreender em que medida a historiografia própria deve ser a unidade concreta e factual dessas 3 possibilidades. A divisão feita por Nietzsche não é acidental. O início de sua <consideração> deixa entrever que ele compreendeu bem mais do que chegou a exprimir.” Substrato da alegoria tríplice da criança, do leão e do camelo do Zaratustra. Neste meio poético pode-se dizer que N. efetuou ou explicitou a necessidade da tríade e fundamentou sua unidade.

1. monumental

exaltar fatos isolados e grandiosos do passado, de forma a dar indicações de uma possibilidade de transvaloração do sujeito ‘histórico’. dizer-sim com dizer-não feitos corretamente, com cinismo e inocência, da criança no seu jogo.

2. antiquária

também não está contente com o mundo contemporâneo, mas se afasta dele por se afastar, não para se projetar numa reação ao niilismo. o dizer-sim de algo que já passou (a selva), burro, instintivo, do leão.

3. crítica

tragicamente a maior apologista do atual, o tipo moderno por excelência, que tentará se afastar dum passado inafastável. sem poder criador. é verdade que, sendo ‘realista’, não podemos achar um amanhã realmente novo sem atravessar esse hoje sórdido, [o dizer-não do camelo no deserto, que não sabe dizer-sim quando seria a hora] e por isso precisamos ser diplomáticos com este hoje, por mais cinza que seja.

* * *

Conde Yorck von Wartenburg (o continuador-contemporâneo de Dilthey), Briefwechsel zwischen Wilhelm Dilthey und dem Grafen Paul Yorck von Wartenburg, 1887-1897, 1923. Realmente a melhor época para se trocar cartas na Europa… São efetivamente esses 20 anos de correspondência a única forma de checar o pensamento deste quase-personagem shakespeariano (cof, cof, York)…

O trabalho de pesquisa de Dilthey [<O PRIMEIRO HERMENEUTA>] pode ser dividido, esquematicamente, em 3 campos: estudos sobre a teoria das ciências do espírito e sua delimitação frente às ciências da natureza; pesquisas sobre a história das ciências do homem, da sociedade e do Estado; investigação sobre uma psicologia que deve expor <todo o fato homem>.” “Yorck acha que as investigações de Dilthey <salientam pouco a diferença genérica entre o ôntico e o histórico (p. 191, grifo do autor).”

GOLPE DE PUNHAL NO VENTRE DA ANTROPOLOGIA: “Toda comparação é estética, está sempre presa à figura.” “para Windelband, história é uma série de imagens, de figuras singulares, uma exigência estética.”

Com seu agudo instinto, Yorck quis dizer que a história tradicional ainda se atém muito às <determinações puramente oculares>, que visam ao que é corporal e figurável.” Em suma, chega de ôntico!

Ranke é um grande ocular, para quem não pode se tornar realidade o que desapareceu. De maneira bem própria a R., também se esclarece a restrição da matéria histórica ao que é exclusivamente político. Somente este constitui o dramático.”

P. 208: Primeira ocorrência, talvez, de “inessencial”, em sentido próprio (tum dum!) no livro.

NIETZSCHE CONTRA A FILOLOGIA, PELO PORTA-VOZ YORCK: “O autêntico filólogo tem um conceito de história como de um baú de antiguidades. Eles não chegam ao que não se pode apalpar – aonde só se chega através de uma transposição psíquica viva. No fundo, eles são cientistas da natureza, que se tornam ainda mais céticos quando lhes falta o experimento. Devemos nos afastar inteiramente de todas essas tralhas, como, por exemplo, de quantas vezes Platão esteve na Magna Grécia ou em Siracusa. Pois aí não há vida alguma. Tais maneirismo exteriores, que só posso ver criticamente, tornam-se por fim, um grande ponto de interrogação, reduzindo-se a uma vergonha quando comparados com as grandes realidades que são Homero, Platão e o Novo Testamento. Tudo o que é verdadeiramente real se transforma em esquemas quando não-vivenciado e apenas considerado como <coisa em si>.”

Os cientistas se comportam face às forças do tempo à semelhança da sociedade francesa mais erudita e refinada frente ao movimento revolucionário. Tanto aqui como lá, trata-se apenas de formalismo, do culto da forma. Determinar relações é a última palavra da sabedoria.”

o conhecimento progrediu no sentido da superação dele próprio, o homem retraiu-se para tão longe de si mesmo que não é mais capaz de ver a si.”

Toda história viva é uma crítica”

O esforço se assemelha à luta de Jacó, a vitória é certa para quem luta.”

É pelo conhecimento do caráter ontológico da própria presença humana e não por uma epistemologia ligada ao objeto da consideração histórica que Yorck alcança a compreensão penetrante e clara do caráter fundamental da história enquanto <virtualidade>.”

O ponto nevrálgico dos dados psicofísicos não é (é = ser simplesmente dado na natureza. Observação do autor), mas vive. E uma reflexão sobre si mesmo, que não se dirige a um eu abstrato mas à plenitude do meu si-mesmo, é que haverá de me encontrar historicamente determinado tal como a física me reconhece cosmologicamente determinado. Tanto quanto natureza, eu sou história…” Por esse trecho, vemos o quanto Heidegger está informado – até no vocabulário! – por Yorck!

E Yorck, que via com profundidade toda a inautenticidade da <determinação de relações> e toda a <falta de solidez> dos relativismos, não hesita em tirar as últimas conseqüências desta visão profunda da historicidade da pre-sença: <Mas, por outro lado, para a historicidade interior da autoconsciência é, metodologicamente, inadequada uma sistemática separada da história. Assim como a psicologia não pode abstrair da física, também a filosofia – e justamente quando é crítica – não pode abstrair da historicidade…A atitude consigo mesmo e a historicidade são como a respiração e a pressão do ar e – por mais paradoxal que possa parecer – no aspecto metodológico, a não-historização me parece um resto metafísico>

Em minha opinião, existe uma filosofia da história – não se assuste – porque filosofar é viver – quem poderia escrevê-la! Decerto, não no sentido em que até agora se concebeu e buscou, contra o que o senhor irrefutavelmente se pronunciou. Falso, até impossível, embora não seja o único, tem sido o questionamento até hoje existente. Por isso já não há nenhum filosofar real que não seja histórico. A separação entre filosofia sistemática e exposição histórica é, essencialmente, incorreta” Vejamos o que devia querer dizer com filosofia sistemática, hoje impossível. Claro que a filosofia sincrônica, da qual até rimos…

Off-topic, mas caberia perfeitamente como prefácio da República ou em Jaeger: “O poder tornar-se prática é, sem dúvida, o fundamento próprio e justo de toda ciência. Mas a práxis matemática não é a única. A finalidade prática de nosso ponto de vista [humanidades] é a pedagógica, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ela é a alma de toda verdadeira filosofia e a verdade de Platão e Aristóteles.”

O senhor sabe o que eu acho a respeito da possibilidade de uma ciência da ética. Apesar disso, sempre se pode fazer algo melhor. Para quem são propriamente esses livros? Arquivos e arquivos! O único valor digno de nota é o élan de passar da física para a ética.”

O que penetra até o fundo da vida furta-se a uma exposição exotérica e, por isso, a terminologia não é compreendida pelo senso comum, sendo, inevitavelmente, simbólica. É da especificidade do pensamento filosófico que decorre a especificidade de sua expressão verbal.”

A tarefa pedagógica do Estado seria desfazer a opinião pública elementar e possibilitar, tanto quanto possível, a formação da individualidade no ver e no perceber. Ao invés do que se chama de consciência moral – essa alienação radical – voltamos a consciências singulares, que paradoxalmente fortaleceriam a consciência moral”

A curiosa dualidade utilizada pelo autor, ôntico x histórico, precisaria de uma fundamentação mais originária, pois H. diz: como se entenderia esse ‘histórico’, sem defini-lo pelo ôntico, e na verdade pressupondo que uma unidade serve de base a essa distinção mesma? I.e.: não é uma falsa dicotomia entre aparência-espírito, o que já havia sido tentado na história da filosofia, mas a remissão, neste caso, justamente à historicidade da pre-sença (somente meio século depois de Yorck, evidentemente, chegou-se a essas palavras).

Não é por acaso que Yorck chama o ente não-histórico de ôntico simplesmente. Isso apenas reflete o predomínio ininterrupto da ontologia tradicional que, provindo do antigo questionamento do ser, mantém a problemática ontológica numa estreiteza de princípio. [corpo e alma, blábláblá…]”

Chegou a hora de consumar Dilthey-Yorck, é o que está nos dizendo H..

6. TEMPORALIDADE E INTRATEMPORALIDADE COMO ORIGEM DO CONCEITO VULGAR DE TEMPO

RECUO? “O tempo <em que> os entes intramundanos vêm ao encontro deve, ainda mais necessariamente, receber uma análise de princípio, porque, além da história, também os processos naturais se determinam <no tempo>.”

De onde a pre-sença toma o tempo? Como esse tempo se comporta frente à temporalidade?”

Na interpretação hegeliana do tempo, tanto a possibilidade de interpretar o tempo de forma subjetiva quanto objetiva são, de certa forma, superadas.” “Em seu resultado, a presente interpretação da temporalidade da pre-sença e da pertença do tempo do mundo à temporalidade parece concordar com Hegel. (…) porém (…) faz-se necessária uma breve exposição da concepção hegeliana da relação entre tempo e espírito”

Tempo como ser e ente

agora-agora”

Chamamos de <tempo> a atualização que interpreta a si mesma, ou seja, o que é interpretado e interpelado no <agora>.”

lapso de tempo”

A temporalidade é o fundamento do relógio. Enquanto condição de possibilidade da necessidade factual do relógio, a temporalidade condiciona, igualmente, a possibilidade de sua descoberta. Pois somente a atualização, que atende e retém o transcurso do sol, que vem ao encontro junto com a descoberta dos entes intramundanos, é que possibilita e exige a datação que interpreta a si mesma, a partir do que está publicamente à mão, no mundo circundante.” Destaquei em verde dada a banalidade desse meio-parágrafo já às portas do fim do volume, exasperando o leitor.

O TEMPO-NO-TEMPO E O MUNDO-NO-MUNDO: “o mundo das ocupações é datável, se dá num lapso de tempo, é público e, por ser assim estruturado, pertence ao próprio mundo.”

ENTRE O MEIO-DIA E A MEIA-NOITE

quando as sombras alcançarem tantos pés, nos encontraremos lá”

O que significa ler o tempo?”

Não caberia aqui aprofundar o problema da medição do tempo característica da teoria da relatividade.” Seguido de uma explicação do completo encerramento da física, quântica, especial ou qualquer outra, no mero nível ôntico de vivência.

As relações entre os números históricos, o tempo calculado astronomicamente e a temporalidade e historicidade da pre-sença necessitam de uma ampla investigação.” “As duas obras fundamentais sobre a formação da cronologia histórica são: Josephus Justus Scaliger, De emendatione temporum, 1583, e Dionysius Petavius, SJ, Opus de doctrina temporum, 1627. Sobre a antiga medição do tempo, vide G. Bilfinger, Die antiken Stundenangaben, 1888; Der Bürgerliche Tag. Untersuchungen über den Beginn des Kalendertages im klassischen Altertum und im christlichen Mittelalter, 1888; H. Diels, Antike Technik, 2ed., 1920 (capítulo Die antike Uhr).”

Resposta a Hegel: “O tempo do mundo [ôntico] é <mais objetivo> do que qualquer objeto possível porque, enquanto condição de possibilidade dos entes intramundanos, ele já se <objetivou> junto com a abertura de mundo, ekstática e horizontalmente. Apesar da opinião de Kant (…) De início, o <tempo> se mostra justamente no céu, lá onde, impessoalmente se encontra quando se é orientado por ele de forma natural [e não apenas psiquicamente]

Mas o tempo do mundo também é <mais subjetivo> do que qualquer sujeito possível porque, no sentido entendido de cura como ser do si-mesmo que de fato existe, ele também possibilita esse ser.”

Assim como todos os entes não-dotados de caráter de pre-sença, ele [o temporal, ontológico] é atemporal, quer ocorra, se origine e decorra <realmente>, quer subsista <idealmente>.”

Nunca se superestima o Estagirita o suficiente, pelo visto: “Esta nada mais é do que a interpretação ontológico-existencial da definição do tempo dada por Aristóteles.” Tudo por causa dessa reles frasezinha: “O tempo é isso, a saber, o que é contado no movimento que se dá ao encontro no horizonte do anterior e do posterior”.

Sua interpretação do tempo movimenta-se, sobretudo, na direção da compreensão ontológica <natural>. Mas como esta compreensão e o ser nela compreendido tornam-se um problema de princípio para a presente investigação, a análise aristotélica do tempo só poderá ser tematicamente interpretada após resolver-se a questão do ser.” “Toda a discussão seguinte a respeito do conceito de tempo atém-se fundamentalmente à definição aristotélica, ou seja, tematiza o tempo tal como ele se mostra na ocupação, guiada por uma circunvisão.”

Embora não se diga explicitamente que os agora são, como as coisas, simplesmente dados, do ponto de vista ontológico, eles são <vistos> no horizonte da idéia do ser simplesmente dado.” “Enquanto tempo-agora, a interpretação vulgar do tempo do mundo não dispõe de horizonte para, assim, poder tornar acessíveis para si mundo, significância e possibilidade de datação.”

já Platão teve de chamar o tempo de imagem derivada da eternidade” Na parte do Timeu em que Deus criou o céu: ou seja, Heidegger não disse, até agora, nada de novo… Dois mil e tantos anos de falsa jactância…

Não é a partir da ex-tensão horizontal da unidade ekstática da temporalidade, publicada na ocupação do tempo, que se compreende o esticar-se num lapso de tempo.”

A principal tese da interpretação vulgar do tempo – de que ele é <infinito> – revela, ainda mais profundamente, o nivelamento e o encobrimento do tempo do mundo, inseridos nessa interpretação, e, com isso, da temporalidade em geral.” “Como esse pensar o tempo até o fim ainda deve sempre pensar o tempo, costuma-se concluir que o tempo é infinito.” (demonstrado com suficiência por Kant e Hegel) “o impessoal nunca pode morrer. Nunca morrendo e compreendendo equivocadamente o ser-para-o-fim, o impessoal dá uma interpretação característica à fuga da morte. Até o fim, ele <sempre ainda tem tempo>.”

Por que dizemos: o tempo passa, e não acentuamos igualmente: ele aparece (vem)?” “No discurso do passar do tempo, a pre-sença acaba compreendendo mais do tempo do que gostaria, ou seja, apesar de todo encobrimento, a temporalidade, em que o tempo do mundo se temporaliza, não está inteiramente fechada.”

vontade de deter o tempo”

No discurso acentuado do passar do tempo reside o reflexo público do porvir finito da temporalidade da pre-sença.”

Não necessita de uma discussão ampla o fato de o conceito tradicional de eternidade ter haurido o seu significado de <agora permanente> (nunc stans) da compreensão vulgar do tempo e de ter sido definido pela idéia do ser simplesmente dado <contínuo>.”

Desse modo, em princípio, a interpretação da pre-sença como temporalidade não se acha fora do horizonte do conceito vulgar de tempo. Hegel já fez a tentativa explícita de elaborar o nexo entre tempo, vulgarmente compreendido, e o espírito. Em contraste, para Kant, o tempo, não obstante <subjetivo>, está desligado, colocando-se <ao lado> do <eu penso>.”

Hegel, todavia, não se contenta em expor a intratemporalidade do espírito como um fato, mas ele busca a possibilidade de compreender que o espírito cai no tempo, o qual é <o sensível, o totalmente abstrato>.”

1. Como Hegel delimita a essência do tempo? 2. O que pertence à essência do espírito para que ele possa <cair no tempo>?” Como instância máxima e seu Absoluto, é inexplicável tal necessidade subordinativa, por assim dizer.

o conceito hegeliano de tempo expõe a elaboração conceitual mais radical e bem pouco considerada da compreensão vulgar do tempo.”

Fiel à tradição [aristotélica], a análise hegeliana do tempo tem seu lugar na 2ª parte da Enciclopédia das ciências filosóficas, intitulada: Filosofia da Natureza.”

<O espaço é tempo, ou seja, o tempo é a verdade do espaço.>

Na negação da negação (i.e., na pontualidade), o ponto se coloca para-si, emergindo, portanto, da indiferença em que subsiste.” A sucessão de pontos se torna análoga à sucessão de agoras.

Tempo é o devir <intuicionado>, ou seja, a passagem que não é pensada” Ainda o tempo kantiano em H.

A caracterização hegeliana do tempo a partir do agora pressupõe que o agora permaneça encoberto e nivelado em toda a sua estrutura, a fim de poder ser intuicionado como algo simplesmente dado, embora ideal.”

Mas, por vezes, ele também caracteriza o tempo como a <abstração do desgaste>, fornecendo, assim, a fórmula mais radical [ainda demasiado humana e cristã] da experiência e interpretação vulgares do tempo.” “na caracterização do tempo como devir, Hegel também compreende o devir em sentido <abstrato>, que ultrapassa a representação de <fluxo> do tempo.” “É somente partindo deste conceito dialético-formal do tempo que Hegel pode expor o nexo entre tempo e espírito.”

Na passagem de Kant para o sistema elaborado de Hegel, cumpre-se ainda uma vez a irrupção decisiva da ontologia e da lógica aristotélicas. Isso é um fato de há muito conhecido. Mas ainda permanecem obscuros o caminho, o tipo e os limites da influência. Uma interpretação filosófica e concretamente comparativa da Lógica de Jena de H. [não é a Lógica que conhecemos, mas um tratado de juventude] e da Física e Metafísica de Ar. trará uma nova luz.” “a concepção de Bergson concorda, em seus resultados, com a tese de Hegel de que espaço é tempo.” E no entanto eu observei o outro lado da moeda, bem mais acima: ora, Hegel subsume o espaço NO tempo; Bergson o oposto.

[Em Hegel] <Progredir> é sempre um saber-que-se-sabe-em-sua-meta, sendo, por isso, sabido.” “Porque a inquietação do desenvolvimento do espírito, que se leva para seu conceito, é a negação da negação, resta-lhe como próprio, em se realizando, cair <no tempo>, no sentido de negação imediata da negação. Pois <o tempo é o próprio conceito que existe e se representa para a consciência como intuição vazia; por isso, o espírito se manifesta necessariamente no tempo e tanto mais quanto menos ele apreende seu conceito puro, ou seja, tanto menos ele elimina o tempo.>”

<A história universal é, por conseguinte, a interpretação do espírito no tempo assim como a idéia se interpreta no espaço como natureza>

Enquanto simplesmente dado e, com isso, exterior ao espírito, o tempo não possui poder algum sobre o conceito, mas, ao contrário, o conceito <é o poder do tempo>.”

Não se poderá discutir aqui se a interpretação hegeliana de tempo e espírito e de seu nexo é legítima e se ela se baseia em fundamentos ontologicamente originários.” Covarde!

O <espírito> não cai 1º no tempo, mas ele existe como temporalização originária da temporalidade.”

O <espírito> não cai no tempo, mas a existência de fato <cai> da temporalidade própria e originária na de-cadente.”

Se faz de humilde no final para despistar que sua obra é incompleta e está aquém da ontologia nietzschiana de quase 100 anos antes, que já propunha um escape do Ocidente, enquanto que a proposição heideggeriana é exatamente como seu clamor (que no entanto é filosoficamente autêntico, mesmo se inteiramente baseado em Nietzsche): vazia, silenciosa. “A elaboração da constituição ontológica da pre-sença é, porém, apenas um caminho. A meta é elaborar a questão do ser em geral.” “[A conclusão de minha presente pesquisa] Não é algo com que a filosofia possa se tranquilizar.” Ó!

Por nem sequer ter sido desencadeado, o combate em torno da interpretação do ser não se pode dar por terminado.”

Final patético: “Como se há de interpretar esse modo de temporalização da temporalidade? Haverá um caminho que conduza do tempo originário para o sentido do ser? Será que o próprio tempo se revela como horizonte do ser?”

INDECISÃO MENTAL, IMPACIÊNCIA CORPÓREA

Por que eu coço minha barba? Os motivos da existência são antropomórficos, believe me. Eu dou alma ao que antes era puro impulso. O que este impulso ou protoalma diz a minha elucidada alma? O que posso responder à primeira pergunta? Eu sou/estou irritado e quero fazer isso, alguma coisa, não sei bem o quê… Minhas mãos não querem parar, elas querem continuar, mesmo que meus dedos doam e meu cérebro precise de repouso… Meu corpo nunca está em inércia, especialmente o meu, se podemos estabelecê-lo. Todos somos seres humanos, certo? Mas você é mais inquieto que todos a sua volta, isso com certeza, não tem erro nem tiro no escuro!… Crise de propósito de propósito?! O que está faltando nesta falta que é a náusea que é a vida, Rafael? Vamos tentar responder isso ruminando, pois pelo visto uma resposta categórica ‘inda não ‘tá pronta, oh my, yare yare.

DO ERRO PROVISÓRIO OU METAFÍSICA DA INVEJA

A única a existir. Produzida pelo desacordo, temporário, de menor ou maior duração, entre nosso corpo e uma nova maneira de pensar que adquirimos com a idade, i.e., no nosso devir: não o por que existimos ou não deveríamos existir? mas algo totalmente mais simplório e cabível, menos melodramático: por que esta é minha vida, e não a do que trabalha somente porque quer, do que não trabalha porque não precisa, ou do que tem um emprego em que se auto-realiza? Do que possui a mulher mais bela e condizente com seu temperamento, etc.? Porque no fundo esta é a única questão metafísica, que não pode ser resolvida, a menos que esse desacordo alma-corpo, FALSO, finalmente passe, de alguma forma. Eu só posso ser eu, e não aceitaria ser outra coisa. Na saúde ou na doença, minha saúde e minha doença, em minhas restrições, em minha miopia literal, que o vulgo não consegue suportar ou preferiria qualquer coisa a ter de hospedar… Só a pergunta: por que eles são tão tolos? faz algum sentido, provisório. O avesso por que não correspondo às expectativas deles? é tão absurdo quanto qualquer credo espírita ou imaginar-me fora do meu próprio corpo: este, único mundo, sou eu. Uma férdade, fusão última de verdade e fé. Porque não existe, nem nas leis materiais, algo diferente do que aquilo a que me dedico e aquilo que sofro. Acostumar-se a isso é tautologia e jogo de palavras.

O CONHECIMENTO DA LÍNGUA: Sua natureza, origem e uso – Noam Chomsky (ed. Inês Duarte, trad. Anabela Gonçalves e Ana Teresa Alves)

PREFÁCIO À EDIÇÃO PORTUGUESA (Inês Duarte)

KL [o acrônimo do título original] foi escrito em 1984 e publicado em 1986.” “é o livro em que ele faz o balança de 30 anos de investigação.” E exatamente por isso é o único seu que lerei.

Numa época em que a Genética e as Ciências Neuronais davam os primeiros passos, a teoria padrão foi criticada por defender uma faculdade da linguagem inata, específica da espécie humana”

Resultados pífios da epistemologia chomskyana apurados pela própria epistemologia chomskyana já no fim dos anos 60: “finalmente, a <maquinaria> usada tinha demasiado poder descritivo, [só mesmo um epistemólogos ‘de exatas’ – um anti-epistemólogo por definição – poderia entender tal característica como negativa!] permitindo soluções <ad hoc> [mais conhecido como REMENDÃO] que contrariavam a procura de generalizações translingüísticas e de princípios universais e revelando-se pouco satisfatória para enfrentar os problemas da variação entre línguas e da mudança linguística.”

O vendaval pós-teoria padrão que varreu o campo generativista deu origem à proliferação de modelos alternativos (normalmente reunidos sob as etiquetas de sintaxe abstrata e semântica generativa). A paciente e persistente [intransigente, turrona, casmurra] resposta chomskyana, que levou alguns anos a tornar-se dominante, consistiu na formulação da hipótese lexicalista, na redução do poder descritivo das regras e (…) sob o nome de teoria padrão alargada.” Nem lexicamente essa teoria satisfaz (pun intended)!

convenção X-barra”

O trabalho desenvolvido no quadro da teoria padrão alargada preparou o caminho para aquilo que Ch. designa em KL a segunda mudança conceitual da gramática generativa: uma concepção modular da gramática, encarada como um sistema de princípios e parâmetros.”

a teoria encaminhou-se para uma <flexibilização controlada> dos princípios de GU, sem os custos de perda de poder explicativo e de irrealismo do processo de aquisição imputáveis à teoria padrão.

Neste novo quadro teórico, conhecido sob o nome de teoria da regência e da ligação (government-binding theory) – ou, mais ao gosto de Ch., de modelo de princípios e par. [doravante PP] –, a faculdade da linguagem é vista como um sistema muito diferenciado e restritivo parcialmente especificado – i.e., com parâmetros por fixar. Por outras palavras, este módulo específico da mente inclui princípios <absolutos>, invariantes (p.ex. o Princípio de Projeção), mas inclui igualmente princípios <abertos>, denominados parâmetros, que admitem uma escolha entre 2 valores (p.ex., o Parâmetro do Sujeito Nulo).”

Aceitando a forma da gramática proposta inicialmente em CHOMSKY & LASNIK 77 [o difícil é aceitar], assume-se que a mesma está organizada num conjunto de módulos independentes mas interativos.”

uma vez que os PP são concebidos como hipóteses empíricas sobre as propriedades da faculdade da linguagem e dos estados de conhecimento atingidos como resultado do processo de aquisição da linguagem, na análise de qualquer fenômeno de uma dada língua, torna-se tarefa essencial isolar propriedades imputáveis a PP e procurar a justificação destes em amostras cada vez mais ricas e diversificadas das línguas.”

Dez anos após a publicação de KL, o modelo aí apresentado sofreu, como é natural, alterações.”

1. CONHECIMENTO DA LÍNGUA COMO OBJETO DE INVESTIGAÇÃO

A Gramática Universal de Chomsky é um Evangelho que enferrujou em muito, mas muito menos de um século! Um pífio e(v)ang(elhinho)…

Além disso, aquilo que estou a descrever representou, por toda a parte, uma posição minoritária, e provavelmente ainda representa, embora, do meu ponto de vista, seja a correta.”

Uma primeira dica para quem pensa poder fundar uma nova ciência: não se preocupar conscientemente com a genealogia dos elementos deste saber, muito menos com qualquer apocatástase ou escatologia deles mesmos! É o que Saussure fez, e por isso obteve êxito.

Embora adotando basicamente este ponto de vista [do aprendizado linguístico como um processo analógico], Quine argumentou que há um problema grave e insuperável de indeterminação, que afeta todos os aspectos da língua e da gramática, e, de um modo mais geral, da psicologia (Quine, 1960, 1972). (…) não parece haver razão para distinguir a linguística ou a psicologia das ciências naturais”

Ainda bem que Chomsky não tentou sua vida como mecânico, ou estaria até hoje desmontando o primeiro motor de carro quebrado que foi guinchado à sua oficina, perguntando-se: O que essa peça faz ou deveria fazer? Mais importante: por que ela faz isso? Não estaríamos enganados a esse respeito?? Por que os carros andam? Não deveríamos entender que há um motor metafísico até hoje não discutido por nenhum engenheiro automotivo, embora esteja claro que TODOS OS MOTORES DAS MAIS DÍSPARES FABRICANTES consigam o prodígio de fazer os carros andarem ao mero comando humano e injeção de combustível fóssil?!

2. OS CONCEITOS DA LÍNGUA

É claro que não há garantias de que esta maneira de abordar os problemas apresentados em (1), no Capítulo 1, [como se origina nossa aptidão para aprender uma língua, etc.] seja a correta. Esta abordagem pode tornar-se completamente disparatada, mesmo que obtenha um sucesso substancial – tal como uma teoria das valências, ou outra, pode ter acabado por ficar completamente fora do caminho, apesar do seu grande sucesso na química do século XIX. É sempre razoável considerar abordagens alternativas, se elas puderem ser delineadas”

A língua-E que foi objeto de estudo na maior parte das gramáticas tradicionais ou estruturalistas ou na psicologia comportamental é agora encarada como um epifenômeno, na melhor das hipóteses.” Uma teoria da língua em que a língua (língua-E) é inútil!

É errado acreditar que a noção de língua-E [língua] é completamente clara ao passo que a de língua-I [hipótese de trabalho de Chomsky] ou de gramática levanta sérias questões, talvez problemas filosóficos que não podem ser tratados. O oposto é que é verdadeiro.”

Ainda que se soubesse tudo acerca da mente/cérebro, diria um adepto de Platão, continuaríamos a não ter bases para determinar as verdades da aritmética ou da teoria dos conjuntos, mas não há a mínima razão para se supor que há verdades da linguagem que ainda assim nos escapariam.” Clássico entendimento grosseiro de Platão que na verdade o inverte: é Chomsky quem está sendo completamente platônico no sentido que aqui ele atribui a “o que diria um adepto de Platão”. A verdade em si é inatingível, constituindo a jornada do filósofo rumo à verdade na verdadeira descrição do “filósofo no Reino das Idéias” (formas conceitualizáveis do mundo sensível). Dessa forma, o conhecimento, em Platão, está muito mais associado à tal língua-I chomskyana, e não à língua-E que Chomsky sem dúvida atribuiria, se tivesse menos pudor, a “Saussure e seus sequazes”. A fé chomskyana no completo êxito de seu empreendimento significa entender que alcançaria o próprio Sol ou Idéia platônicos, o que extrapola e denigre toda noção honesta e bem-concebida de platonismo. Ao tentar ridicularizar o passado, Chomsky se tornou o próprio bobo da côrte no presente. Destarte, o “Problema de Platão” é na verdade o “Problema de Chomsky”!

a questão aqui é a de saber se este estudo cabe ou não no âmbito daquilo a que decidimos chamar <linguística>” A resposta é não: o que Chomsky tenta fundar é uma contra-linguística.

Uma vez que a evidência fornecida pelo Japonês pode obviamente apoiar-se na correção de uma teoria de E0, ela pode ter influência indireta – mas muito poderosa – na escolha de gramática que tenta caracterizar a língua-I atingida por um falante do Inglês.”

Atualmente, [na época de Platão, na época de Gengis-Khan, na época de Napoleão, na de Saussure, hoje e sempre] sabe-se tão pouco acerca dos aspectos relevantes do cérebro que mal podemos especular sobre o que possam ser essas conexões [com o aprendizado da língua].”

eventos físicos do discurso”

Se fala muito em “melhor teoria”, está diagnosticado – é um charlatão!representações léxico-fonológicas. Estas não são derivadas dos sons do discurso por meio de procedimentos analíticos de segmentação, classificação, extração de traços físicos, etc., mas são estabelecidas e justificadas como parte da melhor teoria para dar conta da relação geral existente entre som e significado na língua-I.” Com efeito, se se preocupa com teoria, já se fracassou também na prática. Quem dirá quem é obcecado pela teoria…

Lewis, 1975 (crítico)

Katz também deveria ser lido, de tanto que é “refutado” por Chomsky nas notas de rodapé (tudo tem um porquê).

Notas:

Se se quiser considerar a questão do realismo, a psicologia e a linguística parecem ser escolhas pobres; a questão devia colocar-se relativamente às ciências mais avançadas, onde há muito mais esperança de se conseguir descobrir algo sobre essa matéria.” Não é viável que a linguística continue cindida dessa forma entre pseudo- ou paralinguística (linguística chomskyana) e linguística propriamente dita. Os chomskyanos devem achar um departamento nas exatas que os acolha e cair fora do atual departamento, para não atrapalharem os sérios esforços dos linguistas genuínos.

3. ENFRENTANDO O PROBLEMA DE PLATÃO

Para salvar sua hipótese da “aprendizagem instantânea”, o que depauperaria qualquer componente empírico ou cultural na aquisição da linguagem pelo homem, Ch. chega às raias do absurdo de dizer que a morte é um processo genético e basicamente a-social! É uma conta ou equação que eternamente não fecha, que ficará sempre desequilibrada. Uma verdadeira hecatombe epistemológica!

Teoria da ligação: [lei] Um pronome não pode ter como antecedente um elemento que pertença ao seu domínio.”

teoria dos nós-fronteira” Isso não é Fringe, não é entretenimento puro e acéfalo, e por isso é imensamente chato! Normalmente, coisas “chatas” podem ser interessantes ao especialista, ex: filosofia heideggeriana, quando há uma forte intuição da corretude do pensamento escrito. Não é o caso aqui. É chato não porque é “complexo”, mas porque está errado!

expressões-R”

O que se diz por aí é exato – O que se diz por aí? Que Chomsky passou meio século empreendendo uma tragicômica “gramática universal do Inglês” somente! Parágrafos como esse abundam na obra: “Além disso, é uma propriedade geral da linguagem, e não uma propriedade específica do Inglês, que um N’ [substantivo] se construa com um determinante, ainda que o fato de este determinante poder ser um SN [sintagma nominal] pleno seja específico do Inglês. Daí que quase nenhuma opção que diga respeito a estes exemplos necessite de ser especificada nas regras sintagmáticas do Inglês.”

Notas:

Hyams (1983) argumenta que estados infantis da aquisição da linguagem procedem com base na hipótese de que a língua é como o Italiano ou como o Espanhol no que se refere ao fato de não ser exigida a presença de um sujeito explícito, decisão que é alterada mais tarde na aquisição do Inglês.”

4. QUESTÕES ACERCA DAS REGRAS / QUESTÕES SOBRE REGRAS (sic)(*)

(*) O título do capítulo é diferente da marcação no índice.

problemas de Descartes”

problemas de Wittgenstein”

Não entrarei na questão textual sobre se a versão que Kripke dá de Witt. é a versão correta.”

doravante, para referir Witt. segundo Kripke utilizarei <Wittgenstein>”

Das várias críticas que, ao longo dos anos, têm sido feitas ao programa e ao enquadramento conceitual da gramática generativa esta parece-me ser a mais interessante.”

Kripke sugere que a nossa compreensão da noção de <competência> depende da nossa compreensão da idéia de <obedecer a uma regra>, de maneira que o paradoxo cético de Witt. no que se refere à obediência a regras se relaciona crucialmente com as questões centrais tratadas pela gramática generativa.”

parece que o uso das idéias de regras e de competência em lingüística tem de ser seriamente reconsiderado, mesmo se estas noções não se tornaram <sem significado>.”

a gramática generativa parece dar uma explicação de um tipo que Witt. não permitiria”

O paradoxo cético de Witt. é, em poucas palavras, o seguinte: dada uma regra R, não há nenhum fato relativamente a minha experiência passada que justifique a minha crença de que a aplicação seguinte de R é ou não conforme com as minhas intenções. Não existe – argumenta W. – qualquer fato acerca de mim que me diga se eu estou seguindo R ou R’, que coincide com R em situações do passado mas não em situações do futuro. Especificamente, não existe modo de saber se estou obedecendo à regra de adição ou a uma outra regra (envolvendo <pais> e não <mais>[??]) que dê 5 como resposta a todos os pares, para além dos números para os quais dei anteriormente somas; <nada havia acerca de mim que constituísse a minha retenção de usar mais e não mais>, e, de forma mais geral, <querer dizer algo através de uma palavra qualquer é coisa que não existe>. Cada aplicação de uma regra é <um salto no escuro>. (…) O argumento não se confina ao uso de conceitos, mas alarga-se a qualquer tipo de aplicação de regras.

Resumidamente, se eu sigo R, faço-o sem qualquer razão. Acontece que sou assim constituído. Até agora, estas conclusões não constituem um desafio sério a [minha teoria] (…). Sigo R porque E0 projeta os dados apresentados em EL, que incorpora R; então, <aplico a regra R às cegas>. Não há resposta para o cético W. e nem é preciso haver. O meu conhecimento, neste aspecto, é não-fundamentado. (…) nem tenho razões para obedecer às regras: limito-me a fazê-lo.” Ch. não entendeu o sentido da objeção de W. sobre as regras serem arbitrárias: se não fossem úteis aos advogados da GU, cada qual ‘falaria de um jeito’; mas como animais sociais sempre ‘engolimos as regras’.

A comunidade atribui um conceito (regra) a um indivíduo desde que ele atue em conformidade com o comportamento da comunidade, com a sua <forma de vida>.” Ora, ora, parece que você não é tão tolo quando não o quer!

Parece então que o quadro da <psicologia individual> da gramática generativa fica enfraquecido.” Óbvio.

de maneira que as asserções da gramática generativa, que parecem considerar uma pessoa em estado de isolamento, não podem ter nenhum conteúdo significativo.”

condições de asseribilidade”

Ch. parece querer insinuar que “tirando a parte filosófica”, W. está correto. Tirando o bebê e a água, a tina está vazia!

5. NOTAS SOBRE O PROBLEMA DE ORWELL [O BOM BÔNUS]

Em maio de 1983, teve lugar em Moscou um acontecimento notável. Um jornalista corajoso, Vladimir Danchev, denunciou a guerra russa no Afeganistão em 5 programas da Rádio de Moscou, durante mais de uma semana, apelando aos rebeldes para <não deporem as armas> e para lutarem contra a <invasão> soviética do seu país. A imprensa do Ocidente ficou espantada com este afastamento surpreendente da <linha de propaganda oficial soviética>. No New York Times, um comentador escreveu que Danchev se tinha <revoltado contra os padrões do pensamento dissimulado e do discurso noticioso>.”

Em dezembro, Danchev voltou ao trabalho, após tratamento psiquiátrico. Na altura, foi citada a seguinte afirmação de um funcionário soviético: <Ele não foi punido, porque um homem doente não pode ser punido.>

Considerou-se que o acontecimento tinha permitido entrever o mundo de 1984 e o ato de Danchev foi considerado, com justiça, como um triunfo do espírito humano, uma recusa em ser intimidado pela violência totalitária.”

Na teologia soviética, não existe qualquer acontecimento denominado <a invasão russa do Afeganistão>. Existe, pelo contrário, uma <defesa soviética do Afeganistão> contra os terroristas apoiados pelo exterior.” E veja quem estava certo, afinal!

Os Mujahidin operam a partir de <santuários> no Paquistão, onde a CIA e os agentes chineses controlam a circulação de armas, e diz-se que os guerreiros destruíram escolas e hospitais para além de muitos atos considerados <atrozes> pelos invasores, que declararam retirar-se quando o Afeganistão estiver livre dos ataques do Paquistão. Esta posição é repudiada pelo Ocidente, com a justificação de que os agressores se deveriam retirar incondicionalmente, tal como insistiu o Conselho de Segurança das Nações Unidas, com um apoio simulado dos EUA, que cessou rapidamente quando Israel invadiu o Líbano, em 1982. O Ocidente também tem ficado justamente indignado quando os soviéticos denunciam cinicamente o <terrorismo> da resistência, ou quando alegam, absurdamente, estarem a defender o Afeganistão de bandidos que matam inocentes, ou ainda quando o mais odioso do Partido chama a atenção para a violência e para a repressão que teriam lugar – como teriam – se a União Soviética <renunciasse às suas responsabilidades> e abandonasse os afegãos ao seu destino, nas mãos dos rebeldes.” “Só no Newspeak orwelliano se pode caracterizar tal agressão como <defesa contra o terrorismo apoiado pelo exterior>.”

1984 de Orwell foi, em grande parte, inspirado na prática da sociedade soviética existente, que tinha sido retratada com grande precisão por Maximov, Souvarine, Beck e Godin, e muitos outros. Foi apenas em meios culturais estagnados, como Paris, que os fatos foram, durante muito tempo, negados, de tal modo que as exposições de Khruschev e o desenvolvimento da história na obra posterior de Solzhenitsyn constituíram uma revelação –o último numa altura em que os intelectuais ansiavam por marchar numa parada diferente. O que houve de notável na visão de Or. não foi o seu retrato do totalitarismo existente, mas a sua advertência de que poderia existir aqui. § Até agora, pelo menos, isto não chegou a acontecer.” “As sociedades industriais capitalistas têm poucas semelhanças com a Oceânia de Orwell – ainda que os regimes capitalistas de terror e tortura que impuseram e mantiveram noutras partes do mundo alcancem níveis de crueldade que O. nunca descreveu, sendo a América Central o exemplo atual mais óbvio.”

aqui não há Danchevs: os jornalistas e outros intelectuais são de tal modo subservientes em relação ao sistema doutrinal que não conseguem sequer perceber que <um invasor é um invasor, a não ser que tenha sido convidado por um governo com algum grau de legitimidade>, quando são os Estados Unidos o invasor. Esta seria uma fase que ultrapassa o que O. imaginou, uma fase posterior que o totalitarismo soviético [não] alcançou [ou ‘uma fase posterior que aquela que o total. sovié. alcançou’].”

Em 1962, a Força Aérea dos EUA começou os ataques diretos contra a população rural do Vietnam do Sul, com bombardeamentos pesados e desfolhação, o que fazia parte de um programa que pretendia conduzir milhões de pessoas para acampamentos, onde, cercadas de arame farpado e de guardas armados, seriam <protegidas> dos guerrilheiros que apoiavam, os <Vietcongs>, ramo sulista da antiga resistência anti-francesa (Os Vietminh).” “Oficiais e analistas americanos reconheceram que o governo instalado no Sul (o GVN) não era legítimo e tinha pouco apoio popular. De fato, sua chefia era derrubada regularmente por golpes apoiados pelos próprios EUA, quando se temia que carecesse do entusiasmo adequado para intensificar a agressão americana e que pudessem mesmo negociar um acordo com o inimigo sul-vietnamita. Cerca de 70 mil Vietcongs tinham já sido mortos numa campanha terrorista dirigida pelos EUA, antes da invasão total em 1962; este número elevou-se talvez para o dobro, por volta de 1965, quando a invasão territorial americana começou em larga escala, a par do bombardeamento sistemático e intensivo do Sul e do bombardeamento do Vietnã do Norte (com 1/3 da intensidade). Depois de 1962, os invasores americanos continuaram a bloquear todas as tentativas de acordo político e de neutralização do Vietnã do Sul e, em 1964, iniciaram os preparativos para intensificarem a guerra contra o Sul no início de 1965, em simultâneo com um ataque contra o Vietnã do Norte, Laos e, mais tarde, o Cambodja.

Durante os últimos 22 anos, tenho procurado, em vão, encontrar nos principais jornais e trabalhos de investigação americanos, uma ÚNICA referência a uma <invasão americana do Vietnã do Sul> ou a uma <agressão> americana ao Vietnã do Sul. No sistema doutrinal dos EUA não existe tal acontecimento. Não existe nenhum Danchev, embora, neste caso, não fosse necessário ter coragem para dizer a verdade, mas apenas honestidade. Mesmo no auge da oposição à guerra, só um número ínfimo de intelectuais organizados objetou contra ela por uma questão de princípios – a agressão é ilegítima –, enquanto a maioria só se opôs à guerra, muito depois de os círculos principais de negócios o terem feito, com base na questão <pragmática> de que os custos eram demasiado elevados. Por acaso, as atitudes populares foram muito diferentes. Mesmo anos mais tarde, em 82, 70% da população (mas uma percentagem muito menor de <líderes de opinião>) consideravam que a guerra não tinha sido apenas um erro, mas sim que era <fundamentalmente ilegítima e imoral>, um problema conhecido por <síndrome do Vietnã> no discurso político americano.”

Embora os ataques americanos contra Laos e Camboja tenham realmente sido abafados pela comunicação social, por muito tempo – fato que continua a ser abafado ainda hoje – a guerra americana contra o Vietnã do Sul foi relatada, desde o início, com uma exatidão razoável” “Teses, manuais escolares e meios de comunicação, salvo raras exceções, adotam a assunção de que a postura americana era defensiva, uma reação, talvez imprudente, à <agressão apoiada pela União Soviética> ou à <agressão interna> – expressão usada por Adlai Stevenson para designar <a agressão> da população NATIVA contra o invasor ESTRANGEIRO e seus aliados.”

Os <falcões> eram os que, como o jornalista Joseph Aslop, sentiam que, com dedicação suficiente, a guerra podia ser ganha. As <pombas> concordavam com Arthur Schlesinger em que, provavelmente, não podia, embora, tal como ele, admitissem que <todos nós rezamos para que o Sr. Aslop tenha razão>”

A mesma posição é hoje freqüentemente reiterada quanto ao apoio dos EUA a vários rufiões e assassinos da América Central e à guerra por procuração que mantém contra a Nicarágua.”

Este comentário bastante típico ilustra o caráter dos sistemas democráticos de controle do pensamento. Num sistema baseado na violência, exige-se apenas que se obedeça à doutrina oficial. A propaganda é facilmente identificada: a sua origem é um Ministério da Verdade visível e podemos ou não acreditar nela, desde que não a rejeitemos abertamente.” “Os sistemas democráticos de controle do pensamento têm um caráter radicalmente diferente. A violência é rara, pelo menos contra os setores mais privilegiados, mas exige-se uma forma de obediência muito mais profunda.” “As doutrinas da religião oficial são, muitas vezes, omitidas, sendo antes pressupostas como enquadramento da discussão entre os indivíduos bem-intencionados” “A idéia de que os EUA estão envolvidos numa agressão e de que essa agressão é ilegítima deve continuar a ser impensável e omitida, com referência ao Santo Estado. Os <críticos responsáveis> dão um contributo apreciável a esta causa, pelo que são tolerados e mesmo respeitados. Se até os críticos adotam tacitamente as doutrinas da religião oficial, quem pode questioná-las?”

Por uma questão de <vantagem estratégica>, os EUA estão interessados na criação de um Estado de Israel poderoso e expansionista. Tudo o que contribua para este objetivo é, por definição, o <processo de paz>. O próprio termo elimina qualquer hipótese de discussão: quem pode estar contra a paz?” Novilíngua.

Os fuzileiros americanos no Líbano eram a <força de manutenção da paz>”

Quando Israel bombardeia as cidades perto de Baalbek, provocando 500 feridos, na sua maioria civis, incluindo 150 crianças, como o fez no início de janeiro de 84, ou quando seqüestra navios em águas internacionais e rapta os passageiros, não se trata de <terrorismo>, mas de <retaliação>”

A agressão indonésia a Timor, apoiada pelos EUA, que levou à morte de 200 mil pessoas e a uma fome ao estilo da do Biafra, foi quase totalmente silenciada durante 4 anos.” “Atualmente, as atrocidades contínuas mal são noticiadas e, quando se faz algum comentário, após muitos anos de silêncio, o papel crucial e intencional dos EUA é propositadamente ignorado.”

Muitas vezes, os desmentidos oficiais são um guia útil para se conhecerem acontecimentos não noticiados, fato de que estão conscientes os leitores atentos da imprensa independente.”

PERICLES, PRINCE OF TYRE

Enter GOWER

Before the palace of Antioch

To sing a song that old was sung,

From ashes ancient Gower is come;

Assuming man’s infirmities,

To glad your ear, and please your eyes.”

Et bonum quo antiquius, eo melius.

If you, born in these latter times,

When wit’s more ripe, accept my rhymes.”

This Antioch, then, Antiochus the Great

Built up, this city, for his chiefest seat:

The fairest in all Syria,

I tell you what mine authors say:

This king unto him took a fere,

Who died and left a female heir,

So buxom, blithe, and full of face,

As heaven had lent her all his grace;

With whom the father liking took,

And her to incest did provoke:

Bad child; worse father! to entice his own

To evil should be done by none:

But custom what they did begin

Was with long use account no sin.

The beauty of this sinful dame

Made many princes thither frame,

To seek her as a bed-fellow,

In marriage-pleasures play-fellow:

Which to prevent he made a law,

To keep her still, and men in awe,

That whoso ask’d her for his wife,

His riddle told not, lost his life:

So for her many a wight did die,

As yon grim looks do testify.”

ANTIOCHUS

Young prince of Tyre, you have at large received

The danger of the task you undertake.

PERICLES

I have, Antiochus, and, with a soul

Embolden’d with the glory of her praise,

Think death no hazard in this enterprise.

ANTIOCHUS

Bring in our daughter, clothed like a bride,

For the embracements even of Jove himself;

At whose conception, till Lucina reign’d,

Nature this dowry gave, to glad her presence,

The senate-house of planets all did sit,

To knit in her their best perfections.”

ANTIOCHUS

Prince Pericles,–

PERICLES

That would be son to great Antiochus.”

