[REPRISE] O QUE VAI AO AR [CENSURADO]

Originalmente publicado em 17 de setembro de 2009.

A amizade está acima do amor na escala dos sentimentos verdadeiros – ser amigo da mulher é o que se deve buscar no relacionamento. A pureza e a sinceridade, isso eu nunca tive.

Talvez o estresse da véspera do beijo seja inevitável, mas… Após o momento da conquista é realista trabalhar num projeto de aperfeiçoamento da relação. Volto a pensar no assunto quando achar que encontrei a “cobaia” ideal (ou muito antes).

Outro objetivo é achar amizade, qualquer amizade (entenda bem: amigo ou amiga), que me permita ser ainda mais rico e sábio e produtivo.

(…) Tenho de aprender a não ser uma caixa de fósforo. Olhar para frente – como é possível se dar com, e imaginar para si, uma pessoa com a qual não conseguimos falar? Mas esta ainda não há: pessoas de intelecto brilhante – embora turvo – como a M. não me despertavam outro membro e outro sangue que não o que corria para aquele. Lamentável. Em vão, até agora? Vamos fazer esse balanço, Jair-Durkheim!¹

¹ Referência a Jair Ferreira dos Santos, sociólogo e comunicólogo.

(…) Em verdade, hibernava, ou despontava timidamente, naqueles impulsos intra-aula, algo parecido com “ambição de amizade”! Mas se não é a coisa mais difícil e mais necessária do mundo, pois não depende de mim? Já fico feliz em saber que eu encaro como adoráveis as coisas que dependem de mim – há os que não suportam. E vede: falta agora o sabor do mar espumante, que me levará a algum sítio. Há muito ainda por viver? (Mas que pergunta! Mas que pergunta! Ma pergunto todo santo ano, há décadas…) E minha saúde e meus gostos? Quando foi que mais perto estive de aceitar a ingerência dos outros? Dois mil e seis foi um grande ano! Talvez o “ano da libertação”. Não vazia como aquela minha tia mais superficial que uma bandeja imaginava – a libertação dos idiotas que fazem 18 anos… (…) Alienígena, sigo meu caminho… (…)

Mas a universidade é exaladora de um miasma tal que não suporto discutir nada a sério ali! – sinto-me ridículo depois. (…) Eu sou a única máquina perfeita, o Sísifo mais lapidado pela pedra. Por que a melhor amizade é à distância? Mesmo a dos conhecidos. Invasão, que pecado! Gostamos de mostrar só o que gostamos de mostrar.

Talvez a mais sincera amizade seja aquela entre irmãos (o que eu de fato não tenho, se assim pensarmos)… Ou aluno e professor – de que lado estou agora? Eles já não me dão muita bola, dão? Mas eu sigo seus conselhos – também lembro dos breves chefes: Kerouac, tecnologia, perseverança, franqueza, olho no olho, Lynch, aprender com os próprios erros quando já se está no último degrau (e quantos últimos degraus não existem!…) Carmen e Pedro Jabur da época do jornalismo, lhes agradeço especialmente. Déia, Paniago, Marco Antonio, Euclides, Claudia Busato, Sidnei Volkmann, Severino,… Quantos bons professores naquela faculdade! Acreditem, não é indolor tomar resoluções graves, não ser o que queriam que eu fosse. Devo superá-los – ou ainda melhor: superar a imagem de vocês em mim. Grandes decepções na vida nova… A serenidade me trouxe a certe.za: devo romper com o último dos últimos “grupinhos”…

Diretriz sexual: castidade com as próximas; eliminação de desgostos via “química tradicional”. Às vezes eu oscilo, mas só contemplar não é me desvirtuar…

Na amizade se sofre todo o ciúme e culpa, porém não se pode apagá-los com carícias (por isso a amizade feminina é falsa)… mas a vantagem é que as fissuras da relação são mais visíveis. Ora, se ando sofrendo tão pouco… Parece que vim ignorando muito esse lado da coisa – ou não?! Ao meu redor só há porcos, porque só porcos se habituam a viver na lama. Preciso com desespero de alguém de quem não enjoe, mesmo quando se encontra mais debilitada. Quando eu estiver pronto para não “gozar para recomeçar”, aí então será esta minha mulher. Brigar, sim. Amigos brigam. Ser mais compreensivo, talvez. Demorou uma semana para eu enxergar meu mais recente erro – isso é bom! Há casos para o que uma vida não chega. Para o diabo! Nem sei se algum dia SENTIREI isso de novo. Se eu posso esperar 3 meses ou 1 ano para voltar a falar com a L. ou a M., não seria diferente neste caso… Feridas ou aborrecimentos não cicatrizam com beijinhos e jurazinhas…

CRITÉRIO: não na frente de quem temos coragem de criar cólera, mas diante de quem, com toda essa nossa descoordenação habitual, poderíamos dançar e cantar! Muito cuidado com isso de “sexo na primeira noite”. É no diálogo com possibilidades de embaraço que está a verdadeira afinidade. Harmonia carnal é uma palhaçada, ainda mais levando-se em conta a cartilha hipócrita de apagar-se as luzes. Neste mundo qualquer um come qualquer um!

[REPRISE] O QUE É PÓS-MODERNO? – Jair Ