PREFÁCIO
“O editor, John Murray, anunciava para aquela venda de fim de ano o lançamento de um livro muito aguardado, pois revelaria os mistérios que envolviam o desaparecimento de mais de cem tripulantes da expedição mais ousada daquela época. Após numerosas tentativas, finalmente retornara à Inglaterra o capitão McClintock(*) com seu relato dos achados dos dois navios desaparecidos anos antes no rigoroso inverno do Ártico. Seu relato era dramático, com revelações inéditas de seus grandes achados, como o diário de bordo de Sir Franklin,(**) o experiente comandante da missão coberta de mistério, revelando o dia exato e as circunstâncias de sua morte. Já havia sido noticiado o achado de um esqueleto e dois corpos congelados de membros da desesperada tripulação, ainda vestindo roupas europeias. O livro traria até mesmo as figuras com a estampa do tecido das mortalhas encontradas.
(*) Francis Leopold McClintock (1819-1907), membro da Marinha Britânica, serviu em diversas expedições para localizar o paradeiro da expedição desaparecida no Ártico, entre 1848 e 1859, quando retornou em setembro de 1859, recebendo em seguida o título de Sir.
(**) Sir John Franklin (1786-1847), oficial da Marinha Britânica, que se notabilizou pela exploração dos mares polares, pioneiro no mapeamento da Antártida e do Ártico.”
“O livro do capitão McClintock, preparado em apenas sessenta dias, um prazo incrível até para os editores da atualidade, permitia entender em detalhes o que ocorrera com a tripulação dos dois navios encalhados no mar congelado, caminhando até caírem, um a um, mortos por desnutrição, escorbuto e frio. § Essa história é tão dramática e comovente que incentivou buscas até nos nossos dias. Em setembro de 2016, foram encontrados, em surpreendente bom estado de conservação, os destroços do naufrágio do HMS Erebus e do HMS Terror, imponentes navios de mais de trezentas toneladas, sepultados no fundo mar do Ártico. Eles eram, já em seu tempo, exemplares da supremacia tecnológica britânica e até mesmo orgulho nacional, pois haviam sido originalmente construídos para missões de guerra, o que explicava sua robusta estrutura interna. Equipados com potentes obuses, capazes de lançar bombas mortíferas a grande distância, possuíam estrutura adaptada para resistir tanto ao ricochete do disparo de grandes petardos como a choques com icebergs, inaugurando a linha de navios quebra-gelo. De fato, o HMS Terror servira na Guerra de 1812,(*) com seus dois obuses e dez canhões bombardeando o Forte McHenry, em Baltimore, em setembro de 1814, uma batalha que inspirou a letra do atual hino dos Estados Unidos da América.(**)
(*) A Guerra de 1812 é vista, pelos britânicos, como parte das guerras napoleônicas, mas, como envolveu batalhas pela posse de terras americanas, é tida também como a Segunda Guerra de Independência na perspectiva estadunidense.
(**) [Kitsch] A letra do hino nacional dos Estados Unidos foi baseada no poema A defesa do Forte McHenry e fala dessa batalha na qual ‘bombas eram lançadas ao ar’, algumas delas provenientes desse vaso de guerra, posteriormente reformado para exploração polar.”¹
¹ Até o parnasianismo do Ouviram do Ipiranga… é melhor do que isso!
“O sucesso imediato desse aguardado livro certamente impulsionou as vendas de outros da mesma fornada, entre eles A origem das espécies.(*)
(*) O título original, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life, foi simplificado para The Origin of Species na 6ª edição pelo próprio Darwin, versão que se tornou famosa e prevaleceu até os dias de hoje. Por conta do reconhecimento público do título reduzido esta edição o adotou, embora traga, na verdade, uma tradução do texto da 1ª edição da obra, livre das diversas alterações posteriores. (N. E.)”
“Se depois de centenas ou milhares de anos já era possível reconhecer em chácaras e sítios formas muito diferentes de galinhas, pombos, couves, rabanetes e ervilhas, o que não seria possível encontrar em florestas cheias de formas de vida após milhões de anos? Essa era a essência do pensamento darwiniano, apresentado de maneira cristalina na primeira edição, aqui traduzida, permitindo explicar a diversidade biológica de nosso planeta em bases científicas modernas. § Era bem conhecida a epopeia de Darwin em sua viagem ao mundo a bordo do HMS Beagle. Porém é interessante ressaltar que A origem das espécies se valia de achados também de expedições anteriores daqueles navios misteriosamente desaparecidos, dos quais tanto se fala desde 1859. Em uma delas, Joseph Hooker(*) realizou uma série de achados botânicos e paleontológicos a bordo do HMS Erebus que o notabilizou desde a juventude e que aparecia agora, pelas mãos do amigo Darwin, como evidências robustas da teoria da evolução. O ineditismo de plantas e animais das terras do hemisfério Sul teve papel central na argumentação de Darwin, que se valia das opiniões de especialistas, como o amigo botânico, ao lado do jovem Huxley,(**) zoólogo que logo se juntaria na defesa do evolucionismo.
(*) Joseph Dalton Hooker (1817-1911), embora médico de formação, foi um dos maiores botânicos ingleses de sua época, tendo participado da expedição do HMS Erebus ao polo sul em 1839 com o capitão James Ross, em sua busca pioneira pelo polo sul magnético.
(**) Thomas Henry Huxley (1825-1895), zoólogo inglês que se notabilizou pela árdua defesa das ideias evolucionistas logo após a primeira edição de A origem das espécies, ganhando a alcunha de ‘o buldogue de Darwin’.”
“Na época de Darwin não havia indícios suficientes para crer que todos os continentes tivessem formado um bloco único em passado remoto. Hoje há consenso entre os geólogos [de] que os continentes são jangadas da crosta terrestre a se deslocar lentamente. Essa teoria teria poupado muito trabalho mental a Darwin, e não apenas nos capítulos finais.”
“Darwin então recorreu à supremacia imperial britânica, estendendo o poder de enfrentar e derrotar semelhantes sem piedade, fossem aborígenes neozelandeses, mamíferos marsupiais ou ervas sul-americanas.” “Se as gramíneas eram iguais na Inglaterra e nos pampas argentinos, isso seria explicado não pelos arquétipos ideais, mas pela superioridade das estirpes britânicas.” Grande tolinho.
(*) “Richard Owen (1804-1892), zoólogo inglês de grande destaque em sua época, realizou estudos de anatomia comparada e estabeleceu o conceito de homologia, muito utilizado por Darwin, atual até nossos dias. (…) Owen e Louis
Agassiz, ao lado de seu predecessor Georges Cuvier, despontaram como ícones da oposição ao pensamento evolucionista darwiniano.”
(*) “Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), naturalista suíço, foi aluno de Cuvier e do famoso Humboldt, antes de imigrar para os Estados Unidos e trabalhar na criação do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, em 1859, tendo sido seu primeiro diretor, até sua morte.”
(*) “Georges Cuvier (1769-1832), famoso anatomista e político francês, ficou famoso por estabelecer métodos de estudos de esqueletos de vertebrados e atestar que os fósseis não eram restos de um Dilúvio Universal, mas de animais extintos, embora se mantivesse como ferrenho opositor das ideias evolucionistas de seu tempo.”
“Para Darwin, que já tinha respeitável estatura científica nos domínios geológicos naquela década, a ideia ajudava a entender muito da distribuição geográfica atual, em especial a similaridade das biotas da Europa e América do Norte. Mamutes, lobos e ursos, pinheiros e ciprestes, poderiam ter transitado livremente por gélidas, porém sólidas, pontes, contudo derretidas pelo clima mais quente que se seguiu.”
“A descoberta de fósseis de eqüinos na América, onde o cavalo moderno foi reintroduzido pelos colonizadores europeus e se reproduziu sem limites, era explicada esplendidamente pela lógica da mudança climática global recente, que levara à extinção uma forma que agora se mostrava plenamente adaptada àquele mesmo ambiente em época anterior ao domínio do gelo.” A cavalo dado se olham os dentes colonizadores.
“Hoje, a ideia de mudanças climáticas globais nos parece óbvia, mas, em escala planetária, ela teve em Charles Darwin um de seus primeiros defensores. Mal sabia ele que esta ideia seria, até nossos dias, crucial para compreender a chegada do ser humano ao continente americano. Não por acaso, até hoje os que se recusam a aceitar a evolução biológica também rejeitam a ideia de mudanças climáticas globais antropogênicas.” Embora por motivos diferentes (dinheiro no segundo caso, já que o criacionismo não interfere em nada com o presente imediato – a não ser que sirva de consolo na cabeça do culpado: se essa espécie se extinguir, foi porque Deus quis; e ele poderá recriá-la, já que é onipotente).
“Estava bem assentada em Aristóteles a ideia de equilíbrio estático na Natureza, vista como eterna e imutável, na qual não há carência nem desperdício, que nada falta ou excede ao necessário, que cada característica tem uma finalidade específica a explicar sua existência, e que nada ocorre por acaso.”
“Como explicar o desaparecimento de espécies em um mundo em perfeito equilíbrio estático? O desaparecimento de uma única forma, de um único pilar, faria vir ao chão os andaimes da Criação!”
A DERROCADA DO UTILITARISMO: “Qual a utilidade das asas do ganso das ilhas Malvinas se ele é incapaz de voar? Qual a utilidade dos olhos do tuco-tuco sul-americano, frequentemente infeccionados, se ele vive na escuridão dos túneis escavados debaixo dos campos gaúchos? O que faz um pica-pau endêmico nessas paragens se ali não há árvores?”
E no entanto… utilidades do pensamento de Jeremy Bentham: “defendeu o bem-estar social como dever do Estado, direitos iguais para homens e mulheres, direito ao divórcio e, ao mesmo tempo, fim de diversas práticas sociais, como escravidão, pena de morte, castigos físicos; além disso, propôs a descriminalização da homossexualidade. Ele estendia aos animais o direito à felicidade, evitando sofrimentos, e foi um dos primeiros defensores dos direitos animais”! Só faltou a coletivização dos meios de produção.
“Justamente ao discutir as ideias do utilitarismo britânico, que via nas variações dos seres vivos formas de evitar a monotonia aos olhos humanos, ele percebeu que poderia explicar as variações entre as raças humanas, ‘tão fortemente marcadas’ por meio da ‘seleção sexual de um tipo particular’. Quando escreveu essas palavras, ele tinha em sua escrivaninha os diversos volumes do livro de seu estimado James Cowles Prichard, que discutia as raças humanas, utilizando inclusive pranchas coloridas, outra sofisticação gráfica para a época.” “Como fazer em poucos parágrafos o que havia tomado a Prichard vários volumes? Assim, apenas em seu livro de 1871, Descent of Man, [intraduzido?] Darwin pôde discutir ‘com muitos detalhes’ seus pontos de vista sobre a ação da seleção sexual nas raças humanas.”
“Desde o primeiro ensaio, escrito em 1844, Darwin destaca o ritual de acasalamento do dancing rock-thrush. Seu nome foi posteriormente retificado para rock-thrush of Guiana em todas as edições desta obra, na seção sobre seleção sexual. O nome aparece traduzido para o português como ‘melro’ ou ‘tordo-das-rochas’ desde a edição portuguesa de 1913. A confusão se justifica, vez que o nome popular rock thrush, na Inglaterra de meados do século XIX, designava a espécie Monticola saxatilis, descrita desde os tempos de Lineu. No entanto, nenhuma espécie dessa família (Muscicapidae) ocorre na Guiana nem em lugar algum do Novo Mundo. Ademais, os melros não praticam ritual de acasalamento incomum ou ‘dançante’… Na verdade, Darwin se equivocou, pois se referia ao Guianan cock-of-the-rock, ou seja, o galo-da-serra-do-pará (Rupicola rupicola). Essa bela ave da fauna brasileira, após mais de um século de injustiça e anonimato, ganhou justa homenagem na quarta capa desta edição.”

“O capítulo final de A origem das espécies – absolutamente inspirado, profético e grandioso – manteve a mesma estrutura da primeira à última edição. Ele é testemunha não apenas da solidez do argumento evolucionista como também da necessidade de alcançar o grande público por meio de algumas concessões. Darwin escreve não somente para os especialistas, mas também (e ao mesmo tempo) para o grande público, o que, aliás, explica a alternância de estilos literários ao longo do livro.(*)
(*) E a profusão de notas inseridas por este prefaciador e revisor técnico ao longo dos capítulos, pelo que se escusa antecipadamente.” Eu te entendo, amiguinho, eu te entendo. Sou viciado em interpolar textos – às vezes os meus próprios textos!
Com um siso e um apêndice, e munido de mais nada, o homem matou o rei-na-barriga que tinha em si desde os primórdios.
Alerta: “projeto inteligente” é um sinônimo utilizado pelos pérfidos pastores ou biólogos criacionistas para “criacionismo”, então… ¡date cuenta!
“Ao ler esta primeira edição, fica o leitor preservado dessas titubeantes inserções, das quais o autor dirá ter se arrependido, em carta endereçada a Hooker em 1863, sem, contudo, produzir qualquer efeito no texto das edições seguintes.”
Toda nota é técnica dentro de uma nota técnica.
(*) “Cuvier tinha realizado a dissecação de uma mulher sul-africana (Sarah ‘Saartjie’ Baartman) em seu controvertido ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote’ (1817).” WIKIA: “Saartjie (que se pronuncia «Sarqui») pode ser considerado equivalente ao português «Sarinha». (…) Mediante um pagamento extra, os seus exibidores permitiam aos visitantes tocar-lhe as nádegas, cujo invulgar volume (esteatopigia) parecia estranho e perturbador ao europeu da época. § A sua exibição em Londres causou escândalo, tendo a sociedade filantrópica African Association criticado a iniciativa e lançado um processo em tribunal. Durante o seu depoimento, Sarah Baartman declarou, em neerlandês, não se considerar vítima de coação e ser seu perfeito entendimento que lhe cabia metade da receita das exibições. O tribunal decidiu arquivar o caso, mas o acórdão não foi satisfatório, devido a contradições com outras investigações, pelo que a continuação do espetáculo em Londres tornou-se impossível.” Um inglês tenderá a ser justo, exceto numa ocasião: quando dinheiro está em jogo. + “No fim de 1814, Saartjie foi vendida a um francês, domador de animais, que viu nela uma oportunidade de enriquecimento fácil. Considerando que a adquirira como prostituta ou escrava, o novo dono mantinha-a em condições muito mais duras. Foi exposta em Paris, tendo de aceitar exibir-se completamente nua, o que contrariava o seu voto de jamais exibir os órgãos genitais. As celebrações da reentronização de Napoleão Bonaparte no início de 1815 incluíram festas noturnas. A exposição manteve-se aberta durante toda a noite e os muitos visitantes bêbados divertiram-se apalpando o corpo da indefesa mulher. § O anatomista francês Georges Cuvier e outros naturalistas visitaram-na, tendo sido objeto de numerosas ilustrações científicas no Jardin du Roi. O corpo foi totalmente investigado e medido, com registo do tamanho das nádegas, do clitóris, dos lábios e dos mamilos para museus e institutos zoológicos e científicos. Com a nova derrota de Napoleão, o fim do seu governo e a ocupação da França pelas tropas aliadas em junho de 1815, as exposições tornaram-se impossíveis. Saartje foi levada a prostituir-se e tornou-se alcoólatra.” Napoleão exerceu certas influências maléficas em coisas de “somenos” importância que mal poderíamos acreditar… Enfim, repulsivo.

É só o começo! “Após sua morte, o corpo de Baartman foi enviado para o laboratório de George Cuvier, no Museu Nacional de História Natural, para exames. Cuvier queria analisar seus genitais para testar sua teoria de que quanto mais ‘primitivo’ era o mamífero, mais acentuados seriam seus órgãos sexuais e desejo sexual. Baartman recusou-se a ser um experimento, enquanto estava viva. Com a permissão da polícia, Cuvier, que acumulou a maior coleção do mundo de espécimes humanos e animais, realizou uma autópsia no corpo de Baartman. Primeiro, ele fez um molde do corpo, então ele preservou o cérebro e genitais. (…) Cuvier, que conhecera Baartman, observou em sua monografia que o seu objeto de estudo era uma mulher inteligente, com uma memória excelente, especialmente para rostos. Além de sua língua nativa, ela falava neerlandês fluentemente, tinha um inglês razoável e algum conhecimento de francês. Ele descreve os ombros e costas dela como ‘graciosos’, com ‘braços delgados’, mãos e pés como ‘encantadores’ e ‘bonitos’. Ele acrescenta que ela era adepta de berimbau de boca, dançava de acordo com as tradições de seu país e tinha uma personalidade alegre. Apesar disso, ele interpretou seus restos mortais, de acordo com suas teorias sobre evolução racial, como a manifestação de traços semelhantes a macacos.” Um pouco de alívio ao final: “O caso ganhou proeminência mundial só depois de Stephen Jay Gould escrever The Hottentot Venus na década de 1980. Após a vitória do Congresso Nacional Africano na eleição geral na África do Sul em 1994, o presidente Nelson Mandela solicitou formalmente que a França devolvesse os restos mortais. Depois de muita disputa legal e debates na Assembleia Nacional Francesa,¹ o governo francês aceitou o pedido em 6 de março de 2002. Seus restos mortais foram repatriados para sua terra natal, o vale do rio Gamtoos, em 6 de maio de 2002[,] e eles foram enterrados em 9 de agosto de 2002, sobre Vergaderingskop, uma colina na cidade de Hankey, mais de 200 anos depois de seu nascimento. (…) O Centro Saartjie Baartman para mulheres e crianças, um refúgio para sobreviventes de violência doméstica, foi inaugurado na Cidade do Cabo em 1999.”
¹ Debater o quê, cretinos?
“Ele fez previsões testáveis, muitas das quais se comprovaram empiricamente, como a origem da baleia a partir de um mamífero terrestre, em vez do aperfeiçoamento de um réptil marinho, como pensavam muitos.”
Mais sobre Nelio Bezzo: “É pesquisador 1A do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), coordenador científico do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução ‘Charles Darwin’, ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, e do Projeto Temático BIOTA-FAPESP/Educação, que congrega pesquisadores da USP, UFABC, UNIFESP, USCS e do Instituto Butantan.”
INTRODUÇÃO
(*) “Darwin viajou no Beagle como convidado do capitão e tinha de arcar com suas despesas, de alimentação inclusive. Se fosse, de fato, o naturalista de bordo, todo o material coletado pertenceria ao almirantado e Darwin não poderia dele dispor como bem quisesse, como de fato ocorreu. (N.R.T.)” O destino escreve certo por linhas tortas (#chupacriacionismo).
“Espero ser desculpado por entrar em detalhes pessoais, mas eu os ofereço para mostrar que não tomei decisões apressadas. “ Se, p.ex., Fraud esperasse 20 anos para publicar suas “conclusões” teríamos nos livrado de 80% das asneiras que redigiu! Um homem de ciência não se apressa…
(*) “Darwin trabalhava no que ele chamava de Big Species Book (Grande livro das espécies) quando foi surpreendido pela carta recebida de Wallace.”
“Fui particularmente induzido a publicar este resumo, pois o senhor Wallace [Alfred Russel Wallace (1823-1913)], que hoje está estudando a história natural do arquipélago malaio, chegou quase exatamente às mesmas conclusões gerais que as minhas sobre a origem das espécies.” Um dos pares de descobridores simultâneos mais conhecidos.
(*) “Charles Lyell (1797-1875), advogado e geólogo britânico, publicou Principles of Geology em 3 volumes entre 1830 e 1833.” Ao passo que hoje não existem nem meios-advogados nem meios-geólogos, se formos aferir seus dons… até o séc. XIX a polimatia ou semi-polimatia parecia o estado natural para uma certa nata de burgueses, pequeno-burgueses ou aristocratas…
“Ao pensar sobre a origem das espécies, é bastante concebível que um naturalista, refletindo sobre as afinidades mútuas dos seres orgânicos, suas relações embriológicas, suas distribuições geográficas, suas sucessões geológicas e outros fatos semelhantes, possa chegar à conclusão de que cada espécie não tenha sido criada independentemente, mas que tenha descendido, como variação, de outras espécies. No entanto essa conclusão, ainda que bem fundamentada, seria insatisfatória até que pudesse ser demonstrado como as inúmeras espécies que habitam o mundo foram modificadas para que atingissem a perfeição de suas estruturas e coadaptação que tanto inspiram nossa admiração.”
(*) “seiva xilemática das plantas (antigamente, chamada seiva bruta)” Será que meus livros-textos do ensino fundamental já são antigamente?!
O PRIMEIRO NATURALISTA IN VITRO: “No início de minhas observações, me pareceu que o estudo cuidadoso de animais domesticados e plantas cultivadas provavelmente ofereceria a melhor oportunidade para elucidar esse problema obscuro. Não fiquei decepcionado; nesse e em todos os outros casos desconcertantes, percebi invariavelmente que nosso conhecimento sobre a variação por meio da domesticação, mesmo sendo imperfeito, oferecia as melhores e mais seguras pistas.”
Evocando N.: Sobrevivência do mais forte falando em coletividades é um oximoro, uma vez que quanto mais bem-sucedida é uma espécie, mais ela se propaga e, portanto, mais ela está submetida às leis da restrição da população. O gênio, até na natureza, é de vidro. Apenas o medíocre é persistente e perdurável.
“Embora muito ainda permaneça obscuro, e continuará assim por muito tempo, eu, após o estudo mais meticuloso e o julgamento mais imparcial de que sou capaz, não tenho dúvidas de que a posição sustentada pela maioria dos naturalistas – e sustentada também por mim anteriormente –, ou seja, de que cada uma das espécies foi criada independentemente, é falsa.” Dizer textualmente que o homem veio do macaco é, tecnicamente, contradizer Darwin. Mas tem-se de ser algo melhor do que estúpido para percebê-lo. O homem veio da primeira célula procarionte, esta seria a frase mais correta.
1. A VARIAÇÃO NA DOMESTICAÇÃO
“Parece bastante claro que os organismos devem ser expostos às novas condições de vida por várias gerações para que isso cause um nível apreciável de variação; e, assim que o organismo começa a variar, ele geralmente continua a variar por muitas gerações. Não há casos registrados de que o cultivo tenha feito com que uma variedade da espécie deixasse de ser variável. Nossas mais antigas plantas de cultivo, como o trigo, ainda costumam gerar novas variedades: nossos mais antigos animais domesticados ainda podem sofrer um rápido aprimoramento ou modificação.” De certo modo, isso já refuta a ‘seleção natural’: são os animais domésticos, que recebem fartura alimentar e não disputam contra outros pela sua sobrevivência, que são mais mutáveis e heterogêneos, dir-se-ia, superiores.
(*) “Note a insistência de Darwin ao tomar as ’monstruosidades’ como variedades, ou seja, como parte de um estado natural dos seres vivos, o que contrariava a tradição aristotélica, que as via como exceções inexplicáveis, pois incompatíveis com a ideia de perfeição da natureza, ideia ainda muito presente na história natural anglicana da época.”
(*) “Aqui Darwin fala de sua Teoria da Pangênese, ainda sem nomeá-la. Ele fará uma exposição mais detida apenas em 1868, em seu Variations of Animais and Plants under Domestication.”
“mas a principal é a consequência notável que o cativeiro ou o cultivo tem sobre as funções do sistema reprodutivo; este sistema parece ser muito mais sensível do que qualquer outra parte do organismo à ação de qualquer alteração nas condições de vida. Nada é mais fácil do que domar um animal, e poucas coisas são mais difíceis do que fazê-los procriar livremente em cativeiro, e isso nem mesmo, em muitos casos, quando o macho e a fêmea se unem.” Nem para cães e gatos há exceção?
“Quantos animais existem que não se reproduzem, apesar de já viverem há muito tempo em cativeiro não muito rigoroso em sua região nativa! Isso costuma ser atribuído à invalidação dos instintos; mas quantas plantas de cultivo exibem grande vigor e, ainda assim, raramente ou nunca produzem sementes!”
“para mostrar como as leis que determinam a reprodução dos animais em cativeiro são singulares, posso apenas mencionar que os animais carnívoros, mesmo os dos trópicos,[?] cruzam neste país [Inglaterra] de forma bastante livre quando estão em cativeiro, com exceção dos plantígrados, isto é, a família dos ursos; no entanto, as aves carnívoras, com raras exceções, quase nunca põem ovos férteis. O pólen de muitas plantas exóticas é completamente inútil, estando na mesma condição dos mais estéreis híbridos. Quando, por um lado, vemos animais e plantas domesticados, embora muitas vezes fracos e doentes que, ainda assim, reproduzem-se de forma livre em cativeiro; e quando, por outro lado, vemos indivíduos que, embora tenham sido retirados ainda jovens da natureza, são perfeitamente domados, vivendo por muitos anos e saudáveis (dentre os quais eu poderia citar inúmeros casos) e que, apesar disso, possuem seus sistemas reprodutivos tão gravemente afetados por causas não observadas a ponto de não funcionarem, então não devemos nos surpreender quando esses sistemas não funcionam em cativeiro de forma razoavelmente regular e produzem crias que não são perfeitamente semelhantes a seus pais ou a variações próximas a eles.
Dizem que a esterilidade é a ruína da horticultura; mas, sobre este ponto de vista, a variabilidade assenta-se sobre a mesma causa que produz a esterilidade; e a variabilidade é a fonte das melhores produções de um jardim. Devo ainda dizer que alguns organismos procriarão de forma mais livre em condições mais artificiais (por exemplo, o coelho e o furão mantidos em jaulas), mostrando que seu sistema reprodutivo não foi afetado; assim, o mesmo vale para alguns animais e plantas que toleram a domesticação ou o cultivo e sofrerão pequenas variações, talvez não mais do que em seu estado natural.”
(*) “Darwin utiliza a expressão sporting plants entre aspas, demonstrando certa discordância em tomá-las como simples sports of nature, uma maneira de contornar as dificuldades do mundo estático de Aristóteles, mas ainda sem a conotação de mutações em sentido moderno.”
“esses casos mostram que a variação não está necessariamente ligada, como alguns autores acreditam, ao ato de geração.”
“As mudas da mesma fruta e as crias da mesma ninhada são às vezes bastante diferentes entre si, embora tanto as crias quanto os progenitores, conforme observou Muller, tenham sido aparentemente expostos a exatamente as mesmas condições de vida; e isso mostra a pouca importância dos efeitos diretos das condições de vida em comparação com as leis da reprodução, do crescimento e da hereditariedade; (…) No caso de qualquer variação, é bastante difícil decidirmos o quanto devemos atribuí-la à ação direta do calor, da umidade, da luz, da alimentação, etc.”
“Desse ponto de vista, as experiências recentes do senhor Buckman [James Buckman (1816-1884)] com plantas parecem extremamente valiosas.”
“em alguns casos, o aumento de tamanho [ocorre] devido à quantidade de alimentos, a [mudança da] cor devido a certos tipos de alimentos e à luz; e, talvez, a espessura da pelagem [varie] devido ao clima.” O que não ocorre com o homem (que está em seu natural?) – o homem mais se modificou quando estava em cativeiro na própria natureza, na sua era ágrafa!
“Nos animais há um efeito mais acentuado [do hábito]; descobri, por exemplo, que, em relação a todo o esqueleto do pato doméstico, os ossos das asas ficam menos pesados e os ossos das patas ficam mais pesados do que os mesmos ossos do pato selvagem.” Don’t fly, just walk!
“O aumento – grande e herdado – do úbere de vacas e cabras em países onde elas são habitualmente ordenhadas, em comparação com o estado desses órgãos em outros países, é outro exemplo do efeito do uso. Não há um único animal doméstico que não tenha, em alguma região, orelhas caídas; parece algo provável o ponto de vista sugerido por alguns autores de que tal fato ocorre devido ao desuso da musculatura da orelha, pois os animais não se alarmam muito com o perigo.”
“Nas monstruosidades, as correlações entre partes bastante distintas são muito curiosas; e muitos exemplos são oferecidos por Isidore Geoffroy St. Hilaire em sua grande obra sobre o tema.”
“os gatos com olhos azuis são invariavelmente surdos” Refutado.
“Karl von Heusinger (1792-1883), médico alemão.”
“Os cães sem pêlos têm dentes imperfeitos; animais de pelo longo ou áspero estão propensos a ter, como se afirma, chifres longos ou muitos chifres; pombos com pés emplumados têm pele entre os dedos mais longos; pombos com bico curto têm pés pequenos e aqueles com bicos longos têm pés grandes.”
“leis misteriosas da correlação de crescimento”
“Vale a pena estudar os vários tratados publicados sobre algumas de nossas antigas plantas de cultivo, como o jacinto, a batata, até mesmo a dália, etc.; e é realmente surpreendente observar os pontos infindáveis da estrutura e da constituição nos quais as variedades e subvariedades diferem ligeiramente entre si.”
“Quaisquer variações não-hereditárias não são importantes para nós. Mas são quase infinitas a quantidade e a diversidade dos desvios hereditários estruturais, tanto os pequenos quanto os de considerável importância fisiológica. O tratado do doutor Prosper Lucas sobre o assunto, em dois grandes volumes, é o melhor e mais completo material sobre o tema.”
Por sorte, há todo tipo de antepassado nesse mundo, do mais vil ao mais divino (falo do atavismo – não é o tópico da conversação de Darwin neste momento).
“Quando surge um desvio freqüente e verificado no pai e no filho, não podemos afirmar que o desvio ocorreu por uma mesma causa original que atuou em ambos os indivíduos; mas, por outro lado, quando entre os indivíduos aparentemente expostos às mesmas condições verificamos qualquer desvio muito raro devido a uma extraordinária combinação de circunstâncias que surja no ascendente – digamos, apenas uma vez dentre vários milhões de indivíduos – e que reapareça no filho, a mera doutrina das probabilidades quase nos obriga a atribuir sua reaparição à hereditariedade.”
“As leis que regem a hereditariedade são bastante desconhecidas; não sabemos por que a mesma peculiaridade em diferentes indivíduos da mesma espécie e em indivíduos de espécies diferentes é por vezes herdada e por vezes não; por que a criança muitas vezes reverte a certas características de seu avô ou avó ou de outro ancestral mais remoto(*)” Agora sim.
(*) “Aqui aparece a primeira referência ao ‘princípio da reversão’, que explicaria o reaparecimento de uma característica de ancestral próximo ou ‘mais remoto’. Trata-se de assunto doloroso para Darwin, que havia acabado de perder um filho com 2 anos, batizado com seu nome (Charles), com síndrome de Down, vista à época como um tipo de ‘reversão mongólica’. O assunto será aprofundado logo adiante.” Que estultícia britânica.
“Tem pouca importância para nós o fato de que as peculiaridades que aparecem nos machos de nossas criações domésticas sejam freqüentemente transmitidas exclusivamente ou em um grau muito maior apenas aos machos. Uma regra muito mais importante, e que me parece confiável, é que, independentemente do período da vida em que uma peculiaridade apareça pela primeira vez, ela tenderá a surgir na prole em uma idade correspondente, embora às vezes ocorra mais cedo.”
“Mas as doenças hereditárias e alguns outros fatos me fazem acreditar que a regra tem uma extensão mais ampla e que, não havendo qualquer razão aparente para que alguma peculiaridade apareça em uma certa idade específica, ela realmente tenderá a surgir na prole no mesmo período em que apareceu pela primeira vez nos pais. Eu acredito que essa regra é extremamente importante para explicar as leis da embriologia. Essas observações, claro, aplicam-se apenas ao primeiro surgimento da particularidade e não à sua causa primária, que pode ter ocorrido nos óvulos ou no elemento masculino”
“farei referência neste ponto a uma afirmação muitas vezes feita pelos naturalistas, ou seja, que nossas variedades domesticadas, quando se tornam novamente selvagens, gradual mas certamente readquirem as características de seus ancestrais. Portanto, foi argumentado que não se pode projetar deduções com base em raças domésticas para explicar espécies em estado natural. Em vão, me esforcei para descobrir em que fatos decisivos a afirmação acima foi tantas vezes e tão corajosamente feita.” “podemos seguramente concluir que muitas das variedades domésticas mais fortemente distintas não conseguiriam, em nenhuma hipótese, viver em estado selvagem. Em muitos casos, não sabemos como eram seus ancestrais e então não poderíamos dizer se a reversão quase perfeita teria ou não ocorrido.”
“Se conseguíssemos demonstrar que nossas variedades domesticadas manifestaram uma forte tendência para a reversão – ou seja, para perder suas características adquiridas, enquanto as condições são mantidas inalteradas e as variedades são mantidas em um grupo consideravelmente grande, para que o cruzamento livre possa cancelar, por meio da mistura, qualquer pequeno desvio de estrutura –, então, nesse caso, garanto que não poderíamos deduzir nada sobre as espécies com base nas variedades domésticas.”
“Devo acrescentar que, quando em estado natural, as condições de vida são alteradas e provavelmente ocorrem variações e reversões das características, mas a seleção natural, como explicado mais adiante, determina até que ponto as novas características que assim surgem devem ser preservadas.”
“os naturalistas diferem bastante em relação à determinação das características de valor genérico, pois todas essas avaliações são até agora empíricas.”
“Seria muito interessante se pudéssemos esclarecer (…) se (…) o galgo, o bloodhound,(*) o terrier, o spaniel e o buldogue – que, como todos sabemos, propagam sua espécie de forma tão exata – são descendentes de uma única espécie. Tais fatos teriam grande peso para fazer-nos duvidar da imutabilidade das muitas espécies naturais muito afins, como, por exemplo, o caso das muitas raposas que habitam diferentes regiões do mundo. Eu não acredito, como veremos em breve, que todos os nossos cães sejam descendentes de apenas uma espécie selvagem; mas, no caso de algumas outras raças domésticas, existem provas circunstanciais ou até mesmo fortes evidências a favor dessa perspectiva.” Todo puro-sangue é na verdade um vira-lata laureado.
(*) Bloodhound: “cão de santo Humberto”. “Manterei o nome das raças inglesas em sua língua original, exceto o bulldog, que foi dicionarizado como buldogue.”
“Costuma-se supor que o homem optou pela domesticação de animais e plantas que possuíam uma extraordinária tendência inerente para variar e, da mesma forma, para resistir a diferentes climas.” Ele não teria como sabê-lo a priori. “quando um selvagem domesticou um animal pela primeira vez, como ele poderia saber se iriam ocorrer variações nas gerações seguintes, ou se este animal resistiria a outros climas?” Talvez porque nunca houve uma primeira vez. O “selvagem” (figura mítica) não saberia nem que diabos é “clima”!
“Não tenho dúvidas de que se outros animais e plantas, em número igual ao de nossas criações domesticadas e igualmente pertencentes a diversas classes e regiões, fossem tirados de seu estado de natureza e se fosse possível fazer com que eles se reproduzissem por um número igual de gerações sob domesticação, eles iriam variar, em média, tanto quanto têm variado as espécies progenitoras de nossas criações domesticadas atuais.” Exemplo: se pudessem criar um urso polar num freezer gigante. Alegar-se-ia que se o faz em zoológicos de países “temperados” (quase polares), mas não é a mesma coisa.
“O principal argumento invocado por aqueles que acreditam na origem múltipla de nossos animais domésticos é o fato de encontrarmos grande diversidade de raças nos registros mais antigos, especialmente nos monumentos do Egito; e que algumas das raças se assemelham e talvez sejam idênticas às ainda existentes. Mesmo que se descobrisse que isso é mais estrita e geralmente verdadeiro do que me parece ser o caso, o que demonstraria, senão que algumas de nossas raças originaram-se naquele local há 4 ou 5 mil anos? [um piscar de olhos insignificante] Mas as pesquisas do senhor Horner [(1785-1864), geólogo escocês] mostram a possibilidade de que homens suficientemente civilizados possam ter fabricado a cerâmica existente no vale do Nilo há 13 ou 14 mil anos; assim, quem poderá afirmar quanto tempo antes desses períodos antigos já havia selvagens, assim como já existiam na Terra do Fogo ou na Austrália, que possuíam cães semidomesticados no Egito?(*)” Nunca confiar nos capciosos egípcios.
(*) “Darwin está respondendo a réplicas de autoridades eclesiásticas, desafiadas pelos achados da invasão de Napoleão no Egito.” De novo Napoleão!
“…é altamente provável que nossos cães domésticos sejam descendentes de várias espécies selvagens.(*)
(*) Estudos moleculares modernos falharam em elucidar claramente a origem do cão doméstico, mas provavelmente a hipótese de Darwin se mantém válida, havendo indicações de mais de um evento de domesticação no passado, possivelmente há 33 mil anos, sendo que a(s) espécie(s) ancestral(is) teria(m) sido extinta(s).” Der Urhund oder die Urhunde?

“[Já] no que diz respeito aos cavalos, por razões que não posso oferecer aqui, estou mesmo inclinado a acreditar, em oposição a vários autores, que todas as raças descendem de um único grupo selvagem. O senhor Blyth,¹(*) cujo parecer, fruto de seu grande e variado conhecimento, eu devo valorizar mais do que a opinião de qualquer outra pessoa, acredita que todas as raças de galinhas originam-se da ave indiana selvagem comum (Gallus bankiva).(**)”
¹ Doctor Blyth! Será Togashi tão versado e eclético?!
(*) “Edward Blyth (1810-1873), zoólogo inglês, curador do museu da Sociedade Asiática Real de Bengala, em Calcutá, na Índia”
(**) “A nomenclatura moderna para o galo banquiva é Gallus gallus bankiva, uma subespécie do galo vermelho selvagem (Gallus gallus). O galo doméstico (Gallus gallus domesticus) é considerado outra subespécie, que não deriva diretamente do galo banquiva, de acordo com estudos moleculares recentes de DNA mitocondrial, embora tenham parentesco próximo.”
“A doutrina segundo a qual as nossas várias raças domésticas teriam se originado de várias unidades populacionais aborígenes foi levada a um absurdo extremo por alguns autores. Eles acreditam que todas as raças que conseguem se reproduzir de forma correta, mesmo que suas características distintivas sejam extremamente sutis, possuem um protótipo selvagem. Segundo este raciocínio, é preciso que tenha existido pelo menos uma vintena de espécies de gado selvagem, o mesmo número de ovelhas e vários tipos de cabras somente na Europa e outras várias apenas dentro da Grã-Bretanha. Um desses autores acredita que, somente na Grã-Bretanha, existiram onze espécies únicas de ovelhas selvagens! Quando levamos em conta que o país atualmente mal possui um mamífero peculiar, que a França tem apenas alguns diferentes da Alemanha e vice-versa e que o mesmo vale para a Hungria, Espanha, etc., e que, além disso, se notarmos que cada um desses reinos possui diversas raças peculiares de gado, ovelhas, etc., então devemos aceitar que muitas raças domésticas originaram-se na Europa; pois, de onde mais poderiam ter surgido, já que nenhum entre esses vários países conta com um número de espécies peculiares que suporte grupos ancestrais distintos?”

“Quem pode acreditar que animais tão parecidos com o galgo italiano, o bloodhound, o buldogue, o spaniel de Blenheim, (imagem) etc., que são tão diferentes de todos os Canidae selvagens, tenham existido livremente em estado natural?”
“J. Sebright realizou experimentos com esse objetivo específico e fracassou.” (criar deliberadamente novas raças de cães) “A prole do primeiro cruzamento entre duas raças puras é tolerável e, às vezes (como observei entre os pombos), extremamente uniforme, e tudo parece suficientemente simples; mas quando esses mestiços são cruzados uns com os outros por várias gerações, dificilmente teremos dois espécimes iguais e, desse modo, a tarefa se mostra extremamente difícil, ou melhor, totalmente desencorajadora.”
Sobre as raças de pombos domésticos
“Acreditando que é sempre melhor estudar um grupo especial, escolhi, após refletir sobre o assunto, os pombos domésticos. Além de ter mantido todas as raças que consegui comprar ou obter, também fui generosamente agraciado com espécimes empalhadas vindas de várias regiões do mundo, mais especialmente da Índia e da Pérsia, enviadas pelos honoráveis W. Elliot e C. Murray, respectivamente. Muitos tratados sobre pombos foram publicados em diferentes línguas, alguns deles são muito importantes por serem consideravelmente antigos. Associei-me a vários grandiosos criadores e fui aceito em dois clubes londrinos de criadores de pombos.”
(*) “English carrier, em inglês. Os nomes das linhagens de pombos ingleses serão dados em sua língua original, exceto o pombo-correio (carrier) e o pombo-das-rochas (rock pigeon, rock dove), também conhecido como pombo comum, pombo doméstico ou por seu nome binomial Columba livia. (N. T.)”

“short-faced tumbler”
Muitas aves batizam redes sociais. Redes sociais gospel! Uma IA antropomorfizada chamada Paloma para um app de relacionamentos só para crentelhos!… Pare com essas idéias já, laico herege!

Pouter
“O pombo-correio, mais especialmente o macho, também é notável pelo maravilhoso desenvolvimento de uma carúncula em torno da cabeça, e isso é acompanhado por pálpebras muito alongadas, narinas muito grandes e uma abertura ampla do bico.” “O pombo barb é afim do pombo-correio mas, em vez de ter bico muito longo, tem um bico muito curto e muito largo. O pouter tem corpo, asas e pernas muito alongados; seu papo extremamente desenvolvido, que ele infla com orgulho, bem pode causar espanto e até mesmo risos.” “O jacobin tem as penas ao longo da parte dorsal do pescoço tão invertidas a ponto de formarem uma capa, e ele tem, proporcionalmente ao seu tamanho, penas muito alongadas nas asas e na cauda. O trumpeter e o laugher, conforme indicado por seus nomes, proferem sons muito diferentes dos emitidos pelas outras raças. O fantail tem 30 ou até mesmo 40 penas na cauda, em vez de 12 ou 14, o número normal para todos os membros da grande família dos pombos; além disso, essas penas são mantidas abertas e são tão eretas que, em aves bem formadas, a cabeça e a cauda se tocam; a glândula de óleo(*) é bastante atrofiada.
(*) Trata-se da glândula uropigiana, que produz um muco oleoso, espalhado com o bico sobre as penas para impermeabilizá-las. Darwin dedicou especial atenção a órgãos atrofiados, que causavam desconforto aos naturalistas anglicanos da tradição aristotélica.”
“O tamanho e a forma das cavidades torácicas são altamente variáveis; o mesmo vale para o grau de divergência e tamanho relativo dos dois ramos da fúrcula.(*) A largura proporcional da abertura da boca, o comprimento proporcional das pálpebras, do orifício das narinas, da língua (nem sempre em estrita correlação com o comprimento do bico), o tamanho do papo e da parte superior do esôfago; o desenvolvimento e a atrofia da glândula sebácea; o número de penas primárias da asa e da cauda; o comprimento relativo entre as asas, a cauda e o corpo; o comprimento relativo entre pernas e pés; o número de pequenas escamas nos dedos, o desenvolvimento da pele entre os dedos, são todos pontos variáveis da estrutura. O período dentro do qual a plumagem perfeita é adquirida varia, e o mesmo vale para o estado de cobertura da plumagem das aves filhotes ao nascerem. A forma e o tamanho dos ovos variam. A forma do voo difere bastante, o que também ocorre, em algumas linhagens, com a voz e a disposição. Por fim, em determinadas linhagens, machos e fêmeas são levemente diferentes.
(*) Trata-se do osso popularmente conhecido como ‘forquilha’.”
“Mesmo que as diferenças entre as linhagens de pombos sejam grandes, estou totalmente convencido de que a opinião comum dos naturalistas está correta, ou seja: todas elas descendem do pombo-das-rochas (Columba livia)(*)” Vemos que nessa época os naturalistas estavam para os ornitólogos (meros catalogadores) como os filósofos estão para os filólogos.
