[ARQUIVO] CONDENSADO

A vida é uma noite de gala

A criança é o bêbado, dos primeiros goles à euforia total

O adulto é apenas a ressaca, retumbante, semi-eterna

(Talvez o adolesça seja esse moleque briguento, esse todos nós que viram machão, estufam o peito e se metem a socar e bicar mil canelas, mas só fazem trombar e tombar e provocar risadas, quem sabe medo, se não for tão patético!)

E o velho, rá, eu havia dito

que a vida era uma noite

mas como já transgredi

e incluí a ressaca

que tal a UTI

com seus monitores e tubos

lamentos, flores e parentes

nenhum último gole, nenhum último tônus muscular,

só aquele resmungo do velho gagá

ele é o fígado, o rim, o pâncreas, pretos, ele é a morte

E o menininho nem se pergunta – pai, devo sair de casa? Ele sai.

[ARQUIVO] Morrer não é motivo suficiente para parar de sonhar.

17/12/10

Prova disso é que hoje levei um tiro na cabeça de um torcedor de futebol psicopata, senti a “dor” do momento e soube sem adiamentos que aquele seria o fim… e no entanto não foi, veio à baila o que se sucedeu no local após minha suposta morte, como se atiraram para cima do agressor. E de repente me transportavam para uma urna, muito pequena para o comprimento das minhas pernas. Os responsáveis por me trasladarem, um tanto desajeitadamente, é verdade, eram meus familiares… Porém “eu me descobria” vivíssimo da silva, até piscando os olhos (pois tinha morrido de olhos abertos), consciente de que aquilo era uma grande encenação, mas não de nós para nós mesmos ou deles em relação a mim, mas queríamos enganar uma terceira entidade misteriosa. O caixão se transformou em uma caçamba de caminhonete e eu passava a cumprimentar as pessoas que apareciam e se postavam a meu lado – meu irmão dirigia ao longo da W3, quase no centro da cidade, o lugar onde a vida se agita. Repare bem: o caminho é sempre retilíneo. Rumo a algum fim obscuro… Moral: se tudo é lógico mas algo no sonho trai seu senso de realidade, isso é fatal para a continuidade da experiência. Não obstante, na hipótese de todo o montante absurdo permanecer bem-concatenado, e a consciência vigilante não perceber que o que se dá é FANTÁSTICO, a narrativa prossegue. Ora, a morte é perfeitamente factível, e não é motivo forte o bastante para se sentir ludibriado atingi-la, afinal é mesmo natural, o real supremo do ser humano. Perceber por qualquer razão alheia a condição de sono e ficção, por outro lado, aceleram o abaixar das cortinas. Por isso, o personagem principal do meu sonho não precisa ser eu, tudo pode ser uma trama póstuma – ou pior: eu ainda nem ter nascido.

[ARQUIVO] MATRIX, ATIVAR

Aula de Formação Econômica Brasileira, pós-almoço, aquela palestra maçante e aquele sono infernal, juntando criatura famélica com vontade absurda de sentar para um banquete… Estou resistindo bravamente sobre a carteira… Até que penso que capoto profundamente… Babo, inclusive! Presencio a maldita elucidação de uma conspiração, personagens que parecem saídos de uma produção sci-fi de baixo orçamento me convencendo de que ali é o reino do verdadeiro, e não lá fora, aquele mundinho que eu conheço e venero, porém que não passa do mais forte dos ópios! Todos os seres humanos seriam mantidos prisioneiros e precisavam incondicionalmente da minha ajuda, eu não podia SONHAR em voltar…

“…e o Brasil permanecia no ciclo da cana-de-açúcar com poucos auferindo grandes lucros…”

Haviam se passado somente 2 minutos!

[ARQUIVO] ARRANHA-CÉU XXI

Ando sonhando (hoje mais uma vez, 13/11/11) que escalo (por dentro), em vários lances de escada, cômodos, passagens secretas, elevadores bizarros… Um lugar bastante labiríntico e alto, até uma sala de uma instituição (provavelmente de ensino) para falar com alguém importante (diretor, coordenador) que possa resolver minha situação (há algo pendente que não sei explicar direito). Certas vezes não encontro ninguém, é um espaço vazio, um escritório normal com seus papéis, computadores, mesas e cadeiras, só que abandonado. Outras vezes, há uma enorme fila de pessoas e penso que não serei atendido…

[ARQUIVO] A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER – Milan Kundera

Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2011 (digressões abreviadas)

Se a revolução Francesa devesse repetir-se eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre.”

Não se dava conta de que aquilo que julgava irreal (seu trabalho no isolamento das bibliotecas) era sua vida real, enquanto as passeatas que ele julgava reais eram apenas um espetáculo de teatro, uma dança, uma festa, em outras palavras: um sonho.”

As pessoas nunca perdem a ocasião de falar mal dos amigos.”

[kitsch] Esta é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O uso repetido da palavra fez com que se apagasse seu sentido metafísico original: em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.”

É preciso evidentemente que os sentimentos suscitados pelo kitsch possam ser compartilhados pelo maior número possível de pessoas (…) a lembrança do primeiro amor [por exemplo].” “como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado! Somente isso faz com que o kitsch seja o kitsch.” “Paz, amor e a fraternidade entre todos os homens não poderá nunca ter outra base senão o kitsch.” “O kitsch é o ideal estético de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos.”

O gulag pode ser considerado como uma fossa sanitária em que o kitsch totalitário joga seus detritos.”

DOS QUATRO TIPOS DE OLHARES-SOBRE-SI (TRÊS NÃO IMPORTAM MUITO): “Por fim, existe a 4ª categoria, a mais rara, a daqueles que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. São os sonhadores. P.ex., Franz. Se chegou até a fronteira do Camboja, foi unicamente por causa de Sabina. O ônibus sacoleja na estrada da Tailândia e ele sente que Sabina tem os olhos pousados nele.”

Odeia-se mais aqueles de cuja opinião já nos livramos com muito custo”

Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”

O amor que se tem por um cachorro escandaliza.”

O homem dominou a natureza – isto é, enrolou cordões de marionete no próprio pescoço.”

Karenin cometeu o erro de sempre: largou seu pedaço de croissant para tentar pegar o pedaço que seu dono segurava na boca. Como sempre, esquecera que Tomas não era cachorro e que tinha mãos. Tomas não largou o pedaço que tinha na boca, e apanhou o pedaço que caíra no chão.”

A nostalgia do Paraíso é o desejo do homem de não ser homem.”

O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução.”

Por isso o homem não pode ser feliz, pois a felicidade é o desejo da repetição.”

Como determinar o instante em que não vale mais a pena viver.”

Missão é uma palavra idiota.”

[ARQUIVO] POEMA DO EX-LOUCO

Originalmente publicado em 7 de outubro de 2010

 

Eu já fui mais louco…

No passado eu era mais alegre, e descompromissado

Eu não precisava desabafar sobre o que acontecia. Eu gargalhava do meu dia!

Fato é que, se já fui mais pinel e insano,

meu temperamento no mundo da escrita ‘inda não mudou tanto!

Já tive amigos mais loucos

Já tive amigos, ainda que poucos

Já falei mais sozinho

Já briguei com o meu vizinho

(de dar soco na cara e unhada, aos sete!)

Já fui ladrão sem motivo

Já fui incontinente urinário,

Já fiz cocô nas calças

Minha vida não passava de um corrimão sem alças!

Sim, uma vez eu gozei invisível!

