CURIOSIDADES DO LATIM #1 (A FAMÍLIA DO 7 / SEPTEM) & ALGUNS ALERTAS SOBRE FILÓLOGOS APRESSADOS EM TIRAR CONCLUSÕES…

septem. Sete. Os sete sábios (da Grécia). (Septem Stellae = Setentrião, as Plêiades; Septem Marĭa = os lagos junto à foz do rio Pó, onde Veneza foi mais tarde fundada; Septem Aquae = lago no território reatino). 

september, septembris, (m.). (septem). O sétimo mês (no ano Romano, que se iniciava em Março). Setembro.

septemflŭus,-a,-um. (septem-fluo). Que possui sete embocaduras (epíteto do Rio Nilo).

septemgemĭnus,-a,-um. (septem-gemĭnus). De sete vezes, composto de sete.

septempedalis, septempedale. (septem-pedalis). De sete pés de altura.

septemplex, septemplĭcis. (septem-plico). De sete vezes, composto de sete.

septemuir,-i, (m.). (septem-uir). Setênviro (um dos sete membros do conselho encarregado da partilha das terras).

septenarĭus,-a,-um. (septem). Que contém sete, formado de sete elementos, setenário.

septendĕcim. (septem-decem). Dezessete.

septeni,-ae,-a. (septem). Em grupos de sete, de sete em sete. Sete. Sete vezes.

septentrionalis, septentrionale. (septentriones). Relativo ao norte, que se localiza ao norte.

septentriones, septentrionum, (m.). (septem-trio). As sete estrelas próximas ao Pólo Norte, a constelação da Ursa (denominada Ursa Maior e Ursa Menor). O Setentrião (vento norte). Território ao norte.

septĭe(n)s. (septem). Sete vezes.

septiflŭus,-a,-um. (septem-fluo). De sete braços.

septimani,-orum, (m.). (septem). Soldados da sétima legião.

septĭmus,-a,-um. (septem). Sétimo. (septĭmus casus = caso instrumental, caso adverbial sem preposição).

septingenti,-ae,-a. (septem-centum). Setecentos.

septiremis, septireme. (septem-remus). Que possui sete fileiras de remos.

septuageni,-ae,-a. (septuaginta). Em grupos de setenta, de setenta em setenta.

septuagesĭmus,-a,-um. (septuaginta). Setuagésimo.

septuaginta. Setenta. (irá interessar para os apreciadores do Velho Testamento que não sabem o hebraico!)

septuennis, septuenne. (septem-annus). De sete anos de idade.

septunx, septuncis, (m.). (septem-uncĭa). 7/12 de uma unidade. Sete onças (unidade de peso). Sete unidades, sete partes.

A família do sete, no Latim, ou seja, septum e os vocábulos dela derivados, nos oferece alguns esclarecimentos sobre nomenclaturas que nem imaginávamos ter relação etimológica com o número 7.

Primeiro recapitulemos que até hoje 7 é um nº muito ligado a superstições. Não me arriscaria a dizer que tem qualquer relação com sepultura, ou morte, no entanto, pois não teria condições de comprovar – seria cair no erro do lingüista empolgado e tosco, que devido a assonâncias começa a estipular etimologias e genealogias arbitrárias. Vide a genealogia incrivelmente fake da palavra aluno como despido de luz, uma piada de mau gosto que circulava muito antes de conhecermos o termo fake news e que não tem qualquer razão de ser, sendo o designativo aluno tão pouco (ou nada) pejorativo quanto seus sinônimos mais empregados, discente e estudante. Havia até campanhas de pedagogos (e alunos!) na internet (creio que nos anos 2000, quiçá até a década passada!) pedindo a remoção da palavra do uso cotidiano, o mesmo que se deu ou se dá agora com o verbo denegrir, o que está completamente equivocado no meu juízo (seria como estipular que em jogos de xadrez, a partir deste momento, as peças negras é que determinam o jogador que irá principiar o jogo – aspecto arbitrário completamente despido, até onde sabemos, de qualquer conotação racial). Tão ingênuo e deletério, outrossim, quanto crer que o quadro clínico da septicemia guarda qualquer relação com a palavra septem e se originaria do latim.

* * *

Como estudante intermediário do Latim e lingüista amador me atribuo a autoridade de desmistificar algumas noções que por aí circulam. Essa parte do primeiro parágrafo dissertativo, entretanto, foi apenas um bônus da postagem, concebido à última hora. Gostaria mesmo de apontar, dentre as palavras/verbetes dicionarizado(a)s mais acima, alguns nortes que recebemos sobre por que utilizamos tais e tais palavras no português hodierno. O trocadilho com norte, no sentido de rumo, direção, ficará logo esclarecido!

Começando pela alusão mais óbvia de todas: setembro, muita gente já sabe, se refere, na Roma Antiga, a nosso nono mês ser o sétimo do calendário daquela civilização, que não contava nem com janeiro nem com fevereiro. Até dezembro é mantida essa forma original de batizar os meses entre os romanos.

Algumas expressões foram completamente obliteradas na lenta transição ao português. Septempedalis não tem qualquer lugar num conjunto de países que adotou o sistema métrico, por exemplo!

Indo para o lado do cômico, já vi duplex(es?), triplex(ex), até quadriplexes, mas nunca chegaram a meu conhecimento “apartamentos” de cinco, seis ou até sete andares (já em si mesmo prédios de todo direito!). Um septe(m)plex, diferente de um septuagenário, seria dificílimo de encontrar no Brasil! Se bem que o mais provável seria chamar tal morada monstruosa de um multimilionário de heptaplex! A determinado ponto paramos de ser influenciados pelos latinos e tomamos de empréstimo denominações gregas (pentágono, hexágono…), como, aliás, os próprios latinos soíam fazer! Obs.: ao que consta, octa- é de influência latina, quebrando a seqüência, mas enea- e deca- regressam à tutela grega! Desenvolvimentos tortuosos…

Sempre me perguntei por que setentrional se chamava setentrional e meridional, meridional. Ora, meridional guarda relação com o meridiano, mas o meridiano seria a linha que separa os hemisférios. Então por que essa dissimetria bizarra? Seria por que nos trópicos bate mais sol, e meridiano é relativo ao meio-dia, quando bate mais sol em nossas cabeças? Bem, pouco importa, pois o objeto aqui é o setentrional: creio mesmo que descobri na astronomia-astrologia (então indistinguíveis) a causa de tamanhas superstições relativas ao número 7 e, de sobra, ao número 3, pois há uma palavra que reúne ambas as numerações e um pouco complicada de explicar, logo abaixo de septentrionalis no dicionário latim, embora este vocábulo já contivesse o “mistério”. 7-3-… Não é à toa, forçação de barra ou coincidência. Talvez uma coincidência dos astros, isso sim: é que do hemisfério norte podem-se ver 7 estrelas em conjunto. Trata-se da constelação da Ursa, para quem gosta de um horóscopo… O 3 associado e embutido no termo tem a ver com observações feitas por múltiplos autores latinos: sempre que se admira o conjunto de 7 estrelas, 3 parecem estar interconectadas no quadro menor, e pode-se mesmo permutar entre o trio de estrelas para obter a mesma impressão! Neste caso, uma só imagem vale mais do que todas estas entradas de dicionário, para me tornar mais compreensível. Veja quantos triângulos se pode traçar mentalmente olhando a disposição da Ursa:

 

Ao passo que um quadrilátero (à dir.) sempre implica a formação de 2 triângulos quaisquer que, somados, formam a primeira figura, na parte de cima ou à esq. visualizamos claramente outro triângulo, isolado. E, se chamássemos cada estrela, da esquerda para a direita, A, B, C, D, E, F e G, temos que ABD ou ACD, ou ADE, ou BDE, ou tantas outras combinações, como AFG ou AEG também formariam triângulos, dos mais variados ângulos internos. Antigamente havia mais tempo para apreciar o firmamento; nós, leitores de livros por excelência, temos de descobrir essas coisas, em nossas cidades poluídas (e principalmente nós, habitantes do hemisfério sul ou meridional), estudando sobre as observações dos contempladores e escritores daquele tempo remoto!

Vai saber se não tem a ver com isso o jogo do dominó parar nas pedras de número 6?! Nada cravo, só infiro bobamente… Essa pesquisa fica para outro dia!

Por fim, na ordem cronológica dos verbetes, percebemos como a “meia-dúzia” dos romanos, i.e., uma unidade de medida que lhes importava no dia a dia tanto quanto nossa principal maneira de comprar ovos no mercado ou enumerar “meio time” de futebol que joga mal (apesar de um time de futebol ser composto de 11, não 12!), era uma fração que nossos matemáticos chamariam de quantidade irracional ou dízima periódica simples, porque seu inusitado numeral é o 7, e o denominador, 12. Sete doze avos, em vez de, no fundo, o muito mais descomplicado ½. Apesar dos romanos também adotarem o sistema decimal na matemática, temos ainda em comum com eles o fato de que o dia e a noite (o relógio, o tempo, em suma) giram em torno de ciclos duodecimais, daí a importância de frações do número 12 para todos nós (12 é duodecim em latim) – tanto que transformamos o ano numa divisão por 12, o que nem estes antigos haviam pensado ainda em efetuar!

Sobreviver a mais um ano, para nós, é repetir os Doze Trabalhos de Hércules!

NO PAIN NO GAME NOR FLOCK

O desejo dos de(le)uzes

Os ledos desejos e enseJós

de um deus, de a a z.

Cruzes!

Lux!

DesIsto de desisTýr!

L’Odeur

Douleur, o pain de todas as dores

Redo the healing/hearing (please)! C and Re at least (D to meet you, Your Highness!)

Others may, in dismay, act like they are Odins or simply Orpheus

Os andrajos dos deuses minguados

dull lair

of the gods

Where, fundamentally, did i forget my socks?

You! You infidel! Don’t mock!

Al menos, el pan de todos los dolores ¡dadnos! hoy, oh holy Father!

See, my son, at last!

Lest I undo the poem

In due time

CÁRMIDES (OU ‘DA CRÍTICA DE CRÍTIAS’): Comparação de traduções

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “O Cármides é um diálogo de Platão em que Sócrates é introduzido ao jovem Cármides e continua a conversação com Crítias – o tema é o sentido de sophrosyne, palavra grega para <temperança>, <prudência>, <autocontrole>, <restrição>, havendo sido traduzida pelo escólio como sabedoria. Como é habitual nos diálogos platônicos de juventude, os contendores não chegam a uma definição satisfatória, mas ao menos promovem, através do método maiêutico, uma profunda reflexão.” – A.P.V.

Aproveito ainda a ocasião para fazer comparações entre duas traduções independentes, de fontes que divergem, pois traduzi novamente o texto – dessa vez outra tradução espanhola – em 2023 (note-se que este post é original de 2019, e o estou republicando com alterações). Obviamente minha própria experiência de vida fez-me recorrer à tradução de trechos diferentes e de formas diferentes, mas nos casos em que traduzi as mesmas passagens podemos avaliar, em parte, o êxito de minhas escolhas e, em parte, a própria felicidade dos tradutores espanhóis, que me induziram a localizar ao português de forma alternativa já pelo fato de haverem feito suas seleções vocabulares sobre o grego original! A “nova tradução” constará na cor azul claro, além de em fonte diferente, para não confundir o leitor.

O primeiro contraste, já bastante sobressaltante, é que CÁRMIDES também é chamado, por sua matéria de “CÁRMIDES OU DA SABEDORIA”, mas eu intitularia facilmente o diálogo como “CÁRMIDES OU DA IMPOSSIBILIDADE DO SABER”, pelo menos a partir desta opção por uma segunda tradução 4 anos depois, já “denunciando” o caráter de aporia do diálogo!

SÓCRATES – Efetivamente, pouco antes da minha partida teve lugar uma batalha em Potidéia,¹ da qual, justo agora, soube-se aqui.”

¹ Colônia de Corinto, integrante da liga espartana.

-…quem vem vindo é Cármides, filho de meu tio Glauco e portanto meu primo.

– Sim, por Zeus! Noutro tempo, ainda que muito jovem, já não parecia mal; hoje deve ser um bem-formado adulto!

– Já, já poderás julgar de seu talhe e disposição.

Enquanto pronunciava essas palavras, Cármides entrou.

– Não é a mim, querido amigo, a quem é preciso consultar para esta avaliação. Se devo ser sincero, sou a pior pedra-de-toque em matéria de beleza dos jovens; porque na idade em que está nem um só me parece menos que formoso.

Sem dúvida me pareceu admirável por suas proporções e figura, e adverti também que todos os demais jovens encontravam-se como que apaixonados por ele, como assinalavam sua turbação e emoção, que lhes notei no rosto assim que Cármides entrou. Entre os que o seguiam, contemplei mais de um erastes. Que o seguinte sucedera a homens como nós, mais velhos, nada de espantoso: mas observei que entre os jovens não havia um que nele não fixasse os olhos, e não falo só dos mais jovens dentre eles, mas de todos do local – Cármides era contemplado como um ídolo. Querefonte, interpelando-me, disse:

– E então, Sócrates, que nos dizes? Não tem uma bela fisionomia?

– Ó, sim.

– E no entanto, se se despojasse de suas vestes, não te fixarias no seu corpo, se te conheço.¹ Ah, tão belas suas formas!…

Todos subscreveram as palavras de Querefonte.

– Por Hércules! Falais-me de um homem irresistível se, evidente, em acréscimo a todos estes dotes possui um atributo bem pequeno.²

– E qual é?

– Que a natureza tenha-o tratado com a mesma generosidade quanto a sua alma; creio que assim será, posto que o jovem pertence a tua família.”³

SÓCRATES – Quem é? E é filho de quem?

CRÍTIAS – Provavelmente o conheces. Porém, quando te ausentaste da cidade ele ainda não estava em idade. É Cármides,4 filho de nosso tio5 Glauco, primo meu, portanto.

SÓCRATES – Claro que o conheço. Já então não fazia má impressão, e isso sendo só uma criança. Imagino agora então, que já é um rapaz!”

Comparados a mim, todos os adolescentes são belos.” “Tive a impressão, quando o vi entrar, de que todos os outros rapazes estavam dele enamorados, tão atônitos e confusos se mostraram. Outros muitos admiradores o seguiam. Estes sentimentos, entre homens maduros como nós, eram menos invulgares, e, não obstante, entre os jovens, dei-me conta, nenhum, por mais tenro em idade que fôra, deixava de olhar na direção de Cármides, como se fôra a imagem de um deus que se aproximava.”

QUEREFONTE6 – Então, que te parece, Sócrates? Não tem um belo rosto?

SÓCRATES – Extraordinário!

QUEREFONTE – Decerto que, se ele se pusera nu, a ti já nem pareceria belo de rosto, tão bela e perfeita sua figura.”¹

¹ A segunda tradução diverge, e provavelmente é a menos confiável.

² Não sei se há no original este matiz de ironia pícara que parece querer comentar sobre o tamanho do pênis de um homem, se essa matiz foi acrescida nas traduções ou se eu mesmo vi o texto sem a devida inocência – mas na segunda tradução não há qualquer conotação que possa ser levada para um lado ambíguo, pelo palavreado escolhido. Eu traduziria, hoje, da seguinte forma: “se, é evidente, em acréscimo a todos estes dotes me satisfizesse também num outro detalhe.”

³ Como o diálogo é diferente de muitos mais tardios, em que só Sócrates fala, como se contasse uma história passada a não sabemos quem, e interpõe os discursos da cena apenas com o travessão, há, em determinados trechos, confusão sobre com quem ele dialoga no banho, se com Querefonte ou Crítias.

4 Tanto Cármides quanto Crítias participaram do Governo dos Trinta Tiranos e morreram no mesmo ano, em batalhas contra os democratas atenienses.

5 Informação importante: Glauco parece ser tio-avô de Crítias, e no entanto Cármides é mais novo, i.e., Crítias é neto do irmão de Glauco e nasceu muito antes. Além do fato de que Glauco teve um filho já em idade avançada (o que não tem qualquer interesse fundamental para nós), só gostaria de chamar a atenção para o vínculo familiar entre ambos – mais tarde outra nota de rodapé tocará no assunto e legitimará uma adaptação feita na segunda tradução.

6 Presente no diálogo A Apologia de Sócrates, um de seus melhores amigos.

(*) “Como quando Lísias é apresentado no diálogo homônimo, Cármides é introduzido com os melhores epítetos que se pode dedicar a um homem: é kalos kai agathos. A fórmula, que expressa um ideal supremo de equilíbrio entre beleza física e superioridade psicológica se encontra num domínio mais amplo que o da mera tradução literal no contexto moderno.”

– E que motivos teríamos para não pôr primeiro em evidência sua alma, e não a contemplaremos antes que a seu corpo? Na idade em que se acha, está já em posição de sustentar dignamente uma conversa?¹

– Perfeitamente – respondeu Crítias. – Já nasceu filósofo.² E se podemos crer nele mesmo e naqueles que o cercam, é também um poeta.

– Talento que, vejo, é-lhe hereditário, meu querido Crítias. Deve-o sem dúvida a vosso parentesco com Sólon! Mas que tanto esperas para me introduzir a este jovem promissor? Ainda que fôra mais jovem do que é, nenhum inconveniente teria em conversar conosco diante de ti, seu primo e tutor.³

– Nada mais justo, Sócrates. Iremos chamá-lo.”

SÓCRATES – Que tal então se o pomos a nu, não por fora, mas por dentro, analisando sua alma em detrimento de sua aparência? Na idade em que se encontra com certeza amará o diálogo.”¹

¹ Na primeira versão é uma pergunta sincera, não-retórica. Na segunda versão é uma afirmação em forma de indagação – mas Sócrates demonstra ter certeza de que tal jovem gostará de conversar.

² Sentido vulgar de filósofo: sociável, e aparentando inteligência aos demais.

³ Esta frase coincide nas duas versões, e é o que me leva a crer que neste ponto Azcárate operou mal: Sócrates está tão convicto de que Cármides já passou e muito da idade em que já pode sustentar uma conversação profunda que chega a afirmar que mesmo se ele fosse alguns anos mais novo talvez ainda houvesse a mesma possibilidade, estando ali alguém da família, a guardar intimidade com o potencial púbere (é de se admitir que, na Grécia Antiga, a fase da revolta na puberdade se desse bem mais tardiamente do que em nossa cultura, e a fase inicial da puberdade viesse acompanhada, no homem grego livre – o não-escravo, i.e., criado de forma autenticamente ateniense –, de certo pudor e introspecção exagerados, perdidos depois naturalmente, o mesmo comportamento que passamos a exibir, talvez, dos 10 aos 12, já muito menos travessos que aos 6-8, e muito mais conformados com nossa situação do que o adolescente genuíno do século XX, de 14-18 anos).

– Cármides se queixa de que há algum tempo lhe pesa e lhe dói sua cabeça, sobretudo quando acaba de acordar. Que inconveniente há em indicá-lo, pois sei que conheces, um bom remédio para este mal?”

CRÍTIAS – Há não muito Cármides me disse que pelas manhãs, ao despertar, pesava-lhe a cabeça. Por que não te lhe apresento como médico, pois que deves conhecer um remédio para seu mal?”

Assim sucedeu, com efeito. Cármides veio a nós e deu ocasião a uma cena bastante divertida. Cada um de nós, todos sentados num mesmo banco, empurrou seu vizinho, espremendo-se a fim de dar lugar a nosso conviva, para que se sentasse de seu próprio lado. Como resultado, cada um empurrando seu próximo, os dois que estavam nas extremidades do assento – um deles teve de se levantar de golpe, e o outro caiu de bunda no chão. Não obstante, Cármides adiantou-se e sentou entre Crítias e eu mesmo. Mas então, ó amigo, me senti um tanto turbado e perdi repentinamente aquela serenidade que conservara antes, com a qual contava a fim de conversar sem esforço com o jovem. Depois, Crítias fez questão de cortar o embaraço relatando que eu era aquele que sabia de um bom remédio para suas dores de cabeça. Ele se voltou para mim com o olhar interrogativo e perscrutador, um gesto que me é impossível descrever o suficiente. Todos que estavam na academia se apressaram em sentar em círculo a nossa volta. Neste momento, meu querido, minha vista penetrou as dobras de sua túnica; meus sentidos se excitaram, e em meu transporte compreendi até que ponto Cídias¹ é inteligente nessas coisas do amor: uma vez, falando da beleza de um jovem, com um terceiro, disse: Ó, inocente gamo, vê se não te vais apresentar à boca do leão, se não desejas ser despedaçado!

¹ Poeta do qual provavelmente só restam fragmentos ou citações em outros autores.

Respondi que meu remédio consistia em certa erva, mas que era preciso acrescentar certas palavras mágicas; que pronunciando as palavras e tomando o remédio ao mesmo tempo recobraria inteiramente a saúde; mas que as ervas sem as palavras não surtiriam qualquer efeito. Cármides me respondeu:

– Vou, pois, escrever as palavras de teu encanto para não as esquecer.

– Dir-tas-ei a uma petição tua ou sem precisar de uma?

– Ao meu rogo, Sócrates – respondeu o jovem espirituoso, a rir.

– Que assim seja. Mas sabes meu nome?

– Seria vergonhoso se o ignorasse; no círculo de jovens és tu quase o principal tema de nossas conversas. Quanto a mim, recordo vivamente tê-lo visto, ainda muito criança, muitas vezes, em companhia de meu querido primo¹ Crítias.”

CÁRMIDES – De que remédio se trata?

SÓCRATES – O remédio é uma espécie de erva, à qual deve ser acrescentado um encantamento cem por cento eficaz para trazer de volta a saúde; a tal ponto que, consumindo-se somente a erva, sem o ritual que a acompanha, não há possibilidade da cura.”

¹ A diferença de idade é tamanha que achei melhor modificar a relação entre primo de meia-idade e primo mancebo para uma de tio-sobrinho a partir daqui na segunda tradução.

SÓCRATES – (…) O poder deste remédio é tal que não cura somente as dores de cabeça. Já deves ter ouvido falar de médicos hábeis. Se são consultados por alguém com doenças oculares, dizem que não podem empreender a cura dos olhos sem estender o tratamento à cabeça inteira. Analogamente, não se pode curar a cabeça desprezando o restante do corpo. Seria uma tolice. Seguindo este raciocínio, tratam o corpo inteiro e se esforçam por cuidar do paciente e sanar a parte juntamente com o todo. Não crês tu que é assim como falam e como realmente acontece?

CÁRMIDES – Não duvido.

SÓCRATES – E tu aprovas este método?

CÁRMIDES – Como não?”

Dizem os médicos que para curar os olhos deve-se curar também a cabeça, que os envolvem. E que para curar a cabeça deve-se cuidar do corpo inteiro. E de nada adianta cuidar do corpo, se não se presta atenção à própria alma.”

Zamolxis,(*)¹ nosso rei, e por conseguinte um deus, defende que não se deve tentar efetuar a cura dos olhos sem a cura da cabeça, nem a da cabeça sem a do corpo; e tampouco deve-se tratar o corpo sem tratar a alma; se muitas doenças resistem aos esforços dos médicos gregos, isto vem de que desconhecem este sistema. Pois indo mal o todo, seria impossível que fosse bem a parte.

(…)

Trata-se da alma valendo-se de algumas palavras mágicas. Estas palavras mágicas são os belos discursos. Graças a eles, a sabedoria se enraíza nas almas e, uma vez arraigada e viva, nada mais fácil que se procurar a saúde à cabeça e a todo o corpo.”

Ocorre, Cármides, que aprendi este encantamento no exército, de um dos médicos trácios de Zalmoxis,(*) ouvindo-o proferir que é capaz de ressuscitar os mortos.

(*) “Referem Zamolxis como escravo de Pitágoras que obteve sua liberdade, viveu três anos num subterrâneo [!!] e de lá saiu para fazer-se grande legislador, além de filósofo que ensinava sobre a imortalidade da alma. (Heródoto, 4:95)” – P.A.

(*) (outra nota, subsecutiva) “Talvez tenha sido discípulo e não escravo de Pitágoras. Seu nome possui diferentes grafias, conforme a fonte apurada. Zalmoxis, Salmoxis, Zamolxis, Samolxis. É hoje tido mais como figura lendária, reformador social e religioso, endeusado pelos trácios da Dácia e pelos getas (povos do baixo Danúbio). Ainda com referência a Heród. 4:95-ss., os getas tinham a crença de que ao morrerem se reuniam com Zamolxis.” – A.P.V.

¹ Para uma interpretação moderna do mito de Zamolxis ou Zalmoxis, vd. Mircea Eliade.

(*) “Zalmoxis é, segundo Heródoto, História IV, um deus reverenciado na Trácia. Era cultuado como a divindade da medicina e da imortalidade. No mesmo livro, Heródoto cita Zalmoxis como um escravo de Pitágoras, proveniente da própria Trácia; daí então admitirmos que falava da mesma pessoa em ambas as circunstâncias, e que o “deus” dos trácios era um deus pessoal, vivente. Diógenes Laércio descreve este último como um dos primeiros filósofos dentre os povos bárbaros, o que para eles deve ter tido o mesmo efeito de acompanhar um deus em vida.”

– Cármides me parece superior aos jovens de sua idade, não só pela beleza de suas formas, mas também por essa coisa mesma pela que tu aprendeste e que contém referências a essas <palavras mágicas>. Afinal, o que queres dizer é que discutamos sobre a sabedoria, não é verdade?

– Exatamente.”¹

A alma é tratada com encantamentos, e os encantamentos são os belos discursos. Dos belos discursos nasce a sensatez,¹ amiga da alma sadia. (…) O maior erro é tentar ser médico da alma e do corpo em separado. Se não acreditas no remédio, ele não te serve.”

¹ A palavra sabedoria demora muito mais a entrar em jogo na segunda tradução. Trata-se da sophrosyne, que pode ser traduzida com outros vocábulos dependendo do contexto.

Anacreonte, Sólon e os demais poetas foram infatigavelmente celebrados pela família de teu pai que se liga a Crítias, filho de Drópidas. Tua família é famosa por sobressair na beleza e na virtude de suas gerações, afora todas as demais vantagens que constituem a felicidade. (…) Jamais se conheceu no continente um homem mais belo nem mais excelente que teu tio Pirilampo,(*) embaixador de reis e príncipes diversos. (…) Pois bem: com tais antepassados, tu não podes menos que ser o melhor em tudo.”

(*) “Pirilampo, filho de Antifonte, casado em segundas núpcias com sua sobrinha Perictíona e, portanto, também padrasto de Platão.”

se és suficientemente sábio, nada tens que ver com as palavras mágicas de Zamolxis ou de Ábaris, o Hiperbóreo¹ (…) A ti, te toca unicamente dizer-me se concordas com a opinião de Crítias, se crês que tua sabedoria² é completa, ou ainda incompleta.”

¹ Outra figura “excêntrica” relatada pelo historiador Heródoto. Digamos que personagem folclórica, posto que ali se diz que voava pelos céus.

² Vide a – na minha opinião – monumental diferença de vocábulo, decorrente das diferentes acepções do grego sophrosyne.

Cármides ruborizou, e com isso pareceu ainda mais belo, porque a modéstia quadra bem com sua juventude. Depois, ao recobrar-se, disse, não sem certa dignidade, que não lhe era fácil responder de chofre <sim> ou <não> a semelhante pergunta.

– Porque se nego que sou sábio, acuso-me a mim mesmo, o que não é razoável; e assim fazendo emito um desmentido às palavras de Crítias e tantos outros, que tanto me exaltam, ao que parece. Mas, na mão contrária, se faço-me eu mesmo meu próprio elogio, não me ponho em situação menos inconveniente. Simplesmente não sei o que responder-te!”

CÁRMIDES – Estou aqui em situação bastante difícil. Por um lado, se digo que não sou sensato, estaria bastante fora de lugar que alguém diga tal coisa de si mesmo; ademais, farei com que Crítias, que é inclusive nossa testemunha, pareça diante dos outros um embusteiro, aliás, não só ele como muitos que afiançam que pareço sensato. Por outro lado, aquele que se diz sensato corre o risco de se tornar insuportavelmente arrogante. Então antes de que me examines, Sócrates, nada tenho a dizer.”

SÓCRATES – Para que saibamos se a sabedoria reside ou não em ti, diz-nos: que é a sabedoria em tua opinião?

CÁRMIDES – (…) Sócrates, a sabedoria parece consistir, para mim, em fazer todas as coisas com moderação e comedimento; andar, falar e agir em tudo dessa maneira; numa palavra, a sabedoria seria uma certa medida ou justeza.”

SÓCRATES – Diz-se por aí, querido Cármides, que os que procedem com medida são sábios. Mas há razão nessa sentença?”

Não seria a sensatez tudo que se faz de modo ágil?”

SÓCRATES – E que é mais belo para um mestre de escola, escrever agilmente ou com medida?

CÁRMIDES – Agilmente.

SÓCRATES – Ler rápido ou devagar?

CÁRMIDES – Rápido.

SÓCRATES – E tocar a lira com desenvoltura e lutar com agilidade não é mais belo que fazer todas essas coisas com mesura e lentidão?¹

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – E então? No pugilato e nos combates de todo gênero, não é sempre assim?

CÁRMIDES – Absolutamente.”

Por exemplo, ensinar algo a alguém, não é melhor fazer com rapidez e fluidez que com lentidão e pesadez?”

E a agudeza de raciocínio, não é algo assim como agilidade, e seu contrário a torpeza da mente?”

¹ Na tradução de Azcárate perde-se todo o gradiente, os matizes que a cada nova sentença Sócrates vai colocando nas expressões, para fazer seu interlocutor cair em contradição, ou melhor, já que Sócrates não é um sofista barato: para fazê-lo ver que, ao definir assim a sabedoria, qualquer homem cai em contradição.

SÓCRATES – É a sabedoria bela?

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – Logo, pelo menos no que concerne ao corpo, não é a mesura ou a medida, mas a velocidade que constitui a sabedoria, posto que a sabedoria é uma coisa bela.”

Então a sensatez não pode ser algo tranqüilo. Dir-se-ia que a sensatez é contrária ao repouso e à serenidade. (…) Mas se as ações calmas e prudentes não são em si mais valiosas, necessariamente, que as ações intrépidas e veementes, na verdade a sensatez seria algo indiferente ao tranqüilo e ao intranqüilo. Pois no andar e no falar não é prudente ser apressado sempre. Só o que sabemos é que a sensatez é muito bem-avaliada, destarte. E há coisas vagarosas que são bem-avaliadas!”

CÁRMIDES – Me parece, agora que tu o disseste, me corrigindo, que o próprio da sabedoria é produzir o rubor, fazer do homem mais modesto e timorato; a sabedoria seria, então, o pudor.

SÓCRATES – Que seja, então. Não confessaste antes que a sabedoria era uma coisa bela?

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – E os homens sábios são igualmente bons?”

CÁRMIDES – A sensatez também pode ser algo que torna o homem mais tímido e desperta-lhe o pudor.”

Mas o que dizes de Homero? Crês que ele está errado quando afirma

<Não é boa a companhia do pudor para o homem indigente>(*)?

(*) Odisséia XVII”

– Se o pudor pode ser tão bom quanto mau, não é sensatez, pois esta é sempre boa.

– De acordo.”

a sabedoria consiste em fazer o que nos é próprio.”¹

¹ Em que pese preferir, no todo, a versão de Azcárate, novamente encontro neste ponto específico maior felicidade na segunda tradução. Ver abaixo, quando reaparece, qual foi a escolha da 2ª tradução para “fazer o que nos é próprio”.

Que é o <ocupar-se>?”

SÓCRATES – Ó, pícaro! Foi Crítias ou algum outro filósofo que te sugeriu esta idéia?”

se descobrirmos o que isto significa, não me surpreenderei pouco; é um verdadeiro enigma!”

CÁRMIDES – Eu não sei de nada, por Zeus! Mas não seria impossível que quem falou desta forma se compreendesse a si próprio.

Ao dizer isso, Cármides me sorria e dirigia o olhar a Crítias, que se encontrava visivelmente vermelho já há algum tempo. (…) Percebi que jamais me enganara: Crítias era o autor da última resposta que me dera Cármides acerca da definição de sabedoria.”

não menos colérico contra o jovem que um poeta contra o ator que desempenha mal seu papel”

Via-se que Crítias, que, já fazia um tempo, sentia-se atacado e demonstrava vontade de sobressair em relação a Cármides e os presentes, incapaz de conter-se por muito mais, estava prestes a se manifestar. Tanto mais, então, me pareceu que meu palpite acertara em cheio: Cármides escutara justo de Críticas aquela definição de sensatez. Assim, Cármides, em apuro na defesa da definição, não querendo se associar ao que Crítias dissera, parecia querer que o tio percebesse como fôra por mim refutado. Foi depois da última fala do sobrinho que Crítias, sem poder se segurar, visivelmente chateado, exatamente como o autor que vê o artista representar mal suas obras, declarou finalmente:

CRÍTIAS – Quer dizer então, Cármides, que se tu mesmo não sabes o que tinha na cabeça quem definiu a sensatez como <ocupar-se daquilo que é seu> atribuis a este alguém automaticamente a qualidade que desconheces, isto é, asseveras que quem definiu assim a sensatez não sabia, tampouco, que é que lhe passava pela própria cabeça quando a definiu?”

Trabalhar com vistas ao belo e ao útil, eis aqui o que se chama ocupar-se; e os trabalhos deste gênero são para Hesíodo ocupações¹ e o autêntico agir.”

¹ Neste sentido, Hesíodo divide os trabalhos em dois: aquele indigno, que mal mereceria o nome de “trabalho”, e o trabalho digno em si, que ele também equivale a estar ocupado, à ação íntegra e excelente.

CRÍTIAS – Eu jamais disse que <ocupar-se de> é o mesmo que <fazer>. Segundo Hesíodo, nenhum trabalho é desonroso. E o artesão faz o que é dos outros, embora se ocupe só do seu.”

SÓCRATES – (…) Que assim seja. Dá às palavras o sentido que mais te agrade; basta-me que as definas simultaneamente a seu emprego. (…) Fazer o bem ou trabalhar por ele, ou como queiras chamá-lo, é isso que tu chamas sabedoria?”

CRÍTIAS – Não pestanejo, Sócrates.

SÓCRATES – Sábio é aquele que faz o bem, não o que faz o mal?

CRÍTIAS – Tu mesmo, querido amigo, não és deste parecer?

SÓCRATES – Não importa; o que agora temos de examinar não é o que eu penso, mas o que tu dizes.

CRÍTIAS – Pois bem; o que não faz o bem mas o mal, declaro que não é sábio; o que não faz o mal, mas o bem, este eu declaro sábio. (…)

SÓCRATES – Poderá suceder que tenhas razão. Não obstante, uma coisa me chama a atenção, e é que admites que um homem possa ser sábio e não saber que o é.

CRÍTIAS – Não há nada disso, Sócrates. Não o admito!

(…)

CRÍTIAS – Não, Sócrates, isto não é possível. Se crês que minhas palavras conduzem necessariamente a esta conseqüência, prefiro retirá-las. Prefiro antes confessar sem nenhum constrangimento que me expressei inexatamente, a conceder que se possa ser sábio sem conhecer-se a si mesmo. Não estou distante de definir a sabedoria como o conhecimento de si mesmo, e de fato sou da mesma opinião daquele que gravou no templo de Delfos uma inscrição deste gênero: Conhece-te a ti mesmo. Esta inscrição é, a meu ver, um cumprimento que o deus dirige aos que entram, em vez de ser uma fórmula ordinária, conforme muitos, tal qual <Sê feliz!>Creio que o deus julgou que uma mensagem mais direta como esta última não seria conveniente, e que aos homens deve-se desejar não a felicidade, mas a sabedoria. Eis aqui em que termos tão distintos dos nossos fala o deus aos que entram em seu templo, e eu compreendo bem o pensamento do autor da inscrição (…) linguagem um pouco enigmática, sim, como a do adivinho. ‘Conhece-te a ti mesmo’ e ‘sê sábio’ são a mesma coisa, no fundo, pelo menos é o meu parecer. Há outros homens que gravaram inscrições mais recentes nos templos, inscrições bem mais simplórias: Nada em demasia; dá-te em caução e não estarás longe da ruína, etc. Isso é coisa de gente que tomou a sentença conhece-te a ti mesmo por uma simples afirmação, digo, conselho, e não pelos cumprimentos do deus aos verdadeiramente sábios que ali entravam. (…) Ora, Sócrates, quiçá estejas certo ao final, quiçá eu o esteja. Em todo caso, nada de sólido firmamos aqui.”

SÓCRATES – Ah, Crítias! Assim que começaste a falar, entrevi por onde encaminharias teu discurso; ou seja, que chamarias as coisas próprias de alguém boas, e a criação (poiesis) de coisas boas de atividades (praxeis). Também de Pródico(*) ouvi ilimitadas distinções de palavras acerca disso. Fica à vontade para determinar o sentido que queres às palavras, contanto que bem justifiques tuas escolhas ao final. Agora, sugiro que comecemos então a definir as coisas com clareza desde um princípio que nos seja mútuo. É a <ocupação com> (praxeis) coisas boas que tu chamas de sensatez? E também a criação ou produção (poiesis), ou como mais queiras chamá-las, tu também chamas de sensatez, correto?

CRÍTIAS – Perfeito, Sócrates. Ambas as coisas são sensatas, ou antes ambos os verbos se referem àquilo que é sensato.

(*) Para mais sobre Pródico de Ceos, sofista, cientista político e gramático que atuou na Atenas socrática, cf. principalmente o Protágoras [https://seclusao.art.blog/2018/03/02/protagoras-outros/] e o Eutidemo [https://seclusao.art.blog/2018/08/31/eutidemo-ou-do-disputador-ou-da-mentira-sofistica-frente-a-verdade-dialetica/].”

CRÍTIAS – …de modo que defino quem se ocupa do seu como quem se ocupa de boas obras.”

SÓCRATES – Pode ser que um médico, tendo ou não curado o paciente (tendo ou não feito um bom trabalho), ignore se tratou de modo eficaz o paciente? Segundo tua definição, Crítias, tendo o médico curado o paciente, ignorando-o ou não se realmente o fez, ele obrou bem, isto é, sensatamente. Estou certo?

CRÍTIAS – Sim, Sócrates. Foi o que eu afirmei. (…) Inclusive equiparo o ser sensato ao Conhece-te a ti mesmo² da inscrição em Delfos. (…) De modo que o Conhece-te a ti mesmo não é em verdade um conselho do deus, como querem os homens que interpretam a inscrição demasiado à letra. A frase é antes uma saudação aos homens sensatos que qualquer outra coisa. Mas os homens mais se satisfazem com exortações diretas que com enigmas complicados.”

¹ “Sensato”, na 2ª tradução.

² Na tradição, frase provinda de Apolo. Na doxografia, muito associada a Sócrates, a frase é no entanto mais atribuída como original de Tales de Mileto, um dos Sete Sábios da Grécia Antiga, de geração anterior a sua.

CRÍTIAS – A sabedoria não é semelhante às outras ciências; estas não são semelhantes entre si, e tu supões em teu raciocínio que todas se parecem”

A sensatez é então um saber, ou um saber-de-algo?”

Não é a medicina um saber sobre a saúde?”

SÓCRATES – E a estática é a ciência do pesado e do leve; o pesado e o leve diferem da estática mesma. Não crês?

CRÍTICAS – Sim.

SÓCRATES – Pois bem; diz-me: qual é o objeto da ciência da sabedoria, que seja distinto da sabedoria ela mesma?”

O saber sobre si mesmo, que nome teria? E que obra gera de diferente de si mesma (a própria sensatez)? Pois que o matemático gera o saber sobre os números pares e ímpares e suas correlações, como o arquiteto gera o saber sobre edificações. A sensatez e o autoconhecimento mesmos devem gerar o saber sobre algo.”

CRÍTIAS – (…) Esta semelhança não existe. Enquanto todas as demais ciências¹ são ciências de um objeto particular e não do todo delas próprias, só a sabedoria é a ciência de outras ciências e de si mesma. (…) propões-te apenas a me combater e refutar, Sócrates, sem fixares-te na essência da questão!

SÓCRATES – Mas como, Crítias? Podes crer que se eu te pressiono com minhas perguntas seja por outro motivo além de que assim eu me obrigaria a dirigir-me a mim próprio a fim de examinar minhas palavras? Quero dizer, o temor de me enganar a respeito das coisas pensando saber e na verdade constatar que não sei não é aquilo que sempre me moveu e continua a me mover?”

CRÍTIAS – Sócrates, todos os outros saberes são saberes-sobre-algo, porém a sensatez se diferencia por ser um saber sobre todos os outros e também sobre si. Vejo que estás mais preocupado em refutar-me que em seguir o tema da discussão!(*)

(*) A partir desta definição de sensatez por Crítias entra-se na parte mais original do diálogo Cármides. Os trechos que seguem são justamente objeto de várias investigações recentes, como as de E. MARTENS; B. WITTE, Die Wissenschaft vom Guten und Bösen. Interpretationen zu Platons ‘Charmides’, Berlim, 1969; T.B. EBERT, Meinung und Wissen in der Philosophie Platons. Untersuchungen zum ‚Charmides‘, ‚Menon‘ und Staat, Berlim, 1974, pp. 55-82. Pioneiro no tema do Cármides foi o valioso estudo de CARL SCHIRLITZ, publicado no final do século XIX: «Der Begriff des Wissen vom Wissen in Platons ‚Charmides‘ und seine Bedeutung für das Ergebnis des Dialogs», em Neue Jahrbücher für Philologie und Paedagogik 155 (1897), 451-476 e 513-537.”

SÓCRATES – Mas como podes supor algo assim? Pensas que, ao refutar-te, faço-o por alguma causa distinta que a que me leva a me investigar a mim mesmo e aquilo que digo, talvez por temor de que me escape aquilo que penso que sei, sem sabê-lo? Digo-te, pois, Crítias, que é isto que trato de fazer agora: analisar nosso discurso, sobretudo por mim mesmo, mas também, acessoriamente, em prol de meus outros amigos. Não crês que tornar transparente a estrutura de cada um dos seres seja um bem comum para quase todos os homens?

CRÍTIAS – Creio, Sócrates, e muito!”

¹ A segunda tradução inteira se exime do emprego da palavra ciência. Como designadora das matemáticas, medicina, da arte do artesão, seria mais fácil empregá-la para nós, leitores modernos, mas realmente entendo a intenção de não usar o termo para a sabedoria (como a ciência da própria ciência), o que confundiria o leitor “empírico” moderno, tendente ao positivismo metodológico. Não é ciência no sentido baconiano aquela que aqui se discute. Tanto que aqui se trata mais do saber de um ofício, quando se fala das ciências particulares: o médico entende de medicar, o sapateiro de fazer sapatos. Seria espúrio para o cientista contemporâneo chamar o artesão de “seu colega” (cientista), para não falar também que na contemporaneidade a matemática não é mais considerada uma hard science.

Ânimo, amigo! Responde a minhas perguntas, segundo teu próprio juízo, sem inquietar-te se é Crítias ou Sócrates aquele que leva a melhor ao final. Aplica todo teu espírito no objeto que nos ocupa agora, e que seja uma só coisa tua preocupação: a conclusão a que nos conduzirão nossos próprios esforços.”

A ti não te importes se é de Sócrates ou de Crítias o discurso que está sendo refutado. Mas atua com diligência para que, quando parecer que estás em apuros, vejas uma saída plausível com o auxílio de teus argumentos.”

CRÍTIAS – Penso que, única entre todas as demais ciências, a sabedoria é a ciência de si mesma e de todas as demais ciências.

SÓCRATES – Logo, será também a ciência da ignorância, se o é da ciência?

CRÍTIAS – Sem dúvida.

SÓCRATES – Portanto, só o sábio se conhecerá a si mesmo, e estará em posição de julgar daquilo que sabe e daquilo que não sabe. De igual modo, só o sábio é capaz de reconhecer, quanto aos demais, o quê cada um sabe crendo sabê-lo, assim como o quê cada um crê saber, sem contudo saber. Nenhum outro pode fazer esse juízo. Numa palavra, ser sábio, a sabedoria, o conhecimento de si mesmo, tudo isso se reduz a saber o quê se sabe e o quê não se sabe. Não pensas tu idem?

CRÍTIAS – Em absoluto.”

A sensatez é também um saber do não-saber?”

Só o sensato, portanto, saberá aquilo que crê saber e na verdade não o sabe.”

SÓCRATES – (…) examinemos (…) primeiro se é possível ou não saber que uma pessoa sabe o quê sabe e não sabe o quê não sabe. Em segundo, supondo isto possível, que utilidade pode resultar deste saber?

É possível o saber que sabe o que sabe e que não sabe o que não se sabe?”

Concebes uma vista que não visse nenhuma das coisas que vêem as demais vistas, mas que seja a vista de si mesma e das demais vistas, e até do que não é visto? Concebes uma vista que não visse a cor, apesar de ser vista, mas que se visse ela mesma e as demais vistas? Crês que semelhante vista existe?

CRÍTIAS – Por Zeus, Sócrates, claro que não!

SÓCRATES – Concebes um ouvido que não ouvisse nenhuma voz, mas que se ouvisse a si mesmo e aos outros ouvidos, e até ao que não é ouvido?

CRÍTICAS – Tampouco.

SÓCRATES – Considerando todos os sentidos de uma só vez, parece-te possível que haja um que seja o sentido de si mesmo e dos outros sentidos, mas que não sinta nada do que os outros sentidos sentem?

Por conseguinte, uma coisa seria ao mesmo tempo maior que si mesma e menor que si mesma; mais pesada e mais leve; mais velha e mais nova, e assim com todo o demais. Não é indispensável que a coisa, que possui a propriedade de referir-se a si mesma, possua ademais a qualidade a que tem a propriedade de se referir?”

Estou em uma aporia. (…) Não parece que esse saber ora sabe mais, ora sabe menos do que ele sabe?”

Se é verdade que sou um dobro, não é verdade que sou também a metade? Que se o dobro de algo é 2x, o dobro é tanto o 2 quanto o x?”¹

¹ Sócrates não o diz recorrendo a símbolos aritméticos, que inclusive são criação muito posterior do espírito (da razão humana), mas achei que não faria mal em condensar assim seu pensamento.

Seria possível uma ciência da ciência? Eu sou incapaz de afirmá-lo; e ainda que haja, eu de minha parte não poderia admitir que esta ciência seja a sabedoria antes de haver examinado se, isto pressuposto, tal conhecimento nos seria útil ou não; porque me atrevo a declamar que a sabedoria é uma coisa boa e útil. Mas tu, filho de Calescro, que estabeleceste que a sabedoria é a ciência da ciência e igualmente da ignorância, prova-me, antes de qualquer coisa, que isto é possível”

Crítias, como aqueles que bocejam ao ver alguém bocejar, pareceu-me tão desconcertado quanto eu. Habituado ele a se ver coberto de elogios, constrangia-se à mera olhada dos circunstantes; teimava em não confessar ser incapaz de esclarecer as questões que eu formulei, falava, falava, e nada dizia – apenas disfarçava sua impotência aos menos perspicazes. Eu, que não queria abortar a discussão, me interpus novamente:”

E Crítias se via tão atônito e confinado à aporia quanto eu, agora; mas tinha vergonha de ceder diante dos demais. Nesse impasse, ele tampouco dizia nada que avançasse a discussão do problema.”

SÓCRATES – (…) Sem dúvida, se alguém possui aquilo que conhece a si mesmo, reconhecerá, logicamente, também a si mesmo. Mas o que interessa saber é se quem possui esta ciência deva necessariamente saber o quê sabe e também aquilo que não sabe!

CRÍTIAS – Sem dúvida, Sócrates, porque trata-se da mesma coisa.”

Como pode o saber do saber ser igual o saber da ignorância?”

Em medicina e política, é fácil saber que se sabe algo em medicina e política.”

Mas quanto ao saber do saber, como saberá que sabe? A sensatez não parece ensinar nada.”

O sensato não sabe o que o médico sabe ou não sabe, nem o que o político sabe ou deixa de saber.”

É através da medicina que conhecemos o que é são, não através da sabedoria; e através da música, o que é harmonioso (não através da sabedoria); através da arquitetura, o que é necessário para se construir (não da sabedoria). Concorda que é assim sucessivamente com todas as demais artes e ciências?”

Aquele que ignora essas coisas não sabe o quê ele sabe, só sabe que sabe.” Esta expressão é a formulação mais extensa e elaborada do aforismo mais célebre de Sócrates-Platão: o só sei que nada sei. Ao contrário do que vulgarmente se diz em torno desta frase, Sócrates não abdica do conhecimento, abraçando um ceticismo e um niilismo teórico absolutos. O sábio não sabe a medicina, o sábio não sabe a música, o sábio não é arquiteto, nem piloto de navio, nem estratego militar, nem a sibila. Mas, seu cognome o indica, ele possui uma sabedoria, a mais especial das sabedorias, a sabedoria em si. Sem referências às outras, é uma sabedoria inócua, vazia, despida de conteúdo. Somente com referência às outras sabedorias é a sabedoria do sábio (do filósofo) a ciência da ciência. Isto já é algo mais que o niilismo fundamental do conhecimento vulgar da expressão. Mas implica que o sábio pode ou deve ser útil? Não sem a devida humildade e a visão do todo que este conhecimento exige se não for apenas Retórica (ou seja, o diálogo se chama Cármides porque foi ele que deu a principal lição, no início, em sua fala discreta): “Só” sei que nada sei: o só representa mais do que uma partícula “secundária” da frase-síntese do método maiêutico: é o conhecimento positivo, mas que não se atreve a usurpar o lugar de cada um dos outros especialistas (nas demais sabedorias técnicas), de que sem o conhecimento natural cumulativo, da experiência, seu saber de nada vale ou adianta; ainda assim, é o primeiro passo necessário, a primeira certeza no sentido objetivo da filosofia moderna, até os dias da nossa Filosofia. Não sei “o quê” (conteúdo) posso saber ou não, mas sei qual é o critério da busca da verdade. Nasce aqui a epistemologia atemporal. Admite que não existe uma modalidade de sabedoria que esgote a própria sabedoria, a ponto de eliminar a ignorância, que é sempre a estrada do filósofo. E nenhuma filosofia se faz sem um chão firme sob os pés. Em suma, Sócrates entendeu a condição humana: o limite dinâmico da própria capacidade do saber. (A possibilidade d)O auto-conhecimento (do homem e das coisas pelo próprio homem que pode se entender e entender as coisas, como são, apenas a partir desse parêntese – de que o quê ele sabe sobre si mesmo condiciona e limita seu conhecimento atual do todo, sem que essa regra seja jamais passível de quebra, embora seu conhecimento atual varie com o tempo).

Logo, a sabedoria e o ser sábio consistem não em saber o quê se sabe e o quê não se sabe, mas unicamente em saber que se sabe e (outrossim) que não se sabe.” Reiteração do dito acima: o saber não pode ser sem a ignorância, e vice-versa.

Logo, a sabedoria não nos põe em posição de reconhecer no outro, que alega sempre saber alguma coisa, se este outro sabe o quê diz saber, ou se porventura não o sabe de verdade. Toda a virtude da verdadeira sabedoria (a ciência das ciências) se limita a nos ensinar que possuímos uma certa ciência. Qual é a matéria desta ciência, não é a ciência das ciências quem nos dirá.”

O médico não sabe nada sobre a medicina, pois a medicina é sabedoria do saudável e do doente, não de si mesma. O sábio reconhecerá que o médico possui uma sabedoria; mas que sabedoria é essa, só se o pode saber com referência aos objetos da medicina.”

Afora o médico, ninguém é competente para isso, nem o próprio sábio, aliás, muito menos ele. Não fosse assim, teríamos um médico-sábio, ou um sábio-médico, figura quimérica.”

E bem, querido Crítias, reduzida a sabedoria a estes termos, qual pode ser sua utilidade? Ah! Se, como supusemos de início, o sábio soubesse o quê sabe e o quê não sabe; se soubesse que sabe certas coisas e não sabe outras certas coisas… Se pudesse, além disso, julgar aos demais homens quanto ao que ele julga na própria pessoa, aí então, eu o declaro, ser-nos-ia INFINITAMENTE ÚTIL o sermos sábios! Passaríamos a vida, inclusive, isentos de falha enquanto possuíssemos a sabedoria, e o mesmo se aplicaria a quem agisse conforme nossas prescrições.” Há uma tão infinitesimal ironia nessa fala de Sócrates que nós não a captaríamos como ironia, sem o contexto do diálogo e sem expertise em filosofia não fosse por recursos modernos como o colocar em CAIXA ALTA, por exemplo. A verdade é que a sabedoria no sentido de Crítias não existe, daí então Sócrates considerá-la inútil, ainda que existisse. Pois que é a vida, senão sucessivos erros misturados com acertos? E que sabedoria, sendo sabedoria, negligenciaria esse dado tão importante (o de que é impossível ser sábio, onisciente, perfeito)?

O médico sabe sobre saúde, mas não sobre o saber, já que isso está só para os sensatos. Porém, resulta que o médico nada sabe de medicina, pois a medicina é o saber sobre a saúde. Ou não será assim?”

O sensato não é um médico, ou não tem de ser um médico.”

O sensato não pode distinguir o bom médico do mau médico, o charlatão. Só um médico poderia fazê-lo.”

Que proveito há, portanto, na sensatez, Crítias?”

Talvez que o objeto de nossa indagação seja absolutamente inútil! O que me faz ter esses pressentimentos acerca da sabedoria (a que definimos) são coisas que me vêm ao espírito. (…) Creio que excede meus poderes. Mas quê importa? Quando algo se nos coça cá no espírito não há remédio senão examinar tal coisa! Não deixeis que escape ao acaso, por pouco amor que tenhas por ti mesmo!”

ao vivermos em prol da sabedoria, viveremos por isso melhor e mais felizes?”

SÓCRATES – (…) me parece que só tomas por felizes aqueles que vivem segundo certas sabedorias. Talvez só concedas este privilégio ao que designei previamente, isto é, àquele que sabe tudo o que deve suceder: falo do adivinho.

CRÍTIAS – Não só a esse sábio, Sócrates.

SÓCRATES – Quais outros então? Poderias estar falando daquele que une o conhecimento do futuro, do passado e do presente? Supondo que um tal homem existe, claro. Creio que confessarás que nenhum outro senão este possa viver segundo a sabedoria.

CRÍTIAS – Confesso.

SÓCRATES – Mais uma pergunta: Qual destas ciências é a que faz deste homem feliz? Ou são todas de uma vez, cada uma em sua proporção?

CRÍTIAS – Nada disso.

SÓCRATES – Então, qual é a ciência que eleges? A dos acontecimentos passados, presentes e futuros? A do xadrez?¹

CRÍTIAS – Ah, a do jogo de xadrez!! Que absurdo!

SÓCRATES – A dos números?

CRÍTIAS – Essa também não.

SÓCRATES – A do que é saudável?

CRÍTIAS – Hm, talvez, mas não de todo.

SÓCRATES – Mas diz de uma vez, qual é a ciência que mais contribui para a felicidade do sábio?

CRÍTIAS – Ora, a ciência do bem e do mal.

SÓCRATES – Ah, pícaro! Depois de tanto caminharmos faz-me agora rodar em círculos!”

Mas o suposto saber do saber, que não ignora o que ignora, saberia saber mais do que sabe atualmente…”

CRÍTIAS – A sensatez é saber sobre o bem e o mal.”

SÓCRATES – …Porque nosso (mau) pressuposto diz que se sabem aquelas coisas que não se sabem, ainda que, em minha opinião, não houvesse nada que nos parecesse mais absurdo do que isso!”

¹ “Damas” na segunda tradução.

E esta ciência, me parece, não é a sabedoria, senão aquela cujo objeto é o ser útil;¹ porque não é a ciência da ciência e da ignorância, mas a do bem e do mal.”

¹ No fundo, a ética é a mais importante das sabedorias, mas é também a mais difícil, e a mais imprecisa e volátil de todas.

Supusemos, pois, que existe uma ciência da ciência, apesar de que a razão não permite nem autoriza semelhante concepção. Depois, admitimos que esta ciência conhece os objetos das outras ciências, e isso é contrário à razão! Desejaríamos que o sábio pudera saber que ele sabe o quê sabe e o quê não sabe. Na verdade fomos generosos em excesso fazendo esta última concessão, uma vez que consideramos, neste exercício, que é possível saber, de certa maneira, o que absolutamente não se sabe. Admitimos, por fim, que ele sabe e que ele não sabe, ao mesmo tempo – o que é o mais irracional que se possa imaginar. (…) qualquer que seja a definição da sabedoria que tenhamos inventado, de comum acordo, essa ou aquela definição sempre nos fez ver, com naturalidade, que nenhuma delas pode-nos ser útil.”

ao fim, amigo Cármides, me ressinto de haver aprendido com tanto afã as palavras mágicas daquele trácio, para depois de tudo concluir que nenhum valor possuem! Mas não, não posso crer que assim seja, e é mais adequado pensar que eu é que não sei buscar a verdade! A sabedoria é, sem dúvida, um grande bem; e se tu a possuis, és um mortal feliz. Mas examina atentamente se a possuis verdadeiramente, a fim de que não necessites de palavras mágicas”

Mas o que mais me irrita nisso tudo é o encantamento que havia aprendido do trácio e que, depois de tanto esforço, descubro agora ser algo quimérico e fútil.”

CÁRMIDES – Sócrates, sei lá eu se sou sensato ou não! Como nada me impede, não vejo também por que não haveria de me submeter ao seu encantamento, por quantos dias forem precisos! Até o dia em que tu me digas que tenho bastante sensatez, ao menos.”

CRÍTIAS – A maior prova que podes dar-me de tua sabedoria, meu querido Cármides, é entregar-te aos encantos¹ de Sócrates e não afastar-te dele nem um só minuto.¹

CÁRMIDES – Estarei sempre com ele, seguirei seus passos; porque eu me tornaria um réprobo ao não te obedecer, ó primo, tu que és meu tutor.”

¹ “Entregar-te aos encantos” é bastante ambíguo, e nos remete obviamente a uma cena romântica. Encantamentos já modificaria consideravelmente nossa compreensão da frase, e é isso que torna Platão tão rico e polissêmico. Entregar-se às “palavras mágicas” do discurso sábio de Sócrates é o sentido leal à epistemologia que aqui buscamos.

SÓCRATES – Ah, e que é que vós dois tramais agora?

CRÍTIAS – Absolutamente nada, Sócrates. Só isto: que tens-nos as tuas ordens.

SÓCRATES – Como?! Empregais então a força, sem deixar-me a liberdade da escolha?!”¹

Sócrates, serei teu discípulo. E meu tio Crítias está com isso de acordo.”¹

Vais obrigar-me assim, sem prazo nenhum para preparar-me?”¹

¹ Aqui o que transforma bastante o sentido da segunda tradução foi minha própria opção de tradutor, não o texto-fonte. Nos dois textos em espanhol o que se obtém de Sócrates, o que a dupla de parentes Crítias-Cármides dele consegue, é que ele recite o encantamento (o diálogo termina antes, porque ‘não existe’ este encantamento), mas este é o que menos importa e só serve de pretexto para todo o diálogo. Nesse tocante, queriam, portanto, que Sócrates admitisse Cármides como paciente. Mas Sócrates não é médico no sentido habitual; seria no máximo um médico da alma do homem; daí que na verdade inaugura-se aqui uma relação de professor-aluno ou mestre-discípulo. Como sabemos entretanto, Sócrates não procurava expressamente por discípulos, pois em verdade morrera sendo o discípulo número 1 da própria sabedoria, e não aceitava ser chamado de mestre, mesmo sendo visivelmente o homem mais sábio de seu tempo.

EXPLICAÇÃO DO SENTIDO DA FRASE “SÓ SEI QUE NADA SEI”

“Aquele que ignora essas coisas não sabe o quê ele sabe, só sabe que sabe.”

Sócrates no Cármides de Platão

Esta expressão é a formulação mais extensa e elaborada do aforismo mais célebre de Sócrates-Platão: o só sei que nada sei. Ao contrário do que vulgarmente se diz em torno desta frase, Sócrates não abdica do conhecimento, abraçando um ceticismo e um niilismo teórico absolutos. O sábio não sabe a medicina, o sábio não sabe a música, o sábio não é arquiteto, nem piloto de navio, nem estratego militar, nem a sibila. Mas, seu cognome o indica, ele possui uma sabedoria, a mais especial das sabedorias, a sabedoria em si. Sem referências às outras, é uma sabedoria inócua, vazia, despida de conteúdo. Somente com referência às outras sabedorias é a sabedoria do sábio (do filósofo) a ciência da ciência. Isto já é algo mais que o niilismo fundamental do conhecimento vulgar da expressão. Mas implica que o sábio pode ou deve ser útil? Não sem a devida humildade e a visão do todo que este conhecimento exige se não for apenas Retórica (ou seja, o diálogo se chama Cármides porque foi ele que deu a principal lição, no início, em sua fala discreta): “Só” sei que nada sei: o só representa mais do que uma partícula “secundária” da frase-síntese do método maiêutico: é o conhecimento positivo, mas que não se atreve a usurpar o lugar de cada um dos outros especialistas (nas demais sabedorias técnicas), de que sem o conhecimento natural cumulativo, da experiência, seu saber de nada vale ou adianta; ainda assim, é o primeiro passo necessário, a primeira certeza no sentido objetivo da filosofia moderna, até os dias da nossa Filosofia. Não sei “o quê” (conteúdo) posso saber ou não, mas sei qual é o critério da busca da verdade. Nasce aqui a epistemologia atemporal. Admite que não existe uma modalidade de sabedoria que esgote a própria sabedoria, a ponto de eliminar a ignorância, que é sempre a estrada do filósofo. E nenhuma filosofia se faz sem um chão firme sob os pés. Em suma, Sócrates entendeu a condição humana: o limite dinâmico da própria capacidade do saber. (A possibilidade d)O auto-conhecimento (do homem e das coisas pelo próprio homem que pode se entender e entender as coisas, como são, apenas a partir desse parêntese – de que o quê ele sabe sobre si mesmo condiciona e limita seu conhecimento atual do todo, sem que essa regra seja jamais passível de quebra, embora seu conhecimento atual varie com o tempo).

NOCTES ATTICAE – Aulus Gellius

PRAEFATIO

13 Quod erunt autem in his commentariis pauca quaedam scrupulosa et anxia, vel ex grammatica vel ex dialectica vel etiam ex geometrica,​ quodque erunt item paucula remotiora super augurio iure et pontificio, non oportet ea defugere, quasi aut cognitu non utilia aut perceptu difficilia. Non enim fecimus altos nimis et obscuros in his rebus quaestionum sinus, sed primitias quasdam et quasi libamenta ingenuarum artium dedimus, quae virum civiliter eruditum neque audisse umquam neque attigisse, si non inutile, at quidem certe indecorum est. 14 Ab his igitur, si cui forte nonnumquam tempus voluptasque erit lucubratiunculas istas cognoscere, petitum impetratumque volumus, ut in legendo quae pridem scierint non aspernentur quasi nota invulgataque.”

19 Erit autem id longe optimum, ut qui in lectitando, percontando, scribendo, commentando, numquam voluptates, numquam labores ceperunt, nullas hoc genus vigilias vigilarunt neque ullis inter eiusdem Musae aemulos certationibus disceptationibusque elimati sunt, sed intemperiarum negotiorumque pleni sunt, abeant​ a ‘Noctibus’ his procul, atque alia sibi oblectamenta quaerant.”

22 Volumina commentariorum ad hunc diem viginti iam facta sunt.”

24 Progredietur ergo numerus librorum, diis bene iuvantibus, cum ipsius vitae, quantuli quomque fuerint progressibus, neque longiora mihi dari spatia vivendi volo quam dum ero ad hanc quoque facultatem scribendi commentandique idoneus.”

LIBER I

1.1 Plutarchus in libro quem de Herculis quam diu inter homines fuit, animi corporisque ingenio atque virtutibus conscripsit, scite subtiliterque ratiocinatum Pythagoram philosophum dicit in reperienda modulandaque status longitudinisque eius praestantia.”

3.6 ipse tacitus ad condemnandum sententiam tuli, is qui simul iudicabant, ut absolverent, persuasi. 3.7 Sic mihi et iudicis et amici officium in re tanta salvum fuit. Hanc capio ex eo facto molestiam, quod metuo, ne a perfidia et culpa non abhorreat in eadem re eodemque tempore inque communi negotio, quod mihi optimum factu duxerim, diversum eius aliis suasisse.”

3.21 Theophrastus autem in eo quo dixi libro inquisitius quidem super hac ipsa re et exactius expressiusque​ quam Cicero disserit.”

3.31 *Este trecho, como é citação de Plutarco, está em grego na obra:*

Χειλῶν ὁ παλαιός, ἀκούσας τινὸς λέγοντος, μηδένα ἔχειν ἐχθρόν, ἠρώτησεν, εἰ μηδένα φίλον ἔχει, νομίζων ἐξ ἀνάγκης ἐπακολουθεῖν καὶ συνεμπλέκεσθαι ταῖς φιλίαις ἀπεχθείας.”

10.2 tu autem, proinde quasi cum matre Evandri nunc loquare, sermone abhinc multis annis iam desito uteris, quod scire atque intellegere neminem vis, quae dicas. Nonne, homo inepte, ut, quod vis, abunde consequaris, taces? 10.3 Sed antiquitatem tibi placere ais, quod honesta et bona et sobria et modesta sit. 10.4 Vive ergo moribus praeteritis, loquere verbis praesentibus atque id, quod a G. Caesare, excellentis ingenii ac prudentiae viro, in primo De Analogia libro scriptum est, ‘habe semper in memoria atque in pectore, ut tamquam scopulum, sic fugias inauditum​ atque insolens verbum.”

15.6 ‘Dummodo,’ inquit, ‘hoc constet neque infantiam eius, qui rem norit, sed eam explicare dicendo non queat, neque inscientiam illius, cui res non subpetat, verba non desint, esse laudandam: quorum si alterum sit optandum, malim equidem indisertam prudentiam quam stultam loquacitatem.’ (M. Cicero)”

15.8 ‘Numquam,’ inquit, ‘tacet, quem morbus tenet loquendi tamquam veternosum bibendi atque dormiendi. Quod si non conveniatis, cum convocari iubet, ita cupidus orationis conducat, qui auscultet. Itaque auditis, non auscultatis, tamquam pharmacopolam. Nam eius verba audiuntur; verum se ei​ nemo committit, si aeger est.’ (M. Cato)”

15.10 …‘frusto,’ inquit, ‘panis conduci potest, vel uti taceat vel uti loquatur.’

20.2 …‘Planum’ est, quod in duas partis solum lineas habet, qua latum est et qua longum: qualia sunt triquetra et quadrata, quae in area fiunt, sine altitudine. 20.3 ‘Solidum’ est, quando non longitudines modo et latitudines planas numeri linearum efficiunt, sed etiam extollunt altitudines, o quales sunt ferme metae triangulae, quas ‘pyramidas’ appellant, vel qualia sunt quadrata undique, quae κύβους illi, nos ‘quadrantalia’ dicimus. 20.4 Κύβος enim est figura ex omni latere quadrata, ‘quales sunt,’ inquit M. Varro, ‘tesserae, quibus in alticolo luditur, ex quo ipsae quoque appellatae κύβοι.’ 20.5 In numeris etiam similiter κύβος dicitur, cum omne latus eiusdem numeri aequabiliter in sese solvitur, sicuti fit, cum ter terna ducuntur atque ipse numerus terplicatur.”

22.9 Exquisite igitur et comperte Iulius Paulus dicebat, homo in nostra memoria doctissimus, ‘superesse’ non simplici ratione dici tam Latine quam Graece: Graecos enim περισσὸν in utramque partem ponere, vel quod supervacaneum esset ac non necessarium, vel quod abundans nimis et afluens et exuberans;​22.10 sic nostros quoque veteres ‘superesse’ alias dixisse pro superfluenti et vacivo neque admodum necessario, ita, ut supra posuimus, Varronem dicere, alias ita, ut Cicero dixit, pro eo, quod copia quidem et facultate ceteris anteiret, super modum tamen et largius prolixiusque flueret, quam esset satis.

23.4 Mos antea senatoribus Romae fuit in curiam cum praetextatis filiis introire. 23.5 Tum, cum in senatu res maior quaepiam consultata eaque in diem posterum prolata est, placuitque, ut eam rem, super qua tractavissent, ne quis enuntiaret, priusquam decreta esset, mater Papirii pueri, qui cum parente suo in curia fuerat, percontata est filium, quidnam in senatu patres egissent. 23.6 Puer respondit tacendum esse neque id dici licere. 23.7 Mulier fit audiendi cupidior; secretum rei et silentium pueri animum eius ad inquirendum everberat: quaerit igitur compressius violentiusque. 23.8 Tum puer matre urgente lepidi atque festivi mendacii consilium capit. Actum in senatu dixit, utrum videretur utilius exque republica esse, unusne ut duas uxores haberet, an ut una apud duos nupta esset. 23.9 Hoc illa ubi audivit, animus compavescit, domo trepidans egreditur ad ceteras matronas. 23.10 Pervenit​ ad senatum postridie matrum familias caterva; lacrimantes atque obsecrantes orant, una potius ut duobus nupta fieret, quam ut uni duae. 23.11 Senatores ingredientes in curiam, quae illa mulierum intemperies et quid sibi postulatio istaec vellet, mirabantur. 23.12 Puer Papirius in medium curiae progressus, quid mater audire institisset, quid ipse matri dixisset, rem, sicut fuerat, denarrat. 23.13 Senatus fidem atque ingenium pueri exosculatur, consultum facit, uti posthac pueri cum patribus in curiam ne introeant, praeter ille unus Papirius, atque puero postea cognomentum honoris gratia inditum ‘Praetextatus’ ob tacendi loquendique in aetate praetextae prudentiam.”

LIBER II

3.1 ‘H’ litteram sive illam spiritum magis quam litteram dici oportet, inserebant eam veteres nostri plerisque vocibus verborum firmandis roborandisque, ut sonus earum esset viridior vegetiorque; atque id videntur fecisse studio et exemplo linguae Atticae. 3.2 Satis notum est Atticos hichthyn¹ et hippon et multa itidem alia contra morem gentium Graeciae ceterarum inspirantis primae litterae dixisse. 3.3 Sic ‘lachrumas’, sic ‘sepulchrum’, sic ‘ahenum’, sic ‘vehemens’, sic ‘incohare’, sic ‘helluari’, sic ‘halucinari’, sic ‘honera’, sic ‘honestum’¹ dixerunt. 3.4 In his enim verbis omnibus litterae seu spiritus istius nulla ratio visa est, nisi ut firmitas et vigor vocis quasi quibusdam nervis additis intenderetur. 3.5 Sed quoniam ‘aheni’ quoque exemplo usi sumus, venit nobis in memoriam Fidum Optatum, multi nominis Romae grammaticum, ostendisse mihi librum Aeneidos secundum mirandae vetustatis emptum in sigillariis viginti aureis, quem ipsius Vergili fuisse credebatur. In quo duo isti versus cum ita scripti forent:

vestibulum ante ipsum primoque in limine Pyrrus

exsultat telis et luce coruscus aena,

additam supra vidimus ‘h’ litteram et ‘ahena’ factum.”