(*) “Darwin compartilhava a ideia dos criadores de seu tempo, a qual foi confirmada por grande número de estudos posteriores, inclusive recentes. Algumas subespécies da atualidade podem ser linhagens ferais, ou seja, originadas de indivíduos domesticados que passaram a viver livremente e que, com o passar das gerações, manifestam algumas características selvagens.”
“Além disso, ao cruzarmos duas aves pertencentes a duas linhagens distintas, sendo que nenhuma delas é azul nem tem qualquer uma das marcas especificadas acima, a prole mestiça fica repentinamente bastante apta a adquirir essas características; por exemplo, eu cruzei alguns fantails uniformemente brancos com alguns barbs uniformemente pretos e eles produziram aves malhadas de castanho e aves pretas; em seguida, cruzei estas aves novamente. Um dos netos do fantail branco e do barb preto nasceu com uma bela cor azul, com a anca branca, uma dupla faixa preta nas asas e barradas e penas afiladas de branco na cauda, como qualquer outro pombo-das-rochas selvagem!”
“falo em 12 ou 20 gerações pois não conhecemos casos de descendentes que tenham revertido para algum ancestral separado por um número maior de gerações. No caso de uma linhagem que tenha sido cruzada apenas uma vez com uma linhagem distinta, a tendência de reversão para quaisquer características derivadas de tal cruzamento será, naturalmente, cada vez menor, pois em cada nova geração haverá menos sangue alheio; mas quando não houve nenhum cruzamento com uma linhagem distinta e há em ambos os pais a tendência de reversão das características perdidas em alguma geração anterior, então essa tendência (apesar de toda evidência contrária) pode ser transmitida sem alterações para um número indefinido de gerações.”
“Por último, os híbridos ou mestiços de todas as linhagens domésticas de pombos são perfeitamente férteis. Posso afirmar isso com base em minhas próprias observações, propositadamente feitas com as mais diferentes linhagens. Agora, é difícil, talvez impossível, apresentar algum caso de descendentes híbridos e perfeitamente férteis gerados por dois animais claramente distintos.”
“Em quarto lugar, os pombos têm sido acompanhados e cuidados com muita dedicação, bem como amados por muitas pessoas. Eles têm sido domesticados há milhares de anos em várias regiões do mundo; o registro mais antigo relacionado aos pombos pode ser encontrado na quinta dinastia egípcia, por volta de 3000 a.C., como foi dito para mim pelo professor Lepsius;(*) mas o senhor Birch(**) informou-me que os pombos aparecem em um cardápio da dinastia anterior. Nos tempos dos romanos, como ouvimos de Plínio, os pombos atingiam preços altíssimos; ‘além disso, chegaram ao ponto de darem conta do pedigree e da raça dos pombos’.
(*) Karl Richard-Lepsius (1810-1884), arqueólogo alemão.
(**) Samuel Birch (1813-1885), egiptólogo inglês.”
“Há uma circunstância bastante favorável para a produção de linhagens distintas: pombos machos e fêmeas podem, facilmente, formar casais para toda a vida; e, assim, diferentes linhagens podem ser mantidas juntas no mesmo aviário.” Incesto (digamos endogenia, pois o conceito é impróprio para animais, que não estão na esfera ética) e seus males.
“Tratei da provável origem dos pombos domésticos de forma um pouco longa, mas bastante insuficiente; a primeira vez que criei pombos e observei os vários tipos, sabendo bem que as crias mantêm as características dos pais, senti extrema dificuldade em acreditar que eles pudessem ser descendentes de um pai comum, como poderia ocorrer com qualquer naturalista ao chegar a uma conclusão semelhante em relação às muitas espécies de tentilhões ou outros grandes grupos de aves, na natureza. Uma circunstância me impressionou muito: todos os criadores dos vários animais domésticos e os cultivadores de plantas com quem conversei, ou cujos tratados li, estão firmemente convencidos de que as várias linhagens tratadas por cada um deles são descendentes de espécies aborígenes distintas. Pergunte, como eu perguntei, a um célebre criador de gado hereford se o seu gado poderia ser descendente da raça longhorn, e ele rirá de você com desprezo. Nunca conheci um apreciador de pombos, galináceos, patos ou coelhos que não estivesse totalmente convencido de que cada linhagem principal é descendente de uma espécie distinta. Jean Baptiste van Mons (1765-1842) mostra, em seu tratado sobre as pêras e as maçãs, quão grande é sua descrença na possibilidade de que os vários tipos, por exemplo, de maçãs ribston-pippin ou codlin, possam ter procedido das sementes de uma mesma árvore. (…) por conta de seus estudos contínuos e prolongados, eles ficaram fortemente impressionados com as diferenças entre as diversas raças; e embora eles bem saibam que cada raça varia ligeiramente, pois eles ganham seus prêmios ao selecionar essas pequenas diferenças, eles ainda ignoram todos os argumentos gerais, eles se recusam a sintetizar em suas mentes as pequenas diferenças acumuladas durante muitas gerações sucessivas. Será que aqueles naturalistas – que sabem muito menos sobre as leis da hereditariedade do que os criadores e que sabem tanto quanto eles sobre as conexões intermediárias das longas linhas de descendência, mas que, mesmo assim, admitem que muitas de nossas raças domésticas são descendentes dos mesmos pais – não poderiam aprender a ter cautela quando zombam da ideia de espécies em estado natural serem descendentes lineares de outras espécies?” Darwin não liga para erros de amadores, por mais crassos: mas que alguns naturalistas (supostos cientistas) ajam de maneira mais estúpida que os mais sábios dos colecionadores ou que todo colecionador com bom senso e capacidade de síntese, isso sim é indigno para a profissão e para um homem!
Seleção
Eu nem sabia que existem raças que são usadas como cavalos de carga que morreriam ou seriam péssimas disputantes como cavalos de corrida, e vice-versa…
“Não supomos que todas as linhagens tenham sido produzidas repentinamente da forma tão perfeita e útil como as vemos hoje; com efeito, sabemos que em vários casos essa não é sua história. A chave da questão é o poder do homem para realizar uma seleção acumulativa: a natureza nos dá as sucessivas variações; o homem adiciona variações em determinadas direções úteis para si. Nesse sentido, pode-se dizer que o homem produz linhagens úteis para si mesmo.”
“É certo que vários dos nossos maiores criadores conseguiram modificar algumas raças de gado e ovelhas de forma significativa, mesmo no período de uma única vida humana. Para compreendermos bem o que eles fizeram, é quase necessário lermos alguns dos muitos tratados dedicados ao assunto e avaliar os próprios animais. Os criadores costumam referir-se aos organismos dos animais como algo plástico que pode ser modelado quase que da forma que desejarem.” O problema é que havia não-cientistas já cientes do processo de seleção, mas que se imaginavam deuses por poder manipular à vontade a seleção natural mediante sua mesquinha seleção artificial. Pequenos homens! Num mundo em eterno retorno, quantas variantes de cabeças, bicos, penas, garras de pássaros vocês não acham que existem por mero atavismo?!?
“É a varinha do mágico, por meio da qual ele pode trazer à vida quaisquer formas e modelos que desejar.” Youatt, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual. Londres: Baldwin and Cradock, 1837, p. 60.
“Na Saxônia, a importância do princípio da seleção em relação às ovelhas merino é tão plenamente reconhecida que os homens o seguem como um negócio: as ovelhas são colocadas em uma mesa e são analisadas assim como um especialista estuda uma pintura; isso é feito três vezes, com intervalos de meses; nesses períodos as ovelhas são marcadas e classificadas para que a melhor seja, por fim, selecionada para reprodução.”
“A melhoria não se deve de uma forma geral ao cruzamento de raças diferentes; todos os melhores criadores opõem-se fortemente a esta prática, exceto às vezes entre sub-raças muito próximas. E quando esse tipo de cruzamento é realizado, eles devem fazer uma seleção muito mais rigorosa do que a realizada nos casos normais. Se a seleção consistisse em apenas separar alguma variedade bastante distinta e reproduzir a partir dela, o princípio seria tão óbvio que nem valeria a pena ser notado; mas sua importância consiste no grande resultado produzido pela acumulação em uma única direção, durante sucessivas gerações, de diferenças absolutamente inapreciáveis para os olhos incultos; diferenças que eu tentei apreciar em vão.” O achatamento do focinho dos fofos lhasas e shitzus: muita endogamia, endogamia contínua da prole que surgisse com focinhos mais achatados que os de seus irmãos, etc.
“Nem um homem em mil tem olhos tão precisos e é tão criterioso para se tornar um importante criador.” Está mais para croupier.
“Os mesmos princípios são seguidos pelos horticultores; mas as variações nesse campo são frequentemente mais abruptas.” É como pular de romances franceses dum mesmo século direto para HQs e mangás: claro que a diferença se torna muito mais pronunciada entre cada “produção”.
“Se compararmos as flores dos dias atuais com os desenhos feitos apenas há vinte ou trinta anos, notaremos uma melhora surpreendente nas flores de muitos floristas.” Imagina como os lótus da Índia Antiga deviam ser feios… A não ser… quantos milhares de anos de “seleção humana” já haviam transcorrido antes dos Vedanta?
“Quando uma raça de plantas já está bem-estabelecida, os produtores de sementes já não escolhem as melhores plantas, mas vão simplesmente até suas plantações e arrancam as ‘daninhas’ (rogues), como eles chamam as plantas que se desviam do padrão adequado.” “quase ninguém é tão descuidado a ponto de permitir que seus piores animais procriem.(*)
(*) [Crux!] Darwin utilizará essa frase novamente em 1871, em seu livro Origem do homem, ao abordar a questão da eugenia: ‘Mas, com exceção do caso do próprio homem, dificilmente alguém é tão ignorante para permitir que seus piores animais procriem’.” O pior é não estabelecer compulsoriamente que aristocratas devam se casar com plebeus e somente com eles! Em pouco tempo os neo-aristocratas melhorarão consideravelmente…

“amor-perfeito (Viola tricolor)”
“note como os frutos dos vários tipos de groselheiras diferem em tamanho, forma, cor e pilosidade, mas, mesmo assim, como suas flores apresentam diferenças muito pequenas. Não podemos dizer que as variedades muito diferentes em alguma característica não tenham quaisquer diferenças em outras características; isso quase nunca, ou talvez nunca, ocorre.”
“É possível rejeitar o princípio da seleção ao afirmar que ele se tornou uma prática metódica há apenas pouco mais de três quartos de século; certamente demos maior atenção a ele nesses últimos anos e muitos tratados têm sido publicados sobre o assunto; posso ainda acrescentar que o resultado disso tem sido correspondentemente rápido e importante. Mas está muito longe de ser verdade que o princípio é uma descoberta moderna.”
“O princípio da seleção encontra-se claramente apresentado em uma antiga enciclopédia chinesa.” Mas aqui seleção quer dizer algo muito simples.
“Certas passagens do Gênesis não deixam dúvidas de que, já naquele tempo, cuidava-se da cor dos animais domésticos. Os selvagens atuais às vezes cruzam seus cães com animais caninos selvagens para melhorar a raça, e faziam o mesmo no passado, conforme podemos ler em certas passagens de Plínio, o Velho. [bibliografia não-confiável]”
“As alterações lentas e insensíveis deste tipo nunca poderiam ser reconhecidas, a menos que medições reais ou desenhos impecáveis das linhagens em questão já viessem sendo feitos há muito tempo para que pudéssemos compará-las.” Às vezes esqueço que D. não tinha sequer a arte da fotografia a seu dispor.
“Por um processo semelhante de seleção e pelo treinamento cuidadoso, os cavalos de corrida ingleses superam sua linhagem árabe paterna em velocidade e tamanho, ao ponto de esta última, de acordo com os regulamentos das corridas de Goodwood, ser favorecida pelo peso que carrega.”
“Youatt oferece uma excelente ilustração dos efeitos de um processo de seleção que pode ser considerado inconsciente, já que os criadores não esperavam, ou nem mesmo desejavam, ter produzido o resultado que se seguiu, a saber, a produção de duas linhagens distintas. Os dois rebanhos de ovelhas leicester mantidos pelos senhores Buckley e Burgess, conforme observa o senhor Youatt, ‘foram criados a partir de linhagens puras do grupo de animais originais do senhor Bakewell por mais de 50 anos. Dentre aqueles que estão familiarizados com o caso, não há a mínima suspeita de que os proprietários desses dois rebanhos tenham se desviado do rebanho puro-sangue do senhor Bakewell mas, ainda assim, a diferença entre as ovelhas de cada um desses dois senhores é tão grande que elas parecem ser variedades completamente diferentes’.”
“Mesmo que existam selvagens tão bárbaros a ponto de nunca pensarem sobre as características herdadas dos descendentes de seus animais domésticos, um animal que seja particularmente útil a eles para qualquer finalidade especial será cuidadosamente preservado durante períodos de carestia e outras adversidades às quais os selvagens estão tão expostos, e esses melhores animais geralmente deixariam, dessa forma, mais descendentes do que os inferiores a eles; assim, estaríamos neste caso observando um tipo de seleção inconsciente.”
“em tempos de escassez, eles matam e devoram as mulheres velhas, pois elas têm menos valor que seus cães.(*)” Qualquer inglês metendo-se a antropólogo antes do século XX só fala asneiras.
(*) “Darwin reproduz informação recebida na viagem do Beagle, um mito repetido desde o século XVI. Em 1888, ficou bem estabelecido ser totalmente falso.”
“Ninguém espera obter um amor-perfeito de primeira qualidade ou uma dália a partir da semente de uma planta selvagem. Ninguém espera obter uma pêra que derrete na boca e de primeira qualidade a partir da semente de uma pêra selvagem, embora se possa ter sucesso a partir de uma muda de sementes fracas que estivesse crescendo em local selvagem, mas cuja origem fosse uma espécie doméstica. A pêra, embora cultivada na época clássica, parece, pela descrição de Plínio, ter sido um fruto de qualidade muito inferior.”
“Já que foram necessários séculos ou milhares de anos para aprimorar ou modificar a maioria de nossas plantas até seu presente padrão de utilidade para o homem, então podemos entender por que não recebemos nem uma única planta de cultivo da Austrália, do Cabo da Boa Esperança ou de qualquer outra região habitada por homens incivilizados. Não que esses países, tão ricos em espécies, não possuam por um estranho acaso¹ os grupos aborígenes de quaisquer plantas úteis, mas as plantas nativas não foram aprimoradas pela seleção contínua até atingirem um padrão de perfeição comparável ao oferecido, na Antiguidade, às plantas dos países civilizados.”
¹ Na verdade foi o europeu que sempre arruinou seu solo, pois não passa de um bárbaro que se cultivou às expensas dos asiáticos e africanos, incluindo aí o atual território da Grécia.
“O homem dificilmente pode selecionar, ou só com muita dificuldade, qualquer desvio de estrutura, excetuando aqueles que são externamente visíveis; e de fato ele raramente se importa com o que é interno. O homem somente consegue agir por meio da seleção após ter visto algum tipo de modificação ligeira ocorrida na natureza.”
“Mas utilizar a expressão ‘tentar criar um fantail’ é, não tenho dúvidas, na maioria dos casos, totalmente incorreto.” Tirou as palavras de minha boca.
“faz parte da natureza humana valorizar quaisquer novidades, mesmo que pequenas, daquilo que tem em mãos.” Na era da reprodutibilidade técnica, ainda mais.
“O ganso comum não deu origem a qualquer grande variedade; por isso a linhagem comum e a linhagem thoulouse, que diferem apenas na cor (a característica mais fugaz de todas), têm sido apresentadas nas exposições de aves domésticas como se fossem linhagens distintas.” Ué, mas você acabou de dizer que são linhagens distintas!
“não sabemos nada sobre a origem ou a história de nossas linhagens domésticas.” Não sabemos de porra nenhuma, nunca. Primeira lição!
“Mas, na verdade, dificilmente podemos dizer que uma linhagem, assim como o dialeto de uma língua, tenha uma origem definitiva.” Golpe de gênio.
“A manutenção de um grande número de indivíduos de uma espécie em uma região requer que as espécies sejam expostas a condições favoráveis de vida, a fim de procriarem livremente naquela região.”
“Já vi comentado de forma muito séria que, afortunadamente, os morangos apenas passaram a variar quando os horticultores começaram a cuidar dessa planta com mais atenção. Sem dúvida, desde que são cultivados, os morangos sempre variaram, mas as pequenas variações foram negligenciadas.” “as muitas variedades admiráveis de morango dos últimos trinta ou quarenta anos.” Love is red.
“Os pombos podem formar casais por toda a vida; isso é bastante conveniente para os apreciadores, pois assim muitas raças podem ser mantidas puras, mesmo que convivam no mesmo aviário; e esta circunstância deve ter favorecido bastante o aprimoramento e a formação de novas linhagens.” Na verdade segundo sua própria teoria teria criado mais monstruosidades… Sobre o acasalamento em família, Plínio estava certo!
“Por outro lado, os gatos, por causa de seus hábitos noturnos e de perambularem, não podem ser facilmente cruzados e, embora muito valorizados pelas mulheres e crianças, raramente vemos uma linhagem distinta; as linhagens por vezes encontradas quase sempre são importadas de outros países, muitas vezes de ilhas. Embora eu não duvide de que alguns animais domésticos variem menos do que outros, a raridade ou ausência de raças distintas de gatos, burros, pavões, gansos, etc. pode ser atribuída principalmente ao fato de a seleção não ter sido posta em prática: nos gatos, por causa da dificuldade de acasalamento; nos burros, por serem criados por pessoas pobres e da pouca atenção que é dada à sua reprodução; nos pavões, por sua difícil criação e pela manutenção de pequenos grupos; nos gansos, por serem valiosos apenas para duas finalidades, alimento e penas; e, de forma mais específica, porque as pessoas não sentem prazer em exibir raças distintas deste animal.” Quanto ódio ao bichinho!
2. A VARIAÇÃO NA NATUREZA
(*) “O termo ‘monstruosidades’ (grego terata) foi utilizado por Aristóteles para designar os seres com órgãos sem finalidade de linhagens domésticas, como a planta que produz a couve-flor. O termo foi continuamente utilizado pelos naturalistas, inclusive por Lineu.”
(*) “John Lubbock (1834-1913), entomologista e antropólogo, um jovem brilhante que freqüentava a casa de Darwin, tendo sido por ele muito estimulado. De uma família de banqueiros, seguiu carreira nas finanças, mas também se tornou um cientista evolucionista muito respeitado.”
(*) “Lubbock publicou, em 1858, estudos sobre a anatomia interna de um inseto conhecido como cochonilha (à época, chamado Coccus hesperidium), de grande interesse econômico, de onde se extrai um corante vermelho (ácido carmínico) com largo emprego até hoje, inclusive na indústria alimentícia (corante E 120). Em seu artigo, ele escreveu que ’o sistema nervoso, longe de ser similar em todos os espécimes, variava de maneira muito extraordinária’.”
“Os gêneros que são polimórficos em uma região parecem ser, com algumas poucas exceções, polimórficos em outras regiões e, julgando pelas conchas dos braquiópodes, também em períodos anteriores. Esses fatos são muito desconcertantes, pois parecem mostrar que esse tipo de variabilidade independe das condições de vida. Estou inclinado a suspeitar que observamos nestes gêneros polimórficos variações em pontos da estrutura que não servem nem prejudicam a espécie e que, conseqüentemente, não foram tomadas nem aceitas como definitivas pela seleção natural, como será explicado daqui por diante.”
“Na prática, quando um naturalista consegue, por meio de formas com características intermediárias, unir duas formas, ele tratará uma como sendo variedade da outra, chamando de espécie a mais comum (ou às vezes aquela que foi descrita em primeiro lugar) e a outra de variedade.”
“Compare a flora da Grã-Bretanha, da França ou dos Estados Unidos descrita por diferentes botânicos e note o número surpreendente de formas que foram classificadas por um botânico como uma espécie boa e por outro como mera variedade.”
(*) “Hewett Cottrell Watson (1804-1881), botânico pioneiro no estudo da distribuição das plantas (biogeografia) que se correspondeu intensamente com Darwin; publicou os relatos de sua expedição feita em 1842 aos Açores e, em 1845, publicou na revista Phytologist um artigo sobre Desenvolvimento Progressivo.”
“Há muitos insetos nas ilhotas do pequeno grupo da Madeira que foram caracterizados como variedades na admirável obra do senhor Wollaston mas que, sem sombra de dúvida, seriam classificados como espécies distintas por muitos entomologistas. Até mesmo a Irlanda tem alguns animais que são geralmente considerados como variedades mas que foram classificados como espécies por alguns zoólogos. Vários dos ornitólogos mais experientes consideram nosso faisão vermelho (L. lagopus) como apenas uma raça fortemente distinta de uma espécie norueguesa, mas a maioria o classifica como uma espécie indubitável e peculiar à Grã-Bretanha.”
“A distância entre a América e a Europa é grande, mas será que é suficiente a distância entre o continente e os Açores ou a ilha da Madeira, as Canárias ou a Irlanda?”
“Certamente, ainda não há uma linha clara de demarcação entre espécies e subespécies, isto é, entre as formas que, na opinião de alguns naturalistas, estejam muito próximas mas não cheguem a compor uma espécie; ou, além disso, entre subespécies e variedades bem-marcadas, ou entre as variedades menores e as diferenças individuais. Essas diferenças misturam-se entre si em uma série imperceptível; e a série imprime na mente a ideia de uma passagem real.”
“A passagem de uma fase de diferenciação para outra mais elevada pode se dever, em alguns casos, apenas à longa ação contínua de diferentes condições físicas de duas regiões diferentes; mas eu acredito muito pouco neste ponto de vista; e eu atribuo a passagem de uma variedade – que migra de um estado em que ela difere ligeiramente de seus progenitores para outro em que a diferença é maior – à ação da seleção natural, que acumula (como será daqui por diante mais plenamente explicado) diferenças de estrutura em determinadas direções definitivas.”
“Se uma variedade florescesse a ponto de ultrapassar o número de indivíduos da espécie materna, então aquela seria classificada como a espécie e a espécie como a variedade; ou ela poderia suplantar e exterminar a espécie materna; ou ambas poderiam coexistir, e ambas seriam classificadas como espécies diferentes.”
“Dessa forma, as que mais florescem ou, conforme dizemos, as espécies dominantes – aquelas que estão amplamente distribuídas por todo o mundo – são as mais difundidas em sua própria região e são as que possuem maior número de indivíduos, que com maior freqüência produzem variedades bem-marcadas ou, conforme eu as chamo, espécies incipientes.”
Um livro muito mais confuso, sem a atmosfera de clássico, do que eu poderia imaginar.
John Obadiah Westwood (1805-1893), An Introduction to the Modern Classification of Insects: founded on the natural habits and corresponding organization of the different families, Londres, 1839-1840.
“Os gêneros maiores, portanto, tendem a tornar-se ainda maiores; e, em toda a natureza, as formas de vida que agora são dominantes tendem a tornar-se ainda mais dominantes, deixando muitos descendentes dominantes modificados. Mas, por etapas que serão explicadas adiante, os gêneros maiores também tendem a se dividir em gêneros menores. E, assim, as formas .de vida em todo o universo tendem a se dividir em grupos subordinados a outros grupos.” Mistura abstrações que extrapolam com constatações um tanto óbvias.
3. LUTA PELA EXISTÊNCIA
“Já vimos que, por meio da seleção, as pessoas conseguem produzir grandes resultados e adaptar os seres orgânicos para seu próprio uso através da acumulação de pequenas, mas úteis, variações, dadas a eles pelas mãos da Natureza. No entanto a seleção natural, como veremos adiante, é um poder que está sempre pronto para agir e é imensamente superior aos fracos esforços do ser humano, da mesma forma como o são as obras da Natureza quando comparadas às obras de arte. § Trataremos agora um pouco mais detalhadamente da luta pela existência. Esse assunto será discutido com mais abrangência em uma obra futura, conforme ele bem merece.” Sempre com essas evasivas e adiamentos…
“Costumamos ver a face lustrosa da natureza com alegria, muitas vezes vemos a superabundância de alimentos; mas não vemos, ou esquecemos, que os pássaros, que cantam à toa em nosso entorno, vivem principalmente de insetos ou sementes e estão, portanto, constantemente destruindo a vida (…) nem sempre temos consciência de que, embora a comida possa ser superabundante no presente, isso não é o que ocorre em todas as estações de cada novo ano.
Devo estabelecer que uso o termo luta pela existência em sentido amplo e metafórico, que inclui a dependência de um ser em relação a outro e, ainda mais importante, que inclui não só a vida do indivíduo, mas o sucesso em deixar descendentes.”
“É a teoria de Malthus aplicada com forças múltiplas a todo o mundo dos reinos animal e vegetal; pois não há neste caso como ocorrer nenhum aumento artificial da quantidade de alimentos nem restrições discricionárias aos casamentos.”
“Lineu calculou que, se uma planta anual produzir apenas duas sementes (sendo que não existe qualquer planta tão improdutiva como essa), suas mudas produzirão mais duas no ano seguinte e assim por diante e, em vinte anos, haverá 1 milhão de plantas. O elefante é tido como o reprodutor mais lento de todos os animais conhecidos; dei-me ao trabalho de estimar sua provável taxa mínima de crescimento natural: admitindo que sua reprodução comece aos trinta anos e continue até noventa, dando à luz três pares de jovens reprodutores neste intervalo; se fosse assim, no final do quinto século haveria 15 milhões de elefantes vivos descendentes do primeiro casal.”
“se as declarações sobre a taxa de aumento do gado e de cavalos na América do Sul e mais tarde na Austrália não estivessem tão bem-documentadas, seria bastante difícil dar crédito a elas.” Só tem crédito o que fede a Europa?
“Várias das plantas mais numerosas atualmente na grande planície de La Plata, cobrindo algumas léguas quadradas da superfície e quase à exclusão de todos os outros vegetais, foram trazidas da Europa;(*) e existem plantas – importadas da América desde a sua descoberta – que hoje estão distribuídas pela Índia e, pelo que eu soube pelo doutor Falconer, espalham-se desde o Cabo Comorin até o Himalaia.
(*) Darwin se baseia na opinião dos botânicos da época, inclusive Lineu, sobre as gramíneas sul-americanas. Hoje se sabe que este exemplo não é correto. No entanto o argumento geral é válido, como em Galápagos, onde há centenas de espécies invasoras, inclusive a goiabeira.”
“Em tais casos, a progressão geométrica do aumento, cujo resultado nunca deixa de ser surpreendente, simplesmente explica o crescimento extraordinariamente rápido de indivíduos e a ampla difusão desses seres vivos em seus novos lares.”
“Nossa familiaridade com os animais domésticos maiores tende, assim imagino, a nos enganar: não vemos neles nenhuma grande destruição e esquecemos que milhares são abatidos anualmente para nos alimentar; além disso, em estado natural, um número igual de organismos também é eliminado de alguma forma.”

“A única diferença entre organismos que produzem anualmente milhares ou apenas alguns poucos ovos ou sementes é que os procriadores lentos precisariam de alguns anos a mais para povoar, em condições favoráveis, uma região inteira, mesmo que esta fosse enorme. O condor bota um par de ovos e o avestruz, vinte, e, ainda assim, na mesma região o condor pode ser o mais numeroso dos dois; a procelária (imagem, também conhecida como pardela-preta) coloca apenas um ovo, e acredita-se no entanto que seja a ave mais numerosa do mundo. Certa mosca deposita centenas de ovos, e outras, como as da família Hipobboscidae, um único; mas essa diferença não determina quantos indivíduos das duas espécies podem ser mantidos em uma região.”
“a verdadeira importância de um grande número de ovos ou sementes é compensar a grande destruição que pode ocorrer em algum período da existência; e, na grande maioria dos casos, este período ocorre na fase inicial da vida.” “Para manter o número total de uma árvore que viva mil anos, em média, basta que uma única semente seja produzida uma vez a cada mil anos, supondo que esta semente nunca seja destruída e haja garantia de que germinará em local adequado. Assim, em todos os casos, o número médio de indivíduos de qualquer animal ou planta depende apenas de forma indireta do número de ovos ou sementes produzidos por ele.” De acordo, mas isso é lógica de jardim-de-infância.
“Diminua um obstáculo, mitigue levemente a destruição e o número das espécies aumentará quase instantaneamente para quantidades cada vez maiores. A face da Natureza pode ser comparada a uma superfície macia coberta com 10 mil cunhas¹ afiadas e muito próximas umas das outras, as quais são empurradas para baixo por golpes incessantes, às vezes uma cunha sendo atingida e, então, outra sendo atingida com mais força.(*)” E para D. essa imagem ainda cheia de candura era terrível!
¹ Instrumento para rachar lenha
(*) “Essa última sentença foi excluída nas edições seguintes.” Alegação de genocídio divino!
“Não sabemos exatamente o que restringe o crescimento, nem mesmo em um único exemplo.”
“No que se refere às plantas, há uma vasta destruição de sementes, mas, a partir de algumas observações que fiz, acredito que as mudas são as que mais sofrem, por germinarem em um terreno que já está densamente ocupado por outras plantas.” “Se deixarmos crescer o gramado cortado há muito tempo – ou mesmo um gramado repisado por quadrúpedes –, as plantas mais vigorosas, mesmo já sendo adultas, gradualmente matarão as menos vigorosas; assim, de 20 espécies que crescerem em uma área gramada (de 3 pés por 4, aproximadamente 1m²), 9 morrerão se deixarmos que outras espécies cresçam livremente.”
“Se nenhuma caça fosse abatida durante os próximos vinte anos na Inglaterra e, ao mesmo tempo, se nenhum predador fosse destruído,(*) haveria, muito provavelmente, um menor número de animais de caça no futuro, apesar de centenas de milhares de animais de caça estarem sendo atualmente abatidos a cada ano.
(*) Darwin refere-se aos animais que prejudicavam os estoques de alimentos, que faziam parte da lista editada por Henrique VIII, em 1532, e ampliada por sua filha, que pagava uma recompensa pelo abate de falcões, raposas, etc., o chamado ‘Vermin Act’. As paróquias que não abatessem predadores eram multadas. Essa caça foi intensa até meados do século XVIII, e quase extinguiu diversos animais ‘nocivos’ na Inglaterra.”
“mesmo o tigre da Índia raramente ousa atacar um elefante jovem protegido por sua mãe.” Culpa humana absoluta.
“as estações periódicas de extremo frio ou as secas, acredito, são os controles mais eficazes de todos. Estimo que o inverno de 1854-1855 destruiu 80% das aves de meu próprio terreno; e essa pode ser considerada uma tremenda destruição quando nos lembramos que 10% constitui uma mortalidade extraordinariamente grave nas epidemias humanas.” Imagine se 1% da população brasileira morresse de Covid… Tudo indica que beiramos esse número… Calamidade.
(*) “Não deixa de ser evidente a visão de Darwin, compartilhando a ideologia da época, de que as plantas europeias exterminariam as dos demais continentes, mas nunca o inverso.” Burrice e prepotência cultivadas em estufa.
“Quando uma espécie, devido a circunstâncias altamente favoráveis, aumenta excessivamente o número de seus indivíduos em uma pequena região, surgem epidemias; pelo menos isso é o que parece acontecer com frequência com nossos animais de caça: e aqui temos um controle limitador que independe da luta pela vida. Mas mesmo algumas dessas epidemias parecem ser causadas por vermes parasitas que – de alguma forma, e possivelmente em parte, através de sua fácil dispersão entre os animais aglomerados – foram desproporcionalmente favorecidos; e nesse caso surge uma espécie de luta entre o parasita e sua presa.”
Animais de pastagem são incríveis predadores até de árvores grandes e não-diretamente relacionadas com sua dieta (pinheiros), pois repisam e revolvem o solo de modo a matar muitas mudas.
“se ocorresse no Paraguai um aumento no número de certas aves insetívoras (cujo limite de indivíduos é provavelmente regulado por falcões ou outros animais predadores), o número de moscas diminuiria, o gado e os cavalos se tornariam selvagens, e isso certamente causaria muitas alterações na vegetação (como de fato tenho observado em partes da América do Sul)”
oportunidade mais (r)adiante
(*) “Note-se o raciocínio da moderna ecologia, ao tratar de cadeias e teias alimentares, quando o nome dessa ciência sequer havia sido criado.” Glorificação injustificada de D.
“A partir de experiências realizadas por mim, descobri que as visitas das abelhas, além de indispensáveis, são, no mínimo, altamente benéficas para a fertilização de nossos trevos; mas apenas as abelhas do gênero Bambus visitam o trevo vermelho, [Trifolium pratense] pois as outras abelhas não conseguem alcançar o seu néctar. Portanto, tenho pouquíssima dúvida de que se todas as abelhas do gênero Bambus desaparecessem ou se tornassem muito raras na Inglaterra, o amor-perfeito e o trevo vermelho também se tornariam raros ou desapareceriam completamente.”
“Percebi que, perto de aldeias e cidades, o número de colmeias dessas abelhas era mais elevado do que em outros lugares. Atribuo esse fato ao número de gatos que matam os ratos.” Newman
“Em todas as partes da Rússia, a pequena barata asiática tem levado consigo sua congênere, a grande. Uma espécie de mostarda substituirá outra, e o mesmo ocorrerá em outros casos. Podemos ver de forma vaga por que a competição é mais severa entre as formas mais próximas, que ocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza;”
“a vantagem de sementes plumadas está indubitavelmente relacionada com o fato de o terreno já estar densamente tomado por outras plantas; as plumas permitem que as sementes sejam levadas para mais longe e caiam em solo desocupado.”
“Observe uma planta na sua região de distribuição; por que ela não duplica ou quadruplica o número de seus indivíduos? Sabemos que ela pode suportar muito bem um pouco mais de calor ou frio, umidade ou secura, pois em outros lugares ela se distribui por regiões ligeiramente mais quentes ou mais frias, mais úmidas ou mais secas. Nesse caso podemos ver claramente que, se quiséssemos imaginar a possibilidade de oferecer à planta o poder de aumentar o número de seus indivíduos, precisaríamos dar-lhe alguma vantagem sobre seus concorrentes, ou sobre os animais que as consomem. Nas fronteiras das regiões de sua distribuição geográfica, uma mudança em sua constituição legada ao clima seria claramente uma vantagem para nossa planta; mas temos razões para acreditar que somente algumas plantas ou alguns animais atingem uma distribuição tão ampla a ponto de poderem ser destruídos apenas pelo clima. A competição não deixará de existir até que cheguemos aos limites extremos da vida, nas regiões do Ártico ou nas fronteiras de uma região completamente desértica. O território pode ser extremamente frio ou seco, mas ainda haverá competição pelos pontos mais quentes ou mais úmidos entre algumas poucas espécies, ou entre os indivíduos da mesma espécie.”
“a guerra da natureza não é incessante, o medo não é sentido, a morte é geralmente rápida e o vigoroso, o saudável e o feliz sobrevivem e se multiplicam.” Diferente do homem.
4. SELEÇÃO NATURAL
“(lembrando que nascem muito mais indivíduos do que os que conseguem sobreviver)” Não a longuíssimo prazo, diria Jack Kerouac…
“As variações que não são úteis nem prejudiciais não seriam afetadas pela seleção natural e funcionariam como um elemento flutuante, conforme notamos, talvez, nas espécies ditas polimórficas.”
“Compreenderemos melhor o caminho provável da seleção natural ao tomarmos como exemplo o caso de uma região que esteja passando por alguma transformação física como, por exemplo, mudanças climáticas.” Ó! Mudanças climáticas, num universo regulado por deus (especificamente, Jeová)?! Que achado!
O excesso de notas de rodapé realmente é um incômodo desnecessário. Não era falsamente que o prefaciador pedia desculpas…
“A seleção sexual é, portanto, menos rigorosa do que a seleção natural.”
“Um cervo sem chifres ou um galo sem esporões teriam poucas chances de deixar descendentes.”
“foi descrito que os jacarés machos brigam, rugem e giram pela posse das fêmeas como os índios em uma dança de guerra(*)
(*) Darwin repassa a informação sem investigá-la. Provavelmente se refere aos jacarés da Flórida (aligátores), cujos machos são territoriais e, embora não tenham cordas vocais, vocalizam expelindo água com ar inspirado, soando um rugido grave, capaz de atrair fêmeas e repelir outros machos.”
“Apesar de os machos dos animais carnívoros já estarem bem armados, eles – e outros animais – podem ter recebido outros meios especiais de defesa por meio da seleção sexual: a juba do leão, a ombreira do javali e a mandíbula em forma de gancho do salmão macho, pois, para a vitória, um escudo pode ser tão importante quanto uma espada ou uma lança.”
“Entre as aves, a luta muitas vezes tem um caráter mais pacífico. Todos aqueles que estudaram o tema acreditam que há uma rivalidade extremamente séria entre os machos de muitas espécies para atrair as fêmeas pelo canto.”
“Sir R. Heron(*) descreveu como um pavão malhado era altamente atraente para todas as suas fêmeas. Pode parecer infantil atribuir qualquer efeito a tais meios aparentemente fracos: não poderei aqui dedicar-me aos detalhes necessários para oferecer suporte a essa perspectiva; mas se as pessoas, de acordo com seus padrões de beleza, conseguem em um curto espaço de tempo dar um porte elegante e beleza às suas garnisés, então não vejo nenhuma razão para duvidar que as aves fêmeas, selecionando durante milhares de gerações os machos mais melodiosos ou bonitos, de acordo com seu padrão de beleza, tenham produzido um efeito marcante.
(*) ” Refere-se ao relato de um caso de 1814 atribuído ao barão Robert Heron (1765-1854), presente no verbete ‘pavão’, publicado no volume 17 da famosa The Penny Cyclopedia for the Difusion of Useful Knowledge (1840).”
“Sabemos que [nos gatos] a tendência para capturar ratos em vez de camundongos é hereditária.”
“Nenhum naturalista põe em dúvida a vantagem do que tem sido chamado de ‘divisão fisiológica do trabalho’; portanto, acreditamos que seria vantajoso para uma planta produzir estames em apenas uma flor ou planta inteira, e pistilos apenas em outra flor ou planta.”
“Passemos agora para os insetos que se alimentam de néctar em nosso caso imaginário: poderíamos supor que a planta cujo néctar estamos lentamente aumentando por meio da seleção contínua seja uma planta comum; e que certos insetos se alimentassem principalmente do néctar dela. Eu poderia enumerar muitos fatos que mostrassem a ansiedade das abelhas em economizar tempo; por exemplo, seu hábito de sugar o néctar por meio de um buraco feito por elas na base de certas flores nas quais poderiam entrar, com um pouco mais de trabalho, pela corola. Tendo tais fatos em mente, não enxergo nenhuma razão para duvidar que um desvio acidental no tamanho e na forma do corpo ou na curvatura e no comprimento da probóscide, etc. – algo demasiado pequeno para ser apreciado por nós –, poderia ser vantajoso para uma abelha ou outro inseto, e, dessa forma, um indivíduo com essas características seria capaz de obter seu alimento de modo mais rápido e, então, ter uma chance melhor de sobreviver e de deixar descendentes.”
“Estou ciente de que esta doutrina da seleção natural, apresentada nos exemplos imaginários acima, está aberta às mesmas objeções que foram inicialmente oferecidas contra os nobres pontos de vista de Sir Charles Lyell em relação às ‘mudanças modernas da Terra como exemplos da geologia’; mas hoje em dia raramente ouvimos alguém dizer que a ação, por exemplo, das ondas costeiras seja uma causa fútil e insignificante quando usada para explicar as escavações de gigantescos vales ou para a formação das mais longas linhas de falésias interiores.”
“Estou fortemente inclinado a acreditar que todos os hermafroditas precisam de dois indivíduos, de forma ocasional ou costumeira, para realizar a reprodução de sua espécie.” “A pesquisa moderna diminuiu muito o número de supostos hermafroditas e, dentre os hermafroditas verdadeiros, muitos deles também se unem; ou seja, dois indivíduos se unem regularmente para a reprodução, e isso é o que nos interessa. (…) a grande maioria das plantas é hermafrodita.”
“lei geral da natureza: que nenhum organismo fertiliza-se a si mesmo por uma eternidade de gerações, mas que o cruzamento com outro indivíduo é indispensável – ainda que isso se dê ocasionalmente, talvez em intervalos muito longos.” Outra afirmação muito óbvia, mesmo para o séc. XIX.
“as anteras e os pistilos da própria planta estão geralmente tão próximos uns dos outros que a autofertilização parece ser quase inevitável. Muitas flores, por outro lado, têm seus órgãos de frutificação estreitamente fechados, como é o caso da grande família das ervilhas ou papilionáceas; mas em várias dessas flores, talvez em todas elas, há uma adaptação muito curiosa entre a estrutura da flor e a maneira pela qual as abelhas sugam seu néctar; pois, ao fazê-lo, elas empurram o pólen da própria flor para o estigma, ou levam o pólen para outra flor.”
“As abelhas atuarão como um pincel; é suficiente tocar as anteras de uma flor e depois o estigma de outra com o mesmo pincel para garantir sua fertilização; mas não devemos supor que as abelhas produziriam dessa forma uma infinidade de híbridos entre espécies distintas; pois, se você coloca o pólen da própria planta no pincel junto com o pólen de outra espécie, o primeiro tem um efeito tão preponderante que destrói invariável e completamente quaisquer influências de grãos de pólen externos, conforme foi demonstrado por Gärtner.”
“há na Lobelia fulgens um artifício muito bonito e elaborado pelo qual cada um dos infinitamente numerosos grânulos de pólen são removidos das anteras de cada flor antes de o estigma das flores individuais estar pronto para recebê-los; e como esta flor nunca é visitada por insetos, pelo menos no meu jardim, ela nunca produz uma semente; apesar disso, consegui criar muitas sementes ao colocar o pólen de uma flor sobre o estigma de outra; enquanto isso, outra espécie de Lobelia, que cresce perto da primeira, é visitada por abelhas e produz sementes livremente.”
“Quão estranhos são esses fatos! Quão estranho é o fato de o pólen e a superfície do estigma da mesma flor estarem tão próximos, mas – como se esse fato tivesse como objetivo a própria autofertilização – serem, em tantos casos, mutuamente inúteis uns para os outros! E quão simples tornam-se esses fatos se explicados pelo ponto de vista de que o cruzamento ocasional com um indivíduo distinto é vantajoso ou indispensável!”
“lei geral segundo a qual as formas boas derivam do cruzamento entre indivíduos distintos da mesma espécie.” Me surpreende que os europeus tenham conservado seus princípios eugênicos por tanto tempo…
“Voltando-nos brevemente aos animais: no ambiente terrestre há alguns hermafroditas, como lesmas, caracóis e vermes terrestres; mas todos eles se acasalam. Até este momento não encontrei nenhum animal terrestre que fertilize a si mesmo. Esse fato notável, que oferece um contraste tão forte com as plantas terrestres, pode ser entendido por meio da hipótese de um cruzamento ocasional ser indispensável, pois, tendo em conta o meio em que vivem os animais terrestres e a natureza de seu elemento fecundante, não conhecemos nenhuma maneira, análoga à ação dos insetos e do vento no caso das plantas, pela qual um cruzamento ocasional poderia ser realizado em animais terrestres sem a concordância de dois indivíduos.”
“Durante muito tempo, pareceu-me que, sob esta hipótese, os crustáceos da infraclasse Cirripedia [cracas] apresentavam um caso bastante difícil; mas eu consegui, por um acaso feliz, provar que dois indivíduos podem cruzar, mesmo que os dois sejam hermafroditas que se autofertilizem.”
“Mas se, de fato, todos os hermafroditas cruzam ocasionalmente com outros indivíduos, resulta muito pequena a diferença entre hermafroditas e as espécies unissexuais, pelo menos no que diz respeito à reprodução.”
Darwin parece um talento hiperativo que se perde em infinitas especulações que vai elencando, enumerando, acumulando e empilhando, sem saber como desenvolvê-las de modo decisivo, não conseguindo nada além disso mesmo: ser um biólogo especulador em vários fronts. Nem sequer chamaria seu “compilado” de observações e raciocínios de teoria… Ele não tem um foco, seu livro me deixa tonto! Várias das passagens de qualquer capítulo até aqui remetem a outros capítulos: “…porém tal idéia será desenvolvida a contento no capítulo tal”. E no entanto o presente capítulo é basicamente uma lista de idéias a ser propriamente desenvolvidas alhures!
Há ainda um grave problema sintático, senão de Darwin, do tradutor: a linguagem é muito imprecisa, refletindo o caráter hesitante do “descobridor”, conforme o trecho: “Finalmente, concluo que, embora pequenas áreas isoladas tenham provavelmente sido em alguns aspectos altamente favoráveis para a produção de novas espécies, ainda assim, o curso das modificações tem sido em geral mais rápido em grandes áreas;” Por onde começo? Pequenas áreas podem ter sido favoráveis para produzir novas espécies – como podem não ter sido! O provavelmente enfraquece todo o postulado, relativiza-o para que não possa ser contestado, basicamente. Ainda dentro da mesma frase o provável é nuançado para funcionar apenas em alguns aspectos, de modo que, mesmo que liguemos a chave do provável, tornando-o certo, essa certeza não afeta muitos aspectos, só alguns (aspecto já sendo uma palavra abstrata o bastante). Não pára por aí: altamente favoráveis, provavelmente, mas somente em alguns aspectos, lembre-se: o ser MUITO favorável é enfático, que pena que é restringido como mera probabilidade parcial de ser! Tudo isso esbarra na restritiva ainda assim, para contornar a possibilidade do “possível” estar equivocado (mas como estaria, se aponta tanto para um lado quanto para o outro, ficando em cima do muro?). Isso porque D. falava das áreas isoladas pequenas, mas agora quer estipular algum tipo de conclusão válida para áreas grandes, e portanto impossível que sejam isoladas, sendo todo um ecossistema complexo… E quer estipular conclusões para ambas, áreas pequenas e grandes, ao mesmo tempo, com algum grau de precisão… Como ele se sai? O curso das modificações (seja lá o que é curso de modificação… uma direção qualquer…) tem sido mais rápido… Não, pensando bem isso seria muito taxativo… Restrinjamos para em geral, de modo que se naturalistas me objetarem eu poderei alegar que falava apenas generalizadamente, sempre havendo exceções e casos particulares – mais uma salvaguarda! Repare a densidade de senões no texto darwiniano… Uma tática não incomum no livro.
“Podemos, talvez, [!] por meio desses pontos de vista, [quase todos os pontos de vista passíveis de enumeração!] entender alguns fatos [não todos, aliás, poucos fatos!] que serão novamente aludidos em nosso capítulo sobre distribuição geográfica;” Além de desonesto intelectualmente, é feio, truncado, horroroso para qualquer leitor… E, como sempre, a melhor parte fica para um capítulo vindouro… Onde, não duvido, ele fará outras promessas, ad infinitum… Não são raras as instâncias em que promete discutir o assunto não num capítulo já pronto do livro vigente, mas numa próxima e ainda inexistente obra… Fosse kardecista, começaria a dizer vida…
“na água doce encontramos algumas das formas mais anômalas atualmente conhecidas no mundo, como o ornitorrinco(*) e a pirambóia, os quais, como fósseis, conectam até certo ponto ordens que hoje estão amplamente separadas na escala natural. Essas formas anômalas podem quase ser chamadas de fósseis vivos; elas sobreviveram até os dias atuais por habitarem uma área confinada e por terem sido dessa maneira expostas a uma competição menos severa.(**)
(*) Ao contrário do que afirma Darwin, tem ampla distribuição geográfica no leste australiano e na Tasmânia, tendo sido introduzido na ilha Kangoroo, onde mantém população estável.
(**) Trata-se de uma afirmação equivocada de Darwin. A noção de fóssil vivo transmite a falsa ideia de que seja uma espécie que ‘sobreviveu’, permanecendo inalterada por milhões de anos, o que tem sido amplamente contrariado por estudos moleculares. Essas espécies continuaram a se adaptar sucessivamente.”
“Quando o continente transformar-se em várias ilhas separadas devido ao afundamento de partes da superfície terrestre, restarão confinados muitos indivíduos da mesma espécie em cada ilha; o cruzamento fora dos limites da distribuição de cada espécie será, assim, impedido; depois das alterações físicas de quaisquer tipos, a imigração não será possível, de tal forma que os novos nichos de cada uma das ilhas serão preenchidos por modificações nos antigos habitantes; e o tempo permitirá que as variedades de cada uma se tornem bastante modificadas e aperfeiçoadas.” É difícil entender. Ele advoga que ilhas isoladas não produzem uma estagnação da evolução das espécies, mas ao mesmo tempo afirma que nas ilhas isoladas quase não há competição e portanto nenhuma necessidade de seleção natural que leve um animal à extinção, p.ex., o que é inconciliável com o fato de que a fauna e a flore continuem a mudar tanto… Pangéia como a era da luta de todos-contra-todos – Austrália como um ambiente tranqüilo… Puras idealizações!
“…um campo justo para a seleção natural melhorar ainda mais os habitantes e, portanto, produzir novas espécies.” Ao mesmo tempo, o campo justo, para D., é a própria luta de todos-contra-todos com o menos freios possíveis.
“Muitos irão afirmar que essas várias causas são mais do que suficientes para impedir completamente a ação da seleção natural. Não creio nisso. Por outro lado, acredito que a seleção natural sempre agirá muito lentamente, muitas vezes apenas em longos intervalos de tempo e geralmente apenas em alguns poucos habitantes da mesma região ao mesmo tempo.” Você apostaria suas fichas em alguém tão hesitante em afirmar qualquer coisa que seja? Não é que lhe sobre humildade científica – isso é excesso de medo! Estou me afogando em partículas restritivas! Não estou adaptado a meio tão agressivo!
“Também acredito que essa ação muito lenta e intermitente [aqui ele acrescenta outro senão muito importante: não é só que a seleção é demasiadamente lenta, levando milhares e milhares de anos – ela também pára de agir durante certos períodos!!! por muito tempo julgava que era absolutamente corriqueiro defender D. no séc. XIX, mas lendo no original me parece algo cada vez mais heróico…] da seleção natural concorda perfeitamente bem com o que a geologia nos diz sobre o modo pelo qual os habitantes deste mundo sofreram mudanças e sobre as taxas através das quais essas alterações ocorreram.” Se ele puder se associar à geologia, e se a geologia estiver correta, jamais poderá ser refutado, pois a seleção natural biológica se torna equivalente à história geológica do planeta…
“Embora o processo de seleção seja lento, se uma pessoa qualquer consegue fazer tanta coisa por meio da seleção artificial, não vejo limites para a quantidade de alterações – para a beleza e para a infinita complexidade das coadaptações entre todos os seres orgânicos, uns com os outros e com suas condições físicas de vida – que podem ser realizadas no longo curso do tempo pelo poder de seleção da Natureza.” Inclusive uma mistura de todas as cores, retornando todos os tons e matizes ao branco originário, isto é, uma constatação do caráter cíclico dessas transformações – que afinal não podem ser infinitas num tempo limitado… mas talvez, ainda mais criticamente, num longo espaço de tempo essas variações comecem a se repetir! Por que D. nunca levanta essa possibilidade, já que é tão cauteloso? Não há progressão no reino animal. Basta lembrar, por exemplo, que os continentes estão em tendência de afastamento desde que constituímos civilizações… Mas que o “final” desse processo só pode ser uma nova Pangéia, ou nossa extinção nesse ínterim… E “nossa”, da perspectiva da biologia, poderia querer dizer respeito a “todas as espécies”, a “determinadas espécies” ou ao homem propriamente dito… Mas do ângulo da hermenêutica, não havendo observador consciente e racional, um ser-no-mundo capaz da linguagem, do que adiantaria se o homem se ausentasse do espetáculo (existência)?
“EXTINÇÃO Este assunto será mais plenamente discutido em nosso capítulo sobre geologia;” Enfurecedor, enfuriante!…
“A geologia nos mostra claramente que o número de formas específicas não aumenta indefinidamente; e há de fato um motivo para esse aumento não ter ocorrido, uma vez que na Natureza o número de nichos não aumenta indefinidamente – não que tenhamos meios de saber se uma região já tem no momento seu número máximo de espécies. Provavelmente nenhuma região está hoje totalmente abastecida, pois no Cabo da Boa Esperança, onde há mais espécies de plantas do que em qualquer outra região do mundo,(*) algumas plantas estrangeiras têm se tornado aclimatadas, sem causar, tanto quanto sabemos, a extinção de espécies nativas.
(*) Já era reconhecida a grande diversidade florística daquela região, mas espécies invasoras sempre alteram as interações ecológicas locais.”
“Conseqüentemente, toda nova variedade ou espécie, durante o progresso de sua formação, [mas toda variedade ou espécie está sempre em progresso e formação!] será geralmente mais pressionada por seus semelhantes mais próximos que tendem a exterminá-la.” Darwin atira para todos os lados sem saber no que acertar: poucas linhas antes insiste (não pela 1ª vez) na tese de que as espécies mais raras e mais ‘isoladas’ em características são as que mais sofrem na ‘luta pela sobrevivência’, e agora já afirma o contrário: quem está em perigo iminente de extinção afinal? Todas as espécies juntas aqui e agora? Mas não acaba aí. Parágrafos depois (veja se ele não volta a afirmar justamente o contrário!!): “quanto mais diversificados se tornam os descendentes de uma espécie qualquer em estrutura, constituição e hábitos, tanto mais eles são capazes de ocupar muitos nichos diversificados na Natureza e, assim, aumentar o número de seus indivíduos.” Lembrando que sempre que uma espécie aumenta muito sua quantidade de indivíduos, mais se aproxima da extinção competitiva, segundo o próprio D.
“espécies incipientes”
“mas não podemos responsabilizar apenas o acaso por diferenças tão grandes e habituais como as existentes entre as variedades da mesma espécie e entre espécies do mesmo gênero.” A natureza não tem um fim.
“Se deixarmos que a espécie utilize seu poder de crescimento de forma natural, ela somente poderá aumentar o número de seus indivíduos (se não ocorrerem alterações nas condições de sua região) caso seus descendentes variem e busquem aproveitar os nichos atualmente ocupados por outros animais: alguns deles podem fazer isso ao, por exemplo, passarem a se alimentar de novos tipos de presas, mortas ou vivas; outros, ao habitar novos pontos, outros ainda, ao subir em árvores, ao freqüentar a água, e alguns, talvez, tornando-se menos carnívoros.” Não existe essa partição fantástica que ele denomina de nicho! D. não fornece uma conceituação, e por nicho entendem-se, conforme a enumeração, coisas tão ecléticas e impossíveis de mesclar como habitat, dieta, comportamento (dir-se-ia que se inspirou muito em Lamarck!) e até adaptações tão complexas que exigiriam mutações genéticas de várias gerações (mudança de terreno do solo para a água, p.ex.!). Como é que um animal herbívoro se torna carnívoro – bem-entendido, com exceção do homem?!
“Além disso, sabemos que cada espécie e cada variedade de gramínea produzem um número quase incontável de sementes por ano; e assim está, por assim dizer, esforçando-se ao máximo para aumentar o número de seus indivíduos.” A espécie não está preocupada com nada, não existe uma consciência coletiva, apenas um instinto individual.
Alphonse de Candolle & Casimir de Candolle, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis
Asa Gray, Manual of the Flora of the Northern United States
BABOSEIRA COMPLETA: “A vantagem da diversificação dos habitantes de uma mesma região é, na verdade, o mesmo que a divisão fisiológica do trabalho encontrada nos órgãos do corpo de um mesmo indivíduo, conforme foi tão bem elucidado por Milne-Edwards.”
“É possível pôr em dúvida, por exemplo, se os marsupiais australianos – que são divididos em grupos com poucas diferenças e que, conforme afirmado pelo senhor Waterhouse e outros, mal representam nossos animais carnívoros, ruminantes e roedores – conseguiriam competir, com sucesso, com essas ordens bem-definidas.” Nada sei de marsupiais australianos… Mas seria são desconfiar da capacidade da fauna da Oceania? Sendo assim, que se dane o tal Mister Casa D’Água!
(*) “Darwin aplica um raciocínio que toma os marsupiais como mamíferos ‘primitivos’ e ‘incompletos’, pois é comum serem exterminados por mamíferos placentários introduzidos. No entanto esse raciocínio tem premissas falsas. Marsupiais e placentários são igualmente ‘evoluídos’, cada um à sua maneira.”
“ascendente único de nossos vários novos subgêneros e gêneros.”
“No diagrama, supusemos até agora que o espaço entre cada linha horizontal representa milhares de gerações, mas poderia representar 1 milhão ou centenas de milhões de gerações e, da mesma forma, uma seção das sucessivas camadas da crosta terrestre que contêm os restos de organismos extintos.” O erro de D. é depositar todas as suas fichas na geologia/paleontologia. Dado que não existe o elo perdido entre o homem e o macaco, pois somos produtos de uma mutação abrupta, as crenças darwinianas são a razão mesma do histrionismo de grupos criacionistas, que podem alegar a “falta de prova científica” (de uma teoria equivocada, a do elo perdido, que serviria para justificar a teoria de que se trata, na verdade, de mais longo alcance, a do ancestral comum de todos os organismos) para deitar por terra todo o discurso racional sobre o devir das espécies, em prol de textos bíblicos e da origem divina do homem.
Muitas palavras para dizer apenas o seguinte: a longo prazo, toda espécie tende à extinção, e a natureza é a personificação do caos: “Um grupo grande irá lentamente conquistar outro grupo grande, reduzir o número de seus indivíduos, juntamente com suas chances de produzir mais variações e melhoramentos. Dentro do mesmo grande grupo, os subgrupos mais jovens e mais eficientemente melhorados, ao se ramificarem e dominarem diversos novos nichos da Natureza, tenderão constantemente a suplantar e destruir os subgrupos anteriores e menos melhorados. Subgrupos e grupos pequenos e fragmentados tenderão finalmente ao desaparecimento. Olhando para o futuro, é possível prever que os grupos de seres orgânicos que são atualmente grandes e vitoriosos, e que estão menos fragmentados, ou seja, aqueles que até o momento sofreram menos extinção, continuarão aumentando por um longo período. Mas não há como prever quais grupos irão, em última análise, prevalecer; pois nós bem sabemos que no passado muitos grupos bastante desenvolvidos foram extintos.” Os dinossauros refutam perfeitamente D.: a espécie ‘mais bem-adaptada e dominante’ passa a ser a mais mal-adaptada assim que sobrevém um racionamento de comida.
