THE 12 TABLES – com comentários de Coleman-Norton

This celebrated code, after its compilation by a commission of 10 men (decemviri), who composed in 451BC 10 sections and 2 sections in 450BC, and after its ratification by the (then) principal assembly (comitia centuriata) of the State in 449BC was engraved on 12 bronze tablets (whence the name Twelve Tables),¹ which were attached to the Rostra before the Curia in the Forum of Rome. Though this important witness of the national progress was destroyed during the Gallic occupation of Rome in 387BC, yet copies must have been extant, since Cicero (106BC-43BC) says that in his boyhood schoolboys memorized these laws ‘as a required formula’. However, now no part of the 12 Tables either in its original form or in its copies exists. The surviving fragments of the 12 Tables come from the writings of late Latin writers and fall into these 4 types:

¹ The code was known under 2 titles: Lex Duodecim Tabularum and Duodecim Tabulae.

(1) Fragments which seem to contain the original words, ‘modernized’ in spelling;

(2) Fragments which are fused with the context of the quoter, but with little distortion;

(3) Fragments which not only are fused but also much distorted, although with a preservation through paraphrase;

(4) Passages which present only an interpretation (or an opinion based on one), or a title.”

the attribution of some items to certain tablets is debatable. The probable order of the fragments, which total over 115, has been inferred from various statements and from other indications of ancient authors.”

TABLE 1. PROCEEDINGS PRELIMINARY TO TRIAL

7. If one of the parties shall not have appeared, after noon the judge shall adjudge the case in favour of him present.

8. If both parties be present, sunset shall be the time-limit of the proceedings.”

TABLE 2. TRIAL

(…)

TABLE 3. DEBT

5. Unless the debtors make a compromise, they shall be held in bonds for 60 days. During those days they shall be brought to the magistrate into the meeting-place on 3 successive market-days and the amount for which they have been judged liable shall be declared publicly. Moreover on the 3rd market-day the debtors shall suffer capital punishment or shall be delivered for sale beyond the Tiber (river).”

Numa passagem não muito bem-compreendida, fica em suspenso a possibilidade do credor poder mutilar o corpo do réu na porcentagem ou fração que lhe é devida, quando ele falha em pagar o valor e é ofertado no mercado, já que o credor (o litigante) teria direito a 1/x do ‘corpo’ do réu!

TABLE 4. PATERNAL POWER

1. O recém-nascido severamente deformado deve ser morto de imediato.

2. Se um pai repudiou o filho três vezes para que fosse vendido no mercado, o filho deverá ser declarado livre do seu pai.¹

¹ A prerrogativa do patria potestas significava que se o antigo comprador de um filho liberta seu escravo, o filho reentra nas posses do pai. Este fragmento significa que mesmo este instituto não tem mais razão de ser quando há manumissão tripla.

3. Para repudiar a esposa, o marido deverá ordenar-lhe que cuide de seus próprios negócios, confiscar-lhe todas as chaves e expulsá-la.

4. Sobre a herança legal, aquele que estava no útero é admitido, se, é claro, vier a nascer.¹

¹ Interpretação: alegados filhos, i.e., crianças nascidas no décimo mês após a morte do tido como progenitor, não têm direito à herança.”

TABLE 5. INHERITANCE AND GUARDIANSHIP

1. Mulheres devem permanecer sob tutela, mesmo após a maioridade.¹ … As virgens vestais são excepcionais, e ficam livres do controle parental.

¹ 25 anos (para mulheres). Para homens, a maioridade em casos de julgamentos por roubo ou por prejuízo causado a terceiros, por exemplo, é 16!

2. As propriedades movíveis de uma mulher que estão sub tutelagem de seu agnato¹ não podem ser auferidas por usucapião, salvo se esses bens tiverem sido cedidos pela proprietária, com consentimento do tutor.”

¹ Parentes paternos. Cognatos são parentes paternos ou maternos. A família agnática é toda aquela contemplada na lei civil. A família cognática possui regulamentações na lei dos gentios.

4. Se um indivíduo morre sem testamento e não tem descendente direto, o agnato macho mais próximo deve ser o herdeiro.

5. Sem agnato macho, os homens do clã do falecido¹ terão direito à herança.

¹ Por inferência em relação à nota anterior, trata-se de algum cognato.

(*) Tutor e guardião não devem ser confundidos: o segundo é o das crianças irresponsáveis pela idade; o primeiro é o dos lunáticos, dentre os quais incluíam-se os pródigos.”

TABLE VI. OWNERSHIP AND POSSESSION

7. O usucapião de bens movíveis é completado após um ano; o usucapião de bens inamovíveis (herança, terrenos) é completado somente após 2 anos.”

TABLE VII. REAL PROPERTY

6. Neighboring persons shall mend the roadway. If they keep it not laid with stones, one shall drive one’s beast vehicles across the land where one shall wish.”

10. The owner of a tree may gather its fruit which falls upon another’s farm.”

TABLE VIII. TORTS OR DELICTS

1. If any person had sung or had composed a song which caused slander or insult to another person . . . he should be clubbed to death.¹”

¹ “Slander and libel are not distinguished from each other in Roman Law.”

14. It is forbidden that a thief be killed by day . . . Unless he defend himself with a weapon, even though he shall use that weapon and shall resist, you shall not kill him. And even if the thief resist, you shall shout.”

18. A stolen thing is debarred from prescription (usucapio).

19. No person shall practise usury at a rate of more than 1/12¹ [0,083%] … if he do, a usurer shall be condemned for quadruple damages.”

¹ “The uncia (whence our ‘ounce’) is the unit of division of the asa and is used also as 1/12 of anything. One-twelfth the principal paid yearly as interest equals 8,33%.”

a The as originally was a bar (1ft. in length) of aes (copper), then a weight, then a coin weighing 1 pound and worth about $0.17. From time to time the as was reduced in weight and was depreciated in value, until by the provisions of the Lex Papiria in 191BC the as weighed ½ ounce and was valued at $0.008.”

24. The penalty for false testimonies is that any person who has been convicted of speaking false witness shall be precipitated from the Tarpeian Rock.¹”

¹ “A southern spur of the Capitoline Hill, which overlooks the Forum, and named after Tarpeia, a legendary traitress”

27. No person shall hold nocturnal meetings in the city.”

TABLE IX. PUBLIC LAW

3. A judge (iudex) or an arbitrator (arbiter) legally (iure) appointed, who has been convicted of receiving money for declaring a decision, shall be punished capitally (capite).”

6. It is forbidden to put to death . . . unconvicted anyone whomsoever.”

TABLE X. SACRED LAW

4. Women shall not tear their cheeks or have a lessus¹ (sorrowful outcry) on account of the funeral.”

¹ “Cicero says that some older interpreters suspected that some kind of mourning-garment was meant by lessus, but that he inclines to the interpretation that it signifies a sort of sorrowful wailing (De Legibus, II)”

6. Anointing by slaves and every kind of drinking-bout is abolished . . . There shall be no costly sprinkling, no myrrh-spiced drink, no long garlands, no incense-boxes.”

9. Gold shall not be added to a corpse. But him whose teeth shall have been fastened with gold, if a person shall bury or shall burn him with that gold, it shall be with impunity (sine fraude).”

TABLE XI. SUPPLEMENTARY LAWS

(…)

TABLE XII. SUPPLEMENTARY LAWS

(…)

UNPLACED FRAGMENTS

o direito a recorrer de qualquer sentença é outorgado.”

MR. PERCOLATOR ENTREGA OS PONTOS SOBRE O FINAL DE TWIN PEAKS!

Hoje temos um convidado muito especial! Pela primeira vez neste blog, não sou eu que estou com a palavra, mas Phillip Jeffries, astro de Twin Peaks, ex-David Bowie, atual chaleira… Bom, é uma longa história… Mas a razão de termos alguém tão especial no nosso programa-tempo-espaço é que este homem-espírito quase-onisciente nos poderá contar, afinal, QUE PORRA FOI ESSA DA TERCEIRA TEMPORADA da série do David Lynch – ele com certeza anotou a placa, não importa o número de números e coordenadas… Obviamente, só alguém tão insano quanto ele, eu, poderia conduzir essa entrevista de tirar o fôlego, ou de repor o fôlego, no caso de quem é movido a café e teorias da conspiração…

Ps: Peço que nos desculpem quando o entrevistado faz especulações desconexas; a responsabilidade não é nossa mas de uma aparente lobotomia e estados ligeiros de afasia sofridos pelo entrevistado enquanto ente da Loja de Conveniência. Tomamos a liberdade de editar alguns trechos que nos soaram muito prolixos, e algumas outras passagens em que a estática comprometeu nossa audição (mas sempre que isso ocorreu nós refizemos a pergunta e reiteramos nossa curiosidade sobre aspectos específicos da resposta).

 

SEJA BEM-VINDO, SR. PERCOLATOR! DIGA ALGUMA COISA PARA TODOS OS FÃS DE TWIN PEAKS QUE ESTÃO NOS LENDO! VOCÊ REALMENTE É UM BULE DE CAFÉ?

PERCOLATOR: Meus cumprimentos a todos! Boa noite, suponho… Porque Twin Peaks fica muito melhor à noite! Sobre o outro assunto, vai dizer que você não sabia?! Nunca foi no reddit? Nunca frisou a imagem? Aquilo não é um percolador, amigo, e eu tampouco sou o objeto mas sim a bo—

ERA BRINCADEIRA. (risos) APENAS PARA ESQUENTARMOS! VOU DIRETO AO PONTO, VOCÊ PODE DESENVOLVER A SUA RESPOSTA O QUANTO QUISER, E EU JÁ AVISO QUE VOU TE INTERROMPER BASTANTE… MAS NÃO É PARA OUTRA COISA QUE ESTAMOS AQUI: O QUE SIGNIFICA O FINAL DE TWIN PEAKS – THE RETURN? OUVI DIZER QUE VOCÊ TEM A(S) CHAVE(S) DO MISTÉRIO!

PERCOLATOR: Do meu ponto de vista, que é atemporal, com certeza tenho mais evidências do que qualquer personagem da história que você pudesse trazer – e garanto que não tenho interesse por nenhuma das partes, sendo assim possível fazer um minucioso relato imparcial… Mas como o assunto é David Lynch, devo avisá-lo de que isso também não é muito pretensioso, sabe, não almejo ao estatuto da verdade… Você pode considerar como “mais uma opinião” de alguém que acompanhou os personagens muito de perto! (risos metálicos) Vamos lá, me bombardeie com as suas perguntas! O que você quer saber primeiro? Eu acho que minha resposta tem mais partes do que capítulos nesta terceira temporada…

 

ENTÃO, PARA COMEÇAR… O QUE É O BLACK LODGE OU SALÃO NEGRO? O QUE É A RED ROOM? ALGUNS DIZEM QUE A RED ROOM QUE VEMOS É UMA “SALA DE ESPERA” PARA O VERDADEIRO SALÃO NEGRO, SABE? AQUELA COISA DA SALA COM O SOFÁ E AS ESTÁTUAS GREGAS, E A OUTRA SALA PARA ONDE VAI COOPER APÓS UM CORREDOR?… PARECE QUE NA RED ROOM APENAS O (ANTIGO) BRAÇO E MIKE INTERAGEM COM COOPER, OU LAURA, MAS NUNCA DE FORMA AGRESSIVA, AO PASSO QUE NA PRÓXIMA SALA, I.E., NO SUPOSTO SALÃO NEGRO, COISAS MAIS HORRIPILANTES ACONTECEM…

PERCOLATOR: Primeiro, eu quero que você tire da sua cabeça essa distinção entre black lodge e red room. Isso é coisa de fã! Estes são sinônimos para o mesmo lugar… Além disso, sendo o black lodge o que podemos chamar de inferno, ou pior-que-o-inferno, o hall de entrada para tal lugar seria diferente do lugar em si? Uma vez satisfeitas as condições para entrar no salão negro, a entrada e a livre troca entre as salas dentro do salão negro não são um problema para as visitas ou seus ‘anfitriões’. Cooper não teve que cumprir nenhum pré-requisito para pular de uma sala para outra, mas quando ele tentou, uma vez, sair do black lodge para o mundo dos homens novamente, a cortina vermelha se tornou espessa, como que de aço. Vê no que me fundamento para fazer essas afirmações?

 

COM CERTEZA! MINHAS PRÓXIMAS DÚVIDAS ESTÃO DIRETAMENTE RELACIONADAS COM UM TÓPICO QUE VOCÊ CITOU: QUAIS SÃO EXATAMENTE AS CONDIÇÕES PARA ENTRAR NO BLACK LODGE? E QUEM PODE SAIR?

PERCOLATOR: Ou você entra morto, ou você morre ao entrar…

 

ESPERA! COOPER ESTÁ MORTO DESDE 1991?!

PERCOLATOR: Calma, chegaremos lá, não se precipite!… Sendo mais didático, algumas vítimas de espíritos malignos como BOB são mortas e poderão a partir daí ser encontradas no black lodge em sua forma física final, inalteradas. Este é o além dessas pessoas. Agora, reconheço que não é assim com todo mundo… O agente especial Cooper e Windom Earle foram dois humanos excepcionais que entraram no black lodge seguindo o único caminho permitido para os vivos, e por conta própria: após se informarem sobre o alinhamento de Júpiter e Saturno e da localização do portal, e de que o medo e o amor são capazes de franquear essa barreira sobre-humana, eles puderam adentrar essas imediações, sem o ônus de terem sofrido uma morte trágica. (risos) Isso não quer dizer, porém, que se pode circular nos aposentos do diabo sem pagar um alto preço por isso!

 

O QUE QUER DIZER COM ‘DIABO’?!? FALA DA JUDY?

PERCOLATOR: Vamos devagar, meu entrevistador afoito! Falo apenas em sentido metafórico. Veja, é como nas histórias românticas: para se sobreviver a um evento que provavelmente o mataria, você tem de oferecer algo em troca, certo? Fausto, Dorian Gray, todas essas criações literárias têm uma coisa em comum: empenharam sua alma! Eu te pergunto, e se não quiser responder, eu respondo: qual preço Windom Earle pagou pela sua ousadia?… Ele foi morto por BOB, porque ali não é um serial killer psicopata humano quem faz as regras! E qual preço pagou o agente Cooper?

 

BOM, TENHO QUE RECONHECER QUE NÃO SEI ONDE VOCÊ QUER CHEGAR… COOPER ENTROU NO SALÃO NEGRO… PRIMEIRO PENSÁVAMOS QUE PARA SALVAR ANNIE BLACKBURN, ISSO É O QUE PENSÁVAMOS EM 1991 – MAS SÓ EM 2016 FOMOS INFORMADOS POR GORDON COLE QUE COOPER PRETENDIA ALGO MAIS…

PERCOLATOR: Na mosca! Então você diz: ele entrou esperando estar incólume aos maus efeitos desse lugar, efeitos para os quais o Major Garland Briggs e o policial Hawk tinham tentado preparar Cooper. Isso nas nossas teorias dos anos 90. Ele só teria uma coisa a ganhar: sua dama. Era uma questão “órfica” até então!

 

DISCORDO DE VOCÊ NO PARALELO: NA MITOLOGIA, ORFEU DESCE AOS ÍNFEROS PARA CONVENCER HADES E PERSÉFONE A DEVOLVER-LHE EURÍDICE, QUE HAVIA MORRIDO. NESTE CASO, ELE CONTAVA SINCERAMENTE COM SALVAR ANNIE… E PELO QUE SABEMOS ANNIE, APESAR DE NÃO TER LEVADO MAIS UMA VIDA NORMAL, FOI RESGATADA POR COOPER, AFINAL DE CONTAS…

PERCOLATOR: É correto! Há uma falta de simetria, você notou bem! Annie entrou como Cooper e Windom, em que pese contra sua vontade! Ela entrou viva no alojamento… no black lodge! E pôde sair, mas pagando um alto preço…

 

ENTÃO LÁ VAMOS NÓS DE NOVO COM O QUE VOCÊ DIZIA A PRINCÍPIO…

PERCOLATOR: Sim! Tudo que devemos considerar é: o método e condição do ‘corpo’ na entrada! Cooper pagou um preço por entrar vivo no salão negro, e vou tentar explicar isso. Como você sabe, ele foi retido pelo seu Doppelgänger, então tecnicamente ele nem sequer ‘salvou’ Annie. Mas ficar retido no salão negro não foi o castigo de Cooper, ou nem de longe toda sua pena, e além disso ele estava previamente informado dessa circunstância… através de sua enorme sensitividade onírica… Ele foi avisado em sonho que estaria no black lodge dali a 25 anos. Voltando a Orfeu e Eurídice, o que aconteceu? Orfeu entrou vivo, saiu vivo e depois… Err, odeio spoilers, leia o mito! Leia a peça, leia em qualquer lugar, as fontes são muitas… Eurídice, como se vê, se deu mal… Na Grécia Antiga as pessoas ‘não morriam’, i.e., morrer era insignificante para elas. Eurídice continuou como pedra, pensando e falando. Você sabe o que Aquiles e Ulisses faziam no Hades? Eles só podiam ser eles mesmos: conversar sobre os feitos heroicos passados, alimentar-se de sombras, reunir-se como nos acampamentos de guerra, contar estórias… Óbvio que enquanto espectros não sentiam mais fome nem necessidades fisiológicas… Encare isso como uma extensão inútil da vida… Bom, o que há de comum entre a saga de Orfeu e a saga de Cooper, neste caso? Primeiro, vamos supor que Cooper-Annie sejam o “casal protagonista”, porque nem sequer começamos a falar de Laura Palmer… Orfeu-Eurídice: ambos tiveram fins trágicos… Cooper e Annie também! Ainda chegaremos lá… Você sabe qual a diferença entre Cooper e Laura Palmer, no que tange ao black lodge? Cooper não era um escolhido…

 

AGORA VOCÊ CHEGOU AO PONTO QUE INTERESSA AOS LEITORES, MEU PROLIXO INTÉRPRETE! COOPER TINHA UM SEGUNDO OBJETIVO ESSE TEMPO TODO… E DESCOBRIMOS, EM 2016, QUE NENHUM DELES, P.EX., ERA LIDAR COM BOB! NEM MESMO ACERTAR AS CONTAS COM WINDOM EARLE…

PERCOLATOR: Eu gosto do seu raciocínio rápido… Começo a fumegar como o cachimbo do Popeye! Espero que o pessoal esteja nos acompanhando sem sobressaltos… O objetivo duplo do nosso agente Cooper era desde o início, em arranjo secreto com seu chefe Gordon Cole do FBI, o Major Briggs, Daiane (sem nem mesmo o conhecimento de Gordon!) e a entidade conhecida por vocês como o Gigante ou Bombeiro, recuperar Laura Palmer e lidar com Jowday… Os dois objetivos eram indissociáveis… Ele precisaria sair do black lodge para fazê-lo, e isso levaria tempo… Eu não sei dizer como fica a percepção de uma pessoa nesse lugar, me entende?! Eu já perdi a noção do que é tempo, meu caro, não sou um bom parâmetro! Mas ousaria dizer que Cooper esqueceu Annie, e isso não se deve a nenhum defeito de caráter… Tínhamos muito mais em jogo. Laura Palmer, viva ou morta, era, aliás, outra que sabia dos planos de Cooper, além de Gordon e do Gigante, por exemplo. Laura Palmer pode ser considerada a ‘Eurídice sortuda’: ela era a escolhida, tinha prerrogativas especiais que nenhuma dessas heroínas da mitologia tinham… Agora, espero que isso não seja muito súbito para você, mas qual era a ‘cláusula tácita’ do contrato de Cooper, que achou o salão negro?

 

SEGUNDO VOCÊ, QUE ELE MORREU PARA CONSEGUIR UMA VANTAGEM TÁTICA NA CRUZADA CONTRA O MAL DOS MALES, JUDY!

PERCOLATOR: Nossa, você é tão abrangente assim sempre?! Não, Cooper não morreu, e você está certo e errado ao mesmo tempo, mas não entenderia isso agora. Dale Cooper e Lara Palmer são as únicas pessoas nessa história que envelhecem. Leland é visto no salão em 1991 e em 2016, e ele permanece igual… Cooper ganha a anistia das forças do salão negro, contanto que faça um sacrifício de igual monta… Algum palpite?!

 

VOCÊ ESTÁ SE REFERINDO À SAÍDA DE COOPER DO BLACK LODGE APÓS A ‘REUNIFICAÇÃO’ COM SEU OUTRO EU, QUANDO ELE ALTEROU O PASSADO PARA CONTROLAR O FUTURO…

PERCOLATOR: Invejável, Cila, invejável! Ou Cooper permanecia por toda a eternidade no salão negro, salvando a memória de sua passagem pelo mundo, ou sacrificava justamente todo o seu passado, e o melhor período de sua vida, que foi quando conheceu as pessoas mais especiais e encontrou seu propósito… assim que pisou em Twin Peaks! Na verdade, tratar-se-ia de GENOCÍDIO COLETIVO, literalmente apagar a história de milhares de pessoas… Seria um desejo muito egoísta, concorda?! Talvez apenas o Cooper reunido ao seu lado negro, Mr. C, pudesse reunir a coragem para tomar tal decisão… Mas você se engana se pensa que foi assim… Cooper já entrara no black lodge decidido – pelo bem maior da humanidade… O Gigante não o deixara hesitar um instante sequer! Se ele pudesse evitar que o que o levou a Twin Peaks em primeiro lugar acontecesse… Ele poderia voltar ao seu mundo, fora do salão, vivo! Claro que para fazer esse ‘servicinho’ (salvar Laura) ele contou com o papai aqui, hehehe! (Plateia faz “uuuuuhhhh!!!! Gostoso! Lindo! Tesão! Aaaah, é Percolator!” Não sabemos se a sério ou jocosamente.)

 

ENTÃO ELE ENGOLIU AS CONSIDERAÇÕES ÉTICAS POTENCIALMENTE NEGATIVAS DE ‘APAGAR A HISTÓRIA VIVIDA POR MILHARES DE PESSOAS’ E RESOLVEU DAR PROSSEGUIMENTO AO PLANO DE MATAR JUDY… MAS ISSO AINDA NÃO PROVA QUE ALGUÉM ‘SEMPRE PERDE’ QUANDO ENTRA NO SALÃO… TRATA-SE DE UM DILEMA ÉTICO, O DO ‘MAL MENOR’…

PERCOLATOR: Entendo onde sua astúcia quer chegar! Mas veja: nunca foi uma escolha: Cooper sempre esteve fadado a fazer o que fez… E como ele escolheu fazer o que fez, você bem sabe que ele não pararia ali… O Gigante o alertou… Ele não conseguiria trazer Laura de volta à sua casa… A essa altura, como você viu a série duas vezes, com muita atenção, você sabe que Laura Palmer, que nasceu primeiro como um ‘orbe’ em 1945… 1947?… Meu deus, minha memória começa a falhar… 1955?! Bom, a Laura Palmer que conhecemos veio a este mundo em 1971… Dale Cooper pôde evitar a sua morte física em 1989, mas Judy ‘levou a melhor’ do mesmo jeito… E Cooper, portanto, sendo livre para viver sua vida deixando tudo isso de lado, decidiu no entanto tomar o passo seguinte, a ‘segunda metade’… Eu disse ‘segunda metade’????

 

É CLARO QUE VOCÊ DISSE SEGUNDA METADE. E VOCÊ DISSE DUAS VEZES!

(Risadas na plateia.)

PERCOLATOR (O chale fica rosado dos lados): (Pigarreada.) Eu disse – mais cedo – que não era possível dissociar um objetivo do outro… Salvar Laura e lidar com Judy-Jowday! Cooper sabia que evitar que BOB ou simplesmente uns humanos imbecis estuprassem e matassem a garota não era o mesmo que SALVÁ-LA… E depois temos Judy. Então eu afirmo com todas as letras: desde o início Cooper partiu para uma missão suicida.

 

AGORA ENTENDO SEUS CIRCUNLÓQUIOS, SR. PERCOLATOR! ME DIGA UMA COISA: VOCÊ NÃO ACHA QUE LYNCH IRRITOU MUITOS FÃS ANULANDO ASSIM TODOS OS EVENTOS DAS DUAS PRIMEIRAS TEMPORADAS?!

PERCOLATOR: Bom, do ponto de vista do show business… E eu entendo de show business… (Bowie feelings) Talvez. Mas analisando friamente, Cooper era o homem talhado para esta dura missão – e quando eu disse que ele tinha um alto preço a pagar, não era por ENTRAR NO SALÃO NEGRO – mas pelo dom que ele adquiriu ao sair de lá… Que era converter tudo que REALMENTE ACONTECEU com ele e seu ‘sósia invertido’… em SONHO. De forma que o real fundamental passou a ser seu encontro com Laura Palmer na dimensão que os fãs desse show chamam de ‘red room’… Desde o início. Enquanto a memória de Cooper estiver viva, creio que seus sonhos, e com isso todo o carisma dos habitantes de Twin Peaks, estará a salvo… (Lágrimas pretas descem pelo bico do bule.) (Plateia consternada.)

 

PRIMEIRO VOCÊ ME PEDE CALMA, AGORA VOCÊ JÁ AVANÇA PARA CONCLUSÕES MUITO AVANÇADAS! FALE MAIS UM POUCO SOBRE ESSA ‘JORNADA INTERIOR’ DO COOPER QUE SERVE DE PRÓLOGO AO EMBATE FINAL QUE ELE TRAVA COM A ENTIDADE JUDY. VOCÊ ACHA QUE SE MATASSEM DOUGLAS JONES OU SE O BAD COOPER TIVESSE AVISTADO SARAH PALMER, TUDO IA TERMINAR DO MESMO JEITO QUE NA ‘PRÉ-CONCLUSÃO’, À DELEGACIA?

PERCOLATOR: É claro que, de um jeito ou de outro, mesmo que o total se dê graças à soma de cada uma das individualidades envolvidas, às 2:53 aquilo tudo estava destinado a acontecer… Black Cooper e Cooper se fundiriam, o plano ‘não tinha como dar errado’. Essa era a parte boba, a cereja do bolo… O cerne da missão era o que aconteceria depois… Você quer que eu fale mais alguma coisa não-esclarecida sobre os episódios 1-17 ou posso ir diretamente para o 18?

 

VOCÊ COLOCOU AS COISAS MUITO BEM. ESTAVA PENSANDO ESSES DIAS QUE NA VERDADE “TWIN PEAKS” NÃO TEM 3 TEMPORADAS! ANALISAVA O TÍTULO DO REBOOT… TWIN PEAKS: O RETORNO. ACHO QUE ‘TWIN PEAKS’ PROPRIAMENTE DITO SERIAM OS 17 PRIMEIROS EPISÓDIOS. ANTES EU ACHAVA QUE ‘O RETORNO’ ERA O ACLAMADO RETORNO DA SÉRIE, QUE SÓ FOI POSSÍVEL GRAÇAS AO ARDOR DOS FÃS. MAS HOJE EU PENSO DIFERENTE: OS 17 PRIMEIROS EPISÓDIOS SÃO ‘O QUE ACONTECE PARA ENROLAR O EXPECTADOR’ ATÉ QUE COOPER CONTINUE O ENREDO DE 1991…

PERCOLATOR: Genial! Genial! Não esperava menos de você… Isso foi meio… Como é o nome daquele cara, ééé, da sua música popular brasileira, um que não é muito querido, ou seja, não estou falando do Chorão… Um que morreu… Ahh… Acho que antes de você nascer… Um tal Marcelo Cavalo…

(Risadas da plateia.)

 

VOCÊ QUIS DIZER… RENATO RUSSO… É, EU ENTENDI A REFERÊNCIA! E ANTES QUE ME ACHEM PIRRALHO, EU TINHA O I T O ANOS QUANDO RENATO RUSSO MORREU… DEPOIS, EU TINHA 24 ANOS, TALVEZ MAIS, QUANDO O CHORÃO MORREU… E ESSE DE QUEM VOCÊ FALA NADA TINHA A VER COM ESSA MINHA IDÉIA… MARCELO CAMELO, ELE ESTÁ VIVO POR AÍ…

PERCOLATOR: Ah sim! Perdão! Eu pensava no fundo do poço… No cavalo branco, nas drogas que extraviaram os jovens, e nessa Sarah Palmer…

 

E PARA O PÚBLICO DESORIENTADO, EU EXPLICO ESSA BIZARRA CADEIA DE ASSOCIAÇÕES: RENATO RUSSO DECLAROU, CERTA FEITA, QUE A VIDA É AQUILO QUE PASSA ENQUANTO NOS PREOCUPAMOS COM OUTRAS COISAS…

PERCOLATOR: Ecce homo! Você, não ele! Para que Twin Peaks fosse ressuscitada enquanto série, não FILME, eu diria que David Lynch teve que recorrer a alguns expedientes… Não vou criticar essa obra-prima mas… O motivo da minha entrevista é saber o que era tudo aquilo no episódio 18, estou correto?!

 

NADA MAIS, NADA MENOS!

PERCOLATOR: E você ressignificou o título dentro de sua cabeça de forma apropriada… O Retorno não é o retorno de TP… Mas o retorno do viajante para casa, a Odisséia do protagonista, e nada mais… Na verdade Lynch soterrou todos os doces sonhos e tortas e rosquinhas dos anos 80 e 90 com essa marretada brutal, digo, com este golpe de Hitchcock – serra elétrica… E L E C T R I… C I T Y! Entenderam?! marretada… serra… elétrica… Garmonbozia!!! (Plateia no mais absorvente silêncio.)

E-eu quis dizer… ELECTRI-CITY… TWIN PEAKS É UMA CIDADE!!!

(Plateia ainda majoritariamente em silêncio – algumas senhoras exclamam ‘ã?’, ‘perdi alguma coisa?’, etc.)

 

SR. PERCOLATOR… ESQUEÇAMOS ISSO, ESQUEÇAMOS ISSO… AH, AH! NOSSO CONVIDADO É MUITO ENGRAÇADO, NÃO É GENTE?! RETOMANDO O FIO… O RETORNO ERA SÓ O DE DALE COOPER DE SEU LONGO ASILO NO BLACK LODGE, PARA COMPLETAR SUA MISSÃO DOS DOIS COELHOS NUMA CAJADADA SÓ… SE A PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA SE CONCENTROU NO MITO DE ORFEU, ESSA AGORA É A VERDADEIRA SACADA LYNCHIANA DESTA DÉCADA: DALE COOPER É ULISSES RETORNANDO!

PERCOLATOR: U-lá-lá! Melhor impossível, monsieur… Mas responda-me então… quer falar mais sobre alguma coisa que não tratamos com profundidade da Twin Peaks que virou Dream Peaks ou quer falar sobre Odessa, etc., etc., do capítulo 18, a única verdadeira CONTINUAÇÃO de TP?!

 

UMA OPINIÃO PESSOAL: QUAL VOCÊ ACHOU O MOMENTO MAIS ENGRAÇADO E O MOMENTO MAIS TRÁGICO DE TODO O SHOW, TIRANDO O FINALE?!

PERCOLATOR: Vejo no casal Ed e Norma a maior tragédia de Twin Peaks: a perda de todos os anos dourados que poderiam ter tido facilmente. A futilidade de um final feliz que é exatamente isso: chegou apenas no final do final! Sobre os momentos mais cômicos… impossível separar um só! Apesar de todas as peripécias de Dougie Jones, eu vou ficar com 2 na cidade de Twin Peaks: Lucy e Andy aporrinhando o policial Hawk, que só queria investigar pistas valiosas sobre o desarquivado caso Cooper, na sala cheia de arquivos daqueles tempos…; e aquele homem creditado como “bêbado” que é preso com o policial corrupto e aqueles outros personagens e não pára de repetir as frases (muito douguiano por sinal!), rebatendo os xingamentos! Bem, fora de TP mas não exatamente fora dos seus personagens que crescemos apreciando, tem a sensacional conversa do Jerry Horne com o seu próprio pé!

 

EXCELENTE. ÓTIMAS LEMBRANÇAS! AGORA, SENHOR SEGREDOS BURILANTES… PODE FALAR DO QUE MAIS O IMPORTUNA E QUE VOCÊ PRECISA DESABAFAR PARA O PÚBLICO FIEL, MAS NÃO ESQUEÇA DE DAR TODOS OS PINGOS NOS I’S: VOCÊ TEM DE EXPLICAR SEU PAPEL NA TRAMA, E FALAR UM POUCO DO GIGANTE E DO SALÃO BRANCO TAMBÉM! E QUAL O NÍVEL DE RELACIONAMENTO OU INTERAÇÃO ENTRE ESSES DOIS ESPAÇOS…

PERCOLATOR: Claro, claro! Já que você tocou no assunto, já vamos tirar isso do caminho: atente para uma coisinha: eu sou sócio do Gigante, é!… É, eu sou o cara!… Não, não, não adianta querer me gabar, esses fãs são um saco, vão atrás das declarações de qualquer personagem, confrontam o Lynch e o Mark Frost, também… Eventualmente entregariam minha egolatria, então eu me autocorrijo: o Gigante é hierarquicamente superior a mim. É como um deus ou entidade que contrabalança a existência de Judy, e tem seu próprio espaço, o adivinhado salão branco, que até acolhe bem mais pessoas do que o salão negro, e pode devolvê-las mais rápido… Garland Briggs, Bobby Briggs, Andy Brenan… O próprio Cooper… E tem mais: o Gigante pode ir ao salão negro quando quiser, vocês viram como isso é possível ao final da segunda temporada… Teoricamente o contrário também é possível, ou Judy não tentaria melar a reentrada do Cooper bonzinho no mundo real de novo, antes da imersão de yin-yang, i.e., dele com ele mesmo para ser o que ele sempre devera ter sido – um agente mais pragmático e menos ‘rosa’, menos otimista em relação ao futuro… Bom, tudo isso para dizer que eu vivo numa espécie de ‘espaço neutro’, mas eu tinha claramente um papel de mocinho no enredo!…

 

E FOI VOCÊ QUE DEU AQUELE TELEFONEMA AO BAD COOP?

PERCOLATOR: Ah, aquilo do episódio 2?! Nããão, aquilo não fui eu, não… Mas olha, eu não tenho um Doppelgänger, sabia?

 

(CARA ABORRECIDA) EU SABIA QUE VOCÊ NÃO TINHA UM DOPPELGÄNGER. ACHO QUE ISSO NUNCA PASSOU PELA CABEÇA DE NINGUÉM, PHILLIP… SE ME PERMITE SER MAIS ÍNTIMO.

(Platéia grita: ‘É… Ninguém…’ Leve burburinho depois.)

PERCOLATOR: Ah, à vontade! Nomes não são problemas, eh, eh! Gostaria até de me aprofundar mais nessa questão de nomes mais tarde, por favor, me lembre disso! Vou continuar com as explicações que remetem ao episódio 18:

Eu tenho um dom, que é a da viagem no tempo; obviamente só seres muito especiais podem ter acesso a esse meu dom, e por sua vez alterarem o passado… Com a MINHA ajuda… (Aqui alguns segundos se passam. Acho que o Percolator esperava ser calorosamente aplaudido.) (Pigarreada.) O que eu quero esclarecer é o momento da cena inaugural, daquela conversa “em código” entre Cooper e o Gigante… Ali ele estava no salão branco, mas ele não tinha autorização para sair do salão negro no primeiro episódio… Então você deve estar ciente que aquela cena aconteceu bem depois… Na verdade vou contar exatamente quando: assim que mandei Cooper para 1989…

 

MAS POR QUE ELE NÃO CAIU LOGO DE CARA EM 1989? POR QUE FOI PARAR NA SALA COM O GIGANTE?

PERCOLATOR: Ah, o Gigante é como Judy, entende? Ele está em todos os tempos… Isso não era problema para ele… Mas lembre-se que o nosso agente precisava de uma ajudinha, de um aconselhamento… Eu mesmo fui informado pelo Gigante em pessoa, então não era difícil para mim só mudar o ‘local’ de destino da viagem no tempo… Claro que Cooper já tinha o que era necessário para comparecer ao salão branco após eliminar, alegoricamente falando, seu eu do lado negro… Ahhh… e você deve saber por que raios o Gigante não podia ter essa conversa no black lodge… E aliás quase não puderam conversar direito no próprio white lodge… A verdade é que Judy pode penetrar nos domínios do Gigante, mas também não teria muito a ganhar com isso… Vê? Só para espionagem, isto é… Então Cooper foi avisado dos efeitos colaterais que viajar para ‘Odessa’ (é assim que vou chamar o mundo onde se passa o final da série, para ficar mais fácil de associar) acarretaria… Claro que nunca é tarde para informar que outra componente do plano ‘exterminação de Judy’ era Daiane… Mas nem Gordon Cole foi informado do real paradeiro dela, pois ela era um grande ás na manga e Cooper e o Gigante preferiram assim… O Gigante cuidou de tudo nesse ínterim, é por isso que Coop a reencontrou numa zona neutra, completamente disfarçada, no seu caminho de volta para esta realidade, no que ficou agora no cânone apenas como ‘sonho de Cooper’… Naido! Depois de cair sua “casca” na delegacia, Daiane se revelou, mas tem uma coisa diferente com ela, e isso vai nos causar confusão mais para a frente se eu não alertar todo mundo disso: Daiane não é como Laura ou Cooper, na verdade talvez seja… Talvez não… Sabe, confesso que nem eu posso entrar na cabeça do Lynch, mas, por ora, para não confundi-los, só direi: ela foi estuprada pelo maluco do Bad Coop no mínimo duas vezes, e fez aquela ‘dança afrodisíaca’ com o Good Coop esse mesmo número mínimo de vezes, como vocês devem ter interpretado por tabela vendo o episódio 18… E ela é a mais pessimista quanto ao ‘plano’… Não à toa, ela deixa tudo para o Cooper e dá no pé: aquele bilhete… Linda, Richard… Então é isso… Por que o Gigante avisou essas coisas ao Cooper precisamente nessa hora, se só precisava mesmo era falar do som da captura de Judy? Porque não interessa quando ele o fizesse, se meia hora antes, ou 25 anos antes… Estar onde Cooper e Daiane, e Laura, estavam… em Odessa… logo borraria todas as explicações… Mas também vou te dizer: existe uma ambigüidade na declaração do Gigante: ‘Você está longe…’ Podia ser porque no segundo seguinte o próprio Gigante (que é mais poderoso do que eu) enviou Cooper para os bosques de Twin Peaks, aproximando-o do alvo de sua missão em 1989… Mas podia ser por uma outra coisa. Não me deixe sair daqui sem esse esclarecimento, por favor!

 

MAS SR. PERCOLATOR, VOCÊ NÃO PODE IR A LUGAR NENHUM!

(Risos na plateia. De fato, ele não tem pernas!)

POR FAVOR, NÃO SE AFLIJA! CONTINUE DE ONDE TINHA PARADO!

PERCOLATOR: O tempo?

 

NÃO, NÃO, ACHO QUE JÁ ERA DEPOIS DISSO! VOCÊ TROUXE COOPER A 2016 ASSIM QUE ELE ‘FALHOU’ (COMO TODOS PREVIAM) NO RESGATE DE LAURA, NÃO?

PERCOLATOR: Na verdade, eu não usei mais a ‘máquina’… VOCÊ SABE QUANTO TEMPO DEMORA PARA CARREGAR AQUELA COISA QUE FAZ UM OITO DEITADO (SÍMBOLO DO INFINITO) E AÍ DEIXA O HÓSPEDE VIVO DO BLACK LODGE NUM OUTRO ANO?! CARA, AQUILO DEMORA PRA (BEEEEEEP)!!! (O bule se recompõe.) Após aquela cena tocante – em que Cooper vê seu braço suspenso no ar, abandonado – ser cortada por Lynch (como eu acho que você vai cortar meus palavrões na edição final dessa entrevista), Cooper, ou Kyle MachLachlan, como queira, de ‘mãos vazias’, caminhou de volta ao black lodge, só para ‘confirmar uma coisa’. Ele pôde apurar que Laura estava longe do black lodge agora, que Leland, sem BOB, mantinha a mesma aparência e ainda se lembrava de tudo, porque Cooper não podia retirar do salão negro quem já havia entrado, mesmo alterando o futuro e convertendo sua primeira realidade em sonho, porque, afinal, o black lodge está fora do tempo! Como eu dizia, Laura é ‘diferente’. Todo o resto aconteceu e não é reversível, isto é, da perspectiva do salão negro: Windom Earle, Annie, Maddy… O próximo passo era reencontrar Laura através das coordenadas do Gigante. E Cooper pôde confirmar mais uma coisa: Leland permanecia com a mesma cara. Ele não! Estava 25 anos mais velho, isto é, estava da mesma idade, não tinha ‘remoçado’ quando transportei ele e sua parceira no tempo. Mas para o que iam fazer, não fazia muita diferença… A par de tudo, portanto, como acabei de ‘entregar’, Daiane, que também apareceu nos bosques de Twin Peaks em 1989, se encaminhou como combinado para os sicômoros, em outras palavras para a porta do black lodge, a mesma usada por Cooper 25 anos antes (Espera, agora estou confuso: ou seria alguns dias ou semanas depois? Err…), numa excelente sincronia entre parceiros de FBI… Ainda que seja só uma secretária do Bureau… Agora era hora de seguir as instruções restantes do Gigante: 4 3 0…

 

ESPERA, COMO VOCÊ SABE QUE ELES SAÍRAM EM 1989? ISTO É, O GIGANTE PODERIA TÊ-LOS TRANSPORTADO DE VOLTA A 2016 MESMO SEM SEU CONHECIMENTO…

PERCOLATOR: Sim, sim, mas quem os transportou no tempo foi Judy…

 

VOCÊ TEM PROVAS?

PERCOLATOR: Na verdade, tenho uma: o carro do Cooper!

 

SÓ ISSO?

PERCOLATOR: Com certeza! Quer dizer, o carro é o fundamental… Mas se você notar que um andar não é construído num hotel de beira de estrada (hotel de posto, ainda por cima!) do dia pra noite… É, posso dizer que não havia muitos outros elementos para corroborar minha tese… Mas eu ainda sou o melhor que você tem!

 

POIS BEM, CONTINUE COM A CONFUSA CRONOLOGIA DOS FATOS…

PERCOLATOR: E então, além da quase-onisciência do Gigante, você quer saber por que o Cooper sabia tudo que sabia que deveria fazer e como tinha certeza factual que nem tudo tinha mudado mesmo sem poder comprová-lo pelo black lodge (pois Laura não estava mais lá)? Que ele deveria procurar uma mulher de meia idade, e não uma jovem de 17 anos em Odessa?

 

JÁ IMAGINO DO QUE QUEIRA FALAR…

PERCOLATOR: Isso, dos sussurros! O grande segredo da primeira temporada foi cochichado no ouvido de Cooper num sonho… Isso não impediu os autores de prolongarem o mistério de ‘Quem matou Laura Palmer?’ por mais bastantes episódios… Eis que Laura 25 anos mais velha cochichou de novo no ouvido de Cooper, mas dessa vez no verdadeiro black lodge, e cochichou uma outra coisa, cochichou sobre…

 

JUDY!

PERCOLATOR: Exatamente! Olha, eu não sei o que ela falou, literalmente, mas eu posso te oferecer versões que são mais ou menos exatas…

1) Você pode ir quando puder me encontrar em Odessa.

2) Você pode ir quando eu não estiver mais aqui (no black lodge).

3) Você pode ir quando puder matar dois coelhos com uma cajadada só.

4) Você pode ir quando houver se reunido com seu lado negro.

5) Você já, já pode ir, mas saiba que nós dois vamos matar Judy juntos e morrer!

6) Você pode ir, e juntos vamos matar Judy, mas Judy nos matará – é um bom trato, que acha?

7) Judy agora é minha mãe!

8) Eu posso matar Judy, lembra? Eu e você somos sacrifícios—

 

SENHOR PERCOLATOR…

PERCOLATOR: Pra quê a formalidade?! Ainda vai ficar usando ‘sr.’ para falar comigo?

 

MUITO BEM, PERCOLATOR… DESCULPE INTERROMPER SEU ROTEIRO, MAS VOCÊ NÃO ACHA QUE COM UNS 10 PALPITES DESSES UMA HORA IRIA ACERTAR EM CHEIO? QUER DIZER, NÃO É COMO JOGAR DUCK HUNT COM A PISTOLA GRUDADA NA TELA?

PERCOLATOR: (Risos) Sei o que isso parece, mas…mas não é bem assim… Eu confesso que ia dar 10 palpites, número redondo, mas agora não importa. Não é que os outros 9 tiros são desperdiçados… É tudo parte de um tiroteio maior…TODAS AS FRASES ESTÃO CORRETAS. É um mosaico. A imagem total só pode ser enxergada com a composição de todas essas frases.

 

AH BOM!

PERCOLATOR: Então, vou ‘chutar’ só mais um, mas este não foi, com certeza, porque demoraria mais para ser cochichado do que vemos Laura na tela com Cooper. Nem por isso é um palpite menos importante:

9) É impossível me levar para o white lodge. Eu já cumpri minha missão. Mas tudo bem, você esquecerá disso, aprecio seu caráter e esforço para reverter as coisas – isso é a vida! Eu me orgulho de você.

E confesso francamente que essa seria a única confissão de Laura que faria o destemido agente especial Cooper ficar pasmo do jeito que ficou!

Em outras palavras, a Rabbit Hunt exige muitos tiros, todos precisos, mas disparados à distância… saindo da toca do coelho!… Alice… Tremond… Chauf—

 

OLHA, ESSA ÚLTIMA VERSÃO DO COCHICHO DA LAURA PALMER ESTÁ MUITO MAIS PESSIMISTA QUE AS DEMAIS. PODE NOS EXPLICAR ESSA CONTRADIÇÃO?

PERCOLATOR: Só quando eu terminar minha explicação!

 

ENTÃO, TÁ!

PERCOLATOR: Em resumo, Cooper sabia que Laura apareceria da mesma idade (envelhecida) no ‘outro universo’, em Odessa. E que não era aquela mesma moça que resgatou da morte em 1989, mas, sem tirar nem pôr, a entidade que mostrou ‘sua verdadeira face’ a Cooper dentro do black lodge… E que, portanto, ainda havia sofrido tudo o que sofreu nas mãos de BOB. Sabe de outra coisa? Como você interpreta aquele sumiço espantoso de Laura Palmer no início da terceira temporada?

 

BOM, JÁ OUVI DE TUDO… ALGUNS DIZEM QUE É PARA ASSINALAR QUE “O QUE VOCÊS VÃO VER NOS PRÓXIMOS 17 EPISÓDIOS NUNCA ACONTECEU, OU – NÃO TEM IMPORTÂNCIA NENHUMA! – ATÉ LÁ, NADA DE LAURA!” – MAS EU PESSOALMENTE COMEÇO A VER QUE O PREÇO QUE COOPER TEVE DE PAGAR PELO SEU ‘DOM DE CONVERTER O REAL EM SONHO’ FOI PESADO DEMAIS ATÉ PARA ELE…

PERCOLATOR: Ah, um homem erudito, outrossim! É bom saber que mesmo que eu tivesse um piripaque neste instante, parece que você mesmo já ia poder explicar para todas essas pessoas, lendo avidamente, todas as minhas idéias!!! Você lê muito rápido nas entrelinhas… Parece até que você É meu Doppelgänger

(Risadas da plateia.)

 

ESSA PIADA FOI INTENCIONAL?

PERCOLATOR: Posso ser honesto?

 

DEVE.

PERCOLATOR: Não!

(Risadas mais estrepitosas de todos.)

 

ACHO QUE SEU DOPPELGÄNGER SERIA UM…

PERCOLATOR: …péssimo stand-up comedian!

 

ISSO.

PERCOLATOR: Vou daqui, De Cílaga… Cof, cof… Agora que você entende a tragédia da situação do Cooper, sigamos com a parte 18, e depois a gente explica pra esse pessoal ignorante o que significa a Laura ter sumido de repente também em 2016, quer dizer, no black lodge, onde não é passado mas também não é futuro…

Daiane tenta convencer Cooper a não ‘fazer isso’, ou esse é o jeito singelo dela mandar quem ela ama ‘ir se ferrar’… porque sabe que essa decisão é irreversível… E tediosa, pois já tomada inú—

 

VOCÊ VAI ESTRAGAR TUDO!

PERCOLATOR: Ah, é verdade! Às vezes eu nem me atento… Bom, então, Daiane sabia que Cooper ia fazer o que ele ia fazer, porque ela sabe prever o futuro…

 

TAMBÉM NÃO PRECISA APELAR E TRATAR TODO MUNDO COMO UM BANDO DE BURRO…

PERCOLATOR: Bem, digamos que uns são mais teimosos e outros mais resignados. Eu diria que a Daiane é BEM resignada… Mas nem por isso ela deixaria de viajar com ele para as coordenadas 430, onde conseguiriam adentrar uma ‘realidade embaralhada’, com certas características especiais, que podiam favorecer ou atrapalhar Cooper (atrapalhar: porque o Gigante não poderia mais ajudá-lo; ajudar: porque esta é a última dimensão, a dimensão-gaiola, ou, como vou explicar mais adiante, um BLACK LODGE AMPLIADO). E Daiane também não deixaria de fazer o ritual do acasalamento de novo com Cooper… Digo, ah, hum, (limpada na garganta) pela primeira vez!

Aliás, não sei se é uma boa regra ou lei de decodificação de séries difíceis com outros diretores, mas com Lynch, se algo se REPETE, principalmente numa série com DOPPELGÄNGERS… Pode confiar, meu caro! Aquilo é central na interpretação… É… Depois que soubemos que Judy é uma ENTIDADE TARADA (me refiro a Sam e Tracy), ficou fácil de saber como os dois seriam chupados para onde está Laura, porque Laura está com Judy… Ou perto o suficiente de Judy, de qualquer maneira… no mesmo país de proporções continentais! Enfim, depois que Laura e Cooper fizeram sexo… Perdão, agora sou eu a trocar nomes, será que Judy mexeu com minhas recordações?! Depois que Daiane e Cooper atraíram a força negativa com que o FBI vinha se preocupando há muito tempo, a ponto de considerar BOB um epifenômeno inofensivo… Bem, aí eles são puxados por Judy para o futuro, a forma mais econômica que ela tinha de embaralhar a memória dos visitantes indesejados da sua ‘gaiola’… Ao sair do motel, Cooper descobre um prédio diferente, com um carro diferente. Tudo indica que ele está em 2016 em Odessa… Mas, se quer saber, essa especulação é um tanto inútil… Lembre-se que tudo pode ser artifício e que, bem, no black lodge o tempo não importa!

 

UMA FALA E TANTO, PERCOLATOR! AGORA PROGREDIMOS BASTANTE… EU QUERIA INTERROMPER ANTES, MAS FUI VENDO ONDE SUA RESPOSTA IA DAR… AQUILO SOBRE A GAIOLA… ALGUMA BASE OU INTUIÇÃO?

PERCOLATOR: Minha base é que Bad Cooper foi parado pelo Gigante quando ele acessou as “coordenadas corretas” através de uma gaiola do white lodge… Não me entendam mal, eu não creio que Odessa seja o white lodge… Mas o Gigante está no controle da situação agora… Ele só não pode fazer tudo sozinho, precisa de elementos humanos que terminem o plano… Ele tem uma gaiola de força para conter Judy até o momento decisivo, eu não sei dizer se essa gaiola é Odessa (digo, o universo inteiro para onde Cooper e Daiane migraram) ou apenas a casa dos Palmers. Mas mais do que ver uma gaiola expulsando o Bad Coop e encaminhando-o para a delegacia no episódio 17, minha maior pista é a seguinte, Cila. Vamos brincar de embaralhar nomes!

Laura Page – Carrie Palmer

merge fusão

Isso foi meu ‘demonstrativo’: que este universo é uma espécie de síntese dos que já conhecemos. Mas o principal para sua pergunta seria:

Carrie Page

E, se quer saber, parry também indica que o melhor ataque é a defesa… Mullins não venceria Judy no auge, acredite em mim! Primeiro você confina seu inimigo às cordas, ou a um espaço-tempo de que sabe que ele não vai sair, e então você faz algo indireto que o derrota…

 

AH, ENTENDO! CONTINUE, ESTOU BASTANTE INTERESSADO…

PERCOLATOR: Depois de Cooper acordar no hotel, já não tem muito o que falar. Podemos dar fast-forward até a cena derradeira…

Laura, i.e., Carrie, pressente a ligação daquele funesto lugar com todo o seu passado problemático, mas ainda não encontra o que dizer, como reagir… Inadvertidamente, Cooper solta a frase, ‘Em que ano estamos?’ – que era o gatilho para a reação em cadeia que o Gigante queria…

What year is it? Você quer que eu responda?

 

POR FAVOR.

PERCOLATOR: No one!

 

AH, QUE GRANDE PEDAÇO DE INFORMAÇÃO, PERCOLATOR!

PERCOLATOR: Você quer mais uma tão importante quanto esta?

 

MANDA VER! (ESPERO QUE EU NÃO ME ARREPENDA DESSA VEZ…)

PERCOLATOR: A moça drogada estava em SP: (11) 9…

 

PERCOLATOR: A propósito, eu preferia que fosse “Roger & Linda” a Richard e Linda!

 

E POR QUÊ?

PERCOLATOR: Lembra do meu supermétodo? Ro-da; lin-ger. Duas coisas que parecem acontecer aqui em Twin Peaks: O Retorno!

 

PERCOLATOR: Mas olha, Richard também ficou legal: Lin(LYN)ch….are

 

SAIA DO MEU PROGRAMA AGORA!!!

PERCOLATOR (ignorando): Also… Linda não te parece uma inversão silábica de Dale?!

 

…SENHOR… EVIDENTEMENTE O SENHOR DESENVOLVEU UMA MONOMANIA POR JOGOS LINGÜÍSTICOS!!

PERCOLATOR: Ah, vai, admita! Essas provas são mais consistentes do que as que você vê por aí na internet… tomada 3, tomada 15? Dicas de episódios?! Cooper sequer desperta no episódio 15! A chave do Great Northern era 315! Enfim, melhor ser lingüista do que numerologista!

 

QUE SEJA! CONFESSO QUE A COISA DO “MERGE” ME SOOU BEM ENGENHOSA…

PERCOLATOR: E então, quer que eu termine? Laura se recorda da contradição que está no ar e seu grito de angústia “agride” a eletricidade de Odessa (o mundo em que estão), sobretudo parece causar um curto-circuito na casa onde está Judy… Mas algo dá errado… Judy parece operar uma espécie de reset de seguro antes que a missão suicida estivesse cumprida… Isso vai explicar muitas pontas soltas da entrevista: Cooper volta, senão ao seu encontro com o Gigante, à própria entrada do black lodge ou o que vocês chamam de red room, sem lembrar de nada! Isso sim é pior do que a morte, não acha? Talvez Coop seja um fantasma condenado à imortalidade, e o que é pior, cíclica e ignorante, até o fim dos tempos!

Talvez Judy seja invencível… Só que nem o Gigante sabe disso. Ele acha que após um número infindável de tentativas, Coop poderá obter o êxito, pois cada vez que Odessa é conjurada as coisas se desenrolam de um jeito minimamente diferente… “Você está longe…”… Coop, ainda mais ignorante, posto que não é, de origem, uma entidade atemporal, sempre tem fé no seu próprio taco, e sempre fracassa. O Gigante, que percebe o ciclo do tempo, fora das dimensões, ainda se mantém otimista, após cada fracasso de Coop. Eis a alegoria de Sísifo em nova forma. É preciso continuar tentando. Para o Gigante, indiretamente. Para Coop, diretamente, como o herói da história. O que aconteceria se Judy pudesse ser vencida? A realidade em que ela se aloja se autodestruiria, exatamente como acontece todas as vezes em que Coop falha em sua missão. A diferença seria que Judy jamais voltaria a habitar qualquer outra realidade!

 

PERCOLATOR—

PERCOLATOR: No fim, supervalorizamos a dicotomia sucesso x fracasso: quando a vida é um jogo de perde-perde, na verdade se torna indistinto perder ou ganhar; perder perde a conotação ruim. Tanto faz lutar até o fim com bravura ou saber a hora exata de jogar a toalha: ambas são formas nobres de existência, reações humanas, as únicas conhecidas e possíveis. A realidade é perfeita em si mesma. Não esqueçamos que não só enquanto processo isso é válido, mas que também enquanto fim nada acontece de diferente, e isso não precisa nos envergonhar: afinal, tudo terminará da mesma maneira. Longe de ser um conformismo, no sentido pejorativo, é apenas a velha filosofia presente em cada dia do homem: memento mori.

 

MAS SE NÃO É A DILMA!

PERCOLATOR: Bom, me deixei levar pelo discurso!

 

QUE BOM QUE VOLTOU A SI… VOCÊ ACREDITA MESMO NISSO? NOSSA, NÃO PENSEI QUE CHEGARÍAMOS A TANTO, E NOSSA ENTREVISTA ACABARIA COMIGO TENDO CALAFRIOS!

PERCOLATOR: Bom… Se eu acredito nessa coisa de ciclo eterno em que se enredou o pobre Cooper (e mais alguém)?!?

ERA BRINCADEIRA! É assim que eu QUERIA que terminasse, porque odeio happy endings! Mas creia-me, Paulra Cage com aquele grito de banshee realmente estourou tudo e destruiu Jowday!

 

EU JÁ NEM DOU CRÉDITO A SUAS PLOT TWISTS, MEU CARO.

PERCOLATOR: Embora, (tom sombrio na voz) a teoria de que Cooper vem tentando há muito tempo (E pode ser que essa que assistimos seja a última vez, aquela em que conseguiu, finalmente – por que não? Uma mescla das duas meta-teorias?!) se justifica porque é a única que explica a segunda Daiane Evans na porta do motel, e seu receio descabido de que Cooper atravesse para Odessa (que inclusive se parece muito com a palavra Odissey…).

 

NÃO VAMOS COMEÇAR DE NOVO, NÃO É???

PERCOLATOR: Com o quê?

 

VOCÊ SABE!

PERCOLATOR: Eu te perguntei isso?

 

VAMOS, VAMOS, PERCOLATOR! OS FÃS DE TWIN PEAKS TÊM UM LONGO DIA PELA FRENTE, E NOSSA ENTREVISTA TAMBÉM TEM LIMITE DE TEMPO! MAS, PARA BANCAR O ADVOGADO DO DIABO DA SUA ‘HIPÓTESE EXTREMA’, E SE A DAIANE SÓ TEVE UMA ALUCINAÇÃO E VIU UM TULPA SAIR DE TRÁS DA PILASTRA DO POSTO, DEVIDO AO ESTRESSE EM QUE SE ENCONTRAVA?

PERCOLATOR: Ora, é possível!… Você disse que estamos com os minutos contados, quanto tempo ainda temos?

 

MENOS DO QUE COOPER TEVE NAQUELA SALA NA DELEGACIA PARA SE DESPEDIR DE SEUS AMIGOS! EU GOSTARIA DE TE AGRADECER PELA DISPONIBILIDADE, POR SAIR UM POUCO DE SUA ZONA NEUTRA E NOS ELUCIDAR NESTES MISTÉRIOS! EU JÁ NÃO SEI MAIS NO QUE ACREDITAR: NO SUCESSO OU NO FRACASSO DO AGENTE COOPER. VOCÊ PLANTOU UMA MINHOCA NA MINHA CABEÇA! SEE YOU LATER, PERCOLATOR!

PERCOLATOR: Eu que agradeço imensamente a concessão deste nobre tempo-espaço! (Risos da plateia) Quando sair, não apague a luz: eu não vou a lugar nenhum!

 

SAGRADA FAMÍLIA

Republicado

Não estamos satisfeitos com aquilo que nós temos

a não ser quando o perdemos

e depois o reavemos

De certo modo,

é um querer viajar

até o ponto do saturar

para em seguida tecer o voltar

Eterna saudade

do que precisa ser superado

Enquanto eu quero viver

o cristão só pensa em morrer

para descobrir o que vem depois

A sina está feita

quando se descobre

que o rabo da cobra

era a cabeça!

Infância

Mil ressurreições

A deposição

do ressentimento

de qualquer cristão

Vingança

qualquer anti-semita delineia

mas a minha

não é contra o espelho

nem avessa a minhas veias

Onde corre sangue

e não a metafísica hobbesiana

do judeu exangue

Deus Mamon, deus-dinheiro

O umbigo mais profundo

O sofista mais infecundo

O carnaval da elite

é pagão

Faz ajoelhar até

o chão

Típico valor

de pedra

Esse de se curvar diante de

uma reza

Eu voo

Porque seus pontos cegos

são mais cegos que os meus

O JORRO D’ÁGUA

De 28-03-2009

Do bebedouro ou do tonel

Por que essa explosão?

No meio da noite

A mulher distante se avizinha

O dinheiro se reaninha

O ouvido amigo se dilata

Para ouvir a queixa

de um lamuriado

Quer que batam,

mas se sente injustiçado

Lei da compensação?

Porque a aflição e o afeto

são como o vírus que

cristaliza

no ar

e de repente

com um sopro

vibra

CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE & NOVAS CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE

-Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse-

P. 2548 das Obras Completas em Português (no volume XV)

Em verde: trechos execráveis.

Esta obra teve uma circulação maior do que qualquer outra obra de Freud, com exceção, talvez, de The Psychopathology of Everyday Life. Também se distingue pela quantidade de erros de impressão nela existentes. Como ficou assinalado acima, quarenta foram corrigidos na segunda edição; porém havia ainda muitos mais, e pode ser observado um número considerável de pequenas variações no texto das diversas edições. A presente tradução inglesa segue o texto dos Gesammelte Werke, que é, de fato, idêntico ao texto dos Gesammelte Schriften; e somente foram registradas as discordâncias mais importantes das primeiras versões.”

As conferências publicadas neste livro foram proferidas por Freud em dois períodos de inverno sucessivos, durante a Primeira Guerra Mundial: 1915-16 e 1916-17.”

Em seu prefácio às New Introductory Lectures, há pouco citado, Freud nos refere que a primeira metade da série atual, a série inicial, ‘foi improvisada e escrita logo depois’, e que ‘esboços da segunda metade foram feitos durante as férias do verão intermediário, em Salzburg, e passados para o papel, palavra por palavra, no inverno seguinte’ [mentiroso]. Acrescenta que, naquela época, ‘ainda possuía o dom de uma memória fotográfica’, pois, por mais cuidadosamente que suas conferências pudessem ter sido preparadas, na realidade, invariavelmente, as proferia de improviso, e geralmente sem anotações. Existe concordância geral no tocante à sua técnica de dar conferências: que ele nunca era retórico [nada mais diferente do que estão prestes a ler…] e que seu tom era sempre o de uma conversação tranqüila e mesmo íntima. Contudo, não se deve supor, por isso, que houvesse algo de desleixo ou desordem nessas conferências. Elas quase sempre tinham uma forma definida – início, meio e fim – e podiam, freqüentemente, dar ao ouvinte a impressão de possuírem uma unidade estética.”

Freud se socorreu evidentemente das conferências como método de expor suas opiniões, mas apenas sob uma condição particular: ele devia estar em vívido contato com seu auditório real ou suposto. Os leitores do presente volume descobrirão como é constante Freud manter esse contato – quão regularmente ele coloca objeções na boca de seus ouvintes, e quão freqüentemente existem debates imaginários entre ele e seus ouvintes. [pois isso é que é ser ultra-retórico, e extremamente enfadonho!] Na verdade, ele estendia esse método de formular suas exposições a alguns de seus trabalhos que absolutamente não são conferências: a totalidade de The Question of Lay Analysis (1926e) e a maior parte d’O Futuro de uma Ilusão (1927c) tomaram a forma de diálogos entre o autor e um ouvinte que faz críticas.” E ‘o futuro de uma ilusão’ é talvez o livro mais chato de F. que eu já lera depois deste aqui…

As Conferências Introdutórias podem ser verdadeiramente consideradas como um inventário das conceituações de Freud e da posição da psicanálise na época da Primeira Guerra Mundial. As dissidências de Adler e Jung já eram história passada, o conceito de narcisismo já tinha alguns anos de vida, [isso não impede o recalque de F. de sempre citá-los pejorativamente durante as conferências] o caso clínico do ‘Wolf Man’, que marcou época, tinha sido escrito (com exceção de 2 passagens) um ano antes do começo das conferências, embora não fosse publicado senão mais tarde. E, também, a grande série de artigos ‘metapsicológicos’ sobre a teoria fundamental tinha sido ultimada alguns meses antes, ainda que apenas 3 deles tivessem sido publicados. (Mais 2 deles surgiram logo após as conferências, porém os 7 restantes desapareceram sem deixar vestígio.)”

Em nenhuma outra parte fornece tão claro resumo da formação dos sonhos como nas últimas páginas da Conferência XIV. Sobre as perversões, não há comentários mais inteligíveis do que aqueles encontrados nas Conferências XX e XXI.”

* * *

PRIMEIRA CONFERÊNCIA

Da maneira como estão as coisas, no momento, tal escolha de profissão arruinaria qualquer possibilidade de obter sucesso em uma universidade, e, se começou na vida como médico clínico, iria encontrar-se numa sociedade que não compreenderia seus esforços, que o veria com desconfiança e hostilidade e que despejaria sobre ele todos os maus espíritos que estão à espreita dentro dessa mesma sociedade.” Citando seu ex-discípulo favorito Jung?

CIGANO SEDUTOR! “Na própria psiquiatria, a demonstração de pacientes, com suas expressões faciais alteradas, com seu modo de falar e seu comportamento, propicia aos senhores numerosas observações que lhes deixam profunda impressão. Assim, um professor de curso médico desempenha em elevado grau o papel de guia e intérprete que os acompanha através de um museu, enquanto os senhores conseguem um contato direto com os objetos exibidos e se sentem convencidos da existência dos novos fatos mediante a própria percepção de cada um.”

A CAIXA PRETA DA PSEUDANÁLISE: “A conversação em que consiste o tratamento psicanalítico não admite ouvinte algum; não pode ser demonstrada. Um paciente neurastênico ou histérico pode, naturalmente, como qualquer outro, ser apresentado a estudantes em uma conferência psiquiátrica. Ele fará uma descrição de suas queixas e de seus sintomas, porém apenas isso. As informações que uma análise requer serão dadas pelo paciente somente com a condição de que ele tenha uma ligação emocional especial com seu médico; ele silenciaria tão logo observasse uma só testemunha que ele percebesse estar alheia a essa relação. Isso porque essas informações dizem respeito àquilo que é mais íntimo em sua vida mental, a tudo aquilo que, como pessoa socialmente independente, deve ocultar de outras pessoas, e, ademais, a tudo o que, como personalidade homogênea, não admite para si próprio.”

O resultado da pesquisa sem dúvida lhes traria uma confirmação, no caso de Alexandre; no entanto, provavelmente seria diferente quando se tratasse de personagens como Moisés ou Nemrod.”

CONVENIENTEMENTE, FAÇAM O QUE EU DIGO, MAS ESQUEÇAM TUDO QUE EU FIZ: “Mas os senhores têm o direito de fazer outra pergunta. Se não há verificação objetiva da psicanálise nem possibilidade de demonstrá-la, como pode absolutamente alguém aprender psicanálise e convencer-se da veracidade de suas afirmações? É verdade que a psicanálise não pode ser aprendida facilmente, e que não são muitas as pessoas que a tenham aprendido corretamente. Naturalmente, porém, existe um método¹ que se pode seguir, apesar de tudo. Aprende-se psicanálise em si mesmo, estudando-se a própria personalidade. Isso não é exatamente a mesma coisa que a chamada auto-observação, porém pode, se necessário, estar nela subentendido. Existe grande quantidade de fenômenos mentais, muito comuns e amplamente conhecidos, que, após conseguido um pouco de conhecimento da técnica,¹ podem se tornar objeto de análise na própria pessoa. Dessa forma, adquire-se o desejado sentimento de convicção da realidade dos processos descritos pela análise e da correção dos pontos de vista da mesma.¹ Não obstante, há limites definidos ao progresso por meio desse método. A pessoa progride muito mais se ela própria é analisada por um analista experiente e vivencia os efeitos da análise em seu próprio eu (self),² fazendo uso da oportunidade de assimilar de seu analista a técnica mais sutil do processo. Esse excelente método é, naturalmente, aplicável apenas a uma única pessoa³ e jamais a todo um auditório de estudantes reunidos.”

¹ Sempre palavras vazias, que nunca são fundamentadas em toda sua obra.

² O monopólio de saber do especialista – BAM!

³ Veja como toma-se o cuidado de aumentar ao máximo a quantidade e gravidade das restrições para aquisição do “grande método ou técnica infalível e bastante seleta”!

A educação que receberam previamente deu uma direção particular ao pensar dos senhores que conduz para longe da psicanálise. Foram formados para encontrar uma base anatômica para as funções do organismo e suas doenças, [fala aqui dele mesmo] a fim de explicá-las química e fisicamente e encará-las do ponto de vista biológico. Nenhuma parte do interesse dos senhores, contudo, tem sido dirigida para a vida psíquica, onde, afinal, a realização desse organismo maravilhosamente complexo atinge seu ápice. Por essa razão, as formas psicológicas de pensamento têm permanecido estranhas aos senhores. Cresceram acostumados a encará-las com suspeita, a negar-lhes a qualidade científica, a abandoná-las em poder de leigos, poetas, filósofos naturalistas e místicos.”

NÃO É PORQUE A PSICANÁLISE É UMA FRAUDE QUE A PSIQUIATRIA DINÂMICA, SUA ARQUI-INIMIGA, TAMBÉM NÃO SERIA! “É verdade que a psiquiatria, como parte da medicina, se empenha em descrever os distúrbios mentais que observa, e em agrupá-los em entidades clínicas; porém, em momentos favoráveis os próprios psiquiatras duvidam de que suas hipóteses puramente descritivas mereçam o nome de ciência. Nada se conhece da origem, do mecanismo ou das mútuas relações dos sintomas dos quais se compõem essas entidades clínicas; ou não há alterações observáveis, no órgão anatômico da mente, que correspondam a esses sintomas, ou há alterações nada esclarecedoras a respeito deles.”

EM OUTROS TERMOS, VIVA A PSICOLOGIA!, MAS NÃO NECESSARIAMENTE A MINHA PSICOLOGIA: “Essa é a lacuna que a psicanálise procura preencher. Procura dar à psiquiatria a base psicológica de que esta carece. Espera descobrir o terreno comum em cuja base se torne compreensível a conseqüência do distúrbio físico e mental.”

A primeira dessas assertivas impopulares feitas pela psicanálise declara que os processos mentais são, em si mesmos, inconscientes e que de toda a vida mental apenas determinados atos e partes isoladas são conscientes.”

Essa segunda tese, que a psicanálise apresenta como uma de suas descobertas, é uma afirmação no sentido de que os impulsos instintuais que apenas podem ser descritos como sexuais, tanto no sentido estrito como no sentido mais amplo do termo, desempenham na causação das doenças nervosas e mentais um papel extremamente importante e nunca, até o momento, reconhecido.”

A sociedade acredita não existir maior ameaça que se possa levantar contra sua civilização do que a possibilidade de os instintos sexuais serem liberados e retornarem às suas finalidades originais.”

Mas não se preocupem: isto que lhes ensino não detonará a vossa boa sociedade pelos ares! É como se dissesse…

SEGUNDA CONFERÊNCIA

Escolhamos como tema determinados fenômenos muito comuns e muito conhecidos, os quais, porém, têm sido muito pouco examinados e, de vez que podem ser observados em qualquer pessoa sadia, nada têm a ver com doenças. São o que se conhece como ‘parapraxias’, às quais todos estão sujeitos.”

nenhum pardal cai do telhado sem a vontade de Deus.”

Descobrimos que as parapraxias desse tipo e o esquecimento dessa espécie ocorrem em pessoas que não estão fatigadas ou distraídas ou excitadas, mas que estão, sob todos os aspectos, em seu estado normal – a menos que decidamos atribuir ex post facto às pessoas em questão, puramente por conta de suas parapraxias, uma excitação que, entretanto, elas mesmas não comportam.”

Um teimoso erro de impressão dessa espécie, segundo se conta, certa vez esgueirou-se para dentro de um jornal social-democrata. A notícia que dava de uma cerimônia incluía as palavras: ‘Entre os que estavam presentes, podia-se notar Sua Alteza o Kornprinz.’ No dia seguinte, fez-se uma tentativa de correção. O jornal pedia desculpas e dizia: ‘Devíamos, naturalmente, ter dito <o Knorprinz>.’ Em tais casos, as pessoas falam de um ‘demônio dos erros de impressão’ ou um ‘demônio da composição tipográfica’ – expressões que, pelo menos, vão além de qualquer teoria psicofisiológica dos erros de impressão.”

Tinha sido confiado a um estreante dos palcos o importante papel, em Die Jungfrau von Orleans (Schiller), do mensageiro que anuncia ao rei de ‘der Connétable schickt sein Schwert zurück [o Condestável devolve sua espada]’. Um primeiro ator divertia-se, durante os ensaios, com induzir repetidamente o nervoso jovem a dizer, em vez das palavras do texto: ‘der Komfortabel schickt sein Pferd zurück [o cocheiro devolve seu cavalo]’. Conseguiu seu intento: o desventurado principiante realmente fez sua estréia na representação com a versão corrompida, apesar de haver sido admoestado de não fazê-lo, ou, talvez, porque tenha sido admoestado.” Scharr spieler, Schauspieler

Dois escritores, Meringer e Mayer (um, filólogo, o outro, psiquiatra), de fato tentaram, em 1895, atacar o problema das parapraxias por esse ângulo. Coligiram exemplos e começaram por abordá-los de maneira puramente descritiva. Isso, naturalmente, até aqui não oferece nenhuma explicação, embora possa preparar o caminho para alguma. Distinguem os diversos tipos de distorções que o lapso impõe ao discurso pretendido, como ‘transposições’, ‘pré-sonâncias (antecipações)’, ‘pós-sonâncias (perseverações)’, ‘fusões (contaminações)’ e ‘substituições’. Eu lhes darei alguns exemplos desses principais grupos propostos pelos autores. Um exemplo de transposição seria dizer ‘a Milo de Vênus’ em vez de ‘a Vênus de Milo’ (transposição da ordem das palavras); um exemplo de pré-sonância seria: ‘es war mir auf der Schwest… auf der Brust so schwer’; e uma pós-sonância seria exemplificada pelo conhecido brinde que saiu errado: ‘Ich fordere Sie auf, auf das Wohl unseres Chefs aufzustossen’ (em vez de ‘anzustossen’). Essas três formas de lapso de língua não são propriamente comuns. Os senhores encontrarão exemplos muito mais numerosos, nos quais o lapso resulta de contração ou fusão. Assim, por exemplo, um cavalheiro dirige-se a uma senhora na rua com as seguintes palavras: ‘Se me permite, senhora, gostaria de a begleit-digen.’ A palavra composta que se juntou a ‘begleiten [acompanhar]’ evidentemente escondeu em si ‘beleidigen [insultar]’.”

A explicação em que esses autores tentaram basear sua coleção de exemplos, é especialmente inadequada. Acreditam que os sons e as sílabas de uma palavra têm uma ‘valência’ determinada, e que a inervação de um elemento de alta valência pode exercer uma influência perturbadora em outro de menor valência. Com isso, estão evidentemente se baseando nos raros casos de pré-sonância e pós-sonância; essas preferências de uns sons a outros (se é que de fato existem) podem não ter absolutamente qualquer relação com outros casos de lapsos de língua. Afinal, os lapsos de língua mais comuns ocorrem quando, em vez de dizermos uma palavra, dizemos uma outra muito semelhante; e essa semelhança é, para muitos, explicação suficiente de tais lapsos. Por exemplo, um professor declarou em sua aula inaugural: ‘Não estou geneigt [inclinado] (em vez de geeignet [qualificado]) a valorizar os serviços de meu mui estimado predecessor.’ Ou então, outro professor observava: ‘No caso dos órgãos genitais femininos, apesar de muitas Versuchungen [tentações] – me desculpem, Versuche [tentativas] ….’”

Um presidente da câmara dos deputados de nosso parlamento certa vez abriu a sessão com as palavras: ‘Senhores, observo que está presente a totalidade dos membros, e por isso declaro a sessão encerrada.’” “O presidente não esperava nada de bom da sessão e ficaria satisfeito se pudesse dar-lhe um fim imediato.” Suposição vazia.

E não seria de surpreender se tivéssemos mais a aprender sobre lapsos de língua com escritores criativos, do que com filólogos e psiquiatras.”

Lento, muito lento…

TERCEIRA CONFERÊNCIA

E talvez pudéssemos encontrar uma saída acompanhando o filósofo[-psicólogo] Wundt, quando diz que os lapsos de língua surgem se, em conseqüência de exaustão física, a tendência a associar prevalece sobre aquilo que a pessoa tenciona dizer.” Poeta cansado.

Empilha vários exemplos anônimos, provavelmente falsos (além de chulos).

Essa opinião, porém, não é sustentada apenas por nós, psicanalistas; é opinião geral, aceita por todos em sua vida diária e negada somente quando se torna teoria.”

Os senhores não terão dúvida em achar inacreditável que nós próprios podemos desempenhar um papel intencional em coisa tão freqüente como o é o doloroso acidente de perder algo.”

QUARTA CONFERÊNCIA

EXEMPLO DE RETÓRICA VAZIA: “prova da existência de determinado propósito não é argumento contra a existência de um propósito oposto; há lugar para ambos. É apenas uma questão de saber como se colocam esses contrários”

QUINTA CONFERÊNCIA

Não me levem a mal: ainda acho que a ‘onirologia’ freudiana é sua melhor parte, a ponta de iceberg ainda não submergida no nonsense escolástico atual. No entanto, continuará havendo trechos grifados em verde, devido à exposição ‘sofística’ do ‘Professor’…

VERBETE ENCICLOPÉDICO FABRICADO PARA UMA HISTÓRIA TOTALMENTE PESSOAL: “Um dia descobriu-se que os sintomas patológicos de [MEUS] determinados pacientes neuróticos têm um sentido. Nessa descoberta fundament[ei]ou-se o método psicanalítico de tratamento [meu método]. Acontecia que no decurso desse tratamento os [meus] pacientes, em vez de apresentar seus sintomas, apresentavam sonhos. Com isso, surgiu a suspeita [eu suspeitei] de que também os sonhos teriam um sentido.” Se o método fosse rigoroso, não haveria a necessidade de “terceirizar” a grande descoberta. O método não pode ser replicado a não ser pelo “Pai” da “““Ciência”””. Além disso, há autores mais pioneiros que F. na onirologia, mas eles não receberam o devido crédito (foram inclusive consultados por F. enquanto elaborava sua Interpretação dos sonhos).

Traz consigo a reprovação geral de não ser científico e desperta a suspeita de uma inclinação pessoal pelo misticismo. Imaginem um profissional da medicina dedicando-se a sonhos, quando há tantas coisas mais sérias, mesmo na neuropatologia e na psiquiatria: tumores da dimensão de maçãs comprimindo o órgão da mente, hemorragias, inflamação crônica, onde, em todos, as alterações dos tecidos podem ser demonstradas ao microscópio!”

QUANDO A HONESTIDADE É USADA COMO FERRAMENTA PRELIMINAR DA ORATÓRIA POSTERIOR: “Via de regra, não se pode fazer nenhum relato de sonhos. Se alguém faz um relato de um sonho, existe alguma garantia de que seu relato foi correto, ou, pelo contrário, não poderia ter alterado seu relato à medida que o fazia e ter sido compelido a inventar algum acréscimo para compensar a obscuridade de suas recordações? A maioria dos sonhos não pode absolutamente ser lembrada e é esquecida, salvo pequenos fragmentos. E de que modo a interpretação de material desse tipo pode servir como base de uma psicologia científica ou como método de tratar pacientes?”

há outros assuntos de pesquisa psiquiátrica que padecem da mesma característica de indefinição – em muitos casos, por exemplo, as obsessões, e estas têm, em última análise, sido abordadas por psiquiatras respeitáveis e conceituados.”

Da literatura que trata do assunto, o principal trabalho pelo menos sobreviveu: o livro de Artemidoro de Daldis, [F. mente!] que provavelmente viveu durante o período do imperador Adriano. Não sei dizer-lhes como aconteceu que, depois disso, a arte de interpretar sonhos sofreu um declínio e os sonhos caíram em descrédito.”

O abuso final da interpretação de sonhos foi atingido em nossos dias com tentativas de descobrir, a partir dos sonhos, os números destinados a serem premiados no jogo do loto.”

A única contribuição de valor aos conhecimentos sobre sonhos, que temos a agradecer às ciências exatas, refere-se ao efeito produzido no conteúdo dos sonhos pelo impacto de estímulos somáticos durante o sono. Um autor norueguês, recentemente falecido,¹ J. Mourly Vold, publicou dois alentados volumes de pesquisas experimentais sobre sonhos (edição alemã, 1910 e 1912), que se dedicam quase que exclusivamente às conseqüências das alterações na postura dos membros. Foram-nos recomendados como modelos de pesquisa exata sobre sonhos.”

¹ É se imaginar que se se encontrasse vivo não teria sido creditado pelo invejoso F.

O sonhar é, evidentemente, vida mental durante o sono – algo que tem certas semelhanças com a vida mental desperta, mas que, por outro lado, se distingue dela por grandes diferenças. Essa era, há muito tempo, a definição de Aristóteles. Talvez existam ainda conexões mais estreitas entre sonhos e sono. Podemos ser acordados por um sonho; muito freqüentemente temos um sonho quando acordamos espontaneamente ou quando somos tirados, à força, do sono. Assim, os sonhos parecem ser um estado intermediário entre o sono e a vigília.”

Esse é um problema fisiológico sobre o qual ainda existe muita controvérsia. Quanto a esse respeito não podemos chegar a qualquer conclusão; penso, porém, que devemos tentar descrever as características psicológicas do sono. O sono é um estado no qual não desejo saber de nada do mundo externo, um estado no qual retirei do mundo externo meu interesse. Ponho-me a dormir retraindo-me do mundo externo e mantendo afastados de mim seus estímulos. Também vou dormir quando estou fatigado dele.”

As crianças, ao contrário, dizem: ‘Eu não vou dormir agora; não estou cansado e quero ter mais algumas experiências.’ A finalidade biológica do sono parece ser, portanto, a recuperação, e sua característica psicológica a suspensão do interesse pelo mundo. Nossa relação com o mundo, ao qual viemos tão a contragosto, parece incluir também nossa impossibilidade de tolerá-lo ininterruptamente. Assim, de tempos em tempos nos retiramos para o estado de pré-mundo, para a existência dentro do útero. A todo custo conseguimos para nós mesmos condições muito parecidas com aquelas que então possuímos: calor, escuridão e ausência de estímulos. Alguns de nós se embrulham formando densa bola e, para dormir, assumem uma postura muito parecida com a que ocupavam no útero.” Sem forçar, muitos encontrariam aqui as posições do cismático Rank!

Não deveria existir qualquer atividade mental no sono; se este começa a ficar inquieto, é por que não conseguimos atingir o estado fetal de repouso: não fomos inteiramente capazes de evitar os remanescentes da atividade mental. Os sonhos consistiriam nesses remanescentes.”

Os processos mentais no sono têm um caráter bastante diferente daqueles que se realizam em vigília. Nos sonhos experimentamos toda sorte de coisas e acreditamos nelas, ao passo que nada experimentamos, exceto talvez o estímulo perturbador isolado. Nós o experimentamos predominantemente sob a forma de imagens visuais; sentimentos também podem estar presentes, assim como pensamentos que nisso se entrelaçam. Os outros sentidos também podem experimentar algo; porém, mesmo assim, se trata principalmente de uma questão de imagens. Parte da dificuldade de fornecer uma descrição dos sonhos se deve ao fato de termos de traduzir essas imagens em palavras.”

No que concerne às dimensões dos sonhos, alguns são muito curtos e compreendem apenas uma única imagem, ou umas poucas imagens, um único pensamento, ou mesmo uma única palavra; outros são extraordinariamente ricos em seu conteúdo, apresentam novelas inteiras e parecem durar longo tempo. Há sonhos tão claros como a experiência vigil, tão claros que, bastante tempo após havermos acordado, não percebemos que eram sonhos; e outros existem que são indescritivelmente obscuros, vagos e borrados. Na realidade, em um mesmo sonho partes muito definidas podem se alternar com outras de uma vaguidade que mal se pode discernir. Há sonhos inteiramente plenos de sentido ou, pelo menos, coerentes, humorísticos mesmo, ou fantasticamente belos; outros, ademais, são confusos, imbecis por assim dizer, absurdos, muitas vezes positivamente loucos. Há sonhos que nos deixam praticamente frios e outros em que se manifestam afetos de todos os tipos – sofrimento a ponto de fazer chorar, ansiedade a ponto de nos acordar, surpresa, encantamento, etc. Os sonhos são, de hábito, esquecidos facilmente, após o despertar, ou podem perdurar através do dia, lembrados mais e mais indistintamente até o fim do dia; outros, ainda – por exemplo, sonhos da infância – , são tão bem-preservados que, 30 anos após, permanecem na memória como se fossem experiência recente. Os sonhos, à semelhança de pessoas, podem aparecer somente em uma única ocasião para nunca mais, ou retornar na mesma aparência não-modificada ou com pequenas dessemelhanças. Em suma, esse fragmento da vida mental durante a noite tem um imenso repertório à sua disposição”

…sonho relatado por um observador inteligente, Hildebrandt (1875), todos eles reações à campainha de um despertador:

Sonhei, então, que certa manhã de primavera eu saía a passeio e vagava pelos verdes campos até chegar a uma aldeia próxima, onde vi os aldeões, em suas melhores roupas, com seus livros de cânticos debaixo do braço, reunindo-se na igreja. Evidente! Era domingo e o culto do início da manhã logo estaria começando. Decidi assistir ao culto, mas, antes, eu estava um tanto acalorado de caminhar, entrei no cemitério que circundava a igreja, para refrescar. Enquanto lia algumas das lápides dos túmulos, ouvi o sineiro subindo a torre da igreja e, lá no alto, via agora o pequeno sino da aldeia, que logo daria o sinal para o início das devoções. Por um momento eu o vi pendente ali, sem movimento, depois começou a balançar, e subitamente seu repicar começou a soar claro e penetrante – tão claro e penetrante que pôs fim ao meu sono. Porém, o que estava soando era o despertador. (…)

O sonho não reconhece o despertador – e sequer este aparece no sonho – mas substitui o ruído do despertador por outro; interpreta o estímulo que está pondo fim ao sono, contudo o interpreta de forma diferente em cada uma das vezes. Por que faz isso? Não há resposta; parece questão de capricho. Compreender o sonho significaria poder dizer por que esse determinado ruído, e não outro, foi escolhido para interpretar o estímulo proveniente do despertador.”

a interpretação de ‘corredores longos, estreitos e ventosos’, como derivados de um estímulo intestinal, parece válida e confirma a asserção de Scherner de que os sonhos procuram sobretudo representar o órgão que emite o estímulo por objetos que se lhes assemelham.”

Quando uma pessoa constrói algo em conseqüência de um estímulo, o estímulo não necessita, por isso, levar a cabo todo o trabalho. O Macbeth de Shakespeare, por exemplo, foi uma pièce d’occasion composta para celebrar a elevação ao trono do rei que foi o primeiro a unir as coroas dos 3 reinos. Essa ocasião histórica imediata, porém, abrangeria todo o conteúdo da tragédia? Explica todas as suas grandezas e os seus enigmas? Pode ser que os estímulos externos e internos, também, atingindo a pessoa em sono, sejam apenas provocadores do sonho e, por conseguinte, nada nos revelem de sua essência.”

Os devaneios são fantasias (produtos da imaginação): são fenômenos muito generalizados, observáveis mais uma vez tanto nas pessoas sadias como nas doentes, e são facilmente acessíveis ao estudo em nossa própria mente. A coisa mais notável a respeito dessas estruturas imaginárias é que lhes foi dado o nome de ‘devaneios’ [daydreams – ignoro em Alemão], de vez que nelas não há qualquer traço dos dois elementos comuns aos sonhos.” Eu particularmente nunca ‘devaneei’…

O FILME OU ‘NEGATIVO’ DO SONHO OU ‘NIGHT-DREAM’: “não experimentamos nem alucinamos, mas imaginamos, sabemos que estamos tendo uma fantasia, não vemos, mas pensamos.”

Esses devaneios surgem no período pré-púbere, freqüentemente ainda na parte final da infância; persistem até a maturidade ser alcançada e, então, ou são abandonados ou mantidos até o fim da vida. O conteúdo dessas fantasias é dominado por um motivo muito inteligível. São cenas e eventos em que as necessidades egoísticas de ambição e poder da pessoa, ou seus desejos eróticos, encontram satisfação.”

Eles se acomodam aos tempos, por assim dizer, e recebem uma ‘marca da época’ que testemunha a influência da nova situação. São a matéria-prima da produção poética, pois o escritor criativo usa seus devaneios com determinadas remodelações, disfarces e omissões, para construir as situações que introduz em seus contos, novelas ou peças. O herói dos devaneios é sempre a própria pessoa, seja diretamente, seja por uma óbvia identificação com alguma outra pessoa.”

SEXTA CONFERÊNCIA

A escola de Wundt introduziu o que conhecemos como experiências de associação, nas quais se diz à pessoa uma palavra-estímulo e a pessoa tem de responder a ela tão rapidamente quanto lhe é possível, com qualquer reação que lhe ocorra.”

A escola de Zurique, liderada por Bleuler e Jung, encontrou explicação para as reações que se sucediam na experiência de associação, fazendo as pessoas em experiência elucidarem suas reações por meio de associações subseqüentes, no caso de essas reações terem mostrado aspectos marcantes. Constatou-se então que essas reações marcantes eram determinadas de forma muito definida pelos complexos da pessoa. Assim, Bleuler e Jung estabeleceram a primeira ponte entre a psicologia experimental e a psicanálise.”

Como pode haver uma ponte entre o behaviorismo (algo tão concreto quanto contestável, justamente dada sua surda concretude) e o ‘nada’ – avant la lettre ou interessadamente? Avant la lettre no caso de Freud ter conhecido Jung e Bleuler depois deste estudo, o que não é muito crível; interessadamente para o caso de ambos terem conduzido a pesquisa já enquanto discípulos de Freud. Então, de forma simples, pode-se dizer que, não Jung nem Bleuler, mas Freud – por meio de suas ferramentas – encontrou aquilo que tanto procurava, i.e., inventou astutamente como procurar aquilo que já tinha achado (com todos os sentidos subliminares da palavra achado). Uma inversão tipicamente cartesiana? ‘Eu acho, logo tateio’ no lugar do mais ‘lógico-empírico’ eu tateio logo acho…

E LÁ VAMOS NÓS… “Certo dia verifiquei que não conseguia recordar o nome do pequeno país da Riviera cuja capital é Monte Carlo.”

SÉTIMA CONFERÊNCIA

Não consigo imaginar como alguém do público desta conferência que foi ao primeiro dia – ou ao quinto dia, quando começou a palestrar sobre os sonhos – tenha se prestado a retornar… Condensação, irmão, condensação no palavrório!

esses dias sonhei com uma fase aquática de Banjo-Kazooie.

óleos, peças e notas musicais

água cinza, piche

submerso

ancorado

sem ar

Jinjo

Ernest JinJones

um Jin

um gênio!

Leonardo

Rafael

eu e Jin, Sun,

Saiyd Jarra

Água da jarra

Jack, Sawyer, Kate,

tabu e… leiro zoo e

boo mafoo

Adalto

autuado

Ginga

Ging

Dong

Freecs

freaks

no doubt

about

a dark

cont

&

fake.

n(e)(n)t

Hunters and prey

Hamsters and pray

TWO Gods

Atom and Evil

Karamazóv

Fountain of Désirées

Le réel

reel&fish

confiscation

celebration

demise of a

nation

defec-

tível

perfume de

estrume lagoa

nadazul

resumindo meu trabalho onírico, eu acho que tudo se refere à escuridão da vida vista pelos olhos de uma criança.

o rio que corre forte e rápido é o maior inimigo de si mesmo

Se a resistência é pequena, o substituto não pode estar muito distante do material inconsciente; contudo, uma resistência maior significa que o material inconsciente está muito distorcido e que será longo o caminho que se estende desde o substituto ao material inconsciente.” Não seria o contrário?

Se tomamos nota por escrito de um sonho e então anotamos todas as idéias que emergem como resposta a ele, podemos verificar que essas idéias são muitas vezes mais longas do que o texto do sonho.” Biblioteca inútil da alma pública

OITAVA CONFERÊNCIA

Essa característica dos sonhos de ejaculação (como foi assinalado por Otto Rank) faz deles assunto especialmente favorável ao estudo da deformação onírica.”

NONA CONFERÊNCIA

Em qualquer parte onde existem lacunas no sonho manifesto, a censura é responsável por elas. Devemos ir mais adiante e considerar como manifestação da censura toda passagem em que um elemento onírico é recordado de maneira especialmente indistinta, indefinida, duvidosa, em meio a outros elementos construídos mais claramente.”

quando a resistência é grande, temos de percorrer longas cadeias de associações a partir do elemento onírico, somos conduzidos para longe deste, e, em nosso caminho, temos de vencer todas as dificuldades representadas pelas objeções críticas às idéias que ocorrem.” Reiteração.

O desejo de prazer – a ‘libido’, conforme o denominamos – escolhe sem inibição seus objetos e, de preferência, os proibidos: não somente as mulheres de outros homens, mas, acima de tudo, objetos incestuosos, objetos sagrados segundo o consenso da humanidade, mãe e irmã de um homem, pai e irmão de uma mulher.” E por que não desejos homossexuais, F.?

O simbolismo é, talvez, o mais notável capítulo da teoria dos sonhos. Em primeiro lugar, como os símbolos são versões constantes, realizam até certo ponto o ideal da antiga, tanto como da popular, interpretação dos sonhos, do qual, com nossa técnica, nos afastamos muito.”

O filósofo K.A. Scherner (1861) deve ser apontado como o descobridor do simbolismo onírico, se é que absolutamente se possam situar seus inícios nos tempos atuais.” Pelo menos teve a idoneidade de mencioná-lo.

DÉCIMA CONFERÊNCIA

Nos mitos sobre o nascimento de heróis – aos quais Otto Rank (1909) dedicou um estudo comparado, sendo o mais antigo o mito do rei Sargão, de Agade (cerca de 2800 a.C.) –, uma parte predominante é desempenhada pelo abandono na água e o resgate da água.”

O fato de fogões representarem mulheres e útero, é confirmado pela lenda grega de Periandro de Corinto e sua esposa Melissa. O tirano, segundo Heródoto, faz aparecer o espírito de sua mulher, a quem amara apaixonadamente e, contudo, assassinara por ciúmes, a fim de obter dela algumas informações. A mulher morta provou sua identidade dizendo que ele, Periandro, havia ‘metido seu pão dentro de um forno frio’, como forma de disfarçar um acontecimento que só era conhecido dos dois. Na revista Anthropophyteia, editada por F.S. Krauss, inestimável fonte de conhecimentos de antropologia sexual, ficamos sabendo que, em determinada região da Alemanha, de uma mulher que deu à luz uma criança se diz que ‘o forno dela se fez em pedaços’.”

#offtopic

o título do governante do Egito antigo, ‘Faraó’, significa simplesmente ‘Grande Saguão do Paço’. (No antigo oriente, os pátios entre os duplos portões de uma cidade eram locais de encontro públicos, assim como as praças do mercado do mundo clássico)”

a relação simbólica pode ultrapassar os limites da linguagem – o que, aliás, foi afirmado há muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos, Schubert (1814).”

O trevo de 4 folhas tomou o lugar do de 3 folhas, que realmente se presta para ser um símbolo. O porco é um antigo símbolo da fertilidade. O cogumelo é sem dúvida um símbolo do pênis: existem cogumelos (fungos) que devem seu nome sistemático (Phallus impudicus) à sua inconfundível semelhança com o órgão masculino.”

DÉCIMA PRIMEIRA CONFERÊNCIA

Às vezes a condensação pode estar ausente; via de regra se faz presente e, muitíssimas vezes, é enorme. Jamais ocorre uma mudança em sentido inverso; ou seja, nunca encontramos um sonho manifesto com extensão ou com conteúdo maior do que o sonho latente. A condensação se realiza das seguintes maneiras: (1) determinados elementos latentes são totalmente omitidos, (2) apenas um fragmento de alguns complexos do sonho latente transparece no sonho manifesto e (3) determinados elementos latentes, que têm algo em comum, se combinam e se fundem em uma só unidade no sonho manifesto. Se preferirem, podemos reservar o termo ‘condensação’ apenas para o último desses processos. Seus resultados podem ser demonstrados com especial facilidade. Os senhores não terão dificuldade em relembrar exemplos de seus próprios sonhos, em que pessoas diferentes são condensadas em uma só. Um personagem composto, deste tipo, pode, talvez, assemelhar-se a A, mas pode, talvez, [enquanto se assemelha] a A, estar vestida como B, executar algo que lembre C, e ao mesmo tempo podemos saber que é D. Essa estrutura composta naturalmente está dando ênfase àquilo que as 4 pessoas têm em comum. É possível, naturalmente, formar tal estrutura composta de coisas ou de lugares, do mesmo modo que de pessoas, contanto que as diferentes coisas e lugares tenham em comum algo que o sonho latente acentua. O processo se assemelha à construção de um conceito novo e transitório que tem nesse elemento comum o seu núcleo. O resultado dessa superposição de elementos separados, que foram condensados conjuntamente, é, via de regra, uma imagem difusa e vaga, à semelhança daquilo que sucede quando se batem diversas fotografias sobre uma mesma chapa. A produção de estruturas compostas, como essas referidas, deve ser de grande importância para a elaboração onírica, porquanto podemos demonstrar que[,] ali onde inicialmente faltam os elementos comuns para formá-las, estes são introduzidos deliberadamente – por exemplo, através da escolha da palavra pelas quais um pensamento é expresso.” “A imaginação ‘criativa’ realmente é bastante incapaz de inventar qualquer coisa; ela pode apenas combinar entre si componentes que são estranhos.”

Embora a condensação torne os sonhos obscuros, não parece dar-nos a impressão de ela ser efeito da censura. Antes, parece ser devida a um fator automático ou econômico, mas, em todo caso, a censura lucra com ela. Aquilo que a condensação consegue realizar pode ser bastante extraordinário. Às vezes é possível, com seu auxílio, combinar duas seqüências de pensamentos latentes muito diferentes, em um único sonho manifesto, de modo que se pode chegar a algo que parece ser uma interpretação suficiente de sonho, e no entanto, procedendo assim, pode-se deixar de perceber uma possível ‘superinterpretação’.”

Quando diversos sonhos ocorrem durante a mesma noite, têm freqüentemente a mesma significação e indicam que está sendo feita uma tentativa de manejar cada vez mais eficazmente um estímulo de crescente insistência.” Não necessariamente. Depois que sonhei com a morte do pai (ou meu suicídio?), a cena mudava para duas crianças brincando de embaixadinha num quarto…

Com algumas exceções destacadas, os discursos nos sonhos são cópias e combinações de discursos que alguém ouviu ou enunciou para si próprio no dia anterior ao sonho e que foram incluídos nos pensamentos latentes, ou como material ou como instigadores dos sonhos.”

DÉCIMA SEGUNDA CONFERÊNCIA

Em primeiro lugar, devo admitir que ninguém efetua interpretação de sonhos como sua atividade principal. Como ocorre, então, que as pessoas os interpretam? Ocasionalmente, sem nenhum objetivo em vista, alguém pode se interessar por sonhos de um conhecido seu, ou alguém pode esquadrinhar seus próprios sonhos durante algum tempo a fim de preparar-se para o trabalho psicanalítico; mas, na maior parte das vezes, aquilo com que se tem de lidar são os sonhos de pacientes neuróticos que estão em tratamento psicanalítico. Esses sonhos constituem excelente material e de modo algum são inferiores aos de pessoas sadias; a técnica do tratamento, porém, requer que subordinemos a interpretação de sonhos aos objetivos terapêuticos, e temos de permitir que bom número de sonhos tenha sido examinado até havermos extraído dos mesmos alguma coisa de utilidade para o tratamento. Alguns sonhos que ocorrem durante o tratamento escapam inteiramente a uma análise completa: de vez que se originam de um grande acervo de material que ainda nos é desconhecido, é impossível entendê-los antes de o tratamento chegar ao término.”

Talvez o melhor exemplo de interpretação de um sonho seja o que foi relatado por Otto Rank (1910b), consistindo em dois sonhos inter-relacionados, tidos por uma jovem, que ocupam cerca de 2 páginas impressas: mas sua análise vai a 76 páginas [pouta merda!]. Assim, eu deveria necessitar de cerca de um semestre inteiro para conduzi-los através de um único trabalho dessa espécie. Se se tomar qualquer sonho relativamente longo e muito deformado, há que fornecer tantas explicações do mesmo, levantar tanto material que surge no curso das associações e das recordações, seguir tantas vias secundárias, que uma conferência a respeito dele seria muito confusa e insatisfatória.”

Quando se perde alguém que é de nossas relações e nos é caro, surgem sonhos de um tipo especial, durante algum tempo após, nos quais o conhecimento da morte chega às mais estranhas conciliações com a necessidade de trazer novamente à vida a pessoa morta. Em alguns desses sonhos, a pessoa que morreu está morta e ao mesmo tempo permanece viva porque não sabe que está morta; somente se soubesse, morreria completamente. Em outros, a pessoa está meio morta e meio viva, e cada um desses estados vem indicado por uma forma particular. Não devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos; pois ser devolvido novamente à vida não é mais inconcebível nos sonhos do que o é, por exemplo, em contos de fadas, nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro.”

AQUI QUEM FALA É O CASTO: “Estou certo de que os senhores ouviram, uma vez ou outra, a psicanálise afirmar que todo sonho tem uma significação sexual. Pois bem, os senhores mesmos estão em condições de formar um julgamento da incorreção dessa acusação.”

DÉCIMA TERCEIRA CONFERÊNCIA

Uma criança pequena não ama necessariamente seus irmãos e irmãs; muitas vezes, obviamente não os ama. Sem dúvida ela os odeia como rivais seus, e é fato sabido que esta atitude freqüentemente persiste por muitos anos, até ser atingida a maturidade ou mesmo até mais tarde, sem interrupção. Com efeito, muito amiúde esta atitude é substituída, ou melhor, digamos, é encoberta por outra, mais cordial. Mas, a que é hostil em geral parece ser a que surge primeiro.”

Via de regra, só existe uma pessoa que uma menina inglesa odeia mais do que a sua mãe; é a sua irmã mais velha.” Bernard Shaw

Otto Rank (1912b) demonstrou, em cuidadoso estudo, como o complexo de Édipo proporcionou aos autores dramáticos uma riqueza de temas com infindáveis modificações, atenuações e disfarces – isto é, com distorções do tipo que já conhecemos como obra de uma censura.”

Quando abandonadas a si próprias, ou sob a influência de sedução, amiúde as crianças realizam proezas consideráveis na área da atividade sexual perversa.”

DÉCIMA QUARTA CONFERÊNCIA

é muito mais difícil a elaboração onírica alterar o sentido dos afetos de um sonho do que o seu conteúdo; os afetos, às vezes, são altamente resistentes. O que então acontece é a elaboração onírica transformar o conteúdo aflitivo dos pensamentos oníricos na realização de um desejo, ao passo que o afeto desagradável persiste inalterado.”

Uma fada boa prometeu a um casal pobre assegurar-lhe a realização dos seus 3 primeiros desejos. Eles ficaram jubilosos e puseram-se a pensar em como escolher cuidadosamente seus 3 desejos. Mas um cheiro de lingüiça frita, proveniente da casa próxima, tentou a mulher a desejar algumas lingüiças. Num relâmpago, ali estavam as lingüiças; e esta foi a primeira realização de desejo. Mas o marido se enfureceu, e, em sua raiva, desejou que as lingüiças ficassem dependuradas no nariz da mulher. E foi isto o que também aconteceu; e não havia como retirá-las dessa nova posição. Esta foi a segunda realização de desejo; mas o desejo era do homem, e a sua realização foi muito desagradável para sua mulher. Os senhores sabem o restante da história. Visto que, afinal, eles eram, de fato, um – marido e mulher – o terceiro desejo não podia ser senão o de que as lingüiças se desprendessem do nariz da mulher.”

A geração da ansiedade assumiu o lugar da censura. Ao passo que de um sonho infantil podemos dizer ser ele a realização franca de um desejo permitido, e de um sonho deformado como sendo a realização disfarçada de um desejo reprimido, a única fórmula adequada a um sonho de ansiedade consiste em que este é a realização franca de um desejo reprimido.”

Sonhos de ansiedade, via de regra, são também sonhos que fazem despertar; habitualmente interrompemos nosso sono antes que o desejo reprimido, no sonho, tenha executado a realização completa, apesar da censura. Nesse caso, a função do sonho fracassou, mas sua natureza essencial não foi modificada com isto. Temos comparado os sonhos com o vigia noturno ou guardião do sono, que procura proteger nosso sono contra perturbações. O vigia noturno, também, pode chegar ao ponto de acordar a pessoa que dorme, se sente que é por demais fraco para, sozinho, afugentar a perturbação ou o perigo. Ainda assim, às vezes conseguimos continuar nosso sono, mesmo quando o sonho começa a ficar inseguro e a transformar-se em ansiedade. Dizemos a nós mesmos, em nosso sono, ‘afinal é apenas um sonho’, e continuamos dormindo.”

Há alguns pacientes neuróticos que são incapazes de dormir, e admitem que sua insônia foi, inicialmente, intencional. Não ousavam dormir porque temiam os seus sonhos – isto é, temiam os resultados do enfraquecimento da censura. Os senhores constatarão com facilidade, entretanto, que, a despeito disto, o afastamento da censura não importa em grande desorganização. O estado de sono paralisa nossa capacidade motora. Se nossas intenções más começam a perturbar, elas podem, afinal, causar nada mais do que simplesmente um sonho, que é inócuo, do ponto de vista prático.”

Pensamos, pois, que alguma coisa se acrescenta aos resíduos diurnos, algo que também fazia parte do inconsciente, um impulso pleno de desejos, poderoso, porém reprimido; e é este, somente, que torna possível a construção do sonho. A influência deste impulso pleno de desejos sobre os resíduos diurnos cria a outra parte dos pensamentos oníricos latentes – essa parte que já não necessita parecer racional e inteligível como se fosse derivada da vida desperta.”

“‘Os resíduos diurnos’, os senhores me perguntarão, ‘são realmente inconscientes no mesmo sentido que o desejo inconsciente que deve ser acrescentado a eles, a fim de torná-los capazes de produzir um sonho?’ A suposição dos senhores está correta. Este é o ponto saliente em todo este assunto. Não são inconscientes no mesmo sentido. O desejo onírico pertence a um inconsciente diferente – àquele inconsciente que já reconhecemos como tendo uma origem infantil e mecanismos peculiares. Seria muito oportuno distinguir essas duas espécies de inconscientes por meio de nomes diferentes. Preferiríamos, porém, esperar até nos familiarizarmos com a área dos fenômenos das neuroses. As pessoas consideram um tanto fantástico haver um só inconsciente. Que dirão quando confessarmos que temos de nos haver com dois?”

DÉCIMA QUINTA CONFERÊNCIA

O idioma chinês está cheio de exemplos de imprecisão que poderiam nos deixar muito alarmados. Como se sabe, compõe-se de numerosos sons silábicos que são falados isolados ou combinados aos pares. Um dos principais dialetos possui uns 400 destes sons. Como o vocabulário deste dialeto é calculado em cerca de 4 mil palavras, porém, conclui-se que cada som tem, em média, 10 significados diferentes – alguns menos, mas outros, em troca, têm mais. Existem numerosos métodos de evitar a ambigüidade, pois não se pode inferir, apenas a partir do contexto, qual dos 10 significados do som silábico a pessoa tenciona transmitir ao ouvinte. Entre esses métodos estão aqueles que consistem em combinar 2 sons em uma palavra composta e em utilizar 4 diferentes ‘tons’ na pronúncia das sílabas. Do ponto de vista de nossa comparação, é ainda mais interessante verificar que este idioma praticamente não tem gramática. É impossível dizer se uma das palavras monossilábicas é um substantivo, ou um verbo, ou um adjetivo; e não há flexões verbais, pelas quais se possa reconhecer gênero, número, desinência, tempo e modo. Assim, a linguagem consta, poderia dizer-se, apenas de matéria-prima, assim como nossa linguagem-pensamento fica reduzida, através da elaboração onírica, à sua matéria-prima, e se omite qualquer expressão de relação. No idioma chinês, a solução do sentido, em todos os casos, cabe ao entendimento de quem ouve, e nisto a pessoa se guia pelo contexto. Tomei nota de um exemplo de um provérbio chinês que, traduzido literalmente, reza assim: ‘Pouca visão, muita maravilha’. Não é difícil compreender isto. Pode significar: ‘Quanto menos alguém viu, mais tem com que se maravilhar’; ou: ‘De muita coisa se admira aquele que viu pouco.’ Naturalmente, não há maneira de diferenciar entre estas 2 versões que diferem apenas gramaticalmente. Apesar desta imprecisão, foi-nos assegurado que o idioma chinês é um veículo bastante eficiente de expressão do pensamento. Assim, a imprecisão não deve necessariamente produzir ambigüidade.”

Talvez nem todos os senhores estejam cientes de que uma situação semelhante surgiu na história da decifração das inscrições assírio-babilônicas. Houve época em que a opinião pública esteve muito inclinada a considerar visionários os decifradores da escrita cuneiforme, e a totalidade de suas pesquisas, uma ‘impostura’. Mas, em 1857, a Royal Asiatic Society fez uma experiência decisiva. Solicitou a 4 dos peritos mais altamente respeitados em escrita cuneiforme, Rawlinson, Hincks, Fox Talbot e Oppert para remeterem, em envelopes lacrados, traduções independentes de uma inscrição recentemente descoberta; e, após uma comparação entre os 4 trabalhos, pôde anunciar que a concordância entre estes peritos era suficiente para justificar o crédito que até então se havia dado e a confiança em posteriores realizações. A zombaria por parte do mundo leigo culto diminuiu gradualmente, após isto, e desde então tem aumentado enormemente a certeza na leitura dos documentos cuneiformes.”

Uma confusão muito pior parece estar subjacente à afirmação de que a idéia de morte pode ser encontrada por trás de todo sonho (Stekel, 1911, 34).” Briguem mais!

os senhores acharão bastante incompreensível uma afirmação de que todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente, como confluência de duas correntes, descritas como masculina e feminina (Adler, 1910).”

Um dia o valor objetivo da investigação sobre sonhos pareceu ser posto em xeque por uma observação de que os pacientes em tratamento analítico ordenam o conteúdo dos sonhos conforme as teorias prediletas de seus médicos – alguns sonhando predominantemente com impulsos instintuais sexuais, outros, com a luta pelo poder, e ainda outros, até mesmo, com renascimento (Stekel).”

Freqüentemente, é possível influenciar uma pessoa acerca do que ela vai sonhar, mas nunca aquilo que sonhará.”

DÉCIMA SEXTA CONFERÊNCIA (no ano seguinte – início das Novas conf. – poderia ter-se saído muito bem sem elas, aliás)

Nunca pude convencer-me da verdade da máxima segundo a qual a controvérsia é a mãe de todas as coisas. Penso que deriva dos sofistas gregos e, como eles, peca por supervalorizar a dialética.” Péssimo começo.

Algumas pessoas jamais tomaram conhecimento de quaisquer de minhas autocorreções, e continuam, até hoje, a criticar-me por hipóteses que, para mim, há muito cessaram de ter o mesmo significado. Outros me reprovam justamente por estas modificações, e, por causa delas, consideram-me indigno de confiança.”

todo aquele que se conduz dessa forma e deixa aberta a porta entre a sala de espera e a sala de consulta de um médico, é mal-educado e merece uma recepção inamistosa.”

“‘ele é um trapaceiro que dá mais do que tem.’ O psiquiatra não sabe como lançar mais luz sobre um caso como este. Ele deve contentar-se com um diagnóstico e um prognóstico – incertos, apesar de uma grande quantidade de experiência, e com sua evolução futura.”

Ela própria estava intensamente apaixonada por um homem jovem, pelo mesmo genro que a persuadira a procurar-me na qualidade de paciente. Ela mesma nada sabia, ou, talvez, sabia muito pouco dessa paixão; no relacionamento familiar que existia entre ambos, era fácil essa afeição apaixonada disfarçar-se como afeição inocente.” “posso recordar-lhes que a relação entre sogra e genro tem sido considerada, desde as épocas mais remotas da raça humana, como relação particularmente embaraçosa e que, entre tribos primitivas, deu origem a regulamentações e ‘evitações’ tabu muito poderosas.”

Ainda que a psicanálise se mostrasse tão ineficaz em qualquer outra forma de doença nervosa e psíquica, como se mostra ineficaz nos delírios, estaria plenamente justificada como insubstituível instrumento de investigação científica.” Um se pergunta de onde vinha tamanha autoconfiança…

DÉCIMA SÉTIMA CONFERÊNCIA

PURA FALSA MODÉSTIA: “Em todo caso, pode parecer questão de somenos importância saber quem fez a descoberta, de vez que, como sabem, toda descoberta é feita mais de uma vez, e nenhuma se faz de uma só vez. Ademais disso, nem sempre o sucesso acompanha o mérito: não foi de Colombo que a América recebeu seu nome. O grande psiquiatra Leuret opinou, antes de Breuer e Janete (sic), que mesmo nas idéias delirantes do insano se poderia encontrar um sentido, bastaria que compreendêssemos a maneira de traduzi-las. Devo admitir que, durante longo tempo, estive disposto a dar bastante crédito a Janet por elucidar os sintomas neuróticos, porque ele os considerava expressão de idées inconscientes que dominavam os pacientes. Depois disso, porém, ele se tem expressado com exagerada reserva, como se quisesse admitir que o inconsciente, para ele, não tivesse sido nada mais que uma fórmula verbal, um expediente, une façon de parler – que ele, com isso, não quis significar nada de real. Desde então, deixei de compreender os escritos de Janet”

Freud almoçava espinafre com biotômico Fontoura nessa época (para estar tão galante e soberbo das idéias).

A histeria morreu porque a psicossomática nasceu.

A neurose obsessiva manifesta-se no fato de o paciente se ocupar de pensamentos em que realmente não está interessado, de estar cônscio de impulsos dentro de si mesmo que lhe parecem muito estranhos, e de ser compelido a ações cuja realização não lhe dá satisfação alguma, mas lhe é totalmente impossível omitir. Os pensamentos (obsessões) podem ser, em si, carentes de significação, ou simplesmente assunto sem importância para o paciente; freqüentemente, são de todo absurdos e, invariavelmente, constituem o ponto de partida de intensa atividade mental que exaure o paciente e à qual ele somente se entrega muito contra sua vontade. Obriga-se, contra sua vontade, a remoer pensamentos e a especular, como se se tratasse dos seus mais importantes problemas vitais. Os impulsos, dos quais o paciente se apercebe em si próprio, também podem causar uma impressão de puerilidade e falta de sentido; via de regra, porém, têm um conteúdo da mais assustadora categoria” “não suponham que ajudarão o paciente, nem de longe, admoestando-o para que adote uma nova conduta, deixe de ocupar-se com esses pensamentos absurdos e faça algo sensato em lugar de suas extravagâncias infantis.”

O que é posto em ação, em uma neurose obsessiva, é sustentado por uma energia com a qual provavelmente não encontramos nada comparável na vida mental normal. Existe uma coisa apenas, que ele pode fazer: realizar deslocamentos, trocas, pode substituir uma idéia absurda por outra um pouco mais atenuada, em vez de um cerimonial pode realizar um outro. Pode deslocar a obsessão, mas não removê-la. A possibilidade de deslocar qualquer sintoma para algo muito distante de sua conformação original é uma das principais características desta doença.”

Além das obsessões, de conteúdo positivo e negativo, a dúvida se faz notar na área intelectual, e lentamente começa a corroer até mesmo aquilo que geralmente é tido como muito certo.” “Ao mesmo tempo, o neurótico obsessivo inicia seus empreendimentos com uma disposição de grande energia, freqüentemente é muito voluntarioso e, via de regra, tem dotes intelectuais acima da média. Geralmente atingiu um nível de desenvolvimento ético satisfatoriamente elevado; mostra-se superconsciencioso, e tem uma correção fora do comum em seu comportamento.”

É verdade que, graças à sua própria discrição e às falsificações de seus biógrafos [he, he!], pouco sabemos dos aspectos íntimos dos grandes homens que são nossos modelos; não obstante, também sucede um deles, como Émile Zola, poder ser um fanático da verdade, e, assim, ficamos conhecendo seus muitos e estranhos hábitos obsessivos, dos quais foi vítima a vida inteira.”

Nossa paciente gradualmente veio a constatar que era devido à sua qualidade de símbolos dos genitais femininos que os relógios eram retirados do meio de seus objetos de uso à noite. Os relógios – embora em outra parte tenhamos encontrado outras interpretações simbólicas para os mesmos – assumiram a significação genital devido à sua relação com processos periódicos e intervalos de tempo iguais. (…) A ansiedade de nossa paciente, porém, estava voltada em especial contra a possibilidade de ela ter o seu sono perturbado pelo tique-taque de um relógio. O tique-taque do relógio pode ser comparado com a pulsação ou latejamento do clitóris durante a excitação sexual.”

quanto ao restante, remeto-os (…) à vívida luz lançada sobre os mais obscuros sintomas daquilo que se conhece como dementia praecox, por C.G. Jung (1907), numa época em que ele era apenas psicanalista e ainda não aspirava a ser profeta”

DÉCIMA OITAVA CONFERÊNCIA

As neuroses traumáticas não são, em sua essência, a mesma coisa que as neuroses espontâneas que estamos acostumados a investigar e tratar pela análise; até agora, não conseguimos harmonizá-las com nossos pontos de vista, e espero, em algum época, poder explicar-lhes a razão desta limitação.” Espera poder “suicidar” Tausk!

Como é que ninguém se dava conta do caráter burlesco e charlatão dessas palestras? “Aqui, pois, mais uma vez devemos interromper o trajeto que iniciamos. Por agora, não conduz a nada mais, e teremos de nos instruir com outras coisas, antes de podermos encontrar sua correta continuação.” “tão logo os processos inconscientes pertinentes se tenham tornado conscientes, o sintoma deve desaparecer.” “A tese, segundo a qual os sintomas desaparecem quando se fazem conscientes seus motivos predeterminantes inconscientes, tem sido confirmada por todas as pesquisas subseqüentes, embora nos defrontemos com as mais estranhas e inesperadas complicações ao tentarmos pô-la em prática.”

Saber nem sempre é a mesma coisa que saber: existem diferentes formas de saber, que estão longe de serem psicologicamente equivalentes.” Foucault mode on.

Não estaria eu confundindo-os ao retomar, com tanta freqüência, coisas que já disse ou fazendo ressalvas às mesmas – ao iniciar seqüências de idéias e depois abandoná-las?” Sim.

DÉCIMA NONA CONFERÊNCIA

Então conseguimos perceber que a resistência se refugiou dentro da dúvida, que é própria da neurose obsessiva, e desta posição ela consegue resistir-nos. É como se o paciente dissesse: ‘Sim, está tudo muito bem, muito interessante, e terei muita satisfação em prosseguir ainda mais. Eu mudaria um bocado minha doença, se tudo isto fosse verdade. Mas não acredito, nem um pouco, que seja verdade; e, na medida em que não acredito, não faz qualquer diferença para minha doença.’

As mulheres têm um talento de mestre para explorar, na relação com o médico, uma transferência afetuosa, com nuances eróticas, destinada à resistência. Se esta ligação atinge determinado nível, desaparece todo o seu interesse pela situação imediata do tratamento e todas as obrigações que assumiram no início; seu ciúme, que nunca está ausente, e sua irritação ante a inevitável rejeição, embora expressos respeitosamente, não podem deixar de ter como efeito um dano na harmonia entre paciente e médico, e assim inativam uma das mais poderosas forças motrizes da análise.”

Inicialmente, Breuer e eu empreendíamos a psicoterapia por meio da hipnose; a primeira paciente de Breuer foi totalmente tratada sob influência hipnótica, e, no início, eu o segui neste procedimento. Admito que, naquela época, o trabalho avançava mais fácil e satisfatoriamente, e também em muito menos tempo. Os resultados eram, porém, incertos e não duradouros, e por esse razão finalmente abandonei a hipnose.”

CIÊNCIA MUITO LIMITADA (QUASE CIENCINHA): “tudo aquilo que disse aqui sobre repressão e a formação e significação dos sintomas derivou de 3 formas de neurose – histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva, e que, numa primeira instância, só é válido para estas formas. Estes 3 distúrbios, que estamos acostumados a agrupar conjuntamente como ‘neuroses de transferência’ também circunscrevem a região em que a terapia psicanalítica pode funcionar. As demais neuroses têm sido estudadas de forma muito menos completa pela psicanálise; num grupo delas a impossibilidade de influência terapêutica foi uma das razões desse abandono.” É a histeria uma neurose?

Na neurose obsessiva, as duas partes freqüentemente estão separadas; o sintoma então se torna bifásico (divide-se em 2 estágios) e consiste em 2 ações, uma depois da outra, as quais se anulam reciprocamente.”

VIGÉSIMA CONFERÊNCIA (pedaço hediondo de literatura!)

Somente pessoas de seu próprio sexo podem excitar seus desejos sexuais; pessoas do outro sexo, e especialmente os órgãos sexuais destas pessoas absolutamente não constituem para eles objeto sexual e, em casos extremos, são objetos de repulsa. Isto implica, naturalmente, que abandonaram qualquer participação na reprodução. Tais pessoas denominamos homossexuais ou invertidas. São homens e mulheres que, freqüentemente mas não sempre, conduzindo-se irrepreensivelmente, em outros aspectos possuindo elevado desenvolvimento intelectual e ético, são vítimas apenas deste único desvio fatídico. Pela boca de seus porta-vozes científicos, eles se apresentam como variedade especial da espécie humana – um ‘terceiro sexo’ que tem o direito de se situar em pé de igualdade com os outros dois. Naturalmente, eles não são, como também gostam de afirmar, uma ‘élite’ da humanidade; entre eles, há pelo menos tantos indivíduos inferiores e inúteis como os há entre pessoas de tipo sexual diferente. Esta classe de pervertidos, de qualquer modo, se comporta em relação a seus objetos sexuais aproximadamente da mesma forma como as pessoas normais o fazem com os seus. Agora, porém, chegamos a uma longa série de pessoas anormais cuja atividade sexual diverge cada vez mais amplamente daquilo que parece desejável para uma pessoa racional. Na sua multiplicidade e estranheza, somente podem ser comparadas aos monstros grotescos, pintados por Brueghel para a tentação de Santo Antônio, ou à longa procissão de deuses e crentes desaparecidos, que Flaubert faz desfilar ante os olhos de seu piedoso penitente. Uma tal miscelânea requer algum tipo de ordenamento para que não venha a confundir nossos sentidos. Por conseguinte, nós os dividimos naqueles em que, como os homossexuais, o objeto sexual foi modificado, e em outros nos quais a finalidade sexual é que foi primariamente modificada. O primeiro grupo inclui aqueles que renunciaram à união dos dois genitais e que substituem os genitais de um dos parceiros envolvidos no ato sexual por alguma outra parte ou região do corpo; com isto, eles desprezam a falta de dispositivos orgânicos adequados, assim como todo impedimento oriundo de sentimentos de repulsa. (Por exemplo, substituem a vulva pela boca ou pelo ânus.) Outros há que, realmente, ainda mantêm os genitais como um objeto – não, porém, por causa da função destes, mas de outras funções em que o genital desempenha um papel, seja por motivos anatômicos, seja por causa de sua proximidade. Neles, constatamos que as funções excretórias, que foram postas de lado como impróprias, durante a educação das crianças, conservam a capacidade de atrair a totalidade do interesse sexual. E ainda há outros que abandonaram totalmente o genital como objeto, e tomaram alguma outra parte do corpo como o objeto que desejam – um seio de mulher, um pé, ou uma trança de cabelos. Depois há outros para os quais as partes do corpo não têm nenhuma importância, mas todos os seus desejos se satisfazem com uma peça de roupa, um sapato, uma peça de roupa íntima – são de fetichistas. Ainda mais atrás, nesse séquito, se enfileiram essas pessoas que requerem de fato o objeto total, mas fazem a este exigências muito definidas – estranhas e horríveis exigências –, até mesmo a de que esse objeto devesse tornar-se um cadáver indefeso e de que, usando de uma violência criminosa, transformem-no num objeto no qual possam encontrar prazer. Mas basta com essa espécie de horror! O segundo grupo é formado por pervertidos que transformaram em finalidade de seus desejos sexuais aquilo que normalmente constitui apenas um ato inicial ou preparatório. São pessoas cujo desejo consiste em olhar outras pessoas, ou palpá-las, ou espiá-las durante a execução de atos íntimos, ou pessoas que expõem partes do corpo que deveriam estar encobertas, na obscura expectativa de poderem ser recompensadas, em troca, por uma ação correspondente. Depois vêm os sádicos, essas pessoas enigmáticas, cujas tendências carinhosas não têm outro fim senão o de causar sofrimento e tormento a seus objetos, indo desde a humilhação até as lesões físicas graves; e, como que para contrabalançá-los, seus equivalentes opostos, os masoquistas, cujo único prazer consiste em sofrer toda espécie de tormentos e humilhações de seu objeto amado, seja simbolicamente, seja na realidade. Ainda existem outros em que diversas dessas precondições anormais estão unidas e entrelaçadas; e, por fim, devemos nos lembrar de que cada um destes grupos pode ser encontrado sob duas formas: ao lado daqueles que procuram sua satisfação sexual na realidade, estão os que se contentam simplesmente com imaginar essa satisfação, que absolutamente não necessitam de um objeto real, mas podem substituí-lo por suas fantasias.”

A menos que possamos compreender essas formas patológicas de sexualidade e correlacioná-las com a vida sexual normal, não poderemos nem mesmo entender a sexualidade normal.”

Iwan Bloch corrige a opinião de que todas essas perversões são ‘sinais de degeneração’, mostrando que tais aberrações do fim sexual, esses afrouxamentos do nexo com o objeto sexual, ocorreram desde tempos imemoriais, em todas as épocas conhecidas, entre todos os povos, os mais primitivos e os mais civilizados, e, em algumas ocasiões, foram tolerados e difusamente reconhecidos.”

A reivindicação que fazem os homossexuais ou invertidos de serem uma exceção desfaz-se imediatamente ao constatarmos que os impulsos homossexuais são encontrados invariavelmente em cada um dos neuróticos e que numerosos sintomas dão expressão a essa inversão latente.”

somos forçados a encarar a escolha de um objeto do mesmo sexo como um desvio na vida erótica, desvio cuja ocorrência é positivamente freqüente, e cada vez aprendemos mais sobre isso, atribuindo-lhe importância particularmente elevada.”

Temos até mesmo verificado que determinada doença, a paranóia, que não deve ser incluída entre as neuroses de transferência, origina-se habitualmente de uma tentativa no sentido de o doente libertar-se de impulsos homossexuais excessivamente intensos.”

mulheres neuróticas muito freqüentemente produzem sintomas assim, à feição de um homem. Ainda que isso não se deva considerar homossexualismo, relaciona-se muito de perto com as precondições destas.”

não atribuímos à consciência da pessoa os impulsos sexuais pervertidos, mas os localizados em seu inconsciente.”

Uma quantidade incrivelmente grande de atos obsessivos pode remontar à masturbação, da qual constituem repetições e modificações disfarçadas; sabe-se muito bem que a masturbação, embora sendo uma ação única e uniforme, acompanha as mais diversas formas do fantasiar sexual.”

Maneira catastrófica de informar uma verdade, que não deixaria de apresentar suas conseqüências: “Pois a investigação psicanalítica teve de ocupar-se também com a vida sexual das crianças, e isto porque as lembranças e associações emergentes durante a análise de sintomas de adultos remetiam-se regularmente aos primeiros anos da infância. O que inferimos destas análises mais tarde se confirmou, ponto por ponto, nas observações diretas de crianças. E, com isso, verificou-se que todas essas inclinações à perversão tinham suas raízes na infância, que as crianças têm uma predisposição a todas elas e põem-nas em execução numa medida correspondente à sua imaturidade – em suma, que a sexualidade pervertida não é senão uma sexualidade infantil cindida em seus impulsos separados”

Sem dúvida, a experiência deve ter ensinado aos educadores que a tarefa de docilizar a tendência sexual da nova geração só poderia ser efetuada se começassem a exercer sua influência muito cedo, se não esperassem pela tempestade da puberdade, mas interviessem logo na vida sexual das crianças, que é preparatória para a puberdade.” E vimos o quanto esses educadores estavam completamente errados!

erigiu-se o ideal de tornar a vida das crianças assexual, e, no decorrer do tempo, as coisas chegaram ao ponto de as pessoas realmente acreditarem que as crianças sejam assexuais e, subseqüente, de a ciência proclamar isto como doutrina. Para evitar que sejam contraditas suas crenças e suas intenções, a partir daí as pessoas passam por alto as atividades sexuais das crianças (que não são de se desprezar) ou se mostram contentes quando a ciência assume um ponto de vista diferente com relação a tais atividades. As crianças são as únicas a não concordar com essas convenções. Afirmam seus direitos animais com total naïveté e dão constantes provas de que ainda terão de trilhar o caminho da pureza. É por demais estranho que as pessoas que negam a existência da sexualidade nas crianças nem por isso se tornam mais brandas em seus esforços educacionais, mas perseguem as manifestações daquilo que negam que exista, com a máxima severidade – descrevendo tais manifestações como ‘traquinagens pueris’. É também do maior interesse teórico o período de vida que contradiz mais flagrantemente o preconceito de uma infância assexual – os anos de vida de uma criança até os 5 ou 6 –, ser posteriormente, na maioria das pessoas, coberto pelo véu da amnésia, o qual só é completamente desfeito pela investigação analítica, embora anteriormente tenha sido permeável à construção de alguns sonhos.”

Em exata analogia com a ‘fome’, empregamos ‘libido’ como nome da força (neste caso, a força do instinto sexual, assim como, no caso da fome, a força do instinto de nutrição) pela qual o instinto se manifesta. Outros conceitos, como os de ‘excitação’ e ‘satisfação’ sexual, não requerem explicação.”

VIGÉSIMA PRIMEIRA CONFERÊNCIA

o beijar pode facilmente tornar-se perversão completa – ou seja, se se torna tão intenso, que uma descarga genital e o orgasmo sobrevêm diretamente, coisa nada rara.”

O período de latência também pode estar ausente: não acarreta necessariamente qualquer interrupção da atividade sexual e dos interesses sexuais por toda a extensão da linha. A maior parte das experiências e dos impulsos mentais anteriores ao início do período da latência agora sucumbe à amnésia infantil”

Esse curso do desenvolvimento realiza-se com tanta rapidez, que, talvez, jamais pudéssemos conseguir, pela observação direta, apreender firmemente os seus quadros fugazes. Foi apenas com a ajuda da investigação psicanalítica das neuroses que se tornou possível descobrir as fases ainda mais precoces do desenvolvimento da libido. Para dizer a verdade, estas não são senão hipóteses; mas, se os senhores efetuarem a psicanálise na prática, verificarão que são hipóteses necessárias e úteis.”

Um dos bravos discípulos da psicanálise foi designado oficial médico no front alemão, em algum lugar da Polônia [Viktor Tausk]. Ele chamou a atenção de seus colegas pelo fato de, ocasionalmente, exercer inesperada influência sobre algum paciente. Indagado a respeito, reconheceu que estava empregando os métodos da psicanálise e declarou-se disposto a transmitir seu conhecimento a seus colegas. Depois disso, todas as noites os oficiais médicos da tropa, seus colegas e superiores, reuniam-se a fim de aprender as doutrinas secretas da análise. Tudo correu bem, durante algum tempo; quando, porém, falou ao seu auditório a respeito do complexo de Édipo, um de seus superiores levantou-se, declarou que não acreditava nisso, que constituía um ato vil, por parte do conferencista, falar-lhes a respeito de tais coisas, a homens honestos que estavam lutando por seu país e que eram pais de família; e que proibia a continuação das conferências. Este foi o final do caso. O analista viu-se transferido para outra parte do front. Parece-me mau, entretanto, se uma vitória alemã exige que a ciência se ‘organize’ dessa maneira, e a ciência alemã não reagirá bem a uma organização dessa espécie.”

A obra do dramaturgo ateniense mostra a maneira como o feito de Édipo, realizado num passado já remoto, é gradualmente trazido à luz por uma investigação engenhosamente prolongada e restituído à vida por meio de sempre novas séries de provas. Nesse aspecto, tem certa semelhança com o progresso de uma psicanálise. No decorrer do diálogo, Jocasta, a iludida mãe e esposa, declara-se contrária à continuação da investigação. Apela para o fato de que muitas pessoas sonharam com dormir com a própria mãe, mas que os sonhos devem ser menosprezados.”

SENSIBILIDADE ESTILÍSTICA E DE LINGUAGEM PROXIMAL DO ZERO: “Conquanto um homem tenha reprimido seus maus impulsos para dentro do inconsciente e prefira dizer a si mesmo, posteriormente, que não é responsável por eles, ele, não obstante, tem de reconhecer essa responsabilidade na forma de um sentimento de culpa cuja origem lhe é desconhecida.”

Senão vejamos quantos absurdos em pouco espaço físico linear: autorepressão!, maus impulsos (conceituar pra quê?!), para DENTRO do inconsciente (onde é isso, quando é isso?), o consciente moralista agora é um DEUS que governa o inconsciente! Que sentimento de culpa, meu amigo?! Você não superou o complexo de Édipo? Desconhecida como, se ele expulsou para DENTRO do ABSTRATO e INCORPÓREO inconsciente (que está DENTRO de si) tudo aquilo?

VIGÉSIMA SEGUNDA CONFERÊNCIA

repressão diz respeito às regiões psíquicas que supomos existirem ou, se abandonamos essa desajeitada hipótese de trabalho, [muito expediente em seu trabalho] à construção do aparelho mental a partir dos diferentes sistemas psíquicos.” “a repressão também pode ser enquadrada no conceito de regressão, de vez que também a repressão pode ser descrita como um retorno a um estágio anterior e mais profundo na evolução de um ato psíquico. No caso da repressão, porém, esse movimento retrocessivo não nos interessa, já que falamos também em repressão, no sentido dinâmico, quando um ato psíquico é detido no estágio inferior, inconsciente. O fato é ser a repressão um conceito topográfico-dinâmico, ao passo que a regressão é um conceito puramente descritivo.”

não podemos chamar de regressão da libido um processo puramente psíquico, nem podemos dizer onde deveríamos localizá-lo no aparelho mental.” Talvez você devesse jogar fora a noção de repressão, portanto, porque a única coisa que valha em psicologia é o conhecimento descritivo.

Devemos estar preparados para constatar que nossos pontos de vista estarão sujeitos ainda a outras ampliações a reavaliações, quando pudermos levar em consideração não apenas a histeria e a neurose obsessiva, como também as outas neuroses, as neuroses narcísicas.”

histéricos são boqueteiros

neuróticos são sodomitas

quem chupa gosta de isqueiros

quem caga pra tudo

quem dizes que imita?

Uma regressão da libido, sem repressão, jamais produziria uma neurose, mas levaria a uma perversão.”

conhecemos pessoas capazes de suportar uma privação dessa espécie, sem serem lesadas: não são felizes, sofrem devido aos seus anseios, porém não adoecem.”

REICH E O NÚMERO: “Há um limite à quantidade de libido não-satisfeita que os seres humanos, em média, podem suportar.”

A esse ponto, aproveito a oportunidade para alertá-los contra a possibilidade de tomarem partido em uma disputa muito desnecessária. Em assuntos científicos, as pessoas mantêm muito essa tendência de selecionar uma parte da verdade, colocando-se a favor dessa parte somente. Foi justamente dessa forma que diversas correntes de opinião já se cindiram do movimento psicanalítico, algumas delas reconhecendo os instintos egoísticos e negando os sexuais, e outras atribuindo importância à influência das incumbências reais da vida e desprezando o passado do indivíduo – e outras mais.” Sujeito magoado!

A psicanálise das neuroses de transferência não nos dá um acesso fácil a um exame detalhado dos instintos do eu [leia-se interdições morais – nada de instintual aqui!]; quando muito, chegamos a conhecê-los, em certa medida, através das resistências que se opõem à análise.”

sua educação intelectual reduziu seu interesse pelo papel feminino que estava destinada a desempenhar. Devido à sua moral mais elevada e ao desenvolvimento intelectual de seu eu, ela entrou em conflito com as exigências de sua sexualidade.”

VIGÉSIMA TERCEIRA CONFERÊNCIA

PERCEBA COMO FUNCIONA A FALSIFICAÇÃO: “a experiência analítica de fato nos leva a supor que experiências puramente casuais, na infância, são capazes de deixar atrás de si fixações da libido.” Experiências baseadas em teorias, jamais verificáveis; suposições sobre o que já eram, antes de tudo, meras hipóteses, dogmatizadas, e assim por diante…

CERTO PITAGORISMO-KARDECISMO-JUNGUISMO! “As disposições da constituição também são indubitavelmente [!] efeitos secundários de experiências vividas pelos ancestrais no passado (…) Sem essa aquisição, não haveria hereditariedade.”

a importância das experiências infantis não deve ser totalmente negligenciada, como as pessoas preferem, em comparação com as experiências dos ancestrais da pessoa e com sua própria maturidade; pelo contrário, as experiências infantis exigem uma consideração especial.” Bem contraditório: o Édipo sai do berço e volta às cavernas e aos totens quando é conveniente e vice-versa…

TUDO É ‘EXTREMAMENTE DUVIDOSO’ NO FREUDISMO: “continua sendo extremamente duvidoso saber até onde a profilaxia na infância possa ser executada com vantagens, e se uma modificação de atitudes para com a situação imediata não poderia oferecer um melhor ângulo de abordagem à prevenção das neuroses.” Talvez Anna Freud tenha enxergado aqui a brecha de sua Ego Psychology para baixinhos… O papel da prevenção pedagógica!

Descobrimos, há algum tempo, que os neuróticos estão ancorados em algum ponto do seu passado” Por revelação divina! Bom, ainda é melhor que o kleinismo…

Isto somente compreenderemos em conexão com algo novo que ainda teremos de aprender das pesquisas analíticas da formação dos sintomas.”

CHARLATANISMO, MAS COM MUITO INSIGHT! “Conforme os senhores verão, essa descoberta está fadada, mais que qualquer outra, a desacreditar tanto a análise, que chegou a tal resultado, como os pacientes, em cujas declarações se fundamentam a análise e todo o nosso entendimento das neuroses. Existe, contudo, mais alguma coisa singularmente desconcertante em tudo isso. Se as experiências infantis trazidas à luz pela análise fossem invariavelmente reais, deveríamos sentir estarmos pisando em chão firme; se fossem regularmente falsificadas e mostrassem não passar de invenções de fantasias do paciente, seríamos obrigados a abandonar esse terreno movediço e procurar salvação noutra parte. Mas, aqui, não se trata nem de uma nem de outra coisa: pode-se mostrar que se está diante de uma situação em que as experiências da infância construídas ou recordadas na análise são, às vezes, indiscutivelmente falsas e, às vezes, por igual, certamente corretas, e na maior parte dos casos são situações compostas de verdade e de falsificação.”

VIGÉSIMA QUARTA CONFERÊNCIA

A estrutura teórica da psicanálise, que criamos, é, com efeito, uma superestrutura, que um dia terá de se erguer sobre seus fundamentos essenciais. Acerca disso, porém, nada sabemos ainda. O que caracteriza a psicanálise como ciência não é o material de que trata, mas sim a técnica com a qual trabalha.”

Os problemas das neuroses ‘atuais’, cujos sintomas provavelmente são gerados por uma lesão tóxica direta, não oferecem à psicanálise qualquer ponto de ataque. Ela pouco pode fazer para esclarecê-los e deve deixar a tarefa para a pesquisa biológico-médica.”

Posso informar-lhes, pois, que distinguimos 3 formas puras de neuroses ‘atuais’: neurastenia, neurose de angústia e hipocondria.” Esta última foi inventada depois de seu último período real de investigação teórica (até, no máximo, 1900).

VIGÉSIMA QUINTA CONFERÊNCIA

Hoje em dia, entretanto, devo observar que não conheço nada que possa ter menos interesse para mim, ao tratar-se da compreensão psicológica da ansiedade, do que o conhecimento dos trajetos dos nervos, por cuja extensão passam suas excitações.” Joguem fora meus Projetos.

ROBBING RANK: “Acreditamos ser no ato do nascimento que ocorre a combinação de sensações desprazíveis, impulsos de descarga e sensações corporais, a qual se tornou o protótipo dos efeitos de um perigo mortal, e que desde então tem sido repetida por nós como rigor mortal, e que desde então tem sido repetida por nós [cacofonia] como o estado de ansiedade.”

O substantivo ‘Angst’, ‘Enge’, acentua a característica de limitação da respiração que então se achava presente em conseqüência da situação real, e é, agora, quase invariavelmente recriada no afeto.”

Talvez lhes interesse saber como pôde alguém formar essa idéia de que o ato do nascimento é a origem e o protótipo do afeto de ansiedade. Nisto a especulação teve muito escassa participação; antes, o que fiz foi tomá-la emprestada da naïve mente popular.”

Semelhante tendência a uma expectativa do mal pode ser encontrada na forma de traço de caráter em muitas pessoas de quem não se pode, de outro modo, dizer serem doentes; diz-se que são superansiosas ou pessimistas.”

VIGÉSIMA SEXTA CONFERÊNCIA

devemos, porém, ater-nos aos fatos biológicos subjacentes aos instintos. No momento atual, sabemos muito pouco a respeito deles, e, ainda que soubéssemos mais, isto teria pouca importância para nosso trabalho analítico.” Hein?

É, também, óbvio que obteremos muito pouco proveito se, seguindo o exemplo de Jung, insistirmos na unidade original de todos os instintos e dermos o nome de ‘libido’ à energia que se manifesta em todos eles.” A pior conferência do recalcado.

VIGÉSIMA SÉTIMA CONFERÊNCIA

(…)

VIGÉSIMA OITAVA CONFERÊNCIA

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HEGEL, MARX E NIETZSCHE: ARISTÓTELES, PLATÃO E SÓCRATES DE CABEÇA PARA BAIXO

Texto originalmente publicado em 26 de março de 2009

Na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, o Marx jovem lança os postulados da sua futura filosofia iconoclasta trans-moderna. A partir da página 108 (edição de A Questão Judaica que contém o excerto no apêndice) a covardia alemã e o estado de subserviência da cultura teutônica tornam-se palpáveis.

Quais são os principais sinais de que uma cultura começa a evaporar (entra em decadência)? Um inequívoco é a transformação do que foi trágico em Comédia. O Estado alemão do século XIX, comandado por kaisers que tentam ser ingleses, é a sátira do Antigo Regime. Segundo Karl Marx, tendemos a nos despedir de um processo histórico de modo alegre, rememorando suas facetas risíveis. O mesmo se sucede hoje, na Pós-Modernidade: todas as Artes e todas as Ciências são auto-comediantes. Chegou-se ao ponto de as comédias de comédias proliferarem: Guerra nas Estrelas, uma paráfrase cósmica dos combates épico-medievais (George Lucas bebe da fonte de Tolkien), é a série campeã de referências divertidas nos filmes e seriados americanos. No âmbito político, ver Chávez, o Carlitos do Socialismo, o último adeus da alternativa falha ao Capitalismo clássico.

Voltando à Alemanha, inscrevia-se o país em uma situação tão peculiar que se poderia defini-la no entreposto entre o esgotamento do mundo idealista e o não-saber-o-que-fazer. Isso implicava refutar qualquer filosofia e, tacitamente, aceitar o destino fatal, o cumprimento da mesma filosofia (de qualquer modo, a maneira mais ágil de transvalorar, se não fosse a única)! Se tudo por enquanto (anos 1840) fôra teoria (imaginação), amanhã o que faríamos não seria prática, mas tão-somente reflexo do que viemos a ser… Até que o movimento iniciado gere um colapso extraordinário e outro projeto renasça das cinzas – Holocausto? Por colapso sem proporções, certamente quer-se dizer o fracasso e a humilhação alemães, o débito pelo progressivismo tedesco no século em que a Inglaterra não queria guerrear.

A Alemanha havia cumprido sua função intelectual antes do mundo – Hegel é quem disso se apercebe, sendo simultaneamente aquele que arremata esta compreensão, assim como um protagonista de García Márquez fadado a desaparecer lendo um texto sobre si –, mas parou em 1900. Os dois filósofos de mais renome que sucederam Hegel são os pássaros do devir do mundo moderno.

Hegel percebeu que quando o homem se dava conta de que estava preso numa cadeia de fatos já projetados, aí nascia a História. Marx apenas reforçou esse juízo com sua pseudo-inversão. Talvez Nietzsche não tenha reforçado muito mais, porém foi categórico. O que é do futuro do projeto realmente autônomo é de lá e é apenas uma meta do observador daqui, QUE AINDA NÃO SUPEROU A SI MESMO. Marx se engana no derradeiro pingo de seu trabalho, quando, consciente de que o homem que ainda não se superou jamais teria respostas definitivas para problemas como esse (simplesmente o da auto-superação da humanidade!), ainda assim afirma que a chave da transvaloração é o proletário. Nietzsche não cita diretamente nenhuma fórmula capaz de subverter o Cristianismo, o espírito iluminista e os Estados-nações. Não há fórmulas. A fórmula é decidida pela própria existência a cada segundo transcorrido – a única menção mais clara de Friedrich Nietzsche ao atingimento do Übermensch consta do princípio de Vontade de Potência e é um duplo alerta: caso as categorias do niilismo se mostrem invencíveis, justo no momento em que o homem teria mais força e capacidade para ultrapassá-las, tendo chegado tão longe, isto significaria que ou os modos de produção não estão maduros o suficiente ou ainda não se encontrou o modo adequado. Talvez essa seja a linha mais enigmática do legado deste último filósofo, o Sócrates depois de Cristo. Provavelmente as duas coisas vêm juntas, e ainda que não se possa pressenti-las no horizonte o pensador do martelo, morto em 1900, nos envia preces otimistas (especialmente a nós): não importa o dia em que cheguem, os novos valores um dia vão chegar…

NOTA CONCLUDENTE: Por incapacidade total de que me entendam adotarei silêncio rotundo e constante sobre as coisas da vida em conversas. Lembre-se sempre: é melhor para a alma forte ser centrípeta que centrífuga, e aliás é o único pathos que ela conhece para si. Respirar o ar do crepúsculo e sê-lo, ser mais imperioso que qualquer jovem, que quaisquer pés sobre o asfalto. Auto-satisfação comigo mesmo e com minha majestade. A onda do mar navega milhas e milhas antes de arrebentar. Escolherei o pedregal.

O DIABO VESTE O QUE IVAN QUER

– …e, assim, a humanidade acabou com o século XIX.

– Como podes dizê-lo? E tudo de importante que nos define hoje – Freud, para começar?!

– …Freud, tu dizes?!!? Hahahaha!! Fica-te a saber: grandessíssimo pamonha este aí. E mais: não te digo que a humanidade parou num ano determinado. Nada se sabe a respeito disso. E, depois, não foi em 99 como naquele lixo do Matrix. E não tens como simplesmente saíres e fazeres a checagem! Não há nada lá fora, ó romântico Mulder! Só posso-te dizer que foi muito mais cedo no século. Não há mais homens. Nada que seja novo sob o sol, no sentido de que tudo não passa de idéia compósita dos últimos pensadores. Toma teu Dostoiévsky, por exemplo. Que sabe porventura André Breton? Niño bobo, palerma. Crês que haveria algo depois da revolução burguesa? Toda a história desde o remate da filosofia continental é mera inflexão dos escritores. Ergue-se um império dos trabalhadores no Oriente do mundo civilizado – é uma conclusão lógica a forma como derruiu, qualquer autor poderia narrar essa história. Junta então 20 deles trabalhando ou em colaboração ou individualmente e tens diante dos olhos todos os mais ínfimos detalhes, com a maior verossimilhança… Bombas de destruição em massa: haveria que esperar o quê do homem se se pusesse teoricamente a adivinhar sobre elementos químicos mais avançados da tabela periódica que os já conhecidos pelos químicos do XIX? Satélites e a conquista da lua, a esterilidade dos outros planetas… Tudo isso cheira a folhetim apressado de Júlio Verne! Porque já a terra é um deserto cansado… Videogames, realidade aumentada e a continuidade da importância dos clássicos… Tudo isso é da pena dos mais qualificados antes do fim do humano. Mas o pior é que a história é como um romance que nunca termina… E exasperar-se-ia a mente dos maiores gênios se se pusesse a imaginar – e depois?… – e depois?… O socialismo e o fascismo reciclados voltam a se enfrentar, ó!!! Mas não há nada inédito nisto, e como poderia?! É exercício imaginativo, nada disso foi vivido realmente. Vê tu! E ninguém lança as tais bombas nunca! Ecologia! Pré-história… Nunca houve, então como o homem ilustrado poderia contá-la em enredo pós-apocalíptico? Essas ficções são sempre bem ruins… Começa-se a pensar que teria sido melhor que a terra fosse plana, mas o problema dos desertos se repetiria, notaste?!… E o que é o oceano senão o espelho do espaço sideral, desse nada? Não, não, amigo, tira da tua cabeça essas manias…

A MEDLEY OF MEANINGS: Insights from an instance of gameplay in League of Legends – Max Watson, 2015. In: Journal of Comparative Research in Anthropology and Sociology

Huizinga’s writings influenced the work of other prominent mid-to-late-century theorists of games and play (Elias and Dunning 2008; Morgan and Meier 1995; Suits 2005; Suits 1995), as well as more recent specialists on digital¹ games (Dyer-Witheford & de Peuter 2009; Juul 2003; Juul 2002). It is on meaningful play in digital games that this article focuses. Though Huizinga obviously did not have the chance to comment on digital games themselves, I, like those listed above, think that his work can be relevant to understanding this newest form of games in interesting ways.”

¹ “I prefer the prefix ‘digital’ to more clearly define these games in media terms from their analogue counterpart, but for all practical purposes I mean the same thing as the more colloquial ‘video games’ or ‘computer games’.”

There have been a growing number of games produced in recent years which are particularly well designed to foster insightful gameplay, digital games which engage with and raise awareness for important real-world issues by being played. Titles like Among the Sleep and Papo & Yo deal in an emotive way with the weighty issues of domestic abuse from alcoholic parents (Caballero 2012; Ugland and Jordet 2014). In Among the Sleep, players see through the eyes of a two year old boy as he flees from a dark monster who turns out to be his mother when she drinks; in Papo & Yo the protagonist flees his abusive father into an imaginary, magical favela where he solves puzzles with the help of a monster. In This War of Mine players control a ragged group of civilians clinging to life in a war-torn city, needing to manage scarce resources and make difficult ethical decisions, like whether to steal food from the needy to feed one’s own starving group (11 bit studios 2014). The game is inspired by the Yugoslav wars and is a departure from the far more commonly seen perspective of the soldier in war games. In Don’t Look Back players are exposed to the emotions of loss and grieving, playing through a game inspired by the Greek tale of Orpheus and Eurydice (Cavanagh 2009).”

In Elude players navigate between 3 emotional landscapes, normal, happy, and depressed, striving for the ever ephemeral happiness and being habitually dragged into all-consuming depression. The gameplay offers players an emotive window into what living with depression can be like. As the developers note, ‘It is specifically intended to be used in a clinical context as part of a psycho-education package to enhance friends’ and relatives’ understanding of people suffering from depression about what their loved ones are going through’ (Rusch, Ing & Eberhardt 2010). Depression Quest follows a bleak choose-your-own-adventure style of gameplay, as the player navigates the life of a mid-twenties person with depression (Quinn, Lindsey & Schankler 2013). And the conglomeration of games For the Records deals with an array of mental health issues, from eating disorders to depression (Rusch & Rana 2014).”

It is worth noting, however, that while heavily issue-driven games like those discussed above are growing in prominence, they are still in the minority, and are generally produced by smaller-scale, indie developers — though bigger budget titles exist as well: for example the third-person shooter Spec Ops: The Line prominently engages with post-traumatic stress disorder (Yager 2012). And while at best this explicitly meaningful approach to game design harnesses the power of play that Huizinga discusses and uses it to help players to specific real world insights, at times in striving to make these games meaningful, developers create gameplay that may not be as ‘fun’ as is found in commercially-successful, mainstream games. This is something of which their developers are often acutely aware and even accept based on propriety.”

Others argue that even such mainstream games are meaningful, albeit worryingly so. In this interpretation, while the content and gameplay of most mainstream games may be trivial or meaningless to observers, its effects certainly are not. (…) Others put forth normative arguments about how digital games can warp players’ minds, obfuscating their view of the real world and causing them to withdraw from it.”

China has banned soccer games that list Taiwan as a country (Krotoski 2004), Germany has prohibited games which depict Nazi symbols (Rawlinson 2014), Iran banned Battlefield 3 for depicting an invasion of Iran (Stuart 2011), and Venezuela issued a moratorium on violent games altogether (McWhertor 2010). Meanwhile, the effects on minors of violence and nudity in digital games has been debated at the U.S. Supreme Court (Supreme Court of the United States 2011).”

For a counterpoint which sees gameplay in general in a far more positive light, see (McGonigal 2011)”

The strongest recent articulation of digital games’ potential to inculcate worrisome real-world viewpoints came with the Gamergate controversy. The controversy was complex (…) for a good chronological summary see Stuart 2014 — but one undeniably salient part of it was a strong thrust of misogyny amongst some proponents of the Gamergate movement. Interestingly, considering the topic of this article, another key component was many Gamergaters claiming to be defending ‘ethics’ for their stance on purported unethical collusion between games journalists and developers. These [Gamergaters’ ‘ethics’] were often disguised as a rejection of what they labelled ‘social justice warriors’ purported incursions into the world of digital games, which brought with them an overemphasis on socially themed gameplay like that found in the abovementioned insightful games. Indeed, Zoey Quinn, the main creator of Depression Quest, was a central target of the Gamergate attacks. Many drew links with these views and the negative, often objectifying depictions of women in mainstream games (Sarkeesian 2013), and pointed to the new influx of women playing games caused by the emergence of casual, mobile-based games as a demographic shift that challenged the status quo (Ernst 2014). For some scholars, the vitriol exhibited by some members of the Gamergate movement marked a challenge to the distinct identity of the ‘gamer’ (Chess and Shaw 2015). Dan Golding summed up this sentiment well in a piece titled ‘The End of Gamers’ in which he wrote ‘From now on, there are no more gamers — only players’ (Golding 2014).”

E eu que achava que era o contrário: gamers sendo a degenerescência do tipo antigo, não-reacionário e aberto a inovações, mais ou menos perceptível como uma comunidade de interesses, de fato (o player engajado – não em questões sociais, mas no playing – das revistas de videogame dos anos 80 e 90 no Brasil). Com o advento das questões sociais de facto, hoje esta ‘comunidade’ cingiu-se em duas: a dos responsáveis e a dos gamers esquizofrênicos. Não raro os esquizofrênicos são da nova geração e os gamers responsáveis (players) são justamente players antigos que não enxergavam games como ato político mas agora amadureceram para acolher essa nova função da mídia – games não são apenas games. Social players vs. mysanthropic players. Estes últimos curiosamente alinhados com visões sociais conservadoras, já que afinal é preciso ter uma ideologia de vida ainda que se seja refratário a tudo além do gaming per se – esses garotos e homens barbados (nalguns casos) escolheram os valores do neoliberalismo e do fascismo, avatares arcaicos, em franca e paradoxal oposição ao fetiche tecnológico de que também compartilham. São gamers passivos, quase apenas espectadores. Acríticos noveleiros.

Observação incidental: Incrível como o artigo do Wikipédia sobre o GAMERGATE é absolutamente tendencioso, disfarçado de “cobertura do ponto de vista dos dois lados da contenda”, revertendo acusações de misoginia de grupo a grupo, quando é muito claro que os contrários à tag são os verdadeiros misóginos e troublemakers.

Golding and others have depicted gamers as an exclusive, predominantly male group weaned on mainstream games that are low on insight and high on violence and misogyny.”

As for the professionals…it is clear that they are not players but workers. When they play, it is at some other game.” (Caillois 1961, 6)

I have seen people, running the gamut from diehard to casual, refer to themselves in one sentence as gamers, and in the next as players, to what they are doing as gaming, and then describing it as playing. There is even the frequently used and problematic, for those who seek to decouple games and play, word gameplay.” Você está confundindo análise filológica com semântica.

In this article’s second half, to which I will presently turn, I take this notion of a medley of meanings from its current highly theoretical and perhaps still somewhat opaque enunciation and ground and articulate it through an ethnographic recounting of an instance of gameplay in the mainstream, ostensibly meaning-light game League of Legends.” Amigo, é o melhor que você faz. a discussão teórica estava um porre (salvei os leitores do meu blog dos momentos sacais).

* * *

Allow me to start with Morgan. It would be easy and I think fair to classify Morgan as an anti-social player of the type recounted by other anthropologists (Kou & Nardi 2013, 2014); akin to the antagonist in conflicts found in the foundational texts of New Games Journalism between players who sought propriety and respect and those who thrived on slurs and hurt feelings (Dibbell 1993; Gillen 2004; Shanahan 2004). Or, for those who prefer the more classical categorizations recounted near the beginning of this article, Morgan was very much being a spoilsport in Huizinga’s sense.”

Should we challenge Morgan’s racist remarks, not knowing whether it would stop them or encourage more? Hold fast in the pre-agreed positions or acquiesce to Morgan’s insistence on taking the jungle? Encourage team-play or treat Morgan as a lost cause? And equally importantly, how would each decision play out? Thus in a sense, to use Sicart’s terminology, Morgan posed a wicked problem for the other players. This was a problem that struck to the very heart of each particular player’s subjective gameplay experience, and, with Donath [1999, sobre trolling] in mind, I would venture to say that the posing these uncomfortable questions, witnessing the reactions to them, and then responding in turn was more integral to Morgan’s own subjective play experience in LoL than the technical gameplay itself.”

Robin reacted in a similar way to how most experienced LoL players reacted to players like Morgan. Robin was more than willing to make it known that Morgan’s actions were unwelcome, continuing to verbally challenge Morgan throughout the game. Nonetheless, Robin did bend and played the top lane, rather than allowing Morgan’s actions to drag the whole team to a defeat from an undefended flank. I propose that Robin’s approach to playing is quite similar to what Huizinga had in mind with the ideal player: Robin plays the game for fun, and reacts in a strong and negative way to spoilsports like Morgan.

Terry explicitly stated a desire to be a professional gamer, but it was the cool patience of Terry’s reactions to Morgan’s insults and incorrigibility that truly reflected somebody striving to imbue their gameplay with a strong degree of professionalism. This is not to say that adopting such a disposition made Terry somehow less of a player than the rest of us. Terry was obviously neither the snarling, exclusive, and victory-obsessed “gamer” brought forth by Gamergate, nor Caillois’ working professional devoid of the play spirit mentioned in the previous section. Rather, a part of Terry’s professional attitude to play was being able to weather with a cool head the wicked problems put forth by fellow players, in order to make the decisions which would maximize our team’s chances of winning the match, something Morgan’s actions drew out rather than suppressed.

It is harder to speculate about the largely silent Alex. One might take Alex’s initial claims to being a novice at face value: that in learning a new game Alex was focusing mostly on the technical rather than social aspects of gameplay. However, skilled moves like Alex beating Morgan to a kill seem to imply a greater deal of experience than was being admitted. It could be that Alex’s self-referral as a novice was simply a way of tempering the team’s expectations. If Alex was that experienced and cunning, then perhaps staying largely quiet and outside of team’s arguments was part of a broader strategy to rob players like Morgan of the validation and satisfaction that angry responses to impropriety can bring, a sentiment grasped in the gaming maxim ‘don’t feed the trolls’. Or the answer could be far simpler: Alex might just be a quiet person.

Finally, I brought my own particular disposition to gameplay into the medley. I was in part reacting in my normal way as a player to Morgan’s actions, which I viewed negatively. Conversely, I was also holding my tongue more than I might otherwise, remembering my role as a researcher and attempting to observe as thoroughly as I participated. And all the while, I was trying not to let the team down by performing poorly in the technical side of gameplay.”

UMA (DUAS) ODE(S) AO AMOR IMPOSSÍVEL

Crítica de 2 de março de 2009

Quão brilhante é a neo-clássica adaptação de Romeu e Julieta de Shakespeare para o cinema! Talvez esteja fora de moda, não só o próprio amor, mas a forma textual em que ele é comunicado. Na era da falta de imaginação, imagens e sons devolvem ao jovem o doce – e ao cabo amargo – sabor da ilusão. Talvez o diretor Luhman tivesse em conta a situação do professor de literatura ao iniciar as gravações. Afinal, com a exceção do rosto de DiCaprio, cilada que captura as menininhas – sem volta: todas as aventuras são sem-volta –, esta é a única maneira de solidificar o que é líquido e esparso. O vívido contraste entre a erudição e o colorido de boate é o mesmo de entre as carroças e os possantes carros, das páginas (sem vida? O leitor está inerte!) com as câmeras, da batina sóbria e da camisa florida do padre (dos padres. E o que se tira disso? Há algo familiar demais entre os opostos que se atraem para ser ignorado!

A contradição que não se pode resolver, entre dois inimigos de sangue, é o mesmo dilema que sente a carne. Posto que é tão real, não pode ser loucura ou confusão. Ou será que serão? Tudo isso é, e muito mais; a nova força semovente abraça todas as alteridades num invólucro só. O que é de hoje e o que já se tornou estranho, fóssil de uma enterrada era… sempre estiveram no recôndito de cada alma. Nenhuma experiência é previsível, não há ato que possa ser repetido – logrado duas vezes.

THE TRANSSEXUAL EMPIRE: The making of the she-male (sic) – Janice Raymond, 1994.

This book has been long in process. It began as a conference paper delivered at the New England Regional American Academy of Religion Meeting in 1972. Much of it had another life as my doctoral dissertation, which was finished at Boston College in 1977. Finally, it metamorphosed into a book.”

Shortly after the book was published in 1979, Johns Hopkins, which was the first US medical institution to perform transsexual surgery, phased out the procedure and dismantled its Gender Identity Committee. Although some of my friends credited The Transsexual Empire as an important influence on the termination of the surgery, I think the closing of Johns Hopkins’s doors had much more to do with several other factors, some announced and some not publicized.”

In his work on children and sexuality, Money and co-editor Gertrude Williams went so far as to state that a man who commits incest is a sexual deviant, which is <like being a religious deviant in a one-religion society>.”

Transexualism remains, as in 1979, largely a male phenomenon. Female-to-constructed-male transsexuals are relatively rare. For example, of the transsexual surgeries currently performed at the University of Minnesota’s Program in Human Sexuality, the second US institution to perform the surgery, 85% are male to female.”

I still maintain that men, being freer to experiment than women, seek out and submit to the surgery more often.” Oh, but then, as a consequence, they lose their free-will, see the paradox?

Iron John’ [?] embraces the standard of men’s new-found ability to cry as a primary marker of male liberation.” HAHAHAHA!

As opposed to men who seek opposite sex hormones and surgery, most women’s ‘gender dissatisfaction’ has been in not being feminine enough, or in not fulfilling their female role, e.g., motherhood. Thus medical science has tended to direct women into conforming to male dominant images and roles of femininity.”

ESTRANHA AUTOFAGIA… “Simone de Beauvoir gave us the insight that woman has been fabricated by man as ‘the other’, the relative being—relative to himself as the norm. So it should not be surprising that men, who have literally and figuratively, constructed women for centuries, are now ‘perfecting’ the man-made women out of their own flesh.”

Since transsexualism effectively has become a medical problem, the medical model prevails as the legitimate and dominant form of therapy, requiring psychiatric evaluation, hormonal and surgical intervention, and often a host of countless secondary cosmetic surgeries, all meant to adjust the artifactually evolving female body to the accepted feminine stereotypes.”

Defining and treating transsexualism as a medical [challenge] prevents the person experiencing so-called gender dissatisfaction from seeing it in a gender-challenging or feminist framework.”

Many want to know why the issue of transsexualism is of concern in the schema of pressing issues of feminism. As I saw it then and see it now, transsexualism goes to the question of what gender is, how to challenge it, and what reinforces gender stereotyping in a role-defined society. These questions have been raised subsequently in the context of more recent debates defined by the current argot of ‘transgender’.”

If it all boils down to some innate, essential quality, any attempt to change this state of affairs would be futile. In fact Raymond states that as sex reassignment surgery cannot change chromosomal sex, the transsexual does not really change sex at all.” Woodhouse

When I wrote this [the title of her book, thoughtlessly!], many reviewers took it to mean that a vast male conspiracy was afoot to eradicate ‘native-born’ women—the ultimate male plot to possess women totally. That was never what I meant, nor was it what I intended to convey.”

In giving us the concept of ‘the banality of evil’, Hannah Arendt reminded us that wrong-doing and destruction are not always radically intentional or the result of planned conspiracies, but they may be terribly ordinary.”

The title of my book was satirized in ‘The Empire Strikes Back; a Post-transsexual Manifesto’, an article written by Sandy Stone. Stone, a male-to-constructed female transsexual, was hired in the 1970s as a sound engineer by Olivia Records, the all-women recording company. This set off a controversy in feminist circles that I alluded to and commented on in The Transsexual Empire. Since then, it seems that Stone has gotten himself a thorough post-modernist education, and he now theorizes that, after all is said and done, the transsexual is really text, or perhaps a full-blown genre.”

A transsexual who passes is obeying the Derridean imperative . . . to begin to write oneself into the discourses by which one has been written.” S.S.

Raymond contemplated transsexualism with all the frustration and disgust of a missionary watching prime converts backslide into paganism and witchcraft.” Shapiro

men, and some women, who undergo transsexual surgery are terribly alienated from their bodies, so alienated that they think little of mutilating them.”

The term, transgender,¹ covers preoperative and postoperative transsexuals, transvestites, drag queens, cross dressers, gays and lesbians, bisexuals, and straights who exhibit any kind of dress and/or behavior interpreted as ‘transgressing’ gender roles.”

¹ “While I realize that much of the traditional literature distinguishes among drag queens, cross dressers, and transvestism, and that there are some significant differences among these groups, what they all have in common is that they wear women’s clothes. Further, they wear the kind of hyperfeminine women’s clothes that many women would never wear.”

When Boy George accepted a Grammy award for Best New Artist in 1985, he thanked his US audience for recognizing not only his music but ‘a good drag queen’. Perhaps the more flamboyant US version of Boy George is African-American RuPaul, whose musical act has become a highly successful marketable commodity.”

When most women put on pants, a necktie, combat boots, or a business-looking blazer, they are not trying to pass as men.” How do you know?

But transgenderist defiance equals a kind of androgynous humanism, an individualist assertion of androgynous blending, rather than a political defiance of both roles.” E o que você propõe enquanto esperamos a hora da meia-noite e um, i.e., o fim do pós-modernismo? “Política”? Mas esse é o problema: política no sentido clássico não existe mais, odiando-se Derrida ou não… O que acontece agora é uma etapa intermediária de uma lenta inversão.

And so androgynous humanism replaces feminist politics.” You got it. You can fight against it, not accept it, but this is fundamental reality (not a construto)…

Stone Butch Blues is basically a transgender odyssey of a woman growing up in the gay bars and working-class factories of the 1950s and 1960s. Coming of age as a young ‘butch’ [sapatão] in Buffalo, Feinberg movingly describes the working-class reality of this historical butch world with a sharp consciousness of its political aspects—a more powerful testimony to class politics than any Marxist analysis—” Nossa, e cadê o Nobel dessa autora?!

A key turning point is when Jess, the butch protagonist in the novel, undergoes hormone treatment and breast surgery. Living and working as a butch has become too painful and fraught with harassment and violence, but so has the realization that Jess feels herself to be other than a woman—a ‘he-she’, feeling neither like a woman or man but ‘different’.”

Maleness and femaleness are governed by certain chromosomes, and the subsequent history of being a chromosomal male or female. Masculinity and femininity are social and surgical constructs.” Sequer há diferenciação no Português.

The term transsexualism¹ was first used by Harry Benjamin in a lecture at a meeting of the New York Academy of Medicine in 1953.”

¹ “Harry Benjamin first became interested in sex conversion (which he later named transsexualism) when sex researcher Alfred Kinsey referred him to a case that he, Kinsey, could not understand. Kinsey was preparing a second volume on sexual behavior and discovered in the taking of his case histories a young boy whose great ambition was to become a girl. Benjamin subsequently began seeing other cases of a similar nature, began referring candidates abroad for surgery before the operation could be performed legally in the United States, and published the first systematic and professional account of transsexualism in a volume entitled The Transsexual Phenomenon (New York: Julian Press, 1966).”

But I have chosen to consistently employ the term transsexualism, because it is one of the main contentions of this work that transsexualism operates as an ideology which the suffix -ism is meant to denote.”

À GÊNESE DOS GENERA (PRATICAMENTE): “6. Psychological Sex. Much of the literature uses this terminology to designate attitudes, traits, characteristics, and behavior that are said to accompany biological maleness or femaleness. I would prefer the term psychosocial sex to indicate the all-important factor that such attitudes, traits, characteristics, and behavior are socially influenced. Robert Stoller uses the term gender to distinguish this kind of sex from biological sex.”

gender identity is the private experience of gender role, and gender role is the public expression of gender identity.”

The word gender has certain problems for the feminist critic. It gives the impression that there is a fixed set of psychosocial conditions that determines gender identity and role.”

Moreover, the change in genital sex does not make reproduction possible. Maybe with the development of various forms of reproductive technology, this will be feasible in the future, but as yet, a change in genital sex is not accompanied by reproductive capacity.”

In 1975, for example, the Second International Conference on Transsexualism was renamed the Second International Conference of Gender Dysphoria.”

Until, of course, the surgery was popularized, post-Christine Jorgensen, the specific need of surgery was not evident, although some people may have felt that they wanted to change sex.” wiki: “Christine Jorgensen (30 de maio de 1926 – 3 de maio de 1989) foi uma mulher trans americana e a primeira pessoa a ser abertamente conhecida nos Estados Unidos por ter passado pela cirurgia de re-designação sexual.”

ROOT OF ALL EVIL: “These disciplines attribute the conditions of a sexist society to amorphous ‘roles’ and ‘forces’ that are unspecified. Nobody is blamed and everyone is blamed. Such words delete the agents of these ‘roles’ and ‘forces’—that is, the society and institutions men have created.”

Writers on moral issues frequently do little or no in-the field research. They understand their discipline as a ‘library science’, or they limit their empirical research to institutions that ‘treat’ the problem, rather than also including those persons and individuals who are most immediately affected. (Daniel Callahan, for example, did a comprehensive medical, legal, and ethical analysis of abortion, yet nowhere in his study does he indicate that he spoke extensively with women who were in the process of choosing or had chosen abortions.)¹ It has been my experience that talking with transsexuals themselves, as well as with individuals involved in the study and treatment of transsexualism, especially in their occupational milieu, made a vast difference in what I came to know about transsexualism.” Não creio que entrevistas com envolvidos possam mudar opiniões das pessoas engajadas num estudo. O fato de ter entrevistado transexuais pode apenas ter reforçado suas crenças anti-transexualidade, o que não significa que elas estejam erradas, mas que o estudo etnológico não é ‘o todo’ da questão.

¹ Quem liga para o que homens falam sobre aborto de qualquer maneira??

All this helped form my belief that the issue of transsexualism is basically one of social ontology—that is, an issue of what society allows and encourages its constituency to be.”

it is perhaps imperative that I explain further just what I mean by ontology.” Por favor!

I have therefore chosen to talk about transsexualism as most deeply a question of be-ing,¹ which cannot be separated from the social context that generated the problem to begin with.”

¹ “Because the ontological tradition generated such a static notion of being, modern ethicists have talked about its impossibility for providing a basis for ethics. They have often pointed to the need for a post-metaphysical way. Yet the split between being and becoming is not a necessary one, as Mary Daly has pointed out, and has always seemed rather artificial and imposed as compared to the experience of being and its philosophical intuition in individual lives. Thus Daly speaks about being as be-ing. Be-ing is the initial power of everything, not as static structure, but as the direction of a process.”

There are many questions that people often ask about transsexualism. When was the first transsexual operation performed? Where was it done? How did transsexualism first gain public recognition? What is the cost of the surgery? How, medically speaking, is a person transsexed? What are the legal ramifications of sex conversion surgery? Is it possible to change birth certificates, drivers’ licenses, and the like? Has transsexualism been a phenomenon throughout history?

Transsexual operations have been surgically possible since the early 1930s. The hormonal and surgical techniques, however, were not refined and made public until the early 1950s. Since then, thousands of transsexual operations have been performed both here and abroad. Largely due to the support of individuals such as Harry Benjamin, M.D., and institutions such as the Erickson Educational Foundation and Johns Hopkins, transsexual treatment and surgery has become a legitimate medical area of research and activity. The medical specialties that it calls forth, or more correctly that call it forth, are varied and complex, beginning with hormone therapy and often ending in numerous operative procedures. Just as complicated are the legal intricacies of changing sex on birth certificates, licenses, and other certificates of personhood required to live one’s life. Other legal issues also affect the institutions performing the surgery.” “Historical antecedents are found in certain mythological accounts, initiation rites, and certain modes of eunuchism and castration but, strictly speaking, transsexualism has no historical precedents.” Tirésias, O Adão dos Trans

Christine is a powerful name!

Although Christian Hamburger has been credited with bringing together many of the surgical specialties for the treatment of the transsexual, he was not the first physician to perform transsexual surgery. This title belongs to a German, F.Z. Abraham, who, in 1931, reported the first case of sex-conversion surgery. In the years between 1931-52 sporadic and piecemeal reports of transsexual operations came forth, primarily from Germany and Switzerland. Hamburger, however, seems to have been the first to make use of hormonal castration and to follow up on his patients.”

Casablanca, Istanbul, and countries such as Denmark, Germany, and Switzerland, were the most frequent locations to which transsexuals travelled, provided they could pay the cost and were willing to risk little or no medical follow-up. Today, however, the situation, at least in the United States, is quite different.”

Although reports conflict as to how many transsexual operations have actually been performed in this country and how many persons seek the surgery, figures published in Newsweek magazine on November 22, 1976, indicated that there are about 3,000 transsexuals in the U.S. who have undergone surgery and 10,000 more who view themselves as members of the opposite sex.” “In the spring of 1973, the Erickson Foundation Newsletter reported that only 10% of those individuals who go through evaluation for surgery eventually achieve it.”

In other areas, for example New York City, courts have ruled that transsexual operations are to be included in medical assistance provided by the city and state for persons on welfare. In New Jersey, Medicaid payments have been authorized in some cases. Since federal funds that had been allocated for abortions have recently been withdrawn, feminists are struck by the inequity of this situation. To paraphrase Jimmy Carter, life has been ‘fair’ to transsexuals.”

It is reasonable to speculate that the extreme difficulty I had in finding male transsexuals, plus the scant mention of them in the literature, may be indicative of the fact that there are fewer of them than are claimed.”

male transsexualism may well be a graphic expression of the destruction that sex-role molding has wrought on men. Thus it could be perceived as one of the few outlets for men in a rigidly gender-defined society to opt out of their culturally prescribed roles. Women, on the other hand, since the recent rise of feminism, have been able to confront sex-role oppression on a sociopolitical, as well as personal, level. Thus women have realized that both masculine and feminine identities and roles are traps.” Ambíguo face ao desenvolvimento ulterior da transexualidade. Talvez as mulheres tenham emburrecido (claro, pois a humanidade como um todo emburreceu) nos últimos 40 anos?

Karen Homey reversed Freud’s theory of penis envy calling it womb envy.” E o garoto aprende o que é um útero aos 3 anos de idade? Quando se pensa que é IMPOSSÍVEL piorar Freud…

The same socialization that enables men to objectify women in rape, pornography, and ‘drag’ enables them to objectify their own bodies. In the case of the male transsexual, the penis is seen as a ‘thing’ to be gotten rid of. Female body parts, specifically the female genitalia, are ‘things’ to be acquired.”

Transsexualism is thus the ultimate, and we might even say the logical, conclusion of male possession of women in a patriarchal society. Literally, men here possess women.” Olhe pelo lado bom: o começo do fim do patriarcado…

Objectification is largely accomplished by a process of fragmentation. The fetish is the fragmented part taken away from the whole, or better, the fetish is seen to contain the whole.” Klein, a fetichista da psicanálise.

The four steps are penectomy, castration, plastic reconstruction, and formation of an artificial vagina (vaginoplasty). Some transsexuals have only the first and second steps performed, and indeed, some writers recommend this approach.”

The vagina is constructed by creating a cavity between the prostate and the rectum. An artificial vagina is formed from a skin graft from the thigh and lined with penile and/or scrotal skin. Thus orgasmic sensation is possible. The shape of the artificial vagina is maintained by a mold that is worn continuously for several weeks following surgery. Once healing has occurred, manual dilation or penile insertion 2 or 3 times weekly is necessary to prevent narrowing, which can result through the contraction of scar tissue.” For me this is news!

One of the ill effects of long-term androgen therapy has been attacks of acne. Some observers also report a libido increase that they regard as undesirable and troublesome, but whether or not this is caused by biological or social-psychological influences is debatable. One of the more serious consequences of androgen is that all its effects are not always reversible. If a woman decides to stop hormone treatment, her voice may retain its low pitch and her facial hair may remain.”

The female transsexual patient, perhaps considerably more than the male, feels quite strongly that something is wrong internally. The menses are regarded as loathsome and often are described as being exceedingly painful.”

The removal of ovaries was used to tame deviant women during the 19th and early 20th century rash of sexual surgery. This mode of female castration has now been superseded by hysterectomy. If one regards the male trans as a potential deviant, as a potential lesbian and woman-identified woman, the comparison between these castrated women and male transsexuals is significant.” “A remoção dos ovários foi usada para domesticar mulheres desviantes durante a erupção das primeiras cirurgias sexuais no fim do séc. XIX e começo do séc. XX. No entanto, esse método de castração feminina já foi há muito tempo superado pela histerectomia [extração do útero]. Se se olha o transexual macho como desviante ‘em potencial’, enquanto possível lésbica ou mulher que se identifica com mulheres, a comparação entre essas mulheres castradas de outrora e o transexual homem de hoje torna-se significativa.”

The vagina remains. Phallus construction, when undertaken, begins in conjunction with a hysterectomy. It is technically possible to construct a penis surgically by rotating a tube flap of skin from the left lower quadrant of the abdomen and closing the vaginal orifice. A urinary conduit can be led through such a phallus, so that the constructed penis may be used for urination. However, because of complications, many surgeons have decided against constructing the phallus so it can be used to urinate. Instead, the female urethra is maintained in its existing position beneath the constructed penis. But the new penis lacks sensitivity, and can become erect only through the insertion of certain stiffening material that remains in the penis all the time, or can be put in and out through an opening in its skin.” “Some transsexuals recognize that the phallus will serve little, if any, role in sexual activity, since the technique of creating an erect penis has not been developed. Some female transsexuals, however, do undergo the number of hospitalizations required for phallus construction. They are convinced that the rodlike stiffener, inserted into the skin of the constructed member, can put pressure on the original clitoris (which still remains) during intercourse, making an orgasm possible.”

For the male transsexual, ‘toilet trauma’, as Zelda Suplee calls it, is a particular fear. Public lavatory facilities for men often require the kind of exposure that women do not meet, and this alone increases the female transsexual’s anxiety about phallus construction.”

A case in Argentina ruled that a transsexual’s consent to sex conversion surgery was unnatural, and therefore invalid, and the surgeon became liable in tort for assault”

As Robert Sherwin has stated, there is no law that expressly forbids males to wear female clothing, per se. There are laws that forbid males from doing so for the purposes of defrauding when, for example, one tries to gain illegal entry or attempts to acquire money by such impersonation.”

The causes of transsexualism have been debated for years. Perhaps the earliest commentator was Herodotus. He explained the origin of what he referred to as ‘the Scythian illness’ by resorting to divine causation. Venus, enraged with the plundering of her temple at Ascelos, changed the Scythian males and their posterity into women as her divine punishment for their misdeeds.”

I will demonstrate that while biological and psychological investigations seek different causes, they both utilize the same theoretical model—i.e., both seek causes within the individual and/or interpersonal matrix.” “For example, psychological theories measure a transsexual’s adjustment or nonadjustment to the cultural identity and role of masculinity or femininity.”

There are many reasons I have chosen to do an extensive analysis of Money’s work. First of all, his theories on sex differences have gained wide acceptance, both in academic and lay circles. They have also been widely cited by feminist scholars. No other researcher in this area has developed any comparable body of research. Thus most discussions of sex differences refer to Money’s work as a kind of bible. Second, no one has done a comprehensive analysis and critique of Money’s work, especially as it relates to issues surrounding transsexualism. For example, Money’s much-publicized theory that core gender identity is fixed by the age of 18 months forms one critical basis for the justification of transsexual surgery, and therefore deserves special attention. Finally, inherent in Money’s proclaimed scientific statements about sex differences are many normative and philosophical statements about the natures of women and men. Under the guise of science, he makes normative and prescriptive statements about who women and men are and who they ought to be.”

Compared to earlier theorists, Money appears to be a very astute and careful researcher of gender identity. For example, the earlier, more reductionistic theorists linked anatomy directly to destiny. Straightforward links between hormonal factors and supposed behavioural results were simplistically set forth. In Money, however, the connection between the two is indirect.”

O CHOMSKY DOS ESTUDOS DE GÊNERO: “The interaction of biological and social factors is explained by using the concept of a program and by comparing that program to the development of native language. There are certain parts of the program that exert a determining influence, particularly in the prenatal period, and leave a permanent imprint. These are hormonal influences that act on the brain to set up supposed neural pathways to receive postnatal, social, gender identity signals.”

Is science, in John Money, reducible to hidden pseudo-metaphysical statements about the nature and behavior of men and women?”

Their causal explanation of tomboyism is grounded in fetal hormonal activity:

The most likely hypothesis to explain the various features of tomboyism in fetally masculinized genetic females is that their tomboyism is a sequel to a masculinizing effect on the fetal brain. This masculinization may apply specifically to pathways, most probably in the limbic system or paleocortex, that mediate dominance assertion (possibly in association with assertion of exploratory and territorial rights) and, therefore, manifests itself in competitive energy expenditure.”

For the little it is worth as commentary on Adam’s Rib, it is the female sex that is primal. The early embryo is female until the 5th or 6th week of fetal life. A testicular inductor substance must be generated at this point to suppress the growth of ovaries. No ovarian inductor is required for female differentiation because all mammalian embryos of either genetic sex have the innate capacity for femaleness. Eve and not Adam appears to have been the primeval human that God had in mind.”

Thus initial embryonic female differentiation is so powerful that even without the presence of female hormones, female internal and external sex structure will result whether in an XX or XY genotype. Furthermore, as Eileen van Tassell has pointed out, the male needs the X chromosome in order to survive. There is no YO chromosomal anomaly. The female, however, does not need a second X, and XO females have been born and survived.”

The genital anatomic fact is that, embryologically speaking, the penis is a masculinized clitoris; the neurophysiological fact is that the male brain is an androgenized female brain.” Robert Stoller

To advocate a flexibility within the range of stereotypes, yet not do away with the stereotypes completely, is similar to giving a woman whose feet have been bound and mutilated crutches or a chair to be carried in, yet not the ability to completely and freely move about.”

Would Money assert that if ‘society’ has driven racist attitudes into the ‘core’ of one’s identity, it has no right to expect that one should drive them out?”

This is an incredible piece of sexist advice, advocating some of the worst aspects of sexual stereotypes. Why should a 5-year-old girl be encouraged to rehearse ‘flirtatious coquetry’ with her father while her mother stands on the sidelines permitting such behavior within suitable ‘limits of rivalry’?”

I believe that the first cause, that which sets other causes of transsexualism in motion (such as family stereotypes and interactions), is a patriarchal society, which generates norms of masculinity and femininity.”

Stoller attributes male transsexualism to a classic mother-child relationship that occurs within the context of a disturbed marriage.”

As Kando summarizes, ‘transsexuals are reactionary, moving back toward the core-culture rather than away from it. They are the Uncle Toms of the sexual revolution. With these individuals, the dialectic of social change comes full circle and the position of greatest deviance becomes that of greatest conformity’

Why women tend to be less tolerant of the transsexual phenomenon is an interesting question. It is my belief that this is because more women than men perceive the destructiveness that is inherent in sex-conversion procedures.”

Henry Guze’s insight may be of some interest here. He notes that the female transsexual in some ways puts masculinity on a pedestal. In doing so, he responds as if he were unworthy of this esteemed role. Since he feels he does not really fit the cultured concept of a male, a concept he fears but also loves and admires, he must be a female. I would add to this that he must be a female in order to participate in what is basically a male, heterosexual culture, and that sex-conversion surgery is his only entrance into this world that he basically loves and admires but doesn’t totally fit into as a man. This also explains his repugnance against homosexuality, which would prohibit his fitting into the ‘straight’ world.”

The recent debate and divisiveness that the transsexual lesbian-feminist has produced within feminist circles has convinced me that, while lesbian-feminists may be a small percentage of transsexuals, the issue needs an in-depth discussion among feminists. (…) Because the oral and written debate concerning the transsexual lesbian-feminist seems to be increasing out of proportion to their actual numbers, I think that feminists ought to consider seriously the amount of energy and space we wish to give to this discussion. However, if any space should be devoted to this issue, it is in a book that purports to be a feminist analysis of transsexualism.”

Transsexual lesbian-feminists show yet another face of patriarchy. As the female transsexual exhibits the attempt to possess women in a bodily sense while acting out the images into which men have molded women, the female who claims to be a lesbian-feminist attempts to possess women at a deeper level, this time under the guise of challenging rather than conforming to the role and behavior of stereotyped femininity.”

All men and male-defined realities are not blatantly macho or masculinist. Many indeed are gentle, nurturing, feeling, and sensitive, which, of course, have been the more positive qualities that are associated with stereotypical femininity. In the same way that the so-called androgynous man assumes for himself the role of femininity, the transsexual lesbian-feminist assumes for herself the role and behavior of feminist. (…) they lure women into believing that they are truly one of us—this time not only one in behavior but one in spirit and conviction.”

It is not accidental that most female transsexuals who claim to be feminists also claim to be lesbian-feminists.” “Lesbian-feminists have spent a great deal of energy in attempting to communicate that the self-definition of lesbian, informed by feminism, is much more than just a sexual choice. It is a total perspective on life in a patriarchal society representing a primal commitment to women on all levels of existence and challenging the bulwark of a sexist society—that is, heterosexism. Thus it is not a mere sexual alternative to men, which is characterized simply by sexually relating to women instead of men, but a way of being in the world that challenges the male possession of women at perhaps its most intimate and sensitive level. In assuming the identity of lesbian-feminist, then, doesn’t the transsexual renounce patriarchal definitions of selfhood and choose to fight sexism on a most fundamental level?”

If, as I have noted earlier, femininity and masculinity are different sides of the same coin, thus making it quite understandable how one could flip from one to the other, then it is important to understand that the transsexual lesbian-feminist, while not exhibiting a feminine identity and role, still exhibits its obverse side—stereotypical masculinity.”

One of the definitions of male, as related in Webster’s, is ‘designed for fitting into a corresponding hollow part.’ This, of course, means much more than the literal signification of heterosexual intercourse. It can be taken to mean that men have been very adept at penetrating all of women’s ‘hollow’ spaces, at filling up the gaps, and of sliding into the interstices.”

I feel raped when Olivia passes off Sandy, a transsexual, as a real woman. After all his male privilege, is he going to cash in on lesbian feminist culture too?”

The question of deception must also be raised in the context of how transsexuals who claim to be lesbian-feminists obtained surgery in the first place. Since all transsexuals have to ‘pass’ as feminine in order to qualify for surgery, so-called lesbian-feminist transsexuals either had to lie to the therapists and doctors, or they had a conversion experience after surgery.”

Deception reaches a tragic point for all concerned if transsexuals become lesbian-feminists because they regret what they have done and cannot back off from the effects of irreversible surgery (castration). Thus they revert to masculinity (but not male body) by becoming the man within the woman, and more, within the women’s community, getting back their maleness in a most insidious way by seducing the spirits and the sexuality of women who do not relate to men.”

Transsexuals merely cut off the most obvious means of invading women so that they seem non-invasive.”

There is a long tradition of eunuchs who were used by rulers, heads of state, and magistrates as keepers of women. Eunuchs were supervisors of the harem in Islam and wardens of women’s apartments in many royal households. In fact, the word eunuch, from the Greek eunouchos, literally means ‘keeper of the bed’. Eunuchs were men that other more powerful men used to keep their women in place. By fulfilling this role, eunuchs also succeeded in winning the confidence of the ruler and securing important and influential positions.”

In Mesopotamia, many eunuchs became royal officers and managers of palaces, and ‘others emerge on the pages of history as important and often virile figures’. Some were famous warriors and statesmen, as well as scholars. One finds eunuchs associated with temples dedicated to the goddesses from at least 2000 B.C. until well into the Roman period. In fact the earliest mention of eunuchs is in connection with the Minoan civilization of Crete, which was a transitional period from an earlier gynocentric society. It thus appears that eunuchs, to some extent, always attached themselves to women’s spaces and, most frequently, were used to supervise women’s freedom of movement and to harness women’s self-centeredness and self-government. It is stated that entree into every political circle was possible for eunuchs even if barred to other men.”

Will the acceptance of transsexual lesbian-feminists who have lost only their outward appendages of physical masculinity lead to the containment and control of lesbian-feminists? Will every lesbian-feminist space become a harem?”

Eve was born of Adam; Dionysus and Athena were born of Zeus; and Jesus was generated by God the Father in his godly birth. (Mary was a mere receptacle used to conform Jesus to earthly birth standards.)”

Men, of course, invented the feminine, and in this sense it could be said that all women who conform to this invention are transsexuals, fashioned according to man’s image. Lesbian-feminists exist apart from man’s inventiveness, and the political and personal ideals of lesbian-feminism have constituted a complete rebellion against the man-made invention of woman, and a context in which women begin to create ourselves in our own image.”

In the most popular version of the myth, Semele, the mother of Dionysus while pregnant with him, is struck by Zeus with a thunderbolt and is thus consumed. Hermes saves the 6-month fetal Dionysus, sews him up in Zeus’s thigh, and after 3 more months, Zeus ‘births’ him. Thus Zeus exterminates the woman and bears his own son, and we have single-parent fatherhood (read motherhood). Moreover, Jane Harrison has pointed out that <the word Dionysus means not ‘son of Zeus’ but rather Zeus-Young Man, i.e., Zeus in his young form>. Thus Dionysus is his own father (read mother) and births himself into existence.