¹ Não-dicionarizado. Piscis é o mais usual.

² Aqui há incongruência na trad. inglesa!

5.1 Favorinus de Lysia et Platone solitus dicere est: ‘Si ex Platonis’, inquit, ‘oratione verbum aliquod demas mutesve atque id commodatissime facias, de elegantia tamen detraxeris; si ex Lysiae, de sententia.’

« 11.1 L. Sicinium Dentatum, qui tribunus plebi fuit Sp. Tarpeio A. Aternio consulibus, scriptum est in libris annalibus plus, quam credi debeat, strenuum bellatorem fuisse nomenque ei factum ob ingentem fortitudinem appellatumque esse Achillem Romanum. 11.2 Is pugnasse in hostem dicitur centum et viginti proeliis, cicatricem aversam nullam, adversas quinque et quadraginta tulisse, coronis donatus esse aureis octo, obsidionali una, muralibus tribus, civicis quattuordecim, torquibus tribus et octoginta, armillis plus centum sexaginta, hastis duodeviginti; phaleris item donatus est quinquies viciesque; 11.3 spolia militaria habuit multiiuga, in his provocatoria pleraque; 11.4 triumphavit cum imperatoribus suis triumphos novem. »

« 17.1 Observate curioseque animadvertit M. Tullius ‘in’ et ‘con’ praepositiones verbis aut vocabulis praepositas tunc produci atque protendi, cum litterae sequerentur, quae primae sunt in ‘sapiente’ atque ‘felice’, in aliis autem omnibus correpte pronuntiari. 17.2 Verba Ciceronis haec sunt: ‘Quid vero hoc elegantius, quod non fit natura, sed quodam instituto? <indoctus> dicimus brevi prima littera, <insanus> producta, <inhumanus> brevi, <infelix> longa et, ne multis, quibus in verbis hae primae litterae sunt, quae in <sapiente> atque <felice>, producte dicuntur, in ceteris omnibus breviter; itemque <conposuit>, <consuevit>, <concrepuit>, <confecit>.’ Consule veritatem, reprehendet; refer ad auris, probabunt; quaere cur ita sit: dicent iuvare. Voluptati autem aurium morigerari debet oratio.’ 17.3 Manifesta quidem ratio suavitatis est in his vocibus, de quibus Cicero locutus est. Sed quid dicemus de praepositione ‘pro’, quae, cum produci et corripi soleat, observationem hanc tamen M. Tullii aspernata est? 17.4 Non enim semper producitur, cum sequitur ea littera, quae prima est in verbo ‘fecit’, quam Cicero hanc habere vim significat, ut propter eam rem ‘in’ et ‘con’ praepositiones producantur. 17.5 Nam ‘proficisci’ et ‘profugere’ et ‘profundere’ et ‘profanum’ et ‘profestum’ correpte dicimus, ‘proferre’ autem et ‘profligare’ et ‘proficere’ producte. »

« 17.8 Praeterea ‘coligatus’ et ‘conexus’ producte dicitur. 17.9 Sed tamen videri potest in his, quae posui, ob eam causam particula haec produci, quoniam eliditur ex ea ‘n’ littera: nam detrimentum litterae productione syllabae compensatur. »

« 18.1 Phaedon Elidensis ex cohorte illa Socratica fuit Socratique et Platoni per fuit familiaris. 18.2 Eius nomini Plato librum illum divinum de immortalitate animae dedit. 18.3 Is Phaedon servus fuit forma atque ingenio liberali et, ut quidam scripserunt, a lenone domino puer ad merendum coactus. 18.4 Eum Cebes Socraticus hortante Socrate emisse dicitur habuisseque in philosophiae disciplinis. 18.5 Atque is postea philosophus inlustris fuit, sermonesque eius de Socrate admodum elegantes leguntur. »

18.9 Diogenes etiam Cynicus servitutem servivit. Sed is ex libertate in servitutem venum ierat. Quem cum emere vellet Xeniades Korinthios, ecquid artificii novisset, percontatus ‘novi’, inquit Diogenes, ‘hominibus liberis imperare’. 18.10 Tum Xeniades responsum eius demiratus emit et manu emisit filiosque suos ei tradens: ‘accipe,’ inquit, ‘liberos meos, quibus imperes.’ De Epicteto autem philosopho nobili, quod is quoque servus fuit, recentior est memoria, quam ut scribi quasi oblitteratum debuerit.”

23.1 Comoedias lectitamus nostrorum poetarum sumptas ac versas de Graecis Menandro aut Posidippo aut Apollodoro aut Alexide et quibusdam item aliis comicis. 23.2 Neque, cum legimus eas, nimium sane displicent, quin lepide quoque et venuste scriptae videantur, prorsus ut melius posse fieri nihil censeas. 23.3 Sed enim si conferas et componas Graeca ipsa, unde illa venerunt, ac singula considerate atque apte iunctis et alternis lectionibus committas, oppido quam iacere atque sordere incipiunt, quae Latina sunt; ita Graecarum, quas aemulari nequiverunt, facetiis atque luminibus obsolescunt. 23.4 Nuper adeo usus huius rei nobis venit. 23.5 Caecili Plocium legebamus; hautquaquam mihi et, qui aderant, displicebat. 23.6 Libitum et Menandri quoque Plocium legere, a quo istam comoediam verterat. 23.7 Sed enim postquam in manus Menander venit, a principio statim, di boni, quantum stupere atque frigere quantumque mutare a Menandro Caecilius visus est! Diomedis hercle arma et Glauci non dispari magis pretio existimata sunt.”

23.9 Menander sic:

Ἐπἀμφότερα νῦν ἡπίκληρος καλή

Μέλλει καθευδήσειν. Κατείργασται μέγα

Καὶ περιβόητον ἔργον· ἐκ τῆς οἰκίας

Ἐξέβαλε τὴν λυποῦσαν, ἐβούλετο,

Ἵν᾿ ἀποβλέπωσι πάντες εἰς τὸ Κρωβύλης

Πρόσωπον τ᾿ εὔγνωστος οὖσ᾿ ἐμὴ γυνή

Δέσποινα. Καὶ τὴν ὄψιν, ἣν ἐκτήσατο,

Ὄνος ἐν πιθήκοις, τοῦτο δὴ τὸ λεγόμενον

Ἔστιν. Σιωπᾶν βούλομαι τὴν νύκτα τήν

Πολλῶν κακῶν ἀρχηγόν. Οἴμοι Κρωβύλην

Λαβεῖν ἔμ᾿, ἑκκαίδεκα τάλαντα προῖκα καί

Τὴν ῥῖν᾿ ἔχουσαν πηχέως· εἶτ᾿ ἐστὶ τό

Φρύαγμά πως ὑπόστατον; μὰ τὸν Δία

Τὸν Ὀλύμπιον καὶ τὴν Ἀθηνᾶν, οὐδαμῶς.

Παιδισκάριον θεραπευτικὸν δὲ καὶ λόγου

Τάχιον ἀπαγέσθω δέ τις ἄρ᾿ ἀντεισαγάγοι.

23.10 Caecilius autem sic:

…”

26.3 ‘plura,’ inquit Favorinus, ‘sunt in sensibus oculorum quam in verbis vocibusque colorum discrimina….’

29.20 …

hoc erit tibi argumentum semper in promptu situm:

ne quid exspectes amicos, quod tute agere possies. »

LIBER V

3.1 Protagoram, virum in studiis doctrinarum egregium, cuius nomen Plato libro suo illi incluto inscripsit, adulescentem aiunt victus quaerendi gratia in mercedem missum vecturasque onerum corpore suo factitavisse, 3.2 quod genus Graeci achthophorous vocant, Latine ‘baiulos’ appellamus. 3.3 Is de proximo rure Abdera in oppidum, cuius popularis fuit, caudices ligni plurimos funiculo brevi circumdatos portabat. 3.4 Tum forte Democritus, civitatis eiusdem civis, homo ante alios virtutis et philosophiae gratia venerandus, cum egrederetur extra urbem, videt eum cum illo genere oneris tam impedito ac tam incohibili facile atque expedite incedentem et prope accedit et iuncturam posituramque ligni scite periteque factam considerat petitque, ut paululum adquiescat. 3.5 Quod ubi Protagoras, ut erat petitum, fecit atque itidem Democritus acervum illum et quasi orbem caudicum brevi vinculo comprehensum ratione quadam quasi geometrica librari continerique animadvertit, interrogavit, quis id lignum ita composuisset, et, cum ille a se compositum dixisset, desideravit, uti solveret ac denuo in modum eundem collocaret. 3.6 At postquam ille solvit ac similiter composuit, tum Democritus animi aciem sollertiamque hominis non docti demiratus: ‘mi adulescens,’ inquit, ‘cum ingenium bene faciendi habeas, sunt maiora melioraque, quae facere mecum possis’, abduxitque eum statim secumque habuit et sumptum ministravit et philosophias docuit et esse eum fecit, quantus postea fuit. 3.7 Is tamen Protagoras insincerus quidem philosophus, sed acerrimus sophistarum fuit; pecuniam quippe ingentem cuma discipulis acciperet annuam, pollicebatur se id docere, quanam verborum industria causa infirmior fieret fortior, quam rem Graece ita dicebat: ton hetto logon kreitto poiein.”

7.1 Lepide mi hercules et scite Gavius Bassus in libris, quos De origine vocabulorum composuit, unde appellata ‘persona’ sit, interpretatur; a personando¹ enim id vocabulum factum esse coniectat. 7.2 Nam ‘caput,’ inquit, ‘et os coperimento personae tectum undique unaque tantum vocis emittendae via pervium, quoniam non vaga neque diffusa est, set in unum tantummodo exitum collectam coactamque vocem ciet, magis claros canorosque sonitus facit. Quoniam igitur indumentum illud oris clarescere et resonare vocem facit, ob eam causam <persona> dicta est <o> littera propter vocabuli formam productiore.’”

¹ Não-dicionarizado.

9.1 Filius Croesi regis, cum iam fari per aetatem posset, infans erat et, cum iam multum adolevisset, item nihil fari quibat. 9.2 Mutus adeo et elinguis diu habitus est. Cum in patrem eius bello magno victum et urbe, in qua erat, capta hostis gladio educto regem esse ignorans invaderet, diduxit adulescens os clamare nitens eoque nisu atque impetu spiritus vitium nodumque linguae rupit planeque et articulate elocutus est clamans in hostem, ne rex Croesus occideretur. 9.3 Tum et hostis gladium reduxit, et rex vita donatus est, et adulescens loqui prorsum deinceps incepit. 9.4 Herodotus in historiis huius memoriae scriptor est, eiusque verba sunt, quae prima dixisse filium Croesi refert: Ἄνθρωπε, μὴ κτεῖνε Κροῖσον. »

LIBER VI

« 6.1 Ex quinque his sensibus, quos animantibus natura tribuit, visu, auditu, gustu, tactu, odoratu, quas Graeci aistheseis appellant, quaedam animalium alia alio carent et aut caeca natura gignuntur aut inodora inauritave. 6.2 Nullum autem ullum gigni animal Aristoteles dicit, quod aut gustus sensu careat aut tactus. »

9.1 ‘Poposci’, ‘momordi’, ‘pupugi’, ‘cucurri’ probabiliter dici videtur, atque ita nunc omnes ferme doctiores hisce verbis utuntur. 9.2 Sed Q. Ennius in saturis ‘memorderit’ dixit per ‘e’ litteram, non ‘momorderit’:

meum’, inquit, ‘non est, ac si me canis memorderit.’

9.3 Item Laberius in Gallis:

de integro patrimonio meo centum milia

nummum memordi.

9.4 Item idem Laberius in Coloratore:

itaque leni pruna percoctus simul sub dentes mulieris

veni, bis, ter memordit.

9.5 Item P. Nigidius de animalibus libro II: ‘Ut serpens si memordit, gallina diligitur et opponitur.’ 9.6 Item Plautus in Aulularia:

ut admemordit hominem.

9.7 Sed idem Plautus in Trigeminis neque ‘praememordisse’ neque ‘praemomordisse’ dicit, sed ‘praemorsisse’:

nisi fugissem’, inquit, ‘medium, credo, praemorsisset.’

9.8 Item Atta in Conciliatrice: ursum se memordisse autumat. 9.9 ‘Peposci’ quoque, non ‘poposci’, Valerius Antias libro annalium XLV. scriptum reliquit: ‘Denique Licinius tribunus plebi perduellionis ei diem dixit et comitiis diem a M. Marcio praetore peposcit.’ 9.10 ‘Pepugero’ aeque Atta in Aedilicia dicit:

sed si pepugero, metuet.

9.11 Aelium quoque Tuberonem libro ad C. Oppium scripto ‘occecurrit’ dixisse Probus adnotavit et haec eius verba apposuit: ‘Si generalis species occecurrerit.’” 9.12 Idem Probus Valerium Antiatem libro historiarum XXII. ‘speponderant’ scripsisse annotavit verbaque eius haec posuit: ‘Tiberius Gracchus, qui quaestor G. Mancino in Hispania fuerat, et ceteri, qui pacem speponderant.’ 9.13 Ratio autem istarum dictionum haec esse videri potest: quoniam Graeci in quadam specie praeteriti temporis, quod parakeimenon appellant, secundam verbi litteram in ‘e’ plerumque vertunt, ut grapho gegrapha, poio pepoika, lalo lelaleka, krato kekrateka, lovo lelouka, 9.14 sic igitur mordeo ‘memordi’, posco ‘peposci’, tendo ‘tetendi’, tango ‘tetigi’, pungo ‘pepugi’, curro ‘cecurri’, tollo ‘tetuli’, spondeo ‘spepondi’ facit. 9.15 Sic M. Tullius et G. Caesar ‘mordeo, memordi’, ‘pungo, pepugi’, ‘spondeo, spepondi’ dixerunt. Praeterea inveni a verbo ‘scindo’ simili ratione non ‘sciderat’, sed ‘sciciderat’ dictum esse.”

14.1 Et in carmine et in soluta oratione genera dicendi probabilia sunt tria, quae Graeci charakteras vocant nominaque eis fecerunt hadron, ischnon, meson. 14.2 Nos quoque, quem primum posuimus, ‘uberem’ vocamus, secundum ‘gracilem’, tertium ‘mediocrem’.”

14.4 His singulis orationis virtutibus vitia agnata sunt pari numero, quae earum modum et habitum simulacris falsis ementiuntur.”

14.6 Vera autem et propria huiuscemodi formarum exempla in Latina lingua M. Varro esse dicit ubertatis Pacuvium, gracilitatis Lucilium, mediocritatis Terentium. 14.7 Sed ea ipsa genera dicendi iam antiquitus tradita ab Homero sunt tria in tribus: magnificum in Ulixe et ubertum, subtile in Menelao et cohibitum, mixtum moderatumque in Nestore. 14.8 Animadversa eadem tripertita varietas est in tribus philosophis, quos Athenienses Romam ad senatum populi R. legaverant inpetratum, uti multam remitteret, quam fecerat is propter Oropi vastationem. Ea multa fuerat talentum fere quingentum. 14.9 Erant isti philosophi Carneades ex Academia, Diogenes Stoicus, Critolaus Peripateticus….”

17.1 Percontabar Romae quempiam grammaticum primae in docendo celebritatis non hercle experiundi vel temptandi gratia, sed discendi magis studio et cupidine, quid significaret ‘obnoxius’ quaeque eius vocabuli origo ac ratio esset. 17.2… ‘Obscuram’, inquit, ‘sane rem quaeris multaque prorsus vigilia indagandam. 17.3 Quis adeo tam linguae Latinae ignarus est, quin sciat eum dici ‘obnoxium’, cui quid ab eo, cui esse ‘obnoxius’ dicitur, incommodari et noceri potest et qui habeat aliquem noxae, id est culpae suae, conscium? Quin potius,’ inquit, ‘haec mittis nugalia et affers ea, quae digna quaeri tractarique sint?’ 17.4…inquam ‘vir doctissime, remotiora gravioraque si discere et scire debuero, quando mihi usus venerit, tum quaeram ex te atque discam; sed enim quia dixi saepe obnoxius et, quid dicerem, nescivi, didici ex te et scire nunc coepi, quod non ego omnium solus, ut tibi sum visus, ignoravi, sed, ut res est, Plautus quoque, homo linguae atque elegantiae in verbis Latinae princeps, quid esset obnoxius, nescivit; versus enim est in Sticho illius ita scriptus:

nunc ego hercle perii plane, non obnoxie, quod minime congruit cum ista, quam me docuisti, significatione;

composuit enim Plautus tamquam duo inter se contraria plane et obnoxie, quod a tua significatione longe abest.’ 17.5 Atque ille grammaticus satis ridicule, quasi obnoxius et obnoxie non declinatione sola, sed re atque sententia differrent: ‘ego’, inquit, ‘dixi, quid esset obnoxius, non quid obnoxie.’

17.8 ‘…Minari etiam ferro, ni sibi obnoxia foret, et quod videtur novius pervulgatiusque esse, id me doce. Versus enim Vergilii sunt notissimi:

nam neque tunc astris acies obtunsa videri

nec fratris radiis obnoxia surgere luna,

17.9 quod tu ais <culpae suae conscium>. Alio quoque loco Vergilius verbo isto utitur a tua sententia diverse in his versibus:

iuvat arva videre

non rastris hominum, non ulli obnoxia curae; …

« 17.11 At ille oscitans et alucinanti similis:  ‘nunc’, inquit, ‘mihi operae non est. Cum otium erit, revises ad me atque disces, quid in verbo isto et Vergilius et Sallustius et Plautus et Ennius senserint.’ »

LIBER VII

1.6 Alterum enim ex altero, sicuti Plato ait, verticibus inter se contrariis deligatum est; si tuleris unum, abstuleris utrumque. 1.7 Idem Chrysippus in eodem libro tractat consideratque dignumque esse id quaeri putat, ei hai ton anthropon nosoi kata physin ginontai, id est, si natura ipsa, rerum vel providentia, quae compagem hanc mundi et genus hominum fecit, morbos quoque et debilitates et aegritudines corporum, quas patiuntur homines, fecerit.”

1.13 ‘Sicut hercle,’ inquit, ‘dum virtus hominibus per consilium naturae gignitur, vitia ibidem per adfinitatem contrariam nata sunt.’

10.1 Philosophus Taurus, vir memoria nostra in disciplina Platonica celebratus, cum aliis bonis multis salubribusque exemplis hortabatur ad philosophiam capessendam, tum vel maxime ista re iuvenum animos expergebat, Euclidem quam dicebat Socraticum factitavisse. 10.2 ‘Decreto,’ inquit, ‘suo Athenienses caverant, ut, qui Megaris civis esset, si intulisse Athenas pedem prensus esset, ut ea res ei homini capitalis esset; 10.3 tanto Athenienses,’ inquit, ‘odio flagrabant finitimorum hominum Megarensium. 10.4 Tum Euclides, qui indidem Megaris erat quique ante id decretum et esse Athenis et audire Socratem consueverat, postquam id decretum sanxerunt, sub noctem, cum advesperasceret, tunica longa muliebri indutus et pallio versicolore amictus et caput rica velatus e domo sua Megaris Athenas ad Socratem commeabat, ut vel noctis aliquo tempore consiliorum sermonumque eius fieret particeps, rursusque sub lucem milia passuum paulo amplius viginti eadem veste illa tectus redibat. 10.5 At nunc,’ inquit, ‘videre est philosophos ultro currere, ut doceant, ad fores iuvenum divitum eosque ibi sedere atque opperiri ad meridiem, donec discipuli nocturnum omne vinum edormiant.’

17.1 Libros Athenis disciplinarum liberalium publice ad legendum praebendos primus posuisse dicitur Pisistratus tyrannus. Deinceps studiosius accuratiusque ipsi Athenienses auxerunt; sed omnem illam postea librorum copiam Xerxes Athenarum potitus urbe ipsa praeter arcem incensa abstulit asportavitque in Persas. 17.2 Eos porro libros universos multis post tempestatibus Seleucus rex, qui Nicanor appellatus est, referendos Athenas curavit. 17.3 Ingens postea numerus librorum in Aegypto ab Ptolemaeis regibus vel conquisitus vel confectus est ad milia ferme voluminum septingenta; sed ea omnia bello priore Alexandrino, dum diripitur ea civitas, non sponte neque opera consulta, sed a militibus forte auxiliaris incensa sunt.”

LIBER VIII

caelum stare pulvere”

pecus sentibus stare”

LIBER IX

4.6 …praeterea traditum esse memoratumque in ultima quadam terra, quae ‘Albania’ dicitur, gigni homines, qui in pueritia canescant et plus cernant oculis per noctem quam interdiu;… 4.7 Id etiam in isdem libris scriptum offendimus, quod postea in libro quoque Plinii Secundi naturalis historiae septimo legi, esse quasdam in terra Africa hominum familias voce atque lingua effascinantium, 4.8 qui si impensius forte laudaverint pulchras arbores, segetes laetiores, infantes amoeniores, egregios equos, pecudes pastu atque cultu opimas, emoriantur repente haec omnia nulli aliae causae obnoxia. Oculis quoque exitialem fascinationem fieri in isdem libris scriptum est, traditurque esse homines in Illyriis, qui interimant videndo, quos diutius irati viderint, eosque ipsos mares feminasque, qui visu tam nocenti sunt, pupillas in singulis oculis binas habere. 4.9 Item esse in montibus terrae Indiae homines caninis capitibus et latrantibus, eosque vesci avium et ferarum venatibus; atque esse item alia aput [apud?] ultimas orientis terras miracula, homines qui ‘monocoli’ appellentur, singulis cruribus saltuatim currentes, vivacissimae pernicitatis;”

4.11 Pygmaeos quoque haut longe ab his nasci, quorum qui longissimi sint, non longiores esse quam pedes duo et quadrantem. 4.12 Haec atque alia istiusmodi plura legimus; sed cum ea scriberemus, tenuit nos non idoneae scripturae taedium nihil ad ornandum iuvandumque usum vitae pertinentis.”

« 4.15 ‘Ex feminis,’ inquit, ‘mutari in mares non est fabulosum.’ »

« 4.16 Idem Plinius in eodem libro verba haec scripsit: ‘Gignuntur homines utriusque sexus, quos <hermaphroditos> vocamus, olim <androgynos> vocatos et in prodigiis habitos, nunc vero in deliciis. »

9.1 Quando ex poematis Graecis vertendae imitandaeque sunt insignes sententiae, non semper aiunt enitendum, ut omnia omnino verba in eum, in quem dicta sunt, modum vertamus. 9.2 Perdunt enim gratiam pleraque, si quasi invita et recusantia violentius transferantur. 9.3 Scite ergo et considerate Vergilius, cum aut Homeri aut Hesiodi aut Apollonii aut Parthenii aut Callimachi aut Theocriti aut quorundam aliorum locos effingeret, partem reliquit, alia expressit.”

9.7…

Τίτυρ᾿, ἐμὶν τὸ καλὸν πεφιλημένε, βόσκε τὰς αἶγας

καὶ ποτὶ τὰν κράναν ἄγε Τίτυρε, καὶ τὸν ἐνόρχαν

τὸν Λιβυκὸν κνάκωνα, φυλάσσεο μή τυ κορύψῃ”

9.11 Tityre, dum redeo, brevis est via, pasce capellas

et potum pastas age, Tityre, et inter agendum

occursare capro, cornu ferit ille, caveto.”

« 12.1 Ut ‘formidulosus’ dici potest et qui formidat et qui formidatur, ut ‘invidiosus’ et qui invidet et cui invidetur, ut ‘suspiciosus’ et qui suspicatur et qui suspectus est, ut ‘ambitiosus’ et qui ambit et qui ambitur, ut item ‘gratiosus’ et qui adhibet gratias et qui admittit, ut ‘laboriosus’ et qui laborat et qui labori est, ut pleraque alia huiuscemodi in utramque partem dicuntur, ita ‘infestus’ quoque ancipiti significatione est. 12.2 Nam et is ‘infestus’ appellatur, qui malum infert cuipiam, et contra, cui aliunde impendet malum, is quoque ‘infestus’ dicitur. »

« 12.13 ‘Metus’ quoque et ‘iniuria’ atque alia quaedam id genus sic utroqueversum dici possunt: nam ‘metus hostium’ recte dicitur, et cum timent hostes et cum timentur. »

« 12.18 ‘Nescius’ quoque dicitur tam is, qui nescitur, quam qui nescit. 12.19 Sed super eo, qui nescit, frequens huius vocabuli usus est, infrequens autem est de eo, quod nescitur. 12.20 ‘Ignarus’ aeque utroqueversum dicitur non tantum qui ignorat, set et qui ignoratur. »

LIBER X

5.1 ‘Avarus’ non simplex vocabulum, sed iunctum copulatumque esse P. Nigidius dicit in commentariorum undetricesimo. ‘Avarus enim,’ inquit, ‘appellatur, qui avidus aeris est. 5.2 Sed in ea copula <e> littera,’ inquit, ‘detrita est.’ Item ‘locupletem’ dictum ait ex conpositis vocibus, qui pleraque loca, hoc est, qui multas possessiones teneret. 5.3 Sed probabilius id firmiusque est, quod de locuplete dixit. Nam de ‘avaro’ ambigitur: cur enim non videri possit ab uno solum verbo inclinatum, quod est ‘aveo’, eademque esse fictura, qua est ‘amarus’, de quo nihil dici potest, quin duplex non sit? »

11.1 ‘Mature’ nunc significat ‘propere’ et ‘cito’ contra ipsius verbi sententiam; aliud enim est ‘mature’, quam dicitur. 11.2 Propterea P. Nigidius, homo in omnium bonarum artium disciplinis egregius: ‘<mature>,’ inquit, ‘est quod neque citius est neque serius, sed medium quiddam et temperatum est.’Sentido atual, porém não dicionarizado no latim ‘clássico’. O problema é que serius no dicionário ‘clássico’ não difere em nada do nosso sério = maduro!

11.5 … ‘σπεῦδε βραδέως’…”

11.6 Vergilius quoque, si quis animum adtendat, duo ista verba ‘properare’ et ‘maturare’ tamquam plane contraria scitissime separavit in hisce versibus:

frigidus agricolam si quando continent imber,

multa, forent quae mox caelo properanda sereno,

maturare datur.”

12.1 Librum esse Democriti, nobilissimi philosophorum, De vi et natura chamaeleontis eumque se legisse Plinius Secundus in naturalis historiae vicesimo octavo refert multaque vana atque intoleranda auribus deinde quasi a Democrito scripta tradit, ex quibus pauca haec inviti meminimus, quia pertaesum est: 12.2 accipitrem avium rapidissimum a chamaeleonte humi reptante, si eum forte supervolet, detrahi et cadere vi quadam in terram ceterisque avibus laniandum sponte sua obicere sese et dedere. 12.3 Item aliud ultra humanam fidem: caput et collum chamaeleontis si uratur ligno, quod appellatur ‘robur’, imbres et tonitrus fieri derepente, idque ipsum usu venire, si iecur eiusdem animalis in summis tegulis uratur. 12.4 Item aliud, quod hercle an ponerem dubitavi,—ita est deridiculae vanitatis—nisi idcirco plane posui, quod oportuit nos dicere, quid de istiusmodi admirationum fallaci inlecebra (sic) sentiremus, qua plerumque capiuntur et ad perniciem elabuntur ingenia maxime sollertia eaque potissimum, quae discendi cupidiora sunt. 12.5 Sed redeo ad Plinium. Sinistrum pedem ait chamaeleontis ferro ex igni calefacto torreri cum herba, quae appellatur eodem nomine chamaeleontis, et utrumque macerari unguento conligique in modum pastilli atque in vas mitti ligneum et eum, qui id vas ferat, etiamsi is in medio palam versetur, a nullo videri posse.” hahahahaha

12.7 vel illud quale est, quod idem Plinius in decimo libro Democritum scripsisse adseverat aves quasdam esse certis vocabulis et earum avium confuso sanguine gigni serpentem; eum si quis ederit, linguas avium et conloquia interpretaturum. 12.8 Multa autem videntur ab hominibus istis male sollertibus huiuscemodi commenta in Democriti nomen data nobilitatis auctoritatisque eius perfugio utentibus.”

17.1 Democritum philosophum in monumentis historiae Graecae scriptum est, virum praeter alios venerandum auctoritateque antiqua praeditum, luminibus oculorum sua sponte se privasse, quia existimaret cogitationes commentationesque animi sui in contemplandis naturae rationibus vegetiores et exactiores fore, si eas videndi inlecebris [incelebris!] et oculorum impedimentis liberasset. 17.2 Id factum eius modumque ipsum, quo caecitatem facile sollertia subtilissima conscivit, Laberius poeta in mimo, [realmente de imitação artística, palhaçada burlesca, bufoneria ou farsa intencional] quem scripsit Restionem, versibus quidem satis munde atque graphice factis descripsit, sed causam voluntariae caecitatis finxit aliam vertitque in eam rem, quam tum agebat, non inconcinniter. 17.3 Est enim persona, quae hoc aput Laberium dicit, divitis avari et parci sumptum plurimum asotiamque adulescentis viri deplorantis. 17.4 Versus Laberiani sunt:

Democritus Abderites physicus philosophus

clipeum constituit contra exortum Hyperionis,

oculos effodere ut posset splendore aereo.

Ita radiis solis aciem effodit luminis,

malis bene esse ne videret civibus.

Sic ego fulgentis splendorem pecuniae

volo elucificare exitum aetati meae,

ne in re bona videam esse nequam filium.”

25.1 Telorum iaculorum gladiorumque vocabula, quae in historiis veteribus scripta sunt, item navigiorum genera et nomina libitum forte nobis est sedentibus in reda conquirere, ne quid aliarum ineptiarum vacantem stupentemque animum occuparet. 25.2 Quae tum igitur suppetierant, haec sunt: hasta, pilum, phalarica (3)[não-dicionarizado], semiphalarica [nd], soliferrea, gaesa, lancea, spari (8)[nd], rumices, trifaces (10)[nd], tragulae, frameae, mesanculae (13)[nd], cateiae, rumpiae (15), scorpii, sibones (17)[nd], siciles (18)[nd], veruta (19)[nd], enses, sicae, machaerae(=rumpiae), spathae, lingulae (24)[apenas ‘tagarela’ no dicionário], pugiones, clunacula [nd]. 25.3 De ‘lingula’, quoniam est minus frequens, admonendum existimo lingulam veteres dixisse gladiolum oblongum in speciem linguae factum, cuius meminit Naevius in tragoedia Hesiona. Versum Naevi apposui:

sine mi gerere morem videar lingua, verum lingula.

25.4 Item ‘rumpia’ genus teli est Thraeciae nationis, positumque hoc vocabulum in Quinti Enni annalium XIV.

25.5 Navium autem, quas reminisci tunc potuimus, appellationes hae sunt: gauli, corbitae, caudicae (3)[nd], longae, hippagines [nd], cercuri, celoces vel, ut Graeci dicunt, κέλητες, lembi, oriae[nd], lenunculi, actuariae[nd], quas Graeci … ἐπακτρίδας, prosumiae[nd] vel geseoretae vel oriolae, stlattae, scaphae, pontones, vectoriae, mydia, phaseli, parones, myoparones, lintres, caupuli[nd], camarae, placidae, cydarum, ratariae, catascopium.”

27.1 In litteris veteribus memoria exstat, quod par quondam fuit vigor et acritudo amplitudoque populi Romani atque Poeni; 27.2 neque inmerito aestimatum: cum aliis quidem populis de uniuscuiusque republica, cum Poenis autem de omnium terrarum imperio decertatum.”

28.1 Tubero in Historiarum primo scripsit Servium Tullium regem, populi Romani cum illas quinque classes seniorum et iuniorum census faciendi gratia institueret, pueros esse existimasse, qui minores essent annis septem decem, atque inde ab anno septimo decimo, quo idoneos iam esse reipublicae arbitraretur, milites scripsisse, eosque ad annum quadragesimum sextum ‘iuniores’ supraque eum annum ‘seniores’ appellasse.”

29.1 ‘Atque’ particula a grammaticis quidem coniunctio esse dicitur conexiva. Et plerumque sane coniungit verba et conectit; sed interdum alias quasdam potestates habet non satis notas nisi in veterum litterarum tractatione atque cura exercitis. 29.2 Nam et pro adverbio valet, cum dicimus ‘aliter ego feci atque tu’, significat enim ‘aliter quam tu’, et, si gemina fiat, auget incenditque rem de qua agitur, ut animadvertimus in Q. Enni annalibus, nisi memoria in hoc versu labor:

atque atque accedit muros Romana iuventus;

29.3 cui significationi contrarium est, quod itidem a veteribus dictum est ‘deque’. 29.4 Et praeterea pro alio quoque adverbio dicitur, id est ‘statim’,…”

LIBER XI

5.1 Quos Pyrrhonios philosophos vocamus, hi Graeco cognomento skeptikoi appellantur; 5.2 id ferme significat quasi ‘quaesitores’ et ‘consideratores’. 5.3 Nihil enim decernunt, nihil constituunt, sed in quaerendo semper considerandoque sunt, quidnam sit omnium rerum, de quo decerni constituique possit. 5.4 Ac ne videre quoque plane quicquam neque audire sese putant, sed ita pati adficique, quasi videant vel audiant, eaque ipsa, quae adfectiones istas in sese efficiant, qualia et cuiusmodi sint, cunctantur atque insistunt, omniumque rerum fidem veritatemque mixtis confusisque signis veri atque falsi ita imprensibilem videri aiunt, ut, quisquis homo est non praeceps neque iudicii sui prodigus, his uti verbis debeat, quibus auctorem philosophiae istius Pyrrhonem esse usum tradunt: ou mallon houtos echei tode ekeinos e outheteros. Indicia enim rei cuiusque et sinceras proprietates negant posse nosci et percipi, idque ipsum docere atque ostendere multis modis conantur. 5.5 Super qua re Favorinus quoque subtilissime argutissimeque decem libros composuit, quos Pyrrhoneion tropon inscribit. 5.6 Vetus autem quaestio et a multis scriptoribus Graecis tractata, an quid et quantum Pyrrhonios et Academicos philosophos intersit. Utrique enim skeptikoi, ephektikoi, aporetikoi dicuntur, quoniam utrique nihil adfirmant nihilque comprehendi putant. Sed ex omnibus rebus proinde visa fieri dicunt, quas phantasias appellant, non ut rerum ipsarum natura est, sed ut adfectio animi corporisve est eorum, ad quos ea visa perveniunt. 5.7 Itaque omnes omnino res, quae sensus hominum movent, ton pros ti esse dicunt. Id verbum significat nihil esse quicquam, quod ex sese constet, nec quod habeat vim propriam et naturam, sed omnia prorsum ad aliquid referri taliaque videri esse, qualis sit eorum species, dum videntur, qualiaque apud sensus nostros, quo pervenerunt, creantur, non apud sese, unde profecta sunt. 5.8 Cum haec autem consimiliter tam Pyrrhonii dicant quam Academici, differre tamen inter sese et propter alia quaedam et vel maxime propterea existimati sunt, quod Academici quidem ipsum illud nihil posse comprehendi quasi comprehendunt et nihil posse decerni quasi decernunt, Pyrrhonii ne id quidem ullo pacto verum videri dicunt, quod nihil esse verum videtur.

6.1 In veteribus scriptis neque mulieres Romanae per Herculem deiurant neque viri per Castorem. 6.2 Sed cur illae non iuraverint Herculem, non obscurum est, nam Herculaneo sacrificio abstinent. 6.3 Cur autem viri Castorem iurantes non appellaverint, non facile dictu est. Nusquam igitur scriptum invenire est apud idoneos quidem scriptores aut ‘mehercle’ feminam dicere aut ‘mecastor’ virum; 6.4 ‘edepol’ autem, quod iusiurandum per Pollucem est, et viro et feminae commune est. 6.5 Sed M. Varro adseverat antiquissimos viros neque per Castorem neque per Pollucem deiurare solitos, sed id iusiurandum fuisse tantum feminarum ex initiis Eleusinis acceptum; 6.6 paulatim tamen inscitia antiquitatis viros dicere ‘edepol’ coepisse factumque esse ita dicendi morem, sed ‘mecastor’ a viro dici in nullo vetere scripto inveniri.”

LIBER XIV

I “Adversum istos, qui sese ‘Chaldaeos’ seu ‘genethliacos’ appellant ac de motu deque positu stellarum dicere posse, quae futura sunt, profitentur, audivimus quondam Favorinum philosophum Romae Graece disserentem egregia atque inlustri oratione; exercendine aut ostentandi gratia ingenii, an quod ita serio iudicatoque existimaret, non habeo dicere. Capita autem locorum argumentorumque, quibus usus est, quod eius meminisse potui, egressus ibi ex auditione propere adnotavi, eaque fuerunt ad hanc ferme sententiam: disciplinam istam Chaldaeorum tantae vetustatis non esse, quantae videri volunt, neque eos principes eius auctoresque esse, quos ipsi ferant, sed id praestigiarum atque offuciarum genus commentos esse homines aeruscatores et cibum quaestumque ex mendaciis captantes. Atque eos, quoniam viderent terrena quaedam inter homines sita caelestium rerum sensu atque ductu moveri, quale est, quod oceanus quasi lunae comes cum ea simul senescit adolescitque, hinc videlicet sibi argumentum ad persuadendum paravisse, ut crederemus omnia rerum humanarum et parva et maxima tamquam stellis atque sideribus evincta duci et regi. Esse autem nimis quam ineptum absurdumque, ut, quoniam aestus oceani cum lunae curriculo congruit, negotium quoque alicuius, quod ei forte de aquae ductu cum rivalibus aut de communi pariete cum vicino apud iudicem est, ut existimemus id negotium quasi habena quadam de caelo vinctum gubernari. Quod etsi vi et ratione quapiam divina fieri potest, nequaquam id tamen censebat in tam brevi exiguoque vitae spatio quantovis hominis ingenio conprehendi posse et percipi, set[d?] coniectari pauca quaedam, ut verbo ipsius utar, pachymeresteron nullo scientiae fundo concepta, sed fusa et vaga et arbitraria, qualis longinqua oculorum acies est per intervalla media caligantium; tolli enim, quod maxime inter deos atque homines differt, si homines quoque res omnis post futuras praenoscerent. Ipsam deinde siderum stellarumque observationem, quam esse originem scientiae suae praedicarent, haudquaquam putabat liquide consistere. ‘Nam si principes Chaldaei, qui in patentibus campis colebant, stellarum motus et vias et discessiones et coetus intuentes, quid ex his efficeretur, observaverunt, procedat, haec sane disciplina, set sub ea modo inclinatione caeli, sub qua tunc Chaldaei fuerunt; non enim potest ratio Chaldaeorum observationis manere, si quis ea uti velit sub diversis caeli regionibus.’ Nam quanta partium circulorumque caeli ex devergentia et convexionibus mundi varietas sit, quis non videt? Eaedem igitur stellae, per quas omnia divina humanaque fieri contendunt, sicuti non usquequaque pruinas aut calores cient, sed mutant et variant tempestatesque eodem in tempore alibi placidas, alibi violentas movent, cur non eventa quoque rerum ac negotiorum alia efficiunt in Chaldaeis, alia in Gaetulis, alia aput Danuvium, alia aput Nilum? Per autem, inconsequens ipsum quidem corpus et habitum tam profundi aeris sub alio atque atio caeli curvamine non eundem manere, in hominum autem negotiis stellas istas opinari idem semper ostendere, si eas ex quacumque terra conspexeris. Praeterea mirabatur id cuiquam pro percepto liquere stellas istas, quas a Chaldaeis et Babyloniis sive Aegyptiis observatas ferunt, quas multi ‘erraticas’, Nigidius ‘errones’ vocat, non esse plures quam volgo dicerentur; posse enim fieri existimabat, ut et alii quidam planetes pari potestate essent, sine quibus recta atque perpetua observatio perfici non quiret, neque eos tamen cernere homines possent propter exsuperantiam vel splendoris vel altitudinis. ‘Nam et quaedam,’ inquit, ‘sidera e quibusdam terris conspiciuntur earumque terrarum hominibus nota sunt; sed eadem ipsa ex alia omni terra non videntur et sunt aliis omnino ignarissima. Atque uti demus,’ inquit, ‘et has tantummodo stellas et ex una parte terrae observari debuisse, quae tandem finis observationis istius fuit et quae tempora satis esse visa sunt ad percipiendum, quid praemonstraret aut coetus stellarum aut circuitus aut transitus? Nam si isto modo coepta fieri observatio est, ut animadverteretur, quo habitu quaque forma quaque positura stellarum aliquis nasceretur, tum deinceps ab ineunte vita fortuna eius et mores et ingenium et circumstantia rerum negotiorumque et ad postremum finis etiam vitae spectaretur eaque omnia, ut usu venerant, litteris mandarentur ac postea longis temporibus, cum ipsae illae eodem in loco eodemque habitu forent, eadem ceteris quoque eventura existimarentur, qui eodem illo tempore nati fuissent; si isto,’ inquit, ‘modo observari coeptum et ex ea observatione composita quaedam disciplina est, nullo id pacto potest procedere. Dicant enim, quot tandem annis vel potius quot saeculis orbis hic observationis perfici quiverit.’ Constare quippe inter astrologos dicebat stellas istas, quas erraticas dicerent, quae esse omnium rerum fatales viderentur, infinito prope et innumerabili numero annorum ad eundem locum cum eodem habitu simul omnes, unde profectae sunt, redire ut neque ullus observationis tenor neque memoriae, neque ulla effigies litterarum tanto aevo potuerint edurare. Atque illud etiam, cuimodi esset, considerandum putabat, quod aliud stellarum agmen foret, quo primum tempore conciperetur homo in utero matris, aliud postea, cum in decem mensibus proximis in lucem ederetur, quaerebatque, qui conveniret diversam super eodem fieri demonstrationem, si, ut ipsi putarent, alius atque alius earundem stellarum situs atque ductus alias atque alias fortunas daret. Sed et nuptiarum tempore, ex quibus liberi quaererentur, atque ipso etiam illo maris ac feminae coitu iam declarari oportere dicebat certo quodam et necessario stellarum ordine, quales qualique fortuna homines gignerentur, ac multo etiam ante, cum pater ipse atque mater nascerentur, ex eorum genitura debuisse iam tunc prospici, quinam olim futuri essent, quos hi creaturi forent, et supra longe atque longe per infinitum, ut, si disciplina ista fundamento aliquo veritatis nixa est, centesimo usque abhinc saeculo vel magis primo caeli atque mundi exordio atque inde iam deinceps continua significatione, quotiens generis auctores eiusdem hominis nascerentur, stellae istae praemonstrare debuerint, qualis qualique fato futurus sit, quisquis hodie natus est.”

Iam vero id minime ferundum censebat, quod non modo casus et eventa, quae evenirent extrinsecus, sed consilia quoque ipsa hominum et arbitria et varias voluntates adpetitionesque et declinationes et fortuitos repentinosque in levissimis rebus animorum impetus recessusque moveri agitarique desuper e caelo putarent: tamquam quod forte ire in balneas volueris ac deinde nolueris atque id rursum volueris, non ex aliqua dispari variaque animi agitatione, sed ex necessaria quadam errantium siderum reciprocatione contigerit, ut plane homines non, quod dicitur, logika zoa, sed ludicra et ridenda quaedam neurospasta esse videantur, si nihil sua sponte, nihil arbitratu suo faciunt, sed ducentibus stellis et aurigantibus. ‘Ac si,’ inquit, ‘potuisse praedici adfirmant, Pyrrusne rex an Manius Curius proelio victurus esset, cur tandem non de alea quoque ac de calculis et alveolo audent dicere, quisnam ibi ludentium vincat?…”

Sed si magnitudines rerum sibi vindicant magisque esse perspicuas et facilius comprehendi posse dicunt, volo,’ inquit, ‘mihi respondeant, quid in hac totius mundi contemplatione prae tantis naturae operibus in tam parvis atque brevibus negotiis fortunisque hominum magnum putent?”

Ad postremum autem ecquid esset, quod adversum hoc dici posset, requirebat, quod homines utriusque sexus, omnium aetatum, diversis stellarum motibus in vitam editi, regionibus, sub quibus geniti sunt, longe distantibus, omnes tamen isti aut hiantibus terris aut labentibus tectis aut oppidorum expugnationibus aut eadem in navi fluctu obruti eodem genere mortis eodemque ictu temporis universi simul interirent.”

Quod si quaedam,’ inquit, ‘in hominum morte atque vita etiam diversis temporibus editorum per stellarum pares quosdam postea conventus paria nonnulla et consimilia posse dicunt optingere, cur non aliquando possint omnia quoque paria usu venire, ut existant per huiuscemodi stellarum concursiones et similitudines Socratae simul et Antisthenae et Platones multi genere, forma, ingenio, moribus, vita omni et morte pari?’

Illud autem condonare se his dicebat, quod non id quoque requireret, si vitae mortisque hominum rerumque humanarum omnium tempus et ratio et causa in caelo et apud stellas foret, quid de muscis aut vermiculis aut echinis, multis aliis minutissimis terra marique animantibus dicerent? an istaec quoque isdem, quibus homines, legibus nascerentur isdemque itidem exstinguerentur? ut aut ranunculis quoque et culicibus nascendi fata sint de caelestium siderum motibus adtributa aut, si id non putarent, nulla ratio videretur, cur ea siderum vis in hominibus valeret, deficeret in ceteris.”

Haec nos sicca et incondita et propemodum ieiuna oratione adtingimus. Set Favorinus, ut hominis ingenium fuit utque est Graecae facundiae copia simul et venustas, latius ea et amoenius et splendidius et profluentius exsequebatur atque identidem commonebat, ut caveremus, ne qua nobis isti sycophantae ad faciendam fidem inreperent, quod viderentur quaedam interdum vera effutire aut spargere.”

Non enim comprehensa,’ inquit, ‘neque definita neque percepta dicunt, sed lubrica atque ambagiosa coniectatione nitentes inter falsa atque vera pedetemptim quasi per tenebras ingredientes eunt et aut multa temptando incidunt repente inprudentes in veritatem aut ipsorum, qui eos consulunt, multa credulitate ducente perveniunt callide ad ea, quae vera sunt, et idcirco videntur in praeteritis rebus quam in futuris veritatem facilius imitari.’ Parece haver uma expressão em latim, querendo designar uma multitude, quantidade indefinida, que se refere sempre ao número 200!

“‘Aut adversa,’ inquit, ‘eventura dicunt alit prospera. Si dicunt prospera et fallunt, miser fies frustra exspectando; si adversa dicunt et mentiuntur, miser fies frustra timendo; sin vera respondent eaque sunt non prospera, iam inde ex animo miser fies, antequam e fato fias; si felicia promittunt eaque eventura sunt, tum plane duo erunt incommoda: et exspectatio te spei suspensum fatigabit, et futurum gaudii fructum spes tibi iam praefloraverit. Nullo igitur pacto utendum est istiusmodi hominibus res futuras praesagientibus.’

VI “Homo nobis familiaris, in litterarum cultu non ignobilis magnamque aetatis partem in libris versatus, ‘adiutum,’ inquit, ‘ornatumque volo ire noctes tuas’ et simul dat mihi librum grandi volumine doctrinae omnigenus, ut ipse dicebat, praescatentem, quem sibi elaboratum esse ait ex multis et variis et remotis lectionibus, ut ex eo sumerem, quantum liberet rerum memoria dignarum. Accipio cupidus et libens, tamquam si Copiae cornum nactus essem, et recondo me penitus, ut sine arbitris legam. Atque ibi scripta erant, pro Iuppiter, mera miracula:”

et quam ob causam Telemachus cubans iunctim sibi cubantem Pisistratum non manu adtigerit, sed pedis ictu excitarit;

Atque illud etiam scriptum fuit, quae nomina fuerint sociorum Ulixis, qui a Scylla rapti laceratique sunt;”

et praeterea quibus urbibus regionibusque vocabula iam mutata sint, quod Boeotia ante appellata fuerit ‘Aonia’, quod Aegyptus ‘Aeria’, quod Creta quoque eodem nomine ‘Aeria’ dicta sit, quod Attice ‘Akte’, quod Corinthus ‘Ephyre’, quod Macedonis ‘Emathia’, quod Thessalia ‘Haimonia’, quod Tyros ‘Sarra’, quod Thracia ante ‘Sithonia’ dicta sit, quod Paestum ‘Poseidonion’.”

LIBER XV

II “Nam et modicis honestisque inter bibendum remissionibus refici integrarique animos ad instauranda sobrietatis officia existumavit reddique eos sensim laetiores atque ad intentiones rursum capiendas fieri habiliores, et simul, si qui penitus in his adfectionum cupiditatumque errores inessent, quos aliquis pudor reverens concelaret, ea omnia sine gravi periculo, libertate per vinum data detegi et ad corrigendum medendumque fieri oportuniora. Atque hoc etiam Plato ibidem dicit, non defugiendas esse neque respuendas huiuscemodi exercitationes adversum propulsandam vini violentiam neque temperantem satis fideliter visum esse, cuius vita victusque non inter ipsa dam ullum umquam continentem prorsum ac errorum pericula et in mediis voluptatum inlecebris explorata sit. Nam cui libentiae gratiaeque omnes conviviorum incognitae sint quique illarum omnino expers sit, si eum forte ad participandas eiusmodi voluptates aut voluntas tulerit aut casus induxerit aut necessitas compulerit, deleniri plerumque et capi, neque mentem animumque eius consistere, sed vi quadam nova ictum labascere. Congrediendum igitur censuit et, tamquam in acie quadam, cum voluptariis rebus cumque ista vini licentia comminus decernendum, ut adversum eas non fuga simus tuti nec absentia, sed vigore animi et constanti praesentia moderatoque usu temperantiam continentiamque tueamur et calefacto simul refotoque animo, si quid in eo vel frigidae tristitiae vel torpentis verecundiae fuerit, deluamus.”

XX “Mulieres fere omnes in maiorem modum exosus fuisse dicitur, sive quod natura abhorruit a mulierum coetu sive quod duas simul uxores habuerat, cum id decreto ab Atheniensibus facto ius esset, quarum matrimonii pertaedebat. Eius odii in mulieres Aristophanes quoque meminit”

LIBER XVI

X‘Qui in plebe,’ inquit, ‘Romana tenuissimi pauperrimique erant neque amplius quam mille quingentum aeris in censum deferebant, proletarii appellati sunt, qui vero nullo aut perquam parvo aere censebantur, capite censi vocabantur, extremus autem census capite censorum aeris fuit trecentis septuaginta quinque. Sed quoniam res pecuniaque familiaris obsidis vicem pignerisque esse apud rempublicam videbatur amorisque in patriam fides quaedam in ea firmamentumque erat, neque proletarii neque capite censi milites, nisi in tumultu maximo, scribebantur, quia familia pecuniaque his aut tenuis aut nulla esset….”

“‘…Capite censos autem primus C. Marius, ut quidam ferunt bello Cimbrico, difficillimis reipublicae temporibus, vel potius, ut Sallustius ait, bello Iugurthino, milites scripsisse traditur, cum id factum ante in nulla memoria extaret. <Adsiduus> in XII. Tabulis pro locuplete et facile facienti dictus aut ab assibus, id est, aere dando, cum id tempora reipublicae postularent, aut a muneris pro familiari copia faciendi adsiduitate.’

XVIII ᾿οπτική facit multa demiranda id genus, ut in speculo uno imagines unius rei plures appareant; item ut speculum in loco certo positum nihil imaginet, aliorsum translatum faciat imagines; item si rectus speculum spectes, imago fiat tua eiusmodi, ut caput deorsum videatur, pedes sursum. Reddit etiam causas ea disciplina cur istae quoque visiones fallant, ut quae in aqua conspiciuntur maiora ad oculos fiant, quae procul ab oculis sunt, minora.”

κανονική autem longitudines et altitudines vocis emetitur. Longior mensura vocis ῥυθμός dicitur, μέλος. Est et alia species κανονικῆς, quae appellatur μετρική, per quam syllabarum longarum et brevium et mediocrium iunctura et modus congruens cum principiis geometriae aurium mensura examinatum. ‘Sed haec,’ inquit M. Varro, ‘aut omnino non discimus aut prius desistimus quam intellegamus cur discenda sint. Voluptas autem,’ inquit, ‘vel utilitas talium disciplinarum in postprincipiis existit, cum perfectae absolutaeque sunt; in principiis vero ipsis ineptae et insuaves videntur.’

FINIS.

ATTIC NIGHTS, Loeb Classical Library Edition (J.C. Rolfe) – Aulus Gellius

Fonte primária (ver esclarecimento em Translation logo abaixo): https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Gellius/home.html

Notas do Prof. Thayer

The Text on LacusCurtius and Elsewhere

On October 5, 2006 David Camden’s Forum Romanum, after a run of nearly 10 years providing a very useful index to Latin literature online, and many of the texts themselves, suddenly disappeared.

One of the most useful texts that had been there and nowhere else, at least in full, was Aulus Gellius’ Noctes Atticae. These pages on LacusCurtius are therefore in the nature of an emergency rescue: I retrieved them from Google’s cache of the expired website, reformatted them to match my usual habits, inserted local links at the chapter and section numbers, and threw them back online; at which point, after a fair amount of work on my part which I’m not about to let go for naught, Forum Romanum happily reappeared online, and is still online today (2020).

At some point then I’ll go thru the text, convert the Greek (currently transliterated), conform it to the Loeb edition, add the occasional critical notes in that edition, apply a consistent format, etc. (…)

A partial transcription of Gellius — whether from the same edition as this one or not, I haven’t checked — may be found, unidentified as to source, here. [em latim]

Translation

The English translation, on the other hand, was not online anywhere, and having been dragged into this particular author by a sort of accident, I’m taking advantage of it to input it here from scratch. It is the one by J.C. Rolfe, first published in 1927 in 3 volumes as part of the Loeb Classical Library, and revised in various years. Volumes I and II of my exemplar are in the public domain for sure; [até o BOOK XIII, dos 20 de Gélio] Volume III may not be; if not, I will use another edition, of course.” Thayer está provavelmente esperando direitos autorais da obra vencerem para postar do BOOK XIV ao BOOK XX traduzidos em inglês. Você lerá fragmentos destes capítulos mais adiante, extraídos de outra fonte, porém bastante diminutos (não por qualquer questão legal: trata-se da parte menos interessante deste livro que, em geral, é excepcional para quem está praticando e ampliando seu vocabulário em latim, mas uma leitura medíocre, senão apenas ruim, composta de anedotas empoladas e eruditas sem qualquer liame ou ponto em comum. Maior parte dos parágrafos se refere a “problemas de gramáticos”, como seriam chamados os lingüistas da época, sobre grafias corretas de palavras do latim ou possíveis etimologias das palavras, ou versos polêmicos de autores mais antigos, enfim, coisas triviais para nós.

PREFACE

Autor chato e pedante que começa dizendo que todos os outros escritores são chatos e pedantes, mesmo que jurem que não o são. Sim, se isso não é Literatura Clássica é ao menos um comportamento clássico de escrevinhador! Além disso, trata-se do Montaigne da Antiguidade: ADORA, em caps lock, citar outros autores, ao ponto de causar náusea no leitor. Pensa-se menos através dos gênios do passado do que através de si mesmo. Embora possa parecer que não, a própria motivação para escrever uma obra própria se perde caso seja dada preferência apenas aos ditos dos outros. Isso também vale para Plutarco. O gênio verdadeiro pode ter os outros em mente, mas cria conteúdo, filosofa, ensaia, critica ou inventa (narrativas, épicos) com o próprio sopro, com a própria alma como motor. Veremos muito menos aspas num livro verdadeiramente digno de ser lido.

P.13 Now just because there will be found in these notes some few topics that are knotty and troublesome, either from Grammar or Dialectics or even from Geometry, and because there will also be some material of a somewhat recondite character about augural or pontifical law, one ought not therefore to avoid such topics as useless to know or difficult to comprehend. For I have not made an excessively deep and obscure investigation of the intricacies of these questions, but I have presented the first fruits, so to say, and a kind of foretaste of the liberal arts; and never to have heard of these, or come in contact with them, is at least unbecoming, if not positively harmful, for a man with even an ordinary education.

P.14 Of those then, if such there be, who may perhaps sometimes have leisure and inclination to acquaint themselves with these lucubrations, I should like to ask and be granted the favour, that in reading of matters which they have known for a long time they shall not scorn them as commonplace and trite”

P.19 For those, however, who have never found pleasure nor busied themselves in reading, inquiring, writing and taking notes, who have never spent wakeful nights in such employments, who have never improved themselves by discussion and debate with rival followers of the same Muse, but are absorbed in the turmoil of business affairs — for such men it will be by far the best plan to hold wholly aloof from these ‘Nights’ and seek for themselves other diversion.”

P.22 Up to the present day I have already completed twenty books of notes.”

P.24 Thus the number of books, given the Gods’ gracious help, will keep pace with the years of life itself, however many or few they may be, nor have I any desire to be allotted a longer span of existence than so long as I retain my present ability to write and take notes.”

BOOK I

1.1 In the treatise(*) which he wrote on the mental and physical endowment and achievements of Hercules while he was among men, Plutarch says that the philosopher Pythagoras reasoned sagaciously and acutely in determining and measuring the hero’s superiority in size and stature.

(*) This work, probably entitled Βίος Ἠρακλέους, has not survived.”

(*) “The phrase ex pede Herculem has become proverbial, along with ex ungue leonem, ab uno disce omnes (Virg. Aen. II.65 f.).”

(*) “Clarissimus became a standing title of men of high rank, especially of the senatorial order.”

3.6 I myself secretly voted for conviction, but I persuaded my fellow judges to vote for acquittal. 3.7 Thus I myself in a matter of such moment did my duty both as a judge and as a friend. But my action torments me with the fear that there may be something of treachery and guilt in having recommended to others, in the same case, at the same time, and in a common duty, a course for them contrary to what I thought best for myself.

3.21 Theophrastus,¹ however, in the book that I have mentioned, discusses this very question more exhaustively and with more care and precision than Cicero.”

¹ Maior discípulo de Aristóteles.

3.31 …Chilo of old, having heard a man say that he had no enemy, asked him if he had no friend, believing that enmities necessarily followed and were involved in friendships.

10.2 You, on the contrary, just as if you were talking today with Evander’s mother, use words that have already been obsolete for many years, because you want no one to know and comprehend what you are saying. Why not accomplish your purpose more fully, foolish fellow, and say nothing at all? 10.3 But you assert that you love the olden time, because it is honest, sterling, sober and temperate. 10.4 Live by all means according to the manners of the past, but speak in the language of the present, and always remember and take to heart what Gaius Caesar, a man of [un]surpassing[?] talent and wisdom, wrote in the first book of his treatise On Analogy:​ ‘Avoid, as you would a rock, a strange and unfamiliar word’.

15.6 Provided this fact be recognized, that neither should one commend the dumbness of a man who knows a subject, but is unable to give it expression in speech, nor the ignorance of one who lacks knowledge of his subject, but abounds in words; yet if one must choose one or the other alternative, I for my part would prefer tongue-tied knowledge to ignorant loquacity. (Cicero)”

15.8 That man is never silent who is afflicted with the disease of talking, as one in a lethargy is afflicted with that of drinking and sleeping. For if you should not come together when he calls an assembly, so eager is he to talk that he would hire someone to listen. And so you hear him, but you do not listen, just as if he were a quack. For a quack’s words are heard, but no one trusts himself to him when he is sick. (Cato)”

15.10 …For a crust of bread he can be hired either to keep silence or to speak.

20.2 …A ‘plane’ figure is one that has all its lines in 2 dimensions only, breadth and length; for example, triangles and squares, which are drawn on a flat surface without height. 20.3 We have a ‘solid’ figure, when its several lines do not produce merely length and breadth in a plane, but are raised so as to produce height also; such are in general the triangular columns which they call ‘pyramids’, or those which are bounded on all sides by squares, such as the Greeks call κύβοι, and we quadrantalia. 20.4 For the κύβος is a figure which is square on all its sides, ‘like the dice,’ says Marcus Varro,​ ‘with which we play on a gaming-board, for which reason the dice themselves are called κύβοι.’ 20.5 Similarly in numbers too the term κύβος is used, when every factor​ consisting of the same number is equally resolved into the cube number itself, as is the case when 3 is taken 3 times and the resulting number itself is then trebled.”

22.9 Now Julius Paulus, the most learned man within my recollection, used to say with keenness and understanding that superesse and its Greek equivalent had more than one meaning: for he declared that the Greeks used περισσόν both ways, either of what was superfluous and unnecessary 22.10 or of what was too abundant, overflowing and excessive; that in the same way our earliest writers also employed superesse sometimes of what was superfluous, idle and not wholly necessary, a sense which we have just cited from Varro, and some, as in Cicero, of that which indeed surpassed other things in copiousness and plentifulness, yet was immoderate and too extensive, and gushed forth more abundantly than was sufficient.”

23.4 It was formerly the custom at Rome for senators to enter the House with their sons under age.​ 23.5 In those days, when a matter of considerable importance had been discussed and was postponed to the following day, it was voted that no one should mention the subject of the debate until the matter was decided. The mother of the young Papirius, who had been in the House with his father, asked her son what the Fathers had taken up in the senate. 23.6 The boy replied that it was a secret and that he could not tell.

23.7 The woman became all the more eager to hear about it; the secrecy of the matter and the boys’ silence piqued her curiosity; she therefore questioned him more pressingly and urgently. 23.8 Then the boy, because of his mother’s insistence, resorted to a witty and amusing falsehood. He said that the senate had discussed the question whether it seemed more expedient, and to the advantage of the State, for one man to have 2 wives or one woman to have 2 husbands. 23.9 On hearing this, she is panic-stricken, rushed excitedly from the house, 23.10 and carries the news to the other matrons. Next day a crowd of matrons came to the senate, imploring with tears and entreaties that one woman might have 2 husbands rather than one man 2 wives. 23.11 The senators, as they entered the House, were wondering at this strange madness of the women and the meaning of such a demand, 23.12 when young Papirius, stepping forward to the middle of the House, told in detail what his mother had insisted on hearing, what he himself had said to her, in fact, the whole story exactly as it had happened. 23.13 The senate paid homage to the boy’s cleverness and loyalty, but voted that thereafter boys should not enter the House with their fathers, save only this Papirius; and the boy was henceforth honoured with the surname Praetextatus, because of his discretion in keeping silent and in speaking, while he was still young enough to wear the purple-bordered gown.”

(*) “If a man was emancipated after having children born to him, the latter remained under the control of their grandfather and were legally orphans”

Platner & Ashby, Topographical Dictionary of Ancient Rome

Smith, Dictionary of Greek and Roman Antiquities

BOOK II

3.1 The letter h (or perhaps it should be called a breathing rather than a letter) was added by our forefathers to give strength and vigour to the pronunciation of many words, in order that they might have a fresher and livelier sound; and this they seem to have done from their devotion to the Attic language, and under its influence. 3.2 It is well known that the people of Attica, contrary to the usage of the other Greek races, pronounced ἱχθύς (fish), ἵππος (horse), and many other words besides, with a rough breathing on the first letter.​ 3.3 In the same way our ancestors said lachrumae (tears), sepulchrum (burial-place), ahenum (of bronze), vehemens (violent), incohare (begin), helluari (gormandize), hallucinari (dream), honera (burdens), honustum (burdened). 3.4 For in all these words there seems to be no reason for that letter, or breathing, except to increase the force and vigour of the sound by adding certain sinews, so to speak.

3.5 But apropos of the inclusion of ahenum among my examples, I recall that Fidus Optatus, a grammarian of considerable repute in Rome, showed me a remarkably old copy of the second book of the Aeneid, bought in the Sigillaria for 20 pieces of gold, which was believed to have belonged to Virgil himself. In that book, although the following 2 lines were written thus:

Before the entrance-court, hard by the gate,

With sheen of brazen (aena) arms proud Pyrrhus gleams,

we observed that the letter h had been added above the line, changing aena to ahena.”

5.1 Favorinus used to say of Plato and Lysias: ‘If you take a single word from a discourse of Plato or change it, and do it with the utmost skill, you will nevertheless mar the elegance of his style; if you do the same to Lysias, you will obscure his meaning.’

11.1 We read in the annals that Lucius Sicinius Dentatus, who was tribune of the commons in the consulship of Spurius Tarpeius and Aulus Aternius,​ was a warrior of incredible energy; that he won a name for his exceeding great valour, and was called the Roman Achilles. 11.2 It is said that he fought with the enemy in 120 battles, and had not a scar on his back, but 45 in front; that golden crowns were given him 8 times, the siege crown once, mural crowns 3 times, and civic crowns 14 times; that 83 neck chains were awarded him, more than 160 armlets, and 18 spears; he was presented besides with 25 decorations; 11.3 he had a number of spoils of war,​ many of which were won in single combat; 11.4 he took part with his generals in 9 triumphal processions.”

17.1 After careful observation Marcus Tullius noted that the prepositions in and con, when prefixed to nouns and verbs, are lengthened and prolonged when they are followed by the initial letters of sapiens and felix; but that in all other instances they are pronounced short.

17.2 Cicero’s words are:​ ‘Indeed, what can be more elegant than this, which does not come about from a natural law, but in accordance with a kind of usage? We pronounce the first vowel in indoctus short, in insanus long; in immanis short, in infelix long; in brief, in compound words in which the first letters are those which begin sapiens and felix the prefix is pronounced long, in all others short; thus we have cŏnposuit but cōnsuevit, cŏncrepuit but cōnficit. Consult the rules of grammar and they will censor your usage; refer the matter to your ears and they will approve. Ask why it is so; they will say that it pleases them. And language ought to gratify the pleasure of the ear.’

17.3 In these words of which Cicero spoke it is clear that the principle is one of euphony, but what are we to say of the preposition pro? For although it is often shortened or lengthened, yet it does not conform to this rule of Marcus Tullius. 17.4 For it is not always lengthened when it is followed by the first letter of the word fecit, which Cicero says has the effect of lengthening the prepositions in and con. 17.5 For we pronounce prŏficisci, prŏfugere, prŏfundere, prŏfanum and prŏfestum with the first vowel short, but prōferre, prōfligare and prōficere with that syllable long.”

17.8 Moreover cōligatus and cōnexus are pronounced long.

17.9 But after all, in these cases which I have cited one can see that this particle is lengthened because the letter n is dropped; for the loss of a letter is compensated by the lengthening of the syllable.”

18.1 Phaedo of Elis belonged to that famous Socratic band and was on terms of close intimacy with Socrates and Plato. 18.2 His name was given by Plato to that inspired dialogue of his on the immortality of the soul. 18.3 This Phaedo, though a slave, was of noble person and intellect,​ and according to some writers, in his boyhood was driven to prostitution by his master, who was a pander. 18.4 We are told that Cebes the Socratic, at Socrates’ earnest request, bought Phaedo and gave him the opportunity of studying philosophy. 18.5 And he afterwards became a distinguished philosopher, whose very tasteful discourses on Socrates are in circulation.”

18.9 Diogenes the Cynic also served as a slave, but he was a freeborn man, who was sold into slavery. When Xeniades of Corinth wished to buy him and asked whether he knew any trade, Diogenes replied: ‘I know how to govern free men.’18.10 Then Xeniades, in admiration of his answer, bought him, set him free, and entrusting to him his own children, said: ‘Take my children to govern.’

But as to the well-known philosopher Epictetus, the fact that he too was a slave is too fresh in our memory to need to be committed to writing, as if it had been forgotten.”

23.1 I often read comedies which our poets have adapted and translated from the Greeks — Menander or Posidippus, Apollodorus or Alexis, and also some other comic writers. 23.2 And while I am reading them, they do not seem at all bad; on the contrary, they appear to be written with a wit and charm which you would say absolutely could not be surpassed. 23.3 But if you compare and place beside them the Greek originals from which they came, and if you match individual passages, reading them together alternately with care and attention, the Latin versions at once begin to appear exceedingly commonplace and mean; so dimmed are they by the wit and brilliance of the Greek comedies, which they were unable to rival.

23.4 Only recently I had an experience of this kind. 23.5 I was reading the Plocium or Necklace of Caecilius, much to the delight of myself and those who were present. 23.6 The fancy took us to read also the Plocium of Menander, from which Caecilius had translated the said comedy. 23.7 But after we took Menander in hand, good Heavens! how dull and lifeless, and how different from Menander did Caecilius appear! Upon my word, the armour of Diomedes and of Glaucus were not more different in value.”

23.9 This is Menander:

Now may our heiress fair on both ears sleep.

A great and memorable feat is hers;

For she has driven forth, as she had planned,

The wench that worried her, that all henceforth

Of Crobyle alone the face may see,

And that the famous woman, she my wife,

May also be my tyrant. From the face

Dam Nature gave her, she’s an ass ‘mong apes,

As says the adage. I would silent be

About that night, the first of many woes.

Alas that I took Crobyle to wife,

With sixteen talents and a foot of nose.

Then too can one her haughtiness endure?

By Zeus Olympius and Athena, no!

She has dismissed a maid who did her work

More quickly than the word was given her,

More quickly far than one will bring her back!

23.10 But Caecilius renders it thus:

In very truth is he a wretched man,

Who cannot hide his woe away from home;

And that my wife makes me by looks and acts:

If I kept still, I should betray myself

No less. And she has all that you would wish

She had not, save the dowry that she brought.

Let him who’s wise a lesson take from me,

Who, like a free man captive to the foe,

Am slave, though town and citadel are safe.

What! wish her safe who steals whate’er I prize?

While longing for her death, a living corpse am I.

She says I’ve secret converse with our maid —

That’s what she said, and so belaboured me

With tears, with prayers, with importunities,

That I did sell the wench. Now, I suppose,

She blabs like this to neighbours and friends:

Which one of you, when in the bloom of youth,

Could from her husband win what I from mine

Have gained, who’ve robbed him of his concubine.’

Thus they, while I, poor wretch, am torn to shreds.”

26.3 Favorinus said: ‘More distinctions of colour are detected by the eye than are expressed by words and terms….’

29.20 …

This adage ever have in readiness;

Ask not of friends what you yourself can do.”

(*) “the festival of the Sigillaria; this was on Dec. 21 and 22, an extension of the Saturnalia, although not a religious holiday.”

(*) “The Romans awarded a great variety of military prizes, which are here enumerated, for the most part, in descending order of importance. Phalerae were discs of metal worn on the breast like medals, or sometimes on the harness of horses; the spears were hastae purae, unused (hence ‘bloodless’) and perhaps sometimes headless weapons, although they are represented with 2 heads on 2 tombstones (Cagnat et Chapot, Arch. Rom. II, p. 359, and Bonner Jahrbücher, 114 (1905), Plate 1, Fig. 4). Besides golden crowns without a particular designation, there were others which are enumerated and described in V.6.”

(*) “For ‘analogy’ in this sense of ‘regularity’, see II.25. Gellius thought that coegi was an irregular form because did not contract, as oi did in cogo; but contraction of like vowels did not take place when the second was long; cf. coāctus. Cicero’s rule is correct, because a vowel is naturally long before ns and nf. The case of pro is quite different. The ō in cōpertus is due to contraction from co-opertus. Cōligatus is a very rare form; Skutsch, quoted by Hosius, thought it might come from co-alligatus. The ō in cogo is also due to contraction (co-ago, co-igo), which does not apply to the perfect coegi. Compensatory lengthening takes place usually when an s is lost, as is cōnecto for co-snecto, or n before s and f; less commonly when nc is lost before n.”

(*) “Gellius, as he sometimes does elsewhere, refers to Favorinus’ statement as if it were his own. Gronovius’ proposed change to dixit and dixerit is unnecessary.”

(*) “Homer (Iliad VI.234 ff.) tells us that Diomedes proposed to exchange armour with Glaucus in token of friendship. Diomedes’ arms of bronze cost 9 oxen; those of Glaucus, inlaid with gold, 100. Hence ‘gold for bronze’ became proverbial.”

(*) “We should use ‘grey’, rather than ‘green’. Glaucus was a greyish green or a greenish grey.”

BOOK III

(*) “Ritschl estimated Varro’s publications as 74 works, comprising 620 books.”

(*) “The sestertium was the designation of a thousand sesterces, originally a gen. plur., later a nom. sing. neut.”

Friedländer, Roman Life and Manners

BOOK IV

(*) “Penitus, like Penates, is connected with penus in the sense of an inner chamber. Penus is derived by some from the root pa- of pasco, pabulum, etc.; by others it is connected with πένομαι and πόνος, as the fruit of labour. Walde, Lat. Etym. Wörterb. s.v., separates penus, an inner chamber, from penus, a store of provisions, connecting the latter with pasco, the former with penes, penetro and Penates.”

(*) “Walde, Lat. Etym. Wörterb. s.v., regards paelex and the Greek πάλλαξ and παλλακίς, the former in the sense of a young slave, as loan words from the Phoenician-Hebrew pillegesh, ‘concubine’. The spelling pellex is due to popular etymology, which associated the word with pellicio, ‘entice’.”

(*) “The spears sacred to Mars and the sacred shields (ancilia) were said to move of their own accord when danger threatened. According to Dio, XLIV.17, they shook violently before the death of Caesar.”

(*) “In the Latin line the ictus falls on the penult Hánnibális, but the ordinary pronunciation was Hanníbalis.”

(*) “On nefasti dies it was impious for legal business to be carried on, or assemblies held.”

(*) “The sense of relinquo as = ‘avoid’ is shown below (§10); that of careo is explained by Paul. Fest. (pp. 62 and 298, Lindsay, s.v. denariae and purimenstrio) as referring to doing without, or refraining from, certain things on ceremonial days. Some Roman etymologists derived caerimonia from the town of Caere, others from caritas; see Paul. Fest. p. 38, Linds.”

(*) “Made him an aerarius, originally a citizen who owned no land, but paid a tax (aes) based on such property as he had. The aerarii had no political rights until about the middle of the 5th century B.C., when they were enrolled in the 4 city tribes.”

(*) “More literally, inpolitia is ‘lack of neatness’, from im-, negative, and polio, ‘polish’, from which pulcher also is derived.”

(*) “Gellius is partly right. As in+capio and in+salio became incipio in insilio, so ob+iacio became obiicio. As the Romans disliked the combination ii, only one i was written, but both were pronounced, and the syllable ob was thus long ‘by position’. In the early Latin dramatists the scansion ăbicio indicates that the i was syncopated and the semi-vowel changed to a vowel. See Sommer

(*) “A splendid example of the majesty and fairness of Roman law, all the more so that it is not particularly unusual; and one, not altogether incidentally, that clearly proves wrong the notion currently prevailing in some circles, that the Romans maltreated women (self-serving corollary: we ourselves are enlightened). The net effect of the ruling was to uphold the rights of a prostitute against the private actions of a man who in public life was a high Roman magistrate; it is similar to, and among the ancestors of, the ruling that ordered U.S. president Bill Clinton to pay $90,000 to Paula Jones for perjuring himself in a lawsuit and thus violating her civil rights: to my mind at any rate, the rule of law, one of the hallmarks of Western civilization, is the single greatest treasure bequeathed us by ancient Rome.”

BOOK V

3.1 They say that Protagoras, a man eminent in the pursuit of learning, whose name Plato gave to that famous dialogue of his, in his youth earned his living as a hired labourer and often carried heavy burdens on his back, being one of that class of men 3.2 whom the Greeks call ἀχθοφόροι and we Latins baiuli, or porters. 3.3 He was once carrying a great number of blocks of wood, bound together with a short rope, from the neighbouring countryside into his native town of Abdera. 3.4 It chanced at the time that Democritus, a citizen of that same city, a man esteemed before all others for his fine character and his knowledge of philosophy, as he was going out of the city, saw Protagoras walking along easily and rapidly with that burden, of a kind so awkward and so difficult to hold together. Democritus drew near, and noticing with what skill and judgment the wood was arranged and tied, asked the man to stop and rest awhile. 3.5 When Protagoras did as he was asked, and Democritus again observed that the almost circular heap of blocks was bound with a short rope, and was balanced and held together with all but geometrical accuracy, he asked who had put the wood together in that way. When Protagoras replied that he had done it himself, Democritus asked him to untie the bundle and arrange it again in the same way. 3.6 But after he had done so, then Democritus, astonished at the keen intellect and cleverness of this uneducated man, said: ‘My dear young man, since you have a talent for doing things well, there are greater and better employments which you can follow with me’; and he at once took him away, kept him at his own house, supplied him with money, taught him philosophy, and made him the great man that he afterwards became.

3.7 Yet this Protagoras was not a true philosopher, but the cleverest of sophists; for in consideration of the payment of a huge annual fee, he used to promise his pupils that he would teach them by what verbal dexterity the weaker cause could be made the stronger, a process which he called in Greek: τὸν ἥττω λόγον κρείττω ποιεῖν, or ‘making the word appear the better reason’.”

7.1 Cleverly, by Heaven! and wittily, in my opinion, does Gavius Bassus explain the derivation of the word persona, in the work that he composed On the Origin of Words; for he suggests that that word is formed from personare. 7.2 ‘For,’ he says, ‘the head and the face are shut in on all sides by the covering of the persona, or mask, and only one passage is left for the issue of the voice; and since this opening is neither free nor broad, but sends forth the voice after it has been concentrated and forced into one single means of egress, it makes the sound clearer and more resonant. Since then that covering of the face gives clearness and resonance to the voice, it is for that reason called persona, the o being lengthened because of the formation of the word.’

9.1 The son of king Croesus, when he was already old enough to speak, was dumb, and after he had become a well-grown youth, he was still unable to utter a word. Hence he was for a long time regarded as mute and tongue-tied. 9.2 When his father had been vanquished in a great war, the city in which he lived had been taken, and one of the enemy was rushing upon him with drawn sword, unaware that he was the king, then the young man opened his mouth in an attempt to cry out. And by that effort and the force of his breath he broke the impediment and the bond upon his tongue, and spoke plainly and clearly, shouting to the enemy not to kill king Croesus. 9.3 Then the foeman withheld his sword, the king’s life was saved, and from that time on the youth began to speak. 9.4 Herodotus in his Histories is the chronicler of that event, and the words which he says the son of Croesus first spoke are: ‘Man, do not kill Croesus.’

(*) “Gellius is wrong in supposing that ve- strengthened the force of a word; it means ‘without, apart from’. Nonius cites Lucilius for vegrandis in the sense of ‘very great’, but wrongly; see Marx on Lucil. 631. Vescus means ‘small, or, in an active sense, ‘make small’ (Lucr. I.326); Walde derives it from vescor in the sense of ‘eating away, corroding’ (Lucr. I.326) and from ve-escus in the sense of ‘small’. Vemens, for vehemens, is probably a participle (vehemenos) from veho.”

(*) Vediovis, or Veiovis, was the opposite of Jupiter, ve- having its negative force. He was a god of the nether world and of death; hence the arrows and the she-goat, which was an animal connected with the lower world (see Gell. X.15.12, and Wissowa Religion und Kultus, p. 237). Some regarded the god as a youthful (little) Jupiter and the she-goat as the one which suckled him in his infancy; others as Apollo, because of the arrows, but the she-goat has no connection with Apollo.”

(*) “A basic understanding of the physics of sound led to the invention of the telephone (unlike most of our modern machines, a relatively simple device that could just conceivably been invented by some clever ancient Greek)”

BOOK VI

6.1 Nature has given 5 senses to living beings; sight, hearing, taste, touch and smell, called by the Greeks αἰσθήσεις.​ Of these some animals lack one and some another, being born into the world blind, or without the sense of smell or hearing. 6.2 But Aristotle asserts that no animal is born without sense of taste or of touch.

9.1 Poposci, momordi, pupugi and cucurri seem to be the approved forms, and today they are used by almost all better-educated men. 9.2 But Quintus Ennius in his Satires wrote memorderit with an e, and not momorderit, as follows:

Tis not my way, as if a dog had bit me (memorderit).

9.3 So too Laberius in the Galli:

Now from my whole estate

A hundred thousand have I bitten off (memordi).

9.4 The same Laberius too in his Colorator:

And when, o’er slow fire cooked, I came beneath her teeth,

Twice, thrice she bit (memordit).

9.5 Also Publius Nigidius in his 2nd book On Animals: ‘As when a serpent bites (memordit) one, a hen is split and placed upon the wound.’ 9.6 Likewise Plautus in the Aulularia:

How he the man did fleece (admemordit).

9.7 But Plautus again, in the Trigemini, said neither praememordisse nor praemomordisse, but praemorsisse, in the following line:

Had I not fled into your midst,

Methinks he’d bitten me (praemorsisset).

9.8 Atta too in the Conciliatrix says:

A bear, he says, bit him (memordisse).

9.9 Valerius Antias too, in the 45th book of his Annals, has left on record peposci, not poposci in this passage: ‘Finally Licinius, tribune of the commons, charged him with high treason and asked (peposcit) from the praetor Marcus Marcius a day for holding the comitia.’

9.10 In the same way Atta in the Aedilicia says:

But he will be afraid, if I do prick him (pepugero).

9.11 Probus has noted that Aelius Tubero also, in his work dedicated to Gaius Ippius, wrote occecurrit, and he has quoted him as follows:​ ‘If the general form should present itself (occecurrerit).’ 9.12 Probus also observed that Valerius Antias in the 22nd book of his Histories wrote speponderant, and he quotes his words as follows:​ ‘Tiberius Gracchus, who had been quaestor to Gaius Mancinus in Spain, and the others who had guaranteed (speponderant) peace.’

9.13 Now the explanation of these forms might seem to be this: since the Greeks in one form of the past tense, which they call παρακείμενον, or ‘perfect’, commonly change the second letter of the verb to e, as φράφω γέγραφα, ποιῶ πεποίηκα, λαλῶ λελάληκα, κρατῶ κεκράτηκα, λούω λέλουκα, so accordingly mordeo makes memordi, 9.14 posco peposci, tendo tetendi, tango tetigi, pungo pepugi, curro cecurri, tollo tetuli, and spondeo spepondi. 9.15 Thus Marcus Tullius​ and Gaius Caesar used mordeo memordi, pungo pepugi, spondeo spepondi. I find besides that from the verb scindo in the same way was made, not sciderat, but sciciderat.”

14.1 Both in verse and in prose there are 3 approved styles, which the Greeks call χαρακτῆρες and to which they have given the names of ἁδρός, ἰσχνός and μέσος. 14.2 We also call the one which I put 1st ‘grand’, the 2nd ‘plain’, and the 3rd ‘middle’.”

14.4 To each of these excellent styles there are related an equal number of faulty ones, arising from unsuccessful attempts to imitate their manner and character.”

14.6 But true and genuine Latin examples of 3 styles are said by Marcus Varro​ to be: Pacuvius of the grand style, Lucilius of the plain, and Terence of the middle. 14.7 But in early days these same 3 styles of speaking were exemplified in 3 men by Homer: the grand and rich in Ulysses, the elegant and restrained in Menelaus, the middle and moderate in Nestor.

14.8 This threefold variety is also to be observed in the 3 philosophers whom the Athenians sent as envoys to the senate at Rome, to persuade the senators to remit the fine which they had imposed upon the Athenians because of the sack of Oropos;​ and the fine amounted to nearly 500 talents. 14.9 The philosophers in question were Carneades of the Academy, Diogenes the Stoic, and Critolaus the Peripatetic….”

17.1 I inquired at Rome of a certain grammarian who had the highest repute as a teacher, not indeed for the sake of trying or testing him, but rather from an eager desire for knowledge, what obnoxius meant and what was the origin and the history of the word. 17.2… ‘Truly a difficult question is this that you ask, one demanding very many sleepless nights of investigation! 17.3 Who, pray, is so ignorant of the Latin tongue as not to know that one is called obnoxius who can be inconvenienced or injured by another, to whom he is said to be obnoxius because the other is conscious of his noxa, that is to say, of his guilt? Why not rather,’ said he, ‘drop these trifles and put questions worthy of study and discussion?’

17.4… ‘If, most learned sir, I need to learn and to know other things that are more abstruse and more important, when the occasion arises I shall inquire and learn them from you; but inasmuch as I have often used the word obnoxius without knowing what I was saying, I have learned from you and am now beginning to understand what not I alone, as you seem to think, was ignorant of; for as a matter of fact, Plautus too, though a man of the first rank in his use of the Latin language and in elegance of diction, did not know the meaning of obnoxius. For there is a passage of his in the Stichus which reads as follows:

By heaven! I now am utterly undone,

Not only partly so (non obnoxie).

This does not in the least agree with what you have taught me; for Plautus contrasted plane and obnoxie as 2 opposites, which is far removed from your meaning.’

17.5 But that grammarian retorted foolishly enough, as if obnoxius and obnoxie differed, not merely in form, but in their substance and meaning: ‘I gave a definition of obnoxius, not obnoxie.’

17.8 ‘…but explain to me this example, which is certainly more recent and more familiar. For the following lines of Virgil’s are very well known:

For now the stars’ bright sheen is seen undimmed.

The rising Moon owes naught (nec . . . obnoxia) to brother’s rays;

17.9 but you say that it means <conscious of her guilt>. In another place too Virgil uses this word with a meaning different from yours, in these lines:

What joy the fields to view

That owe no debt (non obnoxia) to hoe or care of man. …’

17.11 But our grammarian, with open mouth as if in a dream, said: ‘Just now I have no time to spare. When I have leisure, come to see me and learn what Virgil, Plautus, Sallust and Ennius meant by that word.’

(*) “The interrogative quem would be stressed (have ‘an acute accent’), while the relative quem would not (i.e., would have a grave accent).”

(*) “An enthymeme in logic was an argument consisting of 2 propositions, the antecedent and its consequence.”

O’Connor, Chapters in the History of Actors and Acting in Ancient Greece (Princeton dissertation), 1908.

(*) “Gellius is perhaps thinking of such exceptions as éxinde and súbinde, in which however the penult is not long by nature, but by position.”

(*) “The translation is ambiguous and misleading. It would have been better to write: five senses, called by the Greeks αἰσθήσεις, to living beings; sight, hearing, taste, touch and smell.”

BOOK VII

1.6 Against these criticisms Chrysippus argues at length, subtilely and cleverly, but the purport of all that he has written on that subject is about this: 1.7 ‘Although it is a fact,’ he says, ‘that all things are subject to an inevitable and fundamental law and are closely linked to fate, yet the peculiar properties of our minds are subject to fate only according to their individuality and quality….’

1.13 Therefore he says that wicked, slothful, sinful and reckless men ought not to be endured or listened to, who, when they are caught fast in guilt and sin, take refuge in the inevitable nature of fate, as if in the asylum of some shrine, declaring that their outrageous actions must be charged, not to their own heedlessness, but to fate.”

10.1 The philosopher Taurus, a celebrated Platonist of my time, used to urge the study of philosophy by many other good and wholesome examples and in particular stimulated the minds of the young by what he said that Euclides the Socratic used to do. 10.2 ‘The Athenians,’ said he, ‘had provided in one of their decrees that any citizen of Megara who should be found to have set foot in Athens should for that suffer death; 10.3 so great,’ says he, ‘was the hatred of the neighbouring men of Megara with which the Athenians were inflamed. 10.4 Then Euclides, who was from that very town of Megara and before the passage of that decree had been accustomed to come to Athens and to listen to Socrates, after the enactment of that measure, at nightfall, as darkness was coming on, clad in a woman’s long tunic, wrapped in a parti-coloured mantle, and with veiled head, used to walk from his home in Megara to Athens, to visit Socrates, in order that he might at least for some part of the night share in the master’s teaching and discourse. And just before dawn he went back again, a distance of somewhat over twenty miles, disguised in that same garb. 10.5 But nowadays,’ said Taurus, ‘we may see the philosophers themselves running to the doors of rich young men, to give them instruction, and there they sit and wait until nearly noonday, for their pupils to sleep off all last night’s wine.’

17.1 The tyrant Pisistratus is said to have been the first to establish at Athens a public library of books relating to the liberal arts. Then the Athenians themselves added to this collection with considerable diligence and care; but later Xerxes, when he got possession of Athens and burned the entire city except the citadel,​ removed that whole collection of books and carried them off to Persia. 17.2 Finally, a long time afterwards, king Seleucus, who was surnamed Nicator, had all those books taken back to Athens.

17.3 At a later time an enormous quantity of books, nearly 700,000, was either acquired or written​ in Egypt under the kings known as Ptolemies; but these were all burned during the sack of the city in our 1st war with Alexandria,​ not intentionally or by anyone’s order, but accidentally by the auxiliary soldiers.”

(*) “In 48 B.C. By no means all of the Alexandrian Library was destroyed at that time, and the losses were made good, at least in part, by Antony in 41 B.C. A part of the library was burned under Aurelian, in A.D. 272, and the destruction seems to have been completed in 391.”

BOOK VIII

(*) “The sky on columns of dust upborne, Aen. XII.407, where the poet [Virgil] is describing the effect of an advancing troop of cavalry.”

(*) “The breast with thorns is filled, Lucil. 213, Marx.”

BOOK IX

4.6 …Further, that it was handed down by tradition that in a distant land called Albania men are born whose hair turns white in childhood and who see better by night than in the daytime….

4.7 In those same books I ran upon this statemet too, which I later read also in the 7th book of the Natural History of Plinius Secundus, that in the land of Africa there are families of persons who work spells by voice and tongue; 4.8 for if they should chance to have bestowed extravagant praise upon beautiful trees, plentiful crops, charming children, fine horses, flocks that are well fed and in good condition, suddenly, for no other cause than this, all these would die…. and that those persons themselves, both men and women, who possess this power of harmful gaze, have two pupils in each eye. 4.9 Also that in the mountains of the land of India there are men who have the heads of dogs, and bark, and that they feed upon birds and wild animals which they have taken in the chase. That in the remotest lands of the east too there are other marvellous men called monocoli, or ‘one-legged’, who run by hopping with their single leg and are of a most lively swiftness.​…”

4.11 And that not far from these people is the land of Pygmies, the tallest of whom are not more than 2¼ feet in height.

4.12 These and many other stories of the kind I read; but when writing them down, I was seized with disgust for such worthless writings, which contribute nothing to the enrichment or profit of life.”

4.15 [Plinius Secundus] says that the change of women into men is not a fiction.” E isso basta para que Gellius acredite! Com efeito, Plínio o Velho (o Jovem, seu sobrinho, talvez seja chamado Plinius Tertius) podia ser enfileirado entre esses autores anedóticos superestimados de nossa cultura (como Montaigne e Plutarco), não obstante consegue ser ao menos engraçado, e sua História Natural contém muito folclore misturado com informações verídicas ou ao menos parcialmente verídicas.

4.16 Pliny also wrote this in the same book:​ ‘There are persons who from birth are bisexual, whom we call <hermaphrodites>; they were formerly termed androgyni and regarded as prodigies, but now are instruments of pleasure.’” Prostituídos ao nascer? Que horror…

9.1 Whenever striking expressions from the Greek poets are to be translated and imitated, they say that we should not always strive to render every single word with exact literalness. 9.2 For many things lose their charm if they are transplanted too forcibly — unwillingly, as it were, and reluctantly.​ 9.3 Virgil therefore showed skill and good judgment in omitting some things and rendering others, when he was dealing with passages of Homer or Hesiod or Apollonius or Parthenius or Callimachus or Theocritus, or some other poet.”

9.7…

O Tityrus, well-belovéd, feed my goats,

And lead them to the front, good Tityrus;

But ‘ware yon buck-goat yellow, lest he butt.

9.11 Till I return — not long — feed thou my goats;

Then, Tityrus, give them a drink, but as you go,

Avoid the buck-goat’s horn — the fellow butts!

12.1 As the adjective formidulosus may be used both of one who fears and of one who is feared, invidiosus of one who envies and of one who is envied, suspiciosus of one who suspects and of one who is suspected, ambitiosus of one who courts favour and one who is courted, gratiosus also of one who gives, and of one who receives, thanks, laboriosus of one who toils and of one who causes toil — as many other words of this kind are used in both ways, so infestus too has a double meaning. 12.2 For he is called infestus who inflicts injury on anyone, and on the other hand he who is threatened with injury from another source is also said to be infestus.”

12.13 Metus also and iniuria, and some other words of the kind, may be used in this double sense; for metus hostium, ‘fear of the enemy’, is a correct expression both when the enemy fear and when they are feared.”

12.18 Nescius also is used as well of one who is unknown as of one who does not know; 12.19 but its use in the sense of one who does not know is common, while it is rarely used of that which is unknown. 12.20 Ignarus has the same double application, not only to one who is ignorant, but also to one who is not known.”

(*) “Pertempto means ‘try thoroughly’, hence ‘affect deeply’. Probus must have taken per in the sense of ‘over’, ‘on the surface’, thus giving pertempto a meaning of which no example exists.”

BOOK X

5.1 Publius Nigidius, in the 29th book of his Commentaries,​ declares that avarus is not a simple word, but is compounded of 2 parts: ‘For that man,’ he says, ‘is called avarus, or <covetous>, who is avidus aeris, or <eager for money>; but in the compound the letter e is lost.’ 5.2 He also says that a man is called by the compound term locuples, or ‘rich’ when he holds pleraque loca, that is to say, ‘many possessions.’

5.3 But his statement about locuples is the stronger and more probable. As to avarus there is doubt; for why may it not seem to be derived from one single word, namely aveo, and formed in the same way as amarus, about which there is general agreement that it is not a compound?” [A semântica parece depor a favor de amarus como raiz, se ainda vale algo perante a sintaxe!]

11.1 Mature in present usage signifies ‘hastily’ and ‘quickly’, contrary to the true force of the word; for mature means quite a different thing. 11.2 Therefore Publius Nigidius, a man eminent in the pursuit of all the liberal arts, says: Mature means neither <too soon> nor <too late>, but something between the two and intermediate.’

11.5 …‘make haste slowly’

11.6 Virgil also, to one who is observant, has skilfully distinguished the 2 words properare and maturare as clearly opposite, in these verses:

Whenever winter’s rains the hind confine,

Much is there that at leisure may be done (maturare),

Which in fair weather he must hurry on (properanda).” [seria prosperare na forma antiga? verificar – parece que não: properare está mais para ‘ser proativo’, dinâmico, não necessariamente prosperando no processo! pro+operare – agir, se bem ou mal, não há qualquer valoração.]

Pliny the Elder é chamado de Plinius Secundos pelos latinos (como vimos mais acima). Parece que Plínio o Jovem é apenas o terceiro! A confusão sobre “Plinius Secundus” me fez crer por algumas semanas que o sobrinho de Plínio o Velho veio a continuar sua História Natural ou então escrever uma outra!…

12.1 Pliny the Elder, in the 28th book of his Natural History asserts​ that there is a book of that most famous philosopher Democritus On the Power and Nature of the Chameleon, and that he had read it; and then he transmits to us many foolish and intolerable absurdities, alleging that they were written by Democritus. Of these unwillingly, since they disgust me, I recall a few, as follows: 12.2 that the hawk, the swiftest of all birds, if it chance to fly over a chameleon which is crawling on the ground, is dragged down and falls through some force to the earth, and offers and gives itself up of its own accord to be torn to pieces by the other birds. 12.3 Another statement too is past human belief, namely, that if the head and neck of the chameleon be burned by means of the wood which is called oak, rain and thunder are suddenly produced, and that this same thing is experienced if the liver of that animal is burned upon the roof of a house. 12.4 There is also another story, which by heaven! I hesitated about putting down, so preposterous is it; but I have made it a rule that we ought to speak our mind about the fallacious seduction of marvels of that kind, by which the keenest minds are often deceived and led to their ruin, and in particular those which are especially eager for knowledge. But I return to Pliny.

12.5 He says​ that the left foot of the chameleon is roasted with an iron heated in the fire, along with an herb called by the same name, ‘chameleon’; both are mixed in an ointment, formed into a paste, and put in a wooden vessel. He who carries the vessel, even if he go openly amid a throng, can be seen by no one.”

12.7 the same is true of what the same Pliny, in his 10th book, asserts that Democritus wrote; namely, that there were certain birds with a language of their own, and that by mixing the blood of those birds a serpent was produced; that whoso ate it would understand the language of birds and their conversation.

12.8 Many fictions of this kind seem to have been attached to the name of Democritus by ignorant men, who sheltered themselves under his reputation and authority.”

17.1 It is written in the records of Grecian story that the philosopher Democritus, a man worthy of reverence beyond all others and of the highest authority, of his own accord deprived himself of eye-sight, because he believed that the thoughts and meditations of his mind in examining nature’s laws would be more vivid and exact, if he should free them from the allurements of sight and the distractions offered by the eyes. 17.2 This act of his, and the manner too in which he easily blinded himself by a most ingenious device, the poet Laberius has described, in a farce called The Ropemaker, in very elegant and finished verses; but he has imagined another reason for voluntary blindness and applied it with no little neatness to his own subject.

17.3 For the character who speaks these lines in Laberius is a rich and stingy miser, lamenting in vigorous terms the excessive extravagance and dissipation of his young son. 17.4 These are the verses of Laberius:

Democritus, Abdera’s scientist,

Set up a shield to face Hyperion’s rise,

That sight he might destroy by blaze of brass,

Thus by the sun’s rays he destroyed his eyes,

Lest he should see bad citizens’ good luck;

So I with blaze and splendour of my gold

Would render sightless my concluding years,

Lest I should see my spendthrift son’s good luck.”

25.1 Once upon a time, when I was riding in a carriage, to keep my mind from being dull and unoccupied and a prey to worthless trifles, it chanced to occur to me to try to recall the names of weapons, darts and swords which are found in the early histories, and also the various kinds of boats and their names. 25.2 Those, then, of the former that came to mind at the time are the following: spear, pike, fire-pike (3), half-pike, iron bolt, Gallic spear, lance, hunting-darts (8), javelins, long bolts (10), barbed-javelins, German spears, thonged-javelin (13), Gallic bolt, broadswords (15), poisoned arrows, Illyrian hunting-spears (17), cimeters (18), darts (19), swords, daggers, broadswords (22=15), double-edged swords, small-swords (24), poniards, cleavers (26).

25.3 Of the lingula, or ‘little tongue’, since it is less common, I think I ought to say that the ancients applied that term to an oblong small-sword, made in the form of a tongue; it is mentioned by Naevius in his tragedy Hesione. I quote the line:

Pray let me seem to please you with my tongue,

But with my little tongue (lingula).

25.4 The rumpia too is a kind of weapon of the Thracian people, and the word occurs in the 14th book of the Annals of Quintus Ennius.

25.5 The names of ships which I recalled at the time are these: merchant-ships, cargo-carriers, skiffs (3), warships, cavalry-transports, cutters, fast cruisers, or, as the Greeks call them, κέλητες, barques, smacks, sailing-skiffs, light galleys, which the Greeks call… ἐπακτρίδες, scouting-boats, galliots, tenders, flat-boats, vetutiae moediae, yachts, pinnaces, long-galliots, scullers’ boats, caupuls [em desuso], arks, fair-weather craft, pinks, lighters, spy-boats.”

27.1 It is stated in ancient records that the strength, the spirit and the numbers of the Roman and the Carthaginian people were once equal. 27.2 And this opinion was not without foundation. With other nations the contest was for the independence of one or the other state, with the Carthaginians it was for the rule of the world.”

28.1 Tubero, in the 1st book of his History,​ has written that King Servius Tullius, when he divided the Roman people into those 5 classes of older and younger men for the purpose of making the enrolment, regarded as pueri, or ‘boys’, those who were less than 17 years old; then, from the 17th year, when they were thought to be fit for service, he enrolled them as soldiers, calling them up to the age of 46 iuniores or ‘younger men’, and beyond that age, seniores, or ‘elders.’”

29.1 The particle atque is said by the grammarians to be a copulative conjunction. And as a matter of fact, it very often joins and connects words; but sometimes it has certain other powers, which are not sufficiently observed, except by those engaged in a diligent examination of the early literature. 29.2 For it has the force of an adverb when we say ‘I have acted otherwise than (atque) you,’ for it is equivalent to aliter quam tu; and if it is doubled, it amplifies and emphasizes a statement, as we note in the Annals of Quintus Ennius, unless my memory of this verse is at fault:

And quickly (atque atque) to the walls the Roman manhood came.​

29.3 The opposite of this meaning is expressed by deque, also found in the early writers.

29.4 Atque is said to have been used besides for another adverb also, namely statim,…”

(*) “The derivation of amarus is uncertain; it is perhaps connected with Greek ὠμός, ‘raw’ (cf. crudus and crudelis). Sanscrit âmas.” Amarus pater

(*) “Classis originally meant one of the classes into which the citizens were divided by the Servian constitution, then, collectively, the army composed of the classes.”

(*) “The term mausoleum was applied by the Romans to large and magnificent tombs such as the mausoleum of Augustus and that of Hadrian.”

(*) “Many of these names, both of weapons and ships, are most uncertain; for some no exact equivalent can be found.”

BOOK XI

5.1 Those whom we call the Pyrronian philosophers are designated by the Greek name σκεπτικοί, or ‘sceptics’, 5.2 which means about the same as ‘inquirers’ and ‘investigators’. 5.3 For they decide nothing and determine nothing, but are always engaged in inquiring and considering what there is in all nature concerning which it is possible to decide and determine. 5.4 And moreover they believe that they do not see or hear anything clearly, but that they undergo and experience something like seeing and hearing; but they are in doubt as of that nature and character of those very things which cause them those experiences, and they deliberate about them; and they declare that in everything assurance and absolute truth seem so beyond our grasp, owing to the mingling and confusing of the indications of truth and falsehood, that any man who is not rash and precipitate in his judgment ought to use the language which they say was used by Pyrro, the founder of that philosophy: ‘Does not this matter stand so, rather than so, or is it neither?’ For they deny that proofs of anything and its real qualities can be known and understood, and they try in many ways to point this out and demonstrate it. 5.5 On this subject Favorinus too with great keenness and subtlety has composed 10 books, which he entitled Πυρρωνεῖοι Τρόποι, or The Pyrronian Principles.” 10 livros é DEMAIS para qualquer coisa, principalmente para o ceticismo (contra ou a favor, ou cético quanto a ele [ironia]).

5.6 It is besides a question of long standing, which has been discussed by many Greek writers, whether the Pyrronian and Academic philosophers differ at all, and to what extent. For both are called ‘sceptics, inquirers and doubters’, since both affirm nothing and believe that nothing is understood. But they say that appearances, which they call φαντασίαι, are produced from all objects, not according to the nature of the objects themselves, but according to the condition of mind or body of those to whom these appearances come. 5.7 Therefore they call absolutely all things that affect men’s sense τὰ πρός τι. This expression means that there is nothing at all that is self-dependent or which has its own power and nature, but that absolutely all things have ‘reference to something else’ and seem to be such as their appearance is while they are seen, and such as they are formed by our senses, to whom they come, not by the things themselves, from which they have proceeded. 5.8 But although the Pyrronians and the Academics express themselves very much alike about these matters, yet they are thought to differ from each other both in certain other respects and especially for this reason — because the Academics do, as it were, ‘comprehend’ the very fact that nothing can be comprehended, while the Pyrronians assert that not even that can by any means be regarded as true, because nothing is regarded as true.

6.1 In our early writings neither do Roman women swear by Hercules nor the men by Castor. 6.2 But why the women did not swear by Hercules is evident, since they abstain from sacrificing to Hercules. 6.3 On the other hand, why the men did not name Castor in oaths is not easy to say. Nowhere, then, is it possible to find an instance, among good writers, either of a woman saying ‘by Hercules’ or a man, ‘by Castor’; 6.4 but edepol, which is an oath by Pollux, is common to both man and woman. 6.5 Marcus Varro, however, asserts that the earliest men were wont to swear neither by Castor nor by Pollux, but that this oath was used by women alone and was taken from the Eleusinian initiations; 6.6 that gradually, however, through ignorance of ancient usage, men began to say edepol, and thus it became a customary expression; but that the use of ‘by Castor’ by a man appears in no ancient writing.”

(*) “according to Plin. N.H. VII.129, the celebrated Roman actor Roscius made 500,000 sesterces yearly.”

BOOK XII

(*) “Besides Caligula, who called Seneca’s essays ‘mere declamation exercises’ and his style ‘sand without lime’ (Suet. Calig. LIII), there were other critics of Seneca in his own day, as well as in the following Flavian epoch.”

(*) “Saltem or saltim is the accusative of a noun (cf. partim, etc.) derived by some from the root of sal-vus and sal-us; by others from that of sal-io; Walde, Lat. Etym. Wörterb. s.v. accepts Warren’s derivation from si alitem (formed from item), meaning ‘if otherwise’.”

BOOK XIII

(*) “Aristotle tells us that the lioness gives birth to young every year, usually 2, at most 6, sometimes only one. The current idea that the womb is discharged with the young is absurd; it arose from the fact that lions are rare and that inventor of the story did not know the real reason, which is that their habitat is of limited extent. The lionesses in Syria give birth 5 times, producing at first 5 cubs, then one less at each successive birth.”

(*) “It is of no use for one to know how to sing, unless he proves that he knows how by singing in public.”

Livros XIV ao XX apenas em latim (edição Rolfe-Thayer).

* * *

Consegui acesso ao texto integral na seqüência; agora, no entanto, procederemos sem numeração exata.

BOOK XIV

I “Against those who call themselves ‘Chaldaeans’ or ‘astrologers’, and profess from the movements and position of the stars to be able to read the future, I once at Rome heard the philosopher Favorinus discourse in Greek in admirable and brilliant language. But whether it was for the purpose of exercising, not vaunting, his talent, or because he seriously and sincerely believed what he said, I am unable to tell; but I promptly jotted down the heads of the topics and of the arguments which he used, so far as I could recall them immediately after leaving the meeting, and they were about to this effect: That this science of the Chaldaeans was not of so great antiquity as they would have it appear; that the founders and authors of it were not those whom they themselves name, but that tricks and delusions of that kind were devised by jugglers and men who made a living and profit from their lies. And since they saw that some terrestrial phenomena known to men were caused by the influence and control of the heavenly bodies, as for example the ocean, as though a companion of the moon, grows old and resumes its youth along with her — from this, forsooth, they derived an argument for persuading us to believe that all human affairs, both the greatest and the least, as though bound to the stars and constellations, are influenced and governed by them. But Favorinus said that it was utterly foolish and absurd to suppose, because the tide of the ocean corresponds with the course of the moon, that a suit at law which one happens to have about an aqueduct with his neighbours, or with the man next door about a party-wall, is also bound to heaven as if by a kind of chain and is decided by the stars. But even if by some divine power and purpose this could happen, yet he thought that it could by no means be grasped and understood in such a brief and scant span of life as ours by any human intellect, but he believed that some few things were conjectured παχυμερέστερον, (to use his own term), that is, ‘somewhat roughly’, with no sure foundation of knowledge, but in a loose, random and arbitrary manner, just as when we look at objects far away with eyes blinded by their remoteness from us.” Favorino foi realmente precursor neste raciocínio: reconhece a gravidade, mas apenas aquela que faria sentido: corpos imensos atuando sobre objetos relevantes!

For the greatest difference between men and gods was removed, if man also had the power of foreknowing all future events. Furthermore, he thought that even the observation of the stars and constellations, which they declared to be the foundation of their knowledge, was by no means a matter of certainty.” Exatamente. Porque ainda não havia telescópios, não tínhamos idéia da real dimensão e distância dos astros!

For if the original Chaldaeans,’ said he, ‘who dwelt in the open plains, watched the movements and orbits of the stars their separations and conjunctions, and observed their effects, let this art continue to be practised, but let it be only under the same inclination of the heavens as that under which the Chaldaeans then were. For the system of observation of the Chaldaeans cannot remain valid, if anyone should wish to apply it to different regions of the sky.’

For who does not see,’ said he, ‘how great is the diversity of the zones and circles of the heavens caused by the inclination and convexity of the earth? Why then should not those same stars, by which they maintain that all human and divine affairs are affected, just as they do not everywhere arouse cold and heat, but change and vary the weather, at the same time causing calm in one place and storm in another — why should they not, I say, produce one series of affairs and events in the land of the Chaldaeans, another among the Gaetulians, another on the Danube, and still another on the Nile?…’ Besides, he expressed his surprise that anyone considered it a certainty that those stars which they say were observed by the Chaldaeans and Babylonians, or by the Egyptians, which many call erraticae, or ‘wandering’, but Nigidius called errones, or ‘the wanderers’, are not more numerous than is commonly assumed; for he thought it might possibly be the case that there were some other planets [todo e qualquer corpo celeste, estrela, cometa, planeta] of equal power, without which a correct and final observation could not be completed, but that men could not see them because of their remarkable brilliance or altitude. ‘For’, said he, ‘some stars are visible from certain lands and are known to the men of those lands; but those same stars are not visible from every other land and are wholly unknown to other men. And granting’, said he, ‘both that only these stars ought to be observed, and that too from one part of the earth, what possible end was there to such observation, and what periods of time seemed sufficient for understanding what the conjunction or the orbits or the transits of the stars foretold? For if an observation was made in the beginning in such a manner that it was calculated under what aspect, arrangement and position of the stars anyone was born, and if thereafter his fortune from the beginning of his life, his character, his disposition, the circumstances of his affairs and activities, and finally also the end of his life were noted, and all these things as they had actually happened were committed to writing, and long afterwards, when the same stars were in the same aspect and position, it was supposed that those same things would happen to others who had been born at that same time; if the first observations were made in that way,’ said he, ‘and from such observations a kind of science was formed, it can by no means be a success. For let them tell me in how many years, pray, or rather in how many ages, the cycle of the observations could be completed.’”

Ciente de um modelo teórico de eterno retorno ou grande ano.

For he said that it was agreed among astrologers that those stars which they call ‘wandering’, which are supposed to determine the fate of all things, beginning their course together, return to the same place from which they set out only after an innumerable and almost infinite number of years, so that there could be no continuity of observation, and no literary record could endure for so long an epoch.” A isso os charlatães modernos redargüirão: mas descobrimos o sistema solar, os anos dos planetas em torno de nosso – insignificante no plano cósmico, é verdade! – sol, – mas ainda – o astro-rei sobre todos os timoratos indivíduos do Planeta Água!

And he thought that this point also ought to be taken into consideration, that one constellation presided at the time when a man was first conceived in his mother’s womb, and another one 10 months later when he came into the world, and he asked how it was consistent for a different indication to be made about the same person, if, as they themselves thought, a different position and order of the same stars gave different fortunes. But also at the time of marriage, from which children were expected, and at the very union of the husband and wife, he said that it ought to be indicated by a fixed and inevitable position of the stars, with what character and fortune men would be born; and, indeed, long before that, when the father and mother were themselves born, it ought to be foretold even then from their horoscope what offspring they would produce; and far, far back of that, even to infinity, so that, if that science rested on any foundation of truth, 100 years ago, or rather at the beginning of heaven and earth, and then on in an unbroken series of predictions as long as generation followed generation, those stars ought to have foretold what character and fortune anyone would have who is born today.”

Moreover, he thought that the most intolerable thing was their belief that not only occurrences and events of an external nature, but even men’s very deliberations, their purposes, their various pleasures, their likes and dislikes, the chance and sudden attractions and aversions of their feelings on trifling matters, were excited and influenced from heaven above; for example, if you happened to wish to go to the baths, and then should change your mind, and again should decide to go, that all this happens, not from some shifting and variable state of mind, but from a fateful ebb and flow of the planets. Thus men would clearly be seen to be, not λογικὰ ζῶα or ‘reasoning beings’, as they are called, but a species of ludicrous and ridiculous puppets, if it be true that they do nothing of their own volition or their own will, but are led and driven by the stars. ‘And if’, said he, ‘they affirm that it could have been foretold whether king Pyrrhus or Manius Curius was to be victorious in the battle, why, pray, do they not dare also to predict which of the players with dice or counters on a board will win?…’

and are unimportant things more difficult to understand than the important?…

Then, finally, he asked what answer could be made to this argument, that human beings of both sexes, of all ages, born into the world under different positions of the stars and in regions widely separated, nevertheless sometimes all perished together by the same kind of death and at the same moment, either from an earthquake, or a falling building, or the sack of a town, or the wreck of the same ship.”

“‘But if’, he said, ‘they answer that even in the life and death of men who are born at different times certain events may happen which are alike and similar, through some similar conjunction of the stars at a later time, why may not sometimes everything become equal, so that through such agreement and similarity of the stars many a Socrates and Antisthenes and Plato may appear, equal in birth, in person, in talent, in character, in their whole life and in their death?’Favorino realmente foi fundo! E nem precisava…

if the time, the manner and the cause of men’s life and death, and of all human affairs, were in heaven and with the stars, what would they say of flies, worms, sea urchins, and many other minute animals of land and sea? Were they too born and destroyed under the same laws as men? so that to frogs also and gnats either the same fates are assigned at birth by the movements of the constellations, or, if they do not believe that, there seemed to be no reason why that power of the stars should be effective with men and ineffectual with the other animals.”

These remarks I have touched upon in a dry, unadorned, and almost jejune style. But Favorinus, such was the man’s talent, and such is at once the copiousness and the charm of Greek eloquence, delivered them at greater length and with more charm, brilliance and readiness, and from time to time he warned us to take care lest in any way those sycophants should worm their way into our confidence by sometimes seeming to stumble upon, and give utterance to, something true.”

And after making many attempts they either happen suddenly on the truth without knowing it, or led by the great credulity of those who consult them, they get hold by cunning of something true, and therefore obviously find it easier to come somewhere near the truth in past events than in those to come….

They predict, either adverse or prosperous events. If they foretell prosperity and deceive you, you will be made wretched by vain expectations; if they foretell adversity and lie, you will be made wretched by useless fears. But if they predict truly and the events are unhappy, you will thereby be made wretched by anticipation, before you are fated to be so; if on the contrary they promise prosperity and it comes to pass, then there will clearly be 2 disadvantages: the anticipation of your hopes will wear you out with suspense, and hope will in advance have reaped the fruit of your approaching happiness. Therefore there is every reason why you should not resort to men of that kind, who profess knowledge of the future.” Perfeito.

VI “A friend of mine, a man not without fame as a student of literature, who had passed a great part of his life among books, said to me: ‘I should like to aid and adorn your Nights, at the same time presenting me with a book of great bulk, overflowing, as he himself put it, with learning of every kind. He said that he had compiled it as the result of wide, varied and abstruse reading, and he invited me to take from it as much as I liked and thought worthy of record. I took the book eagerly and gladly, as if I had got possession of the horn of plenty [cornucópia], and shut myself up in order to read it without interruption. But what was written there was, by Jove! merely a list of curiosities:” Que coisa, ele era igual a você, Aulo!

why Telemachus did not touch Pisistratus, who was lying beside him, with his hand, but awakened him by a kick…

It also contained the names of the companions of Ulysses who were seized and torn to pieces by Scylla;” Matéria interessante!

and besides what regions and cities had had a change of name, as Boeotia was formerly called Aonia, Egypt Aeria, Crete by the same name Aeria, Attica Acte, Corinth Ephyre, Macedonia Emathia, Thessaly Haemonia, Tyre Sarra, Thrace Sithonia, Paestum Poseidonia.”

BOOK XV

II “For he [Plato] thought that by the proper and moderate relaxation of drinking the mind was refreshed and renewed for resuming the duties of sobriety, and that men were gradually rendered happier and became readier to repeat their efforts. At the same time, if there were deep in their hearts any errors of inclination or desire, which a kind of reverential shame concealed, he thought that by the frankness engendered by wine all these were disclosed without great danger and became more amenable to correction and cure.”

that exercises of this kind for the purpose of resisting the violence of wine, are not to be avoided and shunned, and that no one ever appeared to be altogether self-restrained and temperate whose life and habits had not been tested amid the very dangers of error and in the midst of the enticements of pleasures. For when all the license and attractions of banquets are unknown, and a man is wholly unfamiliar with them, if haply inclination has led him, or chance has induced him, or necessity has compelled him, to take part in pleasures of that kind, then he is as a rule seduced and taken captive, his mind and soul fail to meet the test, but give way, as if attacked by some strange power. Therefore he thought that we ought to meet the issue and contend hand to hand, as in a kind of battle, with pleasure and indulgence in wine, in order that we may not be safe against them by flight or absence, but that by vigour of spirit, by presence of mind, and by moderate use, we may preserve our temperance and self-restraint, and at the same time by warming and refreshing the mind we may free it of whatever frigid austerity or dull bashfulness it may contain.”

XX “He [Euripides] is said to have had an exceeding antipathy towards almost all women, either because he had a natural disinclination to their society, or because he had had 2 wives at the same time (since that was permitted by a decree passed by the Athenians) and they had made wedlock hateful to him. Aristophanes also notices his antipathy to women in the first edition of the Thesmophoriazousae

BOOK XVI

X “Those of the Roman commons who were humblest and of smallest means, and who reported no more than 1500 asses at the census, were called proletarii, but those who were rated as having no property at all, or next to none, were termed capite censi, or ‘counted by head.’ And the lowest rating of the capite censi was 375 asses. But since property and money were regarded as a hostage and pledge of loyalty to the State, and since there was in them a kind of guarantee and assurance of patriotism, neither the proletarii nor the capite censi were enrolled as soldiers except in some time of extraordinary disorder, because they had little or no property and money.”

in times of danger to the State, when there was a scarcity of men of military age, they [proletarii] were enrolled for hasty service, and arms were furnished them at public expense.”

Adsidaus in the Twelve Tables is used of one who is rich and well to do, either because he contributed ‘asses’ (that is, money) when the exigencies of the State required it, or from his ‘assiduity’ in making contributions according to the amount of his property.”

XVIII Optics effect many surprising things, such as the appearance in one mirror of several images of the same thing; also that a mirror placed in a certain position shows no image, but when moved to another spot gives reflections; also that if you look straight into a mirror, your reflection is such that your head appears below and your feet uppermost. This science also gives the reasons for optical illusions, such as the magnifying of objects seen in the water, and the small size of those that are remote from the eye.”

Harmony, on the other hand, measures the length and pitch of sounds. The measure of the length of a tone is called ῥυθμός, or rhythm of its pitch, μέλος, or ‘melody.’ There is also another variety of Harmony which is called μετρική, or ‘Metric,’ by which the combination of long and short syllables, and those which are neither long nor short, and the verse measure according to the principles of geometry are examined with the aid of the ears. ‘But these things,’ says Marcus Varro, ‘we either do not learn at all, or we leave off before we know why they ought to be learned. But the pleasure,’ he says, ‘and the advantage of such sciences appear in their later study, when they have been completely mastered; but in their mere elements they seem foolish and unattractive.’

BOOKS XVII-XVIII-XIX-XX

(…) Nada de substancial.

GLOSSÁRIO INGLÊS:

cleaver: cutelo, machadinha, “A heavy, broad-bladed knife or hatchet used especially by butchers.”

gormandize: empanturrar-se

ictus: icto, acento agudo gramatical; ataque súbito (Med.).

pander: cafetão, proxeneta; bajulador.

pink: tipo de navio com uma grande divisória no meio

quack: charlatão

scimitar = scimiter: “A saber with a much curved blade having the edge on the convex side – in use among Mohammedans, esp., the Arabs and Persians.” = CIMITARRA, etim.: do italiano scimitarra.

sculler: remador

scullers’ boat: esquife

sinew: força, energia; tendão.

smack: barco de pesca

sterling: excelente

throng: multidão, aglomeração, ralé

Para o glossário latino, ver https://seclusao.art.blog/2023/05/07/superglossario-latim/ (constantemente atualizado)

TRADUÇÃO DA PÁGINA “MANUSMRITI” (LEIS DE MANU) DA WIKIPEDIA ENGLISH CONFORME VERSÃO ENCONTRADA EM 16 DE JULHO DE 2023 (COM OMISSÕES E CONDENSAÇÕES, DADO O CARÁTER REDUNDANTE DO VERBETE)

Manusmṛiti (Sânscritoमनुस्मृति), também conhecido como Mānava-Dharmaśāstra ou Leis de Manu ou Código de Manu, é um dos vários textos legais e constitucionais no repertório dos Dharmaśāstras, pertencente ao Hinduísmo. Na Índia Antiga os sábios costumavam anotar em manuscritos suas concepções sobre como deveria se organizar a sociedade. Reputa-se que a forma original do Manusmriti foi alterada e interpolada com comentários e opiniões de escritores póstumos, uma vez que muitas informações contradizem umas às outras.

Mais de 50 manuscritos do Manusmriti são conhecidos, mas a primeira versão descoberta, a mais traduzida, difundida e reputada como autêntica desde o século XVIII seria o “manuscrito Kolkata (antigamente referido como Calcutta) com comentários de Kulluka Bhatta”. A academia moderna considera esta alegação de legitimidade uma farsa, e os múltiplos manuscritos do Manusmriti descobertos na Índia são inconsistentes entre si, mesmo internamente, o que leva a crer que haja problemas de legitimidade do texto ligados a inserções e interpolações feitas sobre uma hipotética fonte original.

O texto, em versos, está em sânscrito, e é geralmente datado como sendo do primeiro ao terceiro século d.C., apresentando-se como um discurso dado por Manu (Svayambhuva) e Bhrigu sobre assuntos do dharma como obrigações, direitos, leis, conduta, virtudes, entre outros. A influência do texto foi detectada fora do próprio território indiano pela historiografia. A lei búdica medieval de Myanmar e da Tailândia também são atribuídas a Manu, e o texto influenciou reinos hinduístas passados no Camboja e na Indonésia.

As Leis de Manu foram uns dos primeiros escritos sânscritos a ser traduzidos para a língua inglesa em 1776, pelo filólogo britânico William Jones; foram usadas como refência para a criação do código hinduísta da Colônia (o enclave da Companhia das Índias Orientais administrado pela Inglaterra).

Nomenclatura

O título Manusmriti é relativamente recente, cunhado provavelmente devido à natureza versificada do documento. Os mais de 50 manuscritos descobertos nunca usam esse título, e sim Manava Dharmasastra (sânscrito: मानवधर्मशास्त्र) em seus colofões no fim de cada capítulo. Na academia, ambos os títulos, portanto, se referem ao mesmo texto.

Cronologia

William Jones Karl Wilhelm Friedrich Schlegel dataram o Manusmriti como tendo sido escrito por volta de 1250 a.C. e 1000 a.C., respectivamente, o que, do ponto de vista da lingüística atual, é insustentável, uma vez que a linguagem do texto, que tem de ser atribuída a um período posterior ao texto védico mais tardio, não é anterior, de perspectiva alguma, a pelo menos 500 a.C. Ultimamente, porém, os escoliastas atualizaram a provável data do texto como provindo de período ainda mais recente: do primeiro ou segundo século da era cristã. Patrick Olivelle, filólogo e indologista, acrescenta que evidências numismáticas e a menção de moedas de ouro sugerem uma datação ainda mais avançada, séculos II ou III.

Maioria dos orientalistas considera o texto um compósito produzido por múltiplos autores durante um vasto período de tempo. Olivelle acredita que os textos indianos antigos e medievais passaram sem exceção por exaustivas revisões e reedições, e neste caso suas pesquisas indicariam um protótipo do Manusmriti contendo 100 mil versos e 1080 capítulos. Não obstante, a versão moderna, de acordo com o próprio Olivelle, seria uma supercondensação de autoria de um autor único, ou de um guru com uma equipe de assistentes.

O Manusmriti, segundo Olivelle, nunca foi um documento original – ele bebe de outros textos e reflete “uma cristalização do conhecimento acumulado” na Índia Antiga. A raiz dos modelos teóricos inscritos no Manusmriti pode ser dita como consistindo, no mínimo, de 2 shastras (“disciplinas”, em forma de um livro contendo um código moral) que o precedem: artha (política e direito) e dharma (conceito hindu muito antigo que engloba o que chamamos de obrigações, direitos, leis, condutas, virtudes e outras prescrições discutidas nos vários Dharmasastras, todos mais antigos que o Manusmriti). Seus conteúdos podem ser traçados como originados nos Kalpasutras da era védica, que levaram ao desenvolvimento dos Smartasutras, compostos dos Grihyasutras e Dharmasastras. Os textos fundadores do Manusmriti incluem vários desses sutras ou sastras, todos eles da era pré-cristã. Muitos deles inclusive conhecemos apenas de nome, sendo 4 os remanescentes: os códigos legais de Apastamba, Gautama, Baudhayana e Vasishtha.

Estrutura

A versão antiga do texto foi dividida pelos modernos em 12 Adhyayas (capítulos); aquela não possuía nenhuma divisão. O texto cobre vários temas, sendo único entre textos hindus antigos no uso de “versos de transição” que demarcam o fim de um assunto e o começo de outro. O texto pode ser, a rigor, dividido tematicamente em 4, com proporções bem diferentes entre as seções, e com algumas subseções:

  1. Criação do mundo

  2. A fonte do dharma

  3. O dharma das 4 classes sociais

  4. A lei do karma, do renascimento e da liberação final

O texto foi composto na métrica Shlokas (versos), na forma de um diálogo entre um mestre exortativo e discípulos ansiosos para aprender os vários aspectos da doutrina do dharma. Os primeiros 58 versos são atribuídos ao próprio Manu, enquanto os mais de 2 mil versos restantes são atribuídos ao seu discípulo Bhrigu. Olivelle lista as subseções como segue:

Fontes da lei

Dharmasya Yonih (Fontes da Lei) tem 24 versos e 1 verso de transição. Eles contêm o que o texto considera a justa e adequada fonte da lei:

वेदोऽखिलो धर्ममूलं स्मृतिशीले तद्विदाम् आचारश्चैव साधूनामात्मनस्तुष्टिरेव

Tradução 1: O Veda inteiro é a (primeira) fonte da lei sagrada, em seguida vêm a tradição e a conduta virtuosa daqueles que conhecem o Veda, além dos costumes de homens pios e, por fim, a auto-satisfação ou auto-contentamento (Atmana santushti).

Tradução 2: A raiz do dharma são, além do Veda, a tradição e os costumes daqueles que conhecem o Veda, além da conduta de pessoas virtuosas, considerando o que é útil e interessante para si mesmo.

— Manusmriti 2.6

वेदः स्मृतिः सदाचारः स्वस्य प्रियमात्मनः एतच्चतुर्विधं प्राहुः साक्षाद् धर्मस्य लक्षणम्

Tradução 1: O Veda, a tradição sagrada, os costumes dos homens virtuosos e o próprio prazer individual, declaradas como as fontes quádruplas da definição da sacralidade da lei.

Tradução 2: O Veda, a tradição, a conduta das pessoas boas e o que é prazeiteiro ao indivíduo – dizem que estes são os 4 caminhos do dharma.

— Manusmriti 2.12

Esta seção do Manusmriti, como outros textos de direito hindus, incluem 4 fontes do dharma, como enfatiza Levinson, o que inclui o Atmana santushtiSadachara (normas locais de indivíduos que se sobressaíram em vida), Smriti (a rememoração intergeracional da sabedoria) e Sruti (sermões ouvidos).

Dharma das 4 Varnas (castas)

Mais informações: Varna (Hinduism)

  • 3.1 Regras relativas à Lei (2.25 – 10.131) (notação: capítulo ponto verso)

    • 3.1.1 Regras da ação em tempos de paz (2.26 – 9.336)

      • 3.1.1.1 O Dharma quádruplo de um brâmane (2.26 – 6.96) (contém a seção mais longa do Manusmriti subseção 3.1, chamada dharmavidhi)

      • 3.1.1.2 Regras de ação para um rei secular (7.1 – 9.324) (Contém 960 versos, inclui a descrição de instituições e funcionários do Estado, como os funcionários devem ser escolhidos, leis de impostos, regras da guerra, o papel e os limites do poder do rei (o governante civil), e longas seções cobrindo 18 razões para litigância, incluindo aquelas relativas ao descumprimento de um contrato, quebras de contrato, o não-pagamento de salários, disputas de propriedade, disputas de herança, humilhação e difamação, agressão física, roubo, violência sob qualquer forma, lesões, crimes sexuais contra as mulheres, a segurança pública e outras. A seção inclui ainda regras sobre a formação de provas, regras sobre interrogatórios de testemunhas e a organização dos tribunais.)

      • 3.1.1.3 Regras de ação para Vaiśyas e Śūdras (9.326 – 9.335) (a menor seção, 8 regras para os vaishyas, 2 para os shudras, mas algumas dessas leis aplicáveis a estas duas classes são discutidas de maneira muito geral ainda nos versos 2.26 a 9.324)

    • 3.1.2 Regras de ação em tempos de adversidade (10.1 – 11.129) (contém regras estipuladas pelo aparato estatal às 4 varnas para tempos de guerra, fome ou outras emergências ou calamidades)

  • 3.2 Regras relativas à penitência (11.1 – 11.265) (inclui regras de punição proporcional ao delito; em vez de multas, encarceramento ou morte, discute sobre a auto-penitência ou isolamento social como forma de punir certos crimes brandos.)

Os versos 6.97, 9.325, 9.336 e 10.131 são também de transição. Olivelle observa instâncias de interpolação e inserção nos textos das seções, tanto na versão vulgar quanto na edição crítica, que nesse aspecto não diferem.

Determinação do Karmayoga

Os versos 12.1, 12.2 e 12.82 são transicionais. Esta seção está em um estilo diferente do restante do texto, suscitando a dúvida de se todo o capítulo não teria sido interpolado. Enquanto que há evidências para julgar que este capítulo foi redigido ao longo de vários séculos, não pode ser descartada a hipótese de que o capítulo inteiro seja uma interpolação única, anexada mais tardiamente a uma versão mais antiga do Manusmriti.

  • 4.1 Frutos da ação (12.3–81) (seção sobre ações e conseqüências, responsabilidade pessoal, ação como meio de alcance do moksha – a maior felicidade terrenal)

  • 4.2 Regras da ação para o supremo bem (12.83–115) (pequena seção sobre karma, obrigações e responsabilidades como meio para atingir o supremo bem)

O último verso do Manusmriti declara

एवं यः सर्वभूतेषु पश्यत्यात्मानमात्मना सर्वसमतामेत्य ब्रह्माभ्येति परं पदम्
Aquele que reconhece em sua alma individual (
SelfAtman) a alma universal que existe em todos os seres se torna Uno em consciência com todos os demais e ingressa no estado supremo, Brahman.

— Manusmriti 12.125, manuscrito de Calcutta com comentários de Kulluka Bhatta.

Conteúdo

A estrutura e o conteúdo do Manusmriti sugere ser este um documento predominantemente destinado aos brâmanes (a classe sacerdotal) e aos Kshatriyas (reis políticos, administração e classe guerreira). O texto dedica 1034 de seus versos, ou seja, mais da metade, a leis que concernem às virtudes bramânicas, e 971 à segunda classe. A declinação de regulamentos para os Vaishyas (classe mercante) e os Shudras (artesãos e trabalhadores braçais) é sempre mais breve e econômica. Olivelle sugere que tal característica pode ser explicada pela necessidade dos autores ou do autor de estabelecer, em prol do equilíbrio intercastas, “a mediação do poder político (temporal) e os interesses sacerdotais (espirituais)”. Teria sido, a da confecção do documento, uma época de aumento de invasões de povos estrangeiros à Índia.

Sobre as virtudes e a condição de pária

O Manusmriti enumera e prescreve virtudes em muitos de seus versos. Um exemplo seria o verso 6.75: a não-violência é a palavra de ordem, e a temperança um comportamento fundamental. No verso 10.63 consta que as 4 varnas devem se abster de machucar qualquer criatura, de mentir e de roubar bens e propriedades.

Analogamente, no verso 4.204, Olivelle ressalta, alguns manuscritos do Manusmriti descrevem as virtudes desejadas como sendo “compaixão, tolerância, veracidade, pacifismo, auto-controle, desapego dos desejos, meditação, serenidade, candura e honestidade” em primeiro lugar; logo depois viriam “purificação, sacrifício, trabalho ascético, caridade, recitação dos Veda, restrição dos órgãos sexuais, observâncias (dos preceitos védicos), jejuns, cultivo do silêncio e asseio”. Alguns manuscritos do texto contêm um verso 4.204 diferente, listando “não machucar ninguém, falar sempre a verdade, ser casto, sincero e nunca um ladrão” como virtudes centrais; enquanto “não ceder à ira, obedecer ao mestre, purificar-se, comer com moderação e vigilância” como as virtudes secundárias exigidas.

Em uma terceira variante de manuscritos do Manusmriti descoberta, incluindo o mais prolificamente traduzido (de Calcutá), o texto declara, no verso referido, que todos os preceitos dos Yamas, como a ahimsa, são essenciais; e que preceitos dos Niyamas, tais quais Ishvarapranidhana (veneração de um deus pessoal) são menores, e que os brâmanes que pratiquem apenas Niyamas e não Yamas se tornarão párias ou proscritos, excluídos das 4 varnas, destituídos de direitos.

Relevância do Manusmriti

Escolhas, comportamentos e ética

O Manusmriti possui muitos versos descrevendo obrigações de uma pessoa para consigo mesma e seus próximos, incluindo códigos morais e legais. Trata-se de um contraste similar à divisão moderna entre regras informais que imperam nas relações de matrimônio ocidentais (que não são objeto do código penal, mas tabus) e que rebaixam a condição de crianças nascidas fora de casamentos formais; mas que ao mesmo tempo buscam, na letra da lei, uma proteção do estatuto da infância, que deve ser digna independentemente do contexto do nascimento da criança. [Trecho muito mal escrito e inoportuno para uma página de enciclopédia, na minha opinião. Traduzi torcendo o nariz.]

Condutas individuais são extensamente previstas. Os versos 2.51–2.56 recomendam que um monge (asceta, sábio ou guru em treinamento) viva da mendicância, mas que sempre dê a comida e o dinheiro adquiridos primeiro a seu mestre antes de poder comer e usufruir ele mesmo da quantia. Deve-se reverenciar a comida obtida e comer tudo sem desdém, mas nunca recair na gula e intemperança, o que é prejudicial à saúde. No verso 5.47 o texto cita que o trabalho se torna menos árduo quando o homem medita durante sua execução e só executa aquilo que tem prazer em executar, e quando este ofício não prejudica outras criaturas.

Uma miríade de versos se concentra sobre as interdições e recomendações no tocante ao consumo de carne; normalmente ele implica o sofrimento animal e seu consumo é mau. Há uma apologia do vegetarianismo avant la lettre. E no entanto não parecem prescrições absolutas, pois o tom é temperado para que o praticante sempre escolha sua conduta e sua dieta com diligência conforme seu contexto (se não for possível evitar a carne, que se a coma). O verso 5.56 diz: “não é pecado comer carne ou ingerir licores, ou praticar o sexo; essas são atividades naturais das criaturas. Abster-se de tais atividades, entretanto, é gratificante para o sujeito”.

Sobre os direitos da mulher

O Manusmriti é mais inconsistente e contraditório consigo mesmo quando trata das funções da mulher na sociedade. Diz-se que o casamento não pode ser dissolvido por uma mulher ou por um homem (vv. 8.101–8.102); em outras seções o divórcio é autorizado para ambas as partes. Conforme os vv. 9.72–9.81 um casamento fraudulento pode ser anulado, bem como a relação abusiva, assim como os divorciados podem contrair cada qual um segundo matrimônio. Há também previsão legal para mulheres contraírem novo casamento mediante desaparecimento ou abandono comprovado do marido.

Prega-se, alhures, a castidade das viúvas (vv. 5.158–5.160), e interdita-se o casamento fora da própria casta (vv. 3.13–3.14). Nos vv. 2.67–2.69 e 5.148–5.155 o Manusmriti declara que toda garota deve obedecer e buscar a proteção do pai, a jovem a do marido, e a viúva a do filho. E que uma mulher deve sempre venerar seu marido, e seu filho, vicariamente, após a morte do marido. Essa veneração deve ser análoga à veneração de um deus; e o homem não deve considerar sua esposa menos do que a encarnação de uma deusa. Nos vv. 3.55–3.56 o Manusmriti cita: “as mulheres devem ser honradas e estar sempre adornadas”, e “onde as mulheres são reverenciadas, os deuses se regozijam; onde elas não o são, nenhum ritual sagrado gera qualquer benefício”. Nos vv. 5.147–5.148 temos: “uma mulher nunca deve buscar viver sozinha”.

E, concomitantemente, o texto enumera numerosas práticas de casamentos intercastas (anulomapratiloma, etc.), mesmo o de um brâmane com uma Sudra (primeira com quarta casta) (vv. 9.149–9.157), uma viúva que engravida de um outro homem (vv. 9.57–9.62), ou ainda o de casais fugitivos [!] – que depois de haverem fugido para contrair relações que não seriam autorizadas pelas famílias podem ser legalmente reconhecidos no direito de família caso regressem, conforme os vv. 9.143–9.157 –, sem ignorar ainda [como antecipado mais acima] os direitos que não deixam os menores em situações excepcionais desassistidos socialmente.

O texto tampouco se cala diante da situação da gravidez da mulher casada de um homem que não seja o marido, dedicando-lhe os vv. 8.31–8.56: a custódia deve ser da mãe e do marido legalmente constituído, e não do pai biológico.

O Manusmriti prevê que a mulher tem direito a possuir 6 diferentes tipos de propriedade (vv. 9.192–9.200), quais sejam: dote, doação após fuga com o amado, resgate após seqüestro, presente facultativo do noivo ou de sua família sangüínea; e a última hipótese, a da herança.

Flavia Agnes, feminista indiana contemporânea, comenta que o Manusmriti não é de fácil interpretação da perspectiva feminina. A lei imposta pela colonização inglesa fundiu algumas das noções hindus com certos preceitos disseminados pelo islamismo, mas ignorou vários conteúdos de ambas as religiões, presentes na região da Colônia, enfatizando outros, criando um direito inédito. Toda essa intervenção inglesa (para pior, no caso do reconhecimento de direitos mais amplos às mulheres) criou mitos a respeito de um papel histórico precursor do Manusmriti no sul da Ásia. Embora possua pontos considerados avançados na isonomia dos sexos, a legislação de Manu não pode ser considerada “progressista” do ponto de vista atual.

Do Estado e da arte militar

O capítulo 7 se concentra no rei (líder da segunda casta): quais as suas obrigações, que virtudes deve cultivar e que vícios deve evitar. Os vv. 54 a 76 explicam como deve ser a nomeação de ministros, embaixadores e servidores. Descreve-se como deve ser estruturada a capital dum império. O Manusmriti segue explicando o direito de guerra, discriminando que a negociação pacífica e as tentativas de reconciliação devem ter sempre prioridade. Caso a guerra seja inevitável, o soldado não está autorizado a ferir civis, não-combatentes ou mesmo inimigos rendidos. Deve-se empregar força apenas proporcional, dentre outras noções éticas muito familiares ao direito moderno ocidental. Indiretamente relacionada ao assunto está a cobrança de tributos a povos submetidos, de 7.127 a 7.137.

Autenticidade e inconsistências nos vários manuscritos

Olivelle, creditado como tradutor de uma edição dos Manusmriti publicada em 2005 pela Oxford Press, prefacia que na academia pós-moderna (contemporânea) não há como falar em autenticidade ou inautenticidade do texto per se:

MDh foi o primeiro texto jurídico hindu a ser conhecido pelo Ocidente, em 1794. … Todas as suas edições, exceto a de Jolly, reproduzem o texto do manuscrito de Calcutta com os comentários de Kulluka. Eu denomino essa versão de vulgar ou popular (a vulgata do Código de Manu). Esta versão é a mais conhecida por ter ganhado traduções de W. Jones (1794), Burnell (1884), Bühler (1886) e Doniger (1991). … A crença na autenticidade do texto de Kulluka foi debatida por Burnell (1884, xxix): ‘Restam poucas dúvidas de que o texto recebido de Kulluka Bhatta, adotado por estudiosos europeus e indianos, seja muito próximo ao texto do manuscrito original.’ Essa é uma afirmação leviana. Quem já investigou a maioria da mais de meia centena de manuscritos existentes sabe que há mais divergências que coincidências em relação ao conteúdo.”

— Patrick Olivelle, Manu’s Code of Law (2005)

Sinha acredita que no máximo 1214 dos 2685 versos poderiam ser considerados genuínos. Apontam-se contradições internas em versos como 3.55–3.62 (glorificação da mulher) e 9.3 e 9.17 (extrema objetificação da mulher). Algumas passagens, direcionadas a Ganesha, seriam absolutamente forjadas. Robert E. Van Voorst hipotetiza que os vv. 3.55–60 podem se referir ao tratamento destinado à mulher no lar, e os trechos que a objetificam refletiriam apenas o aspecto público de uma sociedade estritamente patriarcal, o que seria segundo o autor perfeitamente conciliável.

Mahatma Gandhi disse o seguinte a respeito das contradições do Manusmriti:

Considero o Manusmriti uma parte dos shastras. Isso não significa que me comprometa com todos os versos impressos neste livro. É mesmo humanamente impossível fazê-lo.”

— Mahatma Gandhi, On Adi-Dravida’s Difficulties

Comentários

Há uma verdadeira escola de comentaristas (escoliastas) do texto já no período medieval da Índia. Bhāruci é o mais antigo dos comentadores. Kane data sua vida entre os séculos X e XI, Olivelle no VIII e J. Duncan M. Derrett entre o VII e o VIII. Significa que com base nesses três escoliastas modernos podemos inserir Bhāruci em qualquer ano do 600 a 1200 d.C. O comentário de Bhāruci é denominado Manu-sastra-vivarana e tem muito menos versos que a versão vulgar (Kullūka-Calcutta) em circulação desde a época da colonização britânica. Há algumas referências a textos mais antigos, reputados como para sempre perdidos. O comentário mais antigo é alternativamente chamado Raja-Vimala. Derrett aponta que Bhāruci é “no geral mais fidedigno ao propósito histórico do Manusmriti” do que qualquer outro exegeta.

O comentário de Medhātithi foi bastante estudado. Buhler, Kane e Lingat crêem que ele fôra um autor da Índia setentrional, provavelmente da Caxemira. A estimativa é que sua resenha tenha sido escrita entre os séculos IX e XI.

O comentário de Govindarāja, Manutika, é estabelecido com precisão como pertencente ao século XI. Isso porque foi referenciado por outros 2 comentários, Jimutavahana e Laksmidhara, tendo sido, segundo Olivelle, plagiado por Kullūka.