Yon sometimes famous princes, like thyself,

Drawn by report, adventurous by desire,

Tell thee, with speechless tongues and semblance pale,

That without covering, save yon field of stars,

Here they stand martyrs, slain in Cupid’s wars;

And with dead cheeks advise thee to desist

For going on death’s net, whom none resist.”

For death remember’d should be like a mirror,

Who tells us life’s but breath, to trust it error.”

am no viper, yet I feed

On mother’s flesh which did me breed.

I sought a husband, in which labour

I found that kindness in a father:

He’s father, son, and husband mild;

I mother, wife, and yet his child.

How they may be, and yet in two,

As you will live, resolve it you.

Sharp physic is the last: but, O you powers

That give heaven countless eyes to view men’s acts,

Why cloud they not their sights perpetually,

If this be true, which makes me pale to read it?

Fair glass of light, I loved you, and could still,

Takes hold of the hand of the Daughter of ANTIOCHUS”

“…Your time’s expired:

Either expound now, or receive your sentence.”

PERICLES

Great king,

Few love to hear the sins they love to act;

‘Twould braid yourself too near for me to tell it.

Who has a book of all that monarchs do,

He’s more secure to keep it shut than shown:

For vice repeated is like the wandering wind.

Blows dust in other’s eyes, to spread itself;

And yet the end of all is bought thus dear,

The breath is gone, and the sore eyes see clear:

To stop the air would hurt them. The blind mole casts

Copp’d hills towards heaven, to tell the earth is throng’d

By man’s oppression; and the poor worm doth die for’t.

Kings are earth’s gods; in vice their law’s

their will;

And if Jove stray, who dares say Jove doth ill?

It is enough you know; and it is fit,

What being more known grows worse, to smother it.

All love the womb that their first being bred,

Then give my tongue like leave to love my head.”

Forty days longer we do respite you;

If by which time our secret be undone,

This mercy shows we’ll joy in such a son:

And until then your entertain shall be

As doth befit our honour and your worth.”

PERICLES

How courtesy would seem to cover sin,

When what is done is like an hypocrite,

The which is good in nothing but in sight!

If it be true that I interpret false,

Then were it certain you were not so bad

As with foul incest to abuse your soul;

Where now you’re both a father and a son,

By your untimely claspings with your child,

Which pleasure fits an husband, not a father;

And she an eater of her mother’s flesh,

By the defiling of her parent’s bed;

And both like serpents are, who though they feed

On sweetest flowers, yet they poison breed.

Antioch, farewell! for wisdom sees, those men

Blush not in actions blacker than the night,

Will shun no course to keep them from the light.

One sin, I know, another doth provoke;

Murder’s as near to lust as flame to smoke:

Poison and treason are the hands of sin,

Ay, and the targets, to put off the shame:

Then, lest my lie be cropp’d to keep you clear,

By flight I’ll shun the danger which I fear.

Exit

Re-enter ANTIOCHUS

ANTIOCHUS

He hath found the meaning, for which we mean

To have his head.

He must not live to trumpet forth my infamy,

Nor tell the world Antiochus doth sin

In such a loathed manner;

And therefore instantly this prince must die:

For by his fall my honour must keep high.

Who attends us there?”

ANTIOCHUS

Thaliard,

You are of our chamber, and our mind partakes

Her private actions to your secrecy;

And for your faithfulness we will advance you.

Thaliard, behold, here’s poison, and here’s gold;

We hate the prince of Tyre, and thou must kill him:

It fits thee not to ask the reason why,

Because we bid it. Say, is it done?

THALIARD

My lord,

‘Tis done.”

Messenger

My lord, prince Pericles is fled.

Exit

ANTIOCHUS

As thou

Wilt live, fly after: and like an arrow shot

From a well-experienced archer hits the mark

His eye doth level at, so thou ne’er return

Unless thou say <Prince Pericles is dead.>”

Till Pericles be dead,

My heart can lend no succor to my head.”

Then it is thus: the passions of the mind,

That have their first conception by mis-dread,

Have after-nourishment and life by care;

And what was first but fear what might be done,

Grows elder now and cares it be not done.

And so with me: the great Antiochus,

‘Gainst whom I am too little to contend,

Since he’s so great can make his will his act,

Will think me speaking, though I swear to silence;

Nor boots it me to say I honour him.

If he suspect I may dishonour him:

And what may make him blush in being known,

He’ll stop the course by which it might be known;

With hostile forces he’ll o’erspread the land,

And with the ostent of war will look so huge,

Amazement shall drive courage from the state;

Our men be vanquish’d ere they do resist,

And subjects punish’d that ne’er thought offence:

Which care of them, not pity of myself,

Who am no more but as the tops of trees,

Which fence the roots they grow by and defend them,

Makes both my body pine and soul to languish,

And punish that before that he would punish.”

When Signior Sooth here does proclaim a peace,

He flatters you, makes war upon your life.

Prince, pardon me, or strike me, if you please;

I cannot be much lower than my knees.”

HELICANUS

How dare the plants look up to heaven, from whence

They have their nourishment?

PERICLES

Thou know’st I have power

To take thy life from thee.

HELICANUS

[Kneeling]

I have ground the axe myself;

Do you but strike the blow.

PERICLES

Rise, prithee, rise.

Sit down: thou art no flatterer:

I thank thee for it; and heaven forbid

That kings should let their ears hear their

faults hid!

Fit counsellor and servant for a prince,

Who by thy wisdom makest a prince thy servant,

What wouldst thou have me do?”

Her face was to mine eye beyond all wonder;

The rest–hark in thine ear–as black as incest:

Which by my knowledge found, the sinful father

Seem’d not to strike, but smooth: but thou

know’st this,

‘Tis time to fear when tyrants seem to kiss.”

“…and tyrants’ fears

Decrease not, but grow faster than the years”

Therefore, my lord, go travel for a while,

Till that his rage and anger be forgot,

Or till the Destinies do cut his thread of life.

Your rule direct to any; if to me.

Day serves not light more faithful than I’ll be.”

PERICLES

Tyre, I now look from thee then, and to Tarsus

Intend my travel, where I’ll hear from thee;

And by whose letters I’ll dispose myself.”

CLEON

Thou speak’st like him’s untutor’d to repeat:

Who makes the fairest show means most deceit.

But bring they what they will and what they can,

What need we fear?

The ground’s the lowest, and we are half way there.

Go tell their general we attend him here,

To know for what he comes, and whence he comes,

And what he craves.

(…)

CLEON

Welcome is peace, if he on peace consist;

If wars, we are unable to resist.”

PERICLES

(…)

We have heard your miseries as far as Tyre,

And seen the desolation of your streets:

Nor come we to add sorrow to your tears,

But to relieve them of their heavy load;

And these our ships, you happily may think

Are like the Trojan horse was stuff’d within

With bloody veins, expecting overthrow,

Are stored with corn to make your needy bread,

And give them life whom hunger starved half dead.

All

The gods of Greece protect you!

And we’ll pray for you.”

Enter PERICLES, wet

PERICLES

Yet cease your ire, you angry stars of heaven!

Wind, rain, and thunder, remember, earthly man

Is but a substance that must yield to you;

And I, as fits my nature, do obey you:

Alas, the sea hath cast me on the rocks,

Wash’d me from shore to shore, and left me breath

Nothing to think on but ensuing death:

Let it suffice the greatness of your powers

To have bereft a prince of all his fortunes;

And having thrown him from your watery grave,

Here to have death in peace is all he’ll crave.”

Third Fisherman

Master, I

marvel how the fishes live in the sea.

First Fisherman

Why, as men do a-land; the great ones eat up the

little ones: I can compare our rich misers to

nothing so fitly as to a whale; a’ plays and

tumbles, driving the poor fry before him, and at

last devours them all at a mouthful: such whales

have I heard on o’ the land, who never leave gaping

till they’ve swallowed the whole parish, church,

steeple, bells, and all.”

PERICLES

[Aside] How from the finny subject of the sea

These fishers tell the infirmities of men;

And from their watery empire recollect

All that may men approve or men detect!

Peace be at your labour, honest fishermen.”

Second Fisherman

What a drunken knave was the sea to cast thee in our

way!

PERICLES

A man whom both the waters and the wind,

In that vast tennis-court, have made the ball

For them to play upon, entreats you pity him:

He asks of you, that never used to beg.”

First Fisherman

Here’s them in our

country Greece gets more with begging than we can do

with working.”

First Fisherman

Why, I’ll tell you: this is called Pentapolis, and

our king the good Simonides.

PERICLES

The good King Simonides, do you call him.

First Fisherman

Ay, sir; and he deserves so to be called for his

peaceable reign and good government.

PERICLES

He is a happy king, since he gains from his subjects

the name of good by his government. How far is his

court distant from this shore?

First Fisherman

Marry, sir, half a day’s journey: and I’ll tell

you, he hath a fair daughter, and to-morrow is her

birth-day; and there are princes and knights come

from all parts of the world to just and tourney for her love.

PERICLES

Were my fortunes equal to my desires, I could wish

to make one there.

First Fisherman

O, sir, things must be as they may; and what a man

cannot get, he may lawfully deal for–his wife’s soul.”

PERICLES

To beg of you, kind friends, this coat of worth,

For it was sometime target to a king;

I know it by this mark. He loved me dearly,

And for his sake I wish the having of it;

And that you’ld guide me to your sovereign’s court,

Where with it I may appear a gentleman;

And if that ever my low fortune’s better,

I’ll pay your bounties; till then rest your debtor.

First Fisherman

Why, wilt thou tourney for the lady?

PERICLES

I’ll show the virtue I have borne in arms.

First Fisherman

Why, do ‘e take it, and the gods give thee good on’t!”

SIMONIDES

Who is the first that doth prefer himself?

THAISA

A knight of Sparta, my renowned father;

And the device he bears upon his shield

Is a black Ethiope reaching at the sun

The word, ‘Lux tua vita mihi.’

Who is the second that presents himself?

THAISA

A prince of Macedon, my royal father;

And the device he bears upon his shield

Is an arm’d knight that’s conquer’d by a lady;

The motto thus, in Spanish, ‘Piu por dulzura que por fuerza.’

SIMONIDES

And what’s the third?

THAISA

The third of Antioch;

And his device, a wreath of chivalry;

The word, ‘Me pompae provexit apex.’

SIMONIDES

What is the fourth?

THAISA

A burning torch that’s turned upside down;

The word, ‘Quod me alit, me extinguit.’

SIMONIDES

Which shows that beauty hath his power and will,

Which can as well inflame as it can kill.”

The Fifth Knight passes over

THAISA

The fifth, an hand environed with clouds,

Holding out gold that’s by the touchstone tried;

The motto thus, ‘Sic spectanda fides.’

The Sixth Knight, PERICLES, passes over

SIMONIDES

And what’s

The sixth and last, the which the knight himself

With such a graceful courtesy deliver’d?

THAISA

He seems to be a stranger; but his present is

A wither’d branch, that’s only green at top;

The motto, ‘In hac spe vivo.’

SIMONIDES

A pretty moral;

From the dejected state wherein he is,

He hopes by you his fortunes yet may flourish.”

First Lord

For by his rusty outside he appears

To have practised more the whipstock than the lance.”

Second Lord

He well may be a stranger, for he comes

To an honour’d triumph strangely furnished.

Third Lord

And on set purpose let his armour rust

Until this day, to scour it in the dust.

SIMONIDES

Opinion’s but a fool, that makes us scan

The outward habit by the inward man.

But stay, the knights are coming: we will withdraw

Into the gallery.”

PERICLES

‘Tis more by fortune, lady, than by merit.

SIMONIDES

Call it by what you will, the day is yours;

And here, I hope, is none that envies it.

In framing an artist, art hath thus decreed,

To make some good, but others to exceed;

And you are her labour’d scholar. Come, queen o’

the feast,–

For, daughter, so you are,–here take your place:

Marshal the rest, as they deserve their grace.”

THAISA

By Juno, that is queen of marriage,

All viands that I eat do seem unsavoury.

Wishing him my meat. Sure, he’s a gallant gentleman.

SIMONIDES

He’s but a country gentleman;

Has done no more than other knights have done;

Has broken a staff or so; so let it pass.”

Whereby I see that Time’s the king of men,

He’s both their parent, and he is their grave,

And gives them what he will, not what they crave.”

SIMONIDES

Yet pause awhile:

Yon knight doth sit too melancholy,

As if the entertainment in our court

Had not a show might countervail his worth.

Note it not you, Thaisa?”

Loud music is too harsh for ladies’ heads,

Since they love men in arms as well as beds.

The Knights dance”

SIMONIDES

Princes, it is too late to talk of love;

And that’s the mark I know you level at:

Therefore each one betake him to his rest;

To-morrow all for speeding do their best.

Exeunt”

HELICANUS

For honour’s cause, forbear your suffrages:

If that you love Prince Pericles, forbear.

Take I your wish, I leap into the seas,

Where’s hourly trouble for a minute’s ease.

A twelvemonth longer, let me entreat you to

Forbear the absence of your king:

If in which time expired, he not return,

I shall with aged patience bear your yoke.

But if I cannot win you to this love,

Go search like nobles, like noble subjects,

And in your search spend your adventurous worth;

Whom if you find, and win unto return,

You shall like diamonds sit about his crown.”

Enter SIMONIDES, reading a letter, at one door: the Knights meet him

First Knight

Good morrow to the good Simonides.

SIMONIDES

Knights, from my daughter this I let you know,

That for this twelvemonth she’ll not undertake

A married life.

Her reason to herself is only known,

Which yet from her by no means can I get.

Second Knight

May we not get access to her, my lord?

SIMONIDES

‘Faith, by no means; she has so strictly tied

Her to her chamber, that ‘tis impossible.

One twelve moons more she’ll wear Diana’s livery;

This by the eye of Cynthia hath she vow’d

And on her virgin honour will not break it.

Third Knight

Loath to bid farewell, we take our leaves.

Exeunt Knights

SIMONIDES

So,

They are well dispatch’d; now to my daughter’s letter:

She tells me here, she’d wed the stranger knight,

Or never more to view nor day nor light.

‘Tis well, mistress; your choice agrees with mine;

I like that well: nay, how absolute she’s in’t,

Not minding whether I dislike or no!

Well, I do commend her choice;

And will no longer have it be delay’d.

Soft! here he comes: I must dissemble it.

Enter PERICLES”

SIMONIDES

Sir, you are music’s master.

PERICLES

The worst of all her scholars, my good lord.

SIMONIDES

Let me ask you one thing:

What do you think of my daughter, sir?

PERICLES

A most virtuous princess.

SIMONIDES

And she is fair too, is she not?

PERICLES

As a fair day in summer, wondrous fair.

SIMONIDES

Sir, my daughter thinks very well of you;

Ay, so well, that you must be her master,

And she will be your scholar: therefore look to it.”

SIMONIDES

She thinks not so; peruse this writing else.

PERICLES

[Aside] What’s here?

A letter, that she loves the knight of Tyre!

‘Tis the king’s subtlety to have my life.

O, seek not to entrap me, gracious lord,

A stranger and distressed gentleman,

That never aim’d so high to love your daughter,

But bent all offices to honour her.

SIMONIDES

Thou hast bewitch’d my daughter, and thou art

A villain.”

SIMONIDES

Traitor, thou liest.

PERICLES

Traitor!

SIMONIDES

Ay, traitor.

PERICLES

Even in his throat–unless it be the king–

That calls me traitor, I return the lie.

SIMONIDES

[Aside] Now, by the gods, I do applaud his courage.”

I am glad on’t with all my heart.–

I’ll tame you; I’ll bring you in subjection.

Will you, not having my consent,

Bestow your love and your affections

Upon a stranger?”

SIMONIDES

It pleaseth me so well, that I will see you wed;

And then with what haste you can get you to bed.

Exeunt”

Estranho Simonides…

GOWER

Hymen hath brought the bride to bed.

Where, by the loss of maidenhead,

A babe is moulded. Be attent,

And time that is so briefly spent

With your fine fancies quaintly eche:

What’s dumb in show I’ll plain with speech.

DUMB SHOW.

[Provavelmente um espetáculo de bobos no teatro.]

Enter, PERICLES and SIMONIDES at one door, with Attendants; a Messenger meets them, kneels, and gives PERICLES a letter: PERICLES shows it SIMONIDES; the Lords kneel to him. Then enter THAISA with child, with LYCHORIDA a nurse. The KING shows her the letter; she rejoices: she and PERICLES takes leave of her father, and depart with LYCHORIDA and their Attendants. Then exeunt SIMONIDES and the rest

At last from Tyre,

Fame answering the most strange inquire,

To the court of King Simonides

Are letters brought, the tenor these:

Antiochus and his daughter dead;

The men of Tyrus on the head

Of Helicanus would set on

The crown of Tyre, but he will none:

The mutiny he there hastes t’ oppress;

Says to ‘em, if King Pericles

Come not home in twice six moons,

He, obedient to their dooms,

Will take the crown. The sum of this,

Brought hither to Pentapolis,

Y-ravished the regions round,

And every one with claps can sound,

‘Our heir-apparent is a king!

Who dream’d, who thought of such a thing?’

Brief, he must hence depart to Tyre:

His queen with child makes her desire–

Which who shall cross?–along to go:

Omit we all their dole and woe:

Lychorida, her nurse, she takes,

And so to sea. Their vessel shakes

On Neptune’s billow; half the flood

Hath their keel cut: but fortune’s mood

Varies again; the grisly north

Disgorges such a tempest forth,

That, as a duck for life that dives,

So up and down the poor ship drives:

The lady shrieks, and well-a-near

Does fall in travail with her fear:

And what ensues in this fell storm

Shall for itself itself perform.

I nill relate, action may

Conveniently the rest convey;

Which might not what by me is told.

In your imagination hold

This stage the ship, upon whose deck

The sea-tost Pericles appears to speak.

Exit”

PERICLES

Thou god of this great vast, rebuke these surges,

Which wash both heaven and hell; and thou, that hast

Upon the winds command, bind them in brass,

Having call’d them from the deep! O, still

Thy deafening, dreadful thunders; gently quench

Thy nimble, sulphurous flashes! O, how, Lychorida,

How does my queen? Thou stormest venomously;

Wilt thou spit all thyself? The seaman’s whistle

Is as a whisper in the ears of death,

Unheard. Lychorida!–Lucina, O

Divinest patroness, and midwife gentle

To those that cry by night, convey thy deity

Aboard our dancing boat; make swift the pangs

Of my queen’s travails!”

LYCHORIDA

Patience, good sir; do not assist the storm.

Here’s all that is left living of your queen,

A little daughter: for the sake of it,

Be manly, and take comfort.

PERICLES

O you gods!

Why do you make us love your goodly gifts,

And snatch them straight away? We here below

Recall not what we give, and therein may

Use honour with you.”

PERICLES

Now, mild may be thy life!

For a more blustrous birth had never babe:

Quiet and gentle thy conditions! for

Thou art the rudeliest welcome to this world

That ever was prince’s child. Happy what follows!

Thou hast as chiding a nativity

As fire, air, water, earth, and heaven can make,

To herald thee from the womb: even at the first

Thy loss is more than can thy portage quit,

With all thou canst find here. Now, the good gods

Throw their best eyes upon’t!”

PERICLES

A terrible childbed hast thou had, my dear;

No light, no fire: the unfriendly elements

Forgot thee utterly: nor have I time

To give thee hallow’d to thy grave, but straight

Must cast thee, scarcely coffin’d, in the ooze;

Where, for a monument upon thy bones,

And e’er-remaining lamps, the belching whale

And humming water must o’erwhelm thy corpse,

Lying with simple shells. O Lychorida,

Bid Nestor bring me spices, ink and paper,

My casket and my jewels; and bid Nicander

Bring me the satin coffer: lay the babe

Upon the pillow: hie thee, whiles I say

A priestly farewell to her: suddenly, woman.

Exit LYCHORIDA”

PERICLES

I thank thee. Mariner, say what coast is this?

Second Sailor

We are near Tarsus.

PERICLES

Thither, gentle mariner.

Alter thy course for Tyre. When canst thou reach it?

Second Sailor

By break of day, if the wind cease.

PERICLES

O, make for Tarsus!

There will I visit Cleon, for the babe

Cannot hold out to Tyrus: there I’ll leave it

At careful nursing. Go thy ways, good mariner:

I’ll bring the body presently.

Exeunt”

PHILEMON

Doth my lord call?

CERIMON

Get fire and meat for these poor men:

‘T has been a turbulent and stormy night.

Servant

I have been in many; but such a night as this,

Till now, I ne’er endured.

CERIMON

Your master will be dead ere you return;

There’s nothing can be minister’d to nature

That can recover him.”

CERIMON

I hold it ever,

Virtue and cunning were endowments greater

Than nobleness and riches: careless heirs

May the two latter darken and expend;

But immortality attends the former.

Making a man a god. ‘Tis known, I ever

Have studied physic, through which secret art,

By turning o’er authorities, I have,

Together with my practise, made familiar

To me and to my aid the blest infusions

That dwell in vegetives, in metals, stones;

And I can speak of the disturbances

That nature works, and of her cures; which doth give me

A more content in course of true delight

Than to be thirsty after tottering honour,

Or tie my treasure up in silken bags,

To please the fool and death.

Second Gentleman

Your honour has through Ephesus pour’d forth

Your charity, and hundreds call themselves

Your creatures, who by you have been restored:

And not your knowledge, your personal pain, but even

Your purse, still open, hath built Lord Cerimon

Such strong renown as time shall ne’er decay.”

CERIMON

Whate’er it be,

‘Tis wondrous heavy. Wrench it open straight:

If the sea’s stomach be o’ercharged with gold,

‘Tis a good constraint of fortune it belches upon us.

Second Gentleman

‘Tis so, my lord.

CERIMON

How close ‘tis caulk’d and bitumed!

Did the sea cast it up?

First Servant

I never saw so huge a billow, sir,

As toss’d it upon shore.

CERIMON

Wrench it open;

Soft! it smells most sweetly in my sense.

Second Gentleman

A delicate odour.

CERIMON

As ever hit my nostril. So, up with it.

O you most potent gods! what’s here? a corse!

First Gentleman

Most strange!

CERIMON

Shrouded in cloth of state; balm’d and entreasured

With full bags of spices! A passport too!

Apollo, perfect me in the characters!

Reads from a scroll

‘Here I give to understand,

If e’er this coffin drive a-land,

I, King Pericles, have lost

This queen, worth all our mundane cost.

Who finds her, give her burying;

She was the daughter of a king:

Besides this treasure for a fee,

The gods requite his charity!’

If thou livest, Pericles, thou hast a heart

That even cracks for woe! This chanced tonight.

Second Gentleman

Most likely, sir.

CERIMON

Nay, certainly to-night;

For look how fresh she looks! They were too rough

That threw her in the sea. Make a fire within:

Fetch hither all my boxes in my closet.”

Exit a Servant

Death may usurp on nature many hours,

And yet the fire of life kindle again

The o’erpress’d spirits. I heard of an Egyptian

That had nine hours lien dead,

Who was by good appliance recovered.

Re-enter a Servant, with boxes, napkins, and fire

Well said, well said; the fire and cloths.

The rough and woeful music that we have,

Cause it to sound, beseech you.

The viol once more: how thou stirr’st, thou block!

The music there!–I pray you, give her air.

Gentlemen.

This queen will live: nature awakes; a warmth

Breathes out of her: she hath not been entranced

Above five hours: see how she gins to blow

Into life’s flower again!”

CERIMON

She is alive; behold,

Her eyelids, cases to those heavenly jewels

Which Pericles hath lost,

Begin to part their fringes of bright gold;

The diamonds of a most praised water

Do appear, to make the world twice rich. Live,

And make us weep to hear your fate, fair creature,

Rare as you seem to be.

She moves

THAISA

O dear Diana,

Where am I? Where’s my lord? What world is this?”

Enter PERICLES, CLEON, DIONYZA, and LYCHORIDA with MARINA in her arms

PERICLES

Most honour’d Cleon, I must needs be gone;

My twelve months are expired, and Tyrus stands

In a litigious peace. You, and your lady,

Take from my heart all thankfulness! The gods

Make up the rest upon you!”

PERICLES

We cannot but obey

The powers above us. Could I rage and roar

As doth the sea she lies in, yet the end

Must be as ‘tis. My gentle babe Marina, whom,

For she was born at sea, I have named so, here

I charge your charity withal, leaving her

The infant of your care; beseeching you

To give her princely training, that she may be

Manner’d as she is born.”

Without your vows. Till she be married, madam,

By bright Diana, whom we honour, all

Unscissor’d shall this hair of mine remain,

Though I show ill in’t. So I take my leave.

Good madam, make me blessed in your care

In bringing up my child.”

CERIMON

Madam, this letter, and some certain jewels,

Lay with you in your coffer: which are now

At your command. Know you the character?

THAISA

It is my lord’s.

That I was shipp’d at sea, I well remember,

Even on my eaning time; but whether there

Deliver’d, by the holy gods,

I cannot rightly say. But since King Pericles,

My wedded lord, I ne’er shall see again,

A vestal livery will I take me to,

And never more have joy.

CERIMON

Madam, if this you purpose as ye speak,

Diana’s temple is not distant far,

Where you may abide till your date expire.

Moreover, if you please, a niece of mine

Shall there attend you.

THAISA

My recompense is thanks, that’s all;

Yet my good will is great, though the gift small.

Exeunt”

“…But, alack,

That monster envy, oft the wrack

Of earned praise, Marina’s life

Seeks to take off by treason’s knife.

And in this kind hath our Cleon

One daughter, and a wench full grown,

Even ripe for marriage-rite; this maid

Hight Philoten: and it is said

For certain in our story, she

Would ever with Marina be:

Be’t when she weaved the sleided silk

With fingers long, small, white as milk;

Or when she would with sharp needle wound

The cambric, which she made more sound

By hurting it; or when to the lute

She sung, and made the night-bird mute,

That still records with moan; or when

She would with rich and constant pen

Vail to her mistress Dian; still

This Philoten contends in skill

With absolute Marina: so

With the dove of Paphos might the crow

Vie feathers white. Marina gets

All praises, which are paid as debts,

And not as given. This so darks

In Philoten all graceful marks,

That Cleon’s wife, with envy rare,

A present murderer does prepare

For good Marina, that her daughter

Might stand peerless by this slaughter.

The sooner her vile thoughts to stead,

Lychorida, our nurse, is dead:

And cursed Dionyza hath

The pregnant instrument of wrath

Prest for this blow. The unborn event

I do commend to your content:

Only I carry winged time

Post on the lame feet of my rhyme;

Which never could I so convey,

Unless your thoughts went on my way.

Dionyza does appear,

With Leonine, a murderer.

Exit”

Enter DIONYZA and LEONINE

DIONYZA

Thy oath remember; thou hast sworn to do’t:

‘Tis but a blow, which never shall be known.

Thou canst not do a thing in the world so soon,

To yield thee so much profit. Let not conscience,

Which is but cold, inflaming love i’ thy bosom,

Inflame too nicely; nor let pity, which

Even women have cast off, melt thee, but be

A soldier to thy purpose.

LEONINE

I will do’t; but yet she is a goodly creature.

DIONYZA

The fitter, then, the gods should have her. Here

she comes weeping for her only mistress’ death.

Thou art resolved?

LEONINE

I am resolved.”

MARINA

When I was born:

Never was waves nor wind more violent;

And from the ladder-tackle washes off

A canvas-climber. ‘Ha!’ says one, ‘wilt out?’

And with a dropping industry they skip

From stem to stern: the boatswain whistles, and

The master calls, and trebles their confusion.

LEONINE

Come, say your prayers.

MARINA

What mean you?

LEONINE

If you require a little space for prayer,

I grant it: pray; but be not tedious,

For the gods are quick of ear, and I am sworn

To do my work with haste.

MARINA

Why will you kill me?

LEONINE

To satisfy my lady.

MARINA

Why would she have me kill’d?

Now, as I can remember, by my troth,

I never did her hurt in all my life:

I never spake bad word, nor did ill turn

To any living creature: believe me, la,

I never kill’d a mouse, nor hurt a fly:

I trod upon a worm against my will,

But I wept for it. How have I offended,

Wherein my death might yield her any profit,

Or my life imply her any danger?

LEONINE

My commission

Is not to reason of the deed, but do it.

MARINA

You will not do’t for all the world, I hope.

You are well favour’d, and your looks foreshow

You have a gentle heart. I saw you lately,

When you caught hurt in parting two that fought:

Good sooth, it show’d well in you: do so now:

Your lady seeks my life; come you between,

And save poor me, the weaker.

LEONINE

I am sworn,

And will dispatch.

He seizes her

Enter Pirates

First Pirate

Hold, villain!

LEONINE runs away

Second Pirate

A prize! a prize!

Third Pirate

Half-part, mates, half-part.

Come, let’s have her aboard suddenly.

Exeunt Pirates with MARINA

Re-enter LEONINE

LEONINE

These roguing thieves serve the great pirate Valdes;

And they have seized Marina. Let her go:

There’s no hope she will return. I’ll swear

she’s dead,

And thrown into the sea. But I’ll see further:

Perhaps they will but please themselves upon her,

Not carry her aboard. If she remain,

Whom they have ravish’d must by me be slain.

Exit”

[Num bordel, longe dali…]

Pandar

Therefore let’s have fresh ones, whate’er we pay for

them. If there be not a conscience to be used in

every trade, we shall never prosper.

Bawd [Cafetina]

Thou sayest true: ‘tis not our bringing up of poor

bastards,–as, I think, I have brought up some eleven–

BOULT

Ay, to eleven; and brought them down again. But

shall I search the market?

Bawd

What else, man? The stuff we have, a strong wind

will blow it to pieces, they are so pitifully sodden.

Pandar

Thou sayest true; they’re too unwholesome, o’

conscience. The poor Transylvanian is dead, that

lay with the little baggage.

BOULT

Ay, she quickly pooped him; she made him roast-meat

for worms. But I’ll go search the market.”

Bawd

Come, other sorts offend as well as we.

Pandar

As well as we! ay, and better too; we offend worse.

Neither is our profession any trade; it’s no

calling. But here comes Boult.

Re-enter BOULT, with the Pirates and MARINA

BOULT

[To MARINA] Come your ways. My masters, you say

she’s a virgin?

First Pirate

O, sir, we doubt it not.

BOULT

Master, I have gone through for this piece, you see:

if you like her, so; if not, I have lost my earnest.

Bawd

Boult, has she any qualities?

BOULT

She has a good face, speaks well, and has excellent

good clothes: there’s no further necessity of

qualities can make her be refused.

Bawd

What’s her price, Boult?

BOULT

I cannot be bated one doit of a thousand pieces.

Pandar

Well, follow me, my masters, you shall have your

money presently. Wife, take her in; instruct her

what she has to do, that she may not be raw in her

entertainment.

Exeunt Pandar and Pirates

Bawd

Boult, take you the marks of her, the colour of her

hair, complexion, height, age, with warrant of her

virginity; and cry ‘He that will give most shall

have her first.’ Such a maidenhead were no cheap

thing, if men were as they have been. Get this done

as I command you.

BOULT

Performance shall follow.

Exit

MARINA

Alack that Leonine was so slack, so slow!

He should have struck, not spoke; or that these pirates,

Not enough barbarous, had not o’erboard thrown me

For to seek my mother!

Bawd

Why lament you, pretty one?

MARINA

That I am pretty.

Bawd

Come, the gods have done their part in you.

MARINA

I accuse them not.”

Bawd

Ay, and you shall live in pleasure.

MARINA

No.

Bawd

Yes, indeed shall you, and taste gentlemen of all

fashions: you shall fare well; you shall have the

difference of all complexions. What! do you stop your ears?

MARINA

Are you a woman?

Bawd

What would you have me be, an I be not a woman?

MARINA

An honest woman, or not a woman.

Bawd

Marry, whip thee, gosling: I think I shall have

something to do with you. Come, you’re a young

foolish sapling, and must be bowed as I would have

you.

MARINA

The gods defend me!

Bawd

If it please the gods to defend you by men, then men

must comfort you, men must feed you, men must stir

you up. Boult’s returned.”

BOULT

‘Faith, they listened to me as they would have

hearkened to their father’s testament. There was a

Spaniard’s mouth so watered, that he went to bed to

her very description.

Bawd

We shall have him here to-morrow with his best ruff on.

BOULT

To-night, to-night. But, mistress, do you know the

French knight that cowers i’ the hams?

Bawd

Who, Monsieur Veroles?

BOULT

Ay, he: he offered to cut a caper at the

proclamation; but he made a groan at it, and swore

he would see her to-morrow.

Bawd

Well, well; as for him, he brought his disease

hither: here he does but repair it. I know he will

come in our shadow, to scatter his crowns in the

sun.

BOULT

Well, if we had of every nation a traveller, we

should lodge them with this sign.”

“…

To weep that you live as ye do makes pity in your

lovers: seldom but that pity begets you a good

opinion, and that opinion a mere profit.

MARINA

I understand you not.

BOULT

O, take her home, mistress, take her home: these

blushes of hers must be quenched with some present practise.

Bawd

Thou sayest true, i’ faith, so they must; for your

bride goes to that with shame which is her way to go

with warrant.”

MARINA

If fires be hot, knives sharp, or waters deep,

Untied I still my virgin knot will keep.

Diana, aid my purpose!

Bawd

What have we to do with Diana? Pray you, will you go with us?

Exeunt”

DIONYZA

I think

You’ll turn a child again.

CLEON

Were I chief lord of all this spacious world,

I’ld give it to undo the deed. O lady,

Much less in blood than virtue, yet a princess

To equal any single crown o’ the earth

I’ the justice of compare! O villain Leonine!

Whom thou hast poison’d too:

If thou hadst drunk to him, ‘t had been a kindness

Becoming well thy fact: what canst thou say

When noble Pericles shall demand his child?

DIONYZA

That she is dead. Nurses are not the fates,

To foster it, nor ever to preserve.

She died at night; I’ll say so. Who can cross it?

Unless you play the pious innocent,

And for an honest attribute cry out

‘She died by foul play.’

CLEON

O, go to. Well, well,

Of all the faults beneath the heavens, the gods

Do like this worst.

DIONYZA

Be one of those that think

The petty wrens of Tarsus will fly hence,

And open this to Pericles. I do shame

To think of what a noble strain you are,

And of how coward a spirit.

CLEON

To such proceeding

Who ever but his approbation added,

Though not his prime consent, he did not flow

From honourable sources.”

CLEON

Thou art like the harpy,

Which, to betray, dost, with thine angel’s face,

Seize with thine eagle’s talons.”

By you being pardon’d, we commit no crime

To use one language in each several clime

Where our scenes seem to live. I do beseech you

To learn of me, who stand i’ the gaps to teach you,

The stages of our story. Pericles

Is now again thwarting the wayward seas,

Attended on by many a lord and knight.

To see his daughter, all his life’s delight.

Old Escanes, whom Helicanus late

Advanced in time to great and high estate,

Is left to govern. Bear you it in mind,

Old Helicanus goes along behind.

Well-sailing ships and bounteous winds have brought

This king to Tarsus,–think his pilot thought;

So with his steerage shall your thoughts grow on,–

To fetch his daughter home, who first is gone.

Like motes and shadows see them move awhile;

Your ears unto your eyes I’ll reconcile.

DUMB SHOW.

Enter PERICLES, at one door, with all his train; CLEON and DIONYZA, at the other. CLEON shows PERICLES the tomb; whereat PERICLES makes lamentation, puts on sackcloth, and in a mighty passion departs. Then exeunt CLEON and DIONYZA

See how belief may suffer by foul show!

This borrow’d passion stands for true old woe;

And Pericles, in sorrow all devour’d,

With sighs shot through, and biggest tears

o’ershower’d,

Leaves Tarsus and again embarks. He swears

Never to wash his face, nor cut his hairs:

He puts on sackcloth, and to sea. He bears

A tempest, which his mortal vessel tears,

And yet he rides it out. Now please you wit.

The epitaph is for Marina writ

By wicked Dionyza.”

Let Pericles believe his daughter’s dead,

And bear his courses to be ordered

By Lady Fortune; while our scene must play

His daughter’s woe and heavy well-a-day

In her unholy service. Patience, then,

And think you now are all in Mytilene.”

Bawd

Fie, fie upon her! she’s able to freeze the god

Priapus, and undo a whole generation. We must

either get her ravished, or be rid of her. When she

should do for clients her fitment, and do me the

kindness of our profession, she has me her quirks,

her reasons, her master reasons, her prayers, her

knees; that she would make a puritan of the devil,

if he should cheapen a kiss of her.

BOULT

‘Faith, I must ravish her, or she’ll disfurnish us

of all our cavaliers, and make our swearers priests.”

LYSIMACHUS

Now, pretty one, how long have you been at this trade?

MARINA

What trade, sir?

LYSIMACHUS

Why, I cannot name’t but I shall offend.

MARINA

I cannot be offended with my trade. Please you to name it.

LYSIMACHUS

How long have you been of this profession?

MARINA

E’er since I can remember.

LYSIMACHUS

Did you go to ‘t so young? Were you a gamester at

five or at seven?

MARINA

Earlier too, sir, if now I be one.

LYSIMACHUS

Why, the house you dwell in proclaims you to be a

creature of sale.

MARINA

Do you know this house to be a place of such resort,

and will come into ‘t? I hear say you are of

honourable parts, and are the governor of this place.

LYSIMACHUS

Why, hath your principal made known unto you who I am?

MARINA

Who is my principal?

LYSIMACHUS

Why, your herb-woman; she that sets seeds and roots

of shame and iniquity. O, you have heard something

of my power, and so stand aloof for more serious

wooing. But I protest to thee, pretty one, my

authority shall not see thee, or else look friendly

upon thee. Come, bring me to some private place:

come, come.

MARINA

If you were born to honour, show it now;

If put upon you, make the judgment good

That thought you worthy of it.

LYSIMACHUS

How’s this? how’s this? Some more; be sage.

MARINA

For me,

That am a maid, though most ungentle fortune

Have placed me in this sty, where, since I came,

Diseases have been sold dearer than physic,

O, that the gods

Would set me free from this unhallow’d place,

Though they did change me to the meanest bird

That flies i’ the purer air!

LYSIMACHUS

I did not think

Thou couldst have spoke so well; ne’er dream’d thou couldst.

Had I brought hither a corrupted mind,

Thy speech had alter’d it. Hold, here’s gold for thee:

Persever in that clear way thou goest,

And the gods strengthen thee!

MARINA

The good gods preserve you!

LYSIMACHUS

For me, be you thoughten

That I came with no ill intent; for to me

The very doors and windows savour vilely.

Fare thee well. Thou art a piece of virtue, and

I doubt not but thy training hath been noble.

Hold, here’s more gold for thee.

A curse upon him, die he like a thief,

That robs thee of thy goodness! If thou dost

Hear from me, it shall be for thy good.”

BOULT

I must have your maidenhead taken off, or the common

hangman shall execute it. Come your ways. We’ll

have no more gentlemen driven away. Come your ways, I say.”

BOULT

The nobleman would have dealt with her like a

nobleman, and she sent him away as cold as a

snowball; saying his prayers too.

Bawd

Boult, take her away; use her at thy pleasure:

crack the glass of her virginity, and make the rest malleable.

BOULT

An if she were a thornier piece of ground than she

is, she shall be ploughed.

MARINA

Hark, hark, you gods!”

MARINA

Neither of these are so bad as thou art,

Since they do better thee in their command.

Thou hold’st a place, for which the pained’st fiend

Of hell would not in reputation change:

Thou art the damned doorkeeper to every

Coistrel that comes inquiring for his Tib;

To the choleric fisting of every rogue

Thy ear is liable; thy food is such

As hath been belch’d on by infected lungs.

BOULT

What would you have me do? go to the wars, would

you? where a man may serve seven years for the loss

of a leg, and have not money enough in the end to

buy him a wooden one?”

For what thou professest, a baboon, could he speak,

Would own a name too dear. O, that the gods

Would safely deliver me from this place!

Here, here’s gold for thee.

If that thy master would gain by thee,

Proclaim that I can sing, weave, sew, and dance,

With other virtues, which I’ll keep from boast:

And I will undertake all these to teach.

I doubt not but this populous city will

Yield many scholars.”

BOULT

‘Faith, my acquaintance lies little amongst them.

But since my master and mistress have bought you,

there’s no going but by their consent: therefore I

will make them acquainted with your purpose, and I

doubt not but I shall find them tractable enough.

Come, I’ll do for thee what I can; come your ways.

Exeunt”

Diana boa de lábia

O ÚLTIMO ATO

GOWER

Marina thus the brothel ‘scapes, and chances

Into an honest house, our story says.

She sings like one immortal, and she dances

As goddess-like to her admired lays;

Deep clerks she dumbs; and with her needle composes

Nature’s own shape, of bud, bird, branch, or berry,

That even her art sisters the natural roses;

Her inkle, silk, twin with the rubied cherry:

That pupils lacks she none of noble race,

Who pour their bounty on her; and her gain

She gives the cursed bawd. Here we her place;

And to her father turn our thoughts again,

Where we left him, on the sea. We there him lost;

Whence, driven before the winds, he is arrived

Here where his daughter dwells; and on this coast

Suppose him now at anchor. The city strived

God Neptune’s annual feast to keep: from whence

Lysimachus our Tyrian ship espies,

His banners sable, trimm’d with rich expense;

And to him in his barge with fervor hies.

In your supposing once more put your sight

Of heavy Pericles; think this his bark:

Where what is done in action, more, if might,

Shall be discover’d; please you, sit and hark.

Exit”

First Lord

Sir,

We have a maid in Mytilene, I durst wager,

Would win some words of him.

LYSIMACHUS

‘Tis well bethought.

She questionless with her sweet harmony

And other chosen attractions, would allure,

And make a battery through his deafen’d parts,

Which now are midway stopp’d:

She is all happy as the fairest of all,

And, with her fellow maids is now upon

The leafy shelter that abuts against

The island’s side.”

HELICANUS

Sure, all’s effectless; yet nothing we’ll omit

That bears recovery’s name. But, since your kindness

We have stretch’d thus far, let us beseech you

That for our gold we may provision have,

Wherein we are not destitute for want,

But weary for the staleness.

LYSIMACHUS

O, sir, a courtesy

Which if we should deny, the most just gods

For every graff would send a caterpillar,

And so afflict our province. Yet once more

Let me entreat to know at large the cause

Of your king’s sorrow.”

Re-enter, from the barge, Lord, with MARINA, and a young Lady

LYSIMACHUS

O, here is

The lady that I sent for. Welcome, fair one!

Is’t not a goodly presence?

HELICANUS

She’s a gallant lady.”

MARINA

Sir, I will use

My utmost skill in his recovery, Provided

That none but I and my companion maid

Be suffer’d to come near him.

LYSIMACHUS

Come, let us leave her;

And the gods make her prosperous!

MARINA sings”

MARINA

Hail, sir! my lord, lend ear.

PERICLES

Hum, ha!

MARINA

I am a maid,

My lord, that ne’er before invited eyes,

But have been gazed on like a comet: she speaks,

My lord, that, may be, hath endured a grief

Might equal yours, if both were justly weigh’d.

Though wayward fortune did malign my state,

My derivation was from ancestors

Who stood equivalent with mighty kings:

But time hath rooted out my parentage,

And to the world and awkward casualties

Bound me in servitude.

Aside

I will desist;

But there is something glows upon my cheek,

And whispers in mine ear, ‘Go not till he speak.’”

Hum ha!

MARINA

I said, my lord, if you did know my parentage,

You would not do me violence.

PERICLES

I do think so. Pray you, turn your eyes upon me.

You are like something that–What country-woman?

Here of these shores?

MARINA

No, nor of any shores:

Yet I was mortally brought forth, and am

No other than I appear.

PERICLES

I am great with woe, and shall deliver weeping.

My dearest wife was like this maid, and such a one

My daughter might have been: my queen’s square brows;

Her stature to an inch; as wand-like straight;

As silver-voiced; her eyes as jewel-like

And cased as richly; in pace another Juno;

Who starves the ears she feeds, and makes them hungry,

The more she gives them speech. Where do you live?

MARINA

Where I am but a stranger: from the deck

You may discern the place.

PERICLES

Where were you bred?

And how achieved you these endowments, which

You make more rich to owe?

MARINA

If I should tell my history, it would seem

Like lies disdain’d in the reporting.

PERICLES

Prithee, speak:

Falseness cannot come from thee; for thou look’st

Modest as Justice, and thou seem’st a palace

For the crown’d Truth to dwell in: I will

believe thee,

And make my senses credit thy relation

To points that seem impossible; for thou look’st

Like one I loved indeed. What were thy friends?

Didst thou not say, when I did push thee back–

Which was when I perceived thee–that thou camest

From good descending?

MARINA

So indeed I did.

PERICLES

Report thy parentage. I think thou said’st

Thou hadst been toss’d from wrong to injury,

And that thou thought’st thy griefs might equal mine,

If both were open’d.

MARINA

Some such thing

I said, and said no more but what my thoughts

Did warrant me was likely.

PERICLES

Tell thy story;

If thine consider’d prove the thousandth part

Of my endurance, thou art a man, and I

Have suffer’d like a girl: yet thou dost look

Like Patience gazing on kings’ graves, and smiling

Extremity out of act. What were thy friends?

How lost thou them? Thy name, my most kind virgin?

Recount, I do beseech thee: come, sit by me.

MARINA

My name is Marina.

PERICLES

O, I am mock’d,

And thou by some incensed god sent hither

To make the world to laugh at me.

MARINA

Patience, good sir,

Or here I’ll cease.

PERICLES

Nay, I’ll be patient.

Thou little know’st how thou dost startle me,

To call thyself Marina.

MARINA

The name

Was given me by one that had some power,

My father, and a king.

PERICLES

How! a king’s daughter?

And call’d Marina?

MARINA

You said you would believe me;

But, not to be a troubler of your peace,

I will end here.

PERICLES

But are you flesh and blood?

Have you a working pulse? and are no fairy?

Motion! Well; speak on. Where were you born?

And wherefore call’d Marina?

MARINA

Call’d Marina

For I was born at sea.

PERICLES

At sea! what mother?

MARINA

My mother was the daughter of a king;

Who died the minute I was born,

As my good nurse Lychorida hath oft

Deliver’d weeping.

PERICLES

O, stop there a little!

Aside

This is the rarest dream that e’er dull sleep

Did mock sad fools withal: this cannot be:

My daughter’s buried. Well: where were you bred?

I’ll hear you more, to the bottom of your story,

And never interrupt you.

MARINA

You scorn: believe me, ‘twere best I did give o’er.

PERICLES

I will believe you by the syllable

Of what you shall deliver. Yet, give me leave:

How came you in these parts? where were you bred?

MARINA

The king my father did in Tarsus leave me;

Till cruel Cleon, with his wicked wife,

Did seek to murder me: and having woo’d

A villain to attempt it, who having drawn to do’t,

A crew of pirates came and rescued me;

Brought me to Mytilene. But, good sir,

Whither will you have me? Why do you weep?

It may be,

You think me an impostor: no, good faith;

I am the daughter to King Pericles,

If good King Pericles be.

PERICLES

Ho, Helicanus!

HELICANUS

Calls my lord?

PERICLES

Thou art a grave and noble counsellor,

Most wise in general: tell me, if thou canst,

What this maid is, or what is like to be,

That thus hath made me weep?

HELICANUS

I know not; but

Here is the regent, sir, of Mytilene

Speaks nobly of her.

LYSIMACHUS

She would never tell

Her parentage; being demanded that,

She would sit still and weep.

PERICLES

O Helicanus, strike me, honour’d sir;

Give me a gash, put me to present pain;

Lest this great sea of joys rushing upon me

O’erbear the shores of my mortality,

And drown me with their sweetness. O, come hither,

Thou that beget’st him that did thee beget;

Thou that wast born at sea, buried at Tarsus,

And found at sea again! O Helicanus,

Down on thy knees, thank the holy gods as loud

As thunder threatens us: this is Marina.

What was thy mother’s name? tell me but that,

For truth can never be confirm’d enough,

Though doubts did ever sleep.

MARINA

First, sir, I pray,

What is your title?

PERICLES

I am Pericles of Tyre: but tell me now

My drown’d queen’s name, as in the rest you said

Thou hast been godlike perfect,

The heir of kingdoms and another like

To Pericles thy father.

MARINA

Is it no more to be your daughter than

To say my mother’s name was Thaisa?

Thaisa was my mother, who did end

The minute I began.

PERICLES

Now, blessing on thee! rise; thou art my child.