Risada de vilão! Postura de Tropeço! Porre noventa. Corre dos 90. Dois mil milhões de confusões depois… Maconha sonha com seu estrelato mais que mato. Não comia feijão. Era bêbado sem cair no chão. Decrepitude é: ter saudade de tal idade. Tinha medo de garota que prometia tirar a roupa. Daria aula como o Carlos! Está ágil! Ágio nas operações… Sempre tive um elevado senso de ironia. Mas minha metralhadora machucou muitos que eu não queria!

Estourar bolhas daquele plástico! Sonhar com videogame. Chegou ao consciente o meu geme-geme… solene?! Previsão de morte de alguém toca o sino de…

Loucura é uma filha que parimos tal qual Zeus a sua Athena.

[ARQUIVO] PEQUENA HISTÓRIA IDÍLICA (a amante perfeita de alguém supostamente casto na essência)

Originalmente publicado em 6 de outubro de 2010

Nunca haviam se beijado. Não era necessário. Contavam muito mais confidências e abraços apertados. Foi simétrico e instantâneo, se bem que demorado: ambos já tinham essa opinião sobre a vida e o romance, então foi, digamos, moleza para o casal se entender sobre esse ponto, que escora todos os outros pontos. Boca, zona erógena midiática. Como se livrar? o que apalpar no lugar? Pureza verdadeira não há, mas sujeira pode-se administrar. A escatologia fica para os momentos sozinho, os banheiros, os sonos e as recaídas. Os namorados, eles apenas sugam as seivas um do outro. Quanto maior o número de relacionamentos, maior a secura, mais elevada a quantidade de almas estragadas. Pela boca chupa-se o sopro do ânimo

[ARQUIVO] O DON JUAN DOS DEUSES

Originalmente publicado em 22 de setembro de 2010

Sim, estou começando a desenvolver uma nova resposta: a vida não poderia ser justificável nela mesma (à parte esse debate lógica x estética). Precisamos de algo a mais, algo que encampe, um antes, um depois e um além, para suplantar o vazio. Mas não esse além (de)fraudado milenarmente. Não uma simples doutrina espírita, ou uma crença depositada em um livro dogmático. Antes uma nova idéia que a velha bobeira do pó das estrelas e da alma animal, nas raias do possível-impossível e até do sombrio. Nada muito comuni(tari)sta como quereriam esses jovens fúteis de que vim a me afastar, nenhum projeto Sartre-habermasiano, poder massacrante do clã, da nação, do Ocidente, da civilização! Embora tudo isso esteja contemplado e diluído, sim, nessas “novas considerações”…

O solo – firme mas nem tanto – em que meu fôlego pede para se agarrar no momento é num ecletismo virulento e transitório, no grande amálgama de todas as idéias antevistas, mas de jeito maneira ao ponto da esterilidade ou da ingenuidade, ou da gratuidade. Simplesmente “estamos lá”, de alguma forma, no outro lado da linha, participando dos resultados… Antes qualquer crente tinha motivos de sobra para a ação, e você não. Uma força qualquer que o guiava; não indestrutível, mas se vai se destruir não é você que determina, parece vir de um movimento muito mais ligado às próprias assunções da pessoa que acredita. “Fé”, eis uma palavra muito da chamuscada! “Política”, idem ibidem. Ateísmo, revolta, anarquia, juventude, contudo, não estão atrás! Imbecis estacionários, não pensaram no problema que criaram…

Firmemente me vem à mente um novo enunciado: embora não esteja findado o “sempre mudar e se deslocar”, introduzo estas duas outras palavrinhas na salada: confiar e arriscar. Vou tentar… Nem tudo se resolve aqui e agora. E o existencialismo é uma corrente insuficiente. Não sou dos que se contentam com pouco, uma bela esposa, dois lindos filhos e aquela casa na praia… Apenas não estou desesperado, por não estar, por não ser, conformado. Para resumir: já que vamos morrer, antes, fazer o que temos de fazer. E o que temos de fazer? …

[ARQUIVO] O FEITIÇO VIROU CONTRA A FEITICEIRA

Originalmente publicado em 4 de dezembro de 2010

Noite, noite, noite…

Você me tranqüiliza…

Por que é que não me engole?

de uma vez…

Os dias demoram a passar

Para teu azar

não foram só eles que senti que, afinal,

iriam expirar

(em sua lenta agonia)…

Porque a lança com que me atravessaste,

não sabes,

mas tua imperícia já fez com que a ferida

cicatrizasse…

Acaba de passar,

meu sentimento de te amar

O que chamas de desperdiçar,

se pelo ar oxidam-se as chamas

nada devagar?

Pensar que em vão?

Mas cinzas deixam na lareira,

para recomeçar a fogueira

Assustada e atroz,

a nova, como a primeira?

Me doaria feito uma fênix

à cegueira;

mas já não posso mentir,

a menos que tu queiras

Freiras matreiras guerreiras,

erguei-as!

Não são as de pano preto e bíblia na mão,

essas devotas.

Derrotas dessas são,

na insídia e na falta de enlevo,

enganos do coração santo e são

Adianto que me espanto

diante do tanto que pequei

devido a teu infiel encanto

Antro de perdição,

ou de perdizes,

que me dizes?

Meretrizes pelos cantos,

saindo das filiais e matrizes?

Patifes, vós sois os culpados!

Entrais no salão todos armados,

de um bom bocado de querer-ser-macho

e afastam o lastro dourado

da flor, antiga e específica

simbologia dessa dor,

outrora digna de louvor

[ARQUIVO] NOVOS FILÓSOFOS

Publicado originalmente em 9 de julho de 2010.

