NOTAS DE LITERATURA I/III – Adorno (trad. Jorge de Almeida), ed. 34, 2003. Org. alemã Rolf Tiedemann

“Quem se propõe a traduzir os ensaios de Theodor Adorno tem de enfrentar o desafio de transpor para outra língua um texto que, para os próprios leitores alemães, muitas vezes soa quase como língua estrangeira.”

“o <estilo atonal> de Adorno não é uma simples idiossincrasia, mas uma tentativa de solucionar o antigo impasse histórico da dialética, desde que Hegel a definiu, em uma célebre conversa com Goethe, como o <espírito de contradição organizado>.” ???

“Dois dos ensaios deste 1º volume de Notas de literatura já constavam com excelentes traduções em português, realizadas na década de 70 por Modesto Carone (Posição do narrador no romance contemporâneo) e Rubens Rodrigues Torres Filho (Lírica e sociedade).”

* * *

O ENSAIO COMO FORMA (1954-8)

Ou: o melhor inimigo da filosofia

A forma do ensaio ainda não conseguiu deixar para trás o caminho que leva à autonomia, um caminho que sua irmã, a literatura, já percorreu há muito tempo, desenvolvendo-se a partir de uma primitiva e indiferenciada unidade com a ciência, a moral e a arte.

Lukács

“Ainda hoje, elogiar alguém como écrivain é o suficiente para excluir do âmbito acadêmico aquele que está sendo elogiado.” E não é assim mesmo?

O ensaio sempre fala de algo já formado ou, na melhor das hipóteses, de algo que já tenha existido; é parte de sua essência que ele não destaque coisas novas a partir de um nada vazio, mas se limite a ordenar de uma nova maneira as coisas que em algum momento já foram vivas.

Lukács

“Ser um homem com os pés no chão ou com a cabeça nas nuvens, eis a alternativa.”

“como seria possível, afinal, falar do estético de modo não-estético, sem qualquer proximidade com o objeto, e não sucumbir à vulgaridade intelectual nem se desviar do próprio assunto?”

“Na alergia contra as formas, consideradas como atributos meramente acidentais, o espírito científico acadêmico aproxima-se do obtuso espírito dogmático. …e a reflexão sobre as coisas do espírito torna-se privilégio dos desprovidos de espírito.”

“Esse processo se manifesta de modo mais evidente em Stefan Zweig, que conseguiu em sua juventude escrever alguns ensaios bastante originais, mas que acabou regredindo, em seu livro sobre Balzac, ao estudo psicológico da personalidade criativa. (…) Ensaios desse tipo acabam se confundindo com o estilo de folhetim que os inimigos da forma ensaística costumam confundir com o ensaio.”

“ensaios ruins não são menos conformistas do que dissertações ruins.”

“Com a objetivação do mundo, resultado da desmitologização, a ciência e a arte se separaram; é impossível restabelecer com um golpe de mágica uma consciência para a qual intuição e conceito, imagem e signo constituam uma unidade.”

“Onde a filosofia, mediante empréstimos da literatura, imagina-se capaz de abolir o pensamento objetivante e sua história, enunciada pela terminologia habitual como a antítese entre sujeito e objeto, e espera até mesmo que o próprio Ser ganhe voz em uma poesia que junta Parmênides e Max Jungnickel, ela acaba se aproximando da desgastada conversa fiada sobre cultura.”

“A ambiciosa transcendência da linguagem para além do sentido acaba desembocando em um vazio de sentido, que facilmente pode ser capturado pelo mesmo positivismo diante do qual essa linguagem se julga superior.”

“se a arte pretende tornar-se imediatamente ciência, adequando-se aos parâmetros científicos, então ela sanciona a manipulação pré-artística da matéria, tão carente de sentido quanto o Seyn (Ser) dos seminários filosóficos.”

“A obra de Marcel Proust, tão permeada de elementos científicos positivistas quanto a de Bergson, é uma tentativa única de expressar conhecimentos necessários e conclusivos sobre os homens e as relações sociais, conhecimentos que não poderiam sem mais nem menos ser acolhidos pela ciência, embora sua pretensão à objetividade não seja diminuída nem reduzida a uma vaga plausibilidade.” “Sob a pressão do espírito científico de seus postulados, onipresente até mesmo no artista, ainda que de modo latente, Proust se serviu de uma técnica que copiava o modelo das ciências, para realizar uma espécie de reordenação experimental, com o objetivo de salvar ou restabelecer aquilo que, nos dias do individualismo burguês, quando a consciência individual ainda confiava em si mesma e não se intimidava diante da censura rigidamente classificatória, era valorizado como os conhecimentos de um homem experiente, conforme o tipo do extinto homme de lettres, que Proust invocou novamente como a mais alta forma do diletante.”

“O jovem escritor que queira aprender na universidade o que seja uma obra de arte, uma forma da linguagem, a qualidade estética, e mesmo a técnica estética, terá apenas, na maioria dos casos, algumas indicações esparsas sobre o assunto, ou então receberá informações tomadas já prontas da filosofia em circulação naquele momento, que serão aplicadas de modo mais ou menos arbitrário ao teor das obras em questão. Caso ele se volte para a estética filosófica, será entulhado com proposições tão abstratas que nada dizem sobre as obras que ele deseja compreender, nem se identificam, na verdade, com o conteúdo que, bem ou mal, ele está buscando.”

“Mesmo as doutrinas empiristas, que atribuem à experiência aberta e não antecipável a primazia sobre a rígida ordem conceitual, permanecem sistemáticas na medida em que definem condições para o conhecimento, concebidas de um modo mais ou menos constante, e desenvolvem essas condições em um contexto o mais homogêneo possível. Desde Bacon – ele próprio um ensaísta – o empirismo tem sido um <método>.”

“Nos processos do pensamento, a dúvida quanto ao direito incondicional do método foi levantada quase tão-somente pelo ensaio.”

O grande Sieur de Montaigne talvez tenha sentido algo semelhante quando deu a seus escrito o admiravelmente belo e adequado título de Essais.” Lukács

“É por isso que o ensaio não se deixa intimidar pelo depravado pensamento profundo, que contrapõe verdade e história como opostos irreconciliáveis. (…) O ensaio desafia a noção de que o historicamente produzido deve ser menosprezado como objeto da teoria. A distinção entre uma filosofia primeira e uma mera filosofia da cultura, que pressuporia aquela e se desenvolveria a partir de seus fundamentos, é uma tentativa de racionalizar teoricamente o tabu sobre o ensaio, mas essa distinção não é sustentável.”

“Enquanto o movimento que surge com Kant, voltado contra os resíduos escolásticos no pensamento moderno, substitui as definições verbais pela concepção dos conceitos a partir do processo em que são gerados, as ciências particulares ainda insistem, para preservar a imperturbável segurança de suas operações, na obrigação pré-crítica de definir os conceitos.”

“Embora o pensamento tradicional também se alimente dos impulsos dessa experiência, ele acaba eliminando, em virtude de sua forma, a memória desse processo. (…) o ensaio procede, por assim dizer, metodicamente sem método.”

“é mera superstição da ciência propedêutica pensar os conceitos como intrinsecamente indeterminados, como algo que precisa de definição”

“A fenomenologia transforma em fetiche a relação dos conceitos com a linguagem. O ensaio é tão cético diante do procedimento fenomenológico da análise de significados quanto diante da definição pura e simples.”

“Mas o ensaio não pode nem dispensar os conceitos universais – mesmo a linguagem que não fetichiza o conceito é incapaz de dispensá-los –, nem proceder com eles de maneira arbitrária. (…) Nisso, Benjamin foi o mestre insuperável. [!]”

“O ensaio deveria ser interpretado como um protesto contra as 4 regras estabelecidas pelo Discours de la méthode

A SÉRIE INFINITA DOS ESTUDOS PRELIMINARES: “A ingenuidade do estudante que não se contenta senão com o difícil e o formidável é mais sábia do que o pedantismo maduro, cujo dedo em riste adverte o pensamento de que seria melhor entender o mais simples antes de ousar enfrentar o mais complexo, a única coisa que o atrai. Essa postergação do pensamento serve apenas para impedi-lo.”

“O ensaio continua sendo o que foi desde o início, a forma crítica par excellence; mais precisamente, enquanto crítica imanente de configurações espirituais e confrontação daquilo que elas são com o seu conceito, o ensaio é crítica da ideologia.”

“O pensamento não é poupado pela rebelião baudelairiana da poesia contra a natureza enquanto reserva social.”

“o ensaio é mais dialético do que a dialética, quando esta discorre sobre si mesma. Ele toma a lógica hegeliana ao pé da letra” “a relação entre natureza e cultura é o seu verdadeiro tema. (…) Mas a cultura não é, para o ensaio, um epifenômeno que se sobrepõe ao Ser [aqui, Adorno está tacitamente contrapondo a Escola de Frankfurt a Husserl-Heidegger ou a auto-intitulada pós-filosofia continental] e deve, portanto, ser destruído”

“O ensaio não glorifica a preocupação com o primordial como se esta fosse mais primordial do que a preocupação com o mediado, pois a própria primordialidade é, para ele, objeto de reflexão, algo negativo.”

“Astuciosamente, o ensaio apega-se aos textos como se estes simplesmente existissem e tivessem autoridade. (…) algo comparável à antiga exegese teológica das Escrituras.”

Tudo que é sólido se torna tubo de ensaio.

“o ensaio salva um momento da sofística.”

“A hostilidade do pensamento crítico oficial em relação à felicidade é perceptível sobretudo na dialética transcendental de Kant, que gostaria de eternizar as fronteiras traçadas entre o entendimento e a especulação, a fim de impedir <o divagar por mundos inteligíveis>.” Esse trecho, verdadeiro que seja, está transbordando de ironias!!

Todo ente em repouso perde a referência da sua posição e situação, apesar da sublime tranqüilidade momentânea ou aparente.

Recuperando a fé na escrita? “O ensaio coordena os elementos, em vez de subordiná-los; e só a quintessência de seu teor, não o seu modo de exposição, é comensurável por critérios lógicos.”

“A atualidade do ensaio é a do anacrônico. A hora lhe é mais desfavorável do que nunca. Ele se vê esmagado entre uma ciência organizada na qual todos se arrogam o direito de controlar a tudo e a todos e uma filosofia tornada acomodada”

“Ele escapa à ditadura dos atributos que, desde a definição do Banquete, foram prescritos às idéias como <existindo eternamente, não se modificando ou desaparecendo, nem se alterando ou restringindo> (…) e entretanto o ensaio permanece sendo <idéia>, na medida em que não capitula diante do peso do existente, nem se curva diante do que apenas é.”

Hoje dizer sim, amanhã talvez…

Não sei o porquê, hoje, 19/08, li duas citações muito antigas, que devo ter conhecido em 2008, 2009, ambas figurando Nietzsche, em duas fontes diferentes (este ensaio de Adorno e a biografia de Freud por Roazen, citando o próprio Freud em História do movimento psicanalítico): a primeira (às 19h, no metrô) a famosa declaração de Segismundo alegando que não lia Nietzsche deliberadamente para se furtar ao prazer de descobrir nele o que ele mesmo vinha descobrindo pela psicanálise; a segunda (0h, à meia-noite da eternidade, embarcando no dia 20) aquela famosíssima (fragmento póstumo), direta de Nietzsche, de que dizer sim a um momento é dizer sim a todos os momentos do universo (estranho arremate para um ensaio sobre o ensaio, para um meta-ensaio, evocar tão extemporaneamente o eterno retorno!). Mais estranha ainda esta coincidência brutal que me aconteceu…

Afirmar o presente é negar o passado – viva, viva, VIVA?!

Negar o presente é-se aborrecer em vão do eixo porta que separa!…

“Apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que a finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível.”

SOBRE A INGENUIDADE ÉPICA (1943), esboço para Dialética do Esclarecimento

“Tal como a vista da terra distante é agradável aos náufragos,

quando, em mar alto, o navio de boa feitura Posido

faz soçobrar, sob o impulso dos ventos e de ondas furiosas;

e ledos pisam a praia, enfim tendo da Morte escapado;

do mesmo modo a Penélope a vista do esposo era cara

sem que pudesse dos cândidos braços, enfim, desprendê-lo.”

Homero, Odisséia, XXIII, 234ss. – trad. Carlos Alberto Nunes

Und wie erfreulich das Land herschwimmenden Männern erscheinet,

Welchen Poseidons Macht das rüstige Schiff in der Meerflut

Schmetterte, duch die Gewalt des Orkans und geschwollener Brandung;

[…] Freudig anjetzt ersteigen sie Land, dem Verderben entronnen,

So war ihr auch erfreulich der Anblick ihres Gemahls,

Und fest hielt um den Hals sie die Lilienarme geschlungen“

trad. Voss

„O narrador foi desde sempre aquele que resistia à fungibilidade universal, mas o que ele tinha para relatar, historicamente e até mesmo hoje, já era sempre algo fungível.”

“A epopéia imita o fascínio do mito, mas para amenizá-lo. Karl Theodor Preuss chamou essa atitude de <estupidez primordial> (Urdummheit)

Murray, Five stages of Greek religion, 1925

“o narrador passa a controlar o medo”

“O elogio a essa estupidez ingênua da forma acabou transformando a narrativa épica em ideologia, cujo último resíduo está à venda na falsa concretude da antropologia filosófica atual.”

“Ao apegar-se, em sua limitação, ao que aconteceu apenas uma vez, o mito adquire um traço característico que transcende essa limitação.”

“Na ingenuidade épica vive a crítica da razão burguesa.”

“Assim como é fácil ridicularizar a simplicidade homérica, que era já o contrário da simplicidade, ou evocá-la maliciosamente como argumento contra o espírito analítico, assim também seria fácil mostrar o acanhamento de Martin Salander, o último romance de Gottfried Keller” “Nessa recordação daquilo que no fundo não se deixa mais recordar, Keller expressa em sua descrição dos 2 advogados trapaceiros, irmãos gêmeos e duplos um do outro, um quê de verdade, justamente a verdade sobre a fungibilidade hostil à memória, que só seria alcançada por uma teoria que determinasse de forma transparente, a partir da experiência da sociedade, a perda da experiência.”

“A precisão da linguagem descritiva busca compensar a inverdade de todo discurso. O impulso que leva Homero a descrever um escudo como uma paisagem [Ilíada], elaborando uma metáfora para a ação até o ponto em que, tornada autônoma, ela rasga a trama da narrativa [o velho artifício do objeto divino onisciente e simbólico: nele está desenhada a própria batalha que ora se trava], é o mesmo impulso que levou Goethe, Stifter e Keller, os maiores narradores alemães do XIX, a desenhar e pintar em vez de escrever, e os estudos arqueológicos de Flaubert podem muito bem ter sido inspirados por este mesmo impulso.”

A estupidez e cegueira do narrador – não é por acaso que a tradição concebe Homero como um cego”

“As últimas novelas de Stifter testemunham com extrema clareza a passagem da fidelidade ao objeto à obsessão maníaca, e nenhuma narrativa jamais participou da verdade sem ter encarado o abismo no qual mergulha a linguagem, quando esta pretende se transformar em nome e imagem.”

“Enquanto a linguagem, para continuar sendo de fato linguagem, ainda pretende nessas expressões [partículas de coordenação] ser a síntese judiciosa dos nexos entre as coisas, ela renuncia ao juízo quando usa palavras que dissolvem justamente esse nexo. [Poesia] Na concatenação épica, onde a condução do pensamento enfim encontra repouso, a linguagem abre mão de seu direito ao juízo, embora ao mesmo tempo continue sendo, inevitavelmente, juízo.”

Beide, da über der Freier entsetzlichen Mord sie geratschlagt,

Kamen zur prangenden Stadt der Ithaker; nämlich (o saber criticado por Adorno)

Odysseus]

Folgete nach; ihm voraus war Telemachos früher gegangen.“

Odisséia, XXIV, 135ss.

No verde vale, lá onde a fresca fonte

Desce a montanha, murmurando a cada dia,

E a amável sempre-viva no outono me floresce,

Nessa tranqüila paz, querida, pretendo

Te buscar, ou quando, à meia-noite,

A vida invisível ressoa na floresta,

E sobre mim as flores sempre felizes,

As estrelas, desabrocham brilhando”

Hölderlin, À Esperança (An die Hoffnung)

Im grünen Tale, dort, wo der frische Qwell

Vom Berge täglich rauscht und die liebliche

Zeitlose mir am Herbsttag aufblüht,

Dort, in der Stille, du holde, will ich

Dich suchen, oder wenn in der Mitternacht

Das unsichtbare Leben im Haine wallt,

Und über mir die immerfrohen

Blumen, die blühenden Sterne glänzen“

Thomson, Studies in the Odyssey, 1914

„A imagem desenvolvida pela linguagem acaba esquecendo seu próprio significado, para incorporar na imagem a própria linguagem, em vez de tornar a imagem transparente ao sentido lógico do contexto.”

“A conversão objetiva da pura exposição, alheia ao significado, em alegoria objetiva é o que se manifesta tanto na desintegração lógica da linguagem épica quanto no descolamento da metáfora em meio ao curso da ação literal.”

POSIÇÃO DO NARRADOR NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO, originalmente conferência falada depois transposta em ensaio em 1954.

“Assim como a pintura perdeu muitas de suas funções tradicionais para a fotografia, o romance as perdeu para a reportagem e para os meios da indústria cultural, sobretudo para o cinema. O romance precisaria se concentrar naquilo de que não é possível dar conta por meio do relato. Só que, em contraste com a pintura, e emancipação do romance em relação ao objeto foi limitada pela linguagem, já que esta ainda o constrange à ficção do relato: Joyce foi coerente ao vincular a rebelião do romance contra o realismo a uma revolta contra a linguagem discursiva.”

“Noções como a de <sentar-se e ler um bom livro> são arcaicas. Isso não se deve meramente à falta de concentração dos leitores, mas sim à matéria comunicada e a sua forma. Pois contar algo significa ter algo especial a dizer, e justamente isso é impedido pelo mundo administrado, pela estandardização e pela mesmice. (…) a disseminada subliteratura biográfica é um produto da desagregação do romance.”

“numa época em que os jornalistas se embriagavam sem parar com os feitos psicológicos de Dostoiévski, a ciência, sobretudo a psicanálise freudiana, há muito tinha deixado para trás aqueles achados do romancista. (…) se porventura existe psicologia em suas obras, ela é uma psicologia do caráter inteligível, da essência, e não do ser empírico, dos homens que andam por aí. E exatamente nisso Dostoiévski é avançado.”

Se o romance quiser permanecer fiel a sua herança realista e dizer como realmente as coisas são, então ele precisa renunciar a um realismo que, na medida em que reproduz a fachada, apenas a auxilia na produção do engodo.”

“quanto mais se alienam uns dos outros os homens, os indivíduos e as coletividades, tanto mais enigmáticos eles se tornam uns para os outros.”

“Em matéria de suscetibilidade contra a forma do relato, ninguém superou Marcel Proust. Sua obra pertence à tradição do romance realista e psicológico, na linha da extrema dissolução subjetivista do romance, uma tradição que leva, sem qualquer continuidade histórica em relação ao autor francês, a obras como Niels Lyhne de Jacobsen e Malte Laurids Brigge de Rilke. Quanto mais firme o apego ao realismo da exterioridade, ao gesto do <foi assim>, tanto mais cada palavra se torna um mero <como se>”

“a precisão de Proust, impelida ao quimérico, sua técnica micrológica, sob a qual a unidade do ser vivo acaba se esfacelando em átomos, nada mais é do que um esforço da sensibilidade estética para produzir essa prova, sem ultrapassar os limites do círculo mágico da forma.”

“seu ciclo de romances se inicia com a lembrança do modo como uma criança adormece, e todo o primeiro livro não é senão um desdobramento das dificuldades que o menino enfrenta para adormecer, quando sua querida mãe não lhe dá o beijo de boa-noite.”

“O romance tradicional, cuja idéia talvez se encarne de modo mais autêntico em Flaubert, deve ser comparado ao palco italiano do teatro burguês. Essa técnica era uma técnica de ilusão. O narrador ergue uma cortina e o leitor deve participar do que acontece, como se estivesse presente em carne e osso. A subjetividade do narrador se afirma na força que produz essa ilusão e na pureza da linguagem que, através da espiritualização, é ao mesmo tempo subtraída do âmbito da empiria, com o qual ela está comprometida. Um pesado tabu paira sobre a reflexão: ela se torna o pecado capital contra a pureza objetiva. Hoje em dia, esse tabu, com o caráter ilusório do que é representado, também perde sua força.”

“A nova reflexão é uma tomada de partido contra a mentira da representação, e na verdade contra o próprio narrador, que busca, como um atento comentador dos acontecimentos, corrigir sua inevitável perspectiva.”

“Só hoje a ironia enigmática de Thomas Mann, que não pode ser reduzida a um sarcasmo derivado do conteúdo, torna-se inteiramente compreensível”

“o leitor é ora deixado do lado de fora, ora guiado pelo comentário até o palco, os bastidores e a casa de máquinas. O procedimento de Kafka, que encolhe completamente a distância, pode ser incluído entre os casos extremos, nos quais é possível aprender mais sobre o romance contemporâneo do que em qualquer das assim chamadas situações médias <típicas>. (…) Seus romances, se é que de fato eles ainda cabem nesse conceito, são a resposta antecipada a uma constituição do mundo na qual a atitude contemplativa tornou-se um sarcasmo sangrento

“O sujeito literário, quando se declara livre das convenções da representação do objeto, reconhece ao mesmo tempo a própria impotência, a supremacia do mundo das coisas, que reaparece em meio ao monólogo.”

“uma linguagem de coisa, deterioradamente associativa, como a que entremeia o monólogo não apenas do romancista, mas também dos inúmeros alienados da linguagem primeira, que constituem a massa.”

“40 anos atrás, em sua Teoria do romance, Lukács perguntava se os romances de Dostoiévski seriam as pedras basilares das épicas futuras, caso eles mesmos já não fossem essa épica. De fato, os romances que hoje contam assemelham-se a epopéias negativas.”

“Nenhuma obra de arte moderna que valha alguma coisa deixa de encontrar prazer na dissonância e no abandono.”

“Essas obras estão acima da controvérsia entre arte engajada e arte pela arte, acima da alternativa, entre a vulgaridade da arte tendenciosa e a vulgaridade da arte desfrutável.”

PALESTRA SOBRE LÍRICA E SOCIEDADE, idem anterior, porém publicada como texto em 1957.

“Quem seria capaz de falar de lírica e sociedade, perguntarão, senão alguém totalmente desamparado pelas musas?”

“Mas dizer de grandes obras de arte que elas são ideologia não é simplesmente fazer injustiça ao próprio teor de verdade dessas obras, é também falsear o conceito de ideologia.”

“A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, à dominação das mercadorias sobre os homens, que se propagou desde o início da Era Moderna e que, desde a Revolução Industrial, desdobrou-se em força dominante da vida.”

“Aqueles grandes poetas do passado remoto que são classificados pelos conceitos histórico-literários como representantes da lírica, p.ex. Píndaro e Alceu, mas também boa parte da obra de Walther von der Vogelweide, estão a uma distância descomunal de nossa mais primária representação do que seja a lírica.”

“O eu-lírico acabou perdendo essa unidade com a natureza, e agora se empenha em restabelecê-la, pelo animismo ou pelo mergulho no próprio eu.”

“os segundos que antecedem a bem-aventurança do sono são os mesmos que separam da morte a curta vida. Essa sublime ironia, depois de Goethe, decaiu em sarcasmo.”

“Mas a linguagem também não deve ser absolutizada enquanto voz do Ser, oposta ao sujeito lírico, como agradaria a muitas das teorias ontológicas da linguagem em voga atualmente.”

“A obra de Baudelaire foi a 1ª a registrar esse processo de consumação ou ultimação da ascendência da sociedade sobre o sujeito, na medida em que, como a mais alta conseqüência do Weltschmerz (dor do mundo) europeu, não se contentou com os sofrimentos do indivíduo, mas escolheu como tema de sua acusação a própria modernidade, enquanto negação completa do lírico, extraindo dela suas faíscas poéticas, por força de uma linguagem heroicamente estilizada.”

In ein freundliches Städtchen tret ich ein,

In den Strassen liegt roter Abendschein.

Aus einem offnen Fenster eben,

Über den reichsten Blumenflor

Hinweg, hört man Goldglockkentöne schweben,

Und eine Stimme scheint ein Nachtigallenchor,

Dass die Blüten beben,

Dass die Lüfte leben,

Dass in höherem Rot die Rosen leuchten vor.

Lang hielt ich staunend, lustbeklommen.

Wie ich hinaus vors Tor gekommen,

Ich weiss es wahrlich selber nicht.

Ach hier, wie liegt die Welt so licht!

Der Himmel wogt in purpurnem Gewühle,

Rückwärts die Stadt in goldnem Rauch;

Wie rauscht der Erlenbach,wie rauscht im Grund die Mühle!

Ich bin wie trunken, irrgeführt –

O Muse, du hast mein Herz berührt

Mit einem Liebeshauch!

Mörike

O POEMA DO BEUBO POLIGLOTA

Die Welt ist eine Mühle

Quão ensolarado é o mundo sombrio!

amigável cidadinha

entardecer vermelho espectral

hic!

como cheghic!i aqui?ic

Autotola!foolaDummKopfffff

halo-do-diabo

hálito amável cidade amigável

separação cidade campo litigiosa

cândida pocilga

onde há fumaça doirada

há ouro!

“os ritmos evocam estrofes gregas sem rima” o tradutor brasileiro CAGOU pq RIMOU!

“Os traços supostamente doentios de Mörike, identificados e relatados pelos psicólogos, e mesmo o estancamento de sua produção no último período, são o aspecto negativo de sua extrema compreensão do que é possível. Os poemas desse pároco hipocondríaco de Cleversulzbach, que costuma ser incluído no rol dos artistas ingênuos, são peças de virtuosismo jamais superadas por nenhum mestre de l’art pour l’art.” Não exagera, vai.

In windes-weben

War meine frage

Nur träumerei.

Nur lächeln war

Was du gegeben.

Aus nasser nacht

Ein glanz entfacht —-

Nun drängt der mai

Nun muss ich gar

Um dein aug und haar

Alle tage

In sehnen leben.“

Stefan George

„a atitude aristocrática“ „Ela não é a pose que exaspera o burguês, incapaz de manusear esses poemas, mas o eu-lírico é fruto da dialética que nega a si mesmo a identificação com o status quo enquanto esse mesmo sujeito segue intimamente ligado à realidade vigente” “a forma é medieval de um modo quase imperceptível” “a neo-romântica ausência de qualquer arcaísmo grosseiro eleva a canção acima de toda ficção desesperada, que ela entretanto oferece”

SAID BUT THROUGH… AMMY U.!

“mágica brutal de uma varinha de condão”

“A harmonia da canção é extorquida de uma extrema dissonância: ela se baseia naquilo que Valéry denominava refus, uma implacável recusa a todos os meios pelos quais a convenção lírica imagina capturar a aura das coisas.” “o ouvido do discípulo de Mallarmé ouve sua própria língua como se fosse estrangeira.”

Paradoxo típico de tradutor, o poeta precisa se trair para não trair a si mesmo.

“Assim como, p.ex., as mais sublimes obras musicais não se esgotam puramente na sua construção, mas a transcendem com um par de notas ou compassos supérfluos, o mesmo ocorre nesse poema com o <gar>, uma goetheana <sedimentação do absurdo>, pela qual a língua escapa da intenção subjetiva que trouxe a palavra ao texto.”

EM MEMÓRIA DE EICHENDORFF, idem, e textualizada em 58.

“O ritmo do tempo está abalado. Enquanto as vielas da filosofia ecoam a metafísica do tempo, o próprio tempo, antes medido pelo andamento contínuo do transcorrer de uma vida, alienou-se do humano; precisamente por isso ele é objeto de acirradas discussões.”

“Grandes artistas de vanguarda, como Schoenberg, não precisavam provar para si mesmos, demonstrando raiva em relação aos predecessores, o quanto haviam conseguido escapar da autoridade do passado.”

“A tradição só é negada por aqueles que jamais a romperão”

Um poeta lírico que virou cancionero popular, ideal como acompanhamento de música clássica: “o ciclo Die schöne Müllerin (A bela moleira), de Schubert, só é inteiramente acessível a quem alguma vez cantou, no coro da escola, o arranjo vulgar de Das Wandern ist des Müllers Lust (Passear é o prazer do moleiro).” Devo desistir antes de tentar, então?

“Quem bebe é mais esperto,

Já sente da idéia o gostinho,

Sem nenhum guia por perto,

Sobe aos céus bem rapidinho.”


“Quando agora a noite me encontra

E tudo escurece em severa pompa.”

“Ele não foi um poeta da pátria (Heimat), mas sim um poeta da nostalgia (Heimweh), no sentido de Novalis, de quem se sabia próximo.”

“Enquanto hoje, após a decadência da tradição, o conservadorismo, como um arbitrário elogio aos <vínculos>, serve apenas para justificar um estado de coisas ruim, houve um tempo em que ele queria algo bastante diverso, que só pode ser considerado em relação a seu contrário, a barbárie emergente.”

“Sua superioridade em relação a todos os reacionários que hoje lançam mão de sua obra é comprovada pelo fato de que ele, como também a grande filosofia de sua época, compreendia a necessidade da revolução, que tanto o assustava: ele encarna algo da verdade crítica da consciência daqueles que devem pagar o preço do passo adiante dado pelo Weltgeist.”

Uma atmosfera de tempestade pairava sobre o país inteiro, todos sentiam que algo grandioso estava para acontecer, ma expectativa calada e temerosa, ninguém do quê, havia invadido todos os ânimos, em maior ou menor grau. Nessa atmosfera sufocante apareceram, como sempre ocorre em catástrofes anunciadas, personagens estranhos e aventureiros inacreditáveis, como o Conde Saint-Germain, Cagliostro e outros ‘emissários do futuro’, por assim dizer”

“quanto menos a ordem pré-capitalista pode ser restaurada, mais obstinadamente a ideologia se aferra a sua essência, imaginando-a como sendo a-histórica e absolutamente garantida.”

O toi que la nuit rend si belle

“Eichendorff participa secretamente dessa corrente subterrânea da literatura alemã, que vai do Sturm und Drang e do jovem Goethe até Wedeking, Brecht e o expressionismo, passando por Büchner e muitas obras de Hauptmann.”

“Genialmente falsa é a metáfora do riacho, que murmura <para lá e para cá>, pois o movimento dos rios tem um único sentido, mas esse lá e cá espelha a insensatez daquilo que o murmúrio tem a dizer ao eu, que o escuta, em vez de localizá-lo; expressões como essa antecipam características do Impressionismo.”

Wolken ziehen wie schwere Träume


Se tens uma corça preferida,

Não a deixes pastar sozinha

“Nos contos de fada recolhidos pelos irmãos Grimm, nenhuma floresta é jamais descrita, ou mesmo caracterizada; e que floresta seria mais floresta do que as dos contos de fada?”

SÄNGERLEBEN

Schläft ein Lied in allen Dingen,

Die da träumen fort und fort,

Und die Welt hebt an zu singen,

Triffst du nur das Zauberwort

„Nenhuma das imagens de Eichendorff é apenas aquilo que é, mas nenhuma pode ser levada ao próprio conceito: essa flutuação vacilante do momento alegórico é seu meio poético.”

“Há mais de 50 anos, o esquecido esteta alemão Theodor Meyer desenvolveu, em seu livro Das Stilgesetz der Poesie, uma teoria tão modestamente exposta quanto astuciosamente concebida, contra toda a tradição do Laocoonte de Lessing e certamente sem conhecer Mallarmé.”

Und muss ich, wie im Strome dort die Welle,

Ungehört verrauschen an des Frülings Schwelle

„o murmúrio não é som mas sim ruído”

e cada vez mais rápido, sem parar para descansar, precipitou-se pelos jardins e vinhedos em direção à pacata cidade; pois até o murmúrio das árvores ele ouviu como um sussurro claro e compreensível, e os altos e fantasmagóricos choupos lhe pareciam 3x maiores, com suas longas sombras esticadas”

“exprime um estranhamento que não pode ser superado por nenhum pensamento, apenas pelo puro som.” O grito de Laura Palmer

Dass das weiche Wasser in Bewegung mit der Zeit den Stein besiegt. Du verstehst

Brecht sobre Lao-Tsé Tung (Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Tu me entendes)

EU LA(R)GO DAS PALAVRAS

“O que poderia ser dito de menos interessante sobre uma paisagem noturna, além de que ela é tranqüila? Seria possível imaginar um lugar-comum mais fatal do que a trompa do postilhão? [Mais ou menos equivalente hoje ao carteiro que toca a campainha]”

Um grito no meio da rua numa noite de cidade pequena apaga luzes, não as acende!

Onde a floresta murmura suave”

“Como na recapitulação musical, o poema se fecha em círculo.”

estriBRILHO

“Há mais substância na poesia de Eichendorff do que na dos inauguradores do Romantismo alemão, que ele considerava parte da história e não compreendia tão bem. Se o Romantismo, nas palavras de outro de seus representantes tardios, Kierkegaard, consuma em cada experiência o batismo do esquecimento, consagrando-a à eternidade da lembrança, certamente essa lembrança era necessária para fazer justiça à idéia do Romantismo, em contradição com sua própria imediatidade e presença.”

CODA (dá mais corda)

“O Liederkreis opus 39 de Schumann, sobre poemas de Eichendorff, é um dos grandes ciclos líricos da história da música.”

“da melancolia do primeiro Lied, em sustenido menor, ao êxtase do último, em sustenido maior.” “o último do ciclo, em fá sustenido maior, conduz essa progressão ainda uma quinta acima.” “o quarto desce a sol maior, uma terça em relação ao Lied anterior”

“A peça Wehmut é formalmente um intermezzo, como antes a Waldgespräch, mas agora um intermezzo inteiramente lírico, um momento de <auto-reflexão> do ciclo.”

Nicht schnell

“deve-se pensar em tranqüilas mínimas, não em semínimas.”

“tom maior pálido”

Waldgespräch é uma daquelas composições modelares de Schumman das quais surgiu Brahms.” “Musicalmente, a originalidade está nos acordes discrepantes, alterados cromaticamente, que expressam a ameaçadora atração.” “Sobre a palavra wissen há um acorde de subdominante que, com a formação de um duplo retardo, assume o timbre de um triângulo.”

“a claridade que se transforma em som”

“Pelo modo como esse acorde de nona é disposto e resolvido figurativamente, esse acorde evita a opulência que tantas vezes assume em Wagner, Strauss e compositores mais recentes.”

“o ouvido persegue esses intervalos no infinito”

“Nenhum ouvido atento pode resistir à extensão rítmica das palavras finais, Als flöge sie nach Haus (Como se ele voasse para casa), onde dois compassos 3/8 se transformam em um único.”

“Também aqui a estrofe final é essencialmente um Abgesang, mas o Lied como um todo se abstém de simetrias criadas por repetição”

“arrojadas dissonâncias, provavelmente únicas em Schumann e na 1ª metade do XIX (…) como se a modernidade dessa harmonização quisesse salvar o poema de seu envelhecimento”

legato de vozes harmônicas instrumentais”

Zwielicht, talvez a mais grandiosa peça do ciclo, quanto à forma uma simples canção estrófica, é extremamente contrapontística, em forte contraste com a anterior, trazendo aquela interpretação de Bach, infinitamente produtiva, que escandaliza o historicismo, embora mantenha Bach vivo, em constante metamorfose.”

7 NOTAS

O SER EM SI

DO LADO DE LÁ

CHEGA DÁ DÓ

ANDA DE RÉ

ANTES DE MIM

O FÁDO DO SOL

NA MINHA CABEÇA


cravo bem-temperado de molho pro cozido

“submergindo toda a música em sua profundidade”

“torna mais denso o tecido contrapontístico”

“o constante retorno da oposição entre ritardando e a tempo

“O senso formal de Schumman triunfa no fato de que, para compensar os momentos obstinadamente retardantes, ele escreve um Abgesang que flui quase sem resistência, chegando por isso mesmo a ser extremamente assombroso, embora o ritmo da trompa seja sempre marcado, até as duas últimas notas da parte vocal.”

“O núcleo da melodia da Mondnacht é um acorde de 7ª transposto.” “A aflição intensifica-se quando, antes das palavras Mit dem Mondesglanz herein, omite-se um acento no compasso.” VTNC!

A FERIDA HEINE, conferência textualizada em 56.

“Os nacional-socialistas não foram os primeiros a difamá-lo. Na verdade, eles quase o honraram quando atribuíram seu poema Die Loreley a um hoje célebre <poeta desconhecido>, sancionando inesperadamente como canção folclórica esses versos dissimuladamente cintilantes, que lembram figurinos de ninfas renanas parisienses de uma ópera perdida de Offenbach.”

“O veredicto da Escola de George[?] pode ser atribuído ao nacionalismo, mas o de Karl Kraus não se deixa apagar.”

“Evitam o escândalo aqueles que se limitam ao Heine prosador, cuja estatura é algo que salta aos olhos, em meio ao nível completamente desolador do período entre Goethe e Nietzsche.”

“uma força polêmica não-inibida por nenhum servilismo, algo sempre raro na Alemanha.”

August von Platen, p.ex., teve a oportunidade de experimentar essa força quando redigiu um ataque anti-semita a Heine, sofrendo uma derrota que hoje em dia seria possível chamar de existencial, se o conceito de <existencial> não estivesse sendo tão cuidadosamente preservado do contágio com a existência real dos homens.”

“Desde que Leibniz virou as costas para Spinoza, todo o Iluminismo alemão de certa forma fracassou”

“Politicamente, Heine foi um companheiro inconstante: mesmo em relação ao socialismo. Mas, em contraste com esse movimento, Heine manteve-se fiel, na sua imagem de uma sociedade justa, à idéia de uma felicidade irrestrita, facilmente posta de lado pelo ditado <quem não trabalha não come>. Sua aversão à pureza e ao rigor revolucionários indica a desconfiança diante dos elementos rançosos e ascéticos que, além de permearem vários dos primeiros documentos do socialismo, mais tarde contribuíram para as tendências trágicas de seu desenvolvimento. Mas Heine, o individualista, e em tão alta medida que só ouviu de Hegel a voz do individualismo, não se curvou ao conceito individualista de interioridade. Sua idéia de satisfação dos sentidos compreendia a satisfação com o mundo exterior, uma sociedade sem coerção nem privações.”

“A violência da sociedade capitalista em desenvolvimento já havia se tornado tão grande que a lírica não podia mais ignorá-la, se não quisesse afundar em um intimismo provinciano. Com isso, Heine se equipara a Baudelaire como ponto alto do modernismo do séc. XIX.”

“O hein romântico, que vivia dessa felicidade da autonomia, foi desmascarado pelo Heine iluminista, que trouxa à tona o caráter de mercadoria, até então latente, de suas obras.”

“A essência de Heine não se revelou inteiramente na música daqueles que compuseram suas canções, mas somente 40 anos após sua morte, na obra de Gustav Mahler

REVENDO O SURREALISMO (1956)

“Se o Surrealismo fosse simplesmente uma coletânea de ilustrações literárias e gráficas de Jung ou mesmo de Freud, ele não apenas realizaria uma mera duplicação supérflua daquilo que a própria teoria já exprime, em vez de recorrer a metáforas, como também seria tão inofensivo que não deixaria nenhum espaço para o escândalo”

“Aquilo que é pensado como mero sonho, e isso Cocteau já havia percebido, não afeta a realidade, mesmo que sua imagem possa ser afetada.”

“a espontaneidade, mesmo nos processos psicanalíticos de associação, não é de modo algum espontânea. Todo analista sabe o quanto é trabalhoso e difícil, quanta vontade é requerida para a expressão espontânea, que ocorre na situação analítica graças justamente a esse esforço, um esforço que, certamente, também configura a situação artística pregada pelos surrealistas.”

“Depois da catástrofe européia, os choques surrealistas perderam toda sua força. É como se tivessem salvado Paris preparando a cidade para o medo: o declínio da metrópole foi um de seus temas centrais.”

“quando éramos crianças, as antigas ilustrações devem ter nos excitado como agora as imagens surrealistas.” “O ovo gigante, do qual a cada momento o monstro do juízo final ameaça nascer, parecia tão grande porque, quando pela primeira vez olhamos um ovo e nos assustamos, éramos muito pequenos.”

“A tensão no surrealismo, que se descarrega no choque, está a meio caminho entre a esquizofrenia e a reificação, e justamente por isso não pode ser confundida com uma inspiração psicológica.”

“É difícil supor que algum dos surrealistas conhecesse a Fenomenologia hegeliana, mas uma frase dessa obra, que deve ser pensada em conjunto com a idéia mais geral da história enquanto progresso na consciência da liberdade, define o teor das obras surrealistas.”

“Suas montagens são as verdadeiras naturezas-mortas.”

“As obras pornográficas seriam os melhores modelos do surrealismo. O que acontece nas colagens, o que nelas está contido de modo espasmódico, assemelha-se às alterações que ocorrem em uma imagem pornô no instante da satisfação do voyeur. Nas colagens, os seios cortados, as pernas de manequins em meias de seda, são monumentos aos objetos do instinto pervertido, que outrora despertavam a libido.”

“Como um instantâneo do momento em que se desperta, o surrealismo é parente da fotografia.”

“O surrealismo recolhe o que a Neue Sachlichkeit recusa aos homens; as deformações testemunham o efeito da proibição no que um dia foi desejado. Através das deformações, o surrealismo salva o antiquado, um álbum de idiossincrasias, no qual se desgasta a promessa de felicidade (…) Mas se hoje o surrealismo parece obsoleto, isso ocorre porque os homens já renunciaram a essa consciência da renúncia, capturada no negativo fotográfico do surrealismo.”

SINAIS DE PONTUAÇÃO (1956)

“O ! não se assemelha a um ameaçador dedo em riste? Os ?? não se parecem com luzes de alerta ou com uma piscadela? Os :, segundo Karl Kraus, abrem a boca: coitado do escritor que não souber saciá-los. Visualmente, o ; lembra um bigode caído; é ainda mais forte, para mim, a sensação de seu sabor rústico. Marotas e satisfeitas, as «» lambem os lábios.”

!

:

“Em nenhum de seus elementos a linguagem é tão semelhante à música quanto nos sinais de pontuação. A , e o . correspondem à cadência interrompida e à cadência autêntica. ! são como silenciosos golpes de pratos, ? são acentuações de frases musicais no contratempo, : são acordes de sétima da dominante; e a diferença entre , e ; só será sentida corretamente por quem percebe o diferente peso de um fraseado forte e fraco na forma musical. Mas talvez a idiossincrasia contra os sinais de pontuação, surgida há 50 anos [há 150 anos] e da qual nenhuma pessoa atenta pôde escapar, seja menos a revolta contra um elemento ornamental do que a expressão da forte divergência entre música e linguagem.”

‘ = ponto e vírgula grego

“mas talvez os sinais gregos só tenham sido inventados pelos humanistas do séc. XVI.”

“! tornaram-se insuportáveis como gestos de autoridade, com os quais o escritor pretende introduzir, de fora, uma ênfase que a própria coisa não é capaz de exercer, enquanto a contrapartida musical da exclamação, o sforzato, é ainda hoje tão imprescindível quanto no tempo de Beethoven, quando marcava a irrupção da vontade subjetiva na trama musical. Os !!, porém, degeneraram em usurpadores da autoridade, asserções de importância.”

“Nos textos expressionistas, os !! se assemelham às cifras milionárias das cédulas do período da inflação alemã.”

“O – ainda serve apenas para preparar surpresas traiçoeiras que, justamente por terem sido preparadas, já não mais surpreendem.”

* * *…

“Dispostos como estrofe, os versos destruiriam barbaramente o equilíbrio da linguagem, mas se fossem reproduzidos simplesmente como prosa causariam um efeito ridículo, porque a métrica e a rima soariam como um jogo de palavras feito ao acaso, daí a /. O travessão moderno é demasiado brusco para realizar o que deve ser feito nesses casos. A capacidade de perceber fisiognomicamente tais diferenças é, no entanto, o pressuposto para todo uso adequado dos sinais de pontuação.”

“Mas se aqueles …, tomados da repetição de frações decimais na aritmética, são reduzidos a .., como fez a Escola de George, então o que se pretende é continuar impunemente a reivindicar a infinitude fictícia, na medida em que se apresenta como sendo exato algo que, segundo seu próprio sentido, quer ser inexato.!”

“A pontuação utilizada pelo escrevinhador sem-vergonha não é melhor do que a do escritor envergonhado.”

“As abundantes “” irônicas usadas por Marx e Engels são sombras lançadas pelo procedimento totalitário sobre seus escritos, que tinham em vista justamente o contrário:”

“Quando a sintaxe e a pontuação abdicam do direito de articular e moldar os fatos, de criticá-los, a linguagem está prestes a capitular ao que meramente existe, antes mesmo que o pensamento tenha tempo de realizar outra vez, fervorosamente e por si mesmo, essa capitulação. Isso começa com a perda do ;, e termina com a ratificação da imbecilidade por uma racionalidade depurada de qualquer mistura.”

“O cauteloso se inclinará a colocar as inserções PARENTÉTICAS entre ––, e não entre (), pois estes retiram da frase aquele material, criando o que poderíamos chamar de <enclaves>, ao passo que, na boa prosa, nada deve ser imprescindível para o todo da estrutura. Ao confessar que são prescindíveis, os () renunciam implicitamente à pretensão de integridade da forma lingüística”

“Proust, a quem dificilmente se poderia chamar de filisteu, e cujo pendatismo nada mais é que um aspecto de sua grandiosa força micrológica, não hesitou em utilizar ().”

“(a ilusão de continuidade da narrativa é rompida, e o narrador a-social está disposto a se esgueirar através de todas as suas janelas para iluminar, com a lanterna cega de uma memória de nenhum modo involuntária, o obscuro temps durée.)”

“Diante dos sinais de pontuação, o escritor encontra-se em permanente perigo; se fosse possível, quando se escreve, ter o controle sobre si mesmo, seria perceptível a impossibilidade de usar corretamente qualquer sinal de pontuação, e se desistiria de escrever.”

“Ele não pode confiar nas regras – freqüentemente rígidas e grosseiras, mas também não pode ignorá-las, se não quiser cair em uma espécie de excentricidade ou ferir a essência do que não é aparente, ao sublinhá-lo – e essa não-aparência é o elemento vital da pontuação.”

“O conflito deve ser suportado a cada vez, e é preciso muita força ou muita estupidez para não perder a coragem.”

“Cada sinal cuidadosamente evitado é uma reverência feita pela escrita ao som que ela sufoca.”

O ARTISTA COMO REPRESENTANTE, conferência, texto em 1953.

“a poésie pure de Valéry, o discípulo de Mallarmé, impiedosamente fechada a qualquer comunicação com um suposto público leitor.”

“não é possível pensar o material histórico da literatura alemã sem Baudelaire, apesar –OU JUSTAMENTE POR CAUSA- da intransigência de George, seu grande tradutor.”

“Se a coletânea de poemas de Valéry esboçada por Rilke jamais alcançou o peso das grandes traduções de George, ou das traduções de Swinburne por Borchardt, isso não se deve apenas aos melindres do objeto. Rilke violou a lei fundamental de toda tradução legítima, a fidelidade ao texto

Valéry, Degas, dança, desenho, trad. 2003.

Assim como um leitor meio distraído rabisca nas margens de uma obra e produz, ao sabor da ausência ou do lápis, pequenos seres ou vagas ramagens, ladeando as massas legíveis, farei o mesmo, segundo o capricho da mente, em torno desses poucos estudos de Edgar Degas.”

“Sem dúvida, haveria razões para se escandalizar, quando se vê um filósofo falando de um livro escrito por um poeta esotérico, sobre um pintor obcecado pelo trabalho manual.”

“De um modo geral, as grandes intuições sobre arte ocorrem ou em uma absoluta distância, por uma dedução conceitual não-afetada pela chamada <compreensão artística>, como em Kant ou Hegel, ou nessa absoluta proximidade, a atitude de quem não se confunde com o público, pois se encontra nos bastidores, acompanhando a realização da obra sob o aspecto da fatura, da técnica.”

O que chamo de ‘a grande arte’ é simplesmente a arte que exige que todas as faculdades de um homem sejam nela utilizadas, e cujas obras são tais que todas as faculdades de um outro homem sejam invocadas no interesse de compreendê-las…”

Um amador, um connaisseur do tempo de Júlio II ou de Luís XIV, ficaria muito espantado se lhe contassem que quase tudo o que ele considerava essencial na pintura é hoje não somente negligenciado como está radicalmente ausente das preocupações do pintor e das exigências do público.”

O homem completo está morrendo”

É preciso ter uma idéia elevada, não do que se faz, mas do que se poderá fazer um dia; sem o quê não vale a pena trabalhar

Edgar Degas

Como o jogador perseguido por combinações de partidas, assombrado à noite pelo espectro do tabuleiro de xadrez ou do feltro onde as cartas são lançadas, obcecado por imagens táticas e soluções mais vivas que reais, assim o artista é essencialmente artista.” V.

“a teoria da obra de arte engajada, tal como ela hoje se propagou, simplesmente passa por cima do fato que domina de modo irrevogável a sociedade de troca: a alienação entre os homens e também entre o espírito objetivo e a sociedade que ele exprime e julga. Essa teoria deseja que a arte fale imediatamente aos homens, como se o imediato, em um mundo de mediação universal, pudesse ser realizado imediatamente!”

Mais um desses ermitões que sabem o horário dos trens” Degas

Por vezes me ocorre o pensamento de que o trabalho do artista é um trabalho de tipo muito antigo; o próprio artista é uma sobrevivência, um operário ou um artesão de uma espécie em via de desaparecer, que trabalha em seu próprio quarto, usa procedimentos muito pessoais e muito empíricos, vive na desordem e na intimidade de suas ferramentas, vê o que quer e não o que o cerca, usa potes quebrados, sucata doméstica, objetos condenados … Talvez essas condições estejam mudando, ao aspecto dessas ferramentas improvisadas e do ser singular que com elas se acomoda veremos opor-se o quadro do laboratório pictórico de um homem rigorosamente vestido de branco, com luvas de borracha, obedecendo a um horário muito preciso, armado de aparelhos e de instrumentos estritamente especializados, cada qual com seu lugar e com uma oportunidade exata de uso?” V.

“O artista deve transformar a si mesmo em instrumento: tornar-se até mesmo coisa, se não quiser sucumbir à maldição do anacronismo em meio ao mundo reificado.”

a grande música consiste no cumprimento de “obligations”, de obrigações que o compositor subscreve desde a primeira nota.

Schoenberg, Style and Idea

A arte moderna tende a explorar quase exclusivamente a SENSIBILIDADE SENSORIAL, em prejuízo da sensibilidade geral ou afetiva, e de nossas faculdades de construção, de adição das durações e de transformações pelo espírito. Sabe maravilhosamente bem excitar a atenção e usa todos os meios para excitá-la: intensidades, contrastes, enigmas, surpresas. Captura por vezes, pela sutileza de seus meios ou pela audácia da execução, algumas presas bastante preciosas: estados muito complexos ou muito efêmeros, valores irracionais, sensações em estado nascente, ressonâncias, correspondências, pressentimentos de uma instável profundidade … Mas há um preço a ser pago por estas vantagens” V.

“Não se tornar estúpido, não se deixar enganar, não ser cúmplice: estes são os modos de comportamento social sedimentados na obra de Valéry (…) Para ele, construir obras de arte significa recusar o ópio no qual se transformou a grande arte sensível, desde Wagner, Baudelaire e Manet

“Além disso, pode-se perguntar se, apesar da guinada objetiva que ele confere à interpretação da obra de arte, ele não acaba impondo, como Nietzsche, uma metafísica do artista. Não me atrevo a decidir se Valéry, ou também Nie., superestimaram a arte.”

“contra toda a entronização do gênio, profundamente arraigada, sobretudo na estética alemã, desde Kant e Schelling.”

SOBRE O AUTOR

Adorno doutorou-se em filosofia aos 21 anos com um trabalho sobre Husserl! Sempre nos voltamos contra aquilo que proferimos na hubris da juventude!

“A amizade com Benjamin afeta decisivamente os rumos da reflexão filosófica de Adorno nesse período [do exílio na Inglaterra, e posteriormente EUA].” Em 1949 retorna a Frankfurt. Minima moralia é de 1951.

“No confronto com as correntes positivistas e heideggerianas da época, Adorno publica diversos livros de ensaios, entre eles Prismas, Intervenções e Palavras e sinais.” “Segue escrevendo sobre música, com diversos livros de ensaios e duas grandes monografias, uma sobre Mahler e outra sobre Alban Berg [seu professor]. Em 1966 conclui sua obra filosófica mais ambiciosa, Dialética negativa, e se concentra na realização de uma Teoria estética, que seria publicada postumamente em 1971. Abalado pelo confronto com alunos, nas revoltas estudantis de 1969, Adorno morre de infarto em 6 de agosto do mesmo ano, quando passava férias na cidade de Visp, Suiça.”

+recomendações de A.:

Cartas (Benjamin, Horkheimer, Thomas Mann…)

Dissonâncias. Música no mundo administrado.

Filosofia da Nova Música

Introdução à sociologia da música

Kierkegaard. Construção do estético

Para a metacrítica da teoria do conhecimento. Estudos sobre Husserl e as antinomias filosóficas, 1956 (complemento póstumo ao doutorado precoce?).

Três estudos sobre Hegel

sobre:

Rodrigo Duarte, Adornos, 1997.

Barbara Freitag, A teoria crítica: ontem e hoje, 1986.

Flávio Kothe, Benjamin & Adorno: confrontos, 1979.

Álvaro Valls, Estudos de estética e filosofia da arte: numa perspectiva adorniana, 2002.

DICIONÁRIO

beben: vibrar, chacoalhar

leuchten: brilhar

Nachdichten: recriação poética

Rauch: fumaça

rauschen: murmurar

CASO SUZANNE URBAN – Binswanger (trad. Tadeu Costa Andrade)

Fonte: https://www.yumpu.com/pt/document/read/12536208/o-caso-suzanne-urban-psicopatologia-fenomenologica-

DIC:

Beeindruckbarkeit: impressionabilidade

Besessenheit: obsessão; possessão (demoníaca).

In der Wirklichkeitstehen: estar com os pés no chão (terra; realidade)

lazareto: hospital de leprosos, espaço destinado à quarentena

mit-teilsam: com-unicativo

Selbst-Verblendung: autocegamento

Verantwortlichkeit: responsabilidade


Da ist eine Fliege in meiner Suppe”

ins Dasein kommen” vir-a-ser

Desde que eu me entendo por gente

Caso Ilse: o <ponto de partida> era o amor passional pelo pai e o sofrimento constante pelos maus-tratos que ele dispensava à mãe.”

“Enquanto, no Caso Ilse, o Dasein estaba sob uma alta-tensão que durou muitos anos e <deu vazão> a si mesma primeiramente no sacrifício da queimadura, depois no delírio de perseguição e no delírio amoroso, a alta-tensão sob a qual está o Dasein no caso Suzanne Urban mostra-se não apenas em um amor <idólatra> pelos pais, mas também em um culto amoroso hipocondríaco <quase anormal> aos pais e ao esposo. Esse culto é afetado profundamente e é colocado sob a máxima prova quando o esposo (um primo) contrai câncer na bexiga.” “Além disso, ressalte-se que não se trata de um delírio de perseguição singular <residual> que se liga a uma vivência de desabamento do mundo, como no caso Schreber-Flechsig, mas, como nos casos Lola e Ilse, de um delírio de perseguição anônimo ou plural.”

(Nota: os títulos a seguir foram insertos por mim de forma arbitrária, não correspondendo nem à posição dos capítulos e tópicos do livro nem coincidindo em nomenclatura.)

1. A FAMÍLIA RELATA O CASO

“nenhuma amizade autêntica.”

“Sobretudo nos últimos anos, colocou que o ideal haveria sido não ter se casado, mas ter feito carreira no teatro. Natureza muito erótica (…) gostava de contar ao velho pai piadinhas eróticas.”

Quem não vira artista fica doido; mas e o artista, anormal, fica o quê?

“Quando menina, era notavelmente bonita. (…) Não agia como uma coquette” “Tornou-se noiva de um primo muito rapidamente”

“Aos 27 anos começaram ataques de espirro paroxísticos [?] que permaneceram fechados à influência terapêutica. A organoterapia junto a renomados laringologistas falhou completamente.”

“O marido era dominado pela esposa, cedia a ela constantemente”“só tinha interesse pelo câncer do marido, não suportava qualquer outro assunto. Indignava-se se alguém risse em sua frente. Queria acima de tudo matar o marido ela mesma e suicidar-se depois. Desejava um acidente que trouxesse a morte para os dois.” “Insultava os médicos porque eles não matavam o marido.”

“A paciente ingressou num hospital psiquiátrico (…) desde o começo, acreditava que estava sendo observada, perseguida pela polícia, radiografada; segundo ela, a família (…) estava tomando seus bens; no parque havia fios elétricos que registravam os passos de todos, ela teria sido infectada com sífilis, além de ter câncer, e todas as doenças possíveis. Recusava comida, acreditando que estava envenenada. À noite, vozes entravam-lhe na cabeça e mandavam-na repetir tudo que havia de mau; tudo seria impresso e divulgado por meio de gravadores especiais. Havia fios por toda parte. Mesmo no banho, haveria aparatos que a fotografavam nua para expô-la publicamente. Julgava que misturados aos remédios tomava sêmen de rãs e lagartos, queria vomitar tudo.”

“As idéias persecutórias pioravam cada vez mais. Gritava da janela (…) haviam cortado fora o nariz, as orelhas, os braços da mãe. Os familiares estavam enfiados em meio a fezes, batiam neles com barras de ferro, etc.”

“alta após 4 semanas”

“Nos últimos tempos, envelheceu muito, os cabelos esbranquiçaram rapidamente.”

2. COMO SUZANNE SE VÊ

“[Internada na clínica de Binswanger,] escreveu em poucos dias 2 cadernos completos, em alemão, embora esse não fosse seu idioma natal. (…) A partir dos escritos, pode-se perceber o quão exatamente as informações dadas pela paciente concordam com as dadas pelos familiares do ponto de vista do tempo e dos fatos”

Visto que a doença piorava cada vez mais, que meu marido começou a sofrer de insônia total apesar da medicação e que só comia se o forçavam e se alimentava principalmente de sangue prensado com creme, ovos e carne, os médicos sugeriram, uma vez que não se podia obter o novo medicamento (mesotório) onde morávamos, que fôssemos a Paris, ao que meus familiares também me encorajavam, dizendo que eu devia de toda maneira, embora estivesse arrasada, inconsolável, tentar também isso, a fim de nunca poder me culpar por [não] ter tentado fazer todo o possível para, se não salvar, ao menos prolongar a vida do homem. Essa estadia de 2 meses em P. foi o inferno para o pobre homem; alguns médicos queriam mandar operar meu marido, proposta, contudo, veementemente rejeitado por outros médicos.”

Enquanto eu estou andando pelo parque, eu escuto minhas expressões um tanto triviais serem repetidas por algumas mulheres que estão andando o mais perto possível de mim, a fim de me mostrar que elas ouviram tudo. Isso me deixa frenética. Até mesmo meus pensamentos são repetidos por outras pessoas. Eu digo para minha irmã ‘Nós estamos aqui entre espiões, o que eles querem de mim?’, mas ela apenas ri”

eu pressinto uma corrente elétrica”

tornei-me assassina de toda a família; não isso apenas; eu mando despedaçar a tumba do meu pai. Esses pensamentos me vêm na língua …, que eu nunca usei em casa. (…) e eu, assassina, estou deitada aqui na cama, estou sendo alimentada, estão me dando banho enquanto meus inocentes familiares atormentam-se.”

nós somos mendigas, eu caluniei vocês todos por meio do poder do diabo.”

Agora estou vivendo com a única esperança de escrever um pedido (petição) de que fuzilem as pobres pessoas sofridas ao invés de martirizarem-nas por tanto tempo.”

3. ANOTAÇÕES DE BINSWANGER

“Teriam-na mandado dizer que seu sobrinho é um socialista. Sente depois, com toda a exatidão, que estão arrancando os olhos dele.”

“tão logo conta uma piada, faz mais uma vez censuras a si mesma. (…) Conta com muito gosto as piadas mais sujas. Pergunta quem lhe tirou o entendimento.”

“Em 4 de setembro de 1920 é retirada do hospital psiquiátrico pela irmã imprudente, depois da assinatura de uma declaração rigorosa (…) Desde então, não ouvimos sequer mais uma palavra a seu respeito, e todas as buscas ficaram sem resultado devido aos caos da I e II Guerras Mundiais.”

“Até o último momento, a letra era tão precisa e pequena que a paciente podia colocar toda a história de seu sofrimento em um cartão postal”

4. ANÁLISE DO DASEIN

O médico disse-lhe que havia uma parte da bexiga que estava ferida, mas, quando ele virou as costas, fez para mim uma cara tão terrivelmente desesperançosa que fiquei completamente paralisada (…) de modo que o médico agarrou minha mão para me indicar que eu não devia mostrar a ele nenhuma das minhas sensações. Essa mímica foi uma coisa pavorosa! Meu marido também percebeu algo, talvez, mas exibiu uma expressão completamente amigável e apenas perguntou ao médico de onde isto poderia ter vindo; ele respondeu que isso frequentemente está no sangue, sem que se saiba sua origem.”

“horror mudo”

“Suzanne Urban leu no rosto e na mímica do médico não apenas a sentença de morte do marido, mas também a perspectiva das dores tormentosas que o aguardavam.”

“Todo o Dasein estava agora sob o domínio do tema de que foi encarregado na <cena original>, o tema do <câncer do marido>. Como algo de que alguém é encarregado <a partir de fora>, esse tema implica um encargo, o encargo, propriamente, de <levar a cabo> esse tema de alguma maneira, de não sucumbir a ele, mas vencê-lo.”

“Suzanne Urban agora fala consigo mesma, ouve a si mesma, escuta exclusivamente a si mesma. Se o dito de que todo monólogo é um diálogo (Vossler) é correto, isso também se aplica neste caso.”

“Enquanto o si-mesmo aberto (aberto à verdadeira comunidade) atenua a carga de tal tema falando a respeito dele com um amigo, o si-mesmo que se enclausura com o tema procura carregá-la <exclusivamente> em seus próprios ombros, sem ver que esses ombros se tornaram fracos demais para isso há muito. A essa altura estamos diante do 1º passo desse Dasein em direção ao cegamento do si-mesmo ou à extravagância.”

Vacas não-malhadas e gatos no telhado: “Nachts sind alle Kühe grau”

“Como é regra nos delírios de perseguição plurais, aqui o pretenso fundador da <desgraça de toda a família> [o psiquiatra da internação] vai depressa para o 2º plano para temporariamente dar lugar a uma pessoa completamente diferente (<a prostituta de rua>, a enfermeira) e somente ser mencionado de novo ocasionalmente. O Dr. R. figura aí como aquele que a separou de seu marido (…) o carrasco da família” “Apesar de tudo isso, não parece fora de questão que o Dr. R. deva seu significado de desgraça ou de pavor a uma <identificação atmosférica> com o urologista que <martirizou> o marido com seu exame e lhe revelou o diagnóstico de câncer tão <pavorosamente>. Pois o verdadeiro carrasco, aquele com quem <a desgraça de toda a família> começou, é decerto o médico da cena original

Te peguei pela nota de rodapé.

Tu te tornas eternamente citável pelo artigo que publicas.

“Também a autosseculusão frente aos outros é uma forma desse ser compartilhado (…) Todavia, com isso ainda estamos na superfície, completamente à parte do fato de que a passividade sempre implica uma forma de atividade e vice-versa.”

Mundchen, a boquinha de Munique.

É fitar e começar: start and resume (pressing start): starren: é ver pra crer: que fita, pode crer!

Select your destinyfreedom!

Pausar qualquer progresso.

Engessar qualquer um que deu um pau na máquina que deu pau.

Congelar, reter, dar crise de pânico e resetar.

Meu torpor seguro onde cristalizaram as emoções já faz um tempo.

Já faz um tempo que as pessoas agem como se portas-afora fossem.

Ágora é que são elas, cuspindo na cara dos carnavais.

Parcas fora do baralho, só estão no mundo real –

Presente de hilota e pelego!

Recebo, não nego, dadivoso logro quando hipomaníaco eu estiver.

Rancorosa Lola Corre do Tempo que Assedia a Moça de Somas Bonitas.

Poxa que rosa sua coxa, recorro aos meus pensamentos para encerrar o coro

Com uma mensagem que não escoe pelo ralo: uma ponte entre nossas

Aspirações.

Abismo cheio de miasma, conhecido como el mismo.

Cacarejou a cara do novo dia normal e malogrado.

O Apanhador de Sentidos no Campo do Nonsense.

Em termos de sentido da vida, a única coisa que se apanha, em muitas pessoas, é seu eu-criança. Isso é falta de apanhar, K.! Preguiça mental!

Entorpecido em suas sólidas crenças morais.

Fagulhas de luz negra em seu olhar gasoso, de névoa desinteressada.

História da Moral: Não conte.

Wish-to-do-list:

Ator: doar um

Um ator, atordoar

fina morte morna de morfina

“Em lugar da simesmação autentica do Dasein no sentido da existência, entra a errância sem-fim para o <mundo pavoroso>, para a <odisséia pavorosa>.”

“A notável idiossincrasia das narrações delirantes dos esquizofrênicos está correlacionada ao fato de que o <como> da narração, a representação linguística, pode ser extremamente sucinta e precisa – tão precisa que um leigo, em regra, dará crédito às declarações delirantes da paciente prontamente se elas não forem abstrusas demais –, enquanto o <o quê>, o conteúdo de suas narrativas, é em regra notavelmente impreciso, vago, ambíguo, até mesmo <aventuroso>.”

me sinto como se…”

“Quanto mais evidente é a sinistra entrega de Suzanne à publicidade, mais os órgãos executores dela (aqui como em outros lugares) se subtraem a uma verificação exata. Todos procedem de maneira mais ou menos secreta. (…) está cercada de espiões, contudo não consegue vê-los e identificá-los; ela escuta <um apitar policial>, mas não vê nenhum policial. (…) A despeito do sentimento de ódio para com o Dr. R e para com a <prostituta de rua>, Suzanne, ao contrário do presidente do senado Schreber, não implica com uma pessoa determinada, ao redor da qual circula amor & ódio. Não foi <ele> nem <ela> que armou, mas simplesmente <armaram> uma <armadilha pavorosa>” Bem weberiano!

“Lidamos com duas <linguagens> da paciente ao mesmo tempo: uma linguagem do pavor e uma linguagem da verificação calma e da reflexão. Delírio e reflexão sóbria não se excluem mutuamente”

“Suzanne ouve dia e noite um uivo pavoroso, como o dos lobos. <Tossem> e <cospem> alto diante da janela dela, ela vê grandes facas de cozinha que estão numa janela e grita alto ao ver algumas gotas de sangue sobre o chão, etc.”

“a criada do hospital está vestindo os aventais dela, para <mostrar-lhe> que estão fazendo <revistas> (policiais) em seu quarto. As declarações de uma senhora de que se deveria deixar o gato <dar uma boa mastigada no pássaro>, certos movimentos manuais e o ato de puxar o nariz, tudo isso tem o mesmo sentido, que algumas vezes ela escuta expresso por palavras: <a cabecinha precisa cair>.”

“Depois de pensar como seria bom se quisessem decapitar ela própria (em lugar de seus familiares), ela vê <diante de si> um menino que tem um sabre de brinquedo fazer o movimento da decapitação. Ao capinara grama <mostram> a foice significativamente: <Eu, contudo, entendi o sentido da foice>.”

zombam dela, até mesmo da doença do marido: Câncer, câncer, pelo amor de Deus! Por que não lagosta?”

“O que torna o <paciente que sofre de delírio> alheio a nós, o que o faz parecer alienado não são percepções ou idéias isoladas, mas o fato de seu enclausuramento em um esboço de mundo dominado por um único ou alguns poucos temas, ou seja, enormemente estreito.”

“há os pensamentos que mandam-na pensar!”

“obrigam-na a pensar que os familiares são cobertos com chumbo e piche.”

“O mais tormentoso de todos os tormentos é, na verdade, a obrigação, que parte de um poder diabólico, de caluniar seus familiares <em pensamentos> ou com palavras e, desse modo, de fazer-se culpável pelos martírios e pela decadência tormentosa deles, portanto, de ser uma criminosa, por assim dizer, uma criminosa a contragosto.”

1) ‘voz’ inquisidora; 2) poder caluniador dos pensamentos e das palavras; 3) instância transcendente que reflete o jogo de perguntas e respostas, sendo aceita como destino pela ‘voz’, que no entanto ‘corrige’ as respostas quando necessário.

“Aí vemos que O Dasein ainda consegue resistir à publicização dos <pensamentos> ou, ao menos, ainda consegue encará-la de frente se ela estiver em extrema contradição com o si-mesmo. No entanto, é claro que as acusações caluniadores surgem a partir do próprio Dasein.”

Detalhe curioso: a ‘voz’ diz-lhe injustamente o tempo todo que seu marido, inocente, é um falso-moedeiro. “Em Kreuzlingen [segunda internação, na Suíça], ela sempre ouve o martelar de uma forja <nos ouvidos>, que indica que ali mora a mulher do falsificador de dinheiro!”

“E se alguém designa todos esses pensamentos como idéias delirantes, declara ela energicamente: Não são idéias delirantes, são idéias verdadeiras! E logo após Suzanne faz de novo um relato completamente objetivo sobre o novo medicamento que foi inventado contra o câncer em Munique e que seu irmão buscará.”

“a intenção de matar o marido com veneno (arsênico) agora é colocada como a causa de sua internação no 1º hospital”

A paciente passa a se arranhar (no lugar da enfermeira), a se masturbar sem consideração com quem a assiste ao invés de ter vergonha de qualquer atitude em seclusão, uma vez que é sempre, de alguma forma, filmada e gravada: “O mundo compartilhado, que normalmente tem o papel principal no delírio, aqui afunda em direção à completa insignificância. O Dasein retorna à vida no próprio corpo e ao gozo do próprio corpo, agora não mais na seclusão do mundo com-partilhado, mas <diante dos olhos dele>.”

ESPACIALIZAÇÃO DO DASEIN ou TEATRO DA PERSEGUIÇÃO: “Ellen West designava seu Dasein como uma prisão, uma rede e, sobretudo, um palco, cujas saídas estão ocupadas por homens armados <de espadas sacadas>

Jemandem auf den Leibrücken

“Mesmo os pensamentos são <coisas> que são como que tiradas de um recipiente e inseridas nele.”

“mundo sinistro marionético” “Essa consciência de ser uma simples marionete nas mãos de manipuladores desconhecidos está relacionada ao que há de mais pavoroso nos pavores” “Também o predomínio da tecnologia e do maquinário tecnológico está correlacionado à redução do mundo desse delírio a um simples mundo do contato.”

Minkowski – Les notions de distance vécue

E agora, que devir poderá dar uma condição de possibilidade de me salvar? EEEEuuuuuuu

Já conhecemos da <experiência natural> o papel da polícia como um poder sinistro-anônimo. É preciso ler somente O Processo de Kafka para ter uma idéia do tipo, da dimensão e do efeito desse poder. Além da polícia, agora entram em ação também seus companheiros, seja a mando dela, seja por conta própria.” “o médico encaminhador ou ‘carrasco’, os enfermeiros, os outros pacientes, os companheiros de viagem, etc.” “órgãos executores do pavoroso

“Em todos os casos, trata-se das formas do pegar ou ser-pego por algo relacionados ao mundo compartilhado, no sentido da impressionabilidade.

“Acima desses <ramos> dos órgãos executores do pavoroso e, especialmente, acima da polícia, encontramos – como contratantes – o partido (anti-socialista), o exército de ocupação (vive-se então a Primeira Guerra Mundial) ou mesmo o Estado. E sobre tudo isso está simplesmente o poder diabólico do pavoroso, que ora é apenas pressentido, ora é ouvido como uma ‘voz’ terrível.”

“Apesar de ele assumir uma voz, não se chega manifestamente à personificação propriamente dita do poder do pavoroso na forma de um diabo ou um demônio, como muitas vezes podemos constatar em outros casos. Em todo caso, também não ouvimos dizer nada sore visões diabólicas.”

Szilasi – Potência e impotência do espírito

5.O PALCO: CASO ELLEN WEST X CASO URBAN. QUANDO A PEÇA ENCENADA E MUITO CONVINCENTE TORNA-SE POR FIM O REAL (TEATRO DO PAVOR). REFERÊNCIA À TRAGÉDIA GREGA CLÁSSICA.

“o Dasein que adentrou o símile do palco de Ellen West está de uma vez por todas cercado por cortinas que não podem ser deslocadas, por inimigos insuperáveis.”

Resignação como a “ajuda que vem do próprio Dasein”.

“Uma vez que a possibilidade de ser da impressionabilidade se autonomize completamente e, com isso, se torne desmedida e ilimitada, e, consequentemente, o Dasein se limite ao recebimento de impressões, fala-se de alucinação. Se essa receptividade estiver sob a supremacia do pavoroso e obtiver instruções dele, trata-se necessariamente de alucinações pavorosas. O mesmo vale para os pensamentos.”

“O <palco> inteiro está posto em cena por um único <diretor>, por um único poder que confere sentido e dá uma direção. É apenas a partir desse poder que todos os atos que conferem e cumprem sentidos recebem sua diretiva e seu cumprimento intencional.”

Mergulho na viscosa piscina do delírio. Fácil entrar, difícil sair.

“Enquanto o delírio é uma das formas da sujeição do Dasein a esse poder do pavoroso, o mito e a religião, a poesia e a filosofia representam, pelo contrário, formas da superação dele.” “O pavoroso diz respeito ao Dasein em seu isolamento no autismo

Partida bem disputada antes da partida bem acenada

como se…” símile, analogia, erga mínimo distanciamento, abstração, consideração fria de uma autoimagem – diferente de quando se passa ao delírio (psicose) p.d.

“O ser-espiritual é exatamente esse retorno, esse recuperar-a-si-mesmo do tumulto do mundo, a possibilidade da capacidade de ser no espírito.”

passa-se à voz passiva do ente

“O próprio pavoroso-aflitivo se transformou aqui: em lugar do marido, encontramos toda a família ameaçada pelo martírio e pela morte, no lugar do martírio por uma doença incurável, entraram os martírios feitos pela polícia, etc.”

“Daí resulta que, para a compreensão do delírio, não podemos recorrer nem a um distúrbio do juízo em termos de um equívoco, nem a um distúrbio de percepção sensorial, de ilusão por meio de alucinações. Ambos são já consequências da transformação da estrutura do ser-no-mundo como um todo, no sentido do ser-no-mundo deliróide.”

“Ele não se porta de maneira diferente de uma pessoa a quem aconteceu uma injustiça real. Não tem somente a necessidade de <dizer o que sofre>, mas também de defender a si mesmo e os outros dos sofrimentos. (…) o contato com o mundo compartilhado não está de nenhuma maneira interrompido.”

Quem tem inimigos sempre tem testemunhas e objetos neutros no universo. Não houvesse isso, seria apenas uma câmara de yin-yang e partir-se-ia para o confronto direto. No entanto, o inimigo é covarde, é astuto e “mais sujo” do que nós (os personagens delirantes), precisa recorrer a subterfúgios e a táticas infames para “ganhar de nós”. Como ainda cremos, apesar de tudo, numa justiça como princípio das coisas, olhamos em todos os recantos atrás de alguém que simpatize com nossa causa e perceba a vileza e a má-fé de nossos oponentes-perseguidores.

Desse ponto de vista, aquele que sofre de delírio de perseguição não é de forma alguma autista.” Ele sofre de hiper-realidade. Ele pensa que cometeu o crime perfeito e agora sofre uma retaliação não menos impecável…

O perseguido é um secreto exibicionista.

“a <conversão> dos acontecimentos em <ação> vai muito mais longe do que onde já se chegou ou pode se chegar na tragédia e também no mais arrepiante drama barroco. (…) o delírio (…) supera a (…) tragédia (…) [porque] (…) também os pensamentos [são] recebidos [de fora e incluídos] na ação.”

“aqui, como na tragédia, não há <rua sem-saída>, mas tudo vai a qualquer lugar e vem de qualquer lugar e claramente <se refere a um centro>”, o que, como já ressaltamos, exclui o acaso. (…) [Mas,] enquanto na tragédia o poeta é quem <transforma a matéria-prima com sua força>, no delírio o poder formador (…) é cego, e isso implica DESTRUIR A FORMA” Édipo é o autor dessa mímica infernal.

6. CONTINUAÇÃO DO TÓPICO ANTERIOR. REFERÊNCIA À POESIA DE BAUDELAIRE.

Para usar o idioleto idiótico de Einstein, no delírio de perseguição, deus joga todos os dados que tem à mão!

À procura da batida perfeita, quer dizer da cena perfeita, quer dizer, da cena original.O protótipo de todos os males.

O SONETO DA DESTRUIÇÃO AUTÔMATO-SANGRENTA

Sem cessar, ao meu lado, se agita o Demônio,

Ele nada em torno de mim como um ar impalpável

Eu o trago e sinto que queima meu pulmão

E o enche de um desejo eterno e culpável.

Por vezes ele toma, sabendo meu grande amor pela Arte,

A forma da mais sedutora das mulheres

E, sob pretextos especiosos da tristeza,

Acostuma meu lábio a filtros infames.

Ele me conduz assim, longe do olhar de Deus,

Arquejando e quebrado de fadiga, em meio

Às planícies do Tédio,¹ profundas e desertas.

E lança aos meus olhos cheios² de confusão

Vestimentas sujas, feridas abertas,

É a máquina sangrenta da Destruição!”

Baudelaire

¹ Tártaro

² de cisne

νος

Nada no ar

Ar que queima

Fogo que chamusca,

soterra

Terra que cobre

Tudo de novo.

Imagina se esse eidos pega n’olho

Você vê resultados nos testes de Rorschach?

7. A PARANÓIA DE ROUSSEAU

“nos ocuparemos de um caso especialmente famoso e bem-documentado da literatura mundial, o de Jean-Jacques Rousseau.”

“Esse caso é muito apropriado ao que nos interessa, pois a língua francesa é extraordinariamente rica em expressões metafóricas, que são aquilo de que se trata aqui.”

“Rousseau sofria de um delírio de perseguição completamente não-sangrento, puramente social ou reputacional, em termos de uma difamação levada ao extremo, e, no entanto, nele encontramos um vasto número de expressões da esfera do maquinário e da tecnologia a serviço da destruição.” UnB murky atmosphere

Rousseau, Dialogues (vol. XVIII[!] das Obras completas)

Barbarus hic ego sum quia non intelligor illis”

Ovídio

Aqui sou um bárbaro, pois não me entendem”

agrupamentos, cochichos, risos desrespeitosos, olhares cruéis e selvagens, escárnio… atentados… o inimigo sabe exatamente aquilo que mais nos pode ferir, como que magicamente… somos nós que temos rivais finalmente à nossa altura, ou nossa mente nos prega essa peça tão pesada (nosso maior inimigo é nossa própria inteligência tão sutil em seu masoquismo autoacusatório?)?

esse corredor polonês assintótico, entre a certeza absoluta de ser o bode expiatório e a certeza de ser só um ser-num-mundo-ruim, eternamente em dúvida entre os dois pólos perfeitos, eternamente num julgamento impreciso sobre todos os eventos e circunstâncias em pingue-pongue

Eles encontraram a arte de me fazer sofrer uma morte lenta me mantendo enterrado vivo”

R.

“lama”

“apunhalam-me impunemente”

“tudo é uma armadilha”

“maldade diabólica”

não soa, é!

a ameaça de um vago processo…

ocafka da Kapes

a vingança é impessoal

Imaginem pessoas que começam a colocar cada um uma boa máscara, bem ajustada, que se armam com ferro até os dentes, que surpreendem seu inimigo em seguida, o acertam por trás, colocam-no nu, atam-lhe o corpo, os braços, as mãos, os pés, a cabeça, de modo que ele não possa se mover, colocam-lhe uma mordaça na boca, furam-lhe os olhos, o estendem sobre a terra e passam, enfim, sua nobre vida a massacrá-lo de pavor docemente, de modo que, morrendo por suas feridas, ele não cesse de senti-las tão cedo … a vista cruel deles fere seus olhos por todas as partes … o espetáculo do ódio o aflige e o dilacera ainda mais [na mente que no corpo]”

…estes Senhores conjurados em um complô anônimo para difamar-me, inclusive em face do amanhã…” “o grupo parte de 2 rivais, cujo número rapidamente aumenta para 10, mas gradualmente passa a abranger o mundo inteiro (l’univers)”

neurose de transferência do inimigo mortal zena-carolina (nevrose à 4)

cassaram-lhe a aposentadoria integral

invejavam seu carrão

não o valorizavam o suficiente

obviamente falavam mal dele as suas costas (((sem provas)))

UnB – tornar-se um adulto – emular o progenitor

pessoas falam mal de mim às costas

fazem cartazes, infringem normas do Orkut (sim, com provas!)

desvalorizam-me a olhos vistos (a imbecil que desistiu do curso para cursar medicina diz que Heisenberg não pode ser citado numa aula de Introdução à sociologia, pois “não tem nada a ver”, física nada tem a ver com este mundo compartilhado em que pisamos – e mesmo se tivesse, vc fez uma analogia idiota!!)

o calouro que tomou pinho-sol (como se tivesse sido um litro, foi um gole de desafio, mas isso não importa, é a última coisa que importaria, o que importa é a mofa e a troça, passar adiante este relato mui cômico… e ele não tem direito de se enfezar com essa história, afinal, quem mandou ele… inclusive quebrar o dente numa escada numa festa… que ridículo! que ridículo ele descontar hipócrita e dissimuladamente em seu blog intelectual – ele não tem esse direito! – ele me chamou de chato lá… disse que eu dou sono, eu atrapalho, que NÓS SOMOS BURROS, inadmissível, alguém que tomou um gole de pinho-sol ser superior a nós, ovelhas de rebanho, em qualquer coisa que seja!…apague seu blog, viva de acordo com meus preceitos, seu… doido… retifico… seu menos-que-doido pois eu li em Foucault que doidos são seres complexos e honrados vc é um menos-que-nada-e-além-do-mais-vc-é-um-playboyzinho-que-estudou-no-CEUB, meu pai arquiteto que gosta de ornar a casa com colunas gregas jamais teria dinheiro para pagar 700 reais por mês numa FACULDADE para mim, embora ele custeie minha vida numa cidade longe de Fortaleza num apartamento NO CENTRO DA CIDADE, o que pelas minhas contas, para o ano de 2007, excede com facilidade as 2 mil pratas… ó!)

O curso inteiro virou meu inimigo

Mas tinha começado com um núcleo duro…

Logo me afastei até mesmo dos meus amigos mais próximos, que decerto não compactuavam com nada dessa marmotada toda…

Virei um desconfiado de carteirinha. Estava sendo observado na biblioteca, na cantina…

E depois? Ninguém me deus os parabéns, era mera obrigação… Então, a OBRIGAÇÃO de honrar os pais eu a cancelo, porque eu sou livre. Sua obrigação é sofrer seu destino.

Meu destino foi sofrer meu estágio probatório. E rir no meio de uma pandemia, rir, gargalhar, galhofar cada vez mais alto e espalhafatoso, até o dia que por acidente (pois já não mais me perseguem, as pessoas estão paranoicas com outras coisas muito mais importantes, sem dúvida! estou curado!) – por acidente eu disse! – toparem com seus nomes nodoados num post numa entrada miserável na internet e tudo recomeçar?… MAS ESTE É UM PROCESSO SEM-FIM E AUTORRETROALIMENTADO, não se esqueça! Ele faz e paga e sofre e recebe o que pagou e assim por diante incessante infinitamente até que alunos e professores todos se esmaguem num abraço coletivo cheio de ruído e cólera e, não foi nada demais… insignificante.

No fim, eles têm de admitir: eu sou marcante. Eu tenho digitais, eu marco aquilo que toco. Se transformo em ouro ou cinzas, não interessa, o Dasein não tem – para emitir diagnósticos – qualquer resquício de pressa

A vítima de racismo que comeu uma banana e deixou o agressor com cara de tacho é uma história que me lembra muito a minha!

Eu lavei minha boca e troquei a dentadura, para poder falar (com) coisas(-pessoas) melhores.

Eu sou viciado nessa história porque apesar da dor que me causou e que ainda me causa marginalmente, eu viveria todos estes capítulos de novo e de novo… Se sou doente de alguma coisa, essa é minha doença e ela é com toda certeza absolutamente intencional e culpa minha!

A provocação tem 1000 vozes. É próprio da provocação misturar os gêneros, multiplicar os vocábulos, fazer literatura, e esta integridade da matéria dura que nos provoca vai ser atacada, não somente pela mão armada, mas pelos olhos ardentes, pelas injúrias. O ardor combativo, o neikos, é polivalente.”

Bachelard

Mas e Rousseau?

8.DESCONTINUIDADE TEMPORAL

“No pavor abismal relativo ao diagnóstico de câncer e no congelamento de todo o Dasein, <o tempo> estava, por assim dizer, em repouso, não se desdobrou em seus êxtases e, portanto, o Dasein não existia mais no sentido pleno da palavra.”

ab –ismo (até o exagero)

Mitwelt

mundo.com

niilismo&vc.td.a.ver.

“Enquanto no quarto estudo, o Caso Lola Voss, tivemos que nos contentar essencialmente com a verificação e a descrição dessa transformação, esperamos, neste quinto estudo, ter dado um passo a mais na compreensão daseinanalítica [hm] dela. Temos consciência que ainda estamos longe da meta.”

“A palavra physis vem do verbo phyo (nascer, originar-se).”

Um grau além da citação cruzada ou autocitação: a citação de um livro que é dedicado à própria teoria! Grosso modo: “Como diz Binswanger apud Szilasi …” Binswanger [!!!]

“com a evolução da esquizofrenia crônica, acontece pouca coisa, e sempre menos, na medida em que os pacientes esquizofrênicos não têm experiências novas no sentido da experiência natural, i.e., que <adicionem algo novo> às antigas, mas apenas experiências em termos da monotonia do velho estribilho. Permanece-se fundamentalmente na experiência do elemento geral único, e, assim, <não acontece muita coisa>”

“uma longura que se diferencia da lentidão da depressão.”

“no delírio de perseguição, tem-se uma imensidão de <<novas>> experiências

“A temporalização da longura nunca conduz à temporalização do tédio

“Vale notar que o termo utilizado para <andamento musical> em alemão é Tempo

Adorno riria desse esforço: “Binswanger está tentando distinguir na etimologia de longura e lentidão vestígios de formas diferentes de lidar com o tempo. Infelizmente não é possível manter essas relações etimológicas em português.”

“A palavra para tédio é Langweile, formada pelo adjetivo lang e o substantivo Weile (momento, intervalo de tempo).”

“Se alguém, no convívio da vida e do trabalho, for irritado repetidamente da mesma maneira pela mesma pessoa, <ele não vai suportar para sempre>. Em verdade, aqui se experiencia a generalidade da irritação novamente em cada particularidade, mas não de maneira que (como no delírio) o particular represente o geral e exista somente pela graça dele, mas de modo que o geral se particularize de fato em toda sua dimensão, i.e., experiencie sua plena concreção em cada <ensejo> particular (…) É isso que, frente ao irritante, não suportamos para sempre.”

9. A CONSUMAÇÃO DO PAVOR

Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie

“Só se repare de passagem que eu, a despeito de minha convicção da importância filosófica e científica imperecível do método puramente fenomenológico, não estou no campo do <intuicionismo absoluto> da maneira que Husserl o advoga, razão pela qual ainda sou aberto a contemplações e reflexões, como disse Hans Kunz em O problema do espírito na Psicologia Profunda (art.).”

Dormimos todos juntos sobre vulcões”

Goethe

Naquilo que é teu, também vejo o que é meu”

Ulisses no Ájax de Sófocles

é 1000, tio! run!

é 100&cia.

10. TENTATIVAS DE DIAGNÓSTICO

“quando o clínico fala de pessoa ou personalidade, ele já deixou o campo da análise do Dasein.”

estamos demasiado acostumados a agir como se a doença invadisse uma pessoa saudável como se fosse alguém estranho!”

Tiling, Tipificação e Distúrbio Individual do Espírito, 1904.

“Eu vejo em T., a despeito de seus esquemas psicológicos historicamente condicionados, um predecessor da psiquiatria clínica moderna.”

“Suzanne Urban nunca perdeu sua <orientação> e nunca exibiu os distúrbios de pensamento esquizofrênicos formais. Isso também é importante para o tipo de ocorrência delirante de forma de delírio de nosso caso. Pois, ainda que se diferencie dos casos Strindberg e Rousseau pelo <afeto> melancólico em alto grau, tem em comum com eles a forma do delírio.”

“A alguém que leia o histórico da doença pode surgir a suspeita de que, no caso de Suzanne Urban, se tratasse de um delírio puramente depressivo (<afetivo>, <holotímico> ou <sintímico>). Esta suspeita se funda no fato de que de acordo com a família a doença começou com um <transtorno triste de humor>, que o humor permaneceu até o final depressivo e [que] os delírios [são de tipo] melancólico.”

O delírio de culpabilidade leva a acreditar que se cometeram os crimes mais graves sem que haja razão para tanto, ou transforma más ações pequenas e reais em pecados imperdoáveis. Por causa do crime, não somente o paciente é castigado de maneira atroz nessa e na outra vida, mas também todos [os] seus familiares, o mundo inteiro”

Bleuler

7 x 77: a Bíblia é um manual psiquiátrico de primeira grandeza!

“Aqui não se fala de um pecado imperdoável e de seu castigo atroz.” Suzanne sente-se injustiçada. Além disso ela foi uma “criminosa” completamente passiva (de acordo consigo mesma).

hunter x hunter

paranoid x depressed

sense vs. sense

Muito Além da Melancolia (de Ken?)

Delírio de referência: sistematizado e independente do ciclo crime-culpa-e-castigo. Perto disso, a pura mel-ancolia é uma doce brisa.

“há uma perda das inibições morais que não é conciliável com o diagnóstico de melancolia.”

“Com isso, chegamos ao terreno espinhoso da paranoidia, da parafrenia e da paranóia. Já dizemos de antemão que, juntamente com Kolle, Bleuler, Mayer-Gross e outros, somos da opinião de que, hoje em dia, tanto a paranóia (psicótica) quanto a parafrenia devem ser classificadas como esquizofrenia.”

“Do ponto de vista puramente sintomatológico, o caso S.U. poderia ser classificado como a paraphrenia systematica de Kraepelin, já que se trata aqui de um desenvolvimento sorrateiro de um delírio de perseguição constantemente em avanço sem degeneração da personalidade.” Sublinhados: discordantes do caso S.U.

Este sujeito é incurrável, disse o doktor alemal. Ele não pode ser comido!

“o fosso de lama, semelhantemente à caverna, é uma forma particular especialmente feia, fétida e pútrida de profundeza da terra.”

“Uma vez que o diagnóstico de esquizofrenia parece confirmado, e visto que, <onde idéias delirantes e alucinações … estão em primeiro plano>, fala-se (como em Bleuler) de paranoidia, precisamos incluir o caso nesse subgrupo esquizofrênico e, quanto à orientação delirante, classificá-lo como delírio de perseguição paranóide.” Ainda assim: “não vemos sintomas catatônicos, negativismos, estereotipias, excentricidades, maneirismos e também neologismos ou propriedades lingüísticas esquizofrênicas”.

“paralisia das pernas”: histeria

delírio de perseguição singular (portanto necessariamente identitário, vinculado a um sujeito) x delírio de perseguição plural identitário (teoricamente possível, mas que sempre tenderia a alargar seus inimigos, tendendo ao próximo) x delírio de perseguição plural anônimo (caso S.U.)

INFERÊNCIA DA DESCONFIANÇA

Aquele que não desconfia de ninguém… talvez desconfie de si mesmo.

Aquele que não desconfia de ninguém, nem de si mesmo… talvez simplesmente não exista!

Aquele que desconfia de si mesmo, talvez não desconfie de mais ninguém. Saudável desconfiado! Homem invejável!

Aquele que desconfia de um, mas que não desconfia de si mesmo, pode desafortunadamente desconfiar de muitos.

Mas, amigos, aquele que desconfia de muitos, esse desconfia de todos os homens, mais cedo ou mais tarde!

Schreber, por exemplo, o típico delirante singular, vai sucumbindo ao delírio em degraus – imagem perfeita, porque uma escada não é uma rampa. Há uma descontinuidade, mas a ocorrência de ataques ou surtos agudos, que, pelo menos até o segundo, são visivelmente mais importantes do ponto de vista clínico e do ponto de vista do aprofundamento do delírio. Após o segundo, Schreber já está convencido de que ele está no centro de uma trama que envolve o destino do mundo inteiro. E no entanto é só uma figura que emite a voz. Seu pai ou deus. Há posteriormente certa contração (relaxamento), que podemos chamar de descida da escada.

Suzanne, ao contrário, ignora a escada, dá um drible da vaca no real, mesmo no real do delírio, enquanto o delirante for um Schreber. Quem são os inimigos de Suzanne? A sociedade anônima. Enfermeiras, doutores, bedéis, a polícia inteira da cidade ou do país, todos os fascistas e capitalistas, em última instância. Porque de repente os Urban são um bando de socialistas. O mundo não vai ser salvo nem acabar de maneira alguma, mas esse terremoto com Suzanne no centro de seu palco seria suficiente para liquefazer toda a ordem do seu dia. Ela, a vítima. Não deixarão constar nas manchetes de jornais nem nos livros de história a verdadeira história: que Suzanne é inocente. O Grande Irmão a apanhou. E ele tem infinitos avatares intercambiáveis. O que é que fazem com os perseguidos políticos? Podem muito bem metralhar. Mas se não metralham? Talvez não metralham porque existe o risco de se tornarem mártires! Aí então são mais cosméticos e cirúrgicos: basta com exilá-los, torná-los párias inofensivos, eternas personae non gratae. Se Suzanne está viva, só pode ser esse o tratamento a ela dispensada pelos inimigos ocultos!

O dia em que cri que o apresentador do canal de esportes se dirigia a mim, porque sabia que eu estava na pior. A mim!

A internet escamoteia Cila ou Caribde.

Ou eu bem gostaria que fosse verdade, para vender mais livros…

Quem cai na boca do trombone e é o centro das fofocas quer se matar –

Porque não pode se identificar

Com o lunático solitário que só queria ser falado e criticado!

Ou vice-versa.

Schreber x Professor Flechsig

ódio concentrado, advindo do amor pelo pai

Suzanne x “autoridades”

culpa sem relação interpessoal específica, difundida por todos os sentidos alucinados

culpa totalizante, culpa da própria nulidade social

o delírio seria a vingança da moral contra um eu torpe, que se torna mera coisa, títere no teatro. e sua punição deve ser universalmente contemplada, como num reality show ou grande panóptico avant la lettre, seu corpo nu, sua micção, defecação, o ato de comer, transpirar, assoar o nariz, gozar… menos exibicionismo a contragosto que um voyeurismo de si, um sadomasoquismo em que se é boneco, personagem trágico, platéia, direção e os próprios antagonistas.

Schuld em alemão significa tanto culpa quanto dívida.”

“Uma vez que o conceito de autismo é usado ora no sentido daseinanalítico, ora no psicológico, caracterológico, psicopatológico ou psicanalítico, ele se tornou cientificamente quase inutilizável hoje em dia.”

novo demais pra ser demente, velho demais pra ser bobão.

“Nós vimos que nossa própria paciente se encontra na menopausa e os cabelos esbranquiçaram rapidamente nos últimos tempos.”

“Lembramos que Bleuler notou muito freqüentemente nos paranóides uma <sexualidade fraca>, bem como a falta de desejo por filhos. (…) um autoerotismo <forte> dificilmente pode ser concebido como um sinal de sexualidade forte.” “sem a predisposição sadomasoquista, o exame e o adoecimento do marido não teriam esse papel proeminente na doença.”

“seguimos Bleuler quando ele diz <de acordo com nossos conceitos, a constituição hipo-paranóica é uma subforma da psicopatia esquizóide, assim como a paranóia involutiva é uma subforma da esquizofrenia paranóide.>

11. DE VOLTA A HEIDEGGER& ARREMATE

“Aqui o medo não mantém o Dasein <no nada>, desse modo, ele não deixa o mundo naufragar na insignificância, antes confere a ele uma significância distinta e absolutizada, a do pavoroso e, assim, do significado pavoroso de toda singularidade.

“Vemos no conceito de necessidade de delírio o quanto a investigação do delírio (para o mal do conhecimento psiquiátrico) acabou sendo levada a reboque pela investigação normal-psicológica.”

Diretamente relacionado com as polêmicas Freud//Adler: “Bleuler observa com muita agudeza mais uma vez [péla-saco] que se alguém fala de desejo ou necessidade de estar doente, de interesse pela doença, de meta, de ganho da doença, de fuga para as doenças, de intenção e organização, é necessário ter claro em mente, por causa das conseqüências práticas, que essas expressões e conceitos são tirados das idéias de um leigo sobre a psique [!] normal e, na verdade, não deveriam ser de forma alguma empregados em relação a estados mórbidos.”

Nunca vou entender como os autores cinicamente (acordo tácito?), após ridicularizarem Freud num parágrafo, sem citar, nas suas linhas, ‘F.’ e ‘psicanálise’, procedem, logo a seguir, a uma exaltação fabulosa do <legado>: “Em F., o conceito é muito mais profundo do que naquilo que se costuma falar [mais ainda?] sobre o processo de cura, uma vez que ele está firmemente baseado na teoria (construída com muita fineza) da libido, do recalque, do retorno do recalcado e da projeção.”

Projeção continua, a meu ver, o conceito mais problemático da psicologia em geral.

“A partir desse caso de Schwab, pode-se encontrar facilmente um caminho para o <demônio diabólico> de Suzanne Urban e de muitos outros pacientes que sofrem de delírio”

“nos afastamos de Bleuler e de Jung quando eles querem desqualificar a teoria do delírio primário com a assunção e freqüente evidenciamento de motivos inconscientes

“Hans Kunz acreditava que era necessário ver a vivência de desabamento do mundo (cf. Schreber) <como o conteúdo> do delírio primário <mais adequado à ocorrência>, contudo essa vivência (como nosso caso mostra) não é de forma alguma um pressuposto necessário para o delírio primário.”

Heidenhain, J.J. Rousseaus Persönlichkeit, Philosophie und Psychose

“Vê-se quão pouco o critério da recorrência pode, do ponto de vista da <deflagração do delírio>, ser utilizado no diagnóstico diferencial de paranóia e esquizofrenia.”“Mesmo o <esquizofrênico> que chega imediatamente à certeza delirante tem, como nosso caso mostra também, experiências sempre novas que confirmam as antigas.”

“Hoje não podemos mais dizer que as idéias persecutórias se misturam ao quadro da doença <em razão de ilusões sensoriais>, como se podia ler na avaliação do hospital psiquiátrico Sonnenberg sobre o presidente do senado Schreber e infelizmente ainda se pode ler freqüentemente. Antes temos que perceber de uma vez por todas que as alucinações não são distúrbios isolados, como ressaltam Schröder e Meyer-Gross. Mas o precursor nesse tema foi Minkowski em Le Temps vécu, 1923.”

Um louco não faz mais do que perceber a condição humana a sua maneira”

Sartre

As alucinações não se originam de um distúrbio do sensório – compreendendo-se essas funções no sentido psicológico –, também não se originam de um distúrbio das funções da percepção, do pensamento, do juízo, mas partem de um distúrbio e uma variação das funções simpáticas da sensação. Visto que essas funções estão alteradas, o paciente vive outra comunicação com o mundo; mas uma vez que os modos de ser-no-mundo são fundamentais para todas as vivências, as alucinações não são distúrbios isolados”

Erwin Straus, Do Sentido dos Sentidos, 1935

“No conto Na Colônia Penal de Kafka, um viajante, ao ver um delinquente, pergunta ao oficial se ele sabia sua sentença. <Não>, diz o oficial, <seria inútil anunciá-la a ele. Ele já a sente sobre seu corpo>. Dessa maneira, Suzanne Urban não vem a saber de sua sentença, mas de seu sofrimento <sobre seu corpo>, e, por isso, é <inútil> <anunciar> ou explicar a sentença a ela, ou esclarecê-la. E quando Kafka continua: <não é fácil decifrar a escrita (da sentença) com os olhos; nosso homem a decifra, mas com suas feridas>, também nossa pobre S.U. decifra a escrita de seu <destino> não com os olhos (da compreensão), mas com suas <feridas> e as de seus familiares, com os <sofrimentos infligidos> a ela e a eles. (…) O Dasein zomba de qualquer outra experiência; pois esta é a mais <impressionante> no sentido duplo da palavra.” (íntimo e doloroso)

“Por mais que a clínica não consiga evitar todas as tentativas psicológicas, caracterológicas e biológicas de responder o porquê dessa questão em termos de um conhecimento objetificante, a tarefa da psiquiatria como ciência não se esgota nisso.”

“As capacidades anímicas, as propriedades anímicas, a alma (no sentido da psicologia e da psicopatologia), o caráter, a pessoa, a personalidade, o impulso, etc., tudo isso está ontologicamente no limbo, ou seja, não tem fundamento ontológico. Encontramos esse fundamento na analítica do Dasein de Heidegger.”

Jaeger, Paideia II [!!], Die griechische Medizin als Paideia

“o terrível não pode mais se tornar algo impessoal e extramundano contra o qual se pode invocar o destino, mas ele se tornou um ente intramundo que ainda é acessível sob o aspecto da hostilidade.”

Não existe satisfação compensatória: não é uma expiação que demande “x” de tempo ou energia, até haver a quitação. Em tese Suzanne poderia sofrer de seu delírio um tempo infinito (enquanto viver), sem tendência à cura. Realmente o poema de Baudelaire caía bem: uma máquina infernal!

Não importa o conteúdo do delírio: o médico deve analisar a vida pregressa desse tipo de paciente esquizofrênico.

Situação de partida > Autonomização delirante (a paciente perde o foco da ‘angústia original’, quando ainda tinha um ser-no-mundo autêntico)

AS ESTRELAS DESCEM À TERRA:(*) A coluna de astrologia do Los Angeles Times. Um estudo sobre superstição secundária. – Theodor Adorno (trad. Pedro Rocha de Oliveira), Unesp, 2008.

(*) COM OS PÉS NO CHÃO seria uma tradução muito mais adequada a DOWN TO EARTH.

As estrelas descem à Terra é um texto de posição sui generis no conjunto da obra de Theodor W. Adorno: por um lado, tem uma conexão direta com o núcleo duro do pensamento do filósofo, já que aborda temas como a interpenetração entre o racional e o irracional, o processo de dominação característico do capitalismo tardio, a cultura de massas etc. Por outro lado, trata-se de uma obra cm que as ideias propriamente filosóficas de Adorno não ressaltam tão claramente como em outros de seus livros mais conhecidos como Dialética negativa, Teoria estética, Minima moralia ou mesmo Dialética do esclarecimento

o que dizer de uma pesquisa feita apenas a partir da análise das edições de aproximadamente três meses da coluna de astrologia de um jornal conservador norte-americano?”

o leitor pode se perguntar — com razão — o que teria a ver a pequena burguesia alemã dos anos 1920-1930, submetida a um implacável processo inflacionário e temerosa quanto ao seu futuro econômico e político, com a massa de leitores da coluna de astrologia de um diário conservador californiano na década de 1950. A resposta talvez possa ser encontrada em certos resultados da pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia em Berkeley, com a participação de Adorno, a qual resultou no livro A personalidade autoritária. A pesquisa tinha como objetivo aferir o potencial de adesão a projetos políticos autoritários (no limite: totalitários) em amplos setores da população daquele país que se considerava (e ainda se considera) a maior democracia do mundo: os Estados Unidos da América. Em outras palavras, tratava-se de investigar até que ponto a nação que derrotou o regime nazista estava livre do tipo de ideologia que resultou nessa tirania. (…) essa investigação ocasionou certo escândalo nos Estados Unidos ao apontar para o fato de que em amplas camadas da população norte-americana havia indivíduos altamente pontuados na escala F, ou seja, com acentuada tendência fascista latente, e essa característica estava sempre associada ao que se considerava uma evidente fraqueza de ego.”

depois da desmoralização das ridículas personalizações e exteriorizações políticas das figuras paternas perdidas — dos Hitlers, dos Mussolinis, dos Stálins —, o sistema de dominação se despersonalizou ainda mais,¹ até o ponto em que os Big Brothers (aliás: gênero de reality show plenamente globalizado) hoje não passam de pequenos oportunistas à procura de um pé-de-meia e/ou de uma chance no show business.²”

¹ Será?

² Comparação esdrúxula

a libidinização dos aparelhos domésticos é indiretamente narcisista, à medida que ela alimenta o controle da natureza do ego: estes aparelhos proporcionam ao sujeito memórias de sentimentos primitivos de onipotência”

Enquanto as imagens querem despertar aquilo que se encontra soterrado no espectador e o que lhe é semelhante, as imagens intermitentes e fugidias do filme e da televisão se aproximam da escrita. Elas são concebidas, não consideradas. O olho é arrastado pelas tiras como pelas linhas e no suave solavanco da mudança de cena, a página se passa a si mesma.”

A natureza específica do nosso estudo não é uma psicanálise direta do oculto, do tipo iniciado pelo famoso ensaio de Freud O estranho, e desenvolvido por numerosos esforços científicos, agora reunidos pelo dr. Devereux em Psychoanalysis and the Occult. Não queremos examinar experiências ocultas ou crenças supersticiosas individuais de qualquer tipo como expressões do inconsciente. Na verdade, o oculto como tal possui apenas uma função marginal em sistemas como o da astrologia organizada. Sua esfera tem muito pouco em comum com aquela do espiritualista que vê e ouve fantasmas, ou com a telepatia. Em analogia com a diferenciação sociológica dos grupos primários e secundários, podemos definir nossa área de interesse como a da <superstição secundária>. Com isso, queremos dizer que a experiência primária do indivíduo com o oculto, qualquer que seja seu significado psicológico e as raízes de sua validade, raramente — ou talvez nunca — entra nos fenômenos sociais aos quais dedicamos nossa atenção. Ao contrário, o oculto aparece, aqui, institucionalizado, objetivado e amplamente socializado.”

O tipo de pessoa relevante para nosso estudo toma a astrologia como algo certo, da mesma forma que a psiquiatria, os concertos sinfônicos ou os partidos políticos. A astrologia é aceita porque existe, sem muita reflexão, bastando que as exigências psicológicas do indivíduo correspondam àquilo que é oferecido.” “Na coluna de jornal sobre a qual se debruçou majoritariamente a presente monografia, a mecânica do sistema astrológico nunca é divulgada.” Kleper Tantan

A ausência de uma <seriedade> fundamental, que, diga-se de passagem, de forma alguma torna tais fenômenos menos sérios no que diz respeito às suas implicações sociais, é um traço tão característico de nosso tempo quanto a difusão do ocultismo secundário per se.”

A frase mais amada por Adorno: “Como sempre é o caso em se tratando de argumentos que pretendem desacreditar qualquer interesse na modernidade específica dos fenômenos, insistindo em que não há nada novo sob o sol, esta objeção [de que a vidência, privilégio de um especialista, esteve sempre presente como logro social] é ao mesmo tempo verdadeira e falsa.”

Horóscopo me lembra telão de rodoviária, que me lembra gente sebosa e nojeira. Cheiro de fritura, camelô e gente com máscara no queixo gritando como se o último passageiro amealhado na fila do baú significasse sua panacéia das finanças.

Vai explicar Olavo de Carvalho! “Em um mundo no qual, através da literatura científica popular, e em particular da ficção científica, qualquer garoto em idade escolar sabe da existência de bilhões de galáxias, da insignificância cósmica da Terra e das leis mecânicas governando os movimentos dos sistemas estelares, a visão geocêntrica e antropocêntrica implicada pela astrologia é completamente anacrônica.”

O planeta que pediu demissão porque estava cansado de ser cornetado – ou cometado, he-he.

DIY: faça seu mapa astral, não deixe os outros lhe dizerem o que você deve fazer ou o que lhe vai acontecer, faça isso você mesmo (mas com a bênção impessoal dos planetinhas)!

O presente estudo consiste em uma análise de conteúdo. Cerca de três meses da coluna diária Previsões Astrológicas, escrita por Caroll Righter no Los Angeles Times, de novembro de 1952 até fevereiro de 1953, foram submetidos à interpretação.”

Entre as várias escolas ocultistas, a astrologia provavelmente tem o maior número de seguidores na população. A astrologia por certo não é um dos ramos extremos do ocultismo, mas constrói fachadas de pseudo-racionalidade que a tornam mais fácil de aceitar do que, por exemplo, o espiritualismo. Não há aparição de fantasmas, e as previsões são pretensamente derivadas de fatos astronômicos. Assim, a astrologia pode não evidenciar mecanismos psicóticos tão claros quanto aquelas outras tendências mais obviamente lunáticas da superstição, o que pode dificultar nosso estudo no que diz respeito à compreensão das camadas inconscientes mais profundas do neo-ocultismo.”

A coluna Previsões Astrológicas, escrita por Carroll Righter, aparece no Los Angeles Times, um jornal conservador bastante inclinado para a ala de direita do Partido Republicano. O sr. Righter [e não Lefter!] é bem conhecido no meio cinematográfico, e se supõe que ofereça aconselhamento astrológico privado para uma das mais famosas <estrelas> do cinema.”

a filosofia subjacente à astrologia está na linha do que poderia ser chamado de sobrenaturalismo naturalista. Esse aspecto <despersonalizado> e impiedoso da fonte supostamente transcendente tem forte relação com a ameaça latente assinalada pela astrologia.”

HAHAHAHAHA! “O envolvimento com a astrologia pode oferecer àqueles que se deixam levar por ela um substituto para o prazer sexual de natureza passiva.”

JÚPITER É PAN: “A comunhão com os astros é um substituto quase irreconhecível — e, por isso, tolerável — para a relação proibida com uma figura paterna onipotente.”

O material das revistas pode ser disposto segundo numerosos matizes, desde publicações bastante inofensivas, embora absolutamente primitivas, como a World Astrology, passando por publicações mais radicais, como a True Astrology e a Everyday Astrology, até publicações paranóicas, como a American Astrology.

E desnecessário dizer que tais revistas, dirigidas para um núcleo de seguidores da astrologia, e não para o público em geral, contêm material astrológico mais <técnico> e tentam impressionar os leitores tanto com um conhecimento <esotérico> quanto com uma sofisticação <científica>. Termos como <casa>, <quadrante>, <oposição> etc, ocorrem frequentemente. A astrologia não é tida como certa, mas tenta, com certa violência, defender seu status. Assim, o número da revista do qual retiramos nossos exemplos contém uma polêmica contra um cientista que criticou a astrologia como superstição, comparando-a com a leitura da sorte nas entranhas de animais ou no vôo dos pássaros. As revistas parecem particularmente sensíveis a tal comparação. As acusações do cientista são negadas pela observação um tanto tautológica de que a astrologia nunca lida com entranhas ou com pássaros.”

Os astrólogos reiteram continuamente que não são deterministas, e se encaixam no padrão da cultura de massa moderna que protesta tanto mais fanaticamente em nome dos princípios do individualismo e do livre-arbítrio, quanto mais a verdadeira liberdade de ação desaparece. A astrologia tenta se afastar de um fatalismo não-refinado e impopular, estabelecendo forças externas que operam na decisão do indivíduo, incluindo seu próprio caráter, deixando a escolha fundamental em suas mãos. Isso tem significativas implicações sociopsicológicas. A astrologia encoraja as pessoas a tomar decisões constantemente, independentemente do quão inconsequentes essas decisões possam ser.”

O semi-erudito tem uma vontade vaga de entender, e também é levado pelo desejo narcísico de se mostrar superior às pessoas simples, mas não está em uma posição tal que lhe permita empreender operações intelectuais complicadas e distanciadas. Para ele, a astrologia — da mesma forma que outras crenças irracionais, como o racismo — oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática, e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais pode, ainda assim, pertencer a uma minoria que está <por dentro>.”

PODE SER QUE SIM, PODE SER QUE NÃO… “Como era de esperar, há frequentes sugestões sinistras de que uma nova era está por vir, sinalizando uma grande catástrofe mundial e insinuando uma guerra entre os Estados Unidos e a Rússia em 1953, sem, entretanto, comprometer-se em definitivo a esse respeito.”

O editor não se responsabiliza pela opinião dos coMunistas desta revista!!

Diversas vezes, embora sempre de forma mais ou menos vaga, a revista faz acusações contra minorias incômodas que nunca são claramente identificadas. Algumas das imagens empregadas lembram as utilizadas por agitadores fascistas e anti-semitas de perfil pseudo-religioso. Assim, faz-se referência à batalha apocalíptica do Armagedon que desempenhou um grande papel nos discursos de um sacerdote radialista que causou muita agitação nos anos 30 (Charles Edward Coughlin (1891-1979)).”

Qual é o 1 que não é 1 mas é o 9 antes do 10?

Resposta: o I. (IX – X); nona letra do alfabeto.

Como dispositivo psicológico adotado pelo indivíduo, a astrologia, em certos aspectos, lembra os sintomas do neurótico fóbico que aparentemente canaliza, focaliza e absorve sua ansiedade flutuante em termos de objetos da realidade.” “O interesse de um indivíduo pela astrologia, como o sintoma fóbico, pode absorver todos os demais objetos da angústia, tornando-se, em última instância, um interesse obsessivo do indivíduo ou grupo afligido.”

o que ele diz deve soar como se ele tivesse conhecimento concreto de que problemas incomodam cada um de seus supostos seguidores nascidos sob determinado signo e em determinada hora; ao mesmo tempo, ele tem de permanecer reservado o suficiente para não ser facilmente desacreditado.”

na maior parte das vezes, trata-se de uma psicologia do ego pré-freudiana, encoberta por aquilo que Theodor Reik chamou de <psicanalês> de assistente social.”

A cada linha que passa, mais aproxima Freud da canonização.

Assim, uma das ameaças realistas mais difundidas, o risco da demissão, aparece apenas de forma diluída, isto é, na forma de conflitos com superiores, reprimendas, e outras situações desagradáveis. O termo <demissão> não é utilizado nem uma única vez. Uma ameaça favorita, entretanto, é a dos acidentes de trânsito. Também aqui é possível visualizar como diversas facetas da abordagem estão misturadas: o perigo de acidentes de trânsito está sempre presente na congestionada região de Los Angeles.”

Adorno não conheceu o Brasil: “a opinião pública não estigmatiza como criminosas as pessoas que cometem erros de direção.”

Um documentário em que o protagonista viva seus dias de acordo com seu horóscopo o mais estritamente possível durante um mês, como em Supersize Me (o zodíaco do McDonald’s prevê que você engordará).

Um sociólogo num livro “marxista” falando uma BESTEIRA DESSAS! “Alguns revisionistas, tais como Fromm e, particularmente, Horney, trataram a questão de forma excessivamente simplificada, reduzindo traços neuróticos como o que está sendo discutido aqui — a dependência — a realidades sociais como “nossa moderna sociedade competitiva”.” Freud, o menos social dos psicanalistas, é o mais prezado por Adorno, que condena a visão anti-edipiana de que o neurótico é aquele que adoece, e a sociedade o terrorista biológico que o adoece (//a famosa frase: a sociedade prepara o crime, o criminoso o comete). Em suma, para um autodeclarado exímio analista do capitalismo tardio, é um atestado de falsário.

Seus problemas serão resolvidos ou automaticamente, ou com auxílio dos outros, particularmente daqueles amigos misteriosos cuja imagem é recorrente na coluna — contanto que se mantenha a confiança nas estrelas.”

A semi-irracionalidade da expressão <tudo vai ficar bem> deriva do fato de que a sociedade americana moderna, a despeito de todos os seus conflitos e dificuldades, tem sucesso na reprodução da vida daqueles que abraça.”

O adágio <seja você mesmo> assume um significado irônico.” Qual dos dois, o rato ou o homem?

Um exemplo desse mecanismo é o caso de um autor talentoso que queria escrever um livro que, em sua opinião, alcançaria um lugar entre os mais importantes da literatura mundial. Tudo que ele fazia era pensar sobre o livro, deixando-se levar por fantasias a respeito das repercussões sensacionais que seu livro geraria, e sempre dizendo a seus amigos que estava quase terminando. Assim, embora já tivesse <trabalhado> no livro por 7 anos, ainda não tinha escrito uma única linha. A medida que vão ficando mais velhos, indivíduos deste tipo precisam agarrar-se cada vez com mais força à ilusão de que o tempo vai tomar conta das coisas. Muitos, quando alcançam certa idade — normalmente, no início dos 40 —, ou conseguem tornar-se mais sóbrios, abandonando a ilusão e esforçando-se para utilizar os meios de que dispõem; ou então têm um colapso neurótico, porque a vida sem a ilusão consoladora do tempo como benfeitor torna-se intolerável.” Fromm, Sentimento de impotência

Por motivos obsessivos, certo paciente não conseguia escovar os dentes e, passado algum tempo, batia em si mesmo, ralhava consigo mesmo.” Fenichel, Teoria psicanalítica das neuroses

Henri Bergson apontou, em O riso, que as calcificações psicológicas que tornam um indivíduo cômico em sentido estético indicam alguma falha em sua maturidade, e estão ligadas à sua incapacidade de lidar com mudanças nas situações sociais, chegando inclusive a afirmar que, de certa forma, o conceito de <caráter> que denota um padrão de personalidade enrijecido, impassível de ser afetado pela experiência da vida, é em si mesmo cômico.”

Deve-se enfatizar que é exatamente este psicólogo [Jung], o qual alegou ter aumentado a profundidade de conceitos psicanalíticos (…) rasos, o mais (…) propenso a ser adotado por uma popularização comercial.” Com ou sem razão, só o fala porque ama anal e oralmente Freud! Os (…) são empregados para eliminar os advérbios inutilmente empregados assiduamente por Adorno.

Você vai se sentir a ponto de explodir na parte da manhã, sem qualquer motivo aparente. Os planetas estão testando seu autocontrole. Mantenha a calma.

(31 de dezembro de 1952, Câncer)”

<Seja agradável> refere-se às briguinhas típicas de mulheres ranzinzas da classe média baixa; <não se atormente>, ao hábito psicológico de <ruminar>, típico de indivíduos obsessivo-compulsivos.”

A difamação do <ego inflado> é muito frequente na literatura de psicologia popular, incluindo as obras da falecida srta. Horney.” Karen Horney, a psicanalista modinha dos 30 aos 50 que teve relações amorosas com um de seus pacientes.

Adorno devia ser um dos que mais se afligia no cotidiano: “O mundo está certo; o estranho está errado. Assim, da mesma forma que com o padrão muito semelhante do antiintelectualismo, promove-se um nivelamento geral. Em conformidade com essa ideologia, ninguém deve realmente acreditar em si mesmo e em suas qualidades intrínsecas, mas, ao contrário, necessita colocar-se à prova junto com todos os demais por meio do funcionamento em meio às condições já dadas.”

As origens históricas do conceito de intuição coincidem com os grandes sistemas extremos da filosofia racionalista do século XVII. Assim, para Spinoza, a intuição é o tipo mais alto de conhecimento, embora o termo seja usado por ele em um sentido um pouco diferente do atual. Em Leibniz, o conceito de inconsciente é introduzido por meio de reflexões matemáticas sobre o conhecimento subliminal, sob o epíteto de petites perceptions. A história da intuição é a face noturna do racionalismo ocidental.”

Sempre que o tradutor avisa que só intervém com notas quando sumamente necessário, saiba que haverá uma suma necessidade a cada página…

A ênfase incessante nesses aspectos [corte o cabelo, vá ao salão hoje…] sugere a exaltação da limpeza e da saúde ao nível de ideais, um traço bem conhecido da síndrome anal.” HAHAHA!

O sintoma psicótico de dar atenção demais ao próprio corpo, que, ironicamente, parece estar alienado de si mesmo, também é pertinente. Pessoas muito cuidadosas e tendem tanto à astrologia como aos movimentos por uma alimentação saudável, a medicina natural e panaceias similares.” R***** S****** M****** BELA GIL M******* Pedro P******

O valor sociológico da limpeza está ligado à herança cultural do puritanismo, uma fusão do ideal de pureza sexual com aquele do corpo asseado — mens sana in corpore sano. No fundo, está a repressão do sentido do olfato.”

Além do aconselhamento constante no sentido de <chegar a um acordo>, <aumentar suas posses> e <planejar>, o colunista estimula a ideia de que o leitor só pode avançar na hierarquia dos negócios se trapacear, usar suas ligações pessoais e uma espécie de diplomacia furtiva, em vez de empregar atividades estritamente ligadas ao trabalho. Isso tem implicações bastante malignas. Dentro do padrão das ilusões modernas de massa, a ideia da conspiração — que, sem dúvida, é de natureza projetiva — está sempre presente. O encorajamento de atividades <por trás dos panos> é uma maneira imperceptível de promover uma aproximação a tais tendências, que normalmente são projetadas sobre grupos que se imagina estar às margens da sociedade. Aqueles que persistentemente acusam os outros de estarem conspirando têm uma forte tendência a conspirar, e isso é aproveitado e explorado pela coluna. Em face do caráter um tanto arriscado desse conselho, a abordagem bifásica, aqui, é especialmente valiosa para a coluna. A sugestão da trapaça é compensada — anulada, no sentido psicanalítico — por apelos intercalados a agir de maneira obediente à lei, e a se manter sempre dentro do reino do permissível, um conselho condizente com a atitude externa da coluna, convencionalista e conformista.”

tudo é permitido desde que ninguém seja flagrado” Dostoievsky 2.0

A imagem do inventor morrendo de fome é bem conhecida. Sob as condições atuais, o slogan <seja moderno> tende a deteriorar-se em mera fraude.”

O avanço tecnológico real é deixado para especialistas tecnológicos que frequentemente estão distantes do esquema dos negócios, enquanto que aquele que quer entrar em uma organização de negócios de grande porte precisa, geralmente, ser <conservador> — talvez não tanto, hoje em dia, por medo da falência, mas por medo de chamar para si, como empregado, a imagem de excentricidade, de alguém que está transgredindo seu lugar na hierarquia, caso venha continuamente a empreender ou defender inovações.”

Enquanto a gigantesca oferta atual de bens exige pessoas de mentalidade moderna, preparadas para comprar qualquer novidade, a mentalidade do comprador construída dessa maneira corrói as reservas, ameaça aqueles para quem comprar torna-se uma compulsão, e é com frequência apresentada como se, potencialmente, colocasse em perigo a estrutura econômica, solapando a própria capacidade de compra. De maneira a corrigir tudo isso, sempre de forma verdadeiramente conformista, a coluna tem de promover vendas e resistência às vendas, uma tarefa ingrata que só se torna possível periodizando o aconselhamento.”

Na astrologia e no ocultismo como um todo, conforme foi indicado anteriormente, percebe-se uma forte ansiedade para se superar a desconfiança de que são alvo as práticas mágicas no âmbito de uma cultura marcada pelo empreendimento racionalizado. A ciência é a má consciência do ocultismo, e quanto mais irracional a justificativa de suas pretensões, maior a ênfase no fato de que não há charlatanismo envolvido. Se, por um lado, a coluna evita controvérsias sobre os méritos da astrologia, mas, por boas razões psicológicas, assume sua autoridade como um dado, ela segue indiretamente aquele impulso, curvando-se de forma estudada à ciência em geral.”

o termo <outro mundo>, que antes tinha um significado metafísico, é trazido para o nível da astronomia, onde ecoa com um timbre empírico. Os fantasmas e outras terríveis ameaças, os quais muitas vezes revivem entidades bizarras mais antigas, são tratados como objetos naturais e científicos que vêm do espaço, de outro sistema planetário ou, preferencialmente, de outra galáxia, ainda que o mais avançado conhecimento biológico de que dispomos — a <lei de convergência> — aponte para desenvolvimentos mais semelhantes aos da Terra, mesmo em estrelas distantes, do que os figurados nas secularizações da demonologia com que se entretém o leitor de ficção científica. A coisificação e mecanização do próprio homem são projetadas sobre a realidade na difundida literatura sobre robôs. Aliás, a ficção científica consome uma longa tradição de literatura norte-americana que lida com o irracional ao mesmo tempo que nega sua irracionalidade. Sob vários aspectos, Edgar Allan Poe é o inventor da ficção científica, bem como das histórias de detetives.” Não há nada no google sobre lei de convergência (se excetuarmos artigos sobre reforma da lei de pensão e psicologia social, haha!).

Quando se considera que o leitor está sendo magoado por alguém, ele é levado a considerar que não deve retribuir o golpe, mas sim assumir uma atitude que indique sua própria superioridade, e ceder. O padrão psiquiatricamente bem conhecido da <identificação com o agressor> parece ser uma das ideias positivas básicas a respeito dos relacionamentos humanos.”

Uma vez que a esposa é aquela que, em última análise, precisa administrar a receita doméstica, o leitor é ensinado a discutir com ela suas questões financeiras. Contudo, a esposa raramente aparece mencionada como tal, mas sempre por meio da expressão mais abstrata <a família>”

De qualquer forma, a ideia vigente é a de que a família ainda é a única <equipe> unida em torno de fortes interesses comuns, em que todos podem contar uns com os outros praticamente sem reservas e fazer planos conjuntos para enfrentar com sucesso um mundo ameaçador e potencialmente hostil.”

A esse respeito, a família muitas vezes aparece como um tipo de clã arcaico e ameaçador cujo veredito prevalece sobre o sujeito dependente.”

As recriminações da esposa, sem que ela se dê conta, são um protesto contra uma situação que é muitas vezes agravada porque o homem, que tem de <se controlar> durante as horas de trabalho e reprimir suas agressões, está inclinado a liberá-las contra aqueles que lhe são próximos, mas que têm menos poder do que ele. A sabedoria popular da coluna está muito ciente de tudo isso, bem como do fato de que em tais conflitos as mulheres são normalmente mais ingênuas do que os homens, e que apelos à <razão> deste último podem ajudar a suavizar embates inevitáveis.”

…tenha muita consideração em casa, onde as coisas vão ficar tensas se você se mostrar nervoso…

(19 de novembro de 1952, Touro)” HAHAHA!

O pior que pode acontecer é eu chutar uma quina ou quebrar um eletrodoméstico…

A inevitabilidade, cujas razões sociais foram apontadas acima, é dissolvida no elemento abstrato do tempo, como se os problemas só passassem a existir em determinadas tardes ou noites, de modo que tudo se resume ao exercício de autocontrole por parte do leitor, com a finalidade de evitar um conflito de maiores proporções. É claro que isso reflete, também, a irracionalidade dos motivos que frequentemente levam a explosões familiares, detonadas por eventos inteiramente insignificantes. Além dessa política de apaziguamento, o leitor é encorajado a <sair com sua família> ou a <divertir-se muito> com ela e os amigos, uma sugestão que figura frequentemente nos feriados, quando o leitor provavelmente faria algo do gênero, de qualquer maneira. Tal sugestão faz recordar as tentativas substitutivas de institucionalizar o prazer e a proximidade, algo na linha do Dia dos Namorados, Dia das Mães e Dia dos Pais. [ASPECTO DO CAPITALISMO VERDADEIRAMENTE REPUGNANTE] Correta ou erroneamente, sente-se que o calor e a proximidade da família estão em declínio, mas uma vez que a família é mantida por razões tanto realistas como ideológicas, o elemento emocional de calor e intimidade é alvo de um incentivo racionalizado como meio adicional de acalmar as coisas e manter o casal unido, enquanto a base real de sua joie de vivre comum parece ter desaparecido.”

A ordem dada ao subordinado por seu superior é interpretada como se pretendesse unicamente ajudar o subordinado em suas falhas e fraquezas — uma personalização infantil dos relacionamentos objetivados.”

É digno de nota, entretanto, que não existam traços de xenofobia na coluna, ao contrário do que acontece com as revistas astrológicas, em que tais traços são muito comuns. Isso pode ser explicado por sua <moderação>. Somente o dispositivo do contexto familiar sugere inclinações desse tipo.” “Há uma distinção contínua entre <velhos> e <novos> amigos, e o acento positivo é, surpreendentemente, colocado regularmente nos novos. Aqueles a quem o leitor ainda não se acostumou têm algo do estrangeiro, e às vezes são diretamente identificados com ele. No mínimo, são pessoas estimulantes que de alguma maneira prometem prazer. Em um ambiente de padronização e uniformidade ameaçadoras, a ideia do incomum é positivamente catexizada por si mesma. Mas, sobretudo, essas pessoas estão no presente. Os velhos amigos são, ao contrário, pelo menos ocasionalmente, apresentados como um peso, como pessoas que fazem todo tipo de exigências injustificadas em nome de um relacionamento que, na verdade, pertence ao passado. O leitor pode tolerá-los como <colegas> nos dias melhores, mas nunca deve levá-los muito a sério, ou levar-se a um envolvimento muito profundo com eles.”

tão bom como se nunca tivesse existido” Mefistófeles

Apesar de sua moralidade convencional, a coluna basicamente rejeita a lealdade: o que não parece útil aqui e agora deve ser abandonado. Aplicando esse método aos <velhos amigos>, a fase hostil do relacionamento com os amigos é racionalizada e canalizada de um modo adequado ao padrão geral da coluna de ajustamento aperfeiçoado. Os amigos bons são aqueles que ajudam o leitor ou, pelo menos, juntam-se a ele para buscar algum objetivo positivo; os outros são relíquias do passado, que exploram situações que já não são válidas e, assim, devem ser punidos de forma moralista e abandonados.”

O <especialista> está situado em algum lugar entre o superior (ou a sociedade como um todo) e a proximidade do amigo.”

É como se a noção de neofeudalismo que habita o fundo da mente do colunista carregasse consigo a associação dos servos que pagam tributo ao senhor”

Quando Deus dá uma tarefa, também dá a inteligência”

nos jornais alemães, os signos do zodíaco sob os quais uma pessoa nasceu são com frequência mencionados em colunas que promovem encontros entre solitários.”

Paradoxalmente, uma quantidade maior de discernimento pode resultar em uma reversão para atitudes que prevaleciam muito antes da alvorada do capitalismo moderno. Pois, ainda que as pessoas reconheçam sua dependência e manifestem, até com certa frequência, a opinião de que são meros fantoches, lhes é extremamente difícil encarar essa dependência de frente.”

Em outras palavras, a astrologia não pode simplesmente ser interpretada como uma expressão de dependência, mas precisa ser considerada uma ideologia para a dependência, uma tentativa de fortalecer e, de alguma forma, justificar condições penosas que parecem mais toleráveis quando se tornam alvo de uma atitude afirmativa.”

A intenção original do autor: “Isso é muito bem refletido pela astrologia, assim como pelos dois tipos [?] de Estados totalitários que também afirmam ter uma chave para tudo, conhecer todas as respostas e reduzir o que é complexo a inferências simples e mecânicas, afastando tudo que é estranho e desconhecido, sendo, ao mesmo tempo, incapazes de explicar qualquer coisa. O sistema assim caracterizado, o verwaltete Welt [mundo administrado], tem, por si mesmo, um aspecto ameaçador.”

A sensação de que há uma crise encoberta nunca desapareceu desde a I Guerra Mundial, e a maioria das pessoas se dá conta, ainda que de maneira pouco clara, de que a continuidade do processo social e sua capacidade de reproduzir sua própria vida, não se devem mais a processos econômicos normais, mas a fatores como o rearmamento universal que, por si mesmos, geram a destruição ao mesmo tempo que são os únicos meios de autoconservação. Essa sensação de ameaça é bastante real, e alguma de suas expressões, como as bombas A e H, estão a ponto de superar os mais desvairados medos neuróticos e fantasias destrutivas. É provável que, quanto mais as pessoas professem um otimismo oficial, mais profundamente sejam afetadas por essa sensação de calamidade — a ideia, correta ou errônea, de que o estado de coisas atual de alguma forma leva à explosão total, e que o indivíduo pode fazer muito pouco a respeito disso.”

Lições de assepsia adverbial.

A <onda do futuro> parece consumir os próprios medos produzidos pelas condições do presente. A astrologia cuida dessa sensação, traduzindo-a em uma forma pseudo-racional, de modo a enfocar as angústias sem objeto (free-floating anxieties) a um simbolismo bem-definido, mas também proporcionando um conforto vago e difuso, com o que dá àquilo que não tem sentido a aparência de um sentido oculto e grandioso, simultaneamente reafirmando que este não pode ser buscado nem no domínio do que é humano nem tampouco pode ser propriamente compreendido por nós.”

O culto de Deus foi substituído pelo culto dos fatos, da mesma forma que as entidades fatais da astrologia, as estrelas, são, em si mesmas, vistas como fatos, coisas governadas por leis mecânicas.”

O postulado de Auguste Comte de que o positivismo deveria ser um tipo de religião é realizado de forma irônica: a ciência é hipostasiada como uma verdade última e absoluta. (…) só os empiristas filosóficos [jornalistas, podemos resumir] parecem mais suscetíveis à superstição secundária [acreditar em coisas como astrologia] do que os pensadores especulativos [os ‘metafísicos’ ou pensadores relativistas]: o empirismo extremo, que ensina uma obediência absoluta da mente àquilo que é dado, aos <fatos> [os fatos sociais são coisas seria o adágio – fracassado – da própria sociologia], não dispõe de um princípio — tal como a ideia da razão — que lhe permitiria distinguir o possível do impossível. Assim, o desenvolvimento do esclarecimento vai além de si mesmo e produz uma mentalidade que, muitas vezes, não é capaz de resistir às tentações mitológicas.” Você acredita nos deuses gregos, ex-ateu adolescente?

No lugar de um processo intelectual complicado, extenuante e difícil, que poderia superar a sensação de insipidez pela compreensão do que é que torna o mundo tão insípido,¹ busca-se um atalho desesperado que oferece um entendimento espúrio e uma fuga para um reino supostamente superior. A astrologia lembra, nessa dimensão, mais do que em qualquer outra, outros tipos de meios de comunicação de massa tais como os filmes: sua mensagem aparece como algo metafisicamente significativo, como meio de recuperar a espontaneidade da vida, enquanto, na verdade, ela só faz repetir as mesmas condições coisificadas que parecem ser renunciadas por um apelo ao <absoluto>. A comparação da astrologia com o misticismo religioso, duvidosa em mais de um aspecto, é particularmente inválida à medida que o mistério celebrado pela astrologia é vazio — os movimentos das estrelas, que supostamente explicam tudo, não explicam nada, e mesmo se a hipótese total fosse verdadeira, ainda haveria de se explicar por que e como as estrelas determinam a vida humana, uma explicação que nem mesmo foi tentada pela astrologia.”

¹ Conquanto impossível, mas sonhar é grátis.

É, afinal, a própria falta de relação, a irracionalidade das relações entre a astronomia e a psicologia, para as quais não existe um denominador comum, uma <base lógica> que dá à astrologia a aparência de justificação em sua pretensão de ser, ela mesma, um conhecimento misterioso e irracional. A opacidade da astrologia não é nada além da opacidade que prevalece entre diversos campos científicos que não podem ser significativamente reunidos. Assim, pode-se dizer que a própria irracionalidade brota do princípio de racionalização que evoluiu em nome da maior eficiência, a divisão do trabalho. Aqueles que Spengler chamava de homens das cavernas modernos residem, por assim dizer, na cavidade formada entre as ciências organizadas, as quais não são capazes de cobrir a universalidade da existência”

Foi apontado anteriormente que a astrologia, da mesma forma que o racismo e outras seitas intelectuais, pressupõe um estado de semi-erudição. Ao avaliar a astrologia como um sintoma do declínio da erudição, entretanto, há que se resguardar da postura superficial do pessimismo cultural oficial.” O neo-racismo é astrológico (cada vez mais espúrio). Ironia, não? Cavalo pangaré.

Os sujeitos que lêem jornais: “De um lado, existe uma riqueza de material e de conhecimentos, mas a relação é muito mais formal e classificatória do que passível de proporcionar uma abertura de fatos supostamente inflexíveis por meio da interpretação e da compreensão.” O atalho de Michele.

Falando em termos gerais, a ideologia astrológica assemelha-se, em todas as suas principais características, à mentalidade daqueles que obtiveram <alta pontuação> na pesquisa empreendida por The Authoritarian Personality [livro de Horkheimer].”

Creio que ainda não havia pensado na correlação entre crendice astrológica e fascismo. Posso imaginar, agora, uma versão alternativa do meu tio reaça Nilson, um hippie “mae Diná” cheio de manias, falando “bicho”, fumando seu beque e levando uma vida good vibes, voz arrastada, se aproximando apenas dos parentes que emanam “energia positiva” (a sua é sempre positiva, vale lembrar). Negativos são os outros.

A bandeirinha canarinho não suporta outra década de exposição dessa maneira. Terão de voltar com a bola de cristal, nem que ela seja LCD…

ALOISIUS: “Assim como aqueles que podem ler os sinais das estrelas acreditam que estão por dentro de informações preciosas, os seguidores dos partidos totalitários acreditam que suas panaceias especiais são universalmente válidas, o que funciona como justificativa para impô-las como regra geral. A ideia paradoxal do Estado com um partido só — enquanto a ideia de <partido>, derivada de <parte>, em si mesma indica uma pluralidade — é a consumação de uma tendência que se encontra em estado dormente na atitude inacessível e obstinada do adepto da astrologia que defende tenazmente sua crença sem nunca entrar em uma discussão real, usando hipóteses auxiliares para defender-se mesmo quando suas posições são evidentemente errôneas e com quem, em última instância, não se pode falar: uma pessoa que nunca pode ser alcançada, e vive em um tipo de ilha narcísica [Northwest Island].”

Deve-se tomar muito cuidado para não simplificar demasiadamente o relacionamento entre astrologia e psicose.” Falou o imbecil que tipifica tudo como “catexia anal”. Por falar nessa carniça:

o liberalismo do século XIX, com sua ideia do pequeno empreendedor independente que acumula riqueza economizando, provavelmente induziu mais formações de caráter do tipo anal do que, digamos, o século XVIII, no qual o ideal do ego era mais determinado pela imagem caracterológica feudal que, em termos freudianos, é chamada de <genital>”

Não sou eu que forço uma caricatura, ela já está toda desenhada no livro!

Hitler era certamente psicologicamente anormal, mas foi exatamente essa sua anormalidade que criou o fascínio que permitiu seu sucesso junto às massas alemãs. Pode-se dizer que é precisamente o elemento da loucura que paralisa e atrai seguidores para os movimentos de massa de todos os tipos; e o corolário dessa estrutura é que as pessoas nunca acreditam inteiramente no que fingem acreditar e, assim, excedem suas próprias crenças, e estão logo inclinadas a traduzi-las em ação violenta.”

Pode-se comparar a função dessas confissões às confissões forçadas dos supostos traidores na Rússia e nos Estados-satélites atrás da Cortina de Ferro, as quais, longe de desiludir os seguidores do comunismo no mundo livre, muitas vezes parecem lançar uma espécie de feitiço que garante uma credulidade integral. A astrologia tem de ser vista como um pequeno modelo dessa estimulação muito mais ampla de disposições paranóicas.”

14 citações de Freud (+ Jung, Horney, Anna F., Erich Fromm, Reik…), só 1 de Weber. “Sociologia adorniana.”

LYSIAS’ SELECTED SPEECHES (edição bilíngüe) (Greek Series for Colleges and Schools) – Eds. Weir Smyth & Darwin Adams, 1905.

DIC:

hoplita: soldado grego de infantaria, com pesada armadura equipada

meteco: ver “metecs” 3 parágrafos abaixo e também “metics”

Introductions

In Lysias we have the first really successful application of rhetorical theory to practical speech. The more vehement and showy style of Demosthenes, imitated by Cicero, and through him passed on to the modern world, long dominated English oratory.”

SPEECH XII. AGAINST ERATOSTHENES

Introdução e Considerações sobre o Discurso

It is an attack upon Eratosthenes (probably from the autumn of 403 BC), one of the Thirty, and involves the discussion of the whole administration of that body, and to some extent of that of the 400, the oligarchy of 411 BC.

Early in the administration of the Thirty Eratosthenes had set forth with others of their number to arrest certain rich metecs [estrangeiros domiciliados em Atenas, caso da família de Lísias]. It fell to him to seize Polemarchus, Lysias’s brother, who was immediately put to death. When, after the battle at Munychia (Spring, 403), most of the Thirty retired to Eleusis, Eratosthenes, with one other of their number, remained in Athens, though not as a member of the new governing board of Ten. In the final amnesty between the 2 parties it was provided that any one of the Thirty who was willing to risk a judicial examination of his conduct as a member of the late administration might remain in the city. Otherwise all were obliged to settle at Eleusis or remain permanently in exile. Eratosthenes, believing himself to be less compromised than the others of the Thirty, ventured to remain and submit to his <accounting>.”

The more moderate democrats, notably Thrasybulus, the hero of the Return, were totally opposed to any attempt to strike back at the city party. (…) The task then which Lysias undertook was difficult. He had to convince the jury that the one man of the Thirty who was commonly believed least responsible for their crimes was so guilty that he was not to be forgiven, at a time when the watchword of the leaders of both parties was <Forgive and forget>.” “The real question of the day was as to the power of the democracy to regain the confidence and support of the great conservative middle class, men who had formerly been represented by Theramenes, and later by Eratosthenes. If these men could be convinced that the restored democracy would use its power moderately, foregoing revenge for the past, turning its back upon the demagogue and the political blackmailer, there was hope for the future.”

No one could blame the Sicilian Lysias for seeking his personal revenge [hehehe] (…) It is this larger political aspect of the case which gives to the speech against Eratosthenes its historical interest. (…) To distinguish between those of the Thirty who had sought to establish personal tyranny and those who had honestly striven for a reformed, conservative democracy was of first importance.”

DIVISÃO DA EXPOSIÇÃO:

1. EXÓRDIO. Apresentação do caso.

2. NARRATIVA. Contextualização da procedência de Lísias e do crime dos Trinta contra esta família.

3. DIGRESSÃO. Denúncia formal do réu.

4. PROPOSIÇÃO

5. ARGUMENTAÇÃO

A. Argumentos imediatos.

i. Eratóstenes agiu de forma contraditória.

ii. Por que a tese de que Eratóstenes foi compelido ao ato é sem base.

iii. O caso pode gerar precedentes perigosos para cidadãos e estrangeiros de Atenas.

iv. É contraditório executar os generais de Arginusa e perdoar os Trinta Tiranos.

v. Reiteração.

B. Argumentos sobre a biografia de Eratóstenes. O passado reputado de Eratóstenes não entraria em jogo na acusação presente.

i. A conduta de Eratóstenes no período dos 400.

ii. A conduta de Eratóstenes no estabelecimento do governo dos Trinta.

iii. A conduta de Eratóstenes enquanto um dos Trinta.

iv. A conduta de Eratóstenes no período dos Dez.

C. Argumento-réplica sobre Eratóstenes ser amigo e apoiador de Teramenes. Ataque à carreira de Teramenes.

i. A conduta de Teramenes e suas conexões com os 400.

ii. A conduta de Teramenes depois do governo dos 400.

iii. A conduta de Teramenes na negociação da paz.

iv. A conduta de Teramenes quando do estabelecimento dos 30.

v. Conclusão: A amizade com Teramenes não é suficiente como prova de lealdade.

D. Conclusões gerais.

6. PERORAÇÃO

A. A pior pena existente ainda seria exígua perante o montante de crimes cometidos.

B. Ataque ao advogado do réu.

C. O perdão seria equivalente a aprovar a conduta dos réus.

D. Apelo aos partidos (júri).

i. Aos aristocratas

ii. Aos democratas

E. Conclusão: Sumário dos crimes; apelo ao júri para executar a vingança dos mortos.

The speaker can pass at once to the narrative of the conduct upon which he bases his attack. And here Lysias is at his best. In the simplest language he describes the life of his own family and their sufferings (…) the sentences become very short, significant details of the story follow rapidly, and the hearer is made to see the events as if passing before his eyes.”

The term digression applies to this section only as an interruption of the strictly logical order, which would require the presentation of the arguments before the attempt to move the feelings of the jury by denunciation.”

5.

B.

In the review of Eratosthenes’s conduct as one of the Thirty (§§48-52), Lysias can bring no specific charge beyond that of the arrest of Polemarchus. He tries to forestall the plea of Eratosthenes that he actively opposed certain of the crimes of the Thirty by the shrewd claim that this would only prove that he could safely have opposed them all. He finally (§§53-61) tries to give the impression that Eratosthenes was connected with the bad administration of the Board of Ten, a charge that seems to be entirely without foundation.

To a jury already prejudiced by the affecting narrative of the arrest, and hurried on from one point to another, this whole attack was convincing; but the modern reader finds little of real proof, and an abundance of sophistry.”

C.

Lysias comes now to the refutation of the main argument of the defense, that Eratosthenes was a member of that honorable minority among the Thirty who opposed the crimes of Critias’ faction, and whose leader, Theramenes, lost his life in the attempt to bring the administration to an honest course.

Whatever we may think of the real motives of Theramenes, there can be no question that at the time of this trial the people were already coming to think of him as a martyr for popular rights. All knew Eratosthenes was his friend and supporter. Lysias saw therefore that he must blacken the character of Theramenes. He accordingly turns to a rapid review of his career. In a few clear-cut sentences he pictures Theramenes at each crisis, always the same shrewd, self-seeking, unscrupulous man, always pretending to serve the state, always ready to shift to the popular side, always serving his own interests.

The attack is a masterpiece. There is no intemperate language, no hurling of epithets. <He accuses by narrating. The dramatically troubled time from 411 to 403 rises before us in impressive pictures. At every turn Theramenes appears as the evil genius of the Athenians. His wicked egoism stands out in every fact.> Bruns, Das literarische Porträt der Griechen, p. 493.

(…) but is this picture of Theramenes true to the facts? In his narrative Lysias selects those acts only upon which he can put a bad construction. He fails to tell us what appears so clearly in the narrative of Thucydides, and in the defense put into the mouth of Theramenes by Xenophon in his answer to Critias before the Senate, that his opposition to the extreme faction of the 400 was, whatever may have been his motive, an efficient cause of their overthrow, at a time when there was reason to fear that they were on the point of betraying the city to the Peloponnesians. (…) He misrepresents Theramenes’ responsibility for the hard terms of the Peace, and he ignores the fact that the final opposition to Critias which cost him his life was in every particular what would have been demanded of the most patriotic citizen. (…) Thucydides’ praise of the administration after the 400 is rather a praise of the form of government than of its leader.”

In the next generation opinions were sharply divided as to the character of Theramenes. Aristotle, to whom he stood as the representative of the ideal government by the upper class, places him among the great men of Athens.” “The best of the statesmen at Athens, after those of early times, seem to have been Nicias, Thucydides, and Theramenes. As to Nicias and Th., nearly every one agrees that they were not merely men of birth and character, but also statesmen, and that they acted in all their public life in a manner worthy of their ancestry. On the merits of Theramenes opinion is divided, because it so happened that in his time public affairs were in a very stormy state. But those who give their opinion deliberately find him not, as his critics falsely assert, overthrowing every kind of constitution, but supporting every kind so long as it did not transgress the laws; thus showing that he was able, as every good citizen, to live under any form of constitution, while he refused to countenance illegality and was its constant enemy. (Kenyon’s trans.) “Para um resumo das discussões modernas sobre o caráter de Teramenes, ver Busolt, História Grega, III. ii. 1463 [original em alemão].”

By a phrase here, a single invidious word there, he shrewdly colors the medium through which we see the events. Every statement is so turned as to become an argument. (…) even antitheses are only sparingly used.”

The study of the style of this speech is especially interesting because it is the only extant speech which Lysias wrote for his own delivery, and one of the first in his career as a practical speech writer. In preparing each of his other speeches he had to adapt the speech to the man who was to deliver it; in this he was free to follow his judgement of what a speech should be.”

* * *

At first, indeed, they behaved with moderation towards the citizens and pretended to administer the state according to the ancient constitution … and they destroyed the professional accusers and those mischievous and evil-minded persons who, to the great detriment of the democracy, had attached themselves to it in order to curry favor with it. With all of this the city was much pleased, and thought the Thirty did it with the best of motives. But so soon as they had got a firmer hold on the city, they spared no class of citizens, but put to death any persons who were eminent for wealth or birth or character” Arist. “Xenophon gives similar testimony” “The Tholus, a building near the senate-house, was the headquarters and dining-hall of the Prytanes. It was thus the natural center of the administration of the Thirty, who used the subservient Senate to give a form of legality to their own acts.”

when the Thirty took control they found the treasury exhausted by the expenses of the Peloponnesian War. They had not only to provide for the ordinary expenses of the government but to pay their Spartan garrison on the Acropolis. Xenophon says that the despoiling of the metics [a família de Lísias inclusa] was to meet the latter expense.”

This entrance into Lysias’ house was, in spirit, a violation of the principle that a man’s house is his sanctuary, a principle as jealously maintained in Athens as in modern states.”

Gardner, The Greek House, in: Journal of Hellenic Studies, 21 (1901), 293ss.

Gardner & Jevons, Greek Antiquities

One of the most common charges against them is that they condemned citizens to death without a trial, whereas the right of every citizen to trial with full opportunity for defense was one of the fundamental principles of the democracy. This right was extended to metics also.”

the doubling of words merely for rhetorical effect is as rare in the simple style of Lysias as it is common in the rhetorical style of Demosthenes” (vide anexo ao fim)

the ceremonial impurity of a murderer was so great that the accused was, after indictment, forbidden entrance to the sanctuaries or the Agora while awaiting trial. The trial itself was held in the open air, in order, as Antiphon (5:11) tells us, <that the jurors might not come into the same inclosure with those whose hands were defiled, nor the prosecutor come under the same roof with the murderer.>

whom in the world WILL you punish? KAÍ is used as an emphatic particle in questions, implying the inability of the speaker to answer his own question, or his impatience at the circumstances that raise the question. Its only English equivalent is a peculiar emphasis.” “In English we prefer the indefinite expression of place, in the world.”

We infer that some of the states friendly to Athens had made formal proclamation excluding members of the late oligarchy from taking refuge with them. While Eleusis had been set apart as an asylum for the Thirty and their supporters, it is not unlikely that some, fearing that the democracy would not keep its promise of immunity, sought refuge in other states.”

In the summer of 406 the Athenian fleet under Conon was shut up in the harbor of Mytilene by the Lacedaemonians [Spartans]. Desperate efforts were made for their rescue; a new fleet was hastily equipped and manned by a general call to arms. Seldom had an expedition enlisted so many citizens of every class. The new fleet met the enemy off the Arginusae islands, and, in the greatest naval battle ever fought between Greek fleets, won a glorious victory. The generals, wishing to push on in pursuit of the enemy, detailed 47 ships under subordinate officers to rescue the Athenian wounded from the wreckage. A sudden storm made both pursuit and rescue impossible, and more than 4,000 men, probably half of them Athenian citizens, were lost. The blow fell upon so many homes in Athens that public indignation against the generals passed all bounds, and the generals were condemned to death. Not only was the sentence in itself unjust, but it was carried by a vote against the accused in a body, in violation of the law’s guaranty of a separate vote upon the case of every accused citizen. A reaction in feeling followed, a part of the general reaction against the abuses of the democracy. That the popular repentance was not as general or as permanent as it ought to have been is clear from the fact that now, 3 years after the event, Lysias dares appeal to this precedent as ground for righteous severity in the present case; he is evidently not afraid that it will be a warning to them to beware of overseverity when acting under passion. Yet he shows his consciousness that he is on dangerous ground, for he takes pains to state the defense of the generals and the ground on which it was overruled.”

an exaggeration, as it is in §83, where he says that the death of these men and that of their children would not be sufficient punishment for them. No one ever seriously proposed at Athens to put sons to death for their fathers’ crimes, but lesser penalties were put upon them; loss of civil rights was often visited upon the sons of a man condemned, and the common penalty of death and confiscation of property brought heavy suffering to the family (so in the case of the family for which Lysias pleads in Speech XIX). Yet even here the treatment was not inhuman; Demosthenes (27:65) says, Even when you condemn any one, you do not take away everything, but you are merciful to wife or children, and leave some part for them.

For the seizure of the arms of all citizens outside the 3,000 supporters of the Thirty, see Xen. Hell., 2. 3. 20. (…) The seizure of these arms, which many of the citizens had carried through all the years of the Peloponnesian War, was one the most outrageous acts of the Thirty.”

the accused had opportunity for defense before the Senate, and, in the more serious cases, before the Ecclesia or a law court which had final jurisdiction. Under the Thirty the accused lost these privileges of defense.”

They deposed the Thirty, and they elected ten citizens, with full power, to put a stop to the war. [proto-cesarianos] Arist.

Eratosthenes was not one of the new board. The fact that he dared to remain in the city is a strong argument in his favor, which Lysias tries to counteract by throwing upon him the odium of connection with Phidon.”

There was a large conservative element in the city who were dismayed at seeing the radicals with Critias in control; they now took the lead, but were again disappointed in that the new board of Ten fell under sympathy with the Thirty at Eleusis, actively cooperated with them and continued their war policy. It was an instance, not infrequent in modern times, of the better element in a city rising up under a sudden impulse and apparently overthrowing a political machine, only to find the machine still in control after the excitement was over.”

Antiphon was the moving spirit in planning the revolution of 411; Pisander was the most prominent man in its execution; Phrynichus the most daring; and Theramenes, the son of Hagnon, was a prime mover in the abolition of the democracy, a man not without ability as a speaker and thinker.” Thucyd., 8:68

Sophocles, when asked by Pisander whether he, like the other probouloi, approved of the establishment of the 400, said, <Yes.> <But what? Did that not seem to you a bad business?> <Yes,> said he, <for there was nothing better to do.> Arist., Retórica

the people had been persuaded to accept the new form of government in the hope of ending the war through Alcibiades with Persian support; this hope had now failed”

After the deposition of the 400, Antiphon and Archeptolemus were put to death on the charge of having plotted with others of the oligarchs to betray the city to Sparta. Theramenes was at the head of the government, under a moderate constitution, from September 411 to about July 410.”

The English, and usually the Greek, more logically uses for, as giving the grounds for the general statement.”

Xenophon says that the Spartans had already announced the destruction of 10 stadia [2km] of the Long Walls as a condition of peace, and that what Theramenes offered to do was to find out from Lysander whether this was intended as a preliminary to the enslavement of the city, or only as a means of guaranteeing their faithful obedience to the other terms of peace. After remaining 3 months with Lysander he returned to Athens with the report that Lysander had no power in the matter, and that it must be determined by the government at Sparta.” “Ordinarily the Areopagus had no jurisdiction in political or military affairs, but this crisis was so extreme, involving the very existence of the city, that extraordinary action by the Areopagus is not unlikely.” “on the first mission, that to Lysander, Theramenes went alone, but had no authority to negotiate; on the second, he had authority, but it was shared with 9 fellow-ambassadors. Lysias purposely represents it as resting entirely with him.”

Os atenienses levaram meses para destruir as muralhas externas, cumprindo as condições da paz com Esparta. Tal qual a construção de um bom estádio candango, a demolição desses estádios de muro na Antiguidade estourou o prazo que havia sido fixado!…

Dracontides doubtless presented the general plan, and the Thirty were chosen to draft a constitution which should carry it out in detail.”

for the change of this word from an originally good meaning // cp. [compare] the history of English simple and silly.” RUDE SIMPLÓRIO SIMPLES HUMILDE SEM-PECADO IMBECIL DISTORCIDO ABSURDO DESORIENTADO TONTO TOLO AHHHH

THE FREE DICTIONARY.COM:

sil•ly

adj. -li•er, -li•est, adj.

1. weak-minded or lacking good sense; stupid or foolish.

2. absurd; ridiculous; nonsensical.

3. stunned; dazed: He knocked me silly.

4. Archaic. rustic; plain; homely.

5. Archaic. weak; helpless.

6. Obs. lowly in rank or state; humble.

n.

7. Informal. a silly or foolish person.

(1375–1425; Middle English sely, orig., blessed, happy, guileless, Old English gesaelig happy, derivative of sael happiness; c. Dutch zalig, German selig)

silli•ly, adv.

silli•ness, n.”

It was the plan of Sparta and her Athenian supporters to see to it that the fleet should never be restored. This was the more acceptable to the Thirty as the fleet had always been the center of democratic power. We are not surprised, then, to read in Isocrates (7:66) that the dockyards, which had cost not less than 1000 t., were sold by the Thirty for 3 t. to be broken up. But apparently the work was not completed, for 4 years after the Thirty Lysias (30:22) speaks of the dockyards as then falling into decay.”

PATERfação da MAEteria

* * *

SPEECH XVI. FOR MANTITHEUS

Introdução e Considerações sobre o Discurso

The charge was brought against Mantitheus that he had been a member of the cavalry which had supported the Thirty, and that he was therefore not a fit candidate for the office of senator.”

Before the Peloponnesian War Athens had made very little use of cavalry, but from the beginning of that war to the close of the next century a force of a thousand horsemen was maintained.”

An enrolment which thus offered opportunity for display in time of peace, and a less dangerous and less irksome form of service in war, attracted the more ambitious and proud young men of the aristocracy.”

Xenophon gives a striking testimony to the hatred of the democracy toward the cavalry corps in his statement that when, 4 years after the Return, the Spartans called upon Athens to furnish cavalry to help in the campaign in Asia Minor, the Athenians sent them 300 of those who had served as cavalrymen under the Thirty <thinking it a good thing for the Demos if they should go abroad and die there> (Hell. 3.I.4), a statement which betrays Xenophon’s own feeling toward the people.”

It must have seemed to many of the returned exiles that the men who had so actively supported the lost cause ought to be more than content with permission to live retired lives as private citizens, and that for them to come forward now, seeking public office or any political influence whatever, was the height of presumption”

Aristotle gives the following description of the examination of candidates for the archonship, which probably did not differ materially from the examination for the senatorship, with the exception of the demand on taxes below: <When they are examined, they are asked, first, ‘Who is your father, and of what demo? Who is your father’s father? Who is your mother? Who is your mother’s father, and of what demo?’ Then the candidate is asked whether he has an ancestral Apollo and a household Zeus, and where their sanctuaries are; next, if he possesses a family tomb, and where; then, if he treats his parents well, and pays his taxes, and has served on the required military expeditions.>

He had, in short, to write the speech which the young man would himself have written if he had possessed Lysias’ knowledge of law and politics, and Lysias’ training in argumentation.”

Lysias knew the Athenian audience too well to suppose that plausible proof or valid proof would carry the case.”

This omission of the usual appeal to the feelings of the hearers is quite in keeping with the confident tone of the whole speech. The omission of the peroration is also wise from the rhetorical point of view. Throughout the speech Lysias has repressed everything that could suggest artificial or studied speech; it is in keeping with this that he omits that part of the plea in which rhetorical art was usually most displayed.”

No speech of Lysias offered a better opportunity for his peculiar skill in fitting the speech to the man”

* * *

the Athenians did not venture to make universal their general principle of appointment to office by lot. The lot applied to officials whose work did not absolutely demand political or military experience or technical knowledge.”

30 mines was an average sum in a family of moderate means.”

The son of Alcibiades was alleged to have lost his property at dice.”

Thrasybulus was at first the idol of the people under the restored democracy; but his moderate and conservative policy, sternly opposed to every violation of the amnesty and every indulgence of revenge, grew vexatious to the more radical element. (…) The defeat of the expedition to Corinth in 394 was a blow to his reputation. (…) in the full tide of enthusiasm for the new navy and its commander Conon the people forgot their allegiance to Thrasybulus.”

the Homeric custom of wearing the hair long prevailed always at Sparta, but at Athens from about the time of the Persian Wars only boys wore long hair. When they became of age their hair was cut as a sign of their entering into manhood, and from that time on they wore hair about as short as modern custom prescribes; only the athletes made a point of wearing it close-cut. But there was a certain aristocratic set of young Spartomaniacs who affected Spartan appearance along with their pro-Spartan sentiments, and who were proud of wearing long hair, to the disgust of their fellow-citizens. These were the men who largely made up the cavalry corps.”

SPEECH XIX. ON THE STATE OF ARISTOPHANES [um homônimo do comediante, ao que tudo indica]

Introdução e Considerações sobre o Discurso

O reclamante da fala é supostamente o filho deste Aristófanes (mas o comentário diz que pode ter sido seu cunhado), morto sem julgamento e espoliado por Atenas, em busca da devolução de seus bens familiares ou de parte deles.

The events which led to this speech were connected with two dangerous tendencies in the political life of the 4th century, the enrichment of naval commanders through their office, and the hasty and unreasonable punishment of public officers in response to a fickle public sentiment.”

The city was attempting to take her old place in international affairs, with no sufficient revenue; the people saw in each new confiscation relief for the treasury.”

The case of Nicophemus and Aristophanes is but one among many between 388-386, when these prosecutions were at their height.”

Lísias defendia vários casos de ambos os lados: como promotor de Atenas, acusando a corrupção de homens da marinha e pedindo sua execução e confisco de suas riquezas; e neste, como advogado contra o Tribunal.

Speech against Epicrates: “In my opinion, Athenians, if you should put these men to death without giving them trial or opportunity of defense, they could not be said to have perished <without trial>, but rather to have received the justice that is their due.”

Speech againt Ergocles: “Why should you spare men when you see the fleets that they commanded scattering and going to pieces for lack of funds, and these men, who set sail poor and needy, so quickly become the richest of all the citizens?”

No other proem of Lysias is so long or developed in such detail. The reason is to be found in the fact that the speaker is addressing a jury who are thoroughly prejudiced against his case. Nicophemus and Aristophanes are believed to have been guilty of the gravest crimes, and now the defendant is believed to be concealing their property to the damage of the state. The prosecution have said everything possible to intensify this feeling.

The proem falls into two parts, one general, the other based on the facts peculiar to this case. It is surprising to find that for the first part Lysias has taken a ready-made proem from some book on rhetoric, and used it with slight changes. We discover this fact by comparing §§1-6 with the proem of Andocides’ speech On the Mysteries, delivered 12 years earlier, and the proem of Isocrates’ speech XV, published 34 years after that of Lysias. Andocides has divided the section, inserting a passage applicable to his peculiar case, but the 2 parts agree closely with Lysias’ proem. Isocrates had used a small part of the same material, but much more freely, changing the order and the phraseology, and amplifying the selected parts to fit his own style.” “Blass, arguing from certain phrases of Andocides, attributes the original proem to Antiphon.” “It was possible to compose them in such general terms that any one of them would fit a large class of cases. We hear of such collections by Thrasymachus, Antiphon, and Critias, and the mss. of Demosthenes have preserved to us a large collection of proems of his composition, 5 of which we find actually used in extant speeches of his.”

This adaptation of the language to the personality of the speaker (ethos) is perfected by delicate touches here and there.”

And here lies much of the power of Lysias. We often feel that his arguments are inconclusive; he fails to appeal strongly to the passions; in a case like this, where strong appeal might be made to our pity for the widow and little children, he seems cold. But the personality of the speaker and his friends is so real and their charm so irresistible, that at the close we find ourselves on their side.”

* * *

OS 3 FEDROS DA ATENAS SOCRÁTICA: “the Pheaedrus whom we know through Plato as a young friend of Socrates (Banquete), one of the group who listened to the Sophist Hippias (Protágoras), and the friend and enthusiastic admirer of Lysias, delicately portrayed in Plato’s Phaedrus. It was not strange that when the proposition was made to confiscate the property of Aristophanes, his widow (a de Fedro) turned for help to the friend of her first husband, now at the height of his fame as an advocate, nor that when the present suit against her father’s estate came on Lysias again wrote the defense.”

we have 65 acres at about $70 an acre. This is the only passage in Greek authors which, by giving both the contents and the price of land, enables us to reckon land value. As we know neither the situation nor the nature of this land, even this information is of little worth.”

This avoidance of the common oaths of everyday impassioned speech is as fitting to the calm and simple style of Lysias as is their constant use to the vehement style of Demosthenes.”

of the 15 t. expended in the 4 or 5 years in question, the speaker has reckoned 5 t. for house and land, and 10 t. for the various public services; of this sum 2.83 t. was for ordinary liturgies of a rich citizen (service as choragus and trierarch) and for direct war taxes – an average of a little less than half a talent a year. A still more important source of information as to the public services of rich Athenian citizens is the account which Lysias gives in XXI of the public expenditures of his client for the 1st seven years after he attained his majority; the items are as follows:

1st year.

Choragus (tragic chorus) 3000 dracmae

Choragus (men’s chorus) 2000 dr.

2nd year.

Choragus (Pyrrhic) 800

Choragus (men’s chorus) 5000

3rd year.

Choragus (cyclic chorus) 300

7th year.

Gymnasiarch 1200

Choragus (boys’ chorus) 1500

Trierarch, 7 years 6 talents

War tax 3000 dr.

War tax 4000

TOTAL 9 t. 2800+ dr.

This gives an average contribution of about 1.325 t. a year. But these years were the final years of the Peloponnesian War, when public burdens were extraordinarily heavy; the same man gives smaller sums for the time immediately following. Moreover, the speaker says that the law would have required of him less than ¼ this amount. Unfortunately we have neither in this case nor in that of Aristophanes any knowledge of the total property or income from which these contributions were made, so that we have no sufficient basis for comparison with modern times. We lack the same data in the case of the speaker’s father, whose services of this kind amounted to 9 t. 2000 dr. in a period of 50 years [0.18 t./ano]. We only know that at his death the estate amounted to between 4 and 5 talents”

Callias the 2nd was reputed to be the richest Athenian of his time. Hipponicus the 3rd inherited this wealth. He had 600 slaves let out in the mines; ha gave his daughter, on her marriage to Alcibiades, the unheard-of dowry of 10 talents. His son, the Callias of our text, finally dissipated the family wealth. He affected the new learning, and we have in Plato’s Protagoras (VI-ff.) a humorous description of his house infested by foreign sophists. His lavish expenditures upon flatterers and prostitutes still further wasted his property, and he died in actual want.”

Aristophanes’ attack on Socrates in the Clouds gains much of its force in the picture of the son, corrupted and made impudent by his new learning, contradicting and correcting his old father.”

the minimum of property which subjected a citizen to the liturgies was 3 t.”

SPEECH XXII. AGAINST THE GRAIN DEALERS

Introdução e Considerações sobre o Discurso

This speech was written for a senator who was leading the prosecution of certain retail grain dealers, on the charge that, by buying up a larger stock of grain than the law permitted, they had injured the importers, and raised the price of grain to the consumers. It was probably delivered early in 386.

The successful expedition of Thrasybulus in 389-8 had brought the Hellespont under Athenian control, and thus secured the safety of the grain trade, which had been harassed by hostile fleets. But his death and the transfer of the command into less competent hands made the control of the Hellespont insecure again. At the same time the Spartans, having dislodged the Athenians from Aegina, were able constantly to endanger the grain ships at the home end of the route. The result was a period of unusual disturbance in the grain trade in the winter of 388-7.”

the dealers were forbidden by law to store up more than 1/3 of any cargo; 2/3 had to be thrown upon the market immediately. If then, a sufficient combination could be made among the retail dealers, they could hold the price down effectively.”

instead of passing the grain on to the consumers at a fair profit, the retailers used the low price to increase the stock of grain in their own storerooms, and put the retail price up according to the war rumors of the hour.”

The Senate had final jurisdiction only in case of penalties not greater than a fine of 500 dracmas (Demosthenes 47); in all other judicial cases their findings had to be passed on to a law court for final action.” Aristotle

Only one senator pressed the case against the dealers. The threatening of suits against rich men had become so common on the part of professional blackmailers that reputable men were loath to have anything to do with a case like this. The Senate found the charges sustained, and sent the case to a court under the presidency of the Thesmothetae.

The senator who had become so prominent in the prosecution felt obliged to carry the case through – otherwise he would have been believed to have been bought by the <ring of dealers>. He accordingly employed Lysias to prepare a speech for him to deliver in court. A study of this case involves a knowledge of the Athenian laws relating to commerce.

The small area of the Attic territory in proportion to population, and the poor adaptedness of the soil to grain production as compared with that of olives and figs, left the people largely dependent upon foreign sources for their grain. More than half of the supply came from foreign ports; the greater part from the Hellespont and the Euxine.”

to prevent the accumulation of grains in the retailers’ storerooms, and their consequent control of prices, it was provided by law, under penalty of death, that no retailer should buy more than 50 baskets at a time (but as to how much the standard grain basket held we have no knowledge).” “The whole retail grain trade was supervised by a board of Grain Commissioners; of their appointment and duties we learn as follows from Aristotle:

There were formerly ten, appointed by lot, 5 for the Piraeus, and 5 for the city, but now there are 20 for the city and 15 for the Piraeus.

Thus, the government followed the grain at every step from its reception in the Piraeus to the home of the consumer.” “At the first meeting of the Ecclesia in every prytany a part of the routine business was the consideration of the grain supply.”

The issue was so simple, the case so prejudiced in favor of the prosecution by the preliminary action of the Senate, and the odium of the act so certain, that Lysias was content to present every fact of the prosecution with the utmost simplicity and brevity.”

* * *

it is uncertain whether this was the Anytus who shared in the prosecution of Socrates. That Anytus, a rich tanner, was a leading democrat, associated with Thrasybulus in the Return. [But] this activity in protecting the poor man’s food supply would be quite in keeping with his democratic rôle.”

Neste tipo de caso (economia alimentar), metecos podiam integrar o júri.

SPEECH XXIV. FOR THE CRIPPLE

Introdução e Considerações sobre o Discurso

Lysias wrote this speech in support of the plea of a crippled artisan for the retention of his name on the list of disabled paupers who received a dole of an obol a day from the public treasury.” “An allowance of 2 obols/day from the treasury was all that saved many people from starvation during the last third of the Peloponnesian War.”

A system of military pensions for men who had been disabled and for the sons and dependent parents of men who had died goes back to the time of Solon and Pisistratus: the soldiers’ pension under Pisistratus, after the example of Solon in the case of a single disabled veteran (Heraclides, cited by Plutarch) support and education of sons, introduced by Solon (Diogenes Laert.). The pension of dependent parents (Plato, Menexeno) presumably goes back to the same time.”

It is to be remembered that the jury pay, available to all who cared to sit in court, and the pay for sitting in the Ecclesia offered no small relief to the poor citizens.”

The ascription of the speech to Lysias seems to have been questioned in antiquity, and has recently been vigorously attacked by Bruns. The first objection raised by Bruns is that the tone and extent of the attack on the complainant are at variance with Lysias’ uniform calmness and restraint in attack; Lysias’ defendants confine their attacks on the prosecutors to their acts in the case itself, and are far from giving a general characterization of the men; the extent of the attack is always well proportioned to the gravity of the case. But in our speech we have a bitter and scornful attack on the whole character of the opponent, and it is as vehement as though the issue were some great thing – not an obol a day. Bruns sees a 2nd violation of the Lysian manner in the failure of the defendant to press the real points at issue –his physical disability and his poverty – and the comical pose in which he is made to give, instead of argument, a picture of himself.”

We may suppose that the complainant had called attention to the horseback riding, something that only the richer citizens could afford, as indicating that the cripple had rich friends who could and would support him; the cripple pretends that the argument was that he was physically sound enough to jump unto a horse and ride it!”

The parody on the common pleas of the day is carried out in the absurd appeal based on the past life of the speaker: he has been no sycophant; he, the cripple, has not been violent; he, the pauper, refrained from sharing in the government of the aristocratic Thirty!”

SPEECH XXV. DEFENSE AGAINST THE CHARGE OF HAVING SUPPORTED THE GOVERNMENT OF THE THIRTY

Introdução e Considerações sobre o Discurso

This speech was written for a citizen who had been one of the 3,000 admitted by the Thirty to a nominal share in their government. The speaker has now, under the restored democracy, been chosen (by vote or lot) to some office.”

his eligibility is challenged on the ground that he was a supporter of the Thirty. The complainants have brought no charge of specific acts, basing their attack upon the principle that former members of the oligarchical party cannot be trusted in office under the democracy. The defense must attack this principle, and it is this fact which raises the speech above the plane of personal questions, and makes it one of the most interesting documents in the history of the period immediately after the Return.

The oath of amnesty provided for the exclusion from the city of certain specified leaders of the oligarchy; to all other citizens it guaranteed oblivion of the past. Under any fair interpretation of this agreement the former supporters of the Thirty, even senators, office holders and soldiers under them, were perfectly eligible to office under the restored democracy. But to keep their pledges in the full spirit of them proved to be a severe test of the self-control of the party of the Return.

The wiser democratic leaders fully recognized the critical nature of the situation. An attempt by one of the returned exiles to violate the agreement and take vengeance on one of the city party was met by the summary seizure of the complainant and his execution by the Senate without trial (Aristotle). This made it clear that there was to be no policy of bloody reprisals; but the feeling of hostility remained.

Then, less than 3 years after the Return, came the attempt of the survivors of the Thirty, settled at Eleusis, to organize an attack by force. The prompt march of the citizen forces, together with their treacherous seizure of the oligarchical leaders, soon put down the movement. But now more than ever it seemed to the democratic masses intolerable that members of the city party should have equal privileges with themselves. Their spokesmen began to say that the aristocrats might consider the people generous indeed in allowing their former enemies to vote in the Ecclesia and to sit on juries; that to ask for more than this was an impertinence (Lys. 26. 2, 3).

Those who had been conspicuous supporters of the Thirty, or personally connected with their crimes of bloodshed and robbery, naturally refrained from thrusting themselves into prominence; indeed, few of these had probably remained in the city. But the first test came when men whose support of the Thirty had been only passive, and against whose personal character no charge could be raised, ventured to become candidates for office.”

This speech was written by Lysias for one of the first cases of this sort – it may have been the very first. The issue was vital. If a man like the speaker, of proved ability and personal character, untainted by crime under all the opportunities offered during the rule of the Thirty, was now to be excluded from office, the reconciliation must soon break down.”

The speech cannot be placed much later than 400, for the speaker, with all his pleas based on his good conduct before and during the rule of the Thirty, says nothing of his conduct since the Return (October, 394), nor does he cite cases of other men of his party holding office. Moreover, his warnings show that there are fugitives of the oligarchical party who still hope for a reaction and a counter blow against the democracy, and are not yet sure what will be the treatment of the former supporters of the Thirty, while he speaks simultaneously of the democracy not as established, but as in process of being established. ”

The sentences are long and dignified. Only after the proem is well under way is there any touch of artificial rhetoric.”

The argument is surprising; in the most blunt way he asserts that men follow self-interest in their attitude toward one form of government or another. He gives the jury to understand that he remained in the city under the Thirty because it was for his personal safety and for the safety of his property that he do so (…) he frankly tells the jury to assume that he acts from an enlightened self-interest” “The cool frankness with which he waives aside all claim of sentimental patriotism (…) must have been refreshing to a jury weary of hearing pious protestations of loyalty and sacrifice for the sacred democracy.”

he makes the keen plea that a man who kept his hands clean in times when there was every encouragement to wrong-doing can be counted on to be a law-abiding citizen under the present settled government.”

The tone of the attack is severe and earnest, but always dignified. There is no display of personal passion. The speaker stands above petty recriminations, and in a most convincing way exposes the conduct of a group of small politicians who were coming to the front on false claims of service in the late civil war, and who were destined to succeed before long in discrediting and thrusting aside the great patriots of the Return.”

The coolness with which the client explained all political attachments on the ground of personal interest had its effect upon Lysias, and he counted upon its having its effect upon others.(*)” Bruns, Literarisches Porträt

(*) “The speech for Mantitheus (XVI) offers a marked contrast in this respect. The young cavalryman is full of talk of his own achievements.”

The style is noticeably more rhetorical than is usual with Lysias.”

* * *

blackmail by the threat of bringing innocent men before the courts on trumped-up charges was the regular work of the <sycophants>. (…) Xenophon tells how, by advice of Socrates, Crito finally supported a lawyer of his own to silence these fellows by counterattacks (Mem. 2. 9.). (…) verdicts are more a matter of chance than of justice, and that it is wise by paying a small sum to be freed from great accusations and the possibility of great pecuniary losses (Isoc. 18. 9-ss.).”

from these words, it is probable that Epigenes, Demophanes and Clisthenes were the complainants in this case.”

Every Athenian official was required every prytany (35 days) to submit an account of his receipts and expenditures to a board of 10 auditors, selected by a lot from the Senate. At the close of his term of office he was also required to present complete accounts to another board”

SPEECH XXXII. THE SPEECH AGAINST DIOGITON (fragmentos) ou: O caso do avô (e tio-avô) escroque

Introdução e Considerações sobre o Discurso

On the death of Diodotus, Diogiton, his brother, became the guardian of his widowed daughter and her 3 children. For a time he concealed from them the fact of Diodotus’ death, and under the pretext that certain documents were needed for conducting his brother’s business, he obtained from his daughter the sealed package of papers that had been left with her. After the death of Diodotus became known, the widow turned over to Diogiton, her father [ou seja, sobrinha que casara com o tio], whatever property was in her possession, to be administered for the family.

Diogiton arranged a second marriage for her with one Hegemon, but gave 1/6 less dowry than the will prescribed. In due time he arranged a marriage for his granddaughter also; there is no claim that he gave with her less than the dowry required by the will.

For 8 years Diogiton supported the boys from the income of the estate, but when the elder came of age, he called them to him and told them that their father had left for them only 2840 dr. (the sum her daughter returned him before), and that this had all been expended for their support; that already he had himself paid out much for them, and that the elder must now take care of himself.” “The elder son was the plaintiff, and his brother-in-law the one delivering this speech prepared by Lysias.”

The mother [of the plaintiff; and daughter of the accused] had documentary proof of Diogiton having received one sum of 7 t. 4000 dr. and Diogiton now acknowledge in his sworn answer that he had received that sum, but he submitted detailed accounts purporting to show that it had all been used for the family [wise scoundrel!].” “The trial can be put in 402-1 or very soon thereafter.”

Dionysius of Halicarnassus¹ [quem proporcionou o manuscrito hoje conhecido, cerca de 400 anos depois, um orador romano, discípulo genuíno de Lísias, portanto] says that in the cause of a suit against members of one’s own family the rhetoricians are agreed that the plaintiff must above all things else guard against prejudice on the part of the jury in the suspicion that he is following an unworthy and litigious course. The plaintiff must show that the wrongs which he is attacking are unendurable; that he is pleading in behalf of other members of the family nearer to him and dependent upon him for securing redress; that it would be wicked for him to refuse his aid. He must show further that he has made every attempt to settle the case out of court.”

¹ D.H., On the ancient orators

The language of the proem, like that of Lysias’s proems in general, is for the most part periodic. A larger group of thoughts than is usual with Lysias is brought together under a single sentence structure from §1 up to §3. The impression is one of dignity and earnestness. There is no rhetorical embellishment either in grouping of cola or in play on words or phrases.”

In this narrative there is a stroke of genius that places it, maybe, above all the others from Lysias. This is the introduction of the mother’s plea in her own words. The mother could not plead in court, but by picturing the scene in the family council Lysias carries the jurors in imagination to that room where a woman pleads with her father, protesting against the unnatural greed that has robbed his own grandsons, and begging him to do simple justice to her children. As the jurors heard how the hearers of that plea arose and left the room, silent and in tears, there was little need for argument.” “The result was a work of art perfect in the concealment of art.”

The examination of the alleged expenditures is sharp and clear. The overcharge seems written on the face of every item, and the series culminates in a case of the most shameless fraud. (…) Out of an accounting of 8 years Lysias selects a very few typical items, makes the most of them in a brief, cutting comment, and then passes on before the hearers are wearied with the discussion of details.”

The word play, a turn of speech rare in Lysias, but a favorite among rhetoricians, is fitted to the sarcastic tone” “The personification, a figure equally rare in Lysias, is in the same sarcastic tone”

GRAU ZERO DA ESCRITURA: “The speaker might be any Athenian gentleman; we get no impression of his age or temperament or character.”

We have certainly a personal portrait of Diogiton, and this by the simplest recital of his words and conduct. There is no piling up of opprobrious epithets. By his own conduct greed is shown to have been the one principle of his life, from the time when he married his daughter to his brother to keep hold of his increasing property, to the day when, with hollow professions of regret and with shameless lies, he turned his grandsons out of doors.”

* * *

for the seclusion of Athenian women see Becker, Charicles (Eng. trans.)

a man of ordinary standing was expected to have a slave attendant as he went about his business. Even the schoolboy had his.” Na democracia grega, os mais liberais, como Aristófanes em suas comédias, lutavam não pela extinção da escravidão, o que seria um preconceito ocidental anacrônico, mas pela equanimidade na distribuição dos escravos entre os mais ricos e a classe média!

The Athenian tombs and monuments were among the finest products of Greek art. There was a tendency to extravagant outlay, but in most artistic form. The expense was great as compared with the expenditure of the living. We know of sums ranging from 3 minae to 2 talents. For full description and illustration see Percy Gardner’s Sculptured Tombs of Hellas.”

The statement that the boys would have been as rich as any boys in the city (having about 12 t. after the payment of expenses for the 8 years and of dowries for mother and sister) seems reasonable from what we know of Athenian fortunes. (…) The fabulously rich men of the older generation, Nicias and Callias, were popularly supposed to have had fortunes of 100 and 200 talents. But a man who had 8 to 10 talents at the close of the Peloponnesian War was a rich man. (…) It was only after Alexander’s conquests had brought Oriental ideas of luxury and the means to grow rich by conquest and by trade on a large scale that the Greek family needed very much money to be <rich> [, life in old Athens being pretty simple and costless].”

SPEECH XXXIV. ON THE CONSTITUTION

Should citizenship with full political rights be open to all Athenian as before the oligarchical revolution, or should it be restricted according to the understanding with Sparta the year before in connection with the surrender?”

Usener holds that the assembly for which the speech of Lysias was written included only the men of the upper classes. (…) Wilamowitz finds confirmation of Usener’s view in the statement of Aristotle that under the amnesty the former officials of the city party were to give their accounting before the citizens whose names were on the assessor’s lists, i.e. the men of the upper classes (…) In our speech of Lysias the appeal is certainly to the property holders, but that is natural in any case (…) For the position against Usener, see Blass; Meyer, Forshungen zur alten Geschichte, II

It might well be presumed that the restoration of the democratic constitution would be considered an affront to Sparta, and it is possible that the Spartans had made definite statements to this effect. (…) Who could guarantee the loyalty of the Demos to the terms of the amnesty, when once demagogue and sycophant should resume their trade?”

Since the amendment of Pericles in 451-0, those who could not show pure Athenian descent through both parents had been by law excluded from citizenship.” “These citizens had married foreign wives, and now many of them with their families were returning to Athens, bringing with them the question of admitting their half-Athenian sons to citizenship.”

This speech of Lysias is of especial interest as being his earliest extant speech, and perhaps the first he wrote for a client. It is, moreover, the only extant speech of his composed for delivery before the Ecclesia. We owe its preservation to Dionysius of Hal., who incorporated it in his treatise on Lysias (op. cit.)” Neither of the 2 other speeches preserved by Dionysius is given in full, and it is probable that he took this part from the beginning of a longer speech.”

The plan of this part is simple: to appeal to the great middle class, men who have shared in the exile and the Return, and to convince them that the loss of the support of the non-landholding citizens will be more dangerous to the restored democracy than the chance of offending Sparta by failing to meet her wishes as to the revision of the constitution. The event proved the soundness of the argument. Sparta did not interfere, and the democracy was soon called upon to take up arms again against the oligarchs at Eleusis.”

The brevity is like Lysias, but not the obscurity. (…) The tricks of the current rhetoric are conspicuous – repeated antithesis and balance of cola, the rhyming of successive cola, and play on the sound of words. We may see in these features evidence of immaturity in practical oratory.” “How soon and how thoroughly Lysias corrected both faults, we see in the speech against Diogiton (written a year or 2 later) and that for Mantitheus (some 10 years later).”

* * *

Much property had been confiscated by the 30, much abandoned in the flight of the owners. The restored Demos put the owners back into possession, and made no attempt at a distribution of land among themselves.”

The event showed that the Spartan insistence upon dictating in the internal affairs of Athens had been due to the personal influence of Lysander. With his fall from power this policy was abandoned, and the restored Athenian democracy was left undisturbed.”

In 418 Argos was forced into alliance with Sparta, and an oligarchical government was set up. But in the next year a successful democratic reaction carried the state over to the Athenian alliance, and with more or less of vigor it supported Athens throughout the war. Mantinea, which had joined Argos against Sparta, was like forced by the events of 418 to return to the Spartan alliance, and remained nominally under Sparta’s lead throughout the war. But she maintained her democratic constitution, and gave only indifferent support to the Spartans.”

If the Spartans conquer, they know that they will not succeed in enslaving the Argives and Mantineans, for both people always rise up again after their defeats, as stubborn as ever. It is not worthwhile, then, for the Spartans to risk serious losses of their own for the slight gain of an incomplete subjugation of their neighbors.”

* * *

APPENDIX II. ATHENIAN LEGAL PROCEDURE

The following account is in general based on Lipsius’s revision of Meier & Schömann, Der Attische Process, and his revision of Schömann, Griechische Alterthümer. The conditions described are those of the early part of the 4th century, the time of Lysias’ professional activity.”

The ancient court of Areopagus, composed of the ex-archons, sitting under the presidency of the religious head of the state, had sole jurisdiction in cases of premeditated homicide and arson.”

Any citizen over 30 years of age, who was possessed of full civic rights, was eligible for jury service. (…) In the time of Lysias there was not such a pressure of legal business as in the Periclean period, when the Athenian courts were crowded with cases from the league cities (…) the service might become the regular employment of men who were quite content with small payment for light work, and of old men whose days of physical labor were over. From the time of Pericles the pay of the juryman was an obol for each day of actual service, until Cleon raised it to 3 obols, about the wages of an unskilled laborer.”

It was not customary to arrest the accused and confine him while awaiting trial, except in a special class of crimes, prosecuted by special and more summary procedures; even then the defendant was released if he could furnish sufficient security for his appearance in court.”

Many cases involved the testimony of slaves. This evidence was held valid only when given under torture, on the supposition that the desire for release from the torture on the one side would counterbalance the natural desire of the slave to testify according to his master’s orders on the other. (…) The torture was conducted by the litigants themselves or by men agreed upon by them, or in some cases by public slaves. The point to which the torture should be carried was previously agreed upon by the litigants.”

The court room had wooden seats for the jurors, provision for listeners outside the railing which shut in the jurors’ seats, and 4 platforms.”

The law required every man to deliver his plea in person. If he had not the ability to compose a speech for himself, he could employ a professional speech writer to write it for him; he then committed the speech to memory and delivered it as his own.”

No opportunity for speeches in rebuttal was given except in the case of certain private suits.”

At the close of the speeches there was no exposition of the law by the presiding magistrate, nor was there any opportunity for the jurymen to consult one with another, but the herald of the court called upon them to come forward to the platform immediately and deposit their votes.”

the secrecy of the vote was fully protected.”

Imprisonment was not used as a penalty, but only (…) until the execution of a man condemned to death.”

When one of these professional haranguers, trained in the plausible rhetorical art, popular with the masses, and skilled in moving their emotions, threatened a quiet, law-abiding, wealthy citizen with a lawsuit, the citizen might well think twice before deciding to trust to the protection of the courts; to buy off the prosecutor was the simpler and safer way.”

APPENDIX III. RHETORICAL TERMS

The Greek rhetoricians, beginning probably with Antisthenes, a contemporary of Lysias, distinguished 3 great types of prose composition.” “They found in Thucydides the perfection of the grand style.” “Lysias was the representative of the plain style.” “Isocrates was the representative of the third style, the intermediate type. His style showed a union of the best qualities of the other two.”

So long as Thucydides, Lysias and Isocrates were the greatest of prose writers these 3 <styles> served the purpose of classification; but when the critics were confronted with the problem of defining and classifying the oratory of Demosthenes, they saw the inadequacy of the old formulae. (…) If he were placed with Isocrates as a representative of the intermediate style, the term would become so inclusive as to break down by its vagueness, and he could certainly be placed with neither of the extremes. The critics solved this problem of classification in two ways: some, like Demetrius, added a 4th style, the powerful style. This new <style> was a recognition of the fact that the real characteristic of Demosthenes’ oratory was not any mingling of grand and simple language, but a great power which moved men. Other critics, like Dionysius, made no attempt to remodel the old system, or to find a place for Dem. within it. They preferred rather to treat the style of Dem. as something outside and above the 3 older types: a style which gathered up into itself the virtues of all, and so was superior to all, a power of which the 3 became the instruments. [same shit!]”

Aristotle in the next generation gives in his Rhetoric (3.9) a discussion of the periodic style, which probably represents the developed theory of Thrasymachus,¹ and which has remained the fundamental exposition of periodic theory for both ancient and modern times. Aristotle calls the running style the strung style. The separate thoughts are strung along one after another like beads; the first gives no suggestion that the 2nd is coming, not the 2nd that a 3rd is to follow; the series may stop at any point, or it may go on indefinitely.

¹ (…) Here, as in almost all matters of rhetoric, we must distinguish between the forms which the practical speakers instinctively shaped for themselves, and the names and theories which the rhetoricians afterward applied to them. The testimony as to Thrasymachus is that of Suidas and of Theophrastus, cited by Dionysius. (…)”

Roberts’s edition (Demetrius on Style, Cambridge, 1902), with its admirable translation, commentary and glossary of technical terms, makes this treatise available as the best starting point for the study of the theory of Greek prose style.”

O período não é a unidade mínima. Dentro do estilo periódico, um período se subdivide em colas.

Lysias, even in his plainest style, followed the custom of his time, and made frequent use of antithetic periods.”

In the English we lose much of the periodic effect in losing the similarity of sound at the beginning and end of the cola, which in the Greek added to the unity produced by the parallelism of thought and construction, and by the uniform length of the cola.”

Spencer, Philosophy of Style

Aristotle holds that there are periods composed of a single colon (3.9.5). (…) He probably had in mind the case of a single colon of considerable length, based on sensus suspensio of words.”

If I have attained to any clearness of style, I think it is partly due to my having had to lecture 20 years as a professor at Harvard. It was always present to my consciousness that whatever I said must be understood at once by my hearers or never. Out of this, I, almost without knowing it, formulated the rule that every sentence must be clear in itself and never too long to be carried, without risk of losing its balance, on a single breath of the speaker.” James Russell Lowell

Aristotle’s theory of the ‘period’ was faulty in that it restricted it to the 2 types of the antithetic and the parallel structure. But the modern rhetoricians have gone to the other extreme in making the sensus suspensio the only basis of the period. From that error it has resulted that they speak of a period as being always a full sentence. (…) We should obtain a better theory of the rhetorical period by returning to the sound doctrine of Demetrius, modifying it only by removing the restriction of 4 cola. We should then treat the period as something quite independent of the sentence (though often coinciding with it)”

The fondness for antithesis, already marked in the earlier literature, reached its height in the rhetorical work of Gorgias and his pupils. As compared with them, Lysias is moderate in its use.”

As rhyme was not an ordinary feature of Greek poetry, its use in prose did not seem to the Greek hearer as incongruous as it does to us.”

APPENDIX IV. MONEY AND PRICES AT ATHENS

While Solon’s other units of measure came into universal use in Athens, his linear foot failed to displace, for common purposes, the old Aeginetan foot of 330mm; but this old foot was reduced, probably to correspond to the reduction in the Solonian foot, giving the common working foot of about 328mm. Attic coinage was based on the talent, the weight of a cubic foot of water (or wine). The unit of coinage was the drachma, a coin of pure silver, weighing 1/6000 of a talent, and equal to 4.32 grams, or 66.667 + grains Troy. The modern bullion value of the drachma would be, for the period 1899-1903, $0.08+, and its value in US coined silver would be $0.1795+.”

1 obol = 3 20th century cents

6 obols = 1 drachma

100 drachmas = 1 mina ($18)

60 minas = 1 talento ($1080)

The standard silver dollar contains 371.25g of fine silver. Our silver <quarter> (our coin nearest to the drachma) contains only 347.22g of fine silver per dollar, but as our concern is chiefly with considerable sums of drachmas, the value is better taken on the dollar standard.”

The daric, a coin of pure gold, passed in Athens as equal to 20 drachmas (~$4).”

In the time of Lysias, a drachma would pay a day’s wages of a carpenter, or stone cutter, or superintendent of building operations.” = R$30 (ou seja: de 3 cents para 10 dólares em ~100 anos!)… 30.000% de inflação.

The average day’s wages in the US in 1900 for men corresponding to the Athenian 1-drachma workmen were: for carpenters, $2,63; to stone cutters, $3,45; brick layers, $3,84; stone setters, $3,82. US Bureau of Labor, Bulletin N. 53, July, 1904.”

Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade, seguido de Primeiros escritos sobre a paranóia – Jacques Lacan (tradução de Aluisio Menezes, Marco Antonio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes da Silveira Jr.), Forense Universitária, RJ (1987). Edição original francesa de 1975.

ORELHAS: “Da Psicose Paranóica, que já foi considerada como a última grande tese da psiquiatria contemporânea, constitui, na verdade, já a primeira incursão de Lacan no campo propriamente psicanalítico. (…) Após a leitura, Salvador Dalí criaria seu método paranóico-crítico[?], o qual traria novo fôlego para o movimento surrealista.”

DA PSICOSE PARANÓICA EM SUAS RELAÇÕES COM A PERSONALIDADE (DOUTORADO EM MEDICINA ORIENTADO POR HENRI CLAUDE, 1932)

A MEU IRMÃO, O R.P. MARC-FRANÇOIS LACAN, BENEDITINO DA CONGREGAÇÃO DE FRANÇA.”

A QUE SE ACRESCENTA MENÇÃO AOS MAIS VELHOS QUE HONRO, DENTRE OS QUAIS DR. ÉDOUARD PICHON. DEPOIS UMA HOMENAGEM A MEUS COMPANHEIROAS HENRI EY E PIERRE MALE, ASSIM COMO A PIERRE MARESCHAL.”

Dentre os estados mentais da alienação, a c1ínica psiquiátrica desde há muito distinguiu a oposição entre dois grandes grupos mórbidos; trata-se, qualquer que seja o nome pelo qual tenham sido designados, segundo as épocas, na terminologia, do grupo das demências e do grupo das psicoses.”

na ausência de qualquer déficit detectável pelas provas de capacidade (de memória, de motricidade, de percepção, de orientação e de discurso), e na ausência de qualquer lesão orgânica apenas provável, existem distúrbios mentais que, relacionados, segundo as doutrinas, à <afetividade>, ao <juízo>, à <conduta>, são todos eles distúrbios específicos da síntese psíquica.” “sem uma concepção suficiente do jogo dessa síntese, a psicose permanecerá sempre como um enigma: o que sucessivamente foi expresso pelas palavras loucura, vesânia, paranóia, delírio parcial, discordância, esquizofrenia. Essa síntese, nós a denominamos personalidade, e tentamos definir objetivamente os fenômenos que lhe são próprios”

Com efeito, historicamente, os conflitos das doutrinas, cotidianamente, as dificuldades da perícia médico-legal, nos demonstram a que ambigüidades e a que contradições remete toda concepção desta psicose [a paranóica] que pretende prescindir de uma definição explícita dos fenômenos da personalidade.”

Se dedicamos algum cuidado a essa exposição, não foi apenas por um interesse de documentação cuja importância para os pesquisadores, no entanto, conhecemos, mas porque aí se revelam progressos clínicos incontestáveis.”

I. POSIÇÃO TEÓRICA E DOGMÁTICA DO PROBLEMA

I.1. FORMAÇÃO HISTÓRICA DO GRUPO DAS PSICOSES PARANÓICAS

Três escolas, em primeiro plano, trabalharam, não sem se influenciar, para o isolamento do grupo: a francesa, a alemã, a italiana.”

O termo paranóia foi conceituado cientificamente pela primeira vez pela escola alemã (Cramer, 15/12/1893). Já o “termo, já empregado pelos gregos, foi utilizado por Heinroth, em 1818, em seu Lehrbuch des Störungen des Seelenslebens, inspirado nas doutrinas kantianas.”

Kraepelin e Bouman de Utrecht (…) evocam o tempo em que 70 a 80% dos casos de asilo eram catalogados como paranóia. Tal extensão se devia às influências de Westphal e Cramer. A paranóia era então a palavra que, em psiquiatria, tinha a significação mais vasta e mais mal-definida; era também a noção mais inadequada à clínica. Com Westphal, ela se torna quase sinônimo, não só de delírio, mas de distúrbio intelectual. E isso tinha sérias conseqüências numa época em que se estava prestes a admitir delírios larvares ou <em dissolução> (zerfallen) como causas de todas as espécies de estados singularmente diferentes de um distúrbio intelectual primitivo. Kraepelin zomba desses diagnósticos de <velhos paranóicos>, atribuídos a casos correspondentes à demência precoce, a estados de estupor confusional, etc.” “as paranóias agudas, às quais Kraepelin recusa qualquer existência autônoma”

Os paranóicos são anacronismos vivos . . . O atavismo se revela ainda mais claramente na paranóia do que na imoralidade constitucional porque as idéias mudam de uma maneira mais precisa e mais visível do que os sentimentos

Riva, E. nosog. della paranoïa

ENANTIODROMIA? “Quanto ao delírio [sintoma sine qua non da paranóia], ele se elabora segundo <duas direções opostas que freqüentemente se combinam entre si> (Kraep.). São o <delírio de prejuízo em seu sentido mais geral e o delírio de grandeza>. Sob a primeira denominação se agrupam o delírio de perseguição, de ciúme e de hipocondria. Sob a segunda, os delírios dos inventores, dos interpretadores filiais, dos místicos, dos erotômanos. A ligação é estreita entre todas essas manifestações; o polimorfismo, freqüente, a associação bipolar de um grupo ao outro, comum.”

O delírio é, em regra, sistematizado. Ele é elaborado intelectualmente, coerente numa unidade, sem grosseiras contradições internas. É uma verdadeira caricatura egocêntrica de sua situação nas engrenagens da vida que o doente compõe para si, numa espécie de <visão-de-mundo>.”

I.2. CRÍTICA DA PERSONALIDADE PSICOLÓGICA

O dado clínico da evolução sem demência, o caráter contingente dos fatores orgânicos (reduzidos, de resto, a distúrbios funcionais) que podem acompanhar a psicose, a dificuldade teórica, enfim, de explicar suas particularidades (o delírio parcial) pela alteração de um mecanismo simples, intelectual ou afetivo – tais elementos, e outros ainda mais positivos, fazem com que a opinião comum dos psiquiatras, como sabemos, atribua a gênese da doença a um distúrbio evolutivo da personalidade.”

A psicologia científica se esforçou no sentido de precisar por completo a noção de personalidade, removendo-a de suas origens metafísicas, mas, como acontece em casos análogos, acabou por desembocar em definições bastante divergentes.”

a) A PERSONALIDADE SEGUNDO A CRENÇA COMUM

a personalidade é a garantia que assegura, acima das variações afetivas, as constâncias sentimentais; acima das mudanças de situação, a realização das promessas. É o fundamento de nossa responsabilidade.”

b) ANÁLISE INTROSPECTIVA DA PERSONALIDADE

Na verdade, a introspecção disciplinada só nos fornece perspectivas muito decepcionantes.” Boa.

Após algumas dessas crises, nós não nos sentimos mais responsáveis por nossos desejos antigos, nem por nossos projetos passados, nem por nossos sonhos, nem mesmo por nossos atos.” Parece que em cem anos conseguiram arruinar completamente com o conceito de “tese de doutorado”… Nada que hoje se leia parece vir de um sujeito, apenas linhas robóticas.

c) ANÁLISE OBJETIVA DA PERSONALIDADE

A personalidade, que se perde misteriosa na noite da primeira idade, afirma-se na infância segundo um modo de desejos, de necessidades, de crenças, que lhe é próprio e como tal foi estudado. Ela borbulha nos sonhos e esperanças desmedidas da adolescência, em sua fermentação intelectual,¹ em sua necessidade de absorção total do mundo sob os modos do gozar, do dominar e do compreender; ela se estende, no homem maduro, em uma aplicação de seus talentos ao real, um ajustamento imposto aos esforços, em uma adaptação eficaz ao objeto, ela pode se concluir em seu mais alto grau na criação do objeto e no dom de si mesmo. No velho, finalmente, na medida em que até aí ela soube se liberar das estruturas primitivas, ela se exprime numa segurança serena, que domina a involução afetiva.”

¹ Ver a clara ebulição destes sintomas no diário adolescente do autor desta “autobiografia prematura”: https://clubedeautores.com.br/livro/as-teorias-supremas.

Moisés escreveu o Pentateuco, pensamos, porque, se assim não o fizesse, todos os nossos hábitos religiosos deveriam ser mudados.”

William James

O “nós” implicado no itálico seria somente os hebreus contemporâneos de Moisés, ou literalmente a humanidade de todos os tempos? Seu ato foi criar uma moral redentora que não havia ainda? Ou cristalizar uma que havia mas que inelutavelmente seria perdida numa espécie de pressentimento de mais um dilúvio, sendo sua palavra escrita capaz de retardar ao máximo ou evitar essa hecatombe moral (congelamento zen-budista ou egípcio do modo de ser humano)? Questionamento absurdo.

d) DEFINIÇÃO OBJETIVA DOS FENÔMENOS DA PERSONALIDADE

(…)

e) POSIÇÃO DE NOSSA DEFINIÇÃO COM RELAÇÃO ÀS ESCOLAS DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA

(…)

f) DEFINIÇÃO DA PSICOGENIA EM PSICOPATOLOGIA

Ninguém atualmente duvida mais, efetivamente, da organicidade do psíquico, nem sonha fazer da alma uma causa eficaz.”

Contra o “inatismo” da doença ou derivação de “trauma físico”: “o evento causal só é determinante em função da história vivida do sujeito, de sua concepção sobre si mesmo e de sua situação vital com relação à sociedade; o sintoma reflete em sua forma um evento ou um estado da história psíquica, exprime os conteúdos possíveis da imaginação, do desejo ou da vontade do sujeito, possui um valor demonstrativo que visa uma outra pessoa; o tratamento pode depender de uma modificação da situação vital, quer nos próprios fatos, na reação afetiva do sujeito com relação a eles ou na representação objetiva que deles possui.” Tornar o problema consciente é o mais fácil: convencer-nos a sentir outra coisa diante do que sabemos ou promover uma mudança existencial seriam, respectivamente, da menos para a mais difícil das tarefas, as missões realmente problemáticas. “Modificação da situação vital” pode querer dizer: de forma nenhuma esse emprego! Mas somos tão passivos na questão, o mais das vezes, quanto quando torcemos pelo nosso time do coração…

No que concerne à perícia, que é o critério prático da ciência do psiquiatra, é sobre essas bases que se fundamentam, mais ou menos implicitamente, as avaliações de responsabilidade, tais como a lei as exige de nós.” Para o não-psicanalista, só seria possível uma prova negativa: não se trata de loucura traumática nem congênita, logo pode ser (ou pode não ser!) que o paciente seja psicótico! Sua biografia teria de ser avaliada, mas a carga moral excele nesse tipo de análise de medicina forense funesta. Só um verdadeiro analista poderia tentar c[r]avar mais fundo e chegar a uma intuição melhorada da coisa… Impraticável que o Estado aponsentasse o servidor no limbo entre a psicose (supostamente intratável fora de Lacan) e a “simples” neurose… O mais prático e conveniente seria exonerá-lo do cargo. Meu próprio caso é uma ilustração salutar: se, no futuro, eu me encontrar nessa situação, o que diz, por exemplo, o “complexo” laudo do meu eletroencefalograma detalhado? Que eu tenho um cérebro perfeitamente saudável, mas que ignora-se por que raios eu tenho uma calosidade ou espécie de coágulo idêntico ao do epiléptico – sem o ser! Ao ponto de o médico, com certeza um pobre coitado sem culpa de sua ignorância, mas sem as qualificações exigidas para esta grandiosa tarefa (este é o fato nu e cru), me perguntar levianamente se eu sofri alguma forte pancada na cabeça durante minha fase de crescimento! Em síntese, toda a magna ciência “desses caras” não passa de especulação da mais comezinha… Que diferença faz o episódio causador da “bolha de sangue seco” numa região cerebral que não afeta minhas faculdades intelectivas, se eles sequer sabem o motivo de eu não apresentar qualquer sintoma de epilepsia em decorrência dessa mesma “bolha”? Uma adolescência terrível seria simplesmente o chute mais plausível. E para tê-lo concluído bastou a mim, o sujeito que viveu meu enredo, sem seis ou sete anos de estudos em medicina.

g) FECUNDIDADE DAS PESQUISAS PSICOGÊNICAS

Ler o livro de um dos pais da Físico-química, Wilhelm Ostwald, sobre os maiores físicos e químicos do século XIX (Les Grands Hommes [Energetische Grundlagen der Kulturwissenschaft]). A introdução do ponto de vista energético nas leis da criação intelectual é aí muito sugestiva.”

h) VALOR PROBLEMÁTICO DOS SISTEMAS CARACTEROLÓGICOS E DA DOUTRINA CONSTITUCIONALISTA

Mas quando Kretschmer chega a formar o quadro dos diversos tipos de personalidade, encontramos nele, sob o mesmo modo de reações sintéticas, temperamentos de natureza muito diversa: assim, subjacentes à personalidade estênica [resiliente, elástica, flexível, até eufórica ou hiperativa a depender do contexto], existem temperamentos ciclotimo-hipomaníacos [Ver abaixo. Para mim, a rigor, a diferença entre ciclotimo-hipomaníaco e depressivo ciclotímico é zero, mudando apenas o momento do ciclo em que o sujeito se encontra. Não importa onde você está agora na montanha-russa, contanto que saibamos que, como todos os outros passageiros, você vai completar uma – ou umas – volta(s) e descer outra vez… Ou, enfim, numa metáfora mais literal, que nunca vai realmente descer, mas vai passar infinitas vezes pelos mesmos pontos, quer queira, quer não…], por um lado, e também esquizotimo-fanáticos [delirantes originais]: quanto à personalidade astênica [fatigada, extenuada; numa palavra: preguiçosos¹], encontramos esquizóides agudamente hiperestênicos e depressivos ciclotímicos.” No fundo, passividade é resistência, derrota é estratégia; ação é rigidez, síndrome de Pirro… Tudo é permitido. Todo mundo é cão e se vira nesse mundo de manés, malandros e cães, amarrados com cordames e lingüiças…

¹ Brincadeirinha… Parece que o termo psicastenia, mais usado na primeira metade do século XX, deriva realmente da neurastenia lida em autores do século XIX (lassidão nervosa lassidão psíquica); a astenia tem a ver com certa lassidão inata do indivíduo: em situações estressantes, ele tende mais à passividade que o não-astênico (ou estênico), chega à irritabilidade (falência emocional) mais facilmente e quando não mais suporta a hiperexcitação cai num quadro depressivo. Da mesma fontea que usei para entender esta droga de parágrafo (mais sintomático da dificuldade de Lacan com a escrita que a conduta de Rousseau de uma suposta paranóiab), segue (alto interesse pessoal nos grifos desta cor!):

a https://www.psiquiatriageral.com.br/psicopatologia/06personalidade.htm
b Lacan diz meia-dúzia de vezes neste livro que Rousseau ERA SEM SOMBRA DE DÚVIDA UM PARANÓICO, das quais devo ter transcrito pelo menos 3. Gostariamos de ver uma monografia sobre o assunto, tão detalhada quanto a de Aimmée!

Personalidade explosiva – Caracteriza-se por exagerada excitabilidade emocional, tendendo à irritabilidade e predisposição a reações motoras correspondentes a essa excitabilidade. Motivos mínimos são capazes de desencadear crises de cólera, durante as quais o indivíduo perde o domínio de si próprio. Segue-se um estado de mau humor. Também se denominam estes casos de <tipos epileptóides>.” Bastante esclarecedor, ou pelo menos intrigante, para quem leu minhas anotações mais acima

Personalidade ciclóide – Distinguem-se duas variedades: a hipomaníaca [mania leve, tendência eufórica] e a pessimista-angustiosa. No primeiro grupo vemos os indivíduos eufóricos, expansivos, comunicativos, simpáticos, sintonizando facilmente com qualquer ambiente.i [Ambos] fazem facilmente amigos, são tolerantes e conciliantes no que diz respeito à moral. Há tanta facilidade para rir como para chorar, correspondendo a alternações de excitação e depressão.ii

i Nojo!

ii Gon Freecs, é você?

O pessimista-angustioso também revela inquietação. Tristes presságios povoam seu pensamento. São indivíduos fatalistas, céticos e de exagerada crítica, tendentes ao rancor.”

Personalidade esquizóide – Caracterizam o interesse pelo que é raro e original, a tendência a fugir do meio habitual para melhor viver no mundo interior de suas próprias idéias, sonhos e desejos.”

No entanto, esse vocabulário é inútil, uma vez que das 10 personalidades listadas, possuo compatibilidade com várias, ao mesmo tempo em que sou avesso a várias (às vezes simultaneamente), e praticamente me vejo excluído apenas daquelas apontadas como “mais freqüentes em mulheres”. Também posso listar um vasto número de pessoas que se enquadrariam sem esforço em quase todas. Ou seja, trata-se de cultura inútil! Como a própria página, aliás, indica, humildemente: Acumulação de defeitos da personalidade – Não é fácil encontrar, na vida prática, os tipos puros de personalidades psicopáticas como foram descritas. O que se verifica habitualmente é a acumulação de defeitos de personalidade no mesmo indivíduo.”

* * *

O mesmo do acima expresso em outras palavras, mostrando a diferença entre psicopático ou tipo psicopata e psicótico, o doente por excelência: “As constituições psicopáticas, hereditárias ou não, são inatas . . . As constituições são apenas variações, por excesso ou por falta, das disposições normais” Delmas

i) PERSONALIDADE E CONSTITUIÇÃO

A constituição [o legado teórico que Lacan utiliza mas que pretende superar nesta monografia], com efeito, pode traduzir apenas uma fragilidade orgânica em relação a uma causa patogênica externa à personalidade, i.e., em relação a certo processo psíquico, para empregar o conceito geral elaborado por Jaspers” “Os problemas da relação da psicose com a personalidade e com a constituição não se confundem.”

I.3. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DESENVOLVIMENTO DE UMA PERSONALIDADE

a) AS PSICOSES PARANÓICAS AFETAM TODA A PERSONALIDADE

Não é para nos surpreender o fato de que o doente conserve todas as suas capacidades de operação, que ele se defronte, por exemplo, com uma questão formal de matemática, de direito ou de ética. Aqui, os aparelhos de percepção, no sentido mais geral, não estão de modo algum expostos aos estragos de uma lesão orgânica. O distúrbio é de outra natureza”

b) AS PSICOSES NÃO HERDAM APENAS TENDÊNCIAS DA PERSONALIDADE; ELAS SÃO O SEU DESENVOLVIMENTO, LIGADO À SUA HISTÓRIA. – DE KRAFFT-EBBING A KRAEPELIN.

Lembremos que se encontra em Magnan o inicio da distinção entre a paranóia, desenvolvimento de uma personalidade (delírio dos degenerados) e a parafrenia, afecção progressiva (delírio crônico).”

YIN FILHO DE YANG

Desde há muito o ser íntimo, toda a evolução do caráter do candidato à paranóia, se terão revelado anormais; além disso, não se pode negar que, freqüentemente, a anomalia específica da orientação do caráter é determinante para a forma especial que mais tarde assumirá a Verrücktheit primária, embora esta equivalha a uma <hipertrofia do caráter anormal>. Assim, vemos, por exemplo, um indivíduo anteriormente desconfiado, fechado, amante da solidão, um dia se imaginar perseguido; um homem brutal, egoísta, dotado de opiniões falsas sobre seus direitos, vir a dar num querelante; um excêntrico religioso cair na paranóia mística.” Krafft-Ebing

Kraepelin critica, primeiramente, a teoria, muito vaga, dos <germes mórbidos>, em que Gaupp e também Mercklin instituem o início do delírio na personalidade, e que, em suma, vem a dar na teoria de Krafft-Ebbing.”

a conformidade (antes e durante o delírio) do colorido pessoal das reações hostis ou benevolentes com relação ao mundo externo, a concordância da desconfiança do sujeito com o sentimento de sua própria insuficiência, e também aquela de sua aspiração ambiciosa e apaixonada pela notoriedade, pela riqueza e pela potência com a superestimação desmedida que tem de si mesmo” Kraepelin

E ele lembra o fato (já assinalado por Specht) da sua freqüência nas situações sociais eminentemente favoráveis a tais conflitos, como a do professor, por exemplo.”

O que, de resto, distingue a reação do paranóico das de tantos outros psicopatas atingidos pela mesma insuficiência é sua <resistência>, <seu combate apaixonado contra os rigores da vida, em que ele reconhece influências hostis>. É dessa luta que se origina o reforço do amor próprio. Vê-se, conclui Kraepelin, <que o delírio forma aqui uma parte constituída da personalidade> (Bestandteil des Personlichkeit.)”

A exuberância da juventude, toda voltada para as grandes ações e para as experiências intensas, reflui pouco a pouco diante das resistências da vida, ou então é canalizada por uma vontade consciente de seu fim em vias ordenadas. As desilusões e os obstáculos levam ao amargor, às lutas apaixonadas ou então à renúncia que encontra seu refúgio em miúdas atividades de amador e em planos consoladores para o futuro. Mas pouco a pouco decresce a força de tensão; o pensamento e a vontade se embotam no círculo estreito da vida cotidiana, e, de tempos em tempos, apenas revivem na lembrança as esperanças e as derrotas do passado.” O paraíso do escritor-professor misantropo.

Para Kraepelin, o delírio de grandeza é então essencialmente <a trama perseguida, na idade madura, dos planos de alto vôo do tempo da juventude>.”

<recusar o juízo de outrem ou se esquivar em esperanças de futuro, que nenhum insucesso pode dissolver>. São essas as duas vias em que se engaja o pensamento delirante.” Dois gumes da mesma lâmina.

3 ESTÁGIOS DE GÊNESE DA DOENÇA: “Na juventude, a psicose, <oriunda de devaneios complacentes>, distinguir-se-ia <por seu colorido romântico, pela predominância das ilusões da memória e de um delírio de inventor>. Surgido na idade madura e ligado a idéias de perseguição, o delírio parecerá, antes de mais nada, uma medida de defesa contra as influências contrariantes da vida e se distinguirá essencialmente por uma superestimação desmedida das próprias capacidades do sujeito. Sobrevindo mais tarde [senilidade], com ou sem idéias de perseguição, o delírio se aproximará da primeira forma por seu aspecto de delírio de compensação.” Não faz sentido: a compensação perfeita é o próprio narcisismo hiperbólico!

é no sonho de aventura e onipotência da juventude, nas construções irrealizáveis da criança curiosa pelas maravilhas da técnica, que o delírio vai encontrar seu modelo.” “persiste uma certa ambigüidade entre a noção de um desenvolvimento mediante <causas internas> e a de reação às <causas exteriores>.”

c) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA FRANCESA SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES CONSTITUCIONAIS. SÉRIEUX & CAPGRAS. [PRINCIPAIS DISCÍPULOS DE MAGNAN, ESCREVIAM A 4 MÃOS] DIFICULDADES DE UMA DETERMINAÇÃO UNÍVOCA. DE PIERRE JANET A GÉNIL-PERRIN.

Sérieux & Capgras não aceitam as tentativas de autores como Griesinger, Dagonet, Féré, Specht, Nacke, para diferenciar, em seu mecanismo, a interpretação mórbida da normal. A interpretação só é mórbida em virtude da orientação e da freqüência que lhe impõe a ideologia de base afetiva, própria não só do delírio, mas do caráter anterior do sujeito. Idéias de perseguição e de grandeza são diversamente combinadas em intensidade e em sucessão, mas segundo uma ordem fixa para cada enfermo. <O plano do edifício não muda, mas suas proporções aumentam>, pois o delírio progride <por acumulação, por irradiação, por extensão>, <sua riqueza é inesgotável>.

O delirante alucinado, dizem, experimenta uma mudança que o inquieta; primeiro, ele rechaça os pensamentos que o assediam; ele tem consciência da discordância destes com sua mentalidade anterior; mostra-se indeciso. Só chega à certeza, à sistematização, no dia em que a idéia delirante se tornou sensação.”

O primeiro período do delírio crônico, período interpretativo, surgiu-nos como uma manifestação da desordem mental provocada por uma brusca ruptura entre o passado e o presente, pelas modificações da atividade mental e pelos <sentimentos de incompletude que daí resultam> (Pierre Janet). O doente, ao buscar uma explicação para esse estado de mal-estar, forja interpretações que não o satisfazem, etc. Nada de semelhante ocorre no delírio de interpretação propriamente dito, cuja origem se perde ao longe.”

No delírio de reivindicação [subtipo do de interpretação] eles dão destaque, entre outros mecanismos, ao da <idéia fixa que se impõe ao espírito de maneira obsedante, orienta sozinha toda a atividade . . . e a exalta em razão dos obstáculos encontrados>. É o próprio mecanismo da paixão.”

Em 1898, Janet observa o aparecimento de delírios de perseguição, que ele denomina paranóia rudimentar, nos mesmos sujeitos que apresentam a síndrome a que deu o nome expressivo de <obsessão dos escrupulosos>. Os modos de invasão desse delírio, seus mecanismos psicológicos, o fundo mental sobre o qual se desenvolve, mostram-se idênticos ao fundo mental e aos acidentes evolutivos da psicastenia. Notemos que, em suas observações, Janet ressalta que o delírio surge como uma reação a certos acontecimentos traumatizantes. Quanto às predisposições constitucionais, são aquelas do psicastênico: o sentimento de insuficiência de sua própria pessoa, a necessidade de apoio, a baixa da tensão psicológica [?], aí estão traços bem diferentes da constituição paranóica, tal como deveria ser ulteriormente fixada.”

Assim como um pé aleijado cresce harmoniosamente em relação ao germe no qual preexistia, do mesmo modo os erros do interpretante crescem assim como devem crescer num cérebro que os implica todos potencialmente desde sua origem. Na verdade, não existe aqui princípio nem fim.” Dromard

A noção de bovarismo foi definida originalmente por Jules de Gaultier como <o poder concedido ao homem de se conceber como aquilo que não é>.”

d) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA ALEMÃ SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES REACIONAIS. BLEULER. PROGRESSO DESTA DETERMINAÇÃO. DE GAUPP A KRETSCHMER E A KEHRER.

O caráter invasivo comparável ao câncer e a incurabilidade do delírio são determinados pela persistência do conflito entre o desejo e a realidade.” Bleuler

Desde 1905, Friedmann chama atenção para um certo número de casos, que ele designa como um subgrupo da paranóia de Kraepelin. Nesses casos, o delírio aparece claramente como uma reação a um acontecimento vivido determinado e a evolução é relativamente favorável. Ele os denomina paranóia benigna e indica três traços de caráter, próprios a tais sujeitos: eles são <sensíveis, tenazes, exaltados>.”

Em 1909, Gaupp dá o nome de <paranóia abortiva> a delírios de perseguição que, nos melhores casos, podem ser curados; e a descrição magistral que nos dá a respeito mostra-nos a evolução de um delírio paranóico num terreno tipicamente psicastênico. <Trata-se, escreve, de homens instruídos, numa idade entre 25 e 45 anos, que sempre se mostraram com humor benevolente, modesto, pouco seguros de si, antes ansiosos, muito conscienciosos, escrupulosos até, em suma, aparecendo em toda sua maneira de ser semelhantes aos doentes que sofrem de obsessões. Naturezas ponderadas, voltadas para a critica de si mesmo, sem nenhuma superestimação de si, sem humor combativo. Neles se instala de maneira inteiramente insidiosa, sobre a base de uma associação específica mórbida e, na maioria dos casos, num vínculo temporal mais ou menos estreito com um acontecimento vivido de forte carga afetiva,¹ um sentimento de inquietação ansiosa com idéia de perseguição; com isto existe uma certa consciência da enfermidade psíquica; eles se queixam de sintomas psicastênicos. Esses seres, de natureza moralmente delicada, indagam primeiro se seus inimigos de fato não têm razão de pensarem mal a seu respeito, mesmo que não tenham dado lugar, por sua conduta, a uma crítica maliciosa ou a uma perseguição policial, senão judicial. Mas não aparece nenhum estado melancólico, nenhum delírio de auto-acusação; ao contrário, surgem idéias de perseguição com uma significação sempre mais precisa, bem-fundamentadas logicamente e coerentes, que se orientam contra pessoas ou corpos profissionais determinados (a polícia, etc.). O delírio de relação não se estende a todo o meio ambiente; desse modo, por exemplo, o próprio médico nunca será incluído na formação delirante, no decurso de uma estada de vários meses na clínica; ao contrário, o doente sente certa necessidade do médico, porque a segurança de que nenhum perigo o ameaça e de que, na clínica, ajuda e proteção lhe são garantidas, por vezes age sobre ele de maneira apaziguadora. Uma conversa séria com o médico pode aliviá-lo por algum tempo, mas certamente não de maneira duradoura. Às vezes, fazem algumas concessões e admitem que se trata de uma desconfiança patológica, de uma particular associação mórbida [João & Pablo]; mas novas percepções no sentido do delírio de interpretação trazem, então, precisamente um novo material ao sistema de perseguição. Com o progresso da afecção ansiosa, desconfiada, que evolui segundo grandes oscilações, as idéias de perseguição se tornam mais precisas e ocasionais ilusões sensoriais reforçam o sentimento de sua realidade. [Eu vi, eu ouvi, eu senti, clara, issa! como a luz do dia! Mas chega de graça, pois divago e devaneio, taíscutando? Nãominimize minha capacidade de autossuperação! Passei muito tempo irreconhecível: de heleno, me tornei num jururu! Um inseto marinado em ódio, impotência e rancor… Grande alívio que tudo isso findou!] Em momentos mais calmos, mostra-se uma certa lucidez sobre as idéias de perseguição anteriores: <Por conseguinte, eu evidentemente imaginei isso>; desse modo, a enfermidade continua durante anos, ora em remissão, ora exacerbando-se [COCHICHE NA MINHA FRENTE, SUA IMBECIL DESAFORADA! – desabafo diacrônico]; sempre persiste o fundo de humor de pusilanimidade ansiosa e o doente é dominado por esta reflexão: <Em que eu mereci essas marcas de hostilidade?> É apenas de maneira passageira que ele chega a se revoltar contra essa tortura eterna, ou até a se defender contra a agressão delirante. Jamais arrogância, nem orgulho, jamais idéias de grandeza, elaboração inteiramente lógica das idéias mórbidas de relação, nenhum traço de debilidade, uma conduta inteiramente natural. Os enfermos, que chegam livremente na clínica e a deixam de acordo com sua vontade, possuem até o fim a maior confiança no médico, gostando de voltar a consultá-lo quando, na prática de sua profissão, se sentem novamente perseguidos e importunados. Chegam então com a seguinte pergunta: <Será que isso realmente não passa de imaginação?> Com muita freqüência, não se constata uma progressão clara da afecção, embora nem sempre seja assim. Num caso observado, as associações mórbidas típicas existem há 12 anos, embora nenhum sistema delirante rígido se tenha constituído; trata-se bem antes de idéias de perseguição que variam em força; com isso, o doente é capaz de atuar na profissão em que está empregado. Em períodos relativamente bons, sempre se faz valer uma semiconsciência da enfermidade; a idéia prevalente não domina o sujeito inteiramente como ocorre no delírio de reivindicação. [síntese: eu sou mais controlado e lúcido que o meu pai; eu gestiono as idéias, não o contrário.] Em todos os casos, a disposição depressiva escrupulosa existia desde sempre; assim sendo, trata-se de um quadro delirante caracterogênico que, de certa maneira, é simétrico [eu e JJ, espelhos paralelos] ao quadro delirante caracterogênico colorido de mania de tantos querelantes.>”

¹ CONVIDADO A SE RETIRAR: A EXPULSÃO QUE NÃO É UMA EXPULSÃO, CLARO, SÓ PARA INGLÊS VER! CIRCUITO DA IPSEIDADE: T. EDSON OF JUDAS DE AGUIARHELEN[JUICEofjuízo][EN]A_PAPA_CEARIBADEVOLTÀORIGEM SAUL,[OpecadoR]DENTEBASDAVIFILHOFRITOFRAC.ASSADO ADOCONVIDADO.INESPERADOzzzSONECANABILIOTECASEMINARIO.PADRE.CAPESPESCAPEI.PEIXOTO.PEIXEFISGADO.BARBAZUL.LEUQAR.SEUSPRÓPRIOSPROBLEMAS.PROFESSORCONFESSOR.MAMAMARINADÓLEOGRAXO.ÁCIDO.ASSÍDUO.DERREPENTESÓQUERDORMIR.ALERGICO.FECHEOBLOGDEVIDOAMUDANÇASNAPOLÍTICAINSTITUCIONAL.QUEBRAQUEIXOMU.DANÇA.DINHEIRROTEIRO.RO-TEI-RO.POLIGLOTAGIOTAUTODIDATA.OPERSEGUIDOTEMDESEROPRIMEIRONACORRIDADÁDIVIDA.ROLLING.INCAPAZDEPAZ.DARDO.EU.JUD.EU.SELENCIOSILÊNIOVOZALTATROVÃORIENTACAOÀSVESSAS.MIQUEIXOMEQUEIXO.MAX.ILAR.TIRITA.DESCONFORME.CONFIRMEALGUÉMCONFIRMEQUEUSOUAQUILOQUEUPENSOQUEUSOU.NAOVÁN’ADOSOUTROS.POBLA.CIÓNDEMIERDAS.US.UNDER.THE.PILE.LASTLAP,LARS.TREADINGPUNCH.WHO’R’THEY THE DAY THEY KNEW… DIFUZZ.RETOMANDOFIODAMEADA:EX-PULSO.INTEGRANTE DA ORIENTAÇÃO²coordenação todos os seus esforços anteriores foram v ã o s nesta janela fechada que n a d a representa. andando em círculos circulando pelo andaime escada fechada escura claustrofóbica claudicante suor de sangue.

SÓ METENDO A BROCA PARA APROFUNDAR O SUBSOLO

ENQUANTO A ÁRVORE DA VIDA RELUZ LÁ NO ALTO, NÃO QUE NÃO ESTEJA DALGUM MODO ABORTADA.

PORQUE CRESCEU DEMAIS. SIMBÓLIRÔNICO,NÃO?!

QUE É QUE PODE RE VE LAR

GALHOPODRE200320102017stilldigginginthisstillsea

estilingue_do_tempo it lingers it really lingers…

JUDICIALIZAÇÃO DO SEU CU GORDO QUE JÁ CAGOU CAGARÁ NETINHOS

(isso não é poesia, é só é só terapia.)

o delírio retorna a um estado de acalmia, quando a ocasião é liquidada ou seus efeitos compensados. Qualquer outro acontecimento vital ulterior poderá então desencadear a doença de maneira análoga.” Kraepelin

O paranóico não sara, ele se desarma.”

Ver a distinção entre temperamento e caráter em Ewald, Temperament und Charakter, Berlln, 1924.”

A representação do acontecimento e o estado afetivo desagradável que está ligado a ela tendem a se reproduzir indefinidamente na consciência. Assim sendo, esse modo reacional da repressão é completamente oposto ao do recalcamento que, na histeria, por exemplo, repele a <lembrança> penosa para o inconsciente.”

REAÇÃO BANAL > REPRESENTAÇÃO OBSEDANTE > HIPER-SENSIBILIDADE > NEUROSE OBSESSIVA

Do blasé ao perfeito poeta? Do you still read me?! Do you steal my stuff behind my back?

A representação consciente do trauma inicial transforma-se em representações parasitárias (Fremdkörperbildung), que lhe foram associadas, mas que não têm com ela mais nenhum elo significativo.” É ou não é meu caso, no caso? Espero que era, que essa era tenha passado… pro passado.

Pode-se constatar nos sensitivos [X obsessivos¹] uma curiosa mistura de tendências estênicas (intensidade dos sentimentos interiorizados) e astênicas (dificuldade de exteriorização, falha de condução, retenção e repressão) (…) superestimação dos fracassos² (…) É essa tensão que constitui o fator psicológico determinante nos delirantes sensitivos; estes são, em suma, completamente subjugados pelas tensões sociais e éticas, onde havíamos visto um componente essencial da personalidade.”

¹ Se essa permuta é válida não fica muito claro (em Kretschmer, de qualquer modo).

² A descrição do fenômeno não dá conta: não é possível ser um narcisista convencido e um fracassado ultimado ao mesmo tempo! Se só um passarinho pode escapar, um precisa ficar… Goleiro mão-de-gaoiola.

O melhor tratamento na juventude (~20 anos) seria: “Mãe, pelo menos o seu filho é um irresponsável!” Infelizmente comigo fizeram o inverso, retroalimentando o mal!

Fonte: vozes da minha cabeça?! Vozes antigas de desafetos reavivadas…

Por conseguinte, o sensitivo se distingue do expansivo¹ pela inferioridade considerável de sua força psíquica e pelo conflito interior resultante do fato de suas predileções éticasPoderia até fingir ser outra pessoa, mas isso vai contra meus valores mais arraigados. O tipo expansivo: Pa******, a antecessora no PG** da CA***, a vulgarmente conhecida como: grossa. O que para ela seria um sincericídio (sempre um suicídio moral com muitas testemunhas, espetaculoso) para mim é justamente preservação da minha integridade diante do espelho. O outro não me importa (mediatamente) – tant pis… Provavelmente a dita-cuja poderia alegar a mesma coisa (invertida). (P.S.: Soube a referida foi indiciada em comissão de ética por ser expansiva demais em e-mails institucionais… Cof cof… Pode até gostar de trabalho – o problema é quando gosta tanto que até dá trabalho pros outros…)

– Gostou de cima?

– Como assim? Eu nunca subi ali.

– De semancol, que eu mandei você tomar.

A PERSONALIDADE SENSITIVA DE KRETSCHMER EM POUCAS PALAVRAS: “uma extraordinária impressionabilidade, uma sensibilidade extremamente acessível e vulnerável, mas, por outro lado, certa dose consciente de ambição e de tenacidade. Os representantes acabados desse tipo são personalidades complicadas, muito inteligentes, dotados de um alto valor, homens de fina e profunda sensibilidade, de uma ética escrupulosa e cuja vida sentimental é de uma delicadeza excessiva e de um ardor todo interiorizado; são vítimas predestinadas de todas as durezas da vida. Encerram profundamente neles próprios a constância e a tensão de seus sentimentos. Possuem capacidade refinada de introspecção e de autocrítica. São muito suscetíveis e obstinados, mas, com isso, particularmente capazes de amor e de confiança. Têm por eles próprios uma justa auto-estima e, no entanto, são tímidos e muito inseguros quando se trata de se mostrar, voltados para si e no entanto abertos e filantropos, modestos mas de uma vontade ambiciosa, possuindo, de resto, altas virtudes sociais”

lutas internas tão inúteis quanto secretas”

O EM VÃO!

Depois da (auto)crítica vem o desespero, depois do desespero a nova crítica e resolução firme, e ad

A interação do caráter e da experiência representa, no delírio de relação sensitivo, a causa essencial da doença.”

A situação mais típica do sensitivo que adoece em seu meio social é a do <contexto social e espiritual, tão ambíguo, do professor primário, fértil em pretensões e que, no entanto, não recebe nenhuma consagração, colocado num plano superior e todavia mal-assegurado por uma formação espiritual [material?] incompleta.>

O ELO DURKHEIMIANO: “Quando esses 3 fatores psicológicos [de dentro para fora, nesta ordem: a personalidade inata; o <evento-catástrofe> ou uma série episódica de contradições temperamento-êxitos&fracassos, enfim, o TRAUMA; o meio social mais geral] acarretaram uma repressão mórbida, então o fator biológico do esgotamento concorre essencialmente para o desencadeamento da doença, assim como, inversamente, o estado de fadiga neurastênica pode facilitar, em primeiro plano, o aparecimento de repressão nos caracteres sensitivos.”

A experiência decisiva com a situação vital que a subtende é simplesmente tudo. Se a suprimíssemos, a doença ficaria reduzida a nada. Ela forma, por sua repetição na obsessão, o objeto sempre novo dos remorsos depressivos, dos temores hipocondríacos . . .”

O SÍTIO E O VAGABUNDO (pais e irmão)

Toda semana a mesma coisa… toda semana esse ciclo trágico… isso nunca vai acabar… isso de novo… outra vez…” “Reclamo, mas eles fingem que não me escutam ou logo se esquecem e tudo acontece como da primeira vez…” “Essas memórias continuam voltando e eu fico preso a elas por vários dias, até me recuperar e parar de sentir a dor nas costas…” “Minha vó que morreu… Ela se compadeceria por mim? Quem se compadece por mim? Isso é algum tipo de vingança dos meus ancestrais, uma maldição muito anterior a minha existência? É culpa minha?!? Por que eu não sei lidar melhor com essa MERDA?! Por que eu sou assim?! Que derrota…” “E se eu só for piorando cada vez mais e for um incapacitado minha vida inteira?” “Me jogo ou não me jogo? E se eu não morrer? Tenho coragem? Meu ‘amigo’ me falou que é só se jogar de cabeça, não tem erro, e eu não vou sentir nada, eu vou apagar antes de chegar ao chão… Por que não? Por que me sujeitar a ver e sentir todo esse ciclo se repetindo de novo e de novo e me sentir impotente sempre e sempre?… Qual o sentido nisso tudo? Eu gostaria de chamar a atenção pra minha existência da única forma que me é possível, depois de tudo que tentei… que é deixando de existir…”

O livro que me “salvou”: Vontade de Potência.

* * *

MELHOROU MAS NEM TANTO: “todas as idéias de prejuízo e de inquisição pela família e pelos colegas, pelo público e pelos jornais, todas as angústias de perseguição provocadas pela polícia e pela justiça, provêm desse acontecimento inicial e a ele retornam.”

a intensidade afetiva dos paroxismos, a ausência ordinária de reações agressivas, seu caráter apenas defensivo nos casos puros, a ênfase hipocondríaca do quadro, a amargura sentida em relação à própria inutilidade, o esforço no sentido do restabelecimento e a confiança do apelo ao médico.”

RESIGNA-TE!

Se deus (pai) morrer para mim, eu me torno uma espécie de Jason, conforme a literatura (o que me faz ser útil à sociedade e ter meu valor, ser um neurastênico, é que eu sofro continuamente sentindo o parasitismo causal dessa relação sem-saída). Um psicopata apagaria esse indesejável para-além do inconsciente e, astênico, dormente, insensível, maquínico, dissolvido, solto até mesmo do social, se realizaria, porém se perdendo, desvinculado de qualquer valor futuro… É esse altruísmo-no-egoísmo do herói que nos redime “no fim”…

Ver como eu cheguei a essa conclusão após ser um niilista conceitual virtualmente completo e agora que me entendo eticamente é uma verdadeira epopéia realizada, teatro grego in loco e na carne, mas já finalizado… Milagroso, enfim. Hic salta.

Muitos sóis sob o céu em seu ofuscante vermelho alaranjado róseo amarelado ainda quero assistir ou pressentir ou sentir, com a luz penetra assentir, menear, condescender às sombras do Hades apenas para depois me REDimir, em pele nova e calejada, ainda rosácea, mas mais de réptil, como se fosse possível continuar sofrendo e estar-agora-anestesiado tudo ao mesmo tempo e em evolução única, singular, astral, austral, hiperbórea, meridional, crítica, sub-tropical, na linha do Equador de toda a rotundidade desta vida neste planetinha neste seculozinho miserável e ingrato e que no entanto nos enche de graça e contentamento sabe-se lá pelo quê exatamente, mas sei que há algo… Tem de haver. Tende a haver. Não importa, há.

As psicoses leves não vêm às mãos do médico de asilo, mas do médico de consultório. Assistidas por ele em tempo oportuno, elas devem desaparecer completamente, deixar uma correção completa do delírio.

Algumas formas, como o delírio dos masturbadores [???], parece que, mesmo após manifestações graves, podem ser completamente curadas.”

O início da evolução é muito mais nítido do que deixa perceber a noção de insidiosidade sobre a qual insistem as descrições clássicas de Kraepelin e Gaupp.”

A evolução, assim, nada tem de esquemático: curas rápidas, reações agudas, evolução prolongada por muitos anos com cura relativa, evolução recidivante desencadeada em ocasiões absolutamente determinadas, ou oscilações durante anos na fronteira entre a eclosão delirante e sua base neurótica.”

a evolução típica não apresenta fenômenos de despersonalização.”

Eis por que Kretschmer não fica, de modo algum, embaraçado, em suas considerações doutrinais, por só ter descrito um tipo particular de psicose paranóica. Ele efetivamente nada mais quis demonstrar, diz-nos, senão que, <quanto mais sensitivo é um caráter, tanto mais especificamente ele reagirá, no caso, a um complexo de culpa mediante um delírio de relação de estrutura sutil>.”

Não existe a paranóia, mas apenas paranóicos.”

I.4. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DETERMINADA POR UM PROCESSO ORGÂNICO

Um delírio, com efeito, não é um objeto da mesma natureza que uma lesão física, que um ponto doloroso ou um distúrbio motor. Ele traduz um distúrbio eletivo das condutas mais elevadas do doente: de suas atitudes mentais, de seus juízos, de seu comportamento social. Além do mais o delírio não exprime este distúrbio diretamente; ele o significa num simbolismo social. Este simbolismo não é unívoco e deve ser interpretado.”

o doente, para exprimir a convicção delirante, sintoma de seu distúrbio, pode se servir apenas da linguagem comum, que não é feita para a análise das nuanças mórbidas, mas somente para o uso das relações humanas normais.”

A concepção subjacente que ele tem de si mesmo transforma o valor do sintoma: uma convicção orgulhosa, se estiver fundada numa hiperestenia afetiva primitiva, não tem o mesmo valor que uma defesa contra a idéia fixa de um fracasso ou de uma falta”

a evolução para a atenuação, a adaptação, mesmo a cura da psicose, fatos, em suma, reconhecidos por todos os autores, virão corrigir a primeira noção da irredutibilidade do delírio.”

Existem, certamente, fatores orgânicos da psicose. Devemos precisá-los tanto quanto possível. Se nos dizem que se trata de fatores constitucionais, admitiremos de boa vontade, contanto que isto não seja pretexto para uma satisfação meramente verbal” “Este processo é menos grave ou menos aparente do que aqueles que devem ser reconhecidos na psicose maníaco-depressiva, na esquizofrenia ou nas psicoses de origem tóxica. Ele é da mesma natureza. Em todas essas psicoses, o laboratório revelou alterações humorais ou neurológicas, funcionais senão lesionais, que, por ficarem insuficientemente asseguradas, não permitem menos que se afirme a prevalência do determinismo orgânico do distúrbio mental. Ainda que tais dados faltem nas psicoses paranóicas, seu andamento clínico pode nos fazer admitir sua identidade de natureza com as psicoses orgânicas. Esta é a tese de vários autores que se opõem aos partidários da psicogênese.” “Quando se trata de precisar quais são estes distúrbios característicos, as respostas diferem de autor para autor. Contudo, o estado atual da psiquiatria pode explicar a incerteza destas respostas, e não permite afastar a hipótese que lhes é comum, a de um determinismo não-psicogênico.”

TAXONOMIA BÁSICA E RELAÇÕES DE ORIGEM (“ORGANOGÊNESE”) DESSA CORRENTE:

distúrbios do humor, mais ou menos larvares, da psicose maníaco-depressiva;

– dissociação mental, mais ou menos frustra, dos estados paranóides e da esquizofrenia;

– determinismo, mais ou menos revelável, do delírio por estados tóxicos ou infecciosos.”

Estas pesquisas gravitaram na França em torno da concepção do automatismo psicológico; elas resultaram na Alemanha na formação de um conceito analítico: o de processo, que foi especialmente criado pelas pesquisas sobre as psicoses paranóicas. Estes dois conceitos, o de automatismo e o de processo, definem-se por sua oposição às reações da personalidade. Acreditamos portanto que as pesquisas psicogênicas conservam todo seu valor.”

a) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM OS DISTÚRBIOS DO HUMOR DA PSICOSE MANÍACO-DEPRESSIVA.

A relação das variações de humor, maníaco e melancólico, com as idéias delirantes é uma questão que nunca deixou de estar na ordem do dia das discussões psiquiátricas. Foi certamente um progresso capital da nosografia quando Lasègue isolou seu delírio das perseguições das lipemanias, com as quais Esquirol as confundia. Contudo, basta evocar o esforço de análise que teve que ser feito em seguida para discriminar os perseguidos melancólicos dos verdadeiros perseguidos para ver o quanto aparecem intrincadas variações depressivas do humor e idéias delirantes.”

A exaltação maníaca faz parte do quadro clássico dos perseguidos perseguidores. Os autores modernos: Köppen, Sérieux e Capgras, que se fundamentam numa nosografia precisa do delírio de reivindicação, reconhecem aí um dos traços essenciais da síndrome.”

Taguet insiste nas formas intermitentes do delírio, que aparecem nos estados de superexcitação periódica da inteligência, da sensibilidade e da vontade. Estes fatos, por volta de 1900, estavam na ordem do dia e eram objeto de discussões apaixonadas. Estas eram provocadas pela confiança por demais absoluta que certos autores davam ao progresso clínico representado pelo isolamento da noção de delírio sistematizado na França, da Verrücktheit ou da paranóia primária na Alemanha.” Para Kraepelin, este termo de paranóia periódica é uma contradictio in adjecto, e ele não hesita nessa época em tachar de <candura> aqueles que o usam.”

a alteração maníaca do humor, a logorréia [verbosidade], a grafomania [hábito ou compulsão da escrita, coerente ou não], a inquietude, a impulsão de agir, a ideorréia [fertilidade mental], a distração: características da mania.”

Por certo acreditamos que é preciso abster-se de confundir a variação ciclotímica com os estados afetivos secundários às idéias delirantes. Ou, melhor dizendo, acreditamos ser preciso distinguir, com Bleuler, o distúrbio global do humor, depressivo ou hiperestênico, ou variação afetiva holotímica – e os estados afetivos ligados a certos complexos representativos, que representam uma situação vital determinada, ou variação afetiva catatímica.”

b) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS [DE ORIGEM ORGÂNICA] DAS PSICOSES PARANÓICAS COM A DISSOCIAÇÃO MENTAL DAS PSICOSES PARANÓIDES E DA ESQUIZOFRENIA, CONFORME OS AUTORES.

Não há dúvida de que existem fatos freqüentes em que um surto fugaz de sintomas esquizofrênicos precedeu em alguns anos o surgimento de uma psicose paranóica que se estabelece e dura.” “Enfim, a saída de uma psicose paranóica típica, evoluindo para uma dissociação mental manifesta de tipo paranóide, não é nada incomum.”

Kahn, na Alemanha, apresenta fatos que demonstram <que muitos paranóicos legítimos atravessam em um período precoce um processo esquizofrênico e que eles conservam disso um ligeiro déficit a partir do qual a paranóia se instala>.”

Bleuler e os fatores psicogênicos da paranóia:

1. “uma afetividade com forte ação de circuito, que se distingue além disso pela estabilidade de suas reações”

2. “uma certa desproporção entre a afetividade e o entendimento.”

// “mecanismo paratímico larvar”

Bl. admite ainda a permutabilidade, em certas instâncias, entre processos esquizo e paranóicos.

Por outro lado, temos razões para admitir que na esquizofrenia existe sempre um processo anatômico, mas não nas paranóias.” B.

c) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM AS PSICOSES DE INTOXICAÇÃO E DE AUTO-INTOXICAÇÃO. – PAPEL DO ONIRISMO E DOS ESTADOS ONIRÓIDES. – RELAÇÃO ENTRE OS ESTADOS PASSIONAIS E OS ESTADOS DE EMBRIAGUEZ PSÍQUICA. – PAPEL DOS DISTÚRBIOS FISIOLÓGICOS DA EMOÇÃO.

Encontramos incessantemente, na pena dos autores, o voto de que um estudo melhor das seqüelas delirantes, que persistem depois dos delírios agudos, dos estados confusionais, dos estados de embriaguez delirante e de diversos tipos de onirismo, venha nos dar novos esclarecimentos sobre o mecanismo dos delírios.

O estudo do alcoolismo nos trouxe fatos fortemente sugestivos de idéias fixas pós-oníricas, de delírios sistematizados pós-oníricos, de delírios sistematizados de sonho a sonho, de delírios com eclipses (Legrain).”

Desde então, a questão que se coloca é a de saber se os estados de auto-intoxicação, tais como podem ser realizados pelos distúrbios digestivos diversos, a estafa, etc., não podem desempenhar um papel essencial nas psicoses.”

O desequilíbrio parassimpático, particularmente, parece desempenhar um papel determinante no surgimento dos estados de embriaguez atípicos e dos estados sub-agudos alcoólicos.”

os estudos estatísticos de Drenkhahn (1909), onde se vê, após as medidas proibitivas tomadas contra o alcoolismo no exército alemão, a proporção dos distúrbios catalogados como neuróticos e psicóticos se elevar numa proporção estritamente compensatória da diminuição dos distúrbios ditos alcoólicos.”

James, para quem a crença comporta um elemento afetivo essencial, salientou o fato de que certos estados de embriaguez parecem determinar experimentalmente o sentimento da crença.”

Tentou-se atribuir, nas nossas psicoses, um papel todo particular à intoxicação pelo café, tão freqüentemente observada, com efeito, em certos sujeitos, mulheres próximas à menopausa, nas quais explode um delírio paranóico. Mesmo aí não se poderia falar de uma determinação exclusiva pelo tóxico.” Heuyer & Borel, Accidents subaigus du caféisme, 1922.

De resto, esses determinismos humorais, ainda que fossem mais claramente confirmados nos fatos, deixariam intacto o problema da estrutura psicológica complexa dos delírios paranóicos, que é o problema a que nos dedicamos.”

d) ANÁLISES FRANCESAS DO “AUTOMATISMO PSICOLÓGICO” NA GÊNESE DAS PSICOSES PARANÓICAS. – RECURSO À CENESTESIA POR HESNARD & GUIRAUD. – AUTOMATISMO MENTAL, DE MIGNARD & PETIT. – SIGNIFICAÇÃO DOS “SENTIMENTOS INTELECTUAIS” DE JANET. – A NOÇÃO DE ESTRUTURA EM PSICOPATOLOGIA, SEGUNDO MINKOWSKI.

O único vínculo teórico comum a essas pesquisas é a noção muito flexível de automatismo psicológico, que não tem nada em comum, senão a homonímia, com os fenômenos de automatismo neurológico. Graças à complexidade dos sentidos do termo automatismo, ele convém perfeitamente a uma série de fenômenos psicológicos que, como bem o mostrou nosso amigo H. Ey, são de ordem extremamente diversa.”

Quando a ordem da causalidade psicogênica, tal como a definimos mais acima, é modificada pela intrusão de um fenômeno de causalidade orgânica, diz-se que há um fenômeno de automatismo. Este é o único ponto de vista que resolve a ambigüidade fundamental do termo automático, permitindo compreender ao mesmo tempo seu sentido de fortuito e de neutro que se entende com relação à causalidade psicogênica, e seu sentido de determinado que se entende com relação à causalidade orgânica.”

CENESTESIA. Por este termo, compreende-se o conjunto das sensações proprioceptivas e enteroceptivas: tais como sensações viscerais, sensações musculares e articulares, mas somente enquanto elas permanecem vagas e indistintas e, propriamente falando, enquanto, como isto se passa em estado de saúde, ficam no estado de sensações puras, sem chegarem à percepção consciente.” “Ela forma a peça-mestra de uma doutrina geral da gênese dos distúrbios mentais, engenhosamente construída por Hesnard.”

Janet apresenta amplos conhecimentos sobre o mecanismo da ilusão da memória, fenômeno que depende, e no mais alto grau, das insuficiências de adaptação ao real; mas ele não ataca, para si mesmo, o fenômeno tão delicado da interpretação. Contudo sua análise impõe, quanto a esse tema, sugestões preciosas. E é muito mais concebível que a interpretação mórbida, bem diferente do mecanismo normal da indução errônea ou da lógica passional, possa depender de um distúrbio primitivo das atividades complexas, distúrbio que a personalidade imputa naturalmente a uma ação de natureza social.

Qualquer que seja a expressão intelectual que lhes imponham as necessidades da linguagem, para o doente como para o observador, é preciso conceber os sentimentos intelectuais como estados afetivos, quase inefáveis, de que o delírio representa apenas a explicação secundária, freqüentemente forjada pelo doente após uma perplexidade prolongada.”

Se o autor se recusa, com efeito, a concluir prematuramente por qualquer alteração de um sistema de neurônios especializado, cuja existência permanece cientificamente mítica, é, no entanto, a uma concepção biológica destes distúrbios que ele adere.” “A causalidade biológica desses fatos é bem acentuada pela influência de condições como as doenças, a fadiga, as emoções, as substâncias excitantes, a mudança de meio, o movimento, o esforço, a atenção, que agem não como fatores psicogênicos, mas como fatores orgânicos. § Esses sentimentos intelectuais, normalmente afetados pela regulação das ações (sentimento de esforço, de fadiga, de fracasso ou de triunfo), parecem também traduzir, com freqüência, de forma direta, uma modificação orgânica. Eles tenderão, contudo, nos dois casos, a surgir para o sujeito como condicionados pelos valores socialmente ligados ao sucesso dos atos pessoais (estima de si, auto-acusação) e uma conclusão delirante, correspondente a essas ilusões, aparecerá.” “um controle preciso desses dados poderia ser trazido pelo estudo psicológico atento dos fenômenos subjetivos da psicose maníaco­depressiva.”

A necessidade do familiar exige um trabalho de reclassificação, de reorganização. Essa reorganização se faz em torno de alguns fatos, tomados freqüentemente ao acaso, e que desempenharão o papel de cristais de poeira numa mistura em alta fusão. A cristalização será aliás pouco estável no princípio: somente mais tarde ela chegará a um sistema coerente, a expressões verbais fixas.” Meyerson & Quercy

UnB 2009: mictório FD antes da aula de TPM: o que sou eu, o que estou fazendo aqui, essa rotina apresenta algum sentido? doravante: petrificação da noção de que “ele” é o culpado por tudo. “Você é um lixo; fracassado… eu no seu lugar… VOCÊS… quem é ‘vocês’?”

[subsidiariamente (não em minha opinião, de qualquer forma),] depois, a tentativa, bem-sucedida ou não, de redução do distúrbio pelas funções conceituais, mais ou menos organizadas, da personalidade.” Vencer na vida, mesmo aos olhos cínicos, hipócritas e inconfessáveis do LIXO. Queimar qualquer centelha nesse intuito. Êxito.

Os autores são induzidos a tal concepção pelos fatos que trazem com o nome de interpretações frustradas, e que são interpretações em que faltam certos elementos da interpretação completamente desenvolvida.

Esse é o caso do doente no qual, após um período alucinatório, o delírio de perseguição se reduziu pouco a pouco a puras interpretações. Acontece um dia que uma vizinha, ocupada em podar uma cerca, solta estas palavras: <Tudo isso é selvagem.> O doente fica transtornado. No entanto, ele não pode afirmar que essas palavras o visavam. <Isso lhe pareceu engraçado.> Isso continua a lhe parecer engraçado. Ele está certo que a vizinha não pode lhe querer mal. A anamnese do doente, que merece ser lida nos pormenores, traduz ao mesmo tempo sua boa vontade (a ausência certa de reticência [não seria presença?]) e sua impotência para explicar aquilo que lhe aconteceu.

Esse doente está nesse momento perfeitamente orientado e conserva as reações intelectuais e mnêmicas na média normal.

Estamos aí na presença de uma atitude mental que se caracteriza por um estado afetivo quase puro, e em que a elaboração intelectual se reduz à percepção de uma significação pessoal impossível de precisar.

Tal redução do sintoma se apresenta como um fato de demonstração notável, mas, para que toda elaboração conceitual faltasse, parece ser necessário estarmos diante de um caso em que a reação de defesa psicológica seja má [ruim], e a observação nos indica com efeito que o caso se agrava ulteriormente e apresenta um quadro que se revela esquizofrênico.”

Quando todos os olhares são acusadores, pontiagudos, hostis, nos tornamos uma verdadeira lixa por todos os lados, e, assim como não sabemos o que fazer com essas pessoas, elas também não fazem idéia do que fazer conosco. Fica elas por elas. Cada um com seus problemas genealógicos e bons ou maus pais.

Segundo a definição de Husserl, que é seu iniciador, a fenomenologia é <a descrição do domínio neutro do vivido e das essências que aí se apresentam>. Nós não podemos dar aqui mesmo uma idéia do método de que se trata. Digamos somente que Minkowski, que parece não ignorar essas pesquisas, transforma profundamente, como costuma fazer, seu método e seu espírito.”

ENTÃO A FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA É UMA “IDÉIA PLATÔNICA”, NO SENTIDO MAIS PEJORATIVO DO TERMO, NA PIOR COMPREENSÃO POSSÍVEL DA FILOSOFIA DE PLATÃO: “Para compreender um delírio de ciúme, por exemplo, é preciso evitar de imputar à doente, ciumenta de uma outra mulher, uma construção dedutiva ou indutiva mais ou menos racional, mas compreender que sua estrutura mental a força a se identificar com sua rival, quando ela a evoca, e a sentir que ela é substituída por esta. Em outros termos, as estereotipias mentais são consideradas nesta teoria como mecanismos de compensação, não de ordem afetiva, mas de ordem fenomenológica. Inúmeros casos clínicos foram assim interpretados por Minkowski.”

conteúdo e forma só poderão ser dissociados arbitrariamente na medida em que o papel do trauma vital nas psicoses for resolvido.” Referência ao élan vital de Minkowski.

e) ANÁLISES ALEMÃS DA ERLEBNIS PARANÓICA. – A NOÇÃO DE PROCESSO PSÍQUICO, DE JASPERS. – O DELÍRIO DE PERSEGUIÇÃO É SEMPRE ENGENDRADO POR UM PROCESSO, PARA WESTERTERP.

Inúmeros acontecimentos, que sobrevêm ao alcance dos doentes e chamam sua atenção, despertam neles sentimentos desagradáveis pouco compreensíveis. Esse fato os preocupa bastante e os aborrece. Algumas vezes tudo lhes parece tão forte, as conversas ressoam com veemência demasiada em seus ouvidos, algumas vezes mesmo qualquer barulho, um acontecimento ínfimo, é suficiente para irritá-los. Eles têm sempre a impressão de que são eles que são visados nisso. Acabam por ser completamente persuadidos disso. Observam que falam mal a seu respeito, que é precisamente a eles que prejudicam. Colocadas sob forma de juízo, essas experiências engendram o delírio de relação.” Jaspers

Ele nota o sobrevir episódico de fenômenos pseudo-alucinatórios. <Todos esses distúrbios não alcançam contudo um verdadeiro estado de psicose aguda. Os doentes orientados, ponderados, acessíveis freqüentemente até aptos ao trabalho, têm todo o lazer e o zelo necessário para elaborar, para explicar suas experiências, um sistema bem-organizado e idéias delirantes numerosas, explicativas, nas quais eles próprios não reconhecem freqüentemente mais que um caráter hipotético. Quando tais experiências se dissiparam após um tempo bastante longo [três anos, p.ex.?], não se encontra mais que os conteúdos delirantes de juízos petrificados; a experiência paranóica particular desapareceu.>”

reivindicante com tom depressivo”

Jaspers distingue ainda modificações intermediárias na reação¹ e no processo.² São aquelas que, embora sendo determinadas de modo puramente biológico e sem relação com os acontecimentos vividos pelo doente, são entretanto restauráveis e deixam intacta a personalidade: tais são os acessos, as fases, e os períodos, cujos exemplos podem ser encontrados em várias doenças mentais.”

¹ “Os episódios agudos não ocasionam nenhum transtorno duradouro. O statu quo ante se restabelece.”

² “Os episódios agudos têm por conseqüência um transtorno não-restaurável.”; “Enxerto parasitário único comparável ao progresso de um tumor.” Nascimento de uma segunda personalidade.

A organização psíquica é totalmente destruída nos processos orgânicos grosseiros: as lesões evolutivas do cérebro, na verdade, provocam distúrbios mentais que têm apenas a aparência de uma verdadeira psicose. A observação nos mostra, de fato, que a cada instante de sua evolução intervêm alterações psíquicas sempre novas, heterogêneas entre elas, sem liame estrutural comum.”

Quatro casos de delírio de ciúme, agrupados 2 a 2, ilustram de modo notável esta oposição da psicose que se apresenta como um desenvolvimento [reversível]¹ àquela que aparece como um processo.”

¹ Classificação jasperiana. Não se concorda com ele hoje: a psicose é um processo incurável. Mas, como veremos, o próprio Lacan tinha muita fé no seu oposto!

O delírio de ciúme (logo seguido de idéias de perseguição) manifesta-se num lapso de tempo relativamente curto, sem limites nítidos, mas que não ultrapassa cerca de um ano.”

idéia delirante de ser observado (<falam baixo e zombam do sujeito>) (…) sintomas somáticos interpretados (<vertigem? cefaléia? distúrbios intestinais?>).”

Ressalva: precisaríamos de um estudo sobre o advento de paranóias e manias persecutórias em tempos de derrocada da democracia…

não se encontra nenhuma adjunção de novas idéias delirantes, mas o sujeito guarda seu delírio antigo, não o esquece; ele considera seu conteúdo como a chave de seu destino e traduz sua convicção por atos. (…) O sujeito não é reticente.

Essas personalidades apresentam um complexo de sintomas que podemos aproximar da hipomania: consciência de si nunca enfraquecida, irritabilidade, tendência para a cólera e o pessimismo, disposições que, à menor ocasião, se transformam em seu contrário: atividade incessante, alegria de empreender.”

[No caso de predisposição caracterológica, sem desencadeamento de processo psíquico no delirante ciumento] persiste apenas a tendência a novas explosões durante ocasiões apropriadas. Aqui, não há idéias de perseguição, nem de envenenamento; por outro lado, forte tendência à dissimulação.”

O doente percebe que <alguma coisa nos acontecimentos tem a ver com ele sem que compreenda o que é>.” Westerterp

Westerterp evidencia aqui minuciosamente as armadilhas a que a tendência a querer tudo compreender leva o observador; ele descobre, com muita sutileza, nos casos em que foi exercida a penetração psicológica por demais hábil de pesquisadores anteriores, os defeitos da armadura dessas explicações psicogênicas demasiado satisfatórias. Os levantamentos sobre o caráter anterior também devem ser submetidos a uma crítica minuciosa.”

Sempre teremos de tratar depressões e neuroses a nossa própria maneira. Uma solução mágica infalível, digo, uma solução científico-empírica infalível de 50 anos atrás já pode ser sabotada pelo inconsciente do doente médio, posto que tal solução se tornou lugar-comum na literatura e a depressão ou neurose, como um vírus ou bactéria, já se aperfeiçoou a fim de promover sua disseminação. A teoria da couraça ou de imunidade protetiva a novos episódios depressores infelizmente é – mas apenas porque tornou-seincorreta.

4. após um curto lapso de tempo sem atribuírem qualquer causa aos sintomas que sentem tão nitidamente, os doentes encontram uma explicação que os satisfaz mais ou menos, na idéia delirante de serem perseguidos por uma certa categoria de homens por causa de uma ação precisa;

5. então, uma forte desconfiança vem cada vez mais em primeiro plano;

6. o delírio, nascido assim secundariamente, permanece alimentado pela continuação das manifestações do processo, mas tira também de si mesmo interpretações compreensíveis, como toda idéia prevalente;

7. não existe nenhuma alucinação.

II. O CASO “AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO

Acreditamos que, em vez de ser obrigatório publicar o conjunto de nosso material de modo forçosamente resumido, é, ao contrário, pelo estudo, tão integral quanto possível, do caso que nos pareceu mais significativo que poderemos dar o máximo de alcance intrínseco e persuasivo a nossos pontos de vista.”

II.1 EXAME CLÍNICO DO CASO “AIMÉE”

Distúrbios mentais que evoluem há mais de um ano; as pessoas com as quais ela cruza na rua dirigem-lhe insultos grosseiros, acusam-na de vícios extraordinários, mesmo se essas pessoas não a conhecem; as pessoas de seu meio falam mal dela o mais que podem e toda a cidade de Melun está a par de sua conduta, considerada como depravada; ela também quis deixar a cidade, mesmo sem dinheiro, para ir a qualquer lugar.”

O delírio que apresentou a doente Aimée revela a gama quase completa dos temas paranóicos. Temas de perseguição e temas de grandeza nele se combinam estreitamente. Os primeiros se exprimem em idéias de ciúme, de dano, em interpretações delirantes típicas. Não há idéias hipocondríacas, nem idéias de envenenamento. Quanto aos temas de grandeza, eles se traduzem em sonhos de evasão para uma vida melhor, em intuições vagas de ter que realizar uma grande missão social, em idealismo reformista, enfim, numa erotomania sistematizada sobre uma personagem da realeza.”

Aimée colabora ardentemente na confecção do enxoval da criança esperada por todos. Em março de 192.. ela dá à luz uma criança do sexo feminino, natimorta. O diagnóstico é asfixia por circular de cordão. Segue-se uma grande confusão na doente. Ela atribui a desgraça a seus inimigos; de repente parece concentrar toda a responsabilidade disso numa mulher que durante 3 anos foi sua melhor amiga. Trabalhando numa cidade afastada, esta mulher telefonou pouco depois do parto para saber das novas. Isto pareceu estranho a Aimée; a cristalização hostil parece datar de então.”

Uma segunda gravidez acarreta a volta de um estado depressivo, de uma ansiedade, de interpretações análogas. Uma criança nasceu a termo em julho do ano seguinte (a doente está cem 30 anos).” “Durante a amamentação, ela se torna cada vez mais interpretante, hostil a todos, briguenta. Todos ameaçam seu filho. Ela provoca um incidente com motoristas que teriam passado perto demais do carrinho do bebê. Causa diversos escândalos com os vizinhos. Ela quer levar o caso à justiça.”

A seu favor, ela invoca o fato de querer ir aos Estados Unidos em busca do sucesso: será romancista. Ela confessa que teria abandonado seu filho.”

eu interrogo as minhas companheiras, algumas das quais são loucas e outras tão lúcidas quanto eu, e quando eu tiver [sic] saído daqui, eu me proponho a morrer de rir por causa do que me acontece, pois acabo me divertindo realmente por ser sempre uma eterna vítima, uma eterna desconhecida, Santa Virgem, que história a minha! o senhor a conhece, todo mundo a conhece mais ou menos, a tal ponto falam mal de mim”

guardava uma profunda inquietude: Quais eram os inimigos misteriosos que pareciam persegui-la? Ela não devia realizar um grandioso destino? Para procurar a resposta destas perguntas é que ela quis sair de sua casa, ir para a cidade grande.”

Um dia, diz ela, como eu trabalhava no escritório, enquanto procurava, como sempre, em mim mesma, de onde podiam vir essas ameaças contra meu filho, escutei meus colegas falarem da Sra. Z. Compreendi então que era ela quem nos queria mal.” “Uma vez, no escritório de E., eu tinha falado mal dela. Todos concordavam em considerá-la de boa família, distinta . . . Eu protestei dizendo que era uma puta. É por isso que ela devia me querer mal.”

A mais exaustiva pesquisa social não pôde nos revelar que ela tivesse falado a alguém a respeito da Sra. Z. Apenas uma de suas colegas nos relata vagas menções contra o <pessoal de teatro>.”

Um dia (ela precisa o ano e o mês), a doente lê no jornal Le Journal que seu filho ia ser morto <porque sua mãe era caluniadora>, era <vil> e que se <vingariam dela>. Isto estava claramente escrito. Havia, além disso, uma fotografia que reproduzia a empena de sua casa natal na Dordonha, onde seu filho passava férias naquele momento, e ele, de fato, aparecia num canto da foto. Uma outra vez, a doente fica sabendo que a atriz vem representar num teatro bem próximo de sua casa; ela fica transtornada. para zombar de mim.>”

Como certos personagens dos mitos primitivos se revelam como substitutos de um tipo heróico, assim aparecem atrás da atriz outras perseguidoras, cujo protótipo último, como veremos, não é ela mesma. São Sarah Bernhardt, estigmatizada nos escritos de Aimée, a Sra. C., essa romancista contra a qual quis abrir processo num jornal comunista. Vemos, a partir daí, o valor, mais representativo que pessoal, da perseguidora que a doente reconheceu. Ela é o tipo da mulher célebre, adulada pelo público, bem-sucedida, vivendo no luxo. E se a doente faz em seus escritos o processo vigoroso de tais vidas, dos artifícios e da corrupção que ela lhes imputa, é preciso sublinhar a ambivalência de sua atitude; pois ela também, como veremos, desejaria ser uma romancista, levar uma grande vida, ter uma influência sobre o mundo.”

<Pensei que a Sra. Z. não podia estar só para me fazer tanto mal impunemente, era preciso que ela fosse apoiada por alguém importante.> Leitora assídua de novos romances e seguindo avidamente o sucesso dos autores, a doente achava, com efeito, imenso o poder da celebridade literária.”

Todas essas personagens, artistas, poetas, jornalistas, são odiados coletivamente como grandes provocadores dos infortúnios da sociedade. <Trata-se de uma ralé, uma raça>; <eles não hesitam em provocar por suas bazófias o assassinato, a guerra, a corrupção dos costumes, para conseguir um pouco de glória e prazer.>”

À medida que nos aproximamos da data fatal, um tema se precisa, o de uma erotomania que tem por objeto o príncipe de Gales.” “Ela disse ao médico perito que, um pouco antes do atentado, havia em Paris grandes cartazes que informavam ao Sr. P.B. que, se ele continuasse, seria punido. Ela tem portanto protetores poderosos, mas parece que os conhece mal. Com respeito ao príncipe de Gales, a relação delirante é bem mais precisa. Temos um caderno seu onde ela anota cada dia, com data e hora, uma pequena efusão poética e apaixonada que dirige a ele.”

O quarto de hotel em que morava estava recoberto de retratos do príncipe; ela juntava igualmente os recortes de jornal relativos a seus movimentos e sua vida. Não parece que ela tenha tentado aproximar-se dele na ocasião de uma estada do príncipe em Paris, a não ser por um impulso metafórico (poemas). Por outro lado, parece que ela lhe remeteu pelo correio, por várias vezes, seus poemas (um soneto por semana), memoriais, cartas, uma das quais quando da viagem do príncipe à América do Sul, instando que desconfiasse dos embustes do Sr. de W. (já anteriormente mencionado), diretor da Imprensa Latina, que <dá a palavra de ordem aos revolucionários, pelos jornais, com as palavras em itálico>. Mas, detalhe significativo, até o fim ela não assina suas cartas.

Encontramo-nos, observemos, diante do próprio tipo da erotomania, segundo a descrição dos clássicos, retomada por Dide. O traço maior do platonismo ali se mostra com toda a nitidez desejável.

Assim constituído, e apesar dos surtos ansiosos agudos, o delírio, fato a destacar, não se traduziu em nenhuma reação delituosa durante mais de 5 anos. Certamente, nos últimos anos, certos sinais de alerta se produzem. A doente sente a necessidade de <fazer alguma coisa>. Porém, ponto notável, esta necessidade se traduz primeiro pelo sentimento de uma falta para com deveres desconhecidos que ela relaciona com os preceitos de sua missão delirante. Sem dúvida, se ela conseguir publicar seus romances, seus inimigos recuarão assustados.

Assinalamos suas queixas junto às autoridades, seus esforços para fazer com que um jornal comunista aceitasse ataques contra uma de suas inimigas, suas importunações junto ao diretor desse jornal. Estas lhe custam mesmo a visita de um inspetor de polícia, que usou de uma intimidação bastante rude.”

Eu fui ao editor perguntar se podia vê-lo, ele me disse que ele vinha todas as manhãs apanhar sua correspondência, e eu o esperei na porta, apresentei-me e ele me propôs dar uma volta de carro pelo bosque, o que aceitei; durante este passeio, eu o acusei de falar mal de mim, ele não me respondeu. Por fim, tratou-me de mulher misteriosa, depois de impertinente, e eu não tornei a vê-lo mais.”

Nos últimos 8 meses antes do atentado, a ansiedade está crescendo. Ela sente então cada vez mais a necessidade de uma ação direta. Ela pede a seu senhorio que lhe empreste um revólver e, diante de sua recusa, pelo menos uma bengala <para amedrontar essas pessoas>, quer dizer, aos editores que zombaram dela.

Ela depositava suas últimas esperanças nos romances enviados à livraria G. Daí sua imensa decepção, sua reação violenta quando eles lhe são devolvidos com uma recusa. É lamentável que não a tenham internado então.

Ela se volta ainda para um derradeiro recurso, o príncipe de Gales. Somente nesses últimos meses é que ela lhe envia cartas assinadas. Ao mesmo tempo, envia-lhe seus 2 romances, estenografados, e cobertos com uma encadernação de couro de um luxo comovente. Eles lhe foram devolvidos, acompanhados da seguinte fórmula protocolar:

Buckingham Palace

The Private Secretary is returning the typed manuscripts which Madame A. has been good enough to send, as it is contrary to Their Majesties’ rule to accept presents from those with whom they are not personally acquainted.

April, 193…

Este documento data da véspera do atentado. A doente estava presa, quando ele chegou.”

Desde então, a doente está cada vez mais desvairada. Um mês antes do atentado, ela vai <à fábrica de armas de Saint-Étienne, praça Coquillère> e escolhe um <facão de caça que tinha visto na vitrina, com uma bainha>.”

Que pensará ela de mim se eu não me mostro para defender meu filho? que eu sou uma mãe covarde.”

Uma hora ainda antes deste infeliz acontecimento, eu não sabia ainda onde iria, e se não iria visitar, como de hábito, o meu garotinho.”

Nenhum alívio se segue ao ato. Ela fica agressiva, estênica, exprime seu ódio contra sua vítima. Sustenta integralmente suas asserções delirantes diante do delegado, do diretor da prisão, do médico-perito”

Sr. Doutor – escreve ela ainda num bilhete de tom extremamente correto, no 15º dia de sua reclusão –, gostaria de pedir-lhe para que fizesse retificar o juízo dos jornalistas a meu respeito: chamaram-me de neurastênica, o que pode vir a prejudicar minha futura carreira de mulher de letras e de ciências.”

Oito dias após meu ingresso – escreveu-nos em seguida, na prisão de Saint-Lazare –, escrevi ao gerente de meu hotel para comunicar-lhe que estava muito infeliz porque ninguém quis me escutar nem acreditar no que eu dizia. Escrevi também ao Príncipe de Gales para dizer-lhe que as atrizes e escritores me causavam graves danos.”

Vinte dias depois, escreve a doente, quando todos já estavam deitados, por volta das 7 da noite, comecei a soluçar e a dizer que esta atriz não tinha nada contra mim, que não deveria tê-la assustado; as que estavam ao meu lado ficaram de tal modo surpresas que não queriam acreditar no que eu dizia, e me fizeram repetir: mas ainda ontem você falava mal dela! – e elas ficaram estupefatas com isso. Foram contar à Madre Superiora que, a todo custo, queria me enviar à enfermaria.”

A estatura da doente está acima da média. Esqueleto amplo e bem-constituído. Ossatura torácica bem desenvolvida, acima da média observada nas mulheres de sua classe. Nem gorda nem magra. Crânio regular. As proporções crânio-faciais são harmoniosas e puras. Tipo étnico bastante bonito. Ligeira dissimetria facial, que fica dentro dos limites habitualmente observados. Nenhum sinal de degenerescência. Nem sinais somáticos de insuficiência endócrina.”

Durante vários meses conserva um estado subfebril leve, criptogenético, de 3 ou 4 décimos acima da média matinal e vespertina. Contraiu, pouco antes de seu casamento, uma congestão pulmonar (de origem gripal – 1917) e suspeitou-se de bacilose. Exames radioscópicos e bacteriológicos repetidos deram um resultado negativo. A radiografia nos mostrou uma opacidade hilar à esquerda. Outros exames negativos.”

Dois partos cujas datas anotamos. Uma criança natimorta asfixiada por circular do cordão. Não se constatou anomalia fetal nem placentária. Diversas cáries dentárias por ocasião dos estados de gravidez. A doente tem uma dentadura postiça no maxilar superior.”

Assinalemos, quanto aos antecedentes somáticos, que a vida levada pela doente desde a sua estada em Paris, trabalhando no escritório das 7 às 13h, depois preparando-se para o baccalauréat (vestibular e colação de grau do ensino médio), percorrendo bibliotecas e lendo desmedidamente, caracteriza-se por um surmenage intelectual e físico evidente. Ela se alimentava de maneira muito precária, escassa e insuficiente, para não perder tempo, e em horas irregulares. Durante anos, mas só depois de sua permanência em Paris, bebeu cotidianamente 5 ou 6 xícaras de café preparado por ela mesma e muito forte.”

A família insiste muito quanto à emoção violenta sofrida pela mãe [outra <perseguida> ou <querelante>] durante a gestação de nossa doente: a morte da filha mais velha se deveu, com efeito, a um acidente trágico: ela caiu, na frente de sua mãe, na boca de um forno aceso e rapidamente morreu em decorrência de queimaduras graves.” (Lembra o caso Suzanne Urban.)

Consideram-na em seu serviço como muito trabalhadora, <pau para toda obra>, e atribuem a isso seus distúrbios de humor e de caráter.¹ Dão-lhe uma ocupação que a isola em parte. Uma sondagem junto a seus chefes não revela nenhuma falha profissional até seus últimos dias em liberdade. Muito pelo contrário, na manhã seguinte ao atentado, chega ao escritório sua nomeação para um cargo acima do que ocupava.”

¹ O velho preconceito – se é assim, deviam nos aposentar ou reduzir nossa carga horária sem prejuízo!

o ritmo do relato, fato notável numa doente como esta, não é retardado por nenhuma circunlocução, parêntese, retomada, nem raciocínio formal.”

Diminui o tempo que poderia dedicar a seus trabalhos literários favoritos para executar inúmeros trabalhos de costura com que presenteia o pessoal do serviço. Estes trabalhos são de feitura delicada, de execução cuidadosa, porém de gosto pouco sensato.” HAHAHA!

As anomalias do comportamento são raras; risos solitários aparentemente imotivados, bruscas excursões pelos corredores: estes fenômenos não são freqüentes e só foram observados pelas enfermeiras. Nenhuma variação ciclotímica perceptível.

A doente mantém uma grande reserva habitual de atitude. Por trás desta, tem-se a impressão de que suas incertezas internas não foram de modo algum apaziguadas. Vagos retornos erotomaníacos podem ser pressentidos sob suas efusões literárias, embora se limitem a isso.”

uma vida de Joana d’Arc, as cartas de Ofélia a Hamlet; Quantas coisas eu não escreveria agora se estivesse livre e tivesse livros!”

Agora que os acontecimentos me devolveram à minha modéstia, meus planos mudaram e eles já não podem perturbar em nada a segurança pública. Não me atormentarei mais por causas fictícias, cultivarei não só a calma como a expansão da alma. Cuidarei para que meu filho e minha irmã não se queixem mais de mim por causa do meu excessivo desinteresse.”

Já evocamos ou citamos alguns escritos da doente. Vamos estudar agora as produções propriamente literárias que ela destinava à publicação. Seu interesse de singularidade já justificaria o lugar que lhes atribuímos, se além disso não tivessem um grande valor clínico, e isto sob um duplo ponto de vista. Estes escritos nos informam sobre o estado mental da doente na época de sua composição; mas, sobretudo, permitem que possamos apreender ao vivo certos traços de sua personalidade, de seu caráter, dos complexos afetivos e das imagens mentais que a habitam, e estas observações proporcionarão uma matéria preciosa ao nosso estudo das relações do delírio da doente com sua personalidade.”

De fato, tivemos a felicidade de poder dispor destes dois romances que a doente, após a recusa de vários editores, enviou como último recurso à Côrte Real da Inglaterra (cf. acima). Ambos foram escritos pela doente nos 8 meses que antecederam o atentado, e sabemos em qual relação com o sentimento de sua missão e com o da ameaça iminente contra seu filho.

O primeiro data de agosto-setembro de 193.. e foi escrito, segundo a doente, de um só fôlego. Todo o trabalho não teria ultrapassado mais de 8 dias, se não houvesse sofrido uma interrupção de 3 semanas, cuja causa examinaremos mais adiante; o segundo foi composto em dezembro do mesmo ano, em um mês aproximadamente, <numa atmosfera febril>.

Lembremos desde já que os dois romances nos chegaram em forma de exemplares estenografados,¹ onde não aparece nenhuma particularidade tipográfica. Este traço se confirma nos rascunhos e manuscritos que temos em nosso poder, e se opõe à apresentação habitual dos escritos dos paranóicos interpretantes: maiúsculas iniciais nos substantivos comuns [o alemão é um povo doido mesmo!], sub-linhas [= SUBTRAÇO], palavras destacadas, vários tipos de tinta, todos traços simbólicos das estereotipias mentais.”

¹ Estenografia ou taquigrafia: a técnica aprendida por David Copperfield em seu estágio entre os Commons, parte do ofício de um advogado e também de um escrivão que deve escrever rápido e com precisão os acontecimentos de uma reunião ou depoimentos, sem deixar de incluir todas as informações necessárias. “Os sistemas típicos da taquigrafia fornecem símbolos ou abreviaturas para as palavras e as frases comuns, o que permite que alguém, bem treinado no sistema, escreva tão rapidamente que possa acompanhar as falas de um discurso.” “Marco Túlio Tirão (? – c. 4 a.C.), escravo e secretário de Cícero, é considerado o inventor da taquigrafia que elaborou o sistema Notae tironianae (abreviaturas tironianas).” “[A] Inglaterra é considerada a pátria da taquigrafia moderna. O médico e sacerdote inglês Timothy Bright (cerca de 1551—1615) publicou em 1558 [aos 7 anos de idade? HAHAHA] (sic – 1588) o sistema de taquigrafia Characterie, propiciando o renascimento da taquigrafia.” Método absurdamente ininteligível! “No Brasil o método mais usado no Legislativo e Judiciário brasileiro é o sistema inventado pelo gravador e taquigráfico espanhol Francisco de Paula Martí Mora (1761–1827), porém o método de taquigrafia mais comum é o de Oscar Leite Alves (1902–1974).”

Solicitamos a ajuda de nosso amigo Guillaume de Tarde que, iniciado desde há muito tempo por seu pai, o eminente sociólogo, na anállse grafológica, se diverte com isso nas horas vagas.”

As duas obras têm valor desigual. A segunda traduz, sem dúvida, uma baixa de nível, tanto no encadeamento das imagens quanto na qualidade do pensamento. Entretanto, o traço comum é que ambas apresentam uma grande unidade de tom e que um ritmo interior constante lhes garante uma composição. Nada, com efeito, de preestabelecido em seu plano: a doente ignora aonde será levada quando começa a escrever. Nisto ela segue, sem o saber, o conselho dos mestres (<Nada de plano. Escrever antes de pôr a nu o modelo . . . A página em branco deve sempre ser misteriosa>, P. Louys).”

Consultar nosso artigo, escrito em colaboração com Lévy-Valensi e Migault, Écrits ‘inspirés’. Schizographie. A.M.P. (Annales Médico-Psychologiques), n. 5, 1931.” (breve no Seclusão)

Quanto às circunlocuções da frase: parênteses, incidentes, subordinações intricadas, quanto a essas retomadas, repetições, rodeios da forma sintática, que exprimem nos escritos da maior parte dos paranóicos as estereotipias mentais de ordem mais elevada, é bastante notável constatar sua ausência total não só no primeiro escrito, como também no segundo.” Irônicas observações, vindas logo do rocambolesco Lacan – ou será que não?!? Talvez não houvesse melhor emissor deste ‘elogio velado da loucura’!

Revela-se uma sensibilidade que qualificaremos de essencialmente <bovariana>, referindo-nos diretamente com esta palavra ao tipo da heroína de Flaubert.” “Mas esses desvarios da alma romântica, embora freqüentemente apenas verbais, não são estéreis”

Inúmeras vezes veremos surgir sob sua pena termos de agricultura, de caça e de falcoaria. Esses toques de <regionalismo> são aliás bastante inábeis, mas são o signo de sua ingenuidade; e esse traço pode tocar exatamente aqueles que têm pouquíssimo gosto pelos artifícios de tal literatura. De resto, sente-se nela a presença de uma real cultura telúrica. A doente conhece muito bem seu patoá,¹ a ponto de ler a língua de Mistral.² Se fosse menos autodidata, poderia tirar melhor partido disso.”

¹ Dialeto campesino.

² “Frederic Mistral, also Josèp Estève Frederic Mistral (1830–1914), was an Occitan writer and lexicographer of the Occitan language.a Mistral received the 1904 Nobel Prize in Literature <in recognition of the fresh originality and true inspiration of his poetic production, which faithfully reflects the natural scenery and native spirit of his people, and, in addition, his significant work as a Provençal philologist>.”

a Dialeto românico também chamado lenga d’òc ou langue d’oc (d’où região do Languedoc), falado, entre outras regiões, no sul da França, na Gasconha, em Mônaco, no Piemonte da Itália e em algumas partes da Espanha. Considerado irmão do catalão ou mesmo abrangendo-o de todo, pelo menos nas etiologias mais disseminadas até o final do século XIX. Antigamente já foi sinônimo do Provençal, mas hoje são entidades lingüísticas distintas. Quase uma língua morta, cujos esforços de gramaticalização e conversão para a modalidade escrita esbarram em intensas diferenças de sítio a sítio, tornando uma padronização virtualmente impossível.

Cosmopolitas não falam em patoá.

PREPAREM-SE PARA O SHOW DE HORRORES E CLICHESINSÍPIDOS VERDESCAMPOS! “O título do romance [n. 1] é O Detrator; está dedicado a Sua Alteza Imperial e Real, o Príncipe de Gales.”

Em abril, os animais têm seus segredos, entre os arbustos a erva se agita ao vento, ela é fina, focinhos leitosos a descobrem. Que sorte! O leite será bom esta noite, eu beberei um bocado, diz o cão com a língua de fora. O dia inteiro as crianças brincaram umas com as outras e com os fiçhotes dos aromais, eles se acariciam, eles se amam.”

Quantas fontes você conhece, fontes que você pode esvaziar de um gole, diz o menor ao mais velho que é profeta? Eu! Quantas você quiser! Mas eu não vou mostrá-las a você, você se descalçaria para se banhar. Ah! não profanar minhas fontes. Eu posso levar você à beira do riacho se você prometer sempre responder quando eu chamar. Sempre te responderei, diz o menor, não apenas uma vez, sempre. Seus olhos são fontes vivas; eles são maiores que as tulipas.”

É isto que a fez sorrir? Ela sorri. Ela senta atrás da janela sem lâmpada. Sonha com o noivo desconhecido. Ah! se houvesse um que a amasse, que a esperasse, que desse seus olhos e seus passos para ela!”

Pensamentos ferozes, pensamentos fortes, pensamentos ciumentos, pensamentos suaves, pensamentos alegres todos vão para ele ou vêm dele. Não são mais do que os dois no claro obscuro, seu coração queima como brasa, os planetas em fogo batem asas, a lua joga suas flores purpurinas no quarto. Ela pensa em tudo que a deslumbra, na rocha adamantina da gruta, na coroa imarcescível do pinheiro, ela escuta seu murmúrio, é o prelúdio.”

David descobre seu caminho. Ele veste seguro sua farda de soldado. Esse órfão que vive com os homens manteve toda a sua rudeza. Depois de se encher de água turva, sua mãe tombou no campo num verão quente quando os peixes morrem no leito estreito da torrente. Seus cabelos estão jogados para trás como a cabeleira de uma espiga de centeio, ele é como um magnífico vespão cor de aurora e de crepúsculo. Esse camponês sabe se virar. Ninguém o iguala em arrumar, num piscar de olhos, um campo de pernas para o ar, ele reconhece o foiceiro pela foiçada, poda as árvores, doma os touros, faz trelas finas, acha a toca da lebre, as picadas de javali, sacode as sacas de sementes, sabe a idade dos pastos, evita as farpas, o precipício, os atoleiros, e sempre protege as safenas de suas pernas nuas. Ele sabe também usar a pena, evitar as lesões gramaticais, ele manda seus pensamentos para Aimée.”

As lianas que a cobrem são furadas por lagartas aneladamente dispostas ou apinhadas em grupo, ladrilhos de mosaico. Sob este emaranhado há a nota viva do coral das lesmas e dos chapeuzinhos de musgo recobrindo as sarças, os sapinhos tropeçam nas folhas aos menores toques de gafanhotos ou caem na relva seca que grita como um gonzo.”

De manhã, ao alvorecer, abro os postigos, as árvores que vejo estão aureoladas de alabastro, a penumbra as envolve, estou emocionada, esta aurora é doce como um amor.”

Ela sonha. Um marido! Ele, um carvalho, e eu, um salgueiro furta-cor, que o entualasmo do vento une e faz murmurar. Na floresta, seus ramos se cruzam, entrelaçam-se, perseguem-se nos dias de vento, as folhas amam e vibram, a chuva lhe envia os mesmos beijos. Oh! Como sou ctumenta, meu marido é um carvalho e eu uma cerejeira branca! Eu sou multo ciumenta, ele é um carvalho e eu um salgueiro furta-cor! No bosque instável, a chuva lhes envia os mesmos beijos. Curvo-me para pegar um gládio, eu o encontrei em meu caminho; é prectso conquistar o direito de amar! No entanto a alegria está na casa, o pai, a mãe são fellzes. Estes dois adultos ágeis, cujos corpos foram maltratados pela terra tenaz, com muitos ‘Y’ nas faces e rugas na testa, amam seus filhos tanto quanto a terra e a terra tanto quanto seus fllhos.”

Calcula-se que será preciso perder quatro dias para se casar, o que é multo em plena estação! um para comprar os panos, outro para comprar ouro, outro na costureira e o quarto para passar o contrato.”

À beira da torrente, deixo a madeira morta seguir o seu curso e sou toda risos quando deslizam minhas canoazinhas onde está sentada toda uma comitiva de besouros ou de escaravelhos que vão estupidamente para a morte.”

Ah! não há nada melhor que tocar violino na neve durante o inverno.”

As meninas gulosas sempre às escondidas por gulodices, eu lhes ensino a guardar na boca uma maçã ou uma noz, mesmo se a glote se levanta, em seguida eu descasco uma coxa de noz bem branca, elas a comem sem nunca pensar em minhas astúcias inocentes.”

eu como leão tenho um apetite imenso

descasco o rizoma do feto”

Eu os preveni quando o incêndio estourou no bosque. Era preciso ouvir o crepitar! As bagas de genebra estalavam seco e as fagulhas me seguiam, o assombro me havia dado asas e o pilriteiro esporões, eu parecia o pássaro aviador, em volta de minhas hélices o ar ressonava, mais rápido que as nuvens eu vencia o vento”

Na passagem, podemos notar claramente uma alusão ao príncipe de Gales, identificado com o rouxinol (Nightingale).”

A corcarne da concupiscência.

Querem diamantes para suas coroas? Estão no alto dos ramos, a seu alcance, sob seus passos. Atenção quando caminham! Se os encontrarem, não digam nada. As puritanas os quereriam para seus rosários, a cortesã em seu quarto cheio de espelhos até o teto se cobria com eles, a milionária em seu camarote no espetáculo o faria seu único enfeite, pois ela não está em absoluto vestida, seu vestido colante é da cor de sua carne, não vemos onde ele começa”

O colírio de pele de serpente tinge seus olhos viciosos. Os seus sapatos não são para andar, os chapéus de bambu, de crina, de seda, de tule, ela os veste de maneira espalhafatosa. Seus vestidos são bordados com canutilhos [fios de ouro ou prata]: é todo um museu, uma coleção de modelos inéditos ou excêntricos, neles o grotesco domina, mas há de se cobrir esse corpo sem encanto, há que se fazer olhado. Todo este aspecto artificial surpreende, ela expulsou o natural, os aldeões não olham mais as outras mulheres. Ela sabe como manejar os homens! Passa os dias na sua banheira, depois a cobrir-se de enfeites; mostra-se, intriga, maquina.”

Desde então, <cochichos, risadinhas, apartes, complôs> compõem a pintura expressiva da arnbiência do delírio de interpretação.”

No caminho, um casal vai com um grande ruído de sapatos ferrados, tão grandes quanto os seus vazios ressoam. O marido é orgulhoso e forte, ele tem um filho, ele o olha, a mulher leva a criança que se agarra a seu pescoço e a suas tetas caídas, a criança sorri, a mãe tem um semblante de animal feliz, eles se amam. Aimée inveja o par.”

Oh criança, oh meninas que morrem, flores brancas que uma surda foice abate, fonte vicejante exaurida, apartada pelo negro e sublime mistério do globo, paloma caída do ninho e que faz seu sudário no chão assassino, frágil peito de pássaro que expira no bico ensangüentado do gavião, negra visão, que

amem vocês!

Abracem este corpo de criança!

Antes que o coloquem no ataúde,

Chorem, chamem mais e mais

Terão para se consolar,

Um metro cúbico no cemitério

Onde seu corpo virá rezar

Descobrirão então

Que a terra pode ser muito querida

Quando ela os liga à criança.

Ajoelhem-se abençoando-a

Com seus olhos abrindo-a logo

Para encontrar um camafeu branco!

O autodidatismo transparece a cada momento: truísmos, declamações banais, leituras mal-compreendidas, confusão nas idéias e nos termos, erros históricos.”

O estilo permite notar traços de <automatismo>, no sentido muito amplo de um eretismo intelectual sobre um fundo deficitário.”

Encontramos a mesma busca preciosa na escolha das palavras, mas desta vez com um resultado bem menos feliz. Palavras extraídas de um dicionário explorado ao acaso seduziram a doente, verdadeira <namorada das palavras>, segundo seus próprios termos, por seu valor sonoro e sugestivo, sem que nem sempre acrescentasse a isto discernimento e atenção ao seu valor lingüístico adequado ou a seu alcance significativo.”

Em toda a parte onde vou me observam, olham-me com um ar de suspeita de modo que à minha porta a multidão não tarda em me apedrejar. O flibusteiro a incita. Quero sair, fazem uma investida que me obriga a recuar, e eu pago um direito de ancoragem. Suporto algumas avanias. É pau para toda obra, diz uma mulher. Olham-na, ela fala de Jaime I, diz uma outra. Durmo muito mal, eu caço as feras no matagal com sua Alteza. Lêem isso nos meus olhos.”

Surrealismo involuntário.

O coração me leva, o sangue me chama

Eu beijo o solo, todo banhado de seu sangue

A multidão impedida, conferencia e fugindo

Me lança uma espada de brilho rebelde

Partimos sozinhos, e a multidão suspeita

Do escaninho das janelas nos espreita ao passar.”

É um incorruptível, diz o historiador; não bebe, não tem mulheres, matou milhares como um covarde, o sangue corre da praça do Trono até a Bastilha. Foi preciso Bonaparte apontando seus canhões sobre Paris para deter a carnificina.”

Os poetas são o inverso dos Reis, estes amam o povo, os outros amam a glória e são inimigos da felicidade do gênero humano.”

A retórica de Aristóteles não repousa em base alguma, é sempre o tema da licença, dos subterfúgios com a virtude por fachada, é uma traição contra seu rei. Eis ainda Cícero, cúmplice do assassinato de César, e Shakespeare colocando o assassino na altura de grande homem. No século XVIII, os filósofos pérfidos atacam os soberanos e os nobres que os protegem e os hospedam. Outras vezes, tiram dos grandes os sentimentos que eles não têm e com os quais se enfeitam. E o povo não reage. É por isso mesmo que as nações se deixam riscar da história do mundo, e se houvesse apenas Paris na França, logo o seríamos. Se há uma ilha que esteja habitada só por animais monstruosos e horríveis, é ela, é a própria cidade com suas prostitutas às centenas de milhares, seus rufiões, suas pocilgas, auas casas de prazeres a cada cinqüenta metros enquanto que a miséria se acumula no único cômodo do pardieiro.”

Eles me matam em efígie e os bandidos matam; cortam em pedaços e os bandidos cortam em pedaços, fazem segredos e os povos fazem segredos, preparam sedições, excitam em vez de apaziguar, pilham, destroem e vocês destroem: vocês são vândalos. (…) Não há escândalo que não tenha sido sugestionado pela conduta ou manobras desenvoltas de alguns amantes das letras ou de Jornalismo.”

Os que lêem livros não são tão bestas quanto os que os fazem, eles lhes acrescentam.”

Cem vezes no ofício

Retomem seu trabalho

Pulam-no sem parar e tornem a poli-lo

Acrescentem algumas vezes e com freqüência suprimam.”

Quem vende estes sapatos, estas novidades! Tusso, espirro! Os americanos? Eu não confio em meus sapatos amarelos; eu faço a queixa, examino meu sapato. Qual o seu número?, pergunta-me um estrangeiro, e o seu?, digo-lhe. Fazemo-nos compreender a custo de mímicas.”

Embora haja matizes, as mulheres de província são mais potáveis que as das cidades”

Sem dúvida alguma lhe aconteceu ficar boa de uma enxaqueca porque uma amiga lhe conta uma história engraçada, e se você medir a extensão das emoções à grandeza do sentimento, você está em presença do milagre, é a relatividade das influências”

vou pra ilha, minha filha

uma ilhota, filhota

bem longe, um lounge

dessa bolota!

uma cabra que sai do teatro francês com uma rosa úmida e viscosa completamente desabrochada para fora e um topete louro entre os chifres, os jornalistas lhe fizeram pastar as mais belas flores do jardim de Paris, ela espalhou suas virtudes por toda parte. É preciso fugir!”

Eu não posso mais avançar, o cortejo me impede a marcha, pergunto o que isto significa, calam-se, é um segredo de comédia, está rotulado: <Honra e Pátria>.”

as crianças soletram o silabário enquanto se aromatiza a refeição. A família está em pé à minha volta, consternada, ansiosa, todos se abraçam ao mesmo tempo cheios de terror ante o Reino da Vergonha. FINIS

Este delírio merece o nome de sistematizado em toda a acepção que os antigos autores davam a este termo. Por mais importante que seja considerar a inquietação difusa que está em sua base, o delírio impressiona pela organização que liga seus diversos temas. A estranheza de sua gênese, a ausência aparente de qualquer fundamento na escolha da vítima, não lhe conferem traços particulares.”

Devem-se deixar de lado igualmente as diversas variedades de parafrenias kraepelinianas. A parafrenia expansiva apresenta alucinações, um estado de hipertonia afetiva, essencialmente eufórica, uma luxúria do delírio, que são estranhos ao nosso caso.”

A psicose paranóide esquizofrênica, de Claude [o orientador], deve ser deixada de lado pelas mesmas razões. (…) a atividade profissional de nossa paciente prosseguiu até a véspera do atentado. Estes sinais eliminam tal diagnóstico.”

Paranóia (Verrücktheit), este é o diagnóstico ao qual nos prenderíamos a partir de agora, se uma objeção não nos parecesse poder ser levantada em virtude da evolução curável do delírio em nosso caso.”

o próprio Kraepelin abandonou o dogma da cronicidade da psicose paranóica. (…) Seja o que for, a descrição magistral de Kretschmer mostrou um tipo de delírio paranóico em que se observa a cura

A evolução curável de nosso caso pode nos permitir incluí-lo entre as esquizofrenias de evolução remitente e curável a que se refere Bleuler? Certamente (…) A esquizofrenia, como se sabe, é caracterizada pelo <afrouxamento dos elos associativos> (Abspannung der Assoziationsbindungen). O sistema associativo dos conhecimentos adquiridos é sem dúvida o elemento de redução maior destas convicções errôneas, que o homem normal elabora sem cessar e conserva de maneira mais ou menos duradoura. A ineficácia desta instância pode ser considerada como um mecanismo essencial de um delírio como o de nosso sujeito.” No entanto, cf. Lacan, é um delírio sistematizado demais para um caso de esquizofrenia.

Quanto aos distúrbios esporádicos que nossa doente apresentou, tais como sentimentos de estranheza, de déjà vu, talvez de adivinhação do pensamento, e mesmo as raríssimas alucinações, eles podem se manifestar entre os sintomas acessórios da esquizofrenia, mas de modo algum lhe pertencem especificamente. Os distúrbios mentais da primeira internação puderam nos fazer pensar por um momento num estado de discordância. Porém, nenhum documento que possuímos nos permite afirmá-lo. § Resta a hipótese de uma forma da psicose maníaco-depressiva. (…) nenhuma destas características aparece com suficiente nitidez em nosso caso”

No interior do quadro existente da paranóia, nosso diagnóstico ficará, sem dúvida alguma, com o de delírio de interpretação.”

Sérieux & Capgras: de interpretação X de reivindicação. O problema: em S. et C., o delírio é incurável.

Séglas: delírio melancólico.

II.2 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UM “PROCESSO” ORGANO-PSÍQUICO?

O que importa é fazer precisar ao doente, sempre evitando sugerir-lhe algo, não seu sistema delirante, mas sim seu estado psíquico no período que precedeu a elaboração do sistema”

É antes de mais nada um sentimento de transformação da ambiência moral: <Durante minha amamentação, todo o mundo havia mudado ao meu redor … Meu marido e eu, parecia-me que nos tornáramos estranhos um ao outro.>

Um estranho no ninho: sou eu mesmo, que nem pássaro sou.

Meu bastardo diário,

Aqui no inferno dizem (Lá no inferno diziam, muitos anos atrás)…

Ele é muito inteligente mas (Síndrome de Helenojuçara)

O imbecil de hoje é o manipulador de amanhã (num jogo sem freio e sem exceções – quem tenta descer da roda, se espatifa no concreto do chão – único lugar para onde se cai)

Um certo aroma de golpe no ar

Encadeamento lógico de um tolo oportunista no poder e seus avatares espelhados

#DRINÃO

evolução em 3 fases, que designaremos:

(I) fase aguda,

(II) fase de meditação afetiva e

(III) fase de organização do delírio.”

ESTADO ONIRÓIDE: “No sonho, como se sabe, o jogo das imagens parece, ao menos em parte, desencadeado por um contato com a ambiência reduzido a um mínimo de sensação pura. Aqui, ao contrário, há percepção do mundo exterior, mas ela apresenta uma dupla alteração que a aproxima da estrutura do sonho: ela nos parece refratada num estado psíquico intermediário ao sonho e ao estado de vigília; além disso, o limiar da crença, cujo papel é essencial na percepção, está aqui diminuído.”

a doente, em sonho, caça na selva com a Alteza por quem está apaixonada”

O PERSEGUIDO PROCURA SEUS CARRASCOS (O REINO DAS SUPERINDIRETAS): “Não é, como pode parecer à primeira vista, de maneira puramente fortuita que uma significação pessoal vem transformar o alcance de certa frase escutada, de uma imagem entrevista, do gesto de um transeunte, do <fio> a que o olhar se engancha na leitura de um jornal.”

Todo hiper-interpretativo tem um quê de Fox Mulder: onde morrem a família, os amigos e as relações interpessoais no trabalho, morre também a teoria da conspiração. Ela precisa ser de amplo alcance para sua chama continuar a arder. O maior alcance possível: de preferência, a política. Prato cheio para servidores públicos.Kafka e seus processos…

Essas características nos levam a admitir que estes fenômenos dependem desses estados de insuficiências funcionais do psiquismo, que atingem eletivamente as atividades complexas e as atividades sociais, e cuja descrição e teoria foram fornecidas por Janet em sua doutrina da psicastenia. A referência a esta síndrome explica a presença, manifesta em nosso caso, de perturbações dos sentimentos intelectuais. A teoria permite, além disso, compreender que papel desempenham nas perturbações as relações sociais no sentido mais amplo, como a estrutura destes sintomas, bem-integrados à personalidade, reflete sua gênese social, e, enfim, como os estados orgânicos de fadiga, de intoxicação, podem desencadear seu aparecimento.” Um filho natimorto ou a constatação de que minha carreira é uma bosta, etc.

Sim, é como no tempo em que eu ia ao jornal comprar os números atrasados de um ou dois meses antes. Eu queria reencontrar neles o que havia lido, por exemplo, que iriam matar meu filho e a foto na qual eu o havia reconhecido. Porém, jamais reencontrei o artigo nem a foto, dos quais, no entanto, eu me recordava. No final, o quarto estava entulhado desses jornais.”

ilusão da memória: (…) [e]sses distúrbios mnêmicos são, com efeito, bem frustros: nunca constatamos, num exame clínico sistemático e minucioso, distúrbios amnésicos de evocação, a não ser os que assinalamos em nossa observação e que incidem eletivamente no momento de introdução no delírio dos principais perseguidores.”

imagem-fantasia imagem-recordação

(transformação oniróide-delirante; “crises de psicolepsia” em Janet)

Janet ressaltou admiravelmente o papel desses distúrbios da memória nos sentimentos ditos sutis, experimentados pelos perseguidos alucinados (Les sentiments dans le délire de persécution, artigo).”

o indivíduo que dorme e desperta bruscamente por um ruído provocado recorda-se de ter formado em sonho um encadeamento de imagens, que lhe parece ter tido uma duração importante e do qual, no entanto, toda ordem está manifestamente destinada a ocasionar o ruído que provocou o despertar, e do qual, aliás, o sujeito não podia prever nem a vinda inesperada nem a qualidade. Este fato, como todos aqueles que deixam tão enigmática a questão da duração dos sonhos, faz com que se perceba bem a dificuldade que apresenta uma orientação temporal objetiva no desenvolvimento representativo das imagens.”

nossa doente, como tantos outros psicopatas no período de incubação ou de eflorescência de sua doença, consultava abundantemente um destes videntes cuja propaganda se espalha livremente nos classificados dos jornais. (…) Que numa das consultas pagas de horóscopo lhe tenha sido anunciado que uma mulher loura desempenharia um importante papel em sua vida, o de uma fonte de infortúnios, esta foi a crença na qual a doente, durante sua psicose, apoiou em parte sua convicção delirante, no que concerne [a] sua principal perseguidora. Ora, hoje ela sabe, tendo sido feita a averiguação, que jamais lhe foi escrito nada semelhante.” “numerosas interpretações são ilusões da memória

Essa concepção é diferente da doutrina clássica, que vê na interpretação uma alteração do raciocínio, fundada sobre elementos constitucionais do espírito. Acreditamos que nossa análise constitui, em relação à clássica, um progresso real, ainda que seja apenas para compreender os freqüentes casos em que este suposto fator constitucional falta de maneira manifesta e onde é impossível discernir, na origem do delírio, o menor fato de raciocínio ou de indução delirante.”

II.3 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UMA REAÇÃO A UM CONFLITO VITAL E A TRAUMAS AFETIVOS DETERMINADOS?

sobre a infância de um sujeito, os registros familiares parecem sofrer os mesmos mecanismos de censura e de substituição que a análise freudiana nos ensinou a conhecer no psiquismo do próprio sujeito. A razão é que neles a pura observação dos fatos é perturbada pela estreita participação afetiva que os misturou a sua própria gênese. Quanto aos parentes colaterais, entra em jogo, além disso, a defasagem vital que alguns anos bastam para produzir na época da infância. Aqueles que pudemos ver, a irmã mais velha e um dos irmãos, têm, respectivamente, 5 anos a mais que a doente e 10 anos a menos. Necessidades econômicas, por outro lado, acrescentaram seu efeito aos fatores psíquicos: a irmã que criou a doente durante seus primeiros anos teve que deixar o teto paterno aos 14 anos, a própria doente aos 18, o que nos dá os limites de observação tanto da irmã quanto do irmão.”

As esperanças que a inteligência reconhecida de nossa doente dava a seus parentes, valiam-lhe, nestes pontos, concessões, e até certos privilégios mais positivos. Alguns destes privilégios, tais como uma roupa branca mais fina que a de suas irmãs, parecem ainda provocar nelas uma amargura que não arrefeceu. O autor responsável por esta diferença de tratamento parece ter sido sua mãe. O intensíssimo vínculo afetivo que uniu Aimée de modo muito particular a sua mãe parece-nos que deve ser salientado.”

Nenhuma reação nela é comparável à que desencadeia a evocação do pesar atual de sua mãe: <Eu deveria ter ficado junto dela>, este é o tema constante das lamentações da doente.” “após os recentes acontecimentos ocorridos com sua filha, ela se fechou num isolamento feroz, imputando formalmente à ação hostil de seus vizinhos mais próximos toda a responsabilidade do drama.”

JÁ QUE VOCÊ GOSTA DE ESTUDAR… “O cultivo do devaneio é confessadamente precoce. É possível que uma parte das promessas intelectuais que a doente produziu tenha derivado disto, e que seja por conta desta particularidade que ela deva ter parecido aos seus como designada entre todas para aceder à situação superior de professora.”

esta abulia profissional e esta ambição inadaptada, que Janet também descreveu entre os sintomas psicastênicos.”

Esse tema do touro perseguindo volta com freqüência nos sonhos de Aimée (ao lado de um sonho de víbora, animal que pulula em sua terra), e é sempre de mau agouro.”

Dom-juan de cidade pequena e poetastro da igrejinha <regionalista>, essa personagem seduz Aimée pelos charmes malditos de um ar romântico e de uma reputação bastante escandalosa.” “A desproporção com o alcance real da aventura é manifesta: os encontros, bastante raros a ponto de terem escapado à espionagem de uma cidade pequena, de início desagradaram a doente; ela cede enfim, mas para ouvir logo de seu sedutor, decididamente apaixonado por seu papel, que ela não foi para ele senão o lance de uma aposta. Tudo se limita ao último mês de sua estadia na cidade pequena. Entretanto, esta aventura que leva consigo os traços clássicos do entusiasmo e da cegueira próprios à inocência, vai reter o apego de Aimée por 3 anos. Durante 3 anos, na cidade afastada em que seu trabalho a confinará, manterá seu sonho por uma correspondência trocada com o sedutor que ela não deve rever. Ele é o único objeto de seus pensamentos, e entretanto ela nada sabe nos contar sobre ele, mesmo à colega, de algum modo sua conterrânea, que é então a segunda grande ligação de amizade de sua vida.”

Seu desinteresse é então completo e se expressa de maneira comovente num pequeno traço: declina as satisfações de vaidade que lhe oferece a colaboração literária nas folhas da paróquia sob o cuidado de seu amante.”

Interiorização exclusiva, gosto pelo tormento sentimental, valor moral, todos os traços de um apego como este concordam com as reações que Kretschmer relaciona ao caráter sensitivo.”

As razões de fracasso de uma ligação como esta parecem só se dever à escolha infeliz do objeto. Esta escolha traduz, ao lado de arrebatamentos morais elevados, uma falta de instinto vital de que dá testemunho, aliás, em Aimée, a impotência sexual que o transcorrer de sua vida permite corroborar”

cansada de suas complacências tão vãs quanto dolorosas (…): <Passo bruscamente do amor ao ódio>”

Estes sentimentos hostis ainda não estão mitigados. Eles são marcados pela violência do tom das réplicas que Aimée opõe às questões com que a pusemos à prova: <Triste indivíduo>, assim o designa, empalidecendo ainda. <Ele pode morrer. Não me fale mais deste cáften … e deste grosseiro>. Tornamos a encontrar aí esta duração indefinida, na consciência, do complexo passional que Kretschmer descreve como mecanismo de repressão.”

Ela [sua melhor amiga, do escritório,] considera o trabalho a que foi compelida como muito inferior à sua condição moral, o que faz com que não se preocupe muito com ele. Toda sua atividade é empregada em manter sob seu prestígio intelectual e moral o pequeno mundo de seus colegas: ela rege suas opiniões, governa seus lazeres, assim como em nada negligencia para aumentar sua autoridade pelo rigor de suas atitudes. Grande organizadora de noitadas em que a conversa e o bridge são levados até bem tarde, ela conta ostensivamente numerosas histórias sobre as relações passadas de sua família, não desdenha em absoluto de fazer alusão às que lhe restaram. Ela representa junto a estas simplórias meninas o atrativo dos costumes nos quais ela as inicia. Por outro lado, ela sabe impor o respeito por meio de um recato e de hábitos religiosos não-desprovidos de afetação.” “através desta amiga é que pela primeira vez chegam aos ouvidos de Aimée o nome, os hábitos e os sucessos de Sra. Z., que era então vizinha de uma tia da narradora, e também o nome de Sarah Bernhardt que sua mãe teria conhecido no convento, ou seja, as duas mulheres que a doente designará mais tarde como suas maiores perseguidoras. Tudo levava Aimée a sofrer as seduções dessa pessoa, a começar pelas diferenças com que ela mesma se sente marcada em relação a seu meio: <Era a única que saía um pouco do comum, no meio de todas essas meninas feitas em série.>

<Com esta amizade, nos diz, opondo-a a suas duas primeiras amizades, eu guardava sempre um jardim secreto>: é o reduto onde a personalidade sensitiva se defende contra as investidas de seu contrário.” https://www.gutenberg.org/files/113/113-h/113-h.htm

<Eu me sinto masculina.> Ela deixou escapar a palavra-chave.”

Esse caráter de jogo na atitude sexual parece se confirmar, na época a que nos referimos, numa série de aventuras que ela dissimula muito bem dos que a cercam. Nesta menina desejável, o gosto da experiência se acomoda a uma frieza sexual real. Sua virtude, pelo menos no sentido farisaico, se acha também freqüentemente a salvo.” “Pudemos fazer uma idéia da personalidade do marido; não tivemos necessidade de solicitá-lo para que ele nos trouxesse informações tão prolixas quanto benévolas sobre sua mulher. Trata-se de um homem muito ponderado em seus julgamentos e, é bem provável, em sua conduta também, mas em quem nada dissimula a orientação muito estreitamente positiva dos pensamentos e dos desejos, e a repugnância a qualquer atitude inutilmente especulativa” “Desde esta época, imputa-se a Aimée ter se queixado de ciúme; mas seu marido também faz a mesma coisa. Os dois esposos tiram a matéria desses reproches das confissões recíprocas que eles fizeram sobre o passado deles. Parece que então, para Aimée, estes reproches nada mais são do que o que ficaram sendo para seu marido, armas com que se exprime o desentendimento que se comprova. Trata-se apenas ainda deste tipo de ciúme, qualificado por Freud, de ciúme de projeção.

Em breve Aimée retorna a este vício, a leitura, nem sempre tão <impune> quanto os poetas o crêem. Ela se isola, diz seu marido, em mutismos que duram semanas.” “ela se servirá do mais fútil pretexto para ficar em casa se, por exemplo, lhe chamam para um passeio, mas, uma vez que saiu, na hora de voltar só criará empecilhos.” A má-consciência sartriana

MULHER OMO: “Impulsões bruscas no andar, na caminhada, risos intempestivos e imotivados, acessos paroxísticos de fobia da mácula, lavagens intermináveis e repetidas das mãos; todos fenômenos típicos das agitações forçadas de Janet.”

Viúva de um tio que foi em primeiro lugar seu empregador [sua irmã mais velha], que depois fez dela sua mulher com a idade de 15 anos, esta Ruth de um Boaz merceeiro¹ não realizou uma necessidade de maternidade, profundamente sentida por sua natureza. A partir de uma histerectomia total sofrida aos 27 anos por razões que desconhecemos, esta insatisfação, exaltada pela idéia de que não há esperança para ela e sustentada pelo desequilíbrio emotivo da castração precoce, torna-se a instância dominante de seu psiquismo. Pelo menos ela nos confessou isso sem disfarce, quando nos disse com toda a candura ter encontrado seu consolo no papel de mãe que conquistou junto ao filho de sua irmã a partir do fim do primeiro ano, ou seja, desde alguns meses que antecederam a primeira internação de Aimée.”

¹ Personagens bíblicas.

ela acabou por fazer súplicas que eram, aliás, desnecesárias, para remediar tão grandes infortúnios. Acabou suas declarações com um quadro apologético de sua dedicação para com a doente, da atenção sem trégua de que dera provas ao seu lado, enfim, das angústias que tivera.”

Eu me dava conta de que não significava mais nada para ele. Pensava freqüentemente que ele seria mais feliz se eu lhe devolvesse a liberdade, e que pudesse construir sua vida com outra.

Entretanto, tendo caráter sensitivo e psicastênico, Aimée não poderia apaziguar simplesmente com tal abandono, nem mesmo se contentar com o refúgio do devaneio. Ela sente a situação como uma humilhação moral e o exprime nos reproches permanentes que lhe formulam sua consciência. Não se trata aí, porém, de uma pura reação do seu foro íntimo; esta humilhação se objetiva na reprovação, bem real, que sua irmã lhe impõe incessantemente por seus atos, por suas palavras e até em suas atitudes.

Mas a personalidade de Aimée não lhe permite reagir diretamente por uma atitude de combate, que seria a verdadeira reação paranóica, entendida no sentido que esse termo assumiu desde a descrição de uma constituição que levou esse nome. Não é, com efeito, dos elogios e da autoridade que lhe são conferidos pelos que a cercam que sua irmã vai tirar sua principal força contra Aimée, é da própria consciência de Aimée. Aimée reconhecia, por seu valor, as qualidades, as virtudes, os esforços de sua irmã. Ela é dominada por ela, que representa sob um certo ângulo a imagem mesma do ser que ela é impotente para realizar. Como ela o foi, num grau menor, diante da amiga com qualidades de líder. Sua luta surda com aquela que a humilha e lhe toma o lugar só se exprime na ambivalência singular das opiniões que ela tem a seu respeito. Com efeito, é surpreendente o contraste entre as fórmulas hiperbólicas por meio das quais presta homenagem às generosidades de sua irmã e o tom frio com que as expressa. Às vezes sem querer explode a confissão: <Minha irmã era por demais autoritária. Ela não estava comigo. Estava sempre do lado do meu marido. Sempre contra mim.>” “<jamais pôde suportar> os direitos assumidos por sua irmã na educação da criança.”

Devemos reconhecer aí a confissão do que é tão rigorosamente negado, a saber, no caso presente, da queixa que Aimée imputa à sua irmã por ter raptado seu filho, queixa em que é surpreendente reconhecer o tema que sistematizou o delírio.” “Ora, esta queixa no delírio foi afastada da irmã com uma constância cujo verdadeiro alcance a análise vai nos mostrar.”

com o trauma moral da criança natimorta aparece em Aimée a primeira sistematização do delírio em torno de uma pessoa, a quem são imputadas todas as perseguições que ela sofreu. Esta espécie de cristalização do delírio se produziu de uma forma tão súbita que o testemunho espontâneo da doente não deixa dúvida; e ela se produziu com a amiga de outrora, Senhorita C. de la N. [, avatar da irmã mais velha]” “Quando, pela primeira vez, Aimée passa a uma reação de combate (a uma reação conforme com a descrição aceita da constituição paranóica), ela só o alcança por um viés; substitui o objeto que se oferece diretamente a seu ódio por um outro objeto, que provocou nela reações análogas pela humilhação sofrida e pelo caráter secreto do conflito, mas que tem a vantagem de escapar ao alcance de seus golpes. A partir daí, Aimée não deixará de derivar seu ódio para objetos cada vez mais distanciados de seu objeto real, como também cada vez mais difíceis de atingir.” CURA: Dê um chute no patrão e um tiro no seu pai!

E os próprios temores que sua irmã manifesta atualmente quanto à própria vida, ainda que a própria doente nunca a tenha ameaçado, têm todas as características de uma advertência do seu instinto. Sem dúvida, por ocasião das últimas cenas em que Aimée queria forçar seu testemunho e falava em matar seu marido se não obtivesse o divórcio, ela pôde sentir, na violência do tom da doente, até onde iam realmente suas ameaças assassinas.”

O surto delirante difuso que desabrocha com a segunda gravidez permanece compatível com uma vida profissional e familiar sensivelmente normal até nos primeiros meses de amamentação. Observemos de passagem que a menor amplitude das desordens, a intensidade diminuída da inquietude, que distinguem este surto do primeiro, parecem ligadas ao primeiro esboço de sistematização, cujo mecanismo acabamos de descrever. Até o quinto mês de amamentação, por outro lado, Aimée é quem cuida exclusivamente de seu filho (testemunho do marido).”

Mas logo, apoiando-se em certas inexperiências de Aimée, a irmã impõe sua direção na educação da criança. As grandes reações interpretativas (querelas, escândalos, idéias delirantes) se multiplicam então, até o intento de fuga, na base de devaneios ambiciosos. Esta reação, que parece de natureza essencialmente psicastênica, leva o conflito a seu auge (<Arrancaram-me o meu filho>) e justifica a internação.”

Deixam-na, então, viver só de seu salário, em Paris. Este isolamento pode ter sido favorável como garantia imediata contra um perigo de fato; no entanto, permanece muito mais discutível como medicação psicológica.” “Suas intervenções e sua própria presença serão cada vez mais mal-recebidas em casa. Ela fingirá ignorar seu marido quando de suas visitas, depois quase não as fará, e cada vez mais se enclausurará nas atividades compensatórias e quiméricas que ela criou para si em seu isolamento parisiense.”

Enfim, suas tentativas, condenadas, para resolver o conflito por um divórcio que lhe devolvesse o filho, parecem corresponder a um sobressalto supremo da doente diante da expiração do prazo impulsivo do delírio, diante do batente inelutável que a espera na via de derivação afetiva em que seu psiquismo se comprometeu. Estes esforços últimos, que racionalmente parecem provenientes de fantasias do delírio, correspondem, não obstante, a um esforço obscuro e desesperado das forças afetivas em direção à saúde.

Ninguém no meio ambiente de Aimée estava em condições de reparar na urgência da situação. Com o mesmo desconhecimento bastante desculpável com que repetidas vezes acolheram suas tentativas de confidência delirante, os seus repeliram rudemente investidas das quais só podiam perceber o caráter inoportuno.

Por isso, com a firmeza quase consciente de uma necessidade longamente alimentada, numa última hesitação crepuscular, na hora mesmo em que pouco antes a doente pensava ainda que ia ficar junto de seu filho, ela efetivou a violência fatal contra uma pessoa irresponsável

Chegaram, entretanto, por fim, a confinar a doente numa atividade em que ela trabalha[va] sozinha, e onde eventualmente seus erros teriam o mínimo de conseqüências. Notemos, no entanto, o balanço favorável de seus esforços, que se traduz pela sanção de uma promoção”

tormentos éticos objetivados, próximos dos escrúpulos psicastênicos.”

Ao lado desta vida profissional em que a adaptação é relativamente conservada, a doente leva uma outra vida <irreal>, ela nos diz, ou <inteiramente imaginária>. <A doente, conta uma de suas colegas, vivia uma vida absurda>; mais ainda: <Ela estava fechada em seu sonho.>”

Após 3 anos, ela se recusará a fazer uso de suas férias de outra forma que não seja se dedicando inteiramente a estas atividades: <Eu passei os 20 dias de uma de minhas licenças sem sair da Biblioteca Nacional>. Reconhecemos aí o caráter forçado das perseverações psicastênicas: acontece que, conta seu marido, ela rejeita, numa ocasião particularmente favorável, rever seus parentes após uma longa separação, alegando que prepara o exame de baccalauréat. Essas atividades se mostram ineficazes: fracassa 3 vezes no baccalauréat.”

ela negligencia então seu próprio filho, parece pouco atenta por ocasião de 2 crises de apendicite que a criança apresenta. Depreendemos aí o próprio mecanismo dessas discordâncias da conduta sobre as quais insiste Blondel: a saúde da criança, que forma o tema ansioso central de seu delírio, deixa-a indiferente

Nesta vida psíquica dominada em sua maior parte pelo irreal, pelo sonho e pelo delírio, a dissimulação era de se esperar. Em tais doentes, dissimulação e reticência são apenas o avesso de uma crença delirante, cujo caráter incompleto eles indicam.” “Várias vezes ela se entrega na casa dela [?] a pequenos furtos destinados a cobrir seus déficits orçamentârios: jóias [?] e livros, que pertencem ao patrimônio, são roubados por ela sem que ninguém saiba.”

Esses temas de revolta e de ódio aparecem como secundários ao próprio delírio. Ressaltemos que na mesma época a doente chega a dar uma forma literária não-desprovida de valor, não só aos melhores élans de sua juventude, como também às experiências mais valiosas que pôde viver, as de sua infância.”

À antiga amiga, ela pedirá perdão por todo o mal que injustamente lhe desejou, do qua1 certamente nada lhe disse, senão ao romper com a correspondência, mas que poderia ter tido enormes conseqüências. Vários outros encontros, como no fim de um romance sentimental, terão por objetivo encerrar [com] o [seu] passado. Irá ter com a criada de seu hotel, etc.”

A irmã mais velha se opõe formalmente à simples idéia de ter que se encontrar com nossa doente, mesmo em nossa presença. Diante de um apelo por carta feito por esta, ela respondeu em termos tais que acreditamos ser conveniente poupar nossa doente de ouvi-los e participar-lhe somente o essencial. A própria doente, após breves conversas com seu marido, se opõe, a partir de então, a qualquer novo encontro. <Seria preciso, ela afirma, que me colocassem numa camisa-de-força para me arrastar até ele.> Ela mantém contato apenas com um irmão que a visita regularmente; e vive na esperança de encontrar seu filho.”

O balanço desta atitude se traduz praticamente em uma produção que, apesar de nossos incentivos, permaneceu quase nula desde sua entrada no serviço. Ela se restringiu a algumas poesias curtas, embora sejam de uma qualidade bem inferior não só em relação a suas produções maiores, mas também em relação a suas tentativas anteriores do mesmo gênero, nas quais ela mostrava uma alegria sem igual.”

Nada nos permite falar, em nossa doente, de disposição congênita, nem mesmo adquirida, que se exprimiria nos traços definidos da constituição paranóica.”

O sentimento da natureza, que Montassut observa com muita precisão como freqüente nos paranóicos, não é em absoluto, como ele o afirma, uma simples conseqüência de sua inadaptação social. Ele representa um sentimento de um valor humano positivo, cuja destruição no indivíduo, mesmo se ele melhora sua adaptação social, não pode ser considerada como um benefício psíquico.”

Todos os traços que, em nossa doente, poderiam se aproximar das características atribuídas à constituição dita paranóica – superestima megalomaníaca, desconfiança, hostilidade para com o meio, erros de juízo, autodidatismo, acusação de plágio, reivindicações sociais – só surgem em Aimée secundariamente à eclosão delirante.”

As magistrais descrições desses dois autores, clinicamente convergentes em numerosos pontos, são, no entanto, bastante diferentes por sua concepção patogênica. Janet tem do distúrbio fundamental da psicastenia uma concepção estrutural e energética, e parece remetê-la a um defeito congênito. Kretschmer tem do caráter sensitivo uma concepção dinâmica e evolutiva e o relaciona essencialmente à história do sujeito.”

No entanto, a mesma objeção vale tanto para os processos hiponóides cuja observação é comum não apenas em doentes bastante diferentes, como também em sujeitos normais, quanto para esses traumatismos psíquicos que formam a trama de toda vida humana: por que tanto uns quanto outros determinam num caso dado uma psicose e uma psicose paranóica, e não qualquer outro processo neurótico ou desenvolvimento reativo?”

II.4 A ANOMALIA DE ESTRUTURA E A FIXAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE DE AIMÉE SÃO AS CAUSAS PRIMEIRAS DA PSICOSE

a) DE COMO A PSICOSE DE NOSSA PACIENTE FOI REALIZADA PELOS MECANISMOS DE AUTOPUNIÇÃO QUE PREVALECEM NA ESTRUTURA DE SUA PERSONALIDADE.

Sobre a teoria da intencionalidade da consciência, reportar-se à obra fundamental de Brentano, Psychologie von empirischen Standpunkte, 1874.“

As intenções conscientes são desde há muito o objeto da crítica convergente dos <físicos> e dos moralistas, que mostraram todo o seu caráter ilusório. Esta é a razão principal da dúvida metódica lançada pela ciência sobre o sentido de todos os fenômenos psicológicos.”

O mérito desta nova disciplina, que é a psicanálise, é nos ter ensinado a conhecer essas leis, a saber: aquelas que definem a relação entre o sentido objetivo de um fenômeno de consciência e o fenômeno objetivo a que corresponde: positivo, negativo, medíato ou imediato, essa relação é, com efeito, sempre determinada.” “Este método de interpretação, cuja fecundidade objetiva se revelou nos vastos campos da patologia, se tornaria ineficaz no limiar do domínio das psicoses? Não questionamos as classificações clínicas e queremos evitar qualquer síntese, mesmo teórica, que seja prematura. Porém, trata-se aqui apenas de aplicar aos fenômenos da psicose um método de anâlise que já deu suas provas em outra parte. Se uma psicose, com efeito, entre todas as entidades mórbidas, exprime-se quase puramente através de sintomas psíquicos, recusaremos a ela por isso mesmo todo sentido psicogênico? Parece-nos que seria abusar do direito de prejulgar, e que a questão só pode ser resolvida depois de ser posta à prova.” “Talvez a natureza da cura nos demonstre a natureza da doença.” “De saída, pode-se falar em cura? Sim, se damos a esse termo o valor clínico de redução de todos os sintomas mórbidos; quanto à persistência de uma predisposição determinante, não podemos decidir sobre ela, já que é esse o problema que tentamos cingir. O fato é que no 20º dia de sua detenção, e com um caráter brusco bem nítido, a psicose manifestada pelo delírio com seus diferentes temas curou. Depois, a paciente permaneceu no asilo, e essa cura se manteve até o momento presente, ou seja, durante um ano e meio aproximadamente.”

A única intoxicação que pode ser discutida é o cafeinismo; mas não devemos exagerar o papel atribuído ao café nos distúrbios mentais.”

Tais curas instantâneas do delírio se observam num tipo único de caso, e mesmo assim eventualmente: isto é, nos delirantes ditos passionais após a realização de sua obsessão assassina. O delirante, após o assassinato, sente nesse caso um alívio característico acompanhado pela queda imediata de todo o aparelho da convicção delirante.

Não se encontra aqui nada semelhante logo após a agressão. Certamente, esta agressão fracassou e a doente não transparece nenhuma satisfação especial pela evolução favorável que se verifica rapidamente no estado de sua vítima; mas este estado persiste ainda por 20 dias. Nada mudou, então, do lado da vítima. Ao contrário, quer nos parecer que alguma coisa mudou do lado do agressor. A doente <realizou> seu castigo”

Que esses fatos se impusessem primeiramente aos praticantes da psicanálise, isto só se deve à abertura psicológica de seu método, pois nada implicava esta hipótese nas primeiras sínteses teóricas dessa doutrina. Não podemos empreender aqui a demonstração deste ponto que pensamos retomar em outro lugar: a análise dos determinismos autopunitivos e a teoria da gênese do supereu que ela engendrou representam na doutrina psicanalítica uma síntese superior e nova.”

O poder afetivo do protótipo é dado por sua existência real na vida da doente. Mostramos mais acima que ele era representado por esta irmã mais velha, de quem Aimée sofreu todos os graus de humilhação moral e de reproches de sua consciência. Num menor grau, a sua amiga intima, a Senhorita C. de la N., que para Aimée representava tão eminentemente a adaptação e a superioridade para com seu meio, objeto de sua íntima inveja, desempenhou um papel análogo; porém, segundo a relação ambivalente, própria precisamente à inveja, sentimento que comporta uma parte de identificação; e isto nos leva à segunda significação do protótipo delirante.”

Mulheres de letras, atrizes, mulheres do mundo, elas representam a imagem que Aimée concebe da mulher que, em algum grau, goza da liberdade e do poder social.” “Mas o objeto que Aimée atinge só tem um valor de puro símbolo, e ela não sente com seu gesto nenhum alívio. Contudo, pelo mesmo golpe que a torna culpada diante da lei, Aimée atinge a si mesma, e, quando ela o compreende, sente então a satisfação do desejo realizado: o delírio, tornado inútil, se desvanece.”

o que nossa pesquisa forneceu foi, insistimos neste ponto, um distúrbio que só tem sentido em função da personalidade ou, se preferirmos, um distúrbio psicogênico.”

b) DE COMO, AO CONCEBER ESTES MECANISMOS AUTOPUNITIVOS, SEGUNDO A TEORIA FREUDIANA (UMA CERTA FIXAÇÃO EVOLUTIVA DA ENERGIA PSÍQUICA CHAMADA LIBIDO), DÁ-SE CONTA DAS CORRELAÇÕES CLÍNICAS MAIS EVIDENTES DA PERSONALIDADE DO SUJEITO. [Até para redigir TÍTULOS Lacan é um boçal! Teseu sem Ariadne…]

A evolução da libido na doutrina freudiana parece corresponder com muita precisão, em nossas fórmulas, a esta parte, considerável na experiência, dos fenômenos da personalidade cujo fundamento orgânico é dado pelo desejo sexual.”

enquanto alguns veriam no presente caso uma regressão da consciência para esse estado de indiferenciação primordial (Blondel), outros sem hesitar atribuiriam o distúrbio inicial a uma deficiência deste contato vital com a realidade, que é para eles a fonte primeira de toda atividade humana; estes falariam de racionalismo mórbido (Minkowski) e nosso mestre e amigo Dr. Pichon, citando Chesterton, nos diria: <O louco não é em absoluto o homem que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos sua razão>.”

Quanto à imprecisão relativa do conceito de libido, ela não deixa para nós de ter seu valor. Tem, com efeito, o mesmo alcance geral que os conceitos de energia ou de matéria em física, e nessa qualidade representa a primeira noção que permite entrever a introdução em psicologia de leis de constância energética, bases de toda ciência.”

Encontraremos uma síntese feliz do conjunto dos trabalhos psicanalíticos sobre [sintomas da perda de objeto] no livro de O. Fenichel, Perversionen, Psychosen, Charakterstörungen, particularmente em seu capítulo das <Esquizofrenias>, p. 68-106.

A prevalência mórbida dos mecanismos de autopunição será sempre acompanhada, portanto, de distúrbios que manifestam a função sexual. A fixação sádico-anal, que eles representam na maioria das vezes, explica sua correlação com os distúrbios neuróticos obsessivos e os sintomas ditos psicastênicos.”

Se o valor patogênico de uma fixação pode ser aproximado de uma constituição, suscetível a um determinismo orgânico congênito, este valor dela se difere, quando deixa lugar à hipótese de um determinismo traumático

Esses pontos teóricos explicam a concomitância de traços de morbidez propriamente psicastênicos e obsessivos. Por outro lado, eles dão seu valor clínico às deficiências, que são negligenciadas no quadro de Janet, e que dizem respeito à esfera sexual.”

incerteza do pragmatismo sexual (escolha de parceiros de uma incompatibilidade máxima)”

Eu o amo, ele.

A primeira denegação possível: Eu não o amo. Eu o odeio, projetada secundariamente em Ele me odeia, fornece o tema de perseguição. Esta projeção secundária é imediata na fenomenologia própria ao ódio, e pode prescindir, quer nos parecer, de qualquer outro comentário.

A segunda denegação possível: Eu não o amo. É ela que eu amo, projetada secundariamente em Ela me ama, fornece o tema erotomaníaco. Aqui, a projeção secundária, pela qual a iniciativa amorosa parte do objeto, implica a intervenção de um mecanismo delirante próprio, deixado por Freud na obscuridade.

A terceira denegação possível: Eu não o amo. É ela que o ama, fornece, com ou sem inversão projetiva, o tema de ciúme.

Há, enfim, segundo Freud, uma quarta denegação possível, é aquela que incide globalmente sobre toda a fórmula e diz: Eu não o amo. Eu não amo ninguém. Amo somente a mim.”

Fixação narcísica e pulsão homossexual são, portanto, neste caso, oriundas de pontos evolutivos muito próximos da libido. Estão quase contíguas no estágio de gênese do supereu. Este fato, segundo a teoria, indica um fraco processo regressivo e explica a benignidade relativa e a curabilidade da psicose em nosso caso.” Ou do artista em geral?

c) O PROTÓTIPO “CASO AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO FRUTOS DE SEU ESTUDO: INDICAÇÕES DE PRÁTICA MÉDICA E MÉTODOS DE PESQUISA TEÓRICA.

Não temos de modo algum, com efeito, a ambição de acrescentar uma entidade nova à nosologia já tão pesada da psiquiatria. Os quadros, como se sabe, nela se distinguem com muita freqüência pela arbitrariedade de sua delimitação, por suas imbricações recíprocas, fontes de incessantes confusões, sem falar daqueles que são puros mitos. A história da psiquiatria demonstra suficientemente seu caráter vão e efêmero.”

a psiquiatria – não é, que pena, um truismo lembrá-lo –, sendo a medicina do psíquico, tem por objeto as reações totais do ser humano, isto é, as reações da personalidade no primeiro plano. Ora, como acreditamos ter demonstrado, não há informação suficiente sobre esse plano senão através de um estudo tão exaustivo quanto possível da vida do sujeito. Contudo, a distância que separa a observação psiquiátrica da observação médica corrente não é tamanha que explique os 23 séculos que separam Hipócrates, o pai da Medicina, de Esquirol, em quem veríamos, de bom grado, o padrasto da psiquiatria.”

O isento método da observação psiquiátrica já era conhecido, com efeito, por Hipócrates e sua escola. E a cegueira secular que se seguiu só nos parece imputável à dominação inconstante, mas contínua, de preconceitos filosóficos. Tendo dominado 15 séculos com Galeno [com seu plurivitalismo, espécie de antecessor do materialismo mecanicista], esses preconceitos são mantidos de um modo notável pela psicologia atomística da Enciclopédia, reforçados ainda pela reação comtista que exclui a psicologia da ciência, e permanecem não menos florescentes na maior parte dos psiquiatras contemporâneos, quer sejam psicólogos ou supostos organicistas. O principal destes preconceitos é que a reação psicológica não oferece ao estudo interesse em si mesma, porque ela é um fenômeno complexo. Ora, isto é verdadeiro apenas em relação aos mecanismos físico-químicos e vitais que esta reação põe em jogo, mas falso no plano que lhe é próprio. Ele é, com efeito, um plano, que tentamos definir, e no qual a reação psicológica tem o valor de toda reação vital: ela é simples por sua direção e por sua significação.”

Seja como for, graças às circunstâncias históricas favoráveis, a observação do psiquismo humano, não de suas faculdades abstratas, mas de suas reações concretas, nos é de novo permitida. Pensamos que toda observação fecunda deve se impor à tarefa de fazer monografias psicopatológicas tão completas quanto possível.” “É nessa medida mesma que somos contrários a acrescer, segundo o costume, uma nova entidade mórbida, cuja autonomia não seríamos capazes de sustentar, aos quadros existentes. (…) O quadro clínico que vamos apresentar, apesar de nossas reservas, se limitará a este alcance puramente prático. (…) Se for preciso um título ao tipo clínico que vamos descrever, escolheremos o de paranóia de autopunição [em detrimento de ‘psicose paranóica’].”

c.1) Diagnóstico, Prognóstico, Profilaxia & Tratamento da Paranóia de Autopunição

A personalidade anterior do sujeito é, antes de mais nada, marcada por um inacabamento das condutas vitais (a melhor introdução ao estudo da personalidade desses sujeitos se acha nos trabalhos já citados de Janet e de Kretschmer). Este traço está próximo da descrição dada por Janet das condutas psicastênicas; ele se distingue dela no que os fracassos incidem menos sobre a eficácia do rendimento social e profissional, freqüentemente satisfatórios, que sobre a realização das relações da personalidade que se relacionam à esfera sexual, ou seja, dos vínculos amorosos, matrimoniais, familiares.”

ódio familiar (…) fuga diante do casamento e, quando realizado, desentendimento e fracassos conjugais, desconhecimento das funções de parentesco – este é o passivo do balanço social desses tipos de personalidade.”

Esses mesmos sujeitos que demonstram impotências de resultado constante nas relações afetivas para com o próximo mais imediato, revelam nas relações mais longínquas com a comunidade virtudes de uma incontestável eficácia. Desinteressados, altruístas, menos presos aos homens que à humanidade, habitualmente utopistas, esses traços não exprimem neles somente tendências afetivas, mas atividades eficazes: servidores zelozos do Estado, preceptores ou enfermeiras convencidos de seu papel, empregados ou operários excelentes, trabalhadores encarniçados, eles se conformam melhor ainda a todas as atividades entusiastas, a todos os <dons de si> que os diversos empreendimentos religiosos utilizam, e geralmente a todas as comunidades, quer sejam de natureza moral, política ou social, que se fundam sobre um vínculo supra-individual.”

descargas afetivas espaçadas, mas extremamente intensas, manifestam-se habitualmente pelo reviramento de todas as posições ideológicas (conversão), mais freqüentemente pela inversão de uma atitude sentimental: passagem brusca, a respeito de uma pessoa, do amor ao ódio,¹ e inversamente. Nenhum estudo médico da vida afetiva desses sujeitos vale as admiráveis observações que encerra a obra de Dostoiévski; ver particularmente: Humilhados e ofendidos, O eterno marido, Crime e castigo, O duplo, Os demônios.”

¹ Tipo ideal: Freud.

São hipermorais, jamais amorais. O que não quer dizer que não possam dissimular, principalmente sobre suas reações afetivas mais profundas.”

Nem acesso esquizofrênico legítimo nem fase maníaco-depressiva são oberváveis nos antecedentes. Os traços da constituição paranóica permanecem míticos.” [?]

Revela-se, o mais das vezes, uma relação manifesta entre o acontecimento crítico ou traumático [expulsão do colégio militar] e um conflito vital que persiste há vários anos. Este conflito, de forte ressonância ética, está muito freqüentemente ligado às relações parentais ou fraternas do sujeito.”

O perseguidor principal é sempre do mesmo sexo que o do sujeito, e é idêntico, ou pelo menos representa claramente, a pessoa do mesmo sexo à qual o sujeito se mantém preso mais profundamente por sua história afetiva.” Coisa curiosa… Porque tirando o pai tirânico prototípico, os únicos seres capazes de me infligir qualquer dano psicológico nesse mundo são as mulheres organizadas em bando.

As idéias de grandeza não se exprimem na consciência do sujeito por nenhuma transformação atual de sua personalidade. Devaneios ambiciosos, projetos de reforma, invenções destinadas a mudar a sorte do gênero humano, elas têm sempre um alcance futuro, do mesmo modo que um sentido nitidamente altruísta. Elas apresentam assim características simétricas das idéias de perseguição. O mesmo conteúdo simbólico é aí fácil de ser reconhecido: ele se refere tanto numas quanto noutras ao ideal do eu do sujeito. Essas idéias podem não ser desprovidas de toda ação social efetiva e as idéias ditas de grandeza podem receber assim um início de realização. Já assinalamos, aliás, o caráter convincente que as ideologias dos paranóicos devem a sua raiz catatímica.”

O PATHOS: “Nenhuma nota clínica propriamente melancólica se observa no curso do delírio; apesar da tendência auto-acusadora particular que salientamos nas idéias delirantes, não se encontra nenhum sinal de inibição psíquica. No entanto, certos estados de exaltação passageira parecem corresponder a variações holotímicas e cíclicas do humor. A convicção delirante é poderosamente sustentada por essas variações positivas estênicas.

A dissimulação desses sujeitos se deve menos aos fracassos de suas tentativas de expansão que a determinada incerteza residual de suas crenças.” “O perigo que impõem a outrem as virtualidades reacionais desses sujeitos é inversamente proporcional ao paradoxo de seu delírio. Em outros termos, quanto mais as concepções do sujeito se aproximam do normal, mais ele é perigoso. Sérieux e Capgras já sublinharam o nível bem mais elevado do perigo apresentado pelos delirantes ditos reivindicadores (querelantes de Kraepelin), tanto em virtude da violência e da eficácia de sua reação agressiva [JJ] quanto de sua iminência imediata. Os paranóicos que descrevemos estão situados entre estes sujeitos e os interpretativos [este seria eu, um ‘paranóide atenuado’], cujas reações mais tardias e menos eficazes Sérieux e Capgras já observam.

a manutenção da psicose depende da permanência do conflito gerador.”

As indicações profiláticas se impõem antes de mais nada. Elas devem se manter, para nossos sujeitos, a meio caminho de um isolamento social grande demais, que favorece o reforço de suas tendências narcísicas, e de tentativas de adaptação por demais completas, com cujos gastos afetivos eles não podem arcar, e que serão para eles a fonte de recalcamentos traumáticos. O isolamento total na natureza é uma solução válida, mas cuja indicação é puramente ideal.”

A estadia prolongada no meio familiar só fará provocar uma verdadeira estagnação afetiva, segunda anomalia, cujo efeito viria se acrescer ao distúrbio psíquico, que quase sempre foi determinado nesse próprio meio. Quando este meio, por fim, faltar (morte dos pais), a psicose encontraria, a clínica nos mostra a cada dia, seu terreno ótimo.”

A fórmula de atividade mais desejável para esses sujeitos é seu enquadramento numa comunidade laboriosa, à qual os liga um dever abstrato.” “Como professores, enfermeiras, ajudantes de laboratório ou de biblioteca, empregados, contramestres, eles revelarão qualidades morais de grande firmeza, ao mesmo tempo em que capacidades intelectuais em geral não-medíocres. Mas a sociedade moderna deixa o indivíduo num isolamento moral cruel, e de modo muito particularmente sensível nessas funções cuja situação intermediária e ambígua pode ser por si mesma a fonte de conflitos internos permanentes.”

Paris encerra, dispõe, consume ou consome a maior parte dos brilhantes infelizes cujos destinos foram chamados de profissões delirantes . . . Nomeio assim todos esses ofícios cujo principal instrumento é a opinião que se tem de si mesmo, e cuja matéria primeira é a opinião que os outros têm a seu respeito. As pessoas que os exercem, votadas a uma eterna candidatura, são necessariamente sempre afligidas por um certo delírio de grandeza que é atravessado e atormentado sem trégua por um certo delírio de perseguição. Neste povo de únicos reina a lei de fazer o que nunca ninguém fez, nem nunca fará. (…) Vivem apenas para obter e tomar duradoura a ilusão de serem sós, pois a superioridade não é senão uma solidão situada nos limites atuais de uma espécie. Cada um deles funda sua existência na inexistência dos outros, mas dos quais é preciso arrancar seu consentimento, o de que eles não existem. Eu me divirto, às vezes, com uma imagem física de nossos corações, que são feitos intimamente de uma enorme injustiça e de uma pequena justiça combinadas. Imagino que haja em cada um de nós um átomo importante entre nossos átomos, e constituído por dois grãos de energia que mais queriam é se separar. São energias contraditórias mas indivisíveis. A natureza as juntou para sempre, embora sejam furiosamente inimigas. Uma é o eterno movimento de um grande elétron posttivo, e este movimento inesgotável engendra uma seqüência de sons graves na qual o ouvido interior distingue sem nenhuma dificuldade uma profunda frase monótona: Há apenas eu. Há apenas eu. Há apenas eu, eu, eu . . . Quanto ao pequeno elétron radicalmente negativo, ele grita no ápice do agudo, fura e volta a furar de maneira mais cruel, o tema egotista do outro: Sim, mas há alguém… Sim, mas há alguém… Alguém, alguém, alguém... E outro alguém . . . Pois o nome muda com bastante freqüência . . .” Paul Valéry

O ENGAJAMENTO EM PEQUENAS ASSOCIAÇÕES DE INDIVÍDUOS COM FINS COMUNS COMO TERAPIA: “Sabe-se, por outro lado, que as tendências homossexuais recalcadas encontram nestas expansões sociais uma satisfação tanto mais perfeita quanto ao mesmo tempo é mais sublimada e mais garantida contra qualquer revelação consciente.” Realmente é assim: de células bolsonaristas a rodas literárias.

A técnica psicanalítica conveniente para estes casos ainda não está, segundo o testemunho dos mestres, madura. Aí está o problema mais atual da psicanálise e é preciso esperar que ele encontre sua solução. Pois uma estagnação dos resultados técnicos no seu alcance atual acarretaria logo o deperecimento da doutrina.”

urge corrigir as tendências narcísicas do sujeito por uma transferência tão prolongada quanto possível. Por outro lado, a transferência para o analista, despertando a pulsão homossexual, tende a produzir nesses sujeitos um recalcamento no qual a própria doutrina nos mostra o mecanismo maior do desencadeamento da psicose. (…) O mínimo que pode acontecer é o abandono rápido do tratamento pelo paciente. Mas, em nossos casos, a reação agressiva se dirige com muita freqüência contra o próprio psicanalista [e pra quem mais seria?], e pode persistir por muito tempo ainda, mesmo após a redução de sintomas importantes, e para o espanto do próprio doente. Por isso inúmeros analistas propõem, como condição primeira, a cura destes casos em clínica fechada. Notemos, entretanto, como uma outra antinomia do problema da psicanálise das psicoses, que a ação deste tratamento implica até aqui a boa vontade dos doentes como condição primeira.

PURO NADA TEÓRICO: “Por isso o problema terapêutico das psicoses nos parece tornar mais necessária uma psicanálise do eu do que uma psicanálise do inconsciente; quer dizer, é num melhor estudo das resistências do sujeito e numa experiência nova de sua <manobra> que ele deverá encontrar suas soluções técnicas.”

c.2) Métodos e Hipóteses de Pesquisa sugeridos por Nosso Estudo

Todo o delírio de Aimée, já o mostramos, pode, ao contrário, ser compreendido como uma transposição cada vez mais centrífuga de um ódio cujo objeto direto ela quer desconhecer. Curada, ela denega formalmente toda culpa que seria atribuída a esta irmã, apesar da atitude plenamente desumana que esta manifesta, então, para com ela.” Eu tenho uma tendência completamente centrípeta: a despeito de mim mesmo, só o que quero é me lembrar.

Parece-nos mesmo que ao conflito agudo e manifesto entre os pais correspondiam os raros casos de delírio paranóico precoce que vimos, a saber, em dois meninos de 14 e 16 anos: delírio nitidamente agressivo e reivindicador no mais jovem, delírio de interpretação típico no mais velho.”

Os pesquisadores italianos modernos, como já mencionamos anteriormente (cap. I, 1ª parte), esperam obter a chave das estruturas mentais da paranóia a partir de uma aproximação com as formas, definidas pelos sociólogos, do pensamento primitivo, chamado ainda de pensamento pré-lógico. Foram levados a esse caminho pelo espírito que sobrevive das teorias lombrosianas, e encontram o melhor apoio nos trabalhos da escola sociológica francesa contemporânea.”

esse caráter de necessidade pessoal que reveste para ela a obra literária, tudo isto se deve menos à psicose que aos traços precedentes? Certamente não, pois ela só conseguiu levar a cabo o que escreveu de melhor, e de mais importante, no momento mais agudo de sua psicose e sob a influência direta das idéias delirantes. A queda da psicose parece ter acarretado a esterilidade de sua pena. Não se pode dizer, ao contrário, que só uma instrução suficiente tanto dos meios de informação quanto de crítica, numa palavra, a ajuda social, faltou-lhe para que tenha realizado obra válida? Isto nos parece patente em inúmeras linhas de seus escritos. Todo aquele que nos lê evocará aqui, sem dúvida, o exemplo de um paranóico de gênio, de Jean-Jacques Rousseau. Consideremo-lo, pois, um instante, em função de nossa doente.” “Por outro lado, só um estudo histórico muito minucioso da atividade social e da atividade criadora do escritor poderia nos permitir julgar aquilo que seus próprios meios de expressão devem de positivo a sua anomalia mental: a saber, não só sua sensibilidade estética e seu estilo, mas seu poder de trabalho, suas faculdades de arrebatamento, sua memória especial, sua excitabilidade, sua resistência à fadiga, em suma, os diversos meios de seu talento e de seu ofício.”

MISTER INDIRETAS: “Nossa análise, manifestando a inanidade de toda gênese <racional> desses fenômenos,¹ retira todo valor dos argumentos puramente fenomenológicos sobre os quais certas doutrinas se fundam para opor radicalmente a interpretação, por um lado, e, por outro, os fenômenos <impostos>, xenopáticos, que chamamos ainda de <alucinatórios> por uma extensão admitida, embora discutível, do termo alucinação.”

¹ Nisso está plenamente certo.

Pode-se dizer que, ao contrário dos sonhos, que devem ser interpretados, o delírio é por si mesmo uma atividade interpretativa do inconsciente [e quem interpreta o delírio?]. Estamos diante de um sentido inteiramente novo que se oferece ao termo delírio de interpretação.”

Nada mais difícil de apreender que o encadeamento temporal, espacial e causal das intuições iniciais, dos fatos originais, da lógica das deduções, no delírio paranóico, seja ele o mais puro.”

O parentesco, por outro lado, das concepções que citamos com as produções míticas do folclore é evidente: mitos de eterno retorno, sósias e duplos dos heróis, mito da Fênix, etc.”

Notemos o seu parentesco mais inesperado com certos princípios gerais da ciência, a saber, os princípios de constância energética, ao menos na medida em que não os completam os princípios correlativos de queda e de degradação da energia. Este paralelo não surpreenderá aqueles para quem o belo livro de Meyerson (Cheminement de la pensée) houver mostrado a identidade formal dos mecanismos profundos de todo pensamento humano. Ele tornará claro, por outro lado, o fato, indicado por Ferenczi, da predileção manifesta em inúmeros paranóicos e parafrênicos (e também dementes precoces) pela metafísica e pelas doutrinas científicas que dela se aproximam.”

A última palavra da ciência é prever, e se o determinismo, o que acreditamos, se aplica em psicologia, deve nos permitir resolver o problema prático que a cada dia é colocado ao perito a propósito dos paranóicos, a saber, em que medida um sujeito dado é perigoso e, especialmente, é capaz de realizar suas pulsões homicidas.” “Os casos não são raros, na prática da perícia psiquiátrica, em que o assassinato constitui por si só todo o quadro semiológico da anomalia psíquica presumida.”

Um sujeito de que se pode dizer que levou uma vida exemplar pelo controle de si, pela doçura manifesta do caráter, pelo rendimento laborioso e pelo exercício de todas as virtudes familiares e sociais de repente mata: mata duas vezes e dois de seus mais próximos, com uma lucidez que revela a execução meticulosa dos crimes. Pensa em matar ainda e se matar em seguida, mas de repente se detém, como saciado. Ele vê o absurdo de seus crimes. Uma motivação, no entanto, o manteve até então: a de sua inferioridade, de seu destino votado ao fracasso. Motivação ilusória, pois nada em sua situação ia pior do que lhe era costumeiro, nem do que é comum a todos. Por um momento, no entanto, epifenômeno da impulsão-suicídio, o futuro se lhe afigurou fechado. Não quis abandonar os seus a suas ameaças, e começou o massacre. O primeiro crime, impulsivo, como acontece mais freqüentemente, mas preparado por uma longa obsessão; depois, no segundo crime, execução calculada, minuciosa, refinada. O exame psiquiátrico e biológico dos peritos, a observação prolongada durante vários meses em nosso serviço, só apresentaram depois do drama resultados totalmente negativos.” “Sua conduta sem faltas, a doçura quase humilhada de todo seu comportamento, em particular conjugal, assumem, só depois, um valor sintomático.”

o perigo maior, mais imediato, mais dirigido também, que os querelantes apresentam, depende do fato de que neles o impulso homicida recebe o concurso energético da consciência moral, do supereu, que aprova e justifica o impulso. Sem dúvida, a forma sem máscara sob a qual a obsessão criminosa aparece aqui na consciência e a hiperestenia hipomaníaca concomitante se devem a esta situação afetiva, que se apresenta como o inverso do complexo de autopunição. Ao contrário, nas psicoses autopunitivas, que, como já mostramos, se traduzem clinicamente por um delírio de interpretação, as energias autopunitivas do supereu se dirigem contra as pulsões agressivas provenientes do inconsciente do sujeito, e retardam, atenuam e desviam sua execução.”

Longe de se lastimar, como, com efeito, faz o querelante, por um prejuízo preciso, realizado, que é preciso fazer com que seu autor pague, o interpretativo crê sofrer por parte de seus perseguidores danos cujo caráter ineficaz, sempre futuro, puramente demonstrativo, é surpreendente para o observador, se ele escapar, aliás, à crítica do sujeito. Na maioria das vezes, é somente após um período não apenas dubitativo, mas longânime, que os sujeitos chegam a reagir. Mesmo esta reação, como aparece em nossa doente, terá primeiro um caráter por si mesmo demonstrativo, um valor de advertência, que deve freqüentemente permitir prevenir outros mais graves: o que, como já vimos, seguramente teria podido ser feito em nossa doente. Vê-se, enfim, que na medida mesma em que a reação assassina vai atingir um objeto que só suporta a carga de um ódio diversas vezes transferido, a própria execução, ainda que preparada, é com bastante freqüência ineficaz por falta de estenia.”

Inúmeros desses casos vêm à nossa memória: um desses sujeitos, de origem estrangeira, após dez anos de perseguição delirante, suportada sem reação grave, vai ter na casa de um banqueiro de sua nacionalidade, que ele implicou, sem conhecê-lo, na conspiração de seus inimigos, e o abate com cinco tiros de revólver. Notemos que, nesses casos, se o alívio afetivo se produz após o assassinato, a convicção delirante persiste.”

III. EXPOSIÇÃO CRÍTICA, REDUZIDA EM FORMA DE APÊNDICE, DO MÉTODO DE UMA CIÊNCIA DA PERSONALIDADE E DE SEU ALCANCE NO ESTUDO DAS PSICOSES

É o postulado que cria a ciência, e a doutrina, o fato.”

É de uma confusão bastarda desses dois primeiros pontos de vista [intuitivo-lingüístico x metafísico-fenomenológico], um e outro excluídos pelas próprias condições da ciência, que nasceu a doutrina das constituições psicopatológicas. Essa doutrina estava, portanto, destinada a se esgotar, no plano dos fatos, nesse verbalismo puro nas especulações escolásticas mais vazias de substância.

O ponto de vista do social no fenômeno da personalidade nos oferece, ao contrário, uma dupla tomada científica: nas estruturas mentais de compreensão que engendra de fato, ele oferece uma armadura conceitual comunicável; nas interações fenomenais que ele apresenta, ele oferece fatos que têm todas as propriedades do quantificável, pois são moventes, mensuráveis, extensivos.

(…)

Mas, inversamente, pela via dessas relações de compreensão, é o próprio individual e o estrutural [intuitivo e metafísico] que visamos a atingir, tão longe quanto possa ser cingido o concreto absoluto.”

fazemos uma hipótese: se rejeitamos aquelas das doutrinas clássicas, não deixamos nunca nós mesmos de pretender forjar uma. Essa hipótese, é que existe um determinismo que é específico da ordem definida nos fenômenos pelas relações de compreensibilidade humana. Esse determinismo, nós o chamamos de psicogênico. Essa hipótese merece o título de postulado; indemonstrável com efeito e pedindo um assentimento arbitrário, ela é em todos os pontos homóloga aos postulados que fundam legitimamente qualquer ciência e definem para cada uma, ao mesmo tempo, seu objeto, seu método e sua autonomia.”

Pode-se dizer que esta ciência é o complemento filosófico da ciência positiva, complemento tanto mais útil que, ao ignorar seu domínio, corre-se o risco de introduzir nessas matérias delicadas graves confusões metódicas.”

a idéia que funda a caracterologia de Klages, e que ele exprime como a manifestação na ordem humana de um conflito entre o Espírito e a Vida. Consideramos que tal ponto de vista não tinha lugar em um trabalho que se apresenta como inaugural de um método rigoroso em uma ciência puramente positiva. Notemos, no entanto, que ele não deixa de trazer clarezas profundas sobre o caso fundamental do nosso estudo.”

Ao leitor curioso por se iniciar nos problemas próprios da fenomenologia da personalidade, indiquemos, além dos trabalhos de uma exposição muito rigorosa de Klages, um livro que, por ser de uma composição um pouco confusa, permanece bastante sugestivo: o de Max Scheler, Nature et Formes de la Sympathie (trad. fran. de Lefebvre, Payot); particularmente as pp. 311-84, em que é estudado o problema, tão fundamental para toda a psiquiatria e psicologia empírica, dos fundamentos fenomenológicos do eu de outrem.”

Na tripla preeminência desses dados até aqui desconhecidos na psicose, a saber das anomalias do comportamento sexual, do papel eletivo de certos conflitos e de seu elo com a história infantil, não podemos deixar de reconhecer as descobertas da psicanálise sobre o papel primordial, em psicopatologia, da sexualidade e da história infantis.”

O único dado da técnica psicanalítica que tivemos em conta foi o valor significativo que atribuímos às resistências da personalidade do sujeito, ou seja, particularmente a seus desconhecimentos e denegações sistemáticos. Mas trata-se aí de uma reação psicológica cujo alcance, por ter sido brilhantemente utilizado pela psicanálise, nem por isso deixa de ter sido reconhecido bem anteriormente ao aparecimento desta ciência. Que nos seja suficiente, sem remontar mais acima, evocar a ênfase dada a essa reação pelos ensaístas e moralistas da tradição francesa, de La Rochefoucauld a Nietzsche.

dado o pouco de realidade apreendido até aqui pela nascente ciência da personalidade, estes postulados parecem oferecer apenas um pequeno ponto de apoio ao pensamento, sobretudo para os espíritos que se formaram somente nas representações da clínica, e cuja reflexão, por esse fato mesmo, não pode prescindir de imagens intuitivas.” Hoje mesmo li um parágrafo praticamente idêntico em Jung!

Lacan diz de forma um pouco mais polida: A Psicanálise permite-nos concluir que nossa paciente psicótica é lésbica, sádico-anal e incestuosa.

Filha de neurose, psicosinha é.

A própria noção de fixação narcísica, sobre a qual a psicanálise funda sua [a-]doutrina das psicoses, permanece muito insuficiente, como manifesta bem a confusão dos debates permanentes sobre a distinção do narcisismo e do auto-erotismo primordial – sobre a natureza da libido que concerne o eu (o eu sendo definido por sua oposição ao isso a libido narcísica provém do eu ou do isso?); sobre a natureza do próprio eu

¹ O problema capital da Psicanálise: eu e isso não podem ser opostos quando, de uma perspectiva nietzscheana, p.ex., muito mais lúcida e inclusive didática, eu e isso não passam de partições arbitrárias do próprio inconsciente. E mesmo no sistema formal estilizado do freudismo clássico a eterna necessidade de montar uma tópica tripartite nunca casa com necessidades terapêuticas de pacientes para-neuróticos (ou com a explicação da própria alma humana): como explicar que a instância da censura (supereu) não seja, ela sim, a que se opõe diametralmente ao isso, o inconsciente mais arcaico e profundo? Além disso, se não se considera o eu como contido no inconsciente, o problema só piora: ele está parte dentro, parte fora? Como é isso? Se queriam uma unidade mediadora, não deviam criar uma instância ex nihilo só para isso, sob pena de ter de lidar com “estrelas-do-mar que crescem dos braços amputados de uma primeira estrela-do-mar que se tentou matar”! E como se chama ou se dá a mediação isso-eu, e a eu-supereu? Existe mediação isso-supereu (sim, claro que existe, mas um freudiano ata suas mãos com seus a priori incautos – era para ser esse fraturado eu que acaba tendo uma identificação meramente negativa!)? O freudiano diria: isso e eu são polares, e mesmo com uma instância ‘no meio’, se relacionam – porém, objeta-se com bom senso: como o eu mais espontâneo estaria na periferia a consciência e o órgão de controle superegóico (a sociedade, os pais) por detrás, quando é visivelmente o inverso?!? Em suma, quanto mais se chafurda no “pseudo-empiricismo freudista”, mais a questão fica confusa e abstrata, senão insultante! Se não se deseja abrir mão de “um eu parte consciente, parte inconsciente”, melhor seria, para início de conversa, voltar a Nietzsche. Há um consciente e inconsciente, basta. Consciente e inconsciente são sistemas interrelacionados umbilicalmente. Basta. Ou, para ser ainda mais direto: só o que existe é o Inconsciente, sendo o consciente a ponta de fenômeno visível do iceberg humano. O resto não passa de especulação de vigaristas aproveitadores.

Narcisismo e punheta são sinônimos em diferentes níveis lingüísticos.

Deus sofre de despersonalização aguda grave.

Sabe-se, com efeito, que as primeiras bases desta concepção [revisionista do narcisismo – um primeiro cisma com Freud antes da segunda tópica de Freud?] são lançadas em um estudo de Abraham sobre a demência precoce, datado de 1908 [Die psychosexuellen Differenzen der Hysterie und der Dementia praecox].” Uma cratera lunar perto do sistema solar da loucura… Cem aninhos somente…

Digamos, no entanto, que a nosso ver a oposição freudiana do eu e do isso parece sofrer de uma dessas confusões, cujo perigo sublinhamos antes, entre as definições positivas e as definições gnoseológicas que se podem dar dos fenômenos da personalidade. Em outras palavras, a concepção freudiana do eu nos parece pecar por uma distinção insuficiente entre as tendências concretas, que manifestam esse eu e apenas como tais dependem de uma gênese concreta, e a definição abstrata do eu como sujeito do conhecimento.” “esse princípio de realidade só se distingue do princípio do prazer num plano gnoseológico e, assim sendo, é ilegítimo fazê-lo intervir na gênese do eu, uma vez que ele implica o próprio eu enquanto sujeito do conhecimento.”

Esse supereu, Freud o concebe como a reincorporação (termo aqui justificado, apesar de sua estranheza aparente no estudo de fenômenos psíquicos), como a reincorporação ao eu, de uma parte do mundo exterior. Essa reincorporação incide sobre os objetos cujo valor pessoal, do ponto de vista genético social em que nós mesmos definimos este termo, é maior: com efeito, ela incide nesses objetos que resumem em si mesmos todas as coerções que a sociedade exerce sobre o sujeito, sejam os pais ou seus substitutos. Como explicar essa reintegração? Por um fim puramente econômico, isto é, inteiramente submetido ao princípio do prazer.

Podemos observar que o sujeito é aliviado da tirania dos objetos externos na medida dessa introjeção narcísica, mas na medida também em que, em razão dessa introjeção mesma, ele reproduz esses objetos e lhes obedece.

Em que medida todas as funções intencionais do eu e mesmo as primeiras definições objetivas se engendram de maneira análoga, é o que só podemos esperar saber mediante as vias de pesquisas futuras, dentre as quais o estudo das psicoses ditas discordantes parece nos oferecer esperanças maiores.”

a questão que se coloca é a de saber se todo conhecimento não é de início conhecimento de uma pessoa antes de ser conhecimento de um objeto, e se a própria noção de objeto não é, para a humanidade, uma aquisição secundária.”

vemos que se nos impõem, no estudo genético e estrutural dessas tendências concretas, noções de equivalência energética que só podem ser fecundas. Essas noções, aliás, introduzem-se por elas próprias em toda pesquisa psicológica, uma vez que esta última vise aos fenômenos concretos.”

Sem esse recurso ao conceito energético, por exemplo, a concepção kretschmeriana dos caracteres permanece ininteligível.”

As pesquisas epistemológicas mais recentes demonstraram abundantemente que é impossível pensar cientificamente, e mesmo pensar simplesmente, sem implicar de algum modo os dois princípios fundamentais de uma certa constância assim como de uma certa degradação de uma entidade, a qual desempenha um papel substancial em relação ao fenômeno. A essa entidade, a noção de energia fornece sua expressão mais neutra e mais comumente empregada. De nossa parte, ressaltemos aí, de passagem, a aura que ela parece conservar da gênese, que é preciso lhe atribuir, como a tantas outras formas de estruturas conceituais, de uma intencionalidade primitivamente social.”

Nenhum estudo da psicose passional, na literatura francesa, parece-nos demonstrar maior penetração clínica e justeza na indicação das sanções sociais do que a bela monografia de Marie Bonaparte sobre o caso, que apaixonou a opinião pública, da sogra assassina, Sra. Lefebvre.”

Somente o exame da continuidade genética e estrutural da personalidade nos elucidará, com efeito, em que casos de delírio se trata de um processo psíquico e não de um desenvolvimento, isto é, em que casos se deve reconhecer a manifestação intencional de uma pulsão que não é de origem infantil, mas de aquisição recente e exógena, e de tal ordem que, de fato, certas afecções, como a encefalite letárgica, fazem-nos conceber sua existência, ao nos demonstrar seu fenômeno primitivo.”

Este <paralelismo> [automatismo mental], que supõe que toda representação é produzida por uma reação neurônica qualquer, arruína radicalmente toda e qualquer objetividade. Basta ler o livro de Taine sobre A inteligência, que dá a essa doutrina sua mais coerente exposição, para se convencer de que ela não permite de modo algum conceber em que diferem, por exemplo, a percepção e a alucinação. Aliás, Taine induz logicamente uma definição da percepção como <alucinação verdadeira>, que é a definição mesma do milagre perpétuo. Ao menos Taine concebia as conseqüências de sua doutrina. Mas seus epígonos, nossos contemporâneos, não se sentem mais embaraçados com elas. Eles as ignoram tranqüilamente. Desconhecendo o alcance heurístico dos preceitos de seus antecessores, eles os transformam nos propósitos sem conteúdo de uma rotina intelectual, e acreditam suprir, na observação dos fenômenos, os princípios de objetividade mediante afirmações gratuitas sobre sua materialidade.”

Vê-se aqui nosso acordo com a crítica definitiva das localizações cerebrais feita por Bergson em Matière et Mémoire. O conhecimento aprofundado dessa obra deveria ser, ousamos dizer, exigido de todos aqueles a que se confira o direito de falar de psicopatologia.”

Vê-se que, em nossa concepção, aqui concordante com Aristóteles, o meio humano, no sentido que lhe dá Uexküll, seria por excelência o melo social humano. Inútil ressaltar o quanto essa concepção se opõe às doutrinas, aliás arruinadas, da antropologia individualista do século XVIII, e particularmente a uma concepção como a do Contrato social de Rousseau, cujo caráter profundamente errôneo, de resto, assinala diretamente a estrutura mental paranóica própria de seu autor.”

se define o delírio como a expressão, sob as formas da linguagem forjadas pelas relações compreensíveis de um grupo, de tendências concretas cujo insuficiente conformismo às necessidades do grupo é desconhecido pelo sujeito. Esta última definição do delírio permite conceber, de um lado, as afinidades observadas pelos psicólogos entre as formas do pensamento delirante, e as formas primitivas do pensamento; de outro, a diferença radical que as separa pelo único fato de que umas estão em harmonia com as concepções do grupo e as outras não.”

Estejamos certos de que aqueles que não julgam esses esclarecimentos necessários, que são, convenhamos, de ordem metafísica, fazem eles próprios, sem que disso suspeitem, uma metafísica, mas da ruim, atribuindo constantemente a este fenômeno mental, definido só por sua estrutura conceitual – como a paixão, a interpretação, a fantasia imaginativa, o sentimento de xenopatia –, o alcance de um sintoma objetivo sempre equivalente a si mesmo.”

CONCLUSÕES

Uma medida válida dessas tendências só pode ser dada por um estudo experimental do sujeito, do qual, até o presente momento, somente a psicanálise nos oferece a técnica aproximada. Para essa avaliação, a interpretação simbólica do material das imagens vale menos a nossos olhos do que as resistências pelas quais se mede o tratamento. Em outros termos, no estado atual da técnica, e supondo-a perfeitamente conduzida, os fracassos do tratamento possuem, para a disposição à psicose, um valor diagnóstico igual e superior às suas revelações intencionais. Somente o estudo dessas resistências e desses fracassos poderá fornecer as bases da nova técnica psicanalitica, da qual esperamos, no que diz respeito à psicose, uma psicoterapia dirigida.”

PRIMEIROS ESCRITOS SOBRE A PARANÓIA

O PROBLEMA DO ESTILO E A CONCEPÇÃO PSIQUIÁTRICA DAS FORMAS PARANÓICAS DA EXPERIÊNCIA

Entre todos os problemas da criação artística, o que mais imperiosamente requer – e até para o próprio artista, acreditamos – uma solução teórica, é o do estilo.” “Segundo a natureza desta idéia, o artista, com efeito, conceberá o estilo como o fruto de uma escolha racional, de uma escolha ética, de uma escolha arbitrária, ou então ainda de uma necessidade sentida cuja espontaneidade se impõe contra qualquer controle, ou mesmo que é conveniente liberá-la por uma ascese negativa.”

esses postulados estão suficientemente integrados à linguagem corrente para que o médico que, dentre todos os tipos de intelectuais, é o mais constantemente marcado por um leve retardamento dialético, não houvesse acreditado ingenuamente que pudesse reencontrá-los nos próprios fatos. Além disso, não se deve desconhecer que o interesse pelos doentes mentais nasceu historicamente de necessidades de origem jurídica.”A partir daí, a questão maior que se colocou à ciência dos psiquiatras foi aquela, artificial, de um tudo-ou-nada da degradação mental (art. 64 do Código Penal).” “É o triunfo do gênio intuitivo próprio à observação, que um Kraepelin, ainda que engajado completamente nesses preconceitos teóricos, tenha podido classificar, com um rigor ao qual quase nada se acrescentou, as espécies clínicas cujo enigma devia, através de aproximações freqüentemente bastardas (de que o público retém apenas as senhas: esquirofrenia, etc.), engendrar o relativismo noumenal inigualado pelos pontos de vista ditos fenomenológicos da psiquiatria contemporânea. Essas espécies clínicas nada mais são que as psicoses propriamente ditas (as verdadeiras <loucuras> do vulgo).”

o delírio se revela, com efeito, muito fecundo em fantasias de repetição cíclica, de multiplicação ubiquista, de retornos periódicos sem fim dos mesmos acontecimentos, em pares e triplas dos mesmos personagens, às vezes como alucinações de desdobramento da pessoa do sujeito. Essas intuições são manifestamente próximas de processos muito constantes da criação poética e parecem uma das condições da tipificação, criadora do estilo.”

Os delírios, com efeito, não têm necessidade de nenhuma interpretação para exprimir, só por seus temas, e à maravilha, esses complexos instintivos e sociais que a psicanálise teve grande dificuldade em descobrir entre os neuróticos.”

pode-se afirmar que Rousseau, para quem o diagnóstico de paranóia típica pode ser aplicado com a maior certeza, deve a sua experiência propriamente mórbida a fascinação que exerceu em seu século por sua pessoa e por seu estilo.”

o gesto criminoso dos paranóicos comove às vezes tão longe a simpatia trágica, que o século, para se defender, não sabe mais se ele deve despojá-lo de seu valor humano ou então oprimir o culpado sob sua responsabilidade.”

MOTIVOS DO CRIME PARANÓICO: O CRIME DAS IRMÃS PAPIN

o drama se desencadeia muito rapidamente, e sobre a forma do ataque é difícil admitir uma outra versão que a que deram as irmãs, a saber, que ele foi súbito, simultâneo, levado de saída ao paroxismo do furor: cada uma delas subjuga uma adversária, arranca-lhe, em vida, os olhos da órbita – fato inédito, dizem, nos anais do crime – e a espanca. Depois, com a ajuda do que encontram a seu alcance, martelo, pichel de estanho, faca de cozinha, elas se encarniçam no corpo de suas vítimas, esmagam-lhes as faces, e, deixando à mostra o sexo delas cortam profundamente as coxas e as nádegas de uma para ensagüentar as da outra. Lavam, em seguida, os instrumentos desses ritos atrozes, purificam-se a si mesmas, e deitam-se na mesma cama: <Agora está tudo limpo!>”

No decorrer de uma outra crise, ela tenta arrancar os olhos, por certo que em vão, porém com algumas lesões. A agitação furiosa necessita desta vez a aplicação de camisa-de-força; ela se entrega a exibições eróticas, depois aparecem sintomas de melancolia: depressão, recusa de alimentos, auto-acusação, atos expiatórios de um caráter repugnante; depois disso, várias vezes, ela diz frases de significação delirante. Lembremos que a declaração de Christine de ter simulado tais estados não pode de modo algum ser tida como a chave real de sua natureza: o sentimento de jogo é nesse caso freqüentemente sentido pelo sujeito, sem que seu comportamento seja por isso menos tipicamente mórbido.

A 30 de setembro, as irmãs são condenadas pelo júri. Christine, entendendo que sua cabeça será cortada na praça de Mans, recebe esta notícia de joelhos.

Contudo, as características do crime, os problemas de Christine na prisão, a estranheza da vida das irmãs, haviam convencido a maioria dos psiquiatras da irresponsabilidade das assassinas.”

Christine pergunta como estão passando suas duas vítimas e declara que acredita que elas voltaram num outro corpo”

É provável mesmo que elas sairiam dos quadros genéricos da paranóia para entrar no das parafrenias, isolado pelo gênio de Kraepelin como formas imediatamente contíguas.”

Ouviu-se, no decorrer dos debates, a surpreendente afirmação de que era impossível que dois seres fossem tomados juntos pela mesma loucura, ou antes a revelassem simultaneamente. É uma afirmação completamente falsa. Os delírios a dois estão dentre as formas das psicoses reconhecidas desde há muito. As observações mostram que eles se produzem eletivamente entre parentes próximos, pai e filho, mãe e filha, irmãos e irmãs.” “Nossa experiência precisa destes doentes nos fez hesitar, contudo, diante da afirmação, sobre a qual muitos passam por cima, da realidade de relações sexuais entre as irmãs. Por isso é que somos gratos ao doutor Logre pela sutileza do termo <casal psicológico>, em que se percebe sua reserva quanto a este problema. Os próprios psicanalistas, quando fazem derivar a paranóia da homossexualidade, qualificam esta homossexualidade de inconsciente, de <larvar>. Essa tendência homossexual só se exprimiria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor. Mas o que é esta tendência singular que, tão próxima assim de sua revelação mais evidente, ficaria sempre dela separada por um obstáculo singularmente transparente?”

O <mal de ser dois> de que sofrem esses doentes pouco os libera do mal de Narciso.”

parece que entre elas as irmãs não podiam nem mesmo tomar a distância que é preciso para se matar. Verdadeiras almas siamesas, elas formam um mundo para sempre fechado; lendo seus depoimentos depois do crime, diz o doutor Logre, <tem-se a impressão de estar lendo duplo>. Com os únicos meios de sua ilhota, elas devem resolver seu enigma, o enigma humano do sexo.”

Que longo caminho de tortura ela teve de percorrer antes que a experiência desesperada do crime a dilacerasse de seu outro si-mesmo, e que ela pudesse, depois de sua primeira crise de delírio alucinatório, em que ela acredita ver sua irmã morta, morta sem dúvida por esse golpe, gritar, diante do juiz que as confronta, as palavras da paixão manifesta: <Sim, digo sim.>”

A curiosidade sacrílega que constitui a angústia do homem desde as priscas eras, é ela que as anima quando desejam suas vítimas, quando elas acossam em suas feridas hiantes [escancaradas] o que Christine mais tarde, perante o juiz, devia chamar, em sua inocência, <o mistério da vida>.”

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

Abraham, Versuch einer Entdwicklungsgeschichte der Libido

Aravantinos, Esculape et les Asclépiades, 1907. [Livro sobre as observações psiquiátricas da Antiguidade]

Chaslin, La Confusion mentale primitive

Delmas, La Personnalité humaine

Exposito, Sulle natura e Sull’unità delle cosidette psicosi affective (artigo)

Ey, La notion de constitution, Essai critique (artigo)

Génil-Perrin, Les Paranoïaques

Heuyer, Le devinement de la pensée, 1926. (artigo)

Janet, Obsessions et psychasthénie

Jaspers, Psicopatologia Geral (favoritos – passeidireto)

Jung, Der Inhalt der Psychosen

Keraval, Des délires plus ou moins cohérents désignés sous le nom de paranoïa (artigo)

Lasègue, “Délire des persécutions”, in Études médicales, t. I.

Legrand du Saulle, Délire de persécution (sobre a coincidência do mesmo distúrbio em pares familiares)

Pode-se ler aí, entre outros fatos, que o ancestral da linhagem, paranóico hipocondríaco, aterrorizava seus filhos com ameaças de morte – que fazia uso de sua filha, a mais inteligente das crianças e sua preferida, para escrever enquanto ditava suas memórias –, que, enfim, irritando-se com suas próprias dificuldades de estilo (sintoma paranóico), <mandava sua filha embora brutalmente ou a retinha para fazê-la dependurar-se numa porta até que caísse em síncope>. Não é de espantar então que após uma educação como esta, a menina, de todas as crianças, viesse [a] apresentar, por volta dos 50 anos, <um delírio de perseguição dos mais intensos com insuperáveis tendências ao suicidio>.”

Meyer, “What do histories of cases of insanity teach us concerning preventive mental hygiene during the years of school life”, in Psychological Clinic, 1908, t. II.

Régis, Les Régicides, 1890.

Russell, Analyse de l’esprit

Séglas, La Paranoïa, historique et critique

Sérieux & Capgras, Les folies raisonnantes [As loucuras racionais][*], 1906.

[*] SOBRE A OPÇÃO DE TRADUÇÃO DO TÍTULO: “Consultar a tradução brasileira de Paulo César Geraldes & Sonia Ioannides (sob supervisão de Ulysses Vianna Filho) do Manual de Psiquiatria, de Henri Ey, Ed. Masson, Rio, 1981.

Tanzi & Lugaro, Trattato delle malattie mentali, t. II.

Tarde, Philosophie pénale, 1890.

White & Jelliffe, The philosophy of occupation therapy, in Arch. of occupational therapy, z.

ÉCRITS «INSPIRÉS»: SCHIZOGRAPHIE – Lacan, en collaboration avec Lévy-Valensi et Migault, 1931. In: Annales médico-psychologiques, t. II. Traduzido. Íntegra em https://escritosavulsos.com/1931/11/12/escritos-inspirados-esquizografia/

Gaëtan Gatian de Clérambault [1872-1934] é considerado, por muitos, o último e mais brilhante dos clássicos. Obteve, em 1905, o cargo de médico adjunto da Enfermaria Especial do Comando de Polícia, onde já era interno de Paul-Émile Garnier [1848-1905]. Com a morte de Ernest Dupré [1862-1921], que havia sido seu professor, torna-se médico-chefe da instituição. Lacan o considerava seu <único mestre em psiquiatria> (cf. C.M. Ramos Ferreira; J. Santiago [2014] Apresentação de pacientes: Clérambault, mestre de Lacan. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. 17, n. 2. São Paulo, junho de 2014. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/1984-0381v17n2a05>). Ademais, cumpre notar que Clérambault entendeu o presente artigo como sendo uma divulgação não-autorizada das suas próprias ideias a respeito da paranoia, de modo que Lacan suprimirá o texto quando da reedição de sua tese de doutorado, onde figurarão outros de seus <Primeiros escritos sobre a paranoia>. (N. do T.)”

Jules Séglas [1856-1939] — alienista hospitalar entre os anos de 1886 e 1921 e presidente da Sociedade Médico-Psicológica (1908) — vinha minorando, desde o ano de 1914, o aspecto sensório-motor do fenômeno alucinatório; aproximava-o, assim, ainda mais do delírio e, portanto, de certa psicogên[e]se da alucinação. Anos depois, criticará sua primeira teoria da alucinação, baseada na excitação dos <centros nervosos> — teoria que, na época, já não sustentava mais a comparação com a clínica moderna da afasia. Com isso, a clínica da alucinação vai se articulando com a ideia de uma patologia da linguagem interna, e as alucinações psicomotoras acabam se equivalendo a uma exofasia (a linguagem interna se aliena do sujeito e o pensamento se articula quase que automaticamente em movimento). Séglas distingue isso da hiperendofasia, que seria o excesso da linguagem interna — que ele acredita estar mais próximo da auditivação e da perseguição. Cf. P. La Sagna, ‘Séglas et le système de l’Autre Méchant’, La cause freudienne, vol. 74, n. 1, pp. 201-221. Disponível em: <www.cairn.info/revue-la-cause-freudienne-2010-1-page-201.htm>. Cf. também: J. Séglas, ‘Hallucinations psychiques et pseudo-hallucinations verbales’, Journal de psychologie normale et pathologique, vol. 11, 1914. (N. do T.)”

Mentismo noturno: “De acordo com o alienista Philippe Chaslin [1857-1923], trata-se de um fluxo rápido e incontrolável de pensamentos e imagens que o sujeito não consegue interromper, tipicamente acompanhado de ansiedade e ocorrendo geralmente quando se está para dormir, causando insônia. (N. do T.)”

Georges Clemenceau [1841-1929] foi um médico francês que cedo se tornaria estadista, integrando a Assembleia Nacional. Atuando como jornalista, fundou o periódico La Justice e foi o responsável pela publicação do famigerado J’accuse de Émile Zola, em 13 de janeiro de 1898, no jornal L’Aurore, do qual era editor-chefe. Foi senador e primeiro-ministro, chefiando o país durante a Primeira Guerra Mundial. (N. do T.)”

Acreditei compreender que estão fazendo do meu caso uma questão parlamentar… mas é tão velado, tão difuso”

Lipotimia: “Perda de força muscular, porém sem perda de consciência, com conservação das funções respiratória e cardíaca. É acompanhada de palidez, suores frios, vertigens, zumbido nos ouvidos e a impressão de desmaio iminente. (N. do T.)”

Acrescentemos aqui algumas notas sobre o estado somático da doente. Elas são negativas, sobretudo. Cumpre reter: uma gripe em 1918 [isso é grave, doutor!!]; um cafeinismo evidente; um regime alimentar irregular; um tremor nítido e persistente nos dedos” Oops…

A LÍNGUA ESTÁ SEMPRE VOLTANDO: “Em todo caso, vale ressaltar que, no campo dos estudos da linguística diacrônica, reconhece-se a presença da forma amur na linha histórica que culmina no termo francês moderno — de modo que o neologismo da paciente poderia ser entendido, de certa maneira, também como um arcaísmo. Cf. Christian Schmitt, ‘Cultisme ou Occitanisme? Étude sur la provenance du français amour et ameur’, Romania, 1973, vol. 376, pp. 433-462. Disponível em: <www.persee.fr/doc/roma_0035-8029_1973_num_94_376_2386>. (N. do T.)”

Eu sou irmão do rato mau que te enrouca se você faz a rota da mãe do sabiá fuinha e refeito de pinho, mas, se você é sol e poeta de feitos, eu banco o Revisto, desse lugar eu vou sair. Botei a pata no teu patavina. Tempestade é uma ova, tua cova compro eu Senhor.

Marcelle Ch. no xadrez é nada cortês com os poetas sem vez, mas deixa cem vez mais esquifes que mil patifes.

Genin.(*)”

Em 10 de novembro pede-se à doente que escreva aos médicos uma carta curta em estilo normal. Ela logo o faz, em nossa presença e com sucesso. Pede-se a ela, em seguida, que escreva um post-scriptum seguindo as suas <inspirações>. Aqui está o que ela nos oferece:

Post-Scriptum inspirado.

Queria descobri-los os mais inéditos senhores na marmota do mico mas estão aterrados porque os odeio a ponto de querê-los todos salvos. Fé d’Arma e de Marna para ensafadá-los e fazê-los chorar o fardo alheio, o meu não.

Marna do diabo.”

Vale lembrar que Marne au diable [Marna do diabo] evoca La mare au diable [O charco do diabo], o título de um romance campestre da autoria de George Sand [1804-1876] e que havia sido publicado em 1846. O livro conta a história de Germain(*), um jovem viúvo que, após cair num luto profundo com o falecimento da esposa — que havia deixado o marido e três filhos —, procura se casar novamente, encorajado pelo sogro. Ao saber que havia uma viúva numa região vizinha (Catherine Guerin) que também estava procurando se casar de novo, Germain vai ao seu encontro acompanhado de Marie — uma moça cuja guarda lhe foi confiada e irá trabalhar numa fazenda perto do local onde mora a viúva — e de um dos filhos, que embarca clandestinamente na viagem. No entanto, um temporal tira o grupo do caminho, fazendo com que busquem refúgio numa floresta, onde passam a noite ao lado de um charco — episódio decisivo para o restante da história. (N. do T.)”

Frequentemente o fim da carta preenche a margem. Nenhuma outra originalidade de disposição. Não há sublinhados.

Nenhuma rasura. O ato de escrever, quando o testemunhamos, realiza-se sem interrupção, como que sem pressa.”

A doente afirma que aquilo que ela exprime lhe é imposto, não de uma forma irresistível — nem mesmo rigorosa —, mas de um modo já formulado. É, no sentido forte do termo, uma inspiração.

Essa inspiração não a perturba quando escreve uma carta em estilo normal na presença do médico. Ela advém, em contrapartida — e, ao menos episodicamente, é sempre acolhida —, quando a doente escreve sozinha. Mesmo numa cópia dessas cartas, destinada a ser guardada, ela não descarta uma modificação do texto que lhe é <inspirada>.”

Para os escritos recentemente compostos, na maioria das vezes ela oferece interpretações que aclaram o mecanismo de sua produção. Só nos damos conta disso quando nos submetemos a uma análise objetiva. Com Pfersdorff, atribuímos a toda interpretação dita <filológica> um valor apenas de sintoma.” Nota do tradutor: “Charles Pfersdorff [1875-1953], médico que havia se formado na Kaiser-Wilhelms-Universität (Estrasburgo), passou a atuar como assistente na Clínica Médica do Hospital Civil da cidade em 1899. Foi para Viena em 1901 a fim de estudar seis meses com Richard von Krafft-Ebing [1840-1902]; e no ano seguinte, para Heidelberg, onde estudou com Emil Kraepelin [1856-1926] durante um ano. Já tendo atuado como professor na Universidade de Estrasburgo antes da Guerra — que o levou à frente de batalha, mantendo-o afastado da docência —, retorna à cidade em 1917 e, em 1919, assume a cátedra de psiquiatria, da qual será titular até o ano de 1945. Suas contribuições se deram em torno de três temas principais: a demência precoce, a esquizofrenia (especialmente do ponto de vista dos aspectos linguísticos) e as crianças com deficiência intelectual.”

estado de estenia que acompanha as inspirações”

Eu faço a língua evoluir. É preciso sacudir todas essas velhas formas”

Henry Head [1861-1940] foi um neurologista inglês que realizou pesquisas pioneiras no campo dos sistemas sensoriais. Seu último grande trabalho, Aphasia and kindred disorders of speech [Afasia e outros distúrbios da fala aparentados], foi avaliado por Macdonald Critchley (The black hole and other essays [London: Pitman, 1964]) como <a melhor monografia sobre o tema da afasia na literatura neurológica”. Ao descrever a “afasia semântica> nessa obra, Head propõe um vínculo entre os aspectos linguísticos e intelectuais da fala, algo cujas implicações posteriormente receberiam crédito e ampliação de afasiologistas moderno[s]. (N. do T.)”

Numa primeira abordagem eles estão reduzidos ao mínimo. Contudo, encontram-se elisões silábicas que incidem frequentemente — ponto digno de nota — na primeira sílaba; assaz frequentemente o esquecimento de uma partícula, no mais das vezes de uma preposição: por ou de etc. Acaso se trata daqueles curtos barramentos ou inibições do curso do pensamento que fazem parte dos sutis fenômenos negativos da esquizofrenia? O fato é ainda mais difícil de afirmar por conta de a doente dar dele interpretações delirantes. Ela suprimiu esse e ou aquele de porque ele teria botado a sua iniciativa a perder. Nos escritos ela faz alusão a isso.”

A ruminação mental consiste no retorno obsedante dos mesmos pensamentos improdutivos ou das mesmas preocupações, dominados pela dúvida, sem que possam ser descartados da consciência. (N. do T.)”

as palavras pamonha, de onde derivam pamonhuda e pamonhona, que são xingamentos que designam sempre a sua principal inimiga, a Srta. G…”

Em passagens bem mais raras, o vínculo sintático é destruído e os termos formam uma sequência verbal organizada pela associação assonante de tipo maníaco (…) Em parte, a fadiga condiciona essas formas, que são mais frequentes no final das cartas.”

Os experimentos feitos por alguns escritores sobre um modo de escrita que eles chamaram de <surrealista>, e cujo método descreveram muito cientificamente, mostram o grau de notável autonomia a que podem chegar o[s] automatismos gráficos fora de toda e qualquer hipnose.”

Ao cabo de nossa análise, constatamos ser impossível isolar na consciência mórbida o fenômeno elementar, psicossensorial ou puramente psíquico, que seria o núcleo patológico ao qual a personalidade que permaneceu normal reagiria. O distúrbio mental nunca está isolado.”

Nada é, em suma, menos inspirado — no sentido do espírito — do que esse escrito sentido como inspirado. É quando o pensamento é curto e pobre que o fenômeno automático o suplementa. Ele é sentido como exterior porque suplementa um déficit do pensamento. Ele é julgado como válido porque é convocado par uma emoção estênica.”

A respeito da esquizofasia/esquizografia e seus efeitos na história da psicanálise através da teorização tardia de Jacques Lacan, bem como sua relação com a vanguarda poética e literária da época, cf. F. Hulak, ‘Schizographie, l’avant-garde d’un symptôme’, L’Évolution Psychiatrique, vol. 82, n. 2, abr.–jun. de 2017, pp. 279-290. Disponível em: <www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0014385515001140>. Cf. também: J. Chénieux-Gendron, ‘Jacques Lacan, L’Autre de André Breton’. In: É. Marty,  Lacan et la littérature. Paris: Éditions Manucius, 2005, pp. 27-48. [Em português: <Jacques Lacan, ‘O Outro’ de André Breton> (Trad. R.E. Franco), Manuscrítica, n. 29, 2015. Disponível em: <www.revistas.fflch.usp.br/manuscritica/article/view/2351>.

ANTES DE BRASÍLIA SÓ EXISTIA O RIO DE JANEIRO (E uma viagem à Paris flaubertiana)

ARQUITETURA BRASILEIRA – Lúcio Costa & al.

Serviço de Documentação – Ministério da Educação e Saúde (Os Cadernos de Cultura).

DEPOIMENTO DE UM ARQUITETO CARIOCA

No segundo quartel do século XIX, o arquiteto francês Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny, formado na prestigiosa tradição acadêmica então em voga, conseguia finalmente, depois de longos anos de penosas atribulações e mal-disfarçada hostilidade, dar início ao ensino regular da arquitetura no próprio edifício construído por ele para sede da recém-fundada Academia de Belas-Artes.

Integrava-se assim, oficialmente, a arquitetura do nosso país no espírito moderno da época, ou seja, no movimento geral de renovação inspirado, ainda uma vez, nos ideais de deliberada contensão plástica próprios do formalismo neoclássico, em contraposição, portanto, ao dinamismo barroco do ciclo anterior, já então impossibilitado de recuperação, ultrapassadas que estavam as suas últimas manifestações, cujo <desenho irregular de gosto francês> — segundo expressão da época — motivara, pejorativamente como de praxe, o qualificativo de rococó.” Brasileiro será a raça que mais aprecia ‘botar apelidos’?

Neste segundo quartel do século XX, apenas encerrado, aportou à Guanabara um compatriota do ilustre mestre, procedente como ele da mesma École des Beaux Arts, velha matriz das instituições congêneres espalhadas pelo mundo, — mas, desta vez, simples aluno e especialmente credenciado pelo presidente do Diretório Acadêmico da referida escola — o Grand Massier — para coligir material relacionado com a nossa arquitetura moderna, a fim de organizar uma exposição no recinto daquele tradicional estabelecimento de ensino, e de assim corresponder ao excepcional interesse ali despertado pelas realizações da arquitetura brasileira contemporânea.”

Semelhante empreendimento, verdadeiramente digno dos tempos novos, no dizer do autor, e capaz de valorizar a excepcional paisagem carioca por efeito do contraste lírico da urbanização monumental, arquitetonicamente ordenada, com a liberdade telúrica e agreste da natureza tropical, foi qualificada como irreal e delirante, porque em desacordo cem as possibilidades do nosso desenvolvimento; porque o brasileiro, individualista por índole e tradição, jamais se sujeitaria a morar em apartamentos de habitação coletiva [?]; porque a nossa técnica, o nosso clima… enfim, a velha história da nossa singularidade: como se os demais países também não fossem cada qual <diferentes> a sua maneira.”

Houve procura; houve capitais; houve capacidade técnica e houve até mesmo, nalguns casos, qualidade arquitetônica. Faltou apenas a necessária visão.” Hehe.

como explicar que, de um lado, a proverbial ineficiência do nosso operariado, a falta de tirocínio técnico dos nossos engenheiros, o atraso da nossa indústria e o horror generalizado pela habitação coletiva se pudessem transformar a ponto de tornar possível, num tão curto prazo, tamanha revolução nos <usos e costumes> da população, na aptidão das oficinas e na proficiência dos profissionais; e que, por outro lado, uma fração mínima dessa massa edificada, no geral de aspecto vulgar e inexpressivo, pudesse alcançar o apuro arquitetônico necessário para sobressair em primeiro plano no mercado da reputação internacional, passando assim o arquiteto brasileiro, da noite para o dia e por consenso unânime da crítica estrangeira idônea, a encabeçar o período de renovação que vem atravessando a arquitetura contemporânea, quando ainda ontem era dos últimos a merecer consideração?”

Se, com respeito ao surto edificador e ao modo de morar, os fatos se explicam como decorrência mesma de umas tantas imposições de natureza técnica e econômico-social, outro tanto não se poderá dizer quanto à revelação do mérito excepcional daquela porção mínima do conjunto edificado, já que a febre construtora dos últimos 25 anos não se limitou, apenas, às poucas cidades do nosso país mas afetou toda a América, a África branca e o Extremo Oriente, sem que adviesse daí qualquer manifestação com iguais características de constância, maturidade e significação; e, ainda agora, a reconstrução européia não deu lugar, ao contrário do que fôra de esperar, senão a raros empreendimentos dignos de maior atenção, como, por exemplo, o caso excepcional de Marselha.”

O desenvolvimento da arquitetura brasileira ou, de modo mais preciso, os fatos relacionados com a arquitetura no Brasil nestes últimos cinqüenta anos, não se apresentam concatenados num processo lógico de sentido evolutivo; assinalam apenas uma sucessão desconexa de episódios contraditórios, justapostos ou simultâneos, mas sempre destituídos de maior significação e, como tal, não constituindo, de modo algum, estágios preparatórios para o que haveria de ocorrer.”

Dois fatores fundamentais condicionaram a natureza das transformações (…) a abolição (…) O negro era esgoto; era água corrente no quarto, quente e fria; era interruptor de luz e botão de campainha; o negro tapava goteira e subia vidraça pesada; era lavador automático, abanava que nem ventilador.”

Aliás, a criadagem negra e mestiça foi precursora da americanização dos costumes das moças de hoje: as liberdades de conduta, os <boy-friends>, os <dancings> e certos trejeitos vulgares já agora consagrados nos vários escalões da hierarquia social.”

Data de então, além da construção de casas minúsculas em lotes exíguos, os pseudo-bungalows, a brusca aparição das casas de apartamentos — o antigo espantalho da habitação coletiva — solução já então corrente alhures, mas retardada aqui em virtude precisamente daquelas facilidades decorrentes da sobrevivência tardia da escravidão.”

[?] Quando li “habitação coletiva” pela 1a vez pensei imediatamente em apartamentos que fossem divididos por várias famílias – curioso como hoje apartamento se identifica totalmente com a acepção de <individual> e <privado>!

O segundo fator, de ação ainda mais prolongada e tremenda repercussão internacional, porque origem da crise contemporânea, cujo epílogo parece cada vez mais distante —, foi a revolução industrial do século XIX.”

Estabeleceu-se, desse modo, o divórcio entre o artista e o povo: enquanto o povo artesão era parte consciente na elaboração e evolução do estilo da época, o povo proletário perdeu contato com a arte. Divórcio ainda acentuado pelo mau gosto burguês do fim do século, que se comprazia, envaidecido, no luxo barato dos móveis e alfaias da produção industrial sobrecarregada de enfeite pseudo-artístico, enquanto a arquitetura, hesitante entre o funcionalismo neo-gótico do ensino de Viollet-le-Duc e as reminiscências do formalismo neoclássico do começo do século, se entregava aos desmandos estucados dos cassinos e aos espalhafatosos empreendimentos das exposições internacionais, antes de resvalar para as estilizações, destituídas de conteúdo orgânico-estrutural, do <art-nouveau> de novecentos.”

desde o mundialmente famoso Palácio de Cristal, da exposição de Londres de 1851 (velho de um século — e ainda se invoca a <precipitação> do modernismo!), do elegante molejo das caleches [palavra importada sem alteração do francês – “Viatura de tração animal, de dois assentos de frente um para o outro e quatro rodas, aberta por diante”] e do tão delicado e engenhoso arcabouço dos guarda-chuvas — versão industrializada do modêlo oriental — até as cadeiras de madeira vergada a fogo, ou de ferro delgadíssimo, para jardim, e as estruturas belíssimas criadas pelo gênio de Eiffel.”

Conquanto a planta da casa ainda preservasse a disposição tradicional do império, com sala de receber à frente, refeitório com puxado de serviço aos fundos e duas ordens de quartos ladeando extenso corredor de ligação, cuja tiragem garantia a boa ventilação de todos os cômodos, o seu aspecto externo modificara-se radicalmente; não só devido à generalização dos porões habitáveis, de pé direito extremamente baixo em contraste com a altura do andar, e que se particularizavam pelos bonitos gradeados de malha miúda (como defesa contra os gatos), mas por causa da troca das tacaniças [“cada um dos lanços triangulares laterais do telhado, em telhados de quatro águas com planta retangular, por oposição à água-mestra”] do telhado tradicional, de quatro águas [“cada uma das vertentes de um telhado”] pela dupla empena [“parede lateral de um edifício, geralmente sem janelas ou aberturas, através da qual um edifício pode encostar a outro”] do chalet, na sua versão local algo contrafeita por pretender atribuir certo ar faceiro ao denso retângulo edificado.” !!!

os jardins, filiados ainda aos traçados românticos de Glaziou, faziam-se mais caprichosos, com caramanchões, repuxos, grutas artificiais, pontes à japonesa e fingimentos de bambu; os elaborados recortes de madeira propiciados pela nova técnica de serragem guarneciam os frágeis varandins e as empenas, cujos tímpanos se ornavam com estuques estereotipados, enquanto os vidros de côr ainda contribuíam para maior diferenciação.”

as couçoeiras [soleira, peça oca feita para girar o eixo da porta] e frisos [barras] de pinho de Riga para o madeiramento dos telhados e vigamento dos pisos e respectivo soalho, chegavam aqui mais baratos e mais bem-aparelhados que a madeira nativa; as telhas mecânicas Roux-Frères, de Marselha, eram mais leves e mais seguras; os delgados esteios e vigas procedentes dos fornos de Birmingham ou de Liège facilitavam a construção dos avarandados corridos de abobadilhas [“abóbadas de tijolo pouco côncavas”] à prova de cupim. Vidraças inteiriças Saint Gobain, papéis pintados para parede, forros de estamparia, mobílias já prontas, lustres para gás e arandelas [aparadeiras ou luminárias] vistosas, lavatórios e vasos sanitários floridos — tudo se importava, e a facilidade relativa das viagens aumentava as oportunidades do convívio europeu.”

COM O PERDÃO DO TROCADILHO DUPLO, FAZ UMA ESTILIZAÇÃO DA REVOLUÇÃO TÉCNICA (SUPERESTIMAÇÃO DA ‘ECONOMIA’ COMO MOTOR DO MUNDO): “A distinção entre transformações estilísticas de caráter evolutivo, embora por vêzes radicais, processadas de um período a outro na arte do mesmo ciclo econômico-social — e, portanto, de superfície —, e transformações como esta, de feição nìtidamente revolucionária, porquanto decorrentes de mudança fundamental na técnica da produção — ou seja, nos modos de fabricar, de construir, de viver —, é indispensável para a compreensão da verdadeira natureza e motivo das substanciais modificações por que vem passando a arquitetura e, de um modo geral, a arte contemporânea, pois, no primeiro caso, o próprio <gôsto>, já cansado de repetir soluções consagradas, toma a iniciativa e guia a intenção formal no sentido da renovação do estilo, ao passo que, no segundo, é a nova técnica e a economia decorrente dela que impõem a alteração e lhe determinam o rumo — o gôsto acompanha. Num, simples mudança de cenário; no outro, estréia de peça nova em temporada que se inaugura.” Temporada de caça ao arco-da-velha

Não foi pois, em verdade, sem propósito que o começo do século se revestiu, no Rio de Janeiro, das galas de um autêntico espetáculo. O urbanismo providencial do prefeito Passos, criador das belas avenidas Beira-Mar e Central, além de outras vias necessárias ao desafogo urbano, provocara o surto generalizado de novas construções, dando assim oportunidade à consagração do ecletismo arquitetônico, de fundo acadêmico, então dominante.

É comovente reviver, através dos artigos do benemérito Araújo Viana, a inauguração, a 7 de setembro de 1904, do eixo da Avenida, iluminada com <70 lâmpadas de arco voltaico e 1200 lâmpadas incandescentes>, além dos grandes painéis luminosos, quando o bonde presidencial a percorreu de ponta a ponta, aclamado pelo cândido entusiasmo da multidão.

Em pouco tempo brotava do chão, ao longo da extensa via guarnecida de amplas calçadas de mosaico construídas por calceteiros importados, tal como o calcário e o basalto, especialmente de Lisboa, toda uma série de edificações de vulto e aparato, para as quais tanto contribuíam conceituados empreiteiros construtores, de preferência italianos, como os Januzzi e Rebecchi, quanto engenheiros prestigiosos que dispunham do serviço de arquitetos anônimos, franceses ou americanos — os nègres, da gíria profissional — e, finalmente, arquitetos independentes a começar pelo mago [!!] Morales de los Ríos, cuja versatilidade e mestria não se embaraçavam ante as mais variadas exigências de programa, fôsse a nobre severidade do próprio edifício da Escola — então dirigida por Bernardelli e exemplarmente construída, embora hoje, internamente desfigurada —, ou o gracioso Pavilhão Mourisco de tão apurado acabamento e melancólico destino.

Enquanto tal ocorria nas áreas novas do centro da cidade, nos arrebaldes o chalet caía de moda, refugiando-se pelos longínquos subúrbios, e, nos bairros elegantes de Botafogo e Flamengo — onde, mesmo antes do fim do século, construíam-se formalizados <vilinos> de planta simétrica, poligonal ou ovalada, e aparência distinta (como, por exemplo, à rua Laranjeiras, 29) e, noutro gênero e com outra intenção, toda uma série de casas irmãs, combinando sabiamente a pedra de aparelho irregular, com as cercaduras e cornijas de tijolos aparentes, protegidas por amplos beirais de inspiração a um tempo tradicional e florentina (ruas Cosme Velho, Bambina, Álvaro Chaves) — já começava a prevalecer nova orientação.”

#CarasErudita “à Avenida Atlântica, esquina de Prado Júnior, onde morou Tristão da Cunha, agora desmantelada e inerme à espera do fim e que ainda ostenta no cunhal o timbre do arquiteto Silva Costa (…) a casa já demolida onde residiu, também no Leme, dona Lúcia Coimbra, née Monteiro” Saudosa Dona Lúcia viúva de Coimbrinha, saudoso Tristão, ah meu compadre Costinha (nepotismo, sempre bom), bons tempos aqueles!

o tão simpático atelier dos irmãos Bernardelli, afoitamente demolido” Dommage!

a sede social do Jockey Club, anteriormente ao acréscimo de 1925 que tanto a desfigurou”

Com o primeiro pós-guerra, outras tendências vieram a manifestar-se. O sonho do <art-nouveau> se desvanecera, dando lugar à <arquitetura de barro>, modelada e pintada por aquele prestidigitador exímio que foi Virzi, artista filiado ao <modernismo> espanhol e italiano de então, ambos igualmente desamparados de qualquer sentido orgânico-funcional e, portanto, destituídos de significação arquitetônica.”

Simultàneamente, ocorria também a arquitetura residencial cem por cento tedesca [X-Kroots!] de Riedlinger e seus arquitetos (construtores do típico Hotel Central), caracterizada pelo deliberado contraste do rústico pardo ou cinza — <à vassourinha> — das paredes, com o impecável revestimento claro dos grandes frontões de contorno firme; pelo nítido desenho da serralheria e pelos caixilhos brancos e venezianas verdes da esquadria de primorosa execução. O apuro germânico da composição se completava com o sólido e sombrio mobiliário de Laubistch Hirth, e era ainda realçado pela pintura esponjada à têmpera, com medalhões e enquadramentos de refinado colorido, obra dos pintores austríacos Vendt e Treidler — este, renomado aquarelista.”

Foi contra essa fei[ú]ra de cenários arquitetônicos improvisados que se pretendeu invocar o artificioso revivescimento formal do nosso próprio passado, donde resultou mais um <pseudo-estilo>, o neocolonial, fruto da interpretação errônea das sábias lições de Araújo Viana, e que teve como precursor Ricardo Severo e por patrono José Mariano Filho.

Tratava-se, no fundo, de um retardado ruskinismo, quando já não se justificava mais, na época, o desconhecimento do sentido profundo implícito na industrialização, nem o menosprezo por suas conseqüências inelutáveis. Relembrada agora, ainda mais avulta a irrelevância da querela entre o falso colonial e o ecletismo dos falsos estilos europeus: era como se, no alheamento da tempestade iminente, anunciada de véspera, ocorresse uma disputa por causa do feitio do toldo para <garden-party>.”

Assim como a Avenida Central marcou o apogeu do ecletismo, também o pseudo-colonial teve a sua festa na exposição comemorativa do centenário da Independência, prestigiado como foi pelo prefeito Carlos Sampaio, o arrasador da primeira das quatro colinas — Castelo, S. Bento, Conceição, Santo Antônio — que balisavam o primitivo quadrilátero urbano, arrasamento aliás necessário e já preconizado desde 1794, segundo apurou o arquiteto Edgard Jacinto, por D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, Bispo que foi de Pernambuco e Elvas e Inquisidor-Geral —, apenas não se levou na devida conta a criteriosa recomendação para que se orientassem as ruas no sentido da viração da barra.”

Adolfo Morales de los Ríos Filho, o incansável paladino da regulamentação profissional. Conquanto se possa discordar, com fundamento, da justiça dessa delimitação entre arquitetos de verdade e de mentira, quando a proficiência pode estar na ordem inversa — os franceses, por exemplo, ficariam privados dos seus dois arquitetos mais representativos, embora de tendências opostas, Le Corbusier e Auguste Perret —, do ponto de vista restrito dos interesses de classe, justificava-se então a medida. É que, na época, ainda persistia na opinião leiga certa tendência no sentido de considerar o engenheiro civil uma espécie de faz-tudo, cabendo-lhe responder por todos os setores das atividades liberais que se não enquadrassem na alçada do médico ou do advogado. Além de teórico do cálculo e da mecânica e especialista de estruturas, hidráulica, eletrotécnica e viação, presumiam-no ainda — ao fim do currículo de 5 anos — químico, físico, economista, administrador, sanitarista, astrônomo e arquiteto.” “a burrice especializada a que pode eventualmente conduzir a fragmentação cada vez maior dos vários setores do conhecimento profissional”

Conquanto seja de fato, e cada vez mais, ciência, a arquitetura se distingue contudo, fundamentalmente, das demais atividades politécnicas, porque, durante a elaboração do projeto e no próprio transcurso da obra, envolve a participação constante do sentimento no exercício continuado de escolher entre duas ou mais soluções, de partido geral ou pormenor, igualmente válidas do ponto de vista funcional das diferentes técnicas interessadas — mas cujo teor plástico varia —, aquela que melhor se ajuste à intenção original visada.”

A PLANTA DE UMA CIDADE DESARBORIZADA

o edifício de A Noite pode ser considerado o marco que delimita a fase experimental das estruturas adaptadas a uma <arquitetura> avulsa, da fase arquitetônica de elaboração consciente de projetos já integrados à estrutura e que teria, depois, como símbolo definitivo, o edifício do Ministério da Educação e Saúde.”

EIS O ÔMI: “o poeta, engenheiro, artista e olindense Joaquim Cardoso, que há cerca de 20 anos, a princípio com Luís Nunes, agora com Oscar Niemeyer e José Reis, vem dando a colaboração de seu lúcido engenho às realizações modernas da arquitetura brasileira, devedora, ainda, a 2 engenheiros, além dos que, na Faculdade, contribuem decisivamente para a formação do arquiteto: Carmen Portinho, traço vivo de união, desde menina, entre Belas-Artes e Politécnica, e Paulo Sá, dedicado desde a primeira hora ao problema arquitetônico fundamental da orientação e insolação adequada dos edifícios.”

o primeiro rebelado modernista da Escola, já em 1919, na aula de pequenas composições de arquitetura, foi Atílio Masieri Alves, filho do erudito Constâncio Alves, ex-aluno da Politécnica, entusiasta da cenografia de Bakst e da mímica de Chaplin — mentalidade privilegiada que a boêmia perdeu”

METARGAMASSA: “o primeiro edifício construído sôbre pilotis tem 20 anos, pois data de 1931 e foi projetado por Stelio Alves de Souza“os pilotis, cuja ordenação arquitetônica decorre do fato de os edifícios não se fundarem mais sôbre um perímetro maciço de paredes, mas sôbre os pilares de uma estrutura autônoma”

Construído na mesma época, com os mesmos materiais e para o mesmo fim utilitário, avulta no entanto, o edifício do ministério em meio à espessa vulgaridade da edificação circunvizinha, como algo que ali pousasse serenamente, apenas para o comovido enlevo do transeunte despreocupado, e, vez por outra, surpreso à vista de tão sublimada manifestação de pureza formal e domínio da vazão sôbre a inércia da matéria.

É belo, pois. E não apenas belo, mas simbólico, porquanto a sua construção só foi possível na medida em que desrespeitou tanto a legislação municipal vigente, quanto a ética profissional e até mesmo as regras mais comezinhas do saber-viver e da normal conduta interesseira.” HAHAHA!

A personalidade de Oscar Niemeyer Soares Filho, arquiteto de formação e mentalidade genuinamente cariocas — conquanto, já agora, internacionalmente consagrado — soube estar presente na ocasião oportuna e desempenhar integralmente o papel que as circunstâncias propícias lhe reservavam e que avultou, a seguir, com as obras longínquas da Pampulha. Desse momento em diante o rumo diferente se impôs e nova era estava assegurada.

Assim como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em circunstâncias muito semelhantes, nas Minas Gerais do século XVIII, êle é a chave do enigma que intriga a quantos se detêm na admiração dessa obra esplêndida e numerosa devida a tantos arquitetos diferentes, desde o impecável veterano Afonso Eduardo Reidy e dos admiráveis irmãos Roberto, de sangue sempre renovado, ao atuante arquiteto Mindlin, transferido para aqui de São Paulo e às surpreendentes realizações de todos os demais, tanto da velha guarda, quanto da nova geração e até dos últimos conscritos.”

CONSIDERAÇÕES SÔBRE ARTE CONTEMPORÂNEA

Dando “continuidade” ao que acabo de ler em Dorfles, Lúcio Costa paga pau ao sepultado Bauhaus!

Pode-se então definir a arquitetura como construção concebida com a intenção de ordenar plasticamente o espaço, em função de uma determinada época, de um determinado meio, de uma determinada técnica e de um determinado programa.”

As técnicas construtivas contemporâneas — caracterizadas pela independência das ossaturas em relação às paredes e pelos pisos balanceados, resultando daí a autonomia interna das plantas, de caráter <funcional-fisiológico>, e a autonomia relativa das fachadas, de natureza <plástico-funcional>, — tornaram possível, pela primeira vez na história da arquitetura, a perfeita fusão daqueles dois conceitos dantes justamente considerados irreconciliáveis [na essência, seguindo Costa, a arquitetura gótica e a arquitetura clássica], porque contraditórios: a obra, encarada desde o início como um organismo vivo, é, de fato, concebida no todo e realizada no pormenor de modo estritamente funcional, quer dizer, em obediência escrupulosa às exigências do cálculo, da técnica, do meio e do programa, mas visando sempre igualmente a alcançar um apuro plástico ideal, graças à unidade orgânica que a autonomia estrutural faculta e à relativa liberdade no planejar e compor que ela enseja. É na fusão desses dois conceitos, quando o jogo das formas livremente delineadas ou geomètricamente definidas se processa espontânea ou intencionalmente, ora derramadas, ora contidas, que se escondem a sedução e as possibilidades virtuais ilimitadas da arquitetura moderna.

AS 8 GRANDES ARQUITETURAS PRÉ-CONTEMPORÂNEAS DE LÚCIO COSTA

arte mediterrânea (egípcio-greco-etrusco-romano-bizantina): de contensão, de geometria maximamente euclidiana, atemporal

arte gótica: expansional, vertical, pela primeira vez uma arte européia ou histórica, do devir

arte barroca: no equilíbrio sinuoso das tendências acima

arte hindu: autorreferente, autossuficiente; embora dinâmica, consegue ser o contrário da gótica. A arte khmer pode ser catalogada logo ao lado (origem indo-chinesa).

arte eslava: espiral, ansiosa, ideal

arte árabe: tendente ao mosaico, à compartimentalização em pequenos universos por si mesmos dotados de sentido

arte iraniana: ramificada, expansiva como a pétala duma flor

arte sino-japonesa: vertical porém mais gradual e menos direta que a gótica; costuma terminar em pontas, edificações de topo agudo. “telhados escalonados dos pagodes”

* * *

GENEALOGIA DA SÍNTESE MODERNA

Arte mesopotâmica (eixo mesopotamo-mediterrâneo): protoarte estática

Arte assíria (eixo nórdico-oriental): protoarte dinâmica

* * *

CASOS HISTÓRICOS PONTUAIS

Arte helenística: “barroco antigo”; o drama do começo da luta da arte dinâmica contra a arte estática ou clássica.

Arte bizantina: sob influência eslava e italiana, vê-se como seu exemplo capital a Igreja do Bem-Aventurado Basílio (Catedral de São Basílio), em Moscou:

Saint_Basils_Cathedral
É como nenhum outro edifício russo. Nada semelhante pode ser encontrado no milênio inteiro da tradição bizantina, do século V ao XV.” Shvidkovsky

Arte veneziana: verdadeiro caleidoscópio de influências de quase todas as correntes arquitetônicas ao seu redor.

Artes árabe-iraniano-peninsulares: decorrentes das invasões muçulmanas no ocidente europeu, no Irã, no Paquistão, na Síria, no norte da África.

Arte ultra-barroca: Portugal sob D. Manoel. Na verdade o nome é um anacronismo, visto que foi anterior ao próprio barroco e à vida de Michelangelo. O entrechoque precoce e extremado das estéticas românica (estática, clássica) e oriental (dinâmica).

Assim, portanto, a constância do ciclo <clássico-barroco> ou <clássico-romântico>, observada pela acuidade intelectual do Sr. Eugênio D’Ors, teria outro fundamento, e significação ainda mais profunda, porquanto já não se trataria apenas, em essência, dos tempos sucessivos de um pêndulo, mas, principalmente, da ocorrência simultânea de duas correntes bem-definidas de conceitos plásticos antagônicos e dos seus contatos e trocas, senão mesmo da sua eventual fusão.”

Arte Renascentista e Nacionalismos: correção de rota da <arte dinâmica exacerbada>: “Conquanto na Itália essa legítima recuperação dos direitos de cidadania ocorresse com espontâneo desembaraço desde as primeiras revelações, seguidas da plenitude do Quattrocento, até a eloqüência da alta-renascença, na Europa do norte a nova concepção formal provocou, de início, perplexidades, adquirindo gradações bem-definidas segundo o caráter nacional dos diferentes povos afetados pela febre renovadora.”

Arte germânico-eslava pós-Renascença: gótico “monolítico”, quase ao ponto do kitsch avant la lettre. Proto-barroco.

Arte neo-anglo-saxônica: fusão do estilo inglês com o neoclassicismo. Infunde-se também no Novo Mundo (assim como o barroco influenciaria muitos pontos coloniais latinos).

Arte francesa: possui uma evolução toda particular difícil de resumir.

Artes pré-colombianas: Arte azteca x Arte inca, reprodução em microescala da dualidade-antagonismo dinamismo x estática. Arte maia, no olho do furacão: considerada híbrida. Obviamente arquiteturas como a mexicana e a peruana são altamente tributárias desta ascendência civilizacional.

Lúcio Costa estende sua teoria da dualidade hegemônica ou “yin-yang plástico” à cerâmica oposta de grupos de tribos e etnias indígenas brasileiras (Marajó x Santarém).

* * *

WELCOME TO POST-MODERNITY! “informação no tempo — as obras criadas na mais remota idade são-nos familiares nos seus mínimos pormenores; informação no espaço — as realizações de maior significação, elaboradas onde quer que seja, vêm-nos ao alcance quase instantaneamente através da publicação nos periódicos especializados, com abundância de texto elucidativo e de reproduções fidelíssimas, ou diretamente, por meio das exposições individuais ou coletivas, dos cursos de conferências e da literatura especializada.

Esse acúmulo de conhecimentos faz com que o artista moderno viva, a bem dizer, saturado de impressões provenientes de procedências as mais imprevistas, o que o impede de conduzir o seu aprendizado e formação no sentido único e com a candura desprevenida dos antigos, pois, queira-o ou não, êle se há de revelar precocemente erudito.”

ESTILO OU EX-TILO?

Ora, não é, de modo algum, de monstros que se trata, e nada há de caótico nem de artìsticamente feio ou doentio nessas criações picassianas concebidas e ordenadas segundo os imperativos de uma consciência plástica excepcionalmente sã e lúcida, e das quais se desprende, graças à pureza da côr e do desenho, uma euforia travessa, ou se expande um otimismo heróico contagioso, quando não é o caso de se conterem, pelo contrário, no mais sereno equilíbrio. (…)

Semelhante equívoco sobreveio também a propósito da pseudo-querela entre partidários da arte <figurativa> e da arte <não-figurativa>, distinção destituída de sentido do ponto de vista plástico, mas retomada por ocasião da exposição da obra significativa de PORTINARI, em Paris, e ùltimamente avivada.” Confesso que Costa era um homem à frente de sua década.

os símbolos, tal como os mitos na antiguidade, já perderam, em parte, a força sugestiva e a sua condição de estimuladores das artes plásticas”

a arte pela arte como função social, nova conceituação capaz de desfazer o pseudo-dilema que preocupa a tantos críticos e artistas contemporâneos, ou seja, o da gratuidade ou militância da obra de arte.”

A presunção de ser a arte pela arte antítese de arte social é tão destituída de sentido como a antinomia arte figurativa—arte abstrata, não passando, em verdade, de uma deformação teórica inexplicavelmente aceita pela crítica de arte, a título de tabu, assim como se fosse, por exemplo, ato condenável a prática do bem só por bondade.”

Precisamente esse poder de invenção desinteressada e de livre expansão criadora, que tanto se lhes recrimina, é que poderá vir a desempenhar, dentro em breve, uma função social de alcance decisivo, passando a constituir, de modo imprevisto, o fundamento mesmo de uma arte vigorosa e pura, de sentido otimista, digna portanto de um proletariado cada vez mais senhor do seu destino.”

Mas como é preciso semear para colher, caberia mobilizar os velhos mestres, criadores geniais da arte do nosso tempo, a fim de que dedicassem o resto de suas vidas preciosas à tarefa benemérita de plantar no meio agreste dos centros industriais e agrícolas as sementes de uma tal renovação.”

tese — a arte moderna é considerada por certa crítica, de lastro conservador, como arte revolucionária, patrocinada pelo comunismo agnóstico no intuito de desmoralizar e solapar os fundamentos da sociedade burguesa; antítese — a arte moderna é considerada por determinada crítica, de lastro popular, como arte reacionária, patrocinada pela plutocracia capitalista com propósitos diversionistas a fim de afastar os intelectuais da causa do povo; síntese — a arte moderna deve ser considerada como o complemento lógico da industrialização contemporânea, pois resultou das mesmas causas, e tem por função, do ponto de vista restrito da aplicação social, dar vazão natural aos anseios legítimos de livre escolha e fantasia individual ou coletiva da massa proletária, oprimida pela rudeza e monotonia do trabalho mecanizado imposto pelas técnicas modernas de produção.”

Industrialização capaz de transferir o imemorial anseio de justiça social do plano utópico para o plano das realidades inelutáveis.”

DOZE JOVENS POETAS PORTUGUÊSES – Alfredo Margarido & Carlos Eurico da Costa

O poeta maneja o chicote de 72 pontas, de 72 línguas. É o senhor das palavras e, no silêncio, valoriza-as e recria-as. Doloroso e trágico esforço de transportar o vaso sagrado para a forma do Verbo, traído a cada instante pela instabilidade de cada vocábulo.”

Resulta de tudo isto que o sentido de superfície, o sentido usual, tem muito pouca importância e pode mesmo não existir. O que importa é o sentido da profundidade, a descida, de escafandro ou nu, mantendo uma vaga ligação de tubo de oxigênio com o mundo ou fazendo dos pulmões guelras, às regiões abissais, onde vivem os peixes cegos e as vegetações são estranhas flores fosforescentes.” HAHAHA

POEMA DO CERCADINHO DO PALÁCIO DO PLANALTO

o cerrado está errado em hipocampo aberto

cheio de abetos

retorcidos

rescindidos

redivivos

divididos

subversivos

versos sub

servientres

inchados

de enxadas de

candangos

dançando o

tango

do centro

trocando bugalhos

por alhos

A procura do amor é a procura de um absoluto. Diferentes dos seus antecessores na poesia portuguesa, estes poetas procuram com o sexo, com o plexo solar [???], com o grande simpático. Poder-se-á dizer que a função se degrada, mas a verdade é que o amor é um ato válido por si, independente do sentimento.”

O que finca os poetas afundam

FORMA E EXPRESSÃO DO SONETO – Paulo Mendes Campos

Depois do modernismo, inimigo do soneto, foi VINÍCIUS DE MORAIS que começou a criar gosto pelo soneto de forma regular. Os novos o seguiram, e muitos poetas e não-poetas protestaram contra o retorno a esse velho hábito de nossa lírica; a geração do soneto, sem procedência, passou a ser um apelido irônico, talvez no propósito mais ou menos válido de mostrar que é ocupação ociosa compor sonetos certos em um tempo errado. Sabem no entanto os poetas, ou se não sabem adivinham, que os tempos nunca foram certos, e que o primeiro dever a lhes pesar é para com a linguagem. A reação irritada contra o soneto vinha apenas mostrar que este voltava a ter um papel em nossa poesia atual. É possível que amanhã nos cansemos de novo do soneto.”

O PREGO & E A BOSSA

LUGARES-COMUNS – Fernando Sabino

Não houvesse o Eclesiastes afirmado que nada há de novo debaixo do sol e os lugares-comuns se encarregariam de prová-lo. Que restará da verdade para quem a repete, senão talvez a presunção de sua originalidade?”

Ora, se as idéias se impõem pela repetição, porque ao homem é mais cômodo adotá-las que produzi-las, nada melhor que repetir o que pretendemos impor-lhe. É o recurso característico da propaganda de ideologias totalitárias. O que se dá com as idéias, dá-se também com a publicidade de produtos comerciais e a dos próprios homens. É possível impor um homem aos demais pela simples repetição — o que se pode verificar por ocasião das campanhas eleitorais.”

uma sapataria do Rio de Janeiro tentou certa vez vencer o lugar-comum pelo oposto, afirmando ser a menor e a que mais caro vendia — mas o público, habituado aos métodos tradicionais de propaganda, que o dispensam de pensar por conta própria, mansamente acreditou no que se afirmava, passando a buscar outra sapataria.”

Experimente alguém escapar ao repertório de idéias feitas já estabelecido para as diferentes situações da vida em comum; experimente elidir os gestos convencionais, lugares-comuns da convivência: os de surpresa, de alegria, de interesse ou comiseração — o sorriso de modéstia, de gentileza, de agradecimento; experimente, enfim, reagir segundo sua genuína solicitação interior — e será tido por louco, afastado como indesejável.”

O homem é um animal racional, embora não pareça. Não há criança que, ao aprender essa verdade na escola, não se tenha rido.”

À medida que o discurso laudatório se tornava em mera técnica de louvor, a Retórica, observa Curtius, vinha perdendo a sua aplicação e tornava-se o cabedal das formas da literatura em geral. Esta passou a impor-se como algo fixo, preestabelecido e estratificado em modos de dizer que era de bom gosto repetir. <Por este tempo>, escreve Rodrigues Lapa, <em que os poetas mendigavam com sonetos as migalhas que caíam das mesas dos fidalgos e dos conventos abastados, julgava-se que a língua era uma construção mais ou menos fixada pelo bom uso. Para se escrever bem, nada mais era necessário que seguir à risca o exemplo dos antigos, escolhendo no espólio das formas herdadas o que mais conviesse a cada um>. E o mesmo filólogo dá notícia do Dicionário Poético para Uso dos que Principiam a Exercitar-se na Poesia Portuguesa Obra Igualmente Útil ao Orador Principiante, de autoria de Cândido Lusitano, publicado em Lisboa ao tempo do Marquês de Pombal, em 1765. Obras deste gênero, repositórios sistematizados de lugares-comuns, seriam hoje consultadas por um escritor apenas para saber como NÃO se deve escrever.”

Nenhum homem rico terá amigos que não sejam numerosos. Todas as firmas da praça comercial serão sempre respeitáveis.”

Num país como a França, cuja literatura, supercivilizada, chegou à saturação, é natural que a inteligência se limite a comprazer-se em jogos sutis: não há mais originalidade alguma na tão preconizada originalidade de estilo; negá-la é que é ser original. Pois se os olhos forem mesmo deslumbrantes, as pedras, preciosas, os dedos, delicados, que estas palavras sejam ditas, escritas com todas as letras, para que se imponham pela verossimilhança do que exprimem, como meio de transmissão de uma idéia e não como fim em si mesmas. Porque é preciso distinguir, menos com a inteligência que pela sensibilidade: a lua pálida, o céu estrelado, o lago tranqüilo não são lugares-comuns senão para os que apenas verificam a tranqüilidade do lago, o brilho das estrelas no céu e a palidez da lua. Têm o direito de verificar, é inegável; mas ao leitor cabe também o direito de esperar que tirem desta verificação algum proveito.”

DICIONÁRIO DE IDÉIAS FEITAS, de Gustavo Flaubert

Tu me falas da estupidez geral, meu caro amigo, escrevia Flaubert, pouco antes de morrer, a Raoul Duval, ah! eu a conheço, eu a estudo. Eis aí o inimigo, não há mesmo outro inimigo. Obcecado em combater este inimigo, esperava ainda denunciá-lo com uma obra gigantesca que receberia o título de Enciclopédia da Estupidez Humana.”

Depois que morreu, contudo, encontraram entre os seus papéis um caderno de apenas quarenta páginas, com o título de Dictionnaire des Idées Reçues. Era tudo que chegara a realizar do projeto formulado durante tantos anos, mas já o suficiente para fazer de Flaubert o precursor de James Joyce, na opinião de Ezra Pound (…) A 1° edição foi lançada somente em 1911, como apêndice de Bouvard et Pécuchet; o texto continha 674 verbetes, redigidos sem preocupação de forma e mesmo de ortografia, classificados mais ou menos em ordem alfabética.

ACADEMIA FRANCESA — Atacá-la, mas procurar fazer parte dela, se possível.

AFRESCOS — Não se fazem mais hoje em dia.

AGRICULTURA — Um dos úberes do Estado (o Estado é do gênero masculino, mas isso não tem importância). Deveria ser encorajada. Falta de braços.

ALABASTRO — Serve para descrever as mais belas partes do corpo feminino. Racistas miseráveis!

ALEMANHA — Sempre precedida de loura, sonhadora. Mas que organização militar!

ALFÂNDEGA — Revoltar contra e fraudá-la.

ALGARAVIA — Maneira de falar comum aos estrangeiros. Rir sempre do estrangeiro que fala mal francês.

ALIMENTAÇÃO — Sempre sadia e abundante nos colégios.

AMBICIOSO — Na província, todo homem que faz falarem de si. Dizer sempre “Não sou ambicioso!”. Egoísta ou incapaz.

AMÉRICA — Belo exemplo de injustiça: foi Colombo quem a descobriu, e seu nome vem de Américo Vespúcio. Sem a descoberta da América, não teríamos a sífilis e a filoxera. Exaltá-la, apesar disso, sobretudo quando lá não se esteve. Fazer um comentário sôbre o “self-government”.

ANDORINHAS — Chamá-las sempre de mensageiras da primavera. Como se ignora de onde vêm, dizer que vêm de longínquas regiões (poético).

ANTICRISTO — Voltaire.

ANTIGUIDADES (AS) — São sempre de fabricação moderna.

APARTAMENTO (De rapaz) — Sempre em desordem; com lembranças de mulher aqui e ali. — Cheiro de cigarro. Devem-se encontrar nele coisas extraordinárias.

AQUILES — Acrescentar “de pés ligeiros”; isso fará crer que se leu Homero.

ARQUIMEDES — Dizer ao ouvir seu nome: “Eureka!” — “Dêem-me um ponto e erguerei o mundo.” — Há ainda a máquina de Arquimedes, mas ninguém sabe do que se trata.

ARQUITETOS — São todos imbecis. — Esquecem sempre a escada das casas.

ARQUITETURA — Não há senão 4 espécies de arquitetura. Bem entendido que não se contando a egípcia, a ciclópica, a assíria, a hindu, a chinesa, gótica, romana, etc.

ARTE — Leva sempre ao hospital. Inútil, pois pode ser substituída pelas máquinas, que fabricam melhor e com mais rapidez.

ARTISTAS — Todos farsantes. Louvar seu desinteresse (antigo). Espantar-se de que se vistam como todo mundo (antigo). Ganham um dinheirão mas atiram-no pela janela. Sempre convidados a jantar na cidade. — Mulheres artistas não podem ser senão devassas. — O que eles fazem não se pode chamar de trabalhar.

ASTRONOMIA — Bela ciência. Não é útil senão para a Marinha. A propósito, rir-se da astrologia.

ATRIZES — A perdição dos filhos de família. São de uma lubricidade espantosa, entregam-se a orgias, gastam milhões, terminam no hospital. Perdão! há muitas que são boas mães de família!

AUTOR — Deve-se “conhecer os autores”. Inútil saber seus nomes.

BACHARELADO — Clamar contra.

BALÕES — Com os balões, acabaremos por ir à lua. Ainda não está próximo o dia em que os poderemos dirigir.

BANQUEIROS — Todos ricos. Árabes, linces.

BANQUETE — Um engraçado deve dizer: “No banquete da vida, conviva infortunado…”
BARBA — Sinal de força. Muita barba faz cair os cabelos. Útil para proteger as gravatas.

BASES DA SOCIEDADE — A propriedade, a família, a religião, o respeito às autoridades. Falar com cólera se são atacadas.

BASÍLICA — Sinônimo pomposo de igreja. — Sempre imponente.

BENGALA —- Mais temível que a espada.

BESOURO —- Filho da primavera. Belo assunto para um opúsculo. Sua destruição radical é o sonho de todo prefeito: quando se fala de seus danos num discurso de comício agrícola, deve-se tratá-lo por “coleópteros funestos”.

BIGODES — Dão um ar marcial.

BUDISMO — “Falsa religião da Índia” (definição do Dicionário Bouillet, 1ª edição).

CAÇA — Excelente exercício que se deve fingir que se adora. Faz parte da pompa dos soberanos. Assunto de delírio para a magistratura.

CADAFALSO — Preparar-se quando subir, para pronunciar algumas palavras eloqüentes antes de morrer.

CAFÉ — Não é bom a não ser vindo do Havre. — Num grande jantar, deve-se tomar de pé. Tomá-lo sem açúcar, muito elegante, dá o ar de haver vivido no Oriente.

CALDO (O) — É saudável. Inseparável da palavra sopa: a sopa e o caldo.

CALIGRAFIA — Uma bela caligrafia conduz a tudo. Indecifrável: prova de ciência. Ex.: receitas de médicos.

CALO (NOS PÉS) — Indica mudanças do tempo melhor que os barômetros. Muito perigoso quando mal-cortado; citar exemplos de acidentes terríveis.

CALOR — Sempre insuportável. Não beber quando faz calor.

CALVÍCIE — Sempre precoce, causada por excesso de mocidade ou pela concepção de grandes pensamentos.

CAMARILHA — Indignar-se ao pronunciar esta palavra. (Verbete atualizado para GABINETE DO ÓDIO em janeiro de 2019.)

CANHOTOS — Terríveis na esgrima. — Mais hábeis do que os que se servem da mão direita.

CÃO — Especialmente criado para salvar a vida de seu dono.

CARROS — Mais cômodo alugá-los que possuí-los: desta maneira não se tem aborrecimento com empregados, nem cavalos que estão sempre doentes.

CARNICEIROS — São terríveis, em época de revolução.

CARRASCO — Passa sempre de pais a filhos.

CATAPLASMA — Deve-se sempre aplicar enquanto se aguarda a chegada do médico.

CAVALARIA — Mais nobre que a infantaria.

CAVALHEIROS – Não há mais.

CAVALO — Se conhecesse sua força, não se deixaria conduzir. Carne de cavalo.

CAVERNAS — Habitação comum aos ladrões. — São sempre cheias de serpentes.

CELIBATÁRIOS — Egoístas e libertinos. Deviam ser obrigados a casar. Preparam-se uma triste velhice.

CHAMPANHE™ — Caracteriza o jantar de cerimônia. — Fazer ar de detestá-lo, dizendo: “Não é um vinho”. — Na Rússia se consome mais que na França. Através dêle é que as idéias francesas se espalharam pela Europa. Não se bebe: “vira-se”.

CHAPÉU — Protestar contra a forma dos chapéus.

CHATEAUBRIAND — Conhecido sobretudo pelo “beefsteak” que tem o seu nome.

CIÊNCIA — Um pouco de ciência afasta a religião e muita ciência a restabelece.

CÍRCULO — Deve-se sempre fazer parte de um círculo.

CIRURGIÕES — Têm o coração duro: chamá-los de carniceiros.

CISNE — Canta antes de morrer. Com sua asa pode quebrar a coxa de um homem. O cisne de Cambral não era uma ave, mas um homem chamado Fénelon. O de Mântua é Virgílio. O cisne de Pesaro é Rossini.

CLARO-ESCURO – Não se sabe o que é.

COELHO — Sempre substituído por gato nos restaurantes.

COGNAC — Muito funesto. Excelente contra várias doenças. Um bom cálice de cognac não faz mal a ninguém.

COGUMELOS — Não devem ser comprados senão no mercado.

COITO, CÓPULA — Palavras a evitar. Dizer: “Eles tinham relações…”

COLCHÃO — Quanto mais duro, mais higiênico.

CÓLERA — Agita o sangue; higiênico deixar-se possuir por ela de quando em quando.

COLÔNIAS (Nossas. Alerta ao brasileiro do século XXI: não se está falando de perfume barato.) — Entristecer-se quando falar nelas.

COMÉDIA — Em verso, não convém mais à nossa época. Deve-se, contudo, respeitar a alta comédia. Castigai ridendo mores.

COMÉRCIO — Discutir para saber qual é mais nobre: o comércio ou a indústria.

CONCUPISCÊNCIA — Palavra de vigário para exprimir desejos carnais.

CONFORTÁVEL — Preciosa descoberta moderna.

CONJURADOS — Os conjurados têm sempre a mania de se inscrever numa lista. (Ou de fazerem um grupo no zapzap.)

CONTRALTO — Não se sabe o que é.

CONVERSAÇÃO — A política e a religião devem ser excluídas.

CORCUNDAS — Têm muito espírito. São muito disputados pelas mulheres lascivas.

CORRETORES — Todos ladrões. (Roubaram as palavras da minha boca – no Android.)

COSTAS — Um tapa nas costas pode fazer um tuberculoso.

CRIADAS — Todas más. Não há mais domésticas!

CRIANÇAS — Simular uma ternura lírica por elas, quando tiver gente perto.

CRÍTICO — Sempre eminente. Presume-se que tudo conheça, tudo saiba, tudo leu, tudo viu. Quando lhe causar desagrado, chamá-lo de Aristarco, ou eunuco.

CRUZADAS — Foram benéficas apenas para o comércio de Veneza.

CÚPULA — Espantar-se que se sustentem por si mesmas. Citar duas: a dos Inválidos e a de São Pedro de Roma. (Cúpula das Américas debatendo o capitalismo sustentável.)


DAGUERREÓTIPO — Substituirá a pintura.

DANÇARINA — Palavra que arrebata a imaginação. Tôdas as mulheres do Oriente são dançarinas.

DARWIN — Aquele que diz que descendemos do macaco.

DÉCOR” (de Teatro) — Não é pintura: basta lançar sôbre a tela côres à solta; depois espalha-se com uma escova, e a distância, com a luz, produz a ilusão.”

DEICIDA — Indignar-se contra, ainda que o crime não seja freqüente.

DENTADURA — Terceira dentição. Tirá-la ao dormir.

DENTISTAS — Todos mentirosos. Crê-se que são também pedicuros. Dizem-se cirurgiões como os agrônomos se dizem engenheiros.

DEPUTADO — Ser é o máximo da glória. Clamar contra a Câmara dos Deputados. Muitos tagarelas na Câmara. Não fazem nada. (Feijoada.)

DESERTO – Produz tâmaras.

DEUS O próprio Voltaire disse: “Se Deus não existisse, seria preciso que o inventássemos.”

DEVERES — Exigi-los dos outros, sem contemplações. Os outros os tem para conosco, mas nós não os temos para com eles.

DEVOTAMENTO – Queixar-se dos que não o têm. “Somos bem inferiores aos cães, neste particular!”

DICIONÁRIO (Metalinguagem) — Dizer: “Não existe senão para os ignorantes!”. Dicionário de rimas: consultá-lo? Vergonhoso!

DIDEROT — Seguido sempre de D’Alembert. (Podemos incluir outro quase acima deste verbete, logo abaixo de DEICIDA: DELEUZE — Seguido sempre de Guattari.)

DILIGÊNCIA — Ter saudades do tempo das diligências.

DIÓGENES (Aquele que não é o Laércio.) — “Procuro um homem… Não me tire o sol.”

DIPLOMA — Sinal de ciência. Não prova nada.

DIPLOMACIA — Bela carreira, mas cheia de dificuldades e mistérios. Não convém senão aos nobres. Profissão de significação vaga, mas acima do comércio. Um diplomata é sempre fino e penetrante. (O concurso que seu pai sonha que você passe.)

DIREITO (O) — Não se sabe o que é.

DISSECAÇÃO —- Ultraje à majestade da morte.

DIVA — Tôdas as cantoras devem ser chamadas de Diva.

DIVÓRCIO — Se Napoleão não se tivesse divorciado, ainda ocuparia o trono.

DOENÇA NERVOSA — Sempre caretas.

DOMICÍLIO — Sempre inviolável. Entretanto, a Justiça, a Polícia, penetram nele quando querem.

DONZELAS — Pronunciar esta palavra timidamente. Tôdas as donzelas são pálidas e frágeis, sempre puras. Evitar para elas toda espécie de livros, visitas a museus, teatros e sobretudo o Jardim Zoológico, lado dos macacos.

DORMIR — Dormir demais faz engrossar o sangue.

DORMITÓRIOS — Sempre espaçosos e bem arejados. Preferíveis aos quartos, para moralidade dos alunos.

DOUTRINÁRIOS — Desprezá-los. Por quê? Não se sabe.

DURO — Acrescentar invariavelmente: como ferro. Há também “duro como pedra”, mas é menos enérgico.

ÉCHARPE” — Poético.

ECLETISMO — Combatê-lo, como sendo uma filosofia imoral.

EDIL — Protestar, a propósito do calçamento das ruas: “que fazem nossos edis?”

ELEFANTES — Distinguem-se por sua memória e adoram o sol.

EMBRIAGUÊS — Sempre precedida de louca.

EMIGRANTES — Ganham a vida dando lições de violão e fazendo salada.

EMPRESÁRIO — Invariavelmente seguido por articulado, não importa de que ramo. (Reformulei completamente o verbete de Flaubert.)

ENCICLOPÉDIA — Rir de comiseração, como sendo uma obra rococó, e até ser contra.

ENTERRAMENTO — A propósito do defunto: “E dizer que jantei com êle há 8 dias!” Chama-se exéquias quando se trata de um general, enterro quando se trata de um filósofo.

ENTREATO — Sempre muito longo.

ENTUSIASMO — Só pode ser provocado pelo retorno das cinzas do Imperador. Sempre impossível de descrever, e, em duas colunas, o jornal não fala de outra coisa.

EPICURO — Desprezá-lo.

ÉPOCA (A nossa) — Atacá-la. Queixar-se de que não é poética. Chamá-la época de transição, de decadência.

EQUITAÇÃO — Bom exercício para emagrecer. Ex.: todos os soldados da cavalaria são magros. Bom exercício para engordar. Ex.: todos os oficiais da cavalaria são barrigudos.

EREÇÃO — Não se diz senão a propósito de monumentos.

ERRO — “É pior que um crime, é um erro” (Talleyrand). “Não há mais um só erro a cometer” (Thiers). Estas duas frases devem ser pronunciadas com profundeza.

ESBIRRO — Usado pelos republicanos mais ardorosos para designar os agentes da polícia. (O atual pé-de-botas, gambé, recruta, bedel, porco…)

ESCRITO BEM ESCRITO — Palavras de porteiros, para designar romances-folhetins que lhes agradam.

ESPADA — Só se conhece a de Dâmocles. Suspirar pelo tempo em que eram usadas.

ESPINAFRE — É a vassoura do estômago. Nunca deixar de acertar a célebre frase de Prudhomme: “Eu não gosto, e me sinto à vontade, pois se gostasse, comê-lo-ia, e não poderia suportá-lo.” (Há quem ache isto perfeitamente lógico e que não se ri.)

ESPIRITUALISMO — O melhor sistema filosófico.

ESPIRRAR — É uma troça espirituosa dizer: o russo e o polonês não se falam, espirram.

ESPIRRO — Depois de dizer “Deus te ajude”, iniciar uma discussão sôbre a origem deste costume.

ESTOICISMO — É impossível.

ESTRADAS DE FERRO — Se Napoleão as tivesse à sua disposição, teria sido invencível. Extasiar-se com a invenção e dizer: “Eu, que o senhor vê, estava esta manhã em X; saí de trem de X; fiz meus negócios, etc, e a tantas horas estava de volta!”

ESTRANGEIRO — Entusiasmo por tudo que vem do estrangeiro, prova de espírito liberal. Descrédito de tudo que não seja francês, prova de patriotismo.

ETIMOLOGIA — Nada mais fácil de saber, com latim e um pouco de reflexão.

ETRUSCO — Todos os vasos antigos são etruscos.

EUNUCO — Nunca tem filhos. Indignar-se contra os castrados da Capela Sixtina.

EVACUAÇÕES — Sempre copiosas e de aspecto mau.

EVIDÊNCIA — Cega-nos, quando não entra pelos olhos.

EXCEÇÃO — Diga que confirmam a regra. Não se arrisque a dizer como.

EXPIRAR — Não se conjuga senão a propósito de assinatura de jornais.

EXTIRPAR — Este verbo só é usado com relação às heresias e aos calos dos pés.

FATALIDADE — Palavra exclusivamente romântica. Homem fatal é aquele que tem mau olhar.

FECHADO — Sempre precedido de herméticamente.

FÊMEA — Não se emprega senão quando se trata de animais. Ao contrário do que acontece na espécie humana, as fêmeas dos animais são menos belas que os machos. Ex.: faisão, galo, leão, etc.

FETO — Toda peça anatômica conservada em álcool.

FEUDALISMO — Não ter nenhuma idéia precisa, mas ser contra.

FLAGRANTE DELITO — Não se emprega senão nos casos de adultério.

FLEUMA — Boa qualidade, além do que empresta um ar inglês. Sempre seguida de imperturbável.

FORÇA — Sempre hercúlea.

FORMIGA — Belo exemplo a citar-se diante de um dissipador.

FÓSSEIS — Prova do dilúvio. Brincadeira de bom gosto, referindo-se a um acadêmico.

FOUCAULT – Ame-o ou vilipendie-o. (Acrescido por mim.)

FRANCO-MAÇONARIA – Ainda uma das causas da Revolução! As provas de iniciação são terríveis. Mal vista pelo clero. Qual poderá ser o seu segredo?

FRAUDAR — Fraudar o fisco não é ludibriar, é uma prova de espírito e independência política.

FULMINAR – Bonito verbo. Sempre precedido de “infarto” quando em sua forma adjetivada “fulminante”.

FUZIL — Ter sempre um na casa de campo.

FUZILAR — Mais nobre que guilhotinar. Alegria do condenado a quem concedem este favor.

GARANHÃO — Sempre vigoroso. A mulher deve ignorar a diferença entre um garanhão e um cavalo.

GENERAL — Sempre bravo. Faz geralmente aquilo que não concerne ao seu estado, como ser embaixador, conselheiro municipal ou chefe de Governo.

GÊNERO EPISTOLAR Gênero de estilo exclusivamente reservado às mulheres.

GÊNIO (O) — Inútil admirá-lo, é uma neurose.

GERAÇÃO ESPONTÂNEA — Idéia de socialista.

GINÁSTICA — Não saberíamos fazê-la. Extenua as crianças.

GIRONDINOS – Mais a lastimar que a censurar.

GLOBO — Palavra pudica para designar os seios de uma mulher. “Deixa-me beijar teus globos adoráveis”.

GOMA ELÁSTICA — Feita de testículos de cavalo.

GORDOS — As pessoas gordas não precisam aprender a nadar. São o desespero dos carrascos devido às dificuldades que oferecem ao serem executados. Ex. : Du Barry.

GOSTO — Tudo aquilo que é simples é sempre de bom gosto. Deve-se sempre dizer isto a uma mulher que se escusa da modéstia de seu vestido.

GÓTICO — Estilo de arquitetura mais relacionado à religião que os demais.

GOVERNANTAS — Sempre de excelente família que passou por dificuldades. Perigosas numa casa, corrompem os maridos.

GRAMÁTICA – Ensiná-la aos meninos desde a mais tenra idade, como sendo coisa clara e fácil.

GRAMÁTICOS — Todos pedantes.

GUERRILHA — Mais prejudicial ao inimigo que o exército regular.

HÁBITO — É uma segunda natureza. Os hábitos, no colégio, são maus hábitos. Com o hábito, pode-se tocar violino como Paganini.

HARÉM — Comparar sempre um sultão em seu harém a um galo em meio às galinhas. Sonho de todos os colegiais.

HARPA — Produz harmonias celestiais. Não se toca, em gravuras, senão nas ruínas ou junto a um regato.

HEMORRÓIDAS — Provêm de se assentar em bancos de pedra.

HENRIQUE III, HENRIQUE IV – A propósito destes reis, não deixar de dizer: “Todos os Henriques foram infelizes”.

HERMAFRODITA — Excita a curiosidade malsã. Procurar vê-lo.

HÉRNIA — Todo mundo a tem, sem saber.

HIDROTERAPIA — Cura todas as doenças e as provoca.

HIPÓCRATES — Deve-se sempre citá-lo em latim porque êle escrevia em grego, com a exceção desta frase: “Hipócrates diz sim, mas Galeno diz não.”

HIPÓLITO — A morte de Hipólito, o mais belo tema de narração que se possa dar. Todo mundo deveria saber êste trecho de cor.

HIPOTECA — Requerer a “reforma do regime hipotecário”, muito elegante.

HISTERIA — Confundi-la com a ninfomania.

HOMERO — Nunca existiu. Célebre por sua maneira de rir.

HOMO — Dizer Ecce homo! ao ver entrar a pessoa que se espera.

HORROR — Horrores! — referindo-se a expressões lúbricas. Pode-se fazer mas não se deve dizer. Foi durante o horror de uma noite profunda.

HOSTILIDADES — As hostilidades são como as ostras: abrem-se. “As hostilidades foram abertas”: Nada mais a fazer senão sentar-se à mesa.

HOTÉIS — Bons somente na Suíça.

HUGO (VICTOR) — Fêz muito mal, realmente, em ocupar-se de política.

IDÓLATRAS — São canibais.

ILÍADA — Seguida sempre de Odisséia.

ILUSÕES — Fazer crer que se teve muitas, queixar-se daquilo que as fêz perder.

IMAGINAÇÃO — Sempre viva. Desconfiar dela. Quando não se tem. atacá-la nos outros. Para escrever romances, basta ter imaginação.

IMBECIS — Aqueles que não pensam como nós.

IMBROGLIO” — A base de todas as peças de teatro.

IMORALIDADE — Esta palavra, bem pronunciada, distingue aquele que a emprega.

IMPRENSA — Descoberta maravilhosa. Tem feito mais mal do que bem.

IMPRESSO — Deve-se crer em tudo que é impresso. Ver seu nome impresso! Há os que cometem crimes exclusivamente para isto.

INAUGURAÇÃO – Motivo de alegria.

INCÊNDIO — Um espetáculo para os olhos.

INDOLÊNCIA — Conseqüência dos países quentes.

INFANTICÍDIO — Não se comete senão entre a gente do povo.

INFECTO — Deve-se dizer de toda obra artística ou literária que Le Figaro não permite que se admire.

INFINITESIMAL — Não se sabe o que é. Mas tem relação com a homeopatia.

INQUISIÇÃO — Exagera-se muito a respeito de seus crimes.

INSCRIÇÃO — Sempre cuneiforme.

INSTRUÇÃO — Aparentar ter recebido muita. O povo não tem necessidade dela para ganhar a vida.

INSTRUMENTO — Os instrumentos que servem para cometer um crime são sempre contundentes quando não são cortantes.

INTEGRIDADE Pertence, sobretudo, à magistratura.

INTRODUÇÃO — Palavra obscena.

INUMAÇÃO — Quase sempre precipitada: contar histórias de cadáveres que haviam devorado o próprio braço para aplacar a fome.

INVENTORES — Morrem todos no hospital. Um outro sempre se beneficia do que descobriram, o que não é justo.

INVERNO — Sempre excepcional.

ITÁLIA — Deve-se visitá-la imediatamente após o casamento. Tem-se muita decepção, não é tão bela como dizem.

ITALIANOS — Todos músicos. Todos traidores.

JANSENISMO — Não se sabe o que é, mas é muito elegante citá-lo.

JANTAR — Antigamente jantava-se cedo, hoje se janta a horas impossíveis. O jantar de nossos pais era o nosso almoço e o nosso almoço, seu jantar. Jantar tão tarde que não se chama mais jantar e sim cear.

JARDINS INGLESES — Mais naturais que os jardins franceses.

JASPE — Todos os vasos dos museus são de jaspe.

JESUÍTAS — Participam de todas as revoluções. Não ter dúvida quanto ao número deles. Não falar na “batalha dos Jesuítas”.

JOCKEY CLUB — Os sócios são todos jovens farsantes e muito ricos. Dizer simplesmente “o Jockey”, muito elegante, faz crer que se é sócio.

JORNAIS — Não se pode dispensá-los, mas ser contra eles. Sua importância na sociedade moderna. Ex.: Le Figaro. Os jornais sérios: La Revue des Deux Mondes, L’Économiste, Le Journal des Débats; ler pela manhã um artigo destas folhas sérias e graves e à noite, em sociedade, dirigir a conversação para o assunto estudado a fim de poder brilhar.

JÚRI — Esforçar-se para não fazer parte dele.

LA FONTAINE — Sustentar que nunca lemos seus contos. Chamá-lo “Bonhomme”, o imortal fabulista.

LACUSTRES (Cidades) — Negar sua existência, pois não se pode viver debaixo d’água.

LAFAYETTE — General célebre por seu cavalo branco.

LAGO — Ter uma mulher junto de nós, ao passar num lago.

LATIM — Língua natural ao homem. Útil somente para se ler inscrições em monumentos públicos. Desconfiar das citações em latim: escondem sempre alguma sutileza.

LEÃO — É generoso. Brinca sempre com uma bola. E dizer que o leão e o tigre são gatos!

LEBRE — Dorme de olhos abertos.

LEGALIDADE — A legalidade nos mata. Com ela, nenhum governo é possível.

LEITE — Atrai serpentes. Clareia a pele; as mulheres em Paris tomam um banho de leite todas as manhãs. (Os Nazipardos tomam só um copinho, porque na América do Sul é uma commodity muito cara.)

LETARGIA — Sabe-se de algumas que duraram anos.

LIBERDADE — Ó Liberdade! quantos crimes se cometem em teu nome! Temos todas as que são necessárias. A liberdade não é licença (frase de conservador).

LIBERTINAGEM — Não existe senão nas grandes cidades.

LINCE — Animal célebre pela sua vista.

LITERATURA — Ocupação de ociosos.

LITTRÉ — Sorrir ao ouvir seu nome: “Este senhor que disse que descendemos dos macacos.”

LORD — Inglês rico.

LOURAS — Mais ardentes que as morenas.

LUGAREJO — Substantivo enternecedor. Vai bem em poesia.

LUÍS XVI — Dizer sempre: “Este monarca infeliz…”

LUZ — Dizer sempre: Fiat lux! quando se acende uma vela.

MAGIA — Caçoar a respeito.

MAGISTRATURA — Bela carreira para um jovem.

MAGNETISMO — Interessante assunto de conversação e que serve para “conseguir mulheres”.

MALDIÇÃO — Sempre dada por um pai.

MALTHUS – “O infame Malthus”.

MAQUIAVEL — Não tê-lo lido, mas considerá-lo um bandido.

MAQUIAVELISMO — Palavra que se deve pronunciar tremendo.

MAR — Não tem fundo. Imagem do infinito. Inspira grandes pensamentos.

MARFIM — Não se emprega senão a propósito de dentes.

MATERIALISMO — Pronunciar esta palavra com horror, e descansando em cada sílaba.

MATINAL — Ser, prova de moralidade. Se nos deitamos às 4 horas da manhã e nos levantamos às 8, somos preguiçosos, mas se nos deitamos às 9 horas da noite, para nos levantarmos no dia seguinte às 5, somos laboriosos.

MÁXIMA — Nunca nova, mas sempre consoladora.

MECÂNICA — Parte inferior das matemáticas.

MEDALHA — Só se sabia fazer na antiguidade.

MEDICINA — Caçoar dela quando se sentir bem.

MEFISTOFÉLICO — Deve-se dizer de todo riso amargo.

MEIA-NOITE — Limite da felicidade e dos prazeres honestos. O que se faz depois é imoral.

MELÃO — Assunto de conversação à mesa. É um legume? É um fruto? Os ingleses o comem à sobremesa, o que é de se espantar.

MELODRAMAS — Menos imorais que os dramas.

MEMÓRIA — Lastimar a sua, e até se vangloriar de não tê-la.

MENSAGEM — Mais nobre que carta.

MERCÚRIO — Mata a doença e o doente.

METAFÍSICA — Rir, como prova de espírito superior.

METAMORFOSE — Rir do tempo em que se acreditava. — Ovídio as inventou.

MÉTODO — Não serve para nada.

MEXILHÕES — Sempre indigestos.

MINISTRO — Último grau da glória humana.

MISSIONÁRIOS — São todos comidos ou crucificados.

MOCIDADE — Ah! É bela a mocidade. Citar sempre versos italianos, mesmo sem compreendê-los:

O Primavera! Gioventù dell’anno!

O Gioventù! Primavera della vita!

MONARQUIA — A monarquia constitucional é a melhor das repúblicas.

MONOPÓLIO Clamar contra.

MORENAS — Mais ardentes que as louras.

MOSTARDA — Nao é boa senão em Dijon. Arruina o estômago.

MULHER — Uma das costelas de Adão. Não se diz “minha mulher” e sim “minha esposa”, ou melhor, “minha metade”.

MÚSCULOS — Os músculos dos homens fortes são sempre de aço.

MUSEU — De Versailles: recompõe os altos feitos da glória nacional; grande idéia de Luís Felipe. Do Louvre: a ser evitado pelas jovens.

MÚSICO — O natural de um verdadeiro músico é não compor nenhuma música, não tocar nenhum instrumento e desprezar os “virtuoses”.

NÁPOLES — Em conversa com sábios, dizer Partênope. Ver Nápoles e depois morrer.

NARINAS — Abertas, sinal de lubricidade.

NATUREZA — Como é bela a natureza! Dizer isso sempre que se estiver no campo.

NÉCTAR — Confunde-se com ambrosia.

NEGRAS — Mais ardentes que as brancas.

NEGROS — Espantar-se porque sua saliva é branca, e porque falam francês.

NEOLOGISMO — A perdição da língua francesa.

NÓ GÓRDIO — Tem relação com a antiguidade. (Maneira pela qual os antigos davam laço em suas gravatas.)

NOTÁRIOS — Atualmente, não confiar neles.

NUMISMÁTICA — Tem relação com as altas ciências, inspira um respeito imenso.

OBSCENIDADE — Todas as palavras derivadas do grego ou do latim escondem uma obscenidade.

OBUSES — Servem para fazer pêndulos e tinteiros.

OCTOGENÁRIO — Diz-se de todo velho.

ODALISCAS — Todas as mulheres do Oriente são odaliscas.

ÔMEGA — Segunda letra do alfabeto grego, pois se diz sempre alfa e ômega.

ÔNIBUS — Jamais se encontra lugar. Foram inventados por Luís XIV.

ÓPERA (Bastidores da) Paraíso de Maomé sôbre a terra.

OPERÁRIOS — Sempre honestos, quando não se revoltam.

ORAÇÃO — Todo discurso de Bossuet.

ORÇAMENTO — Jamais em equilíbrio.

ORDEM — Quantos crimes são cometidos em teu nome!

ÓRGÃO — Transporta a alma a Deus.

ORIENTALISTA — Homem muito viajado.

ORIGINAL — Rir de tudo que é original, odiar, ridicularizar e exterminar, se possível.

ORQUESTRA — Imagem da sociedade: cada um executa a sua parte e há um chefe.

ORQUITE — Doença de senhores.

ORTOGRAFIA — Não é necessária quando se tem estilo.

OTIMISTA — Sinônimo de imbecil.

OVO — Ponto de partida para dissertação filosófica sôbre a origem dos seres.

PADRES — Deviam ser castrados. Dormem com suas empregadas e têm filhos que chamam de sobrinhos.

PADRINHO — Sempre pai do afilhado.

PAGANINI — Não afinava jamais seu violino. Célebre pelo comprimento de seus dedos.

PANTEÍSMO — Clamar contra; um absurdo!

PÃO — Não se sabe jamais quanta sujeira há no pão.

PARALELO — Deve-se escolher entre os seguintes: César e Pompéia, Horácio e Virgílio, Voltaire e Rousseau, Napoleão e Carlos Magno, Goethe e Schiller, Bayard e Mac-Mahon…

PARENTES — Sempre desagradáveis. Esconder os que não são ricos.

PARIS — A grande prostituta. Paraíso de mulheres, inferno de cavalos.

PASTA — Carregar uma sob o braço dá ares de ministro.

PEDERASTIA — Doença de que todos os homens são vítimas numa certa idade.

PENSIONATO — Dizer “boarding school”, quando fôr um pensionato para moças.

PERMUTAR — O único verbo conjugado pelos militares.

PHENIX” — Belo nome para uma companhia de seguros contra incêndios.

PIRÂMIDE – Obra inútil.

POESIA — Inútil. Passou de moda.

POETA — Sinônimo de tolo; sonhador. (de câmara ou de senado. –eu)

POMBO — Não deve ser comido senão com “petit-pois”.

PRESENTE — Não é o valor que faz o preço, ou então: não é o preço que faz o valor. O presente não é nada, o que vale é a intenção. (O presente não é nada, o que vale é o devir.)

PROGRESSO — Sempre mal compreendido e muito precoce.

PROPRIEDADE — Uma das bases da sociedade. Mais sagrada que a religião.

PROPRIETÁRIO — Os homens se dividem em duas grandes classes: os proprietários e os locatários.

PROSTITUTAS — Um mal necessário. Salvaguarda de nossas filhas e nossas irmãs enquanto existirem celibatários. Deviam ser perseguidas impiedosamente. Não se pode mais sair à rua em companhia da mulher por causa da presença delas. São sempre filhas de gente humilde seduzidas por burgueses ricos. (Atualização: Não é mais necessário que haja prostitutas, estas foram substituídas pela automação industrial (indústria pornô.)

PUDOR — O mais belo ornamento da mulher.

PÚRPURA — Palavra mais nobre que vermelho.

QUADRATURA DO CÍRCULO – Não se sabe o que é. mas deve-se erguer os ombros quando se fala.

RACINE — Libertino!

REDE — Própria dos crioulos. Indispensável num jardim. Convencer-se de que estará melhor nela do que numa cama.

RELIGIÃO — Faz parte das bases da sociedade. É necessária aos povos e, entretanto, muitos não a têm. “A religião de nossos pais”, deve-se dizer com unção.

REPUBLICANO — Nem todo republicano é ladrão, mas todo ladrão é republicano.

RESTAURANTE — Deve-se sempre pedir os pratos que não se comem habitualmente em casa. Quando estiver embaraçado, basta escolher os que são servidos aos vizinhos de mesa.

RISO — Sempre homérico.

ROMANCES — Pervertem as massas. São menos imorais em folhetins que em volumes. Só os romances históricos podem ser tolerados, porque ensinam história. Há romances escritos com a ponta de um escalpelo (bisturi).

RONSARD — Ridículo, com suas palavras gregas e latinas.

ROUSSEAU — Crer que J.J. Rousseau e J.B. Rousseau são irmãos, como eram os dois Corneille.

RUIVAS — V. louras, morenas e negras.

SACERDÓCIO — A arte, a medicina, etc, são sacerdócios.

SALEIRO — Entorná-lo traz desgraça.

SALSICHEIRO — Anedota sôbre salsichas feitas de carne humana.

SANÇÃO PRAGMÁTICA — Não se sabe o que é.

SÊNECA — Escrevia sôbre uma mesa de ouro.

SERVIÇO – É prestar serviço às crianças, dar-lhes coques; aos animais, bater-lhes; aos empregados, despedi-los; aos malfeitores, puni-los.

SEVILHA — Célebre por seu barbeiro. Ver Sevilha e morrer.

SÍFILIS — Uns mais, outros menos, todo mundo tem.

SONO — Engrossa o sangue.

SOLUÇO — Para curá-lo, uma chave nas costas ou um susto. (Agora já sabemos 6 métodos! O mais ortodoxo deles é ficar de ponta-cabeça. Para saber dos outros 3, ler O Banquete.)

SORVETE — Perigoso tomar.

SORVETEIROS — Todos napolitanos.

TABELIÃO — Mais agradável que notário.

TALLEYRAND (Príncipe de) — Indignar-se contra.

TAMANCOS — Um homem rico, que teve começo de vida dificil, sempre veio a Paris de tamancos.

TAPEÇARIA — Obra tão extraordinária que requer 50 anos para ser terminada. Exclamar ao vê-la: “É mais belo que a pintura!”. O operário não conhece o valor do que fêz.

TEMPO — Eterno assunto de conversação. Causa universal de doenças. Queixar-se sempre.

TERRA — Dizer os quatro cantos da terra, pois ela é redonda.

TESTEMUNHA — Deve-se sempre recusar ser testemunha em juízo, nunca se sabe aonde isso pode levar.

TINTEIRO — Dá-se de presente a um médico.

TOLERÂNCIA (Casa de) — Não é aquela onde se tem opiniões tolerantes.

TOUPEIRA — Cego como uma toupeira. E no entanto ela tem olhos. (Poder-se-ia agregar num verbete PORCO – sua como um porco, porém o porco não transpira.)

TRANSPIRAÇÃO nos pés — Sinal de saúde.

TREZE — Evitar treze à mesa, pois traz infelicidade. Os espíritos fortes não deverão jamais deixar de gracejar: “Não tem importância, comerei por dois”. Ou então, se há senhoras, perguntar se uma delas não estará grávida. (Ganha-se a Copa com 11 mais o técnico.)

USUM (ad.) — Locução latina que vai bem na frase: Ad usum Delphini. Deverá sempre ser empregada a propósito de uma mulher chamada Delfina.

VACINA — Não freqüentar senão pessoas vacinadas.

VELHOS — A propósito de uma inundação, uma tempestade, etc., os velhos da região não se lembram de jamais ter visto uma igual.

VALSA — Indignar-se contra. Dança lasciva e impura que deveria ser dançada apenas por velhas.

VENTRE — Dizer abdômen, quando em presença de senhoras.

VERÃO — Sempre excepcional.

VIAGEM — Deve ser feita rapidamente. (Como os banhos frios.)

VINHOS — Assunto de conversa entre os homens. O melhor é o “bordeaux”, pois os médicos o receitam. Quanto pior, mais natural.

VIZINHOS — Evitar que nos prestem serviços gratuitos.

VOLTAIRE — Célebre por seu rictus (careta) espantoso.

XADREZ (Jogo de) — Imagem da tática militar. Todos os grandes capitães eram bons jogadores. Muito sério como jogo, muito fútil como ciência.

WAGNER — Troçar ao seu nome é gracejar sôbre a música do futuro.

YVETOT — Ver Yvetot e depois morrer!

ESBOÇO DE UM DICIONÁRIO BRASILEIRO DE LUGARES-COMUNS E IDÉIAS CONVENCIONAIS

Este dicionário foi idealizado como simples apêndice ao de Flaubert. Nele deixam de figurar, pois, os lugares-comuns registrados pelo autor de Madame Bovary que correspondem aos de nossa língua e às idéias convencionais de nossa gente.

Também não foram arrolados todos os provérbios, máximas. rifões, etc., que podem ser facilmente encontrados em coletâneas do gênero. Em trabalhos desta espécie, realizados apressadamente. É hábito escusar-se o autor de falhas e imperfeições, comprometendo-se a saná-las em edições futuras. Faço o mesmo, menos com o intuito de desculpar-me, que com o de acrescentar, aqui, mais um lugar-comum não incluído no dicionário.”

ABÓBADA – Celeste.

ÁGUA (séc. XXI) – Já tomou hoje? – Eu tomo três litros por dia, por isso vou muito ao toalete.

ALCOVA – Segredos de. Qualquer coisa de imoral.

ALIANÇA – Usar atrai mulheres. Dito espirituoso sobre retirá-la do dedo, etc.

ALMA – Caridosa.

ALOCUÇÃO – Sempre breve e brilhante.

ALTANEIRO – Jargão de arquiteto. “Destacava-se, altaneiro, um majestoso edifício”, etc.

ALUSÃO – Discreta.

AMAZONAS — O maior rio do mundo. — Mas e o Mississipi? — Maior em extensão. Ou em volume d’água, nunca se sabe. — O fenômeno da pororoca.

AMERICANOS — Povo extraordinário. — Parecem crianças. — Espírito esportivo.

ANIVERSÁRIO – “Completou mais um verão.”

ANJO – De criatura; de bondade.

ANO — “Reparou como este passou depressa?” — “Parece que foi ontem.” — “Colher mais um a. no jardim da existência.”

ÂNSIA – Incontida.

ANTÍPODA — Bela palavra para significar “oposto”. Japoneses.

ANTOLOGIA – Um acontecimento antológico.

ANTRO — De jogatina — De perversão.

APAZIGUAR – Os ânimos.

APLAUSOS – Não regatear.

APOIO — Sempre moral.

ARMA — Deve-se sempre ter uma em casa. — O perigo que representa para as crianças. — Não se deve brincar com elas: contar casos fatais, o amigo que matou o amigo, o pai que matou o filho.

ARREBOL — Rima com sol. Própria para hinos.

ARROSTAR – O perigo.

ASSAZ – Mais bonito que “muito”.

AUSCULTAR — A opinião pública.

AVENTAR — Uma hipótese.

AVISO – Aos Navegantes.

AVÓS — Deseducam os netos.

BACHAREL – No Brasil, todo mundo é.

BAGAGEM – Literária.

BAHIA — Já foi? Então vá. — Vatapá. — Balangandãs. — Carmen Miranda. — A falsa baiana. — Rui Barbosa. — Terra de oradores.

BALOUÇAR – Muito mais elegante que “balançar”.

BANCO — Os de Minas são os mais seguros.

BANQUETE — Quem convida, dá. — Ditos espirituosos sôbre a extensão dos discursos. — Sempre se come mal.

BEBERRÕES – Gracejos dos que bebem sôbre o horror ao leite e à água.

BELO HORIZONTE — Hotéis cheios de tuberculosos. [!!!] — Parece-se com Washington. — Acontecem coisas estranhas. — Alguém, do alto do morro, exclamou: “Que belo horizonte!” Daí o nome.

BIGAMIA — Devia ser permitida pela lei.

BOATO — Assim é que nasce um.

BRASIL — Nele cabe toda a Europa, menos a Rússia. — País do futuro. — Riquezas naturais. — Ou acaba com a saúva ou a saúva acaba com ele. — Tudo no Brasil é assim mesmo, não se apoquente. — Espera que cada um cumpra o seu dever.

BRASILEIRO — Todo brasileiro tem sífilis. — Quem fôr brasileiro, siga-me. — Três brasileiros juntos: um samba. Vizinho do:

BURRO — Um animal até inteligente, tremenda de uma injustiça!

BUSTO — Elegante como sinônimo de seios.

CACHAÇA — Água que passarinho não bebe. — Alguma coisa ser tão imprescindível a alguém que é a “sua cachaça”.

CADUCAR — A lei.

CAFÉ — O esteio da economia nacional. — As donas de casa é que sabem fazer o melhor café do mundo. — Fumegante, aromático. — “Tira o sono.” — “Pois a mim nunca tirou.” — Fazer boca para o cigarro. — Pequeno. — Os funcionários públicos não fazem outra coisa senão tomar café. — Balzac gostava muito. — Estimulante! — Preciosa rubiácea.

CAIXINHA — De surpresas: a política, o futebol, etc.

CALADA — Da noite.

CALO — De estimação.

CALMA — O Brasil é nosso.

CALOR — Impossível de trabalhar. — Insuportável. — Ninguém se lembra de jamais ter feito tanto. — Clima dos trópicos.

CALOURO — Trote dos: uma desumanidade. Devia ser proibido.

CALVA – Reluzente.

CALVÍCIE — Quem descobrir um remédio ficará milionário. — Complexo dos calvos. — Prova de virilidade. (A coisa mais estranha: ainda não havia “É dos carecas que elas gostam mais”?)

CAMA — Chorar nela, que é lugar quente. Ganha fama e deita-te na cama.

CARIOCA — Bom humor do.

CARNAVAL — O de antigamente era melhor. — Festa paga. — Pierrot, Colombina e Arlequim. — O corso. [?!] — Alegria do povo. — Economizam o ano todo para gastar no Carnaval.

CARRO — O melhor é o dos outros. — Dá trabalho, mas compensa (ou não compensa). — As crianças adoram. — Ter ou não ter chofer? — Dirigir há tantos anos e nunca ter tido um desastre.

CASA — Comida e roupa lavada. — Sentir-se na própria. — Ter a sua própria: um teto digno. — Está sempre às ordens. — Bem situada. —Custou tanto e hoje vale dez vêzes mais. — Na época foi uma loucura.

CEGONHA — Estar esperando sua visita. — Dizer de alguém que ainda acredita nela.

CENTRAL DO BRASIL — Gracejo a propósito do atraso dos trens.

CENTRALIZAÇÃO Um dos males da administração no Brasil.

CHÁVENA — Mais elegante que xícara. (Chícara de xá.)

CHUVA — Insistente. — Chover a cântaros. — Grossas bátegas de. — Chover no molhado. — De protestos.

CHUVEIRO — Mais higiênico que banheira. Frio e bem cedo, muito saudável.

CIMENTAR — Uma amizade.

CINZEIRO — Uma sala confortável deve ter cinzeiros por todo lado.

COBRAS – E lagartos. — Os franceses dizem que no Brasil há cobras em plena rua. — Simbolo fálico. — Ruim como uma.

COLEÇÕES – “Freud disse que todo homem, em alguma época de sua vida, coleciona alguma coisa.”

COMPLEIÇÃO – Robusta.

COMUNISMO — O perigo vermelho. — União Soviética, mais ortodoxo do que Rússia. — Camaradas. — O proletariado e o povo. — A exploração do homem pelo homem. — Superestrutura. — A mais-valia.

CONCATENAR – As idéias.

COPACABANA — A mais bela praia do mundo — Antigamente a areia era mais clara. — O bairro aristocrático. — Contraste entre as favelas e os arranha-céus. — “Está ficando um bairro insuportável, cheio de estrangeiros. judeus e prostitutas.”

CORAR — Até a raiz dos cabelos.

CORCOVADO — Morar há tantos anos no Rio e nunca ter ido lá. — Visto de qualquer ponto da cidade.

CORES – Cambiantes. Berrantes.

CORREIO — A deficiência de nosso serviço de correios: uma carta foi posta em tal lugar no dia tal e somente tantos dias depois foi entregue. Deve acrescentar-se: ainda assim, esta foi entregue. — Dito espirituoso sôbre os que põem a culpa no Correio quando não cumprem suas obrigações sociais. — Nos Estados Unidos, uma perfeição.

COSTUREIRA — Nunca entregam o vestido no dia marcado. — Ficam com a metade da fazenda para elas.

CREMAÇÃO — Os que prefeririam ser cremados, ao morrer: mais prático, mais higiênico, um absurdo que no Brasil não se faça. — A Igreja não permite: ressurreição dos mortos. — E os que morrem nos incêndios?

CRIANÇAS — Sempre crescidas. (Dá dando fermento pra ela? Segurei no colo ainda ontem!) — Muito dadas. — No princípio ficam encabuladas, mas logo tomam confiança. — Parecem-se com o pai mas têm o nariz do avô, etc. — Aprendem a ler sozinhas, dizem coisas extraordinárias, até já ajudam em casa! — Sôbre alguém, no fundo, ser ainda uma criança. — Dão trabalho, mas compensa. — Se soubessem o que devem aos pais!

CUSTAR — Os olhos da cara.

DESAFORO – Não levá-los para casa.

DESFECHAR – Um golpe.

DESFECHO – Triste, inesperado.

DESPENHAR-SE – No abismo, no vácuo.

DEUS — É brasileiro.

DIÁLOGOS — Em romance, os personagens devem sempre redargüir, inquirir, admoestar, retorquir, grunhir, urrar, balbuciar, desferir, sussurrar, murmurar, trovejar, explodir. — Nunca falar, dizer, perguntar ou responder.

DINHEIRO – “Ganho dinheiro, mas o dinheiro não me ganha.”

DIPLOMACIA — Bela carreira, viajar. Perdão, um diplomata não viaja: é viajado. Ser mandado de um momento para outro a um lugar distante. — Mas ganha-se bem.

DIVÓRCIO — Dissolução da família. — “O Brasil é o único país onde ainda não há, daí tantos crimes passionais.” “Nos Estados Unidos, porém, há divórcio e há crime!” — “E os filhos?” — “A lei não pode obrigar ninguém a ser feliz.” — Influência da Igreja. — “Quem fôr religioso que não se divorcie.”

DOUTOR — No Brasil todo mundo é. — Anel no dedo.

ÉBRIO — Contumaz — Vicente Celestino

ELEFANTE — Amola muita gente.

EMPANAR — O brilho.

EMPENHAR-SE – A fundo.

ENFERMEIRAS — Namoram os médicos.

ENFORCAMENTO — Bárbaro e deprimente. Na Inglaterra enforcam ao menor pretexto. Caso de um jovem brasileiro em viagem que atropelou um guarda e só não foi enforcado por intervenção do Papa.

ENLAMEAR — A honra, o nome da família.

EPITÁFIOS — Tanto mármore e tanto bronze desperdiçados. — A vaidade do homem o acompanha até na morte. — As sepulturas pobres ao lado dos ricos mausoléus: Deus não distingue.

ESCOPO — Mais elegante do que finalidade.

ESPANHOL — Tourada. — Castanhola. — Caramba!

ESPIRAIS — Da fumaça do cigarro, que se contempla imerso em pensamentos.

ESTADIA — É errado: deve-se dizer estada.

ESTATÍSTICAS — Não provam nada. Os americanos acreditam nelas.

ESTILO — É o homem: Buffon.

ESTOFO – Moral.

ESTRABISMO — Um pouco, até que dá uma certa graça.

ESTRADAS — Da vida. — As dos Estados Unidos são todas asfaltadas.

EXÉRCITO — Na Suíça não há, todo cidadão é soldado. — Na hora de ir para a guerra, os civis é que vão.

FATALISTA — Ser sempre um fatalista, é muito elegante. — “morre quem tem de morrer, quando chegar o dia, etc.” — Ditos espirituosos sobre ter coragem de viajar de avião.

FAZENDEIRO – Abastado.

FECUNDAÇÃO —- Artificial: “ainda chegará o dia.” — “Um só homem poderá povoar uma cidade inteira.” — “Para os animais dá resultado.” — “É contra a natureza!” — Ser a favor.

FIADO — Só amanhã.

FILA — Antes da guerra, não havia. — Fila para tudo. Até para se casar, etc.

FRALDAS – Mal saiu das.

FRANCESAS — Mulheres nuas, lascivas.

FLAUBERT — Tortura do estilo — “Madame Bovary sou eu”.

FRIO — Em tempo de frio. alguém lembrar-se de um lugar onde fazia muito mais: aquilo sim, era frio.

GÁUDIO — Mais elegante do que alegria.

GÊNIO — As cenas que só o gênio de um Flaubert seria capaz de descrever.

GÍRIA — Muito interessante, a filosofia do povo.

GOVERNO — Para seu.

GRAÇA — Muito distinto, para se perguntar o nome: qual e a sua graça? (Celso Russomano.)

GRAVATA — Adorno inútil, deveria ser abolido. — É um preconceito. — Ninguém sabe escolher para os outros. — Nunca comprá-las, ganhá-las de presente.

GRAVIDEZ — Estado interessante.

GUERRA — Um mal necessário. Sem ela, o mundo estada superpopulado.

VERRUGA – Nasce no dedo de quem aponta estrelas.

HABITAT — Bela palavra a ser usada em monografia sôbre homem ou animal de determinada região. Falada, não sôa bem.

HIMENEU – Em lugar de casamento.

HODIERNO — Mais elegante do que moderno.

HOLOCAUSTO — Bela palavra a ser usada a propósito do sacrifício das mães, das esposas, noivas, etc.

HOMEM — As mulheres afirmam: “São todos iguais”. (Defasado: agora, “Homem é merda”, “Ih ah lá o macho escroto!”, etc.)

HOMENAGEM — Singela

HOMOSSEXUAL — Por que quase todos os artistas o são? Citar exemplos. Inofensivos, ótima companhia para as mulheres.

HONESTIDADE — Ainda existe. — Não existe mais, hoje em dia.

HOTEL — “Nunca tomar quarto com refeições, pois não se vai ao hotel senão para dormir!”

IDADE — A uma senhora nunca se pergunta.

INAUDITO – Esforço.

INCISÃO — Mais bonito do que corte.

INCONSTITUCIONALÍSSIMAMENTE – A maior palavra da língua portuguesa.

INICIAIS — “Direi apenas as iniciais: Fulano de Tal”.

INQUIRIR — Mais elegante do que perguntar.

INTESTINO — Parece incrível que tenham quarenta metros.

ISQUEIRO — Não se acostumar a ele. — Mais uma coisa para se carregar no bolso. — Só o dono sabe acendê-lo.

JABUTICABA — Fruta que se parece com certos olhos.

JOVIALIDADE — Qualidade de certos velhos.

LACUNA — Jamais será preenchida.

LIVRO — O maior amigo do homem. — Mais tolo do que quem empresta é aquele que devolve.

LIXEIRO — Uma profissão tão digna como outra qualquer. (Fala isso pro Boris Casoy.)

LUAR — Do sertão, bonita música.

LUME — Vir a. — Mais bonito do que fogo.

MACACO — Nosso ascendente. — Darwin. Voronoff.

MÃE — O nome da: uma das mais belas palavras da língua acabou virando um insulto.

MARINHEIRO — Jovem de olhar nostálgico que anda gingando o corpo e tem uma amada em cada porto.

MAVIOSO —- Mais bonito que maravilhoso.

MÉDICO — Não acreditam em penicilina, para não perderem o cliente.

MEMBRO — Palavra obscena.

MENDIGO — Têm fortunas escondidas em casa. — Chaga da sociedade. — Estender a mão à caridade pública. — Deveriam ser recolhidos e mandados a alguma parte (não se sabe onde).

MODERNO — Arte moderna: deformação, obra de tarados. — Edifício do Ministério da Educação, uma caixa de fósforos suspensa sôbre meia dúzia de palitos. — Poesia futurista, qualquer um pode fazer. — Portinari, mãos e pés enormes. — “Não gosto porque não entendo.” — “Até meu filho faz melhor.”

MORRER — “No avião, quem morre primeiro é o piloto.” — “Dir-se-ia que ela dorme.” — “Morreu como uma santa.”

MULATO — Coça a orelha com o pé. — Conhece-se pelas unhas e a palma das mãos. — Pernóstico. — Machado de Assis era. — Nos Estados Unidos são considerados pretos.

NABABO — Viver como um.

NARIZ — O de Cleópatra teria mudado a face do mundo.

NATURALISTA — Escritor obsceno e pornográfico. — Zola: a natureza vista através de um temperamento.

NAVALHA — A mais temível das armas: não há defesa contra ela. — Tão perigosa para o adversário como para quem não sabe manejá-la. — O barbeiro pode enlouquecer de repente e passar a navalha no pescoço do freguês.

NEFELIBATA — Bela palavra a ser usada contra os bons escritores.

NERO — Sempre tangendo a lira ante o incêndio de Roma.

NOSOCÔMIO — Mais distinto do que hospital.

ÓCULOS — Dormir com eles para reconhecer as pessoas em sonhos.

OFÍDIO – Mais bonito que cobra.

OGIVA — Ah, o estilo gótico.

ÔNIBUS — Correria desenfreada. Viajar neles é enfrentar a morte todos os dias. Não respeitam nada.

OPERAÇÃO — Melindrosa intervenção cirúrgica.

OVO — Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? — De Colombo. — Estão cada vez mais caros. — Alguém, muito original, sugerir que os homens deviam nascer em ovos: mais prático, mais higiênico.

PADRE — Há padres bons e ruins, assim como há médicos bons e ruins, o que nada prova contra a Medicina.

PENA DE MORTE — “Uma barbaridade, ninguém tem direito de dispor sôbre a morte de outras pessoas.” — Ser a favor.

PERSONAGEM — Não se diz o personagem, e sim a personagem. //

De romance: deve ser pintor, escultor, escritor, músico, jornalista ou artista de modo geral; deve andar nervosamente de um lado para outro, esquecer o cigarro apagado nos lábios, debruçar-se à janela e contemplar a noite, ter um brilho nos olhos. Andar a esmo. Ser levado pelos próprios passos, como um notívago, um vulto, um autômato, uma sombra; ao fim dos capítulos deve atirar-se na cama chorando; ao fim do romance deve perder-se ao longe, partir.

PÊSAMES – “Foi melhor para êle” – “Deus sabe o que faz”.

PNEUMONIA — Hoje em dia não mata mais ninguém, por causa da penicilina.

POESIA — Gostar muito de poesia, mas não a futurista.

POETA — Foi expulso da República de Platão. — Cabelos grandes.

POLIGAMIA — Os homens são naturalmente polígamos. — E as mulheres? — protestam estas. A propósito, fala-se em poliandria, que não se sabe o que quer dizer…

PONTO — Assinar o: como sinônimo de visita habitual.

PROTESTO — De elevada estima e consideração.

QUERIDO — Em diálogos como este: “Querido, tu me amas?” — “Bem o sabes, querida.”

QUILO — Equivalente a novecentos gramas nos açougues.

RATO — O único animal de que realmente se tem nojo. — Alguém dizer que não tem.

REVOLUÇÃO — Fazê-la, antes que o povo a faça.

ROSICLER — Bonita côr.

ROUPA — Poderiam ser mais práticas, mais condizentes com o nosso clima. — Suja, lava-se em casa. — Ter apenas a do corpo.

RUBRICA – Ou rúbrica?

RUI BARBOSA — A Águia de Haia. — Cabeça grande. — Perguntou: em que língua quereis que eu responda?

SÃO LUÍS — A Atenas Brasileira.

SARRO — É o que suja os dentes e não a nicotina.

SAUDADE — Só existe em português, não tem tradução. — A mais bela palavra da língua. (Como eu detesto esses comentários!)

SAÚDE — Só a apreciamos depois que a perdemos.

SECRETÁRIA — Sempre belas, o terror das esposas. — Nunca sabem escrever à máquina e passam o dia sentadas ao colo do patrão. — Conhecem todos os seus segredos, indispensáveis.

SEGREDO — O melhor meio de espalhar uma notícia é pedir segredo.

SHAKESPEARE — Ser ou não ser. — Teria sido êle próprio o autor, ou Bacon? Deve-se acrescentar: quem quer que tenha sido, foi um autor genial a quem chamamos de Shakespeare.

SORRISO – Um s. bailava-lhe nos lábios.

SORVER — Mais elegante que tomar.

SUICIDAR-SE — Dificuldades financeiras: “matar-se por causa de uma miserável quantia”, dizem os outros. — O tresloucado gesto. — “Para mim, ele não andava muito bom da cabeça.”

SURDOS – Pelo telefone, ouvem muito bem.

TAUMATURGO — Bela palavra, mas confunde-se com dramaturgo.

TÉDIO — Avassalador: de muito efeito em literatura de ficção, na primeira pessoa.

TÊMPORAS – De aço.

TIROCÍNIO — De muito efeito em discurso laudatório.

TORRÃO – Mais refinado que pátria.

TRANSFERÊNCIA – Freud explica.

TRANSIDO – De frio.

TURBAMULTA — Bela palavra a ser usada a propósito do movimento das multidões.

UMBIGO – Ou embigo?

UMBRAIS – Transpor os u. da glória.

URBANIDADE — Qualidade que devem ter os funcionários públicos ao lidar com as partes.

URSO – Abraço de.

VAGALUME — Mais elegante seria dizer pirilampo.

VARIEGAR — Verbo muito elegante de se usar a propósito de cores variadas.

VENDETA — Mais bonito do que vingança.

VENTILAR — Um assunto.

VERBA — Não há. — Esgotada. — Sempre desviada para outras finalidades.

VERDADE — “Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade”, disse Eça de Queiroz. “Se non è vero, è bene trovato” Repetir em italiano, mesmo sem entender direito.

VERGONHA — É roubar e não poder carregar.

VÍRGULA — Um bom, escritor deve saber, quando usá-la.

VIZINHO — Reclamam do barulho. — Reparam em tudo. — “Sempre finos, discretos, nunca deram amolação”, segundo informação de pessoa que pretende alugar a casa.

VOMITAR — Mais elegante dizer lançar cargas ao mar.

VULGAR — Adjetivo que deve ser indistintamente usado contra toda atividade comum dos homens, pelas pessoas de bom gosto.

VULGO – Sinônimo de povo.

XAROPE — Com o significado de coisa enfadonha.

XIFÓPAGOS – Ou xipófagos?

ZÉFIRO – Muito bonito como sinônimo de brisa.

MONTE CRISTO OU DA VINGANÇA – Antônio Cândido

Leitura completamente distorcida de Dumas.

escritores de segunda ordem — Eugène Sue ou Alexandre Dumas”

Enquanto a vingança permite, quando não pressupõe, um amplo sistema de incidentes, a ficção seriada exige, por seu lado, a multiplicação dos incidentes. Daí a referida e frutuosa aliança, que atendia às necessidades de composição criadas pelas expectativas do autor, do editor e do leitor, todos os três interessados diretamente em que a história fosse o mais longa e complicada possível: o primeiro pela remuneração, o segundo pela venda, o terceiro pelo prolongamento da emoção. As tendências estéticas do romantismo, sequioso de movimento, convergiam no caso com as condições econômicas da profissão literária e as necessidades psicológicas do novo público, interessado no sensacionalismo, propiciador de emoções violentas.”

Compreende-se deste modo uma das razões pelas quais a vingança pôde, no Romantismo, desempenhar função mais ou menos análoga à das viagens no romance picaresco ou de tradição picaresca.”

Um rapaz honesto, bom profissional, bom empregado, bom filho, bom noivo, bom amigo, é o ponto de partida do livro. Situação de equilíbrio que repugna por tal forma à arte romântica que o escritor se apressa em providenciar a tríplice felonia (?) que vai rompê-la e abrir perspectivas à agitação incessante da peripécia. Anos de calabouço, o encontro com o abade sábio, a aquisição da ciência.”

Alguns anos de mistério são precisos para emergir o conde do marinheiro, e do conde a vingança. Em seguida, o exercício desta, com vagar e proficiência, pelo livro afora.”

O Castelo d’If representa a fase de recolhimento pressuposta no adolescente pela educação burguesa”

Dantes era tolo e amuado

Depois virou grande homem

Um dia morreu,

Mas Dante era divino, solene e eterno,

Ó temperamento austral!

A profunda melancolia que assalta o Cidadão Kane, no píncaro da vitória, se aparenta, aí, com a do gênio romanticamente concebido — e expresso melhor do que em qualquer outro símbolo pelo Moisés de Vigny.”

A vida não é um romance, muito menos um complexo de Édipo. Certo, Camus?

Não deixa de ser meio decepcionante esta recuperação da normalidade ética, após um esforço tão grande de exceção.”

O burguês pode dar sossegado este livro aos filhos” Um ótimo conselho – se estivéssemos no século XIX!

NO MUNDO DO ROMANCE POLICIAL – Álvaro Lins

Até pelas alturas do ano 1000, o romance grego era designado como erotikon, sendo o predecessor apenas do romance popular, não artístico dos nossos dias. Por outro lado, O banquete de Trimalcíú, de Petrônio, é uma obra isolada, já parecida com o romance moderno, sem ligar-se, no entanto, o uma tradição e sem provocar uma continuidade imediata na ordem do tempo.”

Nas épocas em que dominava a estética da separação dos estilos, não havia lugar para o romance como gênero superior; quando se operou a fusão dos estilos, em nova concepção estética, o romance passou a situar-se na frente da epopéia e da própria tragédia.”

Por sua vez, mais tarde, Shakespeare vinha abolir no teatro a separação estrita entre o estilo elevado e o quotidiano realista, ligando o trágico e o cômico, o aristocrático e o plebeu. Contudo, Auerbach observa o seguinte aspecto: se o povo entra em cena nas peças de Shakespeare, a situação de personagens trágicos, trágicos realmente [com T maiúsculo], esta fica reservada às personagens de alta categoria, como reis, príncipes, chefes militares.”

Aproveitando o redescobrimento dos antigos no período anterior da Renascença, o teatro clássico dos franceses levou aos limites extremos o rigor da separação estilística, colocando uma fronteira entre o elevado-sublime de um lado e o quotidiano-ordinário do outro, ficando um para as tragédias de Racine e Corneille, o outro para as farsas de Molière.”

Passara para sempre a época em que um objeto da realidade prática só podia receber expressão literária em têrmos cômicos, satíricos, didáticos, quando muito idílicos. Revestindo-se de seriedade e grandeza, o romance conquistou os direitos de cidade como gênero literário de primeira categoria. O que a burguesia fizera por intermédio da revolução política, o romance realizou também em têrmos de uma revolução literária.”

E que espaço ocupa, por ventura, o romance policial nos grandes quadros do romance?” “O romance policial não é literatura no conceito estético desta palavra. Aquele problema da criação poética através do estilo nunca foi inteiramente resolvido pelos seus autores, e não o será nunca talvez. Grandes figuras da literatura como Voltaire, Balzac, Dickens e Dostoevski jogaram com elementos da ficção policial mas não realizaram estritamente romance policial.

Em Crime e Castigo, Dostoievski construiu a psicologia de um assassino, desdobrou, na ação romanesca das relações entre Raskolnikov e Porfírio Séméionovitch, o duelo patético entre o criminoso e o detetive, mas a esse romance, para se enquadrar no gênero policial, falta um elemento imprescindível, o enigma, uma vez que desde o princípio o leitor está no conhecimento do episódio do estudante que mata a velha usurária.

Dickens deixou inacabado um romance, O mistério de Edwin Drood, onde ocorria um assassinato, cujo autor só deveria ser revelado nas últimas páginas. Assim, se não realizou um autêntico e completo romance policial, Dickens deixou pelo menos, na sua crônica, o maior de todos os enigmas, o enigma perfeito, aquele que nunca será decifrado, tendo o autor levado para o túmulo o seu segredo, em torno do qual os intérpretes ficaram a levantar diversas conjeturas.”

KAFKIANO, NUNCA HAVIA PENSADO NISSO! “Costuma-se trazer da antiguidade um exemplo eminente com o fim de indicar Édipo-Rei como uma tragédia policial; os romances dessa espécie, que a literatura desdenha e exclui dos seus quadros, ficariam assim vingados ou reabilitados com a apresentação de uma origem tão singularmente aristocrática. Mas, para colocar Édipo-Rei na categoria da ficção policial, seria preciso inverter toda a ordem do gênero, que se desenvolve na base de um crime cometido por alguém que não se identifica logo e que é preciso descobrir no fim do romance, enquanto a tragédia grega apresenta a singularidade de um criminoso que todo o público conhece e só êle ignora que cometeu um crime.”

O último caso de Trent, da autoria de E.C. Bentley (…) <a melhor novela policial até hoje escrita>

Se esse é o critério, O ADOLESCENTE é um legítimo romance policial ultrapsicológico: “Durante algumas horas é aquele o nosso mundo, o do romance policial, e quando chega o desfecho voltamos ao natural ainda um pouco assustados como no despertar após um pesadelo.”

OU DA REALIDADE PARA A FICÇÃO? “Nenhum personagem, com efeito, passou da ficção para a realidade de modo mais completo do que Sherlock Holmes; nenhum personagem de Balzac ou de Dickens adquiriu maior popularidade e maior verossimilhança. De todos os seres criados pela imaginação foi Sherlock Holmes o que obteve mais vida autônoma, mais independência como criatura e mais ampla projeção universal. Neste sentido êle cresceu mais do que D. Quixote, Hamlet ou Grandet, embora, está claro, não participe, nem de leve, dessa mesma grandeza da criação na ordem literária ou estética.”

Os britânicos não são nenhuns sábios, mas isso é bem coisa de norte-americano turistando: “visitantes procuravam o personagem de Conan Doyle, acreditando na sua existência real.”

Ao argumento da inverossimilhança, lembra François Fosca, em História e técnica do romance policial, que os casos Humbert, Steinkeil e Stavinsky, nos últimos 50 anos, são tão inverossímeis quanto os dos romances policiais.”

E que romance com a inverossimilhança aparente, com os golpes teatrais, com o mistério, com as intervenções sensacionais, com os episódios espetaculares do autêntico affaire Dreyfus?”

[Mas] um thriller não é a mesma coisa que um bom livro.”

Nos povos com a tendência para a clareza e a transparência,¹ como os latinos, o romance policial não encontra o seu ambiente propício. Êle é o produto de uma sociedade humana impregnada da força do mistério, que sente a atração do mistério da morte e capaz de acreditar em fantasmas e casas mal-assombradas,² gostando das coisas terríveis e apavorantes, dispondo ao mesmo tempo da fantasia e do cálculo. Pois o romance policial é todo êle uma conseqüência das faculdades de imaginação ilimitada e lógica objetiva, aplicadas em operação conjunta no processo da construção ficcionista.” Já o jornalismo policialesco…

¹ Eu entendi o que quis dizer, mas cuidado com termos tão ambíguos! Não somos nada transparentes, apesar de tão solares! Diria que o problema é mesmo o clima tropical, o suor escorrendo, o que impede um Sherlock Holmes no RJ – um que não use, também, camisa-de-força…

² Pensei aqui num crossover: auto-ajuda kardecista com novela policial!

Escreveu Poe três novelas de gênero policial: O duplo[?] assassinato da rua Morgue, O mistério de Maria Roget e a Carta furtada, e com elas — por intermédio do seu detetive-amador, Dupin — lançou os fundamentos e as regras do romance policial, de tal modo que a sua obra serviu ao momento de estudos para a polícia científica.”

Tanto Conan Doyle como Gaboriau não tinham, aliás, consciência da sua própria obra; desdenhavam-na no anseio de escrever romances literários. Escreveram realmente livros com ambiciosas pretensões, mas deles nada resta na memória dos homens. Se não foram de todo esquecidos, ambos o devem a Sherlock Holmes e a Lecoq. Neste caso, é a criatura que salva o criador e que lhe fornece um pouco da sua vida imortal.”

Daniel revela o segredo em torno do ídolo do deus Baal no episódio da Bíblia, enquanto a própria filha do rei Dampsinitos, num sistema moral escandaloso para a nossa época, entrega-se a qualquer homem, como prostituta, com o fim de descobrir aquele que roubara o tão escondido tesouro de seu pai.”

O romance policial tem a feição de uma mágica que parece de efeito sobrenatural até que o prestidigitador explica a sua realidade interna, e o observador exclama: — <Como era fácil! Como teria sido possível a qualquer um de nós descobrir o segredo!>.”

O “CHECKERS & CHESS MAN” ATACA NOVAMENTE: “Verificar-se-á, com efeito, que os homens engenhosos são sempre fantasistas¹ e os verdadeiramente imaginativos são, por sua vez, sempre analíticos.²” Poe

Windom Earle foi realmente uma excrescência mal-pensada!

¹ Aloísio, o imberbe com ambições de poder: esperto, gatuno, mas nada inteligente ou realista.

² Vive no mundo da lua, desinteressado, ó Rafa!, mas tua análise é perspicaz, cirúrgica, radiográfica! Rei da abstração, só sabe jogar damas…

De modo geral, o criminoso ou é um emotivo, ou é um intelectual, e isto êle revela logo na maneira de praticar o crime, sendo que exatamente dessa constatação parte o detetive para as suas investigações.”

O público não simpatiza geralmente com a polícia, como organização oficial, e por isso é que os detetives dos romances, em sua maioria, são policiais-amadores ou profissionais de trabalhos particulares.”

Espectro Batman-Fox Mulder de inadequação-adequação ao “cargo”.

Entre os detetives da ficção policial há um jornalista, um advogado e um padre: o jornalista Rouletabile, o advogado Perry Mason [som na caixa!] e o padre Brown.”

Na última novela de Memórias de Sherlock Holmes, o grande detetive caía num abismo nos Alpes, em luta com um famoso bandido, morrendo ambos. O público não se conformou, porém, com este acabamento trágico, e tantas foram as manifestações de dor e de cólera que Conan Doyle resolveu <ressuscitar> o seu herói.” De Toriyama e Lynch, todo autor tem um pouco…

Só tendo o epílogo constantemente em vista poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de conseqüência, ou casualidade, fazendo com que os incidentes tendam para o desenvolvimento de sua intenção.”

OS FUNDAMENTOS DA FÍSICA (vol. III) (9ª ed.) – Ramalho

PARTE I. CARGAS ELÉTRICAS EM REPOUSO

CAPÍTULO 1. Eletrização & Força elétrica

Eletrostática como um domínio completamente separado do estudo da força gravitacional.

O nome elétron deriva de elektron, grego para âmbar, substância com que os antigos identificaram pela primeira vez a repulsão e atração de caráter elétrico. Adivinha a quem se atribui a descoberta em primeiro lugar? Ao desatento Tales, O Lunático. Foi preciso esperar até o séc. XVI para que, na Inglaterra, dessem continuidade ao estudo da Eletricidade. Uma “descoberta” nada bárbara (cof, cof)…

A palavra tribo advém do grego tribein e significa <atritar>, <esfregar>. Por isso a eletrização por atrito é também denominada triboeletrização.”

Os materiais como o vidro, que conservam as cargas nas regiões onde elas surgem, são chamados isolantes ou dielétricos. Os materiais nos quais as cargas se espalham imediatamente são chamados condutores. É o caso dos metais.”

Van der Graaf (1901-1967). “Geradores de VdG de grande porte, que armazenam grandes quantidades de carga elétrica, gerando descargas elétricas de enormes proporções, costumam ser utilizados em aceleradores de partículas.”

Corrimões de escadas rolantes e batentes de portas: “Em regiões de clima seco, é relativamente comum um passageiro sentir um pequeno choque ao descer de um veículo e tocá-lo. Isso ocorre porque, sendo o ar seco bom isolante elétrico, a eletricidade estática adquirida por atrito não se escoa para o ambiente, e o passageiro, ao descer, faz a ligação do veículo com o solo. Às vezes é a roupa do passageiro (ou do motorista) que se eletriza por atrito com o banco do carro. Ao descer, o toque na parte metálica produz a descarga e a sensação de choque.”

[!] “Foi o cientista, político e escritor americano Benjamin Franklin (1706-1790) quem introduziu os termos eletricidade positiva e eletricidade negativa para designar a eletricidade vítrea e resinosa, respectivamente.” Este homem tão precipitado enquanto politicólogo inventou o pára-raio! Isso o livro-texto da minha época não mostrava…

ATENÇÃO: A experiência realizada por Franklin é muito perigosa. Por isso, jamais tente repeti-la.” HAHAHAHA

Não esperava encontrar isto aqui (p. 35): “Dos inúmeros sermões proferidos pelo Padre Antônio Vieira (1608-1697), os mais famosos são Sermão da Quinta Dominga da Quaresma e Sermão da Sexagésima.”

CAPÍTULO 2. Campo elétrico

(…)

CAPÍTULO 3. Trabalho e potencial elétrico

(…)

CAPÍTULO 4. Condutores em equilíbrio eletrostático. Capacitância eletrostática

Ocorrem por dia, em nosso planeta, cerca de 40 mil tempestades, que originam, aproximadamente, 100 raios por segundo.”

Os dois tipos de pára-raios:

a) Modelo de Franklin

Também chamado simplesmente de pára-raios de F., consta basicamente de uma haste condutora disposta verticalmente na parte mais alta da estrutura a ser protegida. A extremidade superior da haste apresenta de 3 a 4 pontas de um material de elevado ponto de fusão (que não se derreta com a dissipação da energia da descarga). A outra extremidade da haste é ligada, por meio de condutores metálicos, a barras metálicas profundamente cravadas no solo.

Estudos experimentais permitiram concluir que <o campo de proteção oferecido por uma haste vertical é aquele abrangido por um cone, tendo por vértice o ponto mais alto do pára-raios e cuja geratriz forma um ângulo de 60° com a vertical.

b) Modelo de Faraday

Este método consiste em uma malha de captação, formando módulos retangulares, feitos de cabos de cobre nu passando por suportes isoladores, colocados de modo a envolver o topo da estrutura, como uma gaiola. Ao longo da malha, distribuem-se regularmente hastes terminadas em ponta. O aterramento se dá do mesmo modo que o método de F., mas com maior número de terminais. Esse sistema, apesar de mais dispendioso, proporciona maior proteção, sendo utilizado em edificações de grande porte, como ginásios, galpões industriais, etc.

Obs.

O pára-raios radioativo, baseado na ionização do ar por meio da presença de material radioativo no material constituinte da ponta, está proibido no Brasil desde 1989. Quem eventualmente ainda utilize esse tipo de p-r está obrigado a desmontá-lo e encaminhar os componentes à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).”

PARTE II. CARGAS ELÉTRICAS EM MOVIMENTO

CAPÍTULO 5. Corrente elétrica

O pior caso de choque é aquele que se origina quando uma corrente elétrica entra pela mão de uma pessoa e sai pela outra. Nesse caso, atravessando o tórax de ponta a ponta, há grande chance de a corrente afetar o coração e a respiração.

O valor mínimo de intensidade de corrente que se pode perceber é 1mA (micro-ampère). Esse valor provoca sensação de cócegas ou formigamento leve. Entretanto, com uma corrente de intensidade 10x maior a pessoa já perde o controle dos músculos, sendo difícil abrir a mão e livrar-se do contato.

O valor mortal está compreendido entre 10mA e 3A, aproximadamente. Nessa faixa de valores, a corrente, atravessando o tórax, atinge o coração com intensidade suficiente para modificar seu ritmo. Modificado o ritmo, o coração pára de bombear sangue para o corpo e a morte pode ocorrer em segundos. Se a intensidade for ainda mais alta, a corrente pode paralisar completamente o coração. Este se contrai ao máximo e mantém-se assim enquanto passa a corrente. Interrompida a corrente, geralmente o coração relaxa e pode começar a bater novamente, como se nada tivesse acontecido. Todavia, paralisado o coração, paralisa-se também a circulação sangüínea, e uma interrupção de poucos minutos dessa circulação pode provocar danos cerebrais irreversíveis.”

CAPÍTULO 6. Resistores

Existem elementos de circuitos cuja função, entre outras, é a de transformar energia elétrica em energia térmica (dissipar energia elétrica) ou limitar a intensidade da corrente elétrica em circuitos eletrônicos. Tais elementos recebem o nome de resistores.

São exemplos de resistores que se destinam a dissipar energia elétrica: os filamentos de tungstênio das lâmpadas elétricas incandescentes; fios de certas ligas metálicas (como nicromo: liga de níquel e de cromo), enrolados em hélice cilíndrica, utilizados em chuveiro, torneiras elétricas, secadores de cabelos, etc.

Os resistores utilizados para limitar a intensidade de corrente que passa por determinados componentes eletrônicos não têm a finalidade de dissipar energia elétrica, embora isso aconteça inevitavelmente. Comumente, são constituídos de um filme de grafite depositado de modo contínuo sobre um suporte cerâmico ou enrolado em forma de faixas helicoidais.”

Muitos resistores que se destinam a dissipar energia são, algumas vezes, chamados impropriamente de <resistências>. Você certamente já ouviu frases do tipo <é preciso trocar a resistência do chuveiro> ou <a resistência do secador de cabelos queimou>. Na verdade, a resistência elétrica é uma propriedade física do resistor.”

O estudo moderno da eletricidade teve início a partir da observação de um biólogo. Luigi Galvani (1737-1797) verificou que as pernas da rã, que suspendera para secar por meio de presilhas de cobre num suporte de ferro [quem seca uma rã???], contraíam-se quando balançados pelo vento. Galvani atribuiu a ocorrência à existência de correntes elétricas produzidas pelas próprias pernas da rã.

(…) [Mas] o físico Alessandro Volta (1745-1827) não concordou com a hipótese de seu colega biólogo. Para ele, as contrações eram devidas a uma corrente elétrica, mas produzidas de outro modo. Ao serem balançadas pelo vento, as extremidades livres das pernas suspensas tocavam o suporte de ferro. Então estabelecia-se o contato da perna da rã com 2 metais, o cobre, de um lado, e o ferro, do outro. Isso e mais as substâncias ácidas do corpo da rã geravam a corrente responsável pelas contrações. A construção da primeira pilha elétrica por Volta comprovou a veracidade de sua hipótese.”

Com a descoberta do efeito magnético da corrente elétrica, a história da Eletrodinâmica se entrelaça com a do Magnetismo, surgindo então com destaque as pesquisas de cientistas como Oersted, Ampère, Faraday, Maxwell e outros.”

! DICAS CULTURAIS !

As óperas de Verdi adaptando Shakespeare e Schiller. La Traviata, cantada no Poderoso Chefão 2.


Paulicéia Desvairada é considerado como o primeiro livro de poemas do modernismo brasileiro (Mário de Andrade).”

CAPÍTULO 7. Associação de resistores

(…)

CAPÍTULO 8. Medidas elétricas

(…)

CAPÍTULO 9. Geradores elétricos

(…)

CAPÍTULO 10. Receptores elétricos

(…)

CAPÍTULO 11. As leis de Kirchoff

(…)

CAPÍTULO 12. Capacitores

(…)

PARTE III. ELETROMAGNETISMO

CAPÍTULO 13. Campo magnético

campo magnetico

CAPÍTULO 14. Força magnética

(…)

CAPÍTULO 15. Indução eletromagnética

(…)

CAPÍTULO 16. Noções de corrente alternada

(…)

CAPÍTULO 17. Ondas eletromagnéticas

(…)

PARTE IV. INTRODUÇÃO À FÍSICA MODERNA

CAPÍTULO 18. Relatividade especial

No final do séc. XIX, acreditava-se que as ondas eletromagnéticas, a exemplo das ondas mecânicas, necessitavam de um meio material para se propagarem. Esse meio elástico, onipresente e invisível, preenchendo todo o Universo, foi denominado éter. As ondas eletromagnéticas e a luz, em particular, propagavam-se com velocidade c = 300 mil km/s em relação a esse meio.

Como o éter era um meio hipotético, cuja existência jamais fôra provada, em 1887 os cientistas Michelson e Morley realizaram, em Cleveland (EUA), uma experiência para verificar sua existência. Eles consideraram que, se o espaço sideral estivesse preenchdio por um <mar de éter> imóvel e a luz fosse realmente propagada através dele, a velocidade desta deveria ser afetada pela <correnteza de éter> resultante do movimento de translação da Terra. Em outras palavras, um raio de luz lançado no sentido do movimento da Terra deveria sofrer um retardamento, por causa da correnteza do éter, da mesma forma que um nadador é retardado pela correnteza da água ao nadar contra ela.”

Michelson e Morley esperavam encontrar valores diferentes para os intervalos de tempo delta-T e delta-T’, segundo cálculos teóricos previamente feitos. A diferença de tempo deveria ser detectada pela análise da interferência dos feixes de luz no anteparo de sua máquina interferômetro [basicamente um superespelho mergulhado horizontalmente em mercúrio]. Contudo, realizada a experiência, a conclusão foi perturbadora: não havia diferença entre os 2 intervalos de tempo. Repetiram a experiência várias vezes, em épocas e condições técnicas diferentes, chegando sempre à mesma medição. (…) Foi o fim do sistema de referência universal newtoniano.”

CAPÍTULO 19. Física quântica

Na história da Física, existem vários exemplos de conceitos que exigiram revisão ou mesmo substituição, quando novos dados experimentais se puseram a eles. Contudo, no caso da luz, foi a primeira vez em que duas teorias, completamente diferentes, são simultaneamente necessárias, completando-se mutuamente.”


“Logo após a hipótese de
De Broglie, foi desenvolvida por vários físicos notáveis, como Heisenberg, Schrödinger, Born, Pauli [citado em Jung] e Dirac, a Mecânica Quântica.”

CAPÍTULO 20. Física nuclear

A força nuclear forte é a mais intensa das 4 forças fundamentais. Sua intensidade é 1038 vezes maior que a força gravitacional, a mais fraca das quatro. Entretanto, sua ação só se manifesta em distâncias muito pequenas, comparáveis às dimensões do núcleo atômico (10-15m). A intensidade da força nuclear forte diminui rapidamente quando há a separação entre as partículas, praticamente se anulando quando a distância assume as dimensões de alguns diâmetros nucleares. Essa força também é denominada força hadrônica, porque só se manifesta entre os hádrons, grupo de partículas do qual fazem parte os nêutrons e os prótons, mas não os elétrons, que não são afetados pela força nuclear forte.”

A intensidade da força eletromagnética é em média 100x menor que a da força nuclear forte.”

NÃO BRINCAR COM FOGO OU ELETRICIDADE: “Entre os léptons (grupo de partículas das quais faz parte o elétron) e os hádrons, atuando em escala nuclear, desenvolve-se a denominada força nuclear fraca. Sua intensidade é 1025 vezes maior que a da força gravitacional, mas 1013 vezes menor que a da força nuclear forte. Ela é a responsável pela emissão de elétrons por parte dos núcleos de algumas substâncias radioativas, num processo denominado decaimento beta. Atualmente a maior parte dos cientistas admite que a força nuclear fraca e a força eletromagnética são manifestações diferentes de uma mesma interação fundamental, chamando-as de força eletrofraca. Esse é um primeiro passo para a unificação completa das 4 forças fundamentais, entendendo-as como manifestações de uma única superforça.”

a força gravitacional tem grande importância na Astronomia e na Cosmologia, explicando a movimentação dos astros no Universo, bem como a formação de estrelas, galáxias e sistemas planetários.”

Um contato entre uma partícula e sua antipartícula pode resultar num processo de aniquilação da matéria. É o que ocorre entre um elétron e um pósitron, sendo criados dois fótons de alta energia.”

Com a construção de grandes aceleradores de partículas, muitas antipartículas foram descobertas como, p.ex., o antipróton e o antinêutron. O antipróton foi descoberto em 1955 pelos físicos norte-americanos Owen Chamberlain (1920-2006) e Emílio Gino Segré (1905-1989), no Bévatron da Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA. Por esse feito, receberam o prêmio Nobel de Física de 59.”

Entre os bósons, os mais conhecidos são os fótons, que têm massa de repouso nula.”

As partículas elementares elétron, neutrino, múon, tau e suas antipartículas são exemplos de léptons. O nome lépton significa leve, e a razão disso é que sua massa costuma ser menor que a menor massa dos hádrons. Entretanto, sabe-se hoje que o tau, um tipo de lépton que só pode ser encontrado em partículas aceleradas e em raios cósmicos, tem massa que corresponde a quase o dobro da massa do próton.

Os hádrons, que estão sujeitos a todas as interações, podem ser de 2 tipos: os mésons e os bárions. Um tipo de méson, o píon, foi descoberto em 1947 pelo físico brasileiro César Lattes (1924-2005), no pico de Chacaltaya, nos Andes bolivianos, a 5.600m de altitude. Os mésons são partículas cuja massa pode variar desde um valor próximo a 1/7 da massa do próton até valores mais elevados que a massa de núcleos leves. Próton, nêutron, lambda, sigma, Xi, ômega e suas antipartículas são exemplos de bárions.”

Os hádrons, na verdade, não seriam partículas elementares, pelo fato de que são constituídos por partículas ainda menores, os denominados quarks.¹ O modelo dos quarks prevê a existência de 3 tipos, indicados pelas letras u (de up), d (de down) e s (de strange [haha]). Os quarks apresentariam carga elétrica fracionária em relação à carga elementar. Existiriam 3 antiquarks.

¹ O nome quark, dado por Gell-Mann às menores partículas constituintes da matéria, foi tirado do romance Finnegans Wake, de Joyce.

Esse modelo se expandiu com a inclusão de mais 3 tipos de quarks: o c (de charmed), o b (de bottom) e o t (de top) e seus correspondentes antiquarks.”

Os hádrons mais comuns (prótons e nêutrons), denominados núcleons, são constituídos apenas pelos quarks u e d. Um próton seria constituído por 2 quarks u e um quark d, pois a carga elétrica do quark u é +2/3 e a do quark d é -1/3 (carga = 1). Um nêutron seria formado por 2 quarks d e um quark u (carga 0).”

Cada m² da superfície do planeta é atingido, em cada segundo, por cerca de 200 partículas denominadas raio cósmico, com energias de alguns milhões de elétrons-volt. Entre as partículas que constituem a radiação cósmica predominam os elétrons e os núcleos atômicos, principalmente de hidrogênio (prótons). As partículas dos raios cósmicos deslocam-se pelo espaço com velocidades próximas à da luz. Algumas delas são muito mais energéticas do que qualquer outra partícula produzida nos maiores aceleradores de partículas existentes.”

No Brasil, as atividades envolvendo os raios cósmicos marcam o próprio início das pesquisas físicas em nosso país. Por ocasião da implantação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em 1934, foi marcante a atuação do físico ucraniano de nascimento, naturalizado italiano, Gleb Wataghin (1899-1986), que hoje empresta seu nome ao Instituto de Física da Unicamp.”

Em 1949, foi criado no RJ o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), coordenado por César Lattes e José Leite Lopes (1918-2006), outro importante pesquisador brasileiro, primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Física.”

Na esteira dos aperfeiçoamentos dos acelerados de partículas, em 1929, o físico norte-americano Ernest Lawrence (1901-58), prêmio Nobel de física de 39, desenvolveu outro acelerador com concepção diferente, o cíclotron, no qual partículas carregadas eram aceleradas em percursos espiralados, ganhando energia a cada ciclo. Esse conceito ainda hoje é utilizado nos grandes aceleradores.”

quando núcleos pesados como os de urânio são bombardeados por partículas como nêutrons acelerados, originam-se núcleos menores e uma grande quantidade de energia. (…) Essa energia obtida confirmou plenamente a fórmula de Einstein E = mc²”

Em 02/12/1942, na Universidade de Chicago, um grupo de cientistas, dirigido por Enrico Fermi [ironicamente, um italiano ‘ajudou a matar’ o fascismo], criou com sucesso o primeiro reator a conseguir um estado de auto-sustentação ou <crítico>. O reator era abastecido com urânio natural embebido em blocos de grafite, tendo a fissão ocorrido no isótopo do urânio de massa 235 e 92 prótons.”

invenção da bomba a

Chama-se energia de ligação do núcleo a quantidade de energia mínima que o núcleo deve receber para ser possível separar núcleos atômicos. (…) quando núcleons se juntam e se fundem para formar um núcleo mais pesado, há liberação de energia, que corresponde à energia de ligação, i.e., à energia que o núcleo formado deveria receber para que fossem liberados os núcleos originais. No processo que ocorre no Sol, núcleos de hidrogênio unem-se para formar núcleos de hélio e, como subproduto dessa reação nuclear, é liberada uma enorme quantidade de energia.”

Por que não existem usinas de energia de fusão nuclear? “o gasto de energia para se obterem as condições necessárias à realização do processo é maior que a quantidade de energia obtida dele.” “A fusão nuclear causa bem menos problemas que a fissão na obtenção de energia elétrica. Por isso, há um grande empenho dos cientistas e dos governos em todo o mundo para buscar soluções que tornem viável a utilização do processo de fusão em substituição ao de fissão. Nesse sentido, foi criado um projeto internacional, que constitui uma das maiores cooperações científico-tecnológicas dos últimos tempos, o ITER (International Thermonuclear Experimental Reactor). O reator, baseado na tecnologia Tokamak, está sendo construído na França e, uma vez concluído (o primeiro prazo para início das operações é 2016), deverá produzir cerca de 1 GW (1 bilhão de watts) de potência. Tal projeto consumirá mais de 10 bilhões de euros, metade dos quais investidos pela comunidade européia.” Atualizações: https://www.iter.org/sci/iterandbeyond – a máquina sucedânea do projeto ITER tem previsão para entrar em funcionamento nos anos 40: “DEMO is the machine that will address the technological questions of bringing fusion energy to the electricity grid. The principal goals for the DEMO phase of fusion research are the exploration of continuous or near-continuous (steady-state) operation, the investigation of efficient energy capture systems, the achievement of a power output in the Q-value range of 30 to 50 (as opposed to ITER’s 10), and the in-vessel production of tritium (called tritium breeding). DEMO would be a simpler machine than ITER, with fewer diagnostics and a design more targeted to the capture of energy than to the exploration of plasma regimes.” “Beyond DEMO, the final step to producing fusion energy would be the construction of a prototype reactor, fully optimized to produce electricity competitively. The timescale for such a prototype depends heavily on political will to reach this stage, but most forecasts place this phase of fusion energy development at the middle of the century.” Ironicamente, além da União Européia parece que só o Japão está envolvido, sem a presença dos EUA…

supernova

Uma das previsões da relatividade geral de Einstein é a existência de ondas gravitacionais, as quais, apesar das tentativas, ainda não foram observadas. Existe a expectativa de que na eventual colisão de dois buracos negros, envolvendo massas da ordem de milhares de massas equivalentes ao Sol, ondas gravitacionais possam ser detectadas, resolvendo um dos grandes enigmas da Física atual.”

PARTE V. ANÁLISE DIMENSIONAL

CAPÍTULO 21. Análise dimensional

(…)

[+]

Gilbert, De magnete, 1600.

Grattan

AS EXTRAORDINÁRIAS AVENTURAS DO BARÃO MUNCHAUSEN: Um RPG Superlativo num Estilo Totalmente Inovador pelo Barão Munchausen – James Wallis, trad. Marta Cancela, DEVIR, 1998.

segundo a minha família, havia um Munchausen viajando clandestinamente na Arca de Noé”

a minha reputação, e com ela o recontar de diversas das minhas espantosas aventuras, espalhou-se em todo o mundo civilizado, através dos oceanos, das profundezas da África ao longínquo Japão, os mundos gêmeos do Sol e da Lua e os estranhos povos que lá vivem, e até mesmo na França. Portanto, para onde quer que viaje, encontro sempre quem me convença a contar essas histórias cujos pedidos nunca recuso, sendo um homem de nobre criação.

De acordo com o mencionado, os palermas que querem ouvir mais uma vez como os meus companheiros e eu fomos engolidos por uma baleia, ou como atravessei os céus de Constantinopla montado numa bola de canhão, não me permitem um momento de paz. E muitas vezes tenho como única recompensa um copo do mais ordinário conhaque ou até mesmo nada! Serei eu um contador de histórias que o faz apenas para o divertimento de outros? Não! Sou um nobre, um soldado e um aventureiro, enquanto eles são apenas simplórios, e que eu seja amaldiçoado se quiser ter algo mais a ver com eles.”

Penso que esta deve ser a maior inovação na concepção de jogos desde o Baralho de Cartas de Tarot Colecionável, que eu inventei quando estava encarcerado na Bastilha, por uma falsa acusação de importar marmelos num domingo.”

Este é um jogo de narração de histórias, e cada uma dessas histórias será baseada nas extraordinárias aventuras que vivi – no seu estilo, se não no seu conteúdo. Mas enquanto as histórias que vós contais são ficção, as minhas são inteiramente verdadeiras em todo e qualquer pormenor. Não o dizer é chamar-me de mentiroso, e fingir que as vossas fantasias aconteceram comigo é chamar-me de charlatão, e, se fizerdes qualquer uma destas duas coisas, levar-vos-ei lá fora e farei uma tal demonstração da arte da esgrima que vos estonteareis de tal modo que ficareis cego pelas faíscas durante um mês. Eu sou um nobre, senhores, e comigo não se brinca.”

O jogo é simples. Os jogadores sentam-se à volta de uma mesa, de preferência com uma garrafa de um licor interessante ou de um vinho decente para umedecer as gargantas, e cada um, a sua vez, conta uma aventura ou feito espantoso. A narração da história é desencadeada por um dos outros, e o resto dos companheiros pode interromper com perguntas e observações quando acharem que o devem fazer, e é a função do narrador refutar ou evitar essas questões. Quando todos terminarem, o que tiver contado a melhor história paga bebidas aos seus companheiros e, com todos devidamente fortificados, o jogo pode recomeçar.”

Se os vossos companheiros forem em número menor que cinco, então dai a cada homem cinco moedas. Se contardes mais de 20, não penseis em jogar o jogo: em vez disso aconselho que junteis as vossas posses, contrateis alguns mercenários e planejeis uma invasão da Bélgica.”

quem propuser jogar com dinheiro em papel – que não serve para mais nada senão para limpar o tra… não é certamente um cavalheiro e deve ser expulso do vosso grupo e em seguida do vosso clube.”

Se o grupo não estiver bêbado, cansado ou aborrecido, passai para a CRIAÇÃO DOS PERSONAGENS. Caso contrário, podereis omiti-la. Ou simplesmente omitir tudo.”

Para tratar do assunto da criação dos personagens será necessário um pedaço de pergaminho e uma pena – assumindo que, tendo recebido uma educação decente, vós sabeis ler e escrever, pelo menos em Latim.”

O curso da narrativa nunca pode amolecer, pois os outros jogadores podem interromper a qualquer momento o contador com uma aposta ou uma objeção. Isto é feito quando o jogador empurra uma moeda (nunca mais de uma) das moedas que tem a sua frente – a que chamaremos a parada –, interrompendo o curso da narrativa. Uma aposta seria lançada como demonstram estes exemplos:

– Aposto, Barão, que atrás da porta que mencionastes estava todo um regimento de cavalaria com fuzis esperando para vos emboscar; ou:

– Aposto, Conde, que a Imperatriz não se impressionou com a vossa oferta de duas girafas e mandou-vos abandonar os seus aposentos imediatamente.

As objeções, pelo contrário, lançam-se deste modo:

– Mas, Conde, é sabido que a Imperatriz tem ódio a girafas, desde que o seu cãozinho foi comido por uma; ou:

– Mas Duquesa, no momento que mencionais, o Colosso de Rodes já era uma ruína há 50 anos, por isso seria impossível terdes feito a sua escalada.”

Se a aposta ou objeção do jogador que interrompeu estiver correta deve o contador concordar com o seu companheiro e pode guardar a moeda. Deverá, contudo, explicar obrigatoriamente como os acontecimentos introduzidos na interrupção do companheiro não o impediram de continuar com a aventura que está a descrever.

Se, contudo, a interrupção for julgada incorreta pode afastar a parada do colega junto com uma moeda sua, e informar ao outro que ele é um idiota que claramente não sabe do que fala e que obtém as suas informações ouvindo coscuvilhices de solteironas em rodadas de gim. Se aquele que interrompeu não está preparado para fazer frente a este insulto a sua honra, pode juntar outra moeda à pilha e devolvê-la ao contador, reforçando o seu caso e devolvendo o insulto com juros. O contador pode de novo devolver a aposta com outra moeda e outro insulto, e assim sucessivamente até que um dos lados retire a sua objeção e aceite o insulto (ficando com toda a ‘parada’), ou uma das partes esgote os seus fundos mas não desista – caso em que devem travar um duelo.”

Os nobres enquadram-se num modelo estabelecido por Deus Todo Poderoso, e descrito pela 1ª vez por Baldesar Castiglione na sua obra O Livro do Cortesão. A verdade das suas palavras vem até hoje, apesar do fato de – devido a uma má fortuna de nascimento – ele ser italiano. Tomarei a liberdade de citar esse augusto nobre sem a sua permissão, visto que já faleceu há mais de 200 anos.”

O comportamento do nobre é a pedra basilar de toda a civilização, pois sem a nobreza não haveria o patrocínio das ciências, artes, literatura ou música; e apenas as diversões mais comuns como o teatro, os bailaricos, a política e as trocas comerciais permaneceriam. Naturalmente, nenhum nobre tem coisa alguma a ver com magia, pela razoabilíssima razão de que a magia não existe.”

(…O meu editor, digo, cujos olhos brilham de raiva e o cabelo se eriça como o daquele ouriço-cacheiro gigante que uma vez derrotei na Escócia virando-o pelo avesso, e assim apunhalando-o mortalmente com seus próprios espinhos – o meu editor, temo, morrerá de uma apoplexia, a menos que eu termine esta digressão, feche estes parênteses e regresse ao assunto das OBJEÇÕES E APOSTAS. Francamente, estou achando este assunto das regras mais do que aborrecido, especialmente agora que esta garrafa de conhaque acabou. Sim, isso foi uma indireta, que, ao que parece, ele não entendeu. O quê? Ah! fechar os parênteses. Que assim seja.)”

É mais do que óbvio, até para o idiota mais tapado, que o contador da história não foi morto, pois ele está contando a história, e se tal objeção for feita, o contador pode embolsar a moeda do objetante, e todos os companheiros devem olhar para o tolo com indisfarçado desprezo. Podem atirar sobre ele pedaços de pão duro, mas atiçar-lhe os cães já é considerado de má-educação.”

TRAVANDO DUELOS

(Advertem-me de que a moda agora é chamar a esta parte das regras de <Sistema de Combate>. É um nome feio que tropeça na língua e parece um manual prussiano sobre os métodos de esgrima com sabre. Desprezo-o. Se o seu criador sentir-se incomodado pelo meu desprezo por ele e pela sua frase, deixai-o desafiar-me e veremos se sabe algo sobre os verdadeiros <sistemas de combate>, ao mesmo tempo que reduzo a suas calças a renda.)”

Lutar por questões de honra é um assunto perigoso que pode trazer a pobreza, ferimentos ou a morte ou – um horror pior – o ridículo perante os participantes, mas é tão necessário como o bife para um inglês, o ouro para um suíço ou evitar banhos para um francês.”

O duelo tem de prosseguir somente até haver sangue derramado ou incapacidade, pois este é apenas um desentendimento amigável, mas já vi duelos serem travados até o desmembramento ou à morte por assuntos como um particípio passado mal conjugado.”

Qualquer pessoa que possui um título hereditário ou que tenha servido como oficial em qualquer dos melhores exércitos do mundo (o alemão, o prussiano, o inglês, o espanhol, o italiano ou, para esse fim, o do Catai, o etíope, o persa – e com efeito, agora que pensei nisso, todos exceto o turco, o polonês e o irlandês) deve passar à seção seguinte.”

recomendo um mestre de duelos inglês para duelos que possam durar até 5 dias e depois serem cancelados ou adiados devido à chuva ou acabarem em empate.”

Um certo número de estados não-iluminados declararam os duelos ilegais, por isso os participantes correm o risco de serem interrompidos por membros das classes baixas brandindo cassetetes e mandados, o que é mais do que suficiente para pôr qualquer duelista desconcentrado.”

TRAVANDO DUELOS ENTRE COVARDES

Se sois fraco de sangue, mole das carnes ou débil do fígado ou – como modo de obter uma desculpa – se estais com pressa para terminar o jogo, ou se há senhoras presentes que ficariam chocadas ao ver sangue, ou se sois incapaz de manterdes o papel que estais a desempenhar ao pensar num combate nobre, e vos encontrais de novo reduzido ao papel de um mero camponês, ou se fordes galês; se qualquer destas coisas for verdade, então talvez desejeis evitar o combate físico que representa um duelo. Em vez disso, tal como estais fingindo ser um nobre no meu jogo, podeis fingir que estais travando um duelo com um conjunto de regras que eu mesmo concebi para esse fim.

Eu retiro o <eu mesmo <concebi>. Na verdade, este jogo foi-me ensinado por um habitante da Estrela-Cão, que encontrei a uma grande distância de sua casa, na última ocasião em que visitei a Lua. Sei que este jogo foi ensinado originalmente a estes caninos astrais pelo famoso navegante Vasco da Gama, que em sua derradeira viagem, traçou a rota para a ilha do Ceilão, mas errou por vários milhares de léguas e acabou navegando para fora da borda do mundo. Eu culpo a fraca imitação que são as cartas marítimas portuguesas, mesmo sabendo que, sem dúvida, os portugueses hão de culpar a bússola, ou o vento, ou a água, ou os habitantes do Ceilão, ou a forma do mundo, ou a Lua, ou qualquer coisa que pudesse absolver a sua relaxada mão-de-obra.

Vasco da Gama chamou as regras de <Garrafa-Copo-Garganta> (ele era português, tal como esclareci anteriormente) e os habitantes da Estrela-Cão conhecem-nas como <Osso-Pau-Bola>. Chamar-lhes-ei de <Pedra-Papel-Tesoura> e… Ah! O meu editor diz-me que fui ultrapassado pelo destino e que o jogo já é conhecido por esse nome em todo o mundo, e que devo riscar o parágrafo acima.”

bebi fundo do vinho do porto de lorde Bootlebury e dos olhos castanhos de sua filha mais nova, tão grandes e profundos como os do veado que matei na Floresta Negra empanturrando-o de bolo – o seu sabor, devo dizer, não ficou muito favorecido por este método”

Poderia dizer mais, porém não vou gastar mais palavras neste assunto, destinado como é, apenas a mariquinhas e àqueles que têm medo de ver um pouco de sangue, ou de somar mais uma morte ou duas à sua consciência.”

Assumindo que ambas as partes ainda vivem, o resultado de um duelo é o seguinte: o perdedor deve entregar todo o conteúdo da sua bolsa ao vencedor e retirar-se do jogo. Se uma das duas partes chegou a perder a vida no conflito, então a sua testemunha deve seguir essas instruções. Contudo, o seu galardão – se o tiver – deve permanecer intacto.”

uma tripulação de piratas morenos e eu estávamos encurralados nas entranhas de um enorme monstro marinho que infelizmente nos tinha engolido – um acontecimento comum, soube pelas minhas conversas com diversos aventureiros marítimos, mas esta sendo de algum modo peculiar pois estávamos escalando o Matterhorn quando fomos engolidos.”

TERMINANDO UMA HISTÓRIA

Pela minha experiência, uma história não deve demorar mais do que 5min, pois para além desse tempo os ouvintes começam a ficar aborrecidos e indiferentes e a falar entre eles e a atirar pedaços de pão duro e a jogar dados ou cartas e a chamar músicos e a dançar em cima da mesa e a seduzir a anfitriã e a distribuir literatura sediciosa ou revolucionária e a congeminar guerras na Ásia, e outras distrações que poderão fazer até mesmo o melhor contador perder o ritmo – particularmente se ele também tiver intuitos que envolvam a anfitriã.”

Se um contador de histórias termina sua narrativa e não há ninguém para gritar <Viva!>, pois estão todos a dormir ou com outras ocupações, então ele deve dar a entender aos companheiros que chegou ao fim levantando-se e proferindo em alto e bom som: <Esta é a minha história, na qual todas as palavras são verdade, e se algum homem duvidar fá-lo-ei beber uma garrafa de conhaque num só gole.> Isso serve de sinal aos companheiros, pelo volume, não pelas palavras, que deverão levantar-se do torpor causado por uma história maçante e reunir uns quantos <Viva!> para darem a entender que perceberam que a história acabou.”

Se porventura um contador se embrenhou de tal modo na sua narração que não percebeu que o grupo perdeu o interesse e começou em vez disso a fazer lutas de galos ou a caçar texugos, então qualquer dos seus companheiros poderá interromper num momento oportuno dizendo: <Isso me lembra a história contada pelo Barão N… (nomeando o jogador sentado à direita do presente contador) no qual ele..> e nomeia uma aventura. Com isso, ele deve avançar uma moeda. Se os demais integrantes do grupo concordarem, devem também avançar uma moeda cada um, e se mais da metade dos presentes concordarem que o manto de contador deve passar ao seguinte, então o Barão N— começará o relato de uma nova aventura. O contador anterior, abatido pela vergonha e pela desonra, poderá somar o dinheiro reunido à sua bolsa como uma recompensa. Se menos da metade do grupo apoiar com moedas a causa, então esse montante será entregue ao criado para comprar mais vinho.”

DETERMINANDO O VENCEDOR

Quando todos terminaram as suas histórias, deverá haver um momento de pausa. Reclinai-vos nas vossas cadeiras e permiti que o criado ou criada que está a servir o vinho volte a encher o vosso copo. Pensai nas histórias que ouvistes e decidi qual delas é a melhor. Se fordes do tipo erudito podereis querer debater esta questão com os vossos companheiros, fazendo referência à Arte Poética de Aristóteles e aos recentes trabalhos críticos do poeta Dryden. Ou se não, tudo bem. Não tem importância.”

Quando todos os jogadores tiverem falado, votado e distribuído o seu galardão (e devo de novo relembrar aos mais lentos, populares e plebeus dentre os meus leitores que um nobre nem consideraria a idéia de votar em si próprio), então cada jogador deve contar o número de moedas votadas para si e para a sua história. (Em voz baixa, naturalmente, não há nada que fique tão mal a um nobre como saber apenas contar alto; e se os vossos conhecimentos numéricos não passam do 5, então deveis desde já desistir de quaisquer intenções de jogar este jogo, e descobri para vós um passatempo mais de acordo com a vossa natureza como cultivar nabos, trabalhar como isca para ursos ou declarar guerra aos turcos.)

TERMINANDO O JOGO

O jogador com o maior galardão é declarado o vencedor do jogo. Todos gritam um sonoro <Viva!> e manda-se vir mais vinho para se beber à saúde do vencedor. É da etiqueta que o vencedor deverá pagar este vinho, e é também de praxe que o dinheiro acumulado como galardão não deve ser – ou melhor, nunca é – suficiente para cobrir o seu custo. Mas isso não é problema. Somos nobres e coisas mesquinhas como o pagamento justo e o dinheiro são consideradas por nós como sendo de menor importância.”

Se jogardes estrategicamente, de modo a obterdes mais moedas, posso assegurar-vos que perdereis o jogo; parcialmente porque o vosso dinheiro deve ser dado a outro, e parcialmente porque tereis criado tal inimizade por parte dos restantes que nenhum votará em vós. Contudo, esta tática dar-vos-á a honra de decidir quem ganha o jogo.”

Sem moedas não podereis interromper um camarada, contestar interrupções à vossa história ou votar pelo vencedor. E como um nobre não pede nem rouba, já que não tendes fundos, o melhor é aumentá-los contando uma bela história que estimule muitas interrupções por parte dos vossos companheiros, e que saibais desviá-las com a destreza da vossa língua.”

Na rodada final do jogo, se os vossos companheiros admitiram mulheres ao jogo, NÃO RECOMENDO que voteis na VOSSA AMADA, ou no membro do grupo que esteja INTERESSADO EM VÓS. Segundo a minha experiência, isso raramente leva ao sucesso, e os vossos companheiros notarão, fazendo troça do vosso nobre gesto durante semanas.”

CENÁRIO HISTÓRICO

Estamos obviamente no século XVIII, pois decerto não houve melhor época para se viver. Mais precisamente, encontramo-nos no ano da graça de 17–. A Renascença findou, o poder da Igreja está em decadência e finalmente a Europa é um local civilizado. Os turcos estão em Constantinopla e, na verdade, por todo o lado, os franceses estão de novo a gerar conflitos. A Suécia está em declínio, os russos vão invadindo a Criméia a intervalos regulares, o rei da Inglaterra é alemão e louco – duas excelentes condições para governar essa ilha – e algures, do outro lado do Oceano Atlântico, alguns colonos começam a superestimar a sua real importância.

A maravilha desta época é, sem sombra de dúvida, o maravilhoso balão voador dos irmãos Montgolfier, que pode transportar pessoas e animais alto no ar em perfeita segurança (…) Creio que os irmãos criaram essa sua invenção apenas como um modo de deixarem a França.”

Agora que as Austrálias foram descobertas, está a ser-lhes dado um nobre uso como depósito de todos os indesejáveis da Europa. Um jovem indivíduo inglês chamado Watt criou uma chaleira gigante que pode dar potência a uma fábrica – dando chá quente em quantidade suficiente para contento de todos os trabalhadores. Incrível!”

Os elementos das classes mais baixas que crêem que o dinheiro é um substituto aceitável para os títulos nobiliárquicos foram rápidos em aceitar essas inovações, e estão febrilmente ocupados em construir fábricas e empregar mulheres de nome Jenny para lhes tecer algodão.”

Confesso que nada disto percebo nem entendo, mas parece que a Inglaterra está criando uma espécie de império – baseado, vejam só, em comércio, dinheiro e tubérculos. Que deus nos ajude…”

a chama da aventura na alma do Homem tem sido recentemente acalmada por coisas grosseiras como ir ao teatro, ler novelas e jogar uíste.”

eu não sou um homem extraordinário, meramente vivi em tempos extraordinários”

Não está, lamento dizer-vos, dentro das vossas capacidades fazer amor com a imperatriz da Rússia, pela razão de que a sua honra está sob a minha proteção e, se vos apanho perto dela, dar-vos-ei uma surra tal que magoará de tal forma os vossos pés e o vosso traseiro que não sereis capaz de estar de pé ou de vos sentardes, e sereis forçados a passar um mês no ar, girando como um pião, a algumas polegadas acima do chão. Considerai isso um aviso.”

Como, Barão, conseguistes passar por nativo entre o pequeno povo de Liluput.”

E como, e por quê, sois conhecido na França como o Quinto Mosqueteiro?”

Como provastes à Royal Society que o mundo não é redondo?”

Como é que Platão menciona um diálogo que teve convosco no seu livro A República escrito há 2 mil anos?”

Como foi que fostes vós e não Francis Bacon quem escreveu as peças de Shakespeare?”

O que fizestes para que o ano de 1752 tenha perdido os dias entre 3 e 14 de setembro?”

O vosso envolvimento no esquema da Royal Society para extrair luz solar de pepinos.”

Por que fostes aprisionado na mesma cela do Homem da Máscara de Ferro, o que se passou entre vós, e como escapastes?”

Como vos deitaste com o fantasma de Ana Bolena.”

As três noites que passastes no castelo do conde da Transilvânia.”

Como salvastes a raça dos Houhynhymns da sua vida de escravidão sob o jugo dos seus cruéis donos.”

Como escrevestes o Réquiem de Mozart?”

Como provastes que o monstro do Loch Ness não existe?”

Com que provas acreditais que o Homem e o macaco são primos?”

Como foi que servistes Gustave Doré ao ponto num jantar e no dia seguinte ele fez uma ilustração vossa?

R.I.P. Munchhausen 17—1797!

LECTURES EN TRADUCTOLOGIE – Evaine Le Calvé Ivičević (Org.), 2015. –OU: UM MERGULHO AERODINÂMICO NA LINGÜÍSTICA–

DA POSSIBILIDADE DA TRADUÇÃO

Trechos de Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction

« Cette notion de langue-répertoire, ajoute Martinet, se fonde sur l’idée simpliste que le monde tout entier s’ordonne, antérieurement à la vision qu’en ont les hommes, en catégories d’objets parfaitement distinctes, chacune recevant nécessairement une désignation dans chaque langue »

« à Paris, il ne savait pas nommer chaque céréale par son nom; parce qu’il n’était pas en situation d’avoir besoin de la nommer. (Son système risque encore de lui faire nommer blé un champ de riz jeune en Camargue, ou de jeune maïs en Dordogne ou de sorgho dans le Vaucluse.) Maintenant, son pouvoir de nomination différentielle des céréales correspond à sa pratique sociale de petit citadin en vacances au nord de Lyon, capable de nommer ce qu’il voit. Mais le même système des céréales, ou des herbes, est susceptible, selon le même processus, de se compliquer encore, pour des gens – ce petit garçon devenant ingénieur agronome, ou vendeur de semences – dont la pratique sociale est liée à une détermination différentielle plus poussée du même champ de réalité à nommer. De ce filet à une seule maille du petit citadin qui débarque à la campagne, ils feront un filet à dizaines de mailles, de formes et de tailles différentes, qui couvrira la même surface sémantique; c’est-à-dire qui désignera la même quantité de réalité dans le monde extérieur, mais connue, c’est-à-dire organisée, ou qualifiée autrement, – ordonnée de plus en plus, selon des différenciations de plus en plus poussées. Saussure a pleinement raison quand il définit la valeur d’un terme comme étant ce que tous les autres termes (du système) ne sont pas. Là où le petit citadin dit: de l’herbe, le producteur distingue et nomme 53 variétés de 23 espèces (…), par le processus génétique qui vient d’être analysé: système dont tous les termes se tiennent, car si le spécialiste ne sait pas distinguer les 7 variétés de flouves, par exemple, 6 mailles sautent dans son système à 53 mailles, mais la maille unique restante couvre la même surface sémantique que les 7 noms de flouve qui seraient possibles. »

« Notion traditionnelle qui remontait peut-être à la Bible, décrivant la nomination des choses comme une attribution de noms propres: ‘Et Dieu nomma la lumière Jour, et les ténèbres, Nuit […]. Et Dieu nomma l’étendue, Cieux […] Et Dieu nomma le sec, Terre; il nomma l’amas des eaux, Mers’ (Genèse, I, 5-8-10). ‘Or l’Éternel Dieu avait formé de la terre toutes les bêtes des champs, et tous les oiseaux des cieux: puis il les avait fait venir vers Adam, afin qu’il vît comment il les nommerait: et que le nom qu’Adam donnerait à tout animal vivant fût son nom. Et Adam donna les noms à tous les animaux domestiques, et aux oiseaux des cieux, et à toutes les bêtes des champs…’ (Genèse, II, 19-20). A ce propos, quelle que soit l’intention finale de Platon dans le Cratyle, il faut aussi souligner la place énorme, dans ce dialogue, des exemples tirés des noms propres (49 exemples sur 139, plus du tiers) pour exposer une théorie des noms communs, c’est-à-dire de la nomination des choses en général; et plus important que le nombre d’exemples, le fait que Platon parte du nom propre, base tout son exposé sur le nom propre, passe indifféremment du nom propre au nom commun, comme si ces deux operations de nomination pouvaient être assimilées. La Bible et le Cratyle, qui tiennent une grande place dans l’origine de notre notion traditionnelle de langue-répertoire, illustrent aussi le processus mental archaïque par lequel l’assignation des noms aux choses (et des sens aux mots), se voyait conçue comme un baptême et comme un recensement. »

« Voulant donc éviter toute définition mentaliste de la notion de sens, il a recours à la définition behaviouriste: le sens d’un énoncé linguistique est <la situation dans laquelle le locuteur émet cet énoncé, ainsi que le comportement-réponse que cet énoncé tire de l’auditeur> (Bloomfield, Language, p. 139). » « La définition de Bloomfield se trouve matérialisée dans le fait que nous pouvons lire certaines langues mortes sans pouvoir les traduire parce que toutes les situations qui pouvaient nous donner le sens de ces langues ont disparu avec les peuples qui les parlaient. Mais sa définition, de l’aveu de Bloomfield lui-même, amène à dire que la saisie du sens des énoncés linguistiques est scientifiquement impossible, puisqu’elle équivaut, reconnaît-il, à postuler <guère moins que l’omniscience> » « La théorie bloomfieldienne en matière de sens impliquerait donc une négation, soit de la légitimité théorique, soit de la possibilité pratique, de toute traduction. Le sens d’un énoncé restant inaccessible, on ne pourrait jamais être certain d’avoir fait passer ce sens d’une langue dans une autre. »

« Il existe un véritable postulat de Bloomfield (jamais assez mis en relief au cours des discussions) qui justifie la possibilité de la science linguistique en dépit de la critique bloomfieldienne de la notion de sens, postulat qu’on doit toujours remettre au centre de la doctrine bloomfieldienne après l’avoir critiquée: <Comme nous n’avons pas de moyens de définir la plupart des significations, ni de démontrer leur constance, nous devons adopter comme un postulat de toute étude linguistique, ce caractère de spécificité et de stabilité de chaque forme linguistique, exactement comme nous les postulons dans nos rapports quotidiens avec les autres hommes. Nous pouvons formuler ce postulat comme l’hypothèse fondamentale de la linguistique, sous cette forme: Dans certaines communautés (communautés de langue), il y a des énoncés linguistiques qui sont les mêmes quant à la forme et quant au sens> (Bloomfield, ouvr. cit. p. 144). »

« Jusqu’à ce jour, 40 ans après l’enseignement de Saussure, les linguistes n’ont pas encore réussi à découvrir une méthode qui permettrait de délimiter les monèmes sans tenir compte du signifié » (Frei, Critères de délimitation, p. 136)

« L’analyse distributionnelle, ainsi réduite à sa dimension théorique correcte, apparaît comme une formulation trop extrême de la vieille méthode combinatoire, proposée, dès le XVIIIème siècle, par l’abbé Passeri et employée pour accéder aux langues non déchiffrées. C’est sur des cas comme l’étrusque qu’on pourrait vérifier si cette théorie fonctionne, car toutes les fois qu’on l’applique à des langues dont le linguiste connaît les significations par ailleurs, il est établi qu’il ne peut pas se comporter comme s’il ignorait ces significations. L’analyse distributionnelle appliquée au corpus connu de textes étrusques, permettrait de vérifier si, en conclusion, nous nous retrouverions ou non devant un formulaire impeccable de combinaisons, mais dont nous ne saurions toujours pas à quoi appliquer les formules – ou devant une description de l’étrusque qui soit utilisable (à la lettre, il faut imaginer un volume rempli de signes et de calculs algébriques, dont nous restituerions toute la logique, mais dont nous ne posséderions pas les valeurs, de sorte qu’il serait impossible de deviner si elles concernent le cubage du bois, la résistance du ciment vibré, le débit des liquides dans des conduites, etc… sauf si nous avions, d’autre part, des notions en ces matières). »

« Pour Hjelmslev, le langage offre à notre observation deux substances; 1) la substance de l’expression, généralement considérée comme physique, matérielle, analysable en sons par la physique et la physiologie, mais étudiée par Hjelmslev uniquement dans sa valeur abstraite: les relations entre les différences élémentaires qui font que ces sons deviennent utilisés comme éléments de signaux (nous n’en parlerons plus ici); 2) la substance sémantique, ou substance du sens, ou substance du contenu. »

É IMPRESSÃO MINHA OU A INGENUIDADE DOS LINGÜISTAS AINDA OS SITUA ANTES DE KANT? “«la substance (du contenu, du sens), étant par elle-même, avant d’être ‘formée’, une masse amorphe, échappe à toute analyse, et, par là, à toute connaissance». (Il n’envisage même pas la possibilité, théoriquement concédée par Bloomfield, d’une connaissance du sens par référence à la situation correspondante.)”

« L’étude linguistique de l’expression ne sera donc pas une phonétique, ou étude des sons, et l’étude du contenu ne sera pas une sémantique, ou étude des sens. La science linguistique sera une sorte d’algèbre… (Martinet, Au sujet des fondements, p. 31) conclut-il [Hjelmslev], en ce sens qu’elle étudiera uniquement les formes, vides, des relations des éléments linguistiques entre eux. »

SUNS A’XÉDOLLS

sons sens

sans sons

nonsens

sins&pins

sinsao

k b Ludotec4

« L’analyse hjelmslévienne, elle non plus, ne détruit donc pas la notion de signification en linguistique. Pour des raisons de méthode, elle écarte tout recours au sens comme substance du contenu, elle veut éviter le cercle vicieux qui consiste à fonder l’analyse des structures (phonétiques, morphologiques, lexicales, syntaxiques) d’une langue en s’appuyant implicitement sur le postulat qu’on connaît (sens exact des énoncés linguistiques qu’on analyse) – pour ensuite établir la connaissance du sens de ces mêmes énoncés d’après l’emploi des structures qu’on en aura tirées. Hjelmslev comme Saussure, comme Bloomfield et comme Harris, essaie de mettre la connaissance du sens au-delà du point d’arrivée de la linguistique descriptive, au lieu de la mettre (sans le dire) au point de départ. Tous quatre ne visent qu’à fournir des méthodes plus scientifiques pour approcher finalement le sens. En attendant que ces méthodes plus scientifiques soient définitivement construites, acceptées, prouvées – puis qu’elles aient permis d’analyser scientifiquement la substance du contenu – Hjelmslev écrit des livres et des articles dont chaque phrase, comme celles de Saussure, de Bloomfield et de Harris, est empiriquement fondée sur le postulat fondamental de Bloomfield lui-même: l’existence d’une signification relativement spécifique et relativement stable (dans certaines limites chaque jour mieux connues), pour chaque énoncé linguistique distinct. Mais ce postulat qui soutient, empiriquement sans doute, aussi provisoirement qu’on le voudra, la légitimité de toute recherche linguistique, soutient également – sous les mêmes reserves – la légitimité de l’opération traduisante. »

Em suma, a Tradução é um hóspede que você deixou entrar e acabou se tornando o dono da casa.

« Cette façon de concevoir les rapports entre l’univers de notre expérience (ou notre expérience de l’univers), d’une part, et les langues, d’autre part, a été lentement mais complètement bouleversée depuis cent ans, c’est-à-dire depouis les thèses philosophiques sur le langage exposées par Wilhelm von Humboldt, et surtout ses descendants, dits néo-kantians ou néo-humboldtiens. »

« Les anciens Grec n’étudièrent que leur propre langue; ils considérèrent comme évident que la strucuture de cette langue incarnait les formes universelles de la pensée humaine ou, peut-être, de l’ordre du cosmos. En conséquence, ils firent des observations grammaticales, mais les limitèrent à une seule langue, et les formulèrent em termes de philosophie. » Bloomfield

« <‘Le capitalisme de tout le monde’, qui traduit assez mal une terminologie américaine plus concise, ‘people’s capitalism’ […], qu’on a également baptisé parfois ‘capitalisme démocratique’ ou ‘capitalisme populaire’ et que nous appellerons pour plus de commodité, au cours de cet article, tout simplement, le ‘capitalisme américain’.> (Nida) Indiscutiblement, le lecteur français, même moyennement nourri d’économie politique, reconnaîtra que les 4 équivalents proposés (du terme américain) ne donnent pas une idée claire de la structure économique que veut distinguer et que semble distinguer – pour un locuteur américan – l’étiquette anglo-saxonne <people’s capitalism>. »

« überfragen, poser des questions auxquelles l’autre ne peut répondre, <coller> » Philippe Forget

Não existe masculino de imbécile em francês!

* * *

Trechos de Charles Zaremba, “Traduction – Traductions”, in: La traduction: problèmes théoriques et pratiques

« Toutes les mythologies réservent une place de choix au «paradis perdu», à «l’âge d’or», c’est-à dire à un temps et un lieu perdus (provisoirement puisqu’ils doivent revenir «à la fin destemps»), qui se caractérisent non seulement par le bien-être et l’abondance, mais aussi par um statut linguistique particulier: il n’y a qu’une seule langue.

La nostalgie de l’avant-Babel, ou si l’on préfère, d’une langue originelle et universelle, impregne profondément notre civilisation qui essaie, plus ou moins consciemment, de revenir àcet état idéal en s’efforçant de rompre les barrières linguistiques.

En effet, dans un premier temps mythique, la diversité des langues est un châtiment (aumême titre que le travail): seul Dieu possède l’entendement universel et peut le conférer »

Todas as mitologias reservam um espaço para o <paraíso perdido>, um tempo para a <idade de ouro>, isto é, um tempo e um lugar literalmente perdidos (provisoriamente, já que eles deverão retornar <no final dos tempos>), que se caracterizam não somente pelo bem-estar e abundância, mas também por um estatuto lingüístico singular: nele só há um idioma.

A nostalgia pré-babélica ou, se se preferir, duma língua seminal e universal, impregna profundamente nossa civilização, que ensaia, mais ou menos conscientemente, desde que é civilização, o retorno a esse estado de coisas com mil propostas de derrubada das barreiras lingüísticas.

Com efeito, num primeiro tempo mítico, a pluralidade das línguas é sempre um castigo (como sempre se define o trabalho): só Deus possui o dom do entendimento universal e portanto estaria autorizado distribuí-lo a um reduzido número de porta-vozes.”

Se tão perfeita por que te degradas com o uso, ó Una?! Mas cá entre nós só o que me interessa seria o exercício perfeitamente contrário: um concurso em que o campeão seria o autor do idioma mais imperfeito concebível. É mais difícil do que parece, já que teria que ser muito superior a qualquer seqüência de grunhidos animais, embora tenha de ser feia e abjeta como uma sinfonia de black metal velha guarda tocada por orcs irremediáveis! Quase sempre criaríamos minúcias de beleza sem notarmos, querendo apenas produzir nojo e aversão – como somos ingênuos, parnasianos e asseados, apesar de tudo!

« Villon ou Rutebeuf tels quels sont incompréhensibles, de même qu’un grand nombre de fabuleux; le problème devient épineux avec Rabelais, qu’on hésite à traduire. La langue de Rabelais exige tant de notes qu’elle devient difficilement lisible – mais même dans ce cas, on préfère parler de transposition que de traduction en français moderne. Le subterfuge est cousu de fil blanc: la transposition est bel et bien une traduction d’um texte dont on n’ose pas vraiment avouer qu’il est écrit dans une langue qui n’est plus la nôtre, car cela pourrait suggérer que Rabelais n’est pas vraiment français… Cependant, le travail du traducteur de Rabelais est, me semble-t-il, en tout point comparable au travail du traducteur français d’un auteur italien ou espagnol. Là encore, on a un passage d’une langue A (état ancien de la langue) à une langue B (état moderne de la même langue).

Le voyage inverse, c’est-à-dire dans le temps linguistique, a intrigué plus d’un auteur – mais rarement à ma connaissance les auteurs de science-fiction, pour qui les voyages dans le temps sont souvent étrangement atemporels, des individus distants de plusieurs siècles discourant à loisir (ainsi Pierre Boulle dans La planète des singes fait-il lire à la guenon Phyllis, vivant dans um futur très éloigné, un manuscrit rédigé par un homme). Stanislaw Lem a échappé à cette naïve commodité dans ses Mémoires trouvés dans une baignoire (Pamietnik znaleziony w wannie, 1961, Trad. D. Sila et A. Labedzka Mémoires trouvés dans une baignoire, Calmann-Lévy, 1974) où l’intrigue repose en partie sur la quasi-impossibilité pour un homme du futur de comprendre notre civilisation à partir d’un vieux manuscrit trouvé justement dans une baignoire. Le voyage dans le temps linguistique est plutôt le fait d’auteurs qui ne pratiquent pas la science-fiction. »

A viagem inversa, i.e., do presente para o futuro (lingüístico), já intrigou mais de um autor, mas raramente, que eu saiba, os de ficção científica. Para eles, a viagem temporal é estranhamente atemporal, indivíduos de vários séculos de diferença conversam entre si sem qualquer tipo de problema (sucede, por exemplo, no Planeta dos Macacos de Pierre Boulle: o autor faz a macaca Phyllis, dum futuro longínquo, achar, ler e compreender perfeitamente um manuscrito de um humano, parisiense do século XX). Stanislaw Lem soube se subtrair dessa comodidade ingênua em suas Memórias encontradas numa Banheira (original polonês, Pamiętnik znaleziony w wannie, de 1961; tradução francesa por Dominique Sila e Labedzka de 1974 [edição em português de Portugal – tradução indireta – de 1984 por Manuela Alves – quem sabe o Cila não é o primeiro a traduzir, um dia, direto do Polonês para o Português brasileiro?]). O mote da trama é a incompreensão da humanidade de um futuro distante diante de um tempo histórico muito mais antigo, que historiadores tentam decifrar com base num só vestígio, um manuscrito encontrado curiosamente dentro de uma banheira. A viagem no tempo lingüístico é muito mais para o escritor que não redige ficção científica.”

« Remarquons à ce propos que G. Karski conseille de styliser les textes ‘sans logique’, pour ne donner qu’une coloration archaïque. » …brutO

On ne traduit pas Ronsard en français modeme mais on retraduit les auteurs étrangers en français moderne, justement.”

« Des générations de Français se sont nourris de Kafka dans la traduction d’Alexandre Vialatte – et comprenaient le monde de l’auteur. Une nouvelle traduction a quand même été nécessaire. Et c’est une différence fondamentale entre l’original et la traduction: cette dernière est caduque. ‘Les traductions supportent mal le temps et mis à part de rares exceptions, elles ne deviendront jamais des chefs-d’oeuvres éternels.’ (Géher) »

polisistema intralinguistico

Poli-sistema intralingüístico de M. Wandruszka

PATOIS: « structures grammaticales différentes » (Associado ao camponês – como o Provençal ou a Langue d’oc são patoás e muito próximos do Catalão, isso só aumenta minha razão naquele debate com a catalunha [?] estúpida no twitter.)

« Toutefois, il est difficile de traduire d’une «sous-langue» dans une autre (on peut parler ici de pluriglossie et non de plurilinguisme): les passages d’un technolecte à un dialecte, par exemple, sont difficiles à imaginer. »

Les études de traduction (ou encore: les textes de traductologie) distinguent souvent deux types de textes: les textes littéraires et les textes scientifiques (les textes de traductologie littéraire font souvent preuve de mépris pour la traduction technique, cette dernière étant ravalée au rang de simple transcodage; en outre le traducteur technique est en général mieux rémunéré que son homologue littéraire).”

Os estudos de tradução (ou ainda: os textos de Tradutologia) distinguem, no mínimo, dois tipos de textos: os literários e os científicos (os tradutores literários comumente desprezam a tradução técnica, i.e., científica, limitando-se esta última, o mais das vezes, a uma simples transcodificação; se bem que o tradutor técnico-científico é em geral mais bem-pago que seu homólogo literário.)”

NICHO DO NICHO DO NICHO: “Le «mépris» va dans les deux sens, les traducteurs techniques reprochant aux littéraires leur manque de précision… Le texte littéraire possède des qualités esthétiques que ne possède pas, en principe, le texte scientifique. Le traducteur littéraire doit faire oeuvre non plus de simple transcodage, ou encore de traduction de langue à langue, mais de traduction de milieu à milieu, de texte à texte, la composante purement linguistique de son travail passant presque au second plan. Le traducteur littéraire doit être coauteur, faire preuve de «congénialité», suivant l’expression de B. Lortholary. Et là encore, on distingue la prose de la poésie, la première étant à la portée de tout traducteur, la seconde étant réservée aux poètes. On reviendra sur ce point quand on abordera la personnalité du traducteur.Falso déjà vu ou a Jéssica B***** é realmente uma TECNOCRATA da Tradução? Papo muito antigo… Vergonha da classe… (É sempre horrível quando lembramos dos piores praticantes de nossas artes e ofícios!)

Il me semble nécessaire de distinguer les textes sacrés (bibliques) des textes non-sacrés, qu’on peut aussi appeler ecclésiastiques, qui sont l’oeuvre d’hommes d’Église (gloses, commentaires, vies de saints) et ne posent pas les mêmes problèmes philosophiques de traduction, puisqu’il ne s’agit pas de la «parole de Dieu» (je ne prends en considération que la tradition chrétienne dans sa version catholique romaine – c’est-à-dire que je limite mon champ de réflexion à l’Europe qui a connu la Renaissance).” “la traduction avait été «officialisée» par le miracle de la Pentecôte qui confirme le bien-fondé de la traduction des Septantes, à savoir qu’il n’y a pas de langue sacrée. Au IVe siècle, Saint Jérôme traduit la Bible en latin (la Vulgate) mais il faudra attendre le concile de Trente (1545-1563) pour que cette version soit déclarée authentique et devant servir de base à toute traduction ultérieure. Durant une dizaine de siècles, la question n’avait été ni posée ni tranchée.”

Au siècle suivant apparaissent des traductions de la Vulgate et surtout des originaux hébreux et grecs. En 1532 est imprimé un psautier traduit au XIIIe siècle et connu sous le nom de Psalterzflorianski; en 1552, Stanislaw Murzynowski publie une traduction du Nouveau Testament, suivie de plusieurs autres. Ce siècle est donc marqué par une intense activité de traduction qui se fixe 2 buts: d’une part, faire mieux connaître la Bible au peuple, d’autre part, mieux traduire la Bible.”

le mot plagiaire n’est attesté en français qu’en 1555, plagiat date de 1697 et plagier de 1801 et qu’il vient du latin plagiarus «débaucheur et receleur des esclaves d’autrui», lui-même venant de plagium «détournement», cf. Nouveau Dictionnaire Étymologique et historique, par A. Dauzat, J. Dubois et H. Mitterand, Larousse, 1971. Remarquons d’ailleurs que la première loi sur la propriété littéraire en France, championne de l’administration, date de 1866.” SESQUICENTENÁRIO DE MERDA!

On comprend l’importance de la déclaration d’authenticité de la Vulgate: c’est, en quelque sorte, le premier copyright de l’Histoire moderne.”

L’auteur devient propriétaire de son texte et ce dernier se sacralise en quelque sorte: tout texte a droit à une traduction fidèle, au même titre que la Bible. La traduction proprement dite, opposée à la libre adaptation, devient non seulement possible, mais peu à peu souhaitable et philosophiquement obligatoire.”

La lecture de quelques ouvrages et articles de traductologie, montre d’une part que c’est un discours extrêmement répétitif et, d’autre part, que plusieurs discours coexistent qui pretendent chacun à la traductologie. On distingue très nettement deux types d’études: les textes de linguistes (très souvent, ce sont des approches théoriques) et les textes de littéraires (dans l’ensemble plus pratiques).”

Il illustre son propos par l’anglais worker qu’il faut traduire en russe par robotnik ou robotnica, c’est-à-dire que la langue russe impose la précision du genre, ce qui n’est pas le cas em anglais pour ce mot-là. De tels exemples sont légion et de nombreux ouvrages y sont consacrés, principalement écrits par des linguistes structuralistes, comme Z. Klemensiewicz.”

Jakobson ilustra seu argumento pelo inglês worker, que deve ser traduzido em russo por robotnik ou robotnica, i.e., a língua russa impõe a determinação do gênero, o que passa longe de ser o caso do inglês, pelo menos para esta palavra. Inumeráveis exemplos num sem-fim de livros foram esmiuçados século XX adentro, campo no qual se destacam os lingüistas estruturalistas, como Z. Klemensiewicz.”

Le discours des littéraires a les limites qu’ont les récits d’expériences personnelles. Il est souvent peu généralisable – mais, par la précision de certaines remarques, il est soouvent une mine de renseignements pour le linguiste comparatiste.”

Pode-se comparar o tradutor a um artesão, a meio caminho entre o artista (o autor) e o técnico (o lingüista).” Há um texto meu que já virou um clássico: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-literatura/5827201 (originalmente de 2006, republicado neste link em 2016).

Eu-tradutor sou eu menos inspirado. Eu-cientista sou eu em crise.

Pour résumer, on peut dire que: 1. les linguistes disent – voici ce qu’il faut faire! 2. les littéraires disent – voilà ce que nous avons fait! et 3. les philosophes disent – comment diable pouvez-vous faire?”

Resumindo, pode-se dizer que: 1. Os lingüistas dizem – eis o que se deve fazer! 2. Os literatos dizem: eis o que nós fizemos! 3. E os filósofos dizem: como diabos podeis fazê-lo?

A VERDADEIRA REVOLUÇÃO UNIVERSAL (Altivez, loquacidade e dignidade): Alexander F. Tytler – Essay on the Principles of Translation (1791)

deux courants de traducteurs: les «fidèles» (sans doute proches des linguistes) et les auteurs de «belles infidèles» (plus proches des littéraires).”

En effet, la plupart des textes de traductologie prennent des exemples «nobles»:traduction de philosophes ou de grands auteurs comme Shakespeare, Cervantès, Corneille,etc. Je n’ai pas trouvé d’auteurs «mineurs» ou d’auteurs de best-sellers (comme, par exempleP.L. Sulitzer qui affirme dans l’un de ses livres que la Tchéka était la police secrète du tsar,qui nomme son héros polonais Taddeuz, alors que l’orthographe correcte est Tadeusz, etc).Le style des «grands écrivains» n’est pas critiquable: nous n’avons pas le droit de les juger,nous devons nous en inspirer, éventuellement les imiter – en tout cas, les respecter. Dans lestextes de traductologie, les exemples «non nobles» sont considérés froidement: ce sont destechnolectes ou des sociolectes, déviant par rapport à la langue standard mais respectablesen eux-mêmes. C’est là qu’on trouve le problème du discours politique, souvent réduit à sonaspect purement terminologique (voir à ce propos J.B. Neveux, La traduction du vocabulairepolitique, dans La traduction, 1979).

Or, il y a des textes littéraires «de moindre importance» et des textes ni littéraires ni techniques,c’est-à-dire le texte journalistique, le reportage et surtout les Mémoires et entretiens de toutesorte qu’on trouve en abondance dans les librairies – ce qu’on peut appeler la littérature de témoignage.Que faire, par exemple, avec un texte où un personnage déclare tout à fait sérieusementque «les liens» qui le lient à une certaine organisation sont «éteints»? Si on applique à lalettre les principes de Tytler, à mauvais texte en langue-source doit correspondre un mauvaistexte en langue-cible. Ou bien faut-il améliorer? C’était le point de vue de la plupart des traducteursdu XVIIème siècle, mais on en a aussi de nombreux exemples dans les traductions plusrécentes. Le discours traductologique du XXème siècle a tendance à critiquer ces améliorationsqui sont, en fait, de véritables déformations du texte.”

A maior parte dos textos de Tradutologia utiliza exemplos <nobres>: tradução de filósofos ou de grandes autores como Shakespeare, Cervantes, Corneille, etc. Não encontro, neles, os chamados <autores menores> ou de best-sellers (como, p.ex., P.L. Sulitzer, que afirma em um de seus livros que a Tcheka era a polícia secreta do czar, e batiza seu herói polonês de Taddeuz, ao passo que a grafia correta seria Tadeusz, etc.). O estilo dos <grandes escritores> não é criticável, evidentemente: não temos o direito de julgá-los, devemos sim nos inspirar neles, eventualmente imitá-los – em todo caso, respeitá-los. Nos textos de Tradutologia, exemplos <plebeus> são olhados com desconfiança: estes são classificáveis como tecnoletos ou socioletos, desvios da língua-padrão ainda respeitáveis em si mesmo, regulares o bastante, porém não têm um <estilo>, portanto não merecem grande atenção.

Daí deriva o conhecido problema do discurso político, com frequência reduzido a seu aspecto puramente terminológico (ver, a respeito, J.B. Neveux, La traduction, capítulo <A tradução do vocabulário político>, 1979).

Ademais, há sempre os textos literários <de menor importância> e os textos que não são tampouco literários ou técnicos, i.e., textos jornalísticos, a reportagem, memórias e entrevistas de todo gênero, encontrados em abundância nas bibliotecas e livrarias – o que se passou a denominar literatura de testemunho ou biográfica. O que fazer, p.ex., dum texto onde o personagem declara, de forma séria, que <les liens> (as relações) que o ligam a uma determinada organização são <éteints> (apagadas, nulas, opacas – termo difícil de traduzir)? Se se aplicam à letra os princípios de Tytler, aos textos mal-feitos da língua de partida deveria corresponder um mau texto na língua de chegada. Ou seria lícito melhorá-lo? O auge deste ponto de vista foi no século XVII, mas essa tendência nunca esmoreceu de verdade entre os tradutores (sendo aliás a obsessão por excelência dos editores). Nos discursos tradutológicos do século XX vemos uma pronunciada tendência à crítica desses <melhoramentos>, que são considerados agora deformações do texto original.”

Qui est traducteur (je ne prends en considération que les traducteurs littéraires et je n’aborderaidonc pas les problèmes des traducteurs jurés, techniques ou interprétes dont la traduction estla principale source de revenus)? A priori, toute personne connaissant bien une langue étrangèreet sa langue maternelle, sans être nécessairement «parfaitement bilingue» – les dictionnairesle sont suffisamment – peut être traductrice.Cependant, le traducteur est avant tout um lecteur: sans goût pour la littérature (ou même simplement la chose écrite), il est peu probableque quelqu’un se mette à traduire, puisque cet acte nécessite une première lecture (en termeslinguistiques: un premier décodage). Le nombre des traducteurs est tout de même inférieur aunombre de lecteurs connaissant plus d’une langue, car en plus, il faut savoir écrire (être capablede faire le ré-encodage) – c’est-à-dire avoir au moins un peu de talent littéraire, ainsi que le remarquefort justement G. Karski et même le structuraliste Z. Klemensiewicz qui parle de congénialité:la traduction ne doit être «ni une réécriture, ni une transécriture, mais une co-écriture». C’est d’ailleurs un métier qui ne s’enseigne pas: les écoles de traducteurs forment des interprèteset des traducteurs techniques, non des traducteurs littéraires.”

ANATOMIA DO TRADUTOR – Quem é tradutor? (Daqui para a frente, me eximo da responsabilidade de considerar os tradutores não-literários, isto é, NÃO ABORDAREMOS EM ABSOLUTO OS PROBLEMAS DAS TRADUÇÕES JURAMENTADAS, TÉCNICAS OU DE INTÉRPRETES, PROFISSÕES BASICAMENTE DE DEDICAÇÃO EXCLUSIVA)

RESPOSTA: A priori, qualquer bom conhecedor de ao menos uma língua estrangeira e da própria língua materna, sem ser necessariamente <um bilíngue perfeito> – de modo que os dicionários já lhe são ajuda suficiente.

Acima de tudo, o tradutor é um leitor. Sem tesão pela literatura (ou simplesmente pela <coisa escrita>), é muito pouco provável que qualquer um se meta a traduzir. Trata-se dum ato que exige no mínimo uma primeira leitura (o que na Lingüística se chamaria de primeira decodificação). Segunda implicação: o número de tradutores é sempre inferior ao de leitores conhecedores de mais de um idioma, porque, afora a <decodificação inicial>, é preciso saber fazer a re-codificação (em termos leigos, saber (re)escrever).

O que é esse <saber ler-reescrever>? Possuir um mínimo de talento literário (este mínimo não é <mensurável>), o que lingüistas como Karski e Klemensiewicz definem como a posse da cogenialidade, isto é, menos que a genialidade mas mais do que a banalidade, além de ser sempre uma espécie de <parceria diacrônica> com um outro co-gênio que precede ao tradutor.¹ Resumindo, é uma atividade impassível de ensino: as escolas de tradutores formam intérpretes e tradutores técnicos, não tradutores literários.”

¹ Matizes kardecistas, até!

Os vilões do meu universo encastelado: os assessores, os sociólogos não-marxianos, os pré-existencialistas e, finalmente, os tradutores juramentados ou leigos que solicitam ou falam em “tradução livre” (verdadeira abominação em forma de binômio). Trocando em miúdos, estes são os péssimos profissionais das minhas áreas ou ex-áreas de atuação (respectivamente, Jornalismo, Sociologia, Filosofia, Letras), tudo que eu jamais seria ou jamais tomaria como modelo.

Rares sont les traducteurs littéraires dont la traduction est la principale (ou seule) source derevenus: la plupart du temps, ils exercent des métiers intellectuels, sont souvent des universitaires- mais rarement des écrivains. Il suffit de consulter les bibliographies d’auteurs pour levoir: les écrivains écrivent «pour leur propre compte». Quant aux traducteurs, s’ils ont assez detalent pour traduire, il leur en manque pour créer. Remarquons toutefois que le travail de traductionest ingrat : il demande un effort considérable, est plus ou moins bien rémunéré – mais lestraducteurs passés à la postérité sont rares, si l’on excepte les premiers traducteurs de la Bible.Comme le remarque I. Géher, on ne lit jamais un texte parce qu’il a été traduit par X, mais parcequ’il a été écrit par Y. Les grands traducteurs sont donc peu nombreux: en France, Baudelairen’est un traducteur célèbre que parce qu’il était par ailleurs un immense poète, en Pologne TadeuszBoy-Zelenski n’est célèbre que parce qu’il a, à lui seul, traduit énormément de littératurefrançaise (dont Montaigne, Descartes, Pascal, Rabelais, tout Molière, Chateaubriand, Stendhal,Proust, Gide, tout Balzac, etc.) alors que lui-même n’était qu’un écrivain-créateur médiocre.

Donc, les écrivains ne sont pas des traducteurs – sauf les poètes. Cependant, il est remarquableque les poètes signent quelquefois des traductions de langues qu’ils ne connaissent pas. En fait, ils ne sont pas traducteurs, mais «poétisateurs» de textes précédemment traduits par destraducteurs non poètes (dans la terminologie de H. Meschonnic, l’un parle «langue» et l’autreparle «texte». L’auteur s’insurge avec raison, contre cette pratique qui pose des problèmesphilosophiques et méthodologiques sur lesquels je ne m’attarderai pas).”

O PARADOXO DO POETA NÃO-ESCRITOR E DO ESCRITOR NÃO-POETA (ALÉM DO LIMBO CHAMADO TRADUTOR)

Raros são os tradutores literários para quem traduzir é a principal (ou única) fonte de renda: a maior parte do tempo, eles exercem qualquer outra função intelectual, comumente nas universidades – salvo que raramente são escritores. Basta consultar as bibliografias dos autores para atestá-lo: os escritores <escrevem por conta própria>. Quanto aos tradutores, malgrado tenham o talento imprescindível à tradução, falta-lhes o talento para criar. Observemos quão ingrato é o ofício do tradutor: traduções demandam um esforço considerável e são mais ou menos bem-remuneradas, dependendo do contexto – mas o notável da carreira é quão poucos dentre os tradutores gravam seu nome na posteridade. As maiores exceções foram os primeiros tradutores da Bíblia, por motivos óbvios. Como lembra Géher, ninguém lê um livro <porque foi traduzido por Fulano>, mas sim <porque foi escrito por Cicrano>. Os grandes tradutores são, desta feita, pouco numerosos: na França, Baudelaire só se tornou um tradutor de renome porque além de traduzir era também um enorme poeta; na Polônia, Tadeusz Boy-Zelenski só atingiu fama imortal por ter sido quem traduziu sozinho quase toda a Literatura francesa que realmente interessa: Montaigne, Descartes, Pascal, Rabelais, Molière (a obra completa), Chateaubriand, Stendhal, Proust, Gide, Balzac (a obra completa), e ainda outros! Fora isso, o próprio Tadeusz nada era senão um escritor autoral medíocre.

Sendo assim, os escritores não são tradutores – isto é, com a exceção dos poetas. O insólito da situação do poeta é que ele assina traduções de línguas que não conhece (conhece muito mal, comparado com os tradutores por vocação). Na verdade, quando poetas se aventuram a traduzir, não são tradutores, são <poetizadores> de textos anteriormente traduzidos por tradutores não-poetas (na terminologia de Meschonnic, o poeta fala uma língua, o tradutor fala um texto). O autor (escritor) se insurge (com razão?) contra esta prática, que encerra uma vasta gama de problemas filosóficos e metodológicos, os quais por si só já mereceriam livros e mais livros.”

Tudo já foi escrito” é a desculpa esfarrapada do primeiro dos últimos pós-modernos!

Já traduzi até Heine… Não sei nem mais que(m) sou…

Quem

Queim

Queime

Queimei

Quem

Ei!

Quem queimou

Quem queimou meu queijo?

#IdéiadeTítulodeLivro

UÉ?!

E quem disse que o filósofo é mais escritor do que poeta e tradutor?

Qual é o TAMANHO da sua escrita? Imortal e milenar ou 500 páginas sem margens e espaçamento 1?

Le traducteur est doublement dépendant: en amont, de l’auteur, en aval de l’éditeur.”

L’éditeur est une invention récente que toutefois on trouve à l’état embryonnaire dès l’invention de l’imprimerie. Avant, chaque livre était unique et le copiste devait posséder un savoir (la lecture et l’écriture) et maîtriser une technique (la calligraphie). L’imprimerie introduit une technique lourde et extérieure au copiste et donc, qui plus est, à l’auteur. L’imprimeur devient l’intermédiaire obligatoire (monopolistique) entre auteur et lecteur. Cette situation dure très longtemps: l’éditeur, c’est l’imprimeur, c’est-à-dire un technicien qui se double rapidement d’un commerçant (dans des cas extrêmes, l’imprimeur peut être analphabète, comme le père Séchard dans les Illusions perdues de Balzac). Voulant connaître la nature de sa marchandise, il se met à lire et à juger ce qu’il imprime, pour décider peut-être de ne pas le faire, et devient éditeur à proprement parler. Le statut de l’éditeur est ambigu: il est à la fois connaisseur littéraire et commerçant. Suivant le cas, c’est l’une ou l’autre facette qui l’emporte. Son double jugement (littéraire et/ou commercial) n’est pas infaillible, loin de là. Actuellement, l’éditeur délègue les travaux d’impression (le côté technique) et assume les rôles de commerçant et de juge, quitte, bien sûr, à s’entourer de «commerciaux» et d’un «comité de lecture».”

Lorsqu’un auteur propose (soumet) um texte à un éditeur et que ce dernier accepte de le publier, il accepte par là-même de faire un investissement correspondant aux frais d’impression, de diffusion et éventuellement de publicité. Les revenus de l’auteur dépendent alors étroitement de ceux de l’éditeur. La démarche du traducteur est différente, encore qu’il faille distinguer deux cas de figure: 1. le traducteur propose un texte à l’éditeur, 2. l’éditeur commande une traduction. La différence entre les deux s’inscrit dans la durée. Dans le second cas, le traducteur reçoit un travail pour lequel il sera rétribué. Il n’a donc aucune démarche – au sens propre du terme – à accomplir. Dans le premier cas, le traducteur commence en général par convaincre longuement l’éditeur de l’intérêt littéraire d’un texte, échantillon à l’appui. En cas de refus, il aura travaillé pour rien. Dans les deux cas de figure, si l’éditeur accepte de publier la traduction, son investissement est important: il doit racheter les droits d’auteurs s’ils n’appartiennent pas encore au domaine public, il doit payer le traducteur et, bien sûr, veiller à l’impression, etc.

Le contrat de traduction est signé et, quelques temps après, le manuscrit (ou plutôt le «tapuscrit») est remis à l’éditeur qui va le lire, ou le faire lire. Ce lecteur (qu’il soit l’éditeur lui-même ou une personne tierce, on l’appellera le correcteur) ne connaît pas nécessairement le milieu-source: il ne fera donc que veiller au respect du 3ème principe de Tytler, c’est-à-dire la lisibilité. L’intermédiaire du correcteur est une bonne chose en soi: quel traducteur n’a pas remarqué une baisse affligeante de sa compétence linguistique en langue-cible, qui est en général sa langue maternelle, pendant l’acte de traduction? Les relectures que l’on fait «à froid» sont nécessaires pour se débarrasser du modèle contraignant de la langue-source, mais même là, il arrive que des phrases sonnent juste seulement pour le traducteur, hélas! C’est ce qu’exprime clairement G. Mounin (cité par J.R. Ladmiral), quand il parle de la «richesse merveilleuse de toutes les langues de départ, pauvreté incurable de toutes les langues d’arrivée». Encore faut-il que le correcteur soit effectivement compétent…

C’est là que se pose le problème du «mauvais» texte de départ, ou, si l’on préfere, des maladresses stylistiques qui peuvent s’y trouver. Si on applique le principe de fidélité, à mauvais original doit correspondre mauvais texte en traduction (et ce sera justement cela la bonne traduction) – la première réaction du correcteur sera de considérer que la traduction est mauvaise, et non le texte original, et il se dépêchera de corriger, d’améliorer le texte en langue-cible, pratique autrefois courante, aujourd’hui plutôt critiquée. Il faut cependant faire une distinction entre «petites» et «grosses» maladresses. Voyons un exemple de petite maladresse.

Dans La légende de Pendragon, Antal Szerb répète très souvent le mot különös, quelquefois à l’intérieur d’un même paragraphe. Ce mot signifie «singulier, bizarre, étrange». La stricte fidélité à l’original demanderait de choisir l’un de ces adjectifs – de préférence «singulier» – et de l’employer systématiquement, comme un terme technique. Or, pour la traduction, nous avons choisi de varier les équivalents français pour éviter des répétitions qui, tout en alourdissant le style, n’apportent pas d’information particulière et – surtout – nous auraient fait passer pour de mauvais traducteurs… Nous avons donc prévenu les critiques du correcteur, d’autant plus qu’il s’agissait effectivement d’une maladresse de la part d’Antal Szerb: c’était un éminent historien de la littérature qui écrivait des romans en dilettante, vite et sûrement sans se relire, ce que le lecteur français ne sait pas, alors que le personnage de Szerb est très connu en Hongrie. On a ici un problème non de langue, mais de milieu. Ce roman est passionnant de bout en bout – il n’en est pas pour autant exempt de ce type de maladresses qu’on peut corriger sans porter atteinte au texte.”

Escrita, a anti-bosta: quanto mais mexe, menos fede?! Há um momento, no entanto, em que ela petrifica, para o bem ou para o mal…

Il arrive cependant que la «maladresse» (en particulier, la répétition) soit voulue et significative. C’est le cas du roman du Polonais Julian Kawalec intitulé W sloncu où la répétition de mots ou de membres de phrase crée un effet lancinant comparable à la poésie de Gertrude Stein. Dans ce cas, il faut conserver cet aspect de l’original – et il ne sera guère aisé de convaincre l’éditeur qu’il doit en être ainsi. L’éditeur est un être soupçonneux: il met en doute les compétences linguistiques du traducteur aussi bien en langue-source qu’en langue-cible – ce qui n’est d’ailleurs qu’une manifestation de son souci du lecteur.”

¹ E mais uma vez o dia foi salvo graças ao poder deveras oportuno da… NOTA DE RODAPÉ!!!

Prancha de salvação que leva direto aos tubarões. Conversas off-topic gravadas. Quando a nota é do editor, o “tradutor venceu” a guerra, e o Ed. se vinga. Quando a nota é do tradutor, o “editor venceu” a guerra, e o Trad. quita dalgum modo a dívida e restabelece o equilíbrio. Isso supondo que não se trate só de mea culpas baratas…

Remarquons que la plupart des «notes du traducteur» sont des informations portant sur le milieu-source.”

Quelle frustration de voir écrit en bas de page «calembour intraduisible». La responsabilité repose entièrement sur les épaules du traducteur; et comme la plupart des calembours sont intraduisibles, le traducteur essaie de compenser comme il peut, éventuellement en plaçant un bon mot à un autre endroit du texte. Ces deux types d’exemples sont peu importants – même s’ils donnent quelquefois des nuits blanches aux traducteurs – si l’on pense qu’ils ne concernent la plupart du temps que des mots et expressions éparpillés dans un texte par ailleurs normalement traduisible. Le problème se pose plus gravement quand c’est le texte tout entier qui nécessite une note du traducteur – qui alors peut choisir de se taire ou de se manifester par une introduction. Je ne citerai qu’un seul exemple: l’introduction à la traduction française de Trans-Atlantique de W. Gombrowicz. Il s’agit d’une longue introduction historico-littéraire ainsi que traductologique. C. Jelenski & G. Serreau, les traducteurs, expliquent que le roman, écrit en 1948, s’inscrit dans une convention littéraire du XVIIIème siècle – j’en ai parlé au début, à propos du «voyage dans le temps». La traduction est stylisée, archaïsée au point qu’elle crée une impression aussi étrange et grotesque que l’original. On a un «style fonctionnellement équivalent» (Taber). De ce point de vue, et du point de vue des libraires aussi, c’est une réussite et pourtant… Le texte français est beaucoup plus long que l’original polonais. On observe, pour employer la terminologie de J.R. Ladmiral une incrémentialisation et une péri-paraphrase généralisées – en d’autres termes, c’est une traduction explicative.”

Mais C. Jelenski n’a-t-il pas dit lui-même à propos de ce travail qu’on ne comprenait vraiment une oeuvre qu’en la traduisant? Cette traduction illustre l’application stricte du second principe de Tytler, au détriment du premier – à cela près, qu’il n’y a pas déperdition, mais excès. Ce phénomène est constant dans tout le roman – en fait de traduction, on a presque une adaptation.”

HAHA: “adaptation, appelée quelquefois traduction libre (…) L’apparition des notions de propriété littéraire et de plagiat oblige l’adaptateur à citer son modèle – quitte à se faire passer pour un traducteur.” Bom menino-mau: Em nome da Honra – Chapeuzinho Vermelho; O Orfanato & O Senhor-Robô – Dalá-gonu Borô Zeta; Do Caos ao Barro, da Lama ao Caos: Lisboa, 1755 – Moonspell & Nação Zumbi & Chico Science… O Andarilho Triclope… …. ….. Sofrimentos do Jovem Ed…itor

* * *

Trechos de Marianne Lederer, “La traduction aujourd’hui”

Même à un stade très avancé de l’acquisition d’une langue étrangère, on entend encore des étudiants demander comment traduire tel mot ou tel mot. Comment dit-on <préposé> en anglais? ou <pronouncement> en français? Ils espèrent une réponse qui ferait apparaître une forme sonore différente dans uns signification inchangée.”

Les mots anglais <control>, <region>, <opportunity> ont tout d’abord été compris au sens français de <contrôle> (vérification), <région> (partie d’un pays), <opportunité> (qui vient à propos). (…) Aujourd’hui <contrôle> a perdu en grande partie sa signification initiale pour prendre le sens anglais de <maîtriser>, <commander>, <diriger>; <région> englobe plusieurs pays et <opportunités> remplace de plus en plus <occasion>. Les déformations sémantiques de <global>, <rampant>, <attractif>, etc., ont suivi ce processus à des degrés divers. <Global>, à l’instar de l’anglais, signifie aujourd’hui <universel> en plus de sa signification de <entier>, <total>. <Rampant> a gardé sa signification française mais est utilisé avec une fréquence qui lui vient de l’anglais. <Attractif> a la forme de l’anglais tout en gardant la signification de <attrayant>, <attirant>, etc.”

La stylistique comparée du français et de l’anglais, cependant, malgré toutes ses qualités, n’est pas une méthode de traduction des textes, contrairement à ce que laisse entendre son sous-titre, <Méthode de traduction>. Elle ne peut l’être car, observant les désignations différentes de situations identiques, elle ne va pas, sauf pour en analyser le résultat, jusqu’à expliquer la traduction par équivalences.”

J. Delisle écrit: L’analyse de la langue que pratiquent les stylisticiens comparatistes reste en deçà de l’analyse du discours sur lequel se fonde toute vraie traduction.

Les 7 procédés techniques si célèbres de La stylistique comparée (…) (l’emprunt, le calque, la traduction littérale, la transposition, la modulation, l’équivalence, l’adaptation) ne peuvent contribuer à la traduction, qui est essentiellement un exercice d’interprétation car, ne facilitant ni l’analyse d’un message ni sa restitution, ils ne peuvent pas avoir valeur de règles pratiques de traduction.”

La stylistique (et d’autres <manuels de traduction>) peuvent rendre de grands services aux étudiants dans leur auto-perfectionnement linguistique. L’apprenant peut puiser à la source du comparatisme pour perfectionner ses connaissances.”

* * *

La polémique “Cibliste vs. Sourciste”.

Trechos de Pierre Baccheretti, “Traduire ou interpréter”, in: La traduction: problèmes théoriques et pratiques

Dans la pluplart de cas, c’est la réalité décrite qui se refuse à la traduction, pour la simples raison qu’elle n’a point d’équivalent dans le pays où est parlée l’autre langue. Se pose alors le problème, bien connu, de la traduction des <réalia>.”

Nous traduirons donc filosofija trëx vesëlyx kombinatorov P’enikle. Nous soulignerons, en qualifiant cette philosophie de mudrënaja et en recourant à un verbe noble:

A brotik Pol’, zabrosiv azbuku, po veceram, lëza v krovatke, vnikal v mudrenuju filosofiju <Trëx vesëlyx Kombinatorov P’enikle>”

E meu irmão Paulinho, em sua cama, penetrava nos segredos da sábia filosofia dos três fanfarrões vigaristas Pieds Nickelés, menos três patetas que uma espécie de Cebolinha arquitetando um de seus Planos Infalíveis…

Um dia só é bom quando o próximo é um feriado.

le français montagne se verra-t-il attribuer comme équivalent le russe gora. C’est du moins ce que recommandent, à l’unanimité, tous les dictionnaires bilingues. Et, pourtant, un examen, même superficiel, des emplois de gora en russe montre à l’évidence que la réalité recouverte ressemble souvent, à s’y méprendre, à une simple colline de Provence.”

Il est évident que l’imagination des parents ne connaît point de bornes lorsqu’il s’agit de toruver un nom zoologique gentil à ces chers petits, et, dans l’intimité du nid familial, tout est permis. Mais les assimilations être humain/animal sont loin d’avoir une valeur universelle immuable, et dans le domaine de la traduction, il est, sans aucun doute, souhaitable d’éviter des équivalences au mot à mot qui, dans la langue d’arrivée, risquent d’avoir une valeur comique qui n’était certainement pas recherchée au départ.”

Je frappai le mulet sous le ventre […] tandis que le paysan l’appelait: <carcan, carogne> et l’accusait de se nourrir d’excréments.

Pagnol fait là allusion à une injure fort prisée dans le Midi et dont le sens laisserait à supposer que votre interlocuteur, pour se sustentar, mange autre chose que de la fougasse et des olives. Malgré la richesse de son vocabulaire dans ce domaine, le russe ne possède pas d’équivalent terme à terme qui soit couramment utilisé. Et, difficulté supplémentaire, tout cet aspect de la langue parlée est totalement tabou dans la langue écrite: le bon citoyen russe peut être, dans la vie de chaque jour, tout aussi mal embouché que le plus grossier des charretiers de France, mais l’usage littéraire jette un voile pudique sur les expressions qui sortent des sentiers battus, et les dictionnaires – à l’exception d’un ouvrage anglais (Beyond the Russian dictionary, 1973, London, Flegon Press) restent étrangement muets sur le sujet.”

Le grossier personnage n’hésitera pas à compléter nos points de suspension en recourant à un verbe précis que conférera à la phrase le sens approximatif de tu sais ce qu’on lui fait à ta mère? L’injure est à ce point vivante en russe que la langue en arrive à renoncer à employer à l’accusatif le mot mat’ précedé du possessif, de façon à éviter toute réminiscence mal venue.”

ryba, le poisson, est, en russe, de genre féminin”

De la même façon, dans la traduction du Petit Prince, le traducteur soviétique a été amené à traduire le renard et la Fleur respectivement pas lis, masculin, quasiment inemployé en russe, à côté du très courant lisa de genre féminin, et roza (la rose, et non la fleur cvetok masculin) de façon à respecter la répartition féminin/masculin, essentielle dans le texte original.”

En effet, alors qu’en français, le mâle donne habituellement son non à l’espèce (un chat, une chatte, le chat), le russe préférera d’ordinaire la forme féminine pour désigner l’espèce (kot, koska). Le canard sera ainsi utka de genre féminin, ce qui saurait convenir à un exemplaire, défini comme le vieux père canard, et, plus loin dans le texte, le vieux dur-à-cuire.”

Le locuteur français (qui dit ) reste, en quelque sorte, à distance, immobile, considère le mouvement d’un point fixe, depuis l’endroit d’où il observe, et il n’est qu’observateur. Le locuteur russe (qui dit ici) se déplace en même temps que son personnage, participe au mouvement, est, d’une certaine façon, acteur de la scène.”

On pourrait expliquer l’implicite du français par le fait d’une capacité d’abstraction plus grande, le contexte étant suffisamment clair pour donner à comprendre la succession chronologique de divers mouvements sous-entendus.”

Jacques entra dans le café, avisa une table libre à l’écart, et commanda une bière.

=

Zak vosël v kafe, primetil svobodnyj stolik v storone, sel i zakazal pivo

=

Jacques entra dans le café, avisa une table libre à l’écart, s’assit et commanda une bière.

Là oú le locuteur français, du seul fait du cheminement de la logique interne de l’énoncé, distingue sans ambiguïté les divers personnages, tous nommés <il>, le russe ne reconnait pour <il> (on) que la personne qui était déjà le sujet de la proposition précédente, et si la personne, sujet de la nouvelle proposition, est autre, doit impérativement la nommer, ou recourir au démonstratif tot qui désigne la personne ou l’objet éloigné, par opposition à étot réservé à l’objet de la personne proche.”

nous avions la triste impression de lire un autre livre qui parlait la même chose, mais ne disait rien.”

il n’y a qu’un pas entre l’abattoir, skotobojnja, et bojnja, la tuerie, la boucherie, la guerre.”

En effet, on peut constater dans l’usage russe une tendance marquée à préciser ce que le français se contentait de suggérer, et, sur un certain nombre de points, la langue dispose d’une série de moyens techniques pour le faire, moyens que le français, soit ne possède pas, soit répugne à utiliser”

En français, le contexte éclaire la mimique, donne leur signification aux gestes, alors qu’en russe ce sont les gestes qui contribuent à créer le contexte.”

Ainsi l’expression zadrav nos, littéralement <le nez en l’air> marque, en russe, l’attitude hautaine, l’air conquérant de celui qui est trop content de soi, et non, comme en français, une certaine insouciance, un manque évident d’attention.”

Cabeça na lua, nariz empinado, olhando sempre pra baixo, boca tesa, ouvido surdo concentrado, pêlos eriçados, cabelo sem viço, derrubado.

O russo precisa incluir muitos travessões num diálogo, certo, Dosto?

…dit ma mère, répliqua vivement mon père, précisa tante Rose, dit, dubitatif, mon pére, etc. Bien entendu, tous ces verbes auraient été possibles dans le texte français, mais telle ne semble pas être la tendance de la langue.”

Le verbe de parole en fraçais répond essentiellement à la question: qui parle? Le russe va, souvent, plus loin: qui parle, et comment?

c’est la vi(ll)e désertes amis

Trechos de Françoise Flamant, “Pour en venir au texte lui-même”, in: La traduction: problèmes théoriques et pratiques

O artigo de Pierre Baccheretti Traduire ou interpréter, que se funda sobre uma prática assídua da tradução, incita com naturalidade todo tradutor a refletir sobre sua própria prática. Constatamos imediatamente que os tradutores, que se comprazem, em geral, em debater e confrontar pares, repugnam, o mais das vezes, comunicar suas experiências por escrito. Esta repugnância – ou essa negligência – (que o próprio P. Baccheretti decerto não reprova em alguns contextos) não seria reveladora da inquietude que acompanha o tradutor incontinenti ao longo da elaboração de seu texto, e desse resíduo de insatisfação que persiste nele ao contemplar o resultado de seu trabalho? Angústia e insatisfação que não são sanadas pela leitura de nenhuma obra teórica sobre tradução. Com efeito, a atividade do tradutor não se caracteriza como uma posta em prática de teorias e princípios, quaisquer que sejam, estabelecidos pelo tradutor mesmo ou consagrados muito antes dele – se caracteriza, sim, como uma tensão irredutível entre dois pólos: duma parte a convicção de que a estrangeiridade dum texto compõe um de seus atributos primordiais; doutra, a necessidade imperiosa de comunicar essa estrangeiridade, i.e., esse algo insólito e inefável, convertendo-o nalgo familiar para o receptor, e, afinal, redigido na língua natal deste último! A tradução se realiza num vaivém permanente entre estes 2 pólos, percorrendo uma infinidade de escolhas, uma mais insatisfatória que a outra, caso fossem examinadas em separado, mas que tendem a se equilibrar, se compensar, consideradas como um todo mais que a soma das partes.”

O tradutor moderno perdeu a tranqüila confiança de seus predecessores franceses do século passado, intimamente convencidos da supremacia de sua própria língua vernacular e de sua civilização. (…) Viardot alcançava o denominador comum (do gosto francês) entre a prosa de um Cervantes e a de um Turgueniev.”

<tradutor de Arte> (é assim que os russos denominam o <tradutor literário>)”

Veja-se o exemplo da palavra muzik, transcrita geralmente como moujik em francês (definição: <camponês russo>). Em sua obra Tolstoï et Dostoïevski (1901), o escritor e filósofo Mérejkovski consagra um capítulo à religião de Dostoïevski, para a qual duas palavras diferentes conotam o <camponês> a depender da situação: muzik ou krest’janin. Mérejkovski defende a idéia de que o apego de Dostoïevski a um cristianismo do terror que ele associa intimamente ao camponês russo (o krest’janin) teve sua origem num episódio da infância do escritor, contado aliás por ele próprio: aterrorizado pelo uivo dum lobo, Dostoïevski-criança sai correndo e se joga nos braços fortes e protetores do camponês (muzik) Maréï, que trabalha nos campos das proximidades de sua casa, o que o conforta e o alivia de sua crise. O sentido do <texto em si mesmo> indica aqui, ao tradutor, que deve se servir da palavra moujik toda vez que fizer referência ao <moujik Maréï>, e da palavra paysan [a tradução literal, i.e., camponês, o pobre, o povo, e não mujique, dicionarizada em português, inclusive] sempre que a questão for traduzir krest’janin. A palavra muzik, formação diminutiva pela qual se auto-designava o camponês-servo na sociedade feudal russa, é a que Dostoïevski aplica em seu relato da lembrança de infância. Ao conservar a denominação, o tradutor permite ao leitor francês identificar a citação – tão rapidamente quanto o próprio leitor russo. Ao traduzir o camponês médio ou o camponês em geral pela outra palavra, krest’janin, distingue-se, na prática, o evento-concreto fundador (de feição particular, historicamente datado, de caráter patriarcal, a relação, em suma, do <jovem mestre> com um de seus servos) do conceito universal ressignificado ulteriormente na visão teológica de Dostoïevski que gira em torno do arquétipo do camponês (o krest’janin).

A mesma palavra no plural, Muziki, é o título de uma longa novela de Tchékhov datada de 1897, cujo enredo se passa no mesmo ano. A tradução de um título é sempre perigosa: sua formulação geralmente lacônica (o mais lacônica possível, aliás) tem como meta representar, ou ao menos sugerir, a idéia primordial contida na obra. Mas, ao mesmo tempo, um título deve ser chamativo, despertar a vontade de ler. Daí que não nos pareça recomendável traduzir a obra como Les moujiks: a estranheza da palavra – estranheza que, em si mesma, não impede a palavra de ser utilizada, e até pode ser um critério para preferi-la, como já indicamos – não ajuda em tornar o título atrativo para o potencial leitor de ficção (muito embora o caráter de estranho possa ser sempre atrativo para aficionados em relatos de viagens, por exemplo). E, ademais, a palavra muziki passa longe de ser neutra, uma vez que designa os camponeses russos do fim do séc. XIX aproximadamente 40 anos após a abolição da servidão. Em que pese esse período coincidir com a infância de Dostoïevski, não podemos assinalá-la como bom sinônimo de krest’jane. Na verdade quem não lê a novela obviamente não pode entender o sentido do título Muziki: a estória da decadência inelutável duma família camponesa e de toda uma vila, em meio a uma sociedade que não libertou os camponeses senão para abandoná-los a eles mesmos, figuras ontologicamente irresponsáveis pela própria existência. Sendo assim, Muziki aqui é um misto de termo carregado de compaixão com leve depreciação ou crítica nuançada. Agora, em nosso tempo, essa palavra, ainda empregada, se tornou muito mais – abertamente – pejorativa. Quanto à melhor sugestão de tradução, seria Paysans, sem artigo, preferível a Les Paysans, que vem a ser a escolha mais freqüente.”

a neutralidade estilística está para o texto como o silêncio está para a peça musical e o plano de fundo para a pintura.”

* * *

L’autre forme de l’interprétation de conférence est l’interprétation simultanée, introduite dans la pratique professionnelle à partir du procès de Nuremberg: l’interprète est isolé dans une cabine vitrée qui lui permet de voir les participants. Il reçoit le son grâce à des écouteurs et traduit ainsi dans un micro les propos entendus, non pas simultanément, mais avec un léger décalage dont la durée varie en fonction de la nature du discours. C’est à Marianne Lederer (op. cit.), ancienne directrice de l’EST, que la traductologie doit l’ouvrage majeur sur l’interprétation simultanée: La traduction simultanée, expérience et théorie, paru en 1981. Les recherches de Seleskovitch se poursuivent par toute una série d’articles qui élargissent peu à peu le champ de son étude de l’interprétation à la traduction en général. Le texte qui suit retrace le cheminement de son analyse et ses notions clés”

Trechos de Colette Laplace, Théorie du langage et théorie de la traduction

on pense mieux en parlant qu’au stade de la pensée non formulée. Toute parole est donc en même temps expression de la pensée et génératrice de pensée.” Selesk.

Selon l’interprète, la langue signale par le pluriel même auquel elle se prête (les langues), qu’elle a un caractère instrumental” “L’impression retirée de la lecture de L’interprète dans les conférences internationales se trouve immédiatement confirmée: en 20 ans de recherche, Seleskovitch ne s’est jamais lancée dans une étude analytique de la langue, elle s’est toujours tenue volontairement à l’écart des grands courants de la linguistique contemporaine, distributionnalisme bloomfieldien, strucuturalisme saussurien, glossématique de Hjelmslev, fonctionnalisme d’un Jakobson ou d’un Martinet, etc.” “Quel musicologue se contenterait d’étudier le bois dont est fait un stradivarius pour s’expliquer une musique? Ainsi les recherches d’un Chomsky sur la structure profonde ne sauraient trouver grâce à ses yeux, car elles ne permettent pas de <sortir de la langue>.”

Les idées doivent se couler dans les catégories que leur impose la langue, mais elles ne se confondent pas plus avec ces catégories qu’elles ne se confondent avec la langue.

Toute conception de la langue de Seleskovitch est dans cette phrase et ses différentes publications fourmillent d’illustrations de cette thèse.”

O KEYHOLE PRINCIPLE DE SELESK.: “un Anglais et un Français ont certainement la même représentation mentale, le même concept, d’un trou de serrure [buraco de fechadura, ‘lock-hole’], pourtant l’un utilise le terme <trou de serrure> et l’autre celui de <keyhole> (trou pour la clef).”

L’anglais dit outlet, le français dit prise (de courant)” Uma queima de estoque ligada no 220V!

a língua não diz, ela permite dizer”

Le vouloir-dire est la cause du discours, le sens en est la finalité.”

Dans les conférences internationales, les orateurs se succèdent, abordant des sujets politiques, écnonomiques, techniques ou scientifiques, que leurs auditeurs, délégués de même langue ou interprètes, sont supposés comprendre à la vitesse du débit oral, sans jamais disposer de la possibilité d’opérer un retour en arrière, alors que le lecteur a, lui, toujours loisir de le faire. C’est donc la situation idéale pour observer le jeu des mécanismes de compréhension, sans que rien ne le fausse.”

Il est certes plus difficile de dégager le sens d’un poème d’Hölderlin ou de René Char que d’un discours de Margaret Thatcher, et le travail d’exégèse n’est sans doute pas encore achevé mais il n’en reste pas moins que ce sens a une entité objective.”

The chickens are ready to eat! est ambiguë car nul ne peut opter à partir de la seule signification de la phrase: Les poulets sont cuits à point ou plutôt pour on peut maintenant donner à manger aux poulets.”

Nul besoin d’aller chercher des mots comme Gemüt et Schadenfreude pour affirmer que certains mots sont intraduisibles.”

on conserve le mot étranger come on l’a fait pour l’isba des romans russes ou pour le software des ensembles électroniques ou bien l’on crée un mot nouveau comme on l’a fait pour cybernétique, ou une acception nouvelle comme satellite qui a vite perdu son épithète d’artificiel.”

Bread pour l’Américain c’est une matière spongieuse, coupée en tranches et enveloppée de cellophane; pour le Français, le pain c’est une longue baguette croustillante et dorée” “nous serions tentée de demander si le soleil est bien la même chose pour un esquimo qui, pendant une partie de l’année seulement voit un astre pâle décrire une courbe molle au-dessus de l’horizon en difusant de la lumière 24 heures sur 24 et pour un Africain, qui identifie le soleil à une pluie de feu qui tombe du ciel et contre laquelle il convient de se protéger.”

«Ainsi les chiffres qui sont traduisibles par excellence puisqu’il y a une parfaite correspondance entre le référent et les signifiés des différentes langues, peuvent dans certaines circonstances devenir contextuels. Seleskovitch cite l’exemple des <15 jours> en français qui se traduisent par <14 Tage> en allemand. On pourrait également citer la signification attachée au chiffre 13 dans certains pays occidentaux (signification de malheur) qui se traduirait dans certains pays asiatiques par le chiffre 4.»

«Pour nous en convaincre, il suffit d’ouvrir le dictionnaire bilingue au hasard. Voici ce que propose le dictionnaire bilingue français-allemand de Sachs et Villatte: Kern: noyau, pépin, amande, coeur, puis des expressions diverses telles que der Kern der Sache: le vif do sujet; des Pudels Kern: le fin mot de l’affaire. Nous constatons que le terme allemand a un champ sémantique très large, plus large serait-on tenté de dire que celui de ces correspondants français. Mais est-ce bien vrai? Vérifions maintenant les équivalents proposés pour l’un des termes français. Coeur: Herz, Gefühl, Gemüt, Mut, etc. et d’innonbrables expressions: par coeur: auswendig; loin des yeux, loin du coeur: aus den Augen aus dem Sinn; faire à contre coeur: widerwillig machen; coeur d’un arbre: Kern, etc. Nous constatons que le champ sémantique du terme français est lui aussi très vaste, mais qu’il n’est nullement superposable au champ sémantique du terme allemand.»

Can you give me a lift? : Tu es en voiture? / Tu peux me déposer quelque part? / Vous êtes motorisé?

Trechos de Philippe Forget, Il faut bien traduire

«ces représentantes du vouloir-dire, de la parole vivante, de la conscience maîtresse du sens sont ici en train de pratiquer le spiritisme: elles convoquent le sens, donc l‘esprit, le font apparaître en dehors de sa forme matérielle pour, identifique à lui-même (insensible aux contextes, donc) le rematérialiser ensuite!»

* * *

ELEMENTOS CULTURAIS, CONOTAÇÃO, ESTILÍSTICA

Trechos de Ladmiral (op. cit.)

«D’un point de vue historique, le concept de connotation a été remis à l’honneur par la linguistique américaine, dans le sillage de Bloomfield, avant d’être repris ensuite et thématisé surtout par les linguistes européens (cf. Mounin, 1963). Au-delà de l’héritage bloomfieldien, c’est donc essentiellement à l’apport de linguistes européens comme Martinet, Mounin, Guiraud, Lyons, Hjelmslev, voire Barthes… que nous serons conduit à faire réferérence.»

«On trouve le mot déjà chez Littré, qui consacre à la notion 3 entrées dans son dictionnaire – où connotation est définie comme ‘l’idée particulière que comporte un terme abstrait à côté du sens général’, où connoter signifie ‘faire une connotation, c’est-à-dire, indiquer, en même temps que l’idée principale, une idée secondaire qui s’y rattache’, et où connotatif a aussi une adresse qui luit est propre.»

* * *

O CROATA APRESENTA INCRÍVEIS PARALELOS COM O PORTUGUÊS!

«C’est ici que se situe la grande majorité des cas. Notons que ces termes relèvent souvent de sphères où le français faisait jadis figure de langue de communication internationale: les lettres et les arts: esej, rezime, portret, revija, feljton, vodvilj, gvas; la politique: portfelj, revans, alijansa; les sciences et techniques: emalj, rezervoar, freza; la médecine: celulit; les finances: financije, akreditirati, garancija; l’art militaire: kampanja, bajuneta; la mode: dekolte, drapirati; l’art culinaire: blansirati, rulada, desert, fondan, frikase, et puis le savoureux frape, qu’en bon français nous préférons appeler milk-shake.

(…) interpolacija [interpolação] (…) bizuterija – désignant uniquement les bijoux de pacotille; frizura – la coiffure en général [cabelo frisado]; bombonijera – désignant une boîte de bonbons ou bien une confiserie [confeito]); soit avec una acception très pointue du mot source (apartman – qui le plus souvent désigne un logement locatif dans un lieu de villégiature); soit, et c’est beaucoup plus rare, avec une notion plus large que dans la langue d’origine (goblen, à partir de Gobelins, aboutit à l’idée de tapisserie en général).»

«avantura, butik, degutantan, dekadansa, impozantan»

TRADUZIR POESIA

Trechos de Inês Oseki-Dépré, Théories et pratiques de la traduction littéraire

«‘La Traduction-Allusion se propose seulement d’ébranler l’imagination du lecteur qui n’aura qu’à achever l’esquisse.’ Ainsi, selon Etkind, ‘n’est-il pas rare de voir les traducteurs ne faire rimer que les 4 ou les 8 premiers vers comme dans l’original, comme pour orienter l’esprit du lecteur dans la bonne direction’»

«recréer un poème dans son indivisible unité, dans sa totalité est un miracle qui ne serait accessible qu’à un poète.»

O que aconteceria se se esperasse de uma tradução poética que atendesse à lei formal das traduções, que é serem mais longas que o original?

« les Allemands et les Russes ont admirablement traduit dans leurs langues Homère, Eschyle, Sapho, Alcée, Virgile, Catulle, Horace, Juvénal. Il y a, entre la versification russe, tonique, et la versification polonaise, syllabique, une différence de principe fondamentale: elle n’a pas empêché Julian Tuwim de faire une excellente tradution d’Eugéne Onéguine de Pouchkine, ni Severin Pollack de recréer, de manière trèssatisfaisante, la poésie d’Anna Akmatova, de Maldelstam, de Tsvetaieva, de Pasternak.

De leur côté, la différence entre le système syllabique et le système tonique n’a pas empêché les poètes russes de traduire André Chénier, Évariste Parny (Pouchhine[?]), Auguste Barbier (Benediktov, Antokolski), Baudelaire, Verlaine, Rimbaud. »

«Le vers classique croule sous le poids des connotations livresques: impossible d’écrire une ligne, et encore moins une phrase, sans qu’aussitôt se présentent à l’esprit de longues séries de réminiscences scolaires, de citations et de commentaires transmis de génération en génération. Cet héritage s’est accumulé pendant plus de 4 siècles: on est fatigué par tant de liens culturels, la réalité vivante en est occultée. Libérer la vie des alluvions culturelles qui la recouvrent, telle est l’aspiration essentielle du vers libre. Paul Valéry, qui y avait tenu sa part, évoque ce refus total de l’ancienne tradition classique à partir des années 1890.»

* * *

INDICATIONS BIBLIOGRAPHIQUES

BALLARD, Michel. Qu’est-ce que la traductologie?, 2006.

BENJAMIN, Walter. La tâche du traducteur in: Oeuvres I.

ECO, Umberto. Dire presque la même chose.

LADMIRAL, Théorèmes pour la traduction.

TYTLER, op. cit.

AMERICAN NERVOUSNESS: ITS CAUSES AND CONSEQUENCES (A supplement to “Nervous exhaustion: Neurasthenia”) – George Beard, 1881.

-Um glamouroso retrato da decadência ocidental, embora ingenuamente otimista quanto a ele e de um ultimado chauvinismo ianque!-

Nervousness is strictly deficiency or lack of nerve-force. This condition, together with all the symptoms of diseases that are evolved from it, has developed mainly within the 19th century, and is especially frequent and severe in the Northern and Eastern portions of the United States. Nervousness, in the sense here used, is to be distinguished rigidly and systematically from simple excess of emotion and from organic disease.”

The sign and type of functional nervous diseases that are evolved out of this general nerve sensitiveness is neurasthenia (nervous exhaustion), which is in close and constant relation with such functional nerve maladies as certain physical forms of hysteria, hay-fever [rinite alérgica], sick-headache, inebriety, and some phases of insanity; is, indeed, a branch whence at early or later stages of growth these diseases may take their origin.”

The greater prevalence of nervousness in America is a complex resultant of a number of influences, the chief of which are dryness of the air, extremes of heat and cold, civil and religious liberty, and the great mental activity made necessary and possible in a new and productive country under such climatic conditions.

A new crop of diseases has sprung up in America, of which Great Britain until lately knew nothing, or but little. A class of functional diseases of the nervous system, now beginning to be known everywhere in civilization, seem to have first taken root under an American sky, whence their seed is being distributed.

All this is modern, and originally American; and no age, no country, and no form of civilization, not Greece, nor Rome, nor Spain, nor the Netherlands, in the days of their glory, possessed such maladies.” Not in their glories, that is.

to solve it in all its interlacings, to unfold its marvellous phenomena and trace them back to their sources and forward to their future developments, is to solve the problem of sociology itself.” [!!!]

Among the signs of American nervousness specially worthy of attention are the following: The nervous diathesis [degenerescência genética, i.e., uma suposta maior vulnerabilidade a doenças dos nervos decorrente da debilidade dos progenitores]; susceptibility to stimulants and narcotics and various drugs, and consequent necessity of temperance¹ [e ainda chama essa abordagem de sociológica sem levar em conta o fator cultural?]; increase of the nervous diseases inebriety [alcoolismo ou uma ligeira variação deste – suscetibilidade exagerada –, que o autor diferenciará no segundo capítulo] and neurasthenia (nervous exhaustion), hay-fever, neuralgia [dor crônica nas terminações nervosas], nervous dyspepsia [indigestão], asthenopia [fadiga ocular e dores de cabeça derivadas] and allied diseases and symptoms [bem específico…]; early and rapid decay of teeth [já fez seu Amil Dental?]; premature baldness; sensitiveness to cold and heat; increase of diseases not exclusively nervous, as diabetes and certain forms of Bright’s disease of the kidneys and chronic catarrhs; unprecedented beauty of American women; frequency of trance and muscle-reading [a tênue linha entre a paranormalidade e simples efeitos de indução eletromagnética]; the strain of dentition, puberty, and change of life; American oratory, humor [haha!], speech, and language; change in type of disease during the past half-century, and the greater intensity of animal life on this continent. [???]

¹ Ah, obviamente Sêneca e Epicuro concordariam contigo!

longevity has increased, and in all ages brain-workers have, on the average, been long-lived, the very greatest geniuses being the longest-lived of all.” “the law of the relation of age to work, by which it is shown that original brain-work is done mostly in youth and early and middle life, the latter decades being reserved for work requiring simply experience and routine.” Pequena confusão entre decaimento fisiológico e e incorporação da experiência como forma de reduzir o esforço mental!

Poetas românticos não usavam a cabeça? Pois sua efemeridade é mais-que-popular…

in all our cyclopedias of medicine, the terms hysteria, somnambulism, ecstasy, catalepsy, mimicry of disease, spinal congestion, incipient ataxy, epilepsy, spasms and congestions, anemias and hyperemias, alcoholism, spinal irritation, spinal exhaustion, cerebral paresis, cerebral exhaustion and irritation, nervousness and imagination [!] are thrown together recklessly, confusedly, hopelessly as in a witches cauldron; and in all, and through all, one shall look vainly—save here and there, for an intelligent and differential description of neurasthenia, the most frequent, the most important, the most interesting nervous disease of our time, or of any time

still our medical graduates, after years spent in listening to lectures, must wait for their diploma before they are even ready to begin the study of this side of the nervous system. Meantime the literature of ataxia [desarranjo da coordenação motora], which is but an atom compared with the world of functional nervous diseases, has risen and is yet rising with infinite repetitions and revolutions to volumes and volumes.”

So far as I know, there has been no hostile criticism of this philosophy in Germany, but in England, even now, these views are not unanimously sustained.” Nazistas retesados.

1. NATURE AND DEFINITION OF NERVOUSNESS

Trance, with its numerous, interesting and intricate phenomena, a condition that has been known in all ages, and among almost all people, is not nervousness, albeit nervous people are sometimes subject to it. See my work on Trance [não muito interessado, mas obrigado assim mesmo!], in which this distinction between physiology and psychology is discussed more fully and variously illustrated.” “This interesting survival of the Middle Ages that we have right here with us today, is the most forcible single illustration that I know of, of the distinction between unbalanced mental organization and nervousness. These Jumpers are precious curiosities, relics or antiques that the 14th century has, as it were, dropped right into the middle of the 19th. The phenomena of the Jumpers are as interesting, scientifically, as any phenomena can be, but they aren’t contributions to American nervousness.

Brainlessness (excess of emotion over intellect) is, indeed, to nervousness, what idiocy is to insanity”

Nervousness is not passionateness. A person who easily gets excited or angry, is often called nervous. One of the signs, and in some cases, one of the first signs of real nervousness, is mental irritability, a disposition to become fretted over trifles; but in a majority of instances, passionate persons are healthy—their exhibitions of anger are the expression of normal emotions, and not in any sense evidences of disease, although they may be made worse by disease, either functional or organic. Nervousness is nervelessness—a lack of nerve-force.” “In medical science we are forced to retain terminology that is in the last degree unscientific, for the same reason that we retain our orthography, which in the English language is, as all know, very bad indeed.” <Febre da grama> realmente não é muito literal!

fear of lightning, or fear of responsibility, of open places or of closed places, fear of society, fear of being alone, fear of fears, fear of contamination, fear of everything, deficient mental control, lack of decision in trifling matters, hopelessness, deficient thirst and capacity for assimilating fluids, abnormalities of the secretions, salivation, tenderness of the spine, and of the whole body, sensitiveness to cold or hot water, sensitiveness to changes in the weather, coccyodynia, pains in the back, heaviness of the loins and limbs, shooting pains simulating those of ataxia, cold hands and feet, pain in the feet, localized peripheral numbness and hypersesthesia, tremulous and variable pulse and palpitation of the heart, special idiosyncrasies in regard to food, medicines, and external irritants, local spasms of muscles, difficulty of swallowing, convulsive movements, especially on going to sleep, cramps [cãibras ou cólicas], a feeling of profound exhaustion unaccompanied by positive pain, coming and going, ticklishness [hiperdelicadeza ou sensibilidade; em sentido mais estrito, facilidade para sentir comichão ou cócegas], vague pains and flying neuralgias, general or local itching, general and local chills and flashes of heat [calafrios e ondas de calor esporádicos], attacks of temporary paralysis, pain in the perineum, involuntary emissions, partial or complete impotence, irritability of the prostatic urethra, certain functional diseases of women [vague!], excessive gaping and yawning [bocejar exagerado], rapid decay and irregularities of the teeth, oxalates, urates, phosphates and spermatozoa in the urine, vertigo or dizziness, explosions in the brain at the back of the neck [?!], dribbling and incontinence of urine [incontinência urinária e seu reverso, alternados], frequent urination, choreic movements of different parts of the body, trembling of the muscles or portions of the muscles in different parts of the body, exhaustion after defecation and urination, dryness of the hair, falling away of the hair and beard, slow reaction of the skin, etc. Dr. Neisser, of Breslau, while translating my work on Nervous Exhaustion into German, wrote me that the list of symptoms was not exhaustive. This criticism is at once accepted, and was long ago anticipated. An absolutely exhaustive catalogue of the manifestations of the nervously exhausted state cannot be prepared, since every case differs somewhat from every other case.”

There are millionnaires of nerve-force—those who never know what it is to be tired out, or feel that their energies are expended, who can write, preach, or work with their hands many hours, without ever becoming fatigued, who do not know by personal experience what the term <exhaustion> means; and there are those—and their numbers are increasing daily—who, without being absolutely sick, without being, perhaps for a lifetime, ever confined to the bed a day with acute disorder, are yet very poor in nerve-force; their inheritance is small, and they have been able to increase it but slightly, if at all; and if from overtoil, or sorrow, or injury, they overdraw their little surplus, they may find that it will require months or perhaps years to make up the deficiency, if, indeed they ever accomplish the task. The man with a small income is really rich, as long as there is no overdraft on the account; so the nervous man may be really well and in fair working order as long as he does not draw on his limited store of nerve-force. But a slight mental disturbance, unwonted toil or exposure, anything out of and beyond his usual routine, even a sleepless night, may sweep away that narrow margin, and leave him in nervous bankruptcy, from which he finds it as hard to rise as from financial bankruptcy.”

Hence we see that neurasthenics who can pursue without any special difficulty the callings of their lives, even those callings requiring great and prolonged activity, amid perhaps very considerable excitement, as that of statesmanship, politics, business, commercial life, or in overworked professions, are prostrated at once when they are called upon to do something outside of their line, where their force must travel by paths that have never been opened and in which the obstructions are numerous and can only be overcome by greater energy than they can supply.” The purpose of treatment in cases of nervous exhaustion is of a two-fold character— to widen the margin of nerve-force, and to teach the patient how to keep from slipping over the edge.”

Our title is justified by this, that if once we understand the causes and consequences of American nervousness, the problems connected with the nervousness of other lands speedily solve themselves.” The philosophy of Germany has penetrated to all civilized nations; in all directions we are becoming Germanized. Similarly, the nervousness of America is extending over Europe, which, in certain countries, at least, is becoming rapidly Americanized. Just as it is impossible to treat of German thought without intelligent reference to the thought of other nationalities, ancient or modern, so is it impossible to solve the problem of American nervousness without taking into our estimate the nervousness of other lands and ages. [Acaba de contradizer o grifado em verde!]”

O REVERSO DA MEDALHA

Indeed, nervousness, in its extreme manifestations, seems to save one from these organic incurable diseases of the brain and of the cord; with some exceptions here and there, the neurasthenic does not go into or die of nervous disease.” They may become insane—some of them do; they may become bed-confined invalids; they may be forced, as they often are, to resign their occupations, but they do not, as rule, develop the structural maladies to which here refer.” nervousness is a physical not a mental state, and its phenomena do not come from emotional excess or excitability or from organic disease but from nervous debility and irritability.”

2. SIGNS OF AMERICAN NERVOUSNESS

No one dies of spinal irritation; no one dies of cerebral irritation; no one dies of hay-fever; rarely one dies of hysteria; no one dies of general neuralgia; no one dies of sick-headache; no one dies of nervous dyspepsia; quite rarely does one die of nervous exhaustion; and even when these conditions are the cause of death they are not noted as such in the tables of mortality” Nervousness of constitution is, indeed, an aid to longevity, and in various ways; it compels caution, makes imperative the avoidance of evil habits, and early warns us of the approach of peril.” Wickedness was solemnly assigned as the cause of the increase of nervous diseases, as though wickedness were a modern discovery.” nervous diathesis—an evolution of the nervous temperament.” “It includes those temperaments, commonly designated as nervous, in whom there exists a predisposition to neuralgia, dyspepsia, chorea, sick-headache, functional paralysis, hysteria, hypochondriasis, insanity, or other of the many symptoms of disease of the central or peripheral nervous system.”

A fine organization. The fine organization is distinguished from the coarse by fine, soft hair, delicate skin, nicely chiselled features [bem-cinzelada ou esculpida – somos belos!], small bones, tapering extremities [membros pontiagudos, i.e., que se afunilam nas mãos e nos pés, na canela e no antebraço!], and frequently by a muscular system comparatively small and feeble. It is frequently associated with superior intellect, and with a strong and active emotional nature.” “It is the organization of the civilized, refined, and educated, rather than of the barbarous and low-born and untrained”

The nervous diathesis appears, within certain limits, to protect the system against attacks of fever and inflammation.” Isso explicaria porque só tive febre uma vez desde a idade adulta.

The tuberculous diathesis frequently accompanies a fine organization; but fine organizations only in a certain proportion of cases have a tuberculous diathesis. The nervous diathesis is frequently not only not susceptible to tuberculosis, but apparently much less so than the average, and sometimes, indeed, seems to be antagonistic to it, for there are many nervous patients in whom no amount of exposure or hardship or imprudence seems to be able to develop phthisis [tísica]” Devo acrescentar alguma imunidade ao câncer?

Among Americans of the higher orders, those who live in-doors, drinking is becoming a lost art; among these classes drinking customs are now historic, must be searched for, read or talked about, like extinct or dying-away species.” There is, perhaps, no single fact in sociology more instructive and far reaching than this, and this is but a fraction of the general and sweeping fact that the heightened sensitiveness of Americans forces them to abstain entirely, or to use in incredible and amusing moderation, not only the stronger alcoholic liquors, whether pure or impure, but also the milder wines, ales, and beers, and even tea and coffee.”

I replied that there were very few nervous patients who were not injured by it, and very few who would not find it out without the aid of any physician. Our fathers could smoke, our mothers could smoke, but their children must oft-times be cautious; and chewing is very rapidly going out of custom, and will soon, like snuff-taking, become a historic curiosity; while cigars give way to cigarettes. From the cradle to the grave the Chinese empire smokes, and when a sick man in China has grown so weak that he no longer asks for his pipe, they give up hope, and expect him to die. Savage tribes without number drink most of the time when not sleeping or fighting, and without suffering alcoholism, or without ever becoming inebriates [!]” But 50 years ago opium produced sleep; now the same dose keeps us awake, like coffee or tea—susceptibility to this drug has been revolutionized.” Thus the united forces of climate and civilization are pressing us back from one stimulant to another, until, like babes, we find no safe retreat save in chocolate and milk and water.”

Reprove an Angola negro for being drunk and he will reply, <My mother is dead,> as though that were excuse enough. Even as recently as the beginning of the present century, the custom of drinking at funerals yet survived with our fathers. At the present time both culture and conscience are opposed to such habits.”

It is through the alcohol, and not the adulterations, that excessive drinking injures.” This functional malady of the nervous system which we call inebriety, as distinguished from the vice or habit of drunkenness, may be said to have been born in America, has here developed sooner and far more rapidly than elsewhere, and here also has received earlier and more successful attention from men of science.” For those individuals who inherit a tendency to inebriety, the only safe course is absolute abstinence, especially in early life; and in certain cases treatment of the nervous system, on the exhaustion of which the inebriety depends.”

AQUILO QUE NENHUMA REVISTA DE NUTRIÇÃO DIRÁ: “we so often find not only epileptics, but neurasthenics and nervous persons with other symptoms, are free and sometimes excessive eaters. They say their food does not give them strength, and it does not, for the same reason that the acid poured into the impure fluid of the battery does not give us electric force. There are those who all their lives are habitually small eaters and yet are great workers, and there are those who, though all their lives great eaters, are never strong; their food is either not digested or thoroughly assimilated, and so a much smaller fraction than should be is converted into nerve-force.”

In all the great cities of the East, among the brain-working classes of our large cities everywhere, pork, in all its varieties and preparations, has taken a subordinate place among the meats upon our tables, for the reason that the stomach of the brain-worker cannot digest it.”

Four and 5 meals a day is, or has been, the English and, notably, the German custom. Foreigners have greatly surpassed us in the taking of solid as well as liquid food.”

The eyes also are good barometers of our nervous civilization. The increase of asthenopia and short-sightedness [miopia], and, in general, of the functional disorders of the eye, are demonstrated facts and are most instructive. The great skill and great number of our oculists are constant proof and suggestions of the nervousness of our age. The savage can usually see well; myopia is a measure of civilization.” “near-sightedness increases in schools” Macnamara declares that he took every opportunity of examining the eyes of Southall aborigines of Bengal, for the purpose of discovering whether near-sightedness and diseases of like character existed among them, and he asserts that he never saw a young Southall whose eyes were not perfect.”

at the age of 20, 26% of Americans are near-sighted. In Russia, 42%, and in Germany, 62%.” A nação mais intelectual do mundo.

American dentists are the best in the world, because American teeth are the worst in the world.”

Irregularities of teeth, like their decay, are the product primarily of civilization, secondarily of climate. These are rarely found among the Indians or the Chinese; and, according to Dr. Kingsley, are rare even in idiots”

It is probable that negroes are troubled earlier than Indians. The popular impression that negroes always have good teeth is erroneous—the contrast between the whiteness of the teeth and the blackness of the face tending not a little to flatter them.”

Coarse races and peoples, and coarse individuals can go with teeth badly broken down without being aware of it from any pain; whereas, in a finely organized constitution, the very slightest decay in the teeth excites pain which renders filling or extracting imperative. The coarse races and coarse individuals are less disturbed by the bites of mosquitoes, by the presence of flies or of dirt on the body, than those in whom the nervous diathesis prevails”

It is said, for example, of the negroes of the South, that they rarely if ever sneeze.”

Special explanations without number have been offered for this long-observed phenomenon—the early and rapid decay of American teeth—such as the use of sweets, the use of acids, neglect of cleanliness, and the use of food that requires little mastication. But they who urge these special facts to account for the decay of teeth of our civilization would, by proper inquiry, learn that the savages and negroes, and semi-barbarians everywhere, in many cases use sweets far more than we, and never clean their mouths, and never suffer, except in old age.”

the only races that have poor teeth are those who clean them.” Quando o remédio vem mais tarde que a doença.

Among savages in all parts of the earth baldness is unusual, except in extreme age, and gray hairs come much later than with us. So common is baldness in our large cities that what was once a deformity and exception is now almost the rule, and an element of beauty.”

Increased sensitiveness to both heat and cold is a noteworthy sign of nervousness.”

Cold bathing is not borne as well as formerly.” “Water treatment is as good for some forms of nervous disease as it ever was; but it must be adapted to the constitution of the patient, and adapted also to the peculiar needs of each case.”

The disease, state, or condition to which the term neurasthenia is applied is subdivisible, just as insanity is subdivided into general paresis or general paralysis of the insane, epileptic insanity, hysterical, climatic, and puerperal insanity; just as the disease or condition that we call trance is subdivided into clinical varieties, such as intellectual trance, induced trance, cataleptic trance, somnambulistic trance, emotional trance, ecstatic trance, etc.

That diabetes is largely if not mainly a nervous disease is becoming more and more the conviction of all medical thinkers, and that, like Bright’s disease, it has increased of late, can be proved by statistics that in this respect are in harmony with observation.”

A ERA DA RINITE E DAS ALERGIAS: “A single branch of our neurological tree, hay-fever, has in it the material for years of study; he who understands that, understands the whole problem. In the history of nervous disease I know not where to look for anything as extraordinary or instructive as the rise and growth of hay-fever in the USA.”

Catarrh of the nose and nasal pharyngeal states — so-called nasal and pharyngeal catarrh — is not a nervous disease, in the strict sense of the term, but there is often a nervous element in it; and in the marked and obstinate forms it is, like decay and irregularities of the teeth, one of the signs or one of the nerve-symptoms of impairment of nutrition and decrease of vital force which make us unable to resist change of climate and extremes of temperature.”

The phenomenal beauty of the American girl of the highest type, is a subject of the greatest interest both to the psychologist and the sociologist, since it has no precedent, in recorded history, at least; and it is very instructive in its relation to the character and the diseases of America.”

The same climatic peculiarities that make us nervous also make us handsome”

In no other country are the daughters pushed forward so rapidly, so early sent to school, so quickly admitted into society; the yoke of social observance (if it may be called such), must be borne by them much sooner than by their transatlantic sisters — long before marriage they have had much experience in conversation and in entertainment, and have served as queens in social life, and assumed many of the responsibilities and activities connected therewith. Their mental faculties in the middle range being thus drawn upon, constantly from childhood, they develop rapidly a cerebral activity both of an emotional and an intellectual nature, that speaks in the eyes and forms the countenance; thus, fineness of organization, the first element of beauty, is supplemented by expressiveness of features — which is its second element”

Handsome women are found here and there in Great Britain, and rarely in Germany; more frequently in France and in Austria, in Italy and Spain”

One cause, perhaps, of the almost universal homeliness of female faces among European works of art is the fact that the best of the masters never saw a handsome woman.” Esqueceu da relatividade histórica do tipo belo!

If Raphael had been wont to see everyday in Rome or Naples what he would now see everyday in New York, Baltimore, or Chicago, it would seem probable that, in his Sistine Madonna he would have preferred a face of, at least, moderate beauty, to the neurasthenic and anemic type that is there represented. [?]”

To the first and inevitable objection that will be made to all here said — namely, that beauty is a relative thing, the standard of which varies with age, race, and individual — the answer is found in the fact that the American type is today more adored in Europe than in America; that American girls are more in demand for foreign marriages than any other nationality; and that the professional beauties of London that stand highest are those who, in appearance and in character have come nearest the American type.” Isso se chama cultura hegemônica, e não um argumento de defesa – e um pouco de chauvinismo também…

The ruddiness or freshness, the health-suggesting and health-sustaining face of the English girl seem incomparable when partially veiled, or when a few rods away” HAHA. Uma obra não muito recomendável na parte estética… Beleza EXÓTICA!

The European woman steps with a firmer tread than the American, and with not so much lightness, pliancy, and grace. In a multitude, where both nations are represented, this difference is impressive.”

The grasp of the European woman is firmer and harder, as though on account of greater strength and firmness of muscle. In the touch of the hand of the American woman there is a nicety and tenderness that the English woman destroys by the force of the impact.”

3. CAUSES OF AMERICAN NERVOUSNESS

Punctuality is a greater thief of nervous force than is procrastination of time. We are under constant strain, mostly unconscious, often-times in sleeping as well as in waking hours, to get somewhere or do something at some definite moment.”

In Constantinople indolence is the ideal, as work is the ideal in London and New York”

There are those who prefer, or fancy they prefer, the sensations of movement and activity to the sensations of repose”

The telegraph is a cause of nervousness the potency of which is little understood. (…) prices fluctuated far less rapidly, and the fluctuations which now are transmitted instantaneously over the world were only known then by the slow communication of sailing vessels or steamships” “every cut in prices in wholesale lines in the smallest of any of the Western cities, becomes known in less than an hour all over the Union; thus competition is both diffused and intensified.”

Rhythmical, melodious, musical sounds are not only agreeable, but when not too long maintained are beneficial, and may be ranked among our therapeutical agencies.”

The experiments, inventions, and discoveries of Edison alone have made and are now making constant and exhausting draughts on the nervous forces of America and Europe, and have multiplied in very many ways, and made more complex and extensive, the tasks and agonies not only of practical men, but of professors and teachers and students everywhere” Um tanto utópico e nostálgico para um “médico pragmático”…

On the mercantile or practical side the promised discoveries and inventions of this one man have kept millions of capital and thousand of capitalists in suspense and distress on both sides of the sea.”

the commerce of the Greeks, of which classical histories talk so much, was more like play — like our summer yachting trips”

The gambler risks usually all that he has; while the stock buyer risks very much more than he has. The stock buyer usually has a certain commercial, social, and religious position, which is thrown into the risk, in all his ventures”

as the civilized man is constantly kept in check by the inhibitory power of the intellect, he appears to be far less emotional than the savage, who, as a rule, with some exceptions, acts out his feelings with comparatively little restraint.”

Love, even when gratified, is a costly emotion; when disappointed, as it is so often likely to be, it costs still more, drawing largely, in the growing years of both sexes, on the margin of nerve-force, and thus becomes the channel through which not a few are carried on to neurasthenia, hysteria, epilepsy, or insanity.”

A modern philosopher of the most liberal school states that he hates to hear one laugh aloud, regarding the habit, as he declares, a survival of barbarism.”

There are two institutions that are almost distinctively American — political elections and religious revivals”

My friend, presidents and politicians are chips and foam on the surface of the sea; they are not the sea; tossed up by the tide and left on the shore, but they are not the tide; fold your arms and go to bed, and most of the evils of this world will correct themselves, and, of those that remain, few will be modified by anything that you or I can do.”

The experiment attempted on this continent of making every man, every child, and every woman an expert in politics and theology is one of the costliest of experiments with living human beings, and has been drawing on our surplus energies with cruel extravagance for 100 years.” Agora, 250…

Protestantism, with the subdivision into sects which has sprung from it, is an element in the causation of the nervous diseases of our time. No Catholic country is very nervous, and partly for this—that in a Catholic nation the burden of religion is carried by the church.” Coitado do Brasil, trocando o certo pelo duvidoso assim…

The difference between Canadians and Americans is observed as soon as we cross the border, the Catholic church and a limited monarchy acting as antidotes to neurasthenia and allied affections. Protestant England has imitated Catholicism, in a measure, by concentrating the machinery of religion and taking away the burden from the people. It is stated —although it is supposed that this kind of statistics are unreliable— that in Italy insanity has been on the increase during these few years in which there has been civil and religious liberty in that country.”

The anxieties about the future, family, property, etc., are certainly so wearing on the negro, that some of them, without doubt, have expressed a wish to return to slavery.”

advances in science are not usually made by committees—indeed, are almost never made by them, least of all by government committees”

The people of this country have been pressed constantly with these 3 questions: How shall we keep from starving? Who is to be the next president? And where shall we go when we die? In a limited, narrow way, other nations have met these questions; at least two of them, that of starvation and that of the future life; but nowhere in ancient or modern civilization have these 3 questions been agitated so severely or brought up with such energy as here.”

Those who have acquired or have inherited wealth, are saved an important percentage of this forecasting and fore-worry”

The barbarian cares nothing for the great problems of life; seeks no solution — thinks of no solution of the mysteries of nature, and, after the manner of many reasoners in modern delusions, dismisses what he cannot at once comprehend as supernatural, and leaves it unsatisfactorily solved for himself, for others, and for all time”

Little account has been made of the fact that the old world is small geographically. The ancient Greeks knew only of Greece and the few outside barbarians who tried to destroy them. The discovery of America, like the invention of printing, prepared the way for modern nervousness; and, in connection with the telegraph, the railway, and the periodical press increased a hundred-fold the distresses of humanity.” The burning of Chicago—a city less than half a century old, on a continent whose existence was unknown a few centuries ago—becomes in a few hours the property of both hemispheres, and makes heavy drafts on the vitality not only of Boston and New York, but of London, Paris, and Vienna.”

Letter-writing is an index of nervousness; those nations who writes the most letters being the most nervous, and those who write scarcely at all, as the Turks and Russians, knowing nothing or but very little of it.”

The education of the Athenian boy consisted in play and games and songs, and repetitions of poems, and physical feats in the open air. His life was a long vacation, in which, as a rule, he rarely toiled as hard as the American lad in the intervals of his toil. (…) What they called work, gymnastics, competition games, and conversations on art and letters, is to us recreation.”

Up to a certain point work develops capacity for work; through endurance is evolved the power of greater endurance; force becomes the parent of force. But here, as in all animate nature, there are limitations of development which cannot be passed. The capacity of the nervous system for sustained work and worry has not increased in proportion to the demands for work and worry that are made upon it.”

GREEN COMMENT LAND: “Continuous and uniform cold as in Greenland, like continuous and uniform heat as on the Amazon, produces enervation and languor; but repeated alternations of the cold of Greenland and the heat of the Amazon produce energy, restlessness, and nervousness.”

The element of dryness of the air, peculiar of our climate as distinguished from that of Europe, both in Great Britain and on the Continent, is of the highest scientific and practical interest.” “On the nervous system this unusual dryness and thinness of the air have a many-sided influence; such as increase of headaches, neuralgias, and diminished capacity for sustaining cerebral toil.” The organs, pianos, and violins of America are superior to those made in Europe at the present time. This superiority is the result, not so much of greater skill, ingenuity, or experience, but—so far as I can learn, from conversing with experts in this line—from the greater dryness of the air, which causes the wood to season better than in the moist atmosphere of Europe.”

Moisture conducts electricity, and an atmosphere well charged with moisture, other conditions being the same, will tend to keep the electricity in a state of equilibrium, since it allows free and ready conduction at all times and in all directions.” In regions where the atmosphere is excessively dry, as in the Rocky Mountains, human beings—indeed all animals, become constantly acting lightning-rods, liable at any moment to be made a convenient pathway through which electricity going to or from the earth seeks an equilibrium.”

in the East our neuralgic and rheumatic patients, just before thunder-storms, are suddenly attacked by exquisite pains that at once disappear with the fair weather. There are those so sensitive that for 100 miles, and for a full day in advance, as Dr. Mitchell has shown, they can predict the approach of a storm.”

Dryness of the air, whether external or internal, likewise excites nervousness by heightening the rapidity of the processes of waste and repair in the organism, so that we live faster than in a moist atmosphere.”

one of the Manchester mill owners asserted that, during a season of dry weather, there was, in weaving alone, a loss of 5%, in quantity, and another loss of 5%, in quality; in spinning, also, an equal loss is claimed. To maintain moisture in mills, sundry devices have been tried, which have met, I believe, with partial success in practice.”

Even in our perfect Octobers, on days that are pictures of beauty and ideals of climate — just warm enough to be agreeable and stimulating enough not to be depressing, we yet remain in the house far more than Europeans are wont to do even in rainy or ugly seasons.” So what, Mr. Productive Media?

The English know nothing of summer, as we know of it — they have no days when it is dangerous, and scarcely any days when it is painful to walk or ride in the direct rays of the sun; and in winter, spring, and fall there are few hours when one cannot by proper clothing keep warm while moderately exercising.”

The Kuro Siwo stream of the Pacific, with its circuit of 18,000 miles, carries the warm water of the tropics towards the poles, and regulates in a manner the climate of Japan. Mr. Croll estimates that if the Gulf Stream were to stop, the annual temperature of London would fall 30 degrees [Farenheit], and England would become as cold as Nova Zembla. It is the influence of the Gulf Stream that causes London, that is 11° farther north than New York, to have an annual mean temperature but 2° lower.”

According to Miss Isabella Bird, who has recently published a work entitled Unbeaten Tracks in Japan, which is not only the very best work ever written on Japan, but one of the most remarkable works of travel ever written by man or woman, it seems that the Japanese suffer both from extremes of heat and cold, from deep snows and ice, and from the many weeks of sultriness such as oppress us in the US. The atmosphere of Japan is though far more moist than that of America, in that respect resembling some of the British Isles”

Our Meteorological Bureau has justified its existence and labors by demonstrating and popularizing the fact that our waves of extreme heat and of extreme cold and severe climatic perturbations of various kinds are born in or pass from the Pacific through these mountains and travel eastward, and hence their paths can be followed and their coming can be predicted with a measure of certainty.”

in the latter part of the winter and early spring—or what passes for spring, which is really a part of winter, and sometimes its worse part—there is more suffering from cold, more liability to disease, by taking cold, and more debility from long confinement in dry and overheated air than in early and mid-winter”

the strong races, like the Hebrews and Anglo-Saxons, succeed in nearly all climates, and are dominant wherever they go; but in unlimited or very extended time, race is a result of climate and environment.”

Savages may go to the most furious excesses without developing any nervous disease; they may gorge themselves, or they may go without eating for a week, they may rest in camp or they may go upon laborious campaigns, and yet never have nervous dyspepsia, sick-headache, hay-fever, or neuralgia.”

No people in the world are so careful of their diet, the quality and quantity of their food, and in regard to their habits of drinking, as the very class of Americans who suffer most from these neuroses.”

Alcohol only produces inebriety when it acts on a nervous system previously made sensitive. Alcoholism and inebriety are the products not of alcohol, but of alcohol plus a certain grade of nerve degeneration.”

But bad air, that is, air simply made impure by the presence of human beings, without any special contagion, seems powerless to produce disease of any kind, unless the system be prepared for it. Not only bad air, but bad air and filth combined, the Chinese of the lower orders endure both in this country and their own, and are not demonstrably harmed thereby (…) but impure air, plus a constitution drawn upon and weakened by civilization, is an exciting cause of nervous disease of immense force.”

The philosophy of the causation of American nervousness may be expressed in algebraic formula as follows: civilization in general + American civilization in particular (young and rapidly growing nation, with civil, religious, and social liberty) + exhausting climate (extremes of heat and cold, and dryness) + the nervous diathesis (itself a result of previously named factors) + overwork or overworry, or excessive indulgence of appetites or passions = an attack of neurasthenia or nervous exhaustion.”

Dr. Habsch, the chief oculist in Constantinople, says that the effect of tobacco upon the eyes is very problematical; that everybody smokes from morning to night, the men a great deal, the women a little less than the men, and the children smoke from the age of 7 and 8 years. He states that the number of cases of amaurosis [cegueira] is very limited. If expert oculists would examine the eyes of the Chinese, who smoke quite as much as the Turks, if not more, and smoke opium as well as tobacco, they would unquestionably confirm the conclusion of Dr. Habsch among the Turks. Dr. Habsch believes that in persons with a very delicate skin and conjunctiva [membrana mucosa que liga as pálpabras com o tecido ocular propriamente dito] among the Turks, smoking frequently causes chronic irritation, local congestion, profuse lachrymation, blepharitis ciliaris [inflamação dos cílios], and more or less intense redness of the eyelids. (cf. Dr. Webster on Amblyopia [Perda de visão] from the Use of Tobacco) [livro inexistente na web]”

The Hollanders, according to a most expert traveller, Edmondo De Amicis, are the greatest smokers of Europe; on entering a house, with the first greeting you are offered a cigar, and when you leave another is handed to you; many retire with a pipe in their mouth, re-light it if they awake during the night; they measure distances by smoke – to such a place by not so many miles but by so many pipes.” “Says one Hollander, smoke is our second breath; says another, the cigar is the 6th finger of the hand.”

Opium eating in China does not work in the way that the same habit does in the white races.” “when it is said of a Chinaman that he smokes opium, it is meant that he smokes to excess and has a morbid craving for it, just as with us the expression a man drinks means that he drinks too much”

It is clear that the habit of taking opium does not necessarily impair fertility, since large families are known among those who use opium, even to excess.”

Among my nervous patients I find very many who cannot digest vegetables, but must use them with much caution; but all China lives on vegetables, and indigestion is not a national disease. Many of the Chinese live in undrained grounds, in conditions favorable to ague and various fevers, but they do not suffer from these diseases, nor from diseases of the lungs and bronchial tubes, to the same extent as foreign residents there who do not use opium.”

I have been twice favored with the chance to study Africa in America. On the sea islands of the South, between Charleston and Savannah, there are thousands of negroes, once slaves, most of whom were born on those islands, who there will die, and who at no time have been brought into relation with our civilization, except so far as it is exhibited in a very few white inhabitants in the vicinity. Intellectually, they can be not very much in advance of their African ancestors; in looks and manners they remind me of the Zulus now exhibiting in America; for although since emancipation they have been taught by philanthropists, part of the time under governmental supervision, some of the elements of common school teaching, yet none of them have made, or are soon likely to make, any very important progress beyond those elements, and few, if any of them, even care to exercise the art of reading after it is taught them. Here, then, is a bit of barbarism at our door-steps; here, with our own eyes, and with the aid of those who live near them and employ them, I have sought for the facts of comparative neurology. There is almost no insanity among these negroes; there is no functional nervous disease or symptoms among them of any name or phase; to suggest spinal irritation, or hysteria of the physical form, or hay-fever, or nervous dyspepsia among these people is but to joke.” These primitive people can go, when required, for weeks and months sleeping but 1 or 2 hours out of the 24; they can labor for all day, or for 2 days, eating nothing or but little; hog and hominy and lish, all the year round, they can eat without getting dyspepsia; indulgence of passions several-fold greater, at least, than is the habit of the whites, either there or here, never injures them either permanently or temporarily; if you would find a virgin among them, it is said you must go to the cradle; alcohol, when they can get it, they drink with freedom, and become intoxicated like the whites, but rarely, indeed, manifest the symptoms of delirium-tremens, and never of chronic alcoholism”

These blacks cannot summon as much energy for a moment in an emergency as the whites, since they have less control over their energies, but in holding-on power, in sustained, continuous, unbroken muscular endurance, for hours and days, they surpass the whites.”

The West is where the East was a quarter of a century ago—passing more rapidly, as it would appear, through the same successive stages of development.”

4. LONGEVITY OF BRAIN-WORKERS AND THE RELATION OF AGE TO WORK

Without civilization there can be no nervousness; there is no race, no climate, no environment that can make nervousness and nervous disease possible and common save when reenforced by brain-work and worry and in-door life. This is the dark and, so far as it goes, truthful side of our theme; the brighter side is to be drawn in the present chapter.

Thomas Hughes, in his Life of Alfred the Great, makes a statement that <the world’s hardest workers and noblest benefactors have rarely been long-lived>. That any intelligent writer of the present day should make a statement so untrue shows how hard it is to destroy an old superstition.

The remark is based on the belief which has been held for centuries that the mind can be used only at the injurious expense of the body. This belief has been something more than a mere popular prejudice; it has been a professional dogma, and has inspired nearly all the writers on hygiene since medicine has been a science; and intellectual and promising youth have thereby been dissuaded from entering brain-working professions; and thus, much of the choicest genius has been lost to civilization; students in college have abandoned plans of life to which their tastes inclined, and gone to the farm or workshop; authors, scientists, and investigators in the several professions have thrown away the accumulated experience of the better half of life, and retired to pursuits as uncongenial as they were profitless. The delusion has, therefore, in 2 ways, wrought evil, specifically by depriving the world of the services of some of its best endowed natures, and generally by fostering a habit of accepting statement for demonstration.

Between 1864 and 1866 I obtained statistics on the general subject of the relation of occupation to health and longevity that convinced me of the error of the accepted teachings in regard to the effect of mental labor.”

The views I then advocated, and which I enforced by statistical evidence were:

1st. That the brain-working classes—clergymen, lawyers, physicians, merchants, scientists, and men of letters, lived much longer than the muscle-working classes.

2nd. That those who followed occupations that called both muscle and brain into exercise, were longer-lived than those who lived in occupations that were purely manual.

3rd. That the greatest and hardest brain-workers of history have lived longer on the average than brain-workers of ordinary ability and industry.

4th. That clergymen were longer-lived than any other great class of brain-workers. [QUE PRAGA!]

5th. That longevity increased very greatly with the advance of civilization; and that this increase was too marked to be explained merely by improved sanitary knowledge.

6th. That although nervous diseases increased with the increase of culture, and although the unequal and excessive excitements and anxieties attendant on mental occupations of a high civilization were so far both prejudicial to health and longevity, yet these incidental evils were more than counter-balanced by the fact that fatal inflammatory diseases have diminished in frequency and violence in proportion as nervous diseases have increased; an also that brain-work is, per se, healthful and conducive to longevity.”

the greater majority of those who die in any one of the three great professions — law, theology, and medicine — have, all their lives, from 21 upwards, followed that profession in which they died.”

I have ascertained the longevity of 500 of the greatest men in history. The list I prepared includes a large proportion of the most eminent names in all the departments of thought and activity. (…) the average age of those I have mentioned, I found to be 64.2. (…) the greatest men of the world have lived longer on the average than men of ordinary ability in the different occupations by 14 years” The value of this comparison is enforced by the consideration that longevity has increased with the progress of civilization, while the list I prepared represents every age of recorded history.” “I am sure that any chronology comprising from 100 to 500 of the most eminent personages in history, at any cycle, will furnish an average longevity of from 64 to 70 years. Madden, in his very interesting work The Infirmities of Genius, gives a list of 240 illustrious names, with their ages at death.”

IV comparative longevity of brain-workers

The full explanation of the superior longevity of the brain-working classes would require a treatise on the science of sociology, and particularly of the relation of civilization to health. The leading factors, accounting for the long life of those who live by brain-labor, are:

(…)

In the successful brain-worker worry is transferred into work; in the muscle-worker work too often degrades into worry.” “To the happy brain-worker life is a long vacation; while the muscle-worker often finds no joy in his daily toil, and very little in the intervals.”

Longevity is the daughter of comfort. Of the many elements that make up happiness, mental organization, physical health, fancy, friends, and money—the last is, for the average man, greater than any other, except the first.”

for a large number, sleep is a luxury of which they never have sufficient for real recuperation”

The nervous temperament, which usually predominates in brain-workers, is antagonistic to fatal, acute, inflammatory disease, and favorable to long life.”

Nervous people, if not too feeble, may die everyday. They do not die; they talk of death, and each day expect it, and yet they live. Many of the most annoying nervous diseases, especially of the functional, and some even of the structural varieties, do not rapidly destroy life, and are, indeed, consistent with great longevity.”

the nervous man can expose himself to malaria, to cold and dampness, with less danger of disease, and with less danger of death if he should contract disease, than his tough and hardy brother.”

In the conflict with fevers and inflammations, strength is often weakness, and weakness becomes strength—we are saved through debility.”

Still further, my studies have shown that, of distinctively nervous diseases, those which have the worst pathology and are the most hopeless, such as locomotor ataxia, progressive muscular atrophy, apoplexy with hemiplegia, and so on, are more common and more severe, and more fatal among the comparatively vigorous and strong, than among the most delicate and finely organized. Cancer, even, goes hardest with the hardy, and is most relievable in the nervous.”

Women, with all their nervousness—and in civilized lands, women are more nervous, immeasurably, than men, and suffer more from general and special nervous diseases—yet live quite as long as men, if not somewhat longer; their greater nervousness and far greater liability to functional diseases of the nervous system being compensated for by their smaller liability to certain acute and inflammatory disorders, and various organic nervous diseases, likewise, such as the general paralysis of insanity.”

Brain-workers can adapt their labor to their moods and hours and periods of greatest capacity for labor better than muscle-workers. In nearly all intellectual employments there is large liberty; literary and professional men especially, are so far masters of their time that they can select the hours and days for their most exacting and important work; and when from any cause indisposed to hard thinking, can rest and recreate, or limit themselves to mechanical details.”

Forced labor, against the grain of one’s nature, is always as expensive as it is unsatisfactory”

Even coarser natures have their moods, and the choicest spirits are governed by them; and they who worship their moods do most wisely; and those who are able to do so are the fortunate ones of the earth.”

Again, brain-workers do their best work between the ages of 25-45; before that period they are preparing to work; after that period, work, however extensive it may be, becomes largely accumulation and routine.” “It is as hard to lay a stone wall after one has been laying it 50 years as during the first year. The range of muscular growth and development is narrow, compared with the range of mental growth; the day-laborer soon reaches the maximum of his strength. The literary or scientific worker goes on from strength to strength, until what at 25 was impossible, and at 30 difficult, at 35 becomes easy, and at 40 a past-time.”

The number of illustrious names of history is by no means so great as is currently believed; for, as the visible stars of the firmament, which at a glance appear infinite in number, on careful estimate are reduced to a few thousands, so the galaxy of genius, which appears interminable on a comprehensive estimate, presents but few lights of immortal fame. Mr. Galton, in his Hereditary Genius, states that there have not been more than 400 great men in history.”

obscurity is no sure evidence of demerit, but only a probability of such”

Only in rare instances is special or general talent so allied with influence, or favor, or fortune, or energy that commands circumstances, that it can develop its full functions; <things are in the saddle and ride mankind>, environment commands the environed.”

The stars we see in the sky are but mites compared with the infinite orbs that shall never be seen; but no star is a delusion—each one means a world, the light of which very well corresponds to its size and distance from the earth and sun.” “Routine and imitation work can no more confer the fame that comes from work that is original and creative than the moon can take the place of the sun.”

It is this confounding of force with the results of force, of fame with the work by which fame is attained that causes philosophers to dispute, deny, or doubt, or to puzzle over the law of the relation of age to work, as here announced.

When the lightning flashes along the sky, we expect a discharge will soon follow, since light travels faster than sound; so some kinds of fame are more rapidly diffused than others, and are more nearly contemporaneous with their origin; but as a law, there is an interval — varying from years to hundreds of years — between the doing of any original work and the appreciation of that work by any considerable number of mankind that we call fame.

The great men that we know are old men; but they did the work that has made them great when they were young; in loneliness, in poverty, often, as well as under discouragement, and in neglected or despised youth has been achieved all that has advanced, all that is likely to advance mankind.”

In the man of genius, the idea starts where, in the man of routine, it leaves off.”

Original work—that done by geniuses who have thereby attained immortal fame, is the only kind of work that can be used as the measure of cerebral force in all our search for this law of the relation of work to the time of life at which work is done for the two-fold reason—first, that it is the highest and best measure of cerebral force; and, secondly, because it is the only kind of work that gives earthly immortality.”

Men do not long remember, nor do they earnestly reverence those who have done only what everybody can do. We never look up, unless the object at which we look is higher than ourselves; the forces that control the rise and fall of reputation are as inevitable and as remorseless as heat, light, and gravity; if a great man looms up from afar, it is because he is taller than the average man; else, he would pass below the horizon as we receded from him; factitious fame is as impossible as factitious heat, light, or gravity; if there be force, there must have been, somewhere, and at some time, a source whence that force was evolved.”

the strength of a man is his strength at his strongest point—what he can do in any one direction, at his very best. However weak and even puerile, immature, and non-expert one may be in all other directions except one, be gains an immortality of fame if, in that one direction he develops a phenomenal power; weaknesses and wickednesses, serious immoralities and waywardnesses are soon forgotten by the world, which is, indeed, blinded to all these defects in the face of the strong illumination of genius. Judged by their defects, the non-expert side of their character, moral or intellectual, men like Burns,¹ Shakespeare, Socrates, Cicero, Caesar, Napoleon, Beethoven, Mozart, Byron, Dickens, etc., are but as babes or lunatics, and far, very far below the standard of their fellows.”

¹ Poeta escocês, 1759-96.

SOBRE A PRECOCIDADE E “GASTO DA ENERGIA MENTAL”: “Men to whom these truths are repelling put their eyes on those in high positions and in the decline of life, like Disraeli or Gladstone, forgetting that we have no proof that either of these men have ever originated a new thought during the past 25 years, and that in all their contributions to letters during that time there is nothing to survive, or worthy to survive, their authors.

They point to Darwin, the occupation of whose old age has been to gather into form the thoughts and labors of his manhood and youth, and whose only immortal book was the product of his silver and golden decade.”

IV the relation of age to original work

The lives of some great men are not sufficiently defined to differentiate the period, much less the decade or the year of their greatest productive force. Such lives are either rejected, or only the time of death and the time of first becoming famous are noted; very many authors have never told the world when they thought-out or even wrote their masterpieces, and the season of publication is the only date that we can employ. These classes of facts, it will be seen, tell in favor of old rather than of young men, and will make the year of maximum production later rather than earlier, and cannot, therefore, be objected to by those who may doubt my conclusions.”

For those who have died young, and have worked in original lines up to the year of their death, the date of death has sometimes been regarded as sufficient. Great difficulty has been found in proving the dates of the labors of the great names of antiquity, and, therefore, many of them are necessarily excluded from consideration, but in an extended comparison between ancient and modern brain-workers, so far as history makes possible, there was but little or no difference.”

This second or supplementary list was analyzed in the same way as the primary list, and it was found that the law was true of these, as of those of greater distinction. The conclusion is just, scientific, and inevitable, that if we should go down through all the grades of cerebral force, we should find this law prevailing among medium and inferior natures, that the obscure, the dull, and the unaspiring accomplished the little they did in the direction of relatively original work in the brazen and golden decades.” Tenho 8 anos pela frente.

These researches were originally made as far back as 1870, and were first made public in lectures delivered by me before the Long Island Historical Society. The titles of the lectures were, Young Men in History, and the Decline of Moral Principle in Old Age.”

Finally, it should be remarked that the list has been prepared with absolute impartiality, and no name and no date has been included or omitted to prove any theory. The men who have done original or important work in advanced age, such as Dryden,¹ Radetzky,² Moltke,³ Thiers,4 De Foe,5 have all been noted, and are embraced in the average.”

¹ Poeta inglês, 1631-1700.

² Marechal, militar estrategista alemão que combateu inclusive Napoleão, vivendo ativo até uma idade avançada (1766-1858).

³ Provavelmente o Conde Adam Moltke (1710-1792), diplomata dinamarquês. Seu filho foi primeiro-ministro.

4 Marie Adolph –, político e escritor francês, 1797-1877, foi presidente eleito na França após a queda dos Bourbon.

5 Daniel Defoe viveu 71 anos e também foi ensaísta e publicou obras de não-ficção, além de seu maior sucesso.

The golden decade alone represents nearly 1/3 of the original work of the world. (…) The year of maximum productiveness is 39.”

All the athletes with whom I have conversed on this subject, the guides and lumbermen in the woods — those who have always lived solely by muscle — agree substantially to this: that their staying power is better between the ages of 35 and 45, than either before or after. To get the best soldiers, we must rob neither the cradle nor the grave; but select from those decades when the best brain-work of the world is done.”

Original work requires enthusiasm; routine work, experience.” “Unconsciously the people recognize this distinction between the work that demands enthusiasm and that which demands experience, for they prefer old doctors and lawyers, while in the clerical profession, where success depends on the ability to constantly originate and express thought, young men are the more popular, and old men, even of great ability, passed by. In the editorial profession original work is demanded, and most of the editorials of our daily press are written by young men. In the life of every old man there comes a point, sooner or later, when experience ceases to have any educating power; and when, in the language of Wall St., he becomes a bear; in the language of politics, a Bourbon.”

some of the greatest poets, painters, and sculptors, such as Dryden, Richardson, Cowper, Young, De Foe, Titian, Christopher Wren, and Michael Angelo, have done a part of their very best work in advanced life. The imagery both of Bacon and of Burke seemed to increase in richness as they grew older.

In the realm of reason, philosophic thought, invention and discovery, the exceptions are very rare. Nearly all the great systems of theology, metaphysics, and philosophy are the result of work done between 20 and 50.”

Michael Angelo and Sir Christopher Wren could wait for a quarter or even half a century before expressing their thoughts in St. Peter’s or St. Paul’s; but the time of the conception of those thoughts — long delayed in their artistic expression — was the time when their cerebral force touched its highest mark.

In the old age of literary artists, as Carlyle, Dickens, George Elliot, or Tennyson, the form may be most excellent; but from the purely scientific side the work though it may be good, is old; a repetition often-times, in a new form, of what they have said many times before.”

The philosophy of Bacon can never be written but once; to re-write it, to present it a 2nd time, in a different dress, would indicate weakness, would seem almost grotesque; but to statuary and painting we return again and again; we allow the artist to re-portray his thought, no matter how many times; we visit in succession a hundred cathedrals, all very much alike; and a delicious melody grows more pleasing with repetition; whence it is that in poetry — the queen of the arts — old age has wrought little, or not at all, since the essence of poetry is creative thought, and old age is unable to think; whence, also, in acting — the oldest of all the arts, the servant of all — the best experts are often at their best, or not far below their best, save for the acquisition of new characters, in the iron and wooden decades.”

Similarly with the art of writing—the style, the dress, the use of words, the art of expressing thoughts, and not of thinking. Men who have done their best thinking before 40 have done their best writing after that period.” it is thought, and not the language of thought, that best tests the creative faculties.”

The conversation of old men of ability, before they have passed into the stage of imbecility, is usually richer and more instructive than the conversation of the young; for in conversation we simply distribute the treasures of memory, as a store hoarded during long years of thought and experience. He who thinks as he converses is a poor companion, as he who must earn his money before he spends any is a poor man. When an aged millionnaire makes a liberal donation it costs him nothing; he but gives out of abundance that has resulted by natural accumulation from the labors of his youth and middle life.”

An amount of work not inconsiderable is done before 25 and a vast amount is done after 40; but at neither period is it usually of the original or creative sort that best measures the mental forces.” “In early youth we follow others; in old age we follow ourselves.”

The same law applies to animals. Horses live to be about 25, and are at their best from 8 to 14” “Dogs live 9 or 10 years, and are fittest for the hunt between 2 and 6.”

Children born of parents one or both of whom are between 25 and 40, are, on the average, stronger and smarter than those born of parents one or both of whom are very much younger or older than this.” “we are most productive when we are most reproductive [18-26??].”

In an interesting paper entitled When Women Grow Old, Mrs. Blake has brought facts to show that the fascinating power of the sex is often-times retained much longer than is generally assumed.

She tells us of Aspasia, who, between the ages of 30 and 50 was the strongest intellectual force in Athens; of Cleopatra, whose golden decade for power and beauty was between 30 and 40; of Livia, who was not far from 30 when she gained the heart of Octavius; of Anne of Austria, who at 38 was thought to be the most beautiful queen in Europe; of Catherine II of Russia, who, even at the silver decade was both beautiful and imposing; of Mademoiselle Mars, the actress, whose beauty increased with years, and culminated between 30 and 45; of Madame Recamier, who, between 25 and 40, and even later, was the reigning beauty in Europe; of Ninon de I’Enclos, whose own son — brought up without knowledge of his parentage — fell passionately in love with her when she was at the age of 37, and who even on her 60th birthday received an adorer young enough to be her grandson.

The voice of our great prima donnas is at its very best between 27 and 35; but still some retains, in a degree, its strength and sweetness even in the silver decade. The voice is an index of the body in all its functions, but the decay of other functions is not so readily noted.”

As a lad of 16, Lord Bacon began to think independently on great matters; at 44, published his great work on The Advancement of Learning; at 36, published 12 of his Essays; and at 60 collected the thoughts of his life in his Organum. His old age was devoted to scientific investigation.

At the age of 29, Descartes began to map out his system of philosophy, and at 41 began its publication, and at 54 he died.

Schelling, as a boy, studied philosophy, and at 24 was a brilliant and independent lecturer, and at 27 had published many important works; at 28 was professor of philosophy and arts, and wrote his best works before 50.

Dryden, one of the exceptions to the average, did his best work when comparatively old; his Absalom was written at 50, and his Alexander’s Feast when he was nearly 70.

Dean Swift wrote his Tale of a Tub at 35, and his Gulliver’s Travels at 59.”

Charles Dickens wrote Pickwick at 25, Oliver Twist and Nicholas Nickleby before 27, Christmas Chimes at 31, David Copperfield at 38, and Dombey and Son at 35. Thus we see that nearly all his greatest works were written before he was 40; and it is amazing how little all the writings of the last 20 years of his life took hold of the popular heart, in comparison with Pickwick and David Copperfield, and how little effect the most enormous advertising and the cumulative power of a great reputation really have to give a permanent popularity to writings that do not deserve it. If Dickens had died at 40 his claim to immortality would have been as great as now, and the world of letters would have been little, if any, the loser. The excessive methodical activity of his mature and advanced life could turn off works with fair rapidity; but all his vast experience and all his earnest striving failed utterly to reach the standard of his reckless boyhood. His later works were more perfect, perhaps, judged by some canons, but the genius of Pickwick was not in them.”

Edison with his 300 patents, is not the only young inventor. All inventors are young. Colt was a boy of 21 when he invented the famous weapon that bears his name; and Goodyear began his experiments in rubber while a young man of 24, and made his first success at 38, and at 43 had brought his discovery to approximate perfection.”

The name of Bichat is one of the greatest in science, and he died at 32.”

Handel at 19 was director of the opera at Hamburg; at 20 composed his first opera; at 35 was appointed manager of the Royal Theatre at London; at 25 composed Messiah and Jephtha, and in old age and blindness his intellect was clear and his power of performance remarkable.”

Luther early displayed eloquence, and at 20 began to study Aristotle;¹ at 29 was doctor of divinity, and when he would refuse it, it was said to him that <he must suffer himself to be dignified, for that God intended to bring about great things in the church by his name>; at 34 he opposed the Indulgencies, and set up his 95 propositions; at 37 he publicly burned the Pope’s bull; at 47 he had completed his great task.”

¹ Realmente é impossível derivar prazer de ler Aristóteles antes dessa idade, senão uma ainda mais avançada!

Von Moltke between 65 and 70 directed the operation of the great war of Prussia against Austria and France. But that war was but a conclusion and consummation of military study and organization that had been going on for a quarter of a century.”

Jenner at 21 began his investigation into the difference between cow-pox and small-pox. His attention was called to the subject by the remark of a country girl, who said in his hearing that she could not have the small-pox, because she had had the cow-pox.” Varíola e varíola bovina. Bom… realmente existem ovos de Colombo!

old men, like nations, can show their treasures of art long after they have begun to die; this, indeed, is one of the sweetest and most refreshing compensations for age”

A contemporary deader in science (Huxley) has asserted that it would be well if all men of science could be strangled at the age of 60, since after that age their disposition — with possible exceptions here and there — is to become reactionary and obstructionists”

Se um homem não é belo aos 20, forte aos 30, experiente aos 40 e rico aos 50, ele jamais será belo, forte, experiente ou rico neste mundo.” Lutero

Só começamos a contar nossos anos quando já não há nada mais a ser contado” Emerson

Procrastinamos nossos trabalhos literários até termos experiência e habilidade o bastante, até um dia descobrirmos que nosso talento literário era uma efervescência juvenil que finalmente perdemos.” E.

Quem em nada tem razão aos 30, nunca terá.”

Revoluções não são feitas por homens de óculos, assim como sussurros contendo verdades novas nunca são ouvidos por quem já entrou na idade da surdez” Oliver Holmes

Como pode ser que “o povo da minha rua” seja, para tantos indivíduos, a gente mais burra de toda a Terra? E, pior ainda, que todos que o dizem pareçam estar com a razão?!

Dizem que os jovens são os únicos que não escutam a voz da razão na discussão sobre a verdadeira idade da razão ser a juventude, e não a velhice. Ou eles estão errados ou eles estão errados.

It is not in ambitious human nature to be content with what we have been enabled to achieve up to the age of 40. (…) Happiness may augment with years, because of better external conditions; and yet the highest happiness is obtained through work itself more than through the reward of work”

a wise man declared that he would like to be forever 35, and another, on being asked his age, replied that it was of little account provided that it was anywhere between 25 and 40.”

$$$: “Capacity for original work age does not have, but in compensation it has almost everything else. The querulousness of age, the irritability, the avarice are the resultants partly of habit and partly of organic and functional changes in the brain. Increasing avarice is at once the tragedy and the comedy of age; as we near the end of our voyage we become more chary of our provisions, as though the ocean and not the harbor were before us.” “our intellectual ruin very often dates from the hour when we begin to save money.” A do meu pai começou quando criança.

PORQUE SIM, PORQUE EU MANDEI – POR QUE VOCÊ É ASSIM? NÃO RESPEITA SEU PAI, NÃO? POR QUE NÃO FAZ UM DOUTORADO? POR QUE NÃO COMPRA UM CARRO? “Moral courage is rare in old age; sensitiveness to criticism and fear of opposition take the place, in the iron and wooden decades, of delight in criticism and love of opposition of the brazen and golden decades” Nostalgic UnB times…

fame like wealth makes us cautious, conservative, cowardly, since it implies the possibility of loss.”

when the intellect declines the man is obliged to be virtuous. Physical health is also needed for indulgence in many of the vices”

The decline of the moral faculties in old age may be illustrated by studying the lives of the following historic characters: Demosthenes, Cicero, Sylla, Charles V, Louis XIV, Frederic of Prussia, Napoleon (prematurely old), Voltaire, Jeffries, Dr. Johnson, Cromwell, Burke, Sheridan, Pope, Newton, Ruskin, Carlyle, Dean Swift, Chateaubriand, Rousseau, Milton, Bacon, Earl Pussell, Marlborough and Daniel Webster. In some of these cases the decline was purely physiological, in others pathological; in the majority it was a combination of both.

Very few decline in all the moral faculties. One becomes peevish, another avaricious, another misanthropic, another mean and tyrannical, another exacting and ugly, another sensual, another cold and cruelly conservative, another excessively vain and ambitious, others simply lose their moral enthusiasm and their capacity for resisting disappointment and temptation.”

There are men who in extreme age preserve their teeth sound, their hair unchanged, their complexion fresh, their appetite sharp and digestion strong and sure, and their repose sweet and refreshing, and who can walk and work to a degree that makes their children and grandchildren feel very humble; but these observed exceptions in no way invalidate the general law, which no one will dispute, that the physical powers reach their maximum between 20 and 40, and that the average man at 70 is less muscular and less capable of endurance than the average man at 40.”

For age hath opportunity no less

Than youth itself, though in another dress;

And as the evening twilight fades away,

The sky is filled with stars invisible by day.”

Longfellow

To age is granted in increasing richness the treasures of memory and the delights of recognition which most usually come from those who, at the time of the deeds whose value they recognize, were infants or unborn; only those who bury their contemporaries, can obtain, during their own lifetime, the supremacy of fame.”

POR QUE CRIANÇAS PRODÍGIO SÃO A MAIOR FALSIFICAÇÃO POSSÍVEL: “Mrs. Carlyle, when congratulated on the honors given to her husband on the delivery of his Edinburgh address, replied with a certain disdain, as though he should have been honored before; but only by a reversal of the laws of the evolution of fame shall the manifestation of genius and the recognition of genius be simultaneous.”

The high praise of contemporaries is almost insulting, since it implies that he whom they honor is but little better than themselves. Permanent fame, even in this rapid age [!!], is a plant of slow growth—first the blade; then, after a time, the ear; then, after many, many years, the full corn in the ear”

MEU COPYDESK E EU DE 2015 PARA CÁ SENTIMO-NOS ASSIM: “while the higher power of creating is disappearing, the lower, but for many the more needful, and with contemporaries more quickly appreciated, power of imitation, repetition, and routine, is increasing; we can work without working, and enjoy without striving”

O TRABALHO MATA AOS POUCOS: “An investigation made more recently by a Berlin physician into the facts and data relating to human longevity shows the average age of clergymen to be 65; of merchants, 63; clerks and farmers, 61; military men, 59; lawyers, 58; artists, 57; and medical men, 56 [!]. Statistics are given showing that medical men in England stand high in the scale of longevity. Thus, the united ages of 28 physicians who died there last year, amount to 2,354 years, giving an average of more the 84 years to each [!]. The youngest of the number was 80; the oldest, 93; 2 others were 92 and 89, respectively; 3 were 87, and 4 were 86 each; and there were also more than 50 who averaged from 74 to 75 years.”

That precocity predicts short life, and is therefore a symptom greatly to be feared by parents, has, I believe, never been questioned. (…) plants that are soon to bloom are soon to fade”

APOSTO MINHA VIDA QUE MORREREI ANTES DE A.: “It is probable that, of two individuals with precisely similar organizations and under similar circumstances, the one that develops earlier will be the first to die.”

MINHA ‘GENÉTICA’ NÃO AJUDA: “millionnaires in intellect as well as in money, who can afford to expend enormous means without becoming impoverished.”

Investigating the records of the past two centuries, Winterburn finds 213 recorded cases of acknowledged musical prodigies. None of them died before their 15th year, some attained the age of 103 — and the average duration of life was 58 — showing that, with all their abnormal precocity, they exceed the ordinary longevity by about 6%.”

an almost irresistible impulse to the art in which they are destined to excel manifests itself in future virtuosi— in poets, painters, etc., from their earliest youth.” Wieland

Uma idéia de filme bem ruim: O ESCRITOR NOVATO DE 40 ANOS!

A infância revela o homem, como a manhã revela o dia.” Milton

Madden – Infirmities of Genius (downloads)

MEMENTO À “PROFESSORA SORRISO”: “The stupidity attributed to men of genius may be really the stupidity of their parents, guardians, and biographers.”

Music and drawing appeal to the senses, attract attention, and are therefore appreciated, or at least observed by the most stupid parents, and noted even in the most superficial biographies. Philosophic and scientific thought, on the contrary, does not at once, perhaps may never, reveal itself to the senses—it is locked up in the cerebral cells; in the brain of that dull, pale youth, who is kicked for his stupidity and laughed at for his absent-mindedness, grand thoughts may be silently growing”

Newton, according to his own account, was very inattentive to his studies and low in his class, but a great adept at kite-flying, with paper lanterns attached to them, to terrify the country people, of a dark night, with the appearance of comets; and when sent to market with the produce of his mother’s farm, was apt to neglect his business, and to ruminate at an inn, over the laws of Kepler.”

This belief is strengthened by the consideration that many, perhaps the majority, of the greatest thinkers of the world seemed dull, inane, and stupid to their neighbors, not only in childhood but through their whole lives.”

It is probable, however, that nearly all cases of apparent stupidity in young geniuses are to be explained by the want of circumstances favorable to the display of their peculiar powers, or to a lack of appreciation or discernment on the part of their friends.”

As compared with the world, the most liberal curriculum is narrow; to one avenue of distinction that college opens, the world opens ten.”

GREAT precocity, like GREAT genius, is rare.”

O GÊNIO & O GENIOSO: “There is in some children a petty and morbid smartness that is sometimes mistaken for precocity, but which in truth does not deserve that distinction.”

A DOENÇA DE STEWIE: “Petty smartness is often-times a morbid symptom; it comes from a diseased brain, or from a brain in which a grave predisposition to disease exists; such children may die young, whether they do or do not early exhibit unusual quickness.”

A AMEBA SUPREMACISTA: “M.D. Delaunay has addressed to the Societé de Biologie a communication in which he takes the ground that precocity indicates biological inferiority. To prove this he states that the lower species develop more rapidly than those of a higher order; man is the slowest of all in developing and reaching maturity, and the lower orders are more precocious than the higher. As proof of this he speaks of the children of the Esquimaux, negroes, Cochin Chinese, Japanese, Arabs, etc. (…) He also states that women are more precocious than men”

THE RECURRING THEME: “The highest genius, as here and elsewhere seen, never repeats itself; very great men never have very great children; and in biological analysis, geniuses who are very precocious may be looked upon as the last of their race or of their branch—from them degeneracy is developed; and this precocity, despite their genius, may be regarded as the forerunner of that degeneracy.”

Leibniz, at 12 understood Latin authors well, and wrote a remarkable production; Gassendi, <the little doctor>, preached at 4; and at 10 wrote an important discourse; Goethe, before 10, wrote in several languages; Meyerbeer, at 5, played remarkably well on the piano; Niebuhr, at 7, was a prodigy, and at 12 had mastered 18 languages [QUÊ?!]; Michael Angelo at 19 had attained a very high reputation; at 20 Calvin was a fully-fledged reformer, and at 24 published great works on theology that have changed the destiny of the world; Jonathan Edwards, at 10, wrote a paper refuting the materiality of the soul, and at 12 was so amazingly precocious that it was predicted of him that he would become another Aristotle; at 20 Melanchthon was so learned that Erasmus exclaimed: <My God! What expectations does not Philip Melanchthon create!>.”

In order that a great man shall appear, a double line of more or less vigorous fathers and mothers must fight through the battles for existence and come out triumphant. However feeble the genius may be, his parents or grandparents are usually strong; or if not especially strong, are long-lived. Great men may have nervous if not insane relatives; but the nervous temperament holds to life longer than any other temperament. (…) in him, indeed, the branch of the race to which he belongs may reach its consummation, but the stock out of which he is evolved must be vigorous, and usually contains latent if not active genius.”

The cerebral and muscular forces are often correlated; the brain is a part of the body. This view, though hostile to the popular faith, is yet sound and supportable; a large and powerful brain in a small and feeble body is a monstrosity.”

a hundred great geniuses, chosen by chance, will be larger than a hundred dunces anywhere — will be broader, taller, and more weighty.”

In any band of workmen on a railway, you shall pick out the <boss> by his size alone: and be right 4 times out of 5.”

In certain of the arts extraordinary gifts may lift their possessor into fame with but little effort of his own, but the choicest seats in the temples of art are given only to those who have earned them by the excellence that comes from consecutive effort, which everywhere test the vital power of the man.”

One does not need to practice medicine long to learn that men die that might just as well live if they had resolved to live and that many who are invalids could become strong if they had the native or acquired will to vow that they would do so. Those who have no other quality favorable to life, whose bodily organs are nearly all diseased, to whom each day is a day of pain, who are beset by life-shortening influences, yet do live by the determination to live alone.”

the pluck of the Anglo-Saxon is shown as much on the sick-bed as in Wall Street or on the battlefield.” “When the negro feels the hand of disease pressing upon him, however gently, all his spirit leaves him.”

INNER VOW: “they live, for the same reason that they become famous; they obtain fame because they will not be obscure; they live because they will not die.”

it is the essence of genius to be automatic and spontaneous. Many a huckster or corner tradesman expends each day more force in work or fretting than a Stewart or a Vanderbilt.”

As small print most tires the eyes, so do little affairs the most disturb us” “the nearer our cares come to us the greater the friction; it is easier to govern an empire than to train a family.”

Great genius is usually industrious, for it is its nature to be active; but its movements are easy, frictionless, melodious. There are probably many school-boys who have exhausted themselves more over a prize composition than Shakespeare over Hamlet, or Milton over the noblest passages in Paradise Lost.”

So much has been said of the pernicious effects of mental labor, of the ill-health of brain-workers of all classes, and especially of clergymen, that very few were prepared to accept the statement that the clergy of this country and of England lived longer than any other class, except farmers; and very naturally a lurking fallacy was suspected. Other observers, who have since given special attention to the subject, have more than confirmed this conclusion, and have shown that clergymen are longer lived than farmers.” “A list of 10,000 is sufficient and more than sufficient for a generalization; for the second 5,000 did nothing more than confirm the result obtained by the first. It is fair and necessary to infer that if the list were extended to 10,000, 20,000, or even 100,000, the average would be found about the same.” “In their manifold duties their whole nature is exercised — not only brain and muscle in general, but all, or nearly all, the faculties of the brain — the religious, moral, and emotional nature, as well as the reason. Public speaking, when not carried to the extreme of exhaustion, is the best form of gymnastics that is known; it exercises every inch of a man, from the highest regions of the brain to the smallest muscle.” “The average income of the clergymen of the leading denominations of this country in active service as pastors of churches (including salary, house rent, wedding fees, donations, etc.), is between $800 and $1000, which is probably not very much smaller than the net income of all other professional classes. Furthermore, the income of clergymen in active service is collected and paid with greater certainty and regularity, and less labor of collection on their part, than the income of any other class except, perhaps, government officials; then, again, their earnings, whether small or great, come at once, as soon as they enter their profession, and is not, as with other callings, built up by slow growth.” “Merchants now make, always have made, and probably always will make, most of the money of the world; but business is attended with so much risk and uncertainty, and consequent anxiety, that merchants die sooner than clergymen, and several years sooner than physicians and lawyers.” “During the past 15 years, there has been a tendency, which is now rapidly increasing, for the best endowed and best cultured minds of our colleges to enter other professions, and the ministry has been losing, while medicine, business, and science have been gaining.”

There are those who come into life thus weighted down, not by disease, not by transmitted poison in the blood, but by the tendency to disease, by a sensitiveness to evil and enfeebling forces that seems to make almost every external influence a means of torture; as soon as they are born, debility puts its terrible bond upon them, and will not let them go, but plays the tyrant with them until they die. Such persons in infancy are often on the point of dying, though they may not die; in childhood numberless physical ills attack them and hold them down, and, though not confining them to home, yet deprive them, perhaps, of many childish delights; in early maturity an army of abnormal nervous sensations is waiting for them, the gauntlet of which they must run if they can; and throughout life every function seems to be an enemy.

The compensations of this type of organization are quite important and suggestive, and are most consolatory to sufferers. Among these compensations, this perhaps is worthy of first mention — that this very fineness of temperament, which is the source of nervousness, is also the source of exquisite pleasure. Highly sensitive natures respond to good as well as evil factors in their environment, salutary as well as pernicious stimuli are ever operating upon them, and their capacity for receiving, for retaining, and for multiplying the pleasures derived from external stimuli is proportionally greater than that of cold and stolid organizations: if they are plunged into a deeper hell, they also rise to a brighter heaven (…) art, literature, travel, social life, and solitude, pour out on them their selected treasures; they live not one life but many lives, and all joy is for them variously multiplied. To such temperaments the bare consciousness of living, when life is not attended by excessive exhaustion or by pain, or when one’s capacity for mental or muscular toil is not too closely tethered, is often-times a supreme felicity. The true psychology of happiness is gratification of faculties, and when the nervous are able to indulge even moderately and with studied caution and watchful anxiety their controlling desires of the nobler order, they may experience an exquisiteness of enjoyment that serves, in a measure, to reward them for their frequent distresses.”

The physician who collects his fee before his patient has quite recovered, does a wise thing, since it will be paid more promptly and more gratefully than after the recovery is complete.”

Nervous organizations are rarely without reminders of trouble that they escape — their occasional wakefulness and indigestion, their headaches and backaches and neuralgias, their disagreeable susceptibility to all evil influences that may act on the constitution, keep them ever in sight of the possibility of wliat they might have been, and suggest to them sufferings that others endure, but from which they are spared.”

While it is true that pain is more painful than its absence is agreeable, so that we think more of what is evil than of what is good in our environment, and dwell longer on the curses than the blessings of our lot, and fancy all others happier than ourselves, yet it is true likewise that our curses make the blessings more blissful by contrast”

There are those who though never well are yet never sick, always in bondage to debility and pain, from which absolute escape is impossible, yet not without large liberty of labor and of thought” “Such persons may be exposed to every manner of poison, may travel far and carelessly with recklessness, even may disregard many of the prized rules of health; may wait upon and mingle with the sick, and breathe for long periods the air of hospitals or of fever-infested dwellings, and come out apparently unharmed.”

This recuperative tendency of the nervous system is stronger, often-times, than the accumulating poison of disease, and overmasters the baneful effects of unwise medication and hygiene. Between the ages of 25 and 35, especially, the constitution often consolidates as well as grows, acquires power as well as size, and throws off, by a slow and invisible evolution, the subtile habits of nervous disease, over which treatment the most judicious and persistent seems to have little or no influence. There would appear to be organizations which at certain times of life must needs pass through the dark valley of nervous depression, and who cannot be saved therefrom by any manner of skill or prevision; who must not only enter into this valley, but, having once entered, cannot turn back: the painful, and treacherous, and agonizing horror, wisdom can but little shorten, and ordinary misdoing cannot make perpetual; they are as sure to come out as to go in; health and disease move in rhythm; the tides in the constitution are as demonstrable as the tides of the ocean, and are sometimes but little more under human control.” It is an important consolation for those who are in the midst of an attack of sick-headache, for example, that the natural history of the disease is in their favor. In a few days at the utmost, in a few hours frequently, the storm will be spent, and again the sky will be clear, and perhaps far clearer than before the storm arose.” nearly all severe pain is periodic, intermittent, rhythmical: the violent neuralgias are never constant, but come and go by throbs, and spasms, and fiercely-darting agonies, the intervals of which are absolute relief. After the exertion expended in attacks of pain, the tired nerve-atoms must need repose. Sometimes the cycles of debility, alternating with strength, extend through long years — a decade of exhaustion being followed by a decade of vigor.”

There are those who pass through an infancy of weakness and suffering and much pain, and through a childhood and early manhood in which the game of life seems to be a losing one, to a healthy and happy maturity; all that is best in their organizations seems to be kept in reserve, as though to test their faith, and make the boon of strength more grateful when it comes.”

Perfect health is by no means the necessary condition of long life; in many ways, indeed, it may shorten life; grave febrile and inflammatory diseases are invited and fostered by it, and made fatal, and the self-guarding care, without which great longevity is almost impossible, is not enforced or even suggested.” “Headaches, and backaches, and neuralgias, are safety-valves through which nerve-perturbations escape, and which otherwise might become centres of accumulated force, and break forth with destruction beyond remedy. The liability to sudden attacks of any form of pain, or distress, or discomfort, under overtoil or from disregard of natural law, is, so far forth, a blessing to its possessor, making imperative the need of foresight and practical wisdom in the management of health, and warning us in time to avoid irreparable disaster. The nervous man hears the roar of the breakers from afar, while the strong and phlegmatic steers boldly, blindly on, until he is cast upon the shore, often-times a hopeless wreck.”

A neurastenia também tem o nome de “cãibra do escritor”. No trecho a seguir, a referida “cãibra” está mais próxima de um surto neurastênico agudo, do qual, defende Beard, o ‘nervoso típico’ está protegido: “Those who are sensitive, and nervous, and delicate, whom every external or internal irritation injures, and who appreciate physical injury instantly, as soon as the exciting cause begins to act, cannot write long enough to get writer’s cramp; they are warned by uneasiness or pain, by weariness, local or general, and are forced to interrupt their labors before there has been time to receive a fixed or persistent disease.” “had they been feeble they would have been unable to persevere in the use of the pen so as to invite permanent nervous disorder.” Without such warnings they might have continued in a life of excessive friction and exhausting worry, and never have suspected that permanent invalidism was in waiting for them, until too late to save themselves either by hygiene or medication. When a man is prostrated nervously, all the forces of nature rush to his rescue; but the strong man, once fully fallen, rallies with difficulty, and the health-evolving powers may find a task to which, aided or unaided, they are inadequate.”

The history of the world’s progress from savagery to barbarism, from barbarism to civilization, and, in civilization, from the lower degrees towards the higher, is the history of increase in average longevity, corresponding to and accompanied by increase of nervousness. Mankind has grown to be at once more delicate and more enduring, more sensitive to weariness and yet more patient of toil, impressible but capable of bearing powerful irritation: we are woven of finer fibre, which, though apparently frail, yet outlasts the coarser, as rich and costly garments often-times wear better than those of rougher workmanship.”

Among our educated classes there are nervous invalids in large numbers, who have never known by experience what it is to be perfectly well or severely ill, whose lives have been not unlike a march through a land infested by hostile tribes, that ceaselessly annoy in front and on flank, without ever coming to a decisive conflict, and who, in advanced age, seem to have gained wariness, and toughness, and elasticity, by the long discipline of caution, of courage, and of endurance; and, after having seen nearly all their companions, whose strength they envied, struck down by disease, are themselves spared to enjoy, it may be, their best days, at a time when, to the majority, the grasshopper becomes a burden, and life each day a visibly losing conflict with death.” “the irritability, the sensitiveness, the capriciousness of the constitution, between the ages of 15 and 45, have, in a degree, disappeared, and the system has acquired a certain solidity, steadiness, and power; and thus, after a long voyage against opposing winds and fretting currents, they enter the harbor in calmness and peace.”

MEU SÉCULO ME IMPEDE DE COMPARTILHAR DESTE OTIMISMO: “It may be doubted whether, in the history of disease of any kind, there has been made so decided and so satisfactory an advance as has been made within the last quarter of a century, in the treatment of nervousness in its various manifestations.” “One great factor in the modern treatment of these functional nervous diseases is individualization, no two cases being treated precisely alike, but each one being studied by itself alone. Among wise physicians, the day for wholesale treatment of nervous diseases can never return. The result of all this progress is, that thousands who formerly would have suffered all their lives, and with no other relief except that which comes from the habitual addiction to narcotics, can now be cured, or permanently relieved, or at least put into working order where they are most useful and happy.” if all new modes of action of nerve-force are to be so many added pathways to sorrow,—if each fresh discovery or invention is to be matched by some new malady of the nerves,—if insanity and epilepsy and neurasthenia, with their retinue of neuroses, through the cruel law of inheritance, are to be organized in families, descending in fiery streams throught the generations, we yet have this assurance,—that science, with keen eyes and steps that are not slow, is seeking and is finding means of prevention and of relief.”

5. PHYSICAL FUTURE OF THE AMERICAN PEOPLE [epílogo cagado e ‘poliânico’ totalmente desnecessário]

This increase of neuroses cannot be arrested suddenly; it must yet go on for at least 25 or 50 years, when all of these disorders shall be both more numerous and more heterogenous than at present. But side by side with these are already developing signs of improved health and vigor that cannot be mistaken; and the time must come—not unlikely in the first half of the 20th century—when there will be a halt or retrograde movement in the march of nervous diseases, and while the absolute number of them may be great, relatively to the population, they will be less frequent than now; the evolution of health, and the evolution of nervousness, shall go on side by side.”

Health is the offspring of relative wealth.” “febrile and inflammatory disorders, plagues, epidemics, great accidents and catastrophes even, visit first and last and remain longest with those who have no money.” the absence of all but forced vacations—the result, and one of the worst results, of poverty—added to the corroding force of envy, and the friction of useless struggle,—all these factors that make up or attend upon simple want of money, are in every feature antagonistic to health and longevity. Only when the poor become absolute paupers, and the burden of life is taken from them and put upon the State or public charity, are they in a condition of assured health and long life.” “The inmates of our public institutions of charity of the modern kind are often the happiest of men, blessed with an environment, on the whole, far more salubrious than that to which they have been accustomed, and favorably settled for a serene longevity.” “For the same reasons, well-regulated jails are healthier than many homes, and one of the best prescriptions for the broken-down and distressed is for them to commit some crime.”

A fat bank account tends to make a fat man; in all countries, amid all stages of civilization and semi-barbarism, the wealthy classes have been larger and heavier than the poor.” “In India this coincidence of corpulence and opulence has been so long observed that it is instinctively assumed; and certain Brahmins, it is said, in order to obtain the reputation of wealth, studiously cultivate a diet adapted to make them fat.”

The majority of our Pilgrim Fathers in New England, and of the primitive settlers in the Southern and Middle States, really knew but little of poverty in the sense in which the term is here used. They were an eminently thrifty people, and brought with them both the habits and the results of thrift to their homes in the New World. Poverty as here described is of a later evolution, following in this country, as in all others, the pathway of a high civilization.”

the best of all antidotes and means of relief for nervous disease is found in philosophy.” Thus it is in part that Germany, which in scientific and philosophic discovery does the thinking for all nations, and which has added more to the world’s stock of purely original ideas than any other country, Greece alone excepted, is less nervous than any other nation; thus it is also that America, which in the same department has but fed on the crumbs that fall from Germany’s table, has developed a larger variety and number of functional nervous diseases than all other nations combined.”

The capacity for growth in any given direction, physical or mental, is always limited; no special gift of body or mind can be cultivated beyond a certain point, however great the tenderness and care bestowed upon it.”

In man, that higher operation of the faculties which we call genius is hereditary, transmissible, running through and in families as demonstrably as pride or hay-fever, the gifts as well as the sins of the fathers being visited upon the children and the children’s children; general talent, or some special talent, in one or both parents rises and expands in immediate or remote offspring, and ultimately flowers out into a Socrates, a Shakespeare, a Napoleon, and then falls to the ground”

That a single family may rise to enduring prominence and power, it is needful that through long generations scores of families shall endure poverty and pain and struggle with cruel surroundings”

The America of the future, as the America of the present, must be a nation where riches and culture are restricted to the few—to a body, however, the personnel of which is constantly changing.”

Inebriety being a type of the nervous diseases of the family to which it belongs, may properly be here defined and differentiated from the vice and habit of drinking with which it is confounded. The functional nervous disease inebriety, or dipsomania, differs from the simple vice of drinking to excess in these respects:

(…)

The simple habit of drinking even to an extreme degree may be broken up by pledges or by word promises or by quiet resolution, but the disease inebriety can be no more cured in this way than can neuralgia or sick-headache, or neurasthenia, or hay-fever, or any of the family of diseases to which it belongs.

(…)

Of the nervous symptoms that precede, or accompany, or follow inebriety, are tremors, hallucinations, insomnia, mental depressions, and attacks of trance, to which I give the term alcoholic trance.

(…)

even drunkenness in a parent or grandparent may develop in children epilepsy or insanity, or neurasthenia or inebriety.

(…)

The attacks of inebriety may be periodical; they may appear once a month, and with the same regularity as chills and fever or sick-headache, and far more regularly than epilepsy, and quite independent of any external temptation or invitation to drink, and oftentimes are as irresistible and beyond the control of will as spasms of epilepsy or the pains of neuralgia or the delusions of insanity. Inebriety is not so frequent among the classes that drink excessively as among those who drink but moderately, although their ancestors may have been intemperate; it is most frequent in the nervous and highly organized classes, among the brain-workers, those who have lived indoors; there is more excessive drinking West and South than in the East, but more inebriety in the East.”

probably no country outside of China uses, in proportion to population, so much opium as America, and as the pains and nervousness and debility that tempt to the opium habit are on the increase, the habit must inevitably develop more rapidly in the future than in the past; of hay-fever there must, in a not very distant time, be at least 100,000 cases in America, and in the 20th century hundreds of thousands of insane and neurasthenics.”

There must be, also, an increasing number of people who cannot bear severe physical exercise. Few facts relating to this subject are more instructive than this — the way in which horseback-riding is borne by many in modern times. In our country, I meet with large numbers who cannot bear the fatigue of horseback-riding, which used to be looked upon — possibly is looked upon to-day — as one of the best forms of exercise, and one that is recommended as a routine by physicians who are not discriminating in dealing with nervously-exhausted patients.” The greatest possible care and the best judgment are required in prescribing and adapting horseback-riding to nervous individuals of either sex; it is necessary to begin cautiously, to go on a walk for a few moments; and even after long training excess is followed by injury, in many cases.”

ANTIRRUBENISMO: “If either extreme is to be chosen, it is well, on the whole, to err on the side of rest rather than on the side of excess of physical exertion.”

Why Education is behind other Sciences and Arts? Schools and colleges everywhere are the sanctuaries of medievalism, since their aim and their powers are more for retaining what has been discovered than for making new discoveries; consequently we cannot look to institutions or organizations of education for the reconstruction of that system by which they enslave the world and are themselves enslaved. It is claimed by students of Chinese character that that great nation has been kept stationary through its educational policy — anchored for centuries to competitive examinations which their strong nerves can bear while they make no progress. In a milder way, and in divers and fluctuating degrees, all civilized nations take their inspiration from China, since it is the office and life of teaching to look backward rather than forward; in the relations of men as in physics, force answers to force, and as the first, like the second childhood is always reactionary, a class of youths tend by their collective power to bring the teacher down more than he can lift them up. Only conservative natures are fond of teaching; organizations are always in the path of their own reconstruction; mediocrity begets mediocrity, attracts it, and is attracted by it. Whence all our institutions become undying centres of conservatism. The force that reconstructs an organization must come from outside the body that is to be reconstructed.”

The Gospel of Rest. The gospel of work must make way for the gospel of rest. The children of the past generation were forced, driven, stimulated to work, and in forms most repulsive, the philosophy being that utility is proportioned to pain; that to be happy is to be doing wrong, hence it is needful that studies should not only be useless but repelling, and should be pursued by those methods which, on trial, proved the most distressing, wearisome, and saddening. That this philosophy has its roots in a certain truth psychology allows, but the highest wisdom points also to another truth, the need of the agreeable; our children must be driven from study and all toil, and in many instances coaxed, petted, and hired to be idle; we must drive them away from schools as our fathers drove them towards the schools; one must be each moment awake and alive and active, to keep a child from stealthily learning to read; our cleverest offspring loves books more than play, and truancies [matar aula] and physical punishments are far rarer than half a century ago.”

From investigations at Darmstadt, Paris, and Neuremburg, Dr. Treichler concludes that one-third of the pupils suffer more or less from some form of headache. It is not probable that these headaches in children are the result purely of intellectual exertion, but of intellectual exertion combined with bad air, with the annoyances and excitements and worries, the wasting and rasping anxieties of school life.”

Even studies that are agreeable and in harmony with the organs, and to which tastes and talents are irresistibly inclined, are pursued at an expenditure of force which is far too great for many nervously organized temperaments. I have lately had under my care a newly married lady who for some years has been in a state of neurasthenia of a severe character, and of which the exciting cause was devotion to music at home; long hours at the piano, acting on a neurasthenic temperament, given to her by inheritance, had developed morbid fears and all the array of nervous symptoms that cluster around them, so that despite her fondness for a favorite art she was forced to abandon it, and from that time was dated her improvement, though at the time that I was called in to see her she had yet a long way to travel before she would reach even approximate health.”

The reconstruction of the principles of evidence, the primary need of all philosophy, which cannot much longer be delayed, is to turn nearly all that we call history into myth, and destroy and overthrow beyond chance of resurrection all but a microscopic fraction of the world’s reasoning. Of the trifle that is saved, the higher wisdom of coming generations will know and act upon the knowledge that a still smaller fraction is worthy of being taught, or even remembered by any human being.” A tragédia é que uma filosofia do conhecimento só pode vir depois da burra e didática memorização de fatos tão lineares quanto sem nexo. Ou seja: chega-se ao ideal da educação quando ela já está finalizada ou, antes, só se chega ao suposto ideal, descobrindo-se que o começo devera ter sido diferente, quando o começo se sedimentou. Pode-se ensinar certo, mas não se pode aprender certo!

The fact that anything is known, and true and important for some is of itself no reason why all should know or attempt to know it”

Our children are coaxed, cajoled, persuaded, enticed, bluffed, bullied, and driven into the study of ancient and modern tongues; though the greatest men in all languages, whose writings are the inspiration to the study of languages themselves knew no language but their own; and, in all the loftiest realms of human creative power the best work has been done, and is done today, by those who are mostly content with the language in which they were cradled.” “of all accomplishments, the ability to speak and write in many tongues is the poorest barometer of intellectual force, and the least satisfactory for happiness and practical use”

Shakespeare, drilled in modern gymnasia and universities, might have made a fair school-master, but would have kept the world out of Hamlet and Othello.”

Of the sciences multiplying everyday, but few are to be known by any one individual; he who has studied enough of the systematized knowledge of men, and looked far enough in various directions in which it leads to know which his tastes and environment best adapt him to follow, and who resolutely obeys his tastes, even in opposition to all teachers,(*) philosophers, and scholars, has won the battle of life” Mementos: Jabur, Edsono (um representante dos jornalistas e um dos pseudossociofiloepistemólogos)

the study of the art of thinking, of the philosophy of reasoning, in mathematics, poetry, science, literature, or language, is the best exercise for those who would gain this mental discipline”

O coach está para para o acadêmico de hoje como os sofistas estavam para os filósofos jônicos e eleatas da Grécia Antiga: é um sintoma da crise e insustentabilidade desse modo de conhecimento, mas tampouco chega a lugar algum. Prenuncia um tipo de Sócrates que vem aí?

In all spheres of thought, the most hospitable of intellects, the most generous in their welcome to new truths or dreams of truth are those who have once learned the great secret of life—how to forget.”

GUSMÓN: “Conscientious professors in colleges often-times exhort their graduates to keep up some of the studies of college life during the activity of years — if those graduates are ever to do much in the world, it is by doing precisely NOT what they are thus advised to do.”

ESPECIALISTA AGRAMATICAL: “The details of geography, of mathematics, and of languages, ancient as well as modern, of most of the sciences, ought, and fortunately are, forgotten almost as soon as learned, save by those who become life-experts in these special branches”

The systems of Froebel and Pestalozzi, and the philosophy of Rousseau in his Émile, analyzed and formulated in physiological language is, in substance, that it costs less force and is more natural and easy to get into a house through the doors, than to break down the walls, or come through the roof, or climb up from the cellar. Modern education is burglary; we force ideas into the brain through any other pathway and every other way except the doors and windows, and then we are astonished that they are unwelcome and so quickly expelled.”

they see with the mind’s eye, though we close their eyelids.”

Medicine has been taught in all our schools in a way the most unphilosophical, and despite all the modifications and improvements of late years, by bedside teaching and operations and demonstrations, the system of medical education is in need of reconstruction from the foundation; it begins where it should end; it feeds the tree through the leaves and branches instead of through the roots; physiology itself is taught unphysiologically; the conventional, hereditary, orthodox style is, for the student to take systematic text-books, go through them systematically from beginning to end, and attend systematic lectures, reserving study at the bedside for the middle and later years of his study; the didactic instruction coming first, and the practical instruction and individual observation coming last. Psychology and experience require that this should be reversed; the first years of the medical student’s life should be given to the bedside, the laboratory and dissecting room, and the principles of systematic instruction should be kept for the last years, and then used very sparingly. The human mind does not work systematically, and all new truths enter most easily and are best retained when they enter in psychological order. System in text-books is a tax on the nerve-force, costly both of time and of energy, and it is only by forgetting what has been taught them in the schools that men even attain eminence in the practice of medicine.

The first lesson and the first hour of medical study should be at the bedside of the sick man; before reading a book or hearing a lecture, or even knowing of the existence of a disease, the student should see the disease, and then, after having seen it and been instructed in reference to it, his reading will be a thousand-fold more profitable than it would had he read first and seen the case afterwards. Every practitioner with any power of analyzing his own mental operations knows that his reading of disease is always more intelligent after he has had a case, or while he has a case under treatment under his own eyes, and he knows also that all his reading of abstract, systematic books is of but little worth to him when he meets his first case, unless he re-read, and if he do so, he will find that he has forgotten all he has read before, and he will find, also, that he never understood what he read, and perhaps thoroughly and accurately recited on examination. By this method one shall learn more what is worth learning of medicine in one month, than now we learn in a year, under the common system, and what is learned will be in hand and usable, and will be obtained at incommensurably less cost of energy, as well as of time. So-called <systematic instruction> is the most extravagant form of instruction and is really no instruction, since the information which it professes to give does not enter the brain of the student, though the words in which it is expressed may be retained, and recited or written out on examination. I read the other day an opening lecture by a professor in one of our chief medical schools. I noticed that the professor apologized for being obliged to begin with what was dry and uninteresting, but stated that in a systematic course it was necessary to do so. It will not be his fault only, but rather the fault of the machinery of which he is one of the wheels, if the students who listen to and take notes of and worry over his lecture, never know what he means; 5 minutes study of a case of rheumatism or an inflamed joint, under the aid of an expert instructor, will give a person more knowledge of inflammation, in relation to the practice of medicine, than a year of lectures on that subject.

I make particular reference to medical education, not because it is the leading offender, but because it has made greater progress, perhaps, than almost any other kind of modern education.” and the time will come when men shall read with amusement and horror of intelligent, human, and responsible young men beginning a medical course by listening to systematic abstract lectures.” 140 anos e nada…

In theological seminaries, students are warned about preaching, or speaking, or lecturing during their 1st or 2nd year, and tied and chained down to lectures and homiletics, and theology and history” Nothing David (or Solomon) would be good at…

Aside from the study of language, which is a separate matter, the first day’s work in a theological school should be the writing or preparing a sermon, and homiletics should follow — not precede.”

All languages should be learned as we learn our own language — not through grammars or dictionaries, but through conversation and reading, the grammars and dictionaries being reserved for a more advanced stage of investigation and for reference, just as in the language in which we were born.”

I applaud the English because they boast of their ignorance of American geography; of what worth to them, of what worth to most of us whether Montana be in California, or Alaska be or be not the capital of Arizona?”

The Harvard professor who says that when students enter his room his desire is, not to find out what they knew, but what they did not know, ought to have been born in the 20th century, and possibly in the 30th, for his philosophy is so sound and so well grounded psychology that he cannot hope to have it either received or comprehended in his lifetime; and the innovation that Harvard has just promised, of having the teacher recite and the pupils ask the questions, is one of the few gleams of light in the great darkness by which this whole subject of education has been enveloped.”

EDSONO’S EXQUISITE CLASS OF TORTURE (2009): Lectures, except they be of a clinical sort [belo troca-trilho!], in which appeals are made to the senses, cost so much in nerve-force, in those that listen to them, that the world cannot much longer afford to indulge in them and the information they give is of a most unsatisfactory sort, since questioning, and interruption, and repetition, and reviewing are scarcely possible (…) The human brain is too feeble and limited an organ to catch a new idea when first stated, and if the idea be not new it is useless to state it.”

ServIce on dem and us

dire dim straits

a threat!

One of the pleasantest memories in my life, is that, during my medical education, I did not attend one lecture out of 12 — save those of a clinical sort — that were delivered (brilliant and able as some of them were) in the college where I studied, and my regret is that the poverty of medical literature at that time compelled me to attend even those. All the long lectures in my academical course at the college were useful to me — and I think were useful to all my classmates — only by enforcing the necessity, and inspiring the habit of enduring passively and patiently what we know to be in all respects painful and pernicious, providing we have no remedy.”

Original thinkers and discoverers, and writers are objects of increasing worry on the part of their relatives and friends lest they break down from overwork; whereas, it is not so much these great thinkers as the young school-girl or bank clerk that needs our sympathy.”

In England during the last summer, I attempted, without any human beings on whom to experiment, to explain some of the theories and philosophies of trance before an audience composed of the very best physiologists and psychologists of Europe, and with no hetter success than at home. If I had had but one out of the 20 or 30 cases on whom I have lately experimented, to illustrate and enforce my views, there would have been, I am sure, no difficulty in making clear not only the facts, but what is of chief importance, the interpretation of the facts.”

Modern competitive examinations are but slightly in advance of the system of recitations and lectures. They seem to have been invented by someone who wished to torture rather than benefit mankind, and whose philosophy was: whatever is disagreeable is useful, and that the temporary accumulation of facts is true wisdom, and an accurate measure of cerebral force.”

Knowing by heart is not knowing at all” Montaigne

the greatest fool may often pass the best examination [Exemplo contemporâneo: ‘Patrick Damascenos’ se tornando médicos diplomados por universidades federais – no mínimo os minions esquecem o que aprendem em História após 30 dias (‘conteúdo inútil’, etc.), embora apostilas do Sigma ou Galois nunca fossem lá muito confiáveis, para início de conversa…]; no wise man can always tell what he knows; ideas come by suggestion rather than by order; you must wait for their appearing at their own time and not at ours” “he who can always tell what he knows, knows little worth knowing.”

The first signs of ascension, as of declension, in nations are seen in women.”

palace cars and elevators and sewing machines are types of recent improvements that help to diminish the friction of modern life. Formerly [!!!] inventors increased the friction of our lives and made us nervous.” E que diabos eram palace cars?

The Germanization of America — by which I mean the introduction through very extensive immigration, of German habits and character — is a phenomenon which can now be observed, even by the dullest and nearest-sighted, in the large cities of the Northern portion of our country.” O nazismo foi o último a chegar.

tending to displace pernicious whiskey by less pernicious beer and wine, setting the example of coolness and calmness, which the nervously exhausted American very much needs.”

Tempos em que valia a pena se conservar: “We have been all English in our conservatism, a quality which has increased in proportion as we have gained anything of wealth or character or any manifestation of force whatsoever, that is worth preserving.” Hoje os americanos são azeitonas vencidas em conserva.

after such a vacation one needed a vacation.”

The nervousness of the third generation of Germans [?] is a fact that comes to my professional notice more and more.”

Not only are the <ha, ha’s> [RONALDINHO SOCCER!], of which so much [mundial] SPORT was once made, heard much less frequently than formerly in public meetings, but there is a positive ease and attractiveness to very many of the English speakers in and out of Parliament, in the pulpit and on the platform, that is thoroughly American” it was proved that if all the [congress] speakers continued to speak as often and as elaborately as they had been speaking, a number of years would be required before they could adjourn [se significa entrar em recesso ou perder a próxima eleição, deixo a critério do leitor de criptas!].”

the forces that renovate and save are mightier far than the forces that emasculate and destroy.”

Não sei se chamo o comentário de genial ou estúpido: “The American race, it is said, is dying out; but there is no American race. Americans are the union of European races and peoples, as lakes are fed by many streams, and can only disappear with the exhaustion of its sources. Europe must die before America. In sections of America, as in New England, and in large cities, the number of children to a family in certain classes is too small for increase of population.” Uma eterna sucessão de sins e nãos no melhor estilo Cleber Machado!

Felizmente o Deus Europeu-Ocidental morreu e a Ásia com seu rostinho de beldade imortal de 20 aninhos vem aí…

THE PHYSICAL PRINCIPLES OF THE QUANTUM THEORY (Ou: sempre podemos saber algo de alguma coisa, porém… sempre há também um socrático porém!) – Heisenberg. Translated by Carl Eckart & Frank C. Hoyt. (1930)

FOREWORD

The structure of the helium atom, the existence of half-quantum numbers in band spectra, the continuous spatial distribution of photo-electrons, and the phenomenon of radioactive disintegration, to mention only a few examples, are achievements of the new theory which had baffled the old.”

This symmetry of the book with respect to the words <particle> and <wave> shows that nothing is gained by discussing fundamental problems (such as causality) in terms of one rather than the other.”

1. INTRODUCTION

Thus it was characteristic of the special theory of relativity that the concepts <measuring rod> and <clock> were subject to searching criticism in the light of experiment (…) A much more radical departure from the classical conception of the world was brought about by the general theory of relativity, in which only the concept of coincidence in space-time was accepted uncritically. According to this theory, classical concepts are applicable only to the description of experiments in which both the gravitational constant and the reciprocal of the velocity of light may be regarded as negligibly small.

Although the theory of relativity makes the greatest of demands on the ability for abstract thought, still it fulfills the traditional requirements of science in so far as it permits a division of the world into subject and object (observer and observed) and hence a clear formulation of the law of causality. This is the very point at which the difficulties of the quantum theory begin. In atomic physics, the concepts <clock> and <measuring rod> (comprimento) [ou seja, tempo e espaço] need no immediate consideration, for there is a large field of phenomena in which i/c is negligible. The concepts <space-time coincidence> and <observation>, on the other hand, do require a thorough revision.” “the interaction between observer and object causes uncontrollable and large changes in the system being observed, because of the discontinuous changes characteristic of atomic processes.” “it appears that in many cases it is impossible to obtain an exact determination of the simultaneous values of 2 variables, but rather that there is a lower limit to the accuracy with which they can be known.” “These uncertainty relations give us that measure of freedom from the limitations of classical concepts which is necessary for a consistent description of atomic processes.”

After Newton’s objections to the wave theory of light had been refuted and the phenomena of interference explained by Fresnel, this theory dominated all others for many years, until Einstein pointed out that the experiments of Lenard on the photoelectric effect could only be explained by a corpuscular theory.”

When the energy of the atom is known, one speaks of a <stationary state of the atom>. When the kinetic energy of the electron is too small to change the atom from its stationary state to a higher one, the electron makes only elastic collisions with the atoms, but when the kinetic energy suffers for excitation some electrons will transfer their energy to the atom, so the electronic current as a function of the velocity changes rapidly in the critical region. The concept of stationary states, which is suggested by these experiments, is the most direct expression of the discontinuity in all atomic processes.”

It is true that it might be postulated that 2 separate entities, one having all the properties of a particle, and the other all the properties of wave motion, were combined in some way to form <light>. But such theories are unable to bring about the intimate relation between the two entities which seems required by the experimental evidence.” The solution of the difficulty is that the two mental pictures which experiments lead us to form – the one of particles, the other of waves – are both incomplete and have only the validity of analogies which are accurate only in limiting cases.” Light and matter are both single entities, and the apparent duality arises in the limitations of our language.” Fortunately, mathematics is not subject to this limitation” “In order to avoid obscuring the essential relationships by too much mathematics, however, it has seemed advisable to relegate this formalism to the Appendix [que eu, claro, não cubro aqui].”

2. CRITIQUE OF THE PHYSICAL CONCEPTS OF THE CORPUSCULAR THEORY

As Bohr has emphasized, if a measurement of its co-ordinate is to be possible at all, the electron must be practically free.” This may be expressed in concise general terms by saying that every experiment destroys some of the knowledge of the system which was obtained by previous experiments.” “It is a matter of personal belief whether such a calculation concerning the past history of the electron can be ascribed any physical reality or not.”

O RABO É MAIS VELOZ QUE A CABEÇA DA COBRA, E AO MESMO TEMPO NÃO É: The orbit is the temporal sequence of the points in space at which the electron is observed. As the dimensions of the atom in its lowest state are of the order 10-8 cm, it will be necessary to use light of wave-lenght not greater than 10-9 cm in order to carry out a position measurement of sufficient accuracy for the purpose. A single photon of such light is, however, sufficient to remove the electron from the atom, because of the Compton recoil. Only a single point of the hypothetical orbit is thus observable. One can, however, repeat this single observation on a large number of atoms, and thus obtain a probability distribution of the electron in the atom.” “This result is stranger than it seems at first glance. (…) there is thus always a small but finite probability of finding the electron at a great distance from the center of the atom.” “This paradox also serves as a warning against carrying out the <statistical interpretation> of quantum mechanics too schematically. Because of the exponential behavior of the Schrödinger function at infinity, the electron will sometimes be found as much as, say, 1cm from the nucleus. One might suppose that it would be possible to verify the presence of the electron at such a point by the use of red light [faixa de onda mais extensa]. This red light would not produce any appreciable Compton recoil and the foregoing paradox would arise once more.” “The statistical predictions of quantum theory are thus significant only when combined with experiments which are actually capable of observing the phenomena treated by the statistics.”

3. CRITIQUE OF THE PHYSICAL CONCEPTS OF THE WAVE THEORY

historically we first encounter attempts to develop 3D wave theories that could be readily visualized (Maxwell and de Broglie waves). (…) The reader must be warned against an unwarrantable confusion of classical wave theory with the Schrödinger theory of waves in a phase space.”

Although it is perhaps possible in principle to diminish these space and time intervals without limit by refinement of the measuring instruments, nevertheless for the physical discussion of the concepts of the wave theory it is advantageous to introduce finite values for the space and time intervals involved in the measurements and only pass to the limit zero for these intervals at the end of the calculations. (…) It is possible that future developments of the quantum theory will show that the limit zero for such intervals is an abstraction without physical meaning” Voilà!

4. THE STATISTICAL INTERPRETATION OF QUANTUM THEORY

It is instructive to compare the mathematical apparatus of quantum theory with that of the theory of relativity. In both cases there is an application of the theory of linear algebras. One can therefore compare the matrices of quantum theory with the symmetric tensors of the special theory of relativity. The greatest difference is the fact that the tensors of quantum theory are in a space of infinitely many dimensions, and that this space is not real but imaginary.” The exact knowledge of the numerical value of any dynamical variable corresponds to the determination of a definite direction in this space, in the same manner as the exact knowledge of the moment of inertia of a solid body determines the principal direction to which this moment belongs (it is assumed that there is zero degeneracy).”

An atom in a (non-degenerate) stationary state presents such a determinate case: The direction characterizing it is that of the kth principal axis of the tensor E, which belongs to the energy value Ekk.” The total angular momentum of the atom, e.g., can be determined simultaneously with its energy.”

FIG 14 VETORES

It follows from this discussion that the value of q’ cannot be uniquely predicted from the result of the experiment determining E, for a disturbance of the system, which is necessarily indeterminate to a certain degree, must occur between the 2 experiments involved. This disturbance is qualitatively determined, however, as soon as one knows that the result is to be an exact value of q. In this case, the probability of finding a value q’ after E has been measured is given by the square of the cosine of the angle between the original direction Ek and the direction q’. (…) This assumption is one of the formal postulates of quantum theory and cannot be derived from any other considerations. It follows from this axiom that the values of 2 dynamical quantities are casually related if, and only if, the tensors corresponding to them have parallel principal axes.”

Thus one becomes entangled in contradictions if one speaks of the probable position of the electron without considering the experiment used to determine it (cf. the paradox of negative kinetic energy, chapter 2).”

If one were to treat the measuring device as a part of the system – which would necessitate an extension of the Hilbert space – then the changes considered above as indeterminate would appear determinate. (…) For these observations, however, the same considerations are valid as those given above [um sistema que contém outro sistema enviesa o experimento], and we should be forced, e.g., to include our own eyes as part of the system, and so on. The chain of cause and effect could be quantitatively verified only if the whole universe were considered as a single system – but then physics has vanished, and only a mathematical scheme remains. The partition of the world into observing and observed system prevents a sharp formulation of the law of cause and effect. (The observing system need not always be a human being; it may also be an inanimate apparatus, such as a photographic plate.)”

With the advent of Einstein’s relativity theory it was necessary for the 1st time to recognize that the physical world differed from the ideal world conceived in terms of everyday experience. It became apparent that ordinary concepts could only be applied to processes in which the velocity of light could be regarded as practically infinite. The experimental material resulting from modern refinements in experimental technique necessitated the revision of old ideas and the acquirement of new ones, but as the mind is always slow to adjust itself to an extended range of experience and concepts, the relativity theory seemed at first repellantly abstract. Nonetheless, the simplicity of its solution of a vexatious problem has gained it universal acceptance. As is clear from what has been said, the resolution of the paradoxes of atomic physics can be accomplished only by further renunciation of old and cherished ideas. Most important of these is the idea that natural phenomena obey exact laws – the principle of causality. In fact, our ordinary description of nature, and the idea of exact laws, rests on the assumption that it is possible to observe the phenomena without appreciably influencing them. To co-ordinate a definite cause to a definite effect has sense only when both can be observed without introducing a foreign element disturbing their interrelation. The law of causality, because of its very nature, can only be defined for isolated systems, and in atomic physics even approximately isolated systems cannot be observed. (…) There exist no infinitesimals by the aid of which an observation might be made without appreciable perturbation.”

Faraday and Maxwell explained electromagnetic phenomena as the stresses and strains of an ether, but with the advent of the relativity theory, this ether was dematerialized; the electromagnetic field could still be represented as a set of vectors in space-time, however. Thermodynamics is an even better example of a theory whose variables cannot be given a simple geometric interpretation.”

resumodaopera

Os matemáticos apertam a mão de Sócrates: nasce a Estatística Aplicada, vulgo cobertor curto da realidade!

Many of the abstractions that are characteristic of modern theoretical physics are to be found discussed in the philosophy of past centuries. At that time these abstractions could be disregarded as mere mental exercises by those scientists whose only concern was with reality, but today we are compelled by the refinements of experimental art to consider them seriously.”

5. DISCUSSION OF IMPORTANT EXPERIMENTS

It is true that an ingenious combination of arguments based on the correspondence principle can make the quantum theory of matter together with a classical theory of radiation furnish quantitative values for the transition probabilities, i.e., either by the use of Schrödinger’s virtual charge density or its equivalent, the element of the matrix representing the electric dipole moment of the atom. Such a formulation of the radiation problem is far from satisfactory and leads to false conclusions.”

Dirac, in his radiation theory, employs the language of the particle representation, but makes use of conclusions drawn from the wave theory of radiation in his derivation of the Hamiltonian function.”

the classical wave theory is sufficient for the discussion of all questions of coherence and interference.”

It is very difficult for us to conceive the fact that the theory of photons does not conflict with the requirements of the Maxwell equations. (…) whenever an experiment is capable of furnishing information regarding the direction of emission of a photon, its results are precisely those which would be predicted from a solution of the Maxewell equations of the needle type (unidirectional beams)”

If one supposes that an experiment has determined the position of the atom with a given accuracy (the value of the momentum must then be correspondingly uncertain), then this means that the density is given by the foregoing expression only in a finite volume v, and is zero elsewhere.” “This example illustrates very clearly how the quantum theory strips even the light waves of the primitive reality which is ascribed to them by the classical theory.”

For a point electron (one of zero radius) even the classical theory yields an infinite value of the energy, as is well known, so that it becomes necessary to introduce a universal constant of the dimension of a lenght – the <radius of the electron>. It is remarkable that in the non-relativistic theory this difficulty can be avoided in another way – by a suitable choice of the order of non-commutative factors in the Hamiltonian function. This has hitherto not been possible in the relativistic quantum theory.

The hope is often expressed that after these problems have been solved the quantum theory will be seen to be based, in a large measure at least, on classical concepts. But even a superficial survey of the trend of the evolution of physics in the past 30 years [Hallo, século XX!] shows that it is far more likely that the solution will result in further limitations on the applicability of classical concepts than that it will result in a removal of those already discovered.” thenDANsING d SONG O’ THE ‘SIR. ENS’! S.O.[CRATE’]S. FLU-TE & HARP BE4 THE HEMLOCK… LOCK ‘EM ALL, THE TRUTHS, WITH STRINGS!

DANIEL DEFOE, JONATHAN SWIFT & UM PANORAMA DA LITERATURA INGLESA DOS XVIII // OU AINDA: UMA CRÍTICA DA CLASSE MÉDIA E, AINDA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PROTOFEMINISTAS – Excertos traduzidos de um capítulo de livro de Terry Eagleton, crítico literário britânico, intitulado “Daniel Defoe and Jonathan Swift”

Os excertos giram em torno de dois autores contemporâneos, talvez os dois mais conhecidos hoje fora da Inglaterra em termos de literatura clássica daquele país – As Viagens de Gulliver veio ao mundo menos de quinze anos depois d’As Aventuras de Robinson Crusoe. São duas obras espantosamente similares e divergentes ao mesmo tempo. Duas narrativas, eu diria, de restless wanderers, viajantes incansáveis, espécies de maníacos tragicamente involuntários por navegar o mundo, sem propósito claro em mente…

Assim como o novelista e ex-condenado Jeffrey Archer, a carreira de Daniel Defoe abrangeu dívidas e alta política, a profissão de escritor e o cárcere. Cronologicamente falando, a arte imitou a vida com Defoe, uma vez que ele começou a escrever maior parte de suas obras enquanto ativista. De outro ângulo, entretanto, sua vida imitou, sim, a arte, pois sua trajetória foi sensacionalista o bastante para que pudesse figurar tranquilamente como o protagonista de suas próprias novelas tumultuadas. Em diversos momentos ele se dedicou ao comércio de vestuário, vinho e tabaco, foi dono de uma fábrica de tijolos, um político vira-casaca, uma espécie de espião do submundo e dos bastidores da política, agente secreto oficial do governo, espécie de diplomata e assessor do império britânico por meio de suas publicações jornalísticas (o que na época chamavam de publicista). Não bastasse todo esse cartel, tomou parte ativa em uma rebelião armada contra Jaime II, excursionou incansavelmente pela Europa e teve um papel crucial nas históricas negociações da unificação política dos reinos da Inglaterra e da Escócia.

Defoe faliu mais de uma vez, foi preso por débitos e até exposto no pelourinho num processo de sedição após publicar um panfleto satírico. Mesmo depois dessa experiência, ele viria a publicar um Hino ao Pelourinho (Hymn to the Pillory), bem como um Hino às Massas (Hymn to the Mob), em que, escandalosamente para a época, enaltecia o povo de extrato inferior por sua extrema lucidez de julgamento. É difícil imaginar outro grande autor inglês fazendo a mesma coisa na mesma época. Entre suas obras, está também Uma História Política do Demônio (A Political History of the Devil), um estudo sobre fantasmas, motivado pela Grande Praga de Londres, um surto da peste bubônica que eclodiu em 1665 e durou até o biblicamente simbólico ano seguinte. Defoe publicou também uma apologia irrestrita da instituição do casamento intitulada Indecência Conjugal; ou da Prostituição Marital. Um tratado sobre a Utilidade e a Inconveniência da Cama de Casal (Conjugal Lewdness; or Matrimonial Whoredom. A Treatise Concerning the Use and Abuse of the Marriage Bed). De modo algum ele seria um ‘novelista’ no puro senso da palavra (o próprio termo em voga criou sua acepção muito mais tarde), muito embora ele tenha atacado os ‘Romances’ (o gênero pré-novelístico por excelência), que para ele eram estórias que não informavam, apenas entretinham (e isso era necessariamente ruim naquela Inglaterra). Suas obras mais consagradas, Moll Flanders e Robinson Crusoe, são ‘novelas’ apenas em retrospecto. Defoe só escrevia aquilo com que pensava poder lucrar, sendo uma espécie de autor oportunista altamente prolífico que ‘atirava para todos os lados’ no mercado literário em ebulição de seus dias. A imprensa da época não discriminava entre gêneros, muito menos Defoe o faria.

Escrever, para Defoe, pois, não passava de commodity, como ele próprio retrata o mundo em suas ‘novelas’, que podemos resumir como ‘uma série de coisas a que se dá um preço de alto a baixo’. Tampouco era Defoe um ‘homem literário’: ao contrário, sua escrita é apressada, não pesa as palavras, e é transparente demais. Um ‘grau zero’ do estilo como se sempre fosse um jornalista ou historiador relatando fatos que tendia a apagar as próprias pegadas, negando seu próprio status de escritor e, portanto, de criador de realidades. O próprio Defoe batizava seu estilo de ‘cáustico’ ou ‘abjeto’ (mean), pretensamente desprovido de conscienciosidade e ignorante dos próprios artifícios. Na linguagem lacônica e um tanto caseira e pré-fabricada de Defoe sentimos, quase pela primeira vez na Literatura, o idioma dos comuns. Linguagem despida de textura e densidade, que permite ao leitor atravessar as palavras e ver as coisas de frente e em si mesmas. ‘O conhecimento das coisas, não das palavras, molda o erudito’, comentou Daniel Defoe no Compleat English Gentleman.¹ Uma profusão de aventuras e incidentes tem forçosamente de compensar as narrativas de Defoe, devido à crueza de textura. A suprema fertilidade de sua técnica é de fato impressionante. Defoe quase não se preocupa com o sentir das coisas, não mais do que um merceeiro passaria o dia acariciando e apalpando seus queijos, que são apenas seu ganha-pão. Defoe é o utilitarista-padrão: mais interessado no valor de troca dos objetos, não em suas qualidades sensuais ou sensórias. Há sem dúvida sensualidade em Defoe, principalmente nas obras de protagonistas mulheres (Moll Flanders e Roxana), mas não sensualismo, voluptuosidade. O realismo defoeniano é um realismo das coisas, enquanto que o de Richardson, por exemplo, é um das pessoas e sentimentos.”

¹ Uma espécie de enciclopédia de seu tempo, hoje de domínio público: https://ia800900.us.archive.org/29/items/compleatenglishg00deforich/compleatenglishg00deforich.pdf. Manuscritos descobertos no séc. XIX, tudo indica que fossem anotações diversas do escritor que ele tinha a intenção de completar e publicar.

Depois de um bom tempo exercendo seu ofício errático, pau-pra-toda-obra, escrevendo meramente para sobreviver, Defoe morreu enquanto se ocultava ou fugia de seus credores, autodeterminado, quem sabe, a acabar da mesma maneira que havia começado, ignorando outros estilos de vida. Foi um Dissidente (um imoralista) numa época em que ser Dissidente (assim, com letra maiúscula mesmo) era o mesmo que não possuir direitos civis. Como muitos de seus compatriotas novelistas, provinha da classe-média baixa econômica mas que possuía um status de pequena-burguesia, devido ao fator da formação intelectual: ilustrado, completou sua educação formal, cultivava ambições de ascensão e em seu meio os jovens eram politicamente articulados. No seu Journal of the Plague Year, ou Jornal do Ano da Peste, ele tripudia de algumas superstições do povão enquanto dá crédito irrestrito a outras. Muito parecido com William Blake em sua origem social, a rebeldia de Defoe afirmava a radical igualdade entre homens e mulheres, sustentando que o handicap feminino não passava do resultado de convenções. Desigualdades sexuais eram puramente culturais, nada naturais. O que distingue suas personagens Roxana e Moll Flanders, como outras tantas prostitutas vigaristas (seja as de luxo ou as que trabalhavam em espeluncas) e objetificadas da literatura de então, é que havia a afirmação premente, em todo o livro: elas não são propriedade de homem algum, elas não são de ninguém. No mundo de Defoe, nenhuma relação é permanente, aliás.”

Quando Moll Flanders diz levianamente que está grata por ter se livrado de seu filho na barriga, todo leitor de época se sentia escandalizado e ao mesmo tempo representado. Roxana é a comerciante-mulher, que embora seja a própria mercadoria é a dona do negócio: recusa o casamento, mesmo com um bom nobre, pois isso seria a ruína total de sua independência financeira. Ser esposa, para Roxana, era o mesmo que ser escrava. Os puritanos da geração de Defoe prezavam tanto a felicidade doméstica quanto o individualismo econômico; o único problema era a completa incompatibilidade de ambos. Sobretudo no caso das mulheres, que em quaisquer das esferas, isoladamente consideradas, estavam de todo modo alijadas da autonomia. Isso não significa que não fosse também uma questão masculina: na prática o individualismo econômico significava uma castração, compelindo à afabilidade, afeição, lealdade e companheirismo que o pai de família devia simbolizar.

Para complementar as credenciais progressistas de Defoe, ele militava pela absoluta soberania do plebeu, cujo direito de não se curvar a uma soberania injusta era, ele pregava, inalienável. Ele defendia os quakers e já então propagava os méritos de uma sociedade etnicamente miscigenada. Estrangeiros, segundo ele, eram um precioso acréscimo para a nação. Defoe troçava das mitologias chauvinistas dos bretões em poemas como O Inglês Puro-Sangue (The True-Born Englishman), cujos versos não hesitam em caracterizar a raça britânica justamente pela sua alta mestiçagem, desdenhando a noção aristocrática de pureza de sangue e ridicularizando a própria idéia-título do ‘puro-sangue’ com suprema ironia: mera ficção e, aliás, contradição. Não é irrelevante para essa polêmica (à época) que Guilherme III, sob quem Defoe exerceu seus trabalhos panfletários, fosse um holandês.”

“‘O que significam as capacidades naturais de qualquer criança sem a educação?’, o autor questiona no Compleat English Gentleman. Apenas tories absolutamente reacionários como Henry Fielding seriam capazes de enaltecer só o lado das qualidades inatas. Defoe não se mostrava pudico em politizar a questão: por trás dessa doutrina pedagógica ‘inocente’ havia toda uma tentativa de impedir as reformas pedagógico-sociais necessárias à Inglaterra, mediante o argumento dos talentos e habilidades congênitos e inalteráveis, que sempre legitimariam só as crianças da nobreza.”

O homem não é rico porque é honesto, mas é honesto porque é rico.

Essa é uma doutrina escandalosamente materialista avant-la-lettre, muito mais típica de um Bertolt Brecht do que de um ardoroso cristão dos Setecentos. Valores morais são o simples reflexo das condições materiais. Os ricos são apenas privilegiados o bastante para não terem de roubar. A moralidade é para aqueles que podem cultivá-la. Ideais calham muito bem a quem tem de sobra o que comer. Defoe também exigia leis que reconhecessem a condição dos miseráveis, ao invés da replicagem de um sistema que, em primeiro lugar, criou a miséria, para depois enforcar os miseráveis por serem eles o que são.”

Se a classe média preza tanto pelo eu autônomo na teoria, como pode ser que viole tanto essa doutrina na prática? Quer ela de fato a independência de todos os seus servos, assalariados que tem tão pouco poder de barganha que são menos do que cidadãos e pouco mais que escravos, sem falar dos colonizados além-mar? Não seria preferível para o pequeno-burguês, secretamente, é claro, preferir a liberdade irrestrita para si e a negativa para todos os competidores no mercado? A pequena-burguesia acredita na autodeterminação da população; mas ao mesmo tempo seus membros, homens e mulheres, não passam de títeres de forças econômicas impessoais. Os protagonistas de Defoe – Moll, Crusoe, Roxana, Coronel Jack – estão todos enleados nessa contradição. Se eles são, num sentido, forjadores de seu próprio destino, são, inegavelmente, vítimas desafortunadas da Providência, das leis do livre comércio e de seus próprios apetites.

No ensaio A Divindade da Troca (The Divinity of Trade), Defoe vê a Natureza como um tipo de capitalista, que – em sua infinita e inapreensível sabedoria burguesa – criou corpos capazes de flutuar sobre as águas, para que se pudessem construir navios e fomentar o comércio; criou as estrelas para nortear os navegadores; e até escavou rios no seio dos continentes que levam as embarcações direto para os recursos espoliáveis de outros países. Animais foram feitos dóceis e submissos deliberadamente para que o homem os explorasse como instrumentos e também como matéria-prima; linhas costeiras pedregosas foram criadas possibilitando a construção de fortalezas; matéria-prima conveniente foi distribuída ao longo de todo o planeta para que cada nação tivesse algo para vender e algo para comprar. Ainda que estejamos falando de um período muito aquém dos oceanos de Coca-Cola e da produção da necessidade quase que instintiva de calçar um Nike, a Natureza, para Defoe, não perdia e não perdeu nada de vista.”

Ora, se o homem era divinizado e elevado de forma sem precedentes nessa nova ordem social, temos em contrapartida a desvantagem de que qualquer indivíduo é indiferentemente intercambiável. Parceiros comerciais, sexuais ou maritais em Defoe vêm e vão, às vezes com tanta individualidade quanto numa coletividade de coelhos. Mas o maior conflito se dá entre as práticas amorais de uma cultura plutocêntrica e autocentrada em excesso e os altos ideais morais que essa própria cultura insiste em pregar.”

O escritor John Dunton, também do séc. XVIII, que teve ligeiro contato com Defoe, geria um jornal mensal devotado à prostituição, ou antes a denegrir a prática da prostituição ao invés de servir como Classificados do corpo humano alheio, o Night Walker: or, Evening Rambles in Search after Lewd Women (O Caminhante Noturno [/o Homem da Noite]: ou Aventuras do Entardecer em Busca de Mulheres Lascivas). Mesmo sendo vanguardista para a época, impossível que fosse um jornal politicamente correto para nossa concepção. A novela naturalista do século XIX procedia a expedientes parecidos, num meio-termo entre a objetificação degradante e gratuita da mulher da noite e a exposição de uma espécie de mal burguês: essas escapadelas maritais tinham um odor sensual e fatalista, havia um certo prazer mórbido no retrato de becos sujos e miseráveis em que todo moralista jogava a moral fora, e a mulher podia ser vista como a vítima de uma (des)ordem social; o século XIX foi cada vez mais inquirindo sobre esta questão de forma científica, menos sensacionalista, mas Defoe não chegou a testemunhar essa evolução.”

A família, para um puritano devoto como Defoe, é um domínio sagrado, como sugere seu panfleto de costumes O Instrutor da Família (The Family Instructor). Ao mesmo tempo, ele advoga, sem constrangimento, que tais laços podem e devem ser cortados quando se tornam mais maus do que bons: quando forem sinônimo de uma degradação do casamento, quando forem sinônimo do aviltamento das relações sangüíneas, acaba sendo a conduta mais autêntica e virtuosa o corte destes laços, ignorados ou tratados como meros meios para outros fins.”

Em Crusoe, é como se o colonialista frio e moderado desse o tom do enredo. Ele (o narrador em primeira pessoa) também é aquele que dá o matiz exótico ao objeto (cenário) em questão, isto é, sua colônia involuntária no meio dos trópicos. Essas narrativas sem adornos e sem culpa de consciência não chegam a destruir os vasos capilares do decoro ideológico da Inglaterra pós-elizabetana, mas são um primeiro desnudamento de sua lógica imperialista. Não são narrativas de uma veia polêmica, ainda, são mais cândidas que outra coisa. Não há sentimentalismo, porque sentimentos não podem ser quantificados, e nesta literatura em que só o que é quantificável é real eles ainda não aparecem. Nesta atmosfera intermediária de amoralismo, o relato é fidedignamente subversivo ou subversivamente fidedigno espelhando a existência social daquelas décadas; as relações são o que são, não o que deveram ser. Não obstante, a pura e simples descrição do fato e da matéria bruta não deixa de ser explosivo em si mesmo, ou conducente à explosão da dinamite próxima. O realismo se torna de grau em grau Política.”

Moll Flanders termina sua história contando como prosperou e chegou ao sucesso após uma vida de crimes, mas acrescentando, com alguma urgência, em tom de confissão compungida, que ela se arrepende sinceramente de todo seu passado. A moral da história – o crime não compensa – é explicitamente contradita pelo final efetivo. O contraste é tão desconcertante que alguns críticos passaram seu tempo imaginando se Defoe foi ou não abertamente sarcástico. Quando o náufrago Crusoe considera a inutilidade de todo o ouro que conseguira trazer do navio até a ilha, mas, no fim, decide levá-lo consigo assim mesmo – isso é uma tirada irônica do autor ou humor involuntário? Quando Crusoe, testemunhando Sexta-Feira que escapa de seus ex-irmãos canibais para não ser comido, reflete acerca da utilidade de levar consigo um servo, sendo este acréscimo a seu ‘patrimônio’ coincidente com um suposto chamado da Providência para salvar um desgraçado, seria essa harmonia entre interesse capitalista e revelação divina um artifício do autor para produzir o riso do leitor? Defoe está ou não depreciando sua heroína Roxana quando ela declara que deve manter seu próprio dinheiro separado do de seu amo e marido, para não misturar seus ganhos ilícitos com o suado e honesto capital do cônjuge?”

Porque se essa for a opinião fática do Defoe o Realista literário e Materialista radical, dificilmente seria também o credo de sua metade dissidente e religiosa. Defoe o Cristão estabelece a moral e a religião como realidades autossuficientes e inquestionáveis. Mas autossuficientes e inquestionáveis até que ponto, cara pálida? Se esses valores transcendentais existem numa esfera própria, eles pouco impactam na conduta efetiva dos personagens. Moll sente pena de uma de suas vítimas mesmo durante o ato de roubá-la, mas sua tristeza nada impede na concretização do ato. Como o Coronel Jack, que pode muito bem ser um perfeito larápio e viver com a consciência remoída. No século XVIII, piedade e nariz empinado não eram estranhos um ao outro. E não se distinguiam muito bem. Ou a moral falha porque está muito mesclada com o mundo material, ou falha porque está, justamente, dele apartada. Defoe reconhece esta última condição quando escreve: ‘Lágrimas e orações não fazem revoluções / Não derrubam tiranos, não quebram grilhões’.”

A moralidade em Defoe é geralmente retrospectiva. Uma vez que você tenha pilhado, pode finalmente ser penitente. Como demonstra o narrador de si próprio em Crusoe, é só ao escrever seus atos que você pode julgar sua vida como um todo. Enquanto tenta entender a própria vida ao vivo, você anda ocupado demais mantendo o nariz acima do nível d’água para levar a termo qualquer reflexão, quanto mais sentir remorso. Só há dois desfechos: continuar ou se afogar. Correr e ainda assim não ganhar nenhum terreno, continuar na condição em que já estava; ou simplesmente perecer. Não é fácil se embrenhar em considerações metafísicas enquanto a necessidade imediata é fugir dos credores ou lidar com seu atual marido. A narrativa sempre ziguezagueia num passo tão frenético que um evento vai borrando o outro num contínuo. Nenhum da horda de personagens da novela Moll Flanders chega a ter um intercurso mais que casual com a heroína – a interação típica entre cosmopolitas, mas impensável na comunidade rural dos livros de uma Jane Austen ou George Eliot. As figuras que interagem com Moll entram e saem de sua vida e das páginas de sua vida como meros transeuntes cruzam pela Piccadilly. A pergunta mais premente na cabeça do leitor que atravessa este processo metonímico virtualmente infindável é: o que vem a seguir? Sentido e relato não são concordes.

Assim como um parvo, diz-se, é incapaz de mascar chiclete e caminhar ao mesmo tempo, os personagens de Defoe só podem agir ou refletir, mas nunca os dois juntos. A ação moralmente informada é rara; a reflexão moral só vem bem depois. É essa a razão da coexistência de dois formatos literários consideravelmente diferentes sob a capa do Robinson Crusoe: a história aventuresca e a autobiografia espiritual. De todos os personagens de Daniel Defoe, Crusoe é o mais feliz na combinação dessa ação racional com a reflexão moral. Mas isso se dá, em parte, por causa das circunstâncias excepcionais: Crusoe está sozinho numa ilha, tem algum trabalho a executar, mas também muito tempo ocioso para meditar.”

Como a vida é terrivelmente material mas também uma sucessão ininterrupta e agitada de eventos, cada ato parece simultaneamente vívido e sem substância. Essas novelas são tornadas artigos fascinantes pelo processo de criação em si mesmo, pelo valor de troca, e não pelo valor de uso (intenção final). Não há uma lógica conclusiva para a narrativa de Defoe, é uma narrativa pura e simples. Não há um momento do livro em que o fechamento seria mais natural que em qualquer outro fecho de capítulo. O eu-lírico apenas prossegue acumulando narrativa(s), como um capitalista jamais cessa de acumular capital. Um pedaço de enredo, como um investimento particular, acaba levando ao próximo. Crusoe mal volta à terra natal e já está em alto-mar de novo, ainda acumulando aventuras, que serão obviamente narradas e contarão com o desejo do eu-lírico de formular um propósito. A sede de narrativa é insaciável. A acumulação de capital parece ter um propósito, mas é pura aparência. Secretamente, pelo menos no mercantilismo defoeniano, subjaz a verdade de que o único fim da acumulação é a própria acumulação. Uma novela de Defoe não tem o epílogo de facto, como têm as novelas de Fielding. Todos os finais são arbitrários, e todos poderiam ser apenas novos começos, se se quisesse.¹ O viajante inquieto só repousa a fim de se preparar para a próxima viagem…”

¹ A maior prova disso é que AS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE são continuadas pelas NOVAS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE, por mim panoramicamente traduzidas em https://seclusao.art.blog/2018/08/25/as-novas-aventuras-de-robinson-crusoe-sendo-a-segunda-e-ultima-parte-de-sua-vida-e-contando-as-estranhezas-e-surpresas-de-suas-viagens-por-tres-cantos-do-mundo-versao-co/. O autor escolheu convenientemente que o primeiro livro é a primeira metade da vida de Crusoe, e depois veio a 2ª. Mas nada o impediria de estabelecer uma tripartição, ou uma divisão em 4. Exemplos literários correlatos é o que não falta!

E devido a essa narratividade pura poucos eventos em Defoe são fruídos com densidade o bastante para deixar uma impressão permanente ou recordação intacta. Personagens como Moll ou Roxana vivem premidas pelo pão de cada dia, contando apenas consigo próprias, flutuando conforme a maré, dançando conforme a dança, apostando tudo ou nada a cada momento. Em perfeita adaptação com o mundo altamente mutante que encontram, esses sujeitos sincopam seu ritmo. Ou seja: não há um núcleo central da personalidade, tampouco, porque memórias e aprendizados estarão sempre se acumulando sem uma síntese definitiva. A identidade é uma improvisação, um cálculo, uma estratégia de passagem. Trata-se de uma cadeia de reações possíveis para cada ação promovida pelo ambiente. Os impulsos humanos – avareza, egoísmo, autopreservação – são fixos e imutáveis, é verdade, mas para sempre alcançá-los cada personagem é obrigado a ser flexível a ponto de se converter em metamorfo. A perspicácia e cautela necessárias para lidar com o tema da epidemia no Jornal do Ano da Peste seriam versões escandalosas e exageradas das próprias exigências do cotidiano para o leitor-padrão.”

O Coronel Jack se casa quatro vezes, a despeito de poder passar tranqüilamente sem mulheres, e rompe com uma delas porque ela dilapida sua fortuna. Na veia mais hobbesiana e pragmática possível, o interesse burguês é muito mais fundamental que a o altruísmo iluminista. Só mesmo caçar para comer seria mais premente que caçar para lucrar.”

O eu-narrador deslinda a trama com ar imperturbável que sugere um presente consideravelmente distanciado do passado em que o eu-narrado aparece (anos de intervalo, com toda a certeza). Este último não se pode dar ao luxo dessa parcimônia glacial do primeiro. Há uma tensão constante entre as duas dimensões temporais.”

Embora ‘Deus não esteja morto’, pareceria, a essa altura, para o bom Protestante, que Ele se recolheu deste mundo. Essa é uma das razões para as especulações de Defoe sobre a Providência ecoarem com um quê de vacilação. Ora, lembra o autor em The True-Born Englishman: ‘O que vem da Providência, consiste no interesse de todo o universo.’. Se tomarmos a frase ao pé-da-letra, estariam justificados o estupro, o assassinato, o canibalismo. Cada um desses pecados teria seu papel na manutenção da harmonia do cosmo. Defoe declama piamente no prefácio do Crusoe como devemos honrar a sabedoria da Providência e suas obras, ‘sucedam como sucedam’; mas o protagonista, muito longe de se resignar ao destino, é hiperativo e incansável na tentativa de forjar seus próprios porquês.”

De nossa perspectiva, se Crusoe devera ser punido, não seria por ter vivido a primeira metade da vida como um pagão, mas sim por vender Xury, seu servo, à escravidão brutal e por gerir uma plantation no Brasil movida a mais trabalho escravo. Na verdade, quando naufraga, ele estava justamente prestes a comprar mais mão-de-obra escrava numa expedição clandestina para abastecer seu engenho. Mas nem o personagem nem o autor conseguiriam ver tais ações como pecaminosas, ainda que Crusoe se indigne com as condições do imperialismo espanhol nas Américas. Como com o narrador de O Coração das Trevas de Joseph Conrad, o ‘imperialismo dos outros’ é sempre mais repreensível que o nosso. O Coronel Jack defende o castigo físico dos escravos, e não há qualquer indicativo de que Defoe pensasse diferente. A liberdade era para os ingleses, não para os africanos! Como zeloso puritano, Defoe decerto cria que os ‘selvagens’ estavam condenados irremediavelmente à bestialidade nesta terra, e ao tormento eterno no além. Seu radicalismo (progressismo de vanguarda na política) tinha seus claros limites.”

A Natureza não é mais um livro aberto, mas um texto obscuro a ser decifrado com imensa dificuldade. O Protestante tateia avidamente no escuro atrás de qualquer signo ambíguo de sua própria salvação. Mas o fato é que, num universo secularizado, tudo está entregue à própria contingência, isto é, nada no mundo visível quer dizer alguma coisa nem dá qualquer pista de nada.”

Signos, nesse mundo dessacralizado, como também numa profusão de textos modernistas (dali a duzentos anos), são a priori e incontornavelmente ambíguos. Essa é a razão por que o crente nunca pode parar de trabalhar, porque se não se tem certeza da salvação agora, cada dia seu de labuta pode ser o fiel na balança para a absolvição no dia do Juízo. Ilhas tropicais, é bom lembrar, estão geralmente associadas à indolência, mas não no caso de Crusoe. Ele está sempre ocupado em melhorar e estender sua ‘propriedade paradisíaca’. ‘Eu realmente gostaria de um estábulo maior.’ Tanto é assim que o próprio Crusoe responde a si mesmo, vendo o quão ilógica é essa vontade: ‘Para quê?’. Crusoe não é um capitalista de verdade – é só um de mentirinha, sem mão-de-obra como Outro, sem mercado, consumidor, produto nem competidores ou divisão de trabalho. Mas, ainda que não tenha concorrentes, ele age como se os tivesse…”

A ilha de Crusoe é menos a utopia da pequena-burguesia numa dimensão paralela do que uma versão piorada ou distópica da situação pequeno-burguesa inglesa. Ou, antes, o que uma classe sofre no mundo, Crusoe sofre na sua ilha. Sua solidão é uma versão exponencial da solidão de todos os indivíduos da cidade moderna. Sendo absolutamente dependente num sentido, é verdade que é possível ser absolutamente autodeterminado num outro. Quão enérgico e engenhoso pode-se chegar a ser na administração de seu próprio império seria um índice de sua inclusão entre a minoria eleita. Assim poder-se-ia resolver o conflito aparente entre ser o joguete de Deus e, pelo próprio suor, pregar, no melhor estilo puritano, que o sucesso no trabalho é o melhor sinal que o mundo poderá dar de que você achou favor aos olhos da divindade.”

UM PROBLEMA ISENTO DE QUAISQUER “MEMÓRIAS PÓSTUMAS”: “A narrativa está sempre precariamente ancorada no presente que é um fio de navalha, em que a sorte do personagem é indefinida e o futuro absolutamente duvidoso; mas tudo isso é contado com um tal desassossego e afastamento, fechando um passado, que empresta certa autoridade. Supomos então que o narrador sobreviveu, nem que apenas pelo fato de estar agora, com a maior das calmas, falando de si mesmo na época em que corria perigo. Ansiedade e segurança se acoplam perfeitamente na escrita.”

E assim Defoe continua a insistir que sua estória existe com um fundo moral, embora isso seja obviamente uma farsa. O realismo, no sentido de uma atenção dedicada ao mundo material por si e nele mesmo, não está ainda avalizado neste período literário, embora se encontre em visível ascensão; embora a sociedade em que ele cresce e ascende demande-o cada vez mais, e encoraje-o mais que à moralidade, pois as pessoas passam a acreditar somente no que podem cheirar, tocar, provar. Samuel Johnson argumentava que o fato de um personagem ou evento ser fidedigno à natureza não servia de desculpa para incluí-lo num enredo ou obra de arte. Na teoria, essa colisão entre o moral e o real pode ser resolvida por justificações do autor, no estilo tabloide. Quão mais gráfica e escandalosa uma estória, mais fácil transmitir uma mensagem, poder-se-ia astuciosamente argumentar. Defoe escreve no prefácio para Roxana: ‘Se há qualquer parte da história, no relato de uma má ação, que pareça descrever as coisas de forma muito direta e impudica, todo o cuidado imaginável foi tomado para purificar o trabalho de todas as indecências e indecorosidades…’. Essas linhas, ao que parece, produziam, já naquele tempo, o mesmo efeito que hoje os avisos solenes, prévios a um audiovisual, acerca da presença de sexo e violência nos minutos que seguem: são só um chamariz a mais para a audiência (‘o que é proibido é melhor’), engenhosamente acrescentado pelo autor, sem transgredir nenhuma regra.

A novela realista se torna popular num marco da história em que o cotidiano banal começa a se tornar atrativo por si mesmo. Essa mescla do ordinário e exótico é a síntese do trabalho de Defoe. Parte do prazer extraído da leitura emana da excitação que deriva do puramente mundano. Defoe viveu em tempos turbulentos, e ninguém pode dizer que ele não viveu esses tempos intensa e perigosamente. Em épocas revolucionárias, a teatralidade adquire maior importância, mesmo fora da arte. Como a nova arte imita a vida, o teatral tem de despontar também na arte. Por último: Defoe também sabia o que era sofrer uma bancarrota, ser trancafiado nas galés e embarcar em expedições insólitas das quais não se sabia se se ia voltar.”

James Joyce, que, para nossa surpresa, enumera Defoe entre seus autores prediletos, escreveu do Crusoe que ele encarna ‘todo o espírito anglo-saxão … a independência masculina; a crueldade inconsciente; a persistência; a inteligência devagar mas eficaz; a apatia sexual; a religiosidade prática e metódica; a taciturnidade calculada’. Poderíamos dizer que essa é exatamente a visão que Sexta-Feira tem de Crusoe: Joyce é um súdito colonial da coroa britânica, e com certeza, quando alistado para a guerra, combateu muitos soldados com este perfil, em Dublin. Um ou dois assim são vistos no Ulisses. A passagem acima, que Joyce redigiu enquanto no exílio italiano, tem ainda algo do genial vislumbre do caráter imperial, que era meio-compatível com Joyce (colonizado, mas ao mesmo tempo da elite, ou seja, colonizador pela ótica dos subalternos, das massas irlandesas): outro materialista, o irlandês devia apreciar a fisicalidade intensa de Defoe. Uma vez o dublinense se descreveu como tendo a mente de um verdureiro. Defoe, por sua vez, destila em sua obra o autêntico espírito de uma nação de sapateiros.”

Quem é ele, ele se pergunta no mesmo estilo hipocondríaco do devoto liberal ou do pós-modernista, para interferir com a prática do canibalismo num povo primitivo? Mas o fato de maior parte da novela tratar justamente do know-how do homem civilizado e prático empresta lentes peculiares à tese do universalismo. A racionalidade ortodoxa, no sentido de ensinar quando o importante é se preservar, como não cair de um precipício, por exemplo, é mais plausível como universalidade de todos os povos do que qualquer outro tipo de raciocínio utilitário. É por isso que Sexta-Feira pode ajudar Crusoe nos trabalhos braçais muito antes de poder falar Inglês, porque a lógica do mundo material é comum a todas as culturas. Pedras caem em ambas (a ocidental e a autótocne) porque obedecem à gravidade, seja no Haiti ou em Huddersfield; quatro mãos aplicadas sempre trabalham melhor que duas para carregar objetos pesados; alguém pode jogar-lhe uma corda para evitar que você se afogue ainda que no sistema cultural de quem jogou a corda a água simbolize algo totalmente diferente do que você aprendeu em seus dogmas e valores. A racionalidade prática é, nesse aspecto, o epítome do Anglicismo: se o gentleman chegar de fato aos céus, está na cara que examinarão o lugar com bastante escrutínio, para tirarem o melhor proveito do que ele terá a oferecer. Mas eis um tipo de comportamento, senão onipresente, pelo menos atemporal.”

Não é escassa a literatura da tradição do comerciante-criminoso e vice-versa, dos vigaristas de John Gay em A Ópera do Vagabundo ao Vautrin de Balzac e o Mr. Merdle de Dickens. Como Bertolt Brecht disse: ‘O que é roubar um banco comparado com abrir um?’. A cozinha dos ladrões é a companhia de comércio sem a ideologia da respeitabilidade. O Coronel Jack começa como um ladrão de meia-tigela e termina como um bem-sucedido capitalista na Virgínia, sem nenhum talento a mais do que quando começara sua ‘carreira’. O mestre do crime de Fielding, Jonathan Wild, é um retrato satírico do político Robert Walpole, que funde em sua figura o mundo da alta política e da contravenção chic ou do colarinho branco. A idéia de ir parar numa terra virgem e construir do zero uma civilização deve constituir uma das fantasias mais intensas para a classe média. Sem dúvida isso ajuda a justificar a permanência de Crusoe como clássico sem o menor sinal de que vá ceder o posto tão cedo.”

Ao desafiar a influência do gentil-homem e da nobreza, era necessário, para lograr êxito, desacreditar o poder da antiguidade no processo. Defoe é sardônico sobre a obsessão aristocrática com a pureza de sangue e o matrimônio: Por que – ele pergunta no Compleat English Gentleman – os nobres permitem de boa vontade que amas-de-leite plebéias amamentem seus filhos, já que, ironicamente, elas lhes estão repassando, conforme a própria teoria eugênica dos sangue-azul, um sangue degenerado? N’O Inglês Puro-Sangue ele admite explicitamente a irrelevância do tópico da ancestralidade. Destarte, é uma fantasia muito benquista pelo homem branco imaginar-se num território virgem, poder desfazer toda a história até suas origens, recomeçando-a melhor, já com a ‘classe média’ no poder.”

O MESMO EFEITO DA ESTÁTUA DA LIBERDADE NO PRIMEIRO LONGA DE PLANETA DOS MACACOS: “O que nos deixa derrotados em Robinson Crusoe, e um dos momentos mais insólitos da literatura universal, é aquela misteriosa única pegada encontrada na areia.”

Ainda assim, Robinson Crusoe segue muitos anos sem preocupações em sua ilha; O Gulliver, de Jonathan Swift, não tem a mesma sorte.”

Como Defoe, Swift escreve numa prosa prática, transparente, célere, com o perdão do trocadilho,¹ sem muita textura ou ressonância. Seu texto não possui, como um crítico bem apontou, recessos ou raízes e ramificações mil. Há uma alarmante ausência de metáforas. É um estilo da superfície, sem muita profundeza nem interioridade.² Swift desconfia de toda reflexividade textual como de toda metafísica ou especulação abstrusa. Essa indiferença à verdade filosófica nos conta algo sobre o clero do século XVIII, do qual Swift fazia parte. É quase como um ladrão de banco ser indiferente ao dinheiro. Um aristocrata tory da época de Swift era necessariamente um amador, não um especialista: acreditava num certo número necessário de princípios básicos que o século do Iluminismo vinha tornar acessíveis a todos. Swift não poderia entender, ainda que sobrevivesse a sua época, a era da prosa de gêneros especializada. As Viagens de Gulliver não são, no sentido hodierno da palavra, uma obra ‘literária’, e não teriam saído do papel se o autor pensasse em escrever uma novela. A linguagem de Swift, como a de Defoe, tenta apagar a si mesma desdobrando o real no real, e na época não havia palavra para batizar esse zero fictício. As palavras perdem o valor e privilegiam os objetos, que ocupam o centro do palco. A própria linguagem ideal que o autor imaginou – uma língua que abole a língua – é a transparência do modelo. Isso acontece entre os laputianos gramáticos que, ao invés de conversar entre si usando as cordas vocais e convenções aceitas unicamente pelo seu povo, carregam para um e outro lado uma sacola com diversos objetos que eventualmente precisem comunicar, e vão-nos mostrando ao interlocutor, desempenhando uma caricata ‘linguagem de Babel’. A verdade é que a linguagem humana é este saco, mas sem fundo e diáfano, uma forma de levar o mundo conosco sem carregar peso algum (ainda que com a inconveniência de cada povo ter a sua língua). Os Houyhnhnms evitam elaborações verbais e mantêm uma perfeita correspondência entre palavra e coisa – a tal ponto, aliás, que são incapazes de mentir. Perfeitos como são em sua representação do mundo, se houvera dentre eles um escritor, seria este capaz de produzir uma bela novela realista!”

¹ Swift em inglês é ágil, veloz.

² Sublinhei em verde porque não posso estar minimamente de acordo com Eagleton neste trecho!

As Viagens de Gulliver, muito ao contrário do Crusoe, é um libelo do ‘anti-progressismo’ em que um protagonista amnesíaco parece não aprender nada ou aprender muito pouco em cada uma de suas jornadas; assim que ele parte para uma nova aventura, volta a aparentar ser uma tabula rasa. De fato as viagens de Gulliver são mais entrecortadas que as de Crusoe. Estas, mesmo que possam ser segmentadas pelo autor em capítulos e tomos, parecem bem-costuradas narrativamente. Gulliver vive literalmente episódios desconexos um do outro. Não em vão fala-se d’As Viagens como a suprema paródia do livro de viagem, gênero literário¹ usualmente otimista e cheio de ‘lições e aprendizados’.”

¹ O leitor de minha tradução deve ter percebido que em seu afã descritivo o crítico costuma se contradizer bastante. Aqui, vemos que na verdade o europeu do século XVIII contemporâneo de Defoe e Swift já reconhecia, senão o realismo ou o romantismo, pelo menos certos gêneros literários…

O tory Swift, ao contrário do whiggiano Defoe,¹ nada quer ter a ver com indivíduos. Sua única descrição é a de uma verdade universal, enquanto Gulliver e os personagens secundários servem apenas como meios para ilustrá-la. Gulliver não passa de um dispositivo narrativo bem conveniente, não é um ‘personagem’ propriamente dito, não é possível se identificar resolutamente com ele. Crusoe é bem diferente e vai crescendo em nossa concepção conforme avançam as páginas. Gulliver apenas ‘pede’ que observemos e julguemos os lugares que ele visitou.”

¹ Ver tabelas no final.

Os lilliputianos são cruéis, gananciosos e sectários, como se fossem réplicas em miniatura dos políticos de Westminster. Esse retrato da raça humana como corrupta e imutável é típica do conservantismo anglicano swiftiano. Ele desdenha a possibilidade de qualquer progresso dramático e mudança revolucionária para melhor no campo social, e logo se vê que a tal verdade universal que ele tenta mostrar é uma só: já conhecíamos essa verdade antes de viajarmos. Deus nos deu tudo de que precisávamos logo de partida, e velejar a esmo tropeçando em criaturinhas de uma polegada ou esbarrando no tornozelo de gigantes pouco importa nesse quadro. Talvez todos os indivíduos exóticos que encontramos não passem de distrações válidas unicamente para o momento.”

Mas só sabemos que os lilliputianos são diferentes de nós porque conservamos com eles a identidade do conceito de tamanho. Chamamos tarântulas de tarântulas e não de humanos porque usamos a linguagem, pela qual descrevemos e nomeamos as tarântulas, e elas não. Se as tarântulas fossem tão alienígenas assim à espécie humana, não seria esse o caso. Não se pode falar da diferença sem a comparação e o diagnóstico de algo igual. Os únicos diferentes reais de nós são aqueles que passam invisíveis, de cócoras, bem diante do nosso nariz, e que jamais percebemos.”

A escrita de uma viagem é, mais do que antes, como se vê, um gênero muito duvidoso para um tory se engajar naquele tempo. De um livro como esse esperam-se sobretudo novidades, que são indesejáveis para os conservadores. Defoe escreveu cedo na vida um Ensaio sobre Projetos (Essay on Projects), que era o perfeito contraponto dessa ânsia de imobilismo do tory: exibia grande entusiasmo quanto às reformas técnico-científicas. Crusoe rejeita implicitamente, ao querer sair de casa, os valores benquistos pela aristocracia (o lar, a coroa, a nação). Toda essa sede mercantilista de Crusoe não parece mais do que a pornografia do progresso para muitas mentes mais estreitas ou mais clássicas. Fantasiar com monstros desconhecidos é indecoroso; tudo que não é verossímil só pode nublar nosso julgamento. Crusoe encoraja caprichos tolos e emoções extravagantes que são péssimos para a lei e a ordem. Fora que, quanto mais viaja, mais Crusoe se sente um relativista cultural, algo igualmente insidioso para um tory. Pode ser perigoso para o viajante chegar a se tornar tão sonhador e apegado a coisas estrangeiras, a ponto de bradar, por exemplo, que se deparou com selvagens que, eles sim, são felizes e vivem em harmonia com a natureza. Isso seria negar o pecado original e inspirar nas gentes utopias cândidas e pueris, coisa contra a qual se deve lutar. Além do mais, de que vale, se o aventureiro acabaria sempre voltando ao solo inglês, muito longe dessas tais utopias inúteis? As alusões anti-monárquicas e anti-establishment de tais peregrinações pareceram, em todos os tempos, muito grosseiras aos tories.

Muito do debate em curso no século XVIII girava em torno de um consenso político que pudesse superar as terríveis dissensões do século anterior, mais animoso, de guerras civis e de queda e restauração da monarquia. Swift se referiu em vida a Defoe com toda a prepotência de um patrício: ‘Aquele sujeito que foi exibido no pelourinho – esqueci o nome dele…’. Mas não podemos deixar de observar em Swift o mesmo entusiasmo pelo comércio que em Defoe. Swift é irlandês e a Irlanda estava sempre em posição mais combalida que a metrópole. Além disso, Swift também não dava crédito à teoria da pureza da raça, e gostava de se ver como um burguês em que tudo de seus antepassados já se diluíra há muito tempo, a ponto de torná-lo irreconhecível para estes. Swift foi um tory, mas um tory radical, um exemplar do animal oximorônico que muito enriqueceu a cultura inglesa se formos considerar outros escritores tories e radicais ao mesmo tempo, como William Cobbett e John Ruskin.

Defoe era ‘progressista’ e rebelde, mas chegava a delírios de esnobeza episódicos tão altaneiros que chegou a alterar seu nome de Daniel Foe para Daniel De Foe, e que hoje escrevemos Defoe. A conjunção ‘de’ implica origem nobre. Swift e autores como Pope viam a sociedade britânica como desprovida desde os primórdios de mérito congênito, uma raça venal que além de tudo foi muito corrompida pelo poder e pelo dinheiro com o passar do tempo, atributos que eles viam encarnados pelo odioso primeiro-ministro whig Robert Walpole (já comentado). Mas Defoe não deixava, idem, de criticar a obsessão cega e sem qualquer pano de fundo pelo dinheiro.

Poderíamos ver os mesmos entrelaçamentos complementares e/ou contraditórios em pares como Henry Fielding e Samuel Richardson. Richardson era filho de um carpinteiro de Derbyshire, não completou a escola básica e se tornou impressor, enquanto Fielding era um egresso do colégio de Eton repleto de conexões com figurões. Richardson tinha estilo agressivo, era um campeão das classes médias, e afirmava que o ofício do comércio ‘é infinitamente de mais conseqüência, e devia ser muito mais estimulado que qualquer outra posição ou ranking social, sobretudo as dos títulos inócuos típicas da Inglaterra’. E não obstante Richardson se punha estupefato diante da quantidade de personalidades decrépitas e mesquinhas das novelas de Fielding: chegou a afirmar que se não soubesse quem Fielding era, pensaria se tratar de um cavalariço. Fielding rebatia. Disse uma vez que Pamela de Richardson encorajava jovens aristocratas a se casarem com as camareiras de suas mamães, e que não conseguiria por nada pôr-se no lugar dos nobres de suas novelas. Com efeito, em vez de casar-se com a empregada de sua mãe, Henry Fielding casou-se, no segundo matrimônio, com a empregada de sua primeira esposa!” HA-HA-HA-HA!

O nome Gulliver está muito bem-dado, por sinal.¹ Sua credulidade é o mais das vezes seu ponto fraco. Ele de alguma forma se sente pateticamente (afetivamente) ligado a pessoas que conhece em suas viagens um tanto rápido demais, sem muito senso crítico. Em Lilliput, vangloria-se de seu título de Nardac, espécie de análogo a cavaleiro da rainha, lança-se como líder militar, envolve-se em intrigas as mais pavonescas, tendo de enfrentar um processo para provar que não cometeu fornicação com uma lilliputiana. A impossibilidade física do ato sexual entre seu corpo descomunal perto de um lilliputiano não parece ter passado ora alguma pela cabeça do réu que tentava, afobado, se defender. (…) De herói a vilão da pátria, Gulliver parece ser sempre o mesmo, tanto num pólo como noutro, levado unicamente pelas circunstâncias e vilezas dos outros personagens.”

¹ “Gullible” é bobo, ingênuo.

E a despeito do inconveniente de ser um inglês e de explorar terras tão remotas, ele é um ótimo aluno de idiomas, aprendendo rápido a falar como os nativos em suas jornadas, apesar de que isso soa mais como recurso estilístico para justificar a comunicação de Gulliver nessas praças do que uma característica que Swift gostaria de ter dado sem mais a seu protagonista. Se essa parte da personalidade de Gulliver se mostra tão expedita para se adaptar aos costumes forasteiros, sua outra metade é a de um inglês chauvinista cabeça oca, complacente e cego quanto aos defeitos dos seus conterrâneos. Seu relato visivelmente galante da história do reino britânico ao rei Brobdingnag logo produz um efeito contrário ao esperado, horrorizando-o, a ponto deste rei considerar que, se Gulliver fala mesmo a verdade, todos os bretões não passam de uns vermes.”

Ou ele é um imperialista ou um relativista cultural, sem meio-termo. A questão é que a novela serve para demonstrar a secreta afinidade entre os dois extremos. Não há tanta diferença entre defender acriticamente a Coroa inglesa ou o poder soberano de Lilliput. Se devêramos simpatizar com outras culturas, se isso fosse um imperativo, então por que não simpatizar com a própria civilização? Se devemos desculpar os canibais, por que não as grandes multinacionais que poluem a atmosfera? Se todas as culturas estão em ordem e seguem na supracitada ‘harmonia cósmica’, então na realidade não há nada o quê escolher, e nenhum indício de que os brobdingnaguianos seriam superiores, em qualquer sentido, aos ingleses.”

Swift com certeza conhecia o que era preconceito: difamador dos bons, satirista vituperador altamente imaginativo e polemista de vocação, capaz de ignorar a verdade só para terminar com a razão, acabava inadvertidamente por levantar a bandeira da intolerância política e religiosa. Se a sátira de Fielding é genial, a de Swift é tão brusca e amalucada em contraste que parece até semipatológica. Ele era misógino, autoritário, troçador da canalha, e acima de tudo um representante da Irlanda de seu tempo, isto é, a colônia inglesa que era quase um pária e que, caso houvesse uma corrida entre todos os povos colonizados pela Inglaterra decerto não chegaria em primeiro lugar, no juízo inglês. Eis aqui, outra vez, o incômodo e involuntário papel ambíguo de diplomata e capataz, exercido, como vimos, por James Joyce.”

Enfim, o que As Viagens parece querer ensinar? Que você deveria apreciar todas as culturas humanas em sua parcialidade, sem ser um Gulliver, mas também sem recair no niilismo. Homens e mulheres precisam cultivar ideais, como as virtudes plácidas e racionais dos Houyhnhnms, caso queiram ser mais do que reles materialistas. O problema é deixar que esses ideais exerçam um papel predatório na própria consciência. Isso seria ser tão ao revés de um materialista que representaria a negação do próprio corpo, tão ruim quanto a falta de ideais. Não se deve chegar a esse ponto, o de perceber-se com desgosto por causa do Outro. Não se conformar inteiramente com o próprio corpo, é certo, mas nem por isso chegar a reprimi-lo.”

Se não fosse por terem 4 patas e cauda, os Houyhnhnms talvez não estivessem totalmente fora do lugar num salão janeausteniano, tomando chá com Mr. Knightley. Mas convenhamos que este é o ponto: os Houyhnhnms são menos uma possibilidade humana do que, como um ensaísta bem colocou, uma impossibilidade insultante.”

Qual perspectiva é a correta? Difícil responder na época em que inventaram o microscópio. Quão distanciado ou aproximado dos fatos você precisa estar para vê-lo ‘direito’? O que se vê na lente de um microscópio é a verdade ou a distorção da verdade?”

Os novelistas do Dezoito, tendo estabelecido uma distância do mundo romanesco, estão a maior parte das vezes cônscios de que a crença no fato nu e cru é tão mítica quando o próprio ideal do Romance. A novela, sendo a forma literária que é, nada pode fazer no tocante a decidir qual perspectiva é mais ‘verdadeira’, embora exerça um importante papel na definição do ‘mundo real’. Gulliver é um empiricista ultimado ou crente no fato bruto, um ponto de vista que anda de mãos dadas com seu interesse ‘progressista’ nos problemas técnicos e mecânicos (em contraponto ao próprio Swift, parecendo-se, desse ângulo, uma reedição de Crusoe). Ele é um exemplar do ‘novo homem’: cabeça-dura, ou melhor, obstinado, pragmático, aposta todas as suas fichas na religião chamada progresso, é fascinado por esquemas quiméricos e projetos de reforma social, ansioso por galardoar sua narrativa em primeira pessoa com mapas e provas documentais que para ele atestam a veracidade absoluta do que observa nas nações forasteiras.”

Mas Swift não nos brinda com uma solução ao dilema fundamental. Ele desaparece de vista e dá espaço para o leitor lidar com as contradições postas. É da natureza de sua sátira deixar de propor qualquer resposta construtiva – em parte porque um gentleman não carece de se envolver com esses problemas, ninharia de pequeno-burguês; e em parte porque qualquer solução logo se denunciaria como parcial.”

Swift e Defoe escrevem ambos numa sociedade que acredita na verdade, na razão e na justiça teóricas, mas cuja conduta contumaz se tornou tão falsa, injusta e irracional que já não é possível acreditar em nenhum indivíduo na prática.”

Se ‘primitivos’ como os irlandeses (que não são civilizados como os ingleses, ainda) e os aborígenes do Pacífico Sul forem realmente Yahoos, parece que isso justificaria o imperialismo britânico. Mas se os Yahoos são a humanidade inteira, então os colonizadores são (metaforicamente) bestiais e vivem também cobertos de fezes, o que suprime qualquer direito de soberania que tanto se arrogam. Por esta via, o colonialismo se torna uma questão de um bando de selvagens hipócritas liderando outros selvagens, não-hipócritas. Os mestres seriam tão imprestáveis quanto os súditos – uma opinião que, n’O Coração das Trevas, desautoriza qualquer colonialismo mas confirma, ainda, alguns de seus preconceitos (sim, os nativos são mesmo uns imprestáveis).”

Yahhoo boss (Quintanilla)
O chefe Yahoo

No fim, o que cavalos pensam de nós não é o suficiente para nos rotular como Houyhnhnms nem Yahoos – exceto, talvez, para os antepassados dos nobres anglo-irlandeses, para quem era regra amar um cavalo mais do que seus entes queridos, quem dirá o povão.”

comparison gulliver vs crusoe
comparison swift vs defoe

PROJECTING THE TRANSMISSION DYNAMICS OF SARS-COV-2 [COVID19] THROUGH THE POST-PANDEMIC PERIOD – Kissler, Tedijanto, Goldstein, Grad, Lipsitch, Science Magazine, 14/04

For social distancing to have reversed the epidemic in China, the effective reproduction number must have declined by at least 50-60%, assuming a baseline R0 [taxa de transmissibilidade do vírus – per capita] between 2 and 2.5. Through intensive control measures, Shenzhen was able to reduce the effective reproduction number by an estimated 85%. However, it is unclear how well these declines in R0 might generalize to other settings: recent data from Seattle suggests that the basic reproduction number has only declined to about 1.4, or by about 30-45% assuming a baseline R0 between 2 and 2.5. Furthermore, social distancing measures may need to last for months to effectively control transmission and mitigate the possibility of resurgence.”

We used data from the United States to model betacoronavirus transmission in temperate regions and to project the possible dynamics of SARS-CoV-2 infection through the year 2025.”

According to the best-fit model parameters, the R0 for HCoV-OC43 and HCoV-HKU1 varies between 1.7 in the summer and 2.2 in the winter and peaks in the 2nd week of January, consistent with the seasonal spline estimated from the data. Also in agreement with the findings of the regression model, the duration of immunity for both strains in the best-fit SEIRS model is about 45 weeks, and each strain induces cross-immunity against the other, though the cross-immunity that HCoV-OC43 infection induces against HCoV-HKU1 is stronger than the reverse.”

Next, we incorporated a third betacoronavirus into the dynamic transmission model to represent SARS-CoV-2. We assumed a latent period of 4.6 days, and an infectious period of 5 days, informed by the best-fit values for the other betacoronaviruses. We allowed the cross immunities, duration of immunity, maximum R0, and degree of seasonal variation in R0 to vary. We assumed an establishment time of sustained transmission on 11 March 2020, when the World Health Organization declared the SARS-CoV-2 outbreak a pandemic and we varied the establishment time in a sensitivity analysis. For a representative set of parameter values, we measured annual SARS-CoV-2 infections and the peak annual SARS-CoV-2 prevalence through 2025. We summarized the post-pandemic SARS-CoV-2 dynamics into the categories of annual outbreaks, biennial outbreaks, sporadic outbreaks, or virtual elimination. Overall, shorter durations of immunity and smaller degrees of cross-immunity from the other betacoronaviruses were associated with greater total incidence of infection due to SARS-CoV-2, and autumn establishments and smaller seasonal fluctuations in transmissibility were associated with larger pandemic peak sizes.”

SARS-CoV-2 can proliferate at any time of year”

If immunity to SARS-CoV-2 is not permanent, it will likely enter into regular circulation

Much like pandemic influenza, many scenarios lead to SARS-CoV-2 entering into long-term circulation alongside the other human betacoronaviruses, possibly in annual, biennial, or sporadic patterns over the next five years.”

High seasonal variation in transmission leads to smaller peak incidence during the initial pandemic wave but larger recurrent wintertime outbreaks”

The R0 for influenza in New York declines in the summer by about 40%, while in Florida the decline is closer to 20%, which aligns with the estimated decline in R0 for HCoV-OC43 and HCoV-HKU1. A 40% summertime decline in R0 would reduce the unmitigated peak incidence of the initial SARS-CoV-2 pandemic wave. However, stronger seasonal forcing leads to a greater accumulation of susceptible individuals during periods of low transmission in the summer, leading to recurrent outbreaks with higher peaks in the post-pandemic period.”

If immunity to SARS-CoV-2 is permanent, the virus could disappear for five or more years after causing a major outbreak”

Low levels of cross immunity from the other betacoronaviruses against SARS-CoV-2 could make SARS-CoV-2 appear to die out, only to resurge after a few years”

Pharmaceutical treatments and vaccines may require months to years to develop and test, leaving non-pharmaceutical interventions (NPIs) as the only immediate means of curbing SARS-CoV-2 transmission. Social distancing measures have been adopted in many countries with widespread SARS-CoV-2 transmission. The necessary duration and intensity of these measures has yet to be characterized. To address this, we adapted the SEIRS transmission model to capture moderate/mild/asymptomatic infections (95.6% of infections), infections that lead to hospitalization but not critical care (3.08% of infections), and infections that require critical care (1.32% of infections). We assumed the worst-case scenario of no cross-immunity from HCoV-OC43 and HCoV-HKU1 against SARS-CoV-2, which makes the SARS-CoV-2 model unaffected by the transmission dynamics of those viruses. Informed by the transmission model fits, we assumed a latent period of 4.6 days and an infectious period of 5 days, in agreement with estimates from other studies. The mean duration of non-critical hospital stay was 8 days for those not requiring critical care and 6 days for those requiring critical care, and the mean duration of critical care was 10 days. We varied the peak (wintertime) R0 between 2.2 and 2.6 and allowed the summertime R0 to vary between 60% (i.e. relatively strong seasonality) and 100% (i.e. no seasonality) of the wintertime R0, guided by the inferred seasonal forcing for HCoV-OC43 and HCoV-HKU1.”

In the case of a 20-week period of social distancing with 60% reduction in R0, for example, the resurgence peak size was nearly the same as the peak size of the uncontrolled epidemic: the social distancing was so effective that virtually no population immunity was built.”

Strong social distancing maintained a high proportion of susceptible individuals in the population, leading to an intense epidemic when R0 rises in the late autumn and winter. None of the one-time interventions was effective in maintaining the prevalence of critical cases below the critical care capacity.

Intermittent social distancing could prevent critical care capacity from being exceeded). Due to the natural history of infection, there is an approximately 3-week lag between the start of social distancing and the peak critical care demand. When transmission is seasonally forced, summertime social distancing can be less frequent than when R0 remains constant at its maximal wintertime value throughout the year. The length of time between distancing measures increases as the epidemic continues, as the accumulation of immunity in the population slows the resurgence of infection. Under current critical care capacities, however, the overall duration of the SARS-CoV-2 epidemic could last into 2022, requiring social distancing measures to be in place between 25% (for wintertime R0 = 2 and seasonality) and 75% (for wintertime R0= 2.6 and no seasonality) of that time. When the latent, infectious, and hospitalization periods are gamma-distributed [segundo uma constante, e não exponencialmente], incidence rises more quickly, requiring a lower threshold for implementing distancing measures (25 cases per 10,000 individuals for R0 = 2.2 in our model) and more frequent interventions.”

SERIAM NECESSÁRIOS MUITO MAIS DO QUE APENAS HOSPITAIS E LEITOS DE CAMPANHA: “Increasing critical care capacity allowed population immunity to be accumulated more rapidly, reducing the overall duration of the epidemic and the total length of social distancing measures.”

The observation that strong, temporary social distancing can lead to especially large resurgences agrees with data from the 1918 influenza pandemic in the United States, in which the size of the autumn 1918 peak of infection was inversely associated with that of a subsequent winter peak after interventions were no longer in place.”

Although disease dynamics may differ by age, we did not have sufficient data to parameterize an age-structured model. We also did not directly model any effect from the opening of schools, which could lead to an additional boost in transmission strength in the early autumn. The transmission model is deterministic, so it cannot capture the possibility of SARS-CoV-2 extinction. It also does not incorporate geographic structure, so the possibility of spatially heterogeneous transmission cannot be assessed. The construction of spatially explicit models will become more feasible as more data on SARS-CoV-2 incidence becomes available; these will help determine whether there are differences in seasonal forcing between geographic locations, as for influenza, and will also help to assess the possibility of epidemic extinction while accounting for re-introductions.”

In a recent study, an estimated 4% of individuals with coronavirus sought medical care, and only a fraction of these were tested.”

Our findings generalize only to temperate regions, comprising 60% of the world’s population, and the size and intensity of outbreaks could be further modulated by differences in average interpersonal contact rates by location and the timing and effectiveness of non-pharmaceutical and pharmaceutical interventions. The transmission dynamics of respiratory illnesses in tropical regions can be much more complex. However, we expect that if post-pandemic transmission of SARS-CoV-2 does take hold in temperate regions, there will also be continued transmission in tropical regions seeded by the seasonal outbreaks to the north and south. With such reseeding, long-term disappearance of any strain becomes less likely, but according to our model the effective reproductive number of SARS-CoV-2 remains below 1 during most of each period when that strain disappears, meaning that reseeding would shorten these disappearances only modestly.”

While long-lasting immunity would lead to lower overall incidence of infection, it would also complicate vaccine efficacy trials by contributing to low case numbers when those trials are conducted, as occurred with Zika virus. In our assessment of control measures in the initial pandemic period, we assumed that SARS-CoV-2 infection induces immunity that lasts for at least 2 years, but social distancing measures may need to be extended if SARS-CoV-2 immunity wanes more rapidly. In addition, if serological data reveals the existence of many undocumented asymptomatic infections that lead to immunity, less social distancing may be required. Serology could also indicate whether cross-immunity exists between SARS-CoV-2, HCoV-OC43, and HCoV-HKU1, which could affect the post-pandemic transmission of SARS-CoV-2. We anticipate that such cross-immunity would lessen the intensity of SARS-CoV-2 outbreaks, though some speculate that antibody-dependent enhancement (ADE) induced by prior coronavirus infection may increase susceptibility to SARS-CoV-2 and exacerbate the severity of infection.”

A vaccine would accelerate the accumulation of immunity in the population, reducing the overall length of the epidemic and averting infections that might have resulted in a need for critical care. Furthermore, if there have been many undocumented immunizing infections, the herd immunity threshold may be reached sooner than our models suggest. Still, SARS-CoV-2 has demonstrated an ability to challenge robust healthcare systems, and the development and widespread adoption of pharmaceutical interventions will take months at best, so a period of sustained or intermittent social distancing will almost certainly be necessary.”

Less effective one-time distancing efforts may result in a prolonged single-peak epidemic, with the extent of strain on the healthcare system and the required duration of distancing depending on the effectiveness. Intermittent distancing may be required into 2022 unless critical care capacity is increased substantially or a treatment or vaccine becomes available.”

PSICANALISAR ou: Terapia como Jogo do Zero ou do Apuro da Diferença; ou: Como reavaliar e progredir sua própria análise em retrospecto – Serge Leclaire

Ed. Perspectiva

DIC poliglota:

Babotchka: a borboleta em russo.

Babouchka: Vovozinha (afetuoso) em russo.

Bücherwurm: verme-de-livro, porém no vernáculo seria entendido como “rato de biblioteca”.

deiscência: cisão em dois de algo previamente uno, no sentido de romper-se, fender-se, reabrir-se, uma cicatriz, p.ex. Pode-se dizer que o parto é uma deiscência entre mãe e filho, bem como o desmame sua reiteração simbólica.

1. O OUVIDO COM QUE CONVÉM OUVIR

Eu não acredito que o Victor Hugo nunca tenha ouvido falar de Leclaire!

é então que tudo se passa como se o psicanalista tivesse pensado em voz alta e o paciente lhe respondesse como homem versado nos rudimentos da teoria e da prática analíticas, como são hoje quase todos os que se submetem a uma análise.”

Laios: eu-lá

MA GRITE!

MATE o pai na transparência

transferência

ferro

ferido

sangue

Irrefutável é o caralho!

2. O DESEJO INCONSCIENTE. COM FREUD, LER FREUD.

De fato atualmente ninguém pode dizer que esqueceu seu guarda-chuva ou perdeu seu isqueiro – desenhos habituais de enigmas sexuais – sem provocar imediatamente o sorriso entendido do seu interlocutor, hermeneuta de ocasião.”

sexo, drogas e freud ‘n’ roll

De todas as baboseiras referentes à auto-análise de Freud mediante a interpretação de seus sonhos, o que eu depreendo é: tios mais novos que seus próprios sobrinhos têm egos enormes!

Por outro lado, Freud não diz quase nada do amarelo como cor dos judeus. Apenas alude – analisando o sonho com o Conde Thun – a uma forma botânica do anti-semitismo, a guerra dos cravos, que assolava Viena. Os cravos brancos eram a insígnia dos anti-semitas; os vermelhos, dos sociais-democratas.” Henrique Quanto?

BLÁBLÁBLÁ: “Além disso, o amarelo – como é sabido de todo analista de criança – é a cor chave do erotismo uretral.” Preferia quando o papo era sobre cores para usar na virada de ano…

Não é nada estranho para um leitor francês ver o pissenlit se inscrever tão profundamente na série botânica.” Mijar na cama mas folha da flor dente-de-leão (Löwenzahn) ao mesmo tempo. Dandelion, Taraxacum officinale, planta de coloração amarela. Tudo indica que é um subgênero de margarida.

Leão não escova os dentes; criança que mija na cama bebe muita água. Bege. Neve.

“Depois de ter lido a narração da expedição de Nansen ao Pólo Norte, sonhou estar aplicando, naquele deserto de gelo, um tratamento elétrico no corajoso explorador para curá-lo de uma dolorosa ciática. Ao analisar esse sonho, descobrirá uma história de sua infância que torna o sonho compreensível. Lá pelos seus 3 ou 4 anos ouviu, um dia, os mais velhos falarem de viagens, de descobertas e perguntou a seu pai se aquela doença era muito perigosa. Sem dúvida, ele confundira viajar (reisen) com dor (Reissen).”

Raizen sun: Yusule

Yu Yu HakuDor

Chinese rice

Raiz de todos os males

H” is (rá é…)

Fakafka ferimento brancoabsurdo

Viagem

Viadagem

Vajem

Virgem

A última formiga se esconde (late-ant).

3. TOMAR O CORPO AO PÉ DA LETRA OU COMO FALAR DO CORPO?

Ao tentarmos fugir à ordem lógica das representações que a psicanálise promove, encontramos, como consolo, o modelo biológico em sua opacidade metafórica.”

moções de desejo (Wunschregungen)” “moções pulsionais (Triebregungen)”

O equívoco do conceito de representante, o recurso constante à hipóstase biológica são constantes importantes no pensamento de Freud. Elas correspondem, segundo M. Tort, a «um divórcio incontestável entre a elaboração da experiência clínica das neuroses (ou das psicoses) e a teoria ou doutrina das pulsões tratada por Freud de mitologia, cujo caráter necessariamente especulativo ele manteve».”

Se no momento eu declarar que o fetiche é um substituto do pênis, vou certamente causar uma desilusão. Apresso-me também a acrescentar que não é o substituto de um pênis qualquer, mas de um pênis determinado, totalmente especial e de grande significado nos primeiros anos de infância, que se perderá, porém, mais tarde.” F.

Tal explicação foi constatada como profundamente verdadeira em todas as análises de pervertidos.”

em uma história particular, o que dá tal privilégio a uma zona em vez de outra, o que estabelece de algum modo uma hierarquia dos investimentos erógenos e o que singularizaria a primazia genital?”

a zona erógena pode ser definida como um lugar do corpo onde o acesso à pura diferença (experiência do prazer) que aí se produz fica marcado por um traço distintivo, uma [primeira] letra [a “/” lacaniana], que se pode dizer estar inscrita nesse lugar ou colocada em sua abstração do corpo.”

Metaforicamente, podemos dizer que um intervalo é fixado no lugar em que se produziu a diferença e o jogo do desejo vai poder se desenrolar em tomo do cerco desse vazio, dentro da regra de seus engodos. É antes de tudo a ilusão retrospectiva de um primeiro objeto perdido em cuja falta se originaria o movimento do desejo” “É verdade que, num segundo tempo, o ciclo das repetições chega à eleição de um objeto determinado, substitutivo e, ao mesmo tempo, estranho à primeira letra.” “Para substituir ao mítico primeiro seio perdido, qualquer coisa que se leve à boca pode servir, até o dia em que a escolha se fixe na orelha do macaco de pelúcia que passa a ser, por um tempo às vezes bem longo, o novo mediador obrigatório de todas as satisfações.”

Tomar o corpo ao pé da letra é, em suma, aprender a soletrar a ortografia do nome composto pelas zonas erógenas que o constituem; é reconhecer em cada letra a singularidade do prazer (ou da dor) que ela fixa e nota ao mesmo tempo”

4. O CORPO DA LETRA OU O ENREDO DO DESEJO DA LETRA

Diferente, necessariamente, da diferença que reaviva como prazer de zona, o objeto deve ser concebido como elemento estranho ao corpo que ele excita.”

O objeto é fundamentalmente o outro corpo cujo encontro atualiza ou torna sensível a dimensão essencial da separação.” “O objeto parece se caracterizar por sua qualidade de estar separado na medida em que o intervalo dessa separação faz surgir a dimensão do espaço ao mesmo tempo que a anulação possível do intervalo que ali se inscreve.” “Desta forma, podemos dizer que o objeto, como parte (pedaço separado) do corpo, representa (no sentido comum da palavra) a dimensão de alteridade essencial implicada na concepção do corpo erógeno.”

De modo inverso poderíamos dizer que o objeto, por sua opacidade, representa segurança no lugar da falta.”

Quando viu a jovem empregada de joelhos, esfregando o chão, suas nádegas proeminentes e o dorso em posição horizontal, reviu nela a atitude tomada por sua mãe durante a cena do coito.”

Para a criança, essa situação privilegiada de ser assim promovido pela mãe à condição de um pequeno deus, constitui também uma situação fechada; isso porque uma tal conjuntura apaga, pela intensidade do gozo atingido, o efeito das insatisfações onde nasce o desejo. O ídolo-criança se vê assim preso numa espécie de relicário precioso cujo invólucro o isola de um verdadeiro acesso à realidade da letra” “Se essa mãe que o tem como objeto querido sente prazer com um outro, o seu mundo desmorona . . . a não ser que ele encontre uma defesa para esse golpe fatal.”

5. O SONHO DO UNICÓRNIO

Philippe gosta dos seus pés que não lhe parecem feios e se diverte em brincar com eles. Houve uma época de sua infância em que, andando muito com os pés descalços, esforçava-se por calejar a planta dos pés, sonhando deixá-la dura como corno para andar sem perigo sobre os solos mais ásperos e correr pela praia sem medo de estrepes [armadilhas, no chão ou sobre muros] ocultos na areia.” “invólucro de uma pele invulnerável”

Valor de representação fálica, o unicórnio constitui tema comum das narrações lendárias. O unicórnio, emblema de fidelidade, é evidentemente um animal difícil de ser pego. Diz a lenda que quem o quiser prender deve deixar, na solidão da floresta, uma jovem virgem como oferenda.”

A cicatriz, como toda a superfície do corpo, é uma recordação dos cuidados atenciosos que lhe dedicou uma mãe impaciente por satisfazer sua paixão ao nível das (sic) necessidades do corpo”

Philippe foi sem dúvida o preferido de sua mãe, mais que seu irmão, mas também mais que seu pai. Encontramos no horizonte sempre velado de sua história aquela satisfação sexual precoce. Nela Freud reconhece a experiência que marca o destino do obsessivo [que se contrapõe ao do psicótico]. Ser escolhido, mimado e saciado por sua mãe é uma beatitude e um exílio de onde é muito difícil voltar.”

O CORTE DE CABELO 2005

O CORTE DE CABELO APÓS AS FÉRIAS 2003

O CORTE DE CABELO DE VERÃO

ÚLTIMA ESTAÇÃO

AMBÍGUA

D’EROS

<Unicórnio> (licorne) marca assim em seu traço conciso o gesto de beber e o movimento das duas mãos juntas para formar uma taça – réplica côncava da convexidade do seio”

Poord’jeli – na própria escansão de sua enunciação secreta, saltando em torno do d’j central e recaindo sobre o júbilo do li – parece ser tanto o modelo como a reprodução do movimento da cambalhota. Há certo interesse em comparar esse nome secreto Poordjelli, que Philippe arranjou para si, com aquele que recebeu de seus pais: Philippe Georges Elhyani (transcrito também com o mínimo de deformações necessárias, tanto para resguardar o segredo da identidade real quanto para preservar todas as possibilidades de transgressão da análise).”

Com a evocação desse nome secreto, parece que atingimos um termo intransponível: modelo irredutível, desprovido de sentido, aparece verdadeiramente como um desses nós que constituem o inconsciente em sua singularidade.”

A rosa de Philippe é fonte inesgotável, indo do perfume das rosas à guerra das duas rosas, local mítico, tema místico, coração entre os dois seios no mais profundo de la gorge (peito) (garganta, literalmente).”

RAFAELDEARAUJOAGUIRAFAEL

nós narcisos

nós que atam os futuros-afogados n’orgulho de ser quem s’é

CAMBALHOTA, SALTO MORTAL

PIRUETA

piru

biruta

puta

punheta

chupeta

róta confulsa

pior de todas as rotas

ruas

perua que leva com motor barulhento

aos confins do vale dos fins

derradeiros

radiante

derredor

do nada real

reino do’Eu

6. O INCONSCIENTE OU A ORDEM DA LETRA

É verdade que a letra é justamente apresentada como esse traço cujo formalismo absoluto suprime toda necessidade de referi-la a outra coisa senão a outras letras, conexões que a definem como letra. Em outras palavras, é o conjunto de suas relações possíveis com outras letras que a caracteriza como tal, excluindo qualquer outra referência. Mas esse cuidado eminentemente louvável de restaurar a própria possibilidade de análise isolando, dentro de uma pretendida <pureza> formal, os termos mínimos de uma lógica não corresponde de fato senão a uma forma extrema de desconhecimento: a que patenteia a recusa sistemática de reconhecer que o conjunto da vida psíquica – e portanto de toda elaboração lógica – é constituído pela realidade do recalque.”

Já consideramos por que foram, entre outros monemas, Poor, d’j e li que se fixaram, quando analisamos as relações da fórmula (ou nome secreto) com o nome próprio do sujeito. O que não interrogamos, de propósito, foi o processo mesmo dessa fixação em torno do movimento de júbilo.”

com o esquizofrênico, achamo-nos confrontados com sombras de letras. Cada uma delas conduz ao conjunto das outras sombras indiferentemente ou exclusivamente a uma delas, que parece ter para ele papel de complemento sexual.”

No mal-estar, beirando o desmaio, da dor provocada por uma topada na quina de uma pedra subsiste apenas – ou se intensifica – o perfume da madressilva que cresce nas moitas ao redor. É como se no choque desta quase-deslocação pela erupção da dor, à beira do desvanecimento, o cheiro da madressilva se desprendesse, como único termo distinto, marcando por isso mesmo – antes que o desvanecimento propriamente dito ou a segunda dor se produzam – o próprio instante em que toda coerência parece se anular, ao mesmo tempo em que ela se mantém em torno desse único perfume.”

Mais simplesmente ainda, imaginemos, no auge do gozo amoroso, a cabeça caída da amante, cujo olhar perdido fixa em um olho sem fundo a imagem duplamente invertida que as cortinas abertas e presas por frouxos cordões desenham com a luz da janela. Teremos dessa forma evidenciado, em sua contingência, o próprio traço que parece fixar a síncope do prazer.

Assim, em todos esses casos, no instante em que se produz a diferença na extrema sensibilidade do prazer ou da dor, um termo aparece, se mantém ou se desprende, termo que parece impedir o total desfalecimento do momento

a própria letra, único termo que continua marcado pelo vazio do prazer.”

game gado save say V say F… safe giver hiver

lava life lie lavar wash is det

veremos, aliás, que tal possibilidade de formação de termos novos é uma característica necessária da ordem do inconsciente.”

Deixemos bem claro que é difícil falar com pertinência desta anulação, pois, por definição, o zero assim evocado é, por sua vez, realmente anulado como zero enquanto dele falamos como um termo.”

zero rose salmão cheiro de rosa e de peixe

o gozo é interdito ao falante como tal” Lacan

ninguém jamais pode dizer <eu gozo> sem se referir por um abuso intrínseco à linguagem, ao instante do prazer passado ou futuro – instante esse em que precisamente toda possibilidade de dizer se desvanece.”

Dentro de uma perspectiva dinâmica, o gozo designa a imediatidade do acesso à <pura diferença> que a estrutura inconsciente impede e dirige ao mesmo tempo.”

Muito sumariamente, podemos indicar aqui que a prevalência de um termo [letra-objeto-sujeito] da estrutura constitui o modelo de uma organização neurótica, ao passo que o enfraquecimento de um deles caracteriza a organização psicótica.”

Assim como na singularidade do exemplo do Homem dos Lobos a objetalidade maciça de um traseiro de mulher provoca o mais violento desejo, como o apelo de um vazio vertiginoso, assim também todo objeto, numa economia de desejo, parece haurir seu poder de atração do zero que ele mascara, dessa realidade do gozo que ele acalma para manter sua diferença em relação à morte.”

objetalização da letra, para fazer dela um sinal, assim como literalização do objeto, já descrita na origem do devir do obsessivo.”

A vida como processo do olho que vê “imparcial” seria o relógio de parede, em que, à meia-noite ou ao meio-dia o ponteiro da hora desaparece sob o ponteiro dos minutos (ou fundindo-se a sua cor e indistinguível a certa distância), e tudo se sucede sempre igual, de 12 em 12 horas (doze unidades de si mesmo). A vida daquele que vive (cada ponteiro) é sempre novidade e não se sabe que se está em círculo “esse tempo todo”, com o perdão da expressão tão cirúrgica, ovalada e cronométrica.

De modo mais aproximativo, poderíamos dizer que a função subjetiva é a contradição nela mesma e que esta particularidade a torna, em geral, difícil de conceber.”

É certo que a tríade objeto, letra e sujeito se oferece facilmente a uma esquematização simplista demais, na medida em que a trivialidade dos termos, que caracterizam as 3 funções, pode servir de pretexto para dissimular a originalidade radical de seu emprego na descrição do inconsciente.” Mas: “Parece inútil pretender evitar absolutamente o risco de redução simplificadora de uma descrição do inconsciente. Querer <colocar> de maneira radical a objetalidade, a literalidade ou a subjetividade da ordem inconsciente, para melhor distinguir o conceito da acepção comum das palavras em questão, seria encetar um processo <neurótico> (ou perverso) de objetalização da letra, negando com isso a intenção que o subentende no processo.”

o d’j da fórmula de Philippe seria provido de uma forte valência subjetiva e de uma função literal de valência fraca.” O contrário com li. Poor tem prevalência objetal, para seguir o didatismo do tripé.

com a diferença sexual, tudo já está escrito.”

é a relação bem problemática da função subjetiva com o conjunto do sistema literal assim concebido que permite caracterizar a dimensão essencialmente psicanalítica da <transferência>.”

7. O RECALQUE E A FIXAÇÃO OU A ARTICULAÇÃO DO GOZO E DA LETRA

Sem dúvida, é essa espécie de tendência fundamental do sistema primário [o inconsciente] para o seu próprio aniquilamento que Freud observou e sustentou contra todos como <pulsão de morte>. (…) o conjunto das relações recíprocas que descrevemos tendem a manter em torno do zero radical um jogo que o produz por meio do objeto, o representa pela letra e o oculta pela alternância do sujeito. Pela articulação da letra, que é a palavra, o horizonte do gozo em sua anulação não cessa, como a beatitude na palavra de Deus, prometida e recusada, outorgada somente depois da morte.”

Após essa lembrança da instabilidade do sistema oscilante que é o inconsciente – aparentemente ameaçado a todo instante de reabsorção – compreenderemos melhor por que ele tende a suscitar a organização paralela de um sistema antinômico ao seu, capaz de assegurar-lhe de algum modo uma organização menos precária.”

é próprio da ordem do inconsciente suscitar o deslize da letra em direção ao sinal indicador do objeto e gerar uma instância unificante e estável, a que chamaremos de moi. É também da natureza própria da ordem inconsciente manter a função estável do objeto, deixando <esquecer>, por assim dizer, que o objeto tem essa estabilidade devido ao absoluto do zero que ele mascara.”

Não nos deteremos nessas leis que regem o sistema da consciência. Elas são por demais conhecidas por todos, psicólogos ou não.”

O recalque é a roda que locomove os dois eixos in e cons.

levantamento do recalque. Esse passo dá acesso à ordem inconsciente como tal numa fórmula literal – Poord’jeli – desprovida de significado mas carregada, em sua permanência, de imperativos libidinosos.”

Como substituto materno, Lili constitui um objeto incestuoso – por isso mesmo interdito – que a organização consciente se vê obrigada a recalcar para as partes inferiores do inconsciente.”

Do ponto de vista consciente, a fórmula parece muito <inocente>. (…) quanto mais um elemento é estruturalmente inconsciente, no sentido em que o definimos, tanto menos poderá ter acesso a uma ordem em que nada o pode acolher, a não ser para se alterar por sua vez.”

um deslize da função literal para um valor significativo.” Cf. DIMITRI & O BILHETE

lit-lit

cama-cama

coma-coma

nurse nurse

coma — morte

s e x o

reprodução consciente

use condom

nur’s or not nur’s the q?

arse null

o interdito se apresenta como a barreira de um dito, isto é, como o fato de uma articulação literal, escrita ou falada.” NEM SEQUER PRONUNCIARÁS ISTO AQUI.

Não comerás tua mãe porque não queres que teu filho como tua esposa.

INFÂNCIA INFALADA (redundança): “Aquele que diz, por seu dito, se interdita o gozo ou, correlativamente, aquele que goza faz com que toda letra – e todo dito possível – se desvaneça no absoluto da anulação que ele celebra.” Ponto G de Gozo de Inexprimível.para.o.Homem GIH

life safe GIHver

Gozo = cegueira = bliss = blind…doublebind…morte em vida PERIGO PERIGO PERIGO

Prazer = gozo calculado (racional) +18 civilização & all (reversibilidade imediata)

Aquele que diz, por dizer, se interdiz(ta)” Lacan, intraduTZível

Aquele que dita, por ditar, se interdita

gozozero

G O Z O

Z E R O

0 E R 0 (S)

0s

Or?G

the her0

hoe

O infinito são dois zeros sucessivos com intervalo 0 entre eles.

COMO SALVAR FREUD COM UM MÍNIMO (PRÓXIMO DE ZERO) DE ESFORÇO! “o gozo não poderia, por isso mesmo, ser pura e simplesmente confundido com a morte, a não ser que se queira confundir a ordem inconsciente com a ordem biológica.”

A precariedade da ordem inconsciente, que anteriormente já apontávamos, manifesta-se clinicamente nas organizações psíquicas de tipo psicótico. Em tais casos, parece que o recalque não se teria exercido, ao mesmo tempo, na medida em que os mecanismos próprios da ordem inconsciente se manifestam de maneira mais ou menos patente à luz do dia – fato indicativo de falta de recalque propriamente dito – e na medida em que as próprias estruturas inconscientes se demonstram enfraquecidas ou, pelo menos, precárias, como se as funções que as asseguram estivessem inseguras – fato indicativo de falta de recalque originário.”

ÓLEO DA RODA DO DEVIR (DENTES SE ENTRELAÇANDO ENTRE DOIS ABISMOS INFINITOS – QUE IMAGEM!): “Assim, acham-se correlativamente perturbadas tanto a função estável [“nadal”] quanto a função tética [existencial], a ponto de – como já lembramos – uma não se poder mais distinguir da outra e as letras serem ali manipuladas como objetos ou, reciprocamente, os objetos como letras.”

O zero clama por (se)u(m) Hamlet, sem o qual ele (o nada!) não seria nada!

Mas persiste aqui uma questão de importância capital: como se realiza o recalque originário? Interrogação legítima e necessária na medida em que, como acabamos de ver, esse tempo parece faltar no caso dos destinos psicóticos.”

AS 3 ETAPAS DE QUEM SE INSCREVEU NO COMPLEXO DE ÉDIPO E PORTANTO FUGIU DA PSICOSE PRIMÁRIA

De início, é preciso que a carícia ao nível da covinha seja sentida como prazer; que uma diferença entre as duas bordas da encantadora depressão tenha sido sensível, intervalo que vai se marcar e que, por ora, reduziremos à (I) fórmula C1-C2, inscrevendo esse intervalo entre 2 pontos sensíveis, mas ainda não-erógena, da covinha. A seguir, é preciso – para que tal carícia seja tão intensamente sensível, agradável e diferente do contato de um pedaço de lã ou das costas da própria mão da criança – que a epiderme do dedo acariciador seja particularmente distinguida como sendo de outro corpo, intervalo que formularemos em (II) Cu-Do, covinha de um, dedo do outro. Finalmente, é evidente que – para que este último intervalo possa ser realmente distinguido nessa clivagem de alteridade – a condição mais importante e absoluta é que o dedo acariciador esteja constituído como erógeno (na economia do corpo do Outro), (III) intervalo que poderemos formular como D1e-D2e marcando assim a diferença sensível, e já erógena para ela [covinha da criança], da ponta do dedo da mãe.”

(I-II) sensibilidade esquisita

(II) “diferença” proximal 0

(II-III) erogeneidade do Outro

clivagina

tô fala no

Pobre da criança que não sabe o que é um cafuné…

novas zonas coloniais

ALGO TÃO BANAL PORÉM TÃO ESSENCIAL: “Mas como pode então suceder que essa operação não se produza ou se efetue de modo tão precário que pareça estar mal-assegurada, tal como supomos que deveria se produzir na origem dos destinos psicóticos?” “Precisamos, pois, considerar com mais atenção o que designamos como <intervalo erógeno do corpo do outro>, enquanto nos parece que sua dimensão própria é essencial para que seja efetuada a clivagem do recalque originário.”

O CARENTE-PADRÃO: “De um lado, podemos considerar que a perturbação do intervalo erógeno, no quadro da ordem neurótica, resulta do efeito do recalque secundário. Nada mais trivial que a extrema erogeneidade de uma zona íntima velada por uma hiperestesia ou uma anestesia que não exige analistas para despertar sua função erógena.”

ATAVICOSE: “Mas pode ser que o recalque seja mais vigoroso e que o conjunto do revestimento cutâneo caia sob o golpe dos seus efeitos. Imagina-se, então, no quadro de nosso exemplo, o pouco efeito <inscritor> que pode ter a mão de uma mãe afligida por tal recalque.” PSICOSE É LOUCURA DE FAMÍLIA

ANALFABETOS DO CORPO E DO ESPÍRITO, SEGREGAI-VOS!

MARCA DE ZONA ERÓGENA POR TELECONF.

ERAM OS MACACOS PSICOPATAS?

De um lado o fálus é aquele traço que, isolado em sua ereção em forma de estela ou de obelisco,¹ simboliza universalmente o caráter sagrado e central dessa eminente zona erógena. De outro lado, ele é, sem outra mediação, reduplicação ou representação, em si mesmo, termo diferencial que faz o corpo macho ou fêmea.”

¹ Uh, pedra filosofal da porra toda!

Afirmar que o fálus é a um só tempo a letra e o estilete que a traça não equivale a afirmar que gerar sexualmente basta para garantir, da parte do genitor, uma realização verdadeira do recalque originário. Isso porque nada impede o exercício de sua função orgânica a despeito de todo gozo digno desse nome. Contudo, a implicação fálica em tudo que se relaciona com o gozo, isto é, em tudo que se refere à afirmação da letra e à sua transgressão, deve-se ao privilégio dessa parte do corpo de ser em si mesma um termo diferencial (da fundamental diferença dos sexos) sem outra mediação, reduplicação ou representação.”

EDIPIADAS TRANSVERSAIS

O gozo genital, no homem e na mulher, parece guardar dessa determinação erógena mais ou menos antiga, suas características profundamente diferentes que Tirésias por experiência, diz a lenda, teria podido testemunhar em termos aritméticos: <…Um dia Zeus e Hera discutiam para saber quem, o homem ou a mulher, sentiria maior prazer no amor quando lhes ocorreu a idéia de consultar Tirésias, único que fizera a dupla experiência. Tirésias, sem vacilar assegurou que se o gozo do amor se compusesse de 10 partes, a mulher ficaria com 9 e o homem com 1 só>.” E com isso Hera (uma vez) arrancou a luz dos olhos de Tirésias.

Foucault banha-se milhões de vezes no rio, ao contrário de Lévi-Strauss, diria Heráclito.

O LADO ESCURO DA LUA

A conjunção dessas 3 aberturas em um mesmo eixo, produz o que se pode chamar de o contrário de um eclipse, na medida em que aquilo que é eclipsado, escondido, escamoteado, é justamente o esconderijo ou a ocultação habitual que sutura mais ou menos todo intervalo.” A diferença é que talvez só haja uma oportunidade para esse eclipse astronômico acontecer, ele não é cíclico…

O LÓBULO ESCURO E SURDO AO PÉ DA ORELHA

O músico é o lóbulo do músico.

O sol é líquido por fora e a lua é sulcada de crateras. Isso já o bastante para sermos felizes até o gás hélio acabar!

8. PSICANALISAR. NOTA SOBRE A TRANSFERÊNCIA E A CASTRAÇÃO.

O convite para falar que é feito ao paciente não se abre sobre algum acontecimento maiêutico ou alívio catártico… assemelha-se mais, em realidade, ao <diga 33, 33> do médico cujo ouvido está atento apenas à ressonância torácica da voz.”

On démolit

le Cherche-Midi

à quatorze heures

tout sera dit.” Queneau

O jogo do zero e sua representação – ou a relação do sujeito à falta que ele acentua no conjunto do qual faz <parte> – evocam esta <cena primitiva> em que Freud nos ensinou a situar o espaço do impossível saber sobre <a origem> de <cada um>.”

Quem sou eu?

Filho dos meus pais.

Filho 2 de 2 pais.

Ângulo negro de uma casa de luz fraca.

É preciso contrair uma dívida para comprar a liberdade

E viver escravizado daí em diante num novo espaço.

Confere?

No entanto não deixa de ser

Um novo zero

No bom sentido

Do número

Se é

Que m’entende!

Não há outro artifício na psicanálise que proporcionar ao paciente a suspensão necessária de nossa <compreensão>, onde o dizer poderá evoluir”

que vazio faria aparecer seu desaparecimento?”

1. nunca ter nascido

2. morrer hoje

Todo mundo já maquinou este simples exercício. Honestamente? Sabe-se lá! Mas eu já escrevi cerca de 2 necrológios para mim mesmo! Montaignesco!

a PEDRA no meu sapato que me incomoda há tanto tempo;

a TESOURA, pois eu corto com mordacidade o discurso dos Outros;

o PAPEL de mãe e ao mesmo tempo o dinheiro que eu rasgo, e que pode embrulhar a pedra e qualquer estômago de pedra, triangulando uma vitória!

tábula rasa instrumento cortante BAGULHO INÚTIL EM EXCESSO SOBRE A TERRA, sendo aliás a própria terra!

Pode ir na frente, eu vou de patinete!

Preciso manter o peso, perder se possível, não sou motorizado!

Meu combustível?! Autopropalado!

Eu ajudo quem os pais atrapalham Sociedade Anônima e Anômica

Eu sou o verdadeiro Messias da minha própria autocriada época.

Devaluei o $$. Olhos de serpente não vêem nada neste covil empoeirado, embolorado. Fica um dissabor equivalente, equidistante. Notícias boas e ruins vêm e vão em caráter indiferente. Ó, valei-me! Escapei dos braços de muitas Shivas e religiões!

A fúria e o Som (WILSON!!! – voz do solitário), não necessariamente nesta ordem. Significando tudo, retrocedendo quase nada. Epílogo da peça elizabetana. N de não-vingança. Eu adoro o mato, tanto que o verbo eu conjugaria, noutras circunstâncias e, sabe-se, eu tenho bastante mato escapando pelo couro, ah!, cabeludo, eriçado! Ar-tista sem fôlego – mas que espécie de paradoxo é esse?! Viva cada dia como se fosse seu último – IN VINO VERITAS!

Rogai por nós cobradores agora e na hora de nossa dívida, Aquém!

Eu e eles somos ambos (?!) gratos, a nosso modo.

Em uma fórmula oriunda do ensino de J. Lacan, que muitos analistas presentemente adotaram, a transferência está situada como o efeito de uma não-resposta ao pedido constituído pelo discurso do paciente.”

Seja um pai para mim ou me diga aquilo que eu quero que me digam: talvez nada! Por desencargo de consciência… Para dar uma descarga no FLUXO DE CONSCIÊNCIA, melhor dizendo.

Refletir sobre a i-nelutável disparidade i-ntelectual…

Rafa el Escritor

Resta o problema, colocado desde o primeiro capítulo, da sujeição do psicanalista ao modelo teórico que determina sua posição e sua função. Vemos à luz do que acabamos de desenvolver, que convém que este suplemento de sujeição seja reduzido ao extremo. Quer isto dizer que o modelo teórico só pode consistir numa fórmula onde apareça como dominante a função radical do zero e onde se manifeste, reduzida à sua <mesmidade>, a função alternante do sujeito.”

TOGASHI ROLUDO (OU FENDIDO): “De modo mais figurado, digamos que a castração é a cavilha ausente que junta os termos para constituir uma seqüência ou um conjunto; ou ao contrário, digamos que ela é o hiato, a clivagem que marca a separação dos elementos entre si.”

a castração – mesmo se permanece mal[-]pensada ou insuficientemente conceitualizada – entra em cena em todo processo psicanalítico, na medida em que o tratamento visa evidenciar, analisar a articulação singular de cada <um> [I] com o espaço do zero [0] que ele desvenda no conjunto dos outros <uns> [11111110101010101…].”

Houve um tempo em que a psicanálise cheirava a enxofre e fazia felizmente parte das atividades malditas: sabia-se então o que ela era: uma interrogação sobre o gozo.” “O que é bendito, benedictus, bemdito, é a afirmação redobrada e magnificada do dito que põe barreira à anulação que é o gozo. O maldito, maledictus, maldito, não é precisamente esta interrogação – diabólica – a respeito da própria função do dito?”

DEL SIGNIFICADO A LAS OPCIONES – Gillo Dorfles

Trad. Carlos Manzano (1973, 1975)

DIC:

capellone: (it.): cabeludo

engreimiento: presunção

gagà (it.): presumida

PREFACIO: PREFERENCIA Y SIGNIFICADO

El problema de la preferencia (o de la proairesis para los griegos) es un problema candente, por el cual se suele mostrar demasiado poco interés.” Em síntese, o problema monumental para o qual as massas não estão maduras (talvez jamais estejam): a relatividade e o absoluto envolvidos no <gosto>.

SEMÂNTICA PROAIRÉTICA: SIGNIFICADO (Semiótica) + PREFERÊNCIA (Estética)

A supostamente utópica ou impossível DISCUSSÃO DO GOSTO após a Metafísica.

Até que ponto e mediante que meios é possível determinar as razões primordiais que me permitem considerar algo como preferível e atribuir um significado a tal preferência?”

Superioridade intrínseca e escala de valores.

Outridade

mosaico de opções”

Que peso tem a preferência do indivíduo contra a das massas?”

Se não se pode discutir a arte, não se pode discutir mais nada.

Hume (Of the standard of taste), ensaísta e crítico do lado de lá (metafísico): a moral bíblico-alcorânica e o drama sanguinolento são inaceitáveis.

Zeitgeist da aletheia e do Belo.

SEMÂNTICA AUTOGENÉTICA: Fragmentação pós-moderna. Morte da Zeitgeist. Coabitação virtual de todas as Zeitgeister no mesmo indivíduo. Fim de um ciclo milenar e início do IMPÉRIO DA ESQUIZOFRENIA, que não sabemos quanto tempo durará.

a necessidade de restabelecer, com critérios diferentes, um critério valorativo [valor dos valores] para aplicação aos fenômenos da vida, da arte e da sociedade.”

as enquetes de Kinsey, método contestável”

Vejamos alguns exemplos de vanguardas artísticas consideradas escandalosas quando apareceram: 1) numa galeria romana, o pintor Kounellis apresentou o quadro de uma mulher grávida, nua, por cujo ventre passeavam algumas baratas; 2) o artista americano Acconci, em NY, apresentava-se confinado em uma cabine estreita de madeira dentro da qual se entregava à masturbação; 3) na exposição Documenta de Kassel (1972), o romano Vettor Pisani expôs uma mulher nua (que vinha a ser sua irmã), cujo pescoço tinha uma argola metálica, e Pisani lhe aplicava uma <tortura simulada>, cutucando uma ferida falsa pintada na perna da modelo; 4) a escultora polaca Alina Szapocznikow expunha em Paris (1970) alguns <tumores>, modelados em plástico, hiperrealistas; 5) o artista austríaco Herman Nitsch alugou um castelo nos arredores de Viena (1968-72) para representar seu <teatro das orgias e dos mistérios> (Orgien und Mysterien Theater): tratavam-se de matanças <rituais> de cordeiros e bezerros, com cujo sangue e tripas os expectadores eram banhados; para isso, Nitsch usava condutos especialmente concebidos, que derramavam o sangue e pedaços dos intestinos sobre o público; o roteiro incluía a participação dos expectadores, que deviam, além de receber os restos mortais dos animais, besuntar-se a si mesmos e aos seus vizinhos com seus próprios excrementos; havia uma série de outros <jogos> sado-masoquistas na exposição, como a celebração de missas hereges e a crucificação simbólica de algumas das ovelhas. Aos interessados, uma descrição detalhada e explicação crítica deste evento figuram em PETER GORSEN, Das Prinzip Obszön, Rowohlt Verlag, Hamburgo, 1969,(*) pp. 114-5, que transcreve também um comunicado da polícia austríaca proibindo esse gênero de <espetáculo aberrante>. Segundo Nitsch, em carta ao próprio Gorsen, o cordeiro crucificado representa simultaneamente o Pai, o Rei, a autoridade política, o ídolo estatal, a divindade. Em suma, tratava-se de uma revivificação dos cultos dionisíacos (<A revolução é um fenômeno dionisíaco>, diz Nitsch), conducentes à liberação do homem de seus tabus religiosos e políticos. (…) É típico de nossa época pretender ressuscitar cultos e práticas iniciáticos ou pseudo-mágicos pertencentes a culturas antigas, em que ditas práticas possuíam ou podiam possuir um valor autêntico; hoje sua <imitação> – seja mediante a astrologia, alucinógenos, ritos budistas, mistérios dionisíaco-órficos como neste caso, ginástica iogue, etc. – tende a ser daninha e contraproducente a despeito da intenção autoral.

(*) Até o momento, o volume-resenha mais completo sobre as relações entre arte, pornografia e sociedade.”

Exemplos como os acima multiplicam-se em outros segmentos: já pude discorrer em outra obra sobre o caso do musicólogo que gravou em fita magnética os últimos gemidos de um homem agonizante após um acidente de trânsito; bastante conhecido é ainda o caso do cineasta japonês que filmou o transcurso dos últimos instantes da vida de seu pai moribundo de câncer.”

um deslizamento (contínuo) do significado por debaixo do significanteLacan

Conceito de ASSIMETRIA ESTÉTICA por VON WRIGHT (ou mais bem uma primeira lei da assimetria): “Assimetria significa que se um estado é preferido em relação a outro, necessariamente o segundo estado não é preferido em detrimento do primeiro; i.e., pelo mesmo sujeito na mesma ocasião” Relação subsumida na fórmula-função (pPq) ~(qPp), p≠q.

O assimétrico é a premissa de qualquer proairesis.” “O simétrico se identifica com a geometrização mórbida da esquizofrenia.” Paradoxo: a ERA DA ASSIMETRIA é a ERA DA ESQUIZOFRENIA. Que seja apenas um estágio transitório entre duas eras mais autênticas, não destrói-se a contradição inerente. Resta saber se ficaremos indefinidamente presos a uma simulação indefinida desta mesma condição, como diz Baudrillard, ou se essa dialética deixa de ser estéril e se torna propulsora da superação em algum momento. Em suma, se o “novo elemento” vitorioso será ou seguirá sendo a esquizofrenia, em seu sentido pejorativo, ou a assimetria. Em busca de uma nova simetria, de um novo pathos normal.

moral corrente: contradição em termos! moral petrificada

PRIMERA PARTE – UN ANÁLISIS PROAIRÉTICO

CAPÍTULO 1. PREFERENCIA, PREVISIÓN Y CAUSALIDAD

belief is nothing but a strong and lively idea derived from a present impression (perception) related to it” HUME, A Treatise of Human Nature, 1739

A maioria das vezes, os lingüistas realizam o estudo dessas modificações [de significante-significado] exclusivamente por zelo científico e erudito, sem ter em conta adequadamente as premissas socioantropológicas que as originam (ou, se se quer, invertendo os termos da proposição no sentido de Whorf, até que se vejam as próprias premissas socioantropológicas determinadas por tais modificações!).”

Quando, p.ex., um termo como o italiano testa (para nos atermos a um dos exemplos oferecidos por Guiraud, La sémantique), originariamente uma metáfora estilística nascida da associação da cabeça (caput) com o vaso de terracota (latim testa), passou a significar cabeça, com o que se semantizou de outro modo, enquanto que – acrescentaria eu – em outras línguas românicas adquiriu um significado mais parcial e setorial: testa em português = <frente> ou, inclusive, permaneceu unido ao lexema antigo (cabeza em espanhol = caput), etc., encontramo-nos perante um exemplo fácil do difícil que resulta <prognosticar> a evolução semântica de um termo – do difícil que resulta a previsão de um significado –, mas ao mesmo tempo da importância que pode ter para os efeitos denotativos e conotativos de uma língua o fato de que se produzam semelhantes transformações.

Outro exemplo: a palavra italiana finestra – em espanhol ventana, em português janela – apresenta, ainda considerando só estes 3 idiomas, conotações completamente diferentes, relacionadas com as condições de <abertura ao exterior> (finestra e também no caso do alemão fenster), de <proteção contra o vento> (ventana e também no caso do inglês window) ou de <porta pequena> (janela, de janua).”

Our ideia of necessity and causation arises entirely from the uniformity observable in the operations of Nature.” Hume

Max Müller, para quem a própria interpretação falsa ou aberrante de algumas normas é a que abre caminho para muitas interpretações míticas destinadas a se consolidar depois com o hábito e a adquirir valor de norma. Müller explica as razões do mito de Deucalião e Pirra, que fazem nascer os homens das pedras, pela analogia entre as expressões laoi e laas; e o mito de Dafne, transformada em planta de laurel, pelo fato de que a palavra dafne tem a mesma raiz sânscrita ahana, que significa aurora, etc.” “Pouco tempo depois Cassirer viria a refutar tal teoria, detalhadamente.”

Segundo Julius Schwabe (em seu riquíssimo volume sobre os signos do zodíaco, Archetyp und Tierkreis. Grundlinien einer kosmischen Symbolik und Mythologie, 1951), a constelação de Gêmeos conotava no passado um elemento masculino em Pólux e outro feminino (ou fracamente masculino) em Cástor. Prova-o o fato de que entre os romanos os homens <juravam a Pólux> e as mulheres a Cástor. Outra prova desta masculinidade duvidosa de um dos gêmeos da constelação seria seu próprio nome, que apresenta um evidente significado castratório, como, além do mais, a própria lenda sobre o animal castor. De acordo com a lenda, esse animal, quando caçado, preferia autocastrar-se antes que ver-se privado de seus testículos pelo caçador: segundo os antigos, nestes órgãos encontrava-se uma substância utilíssima para o preparo de medicamentos contra a histeria, o tifo e outras doenças.”

Segundo a concepção da alternância de grandes ciclos temporais (que alguns chamam de <grande ano platônico>), à medida que avançam as diferentes constelações no céu, entra-se ou sai-se de uma era determinada. Cada grande era <cósmica> pertenceria a uma constelação zodiacal determinada e se veria influenciada por ela. Pois bem: podemos comprovar então que o nascimento de Cristo se produziu ou coincidiu com a passagem do sol da constelação de Áries para a de Peixes (e temos de sobra exemplos e conotações, não só astrológicos, como geofísicos, geográficos e lingüísticos para a sucessão dos <anos platônicos>), o que nos levaria a reconhecer uma razão muito mais profunda e <oculta> para o uso do nome e da imagem do peixe como símbolo de Cristo, além da aparição do nome peixe em grego para se referir algumas vezes a Jesus Cristo no Novo Testamento. A passagem da Era de Áries à Era de Touro, e desta à de Peixes (que coincide precisamente com o cristianismo e, portanto, com nossa era), à qual sucederá a de Aquário, aparece agora ilustrada com muitos dados inéditos a respeito dos já conhecidos à época de Schwabe. A propósito da denominação das <eras cósmicas> a partir dos signos do zodíaco, consultar o referido autor.”

Ist es nötig noch darauf hinzuweisen, dass die Urchristen, als sie das uralte Fischsymbol aufgriffen, sich damit eben als eine Gemeinschaft kennzeichnen wollten, die an Wiedergeburt im Geiste, Auferstehung, und Unsterblichkeit glaubte? Sie knüpften damit an die orphischpythagoreische Vorstellung der delphinischen Menschenseele an.” Schwabe “Is it necessary to point out that when the original Christians picked up the ancient fish symbol, they were trying to identify themselves as a community that believed in rebirth in the spirit, resurrection, and immortality? In doing so, they followed up on the Orphic-Pythagorean concept of the Dolphinic human soul.”

Quanto à relação entre peixe e golfinho, considerado como animal fundamental, veja-se KARL KERÉNYI, Einführung in das Wesen der Mythologie.”

as discussões sobre a importância que esses deslocamentos das constelações no firmamento poderiam ter para a confecção do horóscopo, segundo se tenha ou não em conta a posição astronômica e real do sol com respeito ao zodíaco, foram e seguem sendo numerosíssimas e encarniçadas: alguns astrólogos sustentam que o horóscopo não deveria considerar deslocamentos puramente físicos; outros afirmam que tais modificações contam também para fins astrológicos. Vemos que até o possível aspecto premonitório, presente nas práticas astrológicas, se encontra subordinado a um aspecto puramente semiótico, ou pelo menos se discute a partir dele – algo no mínimo curioso para uma crença esotérica!”

Só a arte está em condições de propor os invólucros vazios de um significado ainda não exposto à luz do dia.”

Por lo demás, estudios recientes sobre el factor tiempo, sobre su base fisiológica, biológica, patológica, han demostrado de sobra la posibilidad de una dilatación o de una restricción de lo <vivido> temporal y la posibilidad de obtener (mediante drogas, medicamentos y ejercicios especiales del tipo del Yoga, como el <training autógeno> de J.H. Schultz) las modificaciones más variadas de la temporalidad.”

CAPÍTULO 2. EL SIMBOLISMO DEL TIEMPO EN EL ARTE DE HOY

Mucho más evidente es el aspecto simbolizador del tiempo en la categoría limítrofe del arte óptico-cinético (op art) en la que nos encontramos con obras inmóviles en realidad, pero que <sugieren> el movimiento (Bridget Riley, Alviani, Soto, Cruz Díez, etc.). En dichas obras – que hace unos 10 años [1962] aproximadamente estuvieron muy en boga – el tiempo existe <potencialmente>”

Por que o ritmo é tão importante para nossa existência e por que uma alteração daquele se reflete num mal-estar profundo?”

No me parece que haya otra forma de explicar la razón por la que muchas creaciones de nuestros días – basadas en tiempos alterados (en sentido psicodélico, en sentido musical-aleatorio, en sentido poético, etc.) – conducen a otras tantas situaciones de malestar físico y psíquico.”

Así, pues, esa sensación de ligereza y de <ausencia de tiempo> que se puede experimentar en un rápido vuelo transoceánico (en el que la única sensación experimentada es, no la de la velocidad, sino la de la lentitud, dado que así se nos aparece el movimiento del avión frente a la vastedad y a la inmovilidad del paisaje de nubes y del océano situado debajo) corresponde a la ausencia de tiempo de muchos ejemplos de música moderna y de algunas situaciones de las artes visuales que hoy utilizan la dimensión temporal para expresarse.”

la obsolescencia de la obra (de arte o producida por la industria) – hoy tan aguda, tan paradigmática – demuestra tangiblemente la invasión y la acción de la <consunción> [destruição lenta mas progressiva], del factor temporal, sobre las obras del hombre y la necesidad de su simbolización por parte de las diferentes artes”

la marcada separación entre mentalidad y comportamiento juvenil y senil encuentra una contrapartida en una diversificación igualmente marcada en la mentalidad y en las actitudes de quienes tienen 16, 25, 30 años. Así, pues, existe una diferenciación destacada entre grados que todavía pueden referirse a una edad juvenil, cosa que no me parece sucediera con igual relieve hace 20 o 40 años.” [!]

En mi opinión, ese hecho significa que se está produciendo una aceleración del tiempo <existencial> con respecto al fisio-patológico. El tiempo – como símbolo de un devenir que no se detiene – ha invadido estructuras todavía ayer sólidas y consistentes.”

la sensación de una <amenaza temporal>, propensa a resquebrajar la seguridad de la existencia, está presente por todas partes y la simbolizan los aspectos artísticos y pseudoartísticos a los que he aludido”

O conceito de tempo “SAE (Standard Average European” de Whorf.

No hay duda de que el fenómeno de la progresiva desaparición o atrofiamiento del pretérito indefinido en lenguas como el italiano (a excepción del toscano) y el francés (y NO en el español), o como la eficacia cada vez menor del futuro (en lenguas que lo presentan, p.ej., en forma compuesta exclusivamente: alemán, griego moderno, croata, esloveno) o <asimilado> al presente (como el ruso y otras lenguas eslavas, cuando utilizan el presente del aspecto perfectivo para indicar el futuro) o recurren a construcciones complejas en lugar de utilizar la forma originaria del futuro (como el francés: je vais faire, el español: voy a hacer, y el propio italiano: conto di fare, sto per fare, mi accingo a fare, por no hablar del futuro japonés, que muchas veces se puede identificar con el presente), demuestra que la actitud del hablante tiende la mayoría de las veces a eludir las situaciones temporales <definitivas> o bien definidas y a adoptar otras más desdibujadas y ambiguas.”

CAPÍTULO 3. ARTE CONCEPTUAL: PREFERENCIA Y TESAURIZACIÓN [“MAL DO ACUMULADOR”]

El abismo que separa a 2 Weltanschauungen – o, mejor, a dos Kunstanschauungen – a sólo pocos años de distancia parece insalvable.”

¿Por qué kitsch? Porque el cielo es demasiado azul, la vegetación demasiado verde, la superficie de la figura demasiado translúcida; y, en consecuencia, el conjunto aparece ya manipulado en gran medida y preparado para que se lo comercialice y se lo ofrezca a los turistas, para uso del <delfín burgués>, que pasará en este lugar vacaciones suficientemente prestigiosas como para que sirvan de status symbol de cara a los amigos y a los conocidos.”

la presentación más o menos exacta, más o menos magnificada, de la realidad, ya sea la fotográfica, ya sea – con mayor razón aún – la impresionista o la enteramente abstracta, resulta estar superada.”

Aquí quisiera limitarme a precisar el porqué de la aparición de una clase de preferencia por el aspecto conceptual en el arte visual, tal como se ha ido revelando en el último decenio, porque me parece uno de los temas en que la separación entre la época actual y la que acaba de transcurrir resulta más marcada, en que resulta más sintomática la afirmación de un tipo de preferencia hasta hace poco inimaginable.”

dadá, el surrealismo, fueron las consecuencias extremas de un persiflage de la presentación naturalista del mundo exterior. El informalismo señaló un regreso inútil a una especie de impresionismo pictórico, sin <contenidos>, pero no sine materia; e incluso la pintura-objeto, que desembocó, por un lado, en el pop-art y, por otro, en el arte programado y cinético (me excuso por la rapidez telegráfica y por la aproximación de estas definiciones), seguía recurriendo, a pesar de todo, a la tangibilidad densa y manipulable de la obra.”

Por lo demás, no es casualidad que un movimiento tan vasto y, en definitiva, tan <incómodo> como el del conceptualismo se haya revelado precisamente en estos últimos años (de 1965 en adelante): años que han visto el surgimiento de las sublevaciones estudiantiles de 66-8 y su decadencia, la extensión y continuación de la guerra en Vietnam y de las guerrillas en tantas partes del mundo, la difusión de la droga, la decadencia de los movimientos de vanguardia en el cine y en el teatro underground, la crisis de la novela y de la música dodecafónica y, después, de la aleatoria”

un nihilismo diferente del dadaísta, porque carece de fermentos irónicos y humorísticos, un nihilismo ya no propio de Duchamp, con frecuencia macabro, a veces irritante, otras masoquista o sádico.”

hace 20 años [1952], la única o más importante tarea del crítico comprometido, del estetólogo, era la de defender la vanguardia, de intentar hacer de mediador entre el universo circunscrito, circunspecto, del artista y el obtuso, cargado de anteojos culturales y morales, del público.”

la temporada de los happenings fue de corta duración, y en muchos casos se vio <comercializada> mediante la reproducción cinematográfica.”

nuestra época ha llegado a un punto en que la escisión entre arte <puro> y arte utilitario es cada vez más clara y cruel. El primer sector se va alejando cada día más de la comprensión y del interés del gran público (incluso de un público relativamente culto), más aún de lo que ocurría con el arte abstracto de los años 30, con el op y el pop de los años 60; el segundo sector se acerca cada vez más al producto del diseño industrial y se une a la gran familia del kitsch.”

El público se alimenta constantemente, de um modo que ya otras veces he definido como absurdo, de <sonidos musicales>, casi siempre carentes de interés artístico alguno, sin propósito renovador alguno, con una función de <relleno sonoro> exclusivamente, ni más ni menos que la del ruido que sube de la calle o del <gorjeo de los pájaros> de los tiempos remotos.” Aqui, muita coisa mudou!

el llamado público de conciertos, los viejos ambientes de los aficionados a la <música clásica>, incluso gran parte de los profesionales (directores de orquestra, profesores de conservatorio, etc.) desarrollan sólo programas a base de música del pasado, sin interés ni comprensión algunos por la música de nuestros días (me refiero a la de Stockhausen, Schnebel, Berio, Cage, Donatoni, etc.). Las obras de los músicos contemporáneos están destinadas a pocos centenares de personas dispersas por el mundo, todavía menos que las que se interesan por el arte conceptual, por el land art, por el arte pobre.”

Algunos de esos conceptos (como los de tesaurización y analidad aplicados al coleccionismo) surgieron en una discusión con el neurofisiólogo y psicoanalista Mauro Mancia.”

CONCEITO DE ANALIDADE POBREMENTE APLICADO AO COLECIONADOR: “Para muitos colecionadores, o fato de entrar em posse do quadro, da estátua, é por si mesmo fonte de gozo, de igual modo que o é o entesouramento [retenção] de suas próprias fezes pela criança.”

Muchas veces, las casas de los coleccionistas tienen pocos muebles y objetos, están mal conservadas, con mobiliario anticuado y desmesuradamente moderno, incluso de gusto dudoso. Las obras están amontonadas en las paredes, una junto a otra, sin ningún respeto por su naturaleza particular, sin ninguna preocupación por ese <espacio vital> que cada una necesitaría ni por su convivencia recíproca.”

En realidad, poetas concretos tradicionales como Ferdinand Kriwet, Rot, De Campos, etc., siguen ateniéndose, como por lo demás, Gominger (quizás el más riguroso y más imaginativo de los concretistas), al aspecto semántico del lenguaje verbal”

En definitiva: muchos artistas conceptuales han tenido que someterse al deseo de los aficionados. Han tenido que encontrar el modo de saciar el apetito voraz de los <objetos>, siempre renovado, de aquéllos; han tenido que renunciar a sus sueños de pureza, de transitoriedade, de pobreza.”

CAPÍTULO 4. LA MODA COMO EXALTACIÓN PROAIRÉTICA

Nenhum outro setor da atividade e da criatividade humana é mais representativo que a moda para uma investigação de caráter proairético [que versa sobre as preferências estéticas do público].” “a moda encarna, quase em estado puro, a preferencialidade, que, ressaltamos, não é a <superioridade> de determinada situação.” Sendo assim, a moda não é uma arte. Ou quem sabe seja o que vem depois do fim da arte.

Quando dizemos hoje: <a lingüística, o estruturalismo, a psicanálise, o marxismo, a fenomenologia, etc., estão na moda>, no fundo reconhecemos que essas doutrinas poderosas, que essas solenes correntes do pensamentos, podem-se reduzir, no final, a simples momentos efêmeros de preferência, e que, portanto, depois de saboreadas o suficiente, destrinchadas e ostentadas, acabarão rápida e afortunadamente sendo substituídas por outras.”

A palavra alemã Genuss, que os dicionários costumam traduzir por: gozo, posse, desfrute, uso, etc., significa na realidade: saboreio unido a gozo de uma substância ou situação determinada, e não me parece que exista uma palavra em nossa língua com a qual se a possa substituir. Fala-se de um Genuss pelo café, pelo álcool, pela droga, etc.”

Estilo X Styling (kitsch)

(passado – séc. XIX X séc. XX)

ex: Estilo Império, estilo Luís XVI, rococó, estilo Rainha Ana…

Havia um sincronismo e validades universais (ditados pela aristocracia).

Bastaria recordar os numerosos trabalhos de Wölfflin, Dvorak, Panofsky, para se dar conta de que muitas de suas análises já não se podem aplicar às formas artísticas de nossos dias. Mas hoje – dado que nossa análise é predominantemente sincrônica – já nem podemos falar de estilo a propósito de certos móveis dinamarqueses, ou eletrodomésticos italianos, senão, sobretudo, de moda e de styling. É um fato – e muitos o afirmaram com razão – que o Art Nouveau, o Jugendstil, constituiu-se como o último estilo autêntico de nossa época.”

A moda do kitsch e o kitsch da moda.

El propio hecho de haber considerado que se pudieran aplicar esquemas estructuralistas a la moda (como ha hecho Barthes en su Système de la mode), pero limitando en realidad su análisis al aspecto <verbal>, de nomenclatura, relacionado con ella, ha hecho que muchos prediquen la necesidad, o la oportunidad, de incluir la moda dentro de un aspecto lingüístico-estructuralista, como tantos otros sectores de la sociedad y de las ciencias humanas en general. Y la cosa no presentaría dificultad, si no se diera en este caso una eventualidad que no me parece se haya considerado: la de una institucionalización a priori, y no a posteriori, de los elementos lingüísticos relativos a dicho supuesto código.”

Con frecuencia se afirma que la moda es un fenómeno vinculado a la sociedad capitalista y desconocido, o poco conocido, en los países socialistas y revolucionarios; no resulta muy difícil demostrar la falsedad de esa hipótesis.”

A redundância: tudo é um invólucro teatral e barroco da propriedade doméstica: a mesa é coberta por uma toalha de mesa, ela mesma protegida por uma outra toalha de plástico. Cortinas e cortinas duplas às janelas. Tapetes, capas, revestimentos, abajures…” Baudrillard

se o fato de trajar mangas de jaqueta excessivamente largas ou calças excessivamente apertadas (nos períodos em que <é moda>) deve ser considerado de mau gosto – kitsch –, podíamos também ampliar este juízo a outros setores para além da moda. Sempre voltará a época da lâmpada com luz oblíqua, talheres escandinavos, louça de aço inox, etc.”

Mesmo no cinema, apenas em casos excepcionais – Potemkin, Greta Garbo, Buster Keaton, O vampiro de Düsseldorf (para citar 4 exemplos bem distintos entre si) – as imensas qualidades artísticas conseguem <vencer> o desgaste estilístico devido a uma questão de moda, que predomina nos longas bons mas não <ótimos>. O modo de se mover dos personagens, as frases pronunciadas, a entonação das vozes, certas atitudes românticas ou passionais hoje completamente defasadas e consideradas ingenuamente românticas, ou ridiculamente licenciosas, acabam contaminando mesmo as cenas que eram (e seriam ainda) de qualidade estética e técnica.”

observar os rostos carrancudos e truculentos ou então inexpressivos, severos e carnavalescos dos diferentes hierarcas nazifascistas é – para todos, hoje – um espetáculo grotesco, ainda mais cômico que propriamente penoso e entristecedor. Como justificar o fato, senão pensando que um grande componente de moda interveio para dar àquela época o trato que ela merece?”

De praxe, consideramos a toilette (a higiene, os hábitos e estilo) de nossos pais mais ridícula e démodé que a de nossos avós ou bisavós.”

Na música, teatro, poesia não se adverte esse envelhecimento estético tão veloz decorrente da passagem da moda, uma vez que conseguimos substituir instintivamente com nosso modo de ser e de nos comportarmos aquilo que está descrito na novela ou indicado na peça. No cinema e na fotografia (meios <realistas>) isso é impossível. (…) Uma possível fonte de retroalimentação, que pode ser causa, ainda que também efeito de um espírito de época, desse estado de coisas efêmero é o fato de que no passado não era possível apresentar aos próprios descendentes, documentalmente, e com absoluta fidelidade, uma dada moda, sendo assim imperceptível, senão menos evidente e estridente, o contraste entre o ontem e o hoje.”

Está ligeiramente out (fora de moda) quem ostenta nas paredes de seu chalé ou casa de verão uma pintura informal (em 1972), como também o está quem usa como música de fundo para receber seus amigos um Respighi¹ ou Pfitzner², embora o mesmo não se possa dizer de quem opta pelo jazz de vanguarda mais recente ou uma marcha de Bach.”

¹ Compositor italiano do XIX-XX, já ele mesmo um nostálgico de períodos ainda mais remotos (sécs. XVI ao XVIII).

² Praticamente o mesmo se pode dizer deste segundo compositor alemão, incluindo o período em que viveu e exerceu sua influência e seu gosto nostálgico, particularmente entusiasta de Palestrina.

…e as coisas estão mudando enquanto escrevo”

na Itália, basta seguir um automóvel para observar um exemplo perfeito dessa veemência gesticulatória do povo (não só abundante como até excessiva), com freqüência a causa de acidentes de trânsito, graves até: a maioria das vezes ambas as mãos do motorista abandonam o volante para que ele possa comunicar a seu companheiro a profundidade de seu pensamento de maneira apropriada (que o <co-piloto> decerto não vê, ocupado em vigiar o tráfego!).” “um baixo contínuo que acompanha a palavra”

o V de vitória com a mão era quase desconhecido, antes de Churchill popularizar o gesto”

A saudação de punho cerrado de tipo comunista está, talvez, em fase de decadência, como muitos gestos indicativos de <ter fome>, <enganar>, <vou dormir>. A saudação fascista, que esteve em voga, desgraçadamente, por muitos anos, seguiu, depois, existindo com um valor de saudação <normal>, desde que fosse executada com menor elevação do braço e com menos vigor (perdendo assim seu ar <romano>).”

O ciao ou adeus italiano na estação de trem, p.ex., antes de uma larga viagem, era vertical ou frontal (oscilações do braço entre a pessoa que saúda e a direção do viajante); com o tempo, passaram a usar o tchau que hoje conhecemos: oscilações laterais, à moda anglo-saxã ou germânica. Mais curioso ainda: em poucos anos, usos gestuais passaram por transformações importantes: antes mexiam-se os dedos das mãos no adeus, e a palma ficava imóvel; depois, os dedos ficavam juntos e sem se mexerem, e a mão adquiriu dinamismo.

a passagem do tabaco da aspiração ao fumo se deveu a um aperfeiçoamento do gosto, ou <mudança de moda>. Não se pode dizer que amanhã não se voltará à moda de aspirar o tabaco ou de fumar o café ou mascar o chá.” Congelamento!

é provável que num futuro próximo (quando, como é verossímil, se tenha liberado a maconha e substâncias semelhantes) o período atual pareça fortemente condicionado: primeiro, pelo proibicionismo; depois, pela liberação; e, finalmente, pela provável decadência do uso de tais substâncias.”

Isso é o que não me parece admissível: buscar refúgio numa abolição ou atenuação da própria atividade consciente mediante fármacos que a embotam (ou a exaltam, mas desfigurando-a, desegotizando-a) é contrário a todos os princípios a que se dirigiu a civilização ocidental; é ainda adverso buscar refúgio ou auxílio em tentativas mecânicas de vidência ou de visões supressensíveis (práticas iogues, p.ex.).”

conhecida é a relação entre sexualidade e iniciação no budismo clássico, como na prática do despertar do Chakra” “métodos ocultos que não são apropriados para nossa época”

Um tal Timothy Leary, psicólogo doidão, prescrevia o cogumelo Teonanacatl, tradicional entre aborígenes mexicanos, a seus pacientes nos anos 70. O Dalai-Lama rebateu este “profissional” em 1971: “O que mais falta aos próprios usuários desses narcóticos é o que poderia ser benéfico em seu uso – a Claridade, a Pureza e a Liberdade.”

CAPÍTULO 5. IDEOLOGÍA COMO PROAIRÉTICA PATOLÓGICA

Joseph Gabel, em seu La conciencia falsa, que segue sendo indubitavelmente o melhor estudo dum aspecto patológico-político ou, se se quer, psicanalítico-marxista da ideologia, analizou bastante bem este <ponto fraco> do fanatismo ideológico.”

Segundo Dévreux, se podemos considerar o período nazi como o estabelecimento de uma forma esquizofrênica, poderíamos, igualmente, considerar a sociedade européia de finais do séc. XIX como tendencialmente <histérica>.”

Talvez não se possa dizer o mesmo da Itália em sua relação com o fascismo o mesmo da Alemanha em sua relação com o nazismo; a <cura> italiana não se produziu com o mesmo vigor.”

Um caso de paranóia política poderia ser o de Israel: o enlace com pontos de partida ético-religiosos, que remontam a milhares de anos; a incrível firmeza na perseguição de um ideal construído sobre um conceito de <nação>, totalmente teórico; o fato de ter ressuscitado uma língua morta há vários séculos…”

É sabido que a ignorância das funções mais elementares relacionados com o sexo era (até há pouco, se bem que segue sendo em parte) enorme, como também é conhecida a razão para isso: religião ou confissão (catolicismo), falso moralismo (vitoriano) ou alegações puritanas de virtude hipócritas (quakers, calvinistas e protestantes no geral).”

O VOCÁBULO “TEMPO” NOS IDIOMAS ESLAVOS (TEMPO METEOROLÓGICO, TEMPO CRONOLÓGICO):

Croata – vrijeme (clima); goda, rok (devir)

Eslovaco – cas (devir)

Esloveno – vreme (clima); ura (devir)

Polaco – cas (devir)

Russo – vremja (raiz ambivalente); pogoda (clima); cas (devir)

Tcheco – cas (devir)

SEGUNDA PARTE – LAS OPCIONES ECOLÓGICO-URBANÍSTICAS

INTRODUCCIÓN

A arte (pintura e escultura, mas inclusive a poesia) deixou-se implicar nessa <glorificação do objeto> (a partir do surrealismo, percorrendo a pop art e a op art) de tal modo que não consegue mais livrar-se dessa objetualização dominante.”

O sutil mal-estar, o sentimento de frustração que experimenta hoje um homem que tenha vivido sua infância no tempo pré-guerras, especialmente nas zonas densamente industrializadas, talvez passem batidos ao jovem nascido no pós-guerras, quando o estrondo das motos, a concentração de fumaça, o estrépito do tráfego, a poluição dos mares eram já uma realidade. E é igualmente possível imaginar que o homem de um futuro próximo esteja já imunizado, ainda mais que o jovem contemporâneo [1972!], contra o barulho e o ar poluído e cinzento onipresentes.”

Numa praia contaminada nos arredores de Roma tive a ocasião de presenciar um filho perguntar ao pai se podia encher seu baldinho de água do mar: estava o menino tão impregnado da noção de contaminação que não podia deixar de considerar a água do mar como uma espécie de veneno, que se deveria evitar ao máximo.”

Expressões como “o céu azul” e “os eternos cumes nevados da montanha” já se tornaram tão kitsch quanto “amor à pátria” ou “lar doce lar” ou “a moral cristã”, “o seio materno”, “o espírito do corpo” e por aí vai…

Seria hoje absurdo seguir falando de construção e urbanismo nos termos caros a um Le Corbusier ou um Lúcio Costa há não mais de 20 anos, ou a um Gropius, por exemplo.”

1. DESFASE [DEFASAGEM] ECOLÓGICO Y RESEMANTIZACIÓN URBANÍSTICA

a indiferença quase total quanto à contribuição e à missão das <artes visuais> em integração com o meio ambiente tem feito com que o que se chama de arquitetura perca quase toda conexão com sua matriz expressiva primária.”

RECADO A LÚCIO COSTA: “A utopia do Bauhaus, que creu poder predicar e pôr em prática a identificação absoluta entre <utilidade> e <beleza> chegou ao fim.”

Em lugar de almejar colonizar montes de pedra sem atmosfera como os da Lua (meta de aventuras recentes, já nada empolgantes, uma vez que nem as crianças assistem mais os programas dedicados aos vôos lunares na TV [1972!]), seria melhor que o homem tentasse não arruinar em definitivo o belíssimo planeta no qual teve a ventura de nascer.”

Em primeiro lugar, é necessário livrar-se de formulações estéticas antiquadas que se obstinam em considerar a arquitetura como uma arte plástica, irmã da pintura e da escultura, como se fôra uma espécie de superdecoração em escala de cidade.”

Se bem que em algumas artes (música e poesia) se possa apontar os equivalentes das partículas elementares da fala (morfemas, lexemas, sintagmas), no caso da arquitetura e urbanismo isso é muito mais problemático.”

De um ponto de vista semiótico-territorial serão mais aceitáveis as tristíssimas favelas brasileiras, ou tugúrios colombianos, que as villas miseria argentinas. Talvez esta afirmação necessite um esclarecimento: significará, então, o que eu disse que não se pode identificar o aspecto semiológico com o sociológico? Se nos dispusermos a aceitar as abomináveis favelas, por se integrarem de modo mais <orgânico> à cidade do Rio, somos por isso insensíveis às conotações sociais que esta preferência supõe? Aí está o núcleo do problema: também na antiguidade romana, babilônica, grega, pré-colombiana, existiram as injustiças sociais mais inacreditáveis, mas não monstruosidades urbanístico-arquitetônicas como nas atuais Milan, Roma e Buenos Aires.”

Os centros das cidades-satélites suecas não são nada senão shopping centers de tipo americano, enquanto que, na contra-mão, o <não-centro> das grandes cidades ianques (Cleveland, Atlanta, Houston) – excluindo-se talvez Manhattan, Boston e São Francisco da conta – já deixaram de existir, degradaram-se até se converter em setor de negócios ou mera sede administrativo-bancário-política, onde ninguém vive, onde a vida cessa quando cessa o expediente. E esse fenômeno começa a prevalecer em algumas cidades alemãs de design <americanizado>.”

2. LOS FACTORES PROAIRÉTICOS EN EL DESIGN AMBIENTAL

Alvin Toffler contaba cómo en 70 de las mayores ciudades americanas el tiempo de residencia media en el mismo lugar era menos de 4 años. El desarraigo con respecto al hábitat propio no sería grave por sí mismo, si condujese a la reconstrucción en otro lugar de otro Heimat; pero eso es precisamente lo que ya no sucede a causa del carácter provisional del empleo, de la familia, que provocan el desinterés afectivo por el suelo urbano o por el natural.”

3. PREFERENCIAS Y PREVENCIONES EN LA ARQUITECTURA INDUSTRIALIZADA Y EN EL DESIGN

a arquitetura industralizada (ou pré-fabricada, como com freqüência se diz, erroneamente) constitui um dos pontos delicados da exposição, que reaparece sempre que se fala de originalidade dos edifícios, de fantasia construtiva, da tão necessária luta contra o descenso do nível inventivo, contra a uniformização e a homogeneização das construções arquitetônicas de nossos dias.”

4. LOS PRECEDENTES DE UNA SEMIÓTICA ARQUITECTÓNICA

Por mi parte, estoy convencido de que antes que nada hay que considerar la lingüística como una de las ramas de la semiótica, y no al revés (…) (como sostienen con frecuencia algunos autores franceses).” “En el caso de la arquitectura es evidente que no se puede hablar de una división en fonemas, sino, si acaso, sólo en <morfemas> (o sea, en partículas morfológicamente significativas, ¡ya que el elemento fonético está ausente!)” Um capítulo que não faz o menor sentido (como quase toda a segunda parte do livro)!

Desgraçado do edifício que se disfarça sob o aspecto de outro, como – desgraçadamente – ocorre com freqüência: igreja com aparência de night club; estádio com a de templo; escola com a de açougue [!!!] (a menos que não seja incomum alguns prédios constituírem uma espécie de curiosidade <agradável>, conquanto isso parece ter sido moda passageira dos 1800)!”

si una partitura de Bussotti puede considerarse con el mismo criterio que una pintura o un diseño moderno, también algunas notaciones arquitectónicas (croquis, proyectos, etc.), modernas y antiguas, tienen ya de por sí un gran valor artístico: basta con pensar en los célebres esbozos de Mendelssohn, en los de Haering o, sobre todo, en los de Scharoun, y, en el pasado, en algunos proyectos, realizados o no, de Ammannati, de Leonardo, de Miguel Angel, de Leon Battista Alberti. El valor artístico de dichos proyectos – prescindiendo de su <colocación semiótica> – es notable, y sería muy difícil decidir hasta qué punto se trata de obras de diseño, de maqueta, o equiparables a las realizaciones arquitectónicas auténticas. Como es sabido, según algunos, el croquis y el proyecto, si se desarrollaran y profundizaran lo suficiente, equivaldrían perfectamente a la obra ya realizada. (Y en cierto sentido lo vimos, cuando, durante la última guerra, se pudieron reconstruir algunas arquitecturas de la antigüedad sobre la base y con la ayuda de diseños de la época conservados y, por tanto, realizables.)”

La lectura de la partitura, aunque informa, incluso de forma muy precisa, sobre determinado fragmento musical, no por ello deja de ser una lectura-no-musical (o, por lo menos, no sonora); según la opinión de algunos músicos (Stockhausen, Castaldi) no es otra cosa que el registro mediante un código muy perfeccionado de un objeto sonoro cuyo auténtico disfrute sólo puede producirse a través del órgano del oído. Stockhausen, p.ej., afirma que el tipo de <goce> que le produce el recorrer rápidamente una partitura (incluso saltando de un ponto a otro de la composición) es totalmente diferente al de la audición del mismo fragmento.” Cf. STOCKHAUSEN, Texte zur elektronischen und instrumentale Musik, 1963.

5. LA OPCIÓN POR LO ASIMÉTRICO Y LA ASIMETRÍA DE LAS OPCIONES

en la Weltanschauung zen y taoísta predomina la tendencia a lo asimétrico, y algunos conceptos como los de wabí y de sabi podrían aproximarse al de asimetría.”

Parece impossível, mas minha criada de quarto não admite que eu coloque minhas coisas na cômoda de forma assimétrica; quando limpa minha casa se apressa em <colocar simetricamente>, de acordo com um esquema fixo seu, todos os objetos que eu havia colocado de propósito fora do lugar.” Léger

Podemos antecipar o começo do fenômeno, se pensamos na marcada tendência nessa direção que se pode advertir a partir dos últimos anos do séc. XIX com o florescimento do simbolismo na França e ainda antes, com o do pré-rafaelismo na Inglaterra: pintores e decoradores como Gustave Moreau, D.G. Rossetti, Burnes Jones, Odilon Redon, Khnopff, Puvis de Chavanne e, à geração seguinte, os austríacos da Secessão: Klimt, Schiele, etc., são todos tendencialmente assimétricos, pois começam a olhar com simpatia para o Extremo Oriente” “a adoração pelo número áureo, derivada dos círculos renascentistas, teria de ceder e ver-se invertida por novos módulos estéticos.”

por que o coração está à esquerda e o fígado à direita? por que é mais comum ser destro? por que a mãe costuma segurar o recém-nascido pelo lado esquerdo?”

O rosto esquerdo revela o lado oculto ou noturno (sinistro) da vida.” Werner Wolff

…ao passo que a metade direita – precisamente por <depender> do hemisfério cerebral esquerdo, sede dos processos de criação de idéias mais racionalizados – parece ser o <espelho> da personalidade humana mais socializada e consciente.”

normalmente o homem entrelaça as mãos de com o polegar direito superposto ao esquerdo, e a mulher ao contrário”

e como pode ser que o laevus latino não se conservou no italiano (enquanto que se conservou no left inglês, no link alemão, no lijevo esloveno e croata e no lievyi russo?)”

derecho droit destro direito

izquierdo gauche sinistro esquerdo

Se consideramos alguns esquemas urbanísticos clássicos – dos hipodâmicos aos estelares (tipo Palmanova), aos de L’Enfant (tipo Washington) ou Haussmann (tipo Paris) ou inclusive à aparente heterodoxia de Lúcio Costa no caso de Brasília –, vemos facilmente que em quase todos predomina um princípio de euritmia e equilíbrio, i.e., de obtenção do máximo de equilíbrio baseando-se numa simetria <dinâmica>, numa pseudo-assimetria, à la Hambidge. Hoje (1972!), até esse tipo de equilíbrio me parece pouco aceitável rumo a uma evolução da ordenação territorial e do <caráter distributivo> de nossos edifícios.”

Na linguagem e no pensamento a assimetria está em todo lugar ou, para ser assimétrico, em quase todo lugar: podemos considerar simétricas as manobras analogizantes ensaiadas – de forma muitas vezes ingênua, mecânica – por um Lévi-Strauss? Sim, sem dúvida; mas isso seria pertencente à exceção: uma tentativa ou mania de assimilar códigos diferentes (sociológicos, alimentares, musicais, etnológicos!) sobretudo dum ponto de vista meramente sintático e sem levar em conta, salvo superficialmente, os autênticos aspectos semânticos e axiológicos que se interrelacionam. Mas, continuando, o fato de considerar como analógicas as metáforas propriamente ditas conduzirá à descoberta dum aspecto assimétrico também nelas, i.e., porque unem dois signifiés diferentes por meio dum signifiant único.”

#SugestõesdeTítulosdeLivros

OXÍMORO OU CARÍBDIS

LEITURAS PROSPECTIVAS

YASUICHI ARAKAWA, Die malerei des Zen-Buddhismus. Pinselstriche des Unendlichen, 1970

JEAN BAUDRILLARD, Le système des objets, 1968

MARIO BUNGE, The Place of the Causal Principle in Modern Science, 1963

GERMANO CELANT, Arte povera

Revista “Noigandres” (São Paulo), sobre a vertente mais séria da dita poesia concreta de origem germano-suíço-brasileira

GILLO DORFLES, Il Kitsch, antologia del cattuvi gusto, 1969 (1972) / El kitsch, antología del mal gusto, 1973

LUDWIG GIESZ, Phänomenologie des Kitsches, 1960 / Fenomenología del kitsh, 1973

HECAEN, La Symétrie en Neuropsychologie, 1970

EUGÈNE MINKOWSKI, Les conséquences psychopatologiques de la guerre et du nazisme, 1948

ALEXANDER MITSCHERLICH, La inhospitalidad de nuestras ciudades, 1969

EDWIN SCHUR, The Family and the Sexual Revolution, 1964

DAISETZ SUZUKI, Zen and Japanese Culture, 1959

VÁRIOS AUTORES, Psicología del vestir, 1975

HERMANN WEYL, Symmetry, 1952

IVOR DE WOLFE, Civilia, Architectural Press, Londres, 1972

KANT AVEC SADE, 1962

Ainda kantiano, demasiado kantiano

Nous choisissons cette place pour remarquer que, s’il y a toute chance pour que cette édition, qui s’annonce elle-même comme « définitive », soit menée à bonne fin, il n’y a pas encore en français d’édition des oeuvres complètes de Kant, non plus que de Freud. Il est vrai qu’il eût fallu que fût poursuivie une traduction systématique de ces oeuvres. Une telle entreprise eût semblé s’imposer pour Kant dans un pays où tant de jeunes forces se qualifient par l’enseignement de la philosophie. Sa carence à beaucoup près laisse à réfléchir sur la direction assurée aux travaux par les cadres responsables.”

Ici SADE est le pas inaugural d’une subversion, dont, si piquant que cela semble au regard de la froideur de l’homme, KANT est le point tournant, et jamais repéré [diagnosticado, reconhecido] – que nous sachions – comme tel.

La Philosophie dans le boudoir vient 8 ans après la Critique de la raison pratique.”

Todo diabo é fundado por um beato.

La recherche du bien serait donc une impasse, s’il ne renaissait, das Gute, le bien qui est l’objet de la loi morale. Il nous est indiqué par l’expérience que nous faisons d’entendre au-dedans de nous des commandements, dont l’impératif se présente comme catégorique, autrement dit inconditionnel.”

padecer o pai descer

pas d’être

Retenons le paradoxe que ce soit au moment où ce sujet n’a plus en face de lui aucun objet, qu’il rencontre une loi, laquelle n’a d’autre phénomène que quelque chose de signifiant déjà, qu’on obtient d’une voix dans la conscience, et qui, à s’y articuler en maxime, y propose l’ordre d’une raison purement pratique ou volonté.”

« J’ai le droit de jouir de ton corps, peut me dire quiconque, et ce droit je l’exercerai sans qu’aucune limite m’arrête dans le caprice des exactions que j’aie le goût d’y assouvir »

entre deux l’impudeur de l’un à elle seule faisant le viol de la pudeur de l’autre.”

Tels phénomènes de la voix, nommément ceux de la psychose, ont bien cet aspect de l’objet. Et la psychanalyse n’était pas loin en son aurore d’y référer la voix de la conscience.”

Assurément le christianisme a éduqué les hommes à être peu regardants du côté de la jouissance de Dieu, et c’est en quoi KANT fait passer son volontarisme de la Loi pour la Loi, lequel en remet, peut-on dire, sur l’ataraxie de l’expérience stoïcienne.”

Quand la jouissance s’y pétrifie, il devient le fétiche noir, où se reconnaît la forme bel et bien offerte en tel temps et lieu, et de nos jours encore, pour qu’on y adore la Présence de Dieu.”

Le désir, qui est le suppôt de cette refente du sujet, s’accommoderait sans doute de se dire volonté de jouissance. Mais cette appellation ne le rendrait pas plus digne de la volonté qu’il invoque chez l’Autre en la tentant jusqu’à l’extrême de sa division d’avec son pathos, car pour ce faire, il part battu, promis à l’impuissance. Puisqu’il part soumis au plaisir, dont c’est la loi de le faire tourner en sa visée toujours trop court. Homéostase toujours trop vite retrouvée du vivant au seuil le plus bas de la tension dont il vivote.”

L’expérience physiologique démontre que la douleur est d’un cycle plus long à tous égards que le plaisir, puisqu’une stimulation la provoque au point où le plaisir finit. Si prolongée qu’on la suppose, elle a pourtant comme le plaisir son terme: dans l’évanouissement du sujet.”

Une structure quadripartite est depuis l’inconscient toujours exigible dans la construction d’une ordonnance subjective. Ce à quoi satisfont nos schémas didactiques.”

la peu croyable survie dont SADE dote les victimes des sévices et tribulations qu’il leur inflige en sa fable.”

Unique (Justine) ou multiple, la victime a la monotonie de la relation du sujet au signifiant”

L’exigence dans la figure des victimes d’une beauté toujours classée incomparable (et d’ailleurs inaltérable, cf. plus haut) est une autre affaire, dont on ne saurait s’acquitter avec quelques postulats banaux, bientôt controuvés, sur l’attrait sexuel. On y verra plutôt la grimace de ce que nous avons démontré dans la tragédie, de la fonction de la beauté: barrière extrême à interdire l’accès à une horreur fondamentale.”

On le voit bien au paradoxe que constitue dans SADE sa position à l’endroit de l’enfer. “L’idée de l’enfer, cent fois réfutée par lui et maudite comme moyen de sujétion de la tyrannie religieuse, revient curieusement motiver les gestes d’un de ses héros, pourtant des plus férus de la subversion libertine dans sa forme raisonnante, nommément le hideux SAINT-FOND. Les pratiques, dont il impose à ses victimes le supplice dernier, se fondent sur la croyance qu’il peut en rendre pour elles dans l’au-delà le tourment éternel.

Cette incohérence dans SADE, négligée par les sadistes, un peu hagiographes eux aussi, s’éclairerait à relever sous sa plume le terme formellement exprimé de la seconde mort. Dont l’assurance qu’il en attend contre l’affreuse routine de la nature (celle qu’à l’entendre ailleurs, le crime a la fonction de rompre) exigerait qu’elle allât à une extrémité où se redouble l’évanouissement du sujet: avec lequel il symbolise dans le voeu que les éléments décomposés de notre corps, pour ne pas s’assembler à nouveau, soient eux-mêmes anéantis.”

pulsão de quase nada

Ni recueilli un de ces rêves dont le rêveur reste bouleversé, d’avoir dans la condition ressentie d’une renaissance intarissable, été au fond de la douleur d’exister?”

…la relation de réversion qui unirait le sadisme à un masochisme dont on imagine mal au dehors le pêle-mêle qu’elle supporte. Mieux vaut d’y trouver le prix d’une historiette, fameuse, sur l’exploitation de l’homme par l’homme: définition du capitalisme on le sait.

Et le socialisme alors? C’est le contraire…”

Ótima piada!

L’objet, nous l’avons montré dans l’expérience freudienne, l’objet du désir là où il se propose nu, n’est que la scorie d’un fantasme où le sujet ne revient pas de sa syncope. C’est un cas de nécrophilie.”

le moraliste nous paraît toujours plus impudent encore qu’imprudent.”

Il n’y a de fourgon que de la police, laquelle peut bien être l’État comme on le dit du côté de HEGEL, mais la loi est autre chose comme on le sait depuis ANTIGONE.”

Treize ans de Charenton pour SADE en sont en effet de ce pas – mais ce n’était pas sa place – tout est là. C’est cela même qui l’y mène. Car pour sa place, tout ce qui pense est d’accord là-dessus, elle [sa <folie>] était ailleurs. Mais voilà: ceux qui pensent bien, pensent qu’elle était dehors, et les bien-pensants, depuis ROYER-COLLARD qui le réclama à l’époque, le voudraient au bagne, voire sur l’échafaud.”

Si le bonheur est agrément sans rupture du sujet à sa vie, comme le définit très classiquement la Critique, il est clair qu’il se refuse à qui ne renonce pas à la voie du désir. Ce renoncement peut être voulu, mais au prix de la vérité de l’homme, ce qui est assez clair par la réprobation qu’ont encourue devant l’idéal commun les épicuriens, voire les stoïciens. Leur ataraxie destitue leur sagesse.”

Que le bonheur soit devenu un facteur de la politique est une proposition impropre. Il l’a toujours été et ramènera le sceptre et l’encensoir qui s’en accommodent fort bien.”

La tête de SAINT-JUST, fût-elle restée habitée des fantasmes d’Organt, il eût peut-être fait de Thermidor son triomphe.”

Nous voilà enfin en demeure d’interroger le « Sade, mon prochain », dont nous devons l’invocation à l’extrême perspicacité de Pierre KLOSSOWSKI. Disons que c’est la seule contribution de notre temps à la question sadienne qui ne nous paraisse pas entachée des tics du « bel esprit ».”

Nous croyons que SADE n’est pas assez voisin de sa propre méchanceté, pour y rencontrer son prochain. Trait qu’il partage avec beaucoup et avec FREUD notamment.” Homo tempranus

Chez SADE, nous en voyons le test, à nos yeux crucial, dans son refus de la peine de mort, dont l’histoire suffirait à prouver – sinon la logique – qu’elle est un des corrélats de la Charité.”

Nenhum personagem sádico infringiu o C.d.E.

THE NAKED THERAPIST – Sheldon Kopp em “kopperação” com outros terapeutas

“This is not the first time my writing has been informed by my dreaming self. By now I am wise enough to trust such experiences even before I can make sense of them.”

Acceptance and praise foster a feeling of well-being in the child. They encourage confidence, spontaneity, hope, and a sense of being worthwhile. Punishment and threat induce guilt feelings, moralistic self-restriction, and pressure to atone. Guilt is the anxiety that accompanies transgressions, carrying with it the feeling of having done bad things and the fear of the parents’ angry retaliation. In the interests of self-protection, the child learns to deal with this anticipated punishment preemptively by turning it into an internalized threat against himself. § Disapproval and contempt make a child feel ashamed of not being a worthwhile person. The implied danger of abandonment may make him shy, avoidant, and ever anxious about making mistakes, appearing foolish, and being open to further ridicule.” “Aceitação e elogios alimentam na criança uma sensação de bem-estar e conforto. Encorajam a confiança, espontaneidade, esperança, um senso de capacidade e de cumprir o seu papel. Punição e ameaças induzem sentimentos de culpa, auto-restrições morais, pressão corretiva. A culpa é a ansiedade que acompanha transgressões, carregando consigo o sentimento de ter feito coisas ruins e o medo da retaliação furiosa dos pais. Com a auto-preservação em vista, a criança aprende a lidar com esse castigo iminente de modo preventivo, internalizando a ameaça contra si mesma. § Desaprovação e desdém fazem a criança se sentir envergonhada por não ser uma pessoa valorosa. O perigo implicado no sentir-se abandonado é o desenvolvimento de uma personalidade tímida, esquiva, evitativa, constantemente ansiosa ou apreensiva quanto ao cometimento de erros, com medo de acabar parecendo um tolo ou de estar vulnerável ao ridículo dos outros.”

A ANTIGA SÍNDROME DE RENAN: Medo de ser expulso de casa. Medo de dar muitas despesas. Medo de ser um mero mortal.

<Look how foolish you are, how clumsy, how stupid! What will other people think of you when they see that you can’t seem to do anything right? You should be ashamed of yourself acting like that. If only you really cared, if only you wanted to act right, if only you would try harder, then you could be the kind of child we want you to be.> Repeated exposure to such abuse calls forth an inner echo of self-contempt. § Eventually the child learns to say of himself, <What an idiot I am, what a fool, what an awful person! I never do anything right. I have no self-control. I just don’t try hard enough. If I did, surely they would be satisfied.>” “<Olha quão tolo você é, desajeitado, estúpido! O que vão pensar de você, se você não consegue fazer nada direito? Você devia sentir vergonha de si mesmo agindo desse jeito. Se apenas você se importasse, se você só quisesse agir adequadamente, se você apenas tentasse mais, aí então você seria o tipo de criança que queríamos que você fosse.> A exposição repetida a tal tipo de discurso leva a uma internalização dum eco de auto-desprezo; uma voz interna passa a repetir as mesmas coisas antes faladas pelos seus superiores. § Eventualmente, chega-se ao ponto em que a própria criança dirá, diante de cada nova decepção: <Que idiota que eu sou, que imbecil, que péssima pessoa! Nunca faço nada certo. Não tenho sequer auto-controle. E eu nunca tento o bastante. Se eu tentasse, com certeza satisfaria a vontade dos outros.>”

“My own mother often told me: <I love you, but I don’t like you.> It was clear that this meant that she loved me because she was a good mother, but that she did not like me because I was an unsatisfactory child.”

“The experience of being seen as momentarily not yet able to cope is a natural part of growth. It is also natural to experience the embarrassment that accompanies making mistakes, stumbling, blundering, or fucking-up.”

“Some parents are too hard on their children because of their own personal problems, others because of harsh cultural standards. Some cultures make excessive demands for precocious maturing of the child. In such settings, shaming inculcates the feeling that other people will not like the child unless he lives up to their expectations. § When shaming arises out of the pathology of neurotic parents, the child may be expected to take care of the parents. Such a child may never learn that the natural order of things is quite the reverse. He is discouraged from ever realizing that it is the parents who are supposed to take care of the child. § Even more insidious is the impact of the parent who unconsciously needs to have an unsatisfactory child. Such a parent will never be satisfied, no matter how hard the child tries, no matter how much he accomplishes. Anything less than perfection is unacceptable. If the child gets a grade of 95 on an examination, he will be asked why he didn’t get 100. If he gets 100, he will be asked what took him so long to get a satisfactory grade. Told that he should have been getting 100 all along, he may become afraid to do well lest perfect grades be demanded of him all the time from then on. If he happens to be a chronic straight-A student, then he may be asked, <If you’re so damn smart, how come you can’t keep your room clean?>” “This can lead to his spending a lifetime vainly seeking the approval of others in the hope that he may someday be validated at last. § My own parents shamed me needlessly and often. They made it clear that it was my clumsiness, my inadequacies, and my failures that made them unhappy. Even my successes and accomplishments were made to reveal how inferior and insufficient I was.”

“<Enough,> she stilled me. <A boy doesn’t interrupt when a father is talking, a father who sweats in the city all week long for him.>”

“Those who have been shamed can some day learn to overcome feeling unworthy. Embarrassment, in contrast, is a natural reaction that is inevitable in certain social situations.”

quavering speech [fala tremida] or breaking of the voice, sweating, blanching [empalidecimento], blinking, tremor of the hand, hesitating or vacillating movement, absent-mindedness” Goffman, Interaction Ritual: Essays on Face-to-Face Behavior, 1967

“The medical term for less-than-normal breathing capacity, for instance, is respiratory embarrassment.”

“Some unexpected physical clumsiness, breach of etiquette, or interpersonal insensitivity may leave a person open to criticism for being more crude or coarse than he claims to be. But this is an issue of manners, not of morals. It may make for a temporary change of social status, but never carries with it the self-threatening sanctions of shame, with its implications of abandonment, loss of love, and ultimate emotional starvation.”

“For a moment all bets are off. Trust of myself and others is in jeopardy. All values are once again in question. First there is the question of trust in myself. Am I an adequate human being or a fool? What can I expect of myself? Do I really know what I am doing?” “It is a time for the exotic flowering of my paranoia. At such times I may mistakenly expect contempt and ridicule from loving friends and neutral strangers. It is just as though they would turn from me in disgust as my parents did when I did not meet their impossible standards.”

Where is my floor?

Please open that door

Shut those windows

Cracked room and mind

of a sweet-salty boy

Sing along and refrain

from hiding.

There seems to be no way for any of us to get through the day without making a careless error, doing something foolish, committing a gaffe or faux pas.” Gof., op. cit.

“After hitting the lamppost I sat on the curb and cried as little as possible. I was really worried. Now it was time to go home and face my mother. Instead of seeing this mishap as an unfortunate accident around which I could feel sorry for myself and expect some sympathy, I knew that I had let my parents down again. I headed home and climbed the stairs to our apartment, skates over my shoulder.”

“Still, echoes of this grotesque situation can be heard at times from out of my unsettled and unworthy depths. I remember just a couple of years ago when I learned that I had to undergo a second bout of neurosurgery.”

“At such times my mother’s explicit instructions were: <Don’t fight, but never, never deny that you are a Jew.> She seemed to want me to be well-behaved, but did little to help me to avoid occasions of sin.”

“One afternoon after school Charlie started beating on me in front of a girl I had a crush on. For the first time in my unhappy marriage to Charlie Hooko, my own fear of being seen as a shamefully brutal, lower-class street fighter was overcome. The fear of being humiliated in the eyes of this girl was even more shameful. And so in the midst of the fight I punched Charlie right in the mouth. He couldn’t believe it. I could hardly believe it myself. § Charlie stopped the play at once. He took me down to the park and we both washed our faces at the fountain. Charlie announced to everyone around that I was a tough guy, that he admired me, and that we would be friends from then on. That ended months of regularly scheduled defeat.”

Punch like a girlish girl

Yea, just feel the flow

“As an early teenager I did eventually graduate to becoming a marginal member of a fighting street gang. I pretended that I was a better and more enthusiastic fighter than I ever really was.”

“As my children grew, being creatures of their age they moved toward the freak culture. Part of this involved their being the first kids in our neighborhood to let their hair grow long. So it was that another macho incident came about. One of our neighbors, strong both of will and of muscle, flew the Confederate flag.”

“What proof did he have, I demanded? His only answer was that my kids had long hair. He believed vandalism occurred only in the ghetto. Ghetto kids had long hair and they broke windows, he insisted. My kids had long hair. And so he concluded that it must have been one of them who had broken his window.”

Ironically, the blunderer often unwittingly reveals the discomfort of his predicament by the very means by which he tries to hide it: <the fixed smile, the nervous hollow laugh, the busy hands, the downward glance that conceals the expression of the eyes.>” “Ironicamente, o atabalhoado freqüente e inadvertidamente expõe seu desconforto situacional pela própria tática utilizada para disfarçá-lo: <o sorriso fixo, a risada nervosa despropositada, as mãos hiper-ativas, a vista caída que esconde a expressão dos olhos.>”

“Essa necessidade social salutar de ocultar-se o embaraço é enfatizada nas pessoas que foram excessivamente submetidas a vexames na infância. Potencialmente, o indivíduo virá a desenvolver um estilo de conduta de tipo neurótico, agindo timidamente a maior parte do tempo e preferindo evitar que outros venham a percebê-lo ou a conhecê-lo.”

“Tendo tantas dificuldades de interação, não é raro que a pessoa acredite que sua abertura para o constrangimento e a vivência de situações ridículas [pois socialmente é impossível fugir de tais ocasiões] é realmente singular. Ela pode desenvolver a crença que outras pessoas não têm a mesma tendência de <se passarem por tolas> de tempos em tempos, como ela tem.”

“Sua própria conscienciosidade de seu problema age como um efeito bola de neve: a apreensão pela sua hiper-sensibilidade eleva seu senso de isolamento, peculiaridade, solidão, enfim. Que trágico que a pessoa deva sempre sentir-se como um desajustado! Basicamente, não diferimos uns dos outros. Ninguém é capaz de lidar o tempo todo com as demandas sociais, sempre excessivas. Mas é que o comportamento tímido-neurótico é sempre desproporcional, alimentando a convicção íntima de que <há algo muito errado consigo>.”

“As maneiras reservadas do introvertido <clássico> (não-mórbido) são parte, provavelmente, de sua orientação psicológica inata; e ele estará sempre mais inclinado ao mundo interior das experiências privadas, que lhe é bem mais confortável. Certo nível de acanhamento da personalidade é mesmo, senão natural, incentivado socialmente. Algumas pessoas (como o próprio que escreve) escondem sua timidez crônica debaixo de um véu de arrogância simulada.”

“When he does try to express himself, he is likely to be hesitant, needlessly soft-spoken, ingratiating, and apologetic. Whenever possible, he simply will try to avoid contact with other people.”

A person who is not neurotically shy understands that it is the external situation that contributes to embarrassment, rather than some defect in his own character. Unlike the shy neurotic, he has come to learn that these anxieties are triggered by his reaction to particular people and situations.” “Uma pessoa que não é neuroticamente tímida compreende que é o contexto exterior que contribui para seu embaraço, em vez de qualquer defeito de seu próprio caráter. Ao contrário do tímido neurótico, aquela pessoa aprendeu a ver que essas angústias são acionadas pela sua reação a pessoas e eventos particulares.”

AUTONOOBSAIBOTADOR

 

The shy neurotic cannot get anywhere in overcoming his excessive shyness without first revealing to himself that what he truly fears most is not rejection but acceptance, not failure but success. He begins to go after what he wants out of life.” “O tímido neurótico não chegará a lugar algum, enquanto tenta superar ou minorar sua timidez, caso não admita para si mesmo que o que ele realmente mais teme NÃO é a rejeição mas a aceitação, NÃO é o fracasso, e sim o próprio sucesso! É aí que ele começa a alcançar seus verdadeiros objetivos de vida.”

we’re all looped, leaked, sinking, seeking and not finding, just overwhelmed by our own hopes’ weights… what if…

a head dive in a pool of danger

“Feeling undeserving of such unfamiliar achievement and acceptance, he has unwittingly learned to discredit these pleasureable experiences. A poignant early expression of this self-defeating attitude occurs during the first phase of psychotherapy.”

Anything that makes him feel worthwhile calls forth the echo of his mother’s voice, demanding that he question his presumption. It is as though he can almost hear her demanding, <Just who do you think you are?> Believing even for a moment that he is satisfactory as a human being evokes the underlying shameful feeling that he has presumed too much.” “Qualquer coisa que o faça sentir-se valorizado evoca o eco da voz de sua mãe, mandando que baixe a bola. É como se realmente pudesse ouvir, <Vem cá, quem você pensa que é?>. Acreditar por um só momento que ele é um ser humano completamente satisfatório é o suficiente para ter sua paz de espírito quebrada por pensamentos de culpa de que ele agiu presunçosamente.”

O supremo oposto do vaidoso dos vaidosos – e o que isso trouxe? Mais ódio dos ‘cristãos’ sobre sua cabecinha…

“So it is that each moment of decision is followed by a moment of revision. A minute later, he has reversed his thrust forward, retiring once more into his customary shyness.”

“His life is not what he meant it to be at all. It’s just not it at all.”

Evitar a confrontação é como comprar à prestação!

Guy de Maupassant’s short story, The Diamond Necklace, is a classic example of the high price of false pride. It is the story of Matilda, a woman tortured and angered by having to live a shamefully ordinary life because she does not possess the luxuries and delicacies which she insists befit her station.”

“It was my parents who started me off down my own painful path of shame and false pride. My parents are no longer responsible for this trip that I sometimes continue to make. Now the enemy is within. It is only my own overblown ego that shames me. It is only I, still sometimes arrogantly insisting on having higher standards for myself than I would impose on others. How much easier to accept the flaws in others than in myself. To the extent that I cling to being special in this way, I remain stuck with the tediously painful life of the perfectionistic striver. I must get everything right, all the time, or suffer shame. It is far too heavy a price to pay for maintaining the illusion that I might be able to rise above human frailty.”

“I give up being satisfied with myself as a pretty decent, usually competent sort of guy who, like everyone else, sometimes makes mistakes, fucks up, and plays the fool. Instead I insist that if only I tried harder, really cared, truly wanted to, I could become that wonderful person who could make my long-dead parents happy. Then they would approve of me. I would be the best. Everyone would love me.”

Guilt and shame originate from different kinds of faulty parenting. Guilt arises out of a certain kind of bad fathering, shame out of bad mothering.¹ Either parent may elicit one or the other depending on the particular parent’s role and attitude rather than on his or her gender alone.

Excessive authoritarian fathering creates guilty anticipation of punishment for transgression against the lawful order of things. Overly demanding mothering breeds shame.”

¹ Kleiniano demais…

“Paradoxically, too much shaming often produces defiance rather than propriety. No longer able to bear the overwhelming burden of shame, a child may develop a secret determination to misbehave. He comes to wear a mask of spite and shamelessness.

“We were studying Shakespeare’s Julius Caesar. At the beginning of one week, the English teacher announced that we were to memorize Marc Antony’s eulogy. I protested loudly. Memorizing materials that needlessly cluttered up my head was both a waste of my time and an intrusive violation of my mind. No arbitrary school system had any right to do that to me.”

<Ma, how come you always talk funny when you come to see a teacher?> This was one of my rare opportunities to shame her”

Straight people were simply not prepared for coping with those of us who shamelessly stepped outside of the system, acted with contempt for the rules, and covertly shamed them for the arbitrariness of their principles.”

“At times my shameless behavior has gotten me into trouble. But so long as it sometimes gets results like that, who am I not to be tempted to continue to be outrageous?”

“More privately, I had developed the false pride of perfectionism to hide my shame and worthlessness from my own eyes. I had to avoid risking further failures and more mistakes. I had to be able to change my image so that I might escape without looking like I was running away or hiding out.”

NOSSAS TORRES DE MARFIM

“No longer would I be the fumbling incompetent who was too timid to go to parties because he never knew how to go about making friends. Instead I became a <heavy> intellectual. With such profoundly developed sensitivity, I could no longer be expected to be bothered devoting my precious energies to the pursuit of the mundane social goals that somehow seemed to excite almost everyone else I knew.

Even armoring as exquisite as this was not enough. Somewhere inside I knew I was just too damn lonely. I still needed to be needed. Acting obsequious, or even <being nice>, was an unthinkable solution. Instead I began to advertise myself as ever ready to rush into the gap whenever a task presented itself that ordinary folk found too unrewarding to mess with.”

“For the first few years of my career as a therapist I worked in impossibly archaic monolithic custodial institutions such as state mental hospitals and prisons. Though allegedly established and maintained as society’s attempt to care for and rehabilitate its social deviates, these institutions turned out to be punitive warehouses for those undesirables about whom the rest of us wished to forget. I cast myself as the champion of the oppressed.¹ Doggedly and unsuccessfully I fought the administrative powers, hoping to attain decent care, effective treatment, and eventual release for the inmates.”

¹ Incrivelmente similar a minha loucura de querer me tornar professor!

“Now I had a new problem. There were no bad parents to fight. How was I to define my role in this more benevolent situation?”

“I do not usually shake hands with a new patient unless the patient gives some indication that this is part of where he starts out in social relationships, in which case I respond.”

“His opening lines were: How long have you been a therapist? Don’t you know that phobic patients can’t stand to be touched? You insist on shaking hands with me knowing that I am too compliant to refuse. It could only make me anxious. The demands you make on me!

“Should he awaken during the night and need to go to the bathroom to urinate, he must simply suffer through the hours until dawn. He was not able to risk disturbing his dog by getting out of bed. His feeling of friendship with the dog was substantiated by his bringing him along to the treatment sessions.”

“There he asked to be deported to Russia for asylum. Surely he would get better treatment under Communism than he had from the barbaric democratic psychiatric services in America’s capital.” “I described my own experience, and I pointed out that the patient was crazy. He had made me crazy. I warned this man that he would make him crazy, too, unless we all understood that just because the patient claimed that something difficult needed to be done did not mean that we had to do it. The patient was all heat and no light. We were vulnerable to his unrealistic outcries because of our own needs to meet every challenge heroically, no matter how nutty it might be. If we thought it over for a minute, we would realize that there wasn’t much in the way of disastrous consequence in this for anyone but the patient himself. That was unfortunate for him, but that was the way it had to be. Happily, the perspective I offered was sufficient to relieve the Congressional Counsel of his own anxiety.”

“The patient was an attractive woman in her early twenties whose birth defects included having no feet and only rudimentary hands. She managed to get about with a combination of prosthetic devices and monumental denial.” “Focusing on her frustrated wishes to become a star in the public eye allowed her to avoid her anxiety and despair about the oppressive difficulties that she encountered in everyday living. My own parallel defensiveness led me to join her, supporting her crazy longings with my own denial of shame-filled helplessness. She made her own contribution by avoiding my tentative therapeutic interventions. There was just no way she could hear my timid suggestions that this whole show business preoccupation was an avoidance of dealing with the day-to-day quality of her life.”

“Unattended snot ran out of her nostrils and down her face (her measure of how much messiness I could tolerate?). I listened and sympathized as if my mere presence would heal her.” “For some reason, which I still do not understand, after about a year of this circus she let me in on her <secret>. All during this time she had been seeing me on Thursday afternoons, and now she confessed that she had also been in therapy on Monday mornings at another clinic with another crazy therapist.”

“This new challenge’s chart described her as a borderline psychotic, a part-time alcoholic, an unhappy, aggressive woman with preoccupying sexual hangups and several previous unsatisfying bouts of psychotherapy. When I went out to the waiting room to invite her in for our first therapy session she struck me as a slight, timid waif of a woman. She looked more like an emaciated 12-year-old than a life-hardened 32-year-old.”

Oh, now I get it, the old color symbolism test. A male therapist with a red shirt, and now I’m supposed to tell you that I’m sometimes gay, and you probably are, too!” “You’re the therapist I’ve been looking for all of my life. I’m never, never going to leave you. I know that you’ll be able to accept whatever I do without ever making me feel bad or throwing me out.” “My relief and sense of well-being was immediately transformed. I got the sinking feeling that I had just made a lifetime contract with an albatross.”

 

“By then I was off balance, but I knew the direction in which I must go. I told her that alcoholic beverages were not permitted in the clinic. If she opened the beer here in my office that would be the end of treatment. As in the first session, she seemed relieved rather than upset by my setting some limits on her acting out.”

“She had gone to visit her dentist to have a tooth extracted. He knew that she had bad reactions to the usual anesthetics that he used. Therefore he had brought a bottle of whiskey and insisted that she have a couple of straight shots to prepare her for the extraction. She described herself as having been rather uncertain. Still she yielded to his encouragement to have one, two, and then another couple of shots. She claimed that soon she was so high that she could not resist his insistence that she perform fellatio.”

* * *

Albert Ellis

 

“While I have the floor, let me also disagree with Shelly’s [Sheldon’s] (and almost all other therapists’) allegation or implication that shame largely stems from early childhood experiences. Shit, no! If anything, early childhood experiences largely arise out of our innate predispositions toward inventing <shameful> conditions and actions and consequently idiotically making ourselves—and I mean making ourselves—unduly embarrassed about our inventions.” “Because Shelly’s feelings of shame in regard to the incident with his parents have a high degree of correlation with his feelings of shame today, he mistakenly assumes that the former caused the latter.” “Shelly’s parents indubitably taught him various standards of ‘right’ and ‘wrong’—including the standard, ‘You act rightly when you stubbornly refuse to imagine yourself letting either of your parents drown and wrongly when you even consider saving only one of them from drowning.’ Given such standards, and having the human tendency to adopt them, Shelly will assuredly believe that he acts ‘rightly’ when he tells his parents that under no conditions would he let either of them drown and ‘wrongly’ when he tells them that he would choose one over the other. Granted.”

A person’s history therefore has relatively little to do with present feelings of shame or self-downing. Shelly may have learned his standards of good and bad behavior from his parents (and others), but he decided to take them seriously and he still decides to do so if he feels ashamed of anything he does today.”

“I had a female client who had serious feelings of inadequacy about herself, especially in her relations with men, and whom I helped considerably to overcome some of these feelings. She had an attractive female friend to whom she talked about me and the way I had helped her, and who got somewhat turned on to me. This friend, in her own manipulative way, managed to meet me at a series of lectures I gave and suggested that we date.

Now I knew that I’d better not do this. Not only have I refused from my first days as a therapist to have social relations with my clients—for although this may have some advantages, I recognize that it tends to lead to more harm than good—but I also have refused to maintain close relations with any of their intimates. (…) A good idea, and I invariably—or almost invariably—stick with it. But not this time! The friend of my client seemed so charming and attractive that I decided to break my self-imposed rule and to date her. I saw her a few times, got intimate with her socially and sexually, and then decided to stop seeing her because I found her much less charming and interesting than I previously had thought. In the course of my fairly brief relations with her, I deliberately mentioned nothing about my client, since I knew that they had a somewhat close relationship, and I didn’t want to give away any confidences.

Nothing happened for several weeks; and then, after I and my client’s female friend no longer saw each other, all hell suddenly broke loose. My client, Josephine, came in one day terribly upset and said that she had discovered that I had seen her friend socially. She found this most distressing for several reasons. She thought that I might have revealed some things about her to her friend. She felt constrained, now, in telling me certain feelings that she had about this woman. She confessed a sexual interest in me and said that she felt jealous that I had shown no inclination to have sex with her while I had obviously had it with Sarah. She hated Sarah for having seduced me and then having boasted about it. Most of all, curiously enough, she felt upset because I had stupidly allowed myself to get taken in by Sarah, who, according to Josephine, had no interest in me other than as a conquest, who had fooled me into thinking she had more intelligence than she actually had, and whose inherent nastiness I had presumably entirely failed to perceive.” “I, like Josephine, at first upset myself more about my mistaken diagnosis of Sarah than about anything else.” “Her interest in me stemmed mainly from her belief that I might help her with her own personal problems and from the ego boost she experienced from telling others that she had a well-known psychotherapist interested in her. Although I had told her very specifically not to mention our association to Josephine, whom I guessed would upset herself about it, she had not only told all to her friend but had also lyingly stated that she had given me up and that I still had a great interest in resuming relations with her.” “I took a chance that my relationship with Sarah would never get back to her. I really had preferred Sarah over her, and perhaps some of this preference had come through in my relationship to Josephine. I had given her an opportunity to see some of my diagnostic weaknesses—and thereby helped remove some of her confidence in me as therapist. When she had shown an overt sexual interest in me, I had quite ethically but perhaps too brusquely repulsed her, partly because at the time I already had established a sexual relationship with Sarah, and Josephine did not seem half so attractive to me. If I had never gone with Sarah, I might well have handled rebuffing Josephine in a more tactful and more therapeutic way.” “She seemed to accept the fact that I had not deliberately done anything to hurt her and had only made some understandable errors.” “Fortuitously, she got involved with a well-known psychiatrist who treated her with a dishonesty similar to Sarah’s treatment of me, and I helped her considerably in accepting herself with her gullibility [naiveness] and in breaking away from him without feeling terribly hurt.”

“I set a few more rigorous rules for myself about socializing with the friends and relatives of my clients, and eventually I mainly forgot about the entire incident.”

“If I down ‘me’, ‘myself’, or my totality for my errors, I essentially take myself out of the human condition and view myself as a subhuman. Falsely! For, as a human, I cannot very well attain superhumanness or subhumanness except by a miracle!”

As far as I can see, you do not really admit the true wrongness of your acts if you don’t make yourself feel very guilty about them. And, even if you do acknowledge their badness, you do not motivate yourself strongly enough to change them and keep yourself from recommitting them in the future. Poppycock [Baboseira]!” “As a person who admits his own irresponsibility but who doesn’t down himself totally for having it, I save myself immense amounts of time and energy that I otherwise would spend dwelling on my poor actions, obsessively showing myself how wrongly I did them, and savagely berating myself for having such fallibility.”

“I try not to make myself guilty about making myself guilty, nor to make myself feel ashamed of making myself ashamed. I don’t find it easy! I keep slipping. My goddamned fallibility clearly remains.”

Gerald Bauman

“I felt the role of therapist to be an artificial one requiring that I adopt a facade that made me feel like the newly clothed emperor. I think I persisted in this unpleasant exercise partly because doing therapy was then the wave of the future for young clinicians, partly because I was assured by colleagues and supervisors that I was reasonably competent and talented, and partly because I tend to become stubborn under duress.”

“The most difficult <incident> of all lasted about two years. In the course of some very significant changes in my life, I was subject to severe anxiety attacks while working with clients (and at other times as well). The awful feeling would gradually well up in a great surge that might last for several minutes and then gradually subside. The experience was particularly frightening because I never felt certain how <high> the surge would go. While working, for example, I felt as though if it went much further, I might fall out of my chair or flee the room (these never happened). Though appearing to occur at random, these <attacks> themselves seemed to become more intense over about two years; then I gradually became able to overcome them and resolve the underlying issues.”

CONTRA-MEDIDAS PARA MOMENTOS DE “NUDEZ TERAPÊUTICA”:

  • “Minimize (or eliminate) pretense in self-presentation. This is especially relevant to, and difficult for, beginning therapists.”;
  • Buscar uma espécie de “acordo tácito” com o paciente sobre o nível de nudez ideal que o terapeuta e o “tratando” desejam para a terapia;
  • Sempre ter em mente flexibilidade nas regras de resolução de problemas meta-terapêuticos – incluindo seguir ou não, conforme o caso, até mesmo ESTA regra!

Howard Fink

 

O INSEGURO ESTEIO MORAL DA NAÇÃO: “He began to wonder if his suspicious attitude toward his wife was some sort of an illusion he had to maintain to give him the upper hand in the relationship, to be the constant moral superior.”

“The subject of his wife and I forming some sort of a conspiratorial love pair against him was never again mentioned without a lot of genuine humor associated with it. In fact, as if to further discount the possibility, he once said that he never thought I could lose enough weight anyway to be called slim or skinny by anybody.”

Arthur Colman

 

“While I have known her, she has worked as a topless and bottomless dancer, a masseuse in a parlor catering to conventioneers, and now nude encounter. She has been only partially successful at these jobs. She turns off as she undresses.”

“When she worked as a masseuse, she did not like to touch men’s genitals and do <a local>. It was formally against the policy of the club, although she admitted that to <jerk a customer off> got you a larger tip.”

“Here she was, earning twenty dollars a half hour (exactly my fee, dollar for minute) by sitting nude talking to men who chose their state of dress. No touching, no closeness, no real intimacy. She didn’t admit to seeing the analogies in our situations, probably because she was frightened of exploring their meaning. Her fear protected me from the full impact of the miming that she portrayed as the naked therapist.”

“Being embarrassed about experiencing a particular feeling is just the beginning of the cycle. Confronting the need to keep the feelings hidden increases its potency. Deciding to risk the uncovering process by telling the patient what has been happening inside of me can momentarily increase the embarrassment until it is released in a rush as the communication is finally made.”

O velho dilema de se apaixonar durante as sessões.

“My wife and I have written a book, Love and Ecstasy, about merger experiences in the solitary, dyadic, and group orientations.”

“I remember one patient that I worked with in the Kopp/Colman office. Yvonne was an exquisite, delicate 18-year-old rebel. Her father was a wealthy member of the State Department, her mother the dependent matron of a colonial mansion. Yvonne worked at shattering all family hypocrisy. She attacked with reckless competence, trying everything, flagrantly, desperately, and always self-destructively. She came to Shelly through some of her friends. He represented a bearded refuge for her, an adult who might understand. He sent her to me.

Her name should have been Jezebel. At that point in my life she represented impulse, license, sensuality, limitless possibilities. (…) Falling in love with her would be a lot simpler solution to my malaise than reclaiming the lost parts of my own spirit.”

“I knew I was clever enough to translate what was happening inside of me into words and actions that would facilitate her therapeutic work with me, but I wasn’t sure that I had the courage to risk such an intimate and painful personal statement, with its unknown repercussions for both of us.”

“It is not unusual now for me to feel love in a variety of forms for men and women with whom I work.” “Fantasies from therapy (in the case of Yvonne) invaded my sexual relationship with my wife and my paternal relationship with my daughter, just as those relationships entered my therapy relationship with her.” “She described her evaluation session with me and noted that she was sure I had had an erection during some of the hour. Triumphantly she proclaimed that she was positive of that fact as I got up to escort her out of the room at the end of the hour. She wondered about my ability to work in such a state and about my designs on her. She also wondered about the quality of my marriage and my sex life.” “I remembered being sexually aroused by Susan. My response had been prompted largely by the provocative role she had assumed during the hour rather than from a personal attraction. She could be very sexy, but most often used it as a weapon and a defense. I knew that precisely because of my reaction to her—arousal without great interest.” “I said I got sexually excited by many of my patients, female and male. I tried to use all my responses to an individual in my work, those of my body (including my penis) in all its states, and of my mind, with all its fantasies. I certainly did not plan to cut off parts of myself in the therapy encounter. Integrating that openness in the special setting of therapy with my family and other personal life was difficult and a challenge.”

QUANDO DOIS JUNGUIANOS SÃO CASADOS: Libby knows me and herself well enough to assume that we could experience other people sexually and still focus our most intimate sexual expressions in each other, that she as Every-woman could become a repository for all my sexual fantasies just as I could for hers.”

Arthur Reisel

 

Verdade e vitória são contraditórias.

Meu analista tem uma voz paciente, e eu ouvidos doutorais!

Arthur, it takes ten years before a therapist begins to know what he’s doing.”

 

“Thinking that a straightforward discussion of the pot experience might ease some of this mother’s extreme fears, I asked the girls what it was like for them to smoke pot. Their replies were cautious and evasive. As I should have anticipated, they hit the ball smartly back into my court, asking me if I had smoked pot and if so, why didn’t I describe how it felt? Being a more skilled player than the girls, I could have used a therapeutic trick shot to put the ball back in their court. Yet something told me that the truth was called for here even if the shocked mother were to decide that a therapist who smoked pot was not for her family. Fortunately, it turned out well. Despite her innocence the mother is an open-minded woman who accepts differences in others.”

“Used with Karen’s permission, excerpts from her letters to me will amplify and enrich my presentation.”

I think you protest too strongly and judge too harshly of a previous generation; but the protesting quite vehemently part interests me the most because I have seen it come out before with Carolyn; it wasn’t what you said as much as the intensity with which it was said. You see, on occasion I am also interested in getting into other people’s lives even though I do not get paid for it. I am interested in what makes them tick, and I try to remain as receptive as I can to subtle, non-verbal clues.”

you are very, very far from being an open book. In other words, there is much about you that I do not know. I don’t really know how it makes you feel. I know at one point in the therapy I felt like I was naked, and you were a rapist, and you called me a beggar, and it hurt, and I thought: I’d rather be a beggar than a rapist. It just seemed that you kept taking and taking”

 

you can’t beat them; you never beat them; all it accomplishes in the long run is letting them beat you. I don’t think either one of us would think that was a life well spent.” deixar-se levar é como ir para o inferno, pois não existe paraíso sem esforço. se isso significa que você “tem de dar valor”? Hoho, chega, descanse os nervos, o inferno não deve ser tão ruim… Me chama que eu vou!

I did not tell you my complete reaction to your giving away one of your pictures. My initial feeling was a tinge of jealousy that you thought enough of one of your other female patients to give her a picture you liked very much. What felt like a little child in me yelled out: What are you doing? Don’t you know? I’m supposed to be the most important one! You’re not supposed to give your favorite picture to someone else! On that same level, I’m still not exactly bouncing off the walls about it; a little of the same feeling came back when you brought it up today. However, I feel it is so ridiculous, and childish, and unrealistic that I don’t even know if I completely allow myself to feel it, much less express it.”

uimpulsaindimpulsa

She wasn’t going to think you had designs on her, was she? You didn’t, did you? Then, what’s to feel uneasy about? It was a very nice thing. People should do it more often. I’m glad you did, a little jealous, but pleased.”

 

I get the very strong impression from you that you like doing things according to schedule, and that you really do not take deviations too gracefully. It is too bad that people’s needs do not run according to schedule also, or maybe most of your patients can program them for their hour or whatever.”

 

Fuck your schedule; it might have fucked our lives. We should have gone elsewhere, but you didn’t have to worry about that because I was already too attached to you for that, and I’m sure you didn’t lose any sleep over it. I have resented it; I didn’t realize I resented it so much.”

“She then sent a brief note to apologize for blaming me for fucking up her and her husband’s lives. Karen knew they were responsible for their own lives, and she felt badly about hitting below the belt over the issue of my schedule.” Below the belt, but not too much…

Quantos anos de serviço contribuídos como “terapendo”?

Jacqulyn S. Clements

 

Alan, in his 5th year of hospitalization, had been recalling the days when he was an airplane mechanic. He concluded with the comment, <That’s why I can’t ever get married; I’m a mechanic.>

You may be noting the symbolism. What I said was, <Well, I don’t know about that. I’ve known a number of mechanics and most of them were married.>

Alan pondered this thoughtfully. Then with a twinkle in his eyes, he leaned close to me and said, <But were they schizophrenic?>

“Telling these stories is vaguely embarrassing, but, as lived, they were really good experiences for me and for the clients. My response in each case was a silent but clear <Touché!>. I don’t recommend dumb comments; but if you’ve got a Bobby or an Alan, you can learn a lot and enjoy each other.

An incident from my practice that illustrates a negative feeling of goofing and embarrassment occurred on the day I handed Mrs. B the A-child’s appointment card. My comments made it obvious that I thought she was married to Mr. A, who was also seated in the waiting room. These weren’t new people; I’d interviewed each with their real spouses. When Mrs. B pointed out my error, I wished I could disappear into a hole in the floor, and my right arm flew up in the air. I used it to touch my hair and said, <Oh, my, where is my head today?> Then, taking the A-child back to the therapy room, I quipped, <I almost got you a new mother today—ha ha.> As far as I know this had no big effect on therapeutic progress, although I certainly wouldn’t call it a confidence builder.”

“Sophisticated clients know what Gestalters and such are like; they probably saw their 6th Fritz Perls film just last week.” Um dos fundadores de um dos ramos da Gestalt (que não é monolítica): Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P., Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality (1951).

“I went to all those miscellaneous workshops and training institutes like everybody else, but I never did manage to come home a recognizable anything. I tell them I’m a Jackie-therapist, and this means, of course, my confidence rests almost solely on results. Yes, this has bothered me some. I’ve never felt ashamed not to be a walking encyclopedia on psychoanalytic theory, but often when another therapist is visiting the premises, I feel tempted to ask my client to please get down on the floor and scream like he’s having an avant-garde breakthrough.”

“I’ve had a few clients with outstanding embarrassment records. Cindy, age 14, recalled her 1st date: She spilled Coke in the boy’s lap, bowled [derrubou] a 16, and then left his car door open, resulting in $70 worth of damage. In such award-winning-goofers I also plant seeds to the effect that they’ve hit bottom, so what’s left to fear?”

“It’s amazing how many children I’ve seen who won’t run on a dropped ball. Little princesses just pose and posture the whole game—any game. The strikeout freezers can usually stay on the team if their batting average is high enough. But princesses are eventually ridiculed and chosen last.”

NÓ CEGO: “My other chronic childhood embarrassment worry had to do with body functions. In grade school about the worst thing I could imagine was wetting my pants in class. However, I was also too embarrassed to ask to be excused to go to the restroom. Would this qualify as a double bind? I am probably one of the few people in existence who neither asked to go nor went anyway.”

“It wasn’t until this very year that I got blood on my skirt in public. I was seeing a teenage boy for therapy when it happened. I laughed.” Quando crescemos e aprendemos que dar aquela freada ou mijada na rua não é nada de mais. “Now I’ll ruin the story a little bit: The teenage boy had gone before I realized it had happened, and then I laughed.”

“Life’s traumas, goofs, negative embarrassments and such should be stored lightly. If they’re off in the warehouse, they’re hard to get at when you need them and could do something constructive with them. But even sending the empty storage cabinet to the warehouse is ill advised. Then you wouldn’t have anything to put these memories in. They’d be laying around in sight too much. There are times for getting them out, but really nobody wants to see or hear that stuff all the time, even your best friends. And how about your own probable concentration on them? That’s called negative feedback overload. To avoid repression or indiscriminate hang-out, better get those storage cabinets out of storage!” O que está sempre exposto passa a ser ignorado (como certos livros na prateleira, que estão na sua frente mas você não os vê mais).

The hypothesis was born: Be they orthodox or atheists, Jews have one foot stuck on the wailing wall. This was a hunch, not a put-down.” “A hipótese havia nascido: Fossem ortodoxos ou ateus, os judeus têm um pé fincado no Muro das Lamentações. Isso era um palpite, não uma afirmação ou acusação.”

IDENTIFICAÇÃO ESPIRITUAL, NO NEED FOR SHOWING (wallpaper de estrela de Davi e correlatos): “My fantasies went even further. I pondered the possible effects of Jewish Depression on the theory and practice of psychotherapy. Since nearly all the geniuses and heroes in this field really are you-know-whats, there might be an accidental bias that could be labeled the J.D. factor. Non-Jewish therapists would pick it up by identification and introjection. By now, almost everybody probably has J.D. This means things may not be as bad as they look.” Ser antissemita é ser antiocidental como um todo, mas não significa ser pró-oriental. Na verdade o Oriente desconhece o pânico anti-judaico; isso é uma doença exclusiva do homem moderno autocastrador. Ser antissemita seria negar nossas mais vincadas raízes pagãs. Ser antissemita é ser um destruidor dos próprios antepassados, nobres e elevados (recado a Varg & simplórios desta era).

Wailing Wall. To wail is to cry. A wall is a block. A crying block? Crying because of a block?” Trocadilho impossível em Português.

“Note that Adam and Eve had no neurotic human parents and did not live in an uptight culture. They didn’t even have any childhood memories. Archetypal shame may be rather far removed from psychological theories regarding its derivatives. Note also that Adam and Eve were not Jewish; they were everybody. There was a wailing wall long before the one in Jerusalem. The latter is likely a modern intensification, or reenactment.”

“For many years, as an adult, I had frequent repeats of two rather common dream themes. In one I was to be in some play. It was opening night, and the curtain was soon to rise. I couldn’t remember any of my lines. I couldn’t recall ever having been to rehearsals. I couldn’t even find a script to refresh my memory or to take, hidden, on stage with me. In the other dream it was time to go take some school exam. I hadn’t been going to class. I’d forgotten I’d even enrolled in the course. If I’d ever had the textbook, I didn’t know where it was.

Despite years of individual therapy, group encounters, and hundreds of psychological theory and how-to books, these dreams continued unchanged. Then last year I had breakthrough dreams for both of them and have not had either one since.

In the breakthrough play dream, the curtain actually goes up and I step on stage. I not only have to improvise my lines, but I’m not dressed like the others. Six women glide by in beautiful satin gowns, and I’m standing there in a terrycloth robe with a Kotex [absorvente] sticking out of one pocket. Everybody laughs. In the school dream, I go to the room, take the exam, and presumably flunk.”

All our righteousnesses are as filthy rags (Isaiah 64:6) is a commentary on general goodness, not just what we call self-righteousness. As such, it always sounded like a real bummer to me. Maybe the frequency of righteousness wasn’t high, but what a slam on quality. I once thought: Now there’s a good recipe for neurosis.”

“Of course, the righteousness insight didn’t really pop out of nowhere. I’ve been on a gradually emerging spiritual journey for 3 or 4 years now. Sometime during this period the following dialogue probably took place, although I’m surely still working on the last line of it.”

Donald D. Lathrop

 

<I have never had a failure in psychotherapy!> My out-bragging the braggart was so incredible that it shut him up. What a blessing for me! The rationalizations that would have poured out of my mouth in justification for my clearly unreal claim humiliate me even now as I think of them. Evidently he recognized at that point that I was crazy. He never attended another supervisory session.”

“The type of therapy—the goals, the expectations, the method—defines failure. In psychoanalysis, the best studied of the therapies, failure has two important faces. One is the therapy that never ends, the <interminable analysis>. The other is the therapy that ends without a full completion of one of the technical dimensions of (psychoanalytic) treatment, namely the resolution of the transference neurosis.” “In most psychotherapies, the transference neurosis is left almost totally untouched. Good results are achieved by minimizing its development.”

“We talked about Arlene Mildred and her father. There were parallels. Arlene had been suicidal for months and was perpetually rejected by her parents. Yet if she killed herself, there is no question that her father would be on the phone screaming threats at me.”

“I feel better (as always) when I work, when I do the work that is my calling. It’s hard to concentrate, but there is relief for me in involving myself with the immediate problems of the living. Now there is something new. I am now haunted by the reality that no one in my care, not my patients, not my family, not myself, is safe from death through my unawareness. The only relief for me is talking into my machine, blindly recording for what purpose I do not know.”

“I recalled today that Mildred had had an illegitimate child and that her parents had condemned her for it; they had disinherited her, had left her with the feeling that in no way could she redeem herself. Now that she is gone, they are going to punish me.”

“But maybe not! Sometime in the late afternoon, sometime after the first woman had comforted me, I began to permit myself to think that maybe they would not sue me. Even now this goes back and forth, now one way, now the other. I know that I will just be waiting, waiting for however long it will be before the letter comes, before the papers are served, waiting and scared and at the same time a little defiant. They are not going to destroy me. I am not going to destroy myself.”

“That’s another strange quirk in this. I can no longer take comfort, as I have for so many years, in fantasies of committing suicide myself. Some recent realizations have convinced me that not only is suicide no longer a possibility for me, but comforting myself with fantasies of suicide is no longer acceptable. How strange, how ironic, that at the same time this door is closed to me, I have experienced the first suicide in my professional career.”

“These are all games. Nothing changes the reality. Mildred is dead. The games I now play to keep other men from judging me, from punishing me for my unconsciousness, for my carelessness, for whatever part is my fault, these games do not seem to me to have much to do with Mildred and me.”

“Tonight Mildred’s parents are busy making the plans and carrying out the procedure of burying their daughter. When they are through, they will come to bury me.”

“She told me that she was responsible for all of the evil in the world. I told her she did not frighten me; I told her, as I have told lots of crazy people, that I would expose myself to her and then we would see whether she was indeed the overseer of all evil. Now she is laughing. I just wish she wasn’t angry. Of all the helpers, all the professionals who have been involved with this young woman over 6 years of suicidal behavior, she saved her act of murder for me. I can stand the laughter, but the contempt, the anger, the hurt to my therapist’s arrogance, that really digs in hard.

Strange that this poor woman and I came together. We were brought together by the impersonal forces of the State. She was covered for her psychiatric care by welfare. I was and am obliged to make much of my living by treating these people. Like many such patients, she did not even pick me. I was picked for her by the good-hearted woman who runs the boarding house where Mildred was sent after her release from the state hospital. This totally untrained person gets the horribly sick, broken souls after they are hastily patched up and discharged from the state hospital. She is understandably anxious to find some professional to take care of her boarders. Many of them are as severely disturbed as any patient I have ever seen in the backward of a state hospital.

From the first time she came to my office, Mildred did not want to see me. In fact, for her first appointment, she refused to come in. I was glad. I didn’t need any more patients. I didn’t need to convince this unattractive young woman that I could help her. So I let her go. But the lady with the burden of taking care of her day in and day out was insistent, and a reappointment was made. Second try: I got her into the office. It was at this time she told me that she was the carrier of all evil. I found something to like in her. Her arrogance regarding evil stimulated my own in a competitive sort of way. I’ve known since I was a kid that no one is <badder> than I am. After that beginning, it was a succession of broken appointments, my happily giving up on her because she was stuck in a hospital in another part of the state, getting her back, working within totally unrealistic limitations of time and money imposed by welfare regulations, step by step to the final miserable result.”

“I was aware, as dawn broke this morning during my run on the beach, of Mildred’s blind eyes that do not see this sunrise. My dream last night was that I was working with some other  people, trying to finish a job. Although I was working hard and felt the importance of finishing the job, I was not frantic. Then I was relaxing with some people, perhaps having cocktails, and a young woman asked me whether I would be giving a language course. I replied, Who, me? Parlez-vous ze Deutsch? Everyone laughed, for I had demonstrated that language was my very weakest subject.

I did not understand this seemingly light-hearted and trivial dream in response to Mildred’s death. Then I went to consult my friend, my guide, Max Zeller (our relationship was called Jungian analysis, or psychotherapy, and I was the patient). Max suggested that we consult the I Ching. This was a beautiful idea. It was the very sort of objective statement that I would be willing to accept. I certainly did not want any more comforting.

I asked the I Ching about the nature of my involvement with Mildred, the meaning of this experience. The answer was hexagram 28, <The Preponderance of the Great>. In this ancient Chinese symbolism was revealed a union of solidness, steadfastness, and joy. My light-hearted dream of last night now makes sense to me. As a student, much less a teacher of the language of the unconscious, I am a rank beginner. My life is the task that must be completed. As the dream says, I no longer work frantically at the task, imagining that I will thus impress the gods or get the job done, i.e., reach perfection. The hexagram also comforts me in my experience of inner peace, my lack of grief. I had feared that this was merely denial on my part, the refusal to feel the expected emotions. But the ancient book of Chinese wisdom suggests that grief and breast-beating are simply not part of this experience.”

“Now it is years later. I never heard another word from Mildred’s parents. The boyfriend who had encouraged her to sign herself out of the hospital against my advice called a couple of times. He mainly wanted to share his feeling that all of us had been bound together by a cosmic experience. I could agree—since he made no further demand on me. I was satisfied that he had forgiven himself as I had myself.

My failure, as I now see it, was in not being aware of the purpose of my treatment of Mildred. This young woman had been in agony for years, convinced that she was personally responsible for all of the evil in the world. She had tried repeatedly to solve both her own excruciating pain and the world’s unnecessary suffering by killing herself. However, she had always been too disorganized, too fragmented to succeed. I had treated her with medication and with psychotherapy so that she finally had the necessary ego resources to carry through a definite act of self-annihilation. My job was to cure her so she could kill herself! My failure was in remaining unconscious, in not being willing to be fully responsible for my part of the therapeutic contract.

I had known for years before this incident that the danger of suicide is greatest during the recovery phase. I knew that I could have legally detained her for a while longer. It would have been a lot of trouble, but it could have been done. The fact is, I just didn’t care enough about Mildred. That’s what was lethal.

I don’t want to slip into moralizing. That has no place in a world that is moving slowly but surely away from judgment, away from manipulation through guilt. I am convinced that my own refusal of guilt in Mildred’s death was the key to my not being punished by society. If we permit guilt to take over, we communicate to others their right to take vengeance on us. Meu satânico erro em quase todos os períodos turbulentos da minha vida: ser cristão demais! Jussara, Maria das Graças, veteranos bobiólogos, até mesmo indivíduos estranhos, conhecidos na véspera… sempre se aproveitaram dessa faceta, tantos rostos descarnados disponíveis para umas pancadinhas, impunemente… Felizmente minha língua e meus dedos, embora em efeito retardado, isso lá é verdade, não seguem ordens ou ditames do “corpo típico” (o que me lembra TÍSICO), se é que se me entende. Aloprados e mais sinceros do que idiotas e bons, eles procedem à vendeta; “fora de contexto” não existe na perspectiva dessas duas instâncias, verdadeiras guias desta carne que transpira. Uma vez, em que não importa quanto veneno a serpente inoculasse eu jamais reconheceria qualquer porcentagem de culpa: Isabel the Unimportant Nóia, leprosa que se filia com os tipos mais tortos e mendicantes, desajustados, dessa Brasília imunda (e por isso me conhece!), não tinha nenhuma razão, mas, ainda pior, nenhuma chance de, com razão ou não, me convencer de minha responsabilidade no incidente que precipitou meu divórcio. Isto não é dizer que esse tipo de pessoa sem conhecimento causal algum tem qualquer ciência socrática de que nada sabe: pelo contrário, uma Unimportant Bell é sempre e perigosamente a “personalidade forte” que carrega uma fé cega, uma autoconfiança ilimitada nos próprios métodos, a pura contingência e falta de método, a vida informe e tosca, não-lixada, torpe como madeira matéria-prima. Estas pessoas são tão fanáticas em seu niilismo inócuo quanto qualquer dogmático tentando reinjetar, atavicamente, tabus e ritos milenares já superados na nossa sociedade protestantemente laica (faz parte do jogo de cena a impressão de que os evangélicos nunca foram tão poderosos, mas é uma força de castelo de açúcar, com dilúvios à vista…). Não temos rigidez e teimosia para levar adiante nenhum propósito que não tenha nascido ontem mesmo, enquanto civilização brasileira pós-moderna. Os mais doidos e inconseqüentes que já conheço há anos, mesmo que sem qualquer padrão real, são os únicos que posso descrever com precisão em seu martelar psicológico entediante.

ATENÇÃO, FIÉIS! NOSSOS PLANOS FORAM ANTECIPADOS PARA ONTEM: “All of my life I have failed. All of my life, I have suffered depression as a consequence. But I would far rather take my punishment as depression than project the responsibility for punishing me out onto the world. Others are not likely to be as merciful to me as my own educated inner Judge. I had a revelation once: There is no judgment on Judgment Day.

Vin Rosenthal

 

“Unlike Joseph K. in Kafka’s The Trial, I know what I am guilty of”

“I am so nervous! I take some Thorazine. (Why Thorazine! Especially when I’ve never taken any psychotropic drug—not even marijuana.)”

“(And now I know what my patients are talking about when they tell of their anxiety.)” Weird. Sempre achei que a descoberta antecedia a profissão!

Were you aware that a contract with a ‘schizophrenic’ often has little binding power?”

 

“The Tribunal gets really hot when it suspects sexual misconduct on my part. The judges are terribly suspicious of anything that looks the slightest bit sexual. (This sometimes is a hard one because they don’t always agree among themselves about what is sexual and about the rules of common practice and the behavior of the hypothetical <reasonable therapist.>) The Tribunal casts its confronting eyes over my writings and challenges me about such statements as follows:

She says: If it hadn’t been for your response to me, your holding me, I don’t think I would ever have come to believe anyone could find me sexually desirable; no matter how long we had just talked about it.

 

I’m amazed and overjoyed. I had picked up her message that she genuinely desired to have me-as-a-person act warmly, lovingly, intimately, with her-as-a-person, but I was uncertain whether I should risk it. Now I can see that by limiting my risk I would have seriously limited her possibilities.

 

My judges are especially wary whenever I Hold a patient.” “they often are skeptical and insist on reading between the lines and beyond what I have written.”

If I sense the person is feeling sexual as a child, I let him know he is safe. If I sense the person is sexualizing to avoid, I try to encourage his getting to his child; if he does not, we sit up and work on it. This is also true if I sense that I am sexualizing the situation. I do not continue TO HOLD a patient if I stay with my sexual feelings”

 

“The Age of Aquarius enables me to avoid detection; no one looks that closely, and whoever does is ridiculed for being <uptight>.”

“What would you have me do? What kind of job would you permit me to hold that would enable me to retain my humanity, use my skills and talents and develop my potential? Remember, my peers are no better than me. The few unflawed noble souls are, wisely, going about their business in an unpublic way; they couldn’t care less. I have to live somewhere, someone has to share my company—otherwise that would be too inhuman a punishment to fit my misdemeanors. Reforming seems like such a difficult, even impossible task. Disappearing feels easier, yet, I’d have to take myself along. I suppose I’ll just go along as I have and hope that nothing happens.”

Lora Price

 

why not just a few?

 

“In the social work profession, close, intensive working together with clients toward personality shifts and problem-solving is called <counseling>. This is a term that suggests <telling> someone what to do as a way to be helpful.” “It is the social worker—the woman—whom the public mind most often identifies as the offerer of the <concrete> service. The intangibles, the profundities, are within the male preserve.” “Sigmund Freud and Otto Rank supplied the educational approaches that dominate the field. When I was in graduate school the faculty was overwhelmingly female. The course in psychological theory was the only one not taught by a social worker. Instead, the instructor was a male psychiatrist with a faculty appointment as <consultant>.”

“Even those social work agencies most heavily invested in offering counseling rather than concrete services rely upon regularly scheduled psychiatric consultations to determine and consolidate diagnosis and the direction of treatment. When I was a caseworker in a family service agency, it was a male psychiatrist who was hired to offer his expert opinion on a weekly, one-hour consultant schedule. There were only one or two caseworkers who could <present> within this frame.”

“Mistakes or therapeutic errors (although they were not so designated) were to be kept <in house>. This was a familiar and oft-taught lesson.” “The case supervisor, my supervisor, and I would all sit there chatting amiably, awaiting the arrival of the psychiatrist. He always came late because his schedule was so busy. All four of us would then engage in seeming accord as if there was only one way to work with my clients, one direction for me to follow. Because my submitted materials reflected only that I knew exactly what to do, we could then all bask in the aura of certain knowledge and perfection.”

“Making one’s way is equated with manipulation and control. Although the kernel of this truth first became evident in my work in a social work unit (a family service agency), it was even more glaringly so when I began working in mental health facilities. Ironically, these are considered the apex of clinical social work placements because of the opportunity they offer to do counseling—or therapy—without the impediment of the concrete service traditionally found in social work agencies. I had decided to go this route because of my wish to work with clients more intensively and knowledgeably.”

“When I applied for the job I wanted, I was turned down by the woman who was the Chief Social Worker. She said I was too inexperienced and would make too many mistakes. Besides that, I had been trained as a Rankian and obviously would not fit in with the Freudian approach of that particular clinic. She knew that my being there would <embarrass> the social workers who needed to keep up with (if not be better than) the medical staff. The chief of the service was a male psychiatrist. I saw him next. He was pleased to maintain his position in the ongoing struggle by overruling her and hiring me. In any case, he could not conceive that anything I would do could be that important. He knew that it was the doctors who ran that clinic.”

“the <family> was considered to be my area of expertise. The people I saw were labeled <clients> in deference to their secondary standing in the treatment matrix.”

“In my mind, women were less likely to be accepted into medical school than men, and girls were not as skilled as boys in dealing with prerequisite subjects such as science and mathematics. Also, becoming a social worker consumes less time and less money. Clearly, expending less energy befits a profession which is only of secondary importance.”

“Away from my clients I wept copiously. With them, I insisted on appearing intact and untroubled. I feel embarrassed now by my complicity in perpetuating their assurances that I could be perfect”

Arthur L. Kovacs

 

Presented at the symposium Critical Failure Experiences in Psychotherapy, Division 29 Midwinter Meeting, 1972.”

 

“I now know that this formulation is nonsense. What we do with our patients— whether we do so deviously and cunningly or overtly and brashly—is to affirm our own identities in the struggle with their struggles. We use them, for better or worse, to secure precious nourishments, to preserve our sanity, to make our lives possible, and to reassure ourselves in the face of that ineffable dread that lurks always beyond the margins of our awareness and can be heard as a very quiet electric hum emanating from the depths of our souls when everything is silent.”

“In this way, we can use our training to utter comfortable lies to ourselves and to avoid looking at the processes by which the persons we are either catalyze or defeat those who move in communion with us.”

“…what? Disaster? Chaos? Stalemate? I do not even know the right word to describe the outcome.”

“Part of me needed a persecutor, and Gwen supplied the potential to play the part.” “When I no longer needed to be persecuted, we somehow parted.”

“subjective time is always more important than objective time”

“Gwen came to see me because she had begun to experience severe anxiety attacks in school. Most of these were evoked by encounters with her psychology instructor, a married, middle-aged man. She was convinced, in her own paranoid fashion (to which I was unutterably blind in the beginning), that he was making seductive, obscene, and shaming gestures toward her continually. When he discussed masturbation in his lectures, she believed he was shaming her before the whole class, accusing her and revealing that she was a masturbator. She would blush, feel terrified, and have to leave class. Gwen was frequently aware of his genitals bulging in his trousers. She often believed he dressed in a fashion to accentuate them and positioned himself in such a way as to exhibit his endowments to her. When he talked about sexual matters, she <knew> he was lusting after her. I need to make it clear that, as I do so often, I partly trusted Gwen’s craziness and indeed believed there was something in the instructor that longed for her. She was, I must repeat, deadly cute.”

“When she returned to her next appointment, she was furious with me. She screamed at me that I was a rotten fucker, that I had sent her to her humiliation, that I took sadistic pleasure in teasing her. The force of her violence was incredible; her features contorted into a malevolent hatred that I have seldom seen. For the first time, I sensed the presence of some awesome murderousness in her, and I felt frightened. The pitch of her screaming was louder than I had ever heard. I believe, and still do, that the instructor had manipulated her and given her a dose of clever poison to choke on as he protected himself from her paranoid wisdom. I tried to get her to hear that. Her ears were closed by the noise of her own anguished, vicious screaming. She broke out of my office, fleeing from me and from her rage, almost wrenching the door off its hinges—although she probably does not weigh more than 95 pounds [43kg].”

“My beliefs, inflicted on Gwen and most others who opened themselves to me, were my armor, my sword, and my shield at that time of my life.”

“The next many months Gwen found exquisite ways to torment me, even though I could not get her to come to my office. She began, for example, to call me, usually around 3A.M.. I would stagger out of bed to answer the phone. There would be an ominous silence, then a loud screaming, You goddam piece of shit! I want you to die! or something equally vicious and abusive. Suddenly the phone would be hung up and it would be over until the next time. I believed then that my life was in the grip of some malevolent, overwhelmingly crushing principle, for Gwen’s timing was exquisite. Most of her calls occurred at times when I felt too weary, too battered to stand one more moment of anguish in my life. My struggle to build a new existence was beginning to consume me. Most of those nights I had fallen into fitful sleep after lengthy episodes of bitter acrimony with my former wife or of crying desperate tears at having to cross such a limitless desert alone. Gwen’s calls would cause me to start up from steamy, sweat-rumpled sheets in terror; I did not feel the strength to deal with her.”

“At last, after an absence of 4 months, I finally received a daytime call from Gwen. She asked to make an appointment! When she came in, she told me that she had been thinking about her therapy a lot and that she felt she wanted to enter group therapy. Having others around would, she believed, keep the 2 of us from getting into terrible trouble together. (I often notice patients possess incredible wisdom, if we would only listen!) I also, as did she, wanted and needed to dilute the horrible intensity of what had been transpiring between us. I readily assented, and Gwen started group.”

“In her middle adolescence, Gwen’s stepfather had a psychotic episode, preceded by a period of great violence during which he brandished a pistol repeatedly, screamed at his family members often in desperate viciousness, and engaged in great, raging, hallucinatory battles with his wife—during which he sometimes bloodied her or broke her bones—before he himself finally went to a psychiatric hospital. Gwen trembled violently as she remembered and related these things. During this period of treatment, also, Gwen got herself a job as a secretary, decided to attend college at night, and moved into her own apartment, separating from her family for the first time in her life. And I felt smug, pompous, and marvelously effective as her therapist. What an ass I was!”

“Once I was working with another patient. The other patient was pouting, sullen, withholding. She had come up to the edge of something and now sat stolidly, defiantly, unyieldingly. I became exasperated and started shaking her. The next thing I knew, Gwen threw herself on me, fists flailing, screaming You fucker, you fucker! It took 10 people to pry her off of me. I was very shaken.

Another marathon. Days, months, years—I do not know how much later. I had taken 20 patients into the Sierra Nevada. We were camped out in a snow-surrounded, glacial-scoured, lake-filled paradise. I had asked a woman along to share my sleeping bag at night. As I look back, I now feel ashamed of my choice. My companion was young and very pretty but had nothing more for me than sexual compliance. For this she wished to present me with a large number of emotional demands. At that period of my life I was desperate for any crumb of nourishment, did not appreciate my worth, and would hunger after anyone I believed would have me. We fought a great deal that weekend. Gwen kept watching the two of us balefully. During the 2nd day, she asked the largest man in the group to restrain her physically while she talked to me. He did so, and once again she shifted gears into her screaming viciousness, calling me a piece of shit, a motherfucker—any obscenity she could muster. He held her so she wouldn’t hit me. She struggled hard to get free while she vilified me. The gist of her tirade was, of course, that I was a moral leper, a vile sensualist, and a user of people.

As my first marriage continued to die and as I searched for the goodness I so longed for, Gwen became somehow in my mind the world’s representation of the established moral order. She had been selected to make me suffer for my sinful attempts to make a new life. The night calls and screaming at me over the telephone continued, usually when I could least bear them. Incredible vituperation also spilled out of her in group each week.”

“Weekends are always terrible when marriages are dying.”

I want her dead! I suddenly knew it and began to fantasize the myriad ways I could kill her. I danced exultantly over her broken corpse. Her life must end so that mine could go on! (…) That shitty, stinking little cunt-bitch! I arrived at work trembling in fearful awe over the intensity of my own murderousness. That night in group my patience was exhausted. The 2 of us got into a screaming battle with each other. I told her how I longed for her to die. We traded insults and murderous fantasies. I felt momentarily better.

Another night—weeks later. I am talking to someone else about masturbation. Gwen’s paranoia flares up again. She accuses me of sitting with my legs apart to compel her to stare at my crotch. She insists that I am talking about masturbation to shame her. She yells that I should get it straight once and for all that she does not masturbate. I get furious. I tell her that she is a stupid little bitch. I tell her she is 20 years old and that it is time she started masturbating. I describe to her how to do it and order her to go home and carry out my instructions after group. I add that I never want to hear anything about masturbation from her again. She becomes silent. Finally, I start searching my heart about her accusations. I tell her that they are partly justified, that when I first met her I had indeed tried her on in fantasy as a possible lover. I assented that I had probably teased her provocatively and flirted with her in subtle ways. I admitted to her the crazy desperation that seized most of my life then, the hunger to be at rest in a good woman’s arms. I added that my fantasies about her had died, though, soon after my getting to know her—that she was not my other half, nor what I needed for me. I said that I regretted that fact. I believed that my inability even to imagine her any longer as a partner to me was a sad tragedy. I felt forlorn as I talked to her. I closed the group by expressing my wish that a day might come before either of us were dead when once again she could stir me in such a way as to invoke in me imagery of her being my woman. I knew that that would be a sign that something profound had happened to each of us.

Early the next morning, Gwen called. She asked if she could have an individual appointment with me. I had a cancellation that afternoon and readily assented. At the appointed hour, I opened the waiting room door. Her face was contracted with rage. As she walked by me, she slapped my face. When we entered my office, I asked her what the hell that had been for. She screamed that I had exposed, shamed, and humiliated her in front of her friends in group. Then she went berserk and threw herself on me, trying to claw my face and spitting at me as we tussled. We crashed to the floor, spilling furniture and books everywhere. I finally subdued her, and as she began to feel the assertion of my strength and control she murmured between clenched teeth: Go ahead, you bastard. Fuck me. I told her I wasn’t interested. She began to sob convulsively. I had never seen her like that. She was suddenly very little and helpless, a 3-year-old who had been running around in murderous fury, trying to pretend that she had adult competencies lest the world penetrate her disguise and annihilate her. An image is indelibly burned into my awareness: the two of us sitting there on the floor in the midst of the rubble of my office, Gwen sobbing helplessly in my arms, my rocking her and feeling rubber-kneed and weak from the awe and fearfulness of what we had just experienced.”

“She began describing her stepfather coming into her room one night. Gwen stopped, flushed, went incredibly tense, and would not go on.” “My instructions to her to enter into a dialogue with the half-fantasied, half-remembered shade of that man on that nameless occasion precipitated a kind of trance-like state. Gwen became 14 again. She relived and reproduced what I knew was in store for all of us—her stepfather’s feared, longed-for, luscious, tormenting, lacerating, hungering attempted rape of her that awful night of her memory. Who knows whether the events were real or not? I still do not. But their reality was powerful that evening she described them to us.”

“Her tear-drowned eyes remained closed. I picked her up and rocked her as I would my own daughter. At first she drank me in. Then I felt her stiffen. I knew intuitively what was happening, and I said to Gwen, No, I don’t have an erection. She realized it too, at the same time, and turned to rubber once again in my lap. Yet, at that moment, I sensed our relationship was doomed and hopeless. If I held her at some emotional distance to placate her longing, terrified struggle over being penetrated, she would rail at me for being no help, disinterested or worthless to her. If she captured my attention, and I started to move closer to her, I would become the bearded satyr—too exciting, too forbidden, and too dangerous to deal with. Either way the end result was an outburst of fearful hatred. I talked to her often about this frustrated, impotent dilemma into which she thrust me. It never did any good.

Instead, Gwen began to separate from me. She started to come to group less and less. At first I felt comfortable with this, for the events of her life demonstrated a thrust toward increasing competency and mastery. She received a significant promotion at work. She separated from her boyhood lover and began to explore the possibilities of loving a much more capable man a few years older than she was. (…) One day she called me to ask me for a referral. A friend who did not have much money wanted to enter therapy and asked her, so she said, for the name of a good clinic. I provided this to her, and I added that the friend should ask for Dr. X, if possible, at that agency for I knew he had a good reputation. Three months later I found out, when Gwen began to talk matter-of-factly about it in group, that it was Gwen herself who had gone to see Dr. X and that Dr. X had begun seeing her, not at the clinic, but in his private practice!”

“She finally mustered the courage to tell her new lover that she was falling in love with him and to ask him for more of himself than he had been willing to give her thus far. He smiled, told her that she was a sweet thing, but that all he wanted her for was an occasional night in the sack. He laughed delightedly at her precious gift of her avowing that she wanted him, and he went to the refrigerator to break out a bottle of champagne. Gwen went berserk, tore up the man’s apartment, and forced him to throw her out bodily. She then came to group the next week, started up her screaming machine again, complained that I was an evil monster who ruined people’s lives, and stormed out of the office. I did not see Gwen again for three months. I was relieved. I thought she was gone forever, and I was happy. I had at last left my previous life, was living alone, and felt joyously in love with the woman who is now my wife. Gwen’s seeming departure was a mystical sign to me that my perilous journey was at last over and that I would be able to rest in my wife’s arms, exhausted, ecstatic, and optimistic about what we were beginning to build.

Much to my surprise, Gwen signed up for a weekend marathon [!] I held the next January. My soon-to-be wife accompanied me on that occasion. As I relive those moments, I remember how Gwen stared at the two of us in hateful envy. She detested my happiness. She tried to interfere, with sarcasm and cruel mockery, in any work I attempted to do. I finally stopped everything to contend with her. I was quaking with tension. After Gwen played many screaming broken records over and over again, I asked her what the hell she wanted from me. To my astonishment, she softened and asked to be held. Haltingly, I agreed. She came and sat next to me. I put my arm around her and she leaned against me, but I felt some kind of stiffness and unyieldingness in her manner and bearing. I told her I missed the vulnerable child she had—on a precious very few occasions—allowed herself to be with me. My wife, in her usual marvelously intuitive fashion, saw the look in Gwen’s eyes and began to speak to her of her own struggles with pride and envy. They swapped tales of being children, of longing for good fathers, and of all the turmoil and fear such longings create. My wife urged that Gwen be resolute in searching for what she wanted and that she not allow her fears of other women’s retribution to turn her aside from her quest. Gwen softened and allowed herself at last to surrender to being held. Later in the night one of the women in the group asked Gwen for permission to, and indeed did, feed her from a baby’s bottle. [Ah, kleinianos!]

Gwen then disappeared from my life. Once in a while I would get a phone call from her complaining bitterly about the cold, cruel, and vicious treatment she was receiving at the hands of Dr. X. I urged her each time to discuss her grievances, real or imagined, with him and told her she was always welcome, if she wished, to return to group—that many people missed her and asked about her. Last June, I got a call from her again. She and Dr. X had gotten into a fight, and he had thrown her out of therapy, saying that he was sick of her vicious bitchiness, would not put up with it anymore, and was not going to see her again. Gwen sounded crazy and frightened on the phone. I began to get anxious.

Two weeks later I came into my office and found it at shambles. All my books had been thrown on the floor. The furniture was overturned. Papers had been ripped up. A cover from Time magazine, the one with Jesus Christ Superstar on it, had been ripped off. A knife, thrust through the face of Jesus, impaled it to my couch. I knew immediately who had done it, and I began to fear for my life. Then Gwen called and asked for an individual appointment. I refused, telling her that I was afraid of the violence in her. I urged her to come to group so that we could talk where we would both be safe. She screamed at me and hung up.”

“Three weeks later, a fireman came into my office. Gwen had been gathered in off the roof of my building after having threatened noisily for an hour to jump.” “The physician in charge called me. He said Gwen had confessed to him it was the 3rd attempt she had made on her life in 48 hours.”

“The mother reported that Gwen had assaulted her parents and her father’s psychiatrist during the past week. I begged the mother to have Gwen hospitalized. Instead the mother screamed at me for being <one of the fucking Jew-doctors> that had ruined her daughter’s life. Screaming in fury, she told me she was going to take Gwen home. For the next 3 weeks I walked in dread, not knowing whether Gwen was alive or dead, not knowing if she would come at me out of some other dark night, this time with a weapon.

Late in July, Gwen called again. She asked for an appointment. For some reason known only to my sense of the uncanny¹, I granted her request. I was terrified, but I needed to confront some primitive dread in me. I was sick to death of being a person who always ducked bullies and fled from the possibility of violence. She would be the occasion for me to confront me.”

¹ Referência freudiana

“She related to me that she had made appointments with 8 different therapists in the past 4 weeks and had physically assaulted all 8 of them and fled.”

I guess I’ll live. But I don’t think I’m going to go on with therapy.”

 

“As she disappeared down the hall she smiled bravely and called out over her shoulder, You’re the only one who always lets me come back. I have not seen or heard from her this past 3 years.”

“Gwen served me well as my vicious companion at a time I needed one. The impress of her being will always be with me.”

Hobart F. Thomas

 

“On several occasions I have experienced deep feelings of love and/or sexual attraction for clients. At other times I have felt and expressed feelings of irritation and anger. None of these emotionally charged situations, however, seems to provide the devastating frustration of those in which no truly personal contact occurred. I am recalling the long and seemingly fruitless hours spent with depressed patients in mental institutions, which seem to put one’s faith in a therapeutic process to the ultimate test.”

“Perhaps the toughest experiences of my career were the days of attempting to practice before I myself had undergone personal therapy. I had mastered the knowledge, techniques, and procedures well enough to obtain a clinical Ph.D., but the heart and guts of the process were missing. Bizarre as it may sound, I even recall on more than one occasion actually envying the experiences of some of my clients in therapy.”

“Approximately 4 years after completing a doctorate, I entered personal therapy. Reasons for the long delay are not easy to determine. In spite of episodes such as the above, I seemed to be endowed with sufficient ego strength to keep the show going. Besides, I was not convinced that the Freudian model and many of its practitioners, who represented the bulk of my exposure to clinical practice at the time, were the answer either to my own or to the world’s problems. It was then, and is now, my conviction that one best chooses a therapist out of some deep intuitive place, and one can do no better than to follow one’s feelings when making such a choice.”

Bouts with the perfection monster”

“Being <analyzed>, at least in the circles in which I traveled at the time, also qualified one for membership in a rather exclusive club. A part of me wanted to belong, to be accepted, to be part of the action. Another part, for whatever reasons, refused to join up and pay the membership dues.”

“Ironically, my impression is that, currently, the Jungian school is considered more <in> [fashion] than the Freudian. At the time, such was definitely not the case.”

“What if all of a sudden I can’t function?”

 

“The outer drama in which therapist and client each play their respective roles continues, apparently without interruption, until the end of the hour.”

“The experience of panic occasionally recurs, sometimes in the consulting room, sometimes while teaching a class, or sometimes during seemingly ordinary conversation—usually, in each case, when I feel pretty much in charge and everything appears to be running smoothly. (Another clue here, perhaps?)”

really plays well for his age”

 

“We need not always stand alone.”

Look, Mom, I finally made it!”

 

“My hunch is that the state of panic is a corrective, devised by my wiser Self to help put things back in the proper perspective—a real therapeutic kick in the ass to remind me that I’m not God.” My hunch is that my panic is for me to saying Farewell, father!

“it is essential to know how to let be.”

that’s all: [be] midwife. You can relax.”

“My perfection bogey-man stays with me a good deal of the time, however. Having experienced that paradisaical state of Being, I do keep searching for ways to get there and stay there. Even when I appear to be laying back, I’m trying—trying to do, trying not to do. And, too often, in rushing to reach home I forget to smell the flowers along the way.”

NO, NOT FREUD: “When my own therapists revealed themselves to me as persons, not gods, I soon realized that human imperfection has about it its own particular beauty.”

Joen Fagan (mulher – informação relevante para um dos casos que ela irá contar!)

 

“One of my oracles is the dictionary. Built into the derivation of words and the range of their meanings is a cohesion of human experience. So I asked Webster the meaning of naked, and found my eye pausing over and returning to <defenseless, unarmed, lacking confirmation or support.> As I sat, feeling my way into these meanings, I remembered William.”

“He sat in the front row, nodding at the right times and laughing at my jokes, behaviors much appreciated by a teacher.” “You know so much about this; don’t you think…?” or “Why wouldn’t it be true that…?”

“I was lonely, but people had to press against me to become friends; even though I needed and wanted them, my reserve and hesitancy took some broaching. It was the same with students who had asked me to counsel with them. They had to persist past my uncertainty and self-doubts. So I accepted some intrusiveness and tolerated my discomfort with him without firm limits or comments.”

Did I think he needed to go back into therapy? Did I think he was crazy? His father had said that to him this week. His wife had told him that too. But he thought he was doing well. Would I see him for therapy?

No, William.

Why not?

You’re not finished with Carl. Besides, I won’t see students who are taking courses from me for therapy. (Avoiding saying, of course, that I doubted my ability to handle him or that he was too manipulative.)

Well, will you have lunch with me? Why not?

He was becoming a nuisance. Once, as he got up to go, he suddenly leaned over and tried to kiss me. I was angry then and told him so.”

“Did I think he was crazy? He had been hospitalized before. What did I think? <I think you’re bothered about a number of things and should go back and see Carl.>

“Anyway, in another week summer vacation would start, and 3 months away from the college would solve the whole thing.”

“The next morning an envelope was in the mailbox at my house; it was a somewhat confused but humorous letter from William saying he had decided to spend the summer in a nearby public park and inviting me to join him.”

“The next day there was another letter, more angry and threatening, with some sexual allusions that were immediately denied. You know, of course, that I’m just kidding. I love you and wouldn’t hurt you or do you harm. I began feeling frightened and did not sleep well. The letter the next day was even more threatening. If you won’t see me, you won’t see anybody. I want you and I’ll get you.

“The father called me later that afternoon to say that he had found William and had had him admitted to a psychiatric ward. My relief, though, was short-lived. Letters now started coming through the mail, openly delusional, abusive, threatening, and sexually blatant. Again I waited and did nothing, not knowing anything to do. Should I contact his unit? Or him? Or his father? To do what? Say I was scared? Then his father called again. He thought I might want to know that William had escaped from the ward.

There was a paranoid somewhere in the city and I was the center of his delusions. Several days of extreme anxiety. I put chain locks on my doors and jumped at noises. I remembered a patient at the hospital where I had interned, who, ten years after his last contact with a former female therapist, still maintained a similar life-focusing preoccupation with her. The hospital viewed him as sufficiently dangerous to call and warn her when he escaped”

“I remembered other threats to therapists and attacks by patients, and I frantically found work to do and friends to be with.”

“Shortly after that an FBI agent called to say they had investigated the forgery at the request of the bank but did not recommend pressing charges since William was now in the psychiatric ward at Bellevue. Again, relief.

Once every few months a postcard came, and one time, a box of candy on Valentine’s Day. He might no longer have been paranoid, but I was; thinking there was a chance it was poisoned, I threw it away. The sight of the neat, familiar writing could still evoke anxiety, but the cards came less and less frequently until finally a year or more had passed with nothing to remind me of him.”

Do you know that you saved my life?

No, William, I didn’t know that.

 

He stood up, went to the door, paused, said goodbye, and left. I realized that I had no idea what he had meant.”

“Do you know, William, how much you taught me about the impossibility of running?”

Barbara Jo Brothers (e sim, é só uma pessoa)

“I am caught. There is no way my vanity will let me avoid rising to the challenge, no way I would decline contributing to this book…but knowing this as my personal dilemma: the risk of exposure of a place inside myself—a place I have found virtually unbearable… a place I have virtually given my life to protect.”

“When I met Jerry, I was in the first month of my first clinical job, armed with my degree and with all of the accompanying mixtures of zeal and anxiety. There was Jerry. Transferred to the local state hospital’s adolescent unit because his family’s funds had run out (after 9 months of psychoanalysis and private hospitalization), Jerry was as crazy at that point as he had been 9 months before. I had known his analyst, so I knew a bit of his history.”

“In my youthful mind, if one of the best analysts in town was giving up, I was already expiated from whatever penalties of failure might ensue and from the awesome demands of Knowing-What-I-Am-Doing.

Jerry and I did well. Then one day the hospital decided to discharge him, prematurely in my judgment. I sent him to what I considered to be the best mental health center in town and tried to tell myself something to make the  uneasiness a little easier in my hither-to-relied-on gut.”

“My own therapist comes in, tries to look like a doctor, takes my pulse. <Are you depressed?> he says. I reply, <I’m too sick to be depressed. Come back in a few days and I might have a depression for you.>

“We had lost our connection after my discharge. I had referred him to the best therapist I knew in community out patient mental health clinics. He was re-hospitalized. I vehemently protested when hospital policy dictated that he not be admitted to my unit simply because of having had one more birthday since his discharge [ultrapassou o limite de idade de sua clínica]. I might have conquered death, but I was not going to have an effect on the monolithic mental ill-health system. He went to the adult unit and killed himself while out on pass.”

“Exposure, expression, mistake, all are cyclical. My exposure is beginning to sound like my salvation. That which I fear most seems to serve my best interests most powerfully.”

I dodge and twist and evade.”

Carl Whitaker

 

“Before antibiotics, treatment of gonorrhea in the female usually consisted of months of hospital bed-rest. The Green Girls were locked in a big ward on top of the hospital in the middle of the East River. It was my job to try to keep them from becoming overly excited in order to prevent flaring up of the infection that had gotten them arrested and imprisoned.

It was a strange flip for a religious country boy to end up dealing with Broadway chorus girls. They wanted to have their operation by our own gyn department because we used a special incision below the hairline. That way they could go back on the stage and not be laughed at for exposing their surgical scar.”

I saw this big white polar bear sitting on the bed, and I knew he wasn’t real, but I had to call the nurse because he looked so real.”

 

“As I learned more about the vivid experiences of psychosis, I rapidly lost my interest in the mechanical carpentry work we call surgery.”

“A patient who was mumbling to himself explained that voices were calling him horrible things and saying that he had intercourse with his mother. I said, ‘That must be very upsetting,’ and he waved me off with, ‘Oh, no, they’ve been doing that for years, and I don’t pay attention anymore’.”

“Later I talked with an 85 year-old man who came in for molesting an 8 year-old girl. When I met the girl, who looked like a professional actress fresh out of Hollywood, it made huge gashes in my fantasy of what life and people were all about.”

“This call of the wild, the agony and ecstasy of schizophrenia, of the whole psychotic world, ballooned inside of me.” “The magic of schizophrenia, that Alice-in-Wonderland quality of spending hour after hour, sometimes all night long, with a patient whose preoccupation with delusions and hallucinations made him as fascinating as yourself, was matched by the mystery world of play therapy.”

“My discovery of Melanie Klein and her beliefs about infant sexuality was like a repetition in depth of my earlier discovery of the psychotic world.” Oh no, not this bitch again, defenestrate her, from the fifth flour, please!

“my first introduction to psychotherapy was by way of the Philadelphia social work school’s form of Rank’s process thinking. I became more and more intrigued by what brings about change. There was an 8 year-old boy who hadn’t said anything since he had whooping cough [coqueluche] at age 2. I spent 6 months seeing that boy once a week while the social worker talked to his mother upstairs. He never said anything to me either, but we threw the football out in the yard. He did listen to me talk about him. I finally gave up and admitted I couldn’t help. He and his mother went away disappointed. I thought I’d had it with psychotherapy until we got a call back 3 weeks later saying he’d started talking.”

“It became more and more clear that medical students were divided into those who didn’t know how to be tender and those who didn’t know how to be tough. How difficult it was to teach either one to have access to the other. I didn’t really know I was merely talking about myself for some years, but I did discover the joys of working with delinquents. That power! I always thought of them as Cadillacs with steering gear problems, whereas the neurotics we saw in the medical school clinic were like old Fords that were only hitting on two cylinders. Looking back, I often wonder how many of the delinquents stole cars just so they could come back and tell me about it.”

“As a matter of fact, for the next 3 or 4 years I bottle fed almost every patient I saw—man, woman, or child; neurotic, psychotic, psychopathic, or alcoholic—and with a high degree of usefulness, if not success. It was only some time later that it dawned on me that it wasn’t the patient who required the technique, but the therapist. I was learning to mother, and once that was developed I couldn’t use the technique anymore.”

“I didn’t even know then that co-therapy was a secret system for learning how to talk about emotional experiences. It allowed you to be able to objectify a subjective experience shared with someone else.”

I eventually left to work in Atlanta, where we discovered in those early days that the baby bottle was a valuable way to induce regression in the service of growth but that fighting was equally valuable. Just as the baby bottles spread from one to another in our staff group of 7, so the fighting moved until we were apt to be involved physically with almost every patient in one way or another. The intimacy of physical contact—of slapping games, of wrestling, and of arm-wrestling—became a part of our discovery of our own toughness.”

“By 1946 we had 3 daughters and 1 son. The problem of trying to be an administrator and a clinician had exteriorized a lot of my immaturity. When the stress in the hospital and medical school got high, I began to precipitate myself into psychosomatic attacks with cold sweats, chills, vomiting, diarrhea, and a half day in bed. Cuddling with my wife resolved this, but I went back into psychotherapy to help develop confidence in preventing it. Living with our own children also convinced Muriel and me that the only <unconditional positive regard> in this world comes from little children.”

“It was clear to us that the reason people work with schizophrenics is that they want to find their own psychotic inner-person, which is known more and more as the right brain—that nonanalytic total-gestalt-organized part of our cortex. We struggled over the schizophrenogenic mother and over whether the father himself can create schizophrenia. All this anteceded systems theory, which made it clear that it takes a family system (and more) to originate such a holocaust.” Quanta inocência, diria Deleuze…

“The craziness that had overlain her arteriosclerosis of the brain had long since faded into the background. She just ate and slept and smiled and went to the bathroom. But the family still loved her and still enjoyed being with her. They had not turned away from her because of her failing health.”

“It seems that the initial therapist is contaminated with all of the usual problems of being a mother: He’s all-forgiving, all-accepting, and minimally demanding. In contrast, when the consultant comes in for the second interview, he turns out to be very much like the father: He is reality-oriented, demanding, intellectual, much less tempted to accept the original complaints or the original presentation, and very much freer to think about what’s being presented in a conceptual, total gestalt manner.”

“The Atlanta clinic was our private world, and the sophisticated world of a psychoanalytic organized group left me with uncertainties, awkwardness, and the temptation to be isolated.”

“The initial phase of working with the family demands a coup d’état, in which the therapist proves his power and his control of the therapeutic process, thus enabling the family to have the courage to change their living pattern. Other concepts, such as the importance of the detumescence of the scapegoat [resolução, desinchação – conotação cancerígena] or surfacing other scapegoats in the family, spreading the anxiety around the family, and the necessity of using paradoxical intention to reverse the axis of responsibility so the family would carry the initiative for their own change, all were picked up from the residents when they were working with families as co-therapists.”

“One of the covert changes that I experienced was my increasing conviction that everybody is schizophrenic. Most of us don’t have the courage to be crazy except in the middle of the night when we’re sound asleep, and we try to forget it before we wake up. I became more and more courageous in my advancing years and tenured role, and I began to use the word with greater nonchalance. During the first 6 months to 1 year, it was quite a shock, but after that it became gradually more and more accepted, at least in my own head.”

“There is being driven crazy, which means that one’s malignant isolationism¹ is brought about by being forced out of one’s family. There is going crazy, which, in the case of falling in love, is a delightful experience, although very frightening. Going crazy also takes place in the therapeutic setting, where it’s sometimes called transference psychosis, much in the same way we talk of transference neurosis [still two words that can’t make sense]. And then there is acting crazy—the crazy responsiveness of the individual who has once been insane and who, when under stress, returns to that state of being even though he’s not out of control in the same way. He’s like the child who has just learned to walk. If he gets in a hurry, he’ll get down and crawl on his hands and knees, even though it’s slower.”

¹ O que será que quer dizer? Meu caso? Vivendo com 3 idiotas cada vez mais incapazes de me entender e na verdade cada vez mais decorativos (1988-2017), de repente meu corpo se rebela e diz: CHEGA, VOCÊ JÁ SUPORTOU DEMAIS! ACABOU SUA AUTOIMPOSTA EXPIAÇÃO! Mas quer dizer que quem fritava a batata, no fim, eram eles… Consolador!

“the quasicraziness that happens in social groups”

Alex Redmountain (“Despite his name, he is not an American Indian, but, rather improbably, a Jewish-Slavic refugee of World War II.” – Kopp)

 

The affliction is self-love, narcissism, a narrowness of vision that places everything outside oneself at the periphery. Though it appears open and seeking, it makes learning very difficult. Stop reinventing the wheel, I was told; I finally did, but since no one told me to stop reinventing the compass, and sextant, and steam engine, I kept on doing that for quite a while.”

“Out on the street, the therapist is like a hooker who’s been thrown out by her pimp. There’s no security, no status. You’re surrounded by a dozen other hustlers, each selling some exotic solution to life’s problems: astrology, card reading, Scientology, revolution, a quickie in the back of the Dodge van parked across the street. Psychotherapy looks like just another fast fix, a way to set the pain aside momentarily or to pretend to an inflated self-importance. And often it is.”

“I am a clinical psychologist, traditionally trained, and I was still doing the usual clinical psychologist things: testing, individual and group therapy, supervision, formal consultation. But I was getting restless, found it hard to stay within the confines of the clinic where I saw my patients. Little by little, mostly by self-invitation, I cultivated a street beat through familiar geography: free schools and open universities, gay people and street people, adolescents of infinite variety and the many species of chicken-hawk who prey on them, alternate enterprises of every ideology imaginable, and a total spectrum of lifestyles. It seemed like a great opportunity for checking out the barriers. It was also a great opportunity for, as we used to say in The Bronx, getting my ass handed to me—as in the sentence, When I hand you your ass, boy, your head is gonna fall so low you’ll be looking up at roach shit [cocô de barata].

“Basically, I’m a middle-class grown-up with slightly rebellious inclinations; the one time I was impulsive enough to drop out of school, I joined the U.S. Army and was promptly dispatched to die of boredom in Korea. The setting for my street-shrink activities was a deteriorating, exciting, but not especially dangerous or sinful neighborhood in a large Eastern city. It was exciting because of its variety: its residents encompassed all ages and classes, at least 3 races, and 12 ethnic groups; Maoist food <collectives> operated on the same block with 30 year-old Mom and Pop groceries; soul music blared from one record shop speaker while salsa and bomba rhythms leaped out from another around the corner; store-front churches rose from the ashes of revolutionary Trotskyite print shops—and vice versa.”

“Another source was the illusion of being a savior, a reconciliator loved by all. When I walked around the neighborhood, greeting militants and leftover flower children, precinct captains and self-actualization addicts, I imagined myself a combination of country doctor and masterful statesman, healing rifts both psychic and physical as I passed on through. And in the best Lone Ranger silver bullet tradition, I dreamed of encountering evil, overcoming it, and riding off toward the foothills and the setting sun—all within the 30 minutes normally reserved for the radio serials of my youth.

This kind of delusion wreaks havoc with the long-distance running qualities usually required of the psychotherapist. It also helped me suppress some doubts about my own endurance. With every new patient I took on in my public practice, I wondered: Can I really last the journey? As the complexity of every individual unfolded, I worried: It may be just too hard, too long, too draining. What if I want to run off and fast alongside Cesar Chavez [uma espécie de João Pedro Stédile] in the lettuce fields? What if I decide to go to Harvard Business School so I can destroy capitalism from within?

“I’m there in 20 minutes. Who said that house calls were a thing of the past? Upstairs I can hear crunching and smashing noises. Down in the <parlor> 8 resident runaways and 2 counselors mill about, looking worried, indifferent, scared, sullen—depending on whom you are looking at.” “a monstrous teenage version of an NFL defensive end, 6 foot 6, at least 240 pounds. He is methodically ripping apart the wooden bunks—the bunks that my friend Joe put together over a couple of weeks of unpaid labor, after his unemployment ran out! I am outraged.”

Sally greets me with a strange, playful look in her sensual eyes. (Whoops, it’s hard to keep lust and hubris clearly separate.) For many reasons, Sally is one of my favorite counselors.”

Shrink é uma gíria suburbana para psicólogo ou psiquiatra.

God works in mysterious ways, said Sally, having been raised a brimstone Baptist and never quite given it up. I had to agree. I often had the feeling, when I was doing therapy, that anything I said would work: insight, catharsis, epiphanies would follow some inaudible inanity from my mouth. At other times, when I thought I was being wondrous wise, my words fell as flat as a swatted bug. It all has to do with chemistry, or radiation, or smell. Or something. Before I knew that, I sometimes took the calling of therapy very seriously indeed.”

Because I think it’s just an ego trip. I don’t even call myself a therapist, you

know.”

What do you mean, even you! Who are you, Sigmund Freud?”

No, but at least I’m not trying to be something I’m not!”

Aw, fuck you!” she shouts.

Fuck you!” I yell back.

 

All that doctor done was yell at me, tell me I was a whore and would end up a junkie or dead or in prison, and I’d never have kids, or a man, or anything decent at all.”

 

“As far as I am concerned, the making of a therapist and the making of a centered person are parallel, though not congruent, journeys.”

First Tale of Lust. I had agreed to see Janet for short-term therapy at her home; she had a 1 year-old daughter, a night job as a waitress, and no one to babysit. I knew there were many caveats against this kind of thing, but I was sure I could handle it.”

“I kept trying to remember why therapists shouldn’t become sexually involved with patients. I found myself perusing, at length, articles that argued an opposing view. Even the reputable Association of Humanistic Psychology, I noted, was sponsoring a panel at its annual meeting: Sexual Relations Between Therapists and Clients.”

“She observed that the tension between us was palpable. I agreed. In fact, it was becoming intolerable. Yes, I said. Well, she wanted to know, what were we going to do about it?”

“I read Albert Ellis [logo acima!] and Martin Shepard, wrote an essay entitled Challenging Some Traditional Preconceptions in Psychotherapy—in which I never mentioned sex.”

“On the 13th day, I received a short note from Janet on the back of an old Valentine card: I’ve discovered that there are more fine lovers around than psychotherapists. Will you be my (one and only) therapist?

 

Human, all-too-human: After I daydreamed about choking her with a spiked bulldog collar, boiling her in oil, and throwing her out of a dirigible over the most polluted part of the Hudson River, I met with her—in my office. We dealt with it, as the New Yorker cartoon says, by talking about it. We actually went on to do some excellent work together, 50 minutes at a time, 2 days a week, face to face, and no hugging.”

Second Tale of Lust. Tamara was 16, dark as an Arab princess, radiating ripeness. She was a resident at one of the group foster homes at which I dispensed weekly advice. Whenever she greeted me, she would wrap herself around me like the original seductive serpent, and I would try desperately to keep my cool—without success.

I am seldom drawn to adolescents sexually, or so I like to believe. I like the way they look, I enjoy their narcissism from afar, but I’m not crazy enough to trade a tumble for a prison sentence, not even in fantasy.”

“Tamara, whose house parents I met regularly for case consultation and whose Oedipal problems I knew almost as well as my own”

“I couldn’t take my eyes off her, and I didn’t want to take the rest of me off, either.

Although I danced with many people that night, I found myself dancing with Tamara more than with anyone else: more sensually, more energetically, more proximately. After a few beers, I forgot the age gap between us. After a few more, stalwart drinker [robusto bebedor] that I am, I was carried upstairs by some friends and carefully placed upon an unoccupied mattress [colchonete]. I woke a couple of hours later to find Tamara bending over me, swaying, her hair against my face. I wasn’t very alert, but she seemed completely out of it—drunk and stoned and incoherent.

Without thinking, I pulled her down beside me, touched her, kissed her, felt her responding to me. As I caressed her, she spoke softly at first, and then more insistently. Her mumbling only gradually became comprehensible: Daddy, Daddy, Daddy…

Laying her head against the pillow, I drew away gently. The one short pang inside me yielded to tenderness. I massaged her eyes and brow until she fell asleep.”

Third Tale of Lust. It was spring, and 5 of my street clients, including one gay male, declared their love-lust for me. I knew all about transference, of course, but I was also feeling very sexual in my new, slimmed-down version.

At my therapy seminar that week, another fledgling therapist like myself spoke of how he enjoyed his patients’ sexual fantasies about him. Our teacher-supervisor looked at him wryly. <Just remember,> he said, <that there are a dozen paunchy, balding, 70 year-old therapists in this town whose patients are madly in love with them. Don’t take too much credit.>

I decided not to, either.”

Therapist hubris is based on the mutual illusion of patient and therapist that theirs is not a relationship among equals. Thus, it fires the therapist’s infantile yearnings for magical solutions, omnipotence, oceanic love.”

* * *

DE VOLTA AO KOPP (CONCLUSÃO)

 

Everything is folly in this world, except to play the fool.”

 

“The response of embarrassment is not a personal flaw. On the contrary, it is a socially oriented readjustment pattern that acts to reestablish more orderly, adequate behavior. In showing embarrassment, the flustered person (sometimes unwittingly) reveals his responsiveness to the discrepancy between expected and actual performance. This offers the blunderer a chance to get himself together while remaining in consensual accord with the rest of the group. At the same time, perceiving his reaction, his audience is in a position to help him to reestablish his earlier state of unselfconscious ease.”

“I feel less pained and alone in my embarrassment, standing among these other naked therapists.”

“But for those of us who have not been subjected to excessive shaming, failing at something may be experienced as no more than not yet attaining what we might. For others who have too often been made to feel worthless, each failed attempt may create the feeling of being a total failure.”

“It was Erasmus who gave the West the paradox of the Wise Fool. In the literature of the Middle Ages, the Fool had played a minor role. But beginning with Erasmus’ book, In Praise of Folly, the Renaissance Fool stepped forward as a major figure in the humanist vision of man. Desiderius Erasmus of Rotterdam, the bastard son of an obscure father, emerged as a great humanist who would be courted by princes, popes, and scholars of his age, a man whose Wise Fool would foster men’s self-acceptance for centuries to come.”

“Like Socrates, her only claim to wisdom is that she knows that she knows not.”

“Like all those later Fools, Don Quixote, Huck Finn, Chaplin’s little tramp, and the Marx Brothers, she does not comprehend what is expected of her by society. Like all clowns she is free to walk irreverently through the walls of convention, simply because she does not see that they exist. Often enough, these hollow boundaries collapse before the force of her ignorance.”

“The good judgment of the Wise is sometimes no more than the closed mindedness of those who know better.” I’d say Final Judgement.

“By accepting the Fool in myself, I open my imagination to all the possibilities that I was once too wise to consider.”

“So it is that when I was a young man I hoped to make fewer and fewer mistakes, while in my later life my ambition is to make more. I would sin boldly. Not that I have come to like feeling embarrassed. Not at all! Rather most of the time now it all just seems worth it to me to experience feeling foolish if that is the price of trying new ways of being.”

O palhaço que habita em mim saúda o palhaço que um dia habitará em você.

O homem ocidental se tornou zen para não apertar o botão da bomba; isso pausará sua existência cadavérica nesse mundo além de qualquer previsão legal… Eis o problema. O Último Homem aprendeu com seus erros logo após o penúltimo erro – que infortúnio e que pepino para nós! Se apenas houvesse uma máquina de auto-sepultamento, um suicídio assistido por si mesmo, uma auto-eutanásia no mais redundantemente literal dos zentidos… Ainda estamos impessoais demais diante do nosso instinto vital, não operamos a nossa própria máquina para comandar ações grandiloqüentes deste nível e desse porte! Asia Rise!

“A single individual’s solitary failing is painful, but the shared frailties of all men are ultimately comic. So it is that one stutterer is tragic, but like it or not, three stutterers having an argument is a funny scene.”

Seriousness is an accident of time. It consists in putting too high a value on time. In eternity there is no time. Eternity is a mere moment, just long enough for a joke” Herman Hesse, Steppenwolf

 

“Out of the Middle East comes the tradition of the Sufi, that mystical/intuitive aspect of Islam that ranges from the whirling trance states of the Dervishes to the teaching stories of that Wise Fool, Nasrudin. The Sufi tales offer the sort of folk wisdom that discloses that out of each situation comes its own remedy. Each mishap is an opportunity to learn if only our imagination is open to reappraising the source of our discomfort.”

Enjoy yourself, or try to learn—you will annoy someone. If you do not—you will annoy someone.”

 

Who is it who’s rejecting whom?… if somebody rejects me…who they think they’re rejecting isn’t me anyway.… By them pushing me away I see them caught in their own paranoia…” Baba Ram

Ser um incompreendido do meu tempo implica que eu mesmo não posso me compreender!

You don’t decide to give something up. They fall away, that’s the secret of it.”

 

It’s ok to fail on an impossible mission, right, Tom Cruise?

“Even when I am doing well, or being special, being judged is oppressive, carrying with it as it does the impossible ideal of perfection. How much easier is the freedom to be what I am, ordinary and imperfect as that may be, no more than a natural Fool.”

To witness my Self without blaming myself is like being a child again, only this time in a safe, warm place under the watchful eyes of loving parents. It is during such moments that I can accept whatever I do as no more than what I must do at that time. It is then that I would no more question the adequacy of what I am doing than I would wonder whether or not my cat knows just how to go about being a cat.”

Guru, If You Meet the Buddha on the Road, Kill Him!, by the same author.

GLOSSÁRIO PSICANALÍTICO ou A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CASOS ou ainda “NOVELA DAS NOJEIRAS E SUJIDADES DAS BIOGRAFIAS DOS PSICANALISTAS ATÉ AQUI (2001, por falta de dados mais atuais)”

considerações preliminares (Roud. & Plon)

a terminologia analítica dá uma impressão insólita que a língua de Freud não dá, se os recursos da língua do tradutor não (sic) forem sempre explorados; em outros casos é a simplicidade da expressão freudiana que torna imperceptível o seu tecnicismo.” “O método conveniente é antes de mais nada histórico-crítico, como o do Vocabulaire technique et critique de la philosophie, de André Lalande. Eram estas as intenções iniciais quando, por volta de 1937-39, se começou a executar o projeto de um vocabulário da psicanálise. Os dados recolhidos perderam-se”

a oposição entre <pulsão> e <instinto>, necessária para a compreensão da teoria psicanalítica, em nenhum lugar é formulada por Freud: a oposição entre <escolha por apoio> de objeto (ou anaclítica) e <escolha narcísica de objeto>, embora retomada pela maior parte dos autores, nem sempre é relacionada com aquilo que em Freud a esclarece: o <apoio> ou <anáclise> das <pulsões sexuais> sobre as funções de <auto-conservação>; a articulação entre <narcisismo> e <auto-erotismo>, sem a qual não se pode situar estas duas noções, perdeu rapidamente a sua primitiva nitidez, e isto até no próprio Freud.”

Psicanalistas não batem cabeça.

O primeiro dicionário de psicanálise, intitulado Handwörterbuch der Psychoanalyse, foi elaborado por Richard Sterba, entre 1931 e 1938. Foram publicados cinco fascículos, até o momento em que a ocupação da Áustria pelos nazistas pôs fim ao empreendimento. A intenção era compor um léxico geral dos termos freudianos, um vocabulário mais do que um recenseamento dos conceitos: <Não desconheço, escreveu Freud em uma carta a seu discípulo, que o caminho que parte da letra A e passa por todo o alfabeto é muito longo, e que percorrê-lo significaria para você uma enorme carga de trabalho. Assim, não o faça, a menos que se sinta internamente levado a isso. Apenas sob o efeito desse impulso, mas certamente não a partir de uma incitação externa!>” “Em sua famosa análise do caso Dora (Ida Bauer), ele frisava que um dicionário é sempre objeto de um prazer solitário e proibido, no qual a criança descobre, à revelia dos adultos, a verdade das palavras, a história do mundo ou a geografia do sexo.” “Sterba interrompeu a redação do seu Handwörterbuch na letra L, e a impressão do último volume na palavra Grössenwahn: <Não sei, declarou vinte anos depois em uma carta a Daniel Lagache, se esse termo se refere à minha megalomania ou à de Hitler.> De qualquer forma, o Handwörterbuch inacabado serviu de modelo para as obras do gênero, todas publicadas na mesma data (1967-1968), em uma época em que o movimento psicanalítico internacional, envolvido em rupturas e dúvidas, experimentava a necessidade de fazer um balanço e recompor, através de um saber comum, a sua unidade perdida. Diversas denominações foram utilizadas: GLOSSÁRIO, dicionário, enciclopédia, vocabulário.” “o Critical Dictionary of Psychoanalysis (600 verbetes) do psicanalista inglês Charles Rycroft, claro, conciso e racional, tinha a vantagem de não ser uma obra coletiva. (…) Rycroft foi também o primeiro a pensar o freudismo sem com isso deixar de considerar a terminologia pós-freudiana (especialmente a de Melanie Klein e de Donald Woods Winnicott).”

Quanto ao célebre Vocabulário da psicanálise(417 verbetes) de Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, foi o primeiro e único a estabelecer os conceitos da psicanálise encontrando as <palavras> para traduzi-los, segundo uma perspectiva estrutural aplicada à obra de Freud. Composto de verdadeiros artigos (de 20 linhas a 15 páginas), e não de curtas notas técnicas, como os precedentes, inaugurou um novo estilo, optando por analisar <o aparelho nocional da psicanálise>, isto é, os conceitos elaborados por esta para <explicar suas descobertas específicas>. Marcados pelo ensino de Lacan e pela tradição francesa da história das ciências, os autores conseguiram a proeza de realizar uma escrita a duas vozes, impulsionada por um vigor teórico ausente nas outras obras. É a essas qualidades que ela deve seu sucesso.

Os insucessos terapêuticos, a invasão dos jargões e das lendas hagiográficas levaram a uma fragmentação generalizada do movimento freudiano, deixando livre curso à ofensiva fin-de-siècle das técnicas corporais. Relegada entre a magia e o cientificismo, entre o irracionalismo e a farmacologia, a psicanálise logo tomou o aspecto de uma respeitável velha senhora perdida em seus devaneios acadêmicos. O universalismo freudiano teve então o seu crepúsculo, mergulhando seus adeptos na nostalgia das origens heróicas.” Ó! “apareceram monstros polimorfos [Cilas], com entradas anárquicas e profusas, nas quais a lista dos verbetes, artigos e autores estendia-se infinitamente, pretendendo esgotar o saber do mundo, sob o risco de mergulhar as boas contribuições em um terrível caos.” Ver Bouvard e Pécuchet, de Flaubert!

Foram incluídos, enfim, os membros da família de Sigmund Freud, seus mestres diretos, os escritores e artistas com os quais ele manteve correspondência importante ou contato pessoal determinante, [PARTE DA FOFOCA E BASTIDORES] e os 23 livros por ele publicados entre 1891 e 1938, inclusive o segundo, escrito com Josef Breuer (Estudos sobre a histeria), e o último, inacabado e publicado a título póstumo (Esboço de psicanálise). Foi acrescentada uma outra obra póstuma, O presidente Thomas Woodrow Wilson, da qual Freud redigiu apenas o prefácio, mas à qual deu contribuição essencial como co-autor ao lado de William Bullitt.”

ABREVIATURAS BIBLIOGRÁFICAS

ESB Sigmund Freud, Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 24 vols., Rio de Janeiro, Imago, 1977

GW Sigmund Freud, Gesammelte Werke, 17 vols., Frankfurt, Fischer, 1960-1988

IZPInternationale ärztlische Zeitschrift für Psychoanalyse

IJP International Journal of Psycho-Analysis

OC Sigmund Freud, Oeuvres complètes, 21 vols., Paris, PUF, em preparação desde 1989

SE The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, org. James Strachey, 24 vols., Londres, Hogarth Press, 1953-1974

INÍCIO DO GLOSSÁRIO PROPRIAMENTE DITO, EM ORDEM ALFABÉTICA (ver BIBLIOGRAFIA-BASE e RECOMENDAÇÕES DE LEITURA ao final)

a posteriori ou ação diferida ou só-depois

O termo nachträglich é de uso repetido e constante em F., que muitas vezes o emprega sublinhado. Encontramos também a forma substantivada Nachträglichkeit

Segundo Jung, o adulto reinterpreta o seu passado nas suas fantasias, que constituem outras tantas expressões simbólicas dos seus problemas atuais. (…) meio de fugir das <exigências da realidade> presente” Vinculação com os estratos de Reich.

F. pergunta: por que o recalque incide preferencialmente sobre a sexualidade? (…) O primeiro acontecimento no tempo é constituído por uma cena sexual (sedução por um adulto), mas que não tem então para a criança significação sexual. O segundo apresenta certas analogias, que podem ser superficiais; mas, pelo fato de que nesse meio tempo surgiu a puberdade, a emoção sexual é possível, emoção que o sujeito ligará conscientemente a este segundo acontecimento, quando na realidade é provocada pela recordação do primeiro. (…) O ego utiliza então o recalque, modo de <defesa patológica>”

A tradução como “ação diferida”, em português e inglês, é hoje considerada anacrônica e indutora de confusão. Hoje: complemento ao verbete ab-reação.

ab-reação

#Autorreferente #facebookCasosdeFamília

Tudo menos os anos de zumbi (2009-2011)! Tudo menos o passado e o futuro remotos (o Ceará e a Soneca dos mortos)! Tudo menos o gelo do zero absoluto a que cheguei nestas incríveis zonas temporais que hoje me são estranhas, como se pertencessem a séculos enterrados pela humanidade, cujas vicissitudes ficaram sem registros. Postura que eu classificaria hoje como Anti-Ed***d****. A cura do Vanigracismo. Son of Netherrealm, aiming the Ascension. Thorns and Aborted Trees. You shouldn’t needa drink to kill or exorcize some painful devils… Foda-se a SOMAtória de suas vãs probabilidades…

A persistência do afeto que se liga a uma recordação depende de diversos fatores, e o mais importante deles está ligado ao modo como o sujeito reagiu a um determinado acontecimento. Esta reação pode ser constituída por reflexos voluntários e involuntários, pode ir das lágrimas à vingança. Se tal reação for suficientemente importante, grande parte do afeto ligado ao acontecimento desaparecerá. Se essa reação for reprimida(unterdrückt), o afeto se conservará ligado à recordação.”

A ab-reação é o caminho normal” “a ab-reação pode ser secundária, provocada pela psicoterapia catártica, que permite ao doente rememorar e objetivar pela palavra o acontecimento traumático, e libertar-se assim do quantum de afeto que o tornava patogênico.” TABU É O TEU CU: Verbalizar a morte do próximo. A maior burrice é ser inteligente o tempo todo. Em briga de condomínio de homens das cavernas não se usa terno e gravata nem se apara barba. Às vezes cagar nas calças é, sim, o melhor remédio. Uma ventilada brutal ou cem azias, tu escolhes – que fria! Vaso entupido, contanto que não seja o meu, é merda na cu da pimenta, ehr, quer dizer… Eu não levo desaforo pra casa: deixo debaixo da ponte mesmo…

AB-NEGADO AB-O-TO-‘ADO OR ÍGIDO FREE-GIDON (MICE MARINEER-BIKERS)

CRACK CRACK CRACK! SHRECK!

ranço

abraço

dinasTIA

Jardimdim fancyn’

Socorro!

Carolíngia

do Papado

ad-block

ab-rock

ad odd world Helenistic Hell flows like an

Hell-aclitean pseudorriver

on that party that’s over

DAD

DED

HA-DAD-É O NOVO PRES-

O? PREÇO DO SENTIMENTO SUFO

CADO

PRESIDENTE DO BRASIL

S’Il y a fascists…

we’re gonna smash them

with all your heavy solos

and boots

but

le but qui est

faire le but

ter in the br…

lay down and d,…

abread

abreact

acts

ontology

AUTOANALstesia

on the

me,ta

metatable

constance

exis’

nstância-do-querer

rot

rough

road

frog

bog

jog

mob

throat

float

at

the

flow

frown

but not

nut bot

drown’d.

into the dust

in to d dãs

in 2 they do

us

estou tenso, logo fezes muito tudo ISSO

to be or not to be oh honey

sterile

barking at the moon

As 3 histerias antigas (retenções de reação):

a) limitação psicofisiológica (pavor, estado hipnótico) HISTERIA HIPNÓIDE

b) limitação social atual HISTERIA DE RETENÇÃO (sovina de MERDA)

c) repressão consciente voluntária (conscientemente esquecer!) HISTERIA DE DEFESA (é o pior ataque?! – eu diria, antes, MÁ-FÉ)

OBS: “a” e “b” foram “extintas”.

Abraham, Karl

nome indissociável da história da grande saga freudiana. (…) pioneiro no desenvolvimento da psicanálise em Berlim. (…) Elaborou uma teoria dos estágios inspirado em Klein, que foi sua aluna. Formou muitos analistas, entre os quais Helene Deutsch, Edward Glover, Karen Horney, Sandor Rado, Ernst Simmel.”

Em 1906, casou-se com Hedwig Bürgner. Tiveram dois filhos. Abraham analisou sua filha Hilda (1906-1971), descrevendo o caso em um artigo de 1913, intitulado A pequena Hilda, devaneios e sintomas em uma menina de 7 anos.

Mais clínico do que teórico, Abraham escreveu artigos claros e breves, nos quais domina a observação concreta. Devem-se distinguir três épocas. Entre 1907 e 1910, dedicou-se a uma comparação entre a histeria e a demência precoce (que ainda não era chamada esquizofrenia) e à significação do trauma sexual na infância. Durante os dez anos seguintes, estudou a psicose maníaco-depressiva, o complexo de castração na mulher e as relações do sonho com os mitos. Em 1911, publicou um importante estudo sobre o pintor Giovanni Segantini (1859-1899), atingido por distúrbios melancólicos. Em 1912, redigiu um artigo sobre o culto monoteísta de Aton, do qual Freud se serviria em Moisés e o monoteísmo, esquecendo de citá-lo. Enfim, durante o terceiro período, descreveu os três estágios da libido: anal, oral, genital.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Karl Abraham, Oeuvres complètes, 2 vols. (1965), Paris, Payot, 1989;

Hilda Abraham, Karl Abraham, biographie inachevée, Paris, PUF, 1976.

Adler, Alfred (1870-1937)

Adler, primeiro grande dissidente da história do movimento psicanalítico,¹ nasceu em Rudolfsheim, subúrbio de Viena, em 7 de fevereiro de 1870. Na verdade, nunca aderiu às teses de Sigmund Freud, de quem se afastou em 1911, sem ter sido, como Carl Gustav Jung, seu discípulo privilegiado. (…) Ambos eram judeus e vienenses, ambos provinham de famílias de comerciantes que nunca conheceram realmente o sucesso social. Adler freqüentou o mesmo Gymnasium que Freud e fez estudos de medicina mais ou menos idênticos aos seus. Entretanto, originário de uma comunidade de Burgenland, era húngaro, o que fazia dele cidadão de um país cuja língua não falava. Tornou-se austríaco em 1911 e nunca teve a impressão de pertencer a uma minoria ou de ser vítima do anti-semitismo.

Segundo de 6 filhos, tinha saúde frágil, era raquítico e sujeito a crises de falta de ar. Além disso, tinha ciúme do irmão mais velho, que se chamava Sigmund, e com quem teve uma relação de rivalidade permanente, como a que teria mais tarde com Freud.” Vira-se para o Marxismo.

¹ Uma estátua para o rapaz já!

Em 1897, casou-se com Raissa Epstein, filha de um comerciante judeu originário da Rússia. A jovem pertencia aos círculos da intelligentsia e propalava opiniões de esquerda que a afastavam do modo de vida da burguesia vienense, em que a mulher devia ser antes de tudo mãe e esposa. Através dela, Adler freqüentou Léon Trotski (1879-1940) e depois, em 1908, foi terapeuta de Adolf Abramovitch Ioffe (1883-1927), futuro colaborador deste no jornal Pravda.

Em 1898, publicou sua primeira obra, Manual de higiene para a corporação dos alfaiates. Nela, traçava um quadro sombrio da situação social e econômica desse ofício no fim do século: condições de vida deploráveis, causando escolioses e doenças diversas ligadas ao uso de tinturas, salários miseráveis, etc.”

Em 1902, depois de ficar conhecendo Freud, começou a freqüentar as reuniões da Sociedade Psicológica das Quarta-Feiras, fazendo amizade com Wilhelm Stekel.” “Foi nessa data (1909) que começaram a se manifestar divergências fundamentais entre suas posições e as de Freud e seus partidários. Elas constam das Minutas da Sociedade, transcritas por Otto Rank e editadas por Hermann Nunberg.” “Freud começou então a criticar o conjunto das posições de Adler, acusando-o de se apegar a um ponto de vista biológico, de utilizar a diferença dos sexos em um sentido estritamente social e, enfim, de valorizar excessivamente a noção de inferioridade. Hoje, encontra-se a concepção adleriana da diferença dos sexos entre os teóricos do gênero (gender).” “Adler estava edificando uma psicologia do eu, da relação social, da adaptação, sem inconsciente nem determinação pela sexualidade.” “A noção de órgão inferior já existia na história da medicina, em que muitos clínicos observaram que um órgão de menor resistência sempre podia ser o centro de uma infecção. Adler transpunha essa concepção para a psicologia, fazendo da inferioridade deste ou daquele órgão em um indivíduo a causa de uma neurose transmissível por predisposição hereditária. Segundo ele, era assim que apareciam doenças do ouvido em famílias de músicos ou doenças dos olhos em famílias de pintores, etc.” Doenças do estômago em famílias retirantes?

A ruptura entre Freud e Adler foi de uma violência extrema, como mostram as críticas recíprocas que trocaram 35 anos depois. A um interlocutor americano que o questionava sobre Freud, Adler afirmou, em 1937, que <aquele de quem nunca fôra discípulo era um escroque astuto e intrigante>. Por sua vez, informado da morte de seu compatriota, Freud escreveu estas palavras terríveis em uma célebre carta a Arnold Zweig: <Para um rapaz judeu de um subúrbio vienense, uma morte em Aberdeen é por si só uma carreira pouco comum e uma prova de seu progresso. Realmente, o mundo o recompensou com generosidade pelo serviço que ele lhe prestou ao opor-se à psicanálise.>” “Foi preciso esperar pelos trabalhos da historiografia erudita, principalmente os de Henri F. Ellenberger e os de Paul E. Stepansky, para se formar uma idéia mais exata da realidade dessa dissidência.”

Em 1912, publicou O temperamento nervoso, em que expôs o essencial da sua doutrina, e um ano depois fundou a Associação para uma Psicologia Individual, com ex-membros do círculo freudiano, entre os quais Carl Furtmuller (1880-1951) e David Ernst Oppenheim (1881-1943).”

Em 1930, recebeu o título de cidadão de Viena, mas 4 anos depois, pressentindo que o nazismo dominaria a Europa inteira, pensou em emigrar para os Estados Unidos.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Alfred Adler, La Compensation psychique de l’état d’infériorité des organes (1898), Paris, Payot, 1956;

Manès Sperber, Alfred Adler et la psychologie individuelle (1970), Paris, Gallimard, 1972.

abstinência

É em 1915, ao se interrogar sobre qual deve ser a atitude do psicanalista confrontado com as manifestações da transferência amorosa, que Sigmund Freud fala pela primeira vez da regra de abstinência. Esclarece que não pretende evocar apenas a abstinência física do analista em relação à demanda amorosa da paciente, mas o que deve ser a atitude do analista para que subsistam no analisando as necessidades e desejos insatisfeitos que constituem o motor da análise.

Para ilustrar o caráter de tapeação de que se revestiria uma análise em que o analista atendesse às demandas de seus pacientes, Freud evoca a anedota do padre que vai dar os últimos sacramentos a um corretor de seguros descrente: ao final da conversa no quarto do moribundo, o ateu não parece haver se convertido, mas o padre contratou um seguro.”

o tratamento psicanalítico deve, <tanto quanto possível, efetuar-se num estado de frustração e abstinência>. Mas F. deixa claro que não se trata de proibir tudo ao paciente e que a abstinência deve ser articulada com a dinâmica específica de cada análise. Este último esclarecimento foi progressivamente perdido de vista, assim como se esqueceu a ênfase depositada por Freud no caráter incerto da satisfação a longo prazo. O surgimento de uma concepção pedagógica e ortopédica do tratamento psicanalítico contribuiu para a transformação da regra de abstinência em um conjunto de medidas ativas e repressivas, que visam fornecer uma imagem da posição do analista em termos de autoridade e poder.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Sigmund Freud, “Observações sobre o amor transferencial”, (1915), ESB, XII, pp. 208-21. (artigo)

afaniseou afânise

Termo introduzido por Ernest Jones (Early Development of Female Sexuality, 1927); desaparecimento do desejo sexual. Segundo este autor, a afanise seria, nos 2 sexos, objeto de um temor mais fundamental que o temor da castração.”

afeto

O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e das suas variações.” Mais tarde, ainda em Freud (muito confuso): “O afeto é aí definido como a tradução subjetiva da quantidade de energia pulsional. Freud distingue aqui nitidamente o aspecto subjetivo do afeto e os processos energéticos que o condicionam.”

LINK COM #Ab-reação: “Somente quando a evocação da recordação provoca a revivescência do afeto que estava ligado a ela na origem é que a rememoração encontra a sua eficácia terapêutica.”

O mundo como afeto & representação (não existe afeto inconsciente)

Sub-espécies de estados do afeto dinâmico:

a) transformação (ansiedade, depressão)

b) deslocamento (obsessão, paranóia)

c) conversão (histeria)

(Classificação tripartite provavelmente tão obsoleta quanto aquela da histeria enumerada no verbete ab-reação.)

afonia

Perda mais ou menos considerável da força e da clareza da voz.”

afonia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, http://dicionario.priberam.org/afonia [consultado em 05-10-2018].

agressão

a hipótese de uma <pulsão de agressão> autônoma, emitida por Adler logo em 1908, foi durante muito tempo recusada por Freud” Normal.

…o doente no decorrer de outros tratamentos só evoca transferências ternas e amigáveis em favor da sua cura […]. Na psicaná., em contrapartida, todas as moções, incluindo as hostis, devem ser despertadas, utilizadas pela análise ao se tornarem conscientes.” F.

Um-dois abismo(s) entre o dever e o poder e o ser, hehe!

Os 3 tipos de chistes (e lá vamos nós de novo com esse de TRÊS TIPOS DE…):

a) o ingênuo (o chiste pelo chiste)

b) o hostil (agressivo, negro, defensivo)

c) o obsceno (???)

Alemanha

Sem o advento do nazismo, que a esvaziou da quase totalidade de seus intelectuais e eruditos, a Alemanha teria sido o mais poderoso país de implantação da psicanálise. Se fosse necessário comprovar essa afirmação, bastariam os nomes de seus prestigiosos fundadores, que se naturalizaram americanos, quando não morreram antes de poder emigrar: Karl Abraham, Max Eitingon, Otto Fenichel, Ernst Simmel, Otto Gross, Georg Groddeck, Wilhelm Reich, Erich Fromm, Karen Horney.”

Tratada de <psiquiatria de dona de casa> pelos meios da medicina acadêmica, a psicanálise foi mal-aceita pelos grandes nomes do saber psiquiátrico, e principalmente por Emil Kraepelin. Reprovavam o seu estilo literário e a sua metapsicologia, embora Freud tivesse assimilado em seus trabalhos uma parte importante da nosologia kraepeliniana. Entretanto, foi mesmo no campo do saber psiquiátrico que ela acabou por ser reconhecida, graças à ação de alguns pioneiros.”

No nível universitário, a resistência se manifestou de modo mais determinado. Como sublinha Jacques Le Rider, <a psicologia alemã construíra a sua reputação sobre a pesquisa em laboratório, sobre um método científico do qual a física e a química eram o modelo ideal, e cujo espírito positivo pretendia banir qualquer especulação, reconhecendo apenas um saber sintético: a biologia>. A escola alemã de psicologia reagiu contra a Naturphilosophie do século XIX, essa ciência da alma que florescera na esteira do romantismo e de que se nutriam os trabalhos freudianos.Thomas Mann seria um dos poucos a reconhecer o valor científico desse freudismo julgado excessivamente literário pelos psicólogos universitários.

No campo da filosofia, a psicanálise passava por ser aquele <psicologismo> denunciado por Edmund Husserl desde seus primeiros trabalhos. Assim, ela foi criticada em 1913 por Karl Jaspers (1883-1969) em uma obra monumental, Psicopatologia geral, que teve um grande papel na gênese de uma psiquiatria fenomenológica, principalmente na França, em torno de Eugène Minkowski, de Daniel Lagache e do jovem Jacques Lacan. Em 1937, Alexander Mitscherlisch tentou convencer Jaspers a modificar a sua opinião, mas chocou-se com a hostilidade do filósofo, que manteve-se surdo aos seus argumentos.”

Três congressos se realizaram em cidades alemãs: Nuremberg em 1910, onde foi criada a International Psychoanalytical Association (IPA), Weimar em 1911, do qual participaram 116 congressistas, Munique em 1913, quando se consumou a partida de Jung e seus partidários. Um ano depois, Freud pediu a Abraham que sucedesse a Jung na direção da IPA.”

Centro da divulgação clínica, Berlim continuava sendo pioneira de um certo conservadorismo político e doutrinário. E foi Frankfurt que se tornou o lugar da reflexão intelectual, dando origem à corrente da <esquerda freudiana>, sob a influência de Otto Fenichel, e à instituição do Frankfurter Psychoanalytisches Institut.” “Institut für Sozialforschung (…) Núcleo fundador da futura Escola de Frankfurt, esse instituto de pesquisas sociais fundado em 1923 originou a elaboração da teoria crítica, doutrina sociológica e filosófica que se apoiava simultaneamente na psicanálise, na fenomenologia e no marxismo, para refletir sobre as condições de produção da cultura no seio de uma sociedade dominada pela racionalidade tecnológica.”

Muito se disse, como sabemos, que o seu método original correspondia essencialmente à natureza da burguesia muito refinada de Viena, na época em que ele foi concebido. Claro que isso é totalmente falso em geral, mas mesmo que houvesse um grão de verdade isso em nada invalidaria a obra de Freud. Quanto maior for uma obra, mais estará enraizada em uma situação histórica concreta.”Horkheimer

Em 1930, graças à intervenção do escritor Alfons Paquet (1881-1944), a cidade concedeu a Freud o prêmio Goethe. Em seu discurso, lido por sua filha Anna, Freud prestou homenagem à Naturphilosophie, símbolo do laço espiritual que unia a Alemanha à Áustria, e à beleza da obra de Goethe, segundo ele próxima do eros platônico encerrado no âmago da psicanálise.

Depois da ascensão de Hitler ao poder, Matthias Göring, primo do marechal, decidido a depurar a doutrina freudiana de seu <espírito judaico>, pôs em prática o programa de <arianização da psicanálise>, que previa a exclusão dos judeus e a transformação do vocabulário. Rapidamente, conquistou as boas graças de alguns freudianos, dispostos a se lançarem nessa aventura, como Felix Boehm e Carl Müller-Braunschweig, aos quais se reuniram depois Harald Schultz-Hencke e Werner Kemper. Nenhum deles estava engajado na causa do nazismo. Membros da DPG e do BPI, um freudiano ortodoxo, o segundo adleriano e o terceiro neutro, simplesmente tinham ciúme de seus colegas judeus. Assim, o advento do nacional-socialismo foi para eles uma boa oportunidade de fazer carreira.

ambivalência

Ver também OBJETO (“BOM” E “MAU”).

#OFFTOPICFILOSOFAL É Além do Bem e do Mal a superação do princípio da não-contradição ou apenas uma solução guiada por este princípio? Pegadinha do Mallandgenstein.

anáclise ou apoio

[Devido a divergências de traduções ou simplesmente à incompetência da teoria,] o conceito de Anlehnungnão foi nitidamente apreendido pelos leitores de Freud.” “em francês o substantivo anaclise (anáclise), que traduziria Anlehnung, não é admitido. (…) os autores deste Vocabulário propuseram como equivalente étayage (apoio)”

Trata-se do momento de escolha do primeiro objeto de amor (paixão). A famosa necessidade do supérfluo(encobridor).

Parece que, até hoje, a noção de apoio não foi plenamente apreendida na obra de Freud; quando vemos intervir esta noção, é quase sempre na concepção de escolha de objeto, que longe de defini-la por inteiro, supõe que ela esteja no centro de uma teoria das pulsões.

O seu sentido principal é estabelecer uma [diferença entre as pulsões de autoconservação e o nascimento das pulsões sexuais e auxiliar na compreensão entre a separação entre desenvolvimento da heteronomia e autoerotismo ou narcisimo].” Apoio Exterior

anaclítica, depressão (Klein)

É um tipo de depressão passível de desenvolvimento já em bebês. Poder-se-ia chamar de “desmame traumático” que não foi satisfatoriamente reposto. É estruturalmente oposta à depressão adulta. = HOSPITALIZAÇÃO de ROUDINESCO. O verbete vem de René Spitz (The Psycho-Analytic Study of the Child; La première année de la vie de l’enfant).

análise didática

O ensino formal da psicanálise para a formação do profissional clínico, que inclui a análise propriamente dita do inconsciente do paciente-aprendiz.

Sobre o mito da autoanálise (a 1ª análise didática feita dentro da psicanálise, necessariamente, pelo Pai da disciplina): só Freud? Ou o mesmo afirmara, num congresso, que seria pré-requisito para o exercício da profissão? Respostas mais adiante, nos IMPERDÍVEIS CAPÍTULOS VERBORRÁGICOS DESTA SAGA, amigos!

F. presta homenagem à escola de Zurique por ter <…apresentado a exigência segundo a qual quem quiser praticar análises sobre outros deve 1º submeter-se a uma análise realizada por alguém com experiência>.” Experiência é relativa, diria seu mentor na Filosofia…

Foi em 1922, no Congresso da Associação Psicanalítica Internacional, 2 anos após a fundação do Instituto de Psicanálise de Berlim, que se apresentou a exigência da análise didática para todo e qualquer candidato a analista.”

Para resistir firmemente a essa investida geral do paciente, é preciso que o analista também tenha sido plena e completamente analisado. (…) muitas vezes se julga suficiente que um candidato passe um ano familiarizando-se com os principais mecanismos naquilo a que se chama a sua análise didática. Quanto ao seu progresso ulterior, confia-se no que virá a aprender no decorrer da própria experiência. (…) enquanto nem todos os empreendimentos com fins terapêuticos precisam ser levados até a profundidade quando falamos de uma terminação consumada da análise, o próprio analista deve conhecer e controlar mesmo as fraquezas mais secretas do seu caráter, e isto é impossível sem uma análise plenamente acabada.” Ferenczi

Hmmm… Que torre de Babel não temos aqui!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Balint, Sobre o sistema de formação psicanalítica

análise direta

Espécie de “análise intensiva” para casos de psicose. Inimiga, portanto, do princípio freudiano de abstinência.

o paciente sente-se compreendido por um terapeuta ao qual atribui a compreensão todo-poderosa de uma mãe ideal; tranqüiliza-se com palavras que visam o conteúdo infantil das suas angústias mostrando a inanidade delas.” Tem-se por base que na terapia para o neurótico a postura do psicanalista tem de ser muito mais neutra. A teoria de base que sustenta essa metodologia é a de que o psicótico é necessariamente aquela criança que sofreu a influências de uma mãe perversa.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Rosen, Direct Analysis

análise existencial (Daseinanalyse)

Entre os adeptos franceses da análise existencial encontramos Eugène Minkowski, o Jean-Paul Sartre de O ser e o nada [Hm… muito mais na persona literária…] e o jovem Michel Foucault (até 1954). (…) Na Grã-Bretanha, é essencialmente em Ronald Laing que encontramos a temática existencial.” how LAING will this treatment take?

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Viktor Frankl, La Psychothérapie et son image de l’homme, Paris, Resma, 1970.

Andersson, Ola

Pioneiro da historiografia erudita, Ola Andersson teve um destino curioso no movimento freudiano. O único livro que escreveu, publicado em 1962 com o título anglófono de Studies in the Pre-history of Psychoanalysis. The Etiology of Psychoneuroses (1886-1896) [ver versão francesa nas indicações de leitura], foi completamente ignorado na Suécia nos meios psicanalíticos, embora seu autor ocupasse funções acadêmicas importantes e fosse responsável pela tradução sueca das obras de Sigmund Freud. [!]”

No seu próprio trabalho, Andersson empreendeu então a primeira grande revisão de um caso princeps dos Estudos sobre a histeria: o caso Emmy von N.. Descobriu seu nome verdadeiro, Fanny Moser, expôs a sua história no congresso da IPA de Amsterdam em 1965, e esperou 14 anos para publicar um artigo sobre esse tema na The Scandinavian Psychoanalytic Review.” “Entretanto, ao contrário de Ellenberger, continuou apegado, como membro da IPA, à ortodoxia oriunda de Ernest Jones, cujo trabalho biográfico admirava, o que o impediu de empenhar-se mais na história erudita. Sofreu muito com seu isolamento no seio da Sociedade Psicanalítica Sueca, a ponto de pedir a Ellenberger, em 1976, que o ajudasse a emigrar para os Estados Unidos.”

Seu sobrenome Andersson, psicanalista ao mesmo tempo integrado e marginal, foi realmente apagado da história intelectual de seu país, a ponto de não figurar na Enciclopédia nacional sueca, ele que havia escrito tantos artigos em diversas enciclopédias suecas.”

Andreas-Salomé, Lou, née Lelia (Louise) von Salomé (1861-1937)

Mais por sua vida do que por suas obras, Lou Andreas-Salomé teve um destino excepcional na história do século XX. Figura emblemática da feminilidade narcísica,¹ concebia o amor sexual como uma paixão física que se esgotava logo que o desejo fosse saciado. Só o amor intelectual, fundado na mais absoluta fidelidade, era capaz, dizia ela, de resistir ao tempo.”

¹ O que seria isso?

Ironizava as invectivas, os boatos e os escândalos, decidida a não se dobrar às imposições sociais. Depois de Nietzsche (1844-1900) e de Rilke (1875-1926), Freud ficou deslumbrado por essa mulher, a quem amou ternamente e que revolucionou a sua existência.

Nascida em São Petersburgo, em uma família da aristocracia alemã, Lou Salomé era filha de um general do exército dos Romanov. Com a idade de 17 anos, recusando-se a ser confirmada pelo pastor da Igreja evangélica reformada, à qual pertencia sua família, colocou-se sob a direção de outro pastor, Hendrik Gillot, dândi brilhante e culto, que se apaixonou por ela logo que a iniciou na leitura dos grandes filósofos.”

Graças a Malwida von Meysenburg (1816-1903), grande dama do feminismo alemão, ficou conhecendo o escritor Paul Rée (1849-1901), que lhe apresentou Nietzsche. Persuadido de que encontrara a única mulher capaz de compreendê-lo, este lhe fez um pedido solene de casamento. Lou recusou-se. A esses dois homens, profundamente apaixonados por ela, propôs então constituírem uma espécie de trindade intelectual, e em maio de 1882 [38 x 33 x 21 anos], para selar o pacto, fizeram-se fotografar juntos, diante de um cenário de papelão: Nietzsche e Rée atrelados a uma charrete, Lou segurando as rédeas.” “Foi a adesão ao narcisismo nietzschiano, e de modo mais geral o culto do ego, característico da Lebensphilosophie (filosofia da vida)¹ fin de siècle, que preparou o encontro de Lou com a psicanálise.” Blá, blá, blá…

¹ Por que afinal via de regra é a filosofia-da-morte, certo?

PICÂNCIA EDÍPICA CHULA

Em junho de 1887, Lou casou-se com o orientalista alemão Friedrich-Carl Andreas, que ensinava na Universidade de Göttingen. O casamento não foi consumado, e Georg Ledebourg, fundador do Partido Social-Democrata alemão tornou-se seu primeiro amante, algum tempo antes de Friedrich Pineles, médico vienense. Essa segunda ligação terminou com um aborto e uma trágica renúncia à maternidade. Lou instalou-se então em Munique, onde ficou conhecendo o jovem poeta Rainer Maria Rilke: <Fui tua mulher durante anos, escreveria ela em Minha vida, porque foste a primeira realidade, em que o homem e o corpo são indiscerníveis um do outro, fato incontestável da própria vida […]. Éramos irmão e irmã, mas como naquele passado longínquo, antes que o casamento entre irmão e irmã se tornasse um sacrilégio.>” “como diria Freud em 1937, <ela foi ao mesmo tempo a musa e a mãe zelosa do grande poeta […] que era tão infeliz diante da vida.>” Mal consigo contar os clichês deste verbete…

Em seu artigo de 1914 sobre o narcisismo, era nela que pensava quando descreveu os traços tão particulares dessas mulheres, que se assemelham a grandes animais solitários mergulhados na contemplação de si mesmos.”“Logo ela abraçou exclusivamente a causa do freudismo. Foi então que se apaixonou porViktor Tausk, o homem mais belo e mais melancólico do círculo freudiano.”“Introduzida no círculo da Berggasse, tornou-se familiar da casa e apegou-se particularmente a Anna Freud. Depois das reuniões das quartas-feiras, Freud a conduzia a seu hotel; depois de cada jantar, a cumulava de flores.”

Fiquei sabendo com temor — e pela melhor fonte — que todos os dias você dedica até dez horas à psicanálise. Naturalmente, considero isso uma tentativa de suicídio mal-dissimulada, o que muito me surpreende, pois, que eu saiba, você tem muito poucos sentimentos de culpa neurótica. Portanto, insisto que pare e de preferência aumente o preço de suas consultas em um quarto ou na metade, segundo as flutuações da queda do marco. Parece que a arte de contar foi esquecida pela multidão de fadas que se reuniram em torno do seu berço quando você nasceu. Por favor, não jogue pela janela este meu aviso.”

Empobrecida pela inflação que assolava a Alemanha e obrigada a manter os membros de sua família arruinados pela Revolução de Outubro, Lou não conseguia suprir suas necessidades. Embora nunca pedisse nada, Freud lhe enviava somas generosas e dividia com ela, como dizia, a sua <fortuna recentemente adquirida>.

OEDIPUS GONNA ANTIOEDIPALIZE YOU: “Lou tornou-se confidente da filha de Freud e até sua segunda analista, quando isso se tornou necessário.”

Para comemorar o seu 75º aniversário, Lou decidiu dedicar a Freud um livro, para expressar sua gratidão e alguns desacordos. Criticava principalmente os erros cometidos pela psicanálise a respeito da criação estética, reduzida abusivamente, dizia ela, a um caso de recalque. Freud aceitou sem reservas a argumentação, mas tentou conseguir que ela mudasse o título da obra (Minha gratidão a Freud).”

A partir de 1933, Lou assistiu com horror à instauração do regime nazista. Conhecia o ódio que lhe consagrava Elisabeth Forster (1846-1935), irmã de Nietzsche, que se tornara adepta fervorosa do hitlerismo. Conhecia os desvios que esta impusera à filosofia do homem de quem fôra tão próxima e que tanto admirava. Não ignorava que os burgueses de Göttingen a chamavam A Feiticeira. Mas decidiu não fugir da Alemanha. Alguns dias depois de sua morte, um funcionário da Gestapo foi à sua casa para confiscar a biblioteca, que seria jogada nos porões da prefeitura:Apresentou-se como razão para esse confisco, escreveu Peters, que Lou fôra psicanalista e praticara aquilo que os nazistas chamavam de ciência judaica, que ela fôra colaboradora e amiga íntima de Sigmund Freud e que a sua biblioteca estava apinhada de autores judeus.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Lou Andreas-Salomé, Fenitschka (Stuttgart, 1898), Paris, Des Femmes, 1985;

______. Érotisme (Frankfurt, 1910, Munique, 1979), in: Eros, Paris, Minuit, 1984; (art.)

______. Rainer Maria Rilke (Leipzig, 1928), Paris, Marendell, 1989;

______. Ma gratitude envers Freud (Viena, 1931, Paris, 1983), Seuil, col. “Points”, 1987, traduzido com o título Lettre ouverte à Freud;

______. Ma vie (Zurique, 1951, Frankfurt 1977), Paris, PUF, 1977;

______. L’Amour du narcissisme, Paris, Gallimard, 1980;

______. Carnets intimes des dernières années (Frankfurt, 1982), Paris, Hachette, 1983;

______. En Russie avec Rilke, 1900. Journal inédit, Paris, Seuil, 1992;

Freud & Lou Andréas-Salomé, correspondência completa (Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1975;

Nietzsche, Rée & Salomé, Correspondance (Frankfurt, 1970), Paris, PUF, 1979;

H.F. Peters, My sister, my spouse (N. York, 1962), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1986;

Rudolph Binion, Frau Lou, Nietzsche’s Wayward Disciple, Princeton, Princeton University Press, 1968;

Angela Livingstone, Lou Andreas-Salomé: Her Life and Work (Londres, 1984), Paris, PUF, 1990.

antipsiquiatria

Sob certos aspectos, a antipsiquiatria foi a seqüência lógica e o desfecho da psicoterapia institucional. Se esta havia tentado reformar os manicômios e transformar as relações entre os que prestavam e os que recebiam cuidados, no sentido de uma ampla abertura para o mundo da loucura, a antipsiquiatria visou a extinguir os manicômios e eliminar a própria idéia de doença mental.” “foi justamente por ter sido uma revolta que a antipsiquiatria teve, ao mesmo tempo, uma duração efêmera e um impacto considerável no mundo inteiro. Ela foi uma espécie de utopia: a da possível transformação da loucura num estilo de vida, numa viagem, num modo de ser diferente e de estar do outro lado da razão, como a haviam definido Arthur Rimbaud (1854-1891) e, depois dele, o movimento surrealista.”

Assim como o movimento psicanalítico havia fabricado sua lenda das origens através da história de Anna O. (Bertha Pappenheim), a antipsiquiatria também reivindicou a aventura de uma mulher: Mary Barnes. Essa ex-enfermeira, reconhecida como esquizofrênica e incurável, tinha cerca de 40 anos ao ingressar no Hospital de Kingsley Hall, onde Joseph Berke a deixou regredir durante 5 anos. Através dessa descida aos infernos e de uma espécie de morte simbólica, ela pôde renascer para a vida, tornar-se pintora e, mais tarde, redigir sua <viagem>.”

GUERRA FRIA LACAN X SEU MESTRE: “Na França, não houve nenhuma verdadeira corrente antipsiquiátrica, de um lado porque a esquerda lacaniana ocupou parcialmente o terreno da revolta contra a ordem psiquiátrica, através da corrente da psicoterapia institucional, e de outro, em função de Foucault e Gilles Deleuze (1925-1995) [Batman & Robin], cujos trabalhos cristalizaram a contestação <antipsiquiátrica> a uma dupla ortodoxia, freudiana e lacaniana.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

David Cooper, Psiquiatria e antipsiquiatria (Londres, 1967);

Mary Barnes & Joseph Berke. Un voyage à travers la folie (Londres, 1971), Paris, Seuil, 1973;

Thomas Szasz, Le Mythe de la maladie mentale (N. York, 1974), Paris, Payot, 1975.

antropologia

O debate entre os antropólogos e os psicanalistas começou após a publicação, em 1912-1913, do livro Totem e tabu e deu origem a uma nova disciplina, a etnopsicanálise, cujos dois grandes representantes foram Geza Roheim e Georges Devereux. Seu principal contexto geográfico inicial foi a Melanésia, isto é, a Austrália, onde ainda viviam aborígines que, no final do século, eram considerados o povo mais <primitivo> do planeta, e as ilhas situadas a sudoeste do oceano Pacífico (Trobriand e Normanby), habitadas pelos melanésios propriamente ditos e pelos polinésios. Posteriormente, o campo de eleição foi o dos índios da América do Norte.”

Derivada do grego (ethnos: povo, e logos: pensamento), a palavra etnologia só veio a surgir no século XIX. Todavia, o estudo comparativo dos povos remonta a Heródoto. Se, de acordo com os antigos, o mundo estava estaticamente dividido entre a civilização e a barbárie (externa à cidade), a questão colocou-se de outra maneira na era cristã. Os missionários e conquistadores se indagaram, com efeito, se os indígenas tinham alma ou não.”

Daí nasceu a tese de que o primitivo se assemelha à criança, que se assemelha ao neurótico. Foi nesse darwinismo que Freud se inspirou, através dos trabalhos de James George Frazer (1854-1941) sobre o totemismo e de William Robertson Smith (1846-1894) sobre o tabu.”

Na França, a palavra ethnologie, etnologia, surgiu em 1838, para designar o estudo comparativo dos chamados costumes e instituições <primitivos>. Dezessete anos depois, foi suplantada pelo termo antropologia, ao qual o médico Paul Broca (1824-1881) associou seu nome, ao fazer dela uma disciplina física e anatômica que logo desembocou, no contexto da teoria da hereditariedade-degenerescência, no estudo das <raças> e das <etnias>, concebidas como espécies zoológicas.

No mundo anglófono, ao contrário (na Grã-Bretanha e, depois, nos Estados Unidos), a palavra ethnology cobriu o campo da antropologia física (no sentido francês), enquanto se cunhou, em 1908, o termo social anthropology, para designar a cátedra de antropologia de Frazer na Universidade de Liverpool.”

Observe-se que Charles Seligman (1873-1940) e William Rivers (1864-1922), dois antropólogos de formação médica, foram os primeiros a tornar conhecidos no meio acadêmico da antropologia inglesa os trabalhos freudianos sobre o sonho, a hipnose e a histeria. Mais tarde, esse trabalho teve seguimento através da escola culturalista norte-americana, desde Margaret Mead até Ruth Benedict (1887-1948), passando por Abram Kardiner e pelo neofreudismo.”

Quanto à antiga escola de antropologia, ela evoluiria para o racismo, o anti-semitismo e o colaboracionismo, em especial sob a influência de Georges Montandon, ex-médico e adepto das teses do padre Wilhelm Schmidt (1868-1954). Fundador da Escola Etnológica de Viena e diretor, em 1927, do museu etnográfico pontifical de Roma, Schmidt acusaria Freud de querer destruir a família ocidental. Quanto a Montandon, ele participaria do extermínio dos judeus durante o regime de Vichy e seria amigo do psicanalista e demógrafo Georges Mauco.

Foi preciso esperar pela segunda metade do século XX para que fosse introduzida na França, através de Claude Lévi-Strauss, a terminologia anglófona. Em 1954, ele livrou o termo <antropologia> de todas as antigas imagens da hereditariedade-degenerescência, a fim de definir uma nova disciplina que abarcasse, ao mesmo tempo, a etnografia, como primeira etapa de um trabalho de campo, e a etnologia, designada como segunda etapa e primeira reflexão sintética.

Se Marcel Mauss, sobrinho de Émile Durkheim, havia desvinculado a etnologia da sociologia durkheimiana, embora se inspirasse em seus modelos, Claude Lévi-Strauss passou da etnologia para a antropologia, unificando os dois campos (anglófono e francófono) em torno de três grandes eixos: o parentesco (em vez da família e do patriarcado), o universalismo relativista (em vez do culturalismo) e o incesto. Situou-se prontamente como contemporâneo da obra freudiana, à qual se referiu, como ao Curso de lingüística geral de Ferdinand de Saussure (1857-1913), sublinhando, em Tristes trópicos, o que ela lhe havia trazido: <…(essa obra) me revelou que […] são as condutas aparentemente mais afetivas, as operações menos racionais e as manifestações declaradas pré-lógicas que são, ao mesmo tempo, as mais significativas.>“Lévi-Strauss foi, sem sombra de dúvida, o primeiro etnólogo a teorizar a viagem etnológica segundo o modelo de uma estrutura melancólica: todo etnólogo redige uma autobiografia ou escreve confissões, diria ele, em essência, porque tem que passar pelo eu para se desligar do eu.”

PREFIGURAÇÃO DE BAUDRILLARD: “Foi dentro dessa orientação que ele estabeleceu uma analogia entre a técnica de cura xamanista e o tratamento psicanalítico. Na primeira, dizia, o feiticeiro fala e provoca a ab-reação, isto é, a liberação dos afetos do enfermo, ao passo que, na segunda, esse papel cabe ao médico que escuta, no bojo de uma relação na qual é o doente quem fala. Além dessa comparação, Lévi-Strauss mostrou que, nas sociedades ocidentais, tendia a constituir-se uma <mitologia psicanalítica> que fizesse as vezes de sistema de interpretação coletivo: <Assim, vemos despontar um perigo considerável: o de que o tratamento, longe de levar à resolução de um distúrbio preciso, sempre respeitando o contexto, reduza-se à reorganização do universo do paciente em função das interpretações psicanalíticas.> Se a cura, portanto, sobrevém através da adesão a um mito, agindo este como uma organização estrutural, isso significa que esse sistema é dominado por uma eficácia simbólica. Daí a idéia, proposta já em 1947 na Introdução à obra de Marcel Mauss, de que o chamado inconsciente não seria outra coisa senão um lugar vazio onde se consumaria uma autonomia da função simbólica.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

(a eterna busca pelo ramo de ouro) Pierre Bonte & Michel Izard, Dictionnaire de l’ethnologie et de l’anthropologie, Paris, PUF, 1992;

R. Lowie, Histoire de l’ethnologie classique (N. York, 1937), Paris, Payot, 1971.

anulação

o isolamento, uma forma de defesa característica da neurose obsessiva, processo mágico em Freud (1926)

Anzieu, Marguerite (Aimée), paciente de Lacan

Foi Élisabeth Roudinesco quem revelou pela primeira vez, em 1986, a verdadeira identidade dessa mulher, e depois reconstruiu, em 1993, a quase totalidade de sua biografia, a partir do testemunho de Didier Anzieu e dos membros de sua família.”

Marguerite Pantaine provinha de uma família católica e interiorana do centro da França. Criada por uma mãe que sofria de sintomas persecutórios, sonhou desde muito cedo, à maneira de Emma Bovary, sair de sua situação e se tornar uma intelectual. Em 1910, ingressou na administração dos correios e, sete anos depois, casou-se com René Anzieu, também funcionário público. Em 1921, quando grávida de seu filho Didier, começou a ter um comportamento estranho: mania de perseguição, estados depressivos. Após o nascimento do filho, instalou-se numa vida dupla: de um lado, o universo cotidiano das atividades de funcionária dos correios, de outro, uma vida imaginária, feita de delírios. Em 1930, redigiu de enfiada dois romances que quis mandar publicar, e logo se convenceu de estar sendo vítima de uma tentativa de perseguição por parte de Hughette Duflos, uma célebre atriz do teatro parisiense dos anos 30. Em abril de 1931, tentou matá-la com uma facada, mas a atriz se esquivou do golpe e Marguerite foi internada no Hospital Sainte-Anne, onde foi confiada a Jacques Lacan, que fez dela um caso de erotomania e de paranóia de autopunição.

A continuação da história de Marguerite Anzieu é um verdadeiro romance. Em 1949, seu filho Didier, havendo concluído seus estudos de filosofia, resolveu tornar-se analista. Fez sua formação didática no divã de Lacan, enquanto preparava uma tese sobre a auto-análise de Freud sob a orientação de Daniel Lagache, sem saber que sua mãe tinha sido o famoso caso Aimée. Lacan não reconheceu nesse homem o filho de sua ex-paciente, e Anzieu soube da verdade pela boca da mãe, quando esta, por um acaso extraordinário, empregou-se como governanta na casa de Alfred Lacan (1873-1960), pai de Jacques” [!!]

Argentina

Independente desde 1816, depois de ter-se submetido à colonização espanhola, a Argentina viveu sob o reino dos caudilhos durante todo o século XIX. A partir de 1860, a cidade de Buenos Aires, sob a influência da sua classe dominante, os portenhos, esteve na liderança da revolução industrial e da construção de um Estado moderno. Em 1880, realizou-se a unidade entre as diferentes províncias e a cidade portuária se tornou a capital federal do país. Em 50 anos (1880-1930), a Argentina acolheu 6 milhões de imigrantes, italianos ou espanhóis na maioria; três vezes o volume de sua população inicial. Fugindo dos pogroms, os judeus da Europa central e oriental se misturaram a esse movimento migratório e se instalaram em Buenos Aires, fazendo da capital o centro de um cosmopolitismo aberto a todas as idéias novas.” “Fundador do asilo argentino, Lucio Melendez repetiu no seu país o gesto de Philippe Pinel, criando uma organização de saúde mental dotada de uma rede de hospitais psiquiátricos e edificando uma nosografia inspirada em Esquirol. Domingo Cabred, seu sucessor, prosseguiu a obra, adaptando a clínica da loucura aos princípios da hereditariedade-degenerescência. Na mesma época, começaram a afirmar-se as pesquisas em criminologia e em sexologia, enquanto o ensino da psicologia, em todas as suas tendências, tomava uma extensão considerável, com a criação, em 1896, de uma primeira cátedra universitária em Buenos Aires.”

Em 1904, José Ingenieros, psiquiatra e criminologista, publicou o primeiro artigo que mencionava o nome de Freud. Depois, durante os anos 1920, vários autores apresentaram a psicanálise ora como uma moda ou uma epidemia (Anibal Ponce), ora como uma etapa da história da psicologia (Enrique Mouchet). Em 1930, Jorge Thénon afirmou que ela era excessivamente metapsicológica, sem com isso negar o seu interesse. Curiosamente, enquanto uma notável tradução espanhola das obras de Freud estava em preparação em Madri, sob a direção de José Ortega y Gasset, os autores argentinos se referiam a versões francesas. Do mesmo modo, importavam as polêmicas parisienses, às quais acrescentavam — imposição da latinidade — as críticas italianas. Assim, os argumentos de Enrico Morselli (1852-1929) tiveram uma repercussão favorável, enquanto o temível Charles Blondel tinha um franco sucesso ao declarar, por ocasião da sua viagem de conferências em 1927, que Henri Bergson (1859-1941) era o verdadeiro descobridor do inconsciente

e Freud uma espécie de Balzac fracassado [haha!].”

A escola argentina nunca se limitaria a uma única doutrina. Acolheria todas com um espírito de ecletismo, inscrevendo-as quase sempre em um quadro social e político: marxista, socialista ou reformista. Ao longo dos anos e através de suas diversas filiações, ela conservaria o aspecto de uma grande família e saberia organizar suas rupturas sem criar clivagens irreversíveis entre os membros de suas múltiplas instituições.” “Tendo adquirido uma tradição clínica e uma verdadeira identidade freudiana, os argentinos formaram então, pela análise didática, seja em Buenos Aires, seja em seus próprios países, a maioria dos terapeutas dos países de língua espanhola que, por sua vez, se integrariam à IPA, constituindo grupos ou sociedades: Uruguai, Colômbia, Venezuela.” “Em 1977, a América Latina estava a ponto de tornar-se o continente freudiano mais poderoso do mundo, sob a égide da COPAL (futura FEPAL) e em ligação com os grupos brasileiros, capaz de rivalizar com a American Psychoanalytic Association (APsaA) e a Federação Européia de Psicanálise (FEP).” “As duas cisões se produziram no momento em que a Argentina saía de um regime militar clássico, fundado no populismo e herdado do velho caudilhismo, para um sistema de terror estatal. Ora, se o primeiro feria as liberdades políticas, não limitava a liberdade profissional e associativa, da qual dependia o funcionamento das instituições psicanalíticas. O segundo, ao contrário, visava erradicar todas as formas de liberdade individual e coletiva. Por conseguinte, poderia destruir a psicanálise, como fizera outrora o nazismo. § Em 1973, quando Perón voltou ao poder, nomeou Isabelita, sua nova esposa, para o posto de vice-presidente e fez de seu secretário José Lopez Rega o ministro dos assuntos sociais do país. Este apressou-se a criar a Tríplice A (Aliança Argentina Anticomunista), conhecida por seus esquadrões da morte, que serviram de força suplementar para o exército, em suas operações de controle da sociedade civil.Um ano depois, Perón morreu e Isabelita assumiu a sua sucessão, sendo substituída em março de 1976 pelo general Jorge Videla, que instaurou durante 9 anos um dos regimes mais sangrentos do continente latino-americano, com o do general Pinochet no Chile: 30 mil pessoas foram assassinadas e torturadas, sob o rótulo de desaparecidos.” “E foi em nome da defesa de um <ocidente cristão> e da segurança nacional que as forças armadas decidiram erradicar o freudismo e o marxismo, julgados responsáveis pela <degeneração> da humanidade. Ao contrário dos nazistas, não erigiram um instituto como o de Matthias Heinrich Göring e não aboliram a liberdade de associação. A perseguição foi silenciosa, anônima, penetrando no coração da subjetividade.” “Marxista e veterana das Brigadas Internacionais, Marie Langer encontrou-se, desde o seu exílio no México, na vanguarda dos combates, arrastando consigo todos os psicanalistas politizados do país. Foi nessa época que os argentinos, como outrora os judeus europeus, emigraram em grande número para os quatro cantos do mundo, a fim de formar novos grupos freudianos ou integrar-se aos que já existiam na Suécia, na Austrália, na Espanha, nos Estados Unidos, na França.” “Durante todo o período de terror estatal (1976-1985), o interesse pelo pensamento de Lacan progrediu na Argentina de maneira curiosa. Recebido como uma contracultura subversiva e de aspecto esotérico, a doutrina do mestre permitia aos que a faziam frutificar mergulhar em debates sofisticados sobre o passe, o matema e a lógica, e esquecer, ou mesmo ignorar, a sangrenta ditadura instaurada pelo regime. Como seus colegas politizados da IPA, os lacanianos marxistas e militantes se exilaram ou resistiram ao terror.” “Em 1991, Horacio Etchegoyen foi eleito presidente. Técnico do tratamento de tendência kleiniana, analisado por Heinrich Racker e membro da ABdeBA, foi o primeiro presidente de língua espanhola do movimento freudiano.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jacques Derrida, Geopsychanalyse and the rest of the world, 1981.

associação verbal, teste de

Técnica experimental usada por Carl Gustav Jung, a partir de 1906, para detectar os complexos e isolar as síndromes específicas de cada doença mental. Consiste em pronunciar diante do sujeito uma série de palavras, cuidadosamente escolhidas, pedindo-lhe que responda com a primeira palavra que lhe vier à cabeça e medindo seu tempo de reação.”

Historicamente, essa técnica está ligada à noção de associação de idéias, já utilizada por Aristóteles, que definira seus 3 grandes princípios: a contigüidade, a semelhança e o contraste. No século XIX, a psicologia introspectiva e a filosofia empirista conferiram-lhe tamanha importância que o associacionismo transformou-se numa verdadeira doutrina, na qual se inspirariam todas as correntes da psicologia e, em especial, Freud”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Freud/Jung: correspondência completa (Paris, 1975).

atenção (uniformemente) flutuante

É o “espelho” da associação livre: faz parte do método de conduta do analista frente ao paciente (busca de neutralidade).

Tal como o paciente deve contar tudo o que lhe passa pelo espírito, eliminando todas as objeções lógicas e afetivas que pudessem levá-lo a fazer uma escolha, assim o médico deve estar apto a interpretar tudo o que ouve a fim de que possa descobrir aí tudo o que o insconsciente dissimula”F., 1912

Graças a ela, o analista pode conservar na memória uma multidão de elementos aparentemente insignificantes cujas correlações só aparecerão posteriormente.”

ouvir com o terceiro ouvido”Reik

empatia infraverbal”

Se o isso são imagens, como escutá-las? Porque mesmo que emitissem sons, o isso também não tem ouvidos, ainda que tivesse bocas

ato falho

Os editores da Standard Edition observam que para designá-lo foi preciso criar em inglês um termo, parapraxis. Em francês, o tradutor de Psicopatologia da vida cotidiana utilizou a expressão acte manqué, que adquiriu fôro de cidadania, mas parece que na prática psicanalítica corrente na França ela designa principalmente uma parte do campo coberto pelo termo Fehlleistung, quer dizer, as falhas da ação stricto sensu [enquanto que, para Freud, o ato falho pode ser compreendido como um ato bem-sucedido do inconsciente, vd. verbete do livro citado].”

auto-análise

Doctor Dream

mantenho a opinião de que esta espécie de análise [dos sonhos] pode ser suficiente para quem é um bom sonhador e não muito anormal.”O inconveniente é que esse tipo de pessoa teria de ser avisado disso (2ª característica)!

Num instante 2, em carta: “Uma verdadeira auto-análise é impossível; se não fosse isso não haveria doença.”

LOOK WHO SAYS… “Considera-se geralmente a auto-análise uma forma particular de resistência à psicanálise que embala o narcisismo e elimina a mola mestra do tratamento, que é a transferência.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Anzieu, Freud’s Self-Analysis (1986) (filho da paciente Marguerite Anzieu de Lacan!)

deb(u)t of the doubt

Nada mais risível e não-enriquecedor do que testemunhar os mútuos ataques dos psicanalistas entre si.

autismo

A PSICANÁLISE CLÁSSICA PRECISA SER SUPEREGOTIZADA APÓS SEU PAPAI: “Termo criado em 1907 por Eugen Bleuler e derivado do grego autos (o si mesmo), para designar o ensimesmamento psicótico do sujeito em seu mundo interno e a ausência de qualquer contato com o exterior, que pode chegar inclusive ao mutismo.” “É numa carta de Carl Gustav Jung a Sigmund Freud, datada de 13 de maio de 1907, que descobrimos como Bleuler cunhou o termo autismo. Ele se recusava a empregar a palavra auto-erotismo, introduzida por Havelock Ellis e retomada por Freud, por considerar seu conteúdo por demais sexual. Por isso, fazendo uma contração de auto com erotismo, adotou a palavra autismo, depois de ter pensado em ipsismo, derivada do latim. Posteriormente, Freud conservou o termo auto-erotismo para designar esse mesmo fenômeno, enquanto Jung adotou o termo introversão.” “Em 1911, em seu principal livro, Dementia praecox ou grupo das esquizofrenias, Bleuler designou por esse termo um distúrbio típico da esquizofrenia e característico dos adultos.”

Cinco grandes sinais clínicos permitiriam, segundo Kanner, reconhecer a psicose autística: o surgimento precoce dos distúrbios (logo nos dois primeiros anos de vida), o extremo isolamento, a necessidade de imobilidade, as estereotipias gestuais e, por fim, os distúrbios da linguagem (ou a criança não fala nunca, ou emite um jargão desprovido de significação, incapaz de distinguir qualquer alteridade).”

Além de Bettelheim, foram a corrente annafreudiana, por um lado, com os trabalhos de Margaret Mahler sobre a psicose simbiótica, e a corrente kleiniana, por outro, que melhor estudaram e trataram o autismo, amiúde com sucesso, com a ajuda dos instrumentos fornecidos pela psicanálise. Nesse contexto, Frances Tustin trouxe uma nova visão sobre essa questão na década de 1970, ao propor uma classificação do autismo em três grupos: o autismo primário anormal, resultante de uma carência afetiva primordial e caracterizado por uma indiferenciação entre o corpo da criança e o da mãe; o autismo secundário, de carapaça, que corresponde em linhas gerais à definição de Kanner; e o autismo secundário regressivo, que seria uma forma de esquizofrenia sustentada por uma identificação projetiva.”

apesar da evolução da psiquiatria genética, nenhum trabalho de pesquisa conseguiu comprovar (como de resto não o fez em relação à esquizofrenia e à psicose maníaco-depressiva) que o autismo verdadeiro (quando não existe nenhuma lesão neurológica anterior) seja de origem puramente orgânica.”

Balint, Michael

Como muitos judeus húngaros cujos antepassados adotaram nomes alemães, decidiu, no fim da guerra, <magiarizar-se> para afirmar assim que pertencia à nação húngara. Tomou então o sobrenome de Balint. Na universidade, ficou conhecendo Alice Szekely-Kovacs, estudante de etnologia, que despertou seu interesse pela psicanálise.”

Foi obrigado, como todos os imigrantes, a refazer os estudos de medicina e teve que enfrentar, além do exílio, a dor de perder de uma só vez quase todos os membros da família. Alice Balint (1898-1939) (a Kovacs acima), sua mulher, e Wilma Kovacs [psicanalista e outrora paciente tratada por Groddeck!], sua sogra, a quem era muito apegado, morreram com um ano de intervalo. Depois da guerra, ficou sabendo que seus pais tinham se suicidado para escapar à deportação.”

A LINHA TÊNUE ENTRE SER WORKHALOIC E “PSICAEROTÔMANO”: “Foi lá também que ficou conhecendo Enid Albu-Eichholtz, sua terceira mulher. Analisada por Donald Woods Winnicott, Enid Balint (1904-1994) iniciou Michael em uma nova técnica, o case work. Tratava-se de comentar e trocar relatos de casos no interior de grupos compostos de médicos e de psicanalistas. Essa experiência deu origem ao que se chama de grupos Balint. Apesar de sua separação em 1953, Michael e Enid continuaram a trabalhar juntos.”

A sobrinha da falecida primeira mulher de Balint se tornou sua tradutora ao Francês!

Grande técnico do tratamento, Balint soube aliar o espírito inovador de seu mestre Ferenczi à tradição clínica da escola inglesa. Nesse aspecto, foi realmente o <húngaro selvagem> da British Psychoanalytical Society (BPS), cujos rituais e cuja esclerose ele criticou com muito humor, prestando homenagem, na primeira ocasião, aos costumes mais liberais da antiga sociedade de Budapeste”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Balint, A falha básica (Londres, 1968), P. Alegre, Artes Médicas, 1993.

Bateson, Gregory (1904-1980)

Marido de Margaret Mead.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

B. (ed.), Perceval le fou. Autobiographie d’un schizophrène (Londres, 1962), Paris, Payot, 1975.

Bauer, Ida, sobrenome de casada Adler (1882-1945), caso Dora

Primeiro grande tratamento psicanalítico realizado por Freud, anterior aos do Homem dos Ratos (Ernst Lanzer)e do Homem dos Lobos (Serguei Constantinovitch Pankejeff), a história de Dora, redigida em dezembro de 1900 e janeiro de 1901 e publicada quatro anos depois, desenrolou-se entre a redação de A interpretação dos sonhos e a dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

GUINESS: “trata-se do documento clínico que mais se comentou, desde sua publicação. (…) o caso dessa jovem tornou-se o objeto privilegiado dos estudos feministas.”

Para a publicação desse 1o tratamento exclusivamente psicanalítico, conduzido com uma mocinha virgem de 18 anos de idade, Freud tomou precauções inauditas. Na época, de fato, a cruzada que se travava contra o freudismo consistia em fazer com que a psicanálise passasse por uma doutrina pansexualista, que tinha por objetivo fazer os pacientes (sobretudo as mulheres) confessarem, por meio da sugestão, <sujeiras> sexuais inventadas pelos próprios psicanalistas. Na Grã-Bretanha e no Canadá, por exemplo, Ernest Jones suportaria o peso de acusações dessa ordem. [Veja em ESCANDINÁVIA que E.J. não era nenhum ‘santinho’.]”

A melhor maneira de falar dessas coisas é sendo seco e direto; e ela é, ao mesmo tempo, a que mais se afasta da lascívia com que esses assuntos são tratados na ‘sociedade’, lascívia esta com que as moças e mulheres estão plenamente habituadas.”

um marido fraco e hipócrita engana sua mulher, uma dona de casa ignorante, com a esposa de um de seus amigos, conhecida numa temporada de férias em Merano. A princípio enciumado, depois indiferente, o marido enganado tenta, de início, seduzir a governanta de seus filhos. Depois, apaixona-se pela filha de seu rival e a corteja durante uma temporada em sua casa de campo, situada às margens do lago de Garda. Horrorizada, esta o rejeita, pespega-lhe uma bofetada e conta a cena a sua mãe, para que ela fale do assunto com seu pai. Este interroga o marido da amante, que nega categoricamente os fatos pelos quais é recriminado. Preocupado em proteger seu romance extraconjugal, o pai culpado faz com que a filha passe por mentirosa e a encaminha para tratamento com um médico que, alguns anos antes, prescrevera-lhe um excelente tratamento contra a sífilis.

A entrada de Freud em cena transforma essa história de família numa verdadeira tragédia do sexo, do amor e da doença. Sob esse aspecto, sua narrativa do caso Dora assemelha-se a um romance moderno: hesitamos entre Arthur Schnitzler, Marcel Proust (1871-1922) e Henrik Ibsen (1828-1906).” “Grande industrial, ele desfrutava de uma bela situação financeira e era admirado pela filha [Dora]. Em 1888, contraiu tuberculose, o que o obrigou a se instalar com toda a família longe da cidade. Assim, optou por residir em Merano, no Tirol, onde travou conhecimento com Hans Zellenka (Sr. K.), um negociante menos abastado que ele, casado com uma bela italiana, Giuseppina ou Peppina (Sra. K.), que sofria de distúrbios histéricos e era uma assídua freqüentadora de sanatórios. Peppina tornou-se amante de Phillip [Bauer] e cuidou dele em 1892, quando ele sofreu um descolamento da retina.”

Katharina, a mãe de Ida, provinha, como o marido, de uma família judia originária da Boêmia. Pouco instruída e bastante simplória, sofria de dores abdominais permanentes, que seriam herdadas pela filha. Nunca se interessara pelos filhos e, desde a doença do marido e da desunião que se seguira a ela, exibia todos os sinais de uma <psicose doméstica>: <Sem mostrar nenhuma compreensão pelas aspirações dos filhos, ela se ocupava o dia inteiro, escreveu F., em limpar e arrumar a casa, os móveis e os utensílios domésticos, a tal ponto que usá-los e usufruir deles tinha-se tornado quase impossível […]. Fazia anos que as relações entre mãe e filha eram pouco afetuosas. A filha não dava a menor atenção à mãe, fazia-lhe duras críticas e escapara por completo de sua influência.> E era uma governanta quem cuidava de Ida. Mulher moderna e <liberada>, esta lia livros sobre a vida sexual e dava informações sobre eles à sua aluna, em segredo. Abriu-lhe os olhos para o romance do pai com Peppina. Entretanto, depois de tê-la amado e de lhe ter dado ouvidos, Dora se desentendera com ela.”

Aos 9 anos de idade [o irmão mais velho de Dora, Otto] se tornara um menino prodígio, a ponto de escrever um drama em cinco atos sobre o fim de Napoleão. Depois, rebelara-se contra as opiniões políticas do pai, cujo adultério aprovava, por outro lado. (…) Secretário do Partido Social-Democrata de 1907 a 1914 e, depois, assessor de Viktor Adler no ministério de Assuntos Exteriores em 1918, viria a ser uma das grandes figuras da intelectualidade austríaca no entre-guerras. No entanto, apesar de seu talento excepcional, nunca se refez do desmoronamento do Império Austro-Húngaro e despendeu mais energia atacando Lenin do que combatendo Hitler (…) Bauer insistiu, até 1934, em fazer cruzadas típicas do pré-guerra contra a Igreja e a aristocracia, num momento em que, justamente, deveria ter-se associado a seus inimigos de outrora para repelir o fascismo. Poucas cegueiras tiveram conseqüências tão pesadas.”

foi em outubro de 1901 que Ida Bauer visitou Freud para dar início a esse tratamento, que duraria exatamente 11 semanas.”

Minha Ida já está garantida.

Dora fôra acusada por Hans[o amigo tarado do pai, quem curiosamente lhe havia metido chifres, i.e., furado seu olho; aqui cabe a citação da coincidência: o pai de Dora era cego de um olho] e por seu pai de ter inventado a cena de sedução. Pior ainda, fôra reprovada por Peppina Zellenka (Sra. K. [a chifradora – e quase chifruda]), que suspeitava que ela lesse livros pornográficos, em particular A fisiologia do amor, de Paolo Mantegazza (1831-1901), publicado em 1872 e traduzido para o alemão 5 anos depois. O autor era um sexólogo darwinista [?], profusamente citado por Richard von Krafft-Ebing e especializado na descrição <etnológica> das grandes práticas sexuais humanas: lesbianismo, onanismo, masturbação, inversão, felação, etc. Ao encaminhar sua filha a Freud, Philipp Bauer esperava que este lhe desse razão e que tratasse de pôr fim às fantasias sexuais da filha.” “O primeiro sonho revelou que Dora era dada à masturbação e que, na realidade, estava enamorada de Hans Zellenka.” “Dora não encontrara em Freud a sedução que esperava dele: ele não fôra compassivo e não soubera empregar com ela uma relação transferencial positiva. Nessa época, com efeito, ele ainda não sabia manejar a transferência na análise.”

fôra a própria Sra. K. que fizera a moça ler o livro proibido, para depois acusá-la. E fôra também ela quem lhe havia falado de coisas sexuais.” Que beleza…

Esse tema da homossexualidade inerente à histeria feminina seria longamente comentado por Jacques Lacan em 1951, enquanto outros autores fariam questão de demonstrar ora que Freud nada entendia de sexualidade feminina,¹ ora que Dora era inanalisável.”

¹ A única coisa certa nesse imbróglio todo!

Ida Bauer nunca se curou de seu horror aos homens.Mas seus sintomas se aplacaram. Após sua curta análise, ela pôde vingar-se da humilhação sofrida, fazendo a Sra. K. confessar o romance com seu pai e levando o Sr. K. a confessar a cena do lago.” “Em 1903, casou-se com Ernst Adler [Adler é o quê afinal, uma espécie de ‘Silva’?], um compositor que trabalhava na fábrica de seu pai.” “Em 1923, sujeita a novos distúrbios — vertigens, zumbidos no ouvido, insônia, enxaquecas —, por acaso chamou à sua cabeceira Felix Deutsch. Contou-lhe toda a sua história, falou do egoísmo dos homens, de suas frustrações e de sua frigidez. Ouvindo suas queixas, Deutsch reconheceu o famoso caso Dora: <Desse momento em diante, ela esqueceu a doença e manifestou um imenso orgulho por ter sido objeto de um texto tão célebre na literatura psiquiátrica.> Então, discutiu as interpretações de seus dois sonhos feitas por Freud. Quando Deutsch tornou a vê-la, os ataques tinham passado.”

Dora tinha voltado contra o próprio corpo a obsessão de sua mãe: <Sua constipação, vivida como uma impossibilidade de ‘limpar os intestinos’, causou-lhe problemas até o fim da vida.>

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Freud, Fragmento da análise de um caso de histeria (1905);

Felix Deutsch, Apostille au “Fragment d’une analyse d’hystérie (Dora)” (1957), Revue Française de Psychanalyse, n. 37, janeiro-abril de 1973, 407-14;

Lacan. O Seminário, livro 17, O avesso da psicanálise (1969-1970) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992.

benefício primário e secundário da doença

Defesa secundária e benefício secundário surgem como duas modalidades de resposta do ego a esse <corpo estranho> que o sintoma antes de mais nada é”

O que R***** e Maria D’Stress nunca entenderão: os benefícios de ser sedentário são muito maiores que os de ser um “saudável”!

Bernays, Anna, née Freud (1859-1955), irmã de Sigmund Freud

Em suas lembranças, manifestou o mesmo ciúme que seu irmão sentira em relação a ela, quando era criança. Contou até que pontoAmalia Freudprivilegiava o filho mais velho: ele tinha direito a um quarto só para ele, enquanto as irmãs se apertavam no resto do apartamento. Quando Amalia quis dar aulas de piano a Anna Freud (futura Bernays), Sigmund se opôs e ameaçou deixar a casa. Quando ela tinha 16 anos, ele a impediu de ler as obras de Honoré de Balzac e deAlexandre Dumas (1802-1870). Essa atitude tirânica estava ligada ao fato de que Freud fora muito ciumento de seu irmão Julius Freud, nascido depois dele, e posteriormente se sentira culpado de sua morte.” E o kiko?

Em outubro de 1883, Anna Freud casou-se comEli Bernays, irmão deMartha Bernays, futura mulher de Freud, com o qual este não tardou a se indispor por causa de uma banal história de dinheiro.Novamente manifestou seu ciúme querendo que Martha, sua noiva, tomasse partido por ele, o que ela não fez. Por isso, não assistiu ao casamento da irmã. Tempos depois, deu fim à briga e ajudou os Bernays a emigrar para os Estados Unidos, onde Eli se tornou um homem de negócios muito rico.”

Bettelheim, Bruno (1903-1990)

Não se pode evocar a vida e a obra de Bruno Bettelheim sem levar em conta o escândalo que estourou nos Estados Unidos algumas semanas depois de sua morte. Em conseqüência da publicação, em alguns grandes jornais, de cartas de ex-alunos da Escola Ortogênica de Chicago, que ele dirigira durante cerca de 30 anos e que acolhia crianças classificadas como autistas, a imagem do bom <Dr. B.>, como era chamado, se apagava por trás da figura de um tirano brutal, que fazia reinar o terror em sua escola.”

Os termos de impostor, de falsificador e de plagiário se somaram ao de charlatão. Esse tumulto teve pouca repercussão na França, onde ele gozara, em razão do sucesso de seu livro A fortaleza vaziae do programa dedicado à Escola Ortogênica, realizado por Daniel Karline Tony Lainépara a televisão francesa e difundido em outubro de 1974, de um imenso prestígio que só foi prejudicado pelo declínio geral das idéias filosóficas e psicanalíticas dos anos 1970.”

Nascido em Viena a 28 de agosto de 1903, em uma família da pequena burguesia judaica assimilada, de uma feiúra constatada sem delicadeza pela mãe, que nunca lhe dedicou grande afeição, Bruno Bettelheim manifestou cedo suas tendências à depressão.”

Preso pela Gestapo, chegou a Dachau a 3 de junho de 1938, depois de ter sido violentamente espancado. Transferido depois para o campo de concentração de Buchenwald a 23 de setembro de 1938, encontrou ali Ernst Federn, filho de Paul Federn, companheiro de Freud. Naquele universo de medo, angústia e humilhação permanentes, começou a fazer um trabalho consigo mesmo, para resistir à ação mortífera dos SS. Foi a experiência desses campos a origem do conceito de <situação extrema>, pelo qual ele designava as condições de vida diante das quais o homem pode seja abdicar, identificando-se com a força destruidora, constituída tanto pelo carrasco ou pelo ambiente quanto pela conjuntura, seja resistir, praticando a estratégia da sobrevivência — Sobreviver seria o título de um de seus livros — que consiste em construir para si, a exemplo do que Bettelheim supunha ser a origem do autismo, um mundo interior cujas fortificações o protegeriam das agressões externas. Libertado a 14 de abril de 1939, graças a intervenções que seriam para ele uma nova ocasião de fabular, emigrou para os Estados Unidos, despojado de todos os seus bens.”

Assim, Bruno Bettelheim tornou-se especialista em campos de concentração, qualidade que se revelaria sobrecarregada de muitos mal-entendidos, desta vez com o conjunto da comunidade judaica. Com efeito, os testemunhos dos raros sobreviventes dos campos de morte fariam aparecer a insondável distância que separava o universo concentracionário da empreitada de extermínio sistemático, cujo símbolo será, para sempre, Auschwitz. Bruno Bettelheim levaria anos para admitir essa diferença, recusando-se a ver nela o limite trágico de sua virulenta crítica daquilo que ele apresentava como a passividade dos judeus diante de seus torturadores.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

B., Psychanalyse des contes de fées;

Nina Sutton, Bruno Bettelheim, une vie, Paris, Stock, 1995.

Biblioteca do Congresso (Washington), a tragédia “alexandrina” (para não dizer que tudo se resume a Édipo) da família Freud!

Foi ali, no departamento de manuscritos, que foram depositados os arquivos de Freud (cartas, manuscritos, etc.) e os de inúmeros outros psicanalistas de diferentes países. Essa iniciativa foi tomada por Siegfried Bernfeld. Depois dele, Kurt Eissler, psicanalista também de origem vienense e autor de vários livros sobre Freud, foi, depois da II Guerra Mundial, o principal responsável por esse grande depósito de saber e memória, que assumiu o nome de Sigmund Freud Archives (SFA) ou Arquivos Freud. Ele colecionou documentos apaixonantes, tanto interrogando todos os sobreviventes da saga freudiana quanto preservando a gravação de suas entrevistas em fitas magnéticas. De comum acordo com Anna Freud, Eissler editou normas de conservação draconianas, as quais, respeitando a vontade dos doadores, proibiram à maioria dos pesquisadores externos à IPA o acesso a esse reservatório. Foi sob a direção dele, sumamente ortodoxa, que, a partir de 1979, numa reação ao espírito de censura, produziu-se uma virada revisionista na historiografia freudiana, em especial a propósito da edição das cartas de Freud a Wilhelm Fliess, confiada pelo próprio Eissler a um pesquisador pouco escrupuloso: Jeffrey Moussaieff Masson. A censura e a desconfiança, assim, levaram ao favorecimento de uma iniciativa historiográfica violentamente antifreudiana.” O que eu chamo de ENANTIODROMIA.

A coleção Sigmund Freud, dividida em séries (A, B, E, F e Z), e cujos direitos de publicação dependem da Sigmund Freud Copyrights (que representa os interesses financeiros das pessoas legalmente habilitadas), está agora acessível a todos os pesquisadores. Seu regulamento prevê algumas restrições, ora justificadas e conformes às leis em vigor, ora contestáveis. Quanto à série Z, sujeita a uma suspensão progressiva da imposição de sigilo que se estende até 2100, ela encerra, supostamente, documentos concernentes à vida privada de pessoas (pacientes, psicanalistas, etc.), as quais é preciso proteger.

Na realidade, essa série Z contém alguns textos que nada têm de confidencial, outros que não comportam nenhuma revelação bombástica, ainda que digam respeito a segredos de família ou do divã, e outros, por fim, cuja presença nessa classe nada tem de evidente: p.ex., contratos de Freud com seus editores, cartas trocadas com uma organização esportiva judaica, ou documentos sobre Josef Freud que já são conhecidos dos historiadores. Patrick Mahony e o historiador Yosef Hayim Yerushalmi denunciaram o regulamento que rege a organização dessa série numa conferência notável, realizada em 1994. Este último sublinhou que esconder segredos de polichinelo conduz, antes, a alimentar boatos inúteis, e que a única maneira de evitá-los seria abrir os chamados arquivos secretos.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Yosef Hayim Yerushalmi, “Série Z” (1994), “Une fantaisie archiviste”, Le Débat, 92, novembro-dezembro de 1996, 141-52(artigo);

Jacques Derrida, Mal d’archive, Paris, Galilée, 1995.

Binswanger, Ludwig (1881-1966)

O tio de Ludwig Binswanger, Otto Binswanger (1852-1929), que tratou de Friedrich Nietzsche (1844-1900) e conheceu Freud em 1894, por ocasião de um congresso em Viena, publicou trabalhos sobre a histeria e a paralisia geral. Nomeado professor em Iena, acolheu o sobrinho entre 1907 e 1908 no seu serviço da clínica psiquiátrica desta cidade, onde o jovem Ludwig ficaria conhecendo sua futura mulher, Hertha Buchenberger.”

Sua atração crescente pela filosofia, sua curiosidade e o contato assíduo com intelectuais e artistas de seu tempo, entre os quais Martin Buber (1878-1965), Ernst Cassirer (1874-1945), Martin Heidegger (1889-1976), Edmund Husserl (1859-1938), Karl Jaspers (1883-1969), Edwin Fischer, Wilhelm Furtwängler, Kurt Goldstein (1878-1965), Eugène Minkowski, o levaram a desenvolver uma concepção diferente da via freudiana. Mas esse afastamento não o faria renunciar à teoria. Seu respeito, sua admiração e amizade por Freud ficariam intactos ao longo dos anos, como mostram a sua intervenção do dia 7 de maio de 1936, por ocasião do octogésimo aniversário de Freud, e também o seu texto de 1956, destinado à comemoração do centenário de nascimento do inventor da psicanálise, intitulado Meu caminho para Freud.”

publicou em 1930 Sonho e existência, em que misturava a concepção freudiana da existência humana com as de Husserl e de Heidegger. Foucault redigiria para essa obra, que ele traduziria com Jacqueline Verdeaux, um longo prefácio. Em 1983, na versão inglesa (inédita em francês) da apresentação do seu livro O uso dos prazeres, Foucault evocaria a sua dívida em relação a Binswanger e as razões pelas quais se afastou dele.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Joseph Roth, La Marche de Radetzky (1932), Paris, Seuil, 1982.

Bion, Wilfred Ruprecht

Bion foi o aluno mais turbulento de Melanie Klein, cujo dogmatismo rejeitou para construir uma teoria sofisticada do self e da personalidade, fundada em um modelo matemático e repleta de noções originais — pequenos grupos, função alfa, continente/conteúdo, objetos bizarros, pressupostos de base, grade, etc. — que, em certos aspectos, se assemelhavam às de Jacques Lacan, seu contemporâneo. Como este, tentou dar um conteúdo formal à transmissão do saber psicanalítico, apoiando-se em fórmulas e na álgebra, e, também como ele, apaixonou-se pela linguagem, pela filosofia e pela lógica, mas com uma perspectiva nitidamente cognitivista.”

Nascido em Muttra, no Pendjab, de mãe indiana e pai inglês, engenheiro especialista em irrigação, foi educado por uma ama-de-leite e passou a infância na Índia, no fim da era vitoriana e no apogeu do período colonial. Não sem humor, diria que todos os membros de sua família eram <completamente malucos>. Em sua autobiografia, apresentou sua mãe como uma mulher fria e aterrorizante, que lhe lembrava as correntes de ar geladas das capelas inglesas.”

Só gostava das atividades esportivas e permaneceu virgem até seu casamento, aos 40 anos. Em janeiro de 1916, foi incorporado a um batalhão de blindados e logo estava no campo de batalha de Cambrai, no meio dos obuses e do fogo da guerra. Saiu em 1918 com a patente de capitão, uma sólida experiência da fraternidade humana e dos artifícios da hierarquia militar, de que se serviria anos depois.”

Em 1932, contratado como médico assistente na Tavistock Clinic de Londres, dirigiu tratamentos de adolescentes delinqüentes ou atingidos por distúrbios da personalidade, e ocupou-se durante cerca de dois anos do tratamento de Samuel Beckett.”

Amigo e admirador de James Joyce (1882-1941) desde 1928, Beckett se indispusera com ele dois anos depois, após ter repelido as pretensões amorosas de sua filha, Lucia Joyce, doente de esquizofrenia e tratada por Jung. Atormentado por uma mãe conformista e abusiva, que desconhecia seu talento e desaprovava sua conduta, sofria em 1932 de graves distúrbios respiratórios, de dores de cabeça e de diversos problemas crônicos ligados ao alcoolismo e a uma tendência para a vadiagem. Assim, decidira fazer uma psicoterapia, a conselho de seu amigo, o doutor Geoffrey Thomson. O tratamento com Bion foi conflituoso e difícil. A cada vez que Beckett voltava para a casa de sua mãe em Dublin, sofria de terrors noturnos, torpor e furúnculos no pescoço e no ânus. Por isso, Bion acabou recomendando-lhe que se afastasse dela. Beckett não conseguiu e interrompeu a análise, depois de ter assistido, a conselho de Bion, a uma conferência de Jung na Tavistock Clinic, na qual este afirmava que os personagens de uma ficção são sempre a imagem mental do escritor que os criou.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Didier Anzieu, “Beckett et Bion”, Revue Française de Psychanalyse, Paris, Mentha, 1992. (artigo)

bissexualidade

Assim como todos os trabalhos modernos sobre o transexualismo tomaram por mitos fundadores a lenda de Hermafroditos e os amores da deusa Cibele, as reflexões sobre a bissexualidade sempre tiveram por origem o célebre relato dos infortúnios de Andrógino, feito por Aristófanes no Banquete de Platão”

Foi com a publicação, em 1871, de A descendência do homem, de Charles Darwin (1809-1882), que começou a se efetuar a passagem do mito platônico da androginia para a nova definição da bissexualidade, segundo as perspectivas da ciência biológica. Tratava-se, na época, de dotar o estudo da sexualidade humana de uma terminologia adequada em matéria de <raça>, constituição, espécie, organicidade, etc. A contribuição da embriologia foi decisiva, na medida em que ela pôde mostrar, graças à utilização do microscópio, que o embrião humano era dotado de duas potencialidades, uma masculina e outra feminina. Daí a idéia de que a bissexualidade já não era apenas um mito, porém uma realidade da natureza. Através dos ensinamentos de Carl Claus e, mais tarde, em contato com seu amigo Wilhelm Fliess, Freud adotou, por volta de 1890, a tese da bissexualidade.”

Em seu livro de 1896 sobre as relações entre o nariz e os órgãos genitais, Fliess expôs sua concepção dupla da bissexualidade e da periodicidade, estabelecendo um vínculo entre as dores da menstruação e as do parto, todas remetidas a <localizações genitais> situadas no nariz. Daí decorria a tese da periodicidade, segundo a qual as neuroses nasais, os acessos de enxaqueca e outros sintomas do ciclo feminino obedeciam a um ritmo de 28 dias, como a menstruação.”

Em seguida, após seu rompimento com Fliess, Freud apagaria os vestígios desse empréstimo [teoria da bissexualidade psíquica], sobretudo por causa da delirante história de plágio em que seria implicado por intermédio de Hermann Swoboda.”Pense 2x: com Freud nada é delirante!

Weininger assimilava o judeu à mulher, sublinhando, além disso, que esta era pior do que aquele, uma vez que o judeu, como encarnação de uma dialética negativa, podia ter acesso à emancipação. Assim, a noção de bissexualidade serviu para reinstaurar sob nova forma os velhos preconceitos da época clássica.”

Depois de fazer da bissexualidade o núcleo central de sua doutrina da homossexualidade e da sexualidade feminina, Freud considerou que essa noção era de completa obscuridade, na medida em que não podia articular-se com a de pulsão. Em 1937, porém, deu meia-volta e, em Análise terminável e interminável, mencionou o nome de Fliess e voltou à idéia de 1919 de que ambos os sexos recalcavam o que dizia respeito ao sexo oposto: a inveja do pênis, na mulher, e, no homem, a revolta contra sua própria feminilidade e sua homossexualidade latente: Já mencionei em outros textos que, na época, esse ponto de vista foi-me exposto por Wilhelm Fliess, que se inclinava a ver na oposição entre os sexos a verdadeira causa e o motivo originário do recalque. Só faço reiterar minha discordância de outrora ao me recusar a sexualizar o recalque dessa maneira, e portanto, a lhe dar um fundamento biológico, e não apenas psicológico.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Freud, Bate-se numa criança (1919);

Wilhelm Fliess, Les Relations entre le nez et les organes génitaux féminins présentés selon leurs significations biologiques (Viena, 1897), Paris, Seuil, 1977;

Otto Weininger, Sexe et caractère (Viena, 1903), Lausanne, L’Âge d’Homme, 1975;

Jacques Le Rider, Le Cas Otto Weininger. Racines de l’antiféminisme et de l’antisémitisme, Paris, PUF, 1982.

Bleuler, Eugen (1857-1939)

Inventor dos termos esquizofrenia e autismo, diretor, depois de August Forel, da prestigiosa clínica do Hospital do Burghölzli, por onde passaram todos os pioneiros do freudismo, Eugen Bleuler foi o grande pioneiro da nova psiquiatria do século XX e um reformador do tratamento da loucura comparável ao que tinha sido, um século antes, Philippe Pinel (1745-1825).”“fundou uma verdadeira escola de pensamento, o bleulerismo, que marcou o conjunto do saber psiquiátrico até aproximadamente 1970, data a partir da qual generalizou-se em todos os países do mundo um novo organicismo, nascido da farmacologia.”

Descendentes diretos de uma certa tradição francesa, de Charcot, por um lado, e por outro de Hippolyte Bernheim, os principais especialistas em doenças mentais e nervosas procuravam elaborar uma nova clínica da loucura, fundada não na abstração classificadora, mas na escuta do paciente: queriam ouvir o sofrimento dos doentes, decifrar sua linguagem, compreender a significação de seu delírio e instaurar com eles uma relação dinâmica e transferencial.” “do mesmo modo que Freud transformara a histeria em um paradigma moderno da doença nervosa, Bleuler inventava a esquizofrenia para fazer dela o modelo estrutural da loucura no

século XX.” “Através desse deslocamento, Bleuler renovava o gesto do alienismo do Século das Luzes, segundo o qual a loucura era curável, pois todo indivíduo insano conservava em si umresto de razão, acessível por um tratamento apropriado: o tratamento moral. Ora, no fim do século XIX, as diversas teorias da hereditariedade-degenerescência tinham abolido essa idéia de curabilidade, em proveito de um constitucionalismo da doença mental, tendo como corolário o confinamento perpétuo.”

Se Bleuler queria adaptar a psicanálise ao asilo, Freud sonhava conquistar, desde Viena, via Zurique, a terra prometida da psiquiatria de língua alemã que, nessa época, dominava o mundo. E contava com a fidelidade de Jung, assistente de Bleuler no Burghölzli, para ajudá-lo nesse empreendimento. Contra Bleuler, ele conservou a noção de auto-erotismo e preferiu pensar o domínio da psicose em geral sob a categoria da paranóia, ao invés da esquizofrenia. Opôs assim o sistema de Kraepelin à inovação bleuleriana, mas tranformou-o de cima a baixo, a fim de estabelecer uma distinção estrutural entre neurose, psicose e perversão.

Quanto a Jung, separou-se primeiro de Bleuler, seu mestre em psiquiatria, e depois de Freud, que fizera dele o seu sucessor. Decidiu utilizar a expressão demência precoce, e não a de esquizofrenia, e inventou em 1910 a palavra introversão, que preferiu a autismo, para designar a retirada da libido para o mundo interior do sujeito.”

Depois de ser contestada pela antipsiquiatria, a clínica freudo-bleuleriana foi marginalizada, a partir de 1970, pela elaboração de um Manual diagnóstico e estatístico dos distúrbios mentais (DSM III, IV etc.), de inspiração comportamentalista e farmacológica.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jean Garrabé, Histoire de la schizophrénie, Paris, Seghers, 1992.

Manfred Bleuler (filho deste Bleuler), La Pensée bleulérienne dans la psychiatrie suisse, Nervure, VIII, novembro de 1995, 23-4.

Bonaparte, Marie

Filha de Roland Bonaparte (1858-1924), neto de Lucien, irmão do imperador, Marie Bonaparte, nascida em Saint-Cloud, era portanto sobrinha-bisneta de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Sua mãe morreu por ocasião de seu nascimento e a menina teve uma infância e uma adolescência trágicas. Educada pelo pai, que só se interessava por suas atividades de geógrafo e antropólogo, e por sua avó paterna, verdadeira tirana doméstica, ávida de sucesso e de notoriedade, Marie tinha tudo de uma personagem romanesca.

Seu casamento arranjado com o príncipe Jorge da Grécia (1869-1957), homossexual depravado, alcoólatra e conformista, fez dela uma alteza real coberta de honras e de celebridade, mas sempre obcecada pela procura de uma causa nobre e principalmente preocupada com sua frigidez. Quando encontrou Freud em Viena em 1925, a conselho de René Laforgue, estava à beira do suicídio e acabava de publicar, sob o pseudônimo de Narjani, um artigo no qual louvava o mérito de uma intervenção cirúrgica, em voga na época, que consistia em aproximar o clitóris da vagina, a fim de transferir o orgasmo clitoridiano para a zona vaginal. Acreditava assim que poderia curar sua frigidez e não hesitou em experimentar a operação em si própria, mas sem nunca obter o menor resultado.

Graças ao minucioso trabalho de Célia Bertin, única a ter acesso aos arquivos da família, conhecemos a vida dessa princesa, estimada por Freud, que reinou como soberana sobre a Sociedade Psicanalítica de Paris, da qual foi um dos 12 fundadores, ao lado de René Laforgue, Adrien Borel, Rudolph Loewenstein, Édouard Pichon, Raymond de Saussure, René Allendy, etc. Tradutora incansável da obra freudiana, organizadora do movimento francês, que financiou em parte com seu dinheiro, Marie Bonaparte consagrou a vida à psicanálise, com um entusiasmo e uma coragem invejáveis. Lutou em favor da análise leiga e, diante do nazismo, adotou uma atitude exemplar, negando-se a qualquer concessão. Pagou um resgate considerável para arrancar Freud das garras da Gestapo, salvou seus manuscritos e instalou-o em Londres com toda a família. Foi sua atividade eficaz a serviço da causa que lhe valeu ocupar um lugar central na França e tornar-se uma das personalidades mais respeitadas do movimento freudiano.

Depois da Segunda Guerra Mundial, tornou-se uma espécie de monstro sagrado, incapaz de perceber as ambições, os sonhos e os talentos das duas novas gerações francesas (a segunda e a terceira).

Durante a primeira cisão (1953) e às vésperas da segunda (1963), opôs-se fanaticamente a Jacques Lacan, a quem detestava e que a tratava de <cadáver de Ionesco>. Na verdade, ele lhe tirava o papel de chefe de escola, ao arrastar consigo a juventude psicanalítica francesa.

Apesar de sua extensão, a obra escrita de Marie Bonaparte é bastante medíocre,à exceção de alguns belos textos, entre os quais uma obra monumental sobre Edgar Allan Poe (1809-1849), ilustração dos princípios freudianos da psicobiografia, um artigo de 1927 sobre Marie-Félicité Lefebvre (um caso de loucura criminosa) e os seus famosos <cadernos>: os Cinco cadernos de uma menina, nos quais comentou sua análise e suas lembranças da infância, e os Cadernos negros, diário íntimo em que relatou todos os detalhes de sua vida e as confidências que Freud lhe fez sobre vários assuntos.

Ao contrário do tratamento dos outros discípulos, o da princesa foi interminável. Fez-se em alemão e em inglês, por etapas sucessivas, de 1925 a 1938: cinco a seis meses nos primeiros anos, um a dois meses nos anos seguintes. Desde o início, Marie recebeu uma forte interpretação. Depois de um sonho, em que ela se via em seu berço assistindo a cenas de coito, Freud afirmou peremptoriamente que ela não tinha apenas ouvido essas cenas, como a maioria das crianças que dormem no quarto dos pais, mas que ela as vira em pleno dia. Assustada e sempre preocupada em obter provas materiais, recusou essa afirmação e protestou que não tinha tido mãe. Freud manteve o que afirmara e lembrou a presença de sua ama. Finalmente, Marie decidiu interrogar o meio-irmão de seu pai, que tratava dos cavalos na casa em que passou a infância. Constrangido, o velho contou como tivera relações sexuais em pleno dia, diante do berço de Marie. Ela tinha pois visto cenas de coito, de felação e de cunilíngua.” Um bebê nem sabe separar as partes do corpo!

Durante a análise, ele evitou que ela tivesse uma relação incestuosa com o filho, e impôs certos limites às suas experiências cirúrgicas, sem conseguir, entretanto, impedi-la de passar ao ato. Deve-se dizer que a sua situação contratransferencial era difícil: ao longo de toda a duração dessa análise, Freud sofreu temíveis operações da mandíbula, a fim de combater a progressão do câncer. Como poderia ele, em tais condições, interpretar o gozo sentido por Marie ao manejar o bisturi?”

Deduziu uma psicologia da mulher da qual o inconsciente era esvaziado. Afastando-se simultaneamente da escola vienense e da escola inglesa, distinguiu três categorias de mulheres: as que reivindicam e procuram apropriar-se do pênis do homem; as que aceitam e se adaptam à realidade de suas funções biológicas ou de seu papel social; as que renunciam e se afastam da sexualidade.Essas teses não teriam eco na França, onde o debate sobre esse tema seria conduzido por Simone de Beauvoir (1908-1986) e depois pelos alunos de Lacan (François Perrier e Wladimir Granoff) e Françoise Dolto.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Celia Bertin, La Dernière Bonaparte, Paris, Perrin, 1982.

Borderline (caso-limite)

A noção do borderline faz parte do vocabulário clínico norte-americano e anglo-saxão próprio da corrente da Self-Psychology e, sob certos aspectos, do pós-kleinismo da década de 1960. Perpassa igualmente o neofreudismo e o culturalismo e acabou se integrando à terminologia psicanalítica francesa, sob o nome de états-limites (no plural).”

Otto Fenichel foi um dos primeiros, em 1945, a sublinhar a existência desse tipo de patologia: Existem personalidades neuróticas que, sem desenvolver uma psicose completa, possuem inclinações psicóticas, ou manifestam uma propensão a se servir de mecanismos esquizofrênicos em caso de frustração. Essa noção foi consideravelmente desenvolvida, mais tarde, nos trabalhos de Heinz Kohut e Otto Kernberg, que propôs o termo <organização fronteiriça> para demonstrar com clareza que o estado borderline era estável e duradouro.

Foi o psicanalista norte-americano Harold Searles, especialista em esquizofrenia, quem produziu, nesse mesmo período, os trabalhos mais pertinentes a respeito dessa questão, a partir de uma longa prática na Chesnut Lodge Clinic, uma das mecas do tratamento psicanalítico das psicoses, onde trabalhou Frieda Fromm-Reichmann depois de sua emigração da Alemanha. Marcado pelo ensino de Harry Stack Sullivan, Searles desarticulou a definição clássica da loucura à maneira dos artífices da antipsiquiatria, mostrando que, nos pacientes borderline, o eu funciona de maneira autística. Em seu célebre livro de 1965, O esforço de enlouquecer o outro, Searles criticou a ortodoxia, freudiana sublinhando como a prática ortodoxa da transferência pode desembocar numa estratégia de terror, que consiste em tornar o paciente dependente do analista. Contrastou com isso uma prática da análise inspirada no tratamento dos estados borderline e fundamentada na idéia de reconhecimento mútuo entre o terapeuta e o paciente.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Otto Kernberg, com Michael A. Selzer, Harold W. Koenisgsberg, Arthur C. Carr e Ann H. Appelbaum, La Thérapie psychodinamique des personnalitiés-limites (N. York, 1989), Paris, PUF, 1995.

Bowlby, John

A partir de 1948, dirigiu uma pesquisa sobre as crianças abandonadas ou privadas de lar, cujos resultados tiveram repercussão mundial sobre o tratamento psicanalítico do hospitalismo, da depressão anaclítica e das carências maternas, assim como sobre a prevenção das psicoses. Em 1950, tornou-se assessor da ONU, onde suas teses tiveram papel considerável na adoção de uma carta mundial dos direitos da infância. Um ano depois, publicou o seu relatório Maternal Care and Mental Health, no qual mostrou que a relação afetiva constante com a mãe é um dado fundamental para a saúde psíquica da criança. No fim da vida, sempre apaixonado por biologia e etologia, redigiu a biografia de Charles Darwin (1809-1882). Estudou minuciosamente a primeira infância do sábio, suas doenças psicossomáticas, suas dúvidas e depressões, pintando um vigoroso quadro da época vitoriana e das reações que a revolução darwiniana suscitou na Inglaterra.”

Brasil

Em 1890, o antigo Hospício Pedro II foi transformado em hospital de alienados, na mais pura tradição do gesto de Philippe Pinel (1745-1826). A força da nosologia francesa foi tal, durante cerca de uma década, que a expressão <estar Pinel> passou, na linguagem corrente, a significar <estar louco>.

Foi nesse terreno da primeira reforma asilar que Juliano Moreira, baiano e negro, introduziu a nosografia alemã. Amigo de Emil Kraepelin e excelente conhecedor da Europa, foi nomeado professor na Universidade da Bahia com a idade de 23 anos, e tomou em 1903 a direção do Hospital Nacional de Alienados do Rio de Janeiro. Nove anos depois, graças à sua ação, a psiquiatria se tornou uma especialidade autônoma no currículo dos estudos médicos. Fundador da psiquiatria brasileira moderna, Juliano Moreira foi também o primeiro no país a adotar e divulgar a doutrina freudiana.

a atração dos filhos de família pelas mulheres de cor provinha das relações íntimas da criança branca com a sua ama negra: uma sexualidade carnal e sensual.”

Assim como sob a monogamia surgia sempre a prática mal encoberta da poligamia, sob o monoteísmo perfilavam-se todas as variantes de um politeísmo selvagem. Assim, quando foi instaurado, por um homem negro, um saber psiquiátrico que visava arrancar a loucura das práticas mágicas, a clivagem se repetiu. A nova ordem não conseguiu pôr termo às antigas tradições terapêuticas do transe e das possessões (o candomblé).”

Reservada inicialmente, no período entre as duas guerras, à grande burguesia paulista e a médicos preocupados em seguir as regras ortodoxas da IPA, a psicanálise se tornou, na segunda metade do século, ao desenvolver-se no Rio e em outras cidades, a nova psicologia das classes médias brancas, formadas na universidade. Tomou o lugar da antiga sociologia comteana.”

Nessa época, a análise didática era obrigatória, e Marcondes, que não fizera análise, não podia formar alunos. Aliás, em 1931, teve que enfrentar um charlatão chamado Maximilien Langsner, que obteve grande sucesso em São Paulo. Esse homem usava um nome vienense e praticava a telepatia, proclamando-se o melhor discípulo de Freud. Temendo que esse espetáculo desacreditasse a psicanálise nos meios médicos, Marcondes pediu a Freud que desmascarasse o impostor, o que ele logo fez.”

Dissolvida em 1944, a SBP se reconstituiu em um grupo puramente paulista, a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), reconhecida pela IPA no Congresso de Amsterdam de 1951. A partir desse momento, houve intercâmbios entre Londres e São Paulo. Apaixonados pelas teorias de Melanie Klein e seus discípulos, analistas paulistas atravessaram o Atlântico para receber uma formação na British Psychoanalytical Society (BPS). Foi o caso de Virgínia Bicudo. Depois de cinco anos em Londres, ela trouxe as suas experiências clínicas da Tavistock Clinic e as ensinou. Por sua vez, Frank Philips, voltando de Londres, realizou no seio do grupo paulista seminários técnicos e teóricos de inspiração kleiniana. À influência compósita argentina acrescentou-se então a do kleinismo, nitidamente mais implantado em São Paulo do que no Rio. Posteriormente, Wilfred Ruprecht Bion, convidado por Philips, se tornaria um dos mestres do grupo paulista.”

Essa expansão da psicanálise nas duas grandes cidades rivais, São Paulo e Rio, assim como na região sul do país, permitiu ao freudismo brasileiro recuperar progressivamente o seu atraso em relação ao movimento argentino, sem com isso fazer emergir em suas fileiras chefes de escola de estatura comparável à dos argentinos. Deve-se dizer que, desde a origem, a situação no Brasil era diferente. Efetivamente, a escola brasileira, na ausência de um sólido movimento migratório durante o período entre as duas guerras, não tivera <fundador> que fosse ao mesmo tempo didata e teórico. E ela só encontrou a sua identidade, de uma cidade à outra, ao filiar-se ora à escola inglesa ou a algumas correntes norte-americanas, ora à escola argentina. Entretanto, desenvolveu uma grande atividade clínica em diversas instituições (hospitais e centros de saúde). A partir de 1960, com a criação da COPAL (futura FEPAL) e depois da Associação Brasileira de Psicanálise (ABP, 1967), ela se tornou, ao lado da escola argentina, a segunda grande potência do freudismo latino-americano.”

Em 31 de março de 1964, depois de dez anos de governo social-democrata, durante os quais o presidente Kubitschek inaugurou a cidade de Brasília, o marechal Castello Branco, apoiado pelos Estados Unidos e pelas classes médias, derrubou o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura que duraria vinte anos. (…) Orgulhosos de construírem um Brasil novo, os tecnocratas, os conservadores e os anticomunistas afirmaram sua vontade de governar sem o sufrágio das massas. Os partidos foram dissolvidos, as forças armadas reorganizadas.”

Helena Besserman Vianna, psicanalista de extrema esquerda e membro da outra sociedade (SBPRJ), tomou conhecimento desse artigo. Suas opiniões radicais eram conhecidas, pois ela se expressara publicamente na SBPRJ, por ocasião de um debate com Bion, perguntando-lhe se ele aceitaria analisar um torturador. A assembléia respondera que essa pergunta era <provocadora, nem científica nem construtiva>. Helena enviou a Marie Langer o artigo da Voz Operária, acompanhado do nome e do endereço de Leão Cabernite [psicanalista carioca ligado aos militares, que dentre seus pacientes contava com um torturador, denunciado pelo jornal proletário acima] escritos à mão, para que ela o publicasse em sua revista Cuestionamos e pedisse à direção da IPA a abertura de um inquérito. Marie Langer mandou imediatamente o artigo a Serge Lebovici, presidente da IPA, e a diversos responsáveis do movimento psicanalítico. Depois, publicou-a em sua revista. Marie Langer tinha um peso considerável na IPA, em razão de sua notoriedade e de seu engajamento contra todas as ditaduras latino-americanas.

Preocupado com as conseqüências desse caso para a imagem da psicanálise no mundo, Lebovici preveniu Cabernite e David Zimmermann [sobrenome de fascista], membro da SPPA (Porto Alegre) e presidente da COPAL, que lhe respondeu logo que essa publicação era <um jornaleco que não merecia respeito>.” “Não só os autores negavam qualquer participação de Amílcar Lobo nesse gênero de atividade, como também acusavam o denunciante de fomentar um complô para desestabilizar a psicanálise brasileira, no momento em que ia se realizar o IV Congresso da ABP.” O Amílcar é o Lobo do homem.

Identificada por uma perícia grafológica, Helena Besserman Vianna pagou caro a denúncia do torturador. Sua sociedade recusou-se, durante dois anos, a lhe conferir o título de membro titular, ao passo que ela tinha teoricamente direito a ele, considerando-se o seu currículo. Pior ainda, o conselho de administração da SBPRJ se transformou em tribunal interno para acusá-la de delação, envolvendo a pessoa de um inocente (Amílcar Lobo), de plágio dos textos de seus colegas e enfim de falta de respeito para com Bion: uma verdadeira degradação pública. Posteriormente, Helena foi vítima de uma tentativa de atentado fracassada, por parte da polícia brasileira, prevenida por Amílcar Lobo. Ela só foi definitivamente reabilitada em 1980, quando um ex-prisioneiro revelou publicamente as atrocidades de Amílcar Lobo. Entretanto, nem Cabernite, nem Zimmermann, nem Lebovici prestaram contas de seu erro durante esse período, o que provocou uma verdadeira tempestade nas fileiras das duas sociedades do Rio.”

o lacanismo se implantou maciçamente na universidade, em particular nos departamentos de psicologia, trazendo assim uma cultura e uma identidade para a profissão de psicoterapeuta, abandonada pela ABP, que tendia, apesar de algumas exceções, como Inês Besouchet (1924-1991) por exemplo, a favorecer os médicos. Daí a eclosão paralela de múltiplos grupos, com diversas orientações: 26 no Rio, 27 em São Paulo, 7 no Rio Grande do Sul, 9 em Minas Gerais, ao todo 70 associações, reunindo cerca de 1500 psicoterapeutas. Essa cifra elevava o efetivo total dos psicanalistas freudianos a mais de 3000.”

as extravagâncias xamanísticas do célebre lacaniano brasileiro dos anos 1970, Magno Machado Dias, mais conhecido sob o nome de MDMagno.” “Analisado por Lacan em alguns meses, esse esteta carioca culto e sedutor, professor de semiologia na universidade, fundou em 1975, com Betty Milan, outra analisada de Lacan, o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro (CFRJ). Tornou-se o terapeuta dos membros de seu grupo, que freqüentavam seu divã e seus seminários. MDMagno deu ao lacanismo carioca uma furiosa expansão, e o seu Colégio foi o núcleo inicial de todos os grupos formados depois no Rio, por cisões sucessivas. Evoluindo para um culturalismo radical, Magno se apresentava como fundador da psicanálise <abrasileirada>. Segundo a nova genealogia, Freud era o bisavô, Lacan o avô, MDMagno o pai.”

Na Bahia, Emilio Rodrigué, grande figura da escola argentina, realizou uma experiência única em seu gênero. Dissidente da APA, próximo de Marie Langer e do grupo Plataforma, recebera sua formação didática em Londres, com Paula Heimann e Melanie Klein. Instalando-se em 1974 no coração da civilização brasileira, entre a negritude e a colonização, casado com uma sacerdotisa da aristocracia do candomblé, apaixonado por historiografia, conseguiu reunir em torno de si um grupo composto de todas as tendências do freudismo. Assim, foi um dos raros psicanalistas, talvez o único, a estabelecer uma ponte entre todas as culturas do continente latino-americano, sem ceder nem ao universalismo abstrato, nem ao culturalismo desenfreado. Daí o seu lugar de mestre socrático, único na psicanálise neste fim do século XX.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jurandir Freire Costa, História da psiquiatria no Brasil, Rio de Janeiro, 1976; (documentário)

Marialzira Perestrello, História da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Suas origens e fundação, Rio de Janeiro, Imago, 1987.

Breuer, Josef (1842-1925)

A imagem desse brilhante clínico vienense que tratou de Franz Brentano, Johannes Brahms (1833-1897), Marie von Ebner-Eschenbach e seus colegas médicos, o ginecologista Rudolf Chrobak (1843-1910), Theodor Billroth e o próprio

Freud, foi deformada por Ernest Jones. Em sua biografia de Freud, este o apresentou como um terapeuta tímido e estúpido, incapaz de compreender a questão da sexualidade. Foi necessário esperar pelo trabalho deAlbrecht Hirschmüller, historiador da medicina de língua alemã, para que fosse escrita a história das relações entre Freud e Breuer, longe das lendas da historiografia oficial.” “Josef Breuer não era crente nem praticante. Como Freud, permaneceu ligado à sua judeidade, sem proclamar nenhuma fé e defendendo os princípios da assimilação. Em 1859, orientou-se para a medicina, tornando-se aluno de Karl Rokitansky (1804-1878), de Josef Skoda, de Ernst von Brücke e, enfim, do assistente deste, Johann von Oppolzer(1808-1871), notável clínico geral, do qual foi por sua vez assistente. Foi no laboratório de fisiologia de Ewald Hering, rival de Brücke, que começou a trabalhar no problema da respiração. Essa formação fez dele o herdeiro de uma tradição positivista, originária da escola de Hermann von Helmholtz, pela qual se realizava a união de uma medicina de laboratório de estilo alemão e da medicina hospitalar vienense. Tornando-se célebre em 1868 por um estudo sobre o papel do nervo pneumogástrico na regulação da respiração, estudou depois os canais semicirculares do ouvido interno.”

Breuer e Freud tinham em sua clientela doentes mentais, principalmente mulheres histéricas da boa burguesia vienense. Assim, começaram a tornar-se, cada um a seu modo, especialistas em distúrbios psíquicos, o que os levou a assinarem juntos, em 1895, os famosos Estudos sobre a histeria.” “Sua amizade terminou na primavera de 1896. Entretanto, o conflito não foi nem violento nem definitivo, como aconteceu com Fliess e depois com Carl Gustav Jung. Constrangido por ter que pagar sua dívida financeira, Freud comportou-se com Breuer como um filho intransigente e revoltado. Suspeitou que ele quisesse tutelá-lo e acusou-o de ser oportunista e não ter a coragem de defender idéias novas. Na realidade, Breuer não tinha as mesmas ambições que Freud. Não procurando fazer nome na história das ciências nem tornar-se profeta de uma doutrina que iria abalar o mundo, mostrou-se sempre favorável à psicanálise.”

Brücke, Ernst Wilhelm von (1819-1892)

Brücke merece ser considerado o fundador da fisiologia na Áustria.”

Brücke ficara sabendo que eu cheguei várias vezes atrasado ao laboratório. Um dia, ele veio na hora em que eu deveria chegar e me esperou. […] O essencial estava em seus terríveis olhos azuis, cujo olhar me aniquilou. Aqueles que se lembram dos olhos maravilhosos que o mestre conservou até a velhice e que o viram encolerizado podem imaginar facilmente o que senti então.”Interpretação dos Sonhos

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Siegfried Bernfeld, Freud’s earliest theories and the school of Helmholtz, Psychoanalytic Quarterly, XIII, 1944, 341-62;

______. Freud’s scientific beginnings, American Imago, vol. 6, 1949, 163-96;

______. Sigmund Freud M.D., IJP, vol. 32, 1951, 204-17.

Caruso, Igor

em 1947, Caruso se separou sem traumas da WPV, cuja orientação lhe parecia excessivamente médica, excessivamente materialista, ou seja, excessivamente <americana>, para criar o primeiro círculo de trabalho vienense sobre a psicologia das profundezas. Mesmo continuando a ser freudiano, não aceitava os padrões de formação da IPA e, como Lacan, queria dar à psicanálise uma orientação intelectual, espiritual e filosófica. Assim, considerava-a, à luz da fenomenologia, como um método de edificação da personalidade humana (ou personalismo), destinado não a adaptar o sujeito ao princípio de realidade, mas a levá-lo a resolver as tensões resultantes da sua relação conflituosa com o mundo.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Igor Caruso, Psychanalyse et synthèse personnelle (Viena, 1952), Paris, Desclée de Brouwer, 1959.

castração

Em A interpretação dos sonhos todas as passagens relativas à castração, se excetuarmos uma alusão, aliás errada, a Zeus castrando Cronos, são acrescentadas em 1911 ou nas edições posteriores.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Stärcke, The Castration Complex

Charcot (1825-1893)

O nome de Jean Martin Charcot é inseparável da história da histeria, da hipnose e das origens da psicanálise, e também daquelas mulheres loucas, expostas, tratadas e fotografadas no Hospital da Salpêtrière, em suas atitudes passionais: Augustine, Blanche Wittmann, Rosalie Dubois, Justine Etchevery. Essas mulheres, sem as quais Charcot não teria conhecido a glória, eram todas oriundas do povo. Suas convulsões, crises, ataques, suas paralisias eram sem dúvida alguma de natureza psíquica, mas também eram conseqüência de traumas de infância, estupros, abusos sexuais. Em suma, da miséria da alma e do corpo, tão bem-descrita pelo mestre nas suas Lições da terça-feira.”

Graças ao método anátomo-clínico, descreveu a doença que levaria o seu nome: esclerose lateral amiotrófica.”

Foi em 1870 que se interessou pela histeria, por ocasião de uma reorganização dos setores do hospital. De fato, a administração tomou a decisão de separar os alienados dos epiléticos (não-alienados) e das histéricas. Como essas duas últimas categorias de doentes apresentavam sinais convulsivos idênticos, decidiu-se reuni-los em uma seção especial: a seção dos epiléticos simples.” “Charcot inaugurou assim um modo de classificação que distinguia a crise histérica da crise epilética e permitia à doente histérica escapar da acusação de simulação. Assim, abandonou a definição antiga de histeria, para substituí-la pelo conceito mais moderno de neurose.”

recorreu à hipnose: adormecendo as mulheres na Salpêtrière, fabricava sintomas histéricos experimentalmente, fazendo-os desaparecer imediatamente, provando assim o caráter neurótico da doença. Foi nesse ponto que seria atacado por Bernheim.” “em 1887, publicou Os demoníacos na arte, em colaboração com seu aluno Paul Richer (1849-1933). Para ele, tratava-se de encontrar nas crises de possessão e nos êxtases os sintomas de uma doença que ainda não recebera a sua definição científica.” “a fase epileptóide, quando a doente se contraía em uma bola e dava uma volta completa em torno de si mesma, a fase de clownismo, com seu movimento em arco de círculo, a fase passional, com seus êxtases, e enfim o período terminal, com suas crises de contraturas generalizadas. A isso Charcot acrescentava uma variedade <demoníaca> da histeria: aquela em que a Inquisição via os sinais da presença do diabo no útero das mulheres.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Désiré-Magloire Bourneville & Paul Regnard (org.), Iconografia fotográfica da Salpêtrière, “verdadeiro laboratório das representações visuais da histeria” (livro fotográfico).

Mon cher docteur Freud: Charcot’s unpublished correspondance to Freud, 1888-1893, anotações, tradução e comentários de Toby Gelfand, in: Bulletin of the History of Medecine, 62, 1888, 563-88.

Chistes e sua relação com o inconsciente, Os

Freud tinha paixão por aforismos, trocadilhos e anedotas judaicas, e não parou de colecioná-los ao longo de toda a sua vida. Como inúmeros intelectuais vienenses — Karl Kraus, p.ex. —, era dotado de um senso de humor corrosivo e adorava as histórias das Schadhen (casamenteiras judias) ou dos Schnorrer (pedintes), através das quais se exprimiam, por meio do riso, os principais problemas da comunidade judaica da Europa Central, confrontada com o anti-semitismo. Sob esse aspecto, como sublinha Henri F. Ellenberger, seu livro sobre o chiste é um pequeno monumento à memória da vida vienense: ali ele conta histórias de dinheiro e sonhos de glória, e piadas referentes ao sexo, à família, ao casamento, etc.”

QUE INFANTIL… “De Mark Twain (1835-1910) a Dom Quixote, distingue o humor, o cômico e o chiste propriamente dito. Todos os três, afirma, remetem o homem ao estado infantil, pois <a euforia que almejamos atingir por esses caminhos não é outra coisa senão o humor […] de nossa infância, idade em que desconhecíamos o cômico, éramos incapazes de espirituosidade e não precisávamos do humor para nos sentirmos felizes na vida>.”

Em 1916, Abraham Arden Brill redigiu a primeira versão do livro em inglês e escolheu a palavra wit como equivalente de Witz, com o risco de restringir a significação do chiste à espirituosidade intelectual, no sentido como dizemos que alguém <tem espírito>, ou <é uma pessoa espirituosa>, ou <faz tiradas oportunas>. Opondo-se a essa redução, James Strachey preferiu, em 1960, o vocábulo joke, que ampliou a significação do termo, estendendo-o até a blague, a brincadeira ou a farsa, com o risco de dissolver o dito espirituoso, ou seja, o aspecto intelectual do Witz freudiano, no campo mais vasto das diferentes formas de expressão do cômico. Na verdade, por trás dessa querela perfilava-se uma luta ideológica entre os ingleses e os norte-americanos [os anglo-saxões e os judeus?] pela apropriação da obra freudiana. É que Brill havia procurado, em sua tradução, <adaptar> o pensamento freudiano ao espírito de além-Atlântico, transformando certas blagues judaicas em piadas norte-americanas. Strachey, ao contrário, opondo-se a Brill, reivindicava uma fidelidade maior tanto ao texto freudiano quanto à língua inglesa (e não norte-americana) e à história vienense.” “Na França, foi Lacan, contrariando Marie Bonaparte, quem procurou traduzir Witz por trait d’esprit, assim dissociando o trait (rasgo, traço), como significante, do esprit (intelecto, engenho, espírito). A partir daí, os lacanianos, fascinados pelos trocadilhos do mestre, privilegiaram o termo Witz, preferencialmente a chiste, como se o emprego do termo alemão permitisse remeter o Witz freudiano a uma função simbólica da linguagem, a um traço significante não-redutível à diversidade das línguas. Em 1988, quando do lançamento da excelente tradução de Denis Messier, Jean-Bertrand Pontalis redigiu uma nota em que se recusou a traduzir Witz por trait d’esprit. Mesmo levando em conta o caráter positivo da contribuição teórica de Lacan, sublinhou, com justa razão, que o Witz tinha, no sentido freudiano, uma significação muito mais ampla e menos conceitual do que a leitura que dele propusera Lacan. Daí a opção de traduzir o livro como Le Mot d’esprit et sa relation à l’inconscient.”

Ver verbete agressão.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Theodor Lipps, Komik und Humor. Eine psychologisch-ästhetische Untersuchung, Hamburgo, L. Voss, 1898;

Joël Dor, Introdução à leitura de Lacan, t. 1 (Paris, 1985), P. Alegre, Artes Médicas, 1992;

André Bourguignon, Pierre Cotet, Jean Laplanche & François Robert, Traduzir Freud (Paris, 1989), S. Paulo, Martins Fontes, 1992.

Cinco lições de psicanálise (Sobre a Psicanálise), 1910

Livro de Sigmund Freud, publicado pela primeira vez em inglês, no American Journal of Psychology, sob o título The Origin and Development of Psychoanalysis, numa tradução de H.W. Chase, e depois retraduzido por James Strachey em 1957, sob o título Five Lectures on Psycho-analysis. Publicado em alemão em 1910, sob o título Über Psychoanalyse. Traduzido para o francês em 1920 por Yves Le Lay, sob o título Origine et développement de la psychanalyse, e mais tarde, em 1923, sob o título Cinq Leçons sur la psychanalyse. Retraduzido por Cornélius Heim em 1991, sob o título Sur la psychanalyse. Cinq conférences, e depois, em 1993, por René Lainé & Johanna Stute-Cadiot, sob o título De la psychanalyse.”

Para Freud, esse momento marcou o fim de seu isolamento. No entanto, em 1914, em seu ensaio sobre A história do movimento psicanalítico, falou com certa leviandade das Cinco conferências, afirmando havê-las improvisado. Na verdade — e sua correspondência com Ferenczi o atesta —, redigiu-as durante todo o verão de 1909.”

O COMEÇO DO FIM: “Na época, eu contava apenas 53 anos, sentia-me jovem e saudável, e essa breve temporada no Novo Mundo foi, de maneira geral, benéfica para meu amor-próprio; na Europa, eu me sentia meio proscrito, enquanto ali me vi acolhido pelos melhores como um de seus pares. Foi como que a realização de um devaneio improvável subir ao púlpito de Worcester, para ali proferir as Cinco lições de psicanálise. A psicanálise, portanto, já não era uma formação delirante, havendo-se transformado numa parte preciosa da realidade.”

Inicialmente publicadas em inglês, essas cinco lições nada trazem de novo para quem conhece a essência da obra freudiana. No entanto, por sua clareza exemplar, têm uma função didática e constituem uma iniciação particularmente simples aos princípios gerais da psicanálise.” (veja instruções sobre a ordem da leitura de Freud ao final do post)

ESBOÇO DA OBRA:

A primeira conferência versa sobre a especificidade da abordagem psicanalítica da

neurose. A propósito disso, Freud evoca a história de Anna O. (Bertha Pappenheim) e a lembrança de Josef Breuer.

Na segunda conferência, explica de que modo o abandono da hipnose lhe permitiu captar a manifestação das resistências, do recalque e do sintoma, assim como seu funcionamento em relação ao surgimento de <moções> do desejo por ele qualificadas de <perturbadoras> para o eu.”

¹ Vocabulário intragável!

A conferência de Freud na quarta-feira à tarde, com efeito, foi perturbada pela intromissão de Emma Goldmann, a célebre anarquista norte-americana, acompanhada, nesse dia, por Ben Reitman, o <rei dos vagabundos>.

Em seu prefácio à tradução francesa de 1991, Jean-Bertrand Pontalis sublinhou a engenhosidade de que Freud deu mostras ao usar essa imagem do perturbador. Contudo, sublinhou também que a tática que consiste em desarmar o adversário em potencial comporta o risco de gerar, por força da moderação, um número excessivo de mal-entendidos. Assim, para não chocar o público norte-americano, Freud havia recuado, nesse momento, em relação às posições adotadas em 1905, em seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Essa concessão, entretanto, não evitaria que sua doutrina fosse assemelhada a um pansexualismo, tanto nos Estados Unidos quanto em todos os outros lugares.

Esse exemplo de deslizamento epistemológico, responsável por uma certa edulcoração da teoria, também responde pelo interesse desse livro. Nele, com efeito, podemos apreender como foi difícil o combate travado por Freud em prol do uso e da manutenção do termo sexualidade. Como sublinhou Jean Laplanche a esse respeito, <Ceder quanto à palavra já é ceder em ¾ quanto ao próprio conteúdo da idéia.>

cisão

Dá-se o nome de cisão a um tipo de ruptura institucional ocorrida no interior da IPAa partir do fim da década de 1920. O cisionismo é um processo ligado ao desenvolvimento maciço da psicanálise durante o entre-guerras e, mais tarde, durante a segunda metade do século XX. Atesta uma crise da instituição psicanalítica e a transformação desta num aparelho burocrático, destinado a administrar os interesses profissionais da corporação (análise didática e supervisão, análise leiga ou análise feita por médicos) a partir de regras técnicas (duração das sessões e dos tratamentos, currículo, hierarquias) que se tornaram contestáveis aos olhos de alguns de seus membros, a ponto de conduzi-los a rejeitá-las radicalmente e, depois, a promover uma secessão.”

O cisionismo, portanto, é o sintoma da impossibilidade de a psicanálise e o freudismo da segunda metade do século XX serem representados em sua totalidade unicamente pela IPA, ainda que ela seja a associação mais poderosa e mais legítima do mundo. Quanto mais importante é o movimento freudiano num país, mais freqüentes são as cisões. Por isso é que o cisionismo é realmente um fenômeno ligado ao desenvolvimento das instituições psicanalíticas.”

Somente a Grã-Bretanha conseguiu evitar as cisões, através de um arranjo interno da British Psychoanalytical Society (BPS) após as Grandes Controvérsias: em vez de levar a uma verdadeira cisão, os conflitos conduziram a uma divisão tripartite da própria BPS (kleinismo, annafreudismo e o Grupo dos Independentes).”

O termo difere, portanto, de cisma, muitas vezes empregado na terminologia inglesa e que, embora designe a contestação de uma autoridade legítima, tem uma conotação religiosa que não convém à inscrição da psicanálise no século. [hehe]”

A dissidência é um fenômeno historicamente anterior ao das cisões, contemporâneas da expansão maciça da psicanálise no mundo, e do advento da terceira geração psicanalítica mundial (Jacques Lacan, Heinz Kohut, Marie Langer, Wilfred Ruprecht Bion, Igor Caruso, Donald Woods Winnicott).” “De modo geral, emprega-se o termo dissidência para qualificar as duas grandes rupturas que marcaram os primórdios do movimento psicanalítico: com Alfred Adler, em 1911, e com Carl Gustav Jung, em 1913. Essas duas rupturas conduziram seus protagonistas a abandonar o freudismo e fundar, ao mesmo tempo, uma nova doutrina e um novo movimento político e institucional: a psicologia individual, no caso do primeiro, e a psicologia analítica, no que tange ao segundo.” “As dissidências de Wilhelm Stekel e Otto Rank, sob esse aspecto, são diferentes da adleriana e da junguiana, porquanto dizem respeito a certos aspectos da doutrina e não à sua totalidade. Trata-se, pois, de dissidências internas à história da teoria freudiana, da qual conservam quer o essencial, quer uma parte. A dissidência de Wilhelm Reich é da mesma ordem, tendo sido acompanhada, como a de Rank, de uma expulsão da IPA.”

Note-se que Lacan foi o único a utilizar a palavra excomunhão para designar a maneira como foi obrigado a deixar a IPA em 1963. Com isso, inscreveu sua ruptura com a legitimidade freudiana na linha direta do herem de Baruch Spinoza (1632-1677), que era um castigo de caráter leigo, e não religioso. (…) Censurando a instituição freudiana por já não ser freudiana, ele se viu coagido a fundar um novo lugar de legitimidade para o exercício da psicanálise — a École Freudienne de Paris (EFP) —, assim fazendo nascer um movimento que, apesar de se pretender freudiano, seria chamado de lacaniano. Essa é a contradição traduzida pela palavra excomunhão: também o jovem Spinoza foi coagido por seu herem a fundar uma filosofia spinozista.”

Claus, Carl (1835-1899) [não confundir com Karl Kraus]

Em 1874, Freud seguiu seus cursos, no momento em que Claus se dedicava a uma vasta polêmica com outro discípulo alemão de Charles Darwin, Ernst Haeckel. No ano seguinte, obteve por duas vezes uma bolsa para Trieste, onde efetuou pesquisas sobre as gônadas da enguia. Em 1990, Lucille Ritvo foi a primeira a estudar a importância do ensino de Carl Claus na gênese da adesão de Freud ao darwinismo, especialmente à tese da hereditariedade dos caracteres adquiridos.”

complexo

Nenhum outro termo instituído pela psicanálise para as suas necessidades adquiriu tanta popularidade nem foi mais mal-aplicado em detrimento da construção de conceitos mais exatos” F., História da psicanálise

Podemos encontrar diversos motivos para esta reserva de Freud. Repugnava-lhe uma certa tipificação psicológica (por exemplo, o complexo de fracasso), que implica o risco de dissimular a singularidade dos casos e, ao mesmo tempo, apresentar como explicação aquilo que constitui o problema.” “surge, com efeito, a tentação de criar tantos complexos quantos forem os tipos psicológicos que se imaginem” “Note-se que a aparente diversidade dos termos <paterno>, <materno>, etc., remete em cada caso para dimensões da estrutura edipiana, quer essa dimensão seja particularmente dominante em determinado sujeito, quer Freud pretenda dar um relevo especial a determinado momento da sua análise. E assim que, sob o nome de complexo paterno, ele acentua a relação ambivalente com o pai. O complexo de castração, embora o seu tema possa ser relativamente isolado, inscreve-se inteiramente na dialética do complexo de Édipo.” Hm.

No Dictionnaire de psychanalyse et psychotechnique publicado sob a direção de Maryse Choisy na revista Psyche, são descritos cerca de 50 complexos. Escreve um dos autores: <Tentamos dar uma nomenclatura tão completa quanto possível dos complexos conhecidos até agora. Mas todos os dias se descobrem mais.>” HAHAHA

complexo de Electra

Expressão utilizada por Jung como sinônimo do complexo de Édipo feminino, para marcar a existência nos dois sexos, mutatis mutandis, de uma simetria da atitude para com os pais.” Nem mesmo Simone de Beauvoir sabia disso.

compulsão à repetição (Wiederholungszwang)

Ver vocábulos das neuroses

Em psicopatologia concreta, processo incoercível e de origem inconsciente, pelo qual o sujeito se coloca ativamente em situações penosas, repetindo assim experiências antigas sem se recordar doprotótipo e tendo, pelo contrário, a impressão muito viva de que se trata de algo plenamente motivado na atualidade.”

Ela participa de tal modo da investigação especulativa de Freud nesse momento decisivo, com suas hesitações, impasses e mesmo contradições, que é difícil delimitar a sua acepção restrita como também a sua problemática própria.”

De um modo geral, o recalcado procura <retornar> ao presente, sob a forma de sonhos, de sintomas, de atuação

…o que permaneceu incompreendido retorna; como uma alma penada, não tem repouso até que seja encontrada solução e alívio” Quem diria que não foi escrito por um espírita! Mas um surdo pressentimento – ou grande ignorância – me faz pensar que um bisavô meu me deu esse presente e que desde criança esse é meu fado… Tudo se inverte quando percebemos que criamos isso, imploraríamos por isso se não existisse (única realidade possível) e vivemos nossa vida como a MALDIÇÃO DO ESCRITOR, espontaneamente, por paradoxal que pareça.

Lacan distingue duas ordens de repetição, as quais analisa numa perspectiva aristotélica: por um lado, a tyche, encontro dominado pelo acaso — de certo modo, ela é o contrário do kairos, o encontro que ocorre no <momento oportuno> — e que podemos assimilar ao trauma, ao choque imprevisível e incontrolável.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

F., Recordar, repetir, perlaborar

comunismo

instaurou-se entre o marxismo e o freudismo um vínculo que deu origem a uma corrente intelectual designada pelo nome de freudo-marxismo, cujos principais representantes foram os filósofos da Escola de Frankfurt e os psicanalistas da <esquerda freudiana>: desde Otto Fenichel a Wilhelm Reich, passando por Erich Fromm e Herbert Marcuse.”

Freud sempre manifestou uma hostilidade, se não ao marxismo, pelo menos ao comunismo e, acima de tudo, aos freudo-marxistas. Foi contra Reich que se mostrou mais violento, sobretudo em 1933, no momento em que os freudianos de todas as tendências deveriam ter se mobilizado contra o nazismo, e não contra os dissidentes marxistas de seu próprio movimento.(Freud, entretanto, jamais confundiu comunismo com nazismo, como mostra uma carta publicada por Jones, dirigida a Marie Bonaparte em 10 de junho de 1933: <O mundo está se transformando numa enorme prisão. A Alemanha é a pior de suas celas. O que acontecerá na cela austríaca é absolutamente incerto. Prevejo uma surpresa paradoxal na Alemanha. Eles começaram tendo o bolchevismo como seu inimigo mortal e terminarão com algo que não se distinguirá dele — exceto pelo fato de que o bolchevismo, afinal, adotou ideais revolucionários, ao passo que os do hitlerismo são puramente medievais e reacionários.>)

Em todos os países que se tornaram comunistas e onde a psicanálise estava implantada no começo do século, ela foi proibida e seus representantes foram perseguidos, caçados ou obrigados a se exilar. Naqueles em que ainda não existia antes do advento do regime comunista, ela também foi proibida. Num primeiro momento, de 1920 a 1949, e à medida que se deu a stalinização do movimento comunista e a transformação do regime soviético (e de seus satélites) num sistema totalitário, a supressão de todas as liberdades associativas e políticas acarretou a extinção pura e simples da prática psicanalítica e de suas instituições. (…) O pavlovismo tornou-se o padrão generalizado de uma psicologia chamada materialista, que foi contrastada com a ciência burguesa freudiana, dita espiritualista ou reacionária.” “Somente após a queda do comunismo, em 1989, é que o freudismo pôde implantar-se novamente na Rússia e na Romênia, ou encontrar uma nova via de introdução na Polônia, na Bulgária e na República Tcheca.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

André Jdanov, Sur la littérature, l’art et la musique (1948), Paris, Éd. de la Nouvelle Critique, 1950.

Conferências introdutórias sobre psicanálise

Livro inicialmente publicado por Sigmund Freud em 3 partes distintas, entre 1916 e 1917, e depois num único volume, em 1917, sob o título Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. Traduzido para o francês pela primeira vez em 1921, por Samuel Jankélévitch, sob o título Introduction à la psychanalyse. Traduzido para o inglês pela primeira vez em 1920, sem indicação do tradutor mas sob a direção e com um prefácio de Stanley Granville Hall, sob o título A General Introduction to Psychoanalysis. Mais tarde, traduzido em 1922 por Joan Riviere sob o título Introductory Lectures on Psycho-Analysis, com um prefácio de Ernest Jones. A tradução de Joan Riviere foi posteriormente reeditada em 1935 sob o título A General Introduction to Psychoanalysis, incluindo os dois prefácios. Traduzido em 1964 por James Strachey sob o título Introductory Lectures on Psycho-Analysis.”

As Conferências introdutórias sobre psicanálise compreendem 3 grupos de aulas: as quatro primeiras aulas dizem respeito aos atos falhos; as 11 seguintes são dedicadas ao sonho, e as outras 13, que em si constituem a verdadeira segunda parte do livro, são agrupadas sob o título de Teoria geral das neuroses.”

Mas, nova dificuldade, é impossível assistir a uma sessão de psicanálise, embora seja corriqueiro observar apresentações de doentes no âmbito dos serviços de psiquiatria. Com efeito, a psicanálise pressupõe a fala espontânea e não controlada por parte do paciente; assim, ela versa sobre o que há de mais íntimo e mais pessoal, que não pode ser dito na presença de terceiros.”

As quatro primeiras conferências retomam de forma sintética o tema da Psicopatologia da vida cotidiana.” “Esse corpus de símbolos tende a constituir uma espécie de reservatório de traduções permanentes a que a análise deve recorrer quando o conteúdo manifesto não suscita nenhuma associação, o que, esclarece Freud, não pode ser atribuído a um fenômeno de resistência, mas à especificidade do material. Ele reconhece que esse conjunto de símbolos não deixa de evocar <o ideal da antiga e popular interpretação dos sonhos, um ideal do qual nossa técnica nos afastou consideravelmente>. Nesse ponto e em termos ainda mais claros, renova a advertência acrescentada em 1909 ao texto de A interpretação dos sonhos: <Não se deixem, contudo, seduzir por essa facilidade. Nossa tarefa não consiste em realizar façanhas. A técnica que repousa no conhecimento dos símbolos não substitui a que repousa na associação e não pode comparar-se com ela. Apenas a complementa e lhe fornece dados utilizáveis.>Dito isso, a freqüência das analogias simbólicas no sonho permite a Freud sublinhar o caráter universalista da psicanálise, bem diferente, nesse como em outros aspectos, da psicologia e da psiquiatria.”

as Conferências introdutórias sobre psicanálise não são apenas um manual didático, mas constituem, assim como a maioria das publicações de Freud, uma etapa no desenvolvimento de sua elaboração teórica. Isso se aplica, em particular, ao capítulo sobre a angústia, onde é retomado um certo número de observações clínicas, previamente desenvolvidas no âmbito dos históricos de casos, mas onde são igualmente introduzidas novas concepções, que anunciam as elaborações que Freud iria teorizar em Inibições, sintomas e angústia (1926).”

Em algumas linhas, esclarece sua reticência em fornecer, nesse como noutros pontos, um <guia prático para o exercício da psicanálise>, e demonstra através de exemplos como a transmissão dessa prática passa por vias que não podem ser as do ensino abstrato.” Seria um perigo para os não-hunters aprenderem sobre o Nen.

denegação, negação, for(a)clusão (Lacan, psicose)

Etimologia: do francês forclusion ou prescrição legal (decadência de prazo no Direito).

a denegação é um meio de todo ser humano tomar conhecimento daquilo que recalca em seu inconsciente. Através desse meio, portanto, o pensamento se liberta, por uma lógica da negatividade, das limitações que lhe são impostas pelo recalque.”

* * *

O termo foraclusão foi introduzido pela primeira vez por Lacan, em 4 de julho de1956, na última sessão de seu seminário dedicado às psicoses e à leitura do comentário de Sigmund Freud sobre a paranóia do jurista Daniel Paul Schreber.”

Para compreender a gênese desse conceito, há que relacioná-lo com a utilização que Hippolyte Bernheim fez, em 1895, da noção de alucinação negativa: esta designa a ausência de percepção de um objeto presente no campo do sujeito após a hipnose. Freud retomou o termo, porém não mais o empregou a partir de 1917, na medida em que, em 1914, propôs uma nova classificação das neuroses, psicoses e perversões no âmbito de sua teoria da castração. Deu então o nome de Verneinung ao mecanismo verbal pelo qual o recalcado é reconhecido de maneira negativa pelo sujeito, sem no entanto ser aceito: <Não é meu pai.> Em 1934, o termo foi traduzido em francês por négation.”

Laforgue propunha traduzir por escotomização tanto a renegação (Verleugnung) quanto um outro mecanismo, próprio da psicose e, em especial, da esquizofrenia. Freud recusou-se a acompanhá-lo e distinguiu, de um lado, a Verleugnung, e de outro, a Verdrängung (recalque). A situação descrita por Laforgue despertava a idéia de uma anulação da percepção, ao passo que a exposta por Freud mantinha a percepção, no contexto de uma negatividade: atualização de uma percepção que consiste numa renegação.”

Lacan inspirou-se no trabalho de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), Phénoménologie de la perception, e sobretudo nas páginas desse livro dedicadas à alucinação como <fenômeno de desintegração do real>, componente da intencionalidade do sujeito.”

O ULTRA-ROMÂNTICO VS. O PÓS-MOD. RESSEQUIDO

Normalmente, o alucinado vê coisas a mais, que não existem. Mas e se se tratasse de um alucinado lacaniano? É aquele que não vê o que existe. É como o niilista nietzschiano: cético, não acredita em nada para-além do empírico; mas, o que é pior, sequer dá fé ao empírico e imediato. Dá valor de nada ao que efetivamente está-aí. Não dá presença ao que é imaginário, como o niilista ingênuo clássico. Devaloração de todos os valores.

* * *

um recalque é algo diferente de uma rejeição F.

RECALQUE: Eu não quero lembrar como meu pai é ruim (neurose)

FORACLUSÃO: Não existe um pai que seja ruim. (psicose)

O conceito de foraclusão assumiu, em seguida, uma extensão considerável na literatura lacaniana, a ponto de os discípulos do mestre francês acabarem vendo (senão alucinando) sua existência no corpus freudiano.” He-he.

* * *

A forclusão distinguir-se-ia do recalque em dois sentidos: 1) Os significantes forcluídos não são integrados no inconsciente do sujeito; 2) Não retornam <do interior>, mas no seio do real, especialmente no fenômeno alucinatório.”

Em conclusão, podemos verificar, limitando-nos ao ponto de vista terminológico, que nem sempre o uso do termo Verwerfung abrange a idéia expressa por forclusão e que, inversamente, outras formas freudianas designam o que Lacan procura evidenciar.”

Ulteriormente, quando Freud tender a reinterpretar a projeção como um simples momento secundário do recalque neurótico, ver-se-á obrigado a admitir que a projeção — tomada neste sentido — já não é o fator propulsor essencial da psicose: <Não era exato dizer que a sensação reprimida (ünterdrückt) no interior era projetada para o exterior; reconhecemos antes que o que foi abolido (das Aufgehobene) no interiorvolta do exterior.>

O ego arranca-se à representação insuportável, mas esta está indissoluvelmente ligada a um fragmento da realidade e, realizando esta ação, o ego desligou-se também total ou parcialmente da realidade.” F., 1894

INFELIZMENTE A ÚNICA VÍTIMA DE UM COMPLEXO DE CASTRAÇÃO AQUI ERA O PRÓPRIO SEGISMUNDO: “Nos diversos textos de Freud existe uma ambigüidade indubitável quanto ao que é rejeitado (verworfen) ou recusado (verleugnet) quando a criança não aceita a castração. Será a própria castração? Neste caso, seria uma verdadeira teoria interpretativa dos fatos que seria rejeitada e não uma simples percepção. Tratar-se-á da <falta de pênis> na mulher? Mas então é difícil falar de uma <percepção> que seria recusada, porque uma ausência só é um fato perceptivo na medida em que é relacionada com uma presença possível.”

[Para Lacan,] a forclusão consiste então em não simbolizar o que deveria sê-lo (a castração): é uma <abolição simbólica>.” De acordo com a enantiodromia ou necessidade do retorno do recalcado (forcluído, neste caso) e homeostase das pulsões, o forcluído tem de re-advir no real em forma de ALUCINAÇÃO (ex: quando o Pequeno Hans vê seu dedo ser decepado).

Esse assunto é uma bosta de árido e confuso. Consultar bibliografia complementar!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jacques Damourette & Édouard Pichon, “Sur la signification psychologique de la négation en français” (1928), Le Bloc-notes de la Psychanalyse, 5, 1985, 111-32.

Deutsch, Helene

Aos 14 anos, a despeito de sua inteligência e sua beleza, Helene era deprimida, marcada pela hostilidade da mãe em relação a ela e pela tentativa de estupro de que tinha sido vítima por parte do irmão. Para grande escândalo da família, tornou-se então amante de um homem casado e conhecido em toda a cidade: Herman Lieberman. Esse eminente dirigente socialista, que seria ministro do governo polonês no exílio em Londres em 1940, lhe apresentou Rosa Luxemburgo, figura histórica, de quem ela falaria ainda com entusiasmo e admiração no fim da vida, aos 85 anos.”

encontrou Felix Deutsch, jovem médico atraído pelas idéias freudianas, com quem se casou no ano seguinte.”

Seduzido pela inteligência e pelos conhecimentos da jovem, Freud quis fazer dela sua principal discípula e acelerou o curso das coisas.”

seu livro mais importante, Psicologia da mulher, que seria, em 1949, a referência psicanalítica maior de Simone de Beauvoir (1908-1986) em O segundo sexo.”

As longas décadas que se seguiram — ela viveu até os 98 anos — foram ritmadas pelas tensões e conflitos de uma vida conjugal insatisfatória e pela nostalgia da paixão amorosa que marcou sua juventude. Sem dúvida, era essa uma das razões de seu apego à Polônia natal. Manifestava esse sentimento por um forte sotaque, o que fazia com que seus amigos dissessem que <ela falava cinco línguas, todas em polonês>. A grande dama [selvagem] de um freudismo sem concessões, criticando tão severamente a Ego Psychology quanto a standardização, à moda americana, da análise didática, desprovida segundo ela daquele espírito militante ao qual aderira apaixonadamente durante a sua juventude, foi então reconhecida e celebrada no continente americano.”

diferença sexual (A QUESTÃO FREUDO-FEMINISTA)

Razão da cisão kleiniana, que reconhece uma libido masculina e outra feminina.

Quando Simone de Beauvoir (1908-1986) publicou O segundo sexo, em junho de 1949, anunciou desde logo que a reivindicação feminista já estava ultrapassada. Para abordar esse tema a sério, após uma guerra que, na França, permitira às mulheres obterem o direito de voto, era preciso, doravante, tomar uma certa distância. Beauvoir não sabia que seu livro estaria na origem, após um longo desvio pelo continente norte-americano, de uma transformação simultânea dos ideais do feminismo e dos do freudismo.” “Beauvoir estudou a sexualidade à maneira de um historiador e tomou o partido da escola inglesa [kleinismo].” “A seu ver, a questão feminina não era assunto das mulheres, mas da sociedade dos homens, a única responsável, em sua opinião, pela submissão a ideais masculinos.”

O FALO HERMAFRODITA OU BINOMIAL DE LACAN: “o falo é assimilado a um significante puro da potência vital, dividindo igualmente os dois sexos e exercendo, portanto, uma função simbólica. Se o falo não é um órgão de ninguém, nenhuma libido masculina domina a condição feminina.”

Na França, essa leitura lacaniana do falocentrismo abriu caminho, entre 1968 e 1974, para teses diferencialistas encontradas sob a pena de autores — em geral mulheres e psicanalistas — preocupados em definir as características de uma identidade feminina liberta de qualquer substrato biológico ou anatômico. Assistiu-se então, em seguida à reformulação lacaniana, ao surgimento de um feminismo psicanalítico francês que, embora apoiando-se no livro fundador de Simone de Beauvoir, procurou ora contestá-lo radicalmente, ora corrigir seu aspecto naturalista e existencialista através de uma nova referência a Freud.” “Daí esse feminismo radical que renunciou, ao mesmo tempo, ao universalismo iluminista e à concepção freudiana da sexualidade.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Luce Irigaray, Speculum de l’autre femme, 1974;

Juliet Mitchell, Psychanalyse et féminisme, 1974;

Michèle Montrelay, L’Ombre et le nom, Paris, Minuit, 1977.

Dolto, Françoise

Em 1949, Françoise Dolto expôs à Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP) o caso de duas meninas psicóticas, Bernadette e Nicole. A primeira gritava, sem conseguir fazer-se ouvir. Humanizava os vegetais e coisificava os seres humanos. A segunda permanecia muda, embora não fosse surda. Dolto teve a idéia de pedir à mãe de Bernadette que fabricasse um objeto que teria, para a criança, o papel de um bode expiatório. Deu-lhe o nome de <boneca-flor>: uma haste coberta de tecido verde no lugar do corpo e dos membros, uma margarida artificial para representar o rosto. Bernadette projetou no objeto as suas pulsões mortíferas e começou a falar, enquanto Nicole saía de seu mutismo. Com essa <boneca-flor>, Dolto integrava à sua prática a técnica dos jogos e, embora não tivesse conhecimento, na época, dos trabalhos de Melanie Klein, referia-se implicitamente a uma clínica das relações de objeto, desprovida, entretanto, da temática kleiniana do ódio, da inveja e de qualquer forma de perseguição ligada à idéia de objeto mau. Dessa <boneca-flor>, sairia a representação particular que Dolto faria da imagem do corpo, mais próxima da concepção lacaniana do estágio do espelho do que da definição de Paul Schilder.”

Em janeiro de 1979, Françoise Dolto criou em Paris a primeira Casa Verde, para acolher crianças até a idade de 3 anos, acompanhadas dos pais. <Segundo Dolto, tratava-se de evitar os traumas que marcam a entrada na pré-escola e de manter a segurança que a criança adquiriu no nascimento.>, declarou Jean-François de Sauverzac. Essa experiência teve sucesso e muitas casas verdes foram abertas no Canadá, na Rússia, na Bélgica, etc.”

Tornou-se a figura mais popular da França freudiana, mas foi criticada pelos meios psicanalíticos, que a acusavam de pôr o divã na rua.<Cientista, ela se comportava à maneira dos jornalistas, escreveu Madeleine Chapsal, dizendo o que tinha a dizer a cada dia, com urgência e com desprezo pelo escândalo, pelo choque que poderia causar. Evidentemente, sofreu o contragolpe de sua deliberada imprudência. Foi atacada, afastada, desprezada. Nada disso a deteve.>

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Françoise Dolto, Psicanálise e pediatria (Paris, 1939), Rio de Janeiro, Zahar, 1980; O caso Dominique (Paris, 1971), Rio de Janeiro, Zahar, 1981; Seminário de psicanálise de crianças (Paris, 1982, 1988), Rio de Janeiro, Zahar, 1985.

Doolittle, Hilda, dita H.D. (1886-1961)

Publicou várias antologias importantes e um romance autobiográfico, que relata os conflitos da bissexualidade em uma mulher apaixonada por um homem e por outra mulher. Analisada por Sigmund Freud em 1933-1934, publicou em 1956 um depoimento sobre o seu tratamento, composto de duas partes: O advento, conjunto de notas tomadas diariamente durante a análise e Escrito na parede. Reminiscências de uma análise com Freud, relato redigido 10 anos depois.”

duplo vínculo, double bind

Dilema do esquizofrênico, referente à incapacidade de decodificação da mensagem exterior.

egooueu

é corrente em psicanálise admitir que a noção de ego só se teria revestido de um sentido estritamente psicanalítico, técnico, após aquilo a que se chamou a virada de 1920. Esta mudança profunda da teoria, aliás, pode ter correspondido, na prática, a uma nova orientação, voltada para a análise do ego e dos seus mecanismos de defesa, mais do que para a elucidação dos conteúdos inconscientes. É claro que ninguém ignora que Freud falava de ego (Ich) desde os seus primeiros escritos, mas afirma-se que isso acontecia, geralmente, de forma pouco especificada, pois o termo designava então a personalidade no seu conjunto. Considera-se que as concepções mais específicas que atribuem ao ego funções bem determinadas no seio do aparelho psíquico (no Projeto para uma psicologia científica [Entwurt einer Psychologie, 1895], por exemplo) são prefigurações isoladas das noções da segunda tópica.”

o ego do amor-próprio segundo La Rochefoucauld

Freud não só encontra e utiliza acepções clássicas, opondo, por exemplo, o organismo ao meio, o sujeito ao objeto, o interior ao exterior, como emprega o próprio termo Ich nestes diferentes níveis, chegando até a jogar com a ambigüidade da utilização desta palavra; isso mostra que não exclui do seu campo qualquer das significações atribuídas aos termos ego (moi) ou eu (je).”

O ego só põe em funcionamento o processo primário quando não está em condições de fazer funcionar as suas defesas normais (atenção e evitação, por exemplo). No caso da lembrança de um traumatismo sexual (ver: a posteriori) o ego é surpreendido por um ataque interno e só pode <deixar agir um processo primário>. A situação da <defesa patológica> em relação à palavra [associação de complexos] não é pois determinada de maneira unívoca; em certo sentido, o ego é na verdade o agente da defesa, mas, na medida em que só pode se defender separando-se daquilo que o ameaça, abandona a representação inconciliável a um tipo de processo sobre o qual não tem domínio [primário].” Deixa os resquícios para os sonhos encobertos – mas isso só enquanto o trauma não adquire o status de ferida aberta (mórbido). Do contrário, a vida do sujeito em seus processos secundários estará avariada.

para que a alucinação seja evitada e para que a descarga não se produza quer na ausência quer na presença do objeto real, é necessário que seja inibido o processo primário que consiste numa livre propagação da excitação até a imagem.” HOMEOSTASE: “É a permanência nele de um nível de investimento que permite ao ego inibir os processos primários, não só aqueles que levam à alucinação, mas também os que seriam suscetíveis de provocar desprazer (= defesa primária).”

Processos psíquicos primários X Processos psíquicos secundários

Medidas drásticas e daninhas (representações alucinatórias, angústia, pânico) ou que no mínimo se exaurem rapidamente X Amadurecimento do Consciente por interferência paulatina do Supereu (pulsões refreadas, noção de dosagem da energia responsiva)

Ex: sonho X introjeção moral

Esta ambigüidade constitutiva do ego reaparece na dificuldade em dar um sentido unívoco à noção de interior, de excitação interna.Só sei que não sei nem o eu.

O mais engraçado é que, se Freud estivesse correto, a vontade que o eu moral tem de dormir (esgotamento energético) para repor o equilíbrio das representações,ciclicamente perturbado, significaria que a instância auto-cultivada de nosso Ser é impotente e escrava justamente dos instintos mais selvagens (os processos primários salvam os secundários, os secundários em nada são uma evolução ou aperfeiçoamento daqueles). Precisa o Ser esgotar-se a todo momento a fim de estar novamente compensado (energizado) e não sucumbir. Ou seja, a homeostase do sistema (acima) é a liberação dos processos primários, não sua inibição. A leitura de ponta-cabeça do cânone freudiano faria infinitamente mais sentido. Ler Schopenhauer e entendê-lo corretamente (às avessas do que entendeu F.) faria infinitamente mais sentido e nos faria economizar tempo do nosso intelectual, ajudando-nos a compreender melhor nós mesmos e nossa Vontade…

1ª TÓPICA, 2ª TÓPICA, 3ª TÓPICA, TÓPICA ANNAFREUDIANA & “TÓPICA INGLESA” OU HETERODOXA (só para citar as MAIS TRADICIONAIS), uma salada irreconciliável: “É claro que não se pensaria em contrapor a esta orientação da Ego psychology uma exposição do que seria a <verdadeira> teoria freudiana do ego: antes nos impressiona a dificuldade em situar numa única linha de pensamento o conjunto das contribuições psicanalíticas para a noção de ego.” “Mas, se a única energia de que dispõe o aparelho psíquico é a energia interna proveniente das pulsões, aquela de que o ego poderia dispor não pode deixar de ser secundária, derivada do id. Esta solução, que é a mais geralmente admitida por Freud, não podia deixar de conduzir à hipótese de uma <dessexualização> da libido, hipótese da qual se pode pensar que apenas localiza numa noção, por sua vez também problemática, uma dificuldade da doutrina.” “A idéia de uma gênese do ego é cheia de ambigüidades, que aliás foram mantidas por Freud ao longo de toda a sua obra e que só se agravaram com o modelo proposto em Além do princípio do prazer

ego ideal ou eu ideal

Derivado do estágio narcísico, representa o supra-sumo da concepção de um eu perfeito. Sensação de onipotência. Psicose.

O ego ideal é ainda revelado por admirações apaixonadas por grandes personagens da história ou da vida contemporânea, caracterizados pela independência, orgulho, autoridade. Quando o tratamento progride, o ego ideal se delineia, emerge como uma formação irredutível ao supereu.” Lagache, La psychanalyse et la structure de la personnalité

ego, ideal do ou superego

Instância da moral.

Ego Psychology (Psicologia do eu)

foi a Ego Psychology que serviu de grande referência doutrinal, na segunda metade do século, para análises intermináveis e cronometradas, imobilizadas no silêncio, reservadas à burguesia urbana rica e praticadas por médicos preocupados com o prestígio social e a rentabilidade financeira. Essa técnica psicanalítica, aliás, seria violentamente criticada, no interior da própria IPA.”

PAÍS DE RETARDADOS: “As diferentes correntes desse freudismo norte-americano, quaisquer que sejam suas (numerosas) variações são quase sempre perpassadas por uma religião da felicidade e da saúde, contrária tanto à concepção vienense do mal-estar da Kultur quanto ao recentramento kleiniano do sujeito numa pura realidade psíquica, ou à visão lacaniana do freudismo como uma peste subversiva. Aliás, é em razão dessa contradição radical entre as interpretações européias e norte-americanas da psicanálise que o kleinismo, o lacanismo e o freudismo <original> (vienense e alemão) não puderam implantar-se como tais nos Estados Unidos. Quanto aos partidários da <esquerda freudiana> (em torno de Otto Fenichel), foram obrigados a renunciar a suas atividades porque elas eram julgadas <subversivas> no solo norte-americano. Depois de sofrerem os ataques do macarthismo, eles tiveram de se medicalizar, recalcar seu passado europeu e se transformar em técnicos da adaptação. Daí a ortodoxia burocrática que acabaria por desacreditar a imagem do psicanalista e deixar o campo livre à supremacia dos laboratórios farmacêuticos, fornecedores de <pílulas da felicidade>, ou às diversas terapias da New Age — tratamentos xamanísticos e experiências de espiritismo, vidência ou telepatia.”

Hartmann introduziu uma distinção entre o eu (ego), como instância psíquica, e o si mesmo (self), tomado no sentido da personalidade ou da própria pessoa. Esse termo seria retomado por Winnicott, que lhe acrescentaria uma referência fenomenológica, e por Kohut, que o transformaria numa instância específica, a única apta a explicar os distúrbios narcísicos.” “o terapeuta do ego deve ocupar o lugar do eu <forte> com o qual o paciente quer se parecer a fim de conquistar a autonomia do eu.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Heinz Hartmann, La Psychologie du moi et le problème de l’adaptation

Eitingon

Lixo humano! Ver verbete ESCANDINÁVIA.

Ellenberger, Henri F. (1905-1993)

Em meados do século, tinha adquirido um grande conhecimento da história da psiquiatria e da psicanálise na Europa. Falava e escrevia muito bem em francês, alemão e inglês, e interessava-se pela evolução de todas as formas de tratamento psíquico. Só lhe faltava iniciar-se na história da emigração freudiana de leste para oeste.”

Depois de trabalhar durante 20 anos com arquivos, redigiu em inglês sua obra fundamental: The Discovery of the Unconscious. The History and Evolution of Dynamic Psychiatry, que foi publicada nos Estados Unidos em 1970, o que lhe valeu o reconhecimento da maior parte dos países do mundo, à exceção da França, onde, quando de sua primeira tradução em 1974, interessou apenas aos meios psiquiátricos. Ellenberger fazia uma revolução que lembrava a dos Annales. Opondo-se sobretudo à história oficial segundo Ernest Jones e seus herdeiros, seu método associava o tratamento positivo das fontes, à maneira de Alphonse Aulard, à sondagem imaginária, tal como a concebia Lucien Febvre.

Segundo ele, existia uma dicotomia entre a história da teorização da noção de inconsciente e a da sua utilização terapêutica. A primeira começara com as intuições dos filósofos da Antiguidade, depois prosseguira com as dos grandes místicos. No século XIX, a noção de inconsciente se consolidou com Arthur Schopenhauer (1788-1860), Friedrich Nietzsche e os trabalhos da psicologia experimental: Johann Friedrich Herbart, Hermann Helmholtz, Gustav Fechner. Quanto à segunda história, esta remontava à arte do feiticeiro e do xamã, e passava pela confissão cristã. Dois métodos terapêuticos foram praticados. Um consistia em provocar no doente a emergência de forças inconscientes, sob forma de <crises>: possessões ou sonhos. O outro gerava o mesmo processo no médico. Do tratamento centrado no paciente derivava a neurose de transferência no sentido freudiano; do tratamento centrado no médico derivava a análise didática. Efetivamente, esta herdava a <doença iniciática> que conferia ao xamã o seu poder de cura, e a <neurose criadora> tal como a tinham vivido no fim do século XIX os pioneiros da descoberta do inconsciente: Pierre Janet, Freud, Jung, Adler.

Nessa perspectiva, a primeira grande tentativa de integrar a investigação do inconsciente à sua utilização terapêutica começava com as experiências de Franz Anton Mesmer, iniciador da primeira psiquiatria dinâmica.”

e foi então que nasceu, sobre as ruínas de um magnetismo que se tornara hipnotismo, a segunda psiquiatria dinâmica, dividida em quatro grandes correntes: a análise psicológica de Pierre Janet, centrada na exploração do subconsciente, a psicanálise de Freud, fundada na teoria do inconsciente, a psicologia individual de Adler, a psicologia analítica de Jung. Ellenberger observou que o paradoxo dessa segunda psiquiatria dinâmica, cuja história se detinha em 1940, era que, ao cindir-se em escolas opostas, ela rompia o pacto fundador que a ligava ao ideal de uma ciência universal nascida do Iluminismo, para voltar ao antigo modelo das seitas greco-romanas.”

Ellis, Henry Havelock (1859-1939)

Homossexual revoltado contra os códigos morais da Inglaterra vitoriana, decidiu, aos 16 anos, dedicar a vida à análise da sexualidade humana sob todas as suas formas. Foi com essa intenção que estudou medicina: <Queria poupar à juventude das gerações futuras as preocupações e perplexidades que a ignorância do sexo me infligiu.> De 1884 a 1889, tornou-se amigo íntimo de uma romancista feminista, Olive Schreiner, que conhecera através da filha de Karl Marx (1818-1883). [!] Depois do casamento de Olive, desposou Edith Lees, uma intelectual que mergulhou progressivamente na loucura.”

Em 1890, começou a redação de sua grande obra: Estudos de psicologia sexual. Publicado em Londres um ano depois do processo de Oscar Wilde (1856-1900), o primeiro volume era consagrado à inversão sexual. O livro causou escândalo, e o livreiro que vendeu a obra foi processado na justiça. Posteriormente, Ellis seria obrigado a publicar os outros volumes nos Estados Unidos:<A envergadura da documentação de Ellis nesses Estudos, escreveu Frank Sulloway, era realmente impressionante. Ele estava completamente a par de toda a literatura médica do seu tempo e citava mais de dois mil autores, pertencentes a 12 áreas lingüísticas diferentes. Cada volume era uma suma enciclopédica do saber contemporâneo sobre cada uma das questões tratadas.>

Esboço de Psicanálise

Iniciado em 22 de julho de 1938, esse último livro de Freud permaneceu inacabado e comporta apenas 3 partes. Fazia muito tempo que Freud tinha o projeto de escrever um opúsculo destinado a apresentar ao grande público uma síntese de sua doutrina. Iniciou esse trabalho em Viena, às vésperas de seu exílio, queixando-se de ter que escrever coisas que já tinha dito e às quais nada tinha a acrescentar. No entanto, redigiu o texto em ritmo animado e ao sabor da pena, apelando para abreviaturas. De fato, o livro é certamente bem melhor do que o julgava Freud. Trata-se de uma excelente síntese dos eixos fundamentais do pensamento freudiano no tocante ao aparelho psíquico, à teoria das pulsões, à sexualidade, ao inconsciente, à interpretação dos sonhos e à técnica psicanalítica. Em algumas passagens, Freud se interroga sobre novas direções de investigação, em especial a propósito do eu, e prenuncia, acima de tudo, a descoberta de substâncias químicas capazes de agir diretamente sobre o psiquismo e tornar obsoleto o método psicanalítico, do qual, no entanto, assume vigorosamente a defesa:<Por ora, no entanto, dispomos apenas da técnica psicanalítica, e é por isso que, a despeito de todas as suas limitações, convém não desprezá-la.>

Escandinávia

PRÓLOGO: UM POUCO DE LINGÜÍSTICA E GEOGRAFIA

Sob essa designação genérica estão agrupados 5 países da Europa: Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia. No plano político, existem apenas 3 Estados ditos escandinavos: Suécia, Noruega e Dinamarca. Geograficamente, chama-se Escandinávia a parte norte da Europa que reúne a Suécia, a Noruega, a Dinamarca e a Finlândia, ou seja, 4 países no total, e dá-se o nome de Península Escandinava ao conjunto constituído pela Suécia e pela Noruega. São 4 as línguas escandinavas ligadas ao grupo das línguas germânicas: dinamarquês, sueco, norueguês e islandês, enquanto o finlandês pertence à família das línguas ditas fino-úgricas.”

Foi na Suécia que o freudismo obteve mais sucesso, ao passo que, por razões políticas, ligadas ao forte desenvolvimento dos partidos trabalhistas, a Dinamarca e a Noruega foram principalmente receptivas às teses de Wilhelm Reich, ou seja, ao materialismo biológico e à síntese entre o freudismo e o marxismo.”

Obcecados pelo exílio, preocupados com a loucura ou com a estranheza do homem em relação a si mesmo, todos procuravam captar em suas obras a angústia existencial de uma época dominada pelo ceticismo, pelo irracionalismo e pela recusa da idéia de progresso linear. Foi nesse terreno crítico, e em um contexto em que o puritanismo luterano era ao mesmo tempo religião do Estado e uma atitude mental e espiritual, que surgiram as primeiras interrogações sobre a doutrina freudiana.”

A CONTIGO DA PSICANÁLISE:

A EXECRAÇÃO REACIONÁRIA DO LEGADO REICHIANO

Na Dinamarca, ao invés de adotar uma posição flexível, os dirigentes da IPA, especialmente Max Eitingon e Anna Freud, apoiados por Ernest Jones e Freud, não autorizaram Reich a praticar análises didáticas, ao passo que ele era membro da International através de sua filiação à Deutsche Psychoanalytische Gesellschaft (DPG). Ora, apesar de suas divergências técnicas e políticas com os freudianos ortodoxos, ele era na época o único psicanalista capaz de formar clínicos em Copenhague, como mostra uma carta dirigida a Freud, em 10 de novembro de 1933, por Erik Carstens, publicada em 1967 em Reich fala de Freud[Carl Lesche].

Evocando o papel desastroso desempenhado por Naesgaard, que recusava o princípio da formação didática, Carstens enfatizava que a atividade de Reich fôra positiva nessa área. E, principalmente, queixava-se de que o comitê de formação da DPG, sob a responsabilidade de Eitingon, concedera a Jenö Harnik, psicanalista húngaro exilado, e não a Reich, o estatuto de didata. Todos sabiam que Harnik sofria de paranóia com crises de delírio: de qualquer forma, muito mais patológico que Reich e, sobretudo, sem a menor competência psicanalítica. Em 1912, Sandor Ferenczi tentara tratá-lo de impotência sexual, dissuadindo-o de se tornar psicanalista. Posteriormente, quando Harnik quis aderir à Wiener Psychoanalytische Vereinigung, Ferenczi, a pedido de Freud e com sua inteira aprovação, apresentou um motivo de oposição categórica: <Ciumento, psiquicamente impotente, patologicamente vaidoso, inepto. Deveria tomar outro caminho.> Apesar dessa opinião desfavorável, Harnik conseguiu integrar-se ao Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI) e ser enviado por Eitingon, como didata, para desenvolver a psicanálise na Dinamarca.”

Considerei como virtualmente estabelecido o fato de que os teólogos eram enviados para Oskar Pfister, os filósofos morais para Carl Müller-Braunschweig e os socialistas recuperados para Siegfried Bernfeld.” Reich

Acusado de ser ele próprio simultaneamente paranóico, bolchevista e antifreudiano, Reich foi instado por Anna Freud [outra cobrinha criada], em julho de 1934, a aceitar que seu nome fosse riscado da lista dos membros da DPG: <O problema todo tem apenas um valor teórico, acrescentou ela, já que o reconhecimento pelo congresso do grupo escandinavo acarretaria automaticamente a inserção de seu nome na lista dos membros desse novo grupo.> A manobra era simples: Eitingon conseguira secretamente que Reich fosse expulso da DPG, e conseqüentemente da IPA. Para evitar qualquer reintegração no grupo escandinavo, ele fizera com que a filiação da Sociedade Dano-Norueguesa à IPA, que devia ocorrer em Lucerna em agosto de 1934, dependesse de uma promessa de não-integração de Reich. Mas os noruegueses se recusaram a submeter-se a essa imposição, e essa determinação impressionou o comitê executivo da IPA, que foi obrigado a admitir a entrada dos noruegueses sem impor qualquer condição. Assim, Reich foi riscado da IPA em Lucerna, através da sua exclusão da DPG. Dois meses depois, instalou-se em Oslo [fialiado apenas à Sociedade Dano-Norueguesa, mesmo que esta fosse reconhecida pela IPA!]. Em 1935, Eitingon negou qualquer participação nesse episódio, que entretanto ele havia habilmente arquitetado.

Com essa política, a direção da IPA contribuiu para desvalorizar a imagem do freudismo no seio da comunidade psicanalítica escandinava, já atravessada por fenômenos de dissidência e ainda muito frágil para se submeter aos padrões impostos nessa época pela ortodoxia freudiana. Em 1937-1938, Reich foi vítima de uma obstinada campanha de imprensa na Noruega. Depois de ser tratado muitas vezes de <charlatão> e de <pornógrafo judeu>, emigrou para os Estados Unidos, deixando por sua vez uma marca desastrosa na comunidade psicanalítica nórdica.Efetivamente, não sendo mais membro da IPA, não foi defendido contra os ataques (exceto por Schjelderup) e evoluiu rapidamente para um biologismo exacerbado, para o qual arrastou Ola Raknes. Seus conflitos com Fenichel, exilado em Oslo entre 1933 e 1935, também contribuíram para a deterioração da situação do freudismo na Noruega.Quatro anos depois, em plena guerra, a Sociedade Dano-Norueguesa de Psicanálise foi banida da IPA. Ernest Jones [outro picareta desonesto], novo presidente da Associação, estava fazendo com que Schjelderup, Raknes, Nic Waal (née Hoel, 1905-1960) <pagassem> por sua desobediência à imposição de 1934. Assim, sem dizer claramente, acusou-se o grupo de ter sido demasiado sensível às teses reichianas. Estas, aliás, continuaram a ganhar terreno, graças a Raknes e a Nic Waal. Essa psicanalista norueguesa, analisada primeiramente por Schjelderup, e depois por Fenichel e Reich, passara pela clínica de Karl Menninger em Topeka, no Kansas, antes de fundar em Oslo, em 1953, uma instituição para crianças.” só em 1957 reconstituiu-se oficialmente um grupo psicanalítico dinamarquês, filiado à IPA, a Dansk Psykoanalytisk Selskab (DPS). Aliás, só em 1975 foi criada uma nova sociedade norueguesa, a Norsk Psykoanalitisk Forening (NPF). Nessa data, os pioneiros e imigrantes haviam desaparecido, e os dois grupos, compostos de terapeutas anônimos, se regularizaram sem obstáculos, às custas de uma progressiva esclerose.”

AS DURAS MARCAS DO NAZISMO

Em 1943, com a morte de Kulovesi, a Sociedade Fino-Sueca foi dissolvida, sendo substituída por uma associação exclusivamente sueca, a Svenska Psykoanalytiska Föreningen (SPF), que durante muitos anos contou apenas com 8 membros.”

Durante a Segunda Guerra Mundial, apenas a Suécia [dentre os escandinavos da Psicanálise, lembrando que a Islândia não possuía Psicanálise], declarou sua neutralidade. Mas nem por isso serviu de refúgio para os vários freudianos da Europa, que preferiram emigrar para a Grã-Bretanha, para os Estados Unidos ou para a América Latina. Enquanto o corajoso Harald Schjelderup decidiu engajar-se na luta antinazista, depois de recusar a proposta de Matthias Heinrich Göring [o epítome da psicanálise nazi, ver ALEMANHA] para criar em Oslo um instituto <arianizado> a partir do modelo do instituto de Berlim, Poul Bjerre [judeu] adotou, ao contrário, uma atitude ambígua, mantendo com Göring, desde 1933, excelentes relações em nome de um diferencialismo que assimilava o freudismo a um semitismo tão fanático quanto o hitlerismo. Por sua vez, o psicanalista Tore Ekman (1887-1971), formado no BPI, ficou na Alemanha até 1943 e trabalhou no Instituto Göring. Ao voltar à Suécia, foi acusado pelos colegas de colaboração com o nazismo. Posteriormente, conseguiu abafar o caso e reintegrar-se à SPF, mascarando o seu passado.”

nenhum dos grandes componentes do freudismo moderno (kleinismo, lacanismo, Ego Psychology, etc.) implantou-se verdadeiramente nos países nórdicos nem nessa <noite sueca>, em que Foucault foi duramente criticado pelo professor Sten Lindroth (1914-1980), depois de encontrar, em 1959, na BibliotecaCarolina Rediviva todos os arquivos necessários à redação de seu grande livro História da loucura na idade clássica.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Bror Gadelius, Tro och helbrägdagörelse jämte en kritisk studie av psykoanalysen [Crença e cura pela fé com um estudo crítico sobre a psicanálise], Estocolmo, Hugo Gebers Förlag, 1934; [!]

Nigel Moore, “Psychoanalysis in Scandinavia”, 1ª parte: “Sweden and Finland”, The Scandinavian Psychoanalytic Review, 1, 1978, 9-64;

Reimer Jensen & Henning Paikin, “On psychoanalysis in Denmark”, ibid., 2, vol. 3, 1980, 103-16;

Randolf Alnaes, “The development of psychoanalysis in Norway. An historical overview”, ibid., 2, vol. 3, 1980, 55-101.

Espanha

Enquanto na França essa primeira fase de introdução desembocou em 1926 na criação da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), na Espanha não houve nada disso. Na verdade, longe de se orientar para a prática da psicanálise, criando um grupo freudiano, os pioneiros espanhóis incorporaram os dados do freudismo ao saber psiquiátrico, deixando lugar não para a constituição de uma corrente crítica ou de uma escola ligada à ortodoxia, como ocorreu por toda a parte, mas apenas para um movimento antifreudiano, amplamente orquestrado pela Igreja católica.

Do lado literário, Ortega y Gasset não deixou herança. Quando voltou à Espanha depois de ter emigrado, já não se interessava mais pela psicanálise: <Não se pode citar nenhum romancista espanhol da segunda metade do século, escreveu Christian Delacampagne, para quem a psicanálise tenha constituído fonte de inspiração ou de criação. Quanto aos raros artistas para os quais ela parece ter tido esse papel — o cineasta Buñuel, os pintores Dalí ou Clavé —, estes pertencem a uma geração já antiga, a geração surrealista, que, além disso, realizou grande parte de sua obra fora da Espanha.>Compreende-se então por que, já em 1936, Lopez Ibor, representante de uma concepção repressora e reacionária da psiquiatria, conseguiu ocupar tal lugar, publicando um livro de anátemas contra Freud, Vida e morte da psicanálise, que escamoteava todos os trabalhos dos pioneiros espanhóis. Depois da Segunda Guerra Mundial, a psicanálise foi banida da Espanha durante 30 anos, enquanto o saber psiquiátrico, violentamente antifreudiano, tomava uma orientação ultraorganicista, e até policial, generalizando a utilização da lobotomia, do eletrochoque e da insulinoterapia.Através das campanhas feitas pela Opus Dei, a psicanálise foi então denunciada como um <complô judeu-maçônico> e Freud tratado de <gênio satânico>. (…) Em 1951, Lopez reeditou seu livro sob um novo título (Agonia da psicanálise) e, em 1975, renovou o seu anátema com outra obra: Freud e seus deuses ocultos.” “Como o regime franquista não tinha nem eliminado a liberdade de associação, nem impedido os intercâmbios culturais, nem proibido a prática das diversas psicoterapias, foi possível fundar uma associação psicanalítica reunindo os círculos de Madri e de Barcelona.”

Depois da morte de Lacan e da reorganização empreendida por Jacques-Alain Miller, a maioria dos grupos se fundiu com a criação em Barcelona, em setembro de 1990, da Escola Européia de Psicanálise (EEP), que logo se transformaria, no interior da Association Mondiale de Psychanalyse (AMP), em um pólo avançado da corrente milleriana na Europa. No fim do século, a Espanha se tornou assim o único país em que essa tendência é amplamente majoritária, ao contrário da Argentina e da França”

espiritismo

Na historiografia da psicanálise, o espiritismo e a telepatia (ou transmissão do pensamento à distância) são considerados pertinentes ao campo do ocultismo ou do oculto. O espiritismo diz respeito à história da parapsicologia, assim como o ocultismo, a telepatia ou o sonambulismo. Contudo, é tênue a fronteira entre o estudo positivista do psiquismo e a tentação faustiana de conquistar o domínio do irracional.” “fascinou André Breton (1898-1966) e os surrealistas, assim como havia fascinado Victor Hugo (1802-1885).”

Historicamente, o espiritismo, em sua forma moderna, nasceu por volta de 1840, sobre as ruínas do magnetismo mesmeriano, e permitiu que o hipnotismo se disseminasse numa nova doutrina do conhecimento do inconsciente, do qual emergiria a psicanálise, no alvorecer do século XX.”

esquizofrenia

Em 1832, Honoré de Balzac (1799-1850) descreveu pela primeira vez, em Louis Lambert, a quintessência do que viria a se transformar no sintoma esquizofrênico: <Louis ficava de pé como eu o estava vendo, dia e noite, de olhos vidrados, sem jamais baixar e erguer as pálpebras como costumamos fazer […]. Tentei falar-lhe em várias ocasiões, mas ele não me ouvia. Era uma carcaça arrancada do túmulo, uma espécie de conquista feita à morte pela vida, ou feita à vida pela morte. Fazia cerca de uma hora que eu estava ali, mergulhado num devaneio indefinível, às voltas com mil idéias aflitivas. Escutava a Srta. de Villenoix, que me contava com todos os detalhes aquela vida de criancinha de berço. De repente, Louis parou de esfregar suas pernas uma na outra e disse em voz lenta: — Os anjos são brancos.>

Ao contrário da melancolia, da mania, da histeria e da paranóia (já conhecidas antes de serem denominadas), a demência precoce era uma nova doença da alma, que atingia com a impotência e a hebetude jovens da sociedade burguesa, revoltados contra sua época ou seu meio, mas incapazes de traduzir suas aspirações de outro modo que não por um verdadeiro naufrágio da razão. A psiquiatria nascente procurou classificar esse estado e denominá-lo em função das outras entidades já identificadas. Por isso é que o termo deu margem a numerosas discussões. Tratava-se realmente de uma doença nova, ou seria uma afecção antiga, que estava sendo batizada com outro nome? Durante todo o fim do século XIX e até a definição bleuleriana, as opiniões ficaram ainda mais divididas, na medida em que era perfeitamente possível incluir na histeria, por um lado, e na melancolia, por outro, numerosos sintomas atribuídos à demência precoce.”

Bleuler inventou, ao mesmo tempo, a noção de Spaltung (clivagem, dissociação, discordância)“essa nova demêncianão era uma demência e já não era precoce, mas englobava todos os distúrbios ligados à dissociação primária da personalidade e conducentes a diversos sintomas, como o ensimesmamento, a fuga de idéias, a inadaptação radical ao mundo externo, a incoerência, as idéias bizarras, e os delírios sem depressão, nem mania, nem distúrbios do humor, etc.”

Dado que tudo o que se opõe ao afeto sofre uma repressão acima do normal, e que o que tem o mesmo sentido do afeto é favorecido de forma igualmente anormal, acaba resultando que o sujeito não pode mais de modo algum pensar aquilo que contradiz uma idéia marcada pelo afeto: o esquizofrênico, na sua pretensão, sonha apenas os seus desejos; o que poderia impedir a sua realização não existe para ele. Assim, complexos de idéias, cuja ligação consiste mais em um afeto comum do que em uma relação lógica, são não apenas formados, como ainda reforçados. Não sendo utilizados, os caminhos associativos que levam de determinado complexo a outras idéias perdem, no que diz respeito às associações adequadas, a sua viabilidade; o complexo ideativo marcado de afeto separa-se cada vez mais e consegue uma independência cada vez maior (Spaltung das funções psíquicas).”

As ressonâncias semânticas do termo francês dissociation (dissociação), pelo qual se traduz a Spaltung esquizofrênica, evocam sobretudo o que Bleuler descreve como Zerspaltung.”

a segunda psiquiatria dinâmica seria dominada, até cerca de 1980, pelo sistema de pensamento freudo-bleuleriano. Toda uma terminologia seria cunhada, sobretudo pela escola francesa (Henri Claude e René Laforgue) e, mais tarde, por Ernst Kretschmer, para exprimir diversas modalidades dessa <esquize>: desde a esquizomania, onde o autismo se faz presente sem a dissociação, até a esquizoidia, caracterizada por um estado patológico sem psicose, passando pela esquizotimia, a tendência <morfológica> à interiorização.”

Foi na perspectiva de uma abordagem geral das psicoses, herdada do ensino de Karl Abraham e Sandor Ferenczi, que Melanie Klein elaborou sua concepção da posição depressiva e da posição esquizo-paranóide, para mostrar que elas eram o destino comum de qualquer sujeito e que a <normalidade> era apenas uma maneira de cada um superar um estado psicótico original.”

Para Binswanger, que apresentou a história de 5 grandes casos clínicos, dentre eles os de Ellen West e Suzan Urban, a causalidade primária da esquizofrenia era o ingresso numa vida inautêntica, conducente à <perda do eu na existência>, a uma grave alteração da temporalidade e ao autismo, isto é, a um <projeto de não ser quem se é> [aloisismo].”

A partir de 1922 e buscando inspiração em biografias clássicas de figuras patológicas, Karl Jaspers (1883-1969) empenhou-se em estudar 4 destinos de criadores retroativamente considerados esquizofrênicos: Friedrich Hölderlin (1770-1843), Emmanuel Swedenborg (1688-1772), Vincent Van Gogh (1853-1890) e August Strindberg (1849-1912).”

Existe uma vida do espírito da qual a esquizofrenia se apodera para nela fazer suas experiências, criar suas fantasias e implantá-las; a posteriori, talvez possamos crer que essa vida espiritual basta para explicá-las, mas, sem a loucura, elas não poderiam manifestar-se da mesma maneira.” Jaspers

Desde a década de 1920, a esquizofrenia, como aliás a histeria, escapou, portanto, à definição bleuleriana, transformando-se na expressão de uma verdadeira linguagem da loucura, não <patológica> mas subversiva, portadora de uma revolução formal e de uma contestação da ordem estabelecida. Foi essa a significação, em 1925, do manifesto surrealista intitulado <Lettre aux médecins-chefs des asiles de fous>, inspirado por Antonin Artaud (1896-1948) e redigido por Robert Desnos (1900-1945): <Sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de alguns loucos, desde que estejamos aptos a apreciá-las, afirmamos a absoluta legitimidade de sua concepção da realidade e de todos os atos dela decorrentes.>

Onde há obra, não há loucura; e no entanto, a loucura é contemporânea da obra, uma vez que inaugura o tempo de sua verdade.” Foucault

Quanto a Deleuze, em O anti-Édipo — Capitalismo e esquizofrenia, livro redigido com Félix Guattari, ele se apropriou do termo esquizofrenia para fazê-lo ressoar de outra maneira. Os dois autores esforçaram-se por repensar a história universal das sociedades a partir de um único postulado: o capitalismo, a tirania ou o despotismo encontrariam seus limites nas máquinas desejantes de uma esquizofrenia bem-sucedida, isto é, nas redes de uma loucura não-entravada pela psiquiatria. (…) O livro, notável por sua verve antidogmática, pela beleza de seu estilo, pela generosidade da inspiração e pelo valor programático de seu ideal bioquímico e energético, não provocou nenhuma reforma do saber psiquiátrico no campo do tratamento da esquizofrenia e se inscreveu, da maneira mais simples do mundo, na história progressista da psicoterapia institucional.”

Publicado pela primeira vez em 1952, sob o título de DSM I, a princípio ele foi influenciado pelas teses higienistas de Adolf Meyer. Em 1968, sob o nome de DSM II, tornou-se a expressão de uma concepção puramente organicista da doença mental, da qual foi eliminada qualquer idéia de causalidade psíquica. Doze anos depois, após vastos debates sobre os abusos da psiquiatria na União Soviética, editou-se um novo manual, o DSM III, no qual se concretizou uma escolha deliberadamente <ateórica>. A própria noção de doença da alma, ou loucura, com seus 2 mil anos de idade, foi liquidada, em prol de uma classificação dos indivíduos segundo o comportamento e os sintomas. Ao mesmo tempo, a esquizofrenia e a histeria desapareceram do quadro. Assim foram abolidos os dois grandes paradigmas da clínica freudo-bleuleriana, que havia dominado o século inteiro, dando uma nova significação ao universo mental do homem moderno.Com o sucesso considerável do DSM nas sociedades industriais avançadas, a psiquiatria deixou o campo do saber clínico para se colocar a serviço dos laboratórios farmacêuticos, e se transformou numa psiquiatria sem alma e sem consciência, baseada na crença nas pílulas da felicidade e adepta do famoso niilismo terapêutico tão combatido por Freud e Bleuler.”

* * *

Para Freud, PSICOSE = (PARANOIA + ESQUIZOFRENIA[PARAFRENIA em sem léxico]).

Quanto ao binômio principal da “loucura”, NEUROSE X PSICOSE, a parte da PSICOSE chamada PARANOIA (PROJETIVA apud KLEIN) seria mais próxima, nosograficamente, à NEUROSE, subtipo OBSESSÃO. Formas mais monistas ou simplórias de ‘ser louco’, se posso assim dizer. Faltam nuances para estes arquétipos se igualarem ou equipararem a nós, os reis-loucos!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Binswanger, “Der Fall Ellen West. Studien zum Schizophrenieproblem”, Schweiz. Archiv für Neurologie und Psychologie, vols. 54, 55 & 58, 1945;

______. Le Cas Suzan Urban (1952), Paris, Desclée de Brouwer, 1958;

______. Schizophrenie, Pfullingen, Günther Neske, 1957;

Garrabé, Histoire de la schizophrénie, Paris, Seghers, 1992;

Laplanche, Hölderlin e a questão do pai (Paris, 1961), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991.

estágio / estádio em português de Portugal (oral, anal, fálico, genital)

A noção de estádio fálico só veio a surgir num artigo de 1923,A organização genital infantil, mas a do falicismo já estava presente em 1915 num adendo aos Três ensaios, o que permitiu a Freud atribuir à libido uma única essência, de natureza masculina (viril), tanto na menina quanto no menino.”

Entram num bar: um judeu, uma feminista e um relativista…

estágio do espelho ou fase do espelho

Durante uma conferência proferida na Sociedade Psicanalítica de Paris em 16 de junho de 1936, Lacan retomou a terminologia de Wallon, transformando a prova do espelho num <estágio do espelho>, isto é, numa mistura de posição, no sentido kleiniano, e estágio, no sentido freudiano.¹ Assim desapareceu a referência walloniana a uma dialética natural: na perspectiva lacaniana, o estágio do espelho já não tinha muito a ver com um verdadeiro estágio nem com um verdadeiro espelho. Transformava-se numa operação psíquica, ou até ontológica, pela qual o ser humano se constitui numa identificação com seu semelhante.”

¹ “O termo francês phase — momento de virada — conviria indubitavelmente melhor do que stade — etapa de uma maturação psicobiológica; o próprio Lacan o indicou (1957).”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Lacan, Os complexos familiares na formação do indivíduo (1938, Paris, 1984), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987;

______. “O estádio do espelho como formador da função do eu” (1949), in:Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 96-103;

______. O Seminário, livro 1, Os escritos técnicos de Freud (1953-1954) (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979 (1998);

Bolk, Das Problem der Menschwerdung, 1926. Fr., in: Arguments, 1960, 18, 3-13.

Estudo autobiográfico, Um

Obra de Freud publicada em 1925, sob o título genérico da coleção dirigida pelo professor Dr. L.R. Grote, Die Medizin der Gegenwart in Selbstdarstellung (A medicina contemporânea apresentada por ela mesma). Reeditada em 1928 nos Gesammelte Schriften e, mais tarde, em 1934, sob a forma de livro, com o título Selbstdarstellung. Traduzido para o francês pela primeira vez em 1928, por Marie Bonaparte, sob o título Ma vie et la psychanalyse, e posteriormente, em 1984, por Fernand Cambon, sob o título Sigmund Freud présenté par lui-même. Retraduzido por Pierre Cotet e René Lainé em 1992, sob o título Autoprésentation. Traduzido para o inglês pela primeira vez em 1927, por James Strachey, sob o título An Autobiographical Study, reeditado em 1935 com o título Autobiography, acompanhado por um pós-escrito, e por fim, em 1959, sob o título An Autobiographical Study.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Érik Porge, Freud/Fliess, Mito e quimera da auto-análise (Paris,1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

etnopsicanálise

Desde a Antiguidade, colocou-se a questão da existência de doenças específicas das diferentes culturas, e é na coleção hipocrática do Tratado dos ares, das águas e dos lugares que encontramos a famosa descrição da <doença dos citas> (Rússia meridional), que serviria de modelo para a constituição, no Ocidente, de um discurso da psicopatologia baseado na separação entre a racionalidade e a magia: <Quando fracassam em suas relações com as mulheres, na primeira vez eles (os citas) não se inquietam, conservando a calma. Ao cabo de duas, três ou várias tentativas que não dão nenhum resultado, e acreditando haver cometido algum pecado contra a divindade à qual atribuem a causa disso, eles vestem a roupa das mulheres, confessando sua impotência. Depois, assumem a voz das mulheres e executam a seu lado os mesmos trabalhos que elas.>(…) Constatando que o sintoma atingia cavaleiros ricos, deduzia que a prática cotidiana da equitação alterava as vias seminais e provocava, a longo prazo, uma impotência sexual. (…) A seu ver [agora Heródoto], de fato, a deusa Afrodite infligira essa doença <feminina> aos descendentes de alguns citas culpados pela pilhagem do templo de Ascalon, na Palestina. O <pecado>, portanto, fora transmitido de uma geração para outra. Quanto aos descendentes das famílias amaldiçoadas, que outrora haviam suscitado a cólera divina, eles eram atingidos por um destino trágico.”

Terá o distúrbio mental como origem uma história familiar, um destino (fatum), um romance familiar, ou será que é produzido por uma deficiência fisiológica, funcional ou orgânica?”

[No século XIX] a doença dos citas pôde ser assimilada a um transexualismo ou a uma paranóia” O ou sempre mata

Do mesmo modo, a fúria dos Berserks (entre os antigos guerreiros escandinavos) ou a maldição de Amok (entre os malaios) encontraram lugar sob as designações de estados maníacos, surtos delirantes ou psicoses alcoólicas. Em 1904, Kraepelin publicou os resultados de sua pesquisa e deu a esse campo o nome de psiquiatria comparada. Dela nasceram a etnopsiquiatria e, mais tarde, a psiquiatria transcultural, que se desenvolveu nos Estados Unidos e no Canadá, em especial na universidade McGill, de Montreal, onde trabalhou Henri F. Ellenberger.”

primeiro a etnopsiquiatria esteve aliada à psicologia dos povos, depois à psiquiatria colonial e, por fim, ao desenvolvimento da antropologia e da etnologia. Conforme a ocasião, favoreceu ora a universalização do discurso científico sobre a doença mental, ora o tácito restabelecimento do diferencialismo étnico (impondo-se então como uma espécie de departamento psiquiátrico a serviço dos povos não-civilizados, que se tratavam com feiticeiros e ainda estavam convencidos da origem religiosa da loucura).” “Georges Devereux, aluno de Marcel Mauss, psicanalista e etnólogo de campo, reuniu as duas disciplinas — a etnopsiquiatria e a etnopsicanálise —, associando as teorias freudianas às de Claude Lévi-Strauss. Ao fazê-lo, estabeleceu as bases de uma espécie de antropologia da loucura, que recorria, ao mesmo tempo, à psicanálise, à psiquiatria e à etnologia. § Definitivamente emancipada da psicologia dos povos e da psiquiatria colonial, a etnopsicanálise separou-se então da antropologia, transformando-se numa disciplina hostil a qualquer universalismo e servindo para tratar das minorias urbanas e das populações migratórias dos países ocidentais, com a ajuda de suas próprias técnicas xamanísticas. Dentro dessa linha, ela evoluiu para um culturalismo radical, hostil à psicanálise da qual ela havia saído e valorizador da identificação entre o prestador de cuidados e o feiticeiro. § Quanto a esse aspecto, convém constatar que nem Roheim nem Devereux formaram discípulos e que a antropologia psicanalítica, no sentido como eles a entendiam, deixou de existir com esses pesquisadores, deslizando então quer para o lado da magia e das medicinas paralelas, quer para o lado do engajamento militante anti-ocidental.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Edmond & Marie-Cécile Ortigues, Oedipe africain, Paris, Plon, 1966;

Roger Bastide, Le Rêve, la transe, la folie, Paris, Flammarion, 1972;

Marc Augé, “Ordre biologique, ordre social: la maladie, forme élémentaire de l’événement”, in: M. Augé e C. Herzlich (orgs.), Le Sens du mal. Anthropologie, histoire, sociologie de la maladie, Paris, Éd. des Archives Contemporaines, 1984.

Eu e o Isso, O

Livro publicado por Sigmund Freud em 1923, sob o título Das Ich und das Es. Traduzido para o francês pela primeira vez em 1927, por Samuel Jankélévitch, sob o título Le Moi et le Soi. Essa tradução foi revisada por Angelo Hesnard e reeditada em 1966, sob o título Le Moi et le Ça. Uma nova tradução foi feita em 1981 por Jean Laplanche & Jean-Bertrand Pontalis, sob o título Le Moi et le Ça, e depois, em 1991, por Catherine Baliteau, Albert Bloch & Joseph-Marie Rondeau, sem modificação do título. Traduzido pela primeira vez para o inglês por Joan Riviere, em 1927, sob o título The Ego and the Id. Essa tradução foi revista por James Strachey e republicada em 1961, sem alteração do título.

Desde seu lançamento, O eu e o isso foi acolhido com entusiasmo pela comunidade psicanalítica, ainda que alguns tenham feito certas reservas à homenagem nele prestada por Freud a Georg Groddeck, autor do Livro d’Isso,¹ publicado alguns meses antes.”

¹ Já postado no SECLUSÃO.

durante o verão de 1922, Freud estava perfeitamente cônscio de dar continuidade, através desse terceiro ensaio, à vasta reformulação teórica iniciada com Mais-além do princípio de prazere prosseguida na Psicologia das massas e análise do eu.”

A existência de uma parte inconsciente no eu, oposta por clivagem ao eu coerente, impunha que se reconhecesse a existência de três inconscientes: um inconsciente assimilável ao recalcado, um inconsciente dependente do eu, distinto do recalcado, e um inconsciente latente, o pré-consciente. Ao mesmo tempo, já não era possível definir a neurose como o resultado de um conflito entre o consciente e o inconsciente.”

Apoiando-se no texto de Groddeck, Freud estabelece uma distinção fundamental entre um eu consciente e o eu <passivo> groddeckiano, isto é, um eu inconsciente, que ele passa desde então a chamar, <à maneira de Groddeck>, de isso.” Realmente um discípulo de Groddeck, e não o inverso, como a historiografia hegemônica quer passar.

Seja qual for a forma do complexo de Édipo, positiva, negativa ou intermediária[negativa = gay], e seja qual for sua resolução final, o supereu conserva o caráter do pai [metáfora de civilização e gênio interior]: <Quanto mais forte é o complexo de Édipo e quanto mais depressa se produz seu recalcamento (sob a influência da autoridade, da instrução religiosa [a importância da primeira comunhão!], do ensino [adaptação à escola], das leituras [caso pessoal: contracorrente das pulsões paternas]), mais severa será, posteriormente, a dominação do supereu sobre o eu como consciência moral, ou até como sentimento de culpa inconsciente.” (TIRANIA DOS AVÓS IMAGINÁRIOS)

O ideal do eu/supereu aparece, portanto, como o herdeiro do complexo de Édipo, e constitui, por isso mesmo, a expressão mais acabada do desenvolvimento da libido do isso.”

Na melancolia e na neurose obsessiva, o sentimento de culpa persiste e corresponde ao que chamamos <consciência moral>. Em ambos os casos, o ideal do eu investe contra o eu com rara ferocidade, mas as formas dessa severidade e as respostas do eu são diferentes. Na neurose obsessiva, o paciente recusa sua culpa e pede ajuda. [Não literalmente na maioria dos casos – através de sintomas físicos.] Confrontado com uma aliança entre o supereu e o isso, desconhece as razões da repressão de que é vítima. Na melancolia, o eu se reconhece culpado e podemos formular a hipótese de que o objeto da culpa já está no eu, como produto da identificação.

Em outros casos, como na neurose histérica, por exemplo, o sentimento de culpa é totalmente inconsciente. Posto em perigo por percepções dolorosas, provenientes do supereu, o eu, contrariando seu senhor, serve-se então do recalque, quando de praxe coloca esse recalque a serviço dele.” Só há uma neurose, mas Freud separa a de sintomas psíquicos (obsessão) e a somática (histeria). Não existe completa inconsciência do que existe. Uma culpa não é culpa se não é sentida. É na verdade sua manifestação por outros órgãos do corpo que não o cérebro. Da sola do pé à raiz dos cabelos.

No caso da melancolia, o supereu se apodera do sadismo para arrasar o eu. Mas se trata, nessa situação, daquela parcela do sadismo que é irredutível ao amor: sua instalação no supereu e seus ataques exclusivamente dirigidos contra o eu constituem o caso singular de uma dominação absoluta da pulsão de morte, passível, com muita freqüência, de levar o eu a seu fim.” Nunca foi meu caso estrito. “Na neurose obsessiva, o sujeito, mesmo sendo exposto a recriminações igualmente duras, nunca chega, por assim dizer, à autodestruição: diversamente do histérico, ele mantém uma relação com o objeto contra o qual as pulsões destrutivas podem inverter-se em pulsões de agressão.”

Por que essa especificidade da melancolia, cujo quadro clínico de fato parece constituir o argumento decisivo a favor da existência das pulsões de morte? Um primeiro elemento de resposta, observa Freud, nisso contrariando o senso comum, é que, quanto mais um homem restringe sua agressividade contra o exterior, mais ele a aumenta em relação a si mesmo.” Socinar, o Narciso invertido.

Ey, Henri

Nascido em Banyuls-dels-Aspres, na região catalã, esse homem caloroso, gourmet refinado, grande fumante de charutos e apaixonado por tauromaquia, ocupa na história do movimento psiquiátrico francês um lugar equivalente ao de Lacan na França freudiana. Foi colega de residência deste no hospital Sainte-Anne nos anos 1930. Aluno de Henri Claude, assumiu em 1933 a direção do hospital psiquiátrico de Bonneval, situado na Beauce, onde praticou uma nova abordagem das doenças mentais, inspirada nos trabalhos de Freud e Bleuler.”

Se Hughlings Jackson libertou a neurologia de seus pressupostos mecanicistas, Freud abandonou a neurologia para fundar uma nova teoria do inconsciente e dar à psiquiatria uma concepção inédita da loucura. Ora, segundo Ey, era preciso reunir a neurologia à psiquiatria, para dotar esta última de uma verdadeira teoria capaz de integrar o freudismo.”

Henri Ey contestaria durante os anos 1960 os princípios da antipsiquiatria. Também se oporia às teses de Foucault sobre a questão da loucura, julgando-as <psiquiatricidas>.

Apesar de todos os esforços que fez, visando o desenvolvimento de uma psiquiatria humanista que levasse em conta ao mesmo tempo a subjetividade do doente e a nosografia clássica, a Association Mondiale de Psychiatrie, tornando-se inteiramente americana sob o nome de World Psychiatric Association (WPA), nada guardou de sua herança clínica e, no fim do século XX, recorreria apenas à farmacologia, reduzindo assim o fenômeno da loucura a sintomas puramente comportamentalistas, desprovidos de qualquer significação para os próprios sujeitos: um verdadeiro retorno ao niilismo terapêutico que Freud combatera em sua época.” Forte sensação de déjà vu…

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Ey, Traité des hallucinations, Paris, Masson, 1977;

Ey, Encyclopédie medico-chirurgicale: Psychiatrie.

falo

referimo-nos, então, de modo mais ou menos explícito, ao uso deste termo na Antiguidade, quando designava a representação figurada, pintada, esculpida, etc., do órgão viril, objeto de veneração que desempenhava um papel central nas cerimônias de iniciação (Mistérios).”

Nessa época longínqua, o falo em ereção simbolizava o poder soberano, a virilidade transcendente, mágica ou sobrenatural, e não a variedade puramente priápica do poder masculino, a esperança da ressurreição e a força que pode produzi-la, o princípio luminoso que não tolera sombras nem multiplicidade e sustenta a unidade que brota eternamente do ser. Os deuses itifálicos Hermes e Osíris encarnam esta aspiração essencial.”Laurin

Não se poderia atribuir ao símbolo falo uma significação alegórica determinada, por mais ampla que a queiramos (fecundidade, poder, autoridade, etc.).”

O fato, percebido por Freud desde A interpretação dos sonhos e largamente confirmado pela investigação analítica, de que o sujeito como pessoa total pode ser identificado ao falo não infirma a idéia precedente: nesse momento é mesmo uma pessoa que é assimilada a um objeto capaz de ser visto, exibido, ou ainda de circular, ser dado e recebido.”

fantasia (Phantasie em Alemão, fantasme em Francês)

Ver verbetes sonho diurno (daydream) e os dois próximos.

Em francês, o termo fantasme voltou a ser posto em uso pela psicanálise e, como tal, está mais carregado de ressonâncias psicanalíticas do que o seu homólogo alemão. Por outro lado, não corresponde exatamente ao termo alemão, visto que a sua extensão é mais restrita. Designa determinada formação imaginária e não o mundo das fantasias, a atividade imaginativa em geral.

Daniel Lagache propôs retomar no seu sentido antigo o termo fantaisie, que tem a vantagem de designar ao mesmo tempo uma atividade criadora e as produções, mas que, para a consciência lingüística contemporânea, dificilmente pode deixar de sugerir os matizes de capricho, originalidade, ausência de seriedade, etc.”

Em A interpretação dos sonhos, Freud ainda descreve as fantasias a partir do modelo dos sonhos diurnos. Analisa-as como formações de compromisso e mostra que a sua estrutura é comparável à do sonho. Essas fantasias ou sonhos diurnos são utilizados pela elaboração secundária, fator do trabalho do sonho que mais se aproxima da atividade de vigília.”

fantasias originárias (Urphantasien)

As reservas que suscita a teoria de uma transmissão genética hereditária não devem, na nossa opinião, levar-nos a considerar igualmente caduca a idéia de que existem, na fantasística, estruturas irredutíveis às contingências do vivido individual.”

fenômeno funcional (sonho)

Ver verbete sonho diurno (daydream)

Freud reconheceu no fenômeno funcional <…um dos raros aditamentos à doutrina dos sonhos cujo valor é incontestável. Herbet Silberer provou a participação da auto-observação — no sentido do delírio paranóico — na formação do sonho>. Freud foi convencido pelo caráter experimental da descoberta de Silberer, mas limitou o alcance do fenômeno funcional aos estados situados entre a vigília e o sono ou, no sonho, à <autopercepção do sono ou do despertar> que por vezes pode acontecer e que ele atribui ao censor do sonho, ao supereu.”

…há porém quem chegue a falar de fenômeno funcional cada vez que atividades intelectuais ou processos afetivos aparecem no conteúdo dos pensamentos do sonho, embora este material não tenha mais nem menos direitos a penetrar no sonho do que qualquer outro resto diurnoF.

Para a crítica da concepção ampliada de Silberer, é interessante reportar-se ao estudo de Jones, A teoria do simbolismo (The Theory of Symbolism, 1916).”

Ferenczi, Sandor

Nascido em Miskolc, na Hungria, originário de uma família de judeus poloneses imigrantes, Sandor Ferenczi foi não só o discípulo preferido de Freud, mas também o clínico mais talentoso da história do freudismo. Foi através dele que a escola húngara de psicanálise, da qual foi o primeiro animador, produziu uma prestigiosa filiação de artífices do movimento, entre os quais Melanie Klein, Geza Roheim e Michael Balint.”

O pai de Ferenczi era um simpático livreiro, que se empenhara com fervor na revolução de 1848 antes de se tornar editor militante, favorável à causa do renascimento húngaro. Assim, mudara seu nome, de sonoridade alemã (Baruch Fraenkel), para um patronímico magiar (Bernat Ferenczi). Deu ao filho predileto, o oitavo entre 12, uma educação em que prevaleciam o culto da liberdade e um gosto acentuado pela literatura e pela filosofia.”

Atacava os preconceitos reacionários da classe dominante, que tendia a designar aqueles que se chamavam uranianos como degenerados responsáveis pela desordem social.”

Partindo de um combate contra o niilismo terapêutico, Freud elaborou uma teoria da neurose e da psicose que superava amplamente os limites da clínica. Sempre consciente de seu próprio gênio e da importância de sua descoberta, sabia dominar seus afetos e mostrar-se implacável para com seus adversários. Acima de tudo, amava a razão, a lógica, as construções doutrinárias. Mais intuitivo, mais sensual e mais feminino, Ferenczi procurava na psicanálise os meios de aliviar o sofrimento dos pacientes.Era menos atraído pelas grandes hipóteses genéricas do que pelas questões técnicas. Assim, era mais inventivo [texto contraditório; mas não prejudica o entendimento] que Freud na análise das relações com o outro. Em 1908, descobriu a existência da contratransferência, explicando a seu interlocutor sua tendência em considerar os assuntos do paciente como seus próprios. Dois anos depois, F. conceitualizou essa noção, fazendo dela um elemento essencial na situação analítica. Entre ambos, portanto, o intercâmbio epistolar teve como função fazer surgir novas problemáticas, que serviam depois para alimentar a doutrina comum.

Como muitos pioneiros do freudismo, Ferenczi experimentou em si mesmo os efeitos de suas descobertas. Em 1904, tornou-se companheiro de Gizella Palos, 8 anos mais velha que ele. Essa ligação era tolerada pelo marido desta, que entretanto lhe recusava o divórcio. Gizella vivia com suas duas filhas, Magda, casada com o irmão mais novo de Sandor, e Elma, nascida em 1887. Não só Ferenczi tornou-se, em 1908, analista de sua amante, como também não hesitou em tratar de Elma, sua enteada, quando esta apresentou sintomas de depressão 3 anos depois.

Inutilmente Freud o advertiu contra os perigos de uma prática como essa. Implicado em uma espécie de auto-análise epistolar, ele procurava desafiar Freud, pedindo-lhe que o reconhecesse como um pai reconhece o filho, dando-lhe a entender ao mesmo tempo que podia perfeitamente passar sem ele. Em novembro de 1911, depois do suicídio com arma de fogo do noivo de Elma, anunciou a Freud que estava apaixonado pela jovem. Disse que não sentia mais desejo sexual por Gizella, muito idosa, e queria fazer com que ela ocupasse uma posição de sogra, fundando uma família com sua filha. Na verdade, queria ficar com as duas. Logo, anunciou sua intenção de se casar com Elma.” J-O-C-(asta-)O-S-O

Finalmente, percebeu que se envolvera em uma confusão transferencial e desistiu de desposar a jovem, junto a quem ocupou uma posição de médico e de analista. Mas, não podendo conduzir adequadamente o tratamento, obrigou Freud a analisar Elma e depois fez-se analisar em 3 ocasiões pelo mestre, entre 1914 e 1916. Este agiu então como um pai autoritário, obrigando Ferenczi a casar-se com Gizella e a renunciar a Elma.” “De qualquer forma, o episódio dessa confusão familiar e transferencial pode ser compreendido como a matriz de todas as reflexões posteriores sobre o estatuto incerto do tratamento psicanalítico, oscilando sempre entre um excesso de conformismo adaptador, que seria denunciado por Ferenczi e seus partidários, e a ausência de lei, contra a qual reagiriam os herdeiros ortodoxos de Freud.”

Membro do Comitê Secreto a partir de 1913, participou de todas as atividades de direção do movimento freudiano, formando com Otto Rank e Freud um pólo <sulista> e austro-húngaro, diante das iniciativas mais rígidas e burocráticas dos discípulos vindos do norte da Europa: Karl Abraham, Ernest Jones, Max Eitingon. Mas foi nesse período que se desenrolou o grande debate sobre a telepatia, em torno do qual se cristalizaram os conflitos entre Jones, partidário de uma psicanálise racionalista empírica, e Ferenczi, muito mais aberto a experiências julgadas desviantes, irracionais ou extravagantes por seu adversário.”

Em março de 1919, Bela Kun proclamou a República dos Conselhos, enquanto em Budapeste era criada, pela primeira vez no mundo, uma cátedra de ensino da psicanálise na universidade. Ferenczi foi, naturalmente, nomeado para esse posto. Mas, quatro meses depois, a Comuna foi reprimida com sangue pelas tropas do almirante Miklos Horthy. A Hungria caiu então sob o jugo de outra ditadura, e os brilhantes representantes da escola húngara de psicanálise, florão do movimento, começaram a emigrar. Berlim tornou-se o centro nevrálgico do movimento freudiano”

A partir de 1919, como Rank, Ferenczi se empenhou na reforma completa da técnica psicanalítica. Inventou primeiro a técnica ativa, que consiste em intervir diretamente no tratamento, através de gestos de ternura e afeto, e depois a análise mútua, durante a qual o analisando é convidado a <dirigir> o tratamento ao mesmo tempo que o terapeuta, antes de reatar com a teoria do trauma, denunciando a hipocrisia da corporação analítica em um texto famoso de 1932, intitulado Confusão de línguas entre os adultos e a criança. Através dessa exposição, que suscitou a oposição de Jones e de Freud, relançava todo o debate sobre a teoria da sedução.”

Jones o chamaria de psicótico:<Ferenczi sempre acreditou firmemente na telepatia. Depois, foram os delírios sobre a pretensa hostilidade de Freud. No fim, apareceu uma violenta paranóia, acompanhada até de explosões homicidas. Foi o fim trágico de uma personalidade brilhante…>

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

André Haynal, “Da correspondência (com Freud) ao Diário (de Ferenczi)”, Revista Internacional da História da Psicanálise, 2 (1989), Rio de Janeiro, Imago, 1992, 153-64; “Notas sobre a história da correspondência Freud-Ferenczi”, ibid., 219-28;

Sandor Ferenczi, Thalassa: A Theory of Genitality, 1924;

Sandor Ferenczi & Georg Groddeck, Correspondance, Paris, Payot, 1982.

Fliess, Robert

Filho de Wilhelm Fliess e Ida Bondy (ex-paciente de Josef Breuer), Robert Fliess foi, como Anna Freud, um filho da psicanálise.” “Em uma de suas obras, publicada depois de sua morte, adotou a antiga teoria freudiana da sedução, para enfatizar que todos os neuróticos graves tinham sido atingidos na infância por traumas reais ou por abusos sexuais. Essa posição permitiria à historiografia revisionista, e principalmente a Jeffrey Moussaïeff Masson, editor da correspondência de Freud e Wilhelm Fliess, relançar o debate sobre a sedução e formular a hipótese, sem provas, de que o próprio Robert Fliess teria sido vítima de seu pai.”

Fliess, Wilhelm

Personagem pitoresco, amigo íntimo de Freud e teórico da bissexualidade, Wilhelm Fliess pertence à longa linhagem de sábios prometéicos da literatura romântica, cujos traços se encontram na obra de Thomas Mann.”

Sua amizade foi curta mas apaixonada, como são habitualmente essas aventuras iniciáticas de uma juventude à procura de identidade intelectual, e foi acompanhada de uma bela correspondência, da qual infelizmente só se conhece a parte escrita por Freud.

Maravilhoso correspondente, Freud descreveu com prazer aquilo que chamou de sua autoanálise. Ao longo das páginas, descobrimos como ele adotou as teses do amigo sobre a bissexualidade para transformá-las, e depois como elaborou suas primeiras hipóteses sobre a histeria, a neurose e o Édipo. As cartas também relatavam o abandono da teoria da sedução, acontecimento central na relação entre ambos, o episódio do caso Emma Eckstein, e enfim a gênese de A interpretação dos sonhos. Continham uma multiplicidade de detalhes sobre a vida cotidiana e sexual do autor, e muitas outras informações de todo tipo. A correspondência terminou em setembro de 1902.

Preocupado em não desvelar para a posteridade sua relação com Fliess, Freud destruiu as cartas do amigo. Mas em 1936, Charles Fliess (1899-1956), irmão mais velho de Robert, vendeu a um comerciante as cartas de Freud, que seu pai guardara até a morte. Foi então que Marie Bonaparte as comprou e as conservou, contra a opinião do mestre, que se recusava obstinadamente a que fossem publicadas, nem queria que elas fossem conhecidas. Em 1950, com a ajuda de Ernst Kris e de Anna Freud, ela publicou algumas, sob o título O nascimento da psicanálise. Só em 1985 foi enfim publicada uma edição completa, depois de um escândalo nos Arquivos Freud.”

formação reativa (hipocrisia)

Em termos econômicos, a formação reativa é um contra-investimento de um elemento consciente, de força igual e de direção oposta ao investimento inconsciente. As formações reativas podem ser muito localizadas e se manifestar por um comportamento peculiar, ou generalizadas até o ponto de constituírem traços de caráter mais ou menos integrados no conjunto da personalidade.

Do ponto de vista clínico, as formações reativas assumem um valor sintomático no que oferecem de rígido, de forçado, de compulsivo, pelos seus fracassos acidentais, pelo fato de levarem, às vezes diretamente, a um resultado oposto ao que é conscientemente visado (summum jus summa injuria).”Quando o excessivamente polido acaba sendo o fulcro de várias agressões ao ter elegido sua postura com base no preceito de que não deseja mais ser agredido.

virtudes morais levadas ao extremo”

contra-investimento permanente”

assim, determinado sujeito dará provas, de um modo geral, de piedade para com os seres vivos, enquanto a sua agressividade inconsciente visa determinadas pessoas em particular.” METÁFORA HIDRÁULICA EM ESTADO BRUTO. Xinga muito no twitter, baixa a cabeça no trabalho diante dos mais maus-caracteres. Tratar mal um Kikuchi, um Emannoel ou uma “Help” da vida.

BRIGAR. BRIGAR. BRIGAR. DESCER O SOCÃO EM ALGUÉM.

O sujeito reativo (…) mudou a estrutura da sua personalidade como se esse perigo estivesse sempre presente, para estar pronto em qualquer momento em que surgir.” Fenichel,The Psychoanalytic Theory of Neurosis, 1945.

As formações reativas são especialmente patentes no <caráter anal>(ver: neurose de caráter).”

The hot-tempered ones from my ex-family, oh, they think alcohol induces it all…

Obsequioso com professores e autoridades em geral…

ELE ANDA ESQUENTADINHO (ELE “É”, PORÉM PARA SE ESTABILIZAR MATERIALMENTE NA VIDA TEVE DE PÔR RÉDEAS EM SI MESMO): “numa dada formação reativa, podemos descobrir a ação da pulsão contra a qual o sujeito se defende [a virulência paterna]; por um lado, esta irrompe bruscamente, quer em certos momentos, quer em certos setores da atividade do sujeito [ULTRASSADISMO INTERMITENTE – escritor ferino, bad hair days], e são precisamente estes fracassos flagrantes, contrastando com a rigidez [quase estóica!] da atitude exibida pelo sujeito, que permitem conferir a determinado traço da personalidade o seu valor sintomático

A dona de casa dominada pela idéia de limpeza não estará centrando a sua existência no pó e na sujeira?”A imbecil para quem a vida é estática: Mas você era tão organizado, tão cuidadoso com suas coisas… EU NÃO ACEITO QUE ISSO NÃO CONTINUE EXATAMENTE COMO QUANDO VOCÊ TINHA 10 ANOS DE IDADE!

Estou centrando minha existência na desgraça alheia e na punição invisível de quem ousa ter uma vida completamente distinta da minha e ainda tem a CARA-DE-PAU de se atribuir qualquer VALOR, quem dirá SUPERIORIDADE INCONTESTE! “Viu só… eu não te disse?” Mas na verdade eu não te disse… Porque eu detesto dar conselhos, isso não é do meu feitio… Mas agora você sabe que não deveria ter desperdiçado o SEU tempo dando-me conselhos, eu, um MESTRE DA MORAL. Porque você cometeu um erro infantil ao demonstrar quão hipócrita é… Ops, deslize! Pois é, eu não te disse, mas ESTAVA NA CARA! Nisso eu gozo. No devir dos imbecis, sendo eu o exato contrário. Eu gosto de ver os mais velhos se fodendo, e sentir meus cabelos brancos cada vez mais próximos de aparecerem… Eu gosto de ver o überfit adquirindo uma doença letal e limitante, o defensor da família vendo sua família e sua felicidade-do-lar se desintegrando em pó… O curser testemunhando o meu sucesso e independência. A profecia se tornando verdade. A ironia socrática de cada dia nos dai hoje…

Sim, o Senhor Metafísica há de se comover com cada tropicão de escada, com cada má-nova de cada ex-conhecido seu… Esse é o alento necessário para se respirar no Céu-pedestal dos grandes homens. Compreenda-me como uma árvore que chupa sua vida, ou melhor, se nutre, do seu dejeto involuntário, o gás carbônico da sua falação diuturna sem-sentido… Uma árvore cuja seiva é mais e mais pura e retribui com obras cristalinas o falatório sujo e vil dos homenzinhos passeando no jardim… Lá embaixo.

A formação reativa poderia ser então definida como uma utilização [mal-feita] pelo eu da oposição inerente à ambivalência pulsional.”

FATUM & ENFADO

Eu tinha de ter escritos sórdidos e boca-suja para ser um homem de caráter quando chegasse o tempo (pós-adolescência e primeira juventude)… Nunca deixarei de ser uma personalidade controversa, por onde quer que se me estude amanhã…

Demorou menos para eu me formar como homem do que para obter aquele papelzinho vale-bosta de graduado universitário… Imagine a dor que essa árvore (planta rara) sentiu durante esse curto espaço de tempo… É praticamente indescritível! Hoje, hoje não é nada, tudo são jujubas doces… Mas só pela RESSONÂNCIA do que foram aqueles anos já consigo me arrepiar… Minha memória condescendente com minha evolução psicológica é a primeira grande prova de que eu sou – e assim serei considerado pelas gerações futuras, se chegarem a me conhecer – um grande homem.

sidenote: Santo Agostinho pode ser considerada uma dessas árvores que decidiu crescer demais e se monumentalizar já lá pelos seus quarenta… Quanto mais se hiberna, mais se sofre com o radicalismo da transformação, quando ela deixa de ser auto-adiada.

O meu momento de viragem foi à segunda leitura da obra Assim Falou Zaratustra, aos 19 ou 20 anos de idade. Talvez se eu não tivesse engordado àquela época não teria tido como sobreviver à fome da alma que senti e à ânsia pantagruélica por uma luz para estes olhos cegos… Quando menos tinha liberdade, porque eu mesmo a suprimia, era quando eu mais me regalava com pão, bela lição, sr. Dosto.! Se um dia essas anotações tão subjetivas forem reunidas, só elas, para interesses autobiográficos, por mim ou outro qualquer, deviam(os) dar um nome como MEMÓRIAS DO CÁRCERE A CÉU ABERTO ou algo do tipo, que acha(m)? Que acho? Diacho, eu tenho menos livros para escrever do que livros prontos para compilar, e isso aos meus 31 anos… É um material infinito a meu dispor. Fico zonzo só de pensar seriamente por onde começar e que critério estabelecer, afinal… Porque uma coisa são meus escritos com interesses filosófico-literários, i.e., o mundo, e outra coisa sou eu, seu irmão gêmeo… Misteriosa preposição que está entre nós. Será você que lê uma delas, ou esse texto é menos lido que uma carta enrolada em uma garrafa nos Sete Mares mais remotos de um mundo com poucos piratas?!

Reconheço que sou medíocre perto dos últimos clássicos, mas que toda a minha soberba decorre da absoluta INCOMPETÊNCIA GENERALIZADA da minha própria época… Será concebível, num momento finalmente maduro para pelo menos me apreciar ou se condoer de mim?!? UMA CARTA PARA AURORA é outro título de que gosto muito… Quero pensar num Querido Diário que fosse uma linda mulher!

França

a França foi o único país do mundo onde foram reunidas, a longo prazo (de 1914 ao fim do século XX) e sem nenhuma interrupção, as condições necessárias à implantação da psicanálise em todos os setores da vida cultural e científica, tanto por via médica e terapêutica (psiquiatria, psicologia, psicologia clínica) quanto por via intelectual (literatura, filosofia, política, universidade).”

Essa concepção de língua era totalmente estranha à maioria dos outros países da Europa. Ela explica, de qualquer forma, que um gramático (Édouard Pichon) tenha tido papel tão importante na gênese da conceitualidade francesa do freudismo e tanta influência sobre os dois grandes mestres da psicanálise nesse país: Jacques Lacan, formalista mallarmaico de uma língua do inconsciente, e Françoise Dolto, porta-voz de um léxico de raiz perfeitamente adaptado à identidade nacional.”

O mito conta que, nessa época, Pinel recebeu a visita de Couthon (1756-1794), membro do Comitê de Salvação Pública, que procurava suspeitos entre os loucos. Todos tremiam ao ver o acólito de Robespierre (1758-1794), que deixara sua cadeira de paralítico para ser carregado por auxiliares. Pinel o conduziu até os alojamentos, onde a visão dos loucos agitados lhe causou um medo intenso. Recebido com injúrias, voltou-se para o alienista e lhe disse: <Cidadão, tu mesmo és louco para quereres libertar semelhantes animais?>O médico respondeu que os insensatos eram ainda mais intratáveis porque estavam privados de ar e liberdade. Couthon aceitou portanto a supressão das correntes, mas advertiu Pinel contra sua presunção. Foi transportado até seu veículo, e o filantropo pôde começar a sua obra: o alienismo acabava de nascer. Como o mito da peste, o da abolição das correntes foi questionado por todos os historiadores da psiquiatria, que explicaram que esse gesto simplesmente não ocorreu. Mas os mitos fundadores têm como característica serem mais significativos do que a realidade das coisas.”

Depois da Primeira Guerra Mundial e do acirramento do ódio à Alemanha, a psicanálise foi tratada de <ciência boche>, como aliás também a teoria da relatividade de Albert Einstein. Às reações violentas da imprensa somou-se o antifreudismo selvagem de duas grandes figuras da psicopatologia francesa: Georges Dumas (1866-1946) e Charles Blondel.”

Geralmente chauvinistas, os meios médicos não aderiram senão a uma concepção terapêutica da psicanálise. Os meios literários, por sua vez, acolheram bem a doutrina ampliada da sexualidade, recusaram-se a considerar o freudismo como <cultura germânica> e defenderam a análise leiga. Por esse lado, todas as correntes literárias em geral consideravam o sonho como a grande aventura do século.Inventou-se a utopia de um inconsciente feito de linguagem e aberto à liberdade e à subversão, e admirava-se acima de tudo a coragem com a qual um sábio austero ousara fazer escândalo ao desafiar a intimidade do conformismo burguês. A partir de 1920, a psicanálise obteve um sucesso considerável nos salões literários parisienses, e muitos escritores experimentaram um tratamento. Foi o caso, notadamente, de Michel Leiris (1901-1990), René Crevel (1900-1935), Antonin Artaud (1896-1948), Georges Bataille (1897-1962) ou Raymond Queneau (1903-1976).”

Em novembro de 1926, foi criada a primeira associação de psicanálise, a Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), composta de 12 membros”

Marginalizado desde 1935, René Laforgue tentou isoladamente instaurar em Paris um instituto <arianizado>, como o de Matthias Heinrich Göring. Não conseguiu. Quanto a Georges Mauco, único psicanalista francês adepto do nazismo, empenhou apenas a própria pessoa na colaboração. Por conseguinte, o movimento francês saiu incólume do período da ocupação e pôde assim desenvolver-se no momento em que, na Europa, só a Grã-Bretanha se encontrava na vanguarda do freudismo internacional, graças sobretudo à solidez de sua escola clínica que, embora cindida em três correntes, pertencia completamente à IPA: kleinismo, annafreudismo, Independentes.”

Excluída do movimento psicanalítico internacional, a obra lacaniana ocuparia a partir de então um lugar central na história do estruturalismo. Dez anos depois do momento fecundo de sua elaboração, o retorno lacaniano a Freud veio, efetivamente, ao encontro das preocupações de uma espécie de filosofia da estrutura, oriunda das interrogações da lingüística saussuriana e convertida, ela própria, na ponta de lança de uma oposição à fenomenologia clássica [mas Lacan não é hegeliano?]. A efervescência doutrinária, que se concretizou em torno dos trabalhos de Louis Althusser (1918-1990), de Roland Barthes (1915-1980), de Foucault e de Jacques Derrida, que tomou como objeto de estudo o primado da língua, o anti-humanismo, a desconstrução ou a arqueologia, se desenvolveu no interior da instituição universitária, preparando o terreno para a revolta estudantil de maio de 1968. A revista Tel Quel, animada por Philippe Sollers, desempenhou um papel idêntico ao da vanguarda surrealista do período entre-guerras.”

Essa [terceira] cisão [francesa] marcou a entrada do lacanismo em um processo de burocratização e de dogmatismo, e se distinguiu nitidamente das precedentes. De fato, até então, Lacan representava a renovação da doutrina freudiana, e as cisões se faziam <com> ele. Dessa vez, deixavam-no para fundar uma escola mais liberal.”

Membro da SPP, René Major deu então um impulso teórico e político à dissidência dos anos 1975-1980, que afetou os 4 grandes grupos freudianos. Baseando-se nas teses de Derrida, criou uma revista e um grupo, que tomaram o nome de Confrontation. Daí a emergência de uma corrente derridiana da psicanálise, que serviria para criticar todas as formas de dogmatismo institucional.”

Nos anos 90, após a morte de Lacan, a França viu seu número de associações psicanalíticas se atomizar até a espantosa cifra de 19, incluindo as 2 únicas associações filiadas à IPA! A grande ironia é que a virtual totalidade delas é freudiana.

No fim do século, o número de psicanalistas franceses de todas as tendências se elevou a cerca de 5 mil, para uma população de 58 milhões, dos quais mil para as duas sociedades pertencentes à IPA (inclusive alunos), ou seja, uma taxa de 96 psicanalistas por milhão de habitantes, a mais alta do mundo [1 para 10 mil]. Jacques Lacan conseguiu assim, auxiliado por Françoise Dolto, fazer da França o país mais freudiano, o único, pouco antes da Argentina, em que a psicanálise se tornou ao mesmo tempo um componente maior da vida intelectual e uma real terapêutica de massa.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Breton & Soupault, Os campos magnéticos

Freud, Amalia, née Malka Nathanson (1835-1930), mãe de Sigmund Freud

Freud foi adorado pela mãe e teve uma relação privilegiada com ela. Foi a partir desse contato que ele construiu sua teoria do complexo de Édipo, cuja evocação se encontra na Interpretação dos sonhos. Aos 4 anos, deslumbrou-se com sua nudez e teve, 6 anos depois, um célebre sonho de angústia: <Minha mãe querida, com uma expressão no rosto particularmente tranqüila e adormecida, levada para o seu quarto e estendida no leito por 2 (ou 3) personagens com bicos de pássaro.>

Consciente do amor que sua mãe lhe dedicava,¹ Freud declarou muitas vezes, especialmente a propósito de Goethe, que <quando se foi o favorito inconteste de sua mãe, guarda-se pela vida inteira uma sensação conquistadora, uma segurança de sucesso que muitas vezes leva efetivamente ao sucesso>. Nada é mais verdadeiro, e o laço que une freqüentemente todo criador (escritor ou artista) à sua mãe está aí para provar, principalmente nos casos de homossexualidade bem-sucedida [???].”

¹ Realmente, quanto às famílias européias até o séc. XIX, ser o mais benquisto entre os irmãos devia ser como passar num vestibular ou ser o primeiro da turma. O que representa isso hoje, quando disputamos os louros com apenas mais 1 ou 2, quando muito?

DICIONÁRIO PSICANALÍTICO OU FÃ CLUBE? “[Freud] adotou em relação à morte a atitude de aceitação típica daqueles que se sentem imortais¹ porque puderam realizar o luto do primeiro objeto de amor: a mãe amorosa.”

¹ Aceitação da morte pelo imortal? Reconstrua a frase, por favor. Desse ponto de vista, a psicanálise me é mais fatalista que qualquer schopenhauerismo ultimado… Em suma: estou(estaria) fodido!

Pode-se acrescentar que a constatação que Freud fez sobre o <filho preferido> foi corroborada de modo negativo pelas descobertas de Melanie Klein sobre a primeira infância. Inspirando-se em sua relação detestável com a própria mãe, Klein mostrou,¹ efetivamente, que o ódio primordial que ligava a criança à mãe era fonte de todas as perturbações psicóticas e neuróticas posteriores, assim como a causa primeira e inconsciente de todos os fracassos amorosos e profissionais da idade adulta,2aDaí a necessidade de uma análise precoce [hm].”

¹ Provou? Mesmo?

² Pendente: conceito de fracasso.

2a Difícil fracassar como funcionário público. E, de toda forma, “menos fracassado” em terra de fracassados já é algo próximo de aristocracia privilegiada… Homem ético em terra de Bozo é rei imortal.

A cena primária pode tê-lo tornado relativamente impotente […] Em sua conduta, Freud faz apenas o papel do deus castrador, nada quer saber do momento traumático de sua própria castração na infância; é o único que não deve ser analisado.” Ferenczi sobre Freud

Aliás, foi sua ama, Monica Zajic, dita Nannie, e não sua mãe, que foi sua iniciadora¹ nesse campo.”

¹ Também gostaria de ser instruído a respeito da CONOTAÇÃO de iniciadora nesta frase!

Em relação à sexualidade, Freud adotou em sua vida uma atitude contrária à que preconizava em sua teoria. Nunca foi amante das mulheres que o seduziam por sua inteligência, dita <masculina> e com quem mantinha relações transferenciais apaixonadas (Marie Bonaparte, Ruth Mack-Brunswick, Jeanne Lampl-De Groot, etc.), e casou-se com uma mulher cuja sexualidade se reduzia a desempenhar o papel para o qual era biologicamente constituída”

Freud, Anna (1895-1982), filha de Freud

AVANT-GARDE NA CIÊNCIA, CONSERVADOR NA FAMÍLIA: “Nascida em Viena, Anna Freud era a sexta e última dos filhos de Sigmund e Martha. Não fôra desejada nem por sua mãe, nem por seu pai, que decidiu, depois de seu nascimento, permanecer casto por não poder utilizar contraceptivos. Assim, Anna teve de lutar para ser reconhecida pelas qualidades de que dispunha: coragem, tenacidade e o gosto pelas coisas do espírito.Não tendo nem a beleza de sua irmãSophie Halberstadtnem a elegância deMathilde Hollitscher, sentia-se em estado de inferioridade na família, na qual se esperava que só os herdeiros masculinos fossem talentosos para os estudos.”

Acompanhando Loe Kann, amante de Jones então em análise com Freud, Anna foi cortejada por ele. Prevenido por Loe, Freud reagiu muito mal e dirigiu a Jones sérias advertências, ao mesmo tempo que proibia à filha embarcar em uma aventura sem futuro com um <velho celibatário> astuto. (…) A partir desse dia, Freud começou a desviar de sua filha todos os pretendentes que ousavam fazer-lhe a corte (Hans Lampl, notadamente). Jones esperou 40 anos para explicar-se com Anna e confessar-lhe que continuava a amá-la.”

<Com minha própria filha tive sucesso, com um filho têm-se escrúpulos especiais.> Na verdade, Freud não se iludia com essa explicação edipiana. Sabia muito bem que essa análise tivera como efeito reforçar o amor que Anna lhe dedicava e que a afirmação do <sucesso> do tratamento não era mais do que a expressão de uma paixão impossível de resolver.¹ E foi com toda a franqueza que expressou a Lou Andreas-Salomé os seus verdadeiros sentimentos:¹era tão incapaz de renunciar¹ a Anna quanto deixar de fumar.²”

¹ O que tudo isso queria dizer? Que Anna queria Sigmund carnalmente e que essa pulsão era, ainda por cima, correspondida?

² Se nem Freud conseguiu, é claro que, mesmo que quisesse, eu não conseguiria. #AutoDesajuda #ParaEsfregarnaCaradeGenteChataeInsistente

Manteve com o pai uma correspondência de 300 cartas, de ambos os lados, ainda não-publicada, mas disponível na Biblioteca do Congresso de Washington.”

Criou com Erik Erikson, Peter Blos e Eva Rosenfeld (1892-1977),sobrinha de Yvette Guilbert, uma escola especial, que foi depois freqüentada por crianças cujos pais se analisavam: <Para esses analistas que gravitavam em torno de Freud e da família Burlingham em Viena, escreveu Peter Heller, a psicanálise era realmente uma religião, um culto, uma Igreja […] Minha vida se passava na escola muito particular das Burlingham-Rosenfeld, marcada pela personalidade de Anna Freud e por sua concepção de uma pedagogia psicanalítica. Entre outras coisas, embora isso tenha sido negado depois, a escola consistia em uma experiência progressiva e elitista de educação de crianças cujos pais faziam análise. Uma experiência privilegiada, muito promissora, inspirada e animada por um ideal de humanidade mais puro e mais sincero do que todos os outros estabelecimentos que freqüentei. Ali, difundia-se um autêntico sentido de comunidade.>

Considerando que uma criança é frágil demais para ser submetida a uma verdadeira análise, com exploração do inconsciente, defendia o princípio do tratamento sob a responsabilidade da família e dos parentes, e mais geralmente sob a tutela das instituições educativas. Segundo ela, o complexo de Édipo não devia ser examinado muito profundamente na criança, em razão da falta de maturidade do supereu.”Com imbecis como pais e imbecis como professores e pedagogos (cenário 95% provável), isso e dizer que crianças não devem ser psicanalizadas mas abandonadas à própria sorte é dizer o mesmo. Nós, os talentosos e predestinados, de fato criamos a própria sorte, então não há com o quê se preocupar!

Em 1937, graças ao dinheiro de uma rica americana, Edith Jackson (1895-1977), que foi a Viena analisar-se com Freud, Anna criou um pensionato para crianças pobres, ao qual deu o nome de Jackson Nursery. A experiência se inspirava na de Maria Montessori. Foi interrompida pela implantação do nazismo na Áustria.”

Não só os psicanalistas ingleses tinham-se afastado de seus colegas do continente, mas também sua prática, sua mentalidade, suas orientações clínicas, até seus conflitos — notadamente em torno de Edward Glover— não tinham mais nada a ver com as querelas do mundo germanófono. Ora, nessa época, Anna acabava de publicar sua obra maior, O eu e os mecanismos de defesa, que se chocava com as pesquisas da escola inglesa. O conflito era pois inevitável e ocorreria depois da morte de Freud, com a explosão, em 1941, das Grandes Controvérsias.”

Em 1990, tornando-se professor de literatura, Peter Heller publicou um depoimento comovedor sobre as suas lembranças da análise com Anna Freud. Nascido em Viena em 1920, submeteu-se a um tratamento com ela entre 1929 e 1932. Depois, casou-se com Tinky, filha de Dorothy Burlingham, e em seguida passou ainda longos anos no divã de Ernst Kris. O relato de seu tratamento, acompanhado das notas que Anna lhe entregou, revivia a estranha confusão dos anos 1920-1935, durante a qual Anna e seu pai misturaram tão estreitamente o divã, a família e a vida particular. Peter Heller mostrava, principalmente, o caráter sufocante da posição <materna> ocupada por Anna, ao passo que, em sua doutrina, ela não levava em conta o vínculo arcaico com a mãe.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Joseph Sandler, Hansi Kennedy & Robert L. Tyson, Técnica da psicanálise infantil (Londres, 1980), P. Alegre, Artes Médicas.

Freud, Ernst (1892-1966), filho de Freud

Quando lhe perguntaram por que se tornara arquiteto, disse que foi porque seu pai e os outros membros da família não entendiam nada disso.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Ernst Freud, Lucie Freud & Ilse Grubrich-Simitis (orgs.), Sigmund Freud. Lieux, visages, objets(Frankfurt, 1976), Bruxelas, Complexe-Gallimard, 1979.

Freud, Kallamon Jacob (1815-1896), pai de Freud

Foi Marianne Krüll quem estabeleceu em 1979 a genealogia familiar dos Freud, dando seqüência aos trabalhos de Renée Gicklhorn e Josef Sajner.”

O nome Freud, que significa alegria em alemão (Freude) era derivado de Freide, prenome da bisavó materna de Jacob. A família o adotara em 1789, quando o imperador José II promulgou uma carta de tolerância que emancipava os judeus, reconhecendo-lhes os mesmos direitos e privilégios que aos outros súditos do Império. Essa carta os obrigava, entretanto, a assumir um nome de família, e conseqüentemente a renunciar à organização comunitária.”

Renunciando a considerar em 1897 que, na origem da neurose existe a sedução sexual da criança pelo adulto, Freud confessa sua culpa: efetivamente, suspeitou que seu próprio pai fosse um sedutor e lamentava amargamente que este tivesse morrido antes do abandono dessa teoria.” ???

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Yosef Hayim Yerushalmi, Le Moïse de Freud. Judaïsme terminable et interminable (New Haven, 1991), Paris, Gallimard, 1993.

Freud, Martha, née Bernays (1861-1951), mulher de Freud

A partir de 1920, Freud comportou-se com Anna do mesmo modo com que se comportara outrora com Martha. E seu ciúme em relação à filha era certamente a repetição do que mostrara durante o noivado. De qualquer forma, Anna foi a <filha

da psicanálise> e teve que lutar, na infância, contra uma terrível rival, que lhe tomava o pai. De fato, era com uma mulher que Freud comparava a psicanálise, no fim da vida, em uma carta aStefan Zweig datada de julho de 1938:<A análise é como uma mulher que quer ser conquistada, mas que sabe que será pouco estimada se não opuser resistência.>

Freud, (Jean) Martin (1889-1967), filho de Freud

Como seus outros irmãos, não foi circuncidado. De fato, Freud se recusou a impor aos filhos os rituais religiosos. Educado segundo a tradição da burguesia vienense, Martin deveria ter se tornado um patriarca.”

Habituado a pregar peças, fantasiou-se um dia de astrólogo e apresentou-se no domicílio do pai, que lhe dirigiu um olhar tão furibundo que o deixou petrificado. O autor d’Os Chistes não gostava de ser objeto de zombaria. À exceção de Mathilde, todos os filhos de Freud tiveram problemas de pronúncia, como o pai na infância. Tinham a língua presa, como se diz. Assim, tiveram que recorrer aos serviços de uma fonoaudióloga.”

Depois de cursar direito, Martin preferiu ocupar-se de negócios, o que o levou a tratar dos assuntos do pai e particularmente da Verlag, a casa editora do movimento freudiano, cujas finanças saneou. Também geriu muito bem a fortuna do pai, particularmente no momento da tomada do poder pelos nazistas na Alemanha.”

Freud era tão tradicionalista no que se referia à educação dos filhos que deixou que eles acreditassem, sem ser desmentido por Martha, que os bebês nasciam nos repolhos.”

No momento da celebração do centenário do nascimento de Freud, contra a opinião de sua irmã Anna, redigiu um livro de lembranças, cheio de episódios pitorescos sobre os diversos membros da família.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Martin Freud, Freud, mon père (Londres, 1957), Paris, Denoël, 1975;

Sophie Freud (sua filha, neta de Sigismundo), My Three Mothers and Other Passions, N. York, New York Universities Press, 1991.

Freud, Schlomo Sigismund, dito Sigmund (1856-1939)

Kurt Eissleravaliou em 15 mil o número de cartas escritas por Freud e em cerca de 10 mil as que estão depositadas na Biblioteca do Congresso

Observe-se que Freud publicou 5 grandes casos clínicos, que foram comentados ou revistos por seus sucessores: Ida Bauer (Dora), Herbert Graf (o Pequeno Hans), Ernst Lanzer (o Homem dos Ratos), Daniel Paul Schreber, Serguei Constantinovitch Pankejeff (o Homem dos Lobos). Segundo o quadro das filiações estabelecido por Ernst Falzeder em 1994, Freud formou na análise didática mais de 60 práticos, na maioria alemães, austríacos, ingleses, húngaros, neerlandeses, americanos, suíços, aos quais se acrescentam os pacientes cuja identidade se ignora.”

Entre 1879 e 1880, forçado a uma licença para cumprir o serviço militar, enganava

o tédio traduzindo quatro ensaios de John Stuart Mill (1806-1873), sob a direção de Theodor Gomperz (1832-1912), escritor e helenista austríaco, responsável pela publicação alemã das obras completas desse filósofo inglês, teórico do liberalismo político.”

Em setembro de 1886, casou-se com Martha, e no dia 15 de outubro fez uma conferência sobre a histeria masculina na Sociedade dos Médicos, onde teve uma acolhida glacial, não em razão de suas teses (etiológicas), como diria depois, mas porque atribuía a Charcot a paternidade de noções que já eram conhecidas pelos médicos vienenses.”

Apesar de várias tentativas, Fliess não conseguiria curar Freud de sua paixão pelo fumo: <Comecei a fumar aos 24 anos, escreveu em 1929, primeiro cigarros, e logo exclusivamente charutos […]. Penso que devo ao charuto um grande aumento da minha capacidade de trabalho e um melhor autocontrole.>

Em 1909, a convite deStanley Grandville Hall, Freud foi, em companhia de Jung e de Ferenczi, à Clark University de Worcester, em Massachusetts, para dar cinco conferências, que seriam reunidas sob o título de Cinco lições de psicanálise. Apesar de um encontro produtivo com James Jackson Putnam e de um sucesso considerável, Freud não gostou do continente americano. Durante toda a vida, desconfiaria do espírito pragmático e puritano desse país que acolhia suas idéias com um entusiasmo ingênuo e desconcertante.”

Em 1911, Adler e Stekel se separaram do grupo freudiano. Dois anos depois, Jung e Freud romperam todas as suas relações. Não suportando desvios em relação à sua doutrina, Freud publicou, às vésperas da I Guerra Mundial, o panfleto História da psicanálise, no qual denunciou as traições de Jung e Adler.”

Isolado em Viena, mas célebre no mundo inteiro, Freud prosseguiu sua obra, sem conseguir controlar a política de seu movimento. Entre 1919 e 33, a IPA se transformou em uma verdadeira máquina burocrática, com a responsabilidade de resolver todos os problemas técnicos relativos à formação dos psicanalistas.”

Embora não aprovasse a política de <salvamento> da psicanálise, preconizada por Jones, cometeu o erro de privilegiar a luta contra os dissidentes (Reich e os adlerianos), ao invés de recusar qualquer compromisso com Göring, o que teria levado à suspensão de todas as atividades psicanalíticas logo que Hitler chegou ao poder.”

Iniciou [no fim da vida] a leitura de Peau de chagrin de Honoré de Balzac: <É exatamente disso que preciso, este livro fala de definhamento e de morte por inanição.>

freudo-marxismo

O freudo-marxismo é uma corrente intelectual que perpassa toda a história do pensamento freudiano, de 1920 a 1975, tanto de um ponto de vista doutrinal (ligação entre o freudismo e o marxismo) quanto do ponto de vista político (relações entre o comunismo e a psicanálise na Rússia, na Alemanha, na Hungria, na França, no Brasil, na Argentina, na Itália e nos Estados Unidos). Os representantes dessa corrente foram muito variados. Os filósofos da Escola de Frankfurt, em especial Max Horkheimer, criticaram o pessimismo freudiano [olha quem fala! Escola frankfurtiana, a.k.a., <Os Apocalípticos>!], incompatível, a seu ver, com as esperanças revolucionárias suscitadas pelo marxismo, mas conseguiram ligar as duas doutrinas de maneira muito fecunda.

De Reich (simultaneamente freudiano e comunista) a Otto Fenichel ou Marie Langer (representantes de uma esquerda freudiana social-democrata), até os artífices do neofreudismo (menos marxistas do que culturalistas), passando por Joseph Wortis (que foi stalinista e, depois, antifreudiano) e Herbert Marcuse (que reacendeu o debate em meados dos anos 60, através de uma virulenta crítica a seus predecessores neofreudianos), todos os freudo-marxistas ligaram-se à idéia de que o freudismo e o marxismo são duas doutrinas da libertação do homem.”

Fromm, Erich

No período entre-guerras, criticou a tese clássica do complexo de Édipo e valorizou o matriarcado, em detrimento do patriarcado, inspirando-se nos trabalhos de Johann Jakob Bachofen (1815-1887), em uma perspectiva próxima da de Friedrich Engels (1820-1895). Em 1946, seria duramente atacado por Theodor Adorno por seu <revisionismo> anti-freudiano e, mais tarde, por Marcuse.”

A partir de 1951, como Igor Caruso, instalou-se na Cidade do México, onde o freudismo não se implantara, sendo considerado uma doutrina imperialista importada dos Estados Unidos.”

Fromm fez da psicanálise a expressão última de uma crise espiritual do homem ocidental, desejoso de se libertar de seu inconsciente, contestou radicalmente o universalismo freudiano e a filosofia do Iluminismo, em nome do relativismo cultural, e pregou os valores de um humanismo individualista.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Erich Fromm, O medo da liberdade (NY 1941), RJ, Guanabara, 1986; L’Homme pour lui-même (NY, 1947), Paris, Éditions Sociales Françaises, 1967; A arte de amar (NY, 1956, Paris, 1967), BH, Itatiaia, 1964; La Mission de Sigmund Freud. Une analyse de sa personnalité et de son influence (NY, 1959), Bruxelas, Complexe, 1975; O conceito marxista do homem (NY, 1961), RJ, Guanabara, 1986; La Crise de la psychanalyse (NY, 1970), Paris, Anthropos, 1971; La Passion de détruire (NY, 1973), Paris, Laffont, 1975; A linguagem esquecida (Paris, Payot, 1975), RJ, Guanabara, 1986;

Martin Jay, L’Imagination dialectique. Histoire de l’École de Frankfurt, 1923-1950 (Boston, 1973), Paris, Payot, 1977;

Jean-Baptiste Fagès, Histoire de la psychanalyse après Freud (1976), Paris, Odile Jacob, 1996.

geração

O estudo das gerações é comum a diferentes campos das ciências humanas e sociais, em especial a antropologia e a história. Na historiografia psicanalítica, esse instrumento sociológico permite estabelecer a genealogia dos sucessores de Freud, o encadeamento das diversas interpretações da obra original, a sucessão das escolas e a dialética dos conflitos conducentes a cisões. Por esse ponto de vista, existem 2 modos de enumeração: um, de alcance mundial e internacional, concerne aos diferentes membros da diáspora freudiana espalhados pelo mundo, e o outro, de alcance nacional, permite inscrever a filiação dos psicanalistas a partir de um grupo pioneiro (passível de ser reduzido a uma única pessoa, em certos países), considerado como o introdutor da psicanálise num dado país.”

A segunda geração internacional, representada por Ernst Kris, Heinz Hartmann, Rudolph Loewenstein, Wilhelm Reich, Otto Fenichel, Melanie Klein, etc., é a que começou a se formar a partir de 1918, quer junto a Freud, quer no divã dos que lhe eram próximos. Já afastada do espírito de conquista que havia caracterizado sua antecessora, essa geração foi a componente essencial do aparelho da IPA da década de 30. Teve como verdadeiro porto de matrícula (salvo poucas exceções) não uma cidade ou um mestre, mas uma organização legitimista, que encarnava o movimento e a doutrina originais.”

A terceira geração internacional, instruída pelos representantes da 2a ou tendo acesso ao freudismo através da leitura dos textos, foi a das grandes cisões, provocadas, entre 1950 e 70, pelo questionamento das modalidades da formação didática típica da IPA e pelas querelas de escolas em torno da interpretação da obra freudiana e da técnica psicanalítica (Self Psychology, Lacan, Heinz Kohut, Winnicott, Ruprecht Bion, Marie Langer, Caruso). À história dessa terceira geração liga-se a do surgimento de uma historiografia freudiana, a princípio oficial (com Jones e seus herdeiros), depois acadêmica (Ola Andersson, Henri Ellenberger) e, por fim, revisionista. Nessa condição, essa geração foi marcada por intensas batalhas em torno da tradução e da publicação das obras e da correspondência do mestre, bem como por uma fragmentação irreversível de todas as formas de legitimidade organizacional. Daí o confronto com uma profusão de escolas de psicoterapia.”

OITAVA, NONA, DÉCIMA?! Now loading…

Gestalt-terapia [form therapy]

Inicialmente analisado por Reich, e depois por Karen Horney, Perls situou-se desde logo na dissidência do freudismo clássico. Fugindo do nazismo, emigrou para os Países Baixos e, em 1940, para a África do Sul, onde redigiu um primeiro livro em que revisava a concepção freudiana, aspirando a ver o corpo ser mais solicitado no processo da análise.” “Após uma temporada no Japão, associou a gestalt-terapia à prática do budismo zen, e depois se tornou um grande guru californiano, pregando ao mesmo tempo o naturismo, o orientalismo e a abertura para todas as formas de psicoterapias corporais que se desenvolveram na costa oeste dos Estados Unidos nos anos 70.”

O PODER DO WISHFUL THINKING: “a gestalt-terapia rejeita tanto a noção de isso quanto a de supereu, a primeira porque desviaria o sujeito da plena consciência de si, a segunda porque seria uma instância de opressão do eu.” “terapia de grupo voltada à <desintelectualização> do sujeito” “Daí a junção que se efetuou, mais ou menos em todas as partes do mundo, depois da morte de Perls, entre a gestalt-terapia e todas as técnicas ditas bioenergéticas, herdadas da vegetoterapia de Reich e baseadas na idéia de que a <comunicação não-verbal> (gritos, ginástica, massagens, expressões corporais, etc.) permite um melhor acesso à cura do que o tratamento pela fala.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Frederick Perls, Ego, Hunger and Agression. A Revision of Freud’s Theory and Method (1942);

Kurt Goldstein, La Structure de l’organisme[neurologia] (1934).

Glover, Edward

Pioneiro da psicanálise na Grã-Bretanha, ao mesmo tempo conservador e rebelde, marginal e ortodoxo, Edward Glover foi, depois de Ernest Jones, o clínico mais poderoso da British Psychoanalytical Society (BPS), mas também o principal responsável por sua fragmentação, pois desencadeou, em 1942, as Grandes Controvérsias que resultariam na divisão da sociedade em 3 grupos:os annafreudianos, os kleinianos, os Independentes. Notável técnico do tratamento, Glover manejava a ironia com ferocidade e a língua inglesa com um verdadeiro dom de ator. Inventou a noção de núcleo do eu, para definir o esquema comportamental do lactente, ligado aos reflexos afetivos, e a de sexualização da angústia, para designar um processo de erotização, próprio da perversão, permitindo suprimir os temores do self por uma experiência orgástica.”

Com Jones, presidente da BPS, Edward Glover realizou uma política conservadora no interior da sociedade, pretendendo manter a psicanálise afastada das instituições em que se praticavam diversas formas de psicoterapias, notadamente a famosa Tavistock Clinic. Essa atitude isolacionista seria reprovada pelos kleinianos, com os quais Glover estabeleceria um conflito permanente. Seu rigorismo o levou, em 1933, em sua obraGuerra, sadismo e pacifismo a interpretar os conflitos políticos em termos de neurose e a preconizar, para evitar as guerras, a entrada maciça dos diplomatas em análise e o reconhecimento oficial, pelos Estados, do caráter psicopatológico da própria guerra.“atacou violentamente a <esquerda freudiana>, afirmando que esta queria anexar a psicanálise ao marxismo e ao comunismo”

Inicialmente entusiasmado com as inovações kleinianas, rejeitou-as com a mesma radicalidade em 1933, a partir do momento em que, tendo-se tornado analista de Melitta Schmideberg, assumiu a revolta desta contra a mãe. Então, chamou de especulação estéril as hipóteses kleinianas sobre a psicose infantil e afirmou que elas não poderiam ser validadas enquanto não se demonstrasse que também se aplicavam aos adultos.”

A partir de 1935, só chamava Melanie Klein de <cismática> e <desviante>, acusando-a de não ser mais freudiana e denunciando a idolatria de seus discípulos. Através desse combate, tentava defender, não os annafreudianos, nem mesmo a própria Anna Freud, que ele julgava incapaz de retomar a chama da <verdadeira> psicanálise, mas uma espécie de utopia. Na verdade, sonhava com o velho mundo vienense, então desaparecido, e combatia a burocracia ipeísta [dos institutos recém-criados de psicanálise] que acabara destruindo a autenticidade da análise didática: <Os sistemas de formação [de novos psicanalistas] se tornaram uma forma de poder político, mal-disfarçada por racionalizações…>

Em fevereiro de 1944, demitiu-se da BPS, predizendo a esta um futuro lúgubre sob o reinado de um kleinismo e de um pós-kleinismo que qualificava de <junguismo>, rótulo infamante, em sua opinião. Entretanto, continuou membro da IPA através de uma filiação à Sociedade Suíça de Psicanálise (SSP), o que lhe permitiu preservar suas funções de secretário da IPA.

Não contente em perseguir Melanie Klein com suas invectivas, não hesitou, em 1944, durante programas de rádio, em criticar a famosa seleção pelos testes de aptidão (elaborada principalmente por John Rickman), que haviam revolucionado a psiquiatria inglesa durante a guerra.”

Agora, os psiquiatras do exército estão com o rei na barriga […] Uma medida de precaução consistiria em submetê-los a um curso de reabilitação (como eles dizem, quando o aplicam aos outros), para que reencontrem uma perspectiva correta quanto aos direitos dos civis. Sem salvaguardas adequadas, esse sistema poderia carregar consigo os germes do nazismo.”

Por ocasião da morte de Klein, prestou-lhe homenagem, como se o furor que demonstrara quando ela era viva tivesse sido apenas o sinal de uma ferida secreta [hehe].”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Glover, Freud et Jung (Londres, 1950);

_____, Técnica da psicanálise, 1955.

Göring, Matthias Heinrich

foi assistente em Munique de Emil Kraepelin, apaixonou-se pela hipnose e depois adotou as teses da psicologia individual de Alfred Adler. No dia 1º de maio de 1933, aderiu ao Partido Nacional-Socialista, tornando-se, até a morte, um militante-modelo da doutrina nazista e o grande líder da psicoterapia alemã <arianizada>, isto é, desembaraçada não só de seus clínicos judeus, mas do <espírito judaico> em geral.

Göring não foi temido por seus aliados nem por seus adversários, que lhe deram o apelido de Papy, ou Papai Noel, por causa de sua longa barba e de sua aparente generosidade. Camuflava muito bem sua dureza por trás de uma aparência de menino tímido sofrendo de gagueira.”

A partir de 1933, endeusou o Führer a ponto de pedir a todos os psicoterapeutas pelos quais era responsável que fizessem de Mein Kampfa bíblia da nova ciência psicológica do Reich.”

A palavra psicanálise foi substituída por psicoterapia das profundezas, o Édipo foi simplesmente varrido, a sexualidade suprimida.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Les Années brunes. La Psychanalyse sous le IIIe Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc Evard, Paris, Confrontation, 1984;

Chaim S. Katz (org.), Psicanálise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus, 1985.

gozo (Genuss)

DO DIREITO À CAMA: “O termo gozo surgiu no século XV, para designar a ação de fazer uso de um bem com a finalidade de retirar dele as satisfações que ele supostamente proporcionava. (…) Em 1503, o termo foi enriquecido por uma dimensão hedonista, tornando-se sinônimo de prazer, alegria, bem-estar e volúpia.”

SENSABORÕES DO CHÁ DAS 5: “A língua alemã faz uma distinção entre Genuss, termo que abrange as duas acepções francesas da palavra jouissance, e Lust, que exprime as idéias de prazer, desejo e vontade. Essa distinção era impossível de estabelecer na língua inglesa, onde existia apenas a palavra enjoyment, até o surgimento, em 1988, do termo jouissance, no Shorter Oxford English Dictionary.”

Lacan estabelece então uma distinção essencial entre o prazer e o gozo, residindo este na tentativa permanente de ultrapassar os limites do princípio de prazer. Esse movimento, ligado à busca da coisa perdida que falta no lugar do Outro, é causa de sofrimento; mas tal sofrimento nunca erradica por completo a busca do gozo.”

Desenvolvendo, em seu artigo intitulado Kant com Sade, a idéia de uma equivalência entre o bem kantiano e o mal sadiano, Lacan pretende mostrar que o gozo se sustenta pela obediência do sujeito a uma ordem — quaisquer que sejam sua forma e seu conteúdo — que o conduz, abandonando o que acontece com seu desejo, a se destruir na submissão ao Outro.

A partir do seminário do ano de 1969-1970 (O avesso da psicanálise) até o do ano de 1972-1973 (Mais, ainda), passando por De um discurso que não seria do semblante(1970-1971)e por …Ou pior(1971-1972), Lacan elabora sua teoria do processo da sexuação, que ele exprime por meio de um conjunto de fórmulas lógicas.”

ESSE SUJEITO É UM BIRUTA DE PRIMEIRA! “Lacan fabrica nessa ocasião uma palavra-valise, tal como as produzidas pelo fenômeno dacondensação [LAVA LIFE LOVE GIVER FORGIVEN], e chama o <pelo menos um> (au moins un) de <homenosum> (hommoinzun, homme moins un). Esse <homenosum>, que funda a possibilidade da existência da totalidade dos outros, esse pai originário, pai simbólico, segundo a conceituação lacaniana, não-submetido à castração, é, pois, o esteio da fantasia de um gozo absoluto, tão inatingível quanto o é esse pai originário.”

O gozo feminino, portanto, é diferente e, acima de tudo, sem limite. É, pois, um <gozo suplementar> (um suplemento [WHEY!]), enunciado como tal no brilhante seminário Mais, ainda, cujos contornos realmente parecem ter sido esboçados alguns anos antes por Wladimir Granoff e François Perrier, em 1960, num relatório apresentado ao congresso de Amsterdã sobre a sexualidade feminina. É a existência desse gozo suplementar, incognoscível para e pelo homem, mas indizível pelas mulheres, que serve de base para o aforismo lacaniano, tantas vezes criticado, de que <não existe relação sexual>, desenvolvido no âmbito do seminário …Ou pior.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jacques Lacan, Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina (1958), in: Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998;

______. O Seminário, livro 7, A ética da psicanálise (1959-1960) (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988;

Françoise Dolto, Sexualidade feminina (1982), SP, Martins Fontes, 1996, 3ª ed.;

Dylan Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psychoanalysis, Londres, N. York, Routledge, 1996;

Julia Kristeva, La Révolution du langage poétique, Paris, Seuil, 1974;

Philippe Sollers, Femmes, Paris, Gallimard, 1982;

Elizabeth Wright (org.), Feminism and Psychoanalysis. A Critical Dictionary, Oxford, Blackwell, 1992.

Graf, Herbert (1903-1973), caso Pequeno Hans

Até 1972, data da publicação das Memórias de um homem invisível, transcrição das quatro entrevistas concedidas por Herbert Graf ao jornalista Francis Rizzo, não se conhecia a identidade do menino de 5 anos que se celebrizou sob o nome de Pequeno Hans, graças ao relato feito por Freud sobre sua análise, realizada sob a condução de Max Graf, pai do paciente (ver abaixo).

Considerado um dos grandes casos da história da psicanálise, o tratamento do Pequeno Hans ocupou rapidamente um lugar especial nos anais do freudismo, a começar pelo fato de que o paciente (pela primeira vez) era uma criança e, além disso, porque Freud, em vez de ficar na posição de analista, interviera como supervisor.

A BATATA AOS VITORIANOS: “A análise propriamente dita do Pequeno Hans desenrolou-se durante o primeiro semestre do ano de 1908. Foi contemporânea da de Ernst Lanzer, o Homem dos Ratos. Freud, com a autorização do pai do menino, publicou o relato em 1909, mas já se referira ao Pequeno Hans em dois artigos sobre a sexualidade infantil, publicados em 1907 e 1908. Na verdade, desde 1906, quando o menino ainda não tinha 3 anos, seu pai, conquistado pela psicanálise ao escutar sua mulher lhe falar de seu tratamento com Freud, tomava notas sobre tudo o que dizia respeito à sexualidade do filho, a fim de transmiti-las ao mestre, para quem se tornara uma pessoa da família. Max Graf não era o único a se entregar a esse tipo de observação: Freud, como lembrou no início de seu relato, incitara seus colegas das reuniões da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras a se dedicarem a esse tipo de exercício, de modo a lhe levarem provas da solidez de fundamento de suas teses sobre a sexualidade infantil, expostas algum tempo antes nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.”

Desde as primeiras anotações do pai, o Pequeno Hans parecia muito preocupado com a parte do corpo a que chamava seu <faz-pipi>. Sucessivamente, perguntou à mãe se ela também tinha um, atribuiu um à vaca leiteira, à locomotiva que soltava água, ao cachorro e ao cavalo, mas não o atribuiu à mesa nem à cadeira. Esse interesse, como assinalou Freud com humor, não se limitava à teoria: levou Hans a ser surpreendido pela mãe quando se entregava a bulir no pênis. A ameaça brandida por esta, de mandar que lhe cortassem o <faz-pipi> se ele continuasse a se dedicar àquele tipo de atividade, não chegou a induzir nenhum sentimento de culpa, mas, como assinalou ainda Freud, fez com que ele adquirisse o complexo de castração. Prosseguindo em suas explorações, o menino procurou averiguar se seu pai também tinha um <faz-pipi> e ficou surpreso ao saber que a mãe, adulta, não tinha um <faz-pipi> do tamanho do de um cavalo.” “Hans precisaria de uns 6 meses para superar seu ciúme e se convencer de sua superioridade em relação à irmã caçula. Assistindo ao banho desta, constatou que ela possuía um <faz-pipi […] ainda pequeno> e, benevolente, previu que ele se tornaria maior quando Anna crescesse.”

Nosso Pequeno Hans realmente parece ser um modelo de todas as perversidades.” Dr. F.vcked

Hans atravessou em seguida um período marcado pela busca de emoções eróticas — apaixonou-se por uma menina e insistiu com os pais em que ela fosse a sua casa para que lhe fosse possível dormir com ela —, num prolongamento das emoções que sentira em suas incursões à cama dos pais. Um sonho, quando ele contava 4 anos e ½, traduziu seu desejo, desde então recalcado, de se entregar novamente ao exibicionismo a que se dedicara no ano anterior, diante das meninas. Esse período encerrou-se com o reconhecimento, por parte do menino, ao assistir outra vez ao banho da irmã, da diferença entre os órgãos genitais masculino e feminino.”

Pouco antes da eclosão do estado ansioso, Hans tivera um sonho, um <sonho de punição>, diz Freud, no qual a mãe, com quem ele podia <fazer denguinho>, tinha ido embora. Esse sonho era um eco dos privilégios obtidos quando a mãe o levava para sua cama, no ano anterior, todas as vezes que ele manifestava ansiedade e também todas as vezes que seu pai estava ausente. Alguns dias depois, passeando com a babá, Hans começou a chorar e pediu para voltar para casa, para <fazer denguinho com a mamãe>. No dia seguinte, a mãe resolveu levá-lo pessoalmente para passear. A princípio ele recusou, chorou e, depois, deixou-se levar, porém manifestando um medo intenso, do qual só falou na volta: <Eu estava com medo que o cavalo me mordesse.> À noite, nova crise de angústia ante a idéia do passeio do dia seguinte e medo de que o cavalo entrasse em seu quarto. A mãe perguntou-lhe, então, se por acaso ele estivera pondo a mão no <faz-pipi>. Ao obter sua resposta afirmativa, ela lhe ordenou que parasse com aquilo, o que mais tarde ele confessou só conseguir fazer precariamente.”

Essa transformação da libido em angústia é irreversível e a angústia tem que encontrar um objeto substituto, que constituirá o material fóbico.”

Nesse estágio, Freud aconselha o pai de Hans a dizer ao menino que a história dos cavalos é uma <besteira> — esse foi o termo que o pai e o filho passaram a empregar para designar a fobia — e que o medo provém de seu interesse exagerado pelo <faz-pipi> dos cavalos.” “Passado algum tempo, a fobia retorna e se estende a todos os animais grandes, girafas, elefantes e pelicanos. Após um comentário de Hans sobre o enraizamento de seu <faz-pipi>, que o menino espera ver crescer junto com ele, Freud explica que os animais grandes lhe dão medo porque o remetem à dimensão atual e insatisfatória de seu órgão peniano. Quanto ao enraizamento, ele seria uma resposta à ameaça de castração, expressa muito antes pela mãe e cujo efeito se manifesta, assim, a posteriori, no momento em que a inquietação do menino aumentou, depois de feito o anúncio oficial sobre a ausência do <faz-pipi> nas mulheres.

BUTT-BASH: “Certa manhã, Hans dá conta de sua incursão noturna à cama dos pais explicando que havia em seu quarto uma grande girafa e uma girafa amassada. A grande, diz ele, gritou que eu tinha tirado dela a amassada. Depois ela parou de gritar, e aí eu me sentei em cima da girafa amassada.” “Freud acrescenta que o <sentar-se> sobre a girafa amassada representa uma <tomada de posse>, baseada numa fantasia de desafio ao pai e na satisfação de menosprezar sua proibição, tudo isso revestindo-se do medo de que a mãe ache o <faz-pipi> do menino muito pequeno, em comparação ao do pai.”

CARROCAVALO: “A fobia se declara quando a angústia, que originalmente nada tinha a ver com os cavalos, transpõe-se para esses animais” “quando menor, Hans tivera paixão por cavalos, vira um de seus coleguinhas cair de um cavalo e se lembrava da história de um cavalo branco que era capaz de morder os dedos.”

Hans ganhou mais liberdade com o pai, chegando a querer mordê-lo, prova de que o identificara com o tão temido cavalo. Mas isso não impediu que o medo dos cavalos persistisse.”

Ayrton Senna era a potência do brasileiro. Não tinha pra francês, alemão, nem gringo nenhum. Ayrton Senna era o Pelé dos motores de milhares de cavalos, e comia até a Xuxa depois dele! Trono ocupado. Não tinha o direito de morrer com um parafuso na cabeça.

Por que não compras uma limousine logo? Vamos de furgão para o casamento (almoço grátis de rico).

A mãe, momentaneamente esquecida, voltou ao primeiro plano, por intermédio de fantasias excrementícias e reações fóbicas à visão de calças amarelas e pretas.”

Seguiram-se então a fantasia do bombeiro, que furava o estômago de Hans com uma broca, e o medo de tomar banho numa banheira grande. A fantasia do bombeiro, fantasia de procriação, encontraria sua significação mais tarde, ao ficar claro que o menino nunca havia acreditado na história da cegonha, e ficara zangado com o pai por lhe contar essas mentiras.”

Parece que, para Hans, os veículos, assim como os ventres das mães, eram carregados de filhos-excrementos: a queda dos cavalos, tal como a dos <lumfs> [cocô], era a representação de um nascimento, e Freud sublinha, nessa oportunidade, o caráter significante da expressão <deitar cria>. O cavalo que cai, portanto, não é apenas o pai que morre, mas também a mãe que dá à luz.”

Nascer já é entrar pelo cano (ou escapamento). Fu-[cadê]ligem. foolimage

Diversamente dos outros casos princeps [que chic] expostos por Freud, o do pequeno Hans não foi objeto de nenhuma revisão historiográfica exaustiva. Entretanto, deu margem a numerosas leituras críticas.”

Num primeiro momento, enquanto era impensável abordar tão de perto a lendária <inocência infantil>, os psicanalistas fizeram desse caso o paradigma de todos os processos de psicanálise de crianças. Foi preciso esperar que os primeiros passos fossem dados nesse campo por Hermine von Hug-Hellmuth, e sobretudo aguardar a revolução efetuada por Melanie Klein, para que essa concepção fosse ultrapassada no movimento psicanalítico.”Ultrapassada mas não muito: Klein, como diz Deleuze, segue na triangulação simbólica estúpida do “comboio papá-Dick / estação mamã”.

Lacan dedicou a segunda parte de seu seminário do ano de 1956-1957, intitulado A relação de objeto, ao caso do pequeno Hans. Seu objetivo era elaborar uma clínica lacaniana da análise de crianças, da qual Jenny Aubry e Françoise Dolto eram as grandes mestras, que fosse capaz de rivalizar com a escola inglesa, enriquecida pelas contribuições contraditórias de Melanie Klein, Anna Freud e Winnicott. Para Lacan, a fobia de Hans sobreviera com a descoberta de seu pênis real e com seu conseqüente pavor de ser devorado pela mãe, investida de uma onipotência imaginária. A fobia, portanto, só podia ser ultrapassada, senão curada, pela intervenção do Pai real (Max Graf), apoiada pelo Pai simbólico (Freud), que teve como efeito separar o menino da mãe e garantir seu avanço do imaginário para o simbólico. Lacan interpretou os mitos dos animais que funcionaram na análise em termos lévi-straussianos. Longe de buscar em cada um deles uma significação particular, ele os relacionou uns com os outros, a fim de captar a reiteração do semelhante num sistema. O cavalo, portanto, ora remete ao pai, ora à mãe, e funciona como elemento significante, isolado do significado. A torção que com isso Lacan imprime à teoria freudiana do Édipo está ligada a sua concepção do declínio da função paterna na sociedade ocidental, que ele expusera em 1938 em seu artigo sobre a família.” Alguns não percebem o quão atrasados estão.

Em 1987, o psicanalista francês Jean Bergeret relacionou as dificuldades de Hans com as que o próprio Freud teria conhecido na infância. Observando que os dois únicos textos que Freud não publicou em vida (o que ele dedicara aos personagens psicopáticos no palco, cujo manuscrito entregou a Max Graf no começo da análise de Hans, e o que foi encontrado e publicado por Ilse Grubrich-Simitis sob o título de Neuroses de transferência: uma síntese) têm em comum o tema da violência irrepresentável, indizível, produzida por uma incitação sexual precoce demasiadamente intensa, Bergeret defendeu a hipótese de que a análise do Pequeno Hans teria sido construída com base na denegação de um trauma conhecido.”

Estudiosos da vida de Max Graf classificam-no como “bom pai porém péssimo marido”. Como o que Lacan faz é aumentar a responsabilidade da mãe na psicopatia desta criança, isso só aumentou a polêmica e controvérsia sobre a psicanálise do Pequeno Hans.

Em 1996, Peter L. Rudnytsky, um professor universitário norte-americano, propôs considerar o caso do Pequeno Hans mais como um exemplo de terapia de família do que como a análise de uma criança. Sua abordagem do caso referiu-se às teses feministas desenvolvidas, em especial, por Luce Irigaray. Ela o conduziu a discernir nessa análise os elementos fundamentais da concepção freudiana da diferença sexual e da sexualidade feminina, que apareceria sob sua forma definitiva em 1933, nas Novas conferências introdutórias sobre psicanálise.”

Em 1922, Freud acrescentou um <epílogo> a seu texto de 1909; nele, relatou brevemente a visita, naquele mesmo ano, de um rapaz que se apresentara a ele como sendo o Pequeno Hans. Para Freud, essa visita constituiu, antes de mais nada, um contundente desmentido das sinistras previsões enunciadas na época da análise. Ele se felicitou pelo fato de o rapaz ter conseguido superar as dificuldades inerentes ao divórcio e às segundas núpcias de seus pais e, finalmente, observou que Hans/Herbert esquecera tudo de sua análise, inclusive a própria existência dela.”

Embora, na época, a análise do Pequeno Hans fosse um assunto freqüentemente evocado nessas reuniões das noites de quarta-feira, Max Graf não faz a menor alusão a ela. É mais prolixo no que concerne ao que o psicanalista holandês Harry Stroeken propôs chamar de <a relação entre a família Graf e Freud>. Assim ficamos sabendo, entre outras coisas, que Freud, que se associava com facilidade aos festejos familiares dos Graf, levou para o Pequeno Hans, de presente por seu 3o aniversário, um… cavalo de balanço!”

Em suas Memórias, Herbert Graf manifesta, no ocaso da vida, um fervor e uma admiração pelo pai que impressionam ainda mais pelo fato de ele não dizer uma só palavra sobre a mãe ao longo dessas quatro entrevistas. Essa clivagem parece ilustrar bem o que foi a vida do Pequeno Hans quando transformado em adulto, caracterizada pelo contraste entre seu sucesso profissional e seus fracassos afetivos. Com efeito, Herbert Graf conheceu, na juventude, por intermédio do pai, tudo o que Viena tinha a oferecer em matéria de personalidades do mundo artístico da época. Gustav Mahler foi seu padrinho, enquanto Arnold Schönberg (1874-1951), Richard Strauss (1864-1949) e Oskar Kokoschka (1886-1980) estiveram entre os freqüentadores da casa dos Graf.” “ele defendeu uma tese sobre a cenografia wagneriana que lhe valeu o reconhecimento oficial da família do autor dos Mestres cantores. Depois de se arriscar sem sucesso na arte lírica, assumiu a direção cênica da Ópera de Münster.”

Ao lado dessa brilhante carreira, pontilhada por alguns textos audaciosos e sempre atuais sobre a questão da ópera popular, a vida particular de Herbert Graf parece ter sido balizada por sofrimentos. Ao contrário da apreciação de Freud, ele parece nunca se haver refeito por completo do choque causado pelo divórcio e pelas segundas núpcias de seus pais.Atormentado por conflitos conjugais, retomou uma análise com Hugo Solms, que o incitou, em 1970, quando se realizou em Genebra um congresso de psicanálise, a ir se apresentar a Anna Freud, visita esta que não teve nenhuma conseqüência.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Brigitte e Jean Massin (orgs.), História da música ocidental (Paris, 1985), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998.

Graf, Max

Tornando-se musicólogo, Max Graf redigiu duas obras sobre Richard Wagner. A segunda, consagrada ao Navio fantasma, foi publicada por Freud em 1911, na série Schriften zur angewandten Seelenkunde. Tradutor de Romain Rolland e de várias obras de história da música, Max Graf tentou a composição mas renunciou rapidamente, a conselho de Johannes Brahms (1833-1897). Ensinou história da música e estética musical em Viena, e quando de seu exílio nos Estados Unidos, durante o período nazista, na New School for Social Research em Nova York, e na Universidade de Filadélfia. Max Graf interveio também no campo da política, como editorialista da Neue Frei Press.”

Em 1908, Max Graf dirigiu, sob a supervisão de Freud, a análise de seu filho Herbert. O relato do caso seria publicado no ano seguinte. Uma frase de Freud, em uma carta de 2 de fevereiro de 1910 a Carl Gustav Jung, faz pensar que depois da análise do filho, Max Graf conduziu o segundo tratamento de sua mulher: <Eu consideraria a análise da própria mulher como absolutamente impossível. O pai do Pequeno Hans me provou que isso funciona muito bem. A regra técnica da qual suspeito há pouco tempo, superar a contratransferência’, se torna, apesar de tudo, excessivamente difícil nesse caso.>”Posteriormente, o casal se divorciou e Max Graf se casaria de novo por duas vezes.

Em seu livro A oficina interior do músico, publicado em 1910, ele se inspirou nas teses freudianas para explicar certas diferenças entre o classicismo e o romantismo na história da música. Em sua opinião, o compositor romântico deixa falar em si os vestígios de sua infância, enquanto o músico clássico domina seu inconsciente.” “Deixou muitas obras consagradas à vida musical vienense.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Max Graf, Die innere Werkstatt des Musikers, Stuttgart, Ferdinand Encke, 1910; ______., Richard Wagner im “Fliegenden Holländer”, Leipzig e Viena, Franz Deiticke, 1911;

______., “Réminiscences sur le professeur Freud” (1942), Tel Quel, 88, 1981, 52-101 (artigo);

______., “Entretien du père du petit Hans avec Kurt Eissler”, 16/12/1952, Le Bloc-notes de la psychanalyse, 14, 1996, 123-159 (artigo);

André Michel, Psychanalyse de la musique (1951), Paris, PUF, 1984.

Grandes Controvérsias ou “Casos de família”

Após a destruição das sociedades psicanalíticas do continente pelo nazismo, a BPS tornou-se o último bastião da psicanálise na Europa. Entre 1933 e 1939, ela acolheu inúmeros imigrantes, dentre os quais os vienenses, inclusive a família Freud. Ora, desde 1926, a escola vienense (em especial os partidários de Anna Freud) opunha-se a Melanie Klein e seu grupo, que representavam a corrente majoritária da escola inglesa.

Adeptos de uma concepção dita ortodoxa (ou continental) da psicanálise, os annafreudianos pretendiam ser os porta-vozes da tradição do pai fundador: um freudismo clássico, centrado na primazia do patriarcado, no complexo de Édipo, nas defesas e na clivagem do eu, na neurose e numa prática da psicanálise de crianças ligada à pedagogia.

Frente a esse freudismo, que já deslizava para o annafreudismo, os freudianos chamados kleinianos eram os artífices de uma clínica moderna das relações de objeto, centrada nas psicoses e nos distúrbios narcísicos, nos fenômenos de regressão, nas relações arcaicas e inconscientes com a mãe e na exploração do estágio pré-edipiano.

Entretanto, as Controvérsias não opuseram apenas o kleinismo ao annafreudismo. Também puseram em cena um caso de família. Filha de Melanie Klein e analisada na infância pela mãe, Melitta Schmideberg havia iniciado o combate contra esta antes da chegada dos vienenses a Londres, então apoiada por Edward Glover, um dos fundadores da BPS. Conservador e não-conformista, este passara a defender, em oposição ao annafreudismo e ao kleinismo, um <outro> freudismo: o da primeira geração inglesa, que iria desaparecer com a guerra. (…) middle group (…) os grandes clínicos da segunda geração inglesa (Winnicott, John Bowlby), que aceitavam tanto o freudismo quanto o kleinismo, mas recusavam a se curvar a quaisquer dogmas.”

Inicialmente kleiniano, John Rickman, reformador da psiquiatria inglesa, defendeu então o middle group, antes de ser violentamente atacado por Glover. Através dessa outra controvérsia opuseram-se igualmente duas concepções da psicanálise: uma (a de Glover) avessa a qualquer psicologização do freudismo, outra (a de Rickman) derivada do pragmatismo adaptativo, o qual, convém dizer, levaria a algumas aberrações.”

Durante 4 anos, as Controvérsias dilaceraram a BPS. A cisão foi evitada por pouco, ao preço da demissão espetacular de Glover, da emigração de Melitta Schmideberg para os Estados Unidos e da demissão de Anna Freud do training committee. O grupo britânico organizou-se então em torno do reconhecimento oficial de três tendências: os annafreudianos, os kleinianos e os Independentes (o antigo middle group).”

Publicadas em 1991, sob os cuidados de Pearl King & Riccardo Steiner, as Grandes Controvérsiassão um dos mais apaixonantes documentos de arquivo da história do freudismo.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Pearl King e Riccardo Steiner (orgs.), Les Controverses Anna Freud/Melanie Klein, 1941-1945 (Londres, 1991), Paris, PUF, 1996.

Groddeck

Groddeck, que Freud qualificou um dia de <soberbo analista>, e que reivindicava para si o título de <analista selvagem>, tinha o temperamento de um Wilhelm Fliess ou de um Wilhelm Reich.” “Thomas Mann se inspirou nele para criar o personagem do doutor Edhin Krokovski em A montanha mágica.”

Groddeck abalou o conformismo dos discípulos de Freud, manteve com este uma relação de fascínio e de rejeição, para compartilhar depois com Ferenczi uma longa cumplicidade fundada em uma crença comum nos benefícios <maternantes> da natureza biológica do homem. Com sua doutrina, foi o inventor de uma medicina psicossomática de inspiração psicanalítica, da qual se alimentariam posteriormente, sem confessar, muitos herdeiros de Freud.”

Nascido em Bad Kösen, Georg Groddeck era filho de Carl Theodor Groddeck, médico conceituado que dirigia um estabelecimento de banhos salinos. Depois dos acontecimentos de 1848, este redigira um livro ultraconservador, De morbo democratico nova insaniae forma(A doença democrática, uma nova espécie de loucura), que passava por ter marcado a obra nietzschiana. O autor assimilava a idéia democrática a um flagelo, a uma epidemia capaz de <contaminar> a Europa e fazer desaparecer nos indivíduos qualquer forma de consciência de si. Essa tese, que também se encontrava entre os sociólogos das multidões e notadamente em Gustave Le Bon (1841-1931), fazia de Carl Theodor Groddeck um partidário do chanceler Bismarck.” Bismarck foi um dos sacos de pancada favoritos de Nietzsche…

A mãe de Georg, Caroline, era filha de August Koberstein, historiador conhecido por seus trabalhos sobre a literatura alemã. Ela o admirava tanto que educou seus 5 filhos de maneira fria e distante, no culto ao avô venerado. Georg sofreu com essa educação e com esse poder materno que, a seus olhos, eclipsava a figura do pai.” Se ficar a vagina dentada come, se correr o pai enraba.

À sua maneira, combatia, como Freud, o niilismo terapêutico de uma medicina exclusivamente centrada no diagnóstico (DV), sem nenhuma compaixão pelo sofrimento do paciente. Como ele, procurava apreender o ser humano em sua totalidade. Daí a escolha de uma medicina psicossomática atenta à fala do sujeito.

Em 1913, em Nasamecu, Groddeck prestou uma vibrante homenagem ao ensino de Schweninger, fazendo simultaneamente considerações higienistas que coincidiam com as teses conservadoras de seu pai. Na mais pura tradição da hereditariedade-degenerescência e da crença nos valores do sangue e da nação, reivindicava a idéia de uma <pureza das raças> e propunha que todo cidadão alemão casado com um estrangeiro fosse despojado de seus direitos civis. Em 1929, nas Lebenserinnerungen(Lembranças de vida), lamentou sua atitude de então e a corrigiu, sem nunca renunciar à utopia higienista que a sustentava.”

Logo de saída, Groddeck interpretou sua hostilidade pela psicanálise como uma expressão de inveja em relação a seu fundador. Depois, aproximou-se das teses psicanalíticas sobre a resistência, a sexualidade e a transferência, mas preservando a originalidade de seu percurso. Foi então que uma espécie de desafio se instaurou entre ambos. Quanto mais Groddeck se dirigia a Freud como um discípulo que esperava do mestre aprovação e reconhecimento de sua singularidade, mais Freud se comportava como soberano preocupado antes de tudo em fazer esse recém-chegado ingressar na <horda selvagem>:<Certamente, eu lhe daria um grande prazer se o expulsasse para longe de mim, para o lugar onde estão os Adler, Jung e outros. Mas não posso fazer isso. Devo afirmar que você é um soberbo analista, que apreendeu a essência da coisa, e não pode mais perdê-la. Aquele que reconhece que transferência e resistência são os eixos do tratamento, queira ou não, pertence irremediavelmente à horda selvagem. E não faz diferença que ele chame o inconsciente de ‘isso’>.”

No Sanatório de Baden-Baden, Groddeck recebia pacientes que sofriam de todo tipo de doenças orgânicas, para os quais a medicina da época era impotente. A fim de fazê-los participar de seu próprio tratamento, teve a idéia, a partir de 1916, de fazer conferências para eles e de criar uma revista, a Satanarium, na qual podiam expressar-se em pé de igualdade com o terapeuta. Groddeck tratava de câncer, úlceras, reumatismo, diabete, pretendendo encontrar no aspecto da doença a expressão de um desejo orgânico. Assim, via em um bócio um desejo infantil e no diabete um desejo do organismo de ser adoçado [faz TODO o sentido…]. Na mesma perspectiva, sexualizava os órgãos do corpo, situando o nervo óptico no lado da masculinidade e as cavidades cardíacas no lado da feminilidade.” A vontade O conhecimentintelecto

Em contato com a psicanálise, Groddeck modificou as suas teorias e levou em consideração a eficácia simbólica do tratamento pela fala. Mas conservou o essencial de sua doutrina do isso e decidiu exprimi-la por métodos narrativos originários da literatura.

Em 1921, publicou um <romance psicanalítico>, O pesquisador de almas, no qual contava a epopéia de um homem transfigurado pela revelação de seu inconsciente e perseguindo pelo mundo percevejos e <imagens de alma>. Freud admirou o estilo picaresco do autor, que lhe lembrava o Dom Quixote de Cervantes. Entretanto, a obra causou escândalo, sobretudo para o pastor Oskar Pfister, que a julgou excessivamente rabelaisiana.”

O Livro d’Isso TAMBÉM é uma ficção!

Com essa hostilidade pela religião do pai, e em nome de uma busca messiânica da feminilidade, única capaz de salvar a humanidade, Groddeck rejeitava a judeidade por razões opostas às de Weininger. Mas a problemática era a mesma: por um lado, o judeu era assimilado a uma mulher e todo o mal da civilização vinha da feminilidade, por outro lado, ele encarnava o mal ao recalcar os benefícios do feminino.

Do ponto de vista clínico, Groddeck prenunciava os pós-freudianos, que se interrogavam sobre a origem das psicoses, a natureza da bissexualidade e as formas pré-edipianas da relação com a mãe. Daí a proximidade de seu percurso com o dos culturalistas americanos, especialistas em esquizofrenia, como Harry Stack Sullivan.”

Os grandes representantes freudianos da medicina psicossomática, como Franz Alexander e Alexander Mitscherlich, não conservaram nada da doutrina groddeckiana, considerada extravagante e incompatível com o desenvolvimento da biologia moderna. E foi na França, entre 1975 e 1980, que esse personagem romântico foi finalmente exumado, graças ao imenso trabalho de seu tradutor, Roger Lewinter, que teve de enfrentar uma polêmica injusta sobre o pretenso racismo de seu herói.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Georg Groddeck, Un Problème de femme (Leipzig, 1903), Paris, Mazarine, 1979;

______., “Le Double sexe de l’Être humain” (1931), Nouvelle Revue de Psychanalyse, 7, primavera, 1973, 193-9;

______., La Maladie, l’art et le symbole, Paris, Gallimard, 1969;

______., Ça et Moi. Lettres à Freud, Ferenczi et quelques autres (Wiesbaden, 1970), Paris, Gallimard, 1977;

François Roustang, Um destino tão funesto (Paris, 1977), Rio de Janeiro, Taurus, 1987;

Jacquy Chemouni, “Psychopathologie de la démocratie”, Frénésie, 10, primavera de 1992, 265-82.

Gross, Otto

As relações de Freud com Fliess e Hermann Swoboda mostram até que ponto a história do movimento psicanalítico foi marcada, principalmente no início, por uma temática do plágio, do roubo de idéias, da droga e da loucura. O caso Otto Gross, como os que envolveram Tausk e Sabina Spielrein, é um dos episódios mais violentos.”“Otto Gross era filho do jurista Hans Gross (1847-1915), um dos fundadores da criminologia. Desde a infância, apresentou sinais de desequilíbrio mental, aos quais o pai, muito rígido, não soube dar nenhuma resposta. Sonhando fazer do filho um adepto de suas teorias sobre as características antropológicas dos criminosos, orientou-o para os estudos psiquiátricos. Mas logo depois de seu doutorado, Otto Gross embarcou como médico de bordo nos navios da linha Hamburgo-América do Sul. À procura de identidade, usou diversas drogas: cocaína, ópio, morfina. Ao voltar, depois de vários estágios em clínicas neurológicas de Munique e de Graz, submeteu-se a um primeiro tratamento de desintoxicação na clínica do Hospital Burghölzli, onde trabalhava Jung, sob a direção de Bleuler”

Foi através desse culto, e pregando o imoralismo sexual, que Gross militou pela psicanálise. Nessa época, era amante de ambas as irmãs Richthofen.¹ Em 1906, em Ascona, foi envolvido no suicídio de Lotte Chattemer, uma militante anarquista. Era suspeito de ter fornecido drogas à jovem e tê-la estimulado a matar-se. Em 1907, três anos depois de seu primeiro encontro com Freud, publicou uma obra, A ideogenidade freudiana e sua significação na alienação maníaco-depressiva de Kraepelin, na qual relacionava o conceito freudiano de clivagem (Spaltung) com o de dissociação de Kraepelin. Propunha substituir o termo dementia praecox por dementia sejunctiva, tomado ao psiquiatra Karl Wernicke (1848-1905), para designar a idéia de disjunção, abrindo assim o caminho para a idéia bleuleriana de esquizofrenia. Um ano depois, a pedido de seu pai, foi internado na Clínica do Burghölzli, para um segundo tratamento de desintoxicação.”

¹ Uma delas, Else Freiin von R., ex-esposa do sociólogo Edgar Jaffé, contemporâneo de Weber, do qual também foi parceira, bem como do seu irmão Alfred Weber! A outra, Frieda Freiin, se tornaria a Sra. Lawrence, ou seja, casada com D.H.! Mundo pequeno…

Nenhum dos astros da <esquerda freudiana> — de Reich a Fenichel — prestaria homenagem a essa figura maldita da revolta anti-autoritária. Foram escritores como Max Brod (1884-1968), Blaise Cendrars (1887-1961) e principalmente Franz Kafka (1883-1924), mais sensível que outros à relação pai/filho), que saudaram a memória daquele que tanto perturbara a ordem moral do freudismo incipiente, e cuja obra refletiu o transtorno sofrido pela sociedade ocidental na virada do século: <Mal conheci Otto Gross, mas senti que algo de importante estendia a mão para mim, sobre um fundo de ridículo. O ar desorientado de sua família e de seus amigos (a mulher, o cunhado e até o bebê misteriosamente silencioso no meio dos sacos de viagem — para que não caísse da cama quando ficasse sozinho — que bebia café preto, comia frutas e tudo o que lhe davam) me fazia pensar no desamparo dos discípulos do Cristo aos pés do crucificado.>

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Martin Burgess Green, The Von Richthofen Sisters: The Triumphant and the Tragic Modes of Love: Else and Frieda Von Richthofen, Otto Gross, Max Weber, and D.H. Lawrence, in the Years 1870–1970

Guattari

Félix Guattari pertencia à quarta geração psicanalítica francesa.” “Psicólogo de formação, participou da história do movimento psicanalítico de 3 maneiras: como psicanalista lacaniano, como terapeuta ligado à experiência da psicoterapia institucional realizada na Clínica de La Borde, em Cour-Cheverny, sob a direção de Jean Oury, e enfim como co-autor de várias obras escritas com o filósofo Gilles Deleuze [sequer verbetizado por ROUDINESCO, tsc!], entre as quais O anti-Édipo, que foi, em 1972, o verdadeiro manifesto de uma antipsiquiatria à francesa e teve um estrondoso sucesso [contradito por outros verbetes].”

ALORS… “Os dois autores criticavam o edipianismo freudiano que, em sua opinião, encerrava a libido plural da loucura em um quadro excessivamente estreito, de tipo familiar. Para sair desse impasse <estrutural>, eles se propunham a traduzir a polivalência do desejo humano em uma conceitualidade adequada. Daí a idéia de opor à psicanálise freudiana e lacaniana, articulada em torno da prioridade do Édipo e do significante, uma psiquiatria materialista fundada na <esquizo-análise>, isto é, na possível liberação dos fluxos desejantes. Nascido de um ensino oral dado por Deleuze na Universidade de Paris-VIII (1969-1972)[percebe-se por que é uma escrita tão caótica e despida de rigor, cof, cof] e de uma escrita a dois, O anti-Édipo tomava assim como alvo maior o conformismo psicanalítico de todas as tendências, anunciando com vigor o esgotamento trágico do lacanismo dos últimos tempos.” 47 anos e contando…

Halberstadt, Sophie, née Freud (1893-1920), filha de Freud

Seu nome foi escolhido em homenagem a Sophie Schwab, uma bela mulher que era sobrinha de Emil Hammerschlag, ex-professor de hebraico de Freud.”

Era Freud patriarca tirânico, compulsivamente apegado ao amor de suas filhas, e não suportava o casamento de Sophie, depois do de Mathilde, a tal ponto que Ferenczi diagnosticou nele um ‘complexo de Sophie’, exortando-o a aceitar normalmente essa perda.” “Em 1924, Fritz Wittels quis demonstrar que a teorização de Freud sobre a noção de pulsão de morte em Mais-além do princípio do prazer era o contragolpe da dor sentida com a morte de Sophie.” “o <menino do carretel> [filho de Sophie], que aliás esqueceu o episódio contado pelo avô em Mais-além do princípio do prazer, foi o único descendente masculino da família Freud que se tornou psicanalista.”

Heimann, Paula (EX-kleiniana)

NOVIDADE… “Em 1949, entrou em conflito com Melanie Klein a propósito da publicação de seu artigo sobre a contratransferência. Sentindo-se tratada <como escrava>, rebelou-se e foi rejeitada implacavelmente pelos kleinianos. Reuniu-se então ao Grupo dos Independentes.”

Herbart, Johann Friedrich

Sucessor de Immanuel Kant na cátedra de Königsberg em 1809 e aluno de Fichte, Herbart foi um dos fundadores da psicologia moderna. Em sua principal obra, A psicologia como ciência fundada na experiência, na metafísica e na matemática, tentou fundar uma ciência do homem sobre o ensino das ciências naturais, do associacionismo inglês e do idealismo especulativo alemão.”

hereditariedade-degenerescência

Proveniente do darwinismo social, o termo hereditariedade-degenerescência invadiu, no fim do século XIX, todos os campos do saber, desde a psiquiatria até a biologia, passando pela literatura, filosofia e criminologia. Encontramos grandes vestígios dele nas teorias da sexualidade de Richard von Krafft-Ebing, na nosografia de Emil Kraepelin, nas teses de Cesare Lombroso sobre o <criminoso nato>, nas de Gustave Le Bon sobre a psicologia das massas e de Georges Vacher de Lapouge sobre o eugenismo, e também nas obras de Hippolyte Taine (1828-1893) sobre a Revolução Francesa, no romance À rebours, de Karl Huysmans (1848-1907), lançado em 1884, no de Émile Zola intitulado Le Docteur Pascal, 1893, e, acima de tudo, no mesmo ano, no célebre livro de Max Nordau (1849-1923) chamado Degenerescência, que impregnou toda a geração dos judeus vienenses atormentados pela questão do <ódio judeu de si> e da bissexualidade.”

A doutrina da hereditariedade-degenerescência teve, na França, um destino particular na história da implantação do freudismo, em virtude da eclosão do caso Dreyfus em 1894, da irrupção de uma vigorosa corrente germanófoba e da constituição, através das diversas teorias psicológicas, sobretudo a de Pierre Janet, de um modo de resistência à psicanálise de natureza chauvinista, xenófoba e anti-semita. Daí a tentativa da primeira geração psicanalítica francesa de elaborar um freudismo <nacional>, livre de sua pretensa <barbárie alemã>.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Patrick Wald Lasowski, Syphilis, Paris, Gallimard, 1982.

Hesnard, Angelo

publicou com Regis a famosa obra A psicanálise das neuroses e das psicoses, verdadeiro manifesto germanófobo em favor de uma latinização da psicanálise, que seria considerada como o primeiro texto de implantação das teses freudianas na França pela via médica.”

A trajetória de Hesnard não se parece nem com a de Édouard Pichon, apóstolo também do afrancesamento da psicanálise e membro da Ação Francesa, nem com a de René Laforgue, que não foi chauvinista e <fracassou> em sua colaboração com os nazistas, e tampouco com a de Georges Mauco, que foi o único psicanalista francês a ser ao mesmo tempo anti-semita ativo e colaboracionista adepto do nazismo. Entretanto, a prosa chauvinista de Hesnard não está isenta de certos vestígios de anti-semitismo, como mostra seu artigo Sobre o israelismo de Freud, redigido entre novembro de 1942 e maio de 1943, e publicado em 1946, em que o filo-semitismo proclamado, em nome de uma psicologia dos povos, faz pensar irresistivelmente no bom e velho discurso do anti-semitismo francês. Na verdade, a defesa da pretensa superioridade da <raça latina> era de fato a confissão de um anti-semitismo que não ousava dizer o seu nome e tomava como alvo a Kultur alemã, julgada inferior à civilização francesa.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Hesnard, L’Oeuvre de Freud et son importance dans le monde moderne, Paris, Payot, 1960;

Sandor Ferenczi, “A psicanálise vista pela escola psiquiátrica de Bordéus” (1915), in: Psicanálise II, Obras completas, 1913-1919;

Édith Félix-Hesnard, Le Docteur Hesnard et la naissance de la psychanalyse en France, tese de doutorado em filosofia, Universidade de Paris I, 1984.

hipnose

Em 1784, no exato momento em que, em Paris, a teoria do magnetismo animal de Franz Anton Mesmer era condenada pelos especialistas da Academia de Ciências e da Real Sociedade de Medicina, o marquês Armand de Puységur (1751-1825) demonstrava, em sua cidadezinha de Buzancy, a natureza psicológica e <não-fluídica> da relação terapêutica, substituindo o tratamento magnético por um estado de <sono desperto> ou <sonambulismo>. Em especial, ele observou que Victor Race (seu <paciente>), longe de cumprir suas ordens, antecipava-se a elas e chegava até a impor sua vontade a seu magnetizador pelas palavras, pela verbalização de seus sintomas, sem experimentar nenhuma crise convulsiva. Foi assim que, às vésperas da Revolução de 1789, nasceu a idéia de que um mestre (um cientista, um médico ou um nobre) podia ser cerceado no exercício de seu poder por um sujeito capaz de falar, mesmo que este lhe fosse inferior (um criado, um doente, um camponês, etc.).

Em 1813, o abade José Custódio de Faria (1756-1819) retomou a mesma idéia, depois de haver participado do movimento revolucionário. Criticando todas as teorias do <fluido>, inaugurou em Paris um curso público sobre o <sono lúcido> e demonstrou que era possível fazer os sujeitos adormecerem, concentrando a atenção deles num objeto ou num olhar. O sono, portanto, não dependia do hipnotizador, mas do hipnotizado. Em 1845, Alexandre Dumas fez do abade Faria um personagem lendário em seu romance O conde de Montecristo.”

Progressivamente libertos do <fluido>, os magnetizadores da primeira metade do século XIX começaram a praticar um hipnotismo espontâneo, provocando estados sonambúlicos nos doentes nervosos. Esse método de exploração favorecia a revelação de segredos patogênicos nocivos, enterrados no inconsciente e responsáveis pelo mau estado psíquico dos sujeitos.

A partir de 1840, espalhou-se pela Europa e Estados Unidos uma grande onda de espiritismo. Entre as mulheres que se transformavam em videntes, dotadas de personalidades múltiplas, e os médicos que hesitavam em acreditar numa possível comunicação com o além, o hipnotismo permitiu conferir um estatuto racional à relação terapêutica. James Braid (1795-1860), que introduziu a palavra, refutou definitivamente a teoria fluídica em prol de uma explicação de tipo fisiológico, e substituiu a técnica mesmeriana dos <passes> pela fixação num objeto brilhante, na qual Faria já havia pensado.”

A querela entre essas duas escolas, que teve por pivô fundamental a questão da histeria, durou uns bons dez anos. Enquanto Charcot assimilava a hipnose a um estado patológico, a uma crise convulsiva, e utilizava o hipnotismo para retirar a histeria da simulação e lhe conferir o estatuto de neurose, Bernheim a considerava um processo normal. Assim, via no hipnotismo uma técnica de sugestão que permitia tratar dos pacientes. Reatando com o projeto de instituir uma terapia fundamentada numa pura relação psicológica, ele abriu caminho para a expansão das diversas psicoterapias da segunda psiquiatria dinâmica. Foi por isso que acusou Charcot de <fabricar> histéricas através da sugestão.” “Simultaneamente marcado pelo ensino de Charcot e pelo de Bernheim, Freud logo abandonou a hipnose em favor da catarse, como mostram os Estudos sobre a histeria.”

Com a expansão do freudismo teve início o declínio do hipnotismo. Mas sua prática nem por isso desapareceu. Recorreu-se a ele entre 1914 e 1918, no momento do primeiro conflito mundial, para tratar os sintomas histéricos dos soldados atingidos pelas neuroses de guerra. Além disso, a cada crise do movimento psicanalítico, a questão da hipnose e de seu possível retorno voltou a se colocar. Assediados por suas origens, diversos psicoterapeutas formados no freudismo tenderam, ao longo de todo o século XX, a retornar ao hipnotismo, fosse para demonstrar a existência de um resíduo de sugestão no interior da relação transferencial, fosse para denunciar os impasses terapêuticos do tratamento freudiano clássico, fosse ainda para afirmar, numa ótica revisionista, que Freud não teria inventado nada de novo e se haveria deixado ludibriar por simuladoras em estado de hipnose.”

Na França, a técnica do <sonho acordado dirigido>, de Jacques Desoille, foi um derivado do hipnotismo e da sugestão, do mesmo modo que o training autógeno de Johannes Schultz, na Alemanha.”

histeria

Derivada da palavra grega hystera (matriz, útero), a histeria é uma neurose caracterizada por quadros clínicos variados. Sua originalidade reside no fato de que os conflitos psíquicos inconscientes se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações, através de sintomas corporais paroxísticos (ataques ou convulsões de aparência epiléptica) ou duradouros (paralisias, contraturas, cegueira).

As duas principais formas de histeria teorizadas por Freud foram a histeria de angústia, cujo sintoma central é a fobia, e a histeria de conversão, onde se exprimem através do corpo representações sexuais recalcadas. A isso se acrescentam duas outras formas freudianas de histeria: a histeria de defesa, que se exerce contra os afetos desprazerosos, e a histeria de retenção, onde os afetos não conseguem se exprimir pela ab-reação.” “A expressão histeria traumática pertence ao vocabulário clínico de Jean Martin Charcot e designa uma histeria consecutiva a um trauma físico.”

a histeria permanece como a doença princeps e proteiforme que possibilitou não apenas a existência de uma clínica freudiana, mas também o nascimento de um novo olhar sobre a feminilidade.”

Entre uma cidade e outra, a histeria do fim de século fez estremecer o corpo das européias, sintoma de uma rebelião sexual que serviu de motor para sua emancipação política: <A histeria não é uma doença>, sublinhou Gladys Swain [psiquiatra francesa contemporânea, bastante crítica da epistemologia da loucura de Foucault], <mas a doença em estado puro, aquela que não é nada em si, mas é passível de assumir a forma de todas as demais. É mais estado do que acidente: o que torna a mulher doente por essência.>

Em seu Timeu, Platão retomou a tese hipocrática, sublinhando que a mulher, diferentemente do homem, trazia em seu seio um <animal sem alma>. Próximo da animalidade: assim foi, durante séculos, o destino da mulher, e mais ainda da histérica.

Na Idade Média, sob a influência das concepções agostinianas, renunciou-se à abordagem médica da histeria e a palavra em si quase deixou de ser empregada. As convulsões e as famosas sufocações da matriz eram consideradas a expressão de um prazer sexual e, por conseguinte, de um pecado. Por isso, foram atribuídas a intervenções do demônio: um demônio enganador, capaz de simular doenças e entrar no corpo das mulheres para <possuí-las>. A histérica tornou-se a feiticeira, redescoberta de maneira positiva no século XIX porJules Michelet (1798-1874).

No Renascimento, médicos e teólogos disputaram o corpo das mulheres. Em 1487, com a publicação do Malleus maleficarum, a Igreja católica romana e a Inquisição dotaram-se de um manual aterrador, que permitia <detectar> os casos de bruxaria e mandar para o carrasco todos os seus representantes, mais particularmente as mulheres.Durante mais dois séculos, a caça às bruxas fez inúmeras vítimas, embora a opinião médica tentasse resistir a essa concepção demoníaca da possessão. Assim, o médico alemão Jean Wier (1515-1588) tentou, no século XVI, opor-se ao poder da Igreja, e assumiu a defesa das <possuídas>, sublinhando que elas não eram responsáveis por seus atos e que era preciso considerar toda sorte de convulsivas como doentes mentais. Em 1564, na Basiléia, em plena guerra religiosa, Wier publicou um livro, Da impostura do diabo, que teve grande repercussão. Os teólogos viram nele a marca do demônio e por pouco o autor conseguiu evitar as perseguições, graças a proteções principescas.Gregory Zilboorg consideraria Jean Wier o pai fundador da primeira psiquiatria dinâmica.”

Henri Ellenberger sublinhou que foi em 1775 que se efetuou a passagem do sagrado para o profano, data em que Mesmer obteve sua grande vitória sobre o exorcista Josef Gassner (?-1779), ao demonstrar que as curas obtidas por este decorriam do magnetismo.”

uma histeria masculina, que Charles Lepois (1563-1633), um médico francês originário da cidade de Nancy, foi o primeiro a estabelecer, em 1618. A hipótese cerebral conduziu a uma <dessexualização> da histeria, sem pôr fim à velha concepção da animalidade da mulher. Entretanto, no século XVII, pôde-se invocar, em vez da antiga sufocação da matriz, o papel das emoções, dos <vapores> e dos <humores>, a ponto, aliás, de confundir numa mesma entidade a histeria e a melancolia

Neurose. Esse termo, que faria fortuna, fôra introduzido em 1769 por um médico escocês, William Cullen (1710-1790). Ele incluía nessa categoria as afecções mentais sem origem orgânica, qualificando-as de <funcionais>, isto é, sem inflamação nem lesão do órgão em que aparecia a dor. Essas afecções, portanto, eram doenças nervosas.”

Ligando o hipnotismo e a neurose, Charcot devolveu dignidade à histeria. Não somente abandonou a tese da presunção uterina, a ponto de se recusar a levar oficialmente em conta a etiologia sexual, como também, fazendo da doença uma neurose, libertou as histéricas da suspeita de simulação.”

as massas trabalhadoras eram chamadas de histéricas quando entravam em greve, enquanto as multidões eram remetidas a seus <furores uterinos> quando ameaçavam a ordem estabelecida.”

Nos Estudos sobre a histeria, obra magistral, tanto por sua contribuição teórica quanto pela exposição clínica dos casos patológicos, propuseram-se os grandes conceitos de uma nova apreensão do inconsciente: o recalcamento, a ab-reação, a defesa, a resistência e, por fim, a conversão, graças à qual tornou-se possível compreender como uma energia libidinal se transformava numa inervação somática, numa somatização dotada de uma significação simbólica.”

Mesmo que, na infância, elas houvessem sofrido abusos ou violências, o trauma já não servia como explicação exclusiva sobre a questão da sexualidade humana. Ao lado da realidade material, afirmou Freud, existia uma realidade psíquica igualmente importante em termos da história do sujeito.”

As epidemias histéricas do fim do século XIX contribuíram de tal maneira para o nascimento e a difusão do freudismo, que a própria noção de histeria desapareceu do campo da clínica. Não apenas os doentes não mais apresentaram os mesmos sintomas, uma vez que eles tinham sido claramente reconhecidos e desvinculados de qualquer simulação, como também, quando porventura esses sintomas ressurgiam, já não eram classificados no registro da neurose, mas no da psicose: começou-se então a falar de psicose histérica, termo que Freud havia descartado, e depois esta foi misturada à nova nosografia bleuleriana da esquizofrenia. A partir de 1914, ninguém mais ousou falar em histeria, a tal ponto a palavra foi identificada com a própria psicanálise.

Em seguida, na França, o movimento surrealista reivindicou a expressão <beleza convulsiva>, para fazer da histeria o emblema de uma arte nova, enquanto Jules de Gaultier inventava a noção de bovarismo para designar uma neurose narcísica de conotação melancólica (e marcante conteúdo histérico).”

Quanto à idéia de personalidade histérica, herdada da de personalidade múltipla, fez fortuna a partir da década de 1960, quando começaram os grandes debates norte-americanos e ingleses sobre a Self Psychology e os borderlines.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Gladys Swain, Dialogue avec l’insensé, Paris, Gallimard, 1994;

______., Le sujet de la folie: Naissance de la psychiatrie, 1977;

Swain & Gauchet, La pratique de l’esprit humain. L’institution asilaire et la révolution démocratique, Paris, Gallimard, 1980.

história da psicanálise

Na África, apenas um pioneiro, Wulf Sachs, emigrado da Rússia, conseguiu formar um grupo, que depois veio a se desfazer. Neste final do século XX, um novo grupo está em vias de reconstituição (na África do Sul, depois do fim do apartheid).”

Em Israel, Max Eitingon e Moshe Wulff fundaram (na Palestina) uma sociedade psicanalítica, enquanto, no Líbano, libaneses e franceses de origem libanesa criaram, em 1980, a Sociedade Libanesa de Psicanálise (SLP).”

Na China, após um movimento de higiene mental e reforma dos manicômios marcado pela introdução da terminologia de Kraepelin e as teses de Adolf Meyer, o regime comunista impediu, depois de 1949, qualquer implantação da psicanálise.”

No sul, 5 Estados instauraram novas monarquias, ao mesmo tempo em que continuavam subordinados ao Império Otomano: a Bulgária, a Romênia, a Sérvia, a Grécia e Montenegro.Nesses países de fronteiras incertas, as minorias judaicas eram importantes, mas não existiu um movimento de reforma passível de favorecer a implantação do saber psiquiátrico e a afirmação de uma nova visão da loucura. Em conseqüência disso, neles a psicanálise permaneceu como um fenômeno marginal, ligado a uns poucos pioneiros que se abriam para a cultura do Ocidente.”

Houve uma exceção: a Península Ibérica (Espanha e Portugal). No começo do século, ela era a única parte da Europa ocidental a ter conservado um regime monárquico tradicional, embora em visível declínio. Não se mostraria uma terra acolhedora para a psicanálise, e os partidários desta emigrariam para a América Latina por ocasião da guerra civil (1936-1938).”

Nascida no coração do Império Austro-Húngaro, portanto, a psicanálise seduziu, inicialmente, uma primeira geração de pioneiros de língua alemã, provenientes de todos os cantos da Mitteleuropa e, de modo geral, oriundos de um meio de comerciantes ou intelectuais judeus. Entre 1902 e 1913, ela veio então a conquistar 3 <terras prometidas> (ou Estados democráticos) onde se haviam desenvolvido, segundo o ideal da ética protestante, os princípios gerais da psiquiatria dinâmica: Suíça, Grã-Bretanha e Estados Unidos.”

A vitória do stalinismo, na Rússia, e do nazismo, na Alemanha, modificou as modalidades de implantação e organização da psicanálise na Europa. Entre 1933 e 1941, os freudianos da primeira e segunda gerações deixaram a Europa em ondas sucessivas: russos e húngaros refugiados na Alemanha e na França desde 1920, alemães caçados pelo nazismo, italianos e espanhóis perseguidos pelo fascismo e pelo franquismo, e austríacos após a ocupação das tropas alemãs. A partir de 1939, os suíços instalados na França retornaram a seu país, alguns franceses abandonaram a terra natal (como Marie Bonaparte) e outros se esconderam ou interromperam qualquer atividade pública.”

Note-se que as ditaduras militares não impediram a expansão da teoria psicanalítica na América Latina (em especial no Brasil e na Argentina). Isso se deveu à natureza delas, diferente da encontrada nos outros dois sistemas (stalinismo e nazismo) que destruíram a Europa. Os regimes de tipo caudilhista nunca instauraram um plano de eliminação do freudismo como <ciência judia>, como aconteceu na Alemanha entre 1933 e 1944, nem como <ciência burguesa>, como se deu na União Soviética entre 1945 e 1989.”

historiografia

Os primeiros trabalhos históricos sobre a psicanálise foram redigidos pelo próprio Freud primeiro em 1915, sob a forma de um longo artigo, intitulado A história do movimento psicanalítico, e depois em 1925, através de uma autobiografia, chamada Um estudo autobiográfico.

Esses dois textos, de grande qualidade literária, mostram que Freud, apesar de muito atento à ciência histórica, não conseguiu desvincular-se, para contar seu próprio destino e o de seu movimento, de um modelo historiográfico arcaico, baseado no mito da autogeração da psicanálise por seu valoroso fundador:ela teria nascido de seu próprio cérebro, distante das doutrinas pré-científicas características da época anterior. No primeiro caso, Freud, travando batalhas contra dois dissidentes (Adler e Jung), apresenta-se como pai de uma doutrina que ele pretendia gerir. No segundo, escreve uma Bildung na mais pura tradição alemã, segundo a qual o autor traça seu itinerário intelectual.”

Foi depois da II Guerra Mundial que realmente nasceu a historiografia psicanalítica, impulsionada por Ernest Jones, o primeiro grande autor a biografar Freud. Seu magistral livro em 3 volumes, publicado entre 1952 e 1957 e apoiado em arquivos inéditos e parcialmente compilados por ele, bem como por Siegfried Bernfeld e Kurt Eissler, permitiu que começássemos a traçar a história do freudismo.” “verdadeiro problema dessa biografia está em ela ter sido escrita por um homem que foi, ao mesmo tempo, um cronista a serviço de um rei, o líder de um movimento político e um adversário da maioria dos atores cuja saga narrou.Jones quis ser Saint-Simon, depois de haver desempenhado, sucessivamente, os papéis de Joinville, Richelieu e Fouché. (…) Não apenas se mostrou de uma injustiça flagrante com Otto Rank, Sandor Ferenczi ou Wilhelm Reich, como também situou mal a importância de Wilhelm Fliess e suas teorias na história das origens imediatas do freudismo.Além disso, como bom estrategista político, dissimulou os acontecimentos passíveis, a seu ver, de tirar o brilho da imagem do movimento psicanalítico: os suicídios, os extravios, as loucuras e as transgressões. Por último, Jones mascarou ou não reconheceu os erros terríveis que cometeu, sobretudo frente ao nazismo, ao pôr em prática sua política de um pretenso <salvamento> da psicanálise.”

Em 1972, com seu livro Freud: vida e agonia, uma biografia, Max Schur corrigiu a versão jonesiana, apresentando uma imagem mais vienense do mestre, que então começou a emergir sob a aparência de um cientista ambivalente, angustiado pela morte e hesitante entre o erro e a verdade. Schur revelou pela primeira vez a existência de Emma Eckstein.”

Henri Ellenberger: Sua História da descoberta do inconsciente, com efeito, foi a primeira a introduzir o longo prazo na aventura freudiana e a mergulhar a psicanálise na história da psiquiatria dinâmica.”

Quanto à historiografia dissidente, ela surgiu em 1971, com a publicação de Freud e seus discípulos, de Paul Roazen. Nascido em 1936, o autor abandonou a história oficial para se tornar o cronista da memória oral do movimento. Com a ajuda de depoimentos de sobreviventes, construiu uma prosopografia do meio psicanalítico: redes de poder, filiações, etc. Acima de tudo, Roazen foi o primeiro a dar lugar plenamente aos discípulos cujo destino a história oficial havia ocultado ou deturpado: Hermine von Jugh-Hellmuth, Victor Tausk e Ruth Mack-Brunswick.”

Ora, a política de retenção [dos arquivos confidenciais na Biblioteca do Congresso, em Washington] conduzida por Eissler, com a concordância de Anna Freud, iria revelar-se catastrófica, como sublinhou o historiadorPeter Gay: <A opção pelo sigilo, à qual Eissler esteve e continua muito firmemente ligado, só pode incentivar a proliferação dos mais extravagantes boatos sobre o homem (Freud) cuja reputação ele quer proteger.>

Em vez de abrirem os arquivos a historiadores profissionais, Eissler e Anna Freud decidiram confiar a Jeffrey Moussaïeff Masson, aluno brilhante e devidamente analisado dentro do serralho, o estabelecimento da correspondência entre Fliess e Freud. Pois bem, em meio a suas pesquisas, o feliz eleito transformou-se num contestador radical não somente da legitimidade oficial, mas da própria doutrina freudiana. Sonhando-se profeta de um freudismo <revisto>, passou a acreditar que a América tinha sido corrompida por uma mentira freudiana original. Assim, afirmou que as cartas de Freud revelavam que este havia abandonado a teoria da sedução por covardia. Não ousando revelar ao mundo as atrocidades cometidas pelos adultos com crianças inocentes (estupros, maus-tratos, incestos forçados, etc.), ele teria inventado a teoria da fantasia e, por conseguinte, seria um falsário.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Janet Malcolm, Tempête aux Archives Freud (N. York, 1984), Paris, PUF, 1986.

Hollitscher, Mathilde, née Freud (1887-1978), filha de Freud

FREUD SEMPRE PIEGAS: “Quando nasceu, seu nome foi escolhido em homenagem a Mathilde Breuer, esposa de Josef Breuer.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Stefan Zweig, Le Monde d’hier

homossexualidade

a figura do homossexual, desde Oscar Wilde (1856-1900) até Marcel Proust (1871-1922), no final do século, enquanto progredia o anti-semitismo, foi acolhida como um equivalente do judeu”

Ao ódio do judeu por si mesmo corresponde o ódio do homossexual por si mesmo.”Hans Mayer

Em sua interpretação do mito de Édipo Freud nunca pensou em evocar o episódio <homossexual> de Laio: quando rei de Tebas, ele havia raptado o belo Crísipo. Hera, protetora do casamento, ficara escandalizada com isso e havia mandado a Esfinge aos tebanos para puni-los por terem sido demasiadamente tolerantes para com essa relação culpada.”

com respeito às mulheres, empregavam-se os termos safismo ou lesbianismo, numa referência a Safo, a poetisa grega da ilha de Lesbos que era adepta do amor entre as mulheres; quanto aos homens, falava-se de uranismo, pederastia, sodomia, neuropatia, homofilia, etc.”

Sob a pressão de Jones e dos berlinenses, os membros do Comitê cederam — inclusive Ferenczi e Freud. Assim, a homossexualidade foi banida da legitimidade freudiana, a ponto de ser novamente considerada uma <tara>.”Comitê secreto do meu pau fumando charuto.

LÁ VEM A MONSTRINHA FEIOSA: “Anna Freud desempenhou um grande papel na deturpação das teses de seu pai. Estando ela mesma sob a suspeita do meio psicanalítico de manter uma ligação <culpada> com Dorothy Burlingham, Anna militou contra o acesso dos homossexuais à análise didática.Apoiada por Jones e pelo conjunto das sociedades norte-americanas da IPA, exerceu nesse campo uma influência considerável, que não foi contrabalançada pela corrente kleiniana, mais liberal,mas pela qual a homossexualidade (latente ou consumada) era vista, sobretudo em sua versão feminina, como uma identificação com um pênis sádico, e, em sua versão masculina, como um distúrbio esquizóide da personalidade.”

TOMA JARARACA: “o lacanismo foi, na França e, mais tarde, nos países onde se implantou, a ponta de lança de uma reativação da tolerância freudiana para com a homossexualidade. Essa tolerância se prendia à própria personalidade de Lacan. Libertino e sedutor das mulheres, leitor de Sade e de Bataille e grande admirador da obra de Foucault, ele não tinha nenhum preconceito em relação às diversas formas da sexualidade humana.”

Horney, Karen

Desde a juventude, Karen dedicou um amor total à mãe e rejeitou o pai, que não queria que ela estudasse, desejando que se consagrasse aos trabalhos domésticos. Como todas as mulheres de sua geração, teve de enfrentar uma luta violenta para ter acesso à liberdade de fazer suas próprias escolhas. Apoiada pela mãe, conseguiu matricular-se na faculdade de medicina de Freiburg.”

valorizaria sempre o princípio da auto-análise contra o tratamento clássico, e consideraria um insulto às mulheres a teoria da sexualidade feminina [inveja do pênis]. Não há nenhuma dúvida de que, através de sua crítica à obra freudiana, atacava primeiro a maneira selvagem com que Abraham a tratara.”“foi a primeira mulher professora no Instituto Psicanalítico Berlinense e a primeira também a criticar a famosa tese freudiana sobre a feminilidade, respondendo a Abraham no congresso da IPA em Berlim, em 1922. (…) Em 1926, afirmou que a sociedade masculina recalcava a inveja da maternidade dos homens. Depois, em 1930, desenvolveu a tese segundo a qual a própria psicanálise, como obra do <gênio masculino>, não podia de forma alguma resolver a questão feminina.”

Em 1934, tornando-se companheira de Erich Fromm, que também emigrara, aceitou um lugar de professora na Sociedade Psicanalítica de Washington-Baltimore. Mas foi em Nova York que se instalou e, apesar da oposição violenta de Sandor Rado, foi eleita membro da New York Psychoanalytic Society (NYPS) em 1935, onde, durante vários anos, teve um sucesso considerável com os estudantes em seus cursos e publicações. Quando Marianne, sua filha, abraçou a carreira de psiquiatra, ela não hesitou em fazer, durante 4 anos, uma análise com Erich Fromm [ERRADO ERRADO ERRADO, PORRA!].”

Tornando-se célebre, Karen Horney mostrou-se então de um autoritarismo tão <masculino> quanto o que criticava nos homens, e é certamente esse amor de si que explica sua cegueira em relação a Göring. Como alguns psicanalistas homens, ela transgrediu as regras do tratamento, tendo uma ligação com um de seus analisandos.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

H., L’Auto-analyse (N. York, 1943), Paris, Stock, 1993.

Hug-Hellmuth, Hermine von, née Hug Von Hugenstein (1871-1924)

Fascinados com essa <doutora>, que era de uma ortodoxia sem falhas, Freud e seus fiéis não viram — ou não quiseram ver — que Hermine von Hug-Hellmuth aplicava as teses do mestre ao <caso> no seu jovem sobrinho, fazendo interpretações selvagens. (…) Nascido em 1906, Rolf Hug era filho natural de Antonia, irmã consangüínea de Hermine. Quando sua mãe morreu, foi enviado para uma ama, mudou DEZOITE VEZES de domicílio, e teve 4 tutores sucessivos, entre os quais Sadger [analista de Hermione]. Com a idade de 13 anos, acabou sendo acolhido pela tia. Esta tanto experimentou nele as teses freudianas que acabou vítima de sua cobaia. Em setembro de 1924, procurando roubar-lhe dinheiro e vendo que ela começava a gritar, Rolf a estrangulou, depois de sufocá-la com uma mordaça.” Interessante!

A comunidade psicanalítica vienense foi atingida por esse escândalo. Condenado a 12 anos de prisão, Rolf foi libertado em 1930 e apressou-se a ir pedir dinheiro a Paul Federn, então presidente da Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV). Assim, queria ser indenizado por ter servido de material humano para as experiências interpretativas da tia. Como resposta, Edward Hirschmann o aconselhou a fazer um tratamento com Helene Deutsch.”

Realizado a partir das efetivas lembranças de infância de Hermine, oDiário foi apresentado ao público em 1919, por uma editora anônima, como o autêntico diário de uma verdadeira adolescente chamada Grete Lainer.O nome da autora era forjado sobre o da mãe de Hermine (Leiner). A obra era acompanhada de uma carta-prefácio de Freud, datada de 1915, na qual se podia ler que se tratava de uma jóia, mostrando a sinceridade de que era capaz a alma infantil no estado presente da civilização. O fato de que Freud se tenha deixado iludir por essa falcatrua, que ilustrava maravilhosamente suas teses, não impediu Cyril Burt, membro da British Psychoanalytical Society (BPS), de denunciá-la. Ele conhecia muito bem o assunto porque ele próprio recorrera ao uso de dados falsos para teorizar suas hipóteses sobre a hereditariedade da inteligência.” Malandro não engana malandro!

Depois da morte da autora, o caso do assassinato e do falso diário foi apagado dos anais do movimento freudiano, a tal ponto que, no fim do século XX, alguns psicanalistas ainda acreditavam que o homicídio e a falsificação foram calúnias difundidas pelos inimigos de Freud. Foi preciso esperar pelos trabalhos do historiador americano Paul Roazen, do historiador austríaco Wolfgang Huber (1931-1989), da psicóloga suíça Angela Graf-Nold e enfim do germanista francêsJacques Le Rider, para que o conjunto dos fatos fosse conhecido em seus mínimos detalhes.”

Na França, o Diário foi traduzido por Clara Malraux (1897-1982) e publicado em 1928 em versão resumida. Depois, foi reeditado integralmente em 1975, depois em 1987 e 1988.Em cada uma dessas ocasiões, foi apresentado, por psicanalistas pouco preocupados com a história, como o <verdadeiro> diário de uma <verdadeira> adolescente. No volume XII das Oeuvres complètes de Freud, realizado pela equipe de Laplanche & André Bourguignon (1920-1996) em 1988, o prefácio de Freud foi acompanhado de uma nota que não mencionava a reedição francesa de 1975 e confundia a edição vienense de 1919 com a de 1923.A autenticidade do Diário não era questionada, Cyril Burt foi tratado de falsificador e a história do assassinato não foi mencionada. Na edição de 1994, os autores corrigiram o erro.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Paul Roazen, Freud e seus discípulos (N. York, 1971), S. Paulo, Cultrix, 1978.

identificação

Na década de 60, Lacan consagrou um ano de seu Seminário à questão da identificação. Primeiramente, construiu seu conceito de traço unário, que, apesar de se inspirar no traço único da identificação regressiva de Freud, supera largamente seu conteúdo, uma vez que Lacan fundamenta nele sua concepção do um, esteio da diferença, que por sua vez é a base da identidade, distinta da abordagem lógica clássica que faz do um a marca do único. Daí, a partir da análise do cogito cartesiano, Lacan situa o fundamento da identificação inaugural, a do sujeito distinto do eu, no traço unário, essência do significante, que é o nome próprio.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Joseph Sandler (org.), Projection, identification, identification projective (Londres, Madison, 1988), Paris, PUF, 1991.

identificação projetiva (psicose)

Conceito introduzido em 1946 por Melanie Klein para designar um modo específico de projeção e identificação que consiste em introduzir a própria pessoa no objeto para prejudicá-lo.”

Foi numa comunicação sob o título de Notas sobre alguns mecanismos esquizóides, que Melanie Klein criou a noção. Ela vinculou esse mecanismo ao sadismo infantil: a criança não quer simplesmente destruir a mãe, porém apossar-se dela. <Isso leva a uma forma de identificação que estabelece o protótipo de uma relação de objeto agressiva.>

Em dado momento é necessário escolher a psicanálise que se quer seguir, pois o leque de opções torna qualquer aprendizado útil anti-intuitivo a essa altura do campeonato! Cisão cerebral face às cisões do movimento…:“A identificação projetiva de Klein é uma das modalidades da projeção no sentido freudiano, mas é também um mecanismo de natureza psicótica encontrado em todos os sujeitos.”

A melhor ilustração da natureza clínica da identificação projetiva encontra-se num artigo de 1955, que tem por título A propósito da identificação, no qual Melanie Klein comenta um romance de Julien Green, Se eu fosse você…, publicado em 1947. Nessa obra, o escritor conta a história de um Fausto moderno, Fabien, que faz um pacto com o diabo a fim de poder assumir a identidade das pessoas cuja vida quer viver. Assim, transforma-se indefinidamente num outro. No fim do livro, reintegra seu próprio corpo e morre apaziguado, junto de sua mãe. Klein vê no destino do herói uma tentativa dele superar suas angústias psicóticas, mas contesta o final feliz pretendido pelo autor: <A explicação desse fim abrupto não pode ser definitiva>.

Ao ler esse comentário, Julien Green ficou muito surpreso por constatar que Melanie Klein enxergara longe e tinha adivinhado o verdadeiro fim do romance. De fato, ele havia redigido uma primeira versão de Se eu fosse você…, pessimista, na qual Fabien, depois de voltar a ser ele mesmo, tornava a se encontrar com o diabo: <A história não acabava nunca, era o inferno.> Na segunda versão, ao contrário, reconciliou o herói com Deus e o fez morrer feliz.”

Klein e Joan Riviere constatam a ação de fantasias de identificação projetiva em diversos estados patológicos como a despersonalização e a claustrofobia.”

SOBRE A CONFUSÃO INERENTE AO TERMO MAL-CUNHADO: “Se Klein fala aqui de identificação, é na medida em que é a própria pessoa que é projetada.” “projeção do que é mau”

igreja

Freud apaixonou-se, tal como Jean Martin Charcot, pelas possessões demoníacas. Assim, em 1897, encomendou a seu editor o Malleus maleficarum, terrível manual publicado em latim em 1487 por Sprenger & Kramer utilizado pela Inquisição com a aprovação do papa Inocêncio VIII, para mandar para a fogueira as supostas feiticeiras. Mais tarde, em 1909, numa discussão com Hugo Heller durante uma reunião da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, ele expôs suas idéias sobre a questão, fazendo do diabo uma personificação das pulsões sexuais recalcadas. Por fim, em 1923, publicou um artigo, Uma neurose demoníaca do século XVII, no qual estudou a história de Christopher Haitzmann, um pintor da Baviera que foi exorcizado depois de ter sido seduzido pelo diabo e tomado de convulsões. Nesse episódio, Freud contrastou os benefícios da psicanálise, capaz, a seu ver, de curar as neuroses, com as práticas religiosas e ocultas de antigamente, pouco compatíveis com o Aufklärung.”

a encíclica Rerum novarum, promulgada em 1891 pelo papa Leão XIII, valorizava as pesquisas científicas em detrimento do obscurantismo. Chegava até a incentivar os cristãos a elaborarem uma racionalidade passível de fazer frente, na Europa, ao advento dos modernos Estados leigos, cuja legitimidade seria preciso reconhecer um dia.”

América Latina, terra de escolha de uma teologia da libertação da qual surgiria mais uma interrogação sobre o marxismo e as novas formas de espiritualidade cristã. Durante 20 anos, entre 1955 e 75, alguns padres renunciaram ao hábito e se tornaram psicanalistas, outros exerceram a psicanálise sem tirar o hábito, e outros ainda, após a análise, viveram com mulheres ou praticaram clandestinamente uma homossexualidade até então recalcada.”

a Associação Médico-Psicológica de Ajuda aos Religiosos (AMAR), destinada ao clero regular, desempenhou um papel importante, não apenas orientando os candidatos ao sacerdócio para ordens que conviessem a sua personalidade, mas também difundindo um saber freudiano entre padres provenientes do mundo inteiro.”

Iniciado por Alexandre Kojève (1902-1968) e Alexandre Koyré (1892-1964) na história das religiões, fascinado como Bataille pelo misticismo feminino, e apaixonado pela arte barroca e pela grandeza do catolicismo romano, Lacan tinha consciência — em agosto de 1953, no momento da redação de sua famosa conferência sobre a função da fala e da linguagem — da expansão das idéias freudianas fora do meio médico. Por isso, voltou seu olhar para as duas instituições rivais que se abriam para a psicanálise nos anos 50: a igreja católica e o Partido Comunista Francês. Não hesitou em pedir a seu irmão, Marc-François Lacan (1908-1994), monge beneditino, que lhe conseguisse uma audiência com o papa. E, se o encontro não se deu, a EFP contou em suas fileiras com diversos jesuítas que lhe deixaram sua marca, dentre eles o grande historiador do misticismo Michel de Certeau (1926-1986).”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Michel David, La Psicoanalisi nella cultura italiana (1966), Turim, Boringheri, 1990;

Françoise Dolto, O Evangelho à luz da psicanálise, 2 vols. (Paris, 1977), Rio de Janeiro, Imago, 1979, 1981;

Roudinesco, Jacques Lacan. Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994;

Mélanie Arnal, Marc Oraison, l’Église et la psychanalyse (1914-1979), mestrado em história, Universidade Paris I, 1993-1994.

~^~Parabéns, você acaba de chegar à metade!~^~

imagem do corpo

Paul Ferdinand Schilder, A imagem do corpo (Londres, 1935), S. Paulo, Martins Fontes, 1994, 2ª ed.;

Françoise Dolto, A imagem inconsciente do corpo (Paris, 1984), S. Paulo, Perspectiva, 1992.

imaginário

Utilizado por Lacan a partir de 1936, o termo é correlato da expressão estágio do espelho e designa uma relação dual com a imagem do semelhante. Associado ao real e ao simbólico no âmbito de uma tópica, a partir de 1953, o imaginário se define, no sentido lacaniano, como o lugar do eu por excelência, com seus fenômenos de ilusão, captação e engodo.”

Foi inspirando-se ao mesmo tempo nos trabalhos do psicólogo Henri Wallon (1879-1962), na fenomenologia hegeliana e husserliana e no conceito de Umwelt, extraído de Jakob von Uexküll (1864-1944), que Lacan construiu sua primeira teoria do imaginário. Esse biólogo alemão servira-se do termo Umwelt para definir o mundo tal como vivido por cada espécie animal. No começo do século, revolucionara o estudo do comportamento (inclusive do sujeito humano), mostrando que o pertencimento a um meio devia ser pensado como a internalização desse meio em cada espécie. Daí a idéia de que o pertencimento de um sujeito a seu ambiente já não podia ser definido como um contrato entre um indivíduo livre e uma sociedade, mas sim como uma relação de dependência entre um meio e um indivíduo.”

Num primeiro momento, Lacan mostrou que o estágio do espelho era a passagem do especular para o imaginário, e depois, em 1953, veio a definir o imaginário como um engodo ligado à experiência de uma clivagem entre o eu (moi) e o eu (je, o sujeito). [AH NÃO!] O simbólico foi então definido como o lugar do significante e da função paterna, o imaginário como o das ilusões do eu, da alienação e da fusão com o corpo da mãe, e o real como um resto impossível de simbolizar. Lacan conferiu ao simbólico, até 70, um lugar dominante em sua tópica. A ordem das instâncias era esta: S.I.R. Depois dessa data, ele construiu uma outra organização, centrada na primazia do real (e portanto, da psicose), em detrimento dos outros dois elementos. S.I.R. transformou-se então em R.S.I.” E quando vem o fecho da trilogia, o I.S.R. ou I.R.S?? Lacan parece ter feito como Freud: passou a vida se retificando para no final… chegar a lugar nenhum?!

Para Lacan só existe semelhante – outro que seja eu – porque o eu é originalmente um outro

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Lacan., O Seminário, livro 2, O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955) (Paris, 1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985;

______., O Seminário, livro 3, As psicoses (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988, 2a. ed.;

______., O Seminário, livro 4, A relação de objeto (1956-1957) (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995;

______., Le Séminaire, livre XXII, R.S.I. (1974-1975), inédito; (meio-recomendado)

Bertrand Ogilvie, Lacan. A formação do conceito de sujeito (Paris, 1987), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988;

imago

Sempre dependentes do mundo dos artistas para preencher seus vácuos empíri(CO²)nceituais: “Foi em 1906 que o escritor suíço Carl Spitteler (1845-1924) publicou seu romance Imago, que obteve sucesso considerável no seio da comunidade psicanalítica nascente. Simultaneamente marcado pelo nietzscheanismo e pelo espiritualismo pós-romântico, o autor contava a história de um poeta (Viktor) que inventava para si uma mulher imaginária (Imago), conforme a seus desejos, para fazê-la ocupar em suas fantasias e devaneios o lugar da burguesa bastante real e muito conformista a quem ele amava com um amor infeliz.” “Jung cunhou a noção de imago (paterna ou materna) a partir da leitura desse romance. Sob sua pena, o termo evoluiria para dar origem à anima ou arquétipo característico da parte feminina da alma do sujeito.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Carl Gustav Jung, Métamorphoses de l’âme et ses symboles (Leipzig-Viena, 1912, Paris, 1931), Paris, Buchet-Chastel, 1953.

incesto

Na totalidade das sociedades conhecidas, à exceção de alguns casos, dentre eles os faraós do Egito ou a antiga nobreza havaiana, o incesto sempre foi severamente castigado e, mais tarde, proibido. (…) Três argumentos foram invocados pelos antropólogos e sociólogos para explicar a existência dessa proibição. Lewis Morgan (1818-1881) sublinhou que ela era uma maneira de proteger a sociedade dos efeitos nefastos da consangüinidade. Havelock Ellis e Edward Westermarck (1862-1939) afirmaram em seguida que a proibição se explicava pelo sentimento de repulsa ante o ato incestuoso. Por fim, Durkheim propôs compreendê-la como a sobrevivência de um conjunto de regras que impunham às sociedades a lei da exogamia.” “Depois das disputas entre Bronislaw Malinowski e Geza Roheim, foi preciso esperar pela publicação de As estruturas elementares do parentesco, por Claude Lévi-Strauss, em 1949, para que o problema da proibição fosse colocado de outra maneira que não num quadro evolucionista ou através de uma oposição entre culturalismo e universalismo. Em vez de buscar a gênese da civilização numa hipotética renúncia dos homens à prática do incesto (horror ao ato), ou, ao contrário, de contrastar com essa gênese o florilégio da diversidade das culturas, Lévi-Strauss mostrou que a proibição do incesto consumou a passagem da natureza para a cultura: <Ela não é nem puramente de origem cultural nem puramente de origem natural. E tampouco é uma dosagem de elementos compósitos, parcialmente retirados da natureza e parcialmente da cultura. Nesse sentido, ela pertence à natureza, pois é uma condição geral da cultura, e, por conseguinte, não há por que nos surpreendermos por vê-la extrair da natureza seu caráter formal, isto é, a universalidade.>

SIGISMUNDO ADÃO ESTÁ IMUNE: “a partir de 1925, os discípulos de Freud transpuseram para a IPA a regra da proibição do incesto, proibindo, sob pena de expulsão, as práticas endogâmicas: proibição de analisar membros da própria família ou de uma mesma família (filhos, pais, cônjuges, sobrinhos, sobrinhas); proibição de qualquer forma de relação sexual ou mesmo afetiva com os pacientes; e proibição de misturar a análise com a vida privada, analisando, por exemplo, um amante ou uma amante.Naturalmente, muitas vezes essas regras foram transgredidas, justamente por aqueles que se colocavam como mestres da virtude. Todavia, sua existência nunca foi questionada por nenhuma instituição freudiana, qualquer que fosse sua tendência.

Com Marie Bonaparte, Freud teve a oportunidade de abordar a questão da proibição do incesto no terreno clínico. Em seu Diário, na data de 28 de abril de 1932, a princesa anotou que seu filho, Pedro da Grécia (1908-1979), então em análise com Rudolph Loewenstein, escrevera-lhe uma carta em que lhe confidenciava sua tentação do incesto: <Se eu passasse a noite contigo, talvez isso me curasse.>

Para ser realmente livre e, portanto, feliz na vida amorosa, é preciso ter superado o respeito pela mulher e ter se familiarizado com a representação do incesto com a mãe ou a irmã.” Freud, 1912 – se não REIficar, não descabaçará.

Se Freud não tivesse compreendido que a exigência da proibição internalizada era o único contrapeso possível para a decadência igualmente necessária da antiga autoridade paterna e, em outras palavras, para o advento das sociedades modernas, ele nunca poderia ter elaborado uma doutrina em que a transgressão, o desejo e a proibição mantivessem tamanha relação de proximidade.”

#TítulosdeLivros(Sugestões)

Eunuco mental // Eunuco da cabeça de cima // Eunuco da primeira cabeça // Estranho no ninho // O hermafrodita que não conheceu um útero // A cada um seu cálice // A mula eunuca // O cavaleiro eunuco

DIL & DANTE

Diletant/pis

BIBLIOGRAGIA SUGERIDA:

Marie Bonaparte, Cahiers noirs, 1925-1939, inédito (arquivos Élisabeth Roudinesco);

Françoise Héritier, Les Deux soeurs et leurs mères. Anthropologie de l’inceste, Paris, Odile Jacob, 1994.

inconsciente

Conceitualmente empregado em língua inglesa pela primeira vez em 1751 (com a significação de inconsciência), pelo jurista escocês Henry Home Kames (1696-1782), o termo inconsciente foi depois vulgarizado na Alemanha, no período romântico, e definido como um reservatório de imagens mentais e uma fonte de paixões cujo conteúdo escapa à consciência.”

[o termo] foi incluído [como substantivo] no Dictionnaire de l’Académie Française [somente] em 1878.”

GANHO EPISTEMOLÓGICO, PERDA METAFÍSICA: “Caberá, nesse caso, falarmos de uma dissociação do conceito de inconsciente? Embora Freud insistisse na manutenção do inconsciente como eixo essencial de sua nova conceituação, algumas correntes do freudismo (o annafreudismo e a Ego Psychology) interpretaram a [infame] segunda tópica, progressivamente, num sentido redutor, privilegiando a parte consciente do eu.” “Outras correntes — as representadas por Melanie Klein ou Karen Horney — conservaram o inconsciente freudiano no centro de suas concepções, porém deslocando sua atenção para a relação arcaica com a mãe, em detrimento da sexualidade e do pólo paterno.”

eu, eu de novo e o isso

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Von Hartmann, Filosofia do inconsciente, 1868;

Jean Laplanche, O inconsciente e o id (Paris, 1981), S. Paulo, Martins Fontes, 1992.

incorporação [Majin Boozices]

Termo introduzido por Freud em 1915 (As pulsões e suas vicissitudes) para designar um processo pelo qual um sujeito faz com que um objeto penetre, fantasisticamente, no interior de seu corpo.”

Independentes, Grupo dos

Enquanto as bombas alemãs iluminavam o céu londrino e destroçavam os prédios da capital, os confrontos ou Grandes Controvérsias campeavam entre os representantes dos 2 clãs da psicanálise. A discussão dizia respeito a questões teóricas e à formação dos analistas. No fim da guerra, essa batalha epistemológica foi encerrada com um lady’s agreement, laboriosamente negociado, que estipulava a livre escolha de sua formação por cada candidato, com a obrigação de que ele fizesse uma segunda supervisão conduzida por um supervisor não-pertencente a nenhum dos dois grupos.”

Sob mais de um aspecto, o desenvolvimento desse Grupo dos Independentes inscreveu-se na tradição filosófica e política inglesa, que se caracteriza pela recusa das categorias totalizadoras e da militância doutrinária. Podemos resumi-la com o lema adotado pela nação britânica quando ela se libertou do autoritarismo católico: Nada de entusiasmo, se Deus quiser! A originalidade desse grupo, único no mundo, está em ele haver conseguido fazer escola, graças à qualidade de seus clínicos e a seus trabalhos sobre a relação de objeto e a contra-transferência.”

A partir da década de 80, a calma restabelecida favoreceu a integração do Grupo dos Independentes. Ele acabou mesmo dominando as instituições, sem contudo obscurecer por completo as idéias de Klein [que pena], que continuaram muito presentes, sobretudo na Tavistock Clinic. Mas os apaziguamentos e concessões também tiveram como conseqüência o enfraquecimento da exigência teórica, o que favoreceu o retorno à psicologia e à psicossociologia, muito distintas da conceituação freudiana.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Éric Rayner, Le Groupe des “Indépendants” et la psychanalyse britannique (Londres, 1990), Paris, PUF, 1994;

Donald Woods Winnicott, Lettres vives (Londres, 1987), Paris, Gallimard, 1989.

Índia

A Índia foi o primeiro país da Ásia, e o único com o Japão, em que a prática institucional da psicanálise pôde se implantar, aliás de maneira muito reduzida, em um contexto cultural não-ocidental.”

Era na província de Bengala, onde o colonialismo inglês estava instalado desde 1757, que estava localizado o maior número de instituições relativas à educação, à medicina e ao urbanismo, e ali os primeiros psicanalistas indianos começaram a tratar de pacientes também indianos. Todos pertenciam à elite ocidentalizada, adepta dos costumes e do saber europeus.”

Berkeley-Hill promovia, ao contrário, um diferencialismo de tipo colonial, afirmando, por exemplo, que o sujeito indiano se distinguia estruturalmente do sujeito ocidental por uma patologia especificamente anal.”

Nacionalista moderado, Bose conduzia os tratamentos em bengali, usava roupas indianas e mantinha distância das modas de pensamento ocidentais. Assim, ao invés de procurar universalizar a questão edipiana, criando uma modalidade específica de complexo, como propunha Heisaku Kosawa com o mito de Ajase,preferiu estudar a relação do sujeito com a mãe, abstraindo o pai. Nessa perspectiva reivindicava menos as teses kleinianas do que a cultura do hinduísmo, povoada de uma multidão de divindades femininas e masculinas que exerciam a autoridade através de uma identidade fluida e mal-definida.”

T.C. Sinha, e depois Sudhir Kakar e o antropólogo Stanley Kurtz redefiniram por sua vez o culturalismo indiano, dando-lhe como missão resistir à mundialização das formas de saber oriundas do Ocidente, inclusive o universalismo freudiano.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Roger-Pol Droit, L’Oubli de l’Inde. Une amnésie philosophique, Paris, PUF, 1989; Stanley Kurtz, All the Mothers are One. Hindu, India and the Cultural Reshaping of Psychoanalysis, N. York, Columbia University Press, 1992.

Inibições, sintomas e angústia

Livro de Freud, publicado em alemão, em 1926, sob o título Hemmung, Symptom und Angst. Traduzido para o francês pela primeira vez em 1951, por Paul Jury (1878-1953) e Ernest Fraenkel, sob o título Inhibition, symptôme et angoisse, depois em 1965, por Michel Tort, sem modificação do título, e por último em 1992, por Joël & Roland Doron, também sem alteração do título. Traduzido para o inglês em 1927, por Pierce Clark (et al.), sob o título Inhibition, Symptom and Anxiety, depois em 1935, por Bunker, sob o título The Problem of Anxiety [!], e novamente em 1936, por Alix Strachey, sob o título Inhibitions, Symptoms and Anxiety. Esta última tradução foi retomada por James Strachey, com algumas modificações, em 1959.”

O sintoma pode estar ou não ligado a uma inibição e, em geral, é o substituto de uma satisfação pulsional não-ocorrida: tal como o sonho e o ato falho, é uma formação de compromisso entre as representações recalcadas e as instâncias recalcadoras. Assume formas particulares, de acordo com o tipo de patologia: conversão, na histeria, e deslocamento para um objeto externo [PAI], na fobia.

Freud distingue 5 funções sujeitas a inibições: função sexual, alimentação, locomoção, trabalho social e inibições específicas. A inibição sexual masculina assume 4 formas: impotência psíquica, falta de ereção, ejaculação precoce e falta de ejaculação. A inibição sexual feminina decorre essencialmente da histeria (assim como a inibição da marcha). A inibição no trabalho tanto remete à histeria quanto à neurose obsessiva.”

A compulsão a comer é motivada pela angústia da inanição; essa questão, todavia, tem sido pouco estudada. O sintoma do vômito é conhecido como uma defesa histérica contra a alimentação. A recusa do alimento, decorrente da angústia, é própria dos estados psicóticos (delírios de envenenamento).”

Freud responde, em particular, às teses desenvolvidas por Rank em O trauma do nascimento.”: “O fato de o homem ter em comum com os outros mamíferos o processo do nascimento, ao passo que tem em relação aos animais o privilégio de uma predisposição particular para a neurose, não depõe em favor da doutrina de Rank. Mas a objeção principal continua a ser a de que essa doutrina paira no ar em vez de se apoiar numa observação sólida. Não dispomos de nenhum bom estudo que estabeleça uma relação incontestável entre um nascimento difícil e prolongado e o desenvolvimento de uma neurose.” Sempre achei que trauma do nascimento fosse um meme

Sejam quais forem suas qualidades clínicas, Inibições, sintomas e angústia é o livro mais fraco de Freud.Isso decorre da recusa do autor a vincular a questão da angústia às interrogações da filosofia moderna. Assim é que, em seu prefácio, Freud emite sobre a filosofia colocações bastante genéricas: Sou hostil à fabricação de visões de mundo.” “A noção de angústia, no sentido da angústia existencial, é mais bem-explicitada por Freud em textos que não versam diretamente sobre esse assunto, como O estranho

Na figura do duplo ou do autômato, suspeita-se de que um ser aparentemente inanimado esteja vivo e se presume que um objeto sem vida seja animado.”

ele efetivamente mostrou que a angústia surge quando o sujeito é confrontado com a <falta da falta>, ou seja, com uma alteridade onipotente (pesadelo, duplo alienante, estranheza inquietante) que o invade a ponto de destruir nele qualquer faculdade de desejar.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Wilhelm Stekel, Os estados nervosos de angústia e seu tratamento, 1908;

Jacques Lacan, Le Séminaire, livre X, L’Angoisse(1962-1963), inédito;

Jean Kestemberg, Evelyne Kestemberg & Simone Decobert, La Faim et le corps. Une étude psychanalytique de l’anorexie mentale, Paris, PUF, 1972.

intelectualização

Um dos textos mais explícitos é o de Anna Freud, que descreve a intelectualização no adolescente como um mecanismo de defesa, mas considera-o como a exacerbação de um processo normal pelo qual o ego tenta <dominar as pulsões ligando-as a idéias com que se pode conscientemente jogar…>

O termo intelectualização é empregado sobretudo para designar uma modalidade de resistência encontrada no tratamento. Esta é mais ou menos patente, mas constitui sempre um meio de evitar as implicações da regra fundamental. É assim que determinado paciente só apresenta os seus problemas em termos racionais e gerais (diante de uma escolha amorosa, dissertará sobre os méritos comparados do casamento e do amor livre). Outro, embora evoque bem a sua história, o seu caráter, os seus conflitos próprios, formula-os imediatamente em termos de uma reconstrução coerente que pode até ir buscar na linguagem psicanalítica (p.ex.: invocando a sua <oposição à autoridade>, em vez de falar das suas relações com o pai).” “certos pacientes parecem fazer <bom trabalho> analítico e aplicar a regra, relatando recordações, sonhos e mesmo experiências afetivas. Mas tudo se passa como se falassem segundo um programa e procurassem comportar-se como analisandos-modelos, apresentando eles próprios suas interpretações e evitando assim qualquer irrupção do inconsciente ou qualquer intervenção do analista, percebidas como perigosas intrusões.”

CONTRA-JUSSARA: “O termo intelectualização refere-se à oposição, herdada da psicologia das <faculdades>, entre intelectual e afetivo. Ameaça levar, uma vez denunciada a intelectualização, a uma valorização excessiva da <vivência afetiva>no tratamento analítico, confundindo este com o método catártico.”

International Psychoanalytical Association (IPA)

Entre 1925 e 1933, mudou radicalmente de feição, ao ser instaurada a obrigatoriedade da análise didática e da supervisão. A partir daí, transformou-se numa organização centralizada, dotada de regras de formação e admissão que visavam normatizar as análises e afastar da formação os analistas <selvagens> ou transgressores, considerados psicóticos demais, gurus demais ou feiticeiros demais para terem o direito de clinicar. (…) Note-se que, através de uma decisão tomada no seio do Comitê Secreto [clubinho de sodomitas incestuosos judeus ou os best de Freud] em dezembro de 1921, o acesso à profissão de psicanalista foi definitivamente recusado aos homossexuais. Essa regra nunca foi abolida.”

TCHAU, QUERIDA ou MORRE A INESQUECÍVEL: “Por fim, a partir de 1965, a IPA foi perpassada por múltiplas crises e, aos poucos, deixou de ser a única potência institucional do freudismo no mundo. Não apenas sofreu a concorrência da considerável expansão das escolas de psicoterapia, como, além disso, perdeu o monopólio da legitimidade freudiana: com efeito, outras correntes freudianas desenvolveram-se fora dela, em especial o lacanismo, os círculos de psicologia profunda de Igor Caruso (Internationale Föderation der Arbeitskreise für Tiefenpsychologie) e toda sorte de grupos independentes e sem esteio institucional.”

interpretação

os paranóicos interpretam os pequenos detalhes do comportamento corriqueiro da vida alheia e, com freqüência, dão mostras de uma lucidez maior que a do sujeito normal. Essa qualidade, entretanto, tem como contrapartida um desconhecimento radical deles mesmos.”

DO PINTO AO PÓ: “chama-se delírio de interpretação a uma forma de delírio crônico, caracterizada pela preponderância de um tema persecutório e de um raciocínio mono-ideativo, que impele o sujeito a proceder a construções alucinatórias, convencido de que todas as manifestações da realidade externa se referem a ele.”

ele dá o nome de <psicanálise selvagem> a um erro técnico cometido pelos praticantes ignorantes, que consiste em atirar no rosto do paciente, logo no primeiro encontro, os segredos que eles adivinharam. Nesse caso, seja ela <verdadeira> ou <falsa>, a interpretação é inaceitável, já que provém de um completo desconhecimento da estrutura psíquica do sujeito, de suas resistências e de seu recalque.”

Essa mistura de psicanálise selvagem, delírio interpretativo e utilização dogmática da doutrina freudiana, para fins de explicação da realidade, manifestou-se desde muito cedo entre os que pretendiam servir-se do freudismo para fazer surgir verdades ocultas de um texto ou de um indivíduo.”

TOLOS CIENTÍFICOS (PORQUE REFUTÁVEIS): “Duas correntes filosóficas comentaram a noção freudiana de interpretação. A primeira, representada por Karl Popper (1902-1994) e seus herdeiros, afirmou que a psicanálise, na medida em que não é refutável, não pode ser promovida à categoria de ciência. A segunda, próxima de Paul Ricoeur e da fenomenologia, reivindicou para o freudismo o estatuto positivo de uma hermenêutica, passível de fornecer à filosofia os instrumentos de uma verdadeira crítica das ilusões da consciência.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jacques Lacan, Le Séminaire, livre VI, Le Désir et son interprétation (1958-1959), inédito (esse dicionário realmente é velho, já que TENHO o livro!);

introjeção (neurose)

Foi Sandor Ferenczi que introduziu o termo introjeção, forjado por simetria ao termo projeção. Em Introjeção e transferência, 1909, escreve: Enquanto o paranóico (psicótico) expulsa do seu ego as tendências que se tornaram desagradáveis, o neurótico procura a solução fazendo entrar no seu ego a maior parte possível do mundo exterior, fazendo dele objeto de fantasias inconscientes. Podemos pois dar a este processo, em contraste com a projeção, o nome de introjeção.

inveja (Klein)

Na posição esquizo-paranóide ou depressiva, a inveja ataca o objeto bom para dele fazer um objeto mau, assim produzindo um estado de confusão psicótica. Como quase todos os termos do vocabulário kleiniano, inveja opõe-se a um outro: gratidão. Na concepção freudiana clássica, a inveja só é estudada no contexto da gênese da sexualidade feminina e na categoria de inveja do pênis.” “Se é verdade que Freud foi o grande teorizador da sexualidade humana, podemos dizer que Klein, como também Lacan, foi a grande clínica da agressividade e da relação odiosa do homem com seu semelhante.”

isso

Esta confluência do isso com a instância recalcante apóia-se antes de mais nada na definição genética que é apresentada desta, pois o eu é <…a parte do isso que foi modificada sob a influência direta do mundo exterior, por intermédio do sistema percepção-consciência>.”

Nas primeiras traduções francesas de F., das Es é traduzido por le soi. Encontramos esta tradução, mas cada vez mais raramente, em certos autores franceses, pois o termo soi é sobretudo reservado para traduzir o inglês self ou o alemão das Selbst.”

Jackson, John Hughlings

Fundador da neurologia moderna, Hughlings Jackson foi durante 45 anos médico no National Hospital de Londres. Em 1884, elaborou a teoria da dissolução das funções nervosas pela doença, retomada em parte por Freud e introduzida na França pelo psicólogo Théodule Ribot (1839-1916). Na história do saber psiquiátrico, o jacksonismo teria um papel considerável nos EUA, servindo de substrato para a implantação das teses freudianas. Na França, seria utilizado por Henri Ey, para a elaboração da noção de organo-dinamicismo.”

Japão

Em quinze anos, de 1853 a 1868, escreveu Maurice Pinguet, o Japão atravessou a crise mais grave de sua história, tão aguda e profunda quanto a Revolução Francesa. Esse período, a era Meiji, nome do imperador que foi um de seus iniciadores, viveu o desmoronamento da ordem feudal, depois de mais de dois séculos de reinado dos shoguns da dinastia Tokugawa. A ordem feudal era simbolizada pelo personagem do samurai. Nele, encarnavam-se os ideais do Japão ancestral, e entre suas múltiplas prerrogativas estava o seppuku, o direito de se suicidar com um sabre, por evisceração da esquerda para a direita, segundo um ritual imutável.

Ora, com a instauração dos princípios do Código de Napoleão e dos valores do capitalismo ocidental, essa prática da morte voluntária foi moralmente banida da sociedade japonesa. Mas sobretudo no momento em que se implantava nas novas universidades imperiais a nosografia psiquiátrica alemã, proveniente do ensino de Emil Kraepelin, ela foi progressivamente assimilada a uma doença da alma, ou considerada como a expressão melancólica de um niilismo individual. Menos de um século depois da revolução pineliana, o Japão entrava assim na era da psiquiatria dinâmica, julgando o heroísmo feudal, ou seja, uma de suas tradições, como uma psicopatologia.”

Kenji Otsuki, homem de letras e tradutor de literatura alemã, foi o primeiro a mencionar o nome de Freud em um artigo de 1912 dedicado ao esquecimento e à memória. Dois anos depois, Yoshihide Kubo (1883-1942), professor de psicologia na Universidade de Hiroshima Bunri, publicou uma série de artigos sobre o sonho, antes de ir para a Universidade Clark de Worcester, onde Stanley Grandville Hall, que recebera Freud em 1905, o iniciou nas teses freudianas. Ao retornar, em 1917, publicou o primeiro grande livro japonês de introdução à psicanálise. Falava da sexualidade infantil, do chiste, dos atos falhos, dos lapsos, da psicanálise aplicada, sem esquecer de mencionar todos aqueles que criticaram Freud: Pierre Janet, Alfred Adler. Para traduzir a palavra psicanálise, propôs seishinbunseki: seishin contém dois caracteres (ou kanji) e significa alma, e bunseki, também com dois caracteres, significa análise.”

Assim como na França a teoria da sexualidade era julgada excessivamente germânica para se adaptar à cultura dita latina, e na Suécia excessivamente latina para ser assimilada pelos países nórdicos, ela foi recebida no Japão como excessivamente ocidental para ser aceita por uma sociedade de tradição budista.”

Complexo de Ajase: Tratava-se de levar em conta as diferenças entre a organização da família ocidental, na qual a criança era destinada a tornar-se um sujeito emancipado da sua mãe através de uma identificação paterna [cof, cof], e a da família japonesa, na qual o pertencimento ao clã predominava sobre a identidade individual. Daí a dependência culpada (ou amae) do homem japonês em relação à sua mãe (complexo de Ajase), e uma simbiose específica, através da qual esse vínculo se tornava uma espécie de <valor moral>, como diria mais tarde Maurice Pinguet: Nosso pensamento culpa a dependência (captação, castração) e joga o erro sobre a mãe possessiva e o pai abusivo. A tendência japonesa é estabelecer uma intimidade estreita e culpar a independência, jogando o erro sobre o filho infiel e frívolo […]. Em suma, o supereu japonês é a consciência do vínculo, o supereu ocidental a consciência da lei.

Depois de 1935, em reação contra a era Meiji e a ascensão do movimento comunista internacional, o Japão sonhou com a volta da antiga ordem. A instauração de um regime militar de tendência fascista foi favorecida pelo advento, na Europa, dos regimes ditatoriais e pela crise econômica que se apoderou do país depois da quebra da bolsa de Wall Street. Foi então que o nacionalismo radical pregou o renascimento das virtudes guerreiras do antigo samurai. Aliando-se à Alemanha, o Japão entrou na guerra em 1941, o que provocou a retração completa das atividades freudianas. Foi necessário que esse sonho feudal fosse aniquilado e que os principais responsáveis militares se suicidassem (segundo o rito do antigo seppuku, sob os muros do palácio imperial, depois do bombardeio de Hiroshima), para que o Japão adotasse definitivamente os princípios da democracia, com um espírito de abertura para o Ocidente semelhante ao da era Meiji.”

Melanie Klein e Donald Woods Winnicott tiveram especial sucesso, pelo interesse que dedicaram à questão do vínculo arcaico com a mãe. A obra de Jung também fez muitos adeptos, graças à atividade pioneira de H. Kawai. Formado em Zurique, este se tornou em 1965 o primeiro psicoterapeuta junguiano de língua japonesa.”

Posteriormente, Doï Takeo tentou explicar as razões do relativo fracasso da implantação do freudismo no Japão. Segundo ele, o freudismo, doutrina judaico-cristã, era inassimilável por uma sociedade de tradição budista e xintoísta, na qual o desejo de emancipação subjetiva não tinha lugar. Mesmo continuando a ser freudiano, ele adotava assim, nesse debate clássico, a posição que fôra a da escola culturalista angloamericana, de Bronislaw Malinowski a Ruth Benedict.”

Em 1969, o jovem filósofo Tagatsuku Sasaki iniciou a tradução integral dos Escritos, e foi através desse imenso trabalho de reflexão sobre a língua teórica da psicanálise, e principalmente sobre a maneira de transpor os conceitos freudianos para uma cultura nova, que o lacanismo se implantou em terras japonesas.

Lacan, ao contrário de Freud, era fascinado pelo Japão. Em 1963, descobriu maravilhado as grandes obras da estatuária budista, nos templos de Kioto e Nara. No coração do Extremo Oriente, onde Alexandre Kojève (1902-1968), seu professor de filosofia, acreditara ter cruzado o conceito hegeliano de <fim da história>, Lacan foi seduzido pelo refinamento dessa cultura ancestral.Em sua busca do absoluto, privilegiando o matema e os nós borromeanos, quis dar corpo a uma representação formalizada do laço social, a fim de construir um modelo de liberdade humana fundado no primado da estrutura e do coletivo. Também ele, de certa forma, foi tomado, como Kosawa, por uma reflexão sobre a amae.

Em 1971, Lacan voltou ao Japão para uma viagem de estudos, no momento em que Sasaki acabava a tradução da primeira parte dos Escritos. Ao retornar, impôs-se o dever de definir a <coisa japonesa>, esse modo específico de gozo que ele atribuía ao <sujeito japonês> e cuja manifestação detectava na escrita. Transcreveu com um simples traço horizontal a pureza dessa caligrafia, impossível de se atingir, segundo ele, pelo sujeito ocidental. A esse traço, ou <letra>, deu o nome de littoral.”

Em um livro publicado em 1980, Chichioya hahaoya okite (O pai, a mãe e a lei),Kosawa fez do sujeito japonês um ser dilacerado entre a onipotência dita imaginária da mãe e a fraqueza aparente do pai, reduzido a uma função de simulacro. Nesse mesmo ano, enquanto acabava a tradução integral dos Escritos, publicou outra obra, Kai no uchidenokozuchi (O pequeno malho mágico do prazer), na qual divulgava os principais temas do pensamento lacaniano.”

De 1896 a 1920, Freud e seus discípulos da primeira geração tomaram efetivamente a função paterna e a paternidade como objeto de reflexão, e a partir de 1920, com o impulso dado por Klein, a reflexão se deslocou para o estudo da relação com a mãe.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

D.T. Suzuki, Erich Fromm & Richard de Martino, Bouddhisme zen et psychanalyse (N. York, 1963), Paris, PUF, 1971;

Jacques-Alain Miller (org.), Lacan et la chose japonaise, Paris, Analytica, 1988.

Jones, Ernest

Freud não gostava dele, mas ao longo dos anos, embora desaprovando muitas vezes as suas iniciativas, confiou nele para administrar os assuntos políticos do movimento, especialmente depois da partida de Max Eitingon para a Palestina.” “Tinha paixão pela <causa analítica> e queria defendê-la a sua maneira, se necessário contra o próprio Freud, o que explica seu apoio às inovações kleinianas e sua ambivalência em relação à análise leiga.”

A prática do coito já me era familiar aos 6 ou 7 anos de idade, escreveu em sua autobiografia; depois, eu a interrompi e só a retomei depois dos 24 anos; esse era um hábito bastante comum entre as crianças da aldeia.”

Em 1903, entrou para o North Eastern Hospital, do qual seria demitido 6 meses depois por insubordinação. Rotulado como <indivíduo problemático>, teve posteriormente muita dificuldade para se integrar a outros serviços hospitalares. Interessado pela hipnose, a neurologia e as doenças mentais, começou a praticar espontaneamente a psicanálise em 1906. No ano seguinte, foi a Amsterdã para o primeiro congresso de neurologia, psiquiatria e assistência aos alienados, e ficou conhecendo Jung, que o convidou a trabalhar na clínica do Hospital Burghölzli, dirigida por Bleuler.”

Denunciado publicamente pelo irmão de uma de suas pacientes, desejosa de divorciar-se depois de uma análise, Jones foi depois acusado de ter falado de maneira indecente com duas crianças pequenas, que estava submetendo a um teste. Registrou-se queixa contra ele, que passou uma noite na prisão, antes de ser absolvido de qualquer suspeita pela justiça e pela imprensa.”

Foi o início de uma longa correspondência com Freud: 671 cartas no total. Como observou Ernst Falzeder, faltam, nessa correspondência <a intimidade, a amplitude, o dinamismo e o caráter trágico que caracterizam outras correspondências de Freud […]. O estilo inimitável de Freud sofre com isso…>. Na verdade, tem-se a impressão de que o tom de Freud é de um <homem de negócios>. De qualquer forma, se Freud via em Jones o aliado indispensável, este se apresentava a ele como o Thomas Henry Huxley (1825-1895) de Charles Darwin, isto é, como o primeiro discípulo da doutrina freudiana em solo inglês.”

judeidade (Judesein)

No judaísmo distinguem-se vários grandes movimentos: a emancipação, que começou no século XVII, com o reconhecimento dos direitos civis; a Haskalah, ou movimento judaico do Iluminismo, que se afirmou no fim do século XVIII e foi acompanhado por uma assimilação progressiva; o judaísmo ortodoxo, nascido em 1795, hostil à Haskalah e à emancipação; o hassidismo, movimento pietista judaico de renovação da fé, nascido na Europa oriental na mesma época; e o judaísmo reformado, inspirado no protestantismo (primeiro na Alemanha, depois nos Estados Unidos), que incita à prática liberal da religião [?!]. A estes se juntam todos os movimentos nascidos depois do fim do século XIX: o judaísmo humanista e leigo, que se define pelo abandono da religião e por uma tendência ao ateísmo; o sionismo, que designa (desde 1890) uma ideologia e um movimento político que visam ao renascimento e à independência do povo judeu nas terras de Israel; o judaísmo conservador, forma norte-americana do judaísmo ortodoxo, nascido em 1886, que insiste na renovação ética; e, por fim, o judaísmo reconstrutivista (também norte-americano), nascido em 1922, que considera o judaísmo uma cultura religiosa fundamentada num nacionalismo espiritual.

Chama-se judeidade ao fato e à maneira de alguém se sentir ou ser judeu, independentemente do judaísmo. O sentimento de judeidade ou de identidade judaica é uma maneira de ele continuar a se pensar judeu no mundo moderno, a partir do fim do século XIX, mesmo sendo descrente, agnóstico, humanista, leigo ou ateu. Essa reivindicação de judeidade rejeita a idéia de pertencimento enunciada pela jurisprudência rabínica (Halakha, nascida da Torah), que designa como judia qualquer pessoa nascida de mãe judia ou qualquer pessoa convertida ao judaísmo nas condições exigidas pela lei religiosa.

Ao contrário de numerosos intelectuais judeus vienenses, como Karl Kraus ou Otto Weininger, Freud tinha horror ao ódio judeu de si mesmo (Jüdischer Selbsthass) e à fuga para a conversão. Descrente e hostil às práticas religiosas, rejeitava as tradições, os ritos e as festas e, no seio de sua própria família, combatia as atitudes religiosas de sua mulher (Martha). No entanto, nunca renegou sua judeidade e a reivindicou todas as vezes que se confrontou com o anti-semitismo.”

Cônscio do fato de que seus primeiros discípulos vienenses eram todos judeus, Freud temia que sua nova ciência fosse assimilada a uma <questão judaica>, isto é, a um particularismo sujeito às leis do genius loci. Nada lhe causava mais horror do que ouvir seus adversários reduzirem a psicanálise a um produto do <espírito judaico> ou da <mentalidade vienense>.”

Único não-judeu da primeira geração freudiana depois da partida de Jung, Ernest Jones, que era galês e, como costumava dizer, pertencia a uma <raça oprimida>, sentia-se próximo dos judeus vienenses da primeira geração, que Jung costumava chamar de <ciganos>.”

Jones foi acusado de anti-semitismo por seus adversários em virtude de uma conferência, A psicologia da questão judaica, proferida num colóquio dedicado aos judeus e aos <gentios> em 1945. Nessa ocasião, com efeito, declarou que os judeus eram tão responsáveis pelo anti-semitismo quanto os anti-semitas, em razão de sua arrogância e de sua concepção de povo eleito. E acrescentou que eles tinham uma particularidade: <O nariz hitita, que tanto evoca uma deformidade e que, infelizmente, os judeus adquiriram em suas andanças; por um azar, ele está associado a um gene dominante.> Nessa ocasião, de fato, Jones alinhou-se com as posições clássicas da psicologia dos povos, que quase sempre levam a esse tipo de derrapagem (como aconteceu, com muito maior gravidade, com Jung) [?].”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

René Major, De l’élection. Freud face aux idéologies allemande, américaine et soviétique, Paris, Aubier, 1986;

Yirmiyahu Yovel, Spinoza et autres hérétiques (1989), Paris, Seuil, col. “Libre examen”, 1991.

Jung

Carl Gustav Jung realizou uma obra tão abundante quanto a de Freud, cuja tradução em francês está muito longe de ser concluída. Dezenas de obras, artigos e comentários foram escritos sobre Jung, e o junguismo se implantou em vários países: Grã-Bretanha, Estados Unidos, Itália e Brasil.”

Em 1903, foi a Paris, para seguir os cursos de Pierre Janet e ao voltar casou-se com Emma Rauschenbach, filha de um rico industrial de Schaffhouse, com quem teria cinco filhos [com o industrial? Hahaha]: Agathe, Anna, Franz, Marianne, Emma.”

Quando encontrou Freud, Jung já tinha uma concepção do inconsciente e do psiquismo, herdada de Théodore Flournoy, de Janet e de todos os artífices da subconsciência. Não só não compartilhava as hipóteses vienenses, como também estava em desacordo com a concepção freudiana da sexualidade infantil, do complexo de Édipo e da libido. O que o aproximava de Freud era, por um lado, o fascínio por uma obra na qual acreditava encontrar a confirmação de suas hipóteses sobre as idéias fixas inconscientes, as associações verbais e os complexos, e por outro lado, a atração por um ser excepcional com o qual podia se medir. Jung era homem de uma poderosa inteligência, habitado por um mundo interior feito de sonhos, de introspecção, de busca de si mesmo e de gosto pelo oculto. Era dotado de grande força física, apreciava os contatos humanos, os exercícios corporais e o convívio das mulheres; dizia-se polígamo.”

Os três principais arquétipos são o animus (imagem do masculino), a anima (imagem do feminino) e o selbst (si-mesmo), verdadeiro centro da personalidade.” “Com a noção de arquétipo, Jung se afastou radicalmente do universalismo freudiano, mesmo desejando encontrar o universal nas grandes mitologias religiosas. Na verdade, é antes com a idéia de pattern, próxima dos culturalistas, que se pode comparar o arquétipo. E Jung a aprofundou, aliás, ao se interessar cada vez mais pelo estudo etnológico das civilizações ditas arcaicas. Por ocasião de várias viagens, que o levariam até tribos indígenas ou africanas (México, Quênia), adotou as teses da psicologia dos povos”

Ora, Freud, não compreende nada da psique alemã, como aliás os seus epígonos germânicos. O grandioso fenômeno do nacional-socialismo, que o mundo inteiro contempla com olhos admirados, os esclareceu?” Jung, 1934

Deveríamos realmente pensar que uma tribo que atravessa a história há milhares de anos como povo eleito por Deus não tivesse sido levada a uma tal idéia por uma disposição psicológica particular? Enfim, se não existe diferença, o que faz com que os judeus sejam reconhecidos? Diferenças psicológicas existem entre todas as nações e todas as raças, e até entre os habitantes de Zurique, de Basiléia e de Berna […]. É por isso que combato toda psicologia uniformizante quando pretende a universalidade, como a de Freud e a de Adler, por exemplo.

PENSEI QUE AS ASPAS ACIMA ERAM IRÔNICAS, MAS… “A comunidade internacional junguiana se dividiria sobre a questão da responsabilidade de Jung, e foi Andrew Samuels, psicoterapeuta junguiano, membro da Sociedade Londrina de Psicologia Analítica, que redigiu em 1992 um dos comentários mais notáveis sobre esse período doloroso da história. Dizendo-se ele próprio adepto do culturalismo, mostrou que foi a tentativa de instaurar uma psicologia das nações que conduziu Jung a aderir à ideologia nazista e conclamou os <pós-junguianos> a reconhecer a verdade.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Carl Gustav Jung, Gesammelte Werke, 20 vols. (com um índice e um volume de bibliografia), Zurique, Rascher Verlag, e Olten, Walter Verlag, 1960-1991; The Collected Works, 21 vols. (com um índice, um volume de bibliografia e um suplemento), Londres, Routledge e Paul Kegan, 1957-1983 – DESTAQUES INDIVIDUAIS: Psicologia e alquimia (1935-1936, GW, XII), Petrópolis, Vozes, 1991; Resposta a Jó(1952), Petrópolis, Vozes, 1979;

Andrew Samuels, Jung and the Post-jungians, Londres, Routledge e Paul Kegan, 1985.

Kemper, Werner

Sem a política de <salvamento> da psicanálise, defendida por Ernest Jones na Alemanha depois da tomada do poder pelos nazistas, Werner Kemper teria sido um funcionário obscuro. Mas, graças à orientação adotada pela IPA em 1933, ele fez parte, com Felix Boehm, Carl Müller-Braunschweig e Harald Schultz-Hencke, dos psicoterapeutas alemães que decidiram fazer carreira sob o nazismo, quando a profissão foi proibida a todos os judeus do país.”“Querendo estender o freudismo para além da Europa, Ernest Jones decidiu enviar Werner Kemper para o Brasil a fim de fazer uma nova carreira.”

foi um funcionário zeloso da política de seleção inaugurada pelo III Reich, que consistia em enviar para a morte, em batalhões disciplinares, os sujeitos que apresentassem <anomalias psíquicas>. Entre estas, estavam a angústia, a astenia [fadiga prolongada] e a hipocondria.

Depois da capitulação da Alemanha, Kemper se transformou em militante marxista e participou, com Schultz-Hencke, de uma reunião de psiquiatras na parte leste de Berlim, ocupada pelas tropas soviéticas. Contribuiu assim para a reconstrução, na República Democrática Alemã (DDR), de uma escola de psicoterapia de tipo pavloviano, visando liquidar o freudismo.Depois de colaborar com o nazismo para a destruição da psicanálise por motivo de judeidade, contribuía com igual zelo para a política stalinista de rejeição às teses freudianas, que iria estender-se a todos os países dominados pelo socialismo de inspiração soviética depois da partilha de Yalta.”

Klein

Melanie Klein foi o principal expoente do pensamento da segunda geração psicanalítica mundial.”“Sua obra, composta essencialmente de cerca de 50 artigos e de um livro, A psicanálise de crianças (da criança) [duas traduções], foi traduzida em 15 línguas e reunida em 4 volumes. Acrescenta-se uma Autobiografia inédita e uma importante correspondência.A tradução francesa, realizada em parte por Marguerite Derrida, é de excepcional qualidade. Muitas obras foram dedicadas a Melanie Klein, entre as quais as de Hannah Segal, sua principal comentadora, e a de Phyllis Grosskurth, sua biógrafa. Um dicionário dos conceitos kleinianos [haja saco] foi realizado por R.D. Hinshelwood em 1991.”

Tinha 4 anos quando sua irmã Sidonie morreu de tuberculose com a idade de 8; tinha 18 quando o pai, debilitado há longos anos, desapareceu, deixando-a com a mãe; tinha 20 quando seu irmão Emmanuel, que a influenciara muito e a quem estava ligada por uma relação de tons incestuosos, morreu esgotado pela doença, pelas drogas e pelo desespero. Phyllis Grosskurth observou que Melanie se casou pouco depois desse falecimento, pelo qual se sentia culpada, o que, acrescentou, <provavelmente tinha sido o objetivo perseguido por Emmanuel>.”

SE NÃO ESTÁS DISPOSTO À FRAUDE, NÃO ESTÁS DISPOSTO AO SUCESSO: “Em julho de 1919, levada por Ferenczi, apresentou, diante da Sociedade Psicanalítica de Budapeste, seu primeiro estudo de caso, dedicado à análise de uma criança de 5 anos, que na realidade era o seu próprio filho Erich. Uma versão reformulada dessa intervenção, na qual ela dissimulou a identidade do jovem paciente chamando-o de Fritz, constituiu seu primeiro escrito, publicado no Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse.” “A criança de que se trata, Fritz, escreveu ela, é um menino cujos pais, que são de minha família, habitam na minha vizinhança imediata. Isso permitiu encontrar-me muitas vezes, e sem nenhuma restrição, com a criança. Além do mais, como a mãe segue todas as minhas recomendações, posso exercer uma grande influência sobre a educação de seu filho.”

Em Londres, Melanie Klein experimentou suas teorias, tratando dos filhos perturbados de alguns de seus colegas: o filho e a filha de Jones, por exemplo. Sua personalidade invasiva provocou à sua volta paixões e repulsas. Em março de 1927, Anna Freud fez uma comunicação ao grupo berlinense da DPG. Na verdade, tratava-se de um verdadeiro ataque contra as teses kleinianas em matéria de análise de crianças. Houve críticas e Freud irritou-se. A discordância entre ambas não parava de crescer, referindo-se especialmente à oportunidade da análise de crianças: parte integrante da educação geral de toda criança, afirmava Melanie Klein;necessária apenas quando a neurose se manifesta, replicava Anna, que circunscrevia a análise de crianças apenas à expressão do mal-estar parental, enquanto Melanie autonomizava a criança, tanto em sua demanda quanto no tratamento.”

Em janeiro de 1929, começou a tratar de uma criança autista de 4 anos, filha de um dos seus colegas da BPS, à qual deu o nome de Dick. Logo percebeu que ele apresentava sintomas que ela nunca havia encontrado. Não expressava nenhuma emoção, nenhum apego, e não se interessava pelos brinquedos. Para entrar em contato com ele, colocou dois trenzinhos lado a lado e designou o maior como <trem Papai> e o menor como <trem Dick>. Dick fez o trem com o seu nome andar e disse a Melanie: <Corta!>. Ela desengatou o vagão de carvão e o menino guardou então o brinquedo quebrado em uma gaveta, exclamando: <Acabou!>. A história desse caso se tornaria célebre, por mostrar como alguns psicanalistas não conseguem dar aos filhos o amor que esperam deles.”

LAÇOS DE FAMIGLIA: “Sua filha Melitta Schmideberg, casada comWalter Schmideberg, amigo da família Freud e de Ferenczi, tornou-se analista. Sem perceber, Melanie repetiu com sua filha o comportamento que Libussa tivera com ela. Foi por ocasião de uma retomada de análise com Edward Glover que Melitta se afastou de Melanie.”“A partir de 1933, Melanie Klein, que sofria os ataques incessantes de Glover e de Melitta, via com terror a chegada a Londres dos analistas vienenses e berlinenses que fugiam do nazismo.”

Ernest Jones, em quem Melanie Klein acreditava ter um fiel aliado, saía freqüentemente dessa cena, cujos atores eram essencialmente mulheres, umas reunidas em torno de Melanie, outras em torno de Anna. Os confrontos assumiram tal intensidade que Winnicott, partidário de Melanie, interrompeu uma noite os debates para observar que um ataque aéreo estava ocorrendo e era urgente procurar abrigo.” Hahaha!

kleinismo

Diversamente do annafreudismo, o kleinismo não é uma simples corrente, mas uma escola comparável ao lacanismo. Com efeito, constituiu-se como um sistema de pensamento a partir de um mestre (no caso, uma mulher) que modificou inteiramente a doutrina e a clínica freudianas, cunhando novos conceitos e instaurando uma prática original da análise, da qual decorreu um tipo de formação didática diferente da do freudismo clássico.” Modificar Freud não foi o problema: o problema foi modificá-lo para pior.

Por outro lado, definiram um novo âmbito para a análise, muito diferente do dos freudianos, baseado em regras precisas e, em especial, num manejo da transferência que tende a excluir da situação analítica qualquer forma de realidade material em prol de uma realidade psíquica pura, conforme à imagem que o psicótico tem do mundo e de si mesmo. Daí a criação do termo acting in, decorrente de acting out.”

o kleinismo é uma doutrina em expansão, sobretudo nos países latino-americanos (Brasil e Argentina), onde ajuda a psicanálise a enfrentar as outras escolas de psicoterapia que começaram a ameaçá-la, a partir da década de 70, em virtude de sua falta de criatividade.

Por ser uma escola de pensamento que alia um saber clínico a uma teoria, o kleinismo erigiu-se sobre uma crítica da forma dogmática do freudismo, para em seguida produzir, no próprio interior do freudismo de que nasceu, uma nova idolatria do mestre fundador, uma historiografia de tipo hagiográfico e um novo dogmatismo. E ainda não suscitou, como o freudismo, as condições internas para uma crítica a esse dogmatismo.”

Kraepelin, o autor pioneiro sem bibliografia em Desejo de Deleuze!

hebefrenia, ou psicose da adolescência, com excitação intelectual e motora (tagarelice, neologismos, maneirismos)” Maurício é o sujeito mais hebefrênico que já conheci.

Houve realmente uma era kraepeliniana na história da psiquiatria, como houve uma era pineliana, que marcou o apogeu do alienismo. Nesse aspecto, comparou-se o sistema de pensamento freudiano com a classificação de Kraepelin.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Emil Kraepelin, Compendium der Psychiatrie, Leipzig, Abel, 1883; Introduction à la psychiatrie clinique (Leipzig, 1901), Paris, Vigot, 1907; Leçons cliniques sur la démence précoce et la psychose maniaque-dépressive (Leipzig, 1907), Toulouse, Privat, 1970; La Folie maniaque-dépressive (Leipzig, 1909), Grenoble, Jérôme Millon, 1993.

Krafft-Ebing

Mas foi sobretudo com sua obra Psychopathia sexualis, publicada em 1886 e traduzida no mundo inteiro, que Krafft-Ebing se tornou célebre. Fazia uma descrição extraordinária, a partir de casos precisos, de todas as formas possíveis de perversões sexuais: uma espécie de catálogo sofisticado, do qual Freud adotou várias noções e que o Marquês de Sade não teria desaprovado.”

Kraus, Karl (o homem da frase “Não é verdade que…”)

Karl Kraus foi uma das grandes figuras da modernidade vienense do fim do século XIX.Judeu e adepto do ódio de si judeu, foi contrário a Dreyfus e se converteu ao catolicismo, que depois renegou. Denunciou a corrupção da imprensa e a feminilização da arte e da sociedade, que poderiam reduzir a sociedade a nada, e adotou as teses da bissexualidade. Mas, ao contrário de Otto Weininger, de quem era próximo, pensava que os princípios feminino e masculino deviam complementar-se.”

Inventou alguns maravilhosos aforismos, que se tornariam célebres: <A psicanálise é aquela doença do espírito da qual ela própria se considera o remédio>, ou ainda: <É a ele (Freud) que cabe o mérito de ter dado uma organização à anarquia do sonho, mas ali tudo acontece como na Áustria.>

Lacan

se alguns dos ferozes adversários de Lacan foram injustos, ele se prestou à crítica ao cercar-se de discípulos pedantes, que contribuíram para obscurecer um ensino certamente complexo e muitas vezes enunciado em uma língua barroca e sofisticada, mas perfeitamente compreensível (pelo menos até 1970). [HAHA]

Lacan sofria de inibições na escrita e precisou de ajuda para publicar seus textos e transcrever o famoso seminário público, que se realizou de 1953 a 1979 [!!!]. Nove seminários entre 25 foram <estabelecidos> e publicados por seu genro, Jacques-Alain Miller, entre 1973 e 1995. O 26º seminário, do ano 1978-1979, é <silencioso>, pois Lacan não mais podia falar.”

Jacques Lacan escreveu apenas um livro, sua tese de medicina de 1932 publicada sob o título Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade, na qual relatou o caso de Marguerite Anzieu.” já baixada

Sua correspondência é quase inexistente: 247 cartas recenseadas por Élisabeth Roudinesco em 1993. A obra de Lacan está traduzida em 16 línguas, e Joël Dor realizou a melhor bibliografia do conjunto de títulos, publicados e inéditos.” Média de 3 cartas por ano. Que sociável!

Jacques Lacan reinterpretou quase todos os conceitos freudianos, assim como os grandes casos (Herbert Graf, Ida Bauer, Serguei Constantinovitch Pankejeff, Ernst Lanzer e Daniel Paul Schreber) e acrescentou ao corpus psicanalítico sua própria conceitualidade.

Existem dois dicionários dos conceitos lacanianos: um em inglês, realizado por Dylan Evans, outro em espanhol, por Ignacio Garate& José Miguel Marinas. Alguns dos mais belos comentários da obra de Lacan foram escritos por filósofos: Louis Althusser, Jacques Derrida, Christian Jambet, Jean-Claude Milner e Bernard Sichère.”

PAISTEL: “Com a idade de 16 anos, admirava a Ética de Baruch Spinoza. Um ano depois, voltou-se para o nietzscheísmo, e durante algum tempo ficou fascinado com Charles Maurras (1868-1952), cujo estetismo e gosto pela língua adotou [sem aprender a escrever?]. Enfim, interessou-se pela vanguarda literária. Alfred Lacan, que desejava que seu filho mais velho assumisse a sucessão de seus negócios e desse um impulso decisivo ao comércio de mostarda [!], não compreendia nem aprovava sua evolução. Quanto a Émilie Lacan, a mãe, ignorava tudo sobre a vida que o filho levava fora dos caminhos da religião e do conformismo burguês.”

Magnífica síntese de todas as aspirações freudianas e anti-organicistas da nova geração psiquiátrica francesa dos anos 1920, sua tese foi imediatamente considerada uma obra-prima por René Crevel, Dalí e Paul Nizan (1905-1940), principalmente, que apreciaram a utilização feita por Lacan dos textos romanescos da paciente e da força doutrinária de sua posição quanto à loucura feminina. No ano seguinte, na revista Le Minotaure, Lacan dedicou um artigo ao crime cometido em Mans por duas domésticas (as irmãs Papin) contra suas patroas. Viu nesse ato, de uma intensa selvageria, uma mistura de delírio a dois, de homossexualidade latente, mas antes de tudo o surgimento de uma realidade inconsciente que escapava às próprias protagonistas. Desse drama Jean Genet (1910-1986) tirou uma peça, Les Bonnes, e Claude Chabrol um filme, sessenta anos depois, La Cérémonie.”

ESCOLA DE DOIDOS: “Sua análise com Loewenstein durou 6 anos e ½, e acabou com um fracasso e um desentendimento duradouro entre ambos. Finalmente, graças à intervenção de Édouard Pichon, Lacan foi titularizado em 1938. Pichon reconhecia seu gênio e queria fazer dele, apesar de seu hegelianismo, o herdeiro de uma tradição <francesa> do freudismo. Lacan nunca obedeceria a essa injunção.”Gostaria de saber o que é um gênio freudo-hegeliano…

A-Freu-DIOnisíaco

Desde o início, o casamento foi insatisfatório. Malou acreditara ter-se casado com um homem perfeito, cuja fidelidade conjugal estaria à altura de seus sonhos de felicidade. Ora, Lacan não era esse homem, nem nunca seria. Três filhos nasceram: Caroline (1937-1973), Thibaut, Sibylle.”

Desses anos de grande riqueza cultural e teórica, tirou a certeza de que a obra freudiana devia ser relida <ao pé da letra> e à luz da tradição filosófica alemã.” ???

Em 1936, cruzou pela primeira vez a história do freudismo internacional indo a Marienbad para o Congresso da IPA. Nesse congresso, apresentou uma exposição sobre o estágio do espelho. Mas Ernest Jones cortou-lhe a palavra apenas com dez minutos de sua exposição. Foi em seguida para Berlim assistir aos Jogos Olímpicos. O triunfo do nazismo provocou nele um sentimento de repugnância.”

Desde 1937, apaixonou-se por Sylvia Maklès-Bataille (1908-1993). Separada nessa época de Georges Bataille mas continuando a ser sua esposa, atuou em um filme de Jean Renoir (1894-1979), Une partie de campagne. Era mãe de uma menina, Laurence Bataille (1930-1986), que se tornaria uma notável psicanalista.”

Em setembro de 1940, Lacan encontrou-se em uma situação insustentável. Anunciou a sua mulher legítima, que estava grávida de 8 meses, que Sylvia, sua companheira, também esperava um filho. Malou pediu o divórcio imediatamente e foi em plena crise de depressão que deu à luz, a 26 de novembro, uma menina à qual deu o nome de Sibylle. <Quando eu nasci, escreveria esta em 1994, meu pai não estava mais conosco. Até poderia dizer que, quando fui concebida, ele já estava em outro lugar […]. Sou o fruto do desespero. Alguns dirão que sou fruto do desejo, mas não creio nisso.> Oito meses depois, em 3 de julho de 1941, Sylvia deu à luz à 4a dos filhos de Lacan, Judith, registrada com o sobrenome de Bataille. Só poderia usar o nome do pai em 1964. Essa impossibilidade de transmitir o sobrenome seria uma das determinações inconscientes da elaboração do conceito lacaniano de Nome-do-Pai.” E você acha isso bonito?

<Lacan não tinha absolutamente, como objetivo, reinventar a psicanálise, escreveu Jacques-Alain Miller. Pelo contrário, situou o começo de seu ensino sob o signo de um ‘retorno a Freud’; apenas perguntou, a respeito da psicanálise:sob que condição ela é possível?>Em 1950, Lacan começou esse retorno aos textos de Freud, baseando-se, ao mesmo tempo, na filosofia heideggeriana, nos trabalhos da linguística saussuriana e nos de Lévi-Strauss. Da primeira, adotou um questionamento infinito sobre o estatuto da verdade, do ser e de seu desvelamento; da lingüística, extraiu sua concepção do significante e de um inconsciente organizado como uma linguagem; do pensamento de Lévi-Strauss deduziu a noção de simbólico, que utilizou em uma tópica (simbólico, imaginário, real: S.I.R.)”

Lacan atacou uma das grandes correntes do freudismo, a Ego Psychology, da qual seu ex-analista se tornara um dos representantes, e que ele assimilava a uma versão edulcorada e adaptativa da mensagem freudiana. Chamava-a de <psicanálise americana> e lhe opunha a peste, isto é, uma visão subversiva da teoria freudiana, centrada na prioridade do inconsciente. Como fizera no período entreguerras, Lacan continuou então a estabelecer fortes relações fora do meio psicanalítico: com Roman Jakobson (1896-1982), Claude Lévi-Strauss, Merleau-Ponty. Graças a Jean Beaufret (1907-1982), de quem era analista, encontrou-se com Martin Heidegger.”

gustavecourbet
“No jirau que dominava a peça única, pendurou o famoso quadro de Gustave Courbet (1819-1877) A origem do mundo, que comprou a conselho de Bataille e de Masson.”

Recusando qualquer idéia de assimilação da psicanálise a uma psicologia qualquer, considerava os estudos de filosofia, de letras ou de psiquiatria como as três melhores vias de acesso à formação dos analistas. Reatou assim com o programa projetado por Freud, quando do congresso da IPA em Budapeste, em 1918.”

Graças a seu amigo Jean Delay, obteve um anfiteatro no Hospital Sainte-Anne. Durante 10 anos, 2 vezes por mês, realizou ali seu seminário, comentando sistematicamente todos os grandes textos do corpus freudiano e dando assim origem a uma nova corrente de pensamento: o lacanismo. O <Discurso de Roma> foi publicado no primeiro número de La Psychanalyse, revista da SFP. A cada ano, Lacan daria a essa revista o texto de suas melhores conferências, que eram uma espécie de resumo dos temas do seminário. Também publicaria nela artigos de Martin Heidegger, Émile Benveniste, Jean Hyppolite (1907-1968) e muitos outros.”

Nessa época, ninguém pensava em se emancipar da legitimidade freudiana, muito menos Lacan. Apoiados por ele, Granoff, Leclaire e Perrier formaram uma <tróica>, cuja tarefa era negociar a reintegração da SFP. Depois de anos de discussão e intercâmbio, o comitê executivo da IPA recusou a Lacan e a Dolto o direito de formar didatas. As razões dessa recusa eram complexas. Lacan era acusado de transgressão das regras técnicas, principalmente das que determinavam a duração das sessões. Quanto a Dolto, o problema era, em parte, sua maneira de praticar a psicanálise de crianças, mas também sua formação didática: nessa época, os alunos de René Laforgue foram convidados a fazer uma nova análise.”

Em 1964, a SFP foi dissolvida e Lacan fundou a École Freudienne de Paris (EFP), enquanto a maioria de seus melhores alunos se posicionou ao lado de Lagache, na Associação Psicanalítica da França (APF), reconhecida pela IPA. Obrigado a deslocar seu seminário, Lacan foi acolhido, graças à intervenção de Louis Althusser, em uma sala da École Normale Supérieure (ENS), na rue d’Ulm, onde pôde prosseguir seu ensino.”

A obra Seminários mostrava os vestígios de sua difícil elaboração: reescrita do próprio Lacan, correções múltiplas de Wahl, comentários de Miller. Lacan recebeu enfim a consagração esperada e merecida: 5 mil exemplares foram vendidos em 15 dias, antes mesmo que aparecessem resenhas na imprensa. Mais de 50 mil exemplares foram vendidos na edição comum e a venda da edição de bolso bateria todos os recordes para um conjunto de textos tão difíceis: mais de 120 mil exemplares o primeiro volume, mais de 55 mil o segundo. Doravante, Lacan seria reconhecido, celebrado, odiado ou admirado como um pensador de envergadura, e não mais apenas como um mestre da psicanálise. Sua obra seria lida e comentada por inúmeros filósofos, entre os quais Deleuze.” “A leitura de sua obra no mundo anglo-saxão ficaria limitada aos intelectuais, às feministas e aos professores de literatura francesa.”

Ah, minha cara, os italianos são tão inteligentes! Se eu pudesse escolher um lugar para morrer, seria em Roma que eu gostaria de acabar os meus dias. Conheço todos os ângulos de Roma, todas as fontes, todas as igrejas… Se não fosse Roma, eu me contentaria com Veneza ou Florença: eu sou sob o signo da Itália.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

L., De la psychose paranoïaque dans les rapports avec la personnalité suivi de Premiers écrits sur la paranoïa (monografia médica)

Philippe Julien, Pour lire Jacques Lacan (Toulouse, 1985), Paris, Seuil, col. “Points”, 1995;

Ignacio Garate & José Miguel Marinas, Lacan en castellano, Madri, Quipu Ediciones, 1996.

lacanismo

Na história do movimento psicanalítico, chama-se lacanismo a uma corrente representada pelos diversos partidários de Jacques Lacan, sejam quais forem suas tendências. Foi entre 1953 e 1963 que ganhou corpo, na França, a reformulação lacaniana, que depois desembocou, com a criação da École Freudienne de Paris (EFP), em 1964, num vasto movimento institucional e, em seguida, numa nova forma de internacionalização, num rompimento definitivo com a IPA. Depois da morte de Lacan, em 1981, o lacanismo fragmentou-se numa multiplicidade de tendências, grupos, correntes e escolas que formam uma poderosa nebulosa, implantada de maneiras diversas em muitos países.”

Lacan foi, com efeito, o único dos grandes intérpretes da doutrina freudiana a efetuar sua leitura não para <ultrapassá-la> ou conservá-la, mas com o objetivo confesso de <retornar literalmente aos textos de Freud>. Por ter surgido desse retorno, o lacanismo é uma espécie de revolução às avessas, não um progresso em relação a um texto original, mas uma <substituição ortodoxa> desse texto.”

Psicanálise norte-americana: Por esse vocábulo, Jacques Lacan e, depois dele, seus discípulos e herdeiros designam o neofreudismo, o annafreudismo e a Ego Psychology. Todas essas correntes remetem, segundo eles, a uma concepção <desviada> da psicanálise, i.e., a uma doutrina centrada no eu e esquecida do Isso, a uma visão adaptativa ou culturalista do indivíduo e da sociedade.”

O lacanismo tem em comum com o kleinismo o fato de haver estendido a clínica das neuroses a uma clínica das psicoses, e de ter levado mais longe do que o freudismo clássico a interrogação sobre a relação arcaica com a mãe. Nesse sentido, inscreveu a loucura bem no cerne da subjetividade humana. Mas, ao contrário do kleinismo, perseguiu, sem aboli-la, a interrogação sobre o lugar do pai, a ponto de ver na deficiência simbólica deste a própria origem da psicose. Daí seu interesse pela paranóia, mais do que pela esquizofrenia. Por outro lado, o lacanismo procedeu a uma completa reformulação da metapsicologia freudiana, inventando uma teoria do sujeito (distinto do eu, do ego, do self, etc.), isto é, introduzindo uma filosofia do sujeito e do ser bem no coração do freudismo. Além disso, para pensar o inconsciente, apoiou-se não mais num modelo biológico (darwinista), mas num modelo lingüístico.”

É por isso que, depois de ser expulsa da IPA, lugar supremo da legitimidade freudiana, a corrente lacaniana viu-se obrigada, a partir de 1964, a criar um novo modelo de associação, mais legítimo do que a antiga legitimidade: assim, chamou de escola o que era denominado de sociedade ou associação, para expressar o caráter platônico de sua reformulação, e se apoderou do adjetivo <freudiano>, para deixar bem claro que se pautava no verdadeiro mestre, e não em seus herdeiros.” Aqui vamos nós com o abuso do termo platônico novamente…

No plano político, o lacanismo implantou-se maciçamente, exportando o modelo institucional francês, em dois países do continente latino-americano — a Argentina e o Brasil —, onde, no entanto, fragmentou-se numa centena de grupos e tendências, e onde coabita com um kleinismo muito poderoso no interior da Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL), ramo latino-americano da IPA.” Não faria sentido uma Psicanálise não-conturbada e crísica na América do Sul!

O legitimismo lacaniano é encarnado, na França, por Jacques-Alain Miller, executor testamentário e genro de Jacques Lacan. É ele quem dirige, além disso, a internacional lacaniana, a Association Mondiale de Psychanalyse (AMP).” Por trás de um grande homem sempre existe um grande secretário – um amplificador.

CONTROVÉRSIA DA CONTROVÉRSIA: “É interessante notar que emergiram correntes separatistas a partir de 1990, tendendo a fazer do lacanismo um movimento externo ao freudismo, embora sem renegar este último. Testemunho disso é, por exemplo, o primeiro dicionário publicado em língua inglesa sobre o assunto, em 1996. Seu título e seu conteúdo dão a entender que existiria uma <psicanálise lacaniana> (coisa que Lacan jamais desejou).”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Slavoj Zizek, Looking Awry. An Introduction to Lacan through Popular Culture, Boston, Massachusetts University Press, 1991;

Jean-Louis Henrion, La Cause du désir. L’Agalma de Platon à Lacan, Paris, Point Hors Ligne, 1993.

Lagache, Daniel

Como Sacha Nacht, Françoise Dolto, Maurice Bouvet e muitos outros, Daniel Lagache pertencia à segunda geração psicanalítica francesa. Na história da psicanálise na França desempenhou um papel importante, ao mesmo tempo como herdeiro de Pierre Janet, no campo da psicologia clínica, e como introdutor da psicanálise na universidade. Contra Nacht, que preconizava o vínculo da psicanálise com a medicina, e contra Lacan, que queria desvincular a psicanálise da psicologia, através de um retorno rigoroso aos textos freudianos, foi o artífice da separação entre a filosofia e a psicologia, e da síntese entre esta e a psicanálise. Tornou-se assim, pela universidade, o líder de uma corrente favorável à análise leiga (ou Laïenanalyse), mas que permitia, principalmente, o acesso maciço dos psicólogos à profissão de psicanalistas.”

Em 1924, ingressou na École Normale Supérieure, na mesma classe que Jean-Paul Sartre, Paul Nizan, Raymond Aron (1905-1983) e Georges Canguilhem (1904-1995). Como muitos normaliens de sua geração, assistiu às apresentações de doentes de Georges Dumas, amigo de Janet violentamente hostil às teses freudianas. Professor de filosofia, residente dos hospitais psiquiátricos e chefe de clínica de doenças mentais e do encéfalo, foi aluno de Gaëtan Gatian de Clérambault na enfermaria especial. Enfim, em 1934, defendeu sua tese de medicina sobre as alucinações verbais.

Ao mesmo tempo que Lacan, mais velho que ele 2 anos, iniciou-se nos textos alemães, interessou-se pela loucura feminina e pela criminologia, descobriu a obra de Jaspers, a fenomenologia e seguiu os cursos de Henri Claude. [Regressou à filosofia?]

Ao contrário de Lacan e de Nacht, relatou seu tratamento com Rudolph Loewenstein em um artigo publicado em inglês em 1966, no qual fornecia muitas informações sobre sua infância e sua vida privada. Essa análise se desenrolou entre 1933 e 1936, sob condições difíceis, o que levaria Lagache a fazer uma segunda etapa, com Maurice Bouvet.”

Segudo Lagache, era preciso unificar o ramo dito naturalista da psicologia, compreendendo o behaviorismo e as teorias da aprendizagem (com a estatística e a experimentação), e o seu ramo dito humano, reunindo a psicologia clínica e a psicanálise, esta definida como ultraclínica.

Georges Canguilhem, embora amigo de longa data de Lagache, destruiu esse programa, tratando a psicologia de <filosofia sem rigor>, de <ética sem exigência> e de <medicina sem controle>.Dez anos depois, após a ruptura entre Lagache e Lacan, esse artigo seria utilizado pelos alunos de Louis Althusser na École Normale Supérieure, no âmbito de uma reformulação filosófica dos conceitos freudianos hostis a toda forma de psicologia.”

O carro-chefe de sua coleção [da Biblioteca de Psicanálise na editora PUF] seria o famoso Vocabulário da psicanálise, realizado sob sua direção por Laplanche & Pontalis e traduzido hoje em mais de 20 línguas.” Curiosamente de verve bem lacaniana!

o que todos os seus alunos aprenderam, a começar por mim, foi a importância da regularidade dos horários, de uma duração fixa e suficientemente longa das sessões, da manutenção da austeridade das regras e da situação diante das demandas manipulatórias do paciente, de uma interpretação por etapas, precisa, sóbria, concreta.” Anzieu

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Georges Canguilhem, Études d’histoire et de philosophie des sciences, Paris, Vrin, 1968.

Laing, Ronald

Poeta, escritor, militante de todas as causas a favor dos marginais, dos excluídos, dos oprimidos e dos povos colonizados, Ronald Laing é uma das mais belas figuras desse movimento de revolta que abalou durante 20 anos, de 1950 a 1970, o conjunto dos ideais da burguesia ocidental. Marcado simultaneamente pelo heideggerianismo, pelo existencialismo e pela experiência com a mescalina e o LSD, procurou durante toda a vida, através de uma longa viagem no interior do eu, o meio de compreender o grande enigma da loucura humana.”

INGÊNUO, DEMASIADO INGÊNUO: “Em 1972, depois de uma permanência na Índia, Ronald Laing evoluiu para o orientalismo, encontrando no budismo e nas teorias da reencarnação uma filosofia do sofrimento e da subjetividade capaz, segundo ele, de subverter o racionalismo ocidental.”

MEA CULPA: “Em sua autobiografia de 1985, reconheceu o fracasso de seus métodos de tratamento da esquizofrenia e renegou a maioria das suas teses anteriores.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Ronald Laing, O eu dividido (1960), Petrópolis, Vozes, 1975; A política da família (1964), S. Paulo, Martins Fontes; La Politique de l’expérience (1967), Paris, Stock, 1979; Laços (1970), Petrópolis, Vozes, 1976; Sagesse, déraison et folie. La Fabrication d’un psychiatre (1985), Paris, Seuil, 1986.

Lanzer, caso Homem dos Ratos

Segundo grande tratamento psicanalítico conduzido por Freud, depois de Dora e antes do Homem dos Lobos, a história do Homem dos Ratos é, sem sombra de dúvida, a mais elaborada, a mais estruturada e a mais rigorosamente lógica. A análise durou cerca de 9 meses, de outubro de 1907 a julho de 1908, e Freud falou dela em 5 oportunidades nas reuniões da Sociedade das Quartas-Feiras, antes de apresentar o caso no primeiro congresso da IPA em Salzburgo, em 26 de abril de 1908, num relatório verbal de cinco horas. Em suas memórias, publicadas em 1959, Ernest Jones narra o acontecimento: Sentado na ponta da longa mesa à qual todos estávamos acomodados, ele falou em sua voz baixa, mas nítida, como numa conversa. Começou às oito horas da manhã e nós o escutamos com profunda atenção. Às onze, fez uma pausa, sugerindo que já tínhamos ouvido o bastante. Mas estávamos todos tão interessados, que insistimos em que continuasse, o que fez até a uma da tarde.

Foi em 1901 que começou a ser dominado por estranhas obsessões sexuais e mórbidas. Com efeito, manifestava um gosto especial por funerais e ritos de morte, adquirira o hábito de olhar seu pênis num espelho para se certificar de seu grau de ereção, e tinha inúmeras tentações suicidas, baseadas em censuras e acusações dirigidas contra si mesmo, prontamente acompanhadas por resoluções beatas e orações. Ora queria cortar sua garganta, ora planejava afogar-se.

Em 1905, portanto, aos 27 anos de idade, sofria de uma grave neurose obsessiva. Embora houvesse rejeitado o projeto dos pais, que queriam fazê-lo casar-se com uma mulher rica, ainda não conseguira decidir-se a casar com Gisela. Consultou então o célebre psiquiatra Julius Wagner-Jauregg, por causa de uma compulsão a se apresentar numa prova sempre cedo demais e despreparado. O médico respondeu-lhe que a obsessão era muito salutar e não fez nada pelo rapaz.”

Foi durante o verão de 1907 que se produziram os dois grandes acontecimentos que ocupariam o cerne de sua análise com Freud. Em julho, durante um exercício militar na Galícia, ouviu o cruel capitão Nemeczek, adepto dos castigos corporais, contar a história de um suplício oriental que consistia em obrigar o prisioneiro a se despir e a se ajoelhar no chão com o dorso curvado para a frente. Nas nádegas do homem fixava-se então, por meio de uma correia, uma grande vasilha furada onde um rato se agitava. Privado de alimento e atiçado por um pedaço de ferro em brasa introduzido num orifício da vasilha, o animal procurava fugir da queimadura e penetrava no reto do supliciado, infligindo-lhe feridas sangrentas. Ao cabo de mais ou menos meia hora, morria sufocado, ao mesmo tempo que o prisioneiro.

Nesse dia, Lanzer perdeu seu pincenê durante um exercício. Telegrafou a seu oculista, em Viena, para lhe encomendar outro, que deveria ser enviado pela volta do correio. Dois dias depois, recebeu o objeto por intermédio do mesmo capitão, que lhe informou que as despesas postais deveriam ser reembolsadas ao tenente David, funcionário do correio. Obrigado a fazer o reembolso, Lanzer teve então um comportamento delirante em torno do tema obsedante do pagamento da dívida. A história do suplício misturou-se com a da dívida e fez surgir na memória do Homem dos Ratos um outro episódio envolvendo dinheiro. Um dia, seu pai contraíra uma dívida de jogo: fora salvo da desonra por um amigo que lhe emprestara a soma necessária para o pagamento [foi enrabado e roído por um rato chamado remorso]. Heinrich havia tentado, findo o seu serviço militar, reencontrar esse homem, mas não conseguira fazê-lo. Por isso, a dívida com certeza nunca fôra paga.”

Foi esse homem, obcecado por ratos e por uma dívida, que entrou no consultório do Dr. Freud no dia 1º de outubro de 1907.” “por volta dos 6 anos de idade, o pequeno Ernst teria praticado uma má ação de ordem sexual, relacionada com a masturbação, e teria sido castigado pelo pai.”

Quando aos 30 anos você escuta do pai que o criou mal que você é um filho MAU CRIADO (com o erro de português incluso), significaria um ato falho do idoso culpado? Criado: empregado, servo, escravo. Mau: oposto a mim, inimigo viscer(e)al.“Cedo, porém, em seus sonhos e associações, começou a insultar grosseiramente seu terapeuta, de quem, ao mesmo tempo, reivindicava um castigo. Esse episódio permitiu rapidamente a Freud mostrar a seu paciente como a <dolorosa via da transferência> levava, de fato, a uma confissão do ódio inconsciente pelo pai.”

JÁ QUE…³ “O caso do Homem dos Ratos foi considerado a única terapia perfeitamente bem-sucedida de Freud. Decerto isso não foi por acaso, JÁ QUE Freud foi o inventor do termo neurose obsessiva, JÁ QUE descreveu a si mesmo, numa carta a Jung, como o protótipo do neurótico obsessivo, e JÁ QUE considerava essa neurose o objeto mais <interessante e mais fecundo da pesquisa psicanalítica>.”

Peixe morre pela boca, soldado morre pelo cu mesmo. Filho de soldado é desaforado. Filho de crente é pe(s)cado. Pe(s)que a vara e ensine a meter, quer dizer

Nulifique seus 1000 agres

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jacques Lacan, “Le mythe individuel du névrosé ou Poésie et vérité dans la névrose” (1953), Ornicar?, 17-18, 1979, 289-307. (artigo)

Leclaire, Serge

Depois de estudar psiquiatria, Leclaire ouviu falar pela 1a vez em psicanálise por um monge hindu, que lhe aconselhou a procurar Françoise Dolto. Conheceu então seu colega Granoff no Hospital da Salpêtrière e se engajou, com ele, na via do freudismo. Durante 3 anos, fez sua formação didática com Lacan, relacionando-se, na SPP, com homens e mulheres [que bom!] da terceira geração francesa, principalmente Jean Laplanche e Anne-Lise Stern. Progressivamente, Serge Leclaire se tornou discípulo de um mestre excepcional, Lacan o próprio, que admirou sem servilismo nem submissão. Seria o primeiro lacaniano da história.”

Tornando-se o clínico mais apreciado da França freudiana, tentaria durante 30 anos unificar a comunidade psicanalítica francesa, sempre em processo de dispersão e conflitos. § Em 1969, depois de criar o primeiro departamento de ensino da psicanálise na universidade francesa (Paris-VIII), seria também, em 1983, o único psicanalista de envergadura a ousar enfrentar os riscos do <tratamento ao vivo> pela televisão, no programa Psy-show.”

A partir de F., sabemos que os relatos de casos, para evitar a mediocridade da literatura piegas, devem ser construídos à maneira da ficção. Nesse aspecto, Leclaire foi um dos raros psicanalistas franceses, com Michel de M’Uzan, a saber descrever seus casos na tradição inglesa, como mostra seu livro inaugural Psicanalisar, no qual é exposta pela primeira vez a história do Homem do Licorne: uma neurose obsessiva descrita a partir da concepção lacaniana do significante. Leclaire a apresentou pela primeira vez no Colóquio de Bonneval, durante o outono de 1960, organizado por Henri Ey, no Hospital de Bonneval.”

Mack-Brunswick, Ruth

Como Marie Bonaparte e Jeanne Lampl-De Groot, Ruth Mack-Brunswick pertencia ao <círculo das mulheres> de Freud. Foi sua paciente e depois tornou-se uma de suas discípulas mais fervorosas, a tal ponto que logo entrou na intimidade familiar do mestre e viu-se finalmente sob sua dependência, um pouco à maneira de sua filha Anna Freud. Entretanto, teve um destino bem mais trágico que os outros alunos de Freud. Sua análise foi um desastre e sua morfinomania [autoprescrição de morfina sem receituário ou acompanhamento médico], combinada a muitas doenças, impediu-a de desenvolver seus verdadeiros talentos de clínica e teórica.”

Nessa época, Freud analisava muitos americanos, que às vezes permaneciam vários anos em Viena para se tratar ou se tornar psicanalistas. Foi nessas circunstâncias que Ruth Mack encontrou Mark Brunswick. Ele era primo de sua mãe e apaixonou-se em segredo por ela desde que assistira a seu casamento. Sofrendo de distúrbios da personalidade, fazia uma análise com Freud ao mesmo tempo que seu irmão David, que estudava psicologia. Já separada do marido, Ruth ficou encantada com Mark, mais ainda porque Freud lhe explicava o seu caso, como se faz em uma análise de supervisão. Mark tinha um caso com uma jovem, mas finalmente, em 1928, depois de 4 anos de tratamento, decidiu casar-se com Ruth. Freud e Oscar Rie foram escolhidos como testemunhas.

Enquanto isso, Ruth se tornara uma verdadeira freudiana, especializada no tratamento das psicoses [contradição em termos] e apaixonada pela questão das relações pré-edipianas. [MERITOCRACIA EM PRIMEIRO LUGAR:] Como recusava as teses de Melanie Klein, Freud a apoiava, enviando-lhe muitos pacientes entre seus próximos: Max Schur e sua mulher em 1924, Muriel Gardiner e Serguei Constantinovitch Pankejeff em 1926, assim como Robert Fliess, filho de Wilhelm Fliess, e Karl Menninger.”

Sofrendo com seus distúrbios digestivos, ela tomou o hábito de acalmar a dor com repetidas injeções de morfina. À medida que sua análise avançava, a dependência transferencial em relação a Freud aumentava, assim como a toxicomania.”

Mahler, Gustav

Ele foi o primeiro a reger de pé, escreveu William Johnston, e um pioneiro na arte de usar técnicas de regência expressiva, servindo-se das duas mãos ao mesmo tempo, para modular cada frase.”

Mahler também conseguiu compreender por que a sua música ficava, de certo modo, <prejudicada> pela intrusão repetitiva de uma melodia banal. Na infância, depois de uma cena particularmente violenta entre seus pais, ele fugira para a rua e ouvira um realejo tocar uma melodia popular vienense. Essa música se fixara na sua memória e retornava sob a forma de uma melodia obsessiva.”

Mais-além do princípio de prazer

Livro de Freud, publicado em 1920 sob o título Jenseits des Lustprinzips. Traduzido para o francês pela 1a vez por Jankélévitch, em 1927, sob o título Au-delà du principe de plaisir, revisto por Angelo Hesnard em 1966 e retraduzido por Jean Laplanche & Jean-Bertrand Pontalis em 1981, sem alteração do título. Novamente retraduzido sem mudança de título, em 1996, por André Bourguignon (1920-1996), Pierre Cotet, Alain Rauzy&Janine Altounian. Traduzido para o inglês em 1922 por C.J.M. Hubback, sob o título Beyond the Pleasure Principle, e retraduzido por James Strachey em 1950, sem mudança do título.”

Agora escolhi como alimento o tema da morte, ao qual cheguei ao esbarrar numa curiosa idéia das pulsões, e eis que me vejo obrigado a ler tudo o que diz respeito a essa questão, como, p.ex., e pela 1a vez, Schopenhauer. Mas não o leio com prazer.” F., no surprises!

Essa declaração, aliás, pode ser entendida como uma resposta antecipada àqueles que, pouco à vontade com a idéia da pulsão de morte ou desejosos de retirar dela seu peso teórico, iriam esforçar-se por não ver nela senão uma noção circunstancial, produto do contexto econômico e político já evocado pelo próprio Freud, ou efeito dos falecimentos ocorridos ao redor dele nessa época — falecimento de Tausk, de Anton von Freund e, acima de tudo, alguns dias depois, em 25 de janeiro de 1920, de sua filha Sophie Halberstadt, cuja morte o deixou transtornado, como ele mesmo disse em numerosas cartas a Ludwig Binswanger ou Oskar Pfister.” Aqueles que, em derrisão à perfunctoriedade teórica de Freud, aperceberam-se de que a psicanálise clássica nada é senão um mergulho passivo e inocente no mais radical niilismo secular.

Mais-além do princípio de prazer, que Laplanche disse ser <o texto mais fascinante e mais desnorteante da obra freudiana>, tamanha a ousadia e a liberdade nele evidenciadas por seu autor, foi rejeitado por numerosos psicanalistas, inclinados a considerar a ousadia como falta de rigor e a liberdade de tom como uma deriva especulativa.”

Como primeira forma de perigo externo, existem as catástrofes naturais, os acidentes graves ou os atos de guerra, circunstâncias capazes de provocar neuroses traumáticas ou neuroses de guerra. Curiosamente, os sonhos que acompanham esses tipos de neuroses remetem reiteradamente os sujeitos às circunstâncias traumáticas de seus acidentes, embora eles não pensem no assunto durante o dia.” “Uma segunda forma de perigos externos é a ilustrada pela brincadeira de algumas crianças muito pequenas. Freud observou que seu neto (Ernstl), filho de Sophie Halberstadt, costumava divertir-se, quando sua mãe se ausentava, atirando para longe da cama os objetos pequenos que estivessem ao alcance de sua mão. Esse gesto era acompanhado por uma expressão de satisfação que assumia a forma vocal de um <o-o-o-o> prolongado, no qual se podia reconhecer o significado alemão fort, isto é, <fora>.”

a rememoração voluntária é ineficaz, e o paciente é obrigado a repetir na análise o recalque, em especial o de sua vida sexual infantil, marcada pela fase edipiana, para conseguir se instalar numa nova neurose, a neurose de transferência, substituta daquela que o fez procurar o analista.”

Freud toma o exemplo das pessoas condenadas a conhecer o fracasso reiteradamente, como se obedecessem a uma ordem <demoníaca>. Quanto a esse ponto, Freud se apóia em observações que fez algumas semanas antes de iniciar a redação do Mais-além (…), quando estava terminando seu artigo sobre O estranho, onde abordou o tema do duplo e do <eterno retorno do mesmo>. Ele reconhece que <efetivamente existe, na vida psíquica, uma compulsão à repetição que se coloca acima do princípio de prazer>.” “Os adversários desse texto censuraram-no por seu caráter especulativo. No entanto, Freud adverte seu leitor quanto a isso, e a seqüência de sua exposição é, com efeito, pura especulação motivada pelo desejo de saber, mesmo com o risco de errar.”

EVERY FUCKING DAMN NIGHT: “Os sonhos em que os sujeitos às voltas com uma neurose traumática¹ revivem a situação do acidente <têm por objetivo o domínio retroativo da excitação>, recriam uma situação em que a angústia, que foi insuficiente na realidade, acha-se agora bastante presente. (…) Esses sonhos constituem uma exceção à lei do sonho como realização de desejo: obedecem à compulsão à repetição, que, por sua vez, está a serviço do desejo inconsciente de permitir que o recalcado retorne.”

¹ Expulsão

Filosofia de século XVIII: “pulsões conservadoras, senhoras do desenvolvimento global do organismo, submetido a uma finalidade regressiva” conservadoras, global, regressiva não têm qualquer sentido GLOBAL nesta frase!

Por que não estudaste a Música Moderna? “O que se tem aí é uma concepção global da vida psíquica cujo funcionamento seria ritmado por um movimento pendular que faz alternar certas pulsões, premidas a atingirem a meta final da vida, com outras que estão mais voltadas para fazer o percurso dessa vida durar.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jacques Derrida, La Carte postale, Paris, Aubier-Flammarion, 1980.

Mal-estar na cultura, O

Livro de Freud publicado em 1930, sob o título Das Unbehagen in der Kultur. Traduzido pela primeira vez para o francês em 1934, por Charles Odier, sob o título Malaise dans la civilisation, e depois, em 1994, por Pierre Cotet, René Lainé & Johanna Stute-Cadiot, sob o título Le Malaise dans la culture. Traduzido para o inglês por Joan Riviere, em 1930 [já?], sob o títuloCivilization and its Discontents, retomado sem modificação por James Strachey em 1961.

Durante muito tempo, O mal-estar na cultura foi considerado proveniente da categoria de escritos freudianos qualificados, não sem uma certa condescendência, de sociológicos ou antropológicos. Longe de ratificar esse ponto de vista, Lacan, no seminário do ano de 1959-1960, dedicado à ética da psicanálise, falou dele como um <livro essencial>, no qual Freud realizara <a síntese de sua experiência> e discorrera sobre a tragédia da condição humana. Peter Gay, por seu turno, estima que O mal-estar na cultura é o texto <mais sombrio> de Freud, aquele em que se aborda sem disfarce e no tom mais grave a questão da <miséria humana>, à qual a crise econômica, a quebra da bolsa de Nova York, ocorrida dias antes de Freud entregar o manuscrito a seu editor, e a ascensão do partido hitlerista na Alemanha conferem toda a sua amplitude.”

Cumulando a degenerescência que começou, a dizer verdade, para Freud, com o século XX.

Por que concentrar-se no mundo se a resposta está no triângulo nesta tua testa, Mr. É.? “O que acontece com esse sentimento de culpa, que surge com tamanha constância, quer o mal tenha sido praticado, quer tenha permanecido em estado de intenção? Na verdade, ele tem uma origem dupla. Para começar, é produto da angústia sentida pela criança diante da autoridade paterna (origem externa): temendo não mais ser amada, a criança é levada a renunciar a satisfazer as pulsões [PULSÃO ZERO!], guiadas unicamente pela busca do prazer. Mas, quando a autoridade é internalizada no Supereu […aí, como diz o poeta, fodeu…], por intermédio da introjeção da agressividade que suscitava, a origem do sentimento de culpa passa a ser interna: desse momento em diante, já não é possível mascarar do Supereu aquilo que persiste no Eu do desejo de satisfazer a pulsão. O sentimento de culpa, gerado pela cultura (representada pelo Supereu), permanece então predominantemente inconsciente e, na maioria das vezes, é vivido sob a forma de um mal-estar ao qual se atribuem outras causas.Claro, porque cultura é uma palavra de semântica TÃO SIMPLÓRIA!! Mais fácil dizer que nada há fora da cultura…

Mann, Thomas

Thomas Mann nasceu em Lübeck, no norte da Alemanha, em 6 de junho de 1875, de mãe mestiça de origem brasileira, cuja beleza exótica e sensual inspiraria ao romancista alguns de seus personagens femininos mais fascinantes, e de um pai originário de uma das mais ilustres famílias protestantes da cidade.”

Aquele que se tornaria um dos maiores escritores alemães do século XX conheceu o sucesso desde 1901, com seu romance Os Buddenbrook, grandioso painel da decadência de uma família burguesa, amplamente inspirado na história de sua própria família paterna.”

Em 1905, casou-se com Katja Pingsheim, com quem teria 6 filhos (…) Klaus, também escritor, que se suicidaria em 1949 (6 anos antes da morte do pai) em Cannes, depois de concluir Le Tournant, sua segunda autobiografia” [!!]

Herdeiro do mundo prometéico da literatura romântica alemã, Thomas Mann foi ligado durante toda a vida à filosofia de Schopenhauer, à de Nietzsche e ao universo wagneriano. Esse fascínio pelas grandes epopéias líricas, pelos sábios loucos e pelos mágicos, sua hostilidade pelas formas de pensamento racionais, suspeitas, a seus olhos, de reducionismo, estavam na origem dos erros e das ambigüidades que caracterizariam sua relação com a política e a psicanálise.

O ódio que Thomas Mann sentia pelos valores do mundo ocidental, do qual excluía a Alemanha, quer se tratasse do parlamentarismo, do internacionalismo, dos ideais socialistas e mais ainda da psicologia, o levou a tomar partido pelo imperialismo prussiano já em 1914. A guerra lhe parecia então uma cruzada em defesa da cultura germânica. Assim, indispôs-se com seu irmão mais velho, Heinrich (1871-1950), também escritor e jornalista, apaixonado pela França e pela Itália, que se engajou em 1914 contra o empreendimento militarista da Alemanha guilhermina. Em 1918, Thomas Mann, amargurado com a derrota alemã, publicou uma obra-prima panfletária, Considerações de um apolítico, de tom populista e nacionalista, na qual atacava novamente, com incrível violência, a psicologia sob todas as suas formas, que acusava de cultivar a evidência e de não respeitar a arte e a criação.”

Em 1924, depois de se reconciliar com o irmão, publicou uma de suas obras mais célebres, A montanha mágica (Der Zauberberg), que lhe valeu uma reputação internacional: o escritor alemão mais conhecido do mundo recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1929. Durante esses anos, suas opiniões políticas mudaram. Desde o surgimento dos primeiros sintomas anunciadores da ascensão do nazismo, aliou-se às forças de esquerda, empenhando todo o seu prestígio nas campanhas eleitorais, multiplicando as conferências para a juventude, colaborando com os sindicatos para impedir a volta da barbárie. Consternado, tomou consciência de uma reviravolta histórica: o nazismo triunfante tomava para si, de modo caricatural mas eficaz, os valores da Alemanha romântica aos quais ele era tão apegado. O justo combate dos filósofos românticos se tornou anacrônico; não era mais hora para a apologia do instinto e do irracional contra a alienação moderna; era preciso mobilizar todas as forças disponíveis para socorrer a civilização ameaçada.”

Em 1996, sua filha Erika, que foi uma Resistente ao nazismo desde a primeira hora, publicou um livro de memórias no qual transcreveu cartas trocadas com o pai, entre 1933 e 1936. Algumas dessas cartas mostram a demora do escritor, então na Suíça, em assumir uma posição pública contra os novos senhores de seu país. A seu irmão Klaus, Erika escreveu: <Cabe a nós, apesar de nossa juventude, uma pesada responsabilidade, na pessoa do nosso pai menor.> Em fevereiro de 1936, Thomas Mann publicou em um jornal suíço uma tomada de posição isenta de ambigüidade, que o reconciliaria com a filha, como prova o telegrama que ela lhe dirigiu: <Obrigada, parabéns, bênção.>

Contraditório em suas declarações, Thomas Mann até se desculparia, em uma carta de 3 de janeiro de 1930 a Freud, pelo caráter tardio de sua compreensão da teoria psicanalítica e de sua adesão aos valores de que ela era portadora, enquanto havia declarado, em 1925, que sua novela Morte em Veneza, publicada em 1912, havia sido escrita sob a influência direta de Freud. Na verdade, ele sempre cultivou a ambigüidade quanto a esse ponto.”

Freud e o pensamento moderno, publicado em 1929, ano do Prêmio Nobel, sem dúvida um dos textos mais admiráveis redigidos sobre Freud, como certas linhas de Stefan Zweig.”

Em 44, adquiriu a nacionalidade americana e dedicou, a partir dessa data, muito de sua energia a descobrir as raízes do cataclisma cuja responsabilidade coletiva, a seus olhos, cabia a seu país-natal. Como observou Jean-Michel Palmier, essa posição seria duramente criticada por Bertolt Brecht (1898-1956), que o acusaria de confundir alemão e nazista.

Em 1945, em um texto intitulado Por que não volto à Alemanha, explicou seu percurso intelectual e político e seu abandono progressivo das raízes alemãs: É verdadeque a Alemanha se tornou estranha para mim durante todos esses anos. Hão de convir comigo que é um país que dá medo.”

Que grau de insensibilidade não foi necessário para ouvir o Fidelio¹ na Alemanha de Himmler, sem cobrir o rosto com as mãos e sair do teatro correndo!”

¹ Wiki: “Fidelio (em português Fidélio), Op. 72b, é um Singspiel em dois atos, de Ludwig van Beethoven, com libretto de Joseph Sonnleithner e Georg Friedrich Treitschke baseado no libreto de Léonore ou L’Amour Conjugal (1798), peça em <prosa entremeada de canto>, de Jean-Nicolas Bouilly, baseada nas memórias do autor sobre os acontecimentos da França durante o Terror, quando ele era promotor público do Tribunal Revolucionário de Tours.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Erika Mann, Mein Vater, der Zauberer, Frankfurt, Rowohlt, 1996.

Marcuse, Herbert

Sua consciência cada vez mais clara das insuficiências do marxismo, mesmo em sua versão hegeliano-marxista, o levou, como Horkheimer e Adorno antes dele, a refletir sobre os obstáculos propriamente psicológicos que se opõem a uma verdadeira mudança social.”

Marcuse preconizava assim uma teoria da libertação que o conduzia a imaginar uma sociedade fundada na superação dos conflitos e na possível <pacificação da existência>. Essa utopia o afastava da teoria crítica de Adorno e de Horkheimer, que permanecia ligada à tese freudiana da pulsão de morte. Marcuse conquistou um sucesso mundial junto aos jovens, no momento das grandes revoltas estudantis dos anos 1960, depois da publicação de O homem unidimensional. Nesse livro profético e muito mais freudiano, apesar das aparências, do que Eros e civilização, o filósofo, longe de pregar a superação dos conflitos, atacava a unificação das consciências e do pensamento. Enfatizando que o homem unidimensional da sociedade industrial tinha perdido todo o seu poder de negação à força de se submeter aos imperativos de uma falsa consciência, conclamava as massas a reatarem com a ética da grande recusa e a se revoltarem contra a ordem social dominante, em nome de uma nova estética da existência.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Paul Robinson, The Freudian Left. Wilhelm Reich, Geza Roheim, Herbert Marcuse, N. York, Harper and Row, 1969.

matema

Termo criado por Lacan em 1971 para designar uma escrita algébrica capaz de expor cientificamente os conceitos da psicanálise, e que permite transmiti-los em termos estruturais, como se tratasse da própria linguagem da psicose.

Foi no âmbito de sua última reformulação lógica, baseada numa leitura da obra de Wittgenstein e orientada para a análise da essência da loucura humana, que Lacan inventou, simultaneamente, o matema e o nó borromeano: de um lado, um modelo da linguagem, articulado com uma lógica da ordem simbólica; do outro, um modelo estrutural, baseado na topologia e efetuando um deslocamento radical do simbólico para o real.

A palavra matema foi proposta por Lacan pela 1a vez em 2 de dezembro de 1971. Cunhada a partir do mitema de Claude Lévi-Strauss e do termo grego mathema (conhecimento), ela não pertence ao campo da matemática. Evocando a loucura do matemático Georg Cantor (1845-1918),¹ Lacan explicou que, se essa loucura não era motivada por perseguições objetivas, estava relacionada à própria incompreensão matemática, i.e., à resistência provocada por um saber julgado incompreensível. Comparou então seu ensino ao de Cantor: seria a incompreensão em que esbarrava esse ensino um sintoma?”

¹ wiki: “Cantor’s work is of great philosophical interest, a fact he was well aware of. Cantor’s theory of transfinite numbers was originally regarded as so counter-intuitive – even shocking – that it encountered resistance from mathematical contemporaries such as Leopold Kronecker and Henri Poincaré and later from Hermann Weyl and L.E.J. Brouwer, while Ludwig Wittgenstein raised philosophical objections.”

Em outras palavras, Lacan colocou-se ao contrário de Wittgenstein: recusando-se a concluir pela separação dos incompatíveis, tentou arrancar o saber do inefável e lhe conferir uma forma integralmente transmissível. Essa forma é justamente o matema, porém o matema não é sede de uma formalização integral, uma vez que pressupõe sempre um resto que lhe escapa. Assim definido, o matema inclui os matemas, isto é, todas as fórmulas algébricas que pontuam a história da doutrina lacaniana e permitem sua transmissão: o significante, o estádio do espelho, o desejo com seus grafos, o sujeito, a fantasia, o Outro, o objeto (pequeno) a e as fórmulas da sexuação.”

mecanismo de desimpedimento (a defesa contra a defesa, para se chegar à melhora efetiva)

Foi E. Bibring que propôs descrever como working-offmechanisms (mecanismos de desimpedimento) certos mecanismos do eu que conviria diferenciar dos mecanismos de defesa clássicos de Freud, uma vez que relacionados especificamente com sua concepção da compulsão à repetição. Segundo este autor, com efeito, a repetição das experiências penosas sob o controle do eu permitiria uma redução ou assimilação progressiva das tensões: <A finalidade dos mecanismos de desimpedimento do eu não é provocar a descarga (ab-reação) nem deixar a tensão livre de perigo (fim do mecanismo de defesa clássico); a sua função é dissolver progressivamente a tensão alterando as condições internas que lhe dão origem.>Bibring descreve diversos métodos de desimpedimento, tais como o desapego da libido (trabalho do luto), a familiarização com a situação ansiógena, etc.

Na mesma linha de idéias, Lagache sublinhou a extensão abusiva do conceito de mecanismo de defesa, que é invocado ao mesmo tempo para explicar compulsões automáticas e inconscientes que a psicanálise procura destruir e, sob o nome de <defesa bem-sucedida>, operações que têm justamente por objeto a abolição dessas compulsões.” “a consciência ou eu-sujeito pode identificar-se com o eu-objeto, de modo que se aliene nele (narcisimo) ou, pelo contrário, objetivar o eu e assim se <desimpedir>.”

ESTÁGIOS DO DESIMPEDIMENTO: (1) a passagem da repetição atuada para a rememoração pensada e falada; (2) a passagem da identificação, pela qual o sujeito se confunde com a sua vivência, para a objetivação, pela qual ele se distancia dessa vivência(3) a passagem da dissociação para a integração; (4) o desapego do objeto imaginário, completado pela mudança de objeto; (5) a familiarização com as situações fóbicas, que substitui a espera ansiosa da situação traumática e fantasística; (6) a substituição da inibição pelo controle, da obediência pela experiência.” Em suma, passa-se sempre da defesa (passiva) para o desimpedimento (ativo).

¹ Ora, para pragmatistas: Tales O Lunático deve ser sempre evocado!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA (apenas artigos):

Bibring (ed.), The conception of the Repetition Compulsion, 1943, in: Psychoanalytic Quarterly, XII, n. 4;

Lagache, Fascination de la conscience par le Moi, 1957, in: La psychanalise, PUF, Paris, vol. 3, pp. 33-46 (bem como outro artigo no vol. 6 deste mesmo periódico,La psychanalyse et la structure de la personalité, 1958).

melancolia

Termo derivado do grego melas (negro) e kholé (bile)”

Desde a descrição de Homero sobre a tristeza de Belerofonte, herói perseguido pelo ódio dos deuses por ter querido escalar o céu, até a teorização do <espírito melancólico> por Aristóteles, passando pelo relato mítico de Hipócrates sobre Demócrito, o filósofo <louco> que ria de tudo e dissecava os animais para neles encontrar a causa da melancolia do mundo, essa forma de deploração perpétua sempre foi, ao mesmo tempo, a expressão mais incandescente de uma rebeldia do pensamento e a manifestação mais extrema de um desejo de auto-aniquilamento, ligado à perda de um ideal. Daí a idéia, desenvolvida por Erwin Panofsky (1892-1968), de que a história da melancolia seria a história de uma transferência permanente entre o campo da doença e o do espírito que contaria a intensa e sombria irradiação do sujeito da civilização às voltas com a deficiência de seu desejo.

Foi a teoria hipocrática dos quatro humores que, durante séculos, permitiu descrever, de maneira mais ou menos idêntica, os sintomas clínicos dessa doença: ânimo entristecido, sentimento de um abismo infinito, extinção do desejo e da fala, impressão de hebetude, seguida de exaltação, além de atração irresistível pela morte, pelas ruínas, pela nostalgia e pelo luto.” “A melancolia ou bile negra imita a terra, aumenta no outono e impera na maturidade.” “Doença da maturidade, do outono e da terra, a melancolia também pode diluir-se nos outros humores e caminhar de mãos dadas com a alegria e o riso (o sangue), a inércia (a fleuma) e o furor (a bile amarela): através dessas misturas, portanto, ela afirmaria sua presença em todas as formas de expressão humana. Daí nasceria a idéia de uma alternância cíclica entre um estado e outro (mania e depressão), característica da nosografia psiquiátrica moderna.

Entretanto, como humor sombrio, a melancolia estaria ligada à doença de Saturno, deus terreno dos romanos, mórbido e desesperado, identificado com o Cronos da mitologia grega, que havia castrado o pai (Urano) antes de devorar os filhos. Assim, os melancólicos eram chamados de saturninos, mas cada época construiu sua própria representação da doença.

Se o médico inglês Thomas Willis (1621-1675) foi o primeiro, no século XVII, a aproximar a mania da melancolia para definir um ciclo maníaco-depressivo, foi o filósofo Robert Burton (1577-1640) quem forneceu, em 1621, com Anatomy of Melancholy, a versão canônica de uma nova concepção da melancolia, já introduzida nos costumes. A partir do fim da Idade Média, com efeito, o termo tornou-se sinônimo de uma tristeza sem causa, e a antiga doutrina dos humores foi progressivamente substituída por uma causalidade existencial. Falava-se então de temperamento melancólico, pensando em Hamlet, que, na virada do século, tinha-se tornado a imagem por excelência do drama da consciência européia: um sujeito entregue a si mesmo, num mundo perpassado pelo advento da revolução copernicana.”

Parecia atingir tanto os jovens burgueses, excluídos dos privilégios conferidos pelo nascimento, quanto os decaídos na escala social, que haviam perdido todos os referenciais. Grassava também entre os aristocratas ociosos, privados do direito de fazer fortuna. Tédio da felicidade, felicidade do tédio, sentimento de derrisão ou aspiração à felicidade de superar o tédio, a melancolia funcionava como um espelho onde se refletiam a falência geral da ordem monárquica e a aspiração à intimidade pessoal”

Todas as histórias universais e as buscas das causas me entediam. Esgotei todos os romances, contos e peças teatrais; somente as cartas, a vida particular e as memórias escritas pelos que fazem sua própria história ainda me divertem e me inspiram certa curiosidade. A moral e a metafísica provocam-me um tédio mortal. Que posso dizer-lhes? Vivi demais.”Marie Deffand

Acreditava-se também que alguns climas favoreciam a doença, mais freqüente nos países nórdicos do que nas regiões meridionais. Por fim, na mulher, ela era freqüentemente aproximada da doença dos vapores, ora atribuída ao baço, fonte da bile negra, ora ao útero, lugar imaginário da sexualidade feminina.”

Chamada de lipemania por Jean-Étienne Esquirol (1772-1840), a melancolia assumiu posteriormente o nome de loucura circular, sob a pena de Jean-Pierre Falret (1794-1870), sendo então aproximada da mania. No fim do século, foi integrada por Emil Kraepelin à loucura maníaco-depressiva, fundindo-se em seguida à psicose maníaco-depressiva.

Se os herdeiros da nosografia alemã tenderam a fazer a melancolia submergir no vocabulário técnico do discurso psiquiátrico,os fenomenologistas conservaram o termo, também eles efetuando uma aproximação da mania. Foi o que se deu, em particular, com Binswanger, que designou a melancolia como uma alteração da experiência temporal, e a mania como uma deficiência da relação intersubjetiva.

Pouco interessado nessa psiquiatrização do estado melancólico, Freud renunciou a aproximar a mania da depressão, preferindo revigorar a antiga definição da melancolia: não uma doença, mas um destino “Enquanto o sujeito, no trabalho do luto, consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido, na melancolia, ao contrário, ele se supõe culpado pela morte ocorrida, nega-a e se julga possuídopelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. Em suma, o euse identifica com o objeto perdido, a ponto de ele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.”

No fim do século XX, a depressão, forma atenuada da melancolia, vai se tornando, nas sociedades industriais avançadas, uma espécie de equivalente da histeria da Salpêtrière, outrora exibida por Charcot: uma verdadeira doença de época.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Aristóteles, L’Homme de génie, prefácio e apresentação de Jackie Pigeaud, Paris, Rivages, 1988;

Julia Kristeva, Soleil noir. Dépression et mélancolie, Paris, Gallimard, 1987.

Mesmer, Franz Anton

Mozart morreu aos 35!

Foi muitas vezes confundido com seu duplo, Joseph Balsamo (1743-1795), dito Cagliostro, célebre aventureiro imortalizado por Alexandre Dumas. Esses dois homens não se pareciam, mas ambos pertenciam às lojas maçônicas e freqüentavam os círculos iluministas: Essas filiações, escreveu Robert Amadou, lhes abriram as portas dos meios mais cultos do século das Luzes. Mas Cagliostro […] só tocou no magnetismo por acidente e se apresentava como um alquimista fazedor de ouro e um necromante invocador de fantasmas. Sob essa máscara, era um prestidigitador hábil e um escroque de rica imaginação. Mesmer era autenticamente médico da Faculdade de Viena e conhecedor da física, da filosofia e da teologia do seu tempo. Acrescentara aos seus conhecimentos ciências proibidas, como a astrologia e a química. Como Fausto, sabia coisas demais, e não tinha gênio suficiente para tirar delas um sistema coerente e aceitável pelos sábios que conheciam as descobertas de Newton.

Em 1773, Mesmer popularizou a doutrina do magnetismo animal, que daria origem ao hipnotismo (hipnose) inventado por James Braid, à sugestão e à teoria freudiana da transferência. Afirmava que as doenças nervosas provinham de um desequilíbrio na distribuição de um fluido universal, que circulava no organismo humano e animal. Com Oesterline, uma jovem de 29 anos, que sofria de distúrbios histéricos, vômitos, sufocações e cegueira, experimentou pela 1a vez um tratamento dito magnético.”

metapsicologia

F. parece haver considerado que a reflexão metapsicológica, com suas inevitáveis especulações, constituía a única defesa epistemológica em condições de erguer uma barreira contra as derivas psicologizantes ou organicistas que, já em sua época, constituíam o principal perigo para essa nova ciência.”

Mitscherlich, Alexander

Daí o seu interesse pela psicossomática, método segundo o qual o sujeito é levado, com o médico, a estabelecer uma ligação entre o seu ser e o soma. Pelas mesmas razões, dedicou-se a uma longa reflexão sobre o passado nazista da Alemanha. Essas duas orientações fariam dele um marginal nos meios médicos e universitários, e um pensador célebre no seu país e no estrangeiro, pela sua coragem e pela originalidade dos seus trabalhos.”

Sejamos claros e falemos francamente: a ciência da psicanálise fundada por Freud ficou inacessível e estranha aos alemães — não digo apenas a um grande número, mas à maioria dos alemães; ou melhor, aos alemães. Eles desenvolveram contra ela uma antipatia coletiva, da qual se glorificaram por muito tempo.”

BIBILIOGRAFIA SUGERIDA:

Alexander Mitscherlich & Margarete Mitscherlich, Le Deuil impossible (Munique, 1967), Paris, Payot, 1972;

Hans Martin Lohman, Psychoanalyse und National-Sozialismus, Frankfurt, Fischer, 1984.

Moisés e o monoteísmo

Ao querer demonstrar que Moisés era egípcio, ele não pretendia chocar o catolicismo austríaco, que protegia os judeus do nazismo, nem despojar simbolicamente o povo judeu de seu evento fundador (a saída do Egito e o recebimento da Torah no Sinai), no momento em que o regime hitlerista começava a persegui-lo. Inicialmente publicados sob a forma de artigos, os três ensaios foram reunidos em livro depois que Freud se instalou em Londres.”

Qual é a especificidade desse monoteísmo judaico que, através das eras, induz a tamanho sentimento de participação num grupo, mesmo quando desaparece qualquer vestígio de prática religiosa? Que significa ser judeu, quando já não se recorre ao judaísmo?” “Esse sentimento, pelo qual um judeu se mantém judeu em sua subjetividade, mesmo sendo descrente, era experimentado pelo próprio Freud”

Eis a essência do livro: o monoteísmo não é uma invenção judaica, mas egípcia, e o texto bíblico só fez deslocar sua origem, posteriormente, para um tempo mítico, atribuindo sua fundação a Abraão e seus descendentes. Na realidade, ele proveio do faraó Amenófis IV, que fez dele uma religião, baseada no culto ao deus solar Aton. Para banir o antigo culto, ele se fez denominar de Aquenaton. Seguindo-se a ele, Moisés, alto dignitário egípcio e partidário do monoteísmo, assumiu a chefia de uma tribo semita e deu ao monoteísmo uma forma espiritualizada. Para distingui-la das outras, introduziu o rito egípcio da circuncisão, com isso pretendendo mostrar que Deus teria <eleito>, através dessa <aliança>, o povo escolhido por Moisés. Mas o povo não suportou a nova religião, matou o homem que se pretendia profeta e recalcou a lembrança do assassinato, que retornou com o cristianismo”

Os povos que hoje se entregam ao anti-semitismo só se cristianizaram tardiamente e, em muitos casos, foram obrigados a fazê-lo por uma coerção sangrenta. Dir-se-ia que todos foram ‘mal batizados’; sob uma tênue capa de cristianismo, continuaram, como seus ancestrais, apaixonados por um politeísmo bárbaro. Não superaram sua aversão pela nova religião, mas a deslocaram para a fonte de onde lhes veio o cristianismo […]. Seu anti-semitismo, no fundo, é um anticristianismo, e não surpreende que, na revolução nacional-socialista alemã, essa relação íntima entre as duas religiões monoteístas encontre expressão tão clara no tratamento hostil de que ambas são objeto.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Karl Abraham, “Amenhotep IV (Echnaton). Contribution psychanalytique à l’étude de sa personnalité et du culte monothéiste d’Aton” (1912), in Oeuvres complètes, I, 1907-1914, Paris, Payot, 1965, pp. 232-57.

Moser, Fanny (Emmy von N.)

Juntamente com Anna O., Lucy R., Katharina, Frau Cäcilie M. e Elisabeth von R., Emmy von N. é uma das pacientes cuja história foi apresentada por Breuer & Freud nos Estudos sobre a histeria.”

Viúva e mãe de 2 filhas, também elas afetadas por distúrbios nervosos, essa mulher manifestava uma grave fobia ante a visão de certos animais. A análise durou 6 semanas, durante as quais Freud lhe fez massagens no corpo, prescreveu-lhe banhos e procurou, através do sono artificial, da hipnose e de um diálogo catártico, libertá-la de seus afetos dolorosos. Afirmou tê-la curado. Em 1º de maio de 1889, numa crise de pânico, ela lhe ordenou que se afastasse e não a tocasse mais: Fique tranqüilo, disse, não fale comigo… Não toque em mim!” “Emmy fabricou, segundo se disse, as proibições necessárias a uma nova técnica de tratamento, fundamentada na retirada do olhar. Depois dela, o médico tornou-se psicanalista e se instalou fora da visão do doente, renunciando a tocá-lo e se obrigando a escutá-lo.” BEM AMBÍGUO!

Foi em Amsterdam, em 65, no congresso da IPA, que o historiador sueco Ola Andersson expôs o verdadeiro destino de Fanny Moser. Levando em conta o que havia acontecido com Ernest Jones depois da divulgação da identidade de Bertha Pappenheim (Anna O.), ele aguardou 14 anos para publicar sua comunicação, na qual, aliás, não revelou o nome de Emmy von N. Em 1977, apoiando-se no trabalho de Andersson, o historiador Henri F. Ellenberger publicou a primeira revisão do caso, fornecendo a identidade da moça e acrescentando um estudo sobre o destino de suas duas filhas, Fanny (filha) e Mentona. Graças a esses trabalhos, sabemos que Fanny Moser nunca foi curada de sua neurose, nem por Freud nem por seus sucessivos médicos.”

Aos 23 anos, ela desposou um negociante riquíssimo, 40 anos mais velho e já pai de 2 filhos, o qual, ao morrer, legou-lhe toda a sua fortuna. Por isso, foi acusada de tê-lo envenenado. A suspeita de assassinato lhe pesou a tal ponto que ela nunca conseguiu realizar seu mais caro anseio: ser recebida nos salões da aristocracia européia. Levou uma vida errante, teve amantes entre seus médicos e acabou se apaixonando por um rapaz que lhe roubou parte de sua fortuna.

Suas duas filhas foram marcadas, cada qual à sua maneira, pelos significantes da neurose materna: uma se especializou em zoologia e a outra se rebelou contra os valores da classe dominante da qual era um produto puro. Tornou-se militante comunista e, mais tarde, também se interessou pelos animais, havendo publicado, em 1941, uma coletânea de histórias destinadas às crianças.” HAHAHAHAHAHAHA!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Ola Andersson, Freud avant Freud. La Préhistoire de la psychanalyse (Estocolmo, 1961), Paris, Synthélabo, col. “Les empêcheurs de penser en rond”, 1997.

narcisismo

A lenda e o personagem de Narciso foram celebrizados por Ovídio na terceira parte de suas Metamorfoses.”

O amor dos pais, tão tocante e, no fundo, tão infantil, não é outra coisa senão seu narcisismo renascido, que, a despeito de sua metamorfose em amor de objeto, manifesta inequivocamente sua antiga natureza.” F.

Foi sobre o ponto até hoje confuso da localização do narcisismo primário e de sua relação com a constituição do eu que se fundamentou a concepção lacaniana do estágio do espelho, desenvolvida em 49.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Bela Grunberger, Le Narcissisme. Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1971.

neofreudismo, neo-freudismo

Para os neofreudianos, o freudismo figura como uma doutrina original que, embora historicamente reivindicada, deve ser ultrapassada. Os neofreudianos, com efeito, contestam o dogmatismo freudiano e seu universalismo. Daí o caráter avulso e atomizado desse movimento, que, em virtude de suas convicções culturalistas, sempre rejeitou o próprio princípio de uma organização centralizada, de espírito internacionalista. Entre os principais representantes do neofreudismo figuram Karen Horney, Erich Fromm e Harry Stack Sullivan.”

neurastenia [coisa do século passado? digo, retrasado…]

ver também “neurose atual”

Afecção descrita pelo médico americano George Beard (1839-83). Compreende uma fadiga física de origem <nervosa> e sintomas dos mais diversos registros.” “F. (…) coloca-a no quadro das neuroses atuais, ao lado da neurose de angústia, e busca a sua etiologia num funcionamento sexual incapaz de resolver de forma adequada a tensão libidinal (masturbação).”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Beard, Sexual Neurasthenia (Nervous exhaustion), its Hygiene, Causes, Symptoms, and Treatment, NY, 1884.

neurose

Ver também o verbete “histeria”

O problema colocado pela expressão <escolha da neurose> situa-se na própria base de uma psicopatologia analítica. Como e por que certos processos gerais que explicam a formação da neurose (por exemplo, o conflito defensivo¹) se especificam em organizações neuróticas tão diferenciadas que não se pode estabelecer uma nosografia?” “O problema, pela sua amplitude, excede os limites desta obra.” “Todavia, não é indiferente que, numa concepção que invoca um determinismo absoluto, apareça este termo sugerindo que seja necessário um ato do sujeito para que os diferentes fatores históricos e constitucionais evidenciados pela psicanálise assumam o seu sentido e o seu valor motivante.”

¹ Ver verbete MECANISMO DE DESIMPEDIMENTO.

Têm uma sede orgânica reconhecida (neurose digestiva, neurose cardíaca, neurose do estômago, etc.) ou ao menos postulada. São afecções funcionais, i.e., sem inflamação nem lesão de estrutura do órgão. Abrangeria hoje desde a clássica histeria até a neurastenia (psicossomática, síndromes do trato digestivo) e doenças praticamente biológicas formais, como o Parkinson e a epilepsia.” Ainda assim, não está descartada uma “intromissão fronteirística” com tipos de psicose.

Já no século XIX a historiografia do termo neurose é muito ampla e ramificada. “Janet distingue essencialmente 2 grandes categorias de neuroses: a histeria e a psicastenia (derivada do termo neurastenia; neurose obsessiva em Freud). “

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Georges Lantéri-Laura, “Névrose et psychose: questions de sens, questions d’histoire”, Autrement, 117, outubro de 1990, 23-31;

Barras, Traités sur les gastralgies et les entéralgies, ou maladies nerveuses de l’estomac et de l’intestin, 1829.

neurose atual

Do ponto de vista terapêutico, essas opiniões levam à idéia de que as neuroses atuais nada têm a ver com a psicanálise, pois aqui os sintomas não procedem de uma significação que poderia ser elucidada.” “Freud tentou por várias vezes estabelecer correspondência termo a termo entre a neurastenia e a neurose de angústia, por um lado, e, por outro, entre as diversas neuroses de transferência. (…) [Mas] <o sintoma da neurose atual é muitas vezes o núcleo e a fase precursora do sintomas psiconeuróticos>

Hoje [Lacan?], o conceito de neurose atual tende a apagar-se da nosografia na medida em que, seja qual for o valor precipitante dos fatores atuais, encontramos sempre nos sintomas a expressão simbólica de conflitos mais antigos.” “a existência de um conflito atual agudo [mercado de trabalho, péssimo pai, assédio no trabalho, fascismo no país, etc.] é muitas vezes um obstáculo ao curso do tratamento psicanalítico”

Sintomas ligados à psicossomática (neurastenia em Freud): fadigas não-justificadas, dores vagas…

TÃO ÓBVIO… “Note-se, por fim, que Freud considera na sua teoria apenas a não-satisfação das pulsões sexuais.¹ Seria necessário levar em conta ainda, na gênese de sintomas neuróticos atuais e psicossomáticos, a repressão da agressividade.”

¹ Estivesse certo este imbecil, eu já estaria numa camisa-de-força há muito tempo!

Não adianta jogging, Mary of Anti-help, Rumals, etc.!

Preciso ser mais grosso, mas não como meu pai.

Eleger meus inimigos e envolver essa missão nos meus projetos literários.

Cruzada no serviço público

neurose de angústia

Sub-espécie da neurose atual descrita logo acima. Porém, a nosografia freudiana encontra-se ultrapassada.

neurose de caráter

organização patológica do conjunto da personalidade” “As formações reativas<evitam os recalques secundários realizando de uma vez por todas uma modificação definitiva da personalidade> (Fenichel).”

neurose de destino (ou a compreensão burra do Eterno Retorno)

ver também COMPULSÃO À REPETIÇÃO

Nietzsche e o próprio Sócrates diriam que o destino sempre nos puxa para aquilo que nascemos e a que devemos nos dedicar, mas F. não entende colocações filosóficas dessa grandeza: “Designa uma forma de existência caracterizada pelo retorno periódico de encadeamentos idênticos de acontecimentos, geralmente infelizes, encadeamentos a que o sujeito parece estar submetido como a uma fatalidade exterior, ao passo que, segundo a psicanálise, convém procurar as suas causas no inconsciente”

<os casos daquelas pessoas que dão a impressão de que um destino as persegue, de que há uma orientação demoníaca da sua existência (benfeitores pagos com ingratidão, amigos traídos, etc.).>

ESTUDOS “LITERÁRIOS” DO SR. FREUD: “ela não tem valor nosográfico mas descritivo. A idéia de neurose de destino pode ser facilmente tomada num sentido muito amplo: o curso de toda a existência seria <antecipadamente modelado pelo sujeito>.¹”

¹ Barafunda freudiana ao chamar nosso simples livre-arbítrio e capacidade criativa de compulsão à repetição. Na verdade, ironia, era seu destino achar compulsões onde não havia nenhuma. Incapaz de aceitar algo óbvio ou tautológico como dado, assistemático, procurava sempre teorizar a vida do sujeito enquanto suposto escravo de seu inconsciente (como se o isso não fosse nós mesmos!).

Como bem reconhece Laplanche, “ao generalizar-se, o conceito [quer algo mais arbitrário?] corre o risco de perder até o seu valor descritivo [uma vez que] exprimiria TUDO o que o comportamento de um indivíduo oferece de recorrente, e mesmo de constante. [Como se um indivíduo pudesse escapar a uma rotina – engraçado que quanto mais se tenta insinuar uma rebeldia contra esta neurose de destino, mais o sujeito cairia no seu oposto simetricamente mórbido, uma neurose de caráter.]”

Surgem como uma fatalidade externa de que o sujeito se sente vítima, e parece que com razão” É uma necessidade que um filósofo seja incompreendido em seu meio, ora.

o sujeito não tem acesso a um desejo inconsciente que lhe vem do exterior” – o que Heidegger chamava de missão do Ser ou o pensamento único de cada filósofo.

Outro exemplo: Freud admitia como uma necessidade o fato de que ele não era capaz de acordar cedo, pois trabalhava, de modo insone, sempre até muito tarde. Nada há nisso de hipócrita, enquanto o indivíduo se mantém coerente e à vontade com sua inevitável mania de assim o ser. O desagradável, para mim, é sentir que sou mais cordato no dia-a-dia do que devera ser (mas não se pode ser o próprio deus sem pagar o preço, certo?). O absolutamente desejável é que eu seja diferente dos outros e à frente do meu próprio tempo.

neurose de guerra

Ver Alemanha, nazismo, suicídio

o suicídio explícito e a melancolia são menos freqüentes quando a guerra autoriza o heroísmo da morte, e as neuroses são tão mais numerosas e manifestas quanto mais a sociedade na qual se exprimem tem todas as aparências de estabilidade.”

neurose de transferência

neurose artificial”: tratada em consultório, pelo analista, pois se refere a circunstâncias desviantes que não pertencem exatamente à personalidade do analisando e que podem ser objeto de melhoramento por parte do analista. As neuroses curáveis.

Na perspectiva freudiana, podemos ter por modelo ideal do tratamento a seguinte seqüência: a neurose clínica transforma-se em neurose de transferência, cuja elucidação leva à descoberta da neurose infantil.”

Regra geral, o médico não pode poupar ao analisando esta fase do tratamento. É obrigado a deixá-lo reviver um certo fragmento da sua vida esquecida, mas tem de cuidar para que o doente mantenha uma certa distância em relação à situação que lhe permita, apesar de tudo, reconhecer naquilo que surge como realidade o reflexo renovado de um passado esquecido.”

neurose familiar

Expressão usada para designar o fato de que, em uma determinada família, as neuroses individuais se completam, se condicionam reciprocamente, e para evidenciar a influência patogênica que a estrutura familiar, principalmente a do casal parental, pode exercer sobre as crianças.”

Idiossincrasia da psicanálise francesa.

René Laforgue insiste em particular na influência patogênica de um casal parental constituído em função de uma certa complementaridade neurótica (casal sadomasoquista, por exemplo).” “criança encarada como sintoma dos pais”

O supereu da criança não se forma à imagem dos pais, mas antes à imagem do Supereu deles; enche-se com o mesmo conteúdo,¹ torna-se o representante da tradição, de todos os juízos de valor que subsistem assim através das gerações.” Laforgue

¹ Aplicando ao meu caso: “você é um lixo.”

neurose mista

As neuroses raramente se apresentam em estado puro: este fato é amplamente reconhecido pela clínica psicanalítica. Insiste-se, p.ex., na existência de traços histéricos na raiz de qualquer neurose obsessiva e de um núcleo atual em qualquer psiconeurose.”

neurose narcísica

Expressão em extinção (…) se oporia, para F., às neuroses de transferência [casos intratáveis, ou seja, psicoses].”

Mais tarde, num mea culpa, especialmente no artigo Neurose e psicose (1924), irá restringir o uso da expressão neurose narcísica às afecções do tipo melancólico

neurose obsessiva

No plano clínico, manifesta-se através de (…) uma ruminação mental permanente, na qual intervêm dúvidas e escrúpulos que inibem o pensamento e a ação.”

Enquanto a histeria era conhecida desde a Antiguidade, a obsessão apareceu tardiamente na clínica das doenças nervosas.” “No caso da histeria, a possessão é mais sonambúlica, passiva, inconsciente e <feminina>: é o demônio que se apodera de um corpo de mulher para torturá-lo. Na obsessão, ao contrário, ela é ativa e <masculina>: é o próprio sujeito que é internamente torturado por uma força diabólica, embora permaneça lúcido quanto a seu estado.” “A histeria é uma arte <feminina> da sedução e da conversão, e a obsessão, um rito <masculino> comparável a uma religião.” “Constatando a analogia entre a religião (cujos rituais são portadores de um sentido) e o cerimonial da obsessão (onde esses mesmos rituais correspondem apenas a uma significação neurótica), F. passou a caracterizar a neurose como uma religião individual e a religião como uma obsessão universal.” “relação sadomasoquista interiorizada sob a forma da tensão entre o eu e um Supereu particularmente cruel

Janet, pouco depois de Freud, descreveu, sob a denominação de psicastenia, uma neurose próxima daquilo que Freud designa por neurose obsessiva, mas centrando a sua descrição em torno de uma concepção etiológica diferente”

Atualmente aceita-se que a tradução é equivocada: o sentido mais germanicamente correto seria “neurose compulsiva”.

neurose traumática

tal <fixação no trauma> é acompanhada de uma inibição mais ou menos generalizada da atividade do sujeito.”

A noção de traumatismo na medicina clássica é antes de mais nada somática (…) subdividem-se os traumatismos em feridas e contusões (ou traumatismos fechados) conforme haja ou não efração do revestimento cutâneo. Em neuropsiquiatria, fala-se de traumatismo em 2 acepções muito diferentes, a segunda das quais nos interessa.

Transpõe-se de forma metafórica para o plano psíquico a noção de traumatismo, que qualifica então qualquer acontecimento que ocasione uma brusca efração [ruptura] na organização psíquica do indivíduo.¹”

¹ Meu pai é meu inimigo e não meu amigo (ou, o mais implícito significado entranhado no Complexo de Édipo, simplesmente um pai). Dois marcos: 1) a expulsão do colégio militar e a perda do universo de amigos (meu Paraíso do Gêneses desde então), com direito a sabotagem psicológica por parte da própria instituição (meu Urstaat); 2) a festa do primo em que finalmente estourou o conflito e verbalizei o desejo trancado no coração: POR QUE VOCÊ NÃO MORRE LOGO, MISERÁVEL?. Notar que este evento se realizou APÓS meu único sonho de super-interpretação até o momento, o sonho em que descobri que não queria de forma alguma a morte do meu pai. Significa que num lapso de 1 ou 2 anos a situação se tornou tão sensivelmente outra que meu julgamento inconsciente mais enraizado pôde permitir a ida ao consciente da pulsão contrária, agora a mais condizente com as coisas (meu inconsciente não mais censura, a partir de 2012/13 minha vontade manifesta de que meu pai morra – superou dentro de si esse binarismo; não, é claro, se sofrer com isso intensa culpa introjetada pelo Supereu dos meus ancestrais). Fatos do mundo real cada vez mais tornam inviável qualquer prevalência do atavismo superegóico do respeito ao Deus-pai e conservação das tradições da árvore genealógica.

Fenichel, como sempre, nas obras já demarcadas neste post, oferece comentários muito ricos para a questão.

Se aplicada a uma “tendência inata do sujeito a procurar situações traumáticas”, o chamado traumatófilo, ou a uma tentativa defensiva do sujeito de superar um trauma origjnal através de outros traumas, o que acaba gerando um trágico efeito bola de neve, ressaltam os autores do Vocabulário, que “a noção de neurose traumática não seria, nesta perspectiva, mais do que uma primeira aproximação, puramente descritiva,¹ que não resistiria à análise mais aprofundada.”

¹ LEI INEXORÁVEL DA PSICANÁLISE: Sempre que se fala em aproximação ou elaboração descritiva, trata-se de um reconhecimento da esterilidade do método psicanalítico, uma vez que descrição é – para a angústia dos psicanalistas – psicologia e metafísica, e não psicanálise. Reflete-se sobre uma co-morbidade da história do sujeito aventando hipóteses jamais passíveis de comprovação, e que tornam o aparato psicanalítico inútil na clínica ou terapia, uma vez que não se sabe se o que se apresenta é um problema, na verdadeira acepção da palavra, e, mesmo que o fosse, não se sabe que tipo de problema e que conduta profissional seria a mais indicada para o tratamento. Em outros termos, se se não reconhece o trauma como inscrito no quadro da neurose ou da psicose, nada se pode fazer a respeito. O livro de Freud Além do princípio de prazer foi sua tentativa de lidar com o fracasso e desmantelamento de todas as suas descobertas: recorrendo a artifícios como pulsão de vida e pulsão de morte, ele não chegou a uma salvação da psicanálise e a uma solução satisfatória do problema. Antes, o agravou. Pode-se considerar este livro como uma confissão de culpa e o fim da História Romântica da Psicanálise. A queda dela mesma no mesmo pântano de niilismo terapêutico contra o qual Freud lutou durante toda a sua vida. A partir de 1920 a Psicanálise é um ectoplasma dos problemas da civilização contemporânea. Um meio terapêutico ou ciência da saúde tão forte ou fraca como qualquer outra. O psicanalista contemporâneo competente precisa se ater aos escritos psicanalíticos de 1895-1920 ou buscar em Lacan e outros autores um aporte que não torne seu trabalho despido de sentido, validade e eficácia.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Lagache, Deuil pathologique, 1957.

nó borromeano

Expressão introduzida por Lacan, em 72, para designar as figuras topológicas (ou nós trançados) destinadas a traduzir a trilogia do simbólico, do imaginário e do real, repensada em termos de real/simbólico/imaginário (R.S.I.) e, portanto, em função da primazia do real (isto é, da psicose) em relação aos outros dois elementos.”

Desde 50, juntamente com seu amigoGeorges T. Guilbault, Lacan vinha-se entregando a exercícios topológicos que se assemelhavam aos jogos com números e às periodicidades que Freud e Fliess faziam no chamado período da autoanálise. Essa atividade lúdica consistia em atar pedaços de barbante indefinidamente, em encher bóias de criança, trançar e recortar, em suma, em transcrever uma doutrina em figuras topológicas. Assim, a banda de Moebius, sem avesso nem direito, forneceu a imagem do sujeito do inconsciente, assim como o toro ou a câmara de ar designavam um furo ou uma hiância, isto é, um <lugar constitutivo que, no entanto, não existe>.”

a expressão nó borromeano, que remetia à história da ilustre família Borromeu. As armas dessa dinastia milanesa, com efeito, compunham-se de três anéis em forma de trevo, simbolizando uma tríplice aliança. Se um dos anéis se retirasse, os outros dois ficariam soltos, e cada um remetia ao poder de um dos três ramos da família.”

Nome-do-Pai

Termo criado por Lacan em 53 e conceituado em 56, para designar o significante da função paterna.” “Evocando a natureza da relação de Daniel Paul Schreber com o pai, Lacan fez da psicose do filho uma <forclusão do nome-do-pai>.”

Lacan foi o primeiro dos comentadores de Freud a teorizar o vínculo existente entre o sistema educacional de um pai e o delírio de um filho. É possível que essa idéia lhe tenha ocorrido a partir da lembrança da relação entre seu pai (Alfred) e seu avô (Émile), dramaticamente vivida por ele.” “Sendo forcluso o significante do Nome-do-Pai, ele retorna no real sob a forma de um delírio contra Deus, encarnação de todas as imagens malditas da paternidade.”

Novas conferências introdutórias sobre a Psicanálise

Livro de Freud publicado em alemão, em 1933, sob o título Neue Folge der Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. Traduzido para o francês pela primeira vez em 1936, por Anne Berman (1889-1979), sob o título Nouvelles conférences sur la psychanalyse, mais tarde, em 1984, por Rose-Marie Zeitlin, sob o título Nouvelles conférences d’introduction à la psychanalyse, e novamente em 1995, por Janine Altounian, André Bourguignon, Pierre Cotet, Alain Rauzy e Rose-Marie Zeitlin, sob o título Nouvelle suite des leçons d’introduction à la psychanalyse. Traduzido para o inglês pela primeira vez em 1933, por W.J.H. Sprott, e depois em 1964, por James Strachey, sob o título New Introductory Lectures on Psycho-Analysis.”

A continuidade entre as duas séries de conferências é evidente. Não apenas ela se materializa na numeração das novas lições, a primeira das quais leva o número 29, como também se manifesta pela permanência dos objetivos: não mascarar nada da complexidade das questões abordadas, não dissimular coisa alguma das lacunas e incertezas persistentes.

Ao longo dessas 7 conferências, como testemunham a clareza do estilo e a firmeza da argumentação, F. está convencido, como atesta uma carta de 27 de novembro de 1932 a Arnold Zweig, de que acaba de escrever seu último livro. Ele expressa essa mesma idéia, com uma ponta de ironia, numa carta a Max Eitingon datada de 20 de março de 1932, afirmando que <sempre se deve estar fazendo alguma coisa, mesmo com o risco de ser interrompido — mais vale isso do que desaparecer em estado de preguiça>.”

Havendo o estudo do sonho permitido que Freud desse o passo <que leva de um procedimento psicoterápico a uma psicologia das profundezas>, é normal que ele seja o objeto da primeira aula dessa coletânea.”

Quanto aos sonhos de angústia, ligados aos acontecimentos traumáticos, que sabemos haverem constituído, em Mais-além do princípio de prazer, o ponto de partida da idéia da compulsão à repetição, premissa da conceituação da pulsão de morte, Freud se mantém prudente. Em 1923, ele considerava esses sonhos como a única verdadeira exceção a sua tese. Dez anos depois, acha bastante difícil <adivinhar> qual moção de desejo seria passível de se satisfazer com o retorno de acontecimentos penosos, e admite que sua tese, por mais correta que seja, ainda assim venha a passar por modificações ligadas à existência de outras forças psíquicas contraditórias”

A segunda conferência trata da questão do ocultismo, objeto de vivas controvérsias no movimento psicanalítico durante a década de 20-30.” “Freud abordou a questão do ocultismo, em pelo menos duas ocasiões, sob a rubrica mais geral da telepatia, na década de 20.” “F. se volta para os pretensos sonhos telepáticos (uma pessoa sonha com um acontecimento que se produz na realidade). Admitindo a hipótese de uma mensagem telepática cuja recepção fosse favorecida pelo estado de sono, ainda assim ele submete esse fenômeno ao trabalho de interpretação psicanalítica e demonstra que a dimensão telepática funciona, na realidade, como um resíduo diurno, modificado pelo trabalho do sonho. Após o exame de um certo número de exemplos, impõe-se a conclusão: como tal, o sonho telepático continua hermético e somente o trabalho psicanalítico do sonho permite apreender seu sentido.”

EU ESTOU ERRADO, QUERIA ESTAR CERTO, MAS PENSANDO MELHOR NINGUÉM PODE ESTAR CERTO SE NÃO CONCORDAR COMIGO: “Com a quinta conferência, Freud retorna a um terreno onde nunca se sentiu muito à vontade: o da sexualidade feminina, uma faceta do que ele denomina, em termos mais gerais, o enigma da feminilidade. Como no texto de 1931 consagrado a esse tema, ele dá mostras de prudência e diz querer referir-se, essencialmente, às pesquisas conduzidas por suas colegas que se debruçaram sobre o assunto. Sem registrar claramente suas intenções, F. parece querer corrigir sua concepção, conferindo um papel essencial à mãe na instauração e na resolução do complexo de Édipo, bem como na evolução do complexo de castração na menina — mas com a condição de que esse texto em nada perturbe sua tese da libido única e sua concepção falicista.Por isso é que ele seria criticado, em particular ao ser novamente discutida a questão da sexualidade feminina, a partir do congresso de Amsterdam organizado sobre o assunto, em 1958, por iniciativa de Lacan, assim como, mais tarde, em todos os trabalhos feministas.”

avaliando a força e a fraqueza do marxismo, escreve o seguinte: Por sua realização no bolchevismo russo, o marxismo teórico adquiriu agora o vigor, a coerência e o caráter excludente de uma Weltanschauung [comovisão], bem como, ao mesmo tempo, uma inquietante semelhança com aquilo que ele combate [a Realpolitik]. Inicialmente concebido, ele próprio, como parte da ciência (…), decretou, no entanto, uma proibição de pensar tão inexorável quanto o foi, em sua época, a da religião.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Marie-Christine Hamon, Pourquoi les femmes aiment-elles les hommes et non pas plutôt leur mère?, Paris, Seuil, 1992;

Sara Kofman, L’Énigme de la femme, Paris, Galilée, 1980;

objeto (“bom” e “mau”)

Abraham desmembrou a noção clássica de objeto e de estágio e substituiu o objeto total pelo objeto parcial.” “Em 1934, partindo da revisão de Abraham, Klein introduziu a clivagem no objeto a fim de cindi-lo em objeto bom e mau. O objeto parcial, tal como o seio, por exemplo, foi então clivado num seio ideal, objeto do desejo da criança (objeto bom), e num seio persecutório, objeto de ódio e de medo, percebido como fragmentado.” “todo sujeito, no sentido kleiniano, passa pela posição depressiva para sair do estado persecutório (paranóico) que é próprio da perda da mãe como objeto parcial.”

Consultar complementarmente INTROJEÇÃO e PROJEÇÃO.

objeto (pequeno) a

resto não-simbolizável” “falha-a-ser”, seio-sem-corpo, cocô-sem-corpo, voz-sem-dono e olhar-sem-autor.

Grande Outro, pequeno Outro, objeto pequeno a…

Por outro lado, o conceito de objeto (pequeno) a é inseparável das idéias de objeto bom e mau e de objeto transicional, tais como as encontramos em Klein e Winnicott. A criação lacaniana de uma nova categoria de objeto, portanto, entra no âmbito das discussões sobre a relação de objeto conduzidas pela escola inglesa de psicanálise durante a segunda metade do século XX.” Ou seja, é uma discussão irrelevante.

mamilo, cíbalo, falo (objeto imaginário), fluxo urinário.”

Lacan esvazia a psicanálise, drenando-a de substância e solo: equivale o Bem de Platão ao objeto bom (ideal) de Klein e ao seu próprio objeto (pequeno).

Platão e Deleuze na Terra sem Sol

objeto, relação de

FIGHT NIHILISM WITH NIHILISM: “lutar contra o niilismo terapêutico da psiquiatria no terreno do tratamento da loucura e do autismo.”

objeto transicional

MEU PRIMEIRO MASCOTE: “Expressão criada em 51 por Winnicott para designar um objeto material (brinquedo, animal de pelúcia ou pedaço de pano) que tem para o bebê e a criança um valor eletivo, que lhe permite efetuar a transição necessária entre a primeira relação oral com a mãe e uma verdadeira relação de objeto.

Essa notável conceituação — de uma realidade observável por qualquer pai ou mãe na criança pequena que guarda junto de si por vários anos um objeto de eleição, muitas vezes se recusando a largá-lo — inscreve-se no contexto da elaboração da questão da relação de objeto pelo kleinismo.” “está destinado a proteger a criança da angústia da separação no processo de diferenciação entre o eu e o não-eu.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Winnicott, O brincar e a realidade (Londres, 1971), Rio de Janeiro, Imago, 1979.

Pankejeff, caso Homem dos Lobos

Quinto e último grande tratamento psicanalítico conduzido por Freud, a história do Homem dos Lobos (Serguei Constantinovitch Pankejeff) é única nos anais do freudismo. Comentada inúmeras vezes por todas as escolas psicanalíticas e pelos mais diversos autores, também o foi pelo próprio paciente, que, depois de sobreviver às duas guerras mundiais, redigiu uma autobiografia que analisava seu próprio caso, revelando sua verdadeira identidade. Essa análise foi também a mais longa: começou em janeiro de 1910 e terminou exatamente em 28 de junho de 1914, data do assassinato, em Sarajevo, do arquiduque Francisco Ferdinando. O paciente não ficou curado: retomou uma etapa de análise com Freud no pós-guerra e, mais tarde, com uma aluna dele, Ruth Mack Brunswick. Instalado em Viena depois da derrota do nazismo, foi sustentado pelo movimento psicanalítico. Analisado a cada verão por Kurt Eissler, tratado por Wilhelm Solms-Rödelheime, finalmente, ajudado por Muriel Gardiner na redação de suas memórias, tornou-se um personagem mítico: mais o Homem dos Analistas do que o Homem dos Lobos, símbolo, afinal, do caráter interminável da análise freudiana.”

Sua mãe, afetada por diversos distúrbios psicossomáticos, preocupava-se exclusivamente com sua saúde, enquanto o pai, depressivo, levava a vida ativa de um político conhecido por suas opiniões liberais. Os membros da família, de ambos os lados da genealogia, assemelhavam-se a personagens de um dos romances de Dostoiévski, Os irmãos Karamazov. O tio Pedro, primeiro irmão do pai, sofria de paranóia e foi tratado pelo psiquiatra Serguei Korsakov (1854-1900). Fugindo do contato humano, viveu como um selvagem em meio aos animais e terminou a vida num hospício. O tio Nicolau, segundo irmão do pai, quis raptar a noiva de um de seus filhos e desposá-la à força: em vão. Um primo, filho da irmã da mãe, foi internado num manicômio de Praga, também ele afetado por uma forma de delírio de perseguição.”

Serguei descobriu-se no sanatório de Neuwittelsbach, onde seguiu tratamentos tão diversificados quanto inúteis — massagens, banhos, etc. Ali se apaixonou por uma enfermeira, Teresa Keller, um pouco mais velha do que ele e mãe de uma garotinha (Else). Iniciou-se então um relacionamento passional ao qual se opunham sua família (porque a moça era plebéia) e seu psiquiatra (convencido de que a sexualidade era o pior dos remédios nos casos de loucura).”

Até o momento, disse F. a Pankejeff, o senhor esteve procurando a causa de sua doença num urinol. Essa interpretação tinha uma significação dupla. Freud aludia tanto à inutilidade dos tratamentos anteriores quanto à patologia de Serguei, que sofria de distúrbios intestinais permanentes, em particular uma constipação crônica.”

Quando via 3 punhados de cocô na rua, sentia-se mal, por causa da Santíssima Trindade, e procurava ansiosamente um quarto punhado para destruir a evocação.”

Duas semanas após a suspensão do tratamento a Áustria entrou em guerra com a Rússia. Freud teve então a fantasia de que seu filho mais velho, Martin Freud, que acabara de ser convocado, poderia tombar na frente de batalha sob as balas de seu ex-paciente. Foi nesse estado de espírito e em meio à tormenta da guerra que, em 2 meses, de outubro a novembro de 1914, redigiu a história do caso, sem jamais utilizar a denominação Homem dos Lobos. O relato foi publicado em 1918, sob o título História de uma neurose infantil.”

Sonhei, que era noite e eu estava deitado em minha cama […]. Eu sabia que era inverno. De repente, a janela se abriu sozinha e, com enorme susto, vi que havia uns lobos sentados na grande nogueira em frente à janela. Eram uns 6 ou 7. Os lobos eram inteiramente brancos e mais pareciam raposas ou cães pastores, pois suas caudas eram compridas como as das raposas e eles tinham as orelhas em pé, como os cães quando prestam atenção a alguma coisa. Com grande medo, obviamente, de ser devorado pelos lobos, gritei e acordei.”

Em sua infância, Serguei vira seu dedo mínimo ser decepado por um canivete, e depois se apercebera da inexistência do ferimento. Freud deduziu disso que seu paciente manifestara nesse episódio uma atitude de rejeição (Verwerfung) que consistia em só ver a sexualidade pelo prisma de uma teoria infantil: a relação sexual pelo ânus.”

A Revolução de Outubro o havia arruinado e o ex-aristocrata transformou-se num outro homem, um emigrante pobre e sem recursos, obrigado a aceitar um emprego numa companhia de seguros, no qual permaneceria até se aposentar.

As mudanças ocorridas em sua vida mergulharam-no numa nova depressão, que o obrigou a retornar a Freud. Este o acolheu de bom grado, presenteou-o sem demora com o texto de seu caso, que acabara de publicar, e em seguida tomou-o novamente em análise, de novembro de 1919 a fevereiro de 1920. Segundo ele, essa <pós-análise> serviu para liquidar um resto de transferência não analisado e finalmente curar o paciente.” Se isso não é um charlatão…

Em 1926, afetado pelos mesmos sintomas, foi novamente consultar Freud, que se recusou a tratá-lo uma terceira vez e o encaminhou a Ruth Mack Brunswick [uma suicida viciada]. Serguei tornou-se então presa de um incrível imbróglio transferencial. Não apenas Freud estava analisando, ao mesmo tempo, Ruth, o marido dela e o irmão deste, como também, ainda por cima, nesse ano ele encaminhou para o divã de Ruth uma norte-americana, Muriel Gardiner, que iria tornar-se amiga e confidente de Pankejeff à medida que se desenrolavam suas respectivas análises.”

Mack Brunswick o descreveu como um homem perseguido, antipático, avarento, sórdido, hipocondríaco e obcecado com sua imagem, em especial com uma pústula que lhe corroía o nariz. Através desse novo diagnóstico, o movimento psicanalítico dividiu-se em 2 campos: os partidários da psicose, de um lado, e os da neurose, de outro.”

A partir de 1945 e por todo o resto de sua vida, o Homem dos Lobos, ainda e sempre melancólico, foi auxiliado pelo movimento freudiano de uma maneira a um tempo inédita e espetacular. Estimulado por Muriel Gardiner e subvencionado por uma pensão fornecida por Kurt Eissler em nome dos Arquivos Freud, ele tratou de redigir suas memórias e comentar a história de seu caso na própria linguagem do discurso psicanalítico. Elas foram publicadas em 1971, traduzidas no mundo inteiro e mil vezes comentadas.

Passados alguns anos, contrariando a opinião dos guardiães do templo freudiano, Pankejeff concordou em responder a uma longa entrevista de uma jornalista vienense, Karin Obholzer, que o fez contar sua vida num outro estilo, mais direto e menos compassado. Ele então declarou que a famosa cena do coito a tergo [cachorrinho] certamente nunca haveria acontecido, porque, na Rússia, as crianças jamais dormiam no quarto dos pais. Sempre venerando o talento terapêutico de Freud, ele tomou o partido do diagnóstico enunciado por este e se pôs contra o de Ruth Mack Brunswick.Bem diante do nariz e das barbas dos psicanalistas da IPA, que o haviam transformado numa espécie de arquivo, o Homem dos Lobos metamorfoseou-se mais uma vez: tornou-se, a seu próprio respeito, mais competente do que a maioria dos comentadores de seu caso, que não tinham, como ele, o privilégio de ser um trecho inalterável da obra freudiana.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Serge Leclaire, “À propos de l’épisode psychotique que présenta l’Homme aux Loups”, La Psychanalyse, 4, 1958, 83-111;

Muriel Gardiner, L’Homme aux loups par ses psychanalystes et lui-même (N. York, 1971), Paris, Gallimard, 1981.

Pappenheim, Bertha (Anna O.)

A história de Anna O. é um dos mitos fundadores da psicanálise. O relato do caso dessa moça vienense, que contava 21 anos na época de sua doença, foi exposto por Breuer em 1895, nos Estudos sobre a histeria. Desde essa publicação, mediante a qual o autor propôs, ao mesmo tempo, uma nova definição da histeria como doença das reminiscências psíquicas, e a invenção de um método de tratamento inédito (baseado na catarse e na ab-reação), o caso Anna O. não parou de ser comentado, tanto por historiadores quanto por clínicos. Uma imensa literatura, em diversas línguas, foi consagrada a essa mulher a quem se atribuiu a invenção da psicanálise. Com efeito, tratada por Breuer entre julho de 1880 e junho de 1882, Anna O. deu o nome de talking cure a um tratamento que era feito pela fala, e empregou o termo chimney sweeping para designar uma forma de rememoração por <limpeza de chaminé>.”

Dotada de talento poético, Anna O. falava diversas línguas e demonstrava grande sensibilidade em relação aos pobres e aos doentes. Breuer dividiu em 4 períodos as fases durante as quais se manifestaram os diversos sintomas histéricos de Anna, ligados à doença e morte de seu pai. Durante a chamada fase de incubação latente, a paciente ficou sujeita a alucinações, contraturas e acessos de tosse. Durante a chamada fase da doença manifesta, de 11 de dezembro de 1880 a 1º de abril de 1881, ela teve distúrbios da visão, da linguagem e da motricidade. Misturava diversas línguas, não sabia mais se expressar em alemão e acabou escolhendo o inglês. Sua personalidade dividiu-se e Breuer a acalmou através dos processos do tratamento pela fala e da <limpeza de chaminé>. Durante a terceira fase, os sintomas se agravaram: Breuer, então, fez com que Anna O. fosse internada num sanatório e a tratou pelo método da auto-hipnose [!]. Por fim, o último período caracterizou-se pelo desaparecimento progressivo dos sintomas e pela cura. Graças à rememoração de suas lembranças traumáticas, Anna O. reencontrou seu verdadeiro eu, tornou a falar alemão e se curou de sua paralisia. Deixou Viena para fazer uma viagem, mas foi preciso muito tempo para que recuperasse seu equilíbrio psíquico. Desde então, goza de perfeita saúde.

Foi em 1953, no primeiro volume de A vida e a obra de Sigmund Freud, que Ernest Jones revelou pela 1a vez a verdadeira identidade dessa paciente, o que desagradou seus herdeiros. Anna O. tornou-se então Bertha Pappenheim. Oriunda da burguesia judaica ortodoxa, foi criada por uma mãe rígida e conformista. Sua família era estreitamente ligada à de Martha Bernays, a noiva de Freud, que era sua amiga. Após o tratamento, ela se voltou para atividades humanitárias. Inicialmente diretora de um orfanato judaico em Frankfurt, mais tarde viajou aos Bálcãs, ao Oriente Próximo e à Rússia para realizar pesquisas sobre o tráfico de mulheres brancas. Em 1904, fundou o Judischer Frauenbund (a Liga das Mulheres Judias) e, 3 anos depois, um estabelecimento de ensino filiado a essa organização. Muito apegada ao judaísmo, desenvolveu estudos sobre a situação das mulheres judias e dos criminosos judeus. Quando Hitler assumiu o poder, ela se pronunciou contra a emigração para a Palestina. Após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se uma figura lendária na história das mulheres e do feminismo através de sua ação social, a ponto de o governo alemão haver honrado sua memória com um selo que trazia sua efígie. Já no fim da vida, havendo-se tornado devota e autoritária como fôra sua mãe, reeditou antigas obras de religião e redigiu a história de uma de suas ancestrais.

Embora revelando a verdadeira identidade de Anna O., Jones narrou uma versão fantasiosa do término de seu tratamento com Breuer. Este, explicou Jones em síntese, ficou assustado com o caráter sexual da transferência amorosa da paciente para ele e, em particular, com uma gravidez nervosa (pseudociese) ocorrida nessa ocasião. Assim, interrompeu o tratamento e partiu em lua-de-mel para Veneza, onde foi concebida sua filha Dora. Dez anos depois, ele chamou Freud para consultá-lo num caso idêntico. Quando este lhe indicou que os sintomas da doente revelavam uma fantasia de gravidez, Breuer não pôde suportar tal repetição de um acontecimento passado: Sem dizer uma só palavra, apanhou sua bengala e seu chapéu e saiu às pressas da casa. Jones construiu essa versão da história a partir de diversas lembranças de Freud e de um resumo que Marie Bonaparte lhe dera de seu diário inédito. Ora, se consultarmos esse diário, bem como a correspondência entre Martha Bernays e Freud em 1883, exumada porJohn Forrester e Peter Swales, constataremos que essa história de gravidez histérica foi uma reconstrução de Freud, à qual Jones deu legitimidade arquivística e médica ao lhe conferir o nome de pseudociese.” “Segundo Freud,Mathilde Breuer não teria suportado o interesse que seu marido tinha pela paciente e teria adoecido. § Se em 1909, em suas Cinco conferências sobre a psicanálise, proferidas na Universidade Clark, em Worcester, F. falou do caso Anna O. seguindo a versão dos Estudos sobre a histeria, 5 anos depois, ao contrário, em sua Contribuição para a história do movimento psicanalítico, ele retomou a tese do amor transferencial (implícita em sua carta de 31 de outubro de 1883): Ocorre que tenho fortes razões para supor que Breuer, depois de haver afastado todos os sintomas, deve necessariamente ter descoberto, com base em novos indícios, a motivação sexual dessa transferência, mas a natureza geral desse fenômeno inesperado lhe escapou, de modo que, impressionado com um untoward event, ele suspendeu por completo sua investigação. Ele não me deu essas informações diretamente, mas, em diferentes épocas, forneceu-me pontos de referência suficientes para justificar essa suposição. F. sublinha em seguida que B. lhe exprimira sua reprovação a propósito da etiologia sexual das neuroses.”

A mesma idéia foi retomada nonecrológio que ele dedicou a Breuer, no qual esclareceu que a história do caso fôra abreviada e censurada em consideração à discrição médica e que sua publicação se tornara necessária por razões científicas:¹ era preciso provar que o tratamento de Anna O. fôra anterior aos conduzidos por Pierre Janet com pacientes idênticas. Entretanto, 7 anos depois, numa carta de 2 de junho de 1932 a Stefan Zweig, Freud acrescentou a história da fantasia da gravidez de Bertha e afirmou que Dora Breuer, a filha de Josef Breuer [!], havia confirmado a existência desse fato, depois de interrogar o pai: Na noite do dia em que todos os sintomas tinham sido superados, ele voltou a ser chamado; encontrou-a delirando, contorcendo-se em cãibras no baixo-ventre. Ao lhe perguntar o que estava acontecendo, ela respondeu: <é o filho que estou esperando do Dr. B. que está chegando>.”Só Sócrates explica, já dizia seu nome, amigos! Só-crates.

¹ “Razões científicas”: é que nessa época Freud ainda não tinha formulado SEU CONCEITO DE EGO INFLADO, rsrs.

Em 16 de dezembro, em Viena, Freud me contou a história de Breuer. Sua mulher tentara suicidar-se no final do tratamento de Anna = Bertha. A seqüência é conhecida: a recaída de Anna, sua fantasia de gravidez e a fuga de Breuer.” Marie Bonaparte

Freud teve lembranças falsas, reconstruiu os acontecimentos e os interpretou à sua maneira.” “Assim, foi lançado um descrédito sobre o personagem de Breuer, apresentado como indolente e ignorante. Quanto a Anna O., tornou-se, ao lado de Emmy von N. (Fanny Moser), uma figura mítica das origens do freudismo, curada de sua histeria graças ao método catártico do qual nasceu a psicanálise, triunfalmente.”

Em 1963, Dora Edinger, que havia trabalhado com Bertha Pappenheim, reuniu as cartas e textos desta última, além de alguns testemunhos. Forneceu sobre Bertha Pappenheim e seu destino posterior uma imagem diferente da fornecida por Jones, sublinhando, em especial, que a moça sempre se abstivera de evocar a época de sua vida em que estivera em tratamento com Breuer. E até, explicou Edinger, se opunha com veemência a qualquer sugestão de tratamento psicanalítico para as pessoas das quais se encarregava, para grande surpresa dos que trabalhavam com ela.”

Dora Edinger havia aconselhado Ellenberger a visitar as clínicas da Áustria, da Alemanha ou da Suíça. Intrigado com uma fotografia de Bertha em trajes de montaria, na qual estava gravada uma palavra ilegível, ele mandou que a foto fosse examinada pelo laboratório da polícia de Montreal. Viu surgir então o nome da cidade de Konstanz, onde ficava o famoso Sanatório Bellevue, em Kreuzlingen, dirigido de pai para filho pela dinastia dos Binswanger. Foi lá que descobriu um documento que invalidava a tese de Jones:um relatório inédito de Breuer sobre o caso, muito diferente do relato proposto nos Estudos sobre a histeria.Em 1972, Ellenberger

publicou sua revisão da história, que estabeleceu, por um lado, que Dora Breuer nasceu em 11 de março de 1882, e portanto, não poderia ter sido concebida em junho, e por outro, que a famosa gravidez nervosa nunca aconteceu.

O relatório de Breuer foi publicado pela primeira vez em 1978, por Albrecht Hirschmüller, seu rigoroso biógrafo, que acrescentou outros elementos à pesquisa de Ellenberger.Esse documento apresenta Anna O. com seu sobrenome verdadeiro e relata como que o avesso da história idílica dos Estudos sobre a histeria.Não apenas a verdadeira paciente não foi curada de seus sintomas histéricos durante o tratamento, como também, além disso, não foi tratada pelo método catártico. Breuer recorreu, em vez dele, à hipnose, e depois, para tratar as dolorosas nevralgias da paciente, a doses importantes de cloral e morfina, que a transformaram numa morfinômana. Só muito depois, fora de qualquer intervenção médica, foi que ela encontrou um certo equilíbrio. Em outras palavras, se o tratamento pela fala servia — às vezes, unicamente — para fazer desaparecerem alguns sintomas, de modo algum era um método claramente identificado. O mesmo se aplicava à <limpeza de chaminé>, que consistia, para Bertha, em desafogar seu espírito de histórias imaginadas nos dias anteriores. Breuer sublinhou também que o diagnóstico de histeria não era evidente, pensando em diversas doenças cerebrais.”

Quanto a Bertha Pappenheim, Ellenberger a apresentou como uma trágica mulher do fim do século XIX, que conseguiu sublimar sua personalidade ao se engajar numa grande causa a favor do trabalho social e dos direitos da mulher.” É o mesmo que eu faço: consigo sublimar o fato de ser filho de meu pai! “Acima de tudo, ela mostrou que Breuer e Freud conseguiram, em alguns anos, como quase todos os mestres da psicopatologia, transformar histórias de doentes em ficções, isto é, em relatos de caso destinados a comprovar a validade de suas teses.”

Em 1895, fazia muito tempo que Breuer havia abandonado o campo do tratamento catártico, e estava em discordância de Freud quanto a diversos pontos. Não obstante, ele fôra realmente o inventor desse método, e somente a publicação da história do tratamento de Bertha Pappenheim poderia fornecer a prova disso.”

Apesar do trabalho pioneiro de Ellenberger e da contribuição de Hirschmüller, que mostrou que Bertha superou sua doença através de um engajamento militante do qual foi banida qualquer relação carnal com os homens, os psicanalistas mais sérios continuaram a considerar os cânones da historiografia oficial como uma verdade intocável.” “O uso da teoria lacaniana do significante veio corroborar a lenda inventada por Jones em 1953 e as interpretações mais clássicas da escola norte-americana. Nos Estados Unidos, a partir de 1985 e sob o impulso da historiografia revisionista, diversos pesquisadores fizeram questão de demonstrar que Freud era um mistificador. Apropriando-se do corpo das mulheres para atender às necessidades de sua propaganda, ele teria, a princípio com Breuer e depois contra ele, falsificado a verdade, no intuito de promover a psicanálise como o único método de cura das doenças psíquicas. Depois dele, Jones teria corroborado, sempre em oposição a Breuer, a imagem oficial do herói solitário. Nessa perspectiva, que negava a própria idéia de uma possível inovação freudiana, Bertha Pappenheim tornou-se uma simuladora. Segundo Peter Swales e Mikkel Borch-Jacobsen, adeptos dessa tese, a paciente teria fingido ser histérica para zombar de seu médico. Vingança de uma mulher e da identidade feminina contra a ciência dos homens! Por desconhecer a história da consciência subjetiva dos cientistas, [???] por reduzir os mitos fundadores a mistificações¹ e por passar do culto positivista do arquivo para a denúncia antifreudiana, a historiografia revisionista norte-americana, portanto, acabou adotando a propósito de Anna O., em 1995, o método interpretativo denunciado por Jones [um salafrário, ou seja, que combatia coisas que devemos supor como boas e genuínas!], e acolhendo, em nome da defesa da diferença sexual,² as mais retrógradas teses dos médicos do fim do século XIX, que encaravam a histeria como uma simulação.”ROUDINESCO, a rainha da ingenuidade: a histeria é sim uma simulação, uma simulação INCONSCIENTE dx paciente, não deveria ser você a primeira a saber, Beth?!

¹ Achava que mito era mito e mística, não empiria (por mais que o significado no dicionário até me traia e deixe tudo ainda mais engraçado nesta minha observação – “hipóstase de um experto que trai a racionalidade”)! Não deixa de ser irônico que a Psicanálise morra pela boca, isto é, morre por onde nasce, sendo a ficção verbal o túmulo de uma psicoterapia que se propunha a curar pela fala.

² Serão o fato social da transexualidade e os Estudos de Gênero os maiores inimigos da Psicanálise?! Inimigas post-mortem: pelo menos impedem que ressuscite algum dia, no século XXI! Ali (em Viena, no tempo do Ronca) se fazia, aqui se paga (na Aldeia Global, no tempo do twitter e da fofoca digital instantânea e ubíqua, crime dente por dente, devolvido pela foice rosa da pauta identitária, he-he-he!). Curiosidade: Hiena é um sintagma de Viena. O animal traiçoeiro e troçador. O mais próximo de um mentiroso que pode existir no reino animal, até onde sabemos. Não é um totem muito honroso!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Janet, O automatismo psicológico, 1889;

Henri F. Ellenberger, Histoire de la découverte de l’inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994;

Albrecht Hirschmüller, Josef Breuer (Berna, 1978), Paris, PUF, 1991;

Mikkel Borch-Jacobsen, Souvenirs d’Anna O. Une mystification centenaire, Paris, Aubier, 1995.

parafrenia

Atualmente, a acepção de Kraepelin prevalece completamente sobre a que foi proposta por Freud.”Para F., era apenas um guarda-chuva conceitual para a esquizofrenia, que ele não entendia. Em Kraepelin, é um subtipo de psicose delirante crônica que não torna o paciente demente (opondo-se à nosografia da demência precoce da virada do século na psiquiatria, portanto). Ou seja, o parafrênico é via de regra um delirante constante e intectualizado. O caso típico seria o do Presidente Schreber (capaz de escrever livros no manicômio e explicar racionalmente sua loucura), analisado e tornado famoso por Freud, embora sua análise seja considerada equivocada atualmente. Não é fácil de estabelecer bem a distinção entre o parafrênico e o paranóico (basta ver verbete abaixo).

paranóia ou último grau da mania de perseguição

Termo derivado do grego (para = contra, noos = espírito), que designa a loucura no sentido da exaltação e do delírio. Na nosografia psiquiátrica alemã, o termo foi introduzido em 1842 por Johann Christian Heinroth (1773-1843), a partir de um vocábulo cunhado em 1772, e na nosografia francesa, em 1887, por Jules Séglas (1856-1939). Com os trabalhos de Wilhelm Griesinger (1817-1868), Emil Kraepelin, Eugen Bleuler e, mais tarde, Gaëtan Gatian de Clérambault, a paranóia tornou-se, ao lado da esquizofrenia e da psicose maníaco-depressiva, um dos três componentes modernos da psicose em geral. Caracteriza-se por um delírio sistematizado, pela predominância da interpretação e pela inexistência de deterioração intelectual.Nela se incluem o delírio de perseguição, a erotomania, o delírio de grandeza e o delírio de ciúme.”

Essa forma de loucura, que F. preferia comparar a um sistema filosófico em razão de seu modo de expressão lógico e de sua intelectualidade próxima do raciocínio <normal>, já fôra descrita na Antiguidade não apenas por Hipócrates mas também pelos grandes autores trágicos, Ésquilo e Eurípides. No entanto, foi preciso esperar pelo século XIX e pelos trabalhos fundadores da escola alemã de psiquiatria para que o termo viesse a figurar numa classificação geral das doenças mentais.”

Nesse quadro, Kraepelin (1899) definiu a paranóia como o <desenvolvimento insidioso, na dependência de causas internas e segundo uma evolução contínua, de um sistema delirante, duradouro e inabalável, que se instaura com uma completa preservação da clareza e da ordem no pensamento, no querer e na ação.>

o paranóico é um doente crônico que se toma por profeta, imperador, grande homem, inventor, reformador, etc.”

As pessoas tornam-se paranóicas por não conseguirem tolerar algumas coisas — desde que, naturalmente, seu psiquismo esteja predisposto a tanto. (…) os paranóicos amam seu delírio como amam a si mesmos, esse é o segredo”F.

[Por sua inapetência no assunto, F.] deixou o campo livre para o desenvolvimento de uma concepção psicanalítica da esquizofrenia — o que seria feito por seus herdeiros, em especial a escola norte-americana da Self Psychology

Enquanto o mestre vienense sempre procurara levar a loucura quer para o quadro das neuroses, quer para o de uma concepção da psicose que escapava ao discurso psiquiátrico, Lacan fez exatamente o contrário. Havendo abordado o freudismo pelo caminho da clínica psiquiátrica de inspiração francesa e alemã, e sendo ele mesmo um grande clínico da psicose, Lacan sempre se interessou muito mais pelo campo da loucura que pelo das patologias comuns. E, dentre as psicoses, a paranóia é que foi para ele o modelo paradigmático da loucura em geral [curioso, já que é o protótipo da loucura lúcida]: Lacan era fascinado pela lógica do discurso paranóico a ponto de achar que o tratamento psicanalítico devia assemelhar-se a uma paranóia dirigida.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Sandor Ferenczi, “O papel da homossexualidade na patogênese da paranóia”, in: Psicanálise I, Obras completas, 1908-1912 (Paris, 1968) S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 153-72.

passe

Em 1964, ao fundar a EFP, Lacan aboliu a clássica distinção entre análise pessoal (ou terapêutica) e análise didática, instituindo um regulamento que não obrigava os candidatos a escolherem seus didatas numa lista de titulares estabelecida de antemão, como é a norma na quase totalidade das sociedades psicanalíticas da IPA.”

Com essa transformação, Lacan sublinhou que a análise pessoal podia ou não revelar-se didática a posteriori. Ninguém pode decidir <de antemão> sobre a validade didática de uma psicanálise. Trata-se, pois, de restituir pertinência a duas perguntas formuladas por Freud desde a origem do movimento: Por que alguém se torna psicanalista? Como acontece isso?”

O passe foi então definido como um rito de passagem, que permitia a um simples membro (ME) que houvesse feito uma análise ter acesso ao título de analista da escola (AE), até então reservado aos que tinham sido oficialmente <titulados> quando da fundação da EFP.”

AH FEACES, HERE WE GO AGAIN:“Lacan denominou de <queda do sujeito suposto saber> a situação de fim de análise pela qual o analista fica na posição de <resto> ou de objeto (pequeno) a, depois de ter sido investido, ao longo de toda a análise, de uma onipotência imaginária ou <suposto saber>.”

Essa prova assemelha-se, de certo modo, ao que Georges Bataille chamava de experiência dos limites.”

E, se Lacan preservou a denominação <psicanálise didática>, foi para lhe dar uma nova significação, baseada numa inversão: a ordem institucional, que ele chamava de <psicanálise em extensão>, devia, com efeito, ser submetida ao primado da teoria, isto é, à <psicanálise em intensão>, única maneira de evitar a esclerose burocrática que costuma ser induzida pela hierarquia tradicional entre professores e alunos.” “a moção foi acolhida com entusiasmo pelas quarta e quinta gerações psicanalíticas francesas, que acabavam de participar da revolta estudantil e, como nas outras sociedades da IPA, desejavam transformar de ponta a ponta as formações habituais.” “Em pouco tempo, as falhas dessa proposição, suas aproximações e suas ambigüidades tornaram sua aplicação aleatória e irregular. Atacada de gigantismo, a EFP não conseguiu impedir o desenvolvimento da esclerose que o passe supostamente combateria.”

Em 1978, quando das novas assembléias da EFP, o fracasso do passe foi constatado pelo próprio Lacan, que o comparou a um <impasse> e deplorou que a massificação do lacanismo tivesse criado obstáculos à realização dessa bela utopia: Que pode haver na cachola de alguém para que ele se autorize a ser analista? Eu quis ter depoimentos, e naturalmente não tive nenhum […] é claro que esse passe é um completo fracasso.

patriarcado

O debate sobre a oposição entre o patriarcado e o matriarcado foi contemporâneo das hipóteses evolucionistas do século XIX, desde Henry Lewis Morgan até Friedrich Engels, passando por Johann Jakob Bachofen. Teóricos e juristas julgavam que o patriarcado era uma forma tardia de organização social que sucedera a um estágio mais primitivo, ou matriarcado. Engels via no advento do patriarcado a grande derrota do sexo feminino, enquanto Bachofen, cujo pensamento influenciou intensamente os escritores vienenses do fim do século, acossados pela decadência do pai, profetizava o declínio irreversível do patriarcado, símbolo da consciência ocidental, e estigmatizava os perigos de um matriarcado que encarnasse a onipotência irracional das forças da natureza [Bomba H? Rsrs.].”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Johann Jakob Bachofen, Le Droit maternel. Recherche sur la gynécocratie de l’Antiquité dans sa nature religieuse et juridique (1861), Lausanne, L’Âge d’Homme, 1996.

Perrier, François

BIBLIOGRAGIA SUGERIDA:

François Perrier & Wladimir Granoff, Le Désir et le féminin (1979), Paris, Aubier, 1991.

perlaboração ou working-through (empurrãozinho do analista)

A perlaboração é constante no tratamento, mas atua mais particularmente em certas fases em que ele parece estagnar e em que persiste uma resistência, ainda que interpretada.”

O termo élaboration que encontramos em alguns tradutores não deve, em nossa opinião, ser adotado; com efeito, ele corresponde melhor aos termos alemães bearbeiten, que já encontramos nos textos freudianos e causariam confusão; a nuança de <dar forma> que contém poderia infletir o sentido de durcharbeiten, a palavra que queremos traduzir pelo neologismo perlaboração.”

é mergulhandona resistência que o sujeito realiza a perlaboração.”

Em tese, o recalque, descoberto, exposto e interpretado, ainda deixa resíduos inconscientes e potencialmente perigosos para o analisando, que deve perlaborar a fim de eliminar a influência que este recalque específico ainda pode exercer no quadro de sua inibição pulsional. A perlaboração em si é prerrogativa do paciente. O analista não pode executá-la por ele – está no fim ou arremate da transferência, somente.

A nossa experiência cotidiana confirma constantemente a necessidade de perlaborar; tanto assim que vemos pacientes que adquiriram insight em determinada fase recusarem esse mesmo insight nas sessões seguintes; às vezes, até parecem ter esquecido que jamais esse insight tenha sido deles. Só tirando as nossas conclusões do material, tal como ele re-aparece em diversos contextos, e interpretando-o adequadamente, ajudamos progressivamente o paciente a adquirir insight de forma mais duradoura.” Klein (até que enfim mandou bem!)

peste

a França é o único país do mundo onde, através dos surrealistas e do ensino de Lacan, a doutrina de Freud foi encarada como <subversiva> e assimilada a uma <epidemia>, parecida com o que fora a revolução de 1789 e, pelo menos, irredutível a qualquer forma de psicologia adaptativa.”

posição depressiva/posição esquizo-paranóide

A idéia de posição depressiva foi introduzida por Klein em 1934, para designar uma modalidade da relação de objeto consecutiva a uma posição persecutória (ou paranóide). Esta intervém durante o quarto mês de vida e vai sendo superada ao longo da infância, sendo depois reativada, durante a vida adulta, no luto ou, de maneira mais grave, nos estados depressivos.” reCUoral

Em 1942, Klein introduziu, em lugar da idéia de posição persecutória, a de posição esquizo-paranóide, o que permitiu, do ponto de vista evolutivo, definir a passagem da posição esquizo-paranóide para a posição depressiva como a marca fundamental, em todo sujeito, da passagem de um estado arcaico de psicose para um funcionamento normal.”Agora um recuo ANAL – por quê? Porque foi RECUO DO ANALista.

Ou seja, graças a intensos avanços na cabeça de Klein, após o ciclo de três Jogos Olímpicos fomos brindados com este zodiacal saber: que para sermos depressivos precisamos superar a psicose e não a paranóia. Bom, agora tudo muda, meus amigos…

fase estágio posição enquadramento degrau grau evolução impulsão fusão espelho cu sem pelo regras são regressão progressão funcional dinâmico-tópica abissal econômicofalência

Presidente Thomas Woodrow Wilson, O

Livro de William Christian Bullitt, escrito em colaboração com Freud e prefaciado por este em 1930. Publicado em Inglês, em Londres e Boston, em 1967, sob o título Thomas Woodrow Wilson. A Psychological Study. Traduzido para o francês por M. Tadié, em 1967, sob o título Portrait psychologique de Thomas Woodrow Wilson. Republicado com a mesma tradução, em 1990, sob o título Le Président T.W. Wilson.

Em 1919, William Bullitt, oriundo de uma família abastada da Filadélfia e transformado em assessor do presidente Wilson (1856-1924), foi enviado à Rússia numa missão. Entusiasmou-se com a revolução de outubro e negociou com Lenin com vistas ao restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Wilson rejeitou suas propostas e ele se demitiu. Depois de se casar com Louise Bryant, viúva de John Reed (autor de Os dez dias que abalaram o mundo), Bullitt atravessou um período de 10 anos de afastamento do poder. Fez jornalismo, escreveu um romance de sucesso e freqüentou o meio cinematográfico.

Foi através de sua mulher, então em análise com F., que se encontrou com este pela 1a vez, em Berlim, em maio de 1930. Freud estava passando uma temporada na clínica de Tegel (na casa de Ernst Simmel), e Bullitt o achou deprimido, atormentado por seus sofrimentos e não mais pensando em outra coisa senão a morte. Para distraí-lo, falou-lhe do livro que estava preparando sobre os 4 protagonistas do Tratado de Versalhes: Thomas Woodrow Wilson, Georges Clemenceau (1841-1929), David Lloyd George (1863-1945)e Vittorio Emanuele Orlando (1860-1952). Foi então que o rosto do velho mestre se iluminou. Desde seu ensaio Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância, em relação ao qual tinha enfrentado uma cruel escassez de arquivos, ele sonhava dedicar um ensaio ao destino de um personagem sobre o qual dispusesse de toda a documentação necessária.

Por que se interessou Freud pelo 28o presidente dos Estados Unidos, um presbiteriano tacanho, de extrema feiúra e de temperamento doentio? A resposta é simples: Freud não gostava desse homem, a quem julgava responsável pelos infortúnios da Mitteleuropa. Censurava-o por haver ratificado um tratado iníquo, mediante o qual os vencedores haviam ditado sua lei aos vencidos. Com efeito, por sua submissão aos signatários francês e inglês, Wilson foi o artífice de um tratado que, humilhando a Alemanha e desarticulando os impérios centrais, favoreceria a ascensão do nazismo e conduziria à Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, F. lera um livro, publicado em 1920, onde se estudava o estilo dos discursos de Wilson.”

Em janeiro de 1932, Bullitt enviou a Freud a soma de 2500 dólares, a título de adiantamento pela edição norte-americana, mas eclodiu uma briga entre os dois.Freud manifestou uma intensa insatisfação e, de repente, modificou o texto comum, acrescentando trechos que Bullitt não aprovava. Nem um nem outro jamais revelariam o motivo dessa briga, nem tampouco o conteúdo das partes acrescentadas. Em 28 de maio, Marie Bonaparte anotou em seu diário que o livro com Bullitt estava terminado, mas aguardava as eleições norte-americanas. Com efeito, o diplomata retornara aos Estados Unidos para participar da campanha dos democratas a favor de Roosevelt. A disputa não parece haver afetado F. em demasia, porque, em 16 de fevereiro de 1933, ele escreveu aJeanne Lampl-de Groot: Bullitt é o único norte-americano que entende alguma coisa da Europa e quer fazer algo por ela. Por isso é que não consigo esperar que lhe confiem um cargo em que ele possa ser eficaz e agir à sua maneira.

Em agosto de 1933, Bullitt foi nomeado por Roosevelt embaixador dos Estados Unidos na União Soviética. Em dezembro, Freud declarou a Marie Bonaparte: De Bullitt, nenhuma notícia; nosso livro não verá a luz.

Em agosto de 1936, foi nomeado embaixador em Paris e, desse dia em diante, não parou de denunciar o perigo nazista. Quando da anexação da Áustria, assegurou-se do respaldo pessoal de Roosevelt para ir à embaixada da Alemanha em Paris e ameaçar os nazistas de escândalo, caso eles tocassem na família Freud. Quando o mestre vienense chegou a Paris, em junho de 1938, Bullitt foi recebê-lo, juntamente com Marie Bonaparte, e o acompanhou até a estação Saint-Lazare, ponto de partida para seu exílio na Grã-Bretanha.

Foi em Londres que os dois homens enfim resolveram sua querela. Segundo a versão de Bullitt, Freud concordou em suprimir as passagens acrescentadas e o diplomata integrou as novas modificações freudianas — ninguém sabe dizer quais. Tomou-se então a decisão comum de publicar o livro depois da morte da segunda mulher de Wilson. Em 17 de novembro de 1938, Marie Bonaparte indicou em seu diário que os manuscritos de Freud foram remetidos a Bullitt na América.

A espantosa aventura desse manuscrito inverossímil não pára por aí. Quando da invasão da França, Bullitt permaneceu em Paris e não acompanhou o governo de Paul Reynaud (1878-1966) no exílio. Achava, com justa razão, que uma intervenção norte-americana não estava na ordem do dia, mas subestimava o poder de resistência da Inglaterra, não acreditava no da França e se enganava quanto às possibilidades de uma aliança com a URSS, atitude esta que lhe seria censurada pelo general De Gaulle. Em 30 de junho de 1940, ele deixou Paris, para onde voltaria em setembro de 1944, com o grau de comandante do primeiro exército francês.”

Schur sugeriu que Bullitt remetesse uma cópia do manuscrito a Anna Freud, para que ele fosse publicado no âmbito oficialíssimo da Freud Copyrights. Bullitt despachou o texto sem pedir nenhuma ajuda a Anna, que, depois de lê-lo atentamente, declarou que somente o prefácio era de autoria de seu pai. O veredito foi inapelável. Desse dia em diante, Wilson foi banido da comunidade psicanalítica internacional, a ponto de ser considerado apócrifo. Bullitt encarregou-se sozinho, um ano antes de morrer, da publicação norte-americana: ela contém uma introdução de F., na qual este sublinha claramente haver colaborado para o livro, uma outra de Bullitt, notas deste sobre a infância de Wilson e uma elaboração comum sobre o destino político do personagem. Erik Erikson, em 1967, e Ilse Grubrich-Simitis, em 1987 (no prefácio à edição alemã), deram uma opinião próxima da de Anna Freud. Por conseguinte, o livro não figura nas edições completas da obra de Freud (inglesa, francesa, alemã [e provavelmente brasileira, baseada na inglesa de Strachey]).

Portanto, as diferentes versões sobre o episódio se contradizem. Enquanto Marie Bonaparte anotou que os manuscritos de Freud tinham sido enviados a Bullitt na América, este declarou a Schur que seu criado os havia queimado em Paris. Quanto a Freud, ele nunca disse qual parte do livro tinha redigido, mas sempre apoiou o projeto, afirmando haver contribuído para ele. Sem dúvida, Anna Freud, Schur e Erikson foram imprudentes ao decidir como decidiram a questão da atribuição dos textos.

O livro em si é notável. Além do vocabulário psicanalítico e conceitual simplista, que se deve à pena de Bullitt, ele propõe uma análise espantosa da loucura de um estadista aparentemente normal no exercício de suas funções.

Identificado desde a mais tenra idade com a figura de seu <pai incomparável>, um pastor presbiteriano e grande pregador de sermões, Wilson a princípio tomou-se pelo filho de Deus, antes de se converter a uma religião de sua própria lavra, na qual se atribuía o lugar de Deus. Optou por abraçar a carreira política a fim de realizar seus sonhos messiânicos. Quando se tornou presidente, nunca havia transposto as fronteiras da América, que considerava, tal como a Inglaterra de Gladstone, o mais belo país do mundo. Não conhecia a geografia da Europa e ignorava que nela se falavam diversas línguas. Foi assim que, durante as negociações do Tratado de Versalhes, esqueceu-se da existência do passo de Brenner e entregou à Itália os austríacos do Tirol, sem saber que eles falavam alemão. Do mesmo modo, acreditou na palavra de um parente que lhe afirmou que a comunidade judaica contava cem milhões de indivíduos, distribuídos pelos quatro cantos do mundo. Odiando a Alemanha, Wilson achava que seus habitantes viviam como animais selvagens.”

QUASE UM ESTADO DA NATUREZA APLICADO AO MUNDO POLÍTICO DO SÉCULO XX

Para levar adiante sua política internacional, ele inventou silogismos delirantes. Uma vez que Deus é bom e a doença é ruim, ele deduziu que, se Deus existe, a doença não existe. Esse raciocínio lhe permitiu negar a realidade em prol de uma crença na onipotência de seus discursos. Essa denegação da realidade o levou, segundo os autores, ao desastre diplomático. Assim é que ele criou a Sociedade das Nações antes de discutir as condições de paz, mediante o que os vencedores, garantidos pela segurança norte-americana, puderam despedaçar a Europa e condenar a Alemanha com toda a impunidade.

Wilson imaginou, então, deter em 14 pontos a chave da fraternidade universal. Mas, em vez de entrar em negociações com seus parceiros, discutindo as questões econômicas e financeiras, fez-lhes um sermão da montanha. Depois disso, deixou a Europa, convencido de os haver persuadido e de haver instaurado na Terra a paz eterna.

Qualquer que tenha sido o pivô da briga entre F. e Bullitt, esse livro, desprezado pelos historiadores e suspeito de ser apócrifo pela comunidade freudiana, traduz muito bem uma concepção freudiana da história. Ele descreve o encontro entre um destino individual, no qual intervém a determinação inconsciente, e uma situação histórica precisa sobre a qual atua essa determinação. Mas o livro também faz pensar num devaneio aristotélico sobre o herói decaído. [?] Wilson é comparado por Freud a Dom Quixote [como seria esta uma discussão aristotélica?], ou seja, ao avesso ridículo do Príncipe de Nicolas Maquiavel (1469-1527): o contrário de um grande homem.”

princípio de constância

Colocando na base da psicologia uma lei de constância, F., tal como Breuer, não fazem mais do que tornar suas uma exigência geralmente admitida nos meios científicos do fim séc. XIX: estender à psicologia e à psicofisiologia os princípios mais gerais da física, na medida em que esses princípios estão na própria base de toda ciência. Poderíamos encontrar muitas tentativas, quer anteriores (principalmente a de Fechner, que confere ao seu princípio de estabilidade um alcance universal), quer contemporâneas das de F., para vermos em ação, na psicofisiologia, uma lei de constância.”

O princípio de constância em psicanálise é às vezes entendido num sentido que permite compará-lo com o 2º princípio da termodinâmica: dentro de um sistema fechado, as diferenças de nível energético tendem para a igualização, de maneira que o estado final ideal é de equilíbrio. (…) Foi com base na meta de estase do sistema organismo-meio que Freud estruturou sua concepção de, como conseqüência da perda energética, o organismo reduzir sua energia a zero, chegando ao estado anorgânico (princípio do Nirvana).”

A existência e o restabelecimento de um nível ótimo são a condição que permite uma livre circulação da energia cinética. O funcionamento sem barreiras do pensamento, um desenrolar das associações de idéias, supõem que a auto-regulação do sistema não seja perturbada.”

As definições propostas contêm sempre um equívoco: a tendência para a redução absoluta e a tendência para a constância são consideradas equivalentes.”“energia livre” “energia ligada”

W.B. Cannon, no seu livro Sabedoria do corpo (Wisdom of the Body, 1932), designou pelo nome de homeostasis os processos fisiológicos por meio dos quais o corpo tende a manter constante a composição do meio sangüíneo. Descreveu esse processo para o conteúdo do sangue em água, sal, açúcar, gordura, cálcio, oxigênio, íons de hidrogênio (equilíbrio ácido-básico) e para a temperatura. Esta lista pode evidentemente ser ampliada a outros elementos (minerais, hormônios, vitaminas, etc.).”

projeção

O sujeito assimila-se a pessoas estranhas ou, inversamente, assimila a si mesmo pessoas, seres animados ou inanimados. Diz-se assim correntemente que o leitor de romances se projeta neste ou naquele herói e, no outro sentido, que La Fontaine projetou nos animais das suas Fábulas sentimentos e raciocínios antropomórficos. Esse processo deveria antes ser classificado no campo daquilo que os psicanalistas chamam de identificação.” Problema dos psicanalistas!

o racista projeta no grupo desprezado as suas próprias falhas e as suas inclinações inconfessadas. Este sentido, que English & English designam por disowning projection, parece ser o mais próximo daquilo que F. descreveu sob o nome de projeção.”

Nos primeiros escritos de F. sobre a paranóia, “a projeção é descrita como uma defesa primária, um mau uso de um mecanismo normal que consiste em procurar no exterior a origem de um desprazer. O paranóico projeta as suas representações intoleráveis que voltam a ele do exterior sob a forma de recriminações.”

O eu comporta-se como se o perigo de desenvolvimento da angústia não proviesse de uma moção pulsional, mas de uma percepção, e pode portanto reagir contra este perigo exterior pelas tentativas de fuga próprias aos evitamentos fóbicos.”

o sujeito defende-se dos seus próprios desejos de ser infiel imputando a infidelidade ao cônjuge. Assim, desvia a sua atenção do seu próprio inconsciente, desloca-a para o inconsciente do outro, e pode ganhar com isso tanta clarividência no que diz respeito ao outro como desconhecimento no que diz respeito a ele mesmo.”

no estudo do Caso Schreber, <a proposição ‘EU O ODEIO’ é transformada, por projeção, em ‘ELE ME ODEIA’ (ele me persegue), o que me vai então conceder o direito de odiá-lo>. Aqui é o afeto de ódio (por assim dizer, a própria pulsão) que é projetado. Por fim, nos textos metapsicológicos como Pulsões e destinos das pulsões e A negação, é o <odiado>, o <mau>, que é projetado. Estamos, portanto, muito próximos de uma concepção <realista> da projeção, que será plenamente desenvolvida por Klein: para ela, o <mau> objeto – fantasístico – é que é projetado, como se a pulsão ou o afeto, para serem verdadeiramente expulsos, devessem necessariamente encarnar um objeto.”

Recalque é esquecimento, projeção é eterna-lembrança. “O delírio, por sua vez, é concebido como um fracasso dessa defesa e como um <retorno do recalcado> que viria do exterior.”

Ora, parece que este sentido de rejeição, de ejeção, não era o predominante antes de F. no uso lingüístico, como o atestariam, p.ex., essas linhas de Renan: A criança projeta em todas as coisas o maravilhoso que tem si. Este uso sobreviveu, naturalmente, à concepção freudiana [e ainda mais à kleiniana], e explica certas ambigüidades atuais do termo <projeção> em psicologia, e mesmo às vezes entre os psicanalistas.

Por fim, as relações entre a identificação e a projeção são muito intrincadas, em parte devido a um uso pouco rigoroso da terminologia. Diz-se, às vezes, indiferentemente, que o histérico, p.ex., se projeta em ou se identifica com determinado personagem. A confusão é tal que Ferenczi chegou mesmo a falar de introjeção para designar este processo. Sem pretendermos tratar aqui os conceitos de introjeção e identificação, é lícito imaginar que no caso de Ferenczi trata-se de um emprego abusivo do termo <projeção>.[Não vejo como abuso, uma vez que ele inovou na matéria, e Klein foi sua discípula – sendo este comentário, digamos, mero revisionismo kleiniano.]”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

English, H.B. & English, A.C., A Comprehensive Dictionary of Psychological and Psychoanalytical Terms, 1958 (verbetes Projection-Eccentric e Projection);

Anzieu, Les méthodes projectives, 1960.

psicanálise aplicada (à literatura e à arte em geral)

Max Graf recomendou prudência na interpretação de obras literárias, esclarecendo que é somente quando alguns temas se destacam com muita nitidez e se repetem com freqüência que podemos ligá-los à vida sexual. Um ano depois, em 4 de dezembro de 1907, uma exposição de Isidor Sadger, dedicada a Meyer [Adolf?], provocou um severo confronto, prelúdio para a elaboração de uma espécie de carta magna enunciada na semana seguinte, em 11 de dezembro de 1907, por ocasião da exposição de Graf dedicada à metodologia da psicologia dos escritores. Graf entregou-se, primeiramente, a uma crítica radical das teses de Cesare Lombroso e das desenvolvidas pela escola francesa de psicologia, adepta da teoria da hereditariedade-degenerescência. Dentro dessa perspectiva, explicou Graf, é que se haviam começado a escrever patografias, análises de escritores com base em experiências patológicas […]. Bem diferente é o procedimento de Freud, que conduz ao inconsciente e mostra que a doença psíquica é apenas uma variação da pretensa sanidade psíquica, que as doenças mentais são uma dissociação dos elementos psíquicos da pessoa sadia. Antes de expor os princípios do método psicanalítico e as regras de sua aplicação aos artistas, Graf conclui: Lombroso trata os escritores da mesma maneira que um tipo de criminoso particularmente interessante […] [já quanto aos] psicólogos franceses, (eles) só vêem no escritor um neurótico.”

Lacan afirmou, em especial: <A psicanálise só se aplica, em sentido próprio, como tratamento, e portanto, a um sujeito que fala e que ouve>, com isso indicando que qualquer outra forma de aplicação só poderia sê-lo num sentido figurado, isto é, imaginário, baseado na analogia e, como tal, desprovido de eficácia.”

psicanálise de crianças (não-kleiniana)

Em todos os países do mundo, a formação exigida para que alguém se torne psicanalista de crianças é idêntica à exigida para a prática com adultos. Se a psicanálise de crianças mantém desde sempre uma relação particular com a pedagogia, a medicina (pediatria), a psiquiatria (pedopsiquiatria) e a psicologia, não se criou nenhum termo (equivalente à pediatria ou à pedopsiquiatria) para designá-la como especialidade.”

Assim como a psicanálise nasceu da medicina e, depois, da psiquiatria (e da psiquiatria dinâmica), também a prática da psicanálise de crianças é herdeira da filosofia do Iluminismo. Em todos os países, foi introduzida por 4 vias: medicina, psiquiatria, psicologia e pedagogia. Na França, tomou o caminho da psiquiatria ou da psicologia, ao passo que, noutros países da Europa (em geral protestantes), introduziu-se mais no terreno da pedagogia e, portanto, da análise leiga. Por toda parte, misturou-se com as disciplinas afins.”

Parece evidente que, quanto mais diminui a taxa de mortalidade infantil, mais dolorosa é a perda de uma criança. Do mesmo modo, quanto mais a criança é conscientemente desejada ou <planejada>, mais importante parece tornar-se seu lugar na afeição parental.”

a análise de crianças favoreceu a emancipação feminina. Mas foi também sede de múltiplos dramas, pois, muitas vezes, as psicanalistas da primeira e segunda gerações analisaram seus filhos, ou confiaram essa tarefa a suas colegas mais próximas. Além disso, entre as psicanalistas de crianças recenseou-se um número impressionante de mortes violentas: 4 suicídios (Arminda Aberastury, Sophie Morgenstern, Tatiana Rosenthal e Eugénie Sokolnicka) e um assassinato (Hermine von Hug-Hellmuth).

Depois de Sandor Ferenczi, que foi um dos maiores clínicos da infância no início do século, e de August Aichhorn, que cuidou de crianças delinqüentes em Viena, outros homens dedicaram-se a esse ramo da psicanálise: Erik Erikson, René Spitz, Winnicott e John Bowlby, em especial.”

Para a escola vienense, a análise de uma criança não deveria começar antes dos 4 anos de idade nem ser conduzida <diretamente>, mas sim por intermédio da autoridade parental julgada protetora. (…) Ferenczi fez a observação muito espirituosa de que, se a Sra. Klein estiver certa, na verdade já não haverá crianças.Naturalmente, a experiência é que dirá a palavra final. Até o momento, minha única constatação é que a análise sem uma orientação educativa só faz agravar o estado das crianças, e tem efeitos particularmente perniciosos nas crianças abandonadas, anti-sociais.”

NEM A FAVOR NEM CONTRA, MUITO PELO CONTRÁRIO! “Freud disse, em 1927, que a experiência teria a palavra final. Pois bem, no mundo inteiro, a experiência parece ter dado razão às teorias kleinianas que se impuseram com vigor entre todos os clínicos da infância. Não obstante, em toda parte elas foram revistas, corrigidas, transformadas e modificadas no sentido de uma participação maior dos pais no desenrolar da análise. Por outro lado, a herança da escola vienense foi colhida por todos os defensores das experiências sociais e educativas, de Margaret Mahler a Bruno Bettelheim.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Philippe Ariès, L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime (1960), Paris, Seuil, 1973;

Maud Mannoni, A criança retardada e a mãe (Paris, 1964), S. Paulo, Martins Fontes.

Psicologia das massas e análise do eu

Livro de Freud publicado em 1921, sob o título Massenpsychologie und Ich-Analyse. Traduzido pela primeira vez para o francês em 1924, por Samuel Jankélévitch, sob o título Psychologie collective et analyse du moi, revisado por Angelo Hernard em 1966. Nova tradução em 1981 por Pierre Cotet, André Bourguignon (1920-1996), Odile Bourguignon, Janine Altounian e Alain Rauzy, sob o título Psychologie des foules et analyse du moi, e mais tarde, em 1991, sob o título Psychologie des masses et analyse du moi. Traduzido para o inglês por James Strachey em 1922, sob o título Group Psychology and the Analysis of the Ego, retomado sem modificação em 1955.”

A intenção sociológica e política desse ensaio, no qual Freud se refere explicitamente à concepção aristotélica do homem como animal político, tem sido freqüentemente encoberta por traduções aproximativas. James Strachey, ao traduzir o termo alemão Massen por group, em vez de mass, o que foi deplorado pelaEncyclopedia of Psychoanalysis de Ludwig Eidelberg (1898-1970), optou por uma concepção reducionista do social, característica da psicologia social norte-americana, segundo a qual o grupo constitui o modelo, reduzido ou experimental, da sociedade.” “para traduzir o termo francês foule, utilizado por Gustave Le Bon, Freud preferiu o termo alemão Massen à palavra Menge, assim privilegiando a conotação política. Preocupados em manter a ligação com a obra de Le Bon, os autores da nova tradução francesa optaram, inicialmente, pela palavra foule para traduzir Massen, antes de voltarem para <massa> em sua última versão, de conformidade com a opção freudiana.”

Enuncia então a hipótese de que as relações amorosas constituem a essência da alma das massas e enfatiza a função do líder na massa, parâmetro este que Le Bon e McDougall haviam negligenciado.”Hm, poxa vida…

Encontrar um Narciso em que se espelhar. Quando ele estava lá o tempo todo… Tsc.

LINDA VIDA-ROMANCE (Roudinesco e seu Deus): “foi no exato momento em que se preparava para refletir sobre a natureza da psicologia das massas, sobre a função dos chefes, dos líderes e de outros personagens supostamente carismáticos, que Freud foi levado a se recusar a ocupar esse lugar.”

primeira explicação psicológica do nazismo”Que pena que 2 mil anos atrás tinha o tal de Platão…

Uma passagem do texto, situada no fim do capítulo V, permite supor, aliás, que Freud estava perfeitamente ciente da evolução do comunismo soviético.”Que bacana, o doutor lia os jornais toda manhã após a torrada!

RudeUnesco, você votou no FhC? “Observe-se que os primeiros tradutores franceses, Samuel Jankélévitch e Angelo Hesnard, utilizaram a expressão partido extremista para traduzir o sozialistischen de Freud, enquanto Strachey, fiel nesse ponto ao texto original, falou de socialistic tie (vínculo socialista). Foi preciso esperar por 1981, data da nova tradução, para que o leitor francês pudesse resgatar o sentido dessas linhas, escritas quase 15 anos antes da chegada dos nazistas ao poder.”Felizmente este não é um texto de Teoria da Tradução…

O último refúgio do freudista: onde Freud indisfarçavelmente errou, Lacan retificou-o com justeza. O lacan-freudismo é inabalável e indestrutível!

Seria LOUCURA esse pessoal entrar num consenso sobre alguma coisa, certo?

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Max Horkheimer & Theodor Adorno, Dialética do esclarecimento (N. York, 1944, Frankfurt, 1969), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985. (sem eira nem beira a Roudinesco cita este texto, mas beleza)

Psicopatologia da vida cotidiana, A

Livro de Freud publicado em 1901 sob o título Zur Psychopathologie des Alltagslebens. Traduzido para o francês pela primeira vez por Samuel Jankélévitch, em 1922, sob o título Psychopathologie de la vie quotidienne, e depois traduzido por Denis Messier sob o título La Psychopathologie de la vie quotidienne. Traduzido para o inglês pela primeira vez em 1914, por Abraham Arden Brill, sob o título Psychopathology of Everyday Life, e depois por Alan Tyson, em 1960, como The Psychopathology of Everyday Life.”

A psicopatologia da vida cotidiana constitui, ao lado de A interpretação dos sonhos e Os chistes e sua relação com o inconsciente, um tríptico que Ernest Jones agrupou sob a etiqueta de psicanálise aplicada, com isso marcando uma diferença em relação a outros textos da mesma época, mais precisamente os dedicados à teoria e à clínica, como os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e o relato do caso Dora.”

SÍNDROME DE FRANKENSTEIN: “Por fim, Freud sustentou a tese do determinismo psíquico absoluto, que abriu caminho para um uso ilimitado da prática da interpretação, contra o qual, mais tarde, ele procuraria levantar-se, recorrendo principalmente ao processo da construção.” PALIATIVO INSUFICIENTE, MEU AMIGO.

ESTÁ PROVADO QUE SÓ É POSSÍVEL PSICANALIZAR EM ALEMÃO: “A psicopatologia da vida cotidiana divide-se em 12 capítulos, dedicados às diferentes formas de esquecimentos, lapsos, equívocos, descuidos e os mais variados atos falhos. Freud reconhece que essa divisão é essencialmente descritiva, havendo nos fenômenos estudados, na realidade, uma unidade interna que é atestada pelo livro inteiro. Aliás, em suas Conferências introdutórias sobre psicanálise, ele assinalaria que essa unidade era evidenciada, na língua alemã, pelo prefixo ver, comum a todas as palavras designativas desses <acidentes>: das Versagen (o esquecimento), das Versprechen (os lapsus linguae), das Vergreifen (o equívoco da ação), das Verlieren (o extravio de objetos), etc.” VER O ERRO

O primeiro capítulo, que versa sobre o esquecimento de nomes próprios, abre-se com um exemplo que se tornou célebre e que fôra objeto do artigo de 1898 dedicado ao mecanismo psíquico do esquecimento. Viajando com um companheiro fortuito para uma cidade da Herzegovina, Freud não mais consegue lembrar-se do nome de Luca Signorelli (1441-1523), o autor dos afrescos da catedral de Orvieto que representam os <quatro dias derradeiros>. Em vez disso, vêm-lhe à mente dois outros nomes de pintores, os de Sandro Botticelli (1467-1516) e Giovanni Boltraffio (1441-1523) [morreu e nasceu nos mesmos anos do signorabove!], que ele sabe serem incorretos. Quando o nome procurado lhe é fornecido por seu companheiro de viagem, F. não fica surpreso, mas faz questão de investigar as razões de seu esquecimento. Lembra-se então de que, antes de evocar a Itália com seu interlocutor, os dois haviam conversado sobre a mentalidade dos turcos da Bósnia-Herzegovina, em especial sobre sua resignação diante do destino — por exemplo, sua reação quando um médico lhes anuncia que a situação de um de seus parentes é desesperadora: <Herr [Senhor]>, é mais ou menos o que eles dizem nessa situação, <não falemos mais disso; sei que, se fosse possível salvá-lo, o senhor o salvaria.> Freud observa que esses dois nomes, Bósnia e Herzegovina, assim como a palavra Herr, têm lugar numa cadeia associativa entre Signorelli-Botticelli e Boltraffio. O Bo de Bósnia encontra-se nos nomes dos dois pintores que substituem o nome esquecido e procurado; quanto ao Herr, podemos encontrá-lo em Herzegovina, assim como, em sua tradução italiana, em Signorelli. Para explorar as razões inconscientes desse esquecimento, Freud procede como fizera ao analisar seus sonhos: esforça-se por fazer associações a partir do material manifesto. Lembra-se de ter pensado, ao longo da conversa, num outro aspecto dos costumes desses turcos da Bósnia: a importância que eles dão ao prazer sexual e seu desespero quando experimentam dificuldades nessa área, aspecto esse que Freud não quisera abordar com um desconhecido [cuzão]; ele se recorda também de haver pensado, naquele momento, na notícia recebida em Trafoi, no Tirol, de que um de seus pacientes, afetado por problemas sexuais incuráveis, havia-se suicidado. A proximidade entre Trafoi e Boltraffio<obriga-me a admitir>, escreve Freud, <que, apesar de haver intencionalmente desviado minha atenção, eu estava sofrendo a influência dessa reminiscência>. É de se notar, nesse exemplo, a especificidade da lógica inconsciente que leva a substituir o nome de Signorelli pelo de um pintor da mesma nacionalidadee da mesma época, Boltraffio, o qual contém os fonemas Trafoi, que remetem aos temas da morte e da sexualidade, recalcados por Freud na conversa que antecedeu seu esquecimento. <Já não me é possível ver no esquecimento do nome Signorelli>, escreve Freud, <um acontecimento acidental. Sou obrigado a ver nele o efeito de motivações psíquicas. […] Eu queria, na verdade, esquecer uma outra coisa, e não o nome do mestre de Orvieto; mas, entre essa ‘outra coisa’ e o nome estabeleceu-se umelo associativo, de tal sorte que meu ato voluntário errou o alvo e,contrariando minha vontade,esqueci o nome, quando queria intencionalmente esquecer a outra coisa>. Assim, segundo comenta Octave Mannoni, <o nome do pintor italiano, associado a certas idéias de morte e sexualidade recalcadas, foi arrastado junto com elas para o desejo inconsciente. Claro está que, em si mesmas, as idéias de morte e sexualidade não têm esse efeito: Freud não havia esquecido o tema dos afrescos, nem os 4 dias derradeiros, dos quais a morte faz parte. E nem tampouco as histórias sexuais turcas: o recalque não estava nisso (ligava-se à notícia recebida em Trafoi)>. Freud enuncia então as condições necessárias para se falar no esquecimento não-acidental de um nome, que são em número de 3: a tendência a esquecer esse nome, a existência de um recalque relativamente recente e a possibilidade de estabelecer uma associação externa entre o nome em questão e o objeto do recalque.

AYRTON SENNA NÃO É IMORTAL: “As primeiras lembranças, ou as lembranças mais antigas, concernem, na maioria das vezes, a coisas secundárias, ao passo que os acontecimentos importantes parecem não haver deixado nenhum vestígio na memória.”

O paranóico, explica ainda F., projeta na vida psíquica dos outros o que acontece em sua própria vida em estado inconsciente, e é por isso que dá a impressão freqüente de estar parcialmente certo.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

F., “O mecanismo psíquico do esquecimento”, artigo publicado, no fim do ano de 1898, na revista Monatschrift für Psychiatrie und Neurologie.

psicose

Em clínica psiquiátrica, o conceito de psicose é tomado a maioria das vezes numa extensão extremamente ampla, de maneira a abranger toda uma gama de doenças mentais, quer sejam manifestamente organogenéticas (paralisia geral, p.ex.), quer a sua etiologia última permaneça problemática (esquizofrenia, etc.).”

O aparecimento do termo psicose no séc. XIX vem pontuar uma evolução que levou à constituição de um domínio autônomo das doenças mentais, distintas não só das doenças do cérebro ou dos nervos – como doenças do corpo – mas também distintas daquilo que uma tradição filosófica milenar considerava <doenças da alma>: o erro e o pecado.”

Qualquer psicose é ao mesmo tempo uma neurose porque, sem a intervenção da vida nervosa, nenhuma modificação do psíquico se manifesta; mas nem toda neurose é também uma psicose.”

psicossomática, medicina (a psicologia que deve tratar quem ainda não sabe que quer morrer)

Nascida com Hipócrates, a medicina psicossomática concerne simultaneamente ao corpo e ao espírito e, mais especificamente, à relação direta entre o soma e a psyché. Descreve a maneira como as doenças orgânicas são provocadas por conflitos psíquicos, em geral inconscientes. Na história da psicanálise, diversas correntes de medicina psicossomática desenvolveram-se no mundo, inicialmente com Georg Groddeck, seu principal inspirador, e depois em torno de Franz Alexander (Escola de Chicago), nos Estados Unidos, Alexander Mitscherlich, na Alemanha, e Pierre Marty (1918-1993) e Michel de M’Uzan, na França (Escola de Paris).”

O GRAVE É QUE NÃO SOU MUITO AGUDO: “Enquanto a psiquiatria (campo das doenças mentais) serviu de trampolim para a implantação das teorias psicanalíticas concernentes às psicoses, foi através da chamada medicina psicossomática, com freqüência, que a clínica freudiana se introduziu na medicina (geral ou especializada), em particular nos grandes serviços hospitalares (hematologia, urologia, cancerologia geral, unidades especializadas em AIDS, etc.) onde a abordagem psicanalítica é indispensável ao tratamento dos problemas psíquicos (específicos ou não) dos sujeitos (crianças ou adultos) atingidos por doenças orgânicas crônicas ou agudas.”

Na medida em que a expressão <complacência somática> pretende explicar não mais apenas a escolha de determinado órgão do corpo, mas a escolha do próprio corpo como meio de expressão, somos naturalmente levados a tomar em consideração as vicissitudes do investimento narcísico do próprio corpo.”

FUGA PARA A / REFÚGIO NA DOENÇA. Expressão figurada que designa o fato de o sujeito procurar na neurose um meio de escapar aos seus conflitos psíquicos. Esta expressão foi favorecida com a difusão da psicanálise; estende-se hoje não apenas ao domínio das neuroses, mas ainda ao das doenças orgânicas em que pode ser posta em evidência uma componente psicológica.”

pulsão

Eu não tenho como dirigir minha vida, vamos assim dizer: licença para matar, licença para morrer. Death drive.

Freud nunca fez mistério desses antecedentes. Em sua autobiografia de 1925, referiu-se a Nietzsche e confessou só o haver lido muito tardiamente, por medo de lhe sofrer a influência.”

Diferenciar “pulsão” e “instinto” é da maior imbecilidade. Sem falar no termo técnico absolutamente revoltante “moção”!

Cuidado para não tomares tanto cuidado ao tomar cuidado lendo um autor que antes de ousares compreendê-lo e julgá-lo em seu todo tu já estás senil e de nada te serviria ainda que teu cérebro encolhido pudesse compreendê-lo, pois agora tua vida será esquentar-te à beira da lareira no canapé.

Questão da análise leiga, A

LACAN ESTÁ MAIS PARA TOMÁS DE AQUINO DA PSICANÁLISE QUE PARA LUTERO: “Livro de Freud publicado em alemão, em 1926, sob o título Die Frage der Laienanalyse. Traduzido pela 1a vez para o francês por Marie Bonaparte, em 1928, sob o título Psychanalyse et médecine, foi retraduzido em 1985 por Janine Altounian, André Bourguignon (1920-1996), Odile Bourguignon, Pierre Cotet e Alain Rauzy, sob o título La Question de l’analyse profane. Essa tradução foi ligeiramente revista em 1994 pela mesma equipe de tradutores. Traduzido para o inglês pela primeira vez em 1927, por A.P. Maerker-Branden, sob o título The Problem of Lay-Analysis, foi retraduzido por Nancy Procter-Gregg em 1947 como The Question of Lay-Analysis e, em 1959, traduzido por James Strachey sob o mesmo título.

O posfácio, Nachtwort zur Frage der Laienanalyse, foi publicado em alemão em 1927 e, em 1928, acrescentado ao livro. Foi traduzido para o francês pela primeira vez em 1985 e acrescentado à 2a edição. A tradução francesa de 1994 o restaurou em sua íntegra, incluindo o trecho suprimido por F. a conselho de Max Eitingon e Ernest Jones, que o julgavam demasiado ofensivo para os norte-americanos. Esta última edição contém, além disso, notas de 1935, bem como um pós-escrito do mesmo ano, destinados a uma edição norte-americana que nunca chegou a ser publicada. Esses documentos, encontrados por Ilse Grubrich-Simitis, não figuram em nenhuma edição inglesa ou norte-americana. O posfácio foi traduzido pela 1a vez para o inglês em 1927, sob o título Concluding remarks on the question of lay analysis, e posteriormente por James Strachey, em 1950, sob o título Postscript to a discussion on lay analysis.”

Freud inverteu desde logo a formulação habitual da questão: o leigo ou profano não era o analista não-médico, mas <qualquer um que não tenha adquirido uma formação, tanto teórica quanto técnica, suficiente em psicanálise, e quer possua ou não um diploma de medicina>. Para Freud, <a psicanálise, apesar de nascida num terreno médico, há muito tempo já não constitui um assunto puramente médico>, e se, por um lado, não se podia nem se devia impedir ninguém de se interessar por ela, era somente <fazendo-se analisar e exercendo a análise com terceiros>, por outro lado, que se podia adquirir <a experiência e a convicção em psicanálise>.”

O livro foi publicado no outono de 1926. Seu objetivo superou amplamente a simples defesa de Reik e, em termos mais gerais, dos analistas não-médicos. A colocação de Freud inscreve-se num outro debate, o qual, apesar de se referir à questão da análise leiga, trata, na verdade, da formação dos psicanalistas, e concerne, antes de mais nada, ao próprio movimento psicanalítico internacional. Com efeito, fôra em 1925 que o presidente da New York Psychoanalytic Society (NYPS), Abraham Arden Brill, havia anunciado sua intenção de romper com F. em razão dessa questão, e foi no outono de 1926, no momento da publicação do texto de F., que o estado de Nova York declarou ilegal a prática da análise por não-médicos [hustlers in New York are hustlers]. Os pivôs do conflito que acabava de eclodir, e que não estava nem perto de se encerrar, concerniam, pois, além da simples relação com a medicina, aos contornos institucionais da psicanálise, a seus fundamentos epistemológicos e a seu caráter universalista, garantia de uma questão que a atualidade geopolítica logo tornaria premente: a da emigração. Numa palavra — a de Jean-Bertrand Pontalis em seu prefácio à edição francesa de 1985 —, podemos dizer que, <para Freud, certamente, a questão da análise leiga era a questão da própria análise>.”

A pergunta que não quer calar: algum estudante pobre já se tornou psicanalista?

A questão da relação com a medicina começa a ser discutida depois que o interlocutor destaca que a psicanálise poderia muito bem ser considerada uma especialidade médica entre outras. F. responde que qualquer médico que observe o conjunto das concepções teóricas e das regras evocadas até esse ponto será bem-vindo, mas que é forçoso registrar uma realidade totalmente diversa, caracterizada pela luta que o conjunto dos médicos trava contra a análise. Essa atitude, além de ser suficiente para retirar do corpo médico qualquer direito histórico a se pretender proprietário da psicanálise, leva Freud a se dirigir, para além de seu interlocutor, ao legislador austríaco: <charlatão> é <quem empreende um tratamento sem possuir os conhecimentos e qualificações necessários>. Com isso ele esclarece que nessas condições, em matéria de análise, são os médicos que compõem o grosso do contingente de <charlatães>, já que, na maioria dos casos, <praticam o tratamento analítico sem havê-lo aprendido e sem compreendê-lo>.”

MAIS FÁCIL PLATÃO REENCARNADO FUNDAR SUA SONHADA REPÚBLICA: “Não seria possível autorizar aqueles dentre os analistas não-médicos que já comprovaram seus méritos e decidir que, no futuro, a formação médica será a norma? Diante dessa última tentativa de compromisso, Freud aborda de frente a questão da formação dos analistas e afirma que seu objetivo, a criação de uma escola superior de psicanálise, pressupõe a instauração de um ensino que, longe de se limitar unicamente aos conhecimentos médicos, englobe a história das civilizações, a mitologia e a literatura, e repouse no postulado da autonomia do registro psíquico em relação ao substrato fisiológico.”Ou seja, depois de umas 3 faculdades, SE LEVAR JEITO PRA COISA, o sujeito estará apto a ser psicanalista no País das Maravilhas (onde todos são felizes mas precisam de tratamento psicanalítico, obviamente).

No plano jurídico, a prática da análise leiga foi debatida na França por ocasião do caso Clark-Williams, que, por suas implicações, constituiu um dos pivôs do que viria a ser a primeira cisão do movimento psicanalítico francês, em 1953. Num primeiro momento, Margaret Clark-Williams, uma psicanalista não-médica que praticava análises de crianças no Centro Claude-Bernard, fundado por Georges Mauco, foi liberada. Todavia, após um apelo feito contra essa decisão pela Ordem dos Médicos [templários!], a 9a vara do tribunal de Paris condenou a ré a uma pena primária, embora reconhecendo sua moral e sua competência. Esse processo criaria jurisprudência, até a suspensão da sentença pelo tribunal correcional de Nanterre, em 9 de fevereiro de 1978, ao término do qual a independência da psicanálise em relação à medicina foi juridicamente reconhecida. Lacan, que não depôs nesse processo, nem por isso deixou, durante as discussões travadas sobre o assunto nos círculos psicanalíticos e psiquiátricos, de defender os não-médicos, censurando Sacha Nacht, então presidente da SPP, por querer abandoná-los por completo.” “Não muito tempo depois, [Lacan] aconselharia seus alunos a estudarem medicina ou filosofia [cagão], considerando que a proteção da formação dos psicanalistas e da psicanálise em si deveria exercer-se, prioritariamente, contra a psicologia e o psicologismo, os quais ele denunciou como uma ameaça muito mais perigosa do que a medicina. Posteriormente, dentro da perspectiva aberta por F., L., em especial através dos textos dedicados ao ensino e à formação dos analistas, procurou delimitar a especificidade do ato psicanalítico e mostrar que, se o psicanalista só pode ser <leigo>, isso se deve, antes de mais nada, ao fato de seu ato se inscrever na experiência psicanalítica que ele atravessa.”

Além da análise leiga, muitos gostariam de instituir a leitura ou estudo leigo (porque a eles sempre se contraporá a leitura, o estudo profissionais).

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Harald Leupold-Löwenthal, “Le Procès de Theodor Reik”, Revue Internationale d’Histoire de la Psychanalyse, 3, 1990, 57-69.

real

Depois, entre 1935 e 36, época em que, junto com Lacan, acompanhou o seminário de Kojève sobre A fenomenologia do espírito de Hegel, Bataille inventou o termo heterologia, extraído do adjetivo heterólogo, que serve para designar, em anatomopatologia, os tecidos mórbidos. A heterologia era, para ele, a ciência do irrecuperável, que tem por objeto o <improdutivo> por excelência: os restos, os excrementos, a sujeira. Numa palavra, a existência <outra>, expulsa de todas as normas: loucura, delírio, etc. Foi combinando a ciência do real, a heterologia e a noção freudiana de realidade psíquica que Lacan construiu sua categoria do real. Esta fez sua 1a aparição em 53, ainda sem ser conceituada, numa conferência intitulada O Simbólico, o Imaginário e o Real. Depois disso, Lacan adquiriu o hábito de escrever as 3 palavras com maiúsculas.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Émile Meyerson, La Déduction relativiste, Paris, Payot, 1925;

Georges Bataille, “La Structure psychologique du fascisme” (1933-1934), in: La Critique sociale, reimpressão, Paris, La Différence, 1985, 159-65; 205-11.

recalque

al. Verdrängung; esp. represión; fr. refoulement; ing. repression. Na linguagem comum, a palavra recalque designa o ato de fazer recuar ou de rechaçar alguém ou alguma coisa. Assim, é empregada com respeito a pessoas a quem se quer recusar acesso a um país ou a um recinto específico.

Para Freud, o recalque designa o processo que visa a manter no inconsciente todas as idéias e representações ligadas às pulsões e cuja realização, produtora de prazer, afetaria o equilíbrio do funcionamento psicológico do indivíduo, transformando-se em fonte de desprazer.F., que modificou diversas vezes sua definição e seu campo de ação, considera que o recalque é constitutivo do núcleo original do inconsciente. No Brasil também se usa <recalcamento>.”

Recalque é a zaga ruim, que não sabe defender, mas ainda assim engana alguns fanáticos.

Observe-se que F. não é nada explícito quanto à verdadeira origem desse processo: de onde provêm os elementos de atração do inconsciente que são responsáveis por essa primeira fixação? Na falta de uma resposta clara, ele enuncia a hipótese, em 26, de uma invasão primordial, decorrente de uma força de excitação particularmente intensa. O retorno do recalcado, terceiro tempo do recalque, manifesta-se sob a forma de sintomas — sonhos, esquecimentos e outros atos falhos —, considerados por Freud como formações de compromisso.”

Um paradoxo: os fracos são os mais resistentes.

regra fundamental (o postulado primário de que a psicanálise se baseia na fala e na livre associação das idéias do paciente)

Através de seu silêncio, o analista deixa transparecer que, mais-além da demanda de cura, o paciente é portador de uma outra demanda, uma <demanda intransitiva>, que <não comporta nenhum objeto>, e na qual vêm repetir-se os elementos de umaidentificação primária com a onipotência materna.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jean-Luc Donnet, “Surmoi. Le concept freudien et la règle fondamentale”, monografias da Revue Française de Psychanalyse, Paris, PUF, 1995.

Reich, Wilhelm

O itinerário atormentado do maior dissidente da segunda geração freudiana, próximo de Fliess por suas teorias biológicas e de Gross pelo seu destino de eterno perseguido, foi narrado de forma caricatural pela historiografia oficial, sobretudo pelo seu principal representante, Ernest Jones, responsável, com Max Eitingon, Anna e Freud, por sua exclusão da IPA.Foi o criador do freudo-marxismo, o teórico de uma análise do fascismo que marcou todo o século e o artífice de uma reformulação da técnica psicanalítica que se apoiava em uma concepção da sexualidade mais próxima da sexologia que da psicanálise.”

Peer Gynt (Ibsen), esse herói norueguês à procura de identidade, que acaba por se fazer proclamar Imperador do Egito num asilo de loucos, simbolizava, de certa forma, o mal-estar do pós-romantismo alemão, com o qual Reich se identificava.”

Para Reich, a hipótese da pulsão de morte teria sido consecutiva a uma depressão de Freud, causada pela evolução ortodoxa do movimento psicanalítico depois da Primeira Guerra Mundial. A partir de 1924, Reich se interessou pelas obras de Marx e Engels para tentar mostrar a origem social das doenças mentais e nervosas. Nessa perspectiva, procurava conciliar os conceitos marxistas e os da psicanálise. Em 1927, publicou uma obra de sexologia, A função do orgasmo, que dedicou a <meu mestre o professor Sigmund Freud>, e um ensaio, A análise do caráter.”

2 CONTRA 1: “Nesse debate sobre a sexualidade, que durava desde o fim do séc. XIX, a posição de Reich era simétrica à de Jung. Se este dessexualizava o sexo em benefício de uma espécie de impulso vital, Reich operava a dessexualização da libido em benefício de uma genitalidade biológica, fundada no desenvolvimento de uma felicidade orgástica, da qual a pulsão de morte estaria excluída.

em 1929 publicou na revista moscovita Sob a bandeira do marxismo o manifesto fundador do freudo-marxismo: Materialismo dialético e psicanálise.”

Criou então a Associação para uma Política Sexual Proletária, a SEXPOL, através da qual desenvolveu uma política de higiene mental dirigida à juventude. Assimilava a luta sexual à luta de classes e desafiava os costumes do conformismo burguês e do comunismo. Isso fez com que irritasse tanto os meios psicanalíticos (muito conservadores na política) e os comunistas stalinistas (adversários de suas teses libertárias). Excluído do Partido Comunista alemão, no exato momento da tomada do poder por Hitler [golpe de sorte], exilou-se na Dinamarca, onde teve que enfrentar uma campanha de difamação que o perseguiria até a Noruega.” “Com seus discípulos, F. optara por uma estratégia que consistia, por receio de eventuais represálias do governo, em excluir de suas fileiras os militantes de extrema esquerda: Marie Langer também pagaria o preço dessa política. (…) Assim, foi realmente em razão de sua adesão ao comunismo, e não por uma discordância técnica e doutrinária, que Reich foi perseguido pelo movimento freudiano, pelo próprio Freud e também por Jones, que inicialmente lhe demonstrara simpatia.(…) No Congresso de Lucerna, em 1934, Reich foi excluído das fileiras da IPA, exatamente quando não era possível acusá-lo de bolchevista, pois ele já não era mais membro do Partido Comunista. Harald Schjelderup e o grupo norueguês se opuseram a essa exclusão, que teria sérias repercussões na situação da psicanálise na Escandinávia.”

Longe de considerar o fascismo como produto de uma política ou de uma situação econômica de uma nação ou de um grupo, via nele a expressão de uma estrutura inconsciente e estendia a definição à coletividade, para enfatizar que, definitivamente, o fascismo se explicava por uma insatisfação sexual das massas. Reich retomava assim um tema que fôra tratado de outra maneira por Gustave Le Bon e depois por F., mas dando-lhe um conteúdo radicalmente novo no mesmo momento em que o nazismo se abatia sobre a Alemanha.”

Em 1936, tratado de <esquizofrênico> pela comunidade freudiana, Reich afastou-se definitivamente da psicanálise, criando em Oslo um Instituto de Pesquisas Biológicas de Economia Sexual, no qual se reuniam médicos, psicólogos, educadores, sociólogos e assistentes de jardins de infância.”

Instalado em um chalé no Maine, perto da fronteira canadense, realizou o seu sonho: construir e pôr em prática uma teoria orgástica do universo, com os meios tecnológicos da época. Foi assim que pensou ter descoberto o <orgônio atmosférico> e, para captá-lo, a fim de curar os seus pacientes da sua impotência orgástica, construiu um centro de pesquisas, ao qual deu o nome de Orgonon. Ali, como o Frankenstein de Mary Shelley revisto e corrigido pela estética do cinema hollywoodiano [?], experimentou os seus <acumuladores de orgônio>, verdadeiras máquinas destinadas a armazenar a famosa energia. Em dezembro de 1940, Reich pediu uma entrevista a Albert Einstein, com quem conversou durante 5h e que se encantou com suas <descobertas>, a ponto de verificar pessoalmente o funcionamento de um acumulador. Mas um mês depois, Einstein emitiu um veredito negativo sobre a experiência. Reich protestou, porém Einstein não respondeu as suas cartas. Nova decepção.

A partir de janeiro de 1942, atacado por todos os lados, tratado de charlatão pelos psiquiatras e de esquizofrênico pelos meios psicanalíticos americanos [não significa muita coisa, convenhamos], Reich mergulhou na loucura, acreditando-se vítima do grande MODJU, ou seja, dos <fascistas vermelhos>.Esse nome, forjado por ele, era derivado de MO (cenigo), personagem anônimo que entregara Giordano Bruno (1548-1600) à Inquisição, e de DJOU (gachvili), aliás Stalin.” [!!]

Acusado de estelionato por ter comercializado seus acumuladores de orgônio, Reich foi preso depois de um lamentável processo, e morreu de ataque cardíaco na penitenciária de Lewisburg, na Pensilvânia, a 3 de novembro de 1957. Em maio, quando trabalhava na biblioteca da prisão, escreveu estas palavras para seu filho Peter: Orgulho-me de estar em tão boa companhia, com Sócrates, Cristo, Bruno, Galileu, Moisés, Savonarola, Dostoiévski, Gandhi, Nehru, Mindszenty, Lutero e todos os que combateram contra o demônio da ignorância, os decretos ilegítimos e as chagas sociais… Você aprendeu a esperar em Deus assim como nós compreendemos a existência e o reino universais da Vida e do Amor.

Reich tinha uma admiração sem limites por Freud, enquanto Freud se mostrou, para com ele, de uma ferocidade desmedida. É quase certo que a publicação dessa correspondência daria ao grande fundador uma imagem pouco semelhante à que lhe atribui a hagiografia oficial. Efetivamente, conhecem-se resumos do conteúdo provável dessas cartas, que mostram que Freud teve medo de Reich: de sua loucura, de sua celebridade, de seu engajamento político. Quanto a seus discípulos, estes tudo fizeram para se livrar de um homem que incomodava seu conformismo, questionava suas convicções e reatava com as origens <fliessianas> — cuja importância eles queriam apagar — da doutrina freudiana.”

As teses reichianas tiveram uma grande influência na posteridade, tanto do lado do biologismo, quando retornaram com a Gestalt-terapia, quanto nos anos 1965-75, quando reapareceram com a contestação libertária na maioria dos grandes países onde a psicanálise se implantara.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

REICH, W., The Discovery of the Orgone, 2, The Cancer Biopathy (N. York, 1948), traduzido para o francês sob o títuloBiopathie du cancer, Paris, Payot, 1975; Escuta, Zé ninguém (N. York, 1948), S. Paulo, Martins Fontes; L’Éther, dieu et le diable (N. York, 1951), Paris, Payot, 1973; O assassinato de Cristo (Maine, 1953), S. Paulo, Martins Fontes, 1995; Reich parle de Freud (N. York, 1967), Paris, Payot, 1970; Premiers écrits, 2 vols. (N. York, 1979), Paris, Payot, 1982.

resistência

Sobre a explicação do fenômeno da resistência, os pontos de vista de Freud são mais difíceis de distinguir [que os da transferência]. Nos Estudos sobre a histeria, formula a hipótese seguinte: podemos considerar as lembranças agrupadas, segundo o seu grau de resistência, em camadas concêntricas em redor de um núcleo central patogênico; no decurso do tratamento, cada passagem de um círculo para outro mais aproximado do núcleo irá aumentar outro tanto a resistência.”

Esperávamos que, ao afastarmos as resistências do eu e do supereu, traríamos algo com uma libertação automática de pressão, e que outra manifestação de defesa logo ligasse esta energia agora livre, como acontece nos sintomas transitórios. Em vez disso, parece que demos uma chicotada na compulsão à repetição e que o Isso aproveitou o enfraquecimento das defesas do eu para exercer uma atração crescente sobre as representações pré-conscientes.” Glover

Roheim, Geza

fundou a etnopsicanálise, da qual foi, com Georges Devereux, o principal representante.”

HAHAHA: “Roheim teve uma infância feliz — fenômeno raro entre os pioneiros do movimento psicanalítico, à exceção do próprio Freud. Nunca teve filhos e foi ele mesmo uma eterna criança, apegado durante toda a vida à sua mulher Llonka, que se associou à sua obra e nunca deixava de brigar com ele em público.” [!!!]

no trabalho de campo, ensinou futebol às crianças da Melanésia.”

Durante toda a vida, conservaria sua independência em relação às diferentes escolas e uma sólida admiração por F.”

Segundo ele, as fantasias de devoração apenas repetiam uma situação mais antiga de identificação com o corpo da mãe: comer o pai durante o festim totêmico era comer a mãe.” Nosso primeiro banquete são as entranhas da mãe, não há como negá-lo!

No campo, longe de experimentar o mesmo sofrimento melancólico de Malinowski e de tantos outros etnólogos, teve logo uma <transferência positiva> em relação a seus anfitriões e se comportou com eles ao mesmo tempo como um irmão mais velho e como um analista kleiniano, procurando sempre refinar o seu método e interpretar os costumes, mitos, comportamentos, sonhos, jogos de palavras e histórias cotidianas à luz da psicanálise. Ao voltar, atravessando os EUA, parou durante algum tempo na Califórnia, para estudar os índios yumas e, em 1932, publicou suas observações em um artigo intitulado Psicanálise dos tipos culturais primitivos, cuja essência seria retomada em 1950, em sua grande síntese sobre a questão, Psicanálise e antropologia.

Atacava com firmeza todos os representantes do neofreudismo culturalista, Abram Kardiner e Margaret Mead particularmente, acusando-os de importarem modelos diferencialistas inadequados para analisar as grandes sociedades ocidentais. Concluía que o relativismo cultural, com sua auto-satisfação e seus ideais humanistas, era apenas uma forma mascarada de nacionalismo e de rejeição do outro: A idéia de que as nações são completamente diferentes umas das outras, e de que o papel da antropologia é simplesmente descobrir essas diferenças, é uma manifestação de nacionalismo mal-dissimulada. Ela constitui a contrapartida democrática da doutrina racial dos nazistas ou da teoria comunista das classes.

Rolland, Romain

Mais um polímata que devo conhecer e – tentar – superar…

Tocava piano admiravelmente, com uma suavidade que para mim é inesquecível, acariciando o teclado como se quisesse tirar dele os sons não pela força, mas apenas pela sedução. Nenhum virtuose — e ouvi nos círculos mais fechados Max Reger, Busoni, Bruno Walter — me proporcionou, a esse ponto, o sentimento de uma comunhão imediata com os mestres amados. Seu saber nos humilhava por sua extensão e diversidade. De certa forma, como vivia apenas através de seus olhos de leitor, detinha a literatura, a filosofia, a história, os problemas de todos os países e de todos os tempos. Conhecia cada compasso da música; as obras mais esquecidas de Galuppi, de Telemann, e até compositores de sexta ou sétima ordem lhe eram familiares. Ao lado disso, participava apaixonadamente de todos os acontecimentos do presente.”Zweig

Escritor prolixo, dramaturgo, biógrafo, musicólogo — sua biografia de Beethoven foi durante muito tempo a melhor —, ensaísta, moralista, Romain Rolland, como escreveram Henri & Madeleine Vermorel, entrou, todavia, <em um purgatório que se prolonga: seus romances não são mais lidos, exceto Jean-Christophe, sua obra-prima>.” “ele obteve em 1916 o Prêmio Nobel de literatura.”

romance familiar (al. Familienroman; esp. novela familiar; fr. roman familial; ing. family romance)

Expressão criada por Freud e Rank para designar a maneira como um sujeito modifica seus laços genealógicos, inventando para si, através de um relato ou uma fantasia, uma outra família que não a sua.

Desde 1898, F. havia observado que os neuróticos tendiam, em sua infância, a idealizar os pais e a querer se parecer com eles. A essa primeira identificação seguiam-se o discernimento crítico e a rivalidade

Rank estudou as lendas típicas das grandes mitologias ocidentais sobre o nascimento dos reis e dos fundadores de religiões. Assim, observou que Rômulo, Moisés, Édipo, Páris, Lohengrin e até Jesus Cristo são crianças achadas, abandonadas ou <expostas> a um curso d’água por pais reais em razão de alguma previsão sombria. Destinados a morrer, em geral são recolhidos por uma família nutriz de classe social inferior. Na idade adulta, recuperam sua identidade originária, vingam-se do pai e reconquistam seus reinos.”

O BOM FILHO NASCE NUMA CAPITAL (nonsense): “No caso de Páris, a figura mítica do animal protetor está associada à idéia da realização de uma previsão desastrosa. Príamo abandona seu segundo filho no nascimento, porque sua mulher, Hécuba, sonhou que trazia ao mundo uma tocha ardente. O menino, alimentado por uma ursa, é recolhido por um pastor de ovelhas, que lhe dá o nome de Páris (filho da ursa). Estando na origem da guerra de Tróia, Páris provocaria a ruína de sua família.” “Na história de Lohengrin, o tema do segredo patogênico, tão caro a Moriz Benedikt, caminha de mãos dadas com o do animal protetor e da mulher curiosa. Um cavalheiro errante, singrando as águas, salva a heroína, casa-se com ela e lhe dá filhos. Promete-lhe felicidade eterna, desde que ela renuncie a saber quem ele é e de onde vem. Em pouco tempo, entretanto, a rainha não resiste ao prazer de interrogar o marido. Lohengrin proclama então publicamente que é filho de Parsifal e abandona o reino para sempre para se colocar outra vez a serviço do Graal em sua embarcação puxada por um cisne.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Otto Rank, Le Mythe de la naissance du héros (Leipzig, Viena, 1909), Paris, 1983.

Rorschach, Hermann

Foi o historiador Henri F. Ellenberger quem redigiu a biografia desse fascinante médico da primeira geração freudiana, que se tornou célebre no mundo inteiro com a invenção do famoso teste das manchas de tinta.”

Rússia, URRS

Pavlov recebeu em 1904 o Prêmio Nobel de medicina por seus trabalhos sobre a atividade digestiva e o reflexo condicionado, que dariam origem a um modelo de psicologia materialista, retomado pelos marxistas, e depois pelo regime comunista, para combater as doutrinas ditas <espiritualistas>, entre as quais a psicanálise.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Pseudo-Bakhtin, Le Freudisme (1927), Lausanne, L’Âge d’homme, 1980;

Mikhail Stern, La Vie sexuelle en URSS, Paris, Albin Michel, 1979.

Sachs, Hanns

Muitas vezes, viajava em férias com seus analisandos, estes também acompanhados por seus analisandos, o que dá uma idéia dos hábitos da época, antes da regulamentação (1925) da análise didática.”

Em 1925, com Abraham e contra a opinião de F., que não entendia grande coisa da nova arte cinematográfica, Sachs participou da redação de um roteiro para o filme mudo realizado em 1926 por Wilhelm Pabst (1885-1967), Os mistérios da alma. Nessa obra-prima do cinema expressionista, o ator Werner Krauss, que fizera em 1919 o papel de Caligari no filme de Robert Wiene, interpretou o do professor Matthias, homem obcecado por desejos de assassinato com sabre e faca, curado pela psicanálise. Foi o primeiro filme inspirado nas teses freudianas e, quando de sua 1a exibição em Berlim, foi bem recebido: De imagem em imagem, escreveu um jornalista do Film-Kurier, descobre-se o pensamento de Freud. Cada episódio da ação poderia ser uma das proposições da agora célebre análise dos sonhos […]. Os discípulos de Freud podem se alegrar. Nada no mundo podia fazer tal publicidade com tanto tato.>

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Hanns Sachs, Caligula, Londres, Elin Matthews and Marott, 1931;

______, The Creative Unconscious, Studies in the Psychoanalysis of Art, Cambridge (Mass.), Science-Art Publications, 1942.

Schmideberg, Melitta, filha da madrasta-inata Melanie Klein

É difícil não ver nas relações entre Melitta Schmideberg e sua mãe uma espécie de caricatura das paixões que Klein teorizou: ódio, inveja, agressividade, perseguição, identificação projetiva, objeto bom ou mau. Nascida dentro da psicanálise e analisada por sua própria mãe, Melitta, filha mais velha de Melanie Klein, foi realmente a filha trágica da psicanálise, e, mais ainda, a cobaia de uma experiência que daria origem, não só à psicanálise de crianças no sentido moderno, mas também a uma das correntes mais ricas na história do freudismo.”

Segundo Phyllis Grosskurth, parece que Melanie temia que sua filha se tornasse sua rival. Assim, comportou-se com Melitta como sua própria mãe fizera com ela própria, mantendo-a permanentemente em estado de servidão, educando-a também na paixão pela <causa> psicanalítica. Desde os 15 anos, Melitta assistia a reuniões da Sociedade Psicanalítica de Budapeste e devorava textos psicanalíticos. Quando começou a estudar medicina, foi para se tornar psicanalista. Enfim, seguiu o mesmo itinerário da mãe: da Hungria para a Alemanha. Em Berlim, foi analisada três vezes pelos astros do movimento, então em plena expansão: Max Eitingon, Karen Horney e Hanns Sachs. Foi ali que encontrou Walter Schmideberg, seu futuro marido. Instalou-se depois em Londres, onde foi eleita membro da BPS. Fez mais uma análise com Ella Sharpe e começou a praticar a análise.”

Na Europa, era preciso ter coragem para ser analista. Nos Estados Unidos, nos anos 1950 e 1960, era preciso ter coragem para não ser.”

Em 1963, demitiu-se da BPS e deixou de freqüentar os meios psicanalíticos. Nunca aceitou reconciliar-se com sua mãe, nem mesmo falar com ela. No dia do enterro de Melanie, deu uma aula em Londres exibindo ofuscantes botas vermelhas.”

Schreber, Daniel Paul

Embora a análise que Freud fez do caso de Daniel Paul Schreber (1842-1910) não tenha se originado, como as de Dora, do Homem dos Ratos ou do Homem dos Lobos, de um tratamento real, as Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia, publicadas em 1911, sempre foram consideradas uma exposição ainda mais notável, pelo fato de F. nunca se haver encontrado com esse paciente. Ela foi comentada, questionada e reinterpretada por toda a literatura psicanalítica de língua inglesa e alemã. Na França, foi particularmente revisitada em vista da importância atribuída à paranóia na história do pensamento lacaniano.”

Em 1884, Daniel Paul Schreber, jurista renomado e presidente da côrte de apelação da Saxônia, deu sinais de distúrbios mentais, depois de ser derrotado na eleição em que se apresentara como candidato do partido conservador. Foi então tratado pelo neurologista Paul Flechsig (1847-1929), que em 2 ocasiões mandou interná-lo. Promovido a presidente do tribunal de apelação de Dresden em 1893, Schreber foi interditado 7 anos depois, sendo seus bens colocados sob tutela. Redigiu então suas Memórias de um doente dos nervos, publicadas em 1903. Graças a esse livro, pôde sair do hospício e recuperar seus bens, não por ter provado que não era louco, mas por ter sabido demonstrar ao tribunal que sua loucura não podia ser tomada como um motivo jurídico de confinamento. Em abril de 1910, ele morreu no manicômio de Leipzig. [?] Alguns meses depois, ao começar a redigir seus comentários sobre a autobiografia de 1903, Freud ignorava se o autor delas ainda estava vivo.”

As Memórias de Schreber apresentam o sistema delirante de um homem perseguido por Deus. Tendo vivido sem estômago e sem vesícula e havendo também <comido sua laringe>, ele achava que o fim do mundo estava próximo e que ele próprio era o único sobrevivente, em meio a um mundo de enfermeiros e doentes designados como <sombras de homens feitos às pressas>. Deus falava com ele na <língua fundamental> (a língua dos nervos) e lhe confiou a missão salvadora de se transmudar em mulher e gerar uma nova raça. Incessantemente regenerado pelos raios que o tornavam imortal e que emanavam dos <vestíbulos do céu>, Schreber era também perseguido por pássaros <miraculados>, que eram lançados contra ele depois de serem enchidos de <veneno de cadáver>: esses pássaros lhe transmitiam os <restos> das antigas almas humanas. Enquanto esperava ser metamorfoseado em mulher e engravidado por Deus, Schreber urrava contra o sol e resistia aos complôs do Dr. Flechsig, designado como um <assassino de alma> que abusara sexualmente dele, antes de abandoná-lo à putrefação. Deslumbrado com a extraordinária língua schreberiana, Freud analisou o caso para demonstrar, frente a Bleuler e Jung, a validade de sua teoria da psicose. Por isso, nos urros de Schreber contra Deus viu a expressão de uma revolta contra o pai, na homossexualidade recalcada, a fonte do delírio, e, por último, na transformação do amor em ódio, o mecanismo essencial da paranóia. A eclosão do delírio pareceu-lhe menos uma entrada na doença do que uma tentativa de cura, mediante a qual Daniel Paul, que não tivera nenhum filho para se consolar da morte do pai, tentou reconciliar-se com a imagem de um pai transformado em Deus.”

Em 1955, Ida Macalpine e seu filho, Richard Hunter, ambos alunos de Edward Glover e dissidentes da BPS, redigiram para a tradução inglesa das Memórias um prefácio que estigmatizou a negligência freudiana das teorias educativas de Gottlieb [pai de Schreber – amor de Deus? Hahaha…]. À tese freudiana eles opuseram uma interpretação kleiniana do caso.”

Por essa ótica, em vez de considerar a paranóia como uma defesa contra a homossexualidade, Lacan a situou sob a dependência estrutural da função paterna. Assim, propôs reler realmente os escritos de Gottlieb M. Schreber, a fim de evidenciar o vínculo genealógico entre as teses pedagógicas do pai e a loucura do filho. Nesse quadro, a paranóia de Schreber pôde ser definida como uma <forclusão do Nome-do-Pai>. Em outras palavras, como o seguinte encadeamento: o nome de D.G. [Deus G., Maurício] M. Schreber, isto é, a função do significante primordial encarnado pelo pai nas teorias educativas que visavam reformar a natureza humana, fôra rejeitado (ou forcluso) do universo simbólico do filho, e havia retornado no real delirante do discurso do narrador das Memórias.”

Em 1992, o comentário de F. foi radicalmente contestado por um psicanalista norte-americano, Zvi Lothane, membro da IPA. Ele acusou freudianos e kleinianos de haverem fabricado integralmente diagnósticos falsos e, dessa maneira, de haverem infligido aos Schreber, pai e filho, uma <vergonha> e um <assassinato moral> em nome de uma pretensa homossexualidade latente. Lothane <reabilitou> Daniel Paul, fazendo dele um melancólico cuja loucura beirava a genialidade, e Gottlieb Moritz, em quem viu o grande pensador de uma medicina humanista, injustamente chamado de tirano pelos psicanalistas e psiquiatras.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Zvi Lothane, In Defense of Schreber: Soul Murder and Psychiatry, Hillsdale e Londres, Analytic Press, 1992.

sexologia (R.I.P.)

Disciplina ligada à biologia, que toma por objeto de estudo a atividade sexual humana com um objetivo descritivo e terapêutico.” E no que diverge da Psicanálise?

Logo após a I Guerra Mundial, em especial sob a influência das teses de Reich, a sexologia começou a deixar o campo das descrições literárias ou médico-legais: transformou-se num movimento político, centralizado na idéia da liberação sexual,e criou um modelo de psicoterapia que tinha por objeto a função do orgasmo, isto é, a mensuração e a descrição dos fenômenos psíquicos, fisiológicos e biológicos ligados às diferentes modalidades do ato sexual, inclusive a masturbação.”

a partir do fim da década de 70, a sexologia não mais contribuiu verdadeiramente para o conhecimento, ao contrário do que havia acontecido na época da descoberta freudiana.”

sexuação (exemplo de péssima etnologia)

Utilizando o quadrado lógico de Apuleio, Lacan enunciou o que denominou de fórmulas da sexuação, ou seja, 4 proposições lógicas. As duas primeiras são proposições universais, uma afirmativa — Todos os homens têm o falo — e uma negativa: Nenhuma mulher tem o falo. Essas 2 proposições resumem a posição freudiana da libido masculina única, sendo o falo assimilado ao órgão sexual masculino. Segundo Lacan, entretanto, essa posição é inaceitável, pois avaliza a fantasia de uma complementaridade entre homens e mulheres e desemboca numa concepção do Um como negação da diferença e exclusão da castração, como quando se diz, por exemplo, a <humanidade> ou o <gênero humano>. Vêm então as outras 2 fórmulas. Uma é particular negativa: Todos os homens, menos um, estão submetidos à castração. Nesse caso, o conjunto dado, <todos os homens>, só pode existir logicamente se existir um outro elemento, distinto do conjunto: no caso, o pai originário da horda primitiva (Totem e tabu), que pode possuir todas as mulheres. A última fórmula é uma particular negativa: <Não existe nenhum X que constitua uma exceção à função fálica.> Na medida em que não existe, para o conjunto feminino, um equivalente do pai originário que escape à castração — o pelo-menos-um do conjunto dos homens —, todas as mulheres têm um acesso ilimitado à função fálica. Existe, portanto, uma dissimetria entre os dois sexos.”

sexualidade feminina

Pouco preocupado com o feminismo, Freud mostrou-se misógino em algumas ocasiões e, em muitas, conservador. A nos atermos às aparências, podemos ver nele um cientista estreito, um bom burguês, um marido ciumento e um pai incestuoso: em suma, um representante da autoridade patriarcal tradicional.”

significante

o estruturalismo lacaniano se assenta na idéia de que a verdadeira liberdade humana provém da consciência que o sujeito pode ter de não-ser-livre em virtude da determinação inconsciente. Para Lacan, a forma freudiana de uma consciência de si dividida (ou de uma clivagem do eu) era mais subversiva do que a crença — p.ex., sartriana — numa possível filosofia da liberdade.E por quê?!

Saussure situou o significado acima do significante e separou os dois por uma barra, denominada da significação. Lacan inverteu essa posição e colocou o significado abaixo do significante, ao qual atribuiu uma função primordial.”Parabéns!

L. deu o nome de ponto de basta ao momento pelo qual, na cadeia, um significante se ata ao significado para produzir uma significação. Essa é a única operação que detém o deslizamento da significação, fazendo com que os 2 planos se unam pontualmente. Daí a idéia de que a <pontuação> é uma maneira de intervir no desenrolar de uma sessão de análise, cortando-a, interrompendo-a com uma produção significativa: uma interpretação verdadeira.” Blábláblá…

Esse debate sobre a <primazia do significante> e sua possível desconstrução por uma leitura derridiana veio a ser o ponto de partida, nos EUA, de uma vasta polêmica sobre o estruturalismo, o lacanismo e o pós-estruturalismo.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Edgar Allan Poe, “La Lettre volée”, in: Histoires, Paris, Gallimard, col. “Pléiade”, 1940, 45-64.

sonho diurno (daydream)

Ver verbete FANTASIA.

enredo(fachada) imaginado(a) no estado de vigília”

Em relação às lembranças de infância a que se referem, estão um pouco na mesma relação daqueles palácios barrocos de Roma com as ruínas antigas: pedra e colunas serviram de material para construir formas modernas. No sonho diurno a elaboração secundária desempenha um papel predominante, garantindo aos enredos uma coerência maior do que aos do sonho.”

Spielrein, Sabina

Depois da publicação, em 80, por Aldo Carotenuto & Carlo Trombetta, de um trabalho sobre Sabina Spielrein, acompanhado de sua correspondência com Freud e Jung, de seu diário e vários de seus textos, essa psicanalista russa, esquecida pela historiografia, foi objeto de muitos estudos. Tornando-se um personagem romanesco, adquiriu uma celebridade tão grande quanto a de Pappenheim ou de I. Bauer. Deve-se dizer que sua história é singular e reveladora de todos os móbeis transferenciais do movimento psicanalítico.

Ao mesmo tempo paciente e estudante de psiquiatria, Sabina Spielrein participou, no começo do século, do debate sobre a esquizofrenia em torno de Bleuler. Depois, experimentou o princípio da transferência e do tratamento pelo amor, e tornou-se a testemunha privilegiada da ruptura entre Jung e Freud. Um foi seu amante e seu analista, outro seria seu mestre. Mais tarde, inventou a noção de pulsão destrutiva e sádica, da qual nasceria a pulsão de morte.[mais um plágio freudiano?] Enfim, atravessou as 2 grandes tragédias que marcaram a história do século XX: o holocausto e o stalinismo.

Jung não conseguia distinguir claramente amor e transferência, ainda mais porque tinha diante de si uma jovem de inteligência excepcional, que ele conseguira curar ao seduzi-la.”

Seu aluno e analisando mais célebre seria o psicólogo Jean Piaget (1896-1980). Seus últimos artigos conhecidos se referem à linguagem infantil, à afasia e à origem das palavras <papai> e <mamãe>.”

Em 1942, depois de muitos combates entre os Vermelhos e os alemães, os nazistas conseguiram ocupar a cidade de Rostov, onde fizeram reinar o terror. Comandos da morte executaram dezenas de milhares de habitantes e agruparam os judeus em colunas para exterminá-los. Em 27 de julho de 1942, Sabina Spielrein foi massacrada com suas 2 filhas na ravina de Viga da Serpente, em meio a cadáveres cobertos de sangue.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Jean Garrabé, Histoire de la schizophrénie, Paris, Seghers, 1992;

Victor Ivanovitch Ovtcharenko, “Le Destin de Sabina Spielrein” (1992), in: L’Évolution Psychiatrique, t. 60, janeiro-março de 1995, 115-22.

Stekel, Wilhelm

Com Max Kahane (1866-1923), Rudolf Reitler (1865-1917) e Alfred Adler, esse médico foi o quarto membro do núcleo fundador da Sociedade das Quartas-Feiras

Escritor prolixo, tinha um estilo enfático e adotou as teses freudianas sobre a sexualidade com um sectarismo que certamente remetia a seus próprios problemas neuróticos. Efetivamente, foi para tratar de sua impotência sexual e sua compulsão patológica à masturbação que consultou F.. Fez uma análise de algumas semanas, que pareceu aliviá-lo sem eliminar os seus sintomas. Obcecado pela questão do sexo sob todas suas formas, tinha, além disso, uma escuta muito intuitiva de todas as manifestações do inconsciente e um verdadeiro talento de inventor e de agitador de idéias novas.”

F. admirava a imaginação de Stekel e sua capacidade inventiva. Mas logo se sentiu exasperado por sua falta de tato e sua indecência. Em uma carta de 30/12/08 a Jung chegou a tratá-lo de <porco total>. Stekel teve que enfrentar os ataques de muitos discípulos do primeiro círculo vienense, especialmente de Tausk, que o acusou de inventar casos para justificar suas hipóteses. O boato de mitomania [mentiroso compulsivo] foi espalhado por Ernest Jones.”

Depois de Adler, Stekel foi o segundo dissidente da história da psicanálise em Viena. Na medida em que estava em jogo um caso de plágio, esse conflito também foi a repetição daquele que ocorreu entre Freud vs. Fliess.”

Em sua Autobiografia, Stekel declarou que Freud lhe roubara suas idéias:Ele usou minhas descobertas sem mencionar meu nome. Em seus escritos, nem se refere à 1ª edição do meu livro, no qual defini a angústia como uma reação do instinto de vida contra o instinto de morte. Muitos acreditam que o instinto de morte é uma das descobertas de F.!

Quero desmentir sua afirmação, tantas vezes repetida, de que me separei do sr. em conseqüência de divergências científicas. Isso causa um excelente efeito no público, mas não corresponde à verdade. São apenas e unicamente suas qualidades pessoais — o que se chama caráter e comportamento — que tornaram, aos meus amigos e a mim, qualquer colaboração com o sr. impossível”F.

Ao contrário de Adler e Jung, Stekel continuou sendo um adepto da psicanálise, ao mesmo tempo que prosseguia sua atividade literária, ora sob seu nome, ora sob o pseudônimo de Serenus. (…) foi um dos primeiros clínicos a criticar as análises intermináveis dos freudianos e a propor um modelo de tratamento psicanalítico fundado nos princípios da técnica ativa.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Wilhelm Stekel, Nervöse Angstzustände und ihre Behandlung, Viena e Berlim, Urban und Schwarzenberg, 1908, com prefácio de Freud, retomado in ESB, IX, 255-6; GW, VII, 467-8; SE, IX, 250-1;

______, Autobiography. The Life Story of a Pioneer Psychoanalyst, Emil A. Gutheil (org.), N. York, Liveright Publishing Co., 1950.

Strachey, Alix, esposa de James Strachey

Como James, permaneceu o que sempre fora na juventude: uma não-conformista. Fiel ao ideal Bloomsbury, que tanto contribuiu para o desenvolvimento da psicanálise na Inglaterra, levou assim uma vida contrária a todas as regras da BPS e não hesitou em exibir sua bissexualidade. Se James gostava de homens amando Alix ao mesmo tempo, Alix gostava de mulheres, continuando a ser a melhor companheira de James.”

Strachey, James

Tradutor da obra completa de Freud, Strachey não deveu ao acaso a realização da famosa Standard Edition (SE), mais lida no mundo inteiro, a partir dos anos 70, do que o original alemão. Para ter sucesso em semelhante empreendimento, era preciso ser capaz de assumir a obra de outro a ponto de fazê-la sua ao longo de toda uma vida. Foi através dessa exigência de humildade e graças à colaboração de sua mulher e de Anna Freud que Strachey adquiriu uma verdadeira identidade de escritor.”

Entrando para o Trinity College de Cambridge em 1905, James logo fez parte do Cenáculo dos Apóstolos que combatiam a hegemonia de Oxford na formação do <gosto inglês>, e depois da Sociedade da Meia-Noite, pequeno círculo de intelectuais, que formariam posteriormente o Grupo de Bloomsbury,¹ com Leonard Woolf, Lytton Strachey [seu irmão], Virginia Woolf (1882-1941), Dora Carrington (1893-1932), Roger Fry (1856-1934) e John Maynard Keynes (1883-1946).”

¹ Mais detalhes nos verbetes de Keynes e Woolf em https://seclusao.art.blog/2019/10/31/encyclopedia-of-homosexuality/.

As primeiras traduções, realizadas antes da guerra por Abraham Arden Brill, eram medíocres. No período entre as duas guerras, a fim de contrabalançar os Estados Unidos no seio da IPA, Jones teve a idéia de realizar a tradução da obra completa, graças ao financiamento das sociedades psicanalíticas americanas, mas colocando o empreendimento sob a égide da Grã-Bretanha, fortaleza avançada do freudismo na Europa. Assim, baseou-se no talento de Strachey e no público conquistado pelos Bloomsbury, depois da criação em 17, por Leonard e Virginia Woolf, da prestigiosa Hogarth Press.

Em setembro de 39, Marie Bonaparte se dispôs a financiar o projeto, e Jones o confiou a Strachey, com a idéia de publicar 24 volumes em 21 anos. Os primeiros foram publicados em 53 e o 23o em 66, um ano antes da morte do tradutor. O 24o saiu em 1974, depois da morte de Alix.

A Standard Edition é uma realização admirável, que nenhum tradutor no mundo conseguiu igualar. As notas e o aparato crítico são retomados em numerosas edições estrangeiras da obra freudiana.Quanto à própria tradução, nunca deixou de ser atacada.

Como todos os bons tradutores, James Strachey não foi servil ao texto original. Seu trabalho refletia suas próprias orientações, sua fantástica erudição, sua paixão pela língua inglesa e seu apego à tradição de Bloomsbury. (…) ele tendia a desprezar tudo o que ligava o texto freudiano ao romantismo alemão e à Naturphilosophie, privilegiando seu aspecto médico, científico e técnico. Na verdade, Strachey obedecia à vontade do próprio F. de transformar a psicanálise em uma ciência”

Strachey contribuiu para acentuar o processo irreversível de anglofonização da doutrina freudiana, processo ligado à situação política: o nazismo e, mais ainda, o Tratado de Versalhes, foram responsáveis pela migração para a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da totalidade dos psicanalistas de língua alemã. Quanto aos russos e aos húngaros, estes já estavam germanizados por razões políticas por volta dos anos 20, e todos se tornaram anglófonos a partir de 33. Por conseguinte, é difícil acusar Strachey de ser o único responsável por essa evolução.”

Como muitos autores, Bruno Bettelheim [acerbo crítico de Strachey e da IPA] confundiu a problemática da tradução com questões políticas e ideológicas. Também cedia, além disso, à idéia muito discutível segundo a qual uma tradução pode ser a transcrição fiel da alma ou do espírito de um povo ou uma nação.”

BIBLIOGRAFIA “MAIS OU MENOS” SUGERIDA:

Bruno Bettelheim, Freud e a alma humana (N. York, 1982), S. Paulo, Cultrix, 1984.

suicídio (Selbstmord)

Termo cunhado a partir do latim sui (si) e caedes (matança), introduzido na língua inglesa em 1636 e na língua francesa em 1734, para expressar o ato de matar a si mesmo, no sentido de uma doença ou uma patologia, em oposição à antiga formulação <morte voluntária>, sinônima de crime contra si mesmo.

Se, a partir de meados do século XVII, a palavra suicídio substituiu progressivamente as outras denominações empregadas para designar a morte voluntária, foi preciso esperar pela segunda metade do século XIX para que esse ato, considerado heróico nas sociedades antigas ou no Japão feudal, fosse visto como uma patologia. Sob esse aspecto, o destino do suicídio nas sociedades ocidentais é comparável ao da homossexualidade, da loucura ou da melancolia. Rejeitado pelo cristianismo como um pecado, um crime contra si mesmo e contra Deus, ou então, como uma possessão demoníaca, o suicídio escapou à condenação moral no fim do século XIX, transformando-se em sintoma não de uma necessidade ética, de uma revolta ou de uma dor de viver, mas de uma doença social ou psicológica, estudada com a objetividade de um olhar científico.

O instigador dessa ruptura foi Durkheim. Opondo-se aos adeptos da teoria da hereditariedade-degenerescência, ele demonstrou, em seu magistral estudo de 1897, que o suicídio é um fenômeno social que não depende da <raça>, nem da psicologia, nem da hereditariedade, nem da insanidade nem da degenerescência moral.

Entretanto, a comparação termina aí. Com efeito, a abordagem sociológica de Durkheim não dá conta de uma dimensão essencial do suicídio, presente em todas as formas de morte voluntária: o desejo de morte, isto é, o aspecto psíquico do ato suicida. Por isso é que o livro de Durkheim não se aplica aos grandes casos de suicídio narrados pela literatura, como o de Emma Bovary. Perfeitamente integrado em seu meio, à primeira vista, essa personagem de mulher constitui um exemplo contrário à análise durkheimiana. Para compô-lo, Flaubert entregou-se a uma pesquisa tão dedicada quanto a do sociólogo.” Ora, nada de que uma classificação tripartite bem científica não cuide, rsrs!

Na sociedade vienense do início do século, eram numerosos os suicídios entre os intelectuais, particularmente entre os judeus, para quem a morte voluntária era uma maneira de acabar com uma judeidade vivenciada à maneira do <ódio de si mesmo>.”

A escolha de uma forma de suicídio revela o simbolismo sexual mais primitivo; o homem se mata com um revólver, ou seja, joga com seu pênis, ou então se enforca, isto é, transforma-se em algo que pende em todo o seu comprimento. A mulher conhece 3 maneiras de se suicidar: saltar de uma janela, atirar-se na água ou se envenenar. Pular da janela significa dar à luz, atirar-se na água significa trazer ao mundo, e se envenenar significa a gravidez. […] Assim, mesmo ao morrer a mulher cumpre sua função sexual.” F.

Freud e seus discípulos não chegaram propriamente a inovar nessa matéria. E o suicídio foi mais bem-compreendido pelos escritores e filósofos, suicidas ou não, do que pelos psicanalistas ou sociólogos.Isso decorre, em especial, do incômodo que o movimento psicanalítico sempre experimentou diante dos suicídios de alguns membros da comunidade freudiana: Viktor Tausk, Herbert Silberer, Tatiana Rosenthal, Clara Happel e Eugénie Sokolnicka.”

Em outras palavras, a psicanálise foi forçada a cuidar de pacientes suicidas considerados depressivos. Daí a freqüência com que teve de confessar sua impotência para curá-los. Com efeito, sabemos que, quando um sujeito realmente quer tirar a própria vida, nenhuma terapia consegue impedir que o faça. Entretanto,

numerosos depoimentos mostram que essa questão é mais complexa e que a análise permitiu que alguns melancólicos evitassem o suicídio.”

Ernest Jones escreveu relatos de suicídios a dois, enquanto Georges Devereux contou a história de Cleômenes, rei de Esparta, cujo suicídio foi, acima de tudo, um ato de loucura: em vez de simplesmente se matar, ele se submeteu à tortura, rasgando com sua arma seu corpo e suas entranhas.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Maurice Pinguet, La Mort volontaire au Japon, Paris, Gallimard, 1984;

Christian Baudelot & Roger Establet, Durkheim et le suicide, Paris, PUF, 1984;

Michel Braud, La Tentation du suicide dans les écrits autobiographiques, Paris, PUF, 1992;

Georges Minois, Histoire du suicide, Paris, Fayard, 1995;

Georges Devereux, Cléomène, le roi fou, Paris, Aubier, 1995.

supervisão

A supervisão refere-se, de um lado, à análise que o supervisor faz da contratransferência do supervisionando para seu paciente, e de outro, à maneira como se desenrola a análise do paciente.”

PAVLOV ATACA: “Note-se que o termo inglês control, tal como os termos francês e alemão, coloca a ênfase na idéia de dirigir e dominar, ao passo que a palavra supervision remete a uma atitude não-diretiva, inspirada nos métodos da terapia de grupo.”

Todas as correntes do freudismo (annafreudismo, kleinismo, lacanismo, Ego Psychology, Self Psychology) admitem como norma a necessidade de o futuro psicanalista complementar sua análise didática através de pelo menos uma supervisão, em geral conduzida por outro psicanalista que não o didata.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Sigmund Freud, “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades” (1919)

Tausk, Victor/Viktor

Todo aquele que se apaixonaria pelas mesmas mulheres que eu merece minha detida consideração: “Certamente, foi Lou Andreas-Salomé, que foi sua amante, quem fez o retrato mais impressionante de Viktor (ou Victor) Tausk, em seu Diário de um ano. Ela percebeu nele a presença de uma força primitiva, o <animal de rapina>, como dizia F., e era sensível à maneira como ele se obrigava a pensar <analiticamente>: Desde o início, senti em Tausk essa luta da criatura humana, e era isso que me tocava mais profundamente. Animal, meu irmão, você.

Suas múltiplas ligações amorosas terminavam muitas vezes em rupturas violentas, o que o tornava cada vez mais infeliz. Assim, quando a crise econômica o atingiu em cheio, viu-se num impasse. Pediu então a F. que o analisasse. Este recusou-se categoricamente. Entretanto, diante da obstinação e do sofrimento do discípulo, F. armou uma dessas confusões transferenciais, que tinha o hábito de fazer nessa época: em janeiro de 1919, enviou Tausk, para ser analisado, a Helene Deutsch, que estava, ela mesma, em tratamento com Freud. Pensava que poderia assim, supervisionar, através de Helene, o desenrolar da análise de Tausk.O caso terminou em desastre. Tausk usou a maioria de suas sessões para despejar agressões contra F., sabendo perfeitamente que Helene Deutsche relataria tudo a este.Em março de 1919, a conselho de F., ela interrompeu o tratamento no momento em que Tausk estava a ponto de se casar comHilde Loewi, uma de suas ex-pacientes, que estava grávida dele. Três meses depois, em 3 de julho, Tausk se suicidou”

Como acontecia freqüentemente, a comunidade psicanalítica assumiu os filhos de seu infeliz companheiro. Desejando pagar as dívidas do pai, Marius Tausk dirigiu-se a Freud, que lhe respondeu que não tinha nenhuma lembrança da soma emprestada e que isso não tinha a menor importância.”

Em 69, Paul Roazen trouxe à tona essa terrível história em um livro contestável,¹ que fazia de Tausk a vítima de um complô transferencial, inteiramente fabricado por Freud.Dois anos depois, em Talent and Genius, e depois em 83 em outra obra, Kurt Eissler lhe respondeu, glorificando a bondade de Freud e apresentando Tausk como um personagem odioso, sádico, exibicionista e sobretudo inteiramente <responsável> por seu suicídio.Foi Marius Tausk quem soube achar os melhores termos para falar de seu pai e restabelecer a verdade.”

¹ Fonte: psicose roudinesqueana

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Victor Tausk, Oeuvres psychanalytiques, Paris, Payot, 1975;

Paul Roazen, Irmão animal (N. York, 1969), Rio de Janeiro, Imago, 1995;

Eissler, Le Suicide de Victor Tausk. Avec les commentaires du professeur Marius Tausk (N.

York, 1983) Paris, PUF, 1988.

técnica psicanalítica

A duração das sessões, a duração da própria análise, o número de sessões por semana, o modo de intervenção (ativo ou passivo) do analista, a posição do analisando (deitado ou frente a frente), todas essas questões foram objeto de múltiplos debates, que sempre conduziram à definição de novas maneiras de conduzir as análises conforme se estivesse lidando com crianças, com neuróticos ou psicóticos e com psicanalistas em formação, ou conforme se pertencesse a uma das grandes correntes do freudismo ou não.” “Em pouco tempo, entretanto, foi preciso perder as ilusões: como todos os métodos terapêuticos, como toda a medicina, a psicanálise não conseguiu definir os cânones do tratamento perfeito. Houve fracassos, falhas e desastres provocados pela rotina, pela lentidão e pela esclerose da escuta. Daí a idéia de refletir sobre uma nova temporalidade da análise e, por conseguinte, de organizar de outra maneira sua duração. Foi assim que nasceu a noção de <pressa terapêutica>, que marcaria o conjunto das inovações técnicas do freudismo durante cem anos: A tentação seria dupla, escreveu Jean-Baptiste Fagès, encurtar o tratamento e precipitá-lo, a fim de obter uma eficácia tangível.

O primeiro a contestar o caráter interminável da análise freudiana e a empregar um método chamado de <ativo> foi Stekel. Ele propôs limitar as análises a 50 a 150 sessões, ao ritmo de 3 a 6 por semana. Depois dele, foi Ferenczi, o mais brilhante clínico de toda a história da psicanálise, quem inventou, em 19, o princípio da <técnica ativa>, segundo o qual, em vez de se limitar a interpretações, o analista deveria intervir durante as sessões através de ordens e proibições. Mais tarde, Ferenczi levaria esse ativismo ao extremo de permitir que alguns pacientes o abraçassem ou beijassem a fim de instaurar uma identificação com um genitor amoroso que houvesse faltado durante a infância.Em 1932, ele foi ainda mais longe, com a idéia da análise mútua, segundo a qual o terapeuta podia inverter os papéis: ir à casa do paciente, em vez de fazê-lo vir a seu consultório; deixar que ele conduzisse a análise conforme sua vontade, ou, ainda, concordar em se deitar no divã em lugar dele, ou em lhe pagar honorários. [!!!]Em suma, tratava-se de instaurar uma reciprocidade maternalizadora, a fim de obter resultados cada vez melhores. Freud denunciou o furor sanandi (loucura de curar) de seu discípulo predileto.” “Em seguida vieram as inovações de Reich, Franz Alexander e da Escola de Chicago, e por último, de Balint, amplamente inspiradas na filiação ferencziana.”

Entre os sucessores de Freud que eram adeptos da <pressa terapêutica>, Lacan foi o único a empregar uma inovação técnica que consistiu em abreviar a duração das sessões em vez da duração da análise. Ele invocou a necessidade de pontuar o discurso do analisando a partir do enunciado de um significante. Essa inovação levou a corrente lacaniana a um alongamento considerável da duração das análisese terminou, para o próprio Lacan, num desafio faustiano: a dissociação radical do tempo da sessão.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Ferenczi & Rank, “Contra-indicações da técnica ativa”, in: Psicanálise III, Obras completas, 1919-1926 (Paris, 1974), S. Paulo, Martins Fontes, 1993, 365-76.

tradução (das obras de Sigmund Freud)

Foram traduzidas na íntegra para o francês, em ¾ para o russo e o sueco, e em metade para o romeno, o dinamarquês e o norueguês.” Só?

o estabelecimento sistemático de uma obra integral, organizada de maneira coerente e na ordem cronológica, só foi efetuado para quatro línguas — inglês, espanhol, italiano e japonês —, sem que essas diferentes Obras completas incluam os 22 artigos de Freud chamados de <pré-analíticos> (sobre a cocaína, as enguias, a sífilis, etc.), publicados entre 1877-86, e sem que incluam seu primeiro livro, datado de 1891 e intitulado Contribuição para uma concepção das afasias.”

Foi José Ortega y Gasset quem esteve na origem da primeira tradução de uma edição integral da obra freudiana, antes mesmo que ela estivesse terminada. Em 1921, ele confiou sua realização a Luis Lopez Ballesteros e recebeu prontamente a aprovação de Freud: 17 volumes foram lançados até 1934.” “A guerra civil, e sobretudo a vitória do franquismo, impuseram uma suspensão a qualquer forma de implantação da psicanálise naquele país, e foi na Argentina que teve prosseguimento o trabalho iniciado por Ortega y Gasset.”

É a James Strachey que devemos a mais bela tradução crítica integral, coerente e unificada: a Standard Edition. Sua principal falha reside no apagamento do estilo literário de Freud em prol de um vocabulário técnico e científico. Os conceitos foram latinizados: ego (eu), superego (supereu), id (isso), parapraxia (ato falho) e cathexis (investimento). Alguns erros flagrantes e já conhecidos foram cometidos: pulsão (Trieb) foi traduzida por instinct, recalque (Verdrängung), por repression (repressão), etc.”

foi em Londres, durante a II Guerra Mundial, que se produziu a nova versão da obra completa de Freud em alemão. Ela continua a ser utilizada no fim do século XX: Hoje em dia, 45 anos depois do fim da guerra, sublinhou Ilse Grubrich-Simitis em 1991, é difícil imaginar a que ponto o regime nazista conseguiu fazer desaparecer do mercado livreiro alemão os textos de F. e banir da consciência coletiva o universo conceitual que sua esplêndida prosa havia revelado.“Ilse Grubrich-Simitis desejava, justificadamente, incluir os artigos pré-analíticos e a correspondência, mas os herdeiros (Ernst Freud e Anna) não consentiram, sob o pretexto de que F. não havia prezado seus trabalhos neurológicos nem seu talento de missivista. [baboseira!] Foi assim que não se produziu na Alemanha nenhuma edição crítica completa. No fim do século XX, existem em língua alemã apenas uma edição crítica de textos seletos, os Studienausgabe, e uma edição integral, mas não crítica: os Gesammelte Werke, enriquecidos por um índice geral e um volume de suplementos (Nachtragsband), que contém um aparato crítico.”

as Obras completas publicadas no Brasil entre 1970 e 1977 foram diretamente traduzidas do inglês, isto é, da Standard. Daí um certo número de divagações lingüísticas: A versão brasileira de Freud, escreveu Marilene Carone, é inteiramente carregada de termos extravagantes, cuja escolha só se explica por sua proximidade do som dos termos correspondentes em inglês; embora figurem no dicionário, esses termos soam artificiais a nossos ouvidos. É o caso, por exemplo, da substituição de relações recíprocas por relações mútuas (mutual relationships), de posse por possessão (possession), ou de absurdo por absurdidade (absurdity).”

A situação da França (e, por extensão, dos países francófonos) é única no mundo. As obras de Freud (livros e artigos) encontram-se disponíveis na íntegra e em diversas versões, mas os 8 (dos 20) volumes das Oeuvres complètes (OC), produzidos em 1980 por uma equipe de cerca de 15 pessoas, sob a direção de Laplanche, Pierre Cotet, André Bourguignon e François Robert, têm como grande inconveniente, apesar da boa vontade e da competência da equipe, o fato de serem muito pouco legíveis em francês. Isso decorre, ao mesmo tempo, da história particularíssima da França freudiana e do lugar soberano conferido ao estatuto da língua nesse país. Na França, as iniciativas de tradução são quase sempre fruto de batalhas conceituais e brigas de escola referentes à arte e à maneira de traduzir. Os primeiros tradutores de F., Samuel Jankélévitch, Ignace Meyerson (1888-1983), Blanche Reverchon-Jouve (1897-1974), Paul Jury e, acima de tudo, Marie Bonaparte, despenderam muita energia e talento, mas não tiveram a menor preocupação de unificar os conceitos.Assim, os termos freudianos foram traduzidos de maneira diferente conforme os autores. Por seu lado, Édouard Pichon criou, no seio da SPP, uma Comissão para a Unificação do Vocabulário Psicanalítico Francês, que se reuniu 4 vezes, entre maio de 1927 e julho de 1928. Seu objetivo era livrar a psicanálise de seu pretenso caráter germânico (Kultur), passando-a pelo filtro da civilização francesa. Sem ser chauvinista e sem adotar a tese do genius loci, que fazia do freudismo a expressão de um pansexualismo germânico, Pichon considerava que a diferença das mentalidades devia traduzir-se na língua. Assim, inventou toda uma terminologia: amância [aimance] para libido, actorium para Ich (eu), pulsorium para Es (isso), etc. Por fim, introduziu o pronome neutro (ça (isso)) para traduzir o conceito alemão. Daí esta situação paradoxal no seio da SPP: Pichon pensava uma verdadeira conceituação e não traduzia nenhum texto, enquanto Marie Bonaparte traduzia textos sem propor qualquer reflexão conceitual.” “Instalado na editora Gallimard, Pontalis, ele mesmo um excelente tradutor, renunciou a publicar as obras completas, mas mandou retraduzir, traduzir ou revisar um grande número de textos de Freud, que foram publicados em sua coleção Connaissance de l’Inconscient: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Moisés e o monoteísmo, A questão da análise leiga, etc. Todas essas traduções são notáveis, tendo sido feitas em geral por bons profissionais, conhecedores do alemão, da conceituação freudiana e da língua francesa. Editadas na PUF por Bourguignon, Laplanche e Cotet, as Oeuvres complètes (OC) estão longe de ter a qualidade dos textos da Gallimard. Em completa contradição com o Vocabulário da psicanálise (do qual Laplanche foi co-autor), elas são fruto de um trabalho de equipe, o que tende a desumanizar o manejo das palavras e da escrita em prol de uma espécie de anonimato do léxico. Além disso, os responsáveis adotaram uma ideologia inversa à de Pichon, que consiste em retranscrever a pretensa germanidade original do texto freudiano. Por isso eles se deram o título de <freudólogos>, convencidos de que a língua freudiana não é o alemão, mas o <freudiano>, i.e., uma <língua freudiana>, um <dialeto do alemão que não é o alemão>, e sim uma língua <inventada> por Freud (no sentido em que os espíritas falavam da <língua marciana> no início do século). Essa teoria os conduziu a algumas aberrações e, acima de tudo, a inventarem, eles próprios, uma língua imaginária que não é mais o francês, e sim um idioma de freudólogos que supostamente representa essa <língua freudiana>. Daí a eliminação de alguns termos que se haviam imposto no vocabulário francês há 50 anos, mas que foram agora substituídos: souhait [anseio] para traduzir Wunsch, em lugar de désir [desejo], fantaisie para Phantasie, em vez de fantasme [fantasia], trait d’esprit [tirada espirituosa, rasgo espirituoso] para Witz, em lugar de mot d’esprit [chiste], négation [negação] para Verneinung, em vez de dénégation [denegação], souvenir-couverture [lembrança cobertura] em vez de souvenir-écran [lembrança encobridora], e mise à mort du père [execução/assassinato do pai] em vez de parricide [parricídio].A nova equipe também suprimiu lapsus [lapso de linguagem] (Versprechen) em favor de défaillance [falha], a pretexto de que Freud não utiliza aquele termo; e, por último, reativou ou fabricou alguns neologismos: désirance [desejança] (em vez de désir, desejo), animique [o anímico] (em vez de âme, a alma), frustrané (em vez de vain, futile [vão, fútil]), désaide [desassistência] (em vez de détresse, desamparo), retirement [retirada, afastamento] (em vez de retrait, retraimento), vicarier [vicariar] (em lugar de remplacer, substituir), refusement [recusamento] (em vez de frustration, frustração), surmontement [superamento] (como ato de surmonter, dépasser [superar, ultrapassar]), ou ainda os termos rétrofantasier, fantasie e fantasier, referidos a todas as atividades ligadas à fantasia.

BIBLIOGRAGIA SUGERIDA:

Antoine Berman, L’Épreuve de l’étranger. Culture et traduction dans l’Allemagne romantique, Paris, Gallimard, 1984;

Emmet Wilson, Did Strachey Invent Freud?, International Revue of Psycho-Analysis, 14, 1987, 299-315;

Marilene Carone, Freud em portugais, ibid., 361-9;

Irina Manson, Comment dit-on psychanalyse en russe?, ibid., 407-27.

transexualismo

Na mitologia grega, 3 personagens dão conta desse fenômeno: Cibele, Átis e Hermafrodito. Grande deusa-mãe da Frígia, Cibele era cultuada em todo o mundo antigo, a ponto de ser confundida com Deméter, a mãe de todos os deuses. Seu amante, Átis, era ao mesmo tempo seu filho e guardião de seu templo. Quando quis se casar, ela o fez enlouquecer: Átis então se castrou e se matou. Essa lenda explica por que os sacerdotes da deusa eram eunucos. Foi em homenagem ao ato de Átis que os adeptos do culto dessa deusa-mãe adquiriram o hábito de se mutilar, em meio à embriaguez e ao êxtase, durante os festejos ritualísticos. Quanto a Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite, foi amado por uma ninfa que rogou aos deuses que os unissem num só corpo. O rapaz foi assim dotado de um pênis e dois seios.”

Herculine Barbin foi chamada de Alexina por seus pais e criada num convento de moças, embora se sentisse um menino e seu sexo fosse ao mesmo tempo masculino e feminino (um pênis pequeno, uma uretra com uma fenda e lábios). Depois de conseguir que seu estado civil fosse transformado por um tribunal, não conseguiu suportar o novo estado e se suicidou, usando um aquecedor a carvão.”

Se o travestismo (ou eonismo), muito bem descrito por Havelock Ellis e pelos representantes da sexologia, é um disfarce que pode conduzir a uma perversão ou a um fetichismo, e se o hermafroditismo é um acidente das gônadas cujo tratamento depende de cirurgia, somente o transexualismo leva o sujeito não apenas a mudar de estado civil, mas também a transformar, através de uma intervenção cirúrgica, seu órgão sexual normal num órgão artificial do sexo oposto.Assim, o transexual masculino tem a convicção de ser uma mulher, embora, anatomicamente, seja um homem normal. Do mesmo modo, a mulher transexual está convencida de ser homem, muito embora seja mulher em termos anatômicos.”

Quem tem opiniões demais sem estudo sobre o tema: nunca vi burros tão oniscientes!

O médico Harry Benjamin criou o termo e propôs, para aliviar o sofrimento moral dos pacientes, um tratamento hormonal e uma experiência de vida social, durante um prazo mínimo de 6 meses, nos moldes do sexo desejado. Somente na última etapa é que ele considerava a cirurgia, caso o desejo de mudança de sexo persistisse. Depois de Benjamin, o psicanalista Robert Stoller foi o primeiro, em seu livro Sex and Gender, publicado em 1968 e traduzido para o francês sob o título de Recherches sur l’identité sexuelle, a propor uma classificação e um estudo sistemático desse distúrbio, revisando a teoria freudiana da sexualidade infantil e da diferença sexual. De início, fez uma distinção radical entre o transexualismo, o travestismo, a homossexualidade e o hermafroditismo. Depois, simultaneamente marcado pela Self Psychology e pelo kleinismo, fez do transexualismo um distúrbio da identidade (e não da sexualidade), diferente nos homens e nas mulheres, e ligado à relação particular e sempre idêntica da criança com a mãe. Daí a idéia de diferenciar o gênero (gender), como sentimento social de identidade (masculina ou feminina), do sexo, como organização anatômica masculina ou feminina.(No transexualismo, a dissimetria entre os dois é radical.) A palavra gender seria posteriormente retomada, nos EUA, em inúmeros trabalhos históricos e literários.

A partir do estudo de numerosos casos, Stoller traçou o retrato típico e quase estrutural da <mãe do transexual>: uma mulher depressiva, passiva, bissexual ou sexualmente neutra, ou então sem um interesse verdadeiro pela sexualidade nem um apego particular pelo pai da criança.Essa mãe busca uma simbiose perfeita com o filho, que lhe serve ao mesmo tempo de objeto transicional [ursinho de pelúcia] e de substituto fálico.Quanto ao pai, é sempre ausente, mas sua atitude difere conforme o filho seja menino ou menina. Tanto ele se mostra indiferente à mudança de trajes exibida pelo filho, quando este se veste de mulher, quanto favorece as atividades masculinas da filha, encontrando nela um cúmplice para sua solidão.Às vezes, quando tem dois filhos de sexos opostos, incita o menino a se feminizar e a menina a se masculinizar.Para Stoller, o transexualismo masculino, de longe o mais freqüente e paradigmático, aproxima-se da psicose.”

O tratamento psicanalítico em si só é possível na infância, em caráter preventivo, ou depois da intervenção cirúrgica: permite então ao paciente enfrentar a tarefa nunca resolvida de sua identidade impossível. Isso porque o mais surpreendente é que o transexual varão, apesar de suas alegações, suas denegações e suas renegações, nunca fica satisfeito com a mudança de sexo, ainda que lhe seja impossível renunciar a ela.” Porque passa a ser do sexo inferior socialmente.

Num livro rancoroso, a feminista norte-americana Janice Raymond acusou os homens de pretenderem, através desse meio, sujeitar ainda mais as mulheres, roubando-lhes seu sexo, sua identidade e sua anatomia.”

Numa perspectiva lacaniana, Catherine Millot deu o nome de horsexe (extra-sexo) [sexo cavalo, hehe] ao transexualismo, mostrando que, na mulher, o desejo de ser amada como <um> homem é mais decorrente de um processo histérico, ao passo que, no homem, a vontade de erradicação do órgão peniano consiste numa identificação psicótica com A Mulher, isto é, com uma totalidade impossível. Essa tese confirmou o que todos os casos observados já haviam mostrado, em especial nas histórias de incesto: o distúrbio da identidade sexual é simultaneamente mais freqüente e mais psicotizante no homem do que na mulher, na medida em que a simbiose original se deu com uma pessoa do sexo oposto: a mãe.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Janice Raymond, L’Empire transsexuel (N. York, 1979), Paris, Seuil, 1981; (manifesto feminazi)

Élisabeth Badinter, XY: sobre a identidade masculina (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994, 2ªed.

transferência

Historicamente, a noção de transferência assumiu toda a sua significação com o abandono da hipnose, da sugestão e da catarse” “Um século depois do nascimento da psicanálise, o conceito de transferência ainda é objeto de um debate contraditório”

Ao se recusar a ser objeto do arroubo amoroso de sua paciente, F. opôs uma resistência que, em contrapartida, desencadeou uma transferência negativa por parte dela. Alguns anos depois, ele qualificaria esse fenômeno de contratransferência.” “Em 1912, em A dinâmica da transferência, primeiro texto exclusivamente dedicado a essa questão, ele distinguiu a transferência positiva, feita de ternura e amor, da transferência negativa, vetor de sentimentos hostis e agressivos. A estas se acrescentariam transferências mistas, que reproduzem os sentimentos ambivalentes da criança em relação aos pais.”

amor transferencial”: quando a paciente se apaixona pelo analista (parece ser muito mais comum que o paciente pela analista ou situações de mesmo sexo), é impreterível que o psicanalista não ceda, e recuse reciprocidade a esta paixão transferencial. O analista deve procurar a gênese desse sentimento, um outro objeto mais profundo e remoto.

Para Klein, a transferência já representa o fim do tratamento, se bem conduzida: “Durante anos, e, em certa medida, ainda hoje, tem-se compreendido a transferência em termos de uma referência direta ao analista. Minha concepção de uma transferência enraizada nas fases mais precoces do desenvolvimento e nas camadas profundas do inconsciente é muito mais ampla, acarretando uma técnica mediante a qual se deduzem da totalidade do material apresentado os elementos inconscientes da transferência. Por exemplo, os ditos dos pacientes sobre sua vida cotidiana, seus relacionamentos e suas atividades não fazem compreender unicamente o funcionamento do eu; revelam também, se explorarmos seu conteúdo inconsciente, as defesas contra as angústias despertadas na situação de transferência.” “Para os kleinianos, todo ato (gesto ou palavra) que se produz no tratamento deve ser interpretado como a própria essência de uma manifestação contratransferencial, sem ser relacionado com uma realidade externa. Daí a criação do termo acting in, ao lado de acting out. Se um paciente esfregar a mão no divã, se tiver dor de cabeça, isso não será escutado somente em função da possível realidade somática de sua irritação cutânea ou de sua enxaqueca, mas relacionado, em primeiro lugar, através de uma interpretação, com o universo fantasístico do analista, persuadido de haver <induzido> inadvertidamente esse ato.”V.H. me induzia o silêncio e o sono. Bem mórbido!

Essa concepção kleiniana e pós-kleiniana da transferência, que consiste em fazer pender para o lado do analista uma modalidade da relação de objeto que é própria da psicose, a fim de compreender melhor a natureza da transferência psicótica, aproxima-se da sugestão e da telepatia, ou, mais exatamente, como dizia Freud, da <transferência de pensamento>.”

O management (gestão, direção) winnicottiano consiste em deixar que o paciente aproveite as falhas e deficiências do analista. É particularmente eficaz no caso dos pacientes frágeis em quem a subjetividade se manifesta por um falso self.”

[Para Lacan,] transformado em psicanalista, Sócrates não escolhe a abstinência por amor à filosofia, mas por deter o poder de expressar a Alcibíades que o verdadeiro objeto do desejo deste não é ele, Sócrates, mas Agatão.” Lacan é péssimo filósofo.

Três ensaios sobre a teoria da sexualidade

Livro de Freud, publicado pela 1a vez em 1905, sob o título Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Traduzido para o francês pela 1a vez por Blanche Reverchon-Jouve, em 1923, sob o título Trois Essais sur la théorie de la sexualité, e depois, em 1987, por Philippe Koeppel, sob o título Trois Essais sur la théorie sexuelle. Traduzido para o inglês pela primeira vez em 1910, por Abraham Arden Brill e James Jackson Putnam, sob o título Three Contributions in the Sexual Theory, e depois em 1949, por James Strachey, sob o título Three Essays on the Theory of Sexuality. Retomado sem modificações em 1953.”

Foi [muito depois da publicação desta obra], entre 1910 e 1913, que o freudismo começou a ser encarado, em todas as partes do mundo, como uma <obscenidade>, uma <pornografia>, uma <coisa sexual> ou até uma <ciência boche>.”

F. nunca reescreveu, corrigiu e retificou tanto um livro quanto fez com este, a ponto de não mais sabermos distinguir o original de suas versões sucessivas. Entre 1905 e 1920, houve 4 edições dos Três ensaios, havendo Freud introduzido em cada uma delas modificações consideráveis à medida que ia aperfeiçoando sua teoria da libido em função da evolução geral de sua própria doutrina, organizando o dualismo pulsional e desenvolvendo sua concepção do narcisismo.

O escândalo dos Três ensaios reside no abandono da concepção sexológica da sexualidade (com sua infindável descrição de anomalias e aberrações) em favor de uma abordagem psíquica do sexual. Foi sua maneira de <sexualizar> a totalidade da vida individual e coletiva que provocou a perturbação e a acusação de pansexualismo. Ao arrancar a libido sexualis do gozo dos médicos, Freud fez dela o determinante fundamental do psiquismo humano. Mas também a devolveu ao próprio homem (doente, paciente, criança). Daí o emprego do termo <teoria sexual> (Sexualtheorie) para designar, ao mesmo tempo, as hipóteses do cientista e as <teorias> inventadas pelas crianças, ou mesmo pelos adultos, para resolver o enigma da copulação, do nascimento e da diferença sexual.”

A obra é dividida em 3 partes. Na primeira, dedicada às aberrações sexuais, F. introduz pela 1a vez a palavra pulsão, a fim de descrever os <desvios em relação ao objeto sexual>, entre os quais inclui a <inversão> [homossexualidade] e os <imaturos sexuais e animais tomados como objetos sexuais> [pedofilia e zoofilia].”

A rejeição das palavras eruditas, derivadas do latim e do grego, reveste-se em sua pena de uma significação precisa: para Freud, trata-se de mostrar que essas <aberrações>, por mais diferentes que sejam umas das outras, não podem de maneira alguma ser vistas como a expressão de uma degenerescência, a homossexualidade menos ainda que as outras.”

EX-PERVERTIDO, ATUAL HOMEM (UBIQÜIDADE DA NEUROSE): “Após uma intensa atividade sexual perversa na infância, freqüentemente se produz uma reviravolta, e a neurose substitui a perversão segundo o provérbio: <Moça dissoluta, velha beata.>

PEDO&ZOO: “Essas duas aberrações não estão ligadas, a seu ver, a uma doença mental, mas a um estado infantil da própria sexualidade. Daí o fato de os pedófilos e os zoófilos aparecerem como indivíduos covardes, mas perfeitamente adaptados à vida social burguesa ou camponesa.”

A segunda parte do livro, a mais essencial, consiste numa exposição, a um tempo simples e divertida, das variações da sexualidade infantil. Verdadeira matriz da teoria da libido, essa dissertação magistral, à qual seriam acrescentadas diversas passagens, serve também para a elucidação do complexo de castração, da idéia de inveja do pênis e, por último, da gênese da noção de estágio (oral, anal, fálico e genital) retirada da biologia evolucionista. O componente central da organização da sexualidade infantil continua a ser o que F. denomina de <disposição perverso-polimorfa>.” “Antes dos 4 anos, a criança é um ser de gozo, cruel, inteligente e bárbaro, que se entrega a toda sorte de experiências sexuais, às quais renunciará ao se transformar num adulto.”

O terceiro ensaio é dedicado a um estudo da puberdade e, portanto, da passagem da sexualidade infantil para a sexualidade adulta, através do complexo de Édipo e da instauração de uma escolha de objeto fundamentada

Com esse livro fundamental, Freud abriu caminho para o desenvolvimento da psicanálise de crianças e para a reflexão sobre a educação sexual: insistiu, p. ex., em que os adultos nunca mentissem para as crianças no que concerne à origem delas e em que a sociedade se mostrasse tolerante para com a sexualidade em geral.”

Viena

O historiador Schorske constatou que, na sociedade vienense dos anos 1880, o liberalismo era uma promessa sem futuro, que afastava o povo do poder e o abandonava aos demagogos anti-semitas. Diante do niilismo social e da explosão de ódio, os filhos da burguesia rejeitavam as ilusões de seus pais e expressavam outras aspirações: fascínio pela morte e pela intemporalidade, sonho de uma terra prometida (Estado judeu), desconstrução do eu, suicídio, negação ou conversão, invenção de novas formas literárias”

Depois da destruição por Tito do povo de Jerusalém, o rabino Hochanaan ben Sakkai pediu a Javé autorização para abrir uma escola dedicada ao estudo da Torá. Vamos fazer o mesmo. Pela nossa história, nossas tradições, estamos habituados a ser perseguidos.” F.

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Schorske, Viena fin-de-siècle, 1981.

Weininger, Otto

Poliglota e aluno brilhante, mas taciturno e melancólico, o jovem Otto admirava August Strindberg e adotara as teses anti-semitas de Houston Stewart Chamberlain (1855-1927), genro de Richard Wagner e teórico da superioridade da <raça alemã>. Em 1902, por ódio a sua judeidade, converteu-se ao protestantismo e, um ano depois, publicou sua única obra, Sexo e caráter, verdadeiro manifesto da bissexualidade e do ódio às mulheres e aos judeus.Em outubro do mesmo ano, preparou seu suicídio. Alugou um quarto na antiga casa de Ludwig van Beethoven, e ali deu um tiro no coração. Traduzido em 10 línguas, seu livro foi um fantástico best-seller e teve 28 reimpressões até 1947 [mais de uma a cada 2 anos!], antes de cair no esquecimento.”

Winnicott

Dotado de um excepcional gênio clínico, esse grande pediatra, considerado por seus colegas como um espírito independente, e muitas vezes comparado na França a Françoise Dolto, foi o fundador da psicanálise de crianças na Grã-Bretanha, antes da chegada a Londres de Klein. Posição paradoxal, pois em geral eram as mulheres que ocupavam esse lugar na história do freudismo. Por sua obra e suas posições no seio do Grupo dos Independentes, diante dos kleinianos, por um lado, e dos annafreudianos, por outro, deixou uma herança conceitual fundamental, embora nunca tivesse fundado escola ou corrente.”

Meu pai tinha uma fé religiosa simples. Um dia, quando lhe fiz uma pergunta que poderia nos levar a uma discussão sem fim, ele se limitou a dizer: <Leia a Bíblia que você encontrará a resposta certa.> Foi assim que ele deixou — graças a Deus — que eu me virasse sozinho.” Winnicott

O bebê não existe.

Winnicott queria dizer com isso que o lactente nunca existe por si só, mas sempre e essencialmente como parte integrante de uma relação.”

Nessa perspectiva, a good enough mother era realmente uma mãe ideal: atenta a todas as formas de diálogo e de brincar criativo, ela devia se mostrar capaz de inspirar à criança uma frustração necessária, a fim de desenvolver seu desejo e sua capacidade de individuação. Essa relação, que reduz o lugar do pai ao mínimo indispensável, aparece como exclusiva e não-erotizada.”

Dedicou a sua última obra, O brincar e realidade, aos seus pacientes que <pagaram para me ensinar>. Esse não-conformismo, essa ausência de ortodoxia nunca lhe foram realmente reprovados por seus colegas da BPS.” Fato raríssimo!

Em suas Cartas vivas, publicadas depois de sua morte, descobre-se até que ponto ele soube descrever a esclerose que atingia a BPS, à qual pertencia. Ao longo de uma rica correspondência, Winnicott se mostrou capaz de comentar os costumes e hábitos de seu país e os acontecimentos cotidianos da instituição freudiana de que era membro, e que se encontrava submetida à tirania de duas mulheres: Anna Freud e Melanie Klein. Impiedoso, ele descreveu com ferocidade os defeitos tão característicos dos grupos psicanalíticos (jargão, idolatria, etc.). Assim, em uma carta que se tornou célebre, datada de 3 de junho de 1954, denunciou a hipocrisia das duas <chefes> da escola inglesa: Considero que é de importância vital para a Sociedade que ambas destruam seus grupos em seu aspecto oficial. […] Não tenho razões para pensar que viverei mais tempo que as sras., mas ter que lidar com agrupamentos rígidos, que com a sua morte se tornariam automaticamente instituições de Estado, é uma perspectiva que me apavora.>

Independente sem ser solitário, não gostava de seitas, de discípulos, de imitadores. Foi por isso que, mostrando-se ao mesmo tempo transgressor em sua prática e rigoroso em sua doutrina, não hesitou em apoiar os rebeldes e os dissidentes — principalmente Ronald Laing, um dos artífices da antipsiquiatria.”

Wortis, Joseph

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Joseph Wortis, La Psychiatrie soviétique (Baltimore, 1950), Paris, PUF, 1953; Psychanalyse à Vienne, 1934; Notes sur mon analyse avec Freud (N. York, 1954), Paris, Denoël, 1974.

Zweig, Stefan

De seus estudos secundários no Maximilian Gymnasium, Zweig guardou apenas o tédio e a opressão que depois inspirariam sua crítica aos métodos de educação autoritários, repressores e hipócritas adotados pela burguesia vienense. Desde essa época, apaixonou-se pela música, especialmente a de Johannes Brahms, pelo teatro e pela literatura. Começou a estudar filosofia na universidade, mas freqüentava com mais assiduidade ainda os cafés, as salas de espetáculo e outros lugares de encontros intelectuais. Logo manifestou gosto pela vanguarda, assistiu aos primeiros concertos de Arnold Schönberg, tornou-se admirador de Rainer Maria Rilke e mais ainda de Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), seu modelo. Em 1901, Zweig teve seu primeiro sucesso com um livro de poemas, A corda de prata, saudado por toda a crítica de língua alemã. Logo teria a consagração, com a publicação de um dos seus textos na 1a página do prestigioso diário Neue Freie Press, com seu nome ao lado dos maiores escritores europeus do momento, dos quais muitos se tornariam seus amigos.”

Instalado numa bela casa em Salzburgo, recebeu ali praticamente todos os artistas e intelectuais da Europa. Zweig era então um escritor célebre, conhecido por sua generosidade. Entretanto, por trás desse sucesso brilhante, a fragilidade psicológica persistia.”

F., que foi apresentado a Dalí por Zweig: “Na verdade, é preciso que eu lhe agradeça por ter trazido à minha casa os visitantes de ontem. Justamente, eu estava disposto a considerar os surrealistas, que parece que me elegeram para santo padroeiro, como loucos absolutos (digamos, a 95%, como o álcool).”

Em 22 de fevereiro de 1942, quando estava instalado havia 6 meses em Petrópolis, cidade próxima do Rio de Janeiro, Stefan Zweig se suicidou com sua jovem esposa, Lotte Altmann, tomando comprimidos de veronal.”

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

Zweig, Três mestres, 1920.

* * *

FONTES PRIMORDIAIS DAS CITAÇÕES:

Laplanche & Pontalis. Vocabulário da Psicanálise. Martins Fontes (trad. Pedro Tamen, ed. Daniel Lagache), 4.ed, 2001.

Plon & Roudinesco. Dicionário de Psicanálise. Zahar (trad. Vera Ribeiro, Lucy Magalhães), 1998.

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA (“Condensação final”)

Nem todas as sugestões em vermelho nos artigos acima estão compendiadas aqui, mas procurei dar uma seleção enxugada, relevante e eclética, com temas psicanalíticos diretos (Freud em si, discípulos, psicanalistas mais recentes) e indiretos (historiografias, influenciadores da psiquiatria dinâmica, biografias e autobiografias de psicanalistas ou doentes, psicólogos e psicanalistas pós-freudianos mais ou menos divergentes da doutrina original e Lacan, que é uma entidade em si e o mais “freudiano” de todos ao mesmo tempo), bem como para- ou meta-psicanálise, isto é, livros citados nos verbetes acima que não se afiguram como referentes à psicanálise numa primeira olhada (muitos de filosofia, literatura, música e história, por exemplo). Também separei as leituras breves das mais longas e dedicadas (artigos, verbetes e teses de livros ou volumes inteiros). Marcarei de azul os textos que já pude obter.

EIXO I

Psicanálise didática” (papo sério sobre psicanálise, mas em leituras curtas)(*)

(*) não há uma ordem preestabelecida, apenas separações minimamente temáticas. 49 artigos, 1 carta, 3 teses, 1 manifesto e 1 documentário.

Jurandir Freire Costa, História da psiquiatria no Brasil, Rio de Janeiro, Documentário audiovisual, 1976.

Freud, Observações sobre o amor transferencial;

F., A dinâmica da transferência, 1912;

F., publicado post-morten por Ilse Grubrich-Simitis, Neuroses de transferência: uma síntese;

F., “O mecanismo psíquico do esquecimento”, artigo publicado, no fim do ano de 1898, na revista Monatschrift für Psychiatrie und Neurologie;

F., “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades” (1919);

F., Recordar, repetir, perlaborar.

Jacques Lacan, “Le mythe individuel du névrosé ou Poésie et vérité dans la névrose” (1953), Ornicar?, 17-18, 1979, 289-307. // O mito individual do neurótico

______, Kant com Sade

REICH, Materialismo dialético e psicanálise

Lesche, Carl,uma carta dirigida a Freud, em 10 de novembro de 1933, por Erik Carstens, publicada em 1967 em: Reich fala de Freud.

(relacionado com Jung)

Flournoy, Radical Empiriscm

Klein, “Algumas conclusões teóricas a propósito da vida emocional dos bebês”Ler esta bosta em PRIMEIRO LUGAR com referência à autora – se não me agradar, esquecer o kleinismo definitivamente!

Heimann, Paula, “On countertransference”, in:International Journal of Psychoanalysis. 31, 81-4 (1950).

source: https://psicanalisedownload.files.wordpress.com/2012/08/sobrecontratransferencia1.pdf

GRODDECK, “Le Double sexe de l’Être humain” (1931), Nouvelle Revue de Psychanalyse, 7, primavera, 1973, pp. 193-9

Jacquy Chemouni, “Psychopathologie de la démocratie”, Frénésie, 10, primavera de 1992, 265-82.

Karl Abraham, “Amenhotep IV (Echnaton). Contribution psychanalytique à l’étude de sa personnalité et du culte monothéiste d’Aton” (1912), in Oeuvres complètes, I, 1907-1914, Paris, Payot, 1965, 232-57.

Sandor Ferenczi, “O papel da homossexualidade na patogênese da paranóia”, in: Psicanálise I, Obras completas, 1908-1912 (Paris, 1968) S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 153-72.

Ferenczi & Rank, “Contra-indicações da técnica ativa”, in: Psicanálise III, Obras completas, 1919-1926 (Paris, 1974), S. Paulo, Martins Fontes, 1993, 365-76.

Harald Leupold-Löwenthal, “Le Procès de Theodor Reik”, Revue Internationale d’Histoire de la Psychanalyse, 3, 1990, 57-69.

Victor Ivanovitch Ovtcharenko, “Le Destin de Sabina Spielrein” (1992), in: L’Évolution Psychiatrique, t. 60, janeiro-março de 1995, 115-22.

Wilhelm Stekel, Nervöse Angstzustände und ihre Behandlung, Viena e Berlim, Urban und Schwarzenberg, 1908, com prefácio de Sigmund Freud, retomado in ESB, IX, 255-6; GW, VII, 467-8; SE, IX, 250-1;

Binswanger,Meu caminho para Freud // Pass Towards Freud

* * *

Bernfeld, Freud’s earliest theories and the school of Helmholtz, Psychoanalytic Quarterly, XIII, 1944, 341-62;

______. Freud’s scientific beginnings, American Imago, vol. 6, 1949, 163-96;

______. Sigmund Freud M.D., IJP, vol. 32, 1951, 204-17.

Felix Deutsch, Apostille au “Fragment d’une analyse d’hystérie (Dora)” (1957), Revue Française de Psychanalyse, XXXVII, janeiro-abril de 1973, 407-14

Bibring, The Conception of the Repetition Compulsion, 1943, in: Psychoanalytic Quarterly, XII, 486-519.

Yosef Hayim Yerushalmi, “Série Z” (1994), “Une fantaisie archiviste”, Le Débat, 92, novembro-dezembro de 1996, 141-52

Manfred Bleuler (filho do primeiro Bleuler), La Pensée bleulérienne dans la psychiatrie suisse, Nervure, VIII, novembro de 1995, 23-4.

Jacques Damourette & Édouard Pichon, “Sur la signification psychologique de la négation en français” (1928), Le Bloc-notes de la Psychanalyse, 5, 1985, 111-32;

* * *

Nigel Moore, “Psychoanalysis in Scandinavia”, 1ª parte: “Sweden and Finland”, The Scandinavian Psychoanalytic Review, 1, 1978, 9-64;

Reimer Jensen & Henning Paikin, “On psychoanalysis in Denmark”, ibid., 2, vol. 3, 1980, 103-16;

Randolf Alnaes, “The development of psychoanalysis in Norway. An historical overview”, ibid., 2, vol. 3, 1980, 55-101.

* * *

Bolk, Das Problem der Menschwerdung, 1926. Fr., in: Arguments, 1960, 18, 3-13. (artigo de Embriologia)

Marc Augé, “Ordre biologique, ordre social: la maladie, forme élémentaire de l’événement”, in: M. Augé e C. Herzlich (orgs.), Le Sens du mal. Anthropologie, histoire, sociologie de la maladie, Paris, Éd. des Archives Contemporaines, 1984.

André Haynal, “Da correspondência (com Freud) ao Diário (de Ferenczi)”, Revista Internacional da História da Psicanálise, 2 (1989), Rio de Janeiro, Imago, 1992, 153-64; “Notas sobre a história da correspondência Freud-Ferenczi”, ibid., 219-28;

Graf, “Réminiscences sur le professeur Freud” (1942), Tel Quel, 88, 1981, 52-101;

___., “Entretien du père du petit Hans (Max Graf) avec Kurt Eissler”, 16/12/1952, Le Bloc-notes de la psychanalyse, 14, 1996, 123-159;

Jean-Luc Donnet, “Surmoi. Le concept freudien et la règle fondamentale”, monografias da Revue Française de Psychanalyse, Paris, PUF, 1995.

Mélanie Arnal, Marc Oraison, l’Église et la psychanalyse (1914-1979), tese de mestrado em história, Universidade Paris I, 1993-1994.

Édith Félix-Hesnard, Le Docteur Hesnard et la naissance de la psychanalyse en France, tese de doutorado em filosofia, Universidade de Paris I, 1984.

Lagache, Fascination de la conscience par le Moi, 1957, in: La psychanalise, PUF, Paris, vol. 3, pp. 33-46 (bem como outro artigo no vol. 6 deste mesmo periódico, La psychanalyse et la structure de la personalité, 1958).

Canguillhem, O que é a psicologia?

Georges Lantéri-Laura, “Névrose et psychose: questions de sens, questions d’histoire”, Autrement, 117, outubro de 1990, 23-31.

Serge Leclaire, “À propos de l’épisode psychotique que présenta l’Homme aux Loups”, La Psychanalyse, 4, 1958, 83-111; (em italiano)

English, H.B. & English, A.C., A Comprehensive Dictionary of Psychological and Psychoanalyticla Terms, 1958 (verbetes Projection-Eccentric e Projection);

* * *

Emmet Wilson, Did Strachey Invent Freud?, International Revue of Psycho-Analysis, 14, 1987, 299-315;

Marilene Carone, Freud em portugais, ibid., 361-9;

Irina Manson, Comment dit-on psychanalyse en russe?, ibid., 407-27.

Anzieu, “Beckett et Bion”, Revue Française de Psychanalyse.

* * *

Desnos, Lettre aux médecins-chefs des asiles de fous

* * *

Georges Dumas, um dos maiores psicólogos franceses, possui uma vastidão de artigos. Aqui vai uma seleção curiosa e razoável:

« Comment on fait l’opinion dans la France envahie » (Revue de Paris) (1917)

« L’état mental d’Auguste Comte »(3 articles) (Revue philosophique de la France et de l’étranger) (1897)

« Les obsessions et la psychasthénie » (Revue philosophique de la France et de l’étranger) (1903)

« Les conditions biologiques du remords » (Revue philosophique de la France et de l’étranger) (1906)

EIXO II

Psicanálise para profissionais! Não só sobre o método próprio para o psicanalista como a própria crítica e ciências colaterais(*)

(*) OBSERVAÇÕES GERAIS: Quando não aponto obra específica, apenas o nome do autor, significa que normalmente sua magnum opus é tão consagrada que não necessita comentários, etc.

OBSERVAÇÕES PARTICULARES:

HISTORIOGRAFIA: Não está em ordem de importância, mas ELLENBERGER, ROAZEN, MAX SCHUR E OLA ANDERSSON SÃO AS MAIORES REFERÊNCIAS.

FREUD: Minha ordem recomendada de leitura está à direita, em algarismos romanos. Não inseri livros que eu já li mais de uma vez e com que tenho muita familiaridade (Interpretação dos Sonhos, Totem & Tabu, a biografia de Da Vinci, 5 lições, etc.). Acerca destas duas últimas, contidas no TOMO 11 das Obras Completas, possivelmente preciso atualizar pontos de vista pessoais destacados em https://seclusao.art.blog/2019/06/18/obra-completa-de-freud-tomo-xi-no-diva-com-cila/ (preparar 2a versão do post).

DISCIPULADO PRIMÁRIO: Darei preferência em meu próprio programa de estudos aos autores destacados em negrito.

0. HISTORIOGRAFIA

0.1 ELLENBERGER, The Discovery of the Unconscious. The History and Evolution of Dynamic Psychiatry

0.2 ERNEST JONES, Life and work of Sigmund Freud

0.3 ANDERSSON, Studies in the Pre-history of Psychoanalysis. The Etiology of Psychoneuroses (1886-1896) (1962) [ou em francês: Ola Andersson, Freud avant Freud. La Préhistoire de la psychanalyse (Estocolmo, 1961), Paris, Synthélabo, col. “Les empêcheurs de penser en rond”, 1997.] // Freud precursor de Freud

0.4 SCHUR, Freud: vida e agonia, uma biografia, 3 vols.

0.5 Yosef Hayim Yerushalmi, Le Moïse de Freud. Judaïsme terminable et interminable (New Haven, 1991), Paris, Gallimard, 1993.

0.6 Martin Freud, Freud, mon père (Londres, 1957), Paris, Denoël, 1975.

0.7 Jean-Baptiste Fagès, Histoire de la psychanalyse après Freud (1976), Paris, Odile Jacob, 1996.

0.8 Les Années brunes. La Psychanalyse sous le IIIe Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc Evard, Paris, Confrontation, 1984.

0.9 Chaim S. Katz (org.), Psicanálise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus, 1985.

0.10 Pearl King e Riccardo Steiner (orgs.), Les Controverses Anna Freud/Melanie Klein, 1941-1945 (Londres, 1991), Paris, PUF, 1996.

0.11 Hesnard, L’Oeuvre de Freud et son importance dans le monde moderne, Paris, Payot, 1960.

0.12 Gladys Swain, Dialogue avec l’insensé, Paris, Gallimard, 1994.

0.13 ______., Le sujet de la folie: Naissance de la psychiatrie, 1977.

0.14 Swain & Gauchet, La pratique de l’esprit humain. L’institution asilaire et la révolution démocratique, Paris, Gallimard, 1980.

0.15 ROAZEN, Freud e seus discípulos; Irmão animal.

0.16 Janet Malcolm, Tempête aux Archives Freud (N. York, 1984), Paris, PUF, 1986.

0.17 Marie Bonaparte, Cahiers noirs, 1925-1939, inédito (arquivos Élisabeth Roudinesco).

0.18 Éric Rayner, Le Groupe des “Indépendants” et la psychanalyse britannique (Londres, 1990), Paris, PUF, 1994.

0.19 Suzuki, Erich Fromm & Richard de Martino, Bouddhisme zen et psychanalyse (N. York, 1963), Paris, PUF, 1971.

0.20 Jacques-Alain Miller (org.), Lacan et la chose japonaise, Paris, Analytica, 1988.

0.21 RENÉ MAJOR, De l’élection. Freud face aux idéologies allemande, américaine et soviétique, Paris, Aubier, 1986.

0.22 Andrew Samuels, Jung and the Post-jungians, Londres, Routledge e Paul Kegan, 1985.

0.23 Philippe Julien, Pour lire Jacques Lacan (Toulouse, 1985), Paris, Seuil, col. “Points”, 1995.

0.24 ZIZEK, Looking Awry. An Introduction to Lacan through Popular Culture, Boston, Massachusetts University Press, 1991.

0.25 Paul Robinson, The Freudian Left. Wilhelm Reich, Geza Roheim, Herbert Marcuse, N. York, Harper and Row, 1969. (ver favoritos)

0.26 Albrecht Hirschmüller, Josef Breuer (Berna, 1978), Paris, PUF, 1991.

0.27 Mikkel Borch-Jacobsen, Souvenirs d’Anna O. Une mystification centenaire, Paris, Aubier, 1995.

0.28 Jean Garrabé, Histoire de la schizophrénie, Paris, Seghers, 1992.

0.29 EISSLER, Le Suicide de Victor Tausk. Avec les commentaires du professeur Marius Tausk (N. York, 1983) Paris, PUF, 1988.

0.30 SCHORSKE, Viena fin-de-siècle, 1981.

0.31 Joseph Wortis, La Psychiatrie soviétique (Baltimore, 1950), Paris, PUF, 1953.

0.32 LE RIDER, Le Cas Otto Weininger. Racines de l’antiféminisme et de l’antisémitisme, Paris, PUF, 1982.

0.33 Ritvo, Darwin’s Influence On Freud

0.34 Grosskurth, The Secret Ring: Freud’s Inner Circle and the Politics of Psychoanalysis (1991).

  1. FREUD

    1. (Velhas+Novas) Conferências introdutórias sobre psicanálise (I)

    2. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (II)

    3. Psicopatologia da Vida Cotidiana (IV)

    4. Os chistes e sua relação com o inconsciente (V)

    5. História do movimento psicanalítico, Contribuição à (VI)

    6. Inibições, sintomas e angústia (XV)

    7. Projeto para uma psicologia científica (1895) (VII)

    8. Esboço de psicanálise (póstumo, BOM RESUMO DA DOUTRINA)(III)

    9. Um estudo autobiográfico (VIII)

    10. Freud & William Bullitt, Le Président Thomas Woodrow Wilson (Londres, 1966, Paris, 1967), Paris, Payot, 1990. (XIV)

    11. O Eu e o Isso (X)

    12. Moisés e o Monoteísmo (IX)

    13. Mais-além do princípio de prazer (XI)

    14. O mal-estar na cultura (XII)

    15. Psicologia das massas e análise do eu (XIII)

    16. A questão da análise leiga (ler a qualquer momento – poderia estar no tópico 3 deste EIXO)

  1. DISCIPULADO PRIMÁRIO

2.1 JUNG, Meu livro físico (1), Métamorphoses de l’âme et ses symboles (2), Psicologia e alquimia (1935-1936, GW, XII) (3).

2.2 REICH, The Discovery of the Orgone, 2, The Cancer Biopathy (N. York, 1948), traduzido para o francês sob o título Biopathie du cancer, Paris, Payot, 1975 (1); Escuta, Zé ninguém (N. York, 1948), S. Paulo, Martins Fontes (2); L’Éther, dieu et le diable (N. York, 1951), Paris, Payot, 1973 (3); O assassinato de Cristo (Maine, 1953), S. Paulo, Martins Fontes, 1995 (4); Reich parle de Freud (N. York, 1967), Paris, Payot, 1970 (5 – já incluído parcialmente na seção artigos psicanalíticos); Premiers écrits, 2 vols. (N. York, 1979), Paris, Payot, 1982. (6); Psicologia de massas do Fascismo (7).

2.3 ADLER, A constituição neurótica (1), O temperamento nervoso (2) (existe a possibilidade de tratar-se da mesma obra)

2.4 FERENCZI, Introjeção e transferência (1), Thalassa: A Theory of Genitality (2)

2.5 RANK, O trauma do nascimento (1); O mito do nascimento dos heróis (2)

2.6 Karl ABRAHAM

2.7 STEKEL, Os estados nervosos de angústia e seu tratamento

2.8 FENICHEL, The Psychoanalytic Theory of Neurosis, 1945.

2.9 FLIESS, Les Relations entre le nez et les organes génitaux féminins présentés selon leurs significations biologiques (Viena, 1897), Paris, Seuil, 1977.

2.10 Anna FREUD, O eu e os mecanismos de defesa

2.11 KLEIN, A psicanálise de crianças (da criança) [duas traduções] / leitura condicionada à aprovação do artigo da autora

2.12 GROSS, A ideogenidade freudiana e sua significação na alienação maníaco-depressiva de Kraepelin

2.13 TAUSK, Oeuvres psychanalytiques, Paris, Payot, 1975.

2.14 WEININGER, Sexo e caráter (em alemão, MOBI)

3. METODOLOGIA

3.1 Balint, Sobre o sistema de formação psicanalítica (1) / A falha básica (2) (favoritos)

3.2 André Bourguignon, Pierre Cotet, Jean Laplanche & François Robert, Traduzir Freud (Paris, 1989), S. Paulo, Martins Fontes, 1992.

3.3 Érik Porge, Freud/Fliess, Mito e quimera da auto-análise (Paris,1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

3.4 Glover, Técnica da psicanálise, 1955.

3.5 Didier Anzieu, Freud’s Self-Analysis (1986)

3.6 Doolittle, Escrito na parede. Reminiscências de uma análise com Freud (favoritos archive.org.)

3.7 Zvi Lothane, In Defense of Schreber: Soul Murder and Psychiatry, Hillsdale e Londres, Analytic Press, 1992.

4. INFLUENCIADORES DA FUNDAÇÃO DA PSICANÁLISE (séc. XIX para trás)

4.1 HAVELOCK ELLIS, Estudos de psicologia sexual (VI)

4.2 CHARCOT, Os demoníacos na arte

4.3 GRODDECK, O pesquisador de almas (I); cartas com Ferenczi (II).

4.4 KRAEPELIN, Compendium der Psychiatrie, Leipzig, Abel, 1883 (1); Introduction à la psychiatrie clinique (Leipzig, 1901), Paris, Vigot, 1907 (2); Leçons cliniques sur la démence précoce et la psychose maniaque-dépressive (Leipzig, 1907), Toulouse, Privat, 1970 (3); La folie maniaque-dépressive (Leipzig, 1909), Grenoble, Jérôme Millon, 1993 (4). (V)

4.5 BLEULER, Dementia praecox (II) (em alemão)

4.6 HERBART, A psicologia como ciência fundada na experiência, na metafísica e na matemática (VII) (obra completa no archive.org, em alemão)

4.7 WEYER, Da impostura do diabo (I)

4.8 KRAFFT-EBING, Psychopathia sexualis (alemão)

4.9 BURTON, Anatomy of Melancholy, 1621 (III) (favoritos: gutenberg.org, online)

4.10 BARRAS, Traités sur les gastralgies et les entéralgies, ou maladies nerveuses de l’estomac et de l’intestin, 1829. (VIII)

4.11 JANET, O automatismo psicológico, 1889; Cours sur la personnalité. (IV)

4.12 BEARD, American Nervousness, its Causes and Consequences

4.13 DUMAS, Nuevo Tratado de Psicología (co-autor), 1930.

4.14 NORDAU, Degenerescência

5. INDEPENDENTES E DISSIDENTES

5.1 FROMM, Zen-budismo e psicanálise

5.2 BETTELHEIM, A fortaleza vazia

5.3 RUPRECHT BION

5.4 DOLTO, Seminário de psicanálise de crianças (1), Sexualidade feminina(2), A imagem inconsciente do corpo (3)

5.5 WINNICOTT, Lettres vives (Londres, 1987), Paris, Gallimard, 1989. (obras completas)

5.6 LAING, Sagesse, déraison et folie. La Fabrication d’un psychiatre (1985) (1); Politique de l’expérience (2).

5.7 LECLAIRE, Psicanalisar

5.8 A. MITSCHERLICH & M. MITSCHERLICH, Le Deuil impossible (Munique, 1967), Paris, Payot, 1972;

5.9 GRUNBERGER, Le Narcissisme. Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1971.

5.10 LAGACHE, Deuil pathologique, 1957.

5.11 MANNONI, A criança retardada e a mãe (Paris, 1964), S. Paulo, Martins Fontes; (1) Prospero and Caliban (2).

5.12 ROHEIM, Psicanálise e antropologia

5.13 HANNS SACHS, Caligula, Londres, Elin Matthews and Marott, 1931 (1); The Creative Unconscious, Studies in the Psychoanalysis of Art, Cambridge (Mass.), Science-Art Publications, 1942 (2).

5.14 STOLLER, Sex and Gender // Recherches sur l’identité sexuelle

5.15 HELENE DEUTSCH, Psicologia da mulher

5.16 CLÉRAMBAULT, Les psychoses passionelles

5.17 SPERBER, Alfred Adler et la psychologie individuelle (1970), Paris, Gallimard, 1972.

5.18 COOPER, Psiquiatria e antipsiquiatria

5.19 SEARLES, O esforço de enlouquecer o outro

5.20 BINSWANGER, Le Cas Suzanne Urban. Étude sur la schizophrénie

5.21 PERLS, Ego, Hunger and Agression. A Revision of Freud’s Theory and Method

5.22 HORNEY, L’Auto-analyse (N. York, 1943), Paris, Stock, 1993.

5.23 FLOURNOY, Spiritism and Psychology (1911) (1); The Philosophy of William James (2).

5.24 RIBOT, Les Maladies de la personnalité

6. LACAN, O Seminário 6; O Seminário 3.

EIXO III

Ensaios, biografias, curiosidades gerais, filosofia, “fofoca”, literatura, política & outros entretenimentos vinculados…(*)

(*) Em ordem alfabética. 4 artigos e 41 livros (dos quais me interessa realmente ler 28).

  • ARTIGOS

Bataille, “La Structure psychologique du fascisme” (1933-1934), in: La Critique sociale, reimpressão, Paris, La Différence, 1985, 159-65 e 205-11;

Edgar Allan Poe, “La Lettre volée”, in: Histoires, Paris, Gallimard, col. “Pléiade”, 1940, 45-64;

Salomé, Érotisme (Frankfurt, 1910, Munique, 1979), in: Eros, Paris, Minuit, 1984;

Janice Raymond, L’Empire transsexuel (N. York, 1979), Paris, Seuil, 1981. (CUIDADO: manifesto feminazi, e portanto transfóbico!)

  • LIVROS

Bachofen, Le Droit maternel. Recherche sur la gynécocratie de l’Antiquité dans sa nature religieuse et juridique (1861), Lausanne, L’Âge d’Homme, 1996. (alemão e espanhol, 2a versão incompleta)

Badinter, XY: sobre a identidade masculina (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994, 2ªed.

Barnes & Berke. Un voyage à travers la folie (Londres, 1971), Paris, Seuil, 1973.

Baudelot & Establet, Durkheim et le suicide, Paris, PUF, 1984.

Bertin, La Dernière Bonaparte, Paris, Perrin, 1982.

Bowlby, sua biografia de Charles Darwin

Braud, La Tentation du suicide dans les écrits autobiographiques, Paris, PUF, 1992.

Brigitte e Jean Massin (orgs.), História da música ocidental (Paris, 1985), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998. (alguns capítulos somente)

Derrida, Geo Psychoanalysis and the rest of the world, 1981;

______, Mal d’archive

Binion, Frau Lou, Nietzsche’s Wayward Disciple, Princeton, Princeton University Press, 1968.

Mann, Erika, Mein Vater, der Zauberer, Frankfurt, Rowohlt, 1996.

Ey, Encyclopédie medico-chirurgicale: Psychiatrie

__, Traité des hallucinations

Fraenkel, Michael, The Otherness of D.H. Lawrence

Gardiner, L’Homme aux loups par ses psychanalystes et lui-même (N. York, 1971), Paris, Gallimard, 1981.

Grosskurth, Byron: The Flawed Angel (1997);

______, Melanie Klein: Her World and Her Work (1986)

______, Havelock Ellis: A Biography (1980)

______, John Addington Symonds: A Biography (1964)

Hamon, Pourquoi les femmes aiment-elles les hommes et non pas plutôt leur mère?, Paris, Seuil, 1992.

Héritier, Les Deux soeurs et leurs mères. Anthropologie de l’inceste, Paris, Odile Jacob, 1994.

Hug-Hellmuth, seu diário falso de uma criança doente (buscar em francês)

Ibor, Vida e morte da psicanálise (retraduzido Agonia da psicanálise)

___, Freud e seus deuses ocultos

Jaspers, Psicopatologia geral

Klein, Autobiografia

Kofman, L’Énigme de la femme, Paris, Galilée, 1980.

Kristeva, Soleil noir. Dépression et mélancolie, Paris, Gallimard, 1987.

Lasowski, Syphilis, Paris, Gallimard, 1982.

Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception

Michel, Psychanalyse de la musique (1951), Paris, PUF, 1984.

Minois, Histoire du suicide, Paris, Fayard, 1995.

Mitchell, Psychanalyse et féminisme, 1974.

Nietzsche, Rée & Salomé, Correspondance (Frankfurt, 1970), Paris, PUF, 1979. (ver favoritos – nietzschechannel)

Peters (ex-marido de Salomé, curiosamente ainda vivo em 2019, contando mais de 100 anos de idade!), My sister, my spouse (N. York, 1962), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1986.

Pinguet, La Mort volontaire au Japon, Paris, Gallimard, 1984.

Rolland, Jean-Christophe

______, Beethoven

Salomé, Ma gratitude envers Freud (Viena, 1931, Paris, 1983), Seuil, col. “Points”, 1987, traduzido com o título Lettre ouverte à Freud;

______, Ma vie (Zurique, 1951, Frankfurt 1977), Paris, PUF, 1977. (alemão)

Schreber, Memórias de um doente dos nervos (ver filme nos favoritos)

Stekel, Autobiography. The Life Story of a Pioneer Psychoanalyst, Emil A. Gutheil (org.), N. York, Liveright Publishing Co., 1950.

Sutton, Bruno Bettelheim, une vie

Tausk, Diário de um ano

Von Hartmann, Filosofia do inconsciente, 1868.

Zweig, Le Monde d’hier

_____, Três mestres