INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA & FUNDAMENTOS DO SENSO COMUM – Tradução de Rafael de Araújo Aguiar, Brasília, 2022-2024.
A inspiração do Todo-Poderoso deu-lhes o entendimento. – Jó
ÍNDICE
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO
Seção 1ª. A importância da matéria e como investigá-la [SEC11]
Seção 2ª. Os obstáculos para nosso conhecimento da mente [SEC12]
Seção 3ª. O presente estado desta especialidade da filosofia. Descartes, Malebranche e Locke [SEC13]
Seção 4ª. Em defesa destes filósofos [SEC14]
Seção 5ª. O Bispo Berkeley – O Tratado da Natureza Humana – Do ceticismo [SEC15]
Seção 6ª. Do Tratado da Natureza Humana [SEC16]
Seção 7ª. Que o sistema de todos esses autores é idêntico e conduz ao ceticismo [SEC17]
Seção 8ª. Não devemos desistir das investigações [SEC18]
CAPÍTULO 2. O OLFATO
Seção 1ª. Ordem da investigação. Organização do sentido do olfato. [SEC21]
Seção 2ª. O olfato abstrato (a sensação) [SEC22]
Seção 3ª. Sensação e memória: Princípios naturais da crença [SEC23]
Seção 4ª. Juízo e crença em alguns casos precedem a apreensão simples. [SEC24]
Seção 5ª. Duas teorias da natureza da crença refutadas. Conclusões derivadas. [SEC25]
Seção 6ª. Em defesa de absurdidades metafísicas. Sensações sem senciência como conseqüência da Teoria das Idéias. Conclusões acerca desta estranha opinião [SEC26]
Seção 7ª. A concepção e a crença num ser senciente ou na mente é sugerida por nossa própria constituição; A noção que há das relações nem sempre é adquirida mediante a comparação entre idéias relacionadas. [SEC27]
Seção 8ª. Existe uma qualidade ou virtude dos corpos chamada olfato. Como ela está conectada, na imaginação, à sensação. [SEC28]
Seção 9ª. Existe um princípio da condição humana do qual derivam a noção do olfato e outras virtudes ou causas naturais. [SEC29]
Seção 10ª. Durante a sensação a mente é ativa ou passiva? [SEC210]
CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]
CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO
Seção 1ª. A variedade dos sons. Seu lugar e distância aprendidos pelo costume, sem o uso da razão [SEC41]
Seção 2ª. A linguagem natural [SEC42]
CAPÍTULO 5. O TATO
Seção 1ª. O quente e o frio [SEC51]
Seção 2ª. O duro e o flácido [SEC52]
Seção 3ª. Os signos naturais [SEC53]
Seção 4ª. O árido e outras qualidades primárias [SEC54]—
Seção 5ª. A extensão [SEC55]
Seção 6ª. A extensão (cont.) [SEC56]
Seção 7ª. A existência de um mundo material [SEC57]
Seção 8ª. Os sistemas dos filósofos que concernem aos sentidos [SEC58]
CAPÍTULO 6. A VISÃO
Seção 1ª. A excelência e dignidade desta faculdade [SEC61]
Seção 2ª. A vista não descobre quase nada que o cego não possa compreender. A razão disso [SEC62]
Seção 3ª. A aparência visível dos objetos [SEC63]
Seção 4ª. A cor é uma qualidade dos corpos, não uma sensação da mente [SEC64]
Seção 5ª. Uma inferência baseada no precedente [SEC65]
Seção 6ª. De que nenhuma de nossas sensações é similar às qualidades dos corpos [SEC66]
Seção 7ª. A figura visível e a extensão [SEC67]
Seção 8ª. Algumas questões que concernem a figuras respondidas [SEC68]
Seção 9ª. A geometria do visível [SEC69]
Seção 10ª. O movimento paralelo dos olhos [SEC610]
Seção 11. Sobre vermos objetos eretos através de imagens invertidas [SEC611]
Seção 12. Continuação do anterior [SEC612]
Seção 13. A unidade dos objetos vistos por dois olhos [SEC613]
Seção 14. As leis da visão nos animais [SEC614]
Seção 15. A visão periférica/O estrabismo considerado hipoteticamente [SEC615]
Seção 16. Fatos relativos à visão periférica/ao estrabismo/à visão estrábica [SEC616]
Seção 17. O efeito do hábito sobre a unidade da visão [SEC617]
Seção 18. As considerações do Dr. Porterfield sobre a visão una e a visão dupla [SEC618]
Seção 19. A Teoria do Dr. Briggs e a conjetura de Isaac Newton na matéria [SEC619]
Seção 20. Da percepção em geral [SEC620]
Seção 21. O processo da natureza na percepção [SEC621]
Seção 22. Dos sinais pelos quais aprendemos a perceber a distância mediante a vista [SEC622]
Seção 23. Dos signos em outras percepções adquiridas [SEC623]
Seção 24. A analogia entre a percepção e o crédito que damos ao testemunho humano [SEC624]
CAPÍTULO 7. CONCLUSÃO
Reflexões acerca da opinião dos filósofos sobre o assunto [SEC7]
CARTA AO HONORÁVEL SR. JAMES, CONDE DE FINDLATER E SEAFIELD, REITOR DA UNIVERSIDADE DE OLD ABERDEEN
SENHOR,
Embora eu reconheça que existem coisas novas e de suma importância nesta Investigação, não é senão de forma timorata que me resolvi a publicá-la. O tema já foi esboçado por homens de grande penetração e gênio: pois quem não haveria de situar Descartes, Malebranche, Locke, Berkeley e Hume nesta categoria? Uma perspectiva sobre o entendimento humano tão distinta daquela que eles manifestaram será, sem dúvida, condenada sem exame, como produto de atitude vã e temerária.
Mas eu espero que ao menos algumas almas cândidas e seletas, capazes de vigiar as operações da própria mente, deliberem acerca do que está aqui exposto antes de passarem uma sentença. A essas eu apelo, como únicos juízes competentes. Se pessoas assim constituídas desaprovarem a iniciativa, significa provavelmente que estou equivocado, e me disponho a mudar de opinião para melhor. Se elas aprovarem, a maioria, então, cederá a sua autoridade, como sempre sucede.
Por mais contrárias que sejam minhas noções em relação às dos escritores que mencionei, suas especulações me foram de grande utilidade, e até parecem apontar a trilha que segui: como o Senhor sabe, o mérito de descobertas úteis muitas vezes não cabe a seus autores propriamente ditos, mas a quem plantou as sementes, para seus sucedâneos as colherem.
Eu admito, Senhor, que jamais pensei em pôr em dúvida os princípios a respeito do entendimento humano popularmente reconhecidos, até a publicação do Tratado da Natureza Humana¹ em 1739. O engenhoso autor deste tratado erigiu, sobre os princípios de Locke, que não era um cético, um sistema de ceticismo que não deixa margem para a crença em nada a não ser no seu contrário. Seu raciocínio me parece justo. Havia a necessidade, portanto, de duvidar dos princípios que o fundaram, ou então de admitir suas conclusões.
¹ David Hume, A Treatise of Human Nature: Being an Attempt to Introduce the Experimental Method of Reasoning into Moral Subjects. (N.T.)
Mas pode qualquer mente engenhosa admitir esse sistema cético sem relutância? Eu não poderia, Senhor: persuado-me de que o ceticismo absoluto não é mais destrutivo para a fé do cristão do que para o saber filosófico, e para a prudência de um homem de entendimento vulgar. Estou convencido de que o injusto vive pela fé tanto quanto o justo; mas, se toda crença pudesse ser posta de lado, a piedade, o patriotismo, a amizade, a afeição parental e a virtude privada pareceriam ridículos tanto quanto um cavaleiro andante. Também creio que a busca do prazer, da ambição e da avareza devem, como as boas virtudes, escorar-se na crença.
O trabalhador trabalha o dia inteiro com a crença de que receberá seu dinheiro à noite;¹ se não cresse, não trabalharia. Poderíamos aventar que mesmo o autor desse sistema cético elaborou-o na esperança de que ele fosse lido e considerado. Acredito mesmo que redigiu-o pensando que seria útil à humanidade; e quem haverá de dizer que não poderá sê-lo? Concebo o trabalho do investigador cético como esse inspetor das frestas do nosso falho sistema de conhecimento. Ele repara essas rachaduras do edifício social, que se torna mais sólido.
¹ Numa economia em que o trabalhador recebia por horas trabalhadas. (N.T.)
Seguindo minha própria inclinação, me entreguei a um sério exame dos princípios sobre os quais se assenta esse ceticismo; e não fiquei pouco surpreso ao descobrir que todo este ceticismo está baseado numa hipótese antiga, acolhida por filósofos de todos os tempos, que não passa de uma hipótese. Que hipótese? De que nada é percebido senão o que é produzido em nossa mente. De que não percebemos as coisas tal como são no exterior, mas apenas as imagens das coisas impressas em nosso interior, que recebem o nome de idéias.
Se isso é verdade, quer seja, a existência destas idéias na minha mente, não posso inferir a existência de nada mais. Minhas impressões são as únicas existências que posso conhecer ou conceber. E elas são seres tão passageiros e transitórios que no fundo elas não existem senão enquanto estou delas consciente. Sendo assim, de acordo com esta hipótese, o universo inteiro que me cerca, corpos e espíritos, sol, lua, estrelas, Terra, amigos e relacionamentos, tudo, sem exceção, que imaginei tendo existência permanente, independentes do meu pensar, se dissolve instantaneamente.
E, como o infundado fabrico de uma visão,
Não deixam nem uma pegada.
Não considerei razoável, Senhor, admitir uma hipótese, baseada na autoridade dos filósofos, que a meu ver subverte toda a filosofia, a religião e a virtude, até todo o senso comum. Constatando, pois, que todos os sistemas de entendimento humano foram erigidos sobre esta hipótese, resolvi começar do zero neste campo, sem partir de uma primeira hipótese.
O que agora apresento humildemente é o fruto desta pesquisa, dedicada aos cinco sentidos. Nela eu nada mais fiz do que dar grande atenção a minhas operações mentais, havendo me expressado com toda a perspicácia de que sou capaz, o que creio possa ser obtido por qualquer um que fizer o mesmo. As produções do espírito requerem um gênio que estão acima da compreensão vulgar; mas os tesouros do conhecimento estão enterrados profundamente para todos os homens, e podem ser escavados por todos os indivíduos que trabalharem com paciência, sem para tal necessitar-se de poderes sobrenaturais. Os experimentos requeridos neste tipo de investigação eram-me adequados, já que não exigiam recursos para além de tempo e atenção, o que tinha de sobra. A condição da carreira acadêmica, desinteressada e sem ambições materiais; as obrigações de minha profissão, que me obrigam a dar preleções sobre essa temática à juventude; e uma inclinação precoce a especulações do gênero – tudo isso colaborou, sem falsa modéstia de minha parte, para que eu fosse um homem a dar uma atenção especial aos pequenos detalhes, fundamentais nesta investigação.
Meus pensamentos sobre estas questões já existiam em papel para uso de meus alunos; depois estes escritos foram submetidos ao escrutínio duma sociedade privada de filosofia,¹ à qual também pertenço. Tive o prazer de que meus trabalhos fossem perscrutados inclusive pelo Senhor. A amizade desta comunidade filosófica é um grande estímulo para mim, sua opinião é também muito importante. Creio que a recepção a meus escritos e sua crítica, positiva ou negativa, contrabalançando minha timidez e reserva, foram fundamentais para me convencer a expor minhas conclusões ao grande público.
¹ Uma aberração social. (N.T.)
Se, com isso, puder justificar o senso comum e as faculdades racionais em face dessas sutilezas céticas, que nessa idade nos corroem; se eu puder iluminar um pouco mais nosso acabamento divino enquanto homens; honrando o Seu respeito pelas artes e ciências, bem como por tudo que possa fazer progredir a humanidade e fazer avançar nosso país; não tenho receio de submeter minhas investigações a sua aprovação, que nada mais são que a conseqüência de minha indústria em minha vocação. Seu dedicado servidor,
Thomas Reid
INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO
SEÇÃO 1ª. A IMPORTÂNCIA DA MATÉRIA E COMO INVESTIGÁ-LA [SEC11]
O fabrico da mente humana é curioso e maravilhoso, tanto quanto o do corpo humano. As faculdades da primeira não estão adaptadas ao mundo com menos sabedoria do que os órgãos do segundo. Pelo contrário: temos motivos para pensar a sabedoria da mente como inclusive mais elevada. O Divino Arquiteto nela empregou mais sabedoria e habilidade do que no resto de nossa estrutura. É, portanto, um nobilíssimo objeto de pesquisa, não só em si mesma como considerando sua influência sobre outros ramos da ciência.
Nas artes e ciências, mesmo as mais distantes da abstração pura, a mente ainda é fundamental e imprescindível. Quão melhor pudermos entender sua natureza, suas funções, defeitos e desordens, melhor saberemos empregá-la. Já nas artes mais nobres, a mente é inclusive o próprio objeto envolvido na operação. O pintor, o poeta, o ator, o orador, o moralista e o homem de Estado no fundo nada fazem senão trabalhar sobre a mente; e os melhores são os que melhor sabem fazê-lo.
Os homens sábios concordam, ou ao menos deveriam concordar, que só há um caminho rumo ao conhecimento das obras da natureza: observação e experimentação. Devido a nossa constituição inerente, temos fortes inclinações a generalizar baseados em fatos particulares, e essas generalizações são por sua vez utilizadas por nós para produzir outros efeitos particulares passíveis de observação. Esse proceder do entendimento é comum a toda criatura humana no cotidiano. E é o único por meio do qual qualquer descoberta em filosofia pode ser feita.
O homem que primeiro descobriu que a baixa temperatura congela a água, e que a alta temperatura a evapora, atuava pelos mesmos princípios, usava os mesmos métodos de Newton quando este enunciou as leis da gravitação e as propriedades da luz. Suas regulae philosophandi¹ são máximas do senso comum, praticadas todos os dias ao redor de todo o mundo. Aquele que filosofa por outras regras, seja sobre a realidade material ou mental, incorre em erro.
¹ “Régua do fazer-filosófico”, aquilo que deve nortear o pensamento filosófico. (N.T.)
Conjeturas e teorias são nossas filhas, e jamais se parecerão com aquilo que Deus criou a sua imagem e semelhança. A justa interpretação da natureza é a única filosofia, ortodoxa, evidente. Tudo o que adicionarmos a essa interpretação por nossa própria conta é apócrifo e não tem autoridade.
Todas as nossas curiosas teorias sobre a formação da Terra, a geração dos animais, a origem do mal natural e moral, sempre que se excedem e vão além de uma justa indução dos fatos, são tolice e vaidade, tanto quanto os vórtices de Descartes¹ ou os Archaeus de Paracelso.² Talvez a filosofia da mente não tenha sido menos adulterada que a filosofia sobre as coisas visíveis. A teoria das idéias é muito antiga, e foi recebida universalmente.
¹ Ou teoria dos fluidos de Descartes. Não se relaciona com suas pesquisas matemáticas, mas são de ordem astrofísica. (N.T.)
² Conceitos usados na alquimia para atribuir entidade vital à matéria inanimada. (N.T.)
Tudo aquilo que sabemos do nosso corpo se deve à dissecção anatômica e à observação, e deve ser, analogamente, por uma analogia da mente que podemos descobrir suas virtudes e princípios.
SEÇÃO 2ª. OS OBSTÁCULOS PARA NOSSO CONHECIMENTO DA MENTE [SEC12]
Deve ser reconhecido, porém, que esse segundo tipo de anatomia é mais difícil que o primeiro. Sendo assim, não deve parecer estranho que a humanidade nela tenha feito menos progressos. Captar com precisão as operações de nossas mentes, e tomá-las como objeto do próprio pensamento, não seria fácil nem para o sujeito mais contemplativo; para o grosso da humanidade, então, é tarefa quase que impossível.
Um anatomista que teve excelentes oportunidades terá examinado com os próprios olhos, e com uma exatidão comparável à melhor das vistas, corpos de diferentes idades, sexos e condições. Aquilo que é defeituoso, obscuro ou aberrante num corpo pode ser discernido com clareza, e em estado mais perfeito, em outro. Mas o anatomista da mente não pode se dar ao mesmo luxo. Só sua própria mente é que pode ser examinada com qualquer grau decente de veracidade e exaustão. Este é o único objeto a que ele tem acesso em seu estudo. Mediante evidências externas, é verdade, ele poderá coletar e comparar as operações de outras mentes; essas evidências são, porém, ambíguas no melhor dos casos. Precisam ser interpretadas de acordo com o que o anatomista percebe em si mesmo.
De tal maneira que se um filósofo pudesse delinear para nós, distintiva e metodicamente, todas as operações do princípio do pensamento inerentes a ele, o que, aliás, homem algum foi jamais capaz de realizar, tudo isso ainda seria apenas a anatomia de um só sujeito. Decerto que dita anatomia seria deficiente e errônea se aplicada à natureza humana em geral. Com meramente um bocado de reflexão podemos nos satisfazer da opinião de que a diferença entre as nossas mentes é maior do que aquela que podemos verificar entre as mentes de quaisquer animais da mesma espécie que tomemos como exemplo.
Dentre todos os múltiplos poderes e faculdades por nós possuídos, parece haver alguns que a natureza plantou e formou sozinha, como que deixando de fora qualquer participação da indústria humana. Falo dos poderes que temos em comum com os selvagens, necessários à preservação do indivíduo ou a continuidade da espécie. Há outros poderes, não obstante, cujas sementes foram apenas plantadas pela natureza em nossa mente, legando seu cultivo à própria cultura do homem. E é mediante este cultivo que somos capazes de todos os aperfeiçoamentos do intelecto, do gosto e da moral, que exaltam e dignificam a condição humana. A negligência ou perversão desse cultivo, por outro lado, transforma aquelas sementes em degeneração e corrupção.