O produto de um louco. Terrivelmente louco, para o pêsame de seus desafetos

A Alemanha tem um destino: chega sempre tarde! Olhar grave, mutismo. Meu sonho transformou-se exatamente numa realidade. Misticismo quase pascaliano. Até neste belo mundo há infelizes. Infinita é a procura da verdade. Não será sua crítica futura à Ciência a vingança inconsciente por haver aquela um dia lhe roubado a crença? O devenir eterno não terá um fim? Comumente a filosofia se me representa como uma Torre de Babel… Tem dezenove anos quando entra na universidade. Conhece a mais dolorosa das solidões, a solidão dos vencidos. Ele é poeta; tem necessidade de lirismo. Ambiciona o heroísmo. Não dorme mais de 4 horas por dia. As vagas do mar são mais ou menos alumiadas, mas não se tem poder sobre elas – eis aí tudo. Sua alma de artista cansa da vida de quartel. E quando voltarmos assumiremos mais uma vez nossas taras profissionais. Aos vinte e quatro anos é convidado para professor. Estamos outra vez no crepúsculo da paz. Estamos talvez no começo do fim! Desaparece totalmente sua repugnância às multidões. Uma impossibilidade de viver de acordo com o Estado. A vida científica, filosófica, artística, pareceu-me um absurdo. O valor metafísico da arte não pode se manifestar aos homens pobres. Mas isso é um erro de todos. Jura absoluta fidelidade a si mesmo. Vontade de morrer! Não compreendem Sísifo… Povoar o mundo das cores que faltavam. Nobre missão. O duque é um dique. Todo trágico é auto-reflexivo. Um vão sem fim separa o estático do extático. Se Epicuro lembra Ásia, não é dionisíaco (paradoxal) que Ásia lembre Buda? Ora, se sonhos não são Música! O cósmico que está atrás da consciência. É em todas as ‘vivências’ que o homem irá encontrar quão digno é viver a vida, porque só o vivido tem suportado o tempo. Viver é desconhecer. O pensamento volve-se contra o pensador… A memória luta contra o tempo. Pensador inatual. Lua-de-mel-e-fel. Silêncio. Freud: comi minha mãe, capítulo final do Ocidente? Culminância-centro-enceto. Periferia. Sendas independentes. Aparência romântica. Beatriz-de-mão-gelada, essa irmã gêmea do não-ser. Ah, Funérea! A felicidade de quem encontra um novo caminho. Lá onde habitam as águias… Infante, infante, infante! A beatitude pela fé. Na terra, devemos fundar o reino dos céus. Raul Seixas, um homem à frente, e às costas, de seu tempo. Mas não foi ele que disse “coração dilacerado” numa canção. Demiurgo-artista. Suprema voluptuosidade estética. Federico Fellini. Roberto Benigni. O Oscar! Não alfabetize esses bastardos inglórios! Ultra – eu sou um superlativo. 2005: um poeta à beira do riacho meditava acerca da queda das folhas. A não é sempre A. B não é sempre B. Eleição por meio de diferentes afetos. Conhecer é tumulto. Cristalização do espírito. Inércia. Fantasia: a cura. De não-Schopenhauers. Crime imperdoável. A consciência de uma lei pela qual os resultados são sempre inferiores aos esforços desprendidos. Átomo? Prefiro Demócrito. Pletora neurastênica. Jogo de tons musicais. Ânsia de simplificação. Mas isto não é, em princípio, acomodação! Do oriente vem a noite. Contraste isto com o teu. O próprio número é uma invenção. Gato-zumbi. Cada dia, um dia novo. Teratologia. Catarse, aquela moedeira falsa. O homem afasta-se de si mesmo quando afasta-se do inconsciente. Auto-medicação. Batalha noturna. A humanidade ainda não existe como totalidade ôntico-ecumênica. Só depois da morte! Deus? Culto do devir. Até o maior dos deuses estacionários é nanico perto do pior homem em evolução. Céu – a janela voyeurista. Treino. Escolher nascer depois de vivo. A decadência é sempre a morte. De onde tiram as aspas de Jesus, este ignoto? Até a erosão move montanhas… O herói solar conhece, em cada madrugada, a sua ressurreição. Necessidade eugênica de vida. Nihilismus in twitter. O homem deve conhecer a maldade que se obstina, daquele que quer, daquele que tem de vencer. Segunda pele. As grandes guerras ideológicas iminentes. Amanhã talvez pensemos diferente… Não tememos discrepar de nós mesmos… Os velhos temas voltarão mais uma vez. O riso. Mordacidade causticante. Chicote. Sim-turão! A hora do afastamento. É isso? Metáfora do Dom Quixote. Melhor o Quasimodo que o clone do Príncipe. Que desfaçatez! Rir dos palhaços em um momento anterior da exegese nietzscheana e de suas banais existências. Porque eu… Não estou aqui para ser um megafone. Tear, tear, tear… Não a bucólica. Mais a incendiária. Gente inteligente faz bem pra alma. Gente vaidosa, gente serelepe. Não gente tartamuda, aqueles eletrocardiogramas ambulantes… Fim dos casais, mas não fim dos dualismos ocidentais. Originalidade. Todos nós temos antípodas. Eu sou o coerente comigo mesmo, não lhes devo satisfações. Ele viveu a vida toda dele assim… Como pode ser o rei de tudo se de palpável não há nada? Macaco de Zaratustra, cênico, você reitera tudo e é a apologia do pleonasmo, vive para dizer que as pessoas devem viver, seu papagaio! Dizer isso é deixar quem tem valor escamoteado. E vide, escamotear o universo inteiro! Sou outrossim da macacatinga e exijo polissemia. Palavras de ponta dupla como meus cabelos. O que nos trai, nós de nossa espécie, é tão-somente nossa própria esperteza, a cama de gato da própria sombra. Infra-destroços caricaturais. Tu és música para meus ouvidos. A Alemanha dá vida aos cadáveres (Funérea!). Dizem que sou louco… Sou Napoleão… Não sou feliz… Mein Kampf!!! Abovina acima de tudo. Na guerra não existe verdade. Eu me rumino, e assim me alimento ao me devorar. Questão em aberto. Antegozar quixotescamente. A embriaguez de um instante. Se tornou escravo de sua própria projeção. Que ressaca está disposto a pagar pelos seus cumes? Ebriez tacanha. Não há fé bastante para crer num jogo de possibilidades. Tecno. O atalho inválido do rio seco. Tático ou serpenteando a esmo, só sei que venturoso. Nada mais temporal que uns contratempos. Nada mais afirmativo que as negatividades. O espelho quebrado no Narciso jornalista. Encruzilhada de tudo com todos. Feio e falador. Real e prestigiador. Pré-pronto: esse texto está acabado. O sangue individual. Gelosia da realidade, He-he. Banquete espiralar da vida. A guiar. Tens papéis abomináveis. Fora-da-máquina, mas que emana de si, de si… Poder embutido secreto. O Fim da História é o ópio dos povos. LuaNão, sol eu sim. O penetra na conversa. Jesus remanescente. Postergando… Pré-cisamos, pré-cindimos, pré-ponderamos. Prenhe de algo. Pelo sim, pelo não… Futurosofia. O bebê que nasceu rindo. O medo de altura pode até matar. Craques não envelhecem. Habitamos mundos diferentes. A amizade perfeita não é possível entre alienígenas. Um dom inestimável. Doente de seu próprio convívio. Com quem desabafar? Refluxo do baú de memórias. Listas, borrachas. Anela. Sim, meu amigo! Monotonia que não cansa. A solidão é sempre maior nas horas crepusculares. Caminhar primeiro, escrever depois. Chumbo do peito demovido. Alegria da estafa. Reedição. Ensofismado depois de golpeado. Como pode ser? Transformava suas amarguras em poemas. Deu branco. O milagre da retribuição. Fonte, cachoeira. Nasceu para jorrar sem parar. Esclarecido, o vingativo! Ver se efetivando o que eu realizei. Ver que se realizou o que eu efetivo… Eu mesmo em terceira pessoa sou o astro atrasado do filme meu. É o instante do desejo veemente! O primeiro niilista perfeito da Europa.

[ARQUIVO] O MESMO ERRO AD INFINITUM

Publicado originalmente em 6 de julho de 2010.

Se o novo técnico da seleção brasileira for o Leonardo, abdico de torcer pelo futebol do meu país até Ricardo Teixeira bater as botas. É inaceitável o projeto que esse mesmo homem expôs num programa em estúdio na Soccer City, África do Sul (alguém aí sabe por que chamamos “soccer” um esporte inventado pelos ingleses como football, e que só os norte-americanos, em teoria, teriam motivos para não chamar assim?). R.T., presidente da Confederação Brasileira de Sóquer, em uma bancada dividida com Renato Maurício Prado, Paulo César Vasconcelos e Arnaldo César Coelho, e orquestrada por Galvão Bueno, disse que o time de 2014 começa a ser montado já no amistoso com os EUA no fim do ano, o primeiro depois da Copa. Segundo o chefão, alçado ao posto por ser apadrinhado (na verdade genro!) de João Havelange, precisamos de jogadores novos, de 18 a 22 anos, para que cheguem experientes ao Mundial do Brasil, e em idade para disputar o torneio com fôlego de sobra! Ótimo…

Prevalece o velho argumento. O mesmo erro de sempre: fecha-se o time antes, e ele, entrópico, naufraga. As últimas Copas vencidas pelo Brasil receberam reforços de última hora: Romário (Parreira), Ronaldo, Rivaldo, Kléberson, Kaká… (Felipão) Os últimos retumbantes fracassos eram times que já estavam prontos, só faltava o “gesto de Bellini”: Parreira (quadrado mágico), Dunga (o papa-Eliminatórias e Copa das Confederações). Leonardo, o Cão Fiel, o terceiro cão fiel consecutivo, recomeçará a tragicomédia… Neymar, Ganso… Ciclos de 4 anos são longos, longos… Sobretudo quando a seleção vira um clube privê… Sobretudo quando TODAS as recentes contratações da CBF para o cargo de técnico são preenchidas por CHATÕES de 1994.

Leonardo foi outro jogador raçudo e brigador. Bonitinho mas ordinário: expulso nas oitavas-de-final da Copa, jogo Brasil x EUA no território ianque, na absurda tarde calorenta de 4 de julho. Guardadas as devidas proporções, o Felipe Melo daquele escrete canarinho. Tinha tudo para resultar em eliminação. O Brasil empatava por 0 a 0. Conseguiu passar com um milagre de Bebeto. Dunga e Jorginho estavam em campo. Ricardo Teixeira já era o presidente da CBF. Sabe-se lá de onde esses caras aprenderam a cultivar uma fixação incurável pela conquista do Tetra. Começo a desconfiar de várias coisas, embarcar nas maiores neuras soviéticas: e se o Romário virou técnico com o Eurico Miranda (no Vasco em 2008) como parte do doutrinamento para a seleção? Não está na cara que um daqueles pertencentes ao clube dos vencedores vai ser o próximo? Tem algo realmente podre nisso tudo. A punheta quadrienal – a ejaculação é precoce. No sexo em si, o pau não sobe, o time fica aviadado, enfia as travas da chuteira na perna do oponente caído, o cotovelo no focinho do gringo desprevenido, a bola pra dentro (epa, Júlio César! pro lado errado…) e a meia (do Roberto Carlos) no CU…

Estou começando a achar que a presença do Baixinho Infernal naquele Mundial 24 anos depois do ponto máximo na carreira de Pelé, a falta super-bem-cobrada pelo Branco no finzinho do jogo e até aquele pênalti do Baggio pra fora… era melhor que nada disso tivesse acontecido! Vencer é um detalhe, no que não sou inédito ao afirmar. Não existe esse instinto de vencedor ou perdedor nas veias. Ronaldo foi os dois, Cafu foi um e foi outro, perebas sortudos já ganharam, Zico só perdeu… E o que isso prova? Invertendo-se um famoso ditado, a sede afobada de vencer é o atalho mais certeiro do perder. Não é 100% garantido, não é um dogma, estamos falando de futebol (ainda magia)! Mas quem quer produzir axiomas é a cartolagem. Eu pude prever, graças a isso, a nossa derrota de 2010 com 40 dias de antecedência. E agora com 4 anos… É, o Ricardo Teixeira facilita as coisas…

[ARQUIVO] O VERDADEIRO PROBLEMA DUNGA-GLOBO

Publicado originalmente em 25 de junho de 2010.

 

Com as últimas atitudes, Dunga conquistou os corações de quem não gosta de futebol; o meu, não. Eu não estou ligando para a Globo. O Gato Mestre é uma cria da Globo, mas e daí? Eu estou ligando, sim, para entrevistas coletivas que me fazem ter vergonha de ser brasileiro, de ser atrelado, lá fora, a uma imagem totalmente disparatada. Isso inclui tanto Dunga quanto a referida Rede Globo.

Como se algo fosse mudar por causa do técnico da seleção brasileira, quando nem mesmo um momento como Cid Moreira sendo obrigado judicialmente a ler sobre as manipulações contra o Brizola em horário nobre, no Jornal Nacional, realmente desencadeou frutos (pelo contrário, vimos o domínio da Globo se expandir nas últimas duas décadas).

A história da Rede Globo é a mesma dos tentáculos do maior conglomerado de estúdios norte-americano sendo infiltrados no Brasil precisando de uma fachada tupiniquim, no conveniente período em que os competentes homens de quepe no comando entronizavam a técnica e deixavam “a realidade se fazer por si mesma”, ela e os cidadãos Kane, todos arvorados nas ditaduras militares de seus respectivos países. Fiz um trabalho detalhado sobre isso baseado em livro de Daniel Herz há 3 anos, para quem estiver interessado. Para quem não sabe do que estou falando, este é o contrato da Time-Warner, à época apenas Time-Life, absolutamente ilegal pelas leis ainda em vigor no Brasil quando legislavam Figueiredo e outros, sobre as quais os generais fizeram o santo favor de fazer vista grossa. É uma endemia que não cura com sapos veiculados em cadeia nacional para o povão – quem dirá através do twitter, que amanhã se interessará mais pela nova plástica da Vera Fischer e desviará o foco! A verdade é que ainda que o discurso simplista de ópio do povo prevalecesse, o povo precisa do ópio. Ou não precisa?

Em suma, ver a Globo chafurdando (e dando lugar a algo de QUALIDADE no espectro televisivo, o que AINDA não existe!) é tão utópico quanto imaginar um fim dos oligopólios mundiais das telecomunicações, o que exigiria um colapso irreversível do sistema. Seu nome não é Marx e suponho que você não pertença à intelligentsia dos últimos dois séculos que dedicou a vida a tratar desse problema. De qualquer forma, para que eu seja econômico em palavras, permita-me dizer que não há saída para este labirinto.

Portanto, recomendo-vos, neste início de madrugada de 25 de junho, quando será realizada a partida entre Brasil e Portugal logo mais às 11h, que acompanhem os acontecimentos mediante a transmissão da tão insultada e megalomaníaca Globo, porque a imagem e o som são melhores, e fazer o contrário redundaria em prejuízo apenas para o telespectador e torcedor canarinho. Quem tem TV a cabo dispõe de narradores e comentaristas mais preparados – ou, eu diria, menos fossilizados –, porém ainda tem de lidar com um dos maiores reveses dessa Copa, o delay dos gols, que nos são anunciados pela gritaria da vizinhança. Paciência, deixem os mais pobres estarem em vantagem pelo menos dessa vez!

É, meus amigos, redundaria, sim, em desvantagem exclusivamente para vocês e para quem se erguer contra o colosso. Alguma dúvida do quanto estou penalizado pelo Dunga, que será o novo Barbosa caso não conquiste a Copa? Vocês sabem o que acontece quando alguém aparece tentando puxar o tapete de alguns poderosos – vide a dinamitada popularidade do Obama, que por enquanto não depôs ditadores com armas de destruição em massa invisíveis em nenhum país, nem chupou a genitália de nenhuma secretária ou estagiária, mas que é odiado como nunca! O que me espanta sobretudo é que Dunga não precisou ser negro como Barbosa, goleiro do escrete de 50, ou o Barack destes EUA racistas, para cair na desgraça falimentar do SAG (Sistema de Acusações Globo) – não pela cor da pele, como antes, ou por qualquer outra característica como homossexualidade ou ser um ateu, coisas que ele não é, mas, caros amigos, ele cairá inevitavelmente na malha dos seus inimigos, se tornará o alvo perfeito… Dentro de pouquíssimo tempo!