Give me fresh garments. Mine own, Helicanus;

She is not dead at Tarsus, as she should have been,

By savage Cleon: she shall tell thee all;

When thou shalt kneel, and justify in knowledge

She is thy very princess. Who is this?

HELICANUS

Sir, ‘tis the governor of Mytilene,

Who, hearing of your melancholy state,

Did come to see you.

PERICLES

I embrace you.

Give me my robes. I am wild in my beholding.

O heavens bless my girl! But, hark, what music?

Tell Helicanus, my Marina, tell him

O’er, point by point, for yet he seems to doubt,

How sure you are my daughter. But, what music?

HELICANUS

My lord, I hear none.

PERICLES

None!

The music of the spheres! List, my Marina.

LYSIMACHUS

It is not good to cross him; give him way.

PERICLES

Rarest sounds! Do ye not hear?

LYSIMACHUS

My lord, I hear.

Music”

DIANA appears to PERICLES as in a vision

DIANA

My temple stands in Ephesus: hie thee thither,

And do upon mine altar sacrifice.

There, when my maiden priests are met together,

Before the people all,

Reveal how thou at sea didst lose thy wife:

To mourn thy crosses, with thy daughter’s, call

And give them repetition to the life.

Or perform my bidding, or thou livest in woe;

Do it, and happy; by my silver bow!

Awake, and tell thy dream.

Disappears

PERICLES

Celestial Dian, goddess argentine,

I will obey thee. Helicanus!”

GOWER

Now our sands are almost run;

More a little, and then dumb.

This, my last boon, give me,

For such kindness must relieve me,

That you aptly will suppose

What pageantry, what feats, what shows,

What minstrelsy, and pretty din,

The regent made in Mytilene

To greet the king. So he thrived,

That he is promised to be wived

To fair Marina; but in no wise

Till he had done his sacrifice,

As Dian bade: whereto being bound,

The interim, pray you, all confound.

In feather’d briefness sails are fill’d,

And wishes fall out as they’re will’d.

At Ephesus, the temple see,

Our king and all his company.

That he can hither come so soon,

Is by your fancy’s thankful doom.

Exit

SCENE III. The temple of Diana at Ephesus; THAISA standing near the altar, as high priestess; a number of Virgins on each side; CERIMON and other Inhabitants of Ephesus attending. Enter PERICLES, with his train; LYSIMACHUS, HELICANUS, MARINA, and a Lady

PERICLES

Hail, Dian! to perform thy just command,

I here confess myself the king of Tyre;

Who, frighted from my country, did wed

At Pentapolis the fair Thaisa.

At sea in childbed died she, but brought forth

A maid-child call’d Marina; who, O goddess,

Wears yet thy silver livery. She at Tarsus

Was nursed with Cleon; who at fourteen years

He sought to murder: but her better stars

Brought her to Mytilene; ‘gainst whose shore

Riding, her fortunes brought the maid aboard us,

Where, by her own most clear remembrance, she

Made known herself my daughter.

THAISA

Voice and favour!

You are, you are–O royal Pericles!

Faints

PERICLES

What means the nun? she dies! help, gentlemen!

CERIMON

Noble sir,

If you have told Diana’s altar true,

This is your wife.

PERICLES

Reverend appearer, no;

I threw her overboard with these very arms.

CERIMON

Upon this coast, I warrant you.

PERICLES

‘Tis most certain.

CERIMON

Look to the lady; O, she’s but o’erjoy’d.

Early in blustering morn this lady was

Thrown upon this shore. I oped the coffin,

Found there rich jewels; recover’d her, and placed her

Here in Diana’s temple.”

Are you not Pericles? Like him you spake,

Like him you are: did you not name a tempest,

A birth, and death?

PERICLES

The voice of dead Thaisa!

THAISA

That Thaisa am I, supposed dead

And drown’d.

PERICLES

Immortal Dian!

THAISA

Now I know you better.

When we with tears parted Pentapolis,

The king my father gave you such a ring.

Shows a ring

PERICLES

This, this: no more, you gods! your present kindness

Makes my past miseries sports: you shall do well,

That on the touching of her lips I may

Melt and no more be seen. O, come, be buried

A second time within these arms.”

PERICLES

Reverend sir,

The gods can have no mortal officer

More like a god than you. Will you deliver

How this dead queen re-lives?

CERIMON

I will, my lord.

Beseech you, first go with me to my house,

Where shall be shown you all was found with her;

How she came placed here in the temple;

No needful thing omitted.”

GOWER

In Antiochus and his daughter you have heard

Of monstrous lust the due and just reward:

In Pericles, his queen and daughter, seen,

Although assail’d with fortune fierce and keen,

Virtue preserved from fell destruction’s blast,

Led on by heaven, and crown’d with joy at last:

In Helicanus may you well descry

A figure of truth, of faith, of loyalty:

In reverend Cerimon there well appears

The worth that learned charity aye wears:

For wicked Cleon and his wife, when fame

Had spread their cursed deed, and honour’d name

Of Pericles, to rage the city turn,

That him and his they in his palace burn;

The gods for murder seemed so content

To punish them; although not done, but meant.

So, on your patience evermore attending,

New joy wait on you! Here our play has ending.

Exit”

FRAU LOU: NIETZSCHE’S WAYWARD DISCIPLE: A HISTÓRIA DE UMA FALSIFICADORA INATA – Rudolph Binion, 1968.

FOREWORD (Walter Kaufmann)

Was Lou really that important?”

The bulk of this volume is not out of proportion to the importance of its subject, for Frau Lou is more significant than Lou’s own books. In the case of most biographies the opposite may be taken for granted, but in this case the author’s reach exceeds the woman whose biography he offers us—in two ways.

First: not only does he deal with Nietzsche, Rilke, and Freud; we also encounter an amazing array of other German and Austrian writers and scholars. It is scarcely an exaggeration to say that Lou’s friendships approximate a Who Was Who of Central European intellectual life during the half-century between 1880 and 1930.”

The whole literature on Lou’s troubled relationship to Nietzsche and Paul Rée is dated by Frau Lou.” “Lou, like Nietzsche’s sister, falsified the story. That the sister’s account was mendacious has been known for a long time, but everyone who discussed this episode without relying on the sister has invariably relied on Lou. Thus Binion makes a major contribution to the study of Nietzsche’s life and character.”

In the last chapter we see the old Lou writing her memoirs, rewriting her life once more, fashioning a final version of events that she could not face as they had actually happened. Then we still get an account of the author’s source materials and the obstacles he faced when he visited her archives. It would be a rank abuse of his hospitality to tell this story in the Foreword, but it provides the perfect link between those last years in which Lou tried to forge her myth and this book in which the myth is finally exposed. Only after having read those pages can one fully appreciate Rudolph Binion’s immense accomplishment.”

KEY TO THE REFERENCE MATTER

Dates are written the day first, then the month in Roman, then the year, thus: 7 VII 1897. Lou’s diary entries are cited by their dates preceded by a D, thus: D 7 VII 1897. The formula for a letter, whether published or unpublished, is addresseraddressee, date, thus: LouFreud, 27 IX 1912. Correspondents’ surnames or full names are used except in Lou’s and the following cases: B-H (Richard Beer-Hofmann); CG (Clara Gelzer); Clara (Clara Westhoff Rilke); EK (Ellen Key); Emma (Emma Wilm Flörke); FN (Friedrich Nietzsche); Frieda (Frieda von Bülow); Hanna (Hanna Bormann); Helene (Helene Klots Klingenberg); HVH (Hugo von Hofmannsthal); Ida O (Ida Overbeck); Lisbeth (Elisabeth Nietzsche, later Förster-Nietzsche); MVM (Malwida von Meysenbug); O (Franz Overbeck); RMR (Rainer Maria Rilke). An asterisk signifies an oral source, thus: *Franz Schoenberner.”

PREFACE

Frau Lou is a psychoanalytic study of a near-mad near-genius of a woman.”

Translating Lou was troublesome, for as she grew older her style carried the weight of her arguments more and more. Academic at first—even in her fiction—it acquired sonorous modulation and intricate articulation in her middle years. Then it went the way of compact allusiveness, as if aiming to compress all of Creation into a single, pious syllable. Tractable as is German diction, Lou strained it baroquely in the end. This compelled me to strain English even harder in order to convey her message intact. I moreover found best reason to quote her at her worst, for then her latent texts were most legible—especially when she was either solecistic or silly, which she rarely was.”

P A R T O N E . C H I L D H O O D

I. FATHER AND FATHER-GOD

Psicanalistas deviam ser proibidos de escrever biografias: “Litde Lelia was wretched amidst plenty as only a human being can be. Her trouble was psychic growing pains which fortunately can, and unfortunately must, be traced to their crude source. This was a craving for her father excited by excretion and attended by darkling visions of reentering his bowel-womb to repossess his penis.”

Mas essa bisonhice na escolha e interpretação dos temas não é o pior: estilo críptico e pouco pertinente para esse tipo de livro. Prosa poética de mau gosto. Quem entender se o que Binion descreve às páginas 6 e 7 são apenas eventos normais de infância ou cenas de estupro ganha uma balinha. Ex: “yet she was pleased to feel tiny and helpless over against him.”; “and if his strokes now felt punitive rather than voluptuous, she now had a father-god only too willing to commiserate over the sore spot.”

P. 8: “In drawing on actual people for her personages, she was opening up her ‘second world’ to the first. Yet beneath the surface, her personages were still mostly herself and her father, their fates still determined by her old father-romance.” Ainda não entendi uma linha da vida dessa garota…

Probably rarely has a girl had everything so much her own way, averred her mother.”

Autistic as ever, ‘awkward’ and ‘shy’ to boot, Lelia kept to herself throughout adolescence.” “Her one confidante her own age was her cousin Emma, who would daydream with her about true love.” “Lelia’s only other intimate was an uncannily clever and charming maiden aunt named Caro, who won her heart by treating her as the special girl she knew herself to be.”

ALICE ÀS AVESSAS: “Lelia ‘learned nothing’ at her gymnasium, the German Lutheran Petrischule, where at 16 she still wrote like a whimsical child of 10.”

II. GOD’S VICAR, GILLOT

Constructions like Gillot’s were rife since Herder and Hegel had made history progressional and Bauer and Strauss had made Jesus historical.” Se isso foi 11:59, ainda estamos na meia-noite em ponto!

Early in 1880 she went abroad with her mother to convalesce from nervous exhaustion.”

III. AFTER GILLOT

(…)

Ilegível!!!

P A R T T W O . Y O U T H

I. THE UNHOLY TRINITY

Parece que ela foi “aluna especial” ou “ouvinte” na universidade de Zurich porque não pôde se qualificar ao bacharelado.

Paul Rée, a Schopenhauer adept in his student days, took a doctorate at Halle in 1875 with a dissertation on Aristotle’s Ethics and that same year brought out an anonymous collection of psychologistic bons mots: Psychologische Beobachtungen. In 1877 he came into his own as Positivist, Utilitarian and Darwinist all in one with an account of how conscience must have originated” Nie. tinha que fazer muitas concessões para ter amigos, já vejo!

She took him out of her way home from Villa Mattei via the Coliseum, where she assured him beguilingly by moonlight that she was out for comradeship, not romance. Infatuated, Rée sent for help from his one close friend, Friedrich Nietzsche.

Rée had first met N. in 1873 through a common friend, the classicist and Kantian Heinrich Romundt, on arriving for a summer in Basel, where N. was professor and Romundt was visiting him. N. was then 28, Rée 23. With an old classmate of N’s, the dilettante Carl von Gersdorff, Rée attended N.’s course on the pre-Platonic philosophers.”

in (…) 1876 (…) the two were both just then positivistically surmounting Schopenhauer’s influence,¹ N. in his Human, All Too Human and Rée in his derivation of conscience. So congenial did N. find Rée both philosophically and personally that, after ‘enjoying the lovely autumn’ for some days with him near Montreux, N. took him along on a winter’s sick leave spent in Sorrento with Malwida von Meysenbug – by her gracious provision.”

¹ À minha idade atual. Quão doloroso não foi para mim chegar a esse estágio já aos 20? Mas e então – o que fiz desses 12 anos de dianteira? “Progredi” realmente em algo mais?

he is a moralist with the keenest vision – quite a rarity among Germans.” FN

he developed into a genealogist of morals in point-by-point opposition to Rée.” “Perhaps I have never read anything to which I have said no to myself sentence by sentence, conclusion for conclusion, in such measure yet utterly without vexation or impatience.” Prefácio da Genealogia

Gods were not natural forces divinized to the end of sanctifying official penalties, as Rée had it; they were tribal fathers to whom, by reason of the pain of being moral, a bad debt was felt to be owing – and growing. Moreover, religion did not merely underwrite official morality, but often enough rewrote it. For morality was transcending itself continually: today’s virtues were yesterday’s vices.” “N. too viewed the bad conscience as mankind’s mortal ailment, and at first too saw a quick individual remedy in the correction of certain intellectual errors, notably God and free will. He soon looked instead to a gradual ascendancy of mankind’s ‘intellectual conscience’, newly emergent, over mankind’s moral conscience, still at loggerheads with the herd-instinct. By 1882 he was dimly envisioning an inversion of values by ‘free thinkers’ (who would repent of their compassion, rancor and remorse [and of their repenting?]) preliminary to a transvaluation of values by a new, higher species of moral man.” Grifo meu.

Rée harked back to premoral man, N. forward to postmoral man – to a final, as against primal, innocence to be achieved through self-mastery and self-knowledge. For only N.’s thinking was bold. Rée’s irreverent philosophy was one long writ of impeachment against a tyrannical conscience – his own.” “Each bore the marks of a pressing personal alternative: melancholia and paranoiac megalomania respectively.” “Yet all along, even as he played up Rée, he played down their differences. In HATH he called Rée ‘a master of soul-searching’ and again ‘one of the boldest and coldest thinkers’. (…) Subsequently he added: ‘Long live Réealism and my good friend!’.” Genial.

AOS 33 (estou a 2 dias do meu aniversário, 2021): “Two years later N. was released from his university duties with a decent allowance because of his health. Subject to dire headaches, eyeaches and nausea since 1873, with ever rarer interludes of euphoric relief, he suffered the worse for imagining his father’s fatal ‘softening of the brain’ to be hereditary. [a fonte aqui é uma carta a Brandes de 1888]”

Foi um projeto longamente cultivado por N. e Rée morarem e viverem juntos, porém nestes tempos de convalescença e de necessidade de eremitismo filosófico N. hesitou primeiro, para em seguida rechaçar tal projeto com firmeza: não era seu destino levar uma existência tão ‘epicurista’!

N.’s distress on Rée’s account, while quite sincere, was only the outside story. The inside story was released to Malwida years afterwards, with a vengeance: <‘He’s a poor fellow, one must push him along’ – how often have I told myself this when his miserable, dishonest way of thinking and living revolted me. I have not forgotten the fury I felt in 1876 as I heard he would come along to you in Sorrento. And . . . in Sils-Maria I became ill at my sister’s news that he wanted to come up. [N. expressou sua vontade de não ser sob qualquer circunstância interrompido em seus trabalhos de verão, por carta, a Elizabeth.]>

On the outside, meanwhile, N. overrated Rée far more than was even his fond wont with friends. For Rée had no notion of N.’s mind beyond the narrow range of his own: all N. was contained for him in N.’s Réealistic sentence, ‘Every word is a prejudice’. And even within that narrow range N. was Rée’s master.” “By mail N. would exchange compliments with Rée but not ideas – for all Rée’s trying.”

Curiosamente, seu amigo também parecia sofrer dessa sinusite-dos-sábios: “I have had a headache now for some 14 months without even a minute’s let-up.’ Desabafo em carta, outubro de 1879.

E aqui eu muito agradeço Lou sequer estar sendo mencionada!

He mothered N., nursed him, read to him to spare his eyes, but then stole his symptoms” Como não deve ter sido prato cheio e apetitoso para um psicanalista estreito escrever essas linhas!

Both were precisionists with the pen, with a like penchant for epigram. N.’s prose was not lost to theory, however, but bacchanalianly live with it. It reveled in his thinking as he himself did; and amidst his solitude, his thinking ran riot with him. Timid as he was, it knew no taboos, so that he took wicked delight in it – while also shuddering at it as, beginning in August 1881, he conceived in turn the ‘eternal recurrence’, the ‘overman’, etc.”

And then it was that N. chose to <return ‘to men’>, as he put it – to come down from the mountain so as ‘to become human again’, like his Zarathustra in The Gay Science, then in preparation.”

Rée teria enviada uma máquina de escrever a N., que quebrou no caminho.

N. dizia de si mesmo em suas cefaléias horrendas: 7/8 (sete oitavos) cego.

Between times they went to see Sarah Bernhardt, who, overplaying Camille, burst a blood vessel on stage – ‘an unbearable impression.’

Your brother uses the typewriter all the time, only his blind groping for keys does give him lots of trouble.” Rée Lisbeth

Greet the Russian girl for me, if that makes any sense: I am greedy for souls of that species. In fact, in view of what I mean to do these next 10 years, I need them! Matrimony is quite another story. I could consent at most to a 2-year marriage” N. escreve nessa mesma carta que logo após essa frase a máquina de escrever “parou”.

Well before then, Lou was already counting N. in on her projected residential salon by reason of Rée’s and Malwida’s respective versions of him as the veriest positivist and veriest idealist.”

Gillot, o preceptor e quiçá proponente a marido de Lou, tendo enviado uma carta de censura sobre seus “projetos devassos” de se encontrar com dois homens (uau, arrebatadoramente imoralista!), Lou respondeu declarando sua emancipação, por assim dizer. Claro que nesse ínterim Rée foi sempre um joguete de seu coquetismo. Agora vinha mais um para diverti-la.

As for his [Reé] taking her [Lou] home on foot after midnight, arm in arm: what if someone had recognized them?! ‘And what would R. have done had an officer or anyone else been unpleasant to you – fought a duel?!!’ Malwida”

Malwida had glimpsed a first truth about Lou: she was not unmindful of sex and convention after all.”

O PRIMEIRO ENCONTRO (NA PRAÇA DE SÃO PEDRO, ROMA, ITÁLIA): “His hands incomparably beautifully and nobly wrought, his unusually small and delicately shaped ears, his fine, highly expressive mouth-lines, almost fully concealed by an ample moustache combed over them, his placid features in general together with his gentle laughter, his noiseless way of talking, his cautious, wistful gait, shoulders a little bent, his ultra-simple neat attire”

His defective eyesight lent his features a quite special magic in that they did not reflect varying outer impressions but only what was passing through him internally. They looked inwards, yet at the same time into the distance”

In return, N.’s eyes could barely make Lou out, while to his ears her voice was somewhat rasping.” Hahaha…

“‘It is unpleasant to be able to do nothing but plead in a matter so close to one’s heart’, she wrote Rée on April 25. [para N. postergar sua estada]”

N. cannot answer for how he will feel tomorrow, but would like to introduce himself to your mother before we meet again at the lakes.”

N. was not fit to leave before another week” “he explained to Lou that her chaste ménage à trois was not all that simple even with chaperon, as I should consider myself duty-bound to offer you my hand so as to protect you from what people might say; otherwise, etc. etc.” Que tempos!

Between times N. presented himself to Lou’s mother, who warned him that Lou’s self-accounting was strictly fantastical; he listened with one sharp ear.”

Finalmente no começo de maio o trio se encontrou novamente.

He spoke to her of the eternal recurrence, which made self-denial eternally foolish, and of his son-to-be, Zarathustra, due to transcend the slave morality of good-and-evil as the historic Zarathustra had transcended the master morality of good-and-bad.” Nunca um flerte foi tão imediatamente alto nível na História!

Lou was just not his buxom type”

Ida Overbeck later remembered him as then ‘most excited’ and ‘most hopefully confident’. For, she explained, ‘N. had given himself to the hope of having found his alter ego in Miss Salomé – of working with her, and through her help, toward his goals.’

That this photo was all Lou’s idea emerges from RéeLou (late May 1882): the Stibbe doctor would examine her as revenge for the photographing: I shall be as stubborn (about it) as you (were)’, and from RéeLou (mid-June 1882): ‘Picture arrived yesterday. N. superb; you and I hideous, can dispute the prize for ugliness between us. You see, Lou, for once you were not right after all.’ FNLou (28 May 1882) was more gallant: ‘Oh the bad photographer! And yet: what a lovely silhouette atop the rack-waggon!’

(*) “Natural science was presumably N.’s idea, but 1890a:224 is the sole source for the stock contention that he wanted to study it 10 years so as to ground the eternal recurrence physically (space and matter finite, time infinite), which is likely as fanciful as the neighboring one (ibid., 224-25) that, cursory study having disclosed the impossibility of ever grounding it, he clung to it only the faster (cf. Schlechta, Fall, 30ff.)” O que não é o tal do telefone sem fio, Mr. Graham!

O DISCRETO: “N. desired Lou’s ‘very existence’ to be kept secret from his mother and sister. Son and twice grandson of preachers, N. did not ridicule his family on account of its ‘Naumburg virtue’ without reverencing it on the same account, even unto fantasies of noble lineage: in nothing, declared Overbeck, was his ‘caprice’ more conspicuous. His sister, still his childhood sweetheart, had since HATH come to idolize his life as against his books, and he cherished her idolatry at heart even as he dreaded her jealousy.”

At all odds, Rée was already on intimate Du terms with Lou in Lucerne behind N.’s (and everyone else’s) back – as a ‘little brother’ with his ‘little sister’, to be sure, yet even fraternally he craved Lou’s exclusive affection.”

Rée’s aim of turning Lou over to N. was reversing itself: already he was aiming to turn her against N..”

II. FORM PILLAR TO POST

Paulão visivelmente agindo como fura-olho pelas costas via cartas: “I am and shall remain entirely your friend alone; I have no scruples about behaving a little crookedly, a little falsely, a little mendaciously and deceitfully toward anyone except you. Out of my friendship to you I make a cult; I regard as a sin – (what, Mr. Antimoralist?) – well, I mean: if I did or said anything false, dishonorable, unfriendly, crooked with respect to you, I would have a feeling just like the one believers may have after committing a great sin. And from this special uprightness I draw a justification for being false in generalEscreve como se falasse ao telefone…

Are we really going to see each other again – or have I only dreamed it!” P.R.

R. is from head to toe a better friend than I am or can be: mark well the distinction!”

Your Flush of Dawn is now my only companion. It entertains me in bed better than would visits, shopping, and travel dust. Could I but say: see you soon! Only remain so cheerful and healthy, everything will turn out very well.”

Let me know how you propose to arrange your time from Bayreuth on and what cooperation from me you are counting on. I now badly need mountains and forests: not only health but even more The Gay Science is driving me into solitude: I want to finish it.”

Naumburg is a frightful place for my health.”

But I would like to insist very strongly that you not get all wrapped up in N.’s work. I should have preferred your going your own way mentally, just to prove for once that, even in these highest realms of thought, a woman can stand alone and attain independent results.” Malwida – Não se estamos falando do maior filósofo da Europa moderna!

Above all, I hope N. himself steers another course than in his latest writings”

NEVER did I think that you should ‘read aloud and write’ for me, but I very much wished that I might be your TEACHER. To tell the whole truth: I am now seeking people who could be my heirs; I carry something around with me absolutely not to be read in my books – and am seeking the finest, most fertile soil for it. Observe my self-seeking!”

I was downright bowled over by the fact of having acquired a ‘new person’ after overly strict seclusion and renunciation of all love and friendship.”

tragically, N. alone in his day and age knew how far above that day and age he stood.”

I am now still occupied with very fine matters of language: the final decision on the text requires the most scrupulous ‘listening’ to word and sentence. Sculptors call this work of finishing ‘ad unguem’.”

As for Parsifal, on July 26 she stood through the first performance looking duly transfixed, tone-deaf though she was.”

I hate it when someone does something commonplace and then calls it by a fine name. (…) this talk of their living together was sheer drivel; even assuming that the girl had been quite ideally pure-minded, her habits of life were so different from ours. Fritz is so painfully orderly, exacting, and ascetically inclined” EN

Lou’s earliest Nietzschean apologists themselves (Bernoulli, Halévy, Andler, Hofmiller) all maintained that she was a passionate Wagnerite—indeed, that this was the root of the evil.”

One day a bird flew by me, and I, superstitious like all solitary people who stand at a turning of their way, believed I had seen an eagle. Now the whole world is at pains to prove to me I am mistaken—and there is urbane European prattle about it. Who is better off now—I, who as they say was ‘fooled,’ who spent a whole summer in a lofty world of hope on account of this bird omen, or those who are ‘not to be fooled’?—And so forth. Amen. . . . —Now I am ‘a bit in the wilderness’ and pass many a sleepless night. But no despondency! And that demon was, like everything that now crosses by path (or seems to), heroic-idyllic.” FNPT (Peter Gast)

Relato de EN das palavras de Lou: “he’s a madman who doesn’t know what he wants, he’s a common egoist who wanted only to exploit her mental gifts, she doesn’t care a hoot for him but if now they didn’t go to a city together it would mean she weren’t ‘great’, that’s why Fritz doesn’t want to study with her—so as to shame her. What’s more, Fritz would be crazy to think she should sacrifice herself to his aims or that they had the same aims at all, she knew nothing of his aims. Besides, were they to pursue any aims together, 2 weeks wouldn’t go by before they were sleeping together, men all wanted only that, pooh to mental friendship! and she knew first-hand what she was talking about, she had been caught twice already in that kind of relationship. [com ‘papai-Deus’ e a porra dum padre-tutor!]

As I, now naturally beside myself, said that might well be the case with her Russians only she didn’t know my pure-minded brother, she retorted full of scorn (word for word): ‘Who first soiled our study plan with his low designs, who started up with mental friendship when he couldn’t get me for something else, who first thought of concubinage—your brother!’

utterly out of my element: never in my life had I heard such indecent talk (here I have reproduced it all with propriety at that). And a 21-year-old girl was saying these things, especially about men generally and my brother in particular, and when on top of it all she had proposed their living together!! What is one to think of such a girl?! In the evening, when we were in Tautenburg and Fritz was out looking for a place for us to stay, she broke out again in a fury against Fritz and became downright grossly indecent, as when she said full of derision: ‘just don’t go thinking that I care beans for your brother or am in love with him, I could sleep in the same room with him without getting worked up.’ Would you believe it possible? I too was altogether beside myself and shouted at her repeatedly: ‘Stop this indecent talk!’ ‘Pooh,’ she said, ‘with Rée I talk a lot more indecently.’ She had also told me Rée had told her that Fritz was thinking of a concubinage. So now I told her: All right, I would ask his mother, whereupon she was furious and threatened to get back at me, and she did. I was utterly miserable and didn’t sleep a wink. . . . Oh what a martyrdom for my sensibility the whole story was! . . . The moment she believed she could draw no further advantage from his fame she fell upon him like a wild animal and tore his good name and reputation to bits and trampled on them. . . . The girl is not out to marry Fritz, she just wants to become famous through him. She wants to marry only a rich man because she needs lots of money and has none.”

Again Lisbeth’s account was in substance unquestionably faithful throughout. It depicted a veritable hysterical outburst on Lou’s part modulated by an impish impulse to make Lisbeth squirm in her straight laces. Lisbeth was indeed shocked—for life.”

AH, A TURMINHA DA PSICANÁLISE! “In after years Lou herself, even while officially scouting the whole vulgar incident, represented the contents of her tirade equivalently in diverse contexts; as to its form, in old age she projected the hysteria onto Lisbeth by having her vomit in shock”

Heavens, she had never imagined I still had such retarded views, so what if he had intended concubinage? That would be nothing degrading surely, they were above conventionality so it couldn’t degrade Fritz and she hadn’t meant it to.” EN

Rée, then heading for Helgoland to wait on Lou’s pleasure, did his best to sustain the lovers’ quarrel by mail. He took it out especially on Nietzsche’s shift of philosophical course. By mid-August, however, he was reduced to taking it out on his own jealousy. For through a diary installment Lou told him about having spent a radiant August 14 with Nietzsche away from Lisbeth ‘in the quiet, dark pine forest alone with the sunshine and squirrels’, adding: ‘Conversing with Nietzsche is uncommonly lovely . . . but there is quite special charm in the meeting of like thoughts and like emotions; we can almost communicate with half words. . . . Only because we are so kindred could he take the difference between us, or what seemed to him such, so violently and painfully. . . . The content of a conversation of ours really consists in what is not quite spoken but emerges of its own from our tacit exchanges. (…) But is it good for him to spend the whole day from morning to night in conversation with me, hence away from his work? When I asked him this today, he nodded and replied: But I do it so seldom and am enjoying it like a child. The same evening, though, he said: I ought not to live long in your vicinity. We often recollect our time together in Italy and . . . he said softly: monte sacro—I have you to thank for the most bewitching dream of my life.Lou came close to perceiving a sorry truth: in nothing was she so akin to Nietzsche as in her passion for half-spoken words that denied as well as implied their unspoken half.”

What will become of him? He cannot again devote so much enthusiasm and energy to a cause.¹ A second love is no love. And will anything come of this one? Besides, there is subtle charm to the fact that one often does not clearly understand what he is saying and so supposes more behind it than is there.² Snailie [apelidinho mongolóide entre a puta e R.] will laugh and say pure envy is speaking out of me. Perhaps—”² O limitado Rée

¹ Os maiores livros de Nietzsche ainda estavam todos por ser escritos.

² Já devemos congratular este simplório pela astúcia de entender que havia algo que não podia entender na filosofia nietzschiana…

And I’m somewhat jealous too meanwhile, naturally—understandably. . . . Just you wait, Snailie. [Smeagol] . . . Now that you’re friends again with Nietzsche, enough! More you don’t need, do you hear, Snailie?” Patético.

É a historiografia dos fortes? O que é ‘fortes’?

III. “A PITY FOREVER”

TALK HAD set them asunder; talk brought them back together. Morning, noon, and night the two talked—in the pine forest, on an inn terrace beneath lindens, along precipitous chamois paths, in her room and in his. They talked of unholy things—of squeamishness about suffering as inhibited delight in it (‘we did not dare look at each other afterwards’) and, over a cognac (‘Ah, how foul it tasted!’, he exclaimed), of his potential for madness. More academically, he argued the original ascendancy of the ‘herd instinct’ over Rée’s constant: egoism. Yet religion was, he later remarked, ‘really our sole topic’. They discussed how each had relinquished his childhood faith—he all at once and effortlessly, she with a painful struggle of mind against heart.”

Odd—how in our talks, without meaning to, we always wind up on the precipice; anyone listening to us would think 2 devils were conferring.” L.

Nietzsche found Lou’s prose sorely wanting yet readily corrigible.”

She labored her diary for his scrutiny too. ‘I have excessive confidence in his power as a teacher’, she entered on August 14. By August 18, however, he has ‘given up on being my teacher; he says I should never have such a prop’ – which on their terms meant never be a woman.”

She resolved on Nietzsche as author, in lieu of woman as such, as the subject of her first full-scale study.” “She had caught him at the ideal moment: in transition – or, as he preferred, transcendence. After 6 years of impassioned positivistic self-restraint, he was about to burst into didactics and song. [?] With his help, she found that he would she himself (sic) a new philosophic purpose in order to deliver himself from the pain of instinctual discord whenever an old one lost its grip on him, and that he would face up to each new purpose as to ‘something cut off from himself and to be endured by him’ – whereas she would struggle painfully toward her one (unspecified) goal felt to be an innermost necessity.”

So ended Lou’s Tautenburg diary. From merely romanticizing his every sign of fondness for her, she had gone on to divinize N. in her own likeness.”

“‘Two things my philosophy forbids me unconditionally: 1. regret, 2. moral indignation. Do be sweet again, dear Llama!’ Llama stayed sour, and Nietzsche shortly reported to Overbeck: I have the Naumburg virtue against me, there is a real break between us – and even my mother so forgot herself with one remark that I packed my things and left for Leipzig in the morning.’ He was to specify thereafter: ‘My mother called me a disgrace to my father’s grave.’

I have no call at all today for praise or blame – a further reason to write no letters.”

FNL “Read Sanctus Januarius once in context! There stands my entire private morality as the sum of my requirements for existence: they prescribe only an ought, in case I do not want to myself.”

Lou at all odds read Sanctus Januarius – and blithely took the passage exhorting an estranged friend to be one with candor and good grace for a message to Rée. § Rée looked just a bit contemptible to Lou after Tautenburg – and felt rather more so. On a note of apology, he promised N. a frank talk in Leipzig. Under the same cover he announced that Lou had won him over to N.’s view that egoism had been celebrated before coming to be reviled: he was back at playing second fiddle, only now under Lou’s baton.”

“‘stellar friendship: our earthly ways have parted, but let us trust that, though we may yet become earthly enemies, our celestial orbits will cross again sometime’ Science. N. unquestionably had Wagner on his mind when penning this passage (though Hofmiller, without dissenting, located the germ of it in FNO, 14/11/81) – but R. may have already been at the back of his mind then and certainly was in 9/1882).”

the oldest signification of ‘good’ was distinguished, powerful, rich, and of ‘bad’ lowly, weak, poor: this was Rée’s one new Nietzschean thesis since his Ursprung.” Ao que consta, Lou ‘convenceu’ Rée de que a filosofia de N. era mais correta que seu ponto de vista liberal-pragmático.

With that, Rée was ready to crawl contritely out of the Trinity.”

as I have lost my natural sister, a preternatural one is due me.”

Between times, Lou was again N.’s self-willed schoolgirl. They discussed her plans for a study of religious history as well as her draft sketch of his life and works.”

Rée era o passivo da não-relação.

I do not like feelings where they reconverge in their circulation, [?] for that is the point of false pathos, at which truth and integrity of feeling are lost. Is this what is estranging me from N.?” Ficou xonadinha e não quis dar o braço a torcer.

Lou “Maia”: ela e o véu – e nada mais!

Dedicatória no exemplar de HDH:

Freundin – sprach Kolumbus – traue

Keinem Genuesen mehr!

Immer start er in das Blaue,

Fernstes zieht ihn allzusehr!

Wen er liebt, den lockt erg erne

Weit hinaus in Raum und Zeit –

Über uns glänzt Stern bei Sterne,

Um uns braust die Wigkeit.”

The Columbus theme in Nietzsche’s poetry goes back to his ‘Colombo’ of 1858, one of his many youthful poems about sailing the high seas – but the only actual sailing he ever did was that to and from Sicily in 1882.”

Even writing letters to my sister is no longer advisable – except for those of the most innocuous sort (I sent her another letter full of merry verses lately).” Nietzsche a Overbeck, 27?/8/1883

How shallow people are to me today! Where is there a sea left in which one can still really drown? I mean a person.”

Then he moved on to Columbus’s city, from which he had originally sailed to meet Lou – in the wrong direction. He had come full circle.”

All nearness makes one so insatiable – and in the last resort I am an insatiable fellow on the whole. – From time to time we will see one another again, won’t we?” NR

Mind? What is mind to me! What is knowledge to me! I esteem nothing but impulses – and I would swear we have something in common here.”

de espírito-livre a corpo-livre lá vai um, lá vão dois, três abismos!…

Affects are devouring me. Dreadful pity, dreadful disillusion, dreadful feeling of wounded pride – how can I stand it any longer? Isn’t pity a feeling out of hell? What should I do? Every morning I despair of lasting the day. I no longer sleep – what good does 8 hours’ walking do! Where do I get these violent affects from! Oh some ice! But where is there ice left for me? This evening I’ll take opium till I lose my mind.”

A cat’s character: that of a beast of prey posing as a domestic animal. Nobleness as reminiscence about association with noble people; strong will, but with no great object; without diligence or cleanliness, without civil probity; cruelly misplaced sensuality. (…) Capable of enthusiasm for people without love for them, yet love for God: need for effusion (…) only some basic mishap in your upbringing and development has temporarily crippled your good will for this. Just think: that cat-egoism unable to love any longer, that professing nothing together with a feeling for life . . . and then knowledge as a pleasure among pleasures. And if I understand you at all: these are all voluntary and self-imposed tendencies with you – for as much as they are not symptoms”

A MACACA DE ZARATUSTRA: “In her loss of herself she was that strongest offense to him: ‘the caricature of my ideal.’

His sister – who, according to a draft to Malwida, ‘regards Lou as a poisonous reptile to be destroyed at all costs’Só porque uma mulher não presta, não quer dizer que sua inimiga preste.

Souls such as yours, my dear sister, I do not like: and I like them least when they are morally bloated.”

For heaven’s sake, what do these little girls of 20 think who have pleasant feelings of love and nothing to do but be sick now and again and lie in bed?”

Formerly I was inclined to take you for a vision, for the earthly apparition of my ideal. Observe: I have poor eyes. . . . Had I created you, I would have given you better health, to be sure, but first of all some things that matter far more

Twins spiritually, they were sexually the titillating reverse. Only the same taboo on both sides brought their mating to a stalemate as its sexual motive loomed lurid to them both” mating!

I tense all my fibers for self-mastery – but I have lived in solitude and fed on ‘my own fat’ too long, so again I am the more readily racked by my affects. Could I but sleep!” NO

Today something occurred to me in passing that made me laugh hard: she actually treated me like a 20-year-old student – a quite permissible approach for a girl of 21 – like a student who had fallen in love with her. But sages like me love only ghosts. Woe if ever I love a human being – I would soon go to ruin. Man is too imperfect a thing.”

But Lou, what letters you write! Little vengeful schoolgirls write that way: what use have I for such paltry stuff? Do understand: I want you to raise yourself before me, not lower yourself still further.”

In Lucerne I gave you my piece on Schopenhauer: I told you that my basic views were in it and that I believed they would be yours too. You should have read it and said no then: much would have been spared me.”

What would you reply if I asked you: are you honest? are you incapable of duplicity? . . . In your mouth, such a poem as To Pain is a deep untruth. In such matters I hate all superficiality. Only a high purpose can make people of your sort bearable to others.”

No, my dear Lou, we are nowhere near ‘forgiving’. I cannot shake forgiveness out of my sleeve after the offense has had 4 months in which to burrow into me. . . . Adieu, my dear Lou, I shall not see you again. Preserve your soul from such doings and make good with others (…) Adieu, dear Lou, I did not read your letter through, but I read too much already.”

Fast upon his ‘adieu’ to Lou, and just 9 months after meeting her, he delivered the first book of So Spoke Zarathustra, written in a trance, as if from inner dictation, in 10 ‘absolutely serene and fresh January days’.” A melhor contribuição (maculada, fenomênica concepção) desta mulher ao mundo!

Now on February 13, 1883, his first Zarathustra was ready for the printer – ‘in just the holy hour in which Richard Wagner died’, he later specified.”

My severance from my family is beginning to appear to me as a true blessing; oh, if you knew all I have had to overcome on this score (since my birth)! I do not like my mother, and hearing my sister’s voice upsets me: I have always fallen ill when together with them.”

With spring (…) the second book of Z. emerged.”

As for the typewriter, it is on the blink like everything weak men take in hand for a while, be it machines or problems or Lous.” NLisb.

Things are moving again. My sister wants her revenge on this Russian – well and good, only so far I have been the victim of her every initiative. She does not even notice bloodshed and the most brutal possibilities hardly an inch off.” NO – poderia estar falando da bestialidade alemã de décadas à frente, sem qualquer reparo!

And do not worry about my false footing with my sister; the truth is that all my footings so far with everyone have been false: she was at least as much affronted as I was, with good right too, and if now she means to work it out for Lou to be sent back to Russia, she will be doing more good if she succeeds than I with my asceticism. Of a sudden Dr. Rée steps into the foreground: to have to relearn about someone with whom I shared love and trust for years is frightful.” NIda O.

From all that I have now learned – of far too late! – these 2 persons, Rée and Lou, are not worthy of licking the soles of my shoes. Excuse the all too human metaphor! (…) Schopenhauer-style ‘pitying’ has so far always done the top damage in my life”

About suicide – a thought that every lengthy letter from N. in over half a year has expressed – I feel quite as you do: nothing can make it acceptable except desperation.” OGast

I would delight in giving you a lesson in practical morality with a few bullets: maybe in the best case I could manage to deter you once and for all from dealing in morality, which calls for clean hands, Dr. Rée, not clammy fingers!” NR

Ao irmão de Rée, teria dito algo que se aproxima, na tradução, a macaca fétida e esquálida com enchimento (falsos peitos). Adorável!

Enmity is incompatible with my whole philosophy and way of thinking”

RE-JOYCE WITH YOUR INNER POSSIBILITIES!

o rato roebens (rói bem!) a (consciência da) roupa do rei de remorsuras e inteleitos

mas ao pai de todos os reis, a punição mais severa –

a impossibilidade da reconciliação com um seu igual em temperamento.

…posto que se aproveitam de minha nobreza!

I no longer know how to live; it is on my mind continually.”

Se misturar com a ralé, Nietzsche, é da vida! – segue o jogo… Cada um à parte, com sua parte.

Never before did I hate anyone – not even Wagner, whose perfidy went well beyond Lou’s. For the first time I feel humbled.” Imagina-te filho de um Wagner, e não de um pastor que morreu sem dar trabalho…

long a stranger to practical life, I act 49 times out of 50 on a motive no one seeing me thinks of, so that I almost always arouse misunderstanding and wind up my own victim.”

engolindo e vomitando sapos como devora-se o pão de cada dia, mas não a ponto de estar cego a quem diabos sou ou devenho…

Such pain (it was as if a knife had been put to all my sore spots at once!) is a high distinction. My body and soul are so constituted that I can suffer frightfully in both: and as for my soul, I was last year like someone who for many, many years running had experienced nothing: whence my soul was without any skin or natural protective device.”

Given her energy of will and originality of mind, she was headed for something great; given her practical morality, though, she may well belong rather in a penitentiary or madhouse.” O clubinho das Quartas-Feiras não deixa de ser ambos: por fora, ‘something great’ (de acordo a pseudo-historiografia do séc. XX), porém um asilo ou penitenciária até a medula! Nada menos que profético, meu caro e jamais superestimado ídolo!

you cannot imagine how this madness rages in my day and night.”

Ajude-me a sobreviver mais 15 meses! = foi ele, mas poderia ser eu neste fim de maio, o segundo maio da pandemia!

The separation from you threw me back into the deepest melancholy, and the whole return trip I was lost to evil black sentiments, including true hate for my sister, who for one year now has deprived me of all self-control with ill-timed silence and ill-timed talk”

He nonetheless left for Naumburg [cidade das duas víboras-de-família] a few days later – and there, in a month of being tirelessly chided and taunted, the crisis passed. Lisbeth had found ‘something absolutely distracting’: anti-Semitism, the highest lesson she had drawn from the Trinity fiasco. That month Naumburg celebrated her engagement to Bernhard Förster, who was laying plans for Aryan colony in Paraguay.”

By April he had broken with Lisbeth again – this time ‘radically’, for ‘between a vengeful anti-Semitic goose and me, conciliation is impossible.”

Despite all this forfeiture, and for all his show of anguish and fury, he surmounted the sentimental casualty of ‘82 more rapidly, more fully, and more healthily than either of his 2 erstwhile consorts.” [!]

IV. LOU WITHOUT NIETZSCHE

– His is a beautiful mouth.

– But, Miss Salomé, how would you know? His mouth is overcast by a formidable moustache.

– Yes, but when he opens his mouth (and how often I did speak with him!) I see his lips perfectly.

too odd a girl to be easily made out . . . a likable, winning, truly feminine being who renounces all womanly resources in the struggle for existence and instead takes up men’s weapons with a certain harsh exclusiveness. Sharp judging and, as it turns out, condemning of everything; no trace of mercy, so dear to woman; clear resoluteness in every word, yet her character only appears the more one-sided for being so resolute in its one direction; music, art, poetry are discussed, to be sure, but gauged by a strange standard: not pure joy over their beauty, pleasure in their form, comprehension of their substance, poetic enjoyment with heart and soul, no – only a cold, too often negative, corrosive philosophizing about them.” Ludwig Hütter, filósofo alemão, resumindo o caráter e a mente inócuos da ‘valley girl’ Lou a Malwida

Fidelio was ‘not bad’ – to cite one small example.” (Ignora-se se se refere a Rée ou Lou – mas faz diferença?)

I dislike that skepticism which picks holes in everything and yet can offer nothing positive.”

Deussen¹ was, like Romundt, an old friend of N.’s, and Stein a new enthusiast – the one sort being then about as rare as the other.

¹ FN, Genealogy, III:17, called Deussen ‘Europe’s first real expert in Indian philosophy.

Nie.’s occult sway over ‘our friends’ brought home to her his superiority as nothing else could – to the detriment of her chosen alternative to him.”

The Danish cultural historian Georg Brandes, later N.’s 1st notable publicist, evidently escaped detection.” (Aludindo provavelmente a sua possível origem judia – e Paul Rée era um anti-semita!)

In the spring of 1883 Lou and Rée urged a friend of Brandes, the brilliant young sociologist and ardent Nietzschean of the first hour Ferdinand Tönnies, ‘with friendly-violent insistence’ to join them on a trip to the Engadin.”

Paulsen, outro amigo do “círculo”, a Tönnies: “though I by no means like leaving you alone to the Rées and Nietzsches, I much enjoy conversing with Rée but do not expect I could live close to them. There is something morbid there…”

Lisb., 1/9/1900: “I believe Georg Brandes also first heard his name [N.] from me, in the winter of 1879/80 at Friedrich Paulsen’s house”

Tödo mundo cai no cönto dessa sereia: “She is really an altogether extraordinary being: so much cleverness in a 21-year-old girl would almost make your flesh creep were it not for her truly tender disposition and utter demureness. She is a phenomenon that must be seen from close up to be believed. And a single look suffices to annihilate any thought of a ‘woman of loose ways’, as the preacher says: cut off both my hands if I am mistaken!”

On July 26 Tönnies struck the first sour note by complaining of senility as he turned 28.”

There, Lou forgave Tönnies only pro forma and would not see him alone, much less let him call her ‘dear Loulou’ as of old.” HAHAHAHAHA! O irônico é que Tönnies não cometeu nenhuma gafe ou indelicadeza (“dar em cima dela”, seria a 1ª suspeita de quem lê), não nesse sentido: para Lou e Rée, que o incumbiram de uma missão – ver Nietzsche e convencê-lo a arranjar as pazes entre os 3 – ele fracassou além do permitido ao sequer ter conseguido tocar no assunto durante sua visita. Diz em carta que “os olhos semi-cegos porém penetrantes do meu interlocutor me preveniram de qualquer iniciativa”.

He bought Lou a copy of Zarathustra I and read to her from it. She was not a pleased father.” Hahahahaha!

N.’s mid-summer fury [nas cartas cheias de invectivas, a ela, a Rée, ao irmão de Rée e à mãe de Lou! – sem falar das piores ainda, de Elizabeth] had left Lou doubly apprehensive of forcible repatriation” A família Nietzsche era tão influente a ponto de sujar a honra da virgenzinha e torná-la persona non grata na Alemanha? Ou Na Europa inteira, já que esses pseudo-intelectuais faziam viagens quase toda semana para diferentes pontos da Itália, principalmente… Aqui entendo o sentido: a mãe de Lou seria convencida a cortar as ‘finanças’ da idle girl…: “The point was to acquire a profession in any case and maybe even a livelihood just in case.”

Desnecessário dizer que ninguém do “círculo” apreciou o hoje imortal 1º volume do Zaratustra. O próprio circunspecto Peter Gast teria dito, tolamente: “Eu acho que a doença afeta sua escrita”.

Sua tática defensiva (permanecer fora da Prússia por 18 meses e estabelecer-se profissionalmente) era válida somente contra a família Rée; mas ela se preocupava sumamente com a sua. Meio século depois ela ainda insistiria: ‘Eles tentavam me deserdar de volta para casa’ – acrescentando, incoerentemente, que sua família concordara, então, com seus planos de publicar um livro como meio de obter uma ‘permissão de residir no estrangeiro’.” “Im Kampf um Gott [o wannabe-book] Um esforço por um Deus, um romance à dupla chave [double clef, seja lá o que isso significa] –, recounted Lou’s Nietzsche experience not only disguised, but modified in accordance with her attendant hopes and fears. Her narrator-hero was Kuno (Nico), a preacher’s son who, having lost the paternal Faith in his youth, seeks to override the resultant ‘inner conflict’ by setting himself successive intellectual tasks contrary to his inclinations.” E essa BABOSEIRA vem da pena de quem achou Zaratustra ruim? Ok.