Whether we are talking about being born of the father, or the self (son), which in the myth are one and the same person (as in the Christian trinity), we are still talking about male mothering. At this level of analysis, it might seem that what men really envy is women’s biological ability to procreate.”

Most often, lesbian existence is simply not acknowledged, as evidenced in the laws against homosexuality, which legislate against male homosexuals, but not lesbians. It has been simply assumed that all women relate to men, and that women need men to survive. Furthermore, the mere labeling of a woman as ‘lesbian’ has been enough to keep lesbian living harnessed or, at best, in the closet.”

While the super-masculine Apollo overtly oppresses with his contrived boundaries, the feminine Dionysus blurs the senses, seduces, confuses his victims—drugging them into complicity, offering them his ‘heart’ as a love potion that poisons.”

such liberalism is repressive, and that it can only favor and fortify the possession of women by men.”

We have seen 3 reasons why lesbian-feminists are seduced into accepting transsexuals: liberalism, gratitude, and naiveté. There is yet another reason—one that can be perhaps best described as the last remnants of male identification.” “one way of avoiding that feared label [man-hater], and of allowing one’s self to accept men, is to accept those men who have given up the supposed ultimate possession of manhood in a patriarchal society by self-castration.”

How many women students writing on such a feeble feminist topic as ‘Should Women Be Truck Drivers, Engineers, Steam Shovel Operators?’ have had their male professor scribble in the margins: But what are the real differences between men and women? Transsexuals, and transsexual lesbian-feminists, drag us back to answering such old questions by asking them in a new way. And thus feminists debate and divide because we keep focusing on patriarchal questions of who is a woman” “We know that we are women who are born with female chromosomes and anatomy, and that whether or not we were socialized to be so-called normal women, patriarchy has treated and will treat us like women. Transsexuals have not had this same history.”

Although popular literature on transsexualism implies that Nature has made mistakes with transsexuals, it is really society that has made the mistake by producing conditions that create the transsexual body/mind split.”

Should non-transsexual men who wish to fight sexism take on the identity of women and/or lesbian-feminists while keeping their male anatomy intact? Why should castrated men take on these identities and self-definitions and be applauded for doing so? To what extent would concerned blacks accept whites who had undergone medicalized changes in skin color and, in the process, claimed that they had not only a black body but a black soul?”

Transsexuals would be more honest if they dealt with their specific form of gender agony that inclines them to want a transsexual operation. This gender agony proceeds from the chromosomal fact of being born XY and wishing that one were born XX, and from the particular life history that produced such distress. The place to deal with that problem, however, is not the women’s community. The place to confront and solve it is among transsexuals themselves.”

One transsexual openly expressed that he felt female transsexuals surpassed genetic women.”

Genetic women are becoming quite obsolete, which is obvious, and the future belongs to transsexual women. We know this, and perhaps some of you suspect it. All you have left is your ‘ability’ to bear children, and in a world which will groan to feed 6 billion by the year 2000, that’s a negative asset”

Transsexual lesbian-feminists challenge women’s preserves of autonomous existence. Their existence within the women’s community basically attests to the ethic that women should not live without men—or without the ‘reconstructed man’. How feminists assess and meet this challenge will affect the future of our genuine movement, self-definition, and power of being.”

Recently, male photographers have entered the book market by portraying pseudolesbians in all sorts of positions, clothing, and contexts that could only be fantasized by a male mind. In short, the manner in which women are depicted in these photographs mimics the poses of men pawing women. Men produce ‘lesbian’ love the way they want it to be and according to their own canons of what they think it should be.”

The Transsexual Empire is ultimately a medical empire, based on a patriarchal medical model. This medical model has provided a ‘sacred canopy’ of legitimations for transsexual treatment and surgery.” “From time to time there are ‘in-house’ debates about certain elements of the model, but on the whole, it functions at an established and consistent level of orthodoxy. (I use the term medical model to mean an ideology that stresses: freedom from physical or mental pain or disease; the location of physical or mental problems within the individual or interpersonal context; an approach to human conflicts from a diagnostic and disease perspective to be solved by specialized technical and professional experts.)”

Since the 19th century, especially, problems of alienation have been individualized. With the advent of Freudian psychoanalysis, which was later incorporated into medical psychiatry, ‘health’ values began to take the place of ethical values of choice, freedom, and understanding.”

The medical model has gradually yet consistently treated problems of social alienation in the therapy of closed rooms, and more recently in the small group counselling sessions of family clinics and community mental health centers. Ernest Becker has contended that initially, ‘the psychoanalytic cure began its work by focusing on the individual; now, it is broadening out to the study and therapy of the family’.”

Many persons express the urgency of their desire to be transsexed in terms of ‘normalizing’ their self-perceived masculine or feminine psyche in a male or female body. The abhorrence of homosexuality, expressed by many transsexuals, and their unwillingness to be identified as such, indicate their desire to ‘normalize’ their sexual relationships as heterosexual by acquiring the appropriate genitalia. (…) Thus the transsexual is generally no advocate of social criticism and change.”

Health values are all of a piece again with our philosophy of adjustment, spurious individualism, and unashamed and thoughtless self-seeking.”

All of us are in some way constricted by sex-role socialization. One way of viewing transsexuals is that they are uniquely constricted by the rigidified definitions of masculinity and femininity.”

Until the problems that psychiatry has claimed for itself are broadened into a general criticism of patriarchal society, transsexualism will not be understood as a medical manipulation of social and individual action and meanings. Meanwhile, the medical model and its empire continue to domesticate the revolutionary potential of transsexuals. The potential stance of the transsexual as outsider to the conventional roles of masculinity and femininity is short-circuited. (…) Thus be-ing is reduced to well-being (therapy).”

Thomas Szasz has noted that the conquest of human existence by the mental-health professions started with the identification and classification of so-called mental illnesses, and has culminated in our day with the claim that ‘all of life is a psychiatric problem for behavioural science to solve’.” “Indeed, Szasz contends that the ‘mandate’ of the contemporary psychiatrist is precisely ‘to obscure’, and moreover ‘to deny’ the ethical dilemmas of life, and to transform these into medical and technical problems susceptible to their solutions.”

De-ethicization, of course, is defended in the name of scientific knowledge and neutrality. However, neutrality is a myth and the politics of diagnosis and therapy remain. So too do the philosophical-ethical dimensions of the psychological craft. Under the guise of science, psychological explanations often include value judgments. For example, when John Money and Patricia Tucker assert: ‘Once a sex distinction has worked or been pressured into the nuclear core of your gender schema, to dislodge it is to threaten you as an individual with destruction’, they are using popularized pseudoscientific language where the ‘oughts’ have been deleted, yet where they permeate the sentence. Thus the reader translates: ‘Once a sex distinction has worked or been pressured into the nuclear core of your gender schema, one should not dislodge it, else the individual is threatened with destruction.’ One might also ask here, destruction by whom? by what? Once more, the agent is deleted.”

Fetishization, for example, is one explanation why law-enforcement officials in our society are so obsessed with issues of traffic violations, marijuana, and the like, but cannot cope with the much more serious problems of rape and murder.”

Interestingly, these photographs seldom show the whole person. With a zoom lens effect, they center upon the breasts or phallus. Thus the photographs themselves illustrate the fetishizing of transsexualism. The medical-surgical solution begins to assert control in the narrow area of the chemical and surgical specialties. Attention becomes focused upon constructing the vagina, for example, in as aesthetic a way as possible.”

In the 19th century, clitoridectomy for girls and women, and to a lesser extent, circumcision for boys were accepted methods of treatment for masturbation and other so-called sexual disorders. In the 1930s, Egas Moniz, a Portuguese physician, received the Nobel Prize for his ‘ground-breaking work’ on lobotomies. Moniz operated on state mental hospital inmates, using lobotomy for everything from depression to aggression. The new terminology for brain surgery of this nature today is psychosurgery, which its proponents have attempted to disassociate from the cruder procedures of Moniz and others by pointing to its more ‘refined’ surgical techniques. But call it lobotomy or psychosurgery, surgeons continue to intrude upon human brains on the basis of tenuous localization theories that supposedly pinpoint the area of the brain where the ‘undesirable’ behavior can be found and excised.”

Reinforcement is a key-word for behaviorists. One of the central claims of B.F. Skinner is that the immediacy of reinforcement is what shapes successive behavior in all ‘learning animals’. Skinner differs from classical conditioning theorists (e.g., Pavlov) in saying that behaviour is shaped by what follows it rather than by what precedes it. In the past, most psychologists of this persuasion had assumed that new attitudes were necessary to develop new behavior. Skinner turned this around and said that new attitudes follow or accompany changed behavior.” “Thus transsexual counseling and clinics sire very good examples of Skinner’s ‘operant conditioning’ philosophy: the controller, using a series of carefully planned schedules of positive and/or negative reinforcements (shortening or lengthening the ‘passing’ time) brings about desired responses (stereotypical behavior) from the transsexual. However, the most significant point in Skinner’s philosophy is that the controller will exert hardly any control, because the controlled will control themselves voluntarily. Coercion, in the traditional sense, will not have to be employed.”

To use another example: Many oppressed people use heroin to make life tolerable in intolerable conditions. Heroin usage is a highly effective yet dangerous treatment for dissatisfaction and despair. Recently, for example, black leaders have drawn attention to heroin as a pacifier of black people. As Jesse Jackson has phrased it: ‘We have come from the southern rope to the northern dope.’ In a strict sense, one cannot say that the drug is forced upon its users. Indeed they seek it eagerly. But in the long run, the willing use of the drug strengthens the position of the oppressors and the oppressed. The contentment and euphoria produced by the drug diffuses the militancy, or potential militancy, of the user. Thus heroin is a tool of behavior control and modification.”

It may be that the general population resists the idea of seeing emotional coercion in the same terms as physical coercion because it threatens basic beliefs about man’s autonomy, because one likes to think of himself as a logical individual under the control of intellect rather than emotion.”

Presently, the controllers are the gender identity clinics and the transsexual experts who staff them. It is not far-fetched to conceive of a ‘gender identity business’, as such institutions proliferate, functioning as centers of social control. We now have violence control centers, such as Vacaville, which, in the words of its main organizer, has been designed to focus on the ‘pathologically violent individual’ and is aimed at ‘altering undesirable behavior’.”

Furthermore, we can safely predict, on the basis of past and present CIA and FBI activities, that if gender identity facilities became government controlled, some gender modification activities would be reported while others would be repressed from public view; only those offering a therapeutic rationale would be revealed. Moreover, such controllers and centers for control (such as Johns Hopkins and UCLA) would continue to have a very specific philosophy about what women and men should be, how they should act, and what functions they should perform in society. In fact, gender identity clinic research and treatment has already been funded by grants from the National Institute of Mental Health and other government-affiliated funding sources. All this is happening, and will continue to happen, of course, in the name of science and therapy, and with the denial that any social engineering is taking place. Here we have institutional sexism at its most functional capacity.

A dystopian perspective, some will say, but such perspectives have a way of highlighting present and future reality by daring to predict what most persons do not, or choose not to, perceive.”

Individuals undergo psychosurgery giving ‘informed consent’; parents, on advice of school administrators and physicians, sign ‘informed consent’ papers to have Ritalin administered to their children in public-school centers; women ‘consentingly’ undergo unnecessary hysterectomies for prophylactic reasons such as the vague ‘threat’ of uterine cancer (imagine a prophylactic penectomy!)”

If behaviorist philosophers such as B.F. Skinner are right, and behaviorist technicians such as José Delgado remains active, then future social controllers can replace control-through-torture with control-through-pleasure. What is becoming possible with Delgado’s electronic brain stimulation (ESB) is also becoming possible with transsexual surgery.”

Electrodes were implanted in her right temporal lobe and upon stimulation of a contact located in the superior part about 30mm below the surface, the patient reported a pleasant tingling sensation in the left side of her body ‘from my face down to the bottom of my legs.’ She started giggling and making funny comments, stating that she enjoyed the sensation ‘very much’. Repetition of these stimulations made the patient more communicative and flirtatious, and she ended by openly expressing her desire to marry the therapist. . . . The second patient expressed her fondness for the therapist (who was new to her), kissed his hands, and talked about her immense gratitude for what was being done for her.” Delgado

transsexuals are volunteering for surgery that they hope will relieve their sex role ‘dis-ease’ of gender dissatisfaction and dysphoria. But there is no evidence to prove that transsexual surgery ‘cures’ what is basically a problem of transcendence.”

Imagine what would happen if a male child pill became freely available throughout the world through the World Health Organization. Even in developed countries there is surprising prejudice among ordinary people in favour of having male children; among most African, Asian, Central and South American peoples, this prejudice amounts to almost an obsession. Countless millions of people would leap at the opportunity to breed male: no compulsion or even propaganda would be needed to encourage its use, only evidence of success by example. . . . I hope, incidentally, that it is obvious why I specified a ‘man child’ pill; one selecting for females would not work.” John Postgate

Women’s right to work, even to travel alone freely, would probably be forgotten transiently.

Polyandry might well become accepted in some societies; some might treat their women as queen ants, others as rewards for the most outstanding (or most determined) males. . . . Whether the world would come to resemble a giant boy’s public school or a huge male prison is difficult to predict.”

Transsexual surgery is professedly done to promote the individual transsexual’s right of synchronizing body and mind. Yet what society ‘gains’ is a role conformist person who reinforces sex roles.”

Medical civilization teaches that suffering is unnecessary, because pain can be technically eliminated. . . . The subject is better understood when the social situation in which pain occurs is included in the explanation of pain.” Ivan Illich, filho, com certeza, de pais letrados e de bom gosto!

What has been scarcely noted in many commentaries on transsexualism is the immense amount of physical pain that the surgery entails. Generally, this fact is totally minimized. Most postoperative transsexuals interviewed seldom commented on the amount of physical pain connected with their surgery. Are we to suppose no pain is involved? Anyone who has the slightest degree of medical knowledge knows that penectomies, mastectomies, hysterectomies, vaginoplasties, mammoplasties, and the like cannot be painless for those who undergo them. There is also the pain of anxiety about possible consequences of surgery such as cancer or faulty healing. It seems that the silence regarding physical pain, on the part of the transsexual, can be explained only by an attitude of masochism, where one of the key elements of the transsexual order is indeed the denial not only of self but of physical pain to the point ‘where it may actually be subjectively pleasurable’, or at least subjectively negligible. At least one medical team has recognized this, although in muted and partial form.”

The sadomasochist is someone who has trouble believing in the validity and sanctity of people’s insides—their spirit, personality, or self. These insides could be his own or others’; if they are his own he tends to be masochistic, if they are others’ he tends to be called a sadist” Becker

Transvestism, for them, is too superficial and does not provide the bite or the painful experience of true conversion.” Yea, go on through some ordeal, then you have truly lived!

Learning from the Nazi Experience. Much of the literature on medical experimentation has focused on the various captive populations of prisoners and mental patients, but the most notorious example of unethical medical experimentation on a captive population is the Nazi concentration camps. The example of the Nazi camps has often been cited in ethical arguments that attempt to sensationalize and disparage opposing views. Furthermore, ethicists especially have used these experiments to throw sand in people’s eyes about such issues as abortion and euthanasia, and to create ethical arguments based on a kind of domino theory. In mentioning the Nazi experiments, it is not my purpose to directly compare transsexual surgery to what went on in the camps but rather to demonstrate that much of what did go on there can be of value in surveying the ethics of transsexualism.”

A ‘FITA’ DO CAPÍTULO NEGRO: “In fact, one of the first comprehensive codes of medical ethics, specifically dealing with the ethics of experimentation, emerged from the Nuremberg trials in the wake of the famous ‘Doctors Trial’ or, as it is sometimes called, the ‘Trial of the Twenty-Three’. The Nazi medical experiments read like a series of horror stories. The experiments were quite varied. High-altitude tests were done on prisoners to observe the point at which they stopped breathing. Inmates of the camps were subjected to freezing experiments to observe the changes that take place in a person during this kind of slow death, and also to determine the point of no return. Experiments in bone-grafting and injections with lethal viruses were commonplace. The much-publicized sterilization experiments were carried out on a massive scale at several camps, primarily by radiation and surgical means, for the purpose of seeing how many sterilizations could be performed in the least amount of time and most ‘economically’ (thus anaesthesia was not used). However, the point of all this background is not merely to recite a list of atrocities, but to highlight several points that apply to the situation of transsexualism.”

The activities of the Nazi physicians . . . were, unfortunately, not the aberrations of a holy healing profession imposed upon it by the terrors of a totalitarian regime, but, on the contrary, were the characteristic, albeit exaggerated, expressions of the medical profession’s traditional functions as instruments of social control.” Szasz

ABOMINÁVEL MUNDO VELHO

Today especially, it is no longer the alliance of church and state that should be feared, that is, theocracy, but rather the alliance between medicine and the state, that is, pharmacracy.¹”

¹ “Inasmuch as we have words to describe medicine as a healing art, but have none to describe it as a method of social control or political rule, we must first give it a name. I propose that we call it pharmacracy, from the Greek roots pharmakon, for ‘medicine’ or ‘drug’ and kratein, for ‘to rule’ or ‘to control’. . . . As theocracy is rule by God or priests, and democracy is rule by the people or the majority, so pharmacracy is rule by medicine or physicians.” Szasz, Ceremonial Chemistry

What we are witnessing in the transsexual context is a science at the service of a patriarchal ideology of sex-role conformity in the same way that breeding for blond hair and blue eyes became a so-called science at the service of Nordic racial conformity.”

One must remember that many of the Nazi physicians whose experiments were the most brutal refused to recognize in the end that they had done wrong. Dr. Karl Brandt, for example, during his trial at Nuremberg, offered his living body for medical experiments like those he had conducted. Before Brandt met his death at the side of the gallows, he made a final speech, which included these words: ‘It is no shame to stand on this scaffold. I served my Fatherland as others before me.’

it is significant that the first physician on record to perform sex-conversion surgery was a German by the name of F.Z. Abraham, who reported the first case in 1931. Furthermore, Benjamin relates that the Institute of Sexual Science in Berlin did much work on transvestism (and probably transsexualism before it was named such) under the leadership of Dr. Magnus Hirschfeld. Benjamin states that it had a ‘famous and rich museum, clinic, and lecture hall’. In 1933, he says, it was destroyed by the Nazis because, ‘The Institute’s confidential files were said to have contained too many data on prominent Nazis, former patients of Hirschfeld, to allow the constant threat of discovery to persist’. Benjamin visited Hirschfeld and his Institute many times during the 1920s.”

I met another boy whom the scientists of Auschwitz, after several operations, had successfully turned into a woman. He was then 13 years old. After the war, a complicated operation was performed on him in a West German clinic. The doctors restored the man’s physical masculinity, but they couldn’t give back his emotional equilibrium.”

By this comparison, I do not mean to exploit the very real difference between a conditioned ‘voluntary’ medical procedure performed on adult transsexuals and the deliberate sadism performed on unwilling bodies and minds in the camps. However, it is important to understand that some transsexual research and technology may well have been initiated and developed in the camps and that, in the past, as well as now, surgery was not performed for the present professed goal of therapy, but to accumulate medical knowledge.”

There is a crucial distinction between integration and integrity. Briefly, integration means putting together a combination of parts in order to achieve completeness or wholeness. In contrast, the word integrity means an original wholeness from which no part can be taken away. It is my contention that, in a deep philosophical sense, transsexual therapy and treatment have encouraged integration solutions rather than helping individuals to realize an integrity of be-ing. In its emphasis on integration, much of the recent psychological, medical, and medical-ethical literature on transsexualism, and the solutions they propose, resemble theories of androgyny. In many ways, contemporary transsexual treatment is a modem version of medieval, androgynous alchemy where stereotypical femininity is integrated with a male genotype to produce a transsexually constructed woman. As alchemy treated the qualitative as quantitative in its attempts to isolate vital forces of the universe within its laboratories of matter, transsexual treatment does the same by reducing the quest for the vital forces of selfhood to the artifacts of hormones and surgical appendages. Transsexualism is comparable to the theme of androgyny that represents biological hermaphroditism, because ultimately the transsexual becomes a surgically constructed androgyne, and thus a synthetic hybrid. Furthermore, the transsexual also becomes a sex-stereotyped hermaphrodite, often unwittingly displaying his former masculine gestures, behavior, and style while attempting to conform to his new feminine role.”

The first drafts of this chapter were entitled An Ethic of Androgyny. But as I examined the androgynous tradition and its uses in recent literature, problems of etymology, history, and philosophy arose that were not evident at first glance. These necessitated the choice of a different ethical vision, which I have called integrity.”

Until those contemplating transsexual surgery come to realize that such a step does nothing to promote this integrity on both a personal and social level, they will continue to settle for many of the false and partial modes of androgynous integration.”

For an extensive and specific delineation of the androgynous tradition in theology and philosophy, from its prepatriarchal origins, through Plato, the Midrashim, the Gnostics, and others, up through nineteenth-century French philosophy and social theory, see: Janice G. Raymond, ‘Transsexualism: An Etiological and Ethical Analysis’ (Unpublished Ph.D. dissertation, Boston College, 1977).”

Maleness and femaleness were perceived as divisions resulting from the Fall and not originally intended to be part of primordial personhood. Thus, for example, Adam in the Garden of Eden is represented as originally combining and/or transcending maleness and femaleness. Such androgynous notions are present in the rabbinic commentaries on Genesis, in the Gnostics, in the Jewish Cabala, and in John Scotus Erigena. In this same context, androgyny became a salvation or reunification theme, bringing divided personhood, maleness and femaleness, back into its original and divinely intended unity of either biological bisexuality or asexuality.”

Many writers see Jesus as the unique bearer of androgynous humanity. This conception of Jesus, implicit in some of the Gnostic literature, is developed by Erigena in his portrayal of the Resurrected Jesus, and reaches its apex in Jacob Böhme.”

Although the primal Adam is written about as androgynous or hermaphroditic, one is still left with the impression that the original human was more male than female.” “Thus the male portion of androgyny remains steady and constant, while the female is the wayward, unsteady half. In the Gnostics, moreover, the female must make herself male before a salvific androgyny can be reached.”

In Plato, androgyny is mixed with misogyny to support male homosexuality which is regarded as the superior form of love.”

In no writing on androgyny is the male exhorted to make himself female before he can become androgynous.”

Beginning with Auguste Comte and up to the Saint-Simonians, androgyny comes to symbolize human progress, universal unity, and the removal of social oppression, especially that of female and class oppression.”

The word androgyny is formed from integrating the Greek aner and gyne (with the male classically coming first).” “Nor would the term gynandry be adequate. Although the female root of the word comes first, the primary image is still one of the sexual sphinx.”

For every woman who makes herself male will enter the Kingdom of Heaven.”

Unfortunately even the brilliant Virginia Woolf had a similar notion of androgyny in A Room of One’s Own.”

Perhaps with the overcoming of women’s oppression, the woman in man will be allowed to emerge.” Betty Rozsak

One would not put master and slave language or imagery together to define a free person.”

As models for the ‘new androgyny’, James Nolan gives us ‘pansexual rock images’ of David Bowie, Janis Joplin, Mick Jagger, and Bette Midler.”

Here we have the ultimate co-optation of the Women’s Movement—an ‘adolescent stage’ that we have already passed through. Androgyny becomes the great leap forward, a synonym for an easily accessible human liberation that turns out to be sexual liberation—a state of being that men can enter as easily as women through the ‘cheap grace’ of the ‘wider’ countercultural revolution. What androgyny comes to mean here, in fact, is sexual revolution, phrased in the language of The Third Sex. Sex (fucking), not power, becomes the false foundation of liberation.”

Integrity gives us a warrant for laying claim to a wholeness that is rightfully ours to begin with and that centuries of patriarchal socialization to sex roles and stereotyping have eroded.” “The real mytho-historical memory may have been that of an original psychosocial integrity where men were not masculine, nor women feminine, and where these definitions and prescribed norms of personhood did not exist.”

Initially, Rachel Carson demonstrated that chemical pesticides were disastrous to the planet. Barry Commoner followed by showing how so-called technological ‘advances’ have debilitated our ecosystems, because everything is related to everything else. In a similar manner, evidence is beginning to prove that hormone treatment and surgery are destructive intrusions of the total ‘bio-ecosystems’ of transsexuals.”

Transsexuals often betray this socially constructed hermaphroditism.”

As Ivan Illich has pointed out, anyone who ‘becomes dependent on the management of his intimacy. . . renounces his autonomy, and his health must decline.’

Transsexual surgery turns into an antisocial activity that promotes the worst aspects of a patriarchal society by encouraging adaptation to its sex roles.”

The transsexual odyssey can be viewed as a quest for transcendence, an effort to go beyond the limits of the self (symbolized by the acquisition of a new body). But from the perspective of transcendence, transsexualism’s greatest weakness is its deflection of the ‘courage to be’, and its short-circuiting of existential risk, creativity, world-building, and social healing—all of which are elements of genuine transcendence.”

There is no doubt that selfhood presupposes embodiment and that our bodies cannot be ignored in any authentic development of selfhood. However, even many persons who have been wracked with severe physical pain or deformed by natural or imposed crippling agents have been able to transcend these conditions.”

Transsexuals move totally in the realm of the body while thinking that they are transcending the body. To use Daly’s terminology, they are ‘possessed’ by their bodies and cannot confront and transcend that possession.”

We might say that the body is part of the creative ground of existence, but we are not bound by that structure in the full creative sense.”

In a thousand subtle ways, the reassignee has the bitter experience that he is not—and never will be—a real girl but is, at best, a convincing simulated female. Such an adjustment cannot compensate for the tragedy of having lost all chance to be male and of having, in the final analysis, no way to be really female.”

To encourage would-be transsexuals to hand over their bodies to the transsexual empire hardly seems to be an adequate or genuinely sensitive response to the questions that transsexualism raises. Those who advocate medicalized transsexualism as the answer to a desperate emergency situation of profound sex-role agony only serve, in my opinion, to prolong the emergency. They seem sensitive only to Band-Aid solutions that ultimately help to make more medicalized victims and to enhance the power of the medical empire.”

Any woman who has experienced the agony of sex-role oppression in a patriarchal society is hardly insensitive to the suffering that transsexuals experience.”

Isn’t it possible for persons who desire sex-conversion surgery, and who have also experienced sex-role oppression and dissatisfaction with their bodies, to band together around their own unique form of gender agony—especially those who claim to have a deep commitment to feminism? Many will say that this is too much to ask of transsexuals. Yet it is no more than women have asked of ourselves—those who have taken feminism seriously and have tried to live unfettered by gender in a gender-defined society.

This book will, no doubt, be dismissed by many transsexuals and transsexual advocates as intolerant. Tolerance, however, can easily become repressive, as Marcuse has pointed out. It is often a variation on the ‘poverty of liberalism’, functioning as sympathy for the oppressed.”

those who take a critical position will be subjected to accusations of dogmatism and intolerance, when in fact those who are unwilling to take a stand are exercising the dogmatism of openness at any cost. This time, the cost of openness is the solidification of the medical empire and the multiplying of medical victims. Those who advocate tolerance of medicalized transsexualism are expressing a false sympathy which, in both the immediate and ultimate context, can only facilitate and fortify the possession of women by men.”

When tolerance serves mainly to protect the fabric by which a sexist society is held together, then it neutralizes values. It is important to help break the concreteness of oppression by showing its theoretical inconsistencies and by stretching minds to think about solutions that only appear to be sensitive and sympathetic.”

Marcuse, in his essay Repressive Tolerance, has written:

The political locus of tolerance has changed: while it is more or less quietly and constitutionally withdrawn from the opposition, it is made compulsory behavior with respect to established policies. Tolerance is turned from an active into a passive state, from practice to non-practice. . . . It is the people who tolerate the government, which, in turn, tolerates opposition within the framework determined by the constituted authorities.”

Many feminists are opposed to transsexualism. Yet that opposition, having moved outside the limits of tolerance set up by the medical authorities, will often be decried as intolerant. What is happening here is a fundamental reversal.”

Does a moral mandate, however, necessitate that transsexualism be legally mandated out of existence? What is the relationship between law and morality, in the realm of transsexualism? While there are many who feel that morality must be built into law, I believe that the elimination of transsexualism is not best achieved by legislation prohibiting transsexual treatment and surgery but rather by legislation that limits it—and by other legislation that lessens the support given to sex-role stereotyping, which generated the problem to begin with.”

Cultural iatrogenesis . . . consists in the paralysis of healthy responses to suffering, impairment, and death. It occurs when people accept health management designed on the engineering model, when they conspire in an attempt to produce, as if it were a commodity, something called ‘better health’. This inevitably results in the managed maintenance of life on high levels of sub-lethal illness.” Illich

In the early stages of the current feminist movement, consciousness-raising groups were very common. These groups were composed of women who talked together about their problems and directions as women in a patriarchal society. Gradually, these groups came to the insight that ‘the personal is political’, thus providing the first reconciliation between what had always been labeled the ‘personal’ and the ‘political’ dimensions of life. Women, who had felt for years that the dissatisfaction they had experienced as women was a personal problem, came to realize in concert with other women that these problems were not peculiar to them as individuals but were common to women as a caste. (…) From these consciousness-raising groups came much of the initial political action of the women’s movement.”

aside from this one-to-one form of counseling, the model of consciousness-raising emphasizes the group process itself.”

We have seen enough of those transsexuals and professionals in the media who are in favor of transsexual surgery as the solution to so-called gender dissatisfaction and dysphoria. We need to hear more from those men and women who, at one time, thought they might be transsexuals but decided differently—persons who successfully overcame their gender identity crises without resorting to the medical-technical solution. We need to hear more also from professionals such as endocrinologist Charles Ihlenfeld who, after helping one hundred or more persons to ‘change their sex’, left the field. Ihlenfeld decided that ‘we are trying to treat superficially something that is much deeper’. And finally we need to hear more from persons, such as feminists and homosexual men, who have experienced sex-role oppression but ultimately did not become transsexuals.”

NOTES

Somer Brodribb, Nothing Matters: A Feminist Critique of Postmodernism

Mary Daly, Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism

The case of Rosalyn Franklin is a primary example of a woman who made an initial and major contribution to the discovery of the structure of DNA, yet was not part of the group that received the Nobel Prize for this discovery. See Anne Sayre, Rosalyn Franklin and the DNA (New York: W. W. Norton, 1975). An even more famous example of the male scientific erasure of a woman’s discovery is the case of Helen Taussig who discovered the method for saving the lives of ‘blue babies’. Alfred Blalock took the credit for this discovery, and it has since been named the Blalock method.”

Because Stone gave up his male identity and lives as a ‘woman’ and a ‘lesbian’, [s]he is faced with the same kinds of oppression that other women and lesbians face, along with the added ostracism that results from being a transsexual.”

Another parallel is that some royal eunuchs also wore women’s clothing, and their physical characteristics, especially as represented on Assyrian monuments, resembled those of women. Eunuch priests of goddess temples were said to wear women’s garb and perform women’s tasks. See John L. McKenzie, ‘Eunuch’, Dictionary of the Bible

See the Oxford English Dictionary listing for the word health, which traces the word from its Old English spelling originally meaning whole.”

Two patients felt angry and hopeless that they could not return to their previous masculine state. In Randell’s study, there were 4 cases in which the postoperative adjustment was worse than before the operation. ‘There the result can be designated as very poor.’ The behavior included suicide, suicidal impulse, moral depravity, and a wish to reverse the effects of operation. Two of these men succeeded in committing suicide.”

George Gilder, Sexual Suicide

J. Hoenig et al., in their article, ‘The Surgical Treatment for Transsexuals’ (Acta Psychiatra Scandinavia, 47 [May 1974]: 106-36), state that surgical treatment to increase breasts in male transsexuals should not be undertaken, especially if such treatment is followed up with estrogen therapy, since there is a risk of malignancy. They cited the study of W. Symmers, ‘Carcinoma of the Breast in Transsexual Individuals after Surgical and Hormonal Interference with the Primary and Secondary Sex Characteristics’, British Medical Journal, 2 (1968): 83. Symmers reported two cases who came to autopsy with carcinoma of the breast. He suggests that the malignance was entirely due to the hormonal imbalance created by castration plus the massive doses of estrogen received. Jan Stiefel has noted the significant factor that serious and accepted research was being done on transsexuals with breast cancer resulting from exogenous estrogen therapy, long before a comparable serious and accepted study was done on native-born women.”

Alexander Mitscherlich & Fred Mielke, Doctors of Infamy: The Story of the Nazi Medical Crimes (New York: Henri Schuman, 1949).

the question of verification of ontological judgments, the question of method, cannot be answered before the method is applied successfully or unsuccessfully—that is, before its efficacy in human lives and community is tested.”

2300 ANOS DEPOIS…

Texto de 17 de fevereiro de 2009

PLATÃO – Vê no que se tornou minha República. De fato, o projeto entrou em execução. A virtude dos filósofos foi empregada para governar o povo e tudo que se tem agora é a concupiscência desses senhores, a corrupção generalizada… Eu as produzi! Como lhes ensinei o desinteresse, e subestimei a vontade de poder humana, hoje eles ainda se afirmam desinteressados, porém eu vejo através da demagogia…

ARISTÓTELES – Que monstro produzistes! É chegada a hora, mestre e sobretudo leal amigo, de que luzes se tornem trevas e sombras matéria. Tua alegoria da Caverna é o que restou de mais preciso sobre a milenar natureza humana, e é um retrato perfeito de como os valores se invertem de era em era, de modo que o Bem se torne o Mal e o Mal se torne o Bem; e, claro, produzam-se essas figuras indefiníveis, fronteiriças. Sócrates foi o demônio antes de ser santo, e hoje é apedrejado novamente. Todas as épocas, apesar de toda alma ser livre, apresentam esses mártires, cuja liberdade se resume em atender uma necessidade universal: transvalorar o animal político! Meu inestimável professor, é tempo, já vês, de fusão de classes. Na morte de Deus já não há mais heróis, déspotas, escravos, o divino, o depauperado, um estamento infinitamente distanciado do outro, esta vocação de berço… Vês que todos esses homens treinados para a guerra, para os cálculos ou então para o comércio ou para bem servir os demais são atualmente um só? O querer sempre mais, a seleção que impusestes aos atenienses, este instinto de competitividade estranhamente alimentado pela ascese, isso gerou o corpo burocrático, isso centralizou todas as atenções no dinheiro. O nivelamento extirpou a nobreza.

PLATÃO – A arete é uma coisa que vai e que volta, nada deixa de ser… Hípias, Górgias… Vejo que o século XX será a reprise dos sofistas. É um movimento decadente, se bem que necessário, estímulo para uma ulterior ascensão. Vês como a Idéia atingiu sua exuberância máxima em Hegel? E não obstante foi com este alemão que meus ensinamentos principiaram a degenerar. Quando Glauco rebate Sócrates e diz que a Música não pode conduzir o intelecto porque é arte, sensível, ele está refutando Schopenhauer. O Homem ainda vai navegar por estas curiosas águas do tempo, meu amigo, até reencontrar Homero! Ressurreição do Olimpo!

ARISTÓTELES – Que a nova era dos poetas dure três mil anos e que até lá joguemos e dancemos, porque não será mais necessário tanto falar… O logos fica em segundo plano, coagulado.

PLATÃO – Aristóteles, apólogo de Sófocles, vamos indo que aí vem a caduca mas invencível mulher chamada Esperança…

VONTADE DE (EXERCER) PODER

Publicado originalmente dia 12 de fevereiro de 2009

A Goethe

A Weber

E aos bons estrategistas

Por que o ser humano – jamais vi um caso – se recusa a fingir de modo que consiga as coisas fácil, que ganhe um atestado de que não é responsável sobre si e de que necessita de cuidados especiais de terceiros para sobreviver? Em outras palavras, de vez em quando me vem a idéia: e se eu fingisse que fiquei retardado de repente, com vistas a escapar de trabalhar, estudar ou de ser dono de qualquer coisa no mundo da propriedade privada? A fuga perfeita da burocracia que engole todas as consciências vivas, o resguardo em uma casa de loucos com cama, comida e roupa lavada (ou só os dois primeiros). Por que não? Ou a estadia em casa numa cadeira de rodas com a cabeça para o teto, a baba escorrendo sem-fim, os pais baqueados, sem alternativa a não ser servir? Algo aí não cai bem, e não é a desconfiança de que alguém não iria engolir o teatro ou a inexistência de planos paralelos (um deles seria cometer um crime hediondo para viver o resto dos dias numa jaula custeado pelo Estado).

Mas ninguém faz isso. É por culpa do transtorno que acarreta o simples pensamento de que se é um demente, um idiota. A humilhação instantânea. Todo ser humano vive para se esforçar e fazer seu melhor, mesmo que este melhor esteja muito abaixo do desejável. Prefere-se as dificuldades do “mundo lá fora”, o mercado de trabalho, o emprego insalubre, a existência sem sentido e o cotidiano enfadonho a qualquer enclausuramento mental. Talvez bata também (como me aconteceu), quando se reflete detidamente sobre o tema, o medo de se tornar um deficiente mental de fato, como resultado do hábito da dissimulação. Quem finge que é possuidor de um outro caráter há muito tempo frente a certas pessoas sabe do que estou falando. Uma coisa é parecer ser para angariar vantagens, outra é se converter na vítima do próprio golpe do baú. O que um completo incapaz poderia fazer? Nem que pedir esmola no sinal, o ser humano exige o direito de fazer alguma coisa. Quando penso que se tudo desse errado eu poria tal plano em ação, logo emanam dois impedimentos: o que eu poderia fazer? Talvez nem assistir televisão, ou ao menos não mudar de canal, porque não saberia mais contar, ou associar botões, controles, aparelhos, cores e cliques a movimentos coordenados do meu corpo. Não comemorar os gols do meu time. Não rir do que tem graça. Nunca mais. Tal perspectiva é apavorante. Não se está ganhando nada com isso. O sujeito mais convicto desta “saída” sofreria recaídas em menos de uma semana. Meu segundo obstáculo pessoal seria: nunca mais escrever, o pior dos interditos. Eu, que venho tentando emudecer, não aceitaria essa estaca no meu coração (onde afundaria, se entrasse pela mão destra), esse silêncio ainda mais fatal. Não acredito em loucos voluntários. No fim, em termos de sanidade, não tem como nos imaginarmos mascarados.

Tudo que cada um quer é aquele arrepio, aquela tensão, aquele sentimento de mover montanhas, que só se afiguram entre os poderosos. Ou entre as formiguinhas orgulhosas e persistentes que até o último instante têm esperança e apostam as surradas fichas nos seus sonhos.

(*) Para aqueles que consideraram ser este o ensaio mais ingênuo até então, se comparado com a série anterior, pense a respeito da doutrina da Contemplação de Platão e Aristóteles: em busca da Felicidade, viver a vida conforme as disposições de um débil mental. Recusar-se a qualquer tipo de afronta aos deuses! Ironicamente, tanta vontade de paz gerou “o mundo lá fora” desprezível que conhecemos. Mas nosso papel é aceitar a responsabilidade de combatê-lo, e não se esconder atrás de preces. Quem quer danar, vai salvar… …e o verbo continua…

O SONHO-PARÁBOLA PERFEITO

Publicado originalmente em 10 de fevereiro de 2009

Proletários de todas as idades – falo de crianças e idosos, como no século XIX – e dos dois sexos, e uma voz que ecoa pela escadaria como se por um alto-falante ou por um sistema de rádio. Todos em trapos e inclinados à rebelião, exceto este austero homem da voz, devidamente engravatado. Firme, seguro. Ele representa o Capitalismo. A massa representa não o marxismo, a democracia ou o mercado de trabalho, abstrações: trata-se do homem, da condição humana. E os homens, em bloco, se bem que caóticos, descem as escadas. O ricaço – este anti-próton, antípoda da existência, que se aglutinou a nós, que se tornou desde tempos imemoriais nosso pastor – contempla, maravilhado. A escravidão em sua modalidade mais explícita me foi mostrada neste sonho-espelho. Não faz muitos dias, ou semanas, que ando tendo essas incursões filosóficas até mesmo na esfera inconsciente. É sinal de alguma coisa: essas questões se apoderaram da parte mais funda do meu espírito, da minha essência.

É como se o prédio se incendiasse e fosse posto em prática nesse exato momento um plano de evacuação, orquestrado pelo sujeito polido. Uma crise do sistema, uma desordem social, que logo será contornada, para que tudo volte a se assentar, como antes, ou mais que isso: em bases mais sólidas. As pessoas parecem saber disso, mas não há alternativa. Alguns, mais insurgentes, crêem que depois de hoje nada será como fôra, a verdadeira revolução se aproxima. A exploração sepultada? Meu sonho penetra no verídico devaneio de bilhões de homens no decorrer da História.

Algo, no entanto, paira insondável. Aliás, ao invés de estático este algo talvez seja dinâmico, fluido, movimentado, eficiente, faceiro, sábio, sério e brincalhão na medida – uma entidade que opera com conhecimento total das circunstâncias, cujos propósitos até escapam à cena, algo que consegue enxergar além, uma origem e um destino do processo em curso – o momento da correria pelas escadas é o Ocidente, o mundo moderno. Esta criatura invisível, onisciente e observadora, o que é? Deus? Não, óbvio demais… Sou eu! E afora alguns detalhes meu sonho – eu diria extraordinário vislumbre alegórico – não avança mais do que isso…

Vamos aos detalhes: o grande proprietário, a burocracia de carne, rosto bem-aparentado, sorriso elegante, bom porte, enseja organizar seus soldadinhos em batalhões de diferentes tamanhos, de acordo com faixa etária e gênero. Há, como já mencionado, um burburinho, um mexerico, uma espécie de pólvora que promete comprometer essas fundações e que, depois, venha o que vier. A taça cheia precisava derramar seu conteúdo. Antes que as filas se organizassem como pedia a voz, tudo se desvanecia e eu acordava…

Às interpretações: o que é que diferencia os planos da massa dos meus diante desse “filme”? E o que faz de mim um antagonista invencível para este homem, enquanto só os operários com suas vontadezinhas imediatistas não passam de brinquedos sob rígido controle do dono? Eu sou a perfeição, diviso até uma das aparências ocultas desse homem engravatado: não é mais esbelto e galante, mas um gordo de cabelos encrespados, uma figura feia e áspera daquelas ante as quais se deve cuspir no chão ao se lhe dirigir a palavra, ou engolir em seco, caso seja seu patrão. O semblante de um obeso que promove o escárnio, ri sozinho e mata com suas piadas: o inimigo da sociedade há dois milênios.

O que vai acontecer é que eu vou combater este centro de poder com o único contragolpe à altura: ele mesmo. Os homens que rolam escada abaixo não podem tentar queimar suas fábricas, destroçar o Capitalismo: este último sempre triunfa. Eles devem sê-lo. Devem se fundir com a figura sebosa do capitalista: milhões de homenzinhos iguais, com a testa engordurada, um sorriso doloroso, o terno passado e justo, a conta no banco tão gorda quanto a própria silhueta. Isso traz à tona um diálogo – mais para lição, nada amigável – que tive há meses com um estudante de serviço social, engajado na promoção da  “justiça social”. Agora sim, com todos se comportando de modo pragmático, lucrando e lucrando… tudo vai desmoronar! Essa é a função atual do sindicato: ser burguês. Tornar-se a burguesia (um estranho crossover, é verdade), a classe unificada, a última habitante deste planeta. Para então se auto-destruir. Nenhum Aquiles escapa à sua sina. Clones em marcha: logo o senhor Narciso se enfastiará da própria imagem.

MINHA INTEMPESTIVA III: DAS VÁRIAS METÁFORAS QUE EU ENCARNO

Publicado originalmente em 7 de fevereiro de 2009 – editado

“Eu me arrependo de tal coisa.” Essa é uma frase corriqueira em nossas vidas. Mas tão comum quanto perecível. Quando se tem maturidade suficiente para se aperceber dos jogos de ação-e-reação que nos constroem e do papel do sentimento de culpa em cima de nossos atos, enfim, quando o sujeito apreende a “irrevogabilidade do crime” e enceta a direcionar seus erros a seu favor, tem-se finalmente autoridade para proferir a frase: “Todo arrependimento tem uma data de validade”. Se nem todos têm, é melhor embarcar na ilusão de que determinada ferida irá cicatrizar – ou não se consegue viver uma vida. Atente para meu exemplo: pelo menos um ano me arrastando em sonhos para ser readmitido no Colégio Militar. Mas eu engolia o dissabor com meu orgulho de leão (e não de pavão, que é um ser belo porém fraco) e não contava a ninguém – muito menos aos pais. Eis que quando a oportunidade se insinuou, piscou, tremeluziu… eu já me havia apoderado dela. Bingo! Todo arrependimento é vencível – seja pela ação do tempo, seja pela labuta individual (obviamente, essa é uma categorização como todas as outras: falsa, pedagógica).

Eu não me arrependo de descartar amigos. Talvez eu me arrependa de não descartar mais… Tenho de reconhecer que meu lugar jamais foi fora do reino burguês. Apesar de jamais ter sido dentro. É hora de cortar os laços que ainda restam para ser cortados. Não tenho mais amigos ricos e frescos. Sou tão estranho no ninho que ainda que com um bom porte, roupas adequadas e um celular da moda, não me confundiriam com um deles. Portanto, as badaladas do relógio hoje indicam: é tempo de se desfazer de quem te olha com estranheza não por estares de fora, mas por estares intrometido. Como disse, arrepender-se é ou precipitado ou vão. Claro que se trata de figura de linguagem – todo ser humano se arrepende e ponto. Resta saber, contudo, o que se faz a respeito dessa angústia de não poder alterar o passado.

Minha vingança é atroz porque me vingo de mim mesmo. E quando reconheço o erro, resta muito pouco para os idiotinhas fazerem. Quem sabe já se conformar com o prejuízo seja a melhor saída para eles. Um ex-amigo que está indo para o saco nesta temporada chama-se *******, o adolescente de meia-idade, o Peter Pan ébrio e urbanóide que se dedica ao ofício de ser o contrário do que a cara estampa a cada finalzinho de semana, para descontar a frustração existencial. Evidentemente, a cada criancice, o ser humano faz questão de propagar sua moral antípoda: “aprenda com os mais velhos”. Precisa de um Cristo a cada sexta-feira porque a mão está cravejada de calos demais para que dê outros três passos adiante com a cruz nas costas. Talvez a madeira deste Pinóquio esteja tão podre que ele não se vê mais capaz de pressentir o mal que devém. Ele espera que um terremoto o avise, sem embargo o tremor de terra é o próprio mal do qual ele deveria ter sido alertado…

Um pobre diabo desses, quando cair em si, vai notar o bilhete premiado que lhe escapou pelas mãos graças ao vento e que, quando estava prestes a reaver, escorreu pelo bueiro. Por um acaso um bilhete se arrepende de não ter sido de algum vencedor? Se não se está com o bilhete, a vitória é só um sonho perdido. O bilhete faz o vencedor. Nem que passe a ser benquisto, para o próprio gozo de si, o destino de se colocar fora de qualquer alcance no submundo, e deixar a mesquinhez lá em cima se acumular. Se todo o ouro volta ao dono, o único dono é o fluir ininterrupto, porque nesta aventura não há retorno – e se houvesse o dono já não seria o mesmo.

É chegado o momento, em suma, de singrar por novas águas, o que implica a deserção de marujos saudosistas em excesso. Nada de velhacos com manias de meninice, nada de bufões. Daqui em diante, que o capitão prepare o convés, a proa e o casco – e, porventura, se algo der errado, o bote salva-vidas.

Há dois anos que não me apaixono. Quantas recaídas? Vou me sujar de novo? Me sentar naqueles sofás carcomidos por traças?

Aos parasitas: aqui estão as chaves, mas é bom olharem para o chão antes de entrar, porque esqueci de dizer que moro numa imensidão. Uma imensidão que para pequenos praticantes da punga não tem nada de inteligível, é só uma queda no vazio.

Eu sou perigoso. Não ofenda o solitário. Eu não tenho absolutamente nada a perder, em nenhuma transação termodinamicamente cogitável. Um espírito como o meu — possui a sabedoria de cem deuses, e o conhecimento do veneno específico de cada um que tem o azar de me surgir como pusilânime. Principalmente os outrora-outra-coisa. Eu emito sinais claros de que estou prestes a fazer uma “burrada”. Como não se precavem, os vizinhos indômitos levam um caixote: do cimo da onda – domadores do mar! – aos arrecifes. Se ter Napoleão como escada é o ideal, a meta máxima, tombar dessa escada deve ser o que deixa o cotovelo mais roxo: e se alguém nunca está tão elevado quanto quando sobre um lance de escadas, também nunca esteve em maior risco. Eu sou o homem-dos-riscos. De que me importaria o juízo alheio, se só eu me leio?

O trapézio que eu era, o palhaço que eu fui, viraram o fogo dos aros, as facas dos alvos e as luzes do palco. Sem mim vocês não são nada. Mas comigo estarão mortos ou ofuscados.

MEA CULPA

Originalmente publicado em 1º de fevereiro de 2009 – com alterações

Tive meus anos de 2005, 2006 e 2007 pautados pelo liberalismo econômico mais ortodoxo. Relacionei-me com veículos de comunicação, pessoas e defendi idéias que não queria – não quereria, é dizer, se pudesse medir as conseqüências hoje. Me defrontei com muitas instituições, programas, crenças e vidas. Gerei polêmica, gerei tumulto. Em sala de aula ou em ambientes de trabalho. É verdade que, receber, eu jamais recebi por isso um só tostão. Até em paradas de ônibus na calada da noite eu me engalfinhei com desafetos (nem que apenas imaginários). Claramente havia uma atmosfera que me infectava, um acontecimento político escandaloso, a desilusão do passado (do infrutífero século XX), um curso superior errado, o impulso por ser contrário ao vigente, personalidades de cuja paralisia eu precipitadamente me alimentava.

Poderia elencar as principais figuras vivas, e os principais projetos em que me engajei (me enredei, vi depois) neste período, plantando desesperança e querendo colher a realização da liberdade: Diogo Mainardi, e sua sedutora e espetacularizante retórica – hoje eu não sei quem é esse homem, o que ele escreve ou deixa de escrever; Ga***** ***** – que me achem, esses indivíduos, no Google, se puderem –, o “presidente inteligente popular amigão” que atualmente enxergo lá embaixo como tendo sido uma trava temporária (ele era presidente de uma ‘limitada’ de adolescentes faz-de-conta, não se formava por incompetência, apenas puxava o saco de algumas patricinhas, era somente uma daquelas crianças rejeitadas que cresceram com seu amor pelos videogames e pelo Tio Sam sem saber o preço de uma amizade); Ra***** *****, um antiquado um pouco mais genioso que a rede de amigos geeks¹ ao seu redor, que pensa em “entabular diálogo” como “impor o meu falo”; professores muito… pessimistas; blogs em que trabalhei “querendo raciocinar em conjunto”, mas em que descobri o sobrepeso da minha opinião pessoal, dentre os quais o Abrigo Polar, o Horário de Brasília, As Fantas, o Bicarbonato de Sódio. Mi******, talentosa mas desorientada, R*****, Ma*****, um maluco ou outro da internet, Peu L*****, o adulterador de textos, Ca****, a chefe invocada, M***** S****, a de humor contagiante, colegas de ex-faculdade (ou ex-colegas de faculdade), todos me passam batido. Tem ainda o demoro.com, os jornais em que estagiei como clandestino. Seria impossível lembrar de tudo de uma lapada só.

¹ Cabe aqui esclarecer por que utilizo geeks e não nerds, uma etimologia arruinada que confundiria meu leitor – enquanto ser pensante eu ser considerado na maioria dos círculos jovens como nerd, com ou sem óculos, é auto-explicativo o bastante. Meu conceito de nerd/geek é: aceitar o mundo adulto só no que ele tem de eufórico: o aumento de poder, o carro, a bebida, as mulheres, as festas, as compras, poder olhar de olhos caídos alguém na rua e rumar para casa. Mas recusar as responsabilidades. Às vezes o nerd lê quadrinhos demais e esquece que por trás de toda a tecnologia do fabrico e a aparência há o fator humano e que nem tudo é uma rodada no Outback. Como o tio Ben do Homem-Aranha já dizia… (a frase todo mundo sabe) Porém, ninguém aqui quer saber o que implica o trabalho. Quando você cresce e seus amigos não, fica essa dificuldade de definição: o que há com eles? É precisamente isso: um estranhamento inter-geracional, porque você amadureceu mais depressa.

Este artigo não pode se resumir à modalidade acusatória. Também trago uma receita para um melhor entendimento de onde se pisa: 1) caminhar muito ao ar livre, se possível debaixo de sol forte e com roupas pesadas. Ou melhor: tentar os mesmos trajetos em diferentes horas do dia. Quando se está um pouco bêbado e se passa por uma cidade suja, escura, desolada e insolúvel não se acredita mais no capitalismo. 2) de vez em quando desligue a música e a TV e coma uma refeição em silêncio!

Continuando o que ia dizer, 2008 foi o ano da virada. E este texto é só mais uma pedra.

ANÁLISE PSICOLÓGICA DO SEXO NO PORVIR

Publicado originalmente dia 23 de janeiro de 2009

As orgias gregas não são como entendemos as nossas, porque eles não negavam o corpo. O Cristianismo é um estímulo catatônico à perversão. Universitárias com poucos dotes intelectuais logo se abandonam ao fogo, feito as bruxas. Estudo do prazer – dar ou obter o presente proibido/oculto. Mas tem de ser um jogo igualmente tácito, é assim que se joga. Se a libertinagem ganha publicidade e câmeras demais, inicialmente é prostituição, mas há algo estranho aí – uma mudança, um ganho contra o pudor moral. A permissividade como excitação (com predomínio ainda do sentimento póstumo de vergonha) cede à adoção hedonista como costume – não-proibido. Culto e re-valorização do corpo, portanto da nudez. Enfraquecimento da culpabilidade. Perversão => inocência (re-helenização). Nossas orgias ainda são o culto do socialmente reprovável. Caráter de desafio. Os bacanais gregos constituem o exame duplamente nu da verdade e das possibilidades do homem frente aos deuses – ele nasceu assim, ele é isso. Celebração da vida. O sexo sob o cobertor, o fabrico da vida às escondidas, soa como algo débil, aviltante da natureza humana. Até o ponto de se ter vergonha de testemunhar a cópula entre os animais!

“Se Goethe tivesse cavado um pouco mais fundo na essência da mulher, teria descrito um segundo Werther que foi levado ao suicídio não pelo amor frustrado, mas por ter logrado o amor carnal. Mil Werthers cometem suicídio espiritual, enredados na roda dos ciúmes, para cada Werther que quebra a cabeça porque uma plebéia idiota se recusa a atender uns suspiros apaixonados.” Friedrich Nietzsche

“Eu amei; eu também sofri, mas, acima de tudo, eu posso sinceramente dizer que eu vivi!” Fiodor Dostoievsky

O MELHOR GOLE D’ÁGUA

Originalmente publicado em 22 de janeiro de 2009

Hoje eu compreendo o sentido de três mudanças na minha vida: ter sido expulso do Colégio Militar; ter rompido com a quase totalidade dos meus colegas de curso; não ter me casado. Quando Nietzsche formulou o conceito de Deus ex machina¹ ele escrevia a serviço do cristão Richard Wagner. O Deus ex machina, se fosse atualizado, seria entendido como parte do indivíduo e de sua força – o sabor da roda do acaso. Sinto que estas três linhas divisórias da minha vida foram de obtenção inconsciente. Mas é o inconsciente nossa verdadeira fatalidade.

¹ Não “formulou”, mas utilizou de forma muito característica em seu primeiro livro. – 01/01/21.

Não houvesse sido inconseqüentemente submetido a processo disciplinar na escola-quartel em que estudava aos 14 anos, provavelmente hoje eu teria profunda ligação com amizades daquele tempo. Faria parte de um círculo razoavelmente sólido na Universidade de Brasília. Gosto de pensar que sou um barco à deriva ao invés de uma ilha, então minha base fluida me permite conhecer novas águas. Hoje eu entendo a modalidade de comportamento daqueles garotos, uma vez crescidos, como não tendo sido alterada mesmo após tantos anos. Sinto uma diferença muito dilatada entre nossos pontos de vista. Eles são minha antinomia: os filhos, os profissionais e os cidadãos que eu jamais seria. Conversas tediosas, rotina hedonista (cujo sinônimo mais próximo é “pessimismo”: falta de capacidade e de claridade mental para suportar a dor e até querê-la, como nascedouro de novas vitórias), projetos ligados ao dinheiro e falta de discernimento psicológico. Sem dúvida esta última característica é a que mais me irrita: não conseguem compreender as atitudes dos outros (eu posso estar feliz com a cara mais séria!). Tal deficiência é óbvia, pois seus universos são como a viseira de um cavalo.

O mesmo problema – exatamente o mesmo – se verifica entre novos jovens. Não tão novos assim: parecem cópias dos primeiros. Ao entrar no curso de sociologia, procurei avidamente me entrosar. Conhecimento e reconhecimento instantâneos. Estava caindo na mesma cilada de quatro anos antes sem perceber. Mas novamente houve uma interferência do que eu posso chamar de “o manobreiro-eu”, sua parte mais colada à essência, sua personalidade verdadeira, que opera sua casa-das-máquinas. Contra os incuráveis hedonistas – perguntem-nos por que bebem tanto, o que querem esquecer, por que preferem a palavra “solução” a “problema”! – encontrei a solução da mímica: me tornei o superlativo do beberrão. O que aconteceu depois disso foi a quebra de um dente da frente numa escada e o dano moral. Finalmente o operador se recostou aliviado e emitiu um suspiro: seu pupilo absorveu o recado. Pude iniciar meus rompimentos no campus: uma série que ainda não acabou. Disposição havia, mas faltava o motivo: um para cada um, como seria desgastante! Mas, ao fim, bela manobra! Infelizmente, depois de baixar a poeira, percebi que algumas cabeças permaneciam fiéis. Mas eram fidelidades que doíam. Querer-se todo para si: esse é o extremo do amor! O próximo trabalho, em curso, está sendo revolver essa gente, que também me faz sentir apequenado. Já não basta a carência de rivais dignos, para injetar um pouco de graça? O que há no momento são mil sombras indiferentes e alguns adolescentes que ainda me incomodam por estarem do lado que se chama de “os amigos”: não há grupelho mais propenso a destruir o que um tem de mais valoroso do que esse. É preciso tomar muito cuidado com cada coisa que deles se ouve e com cada postura que eles sub-repticiamente nos incitam a tomar.

Meu plano inicial – e falo de outro tipo de relacionamento agora, ocorrido cronologicamente entre esses dois primeiros marcos citados – era terminar a faculdade de jornalismo já despachando num jornal e me casar. Havia pressão da namorada para que isso acontecesse, e como ela era “o bem mais precioso” eu tinha de me esforçar. Uma vida inteira ao lado de quem se ama, a segurança sexual almejada pelo homem, quem sabe daí a vôos mais altos: lindos filhos, a propalada vida do bem-estar. Era o vírus do hedonismo, do ser humano sempre apático diante do que a vida tem para oferecer, esse querer-se enclausurar num conto-de-fadas, que me atacava outra vez. Como o ferrão de uma abelha, ou a agulha de uma injeção, de quem espera a anestesia, a sonolência, a amnésia profunda. Eu havia me esquecido que o amor perverte mais do que a amizade, é a amizade que dorme consigo na cama! A amizade de papel lavrado. A amizade não é o problema. Mas ser a amizade errada, e não sabermos onde raios se encontram as certas. Parece que não há naturezas como a minha. É esse o preço a se pagar por se desejar um pouco de desafio, querer tomar um gole d’água gostoso, e não porque se diz por aí que beber água faz bem para a saúde? Que bem é esse? Viver mais enquanto se nega a viver? Minha potencial noiva se apaixonou por outro e o sonho americano foi pulverizado. Aos 20 anos, eu confesso que sei demais: muito mais do que jovens hedonistas, cuja preguiça me cansa. É preciso aprender, tolinhos, que o gole d’água só é gostoso quando se está com sede…

DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO

Originalmente publicado em 22 de janeiro de 2009

Lendo CartaCapital e a matéria sobre o barulho crescente de São Paulo e juntando isso com o Necrose de Edgar Morin eu cheguei a um importante insight: contrariando – ou, antes, solvendo a dúvida da – minha nota prévia (abaixo) sobre o horror nuclear, o grande fenômeno que parece demarcar o início da derrocada do Ocidente e que sucede imediatamente o ponto máximo da era fabril é mesmo a Segunda Guerra Mundial. Agosto de 1944, para ser mais exato. Neste momento os embriões congelados das criaturas e coisas trágicas começam a fermentar. Este é meu procurado “turning point” da transmutação de todos os valores. É a este momento de sangue semita-japonês que Nietzsche se referia com garbo meio século antes. Apesar de índices enganadores como o neoliberalismo pujante dos anos 80-90, isto já é decadência, pois o fôlego dos Estados representou a espoliação das massas, assim como o poderio soviético nos anos 50-60 é a demonstração de que a assim chamada cultura moderna não consegue sustentar seus ideais, embarca com fé numa nova solução, uma resposta para a crise, a qual irá tombar.

A Liberdade, dilema sempre central – cuja apoteose se deu na Revolução Francesa, durante a qual o homem estava no ponto-médio entre o servilismo feudal e a escravidão humanitário-democrática (julgando-se vitorioso sobre a primeira condição e ignorante da segunda) –, chegou ao paroxismo da sua auto-destruição com vistas a tornar-se soberana: abdiquemos de nossa liberdade individual, como autores de escolhas, e sacrifiquemos o czar, defensor de uma liberdade antiga e ultrapassada, para que as vozes sábias do Partido Comunista nos ordenem como há de ser daqui em diante, sem Deus. Esse era o teor do discurso, se pudéssemos ter ouvido francamente.

É conhecido o cenário vigente de proto-deuses que ainda concorrem para tomar o lugar da falida deidade cristã, do envelhecimento e pacificação da população, da desertificação, da mentira do crédito e da busca pela vivência alternativa, seja ainda parcialmente consumista ou radicalmente eremita, mas sempre mais “Gaia”. A aceleração que é ininterrupta ao expectador é aparência. Não existe expectador, todos estão do lado de dentro do trem-bala. Talvez por isso não percebam, mas a sensação de velocidade se intensifica não porque os trilhos sejam percorridos mais rapidamente, mas porque as edificações do último milênio vão desabando em ruínas como nunca antes. Se Guy Debord soubesse que seu retrato não passa de aparência…

Este escrito é de alguém lúcido, no olho do furacão. Minha única ressalva é: não admito a ingenuidade de que novas catástrofes não ocorrerão e que a transição será tranqüila – vide proliferação nuclear entre nações do Terceiro Mundo. Intentei apenas descrever qual momento histórico era o ápice da contradição, entre tantos episódios, passados e vindouros.

Escrevi em 7 de dezembro (com reformulações na data presente para tornar o manuscrito acessível):

Terão sido as Guerras Mundiais e a Guerra Fria – o século XX – o estopim do processo de loucura niilista por que perpassa a humanidade, ou a a-humanidade, o ocidente decadente? Teremos a tranqüilidade de dizer que doravante o anel exibe sua curva ascensional rumo à idade de ouro trágica? Ou é necessário mais um esforço, um empenho sublime, um contagiante acesso de fúria, uma alta da maré tanto mais feroz para nosso século quanto o que a onda nazista representou para o rochedo outrora tão vacilante, inconsistente? Este, o rochedo da capacidade de assombro humano – o que hoje nos assombraria, para além de duas nuvens de cogumelo? O que será isso, ó Mãe-Natureza? De uma coisa tem-se a certeza: não existe fim de mundo, ou fim da História…

“No princípio, era a ação!” Wolfgang von Goethe

“O sociólogo precisa entender o que é apurar necessidades. Eu trato do que é inevitável a longo alcance.” O Autor

“Existem pessoas centrípetas e centrífugas. Algumas empobrecem sua essência ao longo da vida, dissipam suas energias. Eu reúno o gasto sem propósito ao meu redor para realizar meus projetos” O Autor