Aliás, eu havia esquecido o argumento central contra toda essa palhaçada advinda de uma classe média incapaz de, agora, enxergar seu próprio umbigo, de tanto que se encontra o traseiro entalado no sofá, como se este móvel se tratasse de um buraco negro e seus corpos sedentários fossem uma mega-sonda ou um sistema solar inteiro: desligar a Globo e recorrer à TV a cabo, a estratégia dos endinheirados e privilegiados, me desculpe informar, é, ainda, se jogar nos braços acolhedores (no sentido de sempre, que é o da leniência dos profissionais liberais para com os que realmente controlam o país, desde os engenhos de cana subutilizados até essa era nojenta do telemarketing) da REDE BOBO, porque ela é dona das principais operadoras do sistema de cabo-difusão e também satélite-difusão e não-sei-mais-quê-difusão, e possui “n” canais 100% seus, além de meter o dedo, e uma lista considerável de programas, nos canais “teoricamente” independentes. Além disso, pare para pensar sobre a produção cultural escassa deste país e o quanto – bem ou mal – foi ela incrementada pelos recursos dos estúdios do Projac: quantos filmes não retratam o país e quantos deles você não assistiu e assistiria de novo? É possível desvinculá-los da própria imagem que fazemos de nós mesmos?

Sim, é preciso saber quem vocês estão atacando! Cuidado com Narciso e sua piscadinha… no espelho!

Minha opinião pessoal: para dizer a verdade, ninguém merece um hexacampeonato. E se eu fosse dono de emissora eu faria a mesma coisa, buscando entrevistas exclusivas, porque, afinal de contas, a CBF é uma entidade viciada, e eu me aproveitaria disso. A Fátima Bernardes enrolou o Rodrigo Paiva a vida inteira, por que pensaria que com o pouco eloqüente Dunga seria diferente? Pensem a respeito.

E reitero: ninguém que ama futebol merece ver esse espetáculo de meio-campo autômato 4 anos a fio. Que a Globo faça suas materiazinhas (que aliás sairiam melhores com Ronaldinho Gaúcho e a espontaneidade do Neymar), e em troca eu possa assistir o que eu quero assistir, sem ter de torcer para a Holanda em pleno 2014. Um bom jogo a todos os CIENTES de que amanhã… nada vai mudar.

Assinado:

Cordialmente [à moda de nossas elite sub-repticiamente conciliadoras e do eterno Acordão que nos contempla]

Gato Mestre, da África do Sul

[ARQUIVO] A ESPERA PELO SUPRA-HOMEM (10/07/08): RETRORREFLEXÃO

Publicado originalmente em 8 de maio de 2010.

Pela terceira vez venho falar do “supra-homem no devir”:

Não passa pela cabeça dos candidatos a Zaratustra que o supra-homem nunca chega; e este é seu sentido? Que é melhor, e só é possível, ser um anunciador, “esperar”, fazer a apologia do amanhã? Que a cena da fuga sublime da caverna é o ícone máximo do humano? Que humano? Todo e nenhum.

No que essa hipótese é invencível: sempre há fichas sobrando para apostar no amanhã. Um amanhã – uma aurora – terreno. Para todo sol soerguente e a pino, um crepúsculo. Jamais a falsa promessa de conceder todas as vantagens sem as revelias, contrastes e – sim! – castigos.

Ainda há muitas auroras pela frente”

E não importa que debaixo dos pórticos, muitas tarântulas da moral!

[ARQUIVO] AFORISMOS RUBROS

De setembro a novembro de 2009.

Às vezes remexemos teias de aranha e papeladas amarelentas, pastas e armários empoeirados, para encontrar uma coisa – no meio da busca os resultados já são tão admiráveis que nem lembramos se o objetivo original já foi contemplado…

Eu sou o cúmulo do ocioso. Eu, eu estou aqui para nada, esse é meu fado. Quando até para filosofar é preciso ter técnica…

O que você tem contra os beberrões, a Amy Winehouse, o atleta, o cientista? Se eles são chamas que queimam como querem!

Meu encanto por alguém como Schuldiner vem de eu ter 21 anos e me sentir em perigo. Minha não-fascinação por Niemeyer e pelo “em fim de carreira” se explica pelo cômodo vizinho ser escuso e eu não encontrar interruptor.

Em mel há moscas! Pior ainda se o açúcar não consegue transbordar…

Me sinto como EricAlex de Elefante: capaz de metralhar um refeitório inteiro só para comer descansado e ouvir os pássaros. Que tal limpar esta quadra? Ou as concessionárias.

[ARQUIVO] O SER E O NADA: Ensaio de Ontologia Fenomenológica, Jean-Paul Sartre

Originalmente publicado em 16 de abril de 2010. Lido entre 30 de abril e 23 de julho de 2009.

Ensaio de ontologia não-ontológica.

INTRODUÇÃO

se nos desvencilharmos do que Nietzsche chamava ‘a ilusão dos trás-mundos’ e não acreditarmos mais no ser-detrás-da-aparição, esta se tornará, ao contrário, plena positividade, e sua essência um ‘parecer’ que já não se opõe ao ser, mas ao contrário, é sua medida”

O fenômeno aqui trabalhado é o relativo-absoluto. Tudo o que é, o que passa, é autêntico, porém o é para o observador.

Série”, “cadeia” em oposição à rigidez e à fixidez de uma “sina” pessoal. A palavra “teimosia” e minha pessoa. Isso é “intuição de essência” em Husserl.

Quando se for mais velho e se puder contemplar a morte de perto, aí então eu saberei o que é a iminência do colapso do universo. Nada espetacular, eu responderia, 15 anos depois.

Não é possível que minha vida vá se resumir a divagar sobre o que é a vida!

Nada mais incompreensível que o princípio da inércia”

PRIMEIRA PARTE – O PROBLEMA DO NADA

CAPÍTULO 1 – A ORIGEM DA NEGAÇÃO

CAPÍTULO 2 – A MÁ-FÉ

SEGUNDA PARTE – O SER-PARA-SI

CAPÍTULO 1 – ESTRUTURAS IMEDIATAS DO PARA-SI

O fenomenismo de Husserl beira a toda hora o idealismo kantiano”

um dos postulados de Husserl, o ‘Eu penso’, é uma viscosa e fascinante ‘armadilha para cotovias’” Heidegger

A realidade humana, por natureza, é consciência infeliz, sem qualquer possibilidade de superar o estado de infelicidade.”

o esgar inconsciente de quem dorme”

o valor pode ser considerado a unidade incondicionada de todos os transcenderes do ser” “é o faltado de todas as faltas, não o faltante”

há uma total contingência do ser-para-o-valor, que recairá imediatamente sobre toda moral para trespassá-la e torná-la relativa – e, ao mesmo tempo, uma livre e absoluta necessidade.”

Denominaremos ‘Circuito da ipseidade’ a relação do Para-si com o possível que ele é, e ‘mundo’, e ‘mundo’ a totalidade de ser na medida em que é atravessada pelo circuito da ipseidade”

CAPÍTULO 2 – A TEMPORALIDADE

Representação e vontade são ídolos inventados pelos psicólogos”

CAPÍTULO 3 – A TRANSCENDÊNCIA

TERCEIRA PARTE – O PARA-OUTRO

CAPÍTULO 1 – A EXISTÊNCIA DO OUTRO

o realismo não deixa qualquer lugar à intuição do outro

Se os animais são máquinas, por que não o seria o homem que vejo passando na rua? Por que não seria válida a hipótese radical dos behavioristas?”

Mas como um instante de meu tempo poderá estar em relação de simultaneidade ou sucessão com um instante do tempo do outro?”

Estava justamente pensando nisso hoje: eu não coexisto com meus pais, no sentido em que o valentão, p.ex., se depara com meu despeito “em fase final da carreira”, décadas e décadas depois de tantos obstáculos, me vê como um literal grão-de-arroz. De minha parte, esse colosso invencível não passa da miragem de uma juventude, prestes a se tornar um borrão num baú. Não existe “neste momento” para eles! Existe o meu-momento-deste-momento-deles.¹

¹ (P.S. 2024) Embora concorde com essa definição (e tenha sempre relembrado desse parágrafo que escrevi), o conteúdo de Sartre é ainda mais profundo que isso. Meu tempo está separado de outros tempos por um abismo intransponível mesmo se falarmos de tempos de coetâneos, ou do tempo da alma gêmea.

Solipsismo: o que eu um dia batizei de “ultra-existencialismo” como atitude corriqueira de desprezo.

o idealista, sem se dar conta, recorre a um ‘terceiro homem’ para fazer surgir esta negação de exterioridade.”

Irracionalismo materialista? VIDISMO! Existencialismo… Apodrecimento de “HUMANISMO, EMPIRISMO, NATURALISMO, MODERNISMO”…

O deus-homem – produto da superação do binômio SOLIPSISMO (esquizofrenia auto-criacionista) & PANTEÍSMO (fusão com deus num sintoma correlato de fraqueza). (Meu duelo de forças! Concepção definitiva do universo.)

Linguajar empolado e desonestidade bibliográfica: não foi o primeiro, não será o último.

A tragédia dos solipsistas é que eles precisam aprender a doutrina de outros solipsistas.

ANTI-HEGEL: “Com efeito, esqueceu sua própria consciência; ele é o Todo, e, nesse sentido, se tão facilmente resolve o problema das consciências, é porque, para ele, nunca houve verdadeiro problema a esse respeito.” “posso, sem dúvida, transcender-me rumo a um todo, mas não me estabelecer nesse todo para me contemplar e contemplar o outro.”

O livro me decepcionou. Eis que os filósofos voltam a “não ter músculos”! Cheiro de Kant, Hegel, poeira e livro velho – quanto a TODOS os hommes de letres do século XX, sei-o. Marinetti está certo…

Com seu modo brusco e algo rude de romper os nós górdios antes de tentar desatá-los, Heidegger responde à questão colocada com uma pura e simples definição.”

O ‘ser-com’ concebido como estrutura de meu ser é algo que isola de modo tão inegável como os argumentos do solipsismo [confradismo alemão]. É porque a a transcendência heideggeriana é um conceito de má-fé.” “o idealismo assim superado não passa de uma forma bastarda de idealismo, uma espécie de psicologismo empiriocriticista.”

seria inútil buscar em Ser e Tempo a superação simultânea de todo idealismo e todo realismo.”

A solidão humana sempre vence.

pelo olhar do outro, tenho a prova concreta de que há um para-além do mundo.”

o olhar, por sua vez, será que não irá se tornar provável pelo fato de que posso constantemente supor estar sendo visto sem sê-lo?” (“MEU ALÉM”, necessidade de “viver para meus entes passados” – simulação)

se ocorre de aparecermos ‘em público’ para interpretar um papel ou dar uma conferência, não esquecemos o fato de que somos vistos e executamos o conjunto dos atos que viemos fazer em presença do olhar, ou melhor, tentamos constituir um ser e um conjunto de objetos para esse olhar. Mas não enumeramos o olhar. Enquanto falamos, atentos apenas às idéias que queremos desenvolver, a presença do outro permanece indiferenciada”

A vergonha é sentimento de pecado original (…) simplesmente pelo fato de [eu] ter ‘caído’ no mundo.”

CAPÍTULO 2 – O CORPO

não vejo minha mão de modo diferente de como vejo esse tinteiro.”

a [teoria da] relatividade não é um ‘relativismo’”

a famosa ‘sensação de esforço’, com que Maine de Biran tentava responder ao desafio de Gume, é um mito psicológico. Jamais temos a sensação de nosso esforço, mas tampouco temos sensações periféricas, musculares, ósseas, tendinosas ou cutâneas, pelas quais tentou-se substituí-la: percebemos a resistência das coisas.”

coeficiente de adversidade dos objetos” Bachelard

A finitude é condição necessária do projeto original do Para-si.”

o corpo é a forma contingente que a necessidade de minha contingência assume.”

sinestesia, cinestesia, cenestesia

“‘esqueço’ minha dor (o que de modo algum significa que esta tenha desaparecido, uma vez que, se venho a conhecê-la em um ato reflexivo posterior, dar-se-á como havendo estado sempre aí).”

Crise”: minha projeção das consciências terceiras sobre o que leio – atuando agora! [agora!]¹ –, minhas neuroses antes de passear-fumar-escutar, minha motricidade irritável (dedos, suor, orelhas, caspa). Parte marginal e instigante da obra: e aquelas – essas! – malditas dores espontâneas que irradiam de todos os lugares?² Analogia musical para a dor o latejo ritmado, as notas e o silêncio.

¹ (P.S. 2024) Agora!!

² (P.S. 2024) Ampliei contudo minha consciência mental-corporal. Entendo a origem dessas dores: falta de manutenção. Bem como sei perfeitamente que todos os sinais de irritabilidade (o que, ademais, muito óbvio!) eram parte de uma ansiedade não-tratada e não de uma singularidade atípica do meu ser de 2009.

Esta perpétua captação por meu Para-si de um gosto insípido e sem distância, que me acompanha até em meus esforços para livrar-me dele e que é meu gosto, é o que descrevemos em outro lugar com o nome de Náusea“Longe de tomarmos esse termo náusea como metáfora tomada de nossos mal-estares fisiológicos, é, ao contrário, sobre o fundamento desta náusea que se produzem todas as náuseas concretas e empíricas (náuseas ante a carne putrefata, o sangue fresco, os excrementos, etc.) que nos impelem ao vômito.” O normal é que não sintamos náusea com relação a nosso próprio sangue, somente o alheio. Igualmente, ninguém sente o “fedor” das próprias fezes, mesmo quando o sente!

O que é gosto de si para o outro converte-se para mim em carne do outro.” “e esta apreensão é um tipo particular de náusea.”

A anatomia é o estudo da exterioridade que subentende sempre a facticidade, enquanto tal exterioridade jamais é perceptível, salvo no cadáver. A fisiologia é a reconstituição sintética do vivente a partir dos cadáveres.”

anatomofisiologia” como ciência incapaz de descrever a vida. Em realidade, fala dos livros-textos de biologia (confusão terminológica).

CAPÍTULO 3 – AS RELAÇÕES CONCRETAS COM O OUTRO

o Para-si é perseguidor-perseguido.”

sedução: brincar-de-ser-coisa

É claro que entendemos por linguagem todos os fenômenos de expressão, e não a palavra articulada.”

Cada um quer que o outro o ame, sem se dar conta de que amar é querer ser amado e que, desse modo, querendo que o outro o ame, quer apenas que o outro queira que ele o ame.”

Daí esta psicologia ‘moralista’ que o século XVII francês nos legou.”

encontro-me comprometido em uma busca que perdeu seu sentido (…) exatamente como quando tento reaver a lembrança de um sonho e essa lembrança se liquefaz entre meus dedos, deixando uma vaga e exasperante impressão de conhecimento total e sem objeto; ou exatamente como quando tento explicar o conteúdo de uma falsa reminiscência e a própria explicação faz com que ela se dissolva em translucidez.”

as filosofias existenciais não acreditaram na necessidade de se preocupar com a sexualidade.” Heidegger, o frígido!