“Voltarei a esse assunto no capítulo sobre classificação, mas posso acrescentar que a partir desse ponto de vista segundo o qual pouquíssimas espécies do passado mais remoto tenham gerado descendentes, e do ponto de vista de que todos os descendentes da mesma espécie formam uma classe, podemos entender por que existem poucas classes em cada divisão principal dos reinos vegetal e animal.” Se seu raciocínio estivesse correto, com a idade que tem a Terra deveria ter havido só uma classe que pudéssemos detectar, ou seja, com registros fósseis e a única existente há já milhões de anos, pois essa é justamente a tendência ou projeção para um futuro tendente ao infinito segundo as teorias de D. E, como sempre, parece que o comentador da edição concorda comigo:
(*) “A afirmação de que a maioria das espécies que já existiram no planeta foi extinta é corajosa e se mantém correta; o mesmo não se pode dizer da variação do número de classes, uma conjectura sem base factual.”
5. LEIS DA VARIAÇÃO
“O avestruz, na verdade, vive no continente e está exposto a perigos dos quais não consegue escapar pelo vôo, mas consegue defender-se dos inimigos por meio de coices, como bem fariam todos os quadrúpedes menores. Podemos imaginar que o antigo progenitor do avestruz tivesse hábitos semelhantes aos de uma abetarda(*) e que – após a seleção natural ter aumentado o tamanho e o peso do seu corpo em gerações consecutivas – suas pernas tenham passado a ser mais utilizadas e suas asas menos, até que eles se tornaram incapazes de voar.
(*) Nome genérico das aves da família Otididae.”
“Como eu acredito que nossos animais domésticos foram originalmente escolhidos pelo ser humano primitivo por causa da facilidade com que eram criados em confinamento e por serem úteis, e não por ter sido descoberto mais tarde que poderiam realizar o transporte a longas distâncias, acredito que a capacidade comum e extraordinária de nossos animais domésticos de não apenas resistir aos climas mais diversos, mas também de manterem-se perfeitamente férteis (um teste muito mais forte) em qualquer um deles, possa ser usada como um argumento para defender a idéia de que muitos outros animais – neste caso em estado natural – poderiam facilmente suportar diversos tipos de clima.”
“CORRELAÇÕES DE CRESCIMENTO Com essa expressão quero dizer que as partes do organismo todo estão tão ligadas umas às outras durante seu crescimento e desenvolvimento que, quando ocorrem pequenas variações em qualquer dessas partes e essas são acumuladas através da seleção natural, outras partes também são modificadas. Esse é um assunto muito importante e compreendido de forma bastante imperfeita.”
“O que é mais comum do que a relação entre os olhos azuis e a surdez dos gatos ou do que a cor dos cascos e o sexo feminino das tartarugas? Ou, nos pombos, a relação entre os pés com penas e a pele entre os dedos externos, bem como a presença de mais ou menos penugem nas aves jovens quando saem de seus ovos com a futura cor de sua plumagem; ou, mais uma vez, a relação entre os pêlos e os dentes do cão sem pêlos da Turquia, ainda que neste caso a homologia tenha relevância? Em relação a este último caso de correlação, acredito que dificilmente poderia ser algo acidental que as duas ordens de mamíferos mais anômalas em suas coberturas dérmicas, como, por exemplo, os cetáceos (baleias) e a ordem Edentata (tatus, pangolins, etc.), fossem também as ordens com mais formas anômalas de dentição.”
“Geoffroy Sênior e Goethe(*) propuseram, mais ou menos na mesma época, a lei da compensação ou do equilíbrio do crescimento; ou, conforme disse Goethe, ‘a fim de gastar de um lado, a natureza é forçada a economizar do outro’.
(*) A metamorfose das plantas, 1790.”
6. CONTROVÉRSIAS ENVOLVENDO A TEORIA
Argumentação pouco convincente.
E FEZ-SE: “Sabermos como um nervo passa a ser sensível à luz é algo que nos desafia tanto quanto o faz não sabermos como a própria vida originou-se; mas reparem que [diversos fatos me fazem suspeitar que]¹ qualquer nervo sensível pode tornar-se sensível à luz e, da mesma forma, às vibrações mais grosseiras do ar que produzem o som.”
¹ Darwin escreve mal e de maneira hesitante. O trecho entre colchetes poderia ser facilmente omitido, ganhando-se em concisão e confiança.
“É preciso que a razão conquiste a imaginação; e, já que eu mesmo senti a profundidade dessa dificuldade, não me surpreende que as pessoas hesitem em conceder tamanha amplitude ao princípio da seleção natural.” Irônico que esse comentário parta de um superempírico: aquele que só afirma o que vê, não se arriscando a tecer conclusões lógicas sem dados imediatos. Sem falar que parece uma obra medieval, überpreocupada com deus.
7. INSTINTO
“Uma pequena dose de juízo ou razão, como afirma Pierre Huber,(*) muitas vezes entra em jogo, mesmo em animais que estão na base da escala da Natureza.
(*) Jean-Pierre Huber (1777-1840), entomólogo suíço, autor de diversos estudos sobre comportamento de insetos, seguiu a carreira do pai.”
“Se Mozart, em vez de tocar piano aos 3 anos de idade admiravelmente apesar da pouca destreza, já tivesse produzido música sem nenhuma instrução anterior, poderíamos então dizer com convicção que ele o teria feito de forma instintiva.”
“o medo do [em relação ao] homem é algo adquirido lentamente por vários animais que habitam ilhas desertas”
“o corvo, tão cauteloso na Inglaterra, é muito dócil na Noruega, tal como a gralha-cinzenta o é no Egito.”
“Le Roy descreve um cão cujo bisavô era um lobo; este cão mostrou um traço de sua ascendência selvagem somente de uma maneira: ele não ia em linha reta até seu dono quando era chamado.”
“nenhum animal é mais difícil de amansar do que os filhotes do coelho selvagem, mas quase nenhum outro animal é tão dócil quanto os filhotes do coelho domesticado”
“É praticamente impossível duvidar que o amor pelas pessoas se tornou algo instintivo nos cães. Todos os lobos, raposas, chacais e espécies do gênero Felis (gatos), quando mantidos mansos, ficam mais propensos a atacar aves, ovelhas e porcos; e descobrimos que essa tendência é algo incurável nos cães que foram trazidos ainda jovens para casa (Inglaterra) de regiões como a Terra do Fogo e a Austrália, onde os selvagens não os criavam como animais domésticos. Por outro lado, nossos cães domésticos raramente precisam, mesmo quando muito jovens, ser ensinados a não atacar aves, ovelhas e porcos!” “Por outro lado, as galinhas jovens perderam, inteiramente pelo hábito, o medo do cão e do gato”
(*) “Thomas Mayo Brewer (1814-1880), naturalista norte-americano, co-autor dos 3 volumes de A History of North American Birds (1874).”
“Muitas abelhas são parasitas e sempre põem seus ovos em ninhos de abelhas de outros tipos. Esse caso é mais notável do que o do cuco; pois não apenas os instintos dessas abelhas foram modificados de acordo com seus hábitos parasitários, mas também suas estruturas; isso porque elas não possuem o aparato de coleta de pólen que seria necessário para armazenar alimentos para sua própria prole.”
“As formigas são tão absolutamente desamparadas que, quando Huber isolou 30 delas sem nenhuma escrava, mas com os alimentos que mais gostam e com suas larvas e pupas para estimulá-las a trabalhar, elas não fizeram nada; não conseguiram nem se alimentar, e muitas morreram de fome. Huber, em seguida, introduziu uma única escrava (F. fusca), e ela imediatamente começou a trabalhar, alimentando e salvando os sobreviventes; construiu alguns alvéolos, cuidou das larvas e colocou a casa em ordem.” Jean-Pierre Huber, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants], 1810.
(*) “O tradutor do livro para o inglês, J.R. Johnson, tomou a decisão de substituir a expressão ‘formigas cinza-escuro’ por ‘negro’ e ‘formigas negras’ (negro e negro ant), por causa da ‘coloração’ e ‘situação mantida na colônia’ (de subserviência), uma clara referência à condição de escravizada. O tradutor registrou a ‘liberdade’ da tradução em nota, à página 252. No entanto, nem mesmo na versão inglesa aparecem os termos relativos à escravidão, como ‘escravo’, ‘senhor’ ou ‘mestre’. Darwin tinha um exemplar do original em francês, mas utilizou alguns dos termos de comentadores desde que a primeira resenha do livro foi publicada em inglês, em 1812. (…) Huber foi muito criticado por ‘naturalizar’ a escravidão, como se sua descrição fosse apenas obra de sua imaginação, mas provou ter sido um observador muito rigoroso.”
“Eu abri 14 formigueiros de F. sanguinea e encontrei algumas poucas escravas em todos eles. Machos e fêmeas férteis da espécie escrava são encontrados somente em suas próprias comunidades e nunca são vistos nos formigueiros da F. sanguinea. As formigas escravas são pretas e têm quase a metade do tamanho de suas mestras vermelhas”
“na Suíça, as escravas costumam trabalhar com suas mestras para construir o formigueiro, e elas são as únicas que abrem e fecham as portas pela manhã e à noite; e, conforme afirmado expressamente por Huber, a principal função delas é buscar pulgões. Esta diferença nos costumes habituais entre mestras e escravas nos dois países está ligada, provavelmente, ao fato de as escravas serem capturadas em maior número na Suíça em comparação com a Inglaterra.”
“Isso me deixou curioso para saber se a F. sanguinea era capaz de distinguir as pupas da F. fusca, que habitualmente são escravizadas, da pequena e furiosa F. flava, que é raramente capturada; ficou claro que elas conseguiam diferenciá-las de imediato, pois notei que, de forma ansiosa e com rapidez, elas capturavam as
pupas de F. fusca, mas ficavam muito aterrorizadas quando se deparavam com as pupas, ou até mesmo com a terra do formigueiro da F. flava, e rapidamente fugiam; mas após cerca de um quarto de hora, logo depois de todas as pequenas formigas amarelas terem ido embora, elas criavam coragem e carregavam as pupas para casa.”
(*) “Sabe-se hoje que a F. sanguinea nem sempre captura outras formigas, pois pode se autossustentar. Já as formigas descritas no início da seção como F. rufescens têm hábitos bem distintos e são incapazes de sobreviver sem a ajuda de formigas de outras espécies. Essa relação ecológica é denominada ‘esclavagismo’, e em outras línguas se utiliza o termo dulosis, derivado do vocábulo grego DOULOS = escravos.”
(*) “As melíponas são abelhas americanas sem ferrão, que ocorrem do México até a Argentina, sendo conhecidas entre nós com os nomes mandaçaia, urucu, etc.” Afinal, abelha é a própria definição de “com ferrão”!
“A maneira como as abelhas constroem é curiosa; elas sempre fazem uma parede grosseira que é de 10 a 20 vezes mais espessa que a parede excessivamente fina do alvéolo pronto, a qual, em última análise, será deixada assim. Nós podemos entender como elas trabalham ao imaginarmos pedreiros que primeiro juntam cimento em uma parede grossa e logo em seguida começam a aplainá-la igualmente em ambos os lados próximos ao solo até que, por fim, obtenham no centro uma parede lisa e muito fina; no processo, os pedreiros empilham o cimento retirado ao topo da parede e ao mesmo tempo adicionam cimento fresco.”
“Por este modo singular de construção, o favo ganha força contínua, com a máxima economia final de cera.(*)(**)
(*) Darwin parte da conjectura de que o favo de mel da abelha-europeia é a forma mais econômica de obter máximo poder de estocagem com mínimo consumo de cera. Trata-se de um problema matemático estudado desde a Grécia Antiga, relacionando menor perímetro com máxima área, visto como uma solução divina. Darwin procura mostrar como o mesmo problema pode ter sido solucionado pela ação da seleção natural, sem intervenção divina, o que provocou grande ira nos círculos religiosos.
(**) O matemático húngaro László Tóth (1915-2005) demonstrou, em 1965, que a afirmação não é rigorosamente correta para as 3 dimensões.”
(*) “O fóssil mais antigo de abelhas foi datado recentemente ao redor de 100 milhões de anos, e tem características semelhantes às das vespas, embora tenha adaptações para transporte de pólen. Esse fato indica que a evolução das abelhas certamente ocorreu em período muito anterior ao imaginado por Darwin”
8. HIBRIDISMO
“Acredito que a importância do fato de que os híbridos costumam ser estéreis tem sido muito subestimada por alguns autores modernos.”
9. A IMPERFEIÇÃO DO REGISTRO GEOLÓGICO
Parte mais fraca do livro!
10. A SUCESSÃO GEOLÓGICA DOS SERES ORGÂNICOS
(…)
11 & 12. DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA
(…)
13. AFINIDADES MÚTUAS DOS SERES ORGÂNICOS – MORFOLOGIA – EMBRIOLOGIA – ÓRGÃOS RUDIMENTARES
(…)
14. RECAPITULAÇÃO E CONCLUSÃO
(…)
GLOSSÁRIO
chanfrar: indentar
chanfro: que foi cortado de maneira oblíqua
cunha: instrumento para rachar lenha, de ferro ou madeira
rômbico: losango
tentilhão: “é uma ave de pequeno porte, com cerca de 15cm, da família dos Fringilídeos, de coloração bastante viva e canto bem sonoro. Habita toda a Europa, Ásia Central e norte da África, em zonas florestais e de pinheirais. Se alimenta de sementes e insetos. É também chamada de pintarroxo; chopin; pincha; chincho; patachim; chapin, etc.” Literalmente, AVE Maria, quantos nomes!
visco: “Planta da família das viscáceas” (chamada na obra de parasita; nas notas de hemiparasita)
Lista das obras grifadas em vermelho, em ordem alfabética:
BREWER, A History of North American Birds
CUVIER, ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote’
DE CANDOLLE & DE CANDOLLE, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis
GOETHE, A metamorphose das plantas
GRAY, Manual of the Flora of the Northern United States
HUBER, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants]
LYELL, Principles of Geology (3 vols.)
SAINT-HILAIRE, Cours de l’histoire naturelle des mammifères
VAN MONS, Abres fruitiers (livro sobre maçãs e pêras!)
WESTWOOD, An Introduction to the Modern Classification of Insects
YOUATT, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual



