[ARQUIVO] DA UTILIDADE & DO INCONVENIENTE DA HISTÓRIA PARA A VIDA —A II Intempestiva de Nietzsche—

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

35: o deus ex machina; a “história monumental” como a perfeita para o supra-homem, ou aquele com ânsia de ser clássico. Uma “estrutura do herói” muito antes do nazismo de Campbell.

44: bricolage. Lévi-Strauss devia ser um fóssil vivo com seu hábito exclusivo de releituras de cartas.

50: o novo amigo do homem moderno, a irracionalidade

51: o descompasso entre teoria e prática

52: o “sentido não-histórico” dos gregos; forma vs. conteúdo; gregos são auto-suficientes. Não são colonizadores; o fosso bem antes: “aumentamos, até a insensibilidade com relação à barbárie, o perigoso abismo que separa o conteúdo da forma.”

54: só um povo tão sério quanto os teutônicos poderia provocar tanto riso; quando uma sociedade importa seu vestuário de outras, ela é decadente. A despeito de muitos pensarem em vias públicas, a realidade é que não entendemos o conceito de clima tropical!

61: Dom Quixote

63: “Faça o que eu digo…”

65: quando o didatismo apaga a “hierarquia filosófica” e cada “sistema” e cada indivíduo de qualquer época e país se torna tão relevante quanto os milhares de outros. Nivela-se, para se ter idéia, um pré-socrático e um medieval, um grande poeta torna-se tão prosaico quanto e tão parecido com um filólogo ou um jurista. É como um almanaque isométrico, ou ainda um álbum de figurinhas sem protagonistas ou estrelas de brilho mais intenso. Meras curiosidades, afinal ninguém está certo sozinho, o que mais parece dizer que se trata de uma coleção de erros ou de adultos engraçados que tinham vidas pacatas e que se preocupavam mais com o invisível que com que tipo de roupa saíam à rua.

66: o problema da crítica; história crítica.

69: a “justiça”

78: para o passado—oráculos.

87: sobre a divisão do trabalho

97: Hegel e a Ideologia Alemã

99: “A moral é, p.ex., ofendida por ver que um Rafael tenha tido de morrer aos 36 anos.”; a cena da idolatria ao bode.

100: ponte para alguma coisa; a ironia pós-moderna.

107: São estas as páginas seguidas mais hilárias desse homem! “a partir de amanhã, o tempo não existirá mais e todos os jornais deixarão de circular”

109: “da ausência de toda diversidade entre o homem e o animal—doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais” presente eterno, egoísmo, felicidade

116: para todos e ninguém


O primeiro parágrafo já toca nos animais! A tentativa de diálogo entre um homem e um animal: “Isso acontece porque esqueço sempre o que pretendo responder”, assim o animal gostaria de se justificar às súplicas do homem que fala sozinho, se não esquecesse o que tinha em mente um segundo depois… Mas… como pode então o cão latir pelo seu dono (tutor)? O animal = a criança.

a natureza mais poderosa e mais formidável”

Todos os enunciados já estão aqui; aliás, poder-se-ia dizer que ele sempre foi assim, que ele não visava a nada, não perseguia o rabo de nenhuma cobra (Ivan!): “A negação do homem supra-histórico [estrutural] não vê a salvação no desenvolvimento, mas, pelo contrário, considera que o mundo acabou e atingiu seu fim em cada momento particular.” Em outras palavras, vencemos o niilismo extremo.

No fundo, o que foi possível outrora não poderia se reproduzir uma segunda vez, a menos que os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes produzisse até nos mínimos detalhes os mesmos acontecimentos na terra, de modo que quando as estrelas ocuparem a mesma posição uma com relação às outras, um estóico se uniria a um epicurista, César seria assassinado e, de novo, em outras condições, Colombo descobriria a América.”

Perigo de hipertrofia de qualquer uma das 3 categorias de história.

O crítico sem angústia, o antiquado sem compaixão, aquele que conhece o sublime sem poder realizar o sublime: essas são plantas que se tornaram estranhas a seu solo nativo e que, por causa disso, degeneraram e se transformaram em joio.”

Utiliza expressões que se consagrariam em títulos de obras posteriores.

História antiquada: a monumental tornada linear, uniforme, homogênea; ou seja, os personagens e costumes possuindo o mesmo valor.

A França como uma referência cultural “menos degradada”. Em busca da unidade superior.

É assim que [o grande homem] abandona a alegria divina de criador (…) para ficar oprimido sob a profunda compreensão de seu destino. E acaba o curso da vida como iniciado solitário, como sábio saturado. Esse é o espetáculo mais doloroso que se possa ver. (…) É necessário que essa cisão entre o ser íntimo e o exterior desapareça sob os golpes do martelo da angústia. (…) É preciso que expresse o que compreendeu, que o defenda (…) Essa necessidade violenta produzirá um dia a ação vigorosa.”

Como se deve ler o suicídio de Werther: “Seja homem e não me siga!”

Por que devemos ouvir incessantemente a hipérbole das hipérboles, a palavra universo, quando cada um só deveria sinceramente falar do homem?”

Mede o que sabes do nível do que podes”

Exatamente a assunção da vítima das três categorias do fazer-história: “este tratado, com sua crítica imoderada, com o verdor de sua humanidade, com seus saltos freqüentes da ironia ao cinismo, do orgulho ao ceticismo, mostra muito bem, não gostaria de escondê-lo, que carrega a marca moderna, o caráter da personalidade fraca.” “É necessário ser jovem para compreender esse protesto”


Anotações de cunho pessoal:

Síndrome dos jogos de futebol (dos livros eu até entendo): por que eles são tão bons para pensar na vida?

Talvez eu precise, mais do que a colega tuiteira a meu lado, dotar a vida de plurissentidos numa taxa que assustaria o estranho ao ninho.

Ilhas de despreocupação no inferno.

Nunca mais vou deixar de olhar aquela pequena conversa com o Marco Antônio depois da aula como um marco divisor.

Um dia a menos para a vida passar” é um pensamento idiota.


De 28 de janeiro a 4 de fevereiro de 2010

AN INQUIRY INTO THE HUMAN MIND. ON THE PRINCIPLES OF COMMON SENSE. – Thomas Reid, London, 1823.

INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA & FUNDAMENTOS DO SENSO COMUM – Tradução de Rafael de Araújo Aguiar, Brasília, 2022-2024.

A inspiração do Todo-Poderoso deu-lhes o entendimento. – Jó

ÍNDICE

CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO

Seção 1ª. A importância da matéria e como investigá-la [SEC11]

Seção 2ª. Os obstáculos para nosso conhecimento da mente [SEC12]

Seção 3ª. O presente estado desta especialidade da filosofia. Descartes, Malebranche e Locke [SEC13]

Seção 4ª. Em defesa destes filósofos [SEC14]

Seção 5ª. O Bispo Berkeley – O Tratado da Natureza Humana – Do ceticismo [SEC15]

Seção 6ª. Do Tratado da Natureza Humana [SEC16]

Seção 7ª. Que o sistema de todos esses autores é idêntico e conduz ao ceticismo [SEC17]

Seção 8ª. Não devemos desistir das investigações [SEC18]

CAPÍTULO 2. O OLFATO

Seção 1ª. Ordem da investigação. Organização do sentido do olfato. [SEC21]

Seção 2ª. O olfato abstrato (a sensação) [SEC22]

Seção 3ª. Sensação e memória: Princípios naturais da crença [SEC23]

Seção 4ª. Juízo e crença em alguns casos precedem a apreensão simples. [SEC24]

Seção 5ª. Duas teorias da natureza da crença refutadas. Conclusões derivadas. [SEC25]

Seção 6ª. Em defesa de absurdidades metafísicas. Sensações sem senciência como conseqüência da Teoria das Idéias. Conclusões acerca desta estranha opinião [SEC26]

Seção 7ª. A concepção e a crença num ser senciente ou na mente é sugerida por nossa própria constituição; A noção que há das relações nem sempre é adquirida mediante a comparação entre idéias relacionadas. [SEC27]

Seção 8ª. Existe uma qualidade ou virtude dos corpos chamada olfato. Como ela está conectada, na imaginação, à sensação. [SEC28]

Seção 9ª. Existe um princípio da condição humana do qual derivam a noção do olfato e outras virtudes ou causas naturais. [SEC29]

Seção 10ª. Durante a sensação a mente é ativa ou passiva? [SEC210]

CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]

CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO

Seção 1ª. A variedade dos sons. Seu lugar e distância aprendidos pelo costume, sem o uso da razão [SEC41]

Seção 2ª. A linguagem natural [SEC42]

CAPÍTULO 5. O TATO

Seção 1ª. O quente e o frio [SEC51]

Seção 2ª. O duro e o flácido [SEC52]

Seção 3ª. Os signos naturais [SEC53]

Seção 4ª. O árido e outras qualidades primárias [SEC54]—

Seção 5ª. A extensão [SEC55]

Seção 6ª. A extensão (cont.) [SEC56]

Seção 7ª. A existência de um mundo material [SEC57]

Seção 8ª. Os sistemas dos filósofos que concernem aos sentidos [SEC58]

CAPÍTULO 6. A VISÃO

Seção 1ª. A excelência e dignidade desta faculdade [SEC61]

Seção 2ª. A vista não descobre quase nada que o cego não possa compreender. A razão disso [SEC62]

Seção 3ª. A aparência visível dos objetos [SEC63]

Seção 4ª. A cor é uma qualidade dos corpos, não uma sensação da mente [SEC64]

Seção 5ª. Uma inferência baseada no precedente [SEC65]

Seção 6ª. De que nenhuma de nossas sensações é similar às qualidades dos corpos [SEC66]

Seção 7ª. A figura visível e a extensão [SEC67]

Seção 8ª. Algumas questões que concernem a figuras respondidas [SEC68]

Seção 9ª. A geometria do visível [SEC69]

Seção 10ª. O movimento paralelo dos olhos [SEC610]

Seção 11. Sobre vermos objetos eretos através de imagens invertidas [SEC611]

Seção 12. Continuação do anterior [SEC612]

Seção 13. A unidade dos objetos vistos por dois olhos [SEC613]

Seção 14. As leis da visão nos animais [SEC614]

Seção 15. A visão periférica/O estrabismo considerado hipoteticamente [SEC615]

Seção 16. Fatos relativos à visão periférica/ao estrabismo/à visão estrábica [SEC616]

Seção 17. O efeito do hábito sobre a unidade da visão [SEC617]

Seção 18. As considerações do Dr. Porterfield sobre a visão una e a visão dupla [SEC618]

Seção 19. A Teoria do Dr. Briggs e a conjetura de Isaac Newton na matéria [SEC619]

Seção 20. Da percepção em geral [SEC620]

Seção 21. O processo da natureza na percepção [SEC621]

Seção 22. Dos sinais pelos quais aprendemos a perceber a distância mediante a vista [SEC622]

Seção 23. Dos signos em outras percepções adquiridas [SEC623]

Seção 24. A analogia entre a percepção e o crédito que damos ao testemunho humano [SEC624]

CAPÍTULO 7. CONCLUSÃO

Reflexões acerca da opinião dos filósofos sobre o assunto [SEC7]

CARTA AO HONORÁVEL SR. JAMES, CONDE DE FINDLATER E SEAFIELD, REITOR DA UNIVERSIDADE DE OLD ABERDEEN

SENHOR,

Embora eu reconheça que existem coisas novas e de suma importância nesta Investigação, não é senão de forma timorata que me resolvi a publicá-la. O tema já foi esboçado por homens de grande penetração e gênio: pois quem não haveria de situar Descartes, Malebranche, Locke, Berkeley e Hume nesta categoria? Uma perspectiva sobre o entendimento humano tão distinta daquela que eles manifestaram será, sem dúvida, condenada sem exame, como produto de atitude vã e temerária.

Mas eu espero que ao menos algumas almas cândidas e seletas, capazes de vigiar as operações da própria mente, deliberem acerca do que está aqui exposto antes de passarem uma sentença. A essas eu apelo, como únicos juízes competentes. Se pessoas assim constituídas desaprovarem a iniciativa, significa provavelmente que estou equivocado, e me disponho a mudar de opinião para melhor. Se elas aprovarem, a maioria, então, cederá a sua autoridade, como sempre sucede.

Por mais contrárias que sejam minhas noções em relação às dos escritores que mencionei, suas especulações me foram de grande utilidade, e até parecem apontar a trilha que segui: como o Senhor sabe, o mérito de descobertas úteis muitas vezes não cabe a seus autores propriamente ditos, mas a quem plantou as sementes, para seus sucedâneos as colherem.

Eu admito, Senhor, que jamais pensei em pôr em dúvida os princípios a respeito do entendimento humano popularmente reconhecidos, até a publicação do Tratado da Natureza Humana¹ em 1739. O engenhoso autor deste tratado erigiu, sobre os princípios de Locke, que não era um cético, um sistema de ceticismo que não deixa margem para a crença em nada a não ser no seu contrário. Seu raciocínio me parece justo. Havia a necessidade, portanto, de duvidar dos princípios que o fundaram, ou então de admitir suas conclusões.

¹ David Hume, A Treatise of Human Nature: Being an Attempt to Introduce the Experimental Method of Reasoning into Moral Subjects. (N.T.)

Mas pode qualquer mente engenhosa admitir esse sistema cético sem relutância? Eu não poderia, Senhor: persuado-me de que o ceticismo absoluto não é mais destrutivo para a fé do cristão do que para o saber filosófico, e para a prudência de um homem de entendimento vulgar. Estou convencido de que o injusto vive pela fé tanto quanto o justo; mas, se toda crença pudesse ser posta de lado, a piedade, o patriotismo, a amizade, a afeição parental e a virtude privada pareceriam ridículos tanto quanto um cavaleiro andante. Também creio que a busca do prazer, da ambição e da avareza devem, como as boas virtudes, escorar-se na crença.

O trabalhador trabalha o dia inteiro com a crença de que receberá seu dinheiro à noite;¹ se não cresse, não trabalharia. Poderíamos aventar que mesmo o autor desse sistema cético elaborou-o na esperança de que ele fosse lido e considerado. Acredito mesmo que redigiu-o pensando que seria útil à humanidade; e quem haverá de dizer que não poderá sê-lo? Concebo o trabalho do investigador cético como esse inspetor das frestas do nosso falho sistema de conhecimento. Ele repara essas rachaduras do edifício social, que se torna mais sólido.

¹ Numa economia em que o trabalhador recebia por horas trabalhadas. (N.T.)

Seguindo minha própria inclinação, me entreguei a um sério exame dos princípios sobre os quais se assenta esse ceticismo; e não fiquei pouco surpreso ao descobrir que todo este ceticismo está baseado numa hipótese antiga, acolhida por filósofos de todos os tempos, que não passa de uma hipótese. Que hipótese? De que nada é percebido senão o que é produzido em nossa mente. De que não percebemos as coisas tal como são no exterior, mas apenas as imagens das coisas impressas em nosso interior, que recebem o nome de idéias.

Se isso é verdade, quer seja, a existência destas idéias na minha mente, não posso inferir a existência de nada mais. Minhas impressões são as únicas existências que posso conhecer ou conceber. E elas são seres tão passageiros e transitórios que no fundo elas não existem senão enquanto estou delas consciente. Sendo assim, de acordo com esta hipótese, o universo inteiro que me cerca, corpos e espíritos, sol, lua, estrelas, Terra, amigos e relacionamentos, tudo, sem exceção, que imaginei tendo existência permanente, independentes do meu pensar, se dissolve instantaneamente.

E, como o infundado fabrico de uma visão,

Não deixam nem uma pegada.

Não considerei razoável, Senhor, admitir uma hipótese, baseada na autoridade dos filósofos, que a meu ver subverte toda a filosofia, a religião e a virtude, até todo o senso comum. Constatando, pois, que todos os sistemas de entendimento humano foram erigidos sobre esta hipótese, resolvi começar do zero neste campo, sem partir de uma primeira hipótese.

O que agora apresento humildemente é o fruto desta pesquisa, dedicada aos cinco sentidos. Nela eu nada mais fiz do que dar grande atenção a minhas operações mentais, havendo me expressado com toda a perspicácia de que sou capaz, o que creio possa ser obtido por qualquer um que fizer o mesmo. As produções do espírito requerem um gênio que estão acima da compreensão vulgar; mas os tesouros do conhecimento estão enterrados profundamente para todos os homens, e podem ser escavados por todos os indivíduos que trabalharem com paciência, sem para tal necessitar-se de poderes sobrenaturais. Os experimentos requeridos neste tipo de investigação eram-me adequados, já que não exigiam recursos para além de tempo e atenção, o que tinha de sobra. A condição da carreira acadêmica, desinteressada e sem ambições materiais; as obrigações de minha profissão, que me obrigam a dar preleções sobre essa temática à juventude; e uma inclinação precoce a especulações do gênero – tudo isso colaborou, sem falsa modéstia de minha parte, para que eu fosse um homem a dar uma atenção especial aos pequenos detalhes, fundamentais nesta investigação.

Meus pensamentos sobre estas questões já existiam em papel para uso de meus alunos; depois estes escritos foram submetidos ao escrutínio duma sociedade privada de filosofia,¹ à qual também pertenço. Tive o prazer de que meus trabalhos fossem perscrutados inclusive pelo Senhor. A amizade desta comunidade filosófica é um grande estímulo para mim, sua opinião é também muito importante. Creio que a recepção a meus escritos e sua crítica, positiva ou negativa, contrabalançando minha timidez e reserva, foram fundamentais para me convencer a expor minhas conclusões ao grande público.

¹ Uma aberração social. (N.T.)

Se, com isso, puder justificar o senso comum e as faculdades racionais em face dessas sutilezas céticas, que nessa idade nos corroem; se eu puder iluminar um pouco mais nosso acabamento divino enquanto homens; honrando o Seu respeito pelas artes e ciências, bem como por tudo que possa fazer progredir a humanidade e fazer avançar nosso país; não tenho receio de submeter minhas investigações a sua aprovação, que nada mais são que a conseqüência de minha indústria em minha vocação. Seu dedicado servidor,

Thomas Reid

INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA

CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO

SEÇÃO 1ª. A IMPORTÂNCIA DA MATÉRIA E COMO INVESTIGÁ-LA [SEC11]

O fabrico da mente humana é curioso e maravilhoso, tanto quanto o do corpo humano. As faculdades da primeira não estão adaptadas ao mundo com menos sabedoria do que os órgãos do segundo. Pelo contrário: temos motivos para pensar a sabedoria da mente como inclusive mais elevada. O Divino Arquiteto nela empregou mais sabedoria e habilidade do que no resto de nossa estrutura. É, portanto, um nobilíssimo objeto de pesquisa, não só em si mesma como considerando sua influência sobre outros ramos da ciência.

Nas artes e ciências, mesmo as mais distantes da abstração pura, a mente ainda é fundamental e imprescindível. Quão melhor pudermos entender sua natureza, suas funções, defeitos e desordens, melhor saberemos empregá-la. Já nas artes mais nobres, a mente é inclusive o próprio objeto envolvido na operação. O pintor, o poeta, o ator, o orador, o moralista e o homem de Estado no fundo nada fazem senão trabalhar sobre a mente; e os melhores são os que melhor sabem fazê-lo.

Os homens sábios concordam, ou ao menos deveriam concordar, que só há um caminho rumo ao conhecimento das obras da natureza: observação e experimentação. Devido a nossa constituição inerente, temos fortes inclinações a generalizar baseados em fatos particulares, e essas generalizações são por sua vez utilizadas por nós para produzir outros efeitos particulares passíveis de observação. Esse proceder do entendimento é comum a toda criatura humana no cotidiano. E é o único por meio do qual qualquer descoberta em filosofia pode ser feita.

O homem que primeiro descobriu que a baixa temperatura congela a água, e que a alta temperatura a evapora, atuava pelos mesmos princípios, usava os mesmos métodos de Newton quando este enunciou as leis da gravitação e as propriedades da luz. Suas regulae philosophandi¹ são máximas do senso comum, praticadas todos os dias ao redor de todo o mundo. Aquele que filosofa por outras regras, seja sobre a realidade material ou mental, incorre em erro.

¹ “Régua do fazer-filosófico”, aquilo que deve nortear o pensamento filosófico. (N.T.)

Conjeturas e teorias são nossas filhas, e jamais se parecerão com aquilo que Deus criou a sua imagem e semelhança. A justa interpretação da natureza é a única filosofia, ortodoxa, evidente. Tudo o que adicionarmos a essa interpretação por nossa própria conta é apócrifo e não tem autoridade.

Todas as nossas curiosas teorias sobre a formação da Terra, a geração dos animais, a origem do mal natural e moral, sempre que se excedem e vão além de uma justa indução dos fatos, são tolice e vaidade, tanto quanto os vórtices de Descartes¹ ou os Archaeus de Paracelso.² Talvez a filosofia da mente não tenha sido menos adulterada que a filosofia sobre as coisas visíveis. A teoria das idéias é muito antiga, e foi recebida universalmente.

¹ Ou teoria dos fluidos de Descartes. Não se relaciona com suas pesquisas matemáticas, mas são de ordem astrofísica. (N.T.)

² Conceitos usados na alquimia para atribuir entidade vital à matéria inanimada. (N.T.)

Tudo aquilo que sabemos do nosso corpo se deve à dissecção anatômica e à observação, e deve ser, analogamente, por uma analogia da mente que podemos descobrir suas virtudes e princípios.

SEÇÃO 2ª. OS OBSTÁCULOS PARA NOSSO CONHECIMENTO DA MENTE [SEC12]

Deve ser reconhecido, porém, que esse segundo tipo de anatomia é mais difícil que o primeiro. Sendo assim, não deve parecer estranho que a humanidade nela tenha feito menos progressos. Captar com precisão as operações de nossas mentes, e tomá-las como objeto do próprio pensamento, não seria fácil nem para o sujeito mais contemplativo; para o grosso da humanidade, então, é tarefa quase que impossível.

Um anatomista que teve excelentes oportunidades terá examinado com os próprios olhos, e com uma exatidão comparável à melhor das vistas, corpos de diferentes idades, sexos e condições. Aquilo que é defeituoso, obscuro ou aberrante num corpo pode ser discernido com clareza, e em estado mais perfeito, em outro. Mas o anatomista da mente não pode se dar ao mesmo luxo. Só sua própria mente é que pode ser examinada com qualquer grau decente de veracidade e exaustão. Este é o único objeto a que ele tem acesso em seu estudo. Mediante evidências externas, é verdade, ele poderá coletar e comparar as operações de outras mentes; essas evidências são, porém, ambíguas no melhor dos casos. Precisam ser interpretadas de acordo com o que o anatomista percebe em si mesmo.

De tal maneira que se um filósofo pudesse delinear para nós, distintiva e metodicamente, todas as operações do princípio do pensamento inerentes a ele, o que, aliás, homem algum foi jamais capaz de realizar, tudo isso ainda seria apenas a anatomia de um só sujeito. Decerto que dita anatomia seria deficiente e errônea se aplicada à natureza humana em geral. Com meramente um bocado de reflexão podemos nos satisfazer da opinião de que a diferença entre as nossas mentes é maior do que aquela que podemos verificar entre as mentes de quaisquer animais da mesma espécie que tomemos como exemplo.

Dentre todos os múltiplos poderes e faculdades por nós possuídos, parece haver alguns que a natureza plantou e formou sozinha, como que deixando de fora qualquer participação da indústria humana. Falo dos poderes que temos em comum com os selvagens, necessários à preservação do indivíduo ou a continuidade da espécie. Há outros poderes, não obstante, cujas sementes foram apenas plantadas pela natureza em nossa mente, legando seu cultivo à própria cultura do homem. E é mediante este cultivo que somos capazes de todos os aperfeiçoamentos do intelecto, do gosto e da moral, que exaltam e dignificam a condição humana. A negligência ou perversão desse cultivo, por outro lado, transforma aquelas sementes em degeneração e corrupção.

O animal bípede que come o que a natureza oferece apenas conforme o que seu paladar e apetite ditam, e satisfaz sua sede na fonte cristalina, que propaga seu gênero sempre que a ocasião e a luxúria permitam, repele ferimentos e se alterna entre labores e o repouso é, como uma árvore na floresta, puramente integrante do processo do crescimento natural. Mas essa mesma criatura selvagem teve desde sempre consigo as sementes do lógico, do homem de gosto refinado, do orador, do político, do virtuoso, do santo. Sementes que, embora presentes, por falta de estímulo do ambiente, podem permanecer latentes indefinidamente, quase nunca percebidas pelo indivíduo que a conserva ou pelos seus mais próximos.

O degrau mais baixo da vida social trará à tona alguns desses princípios que ficam ocultos no estado puramente selvagem. Conforme o ser humano se exercita no campo da cultura, ajudado pelas companhias certas, pelos hábitos convenientes, compondo uma pequena parte, uma elite, graças a seu vigor congênito ou a uma conformação mais feliz do ambiente, desenvolve as sementes antes dormentes. Seres menos privilegiados integrantes deste mesmo princípio de civilização decairão até mesmo em relação a seus dons naturais, embora sobrevivam e gerem descendentes. Um terceiro grupo, ainda menos competente, pode mesmo se ver obstruído de tal maneira que vem a perecer, mutilado pelas contradições da natureza e da cultura incipiente.

Esse quadro faz da condição humana algo tão variegado e multiforme para os indivíduos que, dos pontos de vista intelectual e moral, há espaço para todo tipo de existência no gradiente que vai do mais rústico e simplório ao mais elaborado e complexo, como ir-se-ia do inferno ao céu. Essa diversidade prodigiosa torna extremamente difícil a descoberta dos princípios comuns a toda a espécie.

A linguagem dos filósofos, no que cocerne às faculdades originais da mente, está tão adaptada ao sistema vigente que não é adequada para expressar nenhum outro; como um terno que serve ao homem que o encomendou, e torna-o mais belo, mas que ficaria muito estranho ou mesmo cômico em outro sujeito, ainda que este último em tese nada devesse ao primeiro em termos de compelição e proporções dos membros. É quase impossível inovar na atual disciplina da filosofia da mente e suas operações sem empregar para isso um vocabulário e fraseado inédito, ou dotar de sentido inusitado as expressões antigas. Uma liberdade que, mesmo sendo tão necessária, cria preconceitos e mal-entendidos. Talvez só com o tempo essas descrições obtenham autorização e sanção sociais. Inovações na língua, como na religião e no governo, são sempre suscetíveis da desconfiança e aversão da maioria, até que por fim o costume as torne não só familiares mas mesmo o novo padrão.

Se as percepções e inclinações originais da mente aparecessem descontaminadas de todas as influências externas, exatamente como as recebemos da mãe-natureza, aquele mais acostumado à reflexão enfrentaria menos dificuldades ao tentar traçá-las. Antes do ato da reflexão as percepções e os movimentos da mente já nos aparecem tão sobrepostos uns em relação aos outros, tão compostos e descompostos pelas ações do cotidiano, modificados por associações e abstrações, que é difícil dizer quais eram os movimentos originais da mente.¹ A mente poderia ser comparada ao apotecário ou químico, cujos materiais são fornecidos pela própria natureza, mas que em sua arte sintetiza-os, modifica-os, dissolve-os, evapora-os e sublima-os de tal sorte que a aparência do produto obtido mal deixa pistas dos ingredientes utilizados. Só os melhores apotecários e químicos poderiam listar as matérias-primas. Reverter o produto obtido por experimentos à forma original é, então, impossível. Esse trabalho da mente não é realizado via razão madura, atos deliberados, algo que possamos rememorar ou recuperar. Tudo acontece escorado nos instintos, hábitos adquiridos, associações mil e outros princípios ainda, que operam muito antes de possuirmos a razão propriamente dita. É especialmente laborioso para a mente se debruçar sobre si mesma a fim de analisar as próprias pegadas e vestígios, desvendando suas próprias operações remotas quando já raciocinava e agia, mas ainda não refletia.

¹ O autor busca o que não há: palavras para expressar o que não pode ser expressado. Hoje o filósofo já se curou de procurar estas quiméricas coisas em si da mente. (N.T.)

Se pudéssemos mesmo obter uma história completa e bem-definida de tudo que se passa na mente de uma só criança, do começo de seus dias, desde as primeiras sensações, até seu amadurecimento e a fase do uso da razão; como suas faculdades ainda em desenvolvimento se puseram a trabalhar em primeiro lugar, e como esse trabalho evoluiu a ponto de gerar diversas noções, opiniões e sentimentos que guardamos dentro de nós mesmos; se pudéssemos fazê-lo, tal achado seria um tesouro da história natural, capaz de jogar mais luz sobre as faculdades humanas do que todos os sistemas morais criados até hoje unidos. É em vão que se aspira a tal evento. A natureza não nos concedeu esse poder. A reflexão, único instrumento de que dispomos para discernir os poderes da própria mente, advém muito tarde para que pudesse observar o progresso natural, entender a própria infância com a perfeição requerida.

Este é um tema, portanto, que jamais será abordado de maneira cuidadosa ou aplicada demais. Todo homem, abarrotado dos preconceitos da educação, da moda e da filosofia, fica assim obrigado a desfiar as próprias noções e opiniões, até encontrar os princípios mais simples e originais de sua constituição, relato que só pode ser produzido pelo próprio autor do relato, uma razão a mais para dele desconfiarmos. Eu chamaria essa investigação da verdadeira análise das faculdades humanas; e até que cumpramos essa tarefa é vão falar em qualquer sistema da mente. Por sistema, entendo: uma enumeração exaustiva dos poderes e leis originais de nossa constituição, e uma explicação dela derivada para os múltiplos fenômenos da condição humana.

Êxito, numa investigação tal, não é algo humanamente solicitável. Talvez seja possível, entretanto, com precaução e humildade, evitar ao menos erros e ilusões crassos. O labirinto pode ser o mais intrincado, e o barbante o mais delicado, de modo que ninguém consegue percorrer todas as alas do calabouço e viver para contar. Paramos, porém, onde já não podemos avançar um milímetro a mais. Marcamos posição para os exploradores das gerações seguintes, reafirmando o terreno já conquistado, em vez de pôr tudo a perder precipitadamente. Quem sabe quão mais ágeis não serão os olhos de nossos descendentes, aptos a distinguir linhas para nós invisíveis?

É o gênio, e não a falta do gênio, que adultera a filosofia, multiplicando os erros e as falsas teorias. A imaginação criativa desdenha o trabalho mais modesto e tosco de fazer a terraplanagem da fundação. É preciso antes remover muitos detritos, transportar muitos materiais: estas ações tidas como mais servis são delegadas aos burros de carga da ciência. A mente superior desenha a planta que quer atingir ao final de tudo. A invenção abastece de materiais os trechos mais carentes da obra. A moda do tempo adiciona as cores e os ornamentos. O trabalho direto deleita os olhos, e não deseja mais do que uma boa e sólida fundação. O trabalho direto do homem parece até competir com o relógio da natureza. Até, evidentemente, o arquiteto implodir a edificação, convertendo-a em ruínas. E o processo recomeça… Felizmente, para a idade presente, os erigidores de castelos andam a se envolver mais em romances que na filosofia. O romance é, sem dúvida, sua verdadeira província, essas regiões em que o desabrochar das fantasias é mais legítimo. Em filosofia, ceder aos caprichos é agir de modo espúrio.

SEÇÃO 3ª. O PRESENTE ESTADO DESTA ESPECIALIDADE DA FILOSOFIA. DESCARTES, MALEBRANCHE E LOCKE. [SEC13]

Que nossa filosofia da mente e suas faculdades está ainda num estado muito precário pode ser conjeturado, e com razão, mesmo por aqueles que nunca a examinaram detidamente. Há qualquer princípio, relativo à mente, fixado com a mesma perspicácia e nitidez, que se equipare aos princípios da mecânica, da astronomia ou da ótica? – Essas são realmente ciências fundadas nas leis da natureza universalmente obteníveis. O que é descoberto nelas não mais é objeto de disputa: tempos futuros poderão acrescentar a essas leis, mas, até que o curso da natureza seja modificado, o que já foi estabelecido não pode ser alterado. Porém, assim que voltamos nossa atenção para dentro, e considerados o fenômeno dos pensamentos, opiniões e percepções humanos, e tentamos relacioná-los com as leis gerais e os primeiros princípios de nossa constituição, imediatamente nos envolvemos em perplexidade e trevas. – E se o senso comum ou os princípios da educação não forem teimosos, há grandes chances de terminarmos num ceticismo absoluto.

Descartes, nada achando estabelecido nessa parte da filosofia, a fim de lançar-lhe pela primeira vez as bases profundas, decidiu não acreditar em sua própria existência até que pudesse justificá-la muito bem. Ele talvez tenha sido o primeiro a tomar essa resolução: mas pudera ele atingir seu propósito, e realmente tornar-se difidente de sua existência (para além da retórica), seu caso teria se tornado deplorável, e impossível de ser sanado mediante a razão ou a filosofia. Um homem teórico que descrê de sua própria existência está tão inapto para o diálogo e o debate quanto um homem que acreditasse ser feito de vidro. Não é impossível que desordens na constituição humana produzam tais casos extravagantes; porém a cura jamais viria mediante raciocínios. Descartes quer nos fazer crer que escapou de seu delírio pelo argumento lógico Cogito, ergo sum. Mas é evidente que ele jamais escapou de nenhum delírio e conservou a razão desde o princípio, nunca duvidando seriamente de sua própria existência. Ele já o toma como implícito em seu argumento, e nada prova. Eu penso, diz ele, dessa forma eu sou: e não é ainda o uso da boa razão dizer eu estou dormindo, por isso mesmo eu sou? Ou eu não estou fazendo nada, portanto eu sou? Se um corpo se move, sem dúvida ele existe; mas se está em repouso, ainda assim deve existir.

Talvez Descartes não tenha desejado assumir sua própria existência por este entimema, e sim assumir a existência do pensamento; e com isso inferir desta existência do pensamento a existência da mente ou do objeto do pensar. Mas por que ele não provou a existência de seu pensamento? A consciência o avaliza, poder-se-ia dizer. Mas quem é o comprovador da consciência? Pode qualquer homem provar que sua consciência está isenta de traí-lo? Nenhum homem o pode: nem podemos dar uma justificativa melhor para acreditar nela do que que cada homem, enquanto em posse da razão, está determinado pela constituição de sua natureza a dar crédito implícito a ela, a rir ou ter piedade do homem que duvida de seu testemunho. E não está todo homem em seu juízo perfeito, cada um tão determinado quanto os outros em considerar sua própria existência fiada em sua própria consciência?

A outra proposição assumida neste argumento, a de que o pensamento não pode ser sem uma mente ou um sujeito, está sujeita à mesma objeção: não que isso necessite de evidência; mas esta evidência não é mais pura nem imediata que a da própria proposição que deve ser provada por esta evidência mesma! Enfim, reunindo todas essas proposições em conjunto, – eu penso, – eu sou consciente, – tudo que pensa existe, – eu existo, – não está óbvio que todo homem sóbrio nutriria a mesma opinião acerca do homem que seriamente duvidou de qualquer uma delas? E se um desses homens fosse o amigo pessoal deste homem teórico que duvida seriamente, não ansiaria ele pela sua cura, prescrevendo-lhe ou arranjando quem lhe prescreva um bom regime físico e dietético, isto é, o cultivo da saúde, em detrimento de metafísica e lógica?

Todavia, supondo tudo como provado, i.e., que meu pensamento e minha consciência tem de ter um sujeito, e conseguintemente que eu existo, como sei eu que toda essa cadeia de pensamentos que eu rememoro pertence a um sujeito, e que o eu desse momento é o mesmo eu individual de ontem ou de antanho?

Descartes nunca pensou em começar essa dúvida: mas Locke o fez; e, a fim de resolvê-la, determina, de forma grave, que a identidade pessoal consiste em consciência; se você tem consciência de que fez algo há um ano, essa consciência torna-o a exata pessoa que o fez. E no entanto consciência do passado não pode significar nada além de uma lembrança de que eu o fiz. O princípio de Locke é, portanto, que a identidade consiste em lembranças e memórias; e conseguintemente um homem perde sua identidade pessoal quanto a tudo aquilo que ele esquece.

Nem são essas as duas únicas ocasiões em que nossa filosofia da mente parece ter sido muito prolífica em suscitar dúvidas, e igualmente infeliz em respondê-las.

Descartes, Malebranche e Locke empregaram todos eles seu gênio e habilidade em provar a existência de um mundo material; e o provaram muito mal. Mortais parcos de entendimento acreditam, sem dúvida, que há um sol, uma lua e as estrelas; uma terra, na qual habitamos; um país, amigos e relações, que desfrutamos; pedaços de terra, casas e objetos movíveis, que possuímos. Mas filósofos, apiedando-se da credulidade do vulgo, estão determinados a perder a fé no que está fundado na razão. Eles se empenham em refletir em razões para a crença nas coisas, nas coisas em que toda a humanidade sempre acreditou, sem no entanto serem capazes de dar nenhuma razão! Esperar-se-ia, num empreendimento tão importante, que a prova não fosse árdua: mas é a coisa mais difícil em todo o mundo! Esses três homens, de toda a boa-fé, fracassaram, munidos de todas as riquezas da filosofia, em estabelecer um argumento propício a convencer um homem capaz de reflexão de que a existência de qualquer coisa depende deste argumento lançado. Admirável Filosofia! filha da luz! parente da sabedoria e conhecimento! se verdadeiramente és ela! se és ela, certamente tu ainda não pousaste na mente humana, nem abençoaste-nos com teus raios o bastante para dissipar a “escuridão visível” das faculdades humanas, nem perturbaste este repouso e segurança que os melhores dos mortais usufruem, esses que nunca se aproximaram de teu altar nem sentiram tua influência! Mas se tu não tens o poder de dissipar essas nuvens e fantasmas que tu mesma descobriste ou criaste, fora com estes raios malignos e miseráveis! Eu desprezo a Filosofia e renuncio sua guia: deixa minha alma morar no Senso Comum.

SEÇÃO 4ª. EM DEFESA DESTES FILÓSOFOS [SEC14]

Mas em vez de desprezar a aurora, devemos esperar que a luz se intensifique! Em vez de culpar os filósofos que mencionei pelos defeitos e manchas de seus sistemas, devemos honrar sua memória, como a dos primeiros descobridores da região da filosofia anteriormente inexplorada; e, não importa quão estultos e imperfeitos sejam esses sistemas, eles abriram caminho para futuras descobertas, e dividirão, com justiça, o crédito por elas com seus sucedâneos. A poeira e os destroços que eles removeram, acumulada em todos os séculos de Escolástica, é quase infinita. Graças a eles estamos na boa senda, a da experiência e reflexão acurada. Eles nos ensinaram a evitar as ciladas da ambigüidade e da fraca razão de tantas palavras, tendo falado e pensado nessa matéria com uma distinção e perspicácia sem precedentes. As verdades a serem reveladas, que eles não alcançaram, a detecção dos erros em que eles involuntariamente se enredaram, serão também obra sua.

Deve ser observado que as deficiências da filosofia da mente, que foi exposta ao desprezo e ao ridículo de homens sensíveis, derivam principalmente disso: – que os devotos dessa filosofia, imbuídos de um preconceito natural, tentaram estender em demasia sua jurisdição além de seus justos limites, denominando-a falsamente Senso Comum. Mas sem saber esses devotos já declinaram essa jurisdição; porque eles desdenham o processo da razão e perdem assim qualquer autoridade; muito cheios de si, eles não pediam a ajuda da razão nem temiam seus ataques!

Neste torneio injusto entre Senso Comum e Filosofia, a última sairá sempre desonrada e derrotada; nem pode ela dar o troco um dia antes que essa rivalidade inútil seja descartada. Chega de intromissões; devemos promover uma cordial amizade entre ambos. O Senso Comum nada tem da Filosofia, nem nunca precisou de seu auxílio. Mas, por outro lado, a Filosofia (se me permitem mudar a metáfora) não tem nenhuma outra raiz que não sejam os princípios do Senso Comum. Ela nasce do Senso Comum, e cresce e se revigora graças a ele. Separada dessa raiz, seca-se a seiva, resseca-se a árvore do conhecimento e a Filosofia morre a apodrece.

Os filósofos da última geração, que evoquei, não se preocuparam com a preservação dessa união nem distinguiram a necessidade dessa subordinação; ao menos, não o bastante para os interesses da própria Filosofia. Mas os filósofos do presente, esses já declararam abertamente guerra ao Senso Comum, na expectativa de conquistar completamente seus domínios, substituindo tudo por Filosofia; uma ação não menos audaciosa e vã do que a dos titãs que tentaram destronar o temível Zeus.

SEÇÃO 5ª. O BISPO BERKELEY – O TRATADO DA NATUREZA HUMANA – DO CETICISMO [SEC15]

O tempo presente não produziu dois homens mais afiados e preparados no campo da filosofia da mente que o Bispo de Cloyne e o autor do Tratado da Natureza Humana. O primeiro, inimigo do ceticismo, com seu zelo religioso e moral, atingiu os seguintes resultados: não há mundo material; não há nada na natureza senão espíritos e idéias; a crença em substâncias materiais e em idéias abstratas são as causas principais de todos os erros filosóficos, e aliás de todas as infidelidades e heresias religiosas. Seus argumentos são fundados nos princípios legados por Descartes, Malebranche e Locke, e isso de uma maneira muito superficial.

A opinião dos juízes mais capazes parece ser a de que nenhum deles foi nem pode ser refutado. O bispo provou, de acordo consigo, mediante argumentos incontestáveis, aquilo em que nenhum homem reflexivo pode dar fé.

O segundo procede pelos mesmos princípios, mas estende-os ao máximo; e, como o bispo tinha desfeito o mundo material, esse autor, justificando-se da mesma forma, também dissolve esse mundo dos espíritos, e não deixa nada na natureza senão idéias e impressões, sem qualquer sujeito no qual essas possam ser imprimidas.

Há qualquer tensão ou irritabilidade neste autor, que logo na introdução de seu principal trabalho promete, seriamente, um sistema completo das ciências, e sobre uma fundação completamente nova, a da natureza humana; isso quando o intuito de toda a obra é mostrar que não há natureza humana nem ciência neste mundo. Talvez seja desarrazoado reclamar dessa conduta num autor, se ele nem acredita na própria existência nem na do leitor. Sendo assim, ele não teria a intenção de desapontar ninguém nem rir da credulidade dos outros. Continuo, porém, sem poder conceber que o autor do Tratado da Natureza Humana, em seu ceticismo, necessite de contemporizações quando se o critica abertamente. Pois devo contrastar seu trabalho com seu aspecto inusitado: ele crê, contra seus princípios, que deva ser lido e que deva conservar sua identidade pessoal até o momento de colher os frutos de sua investigação – que atingiu o acme metafísico –, em forma de honra e reputação. Ele confessa ingenuamente, até, que só na mais completa solidão e afastado dos homens ele consegue concordar com sua própria filosofia; a sociedade, como a luz do dia, dissipa a escuridão e a neblina do ceticismo e fá-lo regressar ao Bom Senso. Não soube de nada em sua vida privada, tampouco, que pudesse demonstrar ser ela um exemplo do ceticismo por ele mesmo pregado. Porque se seus amigos desconfiarem que isso possa vir a se passar, tenho certeza de que terão caridade e nunca o deixarão desacompanhado.

Pirro de Élis, o pai do ceticismo, me parece, levou uma vida de um perfeito cético, muito mais condizente com a doutrina que seus discípulos: conforme o que sabemos, Antígono de Caristo, citado em Diógenes Laércio, atesta que Pirro fazia exatamente o que e como dizia para os outros fazerem. Diz-se que se uma carroça estiava prestes a atropelá-lo ou um cachorro a mordê-lo, ou se ele se abeirava de um precipício, ele não se movia um milímetro no sentido de escapar do perigo e seguia seu curso, não confiando em seus sentidos. Afortunadamente, para ele, Pirro tinha escravos e alunos que não eram tão céticos quanto o mestre que tomavam conta de si. E assim ele pôde viver até os 90 anos.

É provável que o Tratado da Natureza Humana não tenha sido escrito em companhia; e não obstante ele contém indícios manifestos de que o autor descansava na fé do vulgo, e é raro enxergar nele um caráter cético contínuo que perdure por mais de meia dúzia de páginas sem concessões.

É dessa mesma forma que um dia o grande Pirro esqueceu seus próprios princípios, e diz-se que, uma vez, pôs-se tão furioso com seu cozinheiro e o gosto da comida que, de garfo (e, preso ao garfo, o pedaço de carne) em mãos, perseguiu-o até o mercado.

É peremptória a filosofia que, sem cerimônia, rejeita princípios que governam irresistivelmente a conduta do homem no cotidiano; princípios aos quais deve retornar o filósofo, após tão cuidadosamente refutá-los. Estes princípios de que falo são mais antigos e possuem mais autoridade que a Filosofia: ela deles emana, não o contrário. Se por um acaso a Filosofia pudesse levar a melhor, estaria se condenando à morte. Nenhuma sutileza ou engenhoso filosófico é competente o bastante para essa proeza, entretanto (destronar o Senso Comum). Seria como se um mecânico buscasse mover a Terra inteira de lugar por meio de um axis in peritrochio.¹ Ou se um matemático pretendesse demonstrar que umas primeiras quantidades, verificadas iguais a umas segundas, e estas segundas a umas terceiras, que essas primeiras quantidades não fossem também iguais às terceiras.

¹ Expressão para designar “a roda e o eixo”, um par de objetos que compõe uma das “máquinas simples” a ilustrar os princípios básicos da mecânica arquimediana ou clássica, que explica como, por exemplo, com economia de força, dirigida da maneira correta, através de alguns objetos e cálculos como angulações ou distâncias entre eles, pode-se levantar ou mover grandes pesos impossíveis para um indivíduo com o mero uso da força bruta. Não é por outra razão que, com um simples macaco hidráulico e uma haste de ferro (eixo) em ‘L’ com pontas que respeitem encaixes na roda conforme a funcionalidade dos parafusos, roscas, etc., e o treinamento adequado, qualquer pessoa capaz de conduzir um veículo também será capaz de trocar o pneumático, procedimento que requer a suspensão do carro (potencialmente mais de 1T, ou seja, mais de 10x grande parte da população) a fim de liberar a rotação manual da roda em plano inclinado para a remoção do pneu velho e reposição do pneu novo, exercendo a força de torque. Sobre a clássica e imorredoura frase “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”, realmente, considerando a Terra a roda, precisaríamos “apenas” de uma super-alavanca e de nos situarmos num ponto de apoio longínquo o suficiente para alterar seus movimentos (fora do sistema solar seria um bom começo…). Nosso ponto de apoio sendo a própria Terra, isto (querer, a sério, mover o planeta mediante a aplicação dos princípios da mecânica) é um dos absurdos clássicos da Lógica. Este é o tamanho da absurdidade do ceticismo moderno para Reid, pois é impossível aplicá-lo à vida.

Zenão se esforçou por demonstrar a impossibilidade do movimento; Hobbes, que não havia diferença entre o certo e o errado; e esse autor, que não se deve acreditar nos nossos sentidos, em nossa memória, nem mesmo em provas empíricas. Tal filosofia é apenas ridícula, inclusive para aqueles que não conseguem detectar sua falácia. Não pode lhe seguir outra tendência senão a exibição da solércia do sofista, e o preço é muito caro: desgraçar a natureza e a razão humana, e fazer da humanidade Yahoos.¹

¹ Raça fictícia do livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Os Yahoos têm a mesma aparência de seres humanos (Homo sapiens), porém seu intelecto e cultura não ultrapassa os dos primatas, sendo incapazes da linguagem.

SEÇÃO 6ª. DO TRATADO DA NATUREZA HUMANA [SEC16]

Há outros preconceitos contra este sistema da natureza humana que, mesmo numa visão generalista, podem tornar alguém dele desconfiado.

Descartes, Hobbes e esse autor cada um nos deu um sistema da natureza humana; uma missão vasta demais para um homem apenas, não importa quão genial e formidável. Há razões certeiras para crer que muitas partes da natureza humana foram negligenciadas por eles; e que outras foram simplificadas e distorcidas, para costurar os pontos cegos e completar o sistema. Cristóvão Colombo ou Sebastian Cabot poderiam com igual justiça ter-nos fornecido um mapa completo da América.¹

¹ Como primeiros descobridores e navegadores modernos do continente, eles não conheceram todos os seus contornos – nos deram um mapa incompleto da América.

Há um caráter e um estilo próprio às obras da natureza, nunca captável nas suas melhores imitações. Esse caráter e esse estilo parecem estar ausentes nos sistemas da natureza humana que eu mencionei, e particularmente no último. Pode-se ver uma marionete executar os mais vastos gestos e movimentos, que impressionam os observadores principiantes; mas, observando-se mais de perto, e isolando cada operação, nossa admiração logo cessa; isso porque passamos a compreender a arte do mestre titereiro. Como a marionete é diferente daquilo que representa! Quão pobre, comparada com o corpo humano, cujas estruturas, quão mais desvendamos, mais maravilhosas se nos tornam, e mais cônscios de nossa ignorância! O mecanismo da mente seria tão facilmente compreensível, sendo o do corpo tão complicado? E não obstante, através deste sistema três leis de associação, acrescidas de algumas impressões originais, explicam todo o mecanismo do sentido, da imaginação, da memória, da crença e de todas as ações e paixões da mente! É este o homem que a natureza produziu? Suspeito que não seja assim tão simples olhar os bastidores da própria natureza. É uma marionete, decerto, ideada por um aprendiz da natureza muito seguro de si, seguro de que é o seu melhor mímico. À luz de vela, é uma marionete tolerável; mas, à luz do dia, e analisada em suas porções, parecerá um homem feito com argamassa e espátula. Quanto mais sabemos de outras partes da natureza, mais com ela simpatizamos, mais a aprovamos. O pouco que conheço do sistema planetário, da Terra que habitamos, dos minerais, vegetais e animais, do meu próprio corpo e das leis obteníveis neste setor do universo abrem à minha mente cenas graciosas e grandiosas, e contribui igualmente para meu contentamento e minha sensação de poder. Mas quando olho por dentro e considero a mente em si mesma, que me faz capaz de todos esses prospectos e apreensões; se ela for mesmo o que o Tratado da Natureza Humana propõe, descubro que caí do cavalo e saí de meu castelo encantado, pois era tudo espectros e aparições. Envergonho-me intimamente por pensar como me deixei iludir: estou com vergonha de minha organização, e não posso me impedir de contender com meu destino. É este teu passatempo, ó Natureza, encher tua tola criatura de artimanhas, depois despir-lhe a máscara e mostrá-la a si própria como fôra trapaceada? Se esta é a filosofia da natureza humana, minha alma não adentra em seus segredos. Encontramos de fato a proibida Árvore do Conhecimento! Mal provo de seu fruto e vejo-me nu e despido de tudo o mais, isto é, até meu eu! Eu vejo a mim e a toda a estrutura da natureza chafurdarem em idéias fugidias, que, como os átomos de Epicuro, dançam em torno do vazio.

SEÇÃO 7ª. QUE O SISTEMA DE TODOS ESSES AUTORES É IDÊNTICO E CONDUZ AO CETICISMO [SEC17]

Mas e se eu objetar que todas essas profundas disquisições nos primeiros princípios da natureza humana deveriam conduzir, natural e necessariamente, seu investigador direto ao abismo do ceticismo? Não deveríamos julgar racionalmente levando em conta o que aconteceu? Descartes mal principiara a cavar nessa mina e o ceticismo já estava à espreita para devorá-lo. Ele fez o que pôde para afastá-lo. Malebranche e Locke, que cavaram ainda mais fundo, acharam a dificuldade de lidar com esse inimigo ainda mais elevada; mas eles laboraram com honestidade. Berkeley, que deu prosseguimento ao trabalho, desesperando de poder concluí-lo, utilizou de um expediente: ao renunciar ao mundo material, que pensou poder preservar sem dano, e até mesmo com lucro, esperava, por uma partição inexpugnável, preservar também o mundo espiritual. Ai de nós! O Tratado da Natureza Humana arruinou arbitrariamente todo o empreendimento da repartição, e inundou esta mina em novo dilúvio.

Esses fatos, que não se pode negar, nos dão motivos para temer que o sistema cartesiano do entendimento humano, que eu devo pedir a vênia de chamar aqui de sistema ideal, e que, com alguns melhoramentos de seus discípulos é agora recebido, tinha alguns defeitos originais. Que o ceticismo está nele embutido, e nele pegou carona, parece consensual. Exumando a fundação do sistema ideal, portanto, a fim de estudar suas fundações, o material empregado na obra, damos um primeiro passo a fim de encontrar e erigir qualquer fundamento sólido e útil de conhecimento na matéria.

SEÇÃO 8ª. NÃO DEVEMOS DESISTIR DAS INVESTIGAÇÕES [SEC18]

Deveríamos desistir, porque Descartes e seus sucedâneos falharam? De maneira alguma. Essa pusilanimidade seria injuriosa conosco mesmos e injuriosa para com a verdade. Descobertas proveitosas são às vezes o efeito do gênio superior, mas com ainda mais freqüência são o resultado acidental de circunstâncias felizes. Um viajante prudente pode errar o caminho, e andar longo tempo pela pior estrada sem o saber; e, embora a estrada seja boa e sempre convidativa para ele, pois onde há estrada há avanço, se não se der conta do erro ele pode prosseguir muitos quilômetros sem suspeitas, cada vez mais longe do destino almejado, e até sendo seguido por outros viajantes menos experientes. Quando a estrada termina, porém, no abismo, mesmo os menos ajuizados dos viajantes conseguem perceber de imediato o erro anterior, sendo mais fácil recuar e retraçar seus passos pela boa senda.

No entre-tempo, essa parte não-exitosa da filosofia produziu efeitos, muitos deles desencorajadores para novos exploradores da mente; mas, se um erro foi cometido na estrada antes disso, era uma conseqüência previsível que erros desembocassem em efeitos indesejados. Só o tempo e escolhas melhores poderão remediar a situação. Homens sensíveis, jamais céticos nos problemas do dia-a-dia, são aqueles aptos para tratar com soberano desprezo tudo que tenha sido dito ultimamente ou está para ser dito em filosofia da mente. – É metafísica, eles dizem: quem tem isso em mente? Deixe que os sofistas e escolásticos se embrenhem em suas próprias teias-de-aranha. Estou decidido a crer na minha própria existência, e na existência de outras coisas, sem vacilar. E não hesitarei em dizer que fria é a neve e doce o mel, não importa o que digam aqueles. Que sejam tolos ou que queiram me fazer passar por tolo, mas não dou crédito a quem argumenta que devo prescindir de minha razão e de meus sentidos na investigação.

Confesso que não sei dizer o que um cético redarguiria a isso, não me antecipo nesse tocante; nem a quais argumentos os críticos recorrerão para refutar qualquer coisa que eu encontre. Não devemos nos engessar porque a sofística atravessa nosso caminho; tudo que os sofistas merecem é o desprezo. Ou não há verdade alguma nas faculdades humanas… e por que então debatemos?

Sendo assim, qualquer homem que se veja neste beco sem-saída metafísico, não refletindo numa saída, ora, que recorra a sua bravura e corte os nós desta corda ou teia-de-aranha que não pode afrouxar pela sutileza ou paciência. Que maldiga a metafísica e dissuada seus colegas de serem metafísicos! Porque se eu alguma vez pisei em pântanos e brejos, falsamente conduzido por ignis fatuss,¹ o que posso fazer senão recuar e avisar os demais sobre o que vivi? Se a Filosofia se contradiz, engana seus devotos, depriva-os de todo objeto digno de investigação, deixe que ela vaga de volta para as regiões infernais de onde deve ter partido sua versão prototípica.

¹ Fogos fátuos.

Mas estaríamos seguros de que essa donzela é do partido dos céticos? Não poderia ser que trilharam para longe do caminho da Filosofia? Por um acaso um gênio nunca fez com que seus próprios sonhos passassem por oráculos divinos? Condenaremos a Filosofia sem direito de antes ouvi-la? Não seria razoável. Já encontrei na filosofia uma companheira agradável em outras matérias, uma conselheira confiável, uma amiga do Senso Comum, e alguém capaz de melhorar a humanidade. Esse crédito que ela amealhou lhe dá ainda o direito de se corresponder comigo, e de que eu nela confie, ao menos até que esbarrasse com provas infalíveis de sua infidelidade!

CAPÍTULO 2. O OLFATO

SEÇÃO 1ª. ORDEM DA INVESTIGAÇÃO. ORGANIZAÇÃO DO SENTIDO DO OLFATO. [SEC21]

É de tal maneira difícil desvendar as operações do entendimento humano e reduzi-las a seus primeiros princípios que não podemos esperar o sucesso senão começando do mais simples, e prosseguindo passo a passo, com cuidado, ao mais e mais complexo. Os cinco sentidos externos, por essa mesma razão, devem ser considerados primeiro na análise das faculdades humanas. E a mesma lógica deve estabelecer uma hierarquia dentro mesmo destes cinco sentidos, não cabendo a precedência ao mais nobre ou mais útil, e sim ao mais simples. Deve ser eleito o sentido cujos objetos estão em menor risco de ser apreendidos por outras coisas senão aquilo que são.¹

¹ Cheiros.

É nesse sentido que nossa análise das sensações deve ser levada adiante, com muito mais facilidade e distinção, na seguinte ordem: olfato, paladar, audição, toque e, por último, a visão.

A filosofia natural nos informa que todo corpo animal e vegetal, e provavelmente todo outro corpo, enquanto exposta ao ar, está continuamente emanando eflúvios extremamente sutis, não só enquanto em estado vital e durante o crescimento, mas também nos estados de fermentação e putrefação. Essas partículas voláteis provavelmente repelem-se umas às outras, espalhando-se no ar, até atingirem outros corpos com que possam ter alguma afinidade química, com os quais interagem, unindo-se em novos compostos. Todo o aroma das plantas e outros corpos é causado por essas partes voláteis e é cheirado tanto quanto perpassa o ar: a acuidade do sentido do olfato em alguns animais nos mostra que esses eflúvios viajam grandes distâncias e são inconcebivelmente sutis.

Se, como alguns químicos colocam, toda espécie de corpo tem um spiritus rectus,¹ ou seja, uma espécie de alma, que é causa do cheiro e de todas as virtudes específicas daquele corpo, e que, sendo extremamente volátil, flutua pelo ar em busca de receptáculos apropriados, isso eu não estou aqui para discutir. Esta, como outras teorias, é mais produto da imaginação do que da justa indução. Mas que todos os corpos são cheirados via eflúvios que eles emitem, e que são sugados pelas narinas junto com o ar, disso não há dúvida. Há uma aparência manifesta de algum intuito ou interesse no posicionamento desse órgão do cheiro ou olfato no interior deste canal, mediante o qual o ar atravessa continuamente, no processo de inspiração e expiração.

¹ A tradução literal seria “espírito fixo”.

A anatomia nos diz que a membrana pituitaria¹ e os nervos olfatórios, que estão distribuídos por partes vilosas² da membrana, são os órgãos destinados pela sabedoria da natureza para este sentido. Sendo assim, quando um corpo não emite eflúvios, ou quando os eflúvios não penetram o nariz, ou quando a membrana pituitária ou os nervos olfatórios por algum motivo não podem executar seu trabalho, não pode ser sentido o cheiro.

¹ Relativo ao muco ou tecido mucoso.

² Recobertas de pêlo.

E apesar disso, é evidente que nem os órgãos do cheiro, nem o meio, nem qualquer movimento excitado na membrana acima mencionada que possamos conceber, ou no nervo ou ‘espírito’ animal, guardam semelhança com a sensação do ato de cheirar; nem essa sensação em si mesma poderia nos levar a uma apreensão imediata dos nervos, da alma animal ou dos eflúvios.

SEÇÃO 2ª. O OLFATO ABSTRATO (A SENSAÇÃO) [SEC22]

Havendo estabelecido essas premissas com respeito ao meio e ao órgão desse sentido, agora devemos prestar atenção àquilo de que a mente está consciente quando cheiramos uma rosa ou um lírio.¹ E como a linguagem não nos brinda com outro nome para essa sensação, contentar-nos-emos em chamá-la de cheiro ou odor, mas tomando o cuidado de excluir do significado, a partir daqui, tudo que não seja a sensação em si, até terminarmos de analisar o olfato de maneira abstrata.

¹ Flor também chamada copo-de-leite dada sua brancura.

Suponha uma pessoa que nunca usou deste sentido antes; ao recebê-lo pela primeira vez, e cheirar uma rosa, pode este indivíduo perceber qualquer similitude ou acordo entre o cheiro e a rosa? ou entre aquele e qualquer outro objeto? Decerto que não. O indivíduo se sentirá afetado de uma forma nova, sem saber por quê. Exatamente como o homem que sente alguma dor ou prazer anteriormente desconhecido, ele estará consciente que ele não é a própria causa da sensação; mas não conseguirá, pela natureza da coisa, determinar se ela é causada por um corpo ou espírito, por algo perto ou por algo à distância. Não há verossimilhança a nada mais, nada que permitira uma comparação. O indivíduo não concluirá nada a respeito, a não ser que realmente há uma causa qualquer desconhecida da sensação.

É evidentemente ridículo associar ao cheiro uma imagem, cor, extensão ou qualquer outra qualidade dos corpos. Não é possível conceder um lugar ou espaço à sensação, mais do que poderíamos atribuir um espaço à melancolia ou algria: a existência da sensação se dá quando se cheira, e em nenhum outro instante. Parece, tudo indica, uma afecção ou ‘sentimento mental’ simples e original, inexplicável e indescritível. É de fato impossível que esta sensação seja um corpo: é sensação; e sensação é justamente algo numa senciência.

Diferentes odores possuem diferentes graus de força e fraqueza, ou de ‘pervasividade’. Maioria pode ser classificada em agradáveis ou desagradáveis; e freqüentemente os agradáveis, quando fracos, são desagradáveis uma vez que se apresentem fortes. Quando comparamos diferentes aromas em conjunto, percebemos quase nada de ‘igual’ ou ‘contrário’ entre um aroma e outro. Não podemos traçar relações entre aromas, eles são ‘únicos’. São coisas tão simples que é quase impossível dividi-los entre genera e species.¹ Quase todos os nomes que lhes concedemos são particulares; como ‘cheiro da rosa, ou da jasmim. Concedo que há nomes gerais: doce, fedorento, de mofo, pútrido, cadavérico, aromático. Alguns parecem refrescar e animar a mente, outros mortificá-la, deprimi-la.

¹ Classificações elementares da biologia.

SEÇÃO 3ª. SENSAÇÃO E MEMÓRIA: PRINCÍPIOS NATURAIS DA CRENÇA. [SEC23]

Até aqui consideramos a sensação abstratamente. Agora comparemos a sensação abstrata com outras coisas com que ela pareça guardar alguma relação. Primeiro nos cabe comparar essa sensação com a memória e a imaginação.

Posso pensar no cheiro da rosa quando não cheiro a rosa; e é possível que quando penso nisso não haja por perto nem rosa nem cheiro algum que esteja sentindo. Mas quando cheiro efetivamente a rosa, estou necessariamente determinado a crer que a sensação existe. Isto é comum a todas as sensações, i.e., que elas não podem existir senão ao ser ‘percebidas’; o que nos leva a ‘não poderiam ser percebidas se não existissem’. Eu poderia com a mesma facilidade duvidar de minha própria existência e da existência de minhas sensações. Mesmo esses filósofos profundos que se esforçaram por refutar a própria existência ainda deixaram o campo das sensações intacto dentro de si, sem um objeto, preferindo-o em detrimento de negar, com a própria negação de si mesmos, a realidade da existência de suas sensações.

Aqui então uma sensação, um odor, por exemplo, pode ser apresentada à mente de 3 formas diferentes: pode ser cheirado, pode ser rememorado, pode ser imaginado ou objeto da reflexão. No primeiro caso, está necessariamente acompanhada, a sensação do odor, de uma crença ou fé na sua existência presente; no segundo, vem necessariamente acompanhada de uma crença na sua existência passada; e no último, nada há de crença, mas sim do que os lógicos denominam uma apreensão simples.

Por que a sensação deveria nos compelir a dar fé na existência imediata da coisa, a memória, na existência passada; e a imaginação em nada? Aposto que nenhum filósofo pode atinar com as respostas. O máximo que podemos dizer é que essa é a natureza dessas operações: são simples e originais, e atos inexplicáveis da mente.

Suponha que uma vez, e tão-só uma vez, eu cheirara uma tuberosa numa sala, em que ela crescia num vaso, e produzia um ótimo perfume. No dia seguinte eu conto o que vi e cheirei. Quando me auto-observo para constatar o que se passa na minha mente neste caso, me parece evidente que a coisa que vi ontem, e a fragrância que respirei, são agora objetos imediatos de minha mente no momento em que me recordo do episódio. Posso ainda imaginar este vaso e flor transportados para a sala onde estou sentado agora, e portanto que a tuberosa emana o mesmo cheiro. Aqui também me parece que a coisa individual que eu vi e cheirei é objeto de minha imaginação.

Filósofos dizem que o objeto imediato de minha memória e imaginação, neste caso, não é a sensação passada, mas uma idéia dela, uma imagem, fantasma, ou espécies de odores que eu cheirara: que essa idéia agora existe em minha mente ou em meu aparelho sensório. A mente, contemplando esta idéia, a considera a representação do que passou, ou do que pode existir; a mente chama esta representação de memória ou imaginação, recordação. Essa é a doutrina da filosofia ideal; não passaremos um juízo sobre esta doutrina nesta altura. Não percamos o precioso fio de raciocínio. Prestando detida atenção, a memória me parece ter coisas do passado, mas não idéias do presente, como objetos. Examinando mais de perto esse sistema de idéias que constitui a memória, nos recordamos de que nenhuma prova sólida da existência de idéias foi jamais aduzida. Idéias são meras ficções ou hipóteses, inventadas para resolver o enigma dos fenômenos do entendimento humano; idéias não são o suficiente para resolver este enigma; essa hipótese das idéias ou imagens das coisas em nossa mente, ou no aparelho sensório é afim aos múltiplos paradoxos tão chocantes ao senso comum, afim ao ceticismo que desgraça nossa filosofia da mente e que nos trouxe, em primeiro lugar, à condição de sermos alvos do ridículo e do desprezo de homens sensíveis ou prudentes.

Nesse ínterim, peço vênia para pensar com o vulgo que, quando lembro o cheiro da tuberosa, toda sensação que senti ontem, e que não mais prevalece (não mais existe), é o objeto imediato de minha memória. Quando imagino as coisas de outrora presentes, a sensação ela mesma, não sua representação, não seria o objeto imediato de minha imaginação? Mas se o objeto de minha sensação, a memória e a imaginação forem neste caso o mesmo, ainda assim esses atos ou operações da mente são tão diferentes e tão facilmente distinguíveis quanto cheiro, gosto e som! Estou consciente de uma diferença de tipo entre sensação e memória, e entre ambas e minha imaginação. Reitero que a sensação me obriga a crer na existência presente do cheiro, e a memória me obriga a crer na existência passada desse cheiro. Há um odor, é o testemunho imediato do sentido; houve ou havia um cheiro, é o testemunho imediato da memória. Se você me pergunta: por que você acredita que o cheiro existe?, eu não posso dar outra resposta a não ser que eu cheiro, estou sentindo o cheiro. E se você me perguntar: por que você acredita que o cheiro existiu ontem?, a única resposta é porque eu lembro do cheiro que eu senti.

Sensação e memória, portanto, são operações mentais simples, originais e perfeitamente distintas, e ambas, a sensação e a memória, são princípios originais da crença. A Imaginação, esta é distinta de ambas, pois não é um princípio da crença. Sensação implica existência presente do objeto; memória, existência passada; porém, imaginação é uma operação da mente que vê o objeto desnudo, sem implicar na fé na existência do mesmo, ou na sua não-existência. Isto é o que as escolas denominam apreensão simples.

SEÇÃO 4ª. JUÍZO E CRENÇA EM ALGUNS CASOS PRECEDEM A APREENSÃO SIMPLES. [SEC24]

Mas eis que nos deparamos com o sistema ideal, que bloqueia nossa passagem. Ele ensina que a primeira operação da mente sobre suas idéias é a apreensão simples, a concepção mais crua de alguma coisa, sem crença embutida. Só depois de termos adquirido mais apreensões simples, via comparação, percebemos acordos e desacordos entre estas apreensões. Estas percepções de acordos e desacordos seria o que chamamos de crença, juízo, conhecimento. O problema é que toda essa sistemática é fictícia, arbitrária, sem fundamento natural: a sensação deve vir primeiro que a memória e a imaginação; se isto é verdade, estaria pressuposto que a apreensão, acompanhada de crença e conhecimento, viria antes da apreensão simples, ao menos dentro do escopo que agora estudamos. Em vez de dizer ingenuamente que crença e conhecimento advêm da comparação entre apreensões simples, deveríamos afirmar que a apreensão simples é desempenhada decidindo sobre e analisando um juízo original e natural. E é com operações mentais, neste caso, como é com os corpos naturais, que se compoem de elementos e princípios simples. A natureza não exibe esses elementos em separado, para que nós os unifiquemos; ela os exibe misturados e compostos em corpos concretos, e é só via arte¹ e análise química que decompomos os elementos.

¹ No sentido de experiência acumulada, não da intuição estética.

SEÇÃO 5ª. DUAS TEORIAS DA NATUREZA DA CRENÇA REFUTADAS. CONCLUSÕES DERIVADAS. [SEC25]

O que é exatamente essa crença ou conhecimento que acompanha a sensação e a memória? Todo homem sabe o que é, mas nenhum ainda o definiu. Algum homem aspira a definir a sensação, a fim de definir o que é a consciência? Afortunadamente, ninguém incorre nesse erro. Se nenhum filósofo tentou até hoje definir e explicar a crença, alguns paradoxos filosóficos – mais incríveis que qualquer um nascido das superstições mais abjetas ou do entusiasmo mais frenético – jamais viram a luz. Desse tipo decerto é aquela descoberta moderna da filosofia ideal, de que a sensação, a memória, a crença e a imaginação – provado que se relacionam ao mesmo objeto – são apenas diferentes graus de força e vivacidade da ‘idéia’. Suponhamos a idéia como sendo a de um estado futuro post mortem. Um homem tem nele plena convicção; outro é agnóstico (possui um grau fraco e diáfano da idéia). Suponha agora uma terceira pessoa que acredita firmemente que não haja tal estado. Estará sua idéia num grau extremamente fraco da escala ou, pelo contrário, no grau mais poderoso? Se é um estágio fraco da idéia que move este terceiro homem, então há de haver uma crença poderosa, em que a idéia é fraca; se é um estágio poderoso da idéia, então a crença num futuro estado da alma e a crença de que não haja tal estado devem ser uma e a mesma. O mesmo argumento usado para provar que a fé sugere tão-só idéias consolidadas de um objeto, em vez da apreensão simples, pode ser usado, portanto, para dizer que a fé em Zeus seria mais poderosa, inerentemente, do que uma indiferença qualquer do sujeito frente a um objeto (a postura do agnóstico). O que diríamos então do ódio? Usando esta escala hipotética, seria um grau do amor ou um grau de indiferença? Se devêramos dizer que no amor há algo mais que uma idéia, p.ex., que é uma afecção da mente; não poderíamos dizer com igual razão que na fé ou convicção há algo mais que uma idéia, p.ex., uma persuasão ou assentimento da mente?

Talvez cheguemos à conclusão de que é tão ridículo tentar lutar contra esta opinião quanto defendê-la! De fato, se um homem insiste que um círculo, um quadrado e um triângulo diferem somente em magnitude, e não em figura, acredito que ele não encontraria nem apoiadores nem debatedores, isto é, refutadores. E no entanto não me soa menos chocante ao senso comum insistir que sensação, memória e imaginação diferem somente em grau, e não em tipo ou qualidade. Sei, ilustrativamente, que se diz que no delírio ou no sonho os sujeitos estão sujeitos a trocar uma pela outra. Mas disso tornar-se-ia necessário que em vigília e em estado saudável de consciência não distinguíssimos uma da outra? Como um homem vem a saber que não delira? Não posso afirmá-lo;¹ nem como um homem sabe que existe! Mas se um homem, no cotidiano, duvida seriamente se está ou não em crise de delírio, a probabilidade maior é que ele realmente esteja delirando, e é hora de consultar um médico – e não um professor de lógica!

¹ A famosa fala confuciana: “Como sabemos que não estamos sonhando com a realidade?”.

Já descrevi a noção lockeana de crença ou conhecimento: ele sustenta que essa não é senão a percepção do acordo ou desacordo com as idéias; e isso ele considera uma descoberta importantíssima.

Teremos ainda a oportunidade de examinar mais minuciosamente esse grande princípio da filosofia do senhor Locke, e de demonstrar que com efeito se trata de um dos principais pilares do ceticismo moderno, muito embora contra a vontade do autor. De imediato, consideremos apenas o quanto este princípio adere à causa da crença que estamos estudando. Poderá este princípio iluminar o caso? Creio que a sensação que sinto existe; e que a sensação de que me lembro não existe agora, mas existiu ontem. Aqui, de acordo com o sistema de Locke, eu comparo a idéia de uma sensação com as idéias das existências passada e presente. Numa ocasião essa idéia está de acordo com a idéia da existência presente, mas em desacordo com a idéia da existência pretérita; na segunda ocasião, o inverso. São idéias caprichosas e que estão o tempo todo trocando amizades e inimizades! E não estou preparado para entender como funcionam esses caprichos… Quando digo que uma sensação existe, penso que entendo claramente aquilo que quero expressar. Mas aquele que quer tornar a expressão ainda mais clara afirma que há uma concórdia entre a idéia dessa sensação e a idéia da existência! Isso são trevas, não luzes. Circunlóquios obscuros. Concluo, portanto, que a crença que acompanha a sensação e a memória é um simples ato mental, que carece de definição. E assim será com as demais sensações: ver e ouvir jamais poderão ser definidos a ponto de ver e ouvir serem entendidos por quem não vê ou ouve. Para quem vê e para quem ouve, tanto faz uma definição: ela não tornará o visto ou o ouvido ‘mais claro’ para si. Todo homem com crenças e artigos de fé (e seria uma grande curiosidade depararmo-nos com um homem isento de crenças!) sabe perfeitamente o que uma crença é, mas nunca a definirá nem explicará a contento. Concluso, ainda, que sensação, memória e imaginação, mesmo debruçadas sobre o mesmo objeto, são operações de uma natureza bastante distinta, perfeitamente distinguíveis para qualquer homem sóbrio e em sua razão. Um homem que corre perigo de trocar umas pelas outras está ele mesmo em grande perigo e deve ser considerado com grande piedade. O que quer que este homem espere encontrar em termos de consolação, deverá se dirigir a outra coisa fora da metafísica e da lógica! Concluo, indo além, que pertence à condição humana o ato de acreditar na existência presente das nossas sensações e na existência passada daquilo que a memória é capaz de recordar tanto quanto o ato de achar 4 como resposta de de 2². A evidência dos sentidos, a evidência da memória e a evidência da relação necessária entre as coisas¹ são todas evidências distintas e originais inerentes a nossa constituição. Nenhuma dessas evidências depende da outra ou pode ser por elas esclarecida. Debater contra isso seria absurdo. Não, debater a favor delas é ainda absurdo, tautológico!² São princípios primordiais. São princípios não da razão, mas do próprio senso comum.³

¹ Quase chega à Crítica da Razão Pura de Kant. Sentir implica o espaço, a memória implica o tempo e em terceiro lugar vem o princípio da causalidade; eis o tripé do a priori epistemológico kantiano.

² Daí serem faculdades hoje chamadas a priori, que precedem nossa experiência.

³ Da razão pura, na nomenclatura de Immanuel Kant. O que Reid chama de razão neste contexto ainda é a razão empírica dos britânicos e/ou a razão abstrata dos franceses cartesianos antes do “kantismo” filosófico elaborar a síntese e encerrar o debate.

SEÇÃO 6ª. EM DEFESA DOS ABSURDOS EM METAFÍSICA. SENSAÇÃO SEM SUJEITO, UMA CONSEQÜÊNCIA DA TEORIA DAS IDÉIAS. OUTRAS CONSEQÜÊNCIAS DESSA ESTRANHA OPINIÃO. [SEC26]

Havendo considerado a relação existente entre a sensação do cheiro e a lembrança e a imaginação dele, prossigo, agora, com a relação do olfato com a mente, ou princípio senciente. É certo que nenhum homem pode conceber ou crer na existência do cheirar sem uma consciência, ou algo que tenha o poder de cheirar, o que chamamos simplesmente sensação, operação ou sentimento. Se for solicitada uma prova da asserção anterior, no entanto, confesso que ela não existe. Querer provar o olfato ou a sensação seria tão absurdo quanto negá-los.

Tudo isso poderia ser afirmado sem escusar o leitor antes da publicação do Tratado da Natureza Humana. Porque até este evento não sei de indivíduo algum que pensara em pôr em dúvida aquele princípio, ou em dar para sua crença uma justificação racional. Que os seres pensantes fosse de natureza etérea ou ígnea, material ou imaterial, tudo isso andava em disputa; mas pensar numa operação executada por um ser ou outro havia sido sempre prestabelecido, um princípio que não admitia dúvida.

Desde que Hume, no entanto, que é sem dúvida um dos metafísicos mais agudos jamais produzidos, tratou este princípio como um preconceito vulgar, e sustentou que a mente é só uma sucessão de idéias e impressões sem qualquer objeto, isto mudou. Sua opinião, embora contrária às apreensões comuns da humanidade, merece respeito. Peço portanto que nem esta nem outras noções metafísicas correlatas sejam pejorativamente tratadas como absurdos ou contra-sensos. Não significa, por ser uma opinião minoritária, nenhuma depreciação desses autores. Seu procedimento não se deve à falta de entendimento, mas de um excesso de refino: os raciocínios que conduzem a suas hipóteses iluminam a matéria de modo inédito e são sinais de verdadeiro gênio e penetração. As premissas expiam a conclusão.

Se há determinados princípios, como creio ser o caso, em que a constituição de nossa natureza nos leva a crer, e que normalmente, por necessidade, devemos tomar como inatos no sentido do cotidiano, sem por isso poder explicar sua causa –– se há esse tipo de princípios, são eles o que batizamos de princípios do senso comum. Aquilo que se apresenta como manifestamente contrário aos princípios do senso comum são naturalmente considerados por nós como absurdos.

Se nossa mente formula a abstração “A sensação e o pensamento podem existir sem a senciência”, e estabelece esta formulação na filosofia como uma verdade, isto não se deve ao acaso. Com efeito, e não ironizo, o atingimento desta formulação são a mais incrível descoberta de toda nossa história intelectual. A doutrina das idéias que nós recebemos da Antiguidade é o princípio-base que torna possível este conhecimento por dedução (em vez de indução). Em dado momento seria necessário chegar a esta conseqüência, dada a premissa. Que tenha demorado muitos séculos é chocante – mas é provável que não fosse assim se a repugnância e contrariedade que sente nossa apreensão cotidiana não retardassem bastante seu estabelecimento. É de fato uma conclusão que exige um grau incomum de intrepidez filosófica. É um princípio fundamental de um sistema ideal: Todo objeto do pensamento deve ser uma impressão, ou uma idéia, isto é, uma cópia mais tênue de uma impressão precedente. Este princípio fundamental é tão universalmente validado que o autor acima citado¹ não necessitou, ainda que todo seu sistema fosse decorrente dele, erigido sobre ele, provar seu ponto. Este ponto fixo, este princípio básico, sobre o qual Hume erige seu maquinário metafísico, é o suficiente, ao fim, para tornar céu e terra, corpo e espírito convolutos. Em minha apreensão indutiva, este ponto fixo não gera tamanha conseqüência à toa ou devido a qualquer tipo de erro. É uma revolução lógica do espírito humano. Porque se impressões e idéias são os únicos objetos do pensamento, faz sentido que céu e terra, corpo e espírito, e tudo o mais, devam ser considerados unicamente como impressões e idéias, ou seriam ainda pior, palavras sem qualquer significado. Tal noção, em que pese tão estranha, está intimamente conectada com a validade da doutrina das idéias – neste ponto, ou admitimos as conclusões que tal doutrina nos preme a tomar ou então questionamos toda a doutrina.

¹ Aqui fala-se de David Hume, mas não devemos esquecer que a doutrina das idéias provém de Platão.

As idéias parecem conter algo em sua natureza que não coaduna bem com outras existências. Sua primeira aparição na filosofia se deu por meio de imagens ou símbolos um tanto simplórios das coisas. São imagens tão tíbias que não têm – ou tinham – qualquer caráter ofensivo; ao contrário, serviam admiravelmente bem ao progresso do pensar, em particular como instrumentos da filosofia na descrição das operações do entendimento humano. Desde que, porém, o homem começou a raciocinar mais clara e distintamente, as idéias foram de grau em grau suplantando seus constituintes (as coisas), tomando o lugar de tudo, subsumindo sua existência, menos a das próprias idéias. Em primeiro lugar, foram descartadas as qualidades secundárias dos corpos. Isto significa: o fogo não é quente, a neve não é fria, o mel não é doce: o calor, o frio, o som, a cor, o gosto e o olfato nada são senão idéias, impressões. O Bispo de Berkeley tomou um passo adiante, encontrando, racionalmente, seguindo o mesmo princípio, outrossim, a formulação de extensão, solidez, espaço, figura e corpo como idéias – em suma, que nada há na natureza a não ser idéias e espíritos. Mas o triunfo das idéias foi finalmente declarado pelo Tratado da Natureza Huamana, que contesta, finalmente, a co-primazia dos espíritos na fórmula. Apenas idéias (impressões) têm existência no cosmo. O que se daria se, coexistentes apenas umas com as outras, as idéias, finalmente soberanas, passassem a predar agora umas às outras, num canibalismo figurado, deixando a natureza órfã de existência em absoluto? Isso deixaria a filosofia em grave perigo. Seria o fim das investigações.¹

¹ Engenhoso parágrafo de Reid, parecendo antecipar, ao menos em seus contornos, a crise da razão que se concretizaria e ultimaria somente cem anos depois, quando já não seria mais possível fugir da questão do niilismo metodológico.

Isso, porém, seria uma questão para adiante. Até o presente os filósofos reconhecem a existência das impressões e idéias. Reconhecem determinadas leis da atração, ou regras de precedência, de acordo com as quais as idéias e impressões variam em forma e sucedem-se entre si. Mas que devam pertencer à mente, como objetos ou propriedades de um senhor, isso não admitem. As idéias são tão livres e autônomas quanto os pássaros no vôo, ou os átomos de Epicuro sem obstáculos em sua trajetória. Nos permitamos considerar as idéias como películas ou membranas das coisas com auxílio do sistema de Epicuro.

Principio hoc dico, rerum simulacra vagari,

Multa modis multis, in cunctas undique parteis

Tenuia, quae facile inter se junguntur in auris,

Obvia cum veniunt.¹ – LUCRÉCIO²

¹ —No princípio, diz-se, as imagens vagaram,

De todos os modos, em todas as direções

Sendo que a tendência era eventualmente

Se reunirem umas com as outras.

²

Ou as idéias antes lembrariam os espécimes inteligíveis de Aristóteles após serem projetados do objeto, mas antes de atingirem o intelecto passivo? Mas por que gastamos nosso tempo com comparações, se não há nada na natureza a não ser idéias? Eis toda a decoração do universo; principiando na existência, ou fora dela, sem causa; combinando-se em parcelas (receptáculos?), que o vulgo chama de mentes; sucedendo umas às outras segundo leis imutáveis, sem tempo, lugar ou autor destas leis mesmas.

E contudo essas idéias auto-existentes e independentes parecem tristes, carentes e capengas, se deixadas ao relento em meio ao universo das coisas. Parece que as idéias nunca estiveram em pior estado. Descartes, Malebranche e Locke, como utilizavam muitas e muito as idéias, tratavam-nas bem, hospedando-as nos melhores aposentos. Com efeito, a residência das idéias, para estes senhores, era ou a glândula pineal ou o puro intelecto ou até a mente divina. Estas idéias também eram vestidas e revestidas de bons trajes e ofícios, cabendo a elas representar as coisas, prestando-lhes a máxima dignidade e caráter. Mas o Tratado da Natureza Humana, muito embora deva sua existência a toda essa nobreza das idéias prévias, foi muito ingrato com todas. Pensou ser grato concedendo-lhes essa liberdade absoluta, essa existência independente. Órfãs, por assim dizer, sem um lar aconchegante como antes, desamparadas no caótico mundo das ruas, sem amizades nem conexões, sem mesmo trapos para cobrir a própria nudez – queem sabe se não irão todas essas idéias, na nova condição, perecer, graças ao próprio zelo de seus novos defensores zelosos, os últimos filósofos?

E no entanto trata-se da mais maravilhosa descoberta, a de que pensamento e idéias existam independentemente do ser: uma grande descoberta com conseqüências difíceis de mensurar por esses mortais iludidos, que raciocinam na senda comum. Sempre estivemos inclinados a imaginar que um pensamento tem um pensador, que o amor possui amante e amado, e a traição, traídos e traidores. Hoje, entretanto, apercebemo-nos de que era um erro histórico. Pode haver traição sem traidores, amor sem amantes, leis sem legisladores, até punição sem punidos, sucessão sem tempo e movimento sem objetos que se movem, aliás, nem falar em espaço no qual se movam; ou, analogamente, se as idéias forem quem ama, quem sofre, quem trai – aí então é desejável que o autor desta descoberta complementasse seu trabalho, informando-nos se, nesse caso, idéias podem dialogar entre si, se podem assumir obrigações morais ou relações de gratidão; fazer promessas, ingressar em associações, assinar tratados, cumpri-los ou quebrá-los, e com isso ser passíveis de punição. Se um rol de idéias pactua, outro rol pode desebedecê-las, uma terceira categoria ser eleita como bode expiatório, e assim por diante. Não há qualquer razão para atribuir justiça inata a este sistema.

Mas para mim parecia natural que o Tratado da Natureza Humana necessitava um Autor, não se escrevendo sozinho. E não um qualquer, um muito engenhoso. Claro que foi apenas uma suposição imatura e afoita: o Tratado é o resultado da concórdia entre idéias livres, que se associam e atraem de acorod com o próprio senso de independência individual.

Depois de tudo, este curioso sistema não calha muito com o atual estado da natureza humana, analisando mais densamente. Claro que alguns espíritos eleitos, muito acima do senso comum, muito refinados, ainda poderão tirar proveito do Tratado em larga medida. Porém, ainda resta minha restrição de que mesmo estas almas só podem ingressar no sistema nas horas mais prazeiteiras e ociosas, sendo vedado se aventurar no reino das idéias independentes em horas menos especulativas. Condescender em lidar de novo com a raça humana e as coisas materiais, digo, conversar com um amigo, um companheiro, um compatriota, um cidadão, é desmanchar este sistema ideal. O senso comum, como corrente irresistível, retoma o controle e arrasta a todos, sem exceção. Apesar de todo seu isolamento e suas reservas, os filósofos também crêem que existem, e crêem na existêm das coisas que os rodeiam.

O que é muito positivo, por sinal: assim o restante da humanidade não os considera indivíduos doentes, podendo estes sujeitos levar uma vida normal. Assim como Platão exigia certas qualificações para a entrada em sua Academia, os proponentes desta filosofia ideal devem providenciar o mesmo, por prudência, admitindo em seu círculo somente aqueles que sabem diferenciar aquilo que pensam de si quando estão sozinhos ou quando estão acompanhados. Em suma, que só sejam admitidos filósofos que saibam que seus princípios não funcionam na prática. Esta filosofia é como um passatempo que um homem cultive em seu tempo recluso; que até um homem nada virtuoso cultive, em seclusão, sem prejuízo social. Sem prejuízo para a própria reputação. Mas se ele exibe esses princípios na igreja, no comércio, nas inter-relações, no jogo de cartas, seu herdeiro imediato não deverá pestanejar em evitar a mácula convocando de pronto um júri, a fim de interditá-lo.

SEÇÃO 7ª. A CONCEPÇÃO E A CRENÇA NUM SER SENCIENTE OU NA MENTE É SUGERIDA POR NOSSA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO; A NOÇÃO QUE HÁ DAS RELAÇÕES NEM SEMPRE É ADQUIRIDA MEDIANTE A COMPARAÇÃO ENTRE IDÉIAS RELACIONADAS. [SEC27]

Deixando de lado, portanto, essa filosofia àqueles que têm predisposição a ela e a utilizam com discrição num “exercício de quarto”, devemos ainda indagar como o restante da humanidade, e os próprios céticos quando não em estado solitário, veio a adquirir e cultivar tão forte e irresistível fé: a fé de que o pensamento tem de ter um objeto, e ser ato também de um sujeito: como todo homem crê em si como sendo algo distinto de suas próprias idéias e impressões; algo, por assim dizer, que continua sendo o mesmo ‘si’ idêntico mesmo quando suas idéias e impressões mudam. É impossível traçar a origem dessa opinião na história: em qualquer língua o designativo em primeira pessoa existe desde os primeiros vestígios de sua existência. Todas as nações creram até hoje no eu. Todas as constituições e governos, bem como todas as transações cotidianas da vida, supõem o eu.

Não é menos impossível ao próprio sujeito tentar lembrar-se desde quando ele veio a ter essa noção de si; nossas memórias mais antigas já estão associadas a uma consciência de si próprio, tão claramente quanto era claro que existíamos, e que reconhecíamos a existência de outros objetos externos. Numa palavra, de modo tão conciso e que não aceita exceções como 1 + 1 = 2. É uma opinião que a priori antecede todo raciocínio, e mesmo experiência e instrução; é especulação minha, mas é o mais provável, porque seria difícil nos inculcar algo tão poderoso mais tarde, se já não fosse nosso. É um fato inegável que, via pensamento ou sensação, toda a humanidade, constante e invariavelmente, desde a aurora da consciência, infere um poder ou faculdade do pensamento, e junto com ela uma mente ou ser permanente a que esta faculdade pertence; é fato inegável que nós adscrevemos invariavelmente todos os tipos de sensação e pensamento de que temos consciência a uma mente individual ou self.

Mas sobre quais regras lógicas fazemos essas inferências é impossível demonstrar; até mesmo nossas sensações e nosso pensamento vigentes, que são capazes de se referir a uma noção ou conceito de mente ou faculdade, são igualmente incapazes de nos brindar com a explicação de como eles mesmos são disso capazes! A faculdade do olfato é algo bem distinto da sensação de cheirar por si mesma; pois a faculdade continuará mesmo que percamos a sensação (supondo que estamos apenas descansando de usá-la ou num ambiente inodoro). E a mente não é diferente, nesse aspecto de perseverança, que a faculdade. Ela é a própria faculdade da faculdade, i.e., o que a faculdade é para a sensação, a mente é para a faculdade. A mente segue a mesma ainda que por algum evento percamos, por exemplo, a faculdade do olfato. A sensação nos sugere uma faculdade e uma mente; e não apenas uma noção de ambas, mas até cria, acredito, a fé na ou certeza de sua existência. Embora seja impossível avaliar o que afirmo racionalmente e estabelecer qualquer conexão, mais fugaz ou diáfana que seja, entre tal sensação e certeza.

O que podemos dizer, então? Ou referidas inferências que tiramos das sensações (a existência da mente, os poderes das faculdades que lhe pertencem) são prejuízos da filosofia ou da educação, meras ficções da… mente, o que um homem prudente deve logo descartar, como se se tratasse de crença em fadas, pois já seria imputar má-fé ao próprio objeto aqui investigado… Ou referidas inferências são juízos da natureza, juízos obtidos não ao comparar idéias, captando concórdias e discórdias entre elas, mas imediatamente inspiradas pela nossa própria constituição

¹ Reid prefigura Kant claramente. Comparemos a possível data em que ambos publicaram primeiro suas afirmativas neste sentido: Reid neste tratado e Kant em Crítica da Razão Pura. (…) Isso é o máximo que podemos sacar de conclusões num debate sobre pioneirismo em filosofia. Ignoro, na história das idéias, quais fatores foram mais decisivos para Kant ser ilustríssimo e Reid quase uma curiosidade de pé de página (que ainda teve a sorte de ser citado por Arthur Schopenhauer numa obra muito conhecida, ao que devo meu próprio conhecimento de sua existência). Kant tem suas deficiências palpáveis de estilo e escrita; mas o mesmo pode ser censurado a Reid, que é bem menos direto do que a modorra do assunto parece exigir; mas falo da perspectiva de um filósofo do séc. XXI já “farto de ouvir falar” nestes “primórdios” da concepção dos a priori da (a)percepção humana. Provavelmente este assunto delicado, à época, requeria todo esse cuidado dos dois autores, quiçá até mais.

Considerando que a resposta é o segundo caso, será impossível abandonar estas concepções, então sirvamo-nos delas! Se pudéssemos, mediante uma obstinação reiterada, atirar fora esses princípios naturais, seria até uma atitude anti-filosófica, mas apenas abdicar à loucura. Cabe aos céticos se explicarem diante de sua confusão precipitada, e não a nós, que seguimos a natureza milenar das coisas.

Faz parte da doutrina filosófica que herdamos o conhecimento de que nossas noções das relações só podem ser obtidas comparando idéias relacionadas; mas, no presente caso, pareço haver encontrado uma instância excepcional. Não é através das noções de mente e sensação que alcançamos a relação de uma delas com a coisa ou substratum¹ e a relação da outra com um ato ou operação. É todo o contrário: uma das coisas comparadas, quer seja, a sensação, sugere de antemão tanto o correlato quanto a própria relação!

¹

Peço que me permitam a utilização das palavras ligadas a sugestão aqui. Sugerir, no caso acima. Desconheço expressão melhor para exprimir um poder da mente que por tanto tempo parece ter passado desapercebido pelos mais distintos filósofos. Muito do que somos capazes de operar com a mente, que não é nem impressão nem idéia, é também atribuível a esse poder de sugestão. Muitos princípios originários da crença, por sinal.¹

¹ Revisemos o verbo sugerir no dicionário português: insinuar; lembrar; inspirar; fazer nascer no espírito; promover. Sem dúvida Reid foi muito feliz na escolha da palavra.

Todos nós sabemos que um certo tipo de som nos sugere imediatamente, ou sugere antes à mente, uma carruagem atravessando a rua. E não só essa sugestão alimenta poderosa e rapidamente nossa imaginação como a crença, a crença de que uma carruagem está passando. Idéias não chegaram a ser comparadas. Não há aqui uma reflexão interna que leve em conta harmonias e discordâncias, nada do tipo. É uma crença; nasce como crença. Não há como comparar, tampouco, a carruagem com o som dos cavalos e das rodas da carruagem em contato com o asfalto. Tal analogia entre duas idéias, ou, na verdade, uma idéia e uma sensação, é impossível.

Esta sugestão em específico não é natural e original; é o resultado da da experiência e do hábito. Alguém que nunca ouviu este som antes, não conhece o veículo e nunca visitou a cidade correria sério risco de ser atropelado, pois o som não necessariamente lhe sugeriria algum perigo ou nada pesado em particular se deslocando em velocidade. Porém, acredito que haja sugestões naturais neste mundo. Uma delas eu citei: que a sensação nos sugere a noção da existência imediata, e a crença de que o que percebemos ou sentimos agora existe agora. Que a memória sugira a noção de uma existência passada e a crença de que lembramos ter vivido e tido um tempo passado nós mesmos; e que nossas sensações e pensamentos sugiram a noção de uma mente, e a crença em sua existência, e de imediato sua relação com os pensamentos, tudo isso é mera conseqüência natural do já dito.

Algum princípio natural do tipo, que nos sugere um começo do existir, ou mudanças na natureza, nos sugere a noção de causa e nos compele à fé em sua existência (causas existem). Antes de encerrar o capítulo, devo assinalar que, no devido tempo, discorreremos sobre a sugestão que nos dá o sentido do toque ou tato: mediante algumas sensações no contato com objetos ou corpos, devido à nossa constituição inata, ficam-nos sugeridos desde já aspectos como extensão, solidez e até movimento, que não são simples sensação, muito embora os filósofos têm-nos confundido com sensações até aqui. Não encerramos o tópico do olfato, entretanto.

SEÇÃO 8ª. EXISTE UMA QUALIDADE OU VIRTUDE DOS CORPOS CHAMADA OLFATO. COMO ELA ESTÁ CONECTADA, NA IMAGINAÇÃO, À SENSAÇÃO. [SEC28]

Por enquanto consideramos o cheiro como significando uma sensação, sentimento ou impressão impingidos na mente; nesse sentido, só pode ser mesmo numa mente, num ser senciente. Mas é evidente que a humanidade dá o nome de cheiro muito mais amiúde a algo que se concebe como meramente externo, ou seja, qualidade dos corpos: entende-se com esse discurso que cheiro está como que “separado” da mente. O homem, com efeito, não sente dificuldades ou constrangimento em conceber o ar perfumado com odores aromáticos nos desertos da Arábia, ou em qualquer ilha desabitada, sem a presença de mentes ou criaturas sencientes para cheirá-los. Do mais eminente filósofo ao trabalhador mais humilde, esse trabalho de concepção será igualmente fácil e estará igualmente presente. Não há ninguém convencido do contrário. Há cheiros lá fora, sendo sentidos ou não.

Mas, já que tocamos no filósofo, suponhamos um encontro deste trabalhador dotado de senso comum com um filósofo moderno, no sentido mais pejorativo do termo. Suponhamos que o trabalhador muito respeita a sabedoria do filósofo e lhe pergunta: O que é o cheiro das plantas? O filósofo então dirá: Não há cheiro das plantas, nem em nada mais, o cheiro está só na mente; é impossível que haja cheiro fora da mente; tudo isso já foi demonstrado pela filosofia moderna. O homem de senso comum irá, sem dúvida, achar que foi vítima dum gracejo; mas se por um acaso interpretar que o filósofo falou a sério, sua próxima conclusão, então, será que ele ficou louco. Ou que a filosofia, como a magia, transforma o homem noutra coisa, condu-lo a outro mundo, concede-lhe poderes inimagináveis para o homem de senso comum. É então que o senso comum e a filosofia se divorciam para sempre. Mas a quem devemos culpar? Em minha opinião, o filósofo. Porque se ele entende por cheiro o que todo o resto da humanidade aprecia como cheiro, ele realmente ficou louco. Mas se ele concede um significado diferente à palavra cheiro, sem no entanto avisar disso a coletividade que o rodeia, ele abusa da linguagem, e desgraça com isso a filosofia, sem chegar um centímetro mais perto da verdade – como um homem que trocasse as palavras filha e vaca e tentasse provar ao vizinho que sua vaca é sua filha, e sua filha sua vaca.

Acredito não haver muito mais sabedoria em muitos desses paradoxos da filosofia idealista, que, para homens no pleno uso da razão, não passam de patentes absurdos, com a diferença de que os adeptos destes absurdos tentam convencer os leigos de que se tratam de profundas descobertas. De minha parte eu delibero seguir a rota ditada pelo senso comum, e não sair deste caminho seguro senão em caso de absoluta necessidade. Agindo assim, chego à conclusão de que há realmente na rosa ou no lírio algo que o vulgo chama de cheiro, e que continua a existir mesmo quando não é cheirado. Devo seguir investigando o objeto. Como adquirimos dele a noção? Qual é a relação dessa qualidade ou virtude do olfato com a sensação do olfato, que anteriormente nos vimos obrigado a chamar pelo mesmo nome, embora sejam duas coisas distintas, pela falta de um outro nome adequado.

Imaginemos uma pessoa que começa a exercitar o sentido do cheiro: um pouco só de experiência irá ensinar-lhe que o nariz é o órgão deste sentido, e que o ar, ou algo no ar, é seu meio. Adquirindo mais experiência, perceberá que quando uma rosa está próxima ela tem certa sensação; quando a rosa é retirada ou removida, a sensação é suspensa. A pessoa obrigatoriamente estabelece uma conexão entre a rosa e a dita sensação. A rosa é considerada como a causa, a ocasião, ou antecedente da sensação; a sensação como um efeito ou conseqüência da presença da rosa; ambas estão associadas na mente, e constantemente aparecem indissociadas na imaginação.

Mas há algo que merece nosso reparo: embora a sensação pareça mais intimamente rligada à mente enquanto seu sujeito, e ao nariz enquanto seu órgão, nenhuma dessas conexões opera tão poderosamente sobre a imaginação quanto sua conexão com a própria rosa, sua concomitante. A razão para isso parece residir na maior generalidade da conexão das coisas ou sensações com a mente, que não ‘sabe’ bem separar outros tipos de cheiros, i.e., não sabe como compará-los, o mesmo valendo para gostos, sons e outras sensações. A relação da sensação com o órgão é também ‘geral’, e não distingue de outros cheiros – mas a conexão com a rosa é especial e constante. Doravante, rosa e sensação se tornam inseparáveis, por assim dizer, na imaginação, assim como não pensamos, praticamente, no trovão sem pensar no relâmpago, no objeto congelado sem pensar no frio.

SEÇÃO 9ª. EXISTE UM PRINCÍPIO DA CONDIÇÃO HUMANA DO QUAL DERIVAM A NOÇÃO DO OLFATO E OUTRAS VIRTUDES OU CAUSAS NATURAIS. [SEC29]

Para ilustrar melhor como concebemos uma qualidade ou virtude na rosa, que vimos a chamar de cheiro, e o que o cheiro é, é necessário observar que a mente começa muito precocemente a buscar por princípios que dirijam-na no exercício de seus poderes. O cheiro da rosa é determinada afecção ou sentimento da mente; como não é constante, mas vem e vai, o que queremos saber é quando e onde devemos esperar pela sua presença; ficamos inquietos até acharmos algo que, estando perto, nos traz consigo este sentimento determinado e que, como dito mais acima, estando longe, arranca de nós este mesmo sentimento. A isso denominamos causa. Não no sentido mais filosófico do termo, é verdade: não que o sentimento fosse produzido de fato pela causa, mas no sentido popular do termo. A mente está satisfeita se há o estabelecimento de uma conjunção constante entre um e outro (objeto e sentimento). Estas causas nada mais são que leis da natureza. Tendo verificado que o cheiro da rosa está constantemente aferrado à rosa, a mente se tranqüiliza, sem se perguntar se essa conjunção, verificada, testada, se deve a uma eficiência real ou não. Pois adentrando a investigação filosófica, não concerne à vida humana cotidiana. Mas toda descoberta de conjunção constante é, em realidade, muito importante na vida, e deixa grande impressão na mente.

Desejamos tão ardentemente encontrar tudo que acontece dentro de nossas observações em conexão com outros objetos, atribuindo causas ou ocasiões de fenômenos ou efeitos, que estamos aptos a imaginar conexões até precárias, quase sem fundamento: essa debilidade é mais marcante na mente ignorante, que menos conhece das reais conexões estabelecidas na natureza. Um homem se depara com um acidente inesperado num dado dia do ano; desconhecendo qualquer outra causa para sua atribulação, está o homem disposto a conceber que este mesmo dia do calendário é a possível causa da ocorrência de azares, eventos ruins. E se no ano seguinte, no mesmo dia do mês lhe sucede outro evento indesejável, talvez, melhor ainda, não já no ano seguinte, mas vários anos depois, pensa, se guardou bem na memória, poder confirmar a conexão (neste caso uma superstição atrelada a um simples número, e um nome associado ao número, se se quiser). Lembro, muitos anos atrás, de um boi importado a este país, tão grande e pesado que as pessoas percorriam enormes distâncias para vê-lo. Aconteceu que, meses depois, uma fatalidade incomum afetou várias mulheres durante o parto. Dois eventos insólitos seguidos um do outro deixaram a suspeita na mente das pessoas de uma conexão oculta, e fizeram nascer a opinião, entre os habitantes do campo, de que o boi branco era a causa dos problemas de parto.

Malgradas a tolice e ridicularia desta opinião, ela nasceu da mesma raiz da condição humana da qual toda a filosofia também brota, da mente. Da mente e de seu aflitivo desejo de encontrar relações lógicas entre as coisas, uma inclinação natural, original e incontrolável de crer que fatos que viemos a observar no passado, e aos quais atribuímos conexões, voltarão a se repetir. Presságios, portentos, sorte ou azar, quiromancia,¹ astrologia e inúmeras outras artes da adivinhação, além da interpretação de sonhos, falsas hipóteses e sistemas, e mesmo verdadeiros princípios da filosofia da natureza foram erigidos sobre a mesma fundação da constituição humana. E os casos são fechados após apenas algumas poucas observaçoes, em grande parte; noutra, por insistência e indução num grau suficiente, os casos são solucionados de maneira propícia.

Como é unicamente a experiência que descobre essas conexões entre causas naturais e seus efeitos, sem inquirir além atribuímos à causa alguma noção vaga e indistinta de um poder ou virtude para produzir efeitos esperados. Em muitas instâncias da vida não se vê necessidade de distinguir causa e efeito por nomes diferentes. Tão próximos na imaginação, embora tão distintos se considerados em separado, dois nomes vêm a ser conhecidos por um só. No discurso diário, o nome vencedor é o do objeto que mais nos chama a atenção. Isso ocasiona a ambigüidade de inúmeras palavras que, tendo uma mesma causa em muitas línguas, nunca é percebida pelos filósofos. – Alguns exemplos ajudarão a confirmar o que foi dito até aqui.

¹ Leitura do destino pelas linhas das mãos.

Magnetismo significa tanto a atração do ferro pelo ímã quanto a qualidade ou poder do ímã de em geral causar essa atração. E se fosse perguntado: é uma qualidade do ferro ou do ímã?, talvez a resposta fosse hesitante e confusa. Mas um pouco de reflexão sobre o tema descortina que concebemos um poder no ímã como causa, e o movimento do ferro como o efeito. E mesmo o ferro, sem mais, sendo atraído e a faculdade dos ímas (ferro oxidado, magneto) de atrair ferros não-magnetizados sendo duas coisas bem particulares, tendemos a chamar ambas as coisas de magnetismo.¹ O mesmo pode ser dito da gravitação, que às vezes significa a tendência dos corpos em direção ao centro da terra, às vezes o poder de atratividade da terra, que consideramos como a causa verdadeira do fenômeno.² A mesma ambigüidade está presente em alguns dos escritos de Sir Isaac Newton, e em suas definições mesmo. O próprio pai da gravitação universal! Em 3 de suas definições ele detalha claramente o que entende por quantidade absoluta, por quantidade acelerativa³ e por quantidade motriz da força centrípeta. Na primeira das três definições, a força centrípeta é posta como a causa, o que concebemos como o poder no centro do corpo, ou do corpo central, num sistema com vários corpos; nas duas definições seguintes, a mesma palavra é considerada efeito desta causa no ato de produzir a velocidade ou ao produzir o movimento direcionado ao centro.4

¹ Em minha opinião o primeiro exemplo escolhido é péssimo! Mas o autor não estaria em maus lençóis se vivesse para ver o intenso fenômeno dos mesmerizadores, i.e., da proliferação dos estudos sobre o magnetismo animal – por falta de palavras, começamos a empregar o mesmo termo do mundo mineral para relações de sugestão provocadas por um hipnotizador típico do século XIX.

² Novamente um péssimo exemplo. Talvez para seu leitor fizesse algum sentido, mas do época em que estamos não podemos considerar essas falsas equivalências como torpes ou ingênuas.

³ O uso é tão ruim que a palavra sequer se encontra dicionarizada em português.

4 Não tive o privilégio de ler Newton até o momento. Não posso dizer se Reid se expressou mal, não entendeu as leis de Newton ou simplesmente voltou a escolher um mal exemplo (Newton pode efetivamente ter se expressado de uma maneira pouco inteligível ao leigo, de forma que hoje um aluno esteja mais bem-informado em física lendo intérpretes do que Newton queria dizer do que lendo o próprio Newton!).

Calor designa uma sensação, frio sem contrário. Mas calor significa também uma qualidade ou estado dos corpos, sem um “contrário”, mas apenas diferenças de grau. […]¹ E quando o homem doente sente que o alimento é ruim mesmo que ontem tenha comido a mesma coisa e o gosto era bom, ele sabe que nenhuma propriedade foi alterada no gosto, mas na sua sensação do gosto.

¹ Em defesa de Reid, aqui o exemplo é melhor. Não se trata de analisar o mesmo fenômeno científico de duas perspectivas (falsamente) bem dicotômicas, mas de constatar que falamos de calor no dia a dia, embora calor seja também um conceito da física moderna. Neste caso, porém, creio que não inventar uma nova palavra seja uma economia com vantagens: o discurso vulgar não interfere no discurso acadêmico, e vice-versa. Nunca vi alguém se descabelar por não entender de qual calor se está falando, mesmo numa aula de física do ciclo básico! Um trecho do parágrafo foi suprimido porque contém noções tão óbvias sobre frio e calor de líquidos como a água e do corpo que achei desnecessário e até pejorativo incluir na tradução – ao mesmo tempo em que tanto honra o “homem de senso comum” em sua obra, Reid parece subestimar bastante sua intelecção, proclamando-o incapaz das associações mais banais. Veja que no exemplo seguinte Reid não comete o mesmo erro! Não vejo necessidade, no entanto, de se criar uma palavra diferente para designar a sensação do gosto para se contrapor à… virtude do gosto? A sensação do gosto do gosto propriamente dito, numa palavra. ‘Sensação’ já faz a discriminação técnica necessária mesmo ao filosofar.

O vulgo é comumente premido pelo filósofo a pensar no absurdo do cheiro da rosa sendo algo igual à sensação do cheirar.¹ Mas eu penso sem justeza; porque eles sequer tão os mesmos epítetos a ambos.² Nem pensam de maneira análoga para ambos (o cheirar e o cheiro). O que é o cheiro da rosa? É a qualidade ou virtude da rosa; ou de algo que provém dela, que percebemos pelo sentido do olfato. E isso é quanto sabemos do assunto. Mas o que é o olfato, então? É um ato mental; mas nunca é imaginado como uma qualidade da mente.³ De novo, a sensação do cheiro é concebida como inferindo necessariamente uma mente, ou ser senciente. Mas cheiro da rosa nada infere! Dizemos: Esse corpo tem um cheiro doce; isso fede. Mas não dizemos: Essa mente cheira algo doce, e essa algo que fede.4 Destarte, o cheiro da rosa e a sensação que ele causa não são concebidos, mesmo pelo vulgo, como coisas do mesmo gênero, embora compartilhem o nome.4

¹ Como Reid exagera!

² Exatamente!

³ Como não, se já se concede que seja um ato mental segundo o filósofo?

4 Extrapolação.

Do dito, podemos aprender que o cheiro da rosa significa duas coisas. Primeiro, Uma sensação, que não pode ter existência quando não é percebido (o cheiro), e só pode ocorrer em um ser senciente, ou mente. Segundo, Significa algum poder, qualidade ou virtude, na rosa, ou nos eflúvios provenientes da rosa, que tem uma existência permanente, independente da mente, e que devido à constituição da natureza produz em nós a sensação. Pela constituição original de nossa natureza, somos levados a acreditar, duplamente: que há uma causa permanente da sensação, projetada para ir em sua procura (a mente, através do nariz); e que a experiência nos conduz a depositar essa causa na rosa. Os nomes de todos os cheiros, gostos, sons, e também do frio e do calor, possuem a mesma ambigüidade em todas as línguas.¹ O que merece nossa atenção é que esses nomes são raramente usados na linguagem cotidiana para se referir às sensações. Quase sempre esses nomes denotam as qualidades externas que são indicadas pelas sensações.² A causa desta situação eu reputo como sendo que nossas sensações têm diferentes graus de força. Algumas delas são tão vívidas e imediatas, predominantes, enfim, que nos mergulham sem esforço no prazer, ou então no desconforto. Quando este é o caso, somos compelidos a prestar atenção à sensação ela mesma, e torná-la objeto do pensamento e do discurso. Damos-lhe um nome específico que nada indica a não ser a própria sensação. Nestes casos mais favoráveis, e somente nestes, admitimos de imediato que a coisa referenciada pelo nome está apenas na mente, e não no exterior. Estamos falando dos vários tipos de medos, mal-estares e graus da fome ou outros apetites, devidamente substantivados. Mas, onde as sensações não são tão interessantes a ponto de exigir de nossa parte que se tornem objeto imediato do pensar, nossa constituição nos leva a considerá-las o signo de algo externo, que está afinal sempre associado à sensação. Descobrindo o que a sensação indica, damo-lhe um nome: a sensação, esta sensação geral, sem um nome propício, que se torna acessória do sentido que ela evoca, e subsume sob seu nome. O nome (da sensação) pode até ser aplicado à sensação (sensação do cheiro), mas o mais comum é atribuí-lo diretamente ao objeto visível provocador da sensação. As sensações do cheiro, sabor, sons e cores são infinitamente mais importantes como signos ou indicadores do que como sensações em si, predominantes; como as palavras de um idioma, em que não dedicamos novos nomes provocados pelo som, mas nos atemos ao sentido da audição.³

¹ Isso seria um indício para ter fé na língua, não para culpar os filósofos de incompetência.

² O esforço para superar Hume parece interminável e incalculável, vendo-se como Reid se prolonga em circunlóquios relativamente simples (da nossa perspectiva) que são apenas sintomas de uma ingênua compreensão, até sua geração, de questões epistemológicas e fenomenológicas bem-resolvidas mais tarde.

³ Para uma exposição sem solavancos recomendo minha versão abreviada!

SEÇÃO 10ª. DURANTE A SENSAÇÃO A MENTE É ATIVA OU PASSIVA? [SEC210]

Uma dúvida remanesce: no ato de cheirar e no desempenho de outras sensações, é a mente passiva ou ativa? Essa parece uma pergunta sobre palavras, ou ao menos marginal. Mas se sua resposta nos levar mais acuradamente às operações da mente do que estamos acostumados a fazer, não será perda de tempo nem de esforços. Creio que a opinião dos filósofos contemporâneos seja que a sensação é passivamente sentida na mente. E isso é em tal grau verdadeiro que não podemos chegar às sensações por mera força de vontade; na outra mão, parece impossível evitar sentir a sensação quando o objeto é apresentado. Ao mesmo tempo ainda, parece verdadeiro que, na proporção em que a atenção está mais ou menos focada na sensação, ou totalmente dela alheada, a sensação é mais ou menos percebido e relembrada. Todos sabem que uma dor muito intensa pode ser aliviada por exemplo por um fator surpresa, ou muitas coisas que passam a ocupar a atividade mental. Engajados numa conversa, pode ser que nem escutemos as badaladas do relógio; pelo menos não lembramos de imediato termos escutado nada. O ruído e o tumulto de uma grande cidade comerciante não é sequer ouvido ou sentido por quem nela nasceu e a ela está acostumado todos os dias. Os turistas, entretanto, de locais mais remotos, logo se sentirão impactados. Se há alguma sensação que o cérebro possa sentir de maneira puramente passiva, não chegarei a tal extemo. Tudo o que posso dizer é que estamos cônscios de conceder em algum grau a atenção necessária a toda sensação de que recordamos, remota ou recente.

Sem dúvida que, onde o impulso é forte e incomum, é difícil distrair a atenção, como é difícil não acabar chorando sofrendo uma dor atroz, ou não tremer testemunhando uma rápida escalada do pavor. Mas quanto se pode atingir essa dissolução da atenção dependendo da firme resolução mental e do caráter da pessoa, e treinamente, não é fácil determinar. Embora os peripatéticos¹ não possuíssem razões para supor pólos passivos e ativos do intelecto, já que a atenção pode ser designada como uma to de vontade, eles chegaram, ao meu ver, o mais próximo da verdade nesta questão até hoje, ao defender que a mente sempre se desdobra simultaneamente em ativa e passiva diante da sensação. Os modernos julgam de outra forma. Sensação, imaginação, memória e juízo foram considerados pelo vulgo, em todas as idades, atos mentais. A maneira como são expressos em todas as línguas o evidencia. Quando a mente é muito exercida nestas atividades, dizemos, logicamente, que a mente se encontra bastante ativa; mas quando se trata apenas de impressões, como a filosofia idealista nos conduziria a concluir, diríamos, em tal caso, que a mente é demasiado passiva e recipiente: creio que nenhum homem atribuiria grande atividade ao papel sobre o qual escrevo, só porque ele recebe uma variedade de caracteres, manchas e impressões, sobre sua superfície.

¹ Seguidores de Aristóteles.

A relação da sensação do olfato com a memória e sua imaginação, e com a mente e o objeto que emana cheiro, é comum a todas as nossas sensações, e a todas as operações da mente: a relação que ela estabelece com a vontade é comum àquela com as faculdades do entendimento. E a relação estabelecida com essa qualidade ou virtude dos corpos que o olfato indica é comum com a relação estabelecida pelo paladar, pela audição, pela vista da cor, pelo calor e pelo frio: o que foi dito deste sentido pode ser sem problemas aplicado a vários de nossos sentidos, sem falar das operações mentais. Este é meu momento de escusa por me delongar no tópico do olfato.

CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]

Quase tudo quanto foi dito sobre o sentido do olfato pode ser replicado para o gosto e a audição, evitando assim uma tediosa repetição em nosso tratado.

É até provável que tudo quanto afeta o paladar é em algum grau solúvel na saliva. Não é concebível como qualquer coisa poderia entrar de imediato, e de seu próprio acordo, como é na realidade, nos poros da língua, palato e as fauces, a menos que houvesse alguma afinidade química ao licor com o qual esses poros estão sempre repletos. Seria realmente uma falta de economia da natureza se assim não fosse, pois se dá ao trabalho de produzir sempre essa espécie de solução nos seres dotados do paladar. E não investigamos até hoje os atributos da saliva o suficiente. Nos cães há uma grande capacidade médica e restaurativa na própria saliva. E não só os cães. Quanto a nós, é muito mais central a subserviência do órgão como um todo ao paladar e à digestão.

É de suma importância o órgão que guarda a entrada do canal alimentar, como foi dito que o nariz era o órgão perfeito para a entrada da respiração e dos cheiros, sendo este canal na verdade interconectado e útil para o caso da respiração bucal. Que tudo que entre no estômago de certa forma passa pelo escrutínio tanto do paladar quanto indiretamente pelo do olfato parece ser uma característica da evolução de nossa espécie, porque o que não é saudável provavelmente nos sabe mal e nos cheira mal. Os homens selvagens não têm sequer outra maneira de selecionar alimentos. O mesmo para os animais mais desenvolvidos. É muito provável aliás que o olfato e o paladar, sem ser viciados pela luxúria e os maus hábitos, nos ajudariam muito mais hoje do que são capazes de ajudar. Muitas vezes especiarias exóticas passam pelo nosso auto-controle, e enfrentamos problemas após o consumo. Isso se deve ao excessivo refino da arte da culinária, usando conhecimentos adquiridos da química e da farmácia para ludibriar nossos sentidos. Todos sabem que colocar pimenta numa comida pouco aprazível facilita sua ingestão. Isso demonstra que estamos vivendo de forma desnaturada na sociedade civilizada.

Podemos reconhecer a mudança no estado de corpos mais facilmente mediante estes dois sentidos que quaisquer outros. Imagine-se quanto há no mercado, nos restaurantes, na taverna, no apotecário e nos _chemist’s shops_ que reconhecemos como sendo aquilo que exibem etiquetado ou como sendo tal e tal coisa, justamente porque não podem nos enganar quanto à natureza da coisa? É impressionante também quão especializado pode se tornar o paladar, ou o olfato. Isso varia individualmente. Isaac Newton tentou distinguir a magnitude de partículas transparentes pela cor visível de seus corpos opacos:¹ e quem sabe que novas luzes a filosofia natural ainda poderá receber de qualidades secundárias, quando bem examinadas?

¹ Trecho que absolutamente não entendi. O que é de conhecimento comum é que Goethe corrigiu Newton no campo da teoria das cores.

Alguns gostos e cheiros estimulam os nervos e elevam o espírito. Mas essa elevação artificial é, pelas leis da natureza, seguida de uma depressão, que só o tempo cura, ou pela repetição do estímulo.¹ Pelo uso corriqueiro dessas coisas, criamos apetite por elas, o que muito lembra uma força natural.² É assim que a gente adquire o gosto pelo rapé, tabaco, licores fortes, láudano, etc.

¹ Sem querer, Reid resumiu o consumo de narcóticos!

² Não o estímulo artificial, mas a obtenção da excitação naturalmente.

A natureza parece industriosa em ter delimitado limites claros para prazeres e desprazeres compatíveis com estes nossos dois sentidos “inferiores” ou “mais vitais por assim dizer. Seus limites são particularmente estreitos. Não há cheiro incrivelmente desagradável que possamos tolerar, muito menos converter por hábito em algo agradável. Nem nada que seja agradável que não perca seu impacto com a assiduidade com que se nos é oferecido. E o prazer e o desprazer são automaticamente seguidos de seus contrários: a supressão do odor ou gosto desagradável causa alívio, etc. A divina alegoria de Sócrates pode ser aqui citada: embora contrários em sua natureza, Dor e Prazer, olhando cada qual um vetor oposto, Zeus atou-os de tal maneira para permanecerem juntos que aquele que se apossar de um(a), levará consigo o(a) outro(a).

Parece adequado dizer que um gosto não é menos diferente de outro gosto da mesma forma que a relação dos cheiros entre si. Eis uma questão: como cheiros vêm a constituir-se um genus, e os gostos outro? Qual é a distinção genérica entre ambos? Seria só a distinção do nariz e do palato realmente? Ou, mais abstratamente, não haveria algo nas sensações mesmas, algo sempre comum entre os aromas, algo sempre comum entre os gostos? Me parece que a resposta está mais para a última hipótese referida. A natureza disfarça detrás de uma simplicidade singela (nariz e boca, a grosso modo) uma multitude de complexidades sutis.

A missão do filósofo é ver a questão de forma mais abstrata. Um número de sensações, ou de qualquer coisa individualmente contável, que é perfeitamente simples e ‘puro’ (que não consideramos algo composto de outras duas unidades menores), parece irredutível aos genera e species. Indivíduos devem poder ter espaço para a individualidade e a diferenciação no mesmo gênero. Ao mesmo tempo, há os traços comuns que categorizam-no sem dúvida como membro de toda uma espécie. O mesmo, me aventuro a dizer, ocorre com species de um mesmo genus. Se não há aí uma entremescla de cheiros com gostos, deixarei para os metafísicos.

Fato é que as sensações provocadas por cheiros e gostos admitem tal infinidade de variantes ou modificações internas que nenhum idioma delas dá conta. Se um homem fosse avaliar 500 vinhos, dificilmente encontraria 2 exatamente idênticos em gosto. O mesmo para queijos, etc. Mas de 500 diferentes gostos de queijo e vinho, mal podemos diferenciar 20 com palavras, o que nos ajuda rudimentariamente a separar as sensações provocadas em nosso palato e descrevem, da melhor maneira que conseguimos, qual é o gosto, a alguém que não provou.

O doutor Nehemiah Grew, laborioso e judicioso naturalista, em discurso na Royal Society, 1675, se esforçou por demonstrar que existem pelo menos 16 gostos simples diferentes entre si, que ele enumerou. Quantos “gostos compósitos” a natureza não faria de dois, três, quatro ou mais desses gostos simples quando misturados? É preciso um cálculo matemático para apreender o quanto isso fala sobre a multiplicidade possível dos gostos. Além disso, todo gosto tem graus de intensidade. Muitos, outras variedades: em alguns artigos o gosto é mais rapidamente percebido, em outros essa sensação vem mais devagar. Às vezes a sensação perdura por mais tempo, em outros é mais passageira. Alguns gostos parecem ser ondulantes, cíclicos, vêm e vão; outros são constantes. As várias partes do órgão gustativo, os lábios, a ponta da língua, o fundo da língua, as fauces, a uvula, e a garganta, podem ser diferentemente afetadas por um gosto ou outro. Aromas, avaliados com o mesmo nível de detalhes, dariam o mesmo tanto que descrever.

CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO

SEÇÃO 1ª. A VARIEDADE DOS SONS. SEU LUGAR E DISTÂNCIA APRENDIDOS PELO COSTUME, SEM O USO DA RAZÃO [SEC41]

Os sons têm provavelmente mais variedade de modificações que gostos e odores; quando muito, variedade equivalente. Primeiro, os sons diferem em tom. O ouvido é capaz de perceber 400 ou 500 variações de tom no som, e provavelmente o mesmo número de graus de intensidade. Combinando apenas estes, numa estimativa modesta, temos pelo menos 20 mil sons simples, diferenciando-se por tom ou intensidade (força, volume). Isso se considerarmos os tons de forma pura, perfeita. Mas o tom perfeito só se propaga nas melhores condições espaciais. As ondas do tom precisam ser de igual duração e extensão, seguindo-se uma à outra em regularidade irretocável. Toda ondulação tem de ser feita do avanço e recolhimento de inumeráveis partículas da elasticidade do ar, seu meio propagador, com movimentos todos uniformes em direção, força e tempo. Então podemos facilmente conceber uma prodigiosa variedade de um mesmo tom, provenientes da simples irregularidade com que ele é propagado, ocasionado pela constituição, figura, situação ou maneira de atingir o corpo sonoro. O vento, por exemplo, modifica o tom, como objetos no caminho da onda. E de acordo com a própria constituição orgânica do órgão auditivo a impressão pode ser diferente.

A flauta, o violino, o oboé, a corneta francesa podem inclusive tocar o mesmo tom, facilmente distinguível, mas cada instrumento produz seu som. Vinte vozes humanas soando a mesma nota, e com a mesma força, ainda produzirão um som distinto. A mesma voz, retendo suas próprias idiossincrasias, é incrivelmente elástica, e não falo do canto: condições como saúde ou doença, juventude ou idade, magreza ou adiposidade, bom ou mau humor. As mesmas palavras pronunciadas por estrangeiros e nativos, ou melhor ainda, por pessoas de diferentes províncias de um mesmo povo, são facilmente distinguíveis.

Uma tão magnânima diferenciação nas sensações do cheiro, do gosto e do som não parece à toa. São todas sinais que usamos para conhecer e classificar as coisas a nossa volta. E nada mais previsível que a variedade dos signos devessem em algum grau corresponder à variedade das coisas por eles significadas.

Começamos a aprender a distinguir o lugar e a natureza das coisas pelo seu som. Tal som vem da rua, este da sala sobre mim; esta foi uma batida em minha porta; estes são passos de uma pessoa subindo as escadas; tudo isso parece ser fruto da experiência. Talvez aprendamos o que seja acima e abaixo, esquerda e direita, e a medir distâncias com mais competência, muito por conta das propriedades do som. Ninguém sabe ao nascer diferenciar um bumbo do badalar de um sino, ou do miado de um gato. A natureza é frugal em suas operações, e não gastaria energias excessivas nos concedendo toda esta habilidade inicialmente, se em poucos anos seremos capazes de assimilá-la.

A imaginação conecta todas essas impressões díspares com uma incrível rapidez. Posso entender que passa uma carruagem de imediato ao ouvi-la, sem raciocinar. Não há aqui premissas, inferências e conclusões lógicas. É efeito de um princípio inato de nossa constituição, compartilhado aliás com os animais mais desenvolvidos.

Sendo pelo ouvir que percebemos a harmonia e a melodia, e conseqüentemente pelo ouvir crônico que aprendemos a apreciar a arte da música; pareceria que entre perceber simples barulhos e chegar à apreciação de uma arte aí viria uma diferença tão grande que exigiria uma faculdade especial, o ouvido musical. Ocorre que há muitos graus de ouvidos musicais. Não devemos chamar os mais aptos a diferenciar tons de possuidores de uma faculdade exclusiva, que transcenda o simples sentido da audição, que é simplesmente mais ou menos acurada.

SEÇÃO 2ª. A LINGUAGEM NATURAL [SEC42]

Um dos propósitos mais nobres do som é indubitavelmente a linguagem. Sem esta última, a humanidade não existiria, por não poder se encontrar acima da animalidade. A linguagem costuma ser considerada puramente como invenção dos homens, que por natureza não seriam mais mudos que os próprios animais; e não obstante, graças a seu engenho e razão, mediante signos artificiais para se referir a pensamentos e propósitos, lograram estabelecer consensos. Mas a origem da língua merece ser investigada mais cuidadosamente, não só porque tal investigação é importante para o aperfeiçoamento da própria língua como porque, na atual matéria ela pode nos ajudar a desvendar alguns princípios primários da condição humana.

Por linguagem ou língua compreendo todos os signos que a humanidade utiliza a fim de se comunicar entre si: comunicar pensamentos e intenções, desejos e objetivos. Estes signos podem ser divididos em dois: aqueles sem sentido, a não ser o que é convencionalmente atrelado a ele (sentido arbitrário), i.e., signos artificiais; aqueles que, antes de qualquer consenso ou acordo, possuíam já um significado que todo homem é capaz de compreender a priori. A linguagem considerada artificialmente difere portanto da linguagem considerada naturalmente.¹

¹ Sabemos hoje que Reid se encontra completamente equivocado e que todos os signos lingüísticos são arbitrários.

Com base nessas predefinições, creio ser demonstrável que se a humanidade não tivesse uma língua natural jamais teria podido alcançar a linguagem artificial por conta própria (razão e engenho). Toda invenção supõe um acordo prévio para fixar sentidos a um número determinado de signos. Sendo assim, deve haver concórdia antes dos signos artificiais serem postos. Mas não pode haver concórdia sem ditos signos! Destarte, tem de haver uma língua natural prévia a toda língua artificial inventada.¹

¹ Discurso completamente tautológico e inaceitável.

Fosse a língua invenção humana tanto quanto o são a escrita e a imprensa¹ países inteiros serão silenciosos como as bestas. Aliás, mesmo tais bestas possuem certos sinais naturais por meio dos quais expressam seus próprios pensamentos, afetos e desejos,² e compreendem os de outros indivíduos. Um pinto, assim que sai do ovo, entende que alguns sons de sua mãe significam aqui há comida, já outros cuidado, perigo. Um cão ou um cavalo compreende, naturalmente, quando uma voz humana é-lhe amigável e quando é ameaçadora. Mas feras, tanto quanto sabemos, não possuem noção de contratos ou convenções, nem de obrigações morais. Onde a natureza negou essas noções, é impossível adquiri-las por arte, como se fôra possível a um homem cego adquirir a sensação das cores. Alguns animais possuem a sensibilidade da honra ou desgraça;³ ressentem-se e são gratos. Mas nenhum – tanto quanto sabemos – pode fazer uma promessa, colocar em jogo sua fé, porque sua constituição não permite que saibam o que é uma promessa ou no que consiste a fé. Se a humanidade não tivesse essas noções pela própria natureza, e sinais naturais para comunicá-las, pouco importaria nossa inteligência ou artimanha: não seríamos capazes de inventar a linguagem.

¹ Aqui o autor entra em contradição: a escrita é linguagem. Se a escrita é invenção humana, não há por que não considerar a oralidade invenção humana, cronologicamente anterior ou não.

² Palavras que não servem ao animal, i.e., não podem ser aplicadas ao reino animal.

³ Reid delira.

Os elementos dessa linguagem natural da humanidade, ou signos que expressam naturalmente nosso pensar, podem, penso, ser reduzidos a três tipos: modulações de voz, gestos e personalidades.¹ Mediante esse trio, dois selvagens ou então dois estranhos que não compreendem um o idioma do outro podem chegar a um entendimento. É possível perguntar, negar, afirmar, ameaçar, suplicar; traficar (comerciar), pactuar e fazer juramento de fé. Tudo isso está afiançado por relatos históricos indubitáveis.²

¹ Modulações de voz são parte de estudos mais amplos de acústica, e não necessariamente comportam palavras, portanto a acústica dos animais pode coexistir com a humana sem contradição com o fato de os animais serem incapazes da linguagem e de não haver “linguagem natural”. Gestos tampouco são linguagem nesse sentido, necessariamente. É necessário saber separar o que constitui cultura e o que é instintivo. Libras é uma linguagem; reflexos de espanto ou júbilo (do tipo cru, como após beber água ou comer estando sedento ou faminto), não. Sobre a inclusão da palavra feature, que escolhi traduzir por personalidade, mal tenho o que falar, tamanho o constrangimento da noção! Feature no sentido de feições seria ainda mais rústico, e seria o equivalente a dizer que qualquer animal usa a linguagem porque possui feições!

² Gostaria muito de saber quais!

Os signos artificiais aparecem apenas paulatinamente a fim de aperfeiçoar a linguagem e acompanhar o aumento da sabedoria do homem. As articulações da voz parecem, de todos os signos, os mais apropriados para a linguagem artificial.¹ Um homem que anda demais de carroça perde o uso de suas pernas; um que usasse apenas a parte artificial da linguagem atrofiaria sua parte natural. Os idiotas retêm, em proporção, muito mais dos elementos naturais que os cultivados, e isso por pura necessidade. É por isso que os povos ágrafos e animais também usam mais da natureza que da artificialidade. A força e a energia da linguagem são quase todas derivadas de suas condições naturais, não daquelas acrescidas pela civilização. Quão menos vigorosa e enérgica a língua, menos expressiva e persuasiva, e mais inútil. Escrever é muito menos persuasivo que ler, e ler é muito menos persuasivo que falar sem apenas repetir um livro; falar sem as modulações adequadas (naturais), sem força e sem variação, é frígido e parece ser expressar uma língua morta; mas mais expressiva ainda é a linguagem que, modulando a voz corretamente, e utilizando a força das cordas vocais, não se esquece do apoio dos olhos e músculos faciais. É aí, nesse sumo da perfeição natural, repleta de energia, que conseguimos aliar a ação à linguagem.

¹ Essa frase não faz sentido.

Onde a linguagem é natural ela será o desempenho (a ação, o exercício) não só do aparelho vocal e dos pulmões como de todos os músculos do corpo. Vide como os imbecis e os selvagens se contorcem, são mais expressivos, e podem aprender e ensinar coisas com mais facilidade.¹

¹ Argumento embaraçoso e ofensivo. Imagino que Reid pense que os italianos dominaram o mundo na Antiguidade porque possuíam mais expressividade lingüística – que pena para os europeus que os asiáticos falam mais com o corpo que eles! Nota-se a grande contradição: Reid precisa evocar os homens com intelecto prejudicado e os animais a fim de justificar a superioridade de um elemento cultural. Mas é lógico e “natural” pensar que Reid toma esse caminho, quando pensamos que ele combate o ceticismo filosófico com todas as forças, entendendo o ceticismo como o aumento do refino e incitador do divórcio entre natureza e razão.

Significar não é o mesmo que expressar. A parte artificial das línguas falam ao entendimento, como caracteres algébricos também o fazem, mas não às paixões, afeições e à vontades; esse é seu defeito.

Seria igualmente fácil demonstrar¹ que a elaborada arte do músico, do pintor, do ator, do orador, tanto quanto são capazes de expressão, embora exijam um gosto delicado, um bom julgamento e discernimento, e muito estudo e prática, nada são senão linguagens naturais.² Carregamos todas essas coisas conosco desde o sempre, mas as desaprendemos devido ao desuso de sua energia natural a utilizá-las em seu máximo potencial, restando apenas carapaças vazias.

¹ Até agora não houve demonstração de nada sobre a linguagem, apenas a exposição de uma tese com palavras (signos artificiais)!

² É o ápice da imbecilidade: chamar as artes (música, pintura, oratória) de linguagem natural!

Que sejam abolidos os usos de sons articulados e da escrita por um século, e todo homem será pintor, ator e orador. Não quero dizer com isso que tal expediente seja praticável.¹ Mesmo se fôra, creio que as desvantagens superariam as vantagens.² Significa que, como o homem é conduzido pela natureza e pela necessidade a estar sempre em comunhão com os outros homens, ele usará de todo expediente de que puder lançar mão a fim de ser compreendido. Quero dizer que essa compreensão jamais advirá do uso exclusivo da parte artificial da língua. Aquele que compreender perfeitamente o uso natural dos signos será o melhor juiz possível nas artes expressivas.

¹ Seria irônico, já que essa exortação foi feita num livro…

² Reid cai de repente em si.

CAPÍTULO 5. O TATO

SEÇÃO 1ª. O QUENTE E O FRIO [SEC51]

Os sentidos que até o presente consideramos são simples e uniformes, cada um exibindo só um tipo de sensação, indicando portanto apenas uma qualidade dos corpos. Pelo ouvido percebemos sons, e nada mais; pelo palato, gostos; e pelo nariz, odores. Essas qualidades são todas de uma mesma ordem, qualidades secundárias por assim dizer: pelo toque, não obstante, percebemos muito mais do que uma qualidade, e dos mais diferentes tipos. As principais, dir-se-ia, são o calor e o frio, a dureza e a flacidez, aridez e fluidez, figura, solidez, movimento e extensão. Consideremo-las em ordem.

Sobre o calor e o frio, ou o quente e o frio, ou o quente e o gelado, estas são também qualidades secundárias, da mesma ordem do cheiro, gosto ou som. O que foi dito do cheiro pode ser dito para ambos estes opostos por analogia. A palavra quente e a palavra frio têm cada uma dois significados distintos: algumas vezes representam sensações da mente, sem existência palpável, a não ser como abstração da mente senciente; mas com mais freqüência nos referimos às qualidades físicas da temperatura dos corpos, reguladas por leis naturais. Sentimos temperaturas mais elevadas ou mais baixas do que nossa própria pele. Estamos tão habituados a sentir estes extremos que é até difícil falar de tais coisas como sensações exteriores. E no entanto o calor e o frio existiriam sem que estivéssemos em contato com os corpos que assim qualificamos.

O quente e o frio são facilmente reconhecíveis, pois não podem ser nada diferente do que se entende por quente e frio por qualquer ser humano. Mas as qualidades nos corpos que chamamos de calor e frio são desconhecidas. São apenas concebidas por nós, sem que tenhamos idéia da causa. O senso comum impõe essa noção. O termômetro sempre terá uma medida, estando ali uma pessoa com tato ou não.

É trabalho dos filósofos investigar, via experimentação e indução, que calor ou frio há nos corpos. E se o calor é um elemento específico difundido na natureza, acumulado em especial nos corpos chamados quentes (que reúnem mais calor) e menos concentrado nos espaços que chamamos de frios (que reúnem menos calor). Ou então se o calor é alguma espécie de vibração das partes de um corpo aquecido. Ou – é ainda papel do filósofo – se preocupar em responder se quente e frio são qualidades opostas, como as sensações nos parecem ser, ou se só o calor é uma qualidade, e o frio seu negativo. Essas questões são da província da filosofia. O senso comum nada diz a favor ou contra nenhum parecer.¹

¹ Trecho extremamente ingênuo e redundante da obra, e ao mesmo tempo revelando uma confusão epistemológica inaceitável para leitores de nosso período: esse não é o papel do filósofo, é o papel do físico. Os últimos filósofos que realmente trataram do conceito de calor da forma como aqui se explicita foram os pré-socráticos! Acontece que na Inglaterra de Reid confundiam alhos com bugalhos: para eles Bacon era um filósofo, pois estudava aspectos da física. Ora, Bacon era filósofo, mas foi principalmente um cientista, e seus resultados nas ciências naturais não importam à metafísica em sentido nobre.

Mas qualquer que seja a natureza dessa qualidade dos corpos que chamamos de calor, o que com certeza sabemos é que esse tal calor, abstrato, não pode nunca coincidir com a sensação do quente. Sensação e qualidade nunca se identificam. Seria o mesmo dizer que a dor da doença da gota equivale a um quadrado ou um triângulo. O homem mediano sabe que a sensação do calor não está dentro do fogo. Ele só imagina ou concebe que há alguma propriedade do fogo que faz com que ele e outros seres senciente sintam calor ao se aproximarem. E no entanto como a linguagem mesmo evidencia, calor no sentido metafísico e calor no sentido cotidiano são usados indistintamente. Mas quente nunca poderia ser a qualidade metafísica, sendo apenas um grau diferente do frio

¹ Não foi minha intenção fazer um trocadilho, ausente no original, com “grau de temperatura”, embora funcione na frase. Falo de grau no sentido de gradação, qualidades aproximadas que podem ser medidas, portanto não consistindo em qualidades diferentes uma da outra (o que por si só, usando o senso comum, já elimina o que Reid diz acima que seria papel do filósofo investigar: se frio e quente são duas qualidades opostas ou não; não há controvérsia a esse respeito, isso é uma infantilidade).

SEÇÃO 2ª. O DURO E O FLÁCIDO [SEC52]

Consideremos agora a dureza e a maciez. Estão são qualidades dos corpos que podemos sentir com convicção.

Quando as partes de um corpo aderem tão firmemente que não podem ser facilmente modificadas em seu aspecto, chamamos o corpo de duro; quando essas partes são facilmente movíveis, macio ou mole ou flácido. Toda a humanidade concorda facilmente com essas premissas. São sensações diferentes de quaisquer outras sensações. Eram qualidades antes de serem percebidas pelo toque, e persistem depois de cessar o contato.

Algo nos comunica, no nosso sentido do tato, que um corpo é mais ou menos duro, mais ou menos flácido. Essa sensação de dureza ou rigidez é facilmente evocada ao se pressionar uma mão, p.ex., contra uma mesa, mesmo abstraindo-se do que a mesa é feita. Mas uma coisa é a sensação e outra prestar bastante atenção na sensação e refletir sobre ela. A primeira se produz com a maior das facilidades; a última, até determinar-se, p.ex., um coeficiente de rigidez, pode vir a ser sumamente complicada.

Estamos tão habituados a usar a sensação como um signo, e dele passar imediatamente ao significado de dureza, que parece até que o conceito nunca foi objeto do pensar, seja do vulgo, seja dos filósofos.¹ Não existe um nome diferente (da sensação) em nenhuma língua. E não há sensação mais distinta ou freqüente! Mas é raro passá-lo em revista durante toda a vida.

Há casos mais extremos: quando a dureza se faz sentir de modo violento, causando dor; então a natureza chama o indivíduo para o fenômeno, mas consideramo-lo ‘mera sensação’, atributo do ser senciente. Se um homem choca sua cabeça fortemente contra um pilar, tanto se lhe dá se é uma dureza provocada pela pedra ou por outra matéria: só o que lhe importa é a dor suscitada.

Mas o mesmo homem, roçando delicadamente seu rosto contra o pilar, poderá se concentrar em ‘sentir a pedra’. Ele não sentirá a dor mental, mas a textura na pele. Não são sensações em ambos os casos? Mas isto é a natureza se comunicando por símbolos.² …³

¹ Reid não cansa de exagerar.

² Péssima maneira de se expressar!

³ Devido à banalidade do conteúdo no restante do parágrafo (e outros parágrafos, ainda), decidi omitir por completo uma tradução.

Não deveríamos concluir (dada a duplicidade da palavra rigidez) que o conhecimento das faculdades humanas se encontra ainda na infância?¹

¹ O mesmo argumento é aduzido sempre, à exaustão. E daí que a língua só tem uma palavra para ambos – inerentemente, isso não significa que ‘os filósofos’ não compreendem o conceito de rigidez – apenas que não é útil inventar uma palavra para ele, pois o conceito de rigidez é único, tanto quanto a sensação da rigidez! Infelizmente o livro se torna imensamente previsível, pois Reid, i.e., a mente de Reid, é fácil de ler, interpretar e adivinhar em suas intenções.

Quando alguém aprende uma língua, se concentra no som. Quando alguém já domina uma língua, concentra-se diretamente no significado do que é expresso. Se é assim, devemos nos tornar novamente crianças se queremos ser filósofos.

Acreditamos no conceito de dureza, e isso com base na sensação de dureza. Mas como se deu esse salto? Mas é uma idéia de sensação ou reflexão? Não podemos concordar com nenhum dos dois preliminarmente. É uma sensação sem semelhança com qualquer outra sensação. Então, a origem dessa idéia de dureza, uma das mais distintas que nós temas, não deve ser achada em todos os nossos circuitos nervosos.

Mas como então chegamos ao conceito de dureza? A qualidade do corpo precisa existir para que haja uma sensação que lhe corresponda. Mesmo o autor do Tratado da Natureza Humana, em que pese não haver razão para sua crença, e haver muitos argumentos contra ela, não pôde defini-la a contento em seus momentos mais especulativos e solitários.¹

¹ Ou eu “cansei” do autor ou ele perdeu o fio de raciocínio e já não consegue desenvolver qualquer coisa apreciável ou digna de tradução, daí as reticências que seguem.

SEÇÃO III. Dos signos naturais

Como com os signos artificiais, os da linguagem, por exemplo, em que não há verossimilhança necessária entre o signo e a coisa significada, com os signos naturais sucede que não há qualquer conexão necessária entre estes e a natureza das coisas. A palavra ouro nada tem de parecido com a substância ouro. Só se evoca o que se evoca com a palavra ouro pela força do hábito. Dessa forma é que uma sensação do toque sugere dureza, embora não haja semelhança entre a dureza, tanto quanto podemos senti-la, conceito, e dureza sensação.¹ … O que é tudo que sabemos de mecânica, astronomia e ótica, senão conexões estabelecidas pela natureza e descobertas mediante a experiência ou a observação, e suas conseqüências dedutíveis? Todo nosso conhecimento em agricultura, jardinagem, química e medicina está erigido sobre a mesma fundação. … O que chamamos de causa devia ser chamado de signos naturais, e o que chamamos de efeitos, de coisas significadas. As causas não têm eficiência ou causalidade, tanto quanto podemos saber. Tudo o que podemos afirmar é que a natureza estabeleceu uma constante conjunção entre as causas e as coisas chamadas de efeitos das causas. E deu à condição humana a disposição de observar essas conexões.

¹ O autor estabelece o inconcebível. Que uma pedra seja dura é coisa bem diferente de ouro ou gold designar um metal ou elemento químico! A dureza certamente não poderá ser encontrada na água… Hábito milenar arredio algum mudaria essa verdade elementar!

… Destarte, … a dureza deve ser considerada como um princípio original da natureza humana,¹ até que achemos um outro princípio geral que venha a explicá-lo.

¹ Tal qual uma sensação?!?

SEÇÃO IV. Da dureza e outras qualidades primárias

…¹ Se qualquer homem dissesse que a dureza dos corpos é uma dada vibração de outras partes, ou que é um dado eflúvio emitido pelos corpos que afeta nosso toque na maneira como devemos sentir, tal hipótese chocaria o senso comum? sim, porque sabemos que o corpo é duro uma vez que as partes do corpo aderem fortemente, não devido à emissão de eflúvio ou porque vibre.

¹ Primeiro Reid compara a dureza às cores e ao calor, o que para nós, em nosso século, torna o fim do parágrafo risível, uma vez que cores e calor são de fato ondas de energia.

SEÇÃO V. Da extensão

Doravante vou apenas destacar, em inglês, o de importância.

The theory of ideas, like the Trojan horse, had a specious appearance both of innocence and beauty; but if those philosophers had known that it carried in its belly death and destruction to all science and common sense, they would not have broken down their walls to give it admittance.”

[ARQUIVO] CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS — OU COMO FILOSOFAR A MARTELADAS

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

17: filósofo, o animal-deus

21: sobre as mulheres insinuantes, em vestes tropicais para climas frios. Dormir nu, ao sereno: tem-se de estar serenado.

22: “Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que não resiste.”

23-4: os intrigantes 4 casos de consciência. Sobre o apartamento e a misantropia. Como somos sui generis.

29: da feiúra de Sócrates

36: “monótono-teísmo”

39: “Temo que jamais nos livraremos de Deus, porquanto acreditamos ainda na gramática…”

41-2: espécie de resumo da ópera (cronologia das obras de N.). Meio-dia.

45: o problema do aniquilamento

46: nas entrelinhas: o que é perfeito quer…

50: o problema do “homem mais forte do mundo” que morreu centenário, agora entendido sob o prisma nutricional correto: ele recomendava que se comessem vegetais para se viver longamente; porém ele comia vegetais unicamente porque seu metabolismo era mais lento. Suicídio intelectual em nossa época: dieta pobre em proteínas. Ver citação abaixo.

58: “somos um pedaço de destino.”

60: o “animal louro”

61: “Como o Novo Testamento é pobre ao lado do Manu, como cheira mal!”

66: sempre o bordão “A Alemanha, a Alemanha acima de tudo.”; o problema dos jovens filósofos beberrões. Strauss entre eles.

71: a importância da digestão dos pensamentos (sozinho e em grupo)

76: muitas escritoras que utilizavam pseudônimos masculinos

81: músculos e música

84: a astúcia como artifício do fraco; a diferença entre o psicólogo e o político.

93: receita de Júlio César para o corpo: “grandes caminhadas, estilo de vida o mais simples possível, permanência ininterrupta ao ar livre [contradiz o preceito nietzschiano das ‘grandes galerias ao abrigo do sol e da chuva’], fadigas contínuas.”

94: quando o “ideal” é o real

95: as farinhas do mesmo saco sacristão

97: saber morrer

99: crítica a suas minguadas resenhas em jornais

103: incompreensível fé na Mãe-Rússia!

109: “Dostoievski, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem aprendi alguma coisa.”

117: palestra “no antiquário” (complemento a Ecce Homo): Salústio, Horácio, Fontenelle, Tucídides.

118: de como o “ser grego” está absolutamente fora da meta (impossível ser clássico na modernidade…). Romanos: os perfeitos intermediários entre as duas culturas. Extrema dualidade em relação a Platão.


O livro das frases mais célebres.

O que não me faz morrer me torna mais forte.”

Sem música a vida seria um erro”

com a dialética, a plebe chega ao alto”

Um sábio de nossos [e fala de um tempo que hoje soa ainda clássico, pasmacento] dias, com seu consumo de força nervosa, se fosse submetido ao regime de Cornaro, arruinaria sua saúde completamente.” Diria que até os genuínos Cornaros morrem cedo na era do fast food.

Toda educação superior não pertence senão às exceções: é preciso ser privilegiado para ter direito a um privilégio tão superior. Todas as coisas grandes e belas não podem jamais ser um bem comum: pulchrum est paucorum hominum (o belo é de poucos homens). O que é que ocasiona o rebaixamento da cultura alemã? O fato da ‘educação superior’ não ser mais um privilégio—o democratismo da ‘cultura’ tornada obrigatória, comum.”

Que não se cometa a infantilidade de me objetar Rafael ou qualquer cristão homeopático do século XIX. Rafael dizia sim, Rafael criava a afirmação, logo Rafael não era um cristão…”

Não temos em mãos um meio que possa nos impedir de nascer: mas podemos reparar essa falta—pois às vezes é uma falta. O fato de suprimir-se é o mais estimável de todos os atos: quase dá direito a viver…”

Meu conceito de gênio (…) histórica e fisiologicamente, sua condição primeira é sempre a longa espera de sua vinda, uma preparação, um arqueamento sobre si mesmo—isto é, que durante muito tempo não se tenha produzido nenhuma explosão. Quando a tensão na massa se tornou muito grande, a mais fortuita irritação basta para recorrer no mundo ao ‘gênio’, à ‘ação’, ao grande destino. Que importam então o meio, a época, o ‘espírito do século’, a ‘opinião pública’! (…) a esterilidade os segue passo a passo. O grande homem é um final; a grande época, o Renascimento, por exemplo, é um final. (…) Esse é o agradecimento da humanidade: entende seus benfeitores em sentido contrário [como tiranos da moral, déspotas de si mesmos, quando tudo o que fazem é involuntário].”

Aproximam-se tempos—posso assegurar—em que o sacerdote será considerado como o ser mais baixo, mais mentiroso e mais indecente, como nosso chandala (…) Catilina—a forma preexistente de todo César.” Precisamos nós, os imoralistas, odiar o mundo antes de perdoá-lo.

O progresso na minha opinião—Também eu falo de um ‘retorno à natureza’, [vis à vis Rousseau e Goethe], embora não se trate propriamente de um retorno para trás, mas uma caminhada para frente e para o alto, para a natureza sublime, livre e mesmo terrível, que brinca, que tem o direito de brincar com os grandes destinos. (…) Napoleão foi um exemplo desse ‘retorno à natureza’ como o entendo (…) Mas Rousseau (…) Esse aborto que acampou no umbral dos nossos tempos, também ele queria o ‘retorno à natureza’ – (…) aonde queria realmente chegar? – Odeio ainda Rousseau na revolução que é a expressão histórica desse ser de duas caras, idealista e canalha. (…) Só conheço um que a sentiu como deveria ser sentida, com aversão—Goethe…”

seria desconhecer os grandes homens se estes forem considerados sob a perspectiva miserável de uma utilidade pública.”

meu orgulho é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num volume—o que outro não diz num volume…” “Ofereci à humanidade o livro mais profundo que ela possui, meu Zaratustra”


Anotações de cunho pessoal:

Vulgar Display of Power seria uma bela denominação para as coisas do mundo.

12 de julho de 2011

HEGEL AND ARISTOTLE – Alfredo Ferrarin, Cambridge University Press, 2004.

 

The leading thread of this book will be the notion of energeia. In contradistinction to the existing literature, this book does not limit itself to an analysis of Hegel’s lectures or even to a general discussion of energeia; rather, this notion will serve as a guide to show how the idea of a self-referential activity operates in the details of Hegel’s interpretation of Aristotle as well as in particular contents of Hegel’s own thinking on subjectivity.

Energeia, usually rendered in English as ‘actuality’ after the Latin translation ‘actus’, is by and large translated by Hegel as Tätigkeit (activity) or as Wirklichkeit (actuality), even though in the context of single works he will prefer different words (e.g., in the Philosophy of Spirit and the Logic Aktuosität, actuosity, while in the Phenomenology a closely related notion is that of Entwicklung, development). However he translates it, though, he invariably means the same, an actualization of a potency originally immanent in the subject of the process or movement. Hegel interprets energeia as the self-referential activity that he finds at work in its several manifestations: from the self-grounding of essence to the Concept, from the teleological process to natural life, from the essence of man to the forms of knowing and acting down to its most obviously free and self-determining dimension, absolute thinking that has itself as its object.”

In the words of the Nicomachean Ethics, we can say that spirit’s energeia is its own eudaimonia (happiness), its activity is its own flourishing.”

Back with a vengeance, Schelling poked sarcasm at Hegel’s absolute as a God who knew no Sabbath. Hegel’s God is an eternal incessant activity and not a simple final cause like Aristotle’s.”

The comparison between Hegel and Aristotle, continues Schelling, could only be established by some ignorant people in Germany.”

Heidegger’s thesis that energeia is being-at-work should be understood literally to refer to the world of production, poiêsis.” “By this interpretation, Heidegger suppresses any sense of finality from energeia: actus is a faulty translation just because it suggests an actualization, not to say a self-actualization, which is absent from Aristotle’s understanding of energeia.”

For one thing, it may well be far-fetched to read into Aristotle the existentialist idea that in his life man projects his most proper finite possibilities in a groundless void. Yet how one can make sense of the Ethics without taking action as a self-determination, an actualization of one’s potentialities with respect to the kind of life one chooses, is hard to see”

While in movement a process is subordinated to its end, and reaching the end is the conclusion of the process that is thus extinguished, in energeia (I find it difficult not to translate it here as ‘activity’) time does not bring any new content.”

For Solon (Eth.nic. I 10), happiness is of a past (for us too, by and large: take Proust’s immemorial past); you have to step out of happiness to judge it. For Aristotle instead the happiness of a good life spans through a lifetime; it is the exercise of a permanent possession, not a movement that ceases once it reaches its end; it is a being, not a search, an actuality and not a result.”

1. THE HISTORY OF PHILOSOPHY AND ITS PLACE WITHIN THE SYSTEM

Lang ist

die Zeit, es ereignet sich aber

Das Wahre

Longo é

o tempo, como se não sucedesse

a verdade”

Hölderlin

The material we still read today is the result of Michelet’s compilation of these sources, along with notes taken by students who attended Hegel’s lectures in Berlin.”

Michelet, who was in the habit of disposing manuscripts after their publication by entrusting them to people often unrelated to the edition of Hegel’s works, is not only responsible for the loss of the precious Jena notebook. To the eyes of the 20th-century scholar, he is also responsible for the hasty publication of an edition that satisfies none of the fundamental philological criteria any work should have of which the supposed author never had a chance to print a single page.”

Reading Lasson’s or Hoffmeister’s criticisms of Michelet’s work, one hardly imagines he could have done worse.”

I wish to add that before the unanimity with which everybody who writes on the Lectures finds it indispensable to be pitiless with Michelet, I believe that the first edition, for all its limitations, is an unparalleled and rich text, a more concise exposition than the more ‘readable’ second version. Besides, Michelet could still use the Jena notebook and other now lost sources. His edition is therefore still indispensable for the Hegel student.”

The history of philosophy as we still practice it today is heavily influenced by Hegel; it did not exist before him. It was neither a recognized discipline in the university curriculum nor an established genre. There were, to be sure, several histories of philosophy; but a philosophical treatment of the history of philosophy was never practiced, let alone theorized.”

(*) “Bodei argues that this relation between eternity and time is inspired by Saint Paul’s notion of aiôn mellon (‘Zeit’, 1984: 92). If so, this seems to me to make the clash between eschatology and parousia of the eternal – the ‘kingdom of God’ made present and manifest here according to the gospels – even more paradoxical.”

Hegel’s confrontation with Aristotle and more generally with classical metaphysics after the modern revolution – that is, after the reduction of knowledge to legality, first of the world, then of reason – compels us to face the problem of the meaning of a revitalization of Greek philosophy in a radically changed context.”

This also means that we should put in question the implicit assumption present both in Hegel and in Heidegger, the thesis of a basic continuity, interpreted, respectively, as the progressive revelation of reason to itself or the progressive oblivion of origin and reification of ontological difference.”

Every rigorous historiography must question what Hegel says about past philosophies and verify their presence and actual importance in Hegel’s thought, over and above the judgments we find in the Lectures.”

we can say that not only are all claims of Heraclitus present in the Science of Logic, but also those of Plato, Plotinus, Spinoza, and Kant. And most of all those of Aristotle.”

Aristotle does not appear as a shape of consciousness in the Phenomenology of Spirit (as do skepticism or stoicism for example), or as a position of thought with regard to objectivity in the ‘Preliminary Concept’ of the Encyclopædia.”

Marcuse say[s] that ‘Hegel simply reinterpreted the basic categories of Aristotle’s Metaphysics and did not invent new ones.’

Greek philosophy (a disconcertingly loose umbrella that for Hegel spans a language more than a period, extending from the Presocratics to late Neoplatonism, from Greek colonies to Athens and Alexandria) starts from the assumption that thought is being. Bacon, Böhme, and Descartes, whom Hegel considers the first ‘Christian-German’ philosophers (sic: even here, despite appearances, the designation does not cover a geographical area or a language), began with the opposition between thinking and being”

the principle of Dilthey’s hermeneutics, that we must understand an author better than he understood himself, is already somehow at work in the idea of completion shared by Aristotle and Hegel.”

The medieval idea of seeing farther thanks to the possibility of standing on the shoulders of giants,¹ or the Renaissance idea of a dialogue with the classics, is as far from both as is scholarly accuracy.”

¹ Sempre achei esse pensamento cretino.

The notion that history is a decline from an original beginning, and not progress, was standard in Greek mythology, but often appears also in the Platonic dialogues. In Hegel’s age a picture of the history of philosophy as negative development from an original revelation (often found in oriental religion), a decline from a mythological unity between nature and spirit, is a guiding theme for many historians inspired by the later Schelling, such as Rixner and Ast, and is a tenet of the philosophy of history of Romantics such as F. Schlegel, Windischmann, Görres, and Novalis.”

Crer que Aristóteles só pode ter entendido a filosofia de seu mestre perfeitamente, afinal conviveu com ele 20 anos, é bem estúpido. “This is not so nearly as incomprehensible as Heidegger’s claim that we must go through Aristotle to understand Plato, like going from the clear to the obscure, because ‘what Aristotle said is what Plato placed at his disposal, only it is said more radically and developed more scientifically.’ See Heidegger, Sophistes Hahaha! Heidegger sempre ordena que se leia filósofos numa sucessão pré-determinada, programa obviamente furado.

As Hegel says in the Aesthetics, ‘if we have not read Aristophanes we hardly know how man can have fun.’”

Hegel himself warned us against identifying the system of truth itself with the specific order of the Encyclopædia.”

Enciclopedistas franceses vs. Enciclopedistas românticos germanos

In his Encyclopædia of Philosophical Sciences, Hegel contrasts a scientific or philosophical encyclopædia with an ordinary encyclopædia. While the latter takes the empirical disciplines as it finds them in ordinary life, and groups them together according to affinities and similarities, the former is the science of the necessary connection of sciences. The positive or ordinary encyclopædia derives its scientific status from the sciences it brings together, while a philosophical encyclopædia is science, in that it forms the conceptual order and relations among the sciences as well as demonstrates how their principles first arise.”

Entre as exclusões da “enciclopédia científica” estão a filologia, a geografia, a medicina, a lei de impostos e a história.

Once Hegel shifted, after 1805, his understanding of logic to include metaphysics as a theory of the absolute in relation to which ‘life’ and ‘knowing’ were no longer external, he needed an introduction to the speculative standpoint of the logic. The Phenomenology of Spirit was written with the purpose of satisfying such a need.”

In Nürnberg, Hegel again changed his approach. Spirit is treated as erscheinend, appearing, and as in and for itself; this leads Hegel to the gradual reelaboration of the material from the earlier Phenomenology of Spirit, and the reduction of its systematic scope to its first section, and to the genesis of the mature philosophy of spirit.

The Phenomenology of Spirit no longer acts as an introduction to the system. We are not carried to the Absolute through the stages of consciousness thinking itself. Now the decision to think purely, the freedom to abstract from everything, is sufficient for us to enter the system. The Phenomenology of Spirit, in many respects Hegel’s most impressive work, is later reinterpreted by Hegel as an introduction to pure thinking, [wtf] the overcoming of all oppositions of consciousness and all presuppositions external to thinking.”

And, most importantly, if the Science of Logic is Hegel’s scientific masterpiece, and the only part of the system he developed fully in print, what is the relation between the logic and the other two parts of the system, and between the Idea and spirit?”

The absolute Idea, which at the end of the logic shows to have ruled and generated the entire logical movement, can be the object of philosophical consideration in itself, thus be considered formally, or, alternatively, it can be considered in its embodiment in finite natural or spiritual forms. It can, in Hegel’s metaphor, be considered, respectively, as the concept of God (WL 2: 572–3, SL 842–4) or as the objectivity of God. Absolute spirit is just the stage at which the two are thought together as one truth.”

By investigating all thought in the synthetic unity of apperception Kant brings about the new principle; by reducing all knowledge to a phenomenality against which the in-itself stands opposed, as the truth we will never reach, Kant prevents his great discovery from being effective.”

Historically speaking, first you need care for truth and trust in reason (religion is one of the paramount cases of such a trust to be made true and validated by philosophy), then you find the determinate universals thanks to observational reason or empirical sciences, then you comprehend determinate universals as particular moments of thought, and finally you comprehend the universal as one logical form, among others, of thought thinking itself.”

Hegel passes over centuries of meditation on the continuity between animals and man and holds the Aristotelian as well as Christian view that reason distinguishes man from animals. As for Aquinas, an animal cannot think inasmuch as it cannot say ‘I’, cannot reflect on itself; everything is for it a singularity in sensation.” Resta a aplicação do a priori kantiano ao animal: a apercepção de um tempo e espaço que são não-humanos, e ausência de princípio de causalidade, ou também um princípio de causalidade inumano?!

Aristophanes’s picture of love as an infinite striving for an impossible completion would be a perfect example of what Hegel means here by dialectic and finitude.” “Thought is the only exception to the contradictory, finite nature of all that is.”

(*) “Diotima’s criticism of Aristophanes (Symp. 205d 10–206a 1) marks the difference between the ancient Platonic-Aristotelian and the modern understanding of strive.” A virtude em si, a fixidez da excelência de caráter, como o fim do processo para Platão-Aristóteles.

If we take it as the first stage and express it in a proposition or first principle, we turn it into something finite and posited by reflection, which still has to prove itself against that to which it stands in opposition (Fichte).” Lógica = verdade; lógica = lógica; redundância. Fichte conhecido como o idealista da finitude (eu = eu). A mesma carência cartesiana do moto “penso logo existo”, que deveria ser “penso (em algo)”.

In the doctrine of synthetic a priori judgments, Kant had sketched the true theory of the identity-in-difference of universal and particular, of subject and predicate. But since he began with empirical intuition, stressing its absolute alterity to thought, he could not proceed to the unity of that which he had severed. If Kant had thought through the relation between intuition and concept, he would have understood the relation between universal and particular – he would have grasped the immanence of thought.”

All forms of finite knowing and acting must be ascribed to the originary synthetic unity of apperception interpreted as absolute self-consciousness or infinite reason.”

According to many recent interpretations, Hegel has offered the final critique of metaphysics. I think this is true”

Kant is the Robespierre of thought and religion that Heine took him to be. The Critique of Pure Reason is indeed a fatal blow to metaphysics, but only that form of metaphysics that Kant knew and criticized, the Wolffian”

We can have synthetic a priori judgments in metaphysics, simply given that such judgments have a different sense than they did for Kant. Metaphysics as a science is possible insofar as it is logic, the logic of productive thought. We cannot separate metaphysics from logic, critique from speculation, negativity from rationality, analytic from dialectic. The logic must deal with all thought-determinations, including that which Kant had isolated as the objects of metaphysica specialis. And, most importantly, it has to be a theory of pure thought – unlike Kant’s subjective idealism, which had as its object finite thought and an empirical logic that derived categories from the forms of judgment.”

Ser o Kant de Wolff e Hume, ser o Hegel de Kant, ser o Marx de Hegel e o Nietzsche de Schopenhauer. Refutar como deve ser refutado.

As is well known, it is to Andronicus that we owe the title of Metaphysics. Andronicus organized Aristotle’s writings – both those found in the Metaphysics and those forming the corpus at large – in an order that, if not systematic in Hegel’s sense, was certainly more systematic than anything Aristotle had known.”

Another move of incalculable consequences is Andronicus’s isolation of the logical works in an Organon. Now Aristotle suddenly becomes the founder of logic as an instrumental and independent discipline, a status it did not have for Aristotle. With Porphyry the Aristotelian logic was adopted in the Neoplatonic curriculum as a requirement before students moved on to the study of the Platonic dialogues and the theology of the One found in the Parmenides and Timaeus. As Sorabji puts it, it is no wonder that Boethius in the early 6th century, like the early Augustine, did not distinguish between Neoplatonism and Christianity.”

(*) “The word sustêma does actually appear in both Plato’s dialogues and Aristotle, but Jaeger is right that the connotation familiar to us today is a hellenistic novelty.”

Neither Aristotle nor Hegel understood physics as a science that leaves all philosophical questions to speculation. Aristotle does not write that first philosophy should come before physics, as if it borrowed principles from a higher science. Nor does he write that the distinction between first for us and first by nature explains how we move from physics to first philosophy, since the distinction in priority is internal to all disciplines. Physics is for him a science investigating ta prota kai tas archas tas protas (Phys. I 1, 184a 10–15), the first beings and principles of sensible substances subject to change”

Since change is eternal and presupposes an eternal mover which will turn out to be a pure, immaterial substance within a physical analysis of motion, physics reduces itself to secondary wisdom and gives way to theology. There is no metaphysical consideration which reduces physics to its less universal role”

INVERSÃO COMPLETADA SOMENTE EM MARX: “As is well known, the dramatic change in mankind’s relation to nature at the beginning of modernity goes hand in hand with the redefinition of science and of philosophy. We can summarize this shift in the reversal of the Thomistic motto operari sequitur esse (work follows being). While for Aristotle the world of production was subordinate to practice, thus to the realm of freedom, and production could not pretend to change nature but at best to imitate it, for modernity art becomes instrumental to mankind’s liberation from nature.”

In Hegel, as Riedel puts it, there is a reflexive connection between work and the worker that is absent from the Aristotelian notion of poiêsis

Work is formative precisely because we objectify our will in a product that will be consigned to externality and lead a life of its own, independent and beyond the power of its originator.”

Proclus and Plotinus do not say how the procession from the One is to take place; they express in imaginative and enthusiastic language the true understanding of the Absolute, but they miss the full-fledged notion of negativity and infinite subjectivity.”

Plotino, Enéadas

Despite Plotinus’s paganism and Proclus’s criticism of the creation of the world, which the Christian Philoponus later attacked, the conciliation between Neoplatonism and Christianity was widespread soon after Proclus’s death.”

just as in Hegel metaphysics is indistinguishable from the logic of a philosophy of spirit, for Plotinus metaphysics is an absolute, nonfinite form of psychology.”

II. LOGIC AND METAPHYSICS

Leitura interrompida

OS PROGRESSOS DA METAFÍSICA — Kant

ADVERTÊNCIA DO TRADUTOR

A ocasião para Kant escrever o presente opúsculo foi o concurso aberto pela Academia Real das Ciências de Berlim, em Janeiro de 1788, a propósito desta pergunta (originalmente formulada em francês): Quais são os progressos reais da metafísica na Alemanha desde a época de Leibniz e de Wolff?”

Kant iniciou a sua resposta possivelmente no começo de 1793, mas nunca chegou a terminá-la e dela restam-nos apenas projectos soltos e todos com a marca do inacabado.” “não obstante o seu estado fragmentário, lampejam os profundos vislumbres sobre o conhecimento humano”

A tradução baseia-se no texto que Rink publicou depois da morte de Kant em 1804”

O carácter lacunoso do original, com pensamentos interrompidos, frases incompletas, borrões, etc., ressente-se necessariamente na trasladação para português; a maior preocupação foi ser fiel ao original, que está muito longe de primar pelo literário”

ARTUR MORÃO

PRIMEIRO MANUSCRITO

PREFÁCIO

Pouco progresso nela se realizou desde os tempos de Aristóteles.”

Ora, no tocante à ontologia, tem méritos incontestáveis o famoso Wolff pela clareza e precisão na análise daquela faculdade, mas não quanto à extensão do seu conhecimento, porque a matéria estava esgotada.”

Há, pois, três estádios que a filosofia devia percorrer em vista da metafísica. O primeiro era o estádio do dogmatismo; o segundo, o do cepticismo; o terceiro, o do criticismo da razão pura.” “Depois de cobertos os dois primeiros, o estado da metafísica pode manter-se oscilante ao longo de muitas gerações, saltando de uma confiança ilimitada da razão em si mesma para a suspeita ilimitada e, de novo, desta para aquela.”

[ARQUIVO] GENEALOGIA DA MORAL

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

31: a democracia odeia a História

36-7: o projeto judaico, a longa trajetória da escravidão até o poder (o poder escravo) (Páginas cheias para o anti-semita que quisesse deturpar… Ou acusar N. falsamente.)

40: dizer-sim e dizer-não. O sim que sobrepuja todos os nãos.

41: o “sabbat”, repouso do ressentido com a vida

42: o nobre que explode—ele não suporta estocar rancor!; Mirabeau

46: nazismo

47: niilismo. “Estamos cansados do homem”

49: o erro do átomo

51: para Homero, a vingança é mais doce que o mel

52: o portal do Paraíso; Dante; Tomás de Aquino e a catarse dos “absolvidos”.

56: os judeus ganham a guerra do milênio, ou duomilinar

57: a última vitória do espírito clássico-romano sobre o espírito judeo-moderno: Napoleão Bonaparte.

59: a interdisciplinaridade sonhada pelo autor; prescrições para a filosofia do futuro.

65: o ser que promete

70: livre-arbítrio debaixo dos escombros do martelador

73: este é o livro que mais cita os livros anteriores de Nietzsche; o Dom Quixote tornou-se menos cômico e mais cruel com o tempo (Processo Civilizatório).

75: sobre o hedonismo; sobre o querer testemunhas para si.

76: a festa e o divino

77: a origem da palavra homem

78: a verdadeira origem da justiça; o verdadeiro e imoral conceito de justiça.

81: personalidade reativa/vingativa como indício de fraqueza

84: o problema da causa e finalidade

85: supra-homem; ataque a Darwin.

90: o mundo inocente; Spinoza.

94: anti-Hobbes

95: “instinto de liberdade” ou simplesmente “vontade de poder”

99: a “segunda inocência” do ateu

100: zerando as contas do niilismo

110: antes querer o nada a não querer

118: sexualidade e arte – caráter de Rafael; “a roda de Ixion está imóvel”, tirado de Schopenhauer.

120: filósofos ilustres e seu celibato; “Um filósofo casado é motivo de comédia”.

121: Buda e o lar com a família como “local de impureza”; a retirada para o deserto.

122: desfecho da elucidação do paradoxo do asceta

124: o filósofo e sua mania noturna; “o instinto maternal”.

125: a velha polêmica—sexo “antes da grande partida” atrapalha?; a incipiente fisiologia da estética.

127: a teia-de-aranha de Deus

129: “todo aquele que constrói um ‘novo céu’ encontrou a força em seu próprio inferno…”

136: niilismo como o casamento do desgosto e da compaixão

137: “onanistas morais”

145: “a aberração dos vegetarianos”

146: a “concepção pan-indiana” de ascese

158: ranking nietzscheano das doenças européias: 1. o ideal ascético; 2. o álcool; 3. a sífilis.

162: a subordinação da ciência moderna ao ideal cristão, formulada da maneira mais clara. O mesmo dir-se-ia do Estado. Tudo se afunila para o Um.

164: Karamázov, Ivan

166: Arte e arte

167: a tábua de Copérnico

168: Tolstoi

169: “regime alimentar exclusivamente composto de jornais, política, cerveja e música de Wagner acrescido daquilo que é o pressuposto dessa dieta”


o esquecimento ativo (…) espécie de porteiro vigilante encarregado de manter a ordem psíquica, a tranqüilidade, a etiqueta” Meu porteiro está em sono profundo.

Sem crueldade, não há festa”

Um dos livros mais cifrados e ruminantes do filósofo, embora possua parágrafos extensos. Mas posso dizer que 4 anos de noites mal-dormidas já são o suficiente para chegar à clarividência de todos os problemas…

Há dois tipos de ateu: o ateu passivo e o ateu honesto; o ateu cristão e o ateu transmutador!

Eu não posso carregar o mundo nas costas; não suporto carregar sequer dois destinos.”

Esse será doravante o livro que eu mandarei ler primeiro àquele que me solicitar que eu o introduza a Nietzsche.

oh amigos desconhecidos! (porque não conheço ainda a nenhum amigo) (…) A vontade de verdade, uma vez que seja consciente de si mesma, será a morte do mal: é o espetáculo grandioso reservado aos dois próximos séculos da história européia; espetáculo terrível entre os terríveis, mas talvez fecundo de magníficas esperanças.”


Anotações de cunho pessoal:

Posso te dizer uma coisa: não há nada como dormir… Nada. Essa capacidade prodigiosa de estar em novos e excitantes contextos despreocupadamente, em aparente—e para a consciência é suficiente o aparente—dissociação com o passado. Por isso sair, aventurar-se pelo desconhecido, embebedar-se ou mesmo perder-se na melodia de uma música também é imprescindível, inigualável. Sociólogo: o invejado ápice da consciência alerta. Ligada em todos os movimentos e em todos os rastros. Viva-se com uma herança dessas! Viva-se DENTRO DE CASA desse modo! Viva-se onisciente mas nihil-potente! Insuportável… Me deparo com esse tipo de trecho em minhas mensagens grafadas a cada janeiro. E o relógio me faz pensar que foi um exagero.

A cada hora, a direção da minha angústia aponta para algo diferente… Eu só não consigo esquecer meu caráter de “personalidade indesejada” em certo grau.

E por que toda essa maldita “conspiração”? Parece que estou sempre lendo uma página feita para que eu a lesse exatamente nesse dia… Sentir-se especial… Mas não grandioso: o maior dos vermes amargos. MEU paradoxo: só posso me enfraquecer ao promover a única queixa possível contra o enfraquecimento; é assim que funciono. Aquela máquina que todos no escritório se perguntam: “Quando é que finalmente vai quebrar?”. Do que me adianta todo o enternecimento post mortem?

Genealogia, genealogia, genealogia… Como é insalubre a profissão do escavador!

Minha maior desvantagem: além de escutar tudo que uma natureza excepcional precisa aprender a escutar, eu tenho que escutar tudo que um homem comum precisa escutar (porque a maior parte do tempo eu não me revelo!)—e isso é o mais ofensivo! Como se eu fosse mesmo aquele estagiário-padrão, aquele aluno que precisa de orientações, o eterno-subalterno! E eu ainda tenho que ouvir a minha própria consciência… prensada!

Pessoas morrendo—pessoas morrindo

Rimos de céu, inferno, gárgulas e Jesus.

O bebê é o que mais chora, o velho é o que mais ri.

De 7 a 23 de janeiro de 2010

[ARQUIVO] A GAIA-CIÊNCIA

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

27: esquecendo um problema através de outro – uma dupla escada, como a criança que pulula na areia quente e reveza os pezinhos para não se queimar—e consegue!

42: vocação de professor; a tragédia e a comédia, a vida sem riso; o mar.

48: não procede a crítica de “nostálgico da Grécia e Roma antigas”; para um esboço da teoria das emoções.

49: ser vegan ou não ser; “A dialética do casamento e de amizade já foi exposta?”.

56: a necessidade de um novo amor; interpretação/interpenetração dos sonhos.

62: a espada de dois gumes chamada “vida de atleta”; lição de economia para a Alemanha; o CONTRAPONTO do que se diz nos Fragmentos Finais acerca da “tirania de si mesmo”—aquele que não souber desligar suas virtudes não vai aproveitar as glórias da vida: chutar o pau da barraca depois de erguê-la.

68: a China macha e a frustração feminina do continente Europa

78: minha autêntica alma de trabalhador; tratado acerca do inevitável tédio existencial dos bons.

83: em alto e bom som, o valor da vida

104: Aristóteles e seu erro

105: Wagner

106: gregos x franceses

110: a “previsão do futuro”, o caráter premonitório-semiótico da Música; Apolo e suas profecias auto-realizadoras.

111: para uma lição sobre a antevisão denominada Futurismo

112: Fausto e Manfredo na mesma frase; “Ah! Quem nos contará a história completa dos narcóticos?—É quase a história da ‘cultura’ inteira, a chamada cultura superior!”

119: Stendhal

120: Shakespeare e Brutus

121: Schopenhauer, o grande

131: o militarismo e a música alemãs; a história da língua para a história do povo (Holocausto).

132: o assombro do rádio

138: Eleatas, os primeiros (?) idealistas. Talvez os primeiros utilitaristas (porque esta palavra sempre define “os enganados”), os primeiros dialéticos (é óbvio!) e os primeiros céticos.

142: 1ª citação de “instinto de rebanho”

149: o louco e a lanterna e o assassinato de Deus; mas muito mais!

160: o fraco vegetariano

167: para quem deseja descansar

168: misantropia como produto do excesso de amor ao homem (estômago empanturrado que arrota e já não engole mais nada)—depois de um período de faquir (de blasé), é hora de recarregar as baterias. Cuidado com a afobação da churrascaria!

172: sobre como deixar que os amigos indesejados se esvaiam

174: da minha benevolência

180: animais e sua opinião sobre os animais-homens

204: o positivismo nietzscheano

206: no limbo entre a estrutura e a história

219: os animais e a sintonia climática

239: do peso mais pesado

256: “nossa qualidade de animais domésticos

257: Jesus e São Paulo contra os romanos

258: para fundar um novo dogma

260: sistema consciente como rebanho; seu “em si”: o eterno inconsciente.

263: a contradição, fraqueza e incipiência das ciências humanas: “querer tomar por objeto elementos que não são estranhos beira a contradição e o absurdo…”

265: Nietzsche como arquiteto e engenheiro; a ponte.

276: o animal e seu isolamento à véspera da morte—como se diz que ele não possui uma biografia?

278: a misteriosa “idade clássica da guerra”

288-9, 296: epicureus

299: “pequena política”

300: Tímon, grego, modelo de misantropia


retorna-se [da doença] mais criança e, ao mesmo tempo, cem vezes mais refinado do que nunca se havia sido antes.”

Receita (complementar a Anselm Strauss): “adorar a aparência, acreditar na forma, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses Gregos eram superficiais—por profundidade!”

está bem de saúde aquele que esqueceu”

A escrita, é verdade, não está realmente nítida—

Que importa! Quem é que lê o que escrevo?”

mesmo a mais bela paisagem onde vivemos mais de três meses deixa de nos agradar e qualquer margem distante excita nossa cobiça.”

Quando um homem se encontra no meio de sua agitação, exposto à ressaca em que projetos e contra-projetos se misturam, acontece-lhe às vezes ver deslizar perto dele seres de quem inveja a felicidade e o afastamento—são as mulheres.”

Não estaremos errando como num nada infinito? O vazio não nos persegue com seu hálito? Não faz mais frio?”

Agora não são mais os argumentos, é nosso gosto que decide contra o cristianismo.”

a inflexibilidade é uma virtude de outra época que aquela da honestidade”

É preciso não querer fazer mais que o próprio pai—ficaríamos doentes.”

Não gosto dos homens que, para obter um efeito, são obrigados a explodir como bombas”

Pais e filhos se poupam mais entre eles do que mães e filhas entre elas.”

Quanto ao animal doméstico: “Que bicho estranho é esse que sempre tem o que comer? Ele cuida de mim mas eu não colaboro com nada… ou serei eu seu frágil rei? Ele desaparece muitas vezes. Rei ou prisioneiro?”

A graciosa besta humana tem a aparência de perder cada vez seu bom humor quando se põe a pensar bem; ela se torna ‘séria’! E ‘em toda parte onde há riso e alegria, o pensamento não vale nada’: esse é o preconceito dessa besta séria contra toda ‘gaia ciência’. Pois bem! Mostremos que se trata de um preconceito.”

Um dano é raramente um dano por mais de uma hora”

Coloca, entre ti e hoje, pelo menos a espessura de três séculos.”

o que há de mais risível que colocar ‘o homem e o mundo’ lado a lado, que sublime presunção não confere esse ‘e’ que os separa!”

Schopenhauer, como filósofo, foi o primeiro ateu convicto e inflexível que tivemos, nós alemães: esse é o segredo de sua hostilidade para com Hegel.”

a pergunta de Schopenhauer: ‘A existência tem, portanto, um sentido?’

Esta pergunta vai exigir séculos antes de poder ser simplesmente compreendida de maneira exaustiva e em todas as suas profundezas.”

Epicuro: enaltecido por N. Uma elevação dionisíaca bipolar.

Estóicos: troçados por N. Mais próximo do blasé. Indiferença como fuga da vida? Coisa de velhaco?

Como era de se esperar, este quinto livro adicionado em 1887 é o mais ácido e rancoroso.

A beleza personificada em discursos—todos os mitos desfeitos sobre os objetivos de tal filosofia: “Nós, filhos do futuro, como poderíamos estar em nossa casa ainda hoje! Somos hostis a todo ideal que ainda pudesse encontrar um refúgio (…) Nada ‘conservamos’, não queremos regressar a nenhum passado, não somos ‘liberais’ em absoluto, não trabalhamos para o ‘progresso’, não temos necessidade de tapar os ouvidos para não ouvir as sereias do futuro cantar na praça pública.—O que elas cantam, ‘Igualdade de direitos!’, ‘Sociedade livre!’, ‘Nem senhores nem escravos!’, isso não nos atrai!—na verdade, não achamos de forma alguma desejável que o reino da justiça chegue e que a paz seja instaurada na terra (porque esse reino seria forçosamente o reino da mediocracia e da chinesice) (…) nos contamos a nós mesmos entre os conquistadores, refletimos na necessidade de uma nova ordem e também de uma nova escravidão—pois, para todo reforço, para toda elevação do tipo ‘homem’, é necessária uma nova espécie de escravidão.—Aí está porque não nos sentimos bem numa época que gosta de reivindicar a honra de ser a mais humana, a mais caridosa, a mais justa que alguma vez já existiu debaixo do sol!”

Não somos humanitários; nunca nos permitiríamos falar de nosso ‘amor pela humanidade’—nós não somos suficientemente comediantes para isso!” “Não gostamos da humanidade; mas, por outro lado, estamos bem longe de ser muito ‘alemães’—no sentido atual da palavra ‘alemão’—para podermos ser os porta-vozes do nacionalismo e do ódio das raças, para podermos nos regozijar com os males nacionais do coração e com o envenenamento do sangue, que fazem com que na Europa um povo levante barricadas contra o outro, como se uma quarentena os separasse.”

herdeiros de vários milhares de anos de espírito europeu; como tais, saídos do cristianismo e a ele hostis, porque precisamente saímos de sua escola, porque nossos ancestrais eram cristãos de uma lealdade sem igual que, por sua fé, teriam sacrificado os bens, o sangue, sua condição e sua pátria. (…) O sim escondido em vocês é mais forte do que todos os nãos e todos os talvez de que vocês sofrem com sua época: e se lhes for necessário partir para o mar, vocês, emigrantes, empenhem-se em ter também—uma fé!…”

Da humanidade! Já houve alguma vez velha mais horrível entre todas as horríveis velhas?—(a menos que seja a ‘verdade’: uma questão para os filósofos.)”


Anotações de cunho pessoal:

Poeta, o bom Pinóquio

HIPÓTESE MALDOSA Imagine se nós tivéssemos de desaparecer após completarmos nossa grande missão?

O que explica o além grego?

Às vezes só do que precisamos é uma pequena pausa para reordenar as palavras—e encontrar vocábulos melhores antes de ceder aos primeiros impulsos.


De 22 de dezembro de 2009 a 7 de janeiro de 2010

POÉTICA DO PÓS-MODERNISMO: história, teoria, ficção – Linda Hutcheon (trad. Ricardo Cruz)

PRIMEIRA PARTE

1. TEORIZANDO O PÓS-MODERNO: RUMO A UMA POÉTICA

o que quero evitar são aquelas generalizações polêmicas – muitas vezes realizadas pelos adversários do pós-modernismo: Jameson (1984a), Eagleton (1985), Newman (1985) –, que nos fazem perguntar o que se está exatamente chamando de pós-modernista, embora não deixe dúvidas quanto ao fato de que ele é indesejável.”

é sempre uma reelaboração crítica, nunca um ‘retorno’ nostálgico.”

este livro vai privilegiar o gênero romance, especialmente uma de suas formas, que quero chamar de ‘metaficção historiográfica’.” A mulher do tenente francês, A lenda de “Legs”, G., Famous Last Words.

Salman Rushdie, Shame / [As crianças / Os filhos] da meia-noite

O conceito de não-identidade alienada dá lugar ao conceito de diferenças, ou seja, à afirmação não da uniformidade centralizada, mas da comunidade descentralizada”

A Cultura se transformou em culturas (…) E isso parece estar ocorrendo apesar – (…) talvez até por causa – do impulso homogeneizante da sociedade de consumo do capitalismo recente”

precisamos é de uma ‘poética’, uma estrutura teórica aberta, em constante mutação” “Não seria uma poética no sentido estruturalista da palavra”

Ray Bradbury, Fahrenheit 451

O artista ou o escritor pós-moderno está na posição de um filósofo: em princípio, o texto que ele escreve, a obra que produz não são governados por regras preestabelecidas, e não podem ser julgados segundo um julgamento determinante, pela aplicação de categorias comuns ao texto ou à obra. São essas regras e categorias que a própria obra de arte está buscando.” Lyotard

É simplesmente errada a opinião segundo a qual o pós-modernismo relega a história à ‘lixeira de uma episteme obsoleta, afirmando euforicamente que a história não existe a não ser como texto’ (Huyssen 1981).”

O Hotel Branco

Maxine Hong Kingston, China Men

Eagleton, (artigo) Capitalismo, Modernismo e Pós-modernismo: “creio que seu pensamento binário absolutista nega grande parte da complexidade dessa arte.”

O que Eagleton (assim como Jameson, seu precedente) parece não perceber é o potencial subversivo da ironia, da paródia e do humor na contestação das pretensões universalizantes da arte ‘séria’.”

Grande parte do que foi escrito sobre o assunto assumiu fisicamente a forma de colunas opostas, normalmente intituladas ‘modernismo versus pós-modernismo’ (Hassan 1975; Lethen 1986). Mas essa é uma estrutura que, implicitamente, nega a natureza híbrida, plural e contraditória do empreendimento pós-moderno.”

Fowles, Um Verme ou um Capricho

o que ainda não se abordou foi o paradoxo que é o fato de romances como A Mulher do Tenente Francês, e O Nome da Rosa serem, ao mesmo tempo, best-sellers populares e objetos de profundo estudo acadêmico.”

o que parecemos estar precisando é de uma forma de falar sobre nossa cultura que não seja ‘unificadora’ nem ‘contradicionista’ num sentido dialético marxista (Ruthven 1984).”

2. MOLDANDO O PÓS-MODERNO: A PARÓDIA E A POLÍTICA

O paradoxo da paródia pós-modernista é o fato de não ser essencialmente destituída de profundidade, de não ser um kitsch comum, conforme acreditam Eagleton (1985) e Jameson (1984a), mas sim de poder conduzir, e fazê-lo de fato, a uma visão de interligação”

nem mesmo as obras contemporâneas mais autoconscientes e paródicas tentam escapar aos contextos histórico, social e ideológico nos quais existiram e continuam a existir, mas chegam mesmo a colocá-los em relevo.”

o debate, hoje abominado, entre Lyotard (1984a), Habermas (1983) e Rorty (1984a).”

A virulência por muitos adotada, a exemplo de Adorno, contra a cultura de massa como simples força negativa pode ser, conforme observou um arquiteto/crítico, ‘uma simples continuação do emprego de um ponto de vista aristocrático, sem que se saiba como captar o resultado liberador e a carga igualitária dessa profanação do mito’ da originalidade elitista romântica/modernista e do gênio inigualável (Portoghesi 1983).”

O ‘inevitável’ não era eterno, e sim aprendido.”

Aqui, quando falo em ‘paródia’, não estou me referindo à imitação ridicularizadora das teorias e das definições padronizadas que se originam das teorias de humor do século XVIII. A importância coletiva da prática paródica sugere uma redefinição da paródia como uma repetição com distância crítica que permite a indicação irônica da diferença no próprio âmago da semelhança.”

o prefixo grego para- pode tanto significar ‘contra’ como ‘perto’ ou ‘ao lado’.”

Ó terra bela por teus vastos céus, por tuas ondas de areia que têm a cor do âmbar, será que algum dia houve sobre a Terra outro lugar onde tantos donos da riqueza e do poder suportaram e pagaram tantas obras arquitetônicas por eles odiadas quanto no interior de tuas atuais fronteiras abençoadas?” Tom Wolfe

Embora tenham projetado habitações para trabalhadores, nem Gropius nem Le Corbusier parecem ter sentido a necessidade de consultar aqueles que lá iriam morar: deve ter havido uma pressuposição tácita de que as pessoas intelectualmente subdesenvolvidas permitiriam que os arquitetos lhes organizassem as vidas.”

Embora Le Corbusier se julgasse como sendo o tecnocrata apolítico, poder-se-ia considerar que os pressupostos ideológicos ocultos por trás de suas teorias estéticas da racionalidade purista tiveram influência em sua colaboração com o governo de Vichy”

Já em 1974, em Le inibizioni dell’architettura moderna (A Inibição da Arquitetura Moderna), Portoghesi defendeu o retorno da arquitetura a suas raízes, que estariam nas necessidades práticas e na noção estética e social de continuidade e comunidade.”

Desprezar a memória coletiva da arquitetura é arriscar-se a cometer os erros do modernismo e de sua ideologia do mito da reforma social por meio da pureza da estrutura.”

3. LIMITANDO O PÓS-MODERNO: OS FRUTOS PARADOXAIS DO MODERNISMO

Já existem histórias detalhadas sobre o termo pós-moderno que investigam sua utilização ao longo do século passado (ver Köhler 1977; Bertens 1986; McHale 1987).”

Ortega y Gasset propôs a idéia de que cada época prefere um determinado gênero, e o romance (juntamente com a arquitetura) parece ser o gênero pós-moderno mais discutido nos últimos tempos.”

na ficção o termo pós-modernismo deve ser reservado para descrever a forma mais paradoxal e historicamente complexa que venho chamando de ‘metaficção historiográfica’.”

A metaficção autoconsciente está entre nós há muito tempo, provavelmente desde Homero e certamente desde Dom Quixote e Tristram Shandy.”

dentro de pouco tempo, a categoria do pós-moderno vai incluir Homero.” Umberto Eco

Douwe Fokkema afirmou que o pós-modernismo está ‘sociologicamente limitado a uma maioria de leitores acadêmicos, interessados em textos complicados’. Porém, se isso é verdade, como se explica o fato de que O Nome da Rosa, A Mulher do Tenente Francês, Ragtime, Midnight’s Children, O Papagaio de Flaubert e tantas outras metaficções historiográficas tenham se destacado nas listas dos mais vendidos na Europa e na América do Norte?”

A estrutura da trama de A Mulher do Tenente Francês encena a dialética de liberdade e poder que constitui a resposta existencialista moderna, e até marxista, ao determinismo vitoriano ou darwiniano.”

Se quero dirigir minha arte ao mundo, devo fazê-lo através do sistema, como todos devem fazer. Se isso tem um aspecto suspeito no sentido de parecer liberalismo e concessão, então que assim seja: com exceção da espada, o liberalismo e a concessão sempre foram a única forma de atuação de qualquer revolucionário autêntico.” Douglas Davis

o pós-moderno segue a lógica do ‘e/e’, e não do ‘ou/ou’.”

Jameson considera o modernismo como oposicional e marginal – atributos que considero como importantes características definitórias do pós-moderno.”

Os radicais (pós-moderno como ruptura) vs. Os intensos (pós-moderno como extensão do modernismo)

Embora os nomes de Lacan, Lyotard, Barthes, Baudrillard e Derrida tendam a ser os mais citados nas discussões sobre pós-modernismo, as outras perspectivas enumeradas têm a mesma importância para qualquer consideração sobre o discurso teórico contemporâneo e sua interseção com a arte. Não podemos ignorar as teorias marxista, neopragmatista e feminista – isso para acrescentar à lista apenas as três teorias importantes.”

PERSPECTIVA IGUALMENTE PERIGOSA: “Se admitimos que tudo é provisório e historicamente condicionado, não vamos parar de pensar, como temem alguns; na verdade, essa admissão será a garantia de que jamais pararemos de pensar – e repensar.”

lembremo-nos da escrita feminina extática de Hélène Cixous, ou da mistura que Lyotard faz entre crítica literária e experimentação literária em Le Mur du Pacifique (1979), ou ainda a combinação entre crítica de arte e filosofia em seu trabalho com artistas como Adami (1983), Francken (1983) e Arakawa (1984).”

Philip Lewis (1982) já considerou Glas, de Derrida, como um texto exemplar do pós-modernismo, e sem dúvida toda a encenação que Derrida faz com a teoria no nível da linguagem é ‘arte’.”

Graham Swift, Waterland

Doctorow, O Livro de Daniel

4. DESCENTRALIZANDO O PÓS-MODERNO: O EX-CÊNTRICO

Pynchon, Gravity’s Rainbow

Em chinês existe uma palavra para o eu feminino – essa palavra é ‘escrava’.”

5. CONTEXTUALIZANDO O PÓS-MODERNO: A ENUNCIAÇÃO E A VINGANÇA DA PAROLE

Conforme Terry Eagleton chega a verificar, não é nada por acaso que Saussure e Husserl estão escrevendo ‘quase ao mesmo tempo’ que Joyce, Eliot e Pound, com a mesma preocupação pelos sistemas simbólicos fechados.”

6. HISTORICIZANDO O PÓS-MODERNO: A PROBLEMATIZAÇÃO DA HISTÓRIA

E a conclusão que se tira é a de que não pode haver um conceito único, essencializado e transcendente de ‘historicidade autêntica’ (conforme deseja Fredric Jameson: 1984a), não importa qual seja a nostalgia (marxista ou tradicionalista) existente em relação a uma entidade desse tipo.”

No séc. XX a disciplina da história tem sido tradicionalmente estruturada por pressupostos positivistas e empiricistas que atuaram no sentido de separá-la de tudo o que tenha o sabor do ‘meramente literário’. Em seu habitual estabelecimento do ‘real’ como presença não-problemática a ser reproduzida ou reconstruída, a história suplica que a desconstrução questione a função da própria redação da história.”

Cassandra, de Christa Wolf, reconta o épico histórico de Homero sobre os homens, sua política e suas guerras, em termos da história, que não foi contada, das mulheres e da vida cotidiana.”

SEGUNDA PARTE

7. METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA: “O PASSATEMPO DO TEMPO PASSADO”

No séc. XIX, pelo menos antes do advento da ‘história científica’ de Ranke, a literatura e a história eram consideradas como ramos da mesma árvore do saber, uma árvore que buscava ‘interpretar a experiência, com o objetivo de orientar e elevar o homem’. Então veio a separação que resultou nas atuais disciplinas distintas, a literatura e os estudos históricos, apesar de o romance realista e o historicismo de Ranke terem em comum muitas convicções semelhantes em relação à possibilidade de escrever factualmente sobre a realidade observável.”

As obras de Defoe diziam ser verídicas e chegaram a convencer alguns leitores de que eram mesmo factuais”

Foe: Coetzee apresenta a instigante ficção de que Defoe não escreveu Robinson Crusoe a partir de informações dadas por um homem náufrago histórico, Alexander Selkirk, ou provenientes de outros relatos de viagem, mas a partir de informações que lhe haviam sido prestadas por uma mulher subseqüentemente ‘silenciada’, Susan Barton, que também fôra náufraga na ilha de ‘Cruso’. Foi Cruso quem sugeriu que ela contasse sua estória a um escritor, que acrescentaria ‘uma pitada de cor’ a seu relato. A princípio ela resistiu porque queria ver revelada a ‘verdade’, e Cruso admitia que a profissão do escritor ‘é com os livros, e não com a verdade’.”

Frustrada, ela começa seu próprio relato: ‘A mulher Náufraga. Relato Verídico de um Ano numa Ilha Deserta. Com muitas Circunstâncias Estranhas Jamais Contadas até Hoje’, mas descobre que os problemas da escrita da história são semelhantes aos da escrita da ficção: ‘Será que essas circunstâncias são suficientemente estranhas para formarem uma estória? Quanto tempo se passará até que eu seja forçada a inventar circunstâncias novas e mais estranhas: o resgate de ferramentas e mosquetes da embarcação de Cruso; a construção de um barco […] um desembarque de canibais […]?’ Contudo, sua decisão final é a de que ‘aquilo que aceitamos na vida não podemos aceitar na história’—isto é, mentiras e invenções.”

8. A INTERTEXTUALIDADE, A PARÓDIA E OS DISCURSOS DA HISTÓRIA

ao propor uma versão americana do pós-modernismo, Charles Newman abandona essa definição intertextual metaficcional e considera a literatura americana como uma ‘literatura sem influências básicas’, ‘uma literatura cujos pais não são conhecidos’, que sofre da ‘angústia da não-influência’. Neste capítulo eu gostaria de concentrar minha discussão basicamente sobre a ficção americana, com o objetivo de responder às afirmações de Newman por meio do exame dos romances de autores como Toni Morrison, E.L. Doctorow, John Barth, Ishmael Reed, Thomas Pynchon, sendo que todos lançam sobre quaisquer declarações desse tipo o que considero como uma dúvida razoável.”

Leitura interrompida

EL ASALTO A LA RAZÓN: La trayectoria del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler – Lukács (trad. Wenceslao Roces)

SOBRE EL IRRACIONALISMO COMO FENÓMENO INTERNACIONAL

El desprecio del entendimiento y la razón, la glorificación lisa y llana de la intuición, la teoría aristocrática del conocimiento, la repulsa del progreso social, la mitomanía, etc., son otros tantos motivos que podemos descubrir sin dificultad, sobre poco más o menos, en todo irracionalista.”

Para los hegelianos, la filosofía alemana termina con Hegel; para los neokantianos culmina con Kant, y el desconcierto llevado a ella por sus sucesores sólo puede superarse con el retorno al filósofo de Königsberg. Eduard von Hartmann trata de llegar a una ‘síntesis’ de Hegel y el irracionalismo (el Schelling de la última época y Schopenhauer), y así sucesivamente.”

Hay un libro reciente en que se hace, por lo menos, un intento de penetrar en la problemática de la trayectoria filosófica alemana: nos referimos a la documentada obra de K. Löwith titulada Von Hegel zu Nietzsche. En ella se intenta por vez primera, en la historia burguesa de la filosofía alemana, [pedante classificar tudo que não é ‘totalmente concorde com meu espectro’ como burguês] incorporar orgánicamente a la trayectoria histórica la disolución del hegelianismo y la filosofía del joven Marx. § Pero el solo hecho de que el autor de este libro haga culminar el proceso en Nietzsche —y no precisamente para desenmascarar lo que en él se encierra— demuestra claramente que no comprende los problemas reales del período estudiado y que, allí donde da de bruces con ellos, los vuelve decididamente del revés.”

El auge imperialista del irracionalismo revela de un modo muy palmario el papel dirigente de Alemania en este terreno. Y, al decir esto, nos referimos, naturalmente, a Nietzsche, que se convirtió en modelo y guía de la reacción filosófica irracionalista, tanto en cuanto al contenido como en cuánto al método, desde los Estados Unidos hasta la Rusia zarista, habiendo llegado a adquirir una influencia con la que no puede compararse ni de lejos ningún otro ideólogo de la reacción. Más tarde, fue Spengler el modelo internacional de las concepciones irracionalistas en lo tocante a la filosofía de la historia, hasta llegar a Toynbee. Heidegger, por su parte, es el guía del existencialismo francés, habiendo llegado a influir decisivamente, ya desde mucho antes, en Ortega y Gasset y ejerciendo una influencia cada vez más profunda y peligrosa sobre el pensamiento burgués de América, etc., etc.”

En una palabra, Croce crea un ‘sistema’ del irracionalismo apto para el uso decadente burgués del parasitismo en el período imperialista. Claro está que este irracionalismo fue considerado como insuficiente por parte de la extrema reacción, ya antes de la primera Guerra Mundial, como lo demuestra la oposición de derecha contra Croce por parte de Papini y otros. Y es muy significativo —como contraste con Alemania— que este irracionalismo liberal-reaccionario de Croce haya podido mantenerse hasta hoy como una de las ideologías, predominantes de Italia.”

Mientras que Croce continúa aparentemente las tradiciones de Hegel (y de Vico), para encauzarlas en realidad hacia el irracionalismo, James declara una guerra abierta a estas tradiciones de los países anglosajones.”

La mitomanía no se manifiesta nunca en James con un contenido tan claro como en un Nietzsche, por ejemplo, quien en su teoría del conocimiento y en su ética revela, por lo demás, muchos rasgos pragmáticos, pero el norteamericano sienta uña base epistemológica y hasta proclama un deber moral que permite y obliga a todos los Babbits¹ a crear o aceptar en todos los órdenes de la vida los mitos que les convengan para su uso personal, los que más útiles les parezcan: el pragmatismo se encarga de tranquilizar, en este punto, su conciencia intelectual. Por su misma carencia de contenido y su superficialidad, el pragmatismo es una especie de bazar de ideologías, el que necesitaba cabalmente la Norteamérica de la anteguerra con su perspectiva de una prosperidad y una seguridad ilimitadas.”

¹ Sinclair Lewis, Babbitt

la obra de Bergson radica en haber descubierto una imagen del mundo que, por debajo de la cautivadora apariencia de una movilidad viva, viene a restaurar en realidad el estatismo reaccionario.”

Mientras que la mayoría de los anteriores ideólogos reaccionarios de Francia dirigían casi siempre estos tiros en nombre del realismo y el ultramontanismo, lo que los condenaba de antemano a influir solamente en los círculos decididamente reaccionarios, la filosofía bergsoniana apela ahora también a los intelectuales descontentos de la corrupción capitalista de la Tercera República que comienzan a orientarse también, en la izquierda, hacia el socialismo.”

En este sentido, podemos decir que Bergson ejerció en Francia, durante el período de crisis, a finales del siglo XIX y comienzos del XX (affaire Dreyfus, etc.), una influencia semejante a la de Nietzsche en Alemania, por los días de la derogación de la ley contra los socialistas. La diferencia estriba también aquí en que la filosofía irracionalista de la vida de Nietzsche era un llamamiento franco a la actividad antiimperialista reaccionaria, antidemocrática y antisocialista, mientras que Bergson no proclamaba abiertamente estas metas, sino que se limitaba a predicarlas bajo una forma ideológica general, y hasta adoptando una posición neutralista.”

El tardío desarrollo del capitalismo alemán y la instauración de la unidad nacional bajo la forma reaccionario-aristocrática del imperio bismarckiano trajeron, incluso, como consecuencia el que la sociología, como ciencia típica del período apologético de la burguesía, sólo pudiera imponerse en Alemania a duras penas, después de vencer los grandes obstáculos interpuestos en su camino por la ideología de los vestigios feudales.”

La deseconomización de la sociología entraña, al mismo tiempo, su deshistorización: de este modo, pueden los criterios determinantes de la sociedad capitalista —expuestos bajo una deformación apologética— presentarse como categorías ‘eternas’ de toda sociedad en general. Y no creemos que valga la pena pararse a demostrar que semejante metodología no persigue otro fin que el de hacer ver, directa o indirectamente, la imposibilidad del socialismo y de toda revolución.”

Entre la muchedumbre temática casi inabarcable de la sociología occidental, destacaremos aquí solamente dos motivos, muy importantes para el desarrollo filosófico. Uno de ellos determina la aparición de una ciencia especial, la ‘psicología de las masas’. Su representante más caracterizado, Le Bon, contrapone, brevemente resumido su pensamiento, la psicología de la masa, como la de lo puramente instintivo y bárbaro de la racionalidad, al pensamiento civilizado del individuo. Por tanto, cuanto más influyan las masas en la vida pública, más en peligro se hallarán los resultados del desarrollo cultural de la humanidad. Y, al paso que estas doctrinas llaman a la lucha contra la democracia y el socialismo en nombre de la ciencia, otro destacado sociólogo del período imperialista, Pareto, entona un himno consolatorio inspirado en la misma sociología. Si la historia de todos los cambios sociales —diremos, resumiendo también muy someramente su pensamiento— no es más que el relevo de una élite vieja por otra nueva, podemos llegar a la conclusión de que los fundamentos ‘eternos’ de la sociedad capitalista están sociológicamente a salvo y no hay ni que hablar de un tipo fundamentalmente nuevo de la sociedad, de la sociedad socialista.”

Una posición especial ocupa en la filosofía y la sociología occidentales G. Sorel. Lenin le llamó una vez, de pasada, ‘el conocido confusionista’. Y con toda razón. En él se mezclan y confunden, en efecto, las premisas y las conclusiones más burdamente contradictorias entre sí.” “Acepta, tanto en el terreno económico como en el filosófico, la revisión bernsteiniana de Marx.”

Por eso, cuando su odio y su desprecio pugnan por cobrar expresión, el resultado no puede ser otro que un salto irracionalista a lo totalmente desconocido, a la nada pura. Lo que Sorel llama ‘proletario’ no es más que la negación abstracta de todo lo burgués, sin contenido concreto alguno.” “La intuición bergsoniana, el irracionalismo de la durée réelle, cobra en él, por tanto, el acento de una utopía de la más acabada desesperación. Y esta carencia abstracta de todo contenido se expresa, cabalmente, en el mito soreliano [da greve geral].”

el mito sin contenido forjado por él, se halla totalmente al margen de la realidad social tangible, y no es otra cosa que un salto estático al reino de la nada.”

Y si el realismo de Sorel no fue más que un episodio, no cabe duda de que no puede considerarse ya como algo puramente episódico el que, al producirse la gran crisis revolucionaria, al final de la primera Guerra Mundial, pudiera este confusionista entusiasmarse simultáneamente por un Lenin, un Mussolini y un Ebert.” “El mito de Sorel es algo tan exclusivamente emocional y carente de contenido, que podía convertirse sin esfuerzo alguno en el mito demagógicamente explotado por el fascismo. Cuando Mussolini dice: ‘Hemos creado nuestro mito. El mito es una fe, una pasión. No es necesario que sea una realidad. Lo que le infunde realidad es el hecho de que estimula, da fe e inculca valor’, estamos oyendo hablar al mismo Sorel”

CAPÍTULO I. ACERCA DE ALGUNAS CARACTERÍSTICAS DEL DESARROLLO HISTÓRICO DE ALEMANIA

La idea de que el movimiento religioso de la Reforma se halla íntimamente relacionado con el proceso histórico del capitalismo no es, ni mucho menos, patrimonio exclusivo de los marxistas, sino que constituye moneda circulante y hasta un lugar común entre los sociólogos burgueses, desde Max Weber y Troeltsch. Sin embargo, la forma occidental, calvinista de la Reforma se convirtió en bandera de las primeras grandes revoluciones burguesas, las de Holanda e Inglaterra, en la ideología predominante del primer período del auge capitalista, al paso que, en Alemania, al imponerse el luteranismo, predicó y transfiguró religiosamente la sumisión al absolutismo de los pequeños Estados, dando un fondo espiritual, una base moral, al atraso económico, social y cultural de Alemania.”

El particularismo puramente feudal fue sustituido por un feudalismo modernizado: los pequeños príncipes, como vencedores y usufructuarios de las luchas de clases, fueron los encargados de estabilizar la desmembración de Alemania.”

Los poderosos Estados nacionales (España, Francia, Inglaterra), la dinastía de los Habsburgos en Austria, de vez en cuando, transitoriamente, algunas grandes potencias incipientes como Suecia y, desde el siglo XVIII, la Rusia zarista, disponen a su antojo acerca de los destinos del pueblo alemán. Y, como Alemania, objetivo de la política de estos países, es, al mismo tiempo, un botín útil para ellos, procuran mantener la desmembración nacional del país.”

Napoleón logró encontrar partidarios y aliados en el occidente y el sur de Alemania, y en parte también en la Alemania central (en Sajorna). Y se dio cuenta de que esta alianza —la Confederación del Rin— sólo podría llegar a adquirir cierta vitalidad a condición de que se encauzase, por lo menos, la liquidación del feudalismo en los Estados adheridos a ella. Esta obra se lleva a cabo, en efecto, en gran escala, en los territorios del Rin, y en proporciones mucho más modestas en los demás Estados de la Confederación renana.”

Pero, como el poder de Napoleón no bastaba para convertir a toda Alemania en una dependencia del Imperio francés, lo único que con ello se consiguió fue acentuar y ahondar todavía más la desmembración nacional. Los extensos sectores del pueblo sentían la dominación napoleónica como una humillante opresión extranjera, contra la que se desató, sobre todo en Prusia, un movimiento popular de carácter nacional, que culminó en las llamadas guerras de liberación.”

Los ideólogos progresivos más descollantes de la época, sobre todo un Goethe y un Hegel, no recatan sus simpatías por la unificación napoleónica de Alemania, por la liquidación de los vestigios feudales a cargo de Francia. Y a la problemática interior de semejante concepción responde el hecho de que el concepto de nación palidezca, en estos pensadores, hasta convertirse en un concepto puramente cultural, como se revela con mayor claridad que en ningún otro lugar en la Fenomenología del espíritu.”

Fácilmente se comprende que, al plantearse de otro modo el problema central de la revolución democrático-burguesa en Alemania, tenía que traer consigo todo un cúmulo de circunstancias desfavorables. La revolución alemana veíase obligada a arrancar de cuajo instituciones que en Francia, por ejemplo, habían ido siendo minadas y socavadas por varios siglos de luchas de clases; y tenía que instaurar de golpe, de la noche a la mañana, órganos e instituciones nacionales que en Inglaterra o en Rusia habían sido producto de un proceso histórico de varios siglos de duración.”

La existencia especial de Prusia constituyó siempre, objetivamente, el mayor de los obstáculos para la verdadera unidad nacional y, sin embargo, esta unidad se lleva a cabo gracias a las bayonetas prusianas. Y, desde las guerras de liberación hasta la creación del Imperio alemán, no dejó de torturar a los revolucionarios burgueses la pregunta desconcertante y desorientadora de si la unidad nacional se alcanzaría con ayuda del poder militar de Prusia o, por el contrario, mediante su destrucción.” “para ciertos sectores decisivos de la burguesía alemana, especialmente para la de Prusia, ofrecíase el camino más cómodo del compromiso de clases, que permitía sustraerse a las consecuencias plebeyas extremas de la revolución democrático-burguesa y les brindaba, por tanto, la posibilidad de alcanzar sus objetivos económicos sin necesidad de revolución, aunque fuese a costa de renunciar a la hegemonía política en el nuevo Estado.”

el postulado de la unidad nacional como problema central de la revolución burguesa presupone por parte de las masas plebeyas un grado de conciencia y de sensibilidad mucho más alto que el problema campesino, por ejemplo, en el que saltan incomparablemente más a la vista las contradicciones económicas entre las diversas clases”

La posibilidad de que el patriotismo revolucionario se trueque en chovinismo contrarrevolucionario es más factible aquí que en otras transformaciones democrático-burguesas”

Y huelga decir que siempre se encuentran pretextos plausibles para mantener a las masas, incluso a veces a las masas de sentimientos democrático-revolucionarios, alejadas de estas decisiones de ‘política exterior’, envolviéndolas en las redes de un ciego chovinismo (francofobia de 1870).” Resta claro que para a burguesia alemã (prussiana e de outros estados futuramente alemães), era prioritária a criação da Alemanha, à solidariedade internacional da burguesia, fortalecendo assim as relações do Capital.

La Renania, la región más adelantada de Alemania tanto en lo económico como en lo social, aunque formaba parte de Prusia, constituía una especie de cuerpo extraño dentro de ella, se hallaba lejos del centro de las decisiones políticas, del Berlín cortesano y pequeño-burgués y, habiendo destruido allí la dominación napoleónica los últimos restos del feudalismo, se movía por intereses inmediatos muy distintos de los que animaban a las partes rezagadas de la verdadera Prusia, que seguía conservando su estructura marcadamente feudal.”

La Asamblea Nacional celebraba sus sesiones en Francfort, Colonia era el centro de la democracia revolucionaria. Las luchas decisivas libradas en Berlín y en Viena seguían un curso espontáneo, carentes de una clara dirección ideológica, y después de las derrotas infligidas al movimiento democrático en las capitales, no resultó difícil aplastar también, una por una, las acciones que surgieron en Dresde, en el Palatinado, en Basilea y en otros lugares.”

También Federico Guillermo IV era austrófilo, sentía mayor entusiasmo por Austria que por su propio Estado; y, sin embargo, bajo su reinado, siguió inconteniblemente su curso la fusión de intereses de los Estados alemanes, con excepción de Austria, con Prusia. Aunque después de 1851 los Estados del centro de Alemania habrían destruido de buena gana a Prusia, ninguno se atrevió a hacer saltar la Liga aduanera, pues ya no podían deshacerse de estos lazos.” Treitschke

Y esta situación, nacida del retraso en el desarrollo capitalista de Alemania, donde existía ya un proletariado que actuaba por su cuenta, pero que no estaba aún en condiciones de influir decisivamente en los acontecimientos (como el de Rusia en 1917), vino a complicarse todavía más con la influencia de los acontecimientos internacionales de la lucha de clases. Aunque la revolución de Febrero en París ayudó, de una parte, a desencadenar la revolución en Berlín y en Viena, de otra parte la enconada lucha de clases que allí se libraba entre la burguesía y el proletariado asustaba a la burguesía alemana y contribuía con ello a acelerar decididamente la tendencia a la transacción con los ‘viejos poderes’” “Faltó aquí, desde el primer momento, aquella irresistible unidad del pueblo antifeudal que había dado su empuje a la Revolución francesa” “Podemos decir que el año de 1848 fue el 1789 de los alemanes; sin embargo, la correlación entre la burguesía y las clases bajas de Alemania correspondía más bien a las condiciones francesas de 1830 y 1848 que a las de 1789.”

En la Revolución francesa, sobre todo, asistimos a una trayectoria que va hasta los límites extremos de la pura democracia burguesa (1793-94); la lucha contra el radicalismo plebeyo de izquierda significa, por tanto, simplemente la reacción contra el intento de llevar la revolución más allá de dichos límites.” “En Alemania, por el contrario, y no sólo en 1848, sino también en 1918, la lucha inicial contra el radicalismo democrático-proletario de izquierda muestra la tendencia a dejar en pie, intacto o con reformas no esenciales y puramente externas, todo lo posible del viejo orden, bajo las formas de la democracia engendrada por la revolución.”

“‘absorción de Prusia en el seno de Alemania’ o ‘prusianización de Alemania’. La derrota de la revolución de 1848 hizo que ambos problemas se resolvieran en el segundo sentido.”

En Francia, el bonapartismo es un retroceso reaccionario, al comienzo del cual aparece la derrota de Junio del proletariado francés, cuyo ignominioso descalabro habrá de conducir, más tarde, a la gloriosa Comuna de 1871. Y, con la Tercera República, Francia se encamina de nuevo por los derroteros normales del desarrollo democrático-burgués. La Alemania bismarckiana es, en muchos aspectos, como certeramente señala Engels, una copia de la Francia bonapartista. Pero el propio Engels hace constar, al mismo tiempo, categóricamente, que la ‘monarquía bonapartista’, en Prusia y Alemania, representó objetivamente un progreso con respecto a la situación anterior a 1848, puesto que, dentro de los marcos de aquel régimen, se veían satisfechas las exigencias económicas de la burguesía, abriéndose más anchos cauces al desarrollo de las fuerzas productivas. Ahora bien, estos progresos económicos se lograron sin que mediara una revolución burguesa victoriosa”

El pueblo más gobernable del mundo son los alemanes…, en el sentido de un pueblo activo y dinámico, con una habilidad y una inteligencia superiores en general a lo corriente y con una tendencia crítica bastante desarrollada para todo lo que sea razonar; pueblo, sin embargo, que, en lo tocante a los asuntos públicos, no está habituado, ni tampoco lo quiere, a obrar espontáneamente sin las órdenes de la superioridad o en contra de ellas y que, por tanto, se siente perfectamente ensamblado y casi actúa bajo la dirección de la autoridad como si obrase por su propia voluntad colectiva. Y esta aptitud para dejarse organizar, unida a aquellas excelentes cualidades, ofrece en realidad un material extraordinariamente bueno para cualquier organización, pero sobre todo para la de tipo más puro que es la militar.” Hugo Preuss

La ‘política realista’ y sin principios de Bismarck contribuyó en mucho, con sus éxitos iniciales (hasta la fundación del Imperio), al desarrollo de este irracionalismo; la esterilidad y los fracasos de la política bismarckiana de allí en adelante se consideran como una ‘tragedia’ irracional, cuando no se las convierte por arte de magia en otros tantos éxitos, logrados mediante el aprovechamiento ‘genial’ de ‘constelaciones’ irracionales por el ‘genio’ del ‘político realista’. El período del imperialismo alemán franco y descarado del reinado de Guillermo II es explicado por sus adoradores como obra de la ‘genial personalidad’ del emperador y por sus críticos como resultado de la desaparición de Bismarck sin haber dejado un sucesor digno de él.”

Cierto es que ya entonces nació también —en el romanticismo y en sus productos accesorios— aquella idealización del atraso alemán que, para defender esta posición, se veía obligada a interpretar de un modo radicalmente irracional la marcha del mundo, combatiendo el concepto del progreso como una concepción supuestamente superficial, trivial y errónea. Nadie fue tan allá, en este punto, como Schopenhauer; y ello explica la falta total de influencia de este filósofo antes de 1848 y la influencia mundial alcanzada por él, después de derrotada dicha revolución.”

en el período imperialista, vemos cómo el capitalismo alemán deja atrás al inglés, que hasta ahora marchaba a la cabeza en Europa; y Alemania se convierte —junto a los Estados Unidos— en el país capitalista más desarrollado y típico del mundo. Pero, a la par con ello, se afianza, como hemos visto, su estructura social y política democráticamente atrasada (régimen agrario, pseudoparlamentarismo, ‘gobierno personal’ del emperador, supervivencias del régimen territorial de los pequeños Estados, etc.).”

Lassalle, con quien comenzó el movimiento de masas de la clase obrera alemana después de la revolución de 1848, se hallaba ganado por la influencia ideológica de la tendencia bonapartista imperante, en un grado mucho mayor que el que registran las historias del movimiento obrero de Alemania.”

Al convertirse Alemania en una gran potencia capitalista, el reparto del mundo colonial tocaba ya a su fin, lo que hacía que la Alemania imperialista, si quería llegar a adquirir un imperio colonial a tono con su poderío económico, sólo pudiera lograrlo por medio de la agresión, arrebatando a otros sus colonias.”

Una mezcla característica de una actitud crítica certera y tendencias confusas y reaccionarias podemos observarla también en Bernard Shaw. Pero la amalgama más complicada de estas tendencias y la más influyente, durante algún tiempo, la personifica G. Sorel, el ideólogo del sindicalismo.”

Y también en Thomas Mann podemos observar, mutatis mutandis, una tendencia parecida. En sus Reflexiones de un apolítico, los aspectos legítimos de esa crítica de la democracia burguesa aparecen todavía encubiertos y desfigurados por un anticapitalismo romántico a la alemana. Cuando, ya en el período de Weimar, Thomas Mann se orienta realmente por el camino democrático, vemos cómo su actitud escéptica ante la democracia burguesa occidental comienza a producir frutos sazonados en su obra, por ejemplo, en la figura de Settembrini en La montaña mágica, en la que la crítica irónica de la típica limitación de horizontes de la democracia burguesa y de su incapacidad total para resolver los problemas fundamentales de la sociedad moderna, se combina con la constante afirmación del relativo sentido progresivo de Settembrini, en comparación con las ideas mistificadoras prefascistas de Naphta y con la inercia política de Hans Castorp.”

El hundimiento del sistema guillermino en la primera Guerra Mundial imperialista y la instauración de la república de Weimar no traen tampoco consigo ningún cambio radical en cuanto a la democratización de Alemania ni en cuanto a la creación de tradiciones democráticas profundamente arraigadas en las grandes masas, aun fuera del proletariado con conciencia de clase. En primer lugar, esta democratización política del país no se debe tanto a la plenitud interior de las fuerzas del pueblo como a un descalabro militar; amplios círculos de la burguesía alemana aceptan la república y la democracia, en parte como algo inevitable y forzoso, y en parte porque esperan de ellas ventajas de orden político exterior, condiciones de paz más favorables logradas con ayuda de Wilson, etc.”

De aquí que la república de Weimar fuese, en lo esencial, una república sin republicanos, una democracia sin demócratas, como lo había sido —claro está que en circunstancias históricas completamente distintas— la república francesa entre los años 1848 y 1851.”

En estas circunstancias, nada tiene de extraño que las masas populares, que, como hemos visto, no habían recibido nunca una educación democrática y en las que la tradición democrática no tenía la menor raíz, se sintieran en seguida profundamente desengañadas de la democracia y se apartaran relativamente pronto de ella. Y este proceso se aceleró y ahondó de un modo especial, porque la democracia de Weimar se vio obligada a aceptar y a llevar a la práctica la más profunda humillación nacional sufrida por Alemania desde los tiempos napoleónicos, la paz imperialista de Versalles. Para las masas populares, no educadas en la democracia, la república de Weimar era, pues, el órgano ejecutivo de esta humillación nacional, en contraste con los tiempos de grandeza y expansión nacional, que iban unidos para ellas a los nombres de Federico II de Prusia, Blücher y Moltke, es decir, a los recuerdos monárquicos y autocráticos.”

No obstante todo esto, es un hecho que las intentonas descaradas de restauración de la monarquía de los Hohenzollern fracasaron (revuelta de Kapp, en 1920). El partido que encabezaba esta restauración del partido ‘nacional-alemán’, no llegó a convertirse nunca en un partido de masas verdaderamente grande y decisivo, a pesar de que sus representantes seguían conservando la mayoría de sus puestos en la administración civil y militar, al amparo de las tendencias antiproletarias y antirrevolucionarias de la república de Weimar.”

Se trata, pues, de esbozar en estas consideraciones preliminares los rasgos ideológico-sociales que hicieron posible la cruzada triunfal del fascismo en Alemania, de un modo tan vergonzosamente rápido y más vergonzoso todavía por lo duradero; de señalar brevemente cómo el fascismo alemán brotó, bajo la acción de una cierta necesidad, de la trayectoria anterior del país, apuntando al mismo tiempo en qué consisten sus cualidades específicamente nuevas y por qué, al mismo tiempo, estas características nuevas no representaban, en realidad, más que una exaltación cualitativa de tendencias ya existentes con anterioridad.”

En los sectores de ideas revolucionarias, de izquierda, de la clase obrera, sobre todo, va afianzándose una actitud de hostilidad frente al sistema weimariano, que se plasma al caer asesinados los más grandes héroes del movimiento revolucionario alemán, Carlos Liebknecht y Rosa Luxemburg.”

Claro está que, dada la especial receptividad de la burguesía alemana para todo lo que fuese irracionalismo, en la época que media entre las dos guerras mundiales, tenía que contribuir no poco a ‘educarlo’ en este sentido el irracionalismo tradicional. Pero, si queremos comprender socialmente la difusión vehemente y en masa de la nueva variedad, de la variedad fascista del irracionalismo, tenemos que fijarnos en algunos nuevos fenómenos ideológico-sociales.”

Y es precisamente en este sector de gentes, que han recibido del reformismo su educación teórica y práctica, donde la crisis abre la posibilidad de que se dejen arrastrar de buena gana, en su concepción del mundo, por las modernas tendencias del antirracionalismo, del desprecio a la razón y a la ciencia, para entregarse de lleno a la milagrería del mito.

No quiere esto decir, naturalmente, que estos jóvenes obreros, amargados y desesperados, se conviertan en lectores y admiradores de Nietzsche o Spengler. Pero, como en las masas la contraposición entre la inteligencia y el sentimiento parecía brotar de la vida misma, necesariamente tenía que manifestarse en ellos, también desde el punto de vista ideológico, la actitud de asimilación de esta doctrina.”

Cuando, antes de la primera guerra imperialista mundial, se era pesimista, sobre todo en relación con la cultura, esta actitud tenía un carácter de quietud contemplativa, sin la menor mira de una posible acción; sintiendo el individuo asegurada su propia existencia, en lo material y en lo social, espiritual y humanamente, aquellas actitudes filosóficas podían mantenerse en el plano de lo puramente teórico, sin llegar a influir esencialmente en la conducta, en la posición interior de vida de los interesados. Pero la cosa cambia al cesar la sensación de ‘seguridad’: el peligro constante en que se hallan tanto la existencia interior como la exterior, hace que este pesimismo irracionalista se trueque en algo práctico.”

Hitler y Rosenberg se encargaron de llevar a la calle, desde la cátedra, el salón intelectual y el café, todo lo que encontraron de pesimismo irracional en la trayectoria de la filosofía que va desde Nietzsche y Dilthey hasta Heidegger y Jaspers.”

CAPÍTULO II. LA FUNDAMENTACIÓN DEL IRRACIONALISMO EN EL PERÍODO DE UNA A OTRA REVOLUCIÓN (1789-1848)

La tendencia que señalamos se acusa con mayor claridad todavía en el entronque entre la guerra imperialista y las ciencias naturales. De una parte, esto provoca un desarrollo superior y a saltos de determinados aspectos técnicos; de otra parte, las mismas tendencias vienen a acentuar la crisis general de la física moderna, metiendo a ésta, como ciencia teórica, cada vez más en el atolladero.”

La posibilidad científica de explicar el universo por sí mismo se agranda cada vez más, y en nuestros días se halla a punto de alcanzar su cúspide, al acercarse nuestros conocimientos a las transiciones concretas entre la naturaleza orgánica y la inorgánica. Las hipótesis astronómicas de Kant-Laplace, los descubrimientos de la geología, el darwinismo, el análisis de la sociedad primitiva por Morgan, la teoría establecida por Engels sobre el papel del trabajo en la transformación del mono en hombre, la teoría de Pavlov acerca de los reflejos condicionados e incondicionados y del sistema secundario de señales, el desarrollo del darwinismo por Mitchurin-Lysenko, las investigaciones sobre el nacimiento de la vida por Oparin y Lepechínskaia, etc., son algunos de los jalones más importantes que señalan este camino.”

En este sentido, podemos considerar a ciertas figuras de la etapa de desarrollo a que nos referimos, como la de Pascal en relación con el cartesianismo o la F.H. Jacobi con respecto a la Ilustración y a la filosofía clásica alemana, como precursores del moderno irracionalismo.”

Pascal hace una ingeniosa y aguda descripción crítica de la sociedad formada por la nobleza cortesana y de las consecuencias morales nihilistas que necesariamente se desprenden de los claros signos iniciales de descomposición. Estas páginas de Pascal presentan no pocos puntos de afinidad con las de La Rochefoucauld y La Bruyére. Pero, mientras que estos autores abordan valientemente los problemas morales, Pascal sólo los plantea para crear un estado de espíritu a tono con su tiempo que le sirva de trampolín para dar el salto mortal a lo religioso. Mientras que en La Rochefoucauld y en La Bruyére, aunque bajo una forma puramente aforística o descriptiva-razonadora, nos encontramos con una notable aproximación a la dialéctica de la moral en el seno de la naciente sociedad capitalista, en Pascal estas contradicciones se presentan de antemano como insolubles para la vida humana sobre la tierra, como síntomas del desamparo y la soledad desesperados e incurables del hombre atenido a sí mismo en un mundo abandonado por Dios.”

Así pues, lo que hace de Pascal uno de los antepasados del irracionalismo moderno no es tanto el contenido que afirma como su método, la fenomenología aforística de la vivencia religiosa de la desesperación.”

en Kierkegaard, domina hasta tal punto la fenomenología de la desesperación, que la tendencia hacia su consecución y superación religiosas, modifica decisivamente, contra la voluntad del propio Kierkegaard, el objeto de la intención religiosa; es decir, lleva a una desintegración de los contenidos religiosos, que convierte las tendencias cristianas, muy marcadamente, en algo puramente optativo, postulativo, acercando toda su filosofía a un ateísmo religioso, a un nihilismo existencialista.”

Aunque Burke no tuviera nada de romántico, de él arranca, indudablemente, el seudohistoricismo romántico: la demolición del desarrollo histórico, del progreso histórico, en nombre de una concepción supuestamente más profunda, irracionalizada, de la historicidad.”

la mística de Jacobo Böhme, cada vez más de moda bajo el romanticismo, comienza a ejercer sobre Schelling una acusada influencia

Es absurdo para el hombre pensar o esperar que pueda surgir un día un Newton que pueda hacer comprensible el nacimiento de un tallo de hierba con arreglo a leyes naturales no ordenadas por ninguna intención…” Kant

Como es natural, Schelling se percata con relativa claridad de la diferencia y el antagonismo entre la lógica formal y la lógica dialéctica, entre el pensamiento metafísico y el pensamiento dialéctico. Dice, refiriéndose a la primera: ‘Es, por tanto, una doctrina totalmente empírica, que se representa como absolutas las leyes del entendimiento común y corriente, por ejemplo la de que de dos conceptos contrapuestos entre sí como contradictorios sólo puede corresponder uno a cada ser, lo que es perfectamente cierto en la esfera de lo finito, pero no en el plano de la especulación, que arranca siempre de la equiparación de los términos contrapuestos.’

Claro está que, al abandonar Schelling, a la entrada de su verdadero santuario, el camino que podía conducirle a sus descubrimientos y a su exposición racionales, el camino de la lógica dialéctica, sólo tenía ya a su disposición las herramientas de la lógica formal, que —y no de un modo casual, ni mucho menos—, mediante un tratamiento subjetivista y arbitrario de los problemas, suscitaban en él la apariencia de este poder genial de la intuición. Y no deja de ser significativo el importante papel que la analogía desempeña, en el desarrollo práctico de la Lógica de la filosofía del joven Schelling.”

Não há irracionalismo dialético?

Precisamente por eso es la Fenomenología una obra dirigida esencialmente contra Schelling. Y, de una manera bastante destacada, contra el aristocratismo de su teoría del conocimiento.”

El carácter declarativo de la filosofía de Schelling y el modo brusco y a saltos como se aparta de todo lo que sean conceptos, no permite hablar de una fundamentación filosófica, en este autor.”

Esta objetividad general de la intuición intelectual, generalmente reconocida y que no puede descartarse por medio de ninguna negación, es el arte mismo. Pues la intuición estética es, cabalmente, la intuición intelectual objetivada.” Schelling

El arte es lo más alto para el filósofo, porque abre, ante sus ojos, por así decirlo, el sagrario en el que arde, fundido como una llama perenne y originaria, lo que vive por separado en la naturaleza y en la historia, lo que eternamente se esfumará en la vida y en la conducta. La idea que el filósofo se forma artificialmente de la naturaleza es, para el arte, la idea originaria y natural.”

Y estas posiciones aristocráticas aparecen todavía más acusadas y cobran un carácter más abiertamente reaccionario en la filosofía de Schopenhauer que en la del joven Schelling. Más adelante, veremos cómo esta tendencia se acentúa todavía más en Nietzsche y en los filósofos del período imperialista que se hallan bajo su influencia.”

Poco después, veía la luz su obra titulada Filosofía y religión (1804), que marca el cambio de rumbo manifiesto de su carrera de pensador y abre su segundo período, inequívocamente reaccionario. El nuevo sesgo consiste ‘sencillamente’ en que, a partir de ahora, el ‘organon’ de la filosofía no es ya el arte, sino la religión.”

Esta forma de la filosofía hegeliana llegó a ser la predominante en Alemania, principalmente en Prusia. Cierto es que este predominio sólo llega hasta los días de la revolución de Julio. Al estallar en Francia la revolución de Julio, Alemania entra en una nueva etapa de la lucha de clases, cuyo reflejo filosófico tenía necesariamente que hacer estremecerse, primero el sistema de Hegel y, después, su método dialéctico idealista. Este proceso de desintegración del hegelianismo se inicia ya en vida del propio filósofo, en la controversia mantenida por Hegel acerca de la revolución de Julio, con Eduard Gans, que hasta entonces había venido siendo su discípulo fiel.”

La ideología de la Restauración aspira a la vuelta al antiguo régimen prerrevolucionario y algunos de sus portavoces sueñan, incluso, con un retorno a la Edad Media. Nadie expresa con tanta claridad esta tendencia como Novalis, en un ensayo titulado Europa y la cristiandad.”

Restáuranos, Señor, en toda su plenitud,

nuestro Viejo Sacro Romano Imperio,

sácanos del desván los trastos apolillados,

con todo su boato sempiterno.

Devuélvenos, ¡oh, Señor!, cueste lo que costare,

nuestra querida y verdadera Edad Media,

la necesitamos, y queremos que la salves

de los embates de esta feroz tormenta.

De esos tristes caballeros de polainas

de ese repugnante conglomerado

de gótica locura y de mentira moderna,

que no es carne ni es tampoco pescado.

Arroja a palos. Señor, a esos comediantes

y clausura la escena del teatro

en que tan mal parodian las épocas pasadas…”

Heine

con Nietzsche comienza la verdadera lucha defensiva del irracionalismo burgués contra las ideas socialistas.”

A SUPER TRÍADE: “Como es natural, esta capacidad de anticiparse a su tiempo revela cierto rango en el plano del pensamiento. Y no puede dudarse que tanto Schopenhauer como Kierkegaard y Nietzsche poseen considerables dotes filosóficas: una alta capacidad de abstracción, y no en un sentido puramente formalista, sino como la capacidad para reducir a conceptos los fenómenos de la vida, para tender un puente especulativo entre la vida directa y el pensamiento más abstracto, para dar relieve filosófico a los fenómenos del ser que en su tiempo no existían más que como gérmenes, como tendencias que apenas apuntaban y que sólo décadas más tarde habrían de convertirse en síntomas generales de un período.”

Es un gran burgués, por oposición a la condición pequeño-burguesa de éstos, que en un Fichte desciende casi hasta la situación semiproletaria. Esto hace que Schopenhauer no se vea obligado a recorrer el acostumbrado camino de sufrimientos del intelectual alemán (a ganarse la vida como preceptor, etc.), sino que pase gran parte de su juventud viajando por toda Europa. Y, tras un breve período de meritorio comerciante, lleva una tranquila vida de rentista, en la que sus relaciones con la universidad —desempeño de una cátedra en Berlín— no tienen tampoco más que una importancia puramente episódica.”

(Y no deja de ser significativo el hecho de que también Kierkegaard y Nietzsche gozaran, en muchos aspectos, de una independencia de rentistas semejante a la de Schopenhauer.)”

En la magnífica película soviética Chapaiev, la figura del general contrarrevolucionario, hombre zoológicamente cruel, mima y acaricia a un canario, al que se considera cósmicamente unido —al modo auténticamente schopenhaueriano—, y se sienta al piano, en sus horas de ocio, a tocar sonatas de Beethoven, cumpliendo por tanto con todos los ‘sublimes’ postulados de la moral de Schopenhauer. Y el propio filósofo, como hemos visto, era en lo personal un ejemplo elocuente de esta moral predicada por él.”

el mundo es, para ellos, un ‘fin en sí’ y, por tanto, se halla por sí mismo, es decir, en cuanto a su constitución natural, perfectamente organizado y es la verdadera morada de la felicidad. Los gigantescos males del mundo que claman en contra de eso se los atribuyen por entero a los gobiernos: si éstos cumplieran con su deber descendería el cielo sobre la tierra, es decir, todo el mundo podría, sin el menor esfuerzo, comer y beber hasta hartarse, propagarse y reventar, pues no es otra la paráfrasis de su ‘fin en sí’ y la meta del ‘progreso infinito de la humanidad’, que ellos no se cansan de propagar en pomposas frases.” Schopenhauer, Parerga e Paralipomena

el bestialismo (al que ciertas gentes llaman humanismo)”

(*) “Se equivoca, pues, Mehring al considerar a Schopenhauer como un ‘librepensador’”.

Por oposición a Goethe, con el que parece mostrarse de acuerdo en todos los problemas, es, en el campo de las ciencias naturales, un admirador de Linneo y de Cuvier y no se da por enterado de los intentos de sus grandes coetáneos de descubrir un desarrollo histórico en la naturaleza.”

La nada, como perspectiva del pesimismo, como horizonte de vida, no puede impedir en modo alguno al individuo, según la ética schopenhaueriana, ya expuesta, llevar una vida contemplativa placentera, ni siquiera estorbarle a que lo haga. Por el contrario. El abismo de la nada, el fondo sombrío de la carencia de sentido de la existencia, es como el condimento picante que da sabor y encanto a este goce de la vida. Goce que aún se realza y condimenta por el hecho de que el sentido aristocrático fuertemente marcado de la filosofía schopenhaueriana a que aludíamos eleva a sus partidarios —en su imaginación— muy por encima de aquella chusma miserable cuya limitada inteligencia la lleva a luchar y a sufrir por el mejoramiento de la situación social.”

La filosofía de Kierkegaard, como la de Schopenhauer y la de Nietzsche, tardó en adquirir resonancia mundial. No se puso de moda hasta llegar al período del imperialismo o, más exactamente, entre la primera Guerra Mundial y la segunda. Cierto es que Kierkegaard no era, en su patria y durante su actuación como escritor, una figura tan ignorada, ni mucho menos, como la de Schopenhauer en la Alemania de antes de 1848. Sus primeras obras importantes, las únicas decisivas desde el punto de vista filosófico, las obras publicadas bajo seudónimo, produjeron en seguida cierta conmoción, y tampoco careció de ciertos elementos sensacionales su actitud franca y abierta posterior en contra de la Iglesia protestante oficial. Algunas décadas más tarde, llegó a ser, incluso, temporalmente, decisiva su influencia en los países escandinavos. No sólo tenemos un ejemplo de ello en el poema dramático de Ibsen titulado Brand, sino que su influencia se percibe también en la literatura escandinava posterior. (Bastará con citar, en apoyo de ello, la novela de Pontoppidan, La tierra prometida.)”

Su gran lucha filosófica va dirigida contra Hegel, que también en la Dinamarca de aquel tiempo representaba la corriente dominante en filosofía, y en estrecha relación con ello combate también Kierkegaard, constantemente, a Goethe. Su pensamiento presenta muchos puntos de afinidad con los románticos alemanes, con Schleiermacher y con Baader, se traslada ex profeso a Berlín para seguir las lecciones del viejo Schelling y, aunque le producen un profundo desengaño después de la primera sensación arrolladora de entusiasmo, no dejan de imprimir una honda huella en su mundo de pensamientos la nueva posición filosófica de Schelling y su modo de criticar a Hegel.”

De entre la copiosa literatura de esta época, sólo nos referiremos, por vía de ejemplo, a un autor, a la crítica contra Hegel de Adolf Trendelenburg. No sólo porque este autor presenta, relativamente, con la mayor claridad la situación del problema para nosotros, aquí, central, sino, además, porque Trendelenburg llegó a ejercer, como éste mismo reconoce, una gran influencia sobre Kierkegaard.”

Su ajuste de cuentas con la dialéctica hegeliana y su liquidación de la dialéctica es, intrínsecamente, tan completa como la de Schopenhauer, con la diferencia de que éste califica la dialéctica, en bloque, como una ‘charlatanería’, mientras que Kierkegaard le opone, aparentemente, otra que se presenta con la arrogante pretensión de ser una dialéctica más alta, la llamada dialéctica ‘cualitativa’, pero de la que se ha procurado extirpar radicalmente todos los criterios decisivos que forman el método dialéctico.”

Kierkegaard se esfuerza aquí, al igual que en otros lugares, en presentar la dialéctica espontánea de los griegos como único modelo, valedero también y decisivo para el presente, lo que equivale a tratar de anular históricamente todos los progresos logrados por la dialéctica en la filosofía clásica alemana, y principalmente en Hegel.”

Se alguém me perguntasse ‘como você consegue ler um autor de que discorda veementemente ao longo de 700 páginas?’, eu responderia que sempre que Lukács acha algo irracional isso deve ser tomado como o mais alto elogio: “Mientras que Marx y Lenin descubrieron y desarrollaron los conatos de dialéctica contenidos en Aristóteles, Trendelenburg y Kierkegaard se esfuerzan por encuadrarlos de nuevo dentro de los marcos de la lógica formal, para borrar del mundo las conquistas hegelianas de la dialéctica.”

(*) “Destacado representante de esta aproximación de Hegel a Kierkegaard es J. Wahl, quien considera como la clave para comprender todo el mundo discursivo de Hegel el capítulo de la Fenomenología del espíritu sobre ‘la conciencia desgraciada’, que él descoyunta de todo su entronque, interpretándolo como si en él terminase o culminase la fenomenología, hasta el punto de que el lector podría, incluso, fácilmente, sospechar que el intérprete no ha pasado, en su lectura de la fenomenología, más allá de dicho capítulo. J. Wahl, Le malheur de la conscience de la phénomenologie de Hegel. París, 1929.”

En su empeño por desarrollar revolucionariamente la dialéctica hegeliana, Bruno Bauer cae en el idealismo subjetivista extremo de una ‘filosofía de la autoconciencia’. Y, al caricaturizar así, como ya por entonces hizo notar el joven Marx, los aspectos subjetivistas de la Fenomenología del espíritu y retornar de Hegel a Fichte, aleja de la dialéctica los motivos sociales e históricos, dándoles un carácter más abstracto del que ya tenían en el mismo Hegel (…) Y esta tendencia llega a su punto culminante, llevado hasta el absurdo y lo paradójico, con Stirner.”

El drama de la historia universal se desarrolla con una lentitud infinita: ¿por qué Dios no se apresura, si quiere hacerlo? ¡Qué lentitud tan poco dramática o, mejor dicho, qué prosaica y fastidiosa lentitud! Y si realmente quiere que sea así, ¡qué espantosa tiranía la suya, al despilfarrar miríadas de vidas humanas!” K.

Permitidme poner ahora de relieve, plásticamente, por medio de una imagen, la diferencia entre la ética y la historia universal, entre la actitud ética del individuo ante Dios y la actitud ante Dios de la historia universal. . . Diríamos, pues, que el desarrollo ético del individuo es como el pequeño teatro privado en que el espectador es Dios, pero también, a veces, el hombre individual, aunque el papel de éste consiste, esencialmente, en ser actor… La historia universal, en cambio, es el teatro real de Dios, en el que éste, y no por casualidad, sino esencialmente, contempla el espectáculo como único espectador, por ser el único que puede hacerlo. A este teatro no tiene acceso ningún espíritu existente. Y si éste se imagina ser espectador en él, es sencillamente porque olvida que su misión consiste en moverse en la escena como actor, incluso en aquel pequeño teatro de que hablábamos, dejando que el regio espectador y dramaturgo lo utilice en el drama regio… como mejor le parezca.”

Kierkegaard se da clara cuenta de que ya no es posible defender la historicidad real de Cristo, según la tradición de los Evangelios, situándose en el plano de un examen más o menos científico de la historia. Por eso no se lanza a polemizar directamente contra las teorías de Strauss o Bauer, para salvar de ellas esta historicidad misma, en el sentido de una objetividad científica, sino que procura desarrollar su metodología filosófica para desprestigiar y difamar en cuanto a su valor filosófico de conocimiento todo aquel tipo de conocimiento histórico que conduce a semejantes resultados.”

El agnosticismo histórico de Kierkegaard es, por tanto, un intento, como ya antes de él el de Schleiermacher, por abandonar a la ciencia todos los puestos de la explicación del universo que no pueden ya defenderse y encontrar en la pura vida interior del hombre el terreno en que todavía es posible, a su modo de ver, salvar y restaurar la religión.”

“…aunque no es menos cierto que Kierkegaard deforma siempre caricaturescamente los puntos de vista de Hegel y borra por completo las oscuras alusiones de su filosofía de la historia a la práctica.” Como um certo autor faz com todos aqueles que ele considera irracionalistas, ou seja, todos os não-marxistas?

Y, de otra parte, la realización de lo general viene a ser, para el hombre religioso de Kierkegaard, una especie de máscara irónica, un comportamiento encubridor, externamente filisteo, bajo el que eternamente se envuelve y oculta el pathos del individuo religioso, del ‘caballero de la fe’.”

En Feuerbach, el descubrimiento del carácter subjetivo de la religión lleva aparejada la disolución de ésta, y la estética queda en pie como una parte importante de la vida terrenal del hombre. El contacto entre una a otra, a que más arriba nos referíamos, sólo tiene validez dentro de esta premisa. Kierkegaard, por el contrario, pretende que la subjetivación extremadamente consecuente de lo religioso brinde el fundamento filosófico para la religión misma, que la sustantividad y la validez absoluta de ésta encuentren su fundamentación en la dialéctica cualitativa. No cabe duda de que, en estas condiciones, el deslinde entre la religión y la esfera de lo estético era para Kierkegaard un problema filosófico de vida o muerte.”

En este problema fundamental de su filosofía, Kierkegaard presenta puntos muy íntimos de contacto metodológico con el filósofo moral del temprano romanticismo, con el Schleiermacher de los Discursos sobre la religión y las Cartas confidenciales sobre la Lucinda de Friedrich Schlegel.”

En este respecto, podemos decir, pues, que Kierkegaard representa el miércoles de ceniza del carnaval romántico, a la manera como Heidegger, en un período posterior, habrá de representar el miércoles de ceniza del parasitismo imperialista de la crisis general del capitalismo”

lo que en el sacrificio de Isaac por Abraham diferencia a Abraham del héroe trágico (es decir, del héroe estético o ético) reside precisamente en la inconmensurabilidad absoluta y de principio de los móviles de su conducta, en la imposibilidad sustancial de comunicar a nadie sus verdaderas y decisivas vivencias. Lo que expresa, en rigor, una total extinción (y no una superación) de lo general de la ética en la esfera religiosa. Y, cuando compara el sacrificio de Abraham con el conflicto, exteriormente parecido, pero, visto en lo interior, puramente trágico de Agamenón, cuando se le pide el sacrificio de Ifigenia, dice Kierkegaard: ‘También el héroe trágico concentra lo ético, sobre lo que se remonta teleológicamente, en un momento; pero, al hacerlo, se apoya en lo general. En cambio, el caballero de la fe se atiene única y exclusivamente a sí mismo, y esto es lo espantoso.’

Esta desesperada posición filosófica de su filosofía de la desesperación es la que, a nuestro juicio, obliga a Kierkegaard a proclamar de un modo vacuo una relación, que jamás existe en él, entre la ética y la religión. No tenía más remedio que proceder a esta declaración carente de todo contenido, a menos de querer confesar la verdad objetiva de que su religión no era otra cosa que un asilo para estetas decadentes salvados del naufragio. Y, como Kierkegaard, gracias al período en que vivía, no era todavía ningún Huysmans,¹ y no digamos un Camus, capaces de encontrar en la desesperación misma una vana y coqueta autosatisfacción, no tenía otro camino que recurrir a aquellas huecas construcciones, reconociendo con ello, inconscientemente y de mala gana, que la desocialización conceptual del hombre entraña, al mismo tiempo, la anulación de toda ética.”

¹ Joris-Karl Huysmans, novelista e crítico de arte francês da segunda metade do XIX.

Pero, mientras que en Schopenhauer la nada es el contenido real de su mito budista, en Kierkegaard, la nada, al irrumpir y hacerse valer necesariamente, refuta y disuelve el mito cristiano.”

Pero, mientras que Kierkegaard saca de ello la única consecuencia posible de que por este camino no es posible llegar a ninguna clase de conocimiento, los existencialistas posteriores suprimen los ‘paréntesis’ entre los que —de un modo real o imaginario— colocaban el mundo objetivo, siguiendo el método de la fenomenología husserliana, al reflexionar sobre la subjetividad del acto, y aseguran llegar de este modo a una ‘ontología’, a una verdadera objetividad.”

Por otra parte, vemos a un espíritu satírico atacar a la religión y, al mismo tiempo, exponerla de modo tan excelente, que constituye un placer leerle, y quien se halla en perplejidad de verla expuesta de un modo concreto, casi necesita recurrir a él.”

Jamás he encontrado un solo hombre cuya vida, según la impresión recibida por mí de ella (prescindiendo de sus ‘afirmaciones’, sobre las cuales hay que pasar una tachadura), pueda asegurar ni de lejos que había muerto para convertirse en espíritu (como tampoco podría asegurarlo de mí mismo). ¿Cómo explicarse, pues, que todos los Estados y países del mundo enteros elijan profesar el cristianismo y que haya entre nosotros, como hombres, tantos millones de cristianos?”

Nos remitiremos simplemente, de pasada, a Dostoyevski quien, en condiciones sociales concretas completamente distintas y persiguiendo fines y empleando medios totalmente diferentes, adopta a veces una posición muy parecida en cuanto a la confluencia de religión y ateísmo.” “Nos limitaremos a señalar que, en los ‘santos’ de Dostoyevsky, el ateísmo se manifiesta, cabalmente, como ‘la penúltima fase hacia la fe completa’.”

L’atheisme n’est qu’une des expériences dont se decompose la vie de l’homme, un moment dialectique de la connaissance de Dieu. Le passage par le stade de l’atheisme peut signifier l’épuration de l’idée de Dieu, la délivrance de l’homme du mauvais sociomorphisme.” Berdiaeff

el moderno existencialismo —gracias al método fenomenológico de Husserl— dispone de métodos más refinados de los que manejaba en su día el propio Kierkegaard, para amputar los criterios sociales concretos.” “Por tanto, la práctica existencialista no contrapone ya, como hacía Kierkegaard, la vacua, ociosa y antiética actividad de la ‘historia universal’ al puro preocuparse interior por la salvación de la propia alma, sino que trata de dar a entender, falsamente, que es en la ‘verdadera’ realidad, ontológicamente depurada, en la ‘situación’, donde el hombre puede elegir libremente, llevar a cabo sus ‘proyectos’ (Sartre). La amputación existencialista de los contenidos, de las tendencias del desarrollo, etc., que los criterios sociales llevan consigo ha permitido, por ejemplo, que, puesto ante la ‘libertad de elegir’, Heidegger optase por Hitler.”

Pero, ¿qué es lo que distingue a Schopenhauer del profesor? Sólo una cosa, en rigor: el ser un hombre rico.” Kierkegaard

Si me he hecho escritor, ello se debe, principalmente, a mi melancolía y a mi dinero.”

Tiene su interés histórico señalar esto, porque la línea ascendente de la filosofía burguesa produjo pensadores que supieron llevar a cabo en una vida llena de sacrificios esta actitud ante el ‘oficio’ —ciertamente que no partiendo de premisas irracionalistamente reaccionarias y para llegar a conclusiones del mismo carácter: baste citar los nombres de Spinoza, de Diderot y Lessing.”

El hecho de que el ascetismo encuentre acogida y sitio en su sistema, ¿no es un signo indirecto de que ya su época ha pasado? Hubo un tiempo en que se era asceta en el carácter. Vino luego otro en que se relegó al pasado todo lo referente al ascetismo. Y he aquí que adviene uno que se jacta de ser el primero que le ha asignado un lugar en el sistema. Pero, precisamente esto, el ocuparse del ascetismo de este modo, demuestra que no existe para él, en el verdadero sentido. . . Muy lejos de ser propiamente un pesimista, Schopenhauer representa en grado sumo lo interesante; hace interesante en cierto modo el ascetismo, lo más peligroso que pueda haber para una época ávida de goces, a la que puede dañar más que nada el destilar goce incluso del ascetismo, es decir, el considerar el ascetismo sin carácter alguno, asignándole un sitio en el sistema.” K., novamente sobre Schopenhauer

El burgués adopta ante las instituciones de su régimen la misma actitud que el judío ante la Ley; las viola cuantas veces puede, como éste la Ley, pero quiere que todos los demás las acaten.” Marx

CAPÍTULO III. NIETZSCHE, FUNDADOR DEL IRRACIONALISMO DEL PERIODO IMPERIALISTA

En estas circunstancias, ¿con qué derecho podemos afirmar que toda la obra de Nietzsche es una polémica constante contra el marxismo, contra el socialismo, cuando es claro y evidente que no llegó a leer nunca una sola línea de Marx o de Engels?”

le toca también vivir los tiempos de la Comuna de París, del nacimiento del gran partido de masas del proletariado, de la ley contra los socialistas y de la heroica lucha que los obreros libran en contra de ella; pero, al mismo tiempo, y por otra parte, no llega ya a alcanzar, personalmente, el período imperialista.”

No cabe duda de que éste poseía un sentido muy sutil para anticiparse a los acontecimientos, una sensibilidad especial, en el campo de la problemática, para percibir aquello que la intelectualidad parasitaria necesitaba en el período imperialista, lo que la agitaba e inquietaba, el tipo de soluciones que más podían satisfacerla. Ello le permitió abarcar campos muy amplios de la cultura, iluminar sus problemas candentes con ingeniosos aforismos, satisfacer los instintos de descontento, y a veces hasta de rebeldía, de estos círculos intelectuales parasitarios con gestos aparentemente hiperrevolucionarios y fascinadores, a la par que daba a todos estos problemas, o por lo menos la sugería, una solución atenta a todos los matices y sutilezas del contenido robusto-reaccionario de clase de la burguesía imperialista.”

La política aparece ante él como un horizonte cada vez más desdibujado, más abstracto y más envuelto en el mito, y en materia de economía la ignorancia de Nietzsche es tan supina como la del intelectual medio de su tiempo. Mehring tiene razón cuando hace notar que los argumentos de Nietzsche contra el socialismo no rebasan nunca el nivel de un Leo, de un Treitschke, etc.”

Esta influencia va desde Georg Brandes y Strindberg y la generación de Gerhart Hauptmann hasta Gide y Malraux. Y no se limita, ni mucho menos, a los representantes reaccionarios de la intelectualidad. Escritores decididamente progresivos, si nos fijamos en el conjunto de su obra, como Thomas y Heinrich Mann o Bernard Shaw, se dejaron también influir por Nietzsche.”

No cabe duda de que los libros de Nietzsche ejercen un efecto seductor sobre los contados jóvenes de descollante talento literario que pueden surgir todavía en los medios burgueses y que se hallan aún cautivos de los prejuicios de clase de la burguesía. Pues bien, para ellos, Nietzsche no es sino el punto de transición hacia el socialismo” Mehring

Para mim funcionou exatamente assim!

Para darnos cuenta de su talla, en este punto, no tenemos más que compararlo con su coetáneo Eduard von Hartmann. Como filósofo, éste se limita a compendiar los prejuicios reaccionario-burgueses usuales y corrientes de la época posterior a 1870, los prejuicios del burgués ‘sano’ (es decir, harto). Esto explica por qué, al principio, tuvo mucho más éxito que Nietzsche, pero también por qué cayó en un completo olvido, al llegar el período imperialista.”

Si las circunstancias sociales hacen necesario un viraje en la interpretación —como ocurrió, por ejemplo, en el período de preparación inmediata del hitlerismo y ocurre en la actualidad, después del derrocamiento de Hitler—, la reelaboración del contenido permanente no tropieza aquí con obstáculos como los que ofrecen otros pensadores, preocupados de exponer en forma sistemática la cohesión de sus pensamientos.”

Son muchos los profesores de filosofía que reprochan a este pensador el no haber llegado a construir un sistema, razón por la cual se niegan a incluirlo entre los filósofos.”

Es un hecho generalmente observado en la historia de las ideologías el que los pensadores que no alcanzan a percibir un desarrollo social sino en sus gérmenes, pero viendo ya en ellos lo nuevo, lo que nace y esforzándose, ante todo, por captarlo mediante conceptos en el campo de la moral, recurren a las formas ensayísticas y aforísticas, porque estas formas brindan la expresión más adecuada a la mezcla de lo que es la simple intuición de una trayectoria futura y de la aguda observación y valoración de sus síntomas. Una prueba de ello la tenemos en Montaigne y en Mandeville y en los moralistas franceses, desde La Rochefoucauld hasta Vauvenargues y Chamfort.”

Veremos, en las páginas siguientes, cómo por debajo de los pensamientos de Nietzsche, expresados bajo una forma aforística, puede descubrirse también, en efecto, una cohesión sistemática.”

Fantasmas como los de la dignidad del hombre y la dignidad del trabajo son los frutos mezquinos de una esclavitud que se esconde de sí misma. ¡Desventurados tiempos, éstos en los que el esclavo emplea tales conceptos, en que se le acicatea a meditar acerca de sí mismo y por encima de él! ¡Desdichados seductores, estos que han echado a perder el estado de inocencia del esclavo con los frutos del árbol del conocimiento!”

Su aversión contra la ‘seguridad’ va unida también a la glorificación de Bismarck, a quien Nietzsche, en su último período, parangona casi siempre con Wagner, para combatir a los dos.”

“La explotación del obrero era, ahora nos damos cuenta de ello, una estupidez, un cultivo desfalcador a costa del futuro, un peligro para la sociedad. Ya casi estamos en guerra, y no cabe duda de que las costas para salvar la paz, concertar tratados y ganar la confianza tendrán que ser muy grandes, porque la necedad de los explotadores fue también muy grande y duró demasiado tiempo.”

Una cultura superior —escribe— sólo puede surgir allí donde haya dos castas distintas en el seno de la sociedad: la de los trabajadores y la de los ociosos, capacitados para disfrutar verdaderamente de su ocio; o, para decirlo con palabras más fuertes, la casta del trabajo forzado y la del trabajo libre.”

El pueblo es el que más alejado se halla del socialismo, como doctrina de la transformación del régimen de la propiedad; y, si alguna vez llega a tener en sus manos el torniquete de los impuestos, gracias a las grandes mayorías de sus parlamentos, procurará irles a la mano, con el impuesto progresivo sobre las rentas, a los capitalistas, los comerciantes y los príncipes de la bolsa, para crear en realidad una clase media a la que le será dado ya olvidarse del socialismo como de una enfermedad superada.”

Para llegar a tener completa claridad acerca de la línea político-social de Nietzsche, queda sólo por esclarecer su posición ante Bismarck. Es ésta cuestión que no carece de importancia. En realidad, la actitud de Nietzsche ante la política bismarckiana ocupa un lugar central tanto en lo que se refiere a la influencia de este pensador sobre círculos de opinión en el fondo izquierdistas como en lo tocante a la importancia que Nietzsche habría de adquirir para la ideología del fascismo.”

Bismarck es, en el fondo, un diplomático del período bonapartista, que sólo por breve tiempo lleva el movimiento de la unidad alemana más allá de las estrechas miras de la política reaccionaria prusiana. No alcanza, sin embargo, a comprender las aspiraciones imperialistas de la burguesía alemana, que van surgiendo con fuerza cada vez mayor sobre la base de la fundación reaccionaria del Imperio.”

Los tiempos de la política menuda, han pasado: el siglo venidero traerá ya consigo la lucha por la dominación sobre la tierra, la coacción de la gran política.”

Nietzsche, sin embargo, actúa ya en el período posterior a la primera toma del Poder por el proletariado, a la Comuna de París. La crisis y la disolución del romanticismo, la evolución del anticapitalismo romántico hacia la apologética capitalista, las vicisitudes de Carlyle durante la revolución del Cuarenta y ocho y después de ella, quedan ya muy atrás de Nietzsche, como un pasado envejecido. Por eso, mientras el joven Carlyle ensalzaba todavía la Edad Media como la época de la felicidad de los trabajadores, contraponiéndola a la crueldad inhumana del capitalismo, Nietzsche comienza ya, como hemos visto, exaltando la esclavitud antigua como modelo y como ideal. De aquí que la utopía reaccionaria del Carlyle posterior al año 1848 sea para él algo simplista, desde hace mucho tiempo superado.”

Con respecto a la filosofía del comportamiento humano (en Nietzsche, confluyen constantemente la ética, la psicología y la filosofía de la sociedad) nos vemos llevados, por tanto, a remontarnos al período de preparación del ascenso de la burguesía, al Renacimiento, al clasicismo francés y a la Ilustración. Y estas simpatías de Nietzsche tienen su importancia, porque en ellas se contienen los puntos de apoyo tanto para sus admiradores del campo de la izquierda burguesa como para su actualización con vistas a la preparación ideológica de la tercera Guerra Mundial imperialista.”

La falta de ingenio y el eclecticismo de los positivistas se manifiestan también, entre otras cosas, en que estos pensadores son incapaces de adoptar una posición clara y unívoca ante el problema del egoísmo. Su posición es la de una mescolanza que todo lo emborrona y confunde.”

De aquí la importancia tan grande que tiene para Nietzsche el reconocimiento del tipo criminoso. También en este punto existe en apariencia cierta afinidad con algunas tendencias que se manifiestan en la literatura del período ascensional de la burguesía (los bandidos del joven Schiller, el Michael Kohlhaas de Kleist, el Dubrowsky de Pushkin, los Vautrin de Balzac, etc.), pero con un contenido igualmente antitético.”

leyendo a estos intérpretes, llega uno a tener, incluso, la sensación de que el concepto de la ‘bestia rubia’, por ejemplo, no pasa de ser una metáfora inofensiva, perdida entre las refinadas elucubraciones de la crítica de la cultura.” “(El hecho de que, en sus obras juveniles, y a veces en las posteriores, hable también de la barbarie en sentido peyorativo, nada tiene que ver con este problema, ya que en tales expresiones quiere referirse al ‘filisteísmo de la cultura’, al filisteísmo en general, etc.)”

la teoría del ‘eterno retorno’. Esta teoría, en la que la seudocientificidad se mezcla con la fantasía desbocada, causa no pocos quebraderos de cabeza a muchos intérpretes de Nietzsche.” Segundo Lukács o III Reich descartou o eterno retorno do sistema nietzscheano pervertido que usaram no nazismo, pois o império da raça ariana deveria se constituir como algo inédito e imutável, inamovível, na História.

Nos abstenemos de usar el concepto de fuerza infinita, como incompatible con el concepto de ‘fuerza’. El mundo carece, asimismo, de la capacidad de innovar eternamente”

Nadie es responsable de que el hombre exista y de que sea tal y como es, de que viva bajo tales circunstancias y rodeado de tal medio. La fatalidad de su naturaleza no puede desligarse de la fatalidad de todo lo que ha sido y será. . . Se es necesariamente, se es un fragmento de lo fatal, se forma parte del todo, se es en el todo; no hay nada que pueda enjuiciar, medir, comparar o condenar nuestro ser, pues ello equivaldría a enjuiciar, medir, comparar y condenar el todo. . . Y fuera del todo no existe nada. . . Y así, y solamente así, se restaura la inocencia del devenir…” Crepúsculo dos Ídolos

El neokantismo y el machismo [Ernst Mach] son las corrientes fundamentales en este nuevo rumbo filosófico, que se desarrolla paralelamente a las actividades de Nietzsche.”

El solo hecho de que la filosofía burguesa se vea obligada a abrazar —en defensa del idealismo contra el materialismo— una ‘tercera vía’,¹ es decir, de darse aires de criticar y rechazar desde una ‘atalaya superior’ tanto el idealismo como el materialismo, revela que esta filosofía se ve ya forzada —en una dimensión histórico-mundial— a colocarse a la defensiva, que los problemas por ella planteados, sus métodos, etc., tienen más de recursos defensivos que de medios para interpretar en su propio sentido la realidad objetiva.”

¹ Assim Lukács batiza, p.ex., a filosofia de Schopenhauer, como um “idealismo subjetivista” que não passaria de uma terceira via do saber.

(*) “es cierto que las obras filosóficas más importantes de Mach vieron la luz algo más tarde, pero también él se reveló como teórico en las décadas del setenta y del ochenta, al igual que Schuppe, el guía de la llamada ‘filosofía de la inmanencia’; Vaihinger, el más cercano a esta corriente entre los kantianos, publicó su Philosopbie des Als ob un poco más tarde, ciertamente, pero la escribió, en lo esencial, ya entre los años 1876 y 1878. El que toda esta corriente de pensadores reivindique más tarde a Nietzsche como uno de los suyos —comenzando por Vaihinger— no quiere decir que traten de poner de manifiesto su influencia directa sobre él (pues es notorio que Nietzsche ni siquiera llegó a tomar en las manos la mayoría de estas obras), sino simplemente una afinidad esencial de tendencias en lo tocante a la teoría del conocimiento, provocada por las nuevas necesidades ideológicas de la burguesía.”

(*) “Que Nietzsche no tiene la menor idea de la diferencia entre entendimiento y razón y emplea ambos términos como sinónimos, lo demuestra, no solamente su ignorancia de los filósofos más importantes, que reconoce incluso Jaspers, sino también, lo que tiene mucha más importancia, la ignorancia todavía más tosca del irracionalismo imperialista, que desciende a un bajísimo nivel en cuanto a la cultura del pensamiento. Kierkegaard, por ejemplo, combatía a Hegel con un aparato discursivo mucho más sutil.” A questão aqui seria desejar desconhecer a diferença entre razão e entendimento, que realmente não existe.

CAPÍTULO IV. LA FILOSOFÍA DE LA VIDA EN LA ALEMANIA IMPERIALISTA

Antes de la guerra, por ejemplo, el único neokantiano decidido partidario de la filosofía de la vida era Simmel; en cambio, después de la guerra, tanto el neohegelianismo como la trayectoria ulterior de la escuela husserliana caen totalmente bajo la dirección de la filosofía de la vida.” “La influencia de la filosofía de la vida se extiende a todas las ciencias sociales, desde la psicología hasta la sociología, y muy especialmente a la historiografía y a la historia de la literatura y del arte (…) la filosofía universitaria; así, la publicística filosófica libre, que tanto influye precisamente en los grandes círculos sigue resueltamente, ya desde muy pronto, los rumbos de la filosofía de la vida. Lo cual se debe, no. sólo a la influencia sin cesar creciente que Nietzsche ejerce sobre amplios círculos de escritores, sino también a la repercusión relativamente temprana que Dilthey, por ejemplo, logra sobre Weini[n]ger, (sic) Simmel sobre Rathenau y ambos sobre la escuela poética de Stefan George. Podemos afirmar que, en el período de posguerra, virtualmente, toda la literatura burguesa leída por los grandes círculos y relacionada con los problemas de la conciencia del mundo se mueve por los carriles de la filosofía de la vida.”

(…explicaremos por qué la filosofía imperialista recurre más tarde, de nuevo, a Schelling, y más aún a Kierkegaard.)”

el reconocimiento y la consagración cada vez más señalados de Nietzsche como filósofo en toda la extensión de la palabra, y no simplemente como ‘poeta’.”

¡Vuelta a Kant!: he ahí la divisa de la filosofía. (Liebmann, Kant y los epígonos, 1865.)”

La vivencia y su ‘organon’, la intuición, y lo irracional como su objeto ‘natural’, podían hacer brotar como por encanto todos los elementos necesarios de la ‘concepción del mundo’, sin tener que renunciar por ello de facto y no declarativamente al agnosticismo de la filosofía idealista subjetiva, a la negación de una realidad independiente de la conciencia, irrenunciable como defensa contra el materialismo.”

Este ‘objetivismo’ mítico, que encubre siempre una teoría subjetivista-agnosticista del conocimiento, responde exactamente a las necesidades ideológicas de la reacción imperialista. Se tiene la sensación general de que se avecina un período de grandes decisiones históricas interiores y exteriores (Nietzsche es el primero que proclama abiertamente esta sensación).”

Al principio, la filosofía oficial de la cátedra y las autoridades del Estado adoptan ante estas tendencias una actitud de escepticismo. Pero, poco a poco, la filosofía de la vida va abriéndose paso e infiltrándose en todo el pensamiento de la Alemania imperialista. El más importante precursor y fundador de la filosofía imperialista de la vida, Wilhelm Dilthey, se expresa a veces en términos marcadamente programáticos acerca de esta situación. Señala la gran misión que la concepción filosófica del mundo ha cumplido en las luchas político-sociales del pasado. Y añade: ‘¡Gran enseñanza para el político! Por mucho que quiera darse aires distinguidos la aversión de los funcionarios actuales y de nuestra burguesía por las ideas y su expresión filosófica, no es precisamente un signo del sentido de la realidad, sino de la pobreza de espíritu: no son solamente los sentimientos naturales, sino también un sistema cerrado de pensamientos, los que aseguran la superioridad de la socialdemocracia y del ultramontanismo sobre las demás fuerzas políticas de nuestro tiempo.’

Sería ridículo empeñarse en ver en un Dilthey o en un Simmel los precursores conscientes del fascismo, pues no llegaron a serlo ni siquiera en el sentido en que podemos llamar sus antecesores a un Nietzsche o un Lagarde.”

Dilthey arranca de un punto de partida psicológico e histórico. La obra a que se proponía consagrar su vida era, en rigor, una ‘Crítica de la razón histórica’; aspiraba a acomodar la doctrina de Kant a las necesidades del presente y a desarrollar la filosofía kantiana de tal modo que pudiera servir de fundamentación a las ciencias del espíritu y, muy esencialmente, a la historia (concebida, evidentemente a la manera de un Ranke o de un Jakob Burckhardt, y no como la historia del período progresivo de la burguesía).”

Dilthey, al igual que todos los kantianos modernos, liquida de raíz las vacilaciones del maestro ante el materialismo en la teoría de la ‘cosa en sí’.”

y es, al mismo tiempo, una corriente paralela a la escuela fenomenológica, a cuyo ulterior desarrollo en la filosofía de la vida se adelanta precisamente Dilthey, influyendo en él”

Si existe un conocimiento de la realidad, es solamente porque en la vida y en la experiencia se contiene toda la concatenación que se manifiesta en las formas, los principios y las categorías del pensamiento, solamente porque esa concatenación puede mostrarse analíticamente en la experiencia y en la vida.”

Se trata de lo opuesto a la anterior psicología ‘explicativa’ (causal, indagadora de leyes): de una psicología ‘descriptiva’ o ‘comprensiva’. Ciencia nueva que deberá servir de fundamento a todas las ‘ciencias del espíritu’ (término empleado por Dilthey para designar las ciencias sociales) y, principalmente, a la historia.”

la nueva psicología constituye de antemano, según Dilthey, un privilegio, la doctrina secreta de una determinada aristocracia espiritual, estético-historicista.”

De la misma fuente histórica que la psicología ‘descriptiva’ de Dilthey brota también, paralela pero independientemente, la fenomenología de Husserl, que tantos puntos de afinidad muestra con ella. Dilthey la saluda inmediatamente como algo que ‘hace época’. Husserl, por su parte, se limita por el momento al tratamiento descriptivo de problemas que se mantienen en el terreno de la lógica formal. Pero sus discípulos más influyentes (Scheler y Heidegger) se remontan ya por encima de estos problemas, bajo la influencia de Dilthey, como pondremos de manifiesto más adelante, y aspiran, lo mismo que Dilthey, a establecer sobre esta base un método filosófico universal.”

Los trabajos históricos de Dilthey son importantes y llegan a ejercer una gran influencia. Dilthey fue —con Nietzsche y Eduard von Hartmann— uno de los primeros en romper el fuego contra la gran filosofía racionalista orientada hacia las ciencias naturales y que arranca de Descartes. Con su biografía de Schleiermacher y sus trabajos sobre Novalis, Hölderlin y otros, fue uno de los iniciadores del renacimiento del romanticismo, en el período imperialista. Su descubrimiento de los manuscritos inéditos del joven Hegel y sus comentarios en torno a ellos fueron decisivos para la interpretación de la doctrina hegeliana en el período de la posguerra, a tono con la filosofía de la vida. Su estudio sobre Goethe encarriló, asimismo, la interpretación del gran poeta y pensador alemán por los derroteros de la filosofía de la vida, que más tarde llevarían a cabo desde Simmel y Gundolf hasta Klages.”

Al final de su vida, nos dice con toda franqueza que admira, a veces, profundamente a personalidades como Rousseau o Carlyle, que se atreven a manifestar abiertamente sus convicciones, sin detenerse ante ninguna clase de escrúpulos científicos.”

Pero el positivismo de que arranca Simmel es el de una época más avanzada, y ya no el de un Comte, un Taine o un Buckle, como en Dilthey. Simmel se halla muy marcadamente influido por Nietzsche; se ha formado en la lucha contra las consecuencias filosóficas y sociales del materialismo histórico, y su pensamiento presenta desde el primer momento un paralelismo espontáneo con el pragmatismo inglés y norteamericano y marcha hacia una estrecha afinidad con las tendencias bergsonianas.”

La vida parece ser la más extrema objetividad a que podemos llegar como sujetos anímicos, la más amplia y más firme objetivación del sujeto. La vida nos sitúa en la posición intermedia entre el yo y la idea, entre el sujeto y el objeto, entre la persona y el cosmos.”

En apoyo de la astrología y las curaciones milagrosas, de las brujerías y la eficacia de las oraciones se adujeron en su tiempo pruebas no menos ‘efectivas’ y ‘convincentes’ que las que hoy se invocan en pro de la vigencia de las leyes generales de la naturaleza, y no doy por descartada,, ni mucho menos, la posibilidad de que, a la vuelta de los siglos o de los milenios, cuando se reconozca como el meollo y la esencia de todo fenómeno concreto su individualidad insolublemente unitaria y no reductible en modo alguno a ‘leyes generales’, lleguen a considerarse tales generalidades como una superstición, ni más ni menos que hoy hacemos nosotros con aquellas creencias consideradas en otro tiempo como artículo de fe. Si un día se renuncia a la idea de la ‘verdad absoluta’, que no es tampoco, en rigor, más que una creación histórica, se podrá dar en la idea paradógica de que, en el proceso continuo del conocer, la cantidad de verdades corresponde exactamente a la cantidad de errores despejados; de que, como en un sube y baja incesante, son tantos los ‘conocimientos verdaderos’ que suben por la escalera delantera como los ‘errores’ arrojados a patadas por la escalera de atrás.”

y esta tendencia, que en Spengler se revelará de un modo claro y franco, como veremos, se contiene ya implícita en la filosofía de Simmel.”

El polo del nihilismo desesperado no se convertirá en centro de la concepción del mundo (Heidegger) sino cuando la primera guerra imperialista venga a conmover sensiblemente, para todos, los cimientos establecidos y cuando la gran crisis económica de 1929 eche por tierra las esperanzas cifradas en la constancia de una ‘estabilización relativa’.”

Simmel expresa, aquí, la tónica fundamental del período imperialista anterior, a la primera Guerra Mundial: se hace ya sentir la problemática insoluble de la vida, pero en medio de esta problemática se puede vivir agradablemente, le puede ir a uno bien; y la filosofía de la vida se encarga de dar al hombre la tranquilidad de conciencia necesaria para ello, de infundir a su espíritu el confort de una concepción del mundo adecuada.”

Mientras que a Dilthey le eran totalmente ajenas todavía la sociología moderna y la economía, estas disciplinas ocupan ya un lugar central en el primer período de Simmel y siguen presentes en su obra hasta el final. (…) De aquí que Simmel ya no ignore, como los pensadores anteriores a él, el materialismo histórico.”

Simmel formula esta tarea en la introducción a su Filosofía del dinero, al decir que se trata de ‘construir un piso debajo del materialismo histórico, de tal modo que, conservando su valor explicativo el encuadramiento de la vida económica entre las causas de la cultura espiritual, se reconozca en aquellas mismas formas económicas el resultado de valoraciones y corrientes más profundas y de premisas psicológicas y hasta metafísicas’

La igualdad social y moral de los hombres aparece, pues, vista así, como un momento puramente condicionado por el tiempo y ya anticuado de la ética de Kant.”

Para el hombre profundo, no hay otra posibilidad de soportar la vida que una cierta dosis de superficialidad. Si se empeñara en pensar tan a fondo y en sentir de un modo tan profundo y hasta el final, como la naturaleza de ellos y la suya propia lo reclama, los impulsos, los deberes, los afanes y los anhelos antagónicos e irreconciliables, saltaría hecho añicos, se volvería loco, tendría que huir de la vida. Más allá de cierto límite de profundidad, chocan de un modo tan radical y tan violento las líneas del ser, del querer y del deber ser, que tendrían necesariamente que desgarrarnos. Sólo evitando que desciendan por debajo de aquel límite, podemos mantenerlas lo suficientemente separadas para que sea posible la vida.”

Este cinismo involuntario de Simmel conducirá, en Spengler, a un frívolo diletantismo elevado a metodología, que luego corroerá el espíritu científico en el campo de la filosofía.”

Al estallar la primera guerra imperialista, se interrumpe bruscamente la trayectoria de la filosofía de la vida. Tal parece como si el mismo día en que fue declarada la guerra, casi toda la Alemania del espíritu hubiese aprendido la ‘nueva lección’: enmudecen las voces entre resignadas y contemplativas de la filosofía de la vida (como también las del resto de la filosofía, la oficial y la no oficial), surgiendo de inmediato una filosofía publicística encaminada a justificar la agresión imperialista y los objetivos de conquista mundial de la Alemania de Guillermo II.”

Lo vivo es, ahora naturalmente, ‘lo alemán’, lo que ‘curará’ al mundo, y lo muerto y lo inerte la peculiaridad nacional de los demás pueblos (sobre todo, de las democracias occidentales, y muy especialmente, de Inglaterra).”

La crisis de la pérdida de la guerra se encarga de enterrar bajo sus escombros toda esta charlatanería. Esta literatura del día, carente de valor filosófico, encierra ya, sin embargo, un importante preludio al segundo viraje decisivo de la filosofía de la vida, a su viraje hacia el fascismo.”

Donde más claramente se revela cuán grande es este viraje y en qué consisten sus consecuencias metodológicas e intrínsecas más importantes es en la famosa obra de Oswald Spengler, La decadencia de Occidente (1919-1922). El hecho de que Spengler expresara este giro del modo más radical es lo que valió a su obra una influencia tan considerable y tan sostenida; el libro de Spengler es un documento en verdad representativo de esta etapa y, al mismo tiempo, el preludio real y directo de la filosofía del fascismo.

El nivel filosófico de Spengler es esencialmente más bajo que el de los representantes anteriores más descollantes de la filosofía de la vida. Y ello no tiene nada de extraño. Ya en el curso de la exposición anterior hemos podido observar cómo el nivel filosófico iba descendiendo cada vez más. A medida que el nuevo adversario principal, el socialismo, va destacándose como el blanco central de la polémica, los irracionalistas se ven obligados más y más a enfrentarse con un problema cuyo contenido real ignoran totalmente y, en su mayoría, no quieren tampoco entender, y va desapareciendo de sus debates el conocimiento científico real del tema y, en la mayoría de los casos, hasta la honradez, la buena fe, para tratarlo.”

El medio para comprender las formas muertas es la ley matemática. El medio para comprender las formas vivas, la analogía.”

Desde Darwin, más aún, desde la teoría de Kant-Laplace, venía planteándose el problema de un tratamiento histórico de la naturaleza (con sujeción, claro está, a sus leyes objetivas); la filosofía de la naturaleza del joven Schelling y la de Hegel eran audaces intentos encaminados a resolverlo, aunque cierto es que con medios muy insuficientes. Pues bien, Spengler vuelve las cosas del revés, desde el punto de vista subjetivista de la filosofía de la vida: ignora el desarrollo objetivamente histórico de la naturaleza y, en cambio, ‘historiza’ el conocimiento de la naturaleza misma, al convertirlo en simple función del carácter esencial del ‘ciclo cultural’ concreto en que se vive.”

Existen varios mundos de números, porque existen varias culturas. Así, encontramos un tipo de número índico, otro arábigo, otro antiguo, otro occidental, cada uno de los cuales constituye fundamentalmente algo único y es expresión de otro acaecer universal… Existe, por tanto, más de una matemática.”

La historia es, pues, la forma universal originaria y la naturaleza una forma posterior, asequible solamente a los hombres de cultura más desarrollada, y no a la inversa, según el supuesto a que se inclina el prejuicio del intelecto científico urbano.”

El átomo, la velocidad de la luz, la gravitación, son otras tantas categorías míticas del ‘hombre fáustico’, lo mismo que los espíritus de las tormentas o los demonios de los campos fueron categorías del período mágico.”

Libra una apasionada polémica contra la periodización de la historia en Antigüedad, Edad Media y Edad Moderna. Y es cierto que esa división tradicional en períodos se convierte en algo puramente convencional si el historiador, como suele ocurrir, no encuentra su fundamento objetivo real en las grandes formaciones económicas, esclavitud, servidumbre de la gleba y trabajo asalariado.”

En Dilthey (y más resueltamente todavía, por ejemplo, en Max Weber), la tipología era, sencillamente, un medio auxiliar del conocimiento histórico, cuyo valor se acreditaba solamente en la explicación de la realidad histórica. Spengler, al dar a sus tipos el nombre de ‘fenómenos primigenios’ hace algo más que introducir una innovación terminológica: proclama la ‘fisonomía’ de cada cultura como fundamento real de todas sus manifestaciones concretas, tanto las intrínsecas como las formales, las estructurales como las dinámicas; la construcción científica auxiliar se convierte, así, en un fundamento real, aunque en un fundamento real irracionalista por principio y que sólo puede captarse por la vía de la intuición.”

Cabe, por ejemplo, establecer una analogía entre la geometría euclidiana, como manifestación de la cultura antigua, y la geometría no euclidiana, como exponente de la cultura occidental.”

Llamo simultáneos a dos hechos históricos cada uno de los cuales se produce dentro de su cultura en una situación —relativa— exactamente igual y que tienen, por tanto, un significado exactamente análogo.”

después de nosotros, el diluvio; tal es el —eficaz— canto consolatorio de Spengler.”

Otra de las causas eficientes de la gran influencia alcanzada por la obra de Spengler está en la consecuencia con que mantiene una concepción total que coloca en el centro mismo la supuesta antítesis entre cultura y civilización. Esta antítesis hacía mucho tiempo que venía desempeñando importante papel en la filosofía reaccionaria alemana de la historia. La lucha ideológica contra la democratización de Alemania se lleva a cabo bajo la bandera de esa antítesis, entendiendo por ‘civilización’ todo lo malo del capitalismo, incluida sobre todo la democracia occidental, y oponiendo a ello la autóctona, orgánica y auténtica ‘cultura’ alemana. Spengler aúna aquí las tendencias reaccionarias prusianas con una forma moderna deliberadamente paradógica. Da de nuevo al problema de la civilización un giro a tono con la filosofía de la vida: es, según él, el problema de la muerte, por oposición a la vida floreciente, a la cultura. No otro es el problema de la decadencia de Occidente: ‘Toda cultura tiene su propia civilización. . . La civilización es el destino inexorable de una cultura. . . La civilización son los estados más extremos y artificiales de que es capaz un tipo superior de hombre. Son un resultado; siguen al devenir como lo que ha devenido, a la vida como la muerte, al desarrollo como el anquilosamiento. . . son un final, irrevocable, pero han sido alcanzados siempre por la fuerza de la más íntima necesidad.’

No en vano la forma predominante de la civilización es, para Spengler, la del cesarismo. Es éste, según él, el régimen informe de dominación de toda cultura agonizante, de toda civilización. El pueblo se convierte, al llegar esta fase, en una masa ahistórica de fellahs sobre la que los Césares instauran su dominación, con la cual ‘la historia retorna de nuevo a lo ahistórico, al ritmo primitivo de los primeros tiempos’.” Um Guilherme II nada é diante da concentração de poder de um Elon Musk.

Spengler concreta esta perspectiva, nacida del análisis pesimista del presente y tan simpática a los ojos de la reacción, en una obra especial, bastante importante para la ideología del fascismo: la titulada Prusianismo y socialismo.” “Toda civilización tiene, según Spengler, su socialismo (los estoicos, el budismo, etc.; el socialismo actual es la forma fáustica de estas mismas manifestaciones). Pero, al afán spenglariano de las analogías no le basta con esta generalización. Necesita descubrir, además, el ‘verdadero’ socialismo, el cual no es otro que el prusianismo: los tipos del oficial, el empleado y el obrero.” (Spengler desarrolla aquí las ideas de los folletos de guerra de Scheler y Sombart, el concepto de ‘los mercaderes y los héroes’, etc.)” “La clase obrera alemana se convencerá de que sólo este ‘socialismo’ cuenta con posibilidades reales. Para ello, no hace falta ninguna ideología, sino que basta con ‘un valiente escepticismo’ y con ‘una clase de caracteres señoriales socialistas’.” De fato, falou muita merda.

El hecho de que la perspectiva histórica que aquí se pinta sea esencialmente distinta de la trazada en La decadencia de Occidente sólo interesa a quienes se empeñan en ver en Spengler un pensador con un sistema coherente.”

No es difícil percatarse de cuán cerca de la ideología fascista se halla este preludio reaccionario de la filosofía de la vida, convertida ya en una filosofía militante, en el período de la crisis inmediata de la posguerra.”

La figura más importante de este período de transición es la de Max Scheler. Se trata de un pensador ingenioso, dinámico y multifacético, sin convicciones firmes y que se deja llevar demasiado de las corrientes en boga en cada momento, pero en el que se destaca, a pesar de todo, una línea fundamental: la de salir fuertemente al paso de las exigencias que plantea la ‘estabilización relativa’. Su deseo es fundamentar una concepción del mundo intrínsecamente acusada, que se remonte sobre el formalismo de los neokantianos, una firme jerarquía de los valores apta para desempeñar un papel importante en la consolidación de la sociedad burguesa alemana.”

Scheler comparte con Dilthey, a quien trata de desarrollar y fundamentar con los métodos discursivos de la fenomenología husserliana, la convicción de que las categorías, las normas, los valores, etc., han de obtenerse y desarrollarse orgánicamente, a base de la objetividad vivida de los objetos filosóficos, por medio de la ‘intuición eidética’.”

No debe exagerarse, claro está, el valor de esta repudiación de la filosofía de la vida por Husserl. Éste aparenta no querer mezclarse en los excesos agnosticistas de la filosofía de la vida. Pero, cuando entra a tratar los problemas fundamentales de la teoría del conocimiento, en seguida se ve que se halla muy cerca del machismo.”

El problema de la existencia y la naturaleza del ‘mundo exterior’ es un problema metafísico. La teoría del conocimiento, como explicación general acerca del ser ideal y el sentido valedero del pensamiento cognosciente, abarca, cierto es, el problema general de si es posible, y hasta qué punto, un saber o un conjeturar racional de objetos o de cosas ‘reales’ que trascienda por principio de las vivencias cognoscientes y a cuyas normas tenga que acomodarse el verdadero sentido de tal saber; pero no el problema empíricamente planteado de si nosotros, los hombres, a base de los datos de hecho que nos son dados, podemos alcanzar realmente semejante saber, ni mucho menos la tarea de llevarlo a cabo. La teoría del conocimiento, tal como nosotros la concebimos, no es, propiamente hablando, ninguna teoría. No es una ciencia, en el sentido acusado de una unidad basada en la explicación teórica.” Husserl

Mientras que al principio sus ideas acerca de Dios eran casi una reminiscencia de las de Tomás de Aquino, ahora su filosofía de la religión va convirtiéndose poco a poco casi en un completo ateísmo, al proclamar en el plano de la filosofía de la religión un Dios que se desarrolla paralelamente con el hombre, doctrina que en su último período se trueca poco menos que en una autodeificación del hombre religioso-ateísta.”

El carácter apodíctico ‘intemporal’ de la fenomenología (la herencia de Bolzano y Brentano) se revela como mera apariencia, tan pronto como Scheler aplica el método al estudio de los fenómenos histórico-sociales concretos: se pone de manifiesto la profunda afinidad con el relativismo de Dilthey y Simmel.”

Y polemiza contra la conocida crítica que Guillermo Wundt hace a Husserl, en la que aquél satiriza el tipo husserliano de exposición, diciendo que Husserl da una larga serie de definiciones sobre lo que un concepto no es, para acabar estableciendo una pura tautología, al decir, por ejemplo, que ‘el amor es el amor’.”

El nacimiento del irracionalismo guarda siempre una estrecha relación con los límites de la captación del mundo desde el punto de vista de la lógica formal. (…) Y es precisamente característico de las formas de transición al extremo irracionalismo el hecho de que esta antítesis, que antes se manifestaba, históricamente, como el antagonismo de dos corrientes enfrentadas, desempeñe ahora un papel decisivo en la estructura interna de esta filosofía.”

Sin embargo, el ‘poner entre paréntesis’ descarta radicalmente esta cuestión; la ‘eidética’ no sólo puede proyectarse sobre un entronque de significados, sino también sobre una imagen puramente fantasmal, lo mismo que sobre un reflejo (exacto o falso) de la realidad.”

Todo consiste, sencillamente, en declarar los objetos fenomenológicos como objetos de la ontología, transformando así la ‘eidética’, insensiblemente, en una renovación de la ‘intuición intelectual’.”

Não existe floresta desabitada pelo homem.

Scheler cree sobreponerse a su relativismo cada vez más extremo inventando una nueva terminología para designarlo; la nueva palabra mágica es, ahora, la de ‘perspectivismo’. (Del mismo modo cree Mannheim ‘superar’ el relativismo recurriendo a la palabra mágica de ‘relacionismo’.)”

Scheler aspira, aquí, como hará poco después de él Mannheim, a que el relativismo se supere a sí mismo, precisamente al ser llevado hasta sus consecuencias más extremas, hasta el final.”

La forma sociológica de la democracia ‘desde abajo’… es, en general, más bien enemiga que amiga de todas las formas superiores del saber. Son los demócratas de origen liberal quienes, sobre todo, han mantenido en alto y desarrollado la ciencia positiva.”

El Miércoles de Ceniza del subjetivismo parasitario (Heidegger, Jaspers)”

No tiene, pues, nada de extraño que ahora, al imponerse este estado de ánimo depresivo, ya unos cuantos años antes de que estallara la crisis, en forma de presentimiento de los sombríos acontecimientos que se avecinaban, los pensadores guías de la nueva etapa, el husserliano Heidegger y el en otro tiempo psiquiatra Karl Jaspers, proclamaran el renacimiento de la filosofía kierkegaardiana.”

los renovadores de la filosofía existencial se preocupan ya de luchar, principalmente, contra el marxismo, aunque en sus obras rara vez lo mencionen por su nombre y directamente”

No es, naturalmente, un azar ni un detalle puramente terminológico el hecho de que la divisa de la ‘vida’, enfáticamente tremolada por aquella filosofía se sustituya ahora, con no menos énfasis, por la consigna de la ‘existencia’.”

La palabra ‘vida’, en que se hacía antes tanto hincapié, alude a la conquista del mundo por la subjetividad; esto explica por qué los activistas fascistas de la filosofía de la vida que habrán de relevar en seguida a Heidegger y Jaspers, ponen de nuevo en circulación aquella divisa, aunque dándole, a su vez, un contenido nuevo. El término de ‘existencia’, como leit motiv de la filosofía entraña la repudiación de mucho de lo que la filosofía de la vida afirmara en otro tiempo como vivo y que ahora se considera accidental, no existencial.”

mientras que antes —a tono con la teoría aristocrática del conocimiento a que necesariamente conducía este camino— se dividían los hombres, hasta cierto punto, en dos clases, los que vivían la vida y los que quedaban al margen de ella, ahora se considera en peligro la vida de todos, la vida en general.”

Pese a esta exaltación de las tendencias subjetivistas, en Heidegger se destaca tal vez con mayor fuerza todavía que en sus predecesores la ‘tercera vía’ filosófica: la pretensión de sobreponerse a la antítesis de idealismo y materialismo (él lo llama realismo)”

si bien su ‘ser ahí’ no significa, cabalmente, otra cosa que la misma existencia humana y, en definitiva, más aún, simplemente su manifestación en la conciencia.”

“‘Pero si la interpretación tiene en cada caso ya que moverse dentro de lo comprendido y alimentarse de ello ¿cómo va a dar resultados científicos sin moverse en un círculo, sobre todo moviéndose, encima, la comprensión presupuesta dentro del conocimiento vulgar del mundo y de los hombres?’ Pero, mientras que Dilthey, movido por un miedo científicamente honrado, se detenía ante este círculo vicioso, Heidegger corta resueltamente el nudo gordiano con ayuda de la intuición eidética (con la que, gracias a su irracionalista arbitrariedad, puede descubrirse lo que se quiera, sobre todo si se da el paso ontológico hacia el ser): pues el comprender ‘se revela’ (?) como ‘la expresión de la existenciaria estructura del <previo> peculiar al <ser ahí> mismo… los supuestos ontológicos del conocimiento historiográfico superan radicalmente la idea del rigor de las más exactas ciencias.’

Fenomenología es la forma de acceder a lo que debe ser tema de la ontología y la forma demostrativa de determinarlo. La ontología sólo es posible como fenomenología.”

Las leyes de Newton, el principio de contradicción, cualquier verdad sólo es verdad mientras el ‘ser ahí’ es. Antes de que todo ‘ser ahí’ fuese y después de que todo ‘ser ahí’ haya dejado de ser, ni fue ni será verdad alguna, porque la verdad, en cuanto es el ‘estado de abierto’, el descubrimiento y el ‘estado de descubierto’ que es, no puede ser en tales circunstancias.”

Heidegger, que se esfuerza por fundamentar una teoría objetiva del ser, una ontología objetiva, se ve obligado por ello a deslindar nítidamente este campo del de la antropología. Pero, cuando pasa a hablar de sus problemas centrales y no se limita a tratar desde lejos cuestiones de pura metodología, resulta que su ontología no es, en rigor, otra cosa que una antropología basada en la filosofía de la vida, disfrazada bajo ropaje objetivista.” “Es característico, por ejemplo, que trate de poner de relieve la fundamental tendencia antropológica de la ‘lógica trascendental’ de Kant, para hacer de este filósofo un precursor del existencialismo, lo mismo que Simmel trataba de hacer de él un precursor de la filosofía de la vida.”

Por tanto, lo que Heidegger llama fenomenología y ontología no es, en realidad, otra cosa que una descripción antropológica de la existencia humana con tendencias abstractas hacia el mito, lo que en sus descripciones fenomenológicas concretas se convierte insensiblemente en una pintura —no pocas veces interesante y hasta cautivadora— de la existencia del filisteo intelectual en la época de crisis del período imperialista. Y, hasta cierto punto, el propio Heidegger lo reconoce así. Su programa es mostrar el ser ‘tal como es <inmediata y regularmente>, en su <cotidianidad> <de término medio>.’ Y lo que hay, en rigor, de interesante en el modo de filosofar de Heidegger es, en efecto, esa descripción extraordinariamente pormenorizada de cómo ‘el hombre’, el sujeto portador de la existencia, se desintegra y se pierde a sí mismo, ‘inmediata y regularmente’, en esta cotidianidad.”

El ‘uno’, con el que se responde a la pregunta acerca del ‘quién’ del ‘ser ahí’ cotidiano, es el ‘nadie’, al que se ha entregado en cada caso ya todo ‘ser ahí’ en el ‘ser uno entre otros’. (…) Este modo de ser no significa menoscabo alguno de la facticidad del ‘ser ahí’, como tampoco el ‘uno’ es, por ser el ‘nadie’, una nada.”

Pero no se crea que Heidegger, con estas tendencias, se halla solo, en su época; tendencias parecidas a éstas aparecen expresadas, no sólo en la filosofía de Jaspers, sino también en gran parte de la literatura del mismo período (bastará, en apoyo de ello, con citar la novela de Céline, Voyage au bout de la nuit y los casos de Joyce, Gide, Malraux y otros).”

En este sentido, podríamos decir que Heidegger prosigue la tendencia de Simmel cuando hablaba de ‘construir un piso debajo del materialismo histórico’, para poner de relieve, al parecer, las premisas filosóficas y hasta metafísicas de esta teoría.”

El ser y el tiempo no sólo se cuida de omitir sistemáticamente el nombre de Marx, incluso en las alusiones que se hacen manifiestamente a su doctrina, sino que borra también, intrínsecamente, todas las categorías objetivas de la realidad económica.”

La interioridad del individuo ha renunciado ya, de largo tiempo atrás, a todos los planes de conquista del mundo;¹ ya no considera el mundo social en torno como algo, sin duda problemático, pero en el que todavía puede desplegarse libremente, a pesar de todo, la pura interioridad, sino como una amenaza constante, pavorosa e inaprensible, que se cierne sobre todo lo que daría su razón esencial de ser a la subjetividad.”

¹ Curiosamente é isso que Heidegger nega em sua questão da técnica.

Heidegger no combate explícitamente las teorías económicas del marxismo-leninismo, ni las consecuencias políticas derivadas de ellas —pues no es capaz de eso, como no lo es tampoco el sector por él representado—, sino que intenta más bien esquivar la necesidad de sacar las obligadas consecuencias sociales, difamando ‘ontológicamente’ como ‘no verdadera’ toda actividad pública del hombre.”

Heidegger predica la repulsa de toda actuación social, como en su tiempo había proclamado Schopenhauer su aversión a la idea burguesa del progreso, a la transformación democrática. Sin embargo, la repulsa de Heidegger lleva implícita una actitud reaccionaria todavía más marcada que el quietismo de Schopenhauer.” “Podríamos decir sin incurrir en una gran exageración que, en el período de lucha de la burguesía imperialista contra el socialismo, Heidegger es a Hitler y Rosenberg lo que en su tiempo había sido Schopenhauer con respecto a Nietzsche.”

Heidegger carece, de una parte, de la posibilidad de recurrir a categorías abiertamente teológicas y le falta, de otra parte, el valor necesario para preconizar francamente el irracionalismo. Sin embargo, todas las descripciones ontológicas de Heidegger demuestran que la desobjetivación de todos los criterios de la objetividad conduce en realidad al irracionalismo, aunque las palabras quieran dar a entender otra cosa, pues el papel lo soporta todo.”

Como se ve, la ontología heideggeriana se convierte insensiblemente en una moral y casi en una prédica religiosa; y también en este sesgo religioso-moral de la teoría del conocimiento se revela la influencia determinante de Kierkegaard sobre el planteamiento del problema y el método de Heidegger. El tenor de esta prédica es que el hombre debe ‘esencializarse’, prepararse a escuchar y comprender ‘la voz de la conciencia’, para ir madurando así hacia el ‘estado de resuelto’. Y también este proceso aparece muy detalladamente descrito por él. Aquí, como en el caso anterior, no podemos hacer otra cosa que esbozar muy a grandes rasgos el meollo de él. El descubrimiento de la nulidad de la existencia oculta en el ‘ser caído’ lo revela la ontología: ‘La esencia de la nada originariamente anuladora radica en que coloca al <ser ahí> lo primero de todo ante el ente en cuanto tal. . . <Ser ahí> significa: encuadramiento en la nada. . .’

El ‘estado de no resuelto’ del uno conserva sin embargo el predominio, limitándose a no poder atacar a la existencia resuelta” Outra filosofia da vida aristocrática, para uns poucos privilegiados. “Por muy difícil que resulte comprender a Heidegger, este pensamiento contenido en su filosofía sí fue captado certeramente.”

Esta teología heideggeriana sin religión positiva ni un Dios personal tiene que encerrar, evidentemente, como toda filosofía de la vida, una nueva y propia teoría del tiempo. Es ésta también una necesidad metodológica. No en vano la rígida contraposición de espacio y tiempo constituía uno de los lados más endebles del racionalismo no dialéctico. Ahora bien, mientras que la superación real de esta falla sólo puede encontrarse en la interdependencia de espacio y tiempo basada en la realidad objetiva, la filosofía irracionalista de la vida dirige desde hace mucho tiempo, desde siempre, sus más enconados ataques contra el concepto de tiempo del racionalismo, y —lo mismo que en el campo de la filosofía social contrapone la cultura y la civilización—, nos presenta el tiempo y el espacio como dos principios diametralmente opuestos y hasta enemigos entre sí. La conquista del tiempo tiene, en un sentido positivo, mucha importancia para la filosofía de la vida —tal es el reverso de aquella intención polémica— porque la identificación de vivencia y vida (existencia), indispensable para su seudoobjetivismo, sólo puede lograrse mediante una concepción subjetivada e irracionalista del tiempo que responde a esa exigencia.”

Bergson, a quien condena —juntamente con Aristóteles y Hegel— como representante de la concepción ‘vulgar’ del tiempo.”

El advenir no es posterior al sido y éste no es anterior al presente. La temporalidad se tempora como advenir presente que va siendo sido.”

Lo que ocurre es que en Bergson, que en la parte esencial de su teoría del conocimiento era un fenómeno de anteguerra y cuya filosofía presentaba muchos puntos de afinidad con Simmel y el pragmatismo, el tiempo vivido era un órgano de la conquista subjetivista-individualista del universo, mientras que en la filosofía de Heidegger, la filosofía del amargo despertar después de la embriaguez, el tiempo ‘real’ se desmundiza, se convierte en algo teológico y carente de contenido, se concentra exclusivamente en el momento de la decisión interior. He ahí por qué Bergson dirige sus tiros, sobre todo, contra el tiempo ‘espacial’ y contra la formación de conceptos en las ciencias exactas y por qué su tiempo ‘real’ se orienta hacia la vida artística, mientras que en Heidegger el tiempo ‘vulgar’ corresponde a la existencia del ‘ser caído’ en el ‘uno’ y el tiempo ‘real’ apunta en dirección de la muerte.”

Heidegger ‘descubre’ que el tiempo desempeña una función central, hasta ahora inadvertida, en la Crítica de la razón pura de Kant, sobre todo en el capítulo sobre el esquematismo.” “Heidegger, por tanto, incluye a Kant entre los padres del irracionalismo moderno.”

Ahora bien, según la concepción heideggeriana de la historia, resulta que la historia real es la ‘impropia’, lo mismo que el tiempo real era el ‘vulgar’.”

Vemos, pues, que lo que Heidegger llama la historia ‘impropia’ no da mucho más de sí que la ‘historicidad’ spengleriana; pero, mientras que en Spengler esta ‘historicidad’ forma parte integrante orgánica de su concepción, en Heidegger viene a estorbar a la idea central y constituye, en última instancia, un lastre inútil. Nace, en parte, de la repugnancia de Heidegger a avenirse al irracionalismo radical, a la repulsa radical de toda cientificidad y, en parte, es una herencia —convertida ahora en elemento inorgánico— de la concepción teológica fundamental que guía el camino heideggeriano hacia la salvación del alma, [o evento?] principio en el que la filosofía heideggeriana —una filosofía sin Dios y sin alma— pierde los principios que le servían anteriormente de pauta y de orientación.”

Después de este análisis de la filosofía existencial de Heidegger, podemos ya resumir en sus líneas más generales la de Jaspers. Una y otra son extraordinariamente parecidas, así en cuanto al punto de partida como en cuanto a las consecuencias a que llegan. Y no deja de ser interesante e instructivo el hecho de que Jaspers se presente abiertamente como psicólogo, ya que ello, unido al desarrollo de la fenomenología en Scheler y en Heidegger y a la influencia cada vez mayor de la psicología descriptiva de Dilthey, viene a coronar el desenmascaramiento de su originaria seudoobjetividad.

La primera obra filosófica influyente de Jaspers, la Psicología de las concepciones del mundo (publicada en 1919), es un intento de ejecución del programa diltheyano de una tipología de las maneras de concebir el universo. Claro está que en ella se renuncia ya por entero al sueño de Dilthey de que la tipología abriera el camino hacia la concepción filosófica objetiva del mundo. Antes al contrario. Bajo la influencia de Kierkegaard y Nietzsche, en quienes Jaspers ve los filósofos de nuestro tiempo, así como bajo la acción del relativismo sociológico de Max Weber, la tipología jasperiana proclamará cabalmente la total repudiación de la posibilidad y del valor de un conocimiento filosófico objetivo.”

Toda teoría formulada sobre la totalidad se convierte en un habitáculo, despojado de la vivencia original de las situaciones liminares y entorpece el nacimiento de las fuerzas que, dinámicamente, buscan el sentido de la existencia futura en la propia experiencia querida, para poner en su lugar la quietud de un mundo penetrado por la visión y perfecto, de un sentido eternamente presente de satisfacer al alma.”

La filosofía existencial se perdería inmediatamente, si creyese saber de nuevo lo que es el hombre. Volvería a suministrarnos los planos para investigar en sus tipos la vida humana y la vida animal, se convertiría de nuevo en antropología, psicología y sociología. Aquella filosofía sólo puede tener un sentido siempre y cuando que carezca de base en su objetividad. Despierta lo que no sabe; ilumina y mueve, pero no plasma nada…”

Como la marcha del mundo es impenetable y hasta hoy ha fracasado lo mejor y puede volver a fracasar; como, por tanto, la marcha del mundo, a la larga, no es en modo alguno lo único que importa que sea, debemos abandonar todos los planes y toda la actuación en torno al remoto porvenir, para dedicarnos aquí y ahora a crear y animar la existencia. . . Hacer al presente lo auténtico es, en fin de cuentas, lo único que con certeza me es dable hacer.”

Jaspers, en cambio, ha publicado un gran sistema de la filosofía en tres volúmenes, con el título entre orgulloso y modesto de Filosofía.”

Heidegger y Jaspers llevan a sus consecuencias más extremas el relativismo y el irracionalismo radicalmente individualistas y filisteamente aristocráticos. Allí donde llegan estas doctrinas encontramos la época glacial, el Polo Norte, un mundo deshabitado, un caos carente de sentido, la nada como en torno del hombre, y el contenido interior de esta filosofía es la desesperación y la soledad irremediable del hombre mismo. Con ello, trazan estos filósofos una imagen bastante fiel de lo que realmente vivía en el interior de extensos círculos de la intelectualidad alemana a comienzos de la década del treinta.”

El hecho de que Heidegger actuase abiertamente como fascista, mientras que Jaspers, por razones puramente particulares, no pudo llegar a tanto y se las arregló para mantener bajo Hitler su otium cum dignitate, para luego, al caer el régimen, mientras el viento parecía soplar de la izquierda, dárselas temporalmente de antifascista, no altera en lo más mínimo la realidad de las cosas.”

es Jünger el primero que interpreta desde el punto de vista de la filosofía de la vida la antítesis de burguesía y proletariado, con objeto de obtener la amplia base social necesaria para la ansiada nueva guerra imperialista”

Es cierto que, personalmente, predomina en Hitler el nihilismo cínico. Por sus conversaciones con Rauschning, sabemos que hasta la teoría racista era considerada por él como un engaño, utilizado sin escrúpulos para sus fines de bandidaje imperialista. La atmósfera general de la agitación hitleriana es, simplemente, una edición popular y vulgar de las tendencias fundamentales de la filosofía de la vida: Hitler rechaza, en la agitación, toda convicción intelectiva, pues para él sólo se trata de producir y mantener en pie un estado de embriaguez”

CAPÍTULO V. EL NEOHEGELIANISMO

HEGEL SEM HEGEL: “la repulsa del método dialéctico, sea expresa o tácitamente, se convertirá, en efecto, en un rasgo constante de toda la renovación de la filosofía de Hegel.” “Siguen manteniéndose en el punto de vista neokantiano, modificado a tono con las condiciones del período imperialista; es decir, siguen separando mecánicamente el fenómeno de la esencia, negándose a reconocer la cognoscibilidad de la realidad objetiva.”

Esta base gnoseológica se revela con gran nitidez en el librito de Julius Ebbinghaus (Relativer und absoluter Idealismus, 1910), obra que, aunque no llegó a ser conocida en amplios círculos de opinión, influyó, sin embargo, de un modo decisivo en el método y las concepciones de los neohegelianos relevantes que vendrían después. La idea central de Ebbinghaus puede resumirse en pocas palabras, diciendo que Hegel no hizo otra cosa que llevar consecuentemente hasta el final todas las consecuencias contenidas en el método trascendental de Kant, al paso que éste se quedó a medio camino con respecto a las consecuencias finales que se desprendían de su propio método. El hegelianismo no es, pues, según esto, sino un kantismo realmente consecuente consigo mismo.”

El libro más importante en relación con el ‘renacimiento hegeliano’ en Alemania es la obra de los últimos años de Dilthey titulado La historia juvenil de Hegel (1907).”

Cierto que también el neohegelianismo es, resueltamente, bastante reaccionario, pero expresa tendencias más moderadas, más reaccionariamente eclécticas, más ‘consolidadas’, de la burguesía”

Hegel —dice Kroneres sin duda el más grande irracionalista que conoce la historia de la filosofía. Ningún pensador antes de él había llegado a iluminar el concepto como él lo ha hecho… Hegel es irracionalista, porque hace valer lo irracional en el pensamiento y porque irracionaliza el pensamiento mismo… Es irracionalista, porque es dialéctico, porque la dialéctica es el irracionalismo convertido en método, el irracionalismo racionalizado, porque el pensamiento dialéctico es un pensamiento racional-irracional.”

Hegel intentó pensar concretamente, filosofar objetivamente, existir como filósofo sustancialmente, dejar que la cosa imperase por sí misma, situarse del lado de acá del realismo y el idealismo, y todo esto es también lo que nosotros queremos hoy.” Glockner

Todo el que haya leído realmente la Fenomenología del espíritu y haya estudiado un poco la historia de su elaboración debe saber que esta cualidad que Hartmann atribuye a la dialéctica hegeliana como algo no susceptible de ser aprendido y su comparación con el genio del artista caracteriza precisamente la concepción schellingiana de la dialéctica, mientras que la metodología de la Fenomenología del espíritu se dirige con una gran fuerza polémica contra tal interpretación, proclamando cabalmente todo lo contrario: la asequibilidad de la esencia de la dialéctica a todos.”

los neohegelianos, por su parte, eran suficientemente conocidos como reaccionarios para merecer que el nacionalsocialismo victorioso los tolerase. (Únicamente se vieron obligados a emigrar los neohegelianos ‘no arios’, como Kroner.) El neohegelianismo siguió, pues, vegetando bajo el Poder nazista; incluso llegó a surgir en Gotinga una especial escuela neohegeliana de filósofos del derecho (Binder, Busse, Larenz y otros); y siguieron editándose colecciones de materiales, monografías, etc., orientadas en esta dirección.”

podemos decir que la trayectoria del neohegelianismo es bastante aleccionadora, como imagen filosófica refleja del papel que el liberalismo, cada vez más decadente (con sus diversas variantes), ha desempeñado en la historia de los avances reaccionarios, del proceso de fascización, y del que está llamado a desempeñar también en el futuro.”

“(Ciertas reminiscencias de este cambio de actitud del pensamiento burgués con respecto a Hegel las encontramos con frecuencia entre los socialdemócratas del período de Weimar.)”

“Muchos siguieron desarrollando sus actividades, y en Berlín siguió existiendo durante largo tiempo una asociación de hegelianos, que publicaba incluso una revista propia (Der Gedanke, 1860-1884). Pero eran contados los que, como Adolf Lasson, por ejemplo, se mantenían fieles al hegelianismo ortodoxo. Cierto es que esta ortodoxia debe interpretarse de un modo históricamente certero.”

CAPÍTULO VI. LA SOCIOLOGÍA ALEMANA DEL PERÍODO IMPERIALISTA

La sociología, como disciplina independiente, surgió en Inglaterra y en Francia al disolverse la economía política clásica y el socialismo utópico, que eran ambos, cada uno a su modo, doctrinas que abarcan la vida social y que se ocupaban, por tanto, de todos los problemas esenciales de la sociedad, en relación con las cuestiones económicas condicionantes. Al crearse la sociología como disciplina aparte, se afronta en ella el estudio de los problemas de la sociedad prescindiendo de su base económica; la supuesta independencia de los problemas sociales con respecto a los económicos es, en efecto, el punto de partida metodológico de la sociología.”

Y, así, surge en uno de los polos la economía burguesa vulgar y, más tarde, la llamada economía subjetiva, disciplina profesional de estrecha especialización y temática muy limitada, que renuncia de antemano a explicar los fenómenos sociales y se propone como su misión esencial hacer desaparecer del campo de la economía el problema de la plusvalía, y en el otro polo nace como ciencia del espíritu al margen de la economía, la sociología.”

con Fourier, se revela ya claramente el carácter internamente contradictorio de la economía capitalista; y, al disolverse la escuela ricardiana, incluso en Proudhon, este problema se manifiesta como el problema central de toda la economía, aunque las diversas soluciones propuestas deban ser reputadas como falsas.”

Es verdad que, al comienzo, principalmente entre sus fundadores, la sociología abraza el partido del progreso social, y el demostrar científicamente éste es cabalmente uno de sus fundamentales propósitos. Pero se trata de un progreso a tono con la burguesía que comienza a deslizarse por la pendiente del declive ideológico: de un progreso que conduce a una sociedad capitalista idealizada, en la que se ve la cúspide del desarrollo de la humanidad. En tiempo de Comte, y no digamos en el de Spencer, no era posible ya llegar a este resultado por el camino de la economía. De aquí que los primeros sociólogos vayan a buscar el fundamento para sus doctrinas a la ciencia de la naturaleza, aplicada por analogía a la sociedad y, de este modo, por tanto, más o menos mitologizada.”

No puede ya, por tanto, cumplir la misión que primeramente se había asignado: la de demostrar el carácter progresivo de la sociedad burguesa, demostración inasequible ahora en el terreno económico, y la de defenderla ideológicamente contra la reacción feudal y el socialismo.”

Alemania carece de una ciencia económica propia y original. En 1875, caracterizaba Marx esta situación en los términos siguientes: ‘La economía política ha sido siempre y sigue siendo en Alemania una ciencia extranjera… Esta ciencia se importaba de Inglaterra y de Francia como un producto elaborado; los profesores alemanes de economía seguían siendo simples discípulos. La expresión teórica de una realidad extraña se convertía en sus manos en un catálogo de dogmas, que ellos interpretaban, o mejor dicho deformaban, a tono con el mundo pequeñoburgués en que vivían… Desde 1848, la producción capitalista comenzó a desarrollarse rápidamente en Alemania, y ya hoy da su floración de negocios turbios. Pero la suerte seguía siendo adversa a nuestros economistas. Cuando habían podido investigar libremente la economía política, la realidad del país aparecía vuelta de espaldas a las condiciones económicas modernas. Al aparecer estas condiciones, surgieron en circunstancias que no consentían ya un estudio imparcial de aquéllas sin remontarse sobre el horizonte de la burguesía’

En esta nueva situación, un grupo de economistas alemanes (Brentano, Schmoller, Wagner y otros) trata de extender los dominios de la economía nacional, hasta convertirla en una ciencia de la sociedad. Se aspira a crear una economía nacional puramente ateórica, empírica, histórica y, al mismo tiempo, ‘ética’ que, repudiando la economía clásica, pueda a la par abordar los problemas de la sociedad.” “No tiene, pues, nada de extraño que el neokantismo positivista por entonces en boga viniera a reforzar estas concepciones en el sentido del agnosticismo empirista.”

(La misma actitud posterior de Dilthey ante Simmel y otros sociólogos del período imperialista es totalmente distinta; más aún, su propia concepción de la historia, tal como va desarrollándose con el tiempo, habrá de convertirse en uno de los factores determinantes de la sociología alemana posterior.)”

Nos referimos a la llamada ‘escuela austríaca’ de Menger, Böhm-Bawerk y otros. Su subjetivismo es tan radical como el de la ‘escuela histórica’. Pero en ella se manifiesta, en vez de la confusa y untuosa tendencia moralizante, un puro psicologismo: la disolución de todas las categorías objetivas de la economía en la casuística de la contraposición abstracta entre lo agradable y lo desagradable. Surgen, así, una serie de seudoteorías que buscan su fundamento exclusivo en los fenómenos superficiales de la vida económica (la oferta y la demanda, el costo de producción, la distribución, etc.) y formulan, a base de ellos, las seudoleyes de las reacciones subjetivas (la de ‘utilidad-límite’, por ejemplo). La ‘escuela austríaca’ se atribuye (Böhm-Bawerk) el mérito de haber superado las ‘enfermedades de infancia’ de los clásicos y también, al mismo tiempo, del marxismo, de una parte, y de otra las de la ‘escuela histórica’. Con lo cual la nueva economía vulgar que así nace deja, lo mismo que en el Occidente, el campo libre a una ciencia especial de la sociología, aparte de la economía y que viene a servirle de ‘complemento’.”

Sin que, aparentemente, guarde ninguna conexión estrecha con estas luchas, aparece en 1887 el libro de la nueva sociología alemana llamado a tener mayor influencia: Comunidad y sociedad (Gemeinschaft und Gesellschaft) de Ferdinand Toennies. Esta obra ocupa un lugar especial en el desarrollo de la sociología alemana. Merece señalarse, ante todo, que la vinculación ideológica de su autor con las tradiciones alemanas clásicas es más acusada que la de los sociólogos posteriores. (…) (Vale la pena indicar, en relación con esto, que más tarde escribirá una biografía de Hobbes que habrá de adquirir notoriedad internacional.) Añádase a esto que Toennies es el primero, en Alemania, que se asimila los resultados de la investigación en torno a la comunidad primitiva, sobre todo los de Morgan y, al mismo tiempo, el primer sociólogo alemán que no rechaza a limine a Marx, sino que trata de reelaborarlo, poniéndolo a contribución para sus fines burgueses. Así, abraza abiertamente el punto de vista de la teoría del valor por el trabajo y desecha la crítica burguesa usual que cree descubrir contradicciones insolubles entre los tomos primero y tercero del Capital. Lo cual no significa, ni mucho menos, que Toennies reconozca el marxismo ni lo comprenda.”

el formular, en términos, absolutos esa falsa contraposición entre civilización y cultura parece ser, a los ojos de muchos intelectuales, un arma eficaz contra el socialismo: puesto que éste lleva adelante el desarrollo de las fuerzas productivas materiales (mecanización, etc.), no es apto tampoco para resolver el pretendido conflicto entre la civilización y la cultura, sino que, lejos de ello, lo perpetúa; por tanto, no vale la pena que los intelectuales, víctimas de dicho supuesto conflicto, combatan al capitalismo en aras del socialismo.”

Marx ha puesto de manifiesto con referencia a la poesía épica, y Engels con respecto a los períodos de florecimiento de la filosofía moderna en las distintas naciones que marchan a la cabeza, como en ciertas y determinadas circunstancias, las situaciones menos desarrolladas son más favorables, para un florecimiento parcial de la cultura, que las que muestran un desarrollo más avanzado.”

El sorprendente antagonismo entre el rápido desarrollo de las fuerzas materiales de la producción y el fenómeno paralelo de las corrientes de decadencia que se revelan en los campos del arte, la literatura, la filosofía, la moral, etc., ha dado pie para que muchos, como hemos visto, desdoblen en dos, desgarrándolo, el campo de la cultura humana, que forma en sí una unidad orgánica y traten de contraponer los elementos que el capitalismo impulsa y desarrolla, bajo el nombre de civilización, a los de la cultura (en el sentido estricto y específico de la palabra), puesta en peligro, hasta el punto de ver en esta antítesis nada menos que la signatura esencial de nuestra época y hasta de toda la trayectoria de la humanidad.”

Cuanto mayor es la influencia que las tendencias de la filosofía de la vida, principalmente las de Nietzsche, ejercen sobre la sociología y las reflexiones en torno a la sociedad en general, con mayor fuerza se afirma el antagonismo entre cultura y civilización, más enérgico y rotundo es el cambio de rumbo hacia el pasado, más ahistórico y antihistórico se torna este planteamiento del problema.”

La ‘comunidad’ se convierte, así, en la categoría que abarca el campo de todo lo precapitalista, en la glorificación de los estados ‘orgánicos’ primitivos y, al mismo tiempo, en la consigna contra la acción mecanizadora y anticultural del capitalismo.”

Las grandes ciudades y la sociedad son, por tanto, la ruina y la muerte del pueblo, que en vano se esfuerza en hacerse fuerte por medio de su número y que, según su modo de pensar, sólo puede valerse de su poder para sublevarse, si quiere verse libre de sus desdichas… Se eleva de la conciencia de clase a la lucha de clases. Y la lucha de clases destruye la sociedad y el Estado que se propone transformar. Y, como toda la cultura se ha trocado en la civilización de la sociedad y del Estado, bajo esta forma metamorfoseada perece la cultura misma…”

Y también podemos considerar a Toennies como antecesor de la sociología posterior en cuanto que se apoya en su crítica de la cultura para apoyar ideológicamente el reformismo en el movimiento obrero; tal, por ejemplo, cuando ve en las cooperativas un triunfo del principio de la comunidad dentro de la sociedad capitalista, etc.” Irônico que o cooperativismo seja ensinado no próprio curso de marxismo (no lugar de Lukács!), que não deveria aceitar essas “respostas a meias”…

Max Weber esboza una historia universal de las religiones, para demostrar que sólo el protestantismo (y, dentro de él, principalmente, las sectas) poseía la ideología favorable a esta racionalización y capaz de estimularla, al paso que todas las demás religiones orientales y antiguas crearon éticas económicas que representaban un entorpecimiento para la racionalización de la vida diaria.”

Para ello, es decir, para que las ambiciones imperialistas de Alemania sean realizables, debe procederse a la democratización interior del país y profundizarla todo lo necesario para alcanzar aquella meta. § Esta posición de Max Weber entraña una repulsa categórica del ‘régimen personal’ de los Hohenzollern y del poder de la burocracia, íntimamente vinculado a él.”

Parece como sí de este modo se asignase a la sociología la importante función de explicar por su parte, en términos concretos, estos procesos genéticos. Pero no hay tal cosa, en realidad. ¿Qué es lo que, en rigor, nos ofrecen los sociólogos? Sus sublimaciones igualmente formalistas conducen a analogías puramente formales, y no a explicaciones causales.”

Max Weber polemiza, a veces, con el exagerado formalismo de Simmel, pero su propia sociología está llena también de este tipo de analogías formalistas. Max Weber establece, por ejemplo, un paralelismo formalista entre la antigua burocracia egipcia y el socialismo, o entre los soviets y los estamentos feudales; y, al hablar de la consagración irracional del Führer (carisma), traza una analogía entre el chamán y el dirigente socialdemócrata Kurt Eisner, etc.”

Por donde Max Weber sólo expulsa al irracionalismo de la metodología, del análisis de los hechos concretos, para introducirlo como la base filosófica de su concepción del mundo, con una decisión hasta entonces desconocida en Alemania. Por otra parte, esta eliminación del irracionalismo del campo de la metodología no es tampoco, ni mucho menos, total.”

cuán indefensos se hallaban, pues, los mejores intelectuales de Alemania ante el asalto del irracionalismo, lo demuestra —para poner solamente un ejemplo— el siguiente pasaje de una carta de Walter Rathenau: ‘Queremos llegar con el lenguaje y las imágenes del intelecto hasta las puertas de la eternidad; no para derribarlas, sino para acabar con el intelecto, al realizarlo.’

El más caracterizado representante de esta forma de transición es Alfred Weber, hermano de Max y más joven que éste.”

El democratismo tantas veces proclamado se ve traicionado ignominiosamente por el miedo a las posibilidades socialistas de una democracia llevada hasta sus últimas consecuencias.”

Alfred Weber, que en su enjuiciamiento de la historia de Alemania coincidía en lo esencial con su hermano, se desvía de este camino de la apreciación sobria y serena de la realidad precisamente cuando se trata de extraer las consecuencias decisivas, y capitula ante la concepción reaccionario-chovinista, a la que hace importantes concesiones.”

La tendencia a excluir a Marx y al marxismo de la cultura alemana era, desde el primer momento, una tendencia aparejada a toda reacción antidemocrática, aunque cualquiera que estudiase el problema con cierta imparcialidad tenía que convencerse necesariamente de cuán profundamente enlazado se hallaba el marxismo con la ideología del período de florecimiento de la cultura alemana, con el período que va de Lessing a Heine y de Kant a Hegel y a Feuerbach.”

Toda evolución es racionalista y sólo tiene un sentido metodológico fuera del campo de la cultura; la cultura no conoce ninguna clase de desarrollo, de progreso; sólo hay en ella una ‘corriente viva’, entendida a la manera auténticamente bergsoniana. Alfred Weber rechaza, aquí, toda perspectiva, todo ‘pronóstico de la cultura’ del porvenir; el futuro es —visto de un modo consecuentemente irracionalista— un misterio.”

CONTRA O <CARISMA> DE WEBER: “Entretanto, el materialismo histórico se había encargado de esclarecer el problema mismo hasta mucho más allá del límite a que había llegado Hegel. El análisis de las luchas de clases y de la diversa composición y estructura de las clases, que varía, además, con arreglo a los distintos períodos históricos, países y grados de desarrollo, ofrece la posibilidad metodológica de plantear y resolver con toda claridad aquello que en este problema es auténticamente científico y susceptible de solución, en el sentido de que la lucha económica y política de una clase va siempre unida al desarrollo de una capa de dirigentes cuyo tipo, composición, selección, etc., hay que explicarse científicamente partiendo de las condiciones de la lucha de clases, de la composición, el grado de desarrollo, etc., de la clase, de la acción mutua entre la masa y los dirigentes, etc. En la obra de Lenin titulada ¿Qué hacer? tenemos el modelo de este tipo de análisis, en cuanto al contenido y al método.”

El más caracterizado representante de estas tendencias, entre la joven generación de los sociólogos alemanes, es Karl Mannheim. En la formación de sus concepciones tuvieron las influencias de la ‘estabilización relativa’ un papel más decisivo aún que en la formación de las ideas de Alfred Weber, que pertenecía a una generación anterior. Esto explica por qué, en vez de la sociología de la cultura abiertamente mística e intuicionista de éste, nos encontramos en Mannheim con una ‘sociología del saber’ escépticamente relativista y que coquetea con la filosofía existencia!.”

Después de debatirse desesperadamente contra el hecho de que el ser social determina la conciencia, la teoría del conocimiento y la sociología burguesas se ven obligadas a capitular ante el materialismo histórico en este problema.”

Y esta tendencia abstracta de la tipología va tan allá, en Mannheim, que sus diversos tipos abarcan las tendencias más heterogéneas y contradictorias entre sí, solamente para poder poner de manifiesto en la realidad histórico-social un número resumido y limitado de tipos. Así, vemos cómo identifica, para hacerlos encajar en tipos únicos, la socialdemocracia y el comunismo, de una parte, y de otra el liberalismo y la democracia. En este punto, le aventajará considerablemente, como veremos, un reaccionario tan descarado como C. Schmitt, quien pone de manifiesto cómo la contraposición entre democracia y liberalismo entraña un problema importante de nuestro tiempo.”

Ahora bien, por qué el pensamiento de la ‘intelectualidad libre’ no se halla ya ‘vinculado a una situación’, por qué el ‘relacionalismo’ no se aplica, por lo que a él se refiere, a sí mismo, como exige que lo haga el materialismo histórico, constituye un misterio de la sociología del saber.”

Puede llegar a crecer tanto el temor a una guerra futura, con su espantosa potencia de destrucción, que funcione exactamente lo mismo que el miedo a un enemigo real de fuera. En este caso, y por el temor a la futura destrucción general, se impondrían las soluciones generales de avenencia y todos se someterían a una organización central de cobertura, encargada de llevar a cabo la planificación para todos.”

Indefensión que, como demuestra el ejemplo del propio Mannheim, no es superada por las mismas experiencias del fascismo. Sus ideas, tal como en este libro quedan esbozadas, representan la ideología de la capitulación indefensa ante la ola reaccionaria de la posguerra, ni más ni menos que su sociología del saber había representado dicha capitulación en el período anterior a la guerra.”

Característico de esta situación es el papel episódico que desempeñó en la sociología alemana un reaccionario tan descarado como Othmar Spann. Ya mucho antes de que Hitler tomara el poder, vemos a Spann compartir la mayoría de las concepciones sociales del fascismo. Sus principales adversarios son las ideas liberales de 1789 y, sobre todo, las ideas marxistas de 1917. Es el antecesor de aquellas demagogias del nacionalsocialismo que acusan de marxismo a todo el que no sea un reaccionario redomado; acusación que Spann formula incluso contra los dirigentes de la economía alemana, y de un modo especialmente enconado contra Max Weber.”

Finalmente, en la jerarquía escolástico-católica de Spann no hay lugar ni para el racismo ni para la mística irracionalista del Führer. Spann estuvo muy de moda durante algún tiempo entre todos los oscurantistas alemanes por razón de sus tendencias generales reaccionarias, pero se vio desplazado más tarde por el fascismo hitleriano.”

[la historia de la decadencia es] la historia de la economización… Cuando se viene por tierra un estilo, resulta verdad aquello de que la historia universal es la historia de las luchas de clases” Freyer

La categoría capital es una especificación de la trascendente categoría decadencia, categoría filosófico-cultural-metafísica y sociológica. El capital es la forma de decadencia de la vida económica. El error fundamental en que incurren el marxismo y el propio Marx consiste en considerar la decadencia como una forma del capitalismo, en vez de ver en el capitalismo una forma de la decadencia.” Hugo Fischer, discípulo de Freyer

La filosofía materialista, aunque sea ‘un mito loco’, ‘una especie loca de quiliasmo’ [¿?] ‘es la primera que ha comprendido íntegramente la revolución desde la izquierda’. Pero la revolución no se produjo. El siglo XIX ‘se liquidó a sí mismo’.”

El principio revolucionario inherente a una época no es, por su esencia, una estructura, una ordenación, una construcción, sino simplemente fuerza, explosión, protesta… Pues de lo que se trata, cabalmente, es de que el nuevo principio se atreva a permanecer como la nada activa en la dialéctica del presente, como la pura fuerza del Estado; de otro modo, se verá trabado de la noche a la mañana y jamás se manifestará en su acción” Freyer

En Carl Schmitt se revela todavía con mayor claridad, si cabe, cómo la sociología alemana desemboca en el fascismo. Este autor es un jurista o, mejor dicho, un filósofo y un sociólogo del derecho.”

Esta actitud metodológica, este interés apasionado por la teoría de la dictadura guarda relación, en Schmitt, con el hecho de que se muestra desde el primer momento irreductiblemente hostil frente al sistema weimariano. Al comienzo, esta hostilidad se manifiesta en él como una crítica científica, como la exposición de la crisis de la ideología liberal y, en relación con ello, del sistema parlamentario. Por oposición a Karl Mannheim, quien, como veíamos, identificaba sencillamente el liberalismo y la democracia, Schmitt incorpora a su sistema toda la polémica antidemocrática del siglo XIX, para poner de relieve el irreductible antagonismo entre el liberalismo y la democracia y demostrar cómo la democracia de las masas se convierte necesariamente en la dictadura.”

Así, después de haber sido exterminados implacablemente los partidarios de la ‘segunda revolución’ (1934), Schmitt escribió un estudio titulado El Führer defiende el derecho (Der Führer schützt das Recht), con el que trataba de justificar las formas más descaradas de la arbitrariedad jurídica fascista, abogando resueltamente en pro de la idea de que el Führer era el único llamado a ‘distinguir entre los amigos y los enemigos…’

Es en la guerra donde se contiene el meollo de las cosas. El tipo de la guerra total determina el tipo y la estructura de la totalidad del Estado. Y la guerra total deriva su sentido del enemigo total.”

Como se ve, Schmitt no se limita a apoyar la bestial dictadura hitleriana en el terreno de la política interior, sino que, ya antes de que estalle la segunda Guerra Mundial, durante el período de su preparación, se convierte en el ideólogo jurídico más descollante de los planes de conquista mundial de la Alemania de Hitler.”

De este reparto del mundo que garantizara a Alemania y al Japón sus ‘grandes zonas’ correspondientes, debería arrancar, según Schmitt, el nuevo y más alto estado del derecho internacional, en el que ya no había, como antes, simplemente Estados, sino ‘Imperios’.”

De los profesores alemanes se dijo una vez que eran la guardia de corps espiritual de los Hohenzollern; en este período a que nos referimos, se convirtieron en los S.A. y los S.S. intelectuales.”

CAPÍTULO VII. EL DARWINISMO SOCIAL, EL RACISMO Y EL FASCISMO

Los ideólogos de la nobleza comienzan a defender las desigualdades estamentales entre los hombres con el argumento de que estos privilegios no son sino la expresión jurídica de la desigualdad que la propia naturaleza establece entre las diversas clases de hombres, entre las razas, razón por la cual forman parte de la ‘naturaleza’ misma, contra la que ninguna institución puede atentar sin atentar, al mismo tiempo, contra los más altos valores de la humanidad.”

Ya a comienzos del siglo XVIII escribió el conde de Boulainvilliers (1727) un libro tratando de demostrar que la nobleza francesa era la descendiente de la antigua raza dominante de los francos, al paso que el resto de la población llevaba en sus venas la sangre de los galos sometidos.”

Pero, casi por los mismos años en que se publicaba el libro del citado profesor de Magdeburgo veía la luz una obra llamada a colocar —poco a poco— la idea de la raza en un plano primordial, y no en un país solamente, sino en el mundo entero: el Ensayo sobre la desigualdad de las razas humanas, del francés Gobineau.”

mientras que, aquí, los junkers poseían las posiciones políticas de poder sin que nadie se las disputara, de tal modo que la capitalización de Alemania no podía llevarse a cabo más que sometiéndose a sus intereses, en Francia la reacción del Segundo Imperio trajo una desilusión para los círculos legitimistas-feudales que en los años de la crisis revolucionaria, habían hecho posible la subida al poder de Luis Napoleón, como parte integrante que eran del ‘partido del orden’.”

En sus cartas a Tocqueville, se queja de que los franceses silencian su libro y de que éste no ha alcanzado verdadera influencia más que en los Estados Unidos. Tocqueville, que en lo personal se muestra amigo de Gobineau, pero que rechaza las ideas mantenidas en su obra, hace notar que aquella influencia se debe, sencillamente, a que el libro favorece los intereses de los esclavistas del Sur.”

Lo que quiere decir que, en las condiciones del siglo XIX y XX, la teoría racista sólo puede hacerse revivir eficazmente siempre y cuando que se la convierta en un arma ideológica puesta en manos de la burguesía reaccionaria. También la teoría racista, desde Gobineau hasta Rosenberg, hubo de seguir la misma trayectoria de aburguesamiento por la que, según hemos visto, pasó el irracionalismo filosófico general, partiendo de Schelling y pasando por Schopenhauer, Nietzsche, etc.”

El activismo de la teoría racista posterior brota, por tanto, de la misma raíz pesimista, anti-evolucionista, que en Gobineau. Lo que ocurre es que la desesperación fatalista deja el puesto a un activismo aventurero y desesperado.”

La vieja teoría racista no puede ser más simple, y hasta podría afirmarse que apenas es una teoría; parte del hecho de que todo el mundo sabe quién es aristócrata. El aristócrata, por serlo, pertenece a la raza pura y desciende de una raza superior (de los francos, por ejemplo, en contraposición a los celtas plebeyos de las Galias). La teoría racista moderna no puede mantener ya, a la vista del desarrollo de la ciencia, estas posiciones tan simples. Se ve obligada a hacer un repliegue táctico. Hoy, es un hecho generalmente conocido de la ciencia que no hay ni ha habido nunca (por lo menos, en los tiempos históricos) una sola raza pura. Y asimismo sabe y reconoce ya hoy todo el mundo que las características objetivas para distinguir unas de otras las diversas razas forman un número extraordinariamente limitado y que, además, estos criterios fallan totalmente cuando se trata de la determinación racial de un pueblo histórico, de una nación, y no digamos de un individuo.”

Chamberlain, que por lo demás toma mucho de Gobineau sin decirlo, rechaza categóricamente la obra de este autor, a quien echa en cara no tener ni la más remota idea de lo que es la ciencia natural. He aquí las palabras de Chamberlain: ‘Una teoría de la raza realmente útil y digna de ser tomada en serio no puede construirse sobre las fábulas de Sem, Cam y Jafet ni sobre una serie de intuiciones, por muy ingeniosas que ellas sean, mezcladas con hipótesis absurdas, sino solamente sobre los conocimientos extensos y a fondo que nos suministran las ciencias naturales.’

El negro posee . . . en grado muy alto aquellas dotes sensuales sin las que el arte sería inconcebible. Pero, de otra parte, la carencia de dotes espirituales lo incapacita para el refinamiento de las artes… Para que aquellos talentos puedan dar frutos, necesita mezclarse con una raza dotada de otro modo.”

por un lado, Gobineau sostiene que el cristianismo constituye la manifestación más alta de la cultura y que todos los hombres, cualquiera que sea la raza a que pertenezcan, son capaces de participar de esta cultura superior, mientras que, por otro lado y al mismo tiempo, sostiene que las razas inferiores no son, por principio, susceptibles de abrazar la civilización, y sólo sirven para trabajar como esclavos, como máquinas animadas, como bestias de tiro, al servicio de las razas superiores.”

Las diferencias en cuanto a las fases de cultura no significan ya, para las teorías raciales, etapas de desarrollo recorridas sucesivamente por el mismo pueblo y la misma sociedad, sino que cada una de estas fases se equipara a determinadas razas y se entrelaza con ellas de un modo perenne, metafísico. Ciertas razas son siempre bárbaras, mientras que otras no han pasado jamás por la fase del salvajismo o la barbarie. Así, para Gobineau, el paso de la edad de piedra a la edad de bronce significa, sencillamente, un cambio de razas.”

Gobineau afirma que las razas blancas pelearon desde el primer momento contra sus enemigos con carros de guerra y que conocieron desde el primer día la elaboración de los metales, de la madera y del cuero. ‘Las razas blancas primitivas sabían tejer telas para vestirse. Vivían en grandes aldeas, adornadas con pirámides, obeliscos y túmulos de tierra o piedras. Domaron el caballo… Sus riquezas consistían en copiosos rebaños de toros y vacas.’

Pasa cerca de medio siglo antes de que la nueva teoría racista encuentre en Chamberlain un teórico tan descollante como la antigua, al declinar, lo había encontrado en Gobineau.”

Por lo demás, te diré que Darwin, a quien estoy leyendo, es verdaderamente magnífico. La teleología, que aún no había sido destruida en uno de sus aspectos, cae ahora por tierra. Además, jamás habíamos asistido a un intento tan grandioso de demostrar el desarrollo histórico en la naturaleza, o, por lo menos, con tanto éxito.” Engels a Marx

Aunque desarrollado en un tosco inglés, es éste el libro en que se contienen los fundamentos de nuestra concepción en el terreno de la historia natural.” O sempre mais esperto Marx, a Engels.

No son las doctrinas de Buda, ni las palabras de Cristo, ni los ‘principios’ de la Revolución francesa las que resuenan por sobre el estrépito de las luchas de los pueblos; el grito que aquí se escucha es este otro: ¡Aquí los arios, aquí los semitas, aquí los mongoles, aquí los europeos, aquí los asiáticos, aquí los blancos, aquí la gente de color, aquí los cristianos, aquí los musulmanes, aquí los germanos, aquí los latinos, aquí los eslavos! Y así sucesivamente, en mil variaciones distintas. Bajo estos gritos de batalla se hace la historia, se derrama a torrentes la sangre de los hombres, para que se cumpla una ley natural histórico-universal que todavía estamos muy lejos de haber llegado a conocer.” Gumplowicz

De cuán triste papel hacen todas esas mediciones de cráneos de los antropólogos y otras cosas por el estilo ha podido convencerse todo el que haya tratado ir a buscar a semejantes investigaciones elementos de juicio acerca de los diferentes tipos de la humanidad. Todo aparece, aquí, revuelto y confuso, y las cifras y ‘medidas medias’ no acusan ningún resultado tangible. Lo que un antropólogo considera como el tipo germánico encaja, según otro, en el tipo eslavo. Hay entre los ‘arios’ tipos mongoles, y a cada momento se expone uno, siguiendo los criterios ‘antropológicos’, a confundir a los ‘arios’ con los semitas, y viceversa.”

Los jefes de la revolución eran casi todos ellos germanos. . . La revolución elevó al Poder simplemente a otra capa de la raza germánica. Sería un error creer que en Francia fue a parar el poder a manos del ‘tercer estado’. Sólo subió al poder la burguesía, es decir, la capa germánica alta de los burgueses, del mismo modo que en el movimiento obrero actual, considerado desde el punto de vista antropológico, se abren paso, simplemente, hacia el poder y la libertad, las capas germánicas superiores de la clase obrera.” Woltmann

Estas vacilaciones e inconsecuencias hicieron de la teoría racista de Woltmann un episodio puramente pasajero, aunque muchas de sus sugestiones habrían de ser recogidas más tarde por el fascismo.”

Todos los elementos primigenios arios y germánicos que dormitaban en mí, poderosamente sedimentados y que iban abriéndose paso, poco a poco, en dura lucha, se revelaban abiertamente contra lo ‘tradicional’, manifestándose no pocas veces bajo formas muy peregrinas, con frecuencia de un modo informe, ya que apenas se trataba más que de oscuras intuiciones, a veces agitándose inconscientemente dentro de mí y pugnando por encontrar un camino. Hasta que llega usted y, con un golpe de su varita mágica, pone orden en el caos y hace luz en las tinieblas; metas por las que hay que luchar y trabajar; esclarecimiento de los caminos antes vagamente intuidos que deben seguirse, en bien de los alemanes y, por ello mismo, en bien de la humanidad.” Carta do imperador Guilherme II a Chamberlain

Mi fe en la causa alemana no había decaído jamás, aunque sí debo reconocer que mi esperanza había sufrido una depresión profunda. Mi estado de ánimo se siente ahora renacer, de pronto, gracias a usted. El hecho de que Alemania haya podido engendrar, en la hora de máximo peligro, un Hitler, es una prueba de su vitalidad; y lo mismo las consecuencias que de él emanan, pues ambas cosas, la personalidad y las consecuencias, forman una unidad. ¡Y qué maravillosa confirmación de esto el hecho de que el grandioso Ludendorff se adhiera abiertamente a usted y abrace el movimiento que usted encabeza!” Carta de Chamberlain a Hitler, 1923

Lagarde sostenía que todo el Antiguo Testamento debiera eliminarse de la doctrina cristiana, ya que, según él, ‘su influencia ha hecho fracasar el Evangelio, en cuanto ello era posible.’

La posesión de la ‘raza’ tiene una fuerza de convicción inmediata como ninguna otra cosa, en la propia conciencia. Quien pertenezca a una raza marcadamente pura, lo sentirá cotidianamente.”

(Y no resulta difícil darse cuenta de cuán íntimos son los contactos entre las tendencias metodológicas de Chamberlain y Nietzsche, de una parte, y de otra, la teoría de la intuición de la ‘psicología descriptiva’ diltheyana y de la ‘eidética’ fenomenológica.)”

Aristóteles se limitó a sustituir un mito por otro. … sencillamente porque ninguna concepción del mundo puede arreglárselas sin mitos, los cuales no son simplemente un recurso para salir del paso y llenar lagunas, aquí y allá, sino el elemento fundamental, que lo informa todo.”

los filósofos indios sabían exactamente que sus mitos eran mitos.” “Kant es el primero que infunde al hombre la conciencia de sus propias creaciones de mitos.” Mitos perdem sua eficácia numa idade em que o homem os pensa como involuntários, herdados, e não autocriados.

lo que Max Weber había hecho con muchas reservas, lo hace ahora sin el menor escrúpulo Chamberlain, como antes de él lo hiciera Nietzsche: crea el mito, como el terreno en que pueden brotar de un modo natural las respuestas que se buscan.”

La línea chamberlainiana de la ‘auténtica’ religión ario-germánica va de la antigua India a Cristo y de Cristo a Kant. La antigua India, antes de hundirse por la mezcla de razas, tenía, en este respecto, una situación mucho más favorable: ‘La religión era allí, a la par, la portadora de la ciencia . . .; entre nosotros, por el contrario, toda auténtica ciencia se ha hallado siempre en lucha con la religión.’

Esta mentira, que envenena la vida del individuo y de la sociedad. . ., proviene solamente del hecho de que nosotros, los indoeuropeos. . ., nos hemos humillado hasta el punto de aceptar la historia judía como el fundamento y la magia sirio-egipcia como el remate de nuestra supuesta ‘religión’.”

Nadie podría probar que el predominio del germanismo represente una dicha para todos los habitantes de la tierra; desde el primer momento y hasta el día de hoy, vemos a los germanos pasar a cuchillo tribus y pueblos enteros… para poder ensancharse en el mundo.”

Talvez o mais perigoso seja não olhar no fundo de abismo algum, por covardia, e fugir sempre do inexorável niilismo, sendo desonesto, escapando sempre do confronto consigo mesmo.

La gran hazaña del Cristo ario, del cristianismo, vióse ya completamente desfigurada por el semijudío Pablo, y sobre todo por Agustín, el hijo del caos de los pueblos. Surge así en la Iglesia romana, como paralelo y antítesis del materialismo abstracto de los judíos, un ‘materialismo mágico’, tan peligroso para la propia y específica concepción germánica del mundo como el otro.”

E MORREU: “Lo que se ventila en esta lucha, según Chamberlain, es la dominación del mundo o la muerte: la Alemania que él se representa sólo puede ser un Estado imperialista agresivo: ‘o domina el mundo. . . o desaparece del mapa; se trata de vencer o de morir’.”

Las viejas formas y las viejas consignas (‘Por Dios, por el Rey y por la Patria’; ‘La esencia alemana curará al mundo’; hay que plegarse a la ortodoxia protestante, etc.) se mantienen en pie hasta en plena República de Weimar y conservan su fuerza en determinados círculos, cuantitativamente limitados, de la pequeña burguesía.”

La ‘nación’ es una expresión política de la democracia y del liberalismo. Tenemos que desembarazarnos de esta falsa construcción y sustituirla por la concepción de la raza, que aún no está desgastada políticamente. … Yo sé perfectamente… que, científicamente hablando, no existe tal cosa… Lo que ocurre es que, como político, necesito una idea que permita acabar con los fundamentos históricos anteriores, para implantar en vez de ellos un orden antihistórico completamente nuevo y dar a este orden una base intelectual” Hitler

No. Si los suprimiéramos, tendríamos que volver a inventarlos. Es importante tener siempre delante un enemigo visible, corpóreo, y no simplemente abstracto.” Hitler, sobre se realmente exterminaría todos os judeus

La ‘originalidad’ de Hitler consiste en haber sido el primero a quien se le ocurrió aplicar la técnica de la publicidad norteamericana a la política y la propaganda alemanas.”

Todo intento de concebir el hitlerismo como la renovación de cualquier vieja barbarie pasa por alto los que constituyen precisamente los rasgos esenciales específicos y decisivos del fascismo alemán.” Algo muito técnico e essencialmente novo.

Hitler y Rosenberg toman de Chamberlain tres puntos de vista fundamentales: en primer lugar, el concepto del caos de pueblos y de la lucha en contra de él; en segundo lugar, la capacidad de regeneración de las razas, y, en tercer lugar, la teoría racista como un sustitutivo de la religión a tono con los nuevos tiempos.”

Ya en Chamberlain vemos que los judíos son los portadores de la funesta idea de la igualdad. Ahora, se equiparan el capitalismo y el socialismo como emanaciones de esta perniciosa idea y contra ambos se dirigen los tiros, como los exponentes actuales del caos de los pueblos.”

como el socialismo trata de vencer al capitalismo en un camino reservado al futuro, es decir, progresivamente, en la línea de un desarrollo superior de las fuerzas productivas, problemas que estos ideólogos sólo enfocan desde el punto de vista de la técnica y, cuando mucho, en el plano de la división del trabajo, fácilmente se llega por aquí a la identificación del capitalismo (rechazado) y el socialismo.”

Uno de los primeros que formuló esta identificación, y de un modo impresionante por cierto, fue Dostoyevski (en su obra De entre las sombras de una gran ciudad). [¿??] Y, en el campo filosófico, también Nietzsche hubo de proclamar con mucha eficiencia esta idea, al englobar bajo el nombre de democracia todo lo que había de reprobable en el capitalismo.”

La autoridad arracial reclama la anarquía de la libertad. Roma y el jacobinismo, bajo sus formas antiguas y en sus manifestaciones posteriores más puras, en Babeuf y en Lenin, se condicionan, en su interior, mutuamente.” Rosenberg

apenas se la puede considerar ya como un Estado europeo, pues es más bien, hoy, una prolongación del África, gobernada por judíos” Sobre a França.

Quando a Alemanha pensava ainda em estabelecer uma união de potências européias contra a União Soviética: “de pronto, la Francia a la que quería atraerse como aliado circunstancial había dejado de ser un país ‘bastardeado’ para convertirse en un país de campesinos, cuyo rasgo fundamental y decisivo era ‘la adoración de la tierra’, es decir, algo francamente positivo, a los ojos de la ‘concepción del mundo nacionalsocialista’.”

Cuando se propaga la teoría racista en los grandes mítines, es conveniente operar con las características raciales ‘exactas’, discernibles por los sentidos y fácilmente comprensibles. En cambio, para el aparato gubernamental del despotismo fascista, el criterio más indicado, precisamente por ser el más arbitrario, es aquel criterio ‘interior’, señalado por Krieck.”

Rosenberg afirma que en Alemania existen, por lo menos, cinco razas, pero que sólo ‘la raza nórdica’ es la que ‘da auténticos frutos culturales’.”

La concepción hitleriana del Führer es, sencillamente, la variante modernizada y plebiscitaria de la vieja concepción prusiana del rey, de la teoría del ‘gobierno personal’ del monarca, responsable de sus actos solamente ante Dios.”

Toda verdadera decisión se halla en manos del Führer; y si éste decide de otro modo que como se expone en esta obra —de carácter oficial— no es que el nacionalsocialismo haya cambiado de manera de pensar, sino que los autores no han sabido interpretar bien la verdadera posición nacionalsocialista ante estos problemas concretos.”

La brutalidad inspira respeto… El hombre común y corriente de la calle sólo respeta la fuerza brutal y la falta de conciencia. . . El pueblo necesita ser mantenido en un saludable temor. Desea temer a algo. . . ¿Por qué murmurar acerca de la brutalidad e indignarse ante las torturas? Las masas lo desean. Desean algo que les infunda el escalofrío del pánico.” Hitler

Tanto da que el suicidio del criminal contra el mundo, de Hitler, se interprete o no como una capitulación. Lo que sí puede asegurarse es que el año 1945 no ha sido un nuevo 1918. El derrumbamiento de la Alemania hitleriana no es una simple derrota, por muy grave que ella sea, un simple cambio de sistema, sino el final de toda una trayectoria. Ha venido a dar al traste con la falsa instauración de la unidad alemana que comenzó inmediatamente después de derrotada la revolución de 1848, para consumarse en 1870-71, y replantea en términos completamente nuevos este problema central de la nación alemana. Más aún, puede afirmarse que toda la historia frustrada de Alemania se pone ahora a revisión. Un hombre que tenía tan poco de extremista radical como Alejandro de Humboldt lo decía ya hace unos cien años: Alemania equivocó su camino con la derrota de la guerra de los campesinos; y a ella hay que retrotraerse para encontrar el rumbo certero; lo que ha sucedido de entonces acá ha sido una consecuencia necesaria.”

Hitler, como el realizador práctico del irracionalismo, fue el ejecutor testamentario de Nietzsche y de toda la trayectoria filosófica posterior a él y que arranca de él.”

Tras Pushkin y Gogol, vienen los grandes teóricos democrático-revolucionarios, Belinski y Herzen, Chernichevski y Dobroliubov. La obra de estos pensadores hizo posible que el país de Tolstoi pudiera asimilarse, incorporándolo también a la propia cultura nacional, el pensamiento de Lenin y Stalin, como grandes figuras fecundadoras y señaladoras de caminos. Para los rusos, el socialismo y la compenetración con la propia cultura nacional representa una unidad orgánica, y no un doloroso antagonismo, como para tantos y tantos entre los mejores alemanes del siglo pasado.” Porém a decadência da intelligentsia russa será de ordem similar à alemã.

EPÍLOGO. SOBRE EL IRRACIONALISMO EN LA POSGUERRA

el final de la guerra no ha sido sino la preparación de otra contra la Unión Soviética y la acción ideológica sobre las masas, con vistas a esta guerra, es un problema capital para el mundo imperialista.”

La coalición antifascista se desmorona rápidamente, y las potencias ‘democráticas’ se entregan con energía cada vez mayor a la ‘cruzada’ contra el comunismo, recogiendo sin pérdida de momento la bandera central de la propaganda hitleriana.”

la apariencia de seguir luchando contra el ‘totalitarismo’, pero englobando ahora bajo este nombre el fascismo y el comunismo, a los que se considera como la misma y única cosa.” Né, Hannah Arendt?

Después de la victoria del socialismo en las democracias populares del centro de Europa y en China y a la vista del auge de los poderosos partidos comunistas de masas, sobre todo en Francia y en Italia, es natural que todo grupo del capitalismo monopolista considere una aventura demasiado temeraria el lanzar de nuevo la consigna de ‘otro’ socialismo, como maniobra para desviar del comunismo a las masas.”

La energía cinética de un país es la organización, el esfuerzo concentrado; el fascismo, como ustedes lo llaman. El plan del fascismo es, bien considerada la cosa, mucho más sano que el del comunismo, ya que se basa reciamente en la verdadera naturaleza del hombre; lo que ocurre es que se ha puesto en marcha en un país poco apto para ello, que no posee bastante verdadero poder potencial para desarrollarse íntegramente. En Alemania, que adolece de una escasez fundamental de recursos naturales, tenían que producirse necesariamente excesos, pero la idea y el plan eran buenos… En el siglo pasado, todo el proceso histórico fue desarrollándose en el sentido de crear concentraciones de poder cada vez mayores. El siglo en que vivimos alumbra nuevas fuentes de energía física y trae consigo la expansión de nuestro universo, las fuerzas políticas y la organización necesarias para hacer posible esto, por vez primera. Por primera vez en nuestra historia tienen los poderosos hombres de Norteamérica, os lo aseguro, la conciencia de sus verdaderas metas. Fíjese usted bien: después de la guerra, nuestra política exterior será mucho más descarnada y menos hipócrita que antes.” General Cummings, personagem fictício de Mailer

El degaulista Raymond Aron señala en algún lugar, deplorándola profundamente, la ineficacia de la propaganda norteamericana entre la intelectualidad francesa e incluso la actitud hostil de ésta frente a ella, aduciendo como razón la de que ‘para la mayoría de los intelectuales europeos, el anticapitalismo es mucho más que una simple teoría económica: es un artículo de fe’.”

Es perfectamente natural, a tono con esto, que también en la filosofía predomine, no ya el tipo alemán del irracionalismo, sino el tipo machista pragmático. Toda la semántica de los Estados Unidos, el neomachismo de Wittgenstein y Carnap y el desarrollo ulterior del pragmatismo por Dewey se hallan determinados en su integridad, socialmente, por este cambio de rumbo.”

Se mantiene en pie, intacta, la vieja postura machista de la ‘rigurosa cientificidad’, pero, a la par con ella, se acentúa el alejamiento de la realidad objetiva, llevándolo hasta mucho más allá de los límites anteriores. La misión de la filosofía no consiste ya en un ‘análisis de las sensaciones’, sino simplemente en el del significado de las palabras y la estructura de las frases.”

El marxista inglés Cornforth muestra muy claramente esto; he aquí las palabras por él citadas del libro de Barrows Dunham, Man against Myth: ‘Vemos, pues, claramente, que no existen perros en general, que no existe el género humano, ni el sistema de ganancias, ni partidos, ni fascismo, ni gentes desnutridas, ni vestidos hechos de harapos, ni verdad, ni justicia social. Y, así las cosas, no existe un problema económico, ni un problema político, ni un problema del fascismo, ni un problema alimenticio, ni un problema social… En un abrir y cerrar de ojos —concluye—, estos filósofos borran del mundo, como por ensalmo, todos los problemas importantes que han torturado al género humano a todo lo largo de la historia de la humanidad.’

Heidegger, Sartre, Kafka y Camus nos permiten todavía seguir viviendo con la confianza puesta en la existencia de un mundo. La ruptura proclamada por ellos, por muy espantosa que resulte, no es todavía una ruptura radical. El suelo sobre el que pisan todavía se sostiene. El terremoto que nos estremece reduce a escombros nuestras antiguas moradas, pero también entre las ruinas se puede seguir viviendo, y se puede reconstruir lo destruido. Wittgenstein, en cambio, nos deja, después de estas tristes pérdidas, en la más completa orfandad. Pues si con las ruinas desaparece el suelo sobre el que descansan y con el árbol derribado toda su raigambre, ya no tendremos nada sobre que apoyamos, ya no podremos reclinarnos siquiera contra la nada o hacer frente, con claridad de espíritu, al absurdo, sino que tendremos que desaparecer totalmente.” Ferrater Mora

La victoriosa resistencia del Ejército soviético frente a la potencia militar más fuerte del mundo y su victoria aplastante sobre Hitler, las gigantescas obras pacíficas del período de posguerra, la capacidad de la U.R.S.S. de producir también bombas atómicas, etc., etc., ponen de manifiesto irrefutablemente ante el mundo entero el alto nivel económico y técnico de la economía socialista y su curva de desarrollo sin cesar ascendente.”

Nada revela mejor que la polémica mantenida entre Camus y Sartre cuán profundamente ha calado el ‘principio Krawtschenko’¹ en las discusiones filosóficas que podrían parecer más abstractas. El último libro de Camus fue analizado en una crítica muy severa, pero objetiva, de Francis Jeanson, publicada en la revista de Sartre. Camus escribió una respuesta llena de encono, en la que se rehuyen todas las argumentaciones sustanciales, principalmente en torno al problema de la historicidad, sobre el que volveremos brevemente más adelante, para colocar en el centro de un debate filosófico la cuestión Krawtschenko y el tema de los campos de trabajo punitivo en la Unión Soviética; y esto, en una polémica sobre Hegel y Marx, sobre la revolución, sobre la necesidad histórica y la libertad del individuo. En su réplica, Sartre se niega, y con razón, a entrar en los dislates demagógicos de Camus. Refuta serenamente sus argumentos, y se contenta, en este punto, con desenmascarar la mala fe moral de Camus y de sus congéneres. ‘Hablemos en serio, Camus —le dice—, y dígame usted, por favor, qué sentimientos suscitan las revelaciones de Rousset en un anticomunista. ¿Son, acaso, sentimientos de desesperación o de amargura? ¿Es un sentimiento de vergüenza de ser hombre? ¡Nada de eso!… La única sensación que esa clase de informaciones despiertan en él —trabajo me cuesta decirlo— es la de alegría. Alegría de tener, por fin, en la mano la deseada prueba, de tener ante los ojos lo que se deseaba ver.’

¹ “Victor Kravchenko was a Soviet official who defected to the West in 1944 and published the book I Chose Freedom, detailing the horrors of Soviet life, forced collectivization, and the Gulag system. His personal account was seen as a powerful indictment of Stalinism.”

El más conocido y eficiente intento de encontrar una base teórica nueva y más sugestiva mediante el cambio de rumbo hacia la apologética indirecta tan eficazmente manejada por Hitler y sus ideólogos es The Managerial revolution de Burnham. (…) Burnham no trata de negar las contradicciones del capitalismo monopolista, ni pretende siquiera tomarlas a la ligera, como un ‘obstáculo’ fácil de vencer. Por el contrario, toma estas contradicciones, exactamente lo mismo que Hitler, como punto de partida y, a base de su análisis, se esfuerza por ofrecernos una nueva y sugestiva perspectiva demagógico-social. Como se trata de un renegado trotskista, le resulta muy fácil operar con la equiparación del bolchevismo y el fascismo. Y a esto hay que añadir un complemento tomado directamente de la tecnocracia (y que, en germen, se contenía ya en Thorstein Veblen): el que consiste en sostener que también bajo el capitalismo normal se opera un proceso análogo, a saber: que los propios capitalistas, poseedores legales de los medios de producción, van alejándose cada vez más de ésta, participan cada vez menos activamente en su dirección, para ir dejando el puesto a los altos funcionarios o gerentes, a los managers de Burnham.”

Burnham, como en su día el hoy convertido en clásico Malthus, no sólo es un sicofante sin escrúpulos, sino que es, además, un descarado saqueador de la literatura económica caída en el olvido.”

Por muy cínico que fuera Hitler —y lo era mucho— como jefe de propaganda y máximo verdugo del capitalismo monopolista, podía contar con que la predicación de su mito arrastraría tras sí a las masas desesperadas. ¿Pero, qué podía esperar de su mito Burnham? La apologética indirecta del capitalismo monopolista, como cuyo profeta actúa, sólo puede conducir, en el mejor de los casos, a una ‘circulación de la élite’ (Pareto).”

Es cierto que, en los últimos años, hemos tenido ocasión de ver y de vivir muchas cosas; hemos podido conocer, entre otras, las conversaciones de Hitler con Rauschning. Pero el libro de Burnham rebasa todas las medidas: es algo así como si Rosenberg hubiese puesto como apéndice a su Mito del siglo XX, a manera de comentario explicativo, el texto de aquellas conversaciones. Burnham, como profeta de la nueva apologética indirecta, es, por así decirlo, su propio Rauschning.” Burnham defende que a casta dirigente deve se dirigir à massa dizendo que <age no interesse das massas>, quando na verdade age no interesse evidente de manter-se a si mesma no poder.

Burnham, en cambio, se contenta con la receta cínicamente esbozada de una ideología eficaz, dando como pretexto de ello el que la ‘ciencia’ mantenida por él es demasiado buena para fabricar ideologías.”

El reproche que Burnham hace a los tecnócratas cuando les dice que han pregonado demasiado abiertamente sus fines se le puede aplicar, por tanto, a él mismo.”

los ideólogos del imperialismo norteamericano, y sobre todo Burnham, no consideran en primer término a la Unión Soviética como la potencia política rival de los Estados Unidos —pues ellos mismos se ven, con frecuencia, como hemos dicho, obligados a reconocer que no existe, en modo alguno, por parte de la Unión Soviética, semejante rivalidad estatal en torno a la hegemonía sobre el mundo—, sino que el verdadero peligro reside, para ellos, en la difusión del comunismo, en que ven en éste, y no en el Estado socialista, su verdadero adversario.”

En su día, Hitler incurrió en el error de confundir a sus Quislings con los pueblos; hoy, muchos ideólogos de la apologética directa confunden a los pueblos con las ‘quintas columnas’. La razón es en ambos casos la misma: el desprecio que se siente por las masas y, por tanto, la miopía o la ceguera que impide ver la voluntad real de éstas.”

el aparato de propaganda del Vaticano se halla tan estrechamente vinculado a la ‘Voz de América’ como la Banca di Santo Spirito a Wallstreet.”

El llamado agnosticismo de una parte de la intelectualidad ‘petulante’ (highbrow) fue siempre algo bastante innocuo, si se lo compara con las crisis ideológicas europeas.”

Esta actitud [de agnosticismo religioso] la encontramos sostenida con un cinismo verdaderamente insólito por Aldous Huxley, quien en los últimos tiempos se ha convertido en un profeta de la mística; no cree, por supuesto, ni remotamente, en lo que es el verdadero meollo de cualquier mística auténtica, en la unión mística con Dios, pero añade: ‘Ello no menoscaba en lo más mínimo el valor de la mística como el camino hacia la salud del alma. Nadie sostendría que la gimnasia sueca o el limpiarse los dientes sean el camino que lleva directamente a Dios. Pero cuando adquirimos el hábito de estos ejercicios físicos o del empleo de un dentífrico, lo hacemos en gracia a la salud. Por la misma razón debemos convertir en un hábito la mística y la virtud moral.’

para pensadores como Russell la muerte de la humanidad es una perspectiva más soportable que la del triunfo del régimen socialista.”

Toynbee es, en todos los problemas fundamentales, un simple epígono de la filosofía de la vida, de Spengler. Todas sus concepciones esenciales: su actitud en contra de la unidad de la historia, la equiparación valorativa de todas las civilizaciones, la explicación del progreso como una ilusión, etc., están tomadas de aquél. Su llamada originalidad se manifiesta solamente en detalles puramente secundarios, pues la diferencia entre el número de ‘ciclos culturales’ de estos construidos por uno u otro autor —tan arbitrariamente por el uno como por el otro— es una diferencia tan poco real como la que, según la frase de Lenin, puede mediar entre un diablo rojo y un diablo amarillo; es decir, una diferencia que pesa bien poco.”

Koestler. Este recibió, después de publicar una de sus novelas anticomunistas, una serie de cartas de estudiantes, de entre las que Rougemont entresaca las siguientes significativas palabras: ‘Creo que pinta usted muy bien lo que es el stalinismo. Tan bien, que voy a darme de alta [registrar-se] en el Partido Comunista, pues una disciplina así es la que yo he buscado siempre.’

Si éste fuese un problema puramente estético, no tendríamos por qué ocuparnos de él aquí. Pero, ¿acaso es una pura coincidencia que Paul Ernst acabase su carrera de escritor en las filas de Hitler, que Ortega y Gasset, como apóstol principal contra la ‘rebelión de las masas’, se convirtiera en el típico antidemócrata de nuestros días, o que Malraux pasara a ser el Goebbels del degaullismo?”

Cuando se desenmascara públicamente uno de estos casos de corrupción, se revela que había desde hacía mucho tiempo gran número de gentes iniciadas en el secreto, pero que tenían sus razones para callarse. Pero los ‘enlaces transversales’ con el mundo gangsteril tienen, además, la ventaja ‘política’ de que, en casos difíciles, se cuenta siempre con organizaciones terroristas dispuestas a intimidar y, si necesario fuere, a eliminar a los elementos molestos. En tiempos ‘normales’ de paz, se dispone, así, de una reserva para lo que en guerra queda encuadrado en la disciplina militar.”

Ya conocíamos, del periodo que medió entre las dos guerras, la actividad internacional de propaganda y provocación de Trotski, de donde salieron los diferentes Eastmans, Doriots, etc.. Pero, hoy, no sólo se coloca ante las candilejas de la publicidad a los vulgares agentes de la policía por el estilo de Krawtschenko, Ruth Fischer y otros, sino que incluso los más festejados escritores, como Dos Passos, Silone, Koestler, Malraux, políticos descollantes como Ernst Reuter, publicistas como Burnham, y así sucesivamente, proceden del campo de los renegados del comunismo.”

Al parecer, el estudio del marxismo, por muy superficial que sea, aventaja con mucho a la más concienzuda cultura universitaria burguesa, sobre todo en los campos de la economía y la política. Pues hay que decir que la inmensa mayoría de los renegados que han llegado a hacerse famosos sólo se han acercado momentáneamente a la periferia del movimiento comunista. Como consigna otro renegado, Borkenau, solamente Silone y Reuter habían llegado a ser funcionarios responsables del Partido Comunista. (No vale la pena entrar aquí en las diferencias en cuanto a los talentos, si bien Silone, por ejemplo, era en su época de comunista un realista digno de ser tomado en consideración, mientras que Koestler, en sus célebres novelas psicológico-sociológicas por entregas, sigue siendo el mismo periodista superficial de los primeros días, etc., etc.)”

A esto hay que añadir la ‘autenticidad’ de sus revelaciones acerca del comunismo, cuyo valor de propaganda aprecian los imperialistas sin pararse a pensar si el renegado en cuestión, por su posición puramente periférica en el movimiento, está realmente en condiciones de hallarse informado acerca de éste. Como la propaganda anticomunista ha descendido, según hemos dicho, al bajo nivel de los Krawtschenko, toda mentira y toda calumnia son buenas para ella, aunque aparezcan aderezadas de la manera más burda.”

El verdadero ex-comunista —afirma Crossman— ya no puede volver a ser nunca una personalidad coherente.”

Un cine tan altamente desarrollado como el italiano y el francés tiene que librar, en sus propios países, una lucha desesperada por la existencia contra la sucia competencia de los Estados Unidos, protegida por el Estado.”

¿cuál es el no conformismo que prácticamente se consiente en el ‘mundo libre’? Sartre, por ejemplo, fue un héroe de la ‘libertad de pensamiento’ mientras empleó su pluma contra el comunismo; desde que, en 1952, tomó parte en el Congreso de los Pueblos por la Paz, celebrado en Viena, se ha convertido en un sujeto despreciable para el ‘mundo libre’. A la pregunta de ¿conforme con quién y con qué?, el ‘mundo libre’ da una respuesta categórica: se puede (y se debe) profesar audazmente su ‘no conformismo’ manifestándose, en los Estados Unidos, en la Alemania de Adenauer, etc., en contra de la Unión Soviética y en contra del socialismo. Hay, incluso, libertad para emplear, al hacerlo, toda suerte de argumentos, los que se desee. Pero siempre y cuando que se marche de acuerdo con el capitalismo monopolista y con su política imperialista de agresión: sólo quienes estén conformes con esto son reconocidos y respetados como ‘no conformistas’ que marchan por el camino derecho.”

ya hemos visto cuán cerca se halla, por ejemplo considerada la cosa desde este punto de vista, un Wittgenstein de un Heidegger, a pesar de no mediar entre ellos ninguna clase de influencias mutuas. Y exactamente lo mismo ocurre en el campo de la ética, en el de la historiografía, en la posición ante la sociedad y en la estética. Y, naturalmente, también en el propio campo de la literatura y el arte.”

El coito entre Eneas y Dido no se diferencia gran cosa de la unión carnal entre Romeo y Julieta; en cambio ¡qué individualidades tan auténticas e imperecederas crean las diferencias entre los sentimientos amorosos de una y otra pareja, condicionados por las diferencias sociales y culturales!”

El margen de la libertad de movimientos es, en este mundo, cada vez más estrecho, y el contenido prescrito y que se obliga a proclamar, cada vez más pobre y más mentiroso. Parece increíble, pero es verdad. La ideología de la guerra fría ha traído consigo un descenso del nivel, incluso con respecto a Hitler. Para convencerse de ello, no hay más que comparar a un Hans Grimm con un Koestler, o a un Rosenberg con un Burnham.”

Huelga decir que también en la Alemania occidental encontramos todas estas tendencias que hasta aquí hemos venido esbozando y que se dan, sobre todo, en la ideología dominante en los Estados Unidos. Con determinadas variaciones, naturalmente, en las que vale la pena detenerse un poco, dado el papel tan importante y tan actual que Alemania está llamada a desempeñar en el mundo de hoy.”

Donde aparece más sencilla la situación es en aquellos que, si bien, objetivamente, en lo ideológico, por haber llevado al extremo el irracionalismo, prepararon espiritualmente el camino a Hitler y disfrutaron bajo su régimen de una vida asegurada y tranquila, no participaron, sin embargo, directamente —por su propia voluntad o por razones personales de otro orden— ni en el régimen ni en el movimiento hitlerianos.

Representante típico de esta categoría de ideólogos es, sobre todo, Jaspers. Todavía hoy se hace valer el principio de su filosofía, tan viejo y tan acreditado: compartir plenamente, en cuanto al contenido, las tendencias reaccionarias de moda, pero procurando, al mismo tiempo, adaptarlas al tibio y moderado ‘justo medio’ de los salones de la pequeña-burguesía intelectual. Fiel a esta norma, Jaspers fue existencialista, irracionalista, kierkegaardiano y nietzscheano, sin que nadie, por tanto, bajo Hitler, tuviera nada que reprocharle. Pero ahora, después de la caída de Hitler, Jaspers descubre, de pronto, la razón.”

Lo destructor es lo creador. Evoco la nada, y tengo delante de mí el ser. No es, en realidad, tanto en los conceptos como en los actos, más que la repetición de la magia, disfrazada de seudociencia. Y a la magia corresponde también, en los marxistas, la afirmación de poseer un saber superior.” J.

Fuera de esto, es la misma argumentación que Dühring empleara hace ¾ de siglo y cuya refutación puede encontrar cualquiera, sin tomarse grandes molestias, en el Anti-Dühring de Engels. Lo que ocurre es que Jaspers ignora el Abc del marxismo, y refuta triunfalmente lo que no son más que fantasmas creados por él mismo.”

El mito es, pues, el lenguaje inexcusable de la verdad trascendente. La creación del auténtico mito es el verdadero esclarecimiento. Este mito alberga dentro de sí la razón y se halla bajo el control de la razón. Por medio del mito, por medio del símbolo y la imagen, adquirimos nuestra conciencia más profunda del límite.”

Lo que, de este modo, entiende Jaspers por filosofía de la razón es, sencillamente, el viejo irracionalismo, bajo un ropaje acomodado a las necesidades norteamericanas de hoy: la misma filosofía de antes que exaltaba la falta de salidas y adaptada, lo mismo que antes, al ‘confort’ moral-espiritual de una intelectualidad que, a la manera pequeño-burguesa, cree bastarse a sí misma.”

¿Cómo sale Heidegger airoso de este tan difícil empeño? No olvidemos que el arsenal kierkegaardiano encierra un arma excelente para estos casos: la del incógnito. (…) Heidegger —los filósofos retraídos del mundo y misántropos suelen ser gentes muy prácticas en la organización de su vida privada— sabe perfectamente que en la época de la alianza del Vaticano y Wallstreet el ateísmo no es una mercancía de fácil cotización. Y saca de esto las consecuencias oportunas. No, ciertamente, en la forma de una ruptura abierta con el ateísmo y el nihilismo de El ser y el tiempo, sino contentándose con declarar apodícticamente que su obra principal no es atea ni nihilista.”

El ser se sustrae, al entregarse de prestado al ente. De este modo, extravía el ser, iluminándolo, el ente con el extravío. El ente acaece en el extravío, por el que el ser vaga extraviado, creando así… el error. Este es el espacio esencial de la historia. En él vaga extraviado lo esencial de la historia por delante de lo igual a sí mismo… De la época del ser surge la esencia epocal de su destino, en la que es la verdadera historia universal. Cada vez que el ser se atiene a sí mismo en su destino, se produce, bruscamente y de improviso, un mundo. Toda época de la historia universal es una época de extravío.”

¿quién podría saber lo que aquellos discípulos de Heidegger embriagados por Hölderlin ‘pensarían y vivirían’ al arrear a las mujeres y a los niños, como ganado, a las cámaras letales de Auschwitz? Como nadie podría saber tampoco lo que ‘pensaría y viviría’ el propio Heidegger cuando arreaba a los estudiantes de Freiburg a votar por Hitler.”

Su antiguo discípulo Karl Löwith ha puesto de manifiesto la estafa en la Neue Rundschau: ‘Una contradicción no puede despejarse ni por una diferencia de perspectiva en cuanto al punto de vista, ni por una correspondencia dialéctica. En el epílogo a la cuarta edición de Was ist Metaphysik? [¿Qué es metafísica?] se dice, refiriéndose a la verdad del ser, que el ser es, ‘probablemente’ sin el ente, ‘pero’ que el ente no es nunca sin el ser. En la quinta edición de la misma obra, publicada seis años después, desaparece el ‘pero’ con el que se subrayaba la contraposición y se sustituye el ‘probablemente’ por un ‘nunca’, con lo que todo el sentido anterior de la frase se vuelve del revés, y además sin dar a conocer ni explicar el cambio. ¿Qué diríamos del teólogo que afirmase, primero, que Dios puede existir probablemente sin la creación y, más tarde, que no puede existir nunca sin ella? ¿Cómo explicarse que un pensador centrado en el lenguaje y que sopesa tan cuidadosamente sus palabras como Heidegger introduzca un cambio tan radical y en un pasaje tan decisivo? Es evidente que la fórmula verdadera y adecuada tiene que ser una de las dos, pero no pueden ser ambas al mismo tiempo.”

Al parecer, Heidegger no está todavía satisfecho con haberse puesto en evidencia bajo Hitler y aspira, incondicionalmente, a un segundo fiasco. El cual sería, sin duda, la adecuada realización de su filosofía de la historia, concebida como la teoría del ‘extravío’.”

El ser y el tiempo es todo él, en esencia, una gran polémica contra el marxismo, pero sin descubrir este carácter ni a través de una sola alusión clara; pero, ahora, Heidegger se siente ya obligado a llamar a Marx por su nombre. ‘Lo que Marx —dice—, en un sentido especial e importante reconocía, partiendo de Hegel, como la enajenación del hombre, tiene sus raíces más profundas en la carencia de patria del hombre de los tiempos modernos… La concepción marxista de la historia es superior a todas las demás, porque Marx, al experimentar la enajenación, penetra en una dimensión esencial de la historia.’ § Claro está que, en seguida —como todos los vulgarizadores burgueses del conocimiento histórico—, reduce el marxismo a la técnica.”

La conciencia de la continuidad lleva consigo una marcada superioridad y hasta un monopolio de los autores comunistas con respecto a los otros historiadores que no se orientan en los acontecimientos de 1848 y pierden, a consecuencia de ello, el derecho a emitir un juicio acerca del presente. La perplejidad de los historiadores burgueses es grande. De una parte, condenan la represión de la revolución, pues no quieren pasar por reaccionarios, mientras, por otra parte, saludan la restauración de la paz y la seguridad como una victoria del orden.” Schmitt

Su gran importancia teórica [la de Donoso Cortés] para la historia de la teoría contrarrevolucionaria radica en que abandona la argumentación legitimista, para ofrecernos, no ya una filosofía de Estado de la restauración, sino una teoría de la dictadura.’ Y Schmitt, dejándose arrastrar por el entusiasmo de esta perspectiva ahora descubierta, rasga su incógnito y proclama ya sin tapujos lo que su héroe ideológico había puesto de manifiesto ante él con colores tan fascinantes: ‘Su desprecio por el hombre no conoce ya límites; la ciega inteligencia de éste, su pobre voluntad y el ridículo impulso de sus apetitos carnales, le parecen algo tan lamentable, que las palabras de las lenguas humanas reunidas serían pocas para expresar toda la vileza de esta criatura.”

En cambio, Ernst Jünger, cuyo Arbeiter [El trabajador], como es sabido, contribuyó mucho más al nacimiento de la ideología nazi que los escritos marginalistas de un Salomon, participó, de una parte, mucho más intensamente en el régimen hitleriano, aunque casi siempre en puestos de representación puramente decorativos y, de otra parte, ha procurado subrayar mucho más ostensiblemente, después, su actitud de ‘oposición’. Pero también ésta adopta la línea de una protesta aristocrática contra la populachería de la demagogia hitleriana, y no contra su contenido social; y sólo se distingue de Schmitt en que él, Jünger, destaca abiertamente y en primer plano el papel de la nobleza de nacimiento de los junkers prusianos en la dictadura abierta (la ‘fortaleza’ de su novela Heliópolis).”

Lo característico del espíritu del siglo XIX es el haber pasado por alto esta actitud de la razón ante lo profundo. Creyendo bastarse a sí mismo, creía que el desarrollo avanzaba sobre una superficie determinada por él, en un justo medio por él deslindado, creado y controlado, que llamaba la conciencia. En estas condiciones, no podía por menos de producirse un despertar. Y éste se produjo en el mismo momento en que las raíces racionales llegaron a la hondura del mito. No es difícil comprobar esto en las palabras, en las imágenes, en los pensamientos y hasta en las ciencias. Todas ellas fueron adquiriendo un vigor mayor del que correspondía a las medidas humanas, a la modestia del hombre. Las figuras míticas comenzaron a lanzarse, en una serie de formidables torneos, contra lo racional, y entre los resplandores de los incendios brillaron los nuevos mundos del mito, del sueño, de la magia nocturna.”

EXCESSO DE OTIMISMO? —“Hacia 1848, se puso en pie el adversario realmente decisivo de los destructores de la razón: el marxismo. Desde 1917, no sólo ha avanzado hasta convertirse en la concepción del mundo de los pueblos de la sexta parte de la Tierra, sino que ha pasado, además, a ocupar, espiritualmente, un nivel más alto, bajo la forma del marxismo-leninismo, como el desarrollo ulterior del marxismo en el período de las guerras y las revoluciones mundiales. El Manifiesto Comunista era ya de largo tiempo atrás una de las obras más leídas y más traducidas de la literatura universal. Después de 1917, aparecieron también —junto a una mayor difusión de los libros de Marx y Engels— las obras de Lenin y Stalin. Pero el período posterior a 1945 marca también desde este punto de vista un cambio cualitativo. Pocos serán los países en los que la traducción y difusión de estas obras no avancen a saltos. Sin hablar ya de China y de las nuevas repúblicas populares, ni de países como Francia e Italia, donde los partidarios del comunismo representan más de la tercera parte de la población, incluso allí donde la fuerza organizada de los comunistas es todavía relativamente pequeña, se registra un ascenso intensivo del conocimiento del marxismo-leninismo, y la influencia de la concepción marxista del mundo llega hasta mucho más allá de estas fronteras. Tampoco en este problema nos interesa aquí más que el aspecto ideológico. Pero debemos, no obstante, consignar que, en estos países, no asistimos ya solamente a la traducción y difusión de los clásicos del marxismo-leninismo, sino al rápido auge de una investigación marxista original, a una elaboración científica de los problemas actuales y de la historia del propio país a la luz del marxismo-leninismo, de la lucha contra la reacción librada con armas espirituales propias.”

Las reacciones anteriores de éstas contra la guerra surgían, por lo general, al tercero o cuarto año de comenzar la guerra, eran por lo común secuelas de grandes derrotas y se desencadenaban casi siempre directamente como consecuencia de las insoportables cargas impuestas por la economía de guerra. Pero hoy, este movimiento de masas surge antes de la guerra, aunque ya durante la guerra fría; tiene, por tanto, un carácter preventivo y es mucho más que una mera reacción a hechos históricos ya consumados. Y esto por sí solo hace que el movimiento se destaque del campo de la simple espontaneidad o emocionalidad. Todo intento preventivo contiene un poderoso elemento de voluntad racional consciente encaminada a dominar y a dirigir los acontecimientos del futuro. En esta espontaneidad de hoy se acumulan las experiencias de dos guerras mundiales. Y muestra una fisonomía fundamentalmente nueva: la de la razón en la espontaneidad.”

Stalin ha determinado claramente el límite hasta donde puede llegar el movimiento de la paz. No pudiendo tener, como no tiene, como meta el derrocamiento del capitalismo, no puede tampoco borrar del mundo la causa fundamental de las guerras.”

Es evidente que el arma de la crítica no puede suplir la crítica de las armas, que el poder material tiene que ser derrocado por el poder material, pero también la teoría se convierte en un poder material, siempre y cuando que se adueñe de las masas.” Carlo Marx

GLOSSÁRIO

añejo: envelhecido

anquilosar: endurecer

ardite: nada, insignificância

arrear: arrebanhar

atalaya: torre de observação; sentinela.

aunar: unificar

avenencia: acordo

burdo: desajeitado

calaña: espécie, raça

capa: camada, estrato

conato: inato, concrescente

consigna: slogan

darse de alta: registrar-se

derrotero: rota

empacho: estorvo

endeblez: precariedade

engreído: vaidoso

ensancharse: inchar-se, estender-se

escueto: sucinto, sóbrio

gazúa: usuário de gazuas, i.e., chaves-falsas, ou seja: arrombador

hincapié: ênfase

indefensión: desamparo

plañirse: lamuriar-se

plática: conversação, palestra

recatar: resguardar, esconder

reciedumbre: vigor, pujança

rezagado: retardatário

romo: obtuso

sagrario: sacrário, santuário

supeditación: submissão

tornasolada: iridescente, reflexiva, multicores

tozudez: obstinação

trabazón: união

trueque: permuta

RICHARD RORTY: Outgrowing modern nihilism – Tracy Llanera

1. THE GREAT DEBATE

We can, for example, tell Zarathustra that the news that God is dead is not all that big a deal. We can tell Heidegger that one can be a perfectly good example of Dasein without ever having been what he calls ‘authentic’.”

Karl Jaspers first introduced the notion of the Axial age in the 1949 book Vom Ursprung und Ziel der Geschichte (2016). Describing the Axial age from the eight to the third BCE as ‘pivotal to the spiritual development of humanity,’ Karen Armstrong cites various Axial traditions from four distinct regions: Confucianism and Daoism in China, Hinduism and Buddhism in India, monotheism in Israel, and philosophical rationalism in Greece (2006, xii).”

Rorty judges the devotion of Christian believers electrified by the mystic texts of Bonaventure and Ignatius Loyola as akin to the spiritual commitment of secularists dedicated to Henry James and Marcel Proust.”

Rorty also notes that in articulating the ideal of egalitarian hope, The New Testament is one of the few historical productions that continue to inspire the vision of a morally edifying world. Regarding it in the same light as The Communist Manifesto, Rorty describes the Christian text as ‘the founding document of a movement that has done much for human freedom and human equality’”

Notwithstanding his opposition against traditional religion, it is worth mentioning that there is a radical vision of monotheist religion that Rorty restates as hospitable to the concern of secularization. This view involves Gianni Vattimo’s revisionist account of Christianity, which surmises that the process of secularization acquires an ‘extraordinary meaning’ in the contemporary age when linked to the long-standing and figurative story of Christian redemption.”

If the Bible speaks of being as an event, and of God as the one who abandons his own transcendence, first by creating the world, and then by redeeming it through the Incarnation and the Cross—through kenosis(*)—then the desacralizing phenomena characteristic of modernity are the authentic aspects of the history of salvation.” Vattimo

This view encourages the interpretation that the theological idea of ‘God’s self-emptying’(*) and the human attempt of realizing that ‘love as the only law’ are the same and that this point licenses Vattimo to regard ‘all the great unmaskers of the West, from Copernicus and Newton to Darwin, Nietzsche, and Freud, as carrying out works of love (Rorty 2005, 38).”

2. OVERCOMING NIHILISM

For Nietzsche, the ability to transcend the life-negating horrors of nihilism serves as a testament to human resilience and its endless potential for greatness (with the caveat that only a few can achieve this level of self-transcendence). In Heidegger’s view, nihilism is indicated by our increasing attunement to the modern moods of anxiety and boredom, resulting from a world ‘enframed’ by instrumental reason and the relentless advance of science and technology.”

There are many other influential statements of existential nihilism in the Western philosophical tradition, from C.G.J. Jacobi and Johann Gottlieb Fichte, and its conceptual development in the works of Soren Kierkegaard, Arthur Schopenhauer, the French existentialists, the Russian nihilists, and the Black existentialists of the contemporary period.”

The sacred redemptionists treat Nietzsche’s anthropocentric response against nihilism not only as unsatisfactory, but dangerous. As we will see in the next sections, and with the nudging of Heidegger, the help of the non-human, or some conception of the sacred, became an attractive option to these philosophers”

In his 1954 essay Die Frage nach der Technik (trans. ‘The Question Concerning Technology’), Heidegger contends that the most pressing peril in the modern world is that we now live under the dominion of Ge-stell [enframing], [enquadramento] a nihilistic era in which the drive to control and instrumentalize the world, a brutal expression of the Nietzschean will to power, has reached its peak.”

It is the age in which people build 100-megaton bombs, slash down rain forests, try to create art more thoroughly postmodern than last year’s, and bring hundreds of philosophers together to compare their respective world pictures.” Rorty

From this Heideggerian perspective, salvation from the nihilism in the era of Ge-stell [Enframing] can take place by reflecting on works of art that function to manifest, articulate, and reconfigure our experiences in the contemporary world.” Pra mim parece um papo-enganação.

The counter-enlightenment movement, then, despairs for the power of the transcendent in the immanent. Taylor is critical of this movement that mobilizes how art, immanent transcendence, and violence constellate to emphasize the dark and cruel aspects of human experience. Taken this way, modern art serves as a site for the vicious and amoral character of human life. To live a rich and admirable life, these immanent counter-enlightenment thinkers suggest that we must always come close to the brink of annihilating ourselves. Taylor thinks we, surely, ought to stop fetishizing this viciously ‘inward’ approach, since this is neither the best (if at all desirable) nor the only road to existential and spiritual meaning in modernity.”

(op)pon(en)t

Without any clear and agreed upon sense for what to be aiming at in a life, people may experience the paralyzing type of indecision depicted by T.S. Eliot in his famously vacillating character Prufrock; or they may feel, like the characters in a Samuel Beckett play, as though they are continuously waiting for something to become clear in their lives before they can get on with living them; or they may feel the kind of ‘stomach level sadness’ that David Foster Wallace described, a sadness that drives them to distract themselves by any number of entertainments, addictions, competitions, or arbitrary goals, each of which leaves them feeling emptier than the last.”

Upton states that Rorty’s attempt to destroy our traditional foundations of knowledge makes him an epistemological nihilist, given that “Rorty claims that nothing can be known, at least known in the Platonic sense of being the object of genuine understanding (episteme, nous) rather than of mere opinion (doxa)” (1987, 1). Madison chastises Rorty for celebrating Nietzsche’s dark legacy of nihilism: ‘If he is anything at all, Rorty is a carefree, happy-go-lucky nihilist who is not about to let himself be bothered any more by the old concerns of philosophy’ (1992, 5). Defending his reading of the classical pragmatist William James, Boffetti argues that as a whole, ‘James’s philosophy does not succumb to the nihilism, atheism, and perspectivalism characteristic of Rorty’s ‘Nietzscheanized’ pragmatism’ (2004, 605). Carr also concludes in her book that Rorty’s antifoundationalism models a dangerous and banalizing form of nihilism in the modern world. In her view, Rorty does not treat nihilism as a big deal, in the sense that he thinks that human beings can still live with themselves without the guidance of absolute moral laws or the hope for universal truth. Carr warns that Rorty’s postmodern and nonchalant attitude to morality and truth in due course culminates into a form of dogmatism”

Resumo do livro: outgrowing, no título, quer dizer, na verdade, circumventing. É isso que Rorty faz em seus escritos: ultrapassa o problema do niilismo ao ignorá-lo. Contorna-o.

3. THE CONCEPT OF REDEMPTION

By contrast, Rorty argues that there is no deep or interesting epistemological split between the natural and the human sciences. While they have different objects of inquiry, both sciences require hermeneutic intervention.”

The fear of science, of ‘scientism,’ of ‘naturalism,’ of self-objectivation, of being turned by too much knowledge into a thing rather than a person, is the fear that all discourse will become normal discourse. That is, it is the fear that there will be objectively true or false answers to every question we ask, so that human worth will consist in knowing truths, and human virtue will be merely justified true belief. This is frightening because it cuts off the possibility of something new under the sun, of human life as poetic rather than merely contemplative.”

Only if we let go of the belief that there is such a thing as objective truth, and that the natural sciences can access it, will the culture of scientism loosen its firm grip on our cultural consciousness.”

Heidegger decides that, since the Nazis didn’t work out, only a God can save us now. Dewey, it seems to me, is saying: No, neither something like the Nazis, nor something like the descent of the spirit, but just conversation. That is, just us on our own” (Dreyfus et al. 1980, 52)

while Rorty’s writings enjoyed wide influence in philosophy and the broader humanities, his contribution was eventually reabsorbed into mainstream philosophy. The focus of general academic interest was Rorty’s criticism and apparent rejection of analytic philosophy, and this well-documented view continues to populate the debates around pragmatism and epistemology today.”

My sense of the holy, insofar as I have one, is bound up with the hope that someday, any millennium now, my remote descendants will live in a global civilization in which love is pretty much the only law. In such a society, communication would be domination-free, class and caste would be unknown, hierarchy would be a matter of temporary pragmatic convenience, and power would be entirely at the disposal of the free agreement of a literate and well-educated electorate.” Sem luta, assim, do mais absoluto NADA?!

Parmenides jump-started the Western philosophical tradition by dreaming up the notion of Reality with a capital R… Plato was enchanted by this hint of something even more august and unapproachable than Zeus, but he was more optimistic. Plato suggested that a few gifted mortals might, by modeling themselves on Socrates, gain access to what he called ‘the really real.’”

Aquinas, Descartes, Hobbes, Kant, Newton, Husserl, and Russell are system-builders in philosophy. They value objectivity and rationality over mere agreement or convention. Rorty labels this kind of thinking as obsolete” “By contrast, edifying philosophy is suspicious of traditional epistemology. Goethe, Kierkegaard, the later Wittgenstein and Heidegger, and the pragmatists Santayana, James, and Dewey are examples of edifying thinkers.” “But in 2007, Rorty called the distinction a false start, noting his unfamiliarity with post-Hegelian European philosophers who successfully resisted the lure of Kantian representationalism in the 1970s.”

According to Rorty, Wittgenstein, Heidegger, and Dewey were initially ensnared by the Kantian conception of philosophy. The search for objectivity was foundational in their early writings before becoming historicist and edifying philosophers (1979a, 5).”

unlike Wittgenstein who rejected the philosophical purity he admired in Tractatus (1921) in favor of contingency and history in Philosophical Investigations (1953).”

Rorty, for instance, classifies the modern conceptions of Western philosophizing as Husserlian (or ‘scientistic’), Heideggerian (or ‘poetic’), and pragmatist (or ‘political’): projects that pursue different ends and ally themselves with different disciplines (1991, 9).”

I have spent my life rummaging through libraries, hoping to be bowled over—transformed—by some fiercely imaginative, utterly original book. Exalted by one such book, I would then come upon another, hard to reconcile with the first. Then I would try to bridge the gap between them, to find ways of restating what was said in each so as to allow for what was said in the other, to do what Gadamer calls ‘fusing horizons’.” Talvez isso seja apenas a forma errada de ler, pois do contrário não vai se começar a opinar sobre nada, apenas ligando pontos improficuamente a vida inteira. Mas curiosamente acabo de ler Lukács, que chamaria Rorty de apenas mais um irracional, o que torna as duas leituras absolutamente incompatíveis… Ou se é marxista ortodoxo ou se é qualquer outra coisa—nesse sentido, eu não sou um marxista.

Unsurprisingly, Rorty’s edifying approach to texts has infuriated readers and critics.”

Bernstein, one of Rorty’s most astute readers, finds Rorty guilty of ‘ruthless and violent’ interpretations, of fabricating a Nietzscheanized James or a Wittgensteinian Derrida or a Heideggerianized Dewey.”

There is a place where we are always alone with our own mortality, where we must simply have something greater than ourselves to hold onto—God or history or politics or literature or a belief in the healing power of love, or even righteous anger. Sometimes I think they are all the same.”

While we can anticipate which works will appeal to us based on our Bildung, we cannot know in advance what might bring about a meaningful, self-metamorphosing redemption.”

literary citizens are open to the possibility that the next place they visit or the next person they fall in love with can change their life.” Os cidadãos literatizados também correm o risco de passar o dia vendo vídeos do tiktok até não serem mais literatizados.

Vivemos num mundo em que o teórico homem com mais poder (Elon Musk) é um tolo completo, escravo de suas próprias pulsões instintivas; e um terço da população passa fome ou vive com coisas como um dólar por dia.

Is Rorty following a similar logic that runs in the narratives of Nietzsche and Hegel, who both understand human life as converging toward a historical destiny?” ???

4. AVERTING NIHILISM

Leitura interrompida

[ARQUIVO] O VIAJANTE E SUA SOMBRA

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

13: a importância do silêncio no grande diálogo

21: a luz em Platão

27: gravidez

28: “a lanterna”

33: a estratégia do advogado criminalista

35: a reputação do réu

36: Ájax e a inveja dos deuses

40: “náusea”

41: sobre o indigente

48: pistas da loucura cavalar

49: a prova natural de que o caminho mais curto entre dois pontos não é a linha reta

50: o “fatalismo turco”, Moira

55: a necessidade da barba no sábio varonil, para que o queixo não contraste com seus olhos de águia velha e o rosto não apresente duas idades

64: “O pão neutraliza o gosto”

69: “Para ler em voz alta é necessário estar disposto a fazê-lo.”

72: o final do Fausto

86-7: prazer na música como artista (pelo presente, pelo que ela é) x prazer na música como leigo (nostalgia); possibilidade da arte diretamente vinculada ao trabalho e sua flexibilização.

89: minha relação residual com a sociologia; sobre a personalidade que quer encontrar “o fim dos fins” em tudo em que põe as mãos.

90: da pesada amargura; e sobre o pateta palhaço por opção

93: selecionar o amigo com base em suas opiniões religiosas

94: alimentação e mau humor

98: para a história (benéfica) do desinteresse…

101: não ter filhos; afastar-se dos amigos, mas não da natureza.

102: “Aquele que disser agora: ‘Nada me aconteceu ainda’—passa por um imbecil.”

107: Uniformes e nacionalismo. Moda como antídoto. Novo conceito de moda para além de “o que sai de circulação rapidamente”.

111: Helvétius

112: cidadezinha e grande cidade—entendendo melhor nossas utopias e devaneios

113: sucinta fisiologia da máquina, até melhor que a mcluhaniana; Epicuro.

118: mendicância

128: Europa hoje (XXI)

129: sobre as abstenções eleitorais

131: sobre a precariedade da mercadoria no capitalismo avançado

132: Ampliar o quadro de professores? Que tal o contrário?

135: contra o mendigo e o bilionário; para entender a reforma agrária; tocquevilleanismo.

139: quando caminho com um bando, eu sempre vou atrás—desconfiado de que não me seguiriam

153: o supra-homem e o animal

154: cão e gato


A vaidade: tema recorrente, demasiado recorrente.

Homem significa: “aquele que mede”. Aquele que sabe que sabe que mede. Mas mais nada mede.

O remorso é, como a mordida de um cão numa pedra, uma asneira.”

Só o trabalho faz o tédio.

Quase sempre os gêneros de aforismos obedecem à mesma seqüência.

escrever bem e ler bem—essas duas virtudes aumentam e diminuem ao mesmo tempo” “A forma das frases indica se o autor está cansado”

Para um livro é uma maneira conhecida de envelhecer o fato de descer a idades cada vez menos maduras.”

PARA O ABSTÊMIO MUSICAL: “Se ouvirmos música depois de termos sido privados dela por muito tempo, ela passa rápido demais no sangue, como um desses vinhos encorpados do sul, e deixa na alma uma embriaguez parecida com a de um narcótico que a mergulha num estado de semi-sono e de desejo” “acreditamos finalmente ouvir a música como se entrasse numa prisão onde a nostalgia impede um pobre homem de dormir.”

Então—foi talvez em torno dos nove anos de nossa vida—ouvimos a primeira música”

para o profano, toda música antiga parece se tornar sempre melhor e toda música recente passa a ter pouco valor, pois não desperta ainda essa ‘sentimentalidade’ que, como indiquei, é o principal elemento de felicidade na música, para quem não sente puramente prazer nessa arte como artista.”

173—RIR E SORRIR—Quanto mais o espírito se torna alegre e seguro de si mesmo, tanto mais o homem desaprende a risada explosiva”

NIILISMO EUROPEU: “Uma vez que as palavras ‘moderno’, ‘europeu’ são aqui quase equivalentes, entendemos por Europa extensões de território bem maiores que aquelas que a Europa geográfica abrange, a pequena quase ilha da Ásia: devemos especialmente compreender a América, porquanto é filha de nossa civilização.”

Se todas as esmolas só fossem dadas por compaixão, todos os mendigos já estariam mortos de fome.”

As interrupções são os corvos que trazem alimento ao solitário”


Anotações de cunho pessoal:

A sombra do cigarro. Dimitri e um pouco de pigarro. Narradores prosadores comediantes. Discurso melodioso. A me(sca)lina das amenidades.

O metal é stravinskyano-romântico—Master of Puppets como encarnação disso, com seu solo diante do quê você procura com seu corpo o que fazer, e não acha, até a audição passar, boquiaberto. Ainda predomina esse tipo de objetivo entre as pessoas (vide meu apreço por Prisoner of Your Eyes, Cardigans, Calcanhotto… pelas fases posteriores do Megadeth, o carinho pelas lembranças suscitadas, mas ao mesmo tempo tem um tempo que venho me concentrando na técnica em-si, ou pelo menos no limiar. e.g.: Death).

De 26 a 28 de novembro de 2009

MELANCOLOGY: Black Metal Theory & Ecology – Scott Wilson (ed.), 2014.

The theorist who connects the energetic model of the material universe with its atheological double is, of course, Georges Bataille whose system of general economy relates cosmic forces to human societies, inner experience and evil.”

The founder of the idea of acoustic ecology in the 1970s is the composer and theorist F. Murray Schafer. In a chapter called ‘The Music of the Environment’, Schafer refers to two apparently contrary Greek myths concerning the origin of music. The most familiar myth, from Homer, accounts for the invention of the lyre by Hermes when he discovers that a turtle shell can produce sound.” “The contrary myth, from Pindar’s Twelfth Pythian Ode, concerns Pallas Athena who, upon hearing of Perseus’s slaying of Medusa, attempts to ‘connect’ with ‘the sorrowful lamentations’ of her sisters, and ‘framed the full-sounded harmony of the reeds that she might imitate with instruments the deep groans proceeding from Euryale’s fell cheeks’ (…)All music, according to this myth, is infused with death and mourning.”

Imagine the agonies of Christ on the Cross multiplied to infinite proportions, the maximum of tragic intensity giving rise to measureless expenditures of energy in the form of sonic vibrations. This is the sound of the universe, the melancholic sound that constitutes the universe, the cosmic noise from which all form and structure derives as oscillations coalesce into dark matter, atomic matter and light producing the stars from which life ultimately, derives, a universe in which, with supreme irony, human forms of life will perceive divine harmony and mathematical consistency, the very image of creation that God sought to avoid, but through avoiding, in his tragic stupidity brings about.”

This domain of excess (the excessive negation of being) and of absolute evil is therefore exactly the same as the absolute good of black metal itself: the expenditure of a sonic drive that propels a blackened self-consciousness, a melancological consciousness without being that is necessarily prior to any positive ‘ecological’ intervention in the ‘environment’ that could only repeat the process of its human exploitation and subjugation.”

It is perhaps appropriate here to emphasise what the ethos of melan-cology is not: it is not a form of morality; it is not a set of rules relating to social behaviour, civic duty, code of conduct, biopolitical governance, nor does it relate to any form of socio-political order dedicated to organizing and improving human survival or the survival of any other form of (inter-)planetary life.”

Ecology and economy are virtually the same word and when the former becomes the basis of the latter there is always the serious danger of a drift towards fascism because it is always a question of deciding who or what lives and dies usually on an aesthetic/utilitarian (or ends/means) basis.”

For the entrenched and domestic Werther-ism of so-called ‘depressive/suicidal black metal’ risks collapse into the perfect commodity-form of private, solitary, defeatist quietism, leaving black metal ripe for critical re-territorialization as nothing more than ambient shoegaze dressed up with gothic posturing (something for lone wolves rather than for packs). In his polemic of 1931, ‘Left Wing Melancholy’, Walter Benjamin long ago flagged the quietistic implications of this emotion, lambasting the ultimately harmless and conciliatory aura of ‘tortured stupidity’ that it proffers as an inadequate response to capitalism.”

Badiou, Lógica dos Mundos

The black metal kvltist chooses to drown the present in a fog of black bile, offering what Badiou terms ‘the paradox of an occultation of the present which is itself in the present’.”

melancholy, melaina khole, or black bile, the humor associated in Hippocratic medicine and its Galenic, medieval and early modern inheritors with autumn, cold, solitude, night-time, old age, and a wildly variant affective spectrum: sorrow and anxiety above all, but also rage, lycanthropy, psychotic hallucinations, religious devotion, sexual jealousy, artistic inspiration, catatonia and mania.”

To move from Exodus’s ‘Bonded by Blood’ to Beherit’s ‘The Oath of Black Blood,’ is to reject the jocular and homosocial bonds of friendship in favor of the sorrowful, creaturely solidarity of melancholy suffering.”

Bracketing this personal hit parade, the Encyclopaedia Metallum indicates at least five bands simply called Melancholy from Greece, Mexico, Lebanon, Poland and Russia, not to mention Czech Republic’s Melancholy Pessimism.” Lituânia, não Líbano. Há ainda, em 19/11/2025: Beyond Melancholy (DSBM, Itália), Enthroned Melancholy (atmospheric black metal, Suécia), Evil Melancholy (black metal, Áustria), Forgotten Melancholy (gothic/doom metal, Romênia), Martyr’s Melancholy (deathdoom, EUA), Melancholy Cry (doom metal, Polônia), Oppressive Melancholy (experimental BM, Finlândia), Starlit Melancholy (atmospheric BM, EUA), Autumn Rain Melancholy (gothic/doom, Rússia), Blood of Melancholy (black metal, México), Meadows of Melancholy (atmospheric BM, EUA), Melancholy of Evil (BM, Brasil), Morose Months of Melancholy (BM, Ucrânia), Shores of Melancholy (BM, EUA), Tears of Melancholy (gothic, Suécia), Veiled in Melancholy (atmospheric post-BM, Dinamarca) e Void of Melancholy (atmospheric BM, Finlândia). Há ainda uma Melankoly black metal sinfônico do Líbano (op. cit.), Melancholie, atmospheric/ambiente holandesa, e Melancolie, gótico italiana.

If we look at Melencolia I (1514), we see that Dürer’s angel has a noticeably dark face: she is not, as it were, ‘white’ but is quite literally a dark angel. This is because the blood within the body of a melancholy person was imagined to run black. As Marsilio Ficino puts it in the chapter of De Vita Libri Tres (1489) titled ‘How Many Things Cause Learned People Either to Be Melancholy or to Become So’, this is a result of a drying of the brain caused by agitation”

As melancholy lost its humoral meaning and became an elite aesthetic mode of ‘sadness’, what was bleached away, literally, was its association with dark-skinned faces.”

This achieves its zenith in the romantic cult of languid pallor and the crypto-sexualization of the symptoms of tuberculosis. Tom Moore, visiting Lord Byron in Patras in 1828, hears the poet declare ‘I look pale. I should like to die of consumption’; taking the bait and asking why, he is told ‘because the ladies would all say Look at that poor Byron, how interesting he looks in dying.’”

Pythagorean worship of the numeral 4 begat the Empedoclean combinatorial model of the elemental composition of the universe out of earth, air, fire and water, and this led in turn to a Galenic medical practice fashioned after this Pythagorean/Empedoclean image, populated by 4r broad types of human beings: sanguine, phlegmatic, choleric and melancholic.”

The mainstream media, predictably ravenous in its cool hunting search for hotzones radioactive with even the most notional cachet of authenticity, has predictably fastened onto the comedic potential of corpsepaint as a means to both co-opt and condescend to black metal as an extremist sub-culture. Exhibit A of this process is the thinly veiled transposition of Immortal’s Abbath into the avatar Lars Umlaut in the Guitar Hero video game franchise. Current retail for this series is over 2 billion dollars, and with more than 25 million units sold, it is safe to say that Guitar Hero constitutes the most widely disseminated representation of a black metal musician on this planet.”

take a press photo of Immortal, replace battle axes with kittens, and you’ve got yourself a hilarious new image to use as an online avatar which shows that you’re aware of ‘that stuff but that you don’t take it too seriously.’”

Through corpsepaint, black metal achieves the re-occultation of black blood as an immanent experience of asymmetric struggles between life and death, dark and light, then and now.”

This transformation of the face of the entertainer into a cartoonishly legible form thus recalls the minstrelsy tradition of white European and American entertainers ‘blacking up’ so that they can look like African-Americans, a dialectical process that foregrounds the artificiality of race as a construction while still effectively reinforcing that construction’s normative force.”

black metal theory awaits its rendezvous with both queer theory and critical race theory.”

Obsessed as it is with thinking negation, negativity, hostility and failure, recent queer theory might yet constitute a particularly generative lens through which to think about the fetishistic circulation of the Third Reich as a ‘lost cause – melancholically embraced because it is lost – within black metal aesthetics.”

At the level of scene politics, if the commentary of its pioneers is any indication, the Ursprung of corpsepaint may not lie in Norway, Finland, or Sweden but in Brazil: whenever the origins of this makeup style are discussed, mention is swiftly made of the foundational influence of Sarcofago’s debut album ‘I.N.R.I.’ (1987) upon the visual presentation of the first wave of Scandinavian black metal artists, who more or less copied the signature look from these citizens of Belo Horizonte: spiked bracelets, bullet belts, white cheeks, black circular eye makeup. Corpsepaint might well have been required in order for South American musicians to look sufficiently ‘vampiric’ and ‘ghoulish’, i.e. white—but even if corpsepaint is quite specifically about looking like a dead white person, its ultimate horizon gestures beyond racial legibility towards the species-being based project of turning the human face – any human face – into a skull.”

In a dynamic of impurity familiar from the theorization of drag performance, this very falseness offers a violation of a boundary that reifies the very line that it also subverts through crossing.”


I had a dream, which was not all a dream.
The bright sun was extinguish’d, and the stars
Did wander darkling in the eternal space,
Rayless, and pathless, and the icy earth
Swung blind and blackening in the moonless air

Lord Byron,
‘Darkness’
(1816).

Stanton Marlan in The Black Sun: The Alchemy and Art of Darkness (2005) approaches the notion of a black sun or Sol Niger and blackness not as a representation of the nigredo or blackness phase in the process of the alchemical opus that disappears when the work is completed, or in terms of Jungian psychology where the black sun of the nigredo phase is associated with suffering and the melancholic soul’s struggles with this shadow of darkness.”

The Burkean sublime shares much with the darkness and terror of black metal’s arctic gothic atmospheres and resonates with what Eugene Thacker calls ‘the world-without-us’; a world neutral to humans which can be found ‘in the very fissures, lapses, or lacunae in the World and the Earth’, in ‘a nebulous zone that is at once impersonal and horrific’.”

Kali, who represents the process of dying and is the ‘terrible Mother of the cremation ground’, is worshipped by the Tantrics who believed that, ‘sitting next to corpses and other images of death, one is able to transcend the pair of opposites (i.e., good-bad, love-hate, etc.)’”

This essay focuses primarily on examining black metal’s presence in photographic images, drawings, and sculptural installations by three American artists: Grant Willing, Terence Hannum, and Banks Violette. It argues for a black metal art history that may be used to articulate how the language of black metal is used by artists to construct meanings.”

The chorus, that is so common in classic rock, is rejected in many black metal songs in favour of a symphonic quality of alteration that forces the listener to constantly renegotiate their experience. Riffs repeat, but transform over the length of a track—which commonly reigns closer to ten minutes than the three minutes of pop music, long enough to build a dense and complex sonic landscape. The double bass drum frequently sounds like a racing heartbeat or blood rushing through my body.”

Seen only from the back of the head, her hair is messed in a head banging nod to the speakers. In the distance where the two rows of amplifiers might meet there are no musicians mediating between the amps and the single audience member. In fact, the details between the individual and the technology in both ‘Black Diadum’ and ‘Descension’ appear to sink into the material of the pitch-black paper itself. It is formless: it looks like empty space. Yet here, exemplified by the texture within the ground of the paper substrate, Hannum allows the physicality of the media to resonate throughout the drawing, suggesting the artwork itself as a space charged with intense sonic activity.”


Caminhante sobre o mar de névoa

Burke

This skeletal structure was a direct reference to both the Fantoft stave church’s burning in 1992 and the photographic representation of its charred ruins featured on the cover of Burzum’s 1992 album Aske.”

Violette’s 2006 exhibition at the Maureen Paley gallery was initiated with an hour-long performance by the drone metal band Sunn O))) which took place on the ground floor of the gallery during opening night” “To attend a Sunn O))) performance is to experience a deep, pressure-filled amplifier massage penetrating your entire body as the band builds a dark, atmospheric, resonating sonic landscape felt long before and after it is heard. Adding to Sunn O)))’s performance at Maureen Paley was a vocal performance by Mayhem’s Attila Csihar, conducted entirely from within a sealed coffin made by Violette out of salt and resin. When the concert ended, the musicians exited unseen and viewers were finally admitted, like forensics, to witness the afterbirth.”

We are left wanting […] for the sculptures raise expectations of sound, movement, fury, fame, only to render such prospects void by the absence of any.”

Doom metal presents a music of tempo that is so grave that it negates tempo. Finally, drone metal, with its minimalist dissipation of all music into a monolithic, dense line of sound, presents us with the whittling away of all harmony into a single, thick, absolute tone, collapsing the musical spectrum into a dense black hole.”

To give us an idea of how this unsound is different from an anti-sound or a super-sound, we could consider a number of examples in contemporary sound art, examples that cross genres, from black metal to avant-garde to dark ambient. Each can be understood as effecting different strategies that point to, but never, of course, arrive at, the unsound.”

In one group would be works that utilize what we might call a strategy of invocation. Lustmord’s Black Star (from 2000 album Purifying Fire), Keiji Haino’s Milky Way (1973), Striborg’s Spiritual Catharsis (2004) [‘coldwave’], and Darkspace’s Darkspace II (2005) might be cited as examples.”

In another group would be works that utilize a strategy of darkening. Raison d’Être’s Metamorphyses (2007), Nurse With Wound’s Soliloquy for Lilith (1988), Francisco Lopez’s Untitled series, and Thomas Köner’s Permafrost (1993) are examples.”

In a third group would be those works that use a strategy of density. Sunn O)))’s Grimm Robe Demos (1988), Wold’s Screech Owl (2007), Winterkälte’s Structures of Destruction (1997), and Merzbow’s Merzbuddha (2005) are examples. Rather than adopt a subtractive approach, these works do the opposite, condensing, congealing, and clustering sound beyond its audible, or indeed, acoustic, capacity.”

A final group would comprise works that utilize a strategy of writhing. Iancu Dumitrescu’s Medium II (1978-79; for double-bass), György Ligeti’s Ramifications (1968-69), Iannis Xenakis’ Syrmos (1959), as well as the spectralist work of composers such as Tristan Murail, and Gérard Grisey, might be cited as examples. In these works sound becomes sculptural, writhing, indefinite, flailing and formless. While the techniques may range from ‘micropolyphony’ (Ligeti) to stochastic mathematics (Xenakis), the result is that of acoustic metamorphosis, the continual undoing of sonic form. Xenakis’s scores, in particular, display this forming and de-forming quality of sound (indeed many of his sketches for sound installations look like the black avatar of Fludd’s celestial monochord). Here the abyss is the absolute writhing of sonic form, sound as the writing of the abyss”

Botanist

[ARQUIVO] HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

43: da sensação do erro

48: como Marx termina como o principal formulador do capitalismo tardio

49: Erasmo de Roterdã

61: o superanimal

107: Ésquilo e Aristófanes

128: “[a arte] transforma os animais em homens”; a Nona de Beethoven

130: os sofrimentos do artista; o cômico e o trágico; o jogo e a leveza, a frustração e a solidão.

138: do intermediário entre o público e o artista; do espectador.

139: a diferença minúscula entre honra, vaidade e orgulho

154: genealogia técnica do heavy metal (captar “o lado feio do mundo”). Por isso os beatniks são tão musicais. Antecipação de Baudrillard.

159: curso em pós-modernidade

161: o “eterno permanente”

165: definição de “espírito livre”

174: humor na pós-modernidade

175: aforismo 241

178 (247): Planeta dos Macacos

179: o difícil “turning point”

182: do filósofo arrependido

184: da pederastia na Grécia

187: o problema da efemeridade da civilização grega, a falta de dados e documentos

190: primeiras pistas sobre a Ásua; N. e o ensino médio

195: fase cínica, fase epicuréia

199: “quem não tiver para si dois terços de seu dia é um escravo”

200: nazismo

203: índices para o ineditismo do futuro

220: ironia, o “cão mordedor”

222: “GLÓRIA PÓSTUMA”

225: complexo de Édipo

235: por que todo pai menospreza o talento dos filhos

236: o séc. XX do feminismo

245: o socialismo como meio; Guerra Fria.

246: os barões da mídia

248: a diferença entre o socialista de baixo e o socialista de cima

250: pela escravidão; Diógenes, o Chaves da Antiguidade.

257: Europa pendular, século XXI

258: a morte do Estado

259: do novo XVIII Brumário

261: escombros da União Européia; questão judaica. O semita está incluído no projeto da Europa mista.

262: e os judeus salvaram a Europa feudal de ser engolfada pela expansionista Ásia

265: “A GRANDE POLÍTICA”

293: “nosso eu superior”

294: sobre a facilidade que temos em mistificar nosso tédio


raramente se encontra na Europa o erudito que tenha lido La Rochefoucauld.”

A paixão não quer esperar; na vida de grandes homens o trágico reside muitas vezes não em seu conflito com a época e com a baixeza de seus contemporâneos, mas na incapacidade deles de adiar sua obra por um ano, por dois anos; não sabem esperar.”

Todo homem que decidiu que o outro é um imbecil, um mau companheiro, se irrita quando o outro finalmente mostra que não o é.”

acaba por se produzir um violento antagonismo entre o artista e as pessoas da mesma idade de sua época”

Quando a arte se apodera violentamente de um indivíduo, leva-o a concepções de épocas em que a arte florescia com mais vigor, exercendo, portanto, uma influência retrógrada.”

COMO SER UM ROMANCEUR: Um craque do futebol não nasce sem os fundamentos—ou explode e depois desaparece. Qualquer verossimilhança com o caso de escritores como J.K. Rowling não é mera coincidência!

Faça-se, portanto, cem ou mais projetos de novelas, nenhum com mais de duas páginas, mas de uma clareza tal que neles cada palavra seja indispensável; (…) que se seja infatigável em recolher e descrever tipos e caracteres humanos” “Nesse múltiplo exercício, que se deixe passar uns dez anos” “Como faz, porém, a maioria? Eles não começam pela parte, mas pelo todo. Talvez um dia tenham um lance feliz, chamem a atenção e, a partir de então, farão lances cada vez piores, por razões bem naturais.”

E, a longo prazo, todo instinto é mesmo fortalecido pelo exercício de sua satisfação, apesar desses períodos de calmaria. Seria possível que o medo e a compaixão fossem, em cada caso particular, mitigados e aliviados por meio da tragédia: não obstante, poderiam enfim tornar-se geralmente mais fortes por causa da influência trágica e Platão, apesar de tudo, teria razão ao pensar que, por meio da tragédia, a gente se torna geralmente mais temeroso [medroso ou temerário?] e mais impressionado. O próprio poeta trágico adquiriria então, necessariamente, uma visão lúgubre e assustadora do mundo e uma alma terna, excitável, ávida de lágrimas, de tal modo que corresponderia à opinião de Platão, se os autores trágicos e igualmente cidades inteiras, que os apreciam, regredissem a um nível em que a falta de medida e de freio é sempre maior.”

hoje são contados entre as exceções os ouvidos que ainda fazem as distinções mais refinadas, p.ex. entre dó sustenido e ré bemol.”

O homem de ciências é uma forma ulterior do artista.”

Chama-se ‘espírito livre’ aquele que pensa de forma diferente do que se espera dele, em virtude de sua origem, de seu meio, de sua posição e de seu ofício, ou em virtude dos pontos de vista dominantes de sua época.”

Quanto mais alguém compreende profundamente a vida, tanto menos zombará, salvo se terminar por zombar da ‘profundidade de sua compreensão’.”

CONHECIMENTO COMO PRAZER. O MAL DE PENÉLOPE: “de novo, a humanidade terá de recomeçar a tecer seu tecido, depois de tê-lo, como Penélope, destruído durante a noite. Mas quem nos garante que ela voltará sempre a encontrar forças para isso?” “graças a um conhecimento novo, por menor que seja, nos sentimos superiores a todos e como os únicos que, nesse ponto, sabem o que está certo.”

Os dois povos que produziram os maiores estilistas, os gregos e os franceses, não aprendiam línguas estrangeiras” Quantas línguas o próprio Nietzsche falava? “Nietzsche falava fluentemente alemão e francês, e também tinha um bom conhecimento de grego e latim, o que lhe permitiu ler os filósofos clássicos em seus idiomas originais. Ele também tinha algum conhecimento de inglês, mas não era fluente na língua.”

AVALIAÇÃO MUITO BAIXA DO ENSINO COLEGIAL (…) Raramente se busca o valor da escola secundária nas coisas que nela realmente se aprendem e se acumulam sem poder perdê-las, mas antes naquelas que nela se ensinam e que o aluno só absorve contrariado, para se livrar delas logo que puder e de uma só vez. (…) A leitura dos clássicos—isso qualquer pessoa culta o reconhece—tal como é praticada em toda parte, é um procedimento monstruoso: feita diante de jovens que de modo algum têm maturidade para isso, por professores que com cada palavra, muitas vezes com sua presença, já põem uma colher de poeira sobre um bom autor. (…) é que em sua linguagem surgem continuamente conceitos, expressões, métodos, alusões, que os jovens quase nunca ouvem na conversa com seus pais e na rua.”

o homem ocioso é sempre um homem melhor que o de ação.”

[o espírito-livre] conhece também os dias de trabalho e de falta de liberdade, da dependência, da servidão. Mas, de tempos em tempos, é preciso que lhe apareça um domingo de liberdade, senão não suportará a vida.”

Deve confiar que o gênio da justiça dirá alguma coisa em favor de seu discípulo e protegido, se vozes acusadoras vierem a chamá-lo de pobre de amor.”

Em todo partido, há um homem que, ao professar com demasiada fé os princípios do partido, incita os outros a desertar.”

os doentes irritadiços e orgulhosos odeiam muito mais os conselheiros que sua doença”

Para ganhar as pessoas inteligentes a uma proposição, basta muitas vezes apresenta-la sob a forma de um paradoxo monstruoso.”

OS TRAFICANTES (Burroughs): “Um meio seguro de irritar as pessoas e de colocar em sua cabeça maus pensamentos é fazê-las esperar muito tempo. Isso se torna imoral.”

Quem não sabe colocar suas idéias no gelo não deve se empenhar no calor da discussão.”

Os jovens são arrogantes porque freqüentam seus semelhantes que, todos eles, não sendo nada, gostam de fazer-se passar por muita coisa.”

Aquele que não escreve livros, pensa muito e vive numa sociedade que não o satisfaz, poderá em geral ser um bom escritor de cartas.”

Se houver dificuldade para encontrar um assunto de conversa, há pouca gente que deixará de revelar os segredos mais importantes do amigo.”

Por que sentimos remorsos depois de termos ficado em companhias vulgares?”

[o socialismo] não pode ter esperança de uma existência futura senão durante curtos períodos, aqui e acolá, graças ao mais extremo terrorismo.” “O socialismo pode servir para ensinar de modo brutal e convincente o perigo de todas as acumulações de poder do Estado e, nesse sentido, insinuar uma desconfiança para com o próprio Estado. § Quando sua voz rouca se misturar com o grito de guerra <O mais possível de Estado>, esse grito se tornará primeiramente mais barulhento que nunca, mas logo eclodirá com não menos força o grito oposto: <O menos possível de Estado>.” O contrário também pode ser dito.

Quem vive combatendo um inimigo tem interesse em deixá-lo viver.”

A imaginação da inquietude é esse gnomo malvado com aparência de macaco que ainda salta nas costas do homem, precisamente quando tem já outras coisas a carregar.” “A falta de escrúpulos no pensamento é muitas vezes sinal de uma disposição interior inquieta que procura se atormentar.”

Quando um homem pensa muito e prudentemente, não é somente seu rosto, mas também seu corpo, que toma um ar de prudência.”

Quando o homem explode em gargalhadas, ultrapassa todos os animais por sua vulgaridade.”

Com um talento a mais, a gente está numa situação menos segura do que com um talento a menos.”

É preciso ter nascido para seu médico, caso contrário se perece por seu médico.”

O homem da meia-noite é o viajante que não pôde entrar na cidade e passa a noite enregelado no deserto.


Anotações de cunho pessoal:

Estou no meio da desconstrução de velhos afetos. O nome deles, como abrangente de todo o mundo ocidental acessível a mim: Eline.

P. 132: Uma coisa que me perguntei severas vezes, principalmente com respeito a Dostoievsky (diferentemente do cinema, em que muitos sofrem o encargo), que é a “totalidade da personagem”: como é possível sair um mundo, vidas inteiras, unidades fidedignas, da cabeça de um demiurgo-escritor? Mas eis N.: pura ilusão, hipérbole! E aquela frase “não há uma única exegese de um texto” reforça o atestado.

P. 172: Essencialmente, temos aqui absolutamente TUDO o que concerne ao debate ESTRUTURA X HISTÓRIA, Lévi-Strauss vs. pós-construtivistas. Toda a reedição de Parmênides e seu 8 ou 80 e Heráclito e seu “incaptável” que perdura. Escapamos da metafísica por um tempo—e diz N.: isso é um progresso. Outra vez remexem-se os pauzinhos nos bastidores… As reelaborações, no entanto, são menos matizadas e sufocantes que no modernismo. É como o conserto da corrente de uma bicicleta enganchada na roda… AGORA vai andar. Antes não adiantava, o ciclista levava um tombo.

Af. 534: para Adriana


De 15 a 22 de fevereiro de 2009

[ARQUIVO] A SÉRIE DEFINITIVA DOS FRAGMENTOS FINAIS DE NIETZSCHE

Páginas destacadas e temáticas (ed. UnB):

34. animais, supra-homem.

35. socialismo

36. minorias, pós-modernidade.

38. amor e paixão

39. animais, gênio.

41. grande política, determinismo, números.

63. o gato

66. existencialismo, empirismo.

67. decadência

71. niilismo

74. anti-sistemas filosóficos

75. a solidão da figura do mestre

78. histórico do sofismo, helenismo, enaltecimento de Protágoras.

84. crítica a Schopenhauer

95: obra de arte, caráter anfíbio do artista

97. anti-hedonismo: a dor como supérflua

102. artistas e a loucura

103. classe média como buraco negro

104. sobrevivência da humanidade a longo prazo; budismo.

117-8. o futuro do rebanho, do pastor do rebanho e dos espíritos-livres

123. “avaliação econômica da virtude”; sobre o tédio; elogio a Kant.

125. Simplício e Epicteto

127. sobre cidadãos irrecuperáveis

129. dialética e decadência

141. bem idealista, bem “verdadeiro”

142. o sacrifício de jesus

145. mea culpa sobre A Origem da Tragédia

147. “a grande meta”

148. sonhar como método artístico

150-1: Aristóteles e o erro da catarse; “Arte como contramovimento”; Lobeck, o filólogo; a grande saúde.

155: animais

177: arte é animalidade

178: arte pela arte, como a moralina na arte, é só uma transição necessária

180: previsão dos olimpianos (de Edgar Morin)

185: A Divina Comédia

187: o artista e a forma

188: encurtamento sensório do espaço-tempo

190: feio x terrível

195: que muitas vezes nem o melhor amigo o conhece bem

198: do patriarcado grego

201: Ernest Renan

Com todo crescimento do ser humano em grandeza e estatura, ele também cresce em profundidade e horror: não se deve querer um sem querer o outro”

O gênio é a máquina mais sublime que existe,—portanto a mais frágil.”

não temos classes superiores, portanto também não inferiores: o que hoje se encontra por cima na sociedade está fisiologicamente condenado”

O que são afinal esses dois milênios? O nosso experimento mais educativo, uma vivissecação da própria vida…Dois milênios somente!…”

Todas as opiniões dos outros são suas próprias opiniões.

Os artistas uma espécie intermediária: eles ao menos fixam uma equivalência daquilo que deveria ser—eles são produtivos na medida em que de fato modificam e transformam”

Eu não respeito mais os leitores: como pude escrever para leitores?… Mas eu me anoto, para mim.”

11(81)

— só o vir a ser é percebido, não porém o morrer (?)

–”

Por meio do álcool e do ópio se retroage a estágios de cultura que já se superou (ou ao menos se sobreviveu). Todas as comidas fazem alguma revelação sobre o passado do qual nós nos originamos.”

Ócio é o princípio de toda filosofia.—Portanto—é filosofia uma carga?…”

Não está em nosso arbítrio modificar nossos meios de expressão: é possível entender na medida em que é mera semiótica.”

nosso nariz (…) ainda é capaz de perceber oscilações onde até o espectrógrafo é incapaz”

PASSAGEM MAIS HILÁRIA DA OBRA: “Schopenhauer foi inteligente quando certa vez deixou-se fotografar com o colete abotoado erradamente: com isso ele dizia: ‘eu não pertenço a esse mundo: o que importa a um filósofo a convenção de casas e botões paralelos!… Sou objetivo demais para isso!…’”

Insistentes equivalências entre o kantismo e o hinduísmo.

De certa forma é o caldeirão nutritivo primordial de onde saíram fragmentos e aforismos bem mais desenvolvidos de Vontade de Potência.

O novo sentimento moral é uma síntese, uma ressonância conjunta de todos os sentimentos de dominação e submissão que imperaram na história de nossos antepassados.”

Deus está refutado, não o diabo”

[que] os seletos mais refinados e exigentes se apresentem como débeis e rejeitem os meios mais brutais do poder –” [é uma conseqüência da moral décadent]

a tribulação e a tristeza de todos os raros homens superiores reside em que tudo o que os distingue chega à consciência deles com a sensação de diminuição e ultraje.”

Para a psicologia do idealista: CarlyleSchiller, Michelet.²”

¹ Thomas Carlyle, historiador, filósofo e ensaísta irlandês.

² Jules Michelet, historiador e escritor.

sofrer com as suas circunvizinhanças, tanto em sua louvação quanto em sua condenação, ficando ferido e sentindo-se ignóbil com isso, sem revelá-lo; involuntariamente desconfiado, defender-se do seu amor, aprender a calar, talvez escamoteando-o por meio de discursos [minha vida—laboratório perfeito!], criando subterfúgios e solidões invioláveis para os momentos de sossego, de lágrimas, de consolo sublime—até que por fim se esteja suficientemente forte para dizer: ‘o que tenho eu a ver com VOCÊS?’, e seguir o SEU PRÓPRIO caminho.” Grifos no original!

A moralidade da modéstia é o pior amolecimento daquelas almas para as quais somente tem sentido que elas se tornem duras e empedernidas em certas épocas.”

Contemplamos a andança geral: cada indivíduo é sacrificado e serve como instrumento. Ande-se pela rua como se não nos deparássemos apenas com ‘escravos’. Para onde? Para quê?”

talvez esse ‘assim deveria ser’ seja o nosso desejo-de-dominar-o-mundo –”

Não há aniquilamento no espiritual…”

O determinismo só é prejudicial àquela moral que acredita no liberum arbitrium

Não querer nenhum elogio: faz-se o que é útil para si mesmo ou o que dá prazer ou o que se precisa fazer.”

a uniformidade que toda atividade mecânica acarreta. Aprender a suportar isso, aprender a encarar o tédio como circundado por um halo superior: essa tem sido até hoje a tarefa de todo sistema superior de ensino” “Por isso, o filólofo tem sido até agora o educador por excelência

certa gente se tornou ateísta. Mas será que realmente desistiu do ideal?”

O estar mal-acostumado é mais forte que a irritação dos decepcionados…”

Alguém se torna uma pessoa decente porque é uma pessoa decente”

a conscientização é um sinal de que a moral propriamente dita, ou seja, a certeza instintiva do agir, vai para o diabo que a carregue…”

As assembléias e congregações foram inventadas para fazer coisas para as quais o indivíduo não tem coragem.” “O mandamento do amor ao próximo jamais foi estendido para um mandamento de amar os vizinhos. Antes vige aí o que está em Manu…”

ele é amável, para não ter de ser inimigo”

Uma lagarta entre duas primaveras, na qual já cresce uma pequena asa: —”

e, olhando bem de perto, não há nenhum intelectual mais bem-qualificado que não tenha nos ossos os instintos de um militar virtuoso…” “sendo mais inimigo do mesquinho, do espertalhão e do parasitário que do mal…” “O que se aprende em uma escola rígida? A obedecer e a mandar, —”

esse tapado típico que é o inglês J. St. Mill”

Homero como artista da apoteose; também Rubens. A música ainda não teve nenhum.”

O que em nossa democracia é ridículo: a roupagem negra… a inveja, a tristeza”

A coragem diante de um inimigo poderoso, de uma sublime desgraça, de um problema horrendo – ela mesma é o estado mais elevado da vida, ápice que toda arte do sublime decanta.”

sua avareza de artista protege-os da paixão.” “Não se controlam as próprias paixões só por expô-las: pelo contrário, elas já estão sob controle quando são expostas.”

sem um certo superaquecimento do sistema sexual, nenhum Rafael é concebível (…) castidade é apenas a economia do artista”

Honra um artista ele ser incapaz de crítica…”

O casamento tem tanto valor quanto aqueles que casam”

Nobilitação da prostituição, não extinção”

Tipo ‘Jesus’…

Jesus é o contrário de um gênio: ele é um idiota.”

Paulo não era de maneira nenhuma um idiota!”

Anotações de caráter pessoal:

Quando me sinto esgotado, só me resta dormir. Assim que o logro, o plano suicida já pertence à memória, se desbota, se dilui, e readquiro aquela saúde ousada. Mas a cada ciclo torna-se mais evidente que o esgotamento é algo temporário, reversível, superável. Cultivo de uma calma que anteriormente não havia—essa própria agitação, necessidade de se debater furiosamente, sonâmbula como indício da não-entrega.

Estranho fenômeno o desgaste físico que produz mais energia: cantar um álbum do Metallica, “esfolar-se”, redigir um daqueles textos-manifestos num intervalo crítico de uma tarefa importante… Como se fosse para reorientar um estoque que doutro modo seria improdutivo. Hobbes: acha-se que não mais se suportará um amanhã tão problemático quanto o hoje… Rancor por ser “alugado” por meios exógenos… Kick him when he’s down. Querer cada vez mais o desastre édipo-lírico. Apocalypse Now!

Não há formulação contrária à do vulcão: há acúmulo gradual de energia, de calor, ajuntamento progressivo da lava. Impossível que o jorro fosse tão lento: ele sempre esbanja, faz em segundos o que uma incrível e arcana labuta produziram. O prazer do domínio, a satisfação, só poderia ocorrer caso o acontecimento evidenciasse “sobras”. Há uma assimetria imburlável! Isso é o que eu chamaria sem dúvida de princípio de economia que subjaz em TODOS OS FENÔMENOS. Talvez a Segunda Guerra tenha sido uma orgia equiparável.

O gozo é uma parte mínima do ato de abrir e fechar o prepúcio; a masturbação é um naco ridículo da duração de um dia; o sonho, idem. Diante dos quatro anos de um curso de graduação a farra do trote nada é. Qualitativamente, no entanto, é um marco inesquecível. Copas do Mundo acontecem em um mês a cada 48 meses. A quarta-feira e o domingo valem inteiros pelo jogo de 2 horas. A longa música pelo pequeno riff. A espera pelo almoço devorado. A caminhada pela chegada. A aula pela gargalhada. Todas as aulas por AQUELA aula. Tudo pelo beijo. Toda a tinta da caneta por uma linha sábia. Todo o mês pelo momento de receber o salário. Trilhões de anos por uma era de ouro. Querer que a felicidade dure menos é a chave!

Reclam[ação] é isso: reclamar uma ação.

Os olhos mais cegos são os que mais querem enxergar…

Não há UM salão de dança para os que não dançam…

De 11 a 15 de novembro de 2009

O PLATÃO DE NIETZSCHE. O NIETZSCHE DE PLATÃO. – Oswaldo Giacóia Jr.

(artigo, lido em territoriosdefilosofia.wordpress.com)

Muito se escreveu a respeito desse desígnio fundamental da filosofia de Nietzsche que identifica a transvaloração de todos os valores com o projeto de reversão do platonismo. Meu propósito, no presente trabalho, é menos examinar aquilo que se encontra explícito nessa obstinada oposição de Nietzsche a Platão do que examinar suas sinuosidades e ambigüidades, seus meandros e bastidores; interessa-me menos o Platão de Nietzsche do que, provocativamente formulado, o Nietzsche de Platão, ou seja, gostaria de examinar o como e o quanto Nietzsche se esforça por assumir as intenções de Platão em seu próprio terreno, como e quanto certas figuras do pensamento presentes em Nietzsche correspondem, de modo surpreendente, a outras tantas figuras do pensamento de Platão, a ponto de se poder suspeitar de que a tão propalada superação do platonismo é muito menos manifesta do que podem sugerir as fachadas retóricas da filosofia nietzschiana.”

Tudo se passaria, pois, de tal maneira que Nietzsche, milênios depois, no Standpunkt (ponto de vista) em que o insere o desenvolvimento da história da filosofia ocidental, ainda insistisse na repetição teimosa (eventualmente mais elaborada do ponto de vista retórico) dos argumentos clássicos da sofística e dos personagens representativos da cultura grega contemporânea a Platão? Seria possível, então, afirmar que as objeções de Nietzsche a Platão já se encontrariam antecipadas e, o que é mais importante, enfrentadas e vencidas por esse último, mais ou menos como se pode afirmar, em certo sentido, da esquerda e da direita hegeliana que algumas de suas objeções foram antecipadas e refletidas pelo próprio Hegel?”

Inverter o platonismo não significa, no fundo, retornar à sofística ou ao realismo cru de Tucídides; significa, antes, levá-lo além e acima de si mesmo, superá-lo e transfigurá-lo numa espécie de grandeza, profundidade e elevação cuja virtude não consiste na violência ou na crueldade da dominação física ou política, mas naquilo que se poderia denominar domínio de si, tornar-se senhor de seus próprios demônios. Talvez uma das mais felizes expressões a esse respeito seja a de G. Lebrun: ‘a doçura do temer’, pois o ideal nietzschiano da nobreza e da força, sua verdadeira e suprema inversão do platonismo não se perfaz no tipo brutal da fera loira ou na figura histórica de Cesare Borgia, mas sim como beleza que não mais ataca.”

INTERESSANTE FIGURA DO HERÓI COMO TIPO INCOMPLETO: “Nesse mesmo contexto, Nietzsche efetua uma de suas mais desconcertantes e sublimes aproximações entre beleza, poder e clemência. Depois de ter afirmado que o belo é inacessível a toda vontade violenta, Nietzsche acrescenta; ‘Um pouco mais, um pouco menos (ein Wenig weniger): justamente isso é aqui muito, isso é aqui o mais. Estar de pé com os músculos relaxados e com a vontade desatrelada: isso é, para vós, o mais difícil, oh sublimes! Quando o poder se torna misericordioso (gnädig) e vem cá para baixo, no visível: esse vir cá para baixo eu denomino beleza … Esse é o segredo da alma; só quando a abandonou o herói é que se aproxima, em sonho, o além-do-herói’ (ibidem).”

Eis, então, enunciado o estrato mais fundamental do projeto de reversão do platonismo: não o retorno puro e simples ao ideal grego pré-socrático, nem a simples retomada da retórica e da sofística, contra Sócrates e Platão, mas a superação da perspectiva da vingança, do juízo e do carrasco.”

[ARQUIVO] CRONOTERAPIA

Originalmente postado em 4 de fevereiro de 2011

Se lhe fosse dado o poder de se transportar para – ou renascer em – uma época futura da humanidade, supondo que seu mundo atual estivesse à beira da destruição e essa fosse a única saída para o colapso, para daqui a quantos anos você programaria essa máquina do tempo irreversível, essa viagem só de ida, estilo Futurama?

Arriscaria 2050 (aposta perigosa, pois, se em 2011 a Terra estivesse mal das pernas – como parece que está…!)?

Não, não. Acho que devemos tratar aqui de séculos, séculos avante, séculos adiante!

2300? 2500?

3000?

4000?

5000?

Mil anos separam o auge do Império Romano da mais obscura Idade Média!

10.000? Correr-se-ia o risco de nascer no breu, no vácuo? Como se vê, 2050 ou o quíntuplo, isso não importa: nada oferece garantias.

Para quem crê numa História cíclica, e que já esgotamos, neste fim de modernidade, todas as possibilidades de acontecimentos, e de surgimento de novas coisas, quem sabe nessa época – em 10 milênios – não se pode ser contemporâneo de Homero? Não vale querer viver como bardo, feito num RPG!

Ou será que não, que o mundo é extremamente rico, materialmente inesgotável, capaz de produzir o inédito durante uma imensidão incomensurável?

1.000.000? Ano 2 bilhões?

Lance os dados, mas saiba! Não há ZERO em nenhuma das faces!

* * *

P.S.

Ikki, a Avê Fênix, na ânsia de fugir das mãos de seu opressor divino, bate as asas até onde consegue – seu cosmo flameja a 1 trilhão de quilômetros. Porém, ao cabo, ele termina na palma da mão de Buda, o sétimo além, o Paraíso dos orientais, mas que parece um tormento – um simples pensamento malévolo ou sacana (tão humano!) pode leva-lo aos reinos menos obres da pós-existência. Tudo bem que o sujeito em questão, em combate com o cavaleiro mais próximo de deus, é tão encardido que as bestas-feras dos submundos da eterna guerra e canibalismo não o suportam, ejetando-o de volta à superfície terrena.

Toda essa visão só me faz imaginar… o quanto é impossível fugir do destino ruim – a ave imortal não pode percorrer uma distância maior, que a livre de alguma condenação. O ano que se escolher para seu túmulo, idem, não o isentará dos fracassos e decepções! Pelo menos você lutou, figurou no álbum dos grandes homens! Mitologizou-se!

* * *

Os EUA não desarmaram as bombas de nêutrons em 1996 porque se tivesse chegado ao “consenso da pax”! Eles o fizeram para não serem explodidos de súbito pelo próprio arsenal! Corrosão da meia-vida. Quem reza essa missa?

O Muro de Berlim caiu, mas a Muralha da China não!

Bush: um “Eu não sei de nada” do tamanho do mundo.

Como partir essa pizza chamada felicidade?

Livro “Os Melhores Tweets de Rafael Aguiar” já nas livrarias!

VIENA FIN-DE-SIÈCLE: Política e cultura – Carl E. Schorske (tradução de Denise Bottmann)

INTRODUÇÃO

A arquitetura moderna, a música moderna, a filosofia moderna, a ciência moderna – todas se definem não a partir do passado, e na verdade nem contra o passado, mas em independência do passado. A mentalidade moderna tornou-se cada vez mais indiferente à história porque esta, concebida como uma tradição nutriz contínua, revelou-se inútil para ela.” “a indiferença por qualquer relação com o passado libera a imaginação, permitindo que proliferem novas formas e novas construções.”

Viena no fin-de-siècle, sentindo profundamente os abalos da desintegração social e política, revelou-se um dos terrenos mais férteis para a cultura a-histórica do nosso século.”

I

meu curso de história das idéias seguiu bastante bem – até Nietzsche.” “As diversas categorias elaboradas para definir ou orientar qualquer uma das correntes na cultura pós-nietzschiana – irracionalismo, subjetivismo, abstracionismo, angústia, tecnicismo – não tinham a virtude de se prestar a generalizações, e tampouco permitiam qualquer integração dialética convincente com o processo histórico, tal como era entendido antes.” “a própria multiplicidade de categorias analíticas com que os movimentos modernos se definiam tinha se convertido, para empregar a expressão de Arnold Schoenberg, em ‘uma dança fúnebre dos princípios’.”

Em economia, os teóricos de orientação matemática ampliaram seu domínio em detrimento dos institucionalistas mais antigos, de orientação social, e keynesianos de orientação política. Mesmo num campo como a música, uma nova cerebralidade, inspirada por Schoenberg e Schenker, começou a destruir as preocupações históricas da musicologia. Sobretudo em filosofia, disciplina outrora marcada por uma grande consciência do seu caráter e continuidade históricos, a escola analítica contestou a validade das questões tradicionais que, desde a antiguidade, tinham interessado aos filósofos.”

Os historiadores tinham-se contentado, por demasiado tempo, em usar os artefatos da alta cultura como meros reflexos ilustrativos de desenvolvimentos políticos ou sociais, ou como elementos ideológicos.” “A noção, amplamente aceita, de um processo histórico estruturado na vida cultural – principalmente o fundado sobre o conceito de progresso, como no séc. XIX – permitia ao historiador que ele se apropriasse de materiais culturais condizentes com a idéia que tinha acerca da direção geral seguida pela história.”

Assim como é necessário conhecer os métodos críticos da ciência moderna para interpretá-la historicamente, da mesma forma é preciso conhecer os tipos de análise empregados pelos estudiosos modernos de humanidades para abordar a produção cultural não-científica do séc. XX.”

Ao que o historiador deve renunciar agora, [anos 70] e principalmente ao enfrentar o problema da modernidade, é a postulação prévia de uma categoria geral abstrata – o que Hegel chamou de Zeitgeist, e Mill de ‘a característica da época’.”

II

No decênio que se seguiu a 1947, finalmente faliu o otimismo histórico e social associado ao New Deal e à luta contra os nazistas. É inegável que os EUA tiveram, antes, ondas de pessimismo e dúvida, com porta-vozes tão eloqüentes como Poe, Melville ou Henry Adams. Mas elas não tinham se imprimido muito profundamente na cultura de uma nação cujos intelectuais se integravam intimamente à sua vida pública.” “Em suma, liberais e radicais, quase que inconscientemente, adaptaram suas visões de mundo a um declínio das expectativas políticas. Liberais que passaram a vida indiferentes à religião foram atraídos para um protestantismo neo-ortodoxo; passou-se a invocar Kierkegaard. Entre as referências intelectuais dos estudantes universitários, a sapiência aristocrática e resignada de um Jakob Burckhardt passou a responder mais aos problemas culturais e políticos do que o racionalismo ético, antes empolgante, de John Stuart Mill, ou a sólida visão sinóptica de Karl Marx.”

Gustav Mahler, por muito tempo tido como compositor banal e até tedioso, subitamente virou nome popular obrigatório nos programas sinfônicos.” “Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, pintores vienenses da vida sensorial e psíquica, saíram da obscuridade para o que só podemos chamar de moda.”

III

O governo efetivamente constitucional durou, num cálculo otimista, 4 décadas (1860-1900). Mal comemorou-se a vitória e vieram os recuos e derrotas. Todo o processo se passou em tempo exíguo, numa densidade desconhecida em todos os outros países europeus.”

IV

Pular o 4º capítulo (Fraud).

I. POLÍTICA E PSIQUE: SCHNITZLER E HOFMANNSTHAL

A valsa, por tanto tempo símbolo da alegre Viena, converteu-se nas mãos do compositor Maurice Ravel, numa desvairada danse macabre.”

Desde o início, os liberais tiveram de partilhar o poder com a aristocracia e burocracia imperiais. Mesmo durante os seus 20 anos de governo a base social dos liberais continuou frágil, restrita aos alemães e judeu-alemães de classe média urbana.” “Mesmo os que recebiam título de nobreza não eram admitidos, como na Alemanha, à vida da côrte imperial.”

A cultura austríaca tradicional, ao contrário da alemã, não era moral, filosófica ou científica, mas basicamente estética.”

A nova haute bourgeoisie de Viena pode ter começado a patrocinar o teatro e a música clássica à imitação dos Lobkowitze e Rasoumowsky, mas no final do século é inegável que seu entusiasmo por essas artes era mais autêntico do que o das outras burguesias européias.” “Se os burgueses vienenses tinham começado por sustentar o templo da arte como um sucedâneo da assimilação à aristocracia, terminaram por encontrar nele uma válvula de escape, um refúgio fora do desagradável mundo da realidade política cada vez mais ameaçadora.” “Em outras partes da Europa, a defesa da arte pela arte implicava no retraimento dos seus devotos frente a uma classe social; só em Viena ela reivindicava a fidelidade de uma classe praticamente inteira, à qual pertenciam os artistas.”

Ao tentar-se assimilar à velha cultura aristocrática da elegância, a burguesia educada se apropriou da sensibilidade estética e sensual, mas sob forma secularizada, distorcida e altamente individualizada. As conseqüências foram o narcisismo e a hipertrofia da vida dos sentimentos.” “A catástrofe do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade.”

O pai de Schnitzler, médico de renome, encaminhou Arthur à sólida carreira médica, que o rapaz seguiu por mais de dez anos. Compartilhando do entusiasmo vienense pelas artes de espetáculo, o pai de Schnitzler orgulhosamente contava com grandes artistas vienenses entre seus pacientes e amigos. Mas quando Arthur contraiu uma febre estética tão aguda que sentiu a premência de uma vocação literária, o pai se revelou um moralista de meados do século, opondo-se firmemente às intenções do rapaz.”

Der We ins Freie [O caminho para o aberto]

Como psicólogo e observador do social, Schnitzler desenhou o mundo que via como um mundo necessário, mas não justificado. … Aspirando à tragédia, Schnitzler só alcançou a melancolia.”

Apenas Karl Kraus, o moralista mais corrosivo da cidade, verteu o seu fel ‘naquele colecionador de gemas’ que ‘foge da vida e ama as coisas que a embelezam’ (Hofmannsthal).” “Em O louco e a morte [Der Tor und der Tod, 1893], Hofmannsthal explorou as devastações causadas pelo ceticismo, perda de vitalidade e indiferença ética que resultavam para o adepto da ‘atitude de colecionar gemas’.”

Und uns’re Gegenwart ist trüb und leer,

Kommt uns die weihe nicht von aussen her.”

Schnitzler abordou o problema do lado moral e científico da tradição liberal vienense. Sua percepção sociológica era maior que a de Hofmannsthal, mas seu comprometimento com a cultura agonizante levou-o a um pessimismo crepuscular que privou a sua obra de uma força trágica.”

Hofmannsthal observou, certa vez, que a atividade dos poetas modernos ‘está sob o decreto da necessidade, como se todos estivessem a construir uma pirâmide, residência gigantesca para um rei morto ou um deus não-nascido’.”

II. A RINGSTRASSE, SEUS CRÍTICOS E O NASCIMENTO DO MODERNISMO URBANO

Desde que ascenderam ao poder, os liberais começaram a remodelar a cidade à sua própria imagem e, quando foram expulsos no final do século, em larga medida tinham conseguido: a face de Viena estava transformada. O centro dessa reconstrução urbana foi a Ringstrasse. Vasto complexo de edifícios públicos e residências particulares, ela ocupava uma ampla faixa de terra, que separava a antiga cidade interna e os subúrbios. … equivalente à noção do ‘vitoriano’ para os ingleses, ‘Gründerzeit’ para os alemães ou ‘Segundo Império’ para os franceses.”

Mais especificamente, foi na forja da Ringstrasse que 2 pioneiros do pensamento moderno sobre a cidade e sua arquitetura, Camillo Sitte e Otto Wagner, moldaram as idéias sobre a vida e forma urbana, cuja influência ainda vigora entre nós.”

Os liberais que governaram Viena dedicaram alguns dos seus esforços mais bem-sucedidos à tarefa técnica, sem expressividade dramática, que permitiu à cidade acomodar, em condições razoáveis de saúde e segurança, uma população em rápido crescimento.”

O Danúbio foi canalizado, para se proteger a cidade contra as inundações que tinham-na atormentado durante séculos.”

Em 1873, com a inauguração do 1º hospital da cidade, a municipalidade liberal assumiu, em nome da medicina, as responsabilidades tradicionais que, antes, a Igreja cumprira em nome da caridade.”

Ao contrário de Berlim e das cidades industriais do norte, a Viena em expansão manteve, em termos gerais, seu compromisso barroco com os espaços abertos.”

O termo mais comumente empregado para descrever o grande programa dos anos 1860 não era ‘renovação’ nem ‘redesenvolvimento’, e sim ‘embelezamento da imagem da cidade’ [Verschönerung des Stadtbildes].”

A estátua de Palas de Kundmann, embora fizesse parte do projeto de Hansen, só foi erguida em 1902, quase 20 anos depois da conclusão do edifício, e muito depois que o espírito de racionalidade abandonara o Reichsrat.”

Um rapaz provinciano, Adolf Hitler, que fôra a Viena porque, como disse, ‘queria ser alguma coisa’, caiu sob o feitiço da Ringstrasse da mesma forma que Friedjung: ‘De manhã até tarde da noite passei de um a outro objeto de interesse, mas foram sempre os edifícios que atraíram meu maior interesse. Eu poderia ficar horas na frente do Ópera, poderia contemplar por horas o Parlamento; todo o bulevar Ring me pareceu um encantamento saído d’As mil e uma noites’.”

O alto aristocrata, o grande comerciante, a viúva com renda fixa ou o médico que podia se permitir esse luxo, foram todos levados a comprar um prédio de apartamentos, morando numa unidade e recebendo a renda do aluguel das outras. Na casa da Ringstrasse, o prestígio social e o lucro assim se reforçaram mutuamente.”

Os aristocratas não eram simples senhores ausentes: metade deles morava nas casas de aluguel que tinham construído. Embora as várias espécies de nobreza titulada ainda em 1914 também possuíssem muitas propriedades em toda a Ring (cerca de 1/3 de todas as casas particulares), foi só no bairro Schwarzenberg que tenderam a morar nos edifícios de sua propriedade.”

Não se permitia que as necessidades comerciais dominassem a face dos quarteirões residenciais, nem a função social de representação que os edifícios deveriam preencher.”

Longe de combater o historicismo, Sitte queria estendê-lo – do edifício individual para seu entorno espacial. O arquiteto moderno imita o grego, o romano e o gótico nos seus edifícios, mas onde estão os cenários apropriados: a ágora, o fórum e a praça do mercado?” “As críticas de Sitte rescendiam a nostalgia por um passado desaparecido. Também traziam exigências sócio-psicológicas singularmente modernas, que partilhava com críticos contemporâneos da cultura, e em especial com Richard Wagner, seu herói.”

Sitte afirmava que vinha se formando uma nova neurose: a agorafobia (Platzscheu), o medo de atravessar vastos espaços urbanos. As pessoas se sentiam diminuídas pelo espaço, impotentes frente aos veículos a que ele fôra entregue.”

Para reformadores ingleses da época, como Ruskin e Morris, a questão era reviver a cultura morta do artesão e do ofício. Na Áustria atrasada, a questão não era reviver, mas sobreviver: preservar uma sociedade artesanal ainda viva, mas mortalmente ameaçada. Sitte proveio dessa classe artesã.”

Depois de 1870, na esteira da vitória prussiana sobre a França e da unificação alemã, o nacionalismo de Wagner difundiu-se rapidamente entre jovens intelectuais austríacos, ao passo que a crise de 1873 deu um encanto particularmente atraente a sua glorificação da comunidade artesã medieval alemã, em oposição à sociedade capitalista moderna.”

Em 1876, ano em que Richter regeu a 1ª apresentação completa do Nibelungenring em Bayreuth, nasceu o 1º filho de Sitte: deu à criança o nome de Siegfried.”

Para a Ringstrasse, as propostas de Sitte, embora modestas, vieram tarde demais. (…) O impacto da visão comunitária de Sitte de um espaço urbano reumanizado teve de aguardar uma aversão à megalópole mais generalizada do que a que poderia ser gerada pela sociedade austríaca anterior à guerra.”

Sitte, lutando contra a anomia, utilizava a praça para deter o fluxo dos homens em movimento; Wagner usou-a para dar ao fluxo direção e objetivo. A perspectiva do veículo dominava nas concepções urbanas de Wagner, da mesma forma como a perspectiva do pedestre governava as de Sitte.”

O racionalismo de Wagner não deixava lugar para a natureza romântica. Seus próprios desenhos mostram claramente que sua cidade ilimitada não só engolfaria a terra, mas converteria toda a vegetação em esculturas arquitetônicas verdes.”

Pode haver algo mais degenerado do que pegar a forma natural livre das árvores, que justamente na cidade invocariam a magia da natureza aberta, e arranjá-las em alturas idênticas, a intervalos matematicamente regulados […] e, ainda por cima de tudo, em mera extensão interminável? Fica-se literalmente com dor de cabeça devido a esse tédio opressivo. E esta é a principal forma artística dos nossos planejadores urbanos de princípios geométricos!”

Camillo Sitte

III. POLÍTICA EM NOVO TOM: UM TRIO AUSTRÍACO

A sociedade austríaca não conseguiu respeitar essas coordenadas liberais de ordem e progresso. No último quarto do século XIX, o programa elaborado pelos liberais contra as classes superiores provocou a explosão das inferiores.” “Quando os liberais atenuaram seu germanismo em favor do Estado multinacional, foram rotulados de traidores do nacionalismo por uma petite bourgeoisie alemã antiliberal.” “O catolicismo (…) voltou como a ideologia dos camponeses e artesãos, para os quais o liberalismo significava capitalismo, e o capitalismo significava judeus.” “Portanto, ao invés de unir as massas contra a velha classe dirigente do alto, os liberais involuntariamente convocaram, das profundezas sociais, as forças de uma desintegração geral.” “Os novos movimentos de massa antiliberais – o nacionalismo tcheco, o pangermanismo, o socialismo cristão, a social-democracia e o sionismo – surgiram de baixo para desafiar a tutela da classe média cultivada, paralisar seu sistema político e minar sua confiança na estrutura racional da história.”

eram os social-democratas que apresentavam os traços paternos mais acentuados. Sua retórica era racionalista, seu secularismo militante, sua fé na educação praticamente ilimitada.” “Embora se possa discordar da posição de um socialista, pode-se discutir com ele na mesma linguagem. Para a mentalidade liberal, o social-democrata era irrazoável, mas não irracional.”

Dois virtuoses principais do novo tom – Georg von Schönerer dos pangermânicos e Karl Lueger dos social-cristãos – tornaram-se os inspiradores e modelos políticos de Adolf Hitler. Um terceiro, Theodor Herzl, forneceu antecipadamente às vítimas de Hitler a resposta política atraente e poderosa já formulada contra o reinado gentio do terror.”

Georg von Schönerer (1842-1921) (…) embora nunca tenha conseguido formar um partido forte, converteu o anti-semitismo numa grande força disruptiva na vida política austríaca. Talvez mais do que qualquer outra figura, foi responsável pela nova estridência na política austríaca, pelo ‘tom mais agudo’ no debate áspero e nas brigas de rua que marcaram a última década do séc. XIX.” “O enérgico engenheiro tornou-se um homem rico, colaborador de banqueiros, liberais, judeus, corretores e burocratas imperiais: todos aqueles tipos sociais cuja destruição viria a ser o objetivo da vida política do seu filho Georg – depois da morte do pai.”

Como membro da comunidade teatral austríaca cosmopolita, que contava com muitos judeus, Alexandrine repudiou explicitamente a política anti-semita do seu irmão. Defensora entusiasta do teatro-entretenimento e dotada de espírito empresarial, manteve-se leal à cultura do liberalismo médio vienense.”

Assim como, no seu pangermanismo, Schönerer fôra antecipado pelas agremiações estudantis nacionalistas, da mesma forma, no seu anti-semitismo, ele foi antecipado pelo movimento artesão.”

O camelô judeu era o análogo pobre do dono judeu da loja de departamentos: ambos ameaçavam o lojista tradicional; ambos atraíam a hostilidade, mas também o hábito do pequeno consumidor.”

Se o imperador era supranacional, os judeus eram subnacionais, a substância popular onipresente do Império, com representantes em todos os grupos nacionais e todos os grupos ideológicos. Em qualquer grupo que se encontrassem, os judeus nunca lutaram para desmembrar o Império. Foi por isso que se converteram nas vítimas de todas as forças centrífugas” “Prometeu ao Reichsrat, em 1887, que, se o seu movimento não vencesse agora, ‘os vingadores nascerão do nosso sangue’ e, ‘para o terror dos opressores semitas e seus enforcadores’, aplicariam o princípio ‘Olho por olho, dente por dente’.”

A agressão, que lhe trouxe tantos adeptos, finalmente foi sua ruína. (…) O ataque de Schönerer contra o escritório da redação, porém, foi a 1ª vez em que o novo estilo na política assumiu a forma de um processo por agressão física. (…) O tribunal condenou Schönerer (…) a uma suspensão dos direitos políticos por 5 anos. (…) Com isso, o Cavaleiro de Rosenau perdeu a única herança do seu pai que verdadeiramente prezava. [título aristocrático]” “Aspirando desesperadamente à aristocracia, poderia ter conseguido como um junker prussiano, mas jamais como um cavaleiro austríaco. Isso porque a tradição nobiliárquica austríaca exigia uma elegância, uma plasticidade e, poder-se-ia acrescentar, uma tolerância para com os erros e males deste mundo totalmente estranhas à constituição de Sch.” “Sua carreira de destruição política parece encontrar sua fonte pessoal na ambição frustrada de filho pouco educado e superestimado de um pai novo-rico.” “Era coerente que o Cavaleiro de Rosenau, profundamente classe média, um dom Quixote tardio e violento, encontrasse em artesãos e adolescentes um séquito pseudofeudal com o qual ensaiaria sua farsa brutal. Um dia essa farsa ocuparia o palco como tragédia, tendo Hitler, admirador de Schönerer, no papel principal.”

Karl Lueger (1844-1910) tinha muito em comum com o Cavaleiro de Rosenau.” “Lueger fez o inverso: transformou uma ideologia da velha direita – o catolicismo político austríaco – em uma ideologia de uma nova esquerda, o socialismo cristão.” “No ano de 1897, quando o imperador relutante finalmente ratificou a eleição de Lueger como prefeito [de Viena], a era da ascendência liberal clássica na Áustria chegou formalmente ao seu fim.” “Mais oportunista que Sch. e menos escravo dos seus intensos sentimentos pessoais, Lueger tardou mais a se comprometer com uma postura anti-semita. Lueger, em suas posições públicas nos fluidos anos 1880, refletia a sombria transição da política democrática para o protofascismo.” “O catolicismo ofereceu a Lueger uma ideologia que conseguiria integrar os elementos antiliberais dispersos que vinham se movendo em direções díspares, à medida que sua carreira se desenvolvia: a democracia, a reforma social, o anti-semitismo e a lealdade aos Habsburgo.”

Theodor Herzl (1860-1904) (…) Protótipo do liberal cultivado, formulou uma abordagem criativa da questão judaica, não por mergulhar na tradição judaica, mas por se esforçar inutilmente em deixá-la para trás.” “A fé dos pais diminuía à medida que o status dos filhos aumentava.” “Quando Theodor nasceu, em 1960, sua família estava bem longe do gueto: economicamente estabelecida, religiosamente ‘esclarecida’, politicamente liberal e culturalmente germânica.”

Nos inícios dos anos 1890, a França parecia se dissolver num caos pior, se possível, que o da Áustria. A república sofria de todas as doenças sociais da época: decadência aristocrática, corrupção parlamentar, guerra de classes de caráter socialista, terror anarquista e barbárie anti-semita.”


A poesia trata de uma abstração mais elevada que a política: o mundo. E como aquele que é capaz de apreender o mundo seria incapaz de compreender a política?”

Em 1892, Herzl fez reportagens sobre os anarquistas, cujos assassinatos e bombas vinham espalhando um frêmito de pavor por toda a Europa.”

O que engajou Herzl no socialismo marxista não foram as suas reivindicações econômicas, mas a dinâmica psicológica que o impelia.”


Indiscerníveis como indivíduos, juntos são como um grande animal que começa a distender seus membros, ainda apenas semiconscientes da sua força. […] Este é apenas um bairro em uma cidade da França.”

Finalmente, irromperam à superfície os mais novos inimigo da república: os anti-semitas. Herzl assistiu ao drama, enquanto explodia todo o sistema político, enquanto as ferventes tensões internas da sociedade francesa rompiam os majestosos freios da lei e da moralidade.” “A terra natal do liberalismo estava doente, em seu centro vital do parlamentarismo. Para um intelectual austríaco, isso significava mais do que uma simples experiência política nova; era a destruição da confiança na viabilidade do liberalismo político, pois ele agora sucumbia até no seu próprio local de origem”

Édouard Drumont, em La France juive (1885), responsabilizou a comunidade judaica internacional pelo declínio da França e exigiu a retratação da emancipação e a expropriação do capital judaico.”

Em 1893, ele concluiu que os judeus, ‘pressionados contra a parede, não terão outra alternativa senão o socialismo’.” “Com isso, a ‘questão judaica’, no seu pensamento, deixou de ser um sintoma do mal-estar social europeu – um pára-raios para a descarga de frustrações gentias –, e se transformou numa questão de vida ou morte para as vítimas.” “Ele não tinha nada a fazer na Sociedade para a Defesa contra o Anti-Semitismo, fundada por eminentes intelectuais alemães e austríacos. (…) o argumento raciocinado era inútil: ‘Há muito já se foi o tempo em que era possível realizar alguma coisa por meios polidos e moderados.”

Com o auxílio dos príncipes austríacos da Igreja, Herzl conseguiria chegar ao Santo Papa, dizendo:


Se o senhor nos ajudar contra os anti-semitas, eu liderarei um grande movimento pela conversão livre e decente dos judeus à Cristandade. (…) não envergonhados como os convertidos individuais até agora […] cuja conversão tem-se mostrado covarde ou oportunista.”

Assimilação dos judeus através da Igreja de Roma – que proposta estranha para um liberal secular!” “Ainda isolado dos próprios judeus, repudiando alguns como Geldjuden e outros como Ghettojuden, alguns como racionalistas excessivamente otimistas e outros como crentes excessivamente primitivos, Herzl assim começava a reunir para os judeus os elementos da política em novo tom” “Numa época em que a culpa de Dreyfus era aceita praticamente por todos, Herzl duvidava dela, apesar da falta de provas.” “Isso não acontecera na Rússia, nem mesmo na Áustria, mas na França, ‘a republicana, moderna, civilizada França, cem anos depois da Declaração dos Direitos do Homem’.”

Não sendo nenhum wagneriano fanático, e nem mesmo um freqüentador de óperas além da média vienense, Herzl desta vez ficou eletrizado por Tannhäuser. Chegou em casa exaltado e sentou-se para esboçar, num acesso de entusiasmo próximo a uma possessão, seu sonho da secessão judaica em relação à Europa. Que tenha sido Wagner a acionar a liberação das energias intelectuais de Herzl numa torrente criativa: quão irônico, mas quão psicologicamente apropriado!” “Herzl teria sentido na volta moralmente liberadora de Tannhäuser à gruta um paralelo da sua própria volta ao gueto?” “O movimento sionista seria uma espécie de Gesamtkunstwerk da nova política. Herzl o sentiu ao dizer: ‘O êxodo de Moisés é comparável ao meu…’


Ninguém pensou em procurar a terra prometida onde ela está, e no entanto está tão próxima. Ei-la: dentro de nós mesmos!”

Para o barão Hirsch, filantropo sóbrio e prudente, Herzl apresentou o modelo da unificação germânica como prova do primado do irracional na política.”


O senhor sabe de onde saiu o Império Germânico? De sonhos, canções, fantasias e fitas tricolores em preto, vermelho e dourado.”

Com uma bandeira, pode-se levar os homens para onde se quiser, até para a terra prometida. Uma bandeira é praticamente a única coisa pela qual os homens estão dispostos a morrer em massa, se educados para isso.”

UM PROTOSSIONISTA HETERODOXO: “Embora Herzl acenasse à aspiração religiosa arcaica, não confiava totalmente nela: nem sequer queria situar a terra natal judaica na Palestina” “Da estrela de Davi ou qualquer outro símbolo judaico, Herzl não fez nenhuma menção.”

* * *

Os três fracassaram. Os três organizaram suas comunidades não só à revelia dos liberais entre elas, mas também sem o apoio das autoridades superiores externas a que apelaram.”

O novo Estado teria um ‘federalismo lingüístico’, onde cada um falaria a língua que ainda amasse (…) Só o iídiche, ‘a linguagem estropiada e reprimida do gueto’, ‘a fala roubada dos prisioneiros’, seria deixado de lado.”

O clero, ainda que honrado, ficaria confinado aos seus templos, como o exército aos quartéis, de modo que não causem problemas a um Estado comprometido com o livre pensamento.” Que diferença para os dias atuais, que diferença!


O povo é sentimental; as massas não vêem com clareza. Está começando a surgir em torno de mim uma leve bruma que talvez se converta na nuvem em que andarei. É talvez a coisa mais interessante que registro nesses diários: como cresce minha lenda.”

Política é magia. Quem sabe invocar as forças das profundezas, a este seguirão.”

Hofmannsthal

V. GUSTAV KLIMT: PINTURA E CRISE DO EGO LIBERAL

Klimt saiu da escola como decorador arquitetônico no exato momento em que o grande programa Ringstrasse de construção monumental vinha ingressando em sua fase final. Ele encontrou ocasião de empregar seu talento versátil em pinturas históricas para dois dos últimos grandes edifícios, o Burgtheater e o Museu de História da Arte.” “Gustav Klimt, embora fosse um jovem mestre da velha escola, cedo assumiu a liderança na revolta de die Jungen nas artes visuais.”

Marx observou certa vez que, quando os homens estão prestes a fazer uma revolução, eles se fortalecem agindo como se estivessem restaurando um passado desaparecido. A Secessão definiu-se não como um mero salon des réfusés, mas como uma nova secessio plebis romana, onde os plebeus, repudiando desafiadoramente o mau governo dos patrícios, retiravam-se da república. A formulação da ideologia romana da Secessão foi elaborada por Max Burckhard (1854-1912), nietzschiano, progressista em termos políticos, e um dos grandes reformadores do direito administrativo, que em 1890 renunciou a sua carreira político-jurídica para virar diretor do Burgtheater, cargo que acabara por perder quando passou a co-editar a revista da Secessão, Ver Sacrum.”

Peter Vergo sugeriu que Klimt compreendeu Schopenhauer através de Wagner, especialmente com a súmula concisa de Wagner sobre o pensamento do filósofo em seu ensaio largamente difundido Beethoven, e que tanto a iconografia como a mensagem de ‘Filosofia’ mostravam a influência da Das Rheingold.”

O pintor da frustração psicológica e do mal-estar metafísico tornou-se o pintor da vida bela da classe superior, afastada e isolada do destino comum numa bela casa geométrica.”

VI. A TRANSFORMAÇÃO DO JARDIM

Sempre que os artistas europeus procederam à difícil tentativa de enfrentar uma ordem existente, como ocorreu com tanta freqüência no séc. XIX, o realismo social [hoje a distopia] se apresentou como modalidade literária dominante.”

Os austríacos prontamente captaram a sensibilidade langorosa de um Baudelaire ou de um Paul Bourget, mas não alcançaram a sensualidade dolorosa e autodilaceradora dos decadentes franceses, nem a sua visão da beleza cruel do cenário urbano. Os pré-rafaelitas ingleses inspiraram o movimento art nouveau (com o nome de Secessão) (…) mas nem a sua espiritualidade pseudomedieval nem o seu forte impulso reformista social penetraram nos discípulos austríacos.”

Nem dégagés nem engagés, os estetas austríacos estavam alienados, não da sua classe, mas juntamente com ela, de uma sociedade que frustrou suas expectativas e renegou seus valores. Dessa forma, o jardim da beleza da jovem Áustria era um retiro dos beati possidentes, um jardim estranhamente suspenso entre a realidade e a utopia.”


Arte é arte e vida é vida, mas viver a vida artisticamente: eis a arte da vida.”

Pelo fato mesmo de representar a vida, a arte nos separa dela. É por isso que, ao se destacar dos outros valores e se tornar um valor em si mesma, a arte gerou nos seus devotos aquele sentimento de eterno espectador que, por sua vez, alimenta a introversão.”

Como Marcel Proust, as recordações de Erwin se converteram em sua vida.”

VII. EXPLOSÃO NO JARDIM: KOKOSCHKA E SCHOENBERG

O professor Franz Cizek, que organizou a mostra, era o chefe do departamento pedagógico na Escola de Artes e Ofícios onde Kokoschka estudava, para ser professor de artes. A modéstia da opção do rapaz merece nossa atenção. Se Kokoschka tivesse aspirado à carreira, menos segura e mais prestigiosa, de pintor, teria freqüentado a Academia de Belas-Artes. Ao invés disso, ele optou pela via mais humilde, mais condizente com a classe artesã de que provinha.” “Enquanto as gerações anteriores tinham insistido em levar a criança à estética adulta através do desenho de cópias, Cizek incentivava a livre atividade criativa. (…) Meninos de 5 a 9 anos iam uma vez por semana às aulas de Cizek, ‘para se expressarem’. (…) Aqui, só o não-inibido, o instintivo se torna luminoso como (o) essencialmente humano’” “Mesmo o júri da Kunstschau, presidido por Gustave Klimt, foi indulgente com os caprichos contestadores de Kokoschka.” “Com efeito, Kokoschka inverteu o desenvolvimento que, de modo apenas semiconsciente, os mais velhos tinham experimentado, ao passarem das belas-artes para atividades nas artes e ofícios. Eles tinham retirado à arte secessionistas dos anos 90 a sua função original – dizer a verdade psicológica –, e adaptaram sua linguagem visual a finalidades puramente decorativas. Kokoschka tomou a linguagem ornamental madura dos seus professores, e tornou a desenvolver o seu potencial simbólico”

Kokoschka, Os meninos sonhadores, 1908

Heinrich Kleist já ressuscitara o antigo entrelaçamento de amor e guerra em sua Pentesiléia – um marco no retorno do reprimido na alta cultura européia.”

E uma obra dessas [poema + peça de teatro + ilustrações = obra-de-arte total à la Wagner?!?] foi encenada no encantador jardim de Kunstschau! Um público que mal acabara de aprender a refinar seus receptores sensoriais e psicológicos, para reagir às delicadas nuanças de O aniversário da infanta de Oscar Wilde, tinha agora de exorcizar a selvageria crua da peça de Kokoschka.” “O pintor escreveu que uma tempestade de protestos desabou sobre ele na noite de estréia, mas essa sua lembrança foi contestada por Peter Vergo, com algumas sólidas provas em contrário.” “Por instigação do Ministério da Cultura e Instrução, o diretor da Escola de Artes e Ofícios, Alfred Roller, tirou a bolsa de Kokoschka. Felizmente, a explosão também atraiu a atenção do crítico mais frio e categórico do esteticismo vienense, o arquiteto Adolf Loos.”

Assim como Kraus procurava restaurar a pureza do meio lingüístico do homem, removendo todas as pretensões estéticas da prosa expositiva, também Loos tentou purificar o meio visual – cidade, moradia, vestuário, mobília –, abolindo todos os embelezamentos. A arquitetura, disse ele taxativamente, não era arte: ‘Tudo o que serve a uma finalidade deve ser excluído do âmbito da arte. […] Só teremos uma arquitetura do nosso tempo quando o termo mentiroso <arte aplicada> for banido do vocabulário das nações’.”

Pode parecer coincidência demais que Schoenberg também tenha realizado sua ruptura, passando para a atonalidade, a partir do tema de um despertar sexual adolescente ocorrido num jardim. Mas é assim que foi. Formal e psicologicamente, o ciclo de canções de Schoenberg O livro dos jardins suspensos é um análogo musical muito próximo de Os meninos sonhadores de Kokoschka.”

Schoenberg, Teoria da harmonia, 1911.

um processo que vinha desde Beethoven: a erosão da antiga ordem na música, o sistema harmônico diatônico.” “Desde a Renascença, a música ocidental tinha sido concebida na base de uma ordem tonal hierárquica, a escala diatônica, cujo elemento central era a tríade tônica, a tonalidade definida. A tríade era o elemento de autoridade, estabilidade e, sobretudo, repouso. Mas a música é movimento; se a consonância é tida apenas como um quadro em repouso, todo movimento será dissonante.” “A modulação – a passagem de uma a outra tonalidade – era um momento de ilegitimidade permitida, um estado acentuado de ambigüidade, a ser resolvido por uma nova orientação numa nova modalidade, ou pelo retorno a uma anterior. Assim o pianista Alfred Brendel identificou os usos do cromatismo, uma das principais soluções da tonalidade, aplicados por Liszt em suas Variações sobre Bach, e por Haydn” “Não por acaso foi Rameau, o músico de côrte de Luís XV, o teórico mais claro e inflexível das ‘leis’ da harmonia.”

Tristão e Isolda de Wagner como o primeiro passo para o atonalismo.

(*) “Tão forte era o apelo do Pelléas und Mélisande de Maeterlinck aos músicos da época que 4 grandes compositores lhe dedicaram obras suas: Fauré (1901), Debussy (1902), Schoenberg (1903) e Sibelius (1905).”

Em Verklärte Nacht, ele mostrou que o ‘abismo intransponível entre Brahms e Wagner não era mais um problema’.”


todo grande artista é um impressionista: sua reação acurada ao mais débil impulso revela-lhe o inaudito, o novo”

Os versos de Stefan George prestavam-se particularmente bem à ousada tarefa musical em que agora o compositor se empenhara”


Wer di Wahl hat, hat die Qual”

Por trás da Erwartung encontrava-se uma experiência pessoal arrasadora, que Schoenberg projetou dentro da obra: a mulher que o abandonou por um dos seus melhores amigos, o artista Richard Gerstl, que logo a seguir se suicidou.”

Nesse espírito crítico, Schoenberg trabalhou de 1912 a 1914 no projeto de uma grande sinfonia para celebrar a morte do Deus burguês. A sinfonia nunca foi concluída, pois veio a guerra.”

na Sinfonia da dança de morte, ele escreveu o seu 1º tema dodecafônico. [uma nova ordem, após o caos do atonalismo]” “sua democracia dos 12 tons”

NOTAS

Mahler, originalmente, deu à sua Terceira sinfonia o título, extraído do ensaio de Nietzsche, de Die fröhliche Wissenschaft. Para uma análise profundamente esclarecedora da obra e do papel de Mahler como ‘cosmólogo metamusical’, no contexto do culto nietzschiano austríaco, ver McGrath, Dionysian Art and Populist Politics in Austria.”

CAPITALISMO, MODERNISMO E PÓS-MODERNISMO – Terry Eagleton

O pós-modernismo é, portanto, uma terrível paródia da utopia socialista, tendo abolido, de um só golpe, toda alienação. Ao considerar a alienação como potência secundária, alienando-nos mesmo de nossa própria alienação, ele nos persuade a reconhecer essa utopia não como algum telos remoto mas, surpreendentemente, como nada mais que o presente em si mesmo, repleto como é em sua própria positividade bruta e sem o mais leve traço de ausência.”

O dilema de David Hume é suplantado por uma simples fusão: fato é valor. A utopia não pode pertencer ao futuro porque o futuro, sob a forma de tecnologia, já está aqui, em exata sincronia com o presente.”

O eschaton, aparentemente, já está aqui sob nossos narizes, mas tão penetrante e imediato a ponto de ser invisível àqueles que ainda têm os olhos teimosamente voltados para o passado ou para o futuro.”

Não é difícil enxergar uma relação entre a filosofia de J.L. Austin e a IBM, ou entre os vários neo-nietzschianismos de uma era pós-estruturalista e a Standard Oil.”

nem sempre é fácil distinguir assaltos politicamente radicais à epistemologia clássica (entre os quais o próprio jovem Lukács pode ser citado, ao lado da vanguarda soviética) de ataques flagrantemente reacionários.”

Lyotard não tem dúvidas de que ‘as lutas socialistas e seus instrumentos foram transformados em reguladores do sistema’ em todas as sociedades avançadas, uma certeza olímpica que, no momento em que escrevo, a sra. Thatcher poderia, a um só tempo, invejar e questionar. (Lyotard sabiamente silencia sobre a luta de classes fora das nações capitalistas avançadas.)”

as sutilíssimas meditações de Benjamin sobre a história desarranjam qualquer esquema binário pós-estruturalista dessa espécie”

Um sentido nietzschiano do ‘moderno’ também informa a obra do mais influente dos desconstrucionistas americanos, Paul De Man, embora com uma pitada adicional de ironia. Pois o ‘esquecimento ativo’, argumenta Paul De Man, nunca pode ser completamente bem-sucedido: o ato caracteristicamente moderno, que procura eliminar ou suspender a história, vê-se submetido nesse exato momento à linhagem que procura suprimir, perpetuando-a ao invés de aboli-la. Com efeito, a literatura para De Man nada mais é que essa tentativa constantemente predestinada e ironicamente autodissolvente de fazer o novo, essa incapacidade incessante de enfim despertar do pesadelo da história”

Somos todos, simultânea e inextricavelmente, modernos e tradicionais, termos que para De Man não designam nem movimentos culturais, nem ideologias estéticas, mas a própria estrutura desse fenômeno duplo, sempre simultaneamente dentro e fora do tempo, chamado literatura, em que esse dilema comum representa a si mesmo com retórica autoconsciência.”

O desafiante recurso ‘radical’ a Nietzsche, por assim dizer, acaba por plantar-nos em uma posição maduramente democrata avançada (liberal democrat), obliquamente cética mas genialmente tolerante com as relíquias radicais da juventude.”

O marxismo de Louis Althusser aproxima-se desse nietzschianismo: a prática é um assunto ‘imaginário’ que se alimenta da repressão do entendimento verdadeiramente teórico, a teoria uma reflexão sobre a ficcionalidade necessária de tal ação. As duas, tal como em Nietzsche e De Man, são ontologicamente distintas, necessariamente não-sincrônicas.”

Todas as eras históricas são modernas para si mesmas, mas nem todas vivem sua experiência desse modo ideológico.”

e são Deleuze e Guattari, com toda sua insistência sobre as manifestações difusas e perversas do desejo, os verdadeiros metafísicos, ao aderir a tal essencialismo velado. Ainda uma vez, teoria e prática estão ontologicamente em disputa, uma vez que o herói esquizóide do drama revolucionário é, por definição, incapaz de refletir sobre sua própria condição, necessitando de intelectuais parisienses para fazê-lo em seu lugar. A única ‘revolução’ concebível, dado tal protagonista, é a desordem; e Deleuze e Guattari, significativamente, usam os dois termos como sinônimos, na mais banal retórica anarquista.”

o místico positivismo do primeiro Wittgenstein, para o qual o mundo – caso se acredite nele – é apenas o que é e não outra coisa qualquer.”

O pós-modernismo persuade-nos a renunciar a nossa paranóia epistemológica para abraçar a rude objetividade da subjetividade aleatória; o modernismo, de forma mais produtiva, está dilacerado pela contradição entre um humanismo ainda inelutavelmente burguês e as pressões de uma racionalidade bastante diferente, a qual, ainda emergente, não é sequer capaz de dar um nome a si própria.”

A realidade fenomenológica do sujeito coloca em questão a ideologia humanista formal, enquanto a persistência dessa ideologia é precisamente o que habilita a realidade fenomenológica a ser caracterizada como negativa.”

Mas o sujeito humanista burguês não é, na verdade, simplesmente parte de uma história esgotada que podemos, prazerosa ou relutantemente, deixar para trás: se ele constitui um modelo crescentemente inapropriado a certos níveis de subjetividade, permanece potencialmente relevante em outros.”

“‘O ecletismo’, escreve Lyotard, ‘é o grau zero da cultura geral contemporânea: as pessoas escutam reggae, assistem a um western, almoçam McDonald’s e jantam cozinha local, usam perfume de Paris em Tóquio e roupas retro em Hong Kong; o conhecimento é um assunto de jogos de TV’.”

[ARQUIVO] A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER – Milan Kundera

Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2011 (digressões abreviadas)

Se a revolução Francesa devesse repetir-se eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre.”

Não se dava conta de que aquilo que julgava irreal (seu trabalho no isolamento das bibliotecas) era sua vida real, enquanto as passeatas que ele julgava reais eram apenas um espetáculo de teatro, uma dança, uma festa, em outras palavras: um sonho.”

As pessoas nunca perdem a ocasião de falar mal dos amigos.”

[kitsch] Esta é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O uso repetido da palavra fez com que se apagasse seu sentido metafísico original: em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.”

É preciso evidentemente que os sentimentos suscitados pelo kitsch possam ser compartilhados pelo maior número possível de pessoas (…) a lembrança do primeiro amor [por exemplo].” “como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado! Somente isso faz com que o kitsch seja o kitsch.” “Paz, amor e a fraternidade entre todos os homens não poderá nunca ter outra base senão o kitsch.” “O kitsch é o ideal estético de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos.”

O gulag pode ser considerado como uma fossa sanitária em que o kitsch totalitário joga seus detritos.”

DOS QUATRO TIPOS DE OLHARES-SOBRE-SI (TRÊS NÃO IMPORTAM MUITO): “Por fim, existe a 4ª categoria, a mais rara, a daqueles que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. São os sonhadores. P.ex., Franz. Se chegou até a fronteira do Camboja, foi unicamente por causa de Sabina. O ônibus sacoleja na estrada da Tailândia e ele sente que Sabina tem os olhos pousados nele.”

Odeia-se mais aqueles de cuja opinião já nos livramos com muito custo”

Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”

O amor que se tem por um cachorro escandaliza.”

O homem dominou a natureza – isto é, enrolou cordões de marionete no próprio pescoço.”

Karenin cometeu o erro de sempre: largou seu pedaço de croissant para tentar pegar o pedaço que seu dono segurava na boca. Como sempre, esquecera que Tomas não era cachorro e que tinha mãos. Tomas não largou o pedaço que tinha na boca, e apanhou o pedaço que caíra no chão.”

A nostalgia do Paraíso é o desejo do homem de não ser homem.”

O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução.”

Por isso o homem não pode ser feliz, pois a felicidade é o desejo da repetição.”

Como determinar o instante em que não vale mais a pena viver.”

Missão é uma palavra idiota.”

HIDEOUS GNOSIS: Black Metal Theory Symposium 1 (blackmetaltheory.blogspot.com) [best quotes] – Edited by Nicola Masciandaro

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Black metal, whose shriek of birth occurred in the 1980s and achieved full articulation in the early 1990s, represents a return to orthodoxy after an interlude of laxness. The enemy was not only to be found outside of the metal community, but also within.”

The lexicon of black metal is comprised, to an extent unmet by other forms of music, of references to the enduring, the abiding, and the transcendent: the arctic tundra, the unyielding night of the northern winter, virgin woods and wastelands, stone, mountains, the moon, and the stars.”

The heaviest metal found on Earth is uranium; enriched uranium is plutonium, a substance that conjures up the Lord of the Dead. Heavier elements occur only in space, where Pluto mournfully orbits the Sun at a distance of 3,666 million miles. Somewhere still farther off in the void floats the philosopher’s stone, black metal.”

The black metal that was born in Scandinavia in the mode of Fortification¹ can be termed Hyperborean Black Metal. Hyperborean Black Metal is lunar, atrophic, depraved, infinite and pure. The symbol of its birth is the Death of Dead. Its tone is Nihilism and its key technique is the Blast Beat.

[¹ Banda praticamente impossível de encontrar. Checar Eternal Fortification no M-A, porém!]

Today USBM stands in the shadow of Hyperborean Black Metal. The time has come for a decisive break with the European tradition and the establishment of a truly American black metal. And we should say ‘American’ rather than ‘US’: the US is a declining empire; America is an eternal ideal representing human dignity, hybridization and creative evolution.”

Hyperborean Black Metal is the culmination of the history of extreme metal (which is itself the culmination of the history of the Death of God). The subject of this history may be compared to a mountaineer, maneuvering over and across the various terrains of thrash, grindcore and death metal – or rather, carving these terrains into the mountainside – and striving to reach the Haptic Void, dimly understood but strongly felt, glimmering brightly at the summit.”

Transcendental Black Metal is in fact nihilism, however it is a double nihilism and a final nihilism, a once and for all negation of the entire series of negations. With this final ‘No’ we arrive [in] a sort of vertiginous Affirmation, an Affirmation that is white-knuckled, terrified, unsentimental, and courageous.”

The infinite is everywhere and cheap. It is the finite that is rare. It is the finite that is peculiar to humankind. Finitude means confronting what is present at hand authentically and doing what is honest with the means one has at one’s disposal. The solar nourishes the finite. The finite is born, strives, and dies.”

Transcendental black metal sacralizes the penultimate moment, the ‘almost‘ or the ‘not yet’, because it has been found that there is nothing after the penultimate moment. The penultimate moment is the final moment, and it takes place at every moment. The fabric of existence is open. There is nothing that is complete; there is nothing that is pure.”

Depravity is dissimulation; courage is authenticity. Courage has no image of itself. It is trailblazing. It has no path before it. Its only trace is the wake it leaves behind.”

After the dust settles, and the work of modernity and postmodernity is done, and the divisions between high culture, mass culture and counterculture have been obliterated, what is left? A single, shining Culture which is True, Good, and Beautiful.”

Teutoburg Forest

The primary level of decay conveyed in black metal concerns the predisposition toward matters of the human body’s decomposition. A recurring scenario involves the ritualistic debasement of the decomposing corpse at the hands of the living, in what can often be understood as a de-sanctifying ritual that rids the rotting corpse of its illusory spiritual wholeness.”

Second, it can certainly be said that black metal, in its varying and perpetually evolving states, employs a literal decomposition and decay of its own presence” “Beyond merely producing a record that sounds grimy, faraway, muddled, etc., these artists create a presence that is wholly separate from the music.”

It is only after disfigurement and debasement of the corpse take place that necrophilic urges can emerge, in which the corpse is wallowed in, raped, or sodomized in a ritual of great satisfaction, as in Decay’s song, Copulation With the Gutted Corpse

a great deal of anti-Christian black metal maintains a knowledge of such objects that are lost to the now predominant rabble of evangelical Christians, whose masses often take place in fluorescent-lit recreation centers and whose priests often wear sweatsuits.”

(*) “For a beautiful simultaneous satire/homage of the life of the suburban black metaller, see the gorgeous black metal montage of Harmony Korine’s 1999 film Gummo.”

If we were to define a degree zero of Black Metal politics then it would be an unstable amalgam of Stirnerite egoism and Nietzschean aristocratism: a radical anti-humanist individualism implacably hostile to all the ideological ‘spooks’ of the present social order, committed to creating an ‘aristocracy of the future’, and auto-engendering a ‘creative nothing’.” “Of course these are often ‘spooks’ associated with the extreme right, Nazism, fascism, and ultra-nationalism. Whereas Stirnerite individualism might be regarded as anarchist, or at best indifferent to politics, this racial-national metaphysics is often, although not always of course, deployed to re-territorialise and establish a ‘grand politics’.” “the critic from the left can safely handle and enjoy Black Metal and proclaim their sophistication by condescending to the naiveté of such adolescent political posturing which ‘unfortunately’ marks an otherwise admirably radical aesthetic.”

It should be noted that a Gramscian politics of hegemony has been invoked by the far right, in particular in France by Alain de Benoist, ideologue of the ‘new right’. His culturalist racism and anti-Americanism bear many similarities to the views of Sale Famine, however Famine’s elitism and anti-popular stance incarnate a peculiarly constrained vision of hegemony – one occult and elitist.”

(*) “Famine states that the next Peste Noire album will be ‘pure reggae’ (Travis Interview), inhabiting his usual mode of deliberate provocation, but also implying his own ability to define a true Black Metal, in quasi-Duchampian mode, as whatever he nominates.”

Carl Schmitt, Theory of the Partisan, 1963.

The apocalypse leads to the post-apocalypse. Contrary to this, Armageddon is the site of the terminal end.”

What does this have to do with black metal, or with Mayhem’s demo title as a founding gesture?”

Hence the absence of the usual dialectical suspects: not void, not synthesis, not the not-not of the negation of the negation.”

It is the war fought between two totalities, between black metal’s endless antagonism and liberal capitalism’s eternal present.”

it predicts and describes a final battle, yet it grasps that final battle as one which has been there all along.”

Therein the desperation of black metal vocals: it’s just the howl of the thought that this is at once the worst of all possible worlds and the only possible world.” “In this way, despite its moronic and frequent attempts to be Fascist and despite the fact that we should wage total war against all such attempts, it never can be.” “all non-Nazi black metal is still NSNSBM (not so National Socialist black metal).” “Black metal dreams a sovereign, and, in the next breath, severs his head to spatter the blood across all. What remains are the headless horsemen of the apocalypse, the acephalic leaders of a chiefless crowd marching off to permanent war.”

the act of becoming headless opens the way for the second gesture, that of the cephalophore,¹ the head-bearer, the one defined not by the condition of being without head but by the act of picking the head back up.”

¹ Botânica: que tem flor em forma de cabeça.

Black metal makes appear as decision what is in truth a general state of affairs, not just of its imagined post-apocalypse but of the systemic chaos and non-direction of the contemporary world. Hence the performative theatricality: the head already removed, the axe’s swing is a magician’s trick, tracing the negative space there all along between the body and the head.”

But despite its recurrent anti-intellectualism and penchant for uncritical reenactment of stale dark vitalist tropes, black metal is smarter than it thinks. Appropriately for its Satanic grounding, it shares much with the integral atheism of de Sade: to take on abstraction and the generic, you have to do so on its own terms.”

I like some bands from the U.S. but never would have conceived of hording them altogether under some catchy, marketable little moniker like USBM. It implies a sense of unity, which I cannot see manifesting in the States on any comprehensible scale.”

He Who Crushes Teeth, Bone Awl: I think the first band to make a uniquely American statement in Black Metal was Grand Belial’s Key. They use the same method as the Europeans in not just bending Death Metal a little bit but really making that leap, playing music that is rooted in the history of the country. Even though their music falls nicely into Black Metal as category, when I listen to Mocking the Philanthropist I hear American folk music, I hear the racial tension of the south, I hear hot American climates and landscapes. I hear the civil war. They did a fitting job including the surrounding culture into the sound, which most American bands completely fail to do.”

Blaash, Bahimron: (…) We become soulless to a point – a hollow meandering consumer

who thinks they are xtian until theyre rapin’ their daughter one day . . . School shootings, mass murder, serial killers, suicide – all of the ‘real subjects’ – not Viking heritage or killing the ‘Christians’ in lyrics”

Jordan, Wrath Of The Weak: In some respects, it seems like USBM has taken the destructive side of black metal and turned it against itself, so instead of church burnings and murders it manifests itself in the hatred and self-loathing that’s present in a lot of the acts which get labeled as suicidal/depressive/etc. I suppose you could take that as a reaction of sorts against our current habit of ignoring and/or medicating away any mood that isn’t neutral or somewhat positive.”

Andee, Aquarius Records/tUMULt: Most black metal musicians did not grow up listening to black metal. Many might not have listened to metal at all. And you can hear that in the music: Elements of doom, psych, stoner rock, post rock. Black metal guys who are my age, which is a lot of them, were into Slint¹ way before they were into black metal, and were listening to Drive Like Jehu¹ and Unwound¹ before they had ever heard Mayhem or Immortal. That stuff informs everything they do. Even when they’re playing some part that is total Darkthrone worship, often those years of listening to other music seeps in and turns it into something new.”

¹ Math rock/indie/emo precursores norte-americanos.

Blaash, Bahimiron: USBM incorporates more ‘brutality’, I think, then some European acts—ignoring the obvious stalwart murderers like Immortal, Marduk, or after them Dark Funeral…”

Imperial, Krieg: What I do see as something typically American (to which much outside of the US and unfortunately only a small portion within the country would agree) is the pseudo idea of American superiority to outside art, culture and music. This is why you see so many bands doing the paint by numbers sort of thing, regurgitating what’s already been done yet thinking it’s their own. As Americans we have a strong artistic and literary heritage, especially post WW2 from the Beat movement, Warhol’s idea of Popism, La Monte Young‘s musical experiences,¹ etc. but we don’t draw on it, we just keep pushing out McBlackmetal.”

¹ Artista nascido em 1935 citado como ‘minimalista’, ‘vanguardista’ e mesmo drone!

I don’t see our music as aggressive; I see it as a contemplation of your own heartbeat. The heart never stops; it never stops until you’re dead. It is never not drenched in blood. It is the most violent rhythm you can think of. When a body becomes so big it needs a heart, this is when music becomes real.”

Josh, Velvet Cacoon: (…) The east coast stuff was really incoherent and unconvincing, it offered nothing and went nowhere. There was no direction and it seemed like they were playing black metal because it was the alternative to being just a fan. Have you ever heard Kult ov Azazel¹ or any of those types of east coast groups? Everything from the music to the lyrics, song titles and artwork screams ‘generic’. I don’t know how these guys get out of bed each morning.”

¹ Extrato da last.fm

He Who Crushes Teeth, Bone Awl: Anything good in American black metal is happening on the West Coast…. There is more culture in California. More global influence. More computers. Less McDonald’s. More Starbucks. More Mexicans. More People. More numbers. Less women. More gay people. More cars. More traffic. More violence. More romance. More life in general. An abundance of living things.”

UMESH, Brown Jenkins:¹ All it would take would be half a dozen ambitious writers in America and the U.S. black metal scene would have its own sordid narrative to struggle with. These are creations of the press, of course. If you think about it, the heart of the Norwegian narrative, for example, is a story with a black hole at the middle of it—no one really knows what happened the night Euronymous was murdered except Varg Vikernes. The other person involved is dead. Varg has told different stories about what happened over the years—does he even really remember? So even at the very center of an attempt to apply meaning and a grand, overarching story to the history of the Norwegian black metal scene, there is a wall beyond which no one can penetrate. It’s meaningless. People can make whatever they want of it.”

¹ Parece interessante: doom metalgaze!

In A Thousand Plateaus Gilles Deleuze and Félix Guattari introduce the concept of ‘becoming-animal’ which refers to the subject’s movement from a stable position, from identity to a nomadic, anarchic existence. (…) Other Black Metal musicians have adopted new names to describe their becomings-wolf. Burzum’s Kristian Vikernes has changed his name into Varg which means wolf. Darkthrone’s Leif Nagell is known as Fenriz. Fenrir or Fenris is the name of the Nordic monstrous wolf, the son of the god Loki and Angerboda. Ulver is the name of a BM band from Norway whose lyrical themes are those of lycanthropy and fairy tales among others. Ulv means wolf in Norwegian and ulver is the plural form of the word.”

A living incarnation of Satan has taken the place of a dead God. But the original father needs to be brought back and recomposed repeatedly for the transgressive act to have meaning. Logos demands to be there first, in order that Chaos may later renounce it, for the wolf to commit its prohibited crimes. Without a paternal figure transgression becomes a fruitless act, an empty simulation of repetition. And this is where black metal’s contradictions take place. The thirst for annihilation, the violent transgression of limits, the disruption and the illicit crossing of boundaries are only manifested and secured with the presence of the phallus. The Christian father haunts black metal, the way King Hamlet’s ghost haunts Denmark.”

The annihilation of melody and the repetition of raw sounds of the same fast tempo reflect the condition of modernity’s mechanical reproductive experience, the simulation of simulations, the emptiness of the sign, the disenfranchised being’s uniform activities.”

In Kadenzza’s¹ album The Second Renaissance (2005) songs based on the story of little red riding hood manifest the wolf’s masculine authority over the maternal and feminine. In the Woods red riding hood creeps through a hole in the door only to find the wolf offering her the flesh of her dead mother as food. It seems that both the wolf and red riding hood have transgressed into the mother’s house, the womb in the forest. In The Wolfoid the wolf incarnated as man unleashes his violent instincts through aggressive vocals and fast, repetitive, symphonic parts that deliver his nightmarish visions of devouring the mother and red riding hood. It is the ‘sinful nectar’ dripping from red riding hood’s ‘nasty lips’ that arouses the beast. Unable to make any choices red riding hood will have to drink the blood and eat the flesh of her mother, until finally the wolf will consume her body. Here Kadenzza play with the oral tradition of this fairy tale before Perault’s version which included the cannibalistic act of eating the grandmother and presented red riding hood as a slut who would eat the flesh and drink the blood of her grandmother. Wolves are the evil seducers whose ferocious instincts drive them in the consummation of their female victims.”

¹ “You Oshima

~ all vocals ( harsh vocal, natural vocal, voice )

~ all guitars ( electric and accoustic )

~ synthesizers ( …and theremin )

~ programming

~ sampling”

Satanic Corpse, banda feminina.

If wolves howl, then red riding hoods can scream non-linguistic forms attacking the symbolic order.”

From Keat’s ‘Ode on Melancholy’ to the ecstasies of metallic desiring machines, Melencolia Estatica, the project of the mysterious Climaxia, gives free rein to both aggression and romantic intensity. The sexual difference that these female black metal bands try to incorporate into black metal’s structures, a rewriting of female desire into the codes of music is a challenging creative power that destroys the ‘silence’ assigned to them by the phallus.”

Astarte

If female black metal bands manipulate the qualities that patriarchy has endowed them with through the use of sexuality in their performances, the language of nihilism or the repetition of black metal’s masculine discourses, then the perpetuation of the similar will persist and their presence will forever be silenced. Black metal is a strange place to be.”

“‘Freezing’ atmospheres of, say, Judas Iscariot or Old Wainds easily give way to the ‘blazing’, ‘burning’, hell-fire clamor of bands like the German Katharsis, 1349, or Averse Sefira without any drastic alteration of formal principles, and the force that mediates between these thermal intensities is a sort of conductive violence, a constant and potent accident of atmosphere that has the quality of a heat-transference which works upon something and draws it toward a limit, one of either over-excitation or exhaustion.”

METIMANENTE

i(ll)mmanent metal

m(l) a e t

the writings of Madame Blavatsky and Rudolph Steiner are exemplary in their trans-cultural and trans-historical breadth. In books such as Isis Unveiled (1877) or The Secret Doctrine (1888), Blavatsky covers everything from archaic mystery cults to modern paranormal research, giving one the sort of global perspective found in anthropology classics such as James Frazer’s The Golden Bough (1890).”

We could be even more specific and refer to this perspective not just as cosmic, but as a form of ‘Cosmic Pessimism’. The view of Cosmic Pessimism is a strange mysticism of the world-without-us, a hermeticism of the abyss, a noumenal occultism. It is the difficult thought of the world as absolutely unhuman, and indifferent to the hopes, desires, and struggles of human individuals and groups. Its limit-thought is the idea of absolute nothingness, unconsciously represented in the many popular media images of nuclear war, natural disasters, global pandemics, and the cataclysmic effects of climate change.” Ao contrário! É justamente o oposto! Metal demasiado humano, apenas humano.

Cosmic Pessimism has a genealogy that is more philosophical than theological. Its greatest – and most curmudgeonly [rabugentamente] – proponent was Arthur Schopenhauer, the misanthrope who rallied as much against philosophy itself as he did against doctrinal religion and the nationalist politics of his time.”

NOUSTALGIA

A vontade à vontade a-vontade.

To find an equal to Schopenhauer, one would have to look not to philosophy but to writers of supernatural horror such as H.P. Lovecraft, whose stories evoke a sense of what he termed ‘cosmic outsideness’ – the black tentacular voids that surround us and that stretch into the furthest ‘black seas of infinity.’” Não é à toa que eu gosto mais de Poe que de Lovecraft.

One could even suggest that some of the formal experiments in black metal, from the minimalism of Sunn O)))’s Grimmrobe Demos to the wall-of-noise in Wold’s Stratification might offer musical equivalents of the Cosmic Pessimism meaning of the word black.”

The most striking example of Cosmic Pessimism comes from outside of the metal genre altogether. It is by the Japanese multi-instrumentalist, poet, and mystic Keiji Haino. Haino’s album So, Black is Myself takes the subtractive minimalism of Sunn O))) further, while borrowing techniques from everything from Butoh to Troubadour singing. Clocking in at just under 70 minutes, So, Black is Myself uses only a tone generator and voice. Its sole lyric is the title of the piece itself: ‘Wisdom that will bless I, who live in the spiral joy born at the utter end of a black prayer.’ The piece is brooding, rumbling, deeply sonorous, and meditative. Sometimes the tone generator and Haino’s voice merge into one, while at other times they diverge. Haino’s voice itself spans the tonal spectrum, from nearly subharmonic chant to an uncanny falsetto perhaps produced only by starving banshees.”

To the role of medicine in Weyer, and the role of law in Bodin, we have the role of skepticism in Scot. While Weyer and Bodin are on opposite sides of the fence politically, theologically they both remain committed to the existence of supernatural forces and the conflict paradigm of good vs. evil. Scot, who had the advantage of relative financial independence, was neither beholden to the Church nor to science in his opinions – though the Discoverie of Witchcraft was printed at his own expense, was unregistered, and did not contain the publisher’s name. Most likely spurred on by a series of controversial witch trails in England in the early 1580s, Scot’s treatise is much more sarcastic, even humorous, in its criticisms.”

Science fiction works such as Fritz Leiber’s Gather, Darkness! and James Blish’s Faust Aleph-Null, written in the shadow of world war and mass extinction, suggest a ominous affinity between technology and the supernatural. In Leiber’s novel a futuristic Papacy utilizes a whole panoply of special-effects technologies to both ensure the fidelity of the masses to the hegemony of the Church. Against them a demonic underworld of witches, warlocks, and familiars carry out their revolutionary cause. By contrast, Blish’s novel suggests that with weapons of mass destruction, a renewed Faustian pact has been made, with quantum physics as a form of necromancy.”

see Abgott’s recent foray into mafia politics with Godfather in Black and God Dethroned’s WW1 story of Paschendale.”