Kullūka ele mesmo, que escreveu o Manvarthamuktavali, além da propria versão mais consagrada do Manusmriti, criou basicamente toda a reputação não-erudita e grande parte da reputação erudita do Código de Manu, e seu manuscrito foi descoberto na Calcutá da época em que estava sob controle britânico. Não há “mérito” em sua maior reputabilidade, de fato: foi por sorte a versão achada primeiro. Sua datação é o séc. XIII, como período mais precoce possível, ou XV, previsão mais tardia.

O comentário de Nārāyana, intitulado Manvarthavivrtti, é mais provavelmente do século XIV. A vida de seu autor é um tanto obscura, embora o nome seja freqüentemente citado na literatura hindu. Tanto Nārāyana é considerado fonte indispensável que foi este comentador a principal base para a edição crítica do Manusmriti de 2005.

Nandana, do sul da Índia, em seu comentário Nandini, oferece pistas sobre todas as interpolações no manuscrito que derivem de gurus do hemisfério meridional do país.

Outros escoliastas medievos de somenos importância são Sarvajnanarayana, Raghavananda e Ramacandra.

Relevância e papel histórico

Para as Índias antiga e medieval

Há grande ceticismo sobre se o Código de Manu foi jamais uma fonte real do Direito na Índia antiga ou medieval (do nosso calendário). David Buxbaum: “Na opinião dos mais proeminentes comentaristas contemporâneos, a quantidade de prescrições inscrita neste único documento jamais foi um documento oficial do (proto-)Estado do Hindustão. É mais uma obra defendendo uma concepção ideal a ser implementada, como A República de Platão.”

Donald Davis: “não há evidência histórica de uma ativa propagação ou implementação do Dharmasastra (entender como sinônimo do Manusmriti) por iniciativa de qualquer governador ou instituição – o texto foi sempre uma matéria sacerdotal passada adiante. Categorizar o texto como peça de direito, portanto, seria compreendê-lo mal.”

Outros estudiosos corroboram a visão de Davis, seja via fontes epigráficas, arqueológicas ou textuais da época medieval do hinduísmo e os reinos então constituídos, no Gujarat, em Kerala e em Tamil Nadu, reconhecendo, muito embora, certa influência dos mandamentos éticos sobre as legislações do sul da Ásia, nem que apenas como fonte teórica de códigos ali instalados a posteriori, sem tanta verossimilhança prática.

Fora da Índia

Os Dharmasastras, particularmente o Manusmriti, diz Anthony Reid, foram muito venerados na Birmânia (a já citada atual Myanmar). Wareru Dhammathat cita outras regiões: Sião (Tailândia), Camboja e Java-Bali (Indonésia). Os reis destes lugares seguiam o Manusmriti literalmente, diferente da própria Índia pré-moderna, que afinal é a mãe do documento. Em Java havia maior flexibilidade e tolerância quanto aos mandamentos de Manu. Deve-se esclarecer, entretanto, que os manuscritos que circulavam pelo Sudeste Asiático diferem consideravelmente da versão vulgar mais célebre. Há interpolações no manuscrito Calcutta feitas em séculos mais recentes, próximos à invasão anglo-saxã da Índia.

Para a Índia britânica

Artigo principal: Lei hindu (em inglês)

Antes da lei britânica, a Sharia (lei do Islã) fôra codificada pelos muçulmanos espalhados no sul da Ásia e rebatizada como Fatawa-e-Alamgiri. A Sharia é posterior ao Alcorão em si, mas foi aceita pelos maometanos como a “parte legal” derivada do Corão. No entanto, a lei para não-muçulmanos (hindus, budistas, sikhs, jainistas, parsis) – não fôra instituída. Com a chegada da marinha britânica o Manusmriti desempenhou um papel histórico de construção de um sistema não-muçulmano legal onde previamente havia um vácuo de normas oficiais e escritas. A percepção européia da Índia foi muito condicionada pelo conteúdo do texto. Como antes do século XVIII não havia virtualmente quase nada de empírico e sério veiculado no Ocidente sobre os hindus, estas foram as “primeiras impressões sérias” da nação, o que decerto distorceu ainda por muitas décadas a compreensão do Oriente pelo Ocidente (processo cuja mitigação ainda está em curso).

Os britânicos apoiaram o imperador de Mughal. Nasceram ali o legislativo e o judiciário indianos, por assim dizer. A Companhia das Índias Orientais, posteriormente apenas a Coroa Britânica, buscava o lucro nas suas relações com os lugar-tenentes ingleses ali estabelecidos e a manutenção da ordem política via controle militar, mais ou menos relaxado ou autoritário, conforme o contexto. A administração recém-modernizada do país nunca praticou tantas arbitrariedades quanto, p.ex., os lusos e espanhóis na América, pelo menos em teoria – buscava-se uma via racional do “menor esforço”, associando-se as autoridades inglesas a intermediários locais, “convertidos” aos valores do Ocidente, a fim de governar de maneira indireta e menos truculenta, mas igualmente eficiente e monopolista.

É claro que houve transigência no processo: os ingleses também recuavam e se adaptavam a costumes hindus que a população não aceitasse modificar ou reformar em absoluto. Sendo assim, com a lei muçulmana e o Código de Manu, a Inglaterra manteve sua grande Colônia sob controle e estabilidade, respeitando minimamente a cultura e as religiões locais. Até mesmo conflitos entre etnias hindus não sofriam pesada interferência do exército inglês. Essa política de mínima intervenção não mudaria até o final do século XIX.

No que concerne a heranças, casamento, castas e instituições de outras religiões [em relação à Igreja Anglicana], o Alcorão, para os de fé islâmica, e o Shaster (shastras) para os gentoos (hindus) são os dois únicos sistemas legais vigentes.”

— Warren Hastings, Governador-Geral das Índias, 15 de agosto de 1772

Chama a atenção, contudo, como os oficiais britânicos interpretavam o Manusmriti como um código de leis, penal, civil, etc., nos moldes ocidentais, não compreendendo que se tratava de um comentário sobre costumes, ética e leis sacerdotais (transcendentais), o que muito difere das Constituições positivistas modernas. Ademais, muitas autoridades do Império não sabiam que o Código de Manu era apenas uma pequena parte de toda uma tradição milenar de dezenas de milhares de páginas. Ou seja, que o Código de Manu não era uma autoridade absoluta para o brâmane, mas sua própria fiabilidade derivava do reconhecimento do Veda e dos Upanishads como instâncias supremas da normatização da vida da casta superior e, em decorrência, das demais três e dos párias.

A codificação das duas leis pelos britânicos começou em 1772 e continuou séc. XIX adentro, com ênfase em apenas alguns textos, e em algumas passagens dos textos que julgavam mais importantes, ignorando quão dinâmica era a estrutura da sociedade hindu. O status da mulher se viu, por exemplo, estagnado por completo, graças à transigência inglesa quanto às tradições indianas que eles próprios só compreendiam pela metade. A economia e sua evolução pareciam a preocupação prioritária do Império e único elemento que admitia avanços e reformas. No processo de codificação legal, os ingleses deram ouvido principalmente aos prosélitos muçulmanos e hindus, nem sempre os mais recomendáveis pregadores da própria religião. Muitas leis de costumes que não consideraríamos hindus em povoados relativamente isolados ou autônomos sofreram uma “islamização” ou “bramanização” indiscriminada, tanto quanto os ingleses conseguiam penetrar o território. Em suma, séculos de desenvolvimentos plurais foram achatados numa lei de formato unívoco e linear que não refletia de forma alguma o cotidiano da população local.”

— Abdullahi Ahmed An-Na’im, Islam and the Secular State: Negotiating the Future of Sharia [O Islã e o Estado Secular: Negociando o Futuro da Sharia]

Comparações com outros dharmasastras

Mais informações: Dharma e Dharmashastra

Além do Código de Manu a Índia contava com de 18 a 36 dharmasastras ou shastras “concorrentes entre si”, nas palavras de John Bowker. Muitos destes, todavia, foram irremediavelmente perdidos. Alguns sobreviveram em fragmentos. Poucos em sua completude, e mesmo assim nas mesmas condições do presente objeto de estudo (interpolados, modificados, com fragmentos irreconciliáveis entre si, etc.). No entanto há sempre notícias desses shastras nos inúmeros textos da religião hindu, e uns influenciam ou influenciaram os outros numa grande rede. Quanto aos comentários de natureza jurídica, depois do smriti, foi o dharma sutra mais arcaico, o Yajnavalkya Smriti, o que mais atraiu a atenção dos estudiosos. Em seguida poderíamos citar o Narada Smriti e o Parashara Smriti. De acordo com Ghose et al., o Yajnavalkya Smriti era mais citado que o Código de Manu na temática da governança (prática política). Este texto não tem datação definida e sua composição é nitidamente uma junção de outros escritos. Possivelmente ele é vários séculos mais recente que o próprio Manusmriti, mais “conciso, metódico, bem-dividido em seções e algo mais liberal quanto aos costumes muito rígidos prescritos à casta sacerdotal”.

Pelos 18 títulos de suas leis, o Yajnavalkya segue o mesmo padrão do Código de Manu, com ligeiras modificações. No tópico dos direitos das mulheres, incluindo a herança, no status dos Sudras, nas penas criminais, o Yajnavalkya é muito mais liberal. … Ele lida exaustivamente com a criação de documentos válidos, a lei das hipotecas e negócios em associação (o direito de corporações e empresas).”

M. Rama Jois, Legal and Constitutional History of India

Jois sugere que a verve mais liberal do Yajnavalkya Smriti possa decorrer da influência do budismo. As diferenças também incluem a adição, por Manu, de versos concernentes à organização de monastérios, arrendamento de terras, execuções de obrigações, etc. O Yajnavalkya era mais referenciado por reinos hindus na era medieval, como exposto no comentário do Vijñāneśvara chamado Mitakshara, do séc. XII.

Recepção moderna

Figuras indianas proeminentes divergem bastante na interpretação do Manusmriti. B.R. Ambedkar (à esq.) queimou o manuscrito em 1927. Gandhi (à dir.) prefere considerá-lo uma mistura de exposições elevadas com ensinamentos contraditórios. Gandhi sugere, portanto, uma leitura crítica, desconsiderando as partes contrários à ahimsa.

Entre os principais críticos nativos do texto no século XX podemos citar, que Ambedkar culpa o texto pela consolidação do sistema de castas. Como referenciado, em protesto, ele queimou um exemplar do Código de Manu numa fogueira em ato público em 25 de dezembro de 1927. Gandhi era contra a queima de livros, não importando seu teor. Mahatma considerava que as discriminações de casta, muito nocivas para o desenvolvimento nacional e espiritual do povo hindu, não estão inerentemente ligadas aos indianos como Estado nem muito menos ao sistema hindu de crenças. O texto reconhece diferentes vocações e profissões, define mais obrigações que direitos e se parece muito mais com um manifesto da importância equivalente do guru e do “zelador” (o que nós devemos entender muito mais como o verdadeiro papel do Kshatriya no lugar da enganosa palavra “rei”), ou do não-aristocrata, pois entende-se nas entrelinhas que sem os segundos não há sentido de ser da classe sacerdotal – visto que um povo não pode viver apenas de seus sacerdotes. Assevera ainda que o original podia ter um sentido diferente da versão que conhecemos, depois de séculos de emendas. O mérito maior do Manusmriti seria pregar a não-agressão e a resistência pacífica, tão úteis na independência da Índia no século XX.

A versão lida por Friedrich Nietzsche é a tradução de Louis Jacolliot. O filósofo tanto elogia quanto critica o Manusmriti:

  • O Código de Manu seria “um trabalho incomparavelmente superior, em espiritualidade”, aos escritos sagrados do cristianismo. “O livro brilha em todos os seus versos” e sua deontologia “é a de uma classe de nobres, composta de filósofos ou guerreiros, [quem] está em posição hierárquica mais alta que a da população comum”. Nietzsche não defende o sistema de castas, enfatiza David Conway, mas endossa o princípio da possibilidade da exclusão política conforme exposto pelo Código de Manu. Nietzsche considerava a ordem social de Manu muito distante da perfeição, mas entendia que a idéia da separação em castas não é incomum entre as culturas, sendo uma imposição social de uma minoria sobre uma população, sendo um fato sociológico ou antropológico, independentemente de ser desejável ou não. Nietzsche considera que qualquer hierarquia grupal, de classe ou de casta, apenas reflete a inerente necessidade humana de elaborar um ranqueamento dos próprios valores, ainda que se tratasse de uma lista individual, por exemplo, hierarquizando nomes próprios da História, ou de virtudes de uma mesma pessoa em ordem de relevância, o que parece ser um comportamento universal do homem. No fim, a formação social hindu poderia ser resumida como uma tentativa de obtenção da, uma busca pela, excelência.  Julian Young, intérprete de Nietzsche: “A natureza, e não Manu, estabelece separações: pessoas predominantemente espirituais, pessoas consideradas fortes de temperamento e também fisicamente, e um terceiro grupo de medíocres.”

  • Abaixo vem a parte criticada por Nietzsche. Segundo Walter Kaufmann, em contradição com Conway, N. “denuncia a forma como o Código de Manu lida com os proscritos, alegando que nada ofende nem indigna o sentimento do ocidental mais do que o ali estabelecido para os menos privilegiados…” Nietzsche de fato escreveu o seguinte: “esses regulamentos, produtos de uma etnia ariana bastante remota, ‘pura’, nos ensinam que o conceito de pureza de sangue é o exato oposto de uma ‘idéia inofensiva’”.

A historiadora Romila Thapar descarta por completo a opinião de Ambedkar, dita como estereotipada até o ridículo. Para Thapar, evidências arqueológicas nunca confirmaram uma pretensa perseguição aos budistas por Pushyamitra, conforme Ambedkar alegava. Ao contrário, existe uma epígrafe no portão de Bharhut, do tempo dos Shungas, que parece exalter o budismo.

Pollard et al. pensam que o Código de Manu se refere à reconstrução de uma nação devastada por uma grande série de enchentes. Swami Dayananda Saraswati, o fundador da Arya Samaj (espécie de cisma extremista em relação ao hinduísmo, pregando, paradoxalmente, o monoteísmo), considera o manuscrito de Calcutta autêntico e digno de ser seguido literalmente. Entre os maiores admiradores do escrito se encontra Annie Besant, feminista, franco-maçon e socialista.

Como epílogo, as exortativas aspas de Friedrich Nietzsche em Vontade de Potência: “Feche a Bíblia e abra o Código de Manu. Ele é afirmador da vida, transmite uma sensação agradável emanando dos elementos vitais; erigir um livro da lei como o de Manu significa dar ao homem a primeira palavra, almejar à perfeição, ter ânsia de realizar a mais alta arte do viver possível”.

Edições e traduções

Versão lida pelo Seclusão Anagógica, com publicação de trechos prevista para breve: sacred-texts.com/ ­

Veja ainda

Notas [não-assinaladas acima para não truncar a leitura]

    1. ^ Manusmriti, The Oxford International Encyclopedia of Legal History (2009), Oxford University PressISBN 978-0195134056, See entry for Manusmriti

    2. Jump up to:a b c Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 18–19, 41

    3. ^ “Flood (1996)”. p. 56.

    4. Jump up to:a b c d Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 353–354, 356–382

    5. Jump up to:a b G. Srikantan (2014), Thomas Duve (ed.), Entanglements in Legal History, Max Planck Institute: Germany, ISBN 978-3944773001, p. 123

    6. ^ Steven Collins (1993), The discourse of what is primary, Journal of Indian philosophy, Volume 21, pp. 301–393

    7. ^ Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 3–4

    8. ^ Robert Lingat (1973), The Classical Law of India, University of California Press, ISBN 978-0520018983, p. 77

    9. ^ “Flood (1996)”. p. 56.

    10. ^ P Bilimoria (2011), “The Idea of Hindu Law”, Journal of the Oriental Society of Australia, Volume 43, pp. 103–130

    11. Jump up to:a b c d Donald Davis (2010), The Spirit of Hindu Law, Cambridge University Press, ISBN 978-0521877046, pp. 13–16, 166–179

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    13. ^ “Manu-smriti | Hindu law | Britannica”. www.britannica.com. Retrieved 1 January 2023.

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    15. ^ Patrick Olivelle (2005). Manu’s Code of Law. Oxford University Press. p. 19. ISBN 0195171462.

    16. Jump up to:a b Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 41–49

    17. Jump up to:a b John Bowker (2012), The Message and the Book: Sacred Texts of the World’s Religions, Yale University Press, ISBN 978-0300179293, pp. 179–180

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    25. ^ Davis, Donald R. Jr. (2007). “On Ātmastuṣṭi as a Source of Dharma”. Journal of the American Oriental Society. 127 (3): 279–296.

    26. ^ Werner Menski, Hindu Law: Beyond Tradition and Modernity (Delhi: Oxford UP, 2003), p. 126 and Domenico Francavilla, The Roots of Hindu Jurisprudence: Sources of Dharma and Interpretation in Mīmāṃsā and Dharmaśāstra. Corpus Iuris Sanscriticum. Vol. 7 (Torino: CESMEO, 2006), pp. 165–176.

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    28. ^ Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 16, 8–14, 206–207

    29. Jump up to:a b Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 16–17, 208–229

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Referências

[REPRISE] O QUE VAI AO AR [CENSURADO]

Originalmente publicado em 17 de setembro de 2009.

A amizade está acima do amor na escala dos sentimentos verdadeiros – ser amigo da mulher é o que se deve buscar no relacionamento. A pureza e a sinceridade, isso eu nunca tive.

Talvez o estresse da véspera do beijo seja inevitável, mas… Após o momento da conquista é realista trabalhar num projeto de aperfeiçoamento da relação. Volto a pensar no assunto quando achar que encontrei a “cobaia” ideal (ou muito antes).

Outro objetivo é achar amizade, qualquer amizade (entenda bem: amigo ou amiga), que me permita ser ainda mais rico e sábio e produtivo.

(…) Tenho de aprender a não ser uma caixa de fósforo. Olhar para frente – como é possível se dar com, e imaginar para si, uma pessoa com a qual não conseguimos falar? Mas esta ainda não há: pessoas de intelecto brilhante – embora turvo – como a M. não me despertavam outro membro e outro sangue que não o que corria para aquele. Lamentável. Em vão, até agora? Vamos fazer esse balanço, Jair-Durkheim!¹

¹ Referência a Jair Ferreira dos Santos, sociólogo e comunicólogo.

(…) Em verdade, hibernava, ou despontava timidamente, naqueles impulsos intra-aula, algo parecido com “ambição de amizade”! Mas se não é a coisa mais difícil e mais necessária do mundo, pois não depende de mim? Já fico feliz em saber que eu encaro como adoráveis as coisas que dependem de mim – há os que não suportam. E vede: falta agora o sabor do mar espumante, que me levará a algum sítio. Há muito ainda por viver? (Mas que pergunta! Mas que pergunta! Ma pergunto todo santo ano, há décadas…) E minha saúde e meus gostos? Quando foi que mais perto estive de aceitar a ingerência dos outros? Dois mil e seis foi um grande ano! Talvez o “ano da libertação”. Não vazia como aquela minha tia mais superficial que uma bandeja imaginava – a libertação dos idiotas que fazem 18 anos… (…) Alienígena, sigo meu caminho… (…)

Mas a universidade é exaladora de um miasma tal que não suporto discutir nada a sério ali! – sinto-me ridículo depois. (…) Eu sou a única máquina perfeita, o Sísifo mais lapidado pela pedra. Por que a melhor amizade é à distância? Mesmo a dos conhecidos. Invasão, que pecado! Gostamos de mostrar só o que gostamos de mostrar.

Talvez a mais sincera amizade seja aquela entre irmãos (o que eu de fato não tenho, se assim pensarmos)… Ou aluno e professor – de que lado estou agora? Eles já não me dão muita bola, dão? Mas eu sigo seus conselhos – também lembro dos breves chefes: Kerouac, tecnologia, perseverança, franqueza, olho no olho, Lynch, aprender com os próprios erros quando já se está no último degrau (e quantos últimos degraus não existem!…) Carmen e Pedro Jabur da época do jornalismo, lhes agradeço especialmente. Déia, Paniago, Marco Antonio, Euclides, Claudia Busato, Sidnei Volkmann, Severino,… Quantos bons professores naquela faculdade! Acreditem, não é indolor tomar resoluções graves, não ser o que queriam que eu fosse. Devo superá-los – ou ainda melhor: superar a imagem de vocês em mim. Grandes decepções na vida nova… A serenidade me trouxe a certe.za: devo romper com o último dos últimos “grupinhos”…

Diretriz sexual: castidade com as próximas; eliminação de desgostos via “química tradicional”. Às vezes eu oscilo, mas só contemplar não é me desvirtuar…

Na amizade se sofre todo o ciúme e culpa, porém não se pode apagá-los com carícias (por isso a amizade feminina é falsa)… mas a vantagem é que as fissuras da relação são mais visíveis. Ora, se ando sofrendo tão pouco… Parece que vim ignorando muito esse lado da coisa – ou não?! Ao meu redor só há porcos, porque só porcos se habituam a viver na lama. Preciso com desespero de alguém de quem não enjoe, mesmo quando se encontra mais debilitada. Quando eu estiver pronto para não “gozar para recomeçar”, aí então será esta minha mulher. Brigar, sim. Amigos brigam. Ser mais compreensivo, talvez. Demorou uma semana para eu enxergar meu mais recente erro – isso é bom! Há casos para o que uma vida não chega. Para o diabo! Nem sei se algum dia SENTIREI isso de novo. Se eu posso esperar 3 meses ou 1 ano para voltar a falar com a L. ou a M., não seria diferente neste caso… Feridas ou aborrecimentos não cicatrizam com beijinhos e jurazinhas…

CRITÉRIO: não na frente de quem temos coragem de criar cólera, mas diante de quem, com toda essa nossa descoordenação habitual, poderíamos dançar e cantar! Muito cuidado com isso de “sexo na primeira noite”. É no diálogo com possibilidades de embaraço que está a verdadeira afinidade. Harmonia carnal é uma palhaçada, ainda mais levando-se em conta a cartilha hipócrita de apagar-se as luzes. Neste mundo qualquer um come qualquer um!

O FASCISMO ETERNO (Discurso de Umberto Eco em 1995) ou: CUIDADO COM OS LIBERAIS: Manual antifascista ILUSTRADO adaptado à realidade brasileira!

O fascismo eterno foi uma conferência pronunciada em inglês num simpósio organizado pelos departamentos de Italiano e Francês da Columbia University em 25 de abril¹ de 1995, para celebrar a libertação da Europa. Foi publicada depois, em 22 de junho de 1995, na The New York Review of Books e traduzida para a Rivista dei Libri de julho-agosto do mesmo ano, como ‘Totalitarismo fuzzy e Ur-Fascismo’ (versão que só difere desta que publico aqui por alguns leves ajustes formais). Contudo, é importante lembrar que o texto foi pensado para um público de estudantes americanos e que a conferência ocorreu naqueles dias em que a América havia sido sacudida pelo atentado de Oklahoma e pela descoberta do fato (nem um pouco secreto, aliás) de que existiam organizações militares de extrema direita nos Estados Unidos” “Além disso, o fato do discurso ser dirigido a jovens americanos explica a presença de informações e esclarecimentos quase didáticos sobre acontecimentos que um leitor italiano conheceria, assim como citações de Roosevelt, alusões ao antifascismo americano e repetidas referências ao encontro entre europeus e americanos nos dias da libertação.”

¹ Boatos de que é o dia internacional de combate ao fascismo em honra a meu nascimento!

Em 1942, aos 10 anos de idade, ganhei o primeiro prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: ‘Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?’ Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.” Mais nobres que os bolsonaristas: aqui eles queriam sobreviver mil anos metralhando petralhas, em vez de “morrendo por sua causa”…

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e partigiani da Resistência, que atiravam uns contra os outros, e aprendi assim a esquivar-me das balas. Nada mal como exercício. § Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois, os partigiani chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria.”

Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às delícias de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.”

ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e passei o dia inteiro mascando. De noite, colocava o chiclete em um copo d’água para que estivesse fresco no dia seguinte.” História muito parecida com a do Lula.

Nos meses seguintes, descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas europeu. Aprendi palavras novas e excitantes como réseau, maquis [bunker ou simplesmente porão], armée secrète, Rote Kapelle, ‘gueto de Varsóvia’. Vi as primeiras fotos do Holocausto e assim, antes mesmo de conhecer a palavra, conheci seu significado. Descobri que havíamos sido libertados.”

Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela libertação. Creio que também não era irrelevante, para os jovens americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.” Nós também somos sobreviventes de um genocida, como diria o Professor José do Portal do José.

Hoje, na Itália, tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos partigiani com bandeiras de diversas cores.”

Franchi era o meu herói. Ele (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi acusado até de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A libertação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas bandeiras.”

OS <CHEGA DE POLARIZAÇÃO> COMEDORES DE MASSA: “Hoje, na Itália, tem gente que diz que a guerra de libertação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. E que a lembrança daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neurose.” Terminando, à la mode, em pizza, com Supremo, com Centrão, com Rede Globo, com Silvio Berlusconi (vade retro!), com tudo!

Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: ‘Ok, pode voltar e fazer tudo de novo.’

ESTAMOS AQUI PARA RECORDAR O QUE ACONTECEU E PARA DECLARAR SOLENEMENTE QUE “ELES” NÃO PODEM REPETIR O QUE FIZERAM. MAS QUEM SÃO “ELES”?

mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, em sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.” Que sirva de lição que 20 anos mudam muita coisa!

Existe, então, outro fantasma que ronda a Europa (sem falar das outras partes do mundo)? Ionesco disse certa feita que ‘somente as palavras contam, o resto é falatório’. Muitas vezes, os hábitos linguísticos são sintomas importantes de sentimentos não-expressos.”

Quem reler Por quem os sinos dobram, de Hemingway, vai descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos como os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.”

Durante os anos de McCarthy, os americanos que tinham participado da Guerra Civil Espanhola eram chamados de ‘antifascistas prematuros’ — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como ‘fascist pig’ era usada pelos radicais americanos até para indicar um policial que não aprovava aquilo que eles costumavam fumar? Por que não diziam: ‘porco cagoulard’, ‘porco falangista’, ‘porco ustaše’, ‘porco Ante Pavelic’, ‘porco Quisling’, ‘porco nazista’?”

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa da entartete Kunst, a ‘arte degenerada’”

O NOVO GOSPEL: A BANCADA DA BALA: “Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do ‘Estado ético absoluto’, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica. Começou como ateu militante, para em seguida assinar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas.”

O artigo que só existe na cabeça desse tipo sui generis de esquizofrênico. Peço vênia para rebaixar o nobre status da doença esquizofrenia ao estabelecer a analogia!

CLOWNESCO: “Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini. O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha.”

O FASCISMO ITALIANO CONVENCEU MUITOS LÍDERES LIBERAIS EUROPEUS DE QUE O NOVO REGIME ESTAVA REALIZANDO INTERESSANTES REFORMAS SOCIAIS, CAPAZES DE FORNECER UMA ALTERNATIVA MODERADAMENTE REVOLUCIONÁRIA À AMEAÇA COMUNISTA.

Contudo, a prioridade histórica não me parece ser razão suficiente para explicar por que a palavra ‘fascismo’ se transformou numa sinédoque, uma denominação pars pro toto [parte pelo todo] para os mais diversos movimentos totalitários. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos ‘em estado quintessencial’, por assim dizer. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e nem sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy.(*)

(*) Usado atualmente em lógica para designar conjuntos ‘esfumados’, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como ‘confuso’, ‘impreciso’, ‘desfocado’.”

Imagens de esquerdaonline.com.br e wikipédia

A HISTÓRIA SE REPETE COMO FARSA – 2018-2022 d.C.: Santíssima Trindade dos anos malignos: King Nothing (Espírito Nefando, “d. Pedro III” que não quer desencarnar do mundo material, um representante da família real que se resignou a concorrer a cargo público numa democracia de massas); o Todo-Poderoso Pai da Mala-Cheia, que passava recibos de “condenações ao inferno” a todos os inimigos (e são muitos!), apesar de não ter nenhuma chave da transcendência; e a paródia do Messias da Juventude: assim como o bom discípulo de Jesus de Nazaré “largou tudo para peregrinar com o mestre”, Monarca, O Ancap, fugiu da escola e largou os estudos formais para viver de fake news e proselitismo da ignorância diante de um público-consumidor imbecilizado por anos de mídia sem regulação. Três eras se encontrando numa só: charretes representando o séc. XIX; o televangelismo (era analógica dos MCM); e o podcast sem freio moral (era digital).

É POSSÍVEL CONCEBER UM MOVIMENTO TOTALITÁRIO QUE CONSIGA REUNIR MONARQUIA E [CONTRA]REVOLUÇÃO, EXÉRCITO REAL E MILÍCIA PESSOAL DE MUSSOLINI [DE JAÍRES], OS PRIVILÉGIOS CONCEDIDOS À IGREJA E UMA EDUCAÇÃO ESTATAL QUE EXALTAVA A VIOLÊNCIA E O LIVRE MERCADO [+ ANARQUISMO E SISTEMA JUDICIÁRIO]?

O AGRO É A INQUISIÇÃO: “O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários rurais mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante 20 anos proclamando sua lealdade à família real, [a diferença é que Orléans & Bragança XXI = SISTEMA BANCÁRIO] permitindo que um ‘duce’ [capitão terrorista] puxasse as cordinhas de um ‘rei’ [procuradores da realeza do Financismo: Paulo Guedes e Arthur Lira], a quem ofereceu até o título de ‘imperador’ [plenipotenciários no Executivo e no Legislativo].”

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. (…) Ao contrário, arquitetos fascistas certamente existiram, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.”

CRITÉRIOS IGUAIS PARA NOMEAÇÕES, AQUI E ACOLÁ (“Se odeias algo, toma conta!”): “Quando o fascismo se identificou com o Império Romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia¹ e queria até mesmo matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tinha pelo luar grande respeito.”

¹ Ponto mais vil da percepção estética do Homo sapiens.

Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa foi suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o Poder Legislativo se transformou em pura ficção e o Executivo (que controlava o Judiciário, assim como a mídia [nossa sorte foi isso não ter ocorrido por inteiro no Brasil]) promulgava diretamente as novas leis, [sem necessidade de saquear o Orçamento com o Bolsolão, p.ex.] entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto). [no nosso caso, o gado nelore que batia continência à bandeira americana, isso quando não havia completa e indisfarçada louvação à K.K.K. e ao Nazismo]”

OLAVISTAS X MILITARES X CENTRÃO NEOPENTECOSTAL: “A imagem incoerente que descrevi não era devido à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico.”

Acontece com a noção de ‘fascismo’ aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de ‘jogo’. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma ‘semelhança de família’.” Já haviam aparecido na exposição Deus e Pátria, faltava a perna manca da família patriarcal.

Descomplicada exposição teórica de como tudo pôde acontecer no Brasil: ODIAR O PT era a argamassa que “juntava todo o lumpenproletariado” assaz heterogêneo dos reacionários tupiniquins.

Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia celta e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julius Evola.

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de Ur-Fascismo, ou ‘fascismo eterno’. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.”

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. (…) É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas, ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana, Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário acrescentando De Maistre, Guénon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo. § Quem percorrer as prateleiras das livrarias americanas que trazem a indicação ‘New Age’ encontrará até mesmo Santo Agostinho, o qual, que eu saiba, não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, [monumento pré-histórico inglês: acabou virando ícone das bruxas ou religiões neo-pagãs do tipo wicca ou o revivalismo do druidismo] isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. [TERRAPLANISMO, ANTI-ABORTO, ANTI-VACINA E PELA VOLTA DO CASAMENTO EM QUE SÓ O MARIDO PODE CHIFRAR A ESPOSA, DENTRE OUTRAS TENDÊNCIAS ARCANAS DEGENERADAS…] O iluminismo e a idade da razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como ‘irracionalismo’. [Esqueceram-se no entanto de que a cultura helênica, nossa Mãe, é homossexual e politeísta]

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. [BRAVATAS – COM DIREITO A RECUOS DE VOLTA PARA AS ‘4 LINHAS’ NO DIA SEGUINTE – DE PRESIDENTES CONTRA SEUS INIMIGOS – BASICAMENTE TODOS OS BRASILEIROS INTERESSADOS NO FUTURO – COM DIFICULDADE PALPÁVEL DE TRAQUEJO, EM PALANQUES ARTIFICIAIS (COM PÚBLICO COMPRADO); exposição de tanques de 1920 capazes de poluir a China inteira apenas passeando pela Esplanada dos Ministérios de Brasília como forma da autoglorificação das Forças Armadas; quebras de placas homenageando vereadoras pró-periferia na véspera de eleições, etc.]”

PENSAR É UMA FORMA DE CASTRAÇÃO. POR ISSO, A CULTURA É SUSPEITA NA MEDIDA EM QUE É IDENTIFICADA COM ATITUDES CRÍTICAS.

As universidades são um ninho de comunistas’: a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo.”

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.” O lema da bandeira nacional sempre foi fascista: ordem e progresso. QUESTIONAR ou teorizar que sejam princípios contrários leva à forca.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso utilizando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.” E xenófobo (como Eco não esquecerá de colocar na seqüência): argentinos, venezuelanos, cubanos, chineses são inimigos mortais.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social.” Empregos ruins, falta de amigos, ausência de oportunidades de transar

Isso explica por que uma das características típicas dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, [pleonasmo] desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política [ascensão do maior Partido Trabalhista do Cone-Sul], assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. [direitos das empregadas domésticas, população freqüentando aeroportos e o sistema universitário…]

7. Para os que se veem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país.” “obsessão da conspiração” “os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. [Daí que o sionismo seja uma forma velada de antissemitismo: que eles estejam apenas em SEU Estado; para isso seu Estado foi criado, para que a diáspora parasse de incomodar ‘cidadãos de bem’ nativos de outras partes!] Na América, o último exemplo de obsessão pela conspiração foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.”

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo.” O poder nuclear de um pequeno país como a Coréia do Norte, para não dizer da ex-União Soviética; o gigantismo irrefreável – e, para aumentar a dor, capitalista da China contemporânea. Inveja também do sistema educacional, da medicina e do esporte escolar e de elite cubanos.

Quando eu era criança, ensinavam-me que os ingleses eram o ‘povo das 5 refeições’: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres, mas sóbrios.” Curiosamente, a plataforma que reelegeu Lula foi garantir que o brasileiro voltaria a comer o número necessário de vezes por dia!

Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de assistência mútua.” Basta trocar judeus por globalistas. Para quem vive em conspirações, deve ser fácil imaginar até uma conspiração sigilosa e onipresente de todas as mulheres contra os homens. Ou de todos os transexuais contra os ‘normais’, mesmo contra qualquer lógica ou plausibilidade (população feminina muito grande para manter uma sociedade secreta; minorias muito desarticuladas, pequenas e desprotegidas para estarem na ofensiva contra o próprio opressor).

SEEEEEEEELVAAAAAAA!”: “Os adeptos precisam, contudo, ser convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras,¹ pois são constitucionalmente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.Dado importantíssimo.

¹ Nesse sentido, podemos chamar os Estados Unidos da América de belicamente fascistas desde a Guerra do Vietnã.

9. Para o Ur-Fascismo, não há luta pela vida, mas antes ‘vida para a luta’. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.” Preferem ir para a Ucrânia e morrer do que permanecerem num país tropical abençado por… Jeová que não!

SÓ MAIS 72h…:Complexo de Armagedom: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final, depois da qual o movimento assumirá o controle do mundo.” E ‘do mundo’ neste caso nem sequer é exagero: havia grande fé na imponderável volta de Donald Trump, ‘o amiguinho’ internacional.

Esta solução final implica uma sucessiva era de paz, uma idade de ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.” Muito se objeta a doutrina comunista não esclarecer o período da superação das contradições, autodissolução do Estado burguês e fim das classes, mas pouco se analisa este defeito da extrema direita no espelho. Síndrome de Constantino (do foragido, não do imperador).

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática.” Até as ralés são capazes de elitismo.

Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido.” Ou ter uma arma.

qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e, por sua vez, cada um deles despreza os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.” Protagonismo do AJUDANTE-DE-ORDENS. Ninguém é o último vassalo: há sempre alguém inferior.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói.” O maluco Ivan Rejane.

Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: ‘!Viva la muerte!’“O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. Note-se, porém, que sua impaciência provoca com maior frequência a morte dos outros.”

Com tamanha obsessão por sexo anal, sexo homoafetivo e, em geral entre os bolsonaristas, estupros de vulneráveis em idade na qual ainda não ovulam, é difícil imaginar como Olavo de Carvalho conseguiu gerar prole, inclusive uma “fraquejada” (palavras de seu maior fã).

12. Como tanto a guerra permanente quanto o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem de seu machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas)” “Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra se devem a uma invidia penis permanente.” Também é a origem secreta do racismo.

Muita vontade de se engajar em discussões, porém muito pouca paciência e energia para as mesmas: qualquer jogo é “complicado” para fracassados natos. Imagem: reddit.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um ‘populismo qualitativo’. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). [Daí a ojeriza às eleições, misturadas com conspirações de fraude de escala global e descrédito de qualquer estatística como mortes pela Covid.] Para o Ur-Fascismo, os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos, e ‘o povo’ é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime ‘a vontade comum’.” Quando o indivíduo, cadastro de pessoa física, finalmente acossado pela polícia do regime democrático posteriormente reinstalado devido a seu rol de crimes, percebe que não é o povo, seu isolamento é ainda mais funesto (costumeiramente na cadeia, i.e., isolamento tanto metafórico quanto literal).

Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder se apresenta como seu intérprete.” Um idiota tartamudo representando a falta de qualquer mensagem clara: faz sentido.

Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos ‘pútridos’ governos parlamentares.”

14. (…) Todos os textos escolares nazistas ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico.” Fim da enumeração. O bolsonarismo se sagrou campeão, com 14/14 pontos possíveis!

Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: ‘Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!’ Infelizmente, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. [Por R$0,20, por exemplo.]” Neonazismo: não precisarão reabrir Auschwitz, porque Auschwitz “nunca existiu” conforme a ‘confiável’ historiografia da borracha nazi. No sul do país a saudação nazista, em muitos locais, tem a mesma aceitação de um ‘olá’. Tem-se confiança na impunidade ou forte crença em que Deus não deixará ‘comunistas’ punirem ‘pessoas de bem, seguidoras de tradições (de menos de 100 anos de idade)’, mesmo no ‘regime inimigo’ (democracia do Estado de Direito).

Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país”

RooseveltPax americana como a teoria da conspiração mais doidivanas de todos os tempos.

A “praça” é nossa (do povo), mas desde 2013 ela vinha sendo ocupada por rematados idiotas.

Praxódia Branca dos Olhos Vermelhos, famosa carta subversiva do clandestino jogo de cards Yu-Gi-Oh!, proibido em 177 países.¹

¹ ATENÇÃO: Aviso de ironia.

Fonte: terra.com.br

Os porcos confundiram “suíça” com “suína” e tentaram dar no pé, mas foram interceptados a tempo pelos revolucionários, em tempos de reocupação da praça pública, liberação e regresso da paz.

[REPRISE] O QUE É PÓS-MODERNO? – Jair Ferreira dos Santos, 1987. Thrice is the charm, so roll the dice, it won’t harm.

Originalmente publicado em 16 de setembro de 2009.

mescla de purpurina com circuito integrado (…) Um bem? Um mal? Quem viver verá.”

CONTRACAPA

E quantos ainda vivem? E quantos não estão cegos?

índice

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

2. DO BOOM AO BLIT AO BLIP

Inclui wikia sobre John Barth

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

Inclui wikia sobre o dadá Rudolf Schwarzkogler

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

Menos coisas do que parece mudaram desde os anos 80: o U2 ainda faz um estrondoso sucesso e tenho um computador a minha frente. Qual a razão? O autor é um visionário ou a História está desacelerando? A fase crítica, a da elaboração do manifesto, teria passado? Agora havemos de ver mais VIDA do que MORTE?

O PRINCÍPIO DO SCAT: “A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a próxima vez.” Sintomático dos ingleses, segundo Latour; sintomático dos franceses que fedem à bosta, segundo Henfil.

Alternativa diferente das anteriores: o Brasil sentiu isso mais tarde – o escritor captou as tendências descritas somente no Primeiro Mundo. É só pensar nas manifestações pró-aborto: nosso espectro é defasado. E agora a moda é o do contra… Retroação. (2023)

Na cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você.”

ACIMA DO BEM E DO MAL: “Por que o niilismo voltou à boca dos filósofos?” Mas quando é que saiu desde a década de 1880?!

Digamos que o dia agitado do urbanóide retratado equivalha a meu ciclo semanal… (2009, quando morava com os pais, que ‘funcionavam’ num ciclo com esta duração)

Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme” É necessário morrer (dormir) mil vezes… O outro lado da moeda – em relação ao niilismo clássico – é oco.

A fábrica suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno” Já foi-se o tempo.

Os modernistas (vejam Picasso) complicaram a arte por levá-la demasiado a sério. Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo.” Querer não é poder.

A CRIANÇA RADIOSA vs. O ANDRÓIDE MELANCÓLICO: “o fantasma pós-moderno (…) A rigor, nada tem a ver com o Brasil, embora já se assista a um trailer desse filme por aqui”

É preciso sofrer para enxergar algum sentido. Nós, brasileiros, fomos tetracampeões em sofrimento recentemente.

(2009) Quando me torno forte e apólogo do devir, logo surgem vaidades econômicas dos pais, amigos paralisantes, universidade estressante e malditos insetos que não tratam de cessar – combinação explosiva. O clima neste deserto já está há um ano insuportável (quase dois! – 2010), e qualquer retiro imaginável é apenas para lugares piores. Não calculo a possibilidade dessa luta não dar em nada. Meu sonho é centrífugo à realidade jovem do celular-câmera-Orkut-baladas-funcionalismo. Eu quero apenas duas coisas: colchão velho¹ e distância (paradigma do conhaque e da atmosfera puída e calada). As fases passam (C. e reclamação na mesa)… O pior de todos os infernos sem dúvida é o Inferno Tecnológico. Ou o deserto do real a-tecnológico involuntário. Ridiculerói na Terra da Música.

¹ (P.S. 2023) Alergia a ácaros torna este velho ‘mandamento’ proibitivo hoje!

DO TRAILER (TEASER!) AO LONGA: O que é não fugir, Jesus? O que é não consumir, Lúcia? O que é não tratar do cabelo no salão, Nadir? O que é ter um pobre na família, Aguiares? O que é não sair de casa no sábado, Eduardo? Todos estamos no mesmo barco – inclusive eco-chatos e maconheiros, não é, G.B.? Você sai muito de casa e toma muito suquinho? O quanto isso o elevou? Ao anonimato num jardim malpodado!

(O ruim de anotar as coisas é que a gente lembra das coisas! Inconscientemente, já havíamos nos vingado há muito tempo…)

preferimos o (…) simulacro ao real. E por quê? Porque desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade.” “Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza; intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais interessante que a própria realidade.” Quebra da tela da TV definitiva (resolução maior que a de qualquer olho humano) e multipolaridade, o caminho.

Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora (…) O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca.”

2. DO BOOM AO BIT AO BLIP

John Barth, The Floating Opera

______, Giles, o Menino Bode

______, Once Upon a Time: A Floating Opera

______, The Literature of Exhaustion, 1967 // “Barth has since insisted that he was merely making clear that a particular stage in history was passing, and pointing to possible directions from there. He later (1980) wrote a follow-up essay, The Literature of Replenishment, to clarify the point.” Curiosamente, Barth e (Roland) BarthES possuem trabalhos teóricos correlatos e coetâneos!

wiki: “Despite Barth’s influence on postmodern literature in America, his influence and publicity have decreased since his novels were published.”

Barth began his career with The Floating Opera and The End of the Road, two short realist novels that deal wittily with controversial topics, suicide and abortion respectively. They are straightforward realistic tales; as Barth later remarked, they ‘didn’t know they were novels’. § The Sot-Weed Factor (1960) was initially intended as the completing novel of a trilogy comprising his first 2 ‘realist’ novels, but, as a consequence of Barth’s maturation as a writer, it developed into a different project.”

Barth’s next novel, Giles Goat-Boy (about 800 pages), is a speculative fiction based on the conceit of the university as universe. Giles, a boy raised as a goat, discovers his humanity and becomes a savior in a story presented as a computer tape given to Barth, who denied that it was his work.”

The short story collection Lost in the Funhouse (1968) and the novella collection Chimera (1972) are even more metafictional than their 2 predecessors, foregrounding the writing process and presenting achievements such as a 7-deep nested quotation. Chimera shared the U.S. National Book Award for Fiction.”

The Floating Opera is a novel by American writer John Barth, first published in 1956 and significantly revised in 1967. Barth’s first published work, the existentialist and nihilist story is a first-person account of a day when protagonist Todd Andrews contemplates suicide. § Critics and Barth himself often pair The Floating Opera with Barth’s next novel, The End of the Road (1958); both were written in 1955, and they are available together in a one-volume edition. Both are philosophical novels; The End of the Road continues with the conclusions made about absolute values by the protagonist of The Floating Opera, and takes these ideas ‘to the end of the road’.”

EDITOR OU AÇOUGUEIRO? “After a string of publisher rejections, Appleton-Century-Crofts agreed to publish The Floating Opera in 1956, but stipulated it ‘conclude on a less nihilist note’; Barth complied and altered the ending. (…) Barth made a number of changes to the text for a revised edition from Anchor Books in 1967, including restoration of the original ending.”

Giles Goat-Boy (1966) is the 4th novel by American writer John Barth. It is a metafictional comic novel in which the universe is portrayed as a university campus in an elaborate allegory of both the hero’s journey and the Cold War. Its title character is a human boy raised as a goat, who comes to believe he is the Grand Tutor, the predicted Messiah. The book was a surprise best-seller for the previously obscure Barth, and in the 1960s had a cult status.”

Nathalie Sarraute (1900-1999), Portrait of a Man Unknown (Portrait d’un inconnu)

______, L’Ère du soupçon, 1956 (enssaio)

______, Tropismes

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

John Fowles, A Mulher do Tenente Francês

Donald Barthelme (1931-1989), Snow White (1967)

_____, Me and Miss Mandible (conto)

_____, The Joker’s Greatest Triumph (c.)

_____, The Balloon (c.)

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

EM NOME DA ARTE: O caso que sempre recordo, mas nunca sei dizer o nome do suicida: Rudolf Schwarzkogler (1940-69), vienês, precursor da arte performática, se matou em uma exibição apoteótica em 1969.

wiki: “He was born the son of a doctor who killed himself near Dubinniskij-Stalingrad after a serious war injury in which he lost both legs. In 1951 Schwarzkogler’s mother moved with her son to Lienz, where she married the sculptor Erich Unterweger. In 1954 he moved back to Vienna to live with his paternal grandmother and in 1956 to live with his other grandmother in Vienna. He continued to attend high school and in 1956 the federal trade school for one year.

In 1960, he met Hermann Nitsch, who had graduated from the ‘Graphische’ in 1958, and became friends with him. The following year he left graphic arts without a degree and worked in the summer as a student trainee for C.F. Boehringer und Soehne GmbH in Mannheim. In October he enrolled at the Academy of Applied Arts Vienna, but only attended it briefly. He was drafted into the military. He worked as a graphic artist and took part in campaigns by Viennese actionists such as Otto Muehl and Hermann Nitsch. Shortly afterwards he started his own actions.

Schwarzkogler devoted himself entirely to free art from 1965 and quit his job. He started out with horse betting and was interested in winning systems. In 1968 he took part in film projects. In 1969, he died after falling from the window of his apartment. He was buried at the Vienna Central Cemetery.” Ou não contaram a história direito (em alguma das fontes) ou a verdadeira história suicida era unicamente a de seu pai…

The enduring themes of Schwarzkogler’s works involved experience of pain and mutilation, often in an incongruous clinical context, such as 3rd Aktion (1965) in which a patient’s head swathed in bandages is being pierced by what appears to be a corkscrew, producing a bloodstain under the bandages. They reflect a message of despair at the disappointments and hurtfulness of the world.”

His first and most famous action was performed on February 6, 1965, titled Wedding: Schwarzkogler shows a private ritual with religious, shamanistic and alchemical elements at a table covered with a white tablecloth, on which there are dead fish, a dead chicken, various animal organs, eggs, colored liquids, a knife and scissors.”

FAQUIR EUNUCH NEWS? “Chris Burden once remarked that a 1970s Newsweek article, which had mentioned himself and Schwarzkogler, had misreported that Schwarzkogler had died by slicing off his penis during a performance. (…) The castration theme in some of them — for example, in Aktion 2 he posed with a sliced open fish covering his groin — have additionally fueled this myth. Additionally, the protagonist of the Aktion in which the cutting of a penis was simulated was not Schwarzkogler himself, but his friend and model, the renowned photographer Heinz Cibulka. When Schwarzkogler died, the series of performances had long been concluded. He was found beneath a window from which he had fallen, seemingly the victim of an accident. His death generated speculations and further myths.”

Castro a sociedade e mato o Ocidente, teria dito o ditador cubano.

Kurt Vonnegut, Cat’s Cradle (já recomendado em minha resenha de Symphony of The Night).

Robert Coover, The Public Burning

Robe-Grillet, La Maison de Rendez-Vous (Encontro em Hong Kong)

Italo Calvino, Cosmicomics

______, Se um viajante numa noite de inverno… (roleplaying game)

Günter Grass, O Tambor

______, O Linguado

NACIONAIS

Osman Lins, Avalovara

Ivan Ângelo, A Festa

Rubem Fonseca, O Cobrador

Victor Giudice, Bolero

Sérgio Sant’Anna, O Concerto de João Gilberto no RJ

CINEMA

Paris-Texas, Salve-se Quem Puder

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

Nietzsche entrou em (sic) moda nos anos 70 [na verdade dir-se-ia que na Europa entrou em moda nos 1900 e decaiu antes dos 1960!] e continua no hit-parade

A pós-modernidade é o momento em que tais valores [fim, unidade, verdade], ainda atentos e fortes durante a modernidade industrial, entram em decadência acelerada. Se isso vai dar ou não na transvaloração, no supra-homem, é outro papo.” O ‘velho’ papo: a) falta de conhecimento do método; b) imaturidade dos meios de produção.

Esse profeta, que pensava durante longas caminhadas, usaria hoje um walk-man sem som para melhor enxergar na confusão de nossa época.” Datado E adiantado.

Lyotard, A Condição Pós-moderna

(leitura atrasada!)

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

Madonna como a criança radiosa.

A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia – a doença da vontade – prevista por Nie. para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência” A melancolia ainda está muito longe de ser o non plus ultra de alguma coisa séria…

(2009) Woody Allen é o arquétipo do melancólico.

(2023) E do pedófilo.

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

Alvin & Heidi Toffler, A Terceira onda Revolutionary Wealth, 2006. (atualização tardia) – desconfiar: sociologia norte-americana

Muniz Sodré, A Máquina de Narciso: Televisão, indivíduo e poder no Brasil, 4ed., 2001.

Umberto Eco (1932-2016), Viagem na irrealidade cotidiana, 1984. (arquivo da anna, inglês)

______, O fascismo eterno, 1997 (2018, trad. de Eliana Aguiar, Record). (exemplar impresso baratinho – 50p. – na Amazon)

Baudrillard, À sombra das maiorias silenciosas

[REPRISE] ANCESTRALIDADE EM CLASSE

Originalmente publicado em 17 de setembro de 2009.

Quando chegamos ao cume do tédio advêm algumas vontades esquisitas. À parte aquela de fuga do momento (estar em uma sala abafada, quase imóvel, a bunda doendo machucada pelo caráter tosco da carteira, exposição mecânica, dialética vã e vazia), quando o corpo se resigna e decerto se conforta com um tempo eterno (sempre foi assim!), começo a preparar tarefas, realizáveis sem sair do meu lugar. Exemplos: contar o número de pessoas alojadas, pensar detidamente sobre meu sábado, o que todas elas farão imediatamente ao ganharem a liberdade, do que meu corpo precisa, como ele se conforma agora, o deslocamento de cada sujeira da minha unha… Quando lerei os textos exigidos? O que o Douglas pensaria dessas elucubrações? É uma modalidade de estetização, um bricolage absurdo, abundante, num tal meio escasso – como seu maquinário faz nos sub-enredos (nas tramas em cascata) dos sonhos! Para quem o Thiago estava ligando? Será apenas para espantar o sono? Estou concretizando a meta minimalista de converter em narrativa cada momento (insight Pedro V.): essa vida de aluno, haverá algo tão agradável-no-melancólico para mim? Pareço um matusalém das salas de aula, sou um barbudo grisalho cheio de artimanhas. Quantas horas! Cada coçada de nariz, essa sensação de não estar em nenhum tempo, dissociado de pretéritos e destinos… Vício no ócio, não há outra explicação. E em expelir sangue (negro).¹ Salas semi-desertas e de “fim de curso”: panorama parecido com meu parto do Andarilho T…²

¹ (P.S. 2023:) Trata-se da cor da tinta da caneta.

² (P.S. 2023:) Conto iniciado em 2004. Retrabalhado e publicado em 2012 e novamente em 2016. Talvez venha a figurar na série CILA OU CARIBDE.

ESPERTEZA, INTELIGÊNCIA E SABEDORIA: DO SABER QUE NADA SABE

Muito se fala sobre esperteza, inteligência e sabedoria. O povo é bom em apreender imediatamente qualidades, mas ruim em definir conceitos.

A esperteza está associada à imediatidade da memória e ao egoísmo. Seu contrário é a lerdeza.

A inteligência, ao acúmulo da memória, tendente à paralisia se o uso da memória se aproxima do máximo, como com uma caixa de e-mail e seu espaço de armazenamento cada vez mais curto sem a manutenção do usuário. Tendem também a inteligência e seu constante cultivo a uma espécie de desinteresse, embora existam outras (espécies de desinteresse). Seu oposto é a burrice clássica.

Esperteza e inteligência são termos relativamente intercambiáveis no uso do dia a dia, e esse fato não é acidental. Há um pressentimento de que alguém é “um dos dois”, mas não ambos em conjunto. É até quase impossível ser inteligente sendo esperto. Ou ser esperto sendo inteligente, graças à natureza de “depósito da memória” da faculdade da inteligência. Do ângulo da mundanidade, o esperto e o inteligente são como água e óleo. A sabedoria é transcendental e ainda não entrou na conversa.

É que do sábio e da sabedoria nada se pode afirmar. A sabedoria é tão instável e flutuante quanto o humor e, para todos os efeitos, todo homem é instável de humor, caso essa simples analogia não tenha bastado para estabelecê-lo diante do leitor. Estamos em uma aporia. Precisaremos da ajuda de um filósofo consagrado neste momento:

SÓ SEI QUE NADA SEI” (Sócrates) nunca foi uma afirmação irônica ou falsa modéstia. Sempre significou no seu mais profundo aquilo que diz literalmente (em modo alongado, para melhor compreensão), quer seja, “Cheguei a saber o que vem a ser a sabedoria, mas me é impossível determinar se sou ou não sábio, exatamente em virtude da própria descoberta, visto que nenhum homem neste mundo pode dizê-lo e ter esperança de atingir a verdade da questão. Pode ter a mais plena convicção de ser sábio e no entanto estar errado. Normalmente está, quando tem certeza. Somente o que se pode afirmar é: sou ‘mais sábio’ do que era outrora; e quem haveria de afirmar que é ‘menos sábio’? É bem possível (a situação de se tornar menos sábio ao longo do tempo), mas o ego não admitiria, seria uma chaga profunda. Talvez possamos dizer que nosso ego nunca é sábio. Enfim, sou mais sábio do que já fui antes, mas quão mais sábio me torno mais vejo o quanto sou ignorante, e posso prever uma situação em que sou dez vezes mais sábio que agora, e teria dez vezes mais dúvidas sobre minha própria sabedoria, pois me sentirei, neste caso, o possuidor do décuplo da ignorância. Portanto, como posso dizer, se as coisas são assim, que isto – meu eu atual – é a detenção da sabedoria? Decerto que ANTES não era sábio, se é que agora o sou; aí termina todo meu conhecimento.”

É isso que significa a transcendentalidade da sabedoria. Ela é indeterminável por discursos mundanos. Pela nossa capacidade de observação empírica. Não só nunca poderemos avaliar se somos sábios como nenhum homem poderá emitir este juízo sobre qualquer de seus semelhantes.

Também salta aos olhos que a ética é matéria transcendental, assunto para a metafísica. É por isso que seguirá para sempre indeterminada, porque o ser-ético depende sempre do contexto. O “SOU BOM?” e o “SOU SÁBIO?” caminham de mãos dadas.

Há uma imensidão de espertos, mas pode-se, sem dúvida, ser lerdo, burro e ignorante (este último o contrário de sábio), tudo ao mesmo tempo. Nem água, nem óleo. O esperto costuma ser arrogante e depreciar a esperteza alheia. Uma conduta demasiado inesperta.

Ao sábio, figura intangível, tanto se lhe dá: se é lerdo ou atento, precavido ou desprotegido, se tem a cabeça ‘cheia’ ou ‘vazia’, se é o cume do egoísmo ou o cume do heroísmo altruísta. Isso são valores humanos, inúteis no reino da sabedoria, e é por isso que, se um sábio houver, ele ainda assim não passa de um homem, porque chega o instante em que estes valores lhe são muito caros; todo desprezo é afetação ou estratégia conscientemente temporária. Sempre voltamos ao mesmo lugar. Talvez essa seja a tragédia do sábio, que sendo cotidiana e se repetindo ad nauseam se torna por fim uma comédia: ele deve ser o mais esperto e inteligente que jamais vimos, mesmo sem querer sê-lo! Está sempre correndo de e atrás de si mesmo. E o homem – qualquer homem – pode ele ficar parado?

O próprio Sócrates, na opinião de muitos homens, tinha a pior das mulheres. Mas talvez fosse a melhor, a que mais lhe convinha. Dela mesmo, podemos dizer que não fosse sábia? Assumindo que tudo que a historiografia machista nos deixou seja fidedigno, ainda assim ela foi casada com o homem que em seu tempo era considerado pelos outros homens (ou pelo menos pelos cidadãos atenienses) o mais sábio. Quem mais podia se jactar de tamanha sorte? A isto aceito a objeção de que com família é como com dinheiro: nem esperteza, nem inteligência, nem sabedoria atuam, é questão de sorte. Mas o que resta saber é se no caso de Xantipa o único móvel, a única causa, em sua biografia, para ter se tornado a esposa de Sócrates foi mesmo a sorte.

No entanto, Sócrates, além de cunhar a frase definidora da sabedoria (ou melhor: definidora da indefinibilidade prática da sabedoria, no limiar mais mestiço entre ignorância e saber jamais registrado), e de ter tido uma “esposa interessante” (porque gera muito debate entre os estudiosos até hoje) conforme a historiografia (e devemos suspeitar do fato de que Platão, o maior biógrafo ou romancista de Sócrates, jamais se preocupara com esta personagem), completou sua vida do modo lendário que mais depõe a favor da hipótese de que Sócrates era um sábio (como mártir ou inaugurador de religiões ou doutrinas): se não podemos afirmar quem foi sábio e ter certeza de acertar, podemos dizer que quem tem medo da morte¹ não pode ser um sábio (e veja: para complicar, até para isso, para o morrer, existe a capacidade do simulacro; que homem de aspecto valente diante do cadafalso podemos dizer com certeza que não está no fundo apenas representando um papel? que covarde não nos poderia estar secretamente pregando uma peça, talvez pregando uma peça até a si mesmo?).

¹ Afirmação arbitrária? Se a morte é justamente incompreensível para nós, inevitável e uma incógnita que define nosso modo ético de ser, como capítulo importante da vida! Como o sábio teria medo da morte, este acontecimento sem testemunhos, se forçosamente ignora este fenômeno como todos os ainda vivos, e se a sabedoria é justamente ter consciência perfeita de sua imensa ignorância? Se ‘tanto se lhe dá’ isso como aquilo, como dito acima?

Nenhuma flecha mergulha com mais ímpeto rumo a seu alvo do que o sábio rumo à morte, esta é a única certeza. Que ele será bem-sucedido no mergulho, disso tampouco podemos falar, não podemos cravar nada! Sócrates foi soldado na guerra e viveu por sete décadas. Não morreu uma morte precoce de Alexandre Magno, como não morreu uma morte tísica de poeta romântico.

DICCIONARIO DA LINGUA TUPY CHAMADA LINGUA GERAL DOS INDIGENAS DO BRAZIL POR A. GONÇALVES DIAS

Livreiro de S.M. O Imperador do Brazil, 1858.

PREFACIO

Appliquei-me pois a esse estudo, e com quanto não fosse minha intenção demorar-me nisso muito, achei-me no fim de algum tempo com grande numero de notas, algumas das quaes me não parecerão sem importância; mas essas notas, na confusão em que eu as tinha, de nenhum proveito serião para outros, e para mim mesmo de bem pouco me servião. Foi-me por tanto preciso organisal-as, e, concluido o trabalho da coordenação, me achei com o dicionário, que agora dou á estampa.

Tomei por baze o vocabulario, que o autor da <Poranduba Maranhense>accrescentou ao seo trabalho, valendo-me da Grammatica do Padre Figueira, do Diccionario Braziliano, publicado por um anonymo em Lisboa, no anno de 1795, de um Manuscripto com que deparei na Bibliotheca Publica do Rio de Janeiro, e cujo titulo me esquece agora, de outro Diccionario, tambem manuscripto, da Bibliotheca da Academia Real das Sciencias, de Lisboa, e de 4 dos cadernos que acompanharão as remessas do nosso distincto e infatigavel naturalista – Alexandre Rodrigues Ferreira, durante a sua commissão scientifica pelo Amasonas nos annos de 1785, 86 e 87.”

É ainda este o motivo por que, com quanto reconheça a justeza das observações que me fez o Dr. PETERS, professor na Universidade de Berlim, não posso, por em quanto, seguir o seo conselho – de dar aos caracteres do nosso alphabeto o valor phonico, que vai sendo hoje em dia admittido para as linguas não escriptas, de modo que taes sons podessem com mais facilidade ser reprodusidos por todos, que não somente por aquelles que conhecem o portuguez.”

* * *

A.

A – vogal, I. antepõe-se a certos verbos servindo em logar de pronome = xe = a primeira pessoa, agente do verbo ou oração. Não se dis: Xe juca, mas A-jucá, eu mato. Faz nas outras pessoas: ere, o, ya, oro, pe, o. Emprega-se em todos os tempos do indicativo, optativo e permissivo; mas nos do conjunctivo, imperativo e infinitivo antepõe-se-lhe um T. Neste caso se deverá dizer ta ou por eufonia tai. II. No fim da palavra ou oração dá-lhe mais força e sôa como ã. Ex. A-ço-ã, eis me vou. III.membri virilis caput.

AAGNI, de nenhuma maneira (contração – vide abaixo).

AÁN, não. É difícil precisar-se o sentido de cada um dos compostos deste adverbio: seguem-se exemplos.

AÁN ANGAI, de nenhuma maneira.

AÁN DE, mas não foi; não é assim.

AÁN GATU TENHÉ, de nenhuma maneira. [parece que os índios daqui gostavam de negar em absoluto!]

AÁN I, isso nunca.

AÁN IREÃ, não é assim (só para o gênero masculino como sujeito da frase)

AÁN IRI, não é assim (só para o gênero feminino como sujeito da frase)

AB, destituído de significado de forma isolada. Na conjugação verbal, adquire sentido de ação. Ex: A-ybyra-ab, córto madeira.

ABÁ, I. creatura, pessoa, nação, familia forra. Quem? Qual? II. desinência dos nomes que se derivam dos verbos ativos e neutros, e exprimem o lugar, tempo, modo ou instrumento com que alguma coisa se faz Estes nomes em aba provêm de alguns dos verbos, que acabam em e, i, o, u, e de todos os que acabam em ng. A-u, comer, faz – g-u-ába, monháng, fazer, faz monhángába.

ABÁ ANGAI, tirano.

ABÁ ANGAIPABA OÇU ETÉ, tirano terrível.

ABÁ ANGATURAMA, homem bom.

ABÁ CAAPORA, mateiro, travesso.

ABÁETÉ, homem ajuizado. É também o nome do rio que desagua no de S. Francisco, onde em 1792 se achou um dos maiores diamantes conhecidos.

[Significação atual: homem experiente, calejado; feioso, repelente.]

ABÁ IBA, namorado, noivo.

ABÁ ITAJUBARA, homem rico, homem de ouro.

ABÁ TAPUYA, inimigo.

ABÁ TUPAN MOETÊÇÁRA, devoto.

ÁBA, cabelo.

ÁBA COARACY, cabelos do sol.

ÁBA CÚU, cabelo penteado.

ÁBA IATYCA, cabelo curto.

ÁBA MOROTINGA, cabelo branco.

ÁBA PECU, cabelo comprido.

ÁBA PIXUNA, cabelo preto.

ÁBA PYRANGA, cabelo ruivo.

ABATIJÊ, milho.

ABATIXI MEAPÉ, broa.

ABATIXI PIRÓCA, descascar o milho.

ABICUY AÍB, pentear mal (no sentido de “aspirar algo com más intenções”, sentido caduco de “pentear” em Português); o AÍB – advérbio – é a partícula que qualifica a ação do agente moralmente. Não equivale a “aspirar algo de modo ruim”, ou seja, incompetentemente, mas literalmente aspirar de modo malévolo.

ABICUY-ABICUY-AUB, aspirar com grande afã.

ÁCA, corno.

ÁCA ÇUÇÚAPÁRA, corno de veado.

ÁCA I, corninho.

ACÁ, interjeição de dor. Homens também usam ai; já as mulheres, acaigoê.

ACAJÁ, cajazeiro(a).

ACAJU, cajueiro.

ACAJU ACAI PIRAÇÓBA, chuvas de agosto e setembro, que destroam as flores do caju.

ACAJU ETÁ, ano, idade. (Os índios guardavam cada ano uma castanha de caju para registro do tempo, ou pelo menos da quantidade de anos vivida por um indivíduo.)

AÇÁMO, espirro. (ÇAMO = espirrar) Possuem conjugações de gerúndio, subjuntivo, subjuntivo pretérito, particípio presente e passado, etc…

ACARÁ, I. ave (espécie de garça = goratinga, Guiratinga) da qual soíam extrair penas para seus adornos e que se alimentavam principalmente de mariscos. II. e também, um peixe, com várias sub-espécies tais quais assu, tinga e pixuna.

Atualmente, consta somente como peixe, em Zoologia; sinônimo de acarajé; e ainda algodão ardente comestível usado em rituais do candomblé.

AÇÓ COICÉ COICÉ, antes de anteontem.

ACOÁUB EY’MA OÇU, idiota.

ACAUÁN, ave mata-cobras. Faz-se antídoto de picada de cobra com o farelo dos ovos desta espécie. Plumagem cinza, vermelha, marrom, preta e branca. Apresenta um canto bem peculiar (tudo indica que o nome deriva de uma onomatopéia). Mais detalhes em https://en.wikipedia.org/wiki/Laughing_falcon.

ACUTY, cotia ou cutia, espécie de capivara de pequeno porte. Significa, na nomenclatura indígena, “animal cauteloso”.

ACUTY BÓIA, cobra predadora da cotia.

,I. pronome ele. II. verbos dizer, e variação de ver, querer, poder, ter e haver. “A syllaba mo faz imperfeito o verbo, ou esteja antes ou depois delle. Ex: Aeibe-o-ço-bo-mo.”

AÊ AÊ, eles.

AÊ BOÊ, e por falar nisso…

AÊ ETÁ, eles, elas.

AÊ RAMÊ VÊ CATU, simultaneamente.

AÊ, RIRÊ, aí então, após o quê, etc.

AÊ RIRÊ MIRIM, logo em seguida.

AÊ TENHÉ, idem.

AIBÉ, conjunção e. = AIPO

AÉPE, aí.

AERÉME, então. “Ajunta-se aos verbos, denotando o preterito imperfeito. Á-juca aeréme, eu matava então.”

AETENHE, em vão.

AEYBÊ, também.

AGOÉRA, usado para compor o pretérito mais-que-perfeito. Ex: Juca-agoéra, “que matara” ou “havia matado”, para narrar uma ação anterior a uma outra também no passado.

AGUAÇÁ, AGUAÇÁBA, amante.

AGUACÁBÓRA, traição.

AI, I. interjeição de dor masculina. II. eu, usado para determinados verbos.

AICOBÊ, haver, viver, existir.

AIXÊ, tia paterna (de ambos os gêneros para x sobrinhx). Na nossa taxonomia moderna, além de irmã do pai, podia tratar-se também de prima sua (filha de tia).

AIXÔ, sogra, porém só usada para o genro (masculino).

AKYRÁR, abortar.

AMÁNA, chuva.

AMÁNA OPYC, chuviscar.

AMANAJÊ, fofoqueiro.

AMBYRA, morto.

AMO, “desinência dos gerúndios e supinos. Xe maenduar-amo, lembrando-me eu, para me lembrar. Fazem o gerúndio em amo os verbos acabados em í ou ú, e todos os do pronome xe. Ex: Xe angaturam faz xe angaturam-amo. Negam-se todos estes, interpondo-se a dicção eym antes de amo. Xe angaturam-eym-amo.”

AMOTAREY’MA, odiar.

AMÚ, irmã ou prima da esposa.

ANÁMA, parente.

ANDIRÁ, morcego.

ÁNGA, alma, consciência.

ANGATURÁMA MOANGA, hipócrita.

ANHÁNGA, fantasma.

APIÁBA, macho (homem ou animal).

APUÁM, bola, redondo.

AR, nascer.

ARA, I. dia, hora, ocasião, tempo. II. mundo.

ARA CATU, oportunidade, bonança (kairos)

ARA CUÎPE, meio-dia

ARA JABÊ JABÊ, ordinariamente.

ARA RANGABA, relógio.

ÁRA, “partícula pospositiva, a que de ordinário se junta um -ç-: no fim dos verbos indica a pessoa que na atualidade exercita a sua significação, p.ex.: Capy’c, pentear: Capyçara, o que penteia atualmente. A língua tupi é tão rica destas partículas que julgamos conveniente apresentar aqui um quadro das mais importantes, ainda que as tenhamos de repetir em seus lugares. Ora, junta-se-lhe um -b-, se o verbo acaba em vogal, ou mudando-se-lhe a desinência por eufonia. O que tem por costume exercer a significação do verbo. Icapyc’ ora ou melhor Capy-bóra, o que atualmente é penteador. Aba (junta-se-lhe um -c-) indica o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que se exercita o agente: Capycaba. Çara óera, a pessoa que já penteou, Çar’ amboéra, a pessoa que estava para ser penteador: o penteador que houvera de ser; mas não foi. Çar’ ama, o penteador digno de ser. Bor-oéra, a pessoa que usou do ofício, ou teve o costume; mas já não usa ou tem. Denota grande exercício no passado. Bor’ amboera, a pessoa que tinha por costume ou ofício pentear, ou o que esteve para ser penteador no tempo passado, mas acabou não sendo. Bor’ ama, a pessoa que atualmente usa do hábito de pentear, e que continuará a usar. Cab oéra, o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que no tempo passado se penteou. Cab-timboéra, o lugar o tempo, o modo, o instrumento com que no tempo passado se havia de pentear, mas acabou não se penteando. Cab-âma, o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que atualmente se penteia, e com os quais ainda no futuro se penteará. Escusado será repetir que estas partículas são pospositivas: nos exemplos que damos, subentendemos sempre o verbo -Capuy’c.”

ARAÇARY, ave, de cor verde-escura, cabeça e pescoço negros, peito e ventre loiros.

ARAPACÚ, pica-pau.

ARÁRA, arara.

ARARÚNA, arara preta.

ARARYCA, espécie de papagaio.

ARAVARÍ, sardinha.

AREBÊ, barata.

ARÚ, sapo.

ATANGAPÉMA, espada.

AVERÁNA, asma.

AY’G, preguiça (animal): “difícil de apanhar-se quando foge [!!]: a grande volta-se às vezes com furor contra os que a perseguem; as pequenas mergulham no fundo dos lagos e lagoas atrás de algum sustento.

B.

, também

BEBÊ, voar

BO, I. para: partícula pospositiva do dativo. Quase não se faz sentir na pronunciação, e emprega-se ordinariamente com os pronomes pessoais. – Ixebo, Indebo, Iandebo, Orebo, Penhobo, para mim, para ti, etc. II. Sílaba que tomam os verbos acabados em a, e, o, na formação dos gerúndios. Juca-bo, a matar, para matar. Mondo-bo, e assim os mais. III. Significa também extensão de lugares, ou a continuação de alguma ação. Ex: A-ço caa bo, vou pelos matos. A-lo óca bo, vou pelas casas. Aico-xe-r-amuya reco bo, vivo pelos costumes de meus avós.”

BORA, “desinência dos nomes verbais, exprimindo que a pessoa exercita a significação do verbo com muita continuação, hábito ou gosto. Assim, enquanto Canhem-bára exprime o que anda fugido ou por acaso, ou por essa vez somente, – Canhem-bóra exprime o fujão, o que tem por costume andar fugido. Daqui se concluirá que muitos verbos não podem admitir semelhantes desinências.”

BOYA, cobra: “na composição precede ao adjetivo, pospõe-se ao substantivo. Acuty-boya, Arara-boya, Currurú-boia, etc., covras de cutia, de arara, de sapo.”

BRÃ, em vão. “Observamos que é tão raro nesta língua o encontro de duas consoantes de qualquer natureza que sejam que não hesitamos em dar por suspeita a ortografia desta e das demais palavras em que aparecem.”

BUBÚI, boiar

Ç.

I. Todos os nomes que começam por ç, quando são relativos, conservam o mesmo ç. Ex: Çaba, a penugem ou pena miúda do pássaro, significa igualmente: sua pena. II. Todos os nomes, começados por t, quando se põem relativamente, mudam o t em ç. Ex: Tetê, corpo. Ç-’etê, seu corpo.”

ÇAÇÁO, passar, atravessar

ÇACÊME, gritar

ÇAÍNHA, dente

ÇAJÚCA, nervo

ÇAPUCÁIA, árvore; fruto; galinha.

ÇAPY, queimar

ÇAPYÁ, testículos

ÇAPYÁ JÓCA, castrar

ÇARONÇÁBA, esperança

ÇAUÇUB, amar

ÇAUÇUPÁRA, amante

ÇAYR, riscar

ÇÓ, ir

ÇÓBA, rosto

ÇÓBA CY, carrancudo

ÇÓBA CY OICÔ, estar triste

ÇÓBA JUBA, pálido

ÇÓBA OÇÚ, severidade

ÇÓBA PECANGA, maçã do rosto

ÇÓBA PETÉCA, bofetada. Ou puytéca.

ÇÓBA RANGÁBA, máscara

ÇOBAIXÁRA, opor

ÇOBAIXÁRA NHÉENGÀ, replicar

ÇOBAIXÁRA TURUÇÚ PORÝB, maior parte

ÇOBAKÊ, perto

ÇOBAKÊ GOÁRA, vizinho

ÇOBAÝ, Portugal

ÇOBAYÂ, rabo

ÇOBAYÂ ACÝCA, derrabado!

ÇOBAYÁNA, inimigo

ÇOBAYGOÁRA, português; vinho europeu.

ÇOÇÁNGA, sofrer, estar doente.

ÇOÇÓCA, socar, calcar

ÇOKENDÁ, tapar

ÇOKENDABÓCA, desaferrolhar

ÇOKENDAPÁBA, rolha, tampa

ÇÓO, caça, carne, animal

ÇÓO PAPÁO, quinta-feira (?)

CÓO PIRÉRA, couro

ÇOPE, roça

ÇOPIÂ, ovo

ÇOPIÂ TACÁCA, clara

ÇOPIÂ TAGUÁ, gema

ÇORÝB, alegre, folgazão

ÇUAÇÚ, veado. “O nosso célebre naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira diz que os índios chamavam Suhà assu a todo veado, por terem a cabeça comprida e testa grande, a que (acrescenta ele) os índios chamam Suhà assù. Parece, contudo, que essa palavra tem outra etimologia. Seria de çúu, mastigar: çúu assu vale tanto quanto ruminante. Os índios chamavam ÇUÁÇÚ-MERIN o filho da caça.”

ÇUAÇÚ ANHÁNGA, “veado diabo, cuja carne não presta para quem padece de sífilis ou sezões [febres]. Não lhe aparece mais que a extremidade das pontas dos chifres [detrás da vegetação].”

ÇUAÇÚ CAATÍNGA, mato ralo

ÇUAÇÚ MÉ, cabra

ÇUCUREJÚ, cobra d’água

ÇUGUÝ, azul

ÇUGUÍ-JÓCA, sangrar

ÇUÎ, de, do, da

CUPÈ, ao, aos, às, à, a

ÇUPÍ ÇABA OCOMEÉNG OAÊ, testemunha

ÇUPÍ RUPÍ, com toda certeza

ÇUPIÇABA, verdade

ÇUPÝR, levantar, carregar

ÇUÚ, morder, mastigar

ÇUÚ ÇÁRA, roedor

ÇUÚ ÇUÚ, roer

C.

CAÁ, mato

CAÁ KOÉNE RENDABA, horta

CAÁ MONDÓ, caçar

CAÁ MONDOÇÁRA, caçador

CAÁ POÁM, ilha

CAÁ PÓRA, que mora no mato. “Caapóra, segundo o vulgo, é uma miniatura de gente, que anda com as varas de caitetús, montando no maior de todos eles. Mau agouro quando se o encontra. Daqui vem o chamar caipora ao homem a quem tudo sai ao revés (azarado).”

CAÁ PYÍR, cortar o mato

CAÁ PYRÁNGA, folha vermelha para tintura

CAÁ RETÉ(Ê), mata virgem

CAÁ TINGA

CAÁ VÛ, ou

CAÁO, cagar

CAAPÁBA, urinol

CAAPIÎM, erva baixa

CAÁRIMÁ, farinha de mandioca

CAARÚCA, tarde

CAARÚCA RAMÊ, de tarde

CÁBA, vespa; abelha; gordura; manteiga.

CÁCA, tá bom, então tá!

CACOÁU, velho

CAÉM, sarar

CAGÍCA, veia

CAGÍCA OÇU, artéria

CAÎ, queimada

CAICOÁRA, bicho que dá doença

CÁMA, seios femininos

CÁMA JACUÍÇÁBA, lençol, cobertor

CÁMA PIRÉRA, peitos caídos

CÁMA PUÁM, peitos redondos

CÁMA RENDÁBA, leito

CAMBY’, leite

CAMBY’ ANTÁN, queijo

CAMBY’ ÇÁRA, ama-de-leite

CAMBY’ JÓCA, tirar leite

CAMBY’ VÛ, mamar

CANAPIÂ, quadril

CANCÁN, “ave, espécie de falcão: habita em lugares pouco freqüentados, e com voz estrídula anuncia a chegada de alguém.”

CANDÚR, corcunda (substantivo)

CANEÓN, atribular-se

CANGOÉRA, osso

CANHÉME, sumir

CAPIXÁBA, espécie de macaco

CAPIUÁRA, o animal que vive em meio ao capim. “Os índios peruanos usavam seus dentes como brincos”

CARANHÁ, coçar

CARAPANÁ, mosquito do Rio Branco

CARAIBÊBÊ, anjo

CARAIBÊBÊ KOÉRA, diabo

CARIBOCA, mestiço

CARUÁRA, corrimento vaginal

CARÚC, urinar

CARÚCA, urina

CARÝBA, branco, português

CATÍNGA, fedor

CATU, bom

CAÚ, beber; vinho. = CAUÍM

CAUÇÁBA, bebedeira

CAUÍM ÇÁI, vinagre

CAUÍM MEENGABA, taverna

CAUÎM TATÁ, aguardente

, saber ou partícula “não sei”

CEBUI, minhoca

CEBUI PEBA, sanguessuga

CEÇÁ, olho

CEÇÁ ACANHÉMO, cegar

CEÇÁ ARÍBO GOÁRA, pálpebra

CEÇÁ EPIRAR OÇÚ OAÉ, olhos arregalados

CEÇÁ ETÊ, astúcia; vista aguçada.

CEÇA EÝMA, cego

CEÇÁ EÝMA NUNGÁRA OATÁ, andar de olhos fechados

CEÇÁ IAPÁRA, vesgo

CEÇÁ IAPIRÁR IRUNAMO OMAÉM, olhar de esguelha

CEÇÁ POMYM, pestanejar

CEÇÁ PUNGÁ, terçol

CEÇÁ PYÇÔ, vista

CEÇÁ RAÝNHA, menina-dos-olhos

CEÇÁ ROÁ, óculos (!!!)

CEÇÁ RY, lágrimas

CEÇÁ RY ÇURURÚ, chorar

CEÇÁ TEPY TEPY, olhos afundados, encovados

CECÁR, procurar

CECATEÝMA, avarento

CECATEÝMA RUPÎ MERIM, poupar

CECÊ, portanto

CECÔ, aparência

CECÔ BEBÊ ÇÁBA, ressurreição

CECÝ, doer

CEÉM, doce

CEÉM OAÊ, diz-se da comida que está doce

CEEMBÚCA, comida salgada

CEGY, mudar

CEICOÁRA, cu

CEICOÁRA EPÁNGA ACÉMO, hemorróida

CEICOÁRA MOTÁCA, bate-cu (!!!)

CEÎYA, multidão, rebanho

CEJAR, abandonar

CEJUÇÚ, as plêiades no céu noturno

CEKY, atrair, puxar

Namby reky, puxar pelas orelhas

CEKY CÉMO, cercar

CEKYJÊ, ter medo

CEMEMBOÊ, discípulo

CEMIMOTÁRA, liberdade, consentimento

CEMIMOTÁRA RUPÎ, à vontade

CEMIMOTÁRA RUPÎ OICÔ, dono de si mesmo

CEMIMOTÁRA RUPÎ NHÔTE, a torto e a direito

CEMIRICÔ RAUÇUPÁRA, amigo da esposa

CEMIRICÔ POTOÇABA, noivo

CÉMO, nascer

CEMÔ YGARA ÇUÍ, desembarcar da canoa

CEMÔ IXUPÊ, ocorrer

CENDÚ, escutar

CENDY, baba; arder; luz.

CENDY OANE, acender

CENDY PÚCA, reluzir

CENEMBY, camaleão

CENÓI, chamar

CENONDÉ ETÊ, muito tempo atrás

CENONDÉ GOÁRA ETÁ, antepassados

CENONDÉ MIRIM, pouco antes, ainda agora

CENONDÉ RANHÊ ENÓNG, preferir

CENONDÉ ÚRE, antecipar-se

CEPIÁCA, ver

CEPIÁCA NHÓTE, deixar passar

CEPOTY, intestinos

CEPUÎ, borrifar

CEPUÎ RÁBA, regador

CEPÝ, preço

CEPÝ NONG, avaliar

CEPÝ OÇÚ EÝMA EPIRIMÁN, regatear

CÉRA, nome

CÉRA ÁRPE GOÉRA, sobrenome

CERAKOÊNA, fama

CERAÝMA, pagão (!!!)

CERÉB, lamber

CEREBYRA, irmão mais novo

CEREVÍRA, nádegas

CERÓC, batizar

CETÁ(Ê), muito

CETÊ, corpo humano

CETÚNA, cheirar

CETÝMA, perna

CETÝMA IAPÁRA, aleijado

CEÍYA, mulato

CEIJÝRA, tia, tia-prima

CIC, todos

CINOÁBA, barba

CIPÓ, raiz

COAMEÉNG, mostrar

COARACY, sol

COARACY ÇACU, calma

COARACY OMANÔ, eclipse

COARACY PYAÇÁBA, chapéu

COARACY RANGÁBA, relógio

COARACY RENDY, réstia

COATIÇÁBA, letra ou gravura

COATIÁRA, escritor ou pintor

COATIÁR, escrever, pintar

COAÚB, conhecer

COAÚB MORANDÚBA, quais são as novidades?

COAÚB UCÁR MORANDÚBA, descobrir o segredo

COCICÓI, eis aqui

COCINHEÝME GOÁRA, muito antigo

COÉMA, manhã

COÉMA PIRÁ PIRANGA, aurora

COICÉ, ontem

COITÉ, finalmente

COMENDÁ, feijão

COÓ, animal

COPÊ, costas

COPÊ RUPÎ, pelas costas, com falsidade, escondido

CORÓCA, velha senil

COYR, agora

COYR REIRÊ, doravante

CRICRI, gavião comedor de galinhas

CUATÍ(M), de cuá (cintura) e tim (nariz), pois este animal dorme com o focinho na cintura.

CUNHÃ, mulher ou fêmea de qualquer animal

CUNHÃ ÇAPIXÁRA MÉENGARA, fofoqueira

CUNHÃ COARAEÝMA, donzela

CUNHÃ IMÉNA MOMOXICÁRA, adúltera

CUNHÃ MEMBYRA, sobrinho(a)

CUNHÃ MÊNA, parente por afinidade

CUNHÃ MENDAÇÁRA, casada

CUNHÃ MENDAÇAREYMA, solteira

CUNHÃ NUNGÁRA, afeminadamente

CUNHÃ RAPIXÁRA, afeminado

CUNHÃ RUPIÁRA, amigo de mulheres

CUNHÃ TÊM, rapariga (em que sentido?)

CUPÚ, árvore de que se tira bebida fresca

CURUCÁBA, garganta

CURUCÁBA OJEKENDÁO, pigarro

CURUMÎM, menino

CURUPIRA

CURURÚ, sapo negro, cujo leite cega

CURURÚ BOIA, cobra comedora de sapos

CURURÚC, rosnar

CYG, mãe

E.

I. tu; II. ele(a) (em algumas conjugações de verbo no presente)

EAGOÉRA, dizer

EÁMAE, não (das mulheres)

ECATÚPE, nu

ECUPÊ, traição

EÉM, sim

EIKÊ, entrar

EMAACY, doença

EMBIÁRA, caça, pesca

ENGANÁNE, tentar (no sentido de pecado)

ENÓI, pôr

EPÉBA, pus

ERÉ CATU, alto lá!

EUKYÎ, cunhada da mulher

G.

Letra pouco usada no começo das palavras, e a razão é porque as que deverão começar por ge, gi se escrevem com j; as de go e gu confundem-se ou talvez se escrevem com k; e em ga não sei de nenhuma palavra puramente indígena que assim comece. Todavia, admitimos a ortografia portuguesa para alguns vocábulos mais em uso.”

GAMBÁ

GAPUIA “(de origem incerta), vocábulo de São Paulo usado entre pescadores. A Gapuia consiste em atravessar-se o Igarapé com aninga e tojuco encostado em paus cravados no fundo, para que não passe toda a água; depois toma-se o peixe à mão ou, se há muita água, bate-se timbó. = MACUOCA.”

GIA, rã (somente no Maranhão)

GIBOIA

GIQUITAIA, formiga miúda e vermelha, cuja mordida necessita do fogo para efetuar a cura (uso somente no Pará).

GIRÁO, casa ou terraço feito sobre forquilhas; serve de canteiro, paiol ou ventilador.

GOAÇU, grande

GOAIMIM, mulher velha

GOAINIM UIRAPÁRA, arco da velha

GOARA, nativo de qualquer lugar

GOARABÁ, peixe-boi

GOARAPIRÁNGA, barreira

GOATAÇÁBA, jornada

GOATAÇARA, viandante, peregrino

GOÉNE, vomitar

GOÉR-EYMA, “partícula negativa do mais-que-perfeito do infinitivo: emprega-se em vez de eyma-goera. Juca-goér-eyma, não ter morto, que não matei, ou não matara.”

GUÁBO, “desinência do gerúndio dos verbos de artigo, acabados em –o puro, cujo o se transforma em guabo. Ex: Ai xoô, çoguabo. – E assim também nos verbos acabados em u puro: A-û, guabo. Aixuú, çúguabo.”

GUAJÁ, caranguejo marítimo da Paraíba do Norte.

GUAJÁ JÁRAS, índios do Maranhão

GUAJAJARA-Î, madeira

GUARÁ, “ave: nasce branca, torna-se preta e por fim de um encarnado vivíssimo.”

GUARANÁ, cipó

GUARARAPÉBA, viola

GUE & GUI, “sinal de vocativo, empregado só pelos homens. Escusado será dizer que estes raramente se empregam com substantivos acabados em vogal com acento na penúltima. Ex: Xe-rub-guê, ‘ó meu pai’.”

GUE (sozinho)

I. “Os verbos que depois do artigo A imediatamente tiverem alguma destas 4 sílabas: ra, re, ro, ru, entremeterão seja sílaba gue entre o artigo e a tal sílaba; mas isto apenas na 3ª pessoa. Ex: Araço, eu levo. Ere-raco, tu levas. O-gue-raço, ele leva. – Areco, eu tenho. Ere-reco. O-gue-reco.

II. Se os tais verbos se tornam absolutos com a dicção poro, neste caso tomam a partícula gue, nem só nas terceiras, mas em todas as pessoas. Ex: A-poro-gue-raço, levo gente. A-poro-gue-reco, tenho gente. Todavia, as duas primeiras letras da partícula podem, nestes casos, desaparecer na composição, dizendo ao invés A-poro-e-raço.”

GUI (sozinho), “primeira pessoa do gerúndio dos verbos do pronome xe. Ex: Gui Paca, acordando eu. Gui-tû, vindo eu.

GUIRÁ, ave

GUIRÁ OÇU, gavião

GUIRÁ PEPÔ, asa de pássaro

GUIRÁ REPOTY, erva de passarinho

GUIRA REÎYA, bando de pássaros

GUIRA RECÊ, debaixo. = GUIRÎ, GUÝRPE

GY, machado

I.

I.

I. É a terceira pessoa do singular e plural do pronome Xe, ele, eles.

II. Vale como o pronome possessivo ‘seu’, ‘sua’, ‘seus’, ‘suas’. Ex: Cyg, mãe; I-x-ig, sua mãe ou ‘a mãe deles’. I-cô, sua roça. Estes ex. podem igualmente significar: ele ou eles têm mãe, roça, etc.

III. No começo dos cverbos, faz vezes de relativo. Ex: A-ço, ir. I-xó, a sua ida, o seu ir.

IV. Partícula negativa, que se acrescenta aos verbos, quando estão precedidos de n-d. Ex: A-juca, eu mato. N-d-juca-î, não mato.

V. No fim dos nomes substantivos, vale como diminutivo. EX: Comandá, fava. Comandá-î, favinha. Neste caso se pode também escrever î ou im. Ex: Mitánga, menino. Pitanga-î (sic?), menino muito pequeno.

VI. No fim dos cerbos significa fazer-se a coisa sem imposição estranha, assim como sem muita força de vontade da parte do agente. Ex: Ai-monhang-î, faço por fazer, por me recrear, e sem que ninguém me constranja a isso. A-cepiac-î, vejo e não impeço, ou vejo por me divertir. A-cepiac-î nde angaipàba, vejo a tua ruindade, e não me entendeo contigo, nem te repreendo.

VII. Muitas vezes se mete, com o artigo a que se refere, entre o artigo e o verbo e de tudo se forma um só verbo ativo. Ex: Ai-co-monhang xe-r-uba, faço a roça de meu pai, ou literalmente A [eu] i ou y [sua] co [roça] monhang [faço] xeruba (em acusativo paciente) [a meu pai]. Assim também A-y-acang-oc boia, corto a cabeça à cobra ou antes – eu sua cabeça córto à cobra.

VIII. É uma preposição (ou posposição) quando vem junta com os nomes de parte ou lugar; de ordinário com os advérbios de lugar. Ex: nde cuá î (o mesmo que se dicéssemos nde cuá recê), à tua ilharga. Ybyr-î, ao longo. Guir-î, debaixo. Çoba-î, da banda d’além.”

IÁ.

I. interjeição: (…) bem-feito!

II. Junto com os verbos neutros, significa costume na ação. Ex: Açó iá (ou ), costumo ir. Ajunta-se-lhe freqüentes vezes a sílaba bi. Ex: Xe-poro-nupã-i bi, costumo açoitar muito.

III. Também se emprega com os verbos que significam comer e beber, e nestes casos se lhe pode acrescentar a sílaba ra. Ex: Jorî ûi yára goábo. Vem comer farinha.

IV. Conjunção: do mesmo modo.

V. Primeira pessoa do plural do pronome A, nós.

IÁBA, as coisas que dizem

IABÁ ETÊ, arrogante

IABÁ ETÊ ÇÁBA, arrogância

IABÊ, conjunção: igualmente. = IABÊNHÊ

IAÇOARAMONAÊ, e

IAÇOARAMONAEMO, já que não

IAÊ = YAÊ, verbo: nós dizemos

IAÊTENHÊ, em vão

IA-IABO, para dizermos

IAMURÚ. I. bem-feito!; II. cueyira (fruto).

IÁNDE, “I. 1ª pessoa do plural do pronome Xe: nós e vós, todos sem exceção; II. pronome possessivo, nosso, nossa. Iande có, nossa roça. Este exemplo significaria igualmente roça.

IANDEBO, para nós todos

IANONDÉ, “posposição: antes, primeiro que. Um ex. dará melhor a entender qual é a força desta expressão. Xe-çoyamondé, antes que eu vá (e hei de ir, decerto).”

IAPÁRA, torto, vesgo.

IAPYCÔN, língua

IARA = JARA = YARA, senhor, dono.

IARÁ, palmeira

IATYR ATYR, abundantemente

IBA, quadril

IBÁKE, céu

IBÁKE TINGA, nuvem

IBAKÉPE OÇÓ, salvação

IBAKÉPE TURYBA, glória, paraíso.

IBÝ, TERRA

IBÝ COARA, cova, mina.

IBÝ COARA OÇU IBY APITERPE MÁME PITUNA OÇÚ OICO NHINHÊ TAÝNA ETÁ ANGA CERAÝMA OAÊ ETÁ RENDÁBA. Limbo ou seio de Abraão. (!)

IBÝ CUÎ, praia

IBÝ MÁME OPOBINHÊ MBAÊ OJEMONHANG, fertilidade

IBÝ OCA, parede

IBÝ PEBA, terra plana

IBÝ RETÊ, terra firme

IBÝ RYRY, terremoto (por que haveria essa palavra se, como dizem os incautos, não houvesse terremoto no Brasil?)

IBÝ TYRA, serra

IBYTU, vento, arroto

IBYTU AYBA, vento de trovoada

IBYTU BABÓCA, redemoinho

IBYTU RANA, nevoeiro

IBYTY GOÁYA, vale

ICÔ, “este, esta, isto (e também) eis aqui, eis que. Ex: A-jur-icô. Eis que me vou. Ai-monhang-icô, eis que já faço.

ICÓ (A-ICÓ), estar ou ter de ser.”

ICURÉ, anta

IÊ = YÊ, “I. partícula que serve para tornar passivos os verbos transitivos. Ex: A-juca, eu mato. A-ye-juca, eu me mato. II. , recíproco.”

IGAÇÁBA, louça

IICÁBA, palavra

IIPÊ, um

IKÊ, aqui

IKÊ CECOI, aqui está

IMBOÉ, ensinar

IN, estar deitado

INDE = NDE, tu, do pronome ou Ixê

IPÉBA, chato

IPY = YPÝ, primeira origem

IQUE, entrar

I’RAXO, interjeição de espanto

IRÓN, vê só?!

IRUNÁMO GÓARA, parceiro

ITÁ BUBUI, pedrapomes

ITÁ JÚBA, dinheiro, ouro

ITÁ JÚBA JÁRA, homem rico

ITÁ JÚBA RÁNA, ouro falso

ITÁ OCA, parede de pedra

ITÁ PEBA, chapa de ferro

ITÁ PO MONDÉ, algemas

ITÁ PUPÊ JAPY, apedrejar

ITÁ RETÊ, aço

ITÁ TUPAN ÇUÎ OCÉMO OAÊ, raio

ITÁ TYBA, pedregal

ITÁ XÁMA, corrente (de ferro)

ITÁ YRYRY, concha

ITYCÁRA, pescador

ITYKÉRA, lixo

IXÊ = XÊ, eu. Só pessoas podem ser referidas como um eu no Tupi. – Nde ou Indé, tu – Y, ele – Yande ou Iande e Ore, nós – , vós – Y, eles.

IXÊ AÊ, sou, estou

IXÊ ETÊ, eu mesmo

J.

JÁ. “I. supino do verbo A-é, dizer. Gui-ja-bo, dizendo eu; II. calcanhar.”

JABÊ (IABÊ) (JAVÊ), basta!

JABÊ JABÊ, cada um

JABÊ IPÓ, como deve ser

JABÊ NHÓTE, de graça

JABÊ TENHÊ, nem mais, nem menos

JABÊ TURUÇÚ PORYB, cada vez mais

JABICÁBA, desigualdade

JABICÁBA RUPÎ, sem aviso, sem pensar, inadvertidamente

JABOTIM, jabuti

JABURÚ, ave ribeirinha

JABY, errar, faltar

JABYBÚRA, arraia

JÁCA

JACAMÎM, ave própria para adestrar

JACANHÉMO, pasmar, titubear; terror, espanto.

JACÁO, pelejar. Jacá-jacáo: arrazoar.

JACARANDÁ

JACARÉ

JACARÉ IHÚA, árvore grande que servia para construir canoas

JACARÔA!, poça d’água

JACARÔÁ MIRIM, charco

JACARÔA OÇÚ, lago

JACEON (A-JACEÕ), chorar

JACÍNA, espécie de borboleta

JACOAÚB ETÊ, ladino, sagaz

JACOAÚB EYMA, néscio

JACÚ, ave

JAÇÚ OAÊ, canhoto

JACUMAÝBA, piloto

JACY, lua, mês

JACY ÇOBA JEARÓCA, lua minguante

JACY ÇOBA OÇU, lua cheia

JACY JEMOTURUÇÚ, lua crescente

JACY PEÇAÇÚ, lua nova

JACY TATA, estrela

JAGOÁRA, cão; onça.

JAGOÁRA KIÝBA, pulga

JAGOÁRA OATÁ CEMIÁRA, o cão que manca

JAJÚRA MONDÓCA, degolar

JAKIBÁNA, cigarra

JAMÎM, espremer

JAMÎMA RUPÎ, sorrateiramente

JAMOTAREYMA, ódio

JAMOTAREYMA RUPÎ, odiosamente

JAMOTÍNGA, entrudo (carnaval indígena)

JAMOTÍNGA ARA, dia de entrudo

JANDÊ IARA JESU CHRISTO YBÝ AIQUÉRA ETÁ, discípulos de Cristo

JANDÊ MBAÊ, coisa nossa

JANDÊ PAYA IPÝ, Adão

JANDÊ PAYA ADÁO RENDABA QUERA, paraíso terrestre

JANDÊ RAMÚYA, antepassados

JANDÊ REÇÁ ÇÁBA, pestanas

JANDI, azeite

JANDI CARAÝBA, crisma; extrema unção.

JANDÚ, aranha

JANDÚ KEÇÁBA, teia de aranha

JAPABÓCA, partida (de ida)

JAPEGOÁ, centopeia

JAPÎ, atirar

JAPÎ APIXÁBA, pedrada

JAPI JAPI, apedrejar

JAPÎ MOCÁBA, dar tiro de espingarda

JAPINÓN, onda

JAPINÓN OÇÚ, maresia

JAPIXÁ, ferir

JAPIXÁBA, ferida

JÁRA, dono, amo, senhor, senhora

JATIMÁ TIMÁN, andar em círculos, rodear

JATIÚCA, carrapato

JATIÚM, mosca muito irritante

JATOBÁ

JÊ, “segunda pessoa do plural do presente do indicativo do verbo A-é, e assim também do imperativo. Pe-jê: Dizei, ou vós dizeis.”

JEAUÇUPABA, amor honesto

JEBÝC, esganar

JEBYR, repetir, voltar

JECOÁU, apresentar-se

JECOAÚB, aparecer aquele ou aquilo que estava perdido

JECOAÚB ETÊ, ladino

JECOACU OÇÚ, quaresma

JECOACÚB, jejum, jejuar

JECOACÚBA, sexta-feira

JECYRÓN, pôr-se em fila

JEGOARÚ, ter nojo

JEJUMÎNE, ocultar-se

JEJYBÝCA, enforcar-se

JEKYCÎ, caldo

JEKYI, definhando, morrendo

JEMÁNE, coisa velha

JEMBAACÝ, ter fome

JEMEMOTÁRA, vontade, concupiscência

JEMOÁ MONDÉ, vestir-se

JEMOÁCÁNGA YBA, endurecer-se

JEMOAÇÚCA, tomar banho

JEMOAPÚNG, tratar-se

JEMOAÝB, corromper-se

JEMOAÝB PORYB, piorar

JEMOCAMÁRAR, amigar-se

JEMOCAMÁRAR JEBYR, fazer as pazes

JEMOCANÉON, fadigar-se, afligir-se

JEMOCANHÉMO, desperdiçar-se

JEMOÇARÁI, brincar

JEMOÇARÁITÁBA, jogo

JEMOÇARÁITÁRA, jogador

JEMOÇARÁYA, galhofa

JEMOÇARÁYA RUPÎ, galhofeiramente

JEMOCURUÇÁ, persignar-se

JEMOKYÁ, sujar-se

JEMOMBEÚ ÇÁBA, confissão

JEMOMBÓRE IXUÎ, divórcio

JEMOMENDAR, casar

JEMOMOXÍ, envergonhar-se

JEMONDYÁRA, menstruação

JEMONGETÁ, conversar

JEMONHARÓN, ficar bravo

JEMOPOTYR, florescer

JEMOPYÁ-YBA, apaixonar-se; enfadar-se. (!)

JEMOPYTÚNE, anoitecer, escurecer (fechar o tempo)

JEMOROIÇÁNG, esfriar

JEMOTAÇÁBA, pancada

JEMOTAGUÁ, amadurecer (fruto)

JEMOTAIGOÁRA, alforria

JEMOTÁRA, vontade

JEMOTY JOBAÊ, envelhecer

JEMÚ, flechar

JEMUÇÁRA, flecheiro

JENÓNG, deitar

JEPÁRA PARÁBO, várias coisas e cores

JEPÊ, um, uma

JEPÊ YÎ, uma vez

JEPENHÔ OAÊ, único

JEPOÇANÓNG, curar

JEPOCOAÇÁBA, junta, ligamento

JEPOCOAÚB, acostumar-se

JEPÓI, alimentar

JEPOTAR, chegar. Uso restrito, apenas na sentença: Jepotar ygára, chegar de canoa.

JEPYÁ MONGETÂ, refletir

JEPYÁ MONGETAÇÁBA, meditação

JEPYÁ ROJEBYR, arrepender-se

JEPYÁBA, lenha

JEPÝCA, vingar

JEPYCÝCA, abraçar

JEPYCYRÓN, apadrinhar-se

JEPYPÚCA, e

JEPYPÝCA, naufrágio

JEPYRYPÁNE, negociar

JEQUÎ, armadilha para apanhar peixe

JERAGOIA, mentir

JERAGOIA OAÊ, falsário

JERAGOIA PUPÊ OACEMO, convencer

JERAGOIA RUPI TUPAN RERA OCENÓI, jurar em falso

JERÉO, despojar-se

JEROBIAR ETÊ CECÊ, vangloriar-se

JEROTÎM, ignomínia

JERÚ, papagaio = PARAGOAI

JERUBIAÇABA, fidelidade

JERUBIAR, confiar ou confiar demais (ser presunçoso)

JETYCA, batata

JEUPYR, subir, trepar

JEZUS CHRISTO RERÚ BIAÇÁBA, fé católica

JICÁ, coisa quebrada

JICÁ JICÁ, quebrar

JICAÇÁBA, rachadura

JIJÊ, afastar

JIMBOÊ, estudar, aprender, ensinar, rezar (quase tudo vinculado à educação)

JIMBOÊ PAPÉRA PUPÊ, ler

JIMBOEÇÁBA, doutrina, lição, reza, oração. Jimboeçába catu pupê ojemoturuçú: bem-educado.

JIMBOEÇÁRA, mestre

JIRÁO, jirau

JÓCA, desentupir

JOCAIÇÁRA, ocupante

JOCOAI, ocupar

JOCYB, limpar esfregando

JOCYB ANGA, purificar a alma

JOJÓCA, soluçar

JOMÁNA, abraço

JOMBYÂ, buzina

JOMÎMA RUPÎ, secretamente

JOMINEÇÁBA, segredo

JORÁO, soltar, desembaraçar

JÓBE, chamar alguém

JORI, “segunda pessoa, singular e plural, do imperativo do verbo: A-jur. Vem tu, vinde vós.

JOTOÎM, acotovelar

JOTÝME, semear, enterrar

JOTÝE JEBYRE, replantar

JU. “I. partícula pospositiva do vocativo, empregado pelas mulheres. Xe-cyg-ju, ó minha mãe! II. espinho”

JU TYBA, espinhal

JUB, deitado

JUCÁ, matar

JUCÁ-ÇÁRA, matador

JUCÁ-CÝ, pirraça

JUCÂNE, transbordar

JUÇÁRA, “comichão, coceira, frieira. No Maranhão, fruto de uma palmeira.”

JUCÝB ÁNGA, descarregar a consciência

JUÎ, rã

JUKÝRA, sal

JUMAM, braço

JUNDUHI, aranha matadora de plantas

JUR, vir

JURARÁ, cágado, tartaruga. “No tempo em que Alexandre Rodrigues visitou o Pará, era a manteiga dos ovos de tartaruga uma das indústrias mais usadas em certas estações. Eis como ele descreve este processo: ‘Juntam-se aos montes nas praias os ovos que se descobrem nelas; se se quer que funda mais a manteiga, deixa-se fermentar de 4 a 5 dias, mas então ela sai rançosa e com mau cheiro. Se os ovos de preparam ainda frescos, são logo metidos numa canoa, que de propósito está reservada para isso, e vão pisando-os a pés nus, como em Portugal se faz com as uvas. Sobre os ovos pisados lançam água, a qual depois de mexida e encorpada, deixa sobrenadar o óleo: com a mesma água dissolve-se grande parte da clara: as cuias (e de preferência as válvulas das conchas) são as colheres com que tiram o óleo de cima d’água, empurrando-o para dentro dos tachos. Após, vai a manteiga ao fogo, esfria-se-a em panelões à parte, e deles transporta-se-a aos potes. Esta manteiga serve para temperar ou comer, fritar peixe, de combustível para a luz doméstica, ou calafetar as canoas (para evitar vazamentos).”

JUREMA, árvore

JURÚ, boca

JURÚ AYBA, maldizente

JURÚ CANHÉMO, emudecer

JURÚ CUY, tagarela

JURÚ GUÉRA, bobajada

JURÚ JERAGOÁYA RUPÎ OAÊ, adulador

JURÚ JYB, ato de cortesia

JURÚ NÊME, mau hálito

JURÚ OÇÚ, boca-suja

JURÚ PITUGÉME, bafo

JURUCÊ, aquele que tem o falar afável

JURUPÁRI, demônio; na mitologia tupi, espécie de macaco.

JURUPÁRI ENGANANE ÇÁBA, tentação

JURUPÁRI KIBÁBA, centopeia

JURUPÁRI RATÁ (TATÁ), inferno

JURUPÁRI RATÁ PÓRA, habitante dos infernos

JURUPÁRI REMI MONHÁNGA, diabrura

JURUPÁRA REPOTI, enxofre

JURUPIXUNA, macaco de boca preta

JURURÊ, pedir, mendigar, suplicar. Pitybonçaba ojururê, pedir ajuda.

JURURÊ RURÊ CATU, pedir humildemente

JURURÊÇÁRA, pidão

JUTAÝ. “Fruto desagradável, e contudo os índios os comem. Desta árvore se colhe a resina chamada Jutay-cica, ou goma copal, com que envernizam a louça. (…) A casca também serve para confeccionar canoas.”

JURUTI, pomba

JYBA APÁRA, maneta

JYBA BABACA, e (!)

JYBA BÓC, danças, bodas

JYBA KITAM, cotovelo

JYBA PECÁNGA, ombro

JYBA RAJÝCA, pulso, veia.

JYBÝCA, engasgar comendo

JYBYCÁBA, forca

K.

KEBYRA, “irmão ou primo da mulher; indica ao mesmo tempo que este parente é o mais moço, não só a respeito dela, mas também em relação a todos os demais irmãos.”

KÉR, dormir

KÉR AÝBA, pesadelo

KERIRIM, silêncio, tristeza

Xe-kiriri, estou triste

KIÝBA, piolho

KYÂ ÇÁBA, nódoa

KYBÁBA, pente

KYÇÁBA, rede de dormir

KYCÊ, faca

KYCÊ APÁRA, foice

KYCÊ GUASSÚ, facão, cutelo.

KYINHA, pimenta

KYINHA AVÎ, pimenta malagueta

KYINHA ÇOBAIGOÁRA, pimenta do reino

KYRÂ OICO, estar gordo

KYTAM, verruga

KYTINGÓCA ÁNGA, confessar (purificar a alma) (malditos jesuítas!)

M.

MÃ. “partícula pospositiva com que exprimimos desejos ou saudades. A-ço-mo Tupan pyri mã. Oh! quem fôra para Deus. Xe-cyg-mã. Oh! minha mãe. Com esta partícula juntam-se estas outras, temo, mey, mey-mo; e desta maneira forma-se o optativo dos verbos.”

MÁ ÁRA ÇUÎ VÊ CATU, desde quando?

MÁ ÁRA PUPÊ, a que horas?

MÁ ÁRA ÇUÎ, donde? de onde vem?

MÁ MARANDÚBA, que vai?

MÁ MBAÊ, que coisa?

MÁ RUPÎ, por onde?

MAÊ TACÓ = MAÊ TEPE = MAÊ TERÁNHE, Ora, vede agora!

MAÉM, olhar

MAÉM ETÊ, encarar

MAENDUAÇÁBA, lembrança, pensamento.

MAENDUAR JEBYR, recordar

MAIRYGOÁRA, cidadão

MAITACÁ, papagaio que destrói os campos de milho

MÁME, onde?

MÁME COARACY’ OCANHEMO, ocidente

MÁME NHÓTE, algum lugar

MÁME TÁ, aonde

MAMETÉI, muito bem!

MANACÁ (somente Pará), flor e apelido da moça mais bonita da tribo.

MANIÇOBA, folha da mandioca

MANIPOEIRA, a água que a mandioca destila = TUCUPIM

MANÔ, morrer

MANÔ AYBA, desmaio

MARÁAR, definhar

MARÁCA. “I. Instrumento das solenidades religiosas dos índios: cascavel. II. Árvore de fruto que nasce pela terra firme, que se diz semelhante a uma espécie da crescentia de Lineu. III. Por ampliação do sentido direto da palavra, dá-se hoje este nome a um chocalho feito de lata e cheio de pedrinhas, que serve de brinquedo.”

MARACÁJÁ, gato do mato

MARACANA’, papagaio amarelo

MARACATIM, “navio, embarcação grande [não se refere ao do homem branco]. Era o nome que os índios davam a suas embarcações de guerra, as quais tinham na proa um maracá, que eles faziam tocar quando acometiam.”

MARACÁYMBÁRA, feiticeira

MARACUJÁ

MARAMONHANG, guerra

MARÍCA, barriga

MAYA, mãe

MAYA ARÝA, avó da mãe

MAYA RAMÛYA, avô da mãe

MAY-TINGA, ama

MBAACY, adoecer

MBAACY AYBA OÇU, peste

MBAACY JEBYRE, recidiva da doença

MBAACY OJEPECÝCA OAÊ, doença contagiosa

MBAÊ, coisa

MBAÊ ACY ACY OAÊ, homem muito doente

MBAÊ AYBA, malefício

MBAÊ BUPIÁRA, antídoto

MBAÊ ÇÁÇY’ OAÊ, veneno

MBAÊ CURUTÉM NHÓTE OÇAÇÁO OAÊ, vaidade

MBAÊ ETÁ, bens

MBAÊ PUXI, adultério

MBAÊ PUXÍ RECÊ ENHEÉNG, falar leviandades

MBAÊ RÁMA RECÊ TA, para quê?

MBAÊ REPIACA, visão

MBAÊ RETUNA, olfato

MBAÊ TAÎ OÇU, coisa apimentada

MBAÊ UÇABA RENDÁBA, refeitório

MBAÊ UÚ, refeição

MBÂE UÝ ETÊ, gula

ME. “I. na (preposição); II. partícula que se acrescenta aos verbos acabados em ditongo, para formar o conjuntivo: A-cai faz Cai-me.”

MEAPÉ, pão

MEAPÉ ANTAM, biscoito

MEAUÇÚBA, escravo

MEÉNG, dar

MEENGABA, dádiva

MEGOÉ, pouco

MEMBY, flauta

MEMBYRA AMÔ, enteado (filho da mulher)

MEMBYRA ANGÁBA, afilhado (da mulher)

MEMBYRA CU, enteada (filha da mulher)

MEMBYRA RERÚ, sogra (mãe da mulher)

MEMBYRA TY, nora (irmã do irmão, para a mulher)

MEMBYRAR, parir

MÉME. “partícula que significa ‘o mesmo’, da mesma maneira, ou sempre. A-çó méme, eu sempre vou.”

MENDAÇÁBA, casamento

MENDAR, casar

MENDUBA, sogro da mulher (pai do homem)

MENDY, sogra da mulher

MEOÁM, lesão, defeito

MEREBA, chaga

MEREBA AYBA, bexigas

MERÚ, mosca

MI, partícula que se antepõe aos verbos ativos para formação dos particípios passivos

MIKYRA, nádegas

MIMBABO, gado

MIMÓI, cozinhar

MINGÁU

MINÔ, fornicar

MINONÇÁRA, fornicador

MIRÁ, gente

MIRÁ REÇÁPE, publicamente

MIRÁ RECO RUPÍ, popularmente

MIRÁ REIYA OPUÁME, rebuliço

MIRÎM

MIRÎM NHÓTE, um nada

MIRÎM PURYB, pouco menos

MIRYBA, Bárbara, nome de mulher

MISSA MONHÁNG, celebrar missa

MISSA PYTUNA, natal

MITÁNGA, criança

MITÁNGA RECÊ, meninice

MITYMA, planta

MIXÍRA, assadura

MIXIRE, assar

MO.I. posposição empregada com os verbos tornados passivos em virtude das partículas –nhe ou –ye, antes das quais se coloca a tal partícula: mó-. A-yê-apîn: tosquiar-se. Ai-mo-yê apîn Pedro Diogo çupe, faço com que Pedro seja tosquiado por Diogo. II. Dos verbos neutros do pronome xe se fazem verbos ativos com o pronome ai, e logo a sílaba mo. Xe angaturám, sou bom. Ai-mo angaturám, faço bem a alguém. Se o tal verbo tem a letra r, depois do pronome xe perde-se a sobredita composição. Xe ropar, eu me perco. Ai-mo-opar, faço com que outro se perca. III. Serve também esta partícula para tornar ativos os verbos neutros do pronome a, metendo-se a partícula entre o pronome e o verbo. A-poám, levanto. Ai-mo poám, faço levantar a alguém ou alguma coisa. A-in, estou parado. Ai-mo­ in, assento alguma coisa. IV. Acrescenta-se também aos verbos acabados em mo ou no para formação do gerúndio. Ai-amô, molhar, Amô-mo. Ai-manôGui manô-mo. V. Também se acrescenta para formação do gerúndio aos verbos acabados em ~ nas letras a, e, o. Ai-nupã faz: nupâmo. VI. Partícula pospositiva do imperfeito do permissivo. A-jucá-mo, eu matara ou mataria. VII. Empregada pospostiviamente com substantivos significa ‘em vez, em lugar de…’ Tuba-mo. Em vez, em lugar de pai.”

MOACY’, doente

MOACY-ÇÁBA, mágoa

MOACY-ÇÁBA OJEPIACA RECÊ MBAÊ, inveja

MOAGOAÇÁBA, amancebar-se (relação indíg[en]a)

MOANG, MOÁNGA. “Significa coisa fictícia ou imaginada, e nada mais que isso. Os seguintes exemplos explicarão melhor o sentido desta proposição, que vem do verbo acima. A-ço-moang, finjo que vou, ou vou baldadamente. A-caá mondo moáng, fui à caça debalde, sem proveito.”

MOANTAMÇÁBA, parapeito

MOAPAR, aleijar

MOAPY, tocar

MOAPYR, somar, acumular

MOÁR TATÁ, fazer fogo

MOATÚCA, encolher, encurtar

MOAUG-Ê, consumar

MOAUGUÉRA AYBA, malicioso

MOAÝB, corromper, deflorar

MOAÝB ÇAÎNHA, estragar os dentes

MOBABÓC, moer a cana

MOBYR, quantos?

MOBYR EY’, quantas vezes?

MOBYR HORA, que horas são?

MOBYR NHÓTE, alguns

MOBYRIÔN, muitos

MOÇABAIPOR, embebedar totalmente

MOÇÁC, arrancar

MOÇÁÇÁO, atravessar

MOÇAÎ, azedar

MOÇAIMBÊ, afiar (instrumento cortante)

MOÇÁNGÁB, assinalar, marcar, medir, pesar, demarcar.

MOÇAPÝR, três

MOÇARAY, escarnecer, brincar, galantear, zombar, triunfar.

MOÇARAY GUÉRA, bobo

MOÇARAYA RUPÎ, na brincadeira

MOÇARAYA RUPÎ NHÔTE ONHEENG, dizer besteiras

MOÇARAYTÁRA, folgazão, descontraído

MOÇÁ ÇUÍ, pólvora

MOCABA, espingarda

MOCABA MEMBYRA, e

MOCABA MERIM, pistola

MOCABA OÇÚ, peça de artilharia

MOCABA RAÝNA, munição, chumbo, bala

MOCABA REAPÚ, tiro

MOCAJÚBA, “o fruto chamado em algumas partes de côco de catarro” (!)

MOCAMBY, amamentar

MOCANEÓN, cansar

MOCANHÉMO, assolar, assustar alguém

MOCANTÎM, fazer bico

MOCAÓCA MIRIM, presídio

MOCAÓCA OÇÚ, fortaleza

MOCATÚ, curar

MOCAÚ, embebedar totalmente

MOCEAQUÉNE, perfumar

MOCEÉM, adoçar

MOCEKYJÊ ÇÁBA, espantalho

MOCEKYJÊ KYJÊ, ameaçar

MOCÊM, salgar, estender

MOCEMO, pronunciar

MOCEMO CECÔ QUÉRA ÇUÎ, absolver, isentar

MOCENDY, iluminar

MOCERAKÉNE AÝBA, infamar

MOCERAKÉNE CATU, honrar

MOCERÁNE, vencer, desprezar

MOCÍMO, jogar fora

MOCOCÁBA, gasto

MOCOCÁO, desperdiçar

MOCOCÁOÇÁRA, gastador

MOCOCOBIAR, compensar

MOCOCOI, derrubar (fruta)

MOCOÉNE, dar bom dia

MOCÓI, dois

MOCÓI VÊ, ambos, tanto um como outro

MOCÓNE, engolir

MOCORORÔ, (Maranhão) aloa (?) de arroz; (Ceará) suco de caju femrmentado.

MOCORUY, ralar

MOÇORYB TAMARACÁ, tocar o sino, badalar

MOCOTÓ, sapo grande preto dos lados

MOCUBÊ CATÚ, mandar lembrança

MOCUÎ ÇÁRA, moedor

MOÇUPÍ, justificar

MOÇUPÍ ENHÉENG, cumprir a palavra

MOCURUÇÁ, cruzar

MOETÊ, venerar, solenizar

MOETEÇÁBA, veneração

MOETEÇÁRA, devoto

MOGOAÇÚ, subir de preço

MOGOAÇUÇÁBA, exagero

MOGOAPÁBA, coador

MOGYB, abaixar

MOJACÉON, fazer chorar

MOJAÓCA, separar, dividir

MOJAÓÇÁBA, apartamento

MOJAR, aproximar duas coisas

MOJAR CECÊ, ligar duas coisas antes cortadas

MOJAR CURUCÁ CECÊ, crucificar

MOJATICÔ, pendurar

MOJATICÔÇÁBA, dependurar

MOJATINONG, balançar

MOJEAIBYC, abater

MOJECIAR, acamar, empilhar

MOJECIRÓN, enfileirar

MOJECUAPÁBA, revelação

MOJECUAÚB CUPÎ ÇÁBA, verificar a veracidade

MOJEGOARÚ, causar nojo

MOJEMOMBEÚ, confessar

MOJEMONHÁNG, gerar

MOJENDIRÓN, amuar

MOJÊNÓNG, deitar

MOJÊPÊOÇÚ, incorporar

MOJÊPOCOAÚB, domesticar

MOJERERAGOAY, desmentir

MOJOJABÊ, emparelhar

MOKATÁC, abanar

MOKÉCA = Pokéca. Embrulho. “Hoje significa um guisado de peixe. Na frase vulgar, estar de moqueca é estar de pé dormente, sem se importar com coisa alguma.

MOKYÂ, ofuscar

MOKYTÁM, atar, dar nó

MOMÃ. “I. Partícula que se acrescenta ao presente do optativo, quer se afirme ou negue. Ex: A-juca-momã. Oxalá mate eu! Na-juca-i xoéte momã, oxalá não matara eu ou não matasse. II. Também se acrescenta ao futuro do mesmo modo: Na-juca-i xoe momã! Praza a Deus que eu não mate!”

MOMAENDUAR, fazer lembrar

MOMBÁO CATÚ, aperfeiçoar

MOMBEÚ, dizer, relatar

MOMBEÝ AYBA, culpar

MOMBEÚ CATU, explicar, recomendar

MOMBEÚ CATU CECÊ, louvar

MOMBEÚ TUPÁNA NHÉENGA, evangelizar

MOMBYCA, furar

MOMEMBÉCA, enfraquecer

MOMORIAUÇÚBA, empobrecer

MOMOROTINGA, branquear

MOMOXÎ, adulterar, descompor

MOMOXÎ NHÉENGA PUPÊ, xingar

MOMOXIÇÁRA, injuriador. Cunhã iména momoxicára, mulher adúltera.

MONÁNE, misturar

MONDÁ, furtar

MONDABÓRA, ladrão

MONDAÇÁBA, furto

MONDAR, imputar, acusar

MONDÉ PÓRA, preso

MONGATIRÓN TEMBIÚ, temperar comida

MONG-ER, fazer outrem dormir

MONG-ER AYBA, má dicção

MONG-ETÁ ÇÁBA, prática

MONGUBA-Î, árvore, madeira

MONHÁNG, fazer, tirar do nada, fabricar

MONHANGÁBA, fábrica

MONHERUNDÍC, quatro

MONOXI, irmãos gêmeos

MOPÉ, aplanar o caminho

MOPEÇAÇÚ, renovar

MOPEÇAÇÚ JEBYRE, reformar

MOPECÚ ÁBA, espaçar

MOPERÉBE, ferir

MOPOÂME ABÁ RECÊ, amotinar

MOPOKERÝC, fazer cócegas

MOPÔPECYCA, pegar na mão, enganchar

MOPORÁNG, adornar

MOPORARÁ, atormentar

MOPOTOPÁO, irritar

MOPOTUÚ, aliviar

MOPOTUÚ TUGUÎ, estancar o sangue

MOPÚ, enxotar

MOPUCÁ, fazer rir

MOPYÂ CATU ABA PUPÊ, fazer a vontade

MOPYÂ CATU TAÍNA MERIM, acalentar bebê

MOPYPYC, remar de leve

MOPYRANTÁM OAÊ, coisa importante

MOPYTÁ, agasalhar, deter

MOPYTUBA, acanhar

MOPYTÚNE, dar boa noite

MOPYXÚNE, vestir-se de preto

MOPYXÚNE CERÁNE, ofuscar

MORANDUB, avisar

MORANDUBA, embaixada

MORANDUBA AÝBA, queixa

MORAUÇÚB, ter compaixão

MORAUÇÚB EYMA, impiedade

MORAUÇÚBA, caridade, misericórdia

MORAUKY, serviço, trabalho

MORAUKY MOÇAPYR, quarta-feira

MORAUKY MOCOI, terça-feira

MORAUKY OÇÚ, tráfego

MORAUKY PY, segunda-feira

MORAUKYÇÁRA, trabalhador, jornaleiro (!)

MOREAUÇÚBA, pobreza, tirania

MOREPOTÁRA, luxúria

MOREPY, salário

MORERÚ, deixar de molho

MORO, gente

MORORYB, alegrar

MOROTINGA, coisa branca

MOROYÇÁNG, esfriar

MOROXÁBA, prostituta (já em desuso na época de Gonçalves Dias)

MOROXÁBA, MOROBIXABA-OCÚ, general (faz todo o sentido!)

MORYÇÁBA, carícias

MORYPÁRA, amante

MOTAPY, afundar

MOTATAC, amassar

MOTECÔCOAÚB, doutrinar

MOTEKYR, destilar

MOTEKIROÇÁBA, alambique

MOTEMÚNG, sacudir

MOTENING, secar, torrar

MOTERYCÉMO, abarrotar

MOTICÁM, enxugar

MOTÎM, envergonhar alguém

MOTUMÚNE, escarrar

MOTURUCÚ, criar, cultivar

MOTUTY, cortiça

MOTUÚ ÁRA, domingo, dia santo

MOTUÚNE, lambuzar

MOTYC-Û, fazer líquido

MOTYJOBAÊ, envelhecer

MOXACÎ, trancar, aferrolhar

MOYRA CURUÇÁ, rosário

MU, irmão, primo do homem

MUACIKÉRA, meio-irmão do homem

MUNDÉ TINTA PUPÊ, tingir

MUNGA, nascida

MURIÇOCA

MURUCÚ, arma indígena de pau

MURUCUTUTÚ, ave acinzentada de olhos amarelos

MURÚ-MURÚ, palmeira

MURURÚ, nenúfar

MUTÁ MUTÁ, escada

MUTÚCA, mosca grande, cuja picada faz sangrar

MYRA, espécie de pão

N.

N, ND. “Negação do verbo. Lê-se a este respeito na Gramática de Figueira: ‘Para

[Interrompido neste ponto, 60% do dicionário percorrido.]

1,001 NIGHTS Ou: O Alcorão bem-escrito

 

It was this unhappy secret, said Schahzenan, which removed my despondency; as so amiable a man as my brother conld not secure to himself the possession of a woman, it convinced me that the whole sex were contaminated, and that it would be idle in me any longer to bewail so common a misfortune.”

Fool, to think that jealousy and restraint can preserve a mistress: notwithstanding thy vigilance, I find by these rings, every one of which I have received from a different gallant, that I have had fourscore and eighteen lovers since I have been in thy power.”

Every night now saw a new bride conducted to the sultan’s bed, and every morning beheld her a victim to his jealousy: the consternation was universal; there was no parent who had a young and beautiful daughter, but trembled for her life; and the sultan, instead of receiving, as before, the blessings of his people, became the object of their execrations.”

The implicit obedience which good Mussulmans owe to the commander of the Faithful, had as yet restrained the inhabitants of Bagdad from rebellion, nor had they taken any measure to preserve their children from so new a calamity; when the beauteous and accomplished Scheherazade, daughter of the grand vizier, undertook to deliver them from it, by becoming the destined bride. Her father was astonished when she declared her design. He used every argument and entreaty to persuade her from it; and agreeably to the custom of the East, he endeavored to enforce his reasoning by the following apologue”

A pretty fellow, truly, replied the cock, is this master of ours, who cannot manage one wife, when I govern 50! Let him take a good crab-stick, and use it properly, I will engage she will soon dismiss her impertinent curiosity. The honest farmer took the hint; his wife returned to her duty; and you, my daughter, if treated in the same manner, would no doubt be as conformable to my desires, and forego só desperate an experiment.”

When Scheherazade was introduced to the sultan, he was struck with her beauty and modest sensibility. Perceiving her in tears, he for a moment forgot his barbarous resolution, and endeavored to comfort her. The lovely sultaness, pleased to see she had made an impression on his savage heart, seized that moment to request that her sister, Dinarzade, might be admitted to her next morning, an hour before day, to take her last farewell. The sultan readily complied; and notice being sent to her sister accordingly, the charming Scheherazade suffered herself to be conducted to the fatal couch, and became the devoted bride to the cruel Schahriar.

At the appointed hour, Dinarzade was admitted to the nuptial chamber; when she made the strange request, that in the little time which remained, before they were to part forever, the sultaness wTould relate to her one of those many entertaining stories she had read. The sultan, wondering at so singular a request, consented, at the desire of his bride, and even expressed a wish to hear stories which must be singular, indeed, to be asked for at such a moment. Scheherazade, encouraged by this wish, began thus…”

The desire of posterity induced me to buy a slave, by whom I shortly had a son. I still lived in great harmony with my wife, who always treated the slave kindly, and appeared to be very fond of my boy. Some years after his birth, I was obliged to go a long iouruey, and on my return, my wife told me that my son and my slave were both dead. I lamented their loss very much; but the feast of Bairam approaching, I thought it my duty to overcome my sorrow, and prepare for the holy festival.”

He took me to his own habitation, and introduced me to his daughter, by her I was informed that during my journey, my wife had learned the black art; and by that means had transformed my slave into the cow we had unfortunately slaughtered the day before; and my son into the calf which had so narrowly escaped”

But not doubting my informer was able to restore my son, as she had the skill to discover his situation, I very earnestly besought her assistance. <On two conditions, replied she, I will restore him. First, that you give him me for a husband and secondly, that you permit me to punish as she deserves, the wicked enchantress who has transformed him.> I consented; she then pronounced certain words, and sprinkling my son with water, he resumed his shape. He joyfully married his fair benefactress, who changed my wicked wife into the hind you see here.”

Prince of genii, said the second old man, these dogs and myself are brothers. On the death of our father we divided the substance among us, and each received a thousand sequins. One of my brothers resolved to travel, laid out his money in goods suited to the country he intended to visit, and departed. After a year’s absence he returned in great distress, having lost all his effects. Meantime, by industry, I had acquired an additional thousand sequins, which I readily gave him. My other brother, not disheartened by the ill success of the first, pursued the same measures; very shortly he also returned entirely ruined. To him also I gave another thousand sequins; we then agreed to remain at home, and pursue our business carefully, without seeking further adventures.

Some years afterward, both my brothers besought me to join with them in a trading voyage. Their importunity prevailed. I disposed of my stock, which now produced 6,000 sequins, half of which I buried in a corner of the house, and gave each of my brothers a thousand of the remainder. We arrived safely at our destined port, where we sold our adventures to good profit.”

My wife proved to be possessed of so many good qualities that I became every day more fond of her. My unworthy brothers, envying my superior good fortune, seized us both while asleep, and threw us into the sea.” “My wife was a fairy; she conveyed me home, and conducted the vessel which had my goods on board, safe into port. Before I knew of its arrival, two black dogs came crouching to me in the most submissive manner. These, said the fairy, are your brothers. Thus is their wickedness requited; and it is one part of their punishment, that in this degraded state they must look for support and protection to the brother they so basely betrayed.”

The genie thought these adventures so singular, that he remitted the punishment of the merchant, and disappeared; and the merchant, after suitably thanking his benefactors, returned home again with joy to his family.

The sultan was delighted with these stories. He requested Scheherazade to proceed next night to another; and going into the divan, the vizier, his family, the court, and the people in general, were overjoyed to find that he gave no orders to put the beautiful sultaness to death.”

Solomon, Solomon, the great prophet! exclaimed the genie, pardon, pardon, pardon; I never more will oppose your will!; The fisherman hearing this took courage, and said, Thou proud spirit, what is it thou talkest of it is eighteen hundred years ago since the prophet Solomon died! Tell me your history, and how you came to be shut up in that vessel.

I am one of those rebellious spirits who opposed themselves to the will of Heaven. The other genii owned Solomon the great prophet, and submitted to him. Sacar and I only resisted. That potent monarch caused me to be seized and brought by force before his throne! when, as I daringly persisted in my disobedience, he shut me up in this copper vessel; and that

I might not escape, he himself stamped his seal, with the great name of God engraven on it, upon this leaden cover, and ordered it to be cast into the midst of the sea.

During the first century of my imprisonment, I swore that if any one would deliver me I would make him immensely rich. During the second, I vowed that I would open all the treasures of the earth to any one who should set me free. In the third, 1 promised to make my deliverer a mighty prince, and to be always his attendant spirit. Many centuries passed over, and I continually increased my promises to him who should render me so essential a service; but all in vain; no one was so lucky as to find the coffer, and by opening it, to obtain the rewards I had bound myself to bestow. At last, enraged and tired with so long a confinement, I vowed that if any one should set me at liberty, I would kill him without mercy; therefore, as you have this day delivered me, prepare yourself to die.”

I cannot believe, said the fisherman, that you were really confined in that vessel; it will not hold one of your feet. I adjure you, therefore, by the oath you have taken, to enter into it again, that I may be convinced, and acquit you, before I die, of ingratitude and murder.”

The fisherman instantly shut down the cover; Now, genie, it is thy turn to entreat in vain. I will return thee to the sea whence I took thee, and will erect a monument to caution other fishermen if they chance to meet with thee, that they may be aware of such a wicked genie as thou art, who has sworn to kill thy deliverer! The genie endeavored with his utmost force to get out of the vessel again; but the seal of Solomon restrained him. Dissembling, therefore, his anger, he addressed the fisherman in a more pleasant tone; begged him once more to remove the cover, and promised to reward him to his full satisfaction. Thou art a traitor, replied the fisherman, and I should deserve to lose my life, if I was so foolish as to trust thee. No doubt you would use me as the Grecian king did his physician Douban. ‘T is a story I have a mind to tell thee, before I return thee to the faithless element in which I found thee.”

The Grecian king was a very weak prince, easily irritated, and tyrannical in his disposition. His former favorites envied Douban, and seized every opportunity to excite distrust of him in the royal breast. He is become, said they, next in dignity and power to yourself; as he cured you in a manner so simple, may he not also, by methods as unsuspected, cut off your majesty; who alone stands between him and the throne.

For a long time the Grecian king repelled these insinuations. Were I to listen to you, said he to his courtiers, I should be like a certain man who had a faithful parrot, who reported to him the incontinence of his wife during his absence. The wife, enraged at the tell-tale, contrived a method of destroying the credit of the bird, and being revenged at the same time. Accordingly, when her husband went another journey, she caused a slave to scatter water over the cage all night, in the manner of rain, while others produced the appearance of thunder and lightning. The next day, when the husband returned, the parrot complained of having been exposed all night to the fury of a continual storm. As the master knew the weather had been exceedingly fine, be hastily concluded that his bird was false, and in resentment put it to death; but the future ill conduct of his wife too soon proved to him his parrot’s truth and his own rashness.”

Douban, astonished at so fatal a denunciation, solicited earnestly for mercy, but in vain.”

The king obeyed, but finding the leaves stick together, he put his finger to his mouth and wetted it to separate them. When he came to the sixth leaf, he said, <Physician, there is nothing written here!><Turn over leaf by leaf,> said the head, <till you come to the writing.> The king continued to turn over the leaves, putting his finger continually to his mouth, till the poison with which each leaf was impregnated took effect. The head, perceiving that the king had but few moments to live, exclaimed, <Tyrant, you are justly punished!> Having said this, its eyes closed, and it remained without life. The king also, in a short time, fell down and expired.”

My good friend, replied the genie, remember, revenge is forbidden; do not treat me as Imama did Atteca. How was that? asked the fisherman.Ho! replied the genie, do you think I can tell stories in this confinement? Let me out, and I will tell you as many as you please. No, said the fisherman, I will not let you out; on the contrary, I will this moment cast you back into the sea. Hear me, I charge thee, exclaimed the genie, if thou wilt deliver me, I swear, in the most solemn manner, that I will not hurt thee: on the contrary, I will teach thee how to become as rich as thou desirest to be.”

The four islands which I reigned over, are become the four hills you passed; my capital city is changed to a pond; and my people are turned into fishes, of various colors: the Mussulmans being white; the Persians, who adore fire, red; the Christians, blue; and the Jews, yellow. This I learned from her rage and reproaches; for she is not satisfied with the evils I now suffer, but every day she comes here, and gratifies her malice by invectives, and even by blows, which I have no power to resist.”

He then laid aside his upper garment, and having blackened his hands, face, and neck, and taken his scimitar with him, he lay down on the bed in the same posture in which he had found the black.”

you know the company of women without men is as dull as the company of men without women. Besides, the Bagdad proverb is allowed to be a good one, which says: One is never well at table, except there be four in company.

They sat down to their repast together. After they had eaten a little, Amine took a cup, tilled out wine, and drank first herself, according to the custom of the Arabians; she then filled the cup for her sisters, and last for the porter, who, as he received it, kissed her hand, and, before he drank, sung a song to this purpose: <That as the wind brings along with it the sweet scent of the perfumed places through which it passes, so the wine he was going to drink, coming from her fair hand, received a more exquisite taste than what it had of itself.>”

One condition you must carefully observe: that whatsoever we do in your presence, you take heed not to inquire the reason of, nor presume to dive into the motive of our actions. That you may perceive this is an invariable rule with us, rise up, and read what is written over our gate, and then you may stay.”

The caliph Haroun Alraschid was accustomed to walk abroad in disguise very often by night, accompanied by Giafar, his grand vizier, and Mesrour, chief of the eunuchs, to inspect into the order of the city, and see that the duty of the magistrates was properly executed. Passing by the palace of the ladies, he heard the sound of music and jollity; and chose to inquire into the reason of it. The vizier represented to him that it was not yet an unlawful hour, and that by disturbing their mirth, in that disguise, he would probably expose himself to insult; but the impatient caliph put an end to his remonstrances, by ordering him to knock loudly at the gate. On Safie appearing, Giafar represented to her that they were Maussol merchants, strangers in Bagdad, who having rambled a considerable way from their khan (or inn) were at a loss to find it; they therefore besought from their hospitality the favor of passing the night under their protection.

The ladies, having already admitted the calendars, made no hesitation to receive also these pretended merchants. The customary caution of the family was given to them, which they promised to observe; the diversions were resumed; the calendars arose and danced after their manner, and every one endeavored to contribute to the pleasure of the company.”

When the caliph was first introduced he was struck with the beauty and elegant manners of the ladies; the singular appearance of the calendars, all young men of polite address, and all blind of the right eye, had exceedingly engaged his attention. He was astonished at the conduct of Zobeide, in so severely whipping the two bitches, and afterward crying with them; wiping away their tears, and kissing them, though such animals are considered by the Mussulman religion as unclean; and the sight of Amine’s bosom excited his highest indignation against the person who had so cruelly abused her. Yet he still suffered himself to be restrained by the conditions imposed on him and his companions. While he was meditating on these extraordinary events, he overheard the calendars expressing to each, other their wonder also.”

Madam, these gentlemen desire you will acquaint them why you wept over your two bitches, after you had whipped them; and how that lady’s bosom, who fainted lately, became so full of scars.

Zobeide, turning to the caliph and the rest of the company, with an air of indignation asked if they had ordered the porter to make that request. On their acknowledging that they bad, she said: Before we gave you the protection of our house, you were each separately cautioned, not to speak of things which did not concern you, lest you should hear of that which would not please you; take therefore the just punishment of your impertinence and ingratitude.

As she spoke, she gave three hard knocks with her foot, and clapping her hands as often, cried, Come quick. A door immediately flew open, and seven strong slaves with scimitars in their hands, rushed in. Every one seized a man, threw him on the ground, and prepared to cut off his head. The frightened porter exclaimed aloud: For Heaven’s sake do not punish me for the crimes of others! I am innocent; they are to blame; alas! Continued he, crying, How happy were we before these blind calendars came; they are the cause of this misfortune; there is no town in the world but falls to ruin, wherever these inauspicious follows come!

The caliph, alarmed at his situation, was about to discover himeelf, when Zobeide, who, notwithstanding her anger, could scarce refrain from laughing aloud at the lamentation of the porter, thus addressed herself to them all: Your unworthy conduct convinces me that you are common fellows of no credit in your own countries. If, however, you have anything to say before you pay the penalty of your folly, we will hear you.’ At these words, one of the calendars lifted up his head, and declared that he and his brother calendars were princes, and had passed through such wonderful adventures, that, were they told, would recommend them to her pity and forgiveness.

Zobeide, having consulted with her sisters, said: Relate, then, those events which you speak of: if they are indeed singular, they may perhaps soften our resentment. The slaves then suffered them to rise, and the calendar who had thus far prevailed with the affronted lady to suspend their resentment, began his story.”

After a few days’ repose, he told me that I could render him an important service: but before he could explain himself, he must exact a solemn oath, that I would never discover what he should employ me to do, nor any measure he should take in consequence of that service. I had the greatest affection for my cousin, and doubted not but his whole conduct was regulated by virtue and honor. I made no scruple, therefore, to take the oath he required; on which he requested me to go in the evening to the gardens which were set apart for the women of the seraglio: If you are seen, said he, no one will venture to question you; and when a lady joins you, all I desire of you is, to conduct her as she shall direct you, and to keep my secret.”

When I waas a boy, I was shooting at a bird with a cross-bow, the ball unfortunately hit the vizier and put out one of his eyes. I made every apology in my power, yet he never forgave me; and now, when I was brought into his presence, he ran at me in a rage, and pulled out my right eye. But not daring to put me to death in the capital, lest he should excite an insurrection among the people, he sent me to a distant part of the country, under the care of his most trusty adherents, who had orders to destroy me.”

a criminal passion had arisen between the prince and that lady, who was his sister; he had in vain exerted the authority of a father and of a sovereign, to restrain these unworthy children; before he began his late tour, he had given an absolute order, that the prince should not be permitted to approach the women’s apartment. The wretch, continued the unhappy father, has rendered vain all my precautions. It is plain he built these subterraneous apartments for a retreat, and made use of your friendship to obtain the miserable partner of his iniquity; but God, who would not suffer such an abomination, has justly punished them both.”

I was a long time inconsolable; but time and necessity have accustomed me to receive the hateful genie. He visits me every 10thday. If I wish to see him at any other time, I touch the talisman you see there, and he presently appears. He will not be here these 5 days; if you choose to pass them with me, I will endeavor to entertain you according to your quality and merit. I embraced her proposal with the greatest joy.”

Let him come; I swear I will extirpate all the genii in the world, and him first; and for this talisman, I will break it.”

the fumes of the wine did not suffer me to hearken to her. I gave the talisman a violent kick with my foot, and broke it all to pieces.”

Was I sure, said he, that she had put a greater affront on me than in conversing with thee, thou also shouldst die; but I will be content with transforming thee into a dog, ape, lion, or bird: take thy choice.”

I will have patience till you tell me that story, replied the genie, but think not to escape unpunished.”

<Sir, replied the princess, the ape that you have by you is a young prince, transformed by enchantment. I have learned the 70 rules of magic, whence I know, at first sight, all persons who are enchanted, and how they became so.> <Have you power, also, said the sultan, to dispel the charm?> <I have,> replied the princess. <Do so then immediately, I entreat you, said the sultan; I interest myself exceedingly in this prince’s fortune; if you can restore him, I will make him my vizier, and he shall marry you.>”

When she had finished the circle she placed herself in the centre of it, where she began adjurations, and repeated verses out of the Alcoran. The air insensibly grew dark; all at once the genie appeared in the shape of a lion of a frightful size.

Wretch, said the princess to him, darest thou present thyself in that shape, thinking to frighten me? And thou, replied the lion, art thou not afraid to break the treaty which was so solemnly made between us? but thou shalt quickly have thy reward. At these words he opened his terrible jaws and ran at her to devour her; but she leaped backward, pulled out one of her hairs, and by pronouncing three or four words, changed herself into a sharp sword, and cut the lion in two.

The lion vanished, and a scorpion appeared in his room. The princess became a serpent, and fought the scorpion, who, finding himself worsted, took the shape of an eagle, and flew away. The serpent also took the same shape and pursued him, so that we lost sight of them both. Some time after the ground opened, and there eame forth a cat, with her hair standing upright, and making a fearful mewing; a black wolf followed her close, and gave her no time to rest. The cat thus hard beset, changed herself into a worm and, a pomegranate lying by the side of the canal, the worm pierced it in an instant and hid itself; but the pomegranate immediately swelled as big as a gourd [abóbora], and presently burst into several pieces. The wolf became a cock, and picked up the seeds of the pomegranate; when he could find no more, he came toward us. as if he would ask us whether he had left any. There was one lying at the brink of the canal, which we perceiving, pointed it out to the cock, which ran speedily toward it; just as he was going to pick it up, the seed rolled into the river, and became a little fish. The cock jumped into the river, and was turned into a pike, which pursued the small fish. They continued both under water about two hours, and we began to wonder what had become of them, when, on a sudden, we heard such terrible cries as made us tremble, and presently we saw the princess and the genie all in flames. They threw flashes of fire at each other so fiercely, that we apprehended chat the palace would be consumed; but we soon had more reason to be alarmed, for the genie, having got loose from the princess, came to the gallery and blew flames on us. The princess flew to our relief and beat away the genie; but in that momentary attack the sultan’s face was dreadfully scorched, the eunuch was stifled, and a spark entering my right eye it became blind. We expected nothing but death, when we heard a cry of Victory! victory! The princess appeared in her natural shape, but the genie was reduced to a heap of ashes.”

Sir, I have got the victory over the genie, but it is a victory that costs me dear, as I have but a few moments to live. This would not have been had I perceived the last of the pomegranate seeds, and swallowed it as I did the others. That oversight obliged me to have recourse to fire, and to fight with those mighty arms, as I did, between heaven and earth, in your presence. I have conquered and reduced the genie to ashes; but the fire pierced me also during the terrible combat, and I find I cannot escape death.”

Rejected, banished, thrown off by all the world, I caused my beard and eyebrows to be shaved and set off for Bagdad; lamenting more for the two unfortunate princesses than for my own wretchedness.”

The day following I renewed my inquiries in so earnest a manner, that one of them, in behalf of the rest, said: It is out of friendship to you, prince, that we have withheld from you the information you wish; but if you continue to demand it, we are not at liberty to refuse you. Know, however, that you will lose your right eye by gratifying your dangerous curiosity; and that when that misfortune hath befallen you, you cannot remain with us, as our number is complete, and no addition can be made to it.”

The roc is a white bird of enormous size and of such strength, that it takes elephants from the plains to the tops of the mountains, where he feeds on them.” Esta ave está até nos diários de Marco Polo!

This, continued she, will wholly depend upon yourself; here are the keys of 100 doors which you will find in the adjoining courts. These we are obliged to leave with you. You will find abundance of curious things within 99 of these doors to gratify and amuse you, which you may enjoy in safety; but if you open the golden door, we shall never see you again. And it is this fear lest you should be overcome by an indiscreet curiosity, that gives us so much disturbance.”

all that is beautiful in nature, or elegant in art was there, in the highest perfection and abundance. The wealth, as well in jewels as in gold, was incredible. This immense display of everything valuable and curious was so extensive, that 39 days were passed by the time I had explored the 99 apartments I was allowed to visit.”

I got up much troubled with the misfortune I had brought upon myself; I found the castle was the same from which the roc had carried me, and presently met the 10 gentlemen, who were not at all surprised to see me, as every one of them had passed through the same adventure. After condoling with me, and lamenting that it was not permitted them to add me to their number, they directed me to seek the court of Bagdad, where I would meet him that would decide my destiny. Accordingly I put on this dress; and arrived here this evening.”

Early in the morning, I heard the voice of a man reading the Alcoran, in the same tone it is read in our mosques. I arose immediately, and following the voice, I fonnd it came from an oratory, which had, as usual, a niche, that showed Avhere we must turn to say our prayers. A comely young man was sitting on a carpet reading the Alcoran with great devotion. Being curious to know why he was the only living creature in the town, I entered the oratory, and standing upright before the niche, praised God aloud for having favored us with so happy a voyage.

The young man closed his Alcoran, and coming to me, desired to know whence I came. I acquainted him; on which he proceed, ed to tell me that the city was the metropolis of a kingdom governed by his father; that the king and all his subjects were magi, worshippers of fire, and of Nardoun, the ancient king of the giants, who rebelled against God: <Though I was born, continued he, of idolatrous parents, it was my good fortune to have a woman-governess, who was a strict observer of the Mohammedan religion. She taught me Arabic from the Alcoran; by her I was instructed in the true religion, which I would never afterward renounce. (…) This voice was heard three years successively, but no one regarded it. At the end of the last year, all the inhabitants were in an instant changed into stone, every one in the posture he happened to be then in. I alone was preserved; and I natter myself, madam, that you are sent here to deliver me from a solitary life, which I must own is very irksome to me.>”

The young prince proved the most amiable and agreeable of men, He solicited me very earnestly to become his wife, which I projnised on our arrival here. But my sisters had each become enamored with him: this declaration of his reduced them to despair. Envy and jealousy took possession of their breasts, and in the night they threw us both overboard.”

<I am, said she, the serpent, Whom you so lately delivered from my mortal enemy; in return for that service, with the assistance of other fairies, my companions, I have already conveyed the valuable lading of your vessel to your store-houses in Bagdad; and to punish the cruelty and in gratitude of your sisters, I have transformed them into these two bitches.> Having said this, she took them under one arm and me under the other, and in an instant set us down in my house. Before she left me, she said: <If you would not share the fate of your wicked sisters, I command you in the name of him who governs the sea, that you every night give each of them 100 lashes with a rod.> I am obliged to obey this severe order, but my resentment having long since subsided, your majesty saw with what reluctance I comply with it.

Zobeide having finished her story, Amine rose to satisfy the inquiries of the Caliph.”

My new husband exacted a promise from me that I would not speak co or be seen by any man but himself.”

The merchant told her he would not sell them for money, but if I would permit him to kiss my cheek, he would present me with them. I directed the nurse to reprehend him for his audacity; but instead of obeying me, she remonstrated in his favor. As I was much pleased with the stuffs, which the merchant would not let me have on any other terms, I foolishly consented.

The old woman and the slaves stood up, that no one should see it; I put by my veil; but instead of a kiss, the merchant bit me till the blood came.”

When dinner was over, Sindbad began to converse with the porter; and calling him brother, after the manner of the Arabians, when they are familiar with one another, he asked him what it was he had said awhile ago in the street? for Sindbad had chanced to overhear his murmurings.”

We had not long landed, when, on a sudden, the island trembled, and shook us terribly. The people on board saw our situation, aud called out to us to re-embark directly, as what we had taken for an island, was only the back of a prodigious fish. The nimblest of us got into the sloop, others jumped into the sea, and swam toward the vessel. For my part, I was still on the back of the fish when it dived into the sea. I got hold of a piece of timber which we had brought, to make a fire with, and by this assistance was preserved from sinking, but found it impossible to recover the ship.”

(*) “Degial, with the Mohammedans, is the same as Antichrist with us. They have a tradition that he will appear about the end of the world, and conquer all the earth, except Mecca, Medina, Tarsus, and Jerusalem, which are to be preserved by angels, whom he shall set round them.”

I disposed of my merchandise to the value of 10,000 sequins. (*) I then bought slaves of both sexes, built me a fine house, resolving to forget the miseries I had suffered, and enjoy myself.”

(*) “The Turkish sequin is about 2 dollars.” Como podemos ver pela continuação do parágrafo, é bastante provável que a cotação desta edição do livro está defasada. Quiçá seja 10 ou 50x mais.

I had no intention of venturing the sea again; but I soon grew weary, and ashamed of an inactive life.”

ourobouros

Sinbad, a águia e a serpente. Ouroboros?

The rhinoceros fights with the elephant, runs his horn into his belly, and carries him off upon his head; but the blood and fat of the elephant run into his eyes, and make him blind. He falls to the ground, and what is very astonishing, the roc carries them both away in her claws, to be meat for her young ones.”

An innumerable multitude of little frightful savages covered all over with red hair, came swimming about us. They were not more than 2 feet high, but seemed uncommonly strong and nimble.”

He was a tremendous black giant, as high as a tall palm-tree, with only one eye in the middle of his forehead, which looked as red as a burning coal; his teeth and nails were long and sharp, and his mouth resembled that of a horse. The sight of so frightful a figure rendered us immovable with horror. After surveying us for some time, he took me up by the nape of the neck, and felt my body as a butcher would his sheep. Finding me very thin, he Bet rne down and took up another; at last, laying hands on our captain, who was fat, he thrust a long spit through him, and kindling a fire, he roasted and ate him. After which he retired to an adjoining room, where he slept, and snored all night like thunder. In the morning he got up, went out, and left us in his dwelling.”

Accordingly, when we heard him snore, ten of the boldest of us took each a spit, and making the points red hot in the embers of the fire where he had roasted our friends, we thrust them all at once into his eye, and blinded him. He awoke in great agonies, and making a frightful outcry, he felt about, in hopes of sacrificing us to his fury: but we took care to be out of his reach; and finding he sought for us in vain, he groped for the gate, and went out howling dreadfully.”

Day had scarcely appeared, when we found it necessary to put to sea with all possible haste; for we saw the blinded giant coming toward us, led by two others of his own species, as large and terrible as himself.”

By this time my name became celebrated as a bold navigator, and fortunate merchant. My vanity was so highly gratified by these distinctions, that I determined to support my claim to them by undertaking another voyage.”

We embarked, and got under way with all diligence; but we scarce had weighed anchor, when we saw the male and female rocs appear at a distance, like two large clouds. When they approached their egg and found it broken, the noise they made was tremendous.”

You fell, said they, into the hands of the Old Man of the Sea, and are the only one that ever escaped strangling by him; as he never left any he had once mastered till their strength was exhausted, when he failed not to destroy them.”

During this time, I made a pilgrimage to the place where Adam was confined after his banishment from paradise. The island was called Serendib; it is exceedingly pleasant and fertile. The people were hospitable, and so just that lawsuits are unknown among them. The magnificence of the palace, and the splendor of their prince, when he appears in public, are truly admirable. On this occasion, the king has a throne fixed on the back of an elephant: before him an officer carries a golden lance in his hand, and behind the throne there is another who supports a column of gold; the guard amount to a thousand men, all clad in silk and cloth of gold. While the king is on his march, the officer who carries the lance, cries out, occasionally, <Behold the great monarch; the potent and redoubtable sultan of the Indies; whose palace is covered with an 100,000 rubies, and who possesses 20,000 crowns, enriched with diamonds; behold the crowned monarch; greater than the greatest of princes!> After which the officer who is behind, cries out, <This monarch, so great, so powerful, must die, must die, must die!> The officer who is before replies, <Praise be to him who liveth forever!>”

I had now determined to go no more to sea. My wealth was unbounded, my reputation established, my curiosity amply gratified, and my years began to require rest; so that I thought only of enjoying the fruit of my former toils and dangers. But the caliph sending for me, told me he had resolved to answer the letter of the king of Serendib, and to return him a present of equal value to that which I had brought him, and that he had fixed on me to be the bearer of it.”

For two months I continued to kill an elephant every day, sometimes from one tree, sometimes from another. One morning, while I was looking out for them, I perceived they did not cross the forest as usual, but came in great numbers directly toward the tree where I was. Their approach alarmed me so much that my bow and arrows fell out of my hand; and my terror greatly increased, when one of the largest of them wound his trunk round the body of the tree in which I was, and pulled so strong that he soon tore it up by the roots, and threw it on the ground. As I was falling with the tree, I gave myself up for lost; but the elephant, wheu I reached the earth, took me up gently, and placed me on his back. He then went at the head of his companions into the heart of the forest, when stopping suddenly, he took hold of me with his trunk, and set me down on the ground. Immediately he and all his companions retired and left me.”

We buy slaves here solely for the purpose of procuring us ivory; and notwithstanding all our care, the elephants every year kill a great many of them. You have been preserved most marvellously from their fury. Think not that by restoring you to freedom, I suppose you sufficiently rewarded: when I procure you a vessel to convey you home, you will find me more substantially grateful.”

I purchased three apples, at a great price, which was all the gardener could spare me; and returned in 15 days to Bagdad, much pleased with my success. But when I came home, my wife’s desire for them had passed away. She accepted them, notwithstanding, very kindly, and though she continued sick, she did not cease to be affectionate.”

I asked him hastily how he came by it. <‘Tis a present, replied he, smiling, from my mistress: I have just been to visit her, and on taking leave, she gave me this apple, which is one of three which her kind husband has been as far as Balsora to obtain for her.>”

I demanded where the other was. My wife answered me coldly, <I know not what has become of it.> Transported with rage and jealousy, I drew my dagger, and instantly stabbed her.”

Though I did not regret having slain her, I dreaded the consequences of the act. I divided the body therefore into quarters, and packed them up in a trunk, which, as soon as it was dark, I threw into the river. When I returned home, I found the eldest of my children sitting at my gate, crying; on my asking the reason, <Father, said he, I took away this morning, unknown to my mother, one of the apples you brough to her: as I was playing with it, a tall, black slave, who was going by, snatched it from me; and though I told him how far you had been to fetch it to my mother, he would not restore it. Do not, my dear father, tell my mother of it, lest she should grieve and become worse.>

My son’s discourse overwhelmed me with the most insupportable anguish. I found I had been betrayed by the fatal lie of a vile slave into an enormous crime. At this juncture, my uncle arrived to pay a visit to me and his daughter. I concealed nothing from him; and the good old man, instead of loading me with reproaches, admitted my apology, and joined with me in lamenting the loss we had both sustained, through my rashness and the villany of the rascally black. We were yet mingling our tears, when we heard that the body was found, and that your majesty’s displeasure was raised against your faithful vizier, because the murderer was undiscovered. I resolved, therefore, to submit myself to your royal justice, the decree of which however severe, I shall not presume to murmur at.”

The story cf the unfortunate young man excited the pity of the caliph; and his indignation was turned against the slave, who had been the cause of so great a calamity.”

How is it possible, complained he, to find out this slave in a city where there are such a number of blacks? I will not attempt such so fruitless an inquiry, but will resign myself to my fate.”

The afflicted vizier took her in his arms to salute her, when perceiving something bulky in her bosom, asked her what it was. <My dear father, said she, it is an apple, which I have just bought of our slave Rahan, for two sequins.>

He inquired where he was, and was astonished when told he was at the gates of Damascus. <Sure, you mock me, exclaimed he; when I lay down to sleep, I was at Cairo.> The bystanders laughing still more, he increased their vociferous ridicule by declaring he had passed the preceding day at Balsora.”

Is that the reason, exclaimed Bedreddin, that I have been treated so severely; have my goods been destroyed, myself made a prisoner, and led away many days’ journey from my home, am I now to be be put to a cruel death; and all this for not putting pepper into a cream-tart? Are these the actions of Mussulmans, of persons professing probity and justice? Never was man used so barbivrously; cursed be all cream-tarts, and the hour in which I learned to make them.”

The recollection of what he had passed through for so many years; was too strong to be overcome by the idea of its having been a dream.”

In the capital of China there lived a tailor named Mustapha who with difficulty earned a maintenance for himself, his wife, and son, whose name was Aladdin.

The boy, though of a sprightly turn and gool natural understanding, was careless and idle. As he grew ap his laziness increased, he was continually loitering among blackguards in the street; nor could Mustapha by any means prevail with him to apply himself to some employment by which he might learn to get his bread.” “Mustapha, finding him incorrigible, was so much afflicted, that his grief brought on a fit of sickness which cost him his life.” Realmente um garoto abençoado…

Aladdin, being no longer restrained by his father, indulged his indolence to the utmost. He was not ashamed, though 15 years old, to be supported by his mother’s labor, yet ceased to pay her the respect and duty of a son.”

Aladdin did not want sense though he hated work”

Aladdin and his mother were by these means completely deceived. They never doubted but the man who heaped so many favors upon them was really their near relation, and blessed Providence for their good fortune in being found out by him.”

Though I have opened this cave, I am forbidden to enter it; that honor is permitted only to you. Go down boldly then. You will find at the bottom of these steps, three great halls, in each of which you will see a large number of coffers full of gold and silver. Be sure you do not meddle with them; nor must you suffer your very clothes to touch the walls. If you do, you will instantly perish. When you are through these halls, you will come to a garden. Here you will be perfectly safe, and may handle anything you see. At the further end of it, you will find a lamp, burning in a niche. Take that lamp down, throw away the wick, pour out the liquor, and put the lamp in your bosom to bring to me.”

Nothing could be further from the intention of the magician than to deliver Aladdin from the cave. He had found by his books that there was such a lamp concealed in a subterraneous abode in. China, which would render the possessor more powerful than any prince in the world; but as he was not permitted to enter the place himself, he resolved therefore to seduce some friendless boy to fetch him the wonderful talisman, and having gained it, to shut up the cave, and leave him to his fate. When Aladdin therefore called out for his assistance, he called as loudly for the lamp. The young man would have readily given it to him, if he had not buried it in his bosom by the quantity of jewels he had put over it; and being ashamed to own that, he entreated his supposed uncle to help him out, and he would deliver it to him immediately.”

He set off immediately for his own country, taking care not to return to the city, lest he should be questioned respecting his pretended nephew.”

Immediately an enormous genie rose out of the earth, with a torch in his hand, which illuminated the cave as though the sun had shone in it, and said to him, <What wouldst thou? I am ready to obey thee as thy slave, while thou wearest that ring; I, and the other slaves of the ring.>

What wouldst thou? I am ready to obey thee as thy slave; the slave of all those who hold that lamp in their hands; I and the other slaves of the lamp.”

When all the money was spent, Aladdin had recourse again to the lamp, and the genie supplied the table with another silver basin and the same number of covered plates equally well filled.”

<You go often, said he, to that Jew, who is the greatest cheat among his brethren; if you deal with him, he will certainly defraud you. Aladdin produced his plate, which the goldsmith weighed, and counted him down 60 pieces of gold for it. The young man thanked the honest shopkeeper, to whom he afterward sold the other plates and the basin.”

But though he found himself possessed of immense wealth, yet he persisted in living privately, even humbly; devoting his whole time to the improvement of his understanding.”

Till now he had never seen any woman’s face but his mother’s. He supposed, therefore, that all women vere like her, and thought of them with indifference. But the instant he saw the princess, who was exceedingly lovely, he felt emotions he had till then been a stranger to. When she had entered the inner doors, he returned home, pensive, yet delighted. He passed the evening in melancholy and silence, and the night in indulging the starts of a restless and disturbed imagination.”

Three months indeed seemed an age; but as he had never hoped to succeed without infinitely more difficulty, his joy was unbounded.”

He beckoned the old woman to him, and told her he was ready to give the princess to her son, provided he sent him 40 basins of massy gold, full of the same kind of stones she had given him before; each basin to be carried by a black slave, led by a young and handsome white slave, all of them magnificently dressed. <Go, said he, and tell him on these conditions I am ready to receive him as my son-in-law.>”

When he had bathed, he was quite a different man from what he had been before. His skin was clear, his complexion improved, and his whole body lightsome and easy. The genie clothed him with a most magnificent habit, and conveyed him home, where he found a number of attendants ready to wait on him and his mother to the palace.”

He was so altered that his former companions did not know him; for such were the effects of the lamp, that those who possessed it acquired by degrees perfections both of mind and person, which qualified them for the high fortune, the right use of it advanced them to.”

You must believe his riches are inexhaustible; and he thus shows us what can be done by money.”

But no situation in human life is exempt from misfortune. Several years after these events, the African magician who had undesignedly been the instrument of Aladdin’s good fortune, chanced to recollect him, and resolved to know if he had perished in the cave. He cast figures, and formed a horoscope, by which he found that Aladdin had escaped, lived splendidly, was rich, had married a princess, and was very much honored and respected.”

The natural malignity of the magician became tenfold on this discovery. He burst out in a rage, saying, Has this wretched tailor’s son discovered the virtue of the lamp? does he whom I despised and devoted to death enjoy the fruit of my labor and study? He shall not long do so. He immediately prepared for a journey; and setting off next day, travelled till he arrived again at the capital of China.”

the magician having obtained the prize he sought, returned with it, rejoicing, to his khan.”

These remarks of the vizier kindled tlie sultan’s rage against Aladdin. Where is that impostor, that vile wretch? Exclaimed the sultan. Bring him before me, and let his head pay the price for his wicked delusions.”

Aladdin was stripped, bound, and kneeling to receive the fatal stroke, when an accident happened, which obliged the sultan reluctantly to suspend his fate.”

The sultan was terrified. He ordered Aladdin to be unbound, and bad the chiaoux proclaim he had pardoned him This satLsiicd the people, who presently dispersed.”

I beseech your majesty, replied Aladdin, to give me 40 days to search for my dear princess; if at the end of that time I am unsuccessful, I do solemnly swear I will return, and deliver myself into your hands.

– Begone, then, answered the sultan; but know, that if you break this oath, you shall not escape my resentment. My rage shall pursue you, if you do not produce my daughter, in whatever part of the world you may vainly attempt to hide yourself.

In her cup was the powder procured by Aladdin. Wine being poured out. the princess told the magician, that in China, it was the custom for lovers to exchange cups, and at the same time, held out her cup to him. He eagerly made the exchange; and putting the cup he had received from her to his lips, he drank a little of the wine, and immediately expired.”

The sultan embraced Aladdin, and they forgave each other. The dead body of the magician was thrown upon a dunghill; and the whole city rejoiced at the safe return of Aladdin aid the princess.

The happiness of Aladdin was not yet secured. Though the magician was dead, he had left a brother as wicked, and as powerful as himself. It was the custom of these brethren to inform themselves by their art, once a year, where each other was. and whether either of them stood in need of the other’s assistance.”

Among other things he often heard of one Fatima, a holy woman, who resided in a hermitage near the city, and used now and then to come to it. Her piety was everywhere spoken of. They even, declared that she had the power of working miracles; and particularly that she never failed to cure any person who had the headache, by putting her hand on them.” “Being thus completely able to pass for Fatima, he, without the least regard to his oath, strangled her, and threw her into a cistern.”

I am not, replied the magician, a judge of these fine things; but I think if a roc’s egg was hung up in the midst of the dome, the whole would be complete. There is one on the top of Mount Caucasus; and the architect who built your palace can procure it for you.”

Wretch! Is it not enough that I and my companions have done so much for thee, but thou must command me to bring my master, and hang him up in thy hall? It is well for thee that thou art riot the author of this ungrateful request. Know, then, that the deviser of it is the brother of the African magician.”

3 MIL DESEJOS TÊM SEMPRE UM FIM: “After these words, the genie, snatching the lamp from Aladdin’s hand, disappeared.”

Though Aladdin was much grieved for the loss of his lamp, yet he consoled himself, as by the death of the magician his peace was secured. He succeeded some years afterward to the throne of China, on which he reigned with his princess to a good old age, and left behind him a numerous posterity.”

he that had not seen Egypt, hath not seen the greatest sight in the world.”

He was a long time opening his case, and preparing his razors; when, instead of proceeding to shave me, he took out an astrolabe, and went very gravely out of the room to the middle of the yard to take the height of the sun. Returning with the same gravity, he said, Sir, you will be pleased to know that this day is Friday, the 18th of the mouth Safar, and that the conjunction of Mars and Mercury signifies you cannot choose a better time than this very day and this very hour for being shaved. But this conjunction is also ominous to you. You will this day be in great danger, not indeed of losing your life, but of an inconvenience which will attend you as long as you live.

Do you think I am a common shaver ? You sent for a barber only; but besides having in me the best barber in Bagdad, you have also an experienced physician, a very profound chemist, an infallible astrologer, a finished grammarian, a complete orator, a subtile logician, an admirable mathematician and historian; besides, I know all parts of philosophy. I am a poet, an architect, and excel in all the sciences. Your late father, my very good friend, whose memory I revere, held me in the highest esteem. I am—

Prithee, peace, thou endless babbler, and do the business I sent for you to do.

I wonder, sir, you will not avoid those transports of rage, which come only from the devil. Besides, you ought to have more respect for a man of my age, knowledge, and many virtues. You have an engagement at noon; why, it now wants at least three hours of that time. Again he laid down his razor, and took up his astrolabe, leaving me half shaved, to go and see what time of day it was.”

A few days after the departure of the caliph, a strange whim seized the young lady. She had a desire to see the city; and besought Fatima to take her with her the next time she went thither. Fatima, little apprehending any bad consequence, fondly consented, and apprized the merchant, that on an appointed day, the caliph’s favorite would come in private to view the city and intended to repose at his house.”

The intention of viewing the city was at an end. Schemselnihar, new to love, indulged sensations so delightful, and thought only how she might make herself agreeable to Aboulhassen: who, on his part, became entirely enamored. They remained together till evening, and parted with inexpressible reluctance on both sides.

New ideas now took possession of Schemselnihar, among which none so often arose as an abhorrence of marriage with the caliph. She devoted herself to her beloved Aboulhassen; and though she saw no probability of being united to him, yet she determined to encourage that hope. The indulgent Fatima reasoned with her against so improper an attachment, but misled by her fondness for the princess, she repeatedly permitted interviews between the two lovers at the house of Ebn Thaher. The merchant, also, though he pointed out to the prince the folly and danger of his pursuit, was yet weak enough to promote the meetings of the young couple.”

In this terrestrial paradise the love-sick Schemselnihar received her equally enamored Aboulhassen, unmindful of her engagement with the commander of the faithful, whom she now began to think of with terror and abhorrence; nor did the prince suffer the fear of future evils, or of present danger, to damp the delight he felt at being received with so much distinction by the object of his vows.”

They plighted vows of unceasing constancy, and seemed, by seizing the present moment to snatch those joys from the power of fortune before a fatal interruption should put an end to them forever.”

Opposite Ebn Thaher’s house there lived a jeweller who, having little business to employ him, bestowed much of his attention on his neighbors. Shrewd, artful, and avaricious, he sought to turn everything to his own advantage, and having a pleasant carriage, which hid his vices, he was but too often successful.”

Ebn Thaher, leaving Bagdad abruptly, confirmed this sagacious fellow in his opinion, that the prince had dared to intrigue in the harem of the caliph; and that the amour was carried on by Fatima and the merchant.”

He concluded the lovers would pay more liberally for his assistance in carrying on their amour than the caliph would for a disagreeable piece of intelligence.”

For some time, by means of the zeal and activity of the new emissary, a regular correspondence took place between Aboulhassen and the princess. The avarice of the jeweller was gratified beyond his hopes; he scrupled, therefore, no danger to oblige his benefactors. Matters could not remain long in this undecided situation. Schemselnihar daily grew better; and the caliph who had been much afflicted at her illness, began to congratulate her on her recovery. The preparations for the royal marriage were no longer suspended; and to prevent its taking place the lovers resolved on elopement.”

The jeweller now found himself in a very distressed situation. Deprived of the great riches he had obtained by his intrigues; his patron dead; his hopes annihilated; an exile from his country, his avaricious spirit still remained; and he determined to hazard new dangers, in hopes of recovering what he had lost. He knew the banditti had engaged to restore what they had taken from his house; and he was not without hope that it might have been delivered to his family. The prince of Persia had a mother, who inherited his vast wealth, and he was willing to believe that she would reward his attachment to her son. On these considerations, he revealed to his host the rank of the deceased, and engaged him to deposit the body for a short time in a neighboring mosque; and, after staying a few months at Anbar, he ventured to return to Bagdad.”

I alone am to blame in this affair; I ought to have considered that, in marriage, age and youth agree but ill together. I love you, Schemselnihar, continued the generous prince, and ever shall; but in future it shall be like the love of a father, not a husband. I will myself give you to Aboulhaseen; send him word of the good fortune that awaits him.

(…) She sunk into the arms of the caliph and expired.”

Fatima, having finished her narrative, was informed by the jewellerof the death of Aboulhassen; and they joined to pay the tributeof tears to the memory of these unfortunate lovers. In the morningFatima waited on the caliph, and obtained his permission tointer the body of the prince of Persia in the same tomb with hisbeloved mistress. The mercenary jeweller was the only victim ofthe caliph’s displeasure, who was so displeased with his conduct, that he confiscated the remainder of his effects, and banished himfrom his dominions.”

Carnaralzaman had about him something more than indifference for women he heard, therefore, this desire of his father with great concern. He put it off at first by pleading youth, and desiring time. After waiting a whole year, Schahzaman, finding no disposition in his son to obey him, desired the mother of the prince to reason with him on the subject. Camaralzaman had ever behaved with the utmost duty and affection to her, and the king hoped much from her influence over him to procure a willing obedience to his commands.”

Maimoune, the fairy, soon after met a genie, named Danhasch; be was one of those geniiwho rebelled against god. The great Solomon had obliged Maimoune to conform.”

Whatever aversion, sir, said he, I formerly had to woman, this young lady has charmed me to such a degree, that I am ready to receive her as the best gift you can bestow on me.”

MEIA-VOLTA NO ORIENTE EM QUASE 80 SEMANAS… “They then set off for the capital of China, where, after travelling near 12 months, they arrived in perfect safety.”

Camaralzaman was exceedingly grieved when he saw the bird fly away with the talisman. He blamed severely his idle curiosity, by which he had lost a treasure so valued by the princess. The bird having got her prize, pitched upon the ground not far off, with the talisman in her mouth; the prince drew near, in hopes she would drop it; but as he approached, she took wing and pitched again farther off. Camaralzaman followed her and the bird, having swallowed the talisman, took a small flight faither still. The prince hoped to kill her with a stone; and as she flew but a little way at a cime, he became more and more eager in pursuing her. Thus the bird led him from hill to valley, and from valley to hill all day; and instead of perching at night on a bush, where he might probably have taken her, she roosted on a high tree, safe from his pursuit. The prince, grieved at the misfortunes of the day, would have returned to his camp, but alas! he thought of it too late. Whither shall he go? which way return? how will he be able to trace back his steps over mountains and valleys never trod before? Darkness and fatigue alike prevented him. Besides, how durst he appear before his princess without her talisman? Overwhelmed with these distressing thoughts, he sat down at the foot of a tree, and sleep gave him a short respite from his affliction.

He awoke the next morning before the bird had left the tree; and, as soon as he saw her on the wing, followed her. He continued to do so the whole day, with no better success than he had had the day before, eating nothing but herbs and fruits, which he picked as he walked. For ten days he pursued the mischievous bird, sleeping every night under the tree where she roosted. On the eleventh day, he drew near to a great city, and the bird flying over the walls, he saw her no more.”

The gardener told him it would be impossible for him to return home by land, as his way lay through so many barbarous nations. There is, continued he, a ship sails from this port once a year to the Isle of Ebene; whence you may easily convey yourself to Khaledan, but that ship sailed only a few days ago; it will of course be near a year before you will have that opportunity.”

The princess Badoura accepted the invitation, and was receivedby Armanos with much hospitality. The king was greatly pleasedwith the supposed Camaralzaman. He contrived every means ofamusing him to prevent his departure; and at length frankly offeredto give him his only daughter, Haiatalnefous, to wife, and to placethe crown of Ebene on his head, which old age had made too burdensomefor his own.

Badoura was much perplexed by this offer, which she dreadedalike to accept or reject. The inconveniences attending her becomingthe husband of the princess of Ebene were obvious; yetif she refused, she had everything to apprehend from the anger ofthe king, in whose power she was, and who no doubt would resentthe indignity. Nor durst she discover her sex, as she was unprotected by Camaralzaman, uncertain of his fate, and at such a distancefrom her father’s kingdom. She resolved, therefore, to throwherself on the generosity of the princess. She accepted the king’soffer with great apparent joy; and having given a probable reason for herconduct to such of her attendants as thought her Camaralzaman, and cautioned the few of her women who knew the secretto be faithful and silent, she prepared herself to be the bridegroomof Haiatalnefous.”

If the prince of Khaledan is living, it cannot be longbefore he will arrive here, on his way home and should you thinkhim as amiable as I do, I will consent that he shall be your husband,as well as mine, which you know is agreeably to the laws ofthe prophet. If, on the other hand, he is no more, I shall continueby your kindness, in safety here, till I can acquaint my royalfather with my situation.”

From this time the most perfect friendship took place betweenthe two princesses; and Badoura became every day moreesteemed by Armanos and his people, conducting the affairs ofthe kingdom with great ability and success.

While these things passed in tho island of Ebene, Camaralzamanremained with his friendly gardener, impatiently waiting forthe time when he should be able to set forward in search of hisbeloved Badoura,”

While he was reposinghimself under a tuft of trees, indulging his melancholyreflections, he was disturbed by two birds fighting, and making agreat noise very near him. In a little time one of them fell downdead, and the victorious bird flew away.

In a short time two other birds came, and pitched themselvesone at the head and the other at the feet of the dead bird. Afterseeming to express much concern, they dug a grave with theirtalons, and interred the defunct. This done, they flew away; butreturned in a few minutes, bringing with them the victor bird, oneholding a wing in her beak and the other a leg, the prisoner all thewhile screaming most piteously, and struggling to escape. Theycarried him to the grave of the dead bird, where they put him todeath; and tearing him to pieces with their beaks, they strewedhis remains about the place where they had buried his antagonist.

When the two avenging birds had flown away, Camaralzamandrew near the spot, and, looking on the dismembered carcase, hesaw something red hanging out of it. He took it up, and found itwas his beloved Badoura’s talisman. Nothing could exceed thejoy he felt on this happy event.He had no doubt but it was apresage of a speedy meeting with his lovely princess. He triumphedover the mischievous bird who had been the cause of hismisfortunes, and rejoiced at the vengeance which had overtakenhim, in the perpetration of a new enormity against one of his ownspecies.”

In the morning Badoura sent a message to Armanos, desiringto see him. He came immediately, and finding in the inner palacea strange lady and the lord treasurer (whose presence in thoseapartments was unlawful), was at a loss what to say. Sittingdown, he asked where the king was; to which Badoura replied,Yesterday, my lord, I was king; but now am contented to beonly princess of China, and to acknowledge that prince for myhusband.

The next year each of the princesses brought forth a son. Theprince, of whom Badoura was delivered, was named Amgrad(most glorious). The son of Haiatalnefous was called Assad (most happy). Their birth increased the friendship of their royal parents,and greatly heightened the satisfaction of the venerableking Armanos.

King Camaralzaman lived many years happily with his queensBadoura and Haiatalnefous. He had the delight to find his twosons, as they grew up, become very accomplished princes, andvery dutiful children. The most cordial friendship subsisted betweenthe two queens; and the princes having the same tutors,the same officers, the same amusements, seemed also to have the same soul, the most perfect fraternal affection binding them toeach other.”

The young princes had attainedthe age of eighteen, and the king was past the meridian of life,when he took a fancy to indulge himself with the privilege theprophet allows, and married two other wives. The ladies wereyoung and of exquisite beauty; but besides beauty they possessed nodesirable quality. Camaralzaman was so infatuated that he treatedhis two respectable queens with neglect, and attached himself tohis new wives with a fondness bordering on dotage. Far from returning this ridiculous passion, they turned their thoughts to otherobjects. The manly graces of the two young princes engagedtheir attention; and they contrived to let them know that theirvisits might be secret, and would not be unwelcome.

Amgrad and Assad had too much filial piety to receive this invitationwith patience. They rejected the offer with abhorrence,and even punished the slave severely who brought the billets.From this moment the new queens vowed their destruction. Inthe state of the king’s mind this was not difficult to effect. Theyceased not to insinuate that the young men were disgusted onbehalf of their mothers, and had ambitious designs of their own.These hints were dropped, as if given with reluctance, and extortedfrom them them through concern for the king’s safety.

By these arts Camaralzaman was led to consider his sons as hismost dangerous enemies. He would have publicly put them todeath, but that he dreaded their popularity. He directed them,therefore, to go to a distant place on the frontiers of the kingdom,pretending that their studies were interrupted by the bustle ofthe capital. An emir, of the name of Gieudar, with a few attendants,were ordered to escort them, and the princes, whose obedienceto the commands of their father was implicit, set out accordingly.When they arrived at an extensive and uncultivated forest, Giendarleft his retinue on the borders, and led the princes a considerable waywithin it, where he produced an order from the king to put themboth to death; they submitted without murmuring to this crueldecree: a contest only arose between them who should be firstsacrificed to their father’s caprice. This affecting dispute was carriedon with so much tenderness, as quite melted the emir. Atthis instant a lion jumped out of the thicket and made at Giendar, who, in his fright, dropped his scimitar and fled.”

Devout adorers offire, this is a fortunate day for us. This young Mussulman will bean acceptable sacrifice to our divinity. Gazban,continued he,addressing himself to the black slave,do you take him and preparehim, by proper chastisement for the holy festival; and letmy daughters, Bostava and Cavama, regulate his diet, that he maybe fit to be offered up when the next ship departs for the blue seaand the fiery mountain.”

Once a day Bostava and Cavama attended him with the coarsestfood; and as he was chained hands and feet, they fed him. Allthe time they reproached and mortified him. by every insult andbarbarity in their power. While they thus obeyed their father,and performed as they supposed an acceptable service to theirdeity, Cavama gratified a furious and malignant zeal; but Bostavawas of a more gentle nature, and whenever she could, with safetyto herself, she did him kind offices.”

This city iscalled the city of Magicians, because the most of the inhabitantsare of that description. They are all adorers of fire, and bear amortal hatred to the true believers. They dare not assault us of thatfaith, who are inhabitants of the city; but if a stranger Mussulmanfalls into their hands, he is seldom heard of more. Do not, however,give way to fruitless grief, you shall live with me till you havelearned the customs of the place, and then you will be in perfectsafety.”

While they were thus engaged, news came that another armystill more numerous drew near. This was led by Gaiour, king ofChina. I come, saidhe to Amgrad, in search of my daughterBadoura, whom I gave in marriage many years ago to Camaralzaman,son of Schazaman. king of Khaledan. I have heard nothingof them for a long time. I therefore have left my kingdom,thus attended, to find them out.”

A great dust was now seen to rise opposite another quarter ofthe town. The princes immediately rode thither, and found itwas Camaralzaman, their father, at the head of a third army. He had been so afflicted for the loss of his sons, that at last the emirGiendar ventured to tell him that hehad spared their lives, andthat they had set forward for the city of the Magicians.”

A fourth army approached the city. The venerable Schahzamancame thus attended, in search of Camaralzaman: the later prince was overcome withshame and grief on hearing this account: he reproached himself with his long neglect of the goodold king, who yet retained so much affection for him as to disregardthe fatigue and perils of a long and uncertain journey to findhim out.The king of Khaledan readily forgave him, and after afew days repose at the city of the Magicians (during which timeAssad espoused the queen Margiana), the princes set out for theirrespective territories, and Amgrad, at the request of the king ofthe Magicians, who was very old, ascended the throne of that empire,which he filled with great ability, distinguishing himselfparticularly by his zeal in exterminating the worship of fire, andestablishing the Mohammedan religion throughout his dominions.”

Zinchi, the king of Balsora, held that crown as tributary to the caliphs of Arabia. The vassalage was so complete, that the latter considered the sovereigns of Balsora as accountable to them for every minute regulation in their government; they were frequently, reprimanded, and sometimes dethroned, when their conduct did not please the commander of the faithful.”

and Zinchi being of an indolent disposition, divided the office of grand vizier between his two favorites, Khacan and Saouy, both men good of abilities, but of very opposite characters.”

The vizier had an only son, named Noureddin, a forward youth of good parts and handsome person, of whom his mother was so fond, that she still continued to allow him the liberty of the women’s apartments, though the time of shutting him out was several years past. Noureddin no sooner saw the beautiful Selima, than he became a captive to her charms. Though he knew his father had purchased her for the king, yet he resolved to run all hazards rather than not secure her to himself; nor did the fair Persian see Noureddin with indifference. Whatever honor or splendor she might hope from being the king’s mistress, she would gladly have renounced them to pass her life with the son of the vizier.”

He concealed himself in the women’s apartments, till Selima returned to her chamber, and his mother went to the bath. He then visited the fair Persian; and having dismissed her attendants, boldly told her that his father had altered his intention, and instead of presenting her to the king had given her to him. The lovely slave wished this to be true, and was not therefore disposed to doubt it.

Khacan was equally enraged and distressed, when he heard of the violation his sou had committed. Besides being disappointed in presenting so beautiful a slave to his master, he was terrified lest his enemy Saouy, should come to a knowledge of an affair, by which he might effect his destruction. He ordered the merchants to renew their search, declaring that the fair Persian by no means answered his expectation he frequently complained to the king of the many difficulties he found in executing his commission; in short, he managed the business with so much address, that Zinchi insensibly forgot it; and though Saouy got some imperfect information of the transaction, yet Khacan was so much in the king’s favor, that he was afraid to speak of it.”

he resolved to give her to Noureddin, if he would promise not to look upon her as a slave, but as a wife. He stipulated also with the young man that he would never be divorced from her, much less sell her. With these conditions Noureddin joyfully complied; and the peace of the vizier’s household was restored.

Very soon after these events, Khacan was seized with a dangerous illness, which soon put an end to his life.”

he dissipated his fortune with an incredible profusion.” “In vain the fair Selima (whom he continued to love with undiminished ardor) gently remonstrated with him on his too abundant generosity; in vain

his careful steward hinted to him, that such excess wronld soon empty a royal treasury.”

Whenever his steward came to lay before him a state of his disbursements, he always put him aside with a jest, or drove him away with anger.”

Of all that mass of wealth that came into your possession a year ago, the few pieces in my hand are the whole remainder; your entertainments therefore must be at an end, or you must provide me with a fresh supply.”

He determined at length to borrow a certain sum from each of his companions, with which he would go to some other city, and commence merchant. As there was not one among them who had not received tenfold more from his bounty than he meant to ask, he would not suffer the idea of a refusal to disturb him. Having thus settled a plan for his future conduct, his mind became more calm, and he withdrew to Selima’s apartment, to whom he related his situation and intention.

The day following, he set out to visit his dear and devoted friends; but was so unfortunate as not to find any of them at home. One, indeed, convinced him he was not abroad; for he heard him direct his slave to say he was not at home, adding, <whenever that extravagant fellow comes here, give him the same answer.>

Noureddin was equally enraged and ashamed. He was giving way to despair, when the fair Persian advised him to dismiss his household, sell his slaves and furniture, and try if he could not raise money enough from them to carry his plan into execution. Noureddin embraced this prudent council; but even in this commendable scheme he was disappointed. Being obliged to sell, his goods did not fetch him half their value; and a fit of sickness, the consequence of his vexation and former irregularities, held him so long, that, on his recovery, he found the whole produce of the sale was expended.”

I am your slave; you have a right to dispose of me; and how much soever I shall suffer from such an event, I advise you to sell me; and I heartily wish you may not lose much of the sum your father gave for me.”

Not only his love for the fair Persian revolted at such an idea, but the remembrance of his promise to his father never to part with her, rose in his mind, and made him think of such a measure with additional regret. But invincible necessity must be submitted to. He led her, with inexpressible reluctance, to the market where women slaves are exposed for sale, and applied to a crier, named Hagi Hassan, to sell her.”

My masters, everything that is round is not a nut; everything that is long is not a fig; all that is red is not flesh; and all egga are not freeh. You have seen and bought, no doubt, many slaves in your time: but you never saw one comparable to her I have now to sell. Follow me, and see her; and then name the price I ought to cry her at.”

It was a privilege the merchants of Balsora enjoyed, that no person should see a slave till they had offered the most they chose to give. After which any person might see her; and if the stranger offered more money than the highest bidder among the merchants, he was declared the purchaser.”

If anything could have aggravated Noureddin’s affliction, it was that Saouy should become possessed of the fair Persian. The sting of this circumstance made him quite inattentive to the low price for which she was to be sold. <I swear to you, I would sooner die than part with my slave for ten times the sum, to that enemy of our family; help me, I entreat you, good Hagi, to the means of escaping this last of misfortunes.>

<You must conduct yourself in this manner, or the vizier will insist upon his bargain. When I am about to present her to him, you must catch her by the arm before he touches her. You will then give her two or three blows, and tell her that although her bad temper made you swear that you would expose her to the indignity of being cried in the market, yet it is not your intent to sell her. Pull her then again toward you. and lead her away.>”

He called him by the most reproachful names, and riding up to the fair Persian he attempted to seize her. Noureddin wanted not this provocation to exasperate him against the vizier, he pulled him off his horse, rolled him in the kennel, and pummelled his head against the stones, till he had almost killed him. After which he conducted the fair Persian home again.”

He presented himself immediately before the king, all bloody and dirty as he was, and besought justice. On being ordered to say on what account, he reminded the king of tfie commission he had formerly given to Khacan. <I saw by accident to-day, a most beautiful slave, which the profligate Noureddin was about to sell. I had no doubt but she was the slave Khacan had bought for your majesty; and would have reclaimed her for you it was for this attempt that Noureddin has treated me thus cruelly.>

Noureddin and Selima hastened toward the river, where they found a vessel on the point of sailing; they embarked without inquiring whither she was bound, and after a short and pleasant voyage arrived safely at Bagdad.”

When they had supped, Noureddin dropped a hint that some wine would not be unacceptable; at which Ibrahim started, and said <Heaven defend me from keeping wine in my house, or going to a place where it is sold! such a man as I am, who have been 4 times on a pilgrimage to Mecca, must have renounced wine forever.>

While Ibrahim was gone, it occurred to Noureddin that all this aversion to wine was but hypocrisy, and that his host would drink his cup as heartily as he could. To try this, he instructed Selima how to act; and when the wine came, he filled three cups, and offered one to Ibrahim. The old man started back, as if with horror, on which Noureddin drank the cup, and the fair Persian presented the scheik with a slice of apple, which he received with great pleasure.”

Ibrahim for a little time resisted; but overcome with her beauty, he complied. Soon after, he drank a second cup with very little opposition. He received a third from Selima without murmur: and the fourth, he helped himself to. Noureddin seeing this, burst out a laughing, saying, <Ha! Ibrahim, you are caught; is this the way in which you abstain from wine?>; Ibrahim, warmed with what he had drauk, and loving wine, threw aside his reserve, joined in the laugh, and sat down very cordially with his guests to finish the bottle.”

As the caliph was retiring to bed, it chanced that he opened his casement [batente], and seeing the illumination, he inquired of Giafar the cause of it, in a manner sufficiently expressive of his displeasure. The vizier had a particular friendship for Scheik Ibrahim. To shield him from the anger of the caliph, Giafar invented a tale that the scheik had applied to him for leave to celebrate a religious ceremony in the pavilion, in company with the ministers of his mosque. The vizier, to secure his friend, said so much upon the subject that he excited the curiosity of the caliph; who, instead of going to rest, ordered the disguises to be brought, in which he and Giafar used to go about the city, and made him and Mesrour, with the other slaves about him, go with him to the pavilion.”

On their arrival, they found the door of the hall partly open; and the caliph approaching, was surprised to see a young man and woman of such extraordinary beauty. He was also much displeased to see Ibrahim, whom he had always considered as a grave, steady man, now drinking wine, and carousing to excess. <Are these the ministers of the mosque you told me of?>

He reproached her as the cause of all his misfortunes. The caliph was astonished at what had passed; and while the fair Persian retired to a sofa to vent her grief, he requested Noureddin to relate his story.”

He wrote an order to Zinchi to abdicate his throne, and place Noureddiu on it. He also added a set form of words in the margin of the letter, which denoted his insisting on punctual and immediate obedience. This he put into Noureddin’s hands, and advised him to return with it to Balsora. <I am not unknown, we were school-fellows: though this letter is given you by a person so obscure, yet, depend upon it, when the king receives it, he will do you justice.>

A ridiculous ecene now took place between the drunken Ibrahim and the supposed fisherman. <You have been well paid for your paltry fish by that prodigal,> said Ibrahim, u but I shall not suffer you to keep all he has given you. I am content to divide the money with you; but the beautiful slave I will keep entirely to myself.> The caliph refused him in a laughing answer, which so enraged Ibrahim, that he withdrew in haste to fetch a cane to chastise the insolent Kerim.

As soon as Ibrahim had left the hall, the caliph gave a signal for his attendants to enter. They instantly took away the fisherman’s garb, and dressed him in the royal robes; and when Ibrahim returned, staggering and muttering curses and threatenings against the unreasonable fisherman, he was amazed to find in his room the caliph, attended by his principal ofiicers.”

Noureddin had time enough during his voyage to reflect on the danger he exposed himself to by returning to Balsora; but his situation was so deplorable that he became almost indifferent to the consequence.”

What signifies dying the day after the death of one’s enemy?”

The caliph would have despatched Noureddin to take possession of the throne of Balsora; but he declared that the many calamities he had met with in that city, had made it hateful to him: the caliph, therefore, after a severe reprimand, permitted Zinchi to reassume his government; and restoring Selima to Noureddin he gave him a handsome appointment in his palace.”

My name is Gulnare, of the sea. My father was one of the most potent princes of the ocean. At his death he left his kingdom in profound peace to my brother Saleh; and I lived happily in his court, under the protection of my royal mother, who was daughter of another puissant monarch of the sea.”

In the present miserable condition of our affairs, said he, ‘ I see no probability of matching you to any of the princes of the sea; I would therefore wish you to marry one of the princes of the earth. Your beauty surpasses anything they ever saw; and a very small part of the little wealth we have left would be an inconceivable treasure to the greatest of them.”

As soon as they had left me, I gave a spring from the bottom of the sea to the island of the moon. It would be tedious if I was to relate to your majesty the many distressing consequences of this rash step. One disaster followed another, the usual and just punishmeut of indiscretion and disobedience, till I became at length a slave, and fell into your hands.”

Mirza sent immediately for the proper officers, and publicly espoused the beautiful Gulnare, causing her to be proclaimed queen of Persia, in the most solemn manner all over the kingdom.”

I have often heard that the sea was peopled, but I ever considered it as a fable, not believing it was possible for human beings to walk up and down, and live entirely in the water.”

Sir, replied the queen, we can walk at the bottom of the sea with as much ease as you do on land, and breathe in the water as you do in the air, yet it never wets our clothes. Our faculties in general are more perfect than yours. Our vulgar language is the same that was engraven upon the seal of Solomon, the Son of David.

The water does not obstruct the opening and shutting of our eyes. Our sight is sharp and piercing, and can discern any object in the deepest sea as distinctly as upon land. We have the same succession of times and seasons as you have, and enjoy the light of the same planets in as great a perfection. As the sea is much larger than the earth, so we have many more kingdoms, all of which have great cities, well peopled; and there are the same varieties of manners and customs among us, as there are among the nations of the earth.”

We have gold, as you have; but the diamonds and pearls which are in most estimation with you would scarcely be worn by the lowest order of our people. We have an incredible agility in transporting ourselves where we please, in an instant; so that we have no occasion for carriages or horses, yet we use both for splendor on public occasions.”

The king started at this proposal. <I should rejoice to receive your relations; but how can they know where you are, unless you leave me to go in search of them? That I cannot hear to think of.> <Sir, replied Gulnare, with a smile, if I have your permission to send for them, I need not stir from this room. They will be here in a very short time.>.”

Presently the sea appeared disturbed, and in a short time opened, when a tall, handsome young man, with whiskers of a sea-green color, appeared on the surface; a little behind him was one lady, advanced in years, attended by five beautiful young ones.”

Mirza expressed himself much satisfied at their arrival, but frankly owned he durst not trust himself near people who breathed forth fire so terribly. Gulnare, laughing, told him that those flames would cease when they saw him and were only a token of their unwillingness to sit down to table without him.”

Children born of parents who are not both inhabitants of the sea, have only a few moments occurring once during their early infancy, in which the privilege of descending into the regions of the water can be imparted to them. While I was playing with my nephew, I perceived those precious moments (soon to pass away) were arrived without losing them to explain myself to you, I pronounced the mysterious words which were engraven on the seal of the great Solomon, the son of David, and, taking the prince with me into the sea, I completed the necessary rites. Beder [lua cheia em árabe] will now be able, when he pleases, to plunge into the sea, and traverse the vast empires it contains at its bottom.”

As Beder grew up, he appeared to be a prince of great hopes. His temper was benevolent; his talents brilliant; and they were early called into exercise. While he was yet a youth, disease bore heavily on Mirza, and he became desirous to withdraw himself from the fatigues of royalty. He resigned, therefore, his crown to his son; and though he survived that event but a short time, yet he had the satisfaction to see the prince conduct himself with great ability, and to be treated by him with the most perfect respect and duty.”

Saleh continued the conversation, and told the queen that there was a princess of the sea, who far surpassed all others in beauty, whom he earnestly wished to be the wife of Beder, but that very considerable difficulties lay in the way of obtaining her fur him.” “She is the most beautiful and accomplished princess that ever was seen on the earth or in the waters. But as her father is insupportably proud, looking upon all others as his inferiors, it is not likely he will readily agree to the alliance.”’

But when she found he was the nephew of king Saleh, and the cause of the insult her father had received, and of her own fright andgrtef, she soon entertained very different sentiments respecting him. She gave way to the dictates of fury and revenge, which yet she had art enough to conceal. She suffered such expressions of favor toward him to escape her, seeminglv in her confusion, that the fond prince was enraptured; and by reaching forth his hand to seize that of the princess, he put himself in her power. She pushed him back, and spit at him, saying, <Wretch, quit the form of a man, and take that of a white bird with a red bill and feet>.” “Carry him now, said the revengeful Giauhara to one of her attendants, to yonder solitary rock, and let him remain there, without food or water, till he perishes.” “By virtue of the holy and mysterious words I have pronounced, resume the form in which thou wast created.”

This city is called the city of enchantments; it is governed by a queen, named Labe, who is one of the most charming and most wicked of her sex; inconstant, cruel, treacherous, and a sorceress. All those animals were once young men, strangers like you, whom she has transformed by her diabolical art. She has regular patrols who go about the avenues of the city, and seize all strangers, either coming in or going out of it. They are carried before the queen, and if she fancies either of them, he is clothed in magnificent apparel, treated as a prince, caressed by the queen, who gives him such proofs of affection as to make him conclude she loves him entirely. This happiness is not permitted to last long; for within 40 days he is sure to lose the human shape and become a brute.”

<I understand you very well, replied the queen, and swear to you by the fire and the light, and by whatsoever is sacred in my religion, that neither you nor he shall have cause to repent your compliance with my desire.> She then ordered a horse to be brought for the prince, as richly caparisoned as her own, and caused him to be placed at her left hand. As he was mounting, she asked Abdallah what was the name of his nephew; and being told Beder (the full moon), her majesty replied, <Sure it was a mistake; he ought to have been called Shems (the sun)>.”

For 39 days Beder abandoned himself to these enervating pleasures; but in the evening of the last of these days, he chanced to observe the queen mix a powder in a cup of wine, which she afterward presented to him. His suspicions were at once awakened. He contrived to change the cup unobserved; and by that means avoided drinking the potion, though he knew not for what purpose it was administered. The powder was intended to promote sleep; and when Beder and the queen retired to rest, the prince, whose mind was much disturbed, aided the deception unwittingly, by pretending to fall asleep immediately, in order to avoid conversation. Labe arose, not doubting but that her powder had taken the designed effect, proceeded to her incantations; Beder all the time observing her with the most anxious solicitude.”

Abominable sorceress, quit the form of a woman, which thy crimes so much dishonor, and become a mare.”

The old man had been witness of all that had passed. <Son, said he to Beder, it is necessary you should know one thing, which I find you are ignorant of. It is not permitted in this city for any one to tell a lie, on pain of death. As you have made a bargain with this old woman, you must not refuse to take her money and deliver your mare, or you will expose yourself to certain destruction.>”

The old woman then taking up some water that ran in the street, threw it in the mare’s face, saying, <Daughter, quit that beastly form, and reassume thine own>. The queen was immediately restored, and Beder was so terrified when he saw her, that he was unable to attempt to escape.

The old woman was the mother of Queen Labe, and had instructed her in all her magic. As soon as she had embraced her daughter, she caused a genie to arise, who, taking Beder on one shoulder, and the old woman with Queen Labe on the other, he transported them in a few minutes to the palace of the queen in the city of enchantments. When they arrived, Labe, amidst many execratious, transformed the prince into a vile owl, and delivered him to one of her attendants, with orders to shut him up in a cage, and keep him without food till he perished.””

Saleh assembled his troops, and called to his assistance the genii, his allies, who appeared with their numerous armies. Gulnare joined them, and they all lifted themselves up in the air, and soon poured down on the palace and the city of enchantments, where the magic queen, her mother, and all the other adorers of fire, were put to death. Beder was again restored to his proper form; and Abdallah, being placed on the throne of Labe, received for his queen the attendant who had preserved him and Beder.”

My name, said she, is Fetnah, which signifies a storm, and was given me because it was predicted at my birth, that the sight of me would occasion many calamities. I was, very early in my life, introduced into the palace of the caliph, who was so taken with me, that he presented me this veil; and had before now added me to the number of his wives, had not his presence been required to quell an insurrection in a distant part of his dominions. The partiality of the caliph raised me many enemies; the chief of whom is Zobeide, his first wife, and for a long time his favorite.”

Fetnah could not bear that Zobeide should triumph in the success of her barbarous arts. Without considering the consequences to herself or her protector, she determined to lay before the caliph the wickedness of that princess. She requested Ganem to inquire if the commander of the faithful was returned, and whether any notice was taken of her supposed death.

Ganem conducted these inquiries with great dexterity. He learnt that immediately after her having been disposed of in the burial-place, a report of her death had been industriously spread all over the city: that Zobeide had celebrated her obsequies with great pomp, and had erected a mausoleum to receive the body, where lighted candles were perpetually burning, and every ceremony performed which custom had appointed for the illustrious dead.”

Go to, let us take revenge on the false woman, and on that bold youth who affronts me.”

At least, said the humbled prince, I will meet that awful appeal, with having made every reparation in my power; I will cause his pardon to be published throughout my dominions, and will amply repay his losses. This is due to his innocence, and to compensate for the miseries I have caused Mm apd his family to suffer, I will give you to him for a wife, and make him wealthy beyond his hopes.”

He gave Fetnah with his own hand to her deserving lover. He dismissed Zobeide from his throne, and banished her his presence, to punish her cruelty and treachery; in her room, he received to his arms the lovely Alcolomb [Ganem’s sister], whose beauty was adorned with good qualities still more estimable.”

The king called all the astrologers of the kingdom to calculate the infant’s nativity. They found he would live long, and be very brave; but that all his courage would be little enough to support him through certain difficulties that threatened him. The king was not dismayed at this prediction. <My son, said he, is not to be pitied, since he will be brave. It is fit that princes should have a taste of misfortune; adversity tries virtue, and thence they become the fitter to reign.>

As Zeyn grew up, he discovered a very good disposition; and by the care of his father, acquired every accomplishment. He had nearly attained the age of manhood, when the good old king fell sick and died.”

We are now, said he, approaching the dreadful place where the 9th statue is kept, and shall very soon come to a lake. When we draw near the banks of it, you will see a boat approach, which is enchanted, and belongs to the king of the genii. We shall be taken into this boat, and ferried over the lake; but you must be careful not to express the least fear at the sight of the waterman, however hideous he may be, nor must you utter a single word while we are embarked, or the boat will instantly sink.”

the island was shaken by an earthquake, such as Asrayel is to cause on the day of judgment.”

<My son, I loved your father and have no less kindness for you. The statues you found were presented to him by me; and I promised him to receive you into my protection. I caused him to write, a few days before he died, that which you read on the piece of white satin. I appeared to you in your dreams as an old man and have been the cause of all that hath happened to you. I intend to give you what you seek, if you prove worthy of it; and the test must be this. You must engage on your oath to find out a maid in her 15th year, who has never known man, or desired to do so. She must be perfectly beautiful; and you so much master of yourself, as not even to wish to deprive me of her, but you must yourself conduct her hither.>

Prince Zeyn took without hesitation the oath that was required of him. <But, sir, said he, how shall I know when I have met with such a maid ?> <It is true, replied the king of the genii, that knowledge is above the sons of Adam. Take therefore this looking-glass ; if, on the maid looking at it, it appears sullied, it will be a certain sign that she has not been always undefiled, or, at least, that she has wished to cease being so. You have now a certain criterion. Be diligent in your search, and forget not the oath you have taken; but fulfil it, as becomes a man of honor.>

Zeyn, thus disappointed, resolved to seek elsewhere for that I purity which was not to be found in Cairo. He travelled to Bagdad, attended by Morabec; and as he wished to be much known, to forward his inquiries, took a handsome palace, and lived in splendor.”

Zeyn did not listen to this advice with his usual complacency. Morabec found him strangely balancing whether he should keep his engagement with that king or conduct his charming bride to Balsora in defiance of him. In vain Morabec pleaded the value of the 9th statue, which would reward his fidelity: in vain he described the power of the king, and cautioned the prince to dread the consequence of his disobedience. The charms of the lovely virgin had taken too full possession of his heart for him to be allured by avarice, or intimidated by danger; and the thought of sacrificing her to a genie, oppressed him with grief and indignation.”

I am, said he, fully satisfied with your behavior. Return to your dominions; and when you enter the subterraneous room, where the eight statues are, you shall find the 9th, which I promised you.”

but how great was their wonder, when, instead of a diamond statue, they found on the ninth pedestal a most beautiful virgin, whom the prince knew to be the same he had conducted to the island of the genii. Before they could recover their surprise, a loud clap of thunder shook the palace, and the king of the genii appeared before them.”

The ladies obeyed; but Abon Hassan [o homem que virou califa por um dia] perceiving that out of respect they did not eat, helped them himself, and urged them in the most obliging terms. When they had dined, he asked their names, which they told him were White Neck, Coral Lips, Fair Face, Sunshine, Heart’s Delight, Sweet Looks, and Sugar Cane. To every lady he returned handsome compliments, wittily adapted to her name.

After dinner, the eunuchs brought perfumed water in a golden bowl; and when Abon Hassan had washed. Mesrour, who never left him, conducted him to another hall, where he was received by seven ladies more beautiful than the former. Seven other bands began a new concert, while the imaginary caliph took part of a rich dessert of- sweetmeats, and the choicest fruits. This over, he was led to a third hall more magnificent than the other two; it was lighted up with a profusion of wax lights, in golden branches; and he was received here by seven other ladies, of still superior beauty, who conducted him to a table set out with large silver flagons full of the choicest wines, and crystal glasses placed by them.

Till this time, Abon Hassan had drank nothing but water, agreeable to the custom of Bagdad, where from the highest to the lowest, they never drink anything strong till evening; it being accounted scandalous in the highest degree for any one to be drunk in the daytime. When he placed himself at the table, he desired the seven ladies to sit down with him; and having asked their names, which were Cluster of Pearls, Morning Star, Chain of Hearts, Daylight, Bright Eyes, Fine Shape, and Silver Tongue; he called upon each in turn to bring him a glass of wine, and as each lady presented it, he said a variety of witty and gallant things to her.”

It was late the next morning before the powder ceased to operate. But at length the sleeper awakened, and looking round the room, was surprised to find himself in so different a situation. He called aloud for Cluster of Pearls, Morning Star, Coral Lips, and the other ladies, as he could recollect them. His mother hearing his voice, came in and said, ‘Son, what would you have; who are those you are calling for?’; Abon Hassan, raising himself up, looked haughtily at his mother, and said. ‘Good woman! who is it you call your son?’ ‘You, to be sure’, replied his mother; ‘are you not Abon Hassan, my son? Have you slept till you have forgot me and yourself too?’ ‘I, your son!’ answered Hassan; you are mad! I am not Abon Hassan, but the commander of the faithful.’

Heaven preserve you from the power of Satan, my dear son!’ replied she; ‘some evil genius surely possesses you. Don’t you see you are in your own room? Recollect yourself seriously, and drive away these fancies from your imagination.’ At these words Hassan became more transported with fury; he leaped from the sofa, seized a cane and running to his mother, ‘Cursed sorceress’, said he, ‘tell me instantly by what means you have conveyed me from my palace to this room.’” “He caned her severely; asking her, between every stroke, if she would yet own he was commander of the faithful; to which she continued to reply he was her beloved son.”

For three weeks the unfortunate Hassan received daily correction from the hand of his severe keeper, who never failed to remind him that he was not commander of the faithful. His mother came every day to see him; but whenever she appeared in his eight, he reproached and execrated her as the cause of all his sufferings.”

they of Moussol are not so well convinced that the devil is the cause of troublesome dreams as we are at Bagdad.”

I am fallen into the same fatal dream that happened to me a month ago; and must expect again the discipline of the mad-house. He was a wicked man whom I entertained last night; he is the cause of this illusion, and of all the miseries I must undergo. The base wretch promised to shut the door after him, and did not do it, and the devil has come in. and filled my head with this cursed dream again. Mayest thou be confounded, Satan, and crushed under some mountain.”

I opened the box, and asked him the use of the pomatum. ‘It possesses’, said he, ‘when applied by me, very opposite and wonderful qualities. If I anoint your left eye with it, you will see all the treasures contained in the bowels of the earth; if I apply it to your right eye, you will become blind.’

Your majesty, no doubt, knows that goules are wandering demons, who generally resort to decayed buildings, whence they rush on people passing by, kill them, and eat their flesh; and that in want of prey, they will go by night into the burying-grounds and feed upon the dead bodies.

I was exceedingly shocked to see my wife with this goule. They dug up a body which had been buried that day, and the goule cutting the flesh into slices, they ate together. I was too far off to hear their discourse, which no doubt was as horrid as their feast.”

I had no sooner uttered these words than she flew in a rage, her face became distorted, her eyes were ready to start from her head ; she even foamed with passion. Frightened at her appearance, I sat immovable. In the midst of the most horrid execrations, she threw some water in my face, and added, ‘Receive the reward of thy impertinent curiosity.’ I instantly became a dog.”

Saadi asserted that setting idleness and vice out of the question, any man possessing a moderate sum of money to begin the world with, must infallibly grow rich. While Saad contended that accident often prevented, and often promoted, the success of human affairs.”

I had been used, as most poor people do, when I had a little money, to put it in the foldings of my turban.”

In a town in Persia, there lived two brothers, called Cassim and Ali Baba. Their father had left the little substance he had between them but they were not equally fortunate. Cassim married a wife who had a large fortune; and became a wealthy and considerable merchant. Ali Baba married a woman as poor as himself. His whole substance consisted of three asses, which he used to drive to a neighboring forest, and loaded with wood, which he sold in the town, earning thereby a hard maintenance for his family.

One day when Ali Baba was in the forest, and had just cut wood enough to load his asses, he saw at a distance a cloud of dust which seemed to approach toward him. He observed it attentively, and distinguished a large body of horsemen. As they drew near he began to apprehend they might be thieves; he therefore climbed a tree, from whence he could sec all that passed, without being discovered.”

They were in fact a gang of banditti, who made that place their rendez-vous.”

Sesame (which is a kind of corn), open! Immediately a door opened in an adjoining rock when the captain and his troop went in; and the door shut again.”

Ali Baba stayed in the tree as long as he could see the least trace of the dust they raised. He then descended, and presently found out the door, and, remembering the words the captain had used, he said, Open, Sesame! when the door flew wide open.”

He found in the cavern a great store of rich merchandise, and such an immense quantity of gold and silver as convinced him that the cavern must have been the repository of robbers for several generations.”

When Ali Baba’s wife found the bags were full of money, she was alarmed fearing lest their poverty should have betrayed him to rob somebody. He pacified her, by relating the story of his good fortune. He then emptied the bags on the floor, which raised such a heap of gold as delighted her. Ali Baba charged her to be prudent and secret. He resolved to bury most of his treasure, arid to emerge from his apparent poverty by degrees; but his wife disappointed his prudent purpose. In the playfulness of her fancy, she would count the gold; but finding that business likely to be very tedious, resolved to measure it. She went, therefore, to Cassim’s house, who lived just by, to borrow a small measure.”

As he drew near the rook, he was much shocked to see blood spilled at the door. When he had pronounced the words, and the cavern became open, he was still more affected at seeing tho quarters of Cassim hung up on each side.”

Ali Baba received his treacherous guest with the hospitality becoming a good Mussulman.”

Morgiana soon concluded who these men were. She hastily called up another slave, named Abdallah, and bringing several jars of oil into the kitchen, they heated a part of it boiling hot. This she poured into one of the jars, by that means killing the thief that was concealed in it. She did so till she had destroyed all the seven-and-thirty thieves, when she put out her fire and went to bed.”

The captain suffered several weeks to pass by before he set about the scheme he had planned for the destruction of his enemy. By this means he hoped Ali Baba’s vengeance would relax, arid he himself should be more cool in his measures. He passed much of his time in the town, where he learned that Cassim; s son, now adopted by Ali Baba, had a very considerable shop.”

Ali Baba received, with due gratitude, this further instance of Morgiana’s attachment; and Cassim was so pleased with her spirit and good sense, that he took her to wife. The whole treasure in the cavern became now safely the property of Ali Baba. He taught his son the secret, which he handed down to posterity; and using this good fortune with moderation, they lived in great honor, serving the chief offices of the city.”

You are a rogue, said he. and ought to be hanged. The children put an end to their play, by clapping their hands with a great deal of joy, and seizing the criminal to carry him to execution.”

An examination of the quality and age of the fruit now took place: everything which had passed among the children, in their play, was repeated, seriously, before the caliph, in the divan. The treachery of Noureddin was apparent, when the child, instead of ordering him to be hanged, looked up to the caliph, and said ‘Commander of the faithful, this is not play; it is your majesty that must condemn him to death, and not me, though I did it last night among my comrades’.”

On the Nevrouz, that is to say, the new day, which is the first of the year, and the beginning of the spring, there is an ancient and solemn least observed through all Persia, which has continued from the time of idolatry; nor could the pure religion of our holy prophet prevail over that heathenish custom. Superstitious ceremonies, mixed with public rejoicings, mark the Nevrouz, which is celebrated in every town and village in that extensive kingdom.”

(…) [Interrompi a leitura e as anotações aos 70% da obra.]

VOCABULÁRIO

dervise (arcaico) ou dervixe (port.): muçulmano eremita, mendicante

hind: corça, feminino de veado

pastry-cook: confeiteiro

[REPRISE] [3-em-1] Hoje foi um grande dia. / E o tempo passou, e eu realmente voltei… / E 1, e 2, e 3…K.O.!

Originalmente postado em 2 de setembro de 2009

Hoje foi um grande dia. Nesta quarta-feira, que já acordei confundindo com uma sexta, com azia no estômago devido a um rodízio de pizzas na noite pregressa, aconteceram muitas coisas, embora eu ainda esteja no meio de seu curso (16:28)! Os “três mandamentos” inusitados e provocativos logo abaixo são apenas uma amostra das iluminações e bons augúrios que me foram permitidos desde seis e meia da manhã quando fui rudemente despertado até esta calorenta parte da tarde.

Não sem relação com toda essa riqueza acontecimental, decidi aprecer de novo no blog em tempo recorde. Aqui, abro as portas mais uma vez para o túnel do tempo da minhoca-autor:

(…)

E o tempo passou, e eu realmente voltei… E vou continuar voltando, mas comunico-vos que não nomearei mais artigos com o título TRANSCENDER. Apenas os que me compreendem menos mal adivinharão o porquê e não me interessa falar em vão para os outros. Não obstante, o que deve mudar é apenas isso: sempre escrevo, e como não há verdadeiras revoluções em nossas vidas, apenas explosões aparentes, serei sempre o mesmo, mesmo tendo mudado tanto, e o “projeto” continua, embora tácito… É difícil eu me arrepender de alguma coisa… Ah, como é bom aliviar as costas de um peso tenebroso!

E UM, E DOIS, E TRÊS… NOCAUTE!

UM

Sabe qual é a definição vulgar de trágico? Que o homem sabe que vai morrer. Sabe o que é ainda mais trágico? Que, sendo a única criatura que detém esse conhecimento, o homem é também o único que sabe rir.

DOIS

Desconfie dos moralistas.

TRÊS

Deus já não se sustém – nem como hipótese.

[REPRISE] NÃO ERA PRA CASAR

Originalmente postado em 29 de agosto de 2009

“Perder-se”: outra grande temática de reflexão, além d’“o retorno”! Excitação, adrenalina… Aventura: Valparaíso, Ingá, rodoviárias e ônibus. Longa noite: paradeiro inaudito. A vida como RPG. Ditadura do relógio em segundo plano. Caminho de leituras e afazeres até uma monografia: não outra que não um labirinto! Minhocão, subsolo, reentrâncias, números e siglas… Sagas em miniatura. Agora vejo essa tendência em tudo: na ebriedade, na Música, no futebol… Todo Link tem seu confortável domicílio perto de uma Sagrada Deku Tree, mas qual seria a graça se não explorasse? A vida sempre foi um JOGO! Com desespero e feridas reais, fica mais difícil de empunhar a espada sem pensar três vezes no que irá acontecer a seguir. Sair com febre: Guará e seus conjuntos, a casa do B. e a volta para casa – alguma dúvida do que é que eu queria? Com certeza não era dançar funk, beber cerveja ou transar com a irmã da R.! O fio de Ariadne não seria, aliás, o mouse? Redes de amigos, comunhões e desventuras – o risco de se danar, olhar para trás e não poder voltar… Autoconservação COINCIDE com automutilação.

Cadê seus instintos? Mulher, a víbora (no bom sentido): quase me faz pisar na Igreja. Por que me apaixonei por você e não por outra? Porque o pré-requisito fundamental mais importante até agora não escrevi: PERDER-SE COMIGO NO LAR DO MINOTAURO! Você foi minha Salomé, “não era pra casar”!

Estou na minha idade épica… Depois serei um daqueles velhos muito consultados? Frio na barriga, o maior dos imperativos por enquanto! Brasília de repente está em silêncio, silêncio que cheira a INTERROGAÇÃO. O que eu quero para o meu Messias? Por que tempestade dissipa?

Para suprimir o pornô… O pornô é terrível por causa da ânsia que provoca. Daí se vê que é bem uma coisa do estômago. Não tem coisa mais sem-graça que a mulher rendida, despida, em quem (na qual, objetal!) somente se enfia! Sempre achei o semi-nu, o decote, a fuga e a intriga mais espetaculares. Aquele momento intermediário no qual somos mais felizes. Omissão feminina. Desbravamento masculino – 1ª VEZ: E. se recusa a ir embora na noite escura, mas não se convida explicitamente a ficar, espera meus movimentos, logo vai me dar, sem me dar nada!…

RPG, leia-se: transportar as neuras convulsivas cerebrais para o plano da ação. Não é que os sistemas caprichem nos cenários e na física e esqueçam da psique das personagens. É que o ocidental travado tem o cérebro inchado e é enfermo do pé! Renasça, ó beleza automática! Hiei, meu alter ego lutador! Depois que se cumpriu uma missão colossal, uma tarefa muito laboriosa, o que resta? Ora, nada nunca foi de ninguém. O amor a um ser humano, uma jóia, uma pedra preciosa, a estima popular, tudo é passageiro. Mas é suficiente o seguinte: gana de algo mais, uma curiosidade que persiste… Gastar até o último cêntimo da sua centelha…

QUIMERA – Suriman Carreira (ed. Clube de Autores) – recenseado.

INSPIRADOS X APÓCRIFOS: “Nos primórdios do cristianismo eram 315 evangelhos, mas a Igreja admitiu apenas 4 (os já conhecidos, que formam o Novo Testamento). Isto ocorreu no concílio de Nicéia, aos 325 d.C., 1º concílio ecumênico da Igreja, convocado pelo imperador Constantino. Trezentos bispos, homens comuns, mas sedentos de poder, reuniram-se como se fossem detentores da verdade e decidiram que apenas os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João eram verdadeiros.”

A princípio, os hebreus respaldaram-se apenas na mitologia sumeriana (…) posteriormente sincretizaram [sua mitologia] com o zoroastrismo persa, absorvendo principalmente o dualismo e a escatologia zoroástrica, durante o cativeiro da Babilônia. Ao se fazer um estudo comparativo, constata-se a intensa influência das mitologias mesopotâmicas e do zoroastrismo nas escrituras hebraicas e, por conseguinte, na Bíblia”

As passagens bíblicas existentes no Gênesis, inerentes à criação do mundo, refletem claramente a intensa influência do épico da criação Enuma Elish. (…) Enuma Elish é o mito babilônio da Criação, descoberto por Austen Henry Layard, em 1849 (de forma fragmentada em tábuas de argila), nas ruínas da biblioteca de Assurbanipal, em Nínive (Mossul, Iraque), e publicado por George Smith, em 1876.”

O livro mais antigo da Bíblia é o de Jó, datando entre 500 a 400 a.C.”

não há lógica em Deus referir-se a Ele mesmo no plural para dizer que criará o homem à Sua imagem e semelhança.”

Edom significa vermelho, segundo nome de Esaú, irmão gêmeo de Jacó, considerado o pai dos edomitas; a terra dos edomitas”

O ARQUÉTIPO DAS BRUXAS

Lilith laylah, layl (noite, hebraico); lil (vento/ar) + lulti (lascívia, sumério); lulu (libertinagem, sumério)

A exclusão de Lilith do texto bíblico ocorreu de maneira gradual, e bem anteriormente à tradução da versão Vulgata (…) feita por São Jerônimo, em latim, usada pela I. Católica durante muitos séculos e fonte de diversas traduções das quais derivam as Bíblias atuais). Roberto Sicuteri, autor do livro Lilith, a Lua Negra, confirma que é na época da transposição da versão jeovística da Bíblia (séc. X a.C.)¹ para a versão sacerdotal (587-538 a.C.) que a lenda de Lilith teria sido eliminada, entretanto, ainda restam pequenos resquícios desta tradição em fragmentos deste texto, à exemplo (sic) do Livro de Isaías.”

¹ Não bate com a datação do Livro de Jó dada acima.

Lilith também é um demônio feminino da mitologia babilônica (…) que habitava lugares desertos. A Cabala faz referência à (sic) Lilith como a 1ª mulher de Adão, mas, em outro trecho, também é tida como a serpente que induziu Eva a comer o fruto proibido (Patai 81:455f).”

EVA POTRANQUINHA DO SENHOR: “Lilith não aceitava ficar por baixo nas relações sexuais e Adão recusava-se em inverter as posições. Isto foi o estopim para desencadear uma grande altercação entre o casal primordial, à qual (sic) gerou uma imensa indisposição, que culminou na separação.”

…onde se tornou a noiva de Samael/Asmodeus/Leviatã, o senhor das forças do mal do sitra achra (‘outro lado’…) (…) um dos príncipes de Lúcifer” “Lilith acasala-se (sic) com os demônios, parindo cem (…) diariamente, cujos machos são denominados Lilim, ou Liliotes, ou Linilins, e as fêmeas Liliths (o termo Lilim aparece no Targum Jerushalami, a bênção sacerdotal dos Números 6:26

Lilith [em esculturas babilônicas] ostenta um tipo de gorro ou chapéu escalonado, adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo, caracterizando-a como uma deusa (e não como um demônio)”

Lilith aparece também no épico babilônico de Gilgamesh (o lendário rei sumério), em aproximadamente 2 mil a.C., como uma prostituta vampira que era incapaz de procriar e cujos seios estavam secos.” “Muitos acreditam também que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa suméria da guerra, da fertilidade e do prazer sexual.” “Em seus templos [de Inanna] se praticava a prostituição sagrada e suas sacerdotisas eram conhecidas como Nu-gig.” “Também não é incomum que se confunda Lilith com Ishtar ou até mesmo com Ísis, pela ligação destas com a morte. Vale dizer que as deusas Inanna dos sumérios, Asterote dos filisteus, Ísis dos egípcios, Ishtar dos acádios e posteriormente dos babilônios, Astarte dos fenícios e Ostara (Easter), a deusa da fertilidade e da primavera na mitologia nórdica, são cognatas.”

Quando a lua nova chegava, costumava-se dizer que a deusa estava com as regras.” Literalmente? Genealogia do termo regras para se referir ao mênstruo na faculdade de legislar sobre…?

Entre 3 mil e 2,5 mil a.C., quando os sumerianos passaram a ter contatos com culturas patriarcais, ocorre a passagem da concepção religiosa matriarcal para a patriarcal, então os templos dedicados à deusa foram postos abaixo e as práticas sexuais foram reprimidas e se tornaram parte da sombra, o poder da mulher foi identificado com o mal e o demônio (mas o politeísmo foi mantido, diga-se de passagem).” “A deusa passou a ser denominada como <a Grande Abominação>” “A deusa de Israel chamava-se Asherah (ou Aserá), esposa de Yahweh. Para a maioria das pessoas que lêem a Bíblia, a idéia de um único Deus de Israel, Yahweh, parece ser clara. No entanto, descobertas arqueológicas das últimas décadas vêm demonstrando que nem sempre foi assim.” Vou explicar ao longo das passagens por que esse “cientificismo” do autor depõe contra ele, e não a favor.

Pesquisas destacam [fonte???] a época do profeta Elias como o período histórico em que se começa a falar da exclusividade do Deus de Israel, principalmente no embate com o deus Baal e no processo de sincretismo, onde Yahweh incorpora as características de Baal.” Interessante.

processo de diabolização de outras divindades”

Num primeiro momento, a divindade Yahweh teria sido um elemento religioso que veio de fora do contexto cananeu. Nesta época, possivelmente era o Deus El que ocupava o trono do panteão divino.”

Haroldo Reimer aponta 5 fases do desenvolvimento do monoteísmo no Antigo Israel, a saber: a 1ª fase seria marcada pelo sincretismo entre El e Yahweh, no qual El é uma divindade cananéia cujas características são de Criador da terra e pai dos deuses (analogamente, o sumeriano deus Apsu também era o progenitor dos deuses, diga-se de passagem); a 2ª fase, por volta do séc. IX a.C., seria marcada pelos conflitos com o deus Baal. Baal era filho de El, cuja característica principal era a fertilidade; [nenhum deus pode ser eunuco!] a 3ª fase estaria na ênfase da adoração exclusiva de Yahweh. O profeta Oséias, no séc. VIII a.C., equipara a idolatria à adoração de outras divindades. [?] Neste período, acontece a reforma de Ezequias (II Reis 18:4), que mostra a remoção dos lugares altos e a destruição da serpente de bronze, Neustã. Reforma legitimada legalmente através do Código da Aliança (Êx. 20:22-23 e 29); A 4ª fase remete à época de dominação assíria, com a reforma de Josias (II Reis 22 e 23), justificada legalmente pelo Código Deuteronômico, englobando uma série de medidas visando a (sic) exclusividade de Yahweh e sua centralidade em Jerusalém. (…) A 5ª fase seria marcada pelo monoteísmo absoluto e estaria relacionada com o período do exílio. Gên. 1 afirma o poder criacional de Yahweh diante do domínio babilônico ancorado na fidelidade à divindade Marduk (a influência da mitologia babilônica).”

Conforme a pesquisadora Monika Ottermann, que traça o panorama da presença da deusa em Israel, da Idade do Bronze à Idade do Ferro, no Oriente Médio, datando a Idade do Bronze Médio entre 1800 a 1500 a.C., a representação da deusa é caracterizada como ‘Deusa-Nua’, destacando o triângulo púbico, emergindo também representações em forma de ramos ou pequenas árvores estilizadas, combinação que vem a ser denominada ‘Deusa-Árvore’. Os ramos, árvore ou pequenas árvores, brotando com suas raízes no triângulo púbico, simboliza a busca pela vida (…) (vale dizer que o hexagrama judaico, conhecido como estrela de Davi, símbolo do Estado de Israel, é formado por 2 triângulos opostos e sobrepostos” Ou seja: SEXO!

Vários selos ou impressões de selos que associam símbolos astrais com árvores estilizadas foram encontrados na Palestina e na Transjordânia, o que reforça interpretações sobre a existência de um culto à deusa Asherah ao lado de Yahweh.”

No âmbito da mitologia grega, Lilith é associada à deusa Hécate – analogamente, <a mulher escarlate> do Apocalipse –, uma deusa que guarda as portas do inferno montada em um enorme cão de 3 cabeças”

Sol Invictus (Sol Invicto, em latim [não diga!]), também conhecido pelo nome completo, Deus Sol Invicto, era um título religioso aplicado a 3 divindades distintas durante o Império Romano tardio.” Mitra Marte

Correção: Não se trata do império romano tardio, posto que muito anterior à cristianização.

Mitra significava amigo no idioma falado na Índia védica. Já no persa avéstico, tinha o significado de contrato. Atualmente, usa-se esta última semasiologia,¹ e existem diversas grafias para Mitra: Mihr [amor], Meher, Meitros, etc.

¹ “Linguística Estudo semântico que consiste em partir do signo linguístico para a determinação do conceito (por opos. a onomasiologia).”

onomasiologia: “Estudo semântico que consiste em buscar, a partir do conceito, os signos linguísticos, a expressão que lhe corresponde (por opos. a semasiologia).”

A deusa Anahita (Anihata, Anahira) era uma virgem imaculada, era a mãe de Mitra, era considerada a mãe de deus e a deidade feminina do fogo, dentro do panteão de deuses avésticos.”

Mitra (…) foi despojado de sua soberania e todos os seus poderes e atributos foram atribuídos a Ahura-Mazda.”

HaShatan HaSatan Satã

A Síndrome de Estocolmo aplicada em grande escala a um povo se chama Síndrome Babilônica.

Os soldados macedônios, com suas esposas e filhos persas, levaram o culto [de] Mitra à Macedônia e à Grécia.”

Mitrídates, o Grande – 120 a 63 a.C., o último persa de sua estirpe, derrotado por Roma em 66. Chamado em Montesquieu, Espírito das Leis (Jean Melville) de Mitríades.

Na época, existiam 2 escolas rabínicas. Cada uma com pontos de vista diferentes. Uma seguia os ensinamentos de Hilel, o ancião, e a outra os ensinamentos de Shamai. Beit Hilel e Beit Shamai eram os nomes das escolas. Hilel e Shamai foram 2 renomados eruditos judeus. Hilel era uma pessoa amável, simples, próxima às camadas mais modestas da sociedade, e suas máximas breves refletem sua generosidade, piedade e amor à humanidade. Shamai era extremamente íntegro e mais rígido e irascível. Yeshua deve ter estudado na escola de Hilel.”

Aquele que tenta engrandecer seu nome o destrói; aquele que não aumenta seu conhecimento o diminui; e aquele que não estuda, merece morrer.”

Hilel

Conta-se que [quem conta?], quando Herodes apareceu na sala do Sinédrio, rodeado pela guarda real, totalmente armados, (sic) o silêncio reinava. Podia-se sentir o sentimento (sic) de intimidação naquela sala, quando, (sic) apenas Shamai, sem medo, levantou-se para falar contra ele.”

Em suma, a escola Beit Hilel pendia ao judaísmo essênio, que era mais uma filosofia de vida do que uma religião. Já a escola Beit Shamai tinha um perfil notoriamente farisaico, o que a aproximava do judaísmo dominante.” A história do farisaísmo e a história da religião se confundem.

Em função de Sua Missão neste orbe, os pais de Yeshua foram previamente selecionados em razão de seus genes, [Genes? Deus veio do século XX numa máquina do tempo, como uma espécie de John Connor?] conduta moral e, obviamente, evolução espiritual.”

O CARPINTEIRO QUE NÃO CARPIA, POIS TINHA MUITOS LIVROS QUE LER: “Certamente, Yeshua estudou o hinduísmo, o zoroastrismo, o budismo, filosofias, mitologias e crenças gregas, egípcias, etc. Tudo isso, Ele (sic) deve ter feito durante os Seus (sic) anos de vida oculta.”

A Igreja Católica não aceita Jesus como rabino porque um rabino deve ser casado, principalmente no séc. I, e isto vai contra o celibato. Outras questões: se Jesus fôra casado, quem fôra a Sua (sic) esposa? Maria Madalena? Jesus teve filhos? A vida do Mestre é um mistério total. Ele mesmo não deixara nada escrito por razões óbvias. [?] O importante era Sua Mensagem. (sic) Ele não tencionava criar religião alguma.” Ora, se o importante era sua mensagem, ele deveria ter deixado escritos. Mas se ele não pretendia deixar escritos, por razões óbvias, tampouco poderia esperar semear alguma coisa, religião ou não! Paroxismo.

O libertador que os sacerdotes esperavam era diferente. Esperavam um messias que entrasse em conluio com eles, ocupasse o trono de Davi e promovesse a união do povo de Israel para deflagrar uma insurreição contra Roma”

Estar na fé implica o indivíduo freqüentar assiduamente o templo ou igreja, participar dos rituais, ler e crer na bíblia e nas pregações, sem duvidar de nada.”

Trechos que foram criados pelos antigos líderes judaicos-hebreus (muito antes de Cristo) para sustentar o judaísmo, que os mantinha na opulência e no poder, p.ex.: ‘Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida’ (Malaquias 3:10)”

FILHOS DE LEVI QUERIA DIZER O CENTRÃO DE ARTHUR LIRA? “Aos filhos de Levi, dei todos os dízimos em Israel por herança, pelo serviço que prestam, serviço da tenda da congregação. E nunca mais os filhos de Israel [os populares] se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram. Mas os levitas farão o serviço da tenda da congregação e responderão por suas faltas; estatuto perpétuo é este para todas as vossas gerações. [Porém, quando o dízimo é secreto, não há apuração de faltas] E não terão eles nenhuma herança no meio dos filhos de Israel. [não terão trabalho honesto, viverão do roubo do povo] Porque os dízimos dos filhos de Israel, que apresentam ao Senhor em oferta, dei-os por herança aos levitas…” Números 18:21-23 – Números, esse pessoal gosta muito de númeRo$!

No entanto, nada do que alguém dedicar irremissivelmente ao Senhor, de tudo o que tem, seja homem, ou animal, ou campo da sua herança, se poderá vender, nem resgatar; toda coisa assim consagrada será santíssima ao Senhor” Levítico 27:28 Extremamente ambíguo!

MERCADORES DA FÉ: “Os atuais finórios de Deus utilizam muito os supracitados versículos do capítulo 18 do livro de Números para se colocarem na mesma posição dos levitas judeus, transferindo a eles uma incumbência textualmente aplicada tão-somente aos levitas, mas literalmente incabível aos missionários da cristandade, pois não encontra respaldo no Novo Testamento” “A isto se deu o nome de teologia da prosperidade, principal característica das religiões neopentecostais.”

a cultura sumeriana formou a hebraica.” Nomeadamente a doutrina do povo eleito.

Os Evangelhos Sinóticos foram escritos por volta dos anos 50. O evangelho de João foi escrito aproximadamente no ano 90, portanto, apesar de serem cópias de cópias de outras cópias, assim como o de João também, os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são mais confiáveis do que o de João, por serem mais contemporâneos a Jesus, ou seja, estão mais próximos do Jesus histórico na linha temporal.”

NÃO EXISTE IGREJA SEM FÉ, MAS EXISTE FÉ SEM IGREJA: “Dentre os Evangelhos Sinóticos, somente Marcos 16:16 menciona a salvação apenas pela fé, entretanto, a maioria dos estudiosos bíblicos afirma que Marcos 16:16 é um versículo espúrio no evangelho segundo Marcos, pois destoa totalmente dos demais escritos atribuídos ao evangelista e, principalmente, porque o trecho em questão não consta nos primeiros manuscritos do evangelho de Marcos.”

MANUAL DE COMO SER ANTICRISTÃO NO SÉCULO XXI

Suriman ataca da forma errada: expondo contradições entre escritos bíblicos. Mas eu diria que se não houvesse qualquer contradição esse grande livro (ou livro grande) seria muito menos amado! Não é expondo contradições que se combaterá os cristãos de todos os tempos e lugares. Uma estratégia melhor seria, p.ex., denunciar o livro sagrado como muito estreito e linear. Um Deus onisciente e onipresente deveria poder ser capaz de mais nuances, matizes, perspectivas e contradições – as que vemos são muito poucas, mambembes, astutas no pior sentido de pobreza argumentativa, quase que evidenciam um pragmatismo, uma racionalidade temporã, de mercadores da fé, um livro ESCRITO ATRAVÉS DE DEUS por mãos humanas que nada tem de divino, é chão e abjeto, parece um manual de economia! Por isso é que é uma fraude, e esse Deus não existe ou foi incrivelmente traído pelos descendentes de seus profetas e sacerdotes, que conseguiram apagar todos os traços do Evangelho Original e até calar a boca de seu Filho, que Era Ele Mesmo. Ou seja, um deus fraco; e deuses não são fracos. Ou apenas um Deus satânico – mas cuidado, isso é muito popular entre os cristãos que hoje já não sentem necessidade sequer de simular o ascetismo! Pois Ele quer o mal; e nosso objetivo não é mais atacar o livro, que o deixa claro, mas, com poder político, não deixar qualquer traço ou tolerância dessas práticas más!

Paulo encoraja a soberba e a megalomania, elitizando o cristianismo, fazendo um jogo perigoso, que fomenta discriminações, preconceitos, discórdias e até pelejas, opondo-se ao amor universal pregado por Jesus, e contrariando outros trechos que afirmam que Deus não faz acepção de pessoas, como, p.ex., em Romanos 2:11, que é uma epístola dele mesmo, por sinal.”

No hinduísmo, um avatar é uma manifestação corporal de um ser imortal, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito Avatara, que significa <descida>, normalmente denotando (sic – conotando) uma religião das encarnações de Vishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade.”

A 1ª semelhança encontrada pelos tradutores das tábuas em escrita cuneiforme é a mais impressionante. Foi a mola propulsora de toda a discussão sobre a veracidade dos textos bíblicos, pois a descrição do dilúvio não só é a mais bem-conservada tábua de toda a epopéia, mas a mais rica em detalhes e semelhanças com a descrição no Gênesis. Além do quê, outras narrativas do dilúvio foram encontradas em forma de poemas isolados e com outros personagens, como as tábuas de Atra-Hasis, a Epopéia de Erra, os textos do rei Ziusudra (Utnapishtim).”

Ea (deus da água doce e da sabedoria, patrono das artes e protetor da humanidade na mitologia acadiana e babilônica; denominado Enki na mitologia suméria) avisa Utnapishtim em um sonho das intenções de Enlil e orienta-o a como sobreviver à catástrofe que estaria por vir [extinção do homem?]: <põe abaixo tua casa e constrói um barco….>

Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas. Minha família, meus parentes, os animais do campo – os domesticados e os selvagens – e todos os artesãos.” O que seria do mundo sem os artesãos! Até o detalhe do corvo que foi solto e encontrou, finalmente, terra firme após 6 dias de dilúvio foi copiado pelo VT de Gilgamesh!

Enlil, furioso com Ea por ter permitido que um humano sobrevivesse e conhece[sse] o segredo dos deuses, viu-se sem alternativa que não a de transformar Utnapishtim em um imortal, para que sua maldição de que nenhum mortal sobrevivesse se completasse.”

Gilgamesh então mergulha no oceano e obtém a planta da juventude eterna. Mas não se alimenta dela a tempo, decidindo levá-la consigo para Uruk e compartilhá-la com os anciãos do povo. “Gilgamesh é surpreendido por uma serpente marinha que lhe rouba a flor, perdendo para sempre o segredo da imortalidade”

fruto – serpente – mortalidade (terra)

fruto – serpente – imortalidade (água)

Gilgamesh então ficou desolado e abatido, pois além de fracassar em sua missão perdera para sempre o irmão Enkidu, restando-lhe apenas, melancolicamente, esperar o dia de sua morte chegar.”

O Mito de Dilmum (o casal divino Enki e Nintu).

Os sumérios foram, provavelmente, os primeiros a habitar o sul da Mesopotâmia. A região foi ocupada em 5 mil a.C. (…) ali [se] constru[íram] as primeiras cidades de que a humanidade tem conhecimento, como Ur, Uruk e Lagash. As cidades foram erigidas sobre colinas.”

No início do 2º milênio a.C. a região da Mesop. constitui-se em um grande e unificado império que tinha como centro administrativo a cidade da Babilônia, situada nas margens do rio Eufrates. Os amoritas, povos semitas provenientes da Arábia, edificaram o Primeiro Império Babilônico. Este povo é conhecido também como <antigos babilônicos>, o que os diferencia dos caldeus, fundadores do II Império Bab., denominados NEOBABILÔNICOS.”

De origem semita, os assírios viviam do pastoreio e habitavam as margens do rio Tigre.” “conquistaram (…) o Egito. O centro adm. do império assírio era Nínive.”

os [também semitas] caldeus foram os principais responsáveis pela derrota dos assírios e pela organização do novo império babil. Nabucodonosor foi o soberano mais conhecido dos caldeus. (…) governou por 60 anos e após sua morte os persas dominaram o novo imp. bab.” Ao todo, em somente 7 décadas construíram os lendários Jardins Suspensos e a Torre de Babel.

Uma etnia tão fratricida realmente precisava inventar um Deus vingador-Deus do amor (no fim é indiferente, desde que unisse as “tribos”). Para o leigo que lê a bíblia, entretanto, monarcas como Nabucodonosor passam como governantes dos gentios, cem por cento pagãos, sem qualquer relação com a árvore genealógica hebraica.

Apesar de matemática, astronomia e medicina altamente desenvolvidas, a principal realização cultural dos sumérios foi a escrita fonética. “Quem decifrou a escrita cuneiforme foi Henry C. Rawlinson.”

Anterior ao Código de Hamurabi [por muito tempo considerada a lei mais antiga da humanidade] tem-se o o Cód. de Ur-Nammu, descoberto em 1952 pelo assiriólogo (…) Samuel Noah Kromer.”

Sargão I é o 1º monarca da história a manter um exército de prontidão.”

Apesar de terem preservado a maior parte da cultura suméria, os amoritas introduziram seu idioma semítico, um ancestral do hebreu na região” Neste idioma é escrita a Epopéia gilgameshiana.

1750 a.C.: (…) os cassitas, um povo não-semítico, conquista a maior parte da Mesop.”

o historiador e lingüista Zecharia Sitchin, especialista em traduções de tabletes cuneiformes, revela que[,] para os sumérios e babilônios os Anunnaki eram, literalmente, astronautas extraterrestres que aterrissaram na região onde se situa o Iraque, há aproximadamente 450 mil anos, em missão de mineração, que se estendeu do Oriente-Médio à África.” Eridu, considerada a cidade mais antiga do mundo, teria sido fundada por esses curiosos E.T.s! “…com o objetivo de obter ouro em quantidade suficiente para sanar os problemas no ecossistema de seu planeta natal, Nibiru.” Ah, o homem! Por que um povo capaz de se teletransportar precisaria de OURO?! Péssima base literária!

Segundo os sumérios, o trab. de mineração ficou comprometido por rebilões entre os Anunnaki, o que levou Enki e Ninti, brilhantes cientistas, a interferir no ritmo evolutivo do tipo humanóide simiesco que habitava o planeta. Através de experiências de engenharia genética, foi obtido o protótipo do Homo sapiens, chamado pelos sum. de Adapa/Adamu.” E daqui pra frente só piora! Mas como série estilo Arquivo X seria sensacional!

a cada 3600 anos [curiosamente coincidindo com o sistema matemático sexagesimal babilônico, que coisa!] o planeta Nibiru completa um período orbital em torno do Sol [qual sol?] e, durante sua aproximação da Terra, diversos cataclismos se sucedem. Os Anunnaki então aproveitariam essa <janela cósmica> para retornarem à Terra.” Prefiro o lore de One Piece!

Nibiru/Marduk, 10º planeta (tendo Plutão como 9º) do sistema solar ou talvez o 6º ou 7º planeta da estrela anã-marrom que seria a suposta irmã gêmea do nosso Sol.” U-A-U!

Nibiru é um planeta do s.s. citado no poema Enuma Elish (Batalha Celeste)¹ e associado ao deus Marduk (…) Os sumérios descreviam nosso sistema solar como um conjunto de 12 corpos celestes significativos” Claro que também corresponderia ao sistema duodecimal criado para a medição do tempo!

¹ Narração da criação do planeta Terra por Marduk.

Marduk (…) era filho de uma relação incestuosa entre Enki e Ninhursag. Foi pai de Dumuzi (o bíblico Tamuz), correspondente ao deus egípcio Osíris. Sua consorte era Sarpanitu.” “foi o vencedor do monstro Tiamat, que personifica o caos primordial; divide-o em 2 partes, com as quais forma o céu e a terra.”

Intertestamentário é o período de tempo que abrange 400 anos entre 397 e 6 a.C.. Trata-se do período situado entre o V. e o N. Testamento.” Hiato Malaquias-Mateus.

De acordo com o Livro dos Jubileus, Sete casou-se com sua irmã mais jovem Azura e teve vários filhos, entre os quais Enos. [que não sofria de azia]” “É importante esclarecer que Sete é também o nome de um personagem jaredita do Livro de Éter (um dos livros que compõem o Livro de Mórmon). § Alguns estudiosos do séc. XIX identificam Sete com Shitti, um epíteto do deus Marduque”

Algumas religiões e crenças, culturalmente atrasadas, encorajam seus seguidores à prática do suicídio.” São tantas coisas erradas na frase que mal saberia por onde começar…

Eostre, Ostara ou Ostera é a deusa da fertilidade e do renascimento na mitologia anglo-saxã, na mitologia nórdica e mitologia germânica. A primavera, lebres e ovos coloridos eram os símbolos da fertilidade e renovação a ela associados.” Páscoa vem do latim pache, passagem, originalmente transição entre estações (fim do inverno no hemisfério norte). Mas também “Deusa da Aurora” no Alto Alemão ou simplesmente sol nascente em outras raízes anglo-saxãs.

Eos, Deusa do Amanhecer na mitologia grega.” // Astarte // Ishtar

Varuna é um deus indiano da criação. Possivelmente é a mais augusta divindade do panteão védico.” “Varuna tentou impedir o nascimento de Indra, mas foi impossível” Varuna foi então rebaixado de Zeus hindu para mero deus da noite e dos oceanos. Nenhum olimpo é uma liga, i.e., há sempre rebaixamento e ascensão de semi-deuses e heróis correndo por fora!

A principal coletânea da mitologia persa é o Shahnameh de Ferdowsi, escrito há mil anos. A obra de Ferdowsi tem por base as histórias e personagens do zoroastrismo e do masdeísmo, não apenas o Avesta, mas também o Bundahishn e o Denkard. Segundo a crença, o sexo era predominante, assim como o amor verdadeiro. [?!] O primeiro beijo (…) era fundamental…” Bem, continua sendo entre nós… “Já a 1ª relação sexual deveria ser presenciada pelos pais.” Isto sim está fora da cartilha!

A mitologia persa é ao mesmo tempo muito próxima e diferente da mitologia hindu. Elas são próximas, porque os iranianos são um povo indo-europeu cuja língua tem grande semelhança com o sânscrito e foram um povo que estabeleceu constantes relações com os arianos da Índia. E são diferentes, pois a religião dos antigos persas adquiriu um aspecto mais moral que mitológico.”

Ahura Mazda é o criador de outras 6 ou 7 divindades supremas, os Amesha Spenta, que reinam, cada um, sobre uma parte da criação”

Subordinados dos Amesha Spenta:

I. Mitra, o mestre do espaço livre;

II. Tistrya, o deus das trovoadas;

III. Verethraghna, o deus da vitória;

IV. Os Izeds.

Angra Mainyu perdeu sua identidade zoroastrista e masdeísta original na posterior literatura persa, sendo finalmente descrito como um Dev ou div, celestial ou radiante [um gigante com o corpo manchado e 2 chifres].”

Somente após a reforma religiosa de Zaratustra o termo dev foi associado com demônios. Mesmo assim os persas que habitavam a região ao sul do mar Cáspio continuaram a adorar os devs e resistiram à pressão para aceitar o zoroastrismo e as lendas em torno dos devs sobreviveram até os dias atuais. P.ex., a lenda do Dev-e Sepid (Dev branco) de Mazandaran.”

A personagem mais importante nos épicos persas é Rostam. Sua contraparte é Zahhak, um símbolo do despotismo que foi finalmente derrotado por Kaveh, que liderou um levante popular contra ele.” “A serpente, como em muitas outras mitologias, representava o mal” “os pássaros, em especial, eram sinal de boa sorte.”

Peri (avéstico Pairika), considerada uma mulher bonita porém má na mitologia mais antiga, tornou-se gradualmente menos má e mais bonita até transformar-se em um símbolo de beleza no período islâmico similar aos houri – espécie de anjos – do Paraíso. Entretanto, outra mulher má, Patiareh, atualmente simboliza a prostituição.”

a reconstrução da história da Índia Védica é baseada no estudo dos Vedas (…) associado às informações arqueológicas.” “muito do que se sabe da época é baseado no Rig Veda – o mais antigo texto sânscrito escrito e preservado. Acredita-se que estas e outras narrativas épicas, como o Ramayana e o Mahabharata, se originam neste período, a partir da tradição oral” era de mistura cultural. A cultura ariana foi aos poucos se mesclando à cultura indiana local. A partir de 200 a.C. este processo se completou e o que conhecemos como cultura indiana tomou sua forma geral.”

A ordem social reflete a presença dos árias [brâmanes] no poder e, com isso, a supremacia dos sacerdotes [sempre um mal!] se consolidou no sistema de castas.” Em breve, THE LAWS OF MANU no Seclusão.

Os chamados impuros ou párias não pertenciam a nenhuma casta [<quinta casta>]. Eram nascidos de uma união de pessoas de castas diferentes [superficial: não procede – apenas se forem provindos de união não-sancionada – e desde que um brâmane tenha pelo menos 4 esposas a 4ª pode até ser uma Sudra] ou de expulsos de suas castas por terem violado as leis. Não podiam viver nas cidades, ler os livros sagrados [falso: nem mesmo os shatriya podem ler o Veda!] e banhar-se nas águas do Ganges.”

Ahura Mazda deriva de ashura, senhor, deus menor hindu. E no entanto os outros deuses são devas, que na etimologia seriam aproximados de dev, demônio. Ou seja: Índia e Zoroastrismo são essencialmente opostos (pode-se dizer que uma religião é a outra de ponta-cabeça). E no entanto estas duas religiões são um contraste absoluto com as noções hebraicas – formando-se um triângulo de oposição entre macro-religiões, a dos judeus a mais contrária e refratária às outras crenças.

Sempre imaginei que Maniqueísmo e Mazdeísmo ou Masdeísmo (o Zoroastrismo, enfim) fossem sinônimos. O que não quadra é a informação seguinte: “Maniqueísmo, filosofia religiosa sincrética e dualística ensinada pelo profeta persa Mani (ou Manes), combinando elementos do Zoroastrismo, Cristianismo e Gnosticismo” O mais curioso é que Mani é muito próximo de Manu, autor de um dos códigos de lei mais antigos, inscrito no hinduísmo e obedecendo aos Vedas. E manes também é uma nomenclatura para determinada classe de divindades importantes na ritualística bramânica.

Zoroastrismo (doutrina mais pura) > Masdeísmo (refundação “decadente”)

Ísis, a deusa do amor e da mágica, tornou-se a deusa-mãe do Egito.” E ainda: médica, casamenteira (inscrito em amor e magia) e incentivadora da agricultura, patrona da harmonia e das festas, além de governante no sentido sócio-político, ao lado de seu marido Osíris. Podemos portanto chamá-la sem equívoco de Deusa da Cultura Egípcia, ou Embaixadora do Egito enquanto civilização. Teria originado o Rio Nilo. Por diversos acontecimentos da mitologia, é associada à árvore do tamarindo. Por último, Ísis também é a deusa da Morte ou da transição da vida terrena para a próxima vida, tendo criado o ritual do embalsamento.

MITOS & ARQUÉTIPOS

Nas odisséias de Ísis e inúmeros outros deuses de outras mitologias há sempre uma cena arquetípica: a deusa (sempre uma mulher), disfarçada, se torna ama de um príncipe recém-nascido, filho do rei do local. A ele se afeiçoa e deseja presenteá-lo com a imortalidade mediante um ritual que, visto pelos olhos de um leigo, parece um homicídio hediondo, geralmente envolvendo as labaredas do fogo. Sempre, no momento de ser consumada a imortalidade, o ritual é interrompido por alguma testemunha do palácio e o príncipe nunca obtém a imortalidade. A estória de Zigfried e Aquiles é uma variante deste arquétipo, excluindo elementos como “príncipe ainda bebê” e a ama, que se converte noutra figura feminina, como a mãe de Aquiles, que o segura pelos calcanhares e o banha em águas que concedem a imortalidade – dando-lhe uma imortalidade parcial ou condicionada, destinada a ser vencida quando um guerreiro atinge seu ponto fraco, única parte mortal do corpo, o calcanhar-de-Aquiles.

No mito de Osíris há outra alusão a um ser assexuado ou hermafrodita, tema de inúmeros mitos, como o de Platão n’O Banquete, conotando uma suposta perfeição ou transcendência em relação à condição limitada dos dois sexos, fundindo todas as suas qualidades num ser Uno. Osíris fôra retalhado em inúmeros pedaços e pelos dons de Ísis e sua irmã voltou à vida, com todas as suas partes reconectadas, exceto a genitália, que havia sido devorada por um peixe do Nilo. Nasce o ser perfeito e assexual – e o que eu comentei acima de “nenhum deus pode ser hermafrodita”, cai por terra!

Hórus é o filho de Ísis e Osíris. Como a ressurreição de Osíris pôde ser apenas temporária, já que ele possuía o corpo mas sua alma já havia partido, Hórus foi concebido numa “atípica lua-de-mel” entre Ísis e o deus morto-vivo, que finalmente foi embalsamado e partiu de maneira pacífica ao Outro Mundo. Tal circunstância torna Hórus divindade dual, tanto da Vida quanto da Morte, e sua aparência reflete sua capacidade espiritual: meio-homem, meio-falcão.

Set, deus-cobra, arqui-inimigo de Hórus, Osíris e Ísis, entrou em combate com o filho do casal: este embate entre falcão e serpente é outro arquétipo. Nietzsche utiliza tal simbologia em seu próprio Zaratustra (o que podemos considerar o mesmo que: a superação de todas as religiões monoteístas após a morte de Deus, ainda que usando velhos nomes e velhos símbolos), em que Zaratustra é secundado por dois discípulos, uma serpente e um falcão [na verdade, águia], falantes. Como Zaratustra anuncia aquilo que virá muito além do bem e do mal, a serpente e o falcão não são mais, respectivamente, representantes nem do mal nem do bem.

Sobre Ísis (bom tropo para usar em um RPG): “Suas habilidades mágicas melhoraram muito quando ela tirou proveito da velhice de a fim de enganá-lo, fazendo-o revelar seu nome e, assim, dando a ela acesso a um pouco de seu poder.”

A VIRGEM MARIA EGÍPCIA: “Do morto e castrado Osíris, Ísis extraiu por conta própria a semente viva. E muitas vezes foi retratada em pinturas ou esculturas com o divino filho, Hórus, sobre o joelho.”

Osíris mandava no mundo dos mortos, seu falo perdido para sempre nas águas do Nilo, onde dele corria um fluxo interminável de sêmen, fertilizando os extraordinários campos do Egito todos os anos quando o rio transbordava.” “Osíris, o deus do sangue, julgava o malfeitor olhando dentro do coração do mesmo.” Isso não o impediu de cair numa simplória armadilha de Set.

Bellenus é o deus celta do Sol.” “Era um dos principais deuses da mitologia celta, mas era uma divindade mais regional, adorada principalmente no norte da Itália e na costa mediterrânea da Gália.”

Na antiga religião, antes da Igreja destruir este culto e transformá-lo no que se conhece como <bruxaria>, os camponeses iam para os bosques de carvalhos à noite e acendiam enormes fogueiras para a deusa, o que tornou esta festividade conhecida como As Fogueiras de Beltane.” Origem de nossa festa junina, cristianizada.

Mabon (pronuncia-se mêibon) é também conhecido como Equinócio de Outono ou Lar da Colheita ou Festival da Segunda Colheita. Dia sagrado no paganismo, em especial na religião wicca. (…) corresponde a (…) 20 de março no hemisfério sul e (…) 22 de setembro no hemisfério norte”

o ano-novo pagão (Samhain – pronuncia-se sou-en)” etimologia: samh, verão + fuin, fim. “É uma época de quilíbrio, onde o dia e a noite têm a mesma duração.”

O nome Mabon veio de um deus celta (também conhecido como Angus), o deus do amor.”

Lughnasadh (pronuncia-se lusaná) é também conhecido como Lammas ou Festival da Primeira Colheita. (…) Celebrado dia 2 de fevereiro no hemisfério sul”

O nome lusaná tem suas raízes em uma festa agrícola típica dos célticos. (…) em honra ao deus (…) do Sol: Lugh

Já o nome Lammas significa <A Massa de Lugh>, que representa o alimento (geralmente pão ou bolo ou qualquer outra massa) feito com grãos, que representam a colheita”

coven (grupo de bruxos)” ui ui ui!

Mani: a deusa brasileira da mandioca, alva como a lua!

grande parte da tradição do Halloween, do dia de todos os santos e do dia dos finados pode ser associada ao Samhain.” “Alguns autores acham que não existe nenhuma evidência que relacione o Samhain com o culto dos mortos e que esta crença se popularizou no séc. XIX.” “Era também a época em que o Sidhe (nome celta para duende) deixava antever o outro mundo.” Origem ainda do espantalho ou do Jack o’Lantern.

MITO <TEBAIDO> (+1 ARQUÉTIPO PARA A LISTA…): “A religião mitraica dos magos tem uma lenda como a maçonaria. [?] É a seguinte: Mitra (Luz) (…) nasceu da <rocha generativa>, [a pedra do gênesis de Raul Seixas?] debaixo da sombra de uma árvore sagrada. Uns pastores foram testemunhas (…) Viram-no sair da rocha, com a cabeça adornada (…) armado de um cutelo e levando uma tocha para iluminar as trevas” Pedra do tempo; quem tem teto de vidro que atire o primeiro dente!

Os pontos em comum entre a mitologia maga e a vida de Cristo segundo os evangelhos saltam à vista.” Com toda a certeza.

O mitraísmo – religião da moda no Império Romano – cultuava Mitra e a supracitada mitologia não poderia ficar de fora. Provavelmente os líderes da embrionária Igreja Católica optaram pela absorção da mitologia dos magos, amalgamando-a com a história de Jesus para adaptar o cristianismo às crenças romanas e, deste modo, torná-lo aprazível aos mitraístas, facilitando a conversão.”

Na tentativa de consolidar a totalidade do Imp. Romano sob o seu domínio, Licínio o Breve [imperador da banda oriental] marchou contra Constantino. Como parte de seu esforço para ganhar a lealdade de suas legiões, L. dispensou o exército e o serviço civil da política de tolerância do Edito de Milão, [que cessou a perseguição aos cristãos] permitindo-lhes sua expulsão. Alguns perderam propriedades e outros a vida. § Constantino venceu a guerra em 324 d.C.”

Em relação ao Antigo Testamento, o problema só foi definitivamente resolvido em 1546 (no Concílio de Trento), sendo incluídos o Livro da Sabedoria, atribuído a Salomão, o Eclesiastes ou Sirac, as Odes de Salomão, o Tobit ou Livro de Tobias, os Livros dos Macabeus e ainda outros.”

LINHA DO TEMPO (somente inseri os mais relevantes)

ANO – nº romano do Concílio – local – principais resultados

325 – IV – Nicéia – Apostasia do Arianismo; Fundação da Igreja Católica.

432 – VI – Éfeso – Apostasia do Nestorianismo.

451 – VII – Calcedônia – Apostasia do Monofisitismo.

553 – VIII – Constantinopla – Apostasia do resiliente Nestorianismo!

681 – IX – Constantinopla – Apostasia do Monotelitismo.

767 – X – Nicéia – permite a veneração de imagens [destruição do cristianismo primitivo, na opinião de muitos protestantes…]

(Entre 867 e 1064 – incontáveis cismas, mas o principal, entre a Romana e a Ortodoxa.)

869 – XI – Constantinopla – primeira trégua provisória Ocid. x Or.

1123 – XII – Latrão – Apostasia do Valdensismo e Albigensismo.

1139 – XIII Latrão – idem [!]

(Seguiriam mais dois em Latrão para o mesmo fim, o segundo em 1215 – XV Concílio.)

Daqui em diante não importa o número, os concílios são cada vez mais estapafúrdios, se já não o eram o bastante…

1431 – Concílio da Reforma (Basiléia, Ferrara, Florenza e Lausana)

1517 – real surgimento das Igrejas Protestantes (conclusão do processo de cisma iniciado quase um século antes). (Trento)

1545 – Contra-Reforma (Trento)

1870 – A grande besteira e heresia da infalibilidade papal, que duraria muito pouco tempo para uma religião milenar! (Vaticano)

1962 – “Concílio da modernização”, para fisgar os beatlemaníacos e afins!

O judaísmo era para ser uma filosofia de vida e não uma religião (assim como o cristianismo deveria[, e o hinduísmo logrou]).”

RECAPITULAÇÃO:

  • Essênios: judeus mais ortodoxos (anti-fariseus).

  • A partir dos cismas com os essênios, tudo é história política.

  • Os essênios eram vegetarianos e nunca sacrificaram animais a Javé. Não havia quase nenhuma lei religiosa entre eles.

Os hebreus (<descendentes do patriarca bíblico Éber>) é o nome dado ao povo que viveu na região do Oriente Médio a partir do II milênio a.C., e que daria origem aos povos semitas como os árabes e os israelitas, antepassados históricos e espirituais dos atuais judeus e muçulmanos.” “Os hebreus permaneceram por 3 séculos na Palestina, até a ocorrência de uma violenta seca que abalou a região.” Não me admira inventarem a estória de Noé depois de tamanho trauma.

No regresso à Palestina, após a escravidão egípcia e a morte de Moisés, assim era a demografia (principais etnias):

  • hebreus

  • cananeus

  • filisteus

Começa o Estado judeu.

A teoria de que os altos impostos derrubaram o reinado de Salomão (ancaps aprovam!).

Dominação assíria-babilônica da etnia já dividida em dois reinos (patética decadência).

Alexandre, o Grande bem que tentou mais uma vez separar o que jamais deveria ter sido novamente reunido (judeus e Palestina), mas depois de sua morte o ciclo seguiria…

palestinos, descedentes dos antigos filisteusGostaria de saber como essa palavra foi virar uma crítica da erudição acadêmica!

Suriman destaca os versículos sobre holocausto animal: Gênesis 8; Êxodo 18; Êxodo 29; Levítico 1, Levítico 4; Levítico 4; Números 6; Números 7; Números 8.

Espírito Santo, do hebraico Ruach Ha Kodesh. Suriman defende que a única razão d’<O> Espírito Santo (seria apenas ‘um espírito santo’) ter adquirido tamanha importância no credo cristão se deveu a um erro de tradução de Jerônimo. Depois cita o mesmo fenômeno como “jogada de mestre por parte da Igreja”. Ou é jogada de mestre ou é erro não-intencional de um tradutor honesto! Nem a Igreja é tão “inteligente” nem Jerônimo, patrono dos tradutores, era tão burro.

CITANDO O MIDRASH: “o Espírito Santo foi concebido como sendo por vezes um homem e outras uma mulher.” Aí está a drag queen do “pastor” André (indo pra) Vala***.

O Talmude também “enche” o saco com “aparições” do Espírito Santo ao longo da ZZZzzzhis…, perdão, da zzzhistória.

qualquer um que ensine a Torah em público partilha do E.S.” Virou um diplominha à la Direito pelo UniCEUB. Hahaha!

A visão judaica retrata, na idiossincrasia deles, a sintonia com o PAI e, conseqüentemente, com o Cosmo.” Quem é esse PAI, e esse Cosmo?! Qual a religião do autor?! Não me diga que é espírita?

EQUAÇÃO DA FÉ

(Torah + Neviim + Ctuvim) = Tanach = Antigo Testamento

hoje a maior parte dos estudiosos são unânimes [ou são unânimes ou são a maior parte… os dois não dá!] em concordar que Moisés não é o autor do texto que possuímos” Ó!

Talmude = Torá oral (que virou livro, duh)

Torah = Pentateuco, para todos os efeitos

Chumash (os 5): Bereshit, Shemot, Vayicra, Bamidbar, Devarim

O conteúdo do Tanakh é equivalente ao A.T., porém com outra divisão.”

Neviim = livros dos profetas, juízes, reis, etc. (História de Israel, haha)

Ctuvim = resíduo salomônico, Jó, Eclesiastes, Crônicas (senta que lá vem MAIS história…) etc.

Maomé não escreveu o Alcorão.” U-a-u!!!

Sufismo (os hereges místicos do maometismo, necessários, conforme toda religião monoteísta ensina): desdobramento em Cabala e Gnose.

POEMA DO ASSIM

ZAratustra: início e fim, A a Z.

choro-riso-choro

dança-reza-dança

sim-sala-bim

coisa ZAntiga ZAgora voltam às modaz.

Zaratustra se perguntava na infância: quem estipulou o valor dos valores?

Zaratustra, nascido de uma virgem…” Porra, variem um pouco o arquétipo!!!

Dos 20 aos 30, Z. viveu quase sempre isolado, habitando no alto de uma montanha, em cavernas sagradas.” “Em outros relatos, teria ido ao deserto, onde fôra tentado pelo diabo…” Dá até preguiça de digitar

Após 7 anos de solidão completa…” Ué, não eram 10?

Em dez anos de pregação (30-40 anos) teve somente um crente: seu primo.”

Ninguém o escutava. Ninguém o entendia.”

É preciso aprender a colher desprezo onde esperas carinho! Depois garfas esses malditos – tudo tem sua hora…

Com 40 anos realizou milagres…” Poxa vida, até então era só um homem comum. Plot twist nota zero!

Aos 77 anos ele teria morrido assassinado enquanto rezava no templo”

Em seu sentido mais abrangente, o gnosticismo significa <a crença na salvação pelo conhecimento> (Joan O’Grady).”

COSMOVISÃO DUALISTA

A tentativa de conciliar Jeová, o deus mau, com o do Novo Testamento.

Principais “patronos”: Marcião (marcionismo); Valentim (valentinismo ou valencionismo), Nestor (nestorianismo). Nenhum desses escapou de ser perseguido pela igreja…

Aeons, Pleroma, Demiurgo, décimo terceiro aeon, …

Pelo menos reconhece-se que a era cristã é decadente!

Os escritos joaninos são do final do 1º séc., quando nasceu o gnosticismo.” O mais ‘malvado’ dos escritores do NT.

Um rip-off do hinduísmo, em minha modesta expertise… Tanto que a maneira como os gnósticos se expressam é muito similar à minha interpretação dos Vedas: “Assim, os primeiros cristãos sabiam que 2 tipos de pessoas se achegariam ao cristianismo, um tipo sem o toque pneumático [e que tal torque? haha], e, portanto, incapaz de aproximar-se da salvação pelo conhecimento e pela sabedoria dos Mistérios, mas possuindo apenas capacidade de assimilar pela fé o lado superficial da Lei; o outro tipo, tocado pelo dom pneumático, pela centalha-espírito, que possuiria plena capacidade de assimilar os conhecimentos e a sabedoria dos Mistérios divinos e descer ao nível do profundo e espiritual da Lei, podendo gozar de completa iluminação e redenção.” Trecho de Orígenes, De Principiis

Trocando em miúdos, há duas religiões neste mundo: a dos superiores e a dos inferiores. Ou o que é mais: há a existência esotérica (Filosofia transcendental) e a exotérica (tudo o mais, filosofia ou qualquer outra coisa). “Outro patamar”… O princípio ecumênico do brâmane “em toda cultura posterior”…

Aspectos esotéricos da doutrina de Cristo: mais esotéricos do que a própria ortodoxia; mais ortodoxos do que os (maus) ortodoxos! Ver ainda mais sobre: naasenos ou ofitas; perates; sethianos; docéticos; carpocráticos; basilidianos (Basílio).

(mais conhecidos em negrito) “Com o passar do tempo, os herdeiros da tradição gnóstica e maniqueísta foram mudando de nome. Podemos indicar o aparecimento dos seguintes grupos: entre os sécs. III e IX: Euchites, Magistri Comacini, Artífices Dionisianos, Nestorianos (DV), e Eutychianos; no séc. X: Paulicianos e Bogomilos; no séc. XI: Cátharos, Patarini, Cavaleiros de Rodes, Cavaleiros de Malta, Místicos Escolásticos; [!!!] no séc. XII: Albigenses, Cavaleiros Templários, Hermetistas; no séc. XIII: a Fraternidade dos Winklers, os Beghards e Beguinen, os Irmãos do Livre Espírito, os Lollards, e os Trovadores; no séc. XIV: os Hesychastas, os Amigos de Deus, os Rosa-cruzes (Johann Valentin Andrea), os Fraticelli; no séc. XV: os Fraters Lucis, a Academia Platônica, a Sociedade Alquímica, a Sociedade da Trolha [!], os Irmãos da Boêmia (Unitas Fratrum); no séc. XVI: A Ordem de Cristo (derivada dos Templários), os Filósofos do Fogo, a Militia Crucífera Evangélica e os Ministérios dos Mestres Herméticos; no séc. XVII: os Irmãos Asiáticos (Irmãos Iniciados de São João Evangelista da Ásia), a Academia di Secreti e os Quietistas; no séc. XVIII: os Martinistas;no séc. XIX: a Sociedade Teosófica.” Teosofia é uma palavra que cheira mal…

Paulicianos como alguns dos mais persistentes e perseguidos dentre todos…

Pouco material chegou até os dias de hoje; a maioria dos personagens e suas doutrinas só pôde ser conhecida por meio dos criticos do gnosticismo. A maior polêmica contra os gnósticos apareceu no período patrístico [proto-Escolástica], com os escritos apologéticos de Irineu (130-200), Tertuliano (160-225)¹ e Hipólito (170-236).”

¹ Um dos primeiros posts do Seclusão: https://seclusao.art.blog/2017/01/30/patience-tertullian/.

Por isso a descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi em 1945 foi de suma importância, visto que seu conteúdo é eminentemente gnóstico. O achado impulsionou as pesquisas sobre o assunto na 2ª metade do XX. Estes manuscritos totalizavam 52 textos, em 13 códices de papiro, escritos em copta. (…) 3 obras pertencentes ao Corpus Hermeticum [Códice Askew, Códice Bruce e Códice de Berlim] e 1 tradução parcial da República de Platão.”

No séc. XX, Jung pesquisou profundamente as doutrinas gnósticas, inclusive ajudando no trabalho de organização da Biblioteca de Nag Hammadi, e fez uma ligação entre os mitos gnósticos e os arquétipos do inconsciente coletivo. Escreve[u] o livro Sete sermões aos mortos sob o pseudônimo de Basilides de Alexandria, onde coloca a sua visão gnóstica em 7 textos no formato dos evangelhos.” Não sabia disso! Googlando, só encontrei um documento de 11 páginas…

Ironicamente, a-gnósticos assume uma conotação extremamente pejorativa se levarmos os gnósticos em consideração!

Nesse ramo não existe clero nem sistema de graus, sendo uma metodologia de trabalho interior.” Mas só faltava mesmo essa! Chega de clero em tudo e qualquer coisa, até nas doutrinas anticlericais!

A magia hermética passou por um renascimento no séc. XIX europeu, quando foi praticada por nomes como os envolvidos na Ordem Hermética do Amanhecer Dourado [haha] e Eliphas Levi. No séc. XX foi estudada por Franz Bardon.”

Nem tudo que é hermético é hermético (haha).

Caibalion, livro-síntese do hermetismo do século XIX.

9 9 9

O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima.”

…God is satan deep below, satan is God high above

In the end it’s all the same…

Mercyful Fate, 9

6 6 6

Muitos historiadores consideram os Vedas os textos sobreviventes mais antigos.” Coincidência ou destino? Não há começo ou fim para a sabedoria. A vida seria um erro sem… os Vedas?!

O autor nada sabe sobre o bramanismo. Mero conhecimento linear de wikipedia!

* * *

Pode-se chamar de tradição algo que sequer monta a 70 anos (‘religião’ wicca)? Vários artigos ainda em uso do capitalismo (valor transcendental = 0) têm mais tradição do que isto!

Os dados que temos nos mostram que a maioria dos wiccanos dos dias de hoje são solitários, i.e., não participam de nenhum coven.” Hahaha! Incel ideology.

O tal do Perispírito encerra com chave de bosta a obra (engano meu, ainda havia muitas páginas desgostosas, vide abaixo). O mais chucro sobre esse “pessoal” é que eles querem transformar suas crenças sobre reencarnação e plano astral em ciência, i.e., ficam buscando sem descanso uma ratificação empírica. O cúmulo da idiotia. Assim como Nietzsche afirma que o sono é o parente mais próximo da morte, aquele que não pára de falar sobre reencarnação é o mais covarde dos acovardados diante da morte. Fale de vida ou da própria morte, ou então não fale nada – falar em reencarnar é atestar sua insignificância e falta de propósito corrente (tudo o que importa valorar).

Volto a afirmar, se já não o fiz neste blog: numa hierarquia das religiões, eu sempre posicionarei o Espiritismo no degrau mais baixo de todos. A degradação da degradação de uma degradação de uma crença original. A pior das quimeras.

Pergunto-me, aliás, quanto do texto foi redigido efetivamente pelo autor e o quanto não foi recortado diretamente de enciclopédias públicas virtuais… 70% do livro são platitudes… Como eu retirei o equivalente a 30 páginas de meras “platitudes”? Ora, um dos meus hobbies confessos é acumular conhecimentos “chatos”, superficiais, bidimensionais, sou um leitor habitual da Wikipédia, é claro! Mas afora as curios, não há qualquer valor metafísico nestas páginas!

Algumas fontes [dentro da sua cabeça] afirmam que Platão ensinava a reencarnação aos seus iniciados e a metempsicose aos leigos.”

Atenção, ainda há algumas páginas para exibição das tendências sádicas do autor!

No Liber Sententiarum Inquisitiones (Livro das Sentenças da Inquisição) o padre dominicano Bernardo Gui (Bernardus Guidonis, 1261-1331) descreveu vários métodos para obter confissões dos acusados, inclusive o enfraquecimento das forças físicas do prisioneiro.”

Roda do despedaçamento: uma roda onde o acusado era amarrado na parte externa. … Dama-de-Ferro … a 1ª ref. confiável de uma execução com a D-F data de 14/08/1515. A vítima era um falsificador de moedas”

Berço de Judas: peça metálica em forma de pirâmide sustentada por hastes. A vítima, sustentada por correntes, é colocada ‘sentada’ sobre a ponta da pirâmide. O afrouxamento gradual ou brusco da corrente manejada pelo executor fazia com que o peso do corpo pressionasse e ferisse o ânus, a vagina, o cóccix ou o saco escrotal.”

Potro … Na legislação espanhola havia uma lei que regulamentava um nº máx. de 5 voltas na manivela para que, caso a vítima fosse considerada inocente, não sofresse seqüelas irreversíveis. Mesmo assim, era comum que os carrascos, incitados pelos interrogadores, excedessem muito esse limite e a vítima tivesse a carne e os ossos esmagados.” Nem Hitler pensaria em criar um Código Penal dos Campos de Concentração. Talvez estejamos aqui diante do ápice da maldade humana…

A decapitação pela espada, por exigir uma técnica apurada do executor e ser mais suave que outros métodos, era, geralmente, reservada aos nobres.” Como filosofar com a espada!

O cadáver ficava exposto até que se desintegrasse.” Alguma dúvida de por que a Peste Negra quase exterminou o “píncaro da civilização” dos sujismundos europeus?

Cremação … Para garantir que morresse queimada e não asfixiada pela fumaça, a vítima era vestida com uma camisola embebida em enxofre” A banalidade do mal.

Hoje a Igreja ainda pode emitir um admonitum: uma advertência para o fiel, em determinados casos. É o atual modus agendi da Igreja para declarar que uma obra literária é nociva à fé. Parece inverossímil, mas o caso citado a seguir é contemporâneo (final do séc. XX). Este absurdo medieval aconteceu com o frei Leonardo Boff, um teólogo militante dos direitos humanos desde 1972. Cada livro que ele publicava era objeto de análise do Santo Ofício. Trata-se de fato recente. Ele sentou na mesma cadeira na qual sentaram Galileu Galilei e Giordano Bruno, entre outros. Lugar no qual eram e continuam sendo julgados os inquiridos, no Palácio do Vaticano, onde está tudo exatamente como antes, inclusiva [na arquitetura] a famosa Sala de Torturas.”

FREI BETTO: [O processo] até piorou, porque atualmente, depois do estabelecimento da infalibilidade do papa, nenhum réu pode ter direito à defesa; não se pode partir do princípio de que a autoridade eclesiástica errou. (…)

BOFF: (…)

FREI BETTO: Não pode pedir perdão?

BOFF: Não.

BETTO: Não pode se defender, constituir advogado…

BOFF: Não pode. Aliás, existe advogado, mas você não conhece. Você tem um adv. chamado advocatus pro autore, que não conhece, que com os cardeais faz o adv. do diabo, toma a minha defesa, mas não pode conversar comigo.

BETTO: Você pode falar ali?

BOFF: Não, só responder. E você (…) não sabe quem são os acusadores. Só conhece algumas perguntas; o cardeal é que tem todo o material, extenso, que é o documentário dele.”

AUTOR OTIMISTA! “Não obstante, graças à era da informação, aos poucos as pessoas estão se libertando desses grilhões e passando a pensar por conta própria, sem medo de questionar e nem de pesquisar.” “Só permanece na ignorância quem quer.” Kardecismo liberal: nojento! Com certeza apóia o homeschooling… Mirar diretamente o sol é o mesmo que a cegueira, senhor. Isso que eu chamo de tunnel vision: mesmo pessoas obscurantistas se crêem iluminadores em nossos tempos mesquinhos…

BLIOGRAFIA (alguns livros que me parecerem interessantes da seção final…)

4 livros de Kardec, malíssimo, malíssimo sinal!…

É, nenhuma das leituras me pareceu fundamental! Vade retro.

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 4: HINDUÍSMO & FILOSOFIA OCIDENTAL: Um esboço

Esse artigo (contendo também anotações fragmentárias) visa a integrar os conhecimentos transmitidos pelos Vedas-Upanishads (livros sagrados hindus) com o conhecimento em Primeira filosofia (Metafísica no sentido estrito ou Filosofia Continental, abarcando autores de Platão (séc. IV a.C.) ao pós-estruturalismo francês dos anos 1960). O post poderá ser lido em conjunto com outros da categoria Religião e da subcategoria Hinduísmo já presentes no Seclusão e indexados no menu. Usarei The Roots of Vedanta, de Sudhakshina Rangaswami, como bibliografia principal para as citações dos textos védicos (traduzidos por mim do inglês quando necessário).

Os Upanishads (revelações comentadas) são a cabeça e os Vedas em si são o tronco da visão e conhecimento hindus; a correta leitura dos Upanishads, portanto, pode ser considerada a aquisição da consumação da sabedoria transmitida pelos textos sagrados antigos da Índia. Mal comparando, os Upanishads seriam como os textos dos Escolásticos sobre o Antigo e o Novo Testamentos (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino como os principais); mas o paralelo cessa quando se entende que, para o praticante da religião hindu, os Upanishads são de quase tão remota origem quanto os Vedas e, apesar de reconhecidamente escritos por mãos humanas, de indivíduos considerados “gurus”, são tratados como texto sagrado, indispensável para compreender a elaborada natureza dos Vedas. Isso faz com que os Upanishads gozem de uma autoridade que a Cidade de Deus ou a Suma Teológica jamais gozaram no Ocidente, mesmo em face da Igreja Romana.

O fato fundamental dos escritos Upanishads é que eles reconhecem a característica de arbitrariedade e às vezes insuficiência da língua para transmitir idéias, compreensão básica da Lingüística moderna e o esteio principal de toda a bibliografia, por exemplo, de Ludwig Wittgenstein. Como a linguagem, a partir de determinado ponto, se torna inadequada para articular a experiência em sua essência, os sábios antigos do Oriente utilizaram o recurso da exposição de mitos e símbolos como alegorias de seus ensinamentos (paralelo com Platão), chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos (Hegel), necessários para abordar as intuições que levam ao Absoluto.

Os Upanishads são a primeira fonte direta (śruti prasthāna) do oriental para a cognição da Realidade Absoluta. Há mais de cem Upanishads, de forma que o que se realiza aqui é apenas um esboço de introdução ao tema. Os dez Upanishads comentados pelo sábio Sankara são considerados os Upanishads clássicos ou mais importantes, aqueles que se deve tentar ler, caso não haja tempo para a leitura de todo o catálogo dos Upanishads. Os Upanishads, desde o início, não pretendem ser uma descrição literal ou hiper-concentrada de saberes, dogmas ou revelações, como a Bíblia. Dessa forma, não está organizado em versículos, mas em capítulos de prosa como os livros técnicos ou de ficção ocidental modernos em sua quase totalidade, aproximando-nos do olhar védico. O importante será a compreensão holística de todo o conteúdo ali apresentado, e não debruçar-se sobre uma sentença, procurando o significado de um vocábulo como aforismo ou sentença para a vida. O que interessa é a compreensão global pelo adepto. Fenômeno similar se dá com o estudante de filosofia, que adquire conhecimento aos poucos consultando os vários autores de primeira grandeza, para só então partir para os de segunda ou terceira grandeza, buscando conhecimentos mais específicos. Tampouco há uma ordem preestabelecida para a leitura: pode-se começar por qualquer Veda ou Upanishad. O aprendizado é cumulativo, cíclico e recursivo.

Afora o próprio binômio Vedas-Upanishads, o texto da literatura mais importante para Sankara, a maior autoridade sobre o assunto, é o épico Bhagavad Gita. É como se na Ilíada e Odisséia homéricas estivessem comprimidos toda a doutrina de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Leibniz, Spinosa, Pascal, dentre outros. O Bhagavad consegue resumir os principais preceitos dos Upanishads e pode ser uma primeira leitura iniciática, ou uma leitura posterior, de reforço dos ensinamentos védicos.

A forma de trabalho da linha dos Upanishads é diametralmente oposta à do Bhagavad Gita, mas ambos atingem a mesma meta: os primeiros enfatizam a renúncia e meditação em Brahma como a disciplina espiritual que conduz à liberação; o segundo, poema-diálogo, ensina a trilha da ação desinteressada neste mundo, a prática do karma-yoga, evoluindo gradativamente ao mais espiritualizado inana-yoga, que pode incluir ou não a devoção a um deus antropomorfizado (objetivo do bhakti-yoga), abrindo, tanto quanto os Upanishads, o caminho para a liberação sem a prática da renúncia ascética. Alguns dos temas deste parágrafo são complexos e foram utilizadas expressões diretamente retiradas dos próprios textos sagrados. Por isso, entraremos em explicações mais detalhadas adiante, “quebrando” os vários temas em seções:

A trilha da ação desinteressada

Em última instância, a prática do karma-yoga equivale a princípios ocidentais como o enunciado de Friedrich Nietzsche “como filosofar com o martelo”. Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche, escritor alemão do séc. XIX, expõe seu “método destrutivo do pensamento”. Destrutivo não deve ser entendido de forma pejorativa. Como na frase acima “chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos, o “pensar destrutivo” nada mais é do que lutar contra preconcepções potencialmente nocivas adquiridas involuntariamente durante o processo normal de educação do ser humano. Através da aplicação do pensamento crítico sobre os valores herdados pelo homem ocidental, Nietzsche pretende pôr em questão algumas afirmações tidas como verdade que não passam, no sentido da filosofia, de “puras aparências”. Filosofar a marteladas nada tem de violento, ou mesmo de atividade corporal voltada ao mundo material em si: é, traduzida em outras palavras, a função do filósofo. Porém, Nietzsche escreve em um tempo que já carrega uma grande herança da Filosofia, diferente de quando Platão escreveu. Por isso, para ele, é fundamental desconfiar e reler os filósofos do passado, analisando-os filosoficamente, a fim de não acabar criando castelos de areia, isto é: a desvinculação do pensador a noções antigas e erradas deve ser priorizada em relação a “criar novos conteúdos deônticos (princípios éticos para a convivência humana)”. Ele estava aplicando o karma-yoga sem o saber. O karma-yoga é a meditação oriental que ensina a iniciar o caminho da renúncia das ilusões materiais.

Através dos fenômenos, experiências e aparências chegamos enfim àquilo que não é passível de ser pronunciado com suficiência de sentido (a Idéia de Platão conforme exposta n’A República). Quer dizer, o ioga é visto por grande parte dos ocidentais como um mero exercício de relaxamento, equivalente à passividade e inação. Esta é a “aparência enganosa” do ioga e do iogue (praticante). O próprio termo “praticante” levaria à conclusão imediatamente contrária, no entanto: ele pratica, ele age, o ioga é ação – contradição de sentido com a visão exotérica ocidental (vulgar, depreciativa) sobre o ioga. Ação que sufoca a ação através do controle da respiração.

Depois de compreender o ioga como ação, entretanto, é hora de compreender o ioga num nível ainda mais esotérico (de disciplina verdadeira): não como ação comum, mas como ações das ações. Esta assim num sentido novo é tanto oposta à inação ou renúncia conhecidas do público em geral como à ação comum do cotidiano. O que se faz aqui é exatamente o proceder dinâmico da filosofia de Georg Hegel, se tivermos que pensar não mais em Platão, mas no primeiro filósofo moderno de importância que podemos usar para nos auxiliar na compreensão do hinduísmo. Não é que o hinduísmo deva ser necessariamente analisado filosoficamente, nem a filosofia moderna “superada” ou sentida religiosamente pelo guru capacitado por Brahma, mas há essa constatação intermédia: as duas vias são o Um e o Mesmo. Tese (popular, concepções mundanas) – antítese (começo crítico do aprendizado de “filosofar com o martelo” ou do karma-yoga) – síntese (consumação, sabedoria efetiva, inana-yoga ou o conceito da Idéia de Platão em seu sentido mais elaborado).

A trajetória da compreensão pelo sujeito aspirante ao saber de que o mundo das experiências é nosso meio (nossa técnica) para alcançar o Absoluto: assim também pode ser resumido o karma-yoga. E alcançar o Absoluto no sentido carma-iogue é: compreender que participo de um destino em perfeita harmonia com todo o universo, me fundo com ele. A expressão karma, muito mal-utilizada no Ocidente, deve ser interpretada pelo estudante dos Vedas como destino, mas não na concepção clássica e fatídica de destino. Trata-se do destino sentido não como um peso ou castigo infligido ao indivíduo (compreensão popular de “carma”), mas como a leveza de espírito para a prática da ação responsável. O eterno retorno de Nietzsche buscava a mesma conclusão ética. O saber é sempre recursivo. Estou explicando estas mesmas equivalências pela terceira ou quarta vez no Seclusão Anagógica. Mas isso é uma virtude, não um defeito: a sabedoria é esse ir e vir pelos mesmos pensamentos, até solidificar o conhecimento adquirido. Eu aprendo enquanto ensino; não importa de onde parti, nem onde chego; percorro círculos; não importa se o leitor me lê pela primeira vez agora ou acessa esse texto depois de ler outras explicações anteriores (ou futuras). Ele se junta ao círculo seleto, aprende e também ensina.

A devoção a um deus antropomorfizado (bhakti-yoga)

“O caminho da devoção a uma forma pessoal de Deus abre as portas da liberação mesmo para aqueles incapazes de renunciar ao mundo (inquilinos do mundo).” Esta é uma citação de Sankara nos Upanishads. Ter fé numa entidade divina (religião significa re-ligare, entrar em fusão com) é uma das formas disponíveis para atingir a liberação védica, mesmo sem a disciplina espiritual mais rogorosa dos Upanishads, como ensina o Bhagavad Gita. Ao que se renuncia quando se diz “aqueles incapazes de renunciar”? Ao mundo? Sim e não. Sim no sentido das aparência enganosas, não no sentido de que não se renuncia à vida neste mundo, contanto que a vida neste mundo esteja ligada à busca da verdade mais profunda (o Absoluto). Há que prestar atenção na palavra inquilino. Nossa casa é o mundo, mas não somos os proprietários: estamos de passagem, utilizando uma vida cedida por empréstimo num todo maior.

Apesar da semelhança à primeira vista entre o bakthi-yoga e as religiões ou monoteísmos ocidentais, que são baseadas no culto a um Deus pessoal, a primeira vantagem do hinduísmo sobre o credo cristão (sempre citarei o Cristianismo pela sua maior popularidade e aderência no Ocidente, mas a rigor me refiro a todas as religiões de massa por metonímia) é que o hinduísmo não é um ateísmo, não é um monoteísmo e não é um politeísmo, apesar de ser todos os três ao mesmo tempo (aparências divergem das idéias). O caminho da devoção seria interpretado como “oração” ou “reza” no Ocidente. Está no limiar do que seria a passividade – ajoelhar-se, entregar-se, pedir socorro, etc. – e do que seria a atividade – executar um rito por volição própria, aliar-se ao seu deus, ser ativo na transformação do mundo ao se encontrar apto a transformá-lo, encarnando, representando ou se manifestando como, sendo carne e estando presente no mundo material, a vontade divina neste mundo –.

Em outros termos: ajoelhar-se (símbolo da submissão) e performar são sinônimos. Entregar-se, desistir, dar por encerrado, transferir a responsabilidade, ser o forjador de uma aliança, puxar para si a responsabilidade, iniciar a resolução de um problema concreto são também sinônimos. Pedir socorro e socorrer, ser o agente de alguém, representar algo maior do que a si mesmo são sinônimos. É natural vulgarmente separar todo fenômeno em “ação” ou “renúncia”, inação, como se viu na explicação introdutória sobre o ioga. Porém, as fronteiras entre essas categorizações arbitrárias são enganosas.

Indo além: renunciar ao mundo, seria uma ação ou uma desistência? O discípulo de Cristo, que no ato de se tornar discípulo distribui todas as suas riquezas para peregrinar com Cristo, não age? Aquele que renuncia ao mundo, não desiste da vida, se entrega, se anula? Ambas as perspectivas estão corretas. Covardia ou coragem? O debate ou simpósio entre ambas as alternativas seria eterno e inconclusivo. Há aqueles formatados para o que o mundo chama de ação; há aqueles formatados para o que o mundo chama de inação. Todos são, não obstante, homens, e muito mais parecidos em essência do que revelam as simples aparências. Assim como o ioga pode ser ação, inação, o que é ação e inação e o que não é ação nem inação ao mesmo tempo, o mesmo se aplica à intervenção militante no mundo. Cristo é reconhecido por qualquer cristão, do papa ao mais tímido e “ignorante” dos fiéis, tanto como aquele que disse: “Dai a César o que é de César, meu reino não está neste mundo”; como aquele que militou fervorosamente (veja o advérbio), com bastante ênfase e barulho, no seio do judaísmo: curar os doentes, ensinar a verdade, acusar os fariseus, destruir ídolos, arregimentar um exército de apóstolos. Portanto, tanto o reacionário político quanto o comunista clássico da guerra de guerrilha poderão dizer, com acerto, tanto que:

a) Cristo era, mesmo que de carne, Deus ou o Espírito Santo (mistério triplo, imagens que não correspondem às idéias), a manifestação ativo-passiva (tanto faz) de Deus, o Único, na Terra, com “destino selado”, ao mesmo tempo que dirigente autônomo das próprias ações, para o cumprimento final da Palavra e do Evento. Em última instância, a apologia mais completa de tudo que aconteceu, acontece e acontecerá. O pregador da doutrina de que “não importa o Estado, nos preparemos para o outro, o verdadeiro Reino”.

b) Cristo foi o comunista consumado. Revolucionário, transformador, ativista-modelo para a humanidade póstuma. Mártir, lutou por um futuro melhor para seus camaradas, derramando sangue para que seus filhos pudessem sorrir, viver a vida, sem carregar nenhuma cruz. Um libertador das condições materiais opressoras, desafiador de César e do templo dos hipócritas, instaurador de boas-novas, de uma nova verdade, de novos valores. O mundo se divide em dois, afinal – como negá-lo? Antes de Cristo e depois de Cristo; pelo menos pode-se generalizar dessa forma contanto que não levemos em conta a Ásia. (Curiosamente, de onde vêm os três reis magos? Do Oriente. Folclore popular que se integra com o que existe no Novo Testamento.)

Renunciar ao mundo não é nem uma ação nem uma renúncia, no sentido vulgar. Cristo não foi nem um corajoso herói nem um herege tumultuador e covarde. Ecce homo: Eis o homem. Cristo foi um homem. A única unidade entre esses pólos fictícios que traçamos é nossa própria condição e convivência no mesmo planeta.

A esse ponto, já ficou muito claro, após uma exposição tão numerosa em exemplos, que não importa a estrada, a esotérica (erudita) ou a exotérica (popular), a crença num panteão, num Deus único e supremo, o panteísmo ou o ceticismo extremos, o acolhimento do budismo ou do ateísmo clássico no seio da modernidade pós-Revolução Francesa (a negação do Deus cristão, que após Jesus Cristo, para os fiéis, nada quer dizer para o indivíduo senão “condenar-se ao inferno”)… Todos os caminhos levam ao mesmo caminho, ao mesmo ponto de chegada. É claro – no hinduísmo, a religião mais antiga e perfeita, completada, este caminho é explicado, e desde o Bhagavad Gita foi ensinado o método mais econômico para percorrê-lo.

Seja pela compreensão e estudo aplicado dos Vedas em alto nível de abstração, seja pela crença popular nos avatares de Brahman, o hinduísmo permite o ecumenismo: quem desejar segui-lo poderá atingir o mesmo efeito (em última instância, a fusão com Brahman, a renúncia ao mundo ou a completa inserção no mundo, no real, conforme o próprio indivíduo interprete e descreva o próprio credo). A velha polêmica (tão recente, se comparada com todo o sistema hindu!) entre Calvino e Lutero sobre a salvação via fé ou via obras é uma bobagem, uma dialética de boteco entre os dois mais importantes cristãos da Europa do período reformista.

Para voltarmos ao hinduísmo: As portas da liberação são abertas, sem olhar a quem. O ser humano é um inquilino no mundo. Ou antes: o corpo é o inquilino da alma, que é Brahman. As aparências estão de passagem no seio do Absoluto, que as contém e retém e é o dono do espaço que elas ocupam. Toda morada é temporária, por isso a expressão inquilino: nosso corpo não é o dono do imóvel. O homem é, apesar de tudo, nômade, no sentido espiritual, mesmo o mais sedentário: ele chegou e irá partir. Enquanto mero indivíduo, é um ser provisório.

Pensando na expressão inglesa usada no Upanishad traduzido naquela língua, o house-holder, o chefe de família ou dono do seu lar, no sentido empregado na frase, é o meu inquilino, é o corpo e não a alma. Como posso estar tão certo, pois, de traduzir desta maneira? No próprio inglês haveria um termo muito mais inequívoco para descrever um house-holder que não é apenas um sujeito de ocasião (um inquilino, que mora no mundo apenas de aluguel, no sentido cotidiano). Este termo é o landlord, “aquele que aluga para os outros”. O único landlord num sentido metafísico (e quem é Senhor da terra é Senhor do tempo e de tudo que ambos contêm) é Brahma. Mesmo Vishnu e os outros deuses-avatares da hierarquia hindu, e abaixo deles os sábios inspirados que escreveram, sistematizaram e interpretaram os Vedas numa linha sucessória, são apenas manifestações de aluguel, procuradores (no sentido jurídico daquele que representa) do Um. A explicação, pelo menos para mim, é muito mais intelectiva, simples, que o mistério da Santíssima Trindade, e nem por isso o hinduísmo deixa de ser uma religião, isto é, vira apenas um sistema de regras e saberes secular (por não conter mistérios que não podem ser revelados). Toda religião tem seus mistérios, é um sine qua non (condição de existência de uma religião). Os do Cristianismo, entretanto, podem e devem no mais longo prazo levar à vertigem, à estupefação e a uma incompreensão completa e duradoura.

O hinduísmo, pelo contrário, é explícito e honesto: enquanto alguém que não crê em Cristo é sempre alguém que não crê no Deus-Pai (e vice-versa) conforme o cânone cristão, um hindu poderá dizer: eu só acredito neste mundo, no meu lar e em minha família; isso não “interessa” a Brahman (trilha da ação desinteressada). Caso siga sua crença aparentemente simplória da maneira correta, este hindu (consciente ou inconsciente de sê-lo) entenderá eventualmente que tudo (sua casa, sua família, seu mundo) é real, e que, no entanto e apesar disso, tudo isso é Brahman, oriundo de Brahman. Não crer no ‘divino’ ou crer demasiado no ‘divino’ são uma e a mesma coisa para o hinduísmo: seja um indivíduo como Platão, seja um venerador público de Vishnu, seja um venerador secreto de Indra, seja um ‘venerador’ ou venerador de Brahma… (Quem põe as aspas? Responde-se à pergunta mais adiante.) Se ele sabe quem é Brahma, as portas estão abertas para ele. Brahma é apenas uma palavra.

A evolução transcendental ao inana-yoga: estar-com-Brahman

Quem acredita em Brahma como um colega-acima-dos-outros, que vive em relação com eles, sendo um outro para eles, diferente, como por exemplo Zeus para os outros deuses gregos ou o general para seu exército, é um herege, herege no sentido absoluto do bramanismo (hinduísmo), pois não é isto que Brahma é (malversação das escrituras). E no entanto, Platão, que viveu sob a religião ateniense, e não hindu, onde Zeus presidia, onde Zeus como primeiro-acima-dos-outros-deuses era a única norma sancionada, e pré-requisito da conservação da cidadania na polis (cidade-Estado de Atenas), sem nunca negar explicitamente a mitologia grega, chegou à Verdade, “apenas” trocando as palavras.

Aquele que jejua hipocritamente, ritualiza apenas teatralmente e diviniza ou amaldiçoa erradamente (não chega a Brahman embora pareça ser do credo de Brahman; amaldiçoa em verdade o mundo, que é Brahman, enquanto alega que o faz por Brahman, não entendendo o vínculo entre aparência e Verdade), esse alguém não compreendeu Brahman, então não importa que seja um devoto no sentido clássico ou popular (um asceta que se conduz de modo perfeito no exterior). Pois este que desrespeita tanto a casa em que mora de aluguel quanto as portas da libertação da frase traduzida acima, a única verdade é que se encontra fora da doutrina hindu, condenado à eterna imanência. E este que respeita sua moradia passageira e conduz-se às portas de Brahman, é Um com Brahman. E é impossível desrespeitar a casa (alegoria para o mundo material) respeitando o que é mais importante que o material ao mesmo tempo (pois a “casa” é a via de acesso ao que é invisível, a senda espiritual), como é uma situação impossível desprezar as portas da liberação, a Idéia, ao passo que respeita concomitantemente as aparências. (Respeitar as aparências não é ser materialista – é tratar aparências como aparências! Respeitar é entender.) Não! Não existe distinção final ou factual entre corpo e alma, entre casa e portas supremas, do ângulo hindu: ou se está com Brahman, ou não se está com Brahman, de corpo e de alma.

Estar-com-Brahman é um conceito, portanto não pode ser determinado por um observador externo, o mais zeloso: não é uma opinião, não é aparência. O conceito é Idéia. Que segundo os outros homens alguém esteja ou não com Brahman, e pratique ou não o bramanismo, isto é indiferente no tocante à vida deste homem determinado (e à resposta para a pergunta: ele está com Brahman?). Pois as aparências enganam, e enganam todos os observadores do sensível sem exceção. Enganam até quando enganam ou “não enganam”: o asceta hipócrita, o asceta legítimo, o homem conhecido por seus pares como mau, o homem conhecido por seus pares como bom, todos estes são aparência, mas quem haverá de dizer se correspondem ou não em essência? Quem determina com infalibilidade a hipocrisia? Quem está acima do conceito de legitimidade, de bem e de mal? Quem no mundo das aparências não é apenas joguete dessas noções humanas, demasiado humanas? Quem será o juiz temporal da transcendentalidade de um ser?

O cristianismo cavou a própria cova quando erigiu a Igreja, matéria-carne que proclama o monopólio do espírito. É a infância do ser humano em forma institucional: comete os erros mais fundamentais a respeito das aparências e do caminho ao mundo-verdade. E quando a religião definhava e foi reformada, os juízes saíram das igrejas e se instalaram por todo o mundo debaixo do céu, como câmeras de vigilância de um panóptico da Torre de Babel, tão onipotentes quanto inúteis, pois os reformadores, tanto quanto os iniciadores, não reconheceram o mesmo princípio universal exposto pelos Vedas: não há juízo temporal da transcendentalidade alheia. Não se julga do sagrado (verdadeiro) com opinião (aparência). Ninguém nega boas intenções onde há. Ninguém nega má-fé onde há. Mas no caso do Ocidente as boas intenções dos tradutores, disseminadores e pastores, “democratas do espírito”, geraram o mesmo mal-entendido que a má-fé pura: povoou-se o mundo de sacerdotes, em vez de eliminá-los, tal qual o bramanismo, que já nasceu onisciente e infalível por um simples motivo: é uma religião sem sacerdotes, que proíbe o sacerdócio sobre os outros. É por isso que a origem dos Vedas é tão remota que só pode ser falada em termos de fábulas, mitos e lendas, pois o que já não fosse transcendental a partir de sua estada-no-mundo não poderia gerar transcendência. Indivíduos não autorizam (no sentido tanto de autorização quanto de serem os autores) religiões.

A impossibilidade da divinização do indivíduo e de provar o sagrado: Por que o Ocidente precisa do Oriente

O mundano só existe “em-transcendência”, não é possível tratar uma Revelação como aparência, experiência derivada dos cinco sentidos – mesmo os eventos geradores ou supostamente geradores de transcendência que se localizem após a pré-história (i.e., numa cronologia humana consciente) são fabulosos: Cristo existiu? Onde ele foi crucificado? Qual era sua aparência (ironia tríplice)? Quem hoje tem parentesco mais próximo com ele? Ele ressuscitou? Por que ele ressuscitou em segredo diante de seus mais próximos e de Maria Madalena, e não diante de toda a cidade, de toda a colônia, de toda a civilização romana (a mesma pergunta da crônica esportiva: por que ele não calou os críticos?)? Por que milagres não são fatos científicos (ambos são conceitos mutuamente contraditórios)? Por que cada apóstolo conta um evento de forma diferente, tendo Cristo no mesmo instante pronunciado algo distinto conforme a testemunha?

Porque não seria fato gerador de uma religião de massa nada que não suscitasse tantas perguntas sem resposta! Somente havendo tantas dúvidas sobre a identidade ou mesmo a existência de Cristo é que foi possível tornar fascículos sabidamente escritos pelos homens chamados X., Y., Z. e K., depois reunidos necessariamente em uma outra geração por outro homem que jamais conheceu Cristo a não ser por relatos, Paulo, ele mesmo santificado (num tempo em que santificavam pessoas apenas após a morte; é constrangedor ter de incluir essas ressalvas entre parênteses!), somente por toda essa via errática é que o Cristianismo pôde nascer como uma fé (fora da História, embora ‘na’ cronologia histórica). Tudo isso apenas gerará pano para manga enquanto coserem-se hábitos, surgirem panos com manchas misteriosas para movimentar discussões vãs e enquanto átomos não puderem ser fotografados.

Um exemplo de por que não há novas religiões a partir da modernidade, nem pode haver: Napoleão Bonaparte gerou partidários, admiradores e fanáticos, mas não uma religião. Quem sabe em outro milênio uma figura tornada finalmente mitológica chamada Napoleão, de quem pouco se sabe de concreto, venha a inspirar um novo credo transcendental, o Napoleonismo! Não, porém, enquanto houver uma foto de Napoleão ou o sentido de fotografia não recair novamente no mitológico (esquecimento da técnica fotográfica, tratamento da evidência da imagem como produção sobrenatural). Insisto sobre o sentido de ‘fotografia’ como ícone moderno da palavra chamada ‘prova’ e do método científico, consistente em ‘provar uma série de fenômenos’, visto que pretendo voltar ao assunto no próximo subtítulo.

Mas isso – a divinização no sentido autêntico de Napoleão – seria impossível para a França que tanto sabe sobre ele, para o Ocidente inteiro agora, historiograficamente informado sobre o indivíduo Napoleão Bonaparte, objeto de inúmeros tratados políticos e biografias científicas. O pior tirano imaginável sobre a Terra não poderia fundar uma religião à força e ser bem-sucedido; mas uma miríade infinita de tiranos de esquina poderia se perpetuar no poder firmemente falando em nome do deus estabelecido – o que evidencia a diferença infinita entre a esfera do transcendente (Brahman) e o poder terrenal (mundo de César). De fato, o Ocidente se tornou tão desconfiado que a própria noção de Deus em sua cultura vive no fio da navalha, e seguirá se complicando cada vez mais, enquanto o Ocidente for Ocidente, e não uma cultura nova e reoxigenada, alimentada pelo intercâmbio cultural com o Oriente, o único lugar do universo que hoje pode ressuscitar o sagrado da outra metade do globo mortificada e anestesiada, mundanizada.

Aplicação do anteriormente estabelecido às contradições da ciência pós-moderna (reino da não-filosofia)

…enquanto átomos não puderem ser fotogrados”: retomaremos este trecho como um exemplo prosaico da transcendentalidade de todo o mundano fora do próprio tema religioso: é fisicamente impossível, e isto foi declarado pela própria Física, que o principal objeto de estudo da ciência chamada Física seja fotografado, ou, de forma ainda mais astuciosa podemos dizer, no lugar de fotografado: comprovado (requisito mínimo da cientificização de um conhecimento, qualquer que seja ele). Este fracasso é a razão precípua de dizermos que “as ciências exatas estão em crise”, e de essa crise ser administrada – e sem dúvida ao longo de muitos séculos ainda por vir continuará sendo administrada, o que significa “adiada”, ou “não-resolvida” – desde há não muito tempo pelo inteligente expediente da troca da denominação “exatas” por “naturais”, o que certamente dissipa ao menos parcialmente o constrangimento, o escândalo e a sangria mais explícitos que ocorreriam, tendo em vista a denominação antiga (o que é exato pode ser totalmente definido, sem lacunas), caso contrastassem diariamente o termo exato ou hard com a patente inexatidão atual do conhecimento técnico Esta inexatidão não decorre de erro ou incompetência. Este “fracasso” não é, do ângulo científico, um fracasso: ele é conseqüência natural e direta do grande sucesso da aplicação do método científico por um par de séculos. A inexatidão das ciências naturais é conseqüência inevitável de seu enorme e vertiginoso progresso.

Nos tempos áureos da ciência moderna a “tradutibilidade” dos conhecimentos tecnológicos era ampla. Todo o conteúdo das ciências clássicas está bem-explicado em livros-textos escolares atuais. Porém, os novos conhecimentos derivados do método científico em crise, no que chamo de decadência da ciência moderna ou sua fase pós-moderna, não são comunicáveis ao grande público com a mesma facilidade, pois os dados não são mais o que costumavam ser, e é preciso refundar o conceito de lógica (hoje tributário de Aristóteles, i.e., lógica formal, mas não a única lógica passível de existir) para acomodar resultados de observações e experimentos, vd. física quântica. E é exatamente por isso que as pessoas leigas ficam cada vez mais insatisfeitas com os resultados divulgados como conquistas das ciências, e que cientistas não dão entrevistas em grandes jornais, porque há uma longa cadeia de pessoas que precisa processar e filtrar a informação emanada pelas maiores autoridades em determinado assunto, reformatando a informação para que ela seja recebida pelo grande público em palavras – finalmente para ele – compreensíveis. Talvez os últimos eventos a capitalizarem grande parte da atenção mundial (sem necessidade de conhecimento técnico sobre fabricação de foguetes ou as propriedades dos átomos instáveis usados em bombas nucleares, seja por parte dos jornalistas e comunicadores ou do cidadão comum) tenham sido a criação da bomba atômica e a aterrissagem do homem na Lua.

A quem se pergunta, “compreensíveis” acima significa, no sentido mais sincero possível, que, na verdade, nada de significativo está sendo dito ou veiculado, e talvez devêssemos agradecer por isso, se pensarmos exclusivamente na preservação de nossa saúde mental em uma sociedade tão complexa, e se desprezarmos o outro lado da questão e que é a pior parte de tudo isso, ou seja, que evidências socialmente verificáveis não cessam de indicar que um público necessariamente cada dia mais ignorante passará a exibir comportamentos negacionistas de manada mais e mais aleatórios, ridículos e perigosos – sem que se conheça por ora o limite macabro desta “torção cognitivo-coletiva” –, recusando-se um grande número de indivíduos, por exemplo, para nos restringirmos à época atual e não sucumbirmos à tristeza tentando prever o que virá a seguir, a tomar vacinas que facilmente previnem doenças graves e que são muito transmissíveis, a ponto de que os próprios cientistas de “médio escalão” poderão estar mais e mais sujeitos a esta mesma lei (da involução cognitiva pari passu à evolução do compartimento das ciências em múltiplos e pequeníssimos nichos mais e mais “intraduzíveis” ao cidadão comum), havendo alguns que, não por charlatanismo nem qualquer intenção de ganho pessoal, repercutem os mesmos discursos de manada, genuinamente convencidos por ele, até que num dia não muito distante os físicos, biomédicos e bacteriologistas mais especializados em seus sub-sub-sub-ramos (previsão:) venham a se encontrar mais isolados de qualquer contato humano que K., o agrimensor do livro O Castelo, ponto em que já não haverá possibilidade de retorno (fratura do campo científico como jamais se viu, mesmo durante a sofrida transição da opulenta Idade Antiga para a fervilhante Idade Moderna). Corre-se o risco do turismo espacial se tornar realidade simultaneamente a quebras de recordes para a resposta ‘sim’ em enquetes como “você acredita que vive num mundo que tem o formato de um tabuleiro?” (obviamente que até lá a palavra usada não será tabuleiro, pois esse termo tão complicado terá caído em desuso), e o risco conseqüente de que esse contraste absurdo nada cause em termos de convívio social, pois cidadãos dos espectros mais afastados coexistirão harmoniosamente dentro de suas culturas e subculturas (cada qual enterrado e cem por cento esterilizado em sua própria bolha inexpugnável, chamando tudo o mais de falso e conspiratório, já incapaz, porém, de se incomodar de verdade com isso, apenas reproduzindo comportamentos automáticos como dizer no elevador que “parece que vai chover” ao negar a eficácia de vacinas). Essa situação não mudará caso estejamos falando de colegas de trabalho, roommates ou parentes próximos ou ainda marido e mulher situados em campos extremos e opostos (imagine o casal: um é funcionário de agência espacial e outra uma atleta que vem se preparando para a expedição de exploração das cachoeiras infinitas das bordas do tabuleiro terrestre).

Recuando um pouco, tudo isso é a razão precípua, ainda, da filosofia ser a mãe de todas as ciências mas de forma nenhuma nem sequer uma meia-ciência (ou seja, um título honorífico), porque ela fala do transcendental, que o mundo moderno aprendeu a considerar não só inecessário como até mesmo inexistente ou indesejável caso existisse, em vez de vital. Dada a própria natureza indeterminável do objeto teórico ‘átomo’, vulgar “menor partícula da matéria”, que na verdade nem é matéria, podemos dizer que toda a decadência do saber transcendental no Ocidente é, ironicamente, uma questão de lógica da mais rapace ou degradada.

Por outro lado, que se pense na implicação do átomo como partícula dual é já um sintoma de que mundo das aparências (a matéria, o real, o perceptível) e a verdade invisível que rege sobre ele (ser duas coisas ao mesmo tempo, cientificamente validado) estão se aproximando, e não se afastando inequivocamente. Somos matéria; somos átomos, sem dúvida. O átomo é um (excelente) modelo, não pode ser provado, significando que nós mesmos, que sabemos que existimos enquanto aparência, átomos que somos, pressentimos que somos, embora também átomo e matéria, algo mais, que não conseguimos definir com palavras, i.e., opera-se uma crescente necessidade de revitalização do transcendental, muito lenta e imperceptível para os desatentos, mas cujo mecanismo é similar ao desenvolvimento da Filosofia Continental e à doutrina contida nos Vedas-Upanishads.

Trocando em miúdos, em uma sociedade em que todos andam com uma câmera no bolso, capaz de registrar “coisas” instantaneamente, a fim de convencer os ausentes de coisas improváveis (via sentidos), desconfiamos da própria realidade dos entes, da própria acepção das palavras prova, coisa e fotografia. Duvidamos do que está aí, presente, e por uma questão até de sobrevivência cada indivíduo-coisa se vê, embora não veja (a realidade imaterial), obrigado a perguntar por sua própria essência e considerar o que não está aí para nenhum dos cinco sentidos, procurando um sentido metafísico para sua existência e presença, um caminho que seja, diferente do caminho das coisas (método científico, experimental ou positivista, o caminho não-filosófico ou irreligioso e o modo completamente mundano da existência).

Conclusão da tese: hinduísmo e filosofia continental como duas versões da Verdade revelada

E no entanto, a despeito da superioridade metafísica do hinduísmo, percebida tautologicamente apenas pelos próprios adeptos do hinduísmo, o mundo segue seu curso histórico sem nenhuma modificação fundamental até agora quanto à dimensão de alcance e prevalência das grandes religiões. A despeito da fraude autodemonstrada da religião cristã, a humanidade está e é livre para ter sacerdotes. Se no Oriente, por hipótese, o povo viesse a desejar de forma inédita o sacerdócio em nossos moldes, haveria o sacerdócio! Haveria a hipocrisia, e, aliás, há a hipocrisia entre “hindus” como há dentro de qualquer outro credo (e como os outros credos apresentam seus Platões, brâmanes inconscientes, i.,e., os praticantes honestos).

O que se pode afirmar, percorrendo a História, entretanto, é que o hinduísmo prevalece internamente imutável – sem necessidade de um movimento ou clamor popular por uma reforma nas práticas e nos escritos dos Vedas –, uma vez que como ele é e como ele está, ele conduz à Idéia, à Verdade, a Brahman. Já os pressupostos das religiões monoteístas que conhecemos não resistem a uma análise bramânica ou filosófica pós-moderna, i.e., o próprio Ocidente veio a negar sua religião (suas religiões) em tempos relativamente recentes. No Oriente, semelhante acontecimento ‘mundano’ não teve lugar. Nele, filosofia e religião são Um só. Entre nós verificamos dolorosamente o contrário, e a dor é mútua e equivalente: a dos Escolásticos (quando a religião se dizia a própria filosofia, hoje extintos) e a dos sábios laicos, em voga, momento definidor em que a filosofia emancipou-se e após caminhar certo tempo com as próprias pernas descobriu sobre a calamidade da morte de Deus – Nietzsche em Gaia-Ciência – e sobre a inevitabilidade do transcendental da condição humanaO Mundo como Vontade & Representação, Assim Falou Zaratustra –, logo, tragicamente, no momento em que via essa mesma transcendentalidade escorrer pelo ralo – o Ser e Tempo de Heidegger, etc. –, cenário este que, a filosofia pós-moderna o sabe, inviabiliza a própria continuidade da filosofia e, destarte, da vida.

Esse texto foi um retrabalho das anotações feitas durante a leitura do livro indicado no primeiro parágrafo, Rangaswami, The Roots of Vedantha, e a síntese e principais aspas desta obra serão publicados posteriormente no Seclusão.

[REPRISE+ACRÉSCIMOS] #TRANSCENDER18 O ESPÓLIO DE F. NIETZSCHE, OU AS QUEIXAS DE RAFAEL, OU 19 DIAS DE SABEDORIA, OU AINDA: JOGANDO LIMBOBOL.

Originalmente postado em 11 de agosto de 2009. Com adaptações e ampliações para constar no Seclusão.

A partir de um sistema de forças determinadas (…) não pode resultar um NÚMERO INCONTÁVEL de situações.” O eterno retorno. O fim é já o começo. Não existe morte. consultar a página da “nova concepção de mundo” do Der Wille zur Macht (“número máximo de combinações”, “dado”, etc.). Este dado ainda será melhor trabalhado no parágrafo abaixo subtitulado O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO.

O que implica – ou, antes, o que determinou – a moda de fim de séc. XIX chamada espiritismo-kardecismo? Que não há o indivíduo, tudo são impulsos nervosos. Buckle¹ (não falo do cinto sem fivela) e sua nova-velha doutrina da imortalidade da alma. Mas ei! A moeda maussiana (Marcel Mauss), o hau, é ela mesma espiritismo. Ele sempre esteve em voga entre os ágrafos. Os mortos nunca evadem nosso plano: melhor dizendo, eles nunca morrem.

¹ Trata-se de Henry Thomas Buckle (1821-1862), historiador de segunda linha. Trecho esclarecedor da wikia: “On 1 April 1859, Buckle’s mother died. Shortly after, under the influence of this ‘crushing and desolating affliction’, he added an argument for immortality to a review he was writing of J.S. Mill’s Essay on Liberty. Buckle’s argument was not based on theologians ‘with their books, their dogmas, their traditions, their rituals, their records, and their other perishable contrivances’ [claro, porque só o que nós inventamos é eterno!]. Rather he based his argument on ‘the universality of the affections; the yearning of every mind to care for something out of itself’. Buckle asserted ‘it is in the need of loving and of being loved, that the highest instincts of our nature are first revealed’. As if reflecting on his mother’s death, Buckle continued that ‘as long as we are with those whom we love …, we rejoice. But when <the enemy (death)> approaches, when the very signs of life are mute … and there lies before us nought save the shell and husk of what we loved too well, then truly, if we believed the separation were final … the best of us would succumb,(*) but for the deep conviction that all is not really over, we have a forecast of another and a higher state’. Thus, Buckle concludes, ‘it is, then, to that sense of immortality with which the affections inspire us, that I would appeal for the best proof of the reality of a future life’. § He also said, ‘If immortality be untrue it matters little if anything else be true or not.’

(*) Na minha opinião, não passa de um garotinho da mamãe necessitando de uma justificativa para viver. E vê-se que não viveu muito (sem ela)! Ele era um grande enxadrista. E todos sabem que enxadristas são burros socialmente. A mesma ingenuidade pueril, a mesma má-fé intelectual de um Miguel de Unamuno… “Já que assim eu quero, TEM de ser!” A filosofia não aceita esse tipo de egomania – mas como poetas decerto seriam ótimos!

Mais uma curiosidade, na mesma página, o perfeito contraponto dessa patifaria toda: “The paranoid narrator of Fyodor Dostoevsky’s Notes From Underground discusses Buckle’s theories: ‘Why, to maintain this theory of the regeneration of mankind by means of the pursuit of his own is to my mind almost the same thing . . . as to affirm, for instance, following Buckle, that through civilisation mankind becomes softer, and consequently less blood-thirsty and less fitted for warfare. Logically it does seem to follow from his arguments. But man has such a predilection for systems and abstract deductions that he is ready to distort the truth intentionally, he is ready to deny the evidence of his senses only to justify his logic. I take this example because it is the most glaring instance of it. Only look about you: blood is being spilt in streams, and in the merriest way, as though it were champagne. Take the whole of the 19th century in which Buckle lived. Take Napoleon—the Great and also the present one. Take North America—the eternal union (an ironic reference to the ongoing American Civil War). Take the farce of Schleswig-Holstein. . . . And what is it that civilisation softens in us? The only gain of civilisation for mankind is the greater capacity for variety of sensations—and absolutely nothing more.’

Descobri que eu não guardo os elogios que me fazem.

A imensa expectativa quanto às relações sexuais estraga nas mulheres o olho para todas as outras perspectivas” Incel Nietzsche?

O estilo deve ser adequado em vista de uma pessoa bem-determinada, com a qual tu queiras te comunicar” Ora, se não estou tendo isso AGORA! A questão é: UM ou vários? Pode ser VOCÊ?! Como que um eu acima de mim, embora quase intragável de tão platônico. Mas você não é uma pedra fixa…

(Na escrita) O oral antes do escrito (CRUCIAL): “Porque ao escritor FALTAM muitos MEIOS do conferencista” – eis o que procurava! É benquisto explorar entonações, gestos, meras interjeições, que afinal no falar são tudo! (2023: Grande conselho para a estilística – sempre modificamos o texto final ao lê-lo em voz alta. Itálicos, negritos, sublinhados também ajudam, além da pontuação. Não me recordo onde o li, mas um autor disse que excesso de grifos num texto era comportamento aparentado à loucura – o escritor é um louco, tem de ter sintomas neuróticos, ou não desempenha direito seu ofício!)

Devo escrever frases mais curtas. Porque sou muito RETICENTE no oral (não vá confundir – isto é, vindo de alguém quem teria muito a dizer e não pode). Meus textos técnicos (resenhas filosóficas ou de games, p.ex.) possuem períodos mais longos, com mais interpolações. A técnica não está errada, faz parte do meio e da comunicação profissional desejada. Meus textos literários, no entanto, seguem a lei dos períodos curtos e significativos (lei da condensação).

O perigo do sábio está em se apaixonar pela irracionalidade.”

O sábio deve apenas namorá-la, não casar.

eu menosprezo mais o louvor do que a crítica”

Aquele que é mau está bem com o mundo. Como se pode ser feio e defeituoso e não ser mau? Eu não sou feio ou defeituoso, mas tenho um cálice de dignidade que beira o transbordamento. Eu gosto de ir ao Conjunto Nacional comprar cuecas e jeans (hábitos de filósofos para quem sair na rua já é se aventurar)…

EU E O OFÍCIO DE LER

O que mais gostamos de fazer gostaríamos que fosse considerado como o que acaba sendo o mais difícil para nós”

Inclusive eu gosto mais de ler do que escrever, tomando o aforismo como exato!

Nós fazemos também na vigília o que fazemos no sonho”

Jogamos o jogo da vida, nos perdemos, nos pomos furiosos com pessoas (o que tem acontecido ultimamente nas madrugadas… 2023)

Os criativos são os mais odiados”

De tempos em tempos é preciso deixar suas virtudes dormirem”

Agradecer nossas maiores falhas! Exemplos antigos, da década retrasada: A desobediência militar; o Pinho-Sol que me obrigaram a ingerir (não, me desafiaram a ingerir) na festa de calouros das ciências sociais/UnB (e eu joguei o jogo do desafio, e ri por dentro enquanto os mesmos que mais haviam “botado pilha” eram os mais desesperados em me fazer vomitar o pequeno gole dado, não, provavelmente, por se preocuparem com minha saúde, mas com punições posteriores de que pudessem ser vítimas). O porre da M. (quando somos imaturos, bebemos, ofendemos nossa ex-namorada ou objeto amoroso e depois nos arrependemos). Os ciúmes doentios dos primeiros relacionamentos. Nunca ter trabalhado. (Tenho imensas saudades dessa virtude anotada em 2009! A verdade é que já havia trabalhado, mas sem receber dinheiro em troca! Um “uber driver primitivo”: cansado e desmonetizado! Redações porcas de jornais, agências incubadoras cheias de publicitários playboys, a reencenação de Mad Man, Brasília, séc. XXI… E ainda tinha de pagar a passagem de ônibus…)

Por outro lado, virtudes que nunca desliguei, pois não são do meu feitio: nunca traí.

Dois medíocres não se entendem (tampouco um sábio e um medíocre). (2009: Mário como figura-síntese do que se deve evitar como interlocutor. Thomas: outro que escuta mal, talvez faça bem falar-lhe qualquer coisa, assim que nos livramos dos mais chatos.) (2023: R.K.)

Proveito próprio + paixão = egoísmo. Ora, eu sou a pessoa que merece o meu amor! Não sou pobre em amor! E isso custa caro, se se entende o trocadilho.

Tudo o que é longamente pensado se torna problemático”

Quem quer se tornar um líder dos humanos precisa querer ser por eles considerado um BOM tempo como o seu inimigo mais perigosoNa política contemporânea isso cai como uma luva, do Brasil à China, passando pela Europa (que agora abraça o fascismo em bases mais duradouras do que nunca). Há até aqueles líderes que são odiados a vida inteira e adquirem seu novo status apenas post mortem (Che Guevara, Fidel Castro, Stalin…).

Outra grande característica minha: detesto ser (romanticamente) amado. Jamais rastejei quando foi assim. Veja: quando foi algo centrípeto unilateral (não-correspondido, ainda que interessante), não lembro de ter movido uma palha – desprezei, mesmo. É que é raro. O homem de hoje sente-se impelido, forçado, obrigado a embarcar, a ceder, não tem vontade própria.

Jesus de Nazaré queria ser o aniquilador da moral” – trágico.

Ver as naturezas trágicas e ainda conseguir rir é divino” “Como podes rir dormindo?”

DO MISTERIOSO AFORISMO TRAGICÔMICO PÓSTUMO DE NIETZSCHE:

Do macaco de si mesmo

Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira”

Por muito tempo, mesmo depois da publicação deste post em 2009, eu meditei sobre esse aforismo, que não tinha entendido. Podemos evocar a famosa frase de Marx para nos ajudar a explicar. Mas eu ainda diria mais: a) nosso mundo não tem mais heróis, não tem mais o caráter heróico; tem, sim, a necessidade antropológica mesmo, do homem superar o homem; antes que substituir o deus morto seja uma realidade, o grau máximo que pode ser descrito é uma figura, a do semi-deus. Ele é um Zaratustra que aprendeu a rir de si mesmo. Tragédias são coisas do passado. Não há lugar para Édipos na atualidade; b) pode ser apenas um comentário psicológico, despido de qualquer historicidade, e por isso nem Marx se aplica: depende da seriedade do próprio personagem, e com que gravidade ele enxerga a própria biografia. Mas por que “semi-deus”? Num mundo em que deus está morto, ter sido herói, ser um sábio, já é estar semi-morto. Não vale muita coisa. Quem deixou de ser herói e com isso não se tornou um vilão, não degenerou completamente… ainda tem o aspecto exterior de um bufão. E onde já se viu palhaço triste? Menos Pierrots, mais respeito ao nosso passado que nos trouxe aqui, mas nunca em excesso… Nunca se tornar prisioneiro dos nossos (bons) feitos… Nem temos saúde para bancar de novo os Dons Quixotes, ainda que isso fosse possível! Resta reconhecer que hoje somos diferentes, menos rijos, mas que não podemos e nem queremos apagar nosso passado, mais ou menos distante… Ele ainda mora em nós. Antes, que eu tivesse um pai tirano era questão de vida ou morte. Hoje, sobrevivente, independente, ainda psicologicamente afetado pela experiência, e com ele ainda vivo, tudo é muito cômico e risível. Como pode e pôde uma pedra tão enxuta num sapato tão largo (ou o sapato era firme e apertado, o que impedia o seixo de rolar e atrapalhar? Sim, bufões usam sapatões maiores que os próprios pés!) me causar tantos problemas num nível tão fundamental? Como pôde a mais inferior das criaturas se interpor entre mim e o sol (Diógenes)? Mas nem era imperador – e daí que fosse? De todo jeito não lhe resta solução senão sair do caminho, nem que fosse para vir atrás de briga… E com o tempo toda coroa… vira areia. Quanto mais tempo bloqueou minha luz solar, mais se queimou. E pra quê, se tive meu banho caloroso do mesmo jeito? É verdade que ele, este pai, é o “macaco de Zaratustra”: gostaria de ser eu. Hoje é ele que me imita, sem saber o que ou como imita. Mas ele quer fazer o dono, o original, ficar bravo. E se a indignação for só uma máscara da gargalhada, e se o macaco é que está enfezado por dentro? Sim, sinto pânico, mas essa é a parte doentia da árvore genealógica, o orgânico que atingiu seu limite. Até ele, porém, é uma atuação, em último grau. É sempre material para ressurgir. Toda podridão pode ser cinzas para uma fênix. E macaco não é fênix. O ruim de dar azo pra macaco é que é um bicho muito folgado, por isso, mesmo descontraídos, precisamos manter meia-distância. Quem é mais triste? O macaco ignorado ou o macaco perseguido (letalmente perseguido)? O esgar dos dois por debaixo da máscara deve ser o mesmo. Talvez o macaco seja, então, nosso espelho? Com ele é o inverso, ele viveu a paródia e agora tudo termina em tragédia? Macaco com capa. Versão completa deste texto em https://seclusao.art.blog/2023/06/26/do-misterioso-aforismo-tragicomico-postumo-de-nietzsche-o-macaco-de-si-mesmo/.

A dança é a prova da verdade”

Mais um século de jornais – e todas as palavras vão feder”

Pensar no suicídio é um consolo muito forte. Com isso se consegue passar bem a ‘má-noite’” Não é à toa que este costumava ser meu livro de cabeceira nos meus 20-21 anos…

Nossos suicidas difamam o suicídio, – não o contrário.” A constatação mais sensível já levantada no quesito.

Demora muito até que se morra pela segunda vez”

Agora é primeiro pelo eco que os acontecimentos adquirem ‘grandeza’ – o eco dos jornais”

Corre um falso dito: ‘quem não salva a si mesmo, como pode ele salvar os outros?’. Se tenho a chave para as tuas cadeias, por que a tua fechadura e a minha teriam de ser a mesma?” Existe um crítico de Nietzsche chamado Dr. Flávio Kothe, meu contemporâneo e vizinho (UnB), que escreveu exatamente isso, se não nestas palavras, neste sentido: como pode N. salvar os outros, se não salvou nem a si mesmo? A primeira tarefa do bom crítico é saber ler seu criticado.

O que inventa (o conhecedor), o que intermedeia (o artista), o que simplifica (o apaixonado).”

Nós, homens-da-meia-noite. O homem do eternamente retornável, do meio-dia. Para nós tudo é escuro. Demanda-se um novo – e primeiro – Iluminismo. Uma religião sem secular (até hoje exclusividade dos mais decantados esoterismos). Uma religião sem o secular, e além do mais de massa. Seria factível? Dentro de quantos milênios? Pergunta boba e retórica.

Ascetismo do espírito como PREPARAÇÃO PARA CRIAR. EMPOBRECIMENTO intencional dos instintos criativos.”

A todo efeito segue-se um efeito – essa crença na causalidade tem sua sede no mais forte dos instintos, o da vingança” Ainda não escapamos da Física, para fundar uma Metafísica que valha esse nome.

Não se confunda: atores ficam arrasados à falta de elogios.”

O ceticismo em relação a todos os valores morais é um sintoma de que uma nova tábua de valores está se formando.”

Para a mulher, há apenas um ponto de honra: ela precisa acreditar que mais ama do que é amada. Depois desse ponto principia de imediato a prostituição.”

Os utilistaristas são burros” (Pode parecer simples, mas demorei muitos anos para ler esta frase na literatura. E que eu não tenha lido mais cedo só pode ser indício de burrice generalizada. Ou se conforma a um aforismo de N. mais adiante: quando há uma verdade sabida por todos, todos a “esquecem”…)

O verdadeiro póstumo não é combatido, mas ignorado.

A paixão de duas pessoas uma pela outra – isso são em todos os casos duas paixões e com diferentes curvas picos velocidades: suas linhas podem se CRUZAR, nada mais.” Creio que Barthes citou esse aforismo (Fragmentos del Discurso Amoroso, já resenhado no seclusão).

CONTRA A ALFABETIZAÇÃO UNIVERSAL: “Que qualquer um possa aprender a ler e leia, com o tempo isso deixa em ruínas não só os escritores, como até os espíritos em geral” A corretude desse aforismo será posta à prova na nova era do “alfabetismo visual compulsório”, em que o analfabetismo gráfico é quase que uma complementaridade necessária.

Ter ENTENDIDO um filósofo e estar CONVENCIDO sobre ele.” Platão, Nie., Marx e alguns pelo caminho…

Não vos deixeis enganar! Os povos mais antigos são agora os mais cansados! Eles não têm mais energia suficiente para a preguiça!” Grifos meus: perfeito se se refere aos europeus; porém julgo um grande erro se o juízo for sobre os asiáticos. Nenhum “povo” que cria e cultiva o budismo tem menos do que uns bons milênios pela frente…

Meta na falta de metas. Como não perder a firmeza? I.e., como não perder a meta de vista (até encontrá-la)? Um olhar para o futuro que justifica o passado. Mas é como se houvesse uma perda aí. Se não acontecesse esse futuro, todos nós estaríamos numa condenação eterna? Os mortos hoje foram em vão, não se pode dizer que antes de se cumprir o destino haja qualquer anel. Ou pode-se? Tanto faz? E se sim, tanto faz, então por quê?

regressão à animalidade”

Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes.¹ § Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”

O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO

¹ Ambigüidade na tradução: em duas ocasiões ele cessa de fugir de si mesmo ou ele foge bem mais vezes (e por que dizer duas vezes neste caso)? A fluência do rio é a angústia humana (encarado como aspecto negativo do Ser: ‘temer’). Fluir de volta para dentro de si é harmonizar-se, ainda que temporariamente no tempo (linguajar voluntariamente heideggeriano). É atingir a essência (o Ser) no próprio devir. Ora, que ele sempre foge é um lugar-comum. Ele foge infinitamente de si mesmo. O que Nietzsche é celebrado por haver ensinado pela primeira vez na modernidade? Que o rio retorna. O rio retorna infinitas vezes, é o modo de dizer, é verdade. Mas para o indivíduo, para o filósofo, para o ser vivo: quantas vezes? Minha opção é pela primeira semântica da tradução. Se o rio pára de fluir e se reencontra Uno consigo duas vezes, só pode ser em dois momentos: no nascimento e na morte. Porém para nós não faz diferença: é uma vez, na interseção dos dois. Há angústia pelo fluir do rio, não pela morte. Tanto quanto não pode haver angústia por haver nascido, se esse é o total do ser e ele nunca foi, por exemplo, pedra. E, supondo que tivesse sido, ainda carregar a sabedoria de ser pedra (novo absurdo) dentro de si. Nem a pedra nem o homem têm por que angustiar-se, jamais. Ainda assim, o homem se angustia. É só uma constatação. A pedra mais desesperada do universo não sentiria o menor átimo de ansiedade. O homem no mais remoto dos Shangri-Las e nirvanas ainda sofreria, se angustiaria, bastante. É nosso modo de existir. Por que se angustiar “ao quadrado” com isso? Mesmo que existisse a cura, o homem a preteriria, pois preferiria continuar sendo homem. Versão completa deste parágrafo em https://seclusao.art.blog/2023/06/26/o-paradoxo-da-pedra-no-rio-de-heraclito-mais-um-aforismo-de-nietzsche/.

Surgimento do amor: – amor como decorrência da moral”

algo supremo parece se esfacelar em banal num mundo atomizado – o erótico é a demonstração par excellence. E o amor vai buscar esse “algo unificado” novamente, ao mesmo tempo instalando o embrião de uma sucessora divisão…

Se você está para frente demais no tempo você não está para trás? Ou no mesmo lugar? Talvez fosse sensato reconhecer que o Cristianismo, como trecho do anel, é uma espécie qualquer de redenção que deveria ser um objetivo pelo qual lutar – mas e então? Nietzsche acaso é um fraco, moribundo, débil? Tudo é “logo”, tudo é “o supra-homem”! Para o diabo com essa conversa!! NOVA GUINADA? Não, só fantasmas apolíneos. Maldito deus-homem! Meu destino é praguejá-lo (a despeito de sê-lo).

Ninguém vem a mim. E eu mesmo – eu fui a todos e CHEGUEI A NINGUÉM.”

Se todos os mundos fracassam igual, por que Nietzsche seria melhor do que Platão? [Evidente.] Não existe máquina do tempo porque o universo é a própria máquina do tempo (frase recorrente nas minhas anotações do período 2009).

CADERNO DO NIILISTA. UM DIA COMO OUTRO QUALQUER, MAS ELE DENOTA CANSAÇO.

O que é que eu ganho por antecipar um detalhe ou outro da roda que ainda não beijou o asfalto nessa rotação? O que é que a pergunta ganha sendo sibilada 400 bilhões de vezes?! O mito do moto perpétuo e aliás qualquer mito… Tudo verdade, uma idade ancestral e/ou onipresente. Por que, no entanto, as coisas não são melhores e eu não posso viver como nos meus sonhos? Será um período excruciante excepcional? Só não quero morrer sem ter feito vingar esta esperança – e não quero ler esta palavra “esperança” de mãos sujas…

Falta honestidade para admitir: o Cristianismo se apresentava como método para dispor igualmente o fatigado espírito humano de metas supremas, e o que é endeusado hoje como tragédia podia ser a fonte de todas as noções de pecado e talvez necessitasse da racionalização. Talvez Apolo àquela altura fosse sinônimo de dignidade. Talvez? Ah, a quem estou querendo enganar? O devir é MAU. Porque de onde estou só posso pensar nessa palavra. Minha missãozinha tola é ser alguém que colabora com dois séculos que aí vêm para, em troca, não viver a vida de seu presente (visto que nasci antes do meu tempo, estou adiantado em relação a minha época), sua única vida.

Descobrir que se se fosse mais como as pessoas por aqui são eu seria igualmente nobre e transgressor, pois superaria os trágicos! Rá, quão sórdido… Basta meu auto-objetivo de sair daqui, eventualmente matando alguém, escrevendo coisas que chamo de arte, e mantendo minha linha máxima de consumo lá embaixo – para, sabe-se lá, morrer de dor de dente!

Ah, se todos os mitos pegam! Meu guia será minha vergonha. Ler o horóscopo não rende mais vexame – falar com acadêmicos sim!

Essa é uma razão contrária, e eu te sou grato. Agora me rebata, porém, ainda a razão contrária, amigo!”

* * *

Com orgulho se venera quando não se consegue ser ídolo”

Todo ser humano é uma causa criativa do acontecimento, um primum mobile com um movimento original”

Quando Deus entendeu a si mesmo, ele gerou a si mesmo e a sua antítese” (*)

Com ombros firmes, ele está escorado contra o nada e onde há espaço, aí há estar, há ser.”

O homem se define por ficar de pé, como o supermacaco, imagem do último homem, que é o eterno.”

Esses querem jogar dados e aqueles querem calcular e contar e aqueloutros querem ver sempre ondas e danças das ondas – eles chamam isso de ciência e ficam suando em cima disso. Mas são crianças que querem o seu jogo. E, realmente, é uma bela brincadeira de criança, mas um pouco de risada não prejudicaria o jogo” “Há muito a calcular no mundo: mas calcular o próprio mundo – isso é enfadonho.”

(*) “A antítese do ser-acima-do-humano é o último ser humano: fabriquei este junto com aquele” Como o diabo de nós próprios, este “ser-mais” é atemporal. Coexistência e rivalidade necessárias.

História: evolução das finalidades no tempo.”

O ANTI-DARWIN: “O inverso, de que tudo até nós é decadência, também é demonstrável (…) até agora a natureza VAI A PIQUE.”

A liberdade da vontade é mais bem-demonstrada como causa e efeito (a rigor, causa-efeito é apenas uma seqüência popular).” A liberdade da vontade só existe em Schopenhauer. Não é a vontade nietzscheana.

Sentido do casamento: um filho que represente um tipo mais elevado que os pais” “eles precisam te desprezar quando tu vais mais longe do que eles – eles não entendem o acima-de-si” Lei inconteste. Até eu posso ser dela vítima, quem sabe? Posso, como autor, imaginar que minha prole regride no anel, e na verdade ela avança! Incompreensíveis para mim. “Tu suspiras por amor – mas não, tu precisas aprender a suportar desprezo.”¹ Meu doutorado em engolir sapos. Ou não engolir nada, não vomitar nada. Publicamente.

A cavalo concebido se olham, sim, os dentes!

O paradoxo de José na sociedade do trabalho: agrilhoar-se para libertar-se!

¹ desprezar, v. trans. dir.

1. Troçar de.

2. Subestimar.

3. Ignorar.

Eis as acepções clássicas do verbo português, quando ele não se aplica no reflexivo (desprezar-se). De uma forma ou de outra, ambos os meus pais se alternam nisto. E se ao menos fosse um só, meu sofrimento estaria reduzido menos que à metade! Bom, N. também teve 2 estorvos na família íntima – em realidade, eu me enquadro mais num três-contra-um, se contar o irmão mais velho!

A dor mais pungente: toda vez arrepender-se de se abrir.

Nada entre um imprestável e um prestável: aí está a contraposição do ser, Sartre!

Tenho 4 pais. Seria um erro cósmico que não houvesse um pregador cristão quase debaixo do meu teto, afinal não há nada menos aparentado conosco que nossos pais batismais. (2009)

Um ano torna caducos muitos sonhos e ridiculariza muitos pesadelos. (2023)

Minha orientação para a Arte: não mais continuar poetando onde estão as fronteiras! Mas o futuro dos humanos! Muitas IMAGENS precisam estar aí de acordo com as quais se possa VIVER!” Talvez N. estivesse recuando da terminologia metafísica do supra-homem neste esboço?

O grande MEIO-TERMO: a decisão sobre querer-viver e querer-morrer”: provavelmente um aforismo que foi plagiado pela integralidade da filosofia de Albert Camus, o supervalorado!

A decisão. É preciso haver inúmeras vítimas. Uma tentativa.” Muito simples usar este aforismo para malversá-lo, como fez sua irmã. Não se referia a nenhum evento histórico do século XX.

Ainda a mais doce das mulheres tem sabor amargo”

É preciso proteger o mal como se precisa proteger o mato. É verdade que pelo rareamento e pela destruição das matas a Terra ficou mais aquecida –” e muito boazinha.

O nojo pela sujeira pode ser tão grande que nos impede de nos limparmos”

Buscar conhecimento é um desejo e uma ânsia (…) Não há nenhuma forma de conhecimento que não seja antes um refazer

Esses são meus inimigos: querem derrubar tudo e não reconstruir a si mesmos. Dizem: ‘nada disso tem valor’e eles mesmos não querem gerar nenhum valor.”

O animal nada sabe do seu si-mesmo”

Temos de ser um ESPELHO do ser: somos Deus em miniatura”

P. 202, af. 263: sobre o aumento da expectativa de vida e o paradigma estreito da medicina moderna.

Af. 267: “Há muitos que não sabem nada melhor sobre a Terra do que ficar na cama com uma mulher. O que sabem estes da felicidade!”

Às vezes o que é enxergado como crepúsculo é apenas o preâmbulo do sol de meio-dia.

Os judeus estragados pelo aprisionamento egípcio” O paradoxo: essa ‘paganização forçada’ foi que resultou no Cristianismo e na adulteração das práticas do judaísmo antigo, apenas nas entrelinhas do Antigo Testamento, quando não completamente invisíveis, práticas e preceitos esses contidos, pelo menos, no Talmude, disponível para nossa investigação contemporânea.

Odeia-se mais aquele que nos seduz de volta a percepções sobre as quais nos tornamos vitoriosos com extrema dificuldade” Eu já fui um liberal de tipo PSDBista. Odeio liberais. Odeio os ‘social-democratas’ (falsa esquerda, quinta-coluna). Eu já fui um ateu militante (na pré-adolescência, é verdade). Odeio esses ateus mais cristãos que os cristãos (leia-se: mais anticristãos que os anticristãos!). Odeio quem ama a sociologia. Odeio os hedonistas. Odeio metaleiros. Odeio são-paulinos. Odeio otakus. Odeio “gamers”. Odeio os que levam o trabalho a sério demais e adoecem por isso. Adoro aqueles que sabem ser anti-monoteístas, stalinistas, maoístas, fidelistas, chavistas, putinistas, aqueles que sabem usar a sociologia como anti-sociologia, para o verdadeiro progresso da sociedade (no sentido oposto a Comte-Durkheim), aqueles que sabem ouvir heavy metal, assistir e falar de futebol, apreciar jogos de videogame e desenhos japoneses sem parecerem completos imbecis infantilizados e extremistas desnorteados. Com efeito, odeio hoje todo e qualquer colega dos tempos de escola (avatares de todas estas categorias reunidas). Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF, minha grande nêmese. Já fui o mais insosso dos sem-sal, hoje sou um tempero exótico da Índia.

LUTAS, RODAS DENTADAS ATRITANDO, SENTIDOS OPOSTOS CRIANDO HISTÓRIA: “Quando Hegel encontra Heráclito”

Há duas Histórias completamente diferentes, que a disciplina não costuma diferenciar: a História das Intenções e a História dos Fatos.

O ideal de liberdade: quando fatalismo vira uma razão suficiente kantiana.

somente as naturezas ordinárias podem ver no Estado o instrumento da desforra

A era dos reis acabou, pois os povos não são mais dignos deles” Usado no Zaratustra

Moral como mímica dos afetos

A música CONFESSA o afeto, muito ao contrário da escrita, que é tão diferente da modalidade oral. Nisso ao menos Schopenhauer tinha razão…

quanto mais as religiões forem morrendo, tanto mais SANGRENTO E VISÍVEL há de se tornar esse combate” – auxílio da mass media: “Estamos no início!” Resta saber onde termina o início…

A conhecida teoria do Hamlet como a grande obra frustrada de Shakespeare: redundância ou inefabilidade do estado de não-ser. Não-relacionado com a morte (ao contrário). Hamlet disse o tempo todo sim, sobretudo quando decidiu morrer herói. Não ser seria não virar tema de um drama, nada fazer.

O quanto nós vivemos mais no BEM-ESTAR que nossos antepassados revela-se no fato de que a dor isolada é tão MAIS FORTEMENTE sentida do que o prazer isolado” – e, sendo assim, tem-se o poderoso estímulo que findará por sepultar a própria sociedade do bem-estar (nada a ver com o Estado social, mas com o modo de vida ocidental consumista).

o ódio e o nojo ao estranho são do mesmo tamanho que o prazer consigo” Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim… O turista contumaz: o tipo que se odeia.

Pragmatismo vs. heroísmo: a diferença entre o inteligente e o sábio: não se importar em ser prejudicado.

aparece como a aspiração máxima do ser humano tornar-se UNO com o mais poderoso que existe.<Poderoso> pode estar um tanto mal-empregado aqui, mas isto, esta aspiração, é Brahman.

que nós tomemos o mais próximo [o sistema nervoso consciente] como o mais importante é justamente o velho preconceito – Portanto, reaprender!”

Toda essa ânsia pelo imorredouro é conseqüência da insatisfação”

Os nossos ‘ricos’ – esses são os mais pobres! A finalidade autêntica de toda riqueza é esquecer!”

Endeusamento da natureza’ – isso é conseqüência de pobreza, vergonha, medo, idiotice!”

Eu quero não ser entendido por longo tempo”

O que Nietzsche diria do homem na Lua?

Luto com o dragão do futuro: e vós, pequenos, tereis de lutar com minhocas”

A vida é uma tragédia para aquele que sente, e é uma comédia para aquele que pensa. O semi-deus já sentiu muito, hoje sente menos, pensa mais no que sentiu. Pensa e ri de coisas ardidas e ardilosas do próprio ontem.

Todos aqueles que produzem criativamente [o semi-deus] procuram novas linguagens: ficaram cansados de uma fina língua desgastada: tempo demais o espírito andou sobre tais solas.”

Dos judeus, tirar-lhes o dinheiro e dar-lhes outra direção.”

O que são as “sete solidões”? Acredito que se refira a alguma passagem da Gaia-Ciência ou mesmo d’Aurora.

ponho a mão no fogo pelo próximo milênio”

Vivo como que em outras épocas: minha altitude me dá trânsito com solitários e ignorados de todas as épocasMEU AMIGO NIETZSCHE

muralhas destruídas”: um enigmático pré-requisito da formação do supra-homem… Deleuze & Guattari entenderam errado a expressão!

Mostrar a ‘metafísica da metafísica’!”

ANTI-FORBES: “Os seres humanos mais influentes do mundo são os mais escondidos”

Cultura é apenas uma fina película de maçã sobre um caos efervescente” (e civilização uma parte finíssima ainda mais insignificante dessa mesma película)

Mais cultura!” = MAIS CAOS! necessariamente

Opiniões públicas – preguiças privadas”

Corre-se maior perigo de ser atropelado quando se acaba de escapar de um carro”

O discípulo de um mártir sofre mais que o mártir” Mesmo que lute apenas com minhocas. Isso não é uma depreciação do seu valor como discípulo.

Quando não se tem um bom pai, então é preciso se arranjar um”

Rafael de Araújo Lula da Silva

Não se sente a monotonia quando nunca se aprendeu a trabalhar para valer” Os hedonistas não sabem o que é tédio, embora passem a vida fugindo, entediados… Talvez persigam uma ocupação, e erram na escolha dos meios…

Alguns homens choraram o rapto das suas mulheres; muitos, que ninguém as quisesse raptar.”

O fantasista nega a verdade diante de si; o mentiroso, só diante de outrosRetifico uma convicção minha: meus pais não são uns mentirosos, são uns fantasistas!

Os seguidores de um grande homem costumam se deixar ofuscar para melhor poderem entoar os seus louvores; pobres pássaros canoros!” Muito melhor as aspas que sua mera atualização. Sou apenas o pedreiro deste magnífico engenheiro. E mais além: “É preciso saber obscurecer a própria luz para se livrar das moscas e dos fãs” O Ocidental Obscuro bem o sabe. A persona do Ocidental Obscuro, adotada por mim em textos a partir dessa época (2009) surge nominalmente pela primeira vez no blog aqui. É inclusive provável que o livro Cila ou Caribde Vol. II conte com este subtítulo. (Não prevejo seu lançamento para antes de 2024.)

Eu refundei a maldade.

É preciso saber colher os louros da fama e da vitória, como do ostracismo e da derrota.

Os direitos humanos no sentido não-bolsonarizado do termo recrudescem a cretinice da modernidade.

O que pode ser pior do que uma cidade repleta de pedintes? Uma cidade repleta de cristãos.

Uma boa sentença é dura demais até para o dente do tempo”

A maior doadora de esmolas é a covardia”

Para o amigo do estilo rebuscado, o estilo solto é uma tortura para os ouvidos” Y vai-se ver ça!

É preciso acabar com os mendigos, pois a gente se incomoda lhes dando e se incomoda não lhes dando”

Indigesta sociedade, que se cansou de descansar. O dispéptico chato da mesa.

O que é a fome? É o produto da digestão! Mas a digestão ocorre – com fome ou não!

Conhecer certos efeitos inesperados de um desejo não resolve a equação (mesmo que a psicanálise estivesse certa, ela seria como uma face dum dado de 6 lados, irrelevante, incompleta, incapaz): há sempre outros efeitos adversos ignotos.

Herói: aquele que se faz passar por ridículo para salvar a humanidade. Logo, ele é o semi-deus dos outros, o herói apenas de si mesmo. Revolta e herói: duas palavras que não sabem andar divorciadas.

Aquilo que todos sabem, por todos é esquecido”

imortalidade é apenas uma metáfora”

O que é 1? A falha fundamental. Brahman precisa do herói, de se dividir em carrascos, vítimas, heróis, anti-heróis, etc. Quem morre também se sacrifica por si mesmo. Para que possa nascer na mesma vida.

Queres a paz? Toma a paz! Neste “toma” já está implícita a guerra – é uma ordem unilateral.

Quem é Pana?

(*) “Na mitologia inuit Pana era a divindade que cuidava das almas no submundo (Adlivun) antes que elas reencarnassem.”

Visível deve se tornar o mundo ainda no menor de tudo: então vós pensais estar ENTENDENDO: essa é a bobagem do olho”

Nada é mais claro do que um falso delírio sobre bem e mal!

O homem bom é impossível: na própria vida o não-bem é delírio e injustiça. E essa seria a última vontade voltada para a bondade: negar toda a vida!’

Com o vosso bem e mal, vós vos magoastes a vida, cansastes a vossa vontade; e vossa própria apreciação era o sinal da vontade declinante, que busca a morte.”

A onda rugiu ao passar: a criança chora porque ela arrastou consigo o seu brinquedo para o abismo. Mas a mesma onda joga-lhe cem outros brinquedos na alva areia. Portanto, não choreis por mim, meus irmãos, por eu estar passando!”

A flor quer a semente”

Trechos que parecem ser os finais, usados nos livros mais conhecidos, na verdade são esboços modificados. Não se sabe aliás se são mesmo rascunhos preteridos, versões alternativas igualmente válidas ou mesmo versões melhoradas e que pretendia ainda publicar em bloco.

A famosa frase de Aristóteles sobre a raiva: Sem raiva não se vence nada.

Constantes da minha inconstante vida (2009-2023): rompimentos interpessoais (dolorosos, mas positivos, a despeito da solidão que se segue – brinquedos são sempre devolvidos pelas ondas, como diz Zaratustra), doenças (não-graves, renitentes) que me atacam sobretudo em períodos de ócio (feriadões, férias – sintoma de que trabalho duro), sonhos com essas figuras passadas (às vezes a separação não foi um rompimento, apenas parte dos desencontros da vida). Exemplos: Liz, Antonielle, Tavares o Corinthiano. Pessoas com quem gostaria de falar de novo – mas sinceramente me decepcionariam, porque, francamente, quase ninguém vê o que quase ninguém vê (velhos ou novos ou novos velhos amigos…). Amigos de internet tão importantes por uns anos que depois… já nem sei quem são apenas pelo nome… Como se nunca houvessem existido! Uma outra constante: as únicas aulas que dou são por escrito, e não-remuneradas.

Meta: formação mais elevada de todo o CORPO e não só do cérebro!” Uma grande arte mais individual do que imaginam os atletas, nutricionistas, médicos, vaidosos em geral e personal trainers

História dos seres humanos mais elevados” Isso vem sendo toda a seara historiográfica, Nietzsche, pode ficar tranqüilo…

O ferido sempre se irrita consigo mesmo – esse é o poder da dialética trágica: ele estará MAIS FORTE da próxima vez.

VERDADE SOBRE O CARÁTER RESSENTIDO DO DIREITO MODERNO: “O prejudicador é compensado – é a forma mais antiga, não a intencionalidade hostil. A indignação surge por se ter sido prejudicado, portanto em função do êxito do inimigo, não em função da hostilidade. É a sensação do vencido – a ânsia de vingança: não a sensação de que tenha ocorrido uma injustiça.” Quase ininteligível para qualquer jurista, pois não se fala aqui a língua deles. E o que é um filósofo do direito senão um filósofo – o contrário de um jurista?!

À p. 340 a tese de que a justiça deveria exilar mais e prender menos.

A relação suprema continua sendo a do sujeito criador com o seu material: essa é a última forma de arrogância e supremacia.”

Arrependimento: isso é vingança contra si mesmo”

Quando o ouro tilinta, a puta pisca os olhos. E há mais putas do que moedas de ouro. Quem é venal, esse chamo de puta. E há mais venais que moedas de ouro!”

Desprezo a vida supremamente: e eu amo a vida ao máximo: não há nisso nenhum contra-senso – nenhuma contradição”

A ARENA DO POLITEÍSMO

Com os deuses, há muito já se está no fim: eles todos morreram – de rir.

Isso ocorreu quando começou a rodar o dito mais ateu já vindo de um deus – o dito: tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim: uma velha barba iracunda de Deus esqueceu portanto a si.

Tão pobre jamais fôra um deus em seu ciúme a ponto de impor: ‘tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim!’

E todos os deuses riram então e se sacudiram nas cadeiras e exclamaram: ‘Não será justamente divino que haja deuses, mas nenhum Deus único?’

Jeová, nesse conto nada barroco, é o herói, grave e auto-imolado(r). Zeus, Indra, Odin & cia. os semi-deuses (ironia de nomenclatura). Nosso mundo é invertido: conosco, os homens ocidentais, os últimos são os primeiros: o Deus cristão inaugura esse mundo; mas também morre primeiro. Morre de descrença em si mesmo, do que nenhum mortal morre (esse é nosso inferno, nosso nada, aliás). Assim como o semi-deus… – esse é imune aos efeitos colaterais da risada, i.e., não se engasga com azeitonas, vive rindo, ri vivendo. Aprendeu com a história e com o mito. E nossa risada é nosso néctar (riqueza útil). Não é irônico que o Deus que curava aleijados no mercado não soubesse dançar?