Lou’s allowance from home may have been cut in 1883 (in any case Rée escravoceta paid most of their way).”

No “romance” a personagem louaniana recusa uma proposta de Kuno em casamento; Kuno sai da cidade aliviado; Lou comete suicídio envenenando-se! Patético. E depois o romance se prolonga, com Kuno voltando e conhecendo uma filha sua com Lou, crescida, de quem esconde a identidade, e com quem tem um caso. Nauseante. Três vezes patético!

Through Margharita’s inner misgivings over her cat-egoism, Lou was retracting her final, self-justificatory letters to N.; through Margharita’s noble shamming of depravity, Lou was roundly refuting N.’s final indictment of her; through M.’s suicide, Lou was living up to a remark of N.’s, proudly noted by her, about how a nature as ‘concentrated’ as hers really ought to issue in a deed.” Parabéns a Binion por analisar essa merda com tanto esmero – páginas e páginas!

More immediately it was a secret message to N. (like ‘Märchen’s love-recognition at Nico-end’): the declaration of a love that could never be. In the spring of 1884 the hapless lovers communicated indirectly, probably through Romundt. N. learned that he had ‘actually done her much harm’ the preceding summer as also that she was in Meran with Rée and about to publish ‘something on religious affects’. She on her side heard that N. was ready to resume relations.”

she was in Munich afterwards with Stein, whom she engaged to plead before N. for a reconcilement – and mention her novel to him. Then Stein visited Sils for 3 enchanting days beginning August 26. He not only mentioned the novel, but also, N. told his mother, ‘spoke with the highest regard of Dr. Rée’s character and of his love for me – which did me much good.’ As for the plea, it went unheard, having perhaps been inaudible.”

Lou was back in Berlin by December, when her novel appeared. It brought Henri Lou, (?) besides rave reviews, a satchel-load of fan mail. One enthusiast declared: I and a whole circle of kindred spirits to whom I took your confession wish to express our warm and sincere gratitude’Zzzzzz…

My friend Ebbinghaus called it ‘nun’s fantasies’.” Deussen

Overbeck himself judged it ‘the most astonishing book I have read this year.’ He subsequently sent it to N.’s old friend the classical philologist Erwin Rohde, who ‘read it with much interest. For all its great faults (its bodilessness, ghostly spirituality, etc.), it is enticing by virtue of the pure ardor and genuine sentiment bursting forth throughout.’N. também leu o livrito.

A mulher deseja se tornar independente, então ela começa a esclarecer o homem acerca da ‘mulher enquanto tal’: isso é um dos piores progressos no enfeiamento geral da Europa.” Além do Bem e do Mal

Considero o verdadeiro amigo das mulheres aquele que assim as aconselha hoje: mulier taceat de muliere (mulheres devem silenciar sobre a mulher)!”

quando a mulher tem tendências intelectuais, amiúde ela não é sexualmente saudável”

alguém de gênio é insofrível quando lhe faltam ao menos duas coisas: gratidão e asseio”

quem, para salvar sua reputação, jamais sacrificou, pelo menos uma vez, – a si mesmo?”

Eterno masculino” (cunhado por Goethe): a característica de quem sabe, reconhece e exalta as mulheres mais nobres.

Toda sua seção sobre as mulheres em Beyond está repleta de Louísmos virados contra Lou, muito além de seus desertos [Aqui não fica claro o que eu deveria traduzir por ‘well beyond her deserts’ – As puerilidades e futilidades da mulher em geral, de Lou Salomé? Dos aforismos sobre o feminino que Lou tinha elaborado e que N. corrigiu com paciência?] [ou carências?] (ecoando, entretanto, [O que é que ‘ecoava’? o deserto, ou os ‘louísmos’ de N.? ou os louísmos da própria Lou?] o discurso zombeteiro da mulher como ente muito mais talhado para gerar um filho que para competir com o homem): foi sem dúvida a pior conseqüência intelectual de seu encontro.” Se Binion diz!

Convencer o homem a tê-la em alta consideração; para em seguida, implicitamente, acreditar na estima que o homem nutre por ela: quem sabe melhor que a mulher realizar essa mágica?”

alternativa:

Convencer o homem a tê-la em alta consideração; inconscientemente, acreditar na própria nobreza como coisa dada: quem melhor que a mulher para fazê-lo?”

ou ainda:

Convencer o homem de que ela vale muito; acreditar no homem: não é este o truque supremo da feminilidade?”

…depois conferimos o aforismo 148 nas traduções já existentes em Português para uma pós-avaliação!

Mais abstrata é a verdade que se quer ensinar, melhor se deve cativar os sentidos com ela.” Algo de que Heidegger certamente é incapaz…

As colossais expectativas depositadas pela mulher no ato sexual e seu pudor concomitante frustram desde sempre toda a sua vida sexual.”

one should talk only about what one knows firsthand”, assim resenhou N. o livro de Rée sobre a consciência, hahaha!

Rée then separated after all from his soeur inseparable: ‘86 found them living, as Lou then put it, ‘at opposite ends’ of Berlin ‘like children mad at each other’. (…) Besides, Rée had had enough of chaperoning Lou, and Lou enough of his chaperoning.”

The previous fall Rée had again failed his examination for a university lectureship, this time in Strasbourg, whereupon he had commenced studying the natural sciences with a view to grounding his moral philosophy in them” O nível do cidadão…

Mais meia dúzia de velhos babões pediram a mão da russinha em casamento, blá, blá, blá…

Finally, after returning from a few weeks in Bavaria spent principally with Jenia, Lou received a proposal from Fred Charles Andreas, a prodigious philologist [define it!]; the engagement followed secretly on November 1, 1886.”

Afterwards he studied medicine, zoology, and mineralogy at Halle and Göttingen, and at 22 he took a doctorate in oriental philology at Erlangen.” Morou muitos anos na Pérsia: “Only when he injured his eyes deciphering inscriptions in bright sunlight did he return to Europe – as courier to his royal patron, himself en route to Wiesbaden for eye treatment.”

By ‘87 he had mastered Greek, Latin, Pahlavi, Sanskrit, Old Norse, Aramaic, and Hebrew, in addition to Javanese, Dutch, German, French, the Scandinavian tongues, English, Hindi, Arabic, Turkish, Armenian, and just about every dialect of Persian, from Afghan to Baluchi (including Dravidian Brahvi) to Ossetic to Kurdish. Furthermore, in each case he had an expert’s knowledge of the corresponding literature, religion, and folklore, as also of the history, geography, and archaeology. He deciphered inscriptions with surpassing ease, memorizing even as he deciphered. (…) His special concern was how dead languages sounded, particularly how sounds relates to writing and how dialects emerge, then vary; he intended to do a great book on all this once he was settled professionally.” Mas vacilou e o pai da Lingüística foi Saussure e não ele!

POR ISSO NÃO GOSTO DE PSICANALISTAS BIOGRAFANDO: “Whereas he called himself Charles, Lou called him Fred (in writing, mostly ‘F.’), and soon after their engagement he Germanized his given names to Friedrich Carl. This hints at Nie.. So do his age and profession, his interest in Zarathustra, even his eye trouble – and a friendship with Erwin Rohde.”

Done with Lou as far as he knew, N. turned against R. in July 87 with The Genealogy of Morals, subtitled ‘a polemical piece’. In the preface he declared his arguments of 1876-86 against Rée’s moral theory to have been just that, pretending, however, to have drawn them from an age-old theory of his own about to be expounded in full for the 1st time – whereupon he presented them newly consolidated, sharpened, rectified, amplified, supplemented, and cleansed of Darwin’s and Bagehot’s traces. By predating this theory before his acquaintance with Rée, he was extirpating Rée from his past. He was also repudiating Rée the positivist par excellence when now he represented the scientific ideal as a derivative of Christian asceticism, Europe’s mortal malady, and repudiating Rée the rationalist par excellence when now he treated thinking as instinctual like everything else in life, only surreptitiously so. Thus confuted, R. became for him ‘congenial Dr. Rée’ again. And then, while in Ecce Homo he claimed to have meant himself by his Human, All Too Human tribute to ‘one of my friends, excellent Dr. Rée – fortunately too fine an animal to . . .’, (!) he also supposed that a subsidy remitted to him by Deussen from ‘unknown Berlin admirers’ came out of Deussen’s own pocket and, he told his mother, Rée’s.”

Genealogy does retain Bagehot’s distinctive frame of reference – nature’s huge enterprise of making the human animal law-abiding – but no hint at a natural selection of those primitive tribes having the hardest cakes of custom. As for Darwinism, the old ‘herd instinct’ gave way to the slavish principle of strength in numbers.”

Carta a Rée de 1877: “I ever more admire how solid your exposition is on the logical side. Yes, I can do nothing like that, at most sing or sigh a little – but prove! for the good of the head! That you can do, and that is of 100x more consequence.”

Rome viewed the Jew as something against nature, an antipodal monstrosity so to say” Genealogy of Morals

the big news in The Genealogy of Morals, crucial to its whole argument, is the world-historical role of the Jews, a sly priestly folk with a genius for rancor, who, subjugated by Rome, incite the slaves of the Empire to moral revolt against their masters, thereby determining a unique historic reversal of values with modern nihilism as its final consequence – pending a transvaluation of values.”

O mestre deveria aprender ao inverso: compaixão pelos escravos e suportar o ressentimento dos escravos.” Sempre achei que a forma mais cristalina desse axioma está contida não na Genealogia, mas no Crepúsculo dos Ídolos

Mulheres… todas gostam de mim – esse fato é de há muito conhecido: exceto as abortivas, as ‘emancipadas’, que não têm o que é preciso para gerar descendência.” Ecce Homo

Nem se eu enlouquecer eu mando cartas pra vocês!

Rée took his medical degree in 1890, then set up in Tütz as a medical saint. Living alone in a hut on the family estate, he tended the community free of charge for 10 years without a break. He would carry bread and wine to poor patients beneath his priestly mantle and readily finance trips to the distant clinics. He came to hate Lou, and he dismissed N. as all ‘morbid vanity’ and ‘raving’ in ‘clever’ and ‘beautiful’ phraseology. He was preparing a supreme opus, Philosophie

He was still deriving transcendental concepts such as ‘justice’ from selfishness progressively rationalized – still writing history a priori, only now without wasting labor on corroborative research. His philosophy, once daring, was now dated: like his counterpart the Count, he had outlived himself – and not only philosophically.” Acabou com o jumento!

He died on October 28, 1901”

Tönnies também possui um artigo devastador, chamado simplesmente ‘Rée’.

As for Malwida, Hütter recollected that, when he asked her about Lou in 92, she ‘replied – gruff, embittered, deprecatory (not at all like herself) – <I was deceived by her. She let me down>, something like <unworthy>. I said no more…’

V. THE WAYWARD DISCIPLE

With Fred she proved frigid: the marriage could not be consummated.”

She ruled out divorce because of ‘the bond, the word… – they retain their sting: he is still alive, he is, exists, and you have abandoned your freely chosen task!’”

[1890] Throughout most of Europe, Realism had already yielded to Naturalism on stage and in letters a decade or two earlier. That is, the inescapable banalities of social life had yielded to its inextricable problems, the pointless norm to the pointed extreme, occurrences and recurrences to situations, data to theses. Flaubert having shown that adultery was as dull as marriage, Ibsen and Strindberg were now showing that marriage was anything but dull given its inherent perils, including adultery – and dullness. In Germany, though, where Realism had been best known in translation, Naturalism was naturalized belatedly – on the stage for the most part, and with a strong admixture of dialect, reverie, and rhyme. Just so it created a scandal: on October 20, 1889, the Freie Bühne’s first domestic offering, Vor Sonnenaufgang by the unknown Silesian dramatist Gerhart Hauptmann, drew riotous cheers and jeers for blending didactics, lyricism, and crudity.”

As mulheres foram até hoje tratadas como pássaros pelo homem” Beyond Good and Evil

She advocated the emancipation of women, but with the proviso that new, self-given obligations and interdictions should replace the old, man-given ones.”

Though Lou’s Ibsen book was extravagantly acclaimed in its time, its big talk about ideals – about self-liberation versus self-alienation through ideals, and about self-sacrifice for ideals or for want of them – rings false in ours.” “she discussed neither Ibsen’s plays nor even his characterizations, but his characters themselves, quite as if they were real people” “Lou could develop no farther as authoress, feminist or female except as Nietzsche’s ex-disciple.”

Following Nietzsche’s breakdown, Lou filled in her old sketch of him and brought it up-to-date as she pored over his life’s work. The result was the first significant treatment of him in print: 10 precursory articles of 1891-93, elaborated into Friedrich Nietzsche in seinen Werken¹ of 1894.” “Other Nietzscheana prior to Lou’s were crackpot adulation or defamation.” “N.’s writings emerged as symptomatic expressions of self-induced nervous derangement at distinct stages of its development toward insanity. This thesis, startling for its time, was damning for N. in effect and in after-effect, confused as were Lou’s intent and argument respectively.”

If one has character, one has an ever-recurrent typical experience.” BGE

In point of fact N.’s insanity was due to a brain ailment of physical origin, hence was not mentally self-induced, and there is no correlation whatever between the onsets of his malady, his intellectual self-renewals, and his alternations between felt instinctual harmony and felt instinctual chaos. He does seem to have induced and relished many a crisis, only not knowingly. Lou, however, lacked a conception of unconscious purpose”

When speaking summarily, Lou let nothing philosophical survive N.’s self-renewals beyond his philosophical personality itself.”

Evidently she took his Zarathustra IV (1st published in 1891) for his ‘last work’, written ‘on the threshold of madness’ (1890a), only to learn belatedly that it was actually completed in 1885” HAHAHAAHAHA!

Para a loira burra russa:

suprahomem – misticismo

vontade de potência – ( ) (não escreveu sobre)

eterno retorno – idéia fixa

transvaloração de todos os valores – blá, blá, blá (é tão idiota que seria humilhante proceder a este résumé

Her first large-scale autobiographic hoax was, then, an approximation to that great coveted but forbidden spiritual and carnal union between them, rendered celestial and eternal by being depicted only dimly and solemnly and without temporal beginning or end.”

Within N.’s old circle Erwin Rohde, after deeming L.’s first articles on N. incomparably fine and deep, now told Overbeck that she was ‘above all a literary parasite who would just like to live off N. a while as off a suitable substratum while also putting her own person to advantage, and this not so tactfully or nicely.’

her reflexions and constructions about N.’s illness are sufficient in themselves to rule out any really intimate association or communication.”

In July 1893 Peter Gast, in his introduction to a reedition of N.’s Human, All Too Human, upbraided L. for her latest articles: he threw back her charge against N. of mystical madness, refuted her on point after point beginning with N.’s having come to positivism through Rée, and denounced her trickery about how long she knew N. – all this too late, however, to affect her book.”

Mr. and Mrs. Förster had founded their colony – ‘New Germania’ – in Paraguay early in 1886. In 89, facing financial ruin, Bernhard took his life; Lisbeth carried on alone, slowly retrieving the deficit. She returned to Germany in the fall of 90 for 18 months to boost subscriptions, then definitively in September 93 to cash in on her brother’s growing fame. She wrested his literary estate from Gast’s hands, then from her mother’s proprietorship. In February 94 she founded the Nietzsche Archiv in Naumburg with Gast’s help – only to turn Gast out that very spring. For she intended using the Archiv to represent N.’s life and thought in the way of her neo-Germanic propaganda, anti-Semitism and all. Her very own first project was known in Archiv parlance as ‘the biography’.”

In 1900 the Archiv began publishing N.’s letters: forged ones to Lisbeth reviling Lou and Jews plugged untoward gaps. A year later The Will to Power appeared, a concatenation of N. scraps presented as N.’s supreme work – as if to render Lou’s study obsolete. Lisbeth meanwhile more than once called Lou a liar in print – notably in 99 concerning Lou’s pretended conversations and correspondence with N. about the eternal recurrence. In 1904 the volume of the Archiv biography covering 82 appeared. By this account, Lou approached N. as a would-be disciple, but fast showed herself to be intellectually unfit and only out for an amour, so N., who really just wanted a secretary anyhow, sent her packing. L.’s book, ‘utterly false and untrue’, contained ‘conversations never held, excerpts from imaginary letters, and events that never took place.’ It was ‘an act of revenge upon sick N. due to wounded feminine vanity’ – and was ‘perhaps meant to win back Paul Rée’s alienated affections’ to boot.”

Unfortunately for Lou, the mud slung at her was made up of pure grains of truth – or rather, fortunately for her, the pure grains of truth were all mudded over. So, speciously wondering that anyone could regard her book as directed against N., she dismissed the Archival as beneath her dignity to read, let alone refute”

Her ethereal, ageless romance with N. having been refuted, she made him over into a nasty suitor – indeed a vengeful spurned man.”

In this contest between fabler and forger, the one sure loser was N. himself.”

P A R T T H R E E . W O M A N H O O D

I. RITES OF LOVE

IN 92 Lou Andreas, 31-year-old virginal wife, and Georg Ledebour, a Marxist journalist and lecturer 11 years her senior, fell in love.” “She insisted on working things out her own way. For months thereafter she lied to the 2 overwrought rivals by turns until she no longer heard what they growled or hissed back at her. She grew numb and skeletal.” “Ledebour married one of his pupils in 95—one of approximately Lou’s own age and social standing whom he had known, like Lou, since 92. She made him a tender companion through a stormy career and—following Hitler’s advent—a long exile.” “Lou’s Ledebour affair paralleled her Nietzsche hoax as her sorriest off-paper attempt since girlhood to impress fantasy upon reality. Even so, it was her farthest advance toward womanhood to date—a roundabout advance as if to a 2nd adolescence, this one compelling. Her first documented amour since her marriage, it was also her last with an older man: thereafter, while remaining a child-wife at home, she resumed her maidenly coquetterie abroad with new earnestness.”

Lou also made acquaintances fleetingly with August Strindberg, tenuously with the lesser playwright Otto Hartleben, and abidingly with the Danish translator Therese Krüger. And early in 92 she met Frieda von Bülow, soon her closest friend.” “A most possessive friend, she nonetheless had mixed, unstable feelings toward Lou, who was unfailingly devoted to her.”

Her next votive offering, Von der Bestie bis zum Gott (From Beast to God), was a delectable scholarly study of how deities, on losing their following, turn satanic and how, conversely, frightful beasts work their way up through totemism to fusion with tribal fathers, then withdraw to the wilderness as divinity sets in.”

Having found Vienna enchanting at first sight, Lou now found it doubly so. Schnitzler was then, on turning 33, a physician who dabbled in letters; only later that year did his drama Liebelei invert the formula overnight.”

II. SUPER-LOU AND RAINER

At Wassermann’s for tea on May 12, Lou was confronted with a veteran poet of 21 who, with huge soulful eyes, ‘narrow shoulders, thin neck’, ‘receding chin and almost no back to his head’, looked to her like a ‘sickly aristocrat’.”

She was far from suspecting his genius. And no wonder, for he was then in his artistic incunabula, which were all sensibility, sentiment, and fancy, in rich effusion.”

(…)

P A R T F O U R . M A T U R I T Y

(…)

II. A PERSONALIZED FREUDIANISM

Puro lixo e devaneio.

III. THEORIZING FOR FREUD

(…)

IV. LIVING FOR FREUD

(…)

V. ASIDE FROM FREUD

At Alvastra in ‘11 Lou seduced Poul (sic) Bjerre after having befriended his wife, an invalid, and laughed down his marital scruples (…) he too had once written on Nietzsche as a mad genius, but expressly to eschew reductive exegetics.” “About then Ellen Key ran into Bjerre, who inquired whether Lou still took Freud so seriously—and Ellen, reporting to Lou, added that Bjerre had just brought out a fine book exposing Freud’s exaggeration of sex.” “Lou’s next was Viktor Tausk, her classmate in Vienna, a Croation (sic) ex-jurist come lately to medicine and psychoanalysis.”

P A R T F I V E . O L D A G E [ O F A H A R L O T ]

I. REVAMPING THE PAST

Reaffirming her individuality by this same token, she treated Freud’s work as a contribution to her existence rather than the reverse.”

By and large, Lou treated other celebrities just like Tolstoi in not letting on how well or ill she knew them and as if her knowing them were a matter of course—though in fact she ransacked her ‘Celebrities’ file to compile 2 chapters teeming with them.”

II. “HOMECOMING”

As the pain eased over the months, she went back from 100 to 125 pounds even on a limited calorie diet—one permitting her chocolate at night in lieu of bread by day.” “Later that year she was laid up in plaster with a broken foot. Her proud calligraphy was reduced to a pencil scrawl—as during her prostration of 2 years before, only this time definitively, for her eyesight was failing.” “Another year or so and her chronic heart ailment had set in for the duration, followed by cancer in a breast that was successfully amputated in mid-35 after she had put her papers in final order and taken leave of the world.”

III. A RETROSPECT

Inclusive as were her cultural concerns, her concerns were that exclusively cultural: nowhere do her own ample annals disclose that, for instance, her life in Germany began under Bismarck and ended under Hitler.” Uma imbecil fora do tempo, mas não atemporal.

a moral monstrosity”

distraught fabler”

post-elaborated beyond recognition”

BEYOND FRAU LOU

Lou changed off fictionalizing techniques continually, but I could not grasp the sense of the changes.”

The stock subjects of intellectual history were extraneous to Lou, who went the Zeitgeist’s way with no guidance from the Zeitgeist. Commonly ideas and their ilk are chronicled as if they developed somehow one from the other or else in response to conditions and events of public life; they developed neither way, however”

* * *

APPENDIX B

How I would deal with a man who spoke that way about me to my sister there is no doubt. For I am a soldier and always will be, I can handle weapons. But a girl! And Lou! I did not at all doubt but that she would at some time cleanse herself of those ignominious deeds in a heavenly way. Dirt! Any other man would have turned away from such a girl with disgust: I too felt disgust, but overcame it again and again. It moved me to pity to see a nobly endowed nature in its momentary degeneration; and, to tell the truth, I spilled countless tears in Tautenburg—not on my own account, but on Lou’s. This trick pity played on me. I lost the little I still possessed: my good name, the confidence of a few people—perhaps I shall yet lose a friend: you (…) Dear friend, I call Lou my sirocco incarnate: not one minute have I had with her that clear sky that I need above me, with or without people. She combines all the human qualities repulsive and hateful to me, and since Tautenburg I have for that very reason put myself to the torture of loving her! (…) I thought you had persuaded her to come to my help: now I see that she is out for amusement and good mental entertainment. And when I think that questions of morality come in there too I am, to put it mildly, revolted.”

Listen, friend, to how I see things today! She is an utter misfortune—and I am its victim. In the spring I thought I had found someone able to help me: for which not only a good intellect but a first-rate morality is needed. I discovered instead a being who wants to have fun and is shameless enough to believe that the most distinguished minds on Earth are just good enough for her fun. As a result of this mistake I more than ever lack the means of finding such a person. I am writing this in clearest weather: do not confuse my sense with the nonsense of my recent opium letter. I am certainly not crazy, nor do I suffer from delusions of grandeur. But I should have friends who warn me in good time about such desperate things as those of last summer. Who could suspect that her talk of ‘heroism’, of ‘fighting for a principle’, her poem ‘To Pain’, her tales of struggles for knowledge, are simply fraud?”

It was a completely futile waste of love and heart—though in truth I can afford it. . . . Lou debases the whole dignity of our striving: she should have nothing further to do with your name and mine. I no longer understand you, dear friend. How can you stand being near such a creature? For heaven’s sake, pure air and highest mutual esteem!”

ZAZIE DANS LE MÉTRO – Raymond Queneau

I

« Doukipudonktan, se demanda Gabriel excédé. Pas possible, ils se nettoient jamais. Dans le jour­nal, on dit qu’il y a pas onze pour cent des appar­tements à Paris qui ont des salles de bains, ça m’étonne pas, mais on peut se laver sans. Tous ceux-là qui m’entourent, ils doivent pas faire de grands efforts. D’un autre côté, c’est tout de même pas un choix parmi les plus crasseux de Paris. Y a pas de raison. C’est le hasard qui les a réunis. On peut pas supposer que les gens qu’attendent à la gare d’Austerlitz sentent plus mauvais que ceux qu’attendent à la gare de Lyon. Non vraiment, y a pas de raison. Tout de même quelle odeur. »

T’entends comme il me manque de respect, ce gros cochon?

« C’était pas de sa faute à lui, Gabriel, si c’était toujours les faibles qui emmerdaient le monde. Il allait tout de même laisser une chance au moucheron. »

— Skeutadittaleur…

[est-ce qu’eux t’a dit à leur…]

Le ptit type se mit à craindre. C’était le temps pour lui, c’était le moment de se forger quelque bouclier verbal. Le premier qu’il trouva fut un alexandrin:

  • D’abord, je vous permets pas de me tutoyer.
  • Foireux, répliqua Gabriel avec simplicité.

Et il leva le bras comme s’il voulait donner la beigne à son interlocuteur. Sans insister, celui-ci s’en alla de lui-même au sol, parmi les jambes des gens. Il avait une grosse envie de pleurer. Heureu­sement vlà ltrain qu’entre en gare, ce qui change le paysage. La foule parfumée dirige ses multiples regards vers les arrivants qui commencent à défiler, les hommes d’affaires en tête au pas accéléré avec leur porte-documents au bout du bras pour tout bagage et leur air de savoir voyager mieux que les autres.

Gabriel regarde dans le lointain; elles, elles doivent être à la traîne, les femmes, c’est toujours à la traîne; mais non, une mouflette surgit qui l’inter­pelle:

— Chsuis Zazie, jparie que tu es mon tonton Gabriel.

— C’est bien moi, répond Gabriel en anoblissant son ton. Oui, je suis ton tonton.

La gosse se mare. Gabriel, souriant poliment, la prend dans ses bras, il la transporte au niveau de ses lèvres, il l’embrasse, elle l’embrasse, il la redes­cend.

  • Tu sens rien bon, dit l’enfant.
  • Barbouze de chez Fior, explique le colosse.
  • Tu m’en mettras un peu derrière les oreilles?
  • C’est un parfum d’homme.
  • Tu vois l’objet, dit Jeanne Lalochère s’ame­nant enfin. T’as bien voulu t’en charger, eh bien, le voilà.
  • Ça ira, dit Gabriel.
  • Je peux te faire confiance? Tu comprends, je ne veux pas qu’elle se fasse violer par toute la
  • Mais, manman, tu sais bien que tu étais arrivée juste au bon moment, la dernière fois.
  • En tout cas, dit Jeanne Lalochère, je ne veux pas que ça recommence.
  • Tu peux être tranquille, dit Gabriel.
  • Alors je vous retrouve ici après-demain pour le train de six heures soixante.
  • Côté départ, dit Gabriel.
  • Natürlich, dit Jeanne Lalochère qui avait été occupée. A propos, ta femme, ça va?
  • Je te remercie. Tu viendras pas nous voir?
  • J’aurai pas le temps.

— C’est comme ça qu’elle est quand elle a un jules, dit Zazie, la famille ça compte plus pour elle.

— A rvoir, ma chérie. A rvoir, Gaby.

Elle se tire.

Zazie commente les événements:

— Elle est mordue.

Gabriel hausse les épaules. Il ne dit rien. Il saisit la valoche à Zazie.

Maintenant, il dit quelque chose.

— En route, qu’il dit.

Et il fonce, projetant à droite et à gauche tout ce qui se trouve sur sa trajectoire. Zazie galope derrière.

  • Tonton, qu’elle crie, on prend le métro?
  • Comment ça, non?

Elle s’est arrêtée. Gabriel stope également se retourne, pose la valoche et se met à espliquer.

  • Bin oui: non. Aujourd’hui, pas moyen. Y a grève.
  • Y a grève.
  • Bin oui: y a grève. Le métro, ce moyen de transport éminemment parisien, s’est endormi sous terre, car les employés aux pinces perforantes ont cessé tout travail.
  • Ah les salauds, s’écrie Zazie, ah les vaches. Me faire ça à moi.
  • Y a pas qu’à toi qu’ils font ça, dit Gabriel parfaitement objectif.
  • Jm’en fous. N’empêche que c’est à moi que ça arrive, moi qu’étais si heureuse, si contente et tout de m’aller voiturer dans lmétro. Sacrebleu, merde alors.
  • Faut te faire une raison, dit Gabriel dont les propos se nuançaient parfois d’un thomisme légè­rement kantien.

Et, passant sur le plan de la cosubjectivité, il ajouta:

Et puis faut se grouiller: Charles attend.

— Oh! celle-là je la connais, s’esclarna Zazie furieuse, je l’ai lue dans les Mémoires du général Vermot.

— Mais non, dit Gabriel, mais non, Charles, c’est un pote et il a un tac. Je nous le sommes réservé à cause de la grève précisément, son tac. T’as compris? En route.

Il resaisit la valoche d’une main et de l’autre il entraîna Zazie.

Charles effectivement attendait en lisant dans une feuille hebdomadaire la chronique des coeurs saignants. Il cherchait, et ça faisait des années qu’il cherchait, une entrelardée à laquelle il puisse faire don des quarante-cinq cerises de son prin­temps. Mais les celles qui, comme ça, dans cette gazette, se plaignaient, il les trouvait toujours soit trop dindes, soit trop tartes. Perfides ou sournoises. Il flairait la paille dans les poutrelles des lamenta­tions et découvrait la vache en puissance dans la poupée la plus meurtrie.

— Bonjour, petite, dit-il à Zazie sans la regarder en rangeant soigneusement sa publication sous ses fesses.

  • Il est rien moche son bahut, dit Zazie.
  • Monte, dit Gabriel, et sois pas snob.
  • Snob mon cul, dit Zazie.

Elle est marante, ta petite nièce, dit Charles qui pousse la seringue et fait tourner le moulin.

D’une main légère mais puissante, Gabriel envoie Zazie s’asseoir au fond du tac, puis il s’installe à côté d’elle.

Zazie proteste.

— Tu m’écrases, qu’elle hurle folle de rage.

— Ça promet, remarque succinctement Charles d’une voix paisible.

Il démarre.

On roule un peu, puis Gabriel montre le paysage d’un geste magnifique.

— Ah! Paris, qu’il profère d’un ton encoura­geant, quelle belle ville. Regarde-moi ça si c’est beau.

  • Je m’en fous, dit Zazie, moi ce que j’aurais voulu c’est aller dans le métro.
  • Le métro! beugle Gabriel, le métro!! mais le voilà!!!

Et, du doigt, il désigne quelque chose en l’air. Zazie fronce le sourcil. Essméfie.

  • Le métro? qu’elle répète. Le métro, ajoute-t-elle avec mépris, le métro, c’est sous terre, le métro. Non mais.
  • Çui-là, dit Gabriel, c’est l’aérien.
  • Alors, c’est pas le métro.
  • Je vais t’esspliquer, dit Gabriel. Quelquefois, il sort de terre et ensuite il y rerentre.
  • Des histoires.

Gabriel se sent impuissant (geste), puis, désireux de changer de conversation, il désigne de nouveau quelque chose sur leur chemin.

  • Et ça! mugit-il, regarde!! le Panthéon!!!
  • Qu’est-ce qu’il faut pas entendre, dit Charles sans se retourner.

Il conduisait lentement pour que la petite puisse voir les curiosités et s’instruise par-dessus le marché.

— C’est peut-être pas le Panthéon? demanda Gabriel.

Il y a quelque chose de narquois [derisive] dans sa question.

  • Non, dit Charles avec force. Non, non et non, c’est pas le Panthéon.
  • Et qu’est-ce que ça serait alors d’après toi?

La narquoiserie du ton devient presque offen­sante pour l’interlocuteur qui, d’ailleurs, s’empresse d’avouer sa défaite.

  • J’en sais rien, dit Charles.
  • Là. Tu vois.
  • Mais c’est pas le Panthéon.

C’est que c’est un ostiné, Charles, malgré tout.

  • On va demander à un passant, propose Gabriel.
  • Les passants, réplique Charles, c’est tous des

— C’est bien vrai, dit Zazie avec sérénité.

Gabriel n’insiste pas. Il découvre un nouveau sujet d’enthousiasme.

— Et ça, s’exclame-t-il, ça c’est…

Mais il a la parole coupée par une euréquation de son beau-frère.

— J’ai trouvé, hurle celui-ci. Le truc qu’on vient de voir, c’était pas le Panthéon bien sûr, c’était la gare de Lyon.

  • Peut-être, dit Gabriel avec désinvolture, mais maintenant c’est du passé, n’en parlons plus, tandis que ça, petite, regarde-moi ça si c’est chouette comme architecture, c’est les Invalides…
  • T’es tombé sur la tête, dit Charles, ça n’a rien à voir avec les Invalides.
  • Eh bien, dit Gabriel, si c’est pas les Invalides, apprends-nous cexé.
  • Je sais pas trop, dit Charles, mais c’est tout au plus la caserne de Reuilly.
  • Vous, dit Zazie avec indulgence, vous êtes tous les deux des ptits marants.

Zazie, déclare Gabriel en prenant un air majes­tueux trouvé sans peine dans son répertoire, si ça te plaît de voir vraiment les Invalides et le tombeau véritable du vrai Napoléon, je t’y conduirai.

— Napoléon mon cul, réplique Zazie. Il m’inté­resse pas du tout, cet enflé, avec son chapeau à la con.

— Qu’est-ce qui t’intéresse alors?

Zazie répond pas.

— Oui, dit Charles avec une gentillesse inatten­due, qu’est-ce qui t’intéresse?

— Le métro.

Gabriel dit: ah. Charles ne dit rien. Puis, Gabriel reprend son discours et dit de nouveau: ah.

  • Et quand est-ce qu’elle va finir, cette grève? demande Zazie en gonflant ses mots de férocité.
  • Je sais pas, moi, dit Gabriel, je fais pas de
  • C’est pas de la politique, dit Charles, c’est pour la croûte.
  • Et vous, msieu, lui demande Zazie, vous faites quelquefois la grève?
  • Bin dame, faut bien, pour faire monter le tarif.
  • On devrait plutôt vous le baisser, votre tarif, avec une charrette comme la vôtre, on fait pas plus dégueulasse. Vous l’avez pas trouvée sur les bords de la Marne, par hasard?
  • On est bientôt arrivé, dit Gabriel conciliant. Voilà le tabac du coin.
  • De quel coin? demande Charles ironiquement.
  • Du coin de la rue de chez moi où j’habite, répond Gabriel avec candeur.
  • Alors, dit Charles, c’est pas çui-là.
  • Comment, dit Gabriel, tu prétendrais que ça ne serait pas celui-là?
  • Ah non, s’écrie Zazie, vous allez pas recommen­
  • Non, c’est pas celui-là, répond Charles à
  • C’est pourtant vrai, dit Gabriel pendant qu’on passe devant le tabac, celui-là j’y suis jamais allé.
  • Dis donc, tonton, demande Zazie, quand tu déconnes comme ça, tu le fais esprès ou c’est sans le vouloir?
  • C’est pour te faire rire, mon enfant, répond
  • T’en fais pas, dit Charles à Zazie, il le fait pas exeuprès.
  • C’est pas malin, dit Zazie.
  • La vérité, dit Charles, c’est que tantôt il le fait exeuprès et tantôt pas.
  • La vérité! s’écrie Gabriel (geste), comme si tu savais cexé. Comme si quelqu’un au monde savait cexé. Tout ça (geste), tout ça c’est du bidon: le Panthéon, les Invalides, la caserne de Reuilly, le tabac du coin, tout. Oui, du bidon. [bogus]

Il ajoute, accablé:

  • Ah là là, quelle misère!
  • Tu veux qu’on s’arrête pour prendre l’apéro? [apperitif] demande Charles.
  • C’est une idée.
  • À La Cave?
  • A Saint-Germain-des-Prés? demande Zazie qui déjà frétille.
  • Non mais, fillette, dit Gabriel, qu’est-ce que tu t’imagines? C’est tout ce qu’il y a de plus démodé.
  • Si tu veux insinuer que je suis pas à la page, dit Zazie, moi je peux te répondre que tu n’es qu’un vieux con.
  • Tu entends ça? dit Gabriel.
  • Qu’est-ce que tu veux, dit Charles, c’est la nouvelle génération.
  • La nouvelle génération, dit Zazie, elle t’…
  • Ça va, ça va, dit Gabriel, on a compris. Si on allait au tabac du coin?
  • Du vrai coin, dit Charles.
  • Oui, dit Gabriel. Et après tu restes dîner avec
  • C’était pas entendu?
  • Alors?
  • Alors, je confirme.
  • Y a pas à confirmer, puisque c’était entendu.
  • Alors, disons que je te le rappelle des fois que t’aurais oublié.
  • J’avais pas oublié.
  • Tu restes donc dîner avec nous.
  • Alors quoi, merde, dit Zazie, on va le boire, ce verre?

Gabriel s’extrait avec habileté et souplesse du tac. Tout le monde se retrouve autour d’une table, sur le trottoir. La serveuse s’amène négligemment. Aussitôt Zazie esprime son désir:

  • Un cacocalo, qu’elle demande.
  • Y en a pas, qu’on répond.
  • Ça alors, s’esclame Zazie, c’est un monde.

Elle est indignée.

  • Pour moi, dit Charles, ça sera un beaujolais.
  • Et pour moi, dit Gabriel, un lait-grenadine. Et toi? demande-t-il à Zazie.
  • Jl’ai déjà dit; un cacocalo.
  • Elle a dit qu’y en avait pas.
  • C’est hun cacocalo que jveux.
  • T’as beau vouloir, dit Gabriel avec une patience estrême, tu vois bien qu’y en a pas.
  • Pourquoi que vous en avez pas? Demande Zazie à la serveuse.
  • Ça (geste).
  • Un demi panaché, Zazie, propose Gabriel, ça ne te dirait rien?

—C’est hun cacocalo que jveux et pas autt chose.

Tout le monde devient pensif. La serveuse se gratte une cuisse.

  • Y en a à côté, qu’elle finit par dire. Chez l’Italien.
  • Alors, dit Charles, il vient ce beaujolais?

On va le chercher. Gabriel se lève, sans commen­taires. Il s’éclipse avec célérité, bientôt revenu avec une bouteille du goulot de laquelle sortent deux pailles. Il pose ça devant Zazie.

— Tiens, petite, dit-il d’une voix généreuse.

Sans mot dire, Zazie prend la bouteille en main et commence à jouer du chalumeau. [straw]

  • Là, tu vois, dit Gabriel à son copain, c’était pas difficile. Les enfants, suffit de les comprendre.

II

— C’est là, dit Gabriel.

Zazie examine la maison. Elle ne communique pas ses impressions.

— Alors? demanda Gabriel. Ça ira?

Zazie fit un signe qui semblait indiquer qu’elle réservait son opinion.

  • Moi, dit Charles, je passe voir Turandot, j’ai quelque chose à lui dire.
  • Compris, dit Gabriel.
  • Qu’est-ce qu’il y a à comprendre? Demanda

Charles descendit les cinq marches menant du trottoir au café-restaurant La Cave, poussa la porte et s’avança jusqu’au zinc en bois depuis l’occupa­tion.

  • Bonjour, meussieu Charles, dit Mado Ptits-pieds qui était en train de servir un client.
  • Bonjour, Mado, répondit Charles sans la
  • C’est elle? demanda Turandot.
  • Gzactement, répondit Charles.
  • Elle est plus grande que je croyais.
  • Et alors?
  • Ça me plaît pas. Je l’ai dit à Gaby, pas d’his­toires dans ma maison.
  • Tiens, donne-moi un beaujolais.

Turandot le servit en silence, d’un air méditatif. Charles éclusa son beaujolais, [vinho] s’essuya les mous­taches du revers de la main, puis regarda distraite­ment dehors. Pour ce faire, il fallait lever la tête et on ne voyait guère que des pieds, des chevilles, des bas de pantalon, parfois, avec de la chance, un chien complet, un basset. Accrochée près du vasistas, une cage hébergeait un perroquet triste. Turandot remplit le verre de Charles et s’en verse une lichée. Mado Ptits-pieds vint se mettre derrière le comptoir, à côté du patron et brise le silence.

  • Meussieu Charles, qu’elle dit, vzètes zun mélancolique.
  • Mélancolique mon cul, réplique Charles.
  • Eh bien vrai, s’écria Mado Ptits-pieds, vous êtes pas poli aujourd’hui.
  • Ça me fait marer, dit Charles d’un air sinistre. C’est comme ça qu’elle cause, la mouflette.
  • Je comprends pas, dit Turandot pas à l’aise du tout.
  • C’est bien simple, dit Charles. Elle peut pas dire un mot, cette gosse, sans ajouter mon cul après.
  • Et elle joint le geste à la parole? Demanda
  • Pas encore, répondit gravement Charles, mais ça viendra.
  • Ah non, gémit Turandot, ah ça non.

Il se prit la tête à deux mains et fit le futile simulacre de se la vouloir arracher. Puis il continua son discours en ces termes:

  • Merde de merde, je veux pas dans ma maison d’une petite salope qui dise des cochoncetés comme ça. Je vois ça d’ici, elle va pervertir tout le quartier. D’ici huit jours…
  • Elle reste que deux trois jours, dit Charles.
  • C’est de trop! cria Turandot. En deux trois jours, elle aura eu le temps de mettre la main dans la braguette de tous les vieux gâteux qui m’honorent de leur clientèle. Je veux pas d’histoires, tu entends, je veux pas d’histoires.

Le perroquet qui se mordillait un ongle, abaissa son regard et, interrompant sa toilette, il intervint dans la conversation.

  • Tu causes, dit Laverdure, tu causes, c’est tout ce que tu sais faire.
  • II a bien raison, dit Charles. Après tout, c’est pas à moi qu’il faut raconter tes histoires.
  • Je l’emmerde, dit Gabriel affectueusement, mais je me demande pourquoi tu as été lui répéter les gros mots de la ptite.
  • Moi je suis franc, dit Charles. Et puis, tu pourras pas cacher que ta nièce elle est drôlement mal élevée. Réponds-moi, est-ce que tu parlais comme ça quand t’étais gosse?
  • Non, répond Gabriel, mais j’étais pas une petite fille.
  • A table, dit doucement Marceline en appor­tant la soupière. Zazie, crie-t-elle doucement, à

Elle se met à verser doucement des contenus de louche dans les assiettes.

— Ah ah, dit Gabriel avec satisfaction, du consommé.

— N’egzagérons rien, dit doucement Marceline.

Zazie vient enfin les rejoindre. Elle s’assied l’œil vide, constatant avec dépit qu’elle a faim.

Après le bouillon, il y avait du boudin noir avec des pommes savoyardes, et puis après du foie gras (que Gabriel ramenait du cabaret, il pouvait pas s’en empêcher, il avait le foie gras aussi bien à droite qu’à gauche), et puis un entremets des plus sucrés, et puis du café réparti par tasses, café bicose Charles et Gabriel tous deux bossaient de nuit. Charles s’en fut tout de suite après la surprise attendue d’une grenadine au kirsch, Gabriel lui son boulot commençait pas avant les onze heures. Il allongea les jambes sous la table et même au-delà et sourit à Zazie raide sur sa chaise.

  • Alors, petite, qu’il dit comme ça, comme ça on va se coucher?
  • Qui ça «on»? demanda-t-elle.
  • Eh bien, toi bien sûr, répondit Gabriel tom­bant dans le piège. A quelle heure tu te couchais là-bas?
  • Ici et là-bas ça fait deux, j’espère.
  • Oui, dit Gabriel compréhensif.
  • C’est pourquoi qu’on me laisse ici, c’est pourque ça soit pas comme là-bas. Non?
  • Tu dis oui comme ça ou bien tu le penses vraiment?

Gabriel se tourna vers Marceline qui souriait:

  • Tu vois comment ça raisonne déjà bien une mouflette de cet âge? On se demande pourquoi c’est la peine de les envoyer à l’école.
  • Moi, déclara Zazie, je veux aller à l’école jusqu’à soixante-cinq ans.
  • Jusqu’à soixante-cinq ans? répéta Gabriel un chouïa surpris.
  • Oui, dit Zazie, je veux être institutrice.
  • Ce n’est pas un mauvais métier, dit douce­ment Marceline. Y a la retraite.

Elle ajouta ça automatiquement parce qu’elle connaissait bien la langue française.

  • Retraite mon cul, dit Zazie. Moi c’est pas pour la retraite que je veux être institutrice.
  • Non bien sûr, dit Gabriel, on s’en doute.
  • Alors c’est pourquoi? demanda Zazie.
  • Tu vas nous espliquer ça.
  • Tu trouverais pas tout seul, hein?
  • Elle est quand même fortiche la jeunesse d’au­jourd’hui, dit Gabriel à Marceline.

Et à Zazie:

  • Alors? pourquoi que tu veux l’être, institutrice?
  • Pour faire chier les mômes, répondit Zazie. Ceux qu’auront mon âge dans dix ans, dans vingt ans, dans cinquante ans, dans cent ans, dans mille ans, toujours des gosses à emmerder.
  • Eh bien, dit Gabriel.
  • Je serai vache comme tout avec elles. Je leur ferai lécher le parquet. Je leur ferai manger l’éponge du tableau noir. Je leur enfoncerai des compas dans le derrière. Je leur botterai les fesses. Parce que je porterai des bottes. En hiver. Hautes comme ça (geste). Avec des grands éperons pour leur larder la chair du derche.
  • Tu sais, dit Gabriel avec calme, d’après ce que disent les journaux, c’est pas du tout dans ce sens-là que s’oriente l’éducation moderne. C’est même tout le contraire. On va vers la douceur, la compréhension, la gentillesse. N’est-ce pas, Marce­line, qu’on dit ça dans le journal?
  • Oui, répondit doucement Marceline. Mais toi, Zazie, est-ce qu’on t’a brutalisée à l’école?
  • Il aurait pas fallu voir.
  • D’ailleurs, dit Gabriel, dans vingt ans, y aura plus d’institutrices: elles seront remplacées par le cinéma, la tévé, l’électronique, des trucs comme ça. C’était aussi écrit dans le journal l’autre jour. N’est-ce pas, Marceline?
  • Oui, répondit doucement Marceline.

Zazie envisagea cet avenir un instant.

  • Alors, déclara-t-elle, je serai astronaute.
  • Voilà, dit Gabriel approbativement. Voilà, faut être de son temps.
  • Oui, continua Zazie, je serai astronaute pour aller faire chier les Martiens.

Gabriel enthousiasmé se tapa sur les cuisses:

  • Elle en a de l’idée, cette petite.

Il était ravi.

  • Elle devrait tout de même aller se coucher, dit doucement Marceline. Tu n’es pas fatiguée?
  • Non, répondit Zazie en bâillant.
  • Elle est fatiguée cette petite, reprit douce­ment Marceline s’adressant à Gabriel, elle devrait aller se coucher.
  • Tu as raison, dit Gabriel qui se mit à concocter une phrase impérative et, si possible, sans réplique.

Avant qu’il eût eu le temps de la formuler, Zazie lui demandait s’ils avaient la tévé.

  • Non, dit Gabriel. J’aime mieux le cinémascope, ajouta-t-il avec mauvaise foi.
  • Alors, tu pourrais m’offrir le cinémascope.
  • C’est trop tard, dit Gabriel. Et puis moi, j’ai pas le temps, je prends mon boulot à onze heures.
  • On peut se passer de toi, dit Zazie. Ma tante et moi, on ira toutes les deux seules.
  • Ça me plairait pas, dît Gabriel lentement d’un air féroce.

Il fixa Zazie droit dans les yeux et ajouta méchamment:

— Marceline, elle sort jamais sans moi.

Il poursuivit:

— Ça, je vais pas te l’espliquer, petite, ce serait trop long.

Zazie détourna son regard et bâilla.

— Je suis fatiguée, dit-elle, je vais aller me cou­cher.

Elle se leva. Gabriel lui tendit la joue. Elle l’em­brassa.

— Tu as la peau douce, remarqua-t-elle.

Marceline l’accompagne dans sa chambre et Gabriel va chercher une jolie trousse en peau de porc marquée de ses initiales. II s’installe, se verse un grand verre de grenadine qu’il tempère d’un peu d’eau et commence à se faire les mains; il adorait ça, il s’y prenait très bien et se préférait à toute manucure, il se mit à chantonner un refrain obscène, puis, les prouesses des trois orfèvres achevées, il sifflota, pas trop fort pour ne pas réveiller la petite, quelques sonneries de l’ancien temps telles que l’extinction des feux, le salut au drapeau, caporal conconcon, etc.

Marceline revient.

— Elle a pas été longue à s’endormir, dit-elle doucement.

Elle s’assoit et se verse un verre de kirsch.

— Un petit ange, commente Gabriel d’un ton neutre.

Il admire l’ongle qu’il vient de terminer, celui de l’auriculaire, et passe à celui de l’annulaire.

— Qu’est-ce qu’on va bien pouvoir en faire de toute la journée? demande doucement Marceline.

  • C’est pas tellement un problème, dit Gabriel. D’abord, je l’emmènerai en haut de la tour Eiffel. Demain après-midi.
  • Mais demain matin? demande doucement

Gabriel blêmit.

  • Surtout, qu’il dit, surtout faudrait pas qu’elle me réveille.
  • Tu vois, dit doucement Marceline. Un pro­blème.

Gabriel prit des airs de plus en plus angoissés.

— Les gosses, ça se lève tôt le matin. Elle va m’empêcher de dormir… de récupérer… Tu me connais. Moi, il faut que je récupère. Mes dix heures de sommeil, c’est essentiel. Pour ma santé.

Il regarde Marceline.

— T’avais pas pensé à ça?

Marceline baissa les yeux.

— J’ai pas voulu t’empêcher de faire ton devoir, dit-elle doucement.

— Je te remercie, dit Gabriel d’un ton grave. Mais qu’est-ce qu’où pourrait bien foutre pour que je l’entende pas le matin.

Ils se mirent à réfléchir.

  • On, dit Gabriel, pourrait lui donner un sopo­rifique pour qu’elle dorme jusqu’à au moins midi ou même mieux jusqu’à son quatre heures. Paraît qu’y a des suppositoires au poil qui permettent d’obtenir ce résultat.
  • Pan pan pan, fait discrètement Turandot der­rière la porte sur le bois d’icelle.
  • Entrez, dit Gabriel.

Turandot entre accompagné de Laverdure. Il s’assoit sans qu’on l’en prie et pose la cage sur la table. Laverdure regarde la bouteille de grenadine avec une convoitise mémorable. Marceline lui en verse un peu dans son buvoir. Turandot refuse l’offre (geste). Gabriel qui a terminé le médius attaque l’index. Avec tout ça, on n’a encore rien dit.

Laverdure a gobé sa grenadine. Il s’essuie le bec contre son perchoir, puis prend la parole en ces termes:

— Tu causes, tu causes, c’est tout ce que tu sais faire.

— Je cause mon cul, réplique Turandot vexé.

Gabriel interrompt ses travaux et regarde mé­chamment le visiteur.

  • Répète un peu voir ce que t’as dit, qu’il dit.
  • J’ai dit, dit Turandot, j’ai dit: je cause mon
  • Et qu’est-ce que tu insinues par là? Si j’ose
  • J’insinue que la gosse, qu’elle soit ici, ça me plaît pas.
  • Que ça te plaise ou que ça ne teu plaiseu pas, tu entends? je m’en fous.
  • Je t’ai loué ici sans enfants et mainte­nant t’en as un sans mon autorisation.
  • Ton autorisation, tu sais où je me la mets?
  • Je sais, je sais, d’ici à ce que tu me déshonores à causer comme ta nièce, y a pas loin.
  • C’est pas permis d’être aussi inintelligent que toi, tu sais ce que ça veut dire «inintelligent», espèce de con?
  • Ça y est, dit Turandot, ça vient.

— Tu causes, dit Laverdure, tu causes, c’est tout ce que tu sais faire.

— Ça vient quoi? demande Gabriel nettement menaçant.

  • Tu commences à t’esprimer d’une façon repous­
  • C’est qu’il commence à m’agacer, dit Gabriel à
  • T’énerve pas, dit doucement Marceline.
  • Je ne veux pas d’une petite salope dans ma maison, dit Turandot avec des intonations pathé­
  • Je t’emmerde, hurle Gabriel. Tu entends, je t’emmerde.

Il donne un coup de poing sur la table qui se fend à l’endroit habituel. La cage va au tapis suivie dans sa chute par la bouteille de grenadine, le flacon de kirsch, les petits verres, l’attirail manucure, Laver­dure se plaint avec brutalité, le sirop coule sur la maroquinerie, Gabriel pousse un cri de désespoir et plonge pour ramasser l’objet pollué. Ce faisant, il fout sa chaise par terre. Une porte s’ouvre.

— Alors quoi, merde, on peut plus dormir?

Zazie est en pyjama. Elle bâille puis regarde Laverdure avec hostilité.

  • C’est une vraie ménagerie ici, qu’elle déclare.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce que tu sais faire.

Un peu épatée, elle néglige l’animal pour Turan­dot, à propos duquel elle demande à son oncle:

— Et çui-là, qui c’est?

Gabriel essuyait la trousse avec un coin de la nappe.

— Merde, qu’il murmure, elle est foutue.

— Je t’en offrirai une autre, dit doucement Marceline.

— C’est gentil ça, dit Gabriel, mais dans ce cas-là, j’aimerais mieux que ce soit pas de la peau de porc.

  • Qu’est-ce que tu aimerais mieux? Le box-calf?

Gabriel fit la moue.

  • Le galuchat?

Moue.

  • Le cuir de Russie?

Moue.

  • Et le croco?
  • Ce sera cher.
  • Mais c’est solide et chic.
  • C’est ça, j’irai me l’acheter moi-même.

Gabriel, souriant largement, se tourna vers Zazie:

  • Tu vois, ta tante, c’est la gentillesse même.
  • Tu m’as toujours pas dit qui c’était çui-là?
  • C’est le proprio, répondit Gabriel, un proprio exceptionnel, un pote, le patron du bistro d’en bas.
  • De La Cave?

— Gzactement, dit Turandot.

  • On y danse dans votre cave?
  • Ça non, dit Turandot.
  • Minable, dit Zazie.
  • T’en fais pas pour lui, dit Gabriel, il gagne bien sa vie.
  • Mais à Singermindépré, dit Zazie, qu’est-ce qu’il se sucrerait, c’est dans tous les journaux.
  • Tu es bien gentille de t’occuper de mes affaires, dit Turandot d’un air supérieur
  • Gentille mon cul, rétorqua Zazie.

Turandot pousse un miaulement de triomphe.

  • Ah ah, dit-il à Gabriel, tu pourras plus me soutenir le contraire, je l’ai entendu son mon cul.
  • Dis donc pas de cochoncetés, dit Gabriel.
  • Mais c’est pas moi, dit Turandot, c’est elle.
  • Il rapporte, dit Zazie. C’est vilain.
  • Et puis ça suffit, dit Gabriel. Il est temps que je me tire.
  • Ça doit pas être marant d’être gardien de nuit, dit Zazie.
  • Aucun métier n’est bien marant, dit Gabriel. Va donc te coucher.

Turandot ramasse la cage et dit:

  • On reprendra la conversation.

Et il ajoute d’un air fin:

  • La conversation mon cul.
  • Est-il bête, dit doucement Marceline.
  • On peut pas faire mieux, dit Gabriel.
  • Eh bien, bonne nuit, dit Turandot toujours aimable, j’ai passé une agréable soirée, j’ai pas perdu mon temps.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce que tu sais faire.
  • Il est mignon, dit Zazie en regardant l’animal.
  • Va donc te coucher, dit Gabriel.

Zazie sort par une porte, les visiteurs du soir par une autre.

Gabriel attend que tout se soit calmé pour sortir à son tour. Il descend l’escalier sans bruit, en loca­taire convenable.

Mais Marceline a vu un objet qui traîne sur une commode, elle le prend, court ouvrir la porte, se penche pour crier doucement dans l’escalier:

  • Gabriel, Gabriel.
  • Quoi? Qu’est-ce qu’il y a?
  • Tu as oublié ton rouge à lèvres.

(…)

Elle regarda dans la cour: il ne s’y passait rien. Dans l’appartement de même, il y avait l’air de ne rien se passer. L’oreille plantée dans la porte, Zazie ne distinguait aucun bruit. Elle sortit silencieuse­ment de sa chambre. Le salonsalamanger était oscur et muet. En marchant un pied juste devant l’autre comme quand on tire à celui qui commencera, en palpant le mur et les objets, c’est encore plus amu­sant en fermant les yeux, elle parvint à l’autre porte qu’elle ouvrit avec des précautions considé­rables. Cette autre pièce était également oscure et muette, quelqu’un y dormait paisiblement. Zazie referma, se mit en marche arrière, ce qui est toujours amusant, et au bout d’un temps extrêmement long, elle atteignit une troisième et autre porte qu’elle ouvrit avec de non moins grandes précautions que précédemment. Elle se trouva dans l’entrée qu’éclai­rait péniblement une fenêtre ornée de vitraux rouges et bleus. Encore une porte à ouvrir et Zazie découvre le but de son escursion: les vécés.

Zazie n’est pas tout à fait déçue, elle sait qu’elle est bien à Paris, que Paris est un grand village et que tout Paris ne ressemble pas à cette rue. Seulement pour s’en rendre compte et en être tout à fait sûre, il faut aller plus loin. Ce qu’elle commence à faire, d’un air dégagé.

Mais Turandot sort brusquement de son bistro et, du bas des marches, il lui crie:

— Eh petite, où vas-tu comme ça?

Zazie du coup adopte le pas de gymnastique. Elle prend un virage à la corde. L’autre rue est nettement plus animée. Zazie maintenant court bon train. Personne n’a le temps ni le souci de la regarder. Mais Turandot galope lui aussi. Il fonce même. Il la rattrape, la prend par le bras et, sans mot dire, d’une poigne solide, lui fait faire demi-tour. Zazie n’hésite pas. Elle se met à hurler:

— Au secours! Au secours!

Ce cri ne manque pas d’attirer l’attention des ménagères et des citoyens présents. Ils abandonnent leurs occupations ou inoccupations personnelles pour s’intéresser à l’incident.

Après ce premier résultat assez satisfaisant, Zazie en remet:

— Je veux pas aller avec le meussieu, je le connais pas le meussieu, je veux pas aller avec le meussieu.

Exétéra.

Turandot, sûr de la noblesse de sa cause, fait fi de ces procurations. Il s’aperçoit bien vite qu’il a eu tort en constatant qu’il se trouve au centre d’un cercle de moralistes sévères.

Devant ce public de choix, Zazie passe des consi­dérations générales aux accusations particulières, précises et circonstanciées.

  • Ce meussieu, qu’elle dit comme ça, il m’a dit des choses sales.
  • Qu’est-ce qu’il t’a dit? demande une dame alléchée.
  • Madame! s’écrie Turandot, cette petite fille s’est sauvée de chez elle. Je la ramenais à ses

Le cercle ricane avec un scepticisme déjà soli­dement encré. La dame insiste; elle se penche vers Zazie.

  • Allons, ma petite, n’aie pas peur, dis-le-moi ce qu’il t’a dit le vilain meussieu?
  • C’est trop sale, murmure Zazie.
  • Il t’a demandé de lui faire des choses?
  • C’est ça, mdame.

Zazie glisse à voix basse quelques détails dans l’oreille de la bonne femme. Celle-ci se redresse et crache à la figure de Turandot.

— Dégueulasse, qu’elle lui jette en plus en prime.

Et elle lui recrache une seconde fois de nouveau dessus, en pleine poire. Un type s’enquiert:

— Qu’est-ce qu’il lui a demandé de lui faire?

La bonne femme glisse les détails zaziques dans l’oreille du type:

— Oh! qu’il fait le type, jamais j’avais pensé à ça.

Il refait comme ça, plutôt pensivement:

— Non, jamais.

Il se tourne vers un autre citoyen:

  • Non mais, écoutez-moi ça… (détails). C’est pas croyab.
  • Ya vraiment des salauds complets, dit l’autre

Cependant, les détails se propagent dans la foule. Une femme dit:

  • Comprends pas.

Un homme lui esplique. Il sort un bout de papier de sa poche et lui fait un dessin avec un stylo à bille.

  • Eh bien, dit la femme rêveusement.

Elle ajoute:

  • Et c’est pratique?

Elle parle du stylo à bille.

Deux amateurs discutent:

  • Moi, déclare l’un, j’ai entendu raconter que… (détails).
  • Ça m’étonne pas autrement, réplique l’autre, on m’a bien affirmé que… (détails).

Poussée hors de son souk par la curiosité, une commerçante se livre à quelques confidences:

— Moi qui vous parle, mon mari, un jour voilà t-il pas qu’il lui prend l’idée de… (détails). Où qu’il avait été dégoter cette passion, ça je vous le demande.

  • Il avait peut-être lu un mauvais livre, suggère quelqu’un.
  • Peut-être bien. En tout cas, moi qui vous cause, je lui ai dit à mon mari, tu veux que? (détails). Pollop, que je lui ai répondu. Va te faire voir par les crouilles si ça te chante et m’emmerde plus avec tes vicelardises. Voilà ce que je lui ai répondu à mon mari qui voulait que je… (détails).

On approuve à la ronde.

Turandot n’a pas écouté. Il se fait pas d’illu­sions. Profitant de l’intérêt technique suscité par les accusations de Zazie, il s’est tiré en douce. Il passe le coin de la rue en rasant le mur et rejoint en hâte sa taverne, se glisse derrière le zinc en bois depuis l’occupation, se verse un grand ballon de beaujolais qu’il écluse d’un trait, réitère. Il se tamponne le front avec la chose qui lui sert de mouchoir.

Mado Ptits-pieds qui épluchait des patates lui demande:

  • Ça va pas?
  • M’en parle pas. Jamais eu une telle trouille de ma vie. Ils me prenaient pour un satyre tous ces cons. Si j’étais resté, ils m’auraient émietté.
  • Ça vous apprendra à faire le terre-neuve, dit Mado Ptits-pieds.
  • La ptite, dit Turandot assoufflé, la ptite, hein, eh bien, elle s’est barée.

Marceline répond pas, va droit à la chambre. Gzakt. Lagoçamilébou.

— Je l’ai vue, dit Turandot, j’ai essayé de la rattraper. Ouatt! (geste).

Marceline entre dans la chambre de Gabriel, le secoue, il est lourd, difficile à remuer, encore plus à réveiller, il aime ça, dormir, il souffle et s’agite, quand il dort il dort, on l’en sort pas comme ça.

  • Quoi quoi, qu’il finit par crier.
  • Zazie a foutu le camp, dit doucement Mar­

Il la regarde. Il fait pas de commentaires. Il comprend vite, Gabriel. Il est pas con. Il se lève. Il va faire un tour dans la chambre de Zazie. Il aime bien se rendre compte des choses par lui-même, Gabriel.

  • Elle est peut-être enfermée dans les vécés, qu’il dit avec optimisme.
  • Non, répond doucement Marceline, Turandot l’a vue qui se barait.
  • Qu’est-ce que t’as vu au juste? qu’il demande à Turandot.
  • Je l’ai vue qui se barait, alors je l’ai rattra­pée et j’ai voulu te la ramener.
  • C’est bien! ça, dit Gabriel, t’es un pote.
  • Oui, mais la ptite a ameuté les gens, elle gueulait comme ça que je lui avais proposé de me faire des trucs.
  • Et c’était pas vrai? demande Gabriel.
  • Bien sûr que non.
  • On sait jamais.
  • Dacor, on sait jamais.
  • Tu vois bien.
  • Laisse-le donc continuer, dît doucement Mar­
  • Alors voilà autour de moi tous les gens qui se rassemblent tout prêts à me casser la gueule. Ils me prenaient pour un satyre les cons.
  • Faudra l’enfermer à clé cette petite, dit
  • Je me demande pourquoi elle a foutu le camp, murmura pensivement Gabriel.
  • Elle a pas voulu faire de bruit, dit doucement Marceline, alors pour pas te réveiller, elle est allée se promener.
  • Mais je veux pas qu’elle se promène seule, dit Gabriel, la rue c’est l’école du vice, tout le monde sait ça.
  • Américanophile! s’esclame Gabriel, t’emploies des mots dont tu connais pas le sens. Américano­phile! comme si ça empêchait de laver son linge sale en famille. Marceline et moi, non seulement on est américanophiles, mais en plus de ça, petite tête, et en même temps, t’entends ça, petite tête, en même temps, on est lessivophiles. Hein? ça te là coupe, ça (pause) petite tête.
  • Ensuite? Le début vous suffît pas? C’est une fugue qu’elle est en train de faire cette gosse. Une fugue!
  • C’est gai, murmura Gabriel.
  • Vous n’avez qu’à prévenir la police.
  • Ça me dit rien, dit Gabriel d’une voix très
  • Elle rentrera pas toute seule.
  • On sait jamais.

Comme concitoyens et commères continuaient à discuter le coup, Zazie s’éclipsa. Elle prit la pre­mière rue à droite, puis la celle à gauche, et ainsi de suite jusqu’à ce qu’elle arrive à l’une des portes de la ville. De superbes gratte-ciel de quatre ou cinq étages bordaient une somptueuse avenue sur le trottoir de laquelle se bousculaient de pouilleux éventaires. Une foule épaisse et mauve dégoulinait d’un peu partout. Une marchande de ballons Lamoricière, une musique de manège ajoutaient leur note pudique à la virulence de la démonstration. Émer­veillée, Zazie mit quelque temps à s’apercevoir que, non loin d’elle, une œuvre de ferronnerie baroque plantée sur le trottoir se complétait de l’inscription métro. Oubliant aussitôt le spectacle de la rue, Zazie s’approcha de la bouche, la sienne sèche d’émotion. Contournant à petits pas une balustrade protectrice, elle découvrit enfin l’entrée. Mais la grille était tirée. Une ardoise pendante portait à la craie une inscription que Zazie déchiffra sans peine. La grève continuait. Une odeur de poussière ferru­gineuse et déshydratée montait doucement de l’abîme interdit. Navrée, Zazie se mit à pleurer.

Elle y prit un si vif plaisir qu’elle alla s’asseoir sur un banc pour y larmoyer avec plus de confort. Au bout de peu de temps d’ailleurs, elle fut dis­traite de sa douleur par la perception d’une pré­sence voisine. Elle attendit avec curiosité ce qui allait se produire. Il se produisit des mots, émis par une voix masculine prenant son fausset, ces mots formant la phrase interrogative que voici:

— Alors, mon enfant, on a un gros chagrin?

Devant la stupide hypocrisie de cette question, Zazie doubla le volume de ses larmes. Tant de sanglots semblaient se presser dans sa poitrine qu’elle paraissait ne pas avoir le temps de les étran­gler tous.

  • C’est si grave que ça? demanda-t-on.
  • Oh voui, msieu.

Décidément, il était temps de voir la gueule qu’avait le satyre. Passant sur son visage une main qui transforma les torrents de pleurs en rus bour­beux, Zazie se tourna vers le type. Elle n’en put croire ses yeux. II était affublé de grosses bac­chantes noires, d’un melon, d’un pébroque et de larges tatanes. C’est pas possib, se disait Zazie avec sa petite voix intérieure, c’est pas possib, c’est un acteur en vadrouille, un de l’ancien temps. Elle en oubliait de rire.

Lui, fit une sorte de grimace aimable et tendit à l’enfant un mouchoir d’une étonnante propreté. Zazie, s’en étant emparée, y déposa un peu de la crasse humide qui stagnait sur ses joues et compléta cette offrande par une morve copieuse.

— Allons, voyons, disait le type d’un ton encou­rageant, qu’est-ce qu’il y a? Tes parents te battent? Tu as perdu quelque chose et tu as peur qu’ils te grondent?

Il en faisait des hypothèses. Zazie lui rendit son mouchoir très humidifié. L’autre ne manifesta nul dégoût en remettant cette ordure dans sa fouillouse. Il continuait:

  • Il faut tout me dire. N’aie pas peur. Tu peux avoir confiance en moi.
  • Pourquoi? demanda Zazîe bredouillante et
  • Pourquoi? répéta le type déconcerté.

Il se mit à racler l’asphalte avec son pébroque.

  • Oui, dit Zazie, pourquoi que j’aurais confiance en vous?
  • Mais, répondît le type en cessant de gratter le sol, parce que j’aime les enfants. Les petites fiîles. Et les petits garçons.
  • Vous êtes un vieux salaud, oui.
  • Absolument pas, déclara le type avec une véhémence qui étonna Zazie.

Profitant de cet avantage, le meussieu lui offrit un cacocalo, là, au premier bistro venu, en sous-entendant: en plein jour, devant tout le monde, une proposition bien honnête, quoi.

Ne voulant pas montrer son enthousiasme à l’idée de se taper un cacocalo, Zazie se mit à consi­dérer gravement la foule qui, de l’autre côté de la chaussée, se canalisait entre deux rangées d’éventaires.

  • Qu’est-ce qu’ils foutent tous ces gens? deman­da-t-elle.
  • Ils vont à la foire aux puces, dit le type, ou plutôt c’est la foire aux puces qui va-t-à-z-eux, car elle commence là.
  • Ah, la foire aux puces, dit Zazie de l’air de quelqu’un qui veut pas se laisser épater, c’est là où on trouve des ranbrans pour pas cher, ensuite on les revend à un Amerlo et on n’a pas perdu sa journée.
  • Y a pas que des ranbrans, dit le type, y a aussi des semelles hygiéniques, de la lavande, des clous et même des vestes qui n’ont pas été portées.
  • Y a aussi des surplus américains?
  • Bien sûr. Et aussi des marchands de frites. Des bonnes. Faites dans la matinée.
  • C’est chouette, les surplus américains.
  • Si on veut, y a même des moules. Des bonnes. Qu’empoisonnent pas.
  • Izont des bloudjinnzes, leurs surplus améri­cains?
  • Ça fait pas un pli qu’ils en ont. Et des boussoles qui fonctionnent dans l’oscurité.
  • Je m’en fous des boussoles, dit Zazie. Mais les bloudjinnzes (silence).
  • On peut aller voir, dit le type.
  • Et puis après? dit Zazie. J’ai pas un rond pour me les offrir. A moins d’en faucher une paire.

— Allons voir tout de même, dit le type.

Zazie avait fini son cacocalo. Elle regarda le type et lui dit:

  • Je vous vois venir avec vos pataugas.

Elle ajouta:

  • On y va?

Le type paie et ils s’immergent dans la foule. Zazie se faufile, négligeant les graveurs de plaques de vélo, les souffleurs de verre, les démonstrateurs de nœuds de cravate, les Arabes qui proposent des montres, les manouches qui proposent n’importe quoi. Le type est sur ses talons, il est aussi subtil que Zazie. Pour le moment, elle a pas envie de le semer, mais elle se prévient que ce sera pas commode. Y a pas de doute, c’est un spécialiste.

Elle s’arrêta pile devant un achalandage de sur­plus. Du coup, a boujplu. A boujpludutou. Le type freine sec, juste derrière elle. Le commerçant engage la conversation.

— C’est la boussole qui vous fait envie? qu’il demande avec un aplomb. La torche électrique? Le canot pneumatique?

Zazie tremble de désir et d’anxiété, car elle n’est pas du tout sûre que le type ait vraiment des inten­tions malhonnêtes. Elle ose pas énoncer le mot disyllabique et anglo-saxon qui voudrait dire ce qu’elle veut dire. C’est le type qui le prononce.

  • Vous auriez pas des bloudjînnzes pour la petite? qu’il demande au revendeur. C’est bien ça ce qui te plairait?
  • Oh voui, vuvurre Zazie.
  • Si j’en ai, des bloudjînnzes, dit le pucier, je veux que j’en ai. J’en ai même des qui sont positive­ment inusables.
  • Ouais, dit le type, mais vous imaginez bien qu’elle va continuer à grandir. L’année prochaine elle pourra plus les mettre ces trucs, alors qu’est-ce qu’on en fera à ce moment-là?

— Ce sera pour le ptit frère ou la ptite sœur.

  • Elle en a pas.
  • D’ici un an, ça peut venir (rire).
  • Plaisantez pas avec ça, dit le type d’un air lugubre, sa pauvre mère est morte.
  • Oh! escuses.

Zazie regarde un instant le satyre avec curiosité, avec intérêt même, mais c’est des à-côtés à appro­fondir plus tard. Intérieurement, elle trépigne, elle y tient plus, elle demande:

  • Vous auriez ma taille?
  • Bien sûr, mademoiselle, répond le forain talon-
  • Et ça coûte combien?

C’est encore Zazie qui a posé cette question-là. Automatiquement. Parce qu’elle est économe mais pas avare. L’autre le dit combien ça coûte. Le type hoche la tête. Il a pas l’air de trouver ça tellement cher. C’est du moins ce que conclut Zazie de son comportement.

— Je pourrais essayer? qu’elle demande.

Le bazardeur est soufflé: elle se croit chez Fior, cette petite connasse. Il fait un joli sourire à pleines dents pour dire:

— Pas la peine. Regardez-moi çui-la.

Il déploie le vêtement et le suspend devant elle. Zazie fait la moue. Elle aurait voulu essayer.

  • Isra pas trop grand? qu’elle demande encore.
  • Regardez! Il vous ira pas plus bas que le mollet et regardez-moi ça encore s’il est pas étroit, tout juste si vous pourrez entrer dedans, mademoi­selle, quoique vous soyez bien mince, c’est pas pour

Zazie en a la gorge sèche. Des bloudjinnzes. Comme ça. Pour sa première sortie parisienne. Ça serait rien chouette.

Le type tout d’un coup prend un air rêveur. On dirait que maintenant il pense plus à ce qui se passe autour de lui.

Le marchand remet ça.

  • Vous le regretterez pas, allez, qu’il insiste, c’est inusable, positivement inusable.
  • Je vous ai déjà dit que je m’en foutais que ce soit inusable, répond distraitement le type.
  • C’est pourtant pas rien l’inusabilité, qu’il insisté le commerçant.
  • Mais, dit soudain le type, au fait, à propos, il me semble, si je comprends bien, ça vient des sur­plus américains, ces bloudjinnzes?
  • Natürlich, qu’il répond le forain.
  • Alors, vous pourrez peut-être m’espliquer ça: y avait des mouflettes dans leur armée, aux Amerlos?

— Y avait de tout, répond le forain pas dé­concerté. Le type sembla pas convaincu.

  • Bin quoi, dit le revendeur qui n’a pas envie de louper une vente à cause de l’histoire universelle, faut de tout pour faire une guerre.
  • Et ça? demande le type, ça vaut combien?

Ce sont des lunettes antisolaires. Il se les chausse.

— C’est en prime pour tout acheteur de bloudjinnzes, dit le colporteur qui voit l’affaire dans le sac.

Zazie en est pas si sûre. Alors quoi, i va pas se décider? Qu’est-ce qu’il attend? Qu’est-ce qu’i croit? Qu’est-ce qu’il veut? C’est sûrement un sale type, pas un dégoûtant sans défense, mais un vrai sale type. Faut sméfier, faut sméfier, faut sméfier. Mais quoi, les bloudjinnzes…

Enfin, ça y est. Il les paie. La marchandise est emballée et le type met le paquet sous le bras, sous son bras à lui. Zazie, dans son dedans, commence à râler ferme. C’est donc pas encore fini?

— Et maintenant, dit le type, on va casser une petite graine.

Il marche devant, sûr de lui. Zazie suit, louchant sur le paquet. Il l’entraîne comme ça jusqu’à un café-restaurant. Ils s’assoient. Le paquet se place sur une chaise, hors de la portée de Zazie.

  • Qu’est-ce que tu veux? demande le type. Des moules ou des frites?
  • Les deux, répond Zazie qui se sent devenir folle de rage.
  • Apportez toujours des moules pour la petite, dit le type tranquillement à la serveuse. Pour moi, ce sera un muscadet avec deux morceaux de sucre.

En attendant la bouffe, on ne dit rien. Le type fume paisiblement. Les moules servies, Zazie se jette dessus, plonge dans la sauce, patauge dans le jus, s’en barbouille. Les lamellibranches qui ont résisté à la cuisson sont forcés dans leur coquille avec une férocité mérovingienne. Tout juste si la gamine ne croquerait pas dedans. Quand elle a tout liquidé, eh bien, elle ne dit pas non pour ce qui est des frites. Bon, qu’il fait, le type. Lui, il déguste sa mixture à petites lampées, comme si c’était de la chartreuse chaude. On apporte les frites. Elles sont exceptionnellement bouillantes. Zazie, vorace, se brûle les doigts, mais non la gueule.

Quand tout est terminé, elle descend son demi-panaché d’un seul élan, expulse trois petits rots et se laisse aller sur sa chaise, épuisée. Son visage sur lequel passèrent des ombres quasiment anthropophagiques s’éclaircit. Elle songe avec satisfaction que c’est toujours ça de pris. Puis elle se demande s’il ne serait pas temps de dire quelque chose d’aimable au type, mais quoi? Un gros effort lui fait trouver ça:

  • Vous en mettez du temps pour écluser votre Papa, lui, il en avalait dix comme ça en autant de temps.
  • Il boit beaucoup ton papa?
  • I buvait, qu’il faut dire. Il est mort.
  • Tu as été bien triste quand il est mort?
  • Pensez-vous (geste). J’ai pas eu le temps avec tout ce qui se passait (silence).
  • Et qu’est-ce qui se passait?
  • Je boirais bien un autre demi, mais pas pana­ché, un vrai demi de vraie bière.

Le type commande pour elle et demande une petite cuiller. Il veut récupérer ce qui reste de sucre dans le fond du glasse. Pendant qu’il se livre à cette opération, Zazie liche la mousse de son demi, puis elle répond:

  • Vous lisez les journaux?
  • Des fois.
  • Vous vous souvenez de la couturière de Saint-Montron qu’a fendu le crâne de son mari d’un coup de hache? Eh bien, c’était maman. Et le mari, naturellement, c’était papa.
  • Ah! dit le type.
  • Vous vous en souvenez pas?

Il n’en a pas l’air très sûr. Zazie est indignée.

— Merde, pourtant, ça a fait assez de foin. Maman avait un avocat venu de Paris esprès, un célèbre, un qui cause pas comme vous et moi, un con, quoi. N’empêche qu’il l’a fait acquitter, comme ça (geste), les doigts dans le nez. Même que les gens izz applaudissaient maman, tout juste s’ils l’ont pas portée en triomphe. On a fait une fameuse foire ce jour-là. Y avait qu’une chose qui chagrinait maman, c’est que le Parisien, l’avocat, il se faisait pas payer avec des rondelles de saucisson. Il a été gourmand, la vache. Heureusement que Georges était là pour un coup.

  • Et qui était ce Georges?
  • Un charcutier. Tout rose. Le coquin de C’est lui qui avait refilé la hache (silence) pour couper son bois (léger rire).

Elle s’envoie une petite lampée de bière, avec distinction, tout juste si elle ne lève pas l’auriculaire.

— Et c’est pas tout, qu’elle ajoute, moi, que vous voyez là devant vous, eh bien, j’ai déposé au procès, et à huis clos encore.

Le type ne réagit pas.

  • Vous me croyez pas?
  • Bien sûr que non. C’est pas légal un enfant qui dépose contre ses parents.
  • D’abord, des parents y en avait plus qu’un, primo, et ensuite vous y connaissez rien. Vous auriez qu’à venir chez nous à Saint-Montron et je vous montrerais un cahier où j’ai collé tous les articles de journaux où il est question de moi. Même que Georges, pendant que maman était en tôle, pour mon petit Noël, il m’a abonnée à l’Argus de la Presse. Vous connaissez ça l’Argus de la Presse?
  • Non, dit le type.
  • Et ça veut discuter avec moi.
  • Pourquoi aurais-tu témoigné à huis clos?
  • Ça vous intéresse, hein?
  • Pas spécialement.
  • Ce que vous pouvez être sournois.

Et elle s’envoie une petite lampée de bière, avec distinction, tout juste si elle ne lève pas l’auri­culaire. Le type ne bronche pas (silence).

  • Allons, finit par dire Zazie, faut pas bouder comme ça. Je vais vous la raconter, mon histoire.
  • J’écoute.
  • Voilà. Faut vous dire que maman pouvait pas blairer papa, alors papa, ça l’avait rendu triste et il s’était mis à picoler. Qu’est-ce qu’il descen­dait comme litrons. Alors, quand il était dans ces états-là, fallait se garer de lui, parce que le chat lui-même y aurait passé. Comme dans la chanson. Vous connaissez?
  • Je vois, dit le type.
  • Tant mieux. Alors je continue: un jour, un dimanche, je rentrais de voir un match de foute, y avait le Stade Sanctimontronais contre l’Étoile-Rouge de Neuflize, en division d’honneur c’est pas Vous vous intéressez au sport, vous?
  • Au catch.

Considérant le gabarit médiocre du bonhomme, Zazie ricane.

  • Dans la catégorie spectateurs, qu’elle dit.
  • C’est une astuce qui traîne partout, réplique le type froidement.

De rage, Zazie assèche son demi, puis elle la boucle.

— Allons, dit le type, faut pas bouder comme ça. Continue donc ton histoire.

  • Elle vous intéresse, mon histoire?
  • Alors, vous mentiez tout à l’heure?
  • Continue donc.
  • Vous énervez pas. Vous seriez plus en état de l’apprécier, mon histoire.

V

Ltipstu et Zazie reprit son discours en ces termes:

— Papa, il était donc tout seul à la maison, tout seul qu’il attendait, il attendait rien de spé­cial, il attendait tout de même, et il était tout seul, ou plutôt il se croyait tout seul, attendez, vous allez comprendre. Je rentre donc, faut dire qu’il était noir comme une vache, papa, il commence donc à m’embrasser ce qu’était normal puisque c’était mon papa, mais voilà qu’il se met à me faire des papouilles zozées, alors je dis ah non parce que je comprenais où c’est qu’il voulait en arriver le salaud, mais quand je lui ai dit ah non ça jamais, lui il saute sur la porte et il la ferme à clé et il met la clé dans sa poche et il roule les yeux en faisant ah ah ah tout à fait comme au cinéma, c’était du tonnerre. Tu y passeras à la casserole qu’il déclamait, tu y passeras à la casserole, il bavait même un peu quand il proférait ces immondes menaces et finalement immbondit dssus. J’ai pas de mal à l’éviter. Comme il était rétamé, il se fout la gueule par terre. Isrelève. Ircommence à me courser, enfin bref, une vraie corrida. Et voilà qu’il finit par m’attraper. Et les papouilles zozées de recommencer. Mais, à ce moment, la porte s’ouvre tout doucement, parce qu’il faut vous dire que maman elle lui avait dit comme ça, je sors, je vais acheter des spaghetti et des côtes de porc, mais c’était pas vrai, c’était pour le feinter, elle s’était planquée dans la buanderie où c’est que c’est qu’elle avait garé la hache et elle s’était ramenée en douce et naturellement elle avait avec elle son trousseau de clés. Pas bête la guêpe, hein?

  • Eh oui, dit le type.
  • Alors donc elle ouvre la porte en douce et elle entre tout tranquillement, papa lui il pensait à autre chose le pauvre mec, il faisait pas attention quoi, et c’est comme ça qu’il a eu le crâne fendu. Faut reconnaître, maman elle avait mis la bonne C’était pas beau à voir. Dégueulasse même. De quoi mdonner des complexes. Et c’est comme ça qu’elle a été acquittée. J’ai eu beau dire que c’était Georges qui lui avait refilé la hache, ça n’a rien fait, ils ont dit que quand on a un mari qu’est un salaud de skalibre, y a qu’une chose à faire, qu’à lbousiller. Jvous ai dit, même qu’on l’a féli­citée. Un comble, vous trouvez pas?
  • Les gens… dit le type… (geste).
  • Après, elle a râlé contre moi, elle m’a dit, sacrée conarde, qu’est-ce que t’avais besoin de raconter cette histoire de hache? Bin quoi jlui ai répondu, c’était pas la vérité? Sacrée connarde, qu’elle a répété et elle voulait me dérouiller, dans la joie générale. Mais Georges l’a calmée et puis elle était si fière d’avoir été applaudie par des gens qu’elle connaissait pas qu’elle pouvait plus penser à autre chose. Pendant un bout de temps, en tout
  • Et après? demanda le type.
  • Bin après c’est Georges qui s’est mis à tourner autour de moi. Alors maman a dit comme ça qu’elle pouvait tout de même pas les tuer tous quand même, ça finirait par avoir l’air drôle, alors elle l’a foutu à la porte, elle s’est privée de son jules à cause de moi. C’est pas bien, ça? C’est pas une bonne mère?
  • Ça oui, dit le type conciliant.
  • Seulement, y a pas bien longtemps elle en a retrouvé un autre et c’est ce qui l’a amenée à Paris, elle lui court après, mais moi, pour pas me laisser seule en proie à tous les satyres, et y en a, et y en a, elle m’a confiée à mon tonton Gabriel. Il paraît qu’avec lui, j’ai rien à craindre.
  • Et pourquoi?
  • Ça j’en sais rien. Je suis arrivée seulement hier et j’ai pas eu le temps de me rendre compte.
  • Et qu’est-ce qu’il fait, le tonton Gabriel?
  • Il est veilleur de nuit, il se lève jamais avant midi une heure.
  • Et tu t’es tirée pendant qu’il roupillait encore.
  • Voilà.
  • Et où habites-tu?
  • Par là (geste).
  • Et pourquoi pleurais-tu tout à l’heure sur le banc?

Zazie répond pas. Il commence à l’emmerder, ce type.

— Tu es perdue, hein?

Zazie hausse les épaules. C’est vraiment un sale type.

  • Tu saurais me dire l’adresse du tonton Gabriel?

Zazie se tient des grands discours avec sa petite voix intérieure: non mais, de quoi je me mêle, qu’est-ce qu’i s’imagine, il l’aura pas volé, ce qui va lui arriver.

Brusquement, elle se lève, s’empare du paquet et se carapate. Elle se jette dans la foule, se glisse entre les gens et les éventaires, file droit devant elle en zigzag, puis vire sec tantôt à droite, tantôt à gauche, elle court puis elle marche, se hâte puis ralentit, reprend le petit trot, fait des tours et des détours.

Elle allait commencer à rire du bonhomme et de la tête qu’il devait faire lorsqu’elle comprit qu’elle se félicitait trop tôt. Quelqu’un marchait à côté d’elle. Pas besoin de lever les yeux pour savoir que c’était le type, cependant elle les leva, on sait jamais, c’en était peut-être un autre, mais non c’était bien le même, il n’avait pas l’air de trouver qu’il se soit passé quoi que ce soit d’anormal, il marchait comme ça, tout tranquillement.

Zazie ne dit rien. Le regard en dessous, elle egzamina le voisinage. On était sorti de la cohue, on se trouvait maintenant dans une rue de moyenne largeur fréquentée par de braves gens avec des têtes de cons, des pères de famille, des retraités, des bonnes femmes qui baladaient leurs mômes, un public en or, quoi. C’est du tout cuit, se dit Zazie avec sa petite voix intérieure. Elle prit sa respira­tion et ouvrit la bouche pour pousser son cri de guerre: au satyre! Mais le type était pas tombé de la dernière pluie. Lui arrachant le paquet mécham­ment, il se mit à la secouer en proférant avec éner­gie les paroles suivantes:

— Tu n’as pas honte, petite voleuse, pendant que j’avais le dos tourné.

Il fit ensuite appel à la foule s’amassant:

— Ah! les jitrouas, rgardez-moi cqu’elle avait voulu mfaucher.

Et il agitait le pacson au-dessus de sa tête.

  • Une paire de bloudjinnzes, qu’il gueulait. Une paire de bloudjinnzes qu’elle a voulumfaucher, la
  • Si c’est pas malheureux, commente une ména­gère.
  • De la mauvaise graine, dit une autre.
  • Saloperie, dit une troisième, on lui a donc jamais appris à cette petite que la propriété, c’était sacré?

Le type continuait à houspiller la môme.

— Hein, et si je t’emmenais au commissariat? Hein? Au commissariat de police? Tu irais en prison. En prison. Et tu passerais devant le tri­bunal pour mineurs. Avec la maison de redresse­ment comme conclusion. Car tu serais condamnée. Condamnée au massimum.

Une dame de la haute société qui passait d’aven­ture dans le coin en direction des bibelots rares daigna s’arrêter. Elle s’enquit auprès de la popu­lace de la cause de l’algarade et, lorsque, non sans peine, elle eut compris, elle voulut faire appel aux sentiments d’humanité qui pouvaient peut-être exister chez ce singulier individu, dont le melon, les noires bacchantes et les verres fumés ne semblaient pas étonner les populations.

  • Meussieu, lui dit-elle, ayez pitié de cette Elle n’est pas responsable de la mauvaise éducation que, peut-être, elle reçut. La faim sans doute l’a poussée à commettre cette vilaine action, mais il ne faut pas trop, je dis bien «trop», lui en vouloir. N’avez-vous jamais eu faim (silence), meussieu?
  • Moi, madame, répondit le type avec amertume (au cinéma on fait pas mieux, se disait Zazie), moi? avoir eu faim? Mais je suis un enfant de l’Assis­tance, madame…

La foule se fit frémir d’un murmure de compas­sion. Le type, profitant de l’effet produit, la fend, cette foule, et entraîne Zazie, en déclamant dans le genre tragique: on verra bien ce qu’ils disent, tes parents.

Puis il se tut un peu plus loin. Ils marchèrent quelques instants en silence et, tout à coup, le type dit:

— Tiens, j’ai oublié mon pébroque au bistro.

Il s’adressait à lui-même et à mi-voix encore, mais Zazie ne fut pas longue à tirer des conclusions de cette remarque. C’était pas un satyre qui se donnait l’apparence d’un faux flic, mais un vrai flic qui se donnait l’apparence d’un faux satyre qui se donne l’apparence d’un vrai flic. La preuve, c’est qu’il avait oublié son pébroque. Ce raisonnement lui paraissant incontestable, Zazie se demanda si ce ne serait pas une astuce savoureuse de confronter le tonton avec un flic, un vrai. Aussi, quand le type eut déclaré que c’était pas tout ça, où c’est qu’elle habitait, elle lui donna sans hésitation son adresse. L’astuce était effectivement savoureuse: lorsque Gabriel, après avoir ouvert la porte et s’être écrié Zazie, s’entendit annoncer gaîment «tonton, via un flic qui veut tparler», s’appuyant contre le mur, il verdit. II est vrai que ce pouvait être l’éclai­rage, il faisait si sombre dans cette entrée, cepen­dant le type prit l’air de rien remarquer, Gabriel lui dit comme ça entrez donc d’une voix déséqui­librée.

Ils entrèrent donc dans la salle à manger et Mar­celine se jeta sur Zazie en manifestant la plus grande joie de retrouver cette enfant. Gabriel lui dit: offre donc quelque chose au meussieu, mais l’autre leur signifia qu’il ne voulait rien ingurgiter, c’était pas comme Gabriel qui demanda qu’on lui apportât le litre de grenadine.

De sa propre initiative, le type s’était assis, cependant que Gabriel se versait une bonne dose de sirop qu’il agrémentait d’un peu d’eau fraîche.

— Vous ne voulez vraiment pas boire quelque chose?

— (geste).

Gabriel s’envoya le réconfortant, posa le verre sur la table et attendit, l’œil fixe, mais le type n’avait pas l’air de vouloir causer, Zazie et Marce­line, debout, les guettaient.

Ça aurait pu durer longtemps.

Finalement, Gabriel trouva quelque chose pour amorcer la conversation.

  • Alors, qu’il dit comme ça Gabriel, alors comme ça vous êtes flic [policial]?
  • Jamais de la vie, s’écria l’autre d’un ton cor­dial, je ne suis qu’un pauvre marchand forain.
  • Le crois pas, dit Zazie, c’est un pauvre
  • Faudrait s’entendre, dit Gabriel mollement.
  • La petite plaisante, dit le type avec une bonhomie constante. Je suis connu sous le nom de Pedro-surplus et vous pouvez me voir aux Puces les samedi, dimanche et lundi, distribuant aux popu­lations les menus objets que l’armée amerloquaine laissa traîner derrière elle lors de la libération du
  • Et vous les distribuez gratuitement? Demanda Gabriel légèrement intéressé.
  • Vous voulez rire, dit le type. Je les échange contre de la menue monnaie (silence). Sauf dans le cas présent.
  • Qu’est-ce que vous voulez dire? demanda
  • Je veux dire simplement que la petite (geste) m’a fauché une paire de bloudjinnzes.
  • Si c’est que ça, dit Gabriel, elle va vous les
  • Le salaud, dit Zazie, il me les a repris.
  • Alors, dit Gabriel au type, de quoi vous vous plaignez?
  • Je me plains, c’est tout.
  • I sont à moi, les bloudjinnzes, dit Zazîe. C’est lui qui mles a fauchés. Oui. Et, en plus de ça, c’est un flic. Méfie-toi, tonton Gabriel.

Gabriel, pas rassuré, se versa un nouveau verre de grenadine.

  • C’est pas clair, tout ça, qu’il dit. Si vous êtes un flic, je vois pas pourquoi vous râlez et, si vous en êtes pas un, y a pas de raisons pour que vous me posiez des questions.
  • Pardon, dit le type, c’est pas moi qui pose des questions, c’est vous.
  • Ça c’est vrai, reconnut Gabriel avec objec­tivité.
  • Ça y est, dit Zazie, i va se laisser faire.
  • C’est peut-être à mon tour maintenant de poser des questions, dit le type.
  • Réponds que devant ton avocat, dit Zazie.
  • Fous-moi la paix, dit Gabriel. Je sais ce que j’ai à faire.
  • I va te faire dire tout ce qu’il voudra.

— Elle me prend pour un idiot, dit Gabriel en s’adressant au type avec amabilité. C’est les gosses d’aujourd’hui.

— Y a plus de respect pour les anciens, dit le type.

  • C’est écœurant d’entendre des conneries comme ça, déclare Zazie qui a son idée. Je préfère m’en aller.
  • C’est ça, dit le type. Si les personnes du deuxième sexe pouvaient se retirer un instant.
  • Comment donc, dit Zazie en ricanant.

En sortant de la pièce, elle récupéra discrètement le pacson oublié par le type sur une chaise.

— On vous laisse, dit doucement Marceline en se tirant à son tour.

Elle ferme doucement la porte derrière elle.

—Alors, dit le type (silence), c’est comme ça que vous vivez de la prostitution des petites filles?

Gabriel fait semblant de se dresser pour un geste de théâtrale protestation, mais se ratatine aussitôt.

  • Moi, msieu? murmure-t-il.
  • Oui! réplique le type, oui, vous. Vous n’allez pas me soutenir le contraire?
  • Si, msieu.
  • Vous en avez du culot. Flagrant délit. Cette petite faisait le tapin au marché aux puces. J’espère au moins que vous la vendez pas aux Arabes.
  • Ça jamais, msieu.
  • Ni aux Polonais?
  • Non pus, msieu.
  • Seulement aux Français et aux touristes for­tunés?
  • Seulement rien du tout.

La grenadine commence à faire son effet. Gabriel récupérait.

  • Alors vous niez? demanda le type.
  • Et comment.

Le type sourit diaboliquement, comme au cinéma.

  • Et dites-moi, mon gaillard, qu’il susurre, quel est votre métier ou votre profession derrière lequel ou laquelle vous cachez vos activités délictueuses.
  • Je vous répète que je n’ai pas d’activités délic­
  • Pas d’histoires. Profession?
  • Vous? un artiste? La petite m’a dit que vous étiez veilleur de nuit.
  • Elle y connaît rien. Et puis on dit pas toujours la vérité aux enfants. Pas vrai?
  • À moi, on la dit.
  • Mais vous n’êtes pas un enfant (sourire aimable). Une grenadine?
  • (geste).

Gabriel se sert un autre verre de grenadine.

  • Alors, reprend le type, quelle espèce d’artiste?

Gabriel baisse modestement les yeux.

  • Danseuse de charme, qu’il répond.

VI

  • Qu’est-ce qu’ils se racontent? demanda Zazie en finissant d’enfiler les bloudjinnzes.
  • Ils parlent trop bas, dit doucement Marceline l’oreille appuyée contre la porte de la chambre. Je n’arrive pas à comprendre.

Elle mentait doucement la Marceline, car elle entendait fort bien le type qui disait comme ça: Alors c’est pour ça, parce que vous êtes une pédale, que la mère vous a confié cette enfant? et Gabriel répondait: Mais puisque je vous dis que j’en suis pas. D’accord, je fais mon numéro habillé en femme dans une boîte de tantes mais ça veut rien dire. C’est juste pour faire marer le monde. Vous comprenez, à cause de ma haute taille, ils se fendent la pipe. Mais moi, personnellement, j’en suis pas. La preuve c’est que je suis marié.

Zazie se regardait dans la glace en salivant d’admiration. Pour aller bien ça on pouvait dire que les bloudjinnzes lui allaient bien. Elle passa ses mains sur ses petites fesses moulées à souhait et perfection mêlés et soupira profondément, grandement satisfaite.

  • T’entends vraiment rien? elle demande. Rien de rien?

Non, répondit doucement Marceline toujours aussi menteuse car le type disait: Ça veut rien dire. En tout cas vous allez pas nier que c’est parce que la mère vous considère comme une tante qu’elle vous a confié l’enfant; et Gabriel devait bien le reconnaître. Iadssa, iadssa, qu’il concédait.

— Comment tu me trouves? dit Zazie. C’est pas chouette?

Marceline, cessant d’écouter, la considéra.

  • Les filles s’habillent comme ça maintenant, dit-elle doucement.
  • Ça te plaît pas?
  • Si donc. Mais, dis-moi, tu es sûre que le bonhomme ne dira rien que tu lui aies pris son paquet?
  • Puisque je te répète qu’ils sont à moi. II va en faire un nez quand il va me voir avec.
  • Parce que tu as l’intention de te montrer avant qu’il soit parti?

— Je veux, dit Zazie. Je vais pas rester à moisir ici.

Elle traversa la pièce pour aller coller une oreille contre la lourde. Elle entendit le type qui disait: Tiens où donc j’ai mis mon pacson.

— Dis donc, tata Marceline, dit Zazie, tu te fous de moi ou bien t’es vraiment sourdingue? On entend très bien ce qu’ils se racontent.

  • Eh bien, qu’est-ce qu’ils se racontent?

Renonçant pour le moment à approfondir la question de la surdité éventuelle de sa tante, Zazie plongea de nouveau son étiquette dans le bois de la porte. Le type disait comme ça: Ah ça, i faudrait voir, j’espère que la petite me l’a pas fauché, mon pacson. Et Gabriel suggérait: vous l’aviez peut-être pas avec vous. Si, disait le type, si la môme me l’a fauché, ça va barder un brin.

  • Qu’est-ce qu’il peut râler, dit Zazie.
  • Il ne s’en va pas? demanda doucement Mar­
  • Non, dit Zazie. Via maintenant qu’il entre­prend le tonton sur ton compte.

Après tout, disait le type, c’est peut-être vott dame qui me l’a fauché, mon pacson. Elle a peut-être envie de porter des bloudjinnzes elle aussi, vott dame. Ça sûrement non, disait Gabriel, sûrement pas. Qu’est-ce que vous en savez? répliquait le type, l’idée peut lui en être venue avec un mari qui a des façons d’hormosessuel.

  • Qu’est-ce que c’est un hormosessuel? Demanda
  • C’est un homme qui met des bloudjinnzes, dit doucement Marceline.
  • Tu me racontes des blagues, dit Zazie.
  • Gabriel devrait le mettre à la porte, dit doucement Marceline.
  • Ça c’est une riche idée, Zazie dit.

Puis, méfiante:

  • Il serait chiche de le faire?
  • Tu vas voir.
  • Attends, je vais entrer la première.

Elle ouvrit la porte et, d’une voix forte et claire, prononça les mots suivants:

  • Alors, tonton Gabriel, comment trouves-tu mes bloudjinnzes?
  • Veux-tu vite enlever ça, s’écria Gabriel épouvanté, et les rendre au meussieu tout de suite.
  • Les rendre mon cul, déclara Zazie. Y a pas de Ils sont à moi.
  • J’en suis pas bien sûr, dit Gabriel embêté.
  • Oui, dit le type, enlève ça et au trot.
  • Fous-le donc à la porte, dit Zazie à Gabriel.
  • T’en as de bonnes, dit Gabriel. Tu me préviens que c’est un flic et ensuite tu voudrais que je tape

C’est pas parce que c’est un flic qu’i faut en avoir peur, dit Zazie avec grandiloquence. C’est hun dégueulasse qui m’a fait des propositions sales, alors on ira devant les juges tout flic qu’il est, et les juges, je les connais moi, ils aiment les petites filles, alors le flic dégueulasse, il sera condamné à mort et guillo­tiné et moi j’irai chercher sa tête dans le panier de son et je lui cracherai sur sa sale gueule, na.

Gabriel fermit les yeux en frémissant à l’évocation de ces atrocités. Il se tournit vers le type:

  • Vous entendez, qu’il lui dit. Vous avez bien réfléchi? C’est terrible, vous savez les gosses.
  • Tonton Gabriel, s’écria Zazie, je te jure que c’est hà moi les bloudjinnzes. Faut mdéfendre, tonton Gabriel. Faut mdéfendre. Qu’est-ce qu’elle dira ma moman si elle apprenait que tu me laisses insulter par un galapiat, un gougnafier et peut-être même un conducteur du dimanche.
  • Merde, ajouta-t-elle pour son compte avec sa petite voix intérieure, chsuis aussi bonne que Michèle Morgan dans La Damé aux camélias.

Effectivement touché par le pathétique de cette invocation, Gabriel manifesta son embarras en ces termes mesurés qu’il prononça médza votché et pour ainsi dire quasiment in petto:

— C’est tout de même embêtant de se mettre à dos un bourin.

Le type ricane.

  • Ce que vous pouvez avoir l’esprit mal tourné, dit Gabriel en rougissant.
  • Non mais, vous voyez pas tout ce qui vous pend au nez? dit le type avec un air de plus en plus vachement méphistophélique: prossénétisme, entôlage, hormosessualité, éonisme, hypospadie balanique, tout ça va bien chercher dans les dix ans de travaux forcés.

Puis il se tourne vers Marceline:

  • Et madame? On aimerait avoir aussi quelques renseignements sur madame.
  • Lesquels? demanda doucement Marceline.
  • Faut parler que devant ton avocat, dit Zazie. Tonton a pas voulu m’écouter, tu vois comme il est emmerdé maintenant.

— Tu vas te taire? dit le type à Zazie. Oui, reprend-il, madame pourrait-elle me dire quelle profession elle exerce?

  • Ménagère, répond Gabriel avec férocité.
  • En quoi ça consiste? demande ironiquement le

Gabriel se tourne vers Zazie et lui cligne de l’oeil pour que la petite se prépare à savourer ce qui va suivre.

— En quoi ça consiste? dit-il anaphoriquement. Par exemple, à vider les ordures.

Il saisit le type par le col de son veston, le tire sur le palier et le projette vers les régions inférieures.

Ça fait du bruit: un bruit feutré.

Le bada suit le même chemin. II fait moins de bruit quoiqu’il soit melon.

  • Formi, s’esclama Zazie enthousiasmée cepen­dant qu’en bas le type se ramassait et remettait en place sa moustache et ses lunettes noires.
  • Ça sera quoi? lui demanda Turandot.

— Un remontant, répondit le type avec à-propos.

  • C’est qu’il y a des tas de marques.
  • M’est égal.

Il alla s’asseoir dans le fond.

  • Qu’est-ce que je pourrais bien lui donner, rumine Turandot. Un fernet-branca?
  • C’est pas buvable, dit Charles.
  • Tu n’y as peut-être jamais goûté. C’est pas si mauvais que ça et c’est fameux pour l’estomac. Tu devrais essayer.

— Fais voir un petit fond de verre, dit Charles conciliant.

Turandot le sert largement.

Charles trempe ses lèvres, émet un petit bruit de clapotis qu’il shunte, remet ça, déguste pensivement en agitant les lèvres, avale la gorgée, passe à une autre.

  • Alors? demande Turandot.
  • C’est pas sale.
  • Encore un peu?

Turandot emplit de nouveau le verre et remet la bouteille sur l’étagère. II fouine encore et découvre autre chose.

  • Y a aussi l’eau d’arquebuse, qu’il dit.
  • C’est démodé ça. De nos jours, ce qu’il fau­drait, c’est de l’eau atomique.

Cette évocation de l’histoire universelle fait se marer tout le monde.

  • Eh bien, s’écrie Gabriel, en entrant dans le bistro à toute vapeur, eh bien vous vous embêtez pas dans l’établissement. C’est pas comme moi. Quelle histoire. Sers-moi une grenadine bien tassée, pas beaucoup de bouillon, j’ai besoin d’un remon­ Si vous saviez par où je viens de passer.
  • Tu nous raconteras ça tout à l’heure, dit Turandot un peu gêné.
  • Tiens bonjour toi, dit à Charles Gabriel. Tu restes déjeuner avec nous?
  • C’était pas entendu?
  • Jte lrappelle, simplement.
  • Ya pas à me lrappeler. Jl’avais pas oublié.
  • Alors disons que je te confirme mon invita­
  • Ya pas à mla confirmer puisque c’était d’ac­
  • Tu restes donc déjeuner avec nous, conclut Gabriel qui voulait avoir le dernier mot.
  • Tu causes tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce que tu sais faire.
  • Bois donc, dit Turandot à Gabriel.

Gabriel suit ce conseil.

  • (soupir) Quelle histoire. Vous avez vu Zazie revenir accompagnée par un type?
  • Vvui, vuvurrèrent Turandot et Mado Ptits-pieds avec discrétion.
  • Moi chsuis arrivé après, dit Charles.
  • Au fait, dit Gabriel, vous l’avez pas vu rpasser, le gars?
  • Tu sais, dit Turandot, j’ai pas eu le temps de bien le dévisager, alors je ne suis pas tout à fait sûr de le reconnaître, mais c’est peut-être bien le type qu’est assis derrière toi dans le fond.

Gabriel se retourna. Le type était là sur une chaise, attendant patiemment son remontant.

  • Nondguieu, dit Turandot, c’est vrai, escuses, je vous avais oublié.
  • De rien, dit poliment le type.
  • Qu’est-ce que vous diriez d’un fernet-branca?
  • Si c’est ça ce que vous me conseillez.

À ce moment, Gabriel, verdâtre, se laisse glisser mollement sur le plancher.

  • Ça fera deux fernet-branca, dit Charles en ramassant le copain au passage.
  • Deux fernet-branca, deux, répond mécanique­ment Turandot.

Rendu nerveux par les événements, il n’arrive pas à remplir les verres, sa main tremble, il en fout à côté des flaques brunâtres qui émettent des pseu­dopodes qui vont s’en allant souiller le bar en bois depuis l’occupation.

— Donnez-moi donc ça, dit Mado Ptits-pieds en arrachant la bouteille des mains de l’ému patron.

Turandot s’éponge le front. Le type suppe pai­siblement son remontant enfin servi. Pinçant le nez de Gabriel, Charles lui verse le liquide entre les dents. Ça dégouline un peu le long des commissures labiales. Gabriel s’ébroue.

  • Sacrée cloche, lui dit Charles affectueusement.
  • Petite nature, remarque le type requinqué.
  • Faut pas dire ça, dit Turandot. Il a fait ses Pendant la guerre.
  • Qu’est-ce qu’il a fait? demande l’autre négli­
  • L’esstéo, répond l’aubergiste en versant à la ronde de nouvelles doses de fernet.
  • Ah! fait le type avec indifférence.
  • Vous vous souvenez ptêtt pas, dit Turandot. Scon oublie vite, tout dmème. Le travail obliga­ En Allemagne. Vous vous souvenez pas?
  • Ça prouve pas forcément une forte nature, remarque le type.
  • Et les bombes, dit Turandot. Vous les avez oubliées, les bombes?

— Et qu’est-ce qu’il faisait des bombes, votre costaud? Il les recevait dans ses bras pour qu’elles éclatent pas?

  • Elle est pas drôle votre astuce, dit Charles qui commence à s’énerver.
  • Vous disputez pas, murmure Gabriel qui reprend contact avec le paysage.

D’un pas un peu trop hésitant pour être vrai, il va s’effondrer devant une table qui se trouve être celle du type. Gabriel sort un petit drap mauve de sa poche et s’en tapote le visage, embaumant le bistro d’ambre lunaire et de musc argenté.

  • Pouah, fait le type. Elle empeste vott lingerie.
  • Vous allez pas recommencer à m’emmerder? demande Gabriel en prenant un air douloureux. Il vient pourtant de chez Fior, ce parfum.
  • Faut comprendre les gens, lui dit Charles. Y a des croquants qui n’aiment pas squi est raffiné.
  • Raffiné, vous me faites rire, dit le type, on a raffiné ça dans une raffinerie de caca, oui.
  • Vous croyez pas si bien dire, s’esclama Gabriel Il paraît qu’il y en a une goutte dans les produits des meilleures firmes.
  • Même dans l’eau de Cologne? demande Turan­dot qui s’approche timidement de ce groupe choisi.
  • Ce que tu peux être lourd, toi alors, dit Tu vois donc pas que Gabriel répète n’im­porte quelle connerie sans la comprendre, suffit qu’il l’ait entendue une fois.
  • Faut bien les entendre pour les répéter, rétor­qua Gabriel. As-tu jamais été foutu de sortir une connerie que t’aurais trouvée à toi tout seul?
  • Faut pas egzagérer, dit le type.
  • Egzagérer quoi? demande Charles.

Le type, lui, s’énerve pas.

  • Vous ne dites jamais de conneries? qu’il demande insidieusement.
  • Il se les réserve pour lui tout seul, dit Charles aux deux autres. C’est un prétentiard.
  • Tout ça, dit Turandot, c’est pas clair.
  • D’où c’est qu’on est parti? demande Gabriel.
  • Jte disais que tu n’es pas capable de trouver tout seul toutes les conneries que tu peux sortir, dit Charles.
  • Quelles conneries que j’ai sorties?
  • Je sais plus. T’en produis tellement.
  • Alors dans ce cas-là, tu ne devrais pas avoir de mal à m’en citer une.
  • Moi, dit Turandot qu’était plus dans le coup, je vous laisse à vos dissertations. Le monde se ramène.

Les midineurs arrivaient, d’aucuns avec leur gamelle. On entendit Laverdure qui poussait son tu causes tu causes c’est tout ce que tu sais faire.

— Oui, dit Gabriel pensivement, de quoi qu’on causait?

  • De rien, répondit le type. De rien.

Gabriel le regarda d’un air dégoûté.

  • Alors, qu’il dit. Alors qu’est-ce que je fous ici?
  • T’es venu mchercher, dit Charles. Tu te sou­viens? Je déjeune chez toi et après on emmène la petite à la tour Eiffel.
  • Alors gy.

Gabriel se leva et, suivi de Charles, s’en fut, ne saluant point le type. Le type appela (geste) Mado Ptits-pieds.

— Pendant que j’y suis, qu’il dit, je reste déjeu­ner.

Dans l’escalier Gabriel s’arrêta pour demander au pote Charles:

  • Tu crois pas que ç’aurait été poli de l’inviter?

(…)

Le type haussa tranquillement les épaules et dit sans conviction ni amertume:

— Des insultes, voilà tous les remerciements qu’on reçoit quand on ramène une enfant perdue à ses parents. Des insultes.

Et il ajoute après un gros soupir:

— Mais quels parents.

Gridoux décolla ses fesses de sus sa chaise pour demander d’un air menaçant:

  • Et qu’est-ce qu’ils ont de mal, ses parents? qu’est-ce que vous trouvez à leur redire?
  • Oh! rien (sourire).
  • Mais dites-le, dites-le donc.
  • Le tonton est une tata.
  • C’est pas vrai, gueula Gridoux, c’est pas vrai, je vous défends de dire ça.
  • Vous n’avez rien à me défendre, mon cher, je n’ai pas d’ordre à recevoir de vous.
  • Gabriel, proféra Gridoux solennellement, Ga­briel est un honnête citoyen, un honnête et hono­rable citoyen. D’ailleurs tout le monde l’aime dans le quartier.
  • Une séductrice.

— Vous m’emmerdez, vous, à la fin, avec vos airs supérieurs. Je vous répète que Gabriel n’est pas une tante, c’est clair, oui ou non?

(…)

  • Ça ne prouve rien, continuait Gridoux, sinon que ça amuse les gogos. Un colosse habillé en torero ça fait sourire, mais un colosse habillé en Sévillane, c’est ça alors qui fait marer les gens. D’ailleurs c’est pas tout, il danse aussi La Mort du cygne comme à l’Opéra. En tutu. Là alors, les gens ils sont plies en deux. Vous allez me parler de la bêtise humaine, dakor, mais c’est un métier comme un autre après tout, pas vrai?

(…)

  • Je donnerais cher pour savoir ce que vous êtes venu faire dans le coinstot.
  • Je suis venu reconduire une enfant perdue à ses
  • Vous allez finir par me le faire croire.
  • Et ça m’a attiré bien des ennuis.
  • Oh! dit Gridoux, pas bien graves.
  • Je ne parle pas de l’histoire avec le roi de la séguedille et de la princesse des djinns bleus (silence). Y a pire.

Le type avait fini de remettre sa chaussure.

  • Ya pire, répéta-t-il.
  • Quoi? demanda Gridoux impressionné.
  • J’ai ramené la petite à ses parents, mais moi je me suis perdu.
  • Oh! ça n’est rien, dit Gridoux rasséréné. Vous tournez dans la rue à gauche et vous trouvez le métro un peu plus bas, c’est pas difficile comme vous
  • S’agit pas de ça. C’est moi, moi, que j’ai perdu.
  • Comprends pas, dit Gridoux de nouveau un peu inquiet.
  • Posez-moi des questions, posez-moi des ques­tions, vous allez comprendre.
  • Mais vous y répondez pas aux questions.
  • Quelle injustice! comme si je n’ai pas répondu pour les épinards.

Gridoux se gratta le crâne.

  • Eh bien par exemple…

Mais il ne put continuer, fort embarrassé.

  • Dites, insistait le type, mais dites donc, (silence)

Gridoux baisse les yeux.

Le type lui vient en aide,

  • Vous voulez peut-être savoir mon nom par egzemple?
  • Oui, dit Gridoux, c’est ça, vott nom.
  • Eh bien je ne le sais pas.

Gridoux leva les yeux.

  • C’est malin, ça, dit-il.
  • Eh non, je ne le sais pas.
  • Comment ça?
  • Comment ça? Comme ça. Je ne l’ai pas appris par cœur.

(silence)

  • Vous vous foutez de moi, dit Gridoux.
  • Et pourquoi ça?
  • Est-ce qu’on a besoin d’apprendre son nom par cœur?
  • Vous, dit le type, vous vous appelez comment?
  • Gridoux, répondit Gridoux sans se méfier.
  • Vous voyez bien que vous le savez par cœur votre nom de Gridoux.
  • C’est pourtant vrai, murmura Gridoux.

Mais ce qu’il y a de plus fort dans mon cas, reprit le type, c’est que je ne sais pas si j’en avais un avant.

  • Un nom?
  • Un nom.
  • Ce n’est pas possible, murmura Gridoux avec
  • Possible, possible, qu’est-ce que ça veut dire «possible», quand ça est?
  • Alors comme ça vous n’avez jamais eu de nom?
  • Il semble bien.
  • Et ça ne vous a jamais causé d’ennuis?
  • Pas de trop. (silence)

Le type répéta:

  • Pas de trop, (silence)
  • Et votre âge, demanda brusquement Gridoux. Vous ne le savez peut-être pas non plus votre âge?
  • Non, répondit le type. Bien sûr que non.

Gridoux examina attentivement la tète de son interlocuteur.

  • Vous devez avoir dans les…

Mais il s’interrompit.

  • C’est difficile à dire, murmura-t-il.
  • N’est-ce pas? Alors, quand vous venez m’inter­roger sur mon métier, vous comprenez que c’est pas par mauvaise volonté que je ne vous réponds pas.
  • Bien sûr, acquiesça Gridoux angoissé.

Un bruit de moteur vaseux fit se retourner le type. Un taxi vieux passa, ayant à bord Gabriel et Zazie.

— Ça va se promener, dit le type.

Gridoux ne fait aucun commentaire. Il voudrait bien que l’autre aille se promener, lui aussi.

  • Il ne me reste plus qu’à vous remercier, reprit le type.
  • De rien, dit Gridoux.
  • Et le métro? Alors, je le trouverai par là?

(geste)

  • C’est ça. Par là.
  • C’est un renseignement utile, dit le type. Surtout quand y a la grève.
  • Vous pourrez toujours consulter le plan, dit

Il se mit à taper très fort sur une semelle et le type s’en va.

(…)

Ils regardèrent alors en silence l’orama, puis Zazie examina ce qui se passait à quelque trois cents mètres plus bas en suivant le fil à plomb.

  • C’est pas si haut que ça, remarqua Zazie.
  • Tout de même, dit Charles, c’est à peine si on distingue les gens.
  • Oui, dit Gabriel en reniflant, on les voit peu, mais on les sent tout de même.
  • Moins que dans le métro, dit Charles.
  • Tu le prends jamais, dit Gabriel. Moi non plus, d’ailleurs.

Désireuse d’éviter ce sujet pénible, Zazie dit à son oncle:

— Tu regardes pas. Penche-toi donc, c’est quand même marant.

Gabriel fit une tentative pour jeter un coup d’œil sur les profondeurs.

— Merde, qu’il dit en se reculant, ça me fout le vertige.

II s’épongea le front et embauma.

— Moi, qu’il ajoute, je redescends. Si vous en avez pas assez, je vous attends au rez-de-chaussée.

Il est parti avant que Zazie et Charles aient pu le retenir.

— Ça faisait bien vingt ans que j’y étais pas monté, dit Charles. J’en y ai pourtant conduit des gens.

Zazie s’en fout.

  • Vous riez pas souvent, qu’elle lui dit. Quel âge que vous avez?
  • Quel âge que tu me donnes?

— Bin, vzêtes pas jeune: trente ans.

  • Et quinze de mieux.
  • Bin alors vzavez pas l’air trop vieux. Et ton­ton Gabriel?
  • Trente-deux.
  • Bin, lui, il paraît plus.
  • Lui dis pas surtout, ça le ferait pleurer.
  • Pourquoi ça? Parce qu’il pratique l’hormosessualité?
  • Où t’as été chercher ça?
  • C’est le type qui lui disait ça à tonton Gabriel, le type qui m’a ramenée. Il disait comme ça, le type, qu’on pouvait aller en tôle pour ça, pour l’hormosessualité. Qu’est-ce que c’est?
  • C’est pas vrai.
  • Si, c’est vrai qu’il a dit ça, répliqua Zazie indignée qu’on puisse mettre en doute une seule de ses paroles.
  • C’est pas ça ce que je veux dire. Je veux dire que, pour Gabriel, c’est pas vrai ce que disait le type.
  • Qu’il soit hormosessuel? Mais qu’esfc-ce que ça veut dire? Qu’il se mette du parfum?
  • Voilà. T’as compris.
  • Y a pas de quoi aller en prison.
  • Bien sûr que non.

Ils rêvèrent un instant en silence en regardant le Sacré-Cœur.

— Et vous? demanda Zazie. Vous l’êtes, hor­mosessuel?

  • Est-ce que j’ai l’air d’une pédale?
  • Non, pisque vzêtes chauffeur.
  • Alors tu vois.
  • Je vois rien du tout.
  • Je vais quand même pas te faire un dessin.
  • Vous dessinez bien?

Charles se tournant d’un autre côté s’absorba dans la contemplation des flèches de Sainte-Clotilde, œuvre de Gau et Ballu, puis proposa:

  • Si on redescendait?
  • Dites-moi, demanda Zazie sans bouger, pour­quoi que vous êtes pas marié?
  • C’est la vie.
  • Pourquoi que vous vous mariez pas?
  • J’ai trouvé personne qui me plaise.

Zazie siffla d’admiration.

  • Vzêtes rien snob, qu’elle dit.
  • C’est comme ça. Mais dis-moi, toi quandtu seras grande, tu crois qu’il y aura tellement d’hommes que tu voudrais épouser?
  • Minute, dit Zazie, de quoi qu’on cause? D’hommes ou de femmes?
  • S’agit de femmes pour moi, et d’hommes pour
  • C’est pas comparable, dit Zazie.
  • T’as pas tort.
  • Vzêtes marant vous, dit Zazie. Vous savez jamais trop ce que vous pensez. Ça doit être épui­ C’est pour ça que vous prenez si souvent l’air sérieux?

Charles daigne sourire.

  • Et moi, dit Zazie, je vous plairais?
  • T’es qu’une môme.
  • Ya des filles qui se marient à quinze ans, à quatorze même. Y a des hommes qu’aiment ça.
  • Alors? moi? je te plairais?
  • Bien sûr que non, répondit Zazie avec simpli­cité.

Après avoir dégusté cette vérité première, Charles reprit la parole en ces termes:

  • Tu as de drôles d’idées, tu sais, pour ton âge.
  • Ça c’est vrai, je me demande même où je vais les chercher.
  • C’est pas moi qui pourrais te le dire.
  • Pourquoi qu’on dit des choses et pas d’autres?
  • Si on disait pas ce qu’on a à dire, on se ferait pas comprendre.
  • Et vous, vous dites toujours ce que vous avez à dire pour vous faire comprendre?
  • (geste).
  • On est tout de même pas forcé de dire tout ce qu’on dit, on pourrait dire autre chose.
  • (geste).
  • Mais répondez-moi donc!
  • Tu me fatigues les méninges. C’est pas des questions tout ça.
  • Si, c’est des questions. Seulement c’est des questions auxquelles vous savez pas répondre.
  • Je crois que je ne suis pas encore prêt à me marier, dit Charles pensivement.
  • Oh! vous savez, dit Zazie, toutes les femmes posent pas des questions comme moi.
  • Toutes les femmes, voyez-vous ça, toutes les Mais tu n’es qu’une mouflette.
  • Oh! pardon, je suis formée.
  • Ça va. Pas d’indécences.
  • Ça n’a rien d’indécent. C’est la vie.
  • Elle est propre, la vie.

Il se tirait sur la moustache en biglant, morose, de nouveau le Sacré-Cœur.

  • La vie, dit Zazie, vous devez la connaître. Paraît que dans votre métier on en voit de drôles.
  • Où t’as été chercher ça?
  • Je l’ai lu dans le Sanctimontronais du dimanche, un canard à la page même pour la province où ya des amours célèbres, l’astrologie et tout, eh bien, on disait que les chauffeurs de taxi izan voyaient sous tous les aspects et dans tous les genres, de la sessualité. A commencer par les clientes qui veulent payer en nature. Ça vous est arrivé souvent?
  • Oh! ça va ça va.
  • C’est tout ce que vous savez dire: «Ça va ça va». Vous devez être un refoulé.
  • Ce qu’elle est emmerdante.
  • Allez, râlez pas, racontez-moi plutôt vos
  • Qu’est-ce qu’il faut pas entendre.
  • Les femmes ça vous fait peur, hein?
  • Moi je redescends. Parce que j’ai le vertige. Pas devant ça (geste). Mais devant une mouflette comme toi.

Il s’éloigne et quelque temps plus tard le revoilà à quelques mètres seulement au-dessus du niveau de la mer. Gabriel, l’œil peu vif, attendait, les mains posées sur ses genoux largement écartés. En aper­cevant Charles sans la nièce, il bondit et sa face prend la teinte vert-anxieux.

  • T’as tout de même pas fait ça, qu’il s’écrie.
  • Tu l’aurais entendue tomber, répond Charles qui s’assoit accablé.
  • Ça, ça serait rien. Mais la laisser seule.
  • Tu la cueilleras à la sortie. Elle s’envolera pas.
  • Oui, mais d’ici qu’elle soit là, qu’est-ce qu’elle peut encore me causer comme emmerdements. (sou­pir) Si j’avais su.

Charles réagit pas.

Gabriel regarde alors la tour, attentivement, lon­guement, puis commente:

  • Je me demande pourquoi on représente la ville de Paris comme une femme. Avec un truc comme ça. Avant que ça soit construit, peut-être. Mais maintenant. C’est comme les femmes qui deviennent des hommes à force de faire du sport. On lit ça dans les journaux.
  • (silence).
  • Eh bien, t’es devenu muet. Qu’est-ce que t’en penses?

Charles pousse alors un long hennissement dou­loureux et se prend la tête à deux mains en gémis­sant:

— Lui aussi, qu’il dit en gémissant, lui aussi… toujours la même chose… toujours la sessualité… toujours question de ça… toujours… tout le temps… dégoûtation… putréfaction… Ils pensent qu’à ça…

Gabriel lui tape sur l’épaule avec bénévolence.

  • Ça n’a pas l’air d’aller, qu’il dit comme ça. Qu’est-ce qu’est arrivé?
  • C’est ta nièce… ta putain, de nièce…
  • Ah! attention, s’écrie Gabriel en retirant sa main pour la lever au ciel, ma nièce c’est ma nièce. Modère ton langage ou tu vas en apprendre long sur ta grand-mère.

Charles fait un geste de désespoir, puis se lève brusquement.

— Tiens, qu’il dit, je me tire. Je préfère pas revoir cette gamine. Adieu.

Et il s’élance vers son bahut.

Gabriel lui court après:

  • Comment qu’on fera pour rentrer?
  • Tu prendras le métro.
  • Il en a de bonnes, grogna Gabriel en arrêtant sa poursuite.

Le tac s’éloignait.

Debout, Gabriel médita, puis prononça ces mots:

— L’être ou le néant, voilà le problème. Monter, descendre, aller, venir, tant fait l’homme qu’à la fin il disparaît. Un taxi l’emmène, un métro l’em­porte, la tour n’y prend garde, ni le Panthéon. Paris n’est qu’un songe, Gabriel n’est qu’un rêve (charmant), Zazie le songe d’un rêve (ou d’un cau­chemar) et toute cette histoire le songe d’un songe, le rêve d’un rêvé, à peine plus qu’un délire tapé à la machine par un romancier idiot (oh! pardon). Là-bas, plus loin — un peu plus loin — que la place de la République, les tombes s’entassent de Parisiens qui furent, qui montèrent et descendirent des escaliers, allèrent et vinrent dans les rues et qui tant firent qu’à la fin ils disparurent. Un forceps les amena, un corbillard les remporte et la tour se rouille et le Panthéon se fendille plus vite que les os des morts trop présents ne se dissolvent dans l’humus de la ville tout imprégné de soucis. Mais moi je suis vivant et là s’arrête mon savoir car du taximane enfui dans son bahut locataire ou de ma nièce suspendue à trois cents mètres dans l’at­mosphère ou de mon épouse la douce Marceline demeurée au foyer, je ne sais en ce moment précis et ici-même je ne sais que ceci, alexandrinairement: les voilà presque morts puisqu’ils sont des absents. Mais que vois-je par-dessus les citrons empoilés des bonnes gens qui m’entourent?

Des voyageurs faisaient le cercle autour de lui l’ayant pris pour un guide complémentaire. Ils tour­nèrent la tête dans la direction de son regard.

  • Et que voyez-vous? demanda l’un d’eux par­ticulièrement versé dans la langue française.
  • Oui, approuva un autre, qu’y a-t-il à voir?
  • En effet, ajoute un troisième, que devons-nous voir?
  • Kouavouar? demanda un quatrième, kouavouar? kouavouar? kouavouar?
  • Kouavouar? répondit Gabriel, mais (grand geste) Zazie, Zazie ma nièce, qui sort de la pile et s’en vient vers nous.

Les caméras crépitent, puis on laisse passer l’en­fant. Qui ricane.

  • Alors, tonton? on fait recette?
  • Comme tu vois, répondit Gabriel avec satis­

Zazie haussa les épaules et regarda le public. Elle n’y vit point Charles et le fit remarquer.

  • Il s’est tiré, dit Gabriel.
  • Pourquoi?
  • Pour rien.
  • Pour rien, c’est pas une réponse.
  • Oh bin, il est parti comme ça.
  • Il avait une raison.
  • Tu sais, Charles, (geste)
  • Tu veux pas me le dire?
  • Tu le sais aussi bien que moi.

Un voyageur intervint:

  • Maie bonas horas collocamua si non dicis isti puellae thé reason why this man Charles went away.
  • Mon petit vieux, lui répondit Gabriel, mêle-toi de tes cipolles. She knows why and she bothers me quite a lot.
  • Oh! mais, s’écria Zazie, voilà maintenant que tu sais parler les langues forestières.
  • Je ne l’ai pas fait esprès, répondit Gabriel en baissant modestement les yeux.
  • Most interesting, dit un des voyageurs.

Zazie revint à son point de départ.

  • Tout ça ne me dit pas pourquoi charlamilébou.

Gabriel s’énerva.

  • Parce que tu lui disais des trucs qu’il compre­nait pas. Des trucs pas de son âge.
  • Et toi, tonton Gabriel, si je te disais des trucs que tu comprendrais pas, des trucs pas de ton âge, qu’est-ce que tu ferais?
  • Essaie, dit Gabriel d’un ton craintif.
  • Par egzemple, continua Zazie impitoyable, si je te demandais t’es un hormosessuel ou pas? est-ce que tu comprendrais? Ça serait-i de ton âge?
  • Most interesting, dit un voyageur (le même que tout à l’heure).
  • Pauvre Charles, soupira Gabriel.
  • Tu réponds, oui ou merde, cria Zazie. Tu comprends ce mot-là: hormosessuel?
  • Bien sûr, hurla Gabriel, veux-tu que je te fasse un dessin?

La foule intéressée approuva. Quelques-uns applaudirent.

— T’es pas chiche, répliqua Zazie.

C’est alors que Fédor Balanovitch fit son appa­rition.

  • Allons grouillons! qu’ilse mit à gueuler. Schnell! Schnell! remontons dans le car et que ça saute.
  • Where are we going now?
  • A la Sainte-Chapelle, répondit Fédor Bala­ Un joyau de l’art gothique. Allons grouil­lons! Schnell! Schnell!

Mais les gens grouillaient pas, fortement inté­ressés par Gabriel et sa nièce.

— Là, disait celle-ci à celui-là qui n’avait rien dessiné, tu vois que t’es pas chiche.

  • Ce qu’elle peut être tannante, disait celui-là.

Fédor Balanovitch, remonté de confiance à son bord, s’aperçut qu’il n’avait été suivi que par trois ou quatre minus.

— Alors quoi, beugla-t-il, y a pus de discipline? Qu’est-ce qu’ils foutent, bon dieu!

Il donna quelques coups de claqueson. Ça ne fit bouger personne. Seul, un flic, préposé aux voies du silence, le regarda d’un œil noir. Comme Fédor Balanovitch ne souhaitait pas engager un conflit vocal avec un personnage de cette espèce, il redes­cendit de sa guérite et se dirigea vers le groupe de ses administrés afin de se rendre compte de ce qui pouvait les entraîner à l’insubordination.

  • Mais c’est Gabriella, s’esclama-t-il. Qu’est-ce que tu fous là?
  • Chtt chtt, fit Gabriel cependant que le cercle de ses admirateurs s’enthousiasmait naïvement au spectacle de cette rencontre.
  • Non mais, continuait Fédor Balanovitch, tu ne vas tout de même pas leur faire le coup de La Mort du cygne en tutu?
  • Chht chht, fit de nouveau Gabriel très à court de discours.
  • Et qu’est-ce que c’est que cette môme que tu trimbales avec toi? où que tu l’as ramassée?
  • C’est ma nièce et tâche a voir de respecter ma famille même mineure.
  • Et lui, qui c’est? demanda Zazie.
  • Un copain, dit Gabriel. Fédor Balanovitch.
  • Tu vois, dit Fédor Balanovitch à Gabriel, je ne fais plus le bâille-naïte, je me suis élevé dans la hiérarchie sociale et j’emmène tous ces cons à la Sainte-Chapelle.
  • Tu pourrais peut-être nous rentrer à la maison. Avec cette grève des transtrucs en commachin, on peut plus rien faire de ce qu’on veut. Y a pas un tac à l’horizon.
  • On va pas déjà rentrer, dit Zazie.
  • De toute façon, dit Fédor Balanovitch, faut qu’on passe d’abord la Sainte-Chapelle avant que ça ferme. Ensuite, ajouta-t-il à l’intention de Gabriel, c’est possible que je te rentre chez toi.
  • Et c’est intéressant, la Sainte-Chapelle? demanda Gabriel.
  • Sainte-Chapelle! Sainte-Chapelle! telle fut la clameur touriste et ceux qui la poussèrent, cette clameur touriste, entraînèrent Gabriel vers le car dans un élan irrésistible.
  • Il leur a tapé dans l’œil, dit Fédor Balano­vitch à Zazie restée comme lui en arrière.
  • Faut tout de même pas, dit Zazie, s’imaginer que je vais me laisser trimbaler avec tous ces veaux.
  • Moi, dit Fédor Balanovitch, je m’en fous.

Et il remonta devant son volant et son micro, utilisant aussitôt ce dernier instrument:

— Allons grouillons! qu’il haut-parlait joviale­ment. Schnell! Schnell!

Les admirateurs de Gabriel l’avaient déjà confor­tablement installé et, munis d’appareils adéquats, mesuraient le poids de la lumière afin de lui tirer le portrait avec des effets de contre-jour. Bien que toutes ces attentions le flattassent, il s’enquit cependant du destin de sa nièce. Ayant appris de Fédor Balanovitch que la dite se refusait à suivre le mouvement, il s’arrache au cercle enchanté des xénophones, redescend et se jette sur Zazie qu’il saisit par un bras et entraîne vers le car.

Les caméras crépitent.

— Tu me fais mal, glapissait Zazie folle de rage.

Mais elle fut elle aussi emportée vers la Sainte-Chapelle par le véhicule aux lourds pneumatiques.

(…)

  • Sainte-Chapelle, qu’ils essayaient de dire. Sainte-Chapelle…
  • Oui, oui, dit-il aimablement. La Sainte-Chapelle (silence) (geste) un joyau de l’art gothique (geste) (silence).
  • Recommence pas à déconner, dit aigrement
  • Continuez, continuez, crièrent les voyageurs en couvrant la voix de la petite. On veut ouïr, on veut ouïr, ajoutèrent-ils en un grand effort ber
  • Tu vas tout de même pas te laisser faire, dit

Elle lui prit un morceau de chair à travers l’étoffe du pantalon, entre les ongles, et tordit mécham­ment. La douleur fut si forte que de grosses larmes commencèrent à couler le long des joues de Gabriel. Les voyageurs qui, malgré leur grande expérience du cosmopolitisme, n’avaient encore jamais vu de guide pleurer, s’inquiétèrent; analysant ce compor­tement étrange, les uns selon la méthode déductive, les autres selon l’inductive, ils conclurent à la nécessité d’un pourliche. Une collecte fut faite, on la posa sur les genoux du pauvre homme, dont le visage redevint souriant plus d’ailleurs par cessation de souffrance que par gratitude, car la somme n’était pas considérable.

— Tout ceci doit vous paraître bien singulier, dit-il timidement aux voyageurs.

Une francophone assez distinguée esprima l’opi­nion commune:

  • Et la Sainte-Chapelle?
  • Ah ah, dit Gabriel et il fit un grand geste.
  • Il va parler, dit la dame polyglotte à ses congé­nères en leur idiome natif.

D’aucuns, encouragés, montèrent sur les ban­quettes pour ne rien perdre et du discours et de la mimique. Gabriel toussota pour se donner de l’assurance. Mais Zazie recommença.

  • Aouïe, dit Gabriel distinctement,
  • Le pauvre homme, s’écria la dame.
  • Ptite vache, murmura Gabriel en se frottant la
  • Moi, lui souffla Zazie dans le cornet de l’oreille, je me tire au prochain feu rouge. Alors, tonton, tu vois ce qui te reste à faire.
  • Mais après, comment on fera pour rentrer? dit Gabriel en gémissant.
  • Puisque je te dis que j’ai pas envie de rentrer.
  • Mais ils vont nous suivre…
  • Si on descend pas, dit Zazie avec férocité, je leur dis que t’es un hormosessuel.
  • D’abord, dit paisiblement Gabriel, c’est pas vrai et, deuzio, i comprendront pas.
  • Alors, si c’est pas vrai, pourquoi le satyre t’a dit ça?
  • Ah pardon (geste). Il est pas du tout démontré que ça eille été un satyre.
  • Bin qu’est-ce qu’i te faut.
  • Ce qu’il me faut? Des faits!

Et il fit de nouveau un grand geste d’un air illuminé qui impressionna fortement les voyageurs fascinés par le mystère de cette conversation qui joignait à la difficulté du vocabulaire tant d’asso­ciations d’idées exotiques.

  • D’ailleurs, ajouta Gabriel, quand tu l’as amené, tu nous as dit que c’était un flic.
  • Oui, mais maintenant je dis que c’était un Et puis, tu n’y connais rien.
  • Oh pardon (geste), je sais ce que c’est.
  • Tu sais ce que c’est?
  • Parfaitement, répondit Gabriel vexé, j’ai eu souvent à repousser les assauts de ces gens-là. Ça t’étonne?

Zazie s’esclaffa.

— Ça ne m’étonne pas du tout, dit la dame fran­cophone qui comprenait vaguement qu’on était sur le chapitre des complexes. Oh! mais!! pas du tout!!!

Et elle biglait le colosse avec une certaine lan­gueur.

Gabriel rougit et resserra le nœud de sa cravate après avoir vérifié d’un doigt preste et discret que sa braguette était bien close.

— Tiens, dit Zazie qui en avait assez de rire, tu es un vrai tonton des familles. Alors, on se tire?

Elle le pinça de nouveau sévèrement. Gabriel fit un petit saut en criant aouïe. Bien sûr qu’il aurait pu lui foutre une tarte qui lui aurait fait sauter deux ou trois dents, à la mouflette, mais qu’auraient dit ses admirateurs? Il préférait disparaître du champ de leur vision que de leur laisser l’image pustuleuse et répréhensible d’un bourreau d’enfant. Un encombrement appréciable s’étant offert, Ga­briel, suivi de Zazie, descendit tranquillement tout en faisant aux voyageurs déconcertés de petits signes de connivence, hypocrite manœuvre en vue de les duper. Effectivement, les dits voyageurs repartirent avant d’avoir pu prendre de mesures adéquates. Quant à Fédor Balanovitch, les allées et venues de Gabriella le laissaient tout à fait indifférent et il ne se souciait que de mener ses agneaux en lieu voulu avant l’heure où les gardiens de musée vont boire, une telle faille dans le pro­gramme n’étant pas réparable car le lendemain les voyageurs partaient pour Gibraltar aux anciens parapets. Tel était leur itinéraire.

Après les avoir regardés s’éloigner, Zazie eut un petit rire, puis, par une habitude rapidement prise, elle saisit à travers l’étoffe du pantalon un bout de chair de cuisse de l’oncle entre ses ongles et lui imprime un mouvement hélicoïdal.

  • Merde à la fin, gueula Gabriel, c’est pas drôle quoi merde ce petit jeu-là, t’as pas encore compris?
  • Tonton Gabriel, dit Zazie paisiblement, tu m’as pas encore espliqué si tu étais un hormosessuel ou pas, primo, et deuzio où t’avais été pêcher toutes les belles choses en langue forestière que tu dégoisais tout à l’heure? Réponds.
  • T’en as dla suite dans les idées pour une mou­flette, observa Gabriel languissamment.
  • Réponds donc, et elle lui foutit un bon coup de pied sur la cheville.

Gabriel se mit à sauter à cloche-pied en faisant des simagrées.

  • Houille, qu’il disait, houïe là là aouïe.
  • Réponds, dit Zazie.

Une bourgeoise qui maraudait dans le coin s’ap­procha de l’enfant pour lui dire ces mots:

  • Mais, voyons, ma petite chérie, tu lui fais du mal à ce pauvre meussieu. Il ne faut pas brutaliser comme ça les grandes personnes.
  • Grandes personnes mon cul, répliqua Zazie. Il veut pas répondre à mes questions.
  • Ce n’est pas une raison valable. La violence, ma petite chérie, doit toujours être évitée dans les rap­ports humains. Elle est éminemment condamnable.
  • Condamnable mon cul, répliqua Zazie, je ne vous demande pas l’heure qu’il est.

— Seize heures quinze, dit la bourgeoise.

  • Vous n’allez pas laisser cette petite tranquille, dit Gabriel qui s’était assis sur un banc.
  • Vous m’avez encore l’air d’être un drôle d’édu­cateur, vous, dit la dame.
  • Éducateur mon cul, tel fut le commentaire de Zazie.
  • La preuve, vous n’avez qu’à l’écouter parler (geste), elle est d’une grossièreté, dit la dame en manifestant tous les signes d’un vif dégoût.
  • Occupez-vous de vos fesses à la fin, dit Gabriel. Moi j’ai mes idées sur l’éducation.
  • Lesquelles? demanda la dame en posant les siennes sur le banc à côté de Gabriel.
  • D’abord, primo, la compréhension.

Zazie s’assit de l’autre côté de Gabriel et le pinça rien qu’un petit peu.

  • Et ma question à moi? demanda-t-elle mignar On y répond pas?
  • Je peux tout de même pas la jeter dans la Seine, murmura Gabriel en se frottant la cuisse.
  • Soyez compréhensif, dit la bourgeoise avec son plus charmant sourire.

Zazie se pencha pour lui dire:

  • Vous avez fini de lui faire du plat à mon tonton? Vous savez qu’il est marié.
  • Mademoiselle, vos insinuations ne sont pas de celles que l’on subtruque à une dame dans l’état de veuvage.
  • Si je pouvais me tirer, murmura Gabriel.
  • Tu répondras avant, dit Zazie.

Gabriel regardait le bleu du ciel en mimant le désintérêt le plus total.

  • Il n’a pas l’air de vouloir, remarqua la dame veuve objectivement.
  • Faudra bien.

Et Zazie fit semblant de vouloir le pincer. Le tonton bondit avant même d’être touché. Les deux personnes du sexe féminin s’en réjouirent grande­ment. La plus âgée, modérant les soubresauts de son rire, formula la question suivante:

  • Et qu’est-ce que tu voudrais qu’il te dise?
  • S’il est hormosessuel ou pas.
  • Lui? demanda la bourgeoise (un temps). Y a pas de doute.
  • Pas de doute: quoi? demanda Gabriel d’un ton assez menaçant.
  • Que vous en êtes une.

Elle trouvait ça tellement drôle qu’elle en glous­sait.

  • Non mais dites donc, dit Gabriel en lui don­nant une petite tape dans le dos qui lui fit lâcher son sac à main.
  • Il n’y a pas moyen de causer avec vous, dit la veuve en ramassant différents objets éparpillés sur l’asphalte.
  • T’es pas gentil avec la dame, dit Zazie.
  • Et ce n’est pas en évitant de répondre aux questions d’une enfant que l’on fait son éducation, ajouta la veuve en revenant s’asseoir à côté de lui.
  • Faut être plus compréhensif, ajouta Zazie

Gabriel grinça des dents.

  • Allez, dites-le, si vous en êtes ou si vous en êtes pas.
  • Non non et non, répondit Gabriel avec fer­meté.
  • Elles disent toutes ça, remarqua la dame pas convaincue du tout.
  • Au fond, dit Zazie, je voudrais bien savoir ce xé.
  • Quoi?
  • Ce xé qu’un hormosessuel.
  • Parce que tu ne le sais pas?
  • Je devine bien, mais je voudrais bien qu’il me le dise.
  • Et qu’est-ce que tu devines?
  • Tonton, sors un peu voir ta pochette.

Gabriel, soupirant, obéit. Toute la rue embauma.

  • Vzavez compris? demanda Zazie finement à la veuve qui remarque à mi-voix:
  • Barbouze de chez Fior.
  • Tout juste, dit Gabriel, en remettant son mou­choir dans sa poche. Un parfum d’homme.
  • Ça c’est vrai, dit la veuve.

Et à Zazie:

  • Tu n’as rien deviné du tout.

Zazie, horriblement vexée, se tourne vers Gabriel:

  • Alors pourquoi que le type t’a accusé de ça?
  • Quel type? demanda la dame.
  • Il t’accusait bien de faire le tapin, répliqua Gabriel à l’intention de Zazie.
  • Quel tapin? demanda la dame.
  • Aouïe, cria Gabriel.
  • N’egzagère pas, ma petite, dit la dame avec une indulgence factice.
  • Pas besoin de vos conseils.

Et Zazie pinça de nouveau Gabriel.

  • C’est vraiment charmant les gosses, murmura distraitement Gabriel en assumant son martyre.
  • Si vous aimez pas les enfants, dit là bour­geoise, on se demande pourquoi vous vous chargez de leur éducation.
  • Ça, dit Gabriel, c’est toute une histoire.
  • Racontez-la-moi, dit la dame.
  • Merci, dit Zazie, je la connais.
  • Mais moi, dit la veuve, je ne la connais pas.
  • Ça, on s’en fout. Alors tonton, et cette réponse?
  • Puisque je t’ai dit non, non et non.
  • Elle a de la suite dans les idées, fit observer la dame qui croyait le jugement original.
  • Une vraie petite mule, dit Gabriel avec atten­

La dame fit ensuite cette remarque non moins judicieuse que la précédente:

— Vous ne semblez pas très bien la connaître, cette enfant. On dirait que vous êtes en train de découvrir ses différentes qualités.

Elle roula le mot qualités entre des guillemets.

  • Qualités mon cul, grommela Zazie.
  • Vzêtes une fine mouche, dit Gabriel. En fait je nl’ai sur les bras que depuis hier.
  • Je vois.
  • Elle voit quoi? demanda Zazie aigrement.
  • Est-ce qu’elle sait? dit Gabriel en haussant les épaules.

Négligeant cette parenthèse plutôt péjorative, la veuve ajouta:

  • Et c’est votre nièce?
  • Gzactement, répondit Gabriel.
  • Et lui, c’est ma tante, ajouta Zazie qui croyait la plaisanterie assez neuve ce qu’on escusa étant donné son jeune âge.
  • Hello! s’écrièrent des gens qui descendaient d’un taxi.

Les plus mordus d’entre les voyageurs, la dame francophone en tête, revenus de leur surprise, pour­chassaient leur archiguide à travers le dédale lutécien et le magma des encombrements et venaient avec un pot d’enfer de remettre la main dssus. Ils manifestaient une grande joie, car ils étaient sans rancune au point de ne pas même soupçonner qu’ils avaient des raisons d’en avoir. Se saisissant de Gabriel aux cris de Montjoie Sainte-Chapelle! ils le traînèrent jusqu’à leur véhicule, l’insérèrent dedans non sans habileté et s’entassèrent dessus pour qu’il ne s’envolât point avant qu’il leur eût montré leur monument favori dans tous ses détails. Ils ne se soucièrent point d’emmener Zazie avec eux. La dame francophone lui fit simplement un petit signe amical et d’une ironique pseudoconni­vence tandis que le bahut démarrait, cependant que l’autre dame, non moins francophone d’ailleurs mais veuve, faisait des petits sauts sur place en poussant des clameurs. Les citoyens et citoyennes qui se trouvaient dans lcoin asteure se replièrent sur des positions moins esposées au tintouin.

  • Si vous continuez à gueuler comme ça, bou­gonna Zazie, y a un flic qu’est capable de se rame­
  • Petit être stupide, dit la veuve, c’est bien pour ça que je crie: aux guidenappeurs, aux guidenap

Enfin se présente un flicard alerté par les bêle­ments de la rombière.

  • Y a kèkchose qui se passe? qu’il demande.
  • On vous a pas sonné, dit Zazie.
  • Vous faites pourtant un de ces ramdams, dit le flicard.
  • Y a un homme qui vient de se faire enlever, dit la dame haletante. Un bel homme même.
  • Crénom, murmura le flicard mis en appétit.
  • C’est ma tante, dit Zazie.
  • Et lui? demanda le flicard.
  • C’est lui qu’est ma tante, eh lourdingue.
  • Et elle alors?

Il désignait la veuve.

— Elle? c’est rien.

Le policemane se tut pour assimiler le zest de la situation. La dame, stimulée par l’épithète zazique, sur-le-champ conçut un audacieux projet.

  • Courons sus aux guidenappeurs, qu’elle dit, et à la Sainte-Chapelle nous le délivrerons.
  • Ça fait une trotte, remarqua le sergent de ville bourgeoisement. Je suis pas champion de cross, moi.
  • Vous ne voudriez tout de même pas qu’on prenne un taxi et que je le paye, moi.
  • Elle a raison, dit Zazie qui était près de ses Elle est moins conne que je ne croyais.
  • Je vous remercie, dit la dame enchantée.
  • Y a pas de quoi, répliqua Zazie.
  • Tout de même c’est gentil, insista la dame.
  • Ça va ça va, dit Zazie modestement.
  • Quand vous aurez fini tous vos salamalecs, dit le flicard.
  • On ne vous demande rien, dit la dame.
  • Ça c’est bien les femmes, s’esclama le sergent de ville. Comment ça, vous ne me demandez rien? Vous me demandez tout simplement de me foutre un point de côté, oui. Si c’est pas rien, ça, alors je comprends plus rien à rien.

Il ajouta d’un air nostalgique:

  • Les mots n’ont plus le même sens qu’autrefois.

Et il soupirait en regardant l’extrémité de ses tatanes.

  • Tout ça ne me rend pas mon tonton, dit On va encore dire que j’ai voulu faire une fugue et ce sera pas vrai.
  • Ne vous inquiétez pas, mon enfant, dit la Je serai là pour témoigner de votre bonne volonté et de votre innocence.

— Quand on l’est vraiment, innocent, dit le sergent de ville, on a besoin de personne.

  • Le salaud, dit Zazie, je le vois venir avec ses gros yéyés. I sont tous pareils.
  • Vous les connaissez donc tant que ça, ma pauvre enfant?
  • M’en parlez pas, ma pauvre dame, répond Zazie en minaudant. Figurez-vous que maman elle a fendu le crâne à mon papa à la hache. Alors des flics après ça, vous parlez si j’en ai vu, ma chère.
  • Ça alors, dit le sergent de ville.
  • C’est encore rien les flics, dit Zazie. Mais c’est les juges. Alors ceux-là…
  • Tous des vaches, dit le sergent de ville avec impartialité.
  • Eh bien, les flics comme les juges, dit Zazie, je les eus. Comme ça (geste).

La veuve la regardait émerveillée.

— Et moi, dit le sergent de ville, comment vas-tu t’y prendre pour m’avoir?

Zazie l’examina.

— Vous, qu’elle dit, j’ai déjà vu votre tête quelque part.

  • Ça m’étonnerait, dit le flicmane.
  • Et pourquoi ça? Pourquoi que je vous aurais pas déjà vu quelque part?
  • En effet, dit la veuve. Elle a raison, cette
  • Je vous remercie, madame, dit Zazie.
  • Il n’y a pas de quoi.
  • Mais si mais si.
  • Elles se foutent de moi, murmura le sergent de
  • Alors? dit la veuve. C’est tout ce que vous savez faire? Mais remuez-vous donc un peu.

— Moi, dit Zazie, je sais sûre de l’avoir vu quelque part.

Mais la veuve avait brusquement reporté son admiration sur le flic.

  • Montrez-nous vos talents, qu’elle lui dit en accompagnant ces mots d’une œillade aphrodi­siaque et vulcanisante. Un bel agent de police comme vous, ça doit en connaître des trucs. Dans les limites de la légalité, bien sûr.
  • C’est un veau, dit Zazie.
  • Mais non, dit la dame. Faut l’encourager. Faut être compréhensive.

Et de nouveau elle le regarda d’un œil humide et thermogène.

  • Attendez, dit le flicmane soudain mis en mouvement, vzallez voir ce que vzallez voir. Vzallez voir ce dont est capable Trouscaillon.
  • Il s’appelle Trouscaillon! s’écria Zazie enthou­siasmée.
  • Eh bien moi, dit la veuve en rougissant un tantinet, je m’appelle madame Mouaque. Comme tout le monde, qu’elle ajouta.

(…)

Trouscaillon, emmerdé, se mettait à douter de la vertu de l’uniforme et de son sifflet. Il était en train de secouer le dit objet pour l’assécher de toute la salive qu’il y avait déversée, lorsqu’une conduite intérieure bien banale vint d’elle-même se ranger devant lui. Une tête dépassa de la carrosserie et prononça les mots d’espoir suivants:

  • Pardon, meussieu l’agent, vous ne pourriez pas m’indiquer le chemin le plus court pour me rendre à la Sainte-Chapelle, ce joyau de l’art gothique?
  • Eh bien, répondit automatiquement Trous­caillon, voilà. Faut d’abord prendre à gauche, et puis ensuite à droite, et puis lorsque vous serez arrivé sur une place aux dimensions réduites, vous vous engagez dans la troisième rue à droite, ensuite dans la deuxième à gauche, encore un peu à droite, trois fois sur la gauche, et enfin droit devant vous pendant cinquante-cinq mètres. Naturellement, dans tout ça, y aura des sens interdits, ce qui vous simplifiera pas le boulot.
  • Je vais jamais y arriver, dit le conducteur. Moi qui suis venu de Saint-Mohtron exeuprès pour ça.
  • Faut pas vous décourager, dit Trouscaillon. Une supposition que je vous y conduise?
  • Vous devez avoir autre chose à faire.
  • Croyez pas ça. Je suis libre comme l’r. Seulement, si c’était un effet de votre bonté de véhiculer aussi ces deux personnes (geste).
  • Moi je m’en fous. Pourvu que j’arrive avant l’heure où c’est que ça se ferme.
  • Ma parole, dit la veuve de loin, on dirait qu’il a fini par réquisitionner un voiturin.
  • Il va m’épater, dit Zazie objectivement.

Trouscaillon fit un petit temps de galop dans leur direction et leur dit sans élégance:

  • Amenez-vous en vitesse! Le type nous em­
  • Allons, dit la veuve Mouaque, sus aux guidenappeurs!
  • Tiens, je les avais oubliés ceux-là, dit Trous­
  • Faut peut-être mieux pas en parler à votre bonhomme, dit la veuve diplomatiquement.
  • Alors comme ça, demanda Zazie, il nous emmène à la chapelle en question?
  • Mais grouillez-vous donc!

Prenant Zazie chacun par un bras, Trouscaillon et la veuve Mouaque foncèrent vers la conduite intérieure bien banale dans laquelle ils la jetèrent.

  • J’aime pas qu’on me traite comme ça, hurlait Zazie folle de rage.
  • Vous, avez l’air de quidnappeurs, dit le Sanctimontronais plaisamment.
  • C’est une simple apparence, dit Trouscaillon en s’asseyant à côté de lui. Vous pouvez y aller si vous voulez arriver avant la fermeture.

On démarre. Pour aider le mouvement, Trous­caillon se penchait au dehors et sifflait avec fréné­sie. Ça avait tout de même un certain effet. Le provincial était ravi.

— Maintenant, faut prendre à gauche, ordonna Trouscaillon.

Zazie boudait.

  • Alors, lui dit la veuve Mouaque hypocrite­ment, tu n’es pas contente de revoir ton tonton?
  • Tonton mon cul, dit Zazie.
  • Tiens, dit le conducteur, mais c’est la fille de Jeanne Lalochère. Je l’avais pas reconnue, dégui­sée en garçon.
  • Vous la connaissez? demanda la veuve Mouaque avec indifférence.
  • Je veux, dit le type.

Et il se retourna pour compléter l’identification, juste le temps de rentrer dans la voiture qui le précédait.

  • Merde, dit Trouscaillon.
  • C’est bien elle, dit le Sanctimontronais.
  • Je vous connais pas, moi, dit Zazie.
  • Alors quoi, on sait plus conduire, dit l’em­bouti descendu de son siège pour venir échanger quelques injures bourdonnantes avec son embou Ah! ça m’étonne pas… un provincial… Au lieu de venir encombrer les rues de Paris, vous feriez mieux d’aller garder vozouazévovos.
  • Mais meussieu, dit la veuve Mouaque, vous nous retardez avec vos propos morigénateurs! Nous sommes en mission commandée nous! Nous allons délivrer un guidenappé.
  • Quoi, quoi? dit le Sanctimontronais, moi je marche plus. Je suis pas venu à Paris pour jouer au coboille.
  • Et vous? dit l’autre conducteur en s’adressant à Trouscaillon, qu’est-ce que vous attendez pour dresser un constat?

—Vous en faites pas, lui répondit Trouscaillon, c’est constaté, c’est constaté. Pouvez me faire confiance.

Et il imitait le flic qui griffonne des trucs sur un vieil écorné carnet.

  • Vzavez votre carte grise?

Trouscaillon fit semblant de l’examiner.

  • Pas de passeport diplomatique?
  • (négation écœurée).
  • Ça ira comme ça, dit la trouscaille, vous pou­vez vous tirer.

L’embouti, songeur, remonta dans sa voiture et reprit sa course. Mais le Sanctimontronais, lui, ne bougeait pas.

— Eh bien! dit la veuve Mouaque, qu’est-ce que vous attendez?

Derrière, des claquesons râlaient.

  • Mais puisque je vous dis que je ne veux pas jouer au coboille. Une mauvaise balle est vite attra­pée.
  • Dans mon bled, dit Zazie, on est moins trouil
  • Oh toi, dit le type, je te connais. Tu ferais se battre des montagnes.
  • C’est vache, ça, dit Zazie. Pourquoi que vous essayez de me faire cette réputation dégueulasse?

Les claquesons hurlaient de plus en plus fort, un vrai orage.

  • Mais démarrez donc! cria Trouscaillon.
  • Je tiens à ma peau, dit le Sanctimontronais
  • Vous en faites pas, dit la veuve Mouaque tou­jours diplomate, y a pas de danger. Juste une

Le type se retourna pour voir d’une façon un peu plus détaillée l’allure de cette rombière. Cet examen l’inclina vers la confiance.

  • Vous me le promettez? qu’il demanda.
  • Puisque je vous le dis.
  • C’est pas une histoire politique avec toutes sortes de conséquences eminerdatoires?
  • Mais non, c’est juste une blague, je vous
  • Alors allons-y, dit le type quand même pas absolument rassuré.
  • Puisque vous dites que vous me connaissez, dit Zazie, ma moman, vous l’auriez pas vue par hasard? Elle est à Paris elle aussi.

Ils avaient tout juste parcouru une distance de quelques toises que quatre heures sonnèrent au clocher d’une église voisine, église de style néo­classique d’ailleurs.

— C’est foutu, dit le Sanctimontronais.

Il freina de nouveau, ce qui provoqua derrière lui une nouvelle explosion d’avertisseurs sonores.

  • Plus la peine, qu’il ajouta. Ça va être fermé
  • Raison de plus pour vous presser, dit la veuve Mouaque raisonnable et stratégique. Notre guidenappe, on va plus pouvoir le retrouver.
  • Je m’en fous, dit le type.

Mais ça claquesonnait tellement fort derrière lui qu’il ne put s’empêcher de se remettre en route, poussé en quelque sorte devant lui par les vibra­tions de l’air agité par l’irritation unanime des stoppés.

  • Allez, dit Trouscaillon, faites pas la mauvaise tête. Maintenant on est presque arrivés. Vous pour­rez dire comme ça aux gens de votre pays que si vous avez pas pu la voir, la Sainte-Chapelle, du moins vous en avez pas été loin. Tandis qu’en res­tant ici…
  • C’est qu’il cause pas mal quand il veut, remarqua Zazie impartialement à propos du dis­cours du flicmane.
  • De plus en plus il me plaît, murmura la veuve Mouaque à voix tellement basse que personne ne l’entendit.
  • Et ma moman? demanda de nouveau Zazie au type, puisque vous dites que vous me connaissez, vous l’auriez pas vue par hasard?
  • Ça alors, dit le Sanctimontronais, je manque vraiment de pot. Avec toutes ces bagnoles, faut que vous ayez choisi justement la mienne.
  • On l’a pas fait esprès, dit Trouscaillon. Moi, par egzemple, quand je suis dans une ville que je connais pas, ça m’arrive aussi de demander mon
  • Oui mais, dit le Sanctimontronais, et la Sainte-Chapelle?
  • Ça faut avouer, dit Trouscaillon qui, dans cette simple ellipse, utilisait hyperboliquement le cercle vicieux de la parabole.
  • Bon, dit le Sanctimontronais, j’y vais.
  • Sus aux guidenappeurs, cria la veuve Mouaque.

Et Trouscaillon, sortant sa tête hors carrosserie, sifflait pour écarter les importuns. On avançait médiocrement vite.

  • Tout ça, dit Zazie, c’est misérable. Moi je n’aime que le métro.
  • Je n’y ai jamais mis les pieds, dit la veuve.
  • Vous êtes rien snob, dit Zazie.
  • Du moment que j’en ai les moyens…
  • N’empêche que tout à l’heure vous étiez pas prête à raquer un rond pour un taxi.
  • Puisque c’était inutile. La preuve.
  • Ça roule, dit Trouscaillon en se retournant vers les passagères pour quêter une approbation.
  • Voui, dit la veuve Mouaque en extase.
  • Faudrait pas charrier, dit Zazie. Quand on sera arrivés, le tonton se sera barré depuis belle
  • Je fais de mon mieux, dit le Sanctimontronais qui, changeant de voie de garage, s’esclama: ah! si on avait le métro à Saint-Montron! n’est-ce pas petite?
  • Ça alors, dit Zazie, c’est le genre de déconnances qui m’écœurent particulièrement. Comme si pouvait y avoir le métro dans nott bled.
  • Ça viendra un jour, dit le type. Avec le pro­grès. Y aura le métro partout. Ça sera même ultra­ Le métro et l’hélicoptère, vlà l’avenir pour ce qui est des transports urbains. On prend le métro pour aller à Marseille et on revient par l’hélicoptère.
  • Pourquoi pas le contraire? demanda la veuve Mouaque dont la passion naissante n’avait pas encore entièrement obnubilé le cartésianisme natif.
  • Pourquoi pas le contraire? dit le type ana A cause de la vitesse du vent.

Il se tourne un peu vers l’arrière pour appré­cier les effets de cette astuce majeure, ce qui l’en­traîne à rentrer de l’avant dans un car stationné en deuxième position. On était arrivé. En effet Fédor Balanovitch fit son apparition et se mit à débiter le discours type:

— Alors quoi? On sait plus conduire! Ah! ça, m’étonne pas… un provincial… Au lieu de venir encombrer les rues de Paris, vous feriez mieux d’aller garder vozouazévovos.

— Tiens, s’écria Zazie, mais c’est Fédor Bala­novitch. Vzavez pas vu mon tonton?

  • Sus au tonton, dit la veuve Mouaque en s’estrayant de la carlingue.
  • Ah mais c’est pas tout ça, dit Fédor Bala­ Faudrait voir à voir, regardez ça, vous m’avez abîmé mon instrument de travail.
  • Vzétiez arrêté en deuxième position, dit le Sanctimontronais, ça se fait pas.
  • Commencez pas à discuter, dit Trouscaillon en descendant à son tour. Jvais arranger ça.
  • C’est pas de jeu, dit Fédor Balanovitch, vzétiez dans sa voilure. Vzallez être partial.
  • Eh bien, démerdez-vous, dit Trouscaillon qui se tira anxieux de retrouver la veuve Mouaque, laquelle avait disparu dans le sillage de la mou­

XI

A la terrasse du Café des Deux Palais, Gabriel, vidant sa cinquième grenadine, pérorait devant une assemblée dont l’attention semblait d’autant plus grande que la francophonie y était plus dispersée.

  • Pourquoi, qu’il disait, pourquoi qu’on suppor­terait pas la vie du moment qu’il suffit d’un rien pour vous en priver? Un rien l’amène, un rien l’anime, un rien la mine, un rien l’emmène. Sans ça, qui supporterait les coups du sort et les humiliations d’une belle carrière, les fraudes des épiciers, les tarifs des bouchers, l’eau des laitiers, l’énervement des parents, la fureur des professeurs, les gueulements des adjudants, la turpitude des nantis, les gémissements des anéantis, le silence des espaces infinis, l’odeur des choux-fleurs ou la passivité des chevaux de bois, si l’on ne savait que la mauvaise et proliférante conduite de quelques cellules infimes (geste) ou la trajectoire d’une balle tracée par un anonyme involontaire irresponsable ne viendrait inopinément faire évaporer tous ces soucis dans le bleu du ciel. Moi qui vous cause, j’ai bien souvent gambergé à ces problèmes tandis que vêtu d’un tutu je montre à des caves de votre espèce mes cuisses naturellement assez poilues il faut le dire mais professionnellement épilées. Je dois ajouter que si vous en esprimez le désir, vous pouvez assister à ce spectacle dès ce soir.
  • Hourra! s’écrièrent les voyageurs de confiance.
  • Mais, dis-moi, tonton, tu fais de plus en plus
  • Ah te voilà, toi, dit Gabriel tranquillement. Eh bien, tu vois, je suis toujours en vie et même en pleine prospérité.
  • Tu leur as montré la Sainte-Chapelle?
  • Ils ont eu du pot. C’était en train de fermer, on a juste eu le temps de faire un cent mètres devant les vitraux. Comme ça (geste) d’ailleurs, les vitraux. Ils sont enchantés (geste), eux. Pas vrai my gretchen lady?

La touriste élue acquiesça, ravie.

  • Hourra! crièrent les autres.
  • Sus aux guidenappeurs, ajouta la veuve Mouaque suivie de près par Trouscaillon.

Le flicmane s’approcha de Gabriel et, s’inclinant respectueusement devant lui, s’informa de l’état de sa santé. Gabriel répondit succinctement qu’elle était bonne. L’autre alors poursuivit son interrogatoire en abordant le problème de la liberté. Gabriel assura son interlocuteur de l’étendue de la sienne, que de plus il jugeait à sa convenance. Certes, il ne niait pas qu’il y ait eu tout d’abord une atteinte non contestable à ses droits les plus imprescriptibles à cet égard, mais, finalement, s’étant adapté à la situation, il l’avait transformée à tel point que ses ravisseurs étaient devenus ses esclaves et qu’il disposerait bientôt de leur libre arbitre à sa guise. II ajouta pour conclure qu’il détestait que la police fourrât son nez dans ses affaires et, comme l’horreur que lui inspiraient de tels agissements n’était pas loin de lui donner la nausée, il sortit de sa poche un carré de soie de la couleur du lilas (celui qui n’est pas blanc) niais imprégné de Barbouze, le parfum de Fior, et s’en tamponna le tarin.

Trouscaillon, empesté, s’escusa, salua Gabriel en se mettant au garde-à-vous, egzécuta le demi-tour réglementaire, s’éloigna, disparut dans la foule accompagné par la veuve Mouaque qui le pour­chasse au petit trot.

  • Comment que tu l’as mouché, dit Zazie à Gabriel en se faisant une place à côté de lui. Pour moi, ce sera une glace fraise-chocolat.
  • Il me semble que j’ai déjà vu sa tête quelque part, dit Gabriel.
  • Maintenant que voilà la flicaille vidée, dit Zazie, tu vas peut-être me répondre. Es-tu un hormosessuel ou pas?
  • Je te jure que non.

Et Gabriel étendit le bras en crachant par terre, ce qui choqua quelque peu les voyageurs. Il allait leur espliquer ce trait du folclore gaulois, quand Zazie, le prévenant dans ses intentions didactiques, lui demanda pourquoi dans ce cas-là le type l’avait accusé d’en être un.

— Ça recommence, gémit Gabriel.

Les voyageurs, comprenant vaguement, commen­çaient à trouver que ça n’était plus drôle du tout et se consultèrent à voix basse et dans leurs idiomes natifs. Les uns étaient d’avis de jeter la fillette à la Seine, les autres de l’emballer dans un plède et de la mettre en consigne dans une gare quelconque après l’avoir gavée de ouate pour l’insonoriser. Si per­sonne ne voulait sacrifier de couverture, une valise pourrait convenir, en tassant bien.

Inquiet de ces conciliabules, Gabriel se décide à faire quelques concessions.

  • Eh bien, dit-il, je t’espliquerai tout ce soir. Mieux même tu verras de tes propres yeux.
  • Je verrai quoi?
  • Tu verras. C’est promis.

Zazie haussa les épaules.

  • Les promesses, moi…
  • Tu veux que je crache encore un coup par terre?
  • Ça suffit. Tu vas postillonner dans ma glace.
  • Alors maintenant fous-moi la paix. Tu verras, c’est promis.
  • Qu’est-ce qu’elle verra, cette petite? Demanda Fédor Baianovitch qui avait fini par régler son tamponnement avec le Sanctimontronais lequel d’ailleurs avait manifesté une forte envie de dispa­raître du coin.
  • Si maintenant elle se met à te faire du charme, dit Gabriel, on aura tout vu.
  • Pourquoi? demanda Zazie. C’est un hormo?
  • Tu veux dire un normal, rectifia Fédor Bala­ Suprême, celle-là, n’est-ce pas tonton?

Et il tapa sur la cuisse de Gabriel qui se tré­moussa. Les voyageurs les regardaient avec curio­sité.

  • Ils doivent commencer à s’emmerder, dit Fédor Balanovitch. Il serait temps que tu les emmènes à tes billards pour les distraire un chouïa. Pauvres innocents qui croient que c’est ça, Paris.
  • Tu oublies que je leur ai montré la Sainte-Chapelle, dit Gabriel fièrement.
  • Nigaud, dit Fédor Balanovitch qui connaissait à fond la langue française étant natif de Bois- C’est le Tribunal de commerce que tu leur as fait visiter.
  • Tu me fais, marcher, dit Gabriel incrédule. T’en es sûr?
  • Heureusement que Charles est pas là, dit Ça se compliquerait.

D’autant plus que les voyageurs manifestaient leur accord en sortant leur monnaie avec enthou­siasme, témoignant ainsi et du prestige de Gabriel et de l’amplitude des connaissances linguistiques de Fédor Balanovitch.

  • C’est justement ça, ma deuxième question dit Zazie. Quand je t’ai retrouvé aux pieds de la tour Eiffel, tu parlais l’étranger aussi bien que lui. Qu’est-ce qui t’avait pris? Et pourquoi que tu recommences plus?
  • Ça, dit Gabriel, je peux pas t’espliquer. C’est des choses qu’arrivent on sait pas comment. Le coup de génie, quoi.

Il finit son verre de grenadine.

— Qu’est-ce que tu veux, les artisses, c’est comme ça.

(…)

De nouveau la veuve Mouaque soupira.

  • Et moi qui me sens si seule… si seule… si ..
  • Seule mon cul, dit la fillette avec la correc­tion du langage qui lui était habituelle.
  • Sois donc compréhensive avec les grandes per­sonnes, dit la dame la voix pleine d’eau. Ah! si tu ..
  • C’est le flicard qui vous met dans cet état?
  • Ah l’amour… quand tu connaîtras…
  • Je me disais bien qu’au bout du compte vous alliez me débiter des cochonneries. Si vous conti­nuez, j’appelle un flic… un autre…
  • C’est cruel, dit la veuve Mouaque amèrement.

Zazie haussa les épaules.

— Pauv’vieille… Allez, chsuis pas un mauvais cheval. Je vais vous tenir compagnie le temps que vous vous remettiez. J’ai bon cœur, hein?

Avant que la Mouaque utu le temps de répondre, Zazie avait ajouté:

  • Tout de même… un flicard. Moi, ça me débec
  • Je te comprends. Mais qu’est-ce que tu veux, ça s’est trouvé comme ça. Peut-être que si ton oncle n’avait pas été guidenappé…
  • Je vous ai déjà dit qu’il était marié. Et ma tante est drôlement mieux que vott’
  • Ne fais pas de réclame pour ta famille. Mon Trouscaillon me suffit. Me suffira, plutôt.

Zazie haussa les épaules.

  • Tout ça, c’est du cinéma, qu’elle dit. Vous auriez pas un autre sujet de conversation?
  • Non, dit énergiquement la veuve Mouaque.
  • Eh bien alors, dit non moins énergiquement Zazie, je vous annonce que la semaine de bonté est terminée. A rvoir.
  • Merci tout de même, mon enfant, dit la veuve Mouaque pleine d’indulgence.

Elles traversèrent ensemble séparément la chaus­sée et se retrouvèrent devant la brasserie du Sphé­roïde.

— Tiens, dit Zazie, vous via encore vous. Vous me suivez?

  • J’aimerais mieux te voir ailleurs, dit la
  • Elle est suprême, celle-là. Y a pas cinq minutes, on pouvait pas se débarrasser de vous. Maintenant faut prendre le large. C’est l’amour qui rend comme ça?
  • Que veux-tu? Pour tout dire, j’ai rendez-vous ici même avec mon Trouscaillon.

Du sous-sol émanait un grand brou. Ah ah.

  • Et moi avec mon tonton, dit Zazie. Ils sont tous là. En bas. Vous les entendez qui s’agitent en pleine préhistoire? Parce que, comme je vous l’ai dit, moi, le billard…

La veuve Mouaque détaillait le contenu du rez-de-chaussée.

  • Il est pas là, votre coquin, dit Zazie.
  • Pointancor, dit la dame. Pointancor.
  • Bin sûr. Y a jamais de flics dans les bistros. C’est défendu.
  • Là, dit la veuve finement, tu vas être coyonnée. Il est allé se vêtir civilement.
  • Et vous serez foutue de le reconnaître dans cet état?
  • Je l’aime, dit la veuve Mouaque.
  • En attendant, dit Zazie rondement, descendez donc boire un glasse avec nous. Il est peut-être au sous-sol après tout. Peut-être qu’il l’a fait esprès.
  • Faut pas egzagérer. Il est flic, pas espion.
  • Qu’est-ce que vous en savez? Il vous a fait des confidences? Déjà?
  • J’ai confiance, dit la rombière non moins extatiquement qu’énigmatiquement.

Zazie haussa les épaules encore une fois.

— Allez… un glasse, ça vous renouvellera les idées.

— Pourquoi pas, dit la veuve qui, ayant regardé l’heure, venait de constater qu’elle avait encore dix minutes à attendre son fligolo.

Du haut de l’escalier, on apercevait des petites boules glisser alertement sur des tapis verts et, d’autres plus légères, zébrer le brouillard qui s’éle­vait des demis de bière et des bretelles humides. Zazie et la veuve Mouaque aperçurent le groupe compact des voyageurs agrégé autour de Gabriel qui était en train de méditer un carambolage d’une haute difficulté. L’ayant réussi, il fut acclamé en dea idiomes divers.

— Ils sont contents, hein, dit Zazie toute fière de son tonton.

La dame, du chef, eut l’air d’approuver.

  • Ce qu’ils peuvent être cons, ajouta Zazie avec attendrissement. Et encore ils n’ont rien vu. Quand Gabriel va se montrer en tutu, la gueule qu’ils vont

La dame daigna sourire.

  • Qu’est-ce que c’est au juste qu’une tante? lui demanda familièrement Zazie en vieille copine. Une pédale? une lope? un pédé? un hormosessuel? Y a des nuances?
  • Ma pauvre enfant, dit en soupirant la veuve qui de temps à autre retrouvait des débris de mora­lité pour les autres dans les ruines de la sienne pulvé­risée par les attraits du flicmane.

Gabriel qui venait de louper un queuté-six-bandes les aperçut alors et leur fit un petit salut de la main. Puis il reprit froidement le cours de sa série, négli­geant l’échec de son dernier carambolage.

  • Je remonte, dit la veuve avec décision.
  • Bonnes fleurs bleues, dit Zazie qui alla voir le billard de plus près.

La boule motrice était située en f2, l’autre boule blanche en g3 et la rouge en h4. Gabriel s’apprêtait à masser et, dans ce but, bleuissait son procédé. II dit:

  • Elle est drôlement collante, la rombière.
  • Elle a un fleurte terrible avec le flicmane qu’est venu te causer quand on s’est ramenés au bistro.
  • On s’en fout. Pour le moment, laisse-moi jouer. Pas de blagues. Du calme. Du sang-froid.

Au milieu de l’admiration générale, il leva sa queue en l’air pour percuter ensuite la boule motrice afin de lui faire décrire un arc de parabole. Le coup porté, déviant de sa juste application, s’en fut sabrer le tapis d’une zébrure qui représentait une valeur marchande tarifée par les patrons de l’éta­blissement. Les voyageurs qui, sur des engins voi­sins, s’étaient efforcés de produire un résultat semblable sans y être parvenus, manifestèrent leur admiration. Il était temps d’aller dîner.

Après avoir fait la quête pour payer les frais et réglé la note équitablement, Gabriel, ayant récupéré son monde, y compris les joueurs de pimpon, le mena casser la graine à la surface du sol. La bras­serie au rez-de-chaussée lui parut convenir à cette entreprise et il s’affala sur une banquette avant d’avoir vu la veuve Mouaque et Trouscaillon à une table vise-à-vise. Ils lui firent des signes guillerets et Gabriel eut du mal à reconnaître le flicmane dans l’endimanché qui prenait des mines à côté de la rombière. N’écoutant que les intermittences de son cœur bon, Gabriel les convia du geste à se joindre à sa smalah, ce dont ne se firent faute. Les étrangers s’étranglaient d’enthousiasme devant tant de cou­leur locale, cependant que des garçons vêtus d’un pagne commençaient à servir, accompagnée de demis de bière enrhumés, une choucroute pouacre parsemée de saucisses paneuses, de lard chanci, de jambon tanné et de patates germées, apportant ainsi à l’appréciation inconsidérée de palais bien disposés la ffine efflorescence de la cuisine ffransouèze.

Zazie, goûtant au mets, déclara tout net que c’était de la merde. Le flicard élevé par sa mère concierge dans une solide tradition de bœuf miron­ton, la rombière quant à elle experte en frites authentiques, Gabriel lui-même bien qu’habitué aux nourritures étranges qu’on sert dans les cabarets, s’empressèrent de suggérer à l’enfant ce silence lâche qui permet aux gargotiers de corrompre le goût public sur le plan de la politique intérieure et, sur le plan de la politique extérieure, de dénaturer à l’usage des étrangers l’héritage magnifique que les cuisines de France ont reçu des Gaulois, à qui l’on doit, en outre, comme chacun sait, les braies, la tonnellerie et l’art non figuratif.

  • Vous m’empêcherez tout de même pas de dire, dit Zazie, que c’ (geste) est dégueulasse.
  • Bien sûr, bien sûr, dit Gabriel, je veux pas te Je suis compréhensif moi, pas vrai, madame?
  • Des fois, dit la veuve Mouaque. Des fois.
  • C’est pas tellement ça, dit Trouscaillon, c’est à cause de la politesse.
  • Politesse mon cul, dit Zazie.
  • Vous, dit Gabriel au flicmane, je vous prie de me laisser élever cette môme comme je l’entends. C’est moi qui en ai la responsibilitas. Pas vrai, Zazie?
  • Paraît, dit Zazie. En tout cas, moi, rien à faire pour que je bouffe cette saloperie.
  • Mademoiselle désire? s’enquit hypocritement un loufiat vicieux qui flairait la bagarre.
  • Jveux ottchose, dit Zazie.
  • Notre choucroute alsacienne ne plaît pas à la petite demoiselle? demanda le vicieux loufiat.

Il voulait faire de l’ironie, le cou.

— Non, dit Gabriel avec force et autorité, ça lui plaît pas.

Le loufiat considéra pendant quelques instant le format de Gabriel, puis en la personne de Trous­caillon subodora le flic. Tant d’atouts réunis dans la seule main d’une fillette l’incitèrent à boucler sa grande gueule. Il allait donc faire une démonstration de plat ventre, lorsqu’un gérant, plus con encore, s’avisa d’intervindre. Il fit aussitôt son numéro de charme.

— De couaille, de couaille, qu’il pépia, des étran­gers qui se permettent de causer cuisine? Bin merde alors, i sont culottés les touristes st’année. I vont peut-être se mettre à prétendre qu’i s’y connaissent en bectance, les enfouarés.

Il interpella quelques-uns d’entre eux (gestes).

— Non mais dites donc, vous croyez comme ça qu’on a fait plusieurs guerres victorieuses pour que vous veniez cracher sur nos bombes glacées? Vous croyez qu’on cultive à la sueur de nos fronts le gros rouge et l’alcool à brûler pour que vous veniez les déblatérer au profit de vos saloperies de cocacola ou de chianti? Tas de feignants, tandis que vous pratiquiez encore le cannibalisme en suçant la moelle des os de vos ennemis charcutés, nos ancêtres les Croisés préparaient déjà le biftèque pommes frites avant même que Parmentier ait découvert la pomme de terre, sans parler du boudin zaricos verts que vzavez jamais zétés foutus de fabriquer. Ça vous plaît pas? Non? Comme si vous y connaissiez quelque chose!

Il reprit sa respiration pour continuer en ces termes polis:

— C’est p-têtt le prix qui vous fait faire cette gueule-là? I sont pourtant bin nonnêtes, nos prix. Vous vous rendez pas compte, tas de radins. Avec quoi qu’il ne paierait pas ses impôts, le patron, s’il ne tenait pas compte de tous vos dollars que vous savez pas quoi en faire.

— T’as fini de déconner? demanda Gabriel. Le gérant pousse un cri de rage.

— Et ça prétend causer le français, qu’il se met à hurler.

Il se tourna vers le vicieux loufiat et lui commu­niqua ses impressions:

  • Non mais t’entends cette grossière merde qui se permet de m’adresser la parole en notre dialecte. Si c’est pas écœurant…
  • I cause pas mal pourtant, dit le vicieux loufiat qu’avait peur de recevoir des coups.
  • Traître, dit le gérant exacerbé, hagard et trémulant.
  • Qu’est-ce que t’attends pour lui casser la gueule? demanda Zazie à Gabriel.
  • Chtt, fit Gabriel.
  • Tordez-y donc les parties viriles, dit la veuve Mouaque, ça lui apprendra à vivre.
  • Je veux pas voir ça, dit Trouscaillon qui verdit. Pendant que vous opérerez, je m’absenterai le temps qu’il faut. J’ai justement un coup de bigophone à passer à la Préfectance.

Le vicieux loufiat d’un coup de coude dans le bide du gérant souligna le propos du client. Le vent tourna.

  • Ceci dit, commença le gérant, ceci dit, que désire mademoiselle?
  • Le truc que vous me servez là, dit Zazie, c’est tout simplement de la merde.
  • Y a eu erreur, dit le gérant, avec un bon sou­rire, y a eu erreur, c’était pour la table à côté, pour les voyageurs.
  • I sont avec nous, dit Gabriel.
  • Vous inquiétez pas, dit le gérant d’un air complice, je trouverai bien à la replacer ma chou­ Qu’est-ce que vous désirez à la place, made­moiselle?
  • Une autre choucroute.
  • Une autre choucroute?
  • Oui, dit Zazie, une autre choucroute.
  • C’est que, dit le gérant, l’autre sera pas meil­leure que celle-là. Je vous dis ça tout de suite pourque ça recommence pas, vos réclamations.
  • Somme toute, y a que de la chose à manger dans votre établissement?
  • Pour vous servir, dit le gérant. Ah si y avait pas les impôts (soupir).

— Miam miam, dit un voyageur en dégustant le fin fond de son assiette de choucroute. D’un geste, il signifia qu’il en revoulait.

— Là, dit le gérant triomphalement.

Et l’assiette de Zazie que le vicieux loufiat venait juste d’enlever réapparut en face du boulimique.

— Comme je vois que vous êtes des connaisseurs, continua le gérant, je vous conseille de prendre notre cornède bif nature. Et j’ouvrirai la boîte devant vous.

— Il a mis du temps pour comprendre, dit Zazie.

Humilié, l’autre s’éloignait. Gabriel, bonne âme, pour le consoler, lui demanda:

  • Et votre grenadine? Elle est bonne, votre grenadine?

(…)

  • Allô.
  • C’est toi, Charles?
  • Alors fonce et va chercher Marceline que je lui cause, c’est hurgent.
  • J’ai d’ordres à recevoir de personne.
  • Ah là là, s’agit pas de ça, grouille que je te dis, c’est hurgent.
  • Et moi je te dis que j’ai d’ordres à recevoir de personne.

Et il raccroche.

Puis il revint vers le comptoir derrière lequel Mado Ptits-pieds semblait rêver.

  • Alors, dit Charles, qu’est-ce que t’en penses? C’est oui? c’est non?
  • Jvous répète, susurra Mado Ptits-pieds, vous mdites ça comme ça, sans prévnir, c’est hun choc, jprévoyais pas, ça dmande réflexion, msieu Charles.
  • Comme si t’avais pas déjà réfléchi.
  • Oh! msieu Charles, comme vous êtes squelep

La sonnerie du truc-chose se mit de nouveau à téléphonctionner.

  • Non mais qu’est-ce qu’il a, qu’est-ce qu’il a.
  • Laisse-le donc tomber, dit Charles.
  • Faut pas être si dur que ça, c’est quand même un copain.
  • Ouais, mais la gosse en supplément ça n’ar­range rien.
  • Y pensez pas à la gamine. A stage-là, c’est du flan.

Comme ça continuait à ronfler, de nouveau Charles se mit au bout du fil de l’appareil décroché.

  • Allô, hurla Gabriel.
  • Rrroin, dit Charles.
  • Allez, fais pas lcon. Va, fonce chez Marceline et tu commences à m’emmerder à la fin.
  • Tu comprends, dit Charles d’un ton supérieur, tu mdéranges.

— Non mais, brâma le téléphone, qu’est-ce qu’i faut pas entendre. T’t’déranger toi? qu’est-ce que tu pourrais branler d’important?

Charles posa énergiquement sa main sur le fonateur de l’appareil et se tournant vers Mado, lui demanda:

  • C’est-ti oui? c’est-ti non?
  • Ti oui, répondit Mado Ptits-pieds en rougis­
  • Bin vrai?
  • (geste)

Charles débloqua le fonateur et communiqua la chose suivante à Gabriel toujours présent à l’autre bout du fil:

  • Bin voilà, j’ai une nouvelle à t’annoncer.
  • M’en fous. Va me chercher…
  • Marceline, je sais.

Puis il fonce à toute vitesse:

  • Mado Ptits-pieds et moi, on vient de se fian­
  • Bonne idée. Au fond j’ai réfléchi, c’est pas la ..
  • T’as compris ce que je t’ai dit? Mado Ptits-pieds et moi, c’est le marida.
  • Si ça te chante. Oui, Marceline, pas la peine qu’elle se dérange. Dis-y seulement que j’emmène la petite au Mont-de-piété pour voir le spectacle. Y a des voyageurs distingués qui m’accompagnent et quelques copains, toute une bande quoi. Alors mon numéro, ça ce soir, je vais le soigner. Autant que Zazie en profite, c’est une vraie chance pour Tiens, et puis c’est vrai, t’as qu’à venir aussi, avec Mado Ptits-pieds, ça vous fera une célébration pour vos fiançailles, non, pas vrai? Ça s’arrose ça, c’est moi qui paie, et le spectacle en plus. Et puis Turandot, il peut venir aussi, cette andouille, et Laverdure si on croit que ça l’amusera, et Gridoux, faut pas l’oublier, Gridoux. Sacré Gridoux.

Là-dessus, Gabriel raccroche.

Charles laisse pendre l’écouteur au bout de son fil et se tournant vers Mado Ptits-pieds, il entreprit d’énoncer quelque chose de mémorable.

  • Alors, qu’il dit, ça y est? L’affaire est dans le sac?
  • Et comment, dit Madeleine.
  • On va se marier, nous deux Madeleine, dit Charles à Turandot qui rentrait.
  • Bonne idée, dit Turandot. Je vous offre un réconfortant pour arroser ça. Mais ça m’embête de perdre Mado. Elle travaillait bien.
  • Oui mais c’est que je resterai, dit Madeleine. Je m’emmerderais à la maison, le temps qu’il fait le taxi.
  • C’est vrai, ça, dit Charles. Au fond, y aura rien de changé, sauf que, quand on tirera un coup, ça sera dans la légalité.
  • On finit toujours par se faire une raison, dit Turandot. Qu’est-ce que vous prenez?
  • Moi jm’en fous, dit Charles.
  • Pour une fois, c’est moi qui vais te servir, dit Turandot galamment à Madeleine en lui tapant sur les fesses ce qu’il n’avait pas coutume de faire en dehors des heures de travail et alors seulement pour réchauffer l’atmosphère.
  • Charles, il pourrait prendre un fernet-branca, dit Madeleine.
  • C’est pas buvable, dit Charles.
  • T’en as bien écluse un verre à midi, fit remar­quer Turandot.
  • C’est pourtant vrai. Alors pour moi ce sera un beaujolais.

On trinque.

  • A vos crampettes légitimes, dit Turandot.
  • Merci, répond Charles en s’essuyant la bouche avec sa casquette.

Il ajoute que c’est pas tout ça, faut qu’il aille prévenir Marceline.

  • Te fatigue pas, mon chou, dit Madeleine, jvais y aller.
  • Qu’est-ce que ça peut lui foutre que tu te maries ou pas? dit Turandot. Elle attendra bien demain pour le savoir.
  • Marceline, dit Charles, c’est encore autre chose. Y a Gabriel qu’a gardé la Zazie avec lui et qui nous invite tous et toi aussi à venir s’en jeter un en le regardant faire son numéro. S’en jeter un et j’es­père bien plusieurs.
  • Bin, dit Turandot, t’es pas dégoûté. Tu vas haller dans une boîte de pédales pour célébrer tes fiançailles? Bin, je le répète, t’es pas dégoûté.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce que tu sais faire.
  • Vous disputez pas, dit Madeleine, moi jvais prévenir madame Marceline et m’habiller chouette pour faire honneur à notre Gaby.

Elle s’envole. A l’étage second parvenue, sonne à la porte la neuve fiancée. Une porte sonnée d’aussi gracieuse façon ne peut faire autre chose que s’ouvrir. Aussi la porte en question s’ouvre-t-elle.

  • Bonjour, Mado Ptits-pîeds, dit doucement
  • Eh bin voilà, dit Madeleine en reprenant sa respiration laissée un peu à l’abandon dans les spires de l’escalier.
  • Entrez donc boire un verre de grenadine, dit doucement Marceline en l’interrompant.
  • C’est qu’il faut que je m’habille.
  • Je ne vous vois point nue, dit doucement

Madeleine rougit.

Marceline dit doucement:

  • Et ça n’empêcherait pas le verre de grenadine, n’est-ce pas? Entre femmes…
  • Tout de même.
  • Vous avez l’air tout émue.
  • Jviens de me fiancer. Alors vous comprenez.
  • Vous n’êtes pas enceinte?
  • Pas pour le moment.
  • Alors vous ne pouvez pas me refuser un verre de grenadine.
  • Ce que vous causez bien.
  • Je n’y suis pour rien, dit doucement Marceline en baissant les yeux. Entrez donc.

Madeleine susurre encore des politesses confuses et entre. Priée de s’asseoir, elle le fait. La maîtresse de céans va quérir deux verres, une carafe de flotte et un litron de grenadine. Elle verse ce dernier liquide avec précaution, assez largement pour son invitée, juste un doigt pour elle.

— Je me méfie, dit-elle doucement avec un sourire complice. Puis elle dilue le breuvage qu’elles supent avec des petites mines.

  • Et alors? demande doucement Marceline,
  • Eh bien, dit Madeleine, meussieu Gabriel a téléphoné qu’il emmenait la petite à sa boîte pour le voir faire son numéro, et nous deux avec, Charles et moi, pour fêter nos fiançailles.
  • Parce que c’est Charles?
  • Autant lui qu’un autre. Il est sérieux et puis, on se connaît.

Elles continuaient à se sourire.

— Dites-moi, madame Marceline, dit Madeleine, quelle pelure dois-je mettre?

— Bin, dit doucement Marceline, pour des fiançailles, c’est le blanc moyen qui s’impose avec une touche de virginal argenté.

  • Pour le virginal, vous rpasserez, dit Madeleine.
  • C’est ce qui se fait.
  • Même pour une boîte de tapettes?
  • Ça ne fait rien à la chose.
  • Oui mais oui mais oui mais, si j’en ai pas moi de robe blanc moyen avec une touche de virginal argenté ou même simplement un tailleur deux-pièces salle de bains avec un chemisier porte-jarretelles cuisine, eh! qu’est-ce que je ferai? Non mais, dites-moi dites, qu’est-ce que je ferai?

Marceline baissa la tête en donnant les signes les plus manifestes de la réflexion.

  • Alors, qu’elle dit doucement, alors dans ce cas-là pourquoi ne mettriez-vous pas votre veste amarante avec la jupe plissée verte et jaune que je vous ai vue un jour de bal un quatorze juillet.
  • Vous me l’avez remarquée?
  • Mais oui, dit doucement Marceline, je vous l’ai remarquée (silence). Vous étiez ravissante.
  • Ça c’est gentil, dit Madeleine. Alors comme ça vous faites attention à moi, des fois?
  • Mais oui, dit doucement Marceline.
  • Passque moi, dit Madeleine, passque moi, je vous trouve si belle.
  • Vraiment? demanda Marceline avec douceur.
  • Ça oui, répondit Mado avec véhémence, ça vraiment oui. Vous êtes rien bath. Ça me plairait drôlement d’être comme vous. Vzêtes drôlement bien roulée. Et d’une élégance avec ça.
  • N’exagérons rien, dit doucement Marceline.
  • Si si si, vzêtes rien bath. Pourquoi qu’on vous voit pas plus souvent? (silence). On aimerait vous voir plus souvent. Moi (sourire) j’aimerais vous voir plus souvent.

Marceline baissa les yeux et rosit doucement.

— Oui, reprit Madeleine, pourquoi qu’on vous voit pas plus souvent, vous qu’êtes en si rayonnante santé que je me permets de vous le signaler et si belle par-dessus le marché, oui pourquoi?

  • C’est que je ne suis pas d’humeur tapageuse, répondit doucement Marceline.
  • Sans aller jusque-là, vous pourriez…
  • N’insistez pas, ma chère, dit Marceline.

Là-dessus, elles demeurèrent silencieuses, pen­seuses, rêveuses. Le temps coulait pas vite entre elles deux. Elles entendaient au loin, dans les rues, les pneus se dégonfler lentement dans la nuit. Par la fenêtre entrouverte, elles voyaient la lune scintiller sur le gril d’une antenne de tévé en ne faisant que très peu de bruit.

— Il faudrait tout de même que vous alliez vous habiller, dit doucement Marceline, si vous ne voulez pas rater le numéro de Gabriel.

— Faudrait, dit Madeleine. Alors je mets ma veste vert pomme avec la jupe orange et citron du quatorze juillet?

  • C’est ça.

(un temps)

  • Tout de même, ça me fait triste de vous laisser toute seule, dit Madelaine.
  • Mais non, dit Marceline. J’y suis habituée.
  • Tout de même.

Elles se levèrent ensemble d’un même mouve­ment.

  • Eh bien, puisque c’est comme ça, dit Made­leine, je vais m’habiller.
  • Vous serez ravissante, dit Marceline en s’ap­prochant doucement.

Madeleine la regarde dans les yeux. On cogne à la porte.

  • Alors ça vient? qu’il crie Charles.

XIV

Le bahut s’emplit et Charles démarra. Turandot s’assit à côté de lui, Madeleine dans le fond, entre Gridoux et Laverdure.

Madeleine considéra le perroquet pour demander ensuite à la ronde:

  • Vous croyez que le spectacle va l’amuser?
  • T’en fais pas, dit Turandot qui avait poussé la vitre de séparation pour entendre ce qui se raconte­rait derrière lui, tu sais bien qu’il s’amuse à son idée, quand il en a envie. Alors pourquoi pas en regardant Gabriel?
  • Ces bêtes-là, déclara Gridoux, on sait jamais ce qu’elles gambergent.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce ‘que tu sais faire.
  • Vous voyez, dit Gridoux, ils entravent plus qu’on croit généralement.
  • Ça c’est vrai, approuva Madeleine avec fougue. C’est rudement vrai, ça. D’ailleurs nous, est-ce qu’on entrave vraiment kouak ce soit à kouak ce soit?
  • Koua à koua? demanda Turandot.
  • A la vie. Parfois on dirait un rêve.
  • C’est des choses qu’on dit quand on va se

Et Turandot donne une claque sonore sur la cuisse de Charles au risque de faire charluter le taxi.

  • Me fais pas chier, dit Charles.
  • Non, dit Madeleine, c’est pas ça, je pensais pas seulement au marida, je pensais comme ça.
  • C’est la seule façon, dit Gridoux d’un ton
  • La seule façon de quoi?
  • De ce que tu as dit.

(silence)

  • Quelle colique que l’egzistence, reprit Made­leine (soupir).
  • Mais non, dit Gridoux, mais non.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce que tu sais faire.
  • Quand même, dit Gridoux, il change pas souvent son disque, celui-là.
  • Tu insinues peut-être qu’il est pas doué? Cria Turandot par-dessus son épaule.

Charles, que Laverdure n’avait jamais beaucoup intéressé, se pencha vers son propriétaire pour lui glisser à mi-voix:

  • Dmanddzi si ça colle toujours le marida.
  • A qui je demande ça? A Laverdure?
  • Te fais pas plus con qu’un autre.
  • On peut plus plaisanter, alors, dit Turandot d’une voix émolliente.

Et il cria par-dessus son épaule:

  • Mado Ptits-pieds!
  • La vlà, dit Madeleine.
  • Charles demande si tu veux toujours de lui pour époux.
  • Voui, répondit Madeleine d’une voix ferme.

Turandot se tourna vers Charles et lui demanda:

  • Tu veux toujours de Mado Ptits-pieds pour épouse?
  • Voui, répondit Charles d’une voix ferme.
  • Alors, dit Turandot d’une voix non moins ferme, je vous déclare unis par les liens du mariage.
  • Amen, dit Gridoux.
  • C’est idiot, dit Madeleine furieuse, c’est une blague idiote.
  • Pourquoi? demanda Turandot. Tu veux ou tu veux pas? Faudrait s’entendre.
  • C’était la plaisanterie qu’était pas drôle.
  • Je plaisantais pas. Ça fait longtemps que je vous souhaite unis, vous deux Charles.
  • Mêlez-vous de vos fesses, msieu Turandot.
  • Elle a eu le dernier mot, dit Charles placide­ment. Nous y vlà. Tout le monde descend. Je vais ranger ma voiture et je reviens.
  • Tant mieux, dit Turandot, je commençais à avoir le torticolis. Tu m’en veux pas?
  • Mais non, dit Madeleine, vzêtes trop con pour qu’on puisse vous en vouloir.

Un amiral en grand uniforme vint ouvrir les por­tières.

Il s’esclama.

— Oh la mignonne, qu’il fit en apercevant le perroquet. Elle en est, elle aussi?

Laverdure râla:

  • Tu causes, tu causes, c’est tout ce que tu sais
  • Eh bien, dit l’amiral, on dirait qu’elle en veut.

Et aux nouveaux venus:

— C’est vous les invités de Gabriella? Ça se voit du premier coup d’œil.

  • Dis donc eh lope, dit Turandot, sois pas inso­
  • Et ça aussi, ça veut voir Gabriella?

Il regardait le perroquet avec l’air d’avoir l’air d’avoir le cœur soulevé de dégoût.

  • Ça te dérange? demanda Turandot.
  • Quelque peu, répondit l’amiral. Ce genre de bestiau me donne des complexes.
  • Faut voir un psittaco-analyste, dit Gridoux.
  • J’ai déjà essayé d’analyser mes rêves, répon­dit l’amiral, mais ils sont moches. Ça donne rien.
  • De quoi rêvez-vous? demanda Gridoux.
  • De nourrices.
  • Quel dégueulasse, dit Turandot qui voulait

Charles avait trouvé une place pour garer sa tire.

  • Alors quoi, dit Charles, vzêtes pas encore entrés?
  • En voilà une méchante, dit l’amiral.
  • J’aime pas qu’on plaisante avec moi, dit le
  • J’en prends note, dit l’amiral.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure…
  • Vous en faites un sainfoin, dit Gabriel apparu. Entrez donc. Ayez pas peur. La clientèle est pas encore arrivée. Y a que les voyageurs. Et Zazie. Entrez donc. Entrez donc. Tout à l’heure, vous allez drôlement vous marer.
  • Pourquoi que spécialement tu nous as dit de venir ce soir? demanda Turandot.
  • Vous qui, continua Gridoux, jetiez le voile pudique de l’ostracisme sur la circonscription de vos activités.
  • Et qui, ajouta Madeleine, n’avez jamais voulu que nous vous admirassassions dans l’exercice de votre art.
  • Oui, dit Laverdure, nous ne comprenons pas le hic de ce nunc, ni le quid de ce quod.

Négligeant l’intervention du perroquet, Gabriel répondit en ces termes à ses précédents interlo­cuteurs.

— Pourquoi? Vous me demandez pourquoi? Ah, l’étrange question lorsqu’on ne sait qui que quoi y répondre soi-même. Pourquoi? Oui; pourquoi? Vous me demandez pourquoi? Oh! laissez-moi, en cet instant si doux, évoquer cette fusion de l’existence et du presque pourquoi qui s’opère dans les creusets du nantissement et des arrhes. Pourquoi pourquoi pourquoi, vous me demandez pourquoi? Eh bien, n’entendez-vous pas frissonner les gloxinias le long des épithalames?

  • C’est pour nous que tu dis ça? demanda Charles qui faisait souvent les mots croisés.
  • Non, du tout, répondit Gabriel. Mais, regar­dez! Regardez!

Un rideau de velours rouge se magnifiquement divisa selon une ligne médiane laissant apparaître aux yeux des visiteurs émerveillés le bar, les tables, le podium et la piste du Mont-de-piété, la plus célèbre de toutes les boîtes de tantes de la capitale, et c’est pas ça qui manque, asteure encore seule­ment et faiblement animée par la présence aber­rante et légèrement anormale des disciples du cicéron Gabriel au milieu desquels trônait et pérorait l’enfant Zazie.

  • Faites place, nobles étrangers, leur dit Gabriel.

Ayant toute confiance en lui, ils se remuèrent pour permettre aux nouveaux venus de s’insérer au milieu d’eux. Le mélange opéré, on installa Laverdure au bout d’une table. Il manifesta sa satisfaction en foutant des graines de soleil un peu partout autour de lui.

Un Écossaise, simple loufiat attaché à l’établisse­ment, considéra le personnage et fit part à haute voix de son opinion.

  • Y a des cinglés tout de même, qu’il déclara. Moi, la terre verte…
  • Grosse flotte, dit Turandot. Si tu te crois rai­sonnable avec ta jupette.
  • Laisse-le tranquille, dit Gabriel, c’es’t son ins­trument de travail. Quant à Laverdure, ajouta-t-il pour l’Écossaise, c’est moi qui lui ai dit de venir, alors tu vas la boucler et garder tes réflexions pour ta personne.
  • Ça c’est causer, dit Turandot en dévisageant l’Écossaise d’un air victorieux. Et avec ça, ajouta-t-il, qu’est-ce qu’on nous offre? Du Champagne, ou quoi?
  • Ici c’est obligatoire, dit l’Écossaise. A moins que vous preniez le ouisqui. Si vous savez ce que c’est.
  • Imdemande ça, s’esclama Turandot, à moi qui suis dans la limonade!
  • Fallait le dire, dit l’Écossaise en brossant sa jupette du revers de la main.
  • Eh bien gy, dit Gabriel, apporte-nous la bibine gazeuse de l’établissement.
  • Combien de bouteilles?
  • Ça dépend du prix, dit Turandot.
  • Puisque je te dis que c’est moi qui régale, dit Gabriel.
  • Je défendais tes intérêts, dit Turandot.
  • Ce qu’elle est près de ses sous, remarqua l’Écossaise en pinçant l’oreille du cafetier et en s’éloignant aussitôt. J’en apporterai une grosse.
  • Une grosse quoi? demanda Zazie en se mêlant tout à coup à la conversation.
  • I veut dire douze douzaines de bouteilles, espliqua Gabriel qui voit grand.

Zazie daigna s’occuper alors des nouveaux arri­vants.

  • Eh, l’homme au taxi, qu’elle dit à Charles, paraît qu’on se marie?
  • Paraît, répondit succinctement Charles.
  • En fin de compte, vous avez trouvé quelqu’un à vott goût.

Zazie se pencha pour regarder Madeleine.

  • C’est elle?
  • Bonjour, mademoiselle, dit aimablement Ma­
  • Salut, dit Zazie.

Elle se tourna du côté de la veuve Mouaque pour l’affranchir.

  • Ces deux-là, qu’elle lui dit en désignant du doigt les personnes en cause, ils se marient.
  • Oh! que c’est émouvant, s’esclama la veuve Et mon pauvre Trouscaillon qu’est peut-être en train d’attraper un mauvais coup, par cette nuit noire. Enfin (soupir), il a choisi ce métier-là (silence). Ce serait comique si je devenais veuve une seconde fois avant même d’être mariée.

Elle eut un petit rire perçant.

  • Qui c’est, cette dingue? demanda Turandot à
  • Sais pas. Depuis staprès-midi, elle nous colle aux chausses avec un flicard qu’elle a récolté en
  • Lequel c’est, le flicard?
  • Il est allé faire un tour.
  • Ça me plaît pas, cette compagnie, dit Charles.
  • Oui, dit Turandot. C’est pas sain.
  • Vous en faites pas, dit Gabriel. Vous vous inquietez pour un rien. Tenez, via la bibine. Hourra! Gobergez-vous, amis et voyageurs, et toi, nièce chérie, et vous, tendres fiancés. C’est vrai! faut pas les oublier, les fiancés. Un tôste! Un tôste pour les fiancés!

Les voyageurs, attendris, chantèrent en chœur apibeursdè touillou et quelques serviteurs écossaises, émus, écrasèrent la larme qui leur aurait gâché leur rimmel.

Puis Gabriel tapa sur un verre avec un estracteur de gaz et l’attention générale aussitôt obtenue, car tel était son prestige, il s’assit à califourchon sur une chaise et dit:

— Alors, mes agneaux et vous mes brebis mes­dames, vous allez enfin avoir un aperçu de mes talents. Depuis longtemps certes vous savez, et quelques-uns d’entre vous ne l’ignorent plus depuis peu, que j’ai fait de l’art chorégraphique le pis principal de la mamelle de mes revenus. Il faut bien vivre, n’est-ce pas? Et de quoi vit-on? je vous le demande. De l’air du temps bien sûr — du moins en partie, dirai-je, et l’on en meurt aussi — mais plus capitalement de cette substantifique moelle qu’est le fric. Ce produit mellifluent, sapide et polygène s’évapore avec la plus grande facilité cepen­dant qu’il ne s’acquiert qu’à la sueur de son front du moins chez les esploités de ce monde dont je suis et dont le premier se prénomme Adam que les Élohim tyrannisèrent comme chacun sait. Bien que sa planque en Éden ne semble pas onéreuse pour eux aux yeux et selon le jugement des humains actuels, ils l’envoyèrent aux colonies gratter le sol pour y faire pousser le pamplemousse tandis qu’ils interdisaient aux hypnotiseurs d’aider la conjointe dans ses parturitions et qu’ils obligeaient les ophi­diens à mettre leurs jambes à leur cou. Billevesées, bagatelles et bibleries de mes deux. Quoi qu’il en soit j’ai oint la jointure de mes genous avec la dite sueur de mon front et c’est ainsi qu’édénique et adamiaque, je gagne ma croûte. Vous allez me voir en action dans quelques instants, mais attention! ne vous y trompez pas, ce n’est pas du simple slip-tize que je vous présenterai, mais de l’art! De l’art avec un grand a, faites bien gaffe! De l’art en quatre lettres, et les mots de quatre lettres sont incontestablement supérieurs et aux mots de trois lettres qui charrient tant de grossièretés à travers le majestueux courant de la langue française, et aux mots de cinq qui n’en véhiculent pas moins. Arrivé au terme de mon discours, il ne me reste plus qu’à vous manifester toute ma gratitude et toute ma reconnaissance pour les applaudissements innom­brables que vous ferez crépiter en mon honneur et pour ma plus grande gloire. Merci! D’avance, merci! Encore une fois, merci!

Et, se levant d’un bond avec une souplesse aussi singulière qu’inattendue, le colosse fit quelques entrechats en agitant ses mains derrière ses omo­plates pour simuler le vol du papillon.

Cet aperçu de son talent suscita chez les voyageurs un enthousiasme considérable.

  • Go, femme, qu’ils s’écrièrent pour l’encoura­
  • Va hi, hurla Turandot qui n’avait jamais bu d’aussi bonne bibine.
  • Oh! la bruyante, dit un serviteur écossaise.

Tandis que de nouveaux clients arrivaient par grappes, déversés par les autocars familiers de ces lieux, Gabriel brusquement, revenait s’asseoir, l’air sinistre.

  • Ça ne va pas, meussieu Gabriel? demanda gentiment Madeleine.
  • J’ai le trac.
  • Coyon, dit Charles.

— C’est bien ma veine, dit Zazie.

  • Tu vas pas nous faire ça, dit Turandot.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce que tu sais faire.
  • Elle a de l’à-propos, cette bête, dit un servi­teur écossaise.
  • Te laisse pas impressionner, Gaby, dit Turan­
  • Imagine-toi qu’on est des gens comme les autres, dit Zazie.
  • Pour me faire plaisir, dit la veuve Mouaque en
  • Vous, dit Gabriel, je vous emmerde. Non, mes amis, ajouta-t-il à l’intention des autres, non, c’est pas seulement ça (soupir) (silence), mais j’aurais tellement aimé que Marceline puisse m’admirer, elle aussi.

On annonçait que le spectacle allait commencer par une caromba dansée par des Martiniquais tout à fait chous.

(…)

  • Décidément, dit Trouscaillon, ça tourne pas .. et tout ça à cause de la femme que je ren­contra ce matin.
  • Que je rencontrai.
  • Que je rencontrais.
  • Que je rencontrai sans esse.
  • Que je rencontrai.
  • La rombière que Gabriel traîne après lui?
  • Oh non. Pas celle-là. D’ailleurs celle-là, elle m’a déçu. Elle m’a laissé courir à mes occupations, et quelles occupations, sans même faire des sima­grées pour me retenir, tout ce qu’elle voulait, c’est voir danser Gabriella. Gabriella… marant… positivement marant.
  • C’est le mot, dit Fédor Balanovitch. Y a rien de comparable au numéro de Gabriel sur la place de Paris et je vous assure que j’en connais un bout sur le bâille-naïte de cette cité.
  • Vous en avez de la veine, dit Trouscaillon
  • Mais je l’ai vu si souvent, le numéro de Gabriel, que maintenant j’en ai soupe, c’est le cas de le dire. Et puis, il ne se renouvelle pas. Les artisses, qu’est-ce que vous voulez, c’est souvent comme ça. Une fois qu’ils ont trouvé un truc, ils l’esploitent à fond. Faut reconnaître qu’on est tous un peu comme ça, chacun dans son genre.
  • Moi pas, dit Trouscaillon avec simplicité. Moi, mes trucs, je les varie constamment.
  • Parce que vous avez pas encore trouvé le bon. Voilà: vous vous cherchez. Mais une fois que vous aurez obtenu un résultat appréciable, vous vous en tiendrez là. Parce que jusqu’à présent ce que vous avez obtenu comme résultats, ça ne doit pas être bien brillant. Y a qu’à vous regarder: vous avez l’air d’un minable.
  • Même avec mon uniforme?
  • Ça n’arrange rien.

(…)

Les voyageurs montent peu à peu dans le car. Fédor Balanovitch bâille.

Dans sa cage, au bout du bras de Turandot, Laverdure s’est endormi. Zazie résiste courageuse­ment: elle n’imitera pas Laverdure. Charles est allé chercher son bahut.

  • Alors, mon coquin, dit la veuve Mouaque en voyant arriver Trouscaillon, vous vous êtes bien amusé?
  • Point de trop, point de trop, dit Trouscaillon.
  • Nous, ce qu’on a pu se distraire. Meussieu est d’un drôle.
  • Merci, dit Gabriel. N’oubliez pas l’art tout de même. Y a pas que la rigolade, y a aussi l’art.
  • I sramène pas vite avec son bahut, dit Turan­
  • Elle s’est bien amusée? demande l’amiral en considérant l’animal le bec sous son aile.
  • Ça lui fera des souvenirs, dit Turandot.

Les derniers voyageurs ont regagné leur place. Ils enverront des cartes postales (gestes).

— Ho ho! crie Gabriel, adios araigos, tchinn tchinn, à la prochaine…

Et le car s’éloigne emportant ses étrangers ravis. Le jour même, à la première heure, ils partiront pour Gibraltar aux anciens parapets. Tel est leur itinéraire.

(…)

  • D’ailleurs, dit Turandot, tu vas nous offrir rien du tout. T’oublies que t’es flic. Moi qui suis dans la limonade, jamais je servirais un flic qui amènerait une bande de gens avec lui pour leur arroser la dalle.
  • Vous êtes pas forts, dit Gridoux. Vous le reconnaissez pas? C’est le satyre de ce matin.

Gabriel se pencha pour l’egzaminer plus atten­tivement. Tout le monde, même Zazie parce que fort surprise et vexée à la fois, attendit le résultat de l’inspection. Trouscaillon, tout le premier, conservait un silence prudent.

  • Qu’est-ce que t’as fait de tes moustaches? lui demanda Gabriel d’une voix paisible et redoutable à la fois.
  • Vous allez pas lui faire du mal, dit la veuve

D’une main, Gabriel saisit Trouscaillon par le revers de sa vareuse et le porta sous la lueur d’un réverbère pour compléter son étude.

  • Oui, dit-il. Et tes moustaches?
  • Je les ai laissées chez moi, dit Trouscaillon.
  • Et en plus c’est donc vrai que t’es un flic?
  • Non, non, s’écria Trouscaillon. C’est un dégui­sement… juste pour m’amuser… pour vous amuser… c’est comme vott tutu… c’est le même tabac…
  • Le même passage à tabac, dit Gridoux ins­piré.
  • Vous allez tout de même pas lui faire du mal, dit la veuve Mouaque.
  • Ça demande des esplications, dit Turandot, en surmontant son inquiétude.
  • Tu causes, tu causes… dit faiblement Laverdure et il se rendormit.

Zazie la bouclait. Dépassée par les événements, accablée par la somnolence, elle essayait de trouver une attitude à la fois adéquate à la situation et à la dignité de sa personne, mais n’y parvenait point.

Soulevant Trouscaillon le long du réverbère, Gabriel le regarda de nouveau en silence, le reposa délicatement sur ses pieds et lui adressa la parole en ces termes:

  • Et qu’est-ce que t’as à nous suivre comme ça?
  • C’est pas vous qu’il suit, dit la veuve Mouaque, c’est moi.
  • C’est ça, dit Trouscaillon. Vous savez peut-être pas… mais quand on est mordu pour une mousmé…
  • Qu’est-ce que (oh qu’il est mignon) t’insinues (il m’a appelée) sur mon compte (une mousmé), dirent, synchrones, Gabriel (et la veuve Mouaque), l’un avec fureur, (l’autre avec ferveur).
  • Pauvre andouille, continua Gabriel en se tour­nant vers la dame, il vous raconte pas tout ce qu’il
  • J’ai pas encore eu le temps, dit Trouscaillon.
  • C’est un dégoûtant satyre, dit Gabriel. Ce matin, il a coursé la petite jusque chez elle. Ignoble.
  • T’as fait ça? demanda la veuve Mouaque bouleversée.
  • Je ne vous connaissais pas encore, dit Trous­
  • Il avoue! hurla la veuve Mouaque.
  • Il a avoué! hurlèrent Turandot et Gridoux.
  • Ah! tu avoues! dit Gabriel d’une voix forte.
  • Pardon! cria Trouscaillon, pardon!
  • Le salaud! brailla la veuve Mouaque.

Ces vociférantes exclamations firent hors de l’ombre surgir deux hanvélos.

— Tapage nocturne, qu’ils hurlèrent les deux hanvélos, chahut lunaire, boucan somnivore, médianoche gueulante, ah ça mais c’est que, qu’ils hurlaient les deux hanvélos.

Gabriel, discrètement, cessa de tenir Trouscaillon par les revers de sa vareuse.

— Minute, s’écria Trouscaillon faisant preuve du plus grand courage, minute, vous m’avez donc pas regardé? Adspicez mon uniforme. Je suis flicard, voyez mes ailes.

(…)

— D’où tu sors, dit le hanvélo qualifié pour engager le dialogue. On t’a jamais vu dans le canton.

  • Possible, répondit Trouscaillon animé avec une audace qu’un bon écrivain ne saurait qualifier autrement que d’insensée. Possible, n’empêche que flic je suis, flic je demeure.
  • Mais eux autres, dit le hanvélo d’un air malin, eux autres (gestes), c’est tous des flics?
  • Vous ne voudriez pas. Mais ils sont doux comme l’hysope.
  • Tout ça ne me paraît pas très catholique, dit le hanvélo qui causait.

L’autre se contentait de faire des mines. Terrible.

  • J’ai pourtant fait ma première communion, répliqua Trouscaillon.
  • Oh que voilà une réflexion qui sent peu son flic, s’écria le hanvélo qui causait. Je subodore en toi le lecteur de ces publications révoltées qui veulent faire croire à l’alliance du goupillon et du bâton blanc. Or, vous entendez (et il s’adresse à la ronde), les curés, la police les a là (geste).

Cette mimique fut accueillie avec réserve, sauf par Turandot qui sourit servilement. Gabriel haussa nettement les épaules.

(…)

  • Fais-nous donc voir tes papiers, dit à Trous­caillon le hanvélo qui savait causer.
  • On n’a jamais vu ça, dit la veuve Mouaque.
  • Toi, la vieille, ferme ça, dit le hanvélo qui savait pas causer.
  • Ah ah! dit Zazie.
  • Soyez poli avec madame, dit Trouscaillon qui devenait téméraire.
  • Encore un propos de non-flic, dit le hanvélo qui savait causer. Tes papiers, hurla-t-il, et que ça saute.
  • Ce qu’on peut se marer, dit Zazie.
  • C’est tout de même un peu fort, dit Trous­ C’est à moi qu’on réclame ses papiers main­tenant alors que ces gens-là (geste) on leur demande rien.
  • Ça, dit Gabriel, ça c’est pas chic.
  • Quel fumier, dit Gridoux.

Mais les hanvélos changeaient pas d’idée comme ça.

  • Tes papiers, hurlait celui qui savait causer.
  • Tes papiers, hurlait celui qui savait pas.
  • Tapage nocturne, surhurlèrent à ce moment de nouveaux flics complétés, eux, par un panier à salade. Chahut lunaire, boucan somnivore, médianoche gueulante, ah ça mais c’est que…

Avec un flair parfait, ils subodorèrent les respon­sables et sans hésiter embarquèrent Trouscaillon et les deux hanvélos. Le tout disparut en un instant.

— Y a tout de même une justice, dit Gabriel. La veuve Mouaque, elle, se lamentait.

  • Faut pas pleurer, lui dit Gabriel. II était un peu faux jeton sur les bords votre jules. Et puis on en avait mare, de sa filature. Allez, venez donc vous taper une soupe à l’oignon avec nous. La soupe à l’oignon qui berce et qui console.

XVII

Une larme tomba sur un croûton brûlant et s’y volatilisa.

— Allez allez, dit Gabriel à la veuve Mouaque, reprenez vos esprits. Un de perdu, dix de retrouvés. Moche comme vous êtes, vous n’aurez pas de mal à redécrocher un coquin.

Elle soupire, incertaine. Le croûton glisse dans la cuiller et la veuve se le projette, fumant, dans l’œsophage. Elle en souffre.

— Appelez les pompiers, lui dit Gabriel.

Et il lui remplit de nouveau son verre. Chaque bouchée mouaquienne est ainsi arrosée de muscadet sévère.

Zazie a rejoint Laverdure dans la somnie. Gri­doux et Turandot se débattent en silence avec les fils du râpé.

— Fameuse hein, que leur dit Gabriel, cette soupe à l’oignon. On dirait que toi (geste) tu y as mis des semelles de bottes et toi (geste) que tu leur as refilé ton eau de vaisselle. Mais c’est ça que j’aime: la bonne franquette, le naturel. La pureté,
quoi.

Les autres approuvent, mais sans commentaires.

  • Eh bien, Zazie, tu manges pas ta soupe?
  • Laissez-la dormir, dit la veuve Mouaque d’une voix effondrée. Laissez-la rêver.

Zazie ouvre un œil.

—Tiens, qu’elle dit, elle est encore là, la vieille taupe.

  • Faut avoir pitié des malheureux, dit Gabriel.
  • Vzêtes bien bon, dit la veuve Mouaque. C’est pas comme elle (geste). Les enfants, c’est bien connu: ça n’a pas de cœur.

Elle vida son glasse et fit signe à Gabriel qu’elle souhaitait vivement qu’il le remplît de nouveau.

  • Ce qu’elle peut déconner, dit Zazie faiblement.
  • Peuh, dit Gabriel. Quelle importance? N’est-ce pas, vieille soucoupe? ajouta-t-il à l’intention de la principale intéressée.
  • Ah vzêtes bon, vous, dit celle-ci. C’est pas comme elle. Les enfants, c’est bien connu. Ça n’a pas de cœur.
  • Elle va nous les casser encore longtemps comme ça? demanda Turandot à Gabriel en profi­tant d’une déglutition réussie.
  • Vous êtes dur, vous alors, dit Gabriel. Il a quand même du chagrin, ce vieux débris.
  • Merci, dit la veuve Mouaque avec effusion.
  • De rien, dit Gabriel. Et, pour revenir à cette soupe à l’oignon, il faut reconnaître que c’est une invention bien remarquable.
  • Celle-ci, demanda Gridoux qui, au terme de sa consommation, raclait avec énergie le fond de son assiette pour faire un sort au gruyère qui adhérait encore à la faïence, celle-ci en particulier ou la soupe à l’oignon en général?
  • En général, répondit Gabriel avec décision. Je ne parle jamais qu’en général. Je ne fais pas de demi-mesures.
  • T’as raison, dit Turandot qui avait également achevé sa pâtée, faut pas chercher midi à quatorze Egzemple: le muscadet se fait rare, c’est la vieille qui siffle tout.
  • C’est qu’il n’est pas sale, dit la veuve Mouaque en souriant béatement. Moi aussi, je parle en général quand je veux.
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure réveillé en sursaut pour un motif inconnu de tous et de lui-même, c’est tout ce que tu sais faire.
  • J’en ai assez, dit Zazie en repoussant sa por­
  • Attends, dit Gabriel en attirant vivement l’assiette devant lui, je vais te terminer ça. Et qu’on nous envoie deux bouteilles de muscadet, et une de grenadine ajouta-t-il à l’intention d’un garçon qui circulait dans les parages. Et lui (geste), on l’oublie. Peut-être qu’il croquerait bien quelque chose?
  • Hé Laverdure, dit Turandot, tu as faim?
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est tout ce que tu sais faire.
  • Ça, dit Gridoux, ça veut dire oui.
  • C’est pas toi qui vas m’apprendre à comprendre ce qu’il raconte, dit Turandot avec hauteur.
  • Je me permettrais pas, dit Gridoux.
  • N’empêche qu’il l’a fait, dit la veuve Mouaque.
  • Envenimez pas la situation, dit Gabriel.
  • Tu comprends, dit Turandot à Gridoux, je comprends ce que tu comprends aussi bien que toi. Je suis pas plus con qu’un autre.

— Si tu comprends autant que moi, dit Gridoux, alors c’est que  t’es moins con que t’en as l’air.

— Et pour en avoir l’air, dit la veuve Mouaque, il en a l’air.

  • Elle est culottée, celle-là, dit Turandot. La vlà qui m’agonise maintenant.
  • Voilà ce que c’est quand on n’a pas de prestige, dit Gridoux. Le moindre gougnafîer vous crache alors en pleine gueule. C’est pas avec moi qu’elle
  • Tous les gens sont des cons, dit la veuve Mouaque avec une énergie soudaine. Vous compris, ajouta-t-elle pour Gridoux.

Elle reçut immédiatement une bonne calotte. Elle la rendit non moins prestement. Mais Gridoux en avait une autre en réserve qui retentit sur le visage mouaquien.

— Palsambleu, hurla Turandot.

Et il se mit à sautiller entre les tables, en essayant vaguement d’imiter Gabriella dans son numéro de La Mort du cygne.

Zazie, de nouveau, dormait. Laverdure, sans doute dans un esprit de vengeance, essayait de pro­jeter un excrément frais hors de sa cage.

Cependant les gifles allaient bon train entre Gri­doux et la veuve Mouaque et Gabriel s’esclaffait en voyant Turandot essayer de friser la jambe.

Mais tout ceci n’était pas du goût des loufiats d’Aux Nyctalopes. Deux d’entre eux spécialisés dans ce genre d’exploit saisirent subitement Turan­dot chacun sous un bras et, l’encadrant allègrement, ils eurent tôt fait de l’emmener hors pour le projeter sur l’asphalte de la chaussée, interrompant ainsi la maraude de quelques taxis moroses dans l’air grisâtre et rafraîchi du tout petit matin.

— Alors ça, dit Gabriel. Alors ça: non!

Il se leva et, attrapant les deux loufiats qui s’en retournaient satisfaits vers leurs occupations ména­gères, il leur fait sonner le cassis l’un contre l’autre de telle force et belle façon que les deux farauds s’effondrent fondus.

— Bravo! s’écrient en chœur Gridoux et la veuve Mouaque qui, d’un commun accord, ont inter­rompu leur échange de correspondance.

Un tiers loufiat qui s’y connaissait en matière de bagarre, voulut remporter une victoire éclair. Pre­nant en main un siphon, il se proposait d’en faire résonner la masse contre le crâne de Gabriel. Mais Gridoux avait prévu la contre-offensive. Un autre siphon, non moins compact, balancé par ses soins, s’en vint, au terme de sa trajectoire, faire des dégâts sur la petite tête de l’astucieux.

— Palsambleu! hurle Turandot qui, ayant repris son équilibre sur la chaussée aux dépens des freins de quelques chars nocturnes particulièrement matineux, pénétrait de nouveau dans la brasserie en manifestant un fier désir de combats.

C’était maintenant des troupeaux de loufiats qui surgissaient de toutes parts. Jamais on upu croire qu’il y en u tant. Ils sortaient des cuisines, des caves, des offices, des soutes. Leur masse serrée absorba Gridoux puis Turandot aventuré parmi eux. Mais ils n’arrivaient pas à réduire Gabriel aussi facilement. Tel le coléoptère attaqué par une colonne myrmidonne, tel le bœuf assailli par un banc hirudinaire, Gabriel se secouait, s’ébrouait, s’ébattait, projetant dans des directions variées des projectiles humains qui s’en allaient briser tables et chaises ou rouler entre les pieds des clients.

Le bruit de cette controverse finit par éveiller Zazie. Apercevant son oncle en proie à la meute limonadière, elle hurla: courage, tonton! et s’em­parant d’une carafe la jeta au hasard dans la mêlée. Tant l’esprit militaire est grand chez les filles de France. Suivant cet exemple, la veuve Mouaque dissémina des cendriers autour d’elle. Tant l’esprit d’imitation peut faire faire de choses aux moins douées. S’entendit alors un fracas considérable: Gabriel venait de s’effondrer dans la vaisselle, entraînant parmi les débris sept loufiats déchaînés, cinq clients qui avaient pris parti et un épileptique.

D’un seul mouvement se levant, Zazie et la veuve Mouaque s’approchèrent du magma humain qui s’agitait dans la sciure et la faïence. Quelques coups de siphon bien appliqués éliminèrent de la compétition quelques personnes au crâne fragile. Grâce à quoi, Gabriel put se relever, déchirant pour ainsi dire le rideau formé par ses adversaires, du même coup révélant la présence abîmée de Gridoux et de Turandot allongés contre le sol. Quelques jets aquagazeux dirigés sur leur tronche par l’élé­ment féminin et brancardier les remirent en situa­tion. Dès lors, l’issue du combat n’était plus dou­teuse.

Tandis que les clients tièdes ou indifférents s’éclipsaient en douce, les acharnés et les loufiats, à bout de souffle, se dégonflaient sous le poing sévère de Gabriel, la manchette sidérante de Gridoux, le pied virulent de Turandot. Lorsque ratatinés, Zazie et Mouaque les effaçaient de la surface d’Aux Nyctalopes et les traînaient jusque sur le trottoir, où des amateurs bénévoles, par simple bonté d’âme, les disposaient en tas. Seul ne prenait pas part à l’héca­tombe Laverdure, dès le début de la bigorne dou­loureusement atteint au périnée par un fragment de soupière. Gisant au fond de sa cage, il murmurait en gémissant: charmante soirée, charmante soirée; traumatisé, il avait changé de disque.

Même sans son concours, la victoire fut bientôt totale.

Le dernier antagoniste éliminé, Gabriel se frotta les mains avec satisfaction et dit:

  • Maintenant, je me taperais bien un café-crème.
  • Bonne idée, dit Turandot qui passa derrière le zinc tandis que les quatre autres s’y accoudaient.
  • Et Laverdure?

Turandot partit à la recherche de l’animal qu’il trouva toujours maugréant. Il le sortit de sa cage et se mit à le caresser en l’appelant sa petite poule verte. Laverdure rasséréné lui répondit:

— Tu causes, tu causes, c’est tout ce que tu sais faire.

  • Ça, c’est vrai, dit Gabriel. Et ce crème?

Rassuré, Turandot réencagea le perroquet et s’approcha des machines. Il essaya de les faire marcher, mais, ne pratiquant pas ce modèle, il commença par s’ébouillanter une main.

  • Ouïouïouïe, dit-il en toute simplicité.
  • Sacré maladroit, dit Gridoux.
  • Pauvre minet, dit la veuve Mouaque.
  • Merde, dit Turandot.
  • Le crème, pour moi, dit Gabriel: bien blanc.
  • Et pour moi, dit Zazie: avec de la peau dessus.
  • Aaaaaaahh, répondit Turandot qui venait de s’envoyer un jet de vapeur en pleine poire.
  • On ferait mieux de demander ça à quelqu’un de l’établissement, dit Gabriel placidement.
  • C’est ça, dit Gridoux, je vais en chercher un.

Il alla choisir dans le tas le moins amoché. Qu’il remorqua.

  • T’étais bath, tu sais, dit Zazie à Gabriel. Des hormosessuels comme toi, doit pas y en avoir des
  • Et comment mademoiselle désire-t-elle son crème? demanda le loufîat ramené à la raison.
  • Avec de la pelure, dit Zazie.
  • Pourquoi que tu persistes à me qualifier d’hormosessuel? demanda Gabriel avec calme. Mainte­nant que tu m’as vu au Mont-de-piété, tu dois être fixée.
  • Hormosessuel ou pas, dit Zazie, en tout cas t’as été vraiment suprême.
  • Qu’est-ce que tu veux, dit Gabriel, j’aimais pas leurs manières (geste).
  • Oh meussieu, dit le loufiat désigné, on le regrette bien, allez.
  • C’est qu’ils m’avaient insulté, dit Gabriel.
  • Là, meussieu, dit le loufiat, vous faites erreur.
  • Que si, dit Gabriel.
  • T’en fais pas, lui dit Gridoux, on est toujours insulté par quelqu’un.
  • Ça c’est pensé, dit Turandot.
  • Et maintenant, demanda Gridoux à Gabriel, qu’est-ce que tu comptes faire?
  • Bin, boire ce crème.
  • Et ensuite?
  • Repasser par la maison et reconduire la petite à la gare.
  • T’as vu dehors?
  • Eh bien, va voir.

Gabriel y alla.

  • Évidemment, dit-il en revenant.

Deux divisions blindées de veilleurs de nuit et un escadron de spahis jurassiens venaient en effet de prendre position autour de la place Pigalle.

XVIII

— Faudrait peut-être que je téléphone à Marce­line, dit Gabriel.

Les autres continuèrent à boire leur crème en silence.

  • Ça va chier, dit le loufiat à mi-voix.
  • On vous a pas sonné, répliqua la veuve
  • Je vais te rapporter où je t’ai pris, dit Gri­
  • Ça va ça va, dit le loufiat, y a plus moyen de plaisanter.

Gabriel revenait.

— C’est marant, qu’il dit. Ça répond pas. Il voulut boire son crème.

  • Merde, ajouta-t-il, c’est froid.

Il le reposa sur le zinc, écœuré.

Gridoux alla regarder.

  • Ils s’approchent, qu’il annonça.

Abandonnant le zinc, les autres se groupèrent autour de lui, sauf le loufiat qui se camoufla sous la caisse.

  • Ils ont pas l’air content, remarqua Gabriel.
  • C’est rien chouette, murmura Zazie.
  • J’espère que Laverdure aura pas d’ennuis, dit Il a rien fait, lui.
  • Et moi alors, dit la veuve Mouaque. Qu’est-ce que j’ai fait, moi?
  • Vous irez rejoindre votre Trouscaillon, dit Gridoux en haussant les épaules.
  • Mais c’est lui! s’écria-t-elle.

Enjambant le tas des déconfits qui formaient une sorte de barricade devant l’entrée d’Aux Nyctalopes, la veuve Mouaque manifesta l’intention de se précipiter vers les assaillants qui s’avançaient avec lenteur et précision. Une bonne poignée de balles de mitraillette coupa court à cette tentative. La veuve Mouaque, tenant ses tripes dans ses mains, s’effondra.

— C’est bête, murmura-t-elle. Moi qu’avais des rentes.

Et elle meurt.

— Ça se gâte, fit remarquer Turandot. Pourvu que Laverdure attrape pas un mauvais coup.

Zazie s’était évanouie.

  • Ils devraient faire attention, dit Gabriel Y a des enfants.
  • Tu vas pouvoir leur faire tes observations, dit Gridoux. Les vlà.

Ces messieux, fortement armés, se trouvaient maintenant tout simplement de l’autre côté des vitres, défense d’autant plus faible qu’elles avaient en majeure partie valsé durant la précédente bagarre. Ces messieux, fortement armés, s’arrê­tèrent en ligne, au milieu du trottoir. Un person­nage, le pébroque accroché à son bras, se détacha de leur groupe et, enjambant le cadavre de la veuve Mouaque, pénétra dans la brasserie.

— Tiens, firent en chœur Gabriel, Turandot, Gri­doux et Laverdure.

Zazie était toujours évanouie.

  • Oui, dit l’homme au pébroque (neuf), c’est moi, Aroun Arachide. Je suis je, celui que vous avez connu et parfois mal reconnu. Prince de ce monde et de plusieurs territoires connexes, il me plaît de parcourir mon domaine sous des aspects variés en prenant les apparences de l’incertitude et de l’erreur qui, d’ailleurs, me sont propres. Poli­cier primaire et défalqué, voyou noctinaute, indécis pourchasseur de veuves et d’orphelines, ces fuyantes images me permettent d’endosser sans crainte les risques mineurs du ridicule, de la calembredaine et de l’effusion sentimentale (geste noble en direc­tion de feu la veuve Mouaque). A peine porté disparu par vos consciences légères, je réapparais en triomphateur, et même sans aucune modestie. Voyez! (Nouveau geste non moins noble, mais englobant cette fois-ci l’ensemble de la situation.)
  • Tu causes, tu causes, dit Laverdure, c’est…
  • En voilà un qui me paraît bon pour la casse­role, dit Trouscaillon pardon: Aroun Arachide.
  • Jamais! s’écrie Turandot en serrant la cage sur son cceur. Plutôt périr!

Sur ces mots, il commence à s’enfoncer dans le sol ainsi d’ailleurs que Gabriel, Zazie et Gridoux. Le monte-charge descend le tout dans la cave d’Aux Nyctalopes. Le manipulateur du monte-charge, plongé dans l’obscurité, leur dit doucement, mais avec fermeté, de le suivre et de se grouiller. Il agitait une lampe électrique, signe à la fois de ralliement et des vertus de la pile qui l’entretenait. Tandis qu’au rez-de-chaussée, les messieux fortement armés, sous le coup de l’émotion, se laissaient partir des rafales de mitraillette entre les jambes, le petit groupe suivant l’injonction et la lumière susdites se dépla­çait avec une notable rapidité entre les casiers bour­rés de bouteilles de muscadine et de grenadet. Gabriel portait Zazie toujours évanouie, Turandot Laverdure toujours maussade et Gridoux ne por­tait rien.

Ils descendirent un escalier, puis ils franchirent le seuil d’une petite porte et ils se trouvèrent dans un égout. Un peu plus loin, ils franchirent le seuil d’une autre petite porte et ils se trouvèrent dans un couloir aux briques vernissées, encore obscur et désert.

  • Maintenant, dit doucement le lampadophore, si on veut pas se faire repérer, il faut partir chacun de son côté. Toi, ajouta-t-il à l’intention de Turandot, t’auras du mal avec ton zoizo.
  • Je vais le peindre en noir, dit Turandot d’un air sombre.
  • Tout ça, dit Gabriel, c’est pas marant.
  • Sacré Gabriel, dit Gridoux, toujours le mot pour rire.
  • Moi, dit le lampadophore, je ramène la petite. Toi aussi, Gabriel, t’es un peu visible. Et puis j’ai pris sa valoche avec moi. Mais j’ai dû oublier des J’ai fait vite.
  • Raconte-moi ça.
  • C’est pas le moment.

Les lampes s’allumèrent.

  • Ça y est, dit doucement l’autre. Le métro Toi, Gridoux, prends la direction Étoile et toi, Turandot, la direction Bastille.
  • Et on se démerde comme on peut? dit Turan­
  • Sans cirage sous la main, dit Gabriel, va falloir que tu fasses preuve d’imagination.
  • Et si je me mettais dans la cage, dit Turandot, et que ce soit Laverdure qui me porte?
  • C’est une idée.
  • Moi, dit Gridoux, je rentre chez moi. La cor­donnerie est, heureusement, une des bases de la société. Et qu’est-ce qui distingue un cordonnier d’un autre cordonnier?
  • C’est évident.
  • Alors au revoir, les gars! dit Gridoux.

Et il s’éloigna dans la direction Étoile.

  • Alors au revoir, les gars! dit Laverdure.
  • Tu causes, tu causes, dit Turandot, c’est tout ce que tu sais faire.

Et ils s’envolèrent dans la direction Bastille.

 

XIX

Jeanne Lalochère s’éveilla brusquement. Elle consulta sa montre-bracelet posée sur la table de nuit; il était six heures passées.

— Faut pas que je traîne.

Elle s’attarda cependant quelques instants pour examiner son jules qui, nu, ronflait. Elle le regarda en gros, puis en détail, considérant notamment avec lassitude et placidité l’objet qui l’avait tant occupée pendant un jour et deux nuits et qui main­tenant ressemblait plus à un poupard après sa tétée qu’à un vert grenadier.

— Et il est d’un bête avec ça.

Elle se vêtit en vitesse, jeta divers objets dans son fourré-tout, se rafistola le visage.

— Faudrait pas que je soye en retard. Si je veux récupérer la fille. Comme je connais Gabriel. Ils seront sûrement à l’heure. À moins qu’il lui soit arrivé quelque chose.

Elle serra son rouge à lèvres sur son cœur.

—Pourvu qu’il lui soit rien arrivé.

Maintenant, elle était fin prête. Elle regarda son jules encore une fois.

—S’il revient me trouver. S’il insiste. Je dirai peut-être pas non. Mais c’est plus moi qui courrai après.

Elle ferma doucement la porte derrière elle. L’hô­telier lui appela un taxi et à là demie elle était à la gare. Elle marqua deux coins et redescendit sur le quai. Peu après, Zazie s’amenait accompagnée par un type qui lui portait sa valoche.

—Tiens, dit Jeanne Lalochère. Marcel.

—Comme vous voyez.

—Mais elle dort debout!

—On a fait la foire. Faut l’escuser. Et moi aussi, faut m’escuser si je me tire.

—Je comprends. Mais Gabriel?

—C’est pas brillant. On s’éclipse. A rvoir, petite.

—Au revoir, meussieu, dit Zazie très absente.

Jeanne Lalochère la fit monter dans le compar­timent.

—Alors tu t’es bien amusée?

—Comme ça.

—T’as vu le métro?

—Non.

—Alors, qu’est-ce que t’as fait?

—J’ai vieilli.

TRADUÇÕES ISOLADAS II: ROUSSEAU, Do amor próprio

“O amor de si (amour de soi), que se importa apenas conosco mesmos, está satisfeito quando nossas necessidades básicas estão atendidas; mas o amor-próprio (amour-propre), que faz comparações, nunca está satisfeito, e nunca o poderia, porque esse sentimento, ao preferir a nós próprios que a outros, também requer que outros prefiram a nós que a eles mesmos – uma coisa simplesmente impossível. (…) É assim que o que faz do homem essencialmente bom é ter poucas necessidades e comparar-se pouco com os outros; e o que faz do homem essencialmente mal é ter muitas necessidades e dar grande importância às opiniões.”