O fato de poder dispor de um órgão sexual apto a fecundar e buscar o prazer só representa uma fase e um aspecto de nossa vida sexual.”

O homem comum, por preguiça de espírito e conformismo, também não pode conceber para seu desejo outra meta que não seja a ejaculação.” O homem de 13 a 15 anos no Ocidente, no século XX, no seu final: não há criatura mais patética e previsível. Paradigma American Pie: a vida antes e depois da cópula.

em última instância, o desajeitado é injustificável”

estamos já lançados no mundo diante do outro; nosso surgimento é livre limitação de sua liberdade, e nada, sequer o suicídio, pode modificar esta situação originária; quaisquer que sejam nossos atos, com efeito, cumprimo-los em um mundo onde já há o outro e onde sou supérfluo com relação ao outro.”

a ocasião que solicita a ira é simplesmente o ato do outro que me colocou em estado de padecer sua liberdade. Este ato é humilhante em si mesmo: é humilhante na medida em que é revelação concreta de minha objetividade instrumental diante da liberdade do outro”

numa conversa a três, um está sempre sobrando.”

A essência das relações entre consciência não é o ser-com, mas o conflito.”

Se lemos Heidegger, chama a atenção a insuficiência de suas descrições hermenêuticas.”

QUARTA PARTE – TER, FAZER E SER

CAPÍTULO 1 – SER E FAZER A LIBERDADE

concepção instantaneísta da consciência da qual Husserl não pode sair”

mesmo se eu fosse imrtal, me seria vedado ‘ter minha segunda chance’; é a irreversibilidade da temporalidade que me impede isso.”

Show de obviedades.

CAPÍTULO 2 – FAZER E TER

Todos esses hermeneutas da modernidade, aí incluído Marx, captaram a mesma coisa com palavras diferentes.

o materialista (…) sequer encara mais a possibilidade de sair do mundo, pois deu a si próprio o tipo de existência do rochedo.”

Exemplos de viscosidade: aperto de mão do Tartas. Sexo, depois do auge do tesão; caminhar sob o sol de Brasília sem barba feita, e de preto; coca-cola, pirulito.¹

¹ (P.S. 2024) Hilário!

CONCLUSÃO

acontecerá que o quietismo do bêbado solitário prevalecerá sobre a vã agitação do líder dos povos.”

[ARQUIVO] EDITORIAL AO RAQUÍTICO

Originalmente publicado em 9 de abril de 2010.

O que leitores de carne fraca do meu blog não podem compreender (pois, ao passo que esses, que ladram duas ou três vezes por ano nos comentários – e que jamais mordem, como os cachorros dos meus sonhos –, são quase sempre seres magrelos, lhes parece faltar a condição da correta circulação do sangue – são um tanto anêmicos, não conhecem as próprias emoções; como poderiam avaliar os corações dos outros?) é o preço incorruptível da vontade de me expressar, pela qual aceito todo o ônus. Disposição esta perfeitamente confundível, em meu caso, com a vontade de viver. Nisso tudo se ergue a verdade fundamental deste espaço, que é: o ponto mais forte e o ponto mais fraco do blog são uma e a mesma coisa, quer seja, que ele lida o tempo todo com tabus. Pense-se no quanto é conveniente ser discreto e, ainda assim, se arrogar títulos como: mente perfeitamente sã, desbravador, etc., etc…

Duele comigo no meu terreno! Que não é o dos inautênticos…

Atacar primeiro, eis o meu lema, e com elegância. O revide grosseiro eu deixo para os covardes.

[ARQUIVO] MEDITAÇÕES AO MEIO-DIA…

Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.

…o meio-dia de qualquer dia

Já sinto saudades… Queria fincar meus pés no chão

Então tanto faz! Mas há coisas que eu não sei e que o plus sabe… A ameaça de ficar inválido me rodeia. Por que rastejar como um verme? Porque a próxima primavera será melhor! Até que os fios brancos e o acidente fatal não mais permitam essa “saída”… Porque o projeto humano, que digo, o plus!, só faz sentido enquanto plus! Mas até lá… De volta ao tanto faz, mas que não é tanto faz até que se torne o passado.

Álbum de fotos ou bola-de-cristal? Sempre acho que falta uma emoção a mais… Até que achar não será mais suficiente para transmutar o futuro. Desgosto, uma brincadeira de mau gosto, se o momento não chegar! Mas ele não pode ser QUALQUER fim? Podemos mudar de idéia com uma velocidade incrível… O último enjôo.

No fundo sabemos que eu só estou re-acumulando energia…

À vezes é preciso voltar – quando já se sabe tudo. Pode ser apenas um engano dos senhores pregadores da ciência.

[ARQUIVO] AS DESILUSÕES DO JOVEM EDWARDS

Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.

Eduardo tem 22 anos. Encontra-se no limiar do que se pode dizer que é a idade adulta. No limiar inferior. E deixa, com mais um salto sobre um montículo, a adolescência, essa infância amarga. Seu ímpeto volta agora a arder após um longo degelo. Ele realmente gostaria de empreender essas energias que lhe sobram em algo mais que trabalho, poesia, porres e planos. Isso significa a inclinação para a conquista. E ao voraz basta o alimento. Nem precisa ser cozido. Ao fundador de uma nova nação não é certo falar do luxo chamado escolha. A aridez do Himalaia, prados verdíssimos, uma flora exuberante sem solo firme? Ou quiçá aquele chão eterno apesar de rachado? O homem não escolhe local nem clima. Inóspito é só “onde não havia homens ainda”. Nenhum lugar passa em branco, sem ver vidas brotarem, se desenvolverem e serem, na acepção crua da palavra, aquele ambiente. Pois bem: Eduardo chegou a um impasse provisório. Nada de bem-estar, mas sim algo de temeridade, na escolha: o porto um ou o porto dois. A mulher que ele quer contemplar na doce idade do pecado e do erro, ou a firmeza de espírito. Não haverá encanto sobrenatural na segunda, a não ser o encanto de saber que amortecer os encantos é também um encanto, talvez o senhor dos encantos!

O que poderá valer mais? Uma vida com Gabriela, 15 anos, ou o futuro devotado a esta mulher de primavera para outono de 30, Isadora? Sente que vai explodir de paixão por uma das duas a qualquer momento e sente, prenuncia, o derramar das antagonistas, embora o jeito que uma entorne seja absolutamente pacífico e irretocável, um verdadeiro chá das cinco, frente ao outro, tão violento, sacolejante, animado, invejável, imprudente, que espirra lava pelas imediações e até para além delas. O jeito como entornam a água da cumplicidade. O que ele quer? Que tipo de banho Eduardo almeja? Poderia ser que haja essências a desmascarar? Gabriela precisa de proteção. Chora quando a mãe a fustiga, seja por falta de amor-próprio ou por falar demais no telefone. Chora com a menstruação. Chora com as cólicas, mas tem sede de aprender. De aprender que na vida há muito mais pelo que sofrer. Quase uma filha, sete anos mais jovem. Quando for petulante será bem mais má que qualquer mulher mais velha – inocentemente, é claro. Ainda possui aquela pele escorregadia que pode trombar – o que digo? – com outros pênis, outros braços, outros beiços, outro bafo. Crê que poderia ser assim por mais mil anos, sem desgastar sua virgem beleza. O ruim e cansativo na maldade é que ela nos torna assaz bons! É só olhar Isadora! Aprendeu, aprendeu e não pode voltar a ser o que era – e se Eduardo escolhesse Gabriela, escolheria Isadora por tabela. Pagaria toda a fortuna do mundo pelos momentos, pelas efusões mais breves, pelo espetáculo do princípio, a demonstração da gênese, a verificação da beleza mais casual e lívida, coisa autodestrutiva e tão pequenina? Será que vale a pena? A vida vale o ano? O ano não vale a vida, seria fácil demais…

E então, Eduardo quer já o correto ou ainda repisar nos velhos erros? Acho que enquanto puder, ele vai procurar a menina onde puder, mesmo onde já não estiver…

Repisar nos erros é o certo. Isadora não vingou. Virou Poliana e depois Nathália. Nathália era Gabriela. Hoje Gabriela é mais “Rebeca”, nome forte esse, de batalhadora, que não se furta à oportunidade da vanglória. Ou Glória, de duros bastidores, pernas grossas, mas no fundo… Gabriela não é mais Isadora, agora, do que Isadora foi um dia? Não, não chora.

