“o que quero evitar são aquelas generalizações polêmicas – muitas vezes realizadas pelos adversários do pós-modernismo: Jameson (1984a), Eagleton (1985), Newman (1985) –, que nos fazem perguntar o que se está exatamente chamando de pós-modernista, embora não deixe dúvidas quanto ao fato de que ele é indesejável.”
“é sempre uma reelaboração crítica, nunca um ‘retorno’ nostálgico.”
“este livro vai privilegiar o gênero romance, especialmente uma de suas formas, que quero chamar de ‘metaficção historiográfica’.” A mulher do tenente francês, A lenda de “Legs”, G., Famous Last Words.
Salman Rushdie, Shame / [As crianças / Os filhos] da meia-noite
“O conceito de não-identidade alienada dá lugar ao conceito de diferenças, ou seja, à afirmação não da uniformidade centralizada, mas da comunidade descentralizada”
“A Cultura se transformou em culturas (…) E isso parece estar ocorrendo apesar – (…) talvez até por causa – do impulso homogeneizante da sociedade de consumo do capitalismo recente”
“precisamos é de uma ‘poética’, uma estrutura teórica aberta, em constante mutação” “Não seria uma poética no sentido estruturalista da palavra”
Ray Bradbury, Fahrenheit 451
“O artista ou o escritor pós-moderno está na posição de um filósofo: em princípio, o texto que ele escreve, a obra que produz não são governados por regras preestabelecidas, e não podem ser julgados segundo um julgamento determinante, pela aplicação de categorias comuns ao texto ou à obra. São essas regras e categorias que a própria obra de arte está buscando.” Lyotard
“É simplesmente errada a opinião segundo a qual o pós-modernismo relega a história à ‘lixeira de uma episteme obsoleta, afirmando euforicamente que a história não existe a não ser como texto’ (Huyssen 1981).”
O Hotel Branco
Maxine Hong Kingston, China Men
Eagleton, (artigo) Capitalismo, Modernismo e Pós-modernismo: “creio que seu pensamento binário absolutista nega grande parte da complexidade dessa arte.”
“O que Eagleton (assim como Jameson, seu precedente) parece não perceber é o potencial subversivo da ironia, da paródia e do humor na contestação das pretensões universalizantes da arte ‘séria’.”
“Grande parte do que foi escrito sobre o assunto assumiu fisicamente a forma de colunas opostas, normalmente intituladas ‘modernismo versus pós-modernismo’ (Hassan 1975; Lethen 1986). Mas essa é uma estrutura que, implicitamente, nega a natureza híbrida, plural e contraditória do empreendimento pós-moderno.”
Fowles, Um Verme ou um Capricho
“o que ainda não se abordou foi o paradoxo que é o fato de romances como A Mulher do Tenente Francês, e O Nome da Rosa serem, ao mesmo tempo, best-sellers populares e objetos de profundo estudo acadêmico.”
“o que parecemos estar precisando é de uma forma de falar sobre nossa cultura que não seja ‘unificadora’ nem ‘contradicionista’ num sentido dialético marxista (Ruthven 1984).”
2. MOLDANDO O PÓS-MODERNO: A PARÓDIA E A POLÍTICA
“O paradoxo da paródia pós-modernista é o fato de não ser essencialmente destituída de profundidade, de não ser um kitsch comum, conforme acreditam Eagleton (1985) e Jameson (1984a), mas sim de poder conduzir, e fazê-lo de fato, a uma visão de interligação”
“nem mesmo as obras contemporâneas mais autoconscientes e paródicas tentam escapar aos contextos histórico, social e ideológico nos quais existiram e continuam a existir, mas chegam mesmo a colocá-los em relevo.”
“o debate, hoje abominado, entre Lyotard (1984a), Habermas (1983) e Rorty (1984a).”
“A virulência por muitos adotada, a exemplo de Adorno, contra a cultura de massa como simples força negativa pode ser, conforme observou um arquiteto/crítico, ‘uma simples continuação do emprego de um ponto de vista aristocrático, sem que se saiba como captar o resultado liberador e a carga igualitária dessa profanação do mito’ da originalidade elitista romântica/modernista e do gênio inigualável (Portoghesi 1983).”
“O ‘inevitável’ não era eterno, e sim aprendido.”
“Aqui, quando falo em ‘paródia’, não estou me referindo à imitação ridicularizadora das teorias e das definições padronizadas que se originam das teorias de humor do século XVIII. A importância coletiva da prática paródica sugere uma redefinição da paródia como uma repetição com distância crítica que permite a indicação irônica da diferença no próprio âmago da semelhança.”
“o prefixo grego para- pode tanto significar ‘contra’ como ‘perto’ ou ‘ao lado’.”
“Ó terra bela por teus vastos céus, por tuas ondas de areia que têm a cor do âmbar, será que algum dia houve sobre a Terra outro lugar onde tantos donos da riqueza e do poder suportaram e pagaram tantas obras arquitetônicas por eles odiadas quanto no interior de tuas atuais fronteiras abençoadas?” Tom Wolfe
“Embora tenham projetado habitações para trabalhadores, nem Gropius nem Le Corbusier parecem ter sentido a necessidade de consultar aqueles que lá iriam morar: deve ter havido uma pressuposição tácita de que as pessoas intelectualmente subdesenvolvidas permitiriam que os arquitetos lhes organizassem as vidas.”
“Embora Le Corbusier se julgasse como sendo o tecnocrata apolítico, poder-se-ia considerar que os pressupostos ideológicos ocultos por trás de suas teorias estéticas da racionalidade purista tiveram influência em sua colaboração com o governo de Vichy”
“Já em 1974, em Le inibizioni dell’architettura moderna (A Inibição da Arquitetura Moderna), Portoghesi defendeu o retorno da arquitetura a suas raízes, que estariam nas necessidades práticas e na noção estética e social de continuidade e comunidade.”
“Desprezar a memória coletiva da arquitetura é arriscar-se a cometer os erros do modernismo e de sua ideologia do mito da reforma social por meio da pureza da estrutura.”
3. LIMITANDO O PÓS-MODERNO: OS FRUTOS PARADOXAIS DO MODERNISMO
“Já existem histórias detalhadas sobre o termo pós-moderno que investigam sua utilização ao longo do século passado (ver Köhler 1977; Bertens 1986; McHale 1987).”
“Ortega y Gasset propôs a idéia de que cada época prefere um determinado gênero, e o romance (juntamente com a arquitetura) parece ser o gênero pós-moderno mais discutido nos últimos tempos.”
“na ficção o termo pós-modernismo deve ser reservado para descrever a forma mais paradoxal e historicamente complexa que venho chamando de ‘metaficção historiográfica’.”
“A metaficção autoconsciente está entre nós há muito tempo, provavelmente desde Homero e certamente desde Dom Quixote e Tristram Shandy.”
“dentro de pouco tempo, a categoria do pós-moderno vai incluir Homero.” Umberto Eco
“Douwe Fokkema afirmou que o pós-modernismo está ‘sociologicamente limitado a uma maioria de leitores acadêmicos, interessados em textos complicados’. Porém, se isso é verdade, como se explica o fato de que O Nome da Rosa, A Mulher do Tenente Francês, Ragtime, Midnight’s Children, O Papagaio de Flaubert e tantas outras metaficções historiográficas tenham se destacado nas listas dos mais vendidos na Europa e na América do Norte?”
“A estrutura da trama de A Mulher do Tenente Francês encena a dialética de liberdade e poder que constitui a resposta existencialista moderna, e até marxista, ao determinismo vitoriano ou darwiniano.”
“Se quero dirigir minha arte ao mundo, devo fazê-lo através do sistema, como todos devem fazer. Se isso tem um aspecto suspeito no sentido de parecer liberalismo e concessão, então que assim seja: com exceção da espada, o liberalismo e a concessão sempre foram a única forma de atuação de qualquer revolucionário autêntico.” Douglas Davis
“o pós-moderno segue a lógica do ‘e/e’, e não do ‘ou/ou’.”
“Jameson considera o modernismo como oposicional e marginal – atributos que considero como importantes características definitórias do pós-moderno.”
Os radicais (pós-moderno como ruptura) vs. Os intensos (pós-moderno como extensão do modernismo)
“Embora os nomes de Lacan, Lyotard, Barthes, Baudrillard e Derrida tendam a ser os mais citados nas discussões sobre pós-modernismo, as outras perspectivas enumeradas têm a mesma importância para qualquer consideração sobre o discurso teórico contemporâneo e sua interseção com a arte. Não podemos ignorar as teorias marxista, neopragmatista e feminista – isso para acrescentar à lista apenas as três teorias importantes.”
PERSPECTIVA IGUALMENTE PERIGOSA: “Se admitimos que tudo é provisório e historicamente condicionado, não vamos parar de pensar, como temem alguns; na verdade, essa admissão será a garantia de que jamais pararemos de pensar – e repensar.”
“lembremo-nos da escrita feminina extática de Hélène Cixous, ou da mistura que Lyotard faz entre crítica literária e experimentação literária em Le Mur du Pacifique(1979), ou ainda a combinação entre crítica de arte e filosofia em seu trabalho com artistas como Adami (1983), Francken (1983) e Arakawa (1984).”
“Philip Lewis (1982) já considerou Glas, de Derrida, como um texto exemplar do pós-modernismo, e sem dúvida toda a encenação que Derrida faz com a teoria no nível da linguagem é ‘arte’.”
Graham Swift, Waterland
Doctorow, O Livro de Daniel
4. DESCENTRALIZANDO O PÓS-MODERNO: O EX-CÊNTRICO
Pynchon, Gravity’s Rainbow
“Em chinês existe uma palavra para o eu feminino – essa palavra é ‘escrava’.”
5. CONTEXTUALIZANDO O PÓS-MODERNO: A ENUNCIAÇÃO E A VINGANÇA DA PAROLE
“Conforme Terry Eagleton chega a verificar, não é nada por acaso que Saussure e Husserl estão escrevendo ‘quase ao mesmo tempo’ que Joyce, Eliot e Pound, com a mesma preocupação pelos sistemas simbólicos fechados.”
6. HISTORICIZANDO O PÓS-MODERNO: A PROBLEMATIZAÇÃO DA HISTÓRIA
“E a conclusão que se tira é a de que não pode haver um conceito único, essencializado e transcendente de ‘historicidade autêntica’ (conforme deseja Fredric Jameson: 1984a), não importa qual seja a nostalgia (marxista ou tradicionalista) existente em relação a uma entidade desse tipo.”
“No séc. XX a disciplina da história tem sido tradicionalmente estruturada por pressupostos positivistas e empiricistas que atuaram no sentido de separá-la de tudo o que tenha o sabor do ‘meramente literário’. Em seu habitual estabelecimento do ‘real’ como presença não-problemática a ser reproduzida ou reconstruída, a história suplica que a desconstrução questione a função da própria redação da história.”
“Cassandra, de Christa Wolf, reconta o épico histórico de Homero sobre os homens, sua política e suas guerras, em termos da história, que não foi contada, das mulheres e da vida cotidiana.”
SEGUNDA PARTE
7. METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA: “O PASSATEMPO DO TEMPO PASSADO”
“No séc. XIX, pelo menos antes do advento da ‘história científica’ de Ranke, a literatura e a história eram consideradas como ramos da mesma árvore do saber, uma árvore que buscava ‘interpretar a experiência, com o objetivo de orientar e elevar o homem’. Então veio a separação que resultou nas atuais disciplinas distintas, a literatura e os estudos históricos, apesar de o romance realista e o historicismo de Ranke terem em comum muitas convicções semelhantes em relação à possibilidade de escrever factualmente sobre a realidade observável.”
“As obras de Defoe diziam ser verídicas e chegaram a convencer alguns leitores de que eram mesmo factuais”
Foe:“Coetzee apresenta a instigante ficção de que Defoe não escreveu Robinson Crusoe a partir de informações dadas por um homem náufrago histórico, Alexander Selkirk, ou provenientes de outros relatos de viagem, mas a partir de informações que lhe haviam sido prestadas por uma mulher subseqüentemente ‘silenciada’, Susan Barton, que também fôra náufraga na ilha de ‘Cruso’. Foi Cruso quem sugeriu que ela contasse sua estória a um escritor, que acrescentaria ‘uma pitada de cor’ a seu relato. A princípio ela resistiu porque queria ver revelada a ‘verdade’, e Cruso admitia que a profissão do escritor ‘é com os livros, e não com a verdade’.”
“Frustrada, ela começa seu próprio relato: ‘A mulher Náufraga. Relato Verídico de um Ano numa Ilha Deserta. Com muitas Circunstâncias Estranhas Jamais Contadas até Hoje’, mas descobre que os problemas da escrita da história são semelhantes aos da escrita da ficção: ‘Será que essas circunstâncias são suficientemente estranhas para formarem uma estória? Quanto tempo se passará até que eu seja forçada a inventar circunstâncias novas e mais estranhas: o resgate de ferramentas e mosquetes da embarcação de Cruso; a construção de um barco […] um desembarque de canibais […]?’ Contudo, sua decisão final é a de que ‘aquilo que aceitamos na vida não podemos aceitar na história’—isto é, mentiras e invenções.”
8. A INTERTEXTUALIDADE, A PARÓDIA E OS DISCURSOS DA HISTÓRIA
“ao propor uma versão americana do pós-modernismo, Charles Newman abandona essa definição intertextual metaficcional e considera a literatura americana como uma ‘literatura sem influências básicas’, ‘uma literatura cujos pais não são conhecidos’, que sofre da ‘angústia da não-influência’. Neste capítulo eu gostaria de concentrar minha discussão basicamente sobre a ficção americana, com o objetivo de responder às afirmações de Newman por meio do exame dos romances de autores como Toni Morrison, E.L. Doctorow, John Barth, Ishmael Reed, Thomas Pynchon, sendo que todos lançam sobre quaisquer declarações desse tipo o que considero como uma dúvida razoável.”
“Também me afligiu a idéia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas?
Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me impediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça. Nunca tivemos censura prévia em obra de arte. Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram raríssimos esses autos-de-fé. Em geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demagógicas, e disto escasso prejuízo veio à produção literária.
Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.”
“Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício.”
“De alguma forma nos acanalhamos. Por que foi que um dos meus livros saiu tão ruim, pior que os outros? pergunta o crítico honesto. E alinha explicações inaceitáveis. Nada disso: acho que é ruim porque está mal escrito. E está mal escrito porque não foi emendado, não se cortou pelo menos a terça parte dele.”
“Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas.”
“Fisicamente estamos em repouso. Engano. O pensamento foge da folha meio rabiscada. Que desgraças inomináveis e vergonhosas nos chegarão amanhã?”
“O receio de cometer indiscrição exibindo em público pessoas que tiveram comigo convivência forçada já não me apoquenta.”
“Omitirei acontecimentos essenciais ou mencioná-los-ei de relance, como se os enxergasse pelos vidros pequenos de um binóculo; ampliarei insignificâncias, repeti-las-ei até cansar, se isto me parecer conveniente.”
“Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E se esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pouco, pelo menos imagino que valiam pouco.”
“Desgosta-me usar a primeira pessoa. Desculpo-me alegando que ele me facilita a narração.”
“NO COMEÇO de 1936, funcionário na Instrução Pública de Alagoas, tive a notícia de que misteriosos telefonemas, com veladas ameaças, me procuravam o endereço. Desprezei as ameaças: ordinariamente o indivíduo que tenciona ofender outro não o avisa. Mas os telefonemas continuaram. Mandei responder que me achava na repartição diariamente, das nove horas ao meio-dia, das duas às cinco da tarde.”
“Algum tempo depois um amigo me procurou com a delicada tarefa de anunciar-me, gastando elogios e panos mornos, que a minha permanência na administração se tornara impossível. Não me surpreendi. Pelo meu cargo haviam passado em dois anos oito sujeitos. Eu conseguira agüentar-me ali mais de três anos, e isto era espantoso.”
“não tivera a habilidade necessária de prestar serviços a figurões, havia suprimido nas escolas o Hino de Alagoas, uma estupidez com solecismos, e isto se considerava impatriótico. O aviso que me traziam era, pois, razoável, e até devia confessar-me grato por me haverem conservado tanto tempo.”
“Findo o expediente, sucedia retardar-me ali, a escrever, esquecia-me do tempo, e às vezes, meia-noite, o guarda vinha dizer-me que iam fechar o portão do Palácio. Parte do meu último livro fora composto no bureau largo, diante de petições, de números do Literatura Internacional.”
“Rubem me explicava que Osman Loureiro, o governador, se achava em dificuldade: não queria demitir-me sem motivo, era necessário o meu afastamento voluntário. Ora, motivo há sempre, motivo se arranja. Evidentemente era aquilo início de uma perseguição que Osman não podia evitar”
“Os integralistas serravam de cima, era o diabo. Demissão ninguém me forçaria a pedir. Havia feito isso várias vezes, inutilmente; agora não iria acusar-me. Dessem-na de qualquer jeito, por conveniência de serviço.
Despedi-me de Rubem Loureiro e deixei sobre o bureau os volumes do Literatura Internacional. Essa matéria, na safadeza e na burrice dominantes naquela época, render-me-ia talvez um processo. Iriam dr. Sidrônio e Luccarini, meus companheiros de trabalho, passar vexames por minha causa? Não. Dr. Sidrônio era católico, não escrevia, como eu, livros perigosos nem se gastava em palestras inconvenientes nos cafés. Provavelmente me substituiria. Luccarini tinha sido meu inimigo. Apanhado certa vez em falta e censurado, replicara-me:
– Eu também já mandei. Mas quando queria dizer isso que o senhor está dizendo, chamava o sujeito particularmente. – Ora essa! O senhor chega tarde, larga a banca e vive passeando pelas seções alheias em público.
Luccarini voltara ao seu lugar e durante três meses fôra de uma pontualidade irritante. Era o primeiro a chegar, o último a sair, não se levantava nem para ir ao mictório. Também não fazia nada, inércia completa.”
“E dera graças a Deus quando Luccarini se ausentara, passara seis meses no Recife, curando uma sinusite, com todos os vencimentos. Ao voltar, agradecera-me um obséquio não-feito, apresentara-me um relatório não-encomendado, insinuara-me a compra de um fichário e o abandono daqueles horríveis calhamaços onde o registro das professoras se fragmentava e confundia. Agora trabalhava demais, em poucos meses corrigira aquela balbúrdia.”
“Sentia desgosto e vergonha, desejava ausentar-me para muito longe, não pensar em despachos e informações. Andei pelas ruas, tomei o bonde. Transeuntes e passageiros pareciam conhecer o desagradável sucesso, ler-me no rosto a inquietação. Evitava considerar-me vítima de uma injustiça: deviam ter razão para repelir-me. Seria bom que ela se publicasse no jornal, isto desviaria comentários maliciosos. Esforçava-me por julgar aquilo uma insignificância. Já me havia achado em situação pior, sem emprego, numa cama de hospital, a barriga aberta, filhos pequenos, o futuro bem carregado. Tinha agora uns projetos literários, indecisos. Certamente não se realizariam, mas anulavam desavenças conjugais intempestivas, que se vinham amiudando e intensificando sem causa. A lembrança dessas querelas, somada aos telefonemas e à demissão, azedou-me a viagem a Pajuçara. Indispensável refugiar-me no romance concluído, imaginá-lo na livraria, despertando algum interesse, possibilitando ainda uma vez mudança de profissão. A última, encerrada meia hora antes, tinha sido um horror: o regulamento, o horário, o despacho, o decreto, a portaria, a iniqüidade, o pistolão, sobretudo a certeza de sermos uns desgraçados trambolhos, de quase nada podermos fazer na sensaboria da rotina. Se não me houvessem despedido assim de chofre, com um recado, humilhantemente, poderia até julgar aquilo um benefício.”
“Necessário meter-me no interior, passar meses trancado, riscando linhas, condensando observações espalhadas. Não, porém, no interior de Alagoas: indispensável fugir a indivíduos que me conhecessem. Era pouco não tornar a pôr os pés no Palácio dos Martírios: queria evitar indiscretos que me houvessem visto manuseando os horríveis papéis sujos.”
“O emburramento era necessário. Sem ele, como se poderiam agüentar políticos safados e generais analfabetos? Necessário reconhecer que a professora mulata não havia sido transferida e elevada por mim: fôra transferida por uma idéia, pela idéia de aproveitar elementos dignos, mais ou menos capazes. Isso desaparecia. E os indivíduos que haviam concorrido para isso desapareciam também. Excelente que Osman, em cima, e Luccarini, embaixo, continuassem. Não continuariam muito tempo.”
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas. Para que meter semelhante burrice na cabeça das crianças, Deus do céu?”
“De certo modo as ameaças dos telefonemas me agradavam: embora indeterminadas, indicavam mudanças, forçar-me-iam a azeitar as articulações perras. Conservara-me regulamentar e besta mais de 3 anos, numa cadeira giratória, manejando carimbos, assinando empenhos, mecânico, a deferir e indeferir de acordo com as informações de seu Benedito, realmente obedecendo a seu Benedito.”
“Osman me perguntara certa vez:
– Você anda desarmado? Em que é que você confia, criatura?
Depois disso José Auto me emprestara um revólver, mas o revólver tinha apenas três balas e de ordinário ficava nas gavetas, era difícil encontrá-lo. Fôra um alívio a restituição. Ia fazer-me falta quando me agredissem. Foi o que imaginei: uma agressão pública, muitos integralistas atacando-me, furando-me, partindo-me as costelas, os braços e a cabeça. Recolhi-me.”
“Na casinha de Pajuçara fiquei até a madrugada consertando as últimas páginas do romance. Os consertos não me satisfaziam: indispensável recopiar tudo, suprimir as repetições excessivas. Alguns capítulos não me pareciam muito ruins, e isto fazia que os defeitos medonhos avultassem. O meu Luís da Silva [Angústia] era um falastrão, vivia a badalar à toa reminiscências da infância, vendo cordas em toda a parte. Aquele assassinato, realizado em vinte e sete dias de esforço, com razoável gasto de café e aguardente, dava-me impressão de falsidade. Realmente eu era um assassino bem chinfrim. O delírio final se atamancara numa noite, e fervilhava de redundâncias. Enfim não era impossível canalizar esses derramamentos. O diabo era que no livro abundavam desconexões, talvez irremediáveis. Necessário ainda suar muito para minorar as falhas evidentes. Mas onde achar sossego? Minha mulher vivia a atenazar-me com uma ciumeira incrível, absolutamente desarrazoada. Eu devia enganá-la e vingar-me, se tivesse jeito para essas coisas. Agora, com a demissão, as contendas iriam acirrar-se, enfurecer-me, cegar-me, inutilizar-me dias inteiros, deixar-me apático e vazio, aborrecendo o manuscrito. Largara-o duas vezes, estivera um ano sem vê-lo, machucara folhas e rasgara folhas. As interrupções e as discórdias sucessivas deviam ser causa daqueles altos e baixos, daquelas impropriedades. Conveniente isolar-me, a idéia da viagem continuava a perseguir-me. De que modo realizá-la? Havia uma penca de filhos, alguns bem miúdos. E restava-me na carteira um conto e duzentos. Apenas.”
“NO DIA seguinte, 3 de março, entreguei pela manhã os originais a d. Jeni, datilógrafa. Ao meio-dia uma parenta me visitou – e este caso insignificante exerceu grande influência na minha vida, talvez haja desviado o curso dela. Essa pessoa indiscreta deu-me conselhos e aludiu a crimes vários praticados por mim. Agradeci e pedi-lhe que me denunciasse, caso ainda não o tivesse feito. A criatura respondeu-me com quatro pedras na mão e retirou-se. Minha mulher deu razão a ela e conseguiu arrastar-me a um dos acessos de desespero que ultimamente se amiudavam. Como era possível trabalhar em semelhante inferno? Nesse ponto surgiu Luccarini. Entrou sem pedir licença, atarantado, cochichou rapidamente que iam prender-me e era urgente afastar-me de casa, recebeu um abraço e saiu.
Ótimo. Num instante decidi-me. Não me arredaria, esperaria tranqüilo que me viessem buscar.”
“Expliquei em voz alta que não valia a pena. Entrei na sala de jantar, abri uma garrafa de aguardente, sentei-me à mesa, bebi alguns cálices, a monologar, a dar vazão à raiva que me assaltara. Propriamente não era monólogo: minha mulher replicava com estridência. Escapava-me a significação da réplica, mas a voz aguda me endoidecia, furava-me os ouvidos. Não conheço pior tortura que ouvir gritos.”
“Naquele momento a idéia da prisão dava-me quase prazer: via ali um princípio de liberdade.” Realmente: o que não é uma mulher que não nos compreende, e com quem somos forçados a conviver!
“Que diabo ia fazer, perseguido, a rolar de um canto para outro, em sustos, mudando o nome, a barba longa, a reduzir-me, a endividar-me?”
“Além disso eu estava curioso de saber a argüição que armariam contra mim. Bebendo aguardente, imaginava a cara de um juiz, entretinha-me em longo diálogo, e saía-me, perfeitamente, como sucede em todas as conversas interiores que arquiteto. Uma compensação: nas exteriores sempre me dou mal. Com franqueza, desejei que na acusação houvesse algum fundamento.”
“A cadeia era o único lugar que me proporcionaria o mínimo de tranqüilidade necessária para corrigir o livro. O meu protagonista se enleara nesta obsessão: escrever um romance além das grades úmidas e pretas. Convenci-me de que isto seria fácil: enquanto os homens de roupa zebrada compusessem botões de punho e caixinhas de tartaruga, eu ficaria largas horas em silêncio, a consultar dicionários, riscando linhas, metendo entrelinhas nos papéis datilografados por d. Jeni. Deixar-me-iam ficar até concluir a tarefa? Afinal a minha pretensão não era tão absurda como parece. Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere.”
“É desagradável representarmos o papel de vítima.
– Coitado!
É degradante.”
“ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões de Jacob.”
“Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras os meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação. Não me repugnava a idéia de fuzilar um proprietário por ser proprietário. Era razoável que a propriedade me castigasse as intenções.
Fui ao banheiro, tomei um longo banho. Tolice vivermos a apurar responsabilidades. Muitas coisas nos acontecem por acaso, e às vezes nos chegam vantagens por acaso. Julgava é que não me deteriam nem uma semana. Dois ou três dias depois me mandariam embora, dando-me explicações. Um engano. Findo o banho, preparei-me para sair. Em seguida meti alguma roupa branca na valise, mandei comprar muito cigarro e fósforo.”
– O senhor tem coragem de me dar a mão? Estou suja. Desde a manhã aqui pegando os pés destes moleques!
Quatro dessas criaturinhas arrebanhadas nesse tempo, beiçudas e retintas, haviam obtido as melhores notas nos últimos exames.
– Que nos dirão os racistas, d. Irene?
“Afinal, cerca de sete horas, um automóvel deslizou na areia, deteve-se à porta – e um oficial do exército, espigado, escuro, cafuz ou mulato, entrou na sala.”
– Vai apenas essa maleta? Aqui entre nós posso dizer: acho bom levar mais roupa. É um conselho.
– Obrigado, tenente.
“Beijei as crianças, sossegadas. Procurei na cara de minha mulher sinal de medo. Em vão: nem dessa vez nem de outras lhe percebi nenhum receio. Nos momentos mais difíceis sempre a vi corajosa, e isto a diferençava dos parentes, em geral pusilânimes. Depois do conflito da manhã serenara, assistira calada aos preparativos, sem acreditar talvez na realização”
“por que vinha prender-me o sujeito que um mês antes me fôra amolar com insistências desarrazoadas?” “Certo, ele não havia determinado a minha prisão, mas era curioso encarregar-se de efetuá-la. Sem me incomodar com essa pequena vingança, pensei noutras, vi o país influenciado pelos tenentes que executam piruetas, pelas sobrinhas dos tenentes que executam piruetas. Desejariam os poderes públicos que eu mandasse aprovar com dolo a sobrinha do tenente, em Penedo?”
“energúmenos microcéfalos vestidos de verde a esgoelar-se em discursos imbecis, a semear delações.”
“tínhamos a impressão de viver numa bárbara colônia alemã. Pior: numa colônia italiana. Mussolini era um grande homem, e escritores nacionais celebravam nas folhas as virtudes do óleo de rícino. A literatura fugia da terra, andava num ambiente de sonho e loucura, convencional, copiava figurinos estranhos, exibia mamulengos que os leitores recebiam com bocejos e indivíduos sagazes elogiavam demais. O romance abandonava o palavrão, adquiria boas maneiras, tentava comover as datilógrafas e as mocinhas das casas de quatro mil e quatrocentos. Uma beatice exagerada queimava incenso defumando letras e artes corrompidas, e a crítica policial farejava quadros e poemas, entrava nas escolas, denunciava extremismos. Um professor era chamado à delegacia: – Esse negócio de africanismo é conversa. O senhor quer inimizar os pretos com a autoridade constituída.”
“e vivíamos de fato numa ditadura sem freio. Esmorecida a resistência, dissolvidos os últimos comícios, mortos ou torturados operários e pequeno-burgueses comprometidos, escritores e jornalistas a desdizer-se, a gaguejar, todas as poltronices a inclinar-se para a direita, quase nada poderíamos fazer perdidos na multidão de carneiros.”
“Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido uma só revolução no mundo. Revolucionário chinfrim. Desculpava-me a idéia de não pertencer a nenhuma organização, de ser inteiramente incapaz de realizar tarefas práticas. Impossível trabalhar em conjunto. As minhas armas, fracas e de papel, só podiam ser manejadas no isolamento.”
“Logo ao chegar, notei que me despersonalizavam. O oficial de dia recebera-me calado. E a sentinela estava ali encostada ao fuzil, em mecânica chateação, como se não visse ninguém.”
“Nada afinal do que eu havia suposto: o interrogatório, o diálogo cheio de alçapões, alguma carta apreendida, um romance com riscos e anotações, testemunhas sumiram-se. Não me acusavam, suprimiam-me. Bem. Provavelmente seria inquirido no dia seguinte, acareado, transformado em autos. Que horas seriam? Estirei-me no colchão, vestido, o livro de José Geraldo aberto sobre o estômago vazio.”
“Sentava-me, acendia um cigarro. Naturalmente não havia cinzeiro, esses luxos de civilização tinham desaparecido. Burlesco.”
“E ali estava com sentinela à vista. Para quê? Não era mais simples trancarem a porta? Aquele dispêndio inútil de energia corroborava o desfavorável juízo que eu formara da inteligência militar.” “O sujeito firme, encostado ao fuzil. Iria passar ali a noite, dormir em pé?” “Pretenderiam manifestar-me deferência, considerar-me um sujeito pernicioso demais, que era preciso vigiar, ou queriam apenas desenferrujar as molas de um recruta desocupado? Compreenderia ele que era uma excrescência, ganhava cãibras à toa, equilibrando-se ora numa perna, ora noutra? Se não fosse obrigado a desentorpecer-se e dar-me um tiro em caso de fuga, aquela extensa vigília só tinha o fim de embrutecê-lo na disciplina.” “Seria o mesmo do começo ou teria vindo outro durante os cochilos? Havia-me escapado a substituição. Também me escapavam próximos rumores possíveis: gemidos do vento nas árvores do pátio, a marcha lenta da ronda.”
“Ter-me-ia revelado inquieto? Pouco me importava o conceito que a sentinela pudesse ter dos meus movimentos excessivos, nem me ocorria que o infeliz, tão parado, tivesse conceitos. Mas na verdade a inquietação era puramente física: difícil permanecer num lugar; precisão de levantar-me, sentar-me, deitar-me. fumar; a ligeira sonolência perturbada vezes sem conta e a leitura das mesmas páginas de José Geraldo Vieira. Parecia-me faltar a um dever.”
“Picadas no estômago. Fome. Não, não era fome: nem conseguiria mastigar qualquer coisa. Só pensar em comida me dava enjôo. Interiormente achava-me tranqüilo. Ou antes, achava-me indiferente. Sumia-se até a curiosidade inicial. Que peça me iriam pregar no dia seguinte?”
“E não me espantei quando, manhãzinha, me vieram tirar de uma leve modorra:
– Prepare-se para viajar.
Saltei da cama; utilizando o copo e a moringa, escovei os dentes, lavei o rosto, molhei os cabelos; penteei-me, agarrei a valise e os três volumes:
– Está bem.”
“À SAÍDA encontrei o Tavares, conhecido velho do tempo de rapaz, agora investigador da polícia. Disse-me que tinha ordem de levar-me ao Recife e perguntou-me se queria um carro. A pergunta revelava estranha sovinice: pareceu-me que, preso, não me cabia pagar transporte; e, se fôssemos a pé, não alcançaríamos o trem. Senti-me lesado, mas respondi afirmativamente – e foi esta a última relação que tive com os poderes públicos de Alagoas.”
“Outro conhecido, também visto de relance numa estação, foi o deputado José da Rocha. Ao ter conhecimento da infeliz notícia, recuou, temendo manchar-se, exclamou arregalado: – Comunista!”100 anos e nada mudou…
“ESCRITOR APOLÍTICO”: “Absurdo: eu não podia considerar-me comunista, pois não pertencia ao Partido; nem era razoável agregar-me à classe em que o bacharel José da Rocha, usineiro, prosperava. Habituara-me cedo a odiar essa classe, e não escondia o ódio. Embora isto não lhe causasse nenhum prejuízo, era natural que, em hora de paixões acirradas, ela quisesse eliminar-me.”
“Uma palavra apenas, e nela indignação, asco, uma raiva fria manifesta em rugas ligeiras:
– Comunista!
Este resumo aniquilava-me. Ingrato. E qualquer acréscimo, gesto ou vocábulo era redundância.”
“em 1936 esse desrespeito podia considerar-se uma espécie de comunismo.”
“Fumava sem descontinuar, a provisão do tabaco sumia-se rapidamente na valise.”
“e se Tavares não fosse da polícia, agradar-me-ia conversar com ele, recordar as sobrinhas do padre Raul, Pontal-da-Barra, casos da mocidade. O que fiz foi confiar-lhe um bilhete para minha mulher. Na atrapalhação da partida, esquecera-me de um aviso importante.”
“Quais seriam os meus crimes? Não havia reparado nos enxertos em 1935 arrumados na constituição. Num deles iria embrulhar-me.”
“Bem, os célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo. Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente não conhecia. Acusavam-no de ser apenas um memorialista, de não possuir imaginação, e o romance mostrava exatamente o contrário. Que entendia ele de meninos nascidos e criados na lama e na miséria, ele, filho de proprietários? Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu seria incapaz de semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida.”
“Temos a impressão de que apenas desejam esmagar-nos, pulverizar-nos, suprimir o direito de nos sentarmos ou dormir se estamos cansados. Será necessária essa despersonalização? Depois de submeter-se a semelhante regime, um indivíduo é absolvido e mandam-no embora. Pouco lhe serve a absolvição: habituado a mover-se como se o puxassem por cordéis, dificilmente se libertará. Condenaram-no antes do julgamento, e nada compensa o horrível dano. Talvez as coisas devam ser feitas assim, não haja outro meio de realizá-las. De qualquer modo isso é uma iniqüidade – e a custo admitiremos que uma iniqüidade seja indispensável. Aonde me transportariam? Aquela hora muitos indivíduos suspeitos estavam sendo paralisados, rolavam sobre pneumáticos silenciosos, navegavam do norte para o sul e do sul para o norte, resvalavam como sombras em longos corredores úmidos. E as autoridades resvalavam também, abafando os passos, oblíquas, tortuosas, com aparência de malfeitores.”
“Na verdade me achava num mundo bem estranho. Um quartel. Não podia arrogar-me inteira ignorância dos quartéis, mas até então eles me haviam surgido nas relações com o exterior, esforçando-se por adotar os modos e a linguagem que usávamos lá fora. Aparecia-me de chofre interiormente, indefinido, com seu rígido simbolismo, um quadro de valores que me era impossível recusar, aceitar, compreender ao menos.”
“Habituara-me cedo a considerar o exército uma inutilidade. Pior: uma organização maléfica. Lembrava-me dos conquistadores antigos, brutos, bandidos, associava-os aos generais modernos, bons homens, excelentes pais de família, em todo o caso brutos e bandidos teóricos, mergulhados numa burocracia heróica e dispendiosa. Mais tarde, numa prefeitura da roça, percebera que os melhores trabalhadores, os mais capazes, tinham sido soldados – e aquele ninho de parasitas se revelara incongruente. Uma idéia preconcebida, rigorosa, esbarrava com a observação. Nada mais besta que as generalizações precipitadas. A antipatia que os militares me inspiravam com certeza provinha de nos separarmos. Eu achava as fórmulas deles, os horríveis lugares-comuns, paradas, botões, ordens do dia e toques de corneta uma chatice arrepiadora; se algum deles atentasse nas minhas ocupações, provavelmente as julgaria bem mesquinhas.”
“Como era possível em tão grande estabelecimento não haver cela onde se alojassem dois indivíduos? Não se tratava disso, foi o que me pareceu: não se procurava uma cela, mas uma determinada espécie de cela.”
– Obrigado, tenente.
– Não senhor, sou apenas sargento.
– Perdão. Com essa luz tão fraca, difícil notar.
“Iria qualquer informação doida transformar-me em delator, levar à cadeia rapazes inofensivos que tencionavam eliminar a burguesia distribuindo às escondidas nos cafés papéis mimeografados? Um deles, Jacob, figurava no meu último livro, com o nome de Moisés.”
“É desses pequeninos grãos que a polícia constrói os seus monumentos de misérias. Qual seria a minguada contribuição que exigiriam de mim? Esforçava-me por adivinhá-la e guardá-la com avareza: no interrogatório, desviar-me-ia das ciladas, referir-me-ia com ar culposo, misteriosamente, a casos diversos e inofensivos. Difícil era descobrir aonde me queriam levar, que valor me atribuíam. Inadmissível achar-me ali por vingança de um energúmeno qualquer: isto seria antieconômico, disparatado, e sem dúvida o país ainda não chegara a tal grau de estupidez e malandragem.”
“Quando me viesse calma, aventurar-me-ia a fazer um livro, lentamente, livre das aporrinhações normais. Viria a calma? E quantos dias ou meses me deixariam naquela situação?”
“a certeza de que o meu trabalho de indivíduo solitário, na ditadura mal-disfarçada por um congresso de sabujos, seria pouco mais ou menos inútil. Preferível o cativeiro manifesto ao outro, simulado, que nos ofereciam lá fora.”“Até certo ponto podia considerar-me uma espécie de revolucionário, teórico e chinfrim. Sorria-me a perspectiva de olhar de perto revolucionários de verdade, que ultimamente eram presos em magotes.”
– Enfim, como os senhores estão aqui de passagem, podem agüentar uns dias de maus tratos.
Aludiu outra vez, num vago oferecimento, às coisas que nos faltavam, despediu-se e retirou-se. Bem. Tínhamos uma indicação: estávamos ali de passagem. Para onde?
“Indispensável estarem os sapatos cuidadosamente engraxados, os fuzis brilhantes à custa de lixa e azeite, os colarinhos mais ou menos limpos, todos os botões metidos nas casas, os espinhaços tesos. As pernas direitas devem mover-se simultaneamente, depois as pernas esquerdas, e nenhum dedo se afasta dos outros na continência. É preciso olhar vinte passos em frente, e os passos, em conformidade com a marcha, têm o mesmo número de centímetros. Certo, há outros deveres, mas desse gênero, tendentes à mecanização do recruta. Decoradas certas fórmulas, aprendidos os movimentos indispensáveis, pode o soldado esquecer obrigações, até princípios morais aprendidos na vida civil. O essencial é ter aparência impecável. Desapareceu-lhe o cinturão? Falta grave, embora ele em vão remexa os miolos para saber como a desgraçada correia se sumiu. É obrigado a apresentar-se com ela na formatura. Com ela ou com outra qualquer. Nesse ponto convém desapertar, isto é, agarrar o cinturão do vizinho, que, sendo inábil, será punido, pois o maior defeito do soldado é ser besta. Desenvolvem-se a dissimulação, a hipocrisia, um servilismo que às vezes oculta desprezo ao superior, se este se revela incapaz de notar a fraude ou tacitamente lhe oferece conivência. As minhas observações foram completadas pelos informes do capitão Mata, que, percebendo-me a ignorância, desvendava paciente mistérios simples. Divergimos à hora do almoço, mas logo chegamos a acordo. Diante da bandeja, recuei: diabo, a comida era pavorosa, o comandante tinha razão.”
– Respeito as suas idéias. Não concordo com elas, mas respeito-as.
– Quais são as minhas idéias? sorri. Ainda não me expliquei. Estamos a comentar as suas.
– Ora! ora! ora! resmungou o capitão num tom indefinível.
E nada acrescentou. Escusavam-se explicações. A minha estada ali marcava-me. Sem alegar motivos, emprestavam-na certo número de qualidades e tendências.
“O meu companheiro Mata ia muito além: confessava-me a sua ignorância em revolução (fora preso injustamente, não se cansava de afirmar isto), considerava-me um técnico neste assunto e pedia-me que o instruísse com rapidez. Se me acontecia alegar incompetência, achava-me discreto e modesto. Um fato nesse dia 6 abalou-me, o único de que tenho lembrança clara. À hora do café abri um jornal do Recife e li, em telegrama do Rio, a notícia arrasadora: Prestes havia sido preso na véspera.
– Com todos os diabos!”
“Que significava aquilo? Um protesto, nada mais. Se por milagre a coluna alcançasse vitória, seria um desastre, pois nem ela própria sabia o que desejava. Sabia é que estava tudo errado e era indispensável fazer qualquer coisa. Já não era pouco essa rebeldia sem objetivo, numa terra de conformismo e usura, onde o funcionário se agarrava ao cargo como ostra, o comerciante e o industrial roíam sem pena o consumidor esbrugado, o operário se esfalfava à toa, o camponês agüentava todas as iniqüidades, fatalista, sereno. Com certeza essa gente arregalava os olhos espantada – e nos de cima o espanto se mudava em ódio, nos de baixo começava a surgir uma indecisa esperança. Às portas das farmácias, nas vilas, discutia-se com entusiasmo o caso extraordinário.”
“Seria possível uma associação, embora contingente e passageira, entre as duas classes? Isso me parecia jogo perigoso. Os interesses da propriedade, grande ou pequena, a lançariam com certeza no campo do fascismo, quando esta miséria ganhava terreno em todo o mundo. Em geral a revolução era olhada com medo ou indiferença. Os habitantes da cidade contentavam-se com discursos idiotas, promessas irrealizáveis e artigos safados, animavam-se à toa e depressa desanimavam, seriam capazes de aplaudir demagogos como os que, no princípio do século, defendiam a peste bubônica, a febre amarela e a varíola; as populações da roça distanciavam-se enormemente do litoral e animalizavam-se na obediência ao coronel e a seu vigário, as duas autoridades incontrastáveis.”
“Lembrava-me de um desses conselhos, negro, a piche: <índios, uni-vos>. Nunca vi maior disparate, pois naquele arrabalde de capital pequena não vivia nenhum índio.” “E para que nos serviria a união dos índios, santo Deus? Absurdos semelhantes pressupunham desorientação.”
“A divisão da terra, por exemplo, seria um desastre na zona de criação do nordeste. Aí a terra vale pouco e praticamente não tem dono; a riqueza é constituída por açudes, casas, currais, gado. O espaço que um animal necessita para alimentar-se na vegetação rala de cardo e favela que veste a planície queimada é enorme. E a madeira indispensável para estabelecer limites escasseia: as raras cercas são de ordinário feitas de ramos secos ou de pedras soltas. Quase nenhuma lavoura: apenas touceiras de milho peco, um triste feijoal e aboboreiras amarelando na vazante dos rios periódicos.”
“Esperava enfim um triunfo casual. Viera a derrota – e agora queria persuadir-me de que findara um episódio e a luta ia continuar. Certamente haveria mais precaução no desempenho do segundo ato. E aquele revés tinha sido conveniente, pois não existia probabilidade de se agüentar no Brasil uma revolução verdadeira. Se ela vencesse internamente, os nossos patrões do exterior fariam a intervenção.”
“Realmente não me envolvera em nenhum barulho, limitara-me a conversas e escritas inofensivas, e imaginara ficar nisso. A convicção da própria insuficiência nos leva a essas abstenções; um mínimo de honestidade nos afasta de empresas que não podemos realizar direito. Mas as circunstâncias nos agarram, nos impõem deveres terríveis.”
“Anos perdidos. E se a agressão fascista continuasse lá fora, teríamos aqui medonhas injustiças e muita safadeza.”
“O faxina trouxe-me as encomendas, entre elas cuecas ordinárias, provavelmente iguais às usadas na caserna, duras como pau. Como vestir aquele suplício? Resignei-me.”
“O cigarro era insuficiente. Vivia a encher-me de fumaça e arrancava a custo algumas linhas por dia, em letrinhas acavaladas, economizando papel, utilizando o espaço todo, para que o manuscrito fizesse um volume pequeno e pudesse esconder-se em momento de busca. A atenção se desviava do trabalho moroso, buscava o abscesso que se desenvolvia debaixo da unha do indicador.”
“A secura da boca e a dormência do estômago desapareciam, o aspecto desagradável da comida já não me provocava náuseas. Tentei alimentar-me, venci a tontura, a memória ressurgiu, o nevoeiro mental se adelgaçou e as figuras em redor se destacaram. Mas a deficiência interior persistia, desânimo, indecisão e a certeza de que os papéis laboriosamente rabiscados não teriam préstimo.”
“Dizia a significação dos toques de corneta, explicava-me que, para fixá-los, os recrutas decoravam versos grotescos. Estes correspondiam à meia-volta:
Quantos dentes tem sagüi
Na boca?
E também estes:
Nunca vi mulher parir
Sem homem.”
“Mata receava o aparecimento de um general no quartel. Apenas. Estranhei ver homem tão loquaz, tão alegre, amofinar-se à toa. Não havia razão, supus. Em seguida modifiquei o juízo. Para um capitão de polícia a vista de um general, em carne e osso, deve ser caso importante demais.” “Essa autoridade invisível, remota, com um rápido mandado nos cortara a vida social, nos trancara, a nós e a Sebastião Hora, que a alguns passos mofava numa prisão de sargentos, com vários outros. Começávamos a perceber que dependíamos exclusivamente da vontade desse cavalheiro.” “Um tribunal safado sempre vale qualquer coisa, um juiz canalha hesita ao lançar uma sentença pulha: teme a opinião pública, em última análise o júri razoável. É esse medo que às vezes anula as perseguições. Não davam mostra de querer submeter-nos a julgamento. E era possível que já nos tivessem julgado e cumpríssemos pena, sem saber. Suprimiam-nos assim todos os direitos, os últimos vestígios deles. Desconhecíamos até o foro que nos sentenciava. Possivelmente operava nisso uma cabeça apenas: a do general. E capitão Mata, ouvindo a corneta, se alvoroçava.”
“No desembarque fôramos recebidos por um subalterno – e eu o tomara por oficial, tão cortês se revelara. Todas as manhãs recebíamos a visita do comandante e escutávamos, com ligeiras alterações, as mesmas palavras de amabilidade fria. Capitão Lobo continuava a divergir das minhas idéias, que nunca cheguei a mencionar. Também não consegui entender bem as dele. Agradava-me, porém, vê-lo, sentir-lhe a franqueza meio rude, a voz clara, o gesto rápido e incisivo, no olhar agudo uma faísca a indicar tendência para descarrilamentos e doidices necessárias.”
– Muito grave. Na sua chegada eu lhe disse que usasse o banheiro dos oficiais. O senhor ontem tomou banho no banheiro dos sargentos.
Era verdade, mas achei graça na repreensão e sosseguei:
– Ora, capitão! Foi essa a falta grave? Julguei que se tratasse de coisa séria, assustei-me.
O oficial acolheu minha resposta com indignação muda, repetiu depois o que havia dito, enérgico. Tentei justificar-me:
– Encontrei um banheiro ocupado e entrei noutro.
“De fato o que mais nos choca não é a sinceridade, às vezes impertinente: é a arranhadela feita com mão de gato, a perfídia embrulhada num sorriso, a faca de dois gumes, alfinetes espalhados numa conversa. Agora não podia molestar-me.”
“Ofereciam-me na verdade uma cela confortável, mas isto era casual e, para ser franco, nunca desejei conforto: suponho até que ele nos prejudica.”
“PELA manhã, de volta do banheiro, atravessando um corredor, avistamos o comandante em companhia de um homem alto, magro, sério. Enviamos-lhe um cumprimento, e ele nos deteve, nos apresentou:
– General, estes senhores…
Finda a apresentação, o homem alto pregou-me um olho irritado:
– Comunista, hem?
Atrapalhei-me e respondi:
– Não.
– Não? Comunista confesso.
– De forma nenhuma. Não confessei nada.
Espiou-me um instante, carrancudo, manifestou-se:
– Eu queria que o governo me desse permissão para mandar fuzilá-lo.
– Oh! General! murmurei. Pois não estou preso?”
“Estava ali um período conveniente, dos que devemos emitir num quartel. Não me aventuraria a semelhante declaração. Poderia julgar-me um bom patriota? Realmente nem me considerava patriota, seria desonestidade falar daquela maneira. Mas determinadas palavras acalmam determinados espíritos, sem que seja necessário demonstrar a veracidade delas.”
“Não, ninguém tinha interesse em fuzilar-me. Além disso quando um vivente quer extinguir outro, não lhe vai revelar este desejo: extingue-o, se pode. Recurso ingênuo ameaçar as pessoas à toa, sem saber se elas se apavoram. No Brasil não havíamos atingido a sangueira pública. Até nos países inteiramente fascistas ela exigia aparência de legalidade, ainda se receava a opinião pública. Entre nós execuções de aparato eram inexeqüíveis: a covardia oficiai restringia-se a espancar, torturar prisioneiros, e de quando em quando se anunciavam suicídios misteriosos. Isso se aplicava a sujeitos mais ou menos comprometidos no barulho de 1935. Mas que diabo tinha eu com ele? Certamente não me pregariam agulhas nas unhas nem me fariam saltar de uma janela de andar alto. Quanto a mim achava-me tranqüilo. E não me recordava de haver piado uma sílaba que ofendesse a autoridade.”
“Era uma história repisada, com voltas infinitas em redor do mesmo ponto, literatura de peru. Como arte e como política valia bem pouco, mas talvez enxergassem nela dinamite. A crítica policial era tão estúpida que julgava a produção artística não pelo conteúdo, mas pelo nome do autor. Eu vivera numa sombra razoável, quase anônimo: dois livros de fôlego curto haviam despertado fraco interesse e alguma condescendência desdenhosa. Era um rabiscador provinciano detestado na província, ignorado na metrópole. Iriam analisar-me os romances, condená-los, queimá-los, chamar para eles a atenção da massa? Ou lançar-me-iam, tacitamente culpado, no meio de criminosos, indivíduos que sempre desejei conhecer de perto? O mais provável era jogarem-me entre rebeldes de Natal, do 3° Regimento, da Escola de Aviação. De qualquer jeito me apresentariam sociedade nova, me proporcionariam elementos para redigir qualquer coisa menos inútil que os dois volumes chochos encalhados nas prateleiras dos editores. Essa afirmação presunçosa esbarrava com as dificuldades imensas que me surgiam quando buscava utilizar o papel trazido pelo faxina.”
“Prosa de noticiarista vagabundo. Tropeços horríveis para alinhavar um simples comentário.”
“Excetuando-se a ameaça de fuzilamento, reduzível, com esforço e boa vontade, a um conselho enérgico, fórmula viva para nos reeducar, tudo corria numa chateação razoável. As caretas da sentinela, o serviço do faxina, o alimento desenxabido na hora certa, idas e vindas de oficiais no alpendre, os toques da corneta, as vozes de comando.”
“o bacharel Nunes Leite não suportava a cadeia. Horrível sujeitar-se ao mesmo regime naturezas diversas. Capitão Mata nada sofria.” “A administração pública não atenta nessas ninharias, tende a uniformizar as pessoas. Somos grãos que um moinho tritura – e ninguém quer saber se resistimos à mó ou se nos pulverizamos logo.”
“Certo, as ordens sempre tinham sido aparentes: a judicatura servia de espantalho, e na farda havia muque bastante para desobediência. Apenas isto não convinha. E os atores representavam seus papéis, às vezes se identificavam com eles. A repetição de minúcias, a sisudez, a lentidão, a redundância, a língua arcaica davam àquilo um ar de velhice e estabilidade. E Nunes Leite se sentia bem requerendo ao poder competente, ao colendo tribunal, ao meritíssimo juiz. Se essas coisas se houvessem dissolvido aos poucos, ele se acomodaria a novas formalidades legais, dirigir-se-ia a forças diversas, meritíssimas e colendas. Isto não se dera. Nunes Leite se movera entre firmes pedregulhos, julgara-os eternos; esses blocos não se haviam liquefeito: tinham-se evaporado – e ele se achava num deserto.” “Impossível defender o direito de alguém. Propriamente, já não havia direito. A lei fôra transgredida, a lei velha e sonolenta, imóvel carrancismo exposto em duros volumes redigidos em língua morta. Em substituição a isso, impunha-se uma lei verbal e móvel, indiferente aos textos, caprichosa, sujeita a erros, interesses e paixões. E depois? Que viria depois? O caos, provavelmente. Se os defensores da ordem a violavam, que devíamos esperar? Confusão e ruína. Desejando atacar a revolução, na verdade trabalhavam por ela.”
– Sou forçado a pedir-lhe que abra o envelope na minha presença.
– Estou satisfeito. Desculpe. É uma formalidade.
“Era realmente levar muito longe o ramerrão obrigar um sujeito a fazer qualquer coisa e logo afirmar que aquilo não tinha valor, era uma exigência à-toa. Desperdício de tempo. Com semelhante proceder, chegaríamos a supor que ali não havia ocupação e se desmandavam inutilmente.” “Sou forçado a pedir-lhe … Desculpe. É uma formalidade. Aquilo não me entrava no entendimento. Poderiam julgar que no quadrilátero de vinte centímetros, de espessura insignificante, houvesse armas, dinamite ou veneno, disfarçados numa escrita e em pedaços de cartão?”
“De fato ainda não me assaltara o medo, faltava razão para isto; vinha-me, porém, às vezes o receio de experimentá-lo. Sensação angustiosa e absurda: medo de sentir medo.”
“O conto, vagabundo e mal escrito, havia sido enviado a Benjamin Garay, que, francamente, eu nem sabia quem era. Um indivíduo que se oferecera para lançar na Argentina negócios do Brasil. Quem diabo seria Benjamin Garay?” “Referia-se a tradutores qualificados, supondo-me talvez bicho razoável, propenso à glória, à Academia.”
“Estava ali apenas para dar ao burguês a impressão de que havia muitos elementos perniciosos e o capital corria perigo.”
– Não lhe estou oferecendo dinheiro, bradou capitão Lobo, adivinhando-me talvez o sentimento infeliz. Não se oferece dinheiro a homem. Estou facilitando-lhe um empréstimo. E não é lá grande coisa, as minhas reservas são pequenas. Se aceita, o senhor mesmo determina, vê quanto lhe posso emprestar. Naturalmente não há prazo: paga-me lá fora quando se libertar. Sai logo, isso não há de ser nada. Também já estive preso e vivi no exílio: viajei num porão de São Paulo à Europa.
“Gostamos de um gato, de um cachorro, de um papagaio, mas não suportaríamos esses bichos se eles pensassem de maneira diferente da nossa. Sei bem que sou ilógico, pois o pensamento é conseqüência; a conseqüência tornou-se causa, leva-me a proceder desta ou daquela maneira, desejar mortandades. Se o capitalista fosse um bruto, eu o toleraria. Aflige-me é perceber nele uma inteligência, uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas.”
“Infelizmente não havia a pena de morte – e o general se lastimava por não conseguir usá-la a torto e a direito.”
“Afinal capitão Lobo devia ser muito mais revolucionário que eu. Tinha-me alargado em conversas no café, dissera cobras e lagartos do fascismo, escrevera algumas histórias. Apenas. Conservara-me na superfície, nunca fizera à ordem ataque sério, realmente era um diletante.”
“Realmente a desgraça nos ensina muito: sem ela, eu continuaria a julgar a humanidade incapaz de verdadeira nobreza. Eu passara a vida a considerar todos os bichos egoístas e ali me surgia uma sensibilidade curiosa, diferente das outras, pelo menos uma nova aplicação do egoísmo, vista na fábula, mas nunca percebida na realidade.”
“Por que à direita? Por que à esquerda? O sargento não sabe: indicou uma direção por ser preciso variar: fazia dois minutos que marchávamos em linha reta e não devíamos continuar assim, indefinidamente.”
“Permaneceremos civilizados vestindo pijama, calçando chinelos, deixando a barba crescer, palitando os dentes com fósforo? Pouco a pouco vamos caindo no relaxamento. Erguemos a voz, embrutecemos, involuntariamente expomos a rudeza natural. Ignoramos que isto acontece, suprimem-nos meios de comparação – e quando voltarmos estaremos transformados. Afinal a transferência não era ruim: quebrava a monotonia.”
“Um governador de Alagoas me dissera anos atrás:
– Você, escrevendo literatura de ficção, morre de fome. Os romances lhe renderão 200 mil réis por mês. Faça artigos sobre economia e ganhará contos.”
“Duzentos mil-réis por mês, bela perspectiva. Dois romances quase desconhecidos, o terceiro inédito, um conto, vários produtos inferiores – de fato isso me daria duzentos mil-réis mensais. E não me sentia capaz de progresso; talvez nem chegasse a fazer coisa igual.”
“O que eu desejava era a morte do capitalismo, o fim da exploração. Ideal? De forma nenhuma. Coisa inevitável e presente: o caruncho roía esteios e vigas da propriedade, de pouco serviam os meus livros e as divagações de Xavier.”
“E assim decorreu o dia: bilhetes de um lado para o outro. A sentinela se distraía observando a inofensiva brincadeira. Se um intruso surgisse no alpendre, ela daria aviso. Evidentemente a proibição só se fizera para ser violada.”
– Quando a nossa revolução triunfar, ateus assim como o senhor serão fuzilados.
“Homem de religião, homem de fanatismo, desejando eliminar ateus, preso como inimigo da ordem. Contra-senso.”
“Aquelas pessoas urinavam no chão, a um canto; o mijo corria, alagava tudo, arrastando cascas de frutas, vômitos, outras imundícies. Com as oscilações da infame arapuca, a onda suja não descansava, dificilmente se acharia um lugar enxuto.”
“Espantava-me conseguir uma pessoa mastigar qualquer coisa diante das imundícies que se agitavam e decompunham na vaga de mijo. O fedor horrível, confusão de cheiros com predominância de amoníaco, já não me afligia: habituara-me a ele e envenenava-me sem perceber isto. Fumava sem descanso, e temia que me chegasse o momento de abandonar o vício.
No escotilhão estabelecera-se um pequeno comércio. Foi ali com certeza que achei meio de renovar a minha provisão de fósforos e cigarros. Não me recordo. Também não sei como nos forneciam água.”
“Queria atordoar-me, sem dúvida. As letras se acavalavam, miúdas, para economizar espaço, e as entrelinhas eram tão exíguas que as emendas se tornavam difíceis. Realmente nem me lembrava de corrigir a prosa capenga.”
“Fumava o dia todo e assaltavam-me às vezes ligeiras vertigens. Encaminhei-me ao lugar onde bebíamos e não achei água, fiz demoradas buscas inutilmente. A lembrança da noite, do pesadelo extenso, do calor, do negro a coçar as pelancas nojentas, afligiu-me. Naquele estado, o estômago vazio, a garganta seca, ia estirar-me novamente na tábua suja, asfixiar-me, ouvir gemidos, roncos, pragas, borborigmos, delirar, avizinhar-me outra vez da loucura. À medida que o tempo se passava os meus receios cresciam. Tentava iludir-me: ambientado, não experimentaria as ânsias da véspera; na verdade as causas do tormento haviam sido o colarinho, a gravata, a roupa grossa de lã”
“Na véspera outro desconhecido, negro também, me havia encostado um cano de arma à espinha e à ilharga; e qualquer gesto de revolta ou defesa passaria despercebido. Esquisito. Os acontecimentos me apareciam desprovidos de razão, as coisas não se relacionavam. A violência fôra determinada apenas pela grosseria existente no primeiro negro; o ato caridoso pela bondade que havia no coração do segundo. Ausência de motivo fôra isso, eu não merecia nenhum dos dois tratamentos.”
– Ilusão pequeno-burguesa.
“A porcaria aumentava consideravelmente. Se não viessem fazer baldeação, dentro em pouco não teríamos um pedaço de tábua limpa.”
“O sujeito que me ficara a dever 5 mil-réis desapareceu, não sei como achou meio de ocultar-se. Às vezes eu o enxergava de longe. Aproximava-me, e o focinho escuro, carrancudo, se desviava, baixava, tinha jeito de farejar-me para dissimular-se nos grupos.”
“Despertara-me a curiosidade uma família de mulatos, cinco irmãos de cores variadas: havia um sujeito mascavo, de carapinha, beiçudo, e uma louraça bonita, perfeitamente branca.”
“estava ali um negrinho bem-vestido a espiar-nos, curioso, a beiçorra contraindo-se num sorriso infantil. Não nos trazia nenhum aviso, claro: afastei a possibilidade remota e vacilante. Certifiquei-me, porém, de que ele poderia mostrar lá fora pedaços da nossa existência no sepulcro. Aferrei-me à convicção e, não sei por que extravagância, imaginei-o próximo de Edison Carneiro, capaz de se avistar no mesmo dia com este amigo, com quem me correspondia. Depois de muitos acenos, gritei com toda a força dos pulmões débeis:
– Conhece Edison Carneiro?
A interrogação abafada perdeu-se; repeti-a diversas vezes, até julgá-la compreendida. O tipinho balançou a cabeça afirmativamente. Considerei absurdo jogar semelhante frase numa cidade populosa e sobrestive; passados minutos, inquiri novamente:
– Sabe onde fica a Rua dos Barris?
Outra afirmação, o risinho inexpressivo colado nos beiços grossos. Bem. Nenhum disparate: pisávamos o terreno firme das probabilidades: andar nas vias públicas, olhar as placas, era exercício de qualquer transeunte. Do navio para a terra estabeleceu-se um diálogo que supus bastante claro: berros de um lado, gestos, aprovações silenciosas do outro. Perguntei ao sujeito se ele queria ser portador de uma carta. Consentiu. Sem dúvida: agitava o crânio mirim com doçura a tudo quanto ouvia, e nem me vinha a suspeita de não me fazer entender. Fui abrir a valise, retirei o bloco de papel, escrevi a lápis um bilhete narrando o miserável estado em que nos achávamos. Evitava pensar que o escrito não chegaria ao destino; e caso chegasse, o meu distante camarada nenhum recurso tinha para auxiliar-nos; contudo afligia-me a necessidade urgente de enviar-lhe aquela exposição. Rabisquei à pressa, interrompendo-me a cada instante para examinar o negrinho, receando que ele se ausentasse. Falava-lhe nesses intervalos, embaralhava explicações. Descasquei em seguida uma laranja, cuidadosamente. Lancei na água o fruto, e a casca, uma longa fita em espiral, foi enrolada com jeito, afinal se tornou uma esfera oca. No interior pus a folha dobrada. Fiz algumas recomendações ao negro, medi atento a distância que nos separava, meti o braço pela vigia, arremessei a bola com vigor desesperado. Atingiu o cais, rolou, estacou a dois metros da borda. Apesar de haver traçado o endereço bem nítido, em caracteres graúdos, comecei a esgoelar-me, repetindo com insistência:
– Edison Carneiro. Rua dos Barris – 68
O rapaz olhava-me perplexo e interrogava-me sacudindo a cara chata. Só então me veio a certeza de que ele não havia percebido as minhas falas. Expliquei-lhe aos berros que ali havia um papel e continuei a dar-lhe as indicações precisas: o nome e a residência do escritor baiano. Mas já não tinha nenhuma confiança no resultado: ou a minha voz fraca desfalecia no burburinho, nos rumores da carga e da descarga, ou me achava diante de uma estupidez maciça.
Trabalho perdido. Inúteis os brados e os acenos. Calei-me zangado comigo, por me haver iludido à toa, furioso com o animal, que não me entendera e, alheio ao guindaste, aos visitantes, aos passageiros, aos carregadores, continuava a farejar o porão, como um rato, erguendo o focinho, dirigindo-nos os bugalhos claros.”
“Numa das viagens encontrou no caminho o objeto dos meus cuidados. Parou, deu-lhe um pontapé, jogou-o na água. Durante algum tempo o bilhete e o invólucro meio desfeito boiaram na onda, sacudiram-se, bateram no muro esverdeado. E desapareceram.”
“Excelente padre Falcão. Durante o resto da viagem notei-o mais de uma vez em ronda ao nosso curral. O olhar grave se adoçava, os lábios firmes se entreabriam num sorriso bom, exibindo enormes dentes. Era pouco mais ou menos o que poderíamos desejar, ver alguém interessar-se por nós, demonstrar-nos uma solidariedade comprometedora. Isso lá fora passaria despercebido; ali tinha valor imenso: é de coisas semelhantes que fazemos as nossas construções subterrâneas.”
“A verdade é que não consegui escrever. Deitei-me cedo, sem tirar os sapatos, como no dia anterior. Realmente não havia lugar onde colocá-los: se os largasse no chão, amanheceriam com certeza molhados de mijo; ou talvez o gatuno de cara enferrujada os levasse. Necessário vigiar a maleta, a calça e o paletó bem visíveis na ponta do estrado. A chavezinha estava comigo, dentro do porta-moedas; nos bolsos da roupa não havia nada suscetível de furto. Apesar disso, a bagagem não me parecia segura. Se não fosse o receio de molestar os companheiros, tê-la-ia levado para dentro da rede. Ser-me-ia então possível dormir livre de cuidados. A vigilância pouco a pouco se tornava maquinal: embrenhando-me em pensamentos confusos, às vezes despertava erguendo-me sobre o cotovelo, curvando-me sobre a varanda para examinar os troços, a esquina da tábua suja.”
“Quel pays, mon Dieu!” “provavelmente argentinas e polacas airadas já não vinham cavar a vida no Brasil.”
“Fumei o último cigarro, lembrei-me de haver esgotado o sortimento da valise. Calculara mal as exigências do vício e achava-me em dificuldade. Passaria o resto da noite sem fumar, não me chegaria o sono. Levava a mão ao bolso, mecanicamente, irritava-me, quando vi, por cima da minha cabeça, o negro que me havia matado a sede. Sem refletir, fiz o pedido:
– O senhor me arranja, por obséquio, três maços de cigarros e fósforos?
– Que marca? perguntou o soldado.
– Qualquer uma.
Pareceu-me que indicar a marca era demasiada exigência. Quis designar a que habitualmente usava; talvez não fosse achada, e acanhar-me-ia ver o rapaz ir duas vezes ao bar por encargo tão insignificante. Julgava-me sem direito de escolher, temia que o homem se impacientasse. Era um acaso feliz encontrar quem me valesse em tal dificuldade. Retirei uma cédula da carteira, segurei-me à corda, alcancei os varões de ferro, como na véspera, entreguei o dinheiro ao polícia, jurando no íntimo não tornar a incomodá-lo, voltei a estirar-me, cansado. Em conseqüência da inércia obrigatória, ou por falta de alimentação, qualquer esforço me abatia. Ao cabo dez minutos o misericordioso preto ressurgiu:
– Abra a rede.
Afastei as varandas, recebi em cima do peito os objetos da encomenda, as pratas e os níqueis do troco.
– Muito obrigado.
Pus-me a fumar, embalado por uma doce tontura. Com o navio atracado, as oscilações que experimentávamos eram quase insensíveis. Sentia-me realmente bem. As pessoas e as coisas em redor esmoreciam na fumaça do cigarro, as idéias escassas decompunham-se, volatizavam-se, e afinal eu já nem sabia se aquela tênue neblina estava dentro ou fora de mim. Adormecia, acordava, a brasa do cigarro cobria-se de cinza e avivava-se. As pálpebras uniam-se, descerravam-se penosamente, nos vaivéns dos cochilos a figura do negro desaparecia, reaparecia, e isto me reconciliava com a humanidade. Uma grande paz me envolvia, ausência completa das complicações que me aperreavam. A dorzinha aguda que o abscesso da unha me causava extinguia-se, era apenas um leve torpor. Nem picadas no estômago nem contrações nos intestinos: era como se estes órgãos não existissem. Nada havia ingerido ultimamente, impossível até pensar em comer. Ia com certeza prolongar-se a medonha sitiofobia, mas a perspectiva de nenhum modo me assustava. Indiferença. Tanto rendia estar ali como acolá, viver de uma forma como de outra, ou não viver. Não me desgostava acabar suavemente, escorregar aos poucos na eternidade, envolto em sentimentos generosos, levar comigo a recordação do negro que velava a minha fraqueza, firme e sério, de braços cruzados. A visão benigna desmaiou e sumiu-se, as trevas do sono cobriram-me, foram-se adensando.”
“da coberta jogavam no porão cascas de tangerina, que me vinham cair dentro da rede. Procediam exatamente como se as lançassem num chiqueiro. Protestei furioso, mas o protesto e a fúria desanimaram, a voz fraca deve ter morrido a poucos metros. Resignei-me em seguida. Inútil gritar. Um chiqueiro, evidentemente. Era como se fôssemos animais.”
“Tais desencontros amargam em demasia, enchem-nos de fel: queremos expressar agradecimento sincero – e verificamos que o nosso salvador é um patife.”
“Enojava-me ter as mãos sujas e não poder lavá-las: o suco da manga colava-me os dedos, a umidade pegajosa me desagradava em excesso.” Seu humor rabugento me desagrada em excesso. E é assim tanto fora quanto enjaulado, tanto em dias “felizes” quanto na pior, sr. Graciliano! Me lembra até um colega de repartição que tudo desaprova… com ou sem razão!
“A mudança daquele dia nos agravou o desassossego. A gente da primeira classe matava o tempo rondando no convés, agrupava-se, estacionava; enchia-me de vergonha, imaginava estarmos a servir de motivo à pasmaceira; com certeza olhares oblíquos, gestos de rancor e desprezo, se dirigiam a nós. Achavam-me objeto de análise e cotejos humilhantes: viam-me nos olhos baços, na cara pálida, na magreza, no encolhimento, sinais de criminosos. O desespero de Manuel Leal por não se poder manifestar, declarar-se vítima, dizer aos passageiros bem vestidos que gostava deles e abominava revoluções devia ser tremendo.”
“E não avistávamos faixa de praia, ave ou barco. A imensidão vazia, o alto céu azul, as plantas invariáveis, vermelhas, ferrugentas, espalhando na água o estranho lençol cheio de rasgões.
Duas horas de compridos bocejos. E obrigaram-nos a descer. Recebemos então uma agradável surpresa: durante a nossa ausência haviam feito baldeação na cafua, as porcarias tinham desaparecido, esgotara-se o poço de mijo, nas tábuas úmidas espalhava-se uma camada fina de areia. Bem. Alargava-se o espaço transitável, conseguíamos agora mexer-nos sem receio da onda pútrida. Acomodaram-se as bagagens, corpos fatigados estenderam-se com desafogo no chão limpo. E destravaram-se as línguas. Já não nos sufocávamos respirando amoníaco, estávamos quase alegres. Um operário de Rio Grande pôs-se a cantar uma lengalenga chatíssima que findava neste pavoroso estribilho:
Chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen.”
“Mas foi um breve intervalo. À hora do almoço novos resíduos se acumularam no chão. E como havia sempre alguns homens de costas junto ao camarote do padeiro, o líquido marejou, filetes engrossaram na areia.”
“O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam?” “desejaríamos enlouquecer, recolher-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo.” “Afligia-me especialmente supor que não me seria possível nunca mais trabalhar; arrastando-me em ociosidade obrigatória, dependeria dos outros, indigno e servil.”
“27 dias de esforço para matar uma personagem, amarrar-lhe o pescoço, elevá-la a uma árvore, dar-lhe aparência de suicida.”
“O maço de cigarros ao alcance da mão, o café e a aguardente em cima do aparador. Estirava-me às vezes pela madrugada, queria abandonar a tarefa e obstinava-me nela, as idéias a pingar mesquinhas, as mãos trêmulas.”
“Seria melhor que ele se calasse, mas na verdade a tagarelice não me perturbava a recordação”
“Abrira-me com o editor: afirmara-lhe, em carta, que ele não venderia cem exemplares da história.”
“TIVE uma forte hemorragia intestinal, coisa rápida, imprevista. Nenhuma dor, nenhum indício de que um vaso fosse rebentar. O estômago e a barriga não funcionavam desde a minha chegada: provavelmente estavam secos, as glândulas preguiçosas recusando-se ao trabalho. Era como se esses órgãos não existissem: admirava-me de achá-los entorpecidos, de não sentir neles um movimento, uma ligeira contração. Insensibilidade completa. Ainda se mexiam no começo, uma picada me fazia pensar no alimento, ocasionava a repulsa invencível; estavam agora em repouso de morte. Havia em mim, do tórax ao abdômen, uma sepultura. A boca estava queimada, as gengivas ardiam, o cigarro colava-se aos beiços, arrancava películas, deixando marcas de sangue; necessário escovar os dentes com muito cuidado: o dentifrício, chegando-me às feridas, semelhava cautério. A falta de salivação produzia-me a necessidade freqüente de molhar a língua e as mucosas: refrescava-as com bochechos de água, depois gargarejava.”
“De pé, encostado ao umbral, confundindo pessoas e acontecimentos do Rio Grande, as pernas abertas para evitar alguma cambalhota, distraía-me olhando a escada, as viagens incessantes dos companheiros à latrina. Foi a curiosidade que me fez imitá-los. Isso e também a lembrança de viver entre eles cinco ou seis dias, sem ter ido ali uma só vez. A imobilidade esquisita das vísceras começava a alarmar-me.
Subi, entrei num quarto imundo. Paredes nojentas, papéis sujos a amontoar-se, a espalhar-se no chão, ausência de água, o ambiente mais sórdido que se possa imaginar. Difícil tratar desse ignóbil assunto, nunca em livro se descerram certas portas. Arrisquei-me a abrir aquela porta por me haver surgido o acidente: quando menos esperava, um jato de sangue. Num minuto estancou; mas o líquido viscoso, os coágulos, provocaram-me a necessidade urgente de banhar-me.”
“Dois volumes publicados e um inédito eram mesquinhos, o primeiro um horror, o último precisando emendas e cortes, o bom-senso me afirmava isto”
“Tencionava experimentar-me, saber se a máquina combalida suportaria segunda carga de álcool A prova falhou. Distribuí, como da primeira vez, uma parte da aguardente com várias pessoas, tomei porção razoável e escondi a garrafa debaixo do colchão do padeiro. Uma hora depois achei-a vazia: Mário Paiva, aquele ingrato, abusando torpemente da minha hospitalidade, tinha bebido o resto.”
“Apesar da indiferença, espantava-me ignorarem completamente onde ficaríamos, andarem à toa em busca de cárceres para nós. Essa desordem me causou vago prazer.”
– Religião.
– Pode inutilizar esse quesito.
– É necessário responder, engrolou, na sua língua avariada, o homem trigueiro.
– Bem. Então escreva. Nenhuma.
– Não posso fazer isso. Todos se explicam.
De fato muitos companheiros se revelavam católicos, vários se diziam espíritas.
“Percorrendo o sertão, muitas vezes, quando a noite descia, amarrei o cavalo a uma árvore, envolvi-me na capa, estirei-me na terra e dormi, tranqüilo e só. Não seriam piores que as cobras e outros bichos do mato os habitantes da prisão.”
“Onde estaria o sem-vergonha carrancudo que me furtara 5 mil-réis e estivera uma semana a esconder-se?” Um obsessivo-compulsivo idiota…
“Exposição humilhante era a sórdida latrina, completamente visível. Sobre o vaso imundo havia uma torneira; recorreríamos a ela para lavar as mãos e o rosto, escovar os dentes. As dejeções seriam feitas em público. A ausência de porta, de simples cortina, só se explicava por um intuito claro da ordem: vilipendiar os hóspedes.”
“Fulano, Beltrano, Sicrano estiveram aqui presos, em tal data, como comunistas.” O exército brasileiro tem sérios traumas libidinais com o “comunismo”.
“A segunda idéia que me veio foi uma pergunta: como haviam conseguido escrever a tão grande altura, onde o braço não chegava? No compartimento nem vestígio de mobília.”
O MULATO DE GRACILIANO É SEMPRE O ESTEREÓTIPO DO BANZO PREGUIÇOSO:“Acerquei-me, vi no corredor um mulato claro vestido no uniforme de riscas, a zebra dos penitenciários. Tinha um dente de ouro, ar de suficiência e pimponice. Ao ver-me, declarou, a fala branda, mole, viscosa” “As mulheres fugiriam à triste carne do pulha, ao canino amarelo, à voz cantada e bamba.”As mulheres prefeririam o sedutor Graciliano “Gable” Ramos…
“longa reserva encolhia os nordestinos suspeitosos. Não nos fiaríamos em gente desconhecida.”
“Todos se enganavam, só a criatura estigmatizada me via por dentro; o hábito de examinar minúcias, em permanência longa na prisão, certamente lhe desenvolvera a sagacidade.”
– Faz favor de me dizer para onde vamos?
– Pavilhão dos Primários, informou o sujeito.
– Melhor ou pior que isto aqui?
– Melhor, melhor. Vivem lá cantando e berrando como uns doidos.
SEGUNDA PARTE – PAVILHÃO DOS PRIMÁRIOS
“Quem seria o monstro familiar à teoria da relatividade, aos horrores onde a minha escassa inteligência naufraga?” “E decidir afastar-me cuidadoso de Sérgio, bruxo amigo de Einstein e do infinito: a presença dele seria um alfinete para minha ignorância.”
– Sérgio de quê? perguntei. Qual é o seu sobrenome?
– Isto é pseudônimo. Eu me chamo Rafael Kamprad.
– Alemão? Pelo jeito de falar, parece alemão.
– Russo, do Cáucaso.
Ainda criança, perdera a família na Guerra Civil, conseguira chegar à Alemanha, onde estranhara o silêncio, a falta dos tiros de canhão. Estudante de filosofia e matemática numa universidade, fugira perseguido pelo nazismo, fôra terminar o curso na Estônia. Daí o expulsaram. Tinha parentes na China e no Brasil: uma avó no Rio de Janeiro, um tio em Cantão, rico em negócios de petróleo com os americanos.
Optara pelo Brasil. E vivia de ensinar quando rebentara a bagunça de 1935. Previdente, desviara de casa objetos nocivos, confiara a um aluno cartas de Trotski, mas com tanta infelicidade que num instante haviam caído os papéis nas mãos da polícia. No interrogatório quisera defender-se:
– Por essa correspondência, os senhores vêem a minha posição, nada tenho com o barulho daqui.
Que sujeito agourado!
“Na brancura doentia de nata, no olho azul cinzento, serenidade completa. Indiquei figuras que divisávamos dali; algumas já me haviam provocado a atenção. O sujeito de blusa russa e cachimbo era José Medina, com certeza o mencionado na inscrição vista na parede, em cima da barra. O rapaz simpático e franzino, de cueca e tamancos, era Rodolfo Ghioldi.
– Italiano?
– Argentino, Secretário do Partido Comunista Argentino.
Sim senhor, achava-me entre indivíduos importantes, que me espicaçavam a curiosidade. Percebi um moço alto, magro, de cabeça pequena, vago feitio de pernalta, escrevi o nome dele: Benjamin Schneider. Sérgio corrigiu a grafia: Snaider. Achei esquisita a emenda:
– Não é alemão?
– É um judeu romeno.”
– Em quê é que vocês se ocupavam lá fora?, indaguei.
– Eu trabalhava com ele, respondeu Newton designando o outro.
– E ele?
– Ele trabalhava comigo.
– Sim. Mas que é que faziam?
– Ah! Não fazíamos nada.
“Deitava-me afinal como gente, na aparência. O colchão era tão delgado que não me deixava em sossego, um varão do lastro magoava-me o espinhaço. Virei-me para um lado e para outro, avancei, recuei, e sempre a infeliz haste de metal a chocar-me os ossos. Alojei-a por fim entre as últimas costelas e o ilíaco, adormeci ouvindo a esfrega nas camisas do capitão, o esguicho da torneira.”
“os nervos dóceis”Acaso jamais fará sentido que um dia chamem este prosador de cáustico em adjetivos? Essa compreensão de Graciliano Ramos é ainda inferior à da antropologia de um Sérgio Buarque… Quem chamaria nervos de dóceis senão o maior adjetivador da língua? Não satisfeitos? Vamos destacar os adjetivos de uma passagem mais larga e nos convencer, enfim: “O gesto de prestidigitador firme[aqui um combo!] no seu ofício. Conservou-nos atentos meia hora, o prazo marcado para a conferência. Tê-la-ia, como depois notei, desenvolvido em sessenta minutos ou resumido em quinze, expondo a matéria toda, sem esquecer um ponto. Capaz de, com destreza, analisar ou sintetizar.” Talvez não seja maior adjetivador que ninguém, não se enganem, mas o menor é que não é!
“o Hino do Brasileiro Pobre:
Do norte, das florestas amazônicas,
Ao sul, onde a coxilha a vista encanta…”
“E resmungara chateado:
– Fui oficial de Bela Kun. Iam fazer aqui revolução com estas bestas?”
“Jornalista, desenfastiava-se na prisão redigindo novelas. Exibiu-me um conto bem chocho, amostra das suas possibilidades literárias.” Bem chocho.
“– A Beatriz não vai querer cantar? disse alguém.
Ir querer, fala estranha, feriu-me o ouvido nordestino.”
Para um narrador cáustico, é muito refinado e cheio de fita.
“um surdo rumor de máquina zumbia monótono.” Por que não um rumor de máquina zumbia? Porque Cagliostro tem que adjetivar, adjetivar tudo em dobro!
“De ordinário a expressão me fugia, decompunha-se o pensamento, e era uma tortura vencer a estupidez, procurar dizer qualquer coisa gaguejando um vocabulário escasso, miserável. Na manhã luminosa, olhando postes e fios, prédios cinzentos, arvoredo e morro, ainda uma vez me aniquilei no pasmo que a palavra falada sempre me causa.”
“Desprezando a Europa, detinha-se em louvores minuciosos à sabedoria asiática. Não se julgava europeu. Nascido no Cáucaso, mestiço de eslavo e tártaro, só achava firmeza e vida no Oriente. Quando me falou pela primeira vez nos canados, não o entendi: a pronúncia gutural deformava inteiramente a palavra.”
“Desdenhando gramáticas e dicionários, entrava na sintaxe e enriquecia o vocabulário por meio de leituras e consultas. O que entrava ali ficava, não repetia perguntas. Fez uma síntese da filosofia de Hegel, num caderno, a lápis, o começo em alemão, o fim em português.”
“Esforçava-se por trasladar-me versos de Puchkine, desistia:
– É inútil. Só podemos sentir e compreender esta balada em russo.”
“meu novo amigo vinha de grandes culturas, não iria fingir apreço às miudezas nacionais.”
– Ainda não conheço o Brasil. Leviandade manifestar-me sobre ele.
– Sem dúvida, somos bichos de espécies diferentes. Faço um livro, gasto meses a espremer os miolos, compondo, eliminando, consertando, fico a remoer cada frase com paciência de boi, e consumo para entender isso o duplo do tempo necessário a você. É inacreditável.
Afirmava-me não ser difícil percorrermos um texto, apreendendo a essência e largando o pormenor. Isso me desagradava. São as minúcias que me prendem, fixo-me nelas, utilizo insignificâncias na demorada construção das minhas histórias.
Sem dúvida isso o ajudou a ler Hegel.
“Julguei Sérgio isento de emoção, e isto me aterrou. Comovo-me em excesso, por natureza, e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões. Imaginei-me diante de um cérebro, cérebro enorme. O resto do corpo minguava, tinha fracas exigências, funcionava para levar um pouco de sangue à poderosa máquina.”
“Ouvindo isso, falei no ódio que ele devia experimentar. Olhou-me atônito:
– Ódio? A quem?
– Aos indivíduos que o supliciaram, já se vê.
– Mas são instrumentos, sussurrou a criatura singular.
– Aos que os dirigem. Aos responsáveis por isso.
– Não há responsáveis, todos são instrumentos.
Na verdade ele tinha razão. Contudo, se me houvessem atormentado, não me livraria da cólera, pediria todas as desgraças para os meus carrascos.”
– (…) Você é civilizado, civilizado até demais. Diga-me cá. Admitamos que o fascismo fosse pelos ares, rebentasse aí uma revolução dos diabos e nos convidassem para julgar sujeitos que nos tivessem flagelado ou mandado flagelar. Você estaria nesse júri? Teria serenidade para decidir?
– Por que não? Que tem a justiça com os meus casos particulares?
– Se você acaso chegasse ao poder, conservaria os seus inimigos nos cargos, Sérgio?
– Não tenho inimigos. Conservaria os que se revelassem úteis.
– Bem. Essa impassibilidade me assusta. Apesar de sermos antípodas, fizemos boa camaradagem. Mas suponho que você não hesitaria em mandar-me para a forca se considerasse isto indispensável.
– Efectivamente, respondeu Sérgio carregando com força no c. Boa noite. Vou dormir.
Estendeu-se na cama agreste, enfileirada com a minha junto ao muro, cruzou as mãos no peito. Ao cabo de um minuto ressonava leve, a boca descerrada a exibir os longos dentes irregulares. Nunca vi ninguém adormecer daquele jeito. Conversava abundante, sem cochilos nem bocejos; decidia repousar e entrava no sono imediatamente.
“Deixando a Alemanha, Sérgio casara e enviuvara, na Estônia. Não lhe notei saudade, era como se casamento e viuvez se referissem a outra pessoa.” “A moça da Estônia fôra colega de universidade, e Emilie, suponho, dera-lhe as primeiras lições de português. No começo presumi Sérgio indiferente à beleza física, só interessado nas relações intelectuais, a carecer de sexo. Depois modifiquei o juízo. Também comigo se passava qualquer anormalidade. Surgiu-me de repente anafrodisia completa. Súbita desaparição dos desejos eróticos e um resfriamento geral, espécie de anestesia (…) Deram-me um princípio de esclarecimento, e não liguei importância a ele. Eu abusava do café.
(…)
o faxina me proporcionou este aviso:
– Se o senhor soubesse o que há nisto, não bebia tanto.
Indaguei, o tipo encolheu os ombros e ficou por aí. Desatento ao conselho, não me abstive do líquido enjoativo, adocicado. E nem de longe suspeitei que o gostinho de formiga tivesse ligação com o prolongado esmorecimento.”
“Correram semanas. Repetidamente ouvi Apporelly desenvolver o seu projeto, modificá-lo, narrando minúcias. Não se resolvia, porém, a iniciar a obra, coordenar as ironias abundantes que fervilhavam no interior. Absorvia-se na improvisação, exibia fragmentos já lançados no hebdomadário. Impossível dedicar-se a tarefa longa, julguei. Depois imaginei-o vítima de incapacidade transitória. Na extensa inércia, o pensamento esmorecia, os desígnios murchavam. Raros ali conservavam a lucidez e a firmeza de Sérgio, de Rodolfo Ghioldi. Trabalhos descontínuos, aulas vagas falhando, recomeçando sem programa, tudo me fazia supor que desejávamos atordoar-nos. Tentei aprender russo com Benjamin Snaider: peguei o alfabeto e meia dúzia de palavras. Exigiram de mim uma conferência a respeito do nordeste. Alarmei-me:
– Estão doidos?”
“As folhas e os lápis dormiam na valise. O abscesso da mão secou e cicatrizou, a unha caiu, veio outra: findava o pretexto com que me iludia para ficar inativo.”
“VALDEMAR BIRINYI introduziu o jogo de xadrez no Pavilhão dos Primários. Vivia num isolamento profundo, necessitava comunicar-se. Por desgraça menoscabara os hinos e largara a frase inconveniente à chegada: ‘Querem fazer revolução com essas bestas?’ Em conseqüência o antigo oficial de Bela Kun fôra posto de banda. Tentava conversar e ninguém o compreendia direito.” “referiu-me que na polícia lhe haviam tomado oito malas, 25 mil francos suíços e, perda irremediável, uma preciosa coleção de selos, a terceira do mundo. Fora anos atrás à Inglaterra exibir essa maravilha ao rei, também filatelista. Narrou-me a viagem com segurança, a visita, bastante vaidoso. Certo dia traçou numa folha de almaço um tabuleiro de xadrez, fabricou peões, torres, cavalos, bispos, reis e rainhas com miolo de pão, coloriu de azul as peças e as casas pretas. Desde então aquele divertimento nos encheu as horas, venceu as lições, as cantigas da Rádio Libertadora. Ao cabo de algum tempo houve um desastre.”
“Concluímos facilmente que as baratas haviam estragado as figuras. Esse contratempo não causou prejuízo sério.”
“Prestes e Berger estavam no isolamento, e o segundo perdia a razão sob torturas multiplicadas.”
“Aqui no Brasil há uma birra como a sua: ninguém quer ser literato, não sei porquê. [sic] Eu me confesso literato, literato ordinário.” Graciliano a Ghoeldi
– Você acha que Birinyi foi realmente oficial de Bela Kun, Rodolfo?
– Talvez. Quem sabe? Os oficiais de Bela Kun não deviam ser muito diferentes daquilo.
– Zangado? Não. Por quê?
– Está sim. Por causa do xadrez.
– Que idéia, Birinyi! Quem lhe falou nisso?
– Snaider.
– É brincadeira dele.
O colosso ficou um momento indeciso, estendeu-me o braço peludo:
– A mão.
Apertei-lhe os dedos, rindo.
– Agora, exclamou desanuviado. Agora sim. Amigo.
– A terceira do mundo. Verdade, verdade. – Naquele tempo ele não era rei.
“OS PERCEVEJOS da Detenção eram na verdade uma praga, e em vão tentávamos saber onde se escondiam. No prédio novo, de muros lisos, chão encerado, parecia não haver ambiente para a medonha proliferação. Deviam alojar-se nos ferros das grades, nas juntas das camas, nas gretas dos guarda-ventos. Examinávamos pacientemente os lugares suspeitos, esmiuçávamos a roupa, as cobertas, os colchões, os travesseiros. Nenhum sinal dos miseráveis; durante o dia era possível esquecê-los, jogar xadrez, ler, escrever, ouvir discursos, lições, hinos, sambas. À noite deixavam-nos repousar alguns minutos: era como se calculassem o tempo, soubessem a hora de atormentar-nos.”
“A trave de ferro já não me incomodava: habituara-me depressa a arrumar os ossos no colchão.”
“E a luz era escassa, a lâmpada muito alta iluminava fracamente a página. Sem dúvida a leitura me arruinaria a vista. Assim me conservava, bocejando, fumando, até não resistir ao sono.” “despertava coberto de salpicos vermelhos. § Os médicos do Pavilhão, atentos à higiene, muito se preocuparam com o flagelo: Valdemar Bessa, Isnar Teixeira, Sebastião Hora, Campos da Paz novo e Campos da Paz velho, magro e taciturno, que se assinava Campos da Paz M.V.” “Ainda não estavam secos os tamancos deixados a aquecer numa faixa de sol, e uma lancetada rija nos despertava. A indignação nos enchia de raiva. Trabalho perdido. Como se incêndio, ao dilúvio? Patifes. Zombavam dos nossos desgraçados esforços e vingavam-se. Iriam assanhar-se, não nos deixariam tranqüilos. Canseiras inúteis, aniquilados os desígnios mortíferos de Valério Konder.”
“Admirei Ivan. E, enquanto não lhe soube o nome, ele foi, para mim, apenas o tenente que sabia sintaxe.”
“Estremeci, apertei as mãos com raiva. Anos atrás encolerizava-me facilmente, cegava, fazia imenso esforço para não me perceberem a zanga, a violência interior, movimentos dos punhos contraídos no desespero. Freqüentemente explodia a fúria bestial e desmandava-me em desatinos que me enchiam de vergonha. Sentia-me fraco, bicho inferior, invejava as pessoas calmas, não conseguia iludir-me com a manifestação parva de coragem falsa. Às vezes me dominava, recompunha-me, a tremura desaparecia, os dedos se estiravam. Sinais de unhas nas palmas suadas, as juntas a doer; a respiração era um sopro cansado. Naquele dia a ira velha, recalcada nos subterrâneos do espírito, veio à luz e sacudiu-me: desejei torcer o pescoço do insolente. Na surpresa, recusei o testemunho dos olhos e dos ouvidos.”
“Sou um espião, tornou Lauro Fontoura. É o que esses moços espalham por aí. Não lhe disseram? Pois fique sabendo. Um sujeito andou cochichando nos cubículos e encheu as cabeças desses idiotas. Reparou no oficial da venta grande?”
– É claro, respondeu Lauro Fontoura. Você o conhece? Nem eu. Ninguém o conhece. Não entrou em nenhum barulho. Donde veio? Apareceu de repente, semeou brigas e escapuliu-se. Nem sabemos se o excluíram do exército. Excluir, tinha graça. Veio aqui desempenhar uma tarefa e será promovido.
“Impossível conjeturar se a explicação era verdadeira ou falsa; de qualquer modo o homem se mostrava leviano fazendo comentários imprudentes a um desconhecido.”
“Consideravam-nos trotskistas, ofensa máxima imputável a qualquer de nós. Sem se examinar idéia ou procedimento conferia-se o labéu a torto e a direito, apoiado em motivos frívolos ou sem nenhum apoio. Difamavam-se os caracteres arredios, infensos ao barulho, às cantigas, às aulas interrompidas, recomeçadas, ao jogo de xadrez; as índoles solitárias, propensas à leitura, à divagação, inspiravam desconfiança.”
“Entretanto não nos era possível suprimir a monogamia. Onde achar remédio contra as mesquinharias pingadas na rotina como gotas de azeite? Numa sucessão de estados monogâmicos, talvez. Os norte-americanos estavam certos. Um basbaque nos ouvia atento, no fim da conversa intrometeu-se nela:
– Mas isso não é dialético.”
– Quem falou em trotskismo? Internacionalismo foi o que eu disse.
– É a mesma coisa.
– Está bem.
“Quase todos se julgavam revolucionários, embora cantassem o Hino Nacional e alguns descambassem num patriotismo feroz.”
“materialistas de meia-tigela, camada flutuante, sem nenhuma consistência”
“Sebastião Félix realizava sessões espíritas.”
“Ouvidas as excelentes conferências de Rodolfo, limitar-me-ia a parolar com duas ou três pessoas, encaracolar-me-ia depois.”
“Mas quando Pais Barreto chegou, achei-me diante de uma realidade, caso concreto, insofismável. Era um rapaz alto, desempenado, falador, transbordante. Veio ocupar a célula fronteira à minha. Vi-o dias inteiros curvado sobre papéis, escrevendo. Escrevendo informações à polícia, cochicharam-me – e não disseram em que se baseavam, nenhum fato mencionaram.”
“ofereciam-nos avisos sibilinos” “só me restava guardar silêncio e suspender qualquer juízo.” “Sentia-me enervado, propenso a aceitar qualquer boato. Preguiça de refletir. Em conseqüência, afirmei a mim mesmo o contrário do que me diziam: Pais Barreto não era traidor. Mas em nada me baseava para assim pensar. De fato não pensava, faltavam-me recursos indispensáveis a uma conclusão, desconhecia os antecedentes daqueles homens e era forçado a orientar-me pelas aparências.”
MAIS OU MENOS COMO NO TRABALHO: “Em tal situação invade-nos um mal-estar desconhecido cá fora, vivemos à espera de ameaças indeterminadas e, reconhecendo ser impossível conjurá-las, não nos resignamos a capacitar-nos disto: buscamos isolar-nos na multidão, permanecemos de sobreaviso, reduzimos o vocabulário e estudamos as caras e os gestos.”
“jogando xadrez, remoendo as conseqüências de um lance arriscado, estamos sem querer a observar os movimentos do parceiro. Com certeza ele notará isso e nos julgará indiscretos, fará conosco o jogo que fazemos com ele.”
“A recordação de um nariz bicudo persegue-nos, a toda hora esperamos vê-lo ressurgir, farejando.” “Ignorando até que ponto os carrascos estão seguros, os padecentes se desnorteiam nessa brincadeira de gato com rato, deixam escapar um gesto, uma imprudência necessária à clareza do processo. E o embuste avança, pouco a pouco se fabricam as malhas de uma vasta rede, outras pessoas vêm complicar-se nela, trazer novos subsídios ao inquérito.”
SOB TORTURA: “A palavra solta entre o suplício material e o suplício moral tem semelhança de voluntária, e se prejudicou alguém, podemos julgá-la delação.” “Teria dito realmente aquilo? Jura que não. Mas a frase foi composta, redigida com bastante veneno, alguns acusados a ouviram” “Se, com desesperado esforço, em arrecuas violentas, dá alguns passos, consegue chegar-se ao ponto de partida, os antigos camaradas o empurram. Está de costas voltadas para eles, não se equilibra, forçam-no a descer, em pouco tempo se acha longe.” “Antes de se arvorar em dirigente, devia balancear as suas forças, avaliar se elas eram suficientes para guardar um segredo em qualquer circunstância. Teve a desgraça de ser fraco e isto o inutiliza. É um desertor, tem de asilar-se no campo inimigo; aí lhe darão as tarefas mais repugnantes.”
“As pessoas que se demoraram junto de nós cochichando expressões cabalísticas aparecem-nos grandes em excesso.”
“estamos de olhos e ouvidos muito bem abertos para fechá-los às mais simples inconveniências.” Ambíguo.
“De qualquer forma, é indispensável guardarmos reserva. O que antigamente nos seduzia agora é motivo de calafrios.” “E nem é preciso usarem conosco rigores de técnica: não ficaremos três dias pisando em cima de alçapões: em menos de uma hora largaremos diversas incongruências, esvaziar-nos-emos por inteiro, soltaremos a frase de relance ouvida, que não compreendemos bem e talvez vá causar a ruína de outras pessoas.”“mas o pior é não sabermos se isso aconteceu, ignorarmos as nossas ações, sermos um joguete das circunstâncias. … estamos incomunicáveis e ninguém nos diz se mostramos covardia ou bravura.”
“Um entusiasmo de fogo de palha às vezes me levava a retirar os papéis da valise, insinuava-me a esperança de arrumar observações razoáveis sobre a vida na cadeia, mas o trabalho avançava lento demais, o jogo de xadrez e a vagabundagem nos cubículos me absorviam.”
“Quando nos abrirem as portas, chegaremos à rua machucados, bambos, secos, acharemos a vida amarga, cansar-nos-emos facilmente, qualquer esforço nos parecerá vão. Se alguma coisa nos prender, serão resquícios dessa estranha solidariedade. Certamente eles nos acompanharão sempre.”
Pelo menos Graciliano Ramos reconhecia que não escrevia bem.
“Esqueci a presença de Hora e Sérgio, num instante as crianças me apareceram vivas e fortes: tinham deixado a praia, a areia branca de Pajuçara, feito longa viagem, transposto diversas grades – e estavam no cubículo 35.”
“Nem selo nem carimbos do correio: alguém da minha família arriscara-se a meter a mão na engrenagem policial e deixara na secretaria aqueles retratos, sem nenhuma indicação. Quem teria sido o intermediário? Não atinei com amigo ou parente capaz de aceitar a incumbência.” Tu não confias na tua mulher, ó imbecil?
– Que diabo vem fazer no Rio essa criatura?
Era uma quinta-feira, princípio de maio: algumas letras e algarismos me trouxeram de relance a noção do tempo esquecido. Minha mulher chegara e prometia visitar-me na segunda-feira, entre dez e onze horas.
– Que estupidez!
NÓS FUMANTES TEMOS UM ESTILO DE VIDA CARO! “E dela me chegariam decerto preocupações insolúveis, novas cargas de embaraços. Alarmava-me sobretudo o esgotamento dos recursos guardados no porta-níqueis. As vezes retirava as notas escondidas no compartimento mais secreto, desamassava-as, contava-as, recontava-as e nessas operações assustava-me com freqüência a falta de alguns mil-réis.”
“Movia-me talvez menos a certeza de não poder auxiliá-la nas dificuldades e tropeços que o desaparecimento inexplicável dos desejos sexuais. Para nada, para nada. Repetia esta convicção obtusa. Nenhuma recordação amável.”
– É que a artéria femural está descoberta, meu filho. Se metessem o canivete, você era um homem perdido. Horrível saber anatomia. Se Afrânio não me tivesse dito aquilo, deixar-me-ia tranqüilamente operar, morreria ou viveria, confiado na ciência. Não morrera. Dr. José Carneiro fôra pago, indevidamente, na minha opinião. Quarenta dias numa cama, um tubo de borracha atravessando-me o ventre, o coração fatigado a subir, a descer
“Depois a convalescença, a vida estreita, a composição de um romance na sacristia de uma igreja do interior. A garota que ali estava no cartão, de pernas à mostra e fita no cabelo, nascera quando se findava essa história rude e agreste.
Dois filhos gêmeos – uma criança viva, de olhos claros, e um fazendeiro rijo, assassino e ladrão. Rememorar isso não me dava prazer.”
“Regressar àquilo, afundar outra vez na água espessa, amarga.
– Que estupidez!”
“Egoísta, ingrato, idéias deste gênero, pouco mais ou menos. Percebi-lhe no rosto uma longa censura e não tentei desculpar-me.”
“E desgostava-me expor aos outros as minhas desgraças interiores, ver nas fisionomias traços de piedade superficial. Encolhi-me, sentado na cama, a acender cigarros, verrumando o futuro, revolvendo o passado, numa confusão. Impossível dormir.”
“A criatura tinha vendido os móveis e o resto, cedera tudo às cegas e naturalmente se embrulhara. As suas contas andavam sempre numa complicação. O dinheiro tinha para ela uma significação muito relativa. Ouvindo-a, inteirava-me daquele negócio. Compreendia que estávamos pelados, reduzidos à penúria. Bem. Não valia a pena discutir. As nossas desavenças não tinham base econômica: a causa ordinária delas era um ciúme desarrazoado que a levava ao furor.”
“Hospedara-se em casa de uns tios, no Méier. Estivera no Ministério da Guerra, no Ministério da Justiça, no Palácio do Catete, na Chefatura de Polícia, falara a deputados e a generais, largava rápido a língua do nordeste e começava a adotar uma gíria burocrática singular, enganando-se às vezes no sentido de algumas expressões.” “Entendera-se com José Olímpio e combinara com ele mandar buscar por via aérea uma das cópias do romance. Aquela hora a papelada estava decerto voando para o Rio.”
“Agildo Barata e outros andavam sempre a redigir misteriosos resumos das longas discussões murmuradas nos fundos do cubículos”
“A correspondência com pessoas insuspeitas lá fora engordava debaixo dos colchões; emagrecia à hora das visitas: cartas e relatórios, escondidos em bolsas de mulheres, passavam as grades, espalhavam-se em ônibus e bondes, chegavam à Câmara dos Deputados. Nova balela, novo escarcéu, baldava a matéria semanal dessa fadiga sub-reptícia: papéis queimados, carvões leves pulverizando-se no chão vermelho. As minhas notas difíceis acumulavam-se na valise. Não me resolvera a inutilizá-las. Pouco me importava que as vissem. Indiferença. Resistira, esperara que as viessem descobrir e inutilizar; persistiam, mal escritas, a lápis, em cima do guarda-vento, narrando a figura burlesca do general (…) Preguiça. Não me arriscaria a trazer para o cubículo, por intermédio de minha mulher, o romance falho. (…) O original e a outra cópia recomendada existiriam? Afinal o romance valia pouco. Ser-me-ia talvez possível, com dificuldade, fazer outro menos ruim.”
“Remoí a proposta de José Olímpio. O conserto do romance, no futuro, estava excluído, pois ele nunca se reeditaria: a convicção de que não se venderiam cem exemplares cada vez mais se firmava.”
“Recomendei a minha mulher que procurasse os editores Schmidt e Gastão Cruls, recebesse o dinheiro relativo aos direitos autorais dos meus dois primeiros romances.”
“Nem tive tempo de pensar. Entrei na célula, apanhei o jantar nojento, arremessei-o por cima do parapeito. Mais tarde uma pergunta me verrumou: como sucedeu que, tendo sido tão rápida a minha ação – entrar no cubículo, apanhar a bóia, num instante jogada no andar térreo – diversas criaturas houvessem feito o mesmo anteriormente? Acompanhei durante um minuto a ruidosa manifestação. Figuras ativas apareciam nas soleiras; de toda a parte, em cima, embaixo, projéteis saíam, rebentavam com fragor no cimento. Avolumaram-se depressa as ruínas; houve silêncio – e fiquei longo tempo debruçado à viga negra do parapeito a indagar como o excessivo estrago se tinha realizado e quais seriam as conseqüências dele. Estranho contágio: a inesperada proposta se erguera, breve, firme, crespa, aceita sem exame, por unanimidade.”
“Andava entre nós, imperceptível, mesquinho, e revelava-se de chofre, dominador. Por quê? Revolvi os miolos indagando a causa do poder tão inesperadamente revelado, julguei enxergar uma clareira no fato obscuro. Segundo imaginei, Agildo conseguia discernir a alma alheia. Individualmente isso não constitui nenhum dom especial. Em convivência prolongada, as caras das pessoas, uma ruga, piscadelas, sobressaltos, lábios contraídos, sorrisos, palidez, rubor, ligeiros sinais quase indistintos, conjugam-se, combinam-se com situações anteriores, oferecem-nos a instantânea percepção de sentimentos e pensamentos. Não se tratava disso. Pareceu-me que o sujeitinho moreno e exíguo possuía a qualidade rara de apreender num instante as disposições coletivas; rancores indeterminados, esperanças, receios, desejos, comprimidos nos subterrâneos das consciências, chegavam-lhe às antenas. Esse radiotelegrafista recebia estranhas comunicações, relacionava-as, concluía, marchava direito a um fim desconcertante: ignorávamos tudo e, surpresos, executávamos ordens, mas isto era tão normal, tão razoável, como se nos dirigíssemos pelas nossas cabeças.”
“Debruçado ao parapeito, descuidava-me a observar os faxinas que recolhiam destroços no rés-do-chão. As vassouras chiavam no cimento, os cacos tiniam. Dançavam-me na mente as conseqüências da nossa brutalidade. Com certeza nos iriam dar comida em horríveis marmitas de folha, como as do porão do Manaus. Privar-nos-iam das visitas, da correspondência, do banho de sol. E os estrangeiros seriam os mais lesados; transferência de Rodolfo Ghioldi, Sérgio, Birinyi, Benjamin Snaider para as galerias.” Que nada: “patriota” gosta mesmo é de se vingar em patriota!
“à hora do almoço, a grade se descerrou como se o acontecimento da véspera não tivesse nenhuma importância; a refeição, menos ruim que as habituais, surgiu em louça nova. As colheres velhas e ordinárias haviam desaparecido. Junto aos sacos de laranjas e bananas percebi uma grande caixa. Abriram-na. E na distribuição da comida ofereceram-nos talheres decentes.”
“As unhas de Benjamin Snaider tinham caído, nasciam outras: sabíamos a causa e guardávamos silêncio. Assunto realmente desagradável. Ninguém se inferiorizava lembrando as violências animais; seria absurdo, porém, imaginar uma pessoa vangloriar-se com elas. Víamos agora um sujeito alardear os sinais do vilipêndio, tão satisfeito que supus achar-se entre nós um profissional da bazófia.” “Enjoei num instante a nossa piedade, fácil e imaginosa: estivéramos a conceber suplícios longos, requintes de malvadez, agulhas penetrando carnes, nádegas queimadas a maçarico, e aparecia-nos uma criatura jovial, buliçosa, a envaidecer-se de pequenas manchas azuis, traços insignificantes na pele clara.”
“A impressão que Miranda me deixou persistiu e acentuou-se no correr de dias: inconsistência, fatuidade, pimpanice. Vivia a mexer-se, a falar demais, numa satisfação ruidosa, injustificável. Incrível haver ganho fama, inspirado confiança e admiração. Com o tempo deixei de espantar-me, julguei entrever o mecanismo que impulsiona esquisitas celebridades vazias.”
“O singular dirigente achava que, para ser um bom revolucionário, lhe bastava conhecer o ABC de Bukharin. Solecismos e silabadas também se originavam de um preconceito infantil em voga naquele tempo: deformando períodos e sapecando verbos, alguns tipos imaginavam adular o operário, avizinhar-se dele.” “Esnobismo de algum modo semelhante ao dos nossos modernistas, vários anos no galarim, a receber encômios deste gênero: – ‘Como eles sabem escrever mal!’”
“Dissidente, considerado trotskista, fugia às discussões, aos banhos de sol, ao jogo de xadrez, simulava não perceber remoques e grosserias.”
“A entrega dos envelopes exigia prestidigitação: ligeiros, diante de funcionários, deixavam as mangas dos presos, mergulhavam entre páginas de revistas, escondiam-se por baixo de lenços pequenos caídos no cimento. É possível que os guardas percebessem esses manejos e encolhessem os ombros com indiferença, não sendo obrigados a intervir; em alguns achei mais tarde cegueira voluntária e conselhos oportunos.”
“A minha situação não melhorava nem piorava. Ausência de processo, nenhuma testemunha; adiava-se, provavelmente não se realizaria o interrogatório longamente esperado.”
“Já um fanático me havia chamado trotskista.”
“éramos cupim no edifício burguês e aplicavam-nos inseticida.”
“Um mês antes, de passagem pelo Rio, padre José Leite perdera alguns dias procurando avistar-se comigo; tentara vencer a resistência da autoridade jurando que eu não era comunista. Essa imprudência me comoveu e assustou. Se o meu excelente amigo tentasse de novo aproximar-se da ratoeira, arriscar-se-ia a ficar nela.”
“O mal existia, sem dúvida, mas era abstrato. O comunismo, um fato mau, idéia má, desligava-se dos homens, criaturas de Deus, pelo menos das pessoas conhecidas”
“Mas o Presidente da República era um prisioneiro como nós; puxavam-lhe os cordões e ele se mexia, títere, paisano movido por generais.”
– Isso é crime! vociferava o militar. Não faz nada? O senhor é um monstro. Deixa uma pessoa a perder sangue, à míngua.
Julguei perceber a réplica: os nossos receios eram exagerados e, além disso, não estava na hora de fazer exigências. Isso me arrepiou: o burocrata se mecanizava, cumpria funções mínimas, entrincheirado no regulamento.
– Vai sair? esganiçava-se Agildo. Abandona a criatura esvaindo-se? Nem uma injeção!
A farmácia estava fechada, foi a última desculpa.
– O senhor é um assassino, bradou o oficial.
Diversas invectivas se seguiram, enérgicas, inúteis. O indivíduo, impassível, deu as costas, alcançou o fim da plataforma, desceu a escada, sumiu-se. Ranger de chave na porta da frente foi o sinal para um charivari louco.
“Isso me atraía. Às vezes não queremos saber se nos comportamos bem ou mal; procedemos assim por não nos ser possível proceder de outra maneira; a violência animal nos impele e domina.”
“Em conseqüência duas ou três fechaduras rebentaram, e surgiram rebeldes no passadiço e no rés-do-chão, a animar a desordem. As portas avariadas, desengonçadas, começaram a bater rijo nos umbrais, faziam depois de abertas um estrondo horrível.”
“O locutor da Rádio Libertadora indicava os novos prisioneiros, advogados, médicos, oficiais do exército, e salvas de palmas acolhiam essa gente”
“Hermes Lima foi a pessoa mais civilizada que já vi. Naquele ambiente onde nos movíamos em cuecas, meio nus, admitindo linguagem suja e desleixo, vestia pijama – e parecia usar traje rigoroso. Amável, polido, correto, de amabilidade, polidez e correção permanentes.”
“Eram engraçadas as suas indiscrições. Revelou-me que se havia metido a conspirar estupidamente com dois figurões do exército. No dia da revolta se dirigira ao ponto combinado para receber ordens dos chefes. Um estava inteiramente bêbedo, o outro chorava como um desgraçado.”
“Não me sentia lesado no porão do Manaus. Apesar daquela miséria, o jejum completo, a asfixia, o calor do inferno, a imundície, não percebera ali nenhum dolo: a desgraça atingia todos como praga ou inundação. Ninguém se revolta contra essas forças brutas. A dispnéia, a escuridão leitosa, o horrível cheiro de amoníaco, o soldado negro empurrando-me com a pistola, ao descer a escada, eram coisas fatais, no medonho pesadelo. Na verdade éramos bichos. Regressávamos à condição humana, impunham-nos um castigo – e percebíamos que ele era embuste. Esse procedimento insidioso me atormentava mais que as humilhações e o desconforto.”
– Donde diabo vem você, homem? Ainda acredita nessas bobagens? Vai sair daqui marcado. E lá fora, quando houver uma greve de barbeiros, agarram-no.
– Pois sim. Eu embrulhar-me no sindicato dos barbeiros. Tem graça.
– Por que não? Antes que você prove que não é barbeiro, corre o tempo.
– É um tipo escrachado.
Depois de ligeira dúvida, o nome estranho se definiu: o ladrão estava nas fichas da polícia, tinha deixado lá o retrato e as marcas digitais, de nenhum modo chegaria a livrar-se disso. Escrachado. Bem.
“Exclui-se a idéia de arranjar outro ofício – Em primeiro lugar nada sabe fazer além de abrir portas ou embromar otários repisando velhas, estafadas parolagens; valoriza enormemente as suas pequenas habilidades, gosta delas, aos íntimos agrada-lhe referi-las com vaidade e exagero. E depois, ainda que desejasse trabalhar, não o conseguiria: negam-lhe a mínima confiança, ninguém lhe aceita os propósitos de regeneração, em qualquer parte julga perceber olhares suspeitosos. Cumprida a sentença, verrumam-lhe o espírito esses desajustamentos, a liberdade chega a apavorá-lo.”
“Os gritos daquela noite eram de um garoto violado. Essa declaração me estarreceu. Como podia suceder tal coisa sem que atendessem aos terríveis pedidos de socorro? Muitos guardas eram cúmplices, ouvi dizer, e alguns vendiam pequenos delinqüentes a velhos presos corrompidos – vinte, trinta, cinqüenta mil-réis, conforme a peça.” “Na ausência de mulheres, consente-se o homossexualismo tacitamente.”
“Os assassinos, criminosos fortuitos, em geral os sujeitos chegados maduros, conseguem livrar-se do contágio: têm a preservá-los costumes diversos, princípios, a repugnância que nos leva a desviar os olhos se vemos uma dessas criaturas, lavar as mãos se a tocamos. Esse nojo e esses escrúpulos esmorecem com o tempo: refletindo, alinhando motivos, inclinamo-nos a uma indecisa piedade, afinal até isto míngua e desaparece: achamos aqueles invertidos pessoas vulgares submetidas a condições especiais: semelhantes aos que perderam em acidente olhos ou braços.”
“têm voz dulçurosa, gestos lânguidos e caminham rebolando os quadris. Nem todos são assim, de ordinário não se distinguem por nenhum sinal particular. Nada que mereça desprezo. Como se iniciaram? Os angustiosos e inúteis apelos noturnos davam a resposta.”
“Preliminarmente lançamos opróbrio àqueles indivíduos. Por quê? Porque somos diferentes deles. Seremos diferentes, ou tornamo-nos diferentes? Além de tudo ignoramos o que eles têm no interior. Divergimos nos hábitos, nas maneiras, e propendemos a valorizar isto em demasia. Não lhes percebemos as qualidades, ninguém nos diz até que ponto se distanciam ou se aproximam de nós.” “Será um nojo natural ou imposto? Quem sabe se ele não foi criado artificialmente, com o fim de preservar o homem social, obrigá-lo a fugir de si mesmo?”
“Tinham sido eliminados do exército, mas ainda vestiam fardas, guardavam hábitos da caserna.” Olha só! Quando é por comunismo, eles expulsam mesmo da corporação!
“Moésia Rolim, Walter Pompeu e Lauro Fontoura, expulsos da Escola Militar em 1922 ou 1924, tinham-se metido em leis e eram advogados. Com o movimento de 1930 haviam regressado ao exército. Insatisfeitos, embrulhados em nova conspiração, outra vez eram demitidos.”
“Picolés, milicos. Não se ofendiam com esses epítetos. Milico no extremo sul é qualquer soldado. Aplicando-lhes a designação de picolés, talvez quisessem dizer que eles tinham na caserna a resistência do sorvete, iam derreter-se depressa. Alguns, como Agildo, eram considerados mortos para a vida militar; Maria Barata recebia no tesouro o dinheiro das viúvas, e visitava o defunto uma vez por semana.”
“De repente veio a degringolada metódica, primeira de uma série que nos iria causar graves inquietações. As mudanças até então se faziam sem alarde, quase sub-reptícias: pareciam atos ilegais, determinados e executados na sombra por malfeitores. Os cubículos enchiam-se, esvaziavam-se moderadamente, e às vezes nem percebíamos a ausência de algum hóspede incolor; em conversas, lembrávamos o sumiço de indeterminadas feições; e com freqüência nos causava espanto o regresso desses fantasmas. A retirada em massa nos surpreendeu, nos mergulhou em presságios escuros.”
“Pertencíamos a essa camada fronteiriça, incongruente e vacilante, a inclinar-se para um lado, para outro, sem raízes. Isso determinava opiniões inconsistentes e movediças, fervores súbitos, entusiasmos exagerados, e logo afrouxamentos, dúvidas, bocejos.”
– Em comuna aqui ninguém toca.
Alongou o braço, indicou uma linha indecisa, a limitar os dois campos:
– Este pedaço é dos comunas, o resto é nosso. Aqui ninguém bole com eles. Agora se algum passar para lá, não garanto nada.
“As mais altas autoridades lá de cima não teriam meio de fazer-se respeitar assim. Capoeiragem sábia, um gesto – e a resolução clara.”
“Na verdade Moleque Quatro não bazofiara ao condenar friamente o delator: se o tivesse liquidado, não lhe viriam pedir contas, pois a eliminação de uma vida pouco influiria no cadastro policial: uma ficha a menos. E as sindicâncias não teriam resultado: o crânio partido e o cérebro exposto serviam de exemplo, atavam as línguas, a indicar as represálias em caso de traição. Ninguém se arriscaria a depor. Insignificância. Iriam remeter o corpo ao necrotério ou jogá-lo na água?”
“A idéia de moscas tontas a desfalecer no inseticida, batendo as asas lânguidas, vinha-me com insistência.”
“Conseguiria um sujeito livre, em casa, diante de uma folha de papel, adivinhar como nos comportávamos entre aquelas paredes escuras? Tipos iguais a mim seriam incapazes disso. Não se tratava, porém, da minha incapacidade; outros dispensariam exames e sondagens, criariam mentiras de vulto, superiores ao que me caía na pena, mentiras também, povoadas de minúcias rigorosas, exatas.
– Seu Quatro, pelo amor de Deus, tenha pena de meus filhos.”
“Sentia-me duramente ofendido – e arreliava-me em despropósitos cegos. Esforçara-me longos anos por vencer esses impulsos; conseguira abafar a voz estridente e coibir o pestanejar excessivo; a obrigação de escrever levara-me a expressar-me com atenção, analisar as frases antes de largá-las. Os efeitos custosos da paciência demorada num instante se perdiam.”
“Já me haviam feito andar em três estados e conhecer cinco prisões. Novas mudanças arbitrárias, inexplicáveis, chegariam.”
“Em que mês nos achávamos? Esquecia-me às vezes. Mas contando as laranjas era-me possível saber quantos dias mediavam entre duas turmas que vinham da Colônia Correcional.”
“Dois bichos de pensamento não se deviam casar, refleti mais de uma vez notando pedaços da conversa longa.”
“aqui os modos afáveis e protetores de Adolfo; ali a brutalidade rija do estivador Desidério. Isso me excitava a desconfiança, levava-me a examinar as pessoas com frieza, e qualquer mostra de solidariedade me surpreendia.”
“Alarmava-me a esquisitice do rapaz. Como diabo se desperdiçavam momentos preciosos debatendo a questão social com uma pessoa tão bonita? Se ele tivesse bom senso, limitar-se-ia a admirar pedaços da moça: um olho brilhante, uma nesga de bochecha corada, os beiços muito vermelhos.”
FIM DO VOLUME I
GLOSSÁRIO
capiongo = piongo: triste, melancólico
casquete: tipo de gorro
charivari: tumulto
colendo: respeitável
engrolar: pronunciar imperfeitamente; enganar.
esbrugado = esburgado: descascado, desossado
esgrouviado: esguio e alto, parecido com um grou!
galarim: opulência, grandeza
infenso: adverso
niquice: ninharia
prognata: “adjetivo, substantivo masculino e feminino. Que ou aquele que tem as maxilas alongadas e proeminentes. adjetivo. Forma de crânio que apresentam certas raças humanas da África e Austrália.” Deixa fora de dúvida o racismo de Graciliano Ramos ao descrever as pessoas – e enterra esse mito idiota de que ele “não usa adjetivos”. É o que ele mais usa.
“A arquitetura moderna, a música moderna, a filosofia moderna, a ciência moderna – todas se definem não a partir do passado, e na verdade nem contra o passado, mas em independência do passado. A mentalidade moderna tornou-se cada vez mais indiferente à história porque esta, concebida como uma tradição nutriz contínua, revelou-se inútil para ela.” “a indiferença por qualquer relação com o passado libera a imaginação, permitindo que proliferem novas formas e novas construções.”
“Viena no fin-de-siècle, sentindo profundamente os abalos da desintegração social e política, revelou-se um dos terrenos mais férteis para a cultura a-histórica do nosso século.”
I
“meu curso de história das idéias seguiu bastante bem – até Nietzsche.” “As diversas categorias elaboradas para definir ou orientar qualquer uma das correntes na cultura pós-nietzschiana – irracionalismo, subjetivismo, abstracionismo, angústia, tecnicismo – não tinham a virtude de se prestar a generalizações, e tampouco permitiam qualquer integração dialética convincente com o processo histórico, tal como era entendido antes.” “a própria multiplicidade de categorias analíticas com que os movimentos modernos se definiam tinha se convertido, para empregar a expressão de Arnold Schoenberg, em ‘uma dança fúnebre dos princípios’.”
“Em economia, os teóricos de orientação matemática ampliaram seu domínio em detrimento dos institucionalistas mais antigos, de orientação social, e keynesianos de orientação política. Mesmo num campo como a música, uma nova cerebralidade, inspirada por Schoenberg e Schenker, começou a destruir as preocupações históricas da musicologia. Sobretudo em filosofia, disciplina outrora marcada por uma grande consciência do seu caráter e continuidade históricos, a escola analítica contestou a validade das questões tradicionais que, desde a antiguidade, tinham interessado aos filósofos.”
“Os historiadores tinham-se contentado, por demasiado tempo, em usar os artefatos da alta cultura como meros reflexos ilustrativos de desenvolvimentos políticos ou sociais, ou como elementos ideológicos.” “A noção, amplamente aceita, de um processo histórico estruturado na vida cultural – principalmente o fundado sobre o conceito de progresso, como no séc. XIX – permitia ao historiador que ele se apropriasse de materiais culturais condizentes com a idéia que tinha acerca da direção geral seguida pela história.”
“Assim como é necessário conhecer os métodos críticos da ciência moderna para interpretá-la historicamente, da mesma forma é preciso conhecer os tipos de análise empregados pelos estudiosos modernos de humanidades para abordar a produção cultural não-científica do séc. XX.”
“Ao que o historiador deve renunciar agora, [anos 70] e principalmente ao enfrentar o problema da modernidade, é a postulação prévia de uma categoria geral abstrata – o que Hegel chamou de Zeitgeist, e Mill de ‘a característica da época’.”
II
“No decênio que se seguiu a 1947, finalmente faliu o otimismo histórico e social associado ao New Deal e à luta contra os nazistas. É inegável que os EUA tiveram, antes, ondas de pessimismo e dúvida, com porta-vozes tão eloqüentes como Poe, Melville ou Henry Adams. Mas elas não tinham se imprimido muito profundamente na cultura de uma nação cujos intelectuais se integravam intimamente à sua vida pública.” “Em suma, liberais e radicais, quase que inconscientemente, adaptaram suas visões de mundo a um declínio das expectativas políticas. Liberais que passaram a vida indiferentes à religião foram atraídos para um protestantismo neo-ortodoxo; passou-se a invocar Kierkegaard. Entre as referências intelectuais dos estudantes universitários, a sapiência aristocrática e resignada de um Jakob Burckhardt passou a responder mais aos problemas culturais e políticos do que o racionalismo ético, antes empolgante, de John Stuart Mill, ou a sólida visão sinóptica de Karl Marx.”
“Gustav Mahler, por muito tempo tido como compositor banal e até tedioso, subitamente virou nome popular obrigatório nos programas sinfônicos.” “Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, pintores vienenses da vida sensorial e psíquica, saíram da obscuridade para o que só podemos chamar de moda.”
III
“O governo efetivamente constitucional durou, num cálculo otimista, 4 décadas (1860-1900). Mal comemorou-se a vitória e vieram os recuos e derrotas. Todo o processo se passou em tempo exíguo, numa densidade desconhecida em todos os outros países europeus.”
IV
Pular o 4º capítulo (Fraud).
I. POLÍTICA E PSIQUE: SCHNITZLER E HOFMANNSTHAL
“A valsa, por tanto tempo símbolo da alegre Viena, converteu-se nas mãos do compositor Maurice Ravel, numa desvairada danse macabre.”
“Desde o início, os liberais tiveram de partilhar o poder com a aristocracia e burocracia imperiais. Mesmo durante os seus 20 anos de governo a base social dos liberais continuou frágil, restrita aos alemães e judeu-alemães de classe média urbana.” “Mesmo os que recebiam título de nobreza não eram admitidos, como na Alemanha, à vida da côrte imperial.”
“A cultura austríaca tradicional, ao contrário da alemã, não era moral, filosófica ou científica, mas basicamente estética.”
“A nova haute bourgeoisie de Viena pode ter começado a patrocinar o teatro e a música clássica à imitação dos Lobkowitze e Rasoumowsky, mas no final do século é inegável que seu entusiasmo por essas artes era mais autêntico do que o das outras burguesias européias.” “Se os burgueses vienenses tinham começado por sustentar o templo da arte como um sucedâneo da assimilação à aristocracia, terminaram por encontrar nele uma válvula de escape, um refúgio fora do desagradável mundo da realidade política cada vez mais ameaçadora.” “Em outras partes da Europa, a defesa da arte pela arte implicava no retraimento dos seus devotos frente a uma classe social; só em Viena ela reivindicava a fidelidade de uma classe praticamente inteira, à qual pertenciam os artistas.”
“Ao tentar-se assimilar à velha cultura aristocrática da elegância, a burguesia educada se apropriou da sensibilidade estética e sensual, mas sob forma secularizada, distorcida e altamente individualizada. As conseqüências foram o narcisismo e a hipertrofia da vida dos sentimentos.” “A catástrofe do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade.”
“O pai de Schnitzler, médico de renome, encaminhou Arthur à sólida carreira médica, que o rapaz seguiu por mais de dez anos. Compartilhando do entusiasmo vienense pelas artes de espetáculo, o pai de Schnitzler orgulhosamente contava com grandes artistas vienenses entre seus pacientes e amigos. Mas quando Arthur contraiu uma febre estética tão aguda que sentiu a premência de uma vocação literária, o pai se revelou um moralista de meados do século, opondo-se firmemente às intenções do rapaz.”
Der We ins Freie [O caminho para o aberto]
“Como psicólogo e observador do social, Schnitzler desenhou o mundo que via como um mundo necessário, mas não justificado. … Aspirando à tragédia, Schnitzler só alcançou a melancolia.”
“Apenas Karl Kraus, o moralista mais corrosivo da cidade, verteu o seu fel ‘naquele colecionador de gemas’ que ‘foge da vida e ama as coisas que a embelezam’ (Hofmannsthal).” “Em O louco e a morte [Der Tor und der Tod, 1893], Hofmannsthal explorou as devastações causadas pelo ceticismo, perda de vitalidade e indiferença ética que resultavam para o adepto da ‘atitude de colecionar gemas’.”
“Und uns’re Gegenwart ist trüb und leer,
Kommt uns die weihe nicht von aussen her.”
“Schnitzler abordou o problema do lado moral e científico da tradição liberal vienense. Sua percepção sociológica era maior que a de Hofmannsthal, mas seu comprometimento com a cultura agonizante levou-o a um pessimismo crepuscular que privou a sua obra de uma força trágica.”
“Hofmannsthal observou, certa vez, que a atividade dos poetas modernos ‘está sob o decreto da necessidade, como se todos estivessem a construir uma pirâmide, residência gigantesca para um rei morto ou um deus não-nascido’.”
II. A RINGSTRASSE, SEUS CRÍTICOS E O NASCIMENTO DO MODERNISMO URBANO
“Desde que ascenderam ao poder, os liberais começaram a remodelar a cidade à sua própria imagem e, quando foram expulsos no final do século, em larga medida tinham conseguido: a face de Viena estava transformada. O centro dessa reconstrução urbana foi a Ringstrasse. Vasto complexo de edifícios públicos e residências particulares, ela ocupava uma ampla faixa de terra, que separava a antiga cidade interna e os subúrbios. … equivalente à noção do ‘vitoriano’ para os ingleses, ‘Gründerzeit’ para os alemães ou ‘Segundo Império’ para os franceses.”
“Mais especificamente, foi na forja da Ringstrasse que 2 pioneiros do pensamento moderno sobre a cidade e sua arquitetura, Camillo Sitte e Otto Wagner, moldaram as idéias sobre a vida e forma urbana, cuja influência ainda vigora entre nós.”
“Os liberais que governaram Viena dedicaram alguns dos seus esforços mais bem-sucedidos à tarefa técnica, sem expressividade dramática, que permitiu à cidade acomodar, em condições razoáveis de saúde e segurança, uma população em rápido crescimento.”
“O Danúbio foi canalizado, para se proteger a cidade contra as inundações que tinham-na atormentado durante séculos.”
“Em 1873, com a inauguração do 1º hospital da cidade, a municipalidade liberal assumiu, em nome da medicina, as responsabilidades tradicionais que, antes, a Igreja cumprira em nome da caridade.”
“Ao contrário de Berlim e das cidades industriais do norte, a Viena em expansão manteve, em termos gerais, seu compromisso barroco com os espaços abertos.”
“O termo mais comumente empregado para descrever o grande programa dos anos 1860 não era ‘renovação’ nem ‘redesenvolvimento’, e sim ‘embelezamento da imagem da cidade’ [Verschönerung des Stadtbildes].”
“A estátua de Palas de Kundmann, embora fizesse parte do projeto de Hansen, só foi erguida em 1902, quase 20 anos depois da conclusão do edifício, e muito depois que o espírito de racionalidade abandonara o Reichsrat.”
“Um rapaz provinciano, Adolf Hitler, que fôra a Viena porque, como disse, ‘queria ser alguma coisa’, caiu sob o feitiço da Ringstrasse da mesma forma que Friedjung: ‘De manhã até tarde da noite passei de um a outro objeto de interesse, mas foram sempre os edifícios que atraíram meu maior interesse. Eu poderia ficar horas na frente do Ópera, poderia contemplar por horas o Parlamento; todo o bulevar Ring me pareceu um encantamento saído d’As mil e uma noites’.”
“O alto aristocrata, o grande comerciante, a viúva com renda fixa ou o médico que podia se permitir esse luxo, foram todos levados a comprar um prédio de apartamentos, morando numa unidade e recebendo a renda do aluguel das outras. Na casa da Ringstrasse, o prestígio social e o lucro assim se reforçaram mutuamente.”
“Os aristocratas não eram simples senhores ausentes: metade deles morava nas casas de aluguel que tinham construído. Embora as várias espécies de nobreza titulada ainda em 1914 também possuíssem muitas propriedades em toda a Ring (cerca de 1/3 de todas as casas particulares), foi só no bairro Schwarzenberg que tenderam a morar nos edifícios de sua propriedade.”
“Não se permitia que as necessidades comerciais dominassem a face dos quarteirões residenciais, nem a função social de representação que os edifícios deveriam preencher.”
“Longe de combater o historicismo, Sitte queria estendê-lo – do edifício individual para seu entorno espacial. O arquiteto moderno imita o grego, o romano e o gótico nos seus edifícios, mas onde estão os cenários apropriados: a ágora, o fórum e a praça do mercado?” “As críticas de Sitte rescendiam a nostalgia por um passado desaparecido. Também traziam exigências sócio-psicológicas singularmente modernas, que partilhava com críticos contemporâneos da cultura, e em especial com Richard Wagner, seu herói.”
“Sitte afirmava que vinha se formando uma nova neurose: a agorafobia (Platzscheu), o medo de atravessar vastos espaços urbanos. As pessoas se sentiam diminuídas pelo espaço, impotentes frente aos veículos a que ele fôra entregue.”
“Para reformadores ingleses da época, como Ruskin e Morris, a questão era reviver a cultura morta do artesão e do ofício. Na Áustria atrasada, a questão não era reviver, mas sobreviver: preservar uma sociedade artesanal ainda viva, mas mortalmente ameaçada. Sitte proveio dessa classe artesã.”
“Depois de 1870, na esteira da vitória prussiana sobre a França e da unificação alemã, o nacionalismo de Wagner difundiu-se rapidamente entre jovens intelectuais austríacos, ao passo que a crise de 1873 deu um encanto particularmente atraente a sua glorificação da comunidade artesã medieval alemã, em oposição à sociedade capitalista moderna.”
“Em 1876, ano em que Richter regeu a 1ª apresentação completa do Nibelungenring em Bayreuth, nasceu o 1º filho de Sitte: deu à criança o nome de Siegfried.”
“Para a Ringstrasse, as propostas de Sitte, embora modestas, vieram tarde demais. (…) O impacto da visão comunitária de Sitte de um espaço urbano reumanizado teve de aguardar uma aversão à megalópole mais generalizada do que a que poderia ser gerada pela sociedade austríaca anterior à guerra.”
“Sitte, lutando contra a anomia, utilizava a praça para deter o fluxo dos homens em movimento; Wagner usou-a para dar ao fluxo direção e objetivo. A perspectiva do veículo dominava nas concepções urbanas de Wagner, da mesma forma como a perspectiva do pedestre governava as de Sitte.”
“O racionalismo de Wagner não deixava lugar para a natureza romântica. Seus próprios desenhos mostram claramente que sua cidade ilimitada não só engolfaria a terra, mas converteria toda a vegetação em esculturas arquitetônicas verdes.”
“Pode haver algo mais degenerado do que pegar a forma natural livre das árvores, que justamente na cidade invocariam a magia da natureza aberta, e arranjá-las em alturas idênticas, a intervalos matematicamente regulados […] e, ainda por cima de tudo, em mera extensão interminável? Fica-se literalmente com dor de cabeça devido a esse tédio opressivo. E esta é a principal forma artística dos nossos planejadores urbanos de princípios geométricos!”
Camillo Sitte
III. POLÍTICA EM NOVO TOM: UM TRIO AUSTRÍACO
“A sociedade austríaca não conseguiu respeitar essas coordenadas liberais de ordem e progresso. No último quarto do século XIX, o programa elaborado pelos liberais contra as classes superiores provocou a explosão das inferiores.” “Quando os liberais atenuaram seu germanismo em favor do Estado multinacional, foram rotulados de traidores do nacionalismo por uma petite bourgeoisie alemã antiliberal.” “O catolicismo (…) voltou como a ideologia dos camponeses e artesãos, para os quais o liberalismo significava capitalismo, e o capitalismo significava judeus.” “Portanto, ao invés de unir as massas contra a velha classe dirigente do alto, os liberais involuntariamente convocaram, das profundezas sociais, as forças de uma desintegração geral.” “Os novos movimentos de massa antiliberais – o nacionalismo tcheco, o pangermanismo, o socialismo cristão, a social-democracia e o sionismo – surgiram de baixo para desafiar a tutela da classe média cultivada, paralisar seu sistema político e minar sua confiança na estrutura racional da história.”
“eram os social-democratas que apresentavam os traços paternos mais acentuados. Sua retórica era racionalista, seu secularismo militante, sua fé na educação praticamente ilimitada.” “Embora se possa discordar da posição de um socialista, pode-se discutir com ele na mesma linguagem. Para a mentalidade liberal, o social-democrata era irrazoável, mas não irracional.”
“Dois virtuoses principais do novo tom – Georg von Schönerer dos pangermânicos e Karl Lueger dos social-cristãos – tornaram-se os inspiradores e modelos políticos de Adolf Hitler. Um terceiro, Theodor Herzl, forneceu antecipadamente às vítimas de Hitler a resposta política atraente e poderosa já formulada contra o reinado gentio do terror.”
“Georg von Schönerer (1842-1921) (…) embora nunca tenha conseguido formar um partido forte, converteu o anti-semitismo numa grande força disruptiva na vida política austríaca. Talvez mais do que qualquer outra figura, foi responsável pela nova estridência na política austríaca, pelo ‘tom mais agudo’ no debate áspero e nas brigas de rua que marcaram a última década do séc. XIX.” “O enérgico engenheiro tornou-se um homem rico, colaborador de banqueiros, liberais, judeus, corretores e burocratas imperiais: todos aqueles tipos sociais cuja destruição viria a ser o objetivo da vida política do seu filho Georg – depois da morte do pai.”
“Como membro da comunidade teatral austríaca cosmopolita, que contava com muitos judeus, Alexandrine repudiou explicitamente a política anti-semita do seu irmão. Defensora entusiasta do teatro-entretenimento e dotada de espírito empresarial, manteve-se leal à cultura do liberalismo médio vienense.”
“Assim como, no seu pangermanismo, Schönerer fôra antecipado pelas agremiações estudantis nacionalistas, da mesma forma, no seu anti-semitismo, ele foi antecipado pelo movimento artesão.”
“O camelô judeu era o análogo pobre do dono judeu da loja de departamentos: ambos ameaçavam o lojista tradicional; ambos atraíam a hostilidade, mas também o hábito do pequeno consumidor.”
“Se o imperador era supranacional, os judeus eram subnacionais, a substância popular onipresente do Império, com representantes em todos os grupos nacionais e todos os grupos ideológicos. Em qualquer grupo que se encontrassem, os judeus nunca lutaram para desmembrar o Império. Foi por isso que se converteram nas vítimas de todas as forças centrífugas” “Prometeu ao Reichsrat, em 1887, que, se o seu movimento não vencesse agora, ‘os vingadores nascerão do nosso sangue’ e, ‘para o terror dos opressores semitas e seus enforcadores’, aplicariam o princípio ‘Olho por olho, dente por dente’.”
“A agressão, que lhe trouxe tantos adeptos, finalmente foi sua ruína. (…) O ataque de Schönerer contra o escritório da redação, porém, foi a 1ª vez em que o novo estilo na política assumiu a forma de um processo por agressão física. (…) O tribunal condenou Schönerer (…) a uma suspensão dos direitos políticos por 5 anos. (…) Com isso, o Cavaleiro de Rosenau perdeu a única herança do seu pai que verdadeiramente prezava. [título aristocrático]” “Aspirando desesperadamente à aristocracia, poderia ter conseguido como um junker prussiano, mas jamais como um cavaleiro austríaco. Isso porque a tradição nobiliárquica austríaca exigia uma elegância, uma plasticidade e, poder-se-ia acrescentar, uma tolerância para com os erros e males deste mundo totalmente estranhas à constituição de Sch.” “Sua carreira de destruição política parece encontrar sua fonte pessoal na ambição frustrada de filho pouco educado e superestimado de um pai novo-rico.” “Era coerente que o Cavaleiro de Rosenau, profundamente classe média, um dom Quixote tardio e violento, encontrasse em artesãos e adolescentes um séquito pseudofeudal com o qual ensaiaria sua farsa brutal. Um dia essa farsa ocuparia o palco como tragédia, tendo Hitler, admirador de Schönerer, no papel principal.”
“Karl Lueger (1844-1910) tinha muito em comum com o Cavaleiro de Rosenau.” “Lueger fez o inverso: transformou uma ideologia da velha direita – o catolicismo político austríaco – em uma ideologia de uma nova esquerda, o socialismo cristão.” “No ano de 1897, quando o imperador relutante finalmente ratificou a eleição de Lueger como prefeito [de Viena], a era da ascendência liberal clássica na Áustria chegou formalmente ao seu fim.” “Mais oportunista que Sch. e menos escravo dos seus intensos sentimentos pessoais, Lueger tardou mais a se comprometer com uma postura anti-semita. Lueger, em suas posições públicas nos fluidos anos 1880, refletia a sombria transição da política democrática para o protofascismo.” “O catolicismo ofereceu a Lueger uma ideologia que conseguiria integrar os elementos antiliberais dispersos que vinham se movendo em direções díspares, à medida que sua carreira se desenvolvia: a democracia, a reforma social, o anti-semitismo e a lealdade aos Habsburgo.”
“Theodor Herzl (1860-1904) (…) Protótipo do liberal cultivado, formulou uma abordagem criativa da questão judaica, não por mergulhar na tradição judaica, mas por se esforçar inutilmente em deixá-la para trás.” “A fé dos pais diminuía à medida que o status dos filhos aumentava.” “Quando Theodor nasceu, em 1960, sua família estava bem longe do gueto: economicamente estabelecida, religiosamente ‘esclarecida’, politicamente liberal e culturalmente germânica.”
“Nos inícios dos anos 1890, a França parecia se dissolver num caos pior, se possível, que o da Áustria. A república sofria de todas as doenças sociais da época: decadência aristocrática, corrupção parlamentar, guerra de classes de caráter socialista, terror anarquista e barbárie anti-semita.”
“A poesia trata de uma abstração mais elevada que a política: o mundo. E como aquele que é capaz de apreender o mundo seria incapaz de compreender a política?”
“Em 1892, Herzl fez reportagens sobre os anarquistas, cujos assassinatos e bombas vinham espalhando um frêmito de pavor por toda a Europa.”
“O que engajou Herzl no socialismo marxista não foram as suas reivindicações econômicas, mas a dinâmica psicológica que o impelia.”
“Indiscerníveis como indivíduos, juntos são como um grande animal que começa a distender seus membros, ainda apenas semiconscientes da sua força. […] Este é apenas um bairro em uma cidade da França.”
“Finalmente, irromperam à superfície os mais novos inimigo da república: os anti-semitas. Herzl assistiu ao drama, enquanto explodia todo o sistema político, enquanto as ferventes tensões internas da sociedade francesa rompiam os majestosos freios da lei e da moralidade.” “A terra natal do liberalismo estava doente, em seu centro vital do parlamentarismo. Para um intelectual austríaco, isso significava mais do que uma simples experiência política nova; era a destruição da confiança na viabilidade do liberalismo político, pois ele agora sucumbia até no seu próprio local de origem”
“Édouard Drumont, em La France juive (1885), responsabilizou a comunidade judaica internacional pelo declínio da França e exigiu a retratação da emancipação e a expropriação do capital judaico.”
“Em 1893, ele concluiu que os judeus, ‘pressionados contra a parede, não terão outra alternativa senão o socialismo’.” “Com isso, a ‘questão judaica’, no seu pensamento, deixou de ser um sintoma do mal-estar social europeu – um pára-raios para a descarga de frustrações gentias –, e se transformou numa questão de vida ou morte para as vítimas.” “Ele não tinha nada a fazer na Sociedade para a Defesa contra o Anti-Semitismo, fundada por eminentes intelectuais alemães e austríacos. (…) o argumento raciocinado era inútil: ‘Há muito já se foi o tempo em que era possível realizar alguma coisa por meios polidos e moderados’.”
“Com o auxílio dos príncipes austríacos da Igreja, Herzl conseguiria chegar ao Santo Papa, dizendo:
Se o senhor nos ajudar contra os anti-semitas, eu liderarei um grande movimento pela conversão livre e decente dos judeus à Cristandade. (…) não envergonhados como os convertidos individuais até agora […] cuja conversão tem-se mostrado covarde ou oportunista.”
“Assimilação dos judeus através da Igreja de Roma – que proposta estranha para um liberal secular!” “Ainda isolado dos próprios judeus, repudiando alguns como Geldjuden e outros como Ghettojuden, alguns como racionalistas excessivamente otimistas e outros como crentes excessivamente primitivos, Herzl assim começava a reunir para os judeus os elementos da política em novo tom” “Numa época em que a culpa de Dreyfus era aceita praticamente por todos, Herzl duvidava dela, apesar da falta de provas.” “Isso não acontecera na Rússia, nem mesmo na Áustria, mas na França, ‘a republicana, moderna, civilizada França, cem anos depois da Declaração dos Direitos do Homem’.”
“Não sendo nenhum wagneriano fanático, e nem mesmo um freqüentador de óperas além da média vienense, Herzl desta vez ficou eletrizado por Tannhäuser. Chegou em casa exaltado e sentou-se para esboçar, num acesso de entusiasmo próximo a uma possessão, seu sonho da secessão judaica em relação à Europa. Que tenha sido Wagner a acionar a liberação das energias intelectuais de Herzl numa torrente criativa: quão irônico, mas quão psicologicamente apropriado!” “Herzl teria sentido na volta moralmente liberadora de Tannhäuser à gruta um paralelo da sua própria volta ao gueto?” “O movimento sionista seria uma espécie de Gesamtkunstwerk da nova política. Herzl o sentiu ao dizer: ‘O êxodo de Moisés é comparável ao meu…’”
“Ninguém pensou em procurar a terra prometida onde ela está, e no entanto está tão próxima. Ei-la: dentro de nós mesmos!”
“Para o barão Hirsch, filantropo sóbrio e prudente, Herzl apresentou o modelo da unificação germânica como prova do primado do irracional na política.”
“O senhor sabe de onde saiu o Império Germânico? De sonhos, canções, fantasias e fitas tricolores em preto, vermelho e dourado.”
“Com uma bandeira, pode-se levar os homens para onde se quiser, até para a terra prometida. Uma bandeira é praticamente a única coisa pela qual os homens estão dispostos a morrer em massa, se educados para isso.”
UM PROTOSSIONISTA HETERODOXO: “Embora Herzl acenasse à aspiração religiosa arcaica, não confiava totalmente nela: nem sequer queria situar a terra natal judaica na Palestina” “Da estrela de Davi ou qualquer outro símbolo judaico, Herzl não fez nenhuma menção.”
* * *
“Os três fracassaram. Os três organizaram suas comunidades não só à revelia dos liberais entre elas, mas também sem o apoio das autoridades superiores externas a que apelaram.”
“O novo Estado teria um ‘federalismo lingüístico’, onde cada um falaria a língua que ainda amasse (…) Só o iídiche, ‘a linguagem estropiada e reprimida do gueto’, ‘a fala roubada dos prisioneiros’, seria deixado de lado.”
“O clero, ainda que honrado, ficaria confinado aos seus templos, como o exército aos quartéis, de modo que não causem problemas a um Estado comprometido com o livre pensamento.” Que diferença para os dias atuais, que diferença!
“O povo é sentimental; as massas não vêem com clareza. Está começando a surgir em torno de mim uma leve bruma que talvez se converta na nuvem em que andarei. É talvez a coisa mais interessante que registro nesses diários: como cresce minha lenda.”
“Política é magia. Quem sabe invocar as forças das profundezas, a este seguirão.”
Hofmannsthal
V. GUSTAV KLIMT: PINTURA E CRISE DO EGO LIBERAL
“Klimt saiu da escola como decorador arquitetônico no exato momento em que o grande programa Ringstrasse de construção monumental vinha ingressando em sua fase final. Ele encontrou ocasião de empregar seu talento versátil em pinturas históricas para dois dos últimos grandes edifícios, o Burgtheater e o Museu de História da Arte.” “Gustav Klimt, embora fosse um jovem mestre da velha escola, cedo assumiu a liderança na revolta de die Jungen nas artes visuais.”
“Marx observou certa vez que, quando os homens estão prestes a fazer uma revolução, eles se fortalecem agindo como se estivessem restaurando um passado desaparecido. A Secessão definiu-se não como um mero salon des réfusés, mas como uma nova secessio plebis romana, onde os plebeus, repudiando desafiadoramente o mau governo dos patrícios, retiravam-se da república. A formulação da ideologia romana da Secessão foi elaborada por Max Burckhard (1854-1912), nietzschiano, progressista em termos políticos, e um dos grandes reformadores do direito administrativo, que em 1890 renunciou a sua carreira político-jurídica para virar diretor do Burgtheater, cargo que acabara por perder quando passou a co-editar a revista da Secessão, Ver Sacrum.”
“Peter Vergo sugeriu que Klimt compreendeu Schopenhauer através de Wagner, especialmente com a súmula concisa de Wagner sobre o pensamento do filósofo em seu ensaio largamente difundido Beethoven, e que tanto a iconografia como a mensagem de ‘Filosofia’ mostravam a influência da Das Rheingold.”
“O pintor da frustração psicológica e do mal-estar metafísico tornou-se o pintor da vida bela da classe superior, afastada e isolada do destino comum numa bela casa geométrica.”
VI. A TRANSFORMAÇÃO DO JARDIM
“Sempre que os artistas europeus procederam à difícil tentativa de enfrentar uma ordem existente, como ocorreu com tanta freqüência no séc. XIX, o realismo social [hoje a distopia] se apresentou como modalidade literária dominante.”
“Os austríacos prontamente captaram a sensibilidade langorosa de um Baudelaire ou de um Paul Bourget, mas não alcançaram a sensualidade dolorosa e autodilaceradora dos decadentes franceses, nem a sua visão da beleza cruel do cenário urbano. Os pré-rafaelitas ingleses inspiraram o movimento art nouveau (com o nome de Secessão) (…) mas nem a sua espiritualidade pseudomedieval nem o seu forte impulso reformista social penetraram nos discípulos austríacos.”
“Nem dégagés nem engagés, os estetas austríacos estavam alienados, não da sua classe, mas juntamente com ela, de uma sociedade que frustrou suas expectativas e renegou seus valores. Dessa forma, o jardim da beleza da jovem Áustria era um retiro dos beati possidentes, um jardim estranhamente suspenso entre a realidade e a utopia.”
“Arte é arte e vida é vida, mas viver a vida artisticamente: eis a arte da vida.”
“Pelo fato mesmo de representar a vida, a arte nos separa dela. É por isso que, ao se destacar dos outros valores e se tornar um valor em si mesma, a arte gerou nos seus devotos aquele sentimento de eterno espectador que, por sua vez, alimenta a introversão.”
“Como Marcel Proust, as recordações de Erwin se converteram em sua vida.”
VII. EXPLOSÃO NO JARDIM: KOKOSCHKA E SCHOENBERG
“O professor Franz Cizek, que organizou a mostra, era o chefe do departamento pedagógico na Escola de Artes e Ofícios onde Kokoschka estudava, para ser professor de artes. A modéstia da opção do rapaz merece nossa atenção. Se Kokoschka tivesse aspirado à carreira, menos segura e mais prestigiosa, de pintor, teria freqüentado a Academia de Belas-Artes. Ao invés disso, ele optou pela via mais humilde, mais condizente com a classe artesã de que provinha.” “Enquanto as gerações anteriores tinham insistido em levar a criança à estética adulta através do desenho de cópias, Cizek incentivava a livre atividade criativa. (…) Meninos de 5 a 9 anos iam uma vez por semana às aulas de Cizek, ‘para se expressarem’. (…) Aqui, só o não-inibido, o instintivo se torna luminoso como (o) essencialmente humano’” “Mesmo o júri da Kunstschau, presidido por Gustave Klimt, foi indulgente com os caprichos contestadores de Kokoschka.” “Com efeito, Kokoschka inverteu o desenvolvimento que, de modo apenas semiconsciente, os mais velhos tinham experimentado, ao passarem das belas-artes para atividades nas artes e ofícios. Eles tinham retirado à arte secessionistas dos anos 90 a sua função original – dizer a verdade psicológica –, e adaptaram sua linguagem visual a finalidades puramente decorativas. Kokoschka tomou a linguagem ornamental madura dos seus professores, e tornou a desenvolver o seu potencial simbólico”
Kokoschka, Os meninos sonhadores, 1908
“Heinrich Kleist já ressuscitara o antigo entrelaçamento de amor e guerra em sua Pentesiléia – um marco no retorno do reprimido na alta cultura européia.”
“E uma obra dessas [poema + peça de teatro + ilustrações = obra-de-arte total à la Wagner?!?] foi encenada no encantador jardim de Kunstschau! Um público que mal acabara de aprender a refinar seus receptores sensoriais e psicológicos, para reagir às delicadas nuanças de O aniversário da infanta de Oscar Wilde, tinha agora de exorcizar a selvageria crua da peça de Kokoschka.” “O pintor escreveu que uma tempestade de protestos desabou sobre ele na noite de estréia, mas essa sua lembrança foi contestada por Peter Vergo, com algumas sólidas provas em contrário.” “Por instigação do Ministério da Cultura e Instrução, o diretor da Escola de Artes e Ofícios, Alfred Roller, tirou a bolsa de Kokoschka. Felizmente, a explosão também atraiu a atenção do crítico mais frio e categórico do esteticismo vienense, o arquiteto Adolf Loos.”
“Assim como Kraus procurava restaurar a pureza do meio lingüístico do homem, removendo todas as pretensões estéticas da prosa expositiva, também Loos tentou purificar o meio visual – cidade, moradia, vestuário, mobília –, abolindo todos os embelezamentos. A arquitetura, disse ele taxativamente, não era arte: ‘Tudo o que serve a uma finalidade deve ser excluído do âmbito da arte. […] Só teremos uma arquitetura do nosso tempo quando o termo mentiroso <arte aplicada> for banido do vocabulário das nações’.”
“Pode parecer coincidência demais que Schoenberg também tenha realizado sua ruptura, passando para a atonalidade, a partir do tema de um despertar sexual adolescente ocorrido num jardim. Mas é assim que foi. Formal e psicologicamente, o ciclo de canções de Schoenberg O livro dos jardins suspensos é um análogo musical muito próximo de Os meninos sonhadores de Kokoschka.”
Schoenberg, Teoria da harmonia, 1911.
“um processo que vinha desde Beethoven: a erosão da antiga ordem na música, o sistema harmônico diatônico.” “Desde a Renascença, a música ocidental tinha sido concebida na base de uma ordem tonal hierárquica, a escala diatônica, cujo elemento central era a tríade tônica, a tonalidade definida. A tríade era o elemento de autoridade, estabilidade e, sobretudo, repouso. Mas a música é movimento; se a consonância é tida apenas como um quadro em repouso, todo movimento será dissonante.” “A modulação – a passagem de uma a outra tonalidade – era um momento de ilegitimidade permitida, um estado acentuado de ambigüidade, a ser resolvido por uma nova orientação numa nova modalidade, ou pelo retorno a uma anterior. Assim o pianista Alfred Brendel identificou os usos do cromatismo, uma das principais soluções da tonalidade, aplicados por Liszt em suas Variações sobre Bach, e por Haydn” “Não por acaso foi Rameau, o músico de côrte de Luís XV, o teórico mais claro e inflexível das ‘leis’ da harmonia.”
Tristão e Isolda de Wagner como o primeiro passo para o atonalismo.
(*) “Tão forte era o apelo do Pelléas und Mélisande de Maeterlinck aos músicos da época que 4 grandes compositores lhe dedicaram obras suas: Fauré (1901), Debussy (1902), Schoenberg (1903) e Sibelius (1905).”
“Em Verklärte Nacht, ele mostrou que o ‘abismo intransponível entre Brahms e Wagner não era mais um problema’.”
“todo grande artista é um impressionista: sua reação acurada ao mais débil impulso revela-lhe o inaudito, o novo”
“Os versos de Stefan George prestavam-se particularmente bem à ousada tarefa musical em que agora o compositor se empenhara”
“Wer di Wahl hat, hat die Qual”
“Por trás da Erwartung encontrava-se uma experiência pessoal arrasadora, que Schoenberg projetou dentro da obra: a mulher que o abandonou por um dos seus melhores amigos, o artista Richard Gerstl, que logo a seguir se suicidou.”
“Nesse espírito crítico, Schoenberg trabalhou de 1912 a 1914 no projeto de uma grande sinfonia para celebrar a morte do Deus burguês. A sinfonia nunca foi concluída, pois veio a guerra.”
“na Sinfonia da dança de morte, ele escreveu o seu 1º tema dodecafônico. [uma nova ordem, após o caos do atonalismo]” “sua democracia dos 12 tons”
NOTAS
“Mahler, originalmente, deu à sua Terceira sinfonia o título, extraído do ensaio de Nietzsche, de Die fröhliche Wissenschaft. Para uma análise profundamente esclarecedora da obra e do papel de Mahler como ‘cosmólogo metamusical’, no contexto do culto nietzschiano austríaco, ver McGrath, Dionysian Art and Populist Politics in Austria.”
O artigo mais compreensivo e doidivanas existente em português sobre o storytelling do oitavo jogo canônico da principal franquia da Square Enix,
contendo (além de tudo sobre Squall, Rinoa e Ultimecia) mitologia grega, história do feminismo e barroco italiano, JoJo’s Bizarre Adventure, filmes de Hollywood sobre viagem no tempo (deixando De Volta Para O Futuro de fora), a série LOST, metafísica do século XX, satanismo, David Lynch, AKIRA (o mangá) e ainda outras referências externas! Resumindo, uma viagem imperdível.
obs: Uma versão com o review-base (resenha de videogame típica) precedendo este artigo mais denso e menos voltado à gameplay do jogo está disponível em https://rafazardly.com/2023/12/19/final-fantasy-8-ps-al/. Para quem prefere ler em “dark mode”, é uma boa sugestão clicar!
ÍNDICE
(use os termos entre colchetes, incluindo os colchetes, para navegar com facilidade)
[CRO] CRONOLOGIA DO MUNDO DE SQUAL & RINOA (Pré-História)
[ZER] A PARTIR DE SQUALL NA ENFERMARIA (MARCO ZERO)
[INT] INTERPRETAÇÃO & SIMBOLOGIA
[REL]SOMEWHERE IN TIME: O RELÓGIO E A MOEDA
[SUP] “O plano supremo de Squall/Laguna”
[+Q] MAIS QUESTÕES DE TRADUÇÃO
[FON] SOBRE “FONTES OFICIAIS EXTRA-MÍDIA”
[REC] Recomendações literárias
[CON] CONCLUSÃO: O que acontece só acontece uma vez
[UNC]UNCANNY VALLEY (Faixa bônus): Manifesto anti-Akira Toriyama
Há quem diga que a plot de um jogo só serve para o jogo, durante o jogo, mesmo na comunidade mais story-driven da indústria dos games, a dos RPGistas. Eu tendo a estar no time oposto, e essa análise é dedicada àqueles que, como eu, adoram discutir teorias e conexões, fora do Jogo de Interpretação de Papéis ou Role Playing Game, porque tanto quanto eu odeio (nós odiamos) o junction system euadoro (nós adoramos) o storytelling de Final Fantasy VIII – e a estória de FF8 é sua saving grace!
Primeiro uma leve ambientação e resumo do universo retratado, para não jogar as coisas na cara do leitor parecendo socos do Mike Tyson no auge diante de um desafiante despreparado:
Neste mundo os continentes de Balamb, Galbadia, Esthar e Trabia são os principais marcos geográficos. O planeta possui uma lua, que possui vida e comprovadamente faz parte da história do planeta, e não apenas de sua mitologia, como em nossa Terra: de séculos em séculos, monstros lunares aparecem no planeta, caídos ou arremessados do satélite, em fenômenos agourentos conhecidos Choros da Lua. Existe um monumento chamado Pilar de Cristal que desde a Antiguidade os homens associam à lua. Controlá-lo por meio da técnica talvez seja a forma de estabelecer uma paz duradoura contra essas invasões periódicas…
[CRO]
CRONOLOGIA DO MUNDO DE SQUALL & RINOA
Cem anos antes do enredo do jogo, um Moon Cry devasta Centra (pense nesta terra abolida num desastre como nossa Atlântida), onde os primeiros povoados terrestres se originaram (agora pense em Centra como nossa Pangéia). Este século representa o declínio do Império de Dollet e a ascensão, até os dias contemporâneos, dos galbadianos, que só têm um rival de relevo, Esthar. Deling – exatamente como Alexandria, inspirando-se num nome próprio – é a capital atual de Galbadia.
47 a.S.e. (47 anos antes de Squall na enfermaria, ou “o marco zero”):Laguna Loire nasce. Um cientista chamado Odine inicia um programa para prevenir Choros da Lua futuros. Pela primeira vez os avanços tecnológicos parecem indicar uma chance de sucesso na tentativa.
20 a 25 a.S.e.: Neste mundo que a própria Terra do século XXI consideraria “futurista”, elementos de magia coexistem com as conquistas da ciência e do domínio humano sobre a natureza. —Pela primeira vez na história registrada, Adel, uma feiticeira, toma o controle político de toda uma região, em Esthar. Adel não age de vontade própria. Acontece a Sorceress War entre o Império de Galbadia e as forças de Esthar. Laguna, Kiros e Ward – um trio que se tornaria tão mitológico quanto Aquiles, Hércules e Enéias neste nosso universo – participam da guerra defendendo Galbadia.
Durante a guerra, Laguna se apaixona por Julia, uma pianista. É um amor correspondido, mas Laguna precisa voltar ao front. Ambos prometem se casar no futuro.¹ Esthar se prepara para achar a sucessora de Adel, com o beneplácito da própria, que sente que pode ser vencida ou então quer produzir algum tipo de distração em grande escala – e encontra-se Ellone, ainda uma criança, em Winhill. Ellone não é capturada, mas é tornada órfã de pai e mãe quando militares tentam levá-la. Uma mulher chamada Raine adota Ellone poucos dias depois do incidente. Ellone não é uma criança destinada a ser uma feiticeira qualquer. Ao mesmo tempo parece mais fraca e mais forte que uma “feiticeira-padrão”, daí o interesse dos pesquisadores e estrategistas de Esthar na garota…
¹ As coisas galoparam rápido demais de uma ambientação nível Guerra nas Estrelas a algo mais similar a Tolstoi! Diria que essa transição se deu na velocidade da l… mas seria um clichê rematado.
19 a.S.e.: Laguna, Kiros e Ward se aventuram na cratera da antiga civilização de Centra, são encurralados, sobrevivem após pular de uma grande altura em direção ao mar revolto, mas acabam separados. Laguna pára em Winhill, onde é resgatado e tratado de seus ferimentos pela altruísta Raine. Depois disso, assim como Ellone, passa a viver em sua casa.
Crendo Laguna morto, Julia compõe um tributo a sua finada alma-gêmea, a canção Eyes on Me, um grande sucesso de crítica nos meios eruditos, e acaba se casando com o general de Galbadia Sr.Caraway.
O Pilar de Cristal, rebatizado Pandora Lunática, é extraído da cratera e levado a Esthar para investigações mais exaustivas pelo doutor Odine, uma espécie de Oppenheimer deste universo.
18 a.S.e.: Adaptado a uma nova vida, convertido em padrasto de Ellone, Laguna engravida Raine. Entretanto, Ellone desaparece ao mesmo tempo, e é um elemento-chave para a conclusão da Guerra da Feiticeira. Os responsáveis foram os mesmos perseguidores de 6 meses antes: soldados de Esthar que reincursaram em Winhill. Laguna parte em busca de sua enteada.
Ellone é o receptáculo de magia mais poderoso existente no planeta, e apenas a arqui-vilã do jogo – ainda atuando por trás das cortinas – o sabe neste momento. Mesmo que não desconfiem nem de metade do potencial de Ellone, não significa que não a considerem um indivíduo ou material valiosíssimo…
Galbadia segue sua sanha expansionista e ocupa Timber. Nasce Rinoa Heartilly, filha de Julia e do general Caraway, na província de Timber, nesta mesma cidade.
Alguns meses depois, Laguna encontra um orfanato mais ou menos próximo de Winhill administrado por Edea, a Matrona, que dedica sua vida a abrigar órfãos, mas não encontra informações sobre o paradeiro de Ellone. Ele resolve se reunir com a dupla de amigos do passado, Kiros e Ward, para melhorar as chances de sucesso da busca. Provavelmente a única maneira será deduzindo que Ellone se encontra bem-guardada em Esthar, a “hipótese B”, e invadir o covil do inimigo confiando no palpite. Raine, não mais de 9 meses tendo decorrido após a ausência de Laguna, finalmente dá a luz a Squall Leonhart.
O “trio Laguna” chega a Lunatic Pandora. Os padrões cerebrais de Ellone são cuidadosamente estudados pelos meios tecnológicos de que dispõe o império. São os primeiros passos para a criação de uma máquina do tempo.
Cresce o movimento de resistência a Adel; Laguna se destaca como líder revolucionário. Um exército de guerrilheiros resgata Ellone e Laguna se sobressai como combatente do lado vencedor da guerra. Os poderes de Adel são selados com a ajuda dos dados das pesquisas do doutor Odine, figura extremamente ambígua, que afinal pesquisava Ellone a mando de Adel para benefício próprio. Em vez de matá-la, os terráqueos a enviam em criogenia direto para o espaço sideral mediante um veículo chamado Ragnarok, supostamente para que outra mulher jamais herde seus poderes e reinicie imediatamente a guerra (sendo impossível matar uma feiticeira ou o espírito de uma feiticeira, que voltaria instantaneamente a encarnar noutra mulher).
Laguna, obtendo mais do que aquilo que procurava, se torna presidente da nova Esthar – mas cumpre a promessa original e devolve sua enteada à mãe. Ele, porém, não volta a Raine, nem toma qualquer iniciativa no sentido de trazê-la para perto de si. Esthar acaba isolada do resto do mundo para preservar o segredo da “arma destruidora”, o cadáver suspenso de Adel. Um campo de força evita que o resto dos continentes interfira com as ondas de rádio do exército local, que monitora a nave Ragnarok e o próprio mausoléu.
16-14 a.S.e.: Raine morre e Squall e Ellone são enviados para um orfanato, o mesmo orfanato de Edea. Zell, Quistis, Irvine, Selphie e Seifer são outras crianças do orfanato. Desde muito jovens desponta uma estranha inimizade entre Squall e Seifer.
13 a.S.e.:Ultimecia, uma entidade potencialmente extra-terrena, feiticeira das feiticeiras, e Squall, adulto, surgem na linha do tempo após a descompressão temporal, um pós-evento cataclísmico ainda não-explicado, em visita ao orfanato de Edea. Ultimecia está agonizando, mas não pode morrer enquanto, conforme a tradição do poder único das feiticeiras, não retransmitir seus poderes para outro receptáculo do sexo feminino. Seguindo Squall ela acaba se deparando com a candidatura perfeita, Edea, que se torna assim sua sucessora, voluntariamente, evitando que Ellone ou outra das crianças, como Quistis ou Selphie, se tornasse a nova feiticeira e futura nêmese do universo inteiro. Squall Leonhart estabelece ele mesmo as condições para a repetição cíclica de todos os eventos temporais, anulando causas e efeitos e consumando o plano que formulara semanas antes em sua própria linha do tempo (no futuro), explicando que Edea deve participar de um complot envolvendo Balamb Garden e o recrutamento de SeeDs (citados pela primeira vez na cronologia deste mundo). Ultimecia (ou seu corpo) desaparece após a transmissão do poder. Squall adulto abandona este tempo após coexistir por alguns segundos com sua encarnação mais jovem, um garotinho de 4 ou 5 anos.
Edea não pode se manter com os poderes de Ultimecia sem perder a personalidade, o que não sucede de maneira instantânea, sendo um fenômeno de caráter imprevisível, conhecido pela tradição deste mundo, que sempre combateu as feiticeiras nas diferentes eras. Dessa forma, ela se prepara para os eventos do futuro como pode, ao lado de seu marido Cid, com quem compartilha a verdade insólita. Com ajuda financeira das tribos de Shumi – amigos de Laguna –, Cid funda três academias militares, todas conectadas à história oculta de Centra e Esthar.
Os SeeDs Brancos de Elite são criados, principalmente para proteger Ellone, conduzindo-a a lugares remotos e incertos, pois ela ainda é procurada por cientistas como objeto de estudo anti-feitiçaria. O pequeno Squall, da linha temporal linear, pensa que sua meia-irmã mais velha “o abandonou”, quando a verdade é que ela foi removida do orfanato à força.
Julia Heartilly morre num acidente de carro (o que é bastante irônico, tendo-se em conta o sobrenome de seu marido). Rinoa é uma criança infeliz em sua relação com o general seu pai, CAR-AWAY!
12 a.S.e.: Termina a construção dos Gardens. Jovens podem voluntariamente se inscrever para tentar se tornar “black” SeeDs, mercenários de elite cuja missão oficial é servir para a paz em conflitos que emerjam em todo o globo. Os jovens de orfanatos são o público preferencial dos Gardens assim que atingem certa idade. Cid é o reitor de Balamb Garden.
11-1 a.S.e.: O treinamento com o(a)s Guardian Forces causa amnésia nas crianças, que esquecem que já tiveram vínculos entre si. Selphie e Irvine são enviados para outros Gardens: Trabia e Galbadia, respectivamente.
Edea é possuída pelo espírito de Ultimecia em definitivo, perdendo a consciência, e rapidamente se torna uma figura que comanda Galbadia dos bastidores. Galbadia atual, como a Esthar de décadas anteriores, que contava com os poderes adicionais de Adel, é a maior potência militar do mundo.
Rinoa se rebela contra seu status aristocrático e adere a um movimento revolucionário de Timber que luta contra o imperialismo de Galbadia. No verão do último ano antes do confronto entre Squall e Seifer que levaria o primeiro à enfermaria e causaria cicatrizes em ambos os rostos, Rinoa e Seifer têm um “caso de verão”.
[ZER]
A partir de Squall na enfermaria
(MARCO ZERO DE FINAL FANTASY VIII)…
Squall vê Ellone através da janela da enfermaria, sem reconhecê-la. Esse é o dia do teste para novos recrutas da SeeD e da obtenção do GF da caverna de fogo, Ifrit, em que Squall é supervisionado por Quistis. No teste, o trio designado como “equipe B” é Squall, Zell e Seifer, este último como capitão. Quistis Trepe deve garantir a segurança dos alunos em qualquer episódio extremo, mas não pode intervir em suas ações de modo a modificar a avaliação da performance no teste. Trata-se de uma ação militar genuína, e não de um ambiente simulado. O local é a cidade-ilha de Dollet, ex-potência militar, que foi recém-invadida pelas forças de Galbadia. Selphie, da outra base, desempenhando o papel de mensageira entre células, encontra o trio no meio da missão e se junta à equipe durante o fogo cruzado. Ao mesmo tempo, Seifer deserta sua função de líder. Os três que guardam os comandos da missão obtêm com êxito seu grau SeeD; Seifer fracassa devido à insubordinação. Quistis é “rebaixada” da função de instrutora da Garden para “mera” soldada SeeD, por não ter sabido lidar com o comportamento arbitrário de Seifer, que pôs todos em risco. Ex-instrutora de Squall, ela é apenas 1 ano mais velha e tem a mesma idade de Rinoa – é a pessoa mais jovem a ter sido aprovada num exame da SeeD, um talento militar nato.
No baile de graduação, Squall e Rinoa se conhecem e dançam casualmente. Ellone é vista na mesma noite dentro do campus por Squall e Quistis, fugindo de monstros, mas sua identidade seguia um completo mistério. A primeira missão do protagonista Squall pela SeeD é como líder da célula composta ademais por Zell e Selphie, agora integrada a Balamb. Eles devem dar apoio ao grupo paramilitar Forest Owls, de Timber, que tentará seqüestrar o presidente de Galbadia em sua visita ao distrito revoltoso. Os três desmaiam no trem de ida.
Todos experimentam um “sonho coletivo” com visões do passado remoto: eles vêem as vidas de Laguna, Kiros e Ward. O flashback acaba no encontro entre Laguna e Julia, relatado na cronologia pré-jogo.
Finalmente o trio, agora acordado, é oficialmente introduzido a Rinoa, da resistência, a “chefe” extra-oficial da missão, apesar de sua expertise militar quase zero, já que a SeeD funciona como uma empresa e ela é, pelo menos pensa-se, a cliente e financiadora deste trabalho. Após o bem-sucedido seqüestro do presidente, descobre-se que ele era um mero duplo, cuja verdadeira identidade é um monstro morto-vivo plantado para assassinar a célula SeeD. Alguém vazou a informação de que tentariam cometer o seqüestro. As ordens recebidas por Squall e os outros são que a SeeD deve apoiar os “corujas-rebeldes” até que Galbadia seja expulsa de Timber, por força de contrato.
O verdadeiro presidente Deling – pelo menos por enquanto – está fazendo um pronunciamento ao vivo na TV. Rinoa comanda a segunda tentativa de seqüestro da autoridade, no local. Antes que a célula SeeD pudesse agir, Seifer interfere, ele mesmo tomando o presidente como refém. Seifer se tornou o principal subordinado da feiticeira Edea, a própria relações públicas e embaixadora de Galbadia para a paz, quem planeja tomar Timber e conseqüentemente Galbadia num coup d’état! Mas a natureza da ação de Seifer não é entendida pelos demais.
Quistis também estava presente na transmissão, por algum motivo, aparentemente enganada por Seifer Almasy. Na confusão da missão de infiltração, Zell deixa escapar que o trio que deveria permanecer incógnito é de Balamb Garden. O tumulto se generaliza, com Deling prometendo vingança caso ajam contra sua integridade. Nesse momento Rinoa revela seu passado com Seifer, e que nutre certa idolatria por ele. Depois que Seifer estabelece as condições da soltura do refém, Edea faz sua aparição triunfal, cancelando a cerimônia. O restante da milícia de resistência é derrotado. Rinoa solicita ser escoltada para um lugar seguro onde agirão à paisana. Squall e Rinoa chegam ao pub de uma simpática senhora. Watts e Zone, da milícia dos corujas, conseguem passagens para os SeeDs evadirem Timber e se dirigirem ao Galbadia Garden.
Quando desembarcam do trem, na travessia montanhosa, Squall, Zell e Quistis – dessa vez a última no lugar de Selphie – desmaiam e têm outra experiência de sonho coletivo… Laguna, Kiros e Ward continuam seu enredo. Eles estão em trabalho de escavação em Centra, como já descrito na linha do tempo. Esthar parece ter descoberto sobre a existência e a importância do Pilar de Cristal, estrutura que se encontra em suas fronteiras. Isolando-o magicamente, seria criada a posteriori a fortaleza de Lunatic Pandora, a caixa inexpugnável. Laguna, Kiros e Ward quase se perdem nos túneis e seqüências de lances de escada, mas sobrevivem ao assédio dos soldados de Esthar. O fim da linha é a borda dum penhasco que dá para a costa. Quando Laguna se perde de seus asseclas, os SeeDs despertam de seu “sonho lúcido”.
O grupo do presente chega a Galbadia. Quistis se separa neste momento para realizar suas próprias investigações. Os outros se reúnem numa conferência. Quistis descobre que Seifer aceitou o papel de bode expiatório para acobertar o incidente de Timber, então pensa que ele está do lado certo. Balamb Garden será publicamente isentada de culpa no episódio. No entanto, a pena para Seifer será a capital. Rajin e Fujin, dois estudantes de Garden e os melhores asseclas e amigos de Seifer, encontram o grupo dos personagens controláveis. Eles trazem novas ordens de Cid. O grupo decide resgatar Seifer da morte certa, pois ainda acreditam que Seifer é um legítimo balambgardian, sem entender o contexto de sua intervenção no seqüestro de Deling – ainda que um não-SeeD não pudesse se envolver militarmente no mundo como Seifer o fez.
Com a relação normalizada entre as bases Garden, o grupo é protocolarmente recebido em Galbadia pelo diretor Martine, hierarquicamente subordinado de Cid. É neste momento que o SeeD Irvine Kinneas é incorporado à equipe do protagonista. A próxima missão é bem direta: o homicídio da usurpadora Edea “Temer”, perpetradora do autogolpe de Galbadia. Irvine é apresentado como um especialista em atentados letais, sendo um atirador à distância. O grupo se dirige novamente a Deling City.
Uma side quest interrompe a missão do grupo, na Tumba do Rei Desconhecido. Squall e os outros devem achar um estudante desaparecido, porque os habitantes locais ainda não confiam nos SeeDs. Dois poderosos Guardians são obtidos pelo grupo nessa exploração colateral. Depois de cumprir a missão o grupo recebe o passe do General Caraway, pai de Rinoa, para a destinação final. Squall descobre a filiação do anfitrião com sua cliente. Foi ele quem contratou a célula SeeD para o ataque desde o começo – Rinoa era só uma intermediária, agindo por procuração. Edea realizará um desfile pela cidade em celebração a sua ascensão ao poder. Será a noite da execução planejada. O sexteto se divide em 2 trios. Um deles servirá de distração enquanto o outro cumprirá o serviço.
Depois de conflitos internos, Rinoa abandona o grupo, por ordem de Quistis, mostrando desconforto e potencialmente ciúmes da filha de Caraway e afetos não-resolvidos por Squall. A missão segue com um trio e uma dupla (a dupla de assassinato sendo Squall e Irvine). Rinoa, no entanto, não deixa de cumprir sua parte como loba solitária, chegando ao cômodo de Edea primeiro. A feiticeira possuída mata o presidente Deling em público e se declara formalmente a líder de Galbadia. Imobiliza Rinoa facilmente. Irvine e Squall salvam a vida de Rinoa no último instante, matando dois Iguion que, fundidos, geram um novo Guardião, chamado Carbuncle.
O grupo ainda não havia entendido de que lado Seifer estava no jogo de forças, e se deparam, por fim, com evidências de sua escolha por servir a Edea. Em tese o plano funciona, Edea cai na armadilha do grupo e Irvine acerta a feiticeira fatalmente. Mas a magia de Edea repele o tiro. Squall tem de combatê-la frente a frente, não sem antes acertar as contas com Seifer, a quem deixa inconsciente no campo de batalha. O embate parece um tanto artificial. Edea não parece tão forte, mas, quando mais dois SeeDs chegam para ajudar, notam que a feitceira vem sendo evasiva e ardilosa. Ela acaba escapando e confundindo o grupo, mas não antes de uma cena de impacto que encerra o primeiro compact disc da história: uma estalactite perfura o peito de Squall e ele cai de grande altura, desmaiado.
Novamente um flashback onírico de Laguna.Nesse episódio ele é o protetor de Winhill. Brinca com Ellone, que parece ter 3 ou 4 anos à altura. Kiros intervém e Laguna, tendo sua vida familiar interrompida, adquire conhecimento dos incidentes em Centra, no qual o trio havia se separado e perdido contato. Isso havia sido apenas 6 meses atrás. Ward escapou mas perdeu a voz.Laguna também descobre sobre a carreira musical de Julia e seu recente matrimônio.O ex-prometido de madame Heartilly não parece ressentir sua presente situação, no entanto.
Zell acorda numa cela ao lado de Rinoa, Selphie e Quistis. Ele impersonava Ward no sonho coletivo e reconhece que está no presídio do Distrito D, onde W. passou a ser um carcereiro após o incidente de Centra (explicando seu nome, talvez?). Squall também está no mesmo presídio, mas confinado numa cela particular, que se move como um elevador pelo complexo. Atado, Squall é provocado por Seifer, e uma sessão de tortura está prestes a iniciar. Guardas nocauteiam Zell e seqüestram Rinoa. Na câmara, Seifer quer respostas de Squall sobre o verdadeiro propósito da SeeD. Squall permanece calado.
Seifer tenta sua última carta na manga: Edea teria ordenado um ataque de mísseis simultâneo a Balamb e Trabia Gardens. Os sobreviventes deveriam ser caçados e mortos por Seifer. Seifer, sem mais tempo para o mudo e resiliente Squall, abandona o aposento. Porém, ele é torturado por outros guardas; continua a desconversar com besteirol, mantendo as informações da SeeD protegidas. Enquanto isso, Selphie e Quistis simulam estar doentes para conseguir escapar de seus confinamentos. Zell, acordado, usa seu conhecimento inconsciente do local para achar as armas que lhes haviam sido depostas. Wedge e Biggs, dois soldados falastrões e atrapalhados, reaparecem após o fracasso em Dollet, relutantes em enfrentar a SeeD novamente.
Finalmente o grupo chega a Squall e o liberta. Uma criatura amistosa (uma quimera mágica) que acompanha o grupo desde a cela, um Moomba, como que uma paródia de Red XIIIde Final Fantasy VII, emite suas primeiras palavras ao encontrar o líder do time controlável: “La…gu…na!”. Rinoa reentra em cena acompanhada de Irvine. Com essa nova ajuda os fugitivos conseguem escapar do presídio pelo topo (os primeiros andares estão inundados após um alerta de segurança ter submergido parte da prisão).
No deserto que circunda o Distrito D, o grupo se reúne em paz após algum intervalo e discute o próximo passo. É óbvio que os mísseis precisam ser interceptados. Irvine ouviu dizer que não irão bombardear Balamb de imediato, como Seifer dissera com convicção ou apenas como um blefe, mas que Trabia não tem como ser salva a essa altura. Squall decide voltar a Balamb para iniciar uma contra-rebelião. O sexteto se divide novamente: com exceção do líder, de Irvine e Rinoa os demais vão direto à base de onde provêm os mísseis.
Na missão do grupo de Selphie, apesar do sucesso final, no momento de explodir a base eles são envolvidos em uma batalha imprevista e o tempo se esgota. Aparentemente foi uma missão de sacrifício, e a base vai pelos ares, com os corpos dos SeeDs ainda em seu perímetro. A verdade última, porém, é que eles conseguiram refúgio dentro de armaduras blindadas. Squall e companheiros também são exitosos em sua missão.
O grupo, então, reunido, descobre que Edea é ou era a esposa de Cid. Cid conta sobre o passado dos jovens, que vão recuperando suas memórias afetadas pelos Guardiães, mas ainda não satisfatoriamente. Ellone, a meia-irmã de Squall, que ele pensava tê-lo abandonado, finalmente é revelada como uma importante componente da Garden. Squall se dá conta, ao reencontrá-la, que ela era a menininha do sonho de Laguna, o que ajuda a reconstruir mais de suas próprias lembranças. Ellone revela seus poderes especiais, aquém aos de uma feiticeira típica, mas ao mesmo tempo exclusivos e cobiçados até pelas próprias feiticeiras: todo esse tempo ela tem feito os SeeDs entrarem em estado inconsciente a fim de mostrar o passado, fazendo-os revivê-lo diretamente, quem sabe até alterá-lo. Squall, por exemplo, sempre assumia o corpo e a consciência de Laguna, mas os resultados eram sempre os mesmos. É Laguna uma duplicata de Squall, além de seu pai biológico? Os White SeeDs, os seguranças particulares de Ellone, chegam ao local com novas ordens para deslocá-la e os dois irmãos tão maltratados pelo destino se despedem mais uma vez.
A próxima paragem do jogador é Fisherman’s Horizon, quase uma utopia neste mundo, em que os refugiados das inúmeras guerras entre Esthar e Galbadia podiam viver em paz. Oportuna ou inoportunamente, o exército de Galbadia invade o lugar justo quando Squall e seus companheiros estão presentes. Finalmente o trio da base explodida se reencontra com o trio mandado a Balamb. Os relacionamentos e a moral do grupo são o enfoque do próximo arco, com Rinoa e Squall se desenhando mais e mais como um casal. Selphie está deprimida, Irvine tenta seduzi-la mas não é correspondido. Squall, no auge de seus 17 anos, é nomeado por Cid o novo comandante supremo da SeeD. Carreira um tanto meteórica até para um universo ficcional! Todo esse senso de responsabilidade – de alguém que viveu atos heróicos do próprio pai, ainda que em sonho, tendo agência própria nos eventos! – parece estar quebrando Leonhart por dentro. Para completar, ele ainda não conseguiu cicatrizar toda a história do falso abandono de sua infância, tendo sido obrigado a se separar de Ellone antes de se habituar de novo a sua presença.
Numa visita a Trabia, em que Selphie se despede de seus amigos mortos e ajuda a cuidar dos feridos sobreviventes, algumas das cenas mais icônicas do jogo dão lugar. Enquanto espairecem numa quadra de basquete, lembranças são engatilhadas no grupo inteiro por uma súbita fala de Irvine, para a qual a revelação de que Edea era casada com Cid servia de pequeno foreshadowing:todos eram companheiros órfãos no passado e sempre reconheceram Edea como sua mãe adotiva. Irvine parece ter lembrado primeiro dos episódios porque Galbadia Garden passou a usar o poder dos Guardiães apenas muito recentemente; assim como Selphie foi a segunda a ter suas lembranças ressuscitadas. A situação de desconforto de Irvine desde que se juntou ao grupo é explicada, mas parece significar que ele errou o tiro de propósito ou sabia que Edea reagiria a tempo a sua tentativa de execução no atentado em Deling. Como Rinoa não era uma das crianças, ela se sente muito sozinha nesse segmento, como que rejeitada ou ostracizada pelo grupo, uma estranha no ninho.
Em meio a uma nova batalha com as tropas galbadianas, Rinoa solicita o anel de Squall – um memento de família – por intermédio de Zell, pois tem vergonha quando pensa que se pedir o anel a Squall diretamente todos pensarão que os dois estão oficialmente comprometidos – até diante de Squall esse pensamento causa embaraço a Rinoa. Zell obtém o anel emprestado jogando conversa fora, mas durante o conflito não consegue entregá-lo a Rinoa de imediato. Quando Zell finalmente repassa o anel, algumas cenas depois, um tremor sucede. Os dois Gardens estão em franca guerra total. Escusado é relatar ao leitor não-jogador a essa altura do campeonato (dado o fator sci-fi do enredo e a importância maior dada aos afetos na storyline) que as bases Garden são secretamente enormes veículos com auto-propulsão que podem se deslocar pelo espaço aéreo, e esta é uma destas loucas batalhas quase sem regras no mundo conhecido da física, lembrando mais uma franquia de George Lucas que qualquer momento prévio em FF!
Rinoa fica dependurada em estruturas inclinadas prestes a ceder. Squall pede a Zell que resolva a situação, pois precisa proteger a vida das crianças e adolescentes nas salas de aula ao mesmo tempo. No fim, envolvido em outra batalha aérea, é Squall quem salva Rinoa. Os SeeDs invadem o subterrâneo (ou o porão da nave) de Galbadia Garden, onde está a sala de controle dos motores do veículo-escola. Seifer acaba mais uma vez derrotado e perde sua função de co-vilão na estória, pelo menos até o confronto final no Pilar. Agora é Edea quem antagoniza diretamente com os jovens na esperada revanche…
Edea não se segura neste segundo confronto (como se o resquício de lembrança que lhe restava tivesse sido apagado por Ultimecia), ainda não-conclusivo, embora o grupo de jovens tenha conseguido extrair-lhe o poderoso GF Alexander. Em lugar da vitória esperada, no entanto, o tempo congela. Sem poder se mover, mas ainda consciente, Squall assiste uma Rinoa hipnotizada claudicando em direção a Seifer. Ela se inclina em direção ao pé do ouvido do arqui-rival e ex-amante e conta-lhe algum segredo vital para a estória. A reação de Seifer é se reerguer, mesmo muito ferido, e empreender sua fuga. Edea é envolvida numa explosão de luzes. O “campo congelado” desvanesce e Edea parece tão confundida quanto o grupo com o que se passa. Aparentando genuína alegria e nostalgia, ela cumprimenta todos aqueles a quem tentara matar segundos atrás, ao demonstrar reconhecer por fim suas fisionomias, fisionomias que agora suscitam-lhe emoções verdadeiras. Não é mais a Edea possuída de antes, mas a antiga matrona do orfanato. Todos retornam a Balamb em paz, mas o preço colateral é que Rinoa está em coma desde que agiu da forma mais estranha no campo de batalha.
Edea explica que estava sob o controle de Ultimecia, a última (pun) feiticeira, a verdadeira raiz dos problemas deste mundo. O objetivo da trágica Ultimecia¹ após ser rejeitada pelo corpo de Edea é ressuscitar a feiticeira Adel das guerras passadas, ou antes tomar seu corpo que está em crisálida. Como o estado de Rinoa preocupa, decidem ir atrás de Ellone, que pode conhecer um método de trazê-la de volta.
¹ Criatura nascida no futuro e que viaja ao passado (reza o lore, que por não compreendê-la ora também atribui-lhe genealogia alienígena), se for – e é – uma criatura cultivada, aprendeu que foi derrotada no passado, lugar em que desembarca buscando a onipotência e a vitória. Diferentemente de nós, que estudamos a História para jamais repeti-la, conscientes de que não existe nem existirá máquina do tempo, Ultimecia pertence a um universo em que viagens temporais são uma realidade – e por isso todo seu esforço é apenas seu destino sisífico. Mas é durante essa jornada que ela entende seu verdadeiro propósito (não era tornar-se deus ou vencer, no sentido clássico e binário), e que ele se cumpriu… Continue a leitura!
Os sentimentos represados de Squall finalmente jorram, e ele mais do que nunca sente a necessidade de se comunicar com Rinoa, ironicamente agora que ela não pode escutá-lo. Squall desfalece e recai em seus sonhos interativos produzidos pela mágica de Ellone… A diferença dessa vez é que antes de recobrar a consciência Squall, em estado de sonho lúcido, consegue trocar palavras com Ellone. Ele também observa passivamente uma cena de Laguna conversando com Edea sobre Ellone. Posteriormente Squall descobre que o paradeiro atual de sua meia-irmã é Esthar.
Squall está afundado em solilóquios e paralisado pela melancolia. O mundo para ele não interessa, não corre perigo. Ele só consegue pensar em Rinoa. Quando a nave da Garden aterrissa em Fisherman’s Horizon, Squall leva o corpo estático e inerte de sua musa nas costas, segue a pé pelo comprido trilho do trem. Seus pensamentos, dessa vez declarados em voz alta, giram em torno dessa questão tão paradóxica: o pouquíssimo tempo que tiveram juntos modificou-o por completo; e agora, justo agora que ele o compreende, não tem acesso a suas palavras, a sua risada… Admite perante uma Rinoa surda que tinha um exterior de ouriço para esconder o fato de que ele se importa muito com os outros, e com o que os outros acham de si; para esconder que ele é só uma pessoa insegura e que precisa incondicionalmente dos seus amigos.
Chegando ao fim da estrada de trilho, já na estação da desolada Esthar, Squall surpreende-se ao ver que todos os seus amigos estavam já a sua espera. Para eles era senso comum aparecer para ajudar Rinoa a recuperar a consciência e encontrar Ellone. E ainda mais fantástico: Edea também acompanha os SeeDs. Com auxílio de sua poderosa mágica, quem poderá dizer que a missão não será cumprida? Abadon, o guardião morto-vivo, é aniquilado por Edea às margens do Grande Lago Salgado. Eles encontram uma passagem subterrânea e um terminal de computador que revelam que há um sistema de camuflagem para deixar a capital de Esthar invisível. Depois de desabilitar essa medida de segurança, finalmente penetram na cidade inimiga. Assim que entram, porém, Squall desmaia…
…Laguna é um prisioneiro trabalhando no laboratório de Lunatic Pandora. Depois de salvar outro escravo, um Moomba, Laguna é interpelado por outros homens da resistência contra Adel, que aclamam-no seu novo líder.Eles precisam fugir e retaliar a feiticeira. Laguna heroicamente chama a atenção dos guardas enquanto o Moomba e outros rebeldes conseguem evadir.Kiros e Ward vêm ao encontro de Laguna. Eles resolvem fazer uma parada no laboratório de Odine e recebem a informação de que Ellone lá se encontra, sendo objeto de pesquisas e experimentos.Laguna ameaça Odine até o cientista se acovardar e contar tudo que ainda ocultava. Ellone estava, na verdade, em outro laboratório, também comandado por Odine, o principal da rede de laboratórios dos estharianos. O padrasto acha então sua querida enteada. Quando se abraçam, Squall acorda…
Os membros da SeeD são escoltados até o palácio presidencial. Edea quer se livrar definitivamente da maldição de Ultimecia, se isso for possível (como ela ainda possui poderes, não está descartada a hipótese da consciência de Ultimecia voltar). Odine, o cientista quase-maluco obrigatório em todo enredo futurista “de segunda prateleira”, deve ter algumas respostas. Ele realmente propõe uma solução, e ela é até bem simples. Squall, não obstante, não quer saber de conversa e demanda incontinenti o paradeiro exato de Ellone, espelhando a cena de anos atrás. Odine, cheio de si, diz que arranjará tudo. O que eles querem está em East Esthar.
Explica-se a Squall que curar Rinoa exigirá que ele e Ellone levem-na a uma base lunar, o lugar mais avançado em tecnologia de que dispõem os habitantes do planeta, para que mais dados sejam coletados e entenda-se o coma que a medicina comum não sabe tratar. Zell declara seu desejo de permanecer e ser o guarda-costas de Edea, agora que sente de novo afeição por sua mãe adotiva. Squall faz uma dupla com Selphie. Eles fazem essa incrível viagem: Squall, Selphie e o corpo passivo de Rinoa, sendo lançados para fora da órbita, até o satélite. Depois que eles partem, Angelo, o cachorrinho de Rinoa, começa a desenvolver sintomas de loucura.
No laboratório de Odine causa pavor a informação de que os galbadianos invadiram Pandora e agora estão no controle da estrutura. Zell e os dois PCs que estão consigo vão investigar. Enquanto avançavam pelo interior do cristal gigante, são violentamente expelidos, sugados pelo topo da estrutura e jogados novamente em Esthar. O complexo de Pandora se move, e seu paradeiro é também a lua. Edea, quase inconsciente, só consegue repetir, murmurando: Lunar Cry, Lu…nar Cr…yyy… O choro da lua, lágrimas da lua. Os demais não sabem o que isso significa. Algo terrível se avizinha.
Squall posiciona Rinoa num leito dentro do laboratório médico da estação lunar. Ele sai para explorar as imediações. Ele e Selphie vêem, ao longe, a tumba de Adel flutuando no vácuo, selada desde o fim da guerra. O presidente de Esthar está ele mesmo de perto guardando o túmulo, prevenindo que alguém apareça para desfazer os selos (não é revelada sua identidade). Na sala de controle, o grupo é apresentado aos monstros que vivem na superfície lunar! Ellone estava esse tempo todo escondida e sendo protegida nesta estação. Squall pede sua ajuda para tirar seu grande amor do estado de coma. Depois de algumas palavras que tentam consolar o coração de seu querido meio-irmão, Ellone explica que seus poderes de viagem temporal não são irrestritos: ela não pode mudar o passado e salvar Rinoa, principalmente porque não a conhece ainda.
O coma de Rinoa muda de fase: em vez da inércia, ela se torna alguém como que em hipnose ou sonambulismo, percorre os corredores, seu corpo se torna diáfano e começa a desaparecer e reaparecer alternativamente, mas ao mesmo tempo sua existência parece se estender a outros locais e tempos. Ela não pode ver ou escutar aqueles que estão ao seu redor na lua. Quando Squall tenta abraçá-la, é intensamente repelido pela “aura” rebelde que a circunda. Ele apenas a segue até a sala de controle. Rinoa desativa facilmente a primeira camada de selos que protegiam a tumba de Adel, depois torna a estação inoperante e em conseqüência a lua fica sem comunicação com o planeta. Ela se dirige aos vestiários e se veste com uma roupa de astronauta. Consegue evadir pelos dutos de ventilação. Squall continua a segui-la, mas não pôde fazer nada contra as ações daninhas de Rinoa. Quando ela sai da atmosfera lunar e se encontra em pleno espaço sideral, tudo o que Squall pode fazer é assistir horrorizado o corpo estranho flutuante – ele se aproxima da tumba desguarnecida de Adel e quebra um a um os selos mágicos reminiscentes, como se fossem meras armadilhas de rato. A única alternativa de Squall, sem outra veste adequada para a exploração espacial ou um cabo comprido o suficiente que o mantenha atrelado à estação, é usar um dos pods, pequenos veículos, que comportam três assentos, ao lado de Selphie e Ellone, para se aproximar da tumba e tentar prevenir a catástrofe maior que se desenha.
Ao mesmo tempo, uma horda de monstros nasce, como se plantas fossem, da superfície lunar, e se dirigem ao planeta. É isso que os humanos e principalmente a informada e previdente Edea chamava em seus murmúrios de Choro da Lua, outra hecatombe desastrosa e simultânea com as ações comatosas de Rinoa, ambos atuando em sincronia para causar a destruição do espaço-tempo como se o conhece. Depois de “cumprir seus desígnios” como um peão sem vontade própria num tabuleiro que excede todas as individualidades em luta, liberando o cadáver de Adel do selamento mágico, Rinoa é repelida da tumba e reconquista o estado consciente.
No pod, Squall e Ellone, observando a curta distância, tentam entender o que se passou com Rinoa. Squall tem uma experiência mística: vê a vida de Rinoa através da perspectiva de outras pessoas com quem ela convivera, por exemplo quando convenceu Irvine a voltar à Prisão do Deserto para resgatar o time SeeD sob custódia de Seifer e Edea, mas também o momento em que Zell confidenciava com Rinoa sobre fazer uma cópia do anel de Squall, o Griever, a fim de que ela tivesse sempre consigo um item que remetesse a Squall.¹ Ellone também participa desse estranho fenômeno e enxerga o momento da derrota de Edea, enquanto possuída por Ultimecia. Ela compreende o que se passou com Rinoa esse tempo todo a partir do coma: a essência de Ultimecia saltara de Edea para Rinoa, e agora de Rinoa para o corpo libertado de Adel. Ela foi um instrumento passivo do grande plano da entidade para assumir o controle da existência. Rinoa podia ser esse vaso comunicante porque desde sempre tinha o que era necessário para ser uma feiticeira, e todos ignoravam o fato. Fosse ele conhecido, a White SeeD também protegeria Rinoa, como fez com Ellone todos esses anos. Rinoa não terá como voltar à base e morrerá à deriva no espaço vazio, pois perdeu sua utilidade e é, para Ultimecia, agora, apenas uma casca.
¹ Esse detalhe é muito importante para entender o enredo do jogo que não é contado diretamente, i.e., fica nas entrelinhas (continue a leitura).
O som não se propaga no vácuo, mas Squall tenta chegar a Rinoa pelos poderes de Ellone. Ele sente que a temperatura corporal de Rinoa está em rápida queda e seu suprimento de oxigênio perto do fim. Eventualmente, ela faz sua última inalação com o tanque de oxigênio da roupa de astronauta, que garantia meia hora de fôlego. Ela fecha os olhos e o corpo deixa de responder. Os dois anéis que Rinoa estava usando, por cima da veste tecnológica (!!), o original de Squall (que ele deixou com seu corpo comatoso) e a réplica combinada com Zell, presos ao seu pescoço por uma corrente, quebram o elo e partem em direção ao próprio Squall. Miraculosamente, a voz de Squall parece reverberar agora, na mente de Rinoa, que ainda não expirou. O amor é mesmo afrodisíaco, amigos, até para os pulmões em situações críticas como esta! Rinoa se recorda (só agora!) que tem um tanque de oxigênio reserva na roupa e restaura a respiração, por pelo menos 5 minutos…
…Squall sabe que não poderá trazer Rinoa de volta nesse pequeno intervalo, mas não deixa de sentir que sua própria vida renasce ao perceber que Rinoa voltou a respirar normalmente graças ao segundo tanque. Ele decide se desplugar do pod num traje espacial (por conveniências da plot, havia um dentro do pod, sem o cabo!) e abraçar Rinoa, num último adeus, a ela e ao mundo. Ambos morrerão sem oxigênio e a à deriva. Decidiu-se, no meio do breu, da mesma forma como a nada se decidia enquanto habitava o planeta e fugia das responsabilidades e escolhas significativas… Seu último ato cimenta sua maturidade. Dessa vez nenhum novo tanque de oxigênio poderá salvá-los, será o fim do casal. Mas justo neste instante crucial uma das espaçonaves Ragnarok (utilizadas na última guerra) aparecem em órbita, prestes a cruzar com os pombinhos em sua trajetória errática pelo cosmo escuro. Eles conseguem ingressar no veículo. Parece que se despedirão em grande estilo em uma próxima oportunidade: ainda não era chegada a hora!… O mundo ainda precisa de ambos, além de um ao outro…
Ao verificarem que o interior da nave é respirável, desvestem suas “armaduras protetoras” e podem conversar com as roupas convencionais que usavam na estação há alguns momentos. Não demora muito até que percebam que a nave está sendo observada e perseguida por alienígenas chamados Progators. São adversários formidáveis, mas Rinoa parece conservar seus conhecimentos em magia, exatamente como Edea após perder a essência de Ultimecia. A sincronicidade do casal, ademais, é fator decisivo para obliterar as ameaças. Dirigindo a nave, ambos voltam seguros à lua. Já é hora, no entanto, de outra viagem mais importante: retornar a Esthar, onde a outra metade do cataclisma (o choro lunar) estava em curso…
Enquanto não chegam ao destino, sentam-se e conversam, sem inimigos para interromper o momento privilegiado. Squall parece ter se retraído novamente em sua concha de adolescente-problema, e não responde mais com afeição aos gestos explícitos de Rinoa, que senta em seu colo e o envolve em um terno amplexo. Eles não se beijam, nem Squall declara seu amor, aquele mesmo amor que ele declarara a uma Rinoa em coma, despersonalizada. Parece que o maior problema de Squall Leonhart é que tudo esteja finalmente bem! Há pessoas assim no mundo… De toda forma, com algum esforço, Squall começa a conversar. O tema escolhido é sua infância conturbada – isso demonstra que ele já pode se abrir mais do que no começo da aventura, ainda que continue sendo-lhe dorido. Squall desabafa sobre como, sem saber nada sobre seus pais e após ter pensado que sua única parente o abandonou cedo na vida, ele finalmente se sentiu menos sozinho no orfanato. Mas ele nunca superou de verdade a ausência de Ellone, e como um porco-espinho evitava se abrir, com receio de se machucar na mesma intensidade outra vez. Rinoa, esta pessoa colada a seu corpo, foi a pessoa responsável por curar sua resistência, por enferrujar as dobradiças dessa pesada porta de uma escotilha de memórias amargas… Rinoa é bem mais direta: diz que se sente a pessoa mais confortável do universo estando abraçada com a pessoa que ama e em quem aprendeu a depositar confiança incondicional, a despeito de saber que é terrivelmente difícil tratar com essa mesma pessoa em termos diretos e francos; e essa pessoa, Squall, sabe como poucos deixar a cabeça de uma garota zonza, esse é sem dúvida seu pior defeito – agora Rinoa o expressou abertamente ao amado.
A beleza do momento é interrompida pela população de Esthar, quando a nave aterrissa, que temia justamente o que está prestes a acontecer: uma Rinoa viva e de volta ao planeta, a pior das ameaças, visto que já entenderam a relação estabelecida entre Rinoa e Ultimecia, mesmo que Rinoa não tenha dado seu consentimento a nada.
Rinoa se entrega voluntariamente, admitindo que agora, depois de suas últimas experiências, possui os poderes de uma temível feiticeira. Ela está em pânico sobre o futuro e se pudesse escolher só gostaria de reviver os efêmeros instantes que lhe restam ao lado de Squall, como esta cena tão familiar e inofensiva no assento da nave…Squall admite que está apaixonado (ele é um pouco lento, o leitor talvez tenha diagnosticado neste ponto da trama!) no momento do pouso da nave Ragnarok, e se sente em completa confusão sobre que atitude tomar, porque para ele existe Rinoa e existe o mundo, e ele não sabe, talvez, como fazer os dois interagirem de forma sadia ou natural. Ao mesmo tempo que não pode deixar Esthar com Rinoa (“Deixa Esthar!”), ele não toma nenhuma ação, assiste sua amada ser conduzida pelas tropas do império, a fim de ser selada, como fôra Adel no passado. Rinoa tenta devolver o anel original de Squall. Ele, de modo frio e em completa contradição com o turbilhão de sentimentos que o domina, diz que está tudo bem que o objeto fique com ela, e ambos se despedem num tom triste. Mas é neste momento em que parece ter covardemente desistido de tudo que Squall divisa um plano tão genial quanto diabólico para virar a mesa, num átimo, e num golpe napoleônico de seu inconsciente relutante.¹ Então ele se deixa vencer pela apatia aparente e retorna à nave para sofrer seu luto.
¹ Essa é minha interpretação do enredo – o tal plano será explicado abaixo!
Os demais SeeDs reúnem-se com Squall. Selphie está inteira, e feliz de ver que seu líder também sobreviveu à viagem no pod. Ela quer saber o contexto da situação, o paradeiro de Rinoa, etc. Interrompendo este diálogo os demais surgem excitados, descrevendo como Edea enfim se livrou de seus poderes (em prol de Rinoa, é o que eles ainda não sabem); tudo sobre Lunatic Pandora… Squall parece não estar presente em toda a cena, pois escuta e não escuta ao mesmo tempo. Com um extremo último esforço ele “descongela” e solta a língua: Rinoa é a nova feiticeira e será selada.Os outros têm sua atmosfera de ânimo e otimismo esmagada num instante. Não podiam ter adivinhado esse desdobramento, muito menos a apatia de Squall diante do acontecido. Justo de Squall, o mais interessado em Rinoa. Quistis tenta acordá-lo com palavras duras: Você é um idiota, por acaso? Por que você deixaria que levassem Rinoa?! Como que se esquecendo de que ele tem um plano muito maior em execução (pois agora não se trata mais de individualidades, está tudo conectado) que não necessita, e até exige, que nenhuma intervenção (pois ela “já aconteceu”) seja realizada, ele “volta a si”, reinterpretando seu personagem: Squall se arrepende de ter se rendido, de não ter convencido Rinoa a resistir, e quer se juntar aos demais para salvá-la – missão impossível e inócua, já que Rinoa é a feiticeira e sempre precarizará o balanço da paz deste mundo. Selphie também retoma o otimismo que sempre lhe soou característico, principalmente quando exagerado: é o seu jeitinho. Ela assume como que a postura de líder interina do grupo, mostrando-se mais vivaz que o próprio líder literal Squall, e os SeeDs partem rumo ao Memorial da Feiticeira, lugar da cerimônia de selamento mágico.
O resgate foi mais simples do que se poderia prever. Rinoa cai nos braços de Squall. Alguns guardas sobreviventes tentam evitar que a tropa escape, mas neste momento o próprio Laguna intervém, embora incógnito aos demais. Rinoa pede para ser levada até o orfanato, ironicamente ela, a única que não cresceu com todos os demais, porque gostaria de passar um tempo sozinha. Squall e Rinoa conversam deitados sobre um lindo tapete de flores. Rinoa sabe que está, e estará, em perpétuo risco: poderão seqüestrá-la ou ela simplesmente pode se tornar de repente maligna. Squall responde, tirando confiança de sabe-se lá onde (eu sei: do plano que ele divisou em silêncio, e do qual não só ele mas inúmeras entidades participam, em conciliábulo), que nada disso terá lugar, que mesmo que tivesse de encarar o resto do mundo ele permaneceria a seu lado irremediavelmente, sendo seu cavaleiro branco, mesmo se ela se tornasse o maior inimigo da humanidade. (Mesma frase que usou, sem qualquer veracidade de conteúdo, no primeiro encontro com Rinoa, quando ela era apenas uma cliente de novos recrutas da SeeD – mesma frase que Seifer pronunciou ao se filiar à Edea maligna, apenas repetindo maquinalmente um diálogo dum filme… gravado por Laguna… As conexões começam a despontar aos borbotões e apenas os mais indispostos para com a Square não enxergam um grande esforço de unidade na obra a essa altura.) Eles selam uma promessa: se Squall se sentir perdido, ela sempre poderá encontrá-lo neste campo florido; ele deve vir a este jardim e aguardá-la, se ela já não estiver. Desnecessário dizer que Rinoa não sairá do local por nada no mundo, metaforicamente falando.
Os demais chegam ao campo e interrompem as juras dos pombinhos: interceptaram uma mensagem de rádio de Esthar. Kiros e Ward precisam que eles regressem com urgência. As peças do quebra-cabeça vão se encaixando fenomenalmente apesar do qüiproquó tecnológico clichê! Todos os personagens dos discos anteriores estão ressurgindo no epílogo da estória, e os flashbacks adquirem total pertinência. Edea, ao se despedir do grupo, conta a seus antigos rebentos adotivos como seus poderes foram herdados 13 anos atrás após o selamento de Adel, e por uma segunda feiticeira anônima, para prevenir que seus poderes terminassem em qualquer outra criança, que não teriam culpa ou escolha – ela, pelo menos, era uma adulta e tinha uma resolução. A moraleja do relato de Edea é, para Squall: ela atravessou um período de incalculável sofrimento, mas se sua mente não sucumbiu foi porque existiam pessoas em seu entorno que amavam-na. Squall deve agüentar e lutar ao lado de Rinoa, mesmo que essa decisão reflita em tragédia para outros.É necessário prestar atenção em falas aparentemente absurdas, com pequenas minúcias, como essa, para entender que todos estão participando do plano de Squall, involuntariamente. Ninguém se perguntou que feiticeira misteriosa visitou Edea no orfanato: havia questões mais prementes com que se preocupar!
Aqui todos se reúnem com o Presidente Laguna, cara a cara, a primeira vez no jogo. Laguna era a personalidade que – inutilmente, pelo visto – se mantinha na lua guardando o túmulo de Adel, o líder da república popular de Esthar. Squall está incrédulo, mas ao mesmo tempo deixa-se levar, está de guarda propositalmente baixa, sabe que Laguna “é de confiança” (como jamais saberia, há alguns dias). Aliás, ele é Laguna também. A informação é de que Adel, a original, confinou-se em Lunatic Pandora e Ultimecia tomou posse de seu corpo. Porém, Adel está fraca, e o que falta para Ultimecia lograr seu plano de compressão do tempo é revitalizar os poderes adelianos.Essa parte Squall ouviu com muita atenção e entendeu sem precisar pedir qualquer esclarecimento adicional.Ultimecia tem um último trunfo para garantir que o corpo de Adel receba o máximo de poder: ela precisa possuir Ellone para viajar ao passado, etapa 1 do seu plano de Compressão do Espaço e do Tempo: partindo do ponto mais remoto, achatará todo o passado, fundindo-o com o presente e o futuro a fim de consumar a coexistência absoluta do Todo consigo mesmo(a) (condição do presente eterno). E para chegar a esse resultado perfeito, ela conta com uma máquian do tempo que ainda será desenvolvida no futuro baseada no padrão cerebral único de Ellone. O único porém de toda essa maquinação bizarra (com o perdão dos infinitos trocadilhos possíveis: máquina, maquinação, Maquiavel…) é que ela necessita de Ellone agora como o gatilho do fenômeno final e definitivo. Ninguém sabe por que ela quer realizar a compressão do tempo (apenas quem participa do plano de Squall num nível mais consciente, que anteciparemos agora: Laguna, Edea, Julia, Rinoa, a própria Ellone… – mas isso não é dito em voz alta, no jogo, nunca). A “máquina do tempo” é apenas um objeto que recebeu/receberá junction da magia temporal (Time magic) exclusiva de Ellone, respeitando o cânone e as regras de poder criadas para o jogo. E Ellone precisa levar Ultimecia para o passado porque no passado Ultimecia possuirá/possuiu, em seqüência, Adel, Edea, Rinoa… e por último novamente Adel, embora não faça diferença “quem é”, mas por que é cada indivíduo em cada momento.
Laguna, ciente de que os SeeDs não aceitariam partir numa missão suicida a menos que houvesse bons motivos para tal (exceto, claro, Squall), e podendo contar para isso com a erudição de Odine, diz que a única maneira de matar Ultimecia (A etimologia do nome da maga é clara: a máquina definitiva, ultimate mech; essa é a razão para ela pronunciar ‘k’ no lugar de ‘c’: seu nome deve ser entendido, nem que apenas conceitualmente, como Ultimekia, como pronunciaríamos se fosse escrito Ultimechia, não permitindo, esta interpretação, outro significado para a segunda metade de sua denominação)¹ é justamente caindo na armadilha de permitir a compressão temporal.O corpo verdadeiro de Ultimecia, que precisa ser destruído, se encontra apenas no futuro remoto, época em que ela nasceu. É óbvio que para que todos viajem ao futuro será preciso “pegar carona” na compressão temporal, que é em si uma viagem no tempo (e muito mais). Podemos dizer, a propósito, que toda viagem no tempo é apenas uma modalidade de compressão temporal, a magia mais poderosa neste universo. Só o que o grupo pode esperar fazer é matar o corpo de Adel antes que ele acorde como Ultimecia em Pandora, forçando Ultimecia a possuir Rinoa, o único receptáculo disponível após a extinção de Adel. [ (Já que Ellone é como que ‘outro caso’, na verdade uma outra metade do ‘combustível’ mágico de que Ultimecia necessita a fim de comprimir o tempo, e agora Edea não possui mais as condições de ressuscitar seus poderes, além de estar longe de Pandora durante a missão, tornando Rinoa o último alvo útil possível, com efeito.) Essa seria a armadilha para Ultimecia, barganhar com o mais valioso (para Squall)…
¹ NOTA SOBRE DISCUSSÕES (SAUDÁVEIS) EM TRADUÇÃO!Incluirei aqui, por questão de modéstia, hipóteses externas acerca da etimologia da palavra Ultimecia. Senta que lá vem estória…
Na mitologia gregaahouve um rei chamado Mausolus, cuja esposa e portanto rainha – que incidentalmente era, err, sua irmã – se chamava Artemisia. Quando Mausolus morreu, a dor que se apoderou de sua irmã-consorte foi tão pungente que a teria levado à loucura e à megalomania: ela resolveu consagrar a seu amor o maior túmulo jamais construído, na obra que a imortalizaria, gesto mais importante de sua existência. Durante a construção do mausoléu por seus subordinados, Artemisia era vista até mesmo bebendo todos os dias água ou o que mais lhe aprouvesse com o acréscimo, a cada oportunidade, na taça, de um naco das cinzas do corpo de seu cremado marido (detalhe insólito). (a nota de rodapé é grande e continua no próximo parágrafo, não esmoreça!)
[aObservação de cunho histórico ou pseudo-histórico: a teoria do lingüista-fã se refere a Mausolus e Artemísia como figuras legendárias, e nisso estou em completa concórdia – outras fontes consideram Mausolus uma figura que existiu realmente, como rei da Cária (Ásia Menor) no séc. IV a.C., que não era uma polis grega, mas parte do (nascente) Império Persa. Um dos motivos para meu ceticismo em relação à existência fática dessa biografia é que seu nome só existe em grego, o que validaria seu construto ser apenas uma fábula. Para a hipótese de ser uma figura histórica, que sempre há e não tenho o poder de invalidar, não concordo que o casamento ser um incesto seria um contra-argumento forte, tendo em vista que é um tabu verificado universalmente, mesmo que o conceito de irmão ou irmã dependa em última instância de regras locais: conjetura-se, dentre os que identificam o casal como monarcas verdadeiros do passado antigo, que este fôra um casamento meramente simbólico, i.e., arranjado. Isto é apoiado pelo fato de que não há registros de descendência (filhos entre ambos); a informação também fortalece a teoria de que teria sido apenas uma formalidade para a preservação do poder, como se verificou ou ter-se-ia verificado (sendo um casal que de fato existiu) posteriormente à morte de Mausolus, visto que Artemísia conservou o título de rainha, Artemísia II para ser ‘historicamente’ exato, até vir a falecer e a transmissão do trono recair para irmãs de sangue desta Artemísia. O que considero mais absurdo é que um tal monumento, comparável a um prédio – não a uma pirâmide egípcia, este sim um mausoléu milenar! –, só foi escavado no séc. XIX e mesmo assim só foram encontrados alguns poucos destroços. Fosse essa construção mais palpável, mais influente, teria sido mais citada ao longo da História…]
A construção teria durado de 3 a 4 anos, e talvez Artemisia tenha morrido antes de ver sua inauguração consumada. Mas o que importa para nós, neste artigo de Final Fantasy VIII que resolveu adentrar terreno estrangeiro (rs) e opinar sobre questões filo-arqueo-etimo-lógicas, é que Artemisia terminou como uma louca, mas louca e devorada de paixão (veja que na fábula isso cai melhor do que no relato historiográfico – acreditem comigo que é só um mito grego!), o que dá matizes muito mais belos a sua demência de fim de vida. O mausoléu não só era uma edificação considerável (de dezenas de metros, quase um cubo) como era adornada nos 4 extremos por homens e cavalos de mármore, o que unia os esforços dos melhores arquitetos e engenheiros com os melhores artistas plásticos disponíveis à côrte. Usuários da língua portuguesa (a absoluta totalidade de quem me lê agora, a menos que estejam usando uma ferramenta de tradução, o que não recomendo, pois deve desfigurar meu estilo!) já se deram conta que mausoléu decorre do nome deste rei (mausoleionaem grego), e que esta apaixonada esposa, apaixonada até a morte, é a figura de relevo aqui: ocorre que Ultimecia vem a ser uma transliteração válida do inglês para o japonês em katakana para Artemisia. ‘A’ e ‘U’ são usados indiferentemente na maioria das sílabas, assim como ‘I’ e ‘R’, como pares com pronúncia parecida em japonês. O spell de Ultimecia chamado Ultima foi inclusive transliterado oficialmente em inglês para Atma e Altima (erros reparados em atualizações do script). Até ‘E’ e ‘I’ são intercambiáveis, para ser sincero (o japonês é fascinante – infelizmente eu não conheço nada na língua mais do que qualquer otaku levemente interessado…). Por fim, (quanto não me custou essa generosa nota para a fluidez do meu já truncado relato do enredo!!!!) ‘C’ é uma solução de transliteração (não a melhor, lógico, mas vê-se que pode ter ocorrido) para o ‘S’ de Artemisia. De todo modo, o –shi– mais comum da língua oriental foi preservado na pronunciação final: A-ru-ti-mi-shi-a. Aqui, para quem não tem nenhuma familiaridade com o japonês, pode-se estar pronunciando tanto Ultimecia quanto Artemisia, isso é inegável. O que eu nego é que essa seja a etimologia de Ultimecia – mas há quem compre esta hipótese, e eu a citei para vocês!
[a Squall Leonhart… Curioso derivar o sobrenome de um JAZIGO, exclamariam alguns fãs desconfiados…]
Os defensores dessa curiosa possibilidade alegam que estátuas presentes nas quinas do castelo de Ultimecia in-game são provas em favor da gênese do nome. O telhado de ambas as construções (a descrita pelos mitólogos/arqueólogos e a do game) também compartilham similitudes desconcertantes. Antecipando o que discutiremos somente mais tarde, a conexão com Rinoa aqui é que assim como Artemisia ela lamentaria profundamente (grieved, griever) a morte de Squall e a impossibilidade do reencontro no campo de flores, se o jogo tivesse apresentado este cenário (ela com certeza se tornaria insana como a Artemisia mítica!).
Mais uma analogia que não consigo decidir se é forçada ou simplesmente evidente demais para meu próprio gosto (o que enfraquece minha teoria da ÚLTIMA MÁQUINA descrita acima, nem que apenas um pouco!): Mausolus e Artemisia eram irmãos. Rinoa e Squall… bom, aí é que está! Não é possível um casal sem nenhum traço incestuoso estar mais próximo do parentesco de irmãos do que estes dois, propositalmente, de acordo com o cuidadoso enredo da Square: o pai de Squall, Laguna, e a mãe de Rinoa, Julia, foram um par romântico, o primeiro da estória, em ordem cronológica, e por circunstâncias do acaso ou do destino não terminaram juntos. Mas a cria de cada um voltou a se reunir – talvez uma teoria digna de ser deslindada num Banquete à la Platão, durante a fala de Aristófanes (o retorno ao ser circular perfeito). Mas fiquemos por aqui quanto a isso… Curiosidade adicional: em algumas traduções européias (Alemanha e Itália), Ultimecia foi REALMENTE transliterada (assumidamente um erro) como Artimesia, quase lá!
—INTERMEZZO DA NOTA!— Avalio a qualidade ou probabilidade desta teoria abaixo:
COMENTÁRIO (SEMI-)FINAL: Essa etimologia é mais fraca e improvável que a minha, como fui deixando claro enquanto a explicava em letras douradas – mas é digno de interesse saber que quanto maior validade ela tiver mais provável é a hipótese de que Squall morre no final do primeiro CD após o ataque de sua mãe adotiva Edea (Ultimecia em última instância), e portanto todo o plano de compressão do tempo seria de Rinoa/Julia no lugar de Squall/Laguna como protagonistas do jogo (um prejuízo que eu estaria disposto a aceitar, ainda mais tendo em vista que esta é uma teoria fan made muito popular até hoje, e, como dizem, debunked, refutada, oficialmente – volto a chamar a atenção para a estranheza de uma possível etimologia do sobrenome de Squall estar ligada a ‘mausoléu’)! De qualquer modo, o crucial (que a motivação de todos os embates é um amor inesquecível que quer perdurar no tempo) não é demolido, pelo contrário, neste segundo caso é até reforçado! Ou seja: mesmo se eu sair perdendo, eu saio ganhando – péssimo dia para meus haters!
Dito isso, e ainda na nota de rodapé anterior, outra possível etimologia de Ultimecia apontada é… Artemisia Gentileschi (1593-1656(?)), esta sim 100% confirmada como figura histórica e não apenas mitológica, pintora barroca, uma das poucas figuras femininas da época a se destacar na mesma arte de Caravaggio. Reabilitada muito tempo depois de sua vida graças a (novidade!) uma cultura extremamente patriarcal, um longa-metragem sobre Artemisia Gentileschi foi lançado em 1997, curiosamente bem a tempo para se tornar fonte de inspiração para o enredo de Final Fantasy VIII. Apesar de ser prematuro dizer que este filme ou o conhecimento da vida da pintora tenham chegado aos “quartéis” da Square (não há declarações atestando o fato), é de bom grado lembrar que FF8 possui uma das plots mais voltadas ao Ocidente de toda a franquia…
Gentileschi sofreu bastante durante sua vida, pode-se dizer que foi uma “vítima cruel do destino”. Por causa de um estupro, esteve fadada a morar em diferentes lugares, e ter sua arte validada pelo “homem branco europeu”, inclusive o italiano – seu compatriota –, apenas mais de três séculos e meio após sua morte, sendo generoso. Todo esse contexto não é estranho às circunstâncias da aparição de Ultimecia, que é um acontecimento profetizado no enredo de Final Fantasy VIII, e ambíguo ao extremo: o combate a Ultimecia, no passado, é provavelmente o que mais alimentou o ódio a seu nome e à linha sucessória das feiticeiras, fazendo com que sua aparição no futuro sofresse o impacto desse próprio ódio fanático [FON]. Mais um caso clássico em que o combate a um mal é o próprio responsável por sua produção (cânone do gênero tragédia), embora com o acréscimo do cenário de “viagem no tempo” e embaralhamento das concepções tradicionais de causa-efeito (imaginem um Édipo que conheceu, por artes mágicas, uma versão mais jovem de sua mãe… urgh! isso nos repugna até num nível meramente estético)… Retroativamente, as ações de Ultimecia, aparentemente tirânicas e absolutistas, podem ser “justificadas” e defensores de suas ações podem alegar que ela agia em legítima defesa quando tentou criar sua compressão temporal na geração de Laguna, Squall, Rinoa & os outros… ou pelo menos seria um caso de vendetta, diferente da própria Kaguya de Naruto, que eu citei no review principal, que apenas se tornou uma entidade senil incapaz de cultivar ternura por seus filhos…
Mais elementos dentro do jogo para apoiar esta terceira proposta etimológica contida nesta matéria: muitos quadros ou pinturas adornam os corredores do castelo de Ultimecia pré-confronto final.
Quarta teoria: Ultimecia viria a ser apenas uma simples derivação de Artemis, deusa da lua – a lua é um importante elemento da estória de Final Fantasy VIII. Mas isso é tudo.
Uma teoria que mal classifico como teoria, pois não merece a designação de uma quinta teoria no mesmo extrato, embora soe interessante: Ultimecia parece ‘paramecia’. Paramécio em português é um protozoário, organismo unicelular, potencial origem de toda a vida na Terra, sendo a idéia de “retorno ao Uno” algo comparável ao plano de Ultimecia.Ok, o charme por trás desta última hipótese (não a hipótese em si, muito arbitrária para meu senso seletivo) “me comprou” e “seduziu”, me fez torcer um pouco pela sua plausibilidade… ainda mais vindo da Square dos anos 90 (que criou o roteiro mitocondrial deParasite Eve, que fez um então pré-adolescente como eu ter interesse por biologia celular ainda no ensino fundamental, não pouca coisa!)… mas isso ainda não explica tão bem a idiossincrasia do ‘k’ nos diálogos tão bem quanto minha assertiva, dentre outras desvantagens resultantes em abandonar minha proposição quase invencível!
—FIM DA EXAUSTIVA NOTA SOBRE AS POTENCIALIDADES (E PERIGOS) DAS TRADUÇÕES!—
Já que deixamos o assunto principal de lado por demasiados parágrafos, reprisemos a última frase do roteiro, em que havíamos sido (auto)interrompidos pelo meu interesse excessivo nas opiniões dos outros: Essa seria a armadilha para Ultimecia, barganhar com o mais valioso (para Squall)… E continuemos a partir daqui:
Ao mesmo tempo…¹ O importante é que o grupo possui Ellone, que poderá enviar Ultirinoa ou Rinomecia ao passado mais remoto no invólucro de outra feiticeira, talvez Adel, talvez Edea, condição que Ultimecia acredita ser o sine qua non de sua operação-compressão,² ] uma vez que Rinoa é uma jovem sem experiência, possivelmente sem o mesmo poder máximo manipulável por Adel. Dessa forma, Ultimecia teria de escapar do corpo de Rinoa, salvando sua vida (o que ainda deixa alguns de nós no escuro sobre… — em poucas palavras, …para onde iria Ultimecia, que é imortal e ficaria sem receptáculos… e cujo corpo ainda não apareceu… ??? Os mais intrépidos, entretanto, já entenderam onde os nós se atam em todo esse imbróglio fantástico! Este é o plano público e oficial, mas Laguna e Squall sabem que Rinoa não é periférica para Ultimecia (nem no sentido de ser “o que acabou sobrando no banquete das feiticeiras”), e talvez não seja inferior a Adel em poder, de forma que matar Adel só se justifica para que Ultimecia use especificamente Rinoa! É até incrível como o resto do bando conseguiu engolir o plano tão facilmente, sem um olhar crítico, sem uma objeção sequer… Mas lembre-se: o grupo reflete o inconsciente e o estado de ânimo de Squall, e só irá contrapô-lo severamente quando for para reuni-lo com Rinoa.
¹ Seria inútil se aprofundar agora – comentaremos mais tarde!
² Este evento cancela qualquer relação de causa e efeito no mundo do jogo, já que agora todo outro evento anterior ou posterior pode ser considerado com igual justiça a causa primeira do devir universal. Mais detalhes a seguir! Repare, no entanto, que toda essa explicação de Laguna/Odine é supérflua e até mentirosa, pois há um desnecessário prolongamento do combate e da invasão de Pandora quando se inserem as condições impostas entre colchetes (os colchetes amarelos em negrito), sendo que sem realizar essas etapas o desfecho seria exatamente o mesmo: Rinoa tem de ser possuída por Ultimecia, não importa quando (literalmente)! Até porque… tomando-se como pressuposto que as feiticeiras são imortais (o que fica subentendido o jogo inteiro)… Adel não poderia ser morta e a missão seria um fracasso se não houvesse a presença de Rinoa em Pandora!! Entendeu agora por que Ultirinoa e Rinomecia, dois neologismos improvisados meus, passam a fazer cada vez mais sentido conforme a plot se agrava, i.e., vai chegando a seu clímax?!
Como o próprio Squall Leonhart, ninguém hesitaria em sacrificar o mundo a Ultimecia, desde que pudesse salvar o casal… Segundo o plano, Ellone deveria trazer todos da equipe ao presente neste instante da batalha (quando Ultimecia voltasse a residir na íntegra em Rinoa), ao passo que Ultimecia//Rinoa seria arremessada a contragosto para o futuro (ou se auto-lançaria, dependendo do quanto ela tem consciência de que sua compressão do tempo deixa as noções de passado-presente-futuro indiferentes…) – mas neste momento não importaria essa dicotomia (ou tricotomia, verdadeira raspagem!) por mais do que poucos segundos, afinal todos os tempos estariam rapidamente se fundindo num só. É nesta etapa (início da compressão, vulgo apocalipse irrevogável) que Ultimecia deve ser morta, pois antes, em toda a estória, ela só estivera e estará usando o corpo de outra feiticeira.¹ Outro ponto-chave do plano: para sobreviver neste ‘mundo’ [ZA UARUDO!!!] (o da compressão absoluta do tempo), será necessário focar mentalmente num lugar único, em que todos se sintam reunidos e ‘existindo verdadeiramente’, seres-no-mundo-e-com-os-outros-seres, como diria um Heidegger(não o de Final Fantasy VII!).²
ZA UARUDO (este artigo está muito é zoado!)
¹ Será? Se eu fosse Selphie, Zell ou Quistis teria muitos motivos para duvidar de Laguna e Odine: Como vocês, por quase duas décadas enterrados em Esthar, adquiriram todos esses conhecimentos transcendentais?! É muito conveniente que lá – a nova dimensão achatada – Ultimecia possa obter duas, e não apenas uma vantagem (o que se torna uma desvantagem, desde que o time SeeD possa finalmente matá-la, i.e., ela perde a imortalidade ao estar na iminência de concretizar seu processo de tornar-se deus, o que não faz sentido do ângulo da batalha militar!): 1. recuperar seu corpo original (mais poderoso); 2. arrematar a junction da magia supercompressora de Ellone (que, graças à perda da imortalidade, a “enfraquece”)! Jornada à procura do rolo compressor perfeito!… Assim deveria ser o subtítulo de Final Fantasy VIII… Rolo compressor: sim, isso foi uma JoJo Reference™… É conveniente demais para a própria Ultimecia cair como um patinho nesse plano, deixando Rinoa livre… Talvez porque ela queira?! Talvez porque ela seja Rinoa Heartilly? Inútil falar disso agora, continue lendo!
² Muito conveniente. Normalmente diríamos que é para que o enredo “feche”. Questão de plot armor. Mas lembre-se que os pré-requisitos são todos idênticos às condições para sobrevivência da relação Squall//Rinoa. Além disso, numa nota extra, lembre-se que durante o retorno de Squall e Rinoa da lua, na Ragnarok, ainda faltava atar o conceito de ser-no-mundo com o de ser-com (leitores de Martin Heidegger entenderão!).
O grupo prosseguindo à missão, os primeiros adversários em Pandora são Biggs e Wedge. (Alívio cômico bastante necessário a essa altura, após tantas convoluções – senão no game, no meu artigo!) Ellone vinha sendo mantida refém por ninguém menos do que Seifer na fortaleza. Um personagem que perdeu relevância na estória e já não é mais do que um figurante – um inimigo a mais. Como punição por seus atos megalomaníacos, Seifer é abandonado por seus dois principais asseclas dos tempos da Garden, Raijin e Fujin, que tinham-no apoiado diretamente ou ao menos tentado suavizar seus malfeitos até ali. Num covarde e irônico “ato final”, Seifer toma posse de Rinoa (a reunião do casal que estava fadada ao fracasso, como contraponto da relação idílica desenvolvida por Rinoa e o protagonista), i.e., toma-a sob custódia física, para que Rinoa seja verdadeira e espiritualmente possuída por, no momento, Adel (Ultimecia-Adel), conduzindo-a ao corpo de sua “mestra”. A “fusão” se consuma.
O grupo batalha contra uma Adel rediviva, mostrando que a primeira etapa do plano havia falhado – ou que ela era apenas um decoy de Laguna/Squall… No fim, Seifer fez algo redundante que só fazia parte do plano desde o início. Adel se converte num monstro e Rinoa se encontra atada a seu centro, como uma espécie de Cristo crucificado, anexo do próprio monstro. Se os SeeDs atingissem Adel indiscriminadamente, matariam sua companheira. Os poderes de feiticeira de Rinoa vão sendo sugados conforme a batalha anda e desanda. Mas Adel é definitivamente derrotada no presente e Rinoa escapa ilesa, embora debilitada. Ellone e Laguna, também em Pandora, colocam o plano na segunda marcha. Neste momento os guerreiros encontram-se no passado, graças aos poderes de Ellone. Depois que a mágica é revertida e Rinoa devolvida ao tempo presente, Ellone e Laguna deixam Pandora (convenientemente!), Laguna não se esquecendo de declarar, por último, que é crucial que os SeeDs sigam seu conselho de pouco antes: foquem nos sentimentos que unem o grupo, o amor e a amizade (o campo florido do orfanato, em essência, o local e o tempo eternos deste grupo de pessoas, o símbolo da união de ‘todos em um’).
Sub-repticiamente o grupo encontra-se caindo no vácuo, fora da realidade material estável. Imagens e memórias de todos os tempos são projetadas dentro de espécies de bolhas que circundam o éter (a-)temporal. Uma versão distorcida da música do baile em que Squall e Rinoa dançaram no primeiro encontro ecoa. Agora todos estão submersos na água, talvez a água primordial dos tempos. Rinoa se angustia, temendo deixar de existir nesse ínterim. Squall segura-a pelo pulso e transmite palavras de conforto.¹
¹ Essencialmente o mesmo papel desempenhado por Tifa em relação a Cloud no Final Fantasy pregresso.
Os seis voltam a se reunir num cômodo banhado em intensa e cegante luz branca. É a sala de Edea no Palácio Presidencial em Deling City, outro ponto-chave de sua trajetória enquanto grupo que ia paulatinamente se entrosando. Explorando o recinto, Edea em pessoa surge, começa a rodar por todo o perímetro, e multiplica-se em uma miríade de projeções de si mesma. Mas é Edea? Ou são figuras com o aspecto de Edea? Em seguida, reunifica-se sob a aparência de uma mulher com um robe vermelho não-característico das culturas hodiernas do planeta. Significaria que é uma manifestação de sua versão feiticeira que não pertence a este tempo? Ou é Ultimecia?! Onde está Rinoa? O grupo tem de lutar contra essas representações, que não parecem se identificar com a Edea real, e nem com Ultimecia (?). O confronto é mais duro e dura mais tempo – fora do tempo, se é possível dizê-lo – do que os invasores de Pandora poderiam imaginar…
A luta prossegue com mutações de cenário. Winhill, Balamb Garden, Trabia Snowfield…, mas após algumas mutações todos os cenários vão derretendo e se distorcendo. Paredes se convertem no chão, prédios se contorcem e fundem-se em massas de concreto liquefeitas, umas chocando-se gravitacionalmente contra as outras. O céu e a terra começam a se fundir.¹
¹ Alusão ao mito grego da criação: está refeito o abraço entre Gaia e Urano; Zeus, o soberano atual (do presente que não é superimposto por passado e futuro), garantidor da ordem, não exerce mais poder sobre o mundo!
Depois desse show de horrores os personagens controláveis, os “mocinhos da estória”, parecem estar além do futuro e do passado, no próprio centro do processo de compressão temporal: Ultimecia aparece sob a forma de um dragão. Será seu corpo genuíno? Após outra difícil batalha, o entorno se acalma por um tempo (fora do tempo), e o grupo tem um descanso da refrega. Eles se encontram reunidos no campo florido do orfanato. Há uma praia não muito longe, e eles caminham até ela: ali jazem os corpos dos SeeDs do futuro que morreram combatendo Ultimecia no passado (de Ultimecia!), horripilantemente decompostos, trucidados. De repente os SeeDs do presente, os heróis da história e a esperança ainda viva, não estão mais numa praia, mas dentro de um castelo maciço. O verdadeiro corpo de Ultimecia reside neste castelo. Blá, blá, blá… A este ponto a vertigem dos guerreiros batalhando em ambiente tão hostil e ilógico deve ter também atingido o leitor e jogador!
Quase todo o mundo conhecido foi sufocado por um miasma branco, supressor da vida. Por algum motivo, a nave Ragnarok e todos alojados na estação móvel de Balamb permanecem inviolados, sugados pela magia da compressão temporal. Neste mundo comprimido não é possível usar magia, da qual os guerreiros da SeeD se tornaram extremamente dependentes ao longo de sua hiperbólica jornada.
Em sua primeira forma, Ultimecia parece uma mulher elegante, como todas as feiticeiras já retratadas no jogo, muito bem-vestida e manifestando uma aura intensa, sem dúvida a mesma de Rinoa no incidente lunar, mas muito mais potencializada. Ainda assim, o inimigo se assemelha a um humano. A segunda forma de Ultimecia, após ser castigada pelos ataques físicos da trupe, é revelada utilizando seu Guardian Force todo-poderoso, Griever. Trata-se de uma espécie de quimera ou leão alado. Porém, o terceiro estágio da batalha se dá quando o GF e Ultimecia se fundem. Mesmo quando ela sofre danos e tem de ejetar o Griever, morto, uma quarta manifestação ocorre: ela mesma agora tem semelhança com um anjo bíblico da tradição descritiva semítica. O fim de Ultimecia após uma encarniçada troca de golpes “no reino do nada e do tudo sintetizados”? Rinoa é uma das seis combatentes, o que significa que não pode mais usar magia. No entanto, terá ocorrido a alguém do grupo que o corpo de Ultimecia era imortal… Ou melhor dizendo, que a essência de Ultimecia era imortal e que se seu corpo, em qualquer dos estágios enfrentados, deixasse de existir, ela forçosamente reencarnaria em Rinoa?!
Aparentemente ninguém sabia do fato, a não ser Squall, pois procedem ao golpe final: e ao desaparecer, o corpo de Ultimecia se converte numa explosão de luz saturada. Ultimecia deixa Squall & companhia num vazio branco. Eles começam a se concentrar, como incitados por Laguna. Squall se encontra sozinho, apartado dos demais, na representação visual do jogo, num vazio negro. (FF7 tribute, de novo!) Squall vê-se enquanto garoto no orfanato, 13 anos atrás, ao lado de Edea, mas algo está fora de compasso ou de ritmo. Pois o Squall adulto está lá também – é ele, com seus próprios olhos, que vê sua versão menor e sua antiga mãe adotiva; não é uma ilusão ou memória de um “terceiro olho” divino… Isso significa que há um hospedeiro para Ultimecia diferente de Rinoa agora…
Não só isso, como Edea – que pede para o pequeno Squall se afastar – e Squall Leonhart, o líder da SeeD que “veio do futuro”, são visitados por ninguém menos que Ultimecia, agonizante, em seu aspecto feminil, antropomórfico: Ultimecia lamenta não poder desaparecer, por ser imortal, e ter de levar adiante sua vontade. Essas palavras parecem reverberar de modo significativo em seus dois ouvintes. Aquela Edea não entende as circunstâncias tanto quanto aquele Squall, mas ela sabe instintivamente o que fazer: recebe, de bom grado, os poderes de Ultimecia para que seu corpo original finalmente pereça. Essa é a identidade da criatura que forneceu os poderes a Edea desde o princípio, que ela não quis revelar ao grupo no diálogo passado, e o plano de Squall desde há muito – porque já havia acontecido, e voltaria a acontecer, eis o time loop da trama. Depois de recuperar as memórias da infância, o Squall adulto sabia que, quando menino, seu eu mais velho o visitou um dia no orfanato, e então uma feiticeira apareceu. Isso era o suficiente para o Squall maduro concluir, após sua vitória sobre a Edea maligna, que ele mesmo havia atraído Ultimecia para que Edea, sua mãe adotiva, se tornasse… Ultimecia… no futuro, i.e., no passado. No rio congelado do destino. O Squall adulto, vendo a transfusão do poder e a “morte” de Ultimecia (que nunca morre), ouve daquela Edea da encruzilhada dos tempos a pergunta decisiva: Quem é você, jovem?Ainda havia trabalho a fazer. Ele responde que é o mesmo Squall Leonhart que com ela estava no jardim há pouco, só que 13 anos envelhecido, vindo de batalhas nos confins do tempo-espaço. Edea acredita na resposta. Squall acrescenta que Edea deve fundar a SeeD com base nas bases do Garden para “garantir o futuro” de todos. Edea também demonstra compreender a “necessidade” desse projeto ser executado¹ – mas logo diz que a presença de Squall ali é anti-natural e que ele deve desaparecer, se souber como fazê-lo. Com efeito é o que acontece, e Squall, o SeeD de 17 anos, não está mais no jardim florido de Edea, a jovem matrona, após alguns meros instantes.
¹ Mas como? Edea possui algum tipo de presciência ou precognição? Buraco do roteiro? Eu responderia “não” a ambas as questões. Na verdade às duas últimas. E quanto à primeira, como: Lembrem-se que Adel foi derrotada na Guerra da Feiticeira antes do começo da estória do jogo em si. Em tese, seu “cadáver” inane – à espera de uma transfusão dos poderes mágicos para outra feiticeira, que viria a ser Ultimecia – ficou selado no espaço, essa é a explicação explícita do jogo para os períodos de paz antes de Squall entrar em cena. Sem embargo, há um mistério aí, e creio que os desenvolvedores colocaram Adel na plot como uma solução de continuidade para esse problema das “transfusões”, além do papel que ela poderia desempenhar a contento no epílogo do game (ao fundir-se com Rinoa, dir-se-ia que Adel reabsorveu todo seu potencial em Lunatic Pandora, na penúltima batalha do jogo – depois Ultimecia faria o mesmo com Adel –; dessa forma não há nenhuma contradição com o fato de que havia 3 ‘feiticeiras em potencial’ no mesmo lugar, porque era sempre apenas 1 que atuava a cada momento), sem falar que Adel serve para justificar a existência de Laguna no jogo (Squall redobrado no próprio passado precisava que seu pai tivesse uma antagonista, como ele teve Ultimecia, assim como precisava que ele tivesse um par amoroso, como ele teve Rinoa, e as duas condições foram preenchidas): como quem “acorda” (embora não ‘completamente’) os poderes de Adel é Rinoa, com os poderes de Edea, que ganhou os poderes de Ultimecia graças ao time loop promovido por Squall… e sempre há apenas “uma feiticeira ativa de cada vez” (nunca 2 ou 0), ou pelo menos é estranho imaginar que entre o aprisionamento de Adel e a aparição de Ultimecia na realidade quando Squall tinha 4 anos não houvesse mais magia no mundo de FF8, sendo necessário, logicamente, que Adel passasse seus poderes antes de que alguém com poderes a libertasse (devolvesse seus poderes) para que ela passasse seus poderes… a conclusão mais pertinente com o enredo de FF8, sem estragar a narrativa, é imaginar que em Esthar ninguém sabia que não é possível deixar uma feiticeira inconsciente sem seus poderes (Rinoa comatosa ERA uma feiticeira) – ou ela vive empoderada e consciente, ou ela transfere os poderes e desaparece, não existindo uma solução intermediária ou terceira via. Destarte, o que aconteceu foi que os poderes migraram para alguém mais, sem conhecimento de ninguém… Edea recebeu os poderes de Adel no momento do suposto selamento bem-sucedido… Isso a tornava consciente de como funcionam os poderes de uma maga, tanto que ela aceita receber os poderes de Ultimecia para: 1) deixá-la partir em paz; 2) não “infectar” uma criança, comprometendo o futuro de uma pessoa ou menina-mulher inocente. Com Edea ativa desde a derrota de Adel na guerra, a sucessão dos poderes das feiticeiras não se quebra em momento algum da plot, e o time loop de Squall serve a dois propósitos em vez de três, isto é: 1) Ultimecia perde seu corpo originário; 2) Edea se torna a “nova Ultimecia”; 3) mas ele não torna Edea uma feiticeira, pois ela já era uma (há uma grande diferença entre se tornar uma – simples – feiticeira e virar hospedeira de Ultimecia, “a” maior feiticeira)! Em última instância, poder-se-ia dizer que os poderes de Adel se tornaram “redundantes” enquanto residiram em Edea, pois sua consciência maligna jamais despertou no outro corpo, e depois Ultimecia passou a preponderar em Edea; só que se Adel não tivesse passado sua essência mágica para Edea no momento em que a passou, Ultimecia não teria podido controlar Edea para controlar Rinoa para controlar a libertação (promover a ressurreição, seria um termo mais exato) de Adel, que nem precisaria ser ‘libertada’ caso realmente ainda possuísse poderes… e Adel os veio a receber de volta DE EDEA E NÃO DE RINOA (reversão da transfusão originária) quando foi libertada da prisão sideral, isto é, REVIVIDA como feiticeira (a única explicação possível é que estivesse todo este hiato morta e não só ‘dormente’)… e Ultimecia sequer teria como engatilhar a compressão temporal depois… Isso ainda explicaria por que Edea reteve seus GFs de forma consciente após ser derrotada por Rinoa, que entrou imediatamente em coma herdando seus poderes… até Adel sair de seu confinamento com ajuda da “primeira” metade dos poderes originais de Ultimecia (enquanto a “segunda” metade de ditos poderes seguiu com Rinoa até a batalha final – pois R. utilizou estes poderes contra os alienígenas no espaço, lutando ao lado de Squall –, i.e., até essa metade se reincorporar a Adel/Ultimecia), momento em que Edea voltou a ser uma “mulher normal”. Talvez Edea seja a única feiticeira que perde poderes sem ter seu corpo desintegrado OU ENTRAR EM COMA (como Adel e Rinoa)… simplesmente porque chegou a ter o poder de duas feiticeiras durante um curto período em sua vida?! No máximo, podemos admitir que duas feiticeiras coexistem com poderes “pela metade”, e não que duas feiticeiras completas existem simultaneamente. E outra implicação razoável parece ser que, seja com Rinoa, seja com Edea, só é possível usar GFs – verdadeiramente mágicos, não os artificialmente mágicos dos outros personagens – sem estar sob o controle de Ultimecia, a maga mais poderosa, se os poderes estiverem limitados à metade e divididos na atual era (Rinoa/Adel por um tempo; Edea/Rinoa por um tempo). Quando usou os GFs em capacidade máxima, sem dividir seu poder com mais ninguém, Edea era “escrava da consciência de Ultimecia”; o mesmo aconteceu com Adel no passado. Outra possibilidade, para espelhar o estado de saúde de Adel (clinicamente morta!): enquanto estava em coma e não respondia sonambulicamente a Ultimecia, Rinoa também estava… morta?! Honestamente, minha cabeça vai explodir, e não é devido a nenhuma magia… paro minhas especulações por aqui!
Epílogo do romance
Squall, de volta a um lugar e um tempo indeterminado, resquício, talvez, da compressão, agora testemunha Rinoa, que corre. O céu está tempestuoso. Rinoa descobre seu amante, a quem procurava em desespero, e grita por ele, a face úmida. Squall sente-se fraco, teme perder a consciência e não conseguir retornar… quando uma pena branca cai, e Squall a segura (mais um tributo a FF7).O céu se torna límpido e Rinoa e Squall estão de volta ao campo florido…
A seqüência cinemática que segue poderia ser o futuro linear dos personagens, como poderia ser a compressão temporal de Ultimecia, inevitável, afinal, indistinguível que é da própria introdução: Rajin, Fujin e Seifer se divertem numa pescaria. Por que Seifer não estaria preso depois de todos os seus atos genocidas? Em Winhill vemos Laguna diante da lápide de Raine, mãe biológica de Squall e adotiva de Ellone. Ela foi enterrada com um anel que ele lhe deu de presente. Selphie é a cinegrafista de uma festinha privada dos vencedores, em Balamb. Irvine, Zell e Quistis participam, naturalmente. Na sacada, Rinoa e Squall se encaram de frente, em postura de amantes.Rinoa aponta, com seu índice direito na vertical, uma estrela cadente. Squall observa o astro, abraça e beija sua alma-gêmea. Balamb Garden, em modo vôo, circula rumo ao infinito.
FINIS.
[INT] INTERPRETAÇÃO & SIMBOLOGIA
[REL]
SOMEWHERE IN TIME: O RELÓGIO E A MOEDA:
o(s) anel(anéis) e o negro vazio fora do orfanato
Eis que Final Fantasy VIII flertou esse tempo todo com uma referência ocidental como chave para decodificar seu complexo enredo! O filme Somewhere in Time, de 1980!
Como já ficou claro para alguns à leitura da sinopse mais acima, certos elementos podem ser interpretados seja contrastando várias “deixas” internas do enredo e ligando os pontos – isso nunca será uma ciência exata –, seja recorrendo a obras e referências externas. Para nossa sorte, os japoneses são muito bons nisso: em consumir cultura ocidental e usar em suas próprias obras. Final Fantasy VIII é absolutamente hollywoodiano. Tenho convicção, sem precisar pesquisar o catálogo de filmes vistos pelo principal game developer do título da Square, que este foi um dos longas que ele assistiu e tomou como inspiração para seu RPG/romance interativo (boatos de que para Squall & Rinoa a sigla RPG significa o seguinte: Romance: Perigoso Gostar!). Caso o jogador não esteja acostumado a “sair da casinha” da linearidade dum enredo, talvez este artigo seja o melhor achado a fim de apreciar tudo que FF8 pode oferecer. Até porque quando se fala em ficção científica a envolver viagem no tempo noções básicas de linearidade devem ser colocadas em suspenso, no éter da fé!
Somewhere in Time (localizado como Em Algum Lugar do Passado), de Jeannot Szwarc, do primeiro ano da década de 80, é um cult classic das short novels de amor e do cinema fantástico em simultâneo. Com menos de 2 horas de duração, seu enredo gira em torno de um casal improvável unido por uma viagem no tempo que não cria linhas temporais paralelas, fechando-se em círculo, o modo clássico e perfeito da viagem temporal, anulando causa e efeito e evitando paradoxos conceituais. Argolas costumam representar essa faceta: o círculo é a própria perfeição na geometria. Em Final Fantasy VIII o símbolo máximo do amor eterno entre Rinoa e Squall é um anel, uma esfera perfeita, tirante que é oca. No filme, esse aspecto é bem-representado por um relógio, mas não um relógio qualquer: um relógio de bolso, daqueles atados a correntes e de dar corda, sempre perfeitamente redondos. Um relógio de ouro, cujo valor real, por debaixo dos quilates, é inestimável.
A introdução de um objeto na narrativa pode ser considerada o aspecto central; podemos dizer que o casal não é o protagonista. Este filme é a “história de um objeto”, circulado por humanos e seus dramas. Desde que o relógio é entregue por uma das duas pessoas romanticamente envolvidas à outra (o que acontece de forma espelhada e dual no filme – e em FF8 também, com o anel, ainda que com a ajuda de Zell), em tempos diferentes de suas trajetórias pessoais, é impossível determinar “de onde veio o objeto” e “qual seu destinatário final”: o relógio, como presente (e não é à toa que o substantivo para dom, graça, oferenda que se dá sem pedir nada em troca, seja a mesma palavra para significar o momento em que se vive, antítese de passado e futuro),e as circunstâncias em torno dele, sempre existiram, tal e qual, sem modificação, reiterando-se indefinida e infinitamente, chancelando todos os outros eventos do antes e depois deste universo.O relógio de Somewhere in Time é o anel de Squall Leonhart, como já frisado.
Antes de continuar, devo dizer que o próprio filme não é um script original: foi inspirado num livro, https://en.wikipedia.org/wiki/Bid_Time_Return, que depois até mudou de nome graças ao sucesso (apenas póstumo) do longa-metragem. As diferenças entre ambos são marginais, de maneira que podemos nos concentrar na obra audiovisual, até por ser a mídia mais próxima de um videogame.
Christopher Reeve (sim, o Superman clássico) e JaneSeymour, além de serem os atores deste conto, também se apaixonaram e tiveram um caso na época das filmagens – quão “a vida imita a arte” ou “a vida é a própria obra de arte” isso não é?! Procedamos a um resumo mais direto:
Reeve (Richard Collier), um roteirista de peças de teatro (ou escritor, como preferir) recebe das mãos de uma velha, na 1a cena, o místico objeto. A interação entre ambos é curta, e ele sai sem entender nada. Ela diz “Volte a mim”, come back to me, depositando o relógio na mão do moçoilo e galã. Os amigos de Collier pensam se tratar de um trote ou de um truque de mágica fajuto de uma lunática ou tarada qualquer… Collier não compra essa “saída fácil” para o enigma… Mas a vida segue adiante.
Collier, já 8 anos mais velho, hospedado no Grand Hotel (Michigan) a trabalho, se torna obcecado por uma fotografia de uma bela atriz, visivelmente jovem quando ele ainda sequer era nascido, ou seja, inencontrável para ele agora. Uma coisa a se notar é que Collier está sofrendo de bloqueio criativo. Ele não está conseguindo se comunicar ou achar sentido no que faz, o que o aproxima muito do personagem Squall, o protagonista “mudo” ou “com problemas para interagir, aceitar-se e mesclar-se com os outros a sua volta”. Artistas são mesmo criaturas ensimesmadas, então é uma boa escolha que um protagonista de RPG se baseie em um, embora sua única arte genuína – falando de Squall – seja a militar, a da empunhadura de uma espada-pistola! A obsessão pelo retrato se torna tamanha, e o desdém pelo presente (não o relógio, mas sua condição vigente) tão intenso, que Collier, consultando um misterioso professor, aprende e põe em prática um método de autossugestão que, afiança-se, poderia fazê-lo voltar no tempo. Ele quer conhecer a mulher do retrato, pela qual já está perdidamente apaixonado. Estranhamente, confirmando sua hipótese neurótica, Collier verifica que está num livro de presença do arquivo do hotel, isto é, sua caligrafia está! Significa que ele realmente se hospedou no Grand Hotel na mesma época de sua beldade 2D(ótima deixa para debatermos sobre jovens libidinalmente insatisfeitos e inexperientes que terminam por se apaixonar por ícones 2D – estou falando de otakus apaixonados por waifus, meros desenhos! quem sabe depois…).
Seja como for, a plot exigia que o milagre da viagem temporal se realizasse, com a ajuda do relógio, algumas vestes muito démodé e um mantra, doentiamente repetido: usando esses 3 recursos, Collier consegue acordar no Grand Hotel em 1912, muitas décadas antes de seu presente. Ele logo trava conhecimento com Seymour (Elise McKenna), que vem a ser a idosa que regalou-lhe o relógio e endereçou-lhe aquelas misteriosas palavras (se você ainda não tinha concluído isso, estava muito distraído lendo o texto!). Ela está na flor da idade, vive seu auge. Como sempre num roteiro do tipo, existe um Seifer, e seu nome é William Fawcett Robinson, mas seus ciúmes são meramente gananciosos – ele é o agente da atriz, não um interesse amoroso (ou ele foi rejeitado muito tempo atrás por ela, vá saber!). O ator que interpreta este homem mais velho é Christopher Plummer. Por algum motivo metafísico jamais deixado claro, esse empresário sabe que uma paixão devastadora encerrará precocemente a carreira de sua agenciada (Pitonisa? Uma Edea maligna?), então se devota a ser a pedra no sapato de ambos. Parece que em meio a suas preocupações – que não tinham como ser substanciadas antes da aparição de Collier – Fawcett acaba dando com a língua nos dentes, expediente trágico (erro necessário) que serve de combustível e ajuda a tapar eventuais incoerências da estória: ele havia informado a atriz, em algum momento de seu passado, que ela devia tomar muito cuidado com um homem predestinado a roubar seu coração e arruinar sua carreira. Talvez McKenna estivesse em franco ennui de sua carreira como atriz, “pedindo aos céus” que a profecia se realizasse, tanto que no primeiro encontro entre os dois, ela, sem mais, lança-lhe na cara a enigmática pergunta:
– Você é ele?
(Não está descartado que ela tivesse apenas um intenso senso de humor, e vontade de espetar seu empresário!)
Estou rindo agora ao recordar que essa frase foi muito usada num determinado ponto da narrativa de LOST, a série por excelência quando o tema é viagem ou loop temporal perfeita(o). Para quem não faz idéia do que estou falando…
Só faltou uma música desconfortável de suspense começar a tocar na hora, em Somewhere in Time, e a pergunta ser sucedida por outra:
– O que um homem das neves disse para o outro?
Bom, mas essa especulação lostiana me desviou muito da rota (defeito congênito meu, meu leitor assíduo sabe bem)… Ainda poderemos nos achar?!…
O que podemos perceber, não sem malícia, pelo menos nós o público masculino, é que as mulheres são os maiores enigmas: entram e saem de nossas vidas com as frases mais incompreensíveis… Podemos até dizer que o amor é o mundo governado pelas feiticeiras… Nós somos meras marionetes em suas mãos, no fim das contas! Rinoa diz vários disparates a Squall quando o conhece, para não fugir à regra…
* * *
Antes de prosseguir com o relato do que acontece, uma de suas maiores forças, e que justifica a superioridade do meio escolhido (a telona), é a trilha sonora. Com efeito, pode-se dizer que a trilha sonora de Somewhere in Time fez mais sucesso que o próprio filme. O mesmo eu poderia dizer de Final Fantasy VIII, sob risco de parecer leviano e herege ao verdadeiro fã. SiT usou composições de John Barry, um grande profissional da área, que, diz-se, estava em seu auge, como McKenna. O pianista Roger Williams tocou algumas das canções. O tema mais evocado desta peça de entretenimento que não dura mais do que 100 minutos é uma sem direitos autorais, felizmente: uma interpretação de uma interpretação de um movimento de música clássica, i.e., Sergei Rachmaninoff tocando sua Rapsódia, uma revisitação de Paganini, a obra do compositor russo de número 43. Há versões de mais de 20min, mas eis o recorte “mais condensado” que pude achar no YouTube para sua low-attention span appreciation:
Essa música tem importância central na sugestão hipnótica usada pelo viajante do tempo. Sem Paganini, sem retorno a 1912! Era também assaz conveniente que a governanta ou responsável pelo espólio da recém-falecida atriz, Elise, na década de 1970 isto é, possuísse até o objeto dos objetos no inventário: um livro sobre viagens no tempo! Foi através dele que Collier obteve contato com o professor que lhe deu as dicas finais de como fazer para se deslocar ao passado – embora o autor do livro tenha descrido da própria teoria, tornando-se um velho cético e arrependido com o passar dos anos. Talvez ele não tivesse por que voltar – quem amar… Este é o Professor Finney, o excêntrico clichê, presença quase-garantida em todo enredo sobre viagem no tempo. FF8 não foge à regra, retratando os pesquisadores de Esthar, dentre os quais o professor Odine. Pelo menos não é um cara tão odiento quanto o Hojo de Final Fantasy VII!
Voltando à parte do filme transcorrida em 1912, curiosamente agora é o rapagão que tem de correr atrás da donzela: na abertura do filme o procedimento era invertido. Demoram algumas cenas até Collier conquistar as atenções da bela Elise. Ela se encontra em plena turnê de sua peça mais recente – há um palco no Grand Hotel. Sedimentando a relação no plano espiritual e iniciando e encetando o loop temporal, Collier devolve (ou dá?) o relógio que recebera da idosa Elise a… Elise.
Falta apenas a consumação de carne desse amor transgeracional. Como não estamos ainda nem com uma hora de filme, é preciso esperar mais atribulações do mundo exterior até que os protaginistas finalmente façam por merecer essa recompensa das recompensas (é como estar lendo uma peça de Shakespeare com todos os pressupostos lançados, mas sabendo que ainda está no Segundo Ato!).
Fawcett, vendo que os dois teimavam em se encontrar as suas costas, maquina um plano: a turnê seguirá, mas em outro local. Collier será devidamente aprisionado contra sua vontade e tornado inconsciente num dos aposentos deste enorme hotel, remoto e bem-escolhido o suficiente para que nenhum funcionário acabe descobrindo o ato criminoso cedo demais (que aposentos, o leitor se pergunta? justo a estrebaria, um lugar factível já que estamos em 1912!). Elise, mais esperta, maquina também sua permanência no hotel sem que seus agentes e a companhia de teatro se dessem conta a tempo.
Finalmente ambos têm suas “núpcias” neste ínterim, quando o herói da estória, uma vez liberto do cativeiro, descobre que ainda podia reencontrar sua dama no Grand Hotel. Ambos, após a primeira – e, spoiler, última – transa, prometem se casar. Seria o fim da carreira dramática de Elise (naqueles tempos machistas), e obviamente o fim, pelo menos nos anos 1970, da carreira de escritor de peças de Collier! Mas o destino queria que a união do casal fosse breve, mais ou menos como acontece com Squall e Rinoa (não perca de vista que o mote de fundo ainda é um Final Fantasy!).
Acontece que Collier escolheu um terno até antigo demais para viajar no tempo – antigo até para os padrões de 1912. Elise diz que ele precisa de roupas mais adequadas para que a cerimônia de casamento fosse prestamente arranjada. Eis que Richard Collier, prestes a se desvencilhar das vestes com que regressou quase 70 anos no tempo, tateia um objeto redondo num dos bolsos de sua calça e o retira para ceder à curiosidade de examiná-lo: é uma moeda. Uma moeda com a inscrição “cunhada em 1979”. Instantaneamente a realidade começa a desmoronar. O som da voz de Elise vai ficando mais distante, e Collier acorda no Grand Hotel… em 1980. Este foi o único erro de Collier em seu procedimento meticuloso, o único objeto que lembrou a sua consciência que ele não pertencia àquele tempo, era um ser estranho. Um item maldito no seu inventário. Ele tenta regressar no tempo utilizando os mesmos métodos auto-hipnóticos, porém sem sucesso. Collier não consegue se recuperar da tragédia, e morre de fome e sede nas instalações do hotel em que esteve destinado a conhecer o amor de sua vida (em que consumou este amor incríveis setenta anos atrás, ou seriam apenas alguns dias?!): primeiro por um retrato sépia, depois em conjunção carnal, e depois fazendo uma promessa que nunca pôde realizar… Provavelmente aquele também fôra o fim da meteórica carreira de uma inconsolável Elise, “cumprindo-se a profecia”. Mas ela tinha a moeda de 1979 que provava que seu parceiro era um viajante do tempo e o relógio de bolso, afinal – e com base nesses restos, ela visitaria o jovem, quando ele tivesse idade suficiente, para arrematar a outra parte (a boa parte) do destino, e repetir a cena que já estava escrita desde sempre. Ela, como atriz, saberia encenar muito bem…
Embora não tenhamos um perfeito equivalente à moeda em FF8, o que torna o filme uma obra das mais interessantes que já assisti, aquilo que faz as vezes de “elemento que traz à tona o desespero” a Squall Leonhart é sua própria amnésia (no começo) e depois o vazio literal do limbo da compressão temporal: enquanto seus amigos viajavam no tempo-espaço sobre um fundo imaculado e branco, o fundo de Squall na mesma cena era completamente negro, aspecto ressaltado na sinopse. Quando os jovens não conseguem mentalizar (sugestão auto-hipnótica) o campo florido (soma de todas as cores?) em que deviam se reunir a fim de viverem felizes para sempre, significa que eles estão flutuando à deriva no espaço mais ermo, na solidão eterna e incontornável (o que também torna a cena “cosmonáutica” entre Squall e Rinoa, em retrospecto, milhares de vezes mais bela e significativa, já que o espaço é escuro, tirando as estrelas).
* * *
[SUP]
Agora que terminamos a comparação entre Em Algum Lugar do Passado e Final Fantasy 8, podemos explicar “o plano supremo de Squall/Laguna” revisitando os trechos negritados em vermelho no relato cronológico do enredo, mais acima(mas tenho certeza que muita gente já pegou o espírito – eu mesmo não podia me conter, enxertando minha própria interpretação apenas prometida para depois com cada vez mais notas de rodapé tão malucas quanto compridas!):
“Seus pensamentos, dessa vez declarados em voz alta, giram em torno dessa questão tão paradóxica: o pouquíssimo tempo que tiveram juntos modificou-o por completo; e agora, justo agora que ele o compreende, não tem acesso a suas palavras, a sua risada…” Nessa frase, a brevidade, em par com a anômala intensidade, do amor do casal é matéria comum a ambas as obras, o filme de 1980 e o jogo de 1999. Squall, quando se depara com Rinoa em coma, sente-se tão devastado quanto Collier quando volta a sua linha do tempo original, pois saiu de seu “sonho idílico” e redespertou na mais dura realidade, embora em ambos os casos ainda houvesse esperança de “retornar” (seja Rinoa à consciência seja a consciência do autor ao começo do século XX).
A origem do anel do Griever é muito confusa para jogadores estreantes, mas logo se torna claro que ele é um “presente do futuro” de Squall para si mesmo e nunca teve uma origem propriamente dita definida (basta ler fóruns como https://www.reddit.com/r/FinalFantasyVIII/comments/eweri4/we_know_griever_is_a_thing_squall_invented/). É, obviamente, no nível mais superficial, uma espécie de souvenir familiar – mas se Squall nem lembra que teve um dia uma família! Ao mesmo tempo, a tradução significa “aquele que se lamenta, que está em luto”. Em terceiro lugar, pode-se dizer ou que a arma do jogo foi pensada tomando como base o design do anel ou justamente vice-versa. Em quarto lugar, a importância do Griever é tamanha que ele vem a ser o Guardião mais importante do jogo. E embora o anel cumpra o papel alocado ao relógio no filme, um dos ataques do GF Griever é justamente “roubar a mágica e desperdiçá-la no espaço-tempo”, isto é, uma função bastante similar à da “moeda do futuro” – o Griever é um símbolo ambíguo, que tanto traz a maior felicidade como a maior desgraça, dependendo do momento narrativo. Curiosidade: a música-tema do confronto contra Ultimecia no estágio 3 (fundida com Griever) se chama Maybe I’m a Lion, óbvio chiste com Maybe I’m a Leo (Deep Purple).
“Os dois anéis que Rinoa estava usando, por cima da veste tecnológica (!!), o original de Squall (que ele deixou com seu corpo comatoso) e a réplica combinada com Zell, presos ao seu pescoço por uma corrente, quebram o elo e partem em direção ao próprio Squall. Miraculosamente, a voz de Squall parece reverberar agora, na mente de Rinoa, que ainda não expirou. O amor é mesmo afrodisíaco, amigos, até para os pulmões em situações críticas como esta!”: temos aqui, antes do fim de Final Fantasy VIII, o que seria um happy ending para a tragédia amorosa de Somewhere in Time.
“Ela está em pânico sobre o futuro e se pudesse escolher só gostaria de reviver os efêmeros instantes que lhe restam ao lado de Squall.” Neste momento Ultimecia e Rinoa se fundem, como entidades e personagens: querem exatamente a mesma coisa, a compressão do tempo. E Squall não é menos inocente quando declara que destruiria toda a realidade no entorno do casal desde que pudesse protegê-la – e proteger sua vontade última, que é a mesma que a dele.
“Rinoa tenta devolver o anel original de Squall. Ele, de modo frio e em completa contradição com o turbilhão de sentimentos que o domina, diz que está tudo bem que o objeto fique com ela, e ambos se despedem num tom triste.”: já esta cena é uma inversão daquela que inaugura Somewhere in Time: é como se Collier recusasse o presente – um estúpido relógio antigo! – de uma velha louca que ele não faz idéia de quem seja… o que seria a atitude mais natural, se pensarmos bem… Mas Squall já havia declarado todo o seu amor e traçado seu plano – aceitar a vitória de Ultimecia, o que torna essa cena ainda mais bizarra e angustiante.
“Como que se esquecendo de que ele tem um plano muito maior em execução … que não necessita, e até exige, que nenhuma intervenção (pois ela ‘já aconteceu’) seja realizada, ele ‘volta a si’”: O que já havia acontecido é que o Squall adulto havia efetuado o time loop com Ultimecia para integrar sua versão jovem e Edea ao “plano maior” das coisas. O Squall da linha temporal presente ainda estaria por fazer “sua parte” na empreitada, mas o Squall criança tinha lembranças do evento, e depois de recuperar as brechas de memória apagadas pelos GFs e de vivenciar seu romance com Rinoa o Squall de 17 anos pós-visita à lua já sabia perfeitamente o que (não) fazer – meramente deixar a corrente do destino fluir… Exatamente como Elise no filme.
“Eles selam uma promessa: se Squall se sentir perdido, ela sempre poderá encontrá-lo neste campo florido; ele deve vir a este jardim e aguardá-la, se ela já não estiver.”: o “Volte a mim” em Final Fantasy VIII. O campo florido é onde tudo se deu/dá: o Grand Hotel/o orfanato … em 1912/na compressão do espaço-tempo.
Tecendo outras comparações, poderíamos dizer que a própria Ellone é “o relógio” em FF8. Analogamente, sobre a identidade Ultimecia=Rinoa, teoria que eu nem chamo de “teoria”, mas apenas de “realidade nua”, e pela qual serei criticado pelo fã obstinado, me resta objetar, a fim de me tornar mais claro: não é que Ultimecia e Rinoa sejam a mesma pessoa (em essência, são!), mas Ultimecia poderia ser a velha de Somewhere in Time: apenas o agente (mais) onisciente de todo o time loop, agindo “em causa própria”, porém de maneira altruísta, pois ao mesmo tempo em que ela não colherá diretamente frutos de sua ação (no presente), ela “já os colheu” no passado, quando viveu a relação amorosa com Collie (Squall). Rinoa é só a versão jovem de Elise, ingênua, sem pecados, porém envolvida assim mesmo na “tragédia” da unha do pé à raiz dos cabelos. Ultimecia perdeu tudo – mas ao se fundir com Rinoa percebeu que existia uma causa que valia a pena, e que significava afinal de contas sua compressão temporal inconceituável: um casal que se reencontrava e revivia seu amor em loop eterno… Ela sentiu a força e o poder desse amor ao sincronizar sua mente com a de Rinoa. A própria Edea, por tabela, também tem uma clara intuição do valor desse amor estampado na logomarca do jogo! Laguna e Julia Heartilly, por procuração, após terem vivido “o mesmo amor”, só que frustrado, e Ellone, que vasculhou todas as memórias dos envolvidos na trama, idem.
“Ao desaparecer numa explosão de luz saturada”: essa descrição “luminosa” é um dos meus argumentos-chave para defender que “Ultimecia venceu”, isto é, Ultimecia não era uma vilã (observe que o mesmo acontece com Ultimecia no fim do jogo e com Edea, no fim de seu “ciclo mau”, as duas que são as diferentes faces da mesma moeda, uma recebendo o poder da outra após explodir em luz… já que Rinoa É Ultimecia!). Seifer, que surge confrontando Squall na abertura, poderia ser entendido como o verdadeiro vilão da trama, se é necessário possuir-se um (quem seria o vilão de Oedipux-Rex?): representa a masculinidade tóxica dentro de Squall, que não cederia diante dos impulsos do amor; parece fortaleza de espírito, mas é sua insegurança encarnada, obstinação tola; e essas “segurança e prepotência” exteriorizadas o tempo todo por Seifer quase matam Squall já antes de o jogo começar… Ele põe verdadeiramente em perigo todo o loop… Luz saturada, embora seja sinônimo de algo divino ou bom em quase todas as religiões e mitologias, também se associa a Lúcifer, mas o próprio culto a Lúcifer tem origens santas, e o cristianismo paulino é que demonizou esta veneração (que era muito aceita entre leitores do Talmud). Booom, esse é um papo para outro local! N.B.: É numa explosão de luz saturada que todo o tempo linear é abolido também em LOST!
“O Squall adulto … ouve daquela Edea da encruzilhada dos tempos a pergunta decisiva: Quem é você, jovem?”: A enorme semelhança com a linha “Você é ele?” é até desconcertante!
“Laguna diante da lápide de Raine, mãe biológica de Squall e adotiva de Ellone. Ela foi enterrada com um anel que ele lhe deu de presente.”: Outra instância do “presente que nunca é novo”: Laguna iniciou tudo; mas Laguna só tem o anel por causa das ações do Squall maduro. (É necessário lembrar, se o jogador veterano que me lê se mostra recalcitrante neste momento, que o Griever é produto da imaginação de Squall, e foi criado por Ultimecia graças a isso, tornando-se uma criatura mitológica que se cristalizou em realidade no universo do jogo. Logo, qualquer um poderia vir a cunhar anéis ou medalhões com um Griever, ou incluí-lo num jogo de cartas, como se faz efetivamente entre os habitantes no universo de FF8… Estando o indivíduo no futuro ou no passado, essa informação chegará ao receptáculo infalivelmente. Laguna pode ter recebido a idéia do anel de qualquer pessoa, até de alguém posterior ao nascimento de Ultimecia, desde que o time loop tenha possibilitado que Laguna viesse a conhecer o símbolo.)
Por fim, “Rinoa aponta, com seu índice direito na vertical, uma estrela cadente.” é uma conhecida reiteração de uma pose com a mão que Rinoa executa já durante o baile de formatura dos cadetes SeeD, e que Ultimecia/Edea também executará em suas performances teatrais. Além disso, vinculo esse gesto, especialmente no fim do jogo (a seqüência da realização da compressão temporal), ao fato de que “vencemos na derrota” ou de que “vencer era perder e perder era vencer” serem falas perfeitamente possíveis de ser ditas pelos personagens do jogo, tendo em vista que Rinoa aponta para o céu escuro, mas querendo indicar (com seu dedo indicador) um objeto claro. “No final, todos os sofrimentos valeram a pena por este momento”, seria mais ou menos o que ela queria dizer. Quando ela entrou em coma, ela aprendeu a ser como Squall e apenas pensar nas coisas que deveria dizer (ok, essa última frase foi só uma piada de última hora).
* * *
[+Q]
MAIS QUESTÕES DE TRADUÇÃO
(Prolongamento da “super-nota-de-rodapé”)
Rinoa:“Se eu voltar a ser controlada por Ultimecia… A SeeD me mata, certo? E você é a SeeD, Squall… A espada de Squall perfurará meu coração…… Eu acho que tudo bem se for você, Squall. Ninguém mais. Squall, se isso de fato acontecer…”
Ultimecia “queria ver Squall de novo”. Todas as aspas aqui selecionadas são para lembrar dessa motivação e fortalecer “nossa teoria”. Poderia Ultimecia ter perdido a memória do que queria simplesmente por ser a maior conjuradora de Guardiães que a História já viu?!
Rinoa: “Eu não quero o futuro. Eu quero o presente pausado. Só quero ficar aqui com você…”
Outra grande “coincidência” é que por milhares de anos o castelo de Ultimecia estava ancorado acima… justamente do campo de flores do orfanato!
Embora não seja muito agradável nem desejoso “usar outras referências” externas à própria obra (Final Fantasy VIII; ver tópico seguinte), a terceira fala vem do projeto Dissidia Final Fantasy, o spin-off de luta envolvendo os protagonistas e antagonistas da série.¹ É uma fala curta, mas muito significativa, a meus olhos!
¹ WIKIA (adaptado): “Dissidia Final Fantasy (ディシディア ファイナルファンタジー Dishidia Fainaru Fantajī) é um jogo eletrônico de luta com elementos de RPG de ação, desenvolvido e publicado pela Square Enix exclusivamente para o PlayStation Portable como parte das comemorações dos 20 anos da série Final Fantasy. Ele foi lançado em 18 de dezembro de 2008 no Japão, em 25 de agosto de 2009 na América do Norte e em setembro em outros territórios. § O jogo possui personagens desde o primeiro título da série e se centra em um grande conflito entre Cosmos, a deusa da harmonia, e Chaos, o deus da discórdia. Os dois convocam diversos guerreiros para lutarem ao seu lado em sua 13ª guerra [que específico!]. O jogador controla Rubicante Charger, com Quistis e Neon ou 10 guerreiros escolhidos por Cosmos, que são os protagonistas dos 10 primeiros jogos principais da série Final Fantasy. A versão internacional e norte-americana também dá acesso a outras funcionalidades como um modo arcade. (…) Dissidia foi bem recebido crítica e comercialmente, vendendo mais de um milhão de cópias mundialmente. Uma sequência chamada Dissidia 012 Final Fantasy foi lançada em 2011”
“Vamos dançar?”
Ultimecia, a Squall
(original: Shall we dance?)
É claro que a ambigüidade com o primeiro encontro entre Squall e Rinoa e a analogia entre a dança (e o acasalamento!) e a guerra, supremo instante do confronto entre duas metades que se opõem e ao mesmo tempo se complementam e tornam-se um a razão de ser do outro (ser-com-os-homens…) é altamente voluntário por parte dos mentores da insidiosa Square Enix! Não me levem a mal, eu gosto que uma companhia seja insidiosa com sua fan base!
[FON]
SOBRE “FONTES OFICIAIS EXTRA-MÍDIA”
&
UMA PITADA DO CARÁTER DE ULTIMECIA
Temos que ter muito cuidado com o uso de qualquer declaração exterior ao jogo que se diz “oficial” para interpretar uma obra: a rigor, a única fonte oficial é a própria obra. Uma vez finalizada e lançada no mercado (ainda mais em tempos pré-DLC), o autor perde a autonomia sobre sua obra. Isso não é exclusivo, sequer, do modo de produção capitalista, mas uma espécie de “axioma estético” milenar! Eu como autor sou obrigado a dizer que esta minha matéria, uma vez publicada, me torna seu escravo, e não o inverso – nosso dom da escrita é, em outros termos, também nossa maldição (o outro lado da moeda)!
Declarações podem ser sempre usadas – acabo de fazê-lo com Dissidia, acima –, mas sempre com um “grão de areia” (grão de sal em português não faz sentido como “expressão para conotar cautela”)… Respeitar demais os criadores de uma obra em sua ideologia sobre a própria obra, considerando que eles possuem motivações inconscientes que embelezam essa mesma obra, é o mesmo que chafurdar num fórum do GameFAQs e acreditar em todas as postagens, sem manter as próprias convicções e coerência, o que essa matéria e este portal visam a defender de modo adamantino!
Já deixei claro no “review principal” (ou “superficial”) que guias, oficiais ou não, como o Ultimania Guide (da própria Square) ou o BradyGames (sublicenciado para uma empresa jornalística), são periféricos e secundários como parâmetros para nossas interpretações…
Poderia Shakespeare brindar-nos com uma verdade íntima e última sobre Hamlet? Ele, como verdadeiro artista, jamais desempenhou a crítica do próprio trabalho. Ainda que o fizesse, nada significaria, enquanto Hamlet estiver aberto a interpretações (enquanto a peça existir em comunidades humanas que entendam o inglês), e enquanto a obra uma fez finalizada escapa a seu autor. Ainda mais se se mostrasse contraditório em relação ao próprio Hamlet, personagem sem dúvida contraditório – poderiam seus motivos ser elencados de forma taxativa e unilateral? Mas eu digressiono…
Dizem que Ingmar Bergman, sendo mais ingênuo que Shakespeare, fez afirmativas meta-narradoras sobre seu próprio trabalho – especificamente sobre uma trilogia de filmes. Num ponto futuro de sua existência desdisse o que havia dito – pode haver algo mais patético no mundo da arte?! Os livros oficiais Ultimania e a opinião e os retcons constantes dos criadores de Final Fantasy VIII nada são para nós senão vento e barulho sem coesão! Em suma, dentre todos os materiais oficiais, o mais oficial de todos, na hierarquia, é o trabalho ou obra de arte ele(a) mesmo(a). Essa é uma tirania, a tirania estética, da qual não abdicamos, e contra a qual não fazemos concessão alguma, em tempo algum. É nosso absoluto. A (boa) arte tem esse viés anti-democrático que lhe é inerente, queira-se ou não.
Longe de dizer que materiais como o Ultimania são um lixo: lá você encontrará artworks prototípicos exclusivos e a plot explicada de forma mais esquemática e mastigadinha do que aqui mesmo, por exemplo (mas sem mergulhar 20 mil léguas – já pode me chamar de Cila Verne)!
Com toda essa prevenção e “arrogância” como porta de entrada, gostaria de apresentar-lhes, entretanto, uma “atualização” da tradução do discurso de Edea (possuída por Ultimecia, no comício de Timber) – na verdade um diálogo com um perplexo Presidente Deling – que vem muito a calhar para os objetivos de nossa interpretação, parecendo resgatar o canon perdido pelas confusões da tradução japonês-inglês do período (1999):
(Obviamente, ao verter ao português, colocando uma terceira língua na salada, posso estar ‘corrompendo’ a pureza deste ‘achado’ ou ‘iguaria’, mas isso fica para vossa avaliação de meu trabalho investigativo e como tradutor!)
Edea (Ultimecia):“…Escumalha. …Rebotalho imundo e desavergonhado! Como celebrais minha ascensão em tal estado de euforia?! Louvais então aquela mesma que condenastes geração pós-geração? Não tendes o mínimo pudor? O que aconteceu com a feiticeira maligna e impiedosa de vossas fantasias? Com a tirana de sangue gélido que massacrou uma miríade infindável de homens, um punhado de nações?! Onde está ela agora? Ela se encontra diante de vossos próprios olhos, prestes a se tornar vossa nova ama. HAHAHAHAHA.”
President Deling: (…?)
Edea (Ultimecia): “Uma nova era começou.”
President Deling:“E-Edea… Você está se sentindo b…? Ede…!”
(Ela levita Deling telecineticamente e começa a assassiná-lo…)
Edea (Ultimecia):“Isso é… a realidade. Ninguém pode ajudar-vos agora. Sentai em vossas confortáveis poltronas e usufruí o espetáculo!”
(Após esgotar a seiva vital de Deling, arremessa o corpo cadavérico no chão com ímpeto, ainda com o poder da mente.)
Edea (Ultimecia):“Estai seguros, tolos! Vosso tempo há de chegar. Este é só o princípio. Comecemos o novo reino de terror. Deixar-vos-ei viver um reino de fantasia além de vossas imaginações!”
Excelente pedaço da narrativa. Há-de se observar que este é um novo texto, nem uma tentativa de ser idêntico ao mais formal e fabuloso discurso edeano nipônico nem uma reedição do discurso mais militarista, pragmático e calcado em termos tecnológicos da Edea “americana” de 1999. Comparai:
Edea nipônica 1999 (a original): “……Fede! Fede a tolos imundos! Vós empestais! Desde tempos imemoriais nós bruxas vivemos dentro de ilusões e encantamentos. Que ilusões? As que vós produzistes! Adornando os corpos das bruxas em roupas espantosas, escabrosas, as bruxas que amaldiçoam os virtuosos humanos em seus rituais brutais. A bruxa terrível que queima vossas pastagens, congela vossas casas a começar pelas lareiras em pleno inverno, com sua mágica cruel e sádica… ……Pedaços de excremento! Agora que a bruxa da ilusão vem a ser considerada uma amiga de Galbadia, vós suspirais aliviados?! Mas que é isto?! Quem sonha sem parar e quem vive a realidade?!”
Edea anglófona 1999 (a adaptada):“Sim, refugiem-se em suas ridículas fantasias! Eu continuarei a dançar conforme a música! E dançarei pela eternidade como a bruxa que trará o pânico e o terror absolutos! Vocês e eu. Juntos criaremos a ÚLTIMA FANTASIA. Dentro desta ilusão, vida e morte, e doces sonhos. A feiticeira viaja através de ilusões infindas! A FEITICEIRA DO FUTURO e Galbadia – avante e para sempre!”
(A massa, a platéia, parecia tão fascinada quanto os alemães de 1932-39. Os loristas do jogo dirão que isso se devia a efeitos de magia apolítica de Ultimecia!)
Edea (Ultimecia) fala de forma mais teatral em japonês. Em português isso é mais fácil de transmitir usando o arcaico, o vós. E também a palavra feiticeira, mais “política”, eu decidi transformar em bruxa, mais medieval. A forma alegórica também “afasta” populacho e tirana mais e mais. Rituais, roupas espantosas, que visivelmente sempre visaram a distinguir quem têm poderes mágicos dos simples humanos, animais de rebanho. Mas Ultimecia quer demonstrar quão ridículos se tornaram os rumores sobre sua aparição no futuro, devido aos acontecimentos do presente. Nasceria uma tirania tão grotesca assim?! E por culpa de quem? E ela não seria bem-vinda pela mesma massa que tanto nutriu geração depois de geração pavor por uma coisa que sequer existia, apenas de nome, em hipótese?! Daí vem seu sarcástico conceito de fantasia que usa no palanque. As ilusões não são os feitiços de magia, mas as noções que a humanidade concebeu sobre a natureza de quem possui esses poderes. O preconceito, o burburinho, a incompreensão. Não foi Ultimecia obrigada a adotar essa máscara de ferro que já quiseram acoplar a sua face desde antes que ela pudesse ter uma alternativa? Ela dançará conforme a música, produzirá as ilusões em que a humanidade quer tanto acreditar! Já que o futuro disse o que ela seria, ou melhor, já que o passado determinou o futuro de antemão, que ela produza no passado o que as lendas vindouras ainda narrarão! Assim como Squall estava destinado a dançar com Rinoa, quisera ele ou não, assim Ultimecia e seus avatares dançarão perante o rebanho desprotegido, enquanto os SeeDs permitirem, é óbvio…
A Edea japonesa, a Edea reabilitada no guia Ultimania, é uma relações públicas, com efeito, de nome e de vocação – é uma atriz consciente de que interpreta um papel. Joga um RPG. De vida e morte, mas ainda assim um jogo, uma representação. Sentem e assistam a peça, vocês são meros espectadores! Nisso a versão americana do século passado tinha perdido muito de seus matizes (embora o meta-comentário com a palavra FINAL FANTASY seja muito benquisto), mas no guia a Edea teatral e sardônica está de volta. Ela é um vilão com muitos motivos, ao contrário do que se apregoa por aí! Toda bruxa tem seus motivos…
Ascensão, tirania, nações, reino de terror, essa é a parte mais política e que o Ocidente deixou mais transparente, embora os japoneses sempre captassem os mesmos conceitos no “subtexto”… Os japoneses não gostam de ser muito explícitos sobre imperialismo, o que não significa que suas obras deixem de explorá-lo com bastante freqüência – e inteligência! Quem já sentiu o pavor da bomba atômica sabe mais do que ninguém o que é o pavor metafísico, ainda mais elevado… da civilização que se encontra entregue. Felizmente existem heróis – nos videogames, podemos ter certeza!
Bem, qual das 3 traduções para português você mais apreciou?!Deixe sua opinião.
[REC]
RECOMENDAÇÕES LITERÁRIAS PARA AMANTES DO EFEITO DO TEMPO NA ESTÓRIA (O CONCEITO MODERNO DE TEMPO QUE INCORPORAMOS AINDA HOJE NA FICÇÃO)
Como penúltima nota, para aqueles que se mantiverem motivados e sedentos por enredos envolvendo o tempo (não precisa ser com máquinas do tempo, isso é para amadores!), recomendo, curto e grosso, Marcel Proust, um dos meus prazeres mais recentes. Sua magnum opus se chama em português Em busca do tempo perdido. É um livro sobre um pouco de tudo que discutimos aqui: inconsciente coletivo, tempo, espaço, memórias…
Para discussões filosóficas, sem o envolvimento de personagens fictícias em ternos e emotivos diálogos, o caminho é outro e mais pedregoso. Poderia recomendar Husserl e Heidegger (que inclusive citei até bastante em minha análise análise – hat-trick contando com esta), da primeira metade do século XX como o próprio Proust, e Baudrillard da segunda metade do séc. XX e início do vigésimo primeiro (nosso quase-contemporâneo – agora que o ultrapassamos, pelo menos em sobrevivência, se não em refino, podemos nos sentir… velhos!) – todavia, fico receoso de referendar assim sem mais: essas leituras exigem uma preparação (equivalente a um curso completo de filosofia), então fiquemos por aqui! Você pode começar apreciando considerações mais pé-no-chão sobre o tempo em Aristóteles antes de partir para coisas mais radicais… (no Seclusão você encontre vários “cursos de filosofia” em formato de texto – meu maior talento –, se fazer 4 anos de graduação formal não é o que você tem em mente…)
[CON]
O QUE ACONTECE SÓ ACONTECE UMA VEZ, MAIS UM ARGUMENTO IN-GAME PARA MINHAS POSIÇÕES “HETERODOXAS”
Para quem não assistiu Somewhere in Time ou Lost ou não jogou ainda Final Fantasy VIII… Ou para quem assistiu SiT e Lost e não os entendeu ou torceu o nariz para essas produções… e jogou FF8, mas não concorda em nada com o que eu digo… Ou para quem prefere o tipo de viagem no tempo que gera universos ou dimensões alternativas ou paralelas, que é a noção contra a qual estou em guerra o tempo todo aqui (bem como os filmes, séries e jogos que estou citando!!), i.e., para o ANTI-TIME LOOP SQUAD, eu acrescentei essa seção. Vocês, obstinados jogadores da visual novel e apreciadores do anime de Steins;Gate (que ganhará review no rafazardlyem 2024), vocês recalcitrantes expectadores de Back to the Future, o filme de happy ending em que você muda o futuro, apesar de flertar com o perigo do paradoxo do avô (aliás, valha trilogia superestimada!!!)… Finca a bunda na cadeira e vê se presta atenção mais um pouco, quem sabe você não é tão casmurro e eu ainda consiga “cooptá-lo”!
A primeira instância, da perspectiva do jogador de FF8, em que ele entende que “o passado não pode ser mudado” (e, em conseqüência, nem o presente nem o futuro, pois todos se tornam o passado após a devida quantidade de tempo!!) é a declaração de Ellone a Squall, explicando como seus poderes funcionam:
“Você não pode mudar o passado. Eu demorei para entender isso.”
Para quem não entendeu a questão da jogabilidade com Laguna, Kiros e Ward, o jogador é transportado mentalmente ao passado dessas 3 figuras veteranas. Eles são jogados pelo jogador, que tem total liberdade na ação, como se estivesse operando num Grand Theft Auto (ok, nem tanto!)… Mas, falando do jogo em si, esse é um recurso narrativo para dizer: este momento é o presente tanto de Laguna & cia. quanto de Squall & cia., que estão tendo um sonho lúcido “revivendo” o presente de Laguna & cia.! Desde que Laguna & cia. vivenciaram aqueles episódios, sempre estiveram sob influência de Squall e os outros, o filho e os amigos do filho provindos do futuro, isto é, dos SeeDs, que existiram desde sempre. Em suma, ninguém tinha a agência, porque todos tinham a agência ao mesmo tempo: o que Laguna escolheu fazer era igual aquilo que Squall escolheria fazer, etc. Tudo estava em harmonia. Ellone queria que Squall mudasse o passado de seu pai, mas tudo que aconteceu foi uma reprise tal e qual das mesmas cenas, ela não viajava no tempo nem transportava consciências, ela apenas assistia o passado, e mesmo sendo a usuária desse poder só foi perceber essa limitação após várias vezes em que “desmaiou” o grupo SeeD e “arremessou-os” na vida de Laguna…
Essa revelação tem um forte impacto. Não é absurdo que o jogador não tivesse percebido isso. A própria Ellone não tinha. O jogo foi feito para ser entendido apenas na segunda gameplay – o que é uma pena “ao quadrado”, porque a gameplay é horrível e só vale a pena pelo próprio enredo, urgh!
O caráter trágico e a condição humana sempre querem violar essa regra, e assim funcionará até o final dos tempos (no pun intended): Sísifo e sua pedra, Édipo-Rei, etc., etc. Squall, após ouvir Ellone, tenta ele mesmo mudar o passado, enquanto tenta salvar Rinoa do coma… até entender como funciona, na prática… O ser humano é assim. Muitos gostam de citar essa inconsistência ou contradição ciência-ação para refutar a teoria de que Rinoa=Ultimecia ou que a compressão do tempo foi realizada. Um dos motivos mais fortes é que Ultimecia estaria sendo “burra” ao tomar nota de que morreria tentando fazer a compressão temporal indo ao passado; mesmo assim ela escolheu ir ao passado. Explicam alegando que “todo ser humano tenta mudar o passado na prática por mais que seja avisado da impossibilidade dessa mudança”, um expediente natural em toda ficção de qualidade. É verdade e é plausível, mas queria Ultimecia “vencer” – podia Ultimecia “perder”?! Outras perguntas precisariam ser levantadas, perguntas que os “sabichões” coincidentemente sempre evitam desenvolver em suas “teorias bem-armadas”. Ora, nada tem que ver a vilã ser burra, ela é apenas falível e gananciosa, nisso residia seu mal, dizem aqueles que advogam pela total liberdade de agência dos envolvidos e entendem o final de FF8 como a representação de uma continuidade temporal pós-tentativa falhada de compressão do espaço-tempo. Tirando o fato de que é difícil tirar algum sentido lógico da “zeração” de FF8, a questão não é avaliar o nível de inteligência ou de teimosia de Ultimecia. A Square obviamente brinca com o fato, o que torna sua obra objeto de discussão até hoje – sabe quem mais faz esse tipo de coisa?! David Lynch – e ele nunca explica(rá) nenhuma de suas obras. Curiosamente, ao que tudo indica, em Twin Peaks acontece uma viagem temporal que muda-sem-mudar a realidade dos personagens, e mesmo assim ainda pressupõe-se que eles acabam vivendo num loop… O cara é tão maluco – no bom sentido – que conseguiu instilar em nós a percepção dual, ou seja, de que ele fez os dois tipos de viagem no tempo ao mesmo tempo… Sem trocadilhos… Talvez seja isso mesmo, talvez sejamos incompetentes demais para entender Lynch… Resumindo: é bom deixar algumas coisas em aberto e sem resposta definitiva ou não-críptica dentro de sua obra. Mas isso não significa que não puderam desenvolver um script em que Ultimecia vence no final, desde que se entenda, como eu entendo, a vitória de Ultimecia como uma vitória para todos os personagens, o que até obsolesce essa discussão idiota (após certo tempo, desculpe, desculpe, é a última vez que me refiro temporalmente ao tempo nesta resenha, pois ela já está chegando ao fim!… após certo tempo tudo se torna idiota e repetitivo, e era necessário indicar que o binarismo da questão Ultimecia venceu? S/N ou Rinoa=Ultimecia ou Rinoa=Rinoa e Ultimecia=Ultimecia sendo mutuamente exclusivos era o que precisava ser posto em questão o tempo todo… ops, de novo isso…).
Bom, qualquer coisa é melhor do que um argumento que eu li: “Já que existe o game, e eventos acontecem, significa que não houve compressão temporal, ou todos os eventos teriam sido anulados e não existiria o jogo…”. Vou levar na esportiva – belo troll! Vitórias podem ser amargas e exigir imensos sacrifícios (final de Lost); derrotas podem conter coisas boas e ser louváveis até na parte estética da coisa (final de SiT?). No fim, vitórias e derrotas – o conceito de vitória e o conceito de derrota – são tão intercambiáveis quanto GFs entre os personagens controláveis do jogo… A única mensagem que não podemos relativizar neste game, devido aos índices incontornáveis in-game e no meta-texto, é a seguinte: FINAL FANTASY VIII VERSA SOBRE UM ROMANCE MAIOR QUE TODO O DEMAIS. Acho que não preciso falar mais nada. Isso NÃO significa que Squall terminando a vida solteiro ou fora dum time loop seria um Squall mais triste ou piorado, só estou repetindo o óbvio: o que acontece, acontece…
[UNC]
UNCANNY VALLEY NO MÍNIMO – CONFIRMAÇÃO PARA OS “LEITORES RESPONSÁVEIS DA ESTÓRIA”: Cotejando os character designs de Rinoa e Ultimecia, é incontestável que ambas têm até a mesma cara, como se já não bastassem as fortes evidências de roteiro de que cumprem o mesmo papel ou representam uma mesma (id)entidade. Dificilmente seria uma coincidência ou algo não-intencional por parte de um dos mais talentosos programadores e criadores de personagens no ramo, Tetsuya Nomura. Sempre haverá vozes em dissenso: “Nomura é conhecido por representar várias personagens femininas de forma semelhante”; “a tecnologia rudimentar do período não permitia grande diferenciação nos rostos”. Duas afirmações que são desmentidas pelos próprios female designs de FFVIII! Não há qualquer relação de verossimilhança entre Quistis, Selphie e Rinoa, como exemplo basilar. Se não estiverem convencidos de que Tetsuya Nomura criava designs únicos para cada personagem QUANDO QUERIA, dêem uma observada em character designs de outros desenhistas, do passado ou do presente, na minha opinião menos talentosos ou, pelo menos, mais idiossincráticos (ou ‘insistentes’ em rostos idênticos): Akira Toriyama, o mangaká mais superestimado de todos os tempos, nos brinda não só com rostos femininos sempre muito parecidos… mas até com rostos de homens e mulheres quase gêmeos, e até corpos – compare-se os crânios de Freeza, Majin Boo e Jiren, para não falar em Brolly, Kaulifla, Andróide 17 e 18, que instintivamente associamos a Toriyama, e achamos até desagradável (é tão desagradável que tendemos a ver a cara do Goku no protagonista de Chrono Trigger e nos personagens que ele desenha para a série Dragon Quest)!!! Pior ainda: o artwork de AKIRA (falo do mangá de mesmo nome de Akira Toriyama, mas que não é dele) revela que Katsuhiro Otomo tinha uma obsessão enferma pelo mesmo rosto empregável para três personagens principais ou, simplesmente, que ele não é tão talentoso… Tirem suas próprias conclusões abaixo. Identidade visual e estilo são uma coisa, mas modelo genérico é outra – mesmo em cores, ler o mangá Akira chega a ser um suplício em vários capítulos, pois nunca sabemos quem é quem!
Todo mundo sabe que uma forma de economizar tempo, para um mangaká, é apenas repetir os traços e mudar a cor do cabelo, certo? / Num universo paralelo, Goku/Yamcha(?), Android 18 (Chi Chi descolorida?) e um Shen Long azul (?!?) protagonizam o primeiro Dragon Quest/Dragon Warrior de SNES, que só foi localizado ao Ocidente 16 anos depois! (Não, é sério, alguém gosta de ver Dragon Ball Z em outras mídias? Eu quero distância!)
Kaneda, protagonista de AKIRA (esq.) e Kei, namorada de Kaneda (dir.). Ou seria vice-versa?
Kai, melhor amigo de Kaneda (ok, acho que o problema é a obsessão do autor com nomes e rostos parecidos mesmo, tá na cara que só podia ser de propósito)! O que muitos consideram digno de cult-following para mim é repulsivo aos olhos!
Ah sim, devia tê-lo dito isso “100 páginas atrás” (finja que está lendo um livro), mas Liberi Fatali, o nome da canção da FMV introdutória, significa: Children of Fate. O que fate (destino) significa? Não vou perder meu tempo discutindo binarismos – todos temos espontaneidade para agir no presente, mas quando o presente se torna passado, é essa palavra que usamos para caracterizá-lo: se tornou um destino, um fado, palavra do português mais próxima. Fado geralmente tem uma conotação negativa – e crianças, presumivelmente quem mais têm um futuro pela frente, conotação extremamente positiva. Acho que até Nobuo Uematsu gostou de brincar com a psique dos jogadores neste episódio VIII, pense bem! Pense também no filme Advent Children, continuação direta de Final Fantasy VII, de alguns anos depois: a Square é mesmo obcecada com crianças e o potencial que elas têm para forjar o destino, correto?! Ah, e eu que queria duplicar o tamanho desse texto, emendando-o com meu parecer sobre Final Fantasy VII Remake, que zerei semana passada… Mas isso não será feito nem aqui nem agora! É meu destino deixar para depois!
FINIS? INCIPIT? CAPUT? ESCATHOLOGIA? GENESIS (super nintendo)? KAPUTT? INITIUM? FINIAT? TELOS? FIAT?! C’est fini?J’N’SAIS PAS! (francês é muito romântico, vocês não acham?!)
Informações extraídas de SEATTLE SHAKESPEARE COMPANY: EDUCATOR RESOURCE GUIDE.
“Titus Andronicus is one of Shakespeare’s earliest plays and, as such, there is less evidence to pinpoint when it was written than is available for later works. At best, scholars are able to suggest plausible dates, taking evidence from the writings of Shakespeare’s contemporaries, clues about performance history in publications of the script, and comprehensive analysis of interconnected influences between works of Elizabethan theatre and literature. With no single date of authorship agreed on, proposed dates range from 1582 to 1593.
To add more complication to the matter of dating Titus Andronicus, we have two other surviving versions of the story. One is written in prose and was published between 1736 and 1764. Some scholars believe that this work was originally penned in Shakespeare’s time and, like many of Shakespeare’s own plays, published at a later date. The second version of the story is a ballad called Titus Andronicus’s Complaint. While the earliest surviving publication of the ballad is from 1620, it can be dated much earlier thanks to a mention of the ballad by printer John Danter in 1594.”
“Shakespeare’s late Roman plays are each anchored to a period in history — Coriolanus in the early Roman Republic and Julius Caesar and Antony and Cleopatra at the transition from Republic to Empire. In contrast, Titus Andronicus is vaguely set in the late Roman Empire, with no major characters or events having historic counterparts.”
“The rape and mutilation of Lavinia, as well as her solution for identifying Chiron and Demetrius, are conflated from several episodes in Ovid’s Metamorphoses. s. Titus’s ultimate revenge against Tamora, the unwitting cannibalism of her own children, combines another story from Metamorphoses and with Seneca’s Thyestes.”
“But setting wasn’t much of a concern to Shakespeare and his original audiences. It was common in Elizabethan England for plays to be performed in current dress, regardless of when the story was set. It wasn’t until the Victorian era that the idea of performing Shakespeare in historical dress came into vogue.” É interessante que Hollywood faça “adaptações “elizabetanas” de Shakespeare, com elementos contemporâneos nas falas e indumentárias, como visto na própria adaptação de Titus e também no moderno Romeu e Julieta!
CICLOS INFINITOS DE VINGANÇA & A MEDIAÇÃO HUMANA (OU PROTO-HUMANA): “While civilization has progressed beyond it, the original function of ‘an eye for an eye’ in legal codes was to prevent over-retaliation. When the cycle of revenge gets out of hand for chimps and bonobos, a third party (either the leader or a segment of the group) breaks up the conflict and encourages reconciliation. This peace-keeping function of leadership was still in place at the beginning of recorded history.”
“Aaron in Titus, Edmund in Lear, Iago in Othello. They’re all characters who stir the pot and create chaos. Just as the moral framework for maintaining group cooperation is not unique to humans, individuals who intentionally strain the peace can also be found in our close relatives.”
DEIXANDO SÓFOCLES INVEJOSO: “Titus Andronicus pushes violence to the limits of what can be portrayed onstage, and what audiences can endure over the course of the play. Not only are there numerous murders, but children are killed in front of their parents, killed by their parents, and a newborn sentenced to death by its mother. Lavinia is raped and mutilated, Titus has his hand chopped off, and Tamora’s sons are served to her in a pie. Yet throughout this bloody play, all of these acts are committed in the name of justice. Even as Titus kills his daughter, Lavinia, he considers it justified as an act of mercy.” E não há qualquer intervenção do Coro, como em outras peças maduras de Sh…
SUCESSORAS NA BONANÇA E NA DESGRAÇA: “Children are also treated as bargaining chips, and as mere extensions of their parents. When Titus feels wronged, he kills his own son Mutius and tries to give his daughter to someone she does not want to marry. And despite how much Tamora and Titus value their own children, they still slaughter each others’ children mercilessly to settle their disputes. Because of their value, they are used as pawns.” Ironicamente, Mutius significa mudo; aquele que tenta prevenir as conseqüências desastrosas da peça (que levariam Lavínia a se tornar literalmente muda) é calado por seu pai.
O CARROSSEL DA POPULARIDADE: “Written in Shakespeare’s late 20s, Titus was an instant hit. Historic records show5 stagings of the play within 6 months of the first confirmed performance! The script was frequently republished, and a popular contemporary ballad mirrored the plot. (…) The latter [adaptações do séc. XIX] omitted all violence toward Lavinia and portrayed Tamora as chaste, Aaron as noble, and Chiron and Demetrius as dutiful children!”
“In 1923, Shakespeare’s original Titus Andronicus was staged for the first time in more than 300 years. Even then, the once beloved title still had an uphill battle to regain popularity and respect. T.S. Eliotwrote that Titus was ‘one of the stupidest and most uninspired plays ever written, a play in which it is incredible that Shakespeare had any hand at all’.”Nunca confiar nos críticos: mesmo quando são bons autores no “tempo ocioso”…
WILLIAM TARANTINO: “Shakespeare did his best to outdo the genre with an over-the-top play of blood and revenge, and he recognized the entertainment value of horrible people doing bad things. Then, as now, violence sells at the box office.”
“In the source myth Shakespeare found in Ovid’s Metamorphoses, Tereus rapes his sister-in-law Philomela and cuts out her tongue; but she weaves a tapestry that tells her story, and her sister takes revenge. Lavinia has no hands; there is, seemingly, no way she can tell her story. The mutilation also figures externally the shame that attends a raped woman in the play’s patriarchal society: Lavinia is now ruined forever. Critics up to the middle of the 20th century saw Titus Andronicus as a pointless horror show, so bad that it was probably not by Shakespeare. [Nunca confiar nos críticos.] But Lavinia’s fate has been a key factor in the recent rehabilitation of the play, in the theater as well as in criticism. Violence against women, the denial of women’s language—these are issues to which we are now, with good reason, particularly alert; and when Lavinia enters, raped, mutilated, and speechless, it is as though in the middle of a high-flown, consciously literary tragedy someone has pulled a fire alarm.”
“The attack takes place in the woods, established as a place of terror outside the bounds of society. Yet looking back, we can see that the act does not come out of nowhere. The rape sequence begins with the two Gothic brothers quarreling over Lavinia, a quarrel Aaron the Moor settles by pointing out that they both can have her. The play likewise began with a competition between two brothers, Saturninus and Bassianus, for the possession of Rome. Bassianus in particular makes Rome sound like a woman whose honor is at stake: ‘And suffer not dishonor to approach / The imperial seat, to virtue consecrate’ (1.1.13–14). Aaron in turn makes Lavinia sound like a captured city, telling Chiron and Demetrius to ‘revel in Lavinia’s treasury’ (2.1.139).”
“The primary meaning of rape in our time is sexual assault, but it can also mean seizure;and in that sense Lavinia is raped twice, once in Rome and once in the woods. Saturninus and Bassianus debate the word, Saturninus declaring ‘Thou and thy faction shall repent this rape’ and Bassianus retorting ‘Rape call you it, my lord, to seize my own, / My true betrothèd love and now my wife?’ (1.1.412–14). Throughout the sequence the emphasis is on Bassianus’ rights, and throughout the sequence Lavinia herself is silent. This is not the enforced silence of the second rape, and we could read many different meanings into it. But we have to do the reading, and the parallel has a disturbing effect. Raped and silenced in the woods, she has already been raped and silent in Rome. The atrocity may be not so much an outlaw act as a revelation of the male pride and possessiveness that have already erupted in Rome itself.”
“At the request of his eldest son, Lucius, he sacrifices the Gothic queen Tamora’s eldest son, Alarbus, to give the souls of his own sons passage across the Styx. Tamora pleads for her son’s life; rejecting her plea, Titus gives no sign that he has even listened to it. He is then given the responsibility of picking the next emperor. Without pausing to think, he chooses Saturninus, simply because he is the late emperor’s elder son. He accepts Saturninus’ offer to marry Lavinia as an honor done to him, with no thought of Lavinia’s feelings or Bassianus’ rights. When the rest of the family carries her off he tries to pursue, and kills his own son Mutius for blocking his way, thinking only of the challenge of the moment: ‘What, villain boy, / Barr’st me my way in Rome?’ (1.1.295–96). Titus is a creature of armor and leather, with thought processes to match. § When Saturninus turns against him and marries Tamora, Titus suddenly feels disoriented, a stranger in the city he thought was his. But it is the return of Lavinia from the woods that breaks him open, presenting him with a sight for which nothing has prepared him, for which no automatic reaction will serve.”
“‘What shall we do?’ (3.1.135). Once a man of action and quick decisions, he can think only of multiplying Lavinia’s afflictions in static spectacles. His language expands, giving it a cosmic reach it never had before—but it is filled with images of flood and drowning, images of helplessness.”
“The man of action is back; he knows now what he has to do. But there is still nearly half the play to come, and in the tradition of Elizabethan revenge plays (exemplified by Thomas Kyd’s The Spanish Tragedy (c. 1585) and, with variations, by Hamlet) the final deed is held off while the hero, seemingly mad, questions the world that makes revenge necessary. Titus has his relations dig in the earth, fish in the sea, and fire arrows with messages to the gods, all to seek for Justice and to demonstrate that she is nowhere to be found. The answer is revenge. Language was made helpless in the silencing of Lavinia and in Titus’ floundering attempts to find the right thing to say to her.”
“Titus’ revenge, like the act it avenges, has its roots in the myth of Philomela, whose sister Procne feeds Tereus his own son at a banquet.Within the play itself the act is grimly appropriate: Titus will ‘make two pasties of [their] shameful heads’ (5.2.193), recalling the severed heads of Quintus and Martius. He will ‘bid that strumpet, [their] unhallowed dam, / Like to the earth swallow her own increase’ (194–95). Central to the atrocity in the woods is the pit in which Chiron and Demetrius dropped the body of Bassianus, and into which Aaron lured Lavinia’s brothers. The pit, like the tomb of the Andronici, is a dark hole that swallows life; now Tamora will be made to imitate it. Quintus also describes the mouth of the pit as stained with blood (2.3.200–202), making it an image of the assault on Lavinia that is taking place as he speaks. The Gothic brothers are entering her body as her own brothers fall into the pit. In revenge Titus compels Chiron and Demetrius to enter Tamora’s body, making her the final image of the hole in the earth that swallows men.”
“When in the final scene Titus kills Lavinia, he does so after confirming with the Emperor that the story of Virginius gives him a precedent for his act. Roman honor is satisfied. (…) It is easy to assume that Titus is releasing Lavinia from a life that has become intolerable, and that death is what she wants. Some productions stage the scene as a ritual in which Lavinia not only consents but gives the signal for her death. Yet in Titus’ act we feel the weight of the patriarchal society he has always served, in which Lavinia earlier seemed to be a pawn. He is preoccupied not with her grief but with her shame; the grief that matters is his own. The last we hear of Lavinia is Lucius’ command to bury his father and sister in the family tomb. She is released from an intolerable life, but she is also absorbed into the patriarchal world that was implicated in her suffering.”
“In Act 2, when Lavinia appeals to Tamora, as one woman to another, to prevent Chiron and Demetrius from raping her, Tamora ignores this appeal to fellow feeling as Titus ignored hers. Tamora has a son to avenge, as Titus will have a daughter. Tamora meets cruelty with cruelty, and Titus will do the same. Disguised as Revenge, Tamora comes to visit Titus, playing on what she thinks is his madness. When Titus welcomes her with a one-armed embrace, the moment has a double significance: Titus is embracing Revenge but he is also embracing Tamora—and the act conveys, more than Titus realizes, how much he and his victim have in common.” Segunda interpretação: um meio-abraço, um abraço traiçoeiro.
“In the last scene Lucius is proclaimed Rome’s emperor, charged with restoring Rome and healing its wounds. Yet he has entered at the head of an army of Goths. Restoration is also enemy invasion: again the border has collapsed.”
“The character who mounts the most telling challenge to any sense of otherness is Aaron the Moor. He appears at first to be the play’s ultimate Other: a Moor in the service of the Goths (and how did that happen?), he is doubly foreign in Rome. His blackness sets him apart visually, and his cruel wit gives him detachment of another kind. Telling Lucius of the attack on Lavinia, he describes it as a trip to the barber: ‘Why, she was washed, and cut, and trimmed [raspada, limpa]; and ‘twas / Trim sport for them which had the doing of it’ (5.1.96–98).”
“The extravagance of the play’s action takes it to the edge of grotesque comedy. For Aaron, peering through the wall that signifies his detachment, it is a comedy.”
“The play itself moves into Aaron’s territory in 3.2, a scene that appears for the first time in the Folio and may have been added by Shakespeare as an afterthought. Marcus casually kills a fly. After Titus rebukes him, invoking the grief of the fly’s parents, Marcus appeases his brother by saying ‘It was a black, ill-favored fly, / Like to the Empress’ Moor. Therefore I killed him’ (67–68). Titus then grabs a knife and stabs away at the tiny body. Two of the play’s key ideas, grief and revenge, spin into absurdity, and the sense of humor at work is not unlike Aaron’s own.”
“They are foreign, other, not human. But earlier in the play Titus himself, when the outrages against his family are only just beginning, declares ‘Rome is but a wilderness of tigers’ (3.1.55). The atrocity committed against Lavinia happened outside society, in the wilderness; but the more we reflect on it, the more we find the distinction between Rome and the wilderness dissolving.”
“Quando publicou As aventuras de Tom Sawyer (1876), Mark Twain tinha 41 anos, e quando da publicação de As aventuras de Huckleberry Finn (1885), 50. Porém, ambos se passavam ‘30 ou 40 anos atrás’ — quando o autor era um menino pobre como seus personagens —, assim como as 2 sequências, As viagens de Tom Sawyer (1894) e Tom Sawyer, detetive (1896). A Guerra Civil Americana, entre os estados escravagistas do Sul — como o Missouri natal do autor, onde se passa o primeiro livro — e os estados abolicionistas do Norte — como Illinois, para onde os protagonistas do 2º livro tentam fugir pelo rio Mississippi —, duraria de 1861 a 1865, encerrada com a abolição da escravatura em todos os Estados Unidos.
Autodidata, tipógrafo, piloto de vapor, mineiro, jornalista, Twain se mudou para São Francisco depois da guerra, foi às Ilhas Sandwich (atual Havaí) e passou a escrever cartas para jornais, fazer palestras e viajar pelo mundo (Europa, Oriente Médio, Índia). Casado, mudou-se para Buffalo, em Nova York, e depois para Hartford, em Connecticut, onde escreveria seus principais livros (1874-1891). Quatro anos antes de morrer, em sua Autobiografia de Mark Twain (1906), o próprio autor explicaria sua perspectiva infantil da escravidão:
Nos meus tempos de menino, eu não tinha aversão à escravidão. Eu não me dava conta de que havia algo de errado naquilo. Ninguém a denunciava aos meus ouvidos; os jornais locais não falavam nada contra ela; no púlpito da igreja local nos ensinavam que Deus a aprovava, que era uma coisa sagrada e que quem duvidasse bastava procurar na Bíblia, se quisesse tranquilizar sua consciência — e depois as escrituras eram lidas em voz alta para termos certeza; se os próprios escravos tinham aversão à escravidão, eram prudentes e não diziam nada.”
“Termos como nigger, injun e half-breed, usados no original, são pejorativos que designam geralmente personagens ‘não-brancos’ ou mestiços pobres nos estados do Sul. No Brasil, último país da América a abolir a escravidão, o substantivo ‘negro’ não reproduz o grau de desprezo social da expressão especificamente norte-americana quando utilizada por falantes brancos; já o substantivo ‘preto’, embora fosse comum no século XIX como pejorativo da elite escravocrata para se referir aos escravos e negros em geral, foi retomado no século XX pelo movimento negro brasileiro como forma preferível de autorreferência. Optou-se, portanto, na maioria dos casos, pela tradução ‘escravo’ para ‘nigger’, exceto nas falas do personagem mais racista de todos: o ignorante pai de Huckleberry no segundo livro (ver nota do tradutor sobre os dialetos em As aventuras de Huckleberry Finn) e no terceiro e quarto, quando Jim já não é mais escravo.”
Algumas pessoas, cientes de meus vícios, me dirigem perguntas como: Por onde devo começar a ler Nietzsche? São perguntas honestas e que eu mesmo faria, e aliás fiz, antes de “ter algum conhecimento” em alguma matéria que muito me interessava… Do tipo: quais marxistas do século XX devo ler primeiro?, uma questão para a qual nunca recebi respostas repetidas. E no entanto as respostas são mais difíceis, quão mais “especialista” na matéria me julgo, uma espécie de dilema socrático. Quanto ao próprio Nietzsche, podemos deixá-lo de lado até uma próxima oportunidade.
Hoje gostaria de responder à pergunta de um amigo: Por onde devo iniciar a apreciação de Fiodor Dostoievski (nunca censurem alguém por escrever um nome russo errado – só escrevemos certo quando usamos a língua e os caracteres russos – tudo o mais é convenção, até mesmo se Tolstoi leva acento ou nãoo, sem falar na grafia Tolstoy, preferida pelos anglos – sem falar, também, que não se pronuncia Tolstoi, mas tem uns “a”s e “r”s invisíveis na prosódia, o que muita gente se admira de saber, inclusive eu!)?
Dostoievski escreveu clássicos atrás de clássicos. Poderíamos nos aventurar a ranqueá-los em grupos (o que não faremos), mas seus livros “A-” talvez em nada devam aos “SS”. Vamos citar suas principais obras, e defender, no fim, por que eu pessoalmente não recomendo que o primeiro livro a se ler de Dostoievski sejam os seus mais icônicos, Crimes e Castigo e Irmãos Karamazovi, em primeiro lugar. Livros que eu já considerei perfeitos – mas todos os livros têm falhas, e até esses podem ser criticados com fundamento. Ainda que fossem perfeitos, poderia haver razões muito mundanas (e nem por isso incorretas) de recomendar que sejam leituras apenas posteriores… Enfrentemos o caso em vista!
Gente Pobre, A Vila de Spatchikovo, Humilhados e Ofendidos, O Jogador e O Eterno Marido eu classificaria como novelas menos densas, monotemáticas, por assim dizer: geralmente o foco é a pobreza ou comportamentos obsessivos (como o vício no jogo ou ciúmes patológicos). Embora sejam “simples e diretos” comparados a outros trabalhos de D., são por si só ricos e obras-primas em seu gênero. Talvez não dêem a impressão de estarmos lidando potencialmente com o maior escriba russo, no caso de ser a primeira leitura de alguém.
Dos escritos precoces de D., sem dúvida os mais interessante são O Duplo, Memórias do Subsolo e Memórias da Casa dos Mortos. Sempre achei O Duplo e Subsolo contos (são maiores que contos, embora não tenham nem de perto a espessura de Irmãos Karamazovi ou O Adolescente) que se misturavam, a ponto de, ao passar alguns anos que os havia lido, confundir cenas de um como se fossem do outro. Achava que isso podia se dar pelo fato de eu os ter comprado juntos, tendo o livro físico de ambos, da mesma editora e da mesma coleção (a 34). Tendo-os relido recentemente, confirmei minha impressão ancestral, porém: apesar dos anos que separam ambas as composições, tanto um livro como o outro tratam de um protagonista espiritualmente miserável que descreve aos leitores anódinos como acabou por se apartar dos homens, ao que tudo indica sem possibilidade de retorno. Não as recomendo como primeiras leituras, no entanto, especialmente O Duplo, por serem narrativas muito pesadas, capazes de assustar e voltar a assombrar, tamanha a perspicácia do pensamento dos protagonistas e seu descaro em resumir as hipocrisias da vida social, mesmo leitores veteranos do querido autor. No caso d’O Duplo o agravo é ainda maior, por tratar ao mesmo tempo da degeneração mental, da subserviência de um funcionário público sem perspectivas e do abismo infinito que separa a aristocracia russa dessa gente “classe média”, que tem renda para possuir seu próprio servo mas que precisa pegar empréstimos ou empenhar bens a fim de comprar roupas que a faria aceitável ou pelo menos tolerada em círculos mais refinados. Portanto, se fosse escolher uma primeira leitura dentre a trinca do “D. jovem”, optaria pela Casa dos Mortos, um relato semi-autobiográfico sobre os anos de Dostoievski no degredo siberiano, por razões políticas. Por ser um material menos fictício e mais historiográfico, e em primeira pessoa, vai interessar sobretudo os que buscam conhecer quem foi o homem D., e não só o que ele escrevia. Muitas reflexões sobre a culpa contidas neste tratado já antecipam os tormentos de Raskolnikov, de Crime e Castigo, um dos protagonistas mais conhecidos da literatura universal.
Talvez o próprio Crime e Castigo seja incensado demais. Fiquei com essa impressão à segunda leitura. Não acontece muita coisa, materialmente falando, na estória; o aspecto grotesco, entrecortado e febril dos capítulos se deve sobretudo à crise interior do personagem principal. Aos 20 anos eu podia me identificar muito mais com Raskolnikov. Talvez agora, e vendo o tema do crime e suas consequências mais bem-apresentado em outras obras de D., eu seja reticente em recomendar C&C – entre as novelas mais indispensáveis, pelo menos.
Irmãos Karamazovi é a obra mais ambiciosa de D., e sua última, enquanto novela. Consumiu 3 anos de sua velhice; foi publicada em vida. Mas era prometido um segundo volume. Como nunca ocorreu, tratamos o (já bojudo) tomo inicial como uma narrativa completa e autônoma. E com efeito a vida dos três irmãos não prescinde de três epílogos muito bem-elaborados. Alguém só pode pensar que tipo de desenvolvimentos D. planejava para essa trinca de personagens tão distintos uns dos outros. Há fortes indicações de que Aliocha, o “irmão santo”, desempenharia o papel principal. São feitas alusões proféticas a seu futuro, carregado de martírio, mas simultaneamente auspicioso, se ele se mantivesse na senda reta. Sem revelar detalhes minuciosos ou muito relevantes da trama, Aliocha teria de lidar com os pecados de outrem, se tornar um mártir; e como cristão ortodoxo sua relação amorosa, proto-desenvolvida no livro que D. pôde nos legar, provavelmente nunca se consumaria. O que temos do “projeto Karamazov” ainda contém passagens que representam, em minha opinião, o acme da literatura ocidental, mas acho que o leitor de D. pode conhecê-lo abrindo outras portas, e deixar este umbral maciço para depois!
Restam os clássicos que ainda não citei: O Idiota, Os Demônios (ou Os Possuídos) e O Adolescente. D. foi, ao que parece, diminuindo gradativamente a idade de seus protagonistas. O Adolescente era mais um degrau em sua escada como autor, que ele pretendia percorrer até o final, com uma novela focada na importância das crianças russas – projeto impossibilitado por sua morte. O Adolescente é sobre a relação de um jovem que não tem posição no mundo público petersburguês e após muito tempo recebe a notícia de que reencontrará seu pai, figura ambígua, da qual ele não sabe o que esperar. Ou talvez o protagonista seja muito impressionável, e não consiga definir seu pai a não ser recaindo em extremos ao longo das páginas da história. Está claro que sua irmã, uma pessoa bem mais simples, já amadureceu emocionalmente muito mais depressa nesta compreensão de laços de parentesco. Tudo em que o adolescente se baseia são em memórias longínquas da meninice, antes do pai abandonar a família. As razões não são claras. A mãe ainda ama o marido e nunca permitiu que o protagonista masculino e sua irmã falassem ou pensassem mal de seu progenitor ausente. Como é uma figura que, ainda quando presente, se mostra misteriosa e lacônica, o jovem terá de ser um detetive da alma até sacar uma conclusão final, em meio a relações com figuras nobres que se iniciam relações com sua família, tudo aparentemente por causa do retorno de seu pai, ou seria tudo uma grande coincidência – e o jovem começa a sentir que tanto se sua irmã for a noiva quanto se sua irmã for rejeitada como a noiva de um certo magnata imoral, o nome da família ficará manchado e na lama, o que fere seu orgulho e suas ambições como uma adaga afiada. É uma novela que li em tempo recorde, durante férias, e não vejo qualquer ressalva a estabelecê-lo como uma porta de entrada convidativa em todos os sentidos.
Os Demônios pode ser considerado o livro mais sombrio de D., se excluirmos o mal-estar que O Duplo e o tal “Homem do Subterrâneo”, apócrifo, podem causar a naturezas como a minha, pelo menos. Um grupo de niilistas terroristas quer estabelecer o caos numa cidade russa, com vários personagens se reencontrando após longas ausências. Suas relações interrompidas e recém-retomadas estão carregadas de antigos ressentimentos, mas também de muita empatia escondida e difícil de comunicar. E o protagonista é um mistério para o leitor e todos a sua volta até o grande final. Uma passagem desta obra que lida com um crime de pedofilia foi censurada no século XIX, mas reintroduzida em algumas traduções mais modernas, ainda que como anexo. Creio que o personagem principal deste longo conto foi o protótipo depois fendido ao meio para dois dos três irmãos Karamazovi. As reflexões dostoievskianas sobre a religião só são maiores n’O Idiota que n’Os Demônios.
O Idiota também supõe como um epiléptico retraído, “santo e ingênuo” subitamente tornado milionário se comportaria, jogado diante de uma das situações mais problemáticas ao iniciar sua vida na mais alta sociedade: se apaixona por uma mulher de má-fama, tem dó de seu destino, e por isso acha paradoxalmente que não tem o direito de possuí-la, não por egoísmo, mas porque não a merece, é-lhe inferior; pois só a piedade não é o suficiente para o amor autêntico. Natasha, a mulher co-protagonista, também é apaixonada pelo Príncipe Michkin, o “idiota” do caso, mas a sua maneira. Estabelece-se um esboço de triângulo amoroso. Eu ainda acho as duas novelas descritas mais acima mais apropriadas para um “primeiro passo”, se bem que O Idiota não está mal; o caso é que acho que só adquire o efeito desejado quando a relemos, para entender melhor o intrigante protagonista…
A estória curta mais fenomenal de D., muitos concordam, é O Sonho de um Homem Ridículo, e pode ser lida em algumas coletâneas de seus contos e ensaios.
Originalmente publicado em 16 de setembro de 2009.
“mescla de purpurina com circuito integrado (…) Um bem? Um mal? Quem viver verá.”
CONTRACAPA
– E quantos ainda vivem? E quantos não estão cegos?
índice
1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO
2. DO BOOM AO BLIT AO BLIP
Inclui wikia sobre John Barth
3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO
4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]
Inclui wikia sobre o dadá Rudolf Schwarzkogler
5. ADEUS ÀS ILUSÕES
6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO
7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR
1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO
Menos coisas do que parece mudaram desde os anos 80: o U2 ainda faz um estrondoso sucesso e tenho um computador a minha frente. Qual a razão? O autor é um visionário ou a História está desacelerando? A fase crítica, a da elaboração do manifesto, teria passado? Agora havemos de ver mais VIDA do que MORTE?
O PRINCÍPIO DO SCAT: “A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a próxima vez.” Sintomático dos ingleses, segundo Latour; sintomático dos franceses que fedem à bosta, segundo Henfil.
Alternativa diferente das anteriores: o Brasil sentiu isso mais tarde – o escritor captou as tendências descritas somente no Primeiro Mundo. É só pensar nas manifestações pró-aborto: nosso espectro é defasado. E agora a moda é o do contra… Retroação. (2023)
“Na cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você.”
ACIMA DO BEM E DO MAL: “Por que o niilismo voltou à boca dos filósofos?” Mas quando é que saiu desde a década de 1880?!
Digamos que o dia agitado do urbanóide retratado equivalha a meu ciclo semanal… (2009, quando morava com os pais, que ‘funcionavam’ num ciclo com esta duração)
“Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme” É necessário morrer (dormir) mil vezes… O outro lado da moeda – em relação ao niilismo clássico – é oco.
“A fábrica suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno” Já foi-se o tempo.
“Os modernistas (vejam Picasso) complicaram a arte por levá-la demasiado a sério. Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo.” Querer não é poder.
A CRIANÇA RADIOSA vs. O ANDRÓIDE MELANCÓLICO: “o fantasma pós-moderno (…) A rigor, nada tem a ver com o Brasil, embora já se assista a um trailer desse filme por aqui”
É preciso sofrer para enxergar algum sentido. Nós, brasileiros, fomos tetracampeões em sofrimento recentemente.
(2009) Quando me torno forte e apólogo do devir, logo surgem vaidades econômicas dos pais, amigos paralisantes, universidade estressante e malditos insetos que não tratam de cessar – combinação explosiva. O clima neste deserto já está há um ano insuportável (quase dois! – 2010), e qualquer retiro imaginável é apenas para lugares piores. Não calculo a possibilidade dessa luta não dar em nada. Meu sonho é centrífugo à realidade jovem do celular-câmera-Orkut-baladas-funcionalismo. Eu quero apenas duas coisas: colchão velho¹ e distância (paradigma do conhaque e da atmosfera puída e calada). As fases passam (C. e reclamação na mesa)… O pior de todos os infernos sem dúvida é o Inferno Tecnológico. Ou o deserto do real a-tecnológico involuntário. Ridiculerói na Terra da Música.
¹ (P.S. 2023) Alergia a ácaros torna este velho ‘mandamento’ proibitivo hoje!
DO TRAILER (TEASER!) AO LONGA: O que é não fugir, Jesus? O que é não consumir, Lúcia? O que é não tratar do cabelo no salão, Nadir? O que é ter um pobre na família, Aguiares? O que é não sair de casa no sábado, Eduardo? Todos estamos no mesmo barco – inclusive eco-chatos e maconheiros, não é, G.B.? Você sai muito de casa e toma muito suquinho?O quanto isso o elevou? Ao anonimato num jardim malpodado!
(O ruim de anotar as coisas é que a gente lembra das coisas! Inconscientemente, já havíamos nos vingado há muito tempo…)
“preferimos o (…) simulacro ao real. E por quê? Porque desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade.” “Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza; intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais interessante que a própria realidade.” Quebra da tela da TV definitiva (resolução maior que a de qualquer olho humano) e multipolaridade, o caminho.
“Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora (…) O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca.”
2. DO BOOM AO BIT AO BLIP
John Barth, The Floating Opera
______, Giles, o Menino Bode
______, Once Upon a Time: A Floating Opera
______, The Literature of Exhaustion, 1967 // “Barth has since insisted that he was merely making clear that a particular stage in history was passing, and pointing to possible directions from there. He later (1980) wrote a follow-up essay, The Literature of Replenishment, to clarify the point.” Curiosamente, Barth e (Roland) BarthES possuem trabalhos teóricos correlatos e coetâneos!
wiki: “Despite Barth’s influence on postmodern literature in America, his influence and publicity have decreased since his novels were published.”
“Barth began his career with The Floating Opera and The End of the Road, two short realist novels that deal wittily with controversial topics, suicide and abortion respectively. They are straightforward realistic tales; as Barth later remarked, they ‘didn’t know they were novels’. § The Sot-Weed Factor (1960) was initially intended as the completing novel of a trilogy comprising his first 2 ‘realist’ novels, but, as a consequence of Barth’s maturation as a writer, it developed into a different project.”
“Barth’s next novel, Giles Goat-Boy (about 800 pages), is a speculative fiction based on the conceit of the university as universe. Giles, a boy raised as a goat, discovers his humanity and becomes a savior in a story presented as a computer tape given to Barth, who denied that it was his work.”
“The short story collection Lost in the Funhouse (1968) and the novella collection Chimera (1972) are even more metafictional than their 2 predecessors, foregrounding the writing process and presenting achievements such as a 7-deep nested quotation. Chimera shared the U.S. National Book Award for Fiction.”
“The Floating Opera is a novel by American writer John Barth, first published in 1956 and significantly revised in 1967. Barth’s first published work, the existentialist and nihilist story is a first-person account of a day when protagonist Todd Andrews contemplates suicide. § Critics and Barth himself often pair The Floating Opera with Barth’s next novel, The End of the Road (1958); both were written in 1955, and they are available together in a one-volume edition. Both are philosophical novels; The End of the Road continues with the conclusions made about absolute values by the protagonist of The Floating Opera, and takes these ideas ‘to the end of the road’.”
EDITOR OU AÇOUGUEIRO? “After a string of publisher rejections, Appleton-Century-Crofts agreed to publish The Floating Opera in 1956, but stipulated it ‘conclude on a less nihilist note’; Barth complied and altered the ending. (…) Barth made a number of changes to the text for a revised edition from Anchor Books in 1967, including restoration of the original ending.”
“Giles Goat-Boy (1966) is the 4th novel by American writer John Barth. It is a metafictional comic novel in which the universe is portrayed as a university campus in an elaborate allegory of both the hero’s journey and the Cold War. Its title character is a human boy raised as a goat, who comes to believe he is the Grand Tutor, the predicted Messiah. The book was a surprise best-seller for the previously obscure Barth, and in the 1960s had a cult status.”
Nathalie Sarraute (1900-1999), Portrait of a Man Unknown (Portrait d’un inconnu)
______, L’Ère du soupçon, 1956 (enssaio)
______, Tropismes
3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO
John Fowles, A Mulher do Tenente Francês
Donald Barthelme (1931-1989), Snow White (1967)
_____, Me and Miss Mandible (conto)
_____, The Joker’s Greatest Triumph (c.)
_____, The Balloon (c.)
4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]
EM NOME DA ARTE: O caso que sempre recordo, mas nunca sei dizer o nome do suicida: Rudolf Schwarzkogler (1940-69), vienês, precursor da arte performática, se matou em uma exibição apoteótica em 1969.
wiki: “He was born the son of a doctor who killed himself near Dubinniskij-Stalingrad after a serious war injury in which he lost both legs. In 1951 Schwarzkogler’s mother moved with her son to Lienz, where she married the sculptor Erich Unterweger. In 1954 he moved back to Vienna to live with his paternal grandmother and in 1956 to live with his other grandmother in Vienna. He continued to attend high school and in 1956 the federal trade school for one year.
In 1960, he met Hermann Nitsch, who had graduated from the ‘Graphische’ in 1958, and became friends with him. The following year he left graphic arts without a degree and worked in the summer as a student trainee for C.F. Boehringer und Soehne GmbH in Mannheim. In October he enrolled at the Academy of Applied Arts Vienna, but only attended it briefly. He was drafted into the military. He worked as a graphic artist and took part in campaigns by Viennese actionists such as Otto Muehl and Hermann Nitsch. Shortly afterwards he started his own actions.
Schwarzkogler devoted himself entirely to free art from 1965 and quit his job. He started out with horse betting and was interested in winning systems. In 1968 he took part in film projects. In 1969, he died after falling from the window of his apartment.He was buried at the Vienna Central Cemetery.” Ou não contaram a história direito (em alguma das fontes) ou a verdadeira história suicida era unicamente a de seu pai…
“The enduring themes of Schwarzkogler’s works involved experience of pain and mutilation, often in an incongruous clinical context, such as 3rd Aktion(1965) in which a patient’s head swathed in bandages is being pierced by what appears to be a corkscrew, producing a bloodstain under the bandages. They reflect a message of despair at the disappointments and hurtfulness of the world.”
“His first and most famous action was performed on February 6, 1965, titled Wedding: Schwarzkogler shows a private ritual with religious, shamanistic and alchemical elements at a table covered with a white tablecloth, on which there are dead fish, a dead chicken, various animal organs, eggs, colored liquids, a knife and scissors.”
FAQUIR EUNUCH NEWS? “Chris Burden once remarked that a 1970s Newsweek article, which had mentioned himself and Schwarzkogler, had misreported that Schwarzkogler had died by slicing off his penis during a performance. (…) The castration theme in some of them — for example, in Aktion 2 he posed with a sliced open fish covering his groin — have additionally fueled this myth. Additionally, the protagonist of the Aktion in which the cutting of a penis was simulated was not Schwarzkogler himself, but his friend and model, the renowned photographer Heinz Cibulka. When Schwarzkogler died, the series of performances had long been concluded. He was found beneath a window from which he had fallen, seemingly the victim of an accident. His death generated speculations and further myths.”
Castro a sociedade e mato o Ocidente, teria dito o ditador cubano.
Robe-Grillet, La Maison de Rendez-Vous (Encontro em Hong Kong)
Italo Calvino, Cosmicomics
______, Se um viajante numa noite de inverno… (roleplaying game)
Günter Grass, O Tambor
______, O Linguado
NACIONAIS
Osman Lins, Avalovara
Ivan Ângelo, A Festa
Rubem Fonseca, O Cobrador
Victor Giudice, Bolero
Sérgio Sant’Anna, O Concerto de João Gilberto no RJ
CINEMA
Paris-Texas, Salve-se Quem Puder
5. ADEUS ÀS ILUSÕES
“Nietzsche entrou em (sic) moda nos anos 70 [na verdade dir-se-ia que na Europa entrou em moda nos 1900 e decaiu antes dos 1960!] e continua no hit-parade”
“A pós-modernidade é o momento em que tais valores [fim, unidade, verdade], ainda atentos e fortes durante a modernidade industrial, entram em decadência acelerada. Se isso vai dar ou não na transvaloração, no supra-homem, é outro papo.” O ‘velho’ papo: a) falta de conhecimento do método; b) imaturidade dos meios de produção.
“Esse profeta, que pensava durante longas caminhadas, usaria hoje um walk-man sem som para melhor enxergar na confusão de nossa época.” Datado E adiantado.
Lyotard, A Condição Pós-moderna
(leitura atrasada!)
6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO
Madonna como a criança radiosa.
“A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia – a doença da vontade – prevista por Nie. para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência” A melancolia ainda está muito longe de ser o non plus ultra de alguma coisa séria…
Adaptação para a edição brasileira de MONICA STAHEL
Revisão de GILSON CÉSAR CARDOSO DE SOUZA
5. ed., SP: WMF Martins Fontes, 2010.
Alguns livros são muito longos para ler em vida. Por isso, eu reduzi o conteúdo de 1413 páginas para 329, para que você pudesse ler também! A perda em conteúdo foi a mínima possível, assim espero. Com comentários meus e ilustrações de fora do livro.
ÍNDICE REMISSIVO [CONTROL+F]
I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA
1.1 NOBREZA E ARETE
1.2 CULTURA E EDUCAÇÃO DA NOBREZA HOMÉRICA
1.3 HOMERO COMO EDUCADOR
1.4 HESÍODO E A VIDA DO CAMPO
1.5 O ESTADO JURÍDICO E O SEU IDEAL DE CIDADÃO
1.6 A AUTOFORMAÇÃO DO INDIVÍDUO NA POESIA JÔNICO-EÓLICA
1.7 SÓLON COMEÇO DA FORMAÇÃO POLÍTICA DE ATENAS
1.8 O PENSAMENTO FILOSÓFICO E A DESCOBERTA DO COSMOS
1.9 LUTA E TRANSFORMAÇÃO DA NOBREZA
1.10 A POLÍTICA CULTURAL DOS TIRANOS
LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO
2.1 O DRAMA DE ÉSQUILO
2.2 O HOMEM TRÁGICO DE SÓFOCLES
2.3 OS SOFISTAS
2.4 EURÍPIDES E O SEU TEMPO
2.5 A COMÉDIA DE ARISTÓFANES
2.6 TUCÍDIDES COMO PENSADOR POLÍTICO
LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO
3.1 PRÓLOGO
3.2 SÉCULO IV
3.3 SÓCRATES
3.4 A IMAGEM DE PLATÃO NA HISTÓRIA
3.5 DIÁLOGOS SOCRÁTICOS MENORES DE PLATÃO
3.6 O PROTÁGORAS
3.7 O GÓRGIAS
3.8 O MÊNON
3.9 O BANQUETE
3.10 A REPÚBLICA – I
3.11 A REPÚBLICA – II
3.12 A REPÚBLICA – III
LIVRO QUARTO: O CONFLITO DOS IDEAIS DE CULTURA NO SÉCULO IV
4.1 A MEDICINA COMO PAIDEIA
4.2 A RETÓRICA DE ISÓCRATES E O SEU IDEAL DE CULTURA
4.3 EDUCAÇÃO POLÍTICA E IDEAL PAN-HELÊNICO
4.4 A EDUCAÇÃO DO PRÍNCIPE
4.5 AUTORIDADE E LIBERDADE NA DEMOCRACIA RADICAL
4.6 ISÓCRATES DEFENDE A SUA PAIDEIA
4.7 XENOFONTE: O CAVALEIRO E O SOLDADO IDEAIS
4.8 O FEDRO DE PLATÃO: FILOSOFIA E RETÓRICA
4.9 PLATÃO E DIONÍSIO: A TRAGÉDIA DA PAIDEIA
4.10 AS LEIS
EPÍLOGO – TRANSIÇÃO
E.1 DEMÓSTENES: AGONIA E TRANSFORMAÇÃO DA CIDADE-ESTADO
I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
“Sem dúvida, a estabilidade não é indício de saúde, porque reina também nos estados de rigidez senil, nos momentos finais de uma cultura: assim sucede na China confucionista pré-revolucionária”
“Por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas, religiosas e políticas dos povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura só começa com os gregos.”
“este retorno à Grécia, esta espontânea renovação da sua influência, não significa que lhe tenhamos conferido, pela sua grandeza espiritual, uma autoridade imutável, fixa e independente do nosso destino. O fundamento do nosso regresso reside nas nossas próprias necessidades vitais, por mais variadas que elas sejam através da História.”
“O conhecimento do fenômeno original pressupõe uma estrutura espiritual análoga à dos gregos, atitude semelhante à que Goethe adota na consideração da natureza” “Precisamente num momento histórico em que (…) o complicado mecanismo da cultura se tornou hostil às virtudes heróicas do Homem, é preciso, por profunda necessidade histórica, voltar os olhos para as fontes de onde brota o impulso criador do nosso povo.”
“Quanto maior é o perigo de até o mais elevado bem se degradar no uso diário, com tanto mais vigor sobressai o profundo valor das forças conscientes do espírito que se destacaram na obscuridade do coração humano e estruturaram, no frescor matinal e com o gênio criador dos povos jovens, as mais altas formas de cultura.”
“Em contraste com a exaltação oriental dos homens-deuses, solitários, acima de toda a medida natural; (…) em contraste com a opressão das massas, sem a qual não seria concebível a exaltação dos soberanos (…) o início da história grega surge como princípio de uma valoração nova do Homem”Em busca do Santo Graal que não reluz como ouro – mas é-o –, o Re-Renascimento.
“Do ponto de vista oriental, é impossível compreender como os artistas gregos conseguiram representar o corpo humano, livre e descontraído, fundados, não na imitação de movimentos e atitudes individuais escolhidas ao acaso, mas sim na intuição das leis que governam a estrutura, o equilíbrio e o movimento do corpo. (…) Os gregos tiveram o senso inato do que significa <natureza>.” Kant acerta aqui (livro 3): não se captou um modelo, mas abstraiu-se como ele seria, em existindo. Uma essência traduzida no fenomênico das pinceladas e/ou cinzeladas.
“A mais alta obra de arte a que seu anelo se propôs foi a criação do Homem vivo. Os gregos viram pela 1ª vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente.” “A palavra alemã Bildung (formação, configuração) é a que designa do modo mais intuitivo a essência da educação no sentido grego e platônico.”
“entre os povos, o grego é o antropoplástico.”
“Acima do Homem como ser gregário ou como suposto eu autônomo, ergue-se o Homem como idéia.” Nada de ciência política clássica, nada de liberalismo.
“O humanismo e o classicismo de outros tempos ignoraram este fato, ao falarem da <humanidade>, da <cultura>, do <espírito> dos gregos ou dos antigos, como expressão de uma humanidade intemporal e absoluta. O povo grego transmitiu, sem dúvida, à posteridade, de forma imorredoura, um tesouro de conhecimentos imperecíveis. Mas seria um erro fatal ver na ânsia de forma dos gregos uma norma rígida e definitiva. A geometria euclidiana e a lógica aristotélica são, sem dúvida, fundamentos permanentes do espírito humano, válidos ainda em nossos dias, e dos quais não é possível prescindir. [quem sabe] Mas até essas formas universalmente válidas (…) são (…) inteiramente gregas e não excluem a coexistência de outras formas de intuição e de pensamento lógico e matemático.”
“Nesse tempo em que a história grega desembocou no Império Romano e deixou de constituir uma nação independente, o único e mais elevado ideal da sua vida foi a veneração das suas antigas tradições. Desse modo foram eles os criadores daquela teologia classicista do espírito que é característica do humanismo. A sua estética vita contemplativaé a forma originária do humanismo e da vida erudita dos tempos modernos.”
“Também o neo-humanismo alemão do tempo de Goethe considerou o grego como manifestação da verdadeira natureza humana num período da História definido e único, o que é uma atitude mais próxima do racionalismo da <Época das Luzes>” “Quando, atualmente, com o perigo inverso de um historicismo sem limite nem fim, nesta noite em que todos os gatos são pardos, voltamos aos valores permanentes da Antiguidade, não podemos considerá-los de novo como ídolos intemporais.”
“no melhor período da Grécia era tão inconcebível um espírito alheio ao Estado como um Estado alheio ao espírito.” “…desde a idade heróica de Homero até o Estado autoritário de Platão, dominado pelos filósofos, e no qual o indivíduo e a comunidade social travam a sua última batalha no terreno da filosofia.”
“A trindade grega do poeta, do Homem de Estado e do sábio encarna a mais alta direção da nação.”
“Assim se eleva a <literatura> grega clássica acima da esfera do puramente estético, onde a quiseram em vão encerrar, e exerce um influxo incomensurável através dos séculos.”
“Não é possível compreender o ideal agônico, revelado nos cantos pindáricos aos vencedores, sem conhecer as estátuas que nos mostram os vencedores olímpicos na sua encarnação corporal, ou as dos deuses, como encarnação das idéias gregas sobre a dignidade da alma e do corpo humano.”
“Sem dúvida, os verdadeiros representantes da paideia grega não são os artistas mudos – escultores, pintores, arquitetos –, mas os poetas e músicos, os filósofos, os retóricos e os oradores, quer dizer, os homens de Estado. No pensamento grego, o legislador encontra-se, em certo aspecto, muito mais próximo do poeta que o artista plástico (…) os gregos nunca falam da ação educadora da contemplação e da intuição das obras de arte, no sentido de Winckelmann.”
“a história da educação grega coincide substancialmente com a da literatura.”
“Será colocado de forma nova um problema velho: o fato de o processo educativo ter sido vinculado desde sempre ao estudo da Antiguidade.” “O nascimento da moderna história da Antiguidade, considerada como disciplina científica, trouxe consigo uma mudança fundamental da nossa atitude para com ela.” “Mas, ao lado desta história enciclopédica e objetiva da Antiguidade, menos livre de valorações do que imaginam os seus mais eminentes promotores, permanece o perene influxo da <cultura clássica>”
“Pois bem: quando a nossa cultura toda, abalada por uma experiência histórica monstruosa,¹ se vê forçada a um novo exame dos seus próprios fundamentos, propõe-se outra vez à investigação da Antiguidade o problema, último e decisivo para o nosso próprio destino, da forma e do valor da educação clássica.”
¹ Monstro: parte da nossa essência de que não lembrávamos mais.
#TítulodeLivro
O MONSTRO & O FILÓSOFO
Usar a História para compreender a Metafísica. Nunca ao contrário.
LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA
1.1 Nobreza e arete
“educação e formação tem raízes diversas (…) Já Platão comparou a formação ao adestramento de cães de raça. (…) O kalos kagathos grego dos tempos clássicos revela esta origem tão claramente como o gentleman inglês.”
“Mesmo onde a diferença de formação conduz à constituição de castas rígidas, o princípio da herança que nelas domina é corrigido e compensado pela ascensão de novas forças procedentes do povo. (…) Uma vez que a mais antiga tradição escrita nos mostra uma cultura aristocrática que se eleva acima do povo, importa que a investigação histórica a tenha como ponto de partida. Toda a formação posterior, por mais elevada que seja, e ainda que mude de conteúdo, conserva bem clara a marca da sua origem. A formação não é outra coisa senão a forma aristocrática, cada vez mais espiritualizada, de uma nação.”
“não se pode utilizar a história da palavrapaideia como fio condutor para estudar a origem da formação grega, porque esta palavra só aparece no séc. V. O mais antigo traço é Ésquilo, Sete contra Tebas, 18. (…) no início do séc. V a palavra tinha o simples significado de <criação dos meninos>, em nada semelhante ao sentido elevado que adquiriu mais tarde (…) O tema essencial da história da formação grega é antes o conceito de arete, que remonta aos tempos mais antigos. Não temos na língua portuguesa um equivalente para este termo; mas a palavra <virtude>, na sua acepção não-atenuada pelo uso puramente moral,¹ e como expressão do mais alto ideal cavaleiresco unido a uma conduta cortês e distinta e ao heroísmo guerreiro, talvez pudesse exprimir o sentido da palavra grega.” Discordo: hoje é impossível transmitir essa equivalência através desta palavra. Mas a discordância se dirige só ao tradutor, evidentemente. O mais próximo seria “nobreza de caráter”.
¹ A besta-loira é um animal deficiente.
“O testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica é Homero”
“Tanto em Homero quanto nos séculos posteriores, o conceito de arete é freqüentemente usado no seu sentido mais amplo, isto é, não só para designar a excelência humana, como também a superioridade de seres não-humanos: a força dos deuses ou a coragem e rapidez dos cavalos de raça.(*)
(*) Para a arete do cavalo: [vide além (capítulo sobre Xenofonte] e também em Platão, Rep., 335 B, onde se fala da arete dos cães e dos cavalos. Em 353 B, fala-se da arete dos olhos; arete dos deuses: I, 498.”
“Vigor e saúde são a arete do corpo; sagacidade e penetração, a arete do espírito. (…) É verdade que arete tem com freqüência o sentido de aceitação social, significando então <respeito>, <prestígio>. Mas isto é secundário, e deve-se à grande influência social de todas as valorações do homem nos primeiros tempos. (…) uma força que (…) constituía a perfeição [do indivíduo].”
“Só uma vez, nos livros finais, Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em geral (…) heroísmo, considerado não no nosso sentido de ação mortal e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.” Os hindus que se jogam debaixo das rodas das charretes nas cerimônias religiosas não teriam, portanto, arete.
“morreu como um herói esforçado”: contraponto do patético “morreu como uma pomba” da lavra cristã.
“O nome de aristoi convém a um grupo numeroso; mas, no seio deste grupo, que se ergue acima da massa, há luta pelo prêmio da arete. (…) A palavra aristeia, empregada mais tarde para os combates singulares dos grandes heróis épicos, corresponde plenamente àquela concepção.”
“De certo modo pode-se dizer que a arete heróica só se aperfeiçoa com a morte física do herói. Ela reside no homem mortal, ou melhor, ela é o próprio homem mortal; mas perpetua-se, mesmo depois da morte, na sua fama, i.e., na imagem da sua arete, tal como o acompanhou e dirigiu na vida. (…) Os deuses de Homero são, por assim dizer, uma sociedade imortal de nobres (…) Ser piedoso quer dizer <honrar a divindade>.”
“O amor da pátria, que hoje resolveria a dificuldade, era alheio aos antigos nobres. Agamemnon só consegue apelar para o seu poder soberano através de um ato despótico, pois tal poder nem sequer é admitido pelo sentimento aristocrático, que o reconhece apenas como primus inter pares. No sentimento de Aquiles perante a negação da honra que por suas façanhas lhe é devida, imiscui-se também esta sensação da opressão despótica. (…) As armas de Aquiles, caído em combate, são concedidas a Ulisses, não obstante os superiores merecimentos de Ájax; e a tragédia deste acaba na loucura e no suicídio.”
“A filosofia sublima e universaliza os conceitos que capta na sua limitação originária, mas com isso se confirma e se define a sua verdade permanente e indestrutível idealidade.”
“Aspirar à <beleza> (que para os gregos significa ao mesmo tempo nobreza e eleição) e fazê-la sua é não perder nenhuma ocasião de conquistar o prêmio da mais alta arete.”
“Quem estima a si próprio deve ser infatigável na defesa dos amigos, sacrificar-se pela pátria, abandonar prontamente dinheiro, bens e honrarias para <fazer sua a beleza>. Esta frase curiosa repete-se com insistência, o que mostra até que ponto a mais sublime entrega a um ideal é para Aristóteles prova de um elevado amor-próprio. Quem está impregnado de auto-estima deseja antes viver um breve período no mais alto gozo a passar uma longa existência em indolente repouso; prefere viver só um ano por um fim nobre, a uma vasta vida por nada; escolhe antes executar uma única ação grande e magnífica a fazer uma série de pequenas insignificâncias.
Nestas palavras revela-se o que há de mais peculiar e original no sentimento de vida dos gregos, aquilo por que nos sentimos essencialmente unidos a eles: o heroísmo.”
“Entre os dois grandes filósofos e os poemas de Homero, estende-se a cadeia ininterrupta de testemunhos da persistência da idéia de arete, própria dos primeiros tempos da Grécia.”
1.2 Cultura e educação da nobreza homérica
“Atualmente não é possível considerar a Ilíada e a Odisséia – fontes da primitiva história da Grécia – como uma unidade, quer dizer, como obra de um só poeta, embora na prática continuemos a falar de Homero como a princípio fizeram os antigos, agrupando sob este nome diversos poemas épicos. O fato de a Grécia clássica, desprovida de senso histórico, ter separado daquela massa os dois poemas, considerando-os superiores de um ponto de vista puramente artístico e declarando os outros indignos de Homero, não afeta o nosso juízo científico nem pode ser considerado como tradição no sentido próprio da palavra. Do ponto de vista histórico, a Ilíada é um poema muito mais antigo. A Odisséia reflete um estágio muito posterior da história da cultura. Com esta verificação, ganha a maior importância o problema da determinação do século a que uma e outra pertencem. A fonte principal para chegar à solução deste problema são os próprios poemas. Apesar de toda a perspicácia consagrada a este assunto, reina quanto a ele a maior insegurança. As escavações dos últimos 50 anos enriqueceram, sem dúvida de modo fundamental, o nosso conhecimento da Antiguidade grega, e sobretudo ofereceram-nos soluções precisas no que se refere à questão do núcleo histórico da tradição heróica; mas nem por isso avançamos um passo na determinação da época exata dos nossos poemas, que vários séculos separam do nascimento das sagas.” Curioso que Adorno não seja citado nem uma única vez. Apenas eu mesmo o citei numa observação, neste post.
“É principalmente a Wilamowitz que devemos o fato de ter relacionado as primeiras análises realizadas segundo um critério exclusivamente lógico e artístico com os nossos conhecimentos históricos sobre a cultura grega primitiva.” Veja adiante indicações de leitura do autor Wilam.
“A propensão expressa a renunciar por completo à análise de Homero manifesta-se em trabalhos recentes como o de F. DORNSEIFF, Archaische Mythenerzählung (Berlim, 1933) e F. JACOBY, ‘Die geistige Physiognomie der Odissee’, Die Antike, vol. 9, 159.”
“será impossível considerar a Odisséia como uma imagem da vida da nobreza primitiva, se as suas partes mais importantes procederem da segunda metade do séc. VI, como atualmente crêem cientistas qualificados. E. SCHWARTZ, Die Odyssee (Munique, 1924), p. 294 e WILAMOWITZ, Die Heimkehr des Odysseus (Berlim, 1927), especialmente pp. 171-ss.: <Quem em questões de linguagem, religião ou costumes mistura a Ilíada e a Odisséia, quem, com Aristarco, as separa do resto como [GREGO], não pode pretender ser levado em conta.>” Curioso!
“julgo ter demonstrado que o I canto da Odisséia – aceito pela crítica, depois de Kirchoff, como uma das últimas elaborações da epopéia – já era considerado obra de Homero por Sólon, e mesmo, pelo que tudo indica, antes do seu arcontado (594), i.e., no séc. VII, pelo menos.” “Parece-me fora de dúvida que a Odisséia, quanto ao essencial, já devia existir no tempo de Hesíodo.”
HIPERTROFIA DA HISTORIOGRAFIA:“O desejo compreensível dos investigadores de quererem saber mais do que aquilo que realmente podemos saber acarretou freqüentemente o descrédito injustificado da investigação como tal.”
“Os heróis da Ilíada, que se revelam no seu gosto pela guerra e na sua aspiração à honra como autênticos representantes da sua classe, são, todavia, quanto ao resto da sua conduta, acima de tudo grandes senhores, com todas as suas excelências, mas também com todas as suas imprescindíveis debilidades. É impossível imaginá-los vivendo em paz: pertencem ao campo de batalha.”
“Quando a Odisséia pinta a existência do herói depois da guerra, as suas viagens aventurosas e a sua vida caseira com a família e os amigos, inspira-se na vida real dos nobres do seu tempo e projeta-a com ingênua vivacidade numa época mais primitiva. [Todo o argumento da Dialética do Esclarecimento] Ela é, deste modo, a nossa fonte principal para conhecermos a situação da antiga cultura aristocrática. Pertence aos jônios, em cuja terra nasceu (…) Vê-se claramente que as suas descrições não pertencem à tradição dos velhos cantos heróicos, mas assentam na observação direta e realista das coisas contemporâneas.”
“Se a periferia da imagem do mundo da Odisséia nos arrasta para a fantasia aventureira dos poetas, para as sagas heróicas e mesmo para o mundo do fabuloso e do maravilhoso, é com tanto maior força que a sua descrição das relações familiares nos aproxima da realidade.” “Só um ou outro traço realista e político, como a cena de Tersites, revela o tempo relativamente tardio do nascimento da Ilíada na sua forma atual. Nessa cena, Tersites, o <atrevido>, adita na presença dos nobres mais proeminentes um tom desdenhoso. Tersites é a única caricatura realmente maliciosa de toda a obra de Homero.”Conferir o excelente Tersites shakespeariano:https://seclusao.art.blog/2018/12/16/troilus-and-cressida/.
“Os rapsodos não pertenciam, provavelmente, à classe nobre. Na lírica, na elegia e no iambo, pelo contrário, encontramos com freqüência poetas aristocráticos.” Wilamowitz
“A vergonhosa conduta dos pretendentes [de Penélope] é constantemente estigmatizada como uma ignomínia para eles e para a sua classe. Ninguém pode contemplá-la sem indignação e é, depois, severamente expiada.”
“A figura do aventureiro astuto e rico de recursos é criação do tempo das viagens marítimas dos jônios. A necessidade de glorificar o seu herói liga-se ao ciclo dos poemas troianos, e principalmente aos que se referem à destruição de Ílion.”
“A arete própria da mulher é a formosura. (…) A mulher, todavia, não surge apenas como objeto da solicitação erótica do homem, como Helena ou Penélope, mas também na sua firme posição social e jurídica de dona de casa.” “Na Odisséia, Helena, de volta a Esparta com o primeiro marido, aparece como o protótipo da grande dama, modelo de distinta elegância e de soberana forma e representação social.”
“A posição social da mulher nunca mais voltou a ser tão elevada [da perspectiva grega] como no período da cavalaria homérica. Arete, a esposa do príncipe Feace, é venerada pelo povo como uma divindade.”
“Quando Agamemnon decide levar para a terra Criseida, capturada como despojo de guerra, e declara perante a assembléia que a prefere a Clitemnestra, pois não a acha inferior a ela nem pela presença ou pela estatura, nem pela prudência ou linhagem, é possível que isso seja fruto do caráter particular de Agamemnon – e já os antigos comentadores observaram que toda a arete da mulher está aqui descrita num só verso – mas a maneira imperiosa como o homem procede, acima de toda a consideração, não é coisa isolada no decurso da Ilíada. Amíntor, pai de Fênix, desentende-se com o filho por causa da amante, pela qual abandona a esposa; e o filho, incitado pela própria mãe, faz a côrte àquela, roubando-a do pai.¹ E não se trata de costumes de guerreiros embrutecidos. Acontece em tempo de paz.”
¹ Para tristeza de Platão em Leis XI!
“É na mais alta, íntima e pessoal relação do herói com a sua deusa Palas Atena, a qual o guia nas suas andanças e jamais o abandona, que o poder espiritual da mulher como inspiradora e guia acha a sua expressão mais bela.” E curiosamente não é uma mulher de carne!
“O mestre dos heróis por excelência era, naquele tempo, o prudente centauro Quíron, que vivia nos desfiladeiros selvosos, de abundantes nascentes, das montanhas de Pélion, na Tessália. Diz a tradição que uma longa série de heróis foi sua discípula e que Peleu, abandonado por Tétis, confiou-lhe a guarda de seu filho Aquiles.” “Embora o poeta do canto nono ponha Fênix em lugar de Quíron, Pátroclo é convidado a aplicar num guerreiro ferido um remédio que aprendeu de Aquiles, o qual por sua vez o aprendera outrora de Quíron” “O poeta da <Embaixada a Aquiles> não pôde utilizar o tosco centauro como medianeiro, ao lado de Ájax e Ulisses, pois só um herói cavaleiresco podia surgir como educador de outro herói. (…) Para substituto de Quíron foi escolhido Fênix, que era vassalo de Peleu e príncipe dos dólopes.”
“A Fênix era permitido exprimir verdades que Ulisses não poderia dizer. Na boca daquele, este intento supremo de vergar a inquebrantável vontade do herói e chamá-lo à razão adquire o seu mais grave e íntimo vigor: deixa antever, no caso do seu fracasso, o trágico desenlace da ação como conseqüência da inflexível negativa de Aquiles.”“Todo leitor sente e compartilha intimamente, em toda a sua gravidade, a decisão definitiva do herói, da qual depende o destino dos gregos e do seu melhor amigo Pátroclo e, por fim, o seu próprio destino.” “Peleu entrega o seu filho Aquiles, sem qualquer experiência na arte da palavra e na conduta guerreira, ao seu leal vassalo (…) Fênix ficou junto dele e considerou-o como filho quando lhe foram recusados os próprios filhos pela trágica maldição de seu pai Amíntor.”
“Contra a poderosa força irracional do desvario, da deusa Ate, são impotentes toda a arte da educação humana e todo o conselho razoável.”
“o íntimo conflito entre as paixões cegas e a mais perfeita intuição, tido como o autêntico problema de toda a educação no mais profundo sentido da palavra. Isto não tem nenhuma relação com o moderno conceito de decisão livre nem com a correspondente idéia de culpa. A concepção antiga é muito mais ampla e, por isso mesmo, mais trágica.”
“A figura antitética do rebelde peleida é Telêmaco, cuja educação o poeta nos descreve no primeiro livro da Odisséia. Enquanto Aquiles lança ao vento as doutrinas de Fênix e se precipita para a perdição, Telêmaco presta atenção às advertências da deusa, disfarçada sob a figura do amigo e hóspede de seu pai, Mentes. (…) o costume dos jovens da alta nobreza de serem acompanhados nas suas viagens por um aio ou mordomo.”
“A bonita relação de Telêmaco com Mentor, cujo nome serviu desde o Telêmaco deFénelon para designar o velho amigo protetor, guia e mestre, fundamenta-se no desenvolvimento do tema pedagógico”
“A análise crítica do aparecimento da Odisséia levanta um problema decisivo. A Telemaquia foi um poema originariamente independente ou esteve desde o início incluído na epopéia tal como o encontramos hoje?”
“O conjunto da Odisséia constitui uma linda criação composta de duas partes separadas: Ulisses, ausente e retido na ilha da ninfa apaixonada, rodeado de mar, e o seu filho inativo, à espera dele no lar abandonado.”
“Este jovem passivo, amável, sensível, dolorido e sem esperança teria sido um aliado inútil para a luta rude e decisiva da vingança de Ulisses, que no seu regresso ao lar seria forçado a enfrentar os pretendentes sem nenhuma ajuda. Mas Atena converte-o no companheiro de luta, valente, ousado e decidido.
Objetou-se, contra a afirmação de uma formação pedagógica consciente da figura de Telêmaco, nos quatro primeiros cantos da Odisséia, que a poesia grega não nos dá nenhum quadro do desenvolvimento interno de um caráter. A Odisséia não é, efetivamente, uma novela pedagógica moderna, e por isso a transformação de Telêmaco não pode ser apontada como desenvolvimento, no sentido atual. Naquele tempo só podia ser explicada como obra da inspiração divina. Mas essa inspiração não surge, como é freqüente na epopéia, de modo puramente mecânico, por ordem de um Deus ou simplesmente em sonhos.”
“os dois grandes aristocratas, Píndaro e Platão.”
“Não falta nenhum traço essencial nesta Telemachou paideia: nem os conselhos de um velho amigo experiente; nem o influxo delicado e sensível da mãe temerosa e cheia de cuidados pelo seu filho único (e não será conveniente consultá-la no momento decisivo, porque seria muito mais capaz de, com os seus temores, refrear o filho, por longo tempo mimado, do que compreender-lhe a súbita elevação)” Uma ficção em que Platão tivesse conseguido, senão erigir a República, pelo menos falsificar Homero, de forma que a Odisséia a que temos acesso seja da sua pena, e não mais antiga!
“É com a mais calorosa simpatia que o poeta pinta a confusão íntima de Telêmaco quando este, educado na simplicidade da nobreza rural, é recebido numa pequena ilha como hóspede de grandes senhores e entra pela primeira vez no grande mundo para ele desconhecido.”
“Agamemnon foi morto logo após o regresso de Tróia; Ulisses esteve 20 anos afastado do lar. Este espaço de tempo bastou ao poeta para poder situar o ato e a estada de Orestes na Fócida, antes do começo da ação da Odisséia. [Tudo mui bem pensado. Poderia de fato ser um o autor? Ainda mais sempre o pai de todos?] O acontecimento era recente, mas a fama de Orestes estendera-se já a toda a Terra, e Atena refere-o a Telêmaco em palavras inflamadas.”
1.3 Homero como educador
“foi o cristianismo [neste caso, Platão como seu mentor!] que, por fim, converteu a avaliação puramente estética da poesia em atitude espiritual predominante. É que isso lhe possibilitava rejeitar, como errôneo e ímpio, a maior parte do conteúdo ético e religioso dos antigos poetas e, ao mesmo tempo, aceitar a forma clássica como instrumento de educação e fonte de prazer.” “Repugna-nos naturalmente ver a tardia poética filosófica do helenismo interpretar a educação em Homero como uma árida e racionalista fabula docet ou, de acordo com o modelo dos sofistas, fazer da epopéia uma enciclopédia de todas as artes e ciências. Mas esta quimera da escolástica não é senão a degenerescência de um pensamento em si mesmo correto, o qual, como tudo quanto é belo e verdadeiro, se torna grosseiro em mãos grosseiras.”
“A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os gregos chamaram psicagogia.”
“Na epopéia manifesta-se a peculiaridade da educação helênica como em nenhum outro poema. Nenhum outro povo criou por si mesmo formas de espírito comparáveis àquelas da literatura grega posterior. Dela nos vêm a tragédia, a comédia, o tratado filosófico, o diálogo, o tratado científico sistemático, a história crítica, a biografia, a oratória jurídica e panegírica, a descrição de viagens e as memórias, as coleções de cartas, as confissões e os ensaios.”
“E, como sucedeu entre os gregos, também entre os indianos, germanos, romanos, finlandeses e alguns povos nômades da Ásia Central nasceu dos cantos heróicos uma epopéia.”
“Os poeirentos manuscritos da épica medieval da Canção de Rolando, do Beowulf e dos Nibelungos, dormitavam nas bibliotecas e foi preciso que uma erudição prévia os redescobrisse e trouxesse à luz. A Divina Comédia de Dante é o único poema da Idade Média que desempenhou papel análogo ao de Homero, não só na vida da sua própria nação, mas até de toda a humanidade.”
“Hölderlin disse: O que permanece é obra dos poetas. Este verso exprime a lei fundamental da história da educação helênica.”
“Na nossa grande epopéia, precedida de longa evolução dos cantos heróicos, estes epítetos, com o uso, perderam a vitalidade, mas são impostos pela convenção do estilo épico. Os epítetos isolados já não são empregados sempre com um significado individual e característico. São em grande medida ornamentais.”
“Tudo quanto é baixo, desprezível e falho de nobreza é suprimido do mundo épico.”
“Homero tudo engrandeceu: animais e plantas, a água e a terra, as armas e os cavalos. Podemos afirmar que não deixou nada sem elogio e sem louvor. Mesmo Tersites, o único que ele difamou, denomina-o orador de voz clara.” Dión de Prusa
“a poesia mélica nasce de canções populares; o iambo, dos cantos das festas dionisíacas; os hinos e o prosodion, dos serviços divinos; os epitalâmios, das cerimônias populares das bodas; as comédias, dos komos; as tragédias, dos ditirambos. Podemos dividir assim as formas originais a partir das quais se desenvolvem os gêneros poéticos posteriores”
“A didática e a elegia seguem os passos da épica e aproximam-se dela pela forma. Dela recebem o espírito educador que passa mais tarde a outros gêneros, como os iambos e os cantos corais. A tragédia, tanto pelo seu material mítico como pelo seu espírito, é a herdeira integral da epopéia. É unicamente à sua ligação com a epopéia e não à sua origem dionisíaca que ela deve o seu espírito ético e educador.”
“As descrições de batalhas campais só conseguem despertar o nosso interesse nas cenas dominadas por grandes heróis individuais.”
“Em vez de uma história da guerra troiana ou da vida inteira de Aquiles, apresenta apenas, com prodigiosa segurança, as grandes crises, alguns momentos de significação representativa e da mais alta fecundidade poética, o que permite concentrar e evocar, em breve espaço de tempo, dez anos de guerra com todos os seus combates e vicissitudes, passadas, presentes e futuras.”
“A Ilíada começa no instante em que Aquiles, colérico, retira-se da luta, o que põe os gregos no maior apuro.”
“do mesmo modo o final não se compara ao êxito triunfante de uma aristeia comum. Aquiles não fica satisfeito com a sua vitória sobre Heitor. Toda a história finda com a tristeza inconsolável do herói, com aquelas espantosas lamentações de morte de gregos e troianos perante Pátroclo e Heitor, e com a sombria certeza que o vencedor tem a respeito do seu próprio destino.
Quem pretende suprimir o último Canto ou continuar a ação até a morte de Aquiles, e quiser fazer da Ilíada uma aquileida ou pensar que ela era originariamente assim, estará encarando o problema de um ponto de vista histórico e de conteúdo, não do ponto de vista artístico da forma. (…) É o triunfo do herói, não a sua ruína, que pertence à autêntica aristeia. A tragédia contida na resolução de Aquiles de vingar em Heitor a morte de Pátroclo, apesar de saber que após a queda de Heitor o espera a ele, por sua vez, uma morte certa, não encontrará a sua plenitude até a consumação da catástrofe.”
“À cegueira de Agamemnon, junta-se, no Canto IX, a de Aquiles, de conseqüências bem mais graves, porque <não sabe ceder> e, cego pela cólera, ultrapassa todas as medidas humanas. Quando já é tarde demais é que fala cheio de arrependimento. Maldiz então o rancor que o levou a ser infiel ao seu destino heróico, a permanecer ocioso e a sacrificar o seu amigo mais querido. Agamemnon, depois da sua reconciliação com Aquiles, lamenta igualmente a sua própria cegueira numa ampla alegoria sobre os efeitos mortais de ate. Homero concebe a ate, tal como a moira, de modo estritamente religioso, como força divina a que o homem mal pode resistir.”
“A frase de Heráclito situa-se no final do caminho percorrido pelos gregos no conhecimento do destino humano. O poeta que criou a figura de Aquiles está no início desse caminho.”
“A ação não se desentranha como uma desconexa sucessão temporal. Impera sempre nela o princípio da razão suficiente.” “Homero, no entanto, não é autor moderno que considera tudo simplesmente no seu desenvolvimento interno, como experiência ou fenômeno de uma consciência humana. No mundo em que vive, nada de grande acontece sem a cooperação de uma força divina, e a mesma coisa acontece na epopéia.”
“Os deuses estão sempre interessados no jogo das ações humanas. Tomam partido por este ou por aquele, conforme desejam repartir os seus favores ou tirar vantagem. (…) Também na Ilíada os deuses se dividem em dois campos. Isto é crença antiga. Mas são novas algumas facetas da sua elaboração, como o esforço do poeta para manter, tanto quanto possível, na dissensão que a guerra de Tróia provoca no Olimpo, a lealdade mútua dos deuses, a unidade do seu poder e a estabilidade do seu reino divino. A causa última de todos os acontecimentos é a decisão de Zeus. (…) A consideração psicológica e a metafísica de um mesmo acontecimento não se excluem de modo nenhum.” “A epopéia conserva, assim, uma duplicidade característica. Qualquer ação deve ser encarada ao mesmo tempo sob o ponto de vista humano e sob o ponto de vista divino.”
“Basta pensar na epopéia cristã medieval escrita em língua românica ou germânica, onde nenhuma força divina interfere e todos os acontecimentos decorrem sob o prisma do acontecer subjetivo e da atividade puramente humana, para nos darmos conta da diferença da concepção poética da realidade própria de Homero.”
“Quando dois povos lutam entre si e imploram com preces e sacrifícios o auxílio dos seus deuses, põem os deuses em situação delicada, sobretudo dentro de um pensamento que acredita na onipotência e na justiça imparcial do poder divino.” “Em contraste, (…) vê-se na Ilíada um sentimento religioso cuja representação da divindade, e principalmente do soberano supremo do mundo, serve de alimento às idéias mais sublimes da arte e da filosofia posteriores. Só na Odisséia, porém, descobrimos uma concepção mais coerente e sistemática do governo dos deuses.
Recebe da Ilíada a idéia de um concílio dos deuses, no início dos Cantos I e V; mas cai na vista a diferença entre as cenas tumultuosas do Olimpo da Ilíada e os maravilhosos concílios de personalidades sobre-humanas da Odisséia. Na Ilíada os deuses chegam quase a passar a vias de fato.” “os deuses empregam na sua luta meios humanos – humanos demais” “O Zeus que preside ao concílio dos deuses no começo da Odisséia representa uma elevada consciência filosófica do mundo.” “É através desse prisma ético e religioso que o poeta encara os sofrimentos de Ulisses e a hybris [hubris] dos pretendentes, expiada com a morte.”
“Cada personagem conserva firmemente a sua atitude e o seu caráter. Esta rígida construção ética pertence, provavelmente, aos últimos estágios da elaboração poética da Odisséia.”
1.4 Hesíodo e a vida do campo
“A vida despreocupada da classe senhorial, em Homero, não deve induzir-nos em erro: a Grécia exige dos seus habitantes uma vida de trabalho.”
“O seu solo é formado de múltiplos vales estreitos e paisagens cortadas por montanhas. Quase não tem as vastas planícies, fáceis de cultivar, do norte da Europa, o que obriga a uma luta incessante com o solo para arrancar dele o que só assim ele consegue dar. A agricultura e o pastoreio foram sempre as ocupações mais importantes e mais características dos gregos. Só no litoral prevaleceu, mais tarde, a navegação. Nos tempos mais remotos predominou em absoluto a atividade agrícola.”
“Hesíodo conta no conhecido proêmio da Teogonia como despertou para a vocação de poeta: era um simples pastor e guardava os seus rebanhos no sopé do Hélicon, quando um dia recebeu a inspiração das musas, que lhe puseram nas mãos o bastão do rapsodo.”
“Embora não se possa, num povo tão multiforme como o grego, generalizar a partir da situação da Beócia, as condições desta são, em grande medida, típicas. (…) Não existe a escravatura e nada indica, mesmo remotamente, que aqueles camponeses e pastores que viviam do trabalho das suas mãos descendessem de uma raça subjugada na época das grandes migrações, como acontecia na Lacônia.”
“para Hesíodo o mundo heróico pertence a outra época, diferente e melhor do que a atual, <a idade do ferro> que descreve com cores tão sombrias nos Erga. Não há nada de tão característico no sentimento pessimista do povo trabalhador como a história das cinco idades do mundo, que começa com os tempos dourados, sob o domínio de Cronos, e leva, pouco a pouco, em linha descendente, à subversão do direito, da moral e da felicidade humana nos duros tempos atuais.”
“<Camponês> ainda não quer dizer <inculto>. As próprias cidades dos tempos antigos, principalmente na metrópole grega, são acima de tudo cidades rurais e continuam a sê-lo mais tarde”
“O seu poema dirige-se primordialmente aos homens da sua condição e parte do princípio de que os seus ouvintes entendem a linguagem artística de Homero, que é a que ele próprio emprega.”
“Na grande massa das sagas da Teogonia encontramos muitos temas antiquíssimos, já conhecidos de Homero, mas também muitos outros que nele não aparecem. (…) Os preferidos são os mitos que exprimem a concepção da vida realista e pessimista daquela classe ou as causas das misérias e necessidades da vida social que os oprimem: o mito de Prometeu, no qual Hesíodo encontra a solução para o problema do cansaço e dos sofrimentos da vida humana; (…) o mito de Pandora, que é alheio ao pensamento cavaleiresco e exprime a concepção triste e prosaica da mulher como fonte de todos os males. (…) O modo como, p.ex., conta as histórias de Prometeu e Pandora pressupõe nitidamente que já eram conhecidas dos seus ouvintes. (…) todas as classes sociais possuem o seu próprio tesouro de mitos.”
“A grande novidade desta obra está em o poeta falar na primeira pessoa. (…) É o enlace imediato do poema com a disputa jurídica sustentada contra o seu irmão Perses que justifica esta ousada inovação.”
“Zeus, que humilha os poderosos e exalta os humildes” Já ouvi isso nalgum lugar!
“Só o ricaço, que tem os celeiros cheios e não está apertado pelo cuidado da própria subsistência, pode entregar-se à inútil mania das disputas. Ele pode fazer maquinações contra a fazenda e os bens dos outros, e desperdiçar o tempo no mercado.”
“Insensatos, não sabem quão verdadeira é a máxima que diz que a metade é maior que o todo e qual é a bênção contida na erva mais humilde que a terra faz crescer para o homem, a malva [flor púrpura] e o asfódelo.” Erga, 40
“A tendência causal nascente encontrou satisfação na construção sagaz de uma genealogia completa dos deuses. (…) o Caos, que também encontramos nos mitos nórdicos, é evidentemente uma idéia originária das raças indo-germânicas. (…) O pensamento da Teogonia não se contenta em pôr em interação os deuses reconhecidos e venerados nos cultos nem se atém aos conceitos tradicionais da religião em vigor.”
“logo no relato introdutório sobre a Éris boa e a má vê-se que a Teogonia e os Erga, apesar da diferença dos assuntos, não estavam separadas na mente do poeta e o pensamento do teólogo penetra o do moralista, assim como o deste se manifesta claramente na Teogonia.”
“O trabalho e os sofrimentos devem ter aparecido em algum momento no mundo. Não podem ter feito parte, desde a origem, da ordem divina e perfeita das coisas. Hesíodo assinala-lhes como causa a sinistra ação de Prometeu, o roubo do fogo divino, que encara do ponto de vista moral. Como castigo, Zeus criou a primeira mulher, a astuta Pandora, mãe de todo o gênero humano. Da caixa de Pandora saíram os demônios da doença, da velhice, e outros males mil que hoje povoam a Terra e o mar.”
Não merecemos mais o mito.
“Este uso normativo do mito revela-se com maior nitidez porque Hesíodo, nos Erga, coloca a narração das 5 idades do mundo logo em seguida à história de Prometeu, mediante uma fórmula de transição que talvez não tenha estilo, mas é sumamente característica para o que nos interessa. Se quiseres, contar-te-ei com arte uma segunda história até o fim. Acolhe-a, porém, no teu coração. (Erga, 106).”
“Hesíodo não viu que, na realidade, os dois mitos se excluem (…) Enumera como causas da desventura cada vez maior dos homens o aumenta da irreflexão, o desaparecimento do temor dos deuses, a guerra e a violência. Na quinta idade, a do ferro, em que o poeta lamenta ser forçado a viver, domina só o direito do mais forte. Nela só prosperam os malfeitores.” Shishio/Meruem
Somos todos Prometeus. Somos promessas prestes a não vingar.
“Homero e Píndaro chamam ainos também aos exemplos míticos. Só mais tarde o conceito se circunscreve às fábulas de animais. Possui o sentido já conhecido de advertência ou conselho. Assim, não é apenas a fábula do falcão e do rouxinol que é ainos. Ela é só um exemplo que Hesíodo dá aos juízes.”
“A identificação da vontade divina de Zeus com a idéia do direito e a criação de uma nova personagem divina, Dike, tão intimamente ligada a Zeus, o deus supremo, são a imediata conseqüência da força religiosa e da seriedade moral com que a classe camponesa nascente e os habitantes da cidade sentiram a exigência da proteção do direito.”
“Deixa-me aconselhar-te com verdadeiro conhecimento, Perses, minha criança grande. (…) Os deuses imortais puseram o suor antes do êxito. A senda que a ele conduz é íngreme e comprida, e de início penosa.”
“O trabalho é celebrado como o único caminho, ainda que difícil, para alcançar a arete. (…) Não se trata da arete guerreira da antiga nobreza, nem da arete da classe proprietária, baseada na riqueza, mas sim da arete do homem trabalhador, que tem a sua expressão numa posse de bens moderada.” “Hesíodo quer com plena consciência colocar ao lado do adestramento dos nobres, tal como se espelha na epopéia homérica, uma educação popular, uma doutrina da arete do homem simples.”
“Perses, e quem quer que ouça as doutrinas do poeta, deve estar disposto a deixar-se guiar por ele, caso não seja capaz de conhecer intimamente o que lhe é proveitoso e o que lhe é prejudicial. (…) Estes versos constituíram, na ética filosófica posterior, o fundamento primeiro de toda a doutrina moral e pedagógica. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles aceita-os integralmente nas suas considerações preliminares sobre o princípio adequado do ensino moral. (…) Perses não tem uma concepção justa. Mas o poeta tem de admitir que ela pode ser ensinada, na medida em que procura transmitir-lhe a sua própria convicção e influenciá-lo.”
“Quem vive na pobreza é aborrecido pelos deuses e pelos homens; é comparável ao zangão, que devora o penoso trabalho das abelhas. Procura um prazer justo, dando-te ao trabalho numa medida equilibrada. (…) O trabalho é a única coisa justa na tua condição”
“Esta corrente imemorial que brota da terra, inconsciente ainda de si própria, é a parte mais comovedora de Hesíodo e a causa principal da sua fôrça.”
“Hesíodo é o primeiro poeta grego que fala do seu ambiente em seu próprio nome. Deste modo ergue-se acima da esfera épica, que apregoa a fama e interpreta as sagas, até a realidade e as lutas atuais. (…) Surge aqui pela primeira vez uma pretensão a guia, que não se fundamenta numa ascendência aristocrática nem numa função oficial reconhecida. Ressalta imediatamente a semelhança com os profetas de Israel, já salientada de tempos antigos. No entanto, é com Hesíodo, o primeiro dos poetas gregos a apresentar-se com a pretensão de falar publicamente à comunidade, baseado na superioridade do seu conhecimento, que o helenismo se anuncia como uma época nova na história da sociedade.”
“É característica pessoal do poeta-profeta grego querer guiar o Homem transviado para o caminho correto, por meio do conhecimento mais profundo das conexões do mundo e da vida.”
1.4 Educação estatal de Esparta
“Renunciaríamos de antemão a compreender a história dos gregos se, em conformidade com as divisões habituais do assunto, deixássemos o Estado aos historiadores <políticos> e aos investigadores do direito público e nos limitássemos ao conteúdo da vida espiritual. Pode-se escrever uma história da cultura alemã num longo período sem aludir à política. Esta só é fundamental nos tempos modernos. Por causa disso estudou-se durante muito tempo o povo grego e sua cultura predominantemente sob um prisma estético.Mas isto é um violento deslocamento do centro de gravidade. Só na polis se pode encontrar aquilo que abrange todas as esferas da vida espiritual e humana e determina de modo decisivo a sua estrutura. No período primitivo da cultura grega, todos os ramos da atividade espiritual brotam diretamente da raiz unitária da vida em comunidade.”
“É da maior importância para o nosso intuito ver como o espírito da polis grega encontrou a sua expressão, primeiro na poesia e logo a seguir na prosa”
“A mescla de dialetos diferentes, visível na epopéia, prova que a criação artística da poesia homérica é fruto da colaboração de várias raças e povos na elaboração do vocabulário, estilo e métrica dos poemas. (…) A investigação histórica jamais poderá desligar do nosso Homero cantos inteiros que apresentem uma tonalidade unitária de dialetos eólios. As particularidades do espírito dórico e jônico, ao contrário, revelam-se de maneira precisa nas formas da vida das cidades e na fisionomia espiritual da polis. Ambos os tipos se juntam na Atenas dos séculos V e IV. Enquanto a vida real do Estado ateniense recebe o influxo decisivo do ideal jônico, na esfera espiritual, por influência aristocrática da filosofia ática, vive a idéia espartana de uma regeneração que, no ideal platônico da formação, funde-se numa unidade superior com a idéia fundamental jônico-ática, despojada da sua forma democrática, de um Estado regido pelo direito.”
“em vão se buscaria um nome espartano entre os moralistas e filósofos gregos. Em contrapartida, Esparta tem, de pleno direito, um lugar na história da educação.”
“ao contrário de Homero e Hesíodo, na elegia de Tirteu encontramos apenas a formulação de um ideal, como é próprio da essência dessa poesia de puro pensamento.”
“O nosso testemunho principal, a Constituição dos Lacedemônios, de Xenofonte, é fruto do romantismo meio filosófico meio político do séc. IV a.C. (…) A admiração de Xenofonte baseava-se ainda no conhecimento de Esparta através de uma íntima experiência pessoal, enquanto o enlevo romântico que se revela na biografia de Licurgo, por Plutarco,¹ baseia-se apenas num saber adquirido em antigas fontes literárias de valor heterogêneo.”
¹ Nunca será o bastante alertar o leitor desatento: Plutarco não tem quase valor histórico; todas as suas biografias devem ser lidas com suspeição a priori, como anedotas folclóricas guardando esparsos fundos de verdade.
ORIGEM DA DISTINÇÃO DOS NOMES LACEDEMÔNIA E ESPARTA
“A crença de que a educação espartana era uma preparação militar unilateral deriva da Política de Aristóteles. (…) Depois da vitória na guerra do Peloponeso, Esparta conseguiu na Grécia uma hegemonia indiscutível, que perdeu ao fim de 30 anos, após a catástrofe de Leuctra.” “O dinheiro, que antes Esparta mal conhecia, entrou na cidade em torrentes, e <foi descoberto> um velho oráculo, segundo o qual a ambição arruinaria Esparta. Nesta época, dominada por uma política de expansão fria e calculista, ao estilo de Lisandro, em que os Lacedemônios se tinham apoderado despoticamente das acrópoles de quase todas as cidades gregas e as liberdades políticas das chamadas cidades autônomas haviam sido todas destruídas, a antiga disciplina espartana surgiu involuntariamente à luz do uso maquiavélico que dela fazia Esparta.”
“A migração dórica, de que os gregos sempre guardaram uma recordação indelével, é o último dos movimentos de povos, possivelmente originários da Europa Central, que a partir da península balcânica penetraram na Grécia e se misturaram com os povoadores de outras raças mediterrânicas ali fixadas primitivamente, constituindo assim o povo grego que a história nos apresenta. O tipo característico dos invasores conservou em Esparta a sua maior pureza. A raça dórica ofereceu a Píndaro o seu ideal de homem loiro, de alta estirpe, tal como era representado não só o Menelau homérico, mas também o herói Aquiles, e em geral todos os <helenos de loira cabeleira> da Antiguidade heróica. A primeira coisa a levar em conta é que os espartanos constituíam, entre a população lacônia, apenas uma reduzida classe dominante, de formação tardia. Sob o seu domínio estava uma classe popular, livre, operária e camponesa, os periecos, bem como os servos hilotas, a massa dos submetidos, quase sem quaisquer direitos.Os antigos relatos dão-nos de Esparta a imagem de um acampamento militar permanente.Essa aparência vinha muito mais da constituição inteira da comunidade do que de uma ânsia de conquista. (…) A assembléia do povo espartano não é outra coisa senão a antiga comunidade guerreira. Não há nela qualquer discussão. Limita-se a votar SIM ou NÃO em face de uma proposta definida do conselho dos anciãos. [Daí poderia advir o orgulho nacionalista hegeliano diante de uma origem bárbara da cultura superior, não só d’A República como também do Estado Germânico, suposto fim da Históriae consumação do Espírito!] Este tem direito a dissolver a assembléia e pode retirar da votação as propostas com resultado desfavorável. (…) A sua organização representa um poder moderador no conflito de forças entre os senhores e o povo. (…) É significativo que o eforato [conselho de anciãos] seja a única instituição não-atribuída à legislação de Licurgo.”
“quanto mais importância se concede à educação e à tradição oral, menor é a coação mecânica e externa da lei sobre todos os detalhes da vida.”
“A participação de todos os cidadãos espartanos na educação militar torna-os uma espécie de casta aristocrática. Aliás, muitos traços dessa educação lembram a formação da antiga nobreza grega. Mas o fato de ter sido estendida aos que não eram nobres prova que houve uma evolução que modificou neste sentido o presumível domínio original dos nobres.”
“Tirteu é ainda a nossa única fonte em relação às guerras messênicas, dado que a crítica moderna demonstrou ser total ou predominantemente fictícia a tradição dos historiadores mais recentes. O impulso da sua inspiração foi suscitado pela grande sublevação dos messênios, três gerações após a sua primeira subjugação. Durante 19 anos lutaram sem cessar, armados de lanças, os pais de nossos pais, com paciente coração; no 20º ano, os inimigos abandonaram os férteis campos e fugiram para as altas montanhas de Ithoma.”
“Em nenhum outro lugar a poesia grega revela tão claramente como a criação poética brota da vida da comunidade humana. (…) Por isso se exprime com freqüência na 1ª pessoa do plural: Lutemos!, Morramos!.”
“A estreita ligação entre o indivíduo e a cidade estava, em tempo de paz, simplesmente latente para o cidadão médio, mesmo num Estado como o espartano. No caso de perigo, todavia, a idéia da totalidade manifestava-se subitamente com a maior força. A dura necessidade da longa e duvidosa guerra que acabava de eclodir foi a base férrea em que o Estado espartano se cimentou. Não precisava só de políticos e militares, naquela conjuntura. Precisava também encontrar expressão adequada para os novos valores humanos que na guerra se revelavam.” “a lenda fez de Tirteu um enviado de Apolo.”
“Do ponto de vista formal, a elegia de Tirteu não é uma criação original. Os elementos formais lhe foram dados. A forma métrica da elegia – o dístico – é indubitavelmente mais antiga.”
DICOTOMIA ELEGIA X ODE: “A elegia não possui forma <interna> como chegaram a julgar os gramáticos da Antiguidade. Guiados pela evolução posterior do gênero e por uma falsa etimologia, quiseram reduzir todas as formas da elegia a uma raiz comum: o canto fúnebre. A elegia (…) só tinha um elemento constante: o fato de ser dirigida a alguém, indivíduo ou multidão. (…) Até o nosso fragmento, que começa num tom aparentemente mais reflexivo, atinge o seu acme e o seu termo sob a forma da exortação (…) simplesmente tal como a poesia didática dos Erga hesiódicos, dirige-se de maneira mais direta e intencional a uma personalidade determinada.” “Veste com a linguagem da epopéia um assunto contemporâneo.”
“E ainda que fosse mais belo que Titono e mais rico do que Midas e Ciniras, mais régio que Pélops, filho de Tântalo, e dotado de uma língua mais lisonjeira que Adrasto, se tivesse todas as glórias do mundo, mas não possuísse o valor guerreiro, não quereria honrá-lo. Não dará boas provas de si na luta se não for capaz de encarar a morte sangrenta na peleja e de lutar corpo-a-corpo com o adversário.”
“Mas aquele que cai entre os combatentes e perde a vida bem-amada cobre de glória a sua cidade, os seus concidadãos e o seu pai, ao ser chorado por todos, novos e velhos, quando jaz, com o peito, o côncavo escudo e a armadura trespassados por muitos projéteis; a sua dolorosa memória enche a cidade inteira e são honrados entre os homens o seu sepulcro e os seus filhos, e os filhos dos seus filhos e toda a sua linhagem; a honra do seu nome não se extingue jamais e, mesmo que jaza no seio da terra, torna-se imortal.”
“a <polisação> do conceito da arete heróica deriva da <polisação> da idéia da glória heróica” (…) O <nome> é preservado com segurança da fugacidade do presente, pela vida duradoura da comunidade. § os gregos primitivos não conheceram a imortalidade da <alma>. O Homem morria com a morte do corpo. A psyche homérica significa antes o contrário: a imagem corpórea do próprio Homem, que vagueia no Hades como uma sombra: um puro nada.”
“O homem político alcança a perfeição através da perenidade da sua memória na comunidade pela qual viveu ou morreu. Só o crescente menosprezo pelo Estado, próprio das épocas seguintes, e a progressiva valorização da alma individual, que alcança o apogeu com o Cristianismo, possibilitaram aos filósofos tomarem o desprezo da glória por uma exigência moral. Nada de semelhante se encontra ainda na concepção do Estado de Demóstenes e de Cícero. É com a elegia de Tirteu que se inicia o desenvolvimento da ética do Estado.”
“O poeta contrasta a morte gloriosa no campo de batalha com a vida desventurada e errante, destino inevitável do homem que não cumpriu na guerra os seus deveres de cidadão (…) Anda pelo mundo errante, com o pai, a mãe, a mulher e os filhos. Na sua pobreza e indigência, é um estranho onde quer que vá e todos o fitam com olhos hostis.”
“Não estabelece qualquer diferença entre os que foram desterrados por uma necessidade estatal de exceção, porque fugiram ante o inimigo, e os que abandonaram voluntariamente o país para escaparem ao serviço militar, sendo forçados por isso a viver como estranhos em outra cidade.” “O novo ideal da arete política exprime, em face da arete da epopéia, uma transformação da concepção religiosa. A polis é a suma de todas as coisas humanas e divinas.”
“O pensamento que impregna a Eunomia tem a maior importância para o conhecimento da atitude pessoal de Tirteu e da sua oposição ao espírito político da Jônia e de Atenas. Enquanto estas nunca se sentiram vinculadas à autoridade da tradição e do mito, mas se empenharam em regular a distribuição dos direitos políticos segundo um pensamento mais ou menos universal, social e justo, Tirteu, à moda antiga, faz derivar do poder dos deuses a eunomia espartana e vê nessa origem a sua garantia mais alta e inviolável. Foi o próprio Zeus, filho de Crono, esposo da coroada Hera, que aos Heráclidas [tradição de haver dois reis, inicialmente, na cidade – descendentes de Heracles] deu esta cidade. Abandonamos com eles o ventoso Erineus e viemos até a vasta ilha de Pélops.”
“os reis são o único elo legítimo entre o Estado atual e o ato de doação divina que no passado o fundou. O oráculo de Delfos fundamentou para sempre a posição legítima dos reis.”
“O Tirteu da Eunomia pertence a Esparta. O Tirteu das elegias guerreiras pertence à Grécia inteira.”
“Para ilustrar a posição dos guerreiros no seu Estado ideal, Platão toma Tirteu como modelo, quando propõe honrar os guerreiros acima dos vencedores em Olímpia.”
“É a autêntica idéia grega da formação. Uma vez modelada, a forma conserva o seu valor mesmo em estágios posteriores e mais elevados e qualquer novidade precisa confrontar-se com ela. Assim, o filósofo Xenófanes de Cólofon, cem anos após Tirteu, aplica-se em transformar aquelas idéias e sustenta que só à força espiritual cabe, no Estado, a mais alta posição”
“A crítica de Platão dirige-se menos contra Tirteu que contra os excessos de força do Estado espartano da época, cujo fundamento encontra nos poemas guerreiros daquele.Nem mesmo os seus maiores admiradores poderiam descobrir naquela Esparta inflexível e unilateral qualquer vestígio de espírito musical e poético.Nesse sentido, são eloqüentes o silêncio de Xenofonte e os esforços fracassados de Plutarco para preencherem aquela lacuna. (…) Felizmente, apesar da fragmentação das nossas tradições e documentos, podemos provar que a antiga Esparta dos tempos heróicos do séc. VII tinha uma vida mais rica e estava totalmente livre da pobreza espiritual que a sua imagem histórica nos apresenta de modo tão vigoroso.”
“foi chamado o grande músico Terpandro de Lesbos, inventor da cítara de 7 cordas, para dirigir o coro das festas religiosas e organizá-lo segundo o sentido das suas inovações. A Esparta das épocas subseqüentes adotou rigidamente os padrões de Terpandro e considerou toda a evolução posterior como uma revolução contra o Estado. Mas esta própria rigidez mostra até que ponto a antiga Esparta encarou a educação musical como coisa essencial para a formação do ethos humano”
“Os abundantes resquícios de poesias corais de Alcman, lírico originário de Sardes e naturalizado espartano, completam de modo perfeito a imagem da Esparta arcaica.” “Os seus versos, escritos para os coros das jovens espartanas, jorram do humor jovial e da força realista da raça dórica, que só em traços isolados se manifestam através da estilização homérica das elegias de Tirteu. As canções de Alcman, que mencionam os nomes das jovens do coro e apregoam os seus méritos e as suas pequenas ambições e invejas, transportam-nos com idêntica vivacidade e realismo às rivalidades dos concursos musicais da antiga Esparta e revelam-nos que o espírito de emulação do sexo feminino não era inferior ao dos homens. Vê-se por elas também, com toda a clareza, que a condição da mulher na vida pública e privada de Esparta era muito mais livre que entre os Jônios, influenciados pelos costumes asiáticos, e que em Atenas, por sua vez influenciada pelos Jônios.”
1.5 O Estado jurídico e o seu ideal de cidadão
“Aos jônios, como a todos os gregos da Ásia Menor, falta energia política construtiva, e em nenhum lugar deixaram uma formação estatal permanente e ativa.”
“A estreiteza da faixa costeira em que ocorreu a série de invasões e a impossibilidade de penetrar profundamente no interior do país, ocupado por povos politicamente desorganizados e bárbaros, como os lídios, frígios e cários, atraiu cada vez mais as cidades da costa para o comércio marítimo, com o aumento da segurança na navegação. Isto converteu logo a nobreza de proprietária rural em empresária.”
“A ação da Odisséia chega, para leste, até a Fenícia e Cólquida; para sul, até o Egito; para o ocidente, até a Sicília e a Etiópia Ocidental; e para o norte, no Mar Negro, até o país dos cimérios. É perfeitamente a narração do encontro do navegante com uma frota de navios e mercadores fenícios, cujo comércio se estendia a todo o Mediterrâneo e fazia a mais perigosa concorrência aos gregos. A viagem dos argonautas, com as suas maravilhosas descrições de povos e países longínquos, é também uma autêntica epopéia marítima.”
“Esta elevada estima pelo direito por parte dos poetas e dos filósofos não precede a realidade, como se poderia pensar. Pelo contrário, é apenas o reflexo da importância fundamental que aqueles progressos deviam ter na vida pública daqueles tempos, i.e., desde o séc. VII até o início do séc. VI.”
“o aumento da oposição entre os nobres e os cidadãos livres, a qual deve ter surgido em conseqüência do enriquecimento dos cidadãos alheios à nobreza, gerou facilmente o abuso político da magistratura e levou o povo a exigir leis escritas. As censuras de Hesíodo contra os senhores venais, que na sua função judicial atropelavam o direito, eram o antecedente necessário dessa reclamação universal.”
“Dizia-se das partes contenciosas que <dão e recebem dike>. Assim se compendiava numa palavra só a decisão e o cumprimento da pena. O culpado <dá dike>, o que equivale originariamente a uma indenização, ou compensação. O lesado, cujo direito é reconduzido pelo julgamento, <recebe dike>. O juiz <reparte dike>. Assim, o significado fundamental de dike equivale aproximadamente a dar a cada um o que lhe é devido. (…) O alto sentido que a palavra recebe na vida da polis posterior aos tempos homéricos não se desenvolve a partir desse significado exterior, e sobretudo técnico, mas sim do elemento normativo que encontra no fundo daquelas antigas formas jurídicas, conhecidas de todo mundo. (…) hybris [ou hubris] – palavra cujo significado original corresponde à ação contrária ao direito. [arrogância, prepotência: arroga-se um direito que efetivamente não tem, não segue o caminho justo]Enquanto themis refere-se principalmente à autoridade do direito, sua legalidade e sua validade, dike significa o cumprimento da justiça. Assim se compreende que a palavra dike se tenha convertido necessariamente em grito de combate de uma época em que se batia pela consecução do direito uma classe que até então o recebera apenas como themis, quer dizer, como lei autoritária.”
“Os próprios nobres tinham de submeter-se ao novo ideal político que surgiu da consciência jurídica e se tornou medida para todos. (…) Encontramos, desde os tempos mais recuados, uma série de palavras que designam certos gêneros de delitos, como adultério, assassínio, rapto, furto. Mas falta-nos um conceito genérico para designar a propriedade pela qual evitamos aquelas transgressões e nos mantemos dentro dos justos limites.”
“O conceito de justiça, tida como a forma de arete que engloba e satisfaz todas as exigências do perfeito cidadão, supera naturalmente todas as formas anteriores. Todavia, os graus anteriores da arete não são por isso suprimidos: ao contrário, são elevados a uma nova forma.”
“A raiz da ética filosófica de Platão e Aristóteles na ética da velha polis foi desconhecida dos tempos posteriores, habituados a encará-la como a ética absoluta e intemporal. Quando a Igreja cristã começou a estudá-la, achou estranho que Platão e Aristóteles chamassem virtudes morais à fortaleza e à justiça. Mas teve de conformar-se com este fato original da consciência moral dos gregos. (…) fizeram-se por isso inúmeras teses sobre a questão de saber se a fortaleza é uma virtude e como é que pode sê-lo. A aceitação consciente da antiga ética da polis pela moral filosófica posterior e a influência que por meio desta ela exerceu sobre o futuro são para nós um processo perfeitamente natural da história do espírito.”
“A educação pública dos jovens é, porém, uma exigência que a filosofia do séc. IV foi a primeira a formular. Esparta é o único dos Estados mais antigos a exercer influência imediata na formação da juventude.”
“É com razão que Platão denomina <antiga formação> a ginástica e a música. O cuidado que as cidades dedicaram, sob a forma de grandes e onerosos concursos, a esta formação, originalmente aristocrática, não se limitava a desenvolver o espírito de luta e o interesse musical. Era na competição que se formava o verdadeiro espírito comunitário. Assim se compreende facilmente o orgulho que os cidadãos gregos tinham em serem membros da sua polis. Para a identificação total de um grego exigia-se não só o seu nome e o do seu pai, mas também o da sua cidade natal.”
“Com razão, o legislador era considerado educador do seu povo, e é característico do pensamento grego que ele seja freqüentemente colocado ao lado do poeta, e as determinações da lei junto das máximas da sabedoria poética.”
“Mas na filosofia da natureza de Anaximandro de Mileto, por volta do séc. VI, ainda achamos um reflexo mais primitivo da idéia de lei. Transpõe para o reino da natureza a representação da dike da vida social da polis e explica a conexão causal da geração e corrupção das coisas como contenda jurídica, em que, por sentença do tempo, elas terão de expiar e pagar indenização conforme as injustiças que cometeram.” “vê-se bem como é profunda a conexão entre o nascimento da consciência filosófica nos jônios e a origem do Estado jurídico.”
“O homem não é só <idiota>; é <político> também. Precisa ter, ao lado da habilidade profissional, uma virtude cívica genérica, pela qual se põe em relações de cooperação e inteligência com os outros, no espaço vital da polis. (…) a nova política do homem não pode estar vinculada, como a educação popular de Hesíodo,¹ à idéia do trabalho humano. (…) Se contemplarmos o processo evolutivo da educação grega a partir do ponto de vista hodierno inclinar-nos-emos a crer que o novo movimento teria de aceitar o programa de Hesíodo: substituir a formação geral da personalidade, própria dos nobres, por um novo conceito de educação popular, em que se avaliaria cada homem pela eficácia do seu trabalho específico, e o bem da comunidade resultaria de cada um realizar com a máxima perfeição possível o seu trabalho particular,¹ tal como o aristocrata Platão exigia no Estado autoritário da sua República, dirigido por uma minoria espiritualmente superior. Estaria de acordo com o tipo de vida popular e a diversidade dos seus mestres; o trabalho não seria uma vergonha, mas o fundamento único da consideração citadina. No entanto, e sem prejuízo do reconhecimento deste importante fato social, a evolução real seguiu um curso completamente diverso.”
¹ O camponês utilitário
² O trecho sublinhado soa familiar?
“Esta aptidão <geral>, política, pertencia até então unicamente aos nobres. (…) O novo Estado não podia esquecer esta arete, se compreendia corretamente os seus próprios interesses.” “o ideal do cidadão permaneceu o que Fênix já ensinara a Aquiles: estar apto a proferir belas palavras e a realizar ações. Os homens dirigentes da burguesia ascendente¹deviam atingir este ideal, e até os indivíduos da grande massa deviam participar, em certa medida, no pensamento desta arete.”
¹ Muito me incomoda este tipo de vocábulo anacrônico de Jaeger ao longo de toda a obra: até que ponto é lícito chamar uma classe não-plebéia porém não-aristocrática nascente na Antiguidade de “burguesia”, termo insólito no contexto? Vou criticar o mesmo de novo mais adiante!
Cabe a questão: o Homem ainda é um animal político? A sociedade parece mais com um vespeiro.
“Para Sócrates, filho de um pedreiro, um simples operário,¹ constituía um paradoxo surpreendente o fato de um sapateiro, um alfaiate ou um carpinteiro precisarem no seu trabalho de um certo saber autêntico, ao passo que ao político bastava uma educação genérica, de conteúdo bastante indeterminado, embora o seu <ofício> tratasse de coisas muito mais importantes. (…) Observada por este prisma, a falta daquela habilidade especial aparecia diretamente como a essência da democracia. (…) Quando o novo estado (sic) jurídico apareceu, a virtude dos cidadãos consistiu na livre submissãode todos, sem distinção de dignidade ou de sangue, à nova autoridade da lei. (…) Neste sentido, não existia o problema da cooperação.”
¹ De novo… Operário!
O ANTI-MESSIAS & O HOMEM-URBANO: “Aristóteles designa o Homem como ser político e, assim, distingue-o do animal pela sua qualidade de cidadão. Esta identificação da humanitas, do ser-homem, com o Estado, compreende-se apenas na estrutura vital da antiga cultura da polis grega, para a qual a vida em comum é a súmula da vida mais elevada e adquire até uma qualidade divina.”
“Platão dá-nos uma transcrição fiel do sentido originário da <cultura geral>, segundo o espírito da primitiva polis grega. (…) A verdadeira educação é para Platão uma formação <geral>, porque o sentido do político é o sentido do geral.”O homem acusado de precipitar o mundo em decadência (Nietzsche), veja só, não passava de um inveterado nostálgico de tempos insondáveis!
“A antiga cidade-estado (sic) é o 1º estágio, depois da educação nobre, na caminhada do ideal <humanista> para uma educação ético-política geral e humana. Aliás, podemos dizer que foi esta a sua verdadeira missão histórica. (…) Não se pode calcular o seu valor nem pelo gênio de cada um dos chefes, cuja aparição depende de condições excepcionais, nem pela sua utilidade para a multidão, à qual não se pode transmitir sem um efeito nivelador sobre as 2 partes. (…) O ideal de uma arete política geral é indispensável, dada a necessidade da formação contínua de uma camada de dirigentes, sem a qual nenhum povo ou Estado pode subsistir, qualquer que seja a sua constituição.” A Europa é um verdadeiro milagre!
1.6 A autoformação do indivíduo na poesia jônico-eólica
“Todavia, (…) não achamos, à primeira vista, uma expressão equivalente do novo ideal de cidadão na poesia da época.” “Apenas podemos mencionar as histórias relativas à fundação de certas cidades, redigidas num estilo épico convencional. Mas nenhuma destas obras da cultura citadina primitiva, já numericamente raras, se eleva à importância de uma verdadeira epopéia do Estado, como entre os romanos foi a Eneida de Virgílio, a última das grandes obras do gênero. (…) foi na criação da prosa que o novo ethos do Estado encontrou a sua verdadeira expressão revolucionária.”
“nenhum escritor jônico ou eólico captou o heroísmo político interior de Sólon, que se tornaria a fonte de uma nova grande poesia.”
“As conexões causais entre o espiritual e o material permanecem na maior obscuridade por ausência completa de qualquer tradição relativa às condições econômicas da época. (…) E este vestígio do espírito jônico tem a maior importância para a história dos gregos e da humanidade.”
“Até os animais, nas disputas das fábulas, reclamam uns aos outros os <seus direitos>, em humorística imitação das relações humanas.”
COISAS QUE HEGEL NÃO VÊ: “É altamente significativo que o tipo de individualismo que com assombrosa independência se manifesta nestas poesias pela primeira vez, não se exprima, à maneira moderna, como simples experiência da sensibilidade do eu” “Este moderno tipo de individualismo poético não é mais do que um retorno às formas primitivas e naturais da arte” “Nada é mais insensato do que julgar que foram os gregos os primeiros a trazerem ao mundo o sentimento e o pensamento individual. Pelo contrário (…) a lírica chinesa, tão aparentada à moderna.”
“não nos é fácil conceber com clareza e precisão o que Arquíloco e outros poetas da sua espécie entenderam por individualidade.” “As manifestações da individualidade nunca são exclusivamente subjetivas. Seria preferível dizer que, numa poesia como a de Arquíloco, o eu individual busca exprimir e representar em si próprio a totalidade do mundo objetivo e suas leis.”
“Os heróis homéricos teriam sentido a perda do Escudo como a ruína de sua honra e prefeririam sacrificar a vida a sofrer semelhante afronta. O novo herói de Paros exprime as suas reservas neste ponto e está certo de provocar o riso dos seus contemporâneos, quando diz: Um dos Saios, nossos inimigos, regozija-se agora com o meu escudo, arma impecável que sem querer deixei ficar num matagal. No entanto, escapei à morte, que é o fim de tudo. Quero lá saber deste escudo! Comprarei outro melhor. A deliciosa mescla do moderno¹ humor naturalista (alheio a qualquer tipo de ilusões, e segundo o qual até um herói só tem uma vida para perder) com a nobre ressonância da retórica épica, que nos fala de <arma impecável> e da morte que <é o fim de tudo>, é fonte inesgotável de efeitos cômicos. Protegido por eles, o esforçado desertor pode aventurar a sua insolente conclusão e afirmar com sinceridade desconcertante: Comprarei outro melhor! Que é um escudo, afinal, senão um pedaço de pele de boi curtida, com uns adornos de metal brilhante!”
¹ Novamente o incômodo com a palavra.
“na audaciosa afirmação pessoal de Arquíloco em face das limitações do decoro tradicional e na decidida franqueza com que a mantém, já se encontra implícita a consciência de poder ser não apenas mais descarado, mas também mais espontâneo e sincero do que aquele que está submetido com mais rigor ao código moral.”
“Se nos afligimos com a maledicência do povo, não desfrutamos o prazer da vida. A inércia e o comodismo da natureza humana tiveram certamente neste processo de emancipação um papel não-desprezível, e é evidentemente nesta direção que aponta a raiz da palavra.”
“Já Homero ensinava que o espírito do Homem é tão mutável como os dias que Zeus ilumina. Arquíloco aplica ao mundo da vida que o rodeia esta sabedoria homérica. (…) A ética da antiga nobreza venerava a Fama como uma força superior, porque tinha dela uma idéia muito diferente: a honra das grandes façanhas e o seu jovial reconhecimento no círculo dos espíritos nobres. Transferida para a massa invejosa, que mede tudo que é grande pela sua própria e acanhada medida, perde qualquer sentido.”
“Foi com certa precipitação que se atribuiu a condições de caráter pessoais a totalidade da poesia iâmbica, de conteúdo em grande parte exprobratório. Julga-se legítimo, neste como em qualquer outro gênero de poesia, pensar numa explicação puramente psicológica e encarar a poesia como resultante da expansão imediata da subjetividade amarga do seu criador. Esquece-se, assim, que a aparição da sátira literária da primitiva cidade grega é um fenômeno característico da época em que se expande a importância crescente do demos. Originariamente, o iambo era de uso corrente nas festas públicas de Dionisos (sic) e correspondia antes à explosão de um sentimento popular do que à expressão de um rancor pessoal. Prova disso é que o espírito do iambo se incorpora com a maior fidelidade e continua na comédia ática, onde o poeta aparece claramente como o porta-voz da crítica possível.”
“Quero contar-vos uma fábula…, assim começa a história do macaco e da raposa. A fábula da raposa e da águia começa do mesmo modo: Existe entre os homens uma fábula que reza assim…”
“Porque em Hesíodo encontra-se freqüentemente esse tema, quis-se deduzir a sua hostilidade pelas mulheres de certo romance passional cuja experiência amarga se teria refletido dessa maneira. Todavia, a troça contra as mulheres e o sexo feminino é um dos temas mais antigos da sátira popular em reuniões públicas. A sua repetição em Semônides de Amorgos não é só uma débil imitação de Hesíodo; ela se vincula, sim, com o antigo e verdadeiro iambo, que nunca consistiu na simples injúria e difamação pública de uma pessoa a quem se quer mal. (…) a sua contrapartida, a sátira contra os homens, também não faltou, embora antes de Aristófanes não a encontremos na poesia.”
“E qual podia ser o valor ideal ou artístico da simples explosão do ódio ou da raiva pessoal, mesmo expressos da forma mais bela? Se assim fosse, não se teria escutado muitos séculos depois, a voz de Arquíloco ao lado daquela de Homero, nos concursos musicais, não o teriam considerado, como testemunha Heráclito, mestre dos gregos, não teriam captado a íntima ligação dos seus poemas como a consciência geral do mundo circundante.”
“Píndaro, o mestre da educação com base no elogio das virtudes nobres, diz: Vi ao longo o satirizante Arquíloco, desamparado e na maior indigência, a cevar-se nas mais violentas e ofensivas inimizades.”
“A religiosidade de Arquíloco tem raízes no problema da tyche. A sua experiência de Deus é a experiência da tyche. O conteúdo destas considerações, e em parte o seu vocabulário, vem de Homero. Mas a luta do Homem contra o destino é transferida do mundo sublime dos heróis para a esfera da vida cotidiana.” “A partir daí, o desenvolvimento da idéia de tyche entre os gregos segue os passos do desenvolvimento do problema da liberdade humana. O esforço para alcançar a independência significa, em grande medida, a renúncia a muito do que o Homem recebeu da tyche como dom.”
“Este primeiro grande monólogo da literatura grega surge da transferência da exortação a outra pessoa, tal como era de uso no iambo e na elegia, para a própria pessoa daquele que fala e que assim se desdobra e é, por um lado, orador, e, por outro, espírito que pensa e quer.”
“Não te deves pavonear perante o mundo, quando venceres, nem abater-te e lamentar-te quando fores vencido; alegra-te com o que é digno de alegria, não desfaleças em excesso; na desgraça, conhece o ritmo que mantém os homens nos seus limites.”
“A aplicação da palavra ao movimento da dança e à música, da qual deriva a nossa palavra, é secundária e esconde o seu significado fundamental. Antes de mais nada, devemos perguntar como é que os gregos entenderam a essência da dança e da música.”
“Ritmo é aqui o que impõe firmeza e limites ao movimento e ao fluxo. (…) Também Demócrito fala do ritmo do átomo no primitivo e autêntico sentido e por ele entende não o movimento do átomo, mas sim, como já Aristóteles corretamente interpretou, o seu <esquema>. (…) É evidente que, quando os gregos falam do ritmo de um edifício ou de uma estátua, não se trata da transposição metafórica da linguagem musical. E a intuição originária que se encontra no âmago da descoberta grega do ritmo da dança e da música não se refere à fluência destas, mas sim, pelo contrário, as suas pausas e à constante limitação do movimento.”
“Revela-se uma auto-submissão às próprias limitações, consciente e livre da autoridade da mera tradição. O pensamento humano torna-se dono de si próprio e, assim como aspira a submeter a vida da polis a leis universalmente válidas, também penetra, para além destes limites, na esfera da interioridade humana e também coloca balizas no caos das paixões. Nos séculos seguintes, o palco desta luta é a poesia, dado que a filosofia só mais tarde, e em segundo plano, nela toma parte.”
“A poesia da nova época nasce da necessidade, experimentada pelo indivíduo livre, de separar progressivamente o humano do conteúdo mítico da epopéia, na qual se havia exprimido até então.”
“Seres de um só dia, como os animais no prado, vivemos ignorantes do modo que a divindade usará para levar cada coisa a seu fim. Vivemos todos da esperança e da ilusão; os seus desígnios, porém, nos são inacessíveis. …”
Semônides, frag. 1
“Enquanto dura a flor dos anos, os mortais andam de coração leve e traçam mil planos irrealizáveis. Ninguém pensa na velhice ou na morte. E, enquanto têm saúde, não curam da enfermidade. Insensatos os que assim pensam e não sabem que para os mortais é breve o tempo da juventude e da existência. Aprende tu isto e, meditando no fim da vida, deixa a tua alma gozar um pouco de prazer. A juventude surge aqui como fonte de todas as ilusões exageradas e de todos os empreendimentos desmedidos, porque não tem presente a sabedoria de Homero, que recorda a brevidade da vida. Singular e nova é a conseqüência tirada desta afirmação pelo poeta: a exortação a gozar os prazeres da vida enquanto é tempo. Isto não se encontra em Homero.”
“Foi na Jônia que pela 1ª vez surgiu uma poesia hedonista”
“O que em Arquíloco age mais como o extravasamento acidental de uma natureza forte e de um sentimento pessoal e passageiro torna-se, para os seus sucessores, a sabedoria total da vida e traduz-se em exigência universal, no ideal de uma vida que desejam partilhada por todos os homens. Sem a loira Afrodite não há vida nem prazer! Preferia estar morto – proclama Mimnermo – se tivesse de não mais gozar dela. Nada haveria de mais errôneo do que imaginar um poeta como Mimnermo um sensual voluptuoso e decadente. De Semônides não conhecemos o bastante para formarmos uma idéia cabal da sua personalidade. Alguns poemas de Mimnermo possuem um tom político e guerreiro e atestam pelos seus versos homéricos, tensos e vigorosos, uma consciência e tradição cavaleiresca.”
“Do ponto de vista histórico, a poesia hedonista é um dos momentos críticos mais importantes da evolução grega. Só é preciso lembrar que o pensamento grego colocava sempre o problema do indivíduo, na ética e na estrutura do Estado, como um conflito no predomínio do prazer e da nobreza. Na sofística revela-se abertamente o conflito entre estes dois impulsos de toda a ação humana, e a filosofia de Platão culmina com a vitória sobre a aspiração do prazer a tornar-se o mais alto bem da vida humana.”
“para que se chegasse, por fim, a uma fórmula harmônica tal como oferece o ideal da personalidade humana proposto por Aristóteles, foi preciso que a busca da alegria plena de viver e do gozo do prazer achasse uma afirmação resoluta e fundamental em face da exigência da nobreza, mantida pela epopéia e pela antiga elegia.”
“não se pode esquecer que Arquíloco é um precursor da lírica eólica, embora os seus poemas, inclusive os de ódio, em que se manifesta com paixão a sua subjetividade, se orientem ainda por normas universais da sensibilidade moral. A lírica eólica, principalmente em Safo, chega muito mais longe e converte-se em pura expressão do sentimento.”
“a conexão viva das canções de Alceu dedicadas à bebida com os banquetes masculinos, e das canções nupciais e amorosas de Safo com os círculos musicais das jovens companheiras que se agrupam em redor da poetisa”
“Reflexões piedosas, serenas ou resignadas sobre o curso do mundo e o destino enlaçam-se de forma totalmente nova com uma filosofia de bebedores que sepulta todas as agruras da vida pessoal na embriaguez dionisíaca. Assim, o tom individual desta lírica não é incompatível com a convivência da sociedade dos homens, embora se vá estreitando o círculo das pessoas ante as quais se pode manifestar a personalidade individual.”
“Na prece, o Homem encontra-se também na atitude original, na sua nua solidão pessoal, perante o Ser. Ao dirigir-se à força divina como a um tu invisível mas presente, o suplicante converte-se ainda mais em órgão de expressão dos seus próprios sentimentos e emoções, e expande-se, liberto de qualquer testemunha humana. Em parte alguma isto se manifesta de maneira tão bela como em Safo. § Tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar o último passo no mundo da intimidade do sentimento subjetivo. Os gregos deviam ter sentido isto como algo de muito grande quando, no dizer de Platão, honraram Safo como adécima musa. A poesia feminina não é insólita na Grécia. Mas nenhuma colega na arte chegou à altura de Safo. Esta é singular. Comparada, porém, com a riqueza da poesia de Alceu, a lírica de Safo é muito limitada. Está circunscrita ao mundo das mulheres que a rodeiam, e ainda assim sob o ponto de vista da vida em comum entre a poetisa e o círculo das suas donzelas. A mulher como mãe, amante, ou esposa, que aparece na poesia grega com a maior freqüência e é celebrada pelos poetas de todos os tempos, dado que é com essa imagem que vive na poesia do homem, não aparece na poesia de Safo senão fortuitamente, por motivo do ingresso ou da saída de alguma das donzelas do seu círculo. Não é objeto de inspiração poética para Safo. A mulher entra no seu círculo como a garotinha que acaba de deixar o seio materno. Sob a proteção de uma mulher solteira, cuja vida está votada, como a de uma sacerdotisa, ao serviço das musas, recebe a consagração da beleza, por meio de danças, cânticos e jogos.”
“Entre a casa paterna e a vida matrimonial situa-se uma espécie de mundo ideal intermediário que só podemos conceber como uma educação da mulher de acordo com a mais alta nobreza da alma feminina. A existência do círculo de Safo pressupõe a concepção educativa da poesia, evidente para os gregos desse tempo.”
“Salta aos olhos desprevenidos o paralelo entre o eros platônico e o eros sáfico. § Esse eros feminino, cujas flores poéticas nos encantam pela delicadeza do seu aroma e pelo esmalte das suas cores, teve força suficiente para fundar uma verdadeira comunidade humana. (…) Existia na charis sensual dos jogos e danças e encarnava na grandeza da forma que estava presente como modelo na comunidade das companheiras. A lírica sáfica atinge os seus momentos culminantes na solicitação quente ao coração agreste e ainda não aberto de uma donzela”
“Agora interessa-nos aqui muito menos a verificação da existência de um aspecto sensual na erótica sáfica do que a plenitude de sentimento que abala poderosamente a totalidade da alma humana. A poesia de amor masculina nunca atingiu na Grécia a profundidade espiritual da lírica de Safo. Só mais tarde a polaridade do espiritual e do sensual ganhou real importância na vida erótica, até penetrar profundamente na alma e preencher a vida inteira. § Esta transformação da sensibilidade masculina foi considerada uma efeminação helenística. Em todo o caso, nos primeiros tempos só a mulher era capaz daquela entrega total da alma e dos sentidos, único sentimento que, para nós, merece a designação de amor. (…) Naquele tempo, ainda estranho ao conceito de matrimônio por amor, era difícil surgir na mulher o amor pelo homem. Do mesmo modo, foi apenas na forma do eros platônico que o amor do homem, na sua mais elevada espiritualização, conseguiu em relação à mulher a sua expressão poética. Seria anacronismo interpretar o amor de Safo, sempre ligado à sensibilidade sensual, como o equivalente do anseio metafísico da alma platônica pela Idéia, que é o segredo do seu eros. No entanto, (…) É daqui que deriva a grande dor que dá à poesia de Safo não só o terno encanto da melancolia, mas ainda a elevada nobreza da verdadeira tragédia humana.
A lenda, que cedo se apoderou da sua figura, explicou o mistério que envolve a sua pessoa e a sua vida sentimental por meio da história de um amor infeliz por um belo homem de nome Fáon, e pintou a sua tragédia no dramático salto dos rochedos de Lêucade abaixo. Mas o homem está completamente ausente do seu mundo. Aparece, quando muito, à margem desse mundo, como pretendente de uma das suas queridas pequenas, e é olhado com indiferença.”
“Basta-me ver-te e ficam mudos os meus lábios, ata-se a minha língua, um fogo sutil corre sob a minha pele, tudo escurece ante o meu olhar, zunem-me os ouvidos, escorre por mim o suor, acometem-me tremores e fico mais pálida que a palha; dir-se-ia que estou morta.”
“Onde encontraremos na arte ocidental algo que, antes de Goethe, se compare a ela?”
“Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira.”
1.7 Sólon: começo da formação política de Atenas
“A pujança ática só atingiu o apogeu um século depois, com a tragédia de Ésquilo.”
“Imaginemos que se tivessem perdido todos os vestígios dos poemas de Sólon. Sem eles não estaríamos em condições de compreender o que há de mais grandioso e memorável na poesia ática contemporânea da tragédia e nem a vida espiritual inteira de Atenas – a perfeita interpenetração de toda a produção espiritual grega com a idéia do Estado.”
A SÍNTESE ESPARTA-JÔNIA-ATENAS: “Em Esparta faltava o traço de união entre a força educadora implícita na nova ordem jurídica que regia a vida política e a liberdade sem rédeas dos poetas jônicos, no pensamento e na palavra. A cultura ática foi a primeira a equilibrar as duas forças”
“Os monumentos clássicos da cultura política grega, de Sólon até Platão, Tucídides e Demóstenes, são, na sua totalidade, criação dos filhos da Ática.”
“O primeiro passo para a edificação do direito do sangue, as proverbiais <leis draconianas>, significou mais uma consolidação das relações recebidas que um rompimento com a tradição. Tampouco as leis de Sólon queriam suprimir o domínio dos nobres como tal. Foi a reforma de Clístenes, após a queda da tirania dos Pisistrátidas, que acabou violentamente com ele.”
“Os conceituados proprietários apreciadores de cavalos, que nos vasos arcaicos vemos pintados, conduzindo os seus carros velozes por ocasião de uma festa ou, mais freqüentemente, para assistirem ao funeral de algum companheiro, opunham-se aos servos que trabalhavam no campo como massa compacta. O mais egoísta espírito de casta e a distância altaneira dos superiores e terratenentes em face das classes inferiores opunham uma barreira inamovível às exigências da população, cuja situação desesperada Sólon descreve comovido, no seu grande iambo.”
“A proibição, por Sólon, do fausto asiático e das lamentações das mulheres, em uso até então nas cerimônias fúnebres dos senhores mais importantes, foi uma concessão ao sentimento popular.”
“No que se refere ao tempo de Sólon, a deusa sentada do museu de Berlim é a representação perfeita da altivez feminina nesta antiga aristocracia ática.” Talvez se refira a esta escultura de Perséfone:
“Sem o estímulo do Oriente jônico, seria inconcebível principalmente o movimento político nascido da massa economicamente fraca com a figura de Sólon, seu chefe proeminente, em que se interpenetram inseparavelmente o ático e o jônico.” “A sua linhagem poética é o jônico mesclado de formas áticas, pois, naquele tempo, o ático ainda não estava apto a ser empregado na alta poesia.”
“A Eunomia é, como Dike, uma divindade – Hesíodo dá-lhe o nome de irmãs na Teogonia – e tem também uma ação imanente.” “Convém recordar que na Jônia Tales e Anaximandro, filósofos da natureza milesianos, ensaiavam por essa época as primeiras passadas na ousada senda do conhecimento de uma lei estável do devir eterno da natureza.”
“A tirania, i.e., o domínio exercido sobre a aristocracia restante por uma estirpe nobre e o seu chefe, apoiados na massa popular, era o perigo mais temível que Sólon podia pintar aos olhos da sociedade ática dos eupátridas (…) É altamente significativo que ele nos fale do perigo da democracia. Por imaturidade das multidões, esse perigo era longínquo ainda.” “é característico da natureza humana que, apesar desta intuição, Atenas se tenha visto igualmente forçada a passar pela regência dos tiranos.”
“Se foi por debilidade vossa que haveis sofrido o mal, não lanceis sobre os deuses o peso da culpa. Fostes vós próprios que permitistes a esta gente que se engrandecesse, dando-lhe a força e caindo por isso em vergonhosa servidão.”
Sólon, frag. 8
“Moira torna fundamentalmente inseguros todos os esforços humanos, por mais sérios e coerentes que pareçam, e não há previsão que possa evitar esta Moira, como era evitada a desgraça proveniente da culpa pessoal, na primeira parte do poema. Atinge os bons e os maus, sem distinção. É totalmente irracional a relação entre o nosso esforço e o nosso êxito.” “A insegurança do êxito dos melhores esforços não acarreta a resignação nem a renúncia ao próprio esforço.”
“A interpretação da divina Moira como força de equilíbrio necessária nas inevitáveis diferenças econômicas entre os homens prescreve uma linha de conduta a sua ação política.”
“Jamais um estadista se elevou tão acima da mera vontade de poder como Sólon, que deixou o país e partiu em longa viagem, assim que deu por finda a sua obra legislativa. Não se cansa de salientar que não aproveitou a sua situação para enriquecer ou tornar-se um tirano, como em seu lugar teria feito a maioria, e preza-se de ser alcunhado de néscio por não ter aproveitado a ocasião.”
“Semônides ensinou ser a vida tão breve e tão fértil em dores e canseiras que não devemos chorar um defunto por mais que um dia após a morte.”
“Não há homem feliz. Todos os mortais debaixo do sol estão mergulhados em canseiras.”
Sólon, frag. 5
“À massa basta submeter-se às leis que lhe são impostas. Mas aquele que as impõe precisa ter uma alta medida, que não se encontra afixada em parte alguma.”
“Pela sua união do Estado e do espírito, da comunidade e do indivíduo, Sólon é realmente o primeiro ateniense.”
1.8 O pensamento filosófico e a descoberta do cosmos
“Os <pré-socráticos> constituíram, desde Aristóteles, o problema histórico e o fundamento sistemático da filosofia ática clássica, i.e., o platonismo.”
“A sofística é um acontecimento de tipo educativo, no sentido mais próprio. Só uma história da educação pode dar-lhe o verdadeiro valor. Em geral, o conteúdo teórico da sua doutrina é escasso.”
“A filosofia jônica da natureza sucede a epopéia sem solução de continuidade.” “Não é fácil definir se a idéia dos poemas homéricos, segundo a qual o Oceano é a origem de todas as coisas, difere da concepção de Tales, que considera a água o princípio original do mundo; seja como for, é evidente que a representação do mar inesgotável colaborou para a sua expressão.”
“Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão e, em Aristóteles, o amor das coisas pelo motor imóvel do mundo.”
“Se representarmos o mundo por uma série de círculos concêntricos, a partir da exterioridade da periferia para a interioridade do centro, veremos que o processo pelo qual o pensamento racional toma posse do mundo se realiza na forma de uma penetração progressiva que vai das esferas exteriores para as mais profundas e interiores, até chegar, com Sócrates e Platão, ao centro, quer dizer, à alma. A partir deste ponto, realiza-se, no neoplatonismo, um movimento inverso até o fim da filosofia antiga.”
“Se juntarmos à filosofia da natureza tudo o que a poesia jônica a partir de Arquíloco e a poesia de Sólon trouxeram ao pensamento construtivo no campo religioso e ético-político, ficará evidente que nos basta quebrar os limites que separam a prosa da poesia para obtermos uma imagem completa da evolução do pensamento filosófico, na qual também está compreendido o reino humano.”
“O problema do Homem não foi encarado pelos gregos, a princípio, do ponto de vista teórico. Mais tarde, no estudo dos problemas do mundo externo e particularmente da Medicina e da Matemática, é que se descobriram intuições do tipo de uma techne exata, que serviram de modelo para a investigação do homem interior. Recordemos as palavras de Hegel: o rodeio é o caminho do espírito.”
“O que logo se evidencia na figura humana destes primeiros filósofos – que, naturalmente, não deram a si próprios este nome platônico – é a sua típica atitude espiritual: devotamento incondicional ao conhecimento, estudo e aprofundamento do ser, em si mesmo. (…) A tranqüila indiferença daqueles investigadores pelas coisas que aos demais homens pareciam importantes, como o dinheiro, as honras e até o lar e a família, a sua aparente cegueira com relação aos seus próprios interesses e a sua indiferença perante as emoções da praça pública deram origem às conhecidas anedotas sobre a atitude espiritual daqueles pensadores. Recolhidas principalmente pela Academia platônica e pela escola peripatética, foram propostas como exemplo e modelo do BIOS POLITIKOS, considerado por Platão como a autêntica práxis dos filósofos.”
WHY THE SKY? “O sábio Tales, absorto na contemplação de um fenômeno celeste qualquer, cai dentro de um poço, e a sua criada trácia faz pouco dele, por querer saber as coisas do céu e não ver o que está sob os seus pés. Pitágoras, quando lhe perguntam para quê vive, responde: para contemplar o céu e as estrelas. Anaxágoras, acusado de não se interessar pela família nem pela pátria, aponta com a mão o céu e diz: eis a minha pátria. É comum a todos aquele incompreensível devotamento ao conhecimento do cosmos, à <meteorologia>, como então se dizia num sentido mais vasto e mais profundo, i.e., a ciência das coisas do alto. A conduta e as aspirações dos filósofos são desmedidas e extravagantes, no sentido do povo, e é crença popular dos gregos que aqueles homens sutis e sonhadores são infelizes (…) [Este sentimento] refere-se evidentemente à hybris, pois o pensador ultrapassa os limites impostos ao espírito humano pela inveja dos deuses.
Existências deste tipo, audaciosas e solitárias, só na Jônia, numa atmosfera da maior liberdade pessoal, podiam desabrochar. Esta gente insólita era, ali, deixada em paz, quando em qualquer outro local teria suscitado escândalo e enfrentado toda a espécie de dificuldades. Na Jônia, homens da classe de Tales de Mileto cedo ganhavam popularidade, eram transmitidas com interesse as suas sentenças e afirmações e contavam-se anedotas a seu respeito.”
“Pelo que sabemos, foi Anaximandro o primeiro que teve a coragem de escrever em prosa as suas idéias e de difundi-las, tal como o legislador escrevia as suas tábuas. O filósofo elimina com isso a intimidade do seu pensamento”
“Hecateu de Mileto começa o seu tratado genealógico com estas palavras ingênuas: Diz Hecateu de Mileto: variados e ridículos são os discursos dos gregos; eu, porém, Hecateu, digo o seguinte.”
“Só é verdade o que <eu> posso explicar por razões concludentes, aquilo que o <meu> pensamento consegue justificar perante si próprio. Toda a literatura jônica, desde Hecateu e Heródoto, criador da Geografia e da Etnologia e pai da História, até os médicos, em cujos escritos se encontram os fundamentos da ciência médica durante vários séculos, está impregnada deste espírito e usa nas suas críticas aquela forma pessoal característica.”
“No conceito grego de physis estavam, inseparáveis, as duas coisas: o problema da origem – que obriga o pensamento a ultrapassar os limites do que é dado na experiência sensorial – e a compreensão, por meio da investigação empírica, do que deriva daquela origem e existe atualmente.”
“A conexão do nascimento da filosofia naturalista com Mileto, a metrópole da cultura jônica, torna-se clara, se notamos que os seus 3 primeiros pensadores – Tales, Anaximandro e Anaxímenes – viveram no tempo da destruição de Mileto pelos persas (início do séc. V).”
“Tomaremos o exemplo de Anaximandro, a figura mais imponente dos físicos milesianos, para elucidarmos o espírito daquela filosofia arcaica. É ele o único de cuja concepção de mundo podemos obter uma representação exata. Nele se revela a prodigiosa amplitude do pensamento jônico. Foi ele quem primeiro criou uma imagem do mundo de verdadeira profundidade metafísica e rigorosa unidade arquitetônica. Foi ele também o criador do primeiro mapa da Terra e da geografia científica.” “O mundo de Anaximandro é construído segundo rigorosas proporções matemáticas. O disco terrestre da concepção homérica não passa de uma representação ilusória. Na realidade o caminho diário do Sol do Oriente para o Ocidente passa por baixo da Terra, de modo a reaparecer no Oriente, no seu ponto de partida. O mundo não é, assim, uma meia-esfera, mas uma esfera completa, em cujo centro se situa a Terra.”
“E o diâmetro da Terra tem 3 vezes a sua altura, pois a Terra tem a forma de um cilindro achatado. Não se apóia numa base sólida nem cresce para o ar, como uma árvore, a partir de raízes invisíveis e profundas.(*) Está suspensa no espaço do mundo.
(*) Na cosmogonia órfica de FERECIDES, que em parte se liga às concepções míticas mais antigas, fala-se de um <carvalho alado>. Combina a doutrina de Anaximandro da livre suspensão com a representação da árvore que tem as raízes do infinito. PARMÊNIDES (frag. 15a) diz que a Terra <está enraizada na água>.”
“não tenho qualquer escrúpulo em fazer retroceder até Anaximandro o germe dos esquemas cartográficos que Heródoto, Scylax e outros autores atribuem a Hecateu. A superfície da Terra divide-se em 2 partes aproximadamente iguais: a Europa e a Ásia. Aparece em separado um trecho da última: a Líbia. Rios caudalosos constituem as fronteiras. A Europa e a Líbia são divididas em 2 partes iguais, a primeira pelo Danúbio e a segunda pelo Nilo.” “o Oceano, nunca visto por olhos humanos, pelo menos a leste e ao norte.”
“aquela grande máxima, a única de Anaximandro que nos foi diretamente transmitida: Onde estiver a origem do que é aí também deve estar o seu fim, segundo o decreto do destino. Porque as coisas têm de pagar umas às outras castigo e pena, conforme a sentença do tempo.
Muito se escreveu sobre esta frase, desde Nietzsche até Erwin Rhode, e várias interpretações místicas foram tentadas.”
“A idéia de Sólon é esta: a dike não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. Portanto, a sua inexorabilidade é o <castigo de Zeus>, a <paga dos deuses>. Anaximandro vai muito além. Essa compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres.” “Temos, portanto, o direito de caracterizar a concepção do mundo de Anaximandro como a íntima descoberta do cosmos. Esta descoberta não se podia fazer senão no fundo da alma humana. Nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica. Foi da mesma faculdade intuitiva que brotou a idéia de infinidade dos mundos, atribuída a Anaximandro pela tradição.”
“o Prometeude Ésquilo chama a descoberta do número de obra-prima da sabedoria criadora da cultura.”
“Assim, como freqüentemente sucede, deparamos com um conhecimento perene e infinitamente fecundo unido a uma aplicação prática equivocada. Esta audaciosa supervalorização aparece em todos os grandes momentos do pensamento racional.”
“Só o conhecimento da essência da harmonia e do ritmo que dela brota já seria suficiente para garantir aos gregos a imortalidade na história da educação humana. É quase ilimitada a possibilidade de aplicação daquele conhecimento a todas as esferas da vida.”
“A harmonia exprime a relação das partes com o todo. Está nela implícito o conceito matemático de proporção que o pensamento grego se figura em forma geométrica e intuitiva. A harmonia do mundo é um conceito complexo em que estão compreendidas a representação da bela combinação dos sons no sentido musical e a do rigor dos números, a regularidade geométrica e a articulação tectônica. É incalculável a influência da idéia de harmonia em todos os aspectos da vida grega dos tempos subseqüentes. Abrange a arquitetura, a poesia e a retórica, a religião e a ética.”
“É para a história das religiões um mistério a estreita vizinhança que no culto délfico une Apolo e Dionisos. (…) Nenhum outro deus intervém tão profundamente na conduta pessoal. É provável que o espírito de limitação, ordem a clareza de Apolo nunca tivesse abalado tão profundamente a alma humana, se a funda e excitante comoção dionisíaca não houvesse previamente preparado o terreno, arredando toda a eukosmia burguesa. A religião délfica penetrou então de modo tão vivo e tão íntimo, que demonstrou ser apta a conduzir e colocar a seu serviço todas as forças construtivas da nação. Os <sete sábios>, os reis mais poderosos e os tiranos do séc. VI reconheceram naquele deus profético a suprema instância do conselho justo. No séc. V, Píndaro e Heródoto estavam profundamente imbuídos do espírito délfico e são os seus testemunhos mais notáveis.”
“O sentido da sophrosyne grega seria mal-compreendido se interpretado como expressão de uma natureza inata, de uma índole harmônica e jamais perturbada. Para compreendê-la, basta perguntar por que foi justamente naquele tempo que ela irrompeu de forma tão imperativa, de modo a penetrar subitamente, nas profundezas mais inesperadas da existência e, principalmente, da intimidade humana. (…) A maior ofensa aos deuses é <não pensar humanamente> e aspirar à elevação exclusiva. A idéia da hybris, originariamente concebida de modo perfeitamente concreto na sua oposição à dike e limitada à esfera terrena do direito, cedo se estende à esfera religiosa. Compreende agora a pleonexia do Homem em face da divindade.” “A felicidade dos mortais é mutável como os dias. O Homem não deve, portanto, aspirar ao que está alto demais.” “O sóbrio relancear do espírito de investigação pela profundidade da natureza oferece ao Homem o espetáculo da geração e da corrupção incessantes, governado por uma legalidade universal indiferente ao Homem e ao seu insignificante destino, e que transcende com a sua férrea <justiça> a nossa breve felicidade.”
“A fantasia dos simples pinta a imagem de uma vida futura no além, como uma vida de gozos sensíveis; o espírito dos nobres luta pela própria afirmação no meio da voragem do mundo, com a esperança de uma redenção pela consumação do seu caminho. Ambos, porém, coincidem na certeza do seu destino superior.”
“Também eu sou da raça dos deuses. (DIELS, Vorsokratiker [5ª ed.] I, 15 [ORFEU, frags. 17-ss.]) Estas palavras estão gravadas, como passaporte para a viagem para o outro mundo, nas pequenas tábuas órficas de ouro, achadas nos sepulcros do sul da Itália. § O conceito órfico da alma representa um passo essencial no desenvolvimento da consciência pessoal humana. Sem ele seria impensável a concepção platônica e aristotélica da divindade do espírito e a distinção entre o Homem meramente sensível e o seu próprio eu, que constitui sua vocação plena.” “Empédocles exalta Pitágoras no seu poema órfico, Purificação.Interpenetram-se em Empédocles as crenças órficas da alma e a filosofia jônica da natureza.”
“Assim sou eu, como um exilado de Deus, que vagueia daqui para ali”
Empédocles, frag. 115, 13
“Com Xenófanes de Cólofon, o segundo dos grandes emigrados jônicos que estabeleceram o seu campo de ação no ocidente do mundo helênico, deixamos a linha dos pensadores rigorosos.”“Xenófanes é um poeta. Com ele, o espírito filosófico apoderou-se da poesia. Isto é sinal inequívoco de que o espírito filosófico começa a tornar-se uma força educativa, pois a poesia continua a ser como sempre a expressão autêntica da formação nacional.” “A nova prosa jônica só gradualmente alarga o seu campo e, por estar expressa num dialeto limitado a um círculo reduzido, nunca adquire a ressonância da poesia, que se serve da linguagem de Homero e é, por conseguinte, pan-helênica.”
“Até um pensador abstrato e rigoroso como Parmênides, ou um filósofo da natureza como Empédocles, adotam a forma hesiódica da poesia didática. Talvez tenham sido incitados a fazê-lo pelo exemplo de Xenófanes que, embora não tenha sido um verdadeiro pensador nem tenha escrito nunca um poema didático sobre a natureza, como se disse freqüentemente, foi um dos iniciadores da exposição poética da doutrina filosófica. (*) (…) K. REINHARDT, no seu Parmênides (Bonn, 1916), refuta a opinião corrente¹ segundo a qual Xenófanes é o fundador do eleatismo. Todavia, não me parece ter razão ao considerá-lo como discípulo de Parmênides.” Neste ponto, me auto-re-remeto às instrutivas “leituras CAPES” (projeto ou ciclo OUSIA) (Ver no Seclusão)
¹ Hegelianismo!
“Além dos seus poemas filosóficos, Xenófanes escreveu ainda um poema épico, A fundação de Cólofon, e A fundação da Colônia de Eléia.¹ Este homem inquieto, que aos 92 anos escreve um poema em que contempla uma vida de 67 anos [segundo seu Fragmento 7] de incansáveis peregrinações, iniciada provavelmente com as emigrações de Cólofon para a Itália meridional, erige, com o primeiro, um monumento a sua antiga pátria. Talvez tenha pessoalmente tomado parte na fundação de Eléia. Contudo, nestes poemas aparentemente impessoais, o sentimento pessoal toma uma parte muito maior do que era hábito. (…) foi considerado como um rapsodo que na praça pública recitava Homero, e em círculos reduzidos dirigia as suas sátiras contra Homero e Hesíodo. Isto não combina com a unidade da sua personalidade,² que imprime um caráter inequívoco a todas as palavras que dele se conservaram. Apóia-se numa má interpretação da tradição.”
¹ Infelizmente obras quase que integralmente perdidas.
² Não teria sido seu ganha-pão? Normalmente o grande homem precisa se contradizer para sobreviver…
“Ordena ao poema que cale as vergonhosas dissensões dos deuses e as lutas dos titãs, gigantes e centauros, invenções dos tempos idos, que nos banquetes os cantores gostam de celebrar.” Velho rabugento!
“Comia à mesa dos ricos e das personalidades eminentes, como mostra a anedota da sua engenhosa conversa com o tirano Hierão de Siracusa. Mas nunca encontrou naquele ambiente nem a estima inteligente nem a elevada consideração social que obteve na sua própria pátria jônica: permaneceu só.” Nisso ele foi bem filosofal!
“Em parte alguma da história da cultura grega vemos de modo tão claro o choque violento e inevitável entre a velha cultura aristocrática e os homens da nova filosofia, que pela primeira vez aqui lutam por conquistar um lugar na sociedade e no Estado” “O subseqüente desenvolvimento da história dá razão à segurança do seu gesto. Destruíram o domínio absoluto do ideal agonístico. Já não é possível a Xenófanes ver, como Píndaro, a revelação da divina arete do vencedor em cada vitória olímpica, na palestra ou no pugilismo, nas corridas a pé ou a cavalo.”
“O conceito de arete alcança, com esta fase, o tempo da sua evolução: coragem [Aquiles], prudência [Ulisses/Odisseu], justiça [Atena(s)] e, por fim, sabedoria [os superdotados] – tais são as qualidades que ainda para Platão formam o conteúdo da arete cívica. (…) Deu-se o passo que leva da mera intuição da verdade à crítica e condução da vida humana.” “Com armas pedidas a Xenófanes, ainda Eurípides ataca o tradicional apreço dos gregos pelo atletismo, e a crítica de Platão ao valor educativo dos mitos homéricos segue a mesma linha. (…) Na antiga filosofia da natureza, são outras as forças que imperam: a fantasia dirigida e controlado pelo intelecto, que, de acordo com o eminente sentido plástico e arquitetônico dos gregos, procura articular e ordenar o mundo sensível, e pelo pensamento simbólico, que interpreta a partir da vida humana a existência não-humana.” “As proposições de Parmênides constituem um encadeamento rigorosamente lógico, impregnado da consciência da força construtiva da conseqüência das idéias.” “A força com que Parmênides expõe aos ouvintes as suas doutrinas fundamentais não deriva de uma convicção dogmática, mas da vitória da necessidade do pensamento. O conhecimento é também uma absoluta ananke para Parmênides, que ainda o denomina dike ou moira, evidentemente por influência de Anaximandro.” “A Dike de Parmênides (…) é a necessidade implícita no conceito do Ser (…) Nas frases insistentemente repetidas <o Ser é, o não-Ser não é; e: o que é não pode não-ser>, Parmênides exprime a necessidade do pensamento da qual deriva a impossibilidade de realizar no conhecimento a contradição lógica.” “Parmênides é o primeiro pensador que levanta conscientemente o problema do método científico e o primeiro que distingue com clareza os dois caminhos principais que a filosofia posterior há de seguir: a percepção e o pensamento.”
“Heráclito de Éfeso realiza a revolução mais completa. A história da Filosofia considerou-o por longo tempo um filósofo da natureza e colocou o seu princípio originário, o fogo, na mesma linha da água de Tales e do ar de Anaximandro. O vigor significativo das misteriosas proposições do <Obscuro>, freqüentemente expressas em forma de aforismos, já devia ter evitado aos historiadores a confusão deste temperamento duramente recalcado com o de um investigador consagrado unicamente à fundamentação dos fatos.”
“O logos de Heráclito não é o pensamento conceitual de Parmênides, cuja lógica puramente analítica exclui a representação figurada de uma intimidade espiritual sem limites.”Será assim mesmo? Minha impressão é a de que foram mais lentos ainda para compreender Parmênides do que Heráclito!
“O ethos é o daimon do Homem.”
“Os homens, é certo, vivem como se cada um tivesse a sua razão particular.”
“Tal como a polis, também o universo inteiro tem a sua lei. É a primeira vez que aparece esta idéia tipicamente grega. (…) O logos de Heráclito é o espírito, enquanto órgão do sentido do cosmos.”
“A dike só aparece na luta. A nova idéia pitagórica da harmonia serve agora para dar sentido ao ponto de vista de Anaximandro. Só se une o que se opõe; é da diferença que brota a mais bela harmonia. (…) Toda a natureza está repleta de violentos contrastes: o dia e a noite, o verão e o inverno, o calor e o frio, a guerra e a paz, a vida e a morte sucedem-se em eterna mudança. (…) É um eterno caminho, ascendente e descendente. É mudando que repousa. A vida e a morte, a vigília e o sono, a mocidade e a velhice são, no fundo, uma e a mesma coisa. Uma transforma-se na outra, e esta volta a ser o que era primeiro.”
“O arco e a lira são o símbolo de Heráclito para a harmonia dos contrários no cosmos. Executam ambos a sua obra, pela sua ação tensa, recíproca e oposta. Ao vocabulário filosófico faltava ainda o conceito genérico de tensão. (…) Só no nosso tempo foi apreciada no seu justo valor.” “A doutrina de Heráclito surge como a primeira antropologia filosófica, em face dos filósofos primitivos.”
“O Uno, que é o único sábio e prudente, quer e não quer ser chamado Zeus. O sentimento político dos gregos desse tempo inclina-se a pensar como tirânico o governo de um só.” “A antiga filosofia da natureza não tinha formulado expressamente o problema religioso. A sua concepção do mundo oferecia uma visão do Ser separado do humano. A religião órfica preenchia este vazio e sustentava a crença no caráter divino da alma, em meio ao turbilhão destruidor do devir universal onde a filosofia da natureza parecia precipitar o Homem. Mas a filosofia da natureza, no seu conceito de cosmos dominado pela Dike, oferecia um ponto de cristalização à consciência religiosa. Foi nele que Heráclito inseriu a sua interpretação do Homem (…) Foi pelo conceito heracliteano de alma que a religião órfica se ergueu a um estágio mais alto. Pelo seu parentesco com o <fogo eternamente vivo> do cosmos, a alma filosófica é capaz de conhecer a divina sabedoria e de nela se manter. Assim, a oposição entre o pensamento cosmológico e o pensamento religioso do séc. VI aparece superada e unificada na síntese de Heráclito – que vive já no umbral da centúria seguinte.”
1.9 Luta e transformação da nobreza
“Embora Píndaro pertença à lírica coral e Teógnis à poesia gnômica, do ponto de vista da história da educação formam uma unidade. Neles encarna o despertar da consciência aristocrática o sentimento superior da sua particular vocação e proeminência” “Este ethos consciente e educador é característico, não apenas de Hesíodo, Tirteu e Sólon, mas também de Píndaro e Teógnis, e opõe-se à ingênua espontaneidade com que, entre os jônios, irrompe o espírito em todas as suas formas.”
“A longa duração do domínio dos nobres e da cultura aristocrática – manancial da mais alta vontade educadora da nação – em terras da metrópole pode ter contribuído de modo essencial a que nada de novo pudesse prosperar nela, sem que lhe fosse oposta a tradição, como ideal definido de uma forma perfeita do humano.”
“Píndaro e Teógnis lutam por um mundo agonizante. Os seus poemas não produzem um renascimento da nobreza na ordem política exterior, mas sim a perenidade dos seus ideais, no momento em que as novas forças do tempo os punham em maior risco, e a incorporação do seu vigor social e construtivo ao patrimônio da nação helênica. § Se hoje possuímos uma imagem da vida e condições sociais da nobreza nos sécs. VI e V, é só à poesia que o devemos. (…) É até disso perdemos muito. (…) A descoberta da lírica coral de Baquílides, quase desconhecida até agora, mostra apenas que, para o nosso objetivo, não precisamos sair de Píndaro. Começaremos por Teógnis, porque é, provavelmente, o mais antigo dos dois. Oferece, além disso, a vantagem de nos revelar as difíceis condições sociais em que se debatia a nobreza de então – elas aparecem em primeiro plano nos poemas de Teógnis –, enquanto Píndaro nos mostra antes a cultura aristocrática quanto as suas convicções religiosas e aos seus mais altos ideais de perfeição humana.”
“Por mais interessantes que em si mesmos sejam estes temas filológicos, não os trataria com tanto detalhe, se a tradição que nos revela o poeta não nos fizesse, ao mesmo tempo, penetrar tão profundamente naqueles fragmentos da educação grega, tão intimamente ligados ao influxo posterior de Teógnis. § A coleção que, por puro acaso, nos foi transmitida sob o nome de Teógnis devia já existir no séc. IV (…) A pesquisa recente dedicou uma quantidade apreciável de trabalho primoroso à análise deste livro singular. Na sua forma atual, mal deve ter passado pelo fogo purificador da crítica filológica alexandrina. Foi corretamente usado nos banquetes dos sécs. V e IV, até a época em que esta importante corrente da vida <política> dos gregos foi desaparecendo gradualmente; depois foi lido e propagado apenas como curiosidade literária. Foi logo relacionado com o nome de Teógnis, porque um livro desse poeta serviu de núcleo a um florilégio de máximas e poemas de vários poetas anteriores e posteriores (do séc. VII ao V). Todos foram cantados nos banquetes, ao som da flauta. (…) A antologia não inclui poetas posteriores ao séc. V, o que coincide com a época da morte política da nobreza. (…) A íntima união do banquete e do eros, que Platão nos mostra na sua forma mais elevada no seu Banquete,¹ reflete-se também claramente na história da coleção de Teógnis, visto que o chamado livro II – na realidade um livro independente – tem por objeto o eros, que se festejava naquelas ocasiões. § Felizmente, basta-nos a sensibilidade estilística e espiritual para separar e distinguir nitidamente os poemas de Teógnis daqueles dos outros poetas da antologia. (…) Não se trata de um poema orgânico, mas de uma coleção de máximas. Foi só esta característica que permitiu incorporar aos versos de Teógnis aqueles que lhe são estranhos. (…) Apesar da independência exterior das máximas, observa-se nelas o progresso de uma idéia, e elas têm um prólogo e uma conclusão, que se separam nitidamente das que a seguem. Para reconhecer a autenticidade deste velho livro de Teógnis ajuda-nos muito (…) também a forma constantemente repetida dos discursos do poeta, ao amado jovem a quem dedica sua doutrina (…) O fato de expor a sua doutrina em forma de máximas dá-lhe ocasião de repetir freqüentemente a invocação a <Cirno> ou ao <filho de Polipaides>, embora não em todas as máximas. Na velha poesia proverbial dos nórdicos deparamos também com a mesma forma. Também nela se repete periodicamente o nome da pessoa a que se dirige. (…) Simplesmente, enquanto no livro de máximas de Teógnis aparece com muita freqüência, nas outras partes aparece raras vezes e em trechos próximos uns dos outros. (…) É evidente que a última parte da coleção constituía originalmente uma coleção independente, que incluía fragmentos de Teógnis ao lado dos fragmentos de outros poetas. (…) Platão atesta nas Leis a existência de antologias semelhantes nas escolas da época. (…) O fato de ninguém se ter dado ao trabalho de evitar as repetições que indicamos mostra bem o quanto se procedeu toscamente. (…) o livro de máximas a Cirno é o fundamento autêntico a que se deve referir tudo o mais.”
“Cirno, tive a sensata idéia de estampar nos meus versos o meu selo, de tal modo que nunca ninguém possa roubá-los clandestinamente nem tomar por mau o que neles há de bom, mas digam todos: estes são versos de Teógnis de Mégara, famoso entre todos os homens. Não posso agradar a toda a gente da nossa cidade. Não há nisso maravilha alguma, filho de Polipao, pois nem Zeus consegue agradar a todos, quando manda chuva ou estiagem.”
Versos 19-23
“Este traço individualista é particularmente interessante num aristocrata tradicional do tipo de Teógnis, pois por ele se vê que o espírito do tempo o tinha afetado muito mais profundamente do que ele julgava. (…) Não era totalmente novo mencionar o nome do poeta no começo da obra. Mas o exemplo de Hesíodo na Teogonia não suscitara imitadores e apenas um imediato predecessor de Teógnis, o poeta gnômico Focílides de Mileto, tinha se servido deste artifício para assinalar a propriedade das suas máximas, pela razão evidente do seu tipo de versos se poder tornar facilmente propriedade comum, na qualidade de provérbios. De fato, os famosos versos de Focílides e de Teógnis foram citados como provérbios, sem o nome dos autores, pelos escritores subseqüentes. (…) Seguindo-lhe o exemplo, o tirano Hiparco, filho de Pisístrato, ao escrever as máximas que haviam de ser gravadas nos Hermes das estradas áticas, encimou-as com as palavras: Isto é de Hiparco, para logo prosseguir: Não enganes o teu amigo, ou: Segue sempre o reto caminho. (PSEUDO-PLATÃO, Hiparco, 228C)” TRECHOS DESTA OBRA EM:https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/
“Os autores atuais não precisam empregar este meio porque o nome do autor e o título da obra vêm no frontispício. Não era isso que ocorria no séc. VI a.C.. A única solução era a que Hecateu, Heródoto e Tucídides adotaram: começar os livros com a menção do seu nome e a consignação dos seus intentos. Não se seguiu este costume nos livros de medicina que nos chegaram nas coleções de Hipócrates; por isso, os autores de tais livros continuam a ser um mistério para nós.” “a palavra selo se converte na expressão técnica para designar o lugar em que consta o nome do autor.”
PSEUDO-TEÓGNIS: “Mas Teógnis não podia prever as dificuldades com que os eruditos deparariam, dois milênios e meio depois, quando só existisse um exemplar do seu livro. É esta a nossa situação em face do único manuscrito antigo do qual depende toda a nossa tradição de Teógnis. Ele esperava que o livro chegasse a todas as mãos. Mas não era fácil que pudesse pensar em milênios. Não podia prever que, ao fim de cem anos, o seu livro de máximas seria impiedosamente abreviado, compendiado e finalmente agrupado num livro, com os de outros desconhecidos, para cantar nos banquetes. Muito menos podia suspeitar que a incorporação do seu nome ao prólogo do livro, em vez de protegê-lo contra o furto espiritual, pudesse contribuir para que ele fosse considerado como autor de todos os poemas anônimos com ele reunidos na coleção.”
“Focílides oferece-nos regras gerais para a conduta prática da vida. A originalidade de Teógnis aparece claramente, quando se contrapõe àquele ou a Hesíodo. Quer ensinar a formação integral dos nobres, aqueles preceitos sagrados que até agora só oralmente foram transmitidos de geração em geração.” “O jovem a quem se dirige está ligado ao poeta pelos laços do eros. É evidente que estes formam, para o poeta, o pressuposto essencial da sua relação educadora. A sua união deve apresentar algo de típico aos olhos da classe a que ambos pertencem. É significativo que da primeira vez que encaramos de perto a cultura da nobreza dórica nos surja o eros masculino como fenômeno de importância tão decisiva.”
“Não se deve esquecer que o eros do homem pelos jovens ou adolescentes era um elemento histórico essencial na constituição da primitiva sociedade aristocrática, e inseparavelmente vinculado aos seus ideais éticos e à sua posição. Falou-se de amor dórico pelos adolescentes. É perfeitamente justificada a atribuição, pois aquela prática sempre foi mais ou menos alheia ao sentimento popular dos jônios e dos áticos, como a comédia, principalmente, o revela.¹ As formas de vida das classes superiores transmitem-se naturalmente à burguesia rica.”
¹ Jaeger não sabe aqui pesar o surgimento do gênero da Comédia justamente no ocaso da civilização grega.
“desde Sólon – em cujos poemas o amor dos adolescentes aparece ao lado do amor das mulheres e dos esportes nobres como um dos maiores bens da vida – até Platão. Sempre a nobreza helênica esteve profundamente influenciada pelos dórios.”
“a relação do amante com o amado podia ser comparada à autoridade educadora dos pais em relação aos filhos. Aliás, até mesmo a superava em múltiplos aspectos, na idade em que o jovem começa a libertar-se da tradição e da autoridade familiar e atinge a maturidade viril. Ninguém pode duvidar das numerosas afirmações dessa força educadora, cuja história atinge o apogeu no Banquete de Platão. A doutrina da nobreza, em Teógnis, que mergulha a raiz no mesmo círculo de vida, nasce integralmente deste impulso educador cujo aspecto erótico facilmente esquecemos, devido a sua apaixonada gravidade moral.”
“Dei-te asas com que possas voar sobre terras e mares. Em todas as festas e banquetes te verás na boca das pessoas. Jovens encantadores te cantarão o nome à música das flautas. E mesmo após a tua descida ao Hades continuarás a andar por Hellas e pelas ilhas, e atravessarás o mar para seres cantado pelos homens futuros, enquanto durarem a Terra e o Sol. Então já nada serei para ti e, como a um garoto, me iludirás com palavras.”
“O poeta prevê que o Estado, nessa altura ainda em paz, cairá em guerra civil, cujo termo será a tirania. A única via salvadora é o regresso à justa desigualdade e ao governo dos nobres. E isto já não tem qualquer viabilidade.”
“Homens (…) que antes cobriam a sua nudez com grosseiras vestes de pele de cabra e viviam como selvagens fora da cidade são agora, Cirno, as pessoas importantes (…) Espetáculo insuportável! Troçam secretamente uns dos outros e enganam-se, ignorantes de qualquer norma tradicional. Cirno, por nenhum pretexto faças teu amigo um homem destes. Sê amável quando lhes falares, mas não te associes a eles para nenhum desígnio sério. Convém que conheças a mentalidade destes sujeitos miseráveis e saibas que não se pode confiar neles. Esta sociedade perdida só ama a fraude, a perfídia e a impostura.”
Teó., Versos 53-68
“Seria demais esperar da parte do representante da velha nobreza decaída o pleno reconhecimento daquela justiça.” “As queixas contra a violação do direito enchem a primeira parte do poema de Hesíodo tal como do poema de Teógnis.” “Ambos os poetas são levados por impulso pessoal e pelas necessidades de ocasião a formular as suas verdades em proposições de validade universal, de acordo com o estilo arcaico.”
“Toda revolução gera na sociedade uma crise de confiança. Os que têm convicções parecidas unem-se estreitamente porque a traição espreita por todo lado. O próprio Teógnis diz que, em ocasião de discórdia política, um homem seguro vale mais do que o outro. Será isto ainda a velha ética aristocrática? § É certo que propôs como exemplo as amizades ideais de Teseu e Peirítoo, de Aquiles e Pátroclo, e que pertence ao mais antigo estágio da educação aristocrática o culto do bom exemplo.”
“os nobres não tiveram outro remédio senão inserir-se de qualquer modo no todo. Podiam considerar-se um Estado secreto, injustamente submetido ao Estado, e aspirar à restauração do primeiro. Se, porém, o considerarmos com atenção, a verdade é que se converteram num simples partido em luta pelo poder (…) A antiga exigência de uma boa escolha das amizades transforma-se em exagerado exclusivismo político.”
ECOS PARMENÍDEOS: “Teógnis aconselha o seu jovem amigo a adaptar-se exteriormente às circunstâncias vigentes. Segue pela via média, como eu faço.” “Na luta com o demos é preciso também um mimetismo protetor. A dificuldade moral desta luta é não ser, devido a sua natureza específica, uma luta aberta. Mas Teógnis está convencido de que um homem nobre continua sempre nobre.”
“A posição da velha aristocracia fundava-se na posse de propriedades rurais. O aparecimento da moeda afetou-lhe a prosperidade. (…) Esta alteração das condições econômicas afetou profundamente o conceito de arete, pois este englobava a estima social e a posse de bens. Sem ela, era impossível exercer algumas das qualidades essenciais ao homem nobre, como a liberalidade e a magnanimidade. Até entre os camponeses era evidente que a riqueza implicava arete e consideração social, como se vê pelas palavras de Hesíodo.”
“A desigualdade econômica não era para Sólon contrária à vontade divina, pois além do dinheiro e das propriedades havia outra riqueza: a posse de membros sãos e a alegria de viver. Se tivesse de escolher entre a arete e as riquezas teria dado preferência à primeira. Percebemos o que há de revolucionário, forte e positivo nestas idéias se pensarmos que Teógnis não se cansa de lamentar e maldizer a pobreza, atribuindo-lhe um poder ilimitado sobre os homens. (…) A experiência dos odiados novos-ricos ensinou-lhe o quanto é fácil se harmonizarem e se juntarem o dinheiro e a vulgaridade.”
“As considerações de Sólon apenas suscitam em Teógnis um humor resignado e melancólico. Está, pelas suas próprias experiências, profundamente convencido de que o Homem nunca é responsável pelos seus êxitos ou fracassos. Os homens nada mais podem fazer do que entregar-se à vontade dos deuses. Em nada podem contribuir para a determinação do seu próprio destino. Até na riqueza, no sucesso e nas honras se encontra o germe da desventura. Não temos outro remédio, portanto, senão implorar tyche. De que serve o dinheiro ao homem vulgar se não tem o espírito reto! Só pode precipitá-lo na perdição.”
DIGNIDADE X DINHEIRO EM TODOS OS TEMPOS: “onde quer que houvesse um nobre a lutar pela sua sobrevivência e pela sua idiossincrasia, foi seu espelho a sabedoria pedagógica de Teógnis de Mégara. Muitas das suas idéias reviveram em fase posterior, na luta da burguesia contra o proletariado.” [!]
“A poesia de Píndaro é arcaica. Mas ela o é num sentido muito diverso das obras dos seus contemporâneos e mesmo dos poetas pré-clássicos mais antigos. Perto dele, os iambos de Sólon parecem modernos quanto ao vocabulário e ao sentimento. (…) Quando, a partir da <antiga> cultura da Jônia, nos aproximamos de Píndaro, temos a impressão de sair fora (sic) da unidade da evolução espiritual que da epopéia de Homero irradia em linha reta para a lírica individual e para a filosofia jônica da natureza, e de ingressarmos em outro mundo.” “É que, por mais que a fé aristocrática de Píndaro tenha em comum com a epopéia, o que em Homero aparece já quase só como jovial brincadeira tem para Píndaro a mais grave seriedade. Isto, naturalmente, depende em parte da diferença entre a poesia épica e os hinos pindáricos. Nos segundos trata-se de preceitos religiosos; na primeira, de uma colorida narração da vida.”
“Foi porventura nos jogos fúnebres celebrados em Olímpia em honra de Pélops, semelhantes aos que a Ilíada descreve em honra de Pátroclo, que as festividades olímpicas e as posteriores tiveram origem. É sabido que os jogos fúnebres também podiam ser celebrados periodicamente, como os de Adrasto em Sicyon, embora o caráter destes fosse diferente. Festas assim podiam ter sido celebradas muito cedo em honra do Zeus Olímpico. E a descoberta, nos mais antigos santuários, de oferendas com figuras de cavalos permite supor a existência de corridas de carros nos mais primitivos cultos daqueles lugares, muito tempo antes do que a tradição relativa aos jogos olímpicos nos diz sobre o primeiro triunfo de Coroibos nas corridas pedestres.”
“A unidade do físico e espiritual que nas obras-primas da escultura grega admiramos, e que para nós está irremediavelmente perdida, aponta-nos o caminho para chegarmos à compreensão da grandeza humana do ideal agonístico, embora a realidade nunca lhe tenha correspondido.”
“É em Píndaro que pela primeira vez os hinos aos vencedores se convertem numa espécie de poesia religiosa.”
“Hoje ninguém pode mais pensar numa entrega genial e espontânea aos ditames da fantasia, como no tempo do Sturm und Drang se pensou, atribuindo a Píndaro o que era característico das convicções particulares desse tempo. E quando ainda hoje se acolhe inconscientemente essa interpretação, na presença da forma total dos hinos pindáricos, isto não está de acordo com a tendência das últimas gerações a não se fixarem só na originalidade da sua arte, mas também, cada vez mais, no seu elementos técnico e profissional.”
“Muitas vezes, o destino precipita o Homem numa desgraça sem-saída, que não lhe permite alcançar a perfeição. Só é perfeita a divindade. O Homem não o pode ser, quando o toca o dedo do destino.”
“Simônides,apesar de ser insubstituível para a história do problema da idéia grega da arete – na interpretação dos seus escólios, que Sócrates discute com os sofistas no Protágoras¹ de Platão –, não é o representante pleno da ética aristotélica, no sentido de Píndaro.” “É ele o primeiro sofista.”
“A arete só é divina porque um deus ou um herói foi antepassado da família que a possui. Dimana dele a força da arete, a qual se renova sem cessar nos indivíduos que constituem a série das gerações.” “O elogio tem um lugar firme nos epinícios. É pelo ingresso neste coro que o vencedor se situa ao lado dos deuses e dos heróis. A que deus, a que herói, a que homem celebrarei? – começa o 2º poema olímpico.”
“O tempo não pode desfazer o que está feito; mas pode, em parte, sobrevir com o esquecimento, Latha, quando um homem daimon intervém no seu destino. Apesar da sua tenaz repugnância, a aflição morre dominada pela nobre alegria, quando a moira de Deus concede a rica prosperidade de uma ventura superior.”
“Daí resulta para Píndaro um grave problema: explicar como é possível que, após uma longa sucessão de homens famosos, uma família desapareça repentinamente. Isto aparece como uma ruptura inexplicável na cadeia de testemunhos da força divina de uma estirpe, que une aos tempos heróicos a atualidade do poeta. (…) Píndaro fala desta interrupção da areta (sic)humana, no 6º hino nemeu. A raça dos homens e a raça dos deuses estão profundamente separadas.”
“Assim, hoje, Alcímidas, vencedor das competições juvenis, prova que no seu sangue palpita uma força análoga à dos deuses. Parece desaparecer no seu pai, mas reaparece no pai do seu pai, Praxídamas, grande vencedor em Olímpia, no Istmo e em Neméia. Com as suas vitórias acabou com o obscuro esquecimento de seu pai Socleides, filho sem glória de um pai glorioso. Acontece o mesmo que com os campos, os quais ora dão aos homens o pão de cada dia, ora lhe recusam. (…) Para o pensamentos grego é evidente que com o aumento das gerações de uma casa pode aparecer uma colheita má, uma aphoria, idéia que voltamos a encontrar em tempos pós-cristãos, quando o autor do estudo Do Sublime investiga as causas do desaparecimento dos grandes espíritos criadores, na época dos epígonos.” Schiller?
“É nisto que se distingue dos cantos impessoais de Homero. Os seus heróis são homens que vivem e lutam no seu tempo, mas que ele situa no mundo dos mitos”
“A máxima <torna-te quem és> oferece a suma da sua educação inteira. É este o sentido de todos os modelos míticos que se propõe aos homens. Revela-se neles a imagem mais alta do seu próprio ser.”“Não se diz uma palavra sobre Píndaro nas introduções às nossas edições de Platão. Em contrapartida, sempre nelas surgem, como eterna doença e na forma de incrustações estranhas, as matérias-primas dos hilozoístas [hilozoísmo: espécie de panteísmo jônico].”
“O amor filial é, depois da veneração de Zeus, senhor do céu, o dever principal da antiga ética cavaleiresca. Já Quíron, o sábio centauro, protótipo do educador dos tempos heróicos, o imprimiu na mente do peleida Aquiles, quando o teve a seu cuidado.”
“O poeta vive e move-se inteiramente num mundo em que o mito é tão real como a própria realidade; e quer celebre o triunfo de um antigo nobre, quer o de algum tirano que rapidamente alcançou o apogeu, ou o do filho de um burguês sem ascendência, a todos eleva a honras quase divinas, de que se tornaram credores pelo contato da varinha mágica da sua sabedoria sobre o alto sentido destas coisas.” “Mas será possível educar, com a convicção de que é no sangue que se encontra a arete? Píndaro tomou várias vezes posição em face deste problema. Na realidade o problema já fôra levantado por Homero, no canto da Ilíada em que Aquiles é posto em face do educador Fênix, no momento decisivo, e a admoestação deste se mostra ineficaz ante o endurecido coração do herói. No entanto, ali se trata do problema da possibilidade de moldar o caráter inato, ao passo que em Píndaro surge a moderna questão de saber se a verdadeira virtude pode ser ensinada ou se reside no sangue. Não esqueçamos que em Platão surge constantemente uma questão análoga.”
“Píndaro quebra o sigilo e apresenta a sua resposta no terceiro Canto nemeu:
A glória só tem pleno valor
quando é inata. Quem só tem
o que aprendeu é um homem obscuro e indeciso,
jamais caminha com um passo firme.
Apenas esquadrinha
com imaturo espírito
mil coisas altas.”
“A arte do poeta, como a arete das Olimpíadas, também não pode ser ensinada. É, por natureza, <sabedoria>.”
“Mas a águia é a mais rápida entre todas as aves. Rapidamente enxerga ao longe e captura a sangrenta presa. Os corvos crocitam e alimentam-se aqui embaixo.”
“E com isto deixamos o mundo aristocrático, que parece afundar-se gradualmente no silêncio, e de novo nos confiamos à torrente da História, que rumorejante passa por cima dele, quando parecia deter-se.”
“Parece ser uma lei na vida do espírito que, quando um tipo de existência atinge o seu tempo, encontre a força necessária para formular o seu ideal e atingir o seu conhecimento mais profundo (…) Assim, a decadência da cultura nobre da Grécia produziu Píndaro; a da cidade-Estado, Platão e Demóstenes; e a hierarquia da igreja medieval, no momento em que ia transpor a linha do seu apogeu, produziu Dante.”
1.10 A política cultural dos tiranos
“Neste posto avançado do mundo grego, a Sicília, em face do crescente poderio de Cartago sobre o mar e o comércio, foi muito mais duradouro do que na Grécia propriamente dita o <domínio de um só>.”
“A crescente expansão da economia monetária frente à economia natural operou uma revolução no valor das propriedades dos nobres que até então haviam sido o fundamento da ordem política. Agarrados às antigas formas da economia, os nobres estavam num plano inferior em face dos possuidores das novas fortunas adquiridas no comércio e na indústria. E até entre as antigas estirpes se cavava um abismo com a mudança de posição de algumas das velhas famílias, que também se dedicaram ao comércio. Como Teógnis menciona, algumas famílias empobreceram e não puderam conservar a sua antiga posição social. Outras, como os Alcmeônidas da Ática, reuniram tal fortuna, que o seu poderio se tornou insuportável para os seus companheiros de classe, que não puderam resistir à tentação de lutarem pela consecução do poder político.”
“Apesar de serem fenômeno de política puramente interna, ou talvez por isso mesmo, os tiranos estavam ligados uns aos outros por uma solidariedade internacional, freqüentemente baseada em laços matrimoniais. Anuncia-se a solidariedade, tão habitual no séc. V, entre as democracias e as oligarquias. É assim que nasce pela primeira vez – e isso é um fato memorável – uma política de largos vôos que, p.ex., em Atenas, Corinto e Mégara, levou à fundação de colônias.”
“Enquanto a importância de Pisístrato reside no fato de ter preparado a futura grandeza de Atenas, Periandro elevou Corinto a uma altura que, após sua morte, jamais voltou a ser alcançada.”
“Em nenhum lugar os tiranos se agüentavam por mais de 2 ou 3 gerações. A maioria das vezes eram novamente derrubados pela nobreza, já experimentada na política e ciente de seu objetivo. Não obstante, porém, a maior parte das vezes o usufruto da revolução cai logo sob o domínio do povo, como em Atenas. Como observa Políbio na sua teoria das crises e transformações dos regimes políticos, a causa principal da queda dos tiranos é, em geral, a incapacidade dos filhos e netos, que só herdam do pai a força, e não o vigor espiritual, assim como a má utilização do poder recebido do povo num despotismo arbitrário.” “Como diz engenhosamente Burckhardt, havia um tirano em cada grego e ser tirano constituía para todos tal sonho de felicidade que Arquíloco não achou melhor maneira de caracterizar o seu alegre sapateiro do que declarar que ele não aspirava à tirania. Os gregos achavam que o domínio de um homem só, de bondade realmente incomum, estava <de acordo com a natureza> (Aristóteles) e submetiam-se a ele de melhor ou pior grado.”
“A impopularidade desta pressão, que nem sequer o hábito foi capaz de suavizar, obrigou os tiranos a contrabalançá-la por meio da cuidadosa manutenção das formas exteriores de eleição para os cargos, pelo cultivo sistemático da lealdade e pela busca de uma política econômica favorável ao público. Pisístrato compareceu algumas vezes perante os tribunais de justiça, quando estava implicado em alguma demanda, para provar o domínio ilimitado do direito e da lei. Isto produzia no povo uma forte impressão.”
“Os nobres que podiam converter-se em rivais perigosos eram desterrados ou eram encarregados de tarefas honrosas em outros lugares do país.”
“A tirania foi por muitos chamada <o reino de Cronos>, i.e., a idade de ouro, e contava-se todo tipo de histórias sobre as visitas pessoais do senhor aos campos e suas conversas com o povo simples e trabalhador, cujo coração ganhava com a sua afabilidade e com a diminuição das contribuições.” “O tirano é o protótipo do homem de Estado que surgiu mais tarde, embora carecesse da responsabilidade deste. Deu o primeiro exemplo de uma ação de previsão e de visão ampla, realizada pelo cálculo dos fins e dos meios internos e externos, e ordenada segundo um plano. Foi ele na verdade o verdadeiro político.”
“No séc. IV, quando despertou o interesse geral pelas individualidades importantes, e a biografia nasceu como gênero literário novo, o objeto preferido das suas descrições foram os poetas, os filósofos e os tiranos. Entre os chamados 7 sábios, que alcançaram a celebridade no começo do séc. VI, encontramos tiranos como Periandro e Pítaco, ao lado de legisladores, poetas e outras personagens desse tipo. É especialmente significativo que quase todos os poetas daquele tempo tenham passado a vida na côrte dos tiranos. A individualidade não é, pois, um fenômeno de massa, uma nivelação geral do espírito, mas uma verdadeira e íntima independência – razão de sobra para que as cabeças independentes procurassem unir-se entre si.”
“Foi nesse tempo que Atenas conquistou pela 1ª vez o título de cidade das musas, que conservou para sempre.” “Num diálogo falsamente atribuído a Platão, Hiparco, o filho mais novo de Pisístrato, é chamado o 1º esteta, o <erótico e amante da arte>.” https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/
“O interesse do Estado pela cultura é um sinal inequívoco do amor dos tiranos pelo povo. Depois da queda deles, continuou no Estado democrático, que não fez mais do que seguir o exemplo dos seus predecessores.”
“O mecenato de muitos tiranos do Renascimento e das côrtes régias posteriores surge-nos, apesar de todos os serviços prestados à vida espiritual de seu tempo, como algo forçado, como se aquele tipo de cultura não tivesse raízes profundas nem na aristocracia nem no povo e fosse apenas o capricho luxuoso de uma pequena camada social. É importante não esquecer que já na Grécia também aconteceu coisa parecida. As côrtes dos tiranos gregos, no fim do período arcaico, são parecidas com as dos primeiros Medici.” “É porque se sentem privilegiados que o homem de espírito e o seu protetor se juntam, apesar até do seu mútuo desdém.”
“Quando a côrte de Samos fechou as portas e o tirano Polícrates foi crucificado pelos persas, Anacreonte mudou a tenda para a côrte de Hiparco, em Atenas, tendo ido buscá-lo um navio de 50 remos. E quando o último rebento dos Pisistrátidas de Atenas caiu e foi condenado ao exílio, Simônides passou-se para a côrte dos Escópadas da Tessália até que, também ali, caiu o teto da sala e pereceu a dinastia inteira. É altamente simbólica a história que nos diz ter sido Simônides o único sobrevivente. Velho de 80 anos, emigrou ainda para a côrte do tirano Hierão de Siracusa. A cultura destes homens era como a sua vida.”
LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO
2.1 O drama de Ésquilo
“Até a morte de Péricles, foram nobres os chefes do Estado democrático de Atenas, e o poeta mais importante da jovem república, Ésquilo, filho de Eufórion e primeiro grande representante do espírito ático, como Sólon cem anos antes, era filho da nobreza rural.”
“São raras na história as batalhas travadas com tão grande pureza por uma idéia, como as de Maratona e Salamina. Dado que os atenienses abandonaram a cidade e se fizeram ao mar <com todo o povo>, a bordo dos navios, devemos crer que Ésquilo tenha participado da batalha naval, ainda que Íon de Quio não o tenha mencionado nas suas memórias de viagens, escritas uma geração depois. (…) Conduzido pela superioridade espiritual de um ateniense e inflamado por um novo heroísmo, um pequeno exército vencera, na luta pela independência, as multidões de Xerxes” Cf.Ésquilo, Os Persas
“Píndaro anseia pela restauração do mundo aristocrático em todo o seu esplendor, de acordo com o espírito da submissão tradicional. A tragédia de Ésquilo é a ressurreição do homem heróico dentro do espírito da liberdade. É o caminho direto e necessário que vai de Píndaro a Platão, da aristocracia do sangue à aristocracia do espírito e do conhecimento.” “Desapareceu o luxuoso vestuário jônico, para dar lugar às vestes dóricas simples e varonis. Desaparece também do rosto das esculturas desta década o sorriso convencional e inexpressivo derivado do ideal jônico de beleza, sendo substituído por uma seriedade profunda e quase severa. É a geração de Sófocles a primeira a encontrar, no meio dos dois extremos, o equilíbrio da harmonia clássica.” “Sófocles, Eurípides e Sócrates são filhos da burguesia. O primeiro descende de uma família de industriais; os pais de Eurípides eram pequenos proprietários rurais; o pai de Sócrates era um honrado carpinteiro [romantização?] de um pequeno arrabalde.”
“A tragédia devolve à poesia grega a capacidade de abarcar a unidade de todo o humano. Neste sentido, só a epopéia homérica se pode comparar a ela. Apesar da grande fecundidade da literatura, nos séculos intermediários, só a epopéia a iguala quanto à riqueza do conteúdo, à força estruturadora e amplitude do seu espírito criador.” “nos épicos dos chamados ciclos renasce o interesse pelo conteúdo material das sagas relativas à guerra de Tróia. Falta a estes poetas a compreensão da grandeza artística e espiritual da Ilíada e da Odisséia. Só querem narrar o que sucedeu antes e depois.” “Esta atitude histórica era inevitável, dado que primitivamente as memórias das sagas eram tidas por história autêntica. A poesia de catálogos, atribuída a Hesíodo por causa do parentesco do estilo do seu autor com o deste, e que vinha satisfazer o interesse dos cavaleiros em descobrirem uma genealogia nobre que os unisse à árvore genealógica dos deuses e dos heróis, dá mais um passo neste processo de historização dos mitos.”
“No momento em que as forças mais poderosas pareciam afastar-se do heroísmo com crescente decisão, e em que florescia o conhecimento reflexivo e a aptidão para as emoções mais sensíveis (como a literatura jônica mostra), nasce das mesmas raízes um novo espírito de heroísmo mais interior e mais profundo, estreitamente vinculado ao mito e à forma do ser que dele provém.”
“Os novos ensaios para determinar, a partir de um ponto de vista filológico, a origem histórica e a essência da tragédia deixam à margem esta questão. Quando derivam a nova criação de uma outra qualquer forma anterior puramente literária e crêem talvez que os ditirambos dionisíacos <adquiriram forma séria> no instante em que uma cabeça original os pôs em contato com o conteúdo dos antigos cantos heróicos, limitam-se a considerar as condições exteriores do problema. A tragédia ática não passaria de um fragmento dramatizado dos cantos heróicos, representado por um coro dos cidadãos de Atenas.” “Infelizmente não temos qualquer idéia precisa das mais antigas formas da tragédia, e portanto só podemos julgar as formas superiores da sua evolução.”
“Tentaremos só avaliá-la como objetivação espiritual da nova forma de homem que naquela altura se desenvolveu, e da força educadora que irradia daquela realização imperecível do espírito grego. É tão considerável o volume das obras conservadas dos trágicos gregos que teremos de olhá-la de uma distância adequada se não quisermos consagrar-lhe um livro inteiro.(…) é a mais alta manifestação de uma humanidade para a qual a religião, a arte e a filosofia formam uma unidade indivisível.” “As épocas em que a história da cultura e da educação humana seguiram total ou predominantemente os caminhos separados destas formas espirituais são forçosamente unilaterais, por mais profundas que sejam as razões históricas daquela unilateralidade.”
“Se encarássemos o desenvolvimento da tragédia grega, desde Ésquilo até Sófocles e Eurípides, do ponto de vista da estética pura, seria totalmente diverso o nosso juízo a seu respeito; mas, do ponto de vista da história da formação humana, (…) é assim que surge o seu processo, como reflete (…) o espelho da consciência pública que é a comédia desse tempo. Os contemporâneos não consideravam nunca a natureza e a influência da tragédia de um ponto de vista exclusivamente artístico. Era a tal ponto a rainha, que a tornavam responsável pelo espírito da comunidade. E embora devamos pensar, como os historiadores, que os grandes poetas não eram só criadores, mas também os representantes daquele espírito, isto não altera em nada a responsabilidade da sua função diretiva, que o povo helênico achou maior e mais grave que a dos chefes políticos que se sucederam no governo constitucional. Só a partir deste ponto de vista é que se pode compreender a intervenção do Estado platônico na liberdade da criação poética, tão inexplicável e insustentável para o pensamento liberal. Sem embargo, este sentido da responsabilidade da poesia trágica não pode ter sido o originário, se pensarmos que no tempo de Pisístrato a poesia era considerada apenas como objeto de prazer.” “Os festivais dramáticos de Atenas constituíam o ideal de um teatro nacional, do tipo daquele que os poetas e diretores de cena alemães da nossa época clássica se esforçaram em vão por implantar.”
“O impulso dionisíaco convinha mais aos dramas cômicos, satíricos e burlescos”
“O poeta não enfrentava, nos bancos dispostos em torno do local das danças, um público de gosto literário estragado, mas sim um público capaz de sentir a força da psicagogia, um povo inteiro disposto a emocionar-se num instante como jamais o teriam podido conseguir os rapsodos, com os cantos de Homero.”
“Ó tu, o primeiro dos gregos, que ergueste as palavras à altura da mais alta nobreza!, assim evoca a sombra de Ésquilo um poeta de uma geração posterior.”
“Outro elemento era a magnificência do espetáculo, que seria vã curiosidade tentar reconstruir. Quando muito, a sua lembrança pode ajudar o leitor moderno a libertar-se da imagem do teatro fechado, totalmente contrária ao estilo da tragédia grega. Basta recordar a máscara trágica, tão freqüente na arte grega, para notar esta diferença. Torna-se patente nela a diferença essencial entre a tragédia grega e qualquer outra arte dramática posterior.Era tão grande o seu afastamento da realidade comum que a fina sensibilidade dos gregos descobriu na paródia e transposição das suas palavras para as situações da vida cotidiana uma fonte inesgotável de efeitos cômicos.”
“A concentração de um destino humano inteiro no breve e impressionante curso dos acontecimentos, que no drama se desenrolam ante os olhos e os ouvidos dos espectadores, representa, em relação à epopéia, um aumento enorme do efeito instantâneo produzido na experiência vital das pessoas”
“Como diz o seu nome, a tragédia nasceu das festas dionisíacas dos coros de bodes. Bastou para tanto que um poeta visse a fecundidade artística do entusiasmo ditirâmbico (tal como o vemos na concentração do mito da antiga lírica coral siciliana) e fosse capaz de traduzi-la numa representação cênica e de transferir os seus próprios sentimentos para o eu estranho do ator. Assim, o coro, de narrador lírico, converteu-se em ator e, portanto, em sujeito dos sentimentos que até então apenas havia partilhado e acompanhado com as suas emoções.”
“Já n’As Suplicantes, uma das tragédias mais antigas, que não era ação, mas pura paixão, a força da sympatheia, que suscitava a participação sentimental dos ouvintes por meio dos lamentos do coro, serviu para dirigir a atenção para o destino que, enviado pelos deuses, produzia aqueles abalos na vida dos homens. Sem este problema da tyche ou da moira, que a lírica dos jônios fizera chegar à consciência daquele tempo, jamais se teria gerado uma tragédia autêntica a partir dos antiquíssimos <ditirambos de conteúdo mítico>. (…) Deles até Ésquilo, vai um passo gigantesco.”
“As lendas tradicionais são vistas através das mais íntimas convicções da atualidade. Os sucessos de Ésquilo, Eurípides principalmente, foram mais além, a ponto de converterem a tragédia mítica numa representação da vida cotidiana.”
“O próprio Agamemnon de Ésquilo se comporta de modo totalmente diverso do Agamemnon de Homero. É um filho genuíno do tempo da religião e da ética de Delfos, constantemente perturbado pelo medo de, como vencedor, na plenitude da força e da ventura, incorrer na hybris. Está completamente impregnado da crença de Sólon, segundo a qual a abundância conduz à hybris e a hybris à ruína. (…) Prometeu é concebido como o principal conselheiro, caído em desgraça, do jovem tirano ciumento e desconfiado que lhe deve a consolidação do seu poder alcançado recentemente pela força e que com ele não o quer partilhar, porque Prometeu o quer aplicar à realização dos seus planos secretos de salvação da humanidade sofredora. Na figura de Prometeu misturam-se o político e o sofista, como o prova a repetida designação do herói por meio do último termo, nessa época ainda honroso também.”
“as longas enumerações de países, rios e povos, que vemos no Prometeu Agrilhoado e no Prometeu Libertado,¹ não constituem só um adorno poético, mas caracterizam ao mesmo tempo a onisciência do herói.”
¹ Só restaram fragmentos.
“Foi Welcker o primeiro a notar que Ésquilo não compunha, em geral, tragédias isoladas, mas trilogias. Mais tarde, no entanto, quando foi abandonada esta forma de composição, continuaram a ser representadas igualmente 3 peças do mesmo autor.” “Um dos mais intrincados problemas das crenças de Sólon, partilhadas pelo poeta, era a transmissão das maldições familiares de pais a filhos, e muitas vezes até dos culpados aos inocentes.” “O problema do drama de Ésquilo não é o Homem. O Homem é o portador do destino. O destino é que é o problema. A atmosfera está carregada de tormenta desde o primeiro verso, sob a opressão do daimon que pesa sobre a casa inteira. Dentre todos os autores dramáticos da literatura universal, Ésquilo é o mestre supremo da exposição trágica.” “É precisamente na contínua intromissão de Deus e do Destino que a mão do poeta se revela. Nada de semelhante vemos no mito. Tudo o que acontece na tragédia encontra-se sob a preocupação dominante do problema teológico, tal como Sólon o desenvolve nos seus poemas, a partir da epopéia mais recente.” “Os erros que arrastam o Homem para a ruína são de uma força demoníaca à qual ninguém pode resistir. É ela que induz Helena a abandonar a casa do marido para fugir com Páris, e é ela que endurece o coração de Aquiles perante a embaixada que o exército lhe envia para dar explicações para a reparação da sua honra ultrajada, e perante as admoestações do seu velho preceptor.”
“como é freqüente a divindade dar sucessos aos insensatos e aos maus, e permitir que fracassem os esforços dos justos, ainda quando são norteados pelas melhores idéias e intenções! É indiscutível a presença desta <infelicidade imprevisível> no mundo. É o resíduo irredutível da velha Ate de que fala Homero e que conserva a sua verdade, ao lado do reconhecimento da própria culpa. Está intimamente vinculada à experiência humana que os mortais denominam sorte, pois esta se transforma facilmente na mais profunda dor, assim que os homens se deixam seduzir pela hybris.”
“O drama Os Persas mostra do modo mais simples como a tragédia esquiliana provém daquela raiz. É digno de nota que ela não pertença a nenhuma trilogia, o que tem para nós a vantagem de nos permitir ver o desenvolvimento da tragédia no espaço mais reduzido de uma unidade fechada.Mas Os Persas é um exemplo único pela ausência do elemento mítico. O poeta elabora em forma de tragédia um acontecimento histórico que viveu pessoalmente.” “Maravilharam-se alguns, ingenuamente, pelo fato de os poetas gregos não terem usado com mais freqüência <temas históricos>. É simples a razão disso. A maioria dos acontecimentos históricos não reúne as condições requeridas pela tragédia grega.” “Tudo se reduz ao efeito do destino na alma daquele que o experimenta.” “A própria experiência da dor não interessa por si mesma. (…) A dor acarreta a agudeza do conhecimento. (…) Existe um grau intermediário no <conhece-te a ti mesmo> do deus de Delfos, que exige o conhecimento dos limites do humano”
“Nenhum poeta antes dele experimentou e exprimiu com tanta força e vivacidade a essência do demoníaco. Até a fé mais inquebrantável na força ética do conhecimento é forçada a convir em que a Ate continua a ser sempre a Ate” “Aquilo que nós chamamos caráter não é essencial na tragédia de Ésquilo.”
“Na Oréstiaalcançam o apogeu não só a imaginação criadora da linguagem e a arte construtiva do poeta, mas também a tensão e o vigor do problema moral e religioso.E parece incrível que Ésquilo tenha escrito esta obra dramática, a mais pujante e viril que a história conhece, na velhice, e pouco tempo antes de morrer.” “A culpa de Orestes não se fundamenta de modo nenhum no seu caráter, nem é a este, como tal que, a intenção do poeta se dirige. Ele é apenas o filho infeliz, amarrado pela vingança do sangue. No instante em que atinge a virilidade, espera-o a maldição sinistra que o levará à perdição, ainda antes de ter começado a gozar a vida. O deus de Delfos compele-o com renovado vigor, sem que nada o possa desviar do destino que o espera.”
“A idéia de Sólon de que os filhos devem expiar as culpas dos pais gera em Sete contra Tebas, final da trilogia relativa aos reis tebanos, um drama que ultrapassa a Oréstia em força trágica, não só pelo parricídio com que termina, mas ainda por outros aspectos. Os irmãos Etéocles e Polinices são vitimados pela maldição que pesa sobre a raça dos Labdácidas, e que Ésquilo fundamenta nas culpas dos antepassados. Sem este fundo, teria sido completamente impossível para o seu sentimento religioso um acontecimento como o que o drama apresenta.” “A arete pessoal e o destino superpessoal atingem aqui a sua tensão máxima.” “Tem-se a impressão de que a culpa dos antepassados em terceiro grau não é uma amarra suficientemente forte para agüentar o peso ingente do sofrimento.”
“os padecimentos e os erros de Prometeu têm origem nele mesmo, na sua natureza e na sua ação. (…) Para Hesíodo, era apenas o prevaricador castigado pelo crime de ter roubado o fogo de Zeus. Com a força de uma fantasia que nunca os séculos poderão honrar e admirar suficientemente, Ésquilo descobriu nesta façanha o germe de um símbolo humano imortal”
“Estava reservado ao gênio grego a criação deste símbolo do heroísmo doloroso e militante de toda criação humana, como a mais alta expressão da tragédia da sua própria natureza. Só o Ecce Homo, saído de um espírito completamente diverso, com a sua dor pelos pecados do mundo, conseguiu criar um novo símbolo eternamente válido de humanidade, sem no entanto roubar nada à validade do anterior.” “É certo que o Prometeu Libertado deveria completar aquela imagem”
“Esta fusão do coro com os espectadores representa uma nova etapa no desenvolvimento da arte coral de Ésquilo. Em As Suplicantes, o verdadeiro ator é ainda o coro das Danaides. Não há outro herói. Que esta era a essência original do coro foi Nietzsche quem pela 1ª vez o exprimiu com toda clareza [em] A Origem da Tragédia, obra genial da juventude, ainda que mesclada de elementos incompatíveis.”
“Uma das raízes mais vigorosas da força educativa da tragédia grega consiste no coro que, com seus cantos de simpatia, objetiva na orquestra as experiências trágicas da ação.”
2.2 O homem trágico de Sófocles
“Foi com plena consciência que Sófocles aceitou o papel de sucessor de Ésquilo” “Não deixa de ter razão a crítica de Aristófanes e dos seus contemporâneos, quando vê em Eurípides não o corruptor da tragédia de Sófocles, mas sim da tragédia de Ésquilo.”
“não nos inclinamos a encarar como preconceito que é necessário superar o entusiástico juízo dos classicistas que considera Sófocles o apogeu do drama grego, pelo rigor da sua forma artística e pela sua luminosa objetividade. É assim que a ciência e o moderno gosto psicológico que a acompanha orientam as preferências para o tosco arcaísmo de Ésquilo e para o refinado subjetivismo dos últimos tempos da tragédia ática” Jaeger banca o apologeta sem igual de todos aqueles que descreve, no final nos tornando vacilantes quanto a qualquer um de seus juízos.
“A impiedade de Eurípides – no sentido que lhe deu a tradição – é mais religiosa, apesar de tudo, que a tranqüila credulidade de Sófocles.”
“Temos que partir do efeito cênico que produz, o qual não se esgota com a compreensão da sua técnica inteligente e superior.”
“como explicar o fracasso, salvo algumas experiências com o público mais ou menos especializado, de todas as naturais tentativas modernas para encenar as tragédias de Ésquilo e de Eurípides, ao passo que Sófocles é o único dramaturgo grego que se agüenta nos repertórios dos nossos teatros? Isto não é certamente fruto de um preconceito classicista. A tragédia de Ésquilo não consegue agüentar-se nos palcos modernos, pela rigidez nada dramática do coro que a domina e que o peso das idéias e da expressão não compensa, sobretudo se faltam o canto e a dança. É certo que, numa época perturbada como a nossa, a dialética de Eurípides desperta um eco de simpática afinidade. Mas não há coisa mais mutável que os problemas da sociedade burguesa. Basta pensar o quanto estão longe de nós Ibsen ou Zola, no entanto incomparavelmente mais próximos do que Eurípides, para compreender que aquilo que constituiria a força de Eurípides, no seu tempo, representa precisamente para nós uma barreira intransponível.”
“Se nos perguntarmos quais são as criações dos trágicos gregos que vivem na fantasia dos homens independentemente do palco e da sua ligação com o drama, veremos que em primeiro lugar estão as de Sófocles. Esta sobrevivência isolada das figuras enquanto tais jamais teria podido ser obtida pelo mero domínio da técnica cênica, cujo efeito é sempre momentâneo. Talvez nada nos custe mais a compreender do que o enigma da sabedoria tranqüila, simples, natural, com que ele ergueu aquelas figuras humanas de carne e osso, repletas das paixões mais violentas e dos sentimentos mais ternos, de grandeza heróica e altiva e de autêntica humanidade, tão semelhantes a nós e ao mesmo tempo dotadas de tão alta nobreza. Nada nelas é artificial ou exorbitante. (…) A verdadeira monumentalidade é sempre simples e natural. O seu segredo reside no abandono do que na aparência é acidental e não essencial, de modo que a lei interior, oculta ao olhar comum, resplandeça com perfeita clareza.”
“Nascem todos de uma necessidade que não é nem a generalidade vazia do tipo nem a simples determinação do caráter individual: é a própria essencialidade, oposta ao que não tem essência.”
“quando chamamos Sófocles de o plástico da tragédia, trata-se de uma qualidade que nenhum outro partilha e que exclui qualquer comparação dos trágicos com a evolução das formas plásticas.”
“O monumento perene do espírito ático na época da sua maturidade é constituído pela tragédia de Sófocles e pela escultura de Fídias. Ambos representam a arte do tempo de Péricles.”
“Podemos, assim, chamar Sófocles de clássico, no sentido de que atinge o ponto culminante no desenvolvimento da tragédia. A tragédia consuma nele a <sua natureza>, como diria Aristóteles.”
“Um escultor de homens como Sófocles pertence à história da educação humana, como nenhum outro poeta grego, num sentido inteiramente novo.” “É algo totalmente diverso da ação educadora, no sentido de Homero, ou da vontade educacional, no sentido de Ésquilo. Pressupõe a existência de uma sociedade humana, para a qual a <educação>, a formação humana na sua pureza, e por si mesma, converteu-se no ideal mais alto.” “Quase se poderia considerá-la uma arte educativa, como em outra época e em condições de tempo muito mais artificiais o foi a batalha de Goethe no Tasso, para descobrir a forma na vida e na arte.”
“É lenda, sem dúvida, o relato que descreve Sófocles na flor da mocidade, a dançar no coro que celebrava a vitória de Salamina, onde Ésquilo combateu. Mas o fato de que a vida do jovem se tenha iniciado na época em que a tempestade acabava de passar é para nós muito elucidativo. Sófocles encontra-se no estreito e altaneiro píncaro do brilhante meio-dia do povo ateniense, e que tão velozmente havia de passar. É na serenidade, sem vento e sem nuvens, do dia incomparável cuja aurora despontou com a vitória de Salamina que a sua obra desabrocha. Pouquíssimo tempo antes de Aristófanes conjurar a sombra do grande Ésquilo, para que este salvasse da ruína a cidade, Sófocles fechou os olhos. Não viu a derrota de Atenas. Morreu depois da vitória de Arginusas ter despertado a última grande esperança de Atenas; e agora lá embaixo – assim o representa Aristófanes pouco depois da sua morte – vive consigo próprio e com o mundo na mesma harmonia com que viveu na Terra.”
“Orgulhosa dessa nova forma das relações humanas, aquela época criou para elas uma nova palavra, <urbano>, a qual duas décadas mais tarde se encontrava em uso pleno entre todos os prosadores áticos, em Xenofonte, nos oradores, em Platão.”
“a arte e a anedota encarnam em Sófocles e Péricles a síntese da mais alta nobreza da kalokagathia ática, tal como corresponde ao espírito do tempo.”
“Não é por mera casualidade de temperamento pessoal que Sófocles é o mestre do meio-tom, ao passo que Ésquilo nunca o poderia conseguir. Em nenhuma outra parte é a forma, de modo tão imediato, a expressão adequada, ou melhor, a revelação do ser e do seu sentido metafísico. Sófocles não responde à pergunta sobre a essência e sentido do ser com uma concepção do mundo ou uma teodicéia, como Ésquilo, mas sim com a forma dos seus discursos e a figura dos seus personagens.”
“Não é sem razão que o coro das tragédias de Sófocles repete constantemente que a fonte de todo o mal é a ausência de medida.” “esta consciência das normas ideais do Homem é peculiar à época em que a sofística se inicia. O problema da arete humana é agora estudado com extraordinária intensidade do ponto de vista da educação. O homem <tal como deve ser> é o grande tema da época e a meta de todos os esforços dos sofistas. Até agora, os poetas buscaram só fundamentar os valores da vida humana. Mas não podiam ficar indiferentes à nova vontade educacional.”
“A <alma> é objetivamente reconhecida como o centro do Homem. (…) Há muito tempo a escultura tinha descoberto as leis do corpo humano e dele fizera o objeto do mais fervoroso estudo. Voltava a descobrir na <harmonia> do corpo o princípio do cosmos, que o pensamento filosófico já confirmara para a totalidade. A partir do cosmos chega agora o mundo grego à descoberta do espiritual.” “é o único reino do ser que, embora sujeito a uma ordem jurídica, ainda não tinha sido penetrado pela idéia cósmica. É evidente que, à semelhança do corpo, a alma também tem o seu ritmo e a sua harmonia. Entramos com isso na idéia de uma estrutura da alma.” “Protágoras fala da educação da alma por meio da verdadeira eurhytmia e euharmostia.”
“Só entre o povo grego a idéia da educação podia brotar das normas da arte escultórica. (…) Naquele tempo, a educação, a poesia e a escultura estavam intimamente ligadas.”
“É esta tendência antropocêntrica do espírito ático que dá lugar ao nascimento da <humanidade>, não no sentido do amor humano pelos outros membros da comunidade, que os gregos chamaram filantropia, mas sim no sentido do conhecimento da verdadeira e essencial forma humana.
É especialmente significativo que seja a 1ª vez que a mulher aparece como representante do humano, ao lado do homem, com idêntica dignidade. As numerosas figuras femininas de Sófocles, como Antígona, Electra, Dejanira, Tecmesa, Jocasta, para não falar de outras secundárias, como Clitemnestra, Ismena e Crisótemis, iluminam com o maior fulgor a elevação e amplitude da humanidade de Sófocles. A descoberta da mulher é a conseqüência necessária da descoberta do homem como objeto próprio da tragédia.”
“Em Sófocles, passam a uma posição secundária as exigências da teodicéia, que tinha dominado o pensamento religioso, desde Sólon até Teógnis e Ésquilo. O que em Sófocles é trágico é a impossibilidade de evitar a dor. É este o rosto inevitável do destino, do ponto de vista humano. Não é que seja abandonada a concepção religiosa do mundo, de Ésquilo; de modo nenhum. Simplesmente já não é nela que se coloca a ênfase. Vê-se isso com especial clareza numa das primeiras obras de Sófocles, a Antígona, onde ainda aparece com vigoroso relevo aquela concepção do mundo.
A maldição familiar da casa dos Labdácidas, cuja ação aniquiladora Ésquilo acompanha durante várias gerações na trilogia tebana, permanece ainda em Sófocles a causa originária, mas situada num plano de fundo. Antígona cai como sua última vítima, do mesmo modo que em Sete de Ésquilo, Etéocles e Polinices. Sófocles leva Antígona e o seu opositor Creonte a participarem na realização do seu destino pelo vigor das suas ações, e o coro não se cansa de falar da transgressão da medida e da participação de ambos no seu infortúnio.”
“Antígona está determinada para a dor, pela sua própria natureza; poderíamos até dizer que foi eleita para ela, visto que a sua dor consciente converte-se numa nova forma de nobreza. Esta eleição para a dor, naturalmente alheia a qualquer representação cristã, revela-se de modo eminente no diálogo do prólogo entre Antígona e as suas irmãs. A ternura juvenil de Ismena retrocede aterrada perante a deliberada escolha da sua própria ruína.”
“com a peculiar ironia trágica de Sófocles, no momento em que o coro acaba de celebrar o direito e o Estado, proclamando a expulsão para fora de qualquer sociedade humana daquele que despreza a lei, Antígona é agrilhoada. Para cumprir a lei não-escrita e obedecer ao mais simples dever fraterno, afronta com plena consciência o decreto tirânico do rei que, baseado na força do Estado, proíbe-lhe, sob pena de morte, que dê sepultura ao seu irmão Polinices, morto em combate contra a própria pátria. No mesmo instante aparece ao espírito do espectador um outro aspecto da natureza humana. O orgulhoso hino emudece perante o súbito e trágico conhecimento da debilidade e da miséria humana.
Foi com uma intuição profunda que Hegel viu na Antígona o trágico conflito de 2 princípios morais: a lei do Estado e o direito familiar.” Uau, que profundo, o grande Hegel… Porém, H. emitiu o parecer errado: não é a lei do Estado que prevalece – como poderia se equivocar de tal maneira? Não que o direito familiar seja o vitorioso: a vitória cabe ao indivíduo realizando-se em sua liberdade ética e antagonizando até o último momento o arbítrio – não dos deuses, mas do próprio homem.
“ainda que se fale de hybris e da falta de medida e de compreensão, não é no centro que estes conceitos se encontram, como na obra de Ésquilo, mas sim na periferia.”???
“A irracionalidade desta Ate, que inquietou o sentido da justiça de Sólon e preocupou a época inteira, é um pressuposto do trágico, mas não constitui o problema da tragédia. Ésquilo procura resolver o problema. Sófocles pressupõe a Ate. Mas não é de mera passividade a sua posição perante o fato inevitável da dor enviada pelos deuses, que desde a sua origem a velha lírica lamentou. Não partilha as resignadas palavras de Simônides, segundo as quais o Homem tem de perder necessariamente a arete, quando o infortúnio inexorável o derruba. A elevação dos seus grandes sofredores à mais alta nobreza é o Sim que Sófocles dá a esta realidade, a esfinge cujo enigma fatal consegue resolver. É o homem trágico de Sófocles o 1º a elevar-se a uma autêntica grandeza humana, pela completa destruição da sua felicidade terrena ou da sua existência física e social.”
“Esta arte chega ao auge de sua perfeição na cena do reconhecimento de Electra e de Orestes. O disfarce intencional do salvador, o seu regresso à casa paterna e a maneira gradual como ele deixa cair as suas vestes fazem a dor de Electra passar por todos os graus, desde o céu até o inferno.”
“Exilado da pátria e cego, o velho Édipo vagueia mundo afora, esmolando, pela mão de sua filha Antígona, outra das figuras preferidas que o poeta jamais abandona. Nada é mais característico da essência da tragédia de Sófocles que a compaixão do poeta para com as suas próprias figuras. Nunca o abandonou a idéia do que seria feito de Édipo.”
“Na plenitude da vida Sófocles achou plena satisfação em colocar Édipo no meio da tempestade do aniquilamento. Põe-no diante dos olhos do espectador no momento em que se amaldiçoa e quer aniquilar, desesperado, a sua existência, tal como já com as próprias mãos havia apagado a luz dos olhos. Também em Electra, no instante em que a personagem atinge a plenitude da tragédia o poeta corta, subitamente, o fio da ação.
É altamente significativo que Sófocles tenha retomado o tema de Édipo, pouco antes da sua morte. Seria errôneo esperar desse segundo Édipo a resolução final do problema. Quem tentasse interpretar neste sentido a apaixonada autodefesa do velho Édipo, a sua repetida insistência em que foi na ignorância que realizou todos os seus atos, confundiria Sófocles com Eurípides.[Interpretação corrente!]Nem o destino nem Édipo são absolvidos ou condenados. No entanto, é a uma luz mais alta que o poeta parece encarar aqui a dor. É um último encontro com o velho peregrino sem descanso, pouco antes de chegar ao seu termo. A sua nobre natureza continua inquebrantável na sua força impetuosa, apesar do infortúnio e da velhice. A consciência ajuda-o a suportar a dor, esta velha companheira insuperável que nem nas últimas horas o abandona. Esta imagem agreste não dá nenhum lugar à ternura sentimental. No entanto, a dor torna Édipo venerável. O coro sente-lhe o terror, mas ainda mais a grandeza, e o rei de Atenas recebe o mendigo cego com as honras devidas a um hóspede ilustre. Era no solo ático que ele devia encontrar o último repouso, rezava um oráculo divino. A morte de Édipo está envolta em mistério. Sai sozinho e sem guia para o bosque e ninguém mais o volta a ver. Tão incompreensível como a senda da dor, pela qual a divindade conduz Édipo, é o milagre da salvação que no fim o espera. (…) Não se pode saber como, mas a consagração à dor aproxima-o dos deuses e separa-o do resto dos homens. Agora repousa na colina de Colono, na pátria querida do poeta, nos bosques sempre verdejantes das Eumênides, em cujos ramos canta o rouxinol. Nenhum pé humano pode pisar o lugar. Mas é dele que irradia a bênção para toda a terra da Ática.”
2.3 Os sofistas
“Foi com os sofistas que a palavra paideia, que no século IV e durante o helenismo e o império haveria de ampliar cada vez mais a sua importância e a amplitude do seu significado, pela 1ª vez foi referida à mais alta arete humana e, a partir da <criação dos meninos> – em cujo simples sentido a vemos em Ésquilo, pela primeira vez (Sete contra Tebas, 18) –, acaba por englobar o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais, que formam a kalokagathia, no sentido de uma formação espiritual consciente.”
“se excetuarmos Esparta, onde desde Tirteu se tinha estruturado uma forma peculiar de educação cívica, a agoge (que não tem nada de semelhante no resto da Grécia), não havia nem podia haver nenhuma forma de educação estatal comparável às que a Odisséia, Teógnis e Píndaro nos mostram; e as iniciativas privadas desenvolviam-se muito lentamente.” “A educação profissional, herdada do pai pelo filho que lhe seguia o ofício ou a indústria, não se podia comparar à educação total de espírito e de corpo do nobre” “Era uma simples ampliação do conceito de comunidade de sangue, com a única diferença de que a vinculação da estirpe substituíra o antigo conceito aristocrático do Estado patriarcal. Não era possível pensar em outro fundamento. Por mais forte que fosse o sentimento da individualidade, era impossível conceber que a educação se fundamentasse em outra coisa que não a comunidade da estirpe e do Estado.”
“E se a moderna cidade-Estado se apropriara da arete física da nobreza, por meio da instituição da ginástica, por que não seria possível alcançar, através de uma educação consciente pela via espiritual, as inegáveis qualidades diretivas, que eram patrimônio daquela classe?”
“Não tem importância para nós, agora, a apreciação da forma democrática da organização do Estado ático” “Problemas como o da educação política do Homem e da formação de minorias dirigentes, da liberdade e da autoridade, só neste grau da evolução espiritual podem surgir e só nele podem alcançar a sua plena urgência e importância para o destino.” “Prova disso é o pensamento dos grandes educadores e filósofos nascidos daquela experiência ter conseguido prontas soluções, que transcendem ousadamente as formas existentes do Estado e cuja fecundidade é inesgotável para qualquer outra situação análoga.”
“o problema das relações das grandes personalidades espirituais com a comunidade, problema que preocupou todos os pensadores até o fim da cidade-Estado, sem que chegassem a entrar em acordo. No caso de Péricles, foi encontrada uma feliz solução para o indivíduo e para a sociedade.”
“Esta necessidade fez-se sentir mais desde a entrada de Atenas no mundo internacional, com a economia, o comércio e a política subseqüentes às guerras contra os persas. Atenas ficou devendo a salvação a um só homem e a sua superioridade espiritual. Depois da vitória, não pôde suportar muito tempo, já que o seu poder era incompatível com o antiquado conceito da <isonomia>, e ele aparecia como um tirano dissimulado. Assim, por uma evolução lógica, chegou-se à convicção de que a manutenção da ordem democrática do Estado dependia cada vez mais da justa eleição da personalidade dirigente. Para a democracia, o problema dos problemas era ter de se reduzir a si própria ad absurdum, a partir do momento em que quis ser mais que uma forma rigorosa do poder político e se converteu no domínio real da massa sobre o Estado.
Já desde o começo a finalidade do movimento educacional comandado pelos sofistas não era a educação do povo, mas a dos chefes. No fundo não era senão uma nova forma da educação dos nobres.”
“Era a eles que acorriam os que desejavam formar-se para a política e tornar-se um dia dirigentes do Estado.” “Não deviam limitar-se a cumprir, mas tinham de criar as leis do Estado e, além da experiência que se adquire na prática da vida política, era-lhes indispensável uma intelecção universal da essência das coisas humanas. É certo que as qualidades fundamentais de um homem de Estado não se podem adquirir. São inatos o tato, a presença de espírito e a previsão, qualidades que Tucídides exalta acima das outras em Temístocles. Pode-se, no entanto, desenvolver o dom de pronunciar discursos convincentes e oportunos.”
“a força que as musas concedem ao rei (…) A faculdade oratória situa-se em plano idêntico ao da inspiração das musas aos poetas.”
“A idade clássica chama de orador o político meramente retórico. A palavra não tinha o sentido puramente formal que mais tarde adquiriu, mas abrangia também o próprio conceito.”
“Esta falsa modernização do conceito grego de arete peca essencialmente por fazer surgir aos olhos do homem atual como arrogância ingênua e sem-sentido a pretensão dos sofistas ou mestres da sabedoria, como os contemporâneos os chamavam e a si próprios eles se intitulavam.”
“É natural que encaremos os sofistas retrospectivamente, pelo ponto de vista cético de Platão, para quem o princípio de todo o conhecimento filosófico é a dúvida socrática sobre a possibilidade de ensinar a virtude. É, porém, historicamente incorreto e inibe toda a compreensão autêntica daquela importante época da história da educação humana sobrecarregá-la de problemas que aparecem apenas numa fase posterior da reflexão filosófica. Do ponto de vista histórico, a sofística é um fenômeno tão importante como Sócrates ou Platão. Além disso não é possível concebê-los sem ela.”
“A racionalização da educação política não passa de um caso particular da racionalização da vida inteira, que mais do que nunca se baseia na ação e no êxito.” “O ético, que <se compreende por si próprio>, cede involuntariamente o passo ao intelectual, que se situa em primeiro plano.” “É o tempo em que o ideal da arete do Homem recolhe em si todos os valores que a ética aristotélica reúne mais tarde como prerrogativas espirituais, e que, com os valores éticos do Homem, procura juntar numa unidade mais alta.” “os seus pressupostos pedagógicos eram tão justos como a dúvida racional de Sócrates.”
“deparamos nos sofistas com duas modalidades distintas de educação do espírito: a transmissão de umsaber enciclopédico e a formação do espírito nos seus diversos campos. Claramente se vê que o antagonismo espiritual destes dois métodos de educação só pode alcançar unidade no conceito superior de educação espiritual. Ambas as formas de ensino sobreviveram até o presente, mais sob a forma de compromisso que na sua unilateralidade.”
“A poesia e a música eram para Protágoras as principais forças modeladoras da alma, ao lado da gramática, da retórica e da dialética. É na política e na ética que mergulham as raízes desta terceira forma de educação sofística. Distingue-se da formal e da enciclopédica, porque já não considera o homem abstratamente, mas como membro da sociedade.”
“Em todo caso, é uma afirmação superficial dizer que aquilo que de novo o de único que liga todos os sofistas é o ideal educativo da retórica: isso é comum a todos os representantes da sofística, ao passo que diferem na apreciação do resto das coisas, a ponto de não ter havido sofistas, como Górgias, que só foram retóricos, e não ensinaram outra coisa. Comum a todos é antes o fato de serem mestres da arete política e aspirarem a alcançá-la mediante o fomento da formação espiritual, qualquer que fosse a sua opinião sobre a maneira de realizá-la.”
“É claro que a nova educação (…) se arriscava a cair nas maiores parcialidades, caso não se fundamentasse numa investigação séria e num pensamento filosófico rigoroso (…) Foi a partir deste ponto de vista que Platão e Aristóteles impugnaram mais tarde o sistema total da educação sofística e o abalaram nos seus próprios fundamentos.”
“A história da filosofia que Aristóteles nos dá na Metafísica não inclui os sofistas. As mais recentes histórias da filosofia consideram-nos como fundadores do subjetivismo e do relativismo filosóficos. O esboço de uma teoria por parte de Protágoras não justifica tais generalizações e é um erro evidente de perspectiva histórica pôr os mestres da arete ao lado de pensadores do estilo de Anaximandro, Parmênides ou Heráclito. [Entendi o sentido de ‘pôr ao lado’ neste contexto; porém, se fosse um comentário elogioso, os sofistas deveriam se sentir honrados de dividir honras com Parmênides.]
A cosmologia dos milesianos mostra-nos até que ponto o afã investigador da <história> jônica estava originariamente distante de todo o humano e de toda a ação educacional e prática. [será?] (…) A audaciosa tentativa de Xenófanes para fundamentar a arete no conhecimento racional de Deus coloca este conhecimento em íntima ligação com o ideal educativo; e parecia, em instantâneo vislumbre, que a filosofia da natureza iria, pela aceitação da poesia, obter o domínio da formação e da vida da nação. Mas Xenófanes é um fenômeno isolado (…) Heráclito foi o único dos grandes pensadores capaz de articular o Homem na construção jurídica do cosmos regido por um princípio unitário. E Heráclito não é um fisiólogo. (…) Com Anaxágoras de Clazômenas, que situa na origem do ser o espírito, como força ordenadora e diretiva, entra na cosmogonia a tendência antropocêntrica do tempo. No entanto, continua sem solução de continuidade a concepção mecanicista da natureza. (…) Empédocles de Agrigento é um centauro filosófico. Na sua alma biforme convivem em rara união a física jônica dos elementos e a religião da salvação órfica.”
“Até um pensador tão estritamente naturalista como Demócrito não pôde deixar de lado o problema do Homem e do seu mundo moral específico. (…) prefere traçar uma linha divisória entre a filosofia da natureza e a sabedoria ética e educativa, que deixa de ser uma ciência teórica para de novo adotar a forma tradicional da parênese.”
“O interesse cada vez maior da filosofia pelos problemas do Homem, cujo objeto determina com exatidão cada vez maior, é mais uma prova da necessidade histórica do advento dos sofistas. Todavia, a exigência que eles vêm satisfazer não é de ordem teórica e científica, mas sim de ordem estritamente prática. É esta a razão profunda pela qual tiveram em Atenas uma ação tão forte, ao passo que a ciência dos fisiólogos jônicos não pôde lançar ali quaisquer raízes. Sem compreenderem nada desta investigação separada da vida, os sofistas vinculam-se à tradição educativa dos poetas, a Homero e a Hesíodo, a Teógnis, a Simônides e a Píndaro.”
“Simônides já é, no fundo, um sofista típico.(*) Os sofistas deram o último passo. Transplantaram para a nova prosa artística, em que eram mestres, os vários gêneros de poesia parenética onde o elemento pedagógico se revelava com maior vigor, e entraram assim em consciente emulação, na forma e no conteúdo, com a poesia. Esta transposição do conteúdo da poesia para a prosa é sinal da sua racionalização definitiva.
(*) Disse-o já PLATÃO, Prot., 339 A.”
“Foram os primeiros intérpretes metódicos dos grandes poetas aos quais vincularam, com predileção, os seus ensinamentos. Não se deve, porém, esperar uma interpretação no sentido em que nós a entendemos. Encaravam os poetas de modo imediato e intemporal e os situavam despreocupadamente na atualidade, como o revela graciosamente o Protágoras de Platão.”
“Homero é para os sofistas uma enciclopédia de todos os conhecimentos humanos, desde a construção de carros até a estratégia, e uma mina de regras prudentes para a vida.(*) A educação heróica da epopéia e da tragédia é interpretada de um ponto de vista francamente utilitário.
(*) PLATÃO, Rep. 598 E, mostra este tipo de interpretação sofística de Homero num quadro cheio de precisão.”
“Tudo isto recorda os literatos do Renascimento. Renasce neles a independência, o cosmopolitismo e a despreocupação que os sofistas trouxeram ao mundo. Hípias de Élis, que falava de todos os ramos do saber, ensinava todas as artes e só ostentava no corpo vestes e adornos feitos por suas mãos, é o perfeito uomo universale. [aqui, self-made man] (PLATÃO, Híp. Men., 368 B.)”
“Não tinham cidadania fixa, devido a sua vida constantemente andarilha. Que na Grécia tenha sido possível este modo de vida tão independente é o mais evidente sintoma do aparecimento de um tipo de educação completamente novo, individualista na sua raiz mais íntima, por mais que se falasse de educação para a comunidade e da virtude dos melhores cidadãos. Os sofistas são, com efeito, as individualidades mais representativas de uma época que na sua totalidade tende para o individualismo. Os seus contemporâneos tinham razão, quando os consideravam os autênticos representantes do espírito do tempo. É também sinal dos tempos viverem da educação. Esta era <importada> como uma mercadoria e exposta à venda. Encerra algo de profundamente verdadeiro esta maliciosa comparação de Platão. Não devemos, porém, tomá-la por crítica aos sofistas e às doutrinas deles, mas antes por um sintoma espiritual.”
“Podemos, pois, considerá-los um estágio da maior importância no desenvolvimento do humanismo, embora este só tenha encontrado a sua verdadeira e mais alta forma após a luta entre os sofistas e sua superação por Platão. Há sempre neles algo de incompleto e imperfeito. A sofística não é um movimento científico, mas sim a invasão do espírito da antiga física e <história> dos jônios por outros interesses da vida e sobretudo pelos problemas pedagógicos e sociais que surgiram em conseqüência da transformação do Estado econômico e social. O seu primeiro efeito, porém, foi suplantar a ciência, tal como nos tempos modernos aconteceu com o florescimento da pedagogia, da sociologia, e do jornalismo. Na medida em que (…) formulou um conceito de educação, a sofística levou a uma ampliação dos domínios da ciência jônica nos aspectos ético e social, e abriu o caminho a uma verdadeira filosofia e ética, ao lado e mesmo acima da ciência da natureza. PLATÃO, no Hípias Maior¹ (281 C), salienta a oposição entre a tendência prática dos sofistas e a antiga filosofia separada da vida.”
“Ainda agora está por resolver a questão de saber se a pedagogia é uma ciência ou uma arte; e não foi ciência mas sim techne que os sofistas chamaram a sua teoria e arte da educação.” “A conversão da educação numa técnica é um caso particular da tendência geral do tempo a dividir a vida inteira numa série de compartimentos separados, concebidos com vistas a uma finalidade e teoricamente fundamentados num saber adequado e transmissível. É sobretudo em matemática, medicina, ginástica, teoria musical, arte dramática, etc. que nós encontramos especialistas e obras especializadas. Até os escultores, como Policleto, escrevem a teoria da sua arte. § Por outro lado, os sofistas consideravam a sua arte o coroamento de todas as artes.”
“Enquanto o dom de Prometeu, o saber técnico, só pertence aos especialistas, Zeus infundiu em todos os homens o sentido da justiça e da lei, pois sem ele o Estado não subsistiria. Existe, porém, um grau mais alto de intelecção do direito do Estado. É o que a techne política dos sofistas ensina, e que é, para Protágoras, a verdadeira educação e o vínculo espiritual que conserva unidas a comunidade e a civilização humanas. § Nem todos os sofistas atingiram tão elevado conceito da sua profissão. O sofista mediano dava-se por satisfeito em transmitir a sabedoria.”
“Convém evitar a identificação da techne com o sentido moderno do conceito de <vocação>, cuja origem cristã o distingue do conceito de techne. Cf. KARL HOLL, Die geschichte des Worts Beruf, Sitz. Berl. Akad., 1924.”
“a língua grega não tem outra palavra para exprimir o poder e o saber que o político adquire por meio da ação. E é perfeitamente visível que Protágoras se esforça por distinguir esta techne das técnicas profissionais, em sentido estrito, e por lhe dar um sentido de totalidade e de universalidade.”
“Esta educação ética e política é um traço fundamental da essência da verdadeira paideia. (…) Não é como exemplo histórico, meramente aproximado, que usamos o termo humanismo; é com plena reflexão, para designarmos o ideal de formação humana que com a sofística penetra nas profundezas da evolução do espírito grego e no seu sentido mais essencial. Para os tempos modernos, o conceito de humanismo refere-se de modo expresso à educação e à cultura da Antiguidade.”
“Platão e Isócrates adotam as idéias educacionais dos sofistas e nelas introduzem diversas modificações. Não há nada que caracteriza tão bem esta transformação como o fato de Platão, chegado ao termo da sua vida e do seu saber, ter transformado, nas Leis, a célebre frase de Protágoras (tão característica, na sua própria ambigüidade, do tipo de humanismo dele): O Homem é a medida de todas as coisas, no axioma: A medida de todas as coisas é Deus.”
“são essenciais ao humanismo a indiferença religiosa, o <relativismo> epistemológico e o ceticismo que Platão combate e que fazem dele o mais duro adversário dos sofistas. (…) Na nossa exposição posterior voltaremos a abordar este problema, assim como a luta da educação e da cultura para fazerem reconhecer a religião e a filosofia, luta que na história universal atinge o ponto culminante com a aceitação do cristianismo no período final da Antiguidade. §Aqui só podemos adiantar uma resposta sumária. A velha educação helênica, anterior aos sofistas, ignora a distinção entre religião e cultura. Está profundamente enraizada no religioso. A cisão tem lugar no tempo dos sofistas, que é ao mesmo tempo a época da criação da idéia consciente da educação.”
1000AGRE ÚNICO: “Provavelmente o humanismo só podia brotar das grandes tradições educacionais helênicas, no momento histórico em que entravam em crise os mais altos valores educativos.”
“Do ponto de vista histórico, é preciso determinar, antes de tudo, se Platão destruiu ou completou o humanismo dos sofistas – o primeiro que a História conheceu. (…) considerando-se as coisas exclusivamente à luz da História, parece que há muito está decidido que o ideal de formação humana propugnado pelos sofistas tem em si um grande futuro, mas não é uma criação acabada. A sua clara consciência da forma tem tido uma inestimável eficácia prática na educação, até o dia de hoje. Mas era precisamente pelo que as suas aspirações tinham de superlativo que ela necessitava de um fundamento mais profundo de ordem filosófica e religiosa. (…) Platão ultrapassa a idéia de educação dos sofistas, precisamente porque volta atrás, e remonta à origem.”
“Foi então que pela 1ª vez surgiu uma paideia do homem adulto. O conceito, que originariamente designava apenas o processo da educação como tal, estendeu ao aspecto objetivo e de conteúdo a esfera do seu significado, exatamente como a palavra alemã Bildung (formação) ou a equivalente latina cultura, do processo de formação passam a designar o ser formado e o próprio conteúdo da cultura, e por fim abarcam, na totalidade, o mundo da cultura espiritual”
“Adquirir consciência é uma grandeza, mas é a grandeza da posteridade.” “conserva toda a sua força a frase de Hegel que diz que a coruja de Atena só levanta vôo ao declinar o dia. Foi só à causa da sua juventude que o espírito grego, cujos mensageiros são os sofistas, alcançou o domínio do mundo. Assim se compreende que Nietzsche e Bachofen tenham visto na época de Homero ou na tragédia, antes do despertar da ratio, o apogeu dos tempos. Mas não se pode aceitar esta valoração absoluta e romântica dos tempos primitivos.” “Sentimos com dor a perda que acarreta o desenvolvimento do espírito.” “É necessariamente esta a nossa posição; encontramo-nos num estágio avançado da cultura, e em muitos aspectos procedemos também dos sofistas. Estão muito mais <próximos> de nós do que Platão ou Ésquilo. Por isso é que precisamos tanto destes.”
“A razão desta carência de notícias está em não terem deixado nenhum escrito que a eles sobrevivesse por muito tempo. Os escritos de Protágoras, que nisto como em tudo tinha um lugar de preferência, ainda eram lidos no final da Antiguidade; mas também foram esquecidos, a partir de então. Cf. PROTÁGORAS, frag. 2, Diels (conservado por Porfírio).”
“A Medicina permanecera largo tempo no estado de arte de curar, mesclada de exorcismos e de superstições populares. O progresso do conhecimento da natureza entre os jônios e o estabelecimento de uma ciência empírica influenciaram a arte de curar e levaram os médicos a realizar observações científicas do corpo humanos e seus fenômenos.” “Transpôs-se da totalidade do universo para a individualidade humana o conceito de physis, que recebeu, assim, um matiz peculiar.”
“O homem desgraçado ou inclinado ao mal constitui exceção. Foi, neste ponto que em todos os tempos se fundamentou a crítica religiosa cristã do humanismo. É certo que nesta questão o otimismo pedagógico dos sofistas não é a última palavra do espírito grego. Todavia, se os gregos tivessem partido da consciência universal do pecado e não do ideal de formação do Homem, jamais teriam chegado a criar uma pedagogia nem um ideal de cultura.”
“Píndaro e Platão jamais partilharam as ilusões democráticas sobre a educação das massas por meio da instrução. Foi o plebeu Sócrates quem redescobriu estas dúvidas aristocráticas relativas à educação. Recordem-se as palavras resignadas de Platão, na Carta Sétima, sobre a estreiteza dos limites dentro dos quais o influxo do conhecimento se pode exercer sobre a massa dos homens, e as razões que ele invoca para se dirigir antes a um círculo restrito e não à multidão inumerável, como portador de uma mensagem de salvação.”
“É precisamente nesta íntima antinomia entre a grave dúvida sobre a possibilidade da educação e a vontade inquebrantável de realizá-la que residem a grandeza e a fecundidade do espírito grego. Há lugar entre os dois pólos para a consciência do pecado e pessimismo cultural do cristianismo e para o otimismo educativo dos sofistas.”
“As diferenças individuais entre os métodos educativos dos sofistas, de que os seus descobridores se mostram tão orgulhosos, não passam de um objeto de divertimento para Platão. Apresenta juntas as personalidades de Protágoras de Abdera, Hípias de Élis e Pródico de Ceos, que são hóspedes simultâneos do rico ateniense Cálias, cuja casa se tornara pousada de celebridades espirituais. Assim se faz salientar que, apesar de todas as diferenças, há entre todos os sofistas um parentesco espiritual.”
“Prêmios e castigos são outorgados pela sociedade, lá onde se trata de bens que podem ser alcançados pelo esforço consciente e pela aprendizagem.” “A virtude cívica é o fundamento do Estado. Sem ela, nenhuma sociedade poderá subsistir. Quem nela não participa deve ser treinado, castigado e corrigido, até que se torne melhor; se for incurável, terá de ser banido da sociedade e até morto. Assim, não é só a justiça punitiva, mas o Estado inteiro, que é para Protágoras uma força educadora. A rigor, é o espírito político do Estado constitucional e jurídico, tal como se realiza em Atenas”
“É digno de nota que os sofistas nunca tenham propugnado a oficialização da educação, embora esta exigência esteja muito próxima do ponto de vista de Protágoras. Supriram esta falta oferecendo a educação por meio de contratos privados.”
“Pelo ensino da música a criança é educada na sophrosyne e afastada das más ações. Segue-se o estudo dos poetas líricos, cujas obras são apresentadas em forma de composições musicais. Introduzem o ritmo e a harmonia na alma do jovem, para que este saiba dominar-se, uma vez que a vida do Homem precisa da euritmia e da justa harmonia. Esta deve manifestar-se em todas as palavras e ações de um homem realmente educado. O jovem é mais tarde levado à escola de ginástica, onde os paidotribes lhe fortalecem o corpo, para que seja servo fiel de um espírito vigoroso e para que o homem nunca fracasse na vida por culpa da debilidade do corpo.” “Os filhos dos ricos começam a aprender antes e acabam mais tarde a sua educação.” “É característico do novo conceito o fato de Protágoras pensar que a educação não acaba com a saída da escola. Em certo sentido, poderia dizer-se que é precisamente nossa época que começa.”
“O conhecimento que por meio do ensino penetra na alma não tem para com ela a mesma relação que a semente tem para com a terra. A educação não é um mero processo de crescimento que o educador alimenta, favorece e guia deliberadamente.”
“É indiferente que talvez tenha sido Platão o primeiro a empregar a expressão <formar>. A idéia de formação está implícita na aspiração de Protágoras a formar uma alma rítmica e harmônica por meio da impressão do ritmo e da harmonia musical.”
“Antes dos sofistas não se fala de gramática, de retórica ou de dialética.”
“Perderam-se os seus escritos gramaticais; mas os gramáticos posteriores, peripatéticos e alexandrinos, os reelaboraram. As paródias de Platão oferecem-nos vislumbres da sinonímia de Pródico de Ceos, e sabemos ainda alguma coisa da classificação dos diversos tipos de palavras, de Protágoras, bem como da doutrina de Hípias sobre o significado das letras e das sílabas. Perderam-se também as retóricas dos sofistas, que eram manuais destinados à publicidade. Um remanescente deste tipo de livros é a retórica de Anaxímenes, em grande parte elaborada com conceitos recebidos.” “É certo que se perdeu sua obra capital, as Antilogias de Protágoras.”
“Foi na escola de Platão que a lógica surgiu em 1º lugar, e as caricaturas que o Eutidemo¹traça dos jogos erísticos de alguns sofistas de 2º plano, cujos excessos a filosofia séria impugna, mostram até que ponto se empregou, desde o início, o vigor da nova arte de discutir como arma nos combates oratórios. Está aqui muito mais próximo da retórica que da lógica teórica e científica.”
“como num teclado, os oradores dominam os tons mais diversos. Tal é a <ginástica do espírito>, cuja falta tão freqüentemente notamos nos discursos e escritos atuais.”
“Os gregos deram o nome de agon aos debates judiciais, porque tinham sempre a impressão de se tratar de uma luta entre 2 rivais, sujeita à forma e à lei. Novas investigações mostraram como a argumentação lógica da prova, introduzida pela retórica, foi substituindo, na oratória jurídica do tempo dos sofistas, as antigas provas jurídicas de testemunhas, torturas e julgamentos.” “A retórica é a forma de educação predominante nos últimos tempos da Antiguidade. Estava tão perfeitamente adaptada à predisposição formal do povo grego, que se converteu numa fatalidade, ao desenvolver-se por cima de tudo o mais, como uma trepadeira.”
“Unida à gramática e à dialética, a retórica tornou-se o fundamento da formação formal do Ocidente. Desde os últimos tempos da Antiguidade formaram juntas o chamado trivium, que juntamente com o quadriviumconstituía as 7 artes liberais, que, sob esta forma escolar, sobreviveram a todo o esplendor da arte e da cultura gregas. Ainda hoje as classes superiores dos liceus franceses conservam, como sinal da ininterrupta tradição da educação sofística, os nomes destas disciplinas, herdadas das escolas monásticas medievais. § Os sofistas não uniram ainda aquelas três artes formais à Aritmética, Geometria, Música e Astronomia, que formaram posteriormente o sistema das 7 artes liberais.”
“Antes deles, a música constituía apenas um ensino prático, como mostra a descrição que Protágoras faz da essência da educação dominante. A instrução musical estava nas mãos dos mestres de lira. A ela uniram os sofistas a doutrina teórica dos pitagóricos sobre a harmonia.”
“O que hoje denominamos cultura humanista no estrito sentido da palavra, e que é impossível sem o conhecimento das literaturas clássicas na sua língua original, só podia florescer num solo não-grego, mas influenciado no que tinha de mais profundo pelo espírito helênico, como foi o povo romano. A educação baseada nas 2 línguas, grega e latina, é, na sua concepção plena, uma criação do humanismo do Renascimento.”
“Uma objeção capital da crítica pública contra este aspecto da educação sofista era a inutilidade das matemáticas para a vida prática. Como se sabe, Platão, no seu plano de estudos, considera a Matemática uma propedêutica para a Filosofia. Nada mais alheio aos sofistas do que esta concepção. (…) Isócrates, um discípulo da retórica sofística que após longos anos de oposição acabou por conceder um certo valor à Matemática” “As Mathemata representam o elemento real da educação sofística; a gramática, a retórica e a dialética, o elemento formal. A posterior divisão das artes liberais no trivium e no quadrivium depõe também a favor daquela separação em 2 grupos de disciplina.”
“PLATÃO, Hípias Maior, 285 B mostra unicamente a enciclopédica variedade do saber de Hípias; Hípias Menor,¹ 368 B, o seu consciente esforço para a universalidade, pois tinha o orgulho de dominar todas as artes.”
“É a primeira vez que se reconhece o valor do puramente teórico para a formação do espírito. (…) Pelo conhecimento matemático alcança-se a capacidade de construir e ordenar e, de modo geral, a força espiritual. Os sofistas nunca chegaram a formular uma teoria desta ação. Foram Platão e Aristóteles os que primeiro alcançaram uma consciência plena da importância educacional da ciência pura.”
“Nos tempos antigos, só por exceção esta atitude espiritual aparecia em algumas personalidades excepcionais, que pelo seu afastamento da vida citadina corrente e seus interesses, e pela sua originalidade entre admirável e ridícula, granjeavam respeito, consideração e amável indulgência. Agora as coisas eram bem outras. Este saber aspirava a converter-se na autêntica e <superior> educação e a suplantar a educação tradicional. § A oposição não podia brotar do povo trabalhador, que desde o início se viu excluído desta educação, pois era <inútil>, cara e dirigida às esferas dirigentes. A crítica só era possível no seio das classes superiores, que sempre haviam possuído uma alta formação e uma medida certa e que, mesmo sob a democracia, mantinham intacto, quanto ao essencial, o seu ideal de gentleman, a kalokagathia. Políticos eminentes como Péricles, e altas personalidades sociais, como Cálias, o homem mais rico de Atenas, davam o exemplo de um apaixonado amor ao estudo, e muitas pessoas de destaque mandavam os filhos às conferências dos sofistas. (…) [os pais] não queriam que seus filhos se convertessem em sofistas. Alguns discípulos mais bem-dotados dos sofistas seguiam os seus mestres de cidade em cidade e aspiravam a fazer profissão dos ensinamentos recebidos.Em contrapartida, os jovens distintos que assistiam as suas conferências não os julgavam modelos dignos de imitação. Pelo contrário, acentuavam a diferença de classe que os separava dos sofistas, todos procedentes de famílias burguesas, e estabeleciam um limite além do qual não podia passar a sua influência. (…) Lembra a discussão entre <Sócrates> – que neste caso se identifica com Platão – e o nobre ateniense Cálicles, no Górgias,¹ sobre o valor da investigação pura para a formação do homem superior que aspira à ação política. Cálicles repele violentamente a ciência como vocação da vida inteira. É boa e útil para preservar os jovens contra tendências perniciosas na perigosa idade em que ocorrem (…) Quem não tiver sentido bem cedo estes interesses não chegará nunca a ser um homem completo e permanecerá sempre numa fase imatura do seu desenvolvimento quem encerrar a sua vida toda nesta atmosfera acanhada. Cálicles estabelece os limites da idade em que é necessário ocupar-se deste saber, ao afirmar que deve ser adquirido <com propósito educativo>, i.e., durante uma idade que serve de simples transição. Cálicles é o tipo da sua classe social. Não nos podemos ocupar aqui da atitude que Platão assume diante dele. O mundo distinto de Atenas e toda a sociedade burguesa participam em maior ou menor grau do ceticismo de Cálicles perante o novo entusiasmo espiritual da sua juventude. (…) Cálicles pertence também à escola sofística, como todas as suas palavras manifestam. Mas aprendeu depois, como político, a subordinar esse grau da sua educação ao curso total da sua carreira de estadista. Cita Eurípides, cuja obra é espelho de todos os problemas do seu tempo.”
“foi originariamente proferida por um grego essa <máxima romana> que emociona tantos dos nossos filo-helenistas.”
“Ocupar-se da investigação <só por mor da educação> e na medida em que esta faz falta era a fórmula da cultura do tempo de Péricles, uma vez que essa cultura era integralmente prática e política. O seu fundamento era o império ateniense, que tinha por finalidade obter o domínio do mundo helênico. Até Platão, quando após a ruína do império pregava o ideal da <vida filosófica>, justificava o seu intento pelo valor prático em prol da edificação do Estado. (…) E foi só depois de desaparecida a grandeza ateniense que, em Alexandria, reapareceu a ciência jônica.”
“O Estado aparece na teoria de Protágoras como fonte de todas as energias educadoras. Além disso, o Estado é uma grande organização educacional que impregna deste espírito todas as suas leis e instituições sociais.”
“Foi entre estes 2 pólos – educação e poder – que o Estado dos tempos clássicos se realizou, em tensão constante. Esta tensão gera-se em todos os casos em que o Estado educa os homens exclusivamente para si. A exigência da consagração da vida individual aos objetivos do Estado pressupõe a concordância destes objetivos com o bem-estar do todo e de cada uma de suas partes, entendido corretamente.”
“Segundo Protágoras, a educação para o Estado significa educação para a justiça. É precisamente neste ponto que, no tempo dos sofistas, se origina a crise do Estado, a qual se converte ao mesmo tempo na mais grave crise da educação. É superestimar a influência dos sofistas considerá-los, e isso ocorre com freqüência, os executores desta evolução. Aparece mais sensível nas suas doutrinas porque é nelas que se espelham com maior nitidez os problemas do tempo e porque a educação acusa com o maior vigor qualquer perturbação da autoridade legítima.”
“a guerra do Peloponeso foi uma prova final para o crescente e irresistível poder de Atenas. Após a morte de Péricles, afetou gravemente a autoridade do Estado e o próprio Estado até, e tornou apaixonada a luta pelo poder interno. Ambos os partidos utilizaram a retórica e a arte de discutir dos sofistas. Mas não se pode afirmar que pelas suas concepções políticas os sofistas deveriam necessariamente pertencer a um dos partidos.” “de uma simples luta de partidos converteu-se numa luta espiritual que corroía os princípios fundamentais da ordem vigente.”
“Cálicles impugna a educação segundo o espírito de Protágoras, i.e., segundo o espírito dos ideais tradicionais da <justiça>, com um pathos que deixa transparecer com paixão uma transmutação total de todos os valores.”
“Desde a meninice que tratamos como leões os melhores e mais poderosos de nós: oprimimo-los, enganamo-los e subjugamo-los, ao dizer-lhes que devem contentar-se com ser iguais aos outros e que é isto o nobre e o justo. Quando, porém, surge um homem de natureza realmente poderosa, sacode tudo isto, rompe as cadeias e liberta-se, calcando aos pés todo o nosso amontoado de letras e sortilégios, as nossas artes mágicas e as nossas leis contra a natureza; e ele, o escravo, levanta-se e aparece como senhor nosso: é então que brilha em todo o seu esplendor o direito da natureza.”
Górgias, 483 E
Palavras tão belas e sinceras quanto perigosas e ambíguas. Toda a ciência política moderna gravitará em torno delas, interpretando-as bem ou mal.
“o conceito de direito, no sentido da lei, perdeu a sua íntima autoridade moral. Na boca de um aristocrata ateniense, é o anúncio declarado da revolução. Com efeito, o golpe de estado de 403, depois da derrota de Atenas, estava animado deste espírito.”
“Para a consciência atual, a política e a moral pertencem, com ou sem razão, a 2 reinos separados, e as normas de ação não são as mesmas em ambos os domínios. Nenhuma tentativa teórica para superar essa cisão pode mudar qualquer coisa no fato histórico de que a nossa ética provém da religião cristã e a nossa política do Estado antigo.” “Esta divergência, sancionada pelos séculos e em relação à qual a filosofia moderna várias vezes tentou fazer da necessidade virtude, era desconhecida dos gregos.” “era (…) quase uma tautologia a convicção de que o Estado era a única fonte das normas morais” Maldito rebelde de Nazaré!
“Devemos abstrair-nos aqui da nossa idéia de consciência pessoal. Também ela é oriunda da Grécia, mas desabrochou em época muito posterior. Só havia 2 possibilidades para os bregos do séc. V: ou a lei do Estado é a norma suprema da vida humana e está em concordância com a ordenação divina da existência, de tal maneira que o Homem e o cidadão são uma e a mesma coisa; ou as normas do Estado estão em contradição com as normas estabelecidas pela natureza ou pela divindade, caso em que o Homem pode deixar de reconhecer as leis do Estado.” // Sófocles, Antígona
“É no momento em que se cava o abismo entre as leis do Estado e as leis cósmicas que se abre o caminho que leva ao cosmopolitismo da época helenística.”
“Senhores, todos quantos aqui estais presentes, sois a meus olhos semelhantes, parentes e concidadãos, não pela lei, mas pela natureza. Segundo a natureza, o semelhante é parente do semelhante; mas a lei, tirano dos homens, força a muitas coisas contra a natureza.”
Protágoras, 337 C
“Hípias quer estender a igualdade e a fraternidade a todos os seres que têm rosto humano. Do mesmo modo se exprime o sofista ateniense Antifonte no seu livro A Verdade, de que recentemente se acharam numerosos fragmentos.(*) Bárbaros e Gregos, temos todos a mesma natureza, em todos os aspectos.
(*) Oxyrh. Pap. XI n. 1364 Hunt, publicado já em DIELS, Vorsok, II (Nachtr. XXXIII) frag. B col. 2, 10 ss. (4ª ed.).”
“Este ideal de igualdade internacional, tão alheio à democracia grega, representa a mais extrema oposição às críticas de Cálicles.”
“Do ponto de vista da política realista, as teorias de Antifonte e de Hípias, com as suas idéias de igualitarismo abstrato, não representavam, de momento, grande perigo para o Estado vigente.”
“Já nos poemas homéricos podem-se enxergar os vestígios mais antigos desta maneira de pensar, que estava bem de acordo com o espírito grego. A sua aptidão inata para considerar as coisas na sua totalidade podia atuar de maneiras muito diferentes no pensamento e na conduta do Homem.” “Um preferia morrer heroicamente a perder o seu escudo. Outro abandonava-o e comprava um novo, pois a vida era-lhe mais querida.”
“Se queremos viver num Estado, temos de nos conformar às suas normas. Mas acontecerá o mesmo se quisermos viver em outro. A lei carece, pois, de força compulsiva absoluta.”
“se falta a coação interna, se a justiça consiste só na legalidade externa dos usos de comportamento e no evitar o prejuízo da pena, então não há qualquer motivo para proceder segundo a lei, nos casos em que não há ocasião nem perigo de faltar às aparências e em que não existem testemunhas da nossa ação.”
“as palavras de Aristóteles na Política, segundo as quais é melhor para o Estado ter leis ruins, mas estáveis, do que leis em contínua mudança, por melhores que sejam. A penosa impressão do forjamento de leis pela massa e da luta dos partidos políticos, com todas as suas contingências e fraquezas humanas, tinha forçosamente de abrir o caminho ao relativismo.” Vivemos nesse quadro desolador.
“Nem todos os sofistas aceitaram tão aberta e integralmente o hedonismo e o naturalismo. Protágoras não o podia ter aceitado, pois nega da maneira mais decidida ter partilhado este ponto de vista, quando Sócrates procura levá-lo a ele, no diálogo platônico do seu nome, e só a sutil dialética socrática consegue que o varão venerável acabe por confessar que deixou aberta na sua doutrina uma brecha por onde o hedonismo, que ele recusava, podia penetrar.”
“O simples conceito de <obediência à lei>, que nos primeiros tempos da constituição do novo Estado jurídico fôra um elemento de liberdade e de grandeza, já não era suficiente para exprimir as exigências da nova e mais profunda consciência moral.”
2.4 Eurípides e o seu tempo
“Entre Eurípides e Sófocles pusemos a sofística de permeio, visto que, nos dramas que se conservaram e que pertencem todos aos seus últimos anos, o <poeta do iluminismo grego>, como foi chamado, está impregnado das idéias e da arte retórica dos sofistas.” “A sofística tem uma cabeça de Jano, da qual um dos rostos é o de Sófocles e o outro o de Eurípides.” “Sófocles caminha sobre os íngremes píncaros dos tempos. Eurípides é a revelação da tragédia cultural que arruinou a sua época.”
“Nunca as múltiplas ramificações do povo heleno – que só tardiamente se atribuíram esse nome comum – tinham na sua história vivido uma tal concentração de forças estatais, econômicas e espirituais, como a que na Acrópole produziu o maravilhoso Pártenon, para honrar a deusa Atena, desde então considerada a alma divina do seu Estado e do seu povo.”
“Quanto maior era a grandeza com que a época se manifestava em todos os seus empreendimentos, e a elasticidade, reflexão e entusiasmo com que cada indivíduo se consagrava às suas próprias tarefas e às da comunidade, tanto mais intensamente se sentia o inaudito crescimento da mentira e da hipocrisia – por cujo preço se comprava aquele esplendor – e a íntima insegurança de uma existência que se via forçada a todos os esforços para alcançar o progresso externo.”
“Na sua atitude puramente clínica, essa análise da enfermidade constitui um paralelo emocionante com a célebre descrição da peste que nos primeiros anos da guerra minou a saúde física e a resistência do povo.”
“a recordação das revoluções passadas e das paixões associadas a elas aumenta a gravidade dos nossos próprios transtornos.”
“a amplitude e a popularidade de uma cultura não-erudita, mas vivida simplesmente, tal como existe na Atenas da 2ª metade dos sécs. V e IV, é fenômeno único na História e talvez só tivesse sido possível nos estreitos limites de uma comunidade citadina em que o espírito e a vida pública chegaram a uma interpenetração tão perfeita.”
“A transformação que a poesia operou nos banquetes (que já não eram mera ocasião para a bebida, a exaltação e o divertimento, mas sim um foco da vida espiritual mais séria) mostra bem a mudança enorme que desde os tempos aristocráticos se operou na sociedade.” “A luta de morte entre a educação antiga e a nova educação libertária e sofística penetra nos banquetes do tempo de Eurípides e marca-o como etapa decisiva na história da educação.”
“De fato, em comparação com uma atmosfera tão inquieta como a de Atenas, na qual pululavam todos os germes daquelas críticas da tradição e onde qualquer indivíduo exigia no campo do espírito uma liberdade de pensamento e de palavra análoga à que a democracia outorgava aos cidadãos na assembléia do povo, pouco significava, em suma, a rude ousadia emancipadora de alguns poetas ou pensadores isolados, no meio de uma comunidade citadina que vivia dentro das normas habituais. Aquilo era completamente estranho e alarmante para a essência do Estado antigo, mesmo na sua fora democrática, e tinha necessariamente de produzir um choque entre esta liberdade individualista não-garantida por nenhuma instituição e as forças conservadoras do Estado. Assim se viu no processo movido a Anaxágoras, sob acusação de impiedade, ou em ataques ocasionais contra os sofistas, cujas doutrinas iluministas eram em parte francamente hostis ao Estado. Geralmente, porém, o Estado era tolerante para com todos os movimentos espirituais e orgulhava-se até da nova liberdade dos seus cidadãos. Não devemos esquecer que a democracia ateniense daquela época e das seguintes serviu a Platão de modelo para a sua crítica da constituição democrática, por ele considerada uma anarquia intelectual e moral.”
“A acusação contra o filósofo Anaxágoras era antes dirigida contra seu protetor e partidário, Péricles.”
“Ganhou foros de cidadania o espírito estrangeiro, que originariamente era um meteco. Mas desta vez não foram os poetas que entraram em Atenas, embora não faltassem também, pois Atenas assumira a direção incontestada em tudo o que se referia às massas.”
“Durante a sua juventude, Platão seguiu Crátilo, discípulo de Heráclito. [mais detalhes em 3.3]”
“Não se fala dos que não viveram em Atenas ou lá não apareceram com freqüência.”
“o Estado, a religião, a moral e a poesia. O Estado racional realiza na concepção histórica de Tucídides a sua última façanha espiritual, em que eterniza a sua essência. Por isso, o grande historiador permanece mais confinado ao seu tempo que os seus 2 grandes concidadãos. O seu profundo conhecimento disse, aliás, menos à Grécia posterior do que a nós, pois não se repetiu tão cedo como ele teria podido pensar a situação histórica para a qual escreveu a sua obra.”
“Eurípides é o último poeta grego, no sentido antigo da palavra. Mas também ele tem um pé num campo distante daquele em que a tragédia grega nasceu. A Antiguidade o chamou o filósofo do palco.”
“Para definir a atitude dessa época historicista e racional em face do mito, temos o fato significativo de o historiador Tucídides sustentar que a investigação da verdade não é nada menos que a destruição do mito.”
“Ésquilo já não tinha adaptado as antigas sagas às representações e aos anseios do seu tempo? Não tinha Sófocles, por razões semelhantes, humanizado os antigos heróis? E a assombrosa renovação, no drama dos últimos 100 anos, do mito que já parecia morto na epopéia mais tardia, o que era ela senão a transfusão de sangue e vida nova ao corpo daquele mundo longo tempo exânime?”
“É evidente que convinha mais à consciência grega a projeção do mito num mundo fictício e idealizado, convencional e estético, como o da lírica coral do séc. VI e dos últimos tempos da epopéia, do que a sua adaptação à realidade comum, que, comparada ao mito, correspondia para o espírito grego ao que nós entendemos por profano.”
“Como em toda a poesia grega verdadeiramente viva, a forma surge em Eurípides organicamente de um conteúdo determinado, é inseparável dele e é por ele condicionada na própria formação lingüística da palavra e na estrutura da frase.” “As novas formas que contribuíram para a formação do drama de Eurípides foram o realismo burguês, a retórica e a filosofia. Esta mudança de estilo tem o maior alcance para a história do espírito, pois anuncia-se nela o futuro domínio destas 3 forças decisivas para a formação do helenismo posterior.”
“Para a época de Eurípides, o aburguesamento da vida significava o mesmo que para nós a proletarização. Muitas vezes faz alusão a ele quando faz entrar em cena, em vez dos heróis trágicos do passado, mendigos maltrapilhos. Era precisamente contra esta degradação da alta poesia que os seus adversários se insurgiam.”
“Discute-se o casamento. São trazidas à luz da publicidade as relações sexuais, que durante muitos séculos tinham constituído um noli me tangere da convenção. São uma luta, como qualquer relação na natureza. Não reina aqui, como sempre sobre a Terra, o direito do mais forte? Assim, já na fábula de Jasão que abandona Medéia descobre o poeta os sofrimentos do seu tempo, e introduz nela problemas desconhecidos do mito original, incorporando-os à grandiosa plástica da representação. § Não eram precisamente Medéias as mulheres da Atenas de então. Eram para isso toscas e oprimidas demais ou cultas demais. Por isso escolhe o poeta a bárbara Medéia que mata os filhos com o intuito de ultrajar o marido infiel, para mostrar a natureza elementar da mulher, livre das limitações da moral grega. Jasão, que para a sensibilidade geral dos gregos era um herói sem mancha, ainda que não certamente um marido fiel, torna-se um covarde oportunista. Não age por paixão, mas sim por cálculo frio. Isso era necessário para fazer da infanticida do mito uma figura trágica. O poeta empresta-lhe toda a sua simpatia, em parte porque considera deplorável o destino da mulher, o qual fica eclipsado, à luz do mito, pelo fulgor do herói masculino, cujas façanhas e fama são as únicas dignas de louvor; mas sobretudo porque o poeta quer fazer de Medéia a heroína da tragédia matrimonial burguesa, tal como se manifesta na Atenas daquele tempo, embora não de forma extrema. (…) Medéia é um autêntico drama do seu tempo, pelo conflito entre o egoísmo ilimitado do homem e a ilimitada paixão da mulher. São essencialmente burguesas as disputas, os impropérios e os arrazoados de ambas as partes. Jasão ostenta prudência e generosidade. Medéia faz reflexões filosóficas sobre a posição social da mulher, sobre a desonrosa violência da entrega sexual a um homem estranho, a quem é preciso seguir no casamento e comprar por um rico dote. E explica que o parto dos filhos é muito mais perigoso e heróico que as façanhas dos heróis na guerra.”
“Em Orestes – que não lembra em nada Ésquilo ou Sófocles – Menelau e Helena, de novo unidos após longa separação, regressam da sua viagem, no momento em que a pena pelo assassínio da mãe afunda Orestes numa comoção nervosa diante da ameaça de linchamento pela justiça popular. Orestes implora o auxílio do tio. Menelau puxa sua bolsa. Mas, embora se sinta compadecido no seu coração, é covarde demais para jogar por seu sobrinho e pela sobrinha Electra a sua felicidade, penosamente reconquistada. Sobretudo porque o seu sogro Tíndaro, avô de Orestes e pai da falecida Clitemnestra, está furioso e sedento de vingança. Isto completa o drama familiar. Movido pelos agitadores, o povo condena Orestes e Electra à morte, por falta de um defesa apropriada. É então que aparece o fiel Pílades, que jura matar a formosa Helena para vingar Orestes da conduta de Menelau. Isso, porém, não chega a acontecer, porque os deuses, que simpatizam com a heroína, raptam-na e a levam para o céu. Em vez dela, Orestes e Pílades querem assassinar-lhe a filha Hermíone e incendiar-lhe a casa. Impede-os, porém, o aparecimento de Apolo, como deus ex machina, e a peça acaba bem.”
“A introdução da retórica na poesia é um fenômeno de não menos graves conseqüências. Era um caminho que levaria à total dissolução da poesia oratória.”
“Assim como de início a prosa buscou na poesia os seus processos, mais tarde a própria prosa produziu uma reação na poesia.”
“Os discursos de personagens míticos constituem um dos mais constantes exercícios das escolas retóricas, como o mostra a defesa de Palamedes por Górgias e o elogio que este faz de Helena.”
“Foi atribuída a Antístenes uma luta retórica entre Ájax e Ulisses diante dos juízes, e a Alcidamante uma acusação de Ulisses contra Palamedes. Quanto mais aventuroso era o tema, mais apto estava a demonstrar a difícil arte <de converter a pior coisa na melhor>, ensinada pelos sofistas.”
“A retórica sofista procura defender o direito do ponto de vista subjetivo do acusado, por todos os processos de persuasão.” “O antigo conceito de culpa era totalmente objetivo.” “Ésquilo e Sófocles ainda estão impregnados dessa antiga idéia religiosa, mas procuram atenuá-la, dando ao Homem sobre o qual recai a maldição uma participação mais ativa na elaboração do seu destino (…) Os personagens são <culpados> no sentido da maldição que pesa sobre eles, mas são <inocentes> para a nossa concepção subjetiva.”
“O velho Sófocles apresenta-nos o seu Édipo em Colono, defendendo-se do decreto de expulsão promulgado pelos habitantes do lugar onde se acolheu, com a alegação da sua inocência e de que foi sem conhecimento nem vontade que cometeu os seus crimes de parricídio e incesto. Alguma coisa aprendeu de Eurípides a este respeito.”
“Como sabemos, a subjetivação do problema da responsabilidade jurídica no direito penal e na defesa perante os tribunais do tempo de Péricles ameaçava esfumar as fronteiras entre a culpabilidade e a inocência.”
“a Helena de Eurípides analisa o seu adultério e considera-o perpetrado sob a compulsão da paixão erótica.” // As Troianas, 948
“A sua intelectualidade sensível, que parece débil em comparação com a força vital profundamente enraizada de Ésquilo, torna-se o instrumento espiritual de uma arte trágica que precisa cimentar e espicaçar, por meio de uma dialética febril, o seu arrebatamento subjetivo.”
“A impiedosa crítica que os homens dirigem contra os deuses é um motivo que sempre acompanha a ação trágica, mas é sempre acidental.”
“em As Troianas, os seus heróis, orgulho da nação, são desmascarados como homens de brutal ambição e animados de simples fúria de destruição.”
“Eurípides desenvolve o elemento lírico que desde o início fôra essencial ao drama, mas o transpõe do coro para os personagens.”
“A comédia, com as suas contínuas censuras à música moderna da arte de Eurípides, prova que perdemos com ela algo de essencial.”
“EmAs Bacantes, obra da velhice, o poeta atinge a elevação máxima da sua força lírica, com a irrupção elementar da embriaguez dionisíaca, que constitui, em todo o âmbito das nossas tradições antigas, a mais genuína manifestação desta estranha loucura orgiástica, e mesmo atualmente nos deixa pressentir com a maior nitidez a força de Dioniso nas almas arrebatadas por aquela fúria.”
“Eurípides é o primeiro psicólogo.” “É a primeira vez que, com despreocupado naturalismo, introduz-se no palco a loucura”
“Na Medéia e no Hipólito, descobre os trágicos efeitos da patologia erótica e da erótica deficiente. Em contrapartida, na Hécuba, descreve o efeito deformador da dor excessiva sobre o caráter, a espantosa e bestial degenerescência da nobre dama que tudo perdeu.”
“O Homem já não quer nem pode submeter-se a uma concepção da existência que não o tome como medida última.”
“A comédia infiltra-se cada vez mais nas cenas trágicas. A comédia de Menandro representa a continuação dessa tendência.”
“Não é de se suspeitar de que foi precisamente por ter compreendido tudo a seu respeito e a respeito do seu mundo, com visão cética, que ele aprendeu a celebrar a felicidade da fé humilde dos antigos, baseada numa verdade religiosa que ultrapassava os limites da razão e que a ele próprio faltava?” “Eurípides é o criador de um tipo de arte que já não se fundamenta na cidadania, mas na própria vida.”
“Os seus retratos mostram-nos a fronte negligentemente cercada de emaranhadas mechas de cabelo, tal como era típico das artes plásticas caracterizar as cabeças dos filósofos.”
“Existem poetas infelizes na vida que na sua obra parecem completamente felizes. Sófocles conseguiu na vida aquela harmonia que a sua arte irradia.”
“O prejuízo causado por Eurípides ao teatro ateniense é compensado pela sua incalculável ação sobre os séculos seguintes.”
2.5 A comédia de Aristófanes
“Só a poesia nos permite apreender a vida de uma época em toda a riqueza das suas formas e tonalidades e na eternidade da sua essência humana. Daí o paradoxo, por outro lado perfeitamente natural, de talvez nenhum período histórico, nem sequer do passado mais próximo, poder ser apresentado e tão intimamente compreendido como o da comédia ática.”
“A cena de Tersites na Ilíada, que expõe o repugnante e odioso agitador à troça pública, é uma cena genuinamente popular, uma pequena comédia entre as múltiplas tragédias que a epopéia homérica encerra. E na farsa divina que a contra-vontade representa o par de enamorados Ades e Afrodite, são os próprios deuses olímpicos que se tornam objeto das joviais gargalhadas dos expectadores.
O fato de que até os altos deuses pudessem ser tema e objeto do riso cômico prova que, no sentir dos gregos, em todos os homens e em todos os seres de forma humana reside, ao lado da força que leva ao pathos heróico e à grave dignidade, a aptidão e a necessidade do riso. Alguns filósofos posteriores definiram o Homem como único animal capaz de rir – embora na maioria das vezes ele seja definido como o animal que fala e pensa. Deste modo, colocam o riso no mesmo plano da linguagem e do pensamento, como expressão da liberdade espiritual. Se fizermos uma ligação entre o riso dos deuses homéricos e esta idéia filosófica do Homem, não poderemos negar a alta origem da comédia, apesar da menor dignidade deste gênero e dos seus motivos espirituais.”
“O espírito moderno só conseguirá compreender o encanto ímpar da comédia aristofânica desde que se liberte do preconceito histórico que a encara apenas como uma primeira fase, genial mas ainda tosca e informe, da comédia burguesa.”
“As vestes fálicas dos atores e os disfarces do coro, especialmente por meio de máscaras de animais – rãs, vespas, pássaros –, provêm de uma antiquíssima tradição, pois já se encontram presentes em velhos autores cômicos, em quem esta memória se mantém bem viva”
“Dificilmente pode ser obra da pura casualidade o fato de que tenha sido Aristófanes o único sobrevivente da tríade de poetas cômicos – Cratino, Eupolis e ele – estabelecida como clássica pelos filólogos alexandrinos. Este cânon, procedente sem dúvida do paralelismo com a tríade dos poetas trágicos, era uma simples sutileza da história literária e não refletia o valor efetivo daqueles poetas, nem sequer para os tempos helenísticos.” “Platão teve razão em introduzir Aristófanes no Banquete, como representante exclusivo da comédia.”“Quando com a idade perdiam sutileza e engenho, fontes elementares do seu êxito, até os poetas preferidos eram vaiados sem compaixão. É esse o destino de todos os palhaços.”
“Parece indubitável que até o velho bêbado Cratino, que Aristófanes, na parábase de Os Cavaleiros, propõe que seja retirado do palco urgentemente e conservado no Pritaneu até a morte, em estado de honorável embriaguez, baseava toda a sua força e todo o seu prestígio na sua sátira contra personagens políticos de notória impopularidade. É este o autêntico iambo antigo, nascido da sátira política. Mesmo Eupolis e Aristófanes, os brilhantes Dióscoros da jovem geração, que começaram como amigos, escrevendo as suas peças em colaboração, e acabaram como inimigos violentos, acusando-se mutuamente de plagiadores, são sucessores de Cratino nas suas invectivas contra Cléon e Hipérbolo.”
“a sátira trivial à calvície de alguns espectadores, o ritmo indecente da dança do córdax, a galhofa das cenas de pancadaria, por meio das quais o autor disfarçava a idiotice das suas piadas.”
“As Nuvens confessa abertamente o quanto se sente superior aos seus predecessores (e não apenas a eles) e em que medida confia no poder da sua arte e da sua palavra. Sente-se orgulhoso por introduzir todos os anos uma <idéia> nova, pondo simultaneamente a força inventiva da nova poesia cômica não só frente à antiga, mas também frente à tragédia, que operava constantemente sobre um material dado. (…) Um poeta cômico podia, com um desafio destes, concitar o interesse universal, do mesmo modo que um jovem político podia lançar-se brilhantemente encarregando-se da acusação num grande processo político de escândalo. Só era preciso ter coragem para isso.”
“Foi na comédia que o excesso de liberdade gerou, por assim dizer, o seu próprio antídoto. Superou-se a si própria e estendeu a liberdade de expressão, a parrhesia, até às coisas e instâncias que mesmo as constituições mais livres consideram tabu.”
“Em Atenas, a função censora pertencia à comédia. É isso que dá à graça de Aristófanes, a qual supera muitas vezes as suas chicotadas, a inaudita seriedade que se oculta por trás das suas alegres máscaras.”
“O fato de que a educação tenha ocupado na comédia, apesar da agitação daqueles dias de guerra, um lugar tão amplo e mesmo predominante, ao lado da política, demonstra a sua enorme importância naquele tempo. Só através da comédia podemos chegar a conhecer a violenta paixão que gerou e as causas de que procede a luta pela educação.”
“Quando a caricatura atingia os homens do governo com uma despreocupação artística análoga à imagem de Sócrates que As Nuvens nos apresenta, era humano que os atingidos empregassem a força para se defender, ao passo que os particulares, como Sócrates, estavam desamparados, como diz Platão, à mercê das troças populares da comédia.”
“As palavras de Goethe em Poesia e Verdade descrevem perfeitamente os efeitos deste gênero de nostalgia do passado, na poesia. Causa universal prazer recordar com engenho a história de uma nação; congratulamo-nos com as virtudes dos nossos maiores e sorrimos perante as faltas que julgamos ter superado há muito tempo.”
“Na Alemanha, foi com o despertar da vida política que despertou (sic) o interesse pela comédia política de Aristófanes. Mas só nas últimas décadas os problemas políticos chegaram a atingir a agudeza que tiveram em Atenas, no final do séc. V. Os dados fundamentais são os mesmos: estão em jogo as forças opostas da comunidade e do indivíduo, da multidão e da inteligência, dos pobres e dos ricos, da liberdade e da opressão, da tradição e do iluminismo.”
“Tudo o que Aristófanes descreve pertence a um capítulo imoral: o humano, excessivamente humano. (…) O real dissolve-se continuamente numa realidade intemporal mais elevada, fantástica ou alegórica. O poeta alcança nisto a sua maior profundidade”
“Aristófanes pinta em Os Comilões a ação deformadora do ensino sofístico sobre a juventude e nessa peça já vai muito mais ao fundo. Um camponês ático educou um dos filhos em casa, à moda antiga, e mandou o outro para a cidade, a fim de desfrutar as vantagens da nova educação. Este regressa transformado, moralmente corrompido e inútil para as tarefas do campo. (…) O pai fica consternado ao ver que ele já não sabe cantar nos festins as velhas obras de Alceu e Anacreonte. Em vez das antigas palavras de Homero, só entende as glosas às leis de Sólon, pois a educação política agora sobrepuja tudo. O nome do retórico Trasímaco aparece num verso em que se trata de uma discussão sobre o uso das palavras. Mas, em conjunto, a peça não parece ter ultrapassado os limites da troça inofensiva.”
“O capricho da natureza tinha até cuidado da máscara cômica de Sócrates, dando-lhe um aspecto de sileno, de nariz chato, lábios protuberantes e olhos saltados.” “Embora na realidade quase todo o dia se passasse no mercado, misteriosamente colocou o seu Sócrates fantástico numa estreita tenda de pensador, onde, suspenso de um balanço sobre o pátio, e de pescoço torcido, investigava o <Sol>, enquanto os seus discípulos, sentados no chão, enterravam na areia os seus pálidos rostos, no intuito de perscrutarem o mundo subterrâneo. É costume estudar As Nuvens à luz da história da filosofia e, no melhor dos casos, desculpa-se Aristófanes. Summum ius, summa iniuria.É uma iniqüidade fazer com que o burlesco Sócrates da comédia compareça no tribunal da rigorosa justiça histórica. (…) O seu herói é um iluminista distante do povo e um homem de ciência ateu. Por meio de alguns traços tomados de Sócrates, personifica-se nesta figura o cômico típico do sábio vaidoso e satisfeito consigo próprio. § Para quem tem em mente a imagem que Platão nos dá de Sócrates, esta caricatura não tem graça. A autêntica graça está na descoberta de semelhanças ocultas, e aqui não enxergamos semelhança nenhuma.”
“A ânsia de Sócrates pelos conceitos parecia superar até a dos sofistas. Não se pode exigir do poeta a quem o racionalismo em voga, sob qualquer forma que se apresentasse, parecia igualmente demolidor, finos matizes entre um e os outros. (…) Aristófanes vê com clarividência a dissolução de toda a herança espiritual do passado e não consegue contemplá-la impassivelmente. É certo que se teria visto na maior perplexidade se alguém lhe tivesse perguntado a sua <íntima convicção> a respeito dos deuses antigos. Mas, como poeta cômico, achava ridículo que os meteorólogos classificassem o éter de divino e procurava representar isso de modo vivo na prece de Sócrates ao Turbilhão (…) ou às Nuvens, cujas formas imateriais suspensas no ar apresentavam uma tão evidente semelhança com as doutrinas dos filósofos. (…) a atmosfera encontrava-se excessivamente saturada de ceticismo perante os resultados do pensamento humano”
ENVELHECEU MAL: “No tempo em que florescia o logos justo e se exigia uma conduta virtuosa, nunca se ouvia uma criança recalcitrar. Todas seguiam na rua ordeiramente a caminho da escola e não levavam capa, ainda que caíssem flocos de neve como flocos de farinha. Eram rigorosamente ensinadas a cantar velhas canções, com melodias dos antepassados. Se alguma cantasse com adornos e floreados, à moda dos músicos de agora, teria sido açoitada. Era assim que se educava uma geração como a dos vencedores de Maratona. Hoje enfraquecem-se as crianças, envolvendo-as em mantas, e uma pessoa arde em fúria ao ver a maneira mole e desleixada como os jovens seguram sobre o ventre os escudos, nas danças de armas das Panatenéias. O logos justo promete aos mocinhos que se entregam a ele e a sua educação ensiná-los a odiar a ágora e os banhos, a se envergonharem de toda conduta vergonhosa (sic), a se indignarem quando troçam deles, a se levantarem na presença dos anciãos e a lhes cederam o lugar, a honrarem os deuses e a venerarem a imagem da Modéstia, a não andarem com[o?] bailarinas e a não responderem ao pai. Devem exercitar-se no ginásio, untando com azeite o corpo vigoroso, em vez de discursarem na ágora ou se deixarem levar aos tribunais para discutirem sobre bagatelas. Coroados de canas, disputarão com camaradas belos e decentes as corridas sob as oliveiras da academia, cheirando a madressilva e a folhas de choupo; em seguida, gozarão a plenitude da primavera. O coro exalta os homens ditosos que viveram nos belos tempos antigos, em que reinava esta educação, e goza o doce aroma da sophrosyne que se desprende das palavras do logos justo.”
“Os oradores da epopéia deram às normas ideais um sentido paradigmático e este uso foi seguido pela poesia mais antiga. Os sofistas aproveitam essa tradição e colecionam exemplos míticos, que ao seu relativismo naturalista e dissolvente podiam servir para todos os fins. Enquanto antes no tribunal a defesa procurava demonstrar que o caso estava em conformidade com a lei, agora ataca as leis e os costumes, e tenta demonstrar que são deficientes. A fim de rebater a afirmação de que os banhos quentes debilitam o corpo, o logos injusto aduz o herói nacional Hércules, o qual, para se regalar, pediu a Atena que fizesse brotar da terra fontes de água quente, nas Termópilas. Elogia o costume de permanecer e discursar na ágora, que o logos justo reprova, e para isso invoca a eloqüência de Nestor e de outros heróis homéricos.”
“Se queres seguir o meu conselho, dá livre curso à natureza, salta e ri, não te detenhas ante o vergonhoso. Se fores acusado de adultério, nega a tua falta e invoca Zeus que também não teve força bastante para resistir a Eros e às mulheres. Não é possível que tu, simples mortal, sejas mais forte que um deus. É a mesma argumentação da Helena de Eurípides, ou da ama, no Hipólito. A discussão culmina no ponto em que o elogio tecido pelo logos injusto a sua moral relaxada provoca as gargalhadas do público.”
“Qual era a posição do poeta na luta entre a velha e a nova educação? (…) Ele próprio foi beneficiário da educação moderna e a comédia seria inconcebível nos bons tempos antigos a que o seu coração pertencia e que, no entanto, o teriam vaiado.” Normal.
“A evocação da antiga paideia não significa um convite a regressar ao passado. Aristófanes não é um reacionário dogmático e rígido. Mas o sentimento de se ver arrastado pela corrente do tempo e de ver substituído por algo de novo também valioso, era vigorosamente suscitado nesta época de transição e enchia de receio os espíritos clarividentes. Nada tinha a ver com o moderno conhecimento das linhas históricas e nem com a crença geral na evolução e no <progresso>.”
“Para nós é paradoxal que este aspecto da nova educação seja escarnecido numa peça cujo herói é Sócrates. Na economia da comédia, pelo menos como chegou até nós, a própria cena da discussão entre o logos justo e o injusto pouco tem a ver com Sócrates, que, por outro lado, não estava presente. Mas o final de As Rãs prova que Sócrates é também, para o poeta, o protótipo de um novo espírito que matava o tempo com sofísticas sutilezas, abstrusas e minuciosas, desprezando os valores insubstituíveis da música e da tragédia.”
“A crítica a Eurípides visa a toda a sua criação poética e converte-se finalmente numa quase perseguição.” “Ficou órfã a tragédia. Atingiu-se evidentemente uma encruzilhada histórica. Mais tarde, na comédia de Aristófanes, Gerytades, apareceram os tristes epígonos, o trágico Meleto, o ditirâmbico Cinesias e o cômico Sanírio, como enviados ao mundo subterrâneo para ali receberem o conselho dos grandes poetas. Assim a época ironizava a si mesma.”
“Dioniso em pessoa desce ao mundo subterrâneo para de novo trazer Eurípides. Até o maior adversário do defunto era forçado a reconhecer que era este o desejo mais ardente do público. O seu deus Dioniso é a personificação simbólica do público do teatro, com todas as suas cômicas fraquezas, grandes e pequenas.” “Aristófanes abandona as suas troças anteriores, na maioria ocasionais e que teriam sido inadequadas àquele momento, para penetrar até o fundo do problema.” “A descida ao mundo subterrâneo era um tema predileto da comédia. Esta atitude põe As Rãs em contato com os Demoi de Êupolis, onde os antigos estadistas e estrategos atenienses são chamados do Hades para auxiliarem o Estado, mal-avisado. Pela união desta idéia com a do concurso dos poetas, Aristófanes chega a uma solução surpreendente: Dioniso, que desceu ao Hades para buscar Eurípides, traz por fim, depois de um triunfo de Ésquilo, em lugar do seu adversário, o velho poeta, para salvar a pátria.”
“O que para os meninos é o mestre
que lhes mostra o reto caminho
isso nós, os poetas, somos para os adultos.
Por isso lhes devemos dizer sempre o que há de mais nobre.”
O Ésquilo de Aristófanes
“E, embora Aristófanes saiba perfeitamente que Eurípides não é um espantalho, mas sim um artista imortal a quem a sua própria arte deve imensas coisas, e embora os seus sentimentos estejam de fato muito mais perto de Eurípides que de Ésquilo, seu ideal não pode ignorar que esta nova arte não está em condições de dar à cidade o que Ésquilo deu aos cidadãos do seu tempo, e que nenhuma outra coisa podia salvar a sua pátria na amarga necessidade do momento.”
“Adeus, Ésquilo, sai já daqui,
vai salvar a cidade com sãos conselhos
e educar os néscios, que são inumeráveis.
Há muito a tragédia não era capaz de tomar a atitude e usar a linguagem que a comédia aqui ousa empregar. O seu âmbito vital era ainda a vida pública e o que nela se move, ao passo que a tragédia abandonara muito antes os seus profundos problemas e se refugiara na intimidade humana.”
2.6 Tucídides como pensador político
“Não é Tucídides o primeiro dos historiadores gregos. Por conseguinte, o primeiro passo para compreendê-lo é tomar conhecimento do grau de desenvolvimento da consciência histórica. É claro que antes dele nada há que se lhe compare; e a História posterior enveredou por caminhos totalmente diversos, pois tomou a sua forma e os seus pontos de vista das tendências espirituais dominantes na sua própria época. Mas há ligação entre Tucídides e os seus predecessores.”
“Tanto quanto sabemos, é Hecateu, oriundo, como os primeiros grandes fisiólogos, do centro cultural de Mileto, o primeiro que transfere a <pesquisa> da physis para a terra habitada, que até então fôra estudada apenas como parte do cosmos e na sua estrutura mais superficial e genérica.”
“Foi Heródoto que deu o segundo passo: ainda mantém unitária a ciência dos povos e dos países, mas já situa o Homem no centro. Viajou por todo o mundo civilizado de então – Oriente Próximo, Egito, Ásia Menor e Grécia –, estudou a descreveu todos os tipos de costumes e maneiras estranhas e a maravilhosa sabedoria dos povos mais antigos, descreveu a magnificência dos seus templos e palácios e contou a história dos seus reis e de muitos homens importantes e notáveis, mostrando como neles se manifestavam o poder da divindade e os altos e baixos da mutável sorte humana. É pela sua referência ao grande tema da luta entre o Oriente e o Ocidente, desde a sua primeira manifestação no combate dos gregos com o vizinho reino da Lídia, no reinado de Creso, até as guerras pérsicas, que esta arcaica e variegada multiplicidade de dados ganha unidade. Com uma complacência e uma habilidade narrativa análogas às de Homero, relata para a posteridade, na sua prosa só aparentemente ingênua e despretensiosa – que os seus contemporâneos saboreiam como os antigos tempos saboreavam os versos da epopéia –, a glória dos feitos dos helenos e dos bárbaros.”
“Tucídides é o criador da história política. Este conceito não se aplica a Heródoto, embora sejam as guerras pérsicas o ponto culminante da sua obra.”
“Comparado com o vasto horizonte universal da descrição de povos e países por Heródoto, cuja serena contemplação se estende a todas as coisas divinas e humanas de toda a terra conhecida, é restrito o campo visual de Tucídides. Não se estende para além da esfera de influência da polis grega. Mas este objeto tão restrito está carregado dos mais graves problemas e é experimentado e analisado com a mais profunda intensidade.”
“A história que Heródoto traça dos povos não teria, por si só, desembocado na história política. Mas Atenas, voltada para o presente e concentrada nele, cedo se viu arrastada num remoinho do destino, em que o pensamento político desperto viu-se forçado a completar-se com o conhecimento histórico, embora em sentido diverso e com conteúdo diferente: era necessário chegar ao conhecimento da necessidade histórica que empurrava a evolução da cidade de Atenas para a sua grande crise. Não é que a história se torne política; o pensamento político é que se torna histórico.”
“fundamentalmente, só se preocupa com a guerra do Peloponeso, i.e., com a história vivida no seu próprio tempo. Ele próprio diz, no primeiro parágrafo do seu livro, que começou a sua obra com o começo da guerra, por estar convencido da importância daquele acontecimento.” “Era, pois, muito diferente daquilo que geralmente entendemos por historiador. E as suas excursões por terras do passado, por mais que apreciemos o seu sentido crítico, são sempre incidentais ou escritas para fazer sobressair, em contraste com o passado, a importância do presente. § O melhor exemplo disto é a chamada Arqueologia, no início do livro I. O seu fim primordial é demonstrar que o passado não tem importância”
“Parece-lhe sem importância o passado dos povos gregos, mesmo nos seus empreendimentos mais elevados e mais famosos, porque a vida daqueles sempre era estruturalmente incapaz de uma organização estatal ou do poder digna deste nome. Não tinha tráfico nem comércio, no moderno sentido da palavra.” “As partes mais favoráveis do país eram precisamente as mais disputadas e os seus habitantes mudavam com a maior freqüência.” “O espírito desta pré-história é análogo ao das construções dos sofistas sobre o começo da civilização humana. (…) Encara o passado com uma visão de político moderno, i.e., do ponto de vista do poder. A própria cultura, a técnica e a economia são consideradas apenas como pressupostos para o desenvolvimento de um poder autêntico. Este consiste principalmente na formação de grandes capitais e extensas riquezas territoriais apoiadas num grande poderio marítimo. (…) O imperialismo de Atenas, do qual já pouco resta, dá-lhe a medida para a avaliação da história primitiva.
A história de Tucídides é de uma independência perfeita, tanto na escolha do ponto de vista como na aplicação destes princípios. Homero é estudado, sem quaisquer preconceitos ou romantismo, com o olhar de um político da força. O reino de Agamemnon é considerado por Tucídides o primeiro grande poderio helênico de que se tem notícia. De um verso de Homero, interpretado com exagero enorme, conclui com uma penetração inexorável que o seu império se estendeu através dos mares e foi sustentado por uma grande marinha. O catálogo dos navios da Ilíada desperta-lhe o maior interesse, e, apesar do seu ceticismo quanto às tradições poéticas, mostra-se disposto a aceitar as suas referências precisas sobre o potencial dos contingentes gregos na guerra de Tróia, porque confirmam as suas idéias sobre a falta de importância dos instrumentos de poder daquele tempo. (…) Com a entrada das ilhas e das cidades da Ásia Menor na liga ática, cria-se no mundo dos Estados gregos um poder capaz de contrabalançar o poderio de Esparta, até então predominante. A história subseqüente não é mais do que a competição entre estes 2 poderes, com os conseqüentes incidentes e conflitos, até que explode a guerra final, em face da qual as anteriores parecem brincadeiras de moleques.”
Novamente o bisonho problema do anacronismo em Jaeger.
“O meu ponto de vista difere do de W. SCHADEWALDT (Die Geschichtschreibung des Thukydides, Berlim, 1929), que, de acordo com E. SCHWARTZ(Das Geschichtswerk des Thukydides, Bona, 1919), defende que a arqueologia é a parte mais antiga de Tucídides e tenta interpretar, a partir dela, o espírito do Tucídides anterior, <o discípulo dos sofistas>.”
“Talvez a minha obra pareça pouco divertida por falta de lindas histórias. Será útil, no entanto, a todo aquele que queira formar um juízo adequado e examinar objetivamente o que aconteceu e o quê, de acordo com a natureza humana, acontecerá certamente no futuro, do mesmo modo ou de modo semelhante. Isto é mais uma aquisição de valor permanente do que uma peça de luxo para satisfação momentânea.”
“A essência do acontecer histórico não reside para ele numa ética qualquer ou numa filosofia da história, nem numa idéia religiosa. A política é um mundo regulado por peculiares leis imanentes, que só se podem descobrir se considerarmos os acontecimentos, não isoladamente, mas em ligação com o seu curso total.”
“O conceito de Tucídides sobre o conhecimento da história política não pode ser caracterizado melhor do que por umas célebres palavras do Novum Organon de Bacon, onde opõe à Escolástica o seu próprio ideal científico: Scientia et potentia humana in idem coincidunt, quia ignoratio causae destituit effectum. Natura enim non nisi parendo vincitur. Et quod in contemplatione instar causae est, id in operatione instar regulae est. [A ciência e a potência humana (política) coincidem,¹ uma vez que a ignorância da causa invalida seus efeitos. A natureza só pode ser vencida pelo conhecimento das causas. A causa (teórica) observada pelo método da contemplação nos conduz a operações regulares (regras práticas).]
[¹ Outra interpretação mais atual: as Humanidades e as Ciências Exatas. Ambas são objetos lógicos de estudo no infinito otimismo da era baconiana.]
A peculiaridade do pensamento de Tucídides sobre o Estado é a sua carência de qualquer doutrina abstrata, de qualquer fabula docet, ao contrário da concepção religiosa de Sólon e das filosofias do Estado dos sofistas ou de Platão. (…) A concepção de Tucídides seria inconcebível independentemente do tempo em que ele viveu.”
“Buscar nos discursos de Tucídides os vestígios de algo realmente pronunciado na época é um empreendimento tão estéril como procurar descobrir nos deuses de Fídias determinados modelos humanos.”
“O conceito de causa provém do vocabulário da Medicina (…) Foi ela que pela 1ª vez estabeleceu a distinção científica entre a verdadeira causa de uma enfermidade e o seu mero sintoma.”
“O conhecimento desta causa tem algo de libertador, pois coloca aquele que o possui acima das odiosas lutas dos partidos e do espinhoso problema da culpa e da inocência. Mas também tem algo de opressivo, pois faz aparecer como resultantes de um longo processo, condicionado por uma mais alta necessidade”
Von Ranke, História da Prússia, 2ª ed., 1871.
“Como 2ª potência comercial da Hélade e, portanto, como naturais competidores de Atenas, os coríntios são os seus inimigos mais encarniçados. (…) Vemos surgir diante de nós uma imagem do caráter do povo ático de uma força nunca igualada por nenhum orador ateniense, ao tecer o louvor da sua pátria, nem sequer pela oração fúnebre de Péricles, composta livremente pelo próprio Tucídides, que dela conservou não poucos traços no discurso dos coríntios. Com certeza não se trata realmente de um discurso mantido pelos coríntios em Esparta, mas sim de uma criação essencialmente livre de Tucídides. Este louvor de um inimigo diante dos inimigos é uma peça de grande refinamento retórico que, além da sua imediata finalidade agitadora, desempenha para o historiador um papel importantíssimo: dá-nos uma análise incomparável dos fundamentos psicológicos do desenvolvimento do poderio de Atenas.”
“Nos primeiros dias da guerra, a opinião pública via em Atenas a encarnação da tirania e em Esparta o refúgio da liberdade.”
“O continuador de Tucídides, Xenofonte, prova até que ponto os contemporâneos estavam longe de compreender a idéia de uma legalidade imanente a todo o poder político.”
“Assim como a tragédia grega se distingue do drama posterior pelo coro, cujas emoções refletem sem cessar o curso da ação e lhe acentuam a importância, também a narração histórica de Tucídides distingue-se da história política dos seus sucessores pelo fato de o assunto vir constantemente acompanhado de uma elaboração intelectual que o explica, converte os fatos em acontecimentos espirituais e por meio de discursos torna-os patentes ao leitor.”
“Nem no resultado da campanha siciliana nem no resultado final da guerra reconhece ele uma obscura necessidade histórica. Podemos imaginar um tipo de pensamento histórico absoluto que julgue intolerável ver ali o efeito de uma necessidade, mas sim o resultado de um falso cálculo ou o simples jogo do puro acaso.”
LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO
3.1 Prólogo
“A época helenística será tratada num livro à parte. Aristóteles, Teofrasto, Menandro e Epicuro deverão ser estudados no começo do período helenístico, cujas raízes de vida remontam ao séc. IV. Tal como Sócrates, Aristóteles é uma figura que marca a transição entre duas épocas. Em Aristóteles, porém, mestre dos sábios, a concepção da paideia sofre uma notável diminuição da sua intensidade, o que torna difícil situar esta figura ao lado da de Platão, o verdadeiro filósofo da paideia.”
“Se isso dependesse apenas da vontade do autor, os seus estudos fechariam com uma descrição do vasto processo histórico pelo qual foi helenizada a cristandade e cristianizada a civilização helênica.” “Este livro sublinha muitas vezes que não foi pela destruição das suas bases prévias, mas sempre pela sua transformação, que a cultura grega evoluiu. (…) A regra de Fílon¹ dominou a cultura grega desde Homero até o neoplatonismo e os padres cristãos da baixa Antiguidade.”
¹ “20BC-circa50AD), also called Philo Judaeus, was a Hellenist Jewish philosopher who lived in Alexandria, in Egypt. (…) He adopted allegorical instead of literal interpretations of the Hebrew Bible. (…) He represented the Alexandrian Jews in a delegation to the Roman Emperor Gaius Caligula following civil strife between the Alexandrian Jewish and Greek communities. (…) His ethics were strongly influenced by Aristotelianism and Stoicism, preferring a morality of virtues without passions
(…)
Some of Philo’s works have been preserved in Greek, while others have survived through Armenian translations, and a smaller amount survives in a Latin translation. Exact date of writing and original plan of organization is not known for much of the text attributed to Philo.”
“O historiador deve deixar o filósofo resolver as suas antinomias. Isto não significa, porém, que a história do espírito seja um puro relativismo. Mas é indubitável que o historiador não se deve aventurar a decidir quem é que tem a verdade absoluta.”
“Na baixa Antiguidade, os documentos escolhidos para serem conservados eram-no inteiramente em função de sua importância para o ideal da paideia, e praticamente deixava-se de lado qualquer livro que se considerasse falho de valor representativo, segundo este ponto de vista. A história da paideia grega está completamente fundida com a história da transmissão e conservação dos textos clássicos mediante manuscritos.”
JAEGER, Platos Stellung im Aufbau der grieschischen Bildung, Berlim, 1928.
“Os meus estudos preliminares para o capítulo sobre a medicina grega transcenderam os limites desta obra e foram publicados em livro separado (Diokles von Karystos).”
3.2 Século IV
“A queda brusca de Atenas do alto da sua posição abalou o mundo helênico porque deixava nos limites do Estado grego um vazio difícil de preencher.” “É assombrosa a rapidez com que o Estado ateniense se recompôs da sua derrota e soube encontrar novas fontes de energia material e espiritual.” “Também agora Atenas continuava a ser – ou, antes, foi agora que ela começou a ser de verdade – a paideusis da Hélade.” “O séc. IV é a época clássica da história da paideia, se entendemos por esta o despertar de um ideal consciente de educação e de cultura. É com razão que coincide com um século tão problemático.” “O século anterior decorrera sob o signo da plena realização da democracia. Quaisquer que sejam as objeções contra a viabilidade política deste ideal jamais realizado de uma autonomia extensiva a todos os cidadãos livres, é indubitável que o mundo lhe deve a criação de uma personalidade humana responsável diante de si própria.” “O Estado ateniense não pareceu reconhecer o fato de o seu ideal, apesar da sua grande superioridade material, ter sucumbido na luta. Não é no terreno constitucional que se devem buscar os traços da vitória espartana, mas sim na órbita da filosofia e da paideia.” “Despontava a convicção de que Esparta era menos uma determinada constituição do que um sistema educacional aplicado até as suas últimas conseqüências.”“Isto sugeria a idéia de fazer da educação o ponto de Arquimedes, em que era necessário apoiar-se para mover o mundo político.” “Na literatura do séc. IV deparamos com todos os matizes da realização desta idéia, desde a admiração simplista e superficial do princípio espartano da educação coletiva até a sua recusa absoluta e a sua substituição por um ideal novo e superior de formação humana e de ligação do indivíduo à coletividade.” “o caráter privado de toda a anterior educação de Atenas aparecia como um sistema fundamentalmente falso e ineficaz, que devia ceder o passo ao ideal da educação pública, embora o próprio Estado não soubesse fazer o mínimo uso desta idéia. Mas a mesma idéia abriu largo caminho através da filosofia, que a assimilou” “Aconteceu o que na História acontece tantas vezes: a consciência salvadora chegou tarde.”
Licurgo, Discurso contra Leócrates
“A sua caminhada em direção a uma nova paideia partiu da convicção de que era necessário um ideal novo e mais alto do Estado e da sociedade, e acabou por ser a busca de um novo Deus.” O eterno cotejo Protágoras x Platão.
“A poesia perdeu o seu poder de direção da vida espiritual. O público exige em proporção cada vez maior a representação regular das obras procedentes dos velhos mestres do séc. anterior, e a lei acaba por ordená-la.”
“A comédia definha e já não é a política que ocupa o centro dela. É com facilidade excessiva que temos tendência a esquecer que foi ainda imensa a produção poética desta época, sobretudo em matéria de comédias. É que a tradição sepultou todos estes milhares de obras. Só se conservaram as dos prosadores: Platão, Xenofonte, Isócrates, Demóstenes e Aristóteles, além das de não raros autores secundários.” “É tão significativa a supremacia espiritual da prosa sobre a poesia, que ela acaba por extinguir totalmente pelos séculos afora a recordação desta.”
“Os discursos de Isócrates e de Demóstenes permitem-nos tomar parte na história dos sofrimentos e na problemática do Estado grego, nesta fase final da sua vida. E é com os escritos docentes de Aristóteles que pela 1ª vez a ciência e a filosofia gregas patenteiam à posteridade o interior do laboratório das suas investigações.”
“Uma história da literatura que partisse da simples forma do eidos estilístico não conseguiria captar esta unidade vital interior da época.” “O triunfo da prosa sobre a poesia foi obtido graças à aliança entre as vigorosas forças pedagógicas, que já na poesia grega atuavam cada vez em maior grau, e o pensamento racional da época, que penetrava agora cada vez mais fundo nos verdadeiros problemas vitais do Homem. Finalmente, o conteúdo filosófico e imperativo da poesia despoja-se da sua forma poética e modela no discurso livre uma nova forma que corresponde mais perfeitamente a suas necessidades, e chega até a ver nessa forma um tipo novo e superior de poesia.”
“a nova orientação implica um perigoso isolamento do espírito e um fatal menosprezo da sua função de cultura coletiva.” “são poucos os que injetam sangue na massa; e falham no instante decisivo. É fácil dizer que as pessoas cultas teriam podido transpor este abismo, por si próprias. Platão, a mais importante figura da época e a que viu mais claramente que nenhuma outra o problema da estrutura da comunidade e do Estado em conjunto, tomou na sua velhice a palavra sobre este tema e explicou por que não conseguira trazer uma mensagem para todos.” “O que acontece é que os esforços se concentravam primeiro no problema do modocomo se podiam formar os governantes e os guias do povo, e só em segundo lugar nos meios pelos quais estes homens dirigentes podiam formar o conjunto do povo.” Além da formação do líder político, a formação do rebanho.
3.3 Sócrates
“Do homem de carne e osso e do cidadão ateniense nascido em 469 a.C. e condenado à morte e executado no ano 399 a.C. poucos traços ficaram gravados na história da humanidade, quando esta o elevou à categoria de um dos seus poucos <representantes>. Para a formação desta imagem não contribuíram tanto a sua vida e a sua doutrina, se é que realmente professava alguma, como a sua morte, sofrida por causa das suas convicções. A posteridade cristã outorgou-lhe a coroa de mártir pré-cristão, e o grande humanista da época da Reforma, Erasmo de Roterdam, incluía-o ousadamente entre os seus santos e orava: Sancte Socrates, ora pro nobis!”
“Na Idade Média, Sócrates não fôra mais que um nome famoso transmitido à posteridade por Aristóteles e Cícero. A sua estrela começa agora a se elevar, enquanto a de Aristóteles, o príncipe da Escolástica, entra em declínio. Sócrates torna-se o guia de todo o Iluminismo e de toda a filosofia moderna; o apóstolo da liberdade moral, separado de todo dogma e de toda tradição, sem outro governo além daquele da sua própria pessoa e obediente apenas aos ditames da voz interior da sua consciência”
“Escrever a história da representação de Sócrates seria uma empresa gigantesca. O mais eficaz será fazê-lo segundo determinados períodos. Uma tentativa deste gênero encontra-se, p.ex., na obra de Benno BÖHM, Sokrates im 18. Jahrhundert: Studien zum Werdegang des modernen Persönlichkeitsbewusstseins[Sócrates no século XVIII: Estudos sobre o desenvolvimento da consciência da personalidade moderna], Leipzig, 1929.”
“No entanto, seria uma posição completamente falsa crer que todo este empenho em edificar sob a égide de Sócrates uma nova <humanidade> terrena fosse dirigida contra o Cristianismo, em vez do que se fizera na Idade Média, ao colocar Aristóteles como o fundamento de toda a filosofia cristã. Pelo contrário, ao filósofo pagão era agora confiada a missão de contribuir para criar uma religião moderna, em que o conteúdo imperecível da religião de Jesus se fundisse com certos traços essenciais do ideal helênico do homem.” “quando veio a Reforma, com o seu esforço por levar a sério, pela 1ª vez, a volta à forma <pura> do Evangelho, surgiu como reação e contrapartida o culto socrático da época <iluminada>. Esse culto, porém, não pretendia desbancar o Cristianismo, antes lhe infundia forças que naquela época se julgavam indispensáveis. Até o pietismo, produto da reação do sentimento cristão puro contra uma religião cerebral e teológica já exaurida, abrigava-se junto a Sócrates e julgava descobrir nele uma certa afinidade espiritual.”
“Foi nos nossos dias, a partir do momento em que Nietzsche se desligou do Cristianismo e proclamou o advento do super-homem, que o sábio ateniense teve de pagar o ilimitado poder que desde o início da Idade Moderna exercera, como protótipo da anima naturaliter christiana. À força de aparecer ao longo dos séculos vinculado a ele, Sócrates parecia tão indissoluvelmente unido àquele ideal cristão de vida dualista, desdobrada em corpo e alma, que não se podia imaginar como não sucumbiria com ele. Ao mesmo tempo, na tendência anti-socrática de Nietzsche renascia, sob nova forma, o velho ódio do humanismo erasmiano contra o humanismo conceitual dos escolásticos.”
Eduard Zeller, História da filosofia grega
“Dizer pré-socrático equivalia a dizer pré-filosófico, uma vez que os pensadores do mundo arcaico eram agora fundidos com a grande poesia e a grande música da sua época, para formarem o quadro da <época trágica> dos gregos.”
“…Deste modo, Sócrates era apeado do pedestal firme, embora sem ser de 1ª categoria, onde o colocara a filosofia idealista do séc. XIX, de acordo com a sua própria imagem da História, e de novo se via arrastado para o turbilhão das lutas do presente. (…) A luta travada por Nietzsche é, depois de muito tempo, o 1º indício de que a antiga força atlética de Sócrates permanece intacta e ameaça, mais que nenhuma outra, a segurança interior do super-homem moderno. (…) Ninguém teria mais direito a ser compreendido a partir da sua própria <situação> do que o próprio Sócrates, um homem que não quis deixar à posteridade nem uma só palavra escrita por sua mão, pois se entregou por completo à missão que o seu presente lhe apontava. Esta situação da sua época, que Nietzsche, na sua luta implacável contra os excessos da extrema racionalização da vida moderna, não tinha interesse nem paciência para compreender em detalhe, foi por nós exposta com todo o rigor como a <crise do espírito ático> (pp. 283-ss.) [LIVRO SEGUNDO].”
“Entre os especialistas modernos que situam o nascimento dos diálogos socráticos como forma literária já em vida do próprio Sócrates, citaremos apenas Constantin RITTER, Platon (Munique, 1910), t. I, p. 202, e WILAMOWITZ, Platon (Berlim, 1919), t. I, p. 150. Esta hipótese cronológica sobre os primeiros diálogos platônicos está relacionada com a concepção que os citados autores têm da essência e do conteúdo filosófico destas obras.”
“A semelhança entre as condições em que nasce a literatura socrática e aquelas de que datam os mais antigos relatos cristãos sobre a vida e a doutrina de Jesus foi muitas vezes destacada e, de fato, salta à vista.”
“O abalo deste acontecimento deixou na vida deles um traço fundo e forte. E tudo parece indicar que foi precisamente esta catástrofe que os levou a representar o seu mestre em escritos. Esta opinião foi fundamentada em detalhe, contra Ritter, por Heinrich MAIER, Sokrates (Tubing, 1913), pp. 106-ss. Também A.E. TAYLOR, Sócrates (Edimburgo, 1932; trad. esp. México, 1961), p. 10, adere ao seu ponto de vista.”
“A socrática converte-se no eixo literário e espiritual do novo século e, depois da queda do poder temporal de Atenas, o movimento que dela nasce passa a ser a fonte mais importante do seu poder espiritual sobre todo o mundo.”
“O retrato literário de Sócrates é a única imagem fiel, decalcada sobre a realidade viva de uma individualidade grande e original, que a era clássica grega nos transmitiu. E o móbil a que este esforço respondia não era a fria curiosidade psicológica nem a ânsia de proceder a uma dissecação moral, mas antes o desejo de viver o que nós denominamos personalidade, ainda quando à linguagem faltavam a idéia e o termo necessários à expressão deste valor.”
“Cf. R. HIRZEL, Der Dialog (Lepzig, 1895), t. I, pp. 2-ss., sobre o desenvolvimento anterior do diálogo, e pp. 83-ss. sobre as formas dos diálogos socráticos e seus representantes literários.”
“O círculo socrático durou poucos anos. Cada um dos discípulos aferrava-se apaixonadamente a sua concepção e surgiram até diversas escolas socráticas. É por este motivo que nos encontramos na situação paradoxal de até hoje não termos sido capazes de nos pôr de acordo quanto à verdadeira significação da sua figura, apesar de ser ele a personalidade de pensador da Antiguidade que chegou até nós com uma tradição mais rica.”
“Platão, dramaturgo inato, já escrevera tragédias antes de entrar em contato com Sócrates. A tradição afirma que ele as queimou todas, quando, sob a impressão dos ensinamentos deste mestre, dedicou-se à investigação filosófica da verdade. Mas, quando, após a morte de Sócrates, resolveu manter viva, a seu modo, a imagem do mestre, descobriu na imitação artísticado diálogo socrático a missão que lhe permitiria colocar o seu gênio dramático a serviço da filosofia.”
“Os informes de Xenofonte só coincidem com os de Platão num pequeno trecho, para além do qual nos deixa sobre brasas, com a sensação de que Xenofonte peca por falta, enquanto, em contrapartida, Platão peca por excesso. Já Aristóteles inclinava-se a crer que a maior parte dos pensamentos filosóficos do Sócrates de Platão devem ser considerados doutrina deste e não daquele.” “Creio que K. von FRITZ (Rheinisches Museum, t. 80, pp. 36-8) aduz novas e concludentes razões contra a autenticidade da Apologia de Xenofonte.”
“Xenofonte conheceu a venerou Sócrates na sua juventude, sem nunca, porém, ter chegado a incluir-se entre os seus verdadeiros discípulos.” “Xenofonte não tornou a ver Sócrates. Foi algumas décadas mais tarde que escreveu as suas obras socráticas. A única que parece anterior é a que agora se conhece com o nome de <Defesa>.(*) Trata-se de uma alegação em defesa de Sócrates contra uma <acusação>, segundo todas as aparências puramente literária e fictícia, e onde se julgou descobrir um folheto do sofista Polícrates, publicado durante a década de noventa do séc. IV.(**) A este folheto responderam sobretudo Lísias e Isócrates, e pelas Memoráveis de Xenofonte chegamos à conclusão de que também ele tomou a palavra por aquele motivo.
(*) Seguindo H. MAIER e outros, aplicamos este nome aos 2 primeiros capítulos das Memoráveis de XENOFONTE.
(**) Xenofonte fala sempre do <acusador> no singular, enquanto Platão, na Apologia,¹ se refere sempre aos <acusadores> no plural, como corresponde realmente à situação gerada durante o processo. É certo que, no princípio, Xenofonte refere-se também à acusação judicial, mas depois dedica-se principalmente a refutar as censuras feitas posteriormente a Sócrates, segundo nos informam outras fontes, no panfleto de Polícrates.”
“Temos um exemplo de como Xenofonte incorporou mais tarde numa unidade mais ampla um escrito concebido nas suas origens como independente, no princípio das Helênicas (1-II, 2). Originariamente esta parte propunha-se a acabar a obra histórica de Tucídides. Termina, como é natural, com a guerra do Peloponeso. Mais tarde, Xenofonte ligou com este escrito o seu relato da história da Grécia de 404 a 362.”
“Nos diálogos de Platão, Sócrates aparece como filósofo que expõe a teoria das idéias, pressupondo-a expressamente, como algo familiar ao círculo dos seus discípulos.”
“Aristóteles (…) fornece indicações importantes sobre a relação que existe entre Sócrates e Platão:
Na primeira época dos seus estudos, Platão seguira os ensinamentos de Crátilo, discípulo de Heráclito, o qual ensinava que na natureza tudo flui e nada possui uma consistência firme e estável. Quando conheceu Sócrates, Platão viu abrir-se diante de si outro mundo. (…) Platão acabou por se persuadir que ambos, Sócrates e Crátilo, tinham razão, dado que se referiam a dois mundos completamente diversos. (…)
(…) nos diálogos que (…) devem ser considerados como as primeiras obras de Platão, todas as investigações de Sócrates assumem a forma de perguntas e respostas sobre conceitos universais: O que é a coragem? O que é a piedade? O que é o autodomínio? E até o próprio Xenofonte nota expressamente, embora só de passagem, que Sócrates desenvolvia incessantes investigações desse tipo, esforçando-se por chegar a uma determinação dos conceitos. (Mem., 6) (…) Mas, com o tempo, não podia satisfazer, pois o Sócrates que nos apresenta parece ser uma mediocridade e a sua filosofia dos conceitos uma banalidade. Era precisamente contra este pedante homem de conceitos que investiam os ataques de Nietzsche. Foi por isso que estes ataques não fizeram mais do que minar a confiança em Aristóteles como testemunho histórico, naqueles cuja fé na grandeza de Sócrates e na sua força revolucionária universal não se deixou abalar. Estaria Aristóteles tão desinteressado do problema das origens da teoria platônica das idéias, que ele próprio combate com tão grande violência? (…) Esta vacilação aparece caracterizada com clareza pelas 2 tentativas mais notáveis e mais cientificamente sistematizadas que nestes últimos anos se fizeram para penetrar no Sócrates histórico: a grande obra do filósofo berlinense H. Maier sobre Sócrates e os trabalhos da escola escocesa, representada pelo filólogo J. Burnet (Greek Philosophy, 1924, além do verbete ‘Socrates’ na Hastings Encyclopaedia of Religion and Ethics, vol. XI) e pelo filósofo A.E. Taylor (op. cit.).” “Como fontes históricas sobre o Sócrates real, Maier considera sobretudo os escritos <pessoais> de Platão: a Apologia e o Críton;¹ ao lado destes, reconhece como relatos de livre criação, mas no fundo fiéis à verdade, uma série de diálogos menores de Platão, tais como o Laques,² o Cármides,³ o Lísis,4 o Íon, o Eutífron6 e os dois Hípias.”
“Sócrates proclama o evangelho do domínio do Homem sobre si próprio e da <autarquia> da personalidade moral. Isto faz dele a contrafigura ocidental de Cristo e da religião oriental da redenção.”
“Não tem a mínima verossimilhança interna a pretensão de distinguir artificiosamente entre o Platão da primeira fase e o da última, para assim se chegar à conclusão de que só o primeiro se propõe [a] oferecer um retrato de Sócrates, enquanto o segundo toma-o só como máscara para expor a sua própria filosofia, tal como ela se desenvolveu ao longo dos anos. (…) Na realidade, já que não tencionava expor a doutrina de Sócrates, mas sim os seus próprios pensamentos, Platão abandona Sócrates como figura principal dos seus diálogos e a substitui por outras personagens estranhas ou anônimas. Sócrates era efetivamente tal como Platão o pinta: o criador da teoria das idéias, da teoria da reminiscência e da preexistência da alma, da teoria da imortalidade da alma¹ e da teoria do Estado ideal. Numa palavra: era o pai da metafísica ocidental.”
¹ Não grifo porque a teoria da imortalidade é um sine qua non da teoria das reminiscências e das idéias, bem como estas são sine qua non da primeira, ou seja, estão em inextricável dependência no corpus (supostamente socrático-)platônico.
“Quem pretender descobrir no campo da teoria e do pensamento sistemático a sua grandeza terá de lhe atribuir demais, à custa de Platão, ou então duvidará radicalmente da sua importância pessoal. (…) a importância desta figura não vem continuar nenhuma tradição científica nem pode ser derivada de nenhuma constelação sistemática na história da filosofia. Sócrates é o homem do momento, num sentido absolutamente elementar. A sua volta sopra uma aragem verdadeiramente histórica.”
“É a segunda vez que na história da Grécia o espírito ático invoca as forças centrípetas da alma helênica contra as suas forças centrífugas, opondo ao cosmos físico das forças naturais em luta, criação do espírito investigador da Jônia, uma ordem dos valores humanos. Sólon descobrira as leis naturais da comunidade social e política. Sócrates embrenha-se na própria alma, a fim de penetrar no cosmos moral.”
“Na idade madura, Sócrates viveu o apogeu do poder ateniense e o florescimento clássico da poesia e da arte de Atenas, e visitava a casa de Péricles e de Aspásia. Foram seus discípulos governantes tão discutidos como Alcibíades e Crítias.”
“Sócrates era um grande amigo do povo, mas era considerado mau democrata. (…) era indubitável que ele tinha declarado defeituoso, como norma fundamental, o princípio socrático dominante em Atenas, segundo o qual o governo era incumbência da maioria do próprio povo (…) É caso para pensar que esta posição se ia formando dentro dele, diante da crescente degenerescência da democracia ateniense, durante a guerra do Peloponeso. Para quem, como ele, tinha sido educado no espírito dominante na época das guerras pérsicas e assistira ao apogeu do Estado, era forte demais aquele contraste para não provocar toda uma série de dúvidas críticas.” Um grande homem jamais deixará de ser um aristocrata no seu íntimo.
“é importante compreender que na Atenas daqueles dias também se considerava atuação política o fato de permanecer à margem dos manejos políticos do momento e que os problemas do Estado determinavam de modo decisivo os pensamentos e a conduta de qualquer homem, sem exceção.”
“Segundo os informes do Fédon,¹ Sócrates, através desta crítica da filosofia da natureza, chegava à teoria das idéias, a qual, no entanto, de acordo com os dados convincentes da Aristóteles, não se pode atribuir ainda ao Sócrates histórico.” Jaeger se contradiz.
“Na Antiguidade, qualquer referência de princípios à experiência, como fundamento de toda a ciência exata da realidade, estava sempre associada à Medicina (…) É da Medicina grega, e não da filosofia grega, que é filho o empirismo filosófico dos tempos modernos.”
“Há uma certa analogia interior entre o diálogo socrático e o ato de se desnudar para ser examinado pelo médico ou pelo ginasta, antes de se lançar no combate, na arena. (…) O ateniense daqueles tempos sentia-se mais no seu meio no ginásio do que entre as 4 paredes da sua casa, onde dormia e comia. Era ali, sob a transparência do céu da Grécia, que diariamente se reuniam novos e velhos para se dedicarem ao cultivo do corpo.”
“O palco, onde, em longo solilóquio, brilham os sofistas é a casa particular ou a sala improvisada. Em contrapartida, Sócrates é o cidadão simples, a quem todos conhecem. A sua ação passa quase despercebida; a conversa com ele agarra-se quase espontaneamente, e como sem querer, a qualquer tema de ocasião. Não se dedica ao ensino nem tem discípulos; assim o afirma, pelo menos. Só tem amigos, camaradas.A juventude sente-se fascinada pelo fio cortante daquele espírito, ao qual não há nada que resista.”
“E quem julga que se pode retrair, intratável, perante ele, ou encolher os ombros com indiferença ante a forma pedante das suas perguntas ou a intelectual banalidade dos seus exemplos, não tarda a baixar da pretensa altura do seu pedestal. (…) Por outro lado, é compreensível que as nossas histórias escolares da filosofia deixem tudo isso de lado, por o considerarem meros adornos poéticos da imagem que Platão traça de Sócrates.”
“É certo que o próprio Sócrates designa a sua <ação> – que palavra significativa! – pelos nomes de <filosofia> e <filosofar>; e, na Apologia platônica, afiança aos seus juízes que não se afastará dela enquanto viver e respirar. Mas não devemos dar a estas palavras o significado que vieram a ganhar em séculos posteriores, ao cabo de uma longa evolução (…) Toda a literatura dos socráticos se manifesta unanimemente contra esta possibilidade de separar a doutrina da pessoa.”
“A palavra <alma>, pelas suas origens na história do espírito, tem sempre para nós uma conotação de valor ético ou religioso. Tem um tom cristão, como as expressões <serviço de Deus> e <cuidado da alma>. Ora, é nas prédicas protrépticas de Sócrates que a palavra <alma> adquire pela 1ª vez este alto significado.”
“Se consultarmos a clássica obra-prima de Erwin Rohde, Psique, chegaremos à conclusão de que Sócrates não tem significado especial dentro deste processo histórico. Este autor passa-o por alto. Rohde, à p. 240, apenas nos sabe dizer de Sócrates, na única passagem da sua obra em que o cita, que ele não acreditava na imortalidade da alma. Para tal contribui o preconceito contra Sócrates, <o racionalista>, que Rohde já partilhara com Nietzsche desde a sua juventude”
BURNET, “The Socratic Doctrine of the Soul”, em Proceedings of the British Academy for 1915-6.
“A origem da forma do discurso exortatório ou diatribe, como tal, remonta naturalmente aos tempos primitivos. No entanto, a forma educacional e moral da prédica que prevalece nas homilias cristãs ao lado da dogmática e da exegética adquire o seu caráter literário na socrática, que, por sua vez, remonta à protréptica oral de Sócrates.”
“Seria a socrática uma antecipação do Cristianismo, ou poderá mesmo afirmar-se que com Sócrates irrompe na evolução do helenismo um espírito estranho, oriental, o qual, graças à posição da filosofia grega como grande potência educadora, se traduz logo em efeitos de envergadura histórica universal, impelindo à união com o Oriente?”
“Quis-se atribuir a Sócrates a teoria da imortalidade do Fédon platônico e até a teoria da preexistência do Mênon,¹ mas estas duas idéias complementares têm origem claramente platônica. A posição socrática em face do problema da subsistência da alma aparece certamente bem-definida na Apologia, onde, em presença da morte, não se diz qual será a sua sorte depois desta.”
“se aceitarmos a afirmação de Aristóteles de que a teoria das idéias não é de Sócrates mas de Platão, teremos de defender idêntica posição no que se refere à teoria da imortalidade do Fédon, que se baseia na teoria das idéias.”
“têm origem puramente helênica todos os traços aliciantes que na prédica socrática nos parecem cristãos. (…) É na poesia e na filosofia que floresce a evolução religiosa superior do espírito grego, e não no culto dos deuses, que costumamos encarar quase sempre como o conteúdo principal da história da religião helênica.”
“É indubitável que a religião dionisíaca e órfica dos gregos, bem como a dos mistérios, apresentam certas <fases preliminares> e analogias; mas não se pode explicar este fenômeno dizendo que as formas socráticas do discurso e da representação derivam de uma seita religiosa que se pode afastar a seu bel-prazer como estranhas aos gregos, ou aceitar como oriental. Tratando-se de Sócrates, o mais sóbrio dos homens, seria verdadeiramente absurdo pressupor a existência de uma influência eficaz destas seitas orgiásticas nas camadas irracionais da sua alma.”
“A alma de que Sócrates fala só pode ser compreendida com acerto se é concebida em conjunto com o corpo, mas ambos como dois aspectos distintos da mesma natureza humana.”
“Sócrates não pode crer que só o Homem tenha espírito.”
“A virtude física e a virtude espiritual não são, pela sua essência cósmica, mais do que a <simetria das partes> em cuja cooperação corpo e alma assentam. É a partir daqui que o conceito socrático do <bom>, o mais intraduzível e o mais exposto a equívocos de todos os seus conceitos, se diferencia do conceito análogo na ética moderna. Será mais inteligível para nós o seu sentido grego se em vez de dizermos <o bom> dissermos <o bem>, acepção que engloba simultaneamente a sua relação com quem o possui e com aquele para quem é bom.” Não melhora muito, sinceramente… Pelo contrário, até piora: além do bem e do mal; o bem desta frase já se tornou estanque. Já em o espírito superior é bom, é o melhor, depreende-se que ele é bom porque é mais que os outros homens, está acima do ruim (não mau, porém estragado).
“Se o conceito da vida, do bios (que designa a existência humana, não como um simples processo temporal, mas como uma unidade plástica cheia de sentido, como uma forma consciente de vida) ocupa doravante uma posição de tão grande relevo na filosofia e na ética, é à vida real do próprio Sócrates que, numa parte muito considerável, isso se deve. A sua vida foi uma antecipação do novo bios, baseado integralmente no valor interior do Homem.”
“A sua descoberta da alma não significa a separação dela e do corpo, como tantas vezes se afirma em desabono da verdade, mas antes o domínio da primeira sobre o segundo. Mens sana in corpore sano é uma frase que corresponde a um autêntico sentido socrático.”
“Os sofistas eram os mestres desta arte que, apresentada desta forma, constituía coisa nova. Sócrates parece ligar-se plenamente a eles, para logo seguir o seu próprio caminho. (…) A paideia dos sofistas era uma colorida mistura de materiais de origem vária. O seu objetivo era a disciplina do espírito, mas não existia entre eles unanimidade quanto ao saber mais indicado para atingi-la, pois cada um deles seguia estudos especializados e, naturalmente, considerava a sua disciplina como a mais conveniente de todas. Sócrates não negava o valor que havia em ocupar-se de todas as coisas que eles ensinavam, mas o seu apelo ao cuidado da alma continha já potencialmente um critério de limitação dos conhecimentos recomendados por aqueles educadores.”
“Os gregos, aliás, consideravam geralmente o mundo cósmico como algo de sobrenatural e imperscrutável para os simples mortais. E [o] Sócrates [de Xenofonte] partilhava este temor popular contra o qual ainda Aristóteles teve de se erguer no início da sua Metafísica. Reservas semelhantes Sócrates fazia também em relação aos estudos matemáticos e astronômicos dos sofistas de orientação mais realista” “Contrapôs-se então a ele o Sócrates de Platão, que na República preconiza a educação matemática como único caminho certo da filosofia. Este ponto de vista está, porém, condicionado pela própria evolução platônica para a dialética e para a teoria do conhecimento”
“Platão e Xenofonte coincidem em que Sócrates era um mestre de política. Só assim se compreende o seu choque com o Estado e o seu processo [judicial].” Não tem a ver com a acusação de monoteísmo – ou não como entendemos a questão hoje (de forma puramente teológica).
“Esta passagem em Memoráveis I demonstra que o que nós denominamos <ético>, separando-o como um mundo à parte, estava indissoluvelmente ligado ao político, não só para Xenofonte, mas também para Platão e Aristóteles.”Os fins são os meios.
CORRUPTOR DE MENORES: “Aquilo de que Sócrates era acusado era precisamente o uso que Alcibíades e Crítias fizeram da sua cultura, na vida política. Segundo Xenofonte, porém, esta censura devia servir-lhe antes de desculpa, visto que um tal uso dos seus ensinamentos era contrário às intenções do mestre.” O grande jamais corromperá o pequeno. Mas não poderá tampouco salvá-lo de sua condição ou moira.
“O homem que é educado para governar tem de aprender a antepor o cumprimento dos deveres mais prementes à satisfação das necessidades físicas. Tem de se sobrepor à fome e à sede. Tem de se acostumar a dormir pouco, a deitar-se tarde e a se levantar cedo.” Exigente demais!
“Quem não é capaz de tudo isto fica condenado a figurar entre as massas governadas.” “O ascetismo socrático não é a virtude monacal, mas sim a virtude do homem destinado a mandar.”
“A enkrateia não constitui uma virtude especial, mas, como acertadamente diz Xenofonte, a <base de todas as virtudes>, pois equivale a emancipar a razão da tirania da natureza animal do homem e a estabilizar o império legal do espírito sobre os instintos. (…) podemos traduzir o conceito de enkrateia (…) pela expressão (…) <autodomínio>.”
“nesta época, a palavra <livre> é primordialmente o que se opõe à palavra escravo. Não tem aquele sentido universal, indefinível, ético e metafísico, do moderno conceito de liberdade.”
MEGERA INDOMADA: “O diálogo com o seu próprio filho Lâmpocles, que se revoltava contra o mau humor de Xantipa, sua mãe, mostra o quanto estava longe Sócrates de dar razão àqueles que condenavam precipitadamente os pais, ou denotavam uma impaciência pouco piedosa em relação ao seu feitio ou até aos seus defeitos manifestos.”
“Em Homero, a amizade é a camaradagem do soldado; e na educação da nobreza, em Teógnis, apresenta-se como proteção e baluarte contra os perigos da vida pública, em tempos de convulsões políticas.”
“É certo que a experiência ensina que até entre os homens bons e que aspiram a fins elevados nem sempre reinam a amizade e a benevolência, mas, ao contrário, impera com grande freqüência um antagonismo mais feroz que entre as criaturas pouco dignas. Aqui está uma experiência particularmente desanimadora.”
“A amizade começa pelo aperfeiçoamento da própria personalidade. Mas necessita, além disso, dos dons do <erótico>, que ironicamente Sócrates gosta de predicar de si próprio, do homem que precisa dos outros e corre atrás deles, que recebeu da natureza o dom, logo por ele tornado arte, de agradar a quem lhe agrada. Não é como a Cila de Homero, que imediatamente se agarrava aos homens, os quais, assim, fugiam dela ao vê-la de longe. Parece antes a sereia, que atrai o homem de muito longe, com o seu canto suave.”
“Sócrates nunca fala em <discípulos> e rejeita também a pretensão de ser <mestre> de quem quer que seja. Limita-se a manter <convivência> com os homens, seja qual for a sua idade, e <conversa> com eles.”
“Um dos grandes paradoxos é este homem, o maior educador que se conhece, não ter querido falar de paideia com referência a sua própria atividade, embora todo mundo visse nele a mais perfeita personificação desse conceito. É claro que a palavra não se podia evitar indefinidamente, e tanto Platão como Xenofonte a usam freqüentemente para designarem as aspirações de Sócrates e caracterizarem a sua filosofia. Mas Sócrates encontrou esta palavra carregada pela prática e teoria <pedagógicas> do seu tempo: considerava como representantes típicos da paideia moderna Górgias, Pródico e Hípias.” “E através desta ironia genuinamente socrática descobre-se a consciência da missão da verdadeira educação e da magnitude da sua dificuldade, da qual o resto do mundo não tem a menor idéia.”
“É Platão que, baseado nas tentativas de um novo conceito do saber que descobre em Sócrates, elabora a lógica e o conceito; segundo este autor, Sócrates foi apenas o pregador, o profeta da autonomia moral. No entanto, esta explicação esbarra com dificuldades tão grandes como a opinião contrária, a de que em Sócrates já vem defendida a teoria das idéias.”
“Nenhum dos diálogos socráticos de Platão chega a definir realmente o conceito moral que nele se investiga; mais ainda, existiu por muito tempo a opinião geral de que nenhum destes diálogos chega realmente a um resultado.”
“O conhecimento do bem, que Sócrates descobre na base de todas e cada uma das chamadas virtudes humanas, não é uma operação da inteligência, mas antes, como acertadamente Platão compreendeu, a expressão consciente de um ser interior do Homem.”
“a idéia socrática contém implícita a premissa de que não pode existir a ilegalidade consciente, porque isso implicaria a existência de ilegalidades voluntárias.”
“a natureza do bem implica que cada um o reconheça como quiser. A vontade humana situa-se, assim, no centro das nossas considerações.”
“A verdadeira essência da educação é dar ao Homem condições para alcançar o fim autêntico da sua vida. Identifica-se com a aspiração socrática ao conhecimento do bem, com a phronesis. E esta aspiração não se pode restringir aos poucos anos de uma chamada cultura superior. Só pode alcançar seu objetivo ao longo de toda a vida do Homem” “O Homem, assim concebido, nasceu para a paideia. Esta é o seu único patrimônio verdadeiro. Como todos os socráticos são unânimes nesta concepção, o seu autor deve ter sido Sócrates, ainda que ele afirmasse de si próprio que não sabia <educar os homens>.”
“É certo que Sócrates, ao contrário de Platão, não parece partir fundamentalmente da idéia de que os Estados atuais não têm remédio.”
“Quantas vezes ele insiste em que não é ele, Sócrates, mas sim o logos quem diz isto ou aquilo! (…) No fundo, o conflito com o Estado nasce para a filosofia e para a ciência a partir do momento em que a investigação se exerce sobre a natureza das <coisas humanas>, i.e., sobre o problema do Estado e da arete e surge em face desta questão como razão normativa. É o instante em que a filosofia troca a herança de Tales pelo legado de Sólon.”
“Foi nem mais nem menos Hegel quem negou à razão subjetiva o direito de criticara moral do Estado, que é por si a fonte e a concreta razão de ser de toda a moral sobre a Terra. Eis um pensamento totalmente inspirado na Antiguidade e que nos ajuda a compreender a atitude do Estado ateniense para com Sócrates.”
“Platão era o único que se sentia, como ateniense e como político, à altura de compreender Sócrates plenamente. Indica no Górgias como a tragédia se vem aproximando.”
“Pessoalmente, Sócrates está muito longe das conseqüências que Platão deriva da sua morte. E mais longe ainda da valorização e da interpretação histórico-espiritual que se dá ao acontecimento de que foi vítima. A inteligência histórica, se tivesse existido naquele tempo, teria destruído o sentido trágico deste destino. (…) É um privilégio muito duvidoso o de ver à luz da história a própria época e mesmo a própria vida.” “Platão afirma o homem político no domínio da Idéia, mas por isso mesmo afasta-se da realidade política, ou procura realizar o seu ideal em outra parte qualquer do mundo, em que existam melhores condições para ele.”
“O pouco apreço pela ciência e pela erudição, o gosto pela dialética e pelos debates em torno aos problemas do valor são características atenienses, tanto quanto o sentido do Estado, dos bons costumes, do temor de Deus, se deixar para trás a charis espiritual que paira sobre tudo.”
“O mais provável é não ter Platão escrito estas palavras em Atenas. Por certo, deve ter fugido para Mégara, com os demais discípulos de Sócrates, após a morte deste, e foi ali ou nas suas viagens que escreveu as suas primeiras obras socráticas.”
3.4 A imagem de Platão na história
“É só a partir da cultura antiga que se pode compreender uma figura como a de Santo Agostinho, que traçou a fronteira histórico-filosófica da concepção medieval do mundo, por meio da sua Cidade de Deus, tradução cristã da República de Platão. A própria filosofia aristotélica, com a recepção da qual a cultura dos povos medievais do Oriente e do Ocidente, no seu apogeu, assimilou o conceito universal do mundo da filosofia antiga, não era senão uma outra forma do platonismo.”
COISA MAIS BIZA…RRA! “O Platão que o teólogo e místico bizantino Gemistos Plethon transmitiu aos italianos do quattrocento e cujas doutrinas Marsílio Ficino professava na Academia platônica de Lourenço de Médici, em Florença, era um Platão visto pelos olhos de Plotino (…) Para aqueles tempos, Platão era acima de tudo o profeta e o místico religioso”
“Até agora tentara-se reconstruir a filosofia à maneira do séc. XVIII, esforçando-se por abstrair dos seus diálogos o conteúdo dogmático, quando o tinham. Depois, com base nas teses assim estabelecidas e tomando como modelo as filosofias posteriores, procurava-se penetrar na metafísica e na ética platônicas, e edificar com todas estas disciplinas um sistema, já que só se concebia a existência de um pensador sob esta forma. O mérito de Schleiermacher consiste em ter visto bem, com certeiro golpe de vista que os românticos tinham para desentranhar a forma como expressão da individualidade espiritual, que aquilo que a filosofia platônica tinha de característico era precisamente não tender para a forma de um sistema fechado, mas sim manifestar-se por meio do diálogo filosófico inquisitivo.”
“podemos até afirmar que, assim como na Antiguidade a filosofia alexandrina foi desenvolvendo os seus métodos à luz da investigação da obra de Homero, também a ciência histórica do espírito alcançou no séc. XIX o seu máximo apuro, com a luta para conseguir compreender o problema platônico.”
“Tanto a explicação pormenorizada do texto como a investigação da autenticidade das diversas obras chegadas até nós sob o nome de Platão abriram o caminho a um estudo concreto que se ia especializando sem cessar, de modo que o problema platônico parecia ir afundando cada vez mais nesta direção. Foi então que, a partir de C.F. Hermann, os intérpretes se foram habituando a encarar as obras deste filósofo como a expressão de uma evolução progressiva e gradual da sua filosofia”
“É certo que, após alguns êxitos iniciais, este caminho da investigação acabou por se desacreditar, em consequência dos seus exageros, pois veio cair na ilusão de que seria possível situar no tempo todos e cada um dos diálogos, através de uma estatística filológica perfeitamente mecanizada. Seria ingratidão, porém, esquecer que foi uma descoberta puramente filológica que determinou a maior reviravolta operada, desde Schleiermacher, nos estudos platônicos.” “é possível distinguir três grupos principais de obras, onde se podem distribuir com boa verossimilhança os diálogos mais importantes. § Este resultado das investigações filosóficas da 2ª metade do séc. XIX tinha, por força, de abalar a imagem schleiermacheriana de Platão, já considerada clássica, uma vez que se verificou serem obras maduras, correspondentes a sua senectude, vários diálogos platônicos por ele tidos como primeiros e introdutórios, e que versavam sobre problemas metódicos. (…) Agora eram rapidamente puxados para o centro da discussão os diálogos <dialéticos>, como o Parmênides,¹ o Sofista² e o Político,³ nos quais o Platão do último período parece discutir com a sua própria teoria das idéias.” Confrontar com o que diz Azcárate. Missão para depois.
“Não é, pois, nada estranho que este neokantismo se tenha sentido surpreendido e fascinado por tão inesperada projeção dos seus próprios problemas na evolução dos últimos anos de Platão” Aqui: revigoramento do ceticismo em oposição ao ultra-romantismo.
“nesta nova concepção de conjunto, a importância de Platão para a filosofia moderna assentava no aspecto metódico, com a mesma unilateralidade com que para a filosofia metafísica do meio século anterior assentava no apoio que a metafísica platônica e aristotélica lhe dava, na sua luta contra a crítica de Kant.” “A nova forma de conceber este filósofo culminava na tentativa de infirmar, como falsas, as objeções de Aristóteles à teoria platônica das idéias, tentativa que vinha mostrar indiretamente que essa nova forma se deixava guiar por Aristóteles, mesmo sem aceitar o seu modo de ver, pois concentrava no mesmo ponto a sua interpretação da doutrina platônica.”
“as Leis, que representa mais da quinta parte de toda a obra escrita de Platão e onde a teoria das idéias não desempenha o menor papel.”
IRONIAS DE FERRO: Enquanto bilhões vivem sem uma metafísica, certos indivíduos têm o privilégio de viver ativamente 2 ou 3 projetos destas. Onde quer que o sol nasça e bata, Platão é que ri de nós.
“Foi de novo uma descoberta filológica que permitiu um passo fundamental e que, sem pretensões filosóficas de nenhum tipo, levou a derrubar os limites demasiado estreitos em que estava encerrada esta concepção da obra platônica. Desta vez, não foi a cronologia a afetada pela descoberta, mas sim a crítica da autenticidade dos textos. Já desde a Antiguidade sabia-se que a coleção dos escritos platônicos transmitida pelos séculos continha muitas coisas inautênticas, mas foi a partir do séc. XIX que a crítica textual atingiu o máximo grau de intensidade. É certo que no seu cepticismo visava muito além do alvo e acabou por ficar paralisada. (…) as suspeitas caíram apenas, essencialmente, sobre escritos de qualidade duvidosa. Julgavam-se falsas também as cartas de Platão: a existência indubitável de peças e fragmentos falsos na coleção de cartas que chegou até nós sob o seu nome levava os críticos a repudiar a coleção em bloco; e, como era indiscutível que algumas destas cartas continham um material histórico valioso acerca da vida de Platão e das suas viagens à côrte do tirano Dionísio de Siracusa, recorria-se à hipótese do autor destes documentos apócrifos ter utilizado na sua redação informes muito apreciáveis. Historiadores como Eduard Meyer, levando em conta o grande valor das cartas como fonte histórica, advogaram a sua autenticidade, e logo o seu exemplo foi seguido pelos filólogos, a partir do momento em que Wilamowitz confirmou a autenticidade das cartas sexta, sétima e oitava, i.e., das peças mais importantes da coleção.”
COMPELIDOS À MISANTROPIA: “O patético relato de Platão sobre suas repetidas tentativas de intervenção ativa na vida política dava ao seu biógrafo a possibilidade de pintar algumas cenas ricas de colorido, que vinham quebrar dramaticamente o recolhimento da vida do filósofo no seio da Academia e descobriam, além disso, o complicado fundo psicológico desta vida, cuja atitude contemplativa, como agora se mostrava, tinha sido imposta pela trágica pressão das condições desfavoráveis de seu tempo a um caráter inato de dominador. Vistas por este prisma, as repetidas vezes que Platão tentou uma carreira de estadista não apareciam de modo nenhum como episódios infelizes de uma vida puramente intelectual, nos quais Platão procurara concretizar certos princípios éticos da sua filosofia. Todavia, a convicção de que é o Platão autêntico e real o homem que na Carta VII nos fala da sua própria evolução espiritual e dos objetivos da sua vida, a partir dos quais adota uma posição diante da sua própria filosofia, tem também uma importância decisiva para a concepção de conjunto da sua obra filosófica.” “A esta concepção da filosofia platônica chegara eu em longos anos de esforço incessante dirigido à captação da sua verdadeira essência, sem prestar grande atenção às cartas, uma vez que desde a juventude partilhava o preconceito filológico contra a sua autenticidade.”
“podem reunir-se em grupo à parte os diálogos menores; (I) mas as obras extensas como o Protágoras, o Górgias, o Mênon, o Banquete e o Fedro,¹ onde estão contidas as idéias platônicas essenciais sobre a educação, merecem ser examinadas separadamente e uma a uma (II) (…) A República e as Leis são, naturalmente, as obras que devem formar o verdadeiro nervo central deste estudo. (III)”
“A sua filosofia, encarada como o apogeu de uma cultura (paideia) tornada já histórica, deve ser focada, mais do que geralmente se costuma fazer, na sua função orgânica dentro do processo total do espírito grego e da história da tradição helênica, e não como um mero sistema de conceitos com existência própria.”
“A história da paideia, encarada como a morfologia genética das relações entre o homem e a polis, é o fundo filosófico indispensável no qual se deve projetar a compreensão da obra platônica.” “A sua obra de reformador está animada do espírito educador da socrática, que não se contenta em contemplar a essência das coisas, mas quer criar o bem.”
3.5 Diálogos socráticos menores de Platão
“São muito reduzidas as proporções exteriores destas obras, que correspondem pouco mais ou menos a uma conversa travada por casualidade.” “o dialeto ático neles usado não tem paralelo na literatura grega, pela sua graça natural, espontaneidade e genuína vivacidade de colorido.” “estes diálogos, do tipo do Laques, do Eutífron e do Cármides, revelar-se-iam pelo seu brilho e pelo seu frescor, como as obras de juventude de Platão.”
“Já no Eutífron fala-se do processo movido contra Sócrates, e como a Apologia e o Críton, ambos tratando do desenlace de Sócrates, se encaixam no mesmo grupo é provável que todas as obras reunidas neste grupo tivessem sido escritas logo depois da morte do mestre.”
“<Petulância juvenil> é a rubrica sob a qual WILAMOWITZ agrupa estas obras alegres, que considera as mais antigas de todas.”
“Já na velhice Platão escreveu um diálogo, o Filebo,¹ onde Sócrates aparece como figura central, apesar de nas demais obras da velhice, nos chamados diálogos dialéticos, o Parmênides, o Sofista e o Político, e no diálogo sobre a filosofia da natureza intitulado Timeu,² Sócrates desempenhar um papel secundário e ser nas Leis substituído pela figura do estrangeiro ateniense.”
“Não foi da dúvida que os primeiros diálogos platônicos nasceram. Que não é assim já o indica a soberana segurança com que é vincada a linha interior daquelas conversas, não tanto em cada obra de per si, mas principalmente no conjunto delas.” Opinião distinta da de Azcárate.
“É preciso ser muito ingênuo para, do fato de nenhum destes diálogos terminar com a definição didática do tema discutido, tirar a conclusão de que estamos diante de um principiante que arrisca os primeiros passos, falhados, num campo ainda inexplorado teoricamente.” “O nosso pensamento, associando-se ao dos outros, procura adiantar-se ao andamento da discussão (…) Se se tratasse de uma conversa real a que tivéssemos assistido, poderíamos atribuir ao acaso este resultado negativo.” “A falta de saída, que era para Sócrates um estado permanente, converte-se para Platão no estímulo que o impele à resolução da aporia.”
“Sobre a história da interpretação moderna de Platão, cf. o livro (já antiquado mas ainda útil para certos pormenores) de F. UEBERWEG, Untersuchungen über die Echtheit und Zeitfolge platonischer Schriften, etc. (Viena, 1861)”
“A ciência política apresenta-se já no Cármides, como no Górgias, em paralelo com a ciência médica.”
“A maior censura que se pode fazer a muitos representantes do método histórico-evolutivo, tanto no que se refere a sua defeituosa concepção artística como quanto a sua deficiente concepção filosófica, é partirem da hipótese de que, em todas e cada uma das suas obras, Platão diz tudo o que sabe e pensa.”
“Platão e seus irmãos Glauco e Adimanto, que ele, de modo muito significativo, apresenta precisamente na República como discípulos e interlocutores de Sócrates, pertenciam evidentemente, como Crítias e Alcibíades, àquela juventude da antiga nobreza ática que, de acordo com as tradições familiares, sentia-se chamada a dirigir o Estado e buscava em Sócrates o mestre da virtude política.” “Mas, enquanto para homens como Alcibíades e Crítias esta doutrina não fazia mais do que atiçar a fogueira dos seus ambiciosos planos de golpes de Estado, para Platão, que o seu tio Crítias convidou a colaborar no novo Estado autocrático, após a derrocada da constituição democrática vigente, era visível a incompatibilidade daquele regime com as idéias de Sócrates, e foi por isso que ele se negou a cooperar.”
“A duplicidade deste acontecimento gerou a certeza de que não foram a constituição democrática ou oligárquica, como tais, mas sim única e exclusivamente a degenerescência moral do Estado vigente, fossem quais fossem as suas formas, o que o arrastou a um conflito mortal com o mais justo dos seus cidadãos.”
“profunda resignação” “Chegara à convicção de que para um homem como ele, plenamente possuído da vontade educacional de Sócrates, seria um absurdo esbanjamento de si próprio imiscuir-se ativamente na vida política de Atenas, pois lhe parecia que o Estado existente, e não só o ateniense mas todos eles, estava condenado a desaparecer, se não o salvasse um milagre divino. E que esta concepção não é precisamente resultado da sua evolução posterior, mas sim que já vivia nele desde o princípio, prova-o a Apologia, 31E, e a recapitulação dos mesmos pontos em Apol., 36B.”
“a pretensão de tornar os filósofos reis ou os governantes filósofos, para que o Estado possa ser melhorado.” “Enquanto a Carta Sétima foi tida por apócrifa, considerou-se este indício evidente da sua falsidade; o falsificador, pensava-se, quisera dar-lhe um cunho de autenticidade e para isso reproduzira uma das idéias mais conhecidas de Platão; mas incorrera no descuido de apresentar como já existente na década de 90 a República, obra donde a frase procede e que, segundo os resultados da moderna investigação, não fôra escrita antes da década de 70 do séc. IV. (…) Não havia a mínima dúvida de que se tratava de uma citação de si próprio feita por Platão, e ele, naturalmente, não podia ignorar quando escrevera aquela obra.” “ora, o mais verossímil é que as idéias proclamadas nos seus diálogos tenham sido expostas e discutidas muitas vezes no seu ensinamento oral, antes de serem dadas a conhecer por escrito ao mundo exterior”
Julius STENZEL, Plato’s Method of Dialectic (barato na Amazon)
O SEGUNDO MUNDO: SENSÍVEL, ETERNO
“Aristóteles já assimila com toda a clareza teórica os métodos lógicos da abstração. A pergunta socrática o que é o bom?, o que é o justo?, não implicava de modo nenhum o conhecimento teórico do que eram logicamente os conceitos universais. Portanto, quando Aristóteles diz que Sócrates ainda não chegara a hipostasiar, como algo distinto da realidade sensível, os conceitos universais que investigava (o que Platão faz), essa afirmação não se deve interpretar no sentido de que Sócrates já teria chegado à teoria aristotélica do universal e de que Platão cometeu mais tarde o erro inconcebível de duplicar de certo modo esses conceitos gerais, já antes conhecidos por Sócrates na sua natureza abstrata, e de colocar ao lado do conceito do justo uma idéia do justo existente em si mesma. (…) as idéias platônicas (…) representam para Aristóteles uma duplicação inútil do mundo sensível. Ele é supérfluo para Aristóteles, pois este já atingiu a natureza abstrata do conhecimento universal.”
Aristóteles: “o universal está no devir. Eu sou a síntese de Sócrates, Heráclito e Parmênides.”
“Quando Platão aponta dentro do múltiplo o uno, que o método dialético procura captar como forma ou, dito em grego, como idéia ou eidos, apóia-se na terminologia da Medicina do seu tempo” “Partindo daqui, vemos como o movimento dialético se vai elevando já nos primeiros diálogos até chegar à virtude em si, na unidade da qual Sócrates sintetizava as várias virtudes particulares. A investigação da virtude particular leva constantemente, não a distingui-la das outras, como a princípio poderia parecer, mas sim àquela unidade superior a tudo o que é virtude, ao bem em si e ao seu conhecimento.” “Rep., II, 537C: o verdadeiro dialético é o sinóptico, capaz de abarcar as coisas no conjunto. A mesma descrição do dialético aparece no Fedro, 265D. A síntese do diverso na unidade da idéia.”
“O cotejo do emprego dos conceitos eidos e idea nos diálogos de Platão, para chegar a resultados concludentes, teria de abarcar também outras palavras e expressões usadas para descrever o uno no múltiplo”
“Nenhuma das suas obras contém uma completa exposição da teoria das idéias, neste sentido, nem sequer na época em que a existência desta teoria se pode comprovar por meio de repetidas referências a ela.” “São poucas as passagens em que Platão entra no exame dos problemas mais espinhosos da teoria das idéias. Pelas informações pormenorizadas de Aristóteles sobre a chamada fase matemática da teoria das idéias, na qual Platão procura explicar as idéias com a ajuda dos números, verificamos com assombro que ele e os seus discípulos elaboraram na Academia uma doutrina de cuja existência os diálogos daquele período nem sequer nos permitem suspeitar”
“Aliás, nem é certo que as primeiras obras de Platão não contivessem qualquer alusão à existência da teoria das idéias, pois já no Eutífron, que todos os autores classificam entre os diálogos da primeira fase, fala-se do objeto da investigação dialética como de uma idéia”
CRITER, Neue Untersuchungen über Platon (Munique, 1910)
“Os diálogos menores surgem assim como uma introdução ao problema central do pensamento platônico, nos seus dois aspectos: o intrínseco e o formal.”
“O que se pode assegurar, sim, porque é evidente, é que a tendência histórico-evolutiva do séc. XIX liga pouco demais para as numerosas linhas de conexão que Platão traça entre umas e outras obras, e por meio das quais nos dá a entender que todas elas vão gradualmente cobrindo um grande problema de conjunto e formam uma grande unidade em que o primeiro passo só é plenamente explicado pelo último. (…) SHOREY, The Unity of Plato’s Thought (Chicago, 1904)”
“O repetido fracasso dos esforços empregados em descobrir a verdade e presenciados pelo leitor faz com que este compreenda pouco a pouco, com clareza cada vez maior, a dificuldade de chegar a um conhecimento real e adquira a consciência das premissas que até então admitia como evidentes e que constituem o fundamento da sua própria existência.”
A ETERNIZAÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA: “O poder educador de Sócrates (…) iria (…) conquistar o mundo” Platão como o proporcionador de uma grande maiêutica, de uma vida inteira, como se reproduzira então o “diálogo da vida”. Transmitindo para o futuro as sementes da oralidade original mas restrita no tempo de Sócrates. Neste escopo, Aristóteles devia julgar-se o “aluno perfeito”, que Sócrates e Platão sempre haviam procurado.
3.6 O Protágoras
“Permitimo-nos, por razões de brevidade, conservar a tradução tradicional das palavras gregas arete e episteme por <virtude> e <saber>, respectivamente, apesar de serem ambas equívocas porque têm as conhecidas acepções concomitantes modernas, que as palavras gregas não possuíam. (…) não dar à palavra <saber> o sentido que tem presentemente a palavra <ciência>, em vez do significado espiritual dos valores, daquilo a que os gregos chamam phronesis”
“Protágoras, o diálogo, está envolto num esplendor de alegria juvenil, de engenho e finura espiritual, que não encontramos em nenhuma outra obra platônica.”
“Um jovem discípulo e amigo de Sócrates, Hipócrates, desperta-o, alta madrugada, batendo com força a sua porta e rogando-lhe que o deixe entrar. É que ao regressar a Atenas, na noite do dia anterior, ouviu dizer que Protágoras se encontra na cidade; e tão grande acontecimento emociona-o. (…) E vem ter com Sócrates tão cedo, para lhe rogar que o apresente ao mestre. Como prelúdio do diálogo principal surge agora, no ambiente do pátio da casa onde os 2 personagens passeiam até despontar o dia, uma conversa de puro estilo socrático, na qual Sócrates tenta sondar a firmeza da decisão do jovem Hipócrates e fazer-lhe compreender a aventura em que se vai meter.”
“Neste diálogo, Sócrates não é um ancião venerável como o sofista Protágoras, mas sim um homem na força da idade, o que contribui para acentuar a falta de respeito que inspira. Hipócrates vê nele apenas o conselheiro e o amigo encarregado de lhe facilitar o aceso a Protágoras. (…) se o jovem se quisesse tornar médico, diz-lhe, devia receber o ensino do mais importante dos médicos de seu tempo, o seu homônimo Hipócrates de Cós; se desejasse ser escultor, o de Policleto ou Fídias; portanto, ao dirigir-se a Protágoras para se fazer seu discípulo, parece disposto a abraçar a carreira de sofista. Hipócrates, porém, repele decididamente esta insinuação e é aqui que se acusa uma diferença essencial entre a educação sofística e o ensino dos profissionais: os discípulos particulares do sofista são os únicos que estudam a sua arte com o intuito de mais tarde a exercerem como profissão; os mancebos atenienses de famílias distintas que se juntam a sua volta não têm em vista outra finalidade que não a de o escutarem para <se cultivarem>. O que o jovem do diálogo não sabe dizer é em que consiste esta cultura (paideia), e fica-se com a sensação de que a sua atitude é típica da juventude do seu tempo, ansiosa por se cultivar.”
NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES! “Protágoras (…) considerado com realismo, assemelha-se, pois, como fenômeno social, ao mercador e vendedor ambulantes que oferecem ao comprador, por dinheiro, as mercadorias importadas.”
“É claro que Sócrates não se apresenta, de modo nenhum, como um médico desse tipo; mas, uma vez que afirma que para a alimentação do corpo se devem consultar em caso de dúvida, na qualidade de peritos, o médico ou o mestre de ginástica, por si mesma desponta a interrogação de quem será o perito chamado a sentenciar sobre o alimento adequado à alma, quando isso for necessário.”
“Preocupados com o problema da essência do verdadeiro educador, ambos os personagens se põem a caminho para a residência de Cálias, pois fez-se dia e têm de se apressar para visitar o sofista, assediado por visitantes de manhã à noite. O porteiro daquela casa rica já está em estado de irritação, sinal de que não são Hipócrates e Sócrates os primeiros a chegar.”
“profiteri, donde é derivado o termo professor, empregado no Império Romano para designar o sofista dedicado ao ensino.”
Circus comes to town.
Saber é lucrar. Arquétipo: Agostinho.
“Parece contraditório que Platão, por sua vez fundador de uma escola, manifeste-se tão violentamente contra o profissionalismo dos sofistas. A sua escola, porém, baseava-se no princípio socrático da amizade e pretendia continuar, através da sua dialética, a velha forma da educação por meio do trato pessoal.”
“Acostumado a apoiar-se no prestígio educacional dos grandes poetas da Antiguidade, desde Homero até Simônides, e na herança da sua sabedoria, que os sofistas se esforçavam por transformar numa sabedoria escolar sensata e moralizadora, Protágoras inverte os papéis e vê os antecessores da sua arte naqueles heróis do espírito, que sob o manto da poesia queriam ocultar à desconfiada sociedade do seu tempo a sua (de todos e de cada um deles) qualidade de sofistas.”
“Sócrates repara que Protágoras sente-se orgulhoso dos seus novos admiradores, e sugere que se convidem também Pródico e Hípias para a conferência, o que Protágoras acolhe com satisfação.”
“Se um jovem entrasse para aluno de Zêuxis e este prometesse torná-lo melhor, todo mundo saberia em quê: na pintura. Se com o mesmo propósito acorresse a Ortágoras de Tebas, ninguém tampouco ignoraria que neste caso o progresso se referiria à sua instrução como tocador de flauta. Pois bem, em que campo progredirá para o melhor quem receber o ensino de Protágoras?” “À pergunta feita Protágoras não pode responder em nome de todos os que exibem o nome de sofistas, pois entre eles também não existe unanimidade de critério quanto a este ponto. P.ex., Hípias, ali presente é representante das <artes liberais>, sobretudo do que mais tarde se chamaria quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música. Estes ramos do ensino sofístico eram os que melhor podiam fazer jus à pergunta de Sócrates, pois apresentavam o desejado caráter técnico; mas na sua educação Protágoras dá preferência incondicional aos ramos sociais do saber. Entende que os jovens que passaram pelo habitual ensino de tipo elementar e agora aspiram a completá-lo por meio de uma cultura superior que os prepare, não para uma profissão determinada, mas para a carreira política, não desejam entregar-se a novos estudos técnicos determinados, porque é de outra coisa que necessitam, e é isto que ele lhes quer ensinar: a capacidade de se orientarem retamente a si próprios, de orientarem os outros sobre o melhor processo de administrarem a sua casa, e de dirigirem com êxito, em palavras e ações, os assuntos do Estado.”
“Sócrates reconhece que esta é uma elevada finalidade, mas expõe as suas dúvidas acerca da possibilidade de estimular por meio do ensino esta virtude” “Os homens que mais se salientam pelas suas qualidades espirituais e morais não dispõem de meios para transmitirem aos outros as qualidades que os distinguem, a sua arete. Péricles, pai dos dois jovens aqui presentes, deu-lhes uma educação excelente em tudo aquilo para que existem professores, mas naquilo em que a sua própria grandeza se firma ele não os educa nem os entrega a outro para que os eduque, antes os deixa andar à solta, para <instruírem-se livremente>, como se a arete fosse por si própria pousar sobre eles.” O bom nobre à nobreza torna.
“Recolhe, assim, sob forma filosófica, uma idéia fundamental da aristocracia, que Píndaro apresentara e que a pedagogia racionalista dos sofistas preferia deixar de parte, em vez de se deter para refutá-la. Parecia não conhecer limites o otimismo pedagógico dos sofistas; a sua vigorosa concepção intelectual do objetivo da educação contribuía para alentar este otimismo, que parecia, aliás, corresponder à tendência geral do tempo, sobretudo à evolução da maioria dos Estados para a democracia.”
“É evidente que, ao procurar encontrar assim um processo moderno que substituísse, em bases racionais, a antiga e rigorosa educação dada à nobreza, Protágoras demonstrava um sentido muito arguto para captar as necessidades do presente e a mudança operada na situação; mas era precisamente neste ponto que melhor se revelava a falha da paideia sofística.”
“A objeção de Sócrates tem tal caráter de objeção de princípio que obriga Protágoras, desde logo, a desviar a conversa do campo meramente técnico-didático para um plano espiritual superior. Nem todos os sofistas teriam sido capazes de seguir neste terreno o crítico da sua pedagogia, mas Protágoras era o homem indicado para isso. Nas intervenções em que responde a Sócrates detidamente, Platão apresenta-nos com mão de mestre um adversário nada desprezível. Teria sido um mau representante da época pedagógica se não tivesse tomado posição diante daquele problema fundamental de toda a educação ou não estivesse em condições de lutar por ela. A dúvida suscitada sobre a possibilidade de educar o homem partia de experiências individuais contra as quais não havia nada a alegar. É por isso que Protágoras desloca habilmente o ponto de partida e examina o problema sob o ponto de vista dos seus novos conhecimentos sociológicos”“sem aceitar como premissa a possibilidade de educar a natureza humana, todas estas instituições, que de fato existiam, perderiam o sentido e a razão de ser.”
“Esta vasta exposição de princípios permite a Platão fazer com que o grande sofista – que é ao mesmo tempo um mestre da forma – brilhe em todas as modalidades da retórica. Sócrates confessa-se arrebatado e vencido” “A força de Sócrates não está na graça com que narra mitos ou faz longas exposições doutrinais, mas antes na tensão dialética das suas perguntas certeiras, às quais é forçoso retorquir. Esta arte dialética de Sócrates revela-se triunfalmente na tentativa seguinte de atrair o adversário ao seu próprio terreno.”
“não é à luz de uma virtude concreta que Sócrates aponta aqui as relações entre a parte e o todo, mas sim por meio da comparação integral de todas as virtudes entre si, com o que se propõe demonstrar a unidade delas. Que ele, ao fazer isto, proceda, em certos aspectos concretos, de modo mais sumário que nos diálogos menores, não obedece apenas à circunstância de o seu propósito de estabelecer uma comparação completa obrigá-lo precisamente a percorrer um caminho mais longo, e a encurtar, portanto, as etapas; é importante ver também que uma minúcia maior o faria incorrer em repetições, já por si inevitáveis, aliás.”
“Sócrates procura arrancar ao seu interlocutor a concessão de que a justiça e a piedade são essencialmente a mesma coisa ou, pelo menos, coisas muito semelhantes e afins, o que Protágoras aceita, embora contra [a] vontade. Sócrates pretende aduzir a mesma prova a respeito das outras parelhas de virtudes mencionadas, deixando para o fim a valentia, por esta ser de todas as virtudes a que mais se diferencia psicologicamente das outras.”
“A crescente indisposição de Protágoras obriga Sócrates a interromper aqui a conversa, antes de ser ter atingido o seu objetivo” “Protágoras (…) se aproveita para desviar a conversa sobre a virtude e a possibilidade de ensiná-la para outro terreno, o da explicação poética, uma das formas essenciais da paideia sofística.”
“ele tira dos versos de Simônides um sentido congruente com a sua conhecida tese de que nenhum homem pratica voluntariamente o mal.” Diante do fascismo, é mera questão semântica de somenos importância: que em sua cabeça o fascista esteja fazendo o bem, tanto faz. Deve ser execrado e neutralizado da mesma forma que se a tese contrária fosse prevalente (a de que o malvado têm ciência da própria maldade e liberdade de escolha).
“Sócrates interroga a multidão em profundidade, para averiguar a razão por que considera neste caso que o prazer procurado é nocivo, em última instância. E obriga-a a reconhecer que não sabe dar outra razão a não ser que o prazer desfrutado acarreta como conseqüência um mal maior. Por outras palavras: a meta final (TELOS), em relação à qual a multidão reconhece diferenças de valor entre umas e outras sensações de prazer, é, por sua vez, o prazer e só o prazer. É nesta passagem que o conceito fundamental da finalidade aparece pela primeira vez em Platão.” “Pelo fato de isso ser certo é que o <deixar-se arrastar pelo prazer>, que a multidão invoca como motivo, significa apenas que se cometeu um erro de cálculo escolhendo o prazer menor em vez do maior, pela simples razão de ser o que estava mais perto no momento da opção.”
“Investigaremos em outra ocasião, continua Sócrates, qual é esta arte da medida e em que consiste a sua essência; mas o que desde já podemos assegurar é que são um saber e um conhecimento tais que nos podem fornecer a pauta para a nossa conduta, bastando para isso demonstrar o ponto de vista defendido por Protágoras e por mim (Prot., 357). O conceito da medida e da arte de medir (metretike), que se emprega aqui repetidamente e com grande insistência, tem uma importância fundamental para a concepção platônica da paideia e do saber. Aqui aparece primeiramente como simples postulado e, além disso, aplicado para determinar o bem supremo, o qual não pode ser concebido, de modo nenhum, em sentido socrático.”
“Sócrates sublinha expressamente a sua concordância com a tese de que o bom é o agradável e de que isto é, portanto, o critério da vontade e da conduta do Homem. O próprio Protágoras, animado pelo consenso geral, também adere agora, tacitamente, à tese que antes via com certo receio (Qui tacet, consentire videtur [Quem cala consente]). Deste modo, todas as sumidades em educação ali agrupadas sob o mesmo teto acabam por se harmonizar, unânimes, ao nível dos polloi, de que Sócrates partira. Sócrates tem-nos todos presos na armadilha.”
“Com isto, Sócrates obriga os sofistas a aceitarem o seu conhecido paradoxo de que ninguém <procede mal> voluntariamente (…) Partindo dessa concepção é fácil, para ele, resolver o problema, não resolvido ainda, das relações entre a valentia e o saber, acrescentando assim o último elo que faltava a sua cadeia demonstrativa da unidade da virtude, ainda incompleta.”
“Pois bem, se definimos o medo como o pressentimento de um mal, a conseqüência será que Protágoras, ao conceber a valentia como o não-retroceder perante aquilo sobre que incide o temor, incorre em contradição com a tese que todos acabam de assinar, e que afirma que ninguém avança conscientemente para o que considera um mal.” “Chegamos assim à conclusão de que a valentia é essencialmente o mesmo que sabedoria: o conhecimento do que na realidade se deve ou não temer.”
“Sócrates, que não achava a virtude suscetível de ser ensinada, agora busca provar por todos os meios que a virtude é, sob todas as formas, um saber; e Protágoras, que a considerava matéria apta para ensino, faz, ao contrário, grandes esforços para demonstrar que ela é tudo menos um saber (…) O drama finda com o espanto mostrado por Sócrates em face deste resultado aparentemente contraditório”
“Suspeitamos de que Sócrates, dada a descontração com que se manifesta no Protágoras, troça de todos os sofistas e de nós mesmos. E por fim exigimos que nos fale a sério de um problema de tanta seriedade. É isto que ele faz no Górgias, que é, sob muitos pontos de vista, o perfeito irmão gêmeo do Protágoras e o indispensável complemento sério do humor travesso vazado neste.” Velhos não podem sorrir (obra mais tardia de Platão)
3.7 O Górgias
“O ponto de vista extremo nesta questão é o aplicado por WILAMOWITZ, no seu Platon t. I, aos diferentes diálogos. Uma obra como o Fedro, p.ex., onde se investigam as relações entre a retórica e a dialética, é exposta por esta autor sob o lírico título de <Um venturoso dia de Verão>. Não se pode passar por alto da relação entre o ponto de vista de Wilamowitz e o livro de Dilthey intitulado Vida e poesia. A fórmula <vida e poesia>, tirada da lírica moderna, não serve para interpretar os diálogos de Platão.”
“a seriedade do Górgias não se deve exatamente ao fato de nele se refletir um estado de ânimo momentaneamente ensombrado, e a proximidade temporal da morte de Sócrates não é necessária para explicar o pathos grandioso que esta obra respira, como não o é para explicar o fúnebre dramatismo do Fédon, que os mesmos intérpretes situam, no tempo, muito longe da morte de Sócrates e bem perto do jovial Banquete.”
“Górgias de Leontinos, criador da retórica, na forma em que ela havia de pautar os últimos decênios do séc. V, é para Platão a personificação desta arte, tal como Protágoras é da sofística no diálogo que tem o seu nome.” Existe sofística sem retórica e retórica sem sofística?
UMA RETÓRICA AINDA ÉTICA: “a sofística, que é um fenômeno meramente pedagógico (…) Rhetor continua ainda na época clássica a ser o nome para designar o estadista, que num regime democrático precisa sobretudo ser orador. A retórica de Górgias propõe-se formar retóricos neste sentido da palavra.”
“Górgias cita até casos em que a palavra do retórico convenceu um enfermo da necessidade de tomar um remédio ou de se submeter a uma operação, depois de o médico competente ter fracassado nesse intento.”
“É a sua arte que aponta para todo tipo ao qual deverão submeter o seu saber. Não foram os arquitetos e engenheiros navais, cujo saber Sócrates enaltece como modelo, quem levantou as fortificações e os portos de Atenas, mas sim Temístocles e Péricles, que, apoiados no poder da retórica, convenceram o povo da necessidade de realizar estas obras.” “Se um atleta usar a sua força para estrangular pai e mãe, não haverá motivo para disso tornar responsável o seu mestre, pois este lhe transmitiu a sua arte, para que fizesse bom uso dela.” “Quando Górgias afirma que o retórico transmite aos seus discípulos a sua arte para que eles façam <bom uso> dela, parece pressupor que o mestre nesta arte sabe o que é bom e justo e que os seus discípulos já albergam neles, ou recebem do mestre, um saber igual.”
“A descrição deste antagonismo entre o sentimento de poder, ainda meio envergonhado e tingido de moral, da velha geração inventora da retórica e o consciente e cínico amoralismo da nova geração revela a grande arte de Platão para desenvolver dialeticamente, por meio de uma gradação de cambiantes, um tipo espiritual, em todas as suas formas características. (…) três formas fundamentais (…) o aparecimento de cada tipo novo recrudesce a luta (…) Às figuras de Górgias e do seu discípulo Polo vem juntar-se mais tarde, como terceiro e mais coerente representante do <homem retórico>, o estadista Cálicles, que proclama abertamente o direito do mais forte como moral suprema.”
FALAR É CRIAR PODER: “A crítica da segunda parte do Górgias parte da tese que afirma ser a retórica uma techne. O nosso conceito de arte não reflete adequadamente o sentido da palavra grega. Esta tem em comum com a arte a tendência à aplicação e ao aspecto prático. Por outro lado, em oposição à tendência individual criadora não submetida a nenhuma regra (para muitos implícita hoje na palavra arte), acentua o fator concreto do saber e da aptidão, que para nós estão ligados ao conceito de especialidade. [um anti-saber platônico]” “Designa toda profissão prática baseada em determinados conhecimentos especializados e, portanto, não só a pintura, a escultura, a arquitetura e a música, mas também, e talvez com maior razão ainda, a medicina, a estratégia militar ou a arte da navegação.” “neste sentido, o grego techne corresponde freqüentemente, na terminologia filosófica de Platão e Aristóteles, à moderna palavra teoria (…) Techne, por sua vez, distingue-se, como teoria, da <teoria> no sentido platônico de <ciência pura>, já que aquela teoria (a techne) é sempre concebida em função de uma prática.”
“Conforme os contextos, pode acontecer em Platão a palavra episteme em vez da palavra techne, quando lhe interessa destacar o fato de esta <arte> política ter como base um verdadeiro <saber>.”
“Sócrates (…) divide a lisonja em 4 classes: a sofística, a retórica, a <arte> da perfumaria e a <arte> culinária.” Paladar, olfato, tato (social!)… só faltaram a <arte> de ler ou contemplar esculturas e a <arte> de ouvir música.
“A vida do Homem divide-se em vida da alma e vida do corpo, e ambas requerem uma arte especial para velar por elas. Os cuidados da alma incumbem à política ou arte do Estado (e esta correlação, surpreendente para nós, lança uma luz esplendorosa sobre o objetivo final de Platão, ou seja, a arte do Estado, e sobre o sentido completamente novo que ele dá a este conceito)[uma sociedade em que a psicologia se tornou um ramo epistemológico é uma sociedade falida, a necrose da política]; a arte destinada a velar pelo corpo carece de nome especial. E ambas as artes – a que consiste em velar pela alma e a que versa sobre os cuidados do corpo – subdividem-se por sua vez em duas espécies, das quais uma corresponde à alma sã ou ao corpo são e a outra vela pelo corpo ou alma enfermos. O ramo da política chamado a velar pela alma sã é a legislação, enquanto a alma enferma reclama os cuidados da administração prática da justiça. Dos cuidados do corpo sadio se encarrega a ginástica; os do corpo doente são matéria da Medicina. As 4 artes encaminham-se para a consecução do melhor (…) Como variantes da lisonja, correspondem-lhes 4 imagens ilusórias: à legislação, a sofística; à justiça, a retórica; à ginástica, a <arte> da perfumaria; e à Medicina, a <arte> culinária. [!] Estas já não visam à consecução do melhor no Homem, mas aspiram somente a lhe agradar. Para isso, agem à base da mera experiência e não, como as verdadeiras artes, sobre o fundamento de um princípio firme e do conhecimento”
“As características essenciais do conceito de techne são: primeira, é um saber baseado no conhecimento da verdadeira natureza do seu objeto; segunda, é capaz de dar conta das suas atividades sempre que tem consciência das razões”
“O modelo que Platão apresenta nesta análise da essência de uma verdadeira techne é a Medicina. (…) A <arte política>, que é a meta da filosofia e da cultura novas que se procuram fundar, é concebida como uma medicina da alma.”
“Tal como no Protágoras, Platão pretende aqui demonstrar que os sofistas e retóricos, embora tenham aperfeiçoado até o requinte os meios técnicos de cultura e de influência sobre os homens, continuam a dar guarida às idéias mais primitivas (…) Platão opõe um novo humanismo ao humanismo dos sofistas e retóricos.”
“Polo (…) não consegue compreender como Sócrates pode não julgar apetecível o poder do tirano. E resta-lhe ainda o último trunfo, que ele joga, ao perguntar se porventura não se deve julgar ditoso o rei dos persas. E, como Sócrates responde: Não sei, pois ignoro qual é a sua paideia e a sua justiça, [sua formação e adestramento, sua criação e seu autofreio] Polo, sem se poder conter, atira-lhe esta pergunta surpreendente: Como? É nisso que se baseia toda a felicidade?”
“Temos de optar entre a filosofia do poder e a filosofia da educação.”
“Rep., 444C-E. A arete é a saúde da alma; é portanto, o estado normal, a verdadeira natureza do Homem.”
“Sempre se suspeitou que por trás de Cálicles se ocultava uma certa personagem histórica da alta sociedade ateniense daquele tempo. Essa hipótese é muito verossímil e tem até certa probabilidade psicológica. (…) É, sem dúvida, uma figura tão histórica como Anito, inimigo de Sócrates e adversário dos sofistas, que aparece no Mênon; no caso, é indiferente que Cálicles fosse o nome real do personagem ou simplesmente um pseudônimo.”
“Cálicles é o 1º dos defensores da retórica que ao ataque moral de Sócrates contra ela opõe um pathos de verdade própria. Reata desse modo a discussão sobre a retórica, encarada como instrumento da vontade de poder, discussão que Sócrates, com a inversão dialética do conceito de poder, fizera derivar, em seu favor, para o ético.”
“No conceito de Cálicles, poder defender-se a si próprio constitui o critério do verdadeiro homem e uma espécie de justificação ética da tendência ao poder, como se o Estado primitivo se prolongasse até o presente. Quem não puder defender-se quando sofrer uma injustiça, mais lhe valerá morrer. Cf. Górg., 483B.” “As leis, a massa é quem faz, quer dizer, os fracos, que são os que concedem louvores e censuras segundo o padrão das suas conveniências.”
“quando entra em cena um homem verdadeiramente forte, pisa em todo aquele amontoado de letras que são as nossas leis e instituições contrárias à natureza, e imediatamente volta a brilhar a chama do direito natural.”No caso de ser um homem verdadeiramente fraco, ídolo e ícone dos lumpen, chegou-se à desintegração máxima. É o direito natural não de uma casta legisladora na verdadeira acepção da palavra, mas o direito natural das bestas-feras.
“Cálicles vê na educação apenas adestramento orientado no sentido de extraviar e iludir sistematicamente as naturezas fortes e a manter de pé o poder dos fracos. [Suma do Capital: pedagogia moderna] A formação começa na infância, como com os animais selvagens que se quer domesticar.” “Na concepção da lei como uma prisão contrária à natureza, Cálicles coincide com o sofista Antifonte e com a sua teoria do nomos e da physis.”
“como cairá no ridículo sempre que pretender agir como pessoa privada ou pública, cada vez irá refugiando-se mais nos seus estudos, pois só neles se sentirá seguro. De tudo isto se depreende que, para fins de formação de paideia, é conveniente não se dedicar à filosofia senão durante certo tempo, pois, se o prazo deste estudo se prolonga, uma pessoa liberal torna-se servil, num estudo que agrilhoa o espírito e rouba totalmente a garra ao Homem. Esta maneira de encarar a paideia como uma simples fase da formação, para a qual se requerem só uns tantos anos, manifesta um perfeito antagonismo em relação ao elevado conceito de Platão, para quem ela abarca toda a vida do Homem.”
“De que lhe adiantaria – diz – a sua filosofia da resignação perante a injustiça, se um belo dia o sepultassem na prisão e o acusassem injustamente de qualquer delito? Poderia acontecer que o acusassem de crime de morte, sem que ele <pudesse defender-se>. Podia acontecer que o esbofeteassem e que o autor da injúria se retirasse impune. A alusão à morte de Sócrates realça a força das palavras do cru realista aos olhos do leitor desta cena, que se supõe ocorrida muito tempo antes da condenação de Sócrates à morte.¹
Sócrates está satisfeito por ter enfim encontrado um adversário que diz abertamente o que pensa. Se conseguir fazê-lo incorrer também em contradição, já ninguém poderá objetar que Cálicles não exprimiu a sua verdadeira opinião, como Górgias e Polo.”
¹ Ao leitor cristão é inevitável também a associação com Cristo: sua altíssima e exigente moral demanda que a bofetada não seja paga nem defendida. Ninguém é digno de seguir esta elevada moral. Não há, no caso de Cristo, sentimento interno de injúria, nem ressentimento pela impunidade daquele que esbofeteia. Desde a bofetada já há uma corrupção: o não-nobre não está no lugar de esbofetear o nobre. Sequer passa pela sua cabeça – não se trata de sanção judicial ao ato vil. Isso, claro, numa República. Está errado bater como também está errado apanhar. É como a situação da mendicância na contemporaneidade: o princípio do justo caminho já foi perdido. Diante deste quadro, e somente deste quadro, tudo é permitido, nobres e vilões estão em equanimidade. Era do chorume.
“Os modernos intérpretes de Platão fizeram muitas vezes da contradição entre esta maneira de definir o telos e a definição hedonística que dele se dá no Protágoras o ponto de partida para toda a sua concepção da evolução platônica, dando por certo que, até o Górgias, Platão não se elevou à altura moral do Fédon, com cuja tendência ao ascetismo e à positiva valoração ética da <morte> aquele coincide também.”
“basta substituir, como norma, o prazer pelo bem, que é considerada a mais exata de todas as medidas por Platão, no Filebo, e por Aristóteles no Político, obra de juventude ainda acentuadamente platonizante.” O Político aristotélico não deve ser confundido com a sua Política, muito menos com o Político platônico.
“E, como inequivocamente o Górgias nos ensina, a arete é aquilo cuja parousia faz os bons serem bons: quer dizer, é a Idéia, o protótipo de tudo o que é bom.”
“Se o prazer e o desprazer não podem servir de norma à nossa conduta, a retórica tem de abandonar o posto diretivo que os seus representantes lhe atribuíam nos mais importantes assuntos da vida do Homem” “A escolha acertada do agradável e do desagradável, que só tenha a preocupação de saber se é bom ou mau: eis a missão decisiva da vida humana. Isto, porém, como o próprio Cálicles concede laconicamente a Sócrates, não incumbe a qualquer um.”
“É agora que ganha significado pleno a interrogação de Sócrates sobre o caráter da retórica como saber, com que o Górgias principia. (…) dois tipos de vida (bioi) diferentes. Um baseia-se nas artes da lisonja, que na realidade não são artes, mas simples imagens enganosas delas. Atentando para a modalidade principal deste gênero, nós a chamamos de ideal retórico da vida.” “Em face dele aparece o tipo de vida filosófico. (…) trata-se, portanto, de uma verdadeira techne no pleno sentido da palavra (…) Esta terapêutica não existe só para o indivíduo, mas também para a coletividade. Por conseguinte, também a lisonja pode incidir sobre o indivíduo e sobre a massa. Platão aduz como exemplos da 2ª vários gêneros de poesia e de música, a música de flauta, a poesia coral e ditirâmbica e a tragédia. Todos eles visam exclusivamente [a]o prazer e, se neles descontarmos o ritmo, o metro e a melodia, ficará só a pura demegoria e a eloqüência pública (para a atitude negativa de Platão contribui, pois, a degeneração virtuosista da arte, na sua época). Esta concepção da poesia como parte da eloqüência, que mais tarde, adiantada já a Antiguidade, se generalizaria, aparece aqui pela 1ª vez, e tem em Platão um sentido francamente pejorativo.” “A análise da poesia segue a mesma linha que a da sofística e a da retórica, no Protágoras e no Górgias(…) O demos perante o qual o poeta aparece como retórico não é somente a parte masculina da cidade, mas uma massa mista de crianças, mulheres e homens, de livres e de escravos. No entanto, a retórica de primeiro plano, a que se dirige aos homens da cidade, ou seja, a retórica política, também não é melhor que o gênero por nós denominado poesia”
“Se a grandeza de um estadista consiste realmente em satisfazer os seus próprios apetites e os da massa, então é indubitável que tais políticos merecem a fama que a História lhes confere. Porém, se a missão do estadista é infundir às suas obras determinada forma, um eidos tão perfeito quanto possível, para em seguida se orientar por ele, como fazem o pintor, o arquiteto, o construtor naval e todo e qualquer técnico, ordenando de modo lógico as partes do todo para que se ajustem bem, então chegaremos à conclusão de que aqueles estadistas não passaram de uns incompetentes. Assim como toda a produção de arte tem a sua forma e a sua ordem, de cuja realização depende a sua perfeição, e assim como o corpo humano tem o seu próprio cosmos, que chamamos de saúde, também na alma existe um cosmos e uma ordem.”
“É certo que antes de Platão a língua grega não usa o termo cosmos neste sentido de ordem legal interior da alma; conhece, porém, o adjetivo kosmios, para exprimir uma conduta refletida e disciplinada. Também a lei de Sólon falava da eukosmia da conduta pública dos cidadãos e principalmente da juventude.”
“devendo recordar-se que, no grego, a palavra <bom> não tem apenas o estrito sentido <ético> que hoje se dá a ela, mas é o adjetivo correspondente ao substantivo arete, e portanto designa toda a classe de virtude ou excelência.” “quando a língua grega designa o bem-estar com a expressão <fazer bem>, esta expressão encerra, para Platão, uma sabedoria mais profunda que a advertida por aqueles que a empregam: (…) <fazer bem> assenta pura e exclusivamente no <agir bem>.”
“O que entre os deuses e os homens tem vigor não é a pleonexia, a ambição por mais; é a proporção geométrica. Mas de geometria nada entende Cálicles.”
“Se se tratasse de se proteger contra as injustiças sofridas, não haveria outro caminho senão o de submeter-se incondicionalmente ao sistema político vigente na sua época. Quando um tirano furioso e desprovido de paideia domina o Estado, não tem outro remédio senão temer todo aquele que esteja espiritualmente acima dele. Jamais se poderá, pois, tornar seu amigo, e desprezará, ao mesmo tempo, os que forem piores do que ele. Por conseguinte, o tirano não poderá ter por amigos senão os que lhe sejam semelhantes, os que louvem e censurem o mesmo que ele louva e censura, e estejam, além disso, dispostos a se deixarem dominar por ele.”
“Ambos aparecem colocados diante do mesmo problema: o de como se devem comportar para com o <tirano> do seu Estado – o demos ateniense – que exige sejam (sic) incondicionalmente respeitados os seus desejos. Sócrates mostrou que não ignora as conseqüências que a sua franqueza lhe pode acarretar e que está disposto a afrontá-las pelo bem da pátria. É Sócrates, o representante da virtude, quem é o herói. Cálicles, o defensor da moral do senhor, do direito do mais forte, é na realidade o homem fraco, que se adapta exteriormente para dominar, mediante a hábil flexibilidade do homem de palavras.”
“Cálicles e Sócrates aparecem agora como a mais perfeita encarnação destes dois tipos de homem: o adulador e o lutador.”
“É Platão quem, seguindo correntemente o hábito socrático da indagação dialética, introduz o conceito de exame na educação superior. Na República edifica totalmente sobre esta base a cultura do governante. Trata-se de um conceito tirado das technai dos especialistas: do médico, do arquiteto, etc., como o próprio Platão nos dá a entender pelos exemplos.”
“Pelo que os seus críticos dizem dele, Péricles tornou os atenienses ociosos, covardes, tagarelas e ambiciosos, quando introduziu o pagamento de gratificações. Recebeu-os relativamente sossegados das mãos dos seus predecessores para convertê-los num povo revoltado, como a sua própria sorte o prova. Címon e Temístocles foram por esse povo enviados para o exílio, e Milcíades esteve para ser lançado no Hades.”
PRINCÍPIO DA ARETE DO S-H: “Ainda não existiu um estadista no sentido socrático da palavra. Os estadistas famosos de Atenas foram meros servidores do Estado, em vez de serem educadores do povo. Converteram-se no instrumento das fraquezas da natureza humana, que procuraram explorar, em vez de as superarem por meio da persuasão e da coação.”
“Ninguém fale, porém, de ingratidão do povo que derrubar e expulsar os seus governantes. É o velho subterfúgio dos sofistas que têm a pretensão de educar os homens na virtude e se queixam de ingratidão quando os discípulos se portam mal para com eles e se recusam a pagar-lhes os honorários. Entre o sofista e o retórico não há diferença essencial, a não ser que por ela entendamos ser o retórico, que com tão grande desdém olha o sofista, muito inferior a ele na realidade, exatamente como o juiz o é em relação ao legislador e o médico em relação ao ginasta. Quando o retórico ou o sofista acusam quem dizem ter <educado>, é a si próprios e a sua educação que na realidade acusam.”
“A opção pré-existencial da sorte da vida no além, que Platão pinta no final da República (617B-620D), serve de fundo metafísico a esta opção terrestre. A passagem do Górgias é, por sua vez, o desenvolvimento do tema da Apologia (29D) em que Sócrates opta também, ante o perigo iminente que ameaça a sua vida, pela conservação do seu bios filosófico.”
“creio que somos pouquíssimos os atenienses (para não dizer que sou eu só) que nos esforçamos por praticar a verdadeira arte do Estado; talvez seja eu o único a defender a causa do Estado entre os homens deste tempo.”
“É no Górgias que Platão abandona pela 1ª vez a simples atitude de exame e investigação predominante nos diálogos anteriores; apresenta ali o filósofo, na época em que esta investigação, de aparência meramente intelectual, e à qual ele atribui um tão alto valor para uma conduta reta, desvenda toda a sua profundidade, e em que o jogo, que ele veio seguindo de modo tão inexplicavelmente apaixonado, se transforma em luta contra o mundo inteiro, luta que exige o sacrifício da própria vida. Nos primeiros diálogos de Platão, a partir do Críton, soam de preferência os arpejos claros e alegres desta música filosófica, os quais atraem todos os amantes das musas. Mas quem não treme quando de repente ouve ressoar no Górgias as vozes profundas e brônzeas da sinfonia socrática e por trás daquela perfeita alegria capta o motivo da resignação diante da morte? Pela 1ª vez desde a Apologia aparecem aqui fundidas num todo a vida e a doutrina de Sócrates. Por entre a aparente indecisão lógica dos diálogos de Sócrates resplandece aqui a resolução incondicional da existência socrática, certa da sua meta final, uma existência, portanto, que já de algum modo deve possuir aquele saber tão ardentemente desejado e que exclui qualquer possibilidade de uma opção errônea da vontade.”
“Platão expõe-no com a certeza – adquirida na unidade da palavra e da realidade na pessoa do seu mestre – de isto ser pura e simplesmente o autêntico Ser. O Górgias desvenda ao nosso olhar uma nova valoração da vida.”
“Não é fácil considerar o Sócrates histórico o autor destas livres adaptações literárias dos mitos religiosos, mesmo que de vez em quando neles prendesse a atenção. Mas também não se pode aceitar, por corresponder a uma concepção excessivamente tosca da verdade espiritual, a hipótese tão difundida de que foi nas suas viagens ou de outro modo qualquer que Platão assimilou a influência dos mistérios órficos ou outros mitos parecidos, e os combinou, na sua concepção, com a ética socrática. [talvez se refira principalmente a Nietzsche? Pouco provável, haja vista a nota de rodapé a seguir.]Os mitos platônicos sobre o destino da alma no além-morte não são produtos dogmáticos de nenhum sincretismo histórico-religioso.(*) Interpretá-los assim seria menosprezar completamente a capacidade poética criadora de Platão, que neles atinge um dos seus pontos culminantes.
(*) Neste erro incorre a maioria dos investigadores que abordam o elemento órfico de Platão, movidos pelo interesse do historiador das religiões. O que vai mais longe neste sentido é Macchioro, que faz derivar do orfismo a maior parte da filosofia de Platão.”
Há 3 mundos e 4 reinos aquáticos no mais inferior deles (Fédon), mas quem liga, se somos apenas homens da segunda caverna que irão parar no Hades ou não? Nossa integridade ética ou a falta dela não se alterarão por causa disso.
SOBRE O VALOR DOS VALORES DE UM PONTO DE VISTA EXTRA-MORAL: “Sem um tal ponto de apoio num mundo invisível, a existência do homem que vive e pensa como Sócrates perderia o equilíbrio, pelo menos se for vista pelos olhos de seres limitados ao mundo dos sentidos. A verdade da valoração socrática da vida só se podia compreender se referida a um <além>, tal como o descrevia a linguagem vigorosa e sensível das representações órficas da vida post-mortem: uma morada onde se podia emitir um juízo definitivo sobre o valor e o desvalor, a felicidade e a ruína do Homem, onde a <própria alma> era julgada pela <própria alma>, sem o invólucro protetor e enganoso da beleza, da posição social, da riqueza e do poder. Este <juízo>, que a imaginação religiosa transpõe para uma 2ª vida, situada para além da morte, torna-se para Platão uma verdade superior, quando procura desenvolver até o fim o conceito socrático da personalidade humana como um valor puramente interior, baseado em si próprio.”
“as injustiças passadas perduram na alma e formam a essência dela.”
“As incuráveis – na maioria almas de tiranos e homens de poder, que já não é possível salvar com nenhuma terapêutica – são erigidas em exemplos eternos, paradeigmata,¹ para benefício das outras.”
¹ Paradigma e também arquétipo, norma.
“Platão põe agora na pessoa do seu mestre a sua própria convicção apaixonada de ser Sócrates o verdadeiro educador de que o Estado precisa, e faz com que Sócrates, cheio de um sentimento da própria personalidade e com um pathos nada socrático, mas inteiramente platônico, denomine-se, baseado na sua pedagogia, o único estadista do seu tempo.”
“Enquanto na Apologia este conflito podia ainda aparecer aos olhos de certos leitores como uma catástrofe isolada, o Górgias põe a descoberto que o pensamento de Platão gira sem cessar em torno daquele conflito.” “A Carta Sétima esclarece com precisão a perene importância filosófica que esta experiência vivida tem para Platão, e o faz com tal brilho que a obra e o testemunho pessoal se completam do modo mais perfeito.”
“A crítica do Górgias dirige-se de maneira tão exclusiva contra os estadistas atenienses do presente e do passado, que há a aparência de que a vontade reformadora de Platão admitiria ainda a possibilidade de uma transformação política na sua própria pátria. No entanto, a Carta Sétima prova que já naquela época Platão não admitia tal possibilidade. Como é que o espírito socrático podia penetrar num Estado refratário até a medula, como o ateniense? Por trás do Górgias ergue-se já a idéia do Estado dos filósofos. A crítica demolidora do Estado histórico, contida nesta obra, não tende para a revolução violenta nem é a explosão de um fatalismo sombrio, de um estado de espírito calamitoso, o qual teria sido compreensível depois da bancarrota interna e externa de Atenas, subseqüente à guerra do Peloponeso.”O que é então? Um ligeiro escapismo que duraria 3 mil anos.
“Para a maneira moderna de sentir confundem-se aqui duas missões distintas que, pelo menos até há pouco, era costume separarmos com rigor. A nossa política é política realista, a nossa ética individual, idealista.” “Foi no tempo de Sócrates que esta unidade sofreu o primeiro abalo sério. As razões do Estado e o sentimento moral dos indivíduos começaram a divorciar-se cada vez mais abertamente, à medida que se embrutecia a vida política e se tornava independente e mais afinado o sentimento moral dos melhores indivíduos. Esta ruptura da 1ª harmonia entre a virtude humana e a virtude cívica (…) constitui a premissa histórica do pensamento platônico sobre a filosofia do Estado. Era agora revelado que o poder do Estado de submeter os espíritos ao seu império – poder evidente na antiga cidade-Estado – tinha o seu reverso perigoso. Com o tempo, forçosamente levaria os indivíduos de cultura superior a enveredarem por atalhos e a afastarem-se do Estado ou a aplicarem-lhe a sua norma ética ideal, gerando desse modo um conflito insolúvel entre o seu modo de ver e o Estado real.”
A Idéia de Ser do Filho de Deus não é animada, mas um quadro na parede.
“segundo o modo de ver de Platão, o Estado não pode ficar para trás em face desta evolução moral e tem de encetar o caminho de se converter em educador e médico de almas ou então resignar-se, caso não queira assumir esta missão, a ser considerado um organismo degenerado e indigno da sua autoridade.”
“Longe de se opor ao saber profissional, é deste que ele tira o seu ideal.” “É precisamente ao chegar ao ponto da evolução em que esperamos deparar com o moderno conceito de consciência pessoal e de livre decisão moral do indivíduo que nós vemos este conceito ser de novo eliminado e em seu lugar instaurada uma verdade filosófica objetiva que reivindica para si o direito de dominar toda a vida da comunidade humana e, portanto, do indivíduo.”
Aquela brincadeira de infância: o último a chegar é a mulher do tirano.
3.8 O Mênon
“No Protágoras, Sócrates procurara ganhar os sofistas para a sua causa. Mas quanto mais tentava aprofundar a sua tese de que a virtude só podia ser, em última instância, um saber, afastando-se assim da sua primitiva negação da possibilidade de a virtude ser ensinada, mais Protágoras resistia a aceitar que a sua pretensão de passar por mestre da virtude só podia ser salvaguardada mediante a aceitação do axioma socrático de que a virtude é um saber.”
“uma vez estabelecida a equivalência entre a virtude e o saber e esclarecida a importância deste saber-virtude para toda a educação, tornava-se urgentemente necessária uma investigação especial do problema do que era o saber assim concebido. Pois bem, o Mênon é o primeiro diálogo em que se aborda esta investigação. Esta é, aliás, a obra mais chegada no tempo ao grupo de diálogos que anteriormente comentamos, e constitui, portanto, a resposta mais imediata de Platão ao problema colocado no Protágoras: que espécie de saber é aquele que Sócrates considera fundamental para a arete?” “Em nenhum momento poderia haver um programa da sua escola que limitasse a filosofia ao problema do saber, principalmente se esta palavra se concebe com a generalidade abstrata da moderna teoria do conhecimento e da lógica moderna.”
“Segundo Platão, é em começar por inquirir primeiro o que é a arete em si, antes de se aventurar a dizer como se entra na posse dela, que se baseia a nova formulação do problema por Sócrates. Quando Sócrates condiciona a aquisição da arete à solução do problema da sua essência, ou seja, a um difícil e complexo processo intelectual, isto significa que a arete passou a ser algo problemático para ele e para a sua época.”
“Mênon aprendeu com Górgias, seu mestre, a distinguir a virtude do homem e a da mulher, a do adulto e a da criança, a do homem livre e a do escravo.”
“Este algo, a partir de cujo ponto de vista as virtudes não aparecem múltiplas e distintas, mas, ao contrário, são todas uma e a mesma virtude, é o que Platão denomina eidos. (…) A locução <olhando para> aparece com freqüência na pena de Platão e exprime plasticamente a essência do que ele entende por eidos ou idea.” O Ser grego é acessível através da visão, e não da reflexão cartesiana da representação. O olho reflete a luz (as cores, a forma) assim como na era moderna a ‘mente’ reflete a própria ‘idéia’ (o próprio olho refletindo a forma)!
“o eidos platônico se elabora de maneira absolutamente concreta, com base no problema da virtude (arete). Se queremos saber o que é a saúde, não vamos averiguar se ela se manifesta de modo diverso no homem, na mulher, etc., mas procuramos, sim, captar o eidos, sempre e em todas as partes idêntico, da saúde.”
“Precisamente, o eidos do bem ou da arete, do qual Platão fala, não é outra coisa senão esta concepção do bem <em totalidade>. O característico disso é que este bem <em totalidade> é ao mesmo tempo designado por Platão como o verdadeiro real e existente, o que repugna a uma equiparação com o nosso <conceito> lógico, com o universal. No Mênon, tal como nos diálogos anteriores, não deparamos nunca com uma verdadeira definição da arete, e é evidente, aliás, que semelhante definição não tem de momento nada que ver com o problema da virtude em si, quer dizer, da idéia. O <que é> é explicado como idéia e não como definição.”
“É Aristóteles quem, de certo modo, rompe a marcha por este caminho errado, ao sustentar que foi Sócrates quem primeiro procurou definir os conceitos universais, que Platão hipostasiou em uma realidade ontológica e assim inutilmente duplicou.” “A maioria dos lógicos modernos segue os passos de Aristóteles nesta reconstituição do processo interior que levou Platão a estabelecer a teoria das idéias. A <escola de Marburgo>, que durante algum tempo preconizou com grande insistência e em numerosas publicações uma nova interpretação platônica, declarou-se energicamente contrária à concepção aristotélica. Veja-se principalmente Paul NATORP, Platos Ideenlehre (Marburgo, 1910). Esta reação não levou diretamente a esclarecer a compreensão da verdadeira posição histórica dos dois grandes filósofos, porque pecava em sentido contrário. (…) Julius STENZEL, no seu primeiro livro, Studien zur Entwicklung der platonischen Dialektik (Breslau, 1917, trad. inglesa de D.J. Allan, Oxford, 1940[op. cit. em negrito]), foi quem soube tirar as conclusões acertadas desta tentativa frustrada da escola de Marburgo e aprofundar a verdadeira situação histórica da lógica platônica do Ser.”
“Este conceito lógico universal parece tão evidente aos olhos de um moderno que se considera simples apêndice fastidioso e problemático aquilo em que a idéia platônica ultrapassa este conceito (…) ainda que nós distingamos claramente em Platão os 2 aspectos – o do lógico universal e o do ontológico real –, o certo é que para ele formam absolutamente uma unidade.”
“os equívocos dos intérpretes modernos não provêm tanto de se interpretarem mal as palavras do próprio Platão, coisa dificilmente concebível em si mesma, como do fato de para elas terem transferido certas noções lógicas de origem posterior.” “Na opinião de Aristóteles, Platão fizera dos conceitos universais entidades metafísicas, atribuindo-lhes uma existência independente, separada das coisas captadas pelos sentidos. A verdade é que Platão nunca deu o segundo passo (o de <hipostasiar> os conceitos), simplesmente porque também não dera o primeiro, ou seja, a abstração dos conceitos universais como tais. Longe disso: para ele, o conceito lógico aparece ainda completamente envolto na roupagem da idéia.”
“A relação destes esforços dialéticos comuns com o ato de visão intelectual que aparece no fim deste caminho esclarece-se na Carta VII, por meio da comparação com o ato de friccionar 2 pedaços de madeira até fazerem fogo.”
“Além do alto grau de consciência lógica que Platão revela constantemente neste diálogo, é eloqüente neste sentido principalmente a grande quantidade de termos técnicos que ele usa para designar os seus diferentes passos metódicos. Para fazer um <exercício>, como Platão faz aqui, é necessário dominar as regras que se querem tomar como base. Neste sentido, é muito instrutiva a arte consciente da ilustração dos processos lógicos por meio de exemplos (paradigmas), cuja função Platão põe continuamente em relevo.”
“a essência não admite, como p.ex. o Fédon ensina, um mais e um menos, e nenhuma figura o é em maior ou menor grau que outra qualquer. O círculo não é figura em grau mais alto do que o retângulo. Cf. Fédon, 93B-D etMênon 74E.” // Geometria aristotélica: círculo é a figura por excelência.
arte experimental x a priori autocontido em si mesmo
“Enquanto o Górgias, para traçar o esboço de uma nova techne ético-política, tomava antes a Medicina por modelo, o Mênon segue principalmente o exemplo das matemáticas.”
A transposição acima, da arte médico-hipocrática às matemáticas, obriga a entrada da reminiscência no arcabouço platônico. A idéia de reminiscência se torna uma necessidade filosófica (reminiscência como visão interior preexistente):
“Para se aproximar da natureza desta intuição interior, Platão recorre ao mundo de idéias do mito religioso. E como os gregos não podem representar-se nenhuma intuição sem objeto real, e por outro lado o espírito do Homem – p.ex., o do escravo da investigação geométrica anterior – não viu nem conhece ainda nada de semelhante, Platão interpreta a existência potencial do conhecimento matemático na alma como uma visão comunicada a esta numa vida anterior.”
“Interessa menos a Platão a idéia da imortalidade, como base necessária para o seu conceito da personalidade moral, do que a possibilidade de essa idéia servir de fundo a sua nova teoria de um saber de certo modo inato na alma do Homem. Sem aquele fundo, este saber ficará reduzido a uma idéia pálida e vaga. Em contrapartida, em conexão com a preexistência, abrem-se perspectivas inimagináveis em várias direções, e o conhecimento do Bem em si, que se investiga, alcança a completa independência em relação a qualquer experiência exterior e uma dignidade quase religiosa.”
“Sócrates sempre se detivera no não-saber. Platão, ao contrário, sente-se impetuosamente impelido a ir avançando até alcançar o saber[impossível por definição, caso em que nos tornaríamos deuses, cf. O Banquete]. Apesar disso, é na ausência de saber que ele vê o sinal da verdadeira grandeza de Sócrates, pois Platão interpreta-a como as dores do parto de um tipo completamente novo de saber, que Sócrates trazia nas entranhas. Trata-se daquele conhecimento interior da alma que o Mênon procura captar com precisão e descrever pela 1ª vez: a intuição das idéias. (…) E não foi porque só a partir desse momento Platão tivesse sido capaz de vê-la assim; é que ele só a julgou possível de assim ser explicada aos outros a partir do momento em que abordou a tarefa de expor a natureza maravilhosa deste saber, que descobria dentro de si próprio a raiz da suacerteza.” “Platão demonstra logo, à luz do exemplo matemático do episódio do escravo, que a aporia é precisamente a fonte do conhecimento e da compreensão.” “A digressão matemática do Mênon serviu para pôr em destaque a fecundidade educadora das aporias e para as apresentar como a primeira fase na senda do conhecimento positivo da verdade.” “No Mênon não faz mais do que indicar a teoria de que o saber socrático é reminiscência, bem como a teoria da imortalidade e da preexistência, que haviam de ser desenvolvidas mais tarde, no Fédon, na República, no Fedro e nas Leis. (…) A aspiração à verdade não é outra coisa senão a expansão na alma do conteúdo que por natureza ela contém.” “Não é por alguém lhe ensinar, mas sim por tirar do seu próprio espírito o saber, que o escravo descobre a verdade da regra matemática.”
“A coragem de investigar aparece aqui como a característica da verdadeira virilidade. Trata-se, evidentemente, de explicar as censuras de críticos como Cálicles, segundo os quais a entrega permanente à filosofia produzia efeito deprimente e tirava a virilidade ao homem.”
“Fica, todavia, sem determinação plena a relação entre a justiça e a virtude por antonomásia e vemos que a essência desta não fica esclarecida por aquela definição, em que se comete o erro lógico de querer explicar a essência da virtude mediante uma parte dela, que é a justiça.” Só o sábio (detentor do valor dos valores) pode arbitrar. Não se arbitra sobre o valor dos valores, apenas sobre os valores, com base no valor dos valores.
“a experiência parece demonstrar que não existem professores de virtude, e que até hoje nem os homens mais importantes do passado e do presente de Atenas foram capazes de transmitir aos próprios filhos as suas virtudes e o seu caráter. Sócrates está disposto a admitir que aqueles homens possuíam a arete, mas, se esta consistisse num saber, teria por força de se ter manifestado como força educadora.”
EU SEI, MAS NÃO SEI COMO SEI: “Assim, ao terminar o Mênon, continuamos, aparentemente, no mesmo lugar em que estávamos no Protágoras. Mas isto é só aparência, pois na realidade o novo conceito do saber que com o auxílio dos exemplos matemáticos adquirimos na parte central do Mênon abre-nos as perspectivas para um tipo de conhecimento que não é suscetível de ser ensinado do exterior, mas nasce na própria alma de quem o inquire com base numa orientação correta do seu pensamento. Em Platão, o encanto da arte socrática do diálogo consiste em que nem sequer aqui, quando estamos tão próximos de alcançar o resultado, ele nos serve por suas mãos, mas faz com que o encontremos nós próprios.” “Com efeito, a nova paideia não é suscetível de <ensino>, tal como os sofistas o concebiam, e deste ponto de vista Sócrates tinha razão ao negar a possibilidade de educar os homens pelo simples fato de instruí-los.”
“uma vez que o ensino dos sofistas não conduz à arete e a arete que os estadistas possuem por natureza não pode transmitir-se a outros, parece que só por obra do acaso divino a arete pode existir no mundo, a não ser que se encontre um estadista capaz de converter em estadista um outro homem. Todavia, esta expressão <a não ser que>, que facilmente poderia passar despercebida, contém na realidade a solução do dilema, pois já sabemos pelo Górgias que, segundo a paradoxal tese de Platão, é Sócrates o único verdadeiro estadistas que torna os homens melhores.”
“um talento e um dom naturais que não saibam dar razão de si próprios.”
“Já antes de abandonar o corpo, o espírito de Sócrates paira no Fédon, como o cisne apolíneo sobre as pradarias do Ser puro; no Banquete, em contrapartida, Platão apresenta o filósofo como a forma suprema do homem dionisíaco e o conhecimento da beleza eterna, a cuja visão ele se eleva, como a satisfação suprema do primitivo impulso humano, do eros, do grande daimon que mantém coeso, interior e exteriormente, o cosmos. Na República, finalmente, o saber do filósofo revela-se como a fonte, na alma, de toda a força legisladora e criadora de comunidades.”
“o conhecimento do <sentido> é a força criadora que tudo dirige e tudo ordena.”
3.9 O Banquete
“Já no Lísis, um dos seus mais graciosos diálogos menores, Platão colocara o problema da essência da amizade, frisando com isso um dos temas fundamentais da sua filosofia, que mais tarde desenvolveria em toda a sua plenitude, nas grandes obras da sua maturidade que tratam do eros: o Banquete e o Fedro.”
“A sua teoria da amizade constitui o nervo de um modo de considerar o Estado, no qual vê primordialmente uma força educadora. Na República e na Carta Sétima, Platão fundamenta o seu afastamento de qualquer atividade política na carência total de amigos e camaradas certos que o pudessem ajudar na empresa da renovação da polis.¹ Quando a comunidade sofre de uma doença orgânica que lhe afeta o conjunto ou é destruída, a obra da sua reconstrução só pode partir de um grupo reduzido, mas fundamentalmente são, de homens com idênticas idéias, o qual sirva de célula germinal para um novo organismo”
¹ Eis o mal de todo “bom filosófo”!
“É, portanto, um problema que ultrapassa em muito o âmbito que nas modernas sociedades, extremamente individualizadas, chamamos amizade. Para compreendermos claramente o verdadeiro alcance do conceito grego da philia, precisamos apenas seguir o desenvolvimento posterior deste conceito até chegarmos à teoria da amizade, sutilmente matizada, da Ética a Nicômaco.”
“A psicologia trivial que em tempos de Platão se esforçava, com pouco êxito, por encontrar uma explicação para a amizade atribuía-a quer à semelhança de caráter quer à atração dos contrários. Elevando-se acima deste campo exterior de simples comparações psicológicas, o Lísis de Platão, em audacioso avanço, descobre o novo conceito de <primeiro amado>, que Platão exige e pressupõe como fonte e origem de toda a amizade entre os homens.” “por trás daquele <primeiro amado>, em virtude do qual amamos tudo o mais, estava o supremo valor, que o Bem encerra em si. A data do Lísis e a sua significação para o problema da evolução filosófica de Platão foram objeto de uma interessante polêmica entre M. POHLENZ (em Göttinger Gelehrte Anzeigen, 1916, núm. 5) e H. VON ARNIM (em Rheinisches Museum, Nova Série, t. LXXI, 1916, p. 364). A minha opinião coincide com a de Arnim quanto à origem mais antiga do Lísis.”
“Com o próprio título da obra Platão indica já que, ao contrário do que ocorre na maioria dos seus diálogos, ela não gira em torno de uma figura central. Não estamos diante de um drama dialético como o Protágoras ou o Górgias. E ainda menos a podemos comparar a obras puramente científicas do tipo do Teeteto¹ ou do Parmênides, onde se expõe sobriamente o esforço realizado para resolver determinado problema.”
“À volta da mesa do poeta trágico Ágaton, congregam-se representantes de todos os tipos de cultura espiritual da Grécia. Aquele poeta acaba de alcançar no agon dramático um brilhante triunfo e é ao mesmo tempo o festejado e o anfitrião. Mas é Sócrates quem, dentro de um círculo restrito, alcança o triunfo no agon dos discursos, um triunfo mais poderoso que o aplauso das 30 mil ou mais pessoas que no dia anterior aclamaram Ágaton no teatro. (…) Além do trágico, está presente Aristófanes, o melhor comediógrafo da época; e, dado que os discursos destas figuras marcam indubitavelmente o ponto culminante de todo o diálogo, antes de Sócrates, como último de todos, começar a falar, o resultado é o Banquete se tornar a encarnação visível do primado da filosofia sobre a poesia, primado que Platão postula na República.Para alcançar esta dignidade, a filosofia teve de converter-se também em poesia, ou pelo menos criar obras poéticas de 1ª grandeza, que, graças a sua força imortal e independentemente de toda a luta de opiniões, patenteassem ao nosso olhar a sua essência.”
“A combinação da paideia aristocrática de Teógnis com o amor do poeta pelo distinto jovem Cirno, a quem dirige as suas exortações, ilumina a relação existente entre o banquete e o eros educacional que inspirou o Banquete platônico. (…) os banquetes (…) figuravam entre as formas fixas de sociabilidade de mestres e alunos”
“Entre os títulos das obras perdidas de Aristóteles e outros discípulos de Platão aparecem mencionadas leis minuciosas destinadas a regulamentar os banquetes, semelhantes às que Platão preconizava nas Leis.(*) No início desta obra dedica um livro inteiro ao valor educacional do beber e das reuniões de bebedores, defendendo estas práticas contra os ataques de que eram alvo.
(*) Segundo ATENEU, V, Xenócrates, discípulo e segundo sucessor de Platão, escreveu as Leis para o banquete, destinadas à Academia; e outro tanto fez Aristóteles para a escola peripatética.”
“A escola de Isócrates adota a atitude contrária. Reflete-se nela a sobriedade do mestre, que via no excesso de bebida a ruína da juventude ateniense. E nem sobre o eros pensava diferentemente. Mas Platão obriga as duas forças, Eros e Dioniso, a se colocarem a serviço da sua idéia. (…) Ele julga que, sem o impulso e o entusiasmo inesgotáveis e incessantemente renovados das forças irracionais do Homem, jamais será possível atingir o cume daquela transfiguração suprema que atinge o espírito, quando este contempla a idéia do Belo. A união do eros e da paideia, eis a idéia central do Banquete.”
“Desconhecemos as experiências pessoais vivas que serviram de base a este processo de purificação. Sabemos que inspiraram uma das maiores obras poéticas da literatura universal.”
“Censura os poetas, porque tendo por missão cantar em hinos os deuses, esqueceram-se de Eros, e propõe-se, em conseqüência, preencher esta lacuna, cantando em prosa o panegírico deste deus.”
“Pausânias, sem abandonar o tom mitologizante do discurso de Fedro e firmando-se na dupla natureza de Afrodite, a serviço da qual se encontra Eros, distingue o Eros Pândemos e o Eros Urânios.” “O eros usual e corrente, o instinto irrefletido e vulgar, é vil e repudiável, porque tende à mera satisfação dos apetites sensuais; em contrapartida, o outro é de origem divina e o impulsiona o zelo de servir ao verdadeiro bem e à perfeição do amado.”
“Na Élida e na Beócia, i.e., nas regiões da Grécia espiritualmente menos desenvolvidas e estagnadas numa fase de cultura arcaica, considera-se o eros como algo simplesmente intocável. Sucede o contrário na Jônia, quer dizer, de acordo com a interpretação de Pausânias, na parte do mundo helênico mais afim da maneira de ser asiática, onde o eros é rigorosamente castigado. O orador explica o fato pela influência dos bárbaros e das suas concepções políticas.” “Também não se pode negar que, segundo a lenda histórica, a democracia ateniense foi fundada por uma dupla de tiranicidas, Harmódio e Aristogeíton, unidos pelo eros para a vida e para a morte.” “Ao contrário da atitude de outros Estados que se citam, a atitude de Atenas e de Esparta não é de aprovação nem de condenação, mas antes equívoca e complexa.”
“a opinião defendida por Pausânias procede essencialmente da própria Esparta, como também acontece com a prática da pederastia como tal. Este costume, derivado da vida nos acampamentos militantes da época das migrações das tribos – época muito mais próxima entre os dórios que entre os demais gregos e que se prolongava no modo de vida da casta guerreira espartana (…) Quando Esparta caiu e a sua influência específica desapareceu, o que sucedeu pouco depois da época em que nasceu o Banquete, a pederastia declinou rapidamente, pelo menos como ideal ético, e só perdurou nos séculos posteriores da Antiguidade como prática viciosa e desprezível dos cinaedi.” Werner escreve de uma perspectiva inevitavelmente homofóbica. Mas estes cinaedi com certeza são depravados sadomasoquistas da decadente Roma, como a palavra indica: usavam chicotes para torturar e lacerar suas vítimas, i.e., interesse libidinal e amoroso, assim como o doentio Ultra-Romantismo vai idealizar em obras como Venus in Furs.
“A Platão, acontece-lhe com o eros o mesmo que com a polis e com a fé da velha Grécia, na qual se baseava: como poucos espíritos daquela época de transição, sente de maneira forte e pura todas aquelas idéias, mas transmite ao novo mundo, em cujo centro metafísico a projeta, apenas a imagem transfigurada da essência ideal delas.” Amizade platônica: essência ideal da pederastia. O gozo do professor em ensinar e do aluno em aprender.
“Uma terceira forma de tradição espiritual é a que se manifesta no discurso de Erixímaco. Como médico, parte da observação da natureza, sendo que o seu horizonte visual não se limita ao Homem” “Erixímaco defende sistematicamente o poder gerador de Eros como princípio do devir de todo o mundo físico (…) À primeira vista, parece impossível estabelecer, do ponto de vista da physis, qualquer divisão entre as diferentes formas ou modalidades do eros, por um critério de valor moral, como Pausânias procurara fazer, partindo do nomos vigente na sociedade humana. (…) Na sua opinião, o denominador comum a que aquela distinção de ordem moral deve reduzir-se é a distinção entre o são e o enfermo.” “Compreendemos agora por que Platão escolheu um médico para representante da concepção naturalista. Ele o fez precisamente em vista desta distinção, que conduz à submissão do eros a um critério valorativo.” “O seu conceito da concórdia harmônica baseia-se na teoria heracliteana dos contrários, que aliás desempenhava também considerável papel no pensamento médico da época, como revela principalmente a obra pseudo-hipocrática Da Dieta.” Littré pende mais para “hipocratizar” ambos os livros “hipocráticos” sobre dieta alimentar.
“Devem conceder-se todos os favores ao homem casto e conservar o seu eros; mais ainda, é preciso empregá-lo como meio para transplantar esse recato e essa moral para os homens que ainda os não possuem. Tal é o eros uranios, o amor pela musa Urânia. Em contrapartida, deve ser aplicado com cautela o eros pandemos, a inclinação para a musa Polímnia. (…) algo assim como o médico usa e fiscaliza as artes do cozinheiro.
Na sua intervenção, Erixímaco faz do eros uma potência alegórica tão universal, que a sua substância corre o risco de desaparecer no seio do geral. Em contrapartida, o comediógrafo Aristófanes volta, no seu engenhoso e genial discurso, a orientar-se para os fenômenos humanos concretos do amor”
“Este impulso nostálgico todo-poderoso que em nós palpita só pode ser compreendido pela especial natureza do gênero humano. No grotesco mito da forma esférica do homem primitivo (…) vemos expressos, com a profundidade da fantasia cômica de Aristófanes, a idéia que até agora buscamos em vão nos discursos dos outros. O eros nasce do anseio metafísico do Homem por uma totalidade do Ser, inacessível para sempre à natureza do indivíduo.” “O amor por outro ser humano é aqui focalizado à luz do processo de aperfeiçoamento do próprio eu. Esta perfeição só é atingível na relação com um tu (…) Aristófanes focaliza o problema em toda a sua extensão, não só como amor entre 2 seres do mesmo sexo, mas sob todas as formas em que se apresenta. (…) Não é, evidentemente, a união física que faz com que um sinta um prazer tão grande com a presença do outro e a ela aspire com tanta força, mas é indubitavelmente uma coisa diferente o que a alma de ambos quer”
“Assim como o saber era concebido no Mênon como um voltar a recordar o ser puro contemplado na preexistência, assim o eros aparece agora como a nostalgia da totalidade da natureza primitiva do Homem, tal como numa era anterior do mundo existiu, e portanto como orientação estimuladora em direção a algo que eternamente devia ser.” Um quê já de desembocadura no niilismo.
“se pusermos este mito diante do espelho do discurso de Diotima, veremos bem que já se entrevê de maneira vaga, através dele, a norma do Bem, na qual encontram realização plena todo verdadeiro amor humano e toda amizade autêntica.
O último discurso antes daquele de Sócrates, reverso consciente da franca e expressiva pintura burlesca do poeta cômico, é o panegírico do jovem Ágaton (…) o mito de Aristófanes elevara o tema do eros acima da amizade masculina e convertera-o no problema da essência do amor em geral; na subseqüente declamação do poeta trágico em moda, tão aplaudido, a quem a comédia coeva [daquele tempo] motejava por ser amigo das mulheres, o tema da pederastia passa completamente para o segundo plano¹ (…) A imagem do eros traçada por Ágaton é a menos psicológica do mundo, coisa surpreendente, sobretudo se a compararmos com o discurso imediatamente anterior de Aristófanes, baseado inteiramente na ação exercida pelo eros sobre a alma humana. Ao contrário, o relato de Ágaton tem forte tendência para o idealismo.”
¹ Podemos dizer com confiança: como na obra de Jaeger inteira.
“É a sua própria imagem refletida num espelho que ele nos pinta com enleio narcisista, na sua descrição de Eros.” “É este discurso que Platão escolhe para fundo imediato do discurso de Sócrates. Põe o esteta, sensualmente refinado e conhecedor, em contraste com o asceta filósofo”
“Todo o eros representa um anseio por qualquer coisa que não se tem e se deseja ter. Por conseguinte, se Eros aspira ao Belo, é porque não é ele próprio o Belo (…) É a partir desta base dialética negativa que Platão desenvolve a teoria de Sócrates e de Diotima. Não é, contudo, em forma didática que ele a desenvolve, mas sim sob a forma do mito em que Eros aparece como descendente de Poros (riqueza) e de Penia (pobreza)”
“Sócrates deixa Ágaton em paz assim que este, após as primeiras perguntas, lhe confessa, alardeando amável fraqueza, que já se sente como se não soubesse absolutamente nada de tudo o que acabava de falar. Assim se atam os pés à ânsia de saber mais que os outros, ânsia malsoante em boa sociedade. Mas a conversa é levada dialeticamente ao seu termo pelo recurso da sua deslocação para um passado remoto e da conversão de Sócrates, de interrogador molesto e temido que era, em ingênuo interrogado. Põe-se a contar aos convidados uma conversa que teve há muito tempo com a profetisa de Mantinéia, Diotima, acerca do eros.”
“No domínio da religião grega, a forma dos mistérios era a forma mais pessoal da fé e Sócrates descreve aqui, como visão por ele vivida pessoalmente, a ascensão do filósofo até o mais alto cume, onde se conserva a nostalgia do eternamente belo, que palpita no fundo de todo o eros.”
“Também não é um ser moral; é, sim, algo intermediário entre o moral e o imoral, um grande daimon que age como intérprete entre os deuses e os homens.”
“Os deuses não filosofam nem aprendem, porque estão na posse de toda a sabedoria. Por sua vez, os tolos e os ignorantes não aspiram a adquirir conhecimento, pois o verdadeiro mal da incultura reside precisamente em que, sem nada saber, julga saber muito. Só o filósofo aspira a conhecer, pois sabe que não conhece e sente necessidade de conhecer. O filósofo ocupa um lugar intermediário entre a sabedoria e a ignorância; é por isso que só ele está apto para a cultura e se esforça sincera e seriamente por adquiri-la.”
“À imagem do Eros traçada por Ágaton, a qual era simplesmente uma representação do ser amável e amado, Platão opõe, por conseguinte, uma imagem que tira os seus traços da essência do amante.”
“O fato de que, apesar de tudo, a linguagem não chame de eros ou eran toda a vontade, mas reserve aquele nome e aquele verbo para exprimir certos anseios, tem, segundo Platão, o seu paralelo em outras palavras, como poiesis, ‘poesia’, a qual, embora signifique apenas ‘criação’, foi no entanto reservada pelo uso para um determinado tipo de atividade criadora. Na realidade, esta nova consciência de quanto há de arbitrário nesta ‘delimitação’ do significado de termos como eros ou poiesis não é senão um fenômeno concomitante do alargamento deste conceito, por obra de Platão e da operação pela qual ele procura enchê-lo de um conteúdo universal.”
“São as palavras de Diotima o melhor e mais conciso comentário deste platonizante conceito aristotélico [?] do amor de si próprio.”
“Por outro lado, esta transmutação parece privar o eros do seu sentido finito, verdadeiro e imediato, que é o desejo de algo concretamente belo. É por isso que Platão lhe faz justiça na parte seguinte do discurso de Diotima.” “A vontade física da procriação ultrapassa amplamente a esfera humana. Se partirmos do fato de que todo o eros é ânsia de ajudar o eu próprio autêntico a realizar-se, o impulso à procriação e perpetuação dos animais e dos homens aparecerá como a expressão do impulso de deixar no mundo um ser igual a eles próprios.”
“Todo o eros espiritual é procriação, ânsia de cada um eternizar a si próprio numa façanha ou numa obra amorosa de criação pessoal que perdure e continue a viver na recordação dos homens. Todos os grandes poetas e artistas foram procriadores deste tipo e o são igualmente, no mais alto grau, os criadores e modeladores da comunidade estatal e doméstica.”
“Para ele só é digna de se viver uma vida que decorra na constante contemplação desta beleza eterna. Não se trata portanto de um ato de contemplação a partir de um momento especial, de um momento estético de deslumbramento. A exigência de Platão só pode ser satisfeita por uma vida humana inteira projetada para esta meta (TELOS).”
“O belo e o bom não passam de dois aspectos gêmeos de uma única realidade, que a linguagem corrente dos gregos funde numa unidade, ao designar a suprema arete do Homem como <ser belo e bom> (KALOKAGATHIA).” “Ora, para Platão existe absoluta harmonia entre o cosmos físico e o cosmos moral.”
“já no amor pela beleza corpórea, fala-se dos ‘formosos discursos’ que provoca.”
“Não é no afastamento do mundo daquele que conhece que se deve traduzir na prática esta separação da idéia universal do Belo das suas manifestações finitas.”
“O sentido e razão de ser de toda a paideia é fazer triunfar o Homem dentro do homem. A distinção entre o homem-individualidade-fortuita e o homem superior serve de base para todo humanismo. Foi Platão quem tornou possível a existência do humanismo com esta concepção filosófica consciente, e o Banquete é a obra em que pela 1ª vez se expõe esta doutrina.”
“Platão não deixa a obra terminar pelo afastamento do véu que cobre a idéia do Belo e pela interpretação filosófica do eros. A obra culmina na cena em que Alcibíades, à cabeça de um bando de companheiros ébrios,¹ irrompe casa adentro e em audacioso discurso aclama Sócrates como mestre do eros (…) A sua paixão pedagógica impele-o para todos os jovens belos e bem-dotados, mas no caso de Alcibíades é a profunda força de atração espiritual, que irradia de Sócrates, que surte efeito e que, invertendo a relação normal de amante e amado, faz com que seja o próprio Alcibíades a aspirar em vão pelo amor de Sócrates”
¹ O coro.
“A tragédia do amor de Alcibíades por Sócrates, a quem procura e de quem ao mesmo tempo quer fugir, pois Sócrates é a consciência que o acusa a ele mesmo, é a tragédia de uma natureza filosófica esplendidamente dotada” “É a instintiva veneração do forte por aquilo que compreende ser a força (…) e a aversão que a debilidade do ambicioso e do invejoso sente contra a grandeza moral da verdadeira personalidade” “É indubitável que Alcibíades queria ser discípulo de Sócrates, mas a sua natureza não o deixa separar-se de si próprio. Alcibíades encarna o tipo que melhor podia servir a Platão para ilustrar que era aquele tipo que realmente Sócrates queria: é o jovem de aspirações geniais que toma nas suas mãos os assuntos dos atenienses, sem contudo preocupar-se consigo mesmo, embora isso lhe fosse tão necessário (Banq., 216 A). (…) Alcibíades queria trabalhar na edificação do Estado antes de edificar o <Estado dentro de si mesmo> (cf. Rep. IX, final).”
Afinal de contas – flashback –: a virtude pode ser ensinada?
R: Não para alces!
3.10 A República – I
R.L. NETTLESHIP, The Theory of Education in the Republic of Plato (Chicago, 1906).
“Nem o próprio Aristóteles, a quem costumamos chamar o sistemático por antonomásia, emprega ainda a palavra <sistema> com este significado.”
“A criação de um tipo elevado de Homem, de que nos fala o Estado platônico, nada tem a ver com o povo em conjunto, concebido como raça.”
Os idiotas do Hades ou fundo oceânico.
“ocupam livros inteiros (os livros 2 e 3) os debates sobre a música e a poesia; o problema do valor das ciências abstratas é colocado num lugar central (livros 5 a 7), e no livro 10 volta a ser examinado o problema da poesia, a partir de novos pontos de vista. Uma aparente exceção ao que foi dito é a investigação das formas de governo nos livros 8 e 9.”
“Grandioso tema para os juristas, não só do nosso tempo, mas também da época de Platão, que pela primeira vez fez surgir a ciência comparada do Estado! Mas nem sequer sob este ponto de vista a atenção do filósofo incide sobre a vida jurídica real; é na teoria das ‘partes da alma’ que desemboca a investigação do problema do que é justo.”
“O intérprete neoplatônico Porfírio sublinhava acertadamente que a teoria das partes da alma em Platão não é psicologia no sentido corrente, mas sim psicologia moral. Aristóteles não a adota na sua obra de psicologia, mas usa-a nos trabalhos éticos. O seu significado é pedagógico. Veja-se o meu Nemesios von Emesa (Berlim, 1913), p. 61.”
“Cf. GOMPERZ, Griechische Denker, t. II. Gomperz defende que a descrição da educação dos governantes da República (livros 6-7) é apenas um pretexto para expor a epistemologia e a ontologia próprias de Platão. No mesmo sentido, Gomperz vê na educação dos guardiões, nos livros 2-3, outro pretexto que torna possível para Platão examinar extensamente toda a espécie de problemas nos diferentes campos da mitologia, da religião, da música, da poesia e da ginástica. Como se mostrará com a nossa análise da República, a essência da paideia platônica requer todos os elementos que Gomperz enumera, e teria sido impossível fazer a sua exposição sem a relacionar com eles num sentido filosófico. A paideia não é um simples elo externo que faz da obra um todo; constitui a sua verdadeira unidade interna.”
“esta atitude (…) é típica da incompreensão do séc. XIX por esta obra de Platão. A ciência, que se elevava a uma orgulhosa altura a partir da sabedoria acadêmica do humanismo, já era (…) incapaz de compreender a sua própria origem. Este ideal científico desenvolveu-se nas ciências naturais, onde o foi buscar a filologia, com um desconhecimento total da sua própria essência.”
“Um século antes, Jean-Jacques Rousseau soubera aproximar-se bem mais do Estado platônico, ao declarar que a República não era uma teoria do Estado, como pensavam aqueles que só julgavam os livros pelos títulos, mas sim o mais formoso estudo jamais escrito sobre educação.”
“Hipódamo e Faleas, cujas utopias ainda conhecemos, nas suas linhas gerais, pela Política de Aristóteles, apresentam, como é próprio do espírito da época do racionalismo, esboços de uma ordem social justa e duradoura, cuja forma esquemática recorda, de certo modo, a geometria dos planos arquitetônicos traçados para a cidade pelo mesmo Hipódamo.
“Veja-se o ‘Anônimo de Jâmbico’ em DIELS, Vorsokratiker, t. II 5ª.ed.”
“Para o discípulo de Sócrates, já não pode significar a mera obediência às leis do Estado a legalidade que tinha sido outrora o baluarte protetor do Estado jurídico, perante um mundo de poderes feudais anárquicos e revolucionários.” “A lei, que fôra calculada para uma vigência longa e até eterna, mostrou-se necessitada de reformas ou ampliações.” “O direito torna-se uma simples função do poder.”
“Como representante da filosofia da força de Cálicles, é escolhido na República o belicoso sofista Trasímaco; além disso, apesar da lúcida arte platônica da variação, deparamos também com algumas repetições da cena do Górgias.”
“Glauco e Adimanto, em dois discursos que se sucedem um ao outro, expõem belicosamente o problema, numa forma rigorosa, a única que pode satisfazer a juventude da sua geração: é a justiça um bem que se deva buscar por si próprio ou apenas um meio que acarreta determinada utilidade? Ou figurará entre as coisas que amamos tanto por elas mesmas como pelos seus benéficos resultados?”
“Quem dentre nós, na posse de um tal anel, teria na alma a firmeza adamantina necessária para resistir ao poder da tentação? (…) Já mencionamos a importância que tem o problema de o Homem, na presença de testemunhas, agir com tanta freqüência diferentemente de quando está só. (…) O conto do anel de Giges é em Platão símbolo genial desta concepção naturalista do poder e das aspirações humanas. Se queremos conhecer o verdadeiro valor da justiça para a vida do Homem, não temos outro caminho senão comparar a vida de uma pessoa completamente injusta, mas cujo verdadeiro caráter permaneça oculto, e a vida de um homem que, sendo verdadeiramente justo, não saiba ou não queira guardar sempre com o maior cuidado as aparências externas do direito, tão importantes.” “Porventura não exaltaram igualmente este ideal apenas pela recompensa que os deuses concedem ao justo?”
“Adimanto fala impelido visivelmente por uma verdadeira angústia interior e, sobretudo para o final do discurso, as suas palavras respiram a sua experiência pessoal. Platão o faz representante da geração a que ele próprio pertencia. É assim que se tem de interpretar a escolha dos seus irmãos como interlocutores chamados a impulsionar a investigação e a formular em termos exatos, perante Sócrates, o problema que ele procura resolver.”
“cada palavra sua é um golpe de crítica vibrado contra a educação até ali misturada, precisamente à base daqueles velhos poetas clássicos e daquelas famosíssimas autoridades morais, que na alma da juventude, tão reta no seu pensar, deixam cravado o espinho da dúvida. Platão e os seus irmãos eram o produto daquela antiga educação e consideravam-se vítimas dela.” “Adimanto insiste em que ao avaliar a justiça se prescinda completamente da utilidade social que traz consigo (…) A expressão que corresponde à utilidade social da arete é doxa. Na ética grega antiga, esta palavra corresponde sempre à arete e é equivalente a esta. Um bom exemplo de doxa neste sentido (reputação) está em SÓLON (frag. 1,4 Diehl). Portanto, Platão pretende aqui desligar a arete da sua vinculação a esta doxa.”
“As pequenas censuras da voz interior, diz Adimanto, são facilmente abafadas pela experiência de que a injustiça permanece quase sempre ignorada; e a consciência religiosa de que o olhar de Deus nos vê pode ser contrariada com um pouquinho de ateísmo ou com as fórmulas rituais de qualquer religião de mistérios que permita ao Homem purificar-se das suas culpas.” “Formulado assim o problema da justiça, a investigação eleva-se a uma altura contemplativa a partir da qual todo o sentido da vida – tanto o valor moral como a felicidade – aparece deslocado exclusivamente para a vida interior do Homem. (…) não há outro caminho senão este, para se fugir ao completo relativismo implícito na teoria do direito do mais forte.”
“A julgar pelo título da obra, pensar-se-á que o Estado será finalmente proclamado como a verdadeira e fundamental finalidade da longa investigação sobre a justiça. Mas Platão trata esse tema pura e simplesmente como um meio para um fim, e o fim é pôr em relevo a essência e a função da justiça na alma do Homem.”
“A conseqüência inevitável desta elefantíase dos Estados, que se conservam tanto mais saudáveis quanto menores forem as suas proporções, é a ânsia territorial, pelo desmembramento e anexação de pedaços dos Estados vizinhos. Desvendamos assim a origem da guerra, que sempre nasce de causas econômicas. Platão refere-se aqui à guerra como um fato dado, reservando expressamente para outra investigação o problema de saber se a guerra é boa ou má. Como é natural, o passo imediato é a criação do ofício de guerreiro.” “O fato de lhes dar o nome de ‘guardiões’ já tem implícita a limitação das suas funções à defesa.”
“logo nos vemos convertidos em escultores, aos quais é entregue a missão de formar, por assim dizer, com mão de artista, através da seleção dos caracteres mais adequados e da sua educação, o tipo de ‘guardião inteligente e valoroso’.”
“Para o guerreiro ser um bom guardião dos seus, a sua alma tem de reunir, como os bons cães, duas qualidades aparentemente contraditórias: doçura para com os seus e agressividade contra os estranhos. E a ironia de Platão vê nesta qualidade um traço filosófico, já que tanto os cães como os ‘guardiães’ avaliam a diferença entre as pessoas conhecidas e as desconhecidas, como critério do que julgam seu e do que reputam estranho.”
“quanto mais entramos nos pormenores da paideia dos ‘guardiões’, tanto mais nos penetra a sensação de irmos perdendo completamente de vista a chamada investigação fundamental sobre a justiça. É certo que, numa obra que se apresenta na forma de um diálogo tão ramificado, temos de aceitar como impostas de certo modo pelo tipo de composição muitas coisas que submetem a dura prova o nosso sentido sistemático da ordem”
“A educação dos ‘guardiões’ de acordo com um sistema legalmente estabelecido pelo Estado é uma inovação revolucionária de alcance histórico incalculável. É a ela que em última instância remonta a exigência do Estado moderno sobre a regulamentação autoritária da educação dos cidadãos, defendida principalmente desde o Século das Luzes e a época do absolutismo por todos os Estados, qualquer que fosse a sua forma de governo.” “em nenhum lado, fora de Esparta, existia, segundo testemunha Aristóteles, uma educação organizada pelo próprio Estado e pelas autoridades.”
“Para ele, a solução do duplo problema da formação do corpo e da alma é a paideia da Grécia Antiga, com a sua divisão em ginástica e música, paideia que, portanto, ele conserva como base.”
“o que é decisivo assenta precisamente na fecunda tensão entre o seu radicalismo conceitual e o seu sentido conservador a respeito da tradição espiritualmente plasmada. Por isso, antes de darmos ouvidos à sua crítica, é importante deixar claro que é sobre a paideia da antiga Grécia (por mais reformas que nela se introduzam) que a sua nova concepção filosófica repousa.” “Este debate não é, por conseguinte, um problema filosófico acessório, como o crítico moderno costuma pensar, mas tem para Platão uma importância filosófica absoluta.”
“não há nada mais despropositado que o à-vontade com que nos pomos a contar às crianças histórias sobre qualquer tipo de homens. (…) aqueles que contam histórias e lendas devem ser vigiados, pois deixam na alma da criança um traço mais duradouro que as mãos dos que lhe cuidam do corpo. (…) É certo que um fundador de Estados não pode ser, como tal, um poeta, mas deve, sim, ter uma consciência clara dos tipos gerais que os poetas tomam como base das suas narrações. (…) Diante do olhar do leitor atual de Homero ou de Hesíodo aparecem imediatamente numerosas cenas que ele não julgaria diferentemente de Platão, se as medisse pela tabela do seu próprio sentimento moral.”
Só se pode recomeçar do zero porque o zero absoluto se chama Heleno.
Ser belo ou não? Eis o dilema do atraente.
“Há uma continuidade ininterrupta que vai destes antiquíssimos testemunhos de condenação religiosa e moral de Homero até os Padres cristãos da Igreja, os quais não poucas vezes tiram das obras destes filósofos pagãos os seus argumentos e até as suas palavras contra o antropomorfismo dos deuses gregos. No fundo, a série começa logo com o próprio poeta da Odisséia, visivelmente preocupado em atribuir aos seus deuses, e de modo especial a Zeus, uma atitude mais digna do que a manifestada na Ilíada.”
“É por isso que esta atitude se torna de tão difícil compreensão para o homem atual, visto não haver muito tempo que a ‘arte’ moderna teve de libertar-se, entre dores ingentes, do moralismo do Século das Luzes. Aqui está por que razão é para muitos de nós inabalável a tese de que o gozo de uma obra de ‘arte’ é moralmente indiferente. Não é que seja nosso propósito inquirir aqui da verdade ou falsidade desta teoria; a única coisa que nos interessa é deixar claro uma vez mais que ela não corresponde à maneira de sentir dos gregos.”
O EVANGELHO DE ENTÃO: “Na realidade, a chamada lei não-escrita encontra-se edificada na poesia. À falta de fundamentação racional, um verso de Homero é sempre o melhor argumento de autoridade, que nem os próprios filósofos desdenham. Esta autoridade só se pode comparar à da Bíblia e à dos Padres da Igreja, nos primeiros tempos do Cristianismo. § Só esta vigência universal da poesia como suma e compêndio de toda a cultura permite-nos compreender a crítica a que Platão a submete (…) O mundo que os poetas nos descrevem como real degrada-se em mundo de mera aparência, quando medido pelo conhecimento do Ser puro” Platão inimigo do moralismo, não da espontaneidade, como sempre é o filósofo. Jeane e o anel de Giges (mulher de César sem a substância, a mulher-contorno).
“Nas apreciações modernas, nem sempre se dá conta, com a devida clareza, da relação existente entre a crítica platônica da poesia e a peculiar posição que o poeta ocupava entre os gregos, como educador do povo. O pensamento ‘histórico’ do séc. XIX também não foi em absoluto capaz de, no seu modo de encarar o passado, sobrepor-se às premissas ideológicas do seu próprio tempo. Buscávamos argumentos para desculpar Platão ou para apresentar os seus preceitos como mais inocentes do que na realidade são. Eram psicologicamente interpretados como a rebelião das forças racionais da alma do filósofo contra a sua própria natureza poética, ou explicava-se o seu desprezo dos poetas pela decadência cada vez mais acentuada da poesia, no próprio tempo dele.” A mesma posição intrincada em que se encontra hoje o crítico da ciência, porque não se pode fazer entender por virtualmente ninguém! Passa por místico, negacionista e charlatão aquele que é o mais científico de todos, na boa acepção. A mediatriz de Popper e Kuhn, tão abaixo de si, é sua nêmese, é a força gigantesca da ralé e do rebotalho dos reprodutores irrefletidos. Dos comunicólogos e formadores de opinião!
“Encarava-se o problema com uma tendência excessiva a situar-se no ponto de vista da liberdade da arte. (…) retocava-se o quadro para evitar que Platão caísse na vizinhança da polícia artística da burocracia moderna.”
“supondo que o tirano Dionísio se tivesse resolvido a pôr em prática o Estado platônico, teria fracassado neste ponto, ou então seria preciso proibir antes de mais nada os seus próprios dramas, caso fosse atendida a sentença judicial de Platão. No Estado platônico, a reforma da arte poética tem um alcance puramente espiritual e só é política na medida em que toda a finalidade espiritual encerra, em última instância, uma força de formação política.”
“Essa poesia não tem cabimento no Estado seco e cheio de nervo que ele procura edificar, mas só em outros mais ricos e suntuosos. § É assim que a dignidade ímpar com que os gregos tinham envolvido a poesia converte-se na perdição dela.”
“Como na realidade, porém, a poesia e o Estado não mudarão, fica aparentemente de pé, como único resultado visível aos olhos da crítica platônica, o abismo insuperável que daí por diante dividirá a alma grega.”
“Mas por que é que Platão não declara sem rodeios que são as suas obras que se devem pôr nas mãos dos educadores e educandos como verdadeira poesia? É exclusivamente a ficção do diálogo falado que o impede. Na obra da senectude já abandona esta ilusão e pede que as Leis se propaguem no mundo degenerado, como o tipo de poesia de que ele necessita. E desta forma a poesia agonizante afirma uma vez mais o seu primado na obra do seu grande acusador.”
“A sua crítica e seleção dos mitos, segundo a tabela do conteúdo de verdade moral e religiosa que contêm, pressupõem um princípio irrefutável.”
“Rep., 379A (…) é a passagem onde a palavra teologia aparece pela primeira vez na história do espírito humano. Platão é o seu criador.”
Foda-se, eu sou o Poeta (a lei)!
“A aspiração ideal do Homem culmina na arete heróica, mas sobre ela impera a moira, com a sua inelutável necessidade, e é a ela que também se acham submetidos, em última instância, a vontade e o êxito dos mortais. O espírito da poesia helênica é ‘trágico’, porque professa a conexão de tudo, mesmo das supremas aspirações do Homem, com o governo do sobre-humano em todos os destinos mortais. E nem a consciência da própria responsabilidade do indivíduo atuante pelos seus atos e desditas, consciência que foi crescendo à medida que se ia racionalizando a vida no séc. VI, pôde diminuir, no sentido moral de um Sólon, um Teógnis, um Simônides ou um Ésquilo, aquele último núcleo indestrutível da antiga fé na moira, que vive na tragédia do séc. V”
“O conflito entre este ponto de vista religioso e a idéia moral da responsabilidade do homem que age mantém-se latente ao longo de toda a obra poética dos gregos.¹ Tinha necessariamente que instalar [sic – estalar] em ruptura aberta no momento em que o postulado ético radical de Sócrates fosse aplicado como pauta à interpretação da vida inteira. O mundo da arete em que Platão constrói a sua nova ordem fundamenta-se na premissa da autodeterminação moral do próprio eu sobre a base do conhecimento do bem. (…) se a divindade fosse tal que enredasse o homem ambicioso nas malhas da culpa, viveríamos todos num mundo em que a paideia careceria de toda razão de ser.²”
¹ O verdadeiramente trágico é que o cristianismo está do lado da responsabilidade demasiado humana, e é como um ateísmo quando comparado ao poder consolatório do politeísmo olímpico. Desta feita, a balança pende apenas para a culpa e um ideal inatingível, do mesmo lado, sem qualquer contrapeso. Um híbrido repulsivo de livre-arbítrio e destino manifesto ao qual o indivíduo moderno não pode se subtrair.
² Cristianismo.
“No mundo visto pelos olhos de Demócrito, em que impera a lei da causalidade, não se concebe uma paideia como a platônica.”
“Toda a crítica da antiga paideia se fundamenta, como princípio de divisão, na teoria platônica das 4 virtudes cardeais: a piedade, a valentia, o domínio de si próprio e a justiça. Esta última não é aqui levada em conta, o que expressamente se explica no final, alegando em abono disso o fato de ainda não se ter esclarecido o que é na realidade a justiça e o que significa para a vida e para a felicidade do Homem.”
“A espantosa descrição que Homero faz do mundo infernal educaria no medo da morte os ‘guardiões’. Platão não pretende, naturalmente, desterrar Homero totalmente, mas submete-o a mutilações” “Ao zeloso guarda filológico da tradição parecerá isto, e é lógico, a mais terrível congeminação da arbitrariedade e da tirania. Para este, é intangível a palavra original do poeta.” “Mas, se atentarmos bem, veremos que a época em que a poesia era ainda coisa viva mostrava já certas tentativas curiosas e passos preliminares desta exigência platônica de recriação poética, os quais nos fazem ver com outros olhos aquela sua pretensão, considerada arbitrária. A necessidade de recriar poeticamente um verso já plasmado, nós a vemos, p.ex., sustentada por Sólon diante de um poeta do seu tempo, Mimnermo, o qual defendera, com sereno pessimismo, que o homem devia morrer quando atingisse os 60 anos. Sólon convida-o a modificar o sentido da poesia, fixando aos 80 anos o limite da idade.”Homero mesmo nunca foi Homero, convenhamos.
“Essa eparnothosis[figura de linguagem; nesse sentido, aplicar interpretações mais atenuadas ou enfáticas, conforme o espírito do tempo exige] é aplicada generalizadamente pelos filósofos antigos na sua interpretação dos poetas, e deles se transmite mais tarde aos escritores cristãos. (…) É por isso que a censura de incompreensão racionalista dos poetas do passado, feita a Platão, não deixa de revelar, por sua vez, uma certa incompreensão histórica da parte dos críticos modernos, a respeito do que atradição poética do seu povo significava para ele e para os seus contemporâneos. Quando, p.ex., Platão sustenta nas Leis que é preciso recriar poeticamente o antigo poeta espartano Tirteu – que enaltecia a bravura como a cúpula das virtudes cívicas e cuja obra continuava a ser a Bíblia do povo espartano – para em lugar da bravura pôr a virtude da justiça, capta-se diretamente a grandeza da força de persuasão que o verso de Tirteu devia ter alcançado na alma de quem só por meio de uma recriação poética julgava poder cumprir ao mesmo tempo o seu dever para com o poeta e para com a verdade.”
“quanto mais intenso é o prazer, maior é a eficácia formativa de uma obra de arte sobre quem a contempla. Compreende-se, pois, que esta idéia da formação surgisse precisamente no seio do povo mais artístico do mundo, os gregos, onde a capacidade do prazer estético alcançou um grau mais elevado do que em nenhum outro povo da História.”
“Aquiles, que aceita de Príamo um resgate pelo cadáver de Heitor e indenização monetária da parte de Agamemnon, lesa o sentimento moral dos séculos posteriores, como lesa o seu mestre Fênix, que o aconselha a reconciliar-se com Agamemnon, por uma compensação material. [?] As provocadoras palavras de Aquiles contra Esperqueu, o deus-rio, o ultraje que faz ao deus Apolo, a profanação do cadáver do nobre Heitor e a matança dos prisioneiros nas fogueiras de Pátroclo não merecem que se lhes dê crédito.”
O Inferno deveria ser só para incutir o medo de não ter vivido como se podia.
“Esta verdade é a mais completa inversão do que nós entendemos por realismo artístico e do que já existia como tal na geração anterior a Platão.” Quem inverte apenas tem de se haver com o problema mais adiante.
“a raivosa tenacidade com que ele trata o combate tem a sua mais profunda razão de ser na convicção de que a força educadora das imagens poéticas e musicais provadas pelos séculos é insubstituível. Segundo Platão, mesmo que a filosofia fosse capaz de descobrir o conhecimento redentor de uma norma suprema de viver, a sua missão educacional só seria cumprida pela metade”
“Não é só no conteúdo, mas sobretudo na forma, que se apóia o efeito da obra das musas.” Que alguém demonstrasse a verdade num tratado insípido, nada estaria provado – a não ser que se pode ser insípido até nas ações mais grandiosas!
“Na maioria dos casos, nem sequer um ator trágico é capaz de representar bem a comédia, e um recitador de epopéias raras vezes está em condições de desempenhar um papel dramático.”
“Não era[m] bons especialistas, mas apenas bons cidadãos em geral que a antiga paideia se propunha a formar.” “Constitui fenômeno raro, mas psicologicamente compreensível, a nítida predileção pela purificação das profissões especializadas, num gênio universal como o de Platão.”
“O conceito platônico da mimesis dramática, no sentido da renúncia de si mesmo, é um conceito paidêutico; o da imitação da natureza, pura e simplesmente um conceito técnico.”
“Aos artistas desse gênero moderno e cheio de encantos são prestadas no Estado platônico todas as honras e toda a admiração, ungem-lhes a cabeça e a adornam com fitas de lã; mas, uma vez honrados, acompanham-nos a outra cidade, visto que não há lugar para eles no Estado puramente educador. Nesse Estado admitem-se unicamentepoetas mais secos e menos geradores de prazer.” “Platão, que no seu período pré-socrático tinha um grande fraco pela tragédia, teria seguramente conhecido por experiência própria, na sua pessoa e na de outros, o lado negativo destas paixões.”
“as melodias ou harmonias como tais, desligadas da palavra, essas, sim, exigem a nossa atenção.” “Assim como no palco o espetáculo domina a poesia e criou o que Platão chama de teatrocracia, nos concertos a poesia era serva da música. (…) A música emancipada torna-se demagoga do reino dos sons.”
“Não podemos escrever em detalhe a ginástica ou a música gregas, os fundamentos em que assentava a paideia do período antigo e do clássico, porque nisso não consente o legado da tradição. É por isso que na nossa exposição esses temas não são tratados em capítulo à parte, mas nos ocupamos deles onde quer que a sua imagem se apresente nos monumentos e discussões da Antiguidade”
“Igualmente se reprovam as melodias lânguidas, quer jônicas quer lídias, boas para as orgias, mas inaceitáveis aqui, porque nem a embriaguez nem a languidez ficam bem aos ‘guardiões’. (…) Glauco (…) dá-se conta de que, nessas condições prevalecerão só as melodias dórica e frígia, mas Sócrates não se deixa arrastar a tais pormenores. Platão pinta-o assim, conscientemente, como o homem de verdadeira cultura, cujo olhar mergulha na essência das coisas, mas a quem não compete rivalizar com os especialistas. A precisão, que é no perito exigência natural, seria no homem culto pedantismo e não seria julgada digna de um homem livre. (…) E tal como as melodias ricas também a riqueza de instrumentos musicais se abandona. (…) São inteiramente suprimidas as flautas, as harpas e os címbalos, [grosso modo, a bateria ancestral] e conservam-se só a lira e a cítara [outro tipo de lira; curiosamente, porém, a harpa é outra lira, mais complexa que a lira e a cítara, talvez – isso é especulação – mais antiga que ambas], instrumentos adequados a melodias simples; no campo deverão soar apenas as gaitas dos pastores. Recordamos a este propósito a narração de que as autoridades espartanas proibiram a atuação do genial inovador Timóteo, mestre da música moderna daquele tempo, porque ele não utilizava a cítara de 7 cordas de Terpandro, santificada pela tradição, mas sim um instrumento com mais cordas e maior riqueza harmônica.”
“Já acima dissemos que, pela sua origem, o termo grego ‘ritmo’ não implica a acepção de movimento, mas exprime em numerosas passagens o ‘momento’ de uma posição ou ordenação fixa de objetos [capítulo 1.6]. O olhar do grego descobre-o tanto no estado de quietude como no de movimento, no compasso da dança, do canto ou do discurso, principalmente se for em verso. Conforme o número de longas e breves de um ritmo e o seu nexo mútuo, produz-se uma ordenação distinta no passo ou na voz.”
“a teoria do ethos na harmonia e no ritmo. É desta teoria que deriva o que Platão ensina sobre a seleção das harmonias”
O DAIMON DA MÚSICA: “também na Poética de Aristóteles e na de Horácio a maneira de tratar os metros da poesia parte do mesmo ponto de vista, a saber: quais são os métodos mais indicados para cada conteúdo. Assistimos aqui a uma continuidade da tradição anterior a Platão, embora exista a tendência para identificar com ele este modo paidêutico de abordar o problema da música.”
“Mas até o simples fato de esta teoria ser tirada de Dámon, o maior teórico musical do tempo de Sócrates, prova que não estamos diante de algo especificamente platônico, mas que é, antes, uma concepção da música peculiar aos gregos, a qual (…) foi desde o início decisiva para a posição dominante que a harmonia e o ritmo desempenhavam na cultura grega. § Aristóteles continua a desenvolver a teoria do ethos na música, no esboço sobre educação, contido no livro VIII da sua Política. Segue para isso na esteira de Platão, mas, como costuma acontecer-lhe em maior grau ainda que ao seu mestre, é intérprete da maneira de pensar do conjunto da Grécia.” Uma espécie de sintetizador, jamais criador. Aristóteles, o Primeiro Enciclopedista.
“Mas não concede nenhum ethos, em geral, às impressões transmitidas pela visão através das artes plásticas. Entende que este tipo de efeitos se limita a certas figuras pictóricas e escultóricas, e mesmo nestas só o reconhece em proporções restritas. Aliás, segundo Aristóteles, também não é de verdadeiros reflexos de um ethos que se trata, mas de meros sinais dele, expressos em cores e figuras. Nenhum ethos, p.ex., transparece nas obras do pintor Pauson, mas ele existe, em contrapartida, nas de Polignoto e nas de certos escultores. As obras musicais, pelo contrário, são imitações diretas de um ethos. O admirador da arte plástica dos gregos sentir-se-á inclinado a negar ao filósofo olhos de artista, e assim explicará a sua maneira diferente de julgar o conteúdo ético da música e o da pintura e escultura. Talvez com isso se pudesse relacionar a sua tese de que, nos sentidos humanos, é o ouvido o órgão espiritual por excelência, ao passo que Platão atribuía aos olhos a suprema afinidade com o espírito. [quanta contradição! se Platão privilegia a visão e ainda assim a música é hierarquicamente superior às artes plásticas – a-sonoras – em seu corpus!] Mas apesar de tudo fica de pé o fato de nenhum grego jamais se ter lembrado de reservar na paideia um lugar para as artes plásticas e a sua contemplação”
“As palavras correspondentes, <educação> e <nutrição>, que a princípio tinham um significado quase idêntico, continuam a ser sempre termos gêmeos.”
“Platão reconhece que a cultura do espírito exige também certos pressupostos de clima e certas condições de desenvolvimento. (…) O Estado é necessário como meio ambiente, como a atmosfera que o indivíduo respira. (…) É necessário que desde a mais tenra infância todo mundo respire neste ambiente qualquer coisa como o ar de uma região saudável.”
“Uma pessoa corretamente educada na música, pelo fato de a assimilar espiritualmente, sente desabrochar dentro de si, desde a sua mocidade, e numa fase ainda inconsciente do desenvolvimento, uma certeza infalível de satisfação pelo belo e de repugnância pelo feio, a qual a habilita mais tarde a saudar elegantemente, como algo que lhe é afim, o conhecimento consciente, quando ele se apresenta.” “Esta educação adquire um novo significado, como fase prévia irrecusável para o conhecimento filosófico puro, que sem a base da cultura musical ficaria flutuando no ar.”
“Segundo a teoria de Platão, por mais arguta que seja a inteligência, não tem acesso direto ao mundo dos valores, que, em última instância, é o que interessa à filosofia platônica. Na Carta Sétima, o processo de conhecer é descrito como um processo gradual que faz a alma parecer-se cada vez mais com a essência dos valores que aspira a conhecer.” “Para Platão, a educação do caráter é a via que conduz à educação dos olhos da inteligência, e modifica de tal maneira a sua natureza que lhe é possível alcançar o princípio supremo”
“Platão não toma de forma alguma por modelo as regras que os atletas têm de observar quanto à alimentação; estas regras tornam os atletas excessivamente sensíveis e sujeitam-nos em demasia à sua dieta; e principalmente o seu hábito de dormir muito não é o mais indicado para quem deve ser a vigilância em pessoa. Os ‘guardiões’ devem poder adaptar-se a todas as mudanças de comida, de bebida e de clima, sem que por causa disso corra perigo a sua saúde. Platão reclama para eles um tipo de ginástica totalmente diferente e mais simples”
“Há duas coisas que para Platão constituem sintomas infalíveis de má paideia: os tribunais de justiça e os estabelecimentos de saúde. O grande desenvolvimento destas instituições é tudo, menos o orgulho da civilização. O objetivo do educador deve ser conseguir que se tornem supérfluas dentro do seu Estado.” “como é que um carpinteiro que adoece poderia entregar-se durante muito tempo a um tratamento que o impedisse de exercer a sua profissão? Não tem outro remédio senão trabalhar ou morrer.” E no entanto hoje o motorista de aplicativo não tem qualquer noção da verdadeira saúde. É tão aniquilado como cada um de nós, os “servos legalizados”. Sequer tem um pressentimento da possibilidade da consciência sobre seu grande problema.
“existe uma natural afinidade eletiva entre a filosofia platônica e um corpo ao qual uma educação rigorosa põe na posse de uma saúde perfeita. (…) É certo que Platão postula no Fédon a necessidade de a alma voltar as costas ao mundo do corpo e dos sentidos, para se poder concentrar no exame das verdades puramente abstratas, mas o espírito que na República inspirava a paideia ginástica é um perfeito complemento deste quadro.”
ASPIRINAS PARA AQUILES: “Foi para os homens sãos, cujo corpo sofria passageiramente algum dano local, e com o fim de eliminar esse dano, que Asclépio inventou a arte da medicina. Em contrapartida, nunca nos poemas homéricos este deus ou os seus filhos se ocupam dos corpos minados pela doença. [o que é até objeto de uma famosa tragédia]” “Em contrapartida, o médico deve deixar morrer os corpos totalmente enfermos, como o juiz mata os homens cuja alma está incuravelmente enferma à força de crimes.” “Heródico¹ foi pondo obstáculos à morte, à força de prolongá-la artificialmente”
¹ “Herodicus was a 5th century BC Greek physician, dietician, sophist, and gymnastic-master. He was born in the city of Selymbria, a colony of the city-state Megara, and practiced medicine in various Greek cities including Selymbria, Megara, Athens, and Cnidos.”
“O princípio da seleção rigorosa e consciente tem também a sua importância, do ponto de vista político, para a estrutura do Estado platônico, pois é sobre ela que assenta a possibilidade de manter de pé o sistema da diferenciação por escalões.”
“Neste Estado não existe a mínima garantia de tipo constitucional contra o abuso dos poderes extraordinários e quase ilimitados que põe nas mãos daqueles que o regem.A única garantia efetiva de que de guardiões do Estado não se converterão em donos e senhores dele, de que não degenerarão de cães de guarda em lobos que devoram o rebanho que lhes cumpre guardar, reside, segundo o filósofo, numa boa educação.” “ele não se interessa aqui pelo Estado como problema técnico ou psicológico, mas o aborda simplesmente como delimitação e como fundo de um sistema perfeito de educação.”
NO MUNDO DA INOVAÇÃO JURÍDICA, DAMOS UM TAPA NA TESTA E GEMEMOS: “A idéia de um Estado ideal tem implícita a idéia de que tudo o que dele difere é necessariamente pior do que ele próprio. O que é simplesmente perfeito não deixa margem a nenhum desejo de progresso, mas apenas à vontade de conservá-lo. E para conservá-lo, não se dispõe de outros meios que não sejam os empregados para criá-lo. Depende tudo apenas de não se inovar nada na educação.”
“O desprezo pela maquinaria administrativa e legislativa do Estado moderno, a substituição da legislação concreta pela força do costume e por um sistema público educacional que presidisse à vida inteira, a instituição de refeições coletivas para os ‘guardiões’, a supervisão governamental da música e a concepção dela como firme cidadela do Estado, são todos traços genuinamente espartanos. Mas só um filósofo da época da degenerescência da democracia ateniense e formado em oposição a ela podia oferecer esta interpretação de Esparta como o tipo de Estado em que se conseguia evitar com êxito o individualismo extremista.”
“A renúncia de Platão a estas conquistas constitui, naturalmente, um extremo só explicável pela desesperada situação espiritual da Atenas daquele tempo. Platão chegou à trágica convicção de que até as leis e as constituições não passam de meras formas, que só têm valor quando no povo existe uma substância moral que as alimenta e conserva. Espíritos conservadores julgavam notar precisamente na democracia que aquilo que mantinha coeso esse Estado era, no fundo, uma coisa diferente daquilo que a sua ideologia própria fazia passar por tal.”
“A perduração ininterrupta dessa lei não-escrita é que tinha sido o forte da democracia ateniense na sua época heróica; foi a sua decadência que, apesar de todas as leis em vigor, converteu em arbitrariedade a liberdade dela. Segundo Platão, uma educação do tipo daquela de Licurgo era o único caminho para restaurar, não a aristocracia de nascimento pela qual suspiravam muitos dos seus companheiros de classe, mas sim os antigos costumes e, por meio destes, consolidar de novo o Estado.”
“ao atingirmos a meta da verdadeira educação, teríamos realizado também a verdadeira justiça”
“Visto que, à exceção da justiça, se atribuiu a cada uma das 4 virtudes cardeais da antiga política o respectivo lugar dentro do Estado, pela sua localização numa classe especial da população, já não resta à justiça nenhum lugar especial nem classe nenhuma da qual seja patrimônio; e então surge intuitivamente perante o nosso olhar a solução do problema: a justiça consiste na perfeição com que cada classe dentro do Estado abraça a sua virtude específica e cumpre a missão especial que lhe cabe.
Lembramos, todavia que, na realidade, este estado de coisas não é a justiça no verdadeiro sentido da palavra, mas simplesmente a sua imagem refletida e ampliada na estrutura da comunidade; procuremos, pois, a essência e a raiz dela no próprio interior do Homem.”
“Não é, pois, na ordem orgânica do Estado, em virtude da qual o sapateiro deve trabalhar como sapateiro e o carpinteiro desempenhar o seu ofício próprio, que a justiça consiste. Ela consiste na conformação interior da alma, de acordo com a qual cada uma das partes faz o que lhe compete e o Homem é capaz de se dominar e de congraçar numa unidade a multiplicidade contraditória das suas forças internas.”
“Assim como a saúde é o bem supremo do corpo, a justiça é o bem supremo da alma. Com isto se vota ao mais completo ridículo a pergunta sobre se ela será saudável e útil para a vida (…) Não merece ser vivida a vida sem justiça, tal como não vale a pena viver uma vida sem saúde.”
“se só existe uma forma de justiça, existem, em contrapartida, muitas formas de degenerescência dela, com o que desperta de novo em nós a recordação da medicina e da saúde.”
“Não há no Estado platônico nenhum traço que tenha produzido nos contemporâneos e na posteridade uma sensação tão grande como a digressão sobre o regime da comunidade de mulheres e de prole, entre os ‘guardiões’. O próprio Platão tem de vencer certa resistência para exprimir na República o seu paradoxal critério sobre este ponto, pois teme a tempestade de indignação que irá levantar.” Note-se que se diz da comunidade de prole dos guardiães. A ralé segue sendo ralé, e portanto seus núcleos familiares, que são indiferentes à máxima coesão deste Estado, não sofrem interferência em relação ao costume tradicional. Tradicional ou contemporâneo a Platão e à história conhecida da Antiguidade? Pois temos muitas razões para inferir que a civilização provém de castas em que tudo era estruturado comunalmente.
“Quem como ele é educado para se devotar completamente ao serviço da coletividade, quem não tem casa própria nem propriedade alguma nem vida privada, como poderá possuir e governar uma família? Se toda a acumulação de propriedade particular é reprovável, por fomentar o egoísmo econômico e familiar e entorpecer, dessa forma, a realização da verdadeira unidade entre os cidadãos, é natural que nem sequer diante da família, como instituição jurídica e ética, Platão se detenha, mas tal como o resto a sacrifique também.”
“Em Esparta, onde o homem da classe dominante vivia entregue quase por inteiro ao cumprimento de seus deveres cívicos e militares, durante a vida inteira, a vida de família desempenhava só um papel secundário e os costumes da mulher, neste estado tão severo em tudo o mais, tinham na Grécia fama de licenciosos.” Esparta eram os Cantões Suíços daquele tempo. Atenas, uma Paris ou Berlim.
“É bem significativo que a sua comunidade de mulheres e de filhos se limite à classe dos ‘guardiões’, que estão a serviço direto do Estado, e não se torne extensiva à massa da população trabalhadora. A Igreja resolveria mais tarde este problema, pela imposição do dever de celibato aos sacerdotes, que nela representam a classe dominante. Mas Platão, que pessoalmente era celibatário, não acreditava que esta forma se pudesse levar em consideração dentro do seu Estado” Pois compreendia a força do instinto mesmo diante do Estado ideal. “O lema da exclusão de toda a propriedade individual, incluindo a da mulher, combinado com o princípio da seleção da raça, leva à exigência da comunidade de mulheres e de filhos para os ‘guardiões’.” Um sistema ainda menos hereditário que a democracia moderna, para não dizer da monarquia eurocêntrica, uma vez que hoje basta com ter Kubitschek ou Brizola no sobrenome para estar virtualmente eleito. Perversão da meritocracia platônica, nada platônica, se é que me faço entender.
“Não partilha a opinião dominante no seu país, segundo a qual a mulher é destinada pela natureza exclusivamente a conceber e a criar filhos e a governar a casa. É certo que reconhece que a mulher é em geral mais fraca do que o homem, mas não crê que isto seja obstáculo para ela participar nas funções e nos deveres de ‘guardiões’.”
“Platão prevê com toda a clareza as conseqüências a que esta lei se expõe e que parecem ameaçar com a maldição do ridículo as suas revolucionárias inovações. As mulheres deverão, nuas, alternar com os homens na palestra, e não só as jovens, mas também as enrugadas mulheres de idade, do mesmo modo que nos ginásios é freqüente ver muitos homens já idosos praticando os seus exercícios. Mas Platão não acredita que esta norma ponha a moral em perigo; e que se pense disto o que se quiser, o certo é que o mero fato de ele poder formular tal proposição demonstra a mudança imensa de sensibilidade que se operara em relação à posição do homem perante a mulher, desde a época anterior a Péricles, em que Heródoto escrevia, na sua narração sobre Giges e Candaules, que ao despojar-se do vestido a mulher despojava-se também do poder.Platão observa que os bárbaros consideravam a nudez desonrosa também para o homem e que o sentimento moral dos gregos da Ásia Menor, influenciado por aqueles, tinha certa afinidade com tal maneira de pensar. O sentimento moral dos gregos da Ásia Menor revela-se na sua arte do séc. VI, que, sob este aspecto, é muito diferente da arte do Peloponeso.”
“A figura do corpo nu do atleta varão convertera-se há muito em tema fundamental das artes plásticas, sob a influência da ginástica e do seu ideal de arete física e também sob a ação do seu sentimento do moralmente decente e decoroso.” “há quanto tempo a implantação da ginástica nua entre os homens levantou a mesma tempestade de troça e indignação que hoje levanta a proposta de tornar esta prática extensiva à mulher?”
“não existem profissões só acessíveis ao homem ou à mulher.”
IVO BRUNS, Vorträge und Aufsätze[Conferências e ensaios] (Munique, 1905)(sobre a emancipação da mulher em Atenas)
“o conceito de ‘os melhores’ não se pode definir no seu sentido pleno, enquanto não se explicitar o princípio da seleção” “É na melhor educação que se deve basear o governo dos melhores; aquela, por sua vez, exige como terreno de cultura as melhores aptidões naturais. Esta idéia era corrente no tempo de Platão e provinha principalmente da teoria pedagógica dos sofistas.”
“Já Teógnis, nos seus poemas exortativos, profetizara à nobreza arruinada da sua cidade pátria, ansiosa por se restaurar financeiramente por meio de casamentos com filhas de plebeus ricos, as desastrosas conseqüências que esta mistura de raças traria à conservação da antiga arete dos nobres.” “O velho Teógnis não sonhara sequer chegar a tais conseqüências. Entre a moral racional de Teógnis e o sistema platônico de ‘controle’ estatal, cabia como solução intermediária a paideia espartana, preocupada em velar pela procriação de uma descendência saudável, no caso da camada senhorial da sociedade.”
“Estas medidas eugenésicas de Platão, baseadas nas suas intenções educacionais, seguem as normas da medicina grega”
“O cuidado dos recém-nascidos deve subtrair-se absolutamente à jurisdição das mães.” “As mães só terão acesso às crianças para amamentá-las, mas nem sequer conhecerão os próprios filhos, pois deverão querer a todos por igual.” “O objetivo supremo de Platão era conseguir que as alegrias e as dores de cada um fossem as alegrias e dores de todos.”
“Devem eles ser iniciados na guerra logo desde a infância, tal como os filhos dos oleiros aprendem a arte da olaria, vendo o pai trabalhar ou dando-lhe uma ajuda na sua tarefa.” “Poder-se-ia pensar que a mera contemplação das batalhas é menos eficaz, como meio de educação bélica, do que o adestramento regular da juventude em jogos guerreiros, onde ela possa participar ativamente. (…) Trata-se de um processo de enrijecimento espiritual, por meio do contato com a espantosa mecânica da guerra autêntica.”
“Tirteu e Platão são os psicólogos da batalha e vêem o verdadeiro problema que ela implica para um ser humano.”
“ele proíbe a devastação dos campos e o incêndio das casas, fatos que também não são habituais nas guerras civis de um Estado civilizado do séc. IV, mas atraem sobre a cabeça dos culpados a maldição dos deuses” “Despojar por mera sede de lucro os caídos no campo de batalha é punido como indigno de um homem livre, bem como impedir que se levantem do campo os mortos. As armas são a única coisa que um guerreiro pode arrebatar ao inimigo caído.”
“Ainda na obra De iure belli ac pacis, escrita no séc. XVI pelo grande humanista e pai do direito internacional Hugo Grócio, reconhecia-se como não-contrário à natureza o direito de escravizar os inimigos, em caso de guerra.” “na opinião de Grócio só sob o cristianismo se conseguiu o que o Sócrates platônico em vão pregara aos gregos como um preceito do instinto nacional de autoconservação. Mas o próprio Grócio observa que também os maometanos seguiam esta mesma regra de direito internacional, nas lutas contra povos da sua religião. Devemos, portanto, generalizar a sua tese no sentido de que não foi o Estado antigo nem a idéia nacional do séc. IV, mas sim a comunidade de fé das religiões universais, a qual se estendia a povos diversos, que assentou os fundamentos que possibilitaram a realização parcial dos postulados de Platão.”
“a grande verdade educacional que a República ilustra plasticamente é a estrita correlação entre a forma e o espaço. Não é só de um princípio artístico que se trata, mas sim de uma lei do mundo moral. O homem perfeito só num Estado perfeito se pode formar”
“É sobre estes 2 conceitos procedentes da Grécia primitiva, o de paradigma e o de mimesis, modelo e imitação, que toda a paideia grega assenta. A República de Platão representa uma nova etapa dentro dela.”
“É certo que os Estados atuais, como o Górgias punha em relevo, fazem da aspiração ao poder um fim em si, e por isso não estão habilitados a cumprir a missão educacional na qual Platão vê a essência do Estado. Enquanto o poder político e o espírito filosófico não coincidirem, Platão julga impossível uma solução construtiva do problema grego da formação do Homem, em sentido socrático, e portanto da superação dos males da sociedade presente. Surge assim a famosa tese platônica segundo a qual não acabará a miséria política do mundo enquanto os filósofos não se tornarem reis ou os reis não começarem a investigar de forma verdadeiramente filosófica. É este postulado que ocupa o lugar central da República. Não se trata de uma engenhosa frase incidental, mas da fórmula que oferece a solução ideal para aquele trágico divórcio entre o Estado e a educação filosófica que vimos em obras anteriores de Platão.” Enunciado perene, ainda vigente no “pós-Marx” e no “pós-Nietzsche”!
“E assim, na República, a Filosofia aparece pela primeira vez no primeiro plano da atenção.”
“Platão não condena o poder como uma coisa ‘má em si’; submete apenas o seu conceito a um esclarecimento dialético radical, que o limpa da mancha do egoísmo. Liberta-o da arbitrariedade e volta a reduzi-lo à vontade pura, cuja meta inamovível é, por natureza, o Bem. Nenhum ser humano pode voluntariamente enganar-se naquilo que considera bom e salutar. O verdadeiro poder só pode consistir na capacidade de realizar a aspiração natural que lança o Homem para aquela meta. A sua premissa é, portanto, o conhecimento real do Bem. E é assim que a filosofia torna-se paradoxalmente o caminho para o verdadeiro poder.”
“a economia artística da República solicita a ilusão de, por assim dizer, ser aqui a 1ª vez que o leitor se vê obrigado a meditar sobre a filosofia” “No seu isolamento atual, ela própria tem dificuldade em compreender que foi só batalhando com aqueles problemas que conseguiu forjar o grandioso caráter que na sua 1ª fase criadora a distinguiu. A resignada frase de Hegel, dizendo que a coruja de Atena só se levanta ao entardecer, contém sem dúvida uma certa verdade e a consciência dela estende a sua sombra trágica sobre o esforço heróico que o espírito humano se dispõe a realizar à última hora, com a tentativa platônica de salvação do Estado.”
“Só ele [o filósofo] pode dizer o que é justo e belo por si; as opiniões da massa a respeito destas e das demais coisas oscilam na penumbra entre o não-ser e o verdadeiro Ser. E nisto não diferem da massa os estadistas.” “os caprichos da massa tornam-se a pauta suprema da conduta política e o espírito desta adaptação vai pouco a pouco se infiltrando em todas as manifestações da vida. Este sistema de adaptação exclui a possibilidade de uma autêntica educação do Homem, orientada de acordo com a pauta dos valores imutáveis.” “É o conhecimento da verdade que deve ocupar o trono do Estado reconstruído.” “O conhecimento da norma suprema, que o filósofo abriga na sua alma, é o fecho da cúpula do sistema do Estado educacional platônico.”
“Platão não parece subscrever o clamor dos sofistas e humanistas contra o profissionalismo da cultura. Parece paradoxal esta atitude, num homem que como ele tem em tão alto apreço o saber pelo próprio saber.” “Platão volta ao conceito de techne política que formulara no Górgias, e isso nos lembra ao mesmo tempo as dúvidas iniciais apontadas por Sócrates no Protágoras sobre a possibilidade de ensinar a virtude política. (…) Na República, Platão já não deixa Sócrates albergar nenhuma dúvida.”
“Platão não leva muito a sério as dúvidas formuladas sobre a missão política do filósofo. O exame destas dúvidas serve-lhe de pretexto para se desvencilhar de muitos daqueles que se arrogam o nome de filósofos. Mas a par disto defende com o máximo rigor a verdadeira filosofia e considera qualquer concessão feita aos críticos como uma acusação contra o mundo. A imagem por ele traçada do destino do filósofo converte-se numa tragédia impressionante. Se nas obras de Platão há alguma página escrita com o sangue do seu coração, é esta. Já não é só o destino de Sócrates, feito símbolo, o que move a sua pena. Mistura-se a ele, aqui, a história da sua própria ambição suprema e o ‘fracasso’ das suas forças ante a missão que outrora se julgara especificamente chamado a cumprir.”
“dá-nos uma definição filosófica, indispensável para a compreensão da sua tese sobre os governantes-filósofos, principalmente para o leitor atual, que facilmente pode associar à palavra grega incorporada aos nossos idiomas a idéia de erudito. O seu ‘filósofo’ não é exatamente um professor de Filosofia, que se arrogue um título destes, baseado nos conhecimentos que tem da sua especialidade. E ainda menos é um ‘pensador original’, pois não seria possível existirem simultaneamente tantos pensadores quanto os ‘filósofos’ de que Platão precisa para governar o seu Estado.”
“amante da cultura”“a personalidade humana altamente cultivada”
QUANDO CULTURA ERA SABER, E NÃO UM “SABER NÃO-TÉCNICO”: “Platão concebe o filósofo como um homem de grande memória, de percepção rápida e sedento de saber. Um tal homem despreza tudo o que é minúsculo, o seu olhar eleva-se sempre ao aspecto global das coisas e abarca, de uma vigia altíssima, a existência e o tempo. Não tem a vida em grande apreço nem sente grande apego aos bens exteriores. É estranho a ele tudo o que seja gabolice. É grande em tudo, mas sem por isso deixar de possuir um certo encanto.” Comparar com os atributos dos últimos homens e de Zaratustra.
Vivemos a Era da Crítica (Sofística 2.0).
“o representante da arete perfeita (…) O filósofo platônico não é senão a forma do kaloskagathos, quer dizer, a forma do ideal supremo de cultura do período grego clássico, renovada num sentido socrático.”
DE TALES A SCHOPENHAUER: “A censura da incapacidade destes homens recai, na realidade, sobre aqueles que não sabem usar a sua capacidade. (…) Cada um dos dotes, se é desenvolvido de forma unilateral e desligado dos outros, torna-se um obstáculo a uma formação verdadeiramente filosófica. (…) O desenvolvimento são do Homem é condicionado por uma boa alimentação, pela estação do ano e pela região; esta norma geral, que vigora para todas as plantas e animais, afeta de maneira especial os temperamentos melhores e mais vigorosos. (…) Um temperamento filosófico, que em terreno propício é chamado a florescer maravilhosamente, produz como fruto o contrário dos seus magníficos dotes, se for semeado ou plantado no solo de uma má educação” O caso do tirano erudito.
“Platão defende a idéia deste destino inapreensível para a inteligência humana e que as mentes religiosas não consideram fruto do mero acaso, mas antes obra de um poder miraculoso.”
“da maneira como os temperamentos filosóficos se salvam milagrosamente de todos os obstáculos com que o ambiente corrupto ameaça desde o primeiro instante a trajetória da sua formação. Segundo Platão, o que infunde caráter trágico à existência do homem filosófico neste mundo é o fato de só pelo influxo de uma graça ou tyche divina especial ele poder sobrepujar os obstáculos” O leão na caverna (Z4)
“Os que culpam os sofistas da degenerescência da juventude é que são os piores sofistas. Na realidade, é a influência do Estado e da sociedade que educa os homens e faz deles o que quer.” “Nenhum caráter, nenhuma personalidade se pode formar senão de acordo com esta paideia exercida pela massa, e não ser que venha em seu auxílio a graça especial dos deuses.” “professores e educadores só podem educar as pessoas naquilo que a massa lhes ordena e que impera na opinião pública.” “Os educadores que melhor entendem as palavras e o tom mais de agrado da ‘grande besta’. São os homens que fazem profissão da adaptação.”
“a salvação dos temperamentos filosóficos pode acontecer neste mundo. Aqui, aparece tacitamente aos olhos do leitor o nexo causal entre a salvação pessoal de Platão e o fato de ter encontrado em Sócrates o verdadeiro educador. Estamos na presença do caso excepcional em que uma personalidade individual pode transmitir aos discípulos bens de valor eterno. Longe, porém, de receber qualquer recompensa, este educador de educadores teve de pagar com a vida a sua independência em relação à educação da massa.” Um Sócrates pode ensinar a outro Sócrates a virtude. Singularidade radical e extrema.
“O conhecimento do que é bom em si é uma característica essencial do filósofo. Falar de uma massa filosófica constitui para Platão uma contradição em si. É precisamente a hostilidade mútua a relação natural entre a massa e a Filosofia’
“missão interior”
“caracteres como os de Alcibíades e Crítias, cujos defeitos se haviam tentado imputar a Sócrates e ao seu sistema educacional.” “logo foram corrompidos pelo meio ambiente” “têm um grande ímpeto e um fulgor espiritual que os levam a se distinguirem da massa.”
“São raríssimos os caracteres espirituais que conseguem furtar-se à corrupção. Talvez o consiga um homem muito culto e de caráter nobre, que se veja obrigado a viver no exílio como um estranho e a quem este isolamento involuntário sirva de tábua de salvação para não cair sob a influência corruptora, uma grande alma que tenha nascido numa cidade pequena e que, por se desinteressar dela, se volte para o mundo espiritual; ou então o representante de uma especialidade, que com razão compreenda a mesquinhez dela e lhe vire as costas para enveredar pela senda da Filosofia. (cf. Rep. 496 B-C)”
“a mais profunda das resignações”
“E quando vê os outros viverem no meio da impureza, sente-se satisfeito por se ver limpo da injustiça e poder viver a trabalhar no que é seu e deixar um dia este mundo no final da sua carreira”
“Bem longe da crença de poder transformar o Estado real do seu tempo, e rebelde também à idéia de se lançar na arena da luta política, volta a ser aqui o que era lá: o verdadeiro homem desconhecido para a opinião do mundo.” “É o seu afastamento de toda a atuação pública que constitui a sua verdadeira força. Platão já na Apologia descrevera Sócrates como o homem que sabia perfeitamente por que é que o seu daimon o desviara sempre, ao longo de toda a sua vida, de atuar na política.” “Quem realmente quiser lutar em prol da justiça é na vida privada que tem de fazê-lo”“foi a morte de Sócrates que gerou a grande crise na vontade política de Platão.” “O filósofo faz da necessidade da minoria uma virtude.”
“Professores e alunos sempre tinham existido, mas seria um anacronismo histórico considerar escolas do tipo platônico as coletividades deste gênero que conhecemos da filosofia pré-socrática. (…) as circunstâncias de Platão ter fundado a Academia logo após a sua primeira viagem ao Ocidente grego, na qual teve ocasião de estabelecer um contato bastante estreito com os pitagóricos, indica que existia entre estes fatos uma íntima relação.”
“J.L. Stocks fez uma tentativa para salvar a historicidade da tradição contida em CÍCERO, Tusc. Disp., V, 3, 8, segundo a qual foi Pitágoras quem empregou a reivindicou para si a palavra filósofo. Eu, porém, nunca pude aceitar os argumentos do meu excelente amigo cuja morte prematura foi uma perda considerável para os estudos clássicos.”
“Apesar da especulação platônica sobre o Estado, a escola de Platão não agia como grupo político na vida da sua cidade natal, como agiam os pitagóricos, antes da destruição da sua Ordem.”
“Na realidade, a Academia não teria podido existir senão no seio da democracia ateniense, que deixava Platão falar, ainda quando criticava o seu próprio Estado. Havia já muito tempo que nela se considerava um erro grave ter condenado Sócrates, e via-se no seu herdeiro principalmente o homem que aumentava o renome espiritual da cidade, que, apesar de vacilar na sua posição externa de poder, se ia tornando cada vez mais o centro espiritual do mundo helênico.”
“Depois de o filósofo baixar à resignação da grandeza ignorada e do retraimento perante o mundo, é difícil voltar à idéia do que representa o homem chamado a dominar o Estado futuro.” “O filósofo é uma planta divina que necessariamente irá degenerar ou adaptar-se, quando transplantada para o solo árido dos Estados atuais.” “Na penúria em que Platão vive, a sua filosofia é unicamente formação de si mesmo, e não cultura.”
“Persevera na sua disposição permanente e de certo modo escatológica de se entregar como força auxiliar ao mundo divinamente perfeito que pertence ao ‘porvir’.” “protege o conceito de ‘porvir’, para o qual o filósofo se forma, do perigo de escorregar para o imaginário” “É esta posição intermediária – que ele ocupa entre a pura investigação, desligada de todo o fim ético e prático, e a cultura meramente pragmática, política, dos sofistas – que faz o humanismo platônico ser realmente superior a ambos.”
3.11 A República – II
“Platão não procura, no que se segue, definir em sentido rigoroso a natureza do Bem-em-si. Em nenhuma das suas obras o faz, apesar da freqüência com que elas, no final da investigação, conduzem a este ponto. O Filebo é dentre as obras de Platão aquela em que se investiga de forma mais sistemática o problema aqui proposto: se é o prazer ou a razão o bem supremo. Mas nem sequer ali se chega no fim a qualquer definição do que é o Bem. O que se faz é apenas deduzir 3 das suas características: a beleza, a simetria e a verdade”
“recusando tudo o que seja excessivamente técnico-filosófico e exemplificando em vez disso, por meio de uma analogia plástica, a posição e a ação do Bem no mundo. Uma alegoria, em que a máxima força poética conjuga-se com a sutileza plástica do traçado lógico, descobre repentinamente o lugar e o sentido da idéia do Bem, como princípio supremo da filosofia platônica, lugar e sentido que até agora se tinham conservado deliberadamente obscuros nas obras de Platão, ou então como um ponto esboçado na distância.”
“A ‘contemplação’ era na dialética platônica a expressão da função espiritual em virtude da qual se vê no múltiplo a unidade da idéia e que o próprio Platão caracteriza por vezes com o nome de synopsis. Mas como, ao chegar ao seu último pedaço, já se não pode exarar por escrito o caminho dialético que conduz à contemplação da idéia do Bem, substitui-o pela contemplação sensível do seu ‘análogo’ no mundo visível.”
“Podemos dizer que a visão é o mais solar dos nossos sentidos, mas a capacidade de ver provém principalmente da luz que o Sol difunde e que banha aquela, do exterior.”
O SER-DO-ENTE: “Ao mundo do visível não dá o Sol apenas a visibilidade, mas o nascimento, o crescimento e a nutrição. (…) também o mundo do cognoscível não recebe da idéia do bem só a cognoscibilidade, mas ainda o ser, embora o Bem em si não seja o Ser, mas algo superior a ele pela sua posição e pelo seu poder.” “O mesmo se diz de Deus em ARISTÓTELES (Dial. frag., edição WALZER, P. 100, frag. 49 ROSE) (…) As vacilações (…) implicam (…) uma alternativa, ou seja, duas afirmações coincidentes com a verdade.” O melhor discípulo de Parmênides.
JAEGER, The Theology of the Early Greek Philosophers (La teología de los primeros filósofos griegos, FCE, 1952)
“No livro VIII da Cidade de Deus, que elaborou conscientemente para enfrentar a República de Platão, Santo Agostinho entrega a este o cetro de toda a teologia anterior ao Cristianismo.”
Karl STUMPF, Verhältnis des platonischen Gottes zur Idee des Guten (Halle, 1869)
“Hermann Lotze, pai da moderna teoria filosófica do <valor>”
SOLMSEN, Plato’s Theology, 1942
BOVET, Le Dieu de Platon (Tese de Genebra), 1902
“A pergunta socrática sobre qual é a natureza e unidade da arete revela-se finalmente como problema do Bem divino, a ‘medida de todas as coisas’ (como se define Deus nas Leis).”
“já alguns dos filósofos pré-platônicos evitavam a palavra THEOS ou preferiam falar de <o divino>”
“Platão parece deter-se apenas no aspecto metafísico da idéia do Bem. Parece ter perdido completamente de vista a relação que ela tem com a missão da cultura do Homem. É isto que leva constantemente os intérpretes a arrancarem a comparação do solo em que está enraizada e a encará-la como um símbolo auto-suficiente da metafísica ou da teoria do conhecimento de Platão, sobretudo quando têm em conta que ela forma o final do livro VI, aparecendo assim (contra a intenção platônica) como o remate da sua exposição e desligada do que vem a seguir.” “Uma antologia que culmina na idéia do Bem: eis a metafísica da paideia. O ser de que Platão fala não está desligado do Homem e da sua vontade.”
“Mas a meta fica além do mundo dos fenômenos diretamente dado e está oculta ao olhar do homem sensorial por um múltiplo invólucro. Romper estes invólucros impeditivos é o primeiro passo que se tem de dar para que a luz do Bem jorre no olhar da alma e lhe faça ver o mundo da verdade.” O mundo-verdade de Nietzsche é uma ficção; o mundo da verdade platônico é, dessa mesma perspectiva, ainda o aquém, “aparência”. Platão entendido corretamente nega o platonismo.
“Só ao chegarmos ao segundo segmento principal da linha saímos do campo das meras opiniões para entrarmos no do conhecimento e da investigação científica, no reino da verdade, quer dizer, na esfera em que se processará a educação platônica dos governantes-filósofos.”
“Só quando entramos na segunda e última fase do mundo inteligível alcançamos um tipo de conhecimento que, embora parta de hipóteses também, não as aceita, à maneira das matemáticas, como princípios, mas simplesmente como o que a própria palavra indica, ou seja, como premissas e degraus, para a partir deles erguer-se logo a seguir até o absoluto, até o princípio universal. É este método de conhecimento que é o verdadeiro logos, o logos puro.” “Mas é visível que Platão não pretende explanar aqui, numa página, os últimos segredos da sua teoria do método e da sua lógica, como parecem pensar a maioria dos intérpretes, que sempre aqui viram o seu paraíso”
“meras conjeturas” (1)
“percepção sensorial dos objetos reais (…) simples imagem refletida” (2)
“uma esfera de madeira” (3)
“(a esfera em si)” (4)
“Platão não afirma que o Ser sobre o qual versa o conhecimento matemático seja um reflexo do que a dialética concebe. Mas é algo semelhante a isto que ele parece pensar quando diz que as teses mais gerais que o matemático aceita como princípios são meras hipóteses para o filósofo, que delas parte para se elevar (…) A proporção matemática que ilustra as 4 fases vai desde a alegoria do Sol, que constitui o final e ponto culminante do livro VI, até a alegoria da caverna, com que o VII começa; e a ascensão do conhecimento até a idéia do Bem, que até aqui apenas de maneira abstrata fôra exposta, aparece neste livro plasmada como símbolo, com uma força poética insuperável.”
OS 4 NÍVEIS:
(1) Sombras;
(2) Reflexos;
(3) Imagens;
(4) e a imagem-em-si. RAZÃO (mas não é a Verdade ou o Absoluto).
Um quinto nível, inatingível, SOL, seria, portanto, a Idéia no sentido de Além.
“A princípio não poderia ver senão sombras, em seguida já conseguiria ver as imagens dos homens e das coisas refletidas na água, e só por fim estaria apto a ver diretamente as próprias coisas. Contemplaria depois o céu e as estrelas da noite e a sua luz (…) considera-se feliz pela mudança ocorrida e lamenta os seus antigos irmãos de cativeiro. (…) preferiria ser o mais humilde jornaleiro do mundo da luz do espírito a ser o rei daquele mundo de sombras. E se por acaso voltasse outra vez ao interior da caverna e se pusesse, como antigamente, a rivalizar com os outros cativos, cairia no ridículo, pois já não conseguiria ver nada nas sombras e lhe diriam que arruinara os olhos ao sair para a luz. E se procurasse libertar qualquer dos outros e arrancá-los das trevas, correria o risco de o matarem, caso pudessem apoderar-se da sua pessoa.”
“O conceito de esperança é aqui empregado com especial referência à expectativa que o iniciado nos mistérios experimenta em relação ao além. A idéia da passagem do terreno à outra vida é aqui transferida para a passagem da alma do reino do visível ao reino do invisível.”
“A repugnância do verdadeiro filósofo em se ocupar dos assuntos humanos e a sua ânsia de permanecer nas alturas nada tem de surpreendente, se esta comparação corresponde à realidade; e é perfeitamente compreensível que o filósofo tenha de cair por força no ridículo, ao regressar deste espetáculo divino às misérias do mundo dos homens (…) os transtornos desorientadores da visão que afetam os olhos da alma, quando ela desce da luz às trevas, são diferentes dos que se produzem ao passar das sombras da ignorância para a luz, e quem chegar ao fundo do problema não se rirá, mas considerará, num caso, feliz a alma, e no outro a lamentará.”
“Diante das profundas comparações contidas nesta passagem, que desde a Antiguidade foi inúmeras vezes interpretada nos mais diversos sentidos, estamos nós em situação extraordinariamente favorável, porque o próprio Platão encarregou-se de comentá-la e esclarecê-la, de maneira suficientemente clara, completa e concisa.”
“A comparação do Sol e da caverna, agrupadas numa unidade, como vimos pela proporção matemática das 4 gradações do Ser, representam uma só encarnação simbólica da essência da paideia.”
“no primeiro parágrafo do livro VII (…) Platão aponta a caverna expressamente como uma alegoria da paideia. Para falar mais exatamente, apresenta-a como uma alegoria da natureza humana e da sua atitude perante a cultura e a incultura, a paideia e a apaideusia. Para o leitor capaz de compreender de uma só vez o encadeamento lógico de mais de uma tese, está implícita nela uma dupla referência para trás e para frente.”
Novo Protágoras: o Sol é a medida de todas as coisas.
“A paideia não é focalizada aqui do ponto de vista do absoluto, como na alegoria do Sol, mas antes do ponto de vista do Homem: como transformação e purificação da alma para poder contemplar o Ser supremo. Ao desviar a nossa atenção da meta para o pathos deste processo interior de cultura, Platão aproxima-nos ao mesmo tempo da verdadeira exposição da sua trajetória metódica, no ensino das matemáticas e da dialética.”
“No fundo, é logo desde as primeiras obras que Platão se esforça por fazer compreender a ignorância socrática como a aporia de um homem que caminha para a superação e aprofundamento do saber até então dominante. O que se diz na República sobre este problema não pode, naturalmente, ser comparado, quanto à precisão, com os diálogos especialmente consagrados ao tema do saber, mas limita-se a ordenar os seus resultados.”
CONTRA A INOCUIDADE DO DISCURSO <LEIAM LIVROS>: “A verdadeira educação consiste em despertar os dotes que dormitam na alma. Põe em funcionamento o órgão por meio do qual se aprende e se compreende; e conservando a metáfora do olhar e da capacidade visual poderíamos dizer que a cultura do Homem consiste em orientar acertadamente a alma para a fonte da luz, do conhecimento. Assim como os nossos olhos não poderiam voltar-se para a luz a não ser dirigindo o corpo inteiro para ela,¹ também nos devemos desviar <com toda a alma> do corpo do devir, até que ela esteja em condições de suportar a contemplação das camadas mais luminosas do Ser.
[¹ O “falso” desprezo pelo corpo (o cristianismo como inversão do Platonismo, e não sua consumação).]
Portanto, é numa <conversão>, no sentido original, espacialmente simbólico, desta palavra que a essência da educação filosófica consiste. É um volver ou fazer girar <toda a alma> para a luz da idéia do Bem, que é a origem de tudo.(*) Este processo distingue-se, por um lado, do mesmo fenômeno na fé cristã, para o qual mais tarde foi transposto este conceito filosófico da conversão, porque este conhecer radica num ser objetivo; por outro lado, tal como Platão o concebe, está completamente isento do intelectualismo¹ que sem qualquer razão se censura nele.
(*) Cf. A. NOCK, Conversion (Oxford 1933). Este autor procura no helenismo clássico os antecedentes do fenômeno religioso cristão da conversão e menciona, entre outros, o passo platônico.”
¹ op. cit.
(*) “entre a alma do Homem e Deus interpõe-se, segundo a concepção platônica, o longo e duro caminho da perfeição. Sem perfeição não pode existir a arete. A ponte que Platão estende entre a alma e Deus é a paideia. Esta é incremento do verdadeiro Ser.”
“O Estado das Leis é um Estado teônomo, não em oposição ao Estado da República, mas pelo contrário a sua imagem e semelhança. Guarda este princípio supremo, ainda que ele apareça nas Leis aplicado de maneira diferente e não deixe ao conhecimento filosófico senão a margem que corresponde ao grau inferior do Ser, sobre o qual assenta. Platão diz no Fédon que a descoberta do Bem e da causa final constitui a encruzilhada histórica dos caminhos da concepção da natureza, onde se separam o mundo pré-socrático e o mundo pós-socrático.”
“Não pode haver a menor dúvida de que os discípulos viram na proclamação platônica do Bem como causa última do mundo – e assim o prova a elegia do altar de Philia, em Aristóteles – a fundação de uma religião nova e, ao menos uma vez neste mundo, viram realizada na pessoa do seu mestre, à guisa de exemplo, a fé platônica na identidade do bem e da felicidade.”
“Platão é o criador do conceito de teologia, e a obra em que pela 1ª vez na História universal aparece este conceito revolucionário é a República, onde, com vistas a aplicar à educação o conhecimento de Deus (concebido como bem) são traçadas as linhas fundamentais da Teologia. A Teologia, i.e., o estudo dos problemas supremos pela inteligência filosófica, é um produto especificamente grego. É um fruto da suprema audácia do espírito, e os discípulos de Platão bateram-se contra o preconceito pan-helênico, na realidade um preconceito popular, segundo o qual a inveja dos deuses negava ao Homem a possibilidade de compreender estas coisas tão elevadas. Não eram apoiados na autoridade de uma revelação divina, na posse da qual julgassem se encontrar, que lutava contra eles, mas sim em nome do conhecimento da idéia do Bem, que Platão lhes ensinara e cuja essência é a total ausência de inveja.”
“Podemos muito bem adotar o título de Spinoza e chamar à República – a obra fundamental de Platão, na qual se assentam as bases ideais da paideia – Tractatus Theologico-Politicus.”
“A imagem das ilhas da bem-aventurança, escolhida para caracterizar o paraíso da vida contemplativa, é tão feliz que conseguiu impor-se para sempre. Voltaremos a encontrá-la no Protréptico do jovem Aristóteles, obra em que o discípulo de Platão apregoa o seu ideal de vida, de onde aquela fórmula passa à literatura da Antiguidade e se difunde para além dela.”
“É precisamente no momento da sua tensão máxima que o sentido político originário de toda a paideia grega triunfa no conteúdo ético e espiritual que Platão lhe infunde de novo.”
“o filósofo deve descer outra vez à caverna.” Base do Zaratustra.
“É este forte sentimento de responsabilidade social que distingue da filosofia dos pensadores pré-socráticos o ideal platônico da suprema cultura espiritual. O paradoxo histórico é que estes sábios, mais preocupados com o conhecimento da natureza do que com o Homem, tiveram uma ação política prática mais intensa do que Platão, apesar de todo o pensamento deste girar em torno dos problemas práticos.” “uma parte dos antigos historiadores da Filosofia apresentava os pensadores mais antigos precisamente como modelos da devida associação da ação e da idéia, ao passo que os filósofos posteriores se foram consagrando cada vez mais à teoria pura.”
“Não sente nenhum dever de gratidão ativa para com o Estado degenerado da realidade, porque, embora também nele possam nascer filósofos, não é pelo fato de a opinião pública ou os órgãos deste Estado os estimularem que eles nascem lá.”
* * *
3.11.a. As matemáticas como propaideia
“A lenda atribui a paternidade desta ciência ao herói Palamedes, que combateu em frente de Tróia e de quem se diz que ensinou ao chefe supremo Agamemnon o uso da nova arte para fins estratégicos e táticos. Platão ri daqueles que assim pensam, pois segundo isto Agamemnon não teria sido capaz até então sequer de contar os dedos, e muito menos os contingentes do seu exército e da sua frota.” “é sabido que o desenvolvimento da ciência da guerra no séc. IV requeria um conhecimento cada vez maior das matemáticas.” “É um estudo humanístico, pois sem ele o Homem não seria Homem.”
“Não devemos esperar da sua maneira de enfocar o assunto que ele entre a fundo no conteúdo dos problemas matemáticos e muito menos que exponha todo um curso didático desta ciência.¹ Exatamente como faz ao tratar da música e da ginástica, Platão limita-se a traçar as linhas diretivas mais simples, segundo o espírito das quais se devem estudar estes problemas.”
¹ Não, por Zeus! Só um pouquinho de matemática já está ótimo…
“A senda através da Filosofia, que Platão prescreve a esta cultura, exige dos futuros ‘governantes’ um anelo tão puro de cultura, que a referência à importância prática que estes conhecimentos possam vir a adquirir para eles quase pode ser considerada um perigo para a verdadeira fundamentação dos estudos matemáticos. Diz-nos a tradição que Platão levou a sério este problema quando lhe pediram que educasse o tirano Dionísio II para governar segundo as suas concepções. PLUTARCO, Díon, c. 13, informa que o príncipe e toda a côrte dedicaram-se durante certo tempo ao estudo das matemáticas e que o ar ficava cheio do pó que a multidão levantava ao traçar as figuras geométricas no chão. É principalmente a geometria que lhe fornece ocasião para polemizar contra os matemáticos que desenvolvem ridiculamente as suas demonstrações, como se as operações geométricas implicassem um fazer (praxis) e não um conhecer (gnosis).”
(*) “W.A. HEIDEL, ‘The Pythagoreans and Greek Mathematics’, em American Journal of Philology, 61 (1940), pp. 1-33, traça o desenvolvimento dos estudos matemáticos na Grécia mais primitiva, tanto quanto lhe permitem as provas que existem, em círculos não-pitagóricos, especialmente na Jônia.” Visão corroborada pelo recentíssimo (e excelente) trabalho de Tatiana Roque, História da Matemática.
“Os pitagóricos medem as harmonias e os tons audíveis entre si e buscam neles o número, mas a sua missão termina onde começam os ‘problemas’, cuja investigação o nosso filósofo considera a verdadeira meta da sua cultura e que põe igualmente em relevo, ao tratar da geometria e da Astronomia.”
“a regularidade matemática dos fenômenos celestes pressupõe a existência de agentes dotados de consciência racional.” No astrônomo/observador!
(*) “Timeu, 38 D. Repele-se aqui o exame pormenorizado da teoria das esferas, dizendo-se que este método daria maior importância ao secundário que à finalidade que deve servir. De modo diferente procede ARISTÓTELES na sua Metafísica, 8, onde critica as razões que dão os astrônomos para fixar o número exato das esferas embora se equivoquem ao fazer o cálculo.” Aristóteles dá sempre a impressão, em sua Metafísica, de não reconhecer qualquer diferença entre a Academia (platonismo, com que rompeu) e os pitagóricos (entre o Número e a Idéia enquanto entidades).
“Sócrates aparece sempre como o homem que tudo sabe, seja qual for o ponto que se focalize, e embora só lhe interesse o que ele considera fundamental, quando a ocasião se apresenta revela um domínio assombroso em campos de conhecimento que, parece, deveriam ser-lhe estranhos.” “Nesse ponto, temos de controlar muito bem a liberdade soberana com que nos seus diálogos Platão faz de Sócrates o advogado dos seus próprios pensamentos.”
“O Sócrates histórico¹ não teria repreendido severamente o seu interlocutor, como o Sócrates platônico, ao ouvi-lo justificar o valor da Astronomia pela sua utilidade para a agricultura, para a navegação e para a arte da guerra.”
¹ Reza a lenda (assim digo porque nunca o li) que Xenofonte é a melhor fonte. Xeno ‘é a melhor’ fonte!
“O olhar para o alto em que a Astronomia estudada matematicamente educa a alma é perfeitamente diverso de voltar os olhos para o céu, como fazem os astrônomos profissionais.” Perfeitamente como meu próprio desenvolvimento cognitivo: a física teórica era o que me interessava porque eu desconhecia a metafísica e o ético, mas já queria olhar para dentro de mim mesmo mais do que olhar para um ponto espacial elevado.
“A introdução da estereometria constitui uma surpresa e permite a Platão variar um pouco esta parte do seu estudo. A influência da prática de ensino na Academia transparece aqui, indubitavelmente. A tradição da história das matemáticas, que data da baixa Antiguidade e sobe até a obra fundamental de Eudemo, discípulo de Aristóteles, considera autor da estereometria o notável matemático Teeteto de Atenas, em memória do qual Platão escreveu, poucos anos depois da República, o diálogo que tem o seu nome. SUIDAS, Escol., em EUCL., Elem., XIII (t. 5, p. 654, 1-10, Heilberg). A atribuição do descobrimento dos 5 poliedros regulares a Pitágoras por Proclo (no índice geométrico) é lendária, como o provaram de modo irrefutável as recentes investigações de G. Junge, H. Vogt e E. Sachs.”
“O conteúdo do último livro (o XIII, dedicado à estereometria dos Elementos de Euclides, a obra fundamental e imorredoura das matemáticas gregas, a qual apareceu uma só geração depois, devia ter essencialmente como base as descobertas de Teeteto.” Cf. T.L. HEATH, A Manual of Greek Mathematics (Oxford, 1931), p. 134.
“Como nos encontramos separados por mais de 2 mil anos da época em que as matemáticas gregas receberam de Euclides a forma científica consagrada como clássica, a qual ainda hoje se conserva em vigor dentro dos limites então traçados, não se torna fácil para nós retroceder até a situação espiritual em que esta forma se encontrava ainda em gestação ou tendia a consumar-se. Se levarmos em conta que foi obra de poucas gerações, compreenderemos como o labor concentrado de um punhado de investigadores geniais, empenhados em impulsionar o seu progresso, criou uma atmosfera de confiança, mais ainda, de certeza na vitória”
“Nem a filosofia platônica nem qualquer outra grande filosofia poderia ser concebida sem a influência fecundante dos novos problemas levantados e das novas soluções apresentadas pela ciência daquele tempo. Ao lado da Medicina, cuja influência podemos constantemente verificar, foram principalmente as matemáticas que a impulsionaram.” “O mais antigo contato de Platão com as matemáticas deve ter sido anterior às suas relações com os pitagóricos, uma vez que diálogos como o Protágoras e o Górgias, os quais revelam já um nítido interesse pelas matemáticas, foram escritos antes da 1ª viagem do filósofo à Sicília.”
As obras platônicas contemplam um Teodoro velho (Teodoro de Cirene, matemático de uma geração anterior a Teeteto) e um Teodoro jovem (não-matemático).
“a tradição assenta numa reduplicação errônea acerca do que aconteceu na 3ª viagem; porém, quem Platão ia visitar na 1ª viagem à Itália, antes de ir a Siracusa (no ano de 388), senão os pitagóricos? É certo que DIÓGENES LAÉRCIO, III, 6, que dá informações sobre o caso, só menciona Filolau e Eurito, mas não Arquitas, como motivo da 1ª viagem.”
“Há um dado da antiga biografia de Aristóteles que afirma ter ele cursado a escola de Platão ‘sob Eudoxo’. deste dado concluímos que houve um estreito contato da Academia com o grande matemático deste nome e com a sua escola; esse contato transparece por todas as vias na nossa tradição e nas relações pessoais de Aristóteles com ele, referidas na Ética, e as quais remontam a uma longa permanência de Eudoxo na escola platônica, cuja data se poderia fixar com precisão no ano em que Arist. entrou para a Academia (ano 367).”
“Estes fatos indicam-nos insistentemente que nunca devemos perder de vista que o que se desdobra perante os nossos olhos nas obras literárias de Platão é apenas a fachada do edifício científico e das atividades docentes da Academia, cuja estrutura interna ele esboça.” “O fato de as críticas dirigidas a Platão versarem precisamente sobre a hipertrofia das matemáticas prova que era nestas que se via a pedra angular do seu sistema de cultura.”
PLATÃO PRECAVIDO CONTRA O DESPONTAR DO NIILISMO: “O moderno conceito da ciência, que traça a esta limites tão vastos como aqueles que a experiência humana pode alcançar, faz com que a hegemonia exclusiva das matemáticas na paideia platônica nos pareça, se bem que grandiosa, unilateral; isso nos inclina, talvez, a vermos também nesse fenômeno o efeito da supremacia temporal das matemáticas da sua época. Todavia, por mais que a consciência do progresso que irradiava dos seus grandes descobridores houvesse necessariamente de contribuir para a posição de predomínio que as matemáticas desfrutavam na Academia, a verdadeira razão disso deve ser buscada, em última instância, no caráter da própria filosofia platônica e no seu conceito do saber, que excluía da cultura os ramos puramente empíricos do saber. (…) O fato de depararmos, nos fragmentos conservados da comédia ática daquele tempo, com motejos às intermináveis disputas sustentadas por Platão e seus discípulos em torno da determinação do conceito das plantas e dos animais, e sua divisão, não contradiz em nada a imagem projetada diretamente pelos diálogos platônicos.”
* * *
“o pensamento está para as opiniões como o Ser está para o devir”
“o dialético é o homem que compreende a essência de cada coisa e sabe dar conta dela.”
“O nome de ‘guardiões’ – em si estranho –, dado por Platão à classe dominante, foi escolhido, ao que parece, na previsão da virtude filosófica deste supremo estado de vigilância espiritual em que se trata de educá-los.”
“Deverão ficar aborrecidos consigo próprios, quando se demonstrar para eles que trabalham em erro, em vez de se rebolarem como os porcos no esterco da sua própria incultura.”
“Todas essas idéias são totalmente novas no tempo de Platão e encontram-se em oposição à fé cega no saudável senso comum daqueles que não aprenderam nada além do seu trabalho diário. Desde então têm aparecido no mundo escolas e exames em grande abundância e todavia, se Platão vivesse hoje entre nós, é muito duvidoso que ele pudesse concluir que as exigências estavam cumpridas em todos os requisitos.”
“toda a iniciação prematura na cultura espiritual tropeça com um obstáculo enorme: a falta de interesse da criança em aprender. Esta falta de interesse não se pode combater pela coação, pois não há nada de mais oposto à essência profunda da cultura livre que o aprender pelo medo servil a um castigo.”Quem mais se aproxima deste legado pedagógico platônico na modernidade é Rousseau.
“A educação espiritual descansará completamente durante este prazo, pois as fadigas e o cansaço são incompatíveis com o estudo.” “O princípio de que a educação espiritual deve reatar-se aos 20 anos tem esse corolário: aquela formação gímnica, que Platão trata de distinguir bem da participação voluntária, mais adiantada ou mais tardia, em outros exercícios de ginástica, deve preencher o período dos 17 aos 20 anos. É a idade em que Atenas instruía como efebos os moços varões aptos para o serviço das armas. O seu tempo de serviço durava 2 anos e começava aos 18.”
“A longa duração da formação dialética, que na sua totalidade abrange 15 anos, e nem sequer neste período alcança o seu verdadeiro fim, põe em relevo, melhor do que outra coisa qualquer, o conceito platônico do saber e a essência desta trajetória nas suas diversas fases. A exigência deste plano de estudos parece à 1ª vista o sonho e o anseio de um especialista a quem os planos de ensino da sua disciplina não deixam nunca a margem de tempo que ele julga precisar para a consecução perfeita dos seus objetivos e que, pondo-se a ruminar uma utopia pedagógica, reclama para o estudo das suas matérias tantos anos de ensino quantos os meses que lhe são dedicados ao plano real.” “de um estudo da Filosofia limitado a alguns anos, como era habitual na sua época e ainda hoje continua a ser, nada havia a esperar, nem quanto à formação filosófica nem quanto à educação dos governantes.” Interessante. Quem sabe a completa marginalização da filosofia pelo Estado não seja o melhor que poderia acontecer?
“A formação dialética de 15 anos que vai dos 20 aos 35 é, neste plano, o fundamento intelectual sobre o qual assenta a cultura dos governantes. E é extraordinariamente elucidativo que este ensino finde, como parecia natural, com o conhecimento da idéia do Bem: entre o período de formação dialética e esta base suprema, Platão intercala um 2º período de estudos de 15 anos, que vai dos 35 aos 50.”
“Platão vê o perigo da dialética criar um sentimento de pretensa superioridade que leve os adeptos a usarem a arte recém-adquirida para refutar os outros e a fazerem deste jogo um fim em si.”
“Platão esforça-se sempre por fazer compreender a diferença existente entre a paideia e a paidia, quer dizer entre a cultura e o mero passatempo.” “palavras que em grego têm, além do mais, a mesma raiz, já que ambas se relacionam originariamente com os atos da criança, do pais. (…) É curioso que os gregos tenham encontrado o problema do jogo na época em que aspiravam a penetrar de um modo filosófico mais profundo na paideia, matéria que eles levavam tão a sério. Contudo, a passagem do jogo para a máxima seriedade foi desde sempre o autenticamente natural”
“a dialética conduz à refutação das idéias dominantes sobre o justo e o belo, i.e., das leis e costumes em vigor, sob os quais os jovens se criaram como se fossem seus pais.”
“Platão entende que a garantia fundamental contra a anarquia reside na trajetória da cultura dialética acabar o mais tarde possível – é por isso que fixa seu final aos 50 anos”
“O problema do número não é importante, uma vez que não afeta a própria essência da constituição. Podemos caracterizá-la como uma aristocracia no verdadeiro sentido da palavra. A cultura grega tivera por ponto de partida a nobreza de sangue; agora, no final de toda a evolução reaparece na visão platônica o princípio seletivo de uma nobreza do espírito, quer ela governe quer não.”
“Não é um novo Estado, como nas Leis, que Platão toma como ponto de partida, mas sim uma polis já existente, que importa transformar.” Curiosamente o estereótipo é contrário (Leis como programa mais pragmático e, portanto, como se usara outra base). E isso porque a geografia ou formalidade da polis nada tem que ver: espiritualmente, o povo que migra já tem as condições mínimas (não ideais, mas satisfatórias mundanamante) para a instituição das Leis; já a República se fará aos poucos, como dito acima, não importa que no mesmo território, erradicando de tijolo em tijolo a moral corrompida dos pais dos primeiros guardiães, até consolidar-se o Estado ideal, e transformar a Filosofia numa crisálida, o que não significa tornar-se estanque: se é a melhor das Filosofias, ela justamente não decai nem corrompe, nem é substituída, por ser autêntica e dinâmica a cada florescer de uma nova gerações de guardiães. Na forja do Estado ideal não tem-se uma colônia desabitada para povoamento, mas tem-se todo o tempo do mundo. Se apenas a Europa moderna soubesse o verniz do primeiro…
3.11.b. A doutrina das formas de Estado como patologia da alma humana [Aristóteles como “o psiquiatra”]
“só existe um Estado perfeito, ao passo que são numerosíssimas as variedades do Estado defeituoso.”
“Também Aristóteles, na sua Política, enlaça numa unidade a teoria do Estado perfeito com a das formas falsas do Estado. O fato de que uma só ciência se encarrega destas 2 missões, aparentemente tão distintas, é considerado por ele um problema, que trata a fundo. [Aí seria necessária uma Ciência (da Grande) Política] Arist. (…) começa a investigar uma a uma todas as formas de Estado existentes, algumas das quais reconhece como acertadas, para finalmente expor o que entende por Estado perfeito [estudo de caso, mera observação empírica do que estava-ali]. É exatamente ao contrário de Platão que procede: este parte do problema da justiça absoluta e do Estado ideal em que ela se realiza, apresentando a seguir todas as demais formas do Estado como desvios da norma, e portanto como fenômenos de degenerescência.” Deus é a medida.
Podemos dar a questão por perdida quando a Política passa a ser um problema político, e não mais educacional. Neste mundo, não há “medicinas alternativas”!
“O fato de existirem poucos homens, animais ou plantas perfeitamente sãos não converte a enfermidade em saúde nem faz da média deficiente, acusada na experiência, a norma.”
“As formas reais do Estado são todas fenômenos de enfermidade e degenerescência.”
O DEVIR E O BEM: “Toda a teoria de Platão e de Arist. sobre as transformações do Estado não é senão uma teoria da stasis, palavra que tem em grego um significado mais vasto que o nosso conceito de ‘revolução’.”
“Ainda na patologia vegetal de Teofrasto, que tem a forma clássica na sua obra Das Causas das Plantas, vemos claramente refletida a luta entre o conceito rigorosamente platônico da norma como a forma melhor e mais conveniente da planta, i.e., como a sua arete, e o conceito puramente estatístico do normal.”
“É talvez pelo seu realismo e pela maneira como capta os pontos fracos, que a análise que Platão faz do tipo democrático se distingue da glorificação de Atenas feita na oração fúnebre de Péricles; e distingue-se também do panfleto crítico Constituição de Atenas, pela ausência de qualquer ressentimento oligárquico.”
“O Estado real que mais se aproxima do Estado perfeito é o espartano” “A exposição deste sistema, para o qual Platão cria o conceito novo da timocracia, atendendo ao lado de que se ajusta por inteiro à pauta da honra, apresenta o encanto especial da individualização histórica, ao contrário das outras formas de Estado”
“é conveniente estabelecer um paralelo entre a sua imagem de Esparta e o seu ideal de Estado, para ver o que no Estado platônico difere conscientemente do Estado espartano. Ainda mais importante, a este respeito, é a crítica direta do Estado espartano, nas Leis, livros I-II. É a falsa liga dos ‘metais’ que determina a composição contraditória do tipo espartano de homem. O elemento de ferro e de bronze nele existente impele-o ao lucro, à aquisição de dinheiro e de bens imóveis. Esse elemento, que é um elemento pobre da alma, tende a equilibrar-se por meio da riqueza exterior. Em contrapartida, o elemento de ouro e de prata impulsiona-o para a arete e o reconduz ao estado originário.” “Desta forma os elementos fundidos no caráter espartano entrechocam-se, até que por fim chegam a um compromisso entre a aristocracia e a oligarquia.” “os membros das classes inferiores, que antes gozavam da proteção daquela [a aristocracia] e eram chamados amigos e sustentáculos dos governantes, vêem-se reduzidos à escravidão e são doravante considerados periecos e hilotas. Vigiá-los torna-se para a camada dominante, em que se convertem os governantes, uma tarefa não menos importante que a de salvaguardar militarmente o Estado contra os perigos do exterior.” Vigiar é diferente de guardar.
“Esparta inclina-se para o tipo de homem simples e corajoso, mais apto para a guerra do que para a paz.” “No exterior ostenta máxima sobriedade, mas as habitações privadas são verdadeiros tesouros e ninhos de luxo e dissipação.” “como crianças às escondidas dos pais, entregam-se voluptuosamente e em segredo aos prazeres proibidos, à margem da lei, que o Estado se glorifica de personificar.” “Esta hipocrisia é o produto inevitável da educação espartana, que não se baseia na convicção interior do Homem, mas numa rotina imposta à força. É a seqüela da carência de uma cultura verdadeiramente musical, que vem sempre unida à razão e à ânsia de saber.”
MÉTODO ANTI-HISTÓRICO: “Em toda esta parte da República, Platão invoca de novo o princípio fundamental a que o filósofo da paideia se deve ater: o método de fazer ressaltar o típico. O homem espartano (…) é, por isso, uma invenção platônica.”
TODO VALOR-BASE (VALOR DOS VALORES) IMPLICA UMA HIERARQUIA, E UMA HIERARQUIA, A ASSUNÇÃO DE UMA PERSPECTIVA: “Para Platão, o tipo representa a personificação de um valor ou de uma determinada fase de valor.” Enquanto, inversamente, na modernidade, o tipo-ideal de Weber, p.ex., pretende-se axiologicamente neutro.
“autárquico, amigo das musas, embora de per si bem pouco musical; amigo de ouvir, mas perfeitamente incapaz de falar. É áspero para os escravos: ‘em vez de ser indiferente para com os escravos, como é o homem realmente culto.’ (Rep., 549 A 2)”
“é obediente aos superiores, mas cobiçoso de poder e desejoso de se distinguir.” “Talvez despreze o dinheiro na juventude, mas, à medida que envelhece, vai nele se instalando a avareza.” “Talvez tenha um pai excelente que vive num estado mal-governado, o que o leva a se conservar o mais afastado possível das honras e dos cargos, e a velar um pouco o seu brilho, para não atrair sobre si atenções demais. Mas a mãe é uma mulher ambiciosa, que se sente insatisfeita com a posição ocupada na sociedade pelo marido. (…) Aborrece-a também que ele não a tenha em maior estima, e se limite a prestar-lhe a atenção estritamente necessária. Tudo isso a leva a inculcar no filho a idéia de que o pai é pouco viril e é preguiçoso, e todas aquelas coisas que as mulheres sempre dizem dos maridos deste tipo.¹ Também os escravos ganham suas simpatias, dizendo-lhe ao ouvido que o seu pai não é tão respeitado como devia ser, porque as pessoas como ele são consideradas palermas. Deste modo, a alma do filho é seduzida e arrastada, pois, enquanto o pai ‘rega’ e fortalece nele a parte racional da alma, as demais pessoas que o cercam estimulam nele a parte ambiciosa e impulsiva”
¹ Preconceito sexista?
“O que essencialmente interessa a Platão, no seu estudo comparativo das diversas constituições, é captar estas diferenças típicas de estrutura do homem individual em cada uma das diferentes formas de Estado.”
“O mais provável é que a sua análise do homem espartano fosse escrita um pouco antes da bancarrota do poder de Esparta, que ninguém esperava.”
“seu Estado educacional, longe de representar o ponto culminante do império espiritual do ideal espartano, é de fato o golpe mais rude vibrado neste ideal.” “em Platão (…) a Esparta real desce das alturas de um ideal absoluto para a categoria da melhor das formas imperfeitas do Estado.”
“É pela tirania que Platão sente a aversão mais profunda. Mas este sentimento fundamental, que parece ligá-lo à democracia clássica, separa-o, na realidade, desta forma de regime do seu tempo.” “Entre a liberdade e a escravidão não é só uma antítese que existe, pois os extremos às vezes se tocam”
“A oligarquia é, por assim dizer, uma aristocracia baseada na crença materialista de que é a riqueza que constitui a essência da distinção.”
“a falta de disposição dos ricos de contribuírem para os encargos da guerra.”
“Ao chegar aqui, deparamos com uma reflexão muito detalhada sobre questões econômicas, a que não se deu importância nenhuma ao traçar a estrutura do Estado perfeito, porque este se preocupava exclusivamente com a missão educacional e deixava de lado todo o resto. Platão estabelecerá mais tarde nas Leis, de modo positivo e de forma legal, o que aqui expõe de forma crítica e de passagem, no plano dos princípios.”
“a evolução operada no jovem” “Mata na alma a ambição em que o pai o educara e com ela a parte egoísta e impulsiva da qual brotam todos os atos ambiciosos. Humilhado pela pobreza, dedica-se à poupança e ao trabalho, e vai juntando moeda após moeda.”
“‘democratas moderados’, chamados de ‘oligarcas’ pelos democratas radicais.”
“Platão domina maravilhosamente a arte de evitar a repetição pedante das mesmas idéias fundamentais em cada nova metabasis, ocultando-as por detrás de imagens que exprimem com grande força plástica as três partes da alma e as relações normais que entre elas devem existir.”
“o homem oligárquico: homem poupador, trabalhador, eficiente, que em sóbria disciplina submete todos os outros anseios à ânsia única de acumular dinheiro, que desdenha as formas belas e não tem o mínimo sentido para a cultura, para a paideia, como o prova o fato de ele eleger um cego, Plutos, para chefe do coro. A sua incultura (apaideusia) estimula nele os impulsos do zangão, os instintos do pobre e do delinqüente, nascidos da mesma raiz da cobiça de dinheiro.” “sabe comedir-se (…) por medo” “visto de fora, o homem de dinheiro aparece como um tipo extraordinariamente belo e correto, mas há nele muito de fariseu, pois essa classe de homens não conhece o que é a verdadeira virtude e a harmonia interior.”
“A existência de uma camada cada vez mais vasta de pessoas empobrecidas, exploradas pelos ricos, e o predomínio da usura e do juro acabam por se converter em causa de mal-estar e de perturbações sociais.” Quanta diferença para os tempos do “mercantilista” Montesquieu!
“Nunca o realismo platônico se eleva a tão grande altura como quando descreve a psicologia do homem simples que, queimado pelo sol, nervoso e musculado, luta na guerra ao lado de um daqueles homens ricos, a quem vê debater-se, impotente, sob a gordura inútil”
“Num abrir e fechar de olhos o Estado oligárquico desaparece e se instala a democracia.”
NASCE O LUGAR DE FALA: “Todos os cidadãos alcançam direitos iguais e os cargos são preenchidos por sorteio. É este traço, para Platão, a verdadeira característica essencial da democracia”
“De um ponto de vista histórico, confunde-se aqui um fenômeno degenerativo com a própria essência da coisa, pois os próprios criadores da democracia ateniense coincidiram na crítica à mecanização da idéia de igualdade, tal como ela se manifesta na provisão de cargos por sorteio.”
“No Menexeno,¹ seguindo a velha prática das orações fúnebres dos guerreiros, Platão exalta os méritos da democracia, por ter salvo a nação nas guerras pérsicas; mas na República não se faz nenhuma alusão a eles.”
“a idéia do dever de prestar contas, que é, segundo Os Persas de Ésquilo, o que distingue a forma de Estado ateniense do despotismo asiático.”
“O indivíduo triunfa no seu caráter fortuito, naturalista; mas é precisamente isto que faz com que ‘o Homem’ e a sua verdadeira natureza sejam preteridos. Esta emancipação do indivíduo prejudica tanto o Homem como o sistema da coação e da disciplina exagerada que oprime o indivíduo. O que Platão descreve como o homem democrático é o que hoje chamaríamos de tipo individualista, que, tal como o tipo ambicioso, o avarento e o tirânico, surge efetivamente em todas as formas de Estado, mas constitui um perigo especial para a democracia.”
“Platão acha duvidoso o valor desta liberdade porque todo mundo a goza.”
“essa é a tua opinião, mas a minha é outra. Ao chegar aqui, o educador, que nesta atmosfera de incontrolabilidade sente-se como poderia sentir-se o peixe na terra seca, entra em choque com a tolerância política, que prefere escutar uma opinião insensata a reprimi-la pela violência.”
“Aquele que se vir destituído do seu cargo pela lei ou por uma decisão judicial, continua apesar disso a governar,(*) [pelo dinheiro] sem que ninguém lhe impeça. O espírito da tolerância impera aqui sobre a justiça.
(*) Rep. 557 E.”
“Por sua vez, são os próprios patrióticos guardas desta constituição ateniense que mais tendem a censurar estes defeitos do sistema, embora não se mostrem dispostos por isso a renunciar a suas vantagens.”
“Enviam para o exílio o respeito (aidos), o qual chamam de tolice, e procedem à troca de nomes de todos os conceitos de valor. À prudência chamam agora falta de virilidade, à moderação e à ordem, mesquinhez inculta; e desterram dali todas as virtudes. Sob roupagens sedutoras, entronizam entre gritos de louvor tudo o que é contrário ao que elas representam, e chamam a anarquia de liberdade, a dilapidação dos bens do Estado de magnanimidade, e a desvergonha de valentia.”
“TUCÍDIDES, III, 82, 4. Tal como aqui Platão, também ISÓCRATES no Areopagítico, 20, está evidentemente influenciado pela análise das crises políticas e dos seus sintomas em Tucídides. Esta teoria das crises adaptava-se magnificamente à concepção médica que Platão tinha dos fenômenos que se processavam no Estado e na alma dos indivíduos. Já acima, p. 452s., mostramos, à luz do exemplo do problema da causa da guerra, quanto estava o próprio pensamento de Tucídides fortemente influenciado pelo modelo da Medicina. Um novíssimo rebento do ponto de vista de Tucídides é a teoria das crises políticas que Jacob BURCKHARDT sustenta nas suas Weltgeschichtlichen Betrachtungen.”
“Fiel a sua premissa, atribui ao homem democrático como tal a culpa exclusiva do que o historiador apresenta para a Grécia inteira como conseqüência deplorável da guerra do Peloponeso.”
“Tão cedo viverá entre canções e vinho, como beberá água e emagrecerá; tão cedo se dedicará ao esporte como se sentirá mole e inativo ou entregue apenas aos interesses espirituais. Às vezes lança-se na política, levanta-se e fala, outras vezes retira-se para o campo, por achar formosa a vida rural, ou então dedica-se à especulação. A sua vida carece de ordem, mas ele a chama de vida formosa, liberal e feliz. Este homem é uma antologia de diversos caracteres e alberga um tesouro de idéias que se excluem uns aos outros.
A valorização platônica do homem democrático é absolutamente determinada pela conexão psíquica direta entre este tipo e as origens da tirania. É certo que a tirania é aparentemente a forma que mais se aproxima do Estado que Platão considera melhor. Tal como a monarquia do sábio e justo assenta no império de uma só pessoa.”
“é apenas a forma da concentração e da unidade suprema de uma vontade, que tanto pode ser justa como absolutamente injusta. A injustiça é o princípio em que se baseia a tirania. Este antagonismo que se encerra sob uma forma exteriormente semelhante converte a tirania na caricatura do Estado ideal, para Platão, e a aproximação dela é o critério do mal. A tirania se caracteriza por um máximo de falta de liberdade. E é precisamente isso que explica que ela provenha da democracia, um regime que outorga um máximo de liberdade, visto que a exaltação extrema de qualquer estado de coisas, ao tornar-se um exagero, faz com que ele se transforme no contrário.” “Esta explicação médica do processo político baseia-se, naturalmente, na experiência do último quarto de século transcorrido desde a guerra do Peloponeso. A tirania antiga surgira com a passagem da aristocracia à democracia; a chamada tirania nova, do tempo de Platão, era a forma típica de liquidar a democracia, na altura em que esta chegava à fase mais radical e já irreversível da sua evolução.”
“Para impedir esta passagem, a República romana chegou até, em épocas difíceis, a realizar a tentativa vitoriosa de converter em instituição legal da democracia o império de um único indivíduo, durante um período limitado: era este, com efeito, o significado do cargo de ditador.”
“É certo que a teoria platônica das passagens de umas formas de Estado para outras não pretende apresentar nenhuma sucessão histórica; mas, pela maneira como apresenta a crise da liberdade, é o futuro de Atenas que Platão encara nos anos da última reintegração aparente que estava reservada a sua cidade. Talvez a história tivesse realmente seguido este caminho durante mais ou menos tempo, se o Estado ateniense pudesse continuar a se desenvolver, sujeito a meras leis internas. A tirania, porém, não surgira no próprio seio da democracia, mas seria imposta a ela por uma potência externa.”
“Os pais adaptam-se ao nível da idade infantil e têm medo dos filhos; estes portam-se como adultos prematuros e pensam como velhos. Não sentem o mínimo respeito pelos pais nem dão guarida a nenhum sentimento de pudor, já que ambas as coisas chocariam o seu sentimento da verdadeira liberdade. Pessoas estranhas e estrangeiras arrogam-se a mesma posição que se fossem cidadãos do Estado, e os cidadãos vivem dentro do Estado desinteressados dele, como se fossem estrangeiros.” “Entre os jovens reina um espírito de maturidade próprio da velhice, ao passo que entre os velhos está na moda o espírito juvenil e nada se evita com tanto cuidado como a aparência de dureza e de rigor ‘despótico’.” Nada parece resumir com mais franqueza a impressão que tenho dos meus anos 2005-2016.
“Parece-lhe que em nenhum lugar como no Estado democrático os cães, os burros e os cavalos andam com tanta liberdade, com tanto desembaraço e com tão grande sentimento de si próprios. Parecem querer dizer a todos os que encontram na rua: se você não sair da frente, não sou eu que vou lhe dar passagem.” O acabamento da Antropologia pede a supremacia da Veterinária.
“Os zangões, cujo efeito pernicioso já pudemos observar no Estado oligárquico, são igualmente na democracia os germes das doenças que põem em perigo a vida coletiva. Um sábio apicultor elimina-os a tempo, do povo, a fim de salvar o conjunto da colméia. Os zangões são os demagogos que falam e atuam na tribuna, enquanto a massa zumbe a sua volta e não consente que ninguém exteriorize uma opinião diferente. O mel é a fortuna dos ricos e constitui o verdadeiro alimento dos zangões. A massa da população politicamente inativa, que vive do trabalho das suas mãos, não possui nada de grande, mas é chamada a decidir nas assembléias, e os demagogos pagam-lhe com um pouco de mel, quando ela se decide a confiscar a fortuna dos ricos; mas é para si próprios que os zangões guardam a maior parte dessa fortuna. Os abastados lançam-se na política para se defenderem com as únicas armas eficazes dentro do Estado. [as palavras] Por outro lado, porém, a sua resistência é interpretada como um grito de combate e a massa confere ao seu chefe poderes ilimitados. E assim nasce a tirania.” Perfeito.
“Para proteger a vida, cerca-se de uma guarda pessoal que deliberadamente lhe entrega a multidão, a qual é suficientemente tola para se preocupar mais com ele do que consigo própria.”
“Começa a agir como amigo do povo e seduz todo mundo com o seu trato afável. Nega que o seu governo tenha algo de comum com a tirania e faz ao povo grandes promessas” “Mas, para se tornar indispensável como chefe, vê-se forçado a procurar pretextos contínuos para realizar empreendimentos bélicos. Isto vai pouco a pouco atraindo sobre ele o ódio cada vez maior do povo, e as críticas sobem mesmo aos lábios dos seus sequazes mais fiéis e dos conselheiros mais chegados, os quais o ajudaram a subir ao poder e hoje ocupam elevados postos. E não tem outro remédio senão afastá-los todos, se quiser manter o seu poder. Os homens mais valentes, os mais puros e os mais sábios vêem-se obrigados a tornarem-se seus inimigos”
“E para poder sustentar um séquito tão grande, precisa praticar mais um desacato: o confisco dos bens sagrados para o Estado. Finalmente o povo repara no que criou. Para fugir da sombra da escravidão que receava da parte de homens livres, caiu num despotismo entregue em mãos de escravos.”
“Platão é o pai da psicanálise. É ele o primeiro que desmascara a monstruosidade do complexo de Édipo, a volúpia de se unir sexualmente à própria mãe, como sendo parte do eu inconsciente, que ele traz para a luz por meio da investigação das experiências dos sonhos; e apresenta ainda toda uma série de recalcados complexos de desejos análogos a este, que vão até o comércio sexual com os deuses,¹ a sodomia e o simples desejo de matar. Rep. 571 C-D” O leitor do século XX é mesmo um imbecil! O lado esclerosado de Platão, no que se refere à homofobia de um ateniense. (!!) Chega a ser incrível cunhar a frase. Curioso, aliás, como a sodomia faz Grécia e “Israel” confluírem.
¹ Ao quê isso hoje se equipara? Ex-Big Bosta Brasil, Anitta?…
LEI SOCIOLÓGICA: Quanto mais homofobia, mais gays. A sina LGBT.
SÓCRATES NA CELA (FÉDON): “Assim como, na sua opinião, é no irracional que se preforma o racional, também é no inconsciente que o irracional se forma. Da descoberta platônica das conexões existentes entre a vida dos sonhos e os atos do homem desperto tira Aristóteles sugestões importantes para as suas investigações sobre os sonhos; mas as investigações aristotélicas têm mais um caráter de ciências naturais” Não diga! E por isso não chegam a conclusão alguma. Bom, pelo menos ele tampouco inventa conclusões, como Freud!
“Esta pedagogia do sono teve grande influência nos últimos tempos da Antiguidade.” “Não é moral, mas dietética, a receita que Platão dá à alma para o sono.”
“O exemplo que nos 4 casos apresenta para pôr em destaque a deterioração da fase seguinte é o de um jovem que forma as suas opiniões e os seus ideais em oposição com os do pai.” “À medida que o pai exagera unilateralmente a sua tendência para o ideal que persegue, tendência legítima dentro de certos limites, a resistência natural da juventude perante os velhos, a qual se agita na alma do filho, vê alimentada a sua repugnância contra a adaptação integral ao tipo paterno da arete.”
“tanto na alma como no Estado, o que fomenta a anarquia é o problema dos desempregados.”
“A experiência mostra que a essência do tirânico está sempre associada principalmente a 3 forças psíquicas de destruição: o erotismo, o alcoolismo e a depressão maníaca. É quando o homem se torna, por predisposição, por hábito ou pelas duas coisas ao mesmo tempo, alcoólico, erótico ou melancólico, que a alma tirânica surge.”
“Eros, o grande tirano, arrasta-o a todas as loucuras”
“o tirânico existe em todos os tamanhos, desde o pequeno ladrão e salteador até o homem que as pequenas almas de tirano conseguem elevar ao poder supremo do Estado (…) Finalmente, repete-se numa fase superior o mesmo espetáculo de violência que a princípio o pequeno tirano dava em relação ao pai e à mãe e que agora o tirano grande faz contra a sua pátria-mãe e pai.”
“Dáimon é o deus na sua ação e significado voltados para o Homem.”
“Existem em grego várias palavras para exprimir o que nós chamamos ‘vida’: aion designa a vida como duração e tempo delimitado de viver; zoe significa antes o fenômeno natural da vida, o fato de estar vivo; bios é a vida considerada como unidade de vida individual, a que a morte põe termo, e também como subsistência: é, por conseguinte, a vida enquanto qualitativamente distinta daquela de outros seres humanos.”
“São como os gregos que, às portas de Tróia lutavam pela recuperação de Helena sem saberem que a Helena de Tróia não passava de uma imagem enganosa e que, como conta Estesícoro, a verdadeira Helena se encontrava no Egito.” “E Platão leva tão longe o seu jogo irônico que determina as distâncias relativas a que os tipos de Homem correspondentes às diversas formas de Estado se encontram do verdadeiro prazer, calculando que o tirano vive 729 vezes menos agradavelmente que o homem platônico.”
“O leão é o Homem considerado como ser temperamental, com os seus sentimentos de cólera, de pudor, de coragem, de entusiasmo. Mas o verdadeiro Homem, ou o Homem no homem, como este novo conceito é maravilhosamente explicado na alegoria platônica, é a parte espiritual da alma.”
“Platão pediu-nos que o acompanhássemos na descoberta do Estado, e em vez dele descobrimos o Homem. Quer o Estado ideal seja realizável no futuro, quer seja irrealizável, podemos e devemos construir sem cessar o ‘Estado em nós’.” “este é o maior de todos os paradoxos forjados pelo pensamento de Platão.”
“Na luta pela renovação da polis, esta renovação do próprio indivíduo era originariamente concebida como o germe de uma nova ordem universal. Porém, a interioridade da alma revela-se por fim como o último refúgio da inquebrantável vontade normativa do antigo homem da polis grega, que soubera construir outrora a cidade-Estado, mas que agora já não encontra no mundo nenhuma pátria.”
“A seriedade com que nos tempos primitivos e no período clássico do Helenismo tinham sido concebidas as relações entre o indivíduo e a comunidade pareceu durante muito tempo traduzir-se num entrelaçamento sem par da vida do indivíduo com o espírito da polis. Do ponto de vista de Platão, contudo, compreendemos que precisamente este entrelaçamento total, caso se leve a cabo coerentemente, nos faz sair fora da esfera terrestre do Estado e nos eleva ao único mundo onde real e verdadeiramente pode imperar: o mundo divino.”
3.12 A República – III
“como costuma acontecer em Platão, o problema da forma implica um profundo problema filosófico”
“Na educação posterior dos governantes, baseada já num saber puramente filosófico, a poesia e a cultura musical não desempenham papel importante, razão pela qual Platão não teve até agora ocasião de dizer a sua última palavra acerca da missão educativa da poesia, do ponto de vista da Filosofia, i.e., do puro conhecimento da verdade. (…) Portanto, justifica-se absolutamente que Platão examine uma vez mais, sobre esta base, a questão da poesia.”
“esta última batalha decisiva entre a Filosofia e a poesia. (…) Do ponto de vista ‘moderno’, que encara a poesia como simples literatura, é difícil de compreender esta exigência, que parece uma ordem tirânica, uma usurpação de direitos alheios. Mas, à luz da concepção grega da poesia como representante principal de toda a paideia, o debate entre a Filosofia e a poesia tem necessariamente de recrudescer no momento em que a Filosofia ganha consciência de si própria como paideia e por sua vez reivindica para si o primado da educação.
Este problema converte-se forçosamente num ataque a Homero, entre outras coisas porque todos amam este poeta, e portanto se compreenderá melhor quanto é sério o problema levantado, se o ataque incidir sobre ele, o poeta por antonomásia. (…) Dissuadiram-no até agora de professar publicamente estas opiniões uma timidez e um respeito santos para com o poeta, sentidos desde criança.”
“É contra a poesia trágica que é dirigida a força principal do ataque, pois é nela que se manifesta mais vigoroso o elemento ‘patético’ impulsionador da ação que a poesia exerce sobre a alma.”
(*) “A descrição que em Íon, 531 C, Sócrates faz do conteúdo tão complexo do mundo das idéias homéricas parece muito com a de Rep., 598 E.”
“Ainda na obra de Plutarco sobre a vida dos poetas, pertencente à época imperial, deparamos com igual feição realístico-escolar de considerar a poesia homérica a fornte de toda a sabedoria.”
“Encontramo-nos aqui numa viragem da história da paideia grega. A luta trava-se em nome da verdade contra a aparência. (…) E como nunca nem em parte alguma, talvez, se poderá vir a realizar o Estado ideal, como Platão acaba de declarar, o repúdio da poesia não significa tanto o seu afastamento violento da vida do Homem, como uma delimitação nítida da sua influência espiritual para quantos aderirem às conclusões de Platão. A poesia estraga o espírito dos que a ouvem, se eles não possuírem o remédio do conhecimento da verdade. Isto quer dizer que se deve fazer descer a poesia para degrau mais baixo. Continuará sempre a ser matéria de gozo artístico, mas não lhe será acessível a dignidade suprema: a de se converter em educadora do Homem.” Terá sido fortuito meu gosto pela poesia ter despertado apenas mais tarde?
ATRÁS DO FILÓSOFO E DO MÚSICO: “a relação que existe entre a poesia e a verdade e entre a poesia e o Ser.” “Tal como alguém que pretendesse criar um segundo mundo, colocando a imagem deste no espelho, assim o pintor se limita a traçar a simples imagem refletida das coisas e da sua realidade aparente.” “O pintor é, assim, o criador imitativo de um produto que, à luz da verdade, ocupa o terceiro lugar. O poeta pertence à mesma categoria”
“só lhe interessa saber se possuía a arte política e se era realmente capaz de educar os homens. Pergunta ao poeta, como num exame com todas as regras, se alguma vez melhorou uma cidade ou aperfeiçoou as suas instituições, como os antigos legisladores, ou se ganhou uma guerra, ou se, como Pitágoras e os seus discípulos, ofereceu aos homens, na vida privada, o modelo de uma vida nova (bios). Mas é indubitável que nunca chegou a congregar em redor de si, como os sofistas, os mestres da educação contemporâneos, discípulos e seguidores dedicados a cantar-lhe a fama. Isso era, sem dúvida, uma sátira manifesta aos sofistas, que consideravam Homero e os poetas antigos como seus iguais” Séculos nos separam como se fosse ontem!
“A poesia é como o esplendor juvenil de um rosto humano, que em si não é belo e cujos encantos, por isso, desaparecem com a juventude.” Atribui à Poesia a crítica que Cálicles atribui à Filosofia.
“É a consciência profunda de que a poesia não é uma planta que floresça em qualquer estação, idéia que pela 1ª vez começa a desenhar-se no espírito grego.”
“A elevação do eu moral acima do Estado em decomposição, a substituição do espírito criador pela forma poética da criação, o retorno da alma a si própria, tudo isso são rasgos que só um gênio de primeira grandeza, como Platão, podia captar como visão de uma nova realidade.”
“A sua obra é o reflexo dos preconceitos e ideais dominantes, mas falta-lhe a verdadeira arte da medida, sem a qual não é possível sobrepor-se à aparência. Em todo este diálogo é notável a ironia de Sócrates, que veste as suas profundas reflexões com a conhecida roupagem pedante e deixa ao leitor muita coisa em que pensar, com a escolha dos exemplos das mesas e das cadeiras.”
“Mas a poesia coloca-se na fase infantil e, à semelhança da criança, que, ao sentir uma dor, leva a mão à parte dolorosa do corpo e chora, também ela acentua ainda mais o sentimento de dor que representa, imitando-a.”
“Oh, I can no more!” – quão insuportável se tornou ler Dumas Filho e Eça de Queirós!
“a parte passional da alma está sempre excitada e aparece sob múltiplas formas e, portanto, é mais fácil de imitar.” Um ator mediano não seria capaz de imitar o “ébrio contido”, tal qual Sócrates no Banquete. Já Alcibíades é um tipo muito simples e acessível!
“Interessa-lhe um aspecto da alma diferente do psicofísico, interessa-lhe a alma como receptáculo de valores morais.”
“Tal como o Estado, também a alma do Homem não se mostra nunca sob a sua forma perfeita, quando encarnada na realidade terrena. Só a vemos no estado em que Glauco a pinta, no emergir da ressaca da vida, coberta de algas e de conchas, alquebrada e gerida aqui e ali, estragada pelas ondas, mais semelhante a um bicho do que ao seu verdadeiro ser.”
“A estrela polar do homem platônico já não pode ser a fama alcançada entre os seus concidadãos, como o fôra durante todos aqueles séculos de esplendor da antiga polis grega, mas apenas a fama peranteDeus.” O Homem ou representantes da arete.
“Faz uma tentativa audaciosa para conciliar a consciência moral do dever, que vive em nós, com a antiga e oposta fé grega no daimon, que encadeia magicamente todos os atos do Homem, desde o princípio até o fim. § A idéia da paideia pressupõe a liberdade de opção;(*) mas a ação do daimon pertence à esfera da ananke.
(*) (…) O conceito de opção em sentido ético, aparece desde muito cedo em Platão, relacionado com o problema da reta conduta (…) É sobre esta base que depois Arist. constrói na Ética a sua teoria da vontade.”
“O único saber com valor é saber escolher, pois dá ao Homem a capacidade de adotar a verdadeira decisão. É este o sentido do mito, que o próprio Platão explica.”
LIVRO QUARTO: O CONFLITO DOS IDEAIS DE CULTURA NO SÉCULO IV
“Este livro parte do mesmo ponto do que o precede, mas segue uma linha de desenvolvimento intelectual diferente. (…) O livro regressa na 2ª parte a Platão e estuda a fase posterior da sua carreira como filósofo.
4.1 A Medicina como paideia
“Pode-se afirmar sem exagero que sem o modelo da Medicina seria inconcebível a ciência ética de Sócrates, a qual ocupa o lugar central nos diálogos de Platão.”
“Apesar de tão evoluída, a Medicina dos nossos dias, fruto do renascimento da literatura médica da Antiguidade clássica na época do humanismo, é, pela sua especialização rigorosamente profissional, algo de totalmente distinto da ciência médica antiga.”
(*) “Anteriormente, ao contrário, era de Tales que se fazia partir a história da Medicina grega, de acordo com a teoria de CELSO (I Proem., 6), segundo a qual a filosofia onicientífica abarcava primitivamente todas as ciências. Isto é uma construção histórica romântica da época helenística.”
“A Medicina jamais teria conseguido chegar a ciência, sem as investigações dos primeiros filósofos jônicos da natureza”
(*) “J.H. BREASTED, The Edwin Smith Surgical Papyrus published in Facsimile and Hieroglyphic Transliteration with Translation and Commentary (2 vols, Chicago, 1930). Cf. Abel REY, La Science Orientale avant les Grecs (Paris, 1930) (…) MEYERHOF, ‘Über den Papyrus Edwin Smith, das älteste chirurgiebuch der Welt’in Deutsche Zeitschrift für Chirurgie, t. 231 (1931), pp. 545-90. »
“Aos médicos egípcios não faltava por certo especialização, muito acentuada entre eles, nem empirismo. A solução do enigma não pode ser mais simples: reside pura e simplesmente no fato de aqueles homens não terem do conjunto da natureza o ponto de vista filosófico que os jônios tinham. Sabemos hoje que a Medicina egípcia já era bastante forte para superar a fase de magia e de bruxaria que a metrópole grega ainda conheceu no mundo arcaico que rodeava Píndaro.”
“Quando um médico [todos os profissionais eram peripatéticos, ambulantes] chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posição que ela ocupa em relação às várias correntes de ar e ao curso do Sol … assim como anotar o que se refere às águas … e à qualidade do solo … Se conhecer o que diz respeito à mudança das estações e do clima, e o nascimento e o ocaso dos astros … conhecerá antecipadamente a qualidade do ano … Pode ser que alguém julgue isto demasiadamente orientado para a ciência, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a Astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudança nas doenças do homem está relacionada com a mudança do clima.”Hipócrates,Dos Ventos, Águas e Regiões
“É o mesmo espírito da filosofia milesiana da natureza que inspira as memoráveis palavras do ensaio Da Doença Sagrada (a epilepsia), as quais asseveram que a dita enfermidade sagrada não é nem mais nem menos divina que outra qualquer e depende de causas naturais, como as restantes. Todas as doenças são divinas e humanas. (ver especialmente caps. I e XXI).”
“As mais recentes investigações científicas a eles consagradas provaram em grande parte que os escritos que formam esta coleção – os quais se contradizem mutuamente em muitos trechos e até se combatem – não podem provir do mesmo autor, conclusão a que já a filologia hipocrática da Antiguidade havia chegado. Esta filologia, tal como a dedicada a Aristóteles, surgiu como fenômeno concomitante do renascimento espiritual daqueles dois grandes mestres do período helenístico e existiu enquanto permaneceram de pé a cultura grega e a ciência médica, como parte integrante dela. Os extensos e eruditos comentários de Galeno às obras de Hipócrates e todo o resto que nos chegou fragmentado ou na integridade – contribuições lexicográficas e outros escritos acerca daquele autor – e que é proveniente de uma etapa posterior da Antiguidade, põem-nos diante dos olhos uma imagem daquelas investigações eruditas que infunde respeito pela sua ciência e pela sua capacidade; mas ao mesmo tempo ficamos céticos perante a sua confiança excessiva em poder tornar a descobrir o autêntico Hipócrates, entre a massa dos escritos hipocráticos.”
“É o mesmo fenômeno com que deparamos quando se trata de pôr em ordem a herança literária dos chefes de grandes escolas filosóficas, como Platão(*) e Arist., embora em menor grau do que no caso de Hipócrates.
(*) (…) Henri ALLINE, Histoire du Texte de Platon (Paris, 1915)”
“O ‘juramento’ hipocrático, que deviam prestar os que queriam ingressar na agremiação, continha entre outras a obrigação solene de guardar o segredo da doutrina. Era geralmente de pais a filhos que ela se transmitia, uma vez que estes podiam suceder àqueles no exercício da profissão. As pessoas estranhas, ao serem aceitas como discípulos, eram equiparadas aos filhos. Em troca, obrigavam-se a transmitir gratuitamente a arte médica aos filhos que o seu mestre deixasse ao morrer. Outro traço muito típico era também o de os discípulos se casarem, tal como os aprendizes, dentro da corporação. Do genro de Hipócrates, Polibo, expressamente se nos diz que era médico. Por acaso é o único membro da escola de Cós de quem Arist. cita nominalmente uma pormenorizada descrição do sistema circulatório.”
“na profissão médica é tão forte ainda a solidariedade grupal que na prática profissional não é corrente frisar a paternidade individual de determinadas idéias e doutrinas. Era evidentemente na exposição oral dos ensinamentos perante o grande público que o médico investigador expunha em seu próprio nome as suas idéias pessoais.”
“está comprovada pelas investigações do século passado a existência de uma escola médica em Cnido (Ásia Menor) e de outra escola grega ocidental, siciliana.”
“…a progressiva tecnicização da vida e a diferenciação em profissões mais especializadas, para as quais se requer uma formação especial com altas exigências espirituais e éticas, mas só acessível a um reduzido número de pessoas. É significativo que as obras dos médicos falem muito de leigos e de profissionais. É uma distinção prenhe de conseqüências, que encontramos pela 1ª vez. A palavra leigo provém da linguagem da Igreja medieval e nas suas origens servia para designar os não-clérigos e mais tarde, em sentido lato, os não-professos; em contrapartida, o termo grego idiotes, que exprime a mesma idéia, tem origem político-social. Designa o indivíduo que não está enquadrado no Estado e na comunidade humana, mas vive a seu bel-prazer. Em oposição a ele, o médico sente-se um demiurgo, i.e., um homem de ação pública, nome também dado, aliás, a qualquer artífice que se dedique a produzir roupas ou ferramentas para o povo. Os leigos, encarados como objeto da atividade demiúrgica do médico, costumam também ser designados por membros do demos.”
“O médico grego partilha com o artista a carência de um nome que diferencie das atividades do artífice, em sentido moderno, a sua alta capacidade.”
“Quanto ao resto, as palavras citadas indicam desde logo que se sentia como problema a posição isolada, ainda que altíssima, que o novo tipo de médico ocupava no conjunto da comunidade.”
“Surge uma literatura médica especial, destinada a pessoas estranhas à profissão. Felizmente chegaram até nós os 2 gêneros de literatura, a profissional e a destinada ao grande público. É à 1ª que pertence a grande massa das obras médicas conservadas. Estas obras não podem ser aqui apreciadas, porque o nosso interesse incide primordialmente na 2ª classe.”
(*) “Importa distinguir as conferências iatro-sofistas sobre temas genéricos, em prosa retórica, dos escritos redigidos em forma sóbria e objetiva, dirigidos igualmente ao grande público, como as obras Da Medicina Antiga, Da Doença Sagrada e Da Natureza do Homem. Os 4 livros Da Dieta são também obra literária. Esta literatura destina-se ao ensino dos leigos e à própria propaganda, necessária num mundo onde ainda não existia uma profissão médica autorizada pelo Estado. Cf. De Vet. Med., 1 e 12; De Arte, 1; De Victu ac., 8.”
“É no jovem Eutidemo, que mais tarde se converteria em ardente partidário de Sócrates, que Xenofonte pinta este novo tipo de culto. Só tem interesses espirituais e já comprou uma biblioteca inteira. Compõem-na obras de Arquitetura, de Geometria, de Astronomia, e principalmente muitos livros de Medicina.”
“também dentro dos campos especiais existe indubitavelmente uma forma de homem culto que corresponde àquele tipo de homem de cultura geral.” ARIST., Part. An., I, 1, 639 a 1
“O conceito aristotélico de homem culto em matéria de Medicina ou de ciência natural é menos confuso que o tipo descrito por Platão e Xenofonte.”
“O aparecimento dessa esfera intermediária entre a ciência profissional e o campo do profano integral é um fenômeno característico da história da cultura grega do período pós-sofístico.”
“Hipócrates – diz-nos – ensina a perguntar sempre em 1º lugar se é simples ou multiforme a natureza do objeto acerca do qual queremos adquirir um verdadeiro saber e uma verdadeira capacidade e, no caso de ser simples, a continuar a investigar até que ponto é capaz de exercer influxo sobre outro objeto determinado ou de lhe sofrer a influência; se, pelo contrário, apresenta múltiplas formas ensina-nos a enumerar estas formas ou tipos e a verificar para cada uma delas o que verificaríamos se se tratasse de um objeto simples: como influi sobre os outros ou como é suscetível de por eles ser influenciado.”
“Arist. distingue essencialmente entre a educação individual e a coletiva, apoiando-se para isso no exemplo da Medicina.”
“bastará lembrar que para Arist. a ética versa sobre a regulação dos impulsos humanos do prazer e da dor.” “Por conseguinte, o comportamento moral é a tendência a concentrar-se no justo meio que para cada qual existe entre o excesso e o defeito. Os termos aqui usados por Ar., o conceito de excesso e de defeito, de ponto médio e de justa medida (…) e o do tato seguro, a recusa de uma regra absoluta e a exigência de uma norma adequada às características de cada caso concreto, são tudo termos e critérios tirados diretamente da [pior parte da] Medicina” “Ao tomarem por fundamento uma fase de conhecimento alcançada já num terreno paralelo, Platão e Ar. infundem a sua doutrina uma autoridade maior. Tudo está relacionado na estrutura da vida grega e uma pedra assenta sobre outra.”
“Ainda não se fez até hoje nenhuma tentativa sistemática para definir o conceito de natureza na antiga literatura médica dos gregos, apesar da importância que isso teria para toda a história do espírito no mundo de então e na posteridade.”
W. THEILER, Geschichte der Teleologischen Naturbetrachtung bis auf Aristoteles (Zurich, 1925)
A. BIER, ‘Beiträge Zur Heikunde’, in Münschener Medizinische Wochenschrift, 1931, nos. 9ss.
“Em oposição a Galeno, Hipócrates era considerado um empirista puro, e com isto julgava-se estabelecida a incompatibilidade do ponto de vista teleológico com Hipócrates. Este era reputado um dos grandes representantes antigos da atitude puramente mecânico-causal em face da natureza. (cf. GOMPERZ, Griechische Denker, t. I)”
“não nos espanta depararmos também com a palavra arete nas obras que condensam o pensamento médico antigo. Não é sob a influência de Platão que este termo penetra na Medicina. Pelo contrário (…) É especialmente nas doenças que na ação da natureza se revela a adequação a um fim. [que frase porcamente traduzida!] (…) Os sintomas da doença, e sobretudo a febre, representam já de si o início do processo de restabelecimento do estado normal. (…) o médico limita-se a averiguar onde pode intervir para ajudar o processo natural encaminhado à cura. A natureza a si própria se ajuda.O apressuramento da psyche em acudir à parte do corpo ferida – que Heráclito, frag. 67a, compara à precipitação da aranha em correr para o local da teia rasgada pela mosca – recorda a precipitação da natureza em acudir em auxílio do corpo, contra as doenças, segundo a doutrina dos hipocráticos. Este passo dá mais a impressão de uma teoria médica que de um aforismo de Heráclito.”
“É neste ponto que o moderno vitalismo introduz, como nível intermédio entre o consciente e o inconsciente, o conceito fisiológico de estímulo[,] fonte das reações teleológicas do organismo. Em Hipócrates este conceito não aparece ainda.”
“Embora a Medicina tentasse a princípio invadir o campo da ginástica, as obras dietéticas que se conservam atestam que não tardou a estabelecer-se uma divisão de jurisdições, em que o médico se submetia para certas coisas à autoridade do ginasta.”
“Perderam-se as obras mais antigas sobre higiene. Se o critério cronológico vigente fosse certo, disporíamos para a época dos fins do séc. V e começos do IV, em que se principiou a desenvolver este aspecto da cultura física grega, de 2 testemunhos, além do breve escrito De um Regime de Vida Saudável e 4 livros Da Dieta, obra famosa na baixa Antiguidade; e ainda os extensos fragmentos, conservados por escritores posteriores, da obra perdida do importante médico Díocles de Caristo.”
“Caráter totalmente diverso tem a obra verdadeiramente enciclopédica Da Dieta, que o autor empreendeu com o propósito de resumir e completar onde fosse preciso toda a literatura sobre o assunto, que já era muito copiosa na sua época. O autor é um filósofo e um sistemático, e caracterizá-lo-íamos com pouca justiça se o qualificássemos de simples compilador.É mais que duvidoso que as tentativas de análise desta obra, que até agora se fizeram e a retalharam para atribuir uns pedaços a um sofista heraclitizante, outros a um discípulo de Anaxágoras e outros ao dietético Heródico, representem a solução do enigma.” “Temos de nos decidir a situar Da Dieta não mais antes de começos do século, mas sim bem dentro, do séc. IV.”
“Um conhecido fragmento do dramaturgo Epícrates, procedente desta época, fala de algumas tentativas de classificação de todo o mundo animal e vegetal feitas na Academia, na presença de um médico siciliano, entre outros.” “Foi mais tarde, nas obras de Espeusipo e Aristóteles, que vieram à luz da publicidade as investigações da Academia sobre a classificação do reino animal e vegetal. O sistema do dietético apresenta certas semelhanças com os daqueles dois.”
“Os numerosos pontos de contato da sua interpretação casuística dos vários tipos de imagens projetadas nos sonhos com os livros de sonhos hindus e babilônicos de época anterior e posterior levaram já outros investigadores à conclusão de que estamos perante uma influência direta do Oriente na ciência médica dos gregos. Essa influência oriental pode ter-se produzido por si mesma também em época anterior. Mas em nenhuma época se enquadra melhor do que no séc. IV, na Jônia de Eudoxo de Cnido” “Os gregos não podiam ser acessíveis à sabedoria e superstição orientais sobre a vida dos sonhos, antes que a alma se convertesse para eles próprios no centro do pensamento, o que nesta forma científico-teórica não sucedeu antes do séc. IV.” “O escrito de Arist. ‘Da Profecia dos Sonhos’, chegado até nós, prova que o problema do valor de realidade dos sonhos reaparece no séc. IV já numa fase científica.”
“Também a linguagem Da Dieta encaixa melhor nos meados do que no começo do séc. IV ou em período anterior. Ainda se continuou a escrever em dialeto jônico ao longo de todo este séc., e os períodos construídos aqui e além, corretamente longos, antitéticos e isocóricos [simétricos, de dimensão e ênfase paralelas], indicam mais a época de Isócrates e da sua retórica que a de Górgias. Um estilo como o do dietético é inconcebível ao lado da redação perfeitamente despida de retórica e simplista das obras de medicina profissional que com certa segurança podemos situar na época de Hipócrates ou na geração posterior a ele. Diferem também consideravelmente das obras de uma época anterior, dirigidas a um vasto público e fortemente influenciadas pela prosa sofística.”
“Observamos primeiro a influência da antiga filosofia da natureza sobre a Medicina do séc. V e em seguida a repercussão da nova Medicina empírica sobre a filosofia de Platão e Aristóteles.Em Díocles, autor que se encontra visivelmente influenciado pelas grandes escolas filosóficas de Atenas, a Medicina volta a ser a parte que recebe, embora seja certo que não recebe nada sem contribuir por sua vez com alguma coisa.”
“a mais rigorosa de todas as ciências em matéria de provas, a Matemática, tem necessariamente que pressupor como fatores dados certas qualidades das grandezas ou dos números.”
“não estranha que os gregos, como todos os testemunhos o indicam, fossem grandes madrugadores. Não convém levantar-se logo depois do despertar, mas deve esperar-se que a lassidão do sono se dissipe dos membros, e em seguida friccionar a cabeça e o pescoço nos locais em que estiverem expostos à pressão da almofada. Antes de defecar, recomenda-se que se esfregue o corpo inteiro com um pouco de azeite misturado com água, no Verão. [!] Friccionar-se-á o corpo, de maneira suave e uniforme, fazendo funcionar ao mesmo tempo todas as articulações. O banho imediatamente após o levantar não é indicado. [!] Deve-se esfregar o rosto e olhos com água fria e límpida, lavando previamente as mãos. Segue-se a isto uma série de pormenores precisos sobre o cuidado dos dentes, do nariz, dos ouvidos, do cabelo e do couro cabeludo. Este último deve ser conservado elástico e limpo, para a transpiração, e ao mesmo tempo rijo. [?] Realizadas todas estas operações, aquele que tiver o que fazer dirigir-se-á ao seu trabalho, depois de ter comido alguma coisa. Quem dispuser de tempo para isso, deve dar um passeio, quer antes quer depois do desjejum, passeio cujo caráter e duração devem ajustar-se à constituição física e à saúde do indivíduo.”
“a pessoa deverá sentar-se para resolver seus assuntos domésticos ou para outras ocupações suas até à hora do exercício físico. Para a prática deste, os jovens irão ao ginásio e as pessoas idosas ou fracas aos banhos ou a qualquer outro local ensolarado para se friccionarem.” “É preferível que a própria pessoa se friccione a que se deixe massagear por outra, pois os próprios movimentos substituem a ginástica.” Curioso como terceirizaram tudo – da massagem à malhação!
“Aos cuidados matinais do corpo segue-se o almoço que deve ser muito leve e não-flácido, para que possa ser digerido antes da ginástica da tarde. [A sabedoria espanhola!] Para logo e depois do almoço está indicada uma breve sesta em local escuro, fresco e sem correntes de ar; em seguida, alguns trabalhos caseiros e um passeio e, por fim, após breve repouso, os exercícios físicos da segunda parte do dia. Este finda com a refeição principal. Díocles não fala dos diversos exercícios; e a literatura dietética não nos informaria acerca deste ponto, o mais importante da cultura física grega, se não fosse por intermédio do autor da obra Da Dieta, que, coerente com o seu método diferente de todos os outros, faz seguir a classificação das comidas e bebidas de uma enumeração de todos os tipos de esforços físicos e psíquicos, incluindo entre eles os exercícios gímnicos. [!] Díocles, por seu lado, exclui da dieta a ginástica, que deixa inteiramente a cargo do ginasta. Edifica, porém, todo o seu plano médico diário sobre os 2 pilares dos exercícios matinais e vespertinos, no ginásio.” Até mesmo o sr. Abílio Diniz leva uma vida de escravo!
Filosofar queima calorias?, eis a questão.
“Díocles, no entanto, repara naturalmente que não vive num mundo médico abstrato e por conseguinte não procede como se todos os homens vivessem exclusivamente preocupados com a conservação da saúde. O autor da obra Da Dieta compreende também este problema social e a necessidade de chegar a um acordo entre os princípios ideais do método e as condições materiais de vida do paciente.” “Em seguida, vai descontando coisas para os que também têm de trabalhar e dispõem de pouco tempo para dedicar aos cuidados do corpo. Não se deve, porém, pensar que os médicos gregos só escreviam para os ricos. Isto seria falso. Também os filósofos de então pressupunham um ócio total para o seu bios, deixando que cada qual descontasse deste ideal a parte necessária.”
“O exemplo da cultura física médica revela precisamente que a polis grega era, mesmo na sua forma democrática, uma aristocracia social” Uma Águas Claras pensante, sem carros, todos “tabeliães” de meio-período. Todos, i.e., 10% da população.
“Nenhum dos grandes tipos de vida profissional do nosso tempo, nem o comerciante nem o político, nem o cientista, o operário ou o camponês se enquadraria no âmbito deste estilo de vida da Grécia.”
“Seria um erro pensar que os kaloi kagathoi passavam todo o dia no ginásio, friccionando-se e fazendo exercícios, depilando-se e colorindo-se de areia, para voltarem a se lavar, devotados a uma atividade que até o agon livre convertia em febril trabalho especializado.”
“o conceito de são é ampliado até formar um conceito normativo universal aplicável ao mundo” “A Medicina grega é simultaneamente raiz e fruto desta concepção do mundo, que constitui o seu alvo constante” “Se a Medicina pôde conquistar uma posição tão representativa da cultura grega, foi por ter sabido proclamar no campo mais próximo ao da experiência imediata do Homem a vigência inviolável desta idéia fundamental da alma grega.” Ah, a barbárie!
4.2 A retórica de Isócrates e o seu ideal de cultura
“Isócrates, como mais destacado representante da retórica, personifica a antítese clássica do que Platão e a sua escola representam. A partir de então ressoa como nota fundamental através da história da cultura antiga o pleito da Filosofia e da retórica, cada uma das quais pretendendo ser a melhor forma de educação.”
(*) “H. Von ARMIN, Leben und Werke des Dion von Prusa (Berlim, 1898), pp. 4-114, faz um resumo histórico bastante completo da evolução desta polêmica.”
“Nas suas fases subseqüentes, o antagonismo degenera por completo, a espaços, numa luta puramente acadêmica, uma vez que ambas as partes carecem de autêntico conteúdo vital; na época em que o debate principia, elas representam ainda as forças e necessidades verdadeiramente motoras da nação grega e é no centro do palco da vida política que o seu diálogo se trava. É isto que lhe dá o colorido dos verdadeiros acontecimentos históricos e o grande estilo que lhe assegura o interesse permanente da posteridade; mais ainda: olhando para trás, reparamos que nesta luta ganham expressão os problemas verdadeiramente decisivos da história grega daquele tempo.
Tal como Platão, também Isócrates encontrou nestes últimos tempos admiradores e expositores; e a partir do Renascimento imperou, indiscutivelmente, mais que qualquer outro mestre da Antiguidade, na prática pedagógica do humanismo.Do ponto de vista histórico, é perfeitamente legítimo que o seu nome seja destacado nas capas dos livros modernos como o pai da ‘cultura humanística’, na medida em que não são os sofistas os que têm direito a reivindicar este título.”
(*) “Cf. o livro do discípulo de E. Drerup, August BURK, Die Pädagogik des Isokrates als Grundlegung des Humanistischen Bildungsideals (Würzburg, 1923), especialmente os capítulos sobre a ‘Sobrevivência da pedagogia isocrática’, pp. 199 ss., e ‘Isócrates e o humanismo’, pp. 221 ss.. Posteriormente publicaram-se 4 conferência de Drerup, com o título Der Humanismus in seiner Gecshichte, seinem Kulterwerten und seiner Vorbereitung in Unterrichtswesen der Griechen (Paderborn, 1934). Estudiosos britânicos como Burnet [op. cit.] e Ernest Barker chamam Isócrates de pai do humanismo.” Werner e esses autores seus contemporâneos devem ter influenciado Heidegger. Um assunto deveras simples, tratado em menos de 1500 páginas!
(*) “Isto visa igualmente àqueles que numa história da paideia exigem que se comece por definir o que se entende por tal. Era o mesmo que pedir ao historiador da Filosofia que se cingisse à definição de Platão, ou à de Epicuro, à de Kant ou à de Hume, cada um dos quais entendia por Filosofia uma coisa totalmente diferente. A missão de um livro de história sobre a paideia é descrever com a maior fidelidade possível, tanto na sua peculiaridade individual como na sua ligação histórica, os diversos significados, formas de manifestação e camadas espirituais da paideia grega.”
“Não deixa de ter importância saber que o que os educadores atuais consideram muitas vezes a essência do ‘humanismo’ é substancialmente a continuação da linha retórica da cultura antiga e que, na realidade, a história do humanismo chega infinitamente mais longe, pois abrange a totalidade das repercussões da paideia grega e, portanto, a ação universal da Filosofia e da ciência helênica.(*) Encarada desta forma, a consciência da autêntica paideia dos gregos converte-se diretamente na autocrítica do humanismo erudito dos tempos modernos.(**)
(*) Cf. sobre isso o meu ensaio ‘Platos Stellung in Aufbau der Griechischen Bildung‘ (Berlim, 1928), publicado pela 1ª vez em Die Antike, vol. IV, 1928, nos 1-2.
(**) (…) A habitual construção histórica do humanismo com as rígidas divisões de Idade Média e Renascimento, escolasticismo e humanismo torna-se insustentável (…) Non datur saltus in historia humanitatis.”
“O antigo dualismo helênico da educação gímnica acabou por descer finalmente para um nível inferior.”
UM POLEMISTA EXTEMPORÂNEO: “É possível que o amargor e o sarcasmo lacerante com que Platão a persegue sejam em parte explicáveis pelo peculiar sentimento do vencedor, quando se vê forçado a lutar contra um inimigo que, dentro dos seus limites, parece indomável. Torna-se difícil compreender a apaixonada atitude de Platão, se pensarmos que seus ataques se dirigem exclusivamente contra os grandes sofistas da geração de Sócrates, nos quais ele vê personificado aquele tipo de cultura: Protágoras, Górgias, Hípias e Pródico. Estes homens já estavam mortos e meio esquecidos, quando Platão escreveu os seus diálogos, pois vivia-se depressa naquele século; e era necessária toda a arte de Platão para arrancar ao reino das sombras, como por encanto, a ação exercida sobre os contemporâneos por aquelas figuras, outrora célebres.”
(*) “O Protágoras e o Górgias de Platão datam da 1ª década do séc. IV; em contrapartida, a fundação da escola de Isócrates não pode ser anterior ao ano 390, pois os discursos chegados até nós permitem-nos seguir as suas atividades de redator de discursos forenses por conta de outros até fins da referida década. E talvez até a devamos situar mais próximo de nós, na década de 80.”
(*) “Em Antídosis, 270, Isócrates reivindica o título de PHILOSOPHIA só para a sua obra, entendendo que os restantes educadores, dialéticos, matemáticos e os ‘tecnógrafos’ retóricos não têm direito a usá-lo.”
“Hoje, depois de se ter imposto, desde há bastantes séculos, o sentido platônico da palavra filosofia, parece pura arbitrariedade aquela inversão” “Era Isócrates quem se cingia à linguagem usual, ao incluir na categoria dos sofistas Sócrates e os seus discípulos, assim como Protágoras ou Hípias, empregando por outro lado o termo filosofia para designar todas as modalidades da formação geral do espírito, que é, p.ex., o sentido que também Tucídides lhe dá.” “Atenas fundou a cultura (PHILOSOPHIA), diz aqui Isócrates, referindo-se evidentemente, ao exprimir-se assim, ao caráter da coletividade e não ao punhado de sutis dialéticos que se agrupavam ao redor de Sócrates ou de Platão.”
(*) “BLASS assinala justamente que no tempo de Isócrates a palavra filosofia ainda significava cultura, razão pela qual nada tem de ridícula a sua pretensão de ensinar filosofia. Acha, porém, arrogância a pretensão de Isócrates a ser o único representante da verdadeira filosofia, i.e., da verdadeira cultura. Mas, no fim de contas, igual pretensão, de serem os únicos a ensinar a verdadeira cultura, tinham Platão e todas as outras escolas. Cf., p.ex., PLATÃO, Carta VII, 326 A; Rep., 490 A, etc.”
“Os retóricos e os sofistas dos diálogos de Platão carecem, logo de início, de razão contra Sócrates, pelo simples fato de serem estrangeiros e por não compreenderem de modo nenhum o verdadeiro problema deste Estado e dos seus habitantes. Aparecem, sempre, no mundo ateniense, tão fechado em si mesmo, com o seu saber já definido e importado de fora. (Cf. Platão Prot., 313 C ss.) É certo que falam uma espécie de linguagem internacional que qualquer homem culto pode compreender, mas falta-lhes o tom ateniense e a graça e a espontânea facilidade do trato, sem as quais é impossível conseguir um êxito completo neste solo.”
(*) “É duvidoso até que ponto merece crédito histórico a exposição de Platão no Fedro, quando põe na boca de Sócrates uma profecia sobre o grande futuro de Isócrates. Pode ser que não tivesse mais fundamento que uma impressão passageira causada ao velho Sócrates pelo jovem retórico. Não é forçoso que tal observação correspondia a um conhecimento íntimo, e muito menos a uma relação de discípulo a mestre. No entanto encontramos em Isócrates numerosos pontos de contato com o pensamento socrático, pontos que H. GOMPERZ, em ‘Isokrates und die Socratik’ (Wiener Studien, 27, 1905, p. 163 e 28, 1906, p. 1), estudou mais profundamente que ninguém. É com razão que sugere a hipótese de Isócrates dever os seus conhecimentos à literatura socrática, o que é abonado pelo fato de não se bater contra estas idéias antes da 2ª década do séc. IV, quando já ele próprio atuava como teórico da educação. Parece-me todavia que Gomperz exagera a influência de Antístenes sobre Isócrates.”
“Ele próprio conta que era um homem de constituição física fraca. Não só não tinha voz potente, mas sentia uma timidez invencível sempre que tivesse que falar em público. A massa como tal assustava-o. É evidente que, ao falar sem qualquer escrúpulo desta agorafobia, Isócrates não pretende desculpar apenas a sua abstenção completa de toda a atividade política, mas tem ainda a consciência de que esta disposição de espírito constitui um traço original, enraizado nas camadas profundas do seu ser. Tal como no caso de Sócrates, o seu afastamento da política não provém da falta de interesse, mas de uma problemática que, ao mesmo tempo, dificulta e aprofunda a sua compreensão da verdadeira missão do kairos. (…) é de outro ponto (…) que a obra de renovação deve partir.”
“Habitava-o um político sonhador, cujo pensamento, no fundo, seguia os mesmos trâmites do dos políticos de fato, guiado por idéias feitas de desejos, como as de poder, fama, prosperidade, expansão.”
“Platão censurava a retórica por ensinar apenas meios de persuasão, sem ser capaz de apontar nenhuma finalidade, razão pela qual só servia para fornecer aos homens armas espirituais para a consecução dos seus objetivos contrários à moral. Era um defeito inegável e constituía, além disso, para a retórica, uma fonte de perigos, numa época como aquela em que a consciência dos melhores se tornava cada vez mais sensível. Na sua orientação para a idéia pan-helênica viu Isócrates o caminho por onde se podia resolver também este problema. Tratava-se, por assim dizer, de encontrar um meio-termo (…) A nova retórica tinha de encontrar um objetivo que fosse eticamente defensável e suscetível, além disso, de aplicação política prática. Na sua opinião, era com uma nova ética nacional que isto se conseguiria.” A decadência e os nacionalistas. Ex: pan-eslavismo, etc.
“Não é raro que idéias, que o mestre concebe nos seus últimos anos e com as quais entusiasma os discípulos, definam para estes a orientação de toda a sua atividade.”
“Graças ao seu programa, os defeitos da sua própria natureza, tanto os do corpo como os do espírito e caráter, e ainda os da própria retórica, tornam-se quase virtudes ou pelo menos ganham a aparência de tais. Nunca o retórico, ideólogo e panfletista político voltaria a encontrar-se numa situação tão favorável nem a poder gabar-se de exercer uma influência semelhante sobre a nação inteira”
“Felizmente não foram poucas as vezes que ele se exprimiu acerca da sua arte e dos seus objetivos como educador, com aquele jeito consciente que lhe era próprio e que a cada passo se interrompia para refletir em voz alta sobre o que dizia e como e por que dizia; mais ainda, no início da sua carreira escreveu várias obras de caráter programático, para esclarecer bem a posição por ele ocupada entre os outros representantes da cultura do seu tempo.”
“Nada sabemos das razões nem da data da sua passagem da atividade de escritor de discursos (logógrafo, como p.ex. Lísias e Demóstenes,equivalente em certos aspectos à de um advogado, nos nossos dias) à de mestre de retórica.”
(*) “Os ‘discursos’ de Isócrates nunca foram pronunciados como tais. É pura ficção a sua forma oratória.”
(*) “Que o discurso Contra os Sofistas se deva situar no início da sua atividade docente o próprio Isócrates é quem o afirma em Antíd., 193. (…) julgo impossível evitar a conclusão de que o discurso Contra os Sofistas também ataca violentamente Platão, além de outros socráticos. Como obras suas anteriores pressupõe já o Protágoras e o Górgias, e talvez também o Mênon (…) A concepção de Muenscher, expressa na Realenziklopädie de Pauly-Wissowa (…) segundo a qual Isócrates, na época do discurso Contra os (…), se achava ainda identificado com Platão quanto ao essencial, não se fundamenta no próprio discurso (…) Esse falso ponto de vista deriva exclusivamente da localização demasiado remota do Fedro, onde Platão vê com melhores olhos Isócrates do que os retóricos do tipo de Lísias. A hipótese de sua origem imediatamente posterior ao discurso Contra os (…) levar-nos-ia necessariamente a interpretar este discurso como pró-Platão, o que forçaria a verdade.”
“E tinha de fato de parecer necessariamente estranha a mudança da atitude socrática de dúvida acerca da existência de algo que se pudesse chamar educação para o pathos pedagógico dos primeiros diálogos platônicos.” “Ele próprio pretende, naturalmente, ser um educador, mas mostra certa compreensão pelos profanos que preferem não ouvir falar de educação para nada, a confiarem nas promessas dos ‘filósofos’.”
(*) “Segundo a maior probabilidade, foi a confusão entre a sua dialética e a erística – que na polêmica de Isócrates era firmemente mantida – que levou Platão a traçar no Eutidemo uma linha divisória nítida entre Sócrates e os espadachins erísticos. (…)”
“Todos os traços característicos do platonismo que são evidentes para uma inteligência mediana são aqui habilmente resumidos em pouco espaço: o estranho método polêmico das perguntas e das respostas; a importância quase mística atribuída à phronesis, i.e., ao conhecimento dos valores, qual órgão especial da razão; o vigoroso intelectualismo, que espera toda a salvação do saber, e a quase religiosa transcendência da promessa de eudaimonia feita pelo filósofo. Isócrates refere-se, evidentemente, às características terminológicas do novo estilo filosófico, características que ele sabe captar com a fina intuição do conhecedor da língua para descobrir o que deverá chocar ou parecer ridículo à maioria das pessoas cultas”
“os regulamentos da Academia exigem que os honorários sejam de antemão depositados num banco ateniense.” “É um argumento [isocrático] que parece de mau gosto mas que não deixa de ser engenhoso. Também Platão no Górgias argumentava maliciosamente e em termos parecidos contra os retóricos que se queixavam de que os seus discípulos abusavam da arte oratória, sem verem que com isso era na realidade a si próprios que acusavam, pois, se fosse certo que a retórica tornava os discípulos melhores, seria inconcebível que estes abusassem do que tinham aprendido.”
(*) “(…) O Górgias é agora unanimemente situado, e por motivos convincentes, na segunda metade da 1ª década do séc. IV (…)”
(*) “Devia ser mais aplicável a Antístenes do que a Platão a censura referente aos escassos honorários que os filósofos recebiam dos seus alunos; é, porém, muito pouco o que sabemos acerca destas coisas, para podermos emitir um juízo seguro. (…) Sobre os honorários dos socráticos, veja-se DIÓGENES, II, 62, 65, 80 e IV, 14.”
“Nenhum domínio da vida tolera menos do que este a redução de todos os casos concretos a uma série de esquemas e formas fundamentais fixas. Platão dá o nome de idéias a estas formas fundamentais no campo das manifestações lógicas. Como vimos, foi da Medicina do seu tempo que ele tirou esse tipo de intuição plástica e o transpôs para a análise do Ser.”
(*) “É no Crátilo, no Teeteto, no Político e nas Leis que Platão compara as suas ‘idéias’ às letras do alfabeto.”
“Em princípio, Isócrates não repele, nem de longe, a possibilidade de uma teoria retórica das idéias: as suas obras revelam que se ia aproximando cada vez mais dela e que edificava a sua oratória, em todos os aspectos, nas linhas do domínio destas formas fundamentais da oratória.”
“Numa palavra: a arte oratória é criação poética. Não pode prescindir [d]a técnica, mas tampouco se pode deixar absorver por ela. E assim como os sofistas se julgavam os verdadeiros continuadores dos poetas e adaptaram o gênero deles a sua prosa, também Isócrates tem consciência de continuar a obra dos poetas e de assumir o papel que eles desempenhavam, até há pouco, na vida da nação.” “E quanto menos Isócrates espera ou deseja percorrer o caminho do estadista prático, mais ele necessita do sopro da poesia para a sua missão puramente espiritual”
“É ele próprio que, como Píndaro, estabelece também o paralelo entre as suas criações e as dos artistas plásticos e orgulhosamente se equipara a Fídias. Em Ant., 2. Isócrates compara-se ao escultor Fídias e aos pintores Zêux[is] e Parrásio, os maiores artistas da Grécia; Platão procede da mesma forma na República” Todo escritor chega independentemente a este juízo!
“Também ser escultor era para o sentimento social dos gregos da época clássica um conceito que ainda estava ligado a algo de ofício e de rotina. E no entanto este ofício englobava toda a série de cambiantes que iam desde o modesto canteiro até o genial criador do Partenon.”
“É com muita cautela que Isócrates se pronuncia acerca da utilidade da educação. Reconhece que o fator decisivo são os dons naturais e confessa francamente que as pessoas de talento e sem cultura chegam freqüentemente mais longe que as pessoas cultas mas sem talento, isso supondo que se possa realmente falar de cultura sem algo que realmente valha a pena cultivar.” “Mais tarde, na República, Platão fará depender da coincidência de qualidades que raramente coexistem na realidade a consecução do supremo objetivo da cultura.”
“Platão aspira a formar a alma por meio do conhecimento das idéias como normas absolutas do bom, do justo, do belo, etc., de acordo com a lei da sua estrutura imanente à própria alma, até conseguir realizar nela um cosmos inteligível que abarque a totalidade do Ser. Isócrates, ao contrário, não admite este saber universal. O órgão da cultura retórica é a simples opinião, embora admita no espírito, como ele próprio acentua repetidas vezes, uma capacidade prática para alcançar com certeza o objetivo, a qual, sem possuir um verdadeiro saber, em sentido absoluto, lhe permite optar pela solução acertada.” O <excêntrico discípulo de Parmênides>.
“também Isócrates não é capaz de descrever mais que os elementos e as fases do processo cultural, por trás das quais continua a ser um mistério a formação, como tal, do Homem. (…) É portanto unicamente da justa combinação entre natureza e arte que a cultura depende.”
“Os redatores de discursos trabalhavam para ganhar o pão, pois o seu artigo era, na prática, o mais procurado. Conhecemos esse gênero de trabalho pelos discursos-modelo publicados por Antifonte, Lísias, Iseu, Demóstenes e pelo próprio Isócrates nos seus primeiros tempos. Esse gênero é uma das flores mais curiosas do jardim da literatura grega, um produto específico do solo ático. A mania de litigar dos atenienses, tão ridicularizada na comédia, é o reverso do Estado jurídico, do qual tão orgulhosos se sentiam. A ela se devia o interesse geral que os debates judiciais e as competições agonísticas despertavam. Os discursos-modelo dos logógrafos servem ao mesmo tempo de propaganda dos seus automotores, [?] de modelo proposto à imitação dos discípulos e da matéria de entretenimento para o público leitor.” “Não se deve pôr em dúvida a sinceridade desta repugnância, que basta para explicar a razão por que Isócrates renunciou a esta atividade.”
“Isócrates segue, pois, Platão na crítica, mas não na construção positiva. Não acredita na possibilidade de ensinar a virtude, como não acredita na possibilidade de ensinar o senso artístico, e como Platão só reserva o nome de techne para uma educação capaz de fazer isto, Isócrates julga impossível que ele exista.”
“Isócrates deve ter ficado com a mesma impressão dos primeiros diálogos de Platão que era gerada na maioria dos leitores modernos até há pouco: a de tratar apenas de problemas de iniciação moral, que estranhamente apareciam em íntima relação com a dialética. Em contrapartida, a retórica tem a vantagem de ser uma cultura inteiramente política. Precisa apenas encontrar um novo caminho, uma nova atitude, para neste campo alcançar um posto espiritual diretivo. A antiga retórica não conseguira grande coisa, porque se ofereceu como instrumento à política diária, em vez de se elevar acima dela. Já se revela aqui a certeza de poder infundir à vida política da nação um pathos mais elevado. Infelizmente falta a parte principal do fragmento do discurso Contra os Sofistas que chegou até nós (…) A diversificação de Isócrates em relação ao objetivo educacional de Platão deve ter tido que mudar, necessariamente, quando aquele adquiriu consciência prática do princípio da filosofia platônica. De fato, esse princípio já se anunciava na declaração expressa no Górgias platônico de que era Sócrates o único estadista autêntico do seu tempo, visto que aspirava a tornar melhores os cidadãos. Esta declaração podia ser facilmente interpretada como simples paradoxo, sobretudo por Isócrates, que via na ânsia de originalidade e na caça aos paradoxos inéditos a motivação fundamental de todos os escritos contemporâneos e temia, com razão, que neste terreno lhe fosse difícil rivalizar com Platão e com os filósofos. Mais tarde, no Filipe, voltando os olhos para trás, a fim de abarcar a obra de Platão, pouco depois de sua morte, já o considera o grande teórico do Estado, embora, infelizmente, o seu pensamento não seja realizável. Levanta-se, assim, o problema de saber quando teria surgido nele este novo ponto de vista sobre Platão. A resposta ele nos dá em Helena, modelo de encômio, que incide sobre um tema mítico e cujo louvor nos tem de parecer, por força, tanto mais paradoxal quanto ela é, em geral, alvo de censuras.”
O HIMENEU DE PÃ E HELENA: “Panegírico (380): o programa da unificação dos Estados gregos através de uma guerra nacional comum contra os bárbaros. Na 1ª década, Isócrates move-se ainda por inteiro nas águas de Górgias.”
(*) “(…) É o próprio ARISTÓTELES quem afirma, em Ret., III, 14, 1414 b 26, que não é necessário, precisamente no gênero literário dos discursos epidícticos, que o prólogo esteja organicamente ligado ao corpo principal da obra. Como exemplo, dá a Helena de Isócrates e compara o prólogo do encômio ao prelúdio (proaulion) de um concerto de flauta, unido por laços muito frouxos ao próprio concerto.”
(*) “(…) A respeito de Antístenes, cf. ARISTÓTELES, Metaf. n 29, 1204 b 33, e ainda o comentário de Alexandre de Afrodísia a esta passagem; e PLATÃO, Sofista, 251 B.”
“Dessa vez, Isócrates já distingue os socráticos dos simples erísticos, que não se propõem educar ninguém, mas pretendem apenas colocar outros homens em dificuldades. Censura a todos quererem refutar outros, quando eles próprios já se encontram há muito refutados”
“Isócrates exprime a sua posição perante o ideal platônico da precisão e solidez científicas, na fórmula de que o mínimo avanço no conhecimento das coisas verdadeiramente importantes deve ser preferido à maior superioridade espiritual imaginável em matérias mesquinhas e sem importância, que não têm nenhuma utilidade para a vida. Naturalmente, como psicólogo que é, compreende a predileção da juventude pela arte polêmica da dialética, pois não tem o menor interesse pelos assuntos sérios, quer públicos, quer privados, mas quanto mais inútil for o jogo mais a diverte. Merecem, porém, censura os pretensos educadores que incitam os discípulos a este passatempo, pois incorrem com isso na mesma falta que eles próprios censuram aos representantes da eloqüência forense: a de corromper a juventude.” Inconciliável com o Platonismo. O que é o mesquinho e o que é o importante? Pergunte ao Ser!
“a ala radical dos socráticos: Antístenes e Aristipo.”
“É por isso que a repulsa de Isócrates pelo amplo ‘rodeio’ teórico de Platão cresce à medida que ambos mais parecem coincidir no tocante ao fim prático da educação. Isócrates só reconhece o caminho direto. A sua educação nada sabe da tensão interior que existe no espírito de Platão entre a vontade propulsora que o incita a agir e o retraimento proveniente da longa preparação teórica. É certo que Isócrates está suficientemente afastado da política cotidiana e dos manejos dos estadistas do seu tempo para compreender as objeções que Platão formula contra eles. O que ele, homem do meio-termo, não compreende é a radical exigência ética da socrática, que se intromete entre os indivíduos e o Estado. Procura melhorar a vida política por um caminho diferente do da utopia. Sente indubitavelmente a arraigada repugnância do cidadão culto e abastado contra as selvagens degenerações tanto do domínio das massas como da tirania dos indivíduos (…) Não partilha, porém, o radical espírito reformador de Platão e nada está mais longe do seu espírito que o consagrar a vida inteira a tal missão.” Desconhece a arte do sacrifício.
“A guerra pusera em evidência que o anterior estado de coisas era insustentável e urgia abordar uma reconstrução dos Estados gregos.”
DA HIPOCRISIA COMO NECESSIDADE FENOMÊNICA QUE INTEGRA O ABSOLUTO
Há mais semelhança entre o mundo antigo e o nosso do que pode medir qualquer vã filosofia sob o Sol! A certeza íntima que temos de que nossas utopias calarão fundo no coração de uma humanidade que sequer veremos… Porém, enquanto indivíduos deste mundo, mesmo sabendo que “já vivemos para a posteridade”, resta-nos uma máscara protetora e conciliadora: somos intelectuais de esquerda. Sem nosso lado panfletário que nos serve de mola nosso eu-ideal fica sem esteio.
4.3 Educação política e ideal pan-helênico
“Em nenhuma parte a tendência a l’art pour l’art tem menos razão de ser do que na arte da expressão espiritual.”
“O significado etimológico da retórica, para o bem ou para o mal, a polis.”
O problema da retórica é ser retórica demais.
“A falência do Estado de Péricles colocava um problema: saber se Atenas, depois da sua lenta recuperação, devia enveredar de novo pelo mesmo caminho de expansão imperialista (que já uma vez a levara à beira do abismo).” Síndrome de Vasco da Gama. Vencer absolutamente é tombar – vide Roma.
“Estava muito longe de comungar a fé numa paz eterna.”
“Que o imperialismo, caso fosse inevitável, se dirigisse contra os outros povos, de nível cultural inferior e inimigos naturais dos gregos”
(*) “É por necessidade que se expõem de maneira sintética as tendências pan-helênicas surgidas antes de Isócrates; não escasseiam as investigações de detalhe. Limita-se a Isócrates o escudo (sic) de J. KESSLER, ‘Isokrates und die panhellenische Idee’ in: Studien Zur Geschichte und Kultur des Altertums, t. IV, CADERNO 3 (Paderborn, 1911). (…)“
„Nas celebrações olímpicas e píticas, interrompia-se, sob a imposição da paz divina, o estrépito das armas esgrimidas entre gregos”
“Trata-se de reconciliar Esparta com Atenas, para em seguida estes 2 Estados, os mais fortes, compartilharem a hegemonia sobre a Grécia.”
“Isócrates traça um quadro da grandeza de Atenas que remonta até a pré-história mítica.” “Este quadro histórico baseia-se inteiramente nos princípios segundo os quais a política ateniense se interpreta a si mesma. É uma política intrinsecamente semelhante, muito semelhante mesmo, à que inspira a política externa inglesa dos tempos modernos. Por outro lado, este processo de interpretação retroativa da história antiga de Atenas à luz das pretensões políticas de agora tem um paralelo próximo na interpretação que Treitschke dá da história antiga da Prússia-Brande[m]burgo, do ponto de vista do papel diretivo nacional mais tarde assumido por este Estado. Os tempos primitivos pseudo-históricos são sempre mais próprios do que quaisquer outros posteriores e mais bem-conhecidos para se deixarem moldar neste tipo de construções.”Hitler sabia-o muito bem.
“Todo o mito nacional e cultural traz consigo esta estreiteza de horizontes e esta exaltação absolutista da sua própria raça. Quer ser aceito mais como artigo de fé que como fria verdade científica. É por isso que diante dele não se podem alegar dados históricos.”
“O que domina a sua filosofia da História, e sobretudo a sua construção da história primitiva de Atenas, é a sua fé na missão peculiar da cultura ateniense.” “Em oposição com o caráter exclusivista de Esparta, a cultura ateniense caracteriza-se por atrair os estrangeiros, em vez de os repudiar.” “Aos combates de força física e de destreza, desde remotos tempos característicos da Grécia inteira, juntam-se em Atenas os agones da oratória e do espírito. Estes torneios converteram as fugazes festas nacionais olímpicas e píticas numa grande panegyris ininterrupta.” “A imagem esplendorosa que Isócrates tem diante dos olhos não deixa margem para a problemática trágica em que Platão, com grande sutileza, penetra os perigos do meio.”
“O logos, no duplo sentido de linguagem e espírito, converte-se para Isócrates no symbolon da paideusis.”
“Segundo a tese de Isócrates, o resultado da obra espiritual de Atenas foi o nome dos gregos não designar no futuro uma raça, mas antes um grau supremo do espírito.”
“À primeira vista, parece um imenso paradoxo Isócrates proclamar esta missão supranacional da cultura do seu povo, movido precisamente por um insuperável sentimento de orgulho nacional; mas esta aparente contradição desaparece logo que relacionamos a idéia supranacional do Helenismo, a sua paideia de âmbito universal, com o objetivo da conquista e colonização da Ásia pelos gregos.” “Há uma forma de sentimento nacional que se manifesta como exclusão dos outros povos: é fruto da fraqueza e do separatismo, pois nasce da consciência de que só através do isolamento artificial se poderá afirmar.”
“Com base em analogias atuais poderíamos sentir-nos tentados a designar isto pelo nome de propaganda cultural e a comparar a retórica à imprensa e à publicidade modernas, precursoras da conquista econômica e militar. Contudo, a fórmula de Isócrates nasce de uma profunda visão da estrutura real do espírito e da paideia gregas, e a História prova que era algo mais (…) Sem a vigência universal da paideia grega que ele aqui proclama pela 1ª vez, não teria sido possível a existência de um império universal greco-macedônico nem a da cultura helenística universal.” Alexandre, o Isócrates prático.
“Esta parte do discurso termina com uma defesa contra a crítica dos métodos do imperialismo ateniense da primeira liga marítima, crítica utilizada por Esparta, depois de ganhar a guerra, para manter Atenas em permanente sujeição, o que constituía um obstáculo moral no caminho da restauração do poder marítimo ateniense.”
“O Panegírico foi definido como o programa da segunda liga marítima de Atenas.(*) Esta concepção exagera as relações existentes entre esta obra e a política real e não avalia com exatidão o elemento ideológico contido nela. É, no entanto, exata no sentido de que Isócrates exige o restabelecimento do poder de Atenas, como meio indispensável para a consecução do seu fim, que é a sujeição do reino da Pérsia.
(*) Assim pensam Wilamowitz e Drerup. Cf. também G. MATHIEU, Les idées politiques d’Isócrate (Paris, 1925). »
(*) “Já no Plataico de Isócrates vemos que o domínio marítimo ateniense apresenta um aspecto muito menos pan-helênico e muito mais particularista. Acerca da data deste opúsculo, cf. o meu Demóstenes, O Estadista e a sua Evolução, pp. 199-203 (Berlim, 1939).”
“A exigência de submeter a política a valores eternos tinha de parecer exagerada a alguns; mas esta exigência de que ela fosse moldada por um princípio superior era geral, e a ética nacional de Isócrates tinha que parecer a muitos de seus discípulos uma saída feliz e oportuna, entre os extremos do ceticismo moral e da retirada filosófica para o Absoluto.” “O seu objetivo transcende a forma do Estado historicamente dada e entra no reino do ideal. Isto implicava a confissão do seu divórcio da realidade política circundante.” “Já não está por trás dele uma classe nobre superior ou todo um povo; está o círculo escolhido de um movimento espiritual ou uma escola fechada, que só pode esperar exercer uma influência mediata na vida da comunidade”
e-Sócrates
4.4 A educação do príncipe
“Nicocles, filho de Evágoras (…) era discípulo de Isócrates, de cuja escola saiu, como do cavalo de Tróia, toda uma série de governantes, segundo a famosa frase de Cícero.” “O orgulho que Isócrates sente pelos discípulos, que também se manifesta abundantemente na Antídosis, é um dos aspectos amáveis da sua vaidade”
“As 3 obras do grupo do Nicocles são modelos da arte pedagógica praticada na escola de Isócrates. Enquanto no Panegírico ressoa, por assim dizer, o acorde pan-helênico, o tom fundamental da intenção política em que esta educação se inspira, nas obras cipriotas surge mais claramente o ponto em que apóia, na prática, a paideia de Isócrates.” “estas obras abrem-nos os horizontes de um problema que (…) tinha forçosamente de ser de suma importância: o de a possibilidade de a cultura influir no Estado através da educação dos governantes. Este problema surge-nos na literatura do século IV, em escritores e pensadores da mais variada orientação: em toda a filosofia de Platão e nas suas tentativas práticas de influenciar o tirano Dionísio, as quais o próprio Platão descreve na Carta Sétima como a tragédia da paideia; em Isócrates, nas suas obras sobre Nicocles, na mensagem a Dionísio de Siracusa, no Arquidamo, no Filipe, e sobretudo nas relações com o seu discípulo Timóteo; na grande novela pedagógica de Xenofonte, a Ciropedia; na amizade filosófica de Aristóteles com o tirano Hermias de Atarneu, e principalmente nas relações pedagógicas daquele com o futuro dominador do mundo, Alexandre. Também o Protréptico de Arist. era um discurso exortativo dirigido a um tirano de Chipre, Témison.”
“Nem todos os poetas que circulavam pelas côrtes dos tiranos do séc. IV eram simples parasitas e aduladores, que logo se punham a cantar a democracia, quando os tiranos caíam, como Platão censura aos poetas do seu tempo.”
“A encarnação da verdadeira arete na imagem de uma personagem histórica individual, tal como Isócrates a traça aqui, pode comparar-se à fusão da pessoa e coisa na descrição platônica de Sócrates”
“dois discursos, Nicocles e A Nicocles”
“Ao enquadrar assim num esquema absoluto a tirania, que os gregos de resto consideravam a suma e compêndio da arbitrariedade, legaliza-a de certo modo e insinua no tirano a vontade de governar o povo de acordo com uma lei fixa e uma norma superior. No séc. IV deparamos repetidas vezes com o problema de saber como converter a tirania numa constituição mais suave.” Como transformar o cobre em ouro.
“chamamos retóricos aos homens em condições de falar diante de muitos e denominamos homens de bom juízo os que são capazes de refletir com acerto no seu foro íntimo.”
“ao contrário de Platão, Isócrates não considera como missão de Estado a educação do cidadão e o seu aperfeiçoamento pessoal” “É com facilidade que Isócrates transforma em ideologia de despotismo esclarecido a sua fé fortemente materialista no bem-estar.” “Teoricamente é pessimista em face do paradoxo filosófico da possibilidade de ensinar a virtude; praticamente, porém, a sua vontade educativa permanece intacta.” “Enquanto Platão relutava em empreender o caminho de Siracusa e só o fez a instâncias e rogos insistentes dos amigos e do próprio soberano, Isócrates não espera que o convidem.”
“O seu sentido do direito natural exige sempre a verdadeira arete como justificação do poder sobre o Estado, e não instituições que funcionem de modo automático, mas sem personalidade. Isto, porém, não deve confundir-se, como prova ostensivamente o testemunho de Isócrates, com a glorificação do poder à margem de qualquer lei.” “O soberano deve reunir no seu caráter o amor pelo Estado. Deve, por assim dizer, unir em si a Antígona e Creonte.”
(*) “(…) Já AULO GÉLIO, Noct. Att., XIII, 7, emitia a este respeito um juízo correto ao distinguir humanitas – paideia. O conceito de filantropia não tem qualquer acepção central em Isócrates; o fulcro do seu pensamento é o conceito de paideia, que serve de base ao seu ‘humanismo’. (…)”
“O trabalho deve ser lucrativo, mas a mania de pleitear deve infligir ao culpado danos sensíveis. As palavras de Isócrates refletem neste aspecto a existência do povo ateniense e a fúria processual nele desencadeada.”
“Faz que a tua palavra seja mais certa que as juras dos outros. (…) Porta-te para com os Estados mais fracos como desejarias que os Estados mais fortes se portassem para contigo. (…) Não tenhas por grande o soberano que estenda a mão para coisas maiores do que as que pode alcançar, mas sim quem, aspirando a coisas elevadas saiba levar a cabo o que empreende (…) Não conceda a tua amizade a todos quantos desejem ser teus amigos, mas só a quem for digno da tua natureza. Não escolhas, para tal, os homens cujo convívio mais te agrade, mas antes os que te ajudem a governar melhor o Estado.”
“o rei é o espelho do caráter da polis inteira. Aqui, como em Platão, reaparece em fase superior a idéia de modelo da antiga paideia da nobreza grega, idéia que é transposta do problema da educação individual para a educação de toda a cidade. Mas, enquanto Platão desloca o paradigma para o absoluto, para a idéia do Bem e, portanto, para Deus, medida de todas as coisas, Isócrates confina-se à idéia do modelo pessoal.” “a idéia da paideia é no seu tempo o verdadeiramente vivo e o sentido supremo da existência humana.”
“A dignidade é real, mas faz o povo retrair-se. A amabilidade torna fácil e agradável o trato com os homens, mas tende a rebaixar a categoria do rei.” “Baseia a formação do monarca não no conhecimento dos supremos conceitos universais teóricos das matemáticas e da dialética, como Platão, mas sim no conhecimento da História. Aparece neste traço pela 1ª vez a influência espiritual direta da historiografia sobre o pensamento político e a cultura da época. Mesmo sem precisarmos recordar os múltiplos conhecimentos soltos que, como provamos, Isócrates deve a Tucídides, também aqui somos forçados a pensar sobretudo nele, no novo gênero de historiografia política que este historiador criou.”
“A paideia de velho estilo, que se conservava dentro do âmbito da ginástica e da música, ainda não reconhecia nem o pensamento nem o saber históricos. O passado não faltava totalmente, já que que era inseparável da poesia; mas só revestia nela a forma da narração dos feitos heróicos de certas personagens ou do próprio povo, e o histórico ainda não se diferenciava claramente do mítico.”
A VERDADEIRA FILOSOFIA É ATEMPORAL: “Nos esboços platônicos de um vasto sistema de paideia científica são tomados em consideração até os ramos mais recentes das matemáticas, da Medicina e da Astronomia; mas a grande e nova criação da historiografia política fica totalmente na sombra. Aparentemente, isto poderia justificar a impressão de que a verdadeira influência de Tucídides se limitou aos círculos estritamente profissionais, i.e., aos seus imitadores isolados, que se esforçavam por escrever outro fragmento da História, segundo as orientações do mestre. Mas não devemos perder de vista, para este efeito, a outra grande representante da paideia grega do seu tempo, a retórica. Assim como o poder formativo das matemáticas só foi plenamente reconhecido, como era lógico, pela paideia filosófica, assim o novo poder educativo do saber histórico, que se revela na obra de Tucídides, encontra o seu lugar no âmbito do sistema da cultura retórica.”
“Na retórica posterior, perdura este interesse pela História na forma de paradigma histórico, o qual recorda as origens paidêuticas desta atitude em face da História. Mas a eloqüência verdadeiramente política já morreu nesta época tardia, por ter perdido a base com o desaparecimento da cidade-Estado grega. Por essa razão, o emprego dos exemplos históricos passou a ser nela uma coisa morta e puramente ornamental. O sistema retórico de cultura de Isócrates, nascido ainda de debates verdadeiramente políticos e de grande estilo, é o único da Antiguidade grega em que cabe seriamente o estudo histórico. Temos paralelo disso em Roma principalmente em Cícero”
“Prefere-se a pior comédia às sentenças escolhidas dos poetas mais profundos.” “Transparece aqui o sentimento de que a nova arte da retórica, posta ao serviço das concepções educativas, representa uma desvantagem decisiva em relação à poesia. Os verdadeiros mestres na direção das almas (psicagogia) são aqueles velhos poetas, aos quais todos têm de regressar constantemente depois de ouvirem as novas teorias, e isto pela simples razão de serem mais agradáveis.”
“O triunfo posterior da cultura retórica sobre a filosófica, ao menos entre as camadas mais amplas da gente culta, deriva em parte da superioridade da forma, que era sempre o primordial para a retórica (…) a Filosofia e a Ciência deixaram mais tarde de rivalizar com a retórica neste campo e cederam conscientemente ao desleixo da forma, desleixo que chegaram até a equiparar à cientificidade.” Nota curiosa: Heráclito, Parmênides, Platão, Kierkegaard, Nietzsche, Deleuze, Baudrillard: Os reis-filósofos são também poetas. Kant, Hegel, Sartre (nos escritos técnicos), Heidegger: estilistas inábeis.
4.5 Autoridade e liberdade na democracia radical
“Da desintegração causada pelas guerras pérsicas se levantou Atenas e se converteu em guia da Hélade, pois o medo fez com que todas as suas forças espirituais se concentrassem na meta da recuperação. Mas, em seguida, do cume do poder assim conseguido de novo se precipitou subitamente na guerra do Peloponeso, pouco faltando para se ver agrilhoada à servidão. Os espartanos, por seu lado, deveram o seu antigo poderio à sóbria vida de guerreiros, em virtude da qual se foram elevando dos começos insignificantes de sua história até o domínio sobre o Peloponeso. Mas este poderio impeliu-os à soberba, até que por fim, depois de conseguirem a hegemonia por terra e por mar, se viram reduzidos à mesma situação de penúria que Atenas. Isócrates alude aqui à derrota de Esparta em Leuctra, que tão profunda impressão causou nas pessoas da época, sem excluir os admiradores incondicionais de Esparta; prova-o a mudança sofrida pelos juízos acerca de Esparta e das suas instituições estatais, na literatura política do séc. IV. Platão, Xenofonte e Aristóteles, tal como Isócrates, citam repetidas vezes o desmoronamento da hegemonia espartana na Hélade, que explicam dizendo que os espartanos não souberam usar sabiamente o seu poder.”
“Sob o comando de Cononte, e principalmente sob o de seu filho Timóteo, [seria o mesmo de acima?] logramos a hegemonia sobre toda a Grécia; mas não tardamos a perdê-la outra vez, por não termos a constituição de que precisávamos para defendê-la.”
“Segundo a conclusão a que Isócrates chega, os homens eram diferentes nos tempos de Sólon ou de Clístenes; portanto, o único meio de livrá-los do seu individualismo exagerado é restaurar a constituição do Estado que vigorava naquele século.” Só homens restaurados restauram códigos deteriorados.
“A tarefa de formar os homens desloca-se, assim, do campo da existência espiritual para o da educação exterior, em que o Estado se converte autoritariamente em agente externo da missão educativa. Desta forma, a paideia torna-se mecânica, e este defeito ressalta com maior força do contraste entre o modo puramente técnico como Isócrates pretende realizá-la e a concepção romântica do passado, que ele assim aspira a fazer ressurgir.” Mas ao menos ele recuou de sua oposição diametral a Platão, revalorizando o papel do Estado.
“É elucidativo reparar como a imagem ideal do passado que Isócrates traça para caracterizar o espírito da educação a que aspira se vai inadvertidamente convertendo num sonho utópico, em que se esfumam todas as cores do presente e se resolvem todos os problemas. Esta estranha maneira de encarar a História só se compreende quando se vê que todos os louvores tributados ao passado são simplesmente concebidos como a negação de um mal correlativo do presente.”
“No tempo dos pais da democracia ateniense, Sólon e Clístenes, ainda não se confundia o desenfreio com a democracia, a arbitrariedade com a liberdade, a licenciosidade da palavra com a igualdade, a absoluta falta de domínio do comportamento com a suprema felicidade; ao contrário, os indivíduos deste jaez eram castigados e existia a preocupação de tornar melhores os homens.¹ (…) A época da decomposição da forma só conhece a paideia no sentido negativo da corrupção que se transmite do conjunto a cada um dos membros. Isócrates apresenta em termos semelhantes a paideia negativa que nasce da ambição de poder da polis e faz variar o espírito dos cidadãos. (De Pace, 77). (…) é característico da época o fato de a paideia em sentido positivo só ser possível na forma de reação consciente dos indivíduos isolados contra as tendências gerais da evolução.”
¹ O dito se aplica completamente ao presente, é só pensar na licenciosidade boçal com que uma Damares se arroga o direito de “falar o que quiser” quando pisa numa igreja com fins políticos. Uma liberdade que o texto da Constituição não lhe deu, mas que o afrouxamento dos costumes democráticos e o descaso de um Supremo Tribunal Federal, que só agora e lentamente vem revendo sua conduta, decerto semearam.
(*) “…é interessante que este mesmo lema trabalhar e poupar (…) apareça em PLATÃO, Rep., 553 C, para caracterizar o homem oligárquico. Dificilmente Isócrates teria tirado desta caricatura as cores para pintar a sua imagem ideal: é por isso que é tanto mais interessante a sua coincidência com Platão”
“O restabelecimento do Areópago fez-se no 1º período dos Trinta, altura em que Teramenes e a ala moderada dos conservadores tinham uma influência decisiva na política. O regresso dos democratas após a expulsão dos Trinta anulou evidentemente estas medidas legislativas; e o fato de Teramenes, autor do lema constituição dos maiores, ter sido morto por Crítias e pelos elementos oligárquicos radicais também não contribuiu para que este grupo moderado e a sua herança espiritual fossem vistos com mais simpatia no período seguinte de restauração do governo do povo. Compreende-se, assim, que Isócrates evite intencionalmente a expressão constituição dos maiores ou a transcreva sob outras formas, para não causar escândalo.
(*) “…Contra a opinião dos que pretendiam dissuadir o autor de publicar esta obra, por acharem incurável a situação de Atenas e perigosa a hostilidade dos dirigentes radicais contra os moderados, devem naturalmente ter-se levantado vozes aconselhando a publicação, pois de outra forma jamais se teria resolvido a isso um homem tão prudente [medroso] como Isócrates….”
(*) “De modo semelhante, PLATÃO, Carta VII, 326 A, indica-nos que concebera e expusera oralmente vários decênios atrás, antes da sua 1ª viagem à Sicília, as idéias publicadas mais tarde na República….”
“Os atenienses tão depressa acorrem com 300 bois para o sacrifício como deixam cair no mais completo esquecimento as festas consagradas pelos seus maiores.”
“Antiquitates Rerum Humanarum et Divinarum de Varrão, obra gigantesca de erudição histórico-cultural e teológica. Esta obra nasceu de uma situação interna análoga à da época isocrática. (…) Para poder escrever coisas como as que se citaram acima, tinha de ter estudado com certa precisão as práticas religiosas e as festas da antiga Atenas”
“Os pobres não conheciam ainda a inveja da classe abastada, mas os sem-fortuna partilhavam a felicidade dos outros e era com razão que olhavam a riqueza daqueles como a fonte do seu próprio sustento.”Eis o espírito contido noCoriolanodeShakespeare. Já hoje vivemos o dilema de uma “elite” que é invejosa do pobre em ascensão, incapaz de reconhecer que a felicidade desta classe emergente é e deve ser reflexo da sua própria na partilha nacional. Não se reconhecem absoluto como imbuídos da missão de sustentar essa massa, embora se jactem em dizer que criam riqueza, que portanto seriam a fonte do crescimento econômico, sem se dar conta que sem a integração pobre-rico por meio do trabalho ninguém propriamente enriquece, na competição canibal internacional. O país fica apenas mais fraco e mais isolado, e a maior riqueza do rico às expensas de explorar o trabalhador, despido de seus direitos fundamentais, converte-se numa falsa riqueza, ou pelo menos numa riqueza relativamente parca comparada a outras nações em que há maior justiça social.
“períodos de industrialização e crescimento do capital” “investia-se produtivamente o dinheiro”Eu é que contextualizo para o presente; mas Jaeger, como sempre, vê essas categorias ainda não-nascentes na própria Grécia Antiga, tão antepassada do Capital! Se há uma crítica severa a fazer a sua magnum opus, sempre achei e acharei que seria esta.
“Era a confiança mútua que presidia à vida dos negócios e os pobres davam tanta importância como os possuidores de grandes fortunas à segurança das relações econômicas. Ninguém escondia a própria fortuna nem temia que ela se tornasse do domínio público, mas todos a empregavam praticamente, com a convicção de que isto não só era vantajoso para a situação econômica da cidade, mas até aumentava a própria fortuna.” Exatamente o que falei acima sobre o Brasil contemporâneo! Foi com a decomposição da oligarquia ateniense que Atenas caiu. É com a decomposição ainda mais abrupta da nossa elite do atraso cada vez mais atrasada que o Brasil está sendo jogado para a periferia da periferia das lideranças mundiais.
“O defeito do sistema vigente reside em se limitar em Atenas a paideia ao pais, isto é, à infância. (Areop., 37). Desde a época dos sofistas, todas as cabeças da paideia grega, Platão e Isócrates principalmente, concordavam em que a paideia não se limitava ao ensino escolar. Para eles, era cultura, formação da alma humana. É isto que distingue a paideia grega do sistema educacional das outras nações. Era um ideal absoluto. (…) no passado (…) se velava pelos adultos ainda com maior cuidado do que pelas crianças.”
“Este organismo só era acessível a pessoas escolhidas pelo nascimento e que na vida tivessem dado provas de caráter irrepreensível. Este princípio de seleção fazia do Areópago a mais distinta corporação da sua classe existente na Grécia.” Talvez extremamente corporativista; nobre, todavia.
“O que importa, portanto, é infundir à polis um ethos bom e não dotá-la de um amontoado cada vez maior de leis especiais para cada setor da existência. (…) Platão acreditava poder renunciar por completo a uma legislação especializada no seu Estado ideal, pois supunha que nele a educação atuaria automaticamente”A Inglaterra e sua Constituição enxuta como eterna miragem moderna. Como ser enxuto, p.ex., em legislação tributária?
“Isócrates considera irrecusável que a paideia se adapte à situação de fortuna de cada indivíduo. Este ponto de vista teve certa importância na teoria dos gregos sobre a juventude” “Só na República de Platão ele é eliminado: toda a educação superior fica a cargo do Estado e da elite por ele supervisada.” “A concentração da educação no Estado devia ser encarada por Isócrates como uma exigência totalmente irreal de um radicalismo pedagógico que não serviria de fato para criar uma elite espiritual” Mas se é que o Estado tem condições de cuidar da educação, seria somente de um seletíssimo número. A educação de viés ultrapopular e abrangendo cem por cento da população, mesmo a elite, mesmo os despolitizados, vivendo de fazer concessões em prol da inclusão, seria hipócrita ou semeadora de desastres e desestabilizações futuras do governo.
“A equiparação estabelecida entre a educação do espírito e as diversas modalidades do esporte é característica da concepção da paideia como um jogo distinto, concepção que Isócrates partilha com o aristocrata Cálicles do Górgias de Platão.”
“o Areópago mantinha os cidadãos dentro dos limites, palavra que já em Sólon aparece e que desde então se repete com freqüência em declarações sobre a disciplina legal dos cidadãos.” “As pessoas comportavam-se com seriedade e não tinham o prurido de passar por excêntricas ou espirituosas.”
“aidos, aquele sentimento respeitoso de santo temor” “não é fácil definir este sentimento de pejo ou de temor: é um fenômeno inibitório de grande complexidade espiritual, formado por múltiplos motivos sociais, morais e éticos, ou antes o sentimento de onde brota esse fenômeno.”
“o seu conceito de democracia é substancialmente mais amplo do que o da maioria dos democratas do tempo.”
* * *
“Ninguém repetiu este ataque à demagogia tirânica e ao materialismo da massa com maior força de convicção do que Demóstenes, campeão da liberdade democrática contra os seus opressores estrangeiros.”
“Finalmente, ao afirmar que os atenienses estavam obrigados, não só para consigo mesmos, mas também pela sua missão como salvadores e protetores de toda a Grécia, a se sobreporem à presente situação economicamente ruim e de indolência e a sujeitarem-se a uma educação rigorosa, capaz de habilitar outra vez o povo a cumprir o seu destino histórico, Demóstenes fez sua também a idéia com que culmina o discurso sobre o Areópago.
A tragédia da renúncia à forçareside nisto: quando as idéias de Isócrates começavam assim a lançar raízes no coração da juventude, já o seu autor abandonara definitivamente a fé no ressurgimento de Atenas como poder independente e como guia de uma grande federação de Estados. No discurso de Isócrates sobre a paz, assistimos à abdicação de todos os seus planos que visavam ressuscitar no interior do país a criação política de Timóteo e erguer o império renovado da 2ª liga marítima ateniense. Hoje não podemos ler o programa educativo contido no discurso sobre o Areópago sem pensar na renúncia que no Discurso sobre a Paz, redigido no final da guerra perdida, Isócrates recomenda ao povo ateniense em relação aos antigos confederados separados” “Isócrates aconselha agora a que se conserve a paz não só com os confederados apóstatas, mas ainda com o mundo inteiro, com o qual Atenas se encontra em litígio.”
“A zona de domínio da liga ficou reduzida à terça parte do território que possuía no tempo da sua máxima expansão, sob o comando de Timóteo. E o número dos confederados baixou em proporção, uma vez que os mais importantes foram voltando as costas à liga. A situação financeira era catastrófica.”
“Este programa apresenta grande afinidade com o escrito de Xenofonte sobre receitas públicas, que apareceu na mesma época e pretendia apontar uma saída à crítica situação. A direção efetiva do Estado passou para as mãos do grupo conservador, encabeçado pelo político Eubulo, cujas idéias se orientavam na mesma direção.” “é evidente (…) que os 2 discursos não podem provir da mesma época.” “isso vem também confirmar a nossa conclusão de que o discurso sobre o Areópago tem necessariamente que datar de época anterior ao agudo rebentar da crise”
UM GRANDE XADREZ ENTRE DOIS IMPÉRIOS: “No Areopagítico não há a mínima dúvida acerca da excelência do domínio marítimo nem da sua importância histórica tanto para Atenas como para a Grécia” “O Discurso sobre a Paz, levado pelo seu pessimismo, tende, pelo contrário, a provar que o princípio de todos os males foi precisamente o começo do domínio naval.” “É a completa mudança diante do problema da força operada desde o Panegírico até o Discurso sobre a Paz, que explica a apreciação antagônica da paz de Antálcidas, nas 2 obras. O Panegírico condena-a do modo mais severo, considerando-a símbolo da vergonhosa submissão dos gregos aos persas, vergonha só possível após a ruína do domínio marítimo ateniense. (…) a paz de Antálcidas aparece agora como a plataforma desejável a que importa voltar para reorganizar a quebrantada vida política da Grécia. (…) e compreende-se que os sentimentos antipersas do nosso autor voltassem a se avivar mais tarde no Filipe, assim que com o rei da Macedônia surgiu um novo campeão da causa grega.”
“No Panegírico, o imperialismo é justificado pela relação que tem com o bem-estar do conjunto da nação grega; no Discurso sobre a Paz, o domínio e a tendência à expansão do poder são pura e simplesmente repudiados, afirmando-se expressamente a validade da moral privada, mesmo nas relações entre Estados. [!]” Admissão tácita de que Atenas não tinha mais vocação para liderar o mundo. No máximo, estaria já muito em vantagem, dada a situação precária vigente, se conseguisse se tornar uma polis entre iguais.
“A tendência ao poder e ao domínio é apresentada como a fonte de todos os males da história grega. Isócrates considera que esta tendência é por essência análoga à tirania e, portanto, intrinsecamente incompatível com a democracia.” Muito interessante e precursor do ângulo do anti-imperialismo e constitucionalismo modernos, porém trágico para os atenienses de então.
“Com efeito, a tendência ao poder está profundamente enraizada no interior do homem e é necessário um gigantesco esforço do espírito para arrancá-la pela raiz. (…) E, assim como no Areopagítico são apresentados como escola de tudo quanto é bom a legalidade e a severidade da ordem de vida dos antepassados, assim no Discurso sobre a Paz se atribui à educação do povo e dos seus dirigentes, corrompida por obra do poder, tudo o que há de mau e desregrado no presente.”
“O verdadeiro modelador das almas humanas é a ânsia de poder, a aspiração a mais. Esta, quando domina o Estado e a sua ação, não tarda a converter-se também em lei suprema da conduta individual.” “A democracia converte-se, pois, como se vê, na renúncia à tendência de poder. Mas isto não equivalerá, talvez, à eliminação voluntária da única democracia importante que ainda existia, na sua luta com as outras formas de governo, que buscam o mesmo objetivo por caminho direto, sem tropeçarem nos obstáculos constitucionais das liberdades cívicas? Eis um problema realmente sugestivo. Na realidade, devemos reconhecer que a exigência de Isócrates de se renunciar ao poder arbitrário do domínio ateniense era proclamada numa época em que aquele poder já desaparecera de fato pela força dos acontecimentos. A fundamentação moral através da vontade livre não passava de uma justificação a posteriori, que de certo modo facilitava a tarefa dos impotentes herdeiros do antigo esplendor, aliviando a consciência dos patriotas cuja mentalidade discorresse ainda pelos trâmites da tradicional política de força.”
“E quase parece inconcebível que o Estado ateniense, relegado por ele ao papel de funcionário aposentado, tenha podido erguer-se de novo, sob a direção de Demóstenes, para a derradeira luta, uma luta em que já não se buscava a conquista de um poder maior, mas sim a defesa da última coisa que lhe restava, após a perda do seu império: a liberdade.”
4.6 Isócrates defende a sua paideia
“Isócrates fala muito de si próprio nas suas obras, mas esta necessidade encontra a sua expressão mais pura numa das suas últimas criações (…) o discurso sobre as trocas de fortuna, a Antídosis, que é o nome que este conceito tem na língua ática.”
(*) “Em Antíd., 9, indica uma idade de 82 anos. Este discurso perdera-se na sua maior parte; só o princípio e o fim dele se conservaram, até que em 1812 o grego Mistoxides descobriu a parte principal (72 a 309).
“Cada uma das pessoas sobrecarregadas com o imposto da trierarquia tinha direito, se considerasse o gravame injusto, a dar o nome de um cidadão mais rico a quem se pudesse com maior razão exigir o cumprimento do mesmo dever; e para demonstrar que a riqueza desse cidadão era maior que a sua podia pedir que trocasse de fortuna consigo. Em razão deste costume foram dirigidos à pessoa e à atividade docente de Isócrates diversos ataques que, embora não rigorosamente relacionados com o fundo da questão, tinham certa relação com a sua fama de ter juntado uma grande fortuna, com as suas atividades publicitárias e educativas.”
“O processo por causa da troca de fortunas é apenas o motivo para redigir uma obra em que, a pretexto de ter sido publicamente argüido, defende, i.e., situa sob o ângulo que lhe parece adequado a sua vida, o seu caráter e as suas atividades didáticas. Na mesma obra, disserta pormenorizadamente sobre a estranha mistura de discurso forense, de autodefesa e da autobiografia que a Antídosis representa e pretende que esta mescla de idéias seja apreciada como uma sutileza especial da sua arte retórica. (…) Foi Platão, na Apologia de Sócrates, o 1º a converter o discurso forense de defesa em forma literária de confissão, em que uma personalidade destacada no plano espiritual procura prestar contas dos seus atos. Esta nova forma de auto-retrato literário deve ter causado funda impressão na mentalidade egocêntrica de Isócrates, que dela se serve no discurso sobre a troca de fortunas.” “1º monumento autêntico da autobiografia que possuímos, ou antes, como 1º relato do seu espírito e da sua vida, a Antídosis interessa-nos ainda de maneira especial, por ser a exposição mais ampla que ele nos deixou sobre os objetivos e os resultados da sua paideia.”
“Na Antídosis, Isócrates toma, indubitavelmente, posição perante ataques como os de Aristóteles.” “É a grandeza do seu objetivo que distingue os seus discursos de todos os outros, pois se ventilam neles os interesses da nação grega e não os deste ou daquele indivíduo.” “É por isso que a sua arte congrega a sua volta numerosos discípulos, ao passo que os redatores empíricos de discursos são incapazes de formar realmente uma escola.”
“imitação, conceito que tende cada vez mais a tornar-se a verdadeira medula do seu sistema educativo.”
“já no fim da vida (…) Isócrates apresenta-se à opinião literária como um clássico consumado, que propõe como modelo as suas próprias obras. É aqui que tem as suas raízes o classicismo posterior. A todas as suas obras antepõe ele o Panegírico, tanto pela exemplaridade da forma como pelo testemunho do seu sentir patriótico, nas quais não se destaca tanto o pan-helenismo como o seu consciente sentimento de ateniense. É certo que os seus concidadãos punham este último em dúvida. No entanto, depois de ter apresentado 2 anos antes a talassocracia ateniense como a raiz de todos os males, era evidente que não podia publicar sem qualquer retoque o Panegírico”
“Isócrates tem certeza que com este discurso voltará agora a ser calorosamente aplaudido pelos círculos patrióticos de Atenas, mas não deixa de ser significativo que, para contrabalançar essa glorificação de Atenas e da sua grandeza histórica, insira de seguida um fragmento da sua obra mais recente, o Discurso sobre a Paz, e precisamente aquela parte do discurso em que prega uma paz duradoura e a renúncia ao domínio de Atenas sobre os mares.”
“Seria interessante saber se, quando fala dos legisladores, Isócrates quer se referir também a Platão, que naquela época andava entregue à redação das suas Leis. Este fato devia ser conhecido nos círculos espirituais de Atenas interessados nestas questões e jorrava uma nova e derradeira luz sobre a vontade educativa de Platão.”
“das leis se louvam as mais antigas e dos discursos os mais modernos.”Antíd., 82
“E a sua obra de educador tem também uma importância superior à dos filósofos ou sofistas que exortam o homem à virtude da justiça e ao autodomínio, pois é só aos indivíduos que o seu apelo à phronesis, ao conhecimento moral e a uma conduta de acordo com ele, se dirige, dando-se eles por satisfeitos quando conseguem atrair alguns homens. A atuação de Isócrates, ao contrário, dirige-se à polis inteira e procura incitá-la a realizar ações que a tornem feliz e libertem os outros gregos das suas dores.”
“Para o leitor moderno, o essencial é a sua herança literária, através da qual continua a nos falar. Mas para o ateniense, sobretudo para aquele que não conhecesse com precisão a longa série de estadistas e de outras eminentes personalidades da vida pública saídos da escola de Isócrates, tal enumeração tinha de significar forçosamente mais que a mera palavra escrita.”
(*) “Hemipo, discípulo de Calímaco, compôs a obra Sobre os Estudiosos de Filosofia que se tornaram Governantes, baseando-se nas listas dos estóicos e acadêmicos de Filodemo, que haviam sido descobertas. (…) É natural que o tirano Hermias de Atarneu desempenhasse nela um papel importante, juntamente com os seus conselheiros políticos Erasto e Corisco, discípulos de Platão. (…) Por certo que em tais listas figuravam ainda Díon e alguns platônicos mais jovens, como Eudemo de Chipre e os seus correligionários, mortos em Siracusa na luta contra a tirania. Mas era também discípulo de Platão o assassino de Díon, Calipo, que a seguir se fez tirano. Em Heracléia, no Ponto, foi ainda um discípulo de Isócrates e Platão – Clearco – que se entronizou como tirano depois de derrubar e assassinar o platônico Quíon. Cf. MEYER,Geschichte des Altertums, t. V, p. 980.”
“Crítias e Alcibíades. Os socráticos tinham-se esforçado naquela época por absolver o seu mestre de qualquer responsabilidade no futuro papel desempenhado por aqueles homens na história da sua pátria, durante os mais difíceis tempos da provação de Atenas.”
“a tragédia da sua carreira como educador (apesar de tão cheia de êxitos, vista de fora), tragédia que é para ele, ao mesmo tempo, a do Estado ateniense. Esta tragédia radica no velho problema das relações entre as grandes personalidades e a massa, na vida da democracia grega.”
“Não era um temperamento vigoroso, endurecido nos trabalhos, mas sim um homem de nervos sensíveis e de saúde delicada. Comparado com Cares, o militarão cheio de cicatrizes, o deus da guerra do partido radical, a quem Isócrates se quer evidentemente referir nesta narração, embora sem lhe mencionar o nome, Timóteo representa o ideal do estratego moderno.”
“Timóteo não era inimigo do povo nem inimigo do Homem; não era soberbo nem sofria de nenhuma outra má qualidade deste gênero. O sentimento da sua própria grandeza, que lhe era tão útil como chefe militar, é o que o tornava difícil no trato diário e lhe dava uma certa aparência de homem altivo e brusco.”
“É impossível contemplar esta imagem, sem pensar no exemplo de Homero, que Isócrates deve ter tido presente, ao escrever estas páginas, em que se entretecem verdade e poesia: referimo-nos ao discurso exortativo de Fênix a Aquiles, no livro IX da Ilíada. O problema que se colocava aqui era o mesmo: moderar o sentimento da megalopsychia, da grandeza de alma, pela sua inserção na estrutura de uma comunidade humana freqüentemente rebelde ao reconhecimento e à gratidão.”
“Timóteo, muito embora me desse razão quando eu assim falava, era incapaz de modificar a sua natureza. Era kaloskagathos, digno da cidade e da Grécia, jamais comparável àquela classe de homens a quem incomoda tudo quanto os ultrapasse.” Antíd., 138.
“a ficção de um concidadão ter solicitado judicialmente trocar com ele de patrimônio o obriga a focar também este aspecto material da sua profissão.”
“Àquela data, a sua riqueza despertava quase inevitavelmente a inveja e a cobiça da massa; e, enquanto antigamente quem possuía uma grande fortuna sentia orgulho em exibi-la, no tempo de Isócrates todos procuravam ocultar o que possuíam, com medo de perdê-lo, ainda que tivesse sido adquirido por meios lícitos. Isócrates, porém, não pretende furtar-se ao problema da sua fortuna; ao contrário, este problema é visivelmente para ele um ponto cardeal para o qual pretende dirigir a atenção do leitor, uma vez que o êxito material das suas atividades docentes é, aos seus olhos e aos da maioria dos seus contemporâneos, o critério supremo para ajuizar das suas obras. Considera injusto pretender-se medir os ordenados dos professores pelos dos comediantes – que no entanto eram considerados exorbitantemente altos – e aconselha a compará-los aos de pessoas da mesma categoria e profissão. Entre estas menciona o seu mestre Górgias, que ensinou na Tessália, numa época em que os tessálios eram os homens mais ricos de toda a Grécia; e ele era tido pelo mais rico de todos os retóricos. Pois bem: quando morreu, Górgias não deixou mais de 1100 estateres.” “E não foi dos seus concidadãos que recebeu o dinheiro, mas sim de estrangeiros atraídos a Atenas pela fama do seu nome, contribuindo desta forma para a prosperidade econômica da sua cidade natal. O sólido caráter burguês de Isócrates e da sua formação ressalta neste ponto com a maior clareza, se o compararmos, p.ex., com a atitude aristocrática de Platão, que nunca explorou como negócio a educação filosófica.” “A regulamentação dos honorários era em uns e outros, bem como nos médicos, absolutamente individual. Não esqueçamos que a atitude de Platão perante estes problemas representa a exceção.”
(*) “Esta substituição da ginástica e da música pela ginástica e a filosofia (isto é, pela retórica) indica claramente que Isócrates se eleva acima da antiga paideia dos gregos, e à velha educação, baseada na poesia, substitui uma nova e mais bela forma de educação do espírito. Contudo a sua ‘filosofia’ pressupõe o adestramento ‘musical’ de estilo antigo, tal como o faz o sistema educativo ideal de Platão para os governantes filósofos, na República. Na idade avançada (Panat., 34), Isócrates acalentava o desejo de tratar a fundo a posição que a poesia ocupava no reino da cultura.” Não só na Rep. de Platão, como também no Fédon.
“Assim como até o corpo mais frágil se fortalece, quando por ele se vela cuidadosamente, e os animais se podem amestrar e mudam de caráter por meio da domesticação, assim também existe uma disciplina que forma o espírito do Homem. Os profanos tendem a desdenhar a importância que o fator tempo tem aqui, e ficam céticos se não apalpam os resultados dos esforços ao cabo de poucos dias ou, quando muito, ao fim de um ano. Isócrates repete aqui a sua teoria dos diversos graus de eficiência da paideia. Mas, embora reconhecendo esta diversidade, continua a defender sem vacilar que a eficiência pode ser comprovada em todos os seres mais ou menos dotados. Todos exibem em maior ou menor medida o selo da mesma formação espiritual.”
“Cita-se até, segundo uma paródia livre de Eurípides, um verso das suas lições de retórica, o qual reza assim, transcrito para prosa: Seria deplorável guardar silêncio e deixar falar Isócrates. Aristóteles propunha-se satisfazer com estes cursos a necessidade que os seus discípulos sentiam de uma cultura formal. O ensino retórico tendia a completar o estudo da dialética.”
(*) “…A mim o que parece mais verossímil é o Fedro ser posterior ao Grilo de Aristóteles (pouco depois de 362), ainda que não muito posterior. Tanto no Grilo como no Górgias, a retórica não é considerada techne, ao passo que no Fedropode-se converter em tal. (…) Em todo caso, creio que o Fedro deve ser considerado anterior à Antídosis (ano 353).”
“Ambas as coisas tinham forçosamente de atentar contra a Escola de Isócrates e provocar a sua indignação. Um dos seus discípulos, Cefisodoro, compôs contra Arist. uma extensa obra em 4 livros (…) O caráter irônico de Arist. leva-nos a pensar que a sua inovação deve por força ter originado uma polêmica mordaz, embora na sua Retórica citasse freqüentemente os discursos de Isócrates como modelos de oratória.”
“Platão, apesar de todas as suas reservas, não tinha outro remédio senão compreender a diferença profunda que existia entre Isócrates e outros retóricos do tipo de Lísias. Quando põe na boca de Sócrates a profecia de que Isócrates saberá desenvolver um dia os seus dons naturais de ordem mais filosófica e criar algo de pessoal, põe-nos o problema de vermos até que ponto a trajetória posterior do retórico satisfez realmente aquelas esperanças.”
(*) “Em Antíd., 258, Isócrates afirma cautelosamente que são certos filósofos erísticos os que o difamam; estabelece, pois, distinção entre o próprio Platão e o seu discípulo Arist..”
“É certo que não se pode dar o nome de Filosofia a esta cultura meramente lógica e conceitual, visto que não dá normas nem para bem falar nem para bem agir. É, no entanto, um exercício da alma e uma iniciação à verdadeira Filosofia, à cultura político-retórica.” Vd. o Político: o Jovem Sócrates, um matemático ateniense, e o Estrangeiro em busca da definição do Homem Político.
(*) “…Platão julga ter refutado no Górgias estas censuras de Cálicles, mas Isócrates volta a colhê-las na sua totalidade, prova de que este antagonismo entre os 2 ideais de cultura é eterno….”
“antigos sofistas (termo com que se refere aos que hoje designamos por pré-socráticos).”
(*) “…Já na Helena, 2-3, Isóc. atacara os filósofos pré-socráticos, Protágoras, Górgias, Zenão e Melisso,¹ como simples rebuscadores de paradoxos, e prevenira contra a sua imitação. Na Antídosis critica Empédocles, Íon [não se sabe se é o Íon de Quio já citado], Alcmeôn, Parmênides, Melisso e Górgias. É claro que não critica Górgias como retórico, mas sim como inventor do famoso argumento o ser não é, que foi uma exageração dos paradoxos tão do gosto dos filósofos eleatas.” Não poupava o próprio mestre – mas, mais grave, não devia saber puxar muita coisa de proveito do que lia, para atirar a torto e a direito assim e ver qualidade tão-só em si.
¹ Provavelmente um campeão da irrelevância. Só citado agora; bastante superficialmente discorrido na História da Filosofia hegeliana. Um péssimo discípulo de Zenão, caso o tenha realmente sido.
“as especulações metafísicas sobre o Ser e a natureza, ligadas aos nomes de Empédocles, Parmênides, Melisso e outros são por ele consideradas pura insensatez e provocam a sua indignação. No Parmênides e no Teeteto de Platão discutem-se vivamente os problemas da escola eleata, de Heráclito e de Protágoras. Nas listas das obras de Arist. são especialmente citadas obras de Xenófanes, Zenão, Melisso, Alcmeôn, Górgias e os pitagóricos. Estes estudos nasceram do contato intensivo da Academia com os pensadores antigos e os seus frutos já se manifestaram nas partes mais antigas da Metafísica de Arist., sobretudo no livro I, que trata dos pensadores anteriores a ele.”“Isóc., involuntariamente, já não consegue mais exprimir o seu pensar discrepante senão na forma da negação do ponto de vista platônico.” O início da “síndrome” que já dura +2000 anos.
De modo esquemático:
Parmênides ——(V)—– Sócrates —– Platão
Parmênides ——(O)—– Górgias —– Isócrates,
onde (V) = Verdade e (O) = Opinião, conforme desmembrados do Um de Parm..
“Segundo Isóc., a censura que Platão dirige no Górgias aos grandes estadistas do passado cai sobre aquele mesmo que a formula, pois, ao aplicar aos homens uma pauta sobre-humana, o que faz é precisamente praticar uma injustiça contra os melhores dente eles. (…) opinião acertada (…) concedida como dom divino)” DV
Ad infinitum a mesma crítica ao Übermensch…
“Enquanto para Platão a fase superior da arete e da paideia começa para além deste êxito baseado no instinto e na inspiração, o sistema educativo de Isócrates, sujeitando-se por si mesmo a uma limitação consciente e levado pelo seu ceticismo de princípio, move-se exclusivamente na fase do simples critério pessoal e da mera opinião. A opinião certa não é para ele um problema de conhecimento exato, mas sim de gênio, e como tal inexplicável e refratário a ser transmitido por meio do ensino.”
“Em parte alguma as limitações espirituais de Isócrates ressaltam com maior clareza do que na crítica à teoria platônica da paideia.” Um aristocrata é um aristocrata, crendo num Homem ou não (somente homens).
(*) “Antíd., 274-5: uma techne do tipo da que exigem os dialéticos nunca existiu antes, tampouco existe agora. Mas antes de inventar tal paideia conviria abster-se de prometê-la aos outros….”
“À essência da pleonexia (desejo de mais), profundamente enraizada na natureza do Homem, como instinto de posse, dedica ele aqui uma investigação especial, em que procura dar a este conceito um sentido positivo. É neste ponto que Isócrates traça uma nítida linha divisória entre si próprio e o Cálicles de Platão. Esta linha divisória é a da moral.”
(*) “De Pace, 33. Já nesta obra (…) se vê claramente que Isócrates é contrário ao amoralismo do Cálicles platônico e à sua teoria do direito do mais forte (…) Na Antídosis, Isó. procura separar nitidamente as duas coisas.” Sempre haverá “duas” Vontades de Potência: a do Bom (Melhor) e a dos maus. Todo mestre será malversado. E embora separáveis, sempre terão o mesmo nome. Não se trata de contestar o “princípio natural” da “sobrevivência do mais forte”, mas de estabelecer: o que é o mais forte?
(*) “Antíd., 282 e 285. Em 283, Isó. censura o abuso das palavras em que incorremos filósofos, ao transpô-las das coisas supremas para as coisas piores e mais reprováveis. Na realidade, ele próprio muda o sentido do termo pleonexia, de algo moralmente repugnante em algo ideal. Ao fazê-lo, segue sensivelmente o exemplo de Platão, que no Banq., 206 A define o eros idealizado como o impulso para a assimilação do mais belo e do melhor…”
“Isócrates aceita a moral prática dos socráticos, embora sem a dialética nem a ontologia platônicas” Isócrates quer as vantagens da Filosofia sem seus efeitos colaterais! Hipertrofia que se repetiu na Alemanha: quando o culto se torna o bárbaro. E, no fundo, Caetano Veloso filosofa em alemão. Somos seus continuadores.
“Não é próprio do ateniense desprezar o logos nem sentir ódio à cultura do espírito, ódio freqüente agora entre os políticos poderosos e entre a massa, e que constitui um sintoma de degenerescência do Estado ático.” “é ao espírito ático que se deve a fama da cidade no mundo inteiro.” “Ao perseguirem os representantes da cultura espiritual, os atenienses procedem como procederiam os espartanos se punissem as atividades guerreiras, ou os tessálios se anatematizassem a criação de cavalos e a equitação.”
“MUDA BRASIL”, MBL, etc.: “A tendência mais extremista da democracia foi adotando uma atitude cada vez mais hostil para com a cultura, à medida que se ia definindo a ligação entre a cultura e a crítica política.” “O que revoltava a massa, a criação de uma nova aristocracia espiritual em vez da antiga nobreza de sangue, que já tinha definitivamente perdido a sua importância, era o ideal consciente da educação isocrática.”
“Finge-se pronunciar estas palavras perante um tribunal, mas na realidade brotam do refúgio de um recanto, a partir do qual já não se apresenta a mínima possibilidade de influir no andamento das coisas, porque já se tornou insondável o abismo entre o indivíduo e a massa, entre a cultura e a incultura.”
“Na nova estrela ascendente do rei Filipe da Macedônia, na qual os defensores da polis viam um signo funesto, viu Isó. totalmente o contrário, a luz de um futuro melhor; e no seu Filipe saudou o adversário de Atenas como o homem a quem a tyche conferira a missão de realizar o seu ideal pan-helênico.” “Dos homens que eram, em Atenas, a alma da resistência contra a Macedônia, mesmo de Demóstenes, falava só como de homens incapazes de fazerem qualquer bem à polis.”
“O ancião de 97 anos [!] (…) espalha-se em considerações históricas sobre a melhor forma de governo, que consiste, segundo Isó., numa combinação correta dos 3 tipos fundamentais de constituição.” “Esta teoria influenciou os estadistas peripatéticos e através deles informou a obra do historiador Políbio – sobretudo no modo de expor o espírito do Estado romano – e ainda o ideal de Estado de Cícero, no seu De Republica.”
4.7 Xenofonte: o cavaleiro e o soldado ideais
“Se deixarmos de lado (…) Platão (…) só um homem dentre os escritores do círculo socrático, Xenofonte, chegou até nós através de numerosos escritos. Em contrapartida, discípulos como Antístenes, Ésquines e Aristipo, preocupados apenas com imitar as diatribes morais do seu mestre, dificilmente representam para nós mais do que simples nomes.” Com efeito, os dois últimos estão citados apenas duas vezes nesse amplo resumo, contando com a menção acima.
“Mesmo que não seja lido como o primeiro prosador grego, pela transparente simplicidade da sua linguagem (e ainda hoje assim é considerado nas nossas escolas); mesmo que o julguemos através da leitura dos grandes autores do seu século, de um Tucídides, de um Platão ou de um Demóstenes; muitas coisas que hoje nos poderiam parecer espiritualmente banais ganham, pelo encanto da sua pena, um aspecto diferente.”
“Xenofonte, que nascera num dos demos atenienses, o mesmo de que Isócrates descendia, passou pelas mesmas experiências infelizes deste e de Platão, na última década da guerra do Peloponeso, época em que se tornou adulto.” “Não foi Sócrates, porém, quem marcou o destino da sua vida, mas sim a ardente inclinação para a guerra e para a aventura” “o mais brilhante dos seus livros, a Anábase ou Expedição de Ciro”
“ao regressar da campanha da Ásia, uniu-se diretamente aos espartanos que sob o comando de Agesilau combatiam em prol da liberdade dos gregos da Ásia Menor e voltou à Grécia com o rei”
Alfred CROISET, Xenophon, son charactère et son talent (Paris, 1873)
“E teve que pagar com a extradição para fora da sua cidade as inapreciáveis experiências militares, etnográficas e geográficas adquiridas na sua campanha asiática.”
“O gosto pelas variadas atividades de agricultor, juntamente com a recordação de Sócrates e a inclinação para tudo quanto fosse histórico e militar, é uma das principais características da personalidade de Xenofonte”
“Xenofonte permaneceu longe da pátria durante os decênios do novo apogeu ateniense, com a 2ª liga marítima; não voltou a ser chamado a sua cidade antes da decadência desta liga, a última grande criação política de Atenas, data em que procurou contribuir com alguns pequenos escritos de caráter prático para a obra de reorganização do exército e da economia. (…) A sua vida abrange, pois, pouco mais ou menos, o mesmo período da de Platão.”
“Quando redigiu o seu escrito em defesa de Sócrates, que figura agora como livro primeiro, à cabeça das suas Memoráveis, escritas muito depois – motivadas principalmente pela polêmica literária que ao final da década de noventa provocou o livro difamatório do sofista Polícrates contra Sócrates e os socráticos –, era a uma razão predominantemente política que obedecia a sua incorporação no círculo dos defensores de Sócrates: ao desejo de provar, lá do exílio, que Sócrates não devia ser identificado com as tendências de Alcibíades ou de Crítias, os quais as escolas concorrentes lhe pretendiam atribuir como discípulos, a fim de desacreditarem como suspeito de espírito antidemocrático tudo quanto tivesse qualquer relação com Sócrates. Nem sequer os acusadores do mestre se tinham atrevido a tanto, no seu processo.”
“sentimentos antidemocráticos, misodemia”
“A redação de um capítulo como a conversa entre Sócrates e Péricles o Moço, Mem., III, 5, em que se parte do pressuposto que o principal inimigo de Atenas são os tebanos (…) só se pode conceber na altura em que Atenas e Esparta eram aliadas contra Tebas, após o início do novo apogeu desta cidade, i.e., nas décadas de 60 ou 50 do século IV.”
“Embora transpareça constantemente em Xenofonte o orgulho nacional e a fé na superioridade da cultura e do talento gregos, ele está muito longe de pensar que a verdadeira arete seja um dom dos deuses depositado no berço de qualquer burguesinho helênico.” [!]
“Entre os persas considerava-se incorreto cuspir e assoar o nariz”
“Na imagem de Ciro traçada por Xen. aparecem intimamente associadas a helenofilia e a alta arete persa. Ciro é o Alexandre dos persas e só difere do macedônio pela sua tyche. A lança que o trespassou podia ter derrubado também Alexandre. [?] Cf. An., I, 8, 27. Alexandre professava a mesma idéia de Ciro acerca da bravura pessoal do chefe, idéia que os gregos do séc. IV consideravam romântica. Expunha-se ao perigo sem qualquer finalidade e era ferido com freqüência.” Agamemnon não podia ser um protótipo do ateniense clássico? Péricles não combatia?
[?] Já entendemos que Alexandre não era um imortal – é necessária toda essa ênfase?!
PAN-PAN-HELENISMO: “Estes gregos vislumbraram agora, embora sem terem percebido claramente, a possibilidade e as condições de uma influência da cultura grega para além das fronteiras da própria raça.”
“De outra forma não teria podido surgir um livro como a Ciropedia, que apresenta aos gregos o ideal da verdadeira virtude de um monarca, encarnado na pessoa de um rei persa.
Esta obra, em cujo título figurava a palavra paideia, é para nós decepcionante, no sentido de que é só no seu começo que trata realmente da educação de Ciro.(*) Não estamos na presença de uma novela cultural da Antiguidade, mas sim de uma biografia completa, ainda que muito romanceada, do rei que fundou o império persa.
(*) (…) Também a Anábase tira o título do 1º capítulo da obra, apesar da parte principal se consagrar à narração da retirada dos gregos, i.e., da katabasis. Não faltam exemplos deste tipo de títulos na literatura grega.”
“O mero fato de os gregos do séc. IV poderem entusiasmar-se com tal figura atesta como os tempos tinham mudado (…) Entramos na era da educação dos príncipes.”
“O guerreiro de Xen. é o homem que confia singelamente em Deus. Na sua obra sobre os deveres do capitão de cavalaria, há uma passagem onde diz que se algum leitor se espantar de todos os seus atos começarem com Deus, é porque nunca se viu forçado a viver em perigo constante.”
“O centro da sua educação é a praça pública diante do palácio real, rodeada também por outros edifícios públicos. Deste lugar estão banidos comerciantes e lojistas, para que o seu bulício não se misture à eukosmiada gente culta. É patente o contraste com o que acontecia em Atenas e na Grécia. Aqui, a praça e as imediações dos edifícios viam-se cercadas de tendas de comércio e cheias de azáfama ruidosa e agitada dos negócios.” “Os diretores da educação infantil saem das fileiras dos velhos escolhidos como mais aptos para esta função; os educadores dos jovens capazes de pegar em armas, dos <efebos>, são distintos representantes dos homens de idade madura. As crianças, como na Grécia os adultos, têm uma espécie de tribunal perante o qual podem apresentar suas queixas e agravos, contra os gatunos, assaltantes e autores de atos violentos, de fraude ou de injúria. Os autores de um desacato são disciplinarmente castigados; mas também o são aqueles que acusam inocentes. Xenofonte salienta como peculiar atributo dos persas o grave castigo com que sancionam a ingratidão. Esta é considerada a raiz de todo o impudor e, portanto, de todo o mal.”
“O regime de vida das crianças é o mais simples que se possa imaginar. Trazem de casa para a escola um pedaço de pão e uma salada, bem como uma caneca para tirarem e beberem água, e todos comem juntos sob a vigilância do mestre. Este sistema de educação chega até os 16 ou 17 anos; nessa idade, o jovem ingressa no corpo dos efebos, onde permanece durante 10 anos.”
“O alto apreço que se tem pelo exercício de caça é, segundo Xen., um sintoma de saúde do sistema persa. O nosso autor celebra as virtudes desta prática que enrijece o homem, e tanto aqui como na sua obra sobre o Estado dos espartanos e no Cinegético, concebe-a como um dos elementos essenciais de toda a paideia correta.”
“Só ingressam na classe dos efebos as crianças cujos pais disponham de recursos para enviar os filhos a esta escola de kalokagathia, em vez de fazerem-nos trabalhar, e só alcançam a categoria de adultos e a seguir a dignidade de anciãos os efebos que completam o tempo de serviço militar.” Do contrário permanecem presos em Neverland.
“Aos cidadãos espartanos com plenitude de direitos tinha, contudo, de parecer estranho que até o rei dos persas e a alta nobreza se entregassem fervorosamente à agricultura. Em Esparta eram considerados banais estes trabalhos”
“Tudo isto tinha que parecer muito estranho ao público grego, se excetuarmos talvez o de Esparta (…) Isto recordará ao leitor moderno as escolas de cadetes dos Estados militares do tipo do antigo Estado prussiano, chamadas a fornecer ao exército o material humano e, assim, a formarem os seus pupilos desde a infância.” “apesar de Xen. entender que a linhagem é aqui substituída pela norma da independência financeira dos pais das crianças que se pretende educar, o mais provável é que esta categoria coincidisse quanto ao essencial com a nobreza dos proprietários de terras do Estado persa.”
“No prólogo da Ciropedia volta resolutamente as costas aos persas do seu tempo e explica as razões da sua decadência.E igual atitude adota para com a Esparta dos seus dias, no final da sua obra sobre o Estado espartano. Não teria procedido assim, sem dúvida, em vida do rei Agesilau, a quem exaltou numa apologia, escrita quando a sua morte (360), como a personificação da autêntica virtude espartana.”
“A exuberante vida oriental, que muitos consideram típica da Pérsia, é para ele característica da Média [país de nascimento deParysatis, mãe de Ciro]. Foi esta a principal razão do império medo ter caído nas mãos dos persas, logo que estes tiveram consciência da sua superioridade. Este povo persa, o do tempo de Ciro, não era um povo de escravos, mas de homens livres e iguais em direitos”
“Em tempos de Xen. e de Platão, e com certeza muito antes, este cosmos espartano já aparecia aos olhos do mundo como uma formação acabada. Contudo, devemos exclusivamente ao interesse destes pensadores e escritores pela paideia dos espartanos o ter-se conservado algum conhecimento de Esparta digno de nota.”
“Os escritos de Platão sobre o Estado são o melhor comentário ao que a mentalidade grega entendia por imitação. Os gregos tendiam menos do que nós a encarar na sua individualidade única uma criação coerente consigo própria, mesmo quando determinada pelas condições de sua essência” “É o princípio da educação como função pública que constitui a verdadeira contribuição de Esparta para a história da cultura, contribuição cuja importância é impossível exagerar.”
“pela 1ª vez na literatura ganhou caráter agudo o problema do campo e da cidade.” “Este amor ao campo está tão distante do bucolismo sentimental dos poetas idílicos gregos como do espírito rústico e burlesco das cenas campestres de Aristófanes.”
“Para justificar o interesse pela agricultura em geral e apresentá-la como um tipo de atividade merecedora do respeito social, Sócrates [o Sóc. xenofôntico, i.e.] lembra o exemplo dos reis persas, que só consideravam digna de se associar aos deveres militares uma única paixão: o cultivo da terra”
“Para velar pelos frutos da terra é mais indicada a alma tímida da mulher do que a coragem do homem, a qual é, em contrapartida, indispensável para evitar que no trabalho do campo se cometam transgressões ou desacatos. São inatos à alma feminina o amor às crianças e a abnegada devoção para cuidar delas. O homem está mais apto a suportar o calor e o frio, a percorrer caminhos longos e penosos ou a defender as terras de armas na mão.” Blablablá de capataz.
SEMENTINHA DA REV. INDUSTRIAL:“Se a presença pessoal do fazendeiro não faz os trabalhadores retesarem voluntariamente os músculos [ih, negócio meio estranho!] e trabalharem a um ritmo preciso e harmonioso, é porque o patrão carece da capacidade indispensável para o desempenho da sua missão”
“Também Platão nas Leis atribui à caça um lugar na sua legislação educativa. É no final, depois das leis sobre o ensino matemático-astronômico, muito distante das normas sobre a ginástica e a instrução do soldado e bastante desligada delas, que esta seção figura. Talvez isto permita chegar à conclusão de que se trata de uma adição posterior à redação da obra. É possível que tenha sido precisamente o aparecimento da obra de Xen. que chamou a atenção de Platão para esta lacuna do seu sistema educativo. Em todo caso, a publicação do Cinegético coincide mais ou menos com os anos em que Platão trabalhava nas Leis.”
“Platão não se resolve absolutamente a reconhecer como paideia tudo quanto no seu tempo se chamava caça. Não quer, porém, estabelecer nenhuma lei sobre isso e, como com tanta freqüência faz nas Leis, limita-se a misturar louvores e censuras no tocante a certos gêneros de caça. Condena severamente toda sorte de pesca de rede e de anzol, por entender que não fortalece o caráter do homem. Só autoriza, portanto, a caça a quadrúpedes e ainda por cima praticada abertamente e em pleno dia, não durante a noite ou valendo-se de redes ou armadilhas.”
“Como argumento para provar o caráter apócrifo do Cinegético quis-se aduzir o fato do autor não indicar que a caça devia ser feita a cavalo, pois era esta a forma como os atenienses distintos a praticavam.” “O que deve figurar indiscutivelmente num livro sobre a caça é, isso sim, a maneira de adestrar os cães. E Xen. condensa no Cinegético a sua experiência nesta arte com inúmeros pormenores cheios de encanto, que o definem como grande conhecedor destes animais.” “ao reivindicar o reconhecimento da caça como meio e caminho para a formação da personalidade, vai contra a corrente da evolução da sua época” “a caça a feras, como o leão, o leopardo, a pantera e o urso só se praticava naquele tempo na Macedônia, na Ásia Menor e no interior da Ásia.”
“A obra vem citada na relação dos escritos de Xen. por Diógenes Laércio, relação que remonta aos trabalhos de catalogação dos filólogos alexandrinos do séc. III a.C..”
“É interessante notar que também em matéria de paideia existem agora peritos e leigos, ainda que neste campo o leigo exerça com maior vigor que em nenhum outro a sua crítica.”
4.8 O Fedro de Platão: filosofia e retórica
“Constituía o compêndio mais resumido das idéias platônicas acerca da relação entre a palavra escrita e falada e o pensamento, e conseqüentemente era o pórtico por onde todos entravam no templo da filosofia de Platão. O entusiasmo ditirâmbico pelo qual no Fedro Sócrates se deixa arrastar nos discursos sobre o eros – entusiasmo que ele próprio ironicamente faz notar – era tido por indício seguro das origens remotas deste diálogo. Já a crítica antiga caracterizara, em parte, como mau ou ‘juvenil’ o estilo destes discursos, o que indubitavelmente equivalia a primitivo, não em sentido biológico, mas no sentido de valoração artística, i.e., de censura a um estilo excessivamente redundante.” “A condenação intrínseca do Fedro como um problema juvenil é, a meu ver, uma improvisação digna da ignorância de Diógenes Laércio. É evidente que este pensava que o verdadeiro problema do diálogo era o tema do discurso de Lísias, que figura no começo do Fedro e é, sem dúvida, um tema pueril.”
“Parecia lógico que Platão fornecesse logo no início da sua carreira literária uma explicação sobre a sua atitude perante a obra de escritor em geral e sobre o valor da palavra escrita para a filosofia” “E foi precisamente com a ajuda do Fedro que Schleiermacher descobriu esta nova interpretação formal, que viria a fornecer a pauta para todo o resto. (…) Mas à medida que as investigações sobre Platão foram assimilando, no decorrer do séc. XIX, a idéia de evolução histórica (…) descobriram-se indícios que sugeriam uma origem mais tardia” “Esta viragem foi feita sobretudo por Karl Friedrich HERMANN,Geschichte und System der platonischen Philosophie (Heidelberg, 1839).”
“Finalmente, via-se que a riqueza do vocabulário e a complexidade de composição com que nesta obra se expõe o pensamento platônico traíam a sua proveniência da época da sua maturidade (…) Depois de situarem durante certo tempo o Fedro na época do Banquete, i.e., no período intermédio (após a fundação da escola platônica), os intérpretes viam-se agora obrigados a deslocar de novo este diálogo para a última fase da vida do filósofo. Hermann situa o Fedro, ao lado de obras como o Menexeno, o Banquete e o Fédon, na época por ele designada como 3º período da obra escrita de Platão, antes da República, do Timeu e das Leis. Usener e Wilamowitz defendiam ainda, contra Hermann, a primitiva cronologia de Schlei.; Wilamowitz, contudo, abandonou mais tarde este ponto de vista. Mais longe ainda que Hermann foi H. von ARNIM, ao situar o Fedro entre as últimas obras de Platão, no seu livro Platos Jugenddialogue und die Entstehungzeit des Phaidros (Leipzig, 1914).”
STENZEL, Plato’s Method of Dialectic, 1940
(*) “…Isto confirma o testemunho de CIC., Or., 13, tirado dos eruditos helenísticos que classifica o Fedro como obra de velhice de Platão.”
“É certo que grande parte das dificuldades que a composição da obra apresenta ao leitor deriva apenas do paralelismo, explicável mas falso, com o Banquete. Se o compararmos com esta obra, que trata toda ela do problema do eros, é fácil vermos no Fedroo 2º grande diálogo erótico de Platão.”
“É nas suas relações com o problema da retórica que reside a unidade do Fedro. As 2 partes da obra dedicam-se em igual medida a este problema.” “A chamada parte erótica, ou seja, a 1ª, começa com a leitura e a crítica de um discurso de Lísias, apresentado como o dirigente da mais influente escola retórica de Atenas, e que no tempo de Sócrates estava no apogeu do seu prestígio. (…) como, a partir das falsas premissas de Lísias sobre o eros se pode tratar melhor do que ele o mesmo tema ou como deve esta questão ser exposta, quando se sabe verdadeiramente o que ela é.”
“autêntica retórica” “deixa sem solução o problema de saber se alguma vez chegará a existir este tipo de retórica. Apesar disso, Platão faz Sócrates dizer que deposita grandes esperanças no jovem Isócrates, e o diálogo termina com as elogiosas palavras do mestre a este novo retórico. § Estes elogios tributados a Isóc. formam um contraste consciente com as mesmas censuras dirigidas a Lís., que encabeçam tanto a parte I como a parte II”
MESTRE DA ANACRONIA: “Embora seja difícil dizer a priori a que época da atuação de Isóc. pode corresponder este episódio, é evidente que a profecia sobre a grandeza futura deste homem não teria tido qualquer sentido na juventude de Platão, quando ainda não existia nenhuma escola sua nem nada que permitisse distingui-lo dos outros redatores de discursos. É preciso que a nova retórica já tenha apresentado provas decisivas da potência de espírito de seu autor, para que Platão pudesse pensar em cingir com o laurel daquela profecia socrática(*) a fronte do homem da mais importante das escolas de Atenas suas opositoras.
(*) CIC.: <haec de adolescentes Socrates auguratur at ea de seniore scribit Plato et scribit aequalis.>”
“O Fedro só pode ser compreendido como nova fase da atitude de Platão para com a retórica. Essa atitude é ainda de franca recusa no Górgias, onde a retórica é a suma de uma cultura que não se baseia na verdade mas sim na mera aparência. É certo que, separando bem, já se descobrem de vez em quando neste diálogo certas referências ao que poderíamos chamar a própria consciência retórica de Platão.”
“O que é decisivo é que o ponto de partida desta obra seja a leitura de um discurso-modelo de Lís., dado por este aos discípulos para o aprenderem de cor. (…) A escolha do eros como tema do discurso obedece à freqüência com que os exercícios dos retóricos se valiam deste tema. Entre os títulos das obras perdidas de Arist. encontramos citada toda uma coleção deste tipo de teses retóricas sobre o eros.” “Também no Banquete o problema do eros, concretamente no início do duelo oral e no discurso de Fedro, aparece como um tema nitidamente retórico.”
“A juventude ateniense andava muito preocupada com saber se e em que circunstâncias era lícito ceder à exigências do amante, aludindo com isto fundamentalmente à entrega física. [dar o cu] Já conhecemos este problema, pelo discurso de Pausânias contido no Banquete. Lísias vence os que consideravam lícito, com a tese perversa de que era sempre melhor para o amado entregar-se a um amigo que não se encontrasse dominado pelo eros, mas conservasse o sangue-frio. Este amigo não se deixava arrastar pelas turbulências sentimentais do amor nem prejudicaria o seu jovem amigo, isolando-o egoistamente, à força, de todos os outros homens, para prendê-lo exclusivamente a ele. No seu 1º discurso, que pronuncia de cabeça descoberta, pois não lhe passa despercebido o caráter blasfemo da tese, Sócrates reforça estes argumentos com uma rigorosa classificação e definição das diversas classes de apetites. Coincide plenamente com Lís. em considerar o eros uma modalidade do apetite sensual, edificando sobre esta premissa a sua argumentação.”
“Nada é mais contrário ao alto conceito do caráter de um eros como o proclamado no discurso de Diotima (…) Mas é esta maneira forçada de abordar dialeticamente o problema que torna imprescindível que a discussão, arrastada pela força de uma necessidade interna, transcenda este tema concreto do eros e se eleve às verdadeiras alturas da contemplação filosófica.”
“O eros é aqui situado no mesmo plano dos dotes poéticos e proféticos e a inspiração apresentada como sua essência comum.”
MITO DA CAVERNA II: “O discurso vai subindo àquela região supraceleste em que a alma, impelida pelo eros e seguindo o deus que lhe é afim por essência, já é digna de contemplar o Ser puro. Sócrates justifica o estilo poético do seu discurso, recorrendo a Fedro, em atenção ao qual emprega este recurso. Nem de outro modo se pode falar a um discípulo e admirador da cultura retórica. Mas Sócrates prova-lhe que o filósofo com facilidade sabe ultrapassar a sua arte, caso o pretenda. O vôo entusiástico das suas palavras não é um frio artifício como tão freqüentemente o é o estilo sublime dos retóricos”
“É possível ensinar a virtude?” Só sendo virtuoso.
“É possível ensinar a falta de virtude?” Não.
Tautologia, enfim: só aprende a virtude quem é virtuoso. Dormente, desencaminhado, jovem e inexperiente demais… Inconsciente… Ou apenas um virtuoso que finalmente pode abrir o coração diante de outro virtuoso. A sina do virtuoso, de ambos os lados.
“É principalmente com os recursos da comparação que a argumentação dos retóricos opera.” “É o conhecimento do díspar e do semelhante que serve de base a qualquer definição lógica de um objeto. E supondo que o objetivo fosse enganar o auditório, i.e., levá-lo a conclusões falsas a partir de meras aparências, também isto pressupunha um conhecimento exato do método dialético de classificação, pois só assim se poderia penetrar nos diversos graus de semelhança das coisas.”
“É importante para nós sabermos que foi da filosofia, e não da teoria artística da retórica ou dos poetas, que a exigência da unidade orgânica de uma obra literária partiu, e que ela teve de ser proclamada por um artista-filósofo, admirador da integridade orgânica da natureza e, ao mesmo tempo, um gênio da lógica.”
“o que impeliu Platão a escrever o Fedro foi a clareza cada vez maior com que via a ligação entre os problemas teóricos aparentemente difíceis e abstratos da sua posterior teoria das idéias e as mais simples exigências que que se colocavam à capacidade de falar e de escrever, que, naquela época, constituíam um tema muito procurado e muito debatido.” “Em vez de se deixar arrastar pelo tom antipático ou desdenhoso da polêmica, que Isóc. gostava de usar também contra Platão, no início das suas atividades, este sabe combinar os elogios ao adversário, que respeita, com a referência às profundas conexões espirituais existentes entre os 2 campos.”
“O resto da retórica, tudo o que Lísias e outros como ele ensinam aos seus alunos, não pode nunca constituir, por si, uma técnica.¹ Forma, por assim dizer, a parte pré-técnica da retórica. Platão vai enumerando de um modo deliberadamente cômico toda a terminologia das várias partes do discurso que os retóricos distinguem nos seus manuais. Todos os representantes da antiga retórica aparecem neste quadro com os seus nomes, e alguns deles com as suas invenções pessoais, que revelam certa tendência para uma crescente complicação.”
“dotes naturais” X “prática”, “conhecimento”
¹ “a sua crítica da retórica anterior vai-se transformando nas suas mãos num ideal perfeitamente pessoal dessa arte, ideal cuja realização, unicamente, lhe permite converter-se de fato em techne, no verdadeiro sentido da palavra.”
“A grandeza de Péricles como orador devia-se a sua profunda cultura de espírito. Era a concepção filosófica do mundo do seu amigo e protegido Anaxágoras que dava forma a todo o seu pensamento” “Estes heróis da arete da verdadeira eloquência, no mito e na história pátria, não só se citam como figuras paradigmáticas para apoiar e ilustrar o conceito platônico de retórica, mas ainda como o contrário da secura e da penúria escolasticista¹ dos técnicos e especialistas modernos da arte oratória.”
¹ Novamente, esperamos que Jaeger não esteja usando o termo escolasticista no – indiretamente associável ao, mas incabíbel, anacrônico – sentido católico do termo, e sim no sentido de doutrina ou escola, mais universal.
“Quem julgar que com qualquer rotina pode ir avante achará este caminho desmedidamente longo e trabalhoso.”
“É claro que, como Platão reconhece no final, a verdadeira finalidade da retórica não consiste em falar para agradar aos homens, mas sim em agradar a Deus.(*) (…) Todas as aporias das suas obras anteriores vêm agora desembocar na atitude rigorosamente teocêntrica que caracteriza a paideia da sua última fase.
(*) (…) Portanto, é naquele ponto da retórica em que transparece a concepção do mundo própria do relativismo de Protágoras e dos sofistas que se apóia um novo ideal da arte oratória, cuja norma é o Bem eterno. [Quase a prova cabal da cronologia tardia do Fedro.]”
O ANTI-COMPILADOR (FALSO SABER): “Platão mostra-se muito inclinado a aceitar a arte de escrever dos retóricos profissionais. Mas nem por ser uma invenção genial se deve considerar agradável a Deus. O mito da invenção da arte da escrita, i.e., dos sinais escritos, pelo deus egípcio Toth serve para esclarecer isso. Quando o deus acorreu a Thamos de Tebas com a sua nova descoberta, gabando-se de com ela oferecer aos homens um recurso salvador para a sua memória e portanto para o seu saber, Thamos retorquiu-lhe que a invenção da escrita serviria, ao contrário, para desleixo da memória e para levar o esquecimento às almas” Uma instância em que um homem sábio ensina um deus. Este Thamos é só uma máscara para Sócrates, que anteviu o problema do “discurso charmoso”.
“Toda a grandeza de Platão se revela nesta posição soberana por ele adotada ante a palavra escrita, posição que tanto o afeta, nas suas atividades de criação literária, como a produção dos retóricos.”
“A posição paralela adotada no Fedro foi desde muito cedo relacionada com a forma platônica dos escritos filosóficos, ou seja, com o diálogo socrático; e viu-se nela uma razão fundamental para considerar esta obra uma exposição programática. Na realidade, é difícil de conceber que, com este ceticismo em relação à palavra escrita, o Platão da 1ª fase pudesse enfrentar a sua gigantesca obra de escritor.Em contrapartida, esta atitude perante a obra já realizada podia explicar-se psicologicamente, a posteriori, como um meio de preservar a sua liberdade mesmo em relação à própria obra escrita.” E das malversações de um futuro distante.
“As suas produções caem em todas as mãos, tanto nas de quem as compreende como nas de gente falha de compreensão, [Kikuchis] e a palavra escrita é incapaz de se explicar ou defender, quando injustamente atacada. Precisa de outrem, como advogado. A verdadeira escrita é a que se grava na alma do que aprende (…) o único proveito do escrito com tinta é recordar o que já se sabe.” Ah, tantas ressonâncias… Ou diria reminiscências…
“Quem se interessar pela verdadeira cultura do espírito não se contentará com os escassos frutos temporãos cultivados como desfastio no horto retórico, mas terá a necessária paciência para deixar amadurecer os frutos da autêntica cultura filosófica do espírito. [frase redundante] Já pela República e pelo Teeteto conhecemos esta defesa da cultura filosófica: o seu pressuposto é o princípio do longo rodeio, é importante ver como Platão sempre volta a ele.A semeadura da paideia platônica só pode frutificar em regime de longo convívio, como diz a Carta Sétima, e não em poucos semestres de regime escolar.”
Uma vez filósofo, sempre filósofo. Ou, posto que sempre filósofo, no arremate de uma biografia, pode finalmente declarar: foi filósofo. Princípio do anti-gracismo ou dos “filósofos por um tempo”, estagiários prostitutos do saber.
4.9 Platão e Dionísio: a tragédia da paideia
“Quando a crítica filológica destes últimos decênios logrou reivindicar como testemunhos autênticos do próprio Platão as cartas sétima e oitava, durante muito tempo consideradas apócrifas, acrescentou com isso um importante capítulo à história da paideia.(*) É certo que fatos exteriores referentes às relações entre o filósofo e o mais poderoso tirano do seu tempo ficariam de pé, mesmo que estas cartas, a sétima em especial, não fossem documentos autobiográficos de 1ª categoria, mas apenas uma ficção sensacionalista de qualquer requintado falsário literário, que tivesse querido explorar como rendoso tema novelesco o contato do grande Platão com a política do tempo.
(*) (…) Sobre a autenticidade das Cartas VII e VIII, cf. WILAMOWITZ, Platon/Platão, vol. II, e recentemente G. PASCUALI, Le Lettere di Platone (Florença, 1938). Há eruditos que reconhecem a autenticidade de todas as cartas em bloco, mas tal hipótese esbarra com dificuldades insuperáveis.”
“O observador histórico descobre, porém, um encanto insuperável em poder ler aqui a tragédia de Siracusa; e a maneira como Plutarco, na sua vida de Díon, adorna os acontecimentos para convertê-los em drama, não agüenta em nenhum sentido a comparação com a vida que extravasa do âmago da principal fonte de informação destes acontecimentos: a Carta VII de Platão.”
“Platão insistia sempre na ação, no bios, apesar de o campo de ação tender a restringir-se cada vez mais do Estado exterior para o Estado dentro de nós.”
“Os seus irmãos Adimanto e Glauco aparecem diretamente na República como a personificação da juventude ateniense apaixonada pela política. Glauco pretende enveredar pela carreira política logo aos 20 anos e Sócrates tem de se esforçar muito para o fazer desistir do seu propósito. Crítias, tio de Platão, é o célebre oligarca e cabecilha revolucionário do ano 403. Platão coloca-o mais de uma vez em seus diálogos como interlocutor e tencionava, além disso, dedicar-lhe o diálogo que traz o seu nome, obra que não chegou a acabar e que havia de encerrar a trilogia encabeçada pela República.”
“ano 388: (…) empreendeu, cerca dos 40 anos, a sua viagem a Siracusa, onde a sua teoria arrebatou por completo a alma ardorosa e nobre de Díon, parente próximo e amigo do poderoso senhor de Siracusa. A tentativa de Díon para ganhar para o seu ideal o próprio Dionísio I estava, naturalmente, condenada ao fracasso. A grande confiança humana que este político realista, de cálculo frio, depositava no seu parente Díon, homem todo entusiasta (…) baseava-se mais na absoluta lealdade e pureza de caráter de Díon que na sua capacidade para contemplar o mundo do estadista de ação com os olhos do tirano. Platão diz na carta que Díon esperava que o seu parente desse a Siracusa uma constituição e governasse o Estado de acordo com as melhores leis.”
“Este episódio é o prelúdio da tragédia que mais tarde se desencadearia entre Platão, Díon e Dionísio II, filho e sucessor de Dionísio I. Platão regressou a Atenas, enriquecido com uma grande experiência, e ali fundou, pouco depois, a sua escola. No entanto, as relações com Díon sobreviveram ao fracasso que havia de fortalecer Platão na sua decisão de se abster de toda a política ativa, decisão proclamada já na Apologia.”
“A República de Platão saíra (…) na década de 70. Esta obra deve ter constituído um novo incitamento para as idéias de Díon, pois nela apareciam formulados em forma clássica os pensamentos que tempos atrás ouvira exprimir ao seu autor. Poucos anos depois de publicado, este livro ocupava o centro das discussões.”
“certos sábios (…) pretenderam descobrir no Estado de regime de castas dos egípcios ou no Estado hierárquico-teocrático de Moisés o protótipo da paideia platônica ou algo de semelhante a ela. (…) cf. meu ensaio ‘Greeks and Jews’in: Journal of Religion, 1938.”
“O Estado perfeito é um mito, Rep. 501 E. Mas um príncipe filósofo podia torná-lo realidade, 502 A-B.” Mais do que um príncipe, uma casta inteira.
“Neste plano de Díon, o único fato real intangível era o poder ilimitado do tirano, e esse fato não poderia prometer nada de bom, pois ninguém sabia o uso que seria feito do poder. Mas a fé de Díon era suficientemente audaciosa para especular com a juventude de Dionísio. Juventude queria dizer maleabilidade e, conquanto ao inexperiente jovem tivesse faltado até agora aquela amadurecida visão moral e intelectual que Platão exige do seu príncipe ideal, outro ponto de apoio não parecia surgir para converter em realidade a idéia platônica.”
“Os planos de educação do tirano, iniciados após a subida deste ao trono, tinham fracassado após 2 tentativas. O poderoso Estado dos Dionísios igualmente se afundara, pois, uma vez frustrados os seus esforços educativos, Díon, desterrado pelo tirano, acabou por fazer uso da violência. Foi também de curta duração a sua vitória sobre o tirano. Após breve domínio, sucumbiu às mãos de assassinos, vítima das dissensões surgidas no seu próprio campo. A chamada carta de Platão, escrita depois do assassinato do amigo, constitui um esclarecimento e uma justificação dos seus atos perante a opinião pública, embora revista a forma de um conselho dirigido ao filho e partidários de Díon na Sicília, exortando-os a permanecerem fiéis ao ideal do falecido.”
“Só a tyche divina podia tornar o governante filósofo ou o filósofo governante. (…) Quando Díon pôs Platão em contato com Dionísio, a tyche divina pareceu estender a mão. E foi ela também que guiou a um fim trágico a cadeia das causas e efeitos quando o soberano não reconheceu aquela mão e a afastou.”
“No fundo, é a primitiva concepção grega da natureza humana”
“Na República ainda parecia existir um largo abismo entre o princípio divino do todo, o princípio do Bem, e a vida humana autêntica. Mas o interesse de Platão dirige-se em grau crescente à forma e ao modo de executar a sua ação no reino do visível, i.e., na História, na vida, no campo do concreto.” Se foi isso, Platão ficou bastante senil; não só pelo conteúdo das Leis, o que é óbvio, mas diante da própria idéia de escrever o livro não como um tratado filosófico moral qualquer, mas como um panfleto-para-a-ação, segunda metade da conduta platônica na qual não acredito, daí sublinhar em verde este trecho de Jaeger.
“O significado deste episódio ultrapassa em muito o puramente biográfico. Ganha o valor de ilustração direta da teoria da República, 2º a qual a universal experiência da inutilidade dos filósofos neste mundo equivale, realmente, a uma declaração da miséria do mundo e não diz nada contra a Filosofia.”
“Díon aceitava a pessoa do soberano como um fato dado, do qual se tinha de partir, pelo que, em vez de tirar Dionísio, por seleção, da classe dos guardiões, era preciso prepará-lo a posteriori para o desempenho de uma função que na realidade já exercia. Isto representava uma limitação muito séria aos postulados estabelecidos por Platão.” “Na República, Platão apontava como condição mais importante para a educação poder prosperar a atmosfera ou meio ambiente em que se processava.” “Fala a seguir do medo que nele infundia o aventuroso empreendimento a que Díon o arrastava e justifica esse medo por meio da sua experiência pedagógica, a qual lhe dizia que a gente nova se entusiasma facilmente, mas carece de constância nos seus anseios. Estava convencido de que o caráter provado e a idade já madura de Díon eram o único ponto de apoio firme, em todas as circunstâncias.”
“agia (…) pelo receio de parecer um homem só de palavras. A resignação que tão comoventemente se espelha na República já tinha implícito, no fundo, uma resposta negativa a este esforço para arrancá-lo ao seu isolamento. Platão arriscava agora a fama na tentativa de refutar com a própria conduta o seu pessimismo, bem-justificado. Como ele próprio conta, abandonou a sua atividade docente em Atenas, atividade absolutamente digna dele, para se entregar à pressão de uma tirania que de modo nenhum se harmonizava com as suas concepções filosóficas. Mas julgava conservar, assim, limpo de culpa o seu nome perante o Zeus da hospitalidade e também, em última análise, perante a sua vocação filosófica, que não lhe consentia escolher o caminho mais cômodo.”
“Dionísio, o Velho, embora confiasse humanamente em Díon, e com razão, procurou subtraí-lo à influência do filósofo, mandando este embora. Seu filho, mais fraco, deu ouvidos aos inimigos invejosos de Díon, desejosos de conquistarem autoridade sobre ele próprio, os quais insinuavam que, sob o manto das suas idéias filosóficas reformadoras, Díon conspirava para derrubá-lo e tornar-se tirano. (…) Dionísio, no entanto, não abrigava suspeitas contra as intenções do filósofo e sentia-se, além disso, lisonjeado pela sua amizade com ele; nestas condições, fez precisamente o contrário do que seu pai teria feito na mesma situação: exilou Díon e procurou conquistar a amizade de Platão.”
“Platão regressou, pois, a Atenas, embora tivesse que prometer que voltaria, uma vez terminada a guerra que entretanto rebentava. Evitava romper de todo com o tirano, pensando principalmente em Díon e esperançoso em ver o seu amigo voltar do exílio à pátria.” “Não é fácil compreender o que levou Platão a aceitar um novo convite de Dionísio, poucos anos depois de ter fracassado a sua 1ª missão junto dele. Como razões para justificar a sua conduta alega os incessantes pedidos dos seus amigos de Siracusa, principalmente dos pitagóricos do sul da Itália e do grande matemático Arquitas (que governava Tarento) e seus partidários. Antes de deixar Siracusa, Platão estabelecera laços políticos entre estes elementos e Dionísio; se agora recusasse o novo convite do tirano, esses laços poderiam perigar. Este mandou um barco de guerra a Atenas buscar Platão (…) prometeu-lhe além disso que o seu amigo seria chamado do exílio, caso aceitasse o convite.” “Desta vez a narração platônica passa pura e simplesmente por alto tudo quanto se refere ao seu acolhimento e à situação política com que deparou ao chegar a Siracusa, para se fixar exclusivamente no estado da educação que ali encontrou.”
“Um espírito animado do verdadeiro amor ao saber sente-se fortalecido no seu desejo pela consciência dos obstáculos que se erguem diante dele, e põe em ação todas as suas forças e as do seu guia espiritual para alcançar a almejada meta; ao contrário, o homem rebelde à cultura retrocede, atemorizado, perante o esforço e o severo regime de vida que lhe é imposto, e sente-se incapaz de enveredar por este caminho.”
“Pretende a tradição que Dionísio, após a queda do seu regime, se dedicou ao ensino em Corinto. Platão, aliás, menciona a existência daquele livro em que, parece, a sua doutrina era plagiada, só por ter ouvido falar, pois nunca chegou a lê-lo. Contudo, isto dá-lhe ensejo para um esclarecimento da sua obra de escritor e da relação entre ela e a sua teoria, o que não pode surpreender-nos muito, depois do que nos diz no Fedro (…) Nada tem de estranho que seja precisamente nos derradeiros anos da sua vida que se multipliquem estas declarações sobre a impossibilidade de plasmar satisfatoriamente em forma escrita a verdadeira essência dos seus conhecimentos.”
“Sobre a certeza suprema que serve de ponto de apoio ao seu pensamento, nada existe nem existirá jamais escrito pelo seu punho. A teologia de Arist. é, no pensar deste pelo menos, matéria de ensino, a disciplina suprema entre outras disciplinas. É indubitável que Platão julga possível e necessário operar, através da gradação do saber que na República pinta como paideia filosófica, a catarse do espírito, a fim de purificá-lo dos elementos sensíveis apegados a ele e encaminhá-los cada vez mais para o Absoluto.” Palavra ironicamente poluída pelo mau uso sistemático.
“É nesta passagem que Platão emprega a metáfora da faísca que salta e se prende à alma de quem passa por tal processo.”
“a contemplação, que é finalidade da semelhança com Deus, continua a ser para Platão um arrheton. Já o Banquete pintava em termos semelhantes, como uma mistagogia, a ascensão da alma à contemplação do eternamente belo; e diz no Timeu: é difícil descobrir o criador e pai deste todo e, uma vez descoberto, é impossível declarar publicamente a sua essência.”
“Platão, que viveu algum tempo como prisioneiro no palácio do rei, acabou por ser alojado no quartel da guarda pessoal, que era hostil ao filósofo e constituía uma ameaça para a sua vida, até que por fim Arquitas de Tarento, secretamente informado do sucedido, consegue que o tirano consinta no regresso de Platão. Na viagem de volta encontra-se nas festas de Olímpia com o desterrado Díon. O amigo dá-lhe parte do plano que elaborou para se vingar, mas Platão nega-se a participar nos preparativos.” “Deixava, no entanto, a Díon a liberdade para recrutar adeptos entre os seus partidários, alguns dos quais se alistaram como voluntários no seu corpo de liberdade. E embora a tirania de Siracusa dificilmente pudesse vir a ser derrubada sem o apoio ativo da Academia, Platão sempre encarou o sucedido como uma tragédia e, depois da queda dos 2 beligerantes, aplicou-lhes a palavra de Sólon: foram eles próprios os culpados da sua ruína.”
“a diferente atitude adotada pelos 2 homens, e revelada neste episódio, só leva a separar nitidamente o idealismo de Díon, puro e otimista, mas ligeiro e superficial, da heróica resignação de Platão, baseada num instinto infalível.” “Platão recusa, por princípio, a revolução como processo político.”
“constitui um importante sinal dos tempos o fato de ambos, Isóc. e Platão, se julgarem na obrigação de comparecer perante o público com o seu querer e destino pessoal.”
4.10 As Leis
“Um homem tão erudito como Plutarco sentia-se orgulhoso por figurar entre o reduzido número de conhecedores das Leis; e na época bizantina a transmissão da obra esteve por um fio, como o revela o fato de provirem de um único exemplar todos os manuscritos que nos chegaram.(*) Já em pleno séc. XIX os autores não sabiam o que fazer das Leis e o mais representativo dos historiadores da filosofia neste período, Eduard Zeller, chegou mesmo a declarar, num trabalho do seu 1º período, que se tratava de uma obra apócrifa.
(*) Sobre a tradição documental das Leis, cf. L.A. POST, The Vatican Plato and its Relations (Middletown, 1934).”
“E como as Leis representavam mais que 1/5 da obra escrita de Platão (…) um tal estado de coisas indica como ainda se tomava pouco a sério (…) [a sua] filosofia (…) como as Leis não eram, pelo seu conteúdo, nem lógica nem ontologia, esta obra era considerada secundária pelos filósofos.”
“Tal como a República, obra em que culmina a 1ª fase literária de Platão, as Leis são uma exposição universal do bios humano. É curioso, porém, que depois de terminar aquela obra, o filósofo tenha sentido a necessidade de traçar de novo e sob outra forma aquela imagem de conjunto, erguendo um 2º Estado junto ao Estado perfeito da República. Como dizem as Leis, trata-se ali de um Estado feito só para deuses e filhos de deuses.” “o divino e perfeito do qual se aproxima, sem (…) com ele coincidir (…) se deduz (…) que (…) não significa de forma alguma o abandono do seu ideal de Estado anterior. (…) é, pois (…) no diferente grau de paideia pressuposto que a diferença entre as 2 obras reside.”
“Filipe de Opunte, secretário e confidente de Platão, que depois da morte do mesmo editou e dividiu em 12 livros as Leis”
(*) “…A tradição sobre a redação da Epínomispor Filipe não deve ser separada da informação segundo a qual foi ele que editou as Leis, com base nas tábuas de cera legadas por Platão (…) E esta notícia devia proceder de uma fonte antiga muito boa, provavelmente da primitiva Academia. O estilo da Epínomis confirma cabalmente o teor da informação. A.E. TAYLOR, ‘Plato and the authorship of the Epinomis’ (in Proceed. Brit. Acad., vol. XV) e H. RAEDER, ‘Platons Epinomis’ (in Danske Videnskab. Selskab., Hist.-phil. Medd., 26, 1) (…) F. MUELLER, Stilistische Untersuchüng der Epinomis (Berlim, 1927) (…) A minha investigação acerca da Epínomis (premiada em 1913 pela Academia de Berlim) está inédita.”
“Nem sequer seria fácil ir traçando, como fizemos com a República, as linhas gerais deste volumoso estudo, visto que a composição das Leis e a sua unidade levantam um problema dificílimo”
“Do ponto de vista da história da filosofia as Leis estão, quanto ao método, sob muitos aspectos, mais próximas de Arist.. O velho Platão procura, com os seus princípios, aprofundar uma matéria cada vez mais ampla, em lugar de ir tornando mais insondável o abismo entre a idéia e o fenômeno, como fizera nos anos anteriores.” Parmênides, Platão, Nietzsche: o caminho da opinião, o caminho da verdade. não-Um, Leis, VdP; Um, República, Zaratustra.
“é demasiado tarde que a ação do legislador intervém, pois a sua missão mais importante não consiste precisamente em castigar as transgressões, mas em evitar que elas sejam praticadas. Ao dizer isto, Platão segue o exemplo da ciência médica, cuja tendência cada vez mais nítida daquele tempo era encarar como verdadeiro objeto da sua ação não o homem enfermo, mas o homem são. Daqui deriva a importância tão grande, decisiva até, que a Medicina do tempo concedia à dietética.”
(*) “O próprio Platão nos fornece diversas indicações para a compreensão do estilo, solene e lento, retorcido por vezes. Nada o repugna tanto quanto aqueles homens incultos e seguros de si, conhecidos pelo seu veloz ritmo psíquico, os intelectuais….”
“Platão converte-se em legislador. Em tudo se pode comparar os grandes representantes da legislação grega; só difere deles em se elevar ao princípio modelador fundamental que as suas obras potencialmente continham: a idéia de que o legislador é o protótipo do educador.”
“Foi neste conceito platônico do ‘ethos’ das Leis que se originou o famoso ensinamento de Montesquieu, L’Esprit des Lois, o qual tão grande importância haveria de ter para a vida do Estado moderno.” E ainda assim, quão pouco filosófico e limitado no alcance!
“Ao lado destas 2 típicas personagens dóricas que no espiritual procedem como irmãos gêmeos, introduz Platão no seu diálogo, como 3ª personagem e principal interlocutor, o estrangeiro de Atenas, personagem misteriosa e soberanamente superior, que as outras reconhecem e respeitam de bom grado, apesar da sua marcada aversão por todo ateniense médio.”
“As Leis revelam, numa forma mais concreta do que qualquer das suas outras obras, a tendência, em que Platão se inspira desde o início, a fundir numa unidade superior a essência dórica e a ática.” “Segundo Platão, o pior que podia acontecer seria misturarem-se e confundirem-se entre si todas as estirpes gregas. Isto seria para ele um mal comparável à mistura de gregos e bárbaros.” “a iminência da fundação de uma colônia. Trata-se de dar à polis cretense que vai ser fundada a melhor constituição, dentro das circunstâncias.” “É certo que na República mal se menciona a Esparta histórica, a propósito da edificação do Estado perfeito; é que Platão move-se ali totalmente no reino do ideal. Mas, na série das constituições degeneradas, a timocracia espartana figura como o tipo de constituição da realidade empírica que mais se aproxima do ideal.” “Nenhum aspecto da obra platônica oferece uma base para se falar de um espartanismo unilateral; nisto, as Leis constituem o melhor comentário à República.”
“meu ensaio Tyrtaios Über die Wahre Arete, 1932”
“é no poeta, supremo legislador da vida humana, que deve buscar-se a idéia primordial da arete humana” “Os poetas surgem sempre como representantes clássicos dos valores vigentes. Mas, desta forma, são ao mesmo tempo referidos a uma forma suprema, e é a comprovação dialética desta norma que constitui a contribuição da filosofia para a obra da paideia.”
“Para quem considera a vitória o único sentido da existência é a coragem, necessariamente, a única virtude. Seguimos acima a polêmica travada em torno da aceitação das virtudes, desde os dias em que Tirteu anunciou ao mundo a primazia do ideal varonil espartano, como um dos temas mais grandiosos que ressoam através da poesia grega. Platão retoma de novo este problema filosófico: e o velho litígio entre Tirteu, que celebrava a bravura, e Teógnis, para quem toda a arete se condensava na justiça, é decidido por Platão a favor do segundo. O passo decisivo que supera o antigo ideal dórico é a fundação do Estado jurídico.”
“Os legisladores dóricos nos ensinam que se deve partir conscientemente de um determinado conceito de arete. É nisto que estes legisladores devem realmente servir de modelo”
“Como já Teógnis dizia da justiça, os bens superiores têm sempre implícitos os bens ou virtudes inferiores. E a verdadeira unidade que os engloba todos, os divinos e os humanos, é a phronesis, a arete do espírito. Com este declaração Platão supera todos os conceitos de virtude que os primeiros poetas gregos (…) estabeleceram.”
“o beber, tal como outros tantos chamados bens da vida, não é em si nem bom nem mau. Platão exige que nos banquetes impere severa disciplina, cujo instrumento deve ser um bom presidente de mesa, que refreie os elementos caótico e selvagens, e os encaminhe para o verdadeiro cosmos. Por trás da prolixa investigação sobre o valor dos banquetes nas Leis está o costume da celebração de banquetes na Academia platônica.” O Banquete responde todas as perguntas neste tocante: todos os convidados são refinados, exceto Alcibíades, e o modelo de conduta é Sócrates.
“O estilo da sua velhice caracteriza-se pela tendência quase filosófica a dar importância a um certo problema particular, a partir do qual o autor abre em seguida caminho para considerações mais gerais.”
“O problema da decadência da cultura ocupa inteiramente o seu espírito, desde o 1º instante. A decadência dos Estados, de que fala com freqüência e que lhe servia de ponto de partida, não é mais do que uma parte do problema.” “Recuperar para a sua época esta totalidade da arete, que é o mesmo que dizer a totalidade do homem e da vida, era a mais difícil das missões, a qual, pela sua importância, não sofria comparação com qualquer contribuição de conhecimentos especiais que o espírito filosófico pudesse dar.”
“É característico nesta obra, como em todas as posteriores à República, falar muito do <divino> ou Deus; isto explica-se ou por Platão ter mais tarde abandonado a primitiva prevenção contra o uso desta palavra para designar o seu princípio, [de sempre, a Idéia e nada mais – sim, a Idéia é a medida de todas as coisas; a perfeição é o modelo de todas as condutas] ou pela sua aplicação sem reservas indicar outra fase de conhecimento mais próxima da doxa[muito aquém da capacidade dos guardiães da República – deus como a certeza dos ainda titubeantes, pré-requisito necessário para alçar vôos mais altos, i.e., o limite dos “pré-socráticos”, que ainda não sabem que não sabem]. No entanto, neste passo, como em geral em toda a obra, Platão mostra-se muito interessado na concatenação psicológica através da qual o princípio supremo atua na alma do homem.”
“A obediência da alma ao logos é o que denominamos domínio de si. Com isto fica também esclarecido o que é a paideia: é a direção da vida humana pelo fio do logos, manejado por Deus. Platão não explana por si próprio em detalhe estas conclusões derivadas das suas premissas, mas limita-se a dizer que o leitor pode agora ver claramente o que são a arete e a maldade”
“A embriaguez intensifica as sensações de prazer e debilita as energias espirituais. É como se o homem voltasse à infância. Esse estado é a pedra-de-toque para comprovar a força dos fatores inibitórios do pudor e da timidez, que atuam inconscientemente.”
“a alma deve igualmente expor-se à tentação do prazer, para se fortificar contra ele. Platão não chega a explorar a casuística dos tipos de prazer para os quais esse meio de verificação foi concebido.” Estar tentado é muito melhor que estar logrado.
“Na 1ª infância, a educação tem de se preocupar exclusivamente com as sensações de prazer e dor e a respectiva orientação. São elas o verdadeiro material sobre o que versa, nessa idade, a educação. Assim concebida, a paideia converte-se em pedagogia.”
“Platão faz agora depender cada vez mais a educação superior da sorte que caiba na alma da criança a este precoce tratamento do ethos. Era uma descoberta inevitável para quem, como ele, fizera da equação socrática entre a vontade e o saber o ponto de partida da sua paideia.”
“A ação do próprio logos só pode frutificar, numa fase posterior, com a condição do logos de outrem, do educador ou dos pais, lhe ter aberto o caminho na fase inconsciente. Toda a arete, na medida em que arete é ethos, formação moral no atual sentido da palavra, assenta na sinfonia da razão e do hábito. (…) Platão chega aqui ao ponto donde parte também a Ética de Arist.” Quem foi o meu educador? O maior mistério. Eu sou Nicômaco, mas quem foi meu Aristóteles?
“Na chamada Grande Ética, nascida na antiga escola peripatética e pela tradição falsamente atribuída ao próprio Arist.[Hegel caiu], esta evolução leva a pôr totalmente em dúvida a essencial ligação da ética com o espírito e a sua cultura, e a não mais lhe reconhecer outra missão que a de educar os impulsos.” A ética a-histórica é o apequenamento da Ética. Psicanálise é o homem menor, último. Ultimado e boçal. Adorno (Minima moralia), p.ex., desespera completamente de qualquer possibilidade de arete no séc. XX.
<DE MARX A NIETZSCHE>: “Vem 1º um período em que Platão considerava como meta suprema aprofundar cada vez mais a visão e o conhecimento consciente, levado pela fé na ação que sobre toda a cultura moral da personalidade esta exaltação e este aprofundamento exerciam; depois, no fim da vida, a obra de Platão volta a colocar em 1º plano a antiga idéia grega da formação do Homem,¹ e o filósofo vê agora a sua verdade à nova luz.”
¹ Um Übermensch, neste caso! O homem com “h” maiúsculo é a medida…
“aparente regresso do ideal ao histórico. Depois de atingir o ponto máximo, na sua caminhada para o puro ideal, sente a necessidade de, na medida do possível, realizar este ideal e plasmá-lo em vida, necessidade que o puxa de novo para o mundo[como com todo bom educador] e faz dele [P.] um prometéico forjador de homens.”
“Trata aqui de formação no mais estrito sentido da palavra, da maneira de andar e de se comportar, e de todas as manifestações do ethos interior da alma.”
“Ao contrário dos outros animais, o homem possui o sentido da ordem e da desordem nos movimentos, o que chamamos ritmo e harmonia.”Merece questionamento. Na verdade este é o erro, a separação mente-corpo promovida pelo Iluminismo de todas as épocas. Ademais, não seria a criança ainda um animal, que depois regride?
QUEM NÃO APRECIA A MÚSICA (CORRETAMENTE!) E NÃO SABE DANÇAR… “Quem não tiver passado pela escola do prazer nos movimentos rítmicos e na harmonia das canções corais é um homem inculto.” Sinto-me como um animal na pista de dança, diria o clubber nietzschiano.
“Esta unidade do ético e do estético já mal existia na arte do seu tempo. É por meio da corêutica, que tem presente como modelo, que o filósofo se propõe a restaurá-la.¹ Isto pressupõe uma norma absoluta do belo e constitui o maior dos problemas para o educador que pretenda edificar tudo sobre uma base artística.”
¹ Origem da Tragédia: o Coro de Eurípides como décadence [ironia: de-cadência: falta de cadência].
“Platão amplia a vista à procura de um país onde existam formas sagradas e fixas da arte, libertas de toda a ânsia de inovação e de toda a arbitrariedade. E só as encontra no Egito, onde a arte não sofre, aparentemente, evolução e conserva com todo o rigor um sentido espantoso para o que a tradição já consagrou.(*) A partir do seu ponto de vista, o filósofo julga adquirir uma nova compreensão deste estado de coisas” Paradoxal: impossível repetir Platão – ou Homero ou Sófocles –, sobretudo porque conseguir imitá-lo seria criar.
(*) “A arte egípcia tinha por força de causar aos gregos, povo de sensibilidade desperta e fugaz, a impressão de não haver nela qualquer mudança ou evolução.”
“Na sua opinião, o destino da arte depende da sua capacidade para se manter independente do gosto hedonístico e materialista do público. Cícero disse uma vez que o requintado gosto do público de Atenas era tabela para apreciar a elevação do nível artístico, e atribui à ausência de tal critério a sensaboria da arte em outras terras.” A decadência de uma grande nação é, ainda, mais majestosa do que a opulência de uns bem-aventurados temporários, sortudos nanicos.
“a comissão instituída por Atenas para atribuir os maiores prêmios às melhores obras apresentadas em público”
“O leitor da nossa exposição não terá dificuldade em compreender o que Platão quer dizer. A discussão da arete suprema e sobre os supremos bens da vida corre ao longo de 2 séculos, através da poesia antiga. É a ela que se liga a posição conscientemente adotada por Platão nas Leis. As odes dos poetas são para ele epodos, exortações dirigidas à alma de quem as escuta, para que sob o encanto da forma assimile docilmente, como um remédio açucarado, o conteúdo sério que encerram.”
“Para Platão, o que chamamos tradição histórica não é muito mais recuado do que ontem ou anteontem, comparado com as sombrias épocas pré-históricas, em que a evolução da raça humana avançava a passo de caracol. Só uma pequena parte dos homens da época anterior se salva, de cada vez, das grandes inundações da superfície da Terra, das pestes e outras calamidades semelhantes, a fim de entrar na idade seguinte”
“Guiado por Homero, narra a passagem do estado ciclópico, desprovido de leis, para a submissão sistemática a normas e para o regime patriarcal.” Para fora do regime patriarcal, diria o ingênuo Hegel!
“Na época em que Platão escreveu as Leis, na década 4ª ou 5ª do séc. IV, erguia-se aos olhos das pessoas reflexivas do mundo grego, como um imenso problema, o destino dos povos dóricos – a imagem da sua passada grandeza e do alto nível espiritual que outrora haviam tido, seguidos da tragédia da sua decadência, selada pela aniquilação de Esparta em Leuctra.” “Acontecia no passado, com os dórios do Peloponeso, o mesmo problema que o presente parecia pôr ao conjunto dos Estados gregos” “o que ditou a ruína dos reinos dóricos?”
“ARISTÓTELES diz (…) que teriam conseguido o domínio do mundo, se se tivessem unido dentro de um só Estado. É difícil não ver nisto a influência do ideal pan-helenístico de Isócrates. (…) (cf. o final da Helena).”
“A imaginação histórica de Platão via nestes acontecimentos dos sécs. VIII e VII, que no seu tempo eram quase míticos, a verdadeira e irremediável tragédia.”
“Quando Platão escreveu as Leis, ainda Isóc. não pensara em Filipe da Macedônia como chefe potencial dos Estados gregos contra a Pérsia. De fato, o seu Filipe foi escrito depois da morte de Platão.”
“sete axiomas de governo” “premissa que não pode ser demonstrada, da qual partimos numa dedução científica, principalmente em matemática. Segundo o testemunho de Arist., é neste campo que esta terminologia aparece pela 1ª vez.” “fundamentação geral da política (o que não exclui necessariamente a sua 1ª acepção de exigência de governo).” “Também o nº fixo dessas regras fundamentais que Platão vai enumerando (de 1 até 7) põe em destaque o seu sentido axiomático; com o nº, assinala-lhes Platão o caráter restrito, como também faz a geometria de Euclides.”
NÓS, DA ERA DO AQUÁRIO OU ERA DO AZAR: “1) os pais devem governar os filhos; 2) os nobres devem governar os não-nobres; 3) os velhos os jovens; 4) os senhores os escravos; 5) os melhores os piores; 6) os homens cultos e sensatos os incultos. O 7º axioma é o princípio democrático que diz: o que é eleito por sorte deve imperar sobre aquele em que a eleição não tenha recaído. Nesta passagem, como nas Leis em geral, Platão aceita a sorte como decisão divina e não vê nela um mecanismo sem-sentido, o que freqüentemente fazia ao criticar a democracia nas obras anteriores.”
“nas Leis ele mostra-se resolutamente contrário à unificação do poder (…) O exemplo de Esparta prova que uma constituição mista é mais duradoura. A instituição da monarquia é limitada em Esparta tanto pelo regime dos reis como pela intervenção dos gerontes e dos éforos.”
“os 2 homens realmente superiores que criaram este império, Ciro e Dario, não souberam educar os filhos.(*) Era nas mãos de rainhas ambiciosas, de novas ricas, que estava a paideia dos príncipes persas. Assim se explica que Cambises e Xerxes tenham em tão pouco tempo dilapidado tudo quanto seus pais conquistaram.
(*) desde então não apareceu mais na Pérsia nenhum grande rei; 695 E.”
“Platão risca também a Ciropedia de Xenofonte. Nada encontra na Pérsia que possa servir de modelo aos gregos. É evidente que foi a existência de uma obra em que se louvava a paideia dos persas que deu pretexto a Platão para se deter tão demoradamente nela. (…) Platão confronta a Pérsia com Atenas, os 2 Estados politicamente antagônicos, e prova que ambos se desmoronaram pelo mesmo vício: a ausência de uma autêntica paideia. Com isto rouba à crítica o seu ferrão político partidário.”
“Na descrição deste aidos, que era o que efetivamente mantinha a coesão interna do edifício social, coincide com o Areopagítico de Isóc., obra escrita na mesma época das Leis.”
“faz derivar esta evolução de Atenas da decadência da música e da poesia e da sua degeneração numa indisciplina amusical.” “O quadro que Platão traça da evolução da música grega é integralmente focado do ponto de vista da sua concepção da paideia. Poderia pensar-se que os teóricos da música posteriores a ele se emanciparam deste critério, para exporem a evolução desta arte de acordo com idéias puramente artísticas, mas na obra do Pseudo-Plutarco, c. 27, a evolução da histórica da música segue uma trajetória que parte do seu primitivo caráter propedêutico para se aproximar cada vez mais do teatral, acabando, por fim, por se entregar completamente a este. O testemunho de Platão é várias vezes invocado em apoio da tese. Examinando o assunto com cuidado, vê-se que a imagem por ele traçada da história da música é tirada de Aristoxeno, historiador peripatético da música.”
“Os peritos na paideusis podiam escutar até o final sem interrupções, e a multidão conservava-se ordeira, sob a batuta do mantenedor da ordem. Mas veio a seguir outra época em que os indivíduos de grandes dotes poéticos, mas sem nenhum discernimento quanto ao conteúdo normativo da arte, impelidos por um êxtase dionisíaco e arrastados pelas simples sensações, confundiam os ditirambos com os peanes e os hinos com os trenos, procurando imitar com a cítara os efeitos ruidosos da música de flauta. (…) Impunha-se assim no reino das musas a ausência de leis e incitava-se a multidão à loucura de julgar estas coisas e de exteriorizar os seus juízos com estrepitosas manifestações. O silencioso sossego do teatro transmutou-se em algaraviada e a distinção que até ali reinara neste campo foi substituída pela teatrocracia, pelo império do público inculto. Se realmente fosse uma democracia de homens livres, nada teria havido a objetar: mas era apenas a petulância e o desenfreamento de todos em tudo, desenfreamento e petulância que se não detinham perante nada.”
“Por um instante pareceu que iria aqui brotar da crítica do processo histórico a estrutura do Estado ideal, uma vez que Platão estabelecia os axiomas de governo, dos quais devia partir qualquer tentativa desta natureza. Abriam-se de novo, cada vez mais vastos, os horizontes históricos, para assegurar a correta aplicação destes axiomas. Interpretados em sentido platônico, estes horizontes conduzem à idéia de uma constituição mista, que o filósofo vê realizada na antiga Esparta. A Pérsia e Atenas, ao invés, representam, na sua forma de Estado atual, os extremos exagerados da tirania e da arbitrariedade, que nascem de uma ausência de paideia.”
“A conversação toma assim um rumo prático, que é o mesmo que dizer sistemático, pois a partir de agora vemos um filósofo influir na estruturação da polis.” “o 1º preceito, de acordo com o qual a cidade a fundar não deverá ser marítima, se relaciona com o critério fundamental da educação platônica. Na Constituição de Atenas, é à evolução desta cidade como potência marítima que Arist. atribui a radicalização da democracia ateniense num governo de massas. Era uma idéia originária do grupo conservador, moderado, dos democratas atenienses, que voltava à luta para impor a sua influência, precisamente na altura em que Platão escrevia as Leis e Arist. forjava na Academia as suas concepções, após a derrota da 2ª liga marítima. Platão coincide com Arist. e com o velho Isóc. tanto na atitude negativa em face do domínio marítimo ateniense como na fé numa constituição mista.” “enquanto Platão vê encarnado em Esparta o ideal da constituição mista (Leis, 629), Isóc. transplanta este ideal para a antiga Atenas”
“A aversão da nobreza pelas tendências ao domínio marítimo e pelo armamento naval transparece já na crítica que os velhos elementos conservadores do Conselho de Estado fazem à política do jovem rei Xerxes, em Os Persas de Ésquilo. (…) Platão vai ainda mais longe e nega importância decisiva à batalha naval de Salamina, que constituía o título de glória nacional dos atenienses. Para ele, foi o esmagamento das forças terrestres dos persas em Maratona e Platéia que salvou a Grécia da escravidão.”
“É Deus quem manda mais, a seguir vêm a tyche e o kairos e, como 3º fator, a indústria humana, a techne, que lhes acrescenta o que a arte do timoneiro faz no meio da tempestade, ajuda por certo nada desprezível.”
“Segundo Platão, é só em grau, e não por essência, que as restantes formas de regime político diferem da tirania. Todas são despotismos, e a lei que nelas vigora é a expressão da vontade da classe dominante a cada momento. Contudo, não é a própria essência da lei que a torna o direito do mais forte. Platão aplica os seus axiomas a este problema e chega à conclusão de que os mais aptos para governar são os que obedecem mais rigorosamente à verdadeira lei.”
“Outros pensadores gregos anteriores a Platão haviam apregoado como o divino a inesgotável unidade-totalidade, a força motriz primordial ou o espírito formador do mundo. A partir do seu ponto de vista filosófico, que parte do ético ou do educacional, Platão considera-o antes a norma das normas, a medida das medidas. Assim concebido, o conceito de Deus converte-se em centro e fonte de toda a legislação, e esta na sua expressão imediata e realização terrena.”
“A sua filosofia da natureza é o fundo necessário sobre o qual se projetam a sua paideia e a sua teoria do Estado, tais quais estão expostas nas suas obras políticas mais importantes, a República e as Leis. Em rigor, seria falta de integridade excluir da exposição da sua paideia o Timeu ou outra qualquer obra platônica”
NE PLUS ULTRA:“Devemos ter presente que a Idéia é, em Platão, a mais alta realidade do que existe e que, portanto, a idéia do Bom representa o grau de bem mais poderoso, e superior a qualquer outra coisa do mundo.”
“Não é a 1ª vez que vemos um poeta ou pensador grego proclamar a sua medida suprema dos valores, sob forma de correção de um antecessor famoso. (…) Em vez dos antigos deuses individuais da polis aparece Deus <medida de todas as coisas>, o agathon de Platão, forma primordial de toda a arete. O cosmos torna-se uma conexão teleológica e Deus passa a ser o pedagogo universal.” “o legislador é o homem divino que no seu íntimo alberga o verdadeiro logos e convence a polis a convertê-lo em lei; e a lei é o fio por meio do qual Deus move o seu joguete, o homem.” O Destino tem de querer o homem nobre.
“…os livros X e XII das Leis” A parte chata! Infelizmente nosso mundo não é digno nem de uma ciência dos astros. Efetivamente cumprimos a profecia de transformar estrelas em pó.
“O preâmbulo torna-se muito mais longo do que a própria lei.”
“A idade matrimonial do homem é fixada entre os 30 e os 35 anos. Os que permanecerem celibatários depois de atingirem esta idade são obrigados a pagar uma multa anual em dinheiro, processo destinado a impedir que o celibato fosse explorado como meio para enriquecer. Os celibatários estão, além disso, excluídos das honras que na polis os mais jovens tributam aos anciãos. Nunca são <anciãos> em sentido social.”
“A instituição dos cargos públicos e a definição das atribuições a eles inerentes deve preceder o corpo das leis, de acordo com as quais os funcionários irão governar.”
“Ivo BRUNS, Platos Gesetze, pp. 189s., considera 734 E 6 – 735 A 4 um fragmento erradio do 1º projeto de Platão.”
“Um dos encantos principais das Leis consiste precisamente em elas se ocuparem a fundo de um problema que não só a Repúblicaomite por completo, mas que, além disso, nunca fôra seriamente abordado nas discussões sobre a verdadeira educação, desde que o movimento sofístico principiara.”
“paideia do povo” “É o último passo para a realização plena do programa do movimento socrático, um passo chamado a ter uma importância incalculável, apesar de nenhum legislador do seu tempo se ter sentido tentado a tornar realidade o ideal platônico de uma educação geral da massa do povo. Como se pôs em evidência, foi quando a educação pretendeu ser mais do que uma aprendizagem meramente técnica e profissional, com o primitivo ideal aristocrático de formação da personalidade humana no seu conjunto, que, como sempre sucede, a história da paideia grega começou.” “mas, mesmo na democracia ateniense, esta missão estava inteiramente confiada à iniciativa privada individual. O passo revolucionário que Platão dá nas Leis e que constitui a sua última palavra sobre o Estado e a educação consiste em instituir uma verdadeira educação popular a cargo do Estado.”
(*) “A aceitação da existência de uma casa e de uma família no Estado das Leis já representa uma aproximação da realidade vigente. Os fundamentos desta ordem social são assentes na parte da obra que trata da distribuição da propriedade territorial (735 B s.). (…) a consagração da propriedade privada é por sua vez, como Platão observa (740 A), a expressão de uma determinada fase da educação de cultura: a do presente”
“No atual estado de coisas, a educação privada segue em direções contrárias conforme as diversas famílias, sem que o legislador possa opor-se a estas contradições, que as mais das vezes se manifestam em coisas pequenas, quase imperceptíveis. Se, porém, atentarmos nos seus efeitos de conjunto, veremos que estas diferenças na concepção do que deve ser uma educação acertada chegam mesmo a pôr em questão a obra da legislação escrita.”
TESTEMUNHAS DE DIANA: “Não é uma seleção dos esposos a cargo do Estado, como faz na República para os ‘guardiões’ (…) Mas recomenda aos cônjuges que dediquem a estes problemas uma atenção especial e cria uma comissão de mulheres que devem instalar-se no templo de Ilithya, deusa dos partos. Têm neste templo as suas horas de serviço, em que realizam as suas deliberações. Outorga-se-lhes um direito de inspeção sobre os matrimônios, como o período de procriação, extensivo aos 10 anos subseqüentes a sua celebração. Esta comissão de mulheres intervém quando os cônjuges são incapazes de procriar. No 2º caso, dissolve-se o matrimônio.”
“Estatui-se um sistema penal bastante desenvolvido, sobretudo no tocante à honra, para castigar os que de maneira consciente e obstinada agirem contra o que os bons conselhos e a razão indicam.”
“Ao prescrever a necessidade de a criança se mover ainda antes de sair do seio materno, não faz mais do que estender a este campo o sistema de exercícios físicos a que a Medicina do seu tempo dedicava um interesse primordial. Platão lembra o exemplo dos galos de briga ou outras aves pequenas criadas para a luta, às quais os donos treinam para a sua missão, levando-as consigo no braço ou sob a axila, em longos passeios.” “Platão não quer que as crianças andem antes dos 3 anos, com medo de que fiquem canejas [parecidas com cães!]. As amas têm de ser suficientemente fortes para as carregarem no colo até aquela idade. Exagera-se sem dúvida”
“da teoria do tratamento físico do recém-nascido passa diretamente à teoria do caráter.”
“O descontentamento e o mau humor contribuem para a sensação de medo. Platão preconiza o justo meio-termo entre a brandura e a opressão. A primeira torna a criança hipersensível e excessivamente caprichosa, a 2ª mata nela a liberdade e torna-a hipócrita¹ e misantropa. O educador deve evitar com o maior cuidado criar na criança o que hoje denominaríamos um complexo de inferioridade, resultado a que facilmente conduz uma educação opressiva. O objetivo deve ser educar a criança na alegria”
¹ Em que sentido? De que emulará o pai ruim quando for pai, oprimindo os outros e alegando que “foi assim que fui criado”? Se assim for, é outra superestimação da psicologia da infância de Platão.
“O hábito tem grande força, a ponto de Platão derivar a palavra caráter de hábito em grego.” “Não é como leis, mas como usos não-escritos que Platão encara estas normas.”
ANTROPOLOGIA ANTIGA: “Está por trás desta obra, como o atestam as muitas e interessantes citações de costumes de povos estrangeiros nas Leis, um estudo dos nomina gregos e bárbaros suficientemente extenso para poder estabelecer uma comparação com as próprias leis. Platão menciona e dá como exemplos os costumes dos espartanos, celtas, iberos, persas, cartagineses, citas, trácios, saurômatas, cretenses e muitas outras cidades e regiões gregas.”
PEDAGOGIA AINDA MUITO AVANÇADA: “Dos 3 aos 6 anos (…) Nesta idade, são as crianças, quando se juntam, que devem inventar os seus jogos, sem que estes lhes sejam prescritos. Platão quer que estas reuniões de crianças se efetuem nos lugares sagrados de cada bairro da cidade. Precede deste modo a moderna aquisição dos jardins de infância.” “A educação dos meninos e meninas deve estar entregue às mulheres, em regime de co-educação, até os 6 anos. A partir dos +6 anos, Platão estabelece a separação dos 2 sexos. A formação da criança deve adestrar tanto a mão esquerda como a direita e não uma só.”
“O serviço militar obrigatório de todos os cidadãos não era originariamente apenas uma instituição espartana; era também a base jurídica em que assentava a existência civil da democracia ateniense. Não só não era considerada antidemocrática, mas, ao contrário, via-se nela o pressuposto evidente das liberdades que todo cidadão deste Estado desfrutava. Dadas a freqüência das guerras que Atenas se viu obrigada a travar no séc. V, a época do seu maior poder, impunha-se como evidente por si próprio o cumprimento deste dever. Com o aparecimento do regime de mercenários no séc. IV, começam as queixas universais contra a decadência da capacidade e do espírito militar dos cidadãos. Subsistiu, contudo, o serviço militar obrigatório de 2 anos para os efebos, o qual, à vista daquilo, foi considerado uma exigência de maior importância que anteriormente para a educação da juventude.” “Mas nessa altura a liberdade já se perdera para sempre. O remédio aplicou-se tarde demais para poder surtir efeito; é que a grande massa dos cidadãos só compreendeu a necessidade de reforçar a sua capacidade militar quando se viu perante o fato consumado da derrota que acabou definitivamente com a democracia ateniense.”
“A palavra antigo não tem qualquer sentido depreciativo, como acontece na era atual, em que tanto mudam as modas. Novos jogos significam um novo espírito na juventude, o qual, por seu turno, exige novas leis. Toda mudança (a não ser que se trate de mudar o que está mal) é, em si, perigosa, quer se processe no tocante ao clima, quer se refira à dieta corporal, ou ao caráter da pessoa.”
“as Leis proíbem tudo o que não sejam canções e danças oficiais. O termo nomos tem em grego a dupla acepção de lei e de canção.” “As normas dadas aos poetas vivos, que devem ter sempre presente, como pauta, o espírito das leis, estão sem dúvida concebidas somente para a época subseqüente à fundação do novo Estado, uma vez que depois não se deve introduzir nem a mínima alteração nas canções admitidas.”
“Quando tentamos imaginar o edifício educativo de Platão como um Estado, ele nos parece surpreendente; quando, porém, pensamos na maior instituição educativa do mundo pós-clássico, a Igreja Católica, vemos que a obra de Platão é uma espécie de antecipação profética de muitos traços da essência do Catolicismo.(*) O que hoje aparece desdobrado em Estado e Igreja constituía ainda para Platão uma unidade, dentro do conceito da polis. Mas nada contribuiu tanto para desfazer esta unidade e criar um reino espiritual, ao lado do terrestre e acima dele, como as imensas exigências que Platão faz à potência espiritual educativa da sociedade humana.
(*) Platão castiga com a pena de morte os que negarem a verdade do sistema e duvidarem da existência de Deus [do seu sistema, da Constituição; portanto, não há nada de medieval nisso]: cf. Leis, liv. X, 907 D – 909 D.” Essa tese é completamente absurda: Platão antecipa o sistema universal de educação pública, moderno, laico, porém com tolerância religiosa.
“a escolaridade geral obrigatória; a equitação para a mulher; a construção de escolas e ginásios públicos; a educação para os 2 sexos, que na República Platão reservava aos ‘guardiões’; a rigorosa divisão do tempo nas tarefas diárias; o trabalho noturno (totalmente ignorado dos gregos) para as pessoas com postos diretivos na vida pública e privada; a fiscalização dos professores; e a criação, no Estado, de uma autoridade suprema em matéria de instrução, com um ministro da educação à frente.” “todos os funcionários se reúnem no Santuário de Apolo e, em votação secreta, elegem o membro do conselho secreto do Estado, o guardião da lei que cada qual julgar mais capaz para dirigir os assuntos da educação. Os seus colegas mais chegados não participam na prova para verificação da dignidade da pessoa eleita. A duração do cargo é de 5 anos, no termo dos quais não se pode reeleger o titular do posto. Ao abandonar, porém, as suas funções, incorporar-se-á como membro ao conselho noturno do Estado, ao qual pertencerá, natural e automaticamente, em 1º lugar, como inspetor-geral da paideia.”
“Aprendiam-se de cor poemas inteiros, como outras fontes da mesma época confirmam (XENOFONTE, Banq., IV, 6), tendência que obedecia à concepção da poesia como enciclopédia de todo o saber e que Platão combate na República.” “Para não sobrecarregar a memória em demasia, pensa que só se devem assimilar trechos soltos de obras poéticas.” “No fundo vemos espreitar, naturalmente, o perigo de muitos elogiarem esta obra unicamente com a intenção de ocuparem um cargo.” A Bíblia como única leitura da vida de um enorme contingente de pessoas parece o descalabro supremo. Li hoje mesmo (18/11/21) em Memórias da Casa dos Mortos, Dosto., que na prisão na Sibéria este era o único livro permitido.
“A introdução legal das próprias obras de Platão como objeto de ensino, em vez dos poetas antigos, nas escolas e orquestras do seu Estado do futuro, é o último passo lógico e coerente dado neste caminho.” Aqui, Nietzsche 2 milênios depois, foi bastante mais humilde, reconhecendo que sua obra era mera destruição, o negativo do que adviria…
“É elucidativo ver como o filósofo que na República fundava sobre a dialética e as matemáticas a cultura dos governantes, se põe a cogitar nas Leis sobre se este tipo de saber é realmente aconselhável para a cultura do povo.” “O que Platão exige da matemática no livro VII das Leis corresponde ao nível popular de cultura. Cf. 735 A 4.” Infelizmente o mundo moderno acrescentou muito conhecimento teórico inútil a esta disciplina. E o nível popular de cultura sabe, tragicamente, menos que os gregos.
“O que Platão expõe aqui corresponde, evidentemente, a uma informação mais recente sobre o nível de conhecimento das matemáticas egípcias. Este conhecimento devia-o, provavelmente, a Eudoxo, que vivera e fizera observações no Egito, durante muito tempo. (DIÓGENES LAÉRCIO, VIII, 87) [Compilador suspeito. De toda forma, isso vai contra o palpite nietzschiano do “estágio egípcio” de Sócrates ou Platão.]” “Que deve ter sido Eudoxo o veículo da informação confirma-o quase com caráter de certeza o fato de Platão relacionar esta referência com a introdução de outra teoria desconhecida também dos gregos daquele tempo e que tinha a maior importância para o culto divino. Referimo-nos à teoria astronômica segundo a qual os planetas ostentam o seu nome sem qualquer razão, pois, ao invés do que parece à 1ª vista, não se movem no firmamento 1º para diante e depois em sentido inverso: descrevem, sim, um movimento de translação sempre no mesmo sentido. Esta teoria fôra estabelecida por Eudoxo e a ela se devia o conhecimento – que neste ponto Platão menciona concretamente – de o planeta Saturno, que parecia mover-se mais lentamente, ser na realidade o mais rápido de todos e o que percorria uma órbita maior. T.L. HEATH, op. cit., p. 188 … sistema ‘filolaico’” “Daqui, a exigência do ensino matemático e astronômico na escola primária desemboca diretamente na peculiar teologia das Leis, que vê na contemplação do ciclo matemático eterno dos astros uma fonte essencial da sua fé em Deus.” Se é verdade que quanto menos sabemos dos astros menos temos uma cultura, como explicar nosso estágio atual, de uma Física hipertrofiada e cultura estanque? Existe uma justa medida? PARADOXO: Querendo instituir o monoteísmo (o reconhecimento de uma norma absoluta), Platão acaba por exaltar e reacalorar o entusiasmo e a devoção aos deuses do Olimpo (na forma dos planetas conhecidos). O importante é o eterno retorno das órbitas do sistema solar, que um dia reseta, recomeça, não os corpos celestes em separado.
MAIS UM PRECEDENTE PERIGOSO: “Mas também no campo espiritual se deve isolar contra todas as influências ocasionais do exterior que possam desviar a ação das suas leis perfeitas. As viagens ao estrangeiro só serão autorizadas aos mensageiros, embaixadores e theoroi. (…) [estes eram] ‘observadores’ da cultura e das leis de outros homens [nasce a antropologia institucional] (…) Sem um conhecimento dos homens, bons e maus, nenhum Estado pode tornar-se perfeito nem conservar as suas leis.A finalidade principal destas viagens de estudo ao estrangeiro é levar os theoroi a travarem relações com as poucas personalidades superiores, homens divinos, que existem no meio da multidão e com os quais vale a pena falar e chegar a um entendimento. [Metalinguagem – formato escolhido para as Leis!]” “a tyche divina torna também possível, excepcionalmente, o aparecimento destes homens num meio hostil. [Ou já não possuiríamos nenhum sábio.] O próprio Platão viveu muito tempo ausente de Atenas e a lei sobre as viagens ou missões ao estrangeiro dos homens espiritualmente mais notáveis provém, segundo todos os indícios, das suas experiências pessoais.” “Depois de deixar o seu cargo, Sólon fez uma viagem através da Ásia e do Egito para se informar por si mesmo” “Só a homens experientes, com os 50 anos já completos, se encomenda uma tal missão. Ao regressarem à pátria é-lhes facultado livre acesso ao órgão supremo da autoridade, o conselho secreto e noturno do Estado.” “Os que regressam do estrangeiro, depois de terem observado de perto as instituições dos outros homens, devem dar parte de todas as sugestões que dos outros tenham recebido em matéria de legislação e educação, bem como das suas próprias observações. Os seus conselhos devem, todavia, ser submetidos a uma crítica severa, para que a sua aplicação não sirva de veículo a influências perturbadoras.”
(*) “O órgão do Estado que deve conhecer o objetivo é o conselho noturno 962 C 5. Os governantes são definidos na República, no mesmo sentido, como aqueles que possuem o conhecimento do paradigma, a Idéia do Bem.”
#Pesquisa futura: a relação entre o Um parmenídeo e o Bem em Platão.
Hoje, relendo, creio que nem é necessário ou possível efetuar tal pesquisa! Ambos são indistinguíveis ou um o dégradé do outro.
“a conhecida hipótese moderna, segundo a qual Platão abandonou a teoria das idéias, nos últimos anos da sua vida. Cf. Jackson, Lutoslawki e outros [homens que estão errados].” Jamais ouvira falar disso!
VALOR, O ALFA E O ÔMEGA DA VIDA SÁBIA
“no livro XII, Platão remete para a dialética, dando por suposto que se trata de algo conhecido dos seus leitores; voltar a tratar do seu valor cultural seria apenas repetir o que já expusera” “Neste ponto capital, o pensamento de Platão mantém-se inabalável desde a 1ª à última das suas obras.” “No que se refere à formação filosófica, os componentes do conselho noturno não ficam atrás dos guardiões da República.” “A verdade que os governantes devem possuir é o conhecimento dos valores, i.e., das coisas de que vale a pena preocuparem-se na ação.” “Para poderem aplicar praticamente esta pauta nas leis e na vida, o legislador e os órgãos do governo devem possuir o conhecimento de Deus como ser e valor supremo.”
“A uma história da paideia grega não lhe interessa entrar numa análise pormenorizada da estrutura conceitual desta teologia. É uma questão que compete a uma história da teologia filosófica dos gregos e que nesta perspectiva trataremos em outro lugar. A paideia e a teologia filosófica dos gregos foram as 2 formas principais por cujo meio o helenismo influiu na História Universal, durante os sécs. em que praticamente nada se conservava da ciência e da arte gregas. Ambas as coisas, a arete humana e o ideal divino, aparecem primitivamente ligadas em Homero. Platão restaura esta ligação, num grau diferente.” Efetivamente hoje entendo de forma menos crítica (menos discordante e rabugenta, quero dizer) que quando li as Leis pela 1ª vez: a palavra deus e o que implica não podem estar ausentes de uma discussão sobre a formação e o valor dos valores. Não Jeová, mas outra abstração… Nesse sentido, também é talvez precipitado chamar de teologia o estudo desses valores gregos – até que se entenda que teologia filosófica nada tem a ver com as religiões monoteístas hoje em voga.
“O ponto culminante desta trajetória é o final das Leis, a que devemos juntar o livro X, inteiramente consagrado ao problema de Deus. O prolongamento histórico da metafísica platônica na teologia de Arist. e de outros discípulos de Platão vem confirmar que por trás das soluções esboçadas no final desta criação plat. se esconde nada mais nada menos que o projeto desta ciência das coisas supremas (…) Não se acusa aqui nenhuma diferença entre um simples saber cultural e um supremo saber, contra o que ultimamente se procurou estabelecer (MAX SCHELER, Die Formen des Wissens und die Bildung)” A quem caberia o cetro do ministério na modernidade: o sacerdote, o legislador, o pedagogo ou o filósofo? Nós não podemos reconciliar as especialidades.
“Desde Arist., que das Leis de Platão encaminhou para a sua teologia estas 2 fontes da certeza de Deus,(*) até a Crítica da Razão Prática, de Kant, que, no fim de todas as suas idéias teóricas destinadas a derrubá-lo, voltou outra vez a desembocar praticamente nele, nunca a humanidade logrou, com a filosofia, erguer-se acima deste conhecimento. Estes fatos, dignos de sobre eles se meditar, foram reunidos e apreciados no meu Aristóteles, pp. 187 s.”
(*) “corpos celestes”, “alma”
Kant reduziu a fé no conhecimento a um mínimo na Crítica da Razão Pura, mas deu uma volta de 180º logo depois. A Faculdade do Juízo pode ser considerada um anexo, pois não retoma o ceticismo moral do 1º volume, apenas estabelece, em que pese Deus, a autonomia do artista. Deleuze faz escândalo da pretensa “revolução de fim da vida” de Kant – mas bem conhecemos Deleuze! Meu máximo respeito: Kant, assim como Nietzsche e Platão, buscava o máximo conhecimento, num nível tremendamente superior aos empreendimentos de Aristóteles e Hegel, p.ex. E foi íntegro nas suas fases tão distintas durante a “trilogia”: como Platão, detectou o niilismo moral-epistemológico passível de nascer da crítica acabada da Razão pura; não só seu imperativo categórico atacou o problema, mas o ceticismo foi revisado da ótica “sobrenatural” do dom estético anos mais tarde…
EPÍLOGO – TRANSIÇÃO
E.1 Demóstenes: agonia e transformação da cidade-Estado
(*) “Georges CLEMENCEAU, Démosthène (Paris, 1926). Acerca das vacilações e diferenças nacionais que nos tempos modernos se notam nos juízos sobre Demóstenes, cf. Charles Darwin ADAMS, Demosthenes and his influences (Londres, 1927) na série‘Our Debt to Greece and Rome’. O autor mostra claramente a predileção que os democratas do séc. XVIII sentiam por Demóstenes e a repulsa que esta figura desperta nos modernos historiadores alemães.”
Engelbert DRERUP,Imagens de uma Antiga República de Advogados / Demosthenes um Urteil des Altertums, 1923
“O mais erudito representante da ortodoxia demosteniana de velho estilo é Arnold SCHAEFER, Demosthenes und Seine Zeit, 3 vols. (Leipzig, 1856).”
GLOTZ & CLOCHÉ, Démosthène, 1937
P. TREVES, Demostene e la libertà Grega, 1933
“meu livro, Demóstenes: O Estadista e a sua Evolução.”
“mundos que até há poucos decênios pareciam hermeticamente fechados e independentes, como a história do Estado e da filosofia, do jornalismo e da retórica, aparecem agora como membros vivos de uma unidade orgânica, participando no mesmo grande processo vital da nação.”
“A polis, considerada como forma definitiva da vida política e espiritual, é o dado fundamental da história grega nos sécs. que vão de Homero a Alexandre.” “O melhor livro recente sobre a polis é o de G. GLOTZ, La Cité Grecque, 1928.”
“O problema da autonomia da polis não mais acalmou desde a sua 1ª transgressão pela política imperial ateniense de Péricles, que rebaixou os confederados ao plano de simples súditos.” “o abandono do Estado autônomo da polis era tão incompatível com a mentalidade política dos gregos como até hoje o tem sido, praticamente, com a nossa própria mentalidade política, a renúncia ao princípio dos Estados nacionais para adotarmos formas de Estado mais amplas na Europa.”
“Enquanto com Platão o espírito filosófico da época se vira com todas as suas forças para o problema espiritual do Estado e aborda a missão da sua reconstrução moral, independentemente das condições de tempo e de espaço, o Estado ateniense real vai, pouco a pouco, se sobrepondo a seu abatimento e recupera uma liberdade de movimento que lhe abre perspectivas para um lento fortalecimento do seu poder.” “Atenas, apoiada pelos que anteriormente tinham sido aliados de Esparta, por Tebas e Corinto, conseguiu reconquistar gradualmente a sua posição no mundo dos Estados gregos e reconstruir, com dinheiro persa, as fortificações que tinha sido obrigada a destruir depois da guerra. Depois veio o 2º passo: Tebas desligou-se de Esparta, o que brindou Atenas com a possibilidade de fundar a 2ª liga marítima, a qual, evitando a política excessivamente centralizada da 1ª liga, soube estreitar os vínculos de Atenas com os seus aliados. A sua cabeça destacaram-se políticos e soldados de verdadeira grandeza, como Timóteo, Cabrias, Ifícrates e Calístrato; e o abnegado impulso do sentimento patriótico dos anos que se seguiram à fundação da nova liga marítima deu, na guerra dos 7 anos contra Esparta, travada ao lado de Tebas, o magnífico fruto da paz do ano 371, que conferiu a Atenas a indiscutível primazia no mar e legalizou definitivamente a nova liga, mediante tratados internacionais.”
“esta nova juventude sente-se atraída para o turbilhão do movimento político; e são os jovens metecos estrangeiros das pequenas cidades e de países vizinhos da Grécia, como Aristóteles, Xenófanes, Heráclides e Filipe de Opunte aqueles que se consagram inteiramente à vida platônica de uma pura investigação.”
“Foi o florescimento outonal da vida do Estado ateniense na época de Demóstenes que desenvolveu a eloqüência política como gênero admiradíssimo de arte literária.”
PLUTARCO,Demóstenes
“Os discursos de Péricles como estadista, tal como realmente tinham sido pronunciados por ele, não puderam servir de modelo ao jovem Demóstenes, pois não tinham sido publicados literariamente nem se conservam. Com efeito, o único eco da eloqüência política de Atenas na época do seu esplendor eram os discursos reproduzidos na obra de Tucídides, cujo perfil artístico e espiritual e cuja profundidade de pensamento sobrepujavam toda a prática da oratória política, tal como a realidade a oferecia.”
“Sobre a análise da forma oratória em Demóstenes deve consultar-se principalmente a obra de F. BLASS, Geschichte der Attischen Beredsamkeit, t. III, parte I.” “os seus discursos não são mera ficção literária, como a crítica moderna muitas vezes julga”
“Atenas, que estivera 1º ao lado de Tebas contra Esparta, separou-se dos seus aliados tebanos na paz de 371, para guardar a tempo nos seus celeiros a colheita da guerra.” “Neste momento a política ateniense de Calístrato mudou de quadrante e firmou abertamente aliança com Esparta, para contrabalançar o poder da sua antiga aliada (…) Nascia assim a idéia do equilíbrio, que deu forma à política ateniense das décadas seguintes e com a qual se procurou estabelecer um novo sistema no mundo dos Estados gregos.”
“Demóstenes teve de pôr-se desde muito cedo em contato com os tribunais, forçado pela própria experiência da sua vida: a dilapidação da grande fortuna que lhe legara seu pai, levada a cabo pelos seus autores; e depois de ter comparecido pessoalmente ante os juízes, como orador em defesa da sua própria causa, escolheu a carreira de redator de discursos forenses e de conselheiro jurídico. (DEMÓSTENES, Contra Afobo e Contra Onetor)” + Contra Andrócio,Contra TimócrateseContra Leptines.
“a coerência sistemática da sua conduta se revela a principal força de Demó., ainda que naquela altura fosse para outros e sob a direção de outros que ele trabalhasse.” “É sobre o problema de política externa que o seu interesse incide logo desde o início”
“A concepção política, representada no campo literário por Isóc., e no campo da política efetiva por Eubulo, principal dirigente da corrente de oposição da classe opulenta, rejeitava conseqüentemente toda a atividade política externa por parte do Estado enfraquecido, e via o seu futuro na sua limitação consciente aos problemas de uma prudente política interna e econômica.”
“Desde o surpreendente aparecimento de Tebas como 3ª potência ao lado de Esparta e Atenas, este plano de equilíbrio tinha que se impor necessariamente como o testamento e a herança clássica do mais eficiente período da política ateniense, depois de Péricles.”
“Desde a perda de Anfípolis, cidade marítima macedônica, cuja posse se discutia desde tempos remotos, que o rei Filipe se encontrava em guerra com Atenas, que reivindicava para si este antigo ponto de apoio do seu comércio e da sua frota.” “Interveio em seguida na guerra entre Tebas e a Fócida, derrotou os focenses e já se dispunha a penetrar na Grécia central pelas Termópilas, para aí se impor como árbitro, quando os atenienses se ergueram e enviarem àquele desfiladeiro, fácil de defender, um corpo de exército que barrou o caminho a Filipe (Arnaldo MOMIGLIANO, Filippo il Macedone (Florença, 1934). Este não procurou forçar a passagem: dirigiu-se para o norte; marchou através da Trácia sem encontrar resistência séria e, de súbito, ameaçou Atenas nos Dardanelos, onde ninguém o esperava. Todos os cálculos de Demóstenes quanto à proteção dos estreitos contra os trácios se tornaram inúteis de um só golpe: o quadro mudara por completo e o perigo macedônio revelava-se fulminantemente em toda a sua grandeza.” “Agora já não se tratava de uma luta de princípios entre a intervenção e a não-intervenção.” “O não ter tomado a sério a guerra de bloqueio colocava Atenas, inesperadamente, na defensiva.”
“É um problema de difícil solução saber se Demóstenes, em condições mais favoráveis, teria podido converter-se num desses estadistas construtivos e criadores cuja existência pressupõe um país de energias em crescimento. O que se pode afirmar é que, na Atenas do seu tempo, teria sido inconcebível sem um adversário como Filipe da Macedônia, que o obrigou a pôr em ação a sua profunda e ampla visão, a sua decisão e tenaz coerência.”
“A ciência do séc. XIX excede não raras vezes, na aplicação do seu ceticismo, os limites do suscetível de ser provado, e foi o que também neste caso aconteceu. (…) Já os antigos reuniram estes discursos numa categoria especial, sob o nome de Filípicas, mas não é unicamente o terem sido pronunciados contra o mesmo adversário que os caracteriza e distingue dos discursos anteriores. É na grandiosa idéia da educação do povo que a sua unidade se baseia, idéia que foi expressa de maneira concisa e lapidar na tese do discurso sobre o armamento.”
“Nos povos governados democraticamente, a decisão de lutar não dimana das ordens do <governo>: é, sim, do íntimo do cidadão que ela deve brotar, pois todos tomam parte na decisão. As Filípicas de Demó. são todas dedicadas à formidável tarefa de preparar o povo para tomar esta decisão, para a qual faltava à maioria desse povo clareza de visão e capacidade de sacrifício.” “só por uma completa ausência de capacidade espiritual de distinção se poderia confundir com a demagogia corrente o dom de Demóstenes para se servir ocasionalmente desta linguagem.” Jaeger exagera? Só lendo Demóstenes para descobrir!
“D. tinha 31 anos quando subiu à tribuna com o seu programa de ação.”
“E assim como em Sólon o problema da participação dos deuses no infortúnio do Estado anda ligado à idéia da tyche, assim também esta idéia reaparece, sob novas variantes, nos discursos em que D. põe em guarda contra Filipe. (…) O adiantado processo de individualização desta época faz com que os homens, na sua ânsia de liberdade, sintam com maior intensidade a sua submissão efetiva ao curso exterior do mundo. O séc. que se inicia com as tragédia de Eurípides encontra-se, mais que nenhum outro, penetrado pela idéia de tyche, e tende cada vez mais a abandonar-se à resignação.”
“Isto confere uma especial importância ao fator ético nos discursos de D. procedentes desta época, fator sem paralelo nos discursos de política externa de outros autores, que a literatura grega conservou.” “É precisamente aqui, na forma como aprofunda a psicologia e a moral do simples cidadão, que D. se revela um verdadeiro educador.”
(*) “A obra de Virgínia (sic) WOODS, Types of Rulers in the Tragedies of Aeschylus (tese de doutoramento pela Universidade de Chicago, 1941), contém uma análise completa do ethos político dos governantes, no drama ateniense do 1º período. Este estudo foi feito por sugestão minha.”
“É no estilo que o sentido trágico desta época deixa sua marca. As suas profundas sombras patéticas reaparecem nos rostos das mais grandiosas obras de arte plástica do mesmo período, modeladas por Escopas”
GREECE – CIRCA 2002: Head of Atalanta, by Skopas (420-340 BC), sculpture from the Athena Alea Temple in Tagea, (Greece). Greek Civilization, 4th Century BC. Athens, Ethnikó Arheologikó Moussío (National Archaeological Museum) (Photo by DeAgostini/Getty Images)
“D. não teria conseguido tornar-se o maior dos clássicos da época helenística, em que se integrava mal o seu ideal político, se não tivesse sabido dar uma expressão perfeita ao tom das suas emoções espirituais.” “Oorador e o estadista confundem-se e formam nele uma unidade. A forma oratória pura não seria nada sem o peso específico do espírito do homem de Estado, que força por se exprimir nela.”
“A queda de Olinto e a destruição das numerosas e florescentes cidades da península da Cálcida, as quais formavam a Liga Olíntica, obrigaram Atenas a negociar a paz com Filipe da Macedônia. Esta paz foi firmada no ano 346 e Demóstenes encontrava-se também entre aqueles que a desejavam por razões de princípio. Opôs-se, contudo, à aceitação das condições propostas pelo adversário, pois lhe entregavam, sem proteção, os territórios da Grécia central e deixavam Atenas à mercê de um cerco cada vez mais apertado. Não pôde, porém, impedir que a paz se firmasse nestas bases e, no seu Discurso sobre a Paz, teve até que se pronunciar contra a resistência armada, quando já era um fato a ocupação pelo macedônio do território da Fócida e das Termópilas, tão importantes para o domínio da Grécia central.”
“O Discurso sobre as Simoriase o que defende a liberdade dos ródios são testemunhos clássicos da sua contínua e vigilante disposição de acalmar a mera verborréia da embriaguez sentimental chauvinista.” “Até hoje, nem os seus críticos nem os simples políticos sentimentais que se lhe seguiram souberam compreendê-lo, e é isso que explica que tenham atribuído a vacilações de caráter o que não é senão rigorosa coerência de pensamento, expressa numa conduta elasticamente variável.”
“A unificação da Hélade não podia ser levada a cabo sob a forma de absorção dos diversos Estados autônomos num Estado nacional unitário, ainda que o progressivo enfraquecimento dos Estados já estivesse adiantado como o estava agora. Só de fora podia vir. A resistência contra o inimigo comum era o único fator que poderia fundir todos os gregos, unificando-os como nação. O fato de Isóc. considerar como inimigo o império persa, cujo ataque fizera, há 50 anos, esquecer aos gregos as suas dissensões internas, e não a Macedônia, que era no presente o único perigo sério e real, podia explicar-se pela força da inércia, visto que Isóc. já vinha pregando havia várias décadas a idéia desta cruzada.(*) Todavia, era um erro político imperdoável pensar que podia afastar o perigo macedônio, aclamando Filipe, o inimigo da liberdade de Atenas e de todos os gregos, como chefe predestinado desta futura guerra nacional.
(*) U. WILCKEN, ‘Philip II von Makedonien und die Panhellenische Idee’, in Ber. Berl. Akad., 1929.”
“Filipe soube compreender com perspicácia que era possível vencer um povo como o grego com as suas próprias armas, pois onde imperam a cultura e a liberdade existem sempre a desunião e a discrepância quanto ao caminho a seguir nos problemas mais importantes. A multidão é demasiado míope para descobrir logo o caminho certo. D. fala muito da agitação a favor da Maced., explorada em todas as cidades gregas.” “D. não se propunha a persuadir nenhum conselho secreto da coroa, mas um povo desinteressado e mal-dirigido”
“Os seus discursos proferidos em tempo de paz são uma série ininterrupta de tentativas destinadas a opor este seu pan-helenismo ao pan-helenismo pró-macedônio de Isóc.”
“e agora Tebas, que teria sido naquela ocasião mais importante para Atenas que a própria Esparta, sentia-se mais estreitamente ligada a Filipe do que lhes aconselhava o seu próprio interesse; a isso fôra forçada pela política de Atenas e de Esparta, que apoiavam os seus adversários da Fócida. D. considerou sempre má política aquele apoio dado aos focenses somente por ódio contra Tebas. E eis que agora o rei da Fócida oferecia a Filipe a ocasião para intervir na Grécia central.”
“Mas a aliança com Tebas só à última hora, antes da batalha de Queronéia, foi levada a efeito: cf. o Discurso da Coroa, 174-9. Foi um triunfo trágico para D.. No meio de uma Grécia como esta, dividida e desintegrada, parecia trabalho de Sísifo formar uma frente pan-helênica de combate contra Filipe. E mesmo assim D. conseguiu-o, após longos anos de esforço. Esta sua evolução até se tornar paladino da liberdade grega é tanto mais surpreendente quanto a realização política da idéia do pan-helenismo parecia um sonho, mesmo depois de ter sido proclamada pela retórica.”
“nenhuma contradição irredutível medeia entre a atitude política realista dos primeiros discursos e o programa da luta pan-helênica da última fase de D., assim como não há contradição entre o Bismarck da 1ª fase, defensor dos interesses puramente prussianos, e o fundador da unidade política dos alemães em 1870.”
“Na grande batalha espiritual de rompimento que são o Discurso do Quersoneso e a Terceira Filípica, pouco antes do começo da guerra, D. reaparece a nossos olhos como o dirigente popular dos primeiros discursos contra Filipe, anteriores à paz do ano 346.” “Mas os gregos continuam inativos diante da expansão aniquiladora da potência de Filipe, como diante de uma tempestade ou uma catástrofe elementar da natureza, que o homem contempla passivamente, dominado pelo sentimento de total impotência, esperando que o raio caia, talvez, na casa do vizinho.”
“Olinto, Erétria, Oreos reconhecem hoje: se o tivéssemos visto antes, não teríamos sido aniquiladas; mas agora é tarde.” Fil., III
“Quando as vagas podem mais que o leme, já todo o esforço é vão.”
“O sentido de lucro da massa e a corrupção dos oradores têm de se render e render-se-ão em face do espírito heróico daquela Grécia que outrora venceu a guerra contra os persas.”
“Muitos anos atrás D. já se tinha perguntado inevitavelmente, face desse paralelo histórico, se os atenienses do seu tempo não seriam uma raça degenerada, diferente da do passado. Ele, porém, não é nem um historiador, nem um teórico da cultura, unicamente preocupado em verificar fatos. Neste campo é também, forçosamente, o educador que vê diante de si uma missão a cumprir. Por muito desfavoráveis que os sinais pareçam, não acredita na degenerescência do caráter do povo.Um homem como ele jamais seria capaz de renunciar ao Estado ateniense e de lhe voltar as costas como a um doente incurável.É certo que os atos deste povo se converteram em atos mesquinhos e lucrativos, mas como poderia ser outra a mentalidade destes homens? O que é que lhes poderia infundir um sentido mais elevado da existência, um ímpeto mais audacioso? Isóc. só sabe tirar do paralelo histórico com o passado uma conclusão: a de que este passado desapareceu para sempre. Mas um estadista ávido de ação não podia aceitar esta conclusão, enquanto restasse na sua fortaleza um baluarte para defender.”
K. JOST, Das Beispiel und Vorbild der Vorfahren bei den attischen Rednern und Geschichtschreibern bis Demosthenes (Paderborn, 1936)
“Mesmo que o abismo entre o ontem e o hoje fosse ainda mais profundo, Atenas não poderia separar-se da sua história sem renunciar a si mesma.Quanto maior a grandeza da história de um povo, mais ela se lhe impõe como destino nas épocas de decadência, mais trágica é a possibilidade de se furtar ao seu dever, ainda que este seja irrealizável.(*) É indubitável que D. não se enganava conscientemente, nem empurrava levianamente os atenienses para uma aventura.
(*) <Que havia, pois, de fazer a polis, ó Ésquines, quando viu que como Filipe tentava estabelecer o seu império e a sua tirania sobre a Hélade? Ou que havia de dizer ou propor o homem que, como eu, se sentia conselheiro do povo de Atenas, e que desde os seus começos até o dia em que subiu à tribuna dos oradores não fez outra coisa senão lutar pela pátria e pelos supremos lauréis da sua honra e da sua fama?> Discurso da Coroa”
“a arte do possível” “político realista” “existência ideal”
“Até o mais sábio dos estadistas se vê aqui diante de um mistério da natureza que a razão humana é incapaz de resolver de antemão. Logo que os fatos se verificam, sucede com bastante freqüência aparecerem como verdadeiros estadistas pessoas para quem isto não era mais que um novo problema de cálculo e para quem, portanto, não era fácil fugir a um risco que não se sentiam interiormente obrigados a correr nem pela fé no seu povo, nem pelo sentimento da sua própria dignidade, nem pela intuição de um destino inelutável. Neste momento decisivo foi D. o homem em quem a feição heróica do espírito da polis grega encontrou esta grave expressão. Basta-nos contemplar o seu rosto toldado por sombrias preocupações, sulcado de rugas, tal como a obra do artista o conservou, para compreendermos que também ele não era por natureza nem um Aquiles nem um Diomedes, mas simplesmente, como os demais, um filho do seu tempo. Mas quem não vê precisamente que a luta parece tanto mais nobre quanto mais sobre-humanos parecem os deveres por ele pregados a uma geração de nervos tão sensíveis e com uma vida interior individualista?” “Já Tucídides dissera que os atenienses só eram capazes de enfrentar um perigo com plena consciência dele, e não como outros, cuja valentia nascia não raras vezes da ignorância do perigo.”
“D. pensa que Atenas estará perdida, se aguardar que o inimigo penetre no país. (…) Já antes forcejara por atrair a Pérsia a sua causa; e, à vista da queda deste império logo após Filipe da M. ter conseguido submeter os gregos, a neutralidade da Pérsia perante a sorte de Atenas revelou-se uma enganosa ilusão. D. acreditara que a força da sua lógica de estadista conseguiria convencer o grande rei do que aguardava a Pérsia, se Filipe derrotasse os gregos.”
“Na Quarta Filípica faz pressão para se chegar a um acordo, a um compromisso pelo menos, a uma desintoxicação da atmosfera.”
“Os antigos Estados, apesar de se terem agrupado para travar a última batalha pela liberdade, já não foram capazes de fazer frente ao poder militar organizado do reino macedônio. A sua história desembocou no grande império que Alexandre, depois da súbita morte violenta do rei Filipe em mãos assassinas, fundou na sua irresistível campanha de conquistas que realizou através da Ásia, sobre as ruínas do império persa. Com a colonização, a economia e a ciência gregas viram abrir-se novos e imprevistos horizontes de desenvolvimento, mesmo depois da desintegração do império de Alexandre, nos Estados dos diádocos, logo a seguir à morte prematura do seu fundador.”
“A morte poupou a Isóc. a dor de ter de reconhecer demasiado tarde que a vitória, sobre um inimigo imaginário, de um povo que perdeu a sua independência não representa nunca uma verdadeira exaltação do sentimento nacional, e que a unidade imposta de fora não pode nunca solucionar o problema da desintegração dos Estados.Todos os verdadeiros gregos teriam preferido durante a campanha de Alexandre receber a notícia da morte do novo Aquiles, a implorá-lo (sic) como deus, obedecendo a ordens supremas. A espera febril dessa notícia por todos os patriotas, com as suas alternativas de sucessivos desenganos e de precipitadas tentativas de insurreição, constitui por si só uma tragédia.”
“Ainda que as suas armas tivessem triunfado, os gregos não teriam mais futuro político, nem fora do domínio estrangeiro nem sob o seu jugo. A forma histórica de vida do seu Estado já havia caducado e nenhuma nova organização artificial podia substituí-la. É falso medir a sua evolução pela pauta do moderno Estado nacional.”
“Só uma vez, na batalha de D. em prol da independência da sua pátria, se produziu na história da Grécia uma onda de sentimento nacional, traduzido na realidade política pela existência comum, frente ao inimigo exterior. Foi neste instante do seu derradeiro esforço para manter a sua existência e o seu ideal que o Estado agonizante da polis alcançou nos discursos de D. a imortalidade.”
“Demóstenes confessa com espírito verdadeiramente trágico a verdade dos seus atos e exorta o povo a não desejar ter tomado outra decisão senão a que o passado lhe impunha.”
“É difícil para alguém de fora fazer ideia da medida em que somos ambos responsáveis por cada frase.”
“O livro foi redigido num momento em que já se podia enxergar o fim do terror nacional-socialista. Mas não são poucas as passagens em que a formulação não é mais adequada à realidade atual. E, no entanto, não se pode dizer que, mesmo naquela época, tenhamos avaliado de maneira excessivamente inócua o processo de transição para o mundo administrado.”
“O pensamento crítico, que não se detém nem mesmo diante do progresso, [o esclarecimento] exige hoje que se tome partido pelos últimos resíduos de liberdade, pelas tendências ainda existentes a uma humanidade real, ainda que pareçam impotentes em face da grande marcha da história. O desenvolvimento que diagnosticamos neste livro em direção à integração total está suspenso, mas não interrompido”
“Retornamos dos Estados Unidos, [a nação da imbecilidade consumada nos anos 60/70, agora mais amarga que a Alemanha Ocidental reconstruída] onde o livro foi escrito, para a Alemanha, na convicção de que aqui poderemos fazer mais do que em outro lugar, tanto teórica quanto praticamente. Juntamente com Friedrich Pollock, a quem o livro é agora dedicado por seus 75 anos, como já o era por seus 50 anos, reconstruímos o Instituto para Pesquisa Social com o pensamento de prosseguir a concepção formulada na Dialética.”
Abril de 1969
PREFÁCIO
“Ao que nos propuséramos era, de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie.” “Embora tivéssemos observado há muitos anos que, na atividade científica moderna, o preço das grandes invenções é a ruína progressiva da cultura teórica, acreditávamos de qualquer modo que podíamos nos dedicar a ela na medida em que fosse possível limitar nosso desempenho à crítica ou ao desenvolvimento de temáticas especializadas. Nosso desempenho devia restringir-se, pelo menos tematicamente, às disciplinas tradicionais: à sociologia, à psicologia e à teoria do conhecimento.
Os fragmentos que aqui reunimos mostram, contudo, que tivemos de abandonar aquela confiança. Se uma parte do conhecimento consiste no cultivo e no exame atentos da tradição científica (especialmente onde ela se vê entregue ao esquecimento como um lastro inútil pelos expurgadores positivistas), em compensação, no colapso atual da civilização burguesa, o que se torna problemático é não apenas a atividade, mas o sentido da ciência. O que os fascistas ferrenhos elogiam hipocritamente e os dóceis especialistas da humanidade ingenuamente levam a cabo, a infatigável autodestruição do esclarecimento, força o pensamento a recusar o último vestígio de inocência em face dos costumes e das tendências do espírito da época.”
“Se se tratasse apenas dos obstáculos resultantes da instrumentação desmemoriada da ciência, o pensamento sobre questões sociais poderia, pelo menos, tomar como ponto de partida as tendências opostas à ciência oficial. Mas também estas são presas do processo global de produção. Elas não se modificaram menos do que a ideologia à qual se referiam.”
“A filosofia que, no século XVIII, apesar das fogueiras levantadas para os livros e as pessoas, infundia um medo mortal na infâmia,(*) sob Bonaparte já passava para o lado desta. Finalmente, a escola apologética de Comte usurpou a sucessão dos enciclopedistas intransigentes e estendeu a mão a tudo aquilo contra o qual estes se haviam colocado.
(*) Voltaire, Lettres philosophiques XII”
“Ao tomar consciência da sua própria culpa, o pensamento vê-se por isso privado não só do uso afirmativo da linguagem conceitual científica e cotidiana, mas igualmente da linguagem da oposição. Não há mais nenhuma expressão que não tenda a concordar com as direções dominantes do pensamento, e o que a linguagem desgastada não faz espontaneamente é suprido com precisão pelos mecanismos sociais. Aos censores, que as fábricas de filmes mantêm voluntariamente por medo de acarretar no final um aumento dos custos, correspondem instâncias análogas em todas as áreas. O processo a que se submete um texto literário, se não na previsão automática do seu produtor, pelo menos pelo corpo de leitores, editores, redatores e ghost-writers dentro e fora do escritório da editora, é muito mais minucioso que qualquer censura. Tornar inteiramente supérfluas suas funções parece ser, apesar de todas as reformas benéficas, a ambição do sistema educacional.Na crença de que ficaria excessivamente suscetível à charlatanice e à superstição, se não se restringisse à constatação de fatos e ao cálculo de probabilidades, o espírito conhecedor prepara um chão suficientemente ressequido para acolher com avidez a charlatanice e a superstição. Assim como a proibição sempre abriu as portas para um produto mais tóxico ainda, assim também o cerceamento da imaginação teórica preparou o caminho para o desvario político.”
“A aporia com que defrontamos em nosso trabalho revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a autodestruição do esclarecimento.” “Se o esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu carácter superador e, por isso, também sua relação com a verdade.A disposição enigmática das massas educadas tecnologicamente a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo qualquer, sua afinidade autodestrutiva com a paranóia racista, todo esse absurdo incompreendido manifesta a fraqueza do poder de compreensão do pensamento teórico atual.
Acreditamos contribuir com estes fragmentos para essa compreensão, mostrando que a causa da recaída do esclarecimento na mitologia não deve ser buscada tanto nas mitologias nacionalistas, pagãs e em outras mitologias modernas especificamente idealizadas em vista dessa recaída, mas no próprio esclarecimento paralisado pelo temor da verdade.”
O DELINQÜENTE: “O medo que o bom filho da civilização moderna tem de afastar-se dos fatos – fatos esses que, no entanto, já estão pré-moldados como clichés na própria percepção pelas usanças dominantes na ciência, nos negócios e na política – é exatamente o mesmo medo do desvio social. Essas usanças também definem o conceito de clareza na linguagem e no pensamento a que a arte, a literatura e a filosofia devem conformar-se hoje. Ao tachar de complicação obscura e, de preferência, de alienígenao pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como às formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o domínio da mais profunda cegueira. É característico de uma situação sem-saída que até mesmo o mais honesto dos reformadores, ao usar uma linguagem desgastada para recomendar a inovação, adota também o aparelho categorial inculcado e a má filosofia que se esconde por trás dele, e assim reforça o poder da ordem existente que ele gostaria de romper.”
“a difusão hipócrita do espírito: sua verdadeira aspiração é a negação da reificação. Mas ele necessariamente se esvai quando se vê concretizado em um bem cultural e distribuído para fins de consumo. A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo.” Dialética da distensão para estressados e sobrecarregados.
“O que está em questão não é a cultura como valor, como pensam os críticos da civilização Huxley, Jaspers, Ortega y Gasset e outros. A questão é que o esclarecimento tem que tomar consciência de si mesmo, se os homens não devem ser completamente traídos. [Será? Será que o obscurecimento já não é sua própria reação diante da autoconsciência do esclarecimento?] Não é da conservação do passado, mas de resgatar aesperança passada que se trata. Hoje, porém, o passado prolonga-se como destruição do passado. Se a cultura respeitável constituiu até o século XIX um privilégio, cujo preço era o aumento do sofrimento dos incultos, no século XX o espaço higiênico da fábrica teve por preço a fusão de todos os elementos da cultura num cadinho [caldeirão, forno, crisol] gigantesco. Talvez isso não fosse um preço tão alto, como acreditam aqueles defensores da cultura, se a venda em liquidação da cultura não contribuísse para a conversão das conquistas econômicas em seu contrário.” Toda sopa é produzida pensando em comensais banguelas.
“O fato de que o espaço higiênico da fábrica e tudo o que acompanha isso, o Volkswagen e o Palácio dos Desportos, levem a uma liquidação estúpida da metafísica, ainda seria indiferente, mas que eles próprios se tornem, no interior do todo social, a metafísica, a cortina ideológica atrás da qual se concentra a desgraça real, não é indiferente. Eis aí o ponto de partida dos nossos fragmentos.”
“duas teses: o mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia.” “O segundo excurso ocupa-se de Kant, Sade e Nietzsche, os implacáveis realizadores do esclarecimento.”
“O segmento sobre a ‘indústria cultural’ mostra a regressão do esclarecimento à ideologia, que encontra no cinema e no rádio sua expressão mais influente. (…) [este] segmento (…) é ainda mais fragmentário¹ do que os outros.”
¹ Ler: difícil de ler; anti-estético.
“A tendência não apenas ideal, mas também prática, à autodestruição, caracteriza a racionalidade desde o início e de modo nenhum apenas a fase em que essa tendência se evidencia sem disfarces. Neste sentido, esboçamos uma pré-história filosófica do anti-semitismo. Seu ‘irracionalismo’ é derivado da essência da própria razão dominante e do mundo correspondente a sua imagem.”
“As primeiras 3 teses [da penúltima parte do livro] foram escritas juntamente com Leo Löwenthal, com quem desde os primeiros anos de Frankfurt trabalhamos em muitas questões científicas.”
Maio de 1944; junho de 1947.
1. O CONCEITO DE ESCLARECIMENTO [Sobre uma ascensão da tecnocracia]
“o rádio, que é a imprensa sublimada;¹ o avião de caça, que é uma artilharia mais eficaz; o controle remoto, que é uma bússola mais confiável.”
¹ No sentido hegeliano: a dimensão espacial sublimada no puro tempo de propagação da onda. Adeus superfícies.
“Só o pensamento que se faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos. Diante do atual triunfo da mentalidade factual, até mesmo o credo nominalista de Bacon seria suspeito de metafísica e incorreria no veredito de vacuidade que proferiu contra a escolástica. Poder e conhecimento são sinônimos. Para Bacon, como para Lutero, o estéril prazer que o conhecimento proporciona não passa de uma espécie de lascívia. O que importa não é aquela satisfação que, para os homens, se chama ‘verdade’, mas a ‘operation’, o procedimento eficaz.”
“Nenhuma distinção deve haver entre o animal totêmico, os sonhos do visionário e a Idéia absoluta. No trajeto para a ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade. A causa foi apenas o último conceito filosófico que serviu de padrão para a crítica científica, porque ela era, por assim dizer, dentre todas as idéias antigas, o único conceito que a ela ainda se apresentava, derradeira secularização do princípio criador. A filosofia buscou sempre, desde Bacon, uma definição moderna de substância e qualidade, de ação e paixão, do ser e da existência, mas a ciência já podia passar sem semelhantes categorias. Essas categorias tinham ficado para trás como idola theatri da antiga metafísica e já eram, em sua época, monumentos de entidades e potências de um passado pré-histórico.”
“As cosmologias pré-socráticas fixam o instante da transição. O úmido, [água] o indiviso, [terra] o ar, o fogo, aí citados como a matéria primordial da natureza, são apenas sedimentos racionalizados da intuição mítica.” “assim também toda a luxuriante plurivocidade dos demônios míticos espiritualizou-se na forma pura das entidades ontológicas. Com as Idéias de Platão, finalmente, também os deuses patriarcais do Olimpo foram capturados pelo logos filosófico.”
O ESPÍRITO DO MUNDO ERA A TÉCNICA: Um fantasma que queria um corpo
“Na autoridade dos conceitos universais, [o esclarecimento][e não tenha dúvida de que este esclarecimento é o Espírito hegeliano, finalmente tornado ambíguo, ambivalente] crê enxergar ainda o medo pelos demônios, cujas imagens eram o meio, de que se serviam os homens, no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza.” “O que não se submete ao critério da calculabilidade e da utilidade torna-se suspeito para o esclarecimento. A partir do momento em que ele pode se desenvolver sem a interferência da coerção externa, nada mais pode segurá-lo.” “Cada resistência espiritual que ele encontra serve apenas para aumentar sua força. Isso se deve ao fato de que o esclarecimento ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos. Quaisquer que sejam os mitos de que possa se valer a resistência, o simples fato de que eles se tornam argumentos por uma tal oposição significa que eles adotam o princípio da racionalidade corrosiva da qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento é totalitário.”
“O sobrenatural, o espírito e os demônios seriam as imagens especulares dos homens que se deixam amedrontar pelo natural.”
E se o especulativo pudesse usar um espéculo para especular com mais realidade, explorar, arrancar mais-valia de cada célula do corpo invadido intrometido?
“De antemão, o esclarecimento só reconhece como ser e acontecer o que se deixa captar pela unidade. Seu ideal é o sistema, do qual se pode deduzir toda e cada coisa.” “Embora as diferentes escolas interpretassem de maneira diferente os axiomas, a estrutura da ciência unitária era sempre a mesma.”
“A multiplicidade das figuras se reduz à posição e à ordem, a história ao fato, as coisas à matéria.”
“O equacionamento mitologizante das Idéias com os números nos últimos escritos de Platão exprime o anseio de toda desmitologização: o número tomou-se o cânon do esclarecimento. As mesmas equações dominam a justiça burguesa e a troca mercantil.”
“A sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. Ela torna o heterogêneo comparável, reduzindo-o a grandezas abstratas.”
“Unidade continua a ser a divisa, de Parmênides a Russell.”
“Com o registo e a coleção dos mitos, essa tendência reforçou-se.” Mitógrafos, deixai o mito em paz!
“Os mitos, como os encontraram os poetas trágicos, já se encontram sob o signo daquela disciplina e poder que Bacon enaltece como o objetivo a se alcançar. O lugar dos espíritos e demônios locais foi tomado pelo céu e sua hierarquia; o lugar das práticas de conjuração do feiticeiro e da tribo, pelo sacrifício bem-dosado e pelo trabalho servil mediado pelo comando. As deidades olímpicas não se identificam mais diretamente aos elementos, mas passam a significá-los. Em Homero, Zeus preside o céu diurno, [eu não sou o céu, eu governo o céu!] Apolo guia o sol, Hélio e Éo já tendem para o alegórico.” Do logo à mónadas
“Nisso estão de acordo a história judia da criação e a religião olímpica. ‘…e dominarão os peixes do mar e as aves do céu e o gado e a terra inteira e todos os répteis que se arrastam sobre a terra.’” espia de milho, expiga de deus
O PERFEITO ÊMULO HUMILDE: “Em face da unidade de tal razão, a separação de Deus e do homem reduz-se àquela irrelevância que, inabalável, a razão assinalava desde a mais antiga crítica de Homero. (…) A imagem e semelhança divinas do homem consistem na soberania sobre a existência, no olhar do senhor, no comando.”
“em vez do deus, é o animal sacrificial que é massacrado.” “Embora a cerva oferecida em lugar da filha e o cordeiro em lugar do primogênito ainda devessem ter qualidades próprias, eles já representavam o gênero e exibiam a indiferença do exemplar.” Poder-se-ia dizer que sacrificar um gorila ou chimpanzé é dar 99% do Filho do Homem à origem. Pagar quase todo o tributo.
“A substitutividade converte-se na fungibilidade universal. Um átomo é desintegrado, não em substituição, mas como um espécime da matéria, e a cobaia atravessa, não em substituição, mas desconhecida como um simples exemplar, a paixão do laboratório.” “O mundo da magia ainda continha distinções, cujos vestígios desapareceram até mesmo da forma linguística.” “Como a ciência, a magia visa fins, mas ela os persegue pela mimese, não pelo distanciamento progressivo em relação ao objeto. Ela não se baseia de modo algum na ‘onipotência dos pensamentos’, que o primitivo se atribuiria, segundo se diz, assim como o neurótico.” “A ‘confiança inabalável na possibilidade de dominar o mundo’, que Freud anacronicamente atribui à magia, só vem corresponder a uma dominação realista do mundo graças a uma ciência mais astuciosa do que a magia.” “a religião popular, o mito patriarcal solar é ele próprio esclarecimento, com o qual o esclarecimento filosófico pode-se medir no mesmo plano.” “…até que os próprios conceitos de espírito, de verdade, e até mesmo de esclarecimento tenham-se convertido em magia animista.”
O INCONSCIENTE DE NEWTON: “A doutrina da igualdade entre a ação e a reação afirmava o poder da repetição sobre o que existe muito tempo após os homens terem renunciado à ilusão de que pela repetição poderiam se identificar com a realidade repetida e, assim, escapar a seu poder.” “O princípio da imanência, a explicação de todo acontecimento como repetição, que o esclarecimento defende contra a imaginação mítica, é o princípio do próprio mito. A insossa sabedoria para a qual não há nada de novo sob o sol, porque todas as cartas do jogo sem-sentido já teriam sido jogadas, porque todos os grandes pensamentos já teriam sido pensados, porque as descobertas possíveis poderiam ser projetadas de antemão, e os homens estariam forçados a assegurar a autoconservação pela adaptação – essa insossa sabedoria reproduz tão-somente a sabedoria fantástica que ela rejeita: a ratificação do destino que, pela retribuição, reproduz sem cessar o que já era.” Não sei o que me fez ler esse trecho com tanto entusiasmo no ano de 2009: se a palavra ‘destino’ aliada ao termo ‘sabedoria fantástica’ numa certa conotação que desviei para o nietzscheanismo, ou se o clima geral do texto, se a cosmovisão de alguém jovem inevitavelmente o conduz a essa espécie de otimismo ou euforia libertina, como caracterizaria esse dia e essa semana… Mais ou menos a sensação de andar pelas ruas da W3 Norte ouvindo Symbolic (Death) no fone num dia ensolarado… Mas o fato é que eu ignorava o deboche ou as péssimas conotações, a despeito da reiteração do termo ‘insossa sabedoria’… Em 2021 estou num pólo oposto. O texto não é nenhuma revelação, embora também não seja nenhum encobrimento – evadi o pêndulo quente e me enfiei num gêiser inativo. Impossível elevar-se no puro fenômeno e na resignação seculovintista…
“Os homens receberam o seu eu como algo pertencente a cada um, diferente de todos os outros, para que ele possa com tanto maior segurança se tornar igual.” “seria digna de escárnio a sociedade que conseguisse transformar os homens em indivíduos. A horda, cujo nome sem dúvida está presente na organização da Juventude Hitleriana, não é nenhuma recaída na antiga barbárie, mas o triunfo da igualdade repressiva, a realização pelos iguais da igualdade do direito à injustiça.” É inconsciente aos próprios fascistas (máquinas, automáticos) o quão bem eles trabalham (em seu propósito uniformizador). “Toda tentativa de romper as imposições da natureza rompendo a natureza, resulta numa submissão ainda mais profunda às imposições da natureza.” Imolar judeus sem saber por quê.
“Sob o domínio nivelador do abstrato, que transforma todas as coisas na natureza em algo de reproduzível, e da indústria, para a qual esse domínio do abstrato prepara o reproduzível, os próprios liberados acabaram por se transformar naquele ‘destacamento’ que Hegel designou como o resultado do esclarecimento.”
“Os cantos de Homero e os hinos do Rigveda datam da época da dominação territorial e dos lugares fortificados, quando uma belicosa nação de senhores se estabeleceu sobre a massa dos autóctones vencidos. O deus supremo entre os deuses surgiu com esse mundo civil, onde o rei, como chefe da nobreza armada, mantém os subjugados presos à terra, enquanto os médicos, adivinhos, artesãos e comerciantes se ocupam do intercâmbio social. Com o fim do nomadismo, a ordem social foi instaurada sobre a base da propriedade fixa.”
“Assim como, em cultos que não se excluíam, o nome de Zeus era dado tanto a um deus subterrâneo quanto a um deus da luz, e os deuses olímpicos cultivavam toda espécie de relações com os ctônicos, assim também as potências do bem e do mal, a graça e a desgraça, não eram claramente separadas. Elas estavam ligadas como o vir-a-ser e o parecer, a vida e a morte, o verão e o inverno. No mundo luminoso da religião grega perdura a obscura indivisão do princípio religioso venerado sob o nome de ‘mana’ nos mais antigos estágios que se conhecem da humanidade.”
O GRITO E O PORQUÊ: “A duplicação da natureza como aparência e essência, ação e força, que torna possível tanto o mito quanto a ciência, provém do medo do homem, cuja expressão se converte na explicação. Não é a alma que é transposta para a natureza, como o psicologismo faz crer. O mana, o espírito que move, não é nenhuma projeção, mas o eco da real supremacia da natureza nas almas fracas dos selvagens.”
“Quando uma árvore é considerada não mais simplesmente como árvore, mas como testemunho de uma outra coisa, como sede do mana, a linguagem exprime a contradição de que uma coisa seria ao mesmo tempo ela mesma e outra coisa diferente dela, idêntica e não-idêntica. Através da divindade, a linguagem passa da tautologia à linguagem. O conceito, que se costuma definir como a unidade característica do que está nele subsumido, já era desde o inícioo produto do pensamento dialético, no qual cada coisa só é o que ela é tornando-se aquilo que ela não é.” “Os deuses não podem livrar os homens do medo, pois são as vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome. Do medo o homem presume estar livre quando não há nada mais de desconhecido. É isso que determina o trajeto da desmitologização e do esclarecimento, que identifica o animado ao inanimado, assim como o mito identifica o inanimado ao animado. O esclarecimento é a radicalização da angústia mítica. A pura imanência do positivismo, seu derradeiro produto, nada mais é do que um tabu, por assim dizer, universal.” O positivismo absoluto como as verdadeiras trevas. Ó, Hegel, que foi que fizeste?
“O dualismo mítico não ultrapassa o âmbito da existência. O mundo totalmente dominado pelo mana, bem como o mundo do mito indiano e grego, são, ao mesmo tempo, sem-saída e eternamente iguais.” Não há o nada. Há bem e mal balanceados. Há trocas equivalentes entre ambos. Se eu cedo, eu conquisto; se eu conquisto, devo ceder. Como quer que seja, estou na lei e participo. “Todo nascimento se paga com a morte, toda ventura com a desventura. Homens e deuses podem tentar, no prazo que lhes cabe, distribuir a sorte de cada um segundo critérios diferentes do curso cego do destino; ao fim e ao cabo, a realidade triunfa sobre eles.” A realidade sou eu. Eu não fujo, porque se eu fugisse eu me apanharia.
“Por isso, tanto a justiça mítica como a esclarecida consideram a culpa e a expiação, a ventura e a desventura como os 2 lados de uma única equação. A justiça se absorve no direito.”
“Antes, os fetiches estavam sob a lei da igualdade. Agora, a própria igualdade torna-se fetiche. A venda sobre os olhos da Justiça não significa apenas que não se deve interferir no direito, mas que ele não nasceu da liberdade.”
“Inexauribilidade, renovação infinita, permanência do significado não são apenas atributos de todos os símbolos, mas seu verdadeiro conteúdo. As representações da criação nas quais o mundo surge da Mãe primordial, da Vaca ou do Ovo, são, ao contrário do Gênesis judeu (1:26), simbólicas. A zombaria com que os antigos ridicularizaram os deuses demasiadamente humanos deixou incólume seu âmago. A individualidade não esgota a essência dos deuses. Eles tinham ainda algo do mana dentro de si; eles personificavam a natureza como um poder universal. Com seus traços pré-animistas, eles se destacam no esclarecimento. Sob o véu pudico da chronique scandaleuse olímpica já se havia formado a doutrina da mistura, da pressão e do choque dos elementos, que logo se estabeleceu como ciência e transformou os mitos em obras da fantasia.” Platão não devera se indignar contra Homero, mas contra aqueles que lhe antecederam e desfiguraram o real Zeus, que não poderia ser nunca mau exemplo e perversão para nenhuma conduta humana… Ou os reais Zeuses, celeste-ctônico, telúrico-paradisíaco…
“A antítese corrente da arte e da ciência, que as separa como domínios culturais, a fim de torná-las administráveis conjuntamente como domínios culturais, faz com que elas acabem por se confundirem como opostos exatosgraças às suas próprias tendências.”
A ciência estética, como a ciência da performance também em suas trincheiras, já se tornou há muito tempo um clube seleto como o dos matemáticos, que não exigem e aliás proíbem a intervenção de não-entendidos. Jogo auto-suficiente. Esteticismo, performatismo, matematicismo. “A arte da copiabilidade integral, porém, entregou-se até mesmo em suas técnicas à ciência positivista.” “A separação do signo e da imagem é inevitável. Contudo, se ela é, uma vez mais, hipostasiada numa atitude ao mesmo tempo inconsciente e autocomplacente, então cada um dos 2 princípios isolados tende para a destruição da verdade. O abismo que se abriu com a separação, a filosofia enxergou-o na relação entre a intuição e o conceito e tentou sempre em vão fechá-lo de novo” “Platão baniu a poesia com o mesmo gesto com que o positivismo baniu a doutrina das Idéias.” “A imitação está proscrita tanto em Homero como entre os judeus.” “A razão e a religião declaram anátema o princípio da magia. Mesmo na distância renunciadora da vida, enquanto arte, ele permanece desonroso; as pessoas que o praticam tornam-se vagabundos, nômades sobreviventes que não encontram pátria entre os que se tornaram sedentários.”
“A obra de arte ainda tem em comum com a magia o facto de estabelecer um domínio próprio, fechado em si mesmo e arrebatado ao contexto da vida profana. Neste domínio imperam leis particulares.” “É exatamente a renúncia a agir, pela qual a arte se separa da simpatia mágica, que fixa ainda mais profundamente a herança mágica.” “Pertence ao sentido da obra de arte, da aparência estética, ser aquilo em que se converteu, na magia do primitivo, o novo e terrível: a manifestação do todo no particular. Na obra de arte volta sempre a realizar-se a duplicação pela qual a coisa se manifestava como algo de espiritual, como exteriorização do mana. É isto que constitui sua aura. Enquanto expressão da totalidade, a arte reclama a dignidade do absoluto. Isso, às vezes, levou a filosofia a atribuir-lhe prioridade em face do conhecimento conceitual. Segundo Schelling, a arte entra em ação quando o saber desampara os homens.” “Só muito raramente o mundo burguês esteve aberto a semelhante confiança na arte.”
“É através da fé que a religiosidade militante dos novos tempos – Torquemada, Lutero, Maomé – pretendia reconciliar o espírito e a vida. Mas a fé é um conceito privativo: ela se anula com[o] fé se não ressalta continuamente sua oposição ao saber ou sua concordância com ele.”
“A tentativa da fé, empreendida no protestantismo, de encontrar, como outrora, o princípio da verdade que a transcende, e sem a qual não pode existir diretamente, na própria palavra e de restituir a esta a força simbólica – essa tentativa teve como preço a obediência à palavra, aliás a uma palavra que não era a sagrada.” “seu fanatismo é a marca de sua inverdade, a confissão objetiva de que quem apenas crê por isso mesmo não mais crê. A má consciência é sua segunda natureza.” “Não foi como exagero mas como realização do próprio princípio da fé que se cometeram os horrores do fogo e da espada, da contra-reforma e da reforma. A fé não cessa de mostrar que é do mesmo jaez que a história universal, sobre a qual gostaria de imperar; nos tempos modernos, ela até mesmo se converte em seu instrumento preferido, sua astúcia particular. Não é apenas o esclarecimento do século XVIII que é irresistível, como atestou Hegel, mas (e ninguém sabia melhor do que ele) o movimento do próprio pensamento.”
“O paradoxo da fé acaba por degenerar no embuste, no mito do século XX, enquanto sua irracionalidade degenera na cerimônia organizada racionalmente sob o controle dos integralmente esclarecidos e que, no entanto, dirigem a sociedade em direção à barbárie.”
“Quando a linguagem penetra na história, seus mestres já são sacerdotes e feiticeiros. Quem viola os símbolos fica sujeito, em nome das potências supraterrenas, às potências terrenas, cujos representantes são esses órgãos comissionados da sociedade. O que precedeu a isso está envolto em sombras. Onde quer que a etnologia o encontre, o sentimento de horror de que se origina o mana já tinha recebido a sanção pelo menos dos mais velhos da tribo.” “Só que, é verdade, esse carácter social das formas do pensamento não é, como ensina Durkheim, expressão da solidariedade social, mas testemunho da unidade impenetrável da sociedade e da dominação.”
“A dominação defronta o indivíduo como o universal, como a razão na realidade efetiva. O poder de todos os membros da sociedade, que enquanto tais não têm outra saída, acaba sempre, pela divisão do trabalho a eles imposta, por se agregar no sentido justamente da realização do todo, cuja racionalidade é assim mais uma vez multiplicada. Aquilo que acontece a todos por obra e graça de poucos realiza-se sempre como a subjugação dos indivíduos por muitos: a opressão da sociedade tem sempre o caráter da opressão por uma coletividade.”
“Na medida em que constituíam semelhante reforço do poder social da linguagem, as idéias se tornavam tanto mais supérfluas quanto mais crescia esse poder, e a linguagem da ciência preparou-lhes o fim. Não era à justificação consciente que se ligava a sugestão que ainda conserva algo do terror do fetiche. A unidade de coletividade e dominação mostra-se antes de tudo na universalidade que o mau conteúdo necessariamente assume na linguagem, tanto metafísica quanto científica. A apologia metafísica deixava entrever a injustiça da ordem existente pelo menos através da incongruência do conceito e da realidade. Na imparcialidade da linguagem científica, o impotente perdeu inteiramente a força para se exprimir, e só o existente encontra aí seu signo neutro. Tal neutralidade é mais metafísica do que a metafísica. O esclarecimento acabou por consumir não apenas os símbolos mas também seus sucessores, os conceitos universais, e da metafísica não deixou nada senão o medo abstrato frente à coletividade da qual surgira.”
“Se o positivismo lógico ainda deu uma chance à probabilidade, o positivismo etnológico equipara-a já à essência.”
“A religião judaica não tolera nenhuma palavra que proporcione consolo ao desespero de qualquer mortal.”
“A contestação indiferenciada de tudo o que é positivo, a fórmula estereotipada da nulidade, como a emprega o budismo, passa por cima da proibição de dar nomes ao absoluto, do mesmo modo que seu contrário, o panteísmo, ou sua caricatura, o ceticismo burguês. As explicações do mundo como o nada ou o todo são mitologias, e os caminhos garantidos para a redenção, práticas mágicas sublimadas.”
“Semelhante execução, ‘negação determinada’,¹ não está imunizada pela soberania do conceito abstrato contra a intuição sedutora, como o está o ceticismo para o qual são nulos tanto o falso quanto o verdadeiro.² A negação determinada rejeita as representações imperfeitas do absoluto, os ídolos, mas não como o rigorismo, opondo-lhes a Idéia que elas não podem satisfazer.³ A dialética revela, ao contrário, toda imagem como uma forma de escrita. Ela ensina a ler em seus traços a confissão de sua falsidade, [para-si] confissão essa que a priva de seu poder e o transfere para a verdade. [em-si] Desse modo, a linguagem torna-se mais que um simples sistema de signos. [sempre remetendo um resíduo para mais-além] Com o conceito da negação determinada, Hegel destacou um elemento que distingue o esclarecimento da desagregação positivista4 à qual ele o atribui. É verdade, porém, que ele acabou por fazer um absoluto do resultado sabido do processo total da negação: a totalidade no sistema e na história, e que, ao fazer isso, infringiu a proibição e sucumbiu ele próprio à mitologia. Isso não ocorreu apenas à sua filosofia enquanto apoteose do pensamento em progresso, mas ao próprio esclarecimento, entendido como a sobriedade pela qual este acredita distinguir-se de Hegel e da metafísica em geral. Pois o esclarecimento é totalitário como qualquer outro sistema. Sua inverdade não está naquilo que seus inimigos românticos sempre lhe censuraram: o método analítico, [não seria sintético?] o retorno aos elementos, a decomposição pela reflexão, mas sim no fato de que para ele o processo está decidido de antemão.”
¹ O conceito do nada ou nada relativo, ocupando um lugar apenas provisório (portanto positivo) no Sistema do Absoluto.
² Niilismo consumado e, por isso, o nada absoluto. Pode-se dizer que Hegel enxerga-o nos céticos pós-neoplatônicos que encerram a idade antiga da filosofia, negando qualquer transcendência e estatuindo a grande indiferença em relação às aparências (vida concreta).
³ Seria o Sim Absoluto inalcançável, uma essência perdida (para os niilistas consumados).
4 Em Hegel, desagregação positivista é: o espírito anti-filosófico, o empirismo puro. Em outras palavras: onde os outros param, porque apenas refutam algo dado e não encontram mais nenhuma prova em seu favor, Hegel continua, dizendo: isto apenas foi negado para ser reafirmado na seqüência no processo inerente à Razão.
Resumindo: à pergunta – e ao progresso, o que acontece quando ele cessa de se consumar? Pois não seria absurdo que ele se consumasse ao infinito, sendo que aparece no fenômeno (finito)?! Ele começa a recuar em regressão espiral… Depois de se realizar ele se irrealiza da mesma forma.
“Através da identificação antecipatória do mundo totalmente matematizado com a verdade, o esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do mítico.”
“O esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento – a filosofia de Fichte é o seu desdobramento radical – porque ela desviaria do imperativo de comandar a práxis, que o próprio Fichte no entanto queria obedecer.”
TODO MESTRE POSITIVISTA ERA CAROLA: “Mas, com essa mimese, na qual o pensamento se iguala ao mundo, o factual tornou-se agora a tal ponto a única referência que até mesmo a negação de Deus sucumbe ao juízo sobre a metafísica. Para o positivismo que assumiu a magistratura da razão esclarecida, extravagar em mundos inteligíveis é não apenas proibido, mas é tido como um palavreado sem sentido. Ele não precisa – para sorte sua – ser ateu, porque o pensamento coisificado não pode sequer colocar a questão.”
“A dominação da natureza traça o círculo dentro do qual a Crítica da Razão Pura baniu o pensamento.”
“Não há nenhum ser no mundo que a ciência não possa penetrar, mas o que pode ser penetrado pela ciência não é o ser.”
“A equação do espírito e do mundo acaba por se resolver, mas apenas com a mútua redução de seus 2 lados.”
“O mundo como um gigantesco juízo analítico, o único sonho que restou de todos os sonhos da ciência, é da mesma espécie que o mito cósmico que associava a mudança da primavera e do outono ao rapto da Perséfone. A singularidade do evento mítico, que deve legitimar o evento factual, é ilusão. Originariamente, o rapto da deusa identificava-se imediatamente à morte da natureza. Ele se repetia em cada outono, e mesmo a repetição não era uma seqüência de ocorrências separadas, mas a mesma cada vez. Com o enrijecimento da consciência do tempo, o evento foi fixado como tendo ocorrido uma única vez no passado, e tentou-se apaziguar ritualmente o medo da morte em cada novo ciclo das estações com o recurso a algo ocorrido há muito tempo.” “Quem fica privado da esperança não é a existência, mas o saber que no símbolo figurativo ou matemático se apropria da existência enquanto esquema e a perpetua como tal.”
“O pânico meridiano com que os homens de repente se deram conta da natureza como totalidade encontrou sua correspondência no pânico que hoje está pronto a irromper a qualquer instante: os homens aguardam que este mundo sem-saída seja incendiado por uma totalidade que eles próprios constituem e sobre a qual nada podem.”
“A frase de Spinoza: ‘Conatus sese conservandi primum et unicum virtutis est fundamentum’¹ contém a verdadeira máxima de toda a civilização ocidental, onde vêm se aquietar as diferenças religiosas e filosóficas da burguesia.”
¹ O primeiro e único fundamento da virtude é o esforço de se autoconservar.
“Segundo o juízo do esclarecimento, bem como o do protestantismo, quem se abandona imediatamente à vida sem relação racional com a autoconservação regride à pré-história.”
“O progresso reservou a mesma sorte tanto para a adoração quanto para a queda no ser natural imediato: ele amaldiçoou do mesmo modo aquele que, esquecido de si, se abandona tanto ao pensamento quanto ao prazer.” Hedonista ou asceta. Embora ao acadêmico de hoje sobrem delícias mundanas e ele e seu ofício já não representam qualquer sacrifício, então poder-se-ia dizer: hedonista ou hedonista.
“aparentemente, o próprio sujeito transcendental do conhecimento acaba por ser suprimido como a última reminiscência da subjetividade e é substituído pelo trabalho tanto mais suave dos mecanismos automáticos de controle.” ??
“O positivismo (…) eliminou a última instância intermediária entre a ação individual e a norma social. O processo técnico, no qual o sujeito se coisificou após sua eliminação da consciência, está livre da plurivocidade do pensamento mítico bem como de toda significação em geral, porque a própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba.” “Cumpriu-se afinal sua velha ambição de ser um órgão puro dos fins.” Deleuze…
“Assim, o tabu estende-se ao próprio poder de impor tabus, o esclarecimento ao espírito em que ele próprio consiste. Mas, desse modo, a natureza enquanto verdadeira autoconservação é atiçada pelo processo que prometia exorcizá-la, tanto no indivíduo quanto no destino coletivo da crise e da guerra. Se a única norma que resta para a teoria é o ideal da ciência unificada, então a práxis tem que sucumbir ao processo irreprimível da história universal.”
“Concretiza-se assim o mais antigo medo, o medo da perda do próprio nome.”
“Um após o outro, os comportamentos mimético, mítico e metafísico foram considerados como eras superadas, de tal sorte que a idéia de recair neles estava associada ao pavor de que o eu revertesse à mera natureza, da qual havia se alienado com esforço indizível e que por isso mesmo infundia nele indizível terror. A lembrança viva dos tempos pretéritos – do nomadismo e, com muito mais razão, dos estágios propriamente pré-patriarcais – fôra extirpada da consciência dos homens ao longo dos milênios com as penas mais terríveis. O espírito esclarecido substituiu a roda e o fogo pelo estigma que imprimiu em toda irracionalidade, já que esta leva à ruína.”
“O ideal burguês da naturalidade não visa à natureza amorfa, mas à virtude do meio. A promiscuidade e a ascese, a abundância e a fome são, apesar de opostas, imediatamente idênticas enquanto potências da dissolução.”
“De Homero aos tempos modernos, o espírito dominante quer navegar entre a Cila da regressão à simples reprodução e a Caribde da satisfação desenfreada; ele sempre desconfiou de qualquer outra estrela-guia que não fosse a do mal menor. Os neo-pagãos e belicistas alemães querem liberar de novo o prazer. Mas como o prazer, sob a pressão milenar do trabalho, aprendeu a se odiar, ele permanece, na emancipação totalitária, vulgar e mutilado, em virtude de seu autodesprezo. Ele permanece preso à autoconservação, para a qual o educara a razão entrementes deposta.”
“Quando afinal a autoconservação se automatiza, a razão é abandonada por aqueles que assumiram sua herança a título de organizadores da produção e agora a temem nos deserdados. A essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação.”
“Esse entrelaçamento de mito, dominação e trabalho está conservado em uma das narrativas de Homero. O duodécimo canto da Odisseia relata o encontro com as Sereias.”
“O que Ulisses deixou para trás entra no mundo das sombras: o eu ainda está tão próximo do mito de outrora, de cujo seio se arrancou, que o próprio passado por ele vivido se transforma para ele num outrora mítico.”
Estou começando a cansar das figuras de linguagem… Embora admita a genialidade da analogia! Sem remédio – teremos um capítulo inteiro de paralelos homéricos!
“A ânsia de salvar o passado como algo de vivo, em vez de utilizá-lo como material para o progresso, só se acalmava na arte, à qual pertence a própria História como descrição da vida passada.” O canto da sereia, e blábláblá…
“Ulisses foi alertado por Circe, a divindade da reconversão ao estado animal, à qual resistira e que, em troca disso, fortaleceu-o para resistir a outras potências da dissolução. Mas a sedução das Sereias permanece mais poderosa. Ninguém que ouve sua canção pode escapar a ela.”
“A embriaguez narcótica, que expia com um sono parecido à morte a euforia na qual o eu está suspenso, é uma das mais antigas cerimônias sociais mediadoras entre a autoconservação e a autodestruição, uma tentativa do eu de sobreviver a si mesmo.” “O pensamento de Ulisses, igualmente hostil à sua própria morte e à sua própria felicidade, sabe disso.” “Alertas e concentrados, os trabalhadores têm que olhar para frente e esquecer o que foi posto de lado.” “A outra possibilidade é a escolhida pelo próprio Ulisses, o senhor de terras que faz os outros trabalharem para ele.” Beber até cair, porém sem danos. Puritano.
“mas é tarde demais, os companheiros – que nada escutam – só sabem do perigo da canção, não de sua beleza – e o deixam no mastro para salvar a ele e a si mesmos. Eles reproduzem a vida do opressor juntamente com a própria vida, e aquele não consegue mais escapar a seu papel social.” “Amarrado, Ulisses assiste a um concerto, a escutar imóvel como os futuros freqüentadores de concertos, e seu brado de libertação cheio de entusiasmo já ecoa como um aplauso.” “A epopeia já contém a teoria correta. O patrimônio cultural está em exata correlação com o trabalho comandado, e ambos se baseiam na inescapável compulsão à dominação social da natureza.” “As medidas tomadas por Ulisses quando seu navio se aproxima das Sereias pressagiam alegoricamente a dialética do esclarecimento.” “Assim como não pode ceder à tentação de se abandonar, assim também acaba por renunciar enquanto proprietário a participar do trabalho e, por fim, até mesmo a dirigi-lo, enquanto os companheiros, apesar de toda proximidade às coisas, não podem desfrutar do trabalho porque este se efetua sob coação, desesperadamente, com os sentidos fechados à força.”
“A humanidade, cujas habilidades e conhecimentos se diferenciam com a divisão do trabalho, é ao mesmo tempo forçada a regredir a estágios antropologicamente mais primitivos, pois a persistência da dominação determina, com a facilitação técnica da existência, a fixação do instinto através de uma repressão mais forte.” “não é o malogro do progresso, mas exatamente o progresso bem-sucedido que é culpado de seu próprio oposto. A maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão.”
“A limitação do pensamento à organização e à administração, praticada pelos governantes desde o astucioso Ulisses até os ingênuos diretores-gerais, inclui também a limitação que acomete os grandes tão logo não se trate mais apenas da manipulação dos pequenos.” “Os ouvidos moucos, que é o que sobrou aos dóceis proletários desde os tempos míticos, não superam em nada a imobilidade do senhor. É da imaturidade dos dominados que se nutre a hipermaturidade da sociedade.”
“O pensamento (…) é o servo que o senhor não pode deter a seu bel-prazer.”
“Os próprios dominadores não acreditam em nenhuma necessidade objetiva, mesmo que às vezes dêem esse nome a suas maquinações.” “Agora que uma parte mínima do tempo de trabalho à disposição dos donos da sociedade é suficiente para assegurar a subsistência daqueles que ainda se fazem necessários para o manejo das máquinas, o resto supérfluo, a massa imensa da população, é adestrado como uma guarda suplementar do sistema, a serviço de seus planos grandiosos para o presente e o futuro.”
“Na medida em que cresce a capacidade de eliminar duradouramente toda miséria, cresce também desmesuradamente a miséria enquanto antítese da potência e da impotência.” Quanto mais miséria num país, p.ex., mais impotência do Estado e, por outro lado, maiores as chances de uma revolução proletária (índice de potência, de que a História se move). Quanto mais pujantes os índices econômicos, menos poder de barganha tem o proletário, portanto há uma impotência do proletariado para avançar – e alia-se a isso o enorme exército de reserva, que garante sumamente a potência e estabilidade do Capital.
“Perante um líder sindical, para não falar do diretor da fábrica, o proletário que por acaso se faça notar não passará de um número a mais, enquanto que o líder deve por sua vez tremer diante da possibilidade de sua própria liquidação.”
“Essa aparência, na qual se perde a humanidade inteiramente esclarecida, não pode ser dissipada pelo pensamento que tem de escolher, enquanto órgão da dominação, entre o comando e a obediência.”
“o pensamento se torna ilusório sempre que tenta renegar sua função separadora, de distanciamento e objetivação. Toda união mística permanece um logro, o vestígio impotentemente introvertido da revolução malbaratada.”
“A condenação da superstição significa sempre, ao mesmo tempo, o progresso da dominação e o seu desnudamento.” Para que a técnica vença em absoluto, é necessário desencantar o mundo. Do desencanto do mundo faz parte liquidar as crenças supersticiosas. Objetivar e imanentizar todas as relações, impossibilitar escapismos perigosos. Mas quando se condena unilateralmente esta coisa do passado, estranha à técnica – o signo do futuro –, desnuda-se para todos quão mesquinho é esse mecanismo, porque pelo próprio estudo das condições objetivas é possível compreender o modus operandi da dominação. -Impasse.- Quanto menos técnica pura, menos eficácia; quanto mais hermetismo mundano e religião da técnica, mais hereges, e a eficácia não está garante. A dominação, destrinchada e nua, poderá ser livremente denunciada, e seu caráter profano e seu papel simultâneo de esteio do progresso para poucos e esteio da miséria para muitos jamais poderão ser defendidos do próprio ponto de vista da técnica. Essa assepsia, da técnica se embrulhando sobre si mesma, nunca faz bem para a própria técnica. Quanto mais se domina, menos se pode dominar.
“A dominação da natureza, sem o que o espírito não existe, consiste em sucumbir à natureza. Graças à resignação com que se confessa como dominação e se retrata na natureza, o espírito perde a pretensão senhorial que justamente o escraviza à natureza.”
“Todo progresso da civilização tem renovado, ao mesmo tempo, a dominação e a perspectiva de seu abrandamento.”
“Graças a essa consciência da natureza no sujeito, que encerra a verdade ignorada de toda cultura, o esclarecimento se opõe à dominação em geral, e o apelo a pôr fim ao esclarecimento também ressoou nos tempos de Vanini, menos por medo da ciência exata do que por ódio ao pensamento indisciplinado, que escapa à órbita da natureza confessando-se como o próprio tremor da natureza diante de si mesma.”
“Muito antes de Turgot e d’Alembert, a forma burguesa do esclarecimento já se perdera em seu aspecto positivista.”
SOBRE O FRACASSO DO SOCIALISMO REAL: “Mas uma verdadeira práxis revolucionária depende da intransigência da teoria em face da inconsciência com que a sociedade deixa que o pensamento se enrijeça. Não são as condições materiais da satisfação nem a técnica deixada à solta enquanto tal, que a colocam em questão.¹ Isso é o que afirmam os sociólogos, que estão de novo a meditar sobre um antídoto, ainda que de natureza coletivista, a fim de dominar o antídoto.”
¹ O PARADOXO DE TROSTSKY-STALIN: Não é o atraso técnico-econômico da URSS em face dos Estados Unidos que a condenam a perder a Guerra Fria. Esse atraso não é inerente ao socialismo como modo de produção; em si, não há modo de produção burguês ou modo de produção socialista – tudo o que havia era modo de produção moderno, indústria e comércio à la século XX. O que torna o equilíbrio tão frágil e a batalha tão mais difícil do lado de lá (o revolucionário) é que quem dirige a revolução – um grupo sempre muito pequeno –, os únicos que têm consciência das contradições que vivem e devem superar, devem escolher, enfim: 1) entre desistir; 2) ou entre seguir ferrenhamente o propósito inicial, por mais que as circunstâncias mudem o tempo todo, em face da seguinte característica: a massa populacional do regime comunista não compreende o que está em jogo, e pensa apenas da mesma forma que os cidadãos do mundo livre, sem qualquer ideologia revolucionária per se. Como estarão sujeitos à intransigência da camada revolucionária dirigente, será sempre mais difícil para eles. Isso é uma bola de neve, porque só faz aumentar o tempo necessário para a cúpula considerar sua meta realizada. O intelectual só tenderá a pensar na abertura do regime e no Estado do bem-estar social, reunindo os “dois dos melhores mundos”, como se isso representasse um céu de brigadeiro que desmantelasse as contradições capitalistas, que sempre baterão de novo à porta, e como se esse céu não desmantelasse todas as exíguas chances de um sistema socialista puro ainda se manter, em franca resistência (intransigência do líder, que opta pelo número 2, enquanto o intelectual de vocação opta pelo número 1, desistir, conscientemente ou não).
“Enquanto órgão de semelhante adaptação, enquanto mera construção de meios, o esclarecimento é tão destrutivo como o acusam seus inimigos românticos.”
“O espírito dessa teoria intransigente [vide acima TROTSKY-STALIN] seria capaz de inverter a direção do espírito do progresso impiedoso, ainda que este estivesse em vias de atingir sua meta.” Ressalva: o ESPÍRITO DO PROGRESSO IMPIEDOSO, neste caso adorniano, me parece mais o fascismo em estado bruto (se é que me entendem) do que o capitalismo ianque.
“Hoje, quando a utopia baconiana de ‘imperar na prática sobre a natureza’ se realizou numa escala telúrica, [universal, ARQUImediana!] tornou-se manifesta a essência da coação que ele atribuía à natureza não-dominada.” “o esclarecimento se converte, a serviço do presente, na total mistificação das massas.”
2. ULISSES OU MITO E ESCLARECIMENTO (EXCURSO 1)
“A assimilação habitual da epopéia ao mito – que a moderna filologia clássica, aliás, desfez – mostra-se à crítica filosófica como uma perfeita ilusão.”
“Cantar a ira de Aquiles e as aventuras de Ulisses já é uma estilização nostálgica daquilo que não se deixa mais cantar, e o herói das aventuras revela-se precisamente como um protótipo do indivíduo burguês, cujo conceito tem origem naquela auto-afirmação unitária que encontra seu modelo mais antigo no herói errante.” Robinson Crusoé pagão. Imaginar toda a literatura mais clássica como mera paródia dos relatos orais de outrora…
“Na epopéia, que é o oposto histórico-filosófico do romance, acabam por surgir traços que a assemelham ao romance, e o cosmo venerável do mundo homérico pleno de sentido revela-se como obra da razão ordenadora, que destrói o mito graças precisamente à ordem racional na qual ela o reflete.
O discernimento do elemento esclarecedor burguês em Homero foi enfatizado pelos intérpretes da antiguidade ligados ao romantismo alemão tardio e que seguiam os primeiros escritos de Nietzsche. Nietzsche conhecia como poucos, desde Hegel, a dialética do esclarecimento. Foi ele que formulou sua relação contraditória com a dominação.”
“[É preciso] levar o esclarecimento ao povo, para que os padres se tornem todos padres cheios de má consciência – é preciso fazer a mesma coisa com o Estado. Eis a tarefa do esclarecimento: tornar, para os príncipes e estadistas, todo seu procedimento uma mentira deliberada…” Ainda padecemos o grave defeito de, quando descremos na religião, corrermos para a política (e vice-versa). Então: Nietzsche iniciou o dito ACELERACIONISMO?
“A maneira pela qual as massas se enganam acerca desse ponto, por exemplo em toda democracia, é extremamente valiosa: o apequenamento e a governabilidade dos homens são buscados como ‘progresso’!”
O PÊNDULO: “Todavia, a relação de Nietzsche com o esclarecimento, e portanto com Homero, permanecia ela própria contraditória. Assim ele enxergava no esclarecimento tanto o movimento universal do espírito soberano, do qual se sentia o realizador último, quanto a potência hostil à vida, ‘niilista’. Em seus seguidores pré-fascistas, porém, apenas o segundo aspecto se conservou e se perverteu em ideologia.”
“Eles [os intelectuais fascistas] farejam na descrição homérica das relações feudais um elemento democrático, classificam o poema como uma obra de marinheiros e negociantes e rejeitam a epopéia jônica como um discurso demasiado racional e uma comunicação demasiado corrente.” “De fato, as linhas da razão, da liberalidade, da civilidade burguesa se estendem incomparavelmente mais longe do que supõem os historiadores que datam o conceito do burguês a partir tão-somente do fim do feudalismo medieval.”
“É justamente o vestígio mais antigo desse pensamento que representa para a má consciência dos espíritos arcaicos de hoje a ameaça de desfechar mais uma vez todo o processo que intentaram sufocar e que, no entanto, ao mesmo tempo levam a cabo de maneira inconsciente.” Ora, se o esclarecimento já soçobrou em seu contrário no solo europeu (agora que sabemos que ele não nasceu apenas depois), por que não aconteceria de novo? É o que se quer dizer.
“Ao serviço da ideologia repressiva, Rudolf Borchardt, por exemplo o mais importante e por isso o mais impotente entre os pensadores esotéricos [elitistas] da indústria pesada alemã, interrompe cedo demais a análise.” “O elemento ignóbil que ele condena na epopéia – a mediação e a circulação – é apenas o desdobramento desse duvidoso elemento de nobreza que ele diviniza no mito: a violência nua e crua. A pretensa autenticidade, o princípio arcaico do sangue e do sacrifício, já está marcado por algo da má consciência e da astúcia da dominação, que são características da renovação nacional que se serve hoje dos tempos primitivos como recurso propagandístico.”
“Em Homero, epopéia e mito, forma e conteúdo, não se separam simplesmente, mas se confrontam e se elucidam mutuamente. O dualismo estético atesta a tendência histórico-filosófica.”
“A viagem errante de Tróia a Ítaca é o caminho percorrido através dos mitos por um eu fisicamente muito fraco em face das forças da natureza e que só vem a se formar na consciência de si. O mundo pré-histórico está secularizado no espaço que ele atravessa; os antigos demônios povoam a margem distante e as ilhas do Mediterrâneo civilizado, forçados a retroceder à forma do rochedo e da caverna, [DEUSES CTÔNICOS] de onde outrora emergiram no pavor dos tempos primitivos. Mas as aventuras contemplam cada lugar com seu nome, e é a partir delas que se pode ter uma visão de conjunto e racional do espaço.”
“Ele cede sempre a cada nova sedução, experimenta-a como um aprendiz incorrigível e até mesmo, às vezes, impelido por uma tola curiosidade, assim como um ator experimenta insaciavelmente os seus papéis.”
“Como os heróis de todos [os] romances posteriores, Ulisses por assim dizer se perde a fim de se ganhar. Para alienar-se da natureza ele se abandona à natureza, com a qual se mede em toda aventura, e, ironicamente, essa natureza inexorável que ele comanda triunfa quando ele volta – inexorável – para casa, como juiz e vingador do legado dos poderes de que escapou.”
“Todas as vezes que o eu voltou a experimentar historicamente semelhante enfraquecimento, ou que o modo de expor pressupôs semelhante fraqueza no leitor, a narrativa da vida resvalou novamente para a sucessão de aventuras. Na imagem da viagem, o tempo histórico se desprende laboriosa e revogavelmente do espaço, o esquema irrevogável de todo tempo mítico.”Até clássico beatniks não escapam dessa lei.
“O navegador Ulisses logra as divindades da natureza, como depois o viajante civilizado logrará os selvagens oferecendo-lhes contas de vidro coloridas em troca de marfim.”
“O presente de hospitalidade homérico está a meio caminho entre a troca e o sacrifício.”
“O próprio Posseidon, o inimigo elementar de Ulisses, pensa em termos de equivalência, queixando-se de que aquele receba em todas as etapas de sua errática viagem mais presentes do que teria sido sua parte nos despojos de Tróia, caso Posseidon não lhe houvesse impedido transportá-la.” “Pode-se contar com a benevolência das divindades conforme a magnitude das hecatombes. Se a troca é a secularização do sacrifício, o próprio sacrifício já aparece como o esquema mágico da troca racional, uma cerimônia organizada pelos homens com o fim de dominar os deuses, que são derrubados exatamente pelo sistema de veneração de que são objeto.”
“Assim os amigos olímpicos de Ulisses valem-se da estada de Posseidon entre os etíopes – selvagens que ainda o veneram e lhe oferecem enormes sacrifícios – para escoltar a salvo seu protegido. O logro já está envolvido no próprio sacrifício que Posseidon aceita prazerosamente: a limitação do amorfo deus do mar a uma localidade determinada, a área sagrada, limita ao mesmo tempo sua potência, e, para saciar-se nos bois etíopes, ele deve em troca renunciar a dar vazão à sua cólera em Ulisses.” “A astúcia tem origem no culto. O próprio Ulisses atua ao mesmo tempo como vítima e sacerdote.”
“O que Ulisses faz é tão-somente elevar à consciência de si a parte de logro inerente ao sacrifício, que é talvez a razão mais profunda para o carácter ilusório do mito. A experiência de que a comunicação simbólica com a divindade através do sacrifício nada tem de real só pode ser uma experiência antiquíssima. A substituição que ocorre no sacrifício, exaltada pelos defensores de um irracionalismo em moda, não deve ser separada da divinização do sacrificado, ou seja, do embuste que é a racionalização sacerdotal do assassínio pela apoteose do escolhido. Algo desse embuste – que erige justamente a pessoa inerme em portador da substância divina – sempre se pôde perceber no eu, que deve sua própria existência ao sacrifício do momento presente ao futuro.”
“o eu é exatamente o indivíduo humano ao qual não se credita mais a força mágica da substituição. A constituição do eu corta exatamente aquela conexão flutuante com a natureza que o sacrifício do eu pretende estabelecer. Todo sacrifício é uma restauração desmentida pela realidade histórica na qual ela é empreendida. A fé venerável no sacrifício, porém, já é provavelmente um esquema inculcado, segundo o qual os indivíduos subjugados infligem mais uma vez a si próprios a injustiça que lhes foi infligida, a fim de poder suportá-la.”
“Pode ser que, em determinada época dos tempos primitivos, os sacrifícios tenham possuído uma espécie de racionalidade crua, que no entanto já então mal se podia separar da sede de privilégios.”
“É um estado de carência arcaica, onde é difícil distinguir os sacrifícios humanos do canibalismo. Em certos momentos, com seu aumento numérico, a coletividade só consegue sobreviver provando a carne humana.(*) (…) Costumes de épocas posteriores como o do ver sacrum, onde em tempos de fome uma geração inteira de adolescentes era forçada a emigrar em meio a cerimônias rituais, conservam de uma maneira bastante clara os traços dessa racionalidade bárbara e transfigurada.(**) (…) assim, quando a caça sistemática começou a prover a tribo de um número suficiente de animais para tornar supérflua a antropofagia, os caçadores e colocadores de armadilhas sensatos devem ter ficado desconcertados com a ordem dos feiticeiros de que os membros da tribo se deixassem devorar.
(*) ‘O costume do sacrifício humano … é muito mais difundido entre bárbaros e povos semi-civilazados do que entre os verdadeiros selvagens, e é praticamente desconhecido nos estágios inferiores da cultura. Em vários povos observou-se que ele foi se difundindo ao longo do tempo, como, por exemplo, nas Ilhas da Sociedade, [Saciedade?] na Polinésia, na Índia, entre os Astecas. <Relativamente aos africanos>, diz Winwood Read: <Quanto mais poderosa a nação, tanto mais importante o sacrifício.>’Eduard Westermarck, Ursprung und Entwicklung der Moralbegriffe. Leipzig, 1913, vol. I, p. 363.
(**) Entre os povos antropófagos, como os da África Ocidental, não podiam ‘provar dessa iguaria nem as mulheres nem os adolescentes’ (Westermarck).”
“Eis aí a verdade da célebre narrativa da mitologia nórdica, segundo a qual Odin se pendurou numa árvore em sacrifício por si mesmo, e da tese de Klages que todo sacrifício é o sacrifício do deus ao deus, tal como ainda se apresenta nesse disfarce monoteísta do mito que é a cristologia.(*)
(*) Essa concepção do cristianismo como religião sacrificial pagã é essencialmente a base do livro de Werner Hegemann: Der Gerettete Christus [Cristo Redimido]. Potsdam, 1928.”
“No instante em que o homem elide a consciência de si mesmo como natureza, todos os fins para os quais ele se mantém vivo – o progresso social, o aumento de suas forças materiais e espirituais, até mesmo a própria consciência – tornam-se nulos, e a entronização do meio como fim, que assume no capitalismo tardio o carácter de um manifesto desvario, já é perceptível na proto-história da subjetividade.”
“A anti-razão do capitalismo totalitário, cuja técnica de satisfazer necessidades, em sua forma objetualizada, determinada pela dominação, torna impossível a satisfação de necessidades e impele ao extermínio dos homens – essa anti-razão está desenvolvida de maneira prototípica no herói que se furta ao sacrifício sacrificando-se. A história da civilização é a história da introversão do sacrifício.”
“Quem pratica a renúncia dá mais de sua vida do que lhe é restituído” “Mas é por uma necessidade social que quem quer que se furte à troca universal, desigual e injusta, que não renuncie, mas agarre imediatamente o todo inteiro, por isso mesmo há de perder tudo, até mesmo o resto miserável que a autoconservação lhe concede.”
“Os episódios celebrando a pura força física do aventureiro, o pugilato patrocinado pelos pretendentes com o mendigo Iros e o retesamento do arco, são de natureza desportiva. A autoconservação e a força física separaram-se: as habilidades atléticas de Ulisses são as do gentleman, que, livre dos cuidados práticos, pode treinar de uma maneira ao mesmo tempo senhoril e controlada.”
“Quando, porém, encontra potências do mundo primitivo, que não se domesticaram nem se afrouxaram, suas dificuldades são maiores. Ele não pode jamais travar luta física com os poderes míticos que continuam a existir à margem da civilização. Ele tem que reconhecer como um fato os cerimoniais sacrificiais com os quais acaba sempre por se envolver, pois não tem força para infringi-los.” Ulisses não é Hércules nem Aquiles.
“e quando guia sua nau por entre os rochedos, tem de incluir em seu cálculo a perda dos companheiros que Cila arranca ao navio.”
Quem quer voltar para casa deve, no mais íntimo, já ter renunciado ao êxito. Ulisses voltou porque na verdade já tinha desistido, não queria mais voltar. Ele havia enganado a si mesmo.
“A impossibilidade, por exemplo, de escolher uma rota diversa da que passa por entre Cila e Caríbdis pode ser compreendida de maneira racionalista como a transformação mítica da superioridade das correntes marítimas sobre as pequenas embarcações da antiguidade.”
“Cada uma das figuras míticas está obrigada a fazer sempre a mesma coisa. Todas consistem na repetição: o malogro desta seria seu fim. Todas têm os traços daquilo que, nos mitos punitivos do inferno – os mitos de Tântalo, de Sísifo, das Danaides –, se fundamenta no veredito do Olimpo. (…) A justiça traz até hoje a marca desse esquema.”
BRECHAS JURÍDICAS: “O contrato antiquíssimo não prevê se o navegante que passa ao largo deve escutar a canção amarrado ou desamarrado.”
“A epopéia cala-se acerca do que acontece às cantoras depois que o navio desapareceu. Mas, na tragédia, deveria ter sido sua última hora, como foi a da Esfinge quando Édipo resolveu o enigma, cumprindo sua ordem e assim precipitando sua queda. Pois o direito das figuras míticas, que é o direito do mais forte, vive tão-somente da impossibilidade de cumprir seu estatuto. Se este é satisfeito, então tudo acabou para os mitos até sua mais remota posteridade. Desde o feliz e malogrado encontro de Ulisses com as Sereias, todas as canções ficaram afetadas, e a música ocidental inteira labora no contra-senso que representa o canto na civilização, mas que, ao mesmo tempo, constitui de novo a força motora de toda arte musical.”
“A palavra deve ter um poderio imediato sobre a coisa, expressão e intenção confluem. A astúcia, contudo, consiste em explorar a distinção, agarrando-se à palavra, para modificar a coisa.” “Como o nome Oudeis pode ser atribuído tanto ao herói quanto a ninguém, Ulisses consegue romper o encanto do nome.”Ninguenséia
“É do formalismo dos nomes e estatutos míticos, que querem reger com a mesma indiferença da natureza os homens e a história, que surge o nominalismo, o protótipo do pensamento burguês.” “O solitário astucioso já é o homo oeconomicus, ao qual se assemelham todos os seres racionais: por isso, a Odisséia já é uma robinsonada. Os dois náufragos prototípicos fazem de sua fraqueza – a fraqueza do indivíduo que se separa da coletividade – sua força social.” “mas os bens que salvam do naufrágio para empregar em um novo empreendimento transfiguram a verdade segundo a qual o empresário jamais enfrentou a competição unicamente com o labor de suas mãos.” “Foi isso que a teoria econômica burguesa fixou posteriormente no conceito do risco: a possibilidade da ruína é a justificação moral do lucro.” “Por isso a socialização universal, esboçada na história de Ulisses, o navegante do mundo, e na de Robinson, o fabricante solitário, já implica desde a origem a solidão absoluta, que se torna manifesta ao fim da era burguesa.”
“ora, quem saboreava a planta do lótus, mais doce do que o mel, não pensava mais em trazer notícias nem em voltar, mas só queria ficar aí, na companhia dos lotófagos, colhendo o lótus, e esquecido da pátria” “mas eu os trouxe de novo à força, debulhados em lágrimas, para as naus; arrastei-os para os navios espaçosos e amarrei-os debaixo dos bancos.” “O hábito de comer flores – que ainda se pratica à sobremesa no Próximo Oriente e que as crianças européias conhecem das massas assadas com leite de rosas e das violetas cristalizadas – é a promessa de um estado em que a reprodução da vida se tornou independente da autoconservação consciente e o prazer de se fartar se tornou independente da utilidade de uma alimentação planejada.”
“esse olho único lembra o nariz e a boca, mais primitivos do que a simetria dos olhos e dos ouvidos” “quando Homero chama o ciclope de ‘monstro que pensa sem lei’, isso não significa meramente que ele não respeite em seu pensamento as leis da civilidade. Isso significa também que o seu próprio pensamento é sem lei, assistemático, rapsódico, quando por exemplo não consegue resolver o singelo problema de raciocínio, que consiste em saber de que maneira seus hóspedes não-indesejáveis conseguem escapar da caverna (a saber, agarrando-se ao ventre dos carneiros, ao invés de cavalgá-los) e também quando não se dá conta do sofístico duplo sentido do nome falso de Ulisses.”
“tu que me exortas a temer os deuses e sua vingança! Pois de nada valem para os ciclopes o trovejador Zeus Crônion, nem os deuses bem-aventurados, pois somos muito superiores!” “Posseidon, o deus marinho próximo, pai de Polifemo e inimigo de Ulisses, é mais velho do que Zeus, o deus celeste universal e distante, e é por assim dizer sobre o dorso do sujeito que é decidido o conflito entre a religião popular elementarista e a religião logocêntrica da lei. Mas o Polifemo sem-lei não é o simples vilão em que o transformam os tabus da civilização, quando o apresentam no mundo fabuloso da infância esclarecida como o monstro Golias.”
“E o famoso discurso que o gigante faz, depois de ficar cego, ao carneiro-mestre (que chama de seu amigo e de quem indaga por que agora abandona por último a caverna e se por acaso lhe faz pena o infortúnio de seu senhor) atinge uma intensidade de emoção que só é atingida de novo na passagem que representa o ponto culminante da Odisséia, quando Ulisses, retornando a casa, é reconhecido pelo velho cão Argos, em que pese a abominável crueza com que termina o discurso.” “Polifemo e os outros monstros ludibriados por Ulisses já são os modelos para os diabos estúpidos da era cristã até Shylock e Mefistófeles.”
“Toma, ciclope, e bebe; o vinho vai bem com a carne humana; vê que delícia é a bebida guardada, no navio que nos trouxe, recomenda o representante da cultura.”
“Em grego trata-se de um jogo de palavras; na única palavra que se conserva separam-se o nome – Odysseus (Ulisses) – e a intenção – Ninguém. Para ouvidos modernos, Odysseus e Oudeis ainda têm um som semelhante, e é fácil imaginar que, em um dos dialetos em que se transmitiu a história do retorno a Ítaca, o nome do rei desta ilha era de fato um homófono do nome de Ninguém.”
“Mas sua auto-afirmação é, como na epopéia inteira, como em toda civilização, uma autodenegação. Desse modo o eu cai precisamente no círculo compulsivo da necessidade natural ao qual tentava escapar pela assimilação. Quem, para se salvar, se denomina Ninguém e manipula os processos de assimilação ao estado natural como um meio de dominar a natureza sucumbe à hybris.” “A astúcia, que para o inteligente consiste em assumir a aparência da estupidez, converte-se em estupidez tão pronto ele renuncie a essa aparência. Eis aí a dialética da eloqüência. Da antiguidade ao fascismo, tem-se censurado a Homero o palavrório de seus heróis e do próprio narrador.”
O PARADOXO DO ASTUCIOSO (QUERER SER SEMPRE ASTUCIOSO): “Essa distância, porém, é ao mesmo tempo sofrimento. Por isso, o inteligente – contrariamente ao provérbio – está sempre tentado a falar demais. Ele está objetivamente condicionado pelo medo de que a frágil vantagem da palavra sobre a força poderá lhe ser de novo tomada pela força se não se agarrar o tempo todo a ela. Pois a palavra sabe-se mais fraca do que a natureza que ela enganou. Quem fala demais deixa transparecer a força e a injustiça como seu próprio princípio e assim excita sempre aquele que deve ser temido a cometer exatamente a ação temida. A mítica compulsão da palavra nos tempos pré-históricos perpetua-se na desgraça que a palavra esclarecida atrai para si própria.”
“a forma animal dos seduzidos foi sempre relacionada com isso e Circe transformou-se no protótipo da hetaira, imagem essa motivada provavelmente pelos versos de Hermes que lhe atribuíam como um fato óbvio a iniciativa erótica: ‘Assustada, ela instará contigo a que partilhes de teu leito. Não resistas diante do leito da deusa.’A marca distintiva de Circe é a ambigüidade, ao aparecer na ação, sucessivamente, como corruptora e benfeitora: ela é a filha de Hélio e a neta de Oceano. Nela estão inseparavelmente mesclados os elementos do fogo e da água, e é essa indivisibilidade, no sentido de uma oposição ao primado de um aspecto determinado da natureza – seja o matriarcal, seja o patriarcal –, que constitui a essência da promiscuidade, o hetáirico, que ainda brilha no olhar da prostituta, o úmido reflexo do astro. [o sol visto na superfície de uma fonte ou lago]”
“Como os lotófagos, Circe não fere mortalmente seus hóspedes, e até mesmo aqueles que ela transformou em animais selvagens são pacíficos: ‘Em volta viam-se também lobos monteses e leões de grandes jubas que ela própria enfeitiçara com suas drogas nocivas. Todavia, não investiam contra os homens, mas festejavam-nos, erguendo-se sobre as patas e abanando as caudas. Do mesmo modo que os cães cercam o dono, quando este volta de um banquete, porque sempre lhes traz bons petiscos, assim lobos e leões de fortes garras cercavam os homens abanando as caudas.’”
Ser cão é bom, mas ser homem depois de cão é melhor. Quem foi homem não aceita ser-o-cão: “Os companheiros de Ulisses não se transformam como os hóspedes anteriores nas criaturas sagradas das regiões selvagens, mas em animais domésticos impuros, porcos.” A cota de reis-da-selva já tinha sido preenchida. “como se entre os jônios houvesse o mesmo tabu que há entre os judeus acerca da mistura com os semelhantes.” É por isso que os judeus não comem porcos?
“em Juvenal, o sabor da carne humana é sempre descrito como semelhante ao da carne de porco. Em todo caso, todas as civilizações posteriores preferiram qualificar de porcos aqueles cujo instinto buscava um prazer diverso daquele que a sociedade sanciona para seus fins.”
“Mas, na imagem do porco, o prazer do olfato já está desfigurado no fungar compulsivo de quem arrasta o nariz pelo chão e renunciou ao andar ereto. É como se a hetaira encantadora repetisse no ritual a que submete os homens o ritual ao qual ela própria é o tempo todo submetida pela sociedade patriarcal.”
“O casamento é a via média que a sociedade segue para se acomodar a isso: a mulher continua a ser impotente na medida em que o poder só lhe é concedido pela mediação do homem. Isso já está, até certo ponto, delineado na Odisséia com a derrota da deusa hetaira, enquanto o casamento plenamente configurado com Penélope, literariamente mais recente, representa um estágio posterior da objetividade da instituição patriarcal.”
“Ulisses resiste à magia de Circe e assim consegue aquilo que a magia só ilusoriamente promete aos que não resistem a ela. Ulisses dorme com ela. Antes porém faz com que profira o grande juramento dos bem-aventurados, o juramento olímpico.” Unidos de corpo, mas sem alma.
“Aquele que resistiu a ela, o senhor, o eu, e a quem Circe por causa de sua imutabilidade censura por trazer ‘no peito um coração insensível e obstinado’ é aquele a quem Circe se dispõe a fazer as vontades: ‘Pois bem! Guarda a espada e vamos logo para o nosso leito a fim de que, unidos no leito e no amor, aprendamos a confiar um no outro’.”
“No mundo da troca, quem está errado é quem dá mais; o amante, porém, é sempre o que ama mais. Ao mesmo tempo que seu sacrifício é glorificado, zela-se ciumentamente para que o amante não seja poupado do sacrifício. É exatamente no amor que o amante fica sem razão e é punido. A incapacidade de dominar a si mesmo e aos outros, de que dá provas seu amor, é motivo suficiente para lhe recusar satisfação.” “Tudo isso sobrevive na caricatura da prudência feminina. As profecias da feiticeira destituída de seus poderes sobre as Sereias, Cila e Caríbdis só aproveitam, afinal, à autoconservação masculina.”
“Logo se transformaram de novo em homens, mais jovens do que haviam sido e também de aparência muito mais bela e aspecto muito mais nobre.” “Todos estavam tomados de uma melancolia agridoce e o palácio ressoava com suas queixas.”!
“Circe como Calipso, as cortesãs, são apresentadas como diligentes teceloas, exatamente como as potências míticas do Destino e as donas-de-casa, ao passo que Penélope, desconfiada como uma prostituta, examina o retornado, perguntando-se se não é realmente apenas um mendigo velho ou quem sabe um Deus em busca de aventuras.” “O jovem Telêmaco, que ainda não se adaptou direito à sua futura posição, irrita-se com isso, mas já se sente homem o bastante para repreender a mãe. A censura de teimosia e dureza que dirige a ela é exatamente a mesma que Circe fizera antes a Ulisses. Se a hetaira se apropria da ordem de valores patriarcal, a esposa monogâmica não se contenta ela própria com isso e não descansa enquanto não houver se igualado ao carácter masculino. É assim que se entendem os casados. O teste a que submete o retornado tem por conteúdo a posição irremovível do leito nupcial, que o esposo em sua juventude havia construído em torno de uma oliveira, símbolo da unidade do sexo e da propriedade.”
“Os imortais nos cumularam de desgraças, achando demais que desfrutássemos juntos e em paz de nossa juventude e que suavemente nos aproximássemos da velhice”Por isso hoje os barões da indústria são paus-moles que preferem ficar até tarde no escritório…
“Se o contrato entre os esposos não faz senão redimir penosamente uma hostilidade antiquíssima, os que envelhecem pacificamente se esvaem na imagem de Filémon e Baucis, assim como a fumaça do altar sacrificial se transforma na fumaça salutar da lareira.” Exatamente o casal de velhos da mitologia que opta por recusar grandes presentes de Zeus, e no lugar apenas pede: que quando um morrer, instantaneamente o outro também morra. Que morram juntos, portanto, como dois galhos de uma árvore.
SIMULACRO NA VIAGEM AO INFERNO: “depois da própria mãe, diante de quem Ulisses se força a assumir a atitude patriarcal de uma conveniente dureza, vêm as heroínas antiquíssimas.” “Todas as imagens, enquanto sombras no mundo dos mortos, acabam por lhe revelar sua verdadeira essência, a aparência.” “O reino dos mortos, onde se reúnem os mitos destituídos de seu poder, é o ponto mais distante da terra natal, e é só na mais extrema distância que ele se comunica com ela.” Por isso Aquiles é só duplamente sombra…
“Vejo aí a alma de minha defunta mãe, mas ela se mantém muda junto à poça de sangue e não se atreve a olhar para o próprio filho nem a proferir qualquer palavra. Diz, senhor, o que fazer, para que ela me reconheça como filho”
NADA MAIS BURGUÊS E MODERNO QUE O INFERNO: “Se seguirmos Kirchhoff na hipótese de que a visita de Ulisses ao inferno pertence à camada mais antiga, propriamente lendária da epopéia, é aí também que encontramos o traço que – assim como na tradição das descidas de Orfeu e Hércules ao inferno – mais nitidamente se destaca do mito, pois o motivo do arrombamento das portas do inferno, da supressão da morte, constitui o núcleo de todo pensamento antimitológico.”
“O fato de que o conceito de pátria se opõe ao mito (que a mentira fascista quer transformar na pátria) constitui o paradoxo mais profundo da epopéia.” “A definição de Novalis segundo a qual toda filosofia é nostalgia só é correta se a nostalgia não se resolve no fantasma de um antiquíssimo estado perdido, mas representa a pátria, a própria natureza, como algo de extraído ao mito.” “A transposição dos mitos para o romance, tal como ocorre na narrativa das aventuras, é menos uma falsificação dos mitos do que um meio de arrastar o mito para dentro do tempo, descobrindo o abismo que o separa da pátria e da reconciliação. Terrível é a vingança que a civilização praticou contra o mundo pré-histórico, e nisso ela se assemelha à pré-história, como se pode ver em seu mais atroz documento em Homero: o relato da mutilação do pastor de cabras Melântio.”
“a possibilidade de fixar na memória a desgraça ocorrida, é a lei da fuga em Homero. Não é à toa que o herói que escapa é sempre reintroduzido como narrador. É a fria distância da narrativa que, ao apresentar as atrocidades como algo destinado ao entretenimento, [romance burguês, império da razão até mesmo na arte] permite ao mesmo tempo destacar a atrocidade que, na canção, [rapsódia pré-homérica] se confunde solenemente como destino. [o irracional]”
TÂNTALOS AS HETAIRAS NÃO SÃO: “No canto XXII da Odisséia, descreve-se a punição infligida pelo filho de Ulisses nas servas infiéis que haviam recaído na condição de hetairas. Com frieza e serenidade, com uma impassibilidade inumana e só igualada pelos grandes narradores do séc. XIX,(*) Homero descreve a sorte das enforcadas e compara-a sem comentários à morte dos pássaros no laço, calando-se num silêncio que é o verdadeiro resto de toda fala. A passagem termina com o verso que descreve como as mulheres enforcadas em fileira ‘debateram-se um pouco com os pés, mas não por muito tempo’. A precisão com que o autor descreve o fato e que já tem alguma coisa da frieza da anatomia e da vivissecção faz do relato uma ata romanceada dos espasmos das mulheres submetidas que, sob o signo do direito e da lei, são arrastadas para o reino de onde escapou o juiz Ulisses.
(*) Wilamowitz é de opinião que a punição ‘foi narrada prazerosamente pelo poeta’ (Die Heimkehr des Odysseus, p. 67). Mas, como o autoritário filólogo [!] se entusiasma com a metáfora da armadilha de pássaros porque ‘descreve de maneira precisa e … muito moderna como ficam a balouçar os cadáveres das escravas enforcadas’ (loc. cit., p. 76), o prazer em grande parte parece ser dele próprio. [haha!] Os escritos de Wilamowitz se incluem entre os documentos mais enfáticos da mescla bem alemã de barbárie e cultura, que está na base do moderno filo-helenismo.”
“O único eco desse ‘não por muito tempo’ que subsiste é aquele ‘quo usque tandem’(*) que os reitores das épocas posteriores inadvertidamente profanaram ao se atribuírem a si mesmos a paciência. [Penélopes eles não são!] Mas, no relato do crime, resta uma esperança, que se prende ao fato de ter ocorrido há muito tempo. Homero ergue sua voz consoladora sobre essa mistura inextricável da pré-história, da barbárie e da cultura recorrendo ao ‘era uma vez’. É só como romance que a epopéia se transforma em conto de fadas.
(*) Até quando enfim.”
Notas
“‘O mito é, antes de mais nada, o discurso falado; a palavra não concerne jamais a seu conteúdo’ (Wilamowitz). Ao hipostasiar esse conceito tardio do mito, que já pressupõe a razão como sua contrapartida explícita [nous x logos], e polemizando implicitamente com Bachofen – que é para ele um modismo de que zomba sem, no entanto, pronunciar seu nome –, Wil. chega a uma nítida separação da mitologia e da religião, na qual o mito aparece, não como a fase mais antiga, mas justamente como a mais recente (…) A obstinada arrogância departamental do helenista [de novo!] impede-lhe o discernimento da dialética do mito, da religião e do esclarecimento. ‘Não compreendo as línguas às quais se tomaram as palavras tabu e totem, mana e prenda, mas considero um caminho viável ater-me aos gregos e pensar grego sobre coisas gregas’. Como compatibilizar isso, a saber, a opinião expressa sem maiores justificativas e segundo a qual ‘o germe da divindade platônica já se encontrava no mais antigo helenismo’, com a concepção histórica defendida por Kirchhoff e adotada por Wilamowitz, que vê nos encontros míticos do nostos (retorno, volta à casa, viagem) o núcleo mais antigo do livro da Odisséia? Isso não é esclarecido e o próprio conceito do mito, que é um conceito central, não encontra em Wilamowitz uma articulação filosófica suficiente. Entretanto, sua resistência ao irracionalismo que enaltece o mito e sua insistência na inverdade dos mitos contém um profundo discernimento, que não devemos ignorar. (…) 0 que Wilamowitz censura aos mitos posteriores, o arbítrio da invenção, já devia estar presente nos mais antigos em virtude do pseudos [hipocrisia, logro, fraude] dos sacrifícios. Esse pseudos tem justamente um parentesco com a divindade platônica que Wilamowitz faz remontar à fase arcaica do espírito helênico.” Não sei do que esse W. está falando – me ajude, Jaeger!
“Já na paciência de Ulisses, e de maneira muito nítida após a matança dos pretendentes, a vingança se transforma num procedimento jurídico: é justamente a satisfação finita da ânsia mítica que se torna o instrumento objetivo da dominação. O direito é a vingança abdicante. Mas, ao se formar com base em algo que está fora dela, a nostalgia da pátria, essa paciência judicial adquire traços humanos e até mesmo, quase, os da confiança, que transcendem a vingança diferida. Depois, na sociedade burguesa plenamente desenvolvida, as 2 coisas são cobradas: com a idéia da vingança, a nostalgia também sucumbe ao tabu, o que significa justamente a entronização da vingança, mediada como vingança do eu contra si mesmo. [os bárbaros arianos contra os civilizados semitas]”
UM SUJEITO ARROJADO É ATIVO OU PASSIVO? E UM ABUSADO? “Os autores jogam com o duplo sentido da palavra alemã verschlagen, que significa: 1) astuto. ardiloso, manhoso; 2) arremessado, arrojado (à praia, à costa) pelo mar ou pelo acaso; bem como com seu parentesco com Schlag (golpe) e schlagen (bater, golpear). (N. do T.)”
“Gilbert Murray trata das ‘sexual expurgations’ a que foram submetidos os poemas homéricos no curso da redação.”
3. JULIETTE OU ESCLARECIMENTO E MORAL (EXCURSO 2)
“O pensamento, no sentido do esclarecimento, é a produção de uma ordem científica unitária e a derivação do conhecimento factual a partir de princípios, não importa se estes são interpretados como axiomas arbitrariamente escolhidos, idéias inatas ou abstrações supremas.” “O princípio da contradição é o sistema in nuce.” “Um pensamento que não se oriente para o sistema é sem direção ou autoritário. A razão fornece apenas a idéia da unidade sistemática, os elementos formais de uma sólida conexão conceitual.”
“A razão é ‘um poder … de derivar o particular do universal’. A homogeneidade do universal e do particular é garantida, segundo Kant, pelo ‘esquematismo do entendimento puro’. Assim se chama o funcionamento inconsciente do mecanismo intelectual que já estrutura a percepção em correspondência com o entendimento.”
“Do mesmo modo que os fatos são previstos a partir do sistema, assim também os fatos devem por sua vez confirmá-lo. Os fatos, porém, pertencem à práxis.” “É verdade que, na física, a percepção pela qual a teoria se deixa testar se reduz em geral à centelha elétrica que relampeja na aparelhagem experimental.” “O pensamento que não consegue harmonizar o sistema e a intuição desrespeita algo mais do que simples impressões visuais isoladas: ele entra em conflito com a prática real.”
“A centelha que assinala da maneira mais pregnante a falha no pensamento sistemático, o desrespeito da lógica, não é nenhuma percepção fugidia, mas a morte súbita. O sistema visado pelo esclarecimento é a forma de conhecimento que lida melhor com os fatos e mais eficazmente apóia o sujeito na dominação da natureza. Seus princípios são o da autoconservação. A menoridade revela-se como a incapacidade de conservar a si mesmo. O burguês nas figuras sucessivas do senhor de escravos, do empresário livre e do administrador é o sujeito lógico do esclarecimento.”
“O ser é intuído sob o aspecto da manipulação e da administração. Tudo, inclusive o indivíduo humano, para não falar do animal, converte-se num processo reiterável e substituível, mero exemplo para os modelos conceituais do sistema.”
“Os sentidos já estão condicionados pelo aparelho conceitual antes que a percepção ocorra, o cidadão vê a priori o mundo como a matéria com a qual ele o produz para si próprio. Kant antecipou intuitivamente o que só Hollywood realizou conscientemente: as imagens já são pré-censuradas por ocasião de sua própria produção, segundo os padrões do entendimento, que decidirá depois como devem ser vistas.”
“A lógica é democrática, nela os grandes não têm nenhuma vantagem sobre os pequenos.” “A ciência em geral não se comporta com relação à natureza e aos homens diferentemente da ciência atuarial, em particular, com relação à vida e à morte. Quem morre é indiferente, o que importa é a proporção das ocorrências relativamente às obrigações da companhia.”
“A ciência ela própria não tem consciência de si, ela é um instrumento, enquanto o esclarecimento é a filosofia que identifica a verdade ao sistema científico.” “A idéia de uma autocompreensão da ciência contradiz a idéia da própria ciência. A obra de Kant transcende a experiência como simples operação, razão por que ela é hoje – em virtude de seus próprios princípios – renegada pelo esclarecimento como dogmática.” “A raiz do otimismo kantiano, segundo o qual o agir moral é racional mesmo quando a infâmia tem boas perspectivas, é o horror que inspira a regressão à barbárie.”
“ac si quaestio de lineis, planis aut de corporibus esset”: “Como se fosse uma questão de linhas, planos ou volumes”. “A ordem totalitária levou isso [o imperativo categórico] muito a sério. Liberado do controle de sua própria classe, que ligava o negociante do século XIX ao respeito e amor recíproco kantianos, o fascismo, que através de uma disciplina férrea poupa o povo dos sentimentos morais, não precisa mais observar disciplina alguma.”
“Os dirigentes estavam dispostos a proteger o mundo burguês contra o oceano da violência aberta que realmente assolou a Europa apenas enquanto a concentração econômica ainda não havia progredido suficientemente. Antes, só os pobres e os selvagens estavam expostos à fúria dos elementos desencadeados pelo capitalismo. Mas a ordem totalitária instala o pensamento calculador em todos os seus direitos e atém-se à ciência enquanto tal.”
“A obra do marquês de Sade mostra o ‘entendimento sem a direção de outrem’, isto é, o sujeito burguês liberto de toda tutela.”
“Aquilo que Kant fundamentou transcendentalmente, a afinidade entre o conhecimento e o plano, que imprime o carácter de uma inescapável funcionalidade à vida burguesa integralmente racionalizada, inclusive em suas pausas para respiração, Sade realizou empiricamente um século antes do advento do desporto. As equipes desportivas modernas, cuja cooperação está regulada de tal sorte que nenhum membro tenha dúvidas sobre seu papel e para cada um haja um suplente a postos, encontram seu modelo exato nos teams sexuais de Juliette, onde nenhum instante fica ocioso, nenhuma abertura do corpo é desdenhada, nenhuma função permanece inativa.”
“A estrutura arquitetônica [arquitecônica no original – teria sido realmente um trocadilho e não um typo? arctônica] própria do sistema kantiano, como as pirâmides de ginastas das orgias de Sade e os princípios das primeiras lojas maçônicas burguesas (a imagem cínica que a espelha é o rigoroso regulamento da sociedade de libertinos das 120 journées) anuncia[m] uma forma de organização integral da vida desprovida de todo fim tendo um conteúdo determinado.”
“Depois que a utopia que instilara a esperança na Revolução Francesa penetrou – potente e impotente [cheio dos trocadilhos o safadinho!] – ao mesmo tempo na música e na filosofia alemãs, [duas gostosas!!] a ordem burguesa estabelecida funcionalizou completamente a razão.”
“A mitologia particular de que o esclarecimento ocidental (até mesmo sob a forma do calvinismo) teve de se desembaraçar era a doutrina católica da ordo e a religião popular pagã que continuava a viajar à sua sombra.” “A crítica da contra-revolução católica provou que tinha razão contra o esclarecimento, assim como este tinha razão contra o catolicismo.”
“Os escritores sombrios dos primórdios da burguesia, como Maquiavel, Hobbes, Mandeville, que foram os porta-vozes do egoísmo do eu, reconheceram por isso mesmo a sociedade como o princípio destruidor e denunciaram a harmonia, antes que ela fosse erigida em doutrina oficial pelos autores luminosos, os clássicos.”
“Se a grande filosofia, representada por Leibniz e Hegel, descobrira também uma pretensão de verdade nas manifestações subjetivas e objetivas que ainda não são pensamentos (ou seja, em sentimentos, instituições, obras de arte), o irracionalismo, de seu lado, isola o sentimento, assim como a religião e a arte, de tudo o que merece o nome de conhecimento, e nisso como em outras coisas revela seu parentesco com o positivismo moderno, a escória do esclarecimento.”
“Do nojo dos excrementos e da carne humana até o desprezo do fanatismo, da preguiça, da pobreza material e espiritual, vemos desenrolar-se uma linha de comportamentos que, de adequados e necessários, se converteram em condutas execráveis. Essa linha é ao mesmo tempo a da destruição e a da civilização. Cada passo foi um progresso, uma etapa do esclarecimento. Mas, enquanto todas as mudanças anteriores (do pré-animismo à magia, da cultura matriarcal à patriarcal, do politeísmo dos escravocratas à hierarquia católica) colocavam novas mitologias, ainda que esclarecidas, no lugar das antigas (o deus dos exércitos no lugar da Grande Mãe, a adoração do cordeiro no lugar do totem), toda forma de devotamento que se considerava objetiva, fundamentada na coisa, dissipava-se à luz da razão esclarecida. Todos os vínculos dados previamente sucumbiam assim ao veredito que impunha o tabu, sem excluir aqueles que eram necessários para a existência da própria ordem burguesa. O instrumento com o qual a burguesia chegou ao poder – o desencadeamento das forças, a liberdade universal, a autodeterminação, em suma, o esclarecimento – voltava-se contra a burguesia tão logo era forçado, enquanto sistema da dominação, a recorrer à opressão. Obedecendo a seu próprio princípio, o esclarecimento não se detém nem mesmo diante do mínimo de fé sem o qual o mundo burguês não pode subsistir. Ele não presta à dominação os serviços confiáveis que as antigas ideologias sempre lhe prestaram.” “O princípio anti-autoritário acaba tendo que se converter em seu próprio contrário, numa instância hostil à própria razão”
“Depois de proclamar a virtude burguesa e a filantropia, para as quais já não tinha boas razões, a filosofia também proclamou como virtudes a autoridade e a hierarquia, quando estas há muito já haviam se convertido em mentiras graças ao esclarecimento. Mas o esclarecimento não possuía argumentos nem mesmo contra
semelhante perversão de si mesmo, pois a pura verdade não goza de nenhum privilégio em face da distorção, a racionalização em face da ratio, se não tem nenhum privilégio prático a exibir em seu favor.” “Isso ficou manifesto já nos primeiros ataques que o esclarecimento corrente empreendeu contra Kant, o ‘triturador universal’.” “A obra de Sade, como a de Nietzsche, forma ao contrário a crítica intransigente da razão prática, comparada à qual a obra do ‘triturador universal’ aparece como uma revogação de seu próprio pensamento. Ela eleva o princípio cientificista a um grau aniquilador. Kant, todavia, já expurgara a lei moral em mim de toda fé heteronômica, [transcendente] e isso há tanto tempo que o respeito por suas asseverações se tornou um mero fato natural psicológico, como é um fato natural físico o céu estrelado sobre mim.”
“Justine, a boa dentre as duas irmãs, é uma mártir da lei moral. Juliette, porém, tira as conseqüências que a burguesia queria evitar: ela amaldiçoa o catolicismo, no qual vê a mitologia mais recente e, com ele, a civilização em geral. As energias ligadas ao sacramento são redirecionadas para o sacrilégio. Essa inversão, porém, é transferida pura e simplesmente à comunidade. Em tudo isso, Juliette não procede de modo algum com o fanatismo dos católicos em face dos incas. Ela apenas se dedica esclarecida, diligentemente, à faina do sacrilégio, que os católicos também têm no sangue desde tempos arcaicos. Os comportamentos proto-históricos que a civilização declarara tabu e que haviam se transformado sob o estigma da bestialidade em comportamentos destrutivos continuaram a levar uma vida subterrânea. Juliette não os pratica mais como comportamentos naturais, mas proibidos por um tabu. Ela compensa o juízo de valor contrário, sem fundamento na medida em que nenhum juízo de valor tem fundamento, pelo seu oposto. Assim, quando repete as reações primitivas, já não são mais as primitivas, mas as bestiais. Juliette, e nisso ela não é diferente do Merteuil de Liaisons Dangereuses, [sexo como jogo entre terceiros] não encarna, em termos psicológicos, nem a libido não-sublimada nem a libido regredida, [palavrório inútil] mas o gosto intelectual pela regressão, amor intellectualis diaboli, o prazer de derrotar a civilização com suas próprias armas. Ela ama o sistema e a coerência, e maneja excelentemente o órgão do pensamento racional. No que concerne ao autodomínio, suas instruções estão para as de Kant, às vezes, assim como a aplicação especial está para o princípio.”
“O arrependimento apresenta como existente o passado que a burguesia, ao contrário da ideologia popular, sempre considerou como um nada”
« poenitentia virtus non est, sive ex ratione non oritur, sed is, quem pacti poenitet, bis miser seu impotens est”
“O arrependimento não é uma virtude, ou não se origina da razão, mas quem se arrepende do que fez é duas vezes miserável ou impotente”Spinoza
« terret vulgus, nisi metuat »
“o povo amedronta, a não ser que seja medroso”
“Nietzsche proclama a quintessência de sua doutrina. ‘Os fracos e os malformados devem perecer: primeira proposição de nossa filantropia. E convém ainda ajudá-los a isso. O que é mais prejudicial do que qualquer vício – a compaixão ativa por todos os malformados e fracos – o cristianismo…’”
“Coube a um misantropo como Rousseau formular semelhante paradoxo, pois, extremamente fraco como era, queria rebaixar à sua altura aqueles à altura dos quais não conseguia se elevar. Mas que imprudência, pergunto eu, podia autorizar esse pigmeu de 4 pés e 2 polegadas a se comparar à estatura que a natureza dotou da força e do aspecto de um Hércules? Não é como se a mosca tentasse se assemelhar aos elefantes? Força, beleza, estatura, eloqüência: nos primórdios da sociedade, essas virtudes eram determinantes quando a autoridade passou para as mãos dos dominantes.” Sade
“Ele não precisa se revestir, como o fraco, de um caráter diferente do seu: ele só coloca em ação os efeitos do caráter que recebeu da natureza. Por isso, tudo o que daí resulta é natural: sua opressão, suas violências, suas crueldades, suas tiranias, suas injustiças … são, pois, puras como a mão que as gravou; e quando ele usa de todos os seus direitos para oprimir o fraco, para despojá-lo, não faz senão a coisa mais natural do mundo … Não tenhamos, pois, escrúpulos quanto ao que podemos tomar do fraco, pois não somos nós que cometemos o crime, é a defesa ou a vingança do fraco que caracteriza o crime”
“Mas enquanto grande potência e religião do Estado, a moral dos senhores entrega-se definitivamente aos civilizatórios powers that be, à maioria compacta, ao ressentimento e a tudo aquilo a que antes se opunha.”
“a piedade, longe de ser uma virtude, não é senão uma fraqueza nascida do temor e do infortúnio, fraqueza que é preciso absorver, sobretudo quando nos empenhamos em embotar uma excessiva sensibilidade incompatível com as máximas da filosofia”
“Segundo Aristóteles os gregos sofriam freqüentemente de um excesso de compaixão: daí a necessidade da descarga através da tragédia. Vemos assim como essa inclinação lhes parecia suspeita. Ela é perigosa para o Estado, tira a necessária dureza e rigor, faz com que os heróis se comportem como mulheres em prantos, etc.” N.
“As deformações narcísicas da compaixão, como os sentimentos sublimes do filantropo e a arrogância moral do assistente social, são a confirmação interiorizada da diferença entre ricos e pobres.”
NIETZSCHE VS. SCHOPENHAUER: “Os fascistas que dominaram o mundo traduziram o horror pela compaixão no horror pela indulgência política e no recurso à lei marcial, no que se uniram a Schopenhauer, o metafísico da compaixão. Este considerava a esperança de instituir a humanidade como a loucura temerária daqueles cuja única esperança é a infelicidade. Os inimigos da compaixão não queriam identificar o homem com a infelicidade, cuja existência era, para eles, uma vergonha.”
“A dominação sobrevive como fim em si mesmo, sob a forma do poder econômico. O gozo já parece algo de antiquado, irrealista, como a metafísica que o proibia.”
“Quanto mais se acentua a complexidade do organismo social, menos ela tolera a interrupção do curso ordinário da vida. É preciso que tudo continue hoje como ontem e amanhã como hoje. A efervescência geral não é mais possível. O período de turbulência individualizou-se. As férias sucedem à festa.”
“No regime fascista, elas [as festas?] são complementadas pela falsa euforia coletiva produzida pelo rádio, pelos slogans e pela benzedrina [descongestionante nasal à base de anfetamina – patético!].”
Adorno soa muito pouco convincente quando fala de sexo: “A mão acariciando os cabelos e o beijo na fronte, que exprimem o desvario do amor espiritual, são formas apaziguadas de golpes e mordidas que acompanham, por exemplo, o ato sexual dos selvagens australianos.”
“…é certo que nosso espírito de galanteria cavalheiresca, que ridiculamente presta homenagem a um objeto feito tão-somente para nossas necessidades, é certo, repito, que esse espírito nasce do antigo respeito que nossos ancestrais tinham outrora pelas mulheres, em razão do ofício de profetisas que exerciam nas cidades e nos campos: por medo, passamos do respeito ao culto, e a galanteria nasceu no seio da superstição. Mas esse respeito não esteve jamais na natureza, seria perda de tempo buscá-lo aí. A inferioridade desse sexo relativamente ao nosso está suficientemente bem-estabelecida para que jamais possa excitar em nós um motivo sólido para respeitá-lo, e o amor que nasce desse respeito cego não passa de um preconceito como ele próprio.”
“Não duvidemos de que haja uma diferença tão certa e tão importante entre um homem e uma mulher como entre o homem e o macaco da floresta. As razões que teríamos para recusar que as mulheres façam parte de nossa espécie são tão boas como as razões que temos para recusar que esses macacos sejam nossos irmãos. Examinemos atentamente uma mulher nua ao lado de um homem de sua idade e nu como ela e nos convenceremos facilmente da diferença sensível que existe (sexo à parte) na composição desses 2 seres; veremos bem claramente que a mulher não passa de uma degradação do homem; as diferenças existem igualmente no interior, e a anatomia de ambas as espécies, feita ao mesmo tempo e com a mais escrupulosa atenção, descobre essas verdades”Strindberg
“Ela pagou o culto da madona com a caça às bruxas, que não foi senão uma vingança exercida sobre a imagem da profetisa da era pré-cristã, que punha secretamente em questão a ordem sagrada da dominação patriarcal.”
“A explicação do ódio contra a mulher, enquanto criatura mais fraca em termos de poder físico e espiritual e marcada na testa pelo estigma da dominação, é a mesma do ódio aos judeus.Nas mulheres e nos judeus é fácil ver que há milénios não exercem nenhuma dominação. Eles vivem, embora fosse possível eliminá-los, e seu medo e fraqueza, sua maior afinidade com a natureza em razão da pressão incessante a que estão submetidos, é seu elemento vital.”
“O provérbio romano, segundo o qual a severidade é o verdadeiro prazer, está em vigor, não é uma simples incitação ao trabalho.”
“Moisés e Kant não pregaram o sentimento, sua lei fria não conhece nem o amor nem a fogueira.”
“A luta de Nietzsche contra o monoteísmo atinge a doutrina cristã mais profundamente do que a judaica. É verdade que ele nega a lei, mas ele quer pertencer ao ‘eu superior’, não ao natural mas ao mais-que-natural. Ele quer substituir Deus pelo super-homem porque o monoteísmo, sobretudo em sua forma corrompida, o cristianismo, se tornou transparente como mitologia. Mas do mesmo modo que os velhos ideais ascéticos a serviço desse eu superior são enaltecidos por Nietzsche a título de auto-superação ‘em vista do desenvolvimento da força dominadora’, assim também o eu superior revela-se como uma tentativa desesperada de salvar Deus,¹ que morreu, e como a renovação do empreendimento de Kant no sentido de transformar a lei divina em autonomia, a fim de salvar a civilização européia que, no ceticismo inglês, já havia entregue o espírito. O princípio kantiano de ‘fazer tudo com base na máxima de sua vontade enquanto tal, de tal modo que essa vontade possa ao mesmo tempo ter por objeto a si mesma como uma vontade legisladora universal’é também o segredo do super-homem. Sua vontade não é menos despótica do que o imperativo categórico.² Ambos os princípios visam à independência em face de potências exteriores, a emancipação incondicional determinada como a essência do esclarecimento.³ Todavia, quando o temor da mentira (que o próprio Nietzsche nos momentos mais luminosos[sentido pejorativo, haja vista a referência aos ‘autores luminosos’, i.e., do Iluminismo, protopositivistas] tachou de ‘quixotismo’) substitui a lei pela autolegislação e tudo se torna transparente como uma única grande superstição desnudada, [faltou elaboração] o próprio esclarecimento e até mesmo a verdade em todas as suas formas tornam-se um ídolo, e nós percebemos ‘que também nós, os conhecedores de hoje, nós ateus e anti-metafísicos, também tomamos nosso fogo do incêndio ateado por uma fé milenar, aquela fé dos cristãos que também foi a de Platão, para a qual Deus é a verdade e a verdade, divina’. Portanto, mesmo a ciência sucumbe à crítica à metafísica. A negação de Deus contém em si a contradição insolúvel, ela nega o próprio saber. Sade não aprofundou a idéia do esclarecimento até esse ponto de inversão. A reflexão da ciência sobre si mesma, a consciência moral do esclarecimento, estava reservada à filosofia, isto é, aos alemães. Para Sade, o esclarecimento não é tanto um fenômeno espiritual quanto social. Ele aprofundou a dissolução dos laços (que Nietzsche presumia superar idealisticamente pelo eu superior), isto é, a crítica à solidariedade com a sociedade, as funções e a família, até o ponto de proclamar a anarquia. Sua obra desvenda o caráter mitológico dos princípios nos quais, segundo a religião, se funda a civilização: do decálogo, da autoridade paterna, da propriedade. É a inversão exata da teoria social que Le Play desenvolveu cem anos depois. [?] Cada um dos dez mandamentos vê comprovada sua nulidade perante a instância da razão formal. Seu caráter ideológico fica inteiramente comprovado. O arrazoado em defesa do assassínio, é o próprio papa que o pronuncia a pedido de Juliette. Para ele, racionalizar os atos não-cristãos é uma tarefa mais fácil do que a tentativa feita outrora de racionalizar pela luz natural os princípios cristãos segundo os quais esses atos provêm do diabo. O ‘philosophe mitré’ precisa recorrer a menos sofismas para justificar o assassinato do que Maimônides e Santo Tomás para condená-lo.”
[?] « Le Play, Les Ouvriers Européens.Paris, 1879. Vol. I, especialmente pp. 133 sgg.”
¹ Será? Não vejo Adorno em posição de julgar um projeto que sabidamente é milenar, e não de 50 anos. Deus já está morto; seria questão de salvá-lo, ou de entender o quanto a humanidade mergulhará e ficará submergida em niilismo ainda diante dessa ‘simples questão’? O importante é: Nie. não deu uma resposta metafísica à sua destruição metafísica: o que é o supra-homem, senão o limite da imanência, uma pedagogia mundana sobre o valor dos valores?
² Kant atua no campo ético cristão. Se há uma ‘raça de homens’ que possa agüentar essa autonomia, a única e verdadeira responsabilidade sobre a Terra, acho prematuro para nós do século XX-XXI decidir de uma vez.
³ Se o esclarecimento ou Espírito do Mundo hegeliano será usado como avatar do fascismo, que é absolutamente essa ordem externa, não há o menor sentido em incluí-la no projeto kant-nietzschiano, já que essa busca nada tem a ver com a degenerescência dos Estados-nações burgueses…
“Sade levou às últimas conseqüências o conceito do socialismo de Estado, em cujos primeiros passos Saint-Just e Robespierre haviam fracassado. Se a burguesia os enviou à guilhotina, a eles, seus políticos mais fiéis, ela também baniu seu mais franco escritor para o inferno da Bibliothèque Nationale. Pois a chronique scandaleuse de Justine e Juliette – que, produzida em série, prefigurou no estilo do século XVIII o folhetim do século XIX e a literatura de massas do século XX – é a epopéia homérica liberada do último invólucro mitológico: a história do pensamento como órgão da dominação.”
“Sade não deixou a cargo dos adversários a tarefa de levar o esclarecimento a se horrorizar consigo mesmo, que faz de sua obra uma alavanca para salvar o esclarecimento.
Ao contrário de seus apologetas, [os clássicos posteriores, luminosos] os escritores sombrios da burguesia não tentaram distorcer as conseqüências do esclarecimento recorrendo a doutrinas harmonizadoras. Não pretenderam que a razão formalista tivesse uma ligação mais íntima com a moral do que com a imoralidade.”
“É nas mãos sujas pelo assassinato das esposas e dos filhos, pela sodomia, pelos homicídios, pela prostituição e pelas infâmias que o céu coloca essas riquezas; e para me recompensar por essas abominações, ele as põe à minha disposição” Sade
“Por trás do cômputo estatístico das vítimas do pogrom, que inclui os fuzilados por misericórdia, oculta-se a essência que somente surge à luz na descrição exata da exceção, ou seja, da mais terrível tortura. Uma vida feliz num mundo de horror é refutada como algo de infame pela mera existência desse mundo.”
“Certamente, o assassinato dos próprios filhos e esposas, a prostituição e a sodomia, são muito mais raros entre os governantes durante a era burguesa do que entre os governados, que adotaram os costumes dos senhores de épocas anteriores. Em compensação, quando estava em jogo o poder, estes ergueram montanhas de cadáveres mesmo nos séculos mais recentes.” “Os vícios privados são em Sade, como já eram em Mandeville, a historiografia antecipada das virtudes públicas da era totalitária. O fato de ter, não encoberto, mas bradado ao mundo inteiro a impossibilidade de apresentar um argumento de princípio contra o assassinato ateou o ódio com que os progressistas ainda hoje perseguem Sade e Nietzsche. Diferentemente do positivismo lógico, [que é um culto] ambos tomaram a ciência ao pé da letra.
“Proclamando a identidade da dominação e da razão, as doutrinas sem compaixão são mais misericordiosas do que as doutrinas dos lacaios morais da burguesia. Onde estão os piores perigos para ti?, indagou um dia [na Gaia Ciência] Nietzsche: Na compaixão. Negando-a, ele salvou a confiança inabalável no homem, traída cada vez que se faz uma afirmação consoladora.” A dialética da consolação!
“Chasing Lolita, published on the 50th anniversary of Lolita’s American publication, is an essential contemporary companion to Vladimir Nabokov’s great novel. It establishes who Lolita really was back in 1958, explores her predecessors of all stripes, and examines the multitude of movies, theatrical shows, literary spin-offs, artifacts, fashion, art, photography, and tabloid excesses that have distorted her identity and stolen her name. It considers not just the ‘Lolita effect’ but shifting attitudes toward the always volatile mix of sex, children, and popular entertainment—from Victorian times to the present. And it also looks at some real-life cases of young girls who became the innocent victims of someone else’s obsession—unhappy sisters to one of the most affecting heroines in American fiction, and one of the most widely misunderstood.”
INTRODUCTION
“The original spark of inspiration for this book was a little less ambitious. It came from a moment in a BBC television documentary that was originally broadcast to coincide with the release of the 1997 film version of Lolita. Adrian Lyne’s movie (the second of 2 film adaptations) had, to the surprise of many, enjoyed the willing consultative participation of Dmitri Nabokov, the author’s dauntingly accomplished son, a famously rigorous critic of any attempts to fool around with his father’s masterpiece.”
Nabokov I foi também um “lepidopterist”: especialista em borboletas e mariposas!
“Lolita and her story were just one of these dazzling inventions, completed and put away in late 1953 and at once, in its author’s mind, displaced by the next pressing project.”
“Fame is of assistance only to people who make their work, not celebrity status, the point of their endeavors. ‘It is Lolita, not I, who is famous’, Nabokov once said, when pressed, but her fame brought him wealth and independence, and if the suspicion remains that he would have preferred to have been rewarded earlier and more evenly for a lifetime of remarkable literary achievement, he was philosophical about the irony.
The German poet Rainer Maria Rilke defined fame as ‘the sum total of all the misunderstandings that can gather around one name’.”
1. THE REAL LIFE OF DOLORES HAZE: Just the facts
“Humbert Humbert is a middle-aged, fastidious college professor. He also likes little girls. And none more so than Lolita, who [sic] he’ll do anything to possess. Is he in love or insane, a silver-tongued¹ poet or a pervert, a tortured soul or a monster—or is he all of these!
¹ [Persuasivo, eloqüente.]
The above summary—either supplied by the publisher or staffers at the amazon.co.uk Web site on which it appears, promoting a Penguin Modern Classics edition of the novel—illustrates the difficulty of synopsizing the plot of Lolita. The book does not lend itself to literal précis. Most attempts to summarize it make it sound melodramatic or even absurd.”
“The colorful memoir is prefaced with a straitlaced introduction by the fictitious John Ray Jr., who claims to be its appointed editor. The novel’s action takes place in various U.S. locations in the late 1940s and early 1950s and presents Humbert and Lolita’s story exclusively from Humbert’s point of view and in his own often florid literary language.
So far, so good. It is when we come to summarize the book’s nature and texture that this infinitely subtle, allusive, comic, and grotesque love story defeats us. A black comedy about a middle-aged man’s obsession with a young girl is the line most frequently taken by movie listings journalists whom space compels to encapsulate the plot of either of the two film versions of Lolita in around a dozen words. Such doomed exercises recall a sketch from the cult 1970s comedy TV series Monty Python’s Flying Circuswhere, in the setting of a televised competition, contestants are challenged to give a 15-second summary of Proust’s one-and-a-half-million word À la recherche du temps perdu.”
“today, in the age of the sound bite, the elliptical impressionism of Humbert’s account leaves the heroine of Lolita even more susceptible to grotesque misinterpretations.”
“The public, they reasoned, wanted cartoonish representatives of complicated things. Accordingly, in the popular imagination wild-haired Albert Einstein became the Wacky European Scientist, surly Marlon Brando the Mumbling Ambassador of Inarticulate Youth, pneumatic Marilyn Monroe the paradigmatic Hollywood Pinup, mad-eyed bald man Pablo Picasso the Famous Modern Artist, and so on. It was a kind of visual shorthand, and it was often accompanied by editorial to match. If this trend did not actually discourage serious debate about science, acting, stardom, and modern art, neither did it do much to promote it. In this breezy spirit Lolita would gradually exemplify the Sultry Teenage Temptress. It was a travesty from the start.
In the first place, Lolita was a 12-year-old child—not a teenager—when she first succumbed to the middle-aged man who subsequently narrated the saga of his infatuation with her. In the second place, she was not equipped, in any sense, to be an iconic temptress. The novel’s descriptions of her stress her physical appeal but only in relation to Humbert’s appetites.”
“In short, far from being overt, Lolita’s sex appeal would have been elusive to all but a pedophile with a very specific shopping list of expectations. For Humbert, the first wave of desire for Lolita derived from her resemblance to a particular girl who obsessed him when he was 14 and whose loss, he fancies, froze his sexual ideal forever, just as a snapshot freezes its subject in time as well as space.”
“It was not until a publicity poster appeared for Stanley Kubrick’s 1962 film of Lolita that we first encounter a color photograph of an entirely bogus Lolita (Sue Lyon) wearing red heart-shaped sunglasses while licking a red lollipop (love and fellatio, get it?). Lolita’s sunglasses in Kubrick’s (black-and-white) film sport regular frames and at no point does she suck that kind of lollipop, so the poster makes false promises on every level. The same synthetic image subsequently graced many international paperback editions of the novel. Yet before Lolita’s first American publication in 1958, Nabokov had insisted that there should be no little girl at all on the book’s cover because he was in the business of writing about subjective rapture, not objective sexualization.”
A grande ironia é que eu tenho um exemplar de Pnin em português com a seguinte chamada de capa: do mesmo autor de Lolita!
“Tensions between fact and fiction, real names and aliases, evocation and invention, description and advocacy, confession and fantasy not only run through Lolita from start to finish but also precede and postdate the novel in a sometimes extraordinary series of foreshadowings, overlaps, and echoes.”
2. CASEBOOKS AND FANTASIES: Dolores Haze’s oft-told tale
“by casting himself alongside poets like Dante and Petrarch—not to mention Edgar Allan Poe—Humbert Humbert seeks somehow to glamorize his wretched appetites by implying that his perversion is one to which artists and visionaries are particularly susceptible.
When Humbert makes a passing reference to Dante’s ‘love’ for the child Beatrice, he is being entirely misleading, implying that Dante Alighieri was an adult when he met the 8-year-old Beatrice Portinari in 1274. Since Dante was only 9 at the time (and there is no historical record of an affair between the couple at any point anyway), this is a dishonest ploy, to say the least. His Francesco Petrarch reference is even less persuasive, asserting that Petrarch fell madly in love with Laureen when she was a fair-haired child of 12. The poet was 23 when he first became enamored of the mysterious Laura in Avignon’s Église de Sainte Claire during the spring of 1327. Although evocatively immortalized in Petrarch’s verse, historically speaking Laura remains an entirely unknown quantity. It is only some scholars’ guess that she was in reality one Laura de Noves, the wife of Hugues de Sade. And even if this were true, then she was not only already married but also a mere 6 years younger than Petrarch, making her 17 at the time of their meeting in that French church.” “Humbert is, however, quite right when he says that Virginia Clemm was only 13 when she married her 27-year-old cousin, the poet and mystery writer Edgar Allan Poe, in 1836.
Poe is something of an éminence grise always present in the shadows of Lolita. Humbert appropriates his first name as a decorative addition to his own when the fancy suits him (‘Edgar H. Humbert’ is how he signs in at the Enchanted Hunters Hotel).”
“Poe’s 1849 poem Annabel Lee supplies the plot and the seaside imagery, as well as the girl’s name for young Humbert’s ill-fated affair with his half-English, half-Dutch Annabel in the fateful summer of 1923.” “In Poe’s poem Annabel finally succumbs to a fatal chill right there in their ‘kingdom by the sea’. Death also overtakes Humbert’s Annabel, but not until after they have parted, and not in the Riviera sun—not until 4 months later when she dies of typhus in Corfu.”
“Neither the angels in Heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.” E.A.P.
“Leaving Humbert’s own very selective literary and historical apologists to one side, we may, to use a Humbertian turn of phrase, ‘tom-peep’ into the lives of a few more proto-Lolitas. The sexual appetites of Charles Lutwidge Dodgson, who under the name of Lewis Carroll found lasting fame as the author of Alice’s Adventures in Wonderland, remain mired in ambiguity (the book was translated into Russian, incidentally, by a young Vladimir Nabokov, a daunting task for which he allegedly received the equivalent of $5).”
A verdadeira Alice Lidell, que não era loira, como muitos pensam.
“Dodgson died a bachelor in 1898, his reputation intact, perhaps because his fondness for young children was more commonplace than we might like to think and existed in an ambiguous Victorian moral climate where even honest attempts to protect children were based upon a very formal concept of sexual purity. In his book Child-Loving: The Erotic Child and Victorian Culture, James R. Kincaid went so far as to link our contemporary cultural preoccupations with pedophilia back to 19th-century ‘child protection’ reforms that took the form of compulsory schooling, age of consent laws, and the formation of anticruelty societies.”
“Early in the 20th century came one of Lolita’s almost forgotten progenitors. She was not famous at first and only attracted widespread attention in recent years—and then only because of the existence of her more famous successor. Heinz von Eschwege, a German author who wrote under the pen name of Heinz von Lichberg, invented his Lolita in 1916 in a short story of that name, which, in Carolyn Kunin’s English translation, runs to a little under 350 words. The coincidences beyond the title name are surprising, even though von Lichberg’s tale is very unlike Nabokov’s and his short but convoluted narrative resembles a set of those hollow Russian dolls that keep revealing ever smaller replicas of themselves stashed within. It begins with an account of a social gathering in Germany at which a professor tells the assembled company a story drawn from his own experience (or perhaps his reveries, he freely admits). This story is characterized by dreams and supernatural trans-generational coincidences. The German professor, traveling in Spain, is introduced to an Alicante innkeeper’s daughter called Lolita, who ‘by our northern standards . . . was terribly young. . . . Her body was boyishly slim and supple and her voice was full and dark. But there was something more than her beauty that attracted me—there was a strange mystery about her that troubled me often on those moonlit nights’. The couple have a sexual encounter and a brief affair and then part, but the story is really about the narrator’s strange nocturnal fantasies that began at home in southern Germany and, in the light of his subsequent meeting with Lolita, seem to have let him glimpse mysterious
events from the history of her family, the female line of which is apparently doomed to suffer madness and death shortly after giving birth. The story is essentially a curio, but its rediscovery naturally raised the question of whether or not Nabokov—who actually lived in the same Berlin district as von Eschwege in the mid-1930s—could have read it and been influenced by it, however subliminally.”
“Dmitri Nabokov claims any influence is unlikely since his father hardly read German at all at the time. Even so it is eerie to think that Dolores Haze, conceived in Mexico, might have had a spiritual ancestor with Hispanic connections, a woman famous for her reputation for tempting men and someone for whom pregnancy would mean inevitable death.
Hindsight is a fine thing, and it is sometimes possible to see patterns and connections where none exist. The question of what, if anything, Nabokov owed to von Eschwege caused a literary stir when the first Lolita was unearthed and subsequently discussed in Michael Marr’s book The Two Lolitas. Marr, however, concluded that ‘nothing of what we admire in Nabokov’s Lolita is already to be found in the tale; the former is in no way deducible from the latter’.
A more questionable although undeniably fascinating claim of inspiration came from Charlie Chaplin’s biographer Joyce Milton, who maintained in her biography Tramp: The Life of Charlie Chaplin that Chaplin’s 1924 marriage at the age of 35 to 16-year-old Lillita Grey was Nabokov’s real inspiration. The name ‘Lillita’ is certainly a temptation to rush to judgment (after one film appearance as Lillita McMurray, the young actress in question later variously appeared as Lita Grey and Lita Grey Chaplin).”
Curiosamente:
lilt (ENG) (subst. ou verbo) alto-astral, animado, eufórico.
“It is hard to see any real parallels between Humbert and Chaplin, apart from their shared ‘Europeanness’ and the latter’s well-known fondness for very young girls, a tendency that, like Charles Dodgson, he seemed to always find convenient to believe was essentially innocent and nonsexual.”
“Imagine this kind of thing: an old dog—but still in his prime, fiery, thirsting for happiness—gets to know a widow, and she has a daughter, still quite a little girl—you know what I mean—when nothing is formed yet, but already she has a way of walking that drives you out of your mind. A slip of a girl, very fair, pale, with blue under the eyes—and of course she doesn’t even look at the old goat. What to do? Well, not long thinking, he ups and marries the widow. Okay. They settle down the three of them. Here you can go on indefinitely—the temptation, the eternal torment, the itch, the mad hopes. And the upshot—a miscalculation. Time flies, he gets older, she blossoms out—and not a sausage. Just walks by and scorches you with a look of contempt. Eh? D’you feel here a kind of Dostoevskian tragedy?” Nabokov, Dar (The Gift)
“Almost immediately after the completion of Dar, in Paris in the autumn of 1939, Nabokov wrote his Russian novella Volshebnik (The Enchanter), which uses the first part of the above narrative premise. Unpublished, the story was assumed lost after Nabokov and his family relocated to the United States in 1940 (in point of fact the author mistakenly recalled destroying it). Unexpectedly, Volshebnik resurfaced among some papers in February 1959, and its author, more often than not a man impatient with his own failings as a young artist, found himself not entirely displeased by the rediscovered piece.
‘I have reread Volshebnik with considerably more pleasure than I experienced when recalling it as a dead scrap during my work on Lolita’, Nabokov wrote in a letter” “(It was not to appear until 1986, almost a decade after Vladimir Nabokov’s death, in a translation by his son, Dmitri.) The original Russian version was at last published in 1991, half a century after it was written. Unlike Lolita, Volshebnik is easily summarized: A middle-aged pedophile marries an ailing woman in order to be near her 12-year-old daughter. When the woman finally dies he takes the girl on a vacation, planning to establish a sexual relationship with her over time while dressing up this protracted seduction as a game of make-believe. In their hotel room, however, he is too impatient and fondles her once she goes to sleep. When she awakes and begins screaming, the man knows all is lost and runs panic-stricken from the hotel in suicidal search of ‘a torrent, a precipice, a railroad track’. A thundering, heavy vehicle obligingly supplies the deus ex machina and the story’s ending. Compared to the infinitely richer Lolita, Volshebnik seems a rather mechanical trifle and, although beautifully written and translated, does not make us care much about any of the participants in Nabokov’s miniature Dostoevskian tragedy. Only in the occasional fleeting detail does there seem to be any live connecting tissue to Lolita, as in the introduction of Volshebnik’s nameless nymphet (who incidentally shares Lolita’s pale gray eye color) in a park on roller skates. She is ‘leaning well-forward and rhythmically swinging her relaxed arms’”
“SAN JOSE, Calif., March 22—(AP)—A plump [rechonchuda] little girl of 13 told police today she accompanied a 52-year-old man on a 2-year tour of the country, in fear he would expose her as a shop-lifter.
The girl, Florence Sally Horner of Camden, N.J., was found here last night after she appealed to Eastern relatives ‘send the FBI for me, please?’
Her companion, Frank La Salle, an unemployed mechanic, was said by County Prosecutor Michael H. Cohen in Camden to be under indictment for her abduction.
Officers said the girl told them La Salle had forced her to submit to sexual relations.
The nice looking youngster, with light brown hair and blue-green eyes, attributed her troubles to a Club she joined in a Camden school. One of the requirements, she said, was that each member steal something from a 10-cent store.
She stole an article, she related, and La Salle happened to be watching her. She said he told her he was an FBI Agent; that ‘We have a place for girls like you.’
Sally said she went away with him, under his threat that unless she did, he would have her placed in a reform school.”Associated Press, 1950
“Nabokov uses an even more devious documentary device when he has Humbert refer to and relate another true-life crime of the day, that of G. Edward Grammar, a 35-year-old New York office manager arraigned for murdering his wife and trying to make her death look like a car accident.”
“A creative writer, Nabokov wrote in his own memoir, Strong Opinions, must study carefully the works of his rivals, including the Almighty.”
“Automobiles, it turned out, were clearly bad news in the short, sad life of Sally Horner, because less than 2 years after her liberation from Frank LaSalle’s mobile prison, she was killed in an unrelated road accident.”
“So Sally Horner’s case brought the 20th-century casebook history of real-life pedophilia up-to-date with the time frame of Lolita, even overtaking the action by a couple of years.”
“The world’s news media still intermittently highlight certain such cases. A 10-year-old Japanese girl, Fusako Sano, was kidnapped and held captive by Nobuyuki Sato for 9 years, from
1990 to 2000. Teenager Tanya Kach, of Pittsburgh, Pennsylvania, was confined against her will at the home of 37-year-old Thomas Hose from 1996 to 2006.”
“Natascha Kampusch, born in 1988 in Austria, grew up fatherless like Lolita even though her mother, Brigitta Sirny, did enjoy a fairly stable relationship with another man. When Natascha was 10 she was abducted while walking to school alone after an argument with her mother (shades of Charlotte Haze’s daily domestic battles with her daughter). Her abductor, Wolfgang Priklopil, imprisoned her in a small, secretly constructed room in his house for most of the 8 years of her confinement. Although she refused to discuss ‘personal or intimate details’ after she finally escaped in 2006, the tacit assumption is that Priklopil used her as a sex slave, and Kampusch did admit to a media advisor, although not in front of the TV cameras (hers was a very structured reintroduction to society), that Priklopil beat her badly from time to time. Perhaps of particular interest to those unimaginative souls who persist in seeing Lolita’s dull cooperation with Humbert’s exploitative regime as complicity pure and simple is the fact that Priklopil once took his prisoner on a skiing holiday in Vienna and would even take her shopping occasionally. The complexities of their enforced relationship are still not fully explained and may eventually yield some awkward truths, but in 2006 the case provided an eerie echo of both Sally and Lolita, neither of whom could ever have been guarded night and day, every day, but both of whom somehow lacked the spur or spirit to escape their captors until much later than they might have been expected to do. This phenomenon now has a name, courtesy of a 1973 bank siege at Norrmalmstorg, Stockholm, Sweden, in which the robbers held employees hostage from August 23 to August 28.”
“Natascha Kampusch’s wild escape through suburban gardens and streets, during which she completely failed to interest anyone she met in her plight, has itself a dark Nabokovian tinge of farce”
3. A VERY 1950s SCANDAL: Hurricane Lolita
“For a time, 20th-century America did have a written moral code, and although it was intended to control only the movies, it reflected much broader establishment concerns about the general threats posed by artists to society in general. It was the Motion Picture Production Code of 1930, better known as the Hays Code, named for ex-Republican politician and ex-postmaster general [president dos Correios] Will H. Hays, who was appointed the first president of the Motion Picture Producers and Distributors Association and therefore became the nominal father of the code. The Hays Code was bold enough to set down its guidelines and exclusion zones in full literal foolishness. Although it was in operation for only 30 years or so, the code neatly set out the establishment view of what was thought admissible to depict—at least on the screen—during the period leading up to and beyond the time of Lolita’s publication.”
“Though regarding motion pictures primarily as entertainment without any explicit purpose of teaching or propaganda, producers know that the motion picture within its own field of entertainment may be directly responsible for spiritual or moral progress, for higher types of social life, and for much correct thinking.” Mais lendária que a mula sem-cabeça essa mitologia hollywoodiana ianque!
“The sanctity of the institution of marriage and the home shall be upheld. Pictures shall not infer that low forms of sex relationship are the accepted or common thing.” Este é o mundo livre que venceria os comedores de criancinhas soviéticos!
“Sex perversion or any inference to it is forbidden”
“Miscegenation (sex relationships between the white and black races) is forbidden.”
“Children’s sex organs are never to be exposed.”
“His moral reign, however, happened at a time when image was deemed less important than it is now; one parenthetically wonders whether saturnine [sardônico] 50s TV personality Ed Sullivan would even get a job reading the local news in front of today’s cameras.”
“So Hays became the unlovely and unloved poster boy of a notorious code that was often booed when a summary of its principles appeared on the movie screen prior to the feature film—hardly the sign of a regulatory body in touch with the public.
The code was right about one thing, however: books, for whatever reason, were indeed somewhat ahead of movies in the frankness stakes, even if James Joyce’s Ulysses (1922) did run into censorship trouble in the United States during its prepublication serialization in The Little Review magazine. The finished novel was duly banned from U.S. publication until the 1930s, when Random House finally engineered the importation of a French edition with the full knowledge that it would be seized by customs. It was, and the ensuing trial—United States v. One Book Called Ulysses¹—resulted in U.S. District Judge John M. Woolsey ruling that the book was not pornographic and so could not be classed as obscene.”
¹ Essa forma de batizar julgamentos em que o réu ENFRENTA O ESTADO NOMINALMENTE sempre me soou como a coisa mais babaca do sistema judicial gringo. E, voilà, o irlandês deu um direto na fuça do Tio Sam!
“Scandalous writing of a less high-flown sort next tested the would-be book banners and came in the shape of Kathleen Winsor’s proto-bodice-ripper Forever Amber (1944), which immediately stimulated a popular appetite for erotic fiction. Her impressively researched book was set in Restoration England and concerned a female social climber with a pragmatic moral sense and an eye on bedding the king; it triggered several charges of pornography and calls for bans across America. The Massachusetts attorney general found in it 70 instances of sexual intercourse, 39 illegitimate pregnancies, 7 abortions, 10 descriptions of women undressing in front of men, and many ‘miscellaneous objectionable passages’, and so prosecuted.”
“the Massachusetts Supreme Court eventually concluded that Winsor’s historical research was thorough and resulted in an honest portrayal of the mores of the time and place in which the book was set.”
“In 1946, literary critic Edmund Wilson published his second book of fiction, Memoirs of Hecate County. Wilson was at the time a friend and supporter of Vladimir Nabokov, although eventually the two men of letters would fall out, partly over Wilson’s low opinion of Lolita. Published by Doubleday, Memoirs of Hecate County received good reviews and sold almost 60,000 copies before the Society for the Suppression of Vice [vice fuder!] brought suit against the publisher in July 1946, on the grounds of objecting to a number of frank but otherwise unexceptionable heterosexual sex scenes.”
“Will H. Hays, who died in 1954, might well have entered his grave already spinning after learning that according to Kinsey and his team at their Institute of Sexual Research, sexual orientation was a far more complex issue than The Adventures of Ozzie and Harriet¹might have Middle America believe.”
¹ “The Adventures of Ozzie and Harriet is an American television sitcom, which aired on ABC from October 3, 1952, to April 23, 1966, and starred the real-life Nelson family. After a long run on radio, the show was brought to television, where it continued its success, initially running simultaneously on radio and TV. It was the longest running live-action sitcom in television history until It’s Always Sunny in Philadelphia replaced it on May 26, 2020, when that series got renewed for a 15th season. The series starred the entertainment duo of Ozzie Nelson and his wife, singer Harriet Nelson, and their sons, David and Ricky. Don DeFore had a recurring role as the Nelsons’ neighbor ‘Thorny’.”
“Whatever the validity of Kinsey’s methods and statistics—and these were certainly controversial—the very fact that such taboos were being discussed openly seemed to cause as much outrage as the findings they unearthed. Surely America did not behave like this behind closed doors—and if it did, surely no one should ever talk about it so frankly.”
“With its lively litany of social injustice, murder, adultery, and abortion, Peyton Placewould remain on the New York Times’ best-seller list for over a year and seemed to mark an emphatic rejection of any hopes of art encouraging ‘correct thinking’. One episode in Metalious’ novel originally had a character named Selena Cross murder her father because he had been sexually abusing her for years. The real-life inspiration was 20-year-old Jane Glenn, a New Hampshire girl who, in 1947, confessed to the same crime—and to burying the corpse beneath a sheep pen with the help of her younger brother. Metalious’ editor changed Selena Cross’ victim to stepfather, feeling that murder was acceptable but incest was a vice too far. This assumption finds an echo in Humbert’s own moral prioritizing when he notes from his prison cell that, sitting in judgment on himself, he would dismiss the murder charge and give himself at least 30 years for rape.
Before the American public would be allowed to read these words and the rest of Lolita, Nabokov’s book would have to make its way through a maze of obstacles. When it had done so, it unleashed a scandal to overshadow all of its recent predecessors. Since it involved scholarly, retiring 59-old Vladimir Nabokov (a man whose substantial body of fiction contained no obscene words and bore eloquent testimony to his total indifference toward books with social or moral messages), it was somehow fitting that this chronicler of unexpected coincidences and unintended consequences should find himself at the center of an international uproar about morality, social responsibility, and obscenity. Nabokov had placed at the heart of his greatest novel something that Joyce had not touched upon and Hays had not even dared to articulate in order to forbid: pedophilia.
The journey toward scandal was slow and complex. Lolita’s first publishing house, the Paris-based Olympia Press, had been inherited by Maurice Girodias from his father, who had published Henry Miller’s Tropic of Cancer and Tropic of Capricornin the 1930s. Girodias junior, falling on hard times in 1953, resolved to make money by publishing, in English, every book he could acquire that had fallen foul of Anglo-American censorship. The censor’s thumbs down was his only criterion; good, bad, or indifferent, if it had been banned, Girodias wanted it. To be fair, Girodias had also published some respectable authors (including Lawrence Durrell, J.P. Donleavy, and Samuel Beckett) and at least one notable piece of erotica, L’histoire d’Oby Anne Desclos (who wrote such books either anonymously or pseudonymously as Pauline Réage while enjoying rather a good reputation under another literary pseudonym, Dominique Aury). Nabokov, however, knew little of Girodias and was guided by his French agent and friends in Paris. Since Girodias had until recently owned another imprint, a prestigious art book subsidiary called Éditions du Chêne, this further seemed to enhance his reputation as a serious publisher. So when he offered to publish Lolita, Nabokov (who had already had the novel rejected by Viking, dubbed ‘pure pornography’ by Simon & Schuster, and further rejected by 3 more American publishers) jumped at the chance.”
“The final 3 months of 1955 were stressful for the author, who, having just recovered from a serious bout of lumbago, was now having difficulty finding a publisher for his next novel, Pnin (or My Poor Pnin as it was titled at the time).”
“In December of the same year the French Ministère de l’Intérieur banned 25 English-language Olympia titles, Lolita among them.” Mal tinham sido salvos dos nazistas e já andavam tão ingratos!!
“The French press was immediately up in arms at what it saw as a betrayal of France’s traditional cultural freedom; it identified Nabokov’s book as the true cause of the blanket ban and, by January 57, had elevated the legal dispute into ‘l’affaire Lolita’.”
“France’s highly regarded publishing house Gallimard arranged to publish a French-language edition, which would be very well received—a particular fan was Raymond Queneau, a longtime Gallimard employee whose own linguistically playful novel Zazie dans le métro (1959) would transpose something of Lolita’s nymphet feistiness to another little girl, this time in a Parisian setting.”
“Lolita took off, selling 100,000 copies in 3 weeks. When Putnam’s took out an ad in the New York Times Book Review of August 21, there was no shortage of rave reviews to cite. Graham Greene, William Styron, and Lionel Trilling all praised it fulsomely, and even Dorothy Parker seemed to acknowledge that for once her tendency to deploy her vitriolic wit even when reviewing things she liked had no place here. ‘A fine book, a distinguished book—all right, then—a great book’, she wrote.”
“‘V. serenely indifferent’ was Véra Nabokov’s diary entry about her husband’s reaction to finally hitting the commercial jackpot after a lifetime of poorly paid literary toil.
Lolita was never prosecuted in the United States, a source of great satisfaction to Nabokov, who passionately loved his adopted homeland. Ironically, the many delays to publication had probably helped matters since the incremental efforts of many liberal-minded publishers had recently contributed to a more mature climate surrounding literary censorship.” “As soon as the Cincinnati Public Library banned it, Lolita immediately reached the top of the best-sellers list. When the Los Angeles Public Library was ‘exposed’ for circulating a copy, the only result was a boom in sales of the book in California. The Texas town of Lolita gravely debated whether it should change its name to Jackson, presumably in case it was mistaken for a little girl.” HAHAHAHAHA!!!
“Again America was absorbing something controversial into its popular culture instead of subjecting it to a witch hunt. Mainstream comedians all had a Lolita gag, the unspoken basis of the joke being that Lolita was a dirty book.” Imagina o DE NÓBREGA mandando essa!
“I’ve put off reading Lolita for 6 years, till she’s 18.”
Groucho Marx
“All this playfulness marked the beginning of Lolita Haze’s disparagement; the advance guard of what would prove to be a legion of faux Lolitas would soon start to emerge. Perhaps the very first was the ponytailed little girl who, incredibly, on Halloween came to the Nabokovs’ door looking for treats while dressed (by her parents!) as Lolita; the famous name was spelled out on a sign she bore and—even more sinister, since it betrayed a detailed knowledge of the book—she carried a tennis racket. Nabokov was quite shocked. If only he had known what lay in store for his nymphet.” Esses pais são o que eu chamaria de the original pranksters!
“Nabokov had sold the film rights of his book to James B. Harris and Stanley Kubrick, so now Lolita Haze and Humbert Humbert were about to make the fraught transition from what Hays had called ‘the cold page’ to embodiment by ‘apparently living people’. For a middle-aged actor to impersonate Humbert might be seen as no more than a risky professional challenge, but for a prepubescent girl to embody Lolita on-screen looked like a decidedly dangerous prospect.We may charitably assume that Nabokov’s otherwise absurd suggestion that a ‘dwarfess’ be hired to play Lolita was simply a comment designed to avert any charge of being implicated in the corrupting of a living, breathing child. He had no need to worry; others would take care of the corrupting. They had been doing it in Hollywood for years.”
4. LOLITA IN MOVIELAND 1: Little Victims and Little Princesses
“As with Dickens’s Little Nell, Little Emily, and Little Dorrit, that emotionally loaded word ‘little’ was to feature frequently in the promotional screen name of many a child actress (Little Mary Pickford and Little Blanche Sweet, for example), as well as in the titles of their films (The Little Princess,Little Annie Rooney,The Poor Little Rich Girl, and so on). Usually helming these enterprises and guiding their young stars’ careers were 40-something men about whose sexual inclinations we are entitled to wonder.”
“it was pointed out as long ago as 1920, in the movie magazine Photoplay, that the father of film D.W. Griffith seemed to have an ‘obsession with scenes in which women and girls are beaten or attacked’.” “As in the case of Alfred Hitchcock’s well-known obsessive tendency to put his ice-cool blonde heroines through the physical or emotional mill, it could be that Griffith’s fixation was nothing more than the public sublimation of dark fantasy. He is now best remembered for directing the sprawling epics Birth of a Nation (1915) and Intolerance (1916), but Griffith also has the distinction of giving the movies their first recognizable prototype nymphet. To be sure, his version was a composite model, most often portrayed by Lillian Gish¹ and later played by actresses like Carol Dempster, Colleen Moore, and Mae Marsh, but it had been Griffith’s idea to create the character in the first place. He was certainly not alone in his interests.”
¹ Algum parentesco com Annabeth Gish? De qualquer maneira, Lillian viveu 100 anos (!) e começou a carreira de atriz já maior de idade. Dedicou ¾ de sua longa vida às telas!
“In his Foolish Wives (1922), Stroheim’s character fakes love in order to try to seduce his maid, an ambassador’s wife, and a simpleminded 14-year-old girl (reenter the damaged little girl stereotype).”
“In Queen Kelly, Stroheim directed like a man who knew that this might be his last film, and at one point Gloria Swanson had to cable Joe Kennedy, begging him to come and stop the ‘madman’ who was blowing the budget. Needless to say, Kennedy’s financial investment in the movie did not pay off, although it did allow his 32-year-old mistress to play convent girl Kelly, a lead part for which she was clearly far too old.”
“Only one actress had miraculously spanned the entire life of the phenomenon, sustaining a little girl image that began under the guidance of D.W. Griffith in 1909 and served her well for the next 20 years. She was Gladys Marie Smith from Toronto, Canada, reinvented as Little Mary Pickford for the American movies, a highly durable nymphet who, professionally at least, would have laughed at Humbert’s age boundaries of 9 and 14.” “When her legions of loyal fans were asked by a movie magazine in 1925 whom Little Mary should play next, Alice in Wonderland and Heidi were among the top choices.” “Her protracted adult depiction of a childhood that she had never personally experienced now looks rather grotesque, and her performances come over as skillful but cloying [enjoativas] and arch [velhacas, com o perdão do trocadilho]. To her credit, Pickford did not think much of them herself (‘I can’t stand that sticky stuff’), and by the start of the 30s she knew it was all over. Her fans would simply not let her grow up. When she had the temerity to bob her hair in 1929 they had been outraged.”
“By the 30s Dickensian waifs [magricelas dickensianas seria a tradução mais próxima] were on their way out. Adults impersonating children were also passé, but children impersonating adults were becoming very popular indeed. In This Is the Life (1935), 9-year-old Jane Withers mimicked Marlene Dietrich’s knowing top-hat-and-tails routine from Blonde Venus with disturbing skill.”
“One scene in the movie Gold Diggersof 1933 features a midget, Billy Barty, disguised as a child of indeterminate sex, lasciviously raising a translucent curtain that has previously been displaying only the shapely silhouettes of scantily clad showgirls.”
“The camp charm of a movie like 42nd Street (1933) is still enjoyable today, but our indulgent smile fades when the young ‘Chubby’ Chaney passionately kisses a cardboard cutout of Greta Garbo stationed in a movie theater lobby in a 1931 Our Gang two-reeler.”
“It was Shirley Temple who set the standard, whether, at 5 years old, impersonating Marlene Dietrich (incredibly redubbed ‘Morelegs Sweettrick’) in Kid in Hollywood, a 1933 Baby Burlesk short, or matching top adult dancers step for step as she became a seasoned trouper of 8 years. Temple was not a nymphet, and neither were her contemporary child stars for that matter, but her precocity still posed an unsettling question about the sexual implications of the burlesque this particular baby was putting on. It was a matter that no one dared to raise in public until 1937.
Graham Greene’s infamous review of the 1937 Shirley Temple movie Wee Willie Winkiein the urbane but obscure British magazine Night and Day cast an intentional slur on a star Hollywood promoted as the embodiment of innocent cuteness. (…) He wrote that 9-year-old Temple displayed ‘a certain adroit coquetry which appealed to middle-aged men’.”
“A swift libel suit by Twentieth Century Fox was successful and subsequently bankrupted the magazine, although it did little lasting harm to Greene, who swiftly decamped to Mexico, wrote The Power and the Glory, and, nearly 20 years later, became the first literary champion of a sensational American novel featuring a middle-aged man with a fatal taste for nymphets.
Greene’s trenchant observations about Temple’s sexualization were well founded but perhaps poorly targeted. Wee Willie Winkie was, after all, only one in a flood of similar films that adhered to a familiar convention, and it was perhaps selected for Greene’s critical attention simply because it was directed by John Ford, already regarded as a serious director. On the other hand, Greene already seemed familiar with Temple in Captain January, which boasted a less exalted directorial hand.
The child-star movies of the 30s can be partially excused because they were part of a general climate in which the sexual tensions between middle-aged men and much younger women or girls were broadly accepted as moral-free dramatic conventions of the time.”
“The Major and the Minor (1942) was something of a wild card for the period, revisiting the silent cinema’s adult-imitating-a-child convention but this time seen through the caustic eye of Billy Wilder. Wilder was an Austrian expatriate who in many ways shared Stroheim’s dark perspective but usually managed to channel it into very funny if sometimes cruel satire. The Major and the Minor revolves around mid-western innocent Susan Applegate (Ginger Rogers), who needs to get home to Iowa from New York but cannot afford the train fare. Disguising herself as a 12-year-old in order to travel half price, she becomes involved with a short-sighted military man (Ray Milland) who finds himself strangely drawn to her. She feels the same, and the playing out of this apparently illicit romance lets Wilder have it both ways. The movie remains a very funny, out-of-time curio.
Otherwise, by the 1940s, the child-star syndrome had itself started to give way to a new type—adolescent girls who were sweet but not provocative, resourceful but not rebellious.” “Temple was the first to discover her babyish talent might not be automatically parlayed into puberty and beyond. She never really made it past 12 and was finished by the time she was a teenager. Elizabeth Taylor, Judy Garland, and Deanna Durbin personified the older girl-child stereotype, more demure but certainly not without an appeal to middle-aged men” “Garland, meanwhile, brought a no-nonsense, clean-pinafore [vestido feminino] charm to many films spanning the 30s and 40s. She might have been the least sexy of that particular trio, but it was 14-year-old Garland upon whom MGM decided to bestow a crush for their 35-old leading man Clark Gable.” “Garland’s blossoming figure was strapped down and she was given diet pills, so starting her out on a lifetime of drug dependency that would end in despair and death at 47. Durbin tried to make the transition to adult actress without success, despite her considerable beauty, and her career did not last beyond the 1940s; she went on to enjoy a long life away from Hollywood. Only Taylor made the breakthrough to an adult career, leaving behind a veritable menagerie of costars—dogs, horses, cats—as well as those men of a certain age. She had always looked older than her years, and her beauty when young was legendary.”
“With the sweeter adolescent girls taking over in the mainstream family entertainment movies, it was left to these shadowy crime movies to give house room to the occasional Lolita of the day, and those characters were usually one-offs—kid sisters or daughters whom circumstance and their own sex drive put on the horns of a moral dilemma that was usually not the main concern of the movie.”
“Errol Leslie Thomson Flynn started life in Hobart, Tasmania, and was something of an adventurer before he arrived in Hollywood by way of the provincial British stage in 1935. The 1940s proved to be Errol Flynn’s golden decade, and he appeared in a series of swashbuckling period movies that included The Adventures of Robin Hood and The Adventures of Don Juan while living the life of the Hollywood playboy to the hilt. Good-looking and with a rakish good humor, he enjoyed enormous success—indeed, it would be hard to find anyone who enjoyed it more. His taste for underage girls was well known around town and eventually well known in the world’s tabloids. Two teenagers, Peggy Satterlee and Betty Hansen, accused him of statutory rape in 1942, but Flynn was eventually acquitted after a 21-day trial. Wives came and went, but Flynn’s taste for young girls would continue unchallenged until the end of the 1940s, when he was again involved in a statutory rape case, this time of a 15-year-old girl. Again he was acquitted. Flynn never sought to disguise his tastes, and one of the things that had counted against him in the 42 rape case had been Peggy Satterlee’s evidence that he called her ‘J.B.’ (‘jail bait’) and ‘S.Q.Q.’ (‘San Quentin quail’)—proof, it was submitted, that he knew she was a juvenile. That time he got off because his accusers were eventually shown to be less than inexperienced before they met Flynn, further evidence that men could expect to get away with more than women in such matters.
It seemed the movies’ preoccupation with children and light family comedies was beginning to wane at the end of the 40s. It may have been due to nothing more than overexposure, or it may have been that the sobering experience of World War II—even if that experience was only tasted by some through the movie theater newsreels—had encouraged a taste for grittier fare than recycled Victorian dimples and ringlets.”
“Then again, it may have been nothing more than that the postwar baby boom starting to populate America’s homes with large numbers of real children made movies starring unreal children seem suddenly less appealing.”
“Marooned in a fairytale world of studio-funded special tutors and voice coaches, and rubbing shoulders with some of the biggest stars of the day, Gloria Jean gave her all to a style of sweet adolescent musical film fantasy that was in terminal decline but the production of which still represented the only reality she had ever known. She might have gotten a reality check from the star of the one bracing film she did appear in—Never Give a Sucker an Even Break (1941), where she played the niece of morose child hater W.C. Fields—but Gloria Jean had started too late, and when the end came it came abruptly. She moved into television and then into obscurity. Soon she was earning a living as a receptionist. The sweet-voiced little movie princesses had not made it into the next decade, and Gloria Jean had been the last one to leave, and it fell to her to turn out the light.”
5. LOLITA IN MOVIELAND 2: “Pedophilia is a hard sell”
“From John Huston’s The Asphalt Jungle it looked as if Monroe might progress toward a serious, if limited, acting career. Instead, about half of the 22 films she appeared in during the 50s helped to define her as the ultimate Hollywood sex goddess and one whose erotic charge was indivisible from what would become one of the decade’s chief preoccupations: childish feminine innocence wrapped up in an adult body.”
“As Clive James once noted, European movie sirens like Greta Garbo and Sophia Loren might look as if they were unashamedly thinking about sex, but ‘Monroe looked as if sex was something that might easily happen to her while she was thinking about something else’.”
“Ginger Rogers is terrific at metamorphosing into a kid, but a childish Monroe does not behave all that differently from the adult model that she was already refining in 1952 and that would soon become iconic.”
“Monroe had the 50s version of the damaged little Victorian girl syndrome and projected it with an impersonation of mental vacuity, physical vulnerability, and a constant need for a father figure to look after her. Because hers was an image based on reality, Monroe was the one who caught the public’s imagination; in real life she was a little brighter than she pretended to be on-screen and she could throw off the perilously high heels when she got home, but the deep-seated need for a daddy was genuine and would be evidenced by the men she sought and occasionally married.”
“Judy Holliday, who was to die young, reprised variants of Billie Dawn in a handful of less satisfactory films, but her signature performance as a not-so-dumb blonde still stands as a classic example of how to make a cliché live and breathe.”
“A few movies tentatively tried to absorb rock ‘n’ roll, but apart from the diverting The Girl Can’t Help It (1956) they were almost without exception embarrassing demonstrations that mainstream movies and rebellious rock were worlds apart.”
“The film’s notoriety (emblemized by an iconic still showing Baby Doll (Carroll Baker)wearing the short nightgown that would henceforth carry her name, sucking her thumb, and sleeping on a child’s crib with the slats down) was enough to prompt fainthearted Warner Bros. into withdrawing the film from national release during its pre-Christmas 1956 run. Half a century after the furor it caused, Baby Doll looks better than ever, an edgy mix of comedy and drama, adult sexual promise and adolescent teasing, shadows and sunlight, tragedy and farce, all presented in ravishing black-and-white cinematography.” “In an interesting footnote, when Pennsylvanian Carroll Baker made the trip to Mississippi to star in the film, she found that ‘baby doll’ was a universal form of address for young women there, a sobriquet that seemed to combine the familiar ‘baby’ with a built-in reminder of women’s essentially passive, not to say submissive, role.”
“One can only wonder where the Catholic Legion of Decency and all the other right-wing moral guardians were when, in CinemaScope and with a G rating, Maurice Chevalier, a musical Humbert if ever there was one, celebrated the unripe appeal of Caron’s pubescent whore-in-training with his lasciviously delivered song Thank Heaven for Little Girls.”
“The Bad Seedmarks a groundbreaking Hollywood depiction of the darker side of a female child who uses her stereotypically cute looks and presumed innocence to deceive. Shirley Temple, after all, would never have played a pint-sized ax murderer.”
“Made in the same year as the first movie version of Lolita, the original film version of Cape Fear, directed by J. Lee Thompson, featured Robert Mitchum as Max Cady, a vindictive ex-prisoner intent upon exacting revenge from the lawyer who helped to put him away for attacking a woman 8 and a half years before. It contained particularly graphic scenes of Cady attacking both his enemy’s wife and young daughter. (…) Thompson was a lifelong opponent of censorship and battled spiritedly with the American censor who sought to reduce the general violence and tone down Cady’s obvious intention to rape the lawyer’s teenage daughter. Thompson had originally wanted 16-year-old Hayley Mills to play the daughter (‘because she was a very sexual girl’), but ironically enough the very sexual girl was under contract to Disney. Thompson wound up with the rather more anodyne Lori Martin instead. Although far less forthright than Martin Scorsese’s 1991 versionof the story (where the daughter actually appears to be aroused by stalker Cady and at one point shares an open-mouth kiss with him), Thompson’s film, aided by a superb Bernard Herrmann score, manages to suggest extreme menace where it cannot be explicit.” “At one point Cady snatches up an egg from a counter and violently crushes it in his fist, spraying yolk and white on his victim’s chest and shoulders and then smearing the mess with the palm of his hand. Not for the first time a determined director discovered that when the censor obliged oblique methods instead of obvious ones, the result could be just as disturbing.”
“Everybody would be troubled by the one biggest—and certainly the longest-running—sex-with-a-minor Hollywood story to dominate the headlines since the passing of Errol Flynn. Started in 1977, it centered on film director Roman Polanski, and its reverberations still continue to be felt over 30 years later.” “In a piece of fatal bad timing, the family returned to Poland just before the Nazis invaded; his mother was to die in Auschwitz, his father barely survived another concentration camp, and the young Roman only just escaped the Jewish ghetto. With such a traumatic start to his life, the various tragedies that he was to encounter later are put into a salutary perspective. Even so, when, in 1969, his pregnant wife Sharon Tate was murdered in the most grotesque and sensational circumstances at their house in the Hollywood Hills, Polanski—who had been absent at the time—was totally devastated and entered a phase that saw him shuttling between the United States and Europe until, in 77, he met the 13-year-old Samantha Geimer.”
“Perhaps the most revealing of Polanski’s Freudian movies is, however, one of the least known. Variously titled What? and (in a censored U.S. version) Diary of Forbidden Dreams, this 1972 film is nothing less than a loose erotic reworking of Alice’s Adventures in Wonderland, in which young American tourist Nancy (Sydne Rome) has some very strange adventures of her own in an Italian coastal town. A disjointed film even before the censor got at it, What? transforms Alice’s rabbit hole into a strange villa peopled with nightmarish inhabitants, one of whom is a retired pimp played by Marcello Mastroianni. A scene in which he interrogates Nancy with all the logic of the Black Queen and then shackles her wrists to her ankles and whips her with a switch is the main reason this film never received a mainstream theatrical release and is still little seen; the handling of the scene is kinky and jokey, and its presence offers further evidence that Polanski’s sexual ideal was a young girl upon whom male dominance could be played out in ritualistic sex games.”Desculpem-me os criminologistas adiantados ou psicanalistas (esses sempre adiantados e sempre equivocados), mas não creio que se possa determinar condição psiquiátrica de perversão sádica e pedofílica via criações artísticas! Estamos em 2008 (data do livro) e isso deveria estar mais claro… Não há relação de causa-efeito entre Polanski diretor e Polanski estuprador, nem “raio X” da vida privada em seus filmes. Antes, como bem antecipou Vickers, o assassinato de sua primeira esposa, sim, foi macabro como uma ficção de mau gosto, esse o paralelo mais visível entre sétima arte e vida real.
“Even Polanski’s late-blooming film noir masterpiece, Chinatown (1974), turns on the childhood sexual trauma of Faye Dunaway’s character, Evelyn Mulwray.” Um dos 10 maiores filmes da História. Ainda sobre o “reflexo da vida pessoal nas criações cinematográficas”, tem aquela piada sobre um matemático que lê um romance vanguardista e pergunta ao final: “Mas o que é que isso prova?”.
“Once raped by her father (John Huston), she continues to protect the identity of a mysterious young girl called Katherine until, in response to a series of face slaps from Jack Nicholson’s exasperated private eye, she finally answers alternately, ‘My sister. My daughter. My sister. My daughter . . . she’s my sister and my daughter’.” Uma das cenas mais impactantes do cinema.
“The implication of the film’s somber ending is that he now wants to gain control of Katherine, his daughter/granddaughter, in order to repeat the abuse” Desculpem o spoiler, mas ainda assim não perderão nada do senso trágico ao assistirem!
“Polanski’s version was that Geimer’s mother had effectively entrapped him with a view to blackmail. Fearing that the plea bargain would not be honored, Polanski left the United States before trial, never to return. He is a French citizen, and France has no extradition agreement with the United States. He remains a European director who has never since set foot in the United States or any country that has extradition agreements with the United States.” Um ano depois deste livro, Polanski foi preso na Suíça, porém foi solto em cerca de 2 semanas diante de pendência documental e irregularidades por parte da justiça americana (source: Wikipédia!).
“Preteen prostitution featured in Martin Scorsese’s Taxi Driver (1976), with Jodie Foster causing a minor stir with her portrayal of 12-year-old whore Iris Steensma.”
“Also in 1976, heavily disguised as a Hitchcockian thriller, came the ultimate daddy’s little girl movie, Brian de Palma’s Obsession. Paul Schrader’s tour de force script has a successful New Orleans businessman lose his wife and young daughter in a kidnapping when he refuses to pay the ransom and a police rescue attempt goes fatally wrong. Ten years later, he meets a girl in Italy who looks exactly like his dead wife. He becomes obsessed with her, they have an affair, and he makes plans to take her back to New Orleans and marry her. Eventually the whole Italian episode is revealed to be an elaborate revenge plan: the born-again wife is actually the daughter who, unknown to everyone, survived the kidnapping and is now intent on exacting revenge from her neglectful daddy. In a Freudian nightmare of a scene, the daughter/lover, played by Geneviève Bujold, is shown toggling between her two roles (high camera angle/low camera angle, little girl’s voice/woman’s voice) during the course of a single breathless walk along an airport corridor. In Schrader’s original script incest took place, but by the time the film was shot and edited, de Palma decided to fudge the issue.”
“In 1978, Louis Malle directed Pretty Baby, an ambivalent soft-focus movie in which 13-year-old Brooke Shields went topless as child prostitute Violet in early 20th-century New Orleans. (…) It seems safe to assume that such a movie might not be made today. The photographer, Ernest J. Bellocq (played by Keith Carradine), evokes shades of Charles L. Dodgson and his photographic studies of little girls previously discussed.”
“In the late 70s, Woody Allen was in the middle of one of his most productive periods of moviemaking. Critics sometimes argued that he kept making the same movie over and over again, a variable celebration of loves found and loves lost from the same neurotic New York perspective of an intellectual with doubts about everything, especially mothers, psychoanalysis, and Judaism. Even for the most skeptical critics however, Manhattan (1979) represented one of Allen’s most satisfying variants on the theme. With its sumptuous black-and-white photography, Allen’s love affair with New York City featured the usual character list of literati and well-heeled academics but this time introduced a new element, a 17-year-old girlfriend for Allen’s mid-40s character. This age discrepancy is a central concern of the movie, never better highlighted than in the scene where Allen, Diane Keaton, and Michael Murphy are walking down the street having a very pretentious discussion about art while the 17-year-old girlfriend, Tracy (Mariel Hemingway), tags along. ‘What do you do, Tracy?’ asks Keaton’s character suddenly, in the middle of talking about the latest profile she has been commissioned to write for an arts magazine.
‘I go to high school’, Tracy replies innocently.
Suppressing a smile, Keaton turns aside to Murphy and says in a barely audible undertone, ‘Somewhere Nabokov is smiling, if you know what I mean’.
No one was smiling when, 13 years later, Allen’s relationship with his girlfriend’s adopted daughter was revealed. Now the age difference was 35 years, and the good-natured, liberal Manhattan was suddenly looked at in a new light by a moralizing press and public. It remains, however, one of the few examples of an American movie—a comedy to boot—that takes an adult, bittersweet approach to such relationships.”
“Adrian Lyne’s 1997 attempt to cinematize Lolita is discussed in detail later, but in the present context it is worth noting that the thoughtful adaptation written by Stephen Schiff was greeted by a reactionary response that shrieked disapproval long before the film was completed or, in some cases, even begun. It was symptomatic of a new unwillingness to address stories focusing on pedophilia that would persist into the next millennium. The news media’s increasingly emotive and sensationalist treatment of child abuse cases in the 90s had helped to create a popular mood of national outrage at not only any actual instances of pedophilia but also at any film, TV program, play, or book that dared to explore the topic. (…) The resulting film ‘censorship’ was less a case of official proscription, more an informal outcome of a mixture of moral cowardice and commercial timidity shown by movie producers and studio executives who feared that acknowledging child abuse in a movie would automatically result in catastrophic box office returns.”
“A vengeful Lolita for the 21st century. In Hard Candy (Menina Má.com, 2005), Ellen Page plays Hayley Stark (a.k.a. thonggrrrl14) who has no intention of becoming the 14-year-old victim of the 32-year-old man who believes he is grooming her on the Internet.” Curiosamente, Ellen virou Elliot– teria algum fundo traumático em sua decisão? Foi Kitty Pride na trilogia X-Menagora clássica. W.: “Page publicly came out as a gay woman in February 2014 and subsequently as transgender in December 2020. In March 2021, Page became the first openly trans man to appear on the cover of Time magazine.”
“The twist comes early, when Hayley encourages Jeff to take her back to his isolated bachelor pad where it is she who spikes his drink and then takes him prisoner before subjecting him to a regime of physical and psychological torture based on her conviction that he is a pedophile and a murderer.” “Canadian actress Ellen Page’s stunning metamorphosis from breathless young teen to self-assured psychopath in the space of a couple of hours surely draws a definitive line under those early movies in which youngsters were admired for successfully aping the manners and mannerisms of adults.”
“‘You used all the same phrases to talk about Goldfrapp as they use in the reviews on amazon.com’ Here is a pleasing inversion of Humbert’s aloof tendency to use arcane Eurocentric cultural references, a private lexical amusement arcade that is largely meaningless to Lolita but that identifies Humbert as a man of the world, in every sense.” “Hard Candy’s inspiration apparently came from Japanese news reports of girls ambushing men seeking underage dates on the Internet. Their tactic and Hard Candy’s reductio ad absurdum of it looks, in the end, less like female empowerment and more like the sort of warfare that brings both parties down into the mud, so rendering them indistinguishable from one another.”
“When Dolores Haze sentenced Humbert to death she did it not with a noose but by accident, through her complete indifference to his late-blooming love and by divulging Quilty’s identity. The melancholic scene where she waves homicidal Dad goodbye one last time from the step of her sad Coalmont home can have only one outcome. Yet Lolita was only ever carelessly, thoughtlessly unkind, whereas thonggrrrl14 (and that snarling spelling, if nothing else in Hard Candy, would surely have been enjoyed by wordsmith Nabokov) is a self-appointed vigilante with a solemn cause, exactly the kind of political character Lolita’s creator famously abhorred.”
6. ON THE ROAD: Lolita’s Moving Prison
“Crucial to any understanding of Nabokov’s nymphet is one of the most exuberant parts of Nabokov’s novel: the year-long road trip. This 11,500 word-section comes at the middle of the book and marks the point of no return for Humbert. It also contains some of the novel’s most revealing details about Lolita herself, details that frequently emerge not in the course of one of Humbert’s typically solipsistic character assessments but very much in the margins of their 27,000 miles journey. [mais que a volta ao mundo!]”
“On the move, Lolita will not be able to make regular friends (in whom she might confide and thus betray him), and there will be no schools, psychologists, or social workers. Instead there will just be a year in limbo, disguised as a vacation for a child who has recently lost her mother in tragic circumstances.”
“It is perhaps tempting to think of this tour—in however debased a form—as being in the general spirit of the Great American Road Trip, that iconic celebration of freedom, optimism, and exploration expressed by driving across a geographically varied nation.” Com efeito, um dos maiores mitos ou lendas urbanas do conto de fadas americano.
“As Lolita’s self-appointed jailer, Humbert is in his own way as much a prisoner of their odyssey as she is.”
“Henry Miller’s dyspeptic tour of 40s America, The Air-Conditioned Nightmare, amounts to little more than a litany of complaints about capitalism, mass media, rapacious industry, easy credit, misinformation, and what Miller called ‘the divorce between man and nature’.”
“Humbert and Lolita’s tragedies are personal ones, not symbolic ones. Nabokov loved America and was distressed by those critics who saw malice or contempt in Humbert’s ironic observations about their ‘lovely, trustful, dreamy, enormous country’. Taylor Caldwell, for instance, praised Lolita but saw it as aiming its destructive fire at the ‘puerile materialistic and sickening fun of the perpetually adolescent American people’.
If Lolita’s road trip has any spiritual cousins, they can be found neither in the political invective of Miller’s prose nor in the morose beauty of Frank’s intentionally bleak photographs but rather in the canon of film noir, where it was almost always personal tragedies that provided the impetus.”
“The widescreen color landscapes that would characterize the next generation of Hollywood road-movie fugitives—Butch Cassidy and the Sundance Kid, Bonnie and Clyde, or Thelma and Louise—were something different again.”
“Jack Kerouac’s novel On the Road was put together and published at approximately the same time as Nabokov’s Lolita. Both books were begun in 1950. Nabokov’s was completed by the start of 1954 while Kerouac’s would not be ready for press until 1957. Stylistically worlds apart, both novels ended up hitting the headlines in the United States at about the same time.”
“Kerouac’s famous book conflated and lightly fictionalized the 1946-50 real-life road trips undertaken by the author and his inspirational buddy Neal Cassady. (By revealing coincidence, Cassady’s interest in an underage girl was one of the things that Kerouac’s circumspect Viking Press editor Malcolm Cowley chose to excise from the manuscript.) Recasting Kerouac as Sal Paradise and Cassady as Dean Moriarty, On the Road expressed in loose, spontaneous prose all the excitement and adventure inherent in breaking the taboos of the day through a series of wild automobile trips dedicated to unrestrained indulgence in sex, drugs, and experimental spirituality. Lolita, by contrast, featured not only elegantly structured prose (the kind Kerouac and Cassady considered sterile) but also a more strategically considered itinerary, one that was designed to divert and restrain a child while camouflaging the sort of taboo breaking that even On the Road’s editor balked at seeing in print.”
“the motel cabins change, but the car always stays the same. Long after Lolita has left Humbert, it is in the recesses of the car that painful souvenirs will turn up unbidden: a 3-year-old bobby pin discovered in the depths of the glove compartment after he has found and lost Lolita for the last time filled Humbert with particularly acute pain.”
“With no new vehicles to buy it was quite usual for 40s cars to put in uncommonly long service with one owner, gradually becoming familiar, battered, and even anthropomorphized extensions of their occupants.”
“Despite Humbert’s bored lack of interest in the American popular music of the day, we learn, by inference, that Lolita favors Jo Stafford, Tony Bennett, Sammy Kaye, Peggy Lee, Guy Mitchell, and Patti Page. This mix does not sit particularly well with Humbert’s assertion that she likes ‘hot, sweet jazz’—these were, after all, mainstream pop musicians, several of whom had hits with smooth metropolitan versions of country songs. Although his loose grasp of genres is quite plausible, Humbert’s boredom with popular music is frustrating; it would somehow have been nice to learn that Lolita sings along to, say, Patti Page’s Confess, and surely even Humbert himself might have found amusing traces of Little Carmen in Peggy Lee’s cheerfully racist ditty Mañana (Is Soon Enough for Me), another jukebox favorite of 1948. We are also told that Lo likes square dancing (no hot, sweet jazz there either), although it is far from clear how Humbert’s strict isolationist regime would allow her to participate in what at the time was essentially a couples community event usually organized by local dance clubs. Perhaps she simply admires square dancing as a spectator.”
“Nothing will dispel Humbert’s fear that he will be found out. Even his enduring confidence in the anonymous privacy of the motel cabin proves misplaced when one night he discovers that their sexual activities must be clearly audible in the neighboring room from which there comes, too late, a clearly audible cough. Yet despite such reminders of the danger he courts, Humbert persists with their aimless tour as the seasons change and Lolita grows slowly more indifferent and then hostile toward him.”
“Nabokov similarly listened to schoolgirl conversations on buses, pouncing on what, even to a man with his prodigious linguistic skills, must sometimes have sounded like a wildly exotic patois.”
“As their Great American Road Trip draws to a close, Lolita is 13 years old, 8 pounds heavier, 2 inches taller, sexually active, reluctantly accomplished at trading physical favors for treats, and well established in the habit of crying herself to sleep on a nightly basis.”
7. TAKE ONE: “How did they ever make a film of Lolita?”
“The 1962 film of Lolita was to give the world its first physical incarnation of Dolores Haze. There were some 800 applicants for the job, and sifting through them took producer James B. Harris and director Stanley Kubrick so long as to threaten to delay the start of shooting. Meanwhile, Vladimir Nabokov was vacillating about becoming involved in the reimagining of his own novel for the screen. Director Kubrick and producer Harris had bought the rights to the book from Nabokov for $150,000 (plus a share of the profits) in 1958, and their first attempt to get the author to write a screenplay had come in July 1959; it amounted to nothing. Although tempted, Nabokov turned them down after a discouraging meeting in Beverly Hills during which Kubrick’s concern about censorship—a concern that was in the end to handicap the film considerably—prompted his suggestion that the screenplay might somehow imply at the end of the story that Humbert and Lolita had been secretly married all along. It was an absurd and unworthy idea, but the author’s initial rejection of the screenwriting job stemmed not just from fears of this sort of compromise but from misgivings about his own role. A novelist, not a scenarist, Nabokov was the first to admit that he had comparatively little aptitude for writing for what he called the ‘talking’ screen.
‘I am no dramatist’, Nabokov conceded in the introduction to his eventually published screenplay, going on to say that if he were he would be a tyrant who demanded control of every single detail of the production, from costumes to sets.”
“Despite declining the initial offer, in late 1959 the chronically insomniac author had subsequently been amused to find himself idly cinematizing certain scenes from his novel in ‘a small nocturnal illumination’. When, early in 60, a renewed and improved offer with the promise of a freer hand came from Harris and Kubrick, he accepted. His fee was to be US$40,000 plus an additional US$35,000 if he received sole credit for the script.
On March 1, 1960, Nabokov met with Kubrick at Universal City to map out some scenes in ‘an amiable battle of suggestion and counter-suggestion’. Then on March 9, both men met the frontrunner for the all-important role of Lolita. She came in the shape of 17-year-old actress Tuesday Weld. Nabokov called her ‘a graceful ingénue but not my idea of Lolita’. For once the novelist with a reputation for selecting the exact word to convey his precise shade of meaning had seemingly made a bad choice. Whatever else she was, Susan Ker Weld, initially nicknamed Tu-Tu, and later Tuesday, was not ingenuous. She was born in New York in 1943 and her father died when she was 3. Although the fascinatingly named Lothrop Motley Weld had come from a wealthy Boston family, his widow and 3 children were left with very little money after his death. Susan started working as a child model at an early age and soon became the family’s sole breadwinner. At 9 she suffered (she later claimed) a nervous breakdown, at 10 she began smoking and drinking, at 11 she started to have sex, at 12 she acted on TV, and at 13 she appeared in a small part in Hitchcock’s movie The Wrong Man. She then attempted suicide after embarking on a series of disastrous affairs with a series of much older men, including 44-year-old Frank Sinatra; she was 14 at the time of that relationship. Here—or so the cynic might think—was the perfect proto-Lolita, at 17 already so sexually experienced that she might safely be considered immune to any further corruption if she impersonated Nabokov’s nymphet. It turned out Weld herself felt much the same way but came to a different conclusion. ‘I didn’t have to play Lolita’, she claimed. ‘I was Lolita.’ So she turned Kubrick down, announced a move away from teen roles altogether, and went to study at the Actors Studio. She went on to have sexual liaisons with Elvis Presley, Albert Finney, Terence Stamp, George Hamilton, Gary Lockwood, and a number of other male actors considerably older than herself. Her movie career eventually turned out to be uneven and largely disappointing, even though she did earn some credit for appearing in a number of offbeat or risky movies. Among these were George Axelrod’s bracing satire of teen culture Lord Love a Duck (1966) and Noel Black’s chillingly effective Pretty Poison (1968), a kind of contemporary variant of Bonnie and Clyde in which Anthony Perkins’s lethal sociopath proves no match for Weld’s deceptively innocent-looking all-American high schooler. Eventually her career disintegrated, and despite a 1984 appearance in Serge Leone’s Once Upon a Time in America, Tuesday Weld is most usually remembered as a feisty, gap-toothed, 1960s teen sex kitten, a living precursor of the popular Lolita stereotype. But what if she had played Lolita, one wonders? Would her own wild young life have fused with Lolita’s fictional one to inject some authentic whiff of sex and experience into the role? Or would things have turned out much the same as they eventually did in Kubrick’s film? We cannot know, but it seems a pity that this always-interesting actress was not the first to flesh out Lolita for the screen. She might have been good.”
Tuesday Weld
“By September 25, 1960, the question of casting had been settled without any further consultation with Nabokov. On that date, at Kubrick’s Beverly Hills house, the director showed the author some photographs of Sue Lyon (‘a demure nymphet of 14 or so’ was Nabokov’s neutral verdict) whom, Kubrick assured him, could easily be made to look younger and grubbier for the part.” “After Kubrick cast her, Lyon issued a conventional kind of Hollywood press release with a few innocuous details about herself: she was ‘just an ordinary, typical sort of grown-up American girl’, she claimed, and playing Lolita, she felt certain, would not change her. As things turned out, it was an optimistic prediction. At 14, Sue Lyon had a pretty face and a shapely figure that combined to give her an intermittently adult look, albeit one so bland that Kubrick had felt the need to reassure Nabokov that this blonde teenager could somehow be dirtied up to resemble his tomboyish, chestnut-haired little girl. She never was, and in most scenes of the film she would look closer to 21 than 12.”
“When exactly is Kubrick’s Lolita set? The 40s of the novel? Apparently not. The 50s? The early 60s? In terms of sexual behavior (and quite a lot of other things) these were very different decades, so it is extremely strange not to have the period clearly identified from the start. Kubrick’s film looks strangely adrift in both time and space. While the novel was happy to ‘fictionalize’ place-names as part of its conceit about protecting the innocent, the locales Nabokov created were all diligently observed, and in terms of geography and dates, the book is extremely precise and specific. Those scholars who have taken the trouble to deconstruct Humbert’s many schedules and itineraries have found the novel’s internal topography and calendar to be carefully planned”
“In the course of the film it slowly emerges that Kubrick seems to have set the action about 10 years later than the novel—although deducing even this much requires some distracting detective work on the part of the audience.”
“Lolita was shot in and around Elstree Studios a few miles north of London.” “This results in the complete absence of any authentic sense of place. In another pragmatic ploy, Kubrick cast an informal repertory of expatriate Canadian supporting actors (Cec Linder, Lois Maxwell, Jerry Stovin, Shirley Douglas, Isabelle Lucas) and so introduced accents that, while not those of old England, hardly suggested New England either. Of course, such practices were not uncommon in low-budget movies of the time, but they were more likely to be seen in modest British supporting features than a high-profile MGM production.”
“The embossed legend on the cover of Humbert’s pivotal diary clearly reads ‘This Year’ instead of an actual year (1947, we are specifically told in the novel). Lolita’s begging letter to Humbert is dated with the month and day, yet it too omits the year. Again, this looks like an intentional ploy to be vague. No authentic contemporary popular music is featured at any point in the film, despite Lolita’s jukebox mania that Nabokov so lovingly addressed in the book—all that research into the names of late 40s pop singers. All we get is a rather syrupy Nelson Riddle score, a vapid song, specially written and best forgotten (There’s No You), and an insistent instrumental theme tune that rings out randomly from a radio, a band at the prom, and other places—music in a vacuum to match the ersatz locations. Inevitably, though, there are one or two period clues. Lolita plays with a hula hoop on the Ramsdale lawn (the hula hoop craze dates from 1957) and joins Charlotte and Humbert at a drive-in to watch the Hammer movie The Curse of Frankenstein, also 1957 vintage. [primeiro filme de horror a cores – mas obviamente preto e branco nos frames de Lolita…]”
“The film opens with the book’s climax: Humbert’s tragicomic murder of Quilty. We do not know why this urbane English-sounding man (James Mason) has come to a stranger’s ornate and cluttered house to commit a murder, but commit it he does after a series of comic delaying tactics from his victim, played—overplayed, some would say—by Peter Sellers. Buying time, a drugged or drunk Quilty assumes the identity of Spartacus (a nod to Kubrick’s previous film) while wearing a dust sheet as a toga and orchestrates a surreal, one-sided Ping-Pong match. He goes on to approximate the twangy accent of the archetypal old Western sidekick—a Gabby Hayes or a Walter Brennan—to read aloud an accusatory poem that Humbert hands him. The poem is a parody of T.S. Eliot’s Ash Wednesday, and this arcane literary touch, lifted from the novel, surely sits uncomfortably in a mainstream movie. Quilty then puts on boxing gloves and immediately takes them off again when Humbert begins firing his pistol in an unintentional echo of the amateurish marksmanship in the Western movies that he, Charlotte, and Lolita once sat through. Quilty goes on to pretend to compose a song at the piano before making a run for it and finally gets fatally shot while cowering behind a large framed reproduction of an 18th-century portrait of a woman.” “A close-up of the bullet-riddled painting marks the end of a spirited opening sequence that nonetheless denies us any hint of the gory and surreal horror of Quilty’s death as depicted in the book. Nabokov portrays him as an assassinated tyrant, a fallen king who is ‘bleeding majestically’ in his slow retreat to the master bedroom, suddenly developing ‘a burst of royal purple’ where his ear had been. Here his death is, literally, stylized out of sight.”
“Much has been omitted, some of it disastrously. We do not see or hear anything of Annabel Leigh, and we learn hardly anything at all about Humbert’s lifelong obsession with nymphets.”
“Here she is at last: Lolita made flesh. What, contemporary audiences might have asked themselves, was all the fuss about? Sue Lyon simply looked like a slightly more sophisticated version of Sandra Dee, the blue-eyed blonde who, in her Gidget persona, was the epitome of naughty-but-nice late 50s teen sex appeal. Certainly Kubrick had a vested interest in making his Lolita look as old as possible on the grounds that a teenager was less likely to fall foul of the Production Code Authority than might an ostensible 12-year-old. In keeping with the general calculated vagueness of the film, however, Lolita’s age is never actually given at all on-screen.”
“In response to its rhetorical tagline ‘How did they ever make a movie out of Lolita?’ the June 14, 1962, New York Times review supplied a neat and obvious answer: they didn’t. Instead, ‘they made a movie from a script in which the characters have the same names as the characters in the book, the plot bears a resemblance to the original and some of the incidents are vaguely similar’, Bosley Crowther wrote. ‘But the Lolita that Vladimir Nabokov wrote as a novel and the Lolita he wrote to be a film, directed by Stanley Kubrick, are two conspicuously different things’.”
“In truth, Nabokov can hardly be said to have written the finished film’s screenplay at all, although he certainly wrote a screenplay, a version of which was eventually published in 1973.”
“Knowing the difficulties Kubrick eventually experienced in faking a plausible Ramsdale in England, one can only smile at the alarm he must have felt upon being required by Nabokov’s prologue to simulate the following: the French Riviera, Paris, a voyage into New York Harbor (Humbert, ‘Dramatically Standing on a Liner’s Deck’, sees ‘The towers of New York looming in the autumnal mist’), and a nursing home, a library, and assorted exteriors for the retrospective parade of European nymphets. Kubrick’s solution was to cut the entire prologue and, after Quilty’s murder, begin the story in flashback with Humbert’s arrival at Charlotte’s house 4 years earlier.”
“Nabokov, who regarded Kubrick as an artist, was initially very disappointed when he finally saw the movie that used only odd scraps of his screenplay (rumor has it that Kubrick and Calder Willingham cooked up the eventual screenplay between them, but Kubrick would never be drawn on the matter, and it was Nabokov who was nominated for an Oscar for best screenplay).”
“Revisiting Lolita now, the viewer may find that Sue Lyon comes out of it rather well, delivering the best and least stagy performance, but the plaudits belatedly given to James Mason’s Humbert, Shelley Winters’s Charlotte, and Peter Sellers’s Quilty seem more generous than accurate. Winters was certainly in top form as the overbearing, sexually frustrated, culturally pretentious Charlotte, but in the end her character comes over as nothing more than a grotesque at whom it is easy to laugh but about whom it is hard to care. Mason, meanwhile, is forced to underplay Humbert with a good deal of dry comedy, as if taking part in a dark sitcom. In the end his Humbert comes over as a good-looking but ineffectual rogue who suffers from occasional bouts of bad temper as he seeks to seduce a pretty teenager while living in a decidedly tense domestic situation.” “Deprived of the novel’s inner voice and hamstrung by a timid script, the actor cannot begin to hint at take one Humbert’s haunted past, his eviscerating humor, his awful sexual obsession, his calculating cruelty.” “There is little doubt that Kubrick’s decision to give Quilty so much screen time and Sellers so little direction imbalances the film badly. A figure that should be a malign, shifting shadow keeps taking center stage and doing cabaret turns.”
“He shot Killer’s Kiss himself on location in New York City in 1955, and although it obviously suffered from a very low budget and was forced to use largely unknown actors, most of whom were destined to stay that way, it does contain some fine visual material with bright, monochrome vérité footage of Times Square and dramatic waterfront skylines offsetting the mean warehouses and hotel room interiors. Kubrick explored film noir again in his next picture, the celebrated 1956 racetrack heist movie The Killing, and again seemed very much at home with it. It is a shame that he did not revisit the genre—even in a spirit of parody—for his treatment of Lolita, a novel that positively bristles with both literal and oblique references to such films”
“Lyon’s brief 1950s TV apprenticeship seems to have prepared her well to give what is the film’s only truly unaffected performance.” “Ironically, it is in such automobile sequences that she seems closest to Nabokov’s Lolita—because it is those sequences that represent the film’s most conspicuous betrayal of the book after its denial of pedophilia. Incredibly, the novel’s epic road trip, that beautifully evoked yearlong, looping journey to nowhere that forms the centerpiece of the novel, is effectively omitted from the film altogether. Gone is the vast promise of the U.S. highways, the idiosyncrasies of the roadside lodgings, the elegant irony of a perpetually moving prison set in a limitless landscape, and the full rotation of the seasons through August 1947 to August 1948. It is replaced with two shorter trips, each with its own specific destination and each staged here in a series of static tableaux showing Lolita and Humbert sitting in their studio-bound car with only back-projected scenery for context. The first trip is from eastern summer camp to Idaho, where Beardsley College awaits them (the institution has been transplanted from its eastern location in the novel, presumably to enable this revised cinematic schedule); the second is from Beardsley to points south, in what Humbert believes to be a mutually agreed bid to escape to Mexico, although this trip has actually been surreptitiously proposed and stage-managed by Clare Quilty. Here, though, on Elstree’s virtual road, Sue Lyon’s Lolita is at her most plausible and sympathetic. The enclosure of the car, with both passengers in the shot, gives Lyon and Mason a chance to spark off each other at close quarters without distractions. Freed of those aging fashion accessories, Lyon even looks closer to her actual age as she sucks on a soda straw, chews gum, pulls faces, and alternates between bright acquiescence and whining protestation with a palette of expressions that ranges from diffuse prettiness to slack-mouthed vulgarity—probably a pretty good approximation of what Nabokov had in mind. But because we don’t fully grasp that Mason’s Humbert is a pedophile, we can only really see these scenes as conventional father/daughter sparring matches, not unlike those traditionally practiced on-screen by everyone from Spencer Tracy and Elizabeth Taylor to Ryan and Tatum O’Neal. This couple may be sharing motel bedrooms, but the audience might be forgiven for thinking that the most intimate thing that happens there is what was shown behind the film’s opening credits: Humbert solicitously painting Lolita’s toenails.
Stanley Kubrick’s perennial defense of the absence of sex in his Lolita was that in the early 60s censorship simply made it impossible to do justice to Nabokov’s theme. His justification, often repeated and paraphrased, was ‘because of all the pressure over the Production Code and the Catholic Legion of Decency at the time, I believe I didn’t sufficiently dramatize the erotic aspect of Humbert’s relationship with Lolita. If I could do the film over again, I would have stressed the erotic component of their relationship with the same weight Nabokov did’. Yet, as Elizabeth Power pointed out in her 1999 article ‘The Cinematic Art of Nympholepsy: Movie Star Culture as Loser Culture in Nabokov’s Lolita’, ‘Other contemporary and even earlier films suggest that Kubrick’s placement of blame on censors is not particularly accurate or convincing’. It is true to say that, by the 1960s, pedophilia was very occasionally starting to be acknowledged in mainstream films. Samuel Fuller’s The Naked Kiss demonstrates the early difficulties of depicting it. A serious but wildly expressive filmmaker rarely given to understatement, Fuller has his heroine, reformed call girl Kelly (Constance Towers), discover her society fiancé molesting a little girl in his own home. The film deals with the moment of discovery so oddly that at first it is hard to understand what is going on. A little girl emerges from a corner of the living room and runs out dutifully as if to play. Only then do we see Kelly’s grim-faced fiancé also emerging from the shadows. We are left to infer what was going on from Kelly’s hysterical response, which involves clubbing and killing her intended with a heavy telephone. Awkwardly presented as the scene is, The Naked Kiss does at least try to address the hot issue head-on and, in doing so, is one of several films of the time to undermine Stanley Kubrick’s routine defense of the complete absence of sex in his Lolita by citing the censor as an immovable force. The Naked Kiss was made in 1963 and released in 1964. Two years later, Kubrick’s Lolita, actress Sue Lyon, would give a far sexier performance as a jailbait teen Charlotte Goodall to Richard Burton’s disgraced preacher in John Huston’s movie of Tennessee Williams’s The Night of the Iguana.”
“Taking a broader view of Kubrick’s work, the director seemed to have a pathologically uneasy relationship with the forces of censorship, whether applied externally or, more usually, by himself.He effectively withdrew his own Fear and Desire (1953) from circulation by buying up all known prints. He blocked any rerelease of A Clockwork Orange (1971) in Britain after its initial showing there, allegedly because of fear of copycat crimes of violence; it was then not seen in Britain for 30 years and only reemerged after Kubrick’s death. Despite scant evidence of undue censorial interference with any of his work prior to Lolita, he seemed hamstrung by worry about the censor even before the screenplay was written. His line seems to have been not that the censor demanded cuts but that he himself did not venture to risk a confrontation. A difficult and complex man, Kubrick has been the subject of many studies, but the rest of his odd movie career lies outside the orbit of this book.” “In what Nabokov might have called a thoughtful Hegelian synthesis, Kubrick’s final movie, the disastrous Eyes Wide Shut, involved the elaborate replication of Manhattan streets on the lot at Elstree Studios. This time it was rather more persuasively done.”
“Ten years later, Sue Lyon’s life was a mess. It emerged that even the innocuous press release she had issued on getting the part had been a lie—this normal American girl had come from a deeply troubled background. Now she claimed her mother had driven her father to suicide when she was just 10 months old. Penniless, they took in lodgers, one of whom tried to rape 8-year-old Sue at knifepoint. She first had sex at the age of 12, became a model, and at 17 entered into the first of 4 marriages. She was diagnosed as bipolar and put it all down to Lolita. Sue Lyon may have been dramatizing and transferring blame for her bad luck, bad judgment, or bad behavior, but then again she may not. In the days when she still talked about her Lolita experience at all she said, ‘I defy any pretty girl who is rocketed to world stardom at 15 in a sex-nymphet role to stay on the level path thereafter’. By the time Adrian Lyne’s film of Lolita came out in 1997, Lyon, it seems, could no longer even consider the dreaded name rationally. ‘I am appalled they should revive the film that caused my destruction as a person’, she told Reuters news agency in a by now rare public statement. Lyne’s film would be no revival, it would be a completely fresh cinema treatment of the novel, but Lyon was beyond such distinctions in her hatred of Lolita, the poisonous name of her nemesis.”
“The book Zazie dans le métro, as mentioned in chapter 3, was written by Raymond Queneau, who greatly admired Nabokov’s Lolita and gave his own child heroine her looks as well as her mix of innocence and cheerful vulgarity. Visiting Paris, provincial Zazie wants nothing more than to ride the metro of the title, the city’s subway system, but it is immobilized by a strike. So she shakes off her dubious guardian, a female-impersonator uncle, and explores Paris on foot. The book makes playful use of phonetically spelled French slang, much of it vulgar, in an episodic, literary tale that Malle’s 1960 color movie recast as a fast-moving farce with silent movie gags and Road Runner references instead of the linguistic allusions. Malle cast young Catherine Demongeot as Zazie. Demongeot, it has to be said, would have made the perfect Lolita: 12 years old, chestnut hair, slangy speech, mischievous and rebellious, she is also sexually neutral in a way that means any middle-aged man shown to be attracted to her would be immediately identified by his singular craving and not excused as having a more conventional appetite for pretty young girls. Demongeot (who would jokily reprise her Zazie role in Jean-Luc Godard’s Une femme est une femme one year later) is perhaps the ideal screen Lolita who never was.”
“It would be 35 years before the next movie of Lolita appeared. In that period the Lolita brand would take off in a giddying multiplicity of directions. Yet the enduring irony of Stanley Kubrick’s film was that it in no way added to the popular myth of Lolita as promiscuous seductive teen.”
“A further irony: a complete absence of sex was one of the few criticisms that could not be leveled at Lolita’s next two incarnations, both of which would be on the stage. A legendary lyricist felt he could do justice to the story in a musical setting, and then one of America’s leading playwrights took it on himself to pay his own theatrical tribute to Nabokov’s heroine. Subsequently, each might have had grounds for joining with Sue Lyon in identifying Lolita as a force for evil.”
8. DRAMATIC ART: Lolita Center Stage
“The novel Lolita, heavily dependent on a narrator’s internal monologue, does not seem to lend itself well to stage presentation—even less so than film presentation, which leaves open the possibility of voice-over. It does present one advantage over a film treatment, however: the cinema’s troubling demand that only a little girl can plausibly play Lolita is potentially eased.” “Without close-ups, a theatrical performance does not necessarily need a very young girl, just one who can play young; this freedom also makes the later depiction of a 17-year-old Lolita a lot easier.” “The first attempt to put Lolita onstage, however, did not take advantage of this option with regard to age. It was one misjudgment among many in what was to become a resounding commercial (if not an artistic) disaster. Helmed by talented people, this venture was doomed to fail before it began. It was Lolita, the musical.”
“Lyricist Alan Jay Lerner was a Harvard-educated man, a student friend of John F. Kennedy who had progressed through Harvard’s Hasty Pudding musicals to become a writer of continuity scripts for the long-running NBC/CBS radio show Your Hit Parade.”
“Nabokov had only been persuaded to give his approval to the project because, as in the case of Stanley Kubrick, he was always sympathetic to those whom he considered serious artists even when he knew little about their chosen medium. Nabokov had already demonstrated, with his elephantine screenplay for Lolita, that he had no real idea how films were written, let alone made; now his often-admitted lack of appreciation for music disqualified him from assessing anything but Lerner’s impressive track record of writing intelligent, literate musical books.”
“Richard Burton turned down the role of Humbert, so British Shakespearean actor John Neville (much later of The X-Files[um dos velhos do círculo conspiratório do Smoking Man]) was cast in the key role.” “The reviews were so bad that producer Norman Twain closed immediately for a complete overhaul. Annette Ferra, the 15-year-old originally cast to play Lolita, was replaced. They would try out again in Boston, premiering at the Shubert Theatre on March 15, 1971, for an intended run of 3 weeks. The cast now included a new Lolita, 13-year-old Denise Nickerson.” “The revamped show won some qualified plaudits from the critics in Boston, mainly for Lerner’s lyrics and John Neville’s Humbert, a portrayal apparently distinguished not only by a good performance but also by a strong vocal contribution. Dorothy Loudon’s Charlotte was colorful enough to be sorely missed when she died at the end of the first act. The public, however, did not really miss her because they never came in the first place. Lolita, My Love closed after only 9 poorly attended performances and never made it to New York.” “The show lost $900,000.” “What remains of Lolita, My Love? The poor quality audio recording, probably taken from the soundboard during rehearsals, still exists.”
“In the end, Lolita, My Love disappeared into the well-populated Hall of Shame of failed musicals, along with the now-legendary Carrie, a musical version of the Stephen King/Brian de Palma horror-fest that faithfully included the film version’s opening shower room scene in which Carrie is taunted for being terrified by the onset of her first period.”
“Perhaps, after all, the show was as good as it could have been, but the faulty foundation upon which it was built was the assumption that the public was ready for a musical about a child molester. The presence of a 13-year-old leading lady probably made it an even more distasteful prospect for its presumed audience.”
“A happy-ending footnote was that, in contrast to Sue Lyon’s experience, the Curse of Lolita did not ruin Denise Nickerson’s life; after a good run in film and TV (including a stint on The Brady Bunch), she moved to Colorado and became an accountant. In the same year Lolita, My Love flopped she also appeared in the film Willie Wonka & the Chocolate Factoryand was thus fondly remembered by a whole generation not as a sexualized child in a musical but as Violet Beauregarde, the gum-snapping kid who turns into a blueberry in Roald Dahl’s famous morality tale.”
“Albee’s body of work already included The Zoo Story (1959), The American Dream (1961), and Who’s Afraid of Virginia Woolf? (1962), so his reputation seemed secure, and few had demurred when he was dubbed one of the few genuinely great living American dramatists.
Albee’s Lolita made its debut at the Brooks Atkinson Theatre in New York City on March 19, 1981, almost exactly 10 years to the day after Lolita, My Love folded in Boston.”
“this time Lolita was played by 25-year-old Blanche Baker, whose mother, Carroll Baker—at about the same age—had played Tennessee Williams’s Baby Doll Meighan. [ver acima]”
“Donald Sutherland, the Canadian movie star who had not acted on stage for 17 years but who could offer an approximation of the British accent he mastered during his extended 60s sojourn in London, was Humbert Humbert.”
“it was a total disaster.”
“Retracing the texture of an ephemeral event like a theatrical performance over a quarter of a century later is not an exact science. We have the reviews (in this case universally damning), but we cannot revisit what they were reviewing. We do, however, have Albee’s published play, presently included in volume 3 of his collected works. A caveat from the author suggests that, as with most of his plays, he has, in new collections, tweaked a few things with the benefit of hindsight. (This was a liberty upon which Nabokov would have frowned; once the piece was written, that was it as far as he was concerned—it was time to burn the rough drafts and alternative versions and move on.)”
“Its most daring device is that of introducing a detached authorial voice, embodied by the character of A Certain Gentleman who provides an ironic, Olympian commentary on the proceedings, often bantering with exasperated Humbert (who is given to complaining about the way the action is turning out and even the quality of the writing) and generally reminding the audience that this story has a puppeteer for an author. This is a strangely dated 60s device redolent of those fleetingly modish TV plays that would reveal the camera crew to remind the audience that it was watching a TV play, or new-wave movies like Jean-Luc Godard’s Le Mépris, where the mechanics of moviemaking self-consciously intrude at every turn.”
“Humbert obliquely mocks the author’s decision to give Annabel a surname that so obviously evokes Poe’s doomed heroine; he finds the device of Charlotte coming upon Humbert’s incriminating diary corny.” Divertido.
“The robe falls, Lolita is naked onstage, and her popular reputation as a brazen tramp is further advanced. The plot grinds on, more or less faithful to the letter of the novel but missing its bittersweet spirit entirely; fellatio and cunnilingus are simulated; the epic road trip (now meaninglessly inflated to 500 days) is included but can only be suggested by fragmented scenes in stylized motel rooms; Clare Quilty is represented in a manner that apes Peter Sellers’s disruptive chameleonic turns in Kubrick’s movie; Lolita leaves, Humbert grieves, and the play ends as does the book with Quilty’s murder and Lolita’s death in childbirth.”
“‘No one who saw the execrable production the play received on Broadway could penetrate through to the homage I was paying to Nabokov’, wrote Albee in a 2005 introduction to the play.”
“(Blanche) Baker, chosen after a long talent hunt for prepubescent sexpots, is disappointing as Lolita. She begins as a little girl with a lollipop and swiftly becomes a brat with a staff sergeant’s mouth and no trace of dreamy allure.”
“Albee, it seemed, was now yesterday’s man, a remnant of the 60s completely out of place in the new, Reaganite 1980s.” Stephen Bottoms
“The film based on Albee’s play was never made, although the contract held good and Albee’s camp actually collected on Adrian Lyne’s 1997 film that bore absolutely no relation to Albee’s drama. The intended opera, slated to be co-written by Leonard Bernstein, also failed to materialize after the drubbing the play received. Eventually, however, another opera did surface, this time rather unexpectedly in the Swedish language. Having seen how Alan Jay Lerner and Edward Albee fared, one might have expected Rodion Schedrin to demur, but late in 1994 the Russian composer premiered his 4-hour opera of Lolita at Stockholm’s Royal Opera. Due to another wrangle with the Nabokov estate (Schedrin had written the libretto but neglected to secure the rights), it was not possible to perform it in Russian or English, so it was translated into Swedish. There were 8 Stockholm performances spread across December 1994 and January 1995, and critics found little to admire in Schedrin’s words or music, although soprano Lisa Gustaffson’s portrayal of Lolita was praised, as was the production in general and John Conklin’s boldly stylized stage design, replete with imaginative icons, symbols and logos of 50s America.”
“These extreme examples of dramatic disaster would seem to suggest that no sane person would ever again try to put Lolita on the stage. Yet it is in the nature of theater to revive and rework past failures to see if it was the times or something more intrinsic that defeated them first time around.”
“In 1999, the 100th anniversary of Nabokov’s birth, the International Theatre Workshop tackled it at Lower Manhattan’s Gene Frankel Theatre. In the opinion of Zembla, an admirable Web site for Nabokov fans, Russian director Slava Stepnov’s vision of Lolita here was ‘less about sex and pedophilia than . . . about being a slave to one’s own ego’.”
“A 2003 Oxford University student version also produced for Edinburgh was adapted by Aidan Elliott and had Lolita ‘clambering all over Humbert with an offensive and almost comical lack of subtlety’ according to one critic.”
“Dmitri Nabokov has praised a ‘truly fine’ Milan theatrical production of Lolita by Luigi Ronconi that was based not on Albee’s play but on Stephen Schiff’s screenplay for Adrian Lyne’s 1997 film.”
9. THE SPIRIT OF FREE ENTERPRISE: Every foul poster
“Lolita, although too young to be socially aspirational in that particular way, does seem to have inherited her mother’s touching trust in the heady promises of lifestyle magazines and adds an insatiable consumer’s appetite for the dreams such magazines promote. America’s golden period of consumerism might still be 2 or 3 years in the future, but even during the relative austerity of the late 1940s, the constant allure of consumer goods and services is already a potent force in Lolita’s young life. Modern kids usually want the same toys, clothes, and gadgets that their friends have, but Lolita’s constrained circumstances meant that she did not even have friends for much of her meager childhood.”
“Rachel Bowlby, in her essay ‘Lolita and the Poetry of Advertising’, writes: ‘It is Lolita who is the poetic reader, indifferent to things in themselves and entranced by the words that shape them into the image of a desire that consumption then perfectly satisfies. Appearing under the sign of <novelties and souvenirs>, anything can be transmuted . . . into an object of interest, worth attention.’”
“It all began with that 1962 movie poster featuring a stylized Lolita sucking a scarlet lollipop and peeping over the lenses of sunglasses equipped with red heart-shaped frames. Her flirty gaze is contained, top and bottom, by the out-of-focus horizontals of a car window frame (although these were sometimes airbrushed out in the innumerable variants used for international posters and paperback book covers). Fashion photographer Bert Stern, who took the picture, seems to have toyed with the idea of making Sue Lyon into an adolescent Marilyn Monroe, an aim more obvious in another color shot from the same sessions.”
“At the time, Stern was already fascinated by Monroe, of whom he would soon take some 2,500 photographs in a 3-day session shortly before she died in 1962.”
“heart-shaped glasses and other items were to become a loose trademark vaguely suggestive of very young, sexually available girls. In this way a counterfeit Lolita fashion was founded upon an accessory that had nothing whatever to do with the Lolita that Nabokov had realized in such precise detail and diligently accoutred with all those faded blue jeans, plaid shirts, tartan skirts, gingham frocks, and sneakers. Worse was to come.
Nabokov was still alive when, to his amused revulsion, life-size Lolita sex dolls first became available, fully equipped with the appropriate apertures. Now, in the 21st century, the Bratz range of sexy, Barbie-with-attitude dolls for girls is rarely discussed without some passing reference to Lolita.”
“Both commentators took the view that targeting very young girls was mainly a commercial decision undertaken by companies who were running out of female teenage consumers and who saw not only an immediate impressionable preteen market to exploit but also a valuable recruitment platform for tomorrow’s teenage customers.”
“It has also lent itself to fashion styles and trends as far removed from 40s Ramsdale as Mars or Venus.”
“British artist Graham Ovenden’s series of Lolita paintings and prints from the mid-70s caused a minor scandal when they were first exhibited, but they were defended as art rather than pornography, just as Nabokov’s book had been—although in this case perhaps with less demonstrable justification. A vague adherence to certain locales of the novel (Lolita at the Lake, for example) and Ovenden’s obvious skill as a draftsman could not change the fact that his artfully undraped Lolita owed rather more to some Pre-Raphaelite erotic stereotype (long luxuriant hair, a fey self-absorption) than to Dolores Haze. Some of Ovenden’s other works, such as those depicting Lewis Carroll’s Alice or 5 seminude contemporary girl children only identified by their first names, seemed to reinforce a legitimate suspicion that a graphic talent and the fame of others were being used to legitimize a personal obsession. Another Briton, David Hamilton, also courted controversy in the 70s with his numerous soft-focus nude photographic studies of girls in their early teens. Despite a credible early career as a 60s fashion photographer for Vogue, Elle, and other upscale glossy magazines, Hamilton always remained a suspect cultural figure in the United States and Britain, and his reputation was not helped when he directed a clutch of soft-core porn movies of which Bilitis (1977) remains the best known.”
“New York City–born photographer Jock Sturges has also faced repeated charges that his work was child pornography masquerading as fine art. In 1990, his studio was raided by the FBI, who confiscated much of his work and equipment. The offending images were of children of both sexes, most of whom were characterized by their nakedness, their physical beauty, and the kind of untroubled, eyes-straight-to-the-camera gaze that in itself seemed to be challenging and confrontational to the forces of conservatism.”
“Many of his images were certainly of very young girls, and in their studied informality, it could be argued that they were hardly any less contrived than Charles Dodgson’s Victorian tableaux. The difference was that these were pictures of modern young girls who were growing up in a knowing culture of sophisticated magazines, movies, and TV commercials, the beneficiaries of late 20th-century health care and nutrition posing naked on the recognizable beaches of west coast America or France. Without the distancing effect of yesterday’s technology and dated visual manners—dubious excuses to be sure—to some this looked like conceited pornography. To others it was a celebration of the female body’s beauty at its most striking. After a year, that FBI raid resulted in a grand jury throwing out the child pornography case. The public trial of a photographer, who had been born in the year of Lolita’s Great Road Trip, had given a new generation, too young to remember the public outcries about Nabokov’s novel, a minor child pornography debate of its own.
Sally Mann’s photographs incited similar divisions in the late 80s, particularly with her second published collection of pictures, At Twelve: Portraits of Young Women.” “Occasionally cropping her subjects in ways that might invite the charge of fetishizing certain body parts, At Twelve: Portraits of Young Women seemed to up the ante by going out of its way to draw attention to the blurriness of the line between childhood and adulthood, innocence and experience, pornography and art. When her next collection turned the lens on her own children, it caused a new outcry. Immediate Family (1992) contained what Art in America critic Ken Johnson called ‘luminously beautiful black-and-white images of mysteriously elfin children’, while other observers considered it further evidence of Mann’s fondness for sexualizing children, now with a suspicion of incest thrown in.”
“A fair-minded reviewer might have disentangled this cultural muddle, but Blundell (who does not let the fact that she never even read all of Lolita prevent her from offering the absurd assertion that its author concluded that the molestation of girls turns them into sexy, self-sufficient women) simply co-opts Mann’s images as an excuse to air her own feelings about child abuse. Her review is worth dwelling on only because it is typical of many responses to this particular subject. When it comes to discussions of child abuse, sociological or artistic, there always seems to be people for whom the very idea is so incendiary that they cannot wait to begin with their own moral conclusion and then work backward to try to make the facts support it. They always seem content never to have read the book or seen the movie or play that is central to the debate; moral certainty, it seems, makes the gathering of supporting evidence unnecessary.”
“One of Lolita’s more high-profile instances of commercial fame has come from having her name adopted by a Japanese youth fashion. Lolita Fashion in general connotes a frilly fantasy in which Japanese teen or preteen girls dress in a wildly stylized approximation of Western Victorian or Edwardian girls, often complete with lacy parasol, teddy bear, and Little Bo Peep hat or frilly headdress—Alice Liddell on LSD. More famous still is the Lolita Fashion subcategory Elegant Lolita Gothic, usually shortened to Lolita Gothic, ELG, Loligoth or GothLoli. Extrapolating conclusions from all of this is inherently problematic, since delving into Japanese popular culture at all is fraught with pitfalls for most Western commentators. It seems even the most innocent assumptions about shared societal values cannot be made when it comes to Japan. In the present context it may be plausibly argued that Japan actually sanctions, or at least broadly tolerates, a national male obsession with schoolgirls. The sexual politics of the Japanese Gothic Lolita phenomenon is therefore something of a minefield.”
“In Japan that look has been traditionally based on a school uniform of the sailor fuku style (white blouse, blue collar, red tie, short blue pleated skirt), although an auxiliary range of fetishized school outfits also exists in the various forms of navy blue one-piece swimsuits, gym clothes comprising tight white top and navy blue tights, and schoolgirl variants of traditional Japanese martial art clothing. On the face of it, this would seem to be comparable to American male fantasy fetishes for schoolgirl, Girl Scout, or cheerleader outfits. Yet in Japan the Lolita Gothic fashion phenomenon—which might at first be considered nothing more than another variant of the school-age girl fantasy—is also part of modern Japanese youth’s own fondness for Visual Kei and CosPlay, role-playing that uses elaborate costumes, hairstyles, and makeup to create fantasy personae.
Attracting boys as well as girls, Visual Kei finds a distant Western echo in the British glam rock era of the 70s, a movement that spawned David Bowie, Queen, and Roxy Music. It was mainly androgynous-looking males who dominated, but the symbiosis between the music and the elaborate theatrical costumes adopted by performers and fans alike seems to prefigure Visual Kei. Certainly there has been a Japanese rock music connection in the form of bands such as Rentrer en Soi and MUCC (ムック), who adopted role-model outfits to inspire their fans to imitate and compete.
By being part of the Visual Kei movement, Lolita Fashion and Lolita Gothic have therefore come to represent a particular form of self-expression for young Japanese girls that seems poised between the traditional role-playing of Kabuki and the elaborate sartorial confection of the geisha, which—at least in the form of oiran geisha—has clear associations with prostitution. So here is a stylized hybrid movement of rebellion and self-expression based on an image that seems to derive from a Japanese male erotic stereotype and is therefore overloaded with cultural and sexual references that leave journalists groping for plausible sound-bite descriptions. French maid meets Alice in Wonderland. Shirley Temple meets Morticia Addams. Victorian frills with glam rock platform shoes. Baby Doll as a Black Sabbath groupie. No words can quite do justice to the impact of Japanese Lolita Gothic, not least because it very much depends upon whom it is having an impact. Lolita Gothic has been adopted by young Japanese women whose slight physiques tend to evoke childlike or even doll-like associations—although these associations tend to exist mainly in the minds of Westerners.”
“Gothic” Rei Ayanami do anime Neon Genesis Evangelion, exemplificando bem a descrição de Vickers: vão-se os cabelos azuis originais e o fan artwork toma conta da internet.
“Courtney Love, in her early days with alternative rock band Hole, was occasionally hailed as the first bona fide American Loligoth, but despite her contrived look of depraved innocence, achieved through torn baby doll dresses and makeup that looked as if it had been applied by a 9-year-old with little mirror experience, Love was no elfin Japanese girl, so the overall effect came out rather differently.
Yet Lolita Gothic has been successfully exported through other media, ever since it seeped into the iconography of Japanese manga (comic and newspaper cartoons), anime (animation), and bishōjo (a type of video game¹ based on interaction with stylized young girls depicted in the styles of manga and anime).”
¹ O autor se equivocou, pois jogos são só uma parte do conceito. Wiki: “Although bishōjo is not a genre but a character design, series which predominantly feature such characters, such as harem anime and visual novels, are sometimes informally called bishōjo series. The characters and works referred to by the term bishōjo are typically intended to appeal to a male audience. [Sailor Moon – que carrega bishoujo no título original e é formalmente considerado shoujo anime – seria focado em homens ou mulheres?!] Since one of the main draws of these series is typically the art and the attractive female characters, the term is occasionally perceived negatively, as a genre which is solely dependent on the marketability of beautiful characters rather than the actual content or plot.
The word bishōjo is sometimes confused with the similar-sounding shōjo (‘girl’) demographic, but bishōjo refers to the gender and traits of the characters it describes, whereas shōjo refers to the gender and age of an audience demographic – manga publications, and sometimes anime, described as ‘shōjo’ are aimed at young female audiences.”
“All of these media trade in variants of the Lolicon (and how Nabokov, the lover of portmanteau words, would have squirmed to hear that one),¹ the Lolicon being a sexually explicit graphic depiction of a stylized prepubescent girl character. The traditional Lolicon has huge eyes, a preteen physique, skimpy clothes, and some (usually) pastel accessories of childhood (hair in beribboned bunches and bangs, popsicles, toys, and so on).”
¹ Lolita + complex
“Bishōjo, the video medium, has met with most resistance to export because of the overtly sexual and sometimes pornographic nature of the player’s possible interaction with the characters. Manga and anime, usually more mainstream, have therefore been the leading channels by which this particular life of Lolita has become well known outside of Japan.
What does the Loligoth phenomenon add to the sum of misunderstandings that have accumulated around Lolita’s name? If in Japan its resonances are singularly domestic, in the West it has perhaps vaguely reinforced the idea of Lolita as a proactive coconspirator in her own exploitation. The spectacle of young girls publicly affecting costumes that contrive to blend the childlike with the enticing—and doing it, however unconsciously, in Lolita’s name—only strengthens the general suspicion that somehow Dolores Haze was asking for it. It is an unworthy but widespread suspicion and one that finds its logical conclusion in the ultimate commercialization of Lolita’s name: the Internet trade in pornography where 3 trips of the tongue down the palate—Lo-Lee-Ta—signify the sexual exploitation of underage girls who are often coerced to simulate enjoyment of their ordeal.”
“The world of Internet Lolitas is in fact a rather more complex one than it may seem at first glance. As with everything else, the Internet has complicated traditional perceptions of how information is delivered and received. In the pre-computer days when Lolita was first conjured into being in Nabokov’s neat hand on a series of index cards (an analog cut-and-paste system of the author’s own devising), trafficking in pornographic material of any sort was still a comparatively risky business for both supplier and consumer, involving shady bookshops, mail-order services, and the black market. As a movie like Hard Candy demonstrates, by 2006 Internet pornography had bred sophisticated new protocols involving grooming and impersonation, bringing with them new generations of clued-up children and adults as well as a highly efficient transglobal distribution channel so complex that policing it has been reduced to a series of high-profile law enforcement gestures rather than any real control.”
“By the early 70s, much of Western Europe was taking a far more liberal attitude toward pornography, the trend being led by Denmark, which, in 1969, had legalized the production of all kinds of erotic material. The earliest child pornography movies were marketed under the name ‘Lolita’ and were made by a Copenhagen-based company called Color Climax. It is estimated that a minimum of 36 10-minute films were produced under this catchall title between 1971 and 1979. Pornographic magazine spin-offs drew upon these movies for still photographs. The ‘Lolita’ films featured young girls, typically between the ages of 7-11, being sexually abused mainly, but not exclusively, by men. Meanwhile, in the United States, the commercial production and distribution of child pornography also began to flourish in a parallel climate of (comparatively) lax national law enforcement, often with linkups to European producers, sharing material and sometimes even sending images from the United States to Europe for initial publication prior to importing the resulting magazines. Amsterdam became the hub of this publishing trade, and it featured material with names that included Lollitots, Lolita Color Specials, and Randy Lolitas.”
“One of the more grotesque by-products of today’s Internet distribution of child pornography is that a large proportion of it actually dates from 20 or 30 years ago, those old movies and still images now having been digitized. (…) For those abused children who are still alive, those filmed episodes from their grim childhoods are still being efficiently cataloged and sold.”
“Perhaps this is a good point at which to recall that in 1949 Quilty throws out adoring Lolita because she flatly refuses to participate in his pornographic movies. ‘I said no, I’m just not going to (blow) your beastly boys, because I want only you’, Lolita tells Humbert at their last meeting, explaining why Quilty dumped her.”
“Of course, had Lolita’s name remained the fairly common Spanish diminutive it had been before Nabokov bestowed fantastic fame upon it, the pornographers would simply have found another generic label to identify their images of molested and beaten kids. But perhaps it is grimly fitting that those traders in abuse should have knocked off a name so mellifluous and rich in associations, since the theft is appropriate to the practice it describes: the stealing of childhoods to realize dark adult fantasies.”
10. TABLOIDS AND FACTOIDS: The Press and Lolita
“Tabloids in the United States date from the launch of the New York Daily News in 1919, a paper today locked in rivalry with the New York Post, which, under the ownership of Rupert Murdoch’s News Corporation, has taken on many of the characteristics of the famously cutthroat British tabloids.”
“The Pall Mall Gazette was founded in London in February 1865 by Frederick Greenwood and George Smith and began as an interesting example of life imitating art. It was the actualization of a fictitious paper dreamed up by William Makepeace Thackeray for his 1850 novel The History of Pendennis. That novel explored Thackeray’s favorite theme of the green but ambitious youngster on the make, an idea he also used in Vanity Fair and The Luck of Barry Lyndon. The real-life Gazette’s original tone had been unashamedly elitist, fully in keeping with Thackeray’s editorial prescription (the Pall Mall Gazette would be ‘written by gentlemen for gentlemen’, Pall Mall being a London street famous for its exclusive gentlemen’s clubs). In 1880, however, the actual Gazette passed from conservative to liberal ownership, and between 1883 and 1889, under editor William Thomas Stead, it became a vigorous campaigning newspaper. The fully illustrated publication now covered human interest stories and became much more accessible, featuring banner headlines and short paragraphs. Traditionalists deplored what they saw as the degradation of news journalism, and there was particular resistance to Stead’s fondness for ‘the interview’, a journalistic innovation that, a rival complained, indiscriminately gave voice to any ‘politician, religionist, social reformer, man of science, artist, tradesman, rogue, (or) madman’ whose ramblings might offer titillation to readers.
Then in 1883 the Pall Mall Gazette published a series of articles on the subject of child prostitution, a practice that it labeled ‘the white slave trade’. Sales of the paper increased from 8,000 to 12,000. Two years later, Stead joined with Josephine Butler and Florence Booth of the Salvation Army for an exposé of child prostitution that was to represent the Gazette’s finest hour. In July 1885, Stead arranged the purchase, for a sum of around $8, of Eliza Armstrong, the 13-year-old daughter of a chimney sweep, in order to demonstrate how easy it was to procure young girls for prostitution. Stead then published an account of his investigations under the rather biblical title of ‘Maiden Tribute of Modern Babylon’ and made it a Pall Mall Gazette extra. Although his motives were clearly benign and the purchase of the girl obviously an intrinsic part of the exposé, the editor, along with accomplices, was charged and briefly imprisoned for procurement. Even so, the storm of publicity he stirred up was instrumental in forcing a change in the law that same year, and the age of consent was raised from 13 to 16. It was a remarkable demonstration of the power of the popular press. Stead had, in effect, turned a patrician publication into a tabloid that not only attracted many more readers with its human interest stories and accessible layout but also demonstrated that it was not afraid to take on the establishment.” “Ironically, today’s traders in child pornography and prostitution have little to fear from the hollow cries of moral outrage about pedophilia from the pragmatic descendants of the Pall Mall Gazette. Current tabloid editors, both British and American, know a sensational story when they smell one and have long since mastered the art of pandering to the worst instincts of a prurient readership while piously sermonizing in the margins. Few editors are willing to go to prison for practicing what they preach.”
“the boundary between factual reportage and titillating documentary-style fantasy was defined by the existence of publications like Real Confessions, Real Romances, and Crime Confessions; these were fact-derived entertainment.”
“the word ‘factoid’ was coined by Norman Mailer in his 1973 Marilyn Monroe biography to denote a ‘fact’ that does not actually exist before being reported in a magazine or newspaper”
“Post-Lolita, the newspapers found they had a new shorthand label—and they could not have wished for a better one. ‘Lolita’ was short, distinctive, easily pronounced, and rapidly acquired a meaning that was internationally understood—or rather misunderstood.” “This Lolita was a factoid, a fabrication presented by the print media as a fact, thus acquiring a bogus new reality of its own.”
“At the time of this writing, half a century since the first American publication of Lolita, the world’s current number one female tennis star, at least as far as the press is concerned, is the California-based Russian Maria Yurievna Sharapova. No doubt Nabokov would have derived some enjoyment from the spectacle of a prodigiously talented expatriate Russian girl excelling at one of his favorite sports in his beloved adopted country, but he would also have groaned at the press epithets deemed suitable for someone whose only misdemeanor was to start out as a bratty-looking teenager: the red-hot Russian… the Lolita of women’s tennis… Lolita with a racket… and so on. Did Sharapova have a precursor? Indeed she did: fellow Russian Anna Kournikova was frequently dubbed the ‘Lobbing Lolita’ in the press, but her retirement from competition—as well as her more conventional type of beauty—meant that journalists soon sought a successor and found her in the sometimes petulant young Sharapova, whose occasional teen sulkiness combined with her lithe physique made her an even better expression of the Lolita fantasy cliché.”
“That nymphet’s beauty lay less on her bones
Than in her name’s proclaimed two allophones.” Anthony Burgess
“When I saw that Fox’s coverage was titled ‘Where Is Elizabeth Smart?’ my thought was well, you know, who killed Laura Palmer? It’s like Twin Peaks in that you have sort of a blonde vision of innocence, of maidenhood… it plays into the JonBenét story. Jon Benét was, you know, this sort of Lolita-ish beauty pageant contestant and what makes it even more sort of archetypal is that Elizabeth Smart played the harp. You can’t get more angelic than that.”James Wolcott, Vanity Fair
“Gone are the days when tame TV movies like Lethal Lolita cannot include the scandalous details; HBO and the Internet can show pretty much anything.” “Kampusch (chapter 2) is turning her experience—and the notes she made in captivity—into what will surely be a best-seller.”
“Since the whole business was clearly a farrago fueled by the imaginations of children who had been browbeaten by suggestible parents, the only verity upon which everyone could agree was that child abuse was a very bad thing and demanded extreme reactions, even when nothing had happened. This, of course, is the unwelcome outcome when real life fails to conform to the easy characterizations of pulp fiction or tabloid simplification.”
“Nothing much changes. Lyne, however, was relentless in his efforts to bring Nabokov’s tale of infinite desire to the screen in a way that would, after Kubrick’s patchy misfire, do it some sort of justice.”
11. TAKE TWO: Once more, with feeling
“The climate of public opinion toward any debate about pedophilia was now deeply hostile, far more so than in the 70s or 80s, let alone the early 60s. This was bad enough, but it was not all. Lyne’s first (and some would say his biggest) obstacle to making a distinguished movie of one of the 20th century’s greatest and most allusive novels was his own track record.”
O DIRETOR DE <FILMES DO CANAL TCM>: “Next came Flashdance (1984), an urban fairy tale about a dancing welder from Pittsburgh (Jennifer Beals) who Has a Dream. It was a hit and was followed by a trio of even more successful but rather shallow erotic movies: Nine 1/2 Weeks (1986), Fatal Attraction (1987), and Indecent Proposal (1993). Admittedly Jacob’s Ladder (1990) was in there too, and that was a very well-handled post-Vietnam psychological tour de force that in some ways foreshadowed M. Night Shyamalan’s hit of 1999, The Sixth Sense. Otherwise Lyne’s movie career seemed to be dogged by his roots in advertising—plenty of style but little substance.”
“Approaching his 50th birthday, Lyne was therefore understandably inclined to take on the formidable challenge of Lolita, a literary work of art he had long adored and that was finally optioned to him in 1990, prior to the shooting of Indecent Proposal. It was to prove a case of excruciatingly bad timing.
At this time, the protracted McMartin Pre-School affair was reaching the end of its second and final trial, and Amy Fisher would soon make her first fateful visit to Joseph Buttafuoco’s car repair shop in Long Island, ensuring that Lolita’s name would stay in the headlines for years for all the wrong reasons.”
“The independent U.S. production company Carolco Pictures, Inc. expressed interest in bankrolling the project. Carolco had enjoyed great success with the Rambo movies and Terminator 2 and also produced Alan Parker’s Angel Heartand Sir Richard Attenborough’s Chaplin. Lyne now wrote a 35-page outline titled ‘Preparatory Notes on Nabokov’s Novel’.”
“Pinter had made a creditable screenwriting job of everything from The Last Tycoon and The French Lieutenant’s Woman to The Quiller Memorandum and The Handmaid’s Tale, so he might perhaps do Lolita proud. Unfortunately, Pinter was always virulently anti-American in his politics as well as socially subversive in his film adaptations, at least whenever he could get away with it. One suspects he did not much care for Nabokov anyway. Was Pinter, after all, the best man to render the greatest novel of an apolitical, pro-America, non-satirical writer for the screen?”
“Charm was not really what was required, and even the proposed casting of Hugh Grant as a lightweight and too-young Humbert [Hugh tinha 30 anos em 1990] (a serious suggestion at one point) was not going to salvage an icy script characterization. Harold Pinter was out.”
“Schiff too was asked if he could set the film in the present day, an absurd idea that he sensibly rebuffed, arguing that Lolita’s story was inseparable from the context of its time.
‘Nabokov set his novel in 1947’, Schiff later wrote, ‘a singular moment in American cultural history—years before the finny, funny 50s; before the invention of the great American teenager and the distinct consumer culture that sprang up to serve it.’ A pointless 10-year time lag had helped to rob Kubrick’s film of any authentic context, and a 40-year dislocation would surely have rendered Lolita’s plot, as written by Nabokov, entirely meaningless.”
“Dominique Swain was another novice. Born in Malibu, California, in 1980, the same year Adrian Lyne made his Hollywood debut with Foxes, she had little acting experience before getting the part of Lolita. She had failed an audition for Neil Jordan’s Interview with the Vampire (Kirsten Dunst eventually won the part of Claudia) and made a brief uncredited appearance in a film written by Ian McEwan and directed by Joseph Rubin, The Good Son (1993). Sporty, outgoing, artistic, and a straight-A high school student, Swain at 14 was an interesting-looking girl rather than a conventionally pretty one. She was clearly intelligent and seemingly undaunted by the audition process. In a riveting videotape of her audition for the part of Lolita, with Jeremy Irons playing Humbert, she is no showbiz show-off kid but still comes over as precociously witty and self-assured. At one point she mimics Lyne’s English accent, which, she suggests, is so much more sinister than an American one for delivering a line like ‘You murdered my mother’. If Swain’s physical development could have been arrested at the time of that audition, she would have been even better than she eventually was in the movie. But by the time they started shooting she was already looking older and more strapping and can actually be seen to be growing up during the film… albeit out of sequence due to the dislocated nature of shooting schedules. It hardly matters. After beating a reported 2,500 applicants to the part, Swain turned out to be the film’s undisputed success story. She would be a wonderful Lolita: rude, loud, childlike, touching, dreamy, goofy, cruel, sad, feisty, sexy, and funny. She would do it by channeling her own personality into the part and in this was expertly guided by Adrian Lyne, the father of two daughters. Dominique Swain actually seemed to thrive on a lack of acting experience. Not knowing how to do it right can, with careful guidance and good luck, sometimes have the benign opposite effect too—not knowing how to do it wrong. Journalist Stephen Schiff was already proof of this, having turned in the excellent script Lyne needed.”
“Humbert’s eyes, no longer the distorting lenses through which everything is seen, now have to be shown on-screen, along with the rest of him. This was the fundamental, perhaps irresolvable problem of Lolita—this and finding an actor possessing both the skill and the nerve to play him. Unknown 14-year-old actresses have no established career to compromise, but middle-aged actors do. Jeremy Irons, being a well-respected if not exactly beloved actor in his homeland of Britain, first balked at the risk (and this despite Harold Pinter’s sweeping recommendation: ‘If you want an actor who isn’t afraid to look bad, get Jeremy Irons’).”
“Irons’s personal challenge was immense: he had to perform in several sexually charged scenes with a 14-year-old girl who was constantly being attended on set by her mother, a tutor, and a body double. (…) No matter what the level of professionalism, an uneasy personal chemistry would ensue because it is hard for a 48-year-old man to play out violent arguments and sexual shenanigans with a high school girl.”
“Melanie Griffith, a tinny-voiced actress not without her detractors, was cast as Charlotte Haze. This news was seen as another unpromising signal by many movie fans who were also admirers of the book, who were hoping for the best while fearing the worst. More positively Frank Langella, a fine and imposing actor, was cast as Quilty.”
“On location in the South, Lyne said he frequently half expected some redneck sheriff to burst in at any moment to close down the proceedings before the movie was even shot. As for sexual impropriety, all due care was taken, some of it risible. When Swain sat on Irons’s lap, a cushion or board was placed between them. When it was necessary for Lolita to run a hand up Humbert’s thigh or vice versa, the body double took over. The weather, doing what weather does, delayed things. Melanie Griffith fell sick. The original cinematographer had to be replaced after shooting began. Jeremy Irons had real problems with some of the sex scenes. And the only person to sail through the experience with any degree of equanimity was Dominique Swain. Happy to be the center of attention and untroubled by the one aspect of things that troubled everybody else, she burst into tears only when Irons snapped at her for ill-advisedly telling him what to do.”
“They wrapped in late 1995. They started editing in 1996. Then the real battles began.” “As bankruptcy loomed, Carolco sold Lolita to a big French corporation, Chargeurs, that had already acquired the movie production and distribution company Pathé back in 1992. Now, in 96, Chargeurs was demerging Pathé, an outfit for which, it was assumed, Lolita would be an ideal property. After the deal was done, Pathé’s optimism soon turned to concern (and Lyne’s hope to despair) when a new law, the Child Pornography Prevention Act of 1996, was enacted in the United States. Aimed at Internet pornographers who used computer graphics to simulate images of children having sex (even when no real children were involved), it threw up a potential killer obstacle to distributing the new Lolita at all in the United States. The reason was that the act proscribed any visual depiction that was ‘or appeared to be’ a child having explicit sex. This scattergun definition, although perhaps worthy in original intention, had huge potential ramifications for a wide range of mainstream media. An act that would retrospectively ban Volker Schlöndorff’s The Tin Drum (1979) outright or remove the Claire Danes/Leonardo DiCaprio bedroom scene from Romeo + Juliet (1996) looked likely to be challenged in the courts, but no one was eager to be the first challenger.”
“Had we released Lolita in the ‘70s or ‘80s, Schiff said, I believe it would have easily made its way into distribution. But the culture has contracted since then. And even if it hasn’t, its gatekeepers believe it has.”
“In a strange echo of what happened to Nabokov’s novel back in the 50s, Pathé effectively gave up on distributing it in the United States at all and looked to Europe. They perhaps hoped that a critical success there might kick-start its prospects on this side of the Atlantic. This seemed unlikely, despite the recent precedent of John Dahl’s The Last Seduction (1994), a cable TV movie that was shown on HBO and forgotten until it wowed European audiences in theaters, subsequently earning a U.S. theatrical release and rumors of a thwarted Academy Award nomination for star Linda Fiorentino (not permitted because the movie had premiered on TV) and becoming a neo-noir classic.
Adrian Lyne’s Lolita eventually premiered in Spain, at the 1997 San Sebastian Film Festival. It received mixed reviews and subsequently fared poorly in Spain. Italy loved it. In Germany it stirred up many public protests and was subsequently hard to see in that country. In Britain it received a certificate with no trouble whatsoever, something that stirred up tabloid outrage (Jeremy Irons was reported as saying he would leave the country if it were banned).”
“In the end, the cable network Showtime bought the U.S. rights to the movie and broadcast it to any American household that subscribed to their channel in the summer of 1998. Despite limited screenings in New York, Los Angeles, and a few other cities, the movie—40 years after the novel was freely published—was to all intents and purposes banned from theatrical release in the United States, not by the censor but by the movie industry itself.”
“He even adds a very Nabokovian touch that does not come from the book. When 13-year-old Humbert is preparing (alas, in vain) to possess Annabel in the long-lost world of the 1920s Riviera, he takes as a souvenir a bit of ribbon trim from the broderie anglaise of her long underpants. How many members of the movie audience recognize that ribbon when it reappears, unannounced, as a bookmark in middle-aged Humbert’s diary in Ramsdale? Perhaps as many as the number of readers who identify some of Humbert’s more arcane literary references in the novel. Everyone does not need to get the more obscure allusions, but it is nice if those references make artistic sense when they are spotted.
The film score and the featured music are particularly successful. Ennio Morricone’s score underpins the film’s shifting moods hauntingly, particularly in Humbert’s last desolate hours of freedom. Lolita’s enthusiastic if tuneless sing-along participation with contemporary novelty records on the radio—songs such as Louis Prima’s Civilization, Jack McVea’s Open the Door, Richard, and, perhaps most memorably, Tim-Tay-Shun (Jo Stafford’s redneck reworking of Temptation)—seem somehow even more fitting than the jukebox hits of mainstream crooners hinted at in the book.”
12. BLOOD SISTERS: Some responses to Lolita
“Vladimir Nabokov finished writing Lolita on December 6, 1953. In France earlier that same year, Françoise Quoirez, the 18-year-old daughter of a wealthy Parisian industrialist, had just failed her examinations at the Sorbonne and subsequently spent the summer writing a novella. She decided to call it Bonjour Tristesse and herself Sagan after Princesse de Sagan in Proust’s À la recherche du temps perdu. Her book was published in 1954. Its success was considerable and international, and by 1959 it had sold 850,000 copies in France alone.”
“Françoise Sagan had cast herself as Cécile, a spoiled 17-year-old whose intimate relationship with her 40-year-old Don Juan of a father seemed to have all but one of the characteristics of an incestuous affair. On an extended summer vacation with him at a villa in the Riviera, she amuses herself by playing malicious cupid as Daddy juggles two women: an empty-headed young mistress whom he believes helps him cling to his vanishing youth and a more mature woman who perhaps ought to suit him better. As her father prepares to announce that he is at last taking the sensible course, Cécile, with a recently acquired summer boyfriend of her own, petulantly manipulates everyone like chess pieces, conspiring to make the woman her father now intends to marry believe that he is deceiving her. This causes the distraught woman to drive blindly from the villa to die in the kind of portentous road accident often featured in books like this. Cécile’s harsh discovery that her game has resulted in irreversible tragedy is presented as a moral awakening and a rite of passage rolled into one. She starts out sounding like an old child, winds up sounding like a young woman; the collateral damage is one dead body.”
“Sagan’s book scandalized family-loving France because of the iconoclastic attitudes behind this story of a daddy’s girl for whom sex was a game and traditional notions of love and marriage represented nothing more than routine and boredom. Tame as it may seem now, Bonjour Tristesse also rang alarm bells because it was a precocious broadside from a member of a young generation whose growing cultural clout threatened to spread far beyond the realm of pop music and fashion. The intimate father-daughter relationship added an extra sense of illicit danger, but perhaps most shockingly of all, the book was written by an obviously experienced young girl who seemed to know a great deal about sex and power.”
“Bonjour Tristesse and Lolita have almost nothing in common apart from having both made their debuts in the mid-50s and sharing any sociological similarities we may choose to infer from each. Their telling difference, though, is that Sagan’s narrator relates everything from a very young woman’s point of view, while Nabokov’s Humbert is a middle-aged male who allows his leading lady no real voice of her own. The controlling effect of Humbert’s oppressive viewpoint was to feature in 40 years of feminist discussion about Lolita, in which the most commonly recurring complaint was that we simply never get to hear the girl’s point of view—she is effectively gagged by the man in charge. The wider implications of this in a male-dominated society, for those who wanted to point them out, were resonant with accusation.”
“In Pera’s book (Lo’s Diary), Dolores Schlegel, née Maze, does not perish in a remote Northwest territory but lives on into adulthood and actually turns up in person at a fictionalized Olympia Press in Paris, accompanied by deaf husband Dick, during a visit to the French capital. Working at this reconstituted Olympia is John Ray Jr., the original novel’s foreword writer to whom Dolores gives her own ‘childish’ diary as a corrective to Humbert’s version of things. Humbert’s ‘real’ name is now revealed as Humbert Guibert. ‘Maybe you’d take a look at my own impressions of that time’, she says, handing over the diary to the bemused Ray. ‘They’re definitely less literary’.” “Only in 1995 does he finally edit and publish it, whereupon we learn that Lolita, in Pera’s hands, certainly does have a voice, even if it sounds suspiciously like the voice of a 42-year-old Italian woman working in the same medium—but hardly at the same level—as Vladimir Nabokov.” “Any expectation that there might emerge a Lolita sympathetically informed by a perceptive feminist awareness seems doomed to disappointment. In short, Dolores Maze comes across as being gratuitously unpleasant even before Humbert gets his hooks into her.” “The book was written in Italian and translated into English by Anna Goldstein, but even making allowances for the inherent problems of translation, this Lolita’s thoughts are rendered in a vernacular considerably less authentic-sounding than Nabokov’s laboriously researched attempts to reproduce the speech patterns of American kids of the 1940s.”
“Throughout, Lo’s Diary runs similarly dreary attempts to depict Lolita as a sexual punk for the postwar years, a crude proto-feminist given to expressing opinions like ‘You have to keep a firm hand on a man, just like a horse’, and a budding sadist who tortures her pet hamster to death, heaps unremitting abuse and hatred on her ‘Shitmom’ Isabel (as Charlotte is redubbed), and decides to ensnare Humbert Guibert as ‘Daddy 2’ from the moment they first meet in the garden of 341 Grassy Street.”
“To readers very familiar with Lolita there is perhaps a certain morbid fun to be had in seeing which of the book’s scenes are revisited from the viewpoint of this newly vicious and venomous Lolita, but in the end Lo’s Diary comes over as a rather sterile conceit with a lifeless narrator working to an obscure purpose. It is a shame, because all those voices calling out for Lolita’s point of view might reasonably have expected something better”
“‘Is the innocence of one girl so important next to Alice in Wonderland? Does it matter if it wasn’t quote soooo wonderful for her? A hundred years of beautifully bound editions? Can anyone honestly say they would save the child and lose the book?’ This thought, intentionally or otherwise, reverses the sentiment of a 1925 Russian poem by Vladimir Nabokov, ‘The Mother’, that explored weeping Mary’s grief after the execution of Jesus.
What if her son had stayed home with her,
And carpentered and sung? What if those tears
Cost more than redemption?”
“In recent years some women authors have brought particularly chilling insights and perspectives to sadly familiar scenarios featuring girl-child victims. A.M. Homes’s The End of Alice seems at its start to be promising some sort of evenhanded correspondence or dialog between a 19-year-old woman and an imprisoned male pedophile, but things soon turn out to be disturbingly otherwise.”
“One of the most unexpected Lolita spinoffs, however, was neither a borrowing nor a variant; it was not even, strictly speaking, a fiction. It was a celebration in the form of a memoir in which fictional Western women—among them Elizabeth Bennet, Catherine Sloper, Daisy Buchanan, Emma Bovary, Daisy Miller, and Dolores Haze—were introduced to real Eastern women in a weekly discussion group surreptitiously held in the capital city of the Islamic Republic of Iran, right at the end of the 20th century.
Reading Lolita in Tehran: A Memoir in Books is Azar Nafisi’s account of an undercover book discussion group she organized for a handful of female students after resigning her teaching post at Iran’s University of Allameh Tabtabai. Born in the old Iran in the days of the shah but educated in England and the United States, Nafisi had returned to teach in her native country in the late 70s, just in time for the Iranian Revolution, the rise of Ayatollah Khomeini, and, among other things most unwelcome from her point of view, a sustained erosion of personal liberties that proved especially harsh for women. Nafisi was first fired from the University of Tehran in 1981 for refusing to wear the veil and ultimately given no option but to resign from Allameh Tabtabai by the ever more rigorous restrictions placed upon what she could teach there. Allameh Tabtabai still had a reputation as the country’s most liberal university at the time, but all things are comparative and she found the university regime intolerable. So the secretive book group was in effect a gift from an international academic to 7 of her brightest female students. It took place covertly on Thursday mornings at Nafisi’s home, a sanctuary where those young women could shed not only their outdoor robes and scarves to reveal a lively selection of jeans, T-shirts, and other informal items worn beneath but also divest themselves of any restrictions forbidding what they might discuss. They used the sessions, guided by Nafisi, to discuss the unique potency of literature, as well as comparing and contrasting the travails of some of fiction’s most memorable heroines with their own lives and straitened circumstances.”
“If it seems strange for such an embattled group of women to have embraced a hard-to-get book that had inflamed public opinion even in comparatively liberal America, it was not quite as it seemed.” “In the Islamic Republic of Iran, where the age of consent had been summarily lowered from 18 to 9, the sense of shock about a middle-aged man having sex with a 12-year-old girl was, shall we say, considerably less potent than in most Western countries.”
“To the most rebellious of her students, a young woman she calls Yassi, Nafisi explains that ‘the desperate truth of Lolita’s story is not the rape of a 12-year-old by a dirty old man, but the confiscation of one individual’s life by another’. She goes on to argue that, although we cannot know what Lolita’s life might have been like had Humbert not hijacked it, ‘the novel, the finished work, is hopeful, beautiful even, a defense not just of beauty but of life, ordinary everyday life, all the normal pleasures that Lolita, like Yassi, was deprived of’.
“Philistines are ready-made souls in plastic bags.” Nabokov
“Carol gave me a copy of Lolita instead of a sermon. And that is how I came to read it, in two rainy summer afternoons, when I was 12. And when I emerged tearfully from the bedroom, she just nodded and opened her arms, for I was a sensitive kid. ‘Poor, poor Humbert!’ I cried. ‘Lolita was so mean!’”Justine Brown, exemplificando, depois de adulta, o perigo de fazer pré-púberes lerem o livro para convencê-las do perigo dos predadores pedófilos – elas não entenderão, elas se situarão ao lado de Humbert, confundirão a relação abusiva com amor romântico, o amor hollywoodiano e, doravante, ocidental, e o propósito pedagógico-moral do adulto terá escorrido pelo ralo com esta criança.
“Despite the young Justine Brown’s unexpected loyalties and Pia Pera’s dubious advocacy, Lolita Haze has usually found her most sympathetic champions in women. None of them has been more quietly persuasive than Vladimir Nabokov’s extraordinary wife and collaborator Véra. The acute accent on the e, by the way, was a rare instance of her own literary invention. She added it to help with the correct pronunciation of her name when the Nabokovs first moved to America—it is Vay-rah, not Veer-a. Otherwise, Véra Nabokov, née Slonim, a highly cultured Russian Jew, a great beauty with a sophisticated taste in literature and a talent for languages, wrote hardly anything but diaries and letters, dedicating her life to the role of uber-assistant to a husband whose legendary absentmindedness and impracticality in the real world contrasted comically with his genius at creating and organizing exquisitely detailed fantasy worlds.
Véra was an aristocratic woman who made a dramatic escape from Bolshevik Russia in 1920, eventually arriving in that émigrés’ favorite city, Berlin, where she was still to be found supporting husband Vladimir and young son Dmitri as late as 1938, a date whose resonance now makes this sound like an insanely risky dalliance for a Jewish woman. She was the life partner who battled with publishers when the Nabokovs lived in poverty and the one who beat off the unwanted fans when Lolita made her husband notorious. She was the steel-willed woman who carried the licensed handgun when they toured remote territories on entomological excursions. She was the practical one who drove their Oldsmobile in a mixed spirit of exhilaration and heroic martyrdom because Vladimir could not drive at all.”
“I have upwards of 200,000 miles under my belt, but each time I get behind the wheel I hand my soul over to God.” Véra Nabokov
“She typed everything Vladimir wrote. She delivered his lectures at Cornell when he was too ill to do it himself. Without her, there would have been no Lolita; many who knew the couple went so far as to say that without her, there would have been no Vladimir Nabokov.”
“Véra not only enabled a great literary career, she literally saved Lolita’s life when she snatched the novel’s pages from a sacrificial bonfire started by her husband in the yard of a rented house in East Seneca Street in Ithaca. There were to be several subsequent bids at immolation by an author beset with what he saw as insurmountable doubts about his masterwork, but the first and most famous attempt had a witness, one of Nabokov’s own students, a senior named Dick Keegan who had surely been handed a poisoned chalice when he was recruited as his professor’s personal driving instructor. (This exercise was an unqualified disaster; it remains one of American literature’s great ironies that the man who created that magnificent road trip right in the center of that magnificent novel was always utterly unable to master the controls of an automobile.)”
“Also, Vladimir had entertained vague ambitions to write a comic article for The New Yorker about the trials and tribulations of Lolita’s publication, so it is possible that Véra’s notes might have been designed to help inform that. Yet a more personal tone emerges in this rare instance of Véra seemingly writing as herself rather than as her husband’s coconspirator and administrative alter ego.”
“I wish, wrote Véra, someone would notice the tender description of the child’s helplessness, her pathetic dependence upon the monstrous HH, and her heartrending courage all along, culminating in that squalid but essentially pure and healthy marriage, and her letter, and her dog. And that terrible expression on her face when she had been cheated by HH out of some little pleasure that had been promised. They all miss the fact that ‘the horrid little brat’ Lolita is essentially very good indeed—or she would not have straightened out after being crushed so terribly, and found a decent life with poor Dick more to her liking than the other kind.”
CONCLUSION
“At the time of this writing a Bollywood movie, Nishabd (2007), has just been released. It is advertised as a remake of the 1962 Lolita, [por que um remake de um filme ruim do Kubrick, e não do filme de 97 ou, enfim, outra adaptação do livro?!] and rumor has it that Indian audiences have not warmed to the film. Another smile.”
“Histoire de Melody Nelsonwas a themed album from French singer-songwriter Serge Gainsbourg in 1971 and is generally accepted to have been inspired by Lolita. Melody is an androgynous 15-year-old red-haired girl whom Gainsbourg’s alter ego accidentally knocks off her bicycle with his Rolls-Royce. He takes her to a hotel to recover and promptly seduces her in one of its rococo bedrooms. Soon accident-prone Melody will die in a mystical plane crash over New Guinea, and, as Jean-François Brieu’s album liner notes rather colorfully put it, ‘Between these two blood lettings, she will be deflowered by the hero: a little trickle of hemoglobin, tribute paid to an initiation into pleasure’ (the translation from French is mine but the sanguinary imagery is Brieu’s). The sumptuous key track of the album, Ballade de Melody Nelson, was actually recorded before the other songs. It featured vocal interjections from Gainsbourg’s English girlfriend, Jane Birkin, who also impersonates Melody on the album sleeve—red wig, rouged cheeks, toy monkey clutched to her bare bosom, and crotch-hugging jeans. She also appeared with Gainsbourg in a 28-minute 1971 French TV special, Melody, directed by Jean- Christophe Averty. It promoted the album in what now looks like a narrative sequence of primitive music videos.”
“Kitsch of the highest order, Melody the TV special manages to detract from, rather than add to, the drama of the songs.”
“In 1975, Birkin would make her own cult album, Lolita Go Home, the title song being a cri de coeur from a nubile schoolgirl badmouthed by women and drooled over by men; it was co-written by Serge Gainsbourg and Philippe Labro. A year later Birkin would reincarnate a variant of Melody Nelson in Gainsbourg’s movie Je t’aime, moi n’en plus alongside Joe Dallesandro.”
“…Two: doesn’t discussing Lolita—doesn’t the very existence of the book—make pedophilia more socially acceptable?
The second question is so stupid that it does not really deserve an answer, since to confuse discussion with endorsement seems to suggest a complete absence of critical intelligence. It is also perhaps helpful to remember Alfred Hitchcock’s response when told that a serial killer had murdered for the 3rd time after seeing Psycho: ‘What movies did he see before the other two?’”
“Is it possible to depict circumstances and emotions that you have not personally experienced? Well, does anyone ask Hannibal Lecter’s creator Thomas Harris how many people he ate by way of injecting credibility into his blockbuster? Was Bret Easton Ellis only able to write American Psychoby means of strict empirical research? And what chance would Quentin Tarantino have of remaining at liberty if his films were assumed to be autobiographical? Need we ask? Need we answer? If you want to tell the truth, write a novel; if you want to tell a lie, write nonfiction.”
“Writing a biography is a notoriously tricky and subjective business that never fails to offend someone. There can be few more diligently evenhanded biographers than Stacy Schiff, whose book Véra (Mrs. Vladimir Nabokov)stands as an elegant example of the genre, yet Ms. Schiff (no relation to Adrian Lyne’s scriptwriter, although the name does seem to be a lucky one for Nabokovian projects) has said that ‘anyone who has ever taken a cat to a vet in a carrying case, and extracted the animal in a blur of claw and hackles and muscle, knows what it is to write about Mrs. Nabokov.’”
“Admittedly, the artist who created the original might have cause for regret to see his creation embellished by a contingent comprising largely hawkers, impresarios, and assorted opportunists, but the phantom creatures they all conjure are still bona fide inhabitants of the world of human imagination. Every time we choose to believe in one of them instead of the original, it surely tells us something about ourselves and our times. That too I found an interesting aspect of delving into the lives of Lolita: she has been corrupted in a variety of ways, but each corruption tells us something not about her but about us.
Happily, the ‘real’ Lolita can always be perfectly restored for anyone who cares to read or reread Nabokov’s novel. That experience is its own high reward as well as the most dependable antidote to the latest brazen, short-skirted, man-eating, teen mutant dreamed up and labeled with the L-word for screen, page, or stage.”