O animal bípede que come o que a natureza oferece apenas conforme o que seu paladar e apetite ditam, e satisfaz sua sede na fonte cristalina, que propaga seu gênero sempre que a ocasião e a luxúria permitam, repele ferimentos e se alterna entre labores e o repouso é, como uma árvore na floresta, puramente integrante do processo do crescimento natural. Mas essa mesma criatura selvagem teve desde sempre consigo as sementes do lógico, do homem de gosto refinado, do orador, do político, do virtuoso, do santo. Sementes que, embora presentes, por falta de estímulo do ambiente, podem permanecer latentes indefinidamente, quase nunca percebidas pelo indivíduo que a conserva ou pelos seus mais próximos.
O degrau mais baixo da vida social trará à tona alguns desses princípios que ficam ocultos no estado puramente selvagem. Conforme o ser humano se exercita no campo da cultura, ajudado pelas companhias certas, pelos hábitos convenientes, compondo uma pequena parte, uma elite, graças a seu vigor congênito ou a uma conformação mais feliz do ambiente, desenvolve as sementes antes dormentes. Seres menos privilegiados integrantes deste mesmo princípio de civilização decairão até mesmo em relação a seus dons naturais, embora sobrevivam e gerem descendentes. Um terceiro grupo, ainda menos competente, pode mesmo se ver obstruído de tal maneira que vem a perecer, mutilado pelas contradições da natureza e da cultura incipiente.
Esse quadro faz da condição humana algo tão variegado e multiforme para os indivíduos que, dos pontos de vista intelectual e moral, há espaço para todo tipo de existência no gradiente que vai do mais rústico e simplório ao mais elaborado e complexo, como ir-se-ia do inferno ao céu. Essa diversidade prodigiosa torna extremamente difícil a descoberta dos princípios comuns a toda a espécie.
A linguagem dos filósofos, no que cocerne às faculdades originais da mente, está tão adaptada ao sistema vigente que não é adequada para expressar nenhum outro; como um terno que serve ao homem que o encomendou, e torna-o mais belo, mas que ficaria muito estranho ou mesmo cômico em outro sujeito, ainda que este último em tese nada devesse ao primeiro em termos de compelição e proporções dos membros. É quase impossível inovar na atual disciplina da filosofia da mente e suas operações sem empregar para isso um vocabulário e fraseado inédito, ou dotar de sentido inusitado as expressões antigas. Uma liberdade que, mesmo sendo tão necessária, cria preconceitos e mal-entendidos. Talvez só com o tempo essas descrições obtenham autorização e sanção sociais. Inovações na língua, como na religião e no governo, são sempre suscetíveis da desconfiança e aversão da maioria, até que por fim o costume as torne não só familiares mas mesmo o novo padrão.
Se as percepções e inclinações originais da mente aparecessem descontaminadas de todas as influências externas, exatamente como as recebemos da mãe-natureza, aquele mais acostumado à reflexão enfrentaria menos dificuldades ao tentar traçá-las. Antes do ato da reflexão as percepções e os movimentos da mente já nos aparecem tão sobrepostos uns em relação aos outros, tão compostos e descompostos pelas ações do cotidiano, modificados por associações e abstrações, que é difícil dizer quais eram os movimentos originais da mente.¹ A mente poderia ser comparada ao apotecário ou químico, cujos materiais são fornecidos pela própria natureza, mas que em sua arte sintetiza-os, modifica-os, dissolve-os, evapora-os e sublima-os de tal sorte que a aparência do produto obtido mal deixa pistas dos ingredientes utilizados. Só os melhores apotecários e químicos poderiam listar as matérias-primas. Reverter o produto obtido por experimentos à forma original é, então, impossível. Esse trabalho da mente não é realizado via razão madura, atos deliberados, algo que possamos rememorar ou recuperar. Tudo acontece escorado nos instintos, hábitos adquiridos, associações mil e outros princípios ainda, que operam muito antes de possuirmos a razão propriamente dita. É especialmente laborioso para a mente se debruçar sobre si mesma a fim de analisar as próprias pegadas e vestígios, desvendando suas próprias operações remotas quando já raciocinava e agia, mas ainda não refletia.
¹ O autor busca o que não há: palavras para expressar o que não pode ser expressado. Hoje o filósofo já se curou de procurar estas quiméricas coisas em si da mente. (N.T.)
Se pudéssemos mesmo obter uma história completa e bem-definida de tudo que se passa na mente de uma só criança, do começo de seus dias, desde as primeiras sensações, até seu amadurecimento e a fase do uso da razão; como suas faculdades ainda em desenvolvimento se puseram a trabalhar em primeiro lugar, e como esse trabalho evoluiu a ponto de gerar diversas noções, opiniões e sentimentos que guardamos dentro de nós mesmos; se pudéssemos fazê-lo, tal achado seria um tesouro da história natural, capaz de jogar mais luz sobre as faculdades humanas do que todos os sistemas morais criados até hoje unidos. É em vão que se aspira a tal evento. A natureza não nos concedeu esse poder. A reflexão, único instrumento de que dispomos para discernir os poderes da própria mente, advém muito tarde para que pudesse observar o progresso natural, entender a própria infância com a perfeição requerida.
Este é um tema, portanto, que jamais será abordado de maneira cuidadosa ou aplicada demais. Todo homem, abarrotado dos preconceitos da educação, da moda e da filosofia, fica assim obrigado a desfiar as próprias noções e opiniões, até encontrar os princípios mais simples e originais de sua constituição, relato que só pode ser produzido pelo próprio autor do relato, uma razão a mais para dele desconfiarmos. Eu chamaria essa investigação da verdadeira análise das faculdades humanas; e até que cumpramos essa tarefa é vão falar em qualquer sistema da mente. Por sistema, entendo: uma enumeração exaustiva dos poderes e leis originais de nossa constituição, e uma explicação dela derivada para os múltiplos fenômenos da condição humana.
Êxito, numa investigação tal, não é algo humanamente solicitável. Talvez seja possível, entretanto, com precaução e humildade, evitar ao menos erros e ilusões crassos. O labirinto pode ser o mais intrincado, e o barbante o mais delicado, de modo que ninguém consegue percorrer todas as alas do calabouço e viver para contar. Paramos, porém, onde já não podemos avançar um milímetro a mais. Marcamos posição para os exploradores das gerações seguintes, reafirmando o terreno já conquistado, em vez de pôr tudo a perder precipitadamente. Quem sabe quão mais ágeis não serão os olhos de nossos descendentes, aptos a distinguir linhas para nós invisíveis?
É o gênio, e não a falta do gênio, que adultera a filosofia, multiplicando os erros e as falsas teorias. A imaginação criativa desdenha o trabalho mais modesto e tosco de fazer a terraplanagem da fundação. É preciso antes remover muitos detritos, transportar muitos materiais: estas ações tidas como mais servis são delegadas aos burros de carga da ciência. A mente superior desenha a planta que quer atingir ao final de tudo. A invenção abastece de materiais os trechos mais carentes da obra. A moda do tempo adiciona as cores e os ornamentos. O trabalho direto deleita os olhos, e não deseja mais do que uma boa e sólida fundação. O trabalho direto do homem parece até competir com o relógio da natureza. Até, evidentemente, o arquiteto implodir a edificação, convertendo-a em ruínas. E o processo recomeça… Felizmente, para a idade presente, os erigidores de castelos andam a se envolver mais em romances que na filosofia. O romance é, sem dúvida, sua verdadeira província, essas regiões em que o desabrochar das fantasias é mais legítimo. Em filosofia, ceder aos caprichos é agir de modo espúrio.
SEÇÃO 3ª. O PRESENTE ESTADO DESTA ESPECIALIDADE DA FILOSOFIA. DESCARTES, MALEBRANCHE E LOCKE. [SEC13]
Que nossa filosofia da mente e suas faculdades está ainda num estado muito precário pode ser conjeturado, e com razão, mesmo por aqueles que nunca a examinaram detidamente. Há qualquer princípio, relativo à mente, fixado com a mesma perspicácia e nitidez, que se equipare aos princípios da mecânica, da astronomia ou da ótica? – Essas são realmente ciências fundadas nas leis da natureza universalmente obteníveis. O que é descoberto nelas não mais é objeto de disputa: tempos futuros poderão acrescentar a essas leis, mas, até que o curso da natureza seja modificado, o que já foi estabelecido não pode ser alterado. Porém, assim que voltamos nossa atenção para dentro, e considerados o fenômeno dos pensamentos, opiniões e percepções humanos, e tentamos relacioná-los com as leis gerais e os primeiros princípios de nossa constituição, imediatamente nos envolvemos em perplexidade e trevas. – E se o senso comum ou os princípios da educação não forem teimosos, há grandes chances de terminarmos num ceticismo absoluto.
Descartes, nada achando estabelecido nessa parte da filosofia, a fim de lançar-lhe pela primeira vez as bases profundas, decidiu não acreditar em sua própria existência até que pudesse justificá-la muito bem. Ele talvez tenha sido o primeiro a tomar essa resolução: mas pudera ele atingir seu propósito, e realmente tornar-se difidente de sua existência (para além da retórica), seu caso teria se tornado deplorável, e impossível de ser sanado mediante a razão ou a filosofia. Um homem teórico que descrê de sua própria existência está tão inapto para o diálogo e o debate quanto um homem que acreditasse ser feito de vidro. Não é impossível que desordens na constituição humana produzam tais casos extravagantes; porém a cura jamais viria mediante raciocínios. Descartes quer nos fazer crer que escapou de seu delírio pelo argumento lógico Cogito, ergo sum. Mas é evidente que ele jamais escapou de nenhum delírio e conservou a razão desde o princípio, nunca duvidando seriamente de sua própria existência. Ele já o toma como implícito em seu argumento, e nada prova. Eu penso, diz ele, dessa forma eu sou: e não é ainda o uso da boa razão dizer eu estou dormindo, por isso mesmo eu sou? Ou eu não estou fazendo nada, portanto eu sou? Se um corpo se move, sem dúvida ele existe; mas se está em repouso, ainda assim deve existir.
Talvez Descartes não tenha desejado assumir sua própria existência por este entimema, e sim assumir a existência do pensamento; e com isso inferir desta existência do pensamento a existência da mente ou do objeto do pensar. Mas por que ele não provou a existência de seu pensamento? A consciência o avaliza, poder-se-ia dizer. Mas quem é o comprovador da consciência? Pode qualquer homem provar que sua consciência está isenta de traí-lo? Nenhum homem o pode: nem podemos dar uma justificativa melhor para acreditar nela do que que cada homem, enquanto em posse da razão, está determinado pela constituição de sua natureza a dar crédito implícito a ela, a rir ou ter piedade do homem que duvida de seu testemunho. E não está todo homem em seu juízo perfeito, cada um tão determinado quanto os outros em considerar sua própria existência fiada em sua própria consciência?
A outra proposição assumida neste argumento, a de que o pensamento não pode ser sem uma mente ou um sujeito, está sujeita à mesma objeção: não que isso necessite de evidência; mas esta evidência não é mais pura nem imediata que a da própria proposição que deve ser provada por esta evidência mesma! Enfim, reunindo todas essas proposições em conjunto, – eu penso, – eu sou consciente, – tudo que pensa existe, – eu existo, – não está óbvio que todo homem sóbrio nutriria a mesma opinião acerca do homem que seriamente duvidou de qualquer uma delas? E se um desses homens fosse o amigo pessoal deste homem teórico que duvida seriamente, não ansiaria ele pela sua cura, prescrevendo-lhe ou arranjando quem lhe prescreva um bom regime físico e dietético, isto é, o cultivo da saúde, em detrimento de metafísica e lógica?
Todavia, supondo tudo como provado, i.e., que meu pensamento e minha consciência tem de ter um sujeito, e conseguintemente que eu existo, como sei eu que toda essa cadeia de pensamentos que eu rememoro pertence a um sujeito, e que o eu desse momento é o mesmo eu individual de ontem ou de antanho?
Descartes nunca pensou em começar essa dúvida: mas Locke o fez; e, a fim de resolvê-la, determina, de forma grave, que a identidade pessoal consiste em consciência; se você tem consciência de que fez algo há um ano, essa consciência torna-o a exata pessoa que o fez. E no entanto consciência do passado não pode significar nada além de uma lembrança de que eu o fiz. O princípio de Locke é, portanto, que a identidade consiste em lembranças e memórias; e conseguintemente um homem perde sua identidade pessoal quanto a tudo aquilo que ele esquece.
Nem são essas as duas únicas ocasiões em que nossa filosofia da mente parece ter sido muito prolífica em suscitar dúvidas, e igualmente infeliz em respondê-las.
Descartes, Malebranche e Locke empregaram todos eles seu gênio e habilidade em provar a existência de um mundo material; e o provaram muito mal. Mortais parcos de entendimento acreditam, sem dúvida, que há um sol, uma lua e as estrelas; uma terra, na qual habitamos; um país, amigos e relações, que desfrutamos; pedaços de terra, casas e objetos movíveis, que possuímos. Mas filósofos, apiedando-se da credulidade do vulgo, estão determinados a perder a fé no que está fundado na razão. Eles se empenham em refletir em razões para a crença nas coisas, nas coisas em que toda a humanidade sempre acreditou, sem no entanto serem capazes de dar nenhuma razão! Esperar-se-ia, num empreendimento tão importante, que a prova não fosse árdua: mas é a coisa mais difícil em todo o mundo! Esses três homens, de toda a boa-fé, fracassaram, munidos de todas as riquezas da filosofia, em estabelecer um argumento propício a convencer um homem capaz de reflexão de que a existência de qualquer coisa depende deste argumento lançado. Admirável Filosofia! filha da luz! parente da sabedoria e conhecimento! se verdadeiramente és ela! se és ela, certamente tu ainda não pousaste na mente humana, nem abençoaste-nos com teus raios o bastante para dissipar a “escuridão visível” das faculdades humanas, nem perturbaste este repouso e segurança que os melhores dos mortais usufruem, esses que nunca se aproximaram de teu altar nem sentiram tua influência! Mas se tu não tens o poder de dissipar essas nuvens e fantasmas que tu mesma descobriste ou criaste, fora com estes raios malignos e miseráveis! Eu desprezo a Filosofia e renuncio sua guia: deixa minha alma morar no Senso Comum.
SEÇÃO 4ª. EM DEFESA DESTES FILÓSOFOS [SEC14]
Mas em vez de desprezar a aurora, devemos esperar que a luz se intensifique! Em vez de culpar os filósofos que mencionei pelos defeitos e manchas de seus sistemas, devemos honrar sua memória, como a dos primeiros descobridores da região da filosofia anteriormente inexplorada; e, não importa quão estultos e imperfeitos sejam esses sistemas, eles abriram caminho para futuras descobertas, e dividirão, com justiça, o crédito por elas com seus sucedâneos. A poeira e os destroços que eles removeram, acumulada em todos os séculos de Escolástica, é quase infinita. Graças a eles estamos na boa senda, a da experiência e reflexão acurada. Eles nos ensinaram a evitar as ciladas da ambigüidade e da fraca razão de tantas palavras, tendo falado e pensado nessa matéria com uma distinção e perspicácia sem precedentes. As verdades a serem reveladas, que eles não alcançaram, a detecção dos erros em que eles involuntariamente se enredaram, serão também obra sua.
Deve ser observado que as deficiências da filosofia da mente, que foi exposta ao desprezo e ao ridículo de homens sensíveis, derivam principalmente disso: – que os devotos dessa filosofia, imbuídos de um preconceito natural, tentaram estender em demasia sua jurisdição além de seus justos limites, denominando-a falsamente Senso Comum. Mas sem saber esses devotos já declinaram essa jurisdição; porque eles desdenham o processo da razão e perdem assim qualquer autoridade; muito cheios de si, eles não pediam a ajuda da razão nem temiam seus ataques!
Neste torneio injusto entre Senso Comum e Filosofia, a última sairá sempre desonrada e derrotada; nem pode ela dar o troco um dia antes que essa rivalidade inútil seja descartada. Chega de intromissões; devemos promover uma cordial amizade entre ambos. O Senso Comum nada tem da Filosofia, nem nunca precisou de seu auxílio. Mas, por outro lado, a Filosofia (se me permitem mudar a metáfora) não tem nenhuma outra raiz que não sejam os princípios do Senso Comum. Ela nasce do Senso Comum, e cresce e se revigora graças a ele. Separada dessa raiz, seca-se a seiva, resseca-se a árvore do conhecimento e a Filosofia morre a apodrece.
Os filósofos da última geração, que evoquei, não se preocuparam com a preservação dessa união nem distinguiram a necessidade dessa subordinação; ao menos, não o bastante para os interesses da própria Filosofia. Mas os filósofos do presente, esses já declararam abertamente guerra ao Senso Comum, na expectativa de conquistar completamente seus domínios, substituindo tudo por Filosofia; uma ação não menos audaciosa e vã do que a dos titãs que tentaram destronar o temível Zeus.
SEÇÃO 5ª. O BISPO BERKELEY – O TRATADO DA NATUREZA HUMANA – DO CETICISMO [SEC15]
O tempo presente não produziu dois homens mais afiados e preparados no campo da filosofia da mente que o Bispo de Cloyne e o autor do Tratado da Natureza Humana. O primeiro, inimigo do ceticismo, com seu zelo religioso e moral, atingiu os seguintes resultados: não há mundo material; não há nada na natureza senão espíritos e idéias; a crença em substâncias materiais e em idéias abstratas são as causas principais de todos os erros filosóficos, e aliás de todas as infidelidades e heresias religiosas. Seus argumentos são fundados nos princípios legados por Descartes, Malebranche e Locke, e isso de uma maneira muito superficial.
A opinião dos juízes mais capazes parece ser a de que nenhum deles foi nem pode ser refutado. O bispo provou, de acordo consigo, mediante argumentos incontestáveis, aquilo em que nenhum homem reflexivo pode dar fé.
O segundo procede pelos mesmos princípios, mas estende-os ao máximo; e, como o bispo tinha desfeito o mundo material, esse autor, justificando-se da mesma forma, também dissolve esse mundo dos espíritos, e não deixa nada na natureza senão idéias e impressões, sem qualquer sujeito no qual essas possam ser imprimidas.
Há qualquer tensão ou irritabilidade neste autor, que logo na introdução de seu principal trabalho promete, seriamente, um sistema completo das ciências, e sobre uma fundação completamente nova, a da natureza humana; isso quando o intuito de toda a obra é mostrar que não há natureza humana nem ciência neste mundo. Talvez seja desarrazoado reclamar dessa conduta num autor, se ele nem acredita na própria existência nem na do leitor. Sendo assim, ele não teria a intenção de desapontar ninguém nem rir da credulidade dos outros. Continuo, porém, sem poder conceber que o autor do Tratado da Natureza Humana, em seu ceticismo, necessite de contemporizações quando se o critica abertamente. Pois devo contrastar seu trabalho com seu aspecto inusitado: ele crê, contra seus princípios, que deva ser lido e que deva conservar sua identidade pessoal até o momento de colher os frutos de sua investigação – que atingiu o acme metafísico –, em forma de honra e reputação. Ele confessa ingenuamente, até, que só na mais completa solidão e afastado dos homens ele consegue concordar com sua própria filosofia; a sociedade, como a luz do dia, dissipa a escuridão e a neblina do ceticismo e fá-lo regressar ao Bom Senso. Não soube de nada em sua vida privada, tampouco, que pudesse demonstrar ser ela um exemplo do ceticismo por ele mesmo pregado. Porque se seus amigos desconfiarem que isso possa vir a se passar, tenho certeza de que terão caridade e nunca o deixarão desacompanhado.
Pirro de Élis, o pai do ceticismo, me parece, levou uma vida de um perfeito cético, muito mais condizente com a doutrina que seus discípulos: conforme o que sabemos, Antígono de Caristo, citado em Diógenes Laércio, atesta que Pirro fazia exatamente o que e como dizia para os outros fazerem. Diz-se que se uma carroça estiava prestes a atropelá-lo ou um cachorro a mordê-lo, ou se ele se abeirava de um precipício, ele não se movia um milímetro no sentido de escapar do perigo e seguia seu curso, não confiando em seus sentidos. Afortunadamente, para ele, Pirro tinha escravos e alunos que não eram tão céticos quanto o mestre que tomavam conta de si. E assim ele pôde viver até os 90 anos.
É provável que o Tratado da Natureza Humana não tenha sido escrito em companhia; e não obstante ele contém indícios manifestos de que o autor descansava na fé do vulgo, e é raro enxergar nele um caráter cético contínuo que perdure por mais de meia dúzia de páginas sem concessões.
É dessa mesma forma que um dia o grande Pirro esqueceu seus próprios princípios, e diz-se que, uma vez, pôs-se tão furioso com seu cozinheiro e o gosto da comida que, de garfo (e, preso ao garfo, o pedaço de carne) em mãos, perseguiu-o até o mercado.
É peremptória a filosofia que, sem cerimônia, rejeita princípios que governam irresistivelmente a conduta do homem no cotidiano; princípios aos quais deve retornar o filósofo, após tão cuidadosamente refutá-los. Estes princípios de que falo são mais antigos e possuem mais autoridade que a Filosofia: ela deles emana, não o contrário. Se por um acaso a Filosofia pudesse levar a melhor, estaria se condenando à morte. Nenhuma sutileza ou engenhoso filosófico é competente o bastante para essa proeza, entretanto (destronar o Senso Comum). Seria como se um mecânico buscasse mover a Terra inteira de lugar por meio de um axis in peritrochio.¹ Ou se um matemático pretendesse demonstrar que umas primeiras quantidades, verificadas iguais a umas segundas, e estas segundas a umas terceiras, que essas primeiras quantidades não fossem também iguais às terceiras.
¹ Expressão para designar “a roda e o eixo”, um par de objetos que compõe uma das “máquinas simples” a ilustrar os princípios básicos da mecânica arquimediana ou clássica, que explica como, por exemplo, com economia de força, dirigida da maneira correta, através de alguns objetos e cálculos como angulações ou distâncias entre eles, pode-se levantar ou mover grandes pesos impossíveis para um indivíduo com o mero uso da força bruta. Não é por outra razão que, com um simples macaco hidráulico e uma haste de ferro (eixo) em ‘L’ com pontas que respeitem encaixes na roda conforme a funcionalidade dos parafusos, roscas, etc., e o treinamento adequado, qualquer pessoa capaz de conduzir um veículo também será capaz de trocar o pneumático, procedimento que requer a suspensão do carro (potencialmente mais de 1T, ou seja, mais de 10x grande parte da população) a fim de liberar a rotação manual da roda em plano inclinado para a remoção do pneu velho e reposição do pneu novo, exercendo a força de torque. Sobre a clássica e imorredoura frase “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”, realmente, considerando a Terra a roda, precisaríamos “apenas” de uma super-alavanca e de nos situarmos num ponto de apoio longínquo o suficiente para alterar seus movimentos (fora do sistema solar seria um bom começo…). Nosso ponto de apoio sendo a própria Terra, isto (querer, a sério, mover o planeta mediante a aplicação dos princípios da mecânica) é um dos absurdos clássicos da Lógica. Este é o tamanho da absurdidade do ceticismo moderno para Reid, pois é impossível aplicá-lo à vida.
Zenão se esforçou por demonstrar a impossibilidade do movimento; Hobbes, que não havia diferença entre o certo e o errado; e esse autor, que não se deve acreditar nos nossos sentidos, em nossa memória, nem mesmo em provas empíricas. Tal filosofia é apenas ridícula, inclusive para aqueles que não conseguem detectar sua falácia. Não pode lhe seguir outra tendência senão a exibição da solércia do sofista, e o preço é muito caro: desgraçar a natureza e a razão humana, e fazer da humanidade Yahoos.¹
¹ Raça fictícia do livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Os Yahoos têm a mesma aparência de seres humanos (Homo sapiens), porém seu intelecto e cultura não ultrapassa os dos primatas, sendo incapazes da linguagem.
SEÇÃO 6ª. DO TRATADO DA NATUREZA HUMANA [SEC16]
“Há outros preconceitos contra este sistema da natureza humana que, mesmo numa visão generalista, podem tornar alguém dele desconfiado.
Descartes, Hobbes e esse autor cada um nos deu um sistema da natureza humana; uma missão vasta demais para um homem apenas, não importa quão genial e formidável. Há razões certeiras para crer que muitas partes da natureza humana foram negligenciadas por eles; e que outras foram simplificadas e distorcidas, para costurar os pontos cegos e completar o sistema. Cristóvão Colombo ou Sebastian Cabot poderiam com igual justiça ter-nos fornecido um mapa completo da América.¹
¹ Como primeiros descobridores e navegadores modernos do continente, eles não conheceram todos os seus contornos – nos deram um mapa incompleto da América.
Há um caráter e um estilo próprio às obras da natureza, nunca captável nas suas melhores imitações. Esse caráter e esse estilo parecem estar ausentes nos sistemas da natureza humana que eu mencionei, e particularmente no último. Pode-se ver uma marionete executar os mais vastos gestos e movimentos, que impressionam os observadores principiantes; mas, observando-se mais de perto, e isolando cada operação, nossa admiração logo cessa; isso porque passamos a compreender a arte do mestre titereiro. Como a marionete é diferente daquilo que representa! Quão pobre, comparada com o corpo humano, cujas estruturas, quão mais desvendamos, mais maravilhosas se nos tornam, e mais cônscios de nossa ignorância! O mecanismo da mente seria tão facilmente compreensível, sendo o do corpo tão complicado? E não obstante, através deste sistema três leis de associação, acrescidas de algumas impressões originais, explicam todo o mecanismo do sentido, da imaginação, da memória, da crença e de todas as ações e paixões da mente! É este o homem que a natureza produziu? Suspeito que não seja assim tão simples olhar os bastidores da própria natureza. É uma marionete, decerto, ideada por um aprendiz da natureza muito seguro de si, seguro de que é o seu melhor mímico. À luz de vela, é uma marionete tolerável; mas, à luz do dia, e analisada em suas porções, parecerá um homem feito com argamassa e espátula. Quanto mais sabemos de outras partes da natureza, mais com ela simpatizamos, mais a aprovamos. O pouco que conheço do sistema planetário, da Terra que habitamos, dos minerais, vegetais e animais, do meu próprio corpo e das leis obteníveis neste setor do universo abrem à minha mente cenas graciosas e grandiosas, e contribui igualmente para meu contentamento e minha sensação de poder. Mas quando olho por dentro e considero a mente em si mesma, que me faz capaz de todos esses prospectos e apreensões; se ela for mesmo o que o Tratado da Natureza Humana propõe, descubro que caí do cavalo e saí de meu castelo encantado, pois era tudo espectros e aparições. Envergonho-me intimamente por pensar como me deixei iludir: estou com vergonha de minha organização, e não posso me impedir de contender com meu destino. É este teu passatempo, ó Natureza, encher tua tola criatura de artimanhas, depois despir-lhe a máscara e mostrá-la a si própria como fôra trapaceada? Se esta é a filosofia da natureza humana, minha alma não adentra em seus segredos. Encontramos de fato a proibida Árvore do Conhecimento! Mal provo de seu fruto e vejo-me nu e despido de tudo o mais, isto é, até meu eu! Eu vejo a mim e a toda a estrutura da natureza chafurdarem em idéias fugidias, que, como os átomos de Epicuro, dançam em torno do vazio.
SEÇÃO 7ª. QUE O SISTEMA DE TODOS ESSES AUTORES É IDÊNTICO E CONDUZ AO CETICISMO [SEC17]
Mas e se eu objetar que todas essas profundas disquisições nos primeiros princípios da natureza humana deveriam conduzir, natural e necessariamente, seu investigador direto ao abismo do ceticismo? Não deveríamos julgar racionalmente levando em conta o que aconteceu? Descartes mal principiara a cavar nessa mina e o ceticismo já estava à espreita para devorá-lo. Ele fez o que pôde para afastá-lo. Malebranche e Locke, que cavaram ainda mais fundo, acharam a dificuldade de lidar com esse inimigo ainda mais elevada; mas eles laboraram com honestidade. Berkeley, que deu prosseguimento ao trabalho, desesperando de poder concluí-lo, utilizou de um expediente: ao renunciar ao mundo material, que pensou poder preservar sem dano, e até mesmo com lucro, esperava, por uma partição inexpugnável, preservar também o mundo espiritual. Ai de nós! O Tratado da Natureza Humana arruinou arbitrariamente todo o empreendimento da repartição, e inundou esta mina em novo dilúvio.
Esses fatos, que não se pode negar, nos dão motivos para temer que o sistema cartesiano do entendimento humano, que eu devo pedir a vênia de chamar aqui de sistema ideal, e que, com alguns melhoramentos de seus discípulos é agora recebido, tinha alguns defeitos originais. Que o ceticismo está nele embutido, e nele pegou carona, parece consensual. Exumando a fundação do sistema ideal, portanto, a fim de estudar suas fundações, o material empregado na obra, damos um primeiro passo a fim de encontrar e erigir qualquer fundamento sólido e útil de conhecimento na matéria.
SEÇÃO 8ª. NÃO DEVEMOS DESISTIR DAS INVESTIGAÇÕES [SEC18]
Deveríamos desistir, porque Descartes e seus sucedâneos falharam? De maneira alguma. Essa pusilanimidade seria injuriosa conosco mesmos e injuriosa para com a verdade. Descobertas proveitosas são às vezes o efeito do gênio superior, mas com ainda mais freqüência são o resultado acidental de circunstâncias felizes. Um viajante prudente pode errar o caminho, e andar longo tempo pela pior estrada sem o saber; e, embora a estrada seja boa e sempre convidativa para ele, pois onde há estrada há avanço, se não se der conta do erro ele pode prosseguir muitos quilômetros sem suspeitas, cada vez mais longe do destino almejado, e até sendo seguido por outros viajantes menos experientes. Quando a estrada termina, porém, no abismo, mesmo os menos ajuizados dos viajantes conseguem perceber de imediato o erro anterior, sendo mais fácil recuar e retraçar seus passos pela boa senda.
No entre-tempo, essa parte não-exitosa da filosofia produziu efeitos, muitos deles desencorajadores para novos exploradores da mente; mas, se um erro foi cometido na estrada antes disso, era uma conseqüência previsível que erros desembocassem em efeitos indesejados. Só o tempo e escolhas melhores poderão remediar a situação. Homens sensíveis, jamais céticos nos problemas do dia-a-dia, são aqueles aptos para tratar com soberano desprezo tudo que tenha sido dito ultimamente ou está para ser dito em filosofia da mente. – É metafísica, eles dizem: quem tem isso em mente? Deixe que os sofistas e escolásticos se embrenhem em suas próprias teias-de-aranha. Estou decidido a crer na minha própria existência, e na existência de outras coisas, sem vacilar. E não hesitarei em dizer que fria é a neve e doce o mel, não importa o que digam aqueles. Que sejam tolos ou que queiram me fazer passar por tolo, mas não dou crédito a quem argumenta que devo prescindir de minha razão e de meus sentidos na investigação.
Confesso que não sei dizer o que um cético redarguiria a isso, não me antecipo nesse tocante; nem a quais argumentos os críticos recorrerão para refutar qualquer coisa que eu encontre. Não devemos nos engessar porque a sofística atravessa nosso caminho; tudo que os sofistas merecem é o desprezo. Ou não há verdade alguma nas faculdades humanas… e por que então debatemos?
Sendo assim, qualquer homem que se veja neste beco sem-saída metafísico, não refletindo numa saída, ora, que recorra a sua bravura e corte os nós desta corda ou teia-de-aranha que não pode afrouxar pela sutileza ou paciência. Que maldiga a metafísica e dissuada seus colegas de serem metafísicos! Porque se eu alguma vez pisei em pântanos e brejos, falsamente conduzido por ignis fatuss,¹ o que posso fazer senão recuar e avisar os demais sobre o que vivi? Se a Filosofia se contradiz, engana seus devotos, depriva-os de todo objeto digno de investigação, deixe que ela vaga de volta para as regiões infernais de onde deve ter partido sua versão prototípica.
¹ Fogos fátuos.
Mas estaríamos seguros de que essa donzela é do partido dos céticos? Não poderia ser que trilharam para longe do caminho da Filosofia? Por um acaso um gênio nunca fez com que seus próprios sonhos passassem por oráculos divinos? Condenaremos a Filosofia sem direito de antes ouvi-la? Não seria razoável. Já encontrei na filosofia uma companheira agradável em outras matérias, uma conselheira confiável, uma amiga do Senso Comum, e alguém capaz de melhorar a humanidade. Esse crédito que ela amealhou lhe dá ainda o direito de se corresponder comigo, e de que eu nela confie, ao menos até que esbarrasse com provas infalíveis de sua infidelidade!
CAPÍTULO 2. O OLFATO
SEÇÃO 1ª. ORDEM DA INVESTIGAÇÃO. ORGANIZAÇÃO DO SENTIDO DO OLFATO. [SEC21]
É de tal maneira difícil desvendar as operações do entendimento humano e reduzi-las a seus primeiros princípios que não podemos esperar o sucesso senão começando do mais simples, e prosseguindo passo a passo, com cuidado, ao mais e mais complexo. Os cinco sentidos externos, por essa mesma razão, devem ser considerados primeiro na análise das faculdades humanas. E a mesma lógica deve estabelecer uma hierarquia dentro mesmo destes cinco sentidos, não cabendo a precedência ao mais nobre ou mais útil, e sim ao mais simples. Deve ser eleito o sentido cujos objetos estão em menor risco de ser apreendidos por outras coisas senão aquilo que são.¹
¹ Cheiros.
É nesse sentido que nossa análise das sensações deve ser levada adiante, com muito mais facilidade e distinção, na seguinte ordem: olfato, paladar, audição, toque e, por último, a visão.
A filosofia natural nos informa que todo corpo animal e vegetal, e provavelmente todo outro corpo, enquanto exposta ao ar, está continuamente emanando eflúvios extremamente sutis, não só enquanto em estado vital e durante o crescimento, mas também nos estados de fermentação e putrefação. Essas partículas voláteis provavelmente repelem-se umas às outras, espalhando-se no ar, até atingirem outros corpos com que possam ter alguma afinidade química, com os quais interagem, unindo-se em novos compostos. Todo o aroma das plantas e outros corpos é causado por essas partes voláteis e é cheirado tanto quanto perpassa o ar: a acuidade do sentido do olfato em alguns animais nos mostra que esses eflúvios viajam grandes distâncias e são inconcebivelmente sutis.
Se, como alguns químicos colocam, toda espécie de corpo tem um spiritus rectus,¹ ou seja, uma espécie de alma, que é causa do cheiro e de todas as virtudes específicas daquele corpo, e que, sendo extremamente volátil, flutua pelo ar em busca de receptáculos apropriados, isso eu não estou aqui para discutir. Esta, como outras teorias, é mais produto da imaginação do que da justa indução. Mas que todos os corpos são cheirados via eflúvios que eles emitem, e que são sugados pelas narinas junto com o ar, disso não há dúvida. Há uma aparência manifesta de algum intuito ou interesse no posicionamento desse órgão do cheiro ou olfato no interior deste canal, mediante o qual o ar atravessa continuamente, no processo de inspiração e expiração.
¹ A tradução literal seria “espírito fixo”.
A anatomia nos diz que a membrana pituitaria¹ e os nervos olfatórios, que estão distribuídos por partes vilosas² da membrana, são os órgãos destinados pela sabedoria da natureza para este sentido. Sendo assim, quando um corpo não emite eflúvios, ou quando os eflúvios não penetram o nariz, ou quando a membrana pituitária ou os nervos olfatórios por algum motivo não podem executar seu trabalho, não pode ser sentido o cheiro.
¹ Relativo ao muco ou tecido mucoso.
² Recobertas de pêlo.
E apesar disso, é evidente que nem os órgãos do cheiro, nem o meio, nem qualquer movimento excitado na membrana acima mencionada que possamos conceber, ou no nervo ou ‘espírito’ animal, guardam semelhança com a sensação do ato de cheirar; nem essa sensação em si mesma poderia nos levar a uma apreensão imediata dos nervos, da alma animal ou dos eflúvios.
SEÇÃO 2ª. O OLFATO ABSTRATO (A SENSAÇÃO) [SEC22]
Havendo estabelecido essas premissas com respeito ao meio e ao órgão desse sentido, agora devemos prestar atenção àquilo de que a mente está consciente quando cheiramos uma rosa ou um lírio.¹ E como a linguagem não nos brinda com outro nome para essa sensação, contentar-nos-emos em chamá-la de cheiro ou odor, mas tomando o cuidado de excluir do significado, a partir daqui, tudo que não seja a sensação em si, até terminarmos de analisar o olfato de maneira abstrata.
¹ Flor também chamada copo-de-leite dada sua brancura.
Suponha uma pessoa que nunca usou deste sentido antes; ao recebê-lo pela primeira vez, e cheirar uma rosa, pode este indivíduo perceber qualquer similitude ou acordo entre o cheiro e a rosa? ou entre aquele e qualquer outro objeto? Decerto que não. O indivíduo se sentirá afetado de uma forma nova, sem saber por quê. Exatamente como o homem que sente alguma dor ou prazer anteriormente desconhecido, ele estará consciente que ele não é a própria causa da sensação; mas não conseguirá, pela natureza da coisa, determinar se ela é causada por um corpo ou espírito, por algo perto ou por algo à distância. Não há verossimilhança a nada mais, nada que permitira uma comparação. O indivíduo não concluirá nada a respeito, a não ser que realmente há uma causa qualquer desconhecida da sensação.
É evidentemente ridículo associar ao cheiro uma imagem, cor, extensão ou qualquer outra qualidade dos corpos. Não é possível conceder um lugar ou espaço à sensação, mais do que poderíamos atribuir um espaço à melancolia ou algria: a existência da sensação se dá quando se cheira, e em nenhum outro instante. Parece, tudo indica, uma afecção ou ‘sentimento mental’ simples e original, inexplicável e indescritível. É de fato impossível que esta sensação seja um corpo: é sensação; e sensação é justamente algo numa senciência.
Diferentes odores possuem diferentes graus de força e fraqueza, ou de ‘pervasividade’. Maioria pode ser classificada em agradáveis ou desagradáveis; e freqüentemente os agradáveis, quando fracos, são desagradáveis uma vez que se apresentem fortes. Quando comparamos diferentes aromas em conjunto, percebemos quase nada de ‘igual’ ou ‘contrário’ entre um aroma e outro. Não podemos traçar relações entre aromas, eles são ‘únicos’. São coisas tão simples que é quase impossível dividi-los entre genera e species.¹ Quase todos os nomes que lhes concedemos são particulares; como ‘cheiro da rosa, ou da jasmim. Concedo que há nomes gerais: doce, fedorento, de mofo, pútrido, cadavérico, aromático. Alguns parecem refrescar e animar a mente, outros mortificá-la, deprimi-la.
¹ Classificações elementares da biologia.
SEÇÃO 3ª. SENSAÇÃO E MEMÓRIA: PRINCÍPIOS NATURAIS DA CRENÇA. [SEC23]
Até aqui consideramos a sensação abstratamente. Agora comparemos a sensação abstrata com outras coisas com que ela pareça guardar alguma relação. Primeiro nos cabe comparar essa sensação com a memória e a imaginação.
Posso pensar no cheiro da rosa quando não cheiro a rosa; e é possível que quando penso nisso não haja por perto nem rosa nem cheiro algum que esteja sentindo. Mas quando cheiro efetivamente a rosa, estou necessariamente determinado a crer que a sensação existe. Isto é comum a todas as sensações, i.e., que elas não podem existir senão ao ser ‘percebidas’; o que nos leva a ‘não poderiam ser percebidas se não existissem’. Eu poderia com a mesma facilidade duvidar de minha própria existência e da existência de minhas sensações. Mesmo esses filósofos profundos que se esforçaram por refutar a própria existência ainda deixaram o campo das sensações intacto dentro de si, sem um objeto, preferindo-o em detrimento de negar, com a própria negação de si mesmos, a realidade da existência de suas sensações.
Aqui então uma sensação, um odor, por exemplo, pode ser apresentada à mente de 3 formas diferentes: pode ser cheirado, pode ser rememorado, pode ser imaginado ou objeto da reflexão. No primeiro caso, está necessariamente acompanhada, a sensação do odor, de uma crença ou fé na sua existência presente; no segundo, vem necessariamente acompanhada de uma crença na sua existência passada; e no último, nada há de crença, mas sim do que os lógicos denominam uma apreensão simples.
Por que a sensação deveria nos compelir a dar fé na existência imediata da coisa, a memória, na existência passada; e a imaginação em nada? Aposto que nenhum filósofo pode atinar com as respostas. O máximo que podemos dizer é que essa é a natureza dessas operações: são simples e originais, e atos inexplicáveis da mente.
Suponha que uma vez, e tão-só uma vez, eu cheirara uma tuberosa numa sala, em que ela crescia num vaso, e produzia um ótimo perfume. No dia seguinte eu conto o que vi e cheirei. Quando me auto-observo para constatar o que se passa na minha mente neste caso, me parece evidente que a coisa que vi ontem, e a fragrância que respirei, são agora objetos imediatos de minha mente no momento em que me recordo do episódio. Posso ainda imaginar este vaso e flor transportados para a sala onde estou sentado agora, e portanto que a tuberosa emana o mesmo cheiro. Aqui também me parece que a coisa individual que eu vi e cheirei é objeto de minha imaginação.
Filósofos dizem que o objeto imediato de minha memória e imaginação, neste caso, não é a sensação passada, mas uma idéia dela, uma imagem, fantasma, ou espécies de odores que eu cheirara: que essa idéia agora existe em minha mente ou em meu aparelho sensório. A mente, contemplando esta idéia, a considera a representação do que passou, ou do que pode existir; a mente chama esta representação de memória ou imaginação, recordação. Essa é a doutrina da filosofia ideal; não passaremos um juízo sobre esta doutrina nesta altura. Não percamos o precioso fio de raciocínio. Prestando detida atenção, a memória me parece ter coisas do passado, mas não idéias do presente, como objetos. Examinando mais de perto esse sistema de idéias que constitui a memória, nos recordamos de que nenhuma prova sólida da existência de idéias foi jamais aduzida. Idéias são meras ficções ou hipóteses, inventadas para resolver o enigma dos fenômenos do entendimento humano; idéias não são o suficiente para resolver este enigma; essa hipótese das idéias ou imagens das coisas em nossa mente, ou no aparelho sensório é afim aos múltiplos paradoxos tão chocantes ao senso comum, afim ao ceticismo que desgraça nossa filosofia da mente e que nos trouxe, em primeiro lugar, à condição de sermos alvos do ridículo e do desprezo de homens sensíveis ou prudentes.
Nesse ínterim, peço vênia para pensar com o vulgo que, quando lembro o cheiro da tuberosa, toda sensação que senti ontem, e que não mais prevalece (não mais existe), é o objeto imediato de minha memória. Quando imagino as coisas de outrora presentes, a sensação ela mesma, não sua representação, não seria o objeto imediato de minha imaginação? Mas se o objeto de minha sensação, a memória e a imaginação forem neste caso o mesmo, ainda assim esses atos ou operações da mente são tão diferentes e tão facilmente distinguíveis quanto cheiro, gosto e som! Estou consciente de uma diferença de tipo entre sensação e memória, e entre ambas e minha imaginação. Reitero que a sensação me obriga a crer na existência presente do cheiro, e a memória me obriga a crer na existência passada desse cheiro. Há um odor, é o testemunho imediato do sentido; houve ou havia um cheiro, é o testemunho imediato da memória. Se você me pergunta: por que você acredita que o cheiro existe?, eu não posso dar outra resposta a não ser que eu cheiro, estou sentindo o cheiro. E se você me perguntar: por que você acredita que o cheiro existiu ontem?, a única resposta é porque eu lembro do cheiro que eu senti.
Sensação e memória, portanto, são operações mentais simples, originais e perfeitamente distintas, e ambas, a sensação e a memória, são princípios originais da crença. A Imaginação, esta é distinta de ambas, pois não é um princípio da crença. Sensação implica existência presente do objeto; memória, existência passada; porém, imaginação é uma operação da mente que vê o objeto desnudo, sem implicar na fé na existência do mesmo, ou na sua não-existência. Isto é o que as escolas denominam apreensão simples.
SEÇÃO 4ª. JUÍZO E CRENÇA EM ALGUNS CASOS PRECEDEM A APREENSÃO SIMPLES. [SEC24]
Mas eis que nos deparamos com o sistema ideal, que bloqueia nossa passagem. Ele ensina que a primeira operação da mente sobre suas idéias é a apreensão simples, a concepção mais crua de alguma coisa, sem crença embutida. Só depois de termos adquirido mais apreensões simples, via comparação, percebemos acordos e desacordos entre estas apreensões. Estas percepções de acordos e desacordos seria o que chamamos de crença, juízo, conhecimento. O problema é que toda essa sistemática é fictícia, arbitrária, sem fundamento natural: a sensação deve vir primeiro que a memória e a imaginação; se isto é verdade, estaria pressuposto que a apreensão, acompanhada de crença e conhecimento, viria antes da apreensão simples, ao menos dentro do escopo que agora estudamos. Em vez de dizer ingenuamente que crença e conhecimento advêm da comparação entre apreensões simples, deveríamos afirmar que a apreensão simples é desempenhada decidindo sobre e analisando um juízo original e natural. E é com operações mentais, neste caso, como é com os corpos naturais, que se compoem de elementos e princípios simples. A natureza não exibe esses elementos em separado, para que nós os unifiquemos; ela os exibe misturados e compostos em corpos concretos, e é só via arte¹ e análise química que decompomos os elementos.
¹ No sentido de experiência acumulada, não da intuição estética.
SEÇÃO 5ª. DUAS TEORIAS DA NATUREZA DA CRENÇA REFUTADAS. CONCLUSÕES DERIVADAS. [SEC25]
O que é exatamente essa crença ou conhecimento que acompanha a sensação e a memória? Todo homem sabe o que é, mas nenhum ainda o definiu. Algum homem aspira a definir a sensação, a fim de definir o que é a consciência? Afortunadamente, ninguém incorre nesse erro. Se nenhum filósofo tentou até hoje definir e explicar a crença, alguns paradoxos filosóficos – mais incríveis que qualquer um nascido das superstições mais abjetas ou do entusiasmo mais frenético – jamais viram a luz. Desse tipo decerto é aquela descoberta moderna da filosofia ideal, de que a sensação, a memória, a crença e a imaginação – provado que se relacionam ao mesmo objeto – são apenas diferentes graus de força e vivacidade da ‘idéia’. Suponhamos a idéia como sendo a de um estado futuro post mortem. Um homem tem nele plena convicção; outro é agnóstico (possui um grau fraco e diáfano da idéia). Suponha agora uma terceira pessoa que acredita firmemente que não haja tal estado. Estará sua idéia num grau extremamente fraco da escala ou, pelo contrário, no grau mais poderoso? Se é um estágio fraco da idéia que move este terceiro homem, então há de haver uma crença poderosa, em que a idéia é fraca; se é um estágio poderoso da idéia, então a crença num futuro estado da alma e a crença de que não haja tal estado devem ser uma e a mesma. O mesmo argumento usado para provar que a fé sugere tão-só idéias consolidadas de um objeto, em vez da apreensão simples, pode ser usado, portanto, para dizer que a fé em Zeus seria mais poderosa, inerentemente, do que uma indiferença qualquer do sujeito frente a um objeto (a postura do agnóstico). O que diríamos então do ódio? Usando esta escala hipotética, seria um grau do amor ou um grau de indiferença? Se devêramos dizer que no amor há algo mais que uma idéia, p.ex., que é uma afecção da mente; não poderíamos dizer com igual razão que na fé ou convicção há algo mais que uma idéia, p.ex., uma persuasão ou assentimento da mente?
Talvez cheguemos à conclusão de que é tão ridículo tentar lutar contra esta opinião quanto defendê-la! De fato, se um homem insiste que um círculo, um quadrado e um triângulo diferem somente em magnitude, e não em figura, acredito que ele não encontraria nem apoiadores nem debatedores, isto é, refutadores. E no entanto não me soa menos chocante ao senso comum insistir que sensação, memória e imaginação diferem somente em grau, e não em tipo ou qualidade. Sei, ilustrativamente, que se diz que no delírio ou no sonho os sujeitos estão sujeitos a trocar uma pela outra. Mas disso tornar-se-ia necessário que em vigília e em estado saudável de consciência não distinguíssimos uma da outra? Como um homem vem a saber que não delira? Não posso afirmá-lo;¹ nem como um homem sabe que existe! Mas se um homem, no cotidiano, duvida seriamente se está ou não em crise de delírio, a probabilidade maior é que ele realmente esteja delirando, e é hora de consultar um médico – e não um professor de lógica!
¹ A famosa fala confuciana: “Como sabemos que não estamos sonhando com a realidade?”.
Já descrevi a noção lockeana de crença ou conhecimento: ele sustenta que essa não é senão a percepção do acordo ou desacordo com as idéias; e isso ele considera uma descoberta importantíssima.
Teremos ainda a oportunidade de examinar mais minuciosamente esse grande princípio da filosofia do senhor Locke, e de demonstrar que com efeito se trata de um dos principais pilares do ceticismo moderno, muito embora contra a vontade do autor. De imediato, consideremos apenas o quanto este princípio adere à causa da crença que estamos estudando. Poderá este princípio iluminar o caso? Creio que a sensação que sinto existe; e que a sensação de que me lembro não existe agora, mas existiu ontem. Aqui, de acordo com o sistema de Locke, eu comparo a idéia de uma sensação com as idéias das existências passada e presente. Numa ocasião essa idéia está de acordo com a idéia da existência presente, mas em desacordo com a idéia da existência pretérita; na segunda ocasião, o inverso. São idéias caprichosas e que estão o tempo todo trocando amizades e inimizades! E não estou preparado para entender como funcionam esses caprichos… Quando digo que uma sensação existe, penso que entendo claramente aquilo que quero expressar. Mas aquele que quer tornar a expressão ainda mais clara afirma que há uma concórdia entre a idéia dessa sensação e a idéia da existência! Isso são trevas, não luzes. Circunlóquios obscuros. Concluo, portanto, que a crença que acompanha a sensação e a memória é um simples ato mental, que carece de definição. E assim será com as demais sensações: ver e ouvir jamais poderão ser definidos a ponto de ver e ouvir serem entendidos por quem não vê ou ouve. Para quem vê e para quem ouve, tanto faz uma definição: ela não tornará o visto ou o ouvido ‘mais claro’ para si. Todo homem com crenças e artigos de fé (e seria uma grande curiosidade depararmo-nos com um homem isento de crenças!) sabe perfeitamente o que uma crença é, mas nunca a definirá nem explicará a contento. Concluso, ainda, que sensação, memória e imaginação, mesmo debruçadas sobre o mesmo objeto, são operações de uma natureza bastante distinta, perfeitamente distinguíveis para qualquer homem sóbrio e em sua razão. Um homem que corre perigo de trocar umas pelas outras está ele mesmo em grande perigo e deve ser considerado com grande piedade. O que quer que este homem espere encontrar em termos de consolação, deverá se dirigir a outra coisa fora da metafísica e da lógica! Concluo, indo além, que pertence à condição humana o ato de acreditar na existência presente das nossas sensações e na existência passada daquilo que a memória é capaz de recordar tanto quanto o ato de achar 4 como resposta de de 2². A evidência dos sentidos, a evidência da memória e a evidência da relação necessária entre as coisas¹ são todas evidências distintas e originais inerentes a nossa constituição. Nenhuma dessas evidências depende da outra ou pode ser por elas esclarecida. Debater contra isso seria absurdo. Não, debater a favor delas é ainda absurdo, tautológico!² São princípios primordiais. São princípios não da razão, mas do próprio senso comum.³
¹ Quase chega à Crítica da Razão Pura de Kant. Sentir implica o espaço, a memória implica o tempo e em terceiro lugar vem o princípio da causalidade; eis o tripé do a priori epistemológico kantiano.
² Daí serem faculdades hoje chamadas a priori, que precedem nossa experiência.
³ Da razão pura, na nomenclatura de Immanuel Kant. O que Reid chama de razão neste contexto ainda é a razão empírica dos britânicos e/ou a razão abstrata dos franceses cartesianos antes do “kantismo” filosófico elaborar a síntese e encerrar o debate.
SEÇÃO 6ª. EM DEFESA DOS ABSURDOS EM METAFÍSICA. SENSAÇÃO SEM SUJEITO, UMA CONSEQÜÊNCIA DA TEORIA DAS IDÉIAS. OUTRAS CONSEQÜÊNCIAS DESSA ESTRANHA OPINIÃO. [SEC26]
Havendo considerado a relação existente entre a sensação do cheiro e a lembrança e a imaginação dele, prossigo, agora, com a relação do olfato com a mente, ou princípio senciente. É certo que nenhum homem pode conceber ou crer na existência do cheirar sem uma consciência, ou algo que tenha o poder de cheirar, o que chamamos simplesmente sensação, operação ou sentimento. Se for solicitada uma prova da asserção anterior, no entanto, confesso que ela não existe. Querer provar o olfato ou a sensação seria tão absurdo quanto negá-los.
Tudo isso poderia ser afirmado sem escusar o leitor antes da publicação do Tratado da Natureza Humana. Porque até este evento não sei de indivíduo algum que pensara em pôr em dúvida aquele princípio, ou em dar para sua crença uma justificação racional. Que os seres pensantes fosse de natureza etérea ou ígnea, material ou imaterial, tudo isso andava em disputa; mas pensar numa operação executada por um ser ou outro havia sido sempre prestabelecido, um princípio que não admitia dúvida.
Desde que Hume, no entanto, que é sem dúvida um dos metafísicos mais agudos jamais produzidos, tratou este princípio como um preconceito vulgar, e sustentou que a mente é só uma sucessão de idéias e impressões sem qualquer objeto, isto mudou. Sua opinião, embora contrária às apreensões comuns da humanidade, merece respeito. Peço portanto que nem esta nem outras noções metafísicas correlatas sejam pejorativamente tratadas como absurdos ou contra-sensos. Não significa, por ser uma opinião minoritária, nenhuma depreciação desses autores. Seu procedimento não se deve à falta de entendimento, mas de um excesso de refino: os raciocínios que conduzem a suas hipóteses iluminam a matéria de modo inédito e são sinais de verdadeiro gênio e penetração. As premissas expiam a conclusão.
Se há determinados princípios, como creio ser o caso, em que a constituição de nossa natureza nos leva a crer, e que normalmente, por necessidade, devemos tomar como inatos no sentido do cotidiano, sem por isso poder explicar sua causa –– se há esse tipo de princípios, são eles o que batizamos de princípios do senso comum. Aquilo que se apresenta como manifestamente contrário aos princípios do senso comum são naturalmente considerados por nós como absurdos.
Se nossa mente formula a abstração “A sensação e o pensamento podem existir sem a senciência”, e estabelece esta formulação na filosofia como uma verdade, isto não se deve ao acaso. Com efeito, e não ironizo, o atingimento desta formulação são a mais incrível descoberta de toda nossa história intelectual. A doutrina das idéias que nós recebemos da Antiguidade é o princípio-base que torna possível este conhecimento por dedução (em vez de indução). Em dado momento seria necessário chegar a esta conseqüência, dada a premissa. Que tenha demorado muitos séculos é chocante – mas é provável que não fosse assim se a repugnância e contrariedade que sente nossa apreensão cotidiana não retardassem bastante seu estabelecimento. É de fato uma conclusão que exige um grau incomum de intrepidez filosófica. É um princípio fundamental de um sistema ideal: Todo objeto do pensamento deve ser uma impressão, ou uma idéia, isto é, uma cópia mais tênue de uma impressão precedente. Este princípio fundamental é tão universalmente validado que o autor acima citado¹ não necessitou, ainda que todo seu sistema fosse decorrente dele, erigido sobre ele, provar seu ponto. Este ponto fixo, este princípio básico, sobre o qual Hume erige seu maquinário metafísico, é o suficiente, ao fim, para tornar céu e terra, corpo e espírito convolutos. Em minha apreensão indutiva, este ponto fixo não gera tamanha conseqüência à toa ou devido a qualquer tipo de erro. É uma revolução lógica do espírito humano. Porque se impressões e idéias são os únicos objetos do pensamento, faz sentido que céu e terra, corpo e espírito, e tudo o mais, devam ser considerados unicamente como impressões e idéias, ou seriam ainda pior, palavras sem qualquer significado. Tal noção, em que pese tão estranha, está intimamente conectada com a validade da doutrina das idéias – neste ponto, ou admitimos as conclusões que tal doutrina nos preme a tomar ou então questionamos toda a doutrina.
¹ Aqui fala-se de David Hume, mas não devemos esquecer que a doutrina das idéias provém de Platão.
As idéias parecem conter algo em sua natureza que não coaduna bem com outras existências. Sua primeira aparição na filosofia se deu por meio de imagens ou símbolos um tanto simplórios das coisas. São imagens tão tíbias que não têm – ou tinham – qualquer caráter ofensivo; ao contrário, serviam admiravelmente bem ao progresso do pensar, em particular como instrumentos da filosofia na descrição das operações do entendimento humano. Desde que, porém, o homem começou a raciocinar mais clara e distintamente, as idéias foram de grau em grau suplantando seus constituintes (as coisas), tomando o lugar de tudo, subsumindo sua existência, menos a das próprias idéias. Em primeiro lugar, foram descartadas as qualidades secundárias dos corpos. Isto significa: o fogo não é quente, a neve não é fria, o mel não é doce: o calor, o frio, o som, a cor, o gosto e o olfato nada são senão idéias, impressões. O Bispo de Berkeley tomou um passo adiante, encontrando, racionalmente, seguindo o mesmo princípio, outrossim, a formulação de extensão, solidez, espaço, figura e corpo como idéias – em suma, que nada há na natureza a não ser idéias e espíritos. Mas o triunfo das idéias foi finalmente declarado pelo Tratado da Natureza Huamana, que contesta, finalmente, a co-primazia dos espíritos na fórmula. Apenas idéias (impressões) têm existência no cosmo. O que se daria se, coexistentes apenas umas com as outras, as idéias, finalmente soberanas, passassem a predar agora umas às outras, num canibalismo figurado, deixando a natureza órfã de existência em absoluto? Isso deixaria a filosofia em grave perigo. Seria o fim das investigações.¹
¹ Engenhoso parágrafo de Reid, parecendo antecipar, ao menos em seus contornos, a crise da razão que se concretizaria e ultimaria somente cem anos depois, quando já não seria mais possível fugir da questão do niilismo metodológico.
Isso, porém, seria uma questão para adiante. Até o presente os filósofos reconhecem a existência das impressões e idéias. Reconhecem determinadas leis da atração, ou regras de precedência, de acordo com as quais as idéias e impressões variam em forma e sucedem-se entre si. Mas que devam pertencer à mente, como objetos ou propriedades de um senhor, isso não admitem. As idéias são tão livres e autônomas quanto os pássaros no vôo, ou os átomos de Epicuro sem obstáculos em sua trajetória. Nos permitamos considerar as idéias como películas ou membranas das coisas com auxílio do sistema de Epicuro.
Principio hoc dico, rerum simulacra vagari,
Multa modis multis, in cunctas undique parteis
Tenuia, quae facile inter se junguntur in auris,
Obvia cum veniunt.¹ – LUCRÉCIO²
¹ —No princípio, diz-se, as imagens vagaram,
De todos os modos, em todas as direções
Sendo que a tendência era eventualmente
Se reunirem umas com as outras.
²
Ou as idéias antes lembrariam os espécimes inteligíveis de Aristóteles após serem projetados do objeto, mas antes de atingirem o intelecto passivo? Mas por que gastamos nosso tempo com comparações, se não há nada na natureza a não ser idéias? Eis toda a decoração do universo; principiando na existência, ou fora dela, sem causa; combinando-se em parcelas (receptáculos?), que o vulgo chama de mentes; sucedendo umas às outras segundo leis imutáveis, sem tempo, lugar ou autor destas leis mesmas.
E contudo essas idéias auto-existentes e independentes parecem tristes, carentes e capengas, se deixadas ao relento em meio ao universo das coisas. Parece que as idéias nunca estiveram em pior estado. Descartes, Malebranche e Locke, como utilizavam muitas e muito as idéias, tratavam-nas bem, hospedando-as nos melhores aposentos. Com efeito, a residência das idéias, para estes senhores, era ou a glândula pineal ou o puro intelecto ou até a mente divina. Estas idéias também eram vestidas e revestidas de bons trajes e ofícios, cabendo a elas representar as coisas, prestando-lhes a máxima dignidade e caráter. Mas o Tratado da Natureza Humana, muito embora deva sua existência a toda essa nobreza das idéias prévias, foi muito ingrato com todas. Pensou ser grato concedendo-lhes essa liberdade absoluta, essa existência independente. Órfãs, por assim dizer, sem um lar aconchegante como antes, desamparadas no caótico mundo das ruas, sem amizades nem conexões, sem mesmo trapos para cobrir a própria nudez – queem sabe se não irão todas essas idéias, na nova condição, perecer, graças ao próprio zelo de seus novos defensores zelosos, os últimos filósofos?
E no entanto trata-se da mais maravilhosa descoberta, a de que pensamento e idéias existam independentemente do ser: uma grande descoberta com conseqüências difíceis de mensurar por esses mortais iludidos, que raciocinam na senda comum. Sempre estivemos inclinados a imaginar que um pensamento tem um pensador, que o amor possui amante e amado, e a traição, traídos e traidores. Hoje, entretanto, apercebemo-nos de que era um erro histórico. Pode haver traição sem traidores, amor sem amantes, leis sem legisladores, até punição sem punidos, sucessão sem tempo e movimento sem objetos que se movem, aliás, nem falar em espaço no qual se movam; ou, analogamente, se as idéias forem quem ama, quem sofre, quem trai – aí então é desejável que o autor desta descoberta complementasse seu trabalho, informando-nos se, nesse caso, idéias podem dialogar entre si, se podem assumir obrigações morais ou relações de gratidão; fazer promessas, ingressar em associações, assinar tratados, cumpri-los ou quebrá-los, e com isso ser passíveis de punição. Se um rol de idéias pactua, outro rol pode desebedecê-las, uma terceira categoria ser eleita como bode expiatório, e assim por diante. Não há qualquer razão para atribuir justiça inata a este sistema.
Mas para mim parecia natural que o Tratado da Natureza Humana necessitava um Autor, não se escrevendo sozinho. E não um qualquer, um muito engenhoso. Claro que foi apenas uma suposição imatura e afoita: o Tratado é o resultado da concórdia entre idéias livres, que se associam e atraem de acorod com o próprio senso de independência individual.
Depois de tudo, este curioso sistema não calha muito com o atual estado da natureza humana, analisando mais densamente. Claro que alguns espíritos eleitos, muito acima do senso comum, muito refinados, ainda poderão tirar proveito do Tratado em larga medida. Porém, ainda resta minha restrição de que mesmo estas almas só podem ingressar no sistema nas horas mais prazeiteiras e ociosas, sendo vedado se aventurar no reino das idéias independentes em horas menos especulativas. Condescender em lidar de novo com a raça humana e as coisas materiais, digo, conversar com um amigo, um companheiro, um compatriota, um cidadão, é desmanchar este sistema ideal. O senso comum, como corrente irresistível, retoma o controle e arrasta a todos, sem exceção. Apesar de todo seu isolamento e suas reservas, os filósofos também crêem que existem, e crêem na existêm das coisas que os rodeiam.
O que é muito positivo, por sinal: assim o restante da humanidade não os considera indivíduos doentes, podendo estes sujeitos levar uma vida normal. Assim como Platão exigia certas qualificações para a entrada em sua Academia, os proponentes desta filosofia ideal devem providenciar o mesmo, por prudência, admitindo em seu círculo somente aqueles que sabem diferenciar aquilo que pensam de si quando estão sozinhos ou quando estão acompanhados. Em suma, que só sejam admitidos filósofos que saibam que seus princípios não funcionam na prática. Esta filosofia é como um passatempo que um homem cultive em seu tempo recluso; que até um homem nada virtuoso cultive, em seclusão, sem prejuízo social. Sem prejuízo para a própria reputação. Mas se ele exibe esses princípios na igreja, no comércio, nas inter-relações, no jogo de cartas, seu herdeiro imediato não deverá pestanejar em evitar a mácula convocando de pronto um júri, a fim de interditá-lo.
SEÇÃO 7ª. A CONCEPÇÃO E A CRENÇA NUM SER SENCIENTE OU NA MENTE É SUGERIDA POR NOSSA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO; A NOÇÃO QUE HÁ DAS RELAÇÕES NEM SEMPRE É ADQUIRIDA MEDIANTE A COMPARAÇÃO ENTRE IDÉIAS RELACIONADAS. [SEC27]
Deixando de lado, portanto, essa filosofia àqueles que têm predisposição a ela e a utilizam com discrição num “exercício de quarto”, devemos ainda indagar como o restante da humanidade, e os próprios céticos quando não em estado solitário, veio a adquirir e cultivar tão forte e irresistível fé: a fé de que o pensamento tem de ter um objeto, e ser ato também de um sujeito: como todo homem crê em si como sendo algo distinto de suas próprias idéias e impressões; algo, por assim dizer, que continua sendo o mesmo ‘si’ idêntico mesmo quando suas idéias e impressões mudam. É impossível traçar a origem dessa opinião na história: em qualquer língua o designativo em primeira pessoa existe desde os primeiros vestígios de sua existência. Todas as nações creram até hoje no eu. Todas as constituições e governos, bem como todas as transações cotidianas da vida, supõem o eu.
Não é menos impossível ao próprio sujeito tentar lembrar-se desde quando ele veio a ter essa noção de si; nossas memórias mais antigas já estão associadas a uma consciência de si próprio, tão claramente quanto era claro que existíamos, e que reconhecíamos a existência de outros objetos externos. Numa palavra, de modo tão conciso e que não aceita exceções como 1 + 1 = 2. É uma opinião que a priori antecede todo raciocínio, e mesmo experiência e instrução; é especulação minha, mas é o mais provável, porque seria difícil nos inculcar algo tão poderoso mais tarde, se já não fosse nosso. É um fato inegável que, via pensamento ou sensação, toda a humanidade, constante e invariavelmente, desde a aurora da consciência, infere um poder ou faculdade do pensamento, e junto com ela uma mente ou ser permanente a que esta faculdade pertence; é fato inegável que nós adscrevemos invariavelmente todos os tipos de sensação e pensamento de que temos consciência a uma mente individual ou self.
Mas sobre quais regras lógicas fazemos essas inferências é impossível demonstrar; até mesmo nossas sensações e nosso pensamento vigentes, que são capazes de se referir a uma noção ou conceito de mente ou faculdade, são igualmente incapazes de nos brindar com a explicação de como eles mesmos são disso capazes! A faculdade do olfato é algo bem distinto da sensação de cheirar por si mesma; pois a faculdade continuará mesmo que percamos a sensação (supondo que estamos apenas descansando de usá-la ou num ambiente inodoro). E a mente não é diferente, nesse aspecto de perseverança, que a faculdade. Ela é a própria faculdade da faculdade, i.e., o que a faculdade é para a sensação, a mente é para a faculdade. A mente segue a mesma ainda que por algum evento percamos, por exemplo, a faculdade do olfato. A sensação nos sugere uma faculdade e uma mente; e não apenas uma noção de ambas, mas até cria, acredito, a fé na ou certeza de sua existência. Embora seja impossível avaliar o que afirmo racionalmente e estabelecer qualquer conexão, mais fugaz ou diáfana que seja, entre tal sensação e certeza.
O que podemos dizer, então? Ou referidas inferências que tiramos das sensações (a existência da mente, os poderes das faculdades que lhe pertencem) são prejuízos da filosofia ou da educação, meras ficções da… mente, o que um homem prudente deve logo descartar, como se se tratasse de crença em fadas, pois já seria imputar má-fé ao próprio objeto aqui investigado… Ou referidas inferências são juízos da natureza, juízos obtidos não ao comparar idéias, captando concórdias e discórdias entre elas, mas imediatamente inspiradas pela nossa própria constituição.¹
¹ Reid prefigura Kant claramente. Comparemos a possível data em que ambos publicaram primeiro suas afirmativas neste sentido: Reid neste tratado e Kant em Crítica da Razão Pura. (…) Isso é o máximo que podemos sacar de conclusões num debate sobre pioneirismo em filosofia. Ignoro, na história das idéias, quais fatores foram mais decisivos para Kant ser ilustríssimo e Reid quase uma curiosidade de pé de página (que ainda teve a sorte de ser citado por Arthur Schopenhauer numa obra muito conhecida, ao que devo meu próprio conhecimento de sua existência). Kant tem suas deficiências palpáveis de estilo e escrita; mas o mesmo pode ser censurado a Reid, que é bem menos direto do que a modorra do assunto parece exigir; mas falo da perspectiva de um filósofo do séc. XXI já “farto de ouvir falar” nestes “primórdios” da concepção dos a priori da (a)percepção humana. Provavelmente este assunto delicado, à época, requeria todo esse cuidado dos dois autores, quiçá até mais.
Considerando que a resposta é o segundo caso, será impossível abandonar estas concepções, então sirvamo-nos delas! Se pudéssemos, mediante uma obstinação reiterada, atirar fora esses princípios naturais, seria até uma atitude anti-filosófica, mas apenas abdicar à loucura. Cabe aos céticos se explicarem diante de sua confusão precipitada, e não a nós, que seguimos a natureza milenar das coisas.
Faz parte da doutrina filosófica que herdamos o conhecimento de que nossas noções das relações só podem ser obtidas comparando idéias relacionadas; mas, no presente caso, pareço haver encontrado uma instância excepcional. Não é através das noções de mente e sensação que alcançamos a relação de uma delas com a coisa ou substratum¹ e a relação da outra com um ato ou operação. É todo o contrário: uma das coisas comparadas, quer seja, a sensação, sugere de antemão tanto o correlato quanto a própria relação!
¹
Peço que me permitam a utilização das palavras ligadas a sugestão aqui. Sugerir, no caso acima. Desconheço expressão melhor para exprimir um poder da mente que por tanto tempo parece ter passado desapercebido pelos mais distintos filósofos. Muito do que somos capazes de operar com a mente, que não é nem impressão nem idéia, é também atribuível a esse poder de sugestão. Muitos princípios originários da crença, por sinal.¹
¹ Revisemos o verbo sugerir no dicionário português: insinuar; lembrar; inspirar; fazer nascer no espírito; promover. Sem dúvida Reid foi muito feliz na escolha da palavra.
Todos nós sabemos que um certo tipo de som nos sugere imediatamente, ou sugere antes à mente, uma carruagem atravessando a rua. E não só essa sugestão alimenta poderosa e rapidamente nossa imaginação como a crença, a crença de que uma carruagem está passando. Idéias não chegaram a ser comparadas. Não há aqui uma reflexão interna que leve em conta harmonias e discordâncias, nada do tipo. É uma crença; nasce como crença. Não há como comparar, tampouco, a carruagem com o som dos cavalos e das rodas da carruagem em contato com o asfalto. Tal analogia entre duas idéias, ou, na verdade, uma idéia e uma sensação, é impossível.
Esta sugestão em específico não é natural e original; é o resultado da da experiência e do hábito. Alguém que nunca ouviu este som antes, não conhece o veículo e nunca visitou a cidade correria sério risco de ser atropelado, pois o som não necessariamente lhe sugeriria algum perigo ou nada pesado em particular se deslocando em velocidade. Porém, acredito que haja sugestões naturais neste mundo. Uma delas eu citei: que a sensação nos sugere a noção da existência imediata, e a crença de que o que percebemos ou sentimos agora existe agora. Que a memória sugira a noção de uma existência passada e a crença de que lembramos ter vivido e tido um tempo passado nós mesmos; e que nossas sensações e pensamentos sugiram a noção de uma mente, e a crença em sua existência, e de imediato sua relação com os pensamentos, tudo isso é mera conseqüência natural do já dito.
Algum princípio natural do tipo, que nos sugere um começo do existir, ou mudanças na natureza, nos sugere a noção de causa e nos compele à fé em sua existência (causas existem). Antes de encerrar o capítulo, devo assinalar que, no devido tempo, discorreremos sobre a sugestão que nos dá o sentido do toque ou tato: mediante algumas sensações no contato com objetos ou corpos, devido à nossa constituição inata, ficam-nos sugeridos desde já aspectos como extensão, solidez e até movimento, que não são simples sensação, muito embora os filósofos têm-nos confundido com sensações até aqui. Não encerramos o tópico do olfato, entretanto.
SEÇÃO 8ª. EXISTE UMA QUALIDADE OU VIRTUDE DOS CORPOS CHAMADA OLFATO. COMO ELA ESTÁ CONECTADA, NA IMAGINAÇÃO, À SENSAÇÃO. [SEC28]
Por enquanto consideramos o cheiro como significando uma sensação, sentimento ou impressão impingidos na mente; nesse sentido, só pode ser mesmo numa mente, num ser senciente. Mas é evidente que a humanidade dá o nome de cheiro muito mais amiúde a algo que se concebe como meramente externo, ou seja, qualidade dos corpos: entende-se com esse discurso que cheiro está como que “separado” da mente. O homem, com efeito, não sente dificuldades ou constrangimento em conceber o ar perfumado com odores aromáticos nos desertos da Arábia, ou em qualquer ilha desabitada, sem a presença de mentes ou criaturas sencientes para cheirá-los. Do mais eminente filósofo ao trabalhador mais humilde, esse trabalho de concepção será igualmente fácil e estará igualmente presente. Não há ninguém convencido do contrário. Há cheiros lá fora, sendo sentidos ou não.
Mas, já que tocamos no filósofo, suponhamos um encontro deste trabalhador dotado de senso comum com um filósofo moderno, no sentido mais pejorativo do termo. Suponhamos que o trabalhador muito respeita a sabedoria do filósofo e lhe pergunta: O que é o cheiro das plantas? O filósofo então dirá: Não há cheiro das plantas, nem em nada mais, o cheiro está só na mente; é impossível que haja cheiro fora da mente; tudo isso já foi demonstrado pela filosofia moderna. O homem de senso comum irá, sem dúvida, achar que foi vítima dum gracejo; mas se por um acaso interpretar que o filósofo falou a sério, sua próxima conclusão, então, será que ele ficou louco. Ou que a filosofia, como a magia, transforma o homem noutra coisa, condu-lo a outro mundo, concede-lhe poderes inimagináveis para o homem de senso comum. É então que o senso comum e a filosofia se divorciam para sempre. Mas a quem devemos culpar? Em minha opinião, o filósofo. Porque se ele entende por cheiro o que todo o resto da humanidade aprecia como cheiro, ele realmente ficou louco. Mas se ele concede um significado diferente à palavra cheiro, sem no entanto avisar disso a coletividade que o rodeia, ele abusa da linguagem, e desgraça com isso a filosofia, sem chegar um centímetro mais perto da verdade – como um homem que trocasse as palavras filha e vaca e tentasse provar ao vizinho que sua vaca é sua filha, e sua filha sua vaca.
Acredito não haver muito mais sabedoria em muitos desses paradoxos da filosofia idealista, que, para homens no pleno uso da razão, não passam de patentes absurdos, com a diferença de que os adeptos destes absurdos tentam convencer os leigos de que se tratam de profundas descobertas. De minha parte eu delibero seguir a rota ditada pelo senso comum, e não sair deste caminho seguro senão em caso de absoluta necessidade. Agindo assim, chego à conclusão de que há realmente na rosa ou no lírio algo que o vulgo chama de cheiro, e que continua a existir mesmo quando não é cheirado. Devo seguir investigando o objeto. Como adquirimos dele a noção? Qual é a relação dessa qualidade ou virtude do olfato com a sensação do olfato, que anteriormente nos vimos obrigado a chamar pelo mesmo nome, embora sejam duas coisas distintas, pela falta de um outro nome adequado.
Imaginemos uma pessoa que começa a exercitar o sentido do cheiro: um pouco só de experiência irá ensinar-lhe que o nariz é o órgão deste sentido, e que o ar, ou algo no ar, é seu meio. Adquirindo mais experiência, perceberá que quando uma rosa está próxima ela tem certa sensação; quando a rosa é retirada ou removida, a sensação é suspensa. A pessoa obrigatoriamente estabelece uma conexão entre a rosa e a dita sensação. A rosa é considerada como a causa, a ocasião, ou antecedente da sensação; a sensação como um efeito ou conseqüência da presença da rosa; ambas estão associadas na mente, e constantemente aparecem indissociadas na imaginação.
Mas há algo que merece nosso reparo: embora a sensação pareça mais intimamente rligada à mente enquanto seu sujeito, e ao nariz enquanto seu órgão, nenhuma dessas conexões opera tão poderosamente sobre a imaginação quanto sua conexão com a própria rosa, sua concomitante. A razão para isso parece residir na maior generalidade da conexão das coisas ou sensações com a mente, que não ‘sabe’ bem separar outros tipos de cheiros, i.e., não sabe como compará-los, o mesmo valendo para gostos, sons e outras sensações. A relação da sensação com o órgão é também ‘geral’, e não distingue de outros cheiros – mas a conexão com a rosa é especial e constante. Doravante, rosa e sensação se tornam inseparáveis, por assim dizer, na imaginação, assim como não pensamos, praticamente, no trovão sem pensar no relâmpago, no objeto congelado sem pensar no frio.
SEÇÃO 9ª. EXISTE UM PRINCÍPIO DA CONDIÇÃO HUMANA DO QUAL DERIVAM A NOÇÃO DO OLFATO E OUTRAS VIRTUDES OU CAUSAS NATURAIS. [SEC29]
Para ilustrar melhor como concebemos uma qualidade ou virtude na rosa, que vimos a chamar de cheiro, e o que o cheiro é, é necessário observar que a mente começa muito precocemente a buscar por princípios que dirijam-na no exercício de seus poderes. O cheiro da rosa é determinada afecção ou sentimento da mente; como não é constante, mas vem e vai, o que queremos saber é quando e onde devemos esperar pela sua presença; ficamos inquietos até acharmos algo que, estando perto, nos traz consigo este sentimento determinado e que, como dito mais acima, estando longe, arranca de nós este mesmo sentimento. A isso denominamos causa. Não no sentido mais filosófico do termo, é verdade: não que o sentimento fosse produzido de fato pela causa, mas no sentido popular do termo. A mente está satisfeita se há o estabelecimento de uma conjunção constante entre um e outro (objeto e sentimento). Estas causas nada mais são que leis da natureza. Tendo verificado que o cheiro da rosa está constantemente aferrado à rosa, a mente se tranqüiliza, sem se perguntar se essa conjunção, verificada, testada, se deve a uma eficiência real ou não. Pois adentrando a investigação filosófica, não concerne à vida humana cotidiana. Mas toda descoberta de conjunção constante é, em realidade, muito importante na vida, e deixa grande impressão na mente.
Desejamos tão ardentemente encontrar tudo que acontece dentro de nossas observações em conexão com outros objetos, atribuindo causas ou ocasiões de fenômenos ou efeitos, que estamos aptos a imaginar conexões até precárias, quase sem fundamento: essa debilidade é mais marcante na mente ignorante, que menos conhece das reais conexões estabelecidas na natureza. Um homem se depara com um acidente inesperado num dado dia do ano; desconhecendo qualquer outra causa para sua atribulação, está o homem disposto a conceber que este mesmo dia do calendário é a possível causa da ocorrência de azares, eventos ruins. E se no ano seguinte, no mesmo dia do mês lhe sucede outro evento indesejável, talvez, melhor ainda, não já no ano seguinte, mas vários anos depois, pensa, se guardou bem na memória, poder confirmar a conexão (neste caso uma superstição atrelada a um simples número, e um nome associado ao número, se se quiser). Lembro, muitos anos atrás, de um boi importado a este país, tão grande e pesado que as pessoas percorriam enormes distâncias para vê-lo. Aconteceu que, meses depois, uma fatalidade incomum afetou várias mulheres durante o parto. Dois eventos insólitos seguidos um do outro deixaram a suspeita na mente das pessoas de uma conexão oculta, e fizeram nascer a opinião, entre os habitantes do campo, de que o boi branco era a causa dos problemas de parto.
Malgradas a tolice e ridicularia desta opinião, ela nasceu da mesma raiz da condição humana da qual toda a filosofia também brota, da mente. Da mente e de seu aflitivo desejo de encontrar relações lógicas entre as coisas, uma inclinação natural, original e incontrolável de crer que fatos que viemos a observar no passado, e aos quais atribuímos conexões, voltarão a se repetir. Presságios, portentos, sorte ou azar, quiromancia,¹ astrologia e inúmeras outras artes da adivinhação, além da interpretação de sonhos, falsas hipóteses e sistemas, e mesmo verdadeiros princípios da filosofia da natureza foram erigidos sobre a mesma fundação da constituição humana. E os casos são fechados após apenas algumas poucas observaçoes, em grande parte; noutra, por insistência e indução num grau suficiente, os casos são solucionados de maneira propícia.
Como é unicamente a experiência que descobre essas conexões entre causas naturais e seus efeitos, sem inquirir além atribuímos à causa alguma noção vaga e indistinta de um poder ou virtude para produzir efeitos esperados. Em muitas instâncias da vida não se vê necessidade de distinguir causa e efeito por nomes diferentes. Tão próximos na imaginação, embora tão distintos se considerados em separado, dois nomes vêm a ser conhecidos por um só. No discurso diário, o nome vencedor é o do objeto que mais nos chama a atenção. Isso ocasiona a ambigüidade de inúmeras palavras que, tendo uma mesma causa em muitas línguas, nunca é percebida pelos filósofos. – Alguns exemplos ajudarão a confirmar o que foi dito até aqui.
¹ Leitura do destino pelas linhas das mãos.
Magnetismo significa tanto a atração do ferro pelo ímã quanto a qualidade ou poder do ímã de em geral causar essa atração. E se fosse perguntado: é uma qualidade do ferro ou do ímã?, talvez a resposta fosse hesitante e confusa. Mas um pouco de reflexão sobre o tema descortina que concebemos um poder no ímã como causa, e o movimento do ferro como o efeito. E mesmo o ferro, sem mais, sendo atraído e a faculdade dos ímas (ferro oxidado, magneto) de atrair ferros não-magnetizados sendo duas coisas bem particulares, tendemos a chamar ambas as coisas de magnetismo.¹ O mesmo pode ser dito da gravitação, que às vezes significa a tendência dos corpos em direção ao centro da terra, às vezes o poder de atratividade da terra, que consideramos como a causa verdadeira do fenômeno.² A mesma ambigüidade está presente em alguns dos escritos de Sir Isaac Newton, e em suas definições mesmo. O próprio pai da gravitação universal! Em 3 de suas definições ele detalha claramente o que entende por quantidade absoluta, por quantidade acelerativa³ e por quantidade motriz da força centrípeta. Na primeira das três definições, a força centrípeta é posta como a causa, o que concebemos como o poder no centro do corpo, ou do corpo central, num sistema com vários corpos; nas duas definições seguintes, a mesma palavra é considerada efeito desta causa no ato de produzir a velocidade ou ao produzir o movimento direcionado ao centro.4
¹ Em minha opinião o primeiro exemplo escolhido é péssimo! Mas o autor não estaria em maus lençóis se vivesse para ver o intenso fenômeno dos mesmerizadores, i.e., da proliferação dos estudos sobre o magnetismo animal – por falta de palavras, começamos a empregar o mesmo termo do mundo mineral para relações de sugestão provocadas por um hipnotizador típico do século XIX.
² Novamente um péssimo exemplo. Talvez para seu leitor fizesse algum sentido, mas do época em que estamos não podemos considerar essas falsas equivalências como torpes ou ingênuas.
³ O uso é tão ruim que a palavra sequer se encontra dicionarizada em português.
4 Não tive o privilégio de ler Newton até o momento. Não posso dizer se Reid se expressou mal, não entendeu as leis de Newton ou simplesmente voltou a escolher um mal exemplo (Newton pode efetivamente ter se expressado de uma maneira pouco inteligível ao leigo, de forma que hoje um aluno esteja mais bem-informado em física lendo intérpretes do que Newton queria dizer do que lendo o próprio Newton!).
Calor designa uma sensação, frio sem contrário. Mas calor significa também uma qualidade ou estado dos corpos, sem um “contrário”, mas apenas diferenças de grau. […]¹ E quando o homem doente sente que o alimento é ruim mesmo que ontem tenha comido a mesma coisa e o gosto era bom, ele sabe que nenhuma propriedade foi alterada no gosto, mas na sua sensação do gosto.
¹ Em defesa de Reid, aqui o exemplo é melhor. Não se trata de analisar o mesmo fenômeno científico de duas perspectivas (falsamente) bem dicotômicas, mas de constatar que falamos de calor no dia a dia, embora calor seja também um conceito da física moderna. Neste caso, porém, creio que não inventar uma nova palavra seja uma economia com vantagens: o discurso vulgar não interfere no discurso acadêmico, e vice-versa. Nunca vi alguém se descabelar por não entender de qual calor se está falando, mesmo numa aula de física do ciclo básico! Um trecho do parágrafo foi suprimido porque contém noções tão óbvias sobre frio e calor de líquidos como a água e do corpo que achei desnecessário e até pejorativo incluir na tradução – ao mesmo tempo em que tanto honra o “homem de senso comum” em sua obra, Reid parece subestimar bastante sua intelecção, proclamando-o incapaz das associações mais banais. Veja que no exemplo seguinte Reid não comete o mesmo erro! Não vejo necessidade, no entanto, de se criar uma palavra diferente para designar a sensação do gosto para se contrapor à… virtude do gosto? A sensação do gosto do gosto propriamente dito, numa palavra. ‘Sensação’ já faz a discriminação técnica necessária mesmo ao filosofar.
O vulgo é comumente premido pelo filósofo a pensar no absurdo do cheiro da rosa sendo algo igual à sensação do cheirar.¹ Mas eu penso sem justeza; porque eles sequer tão os mesmos epítetos a ambos.² Nem pensam de maneira análoga para ambos (o cheirar e o cheiro). O que é o cheiro da rosa? É a qualidade ou virtude da rosa; ou de algo que provém dela, que percebemos pelo sentido do olfato. E isso é quanto sabemos do assunto. Mas o que é o olfato, então? É um ato mental; mas nunca é imaginado como uma qualidade da mente.³ De novo, a sensação do cheiro é concebida como inferindo necessariamente uma mente, ou ser senciente. Mas cheiro da rosa nada infere! Dizemos: Esse corpo tem um cheiro doce; isso fede. Mas não dizemos: Essa mente cheira algo doce, e essa algo que fede.4 Destarte, o cheiro da rosa e a sensação que ele causa não são concebidos, mesmo pelo vulgo, como coisas do mesmo gênero, embora compartilhem o nome.4
¹ Como Reid exagera!
² Exatamente!
³ Como não, se já se concede que seja um ato mental segundo o filósofo?
4 Extrapolação.
Do dito, podemos aprender que o cheiro da rosa significa duas coisas. Primeiro, Uma sensação, que não pode ter existência quando não é percebido (o cheiro), e só pode ocorrer em um ser senciente, ou mente. Segundo, Significa algum poder, qualidade ou virtude, na rosa, ou nos eflúvios provenientes da rosa, que tem uma existência permanente, independente da mente, e que devido à constituição da natureza produz em nós a sensação. Pela constituição original de nossa natureza, somos levados a acreditar, duplamente: que há uma causa permanente da sensação, projetada para ir em sua procura (a mente, através do nariz); e que a experiência nos conduz a depositar essa causa na rosa. Os nomes de todos os cheiros, gostos, sons, e também do frio e do calor, possuem a mesma ambigüidade em todas as línguas.¹ O que merece nossa atenção é que esses nomes são raramente usados na linguagem cotidiana para se referir às sensações. Quase sempre esses nomes denotam as qualidades externas que são indicadas pelas sensações.² A causa desta situação eu reputo como sendo que nossas sensações têm diferentes graus de força. Algumas delas são tão vívidas e imediatas, predominantes, enfim, que nos mergulham sem esforço no prazer, ou então no desconforto. Quando este é o caso, somos compelidos a prestar atenção à sensação ela mesma, e torná-la objeto do pensamento e do discurso. Damos-lhe um nome específico que nada indica a não ser a própria sensação. Nestes casos mais favoráveis, e somente nestes, admitimos de imediato que a coisa referenciada pelo nome está apenas na mente, e não no exterior. Estamos falando dos vários tipos de medos, mal-estares e graus da fome ou outros apetites, devidamente substantivados. Mas, onde as sensações não são tão interessantes a ponto de exigir de nossa parte que se tornem objeto imediato do pensar, nossa constituição nos leva a considerá-las o signo de algo externo, que está afinal sempre associado à sensação. Descobrindo o que a sensação indica, damo-lhe um nome: a sensação, esta sensação geral, sem um nome propício, que se torna acessória do sentido que ela evoca, e subsume sob seu nome. O nome (da sensação) pode até ser aplicado à sensação (sensação do cheiro), mas o mais comum é atribuí-lo diretamente ao objeto visível provocador da sensação. As sensações do cheiro, sabor, sons e cores são infinitamente mais importantes como signos ou indicadores do que como sensações em si, predominantes; como as palavras de um idioma, em que não dedicamos novos nomes provocados pelo som, mas nos atemos ao sentido da audição.³
¹ Isso seria um indício para ter fé na língua, não para culpar os filósofos de incompetência.
² O esforço para superar Hume parece interminável e incalculável, vendo-se como Reid se prolonga em circunlóquios relativamente simples (da nossa perspectiva) que são apenas sintomas de uma ingênua compreensão, até sua geração, de questões epistemológicas e fenomenológicas bem-resolvidas mais tarde.
³ Para uma exposição sem solavancos recomendo minha versão abreviada!
SEÇÃO 10ª. DURANTE A SENSAÇÃO A MENTE É ATIVA OU PASSIVA? [SEC210]
Uma dúvida remanesce: no ato de cheirar e no desempenho de outras sensações, é a mente passiva ou ativa? Essa parece uma pergunta sobre palavras, ou ao menos marginal. Mas se sua resposta nos levar mais acuradamente às operações da mente do que estamos acostumados a fazer, não será perda de tempo nem de esforços. Creio que a opinião dos filósofos contemporâneos seja que a sensação é passivamente sentida na mente. E isso é em tal grau verdadeiro que não podemos chegar às sensações por mera força de vontade; na outra mão, parece impossível evitar sentir a sensação quando o objeto é apresentado. Ao mesmo tempo ainda, parece verdadeiro que, na proporção em que a atenção está mais ou menos focada na sensação, ou totalmente dela alheada, a sensação é mais ou menos percebido e relembrada. Todos sabem que uma dor muito intensa pode ser aliviada por exemplo por um fator surpresa, ou muitas coisas que passam a ocupar a atividade mental. Engajados numa conversa, pode ser que nem escutemos as badaladas do relógio; pelo menos não lembramos de imediato termos escutado nada. O ruído e o tumulto de uma grande cidade comerciante não é sequer ouvido ou sentido por quem nela nasceu e a ela está acostumado todos os dias. Os turistas, entretanto, de locais mais remotos, logo se sentirão impactados. Se há alguma sensação que o cérebro possa sentir de maneira puramente passiva, não chegarei a tal extemo. Tudo o que posso dizer é que estamos cônscios de conceder em algum grau a atenção necessária a toda sensação de que recordamos, remota ou recente.
Sem dúvida que, onde o impulso é forte e incomum, é difícil distrair a atenção, como é difícil não acabar chorando sofrendo uma dor atroz, ou não tremer testemunhando uma rápida escalada do pavor. Mas quanto se pode atingir essa dissolução da atenção dependendo da firme resolução mental e do caráter da pessoa, e treinamente, não é fácil determinar. Embora os peripatéticos¹ não possuíssem razões para supor pólos passivos e ativos do intelecto, já que a atenção pode ser designada como uma to de vontade, eles chegaram, ao meu ver, o mais próximo da verdade nesta questão até hoje, ao defender que a mente sempre se desdobra simultaneamente em ativa e passiva diante da sensação. Os modernos julgam de outra forma. Sensação, imaginação, memória e juízo foram considerados pelo vulgo, em todas as idades, atos mentais. A maneira como são expressos em todas as línguas o evidencia. Quando a mente é muito exercida nestas atividades, dizemos, logicamente, que a mente se encontra bastante ativa; mas quando se trata apenas de impressões, como a filosofia idealista nos conduziria a concluir, diríamos, em tal caso, que a mente é demasiado passiva e recipiente: creio que nenhum homem atribuiria grande atividade ao papel sobre o qual escrevo, só porque ele recebe uma variedade de caracteres, manchas e impressões, sobre sua superfície.
¹ Seguidores de Aristóteles.
A relação da sensação do olfato com a memória e sua imaginação, e com a mente e o objeto que emana cheiro, é comum a todas as nossas sensações, e a todas as operações da mente: a relação que ela estabelece com a vontade é comum àquela com as faculdades do entendimento. E a relação estabelecida com essa qualidade ou virtude dos corpos que o olfato indica é comum com a relação estabelecida pelo paladar, pela audição, pela vista da cor, pelo calor e pelo frio: o que foi dito deste sentido pode ser sem problemas aplicado a vários de nossos sentidos, sem falar das operações mentais. Este é meu momento de escusa por me delongar no tópico do olfato.
CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]
Quase tudo quanto foi dito sobre o sentido do olfato pode ser replicado para o gosto e a audição, evitando assim uma tediosa repetição em nosso tratado.
É até provável que tudo quanto afeta o paladar é em algum grau solúvel na saliva. Não é concebível como qualquer coisa poderia entrar de imediato, e de seu próprio acordo, como é na realidade, nos poros da língua, palato e as fauces, a menos que houvesse alguma afinidade química ao licor com o qual esses poros estão sempre repletos. Seria realmente uma falta de economia da natureza se assim não fosse, pois se dá ao trabalho de produzir sempre essa espécie de solução nos seres dotados do paladar. E não investigamos até hoje os atributos da saliva o suficiente. Nos cães há uma grande capacidade médica e restaurativa na própria saliva. E não só os cães. Quanto a nós, é muito mais central a subserviência do órgão como um todo ao paladar e à digestão.
É de suma importância o órgão que guarda a entrada do canal alimentar, como foi dito que o nariz era o órgão perfeito para a entrada da respiração e dos cheiros, sendo este canal na verdade interconectado e útil para o caso da respiração bucal. Que tudo que entre no estômago de certa forma passa pelo escrutínio tanto do paladar quanto indiretamente pelo do olfato parece ser uma característica da evolução de nossa espécie, porque o que não é saudável provavelmente nos sabe mal e nos cheira mal. Os homens selvagens não têm sequer outra maneira de selecionar alimentos. O mesmo para os animais mais desenvolvidos. É muito provável aliás que o olfato e o paladar, sem ser viciados pela luxúria e os maus hábitos, nos ajudariam muito mais hoje do que são capazes de ajudar. Muitas vezes especiarias exóticas passam pelo nosso auto-controle, e enfrentamos problemas após o consumo. Isso se deve ao excessivo refino da arte da culinária, usando conhecimentos adquiridos da química e da farmácia para ludibriar nossos sentidos. Todos sabem que colocar pimenta numa comida pouco aprazível facilita sua ingestão. Isso demonstra que estamos vivendo de forma desnaturada na sociedade civilizada.
Podemos reconhecer a mudança no estado de corpos mais facilmente mediante estes dois sentidos que quaisquer outros. Imagine-se quanto há no mercado, nos restaurantes, na taverna, no apotecário e nos _chemist’s shops_ que reconhecemos como sendo aquilo que exibem etiquetado ou como sendo tal e tal coisa, justamente porque não podem nos enganar quanto à natureza da coisa? É impressionante também quão especializado pode se tornar o paladar, ou o olfato. Isso varia individualmente. Isaac Newton tentou distinguir a magnitude de partículas transparentes pela cor visível de seus corpos opacos:¹ e quem sabe que novas luzes a filosofia natural ainda poderá receber de qualidades secundárias, quando bem examinadas?
¹ Trecho que absolutamente não entendi. O que é de conhecimento comum é que Goethe corrigiu Newton no campo da teoria das cores.
Alguns gostos e cheiros estimulam os nervos e elevam o espírito. Mas essa elevação artificial é, pelas leis da natureza, seguida de uma depressão, que só o tempo cura, ou pela repetição do estímulo.¹ Pelo uso corriqueiro dessas coisas, criamos apetite por elas, o que muito lembra uma força natural.² É assim que a gente adquire o gosto pelo rapé, tabaco, licores fortes, láudano, etc.
¹ Sem querer, Reid resumiu o consumo de narcóticos!
² Não o estímulo artificial, mas a obtenção da excitação naturalmente.
A natureza parece industriosa em ter delimitado limites claros para prazeres e desprazeres compatíveis com estes nossos dois sentidos “inferiores” ou “mais vitais por assim dizer. Seus limites são particularmente estreitos. Não há cheiro incrivelmente desagradável que possamos tolerar, muito menos converter por hábito em algo agradável. Nem nada que seja agradável que não perca seu impacto com a assiduidade com que se nos é oferecido. E o prazer e o desprazer são automaticamente seguidos de seus contrários: a supressão do odor ou gosto desagradável causa alívio, etc. A divina alegoria de Sócrates pode ser aqui citada: embora contrários em sua natureza, Dor e Prazer, olhando cada qual um vetor oposto, Zeus atou-os de tal maneira para permanecerem juntos que aquele que se apossar de um(a), levará consigo o(a) outro(a).
Parece adequado dizer que um gosto não é menos diferente de outro gosto da mesma forma que a relação dos cheiros entre si. Eis uma questão: como cheiros vêm a constituir-se um genus, e os gostos outro? Qual é a distinção genérica entre ambos? Seria só a distinção do nariz e do palato realmente? Ou, mais abstratamente, não haveria algo nas sensações mesmas, algo sempre comum entre os aromas, algo sempre comum entre os gostos? Me parece que a resposta está mais para a última hipótese referida. A natureza disfarça detrás de uma simplicidade singela (nariz e boca, a grosso modo) uma multitude de complexidades sutis.
A missão do filósofo é ver a questão de forma mais abstrata. Um número de sensações, ou de qualquer coisa individualmente contável, que é perfeitamente simples e ‘puro’ (que não consideramos algo composto de outras duas unidades menores), parece irredutível aos genera e species. Indivíduos devem poder ter espaço para a individualidade e a diferenciação no mesmo gênero. Ao mesmo tempo, há os traços comuns que categorizam-no sem dúvida como membro de toda uma espécie. O mesmo, me aventuro a dizer, ocorre com species de um mesmo genus. Se não há aí uma entremescla de cheiros com gostos, deixarei para os metafísicos.
Fato é que as sensações provocadas por cheiros e gostos admitem tal infinidade de variantes ou modificações internas que nenhum idioma delas dá conta. Se um homem fosse avaliar 500 vinhos, dificilmente encontraria 2 exatamente idênticos em gosto. O mesmo para queijos, etc. Mas de 500 diferentes gostos de queijo e vinho, mal podemos diferenciar 20 com palavras, o que nos ajuda rudimentariamente a separar as sensações provocadas em nosso palato e descrevem, da melhor maneira que conseguimos, qual é o gosto, a alguém que não provou.
O doutor Nehemiah Grew, laborioso e judicioso naturalista, em discurso na Royal Society, 1675, se esforçou por demonstrar que existem pelo menos 16 gostos simples diferentes entre si, que ele enumerou. Quantos “gostos compósitos” a natureza não faria de dois, três, quatro ou mais desses gostos simples quando misturados? É preciso um cálculo matemático para apreender o quanto isso fala sobre a multiplicidade possível dos gostos. Além disso, todo gosto tem graus de intensidade. Muitos, outras variedades: em alguns artigos o gosto é mais rapidamente percebido, em outros essa sensação vem mais devagar. Às vezes a sensação perdura por mais tempo, em outros é mais passageira. Alguns gostos parecem ser ondulantes, cíclicos, vêm e vão; outros são constantes. As várias partes do órgão gustativo, os lábios, a ponta da língua, o fundo da língua, as fauces, a uvula, e a garganta, podem ser diferentemente afetadas por um gosto ou outro. Aromas, avaliados com o mesmo nível de detalhes, dariam o mesmo tanto que descrever.
CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO
SEÇÃO 1ª. A VARIEDADE DOS SONS. SEU LUGAR E DISTÂNCIA APRENDIDOS PELO COSTUME, SEM O USO DA RAZÃO [SEC41]
Os sons têm provavelmente mais variedade de modificações que gostos e odores; quando muito, variedade equivalente. Primeiro, os sons diferem em tom. O ouvido é capaz de perceber 400 ou 500 variações de tom no som, e provavelmente o mesmo número de graus de intensidade. Combinando apenas estes, numa estimativa modesta, temos pelo menos 20 mil sons simples, diferenciando-se por tom ou intensidade (força, volume). Isso se considerarmos os tons de forma pura, perfeita. Mas o tom perfeito só se propaga nas melhores condições espaciais. As ondas do tom precisam ser de igual duração e extensão, seguindo-se uma à outra em regularidade irretocável. Toda ondulação tem de ser feita do avanço e recolhimento de inumeráveis partículas da elasticidade do ar, seu meio propagador, com movimentos todos uniformes em direção, força e tempo. Então podemos facilmente conceber uma prodigiosa variedade de um mesmo tom, provenientes da simples irregularidade com que ele é propagado, ocasionado pela constituição, figura, situação ou maneira de atingir o corpo sonoro. O vento, por exemplo, modifica o tom, como objetos no caminho da onda. E de acordo com a própria constituição orgânica do órgão auditivo a impressão pode ser diferente.
A flauta, o violino, o oboé, a corneta francesa podem inclusive tocar o mesmo tom, facilmente distinguível, mas cada instrumento produz seu som. Vinte vozes humanas soando a mesma nota, e com a mesma força, ainda produzirão um som distinto. A mesma voz, retendo suas próprias idiossincrasias, é incrivelmente elástica, e não falo do canto: condições como saúde ou doença, juventude ou idade, magreza ou adiposidade, bom ou mau humor. As mesmas palavras pronunciadas por estrangeiros e nativos, ou melhor ainda, por pessoas de diferentes províncias de um mesmo povo, são facilmente distinguíveis.
Uma tão magnânima diferenciação nas sensações do cheiro, do gosto e do som não parece à toa. São todas sinais que usamos para conhecer e classificar as coisas a nossa volta. E nada mais previsível que a variedade dos signos devessem em algum grau corresponder à variedade das coisas por eles significadas.
Começamos a aprender a distinguir o lugar e a natureza das coisas pelo seu som. Tal som vem da rua, este da sala sobre mim; esta foi uma batida em minha porta; estes são passos de uma pessoa subindo as escadas; tudo isso parece ser fruto da experiência. Talvez aprendamos o que seja acima e abaixo, esquerda e direita, e a medir distâncias com mais competência, muito por conta das propriedades do som. Ninguém sabe ao nascer diferenciar um bumbo do badalar de um sino, ou do miado de um gato. A natureza é frugal em suas operações, e não gastaria energias excessivas nos concedendo toda esta habilidade inicialmente, se em poucos anos seremos capazes de assimilá-la.
A imaginação conecta todas essas impressões díspares com uma incrível rapidez. Posso entender que passa uma carruagem de imediato ao ouvi-la, sem raciocinar. Não há aqui premissas, inferências e conclusões lógicas. É efeito de um princípio inato de nossa constituição, compartilhado aliás com os animais mais desenvolvidos.
Sendo pelo ouvir que percebemos a harmonia e a melodia, e conseqüentemente pelo ouvir crônico que aprendemos a apreciar a arte da música; pareceria que entre perceber simples barulhos e chegar à apreciação de uma arte aí viria uma diferença tão grande que exigiria uma faculdade especial, o ouvido musical. Ocorre que há muitos graus de ouvidos musicais. Não devemos chamar os mais aptos a diferenciar tons de possuidores de uma faculdade exclusiva, que transcenda o simples sentido da audição, que é simplesmente mais ou menos acurada.
SEÇÃO 2ª. A LINGUAGEM NATURAL [SEC42]
Um dos propósitos mais nobres do som é indubitavelmente a linguagem. Sem esta última, a humanidade não existiria, por não poder se encontrar acima da animalidade. A linguagem costuma ser considerada puramente como invenção dos homens, que por natureza não seriam mais mudos que os próprios animais; e não obstante, graças a seu engenho e razão, mediante signos artificiais para se referir a pensamentos e propósitos, lograram estabelecer consensos. Mas a origem da língua merece ser investigada mais cuidadosamente, não só porque tal investigação é importante para o aperfeiçoamento da própria língua como porque, na atual matéria ela pode nos ajudar a desvendar alguns princípios primários da condição humana.
Por linguagem ou língua compreendo todos os signos que a humanidade utiliza a fim de se comunicar entre si: comunicar pensamentos e intenções, desejos e objetivos. Estes signos podem ser divididos em dois: aqueles sem sentido, a não ser o que é convencionalmente atrelado a ele (sentido arbitrário), i.e., signos artificiais; aqueles que, antes de qualquer consenso ou acordo, possuíam já um significado que todo homem é capaz de compreender a priori. A linguagem considerada artificialmente difere portanto da linguagem considerada naturalmente.¹
¹ Sabemos hoje que Reid se encontra completamente equivocado e que todos os signos lingüísticos são arbitrários.
Com base nessas predefinições, creio ser demonstrável que se a humanidade não tivesse uma língua natural jamais teria podido alcançar a linguagem artificial por conta própria (razão e engenho). Toda invenção supõe um acordo prévio para fixar sentidos a um número determinado de signos. Sendo assim, deve haver concórdia antes dos signos artificiais serem postos. Mas não pode haver concórdia sem ditos signos! Destarte, tem de haver uma língua natural prévia a toda língua artificial inventada.¹
¹ Discurso completamente tautológico e inaceitável.
Fosse a língua invenção humana tanto quanto o são a escrita e a imprensa¹ países inteiros serão silenciosos como as bestas. Aliás, mesmo tais bestas possuem certos sinais naturais por meio dos quais expressam seus próprios pensamentos, afetos e desejos,² e compreendem os de outros indivíduos. Um pinto, assim que sai do ovo, entende que alguns sons de sua mãe significam aqui há comida, já outros cuidado, perigo. Um cão ou um cavalo compreende, naturalmente, quando uma voz humana é-lhe amigável e quando é ameaçadora. Mas feras, tanto quanto sabemos, não possuem noção de contratos ou convenções, nem de obrigações morais. Onde a natureza negou essas noções, é impossível adquiri-las por arte, como se fôra possível a um homem cego adquirir a sensação das cores. Alguns animais possuem a sensibilidade da honra ou desgraça;³ ressentem-se e são gratos. Mas nenhum – tanto quanto sabemos – pode fazer uma promessa, colocar em jogo sua fé, porque sua constituição não permite que saibam o que é uma promessa ou no que consiste a fé. Se a humanidade não tivesse essas noções pela própria natureza, e sinais naturais para comunicá-las, pouco importaria nossa inteligência ou artimanha: não seríamos capazes de inventar a linguagem.
¹ Aqui o autor entra em contradição: a escrita é linguagem. Se a escrita é invenção humana, não há por que não considerar a oralidade invenção humana, cronologicamente anterior ou não.
² Palavras que não servem ao animal, i.e., não podem ser aplicadas ao reino animal.
³ Reid delira.
Os elementos dessa linguagem natural da humanidade, ou signos que expressam naturalmente nosso pensar, podem, penso, ser reduzidos a três tipos: modulações de voz, gestos e personalidades.¹ Mediante esse trio, dois selvagens ou então dois estranhos que não compreendem um o idioma do outro podem chegar a um entendimento. É possível perguntar, negar, afirmar, ameaçar, suplicar; traficar (comerciar), pactuar e fazer juramento de fé. Tudo isso está afiançado por relatos históricos indubitáveis.²
¹ Modulações de voz são parte de estudos mais amplos de acústica, e não necessariamente comportam palavras, portanto a acústica dos animais pode coexistir com a humana sem contradição com o fato de os animais serem incapazes da linguagem e de não haver “linguagem natural”. Gestos tampouco são linguagem nesse sentido, necessariamente. É necessário saber separar o que constitui cultura e o que é instintivo. Libras é uma linguagem; reflexos de espanto ou júbilo (do tipo cru, como após beber água ou comer estando sedento ou faminto), não. Sobre a inclusão da palavra feature, que escolhi traduzir por personalidade, mal tenho o que falar, tamanho o constrangimento da noção! Feature no sentido de feições seria ainda mais rústico, e seria o equivalente a dizer que qualquer animal usa a linguagem porque possui feições!
² Gostaria muito de saber quais!
Os signos artificiais aparecem apenas paulatinamente a fim de aperfeiçoar a linguagem e acompanhar o aumento da sabedoria do homem. As articulações da voz parecem, de todos os signos, os mais apropriados para a linguagem artificial.¹ Um homem que anda demais de carroça perde o uso de suas pernas; um que usasse apenas a parte artificial da linguagem atrofiaria sua parte natural. Os idiotas retêm, em proporção, muito mais dos elementos naturais que os cultivados, e isso por pura necessidade. É por isso que os povos ágrafos e animais também usam mais da natureza que da artificialidade. A força e a energia da linguagem são quase todas derivadas de suas condições naturais, não daquelas acrescidas pela civilização. Quão menos vigorosa e enérgica a língua, menos expressiva e persuasiva, e mais inútil. Escrever é muito menos persuasivo que ler, e ler é muito menos persuasivo que falar sem apenas repetir um livro; falar sem as modulações adequadas (naturais), sem força e sem variação, é frígido e parece ser expressar uma língua morta; mas mais expressiva ainda é a linguagem que, modulando a voz corretamente, e utilizando a força das cordas vocais, não se esquece do apoio dos olhos e músculos faciais. É aí, nesse sumo da perfeição natural, repleta de energia, que conseguimos aliar a ação à linguagem.
¹ Essa frase não faz sentido.
Onde a linguagem é natural ela será o desempenho (a ação, o exercício) não só do aparelho vocal e dos pulmões como de todos os músculos do corpo. Vide como os imbecis e os selvagens se contorcem, são mais expressivos, e podem aprender e ensinar coisas com mais facilidade.¹
¹ Argumento embaraçoso e ofensivo. Imagino que Reid pense que os italianos dominaram o mundo na Antiguidade porque possuíam mais expressividade lingüística – que pena para os europeus que os asiáticos falam mais com o corpo que eles! Nota-se a grande contradição: Reid precisa evocar os homens com intelecto prejudicado e os animais a fim de justificar a superioridade de um elemento cultural. Mas é lógico e “natural” pensar que Reid toma esse caminho, quando pensamos que ele combate o ceticismo filosófico com todas as forças, entendendo o ceticismo como o aumento do refino e incitador do divórcio entre natureza e razão.
Significar não é o mesmo que expressar. A parte artificial das línguas falam ao entendimento, como caracteres algébricos também o fazem, mas não às paixões, afeições e à vontades; esse é seu defeito.
Seria igualmente fácil demonstrar¹ que a elaborada arte do músico, do pintor, do ator, do orador, tanto quanto são capazes de expressão, embora exijam um gosto delicado, um bom julgamento e discernimento, e muito estudo e prática, nada são senão linguagens naturais.² Carregamos todas essas coisas conosco desde o sempre, mas as desaprendemos devido ao desuso de sua energia natural a utilizá-las em seu máximo potencial, restando apenas carapaças vazias.
¹ Até agora não houve demonstração de nada sobre a linguagem, apenas a exposição de uma tese com palavras (signos artificiais)!
² É o ápice da imbecilidade: chamar as artes (música, pintura, oratória) de linguagem natural!
Que sejam abolidos os usos de sons articulados e da escrita por um século, e todo homem será pintor, ator e orador. Não quero dizer com isso que tal expediente seja praticável.¹ Mesmo se fôra, creio que as desvantagens superariam as vantagens.² Significa que, como o homem é conduzido pela natureza e pela necessidade a estar sempre em comunhão com os outros homens, ele usará de todo expediente de que puder lançar mão a fim de ser compreendido. Quero dizer que essa compreensão jamais advirá do uso exclusivo da parte artificial da língua. Aquele que compreender perfeitamente o uso natural dos signos será o melhor juiz possível nas artes expressivas.
¹ Seria irônico, já que essa exortação foi feita num livro…
² Reid cai de repente em si.
CAPÍTULO 5. O TATO
SEÇÃO 1ª. O QUENTE E O FRIO [SEC51]
Os sentidos que até o presente consideramos são simples e uniformes, cada um exibindo só um tipo de sensação, indicando portanto apenas uma qualidade dos corpos. Pelo ouvido percebemos sons, e nada mais; pelo palato, gostos; e pelo nariz, odores. Essas qualidades são todas de uma mesma ordem, qualidades secundárias por assim dizer: pelo toque, não obstante, percebemos muito mais do que uma qualidade, e dos mais diferentes tipos. As principais, dir-se-ia, são o calor e o frio, a dureza e a flacidez, aridez e fluidez, figura, solidez, movimento e extensão. Consideremo-las em ordem.
Sobre o calor e o frio, ou o quente e o frio, ou o quente e o gelado, estas são também qualidades secundárias, da mesma ordem do cheiro, gosto ou som. O que foi dito do cheiro pode ser dito para ambos estes opostos por analogia. A palavra quente e a palavra frio têm cada uma dois significados distintos: algumas vezes representam sensações da mente, sem existência palpável, a não ser como abstração da mente senciente; mas com mais freqüência nos referimos às qualidades físicas da temperatura dos corpos, reguladas por leis naturais. Sentimos temperaturas mais elevadas ou mais baixas do que nossa própria pele. Estamos tão habituados a sentir estes extremos que é até difícil falar de tais coisas como sensações exteriores. E no entanto o calor e o frio existiriam sem que estivéssemos em contato com os corpos que assim qualificamos.
O quente e o frio são facilmente reconhecíveis, pois não podem ser nada diferente do que se entende por quente e frio por qualquer ser humano. Mas as qualidades nos corpos que chamamos de calor e frio são desconhecidas. São apenas concebidas por nós, sem que tenhamos idéia da causa. O senso comum impõe essa noção. O termômetro sempre terá uma medida, estando ali uma pessoa com tato ou não.
É trabalho dos filósofos investigar, via experimentação e indução, que calor ou frio há nos corpos. E se o calor é um elemento específico difundido na natureza, acumulado em especial nos corpos chamados quentes (que reúnem mais calor) e menos concentrado nos espaços que chamamos de frios (que reúnem menos calor). Ou então se o calor é alguma espécie de vibração das partes de um corpo aquecido. Ou – é ainda papel do filósofo – se preocupar em responder se quente e frio são qualidades opostas, como as sensações nos parecem ser, ou se só o calor é uma qualidade, e o frio seu negativo. Essas questões são da província da filosofia. O senso comum nada diz a favor ou contra nenhum parecer.¹
¹ Trecho extremamente ingênuo e redundante da obra, e ao mesmo tempo revelando uma confusão epistemológica inaceitável para leitores de nosso período: esse não é o papel do filósofo, é o papel do físico. Os últimos filósofos que realmente trataram do conceito de calor da forma como aqui se explicita foram os pré-socráticos! Acontece que na Inglaterra de Reid confundiam alhos com bugalhos: para eles Bacon era um filósofo, pois estudava aspectos da física. Ora, Bacon era filósofo, mas foi principalmente um cientista, e seus resultados nas ciências naturais não importam à metafísica em sentido nobre.
Mas qualquer que seja a natureza dessa qualidade dos corpos que chamamos de calor, o que com certeza sabemos é que esse tal calor, abstrato, não pode nunca coincidir com a sensação do quente. Sensação e qualidade nunca se identificam. Seria o mesmo dizer que a dor da doença da gota equivale a um quadrado ou um triângulo. O homem mediano sabe que a sensação do calor não está dentro do fogo. Ele só imagina ou concebe que há alguma propriedade do fogo que faz com que ele e outros seres senciente sintam calor ao se aproximarem. E no entanto como a linguagem mesmo evidencia, calor no sentido metafísico e calor no sentido cotidiano são usados indistintamente. Mas quente nunca poderia ser a qualidade metafísica, sendo apenas um grau diferente do frio.¹
¹ Não foi minha intenção fazer um trocadilho, ausente no original, com “grau de temperatura”, embora funcione na frase. Falo de grau no sentido de gradação, qualidades aproximadas que podem ser medidas, portanto não consistindo em qualidades diferentes uma da outra (o que por si só, usando o senso comum, já elimina o que Reid diz acima que seria papel do filósofo investigar: se frio e quente são duas qualidades opostas ou não; não há controvérsia a esse respeito, isso é uma infantilidade).
SEÇÃO 2ª. O DURO E O FLÁCIDO [SEC52]
Consideremos agora a dureza e a maciez. Estão são qualidades dos corpos que podemos sentir com convicção.
Quando as partes de um corpo aderem tão firmemente que não podem ser facilmente modificadas em seu aspecto, chamamos o corpo de duro; quando essas partes são facilmente movíveis, macio ou mole ou flácido. Toda a humanidade concorda facilmente com essas premissas. São sensações diferentes de quaisquer outras sensações. Eram qualidades antes de serem percebidas pelo toque, e persistem depois de cessar o contato.
Algo nos comunica, no nosso sentido do tato, que um corpo é mais ou menos duro, mais ou menos flácido. Essa sensação de dureza ou rigidez é facilmente evocada ao se pressionar uma mão, p.ex., contra uma mesa, mesmo abstraindo-se do que a mesa é feita. Mas uma coisa é a sensação e outra prestar bastante atenção na sensação e refletir sobre ela. A primeira se produz com a maior das facilidades; a última, até determinar-se, p.ex., um coeficiente de rigidez, pode vir a ser sumamente complicada.
Estamos tão habituados a usar a sensação como um signo, e dele passar imediatamente ao significado de dureza, que parece até que o conceito nunca foi objeto do pensar, seja do vulgo, seja dos filósofos.¹ Não existe um nome diferente (da sensação) em nenhuma língua. E não há sensação mais distinta ou freqüente! Mas é raro passá-lo em revista durante toda a vida.
Há casos mais extremos: quando a dureza se faz sentir de modo violento, causando dor; então a natureza chama o indivíduo para o fenômeno, mas consideramo-lo ‘mera sensação’, atributo do ser senciente. Se um homem choca sua cabeça fortemente contra um pilar, tanto se lhe dá se é uma dureza provocada pela pedra ou por outra matéria: só o que lhe importa é a dor suscitada.
Mas o mesmo homem, roçando delicadamente seu rosto contra o pilar, poderá se concentrar em ‘sentir a pedra’. Ele não sentirá a dor mental, mas a textura na pele. Não são sensações em ambos os casos? Mas isto é a natureza se comunicando por símbolos.² …³
¹ Reid não cansa de exagerar.
² Péssima maneira de se expressar!
³ Devido à banalidade do conteúdo no restante do parágrafo (e outros parágrafos, ainda), decidi omitir por completo uma tradução.
Não deveríamos concluir (dada a duplicidade da palavra rigidez) que o conhecimento das faculdades humanas se encontra ainda na infância?¹
¹ O mesmo argumento é aduzido sempre, à exaustão. E daí que a língua só tem uma palavra para ambos – inerentemente, isso não significa que ‘os filósofos’ não compreendem o conceito de rigidez – apenas que não é útil inventar uma palavra para ele, pois o conceito de rigidez é único, tanto quanto a sensação da rigidez! Infelizmente o livro se torna imensamente previsível, pois Reid, i.e., a mente de Reid, é fácil de ler, interpretar e adivinhar em suas intenções.
Quando alguém aprende uma língua, se concentra no som. Quando alguém já domina uma língua, concentra-se diretamente no significado do que é expresso. Se é assim, devemos nos tornar novamente crianças se queremos ser filósofos.
…
Acreditamos no conceito de dureza, e isso com base na sensação de dureza. Mas como se deu esse salto? Mas é uma idéia de sensação ou reflexão? Não podemos concordar com nenhum dos dois preliminarmente. É uma sensação sem semelhança com qualquer outra sensação. Então, a origem dessa idéia de dureza, uma das mais distintas que nós temas, não deve ser achada em todos os nossos circuitos nervosos.
Mas como então chegamos ao conceito de dureza? A qualidade do corpo precisa existir para que haja uma sensação que lhe corresponda. Mesmo o autor do Tratado da Natureza Humana, em que pese não haver razão para sua crença, e haver muitos argumentos contra ela, não pôde defini-la a contento em seus momentos mais especulativos e solitários.¹
¹ Ou eu “cansei” do autor ou ele perdeu o fio de raciocínio e já não consegue desenvolver qualquer coisa apreciável ou digna de tradução, daí as reticências que seguem.
…
SEÇÃO III. Dos signos naturais
Como com os signos artificiais, os da linguagem, por exemplo, em que não há verossimilhança necessária entre o signo e a coisa significada, com os signos naturais sucede que não há qualquer conexão necessária entre estes e a natureza das coisas. A palavra ouro nada tem de parecido com a substância ouro. Só se evoca o que se evoca com a palavra ouro pela força do hábito. Dessa forma é que uma sensação do toque sugere dureza, embora não haja semelhança entre a dureza, tanto quanto podemos senti-la, conceito, e dureza sensação.¹ … O que é tudo que sabemos de mecânica, astronomia e ótica, senão conexões estabelecidas pela natureza e descobertas mediante a experiência ou a observação, e suas conseqüências dedutíveis? Todo nosso conhecimento em agricultura, jardinagem, química e medicina está erigido sobre a mesma fundação. … O que chamamos de causa devia ser chamado de signos naturais, e o que chamamos de efeitos, de coisas significadas. As causas não têm eficiência ou causalidade, tanto quanto podemos saber. Tudo o que podemos afirmar é que a natureza estabeleceu uma constante conjunção entre as causas e as coisas chamadas de efeitos das causas. E deu à condição humana a disposição de observar essas conexões.
¹ O autor estabelece o inconcebível. Que uma pedra seja dura é coisa bem diferente de ouro ou gold designar um metal ou elemento químico! A dureza certamente não poderá ser encontrada na água… Hábito milenar arredio algum mudaria essa verdade elementar!
…
… Destarte, … a dureza deve ser considerada como um princípio original da natureza humana,¹ até que achemos um outro princípio geral que venha a explicá-lo.
¹ Tal qual uma sensação?!?
SEÇÃO IV. Da dureza e outras qualidades primárias
…¹ Se qualquer homem dissesse que a dureza dos corpos é uma dada vibração de outras partes, ou que é um dado eflúvio emitido pelos corpos que afeta nosso toque na maneira como devemos sentir, tal hipótese chocaria o senso comum? sim, porque sabemos que o corpo é duro uma vez que as partes do corpo aderem fortemente, não devido à emissão de eflúvio ou porque vibre.
¹ Primeiro Reid compara a dureza às cores e ao calor, o que para nós, em nosso século, torna o fim do parágrafo risível, uma vez que cores e calor são de fato ondas de energia.
…
SEÇÃO V. Da extensão
Doravante vou apenas destacar, em inglês, o de importância.
“The theory of ideas, like the Trojan horse, had a specious appearance both of innocence and beauty; but if those philosophers had known that it carried in its belly death and destruction to all science and common sense, they would not have broken down their walls to give it admittance.”