Marina, nome híbrido. Mulher-menina. Menina sabida. Mente, está acima! Dengo de Flamengo. Nina, Nana neném. Tessália, de saia, é a Renata que acertou de primeira…


ímã mar imagemalgemar

amalgamar a margem

geme


Candura ou postura?

Cabisbaixo ou de somenos?

Democrata ou patriarca?

Devagar ou depressa?

Responsabilidade ou co-autoria?

Fria ou debaixo das cobertas ela ainda ardia?

Proibido e escondido ou só apartado, alojado, reservado?

Faz-de-conta ou pega-fogo? Incendiário!


O que faz um homem que não aprendeu a amar a vida toda?

[ARQUIVO] DEBAIXO DO BLOCO

Originalmente publicado em 10 de março de 2010.

Vivia-se mais despreocupadamente. Como que em uma cidade do interior sem nenhuma das intempéries do Nordeste e da magra infância dos pais/primeiros candangos. As bermudas não precisavam ter bolsos, não se carregava dinheiro, documentos, quiçá a chave, para entrar de ponta de pé quando se chegasse em casa – que ultraje! – depois da meia-noite… Telefone é algo imencionável. Não diria que o ritmo era dos mais lentos e morosos, pois as brincadeiras exigiam agilidade. Abordagem muito romântica? Devemos respeitar a ilusão. Improviso, machucados, inconseqüência, carreira e dinheiro… Ninguém se deu conta MESMO?! Hoje há mais com o que se desgastar: borborigmos de estômago, pessoas de quem se depende, namorada exigente, remédios, relógios, traumas… E hoje já nem consigo achar moedas no chão! Não existe uma mão amiga, uma paragem, hospedaria solidária… sem que se deva lavar a sujeira alheia – nada de FIADO! E na verdade esse é o futuro sem futuro. Todos, mesmo os mais destacados, têm de ter um período de banal, de comum, de mais um, de harmonia e encaixe; bem como eu recomendaria a quem não sabe enxergar os panoramas para além da montanha um exílio, um estágio especial, nem que apenas para guardar o vazio num álbum de fotografias, uma história de rodinha sem risos, um “e eu também… embora não goste de lembrar”. Sabe o que faltou ao mestre dos ditirambos? Ser mais ditirâmbico!

[ARQUIVO] METALLICA X NAPSTER: O CAPÍTULO MAIS NEGRO DA HISTÓRIA DA MÚSICA

Originalmente publicado em 6 de março de 2010.

A idéia original era dar curso a uma série intitulada “Os 10 atos mais estúpidos da Música Contemporânea” ou coisa próxima disso, mas por falta de dados bibliográficos e disponibilidade de tempo pude executar apenas “a parte mais nobre” desse “desonroso pódio”, se assim podemos dizer; e minha ansiedade é tanta (talvez do mesmo tamanho que meu amor pelos ofendidos neste artigo!) que decidi publicá-lo logo de cara, sem saber se um dia voltarei à baila com os outros 9 atos “quase tão estúpidos” quanto este no universo da indústria fonográfica.

* * *

Na virada do milênio, uns dinossauros da Música mostraram que realmente estavam caducos e caretas e perpetraram a atitude mais covarde da Música desde o advento do WWW, e que permanecerá no topo desse ranking infame por um bom tempo…

Este comentário é um recorte no tempo, por isso não interessa o que eles fizeram antes nem depois: o grupo de thrash metal / heavy metal / hard rock /pop rock (a depender da década e da taxa de ingestão alcoólica dos membros) mais popular da História (considerando-se que encabeça o Big Four californiano e que possui um leque de ouvintes tão ou até mais variado que outras bandas do estilo metal que se consagraram diante do grande público “exterior”, como o Iron Maiden) iniciou uma guerra perdida contra as novas tecnologias, o “barbarismo digital”. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente suplantado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo o que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convnção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a religião. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiquíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. O que veio a seguir é a maior prova, e também está nesse top 10. Mas cansei de falar. Sou jovem e não vivi essa época, por isso trago à tona alguém que esteve lá, com consciência para discernir o que se passava, desde os idos dos anos 80:

Uma grande parte da cena thrash sobreviveu graças à troca de fitas K-7. Os trocadores se comunicavam por seções de pen-pal em revistas norte-americanas de hard rock como Kerrang! e a hoje defunta Sounds. Havia poucos estúdios de gravação preocupados com o metal àquele tempo; trocávamos demos e fitas ao vivo de dúzias de bandas que nunca tinham gravado nada oficialmente. O metal underground era tão legítimo quanto qualquer cena punk, especialmente na Bay Area de São Francisco. Algumas das bandas chegavam eventualmente a um sucesso limitado; poucas ainda estão por aí (destaques especiais para Anthrax, Megadeth e Slayer), mas a maior parte dessas bandas nunca chegou a lançar mais de um álbum ou um single, e a maioria está agora, de fato, esquecida (menções que não podem faltar: Jaguar, Blitzkrieg, Control e Anvil Chorus).

(…)

Em 1982, uma banda em início de carreira chamada Metallica abasteceu alguns amigos trocadores de fitas com uma demo contendo 7 músicas, chamada ‘No Life ‘Til Leather’. Copiada, re-copiada e re-re-copiada, a fita fez seu caminho da Califórnia a Chicago, de Nova Iorque à Inglaterra, à Holanda, à Alemanha. Em meses, a banda tinha fãs espalhados pelo mundo inteiro – sem a ajuda de um só jornalista, de alguém de assessoria ou de qualquer campanha de marketing. Não passam de chutes afirmações sobre quantas pessoas estavam envolvidas nessa rede de troca e multiplicação de fitas, mas um bom número desses fãs de carteirinha (casseteiros) do Metallica era contribuinte amador em vários zines underground da época (e destacamos aqui o Metal Mania, Whiplash, Aardschok, além do Metal Forcer); seu entusiasmo por essa banda desconhecida da costa oeste foi cedo retransmitido para milhares de outros leitores.

O resto, como dizem, é história. Kill ‘em All foi uma sensação; Master of Puppets ficou entre os 40 mais vendidos do planeta; alguns anos depois, o Black Album seria responsável pela venda de 12 milhões de unidades.

(…)

Avançamos rapidamente no tempo para 13 de abril de 2000, e o anúncio de que o Metallica e seus representantes haviam iniciado uma ação judicial contra a companhia de softwares Napster e as Universidades de Southern California, Yale e Indiana nos surpreendeu bastante. Não deixa de ser trágico e irônico vindo de uma banda que se ergueu sobre pirataria de fãs.”

(Fonte original das aspas: Brian Lew, 09/05/2000, Metallica, como você pôde?, traduzido e levemente modificado por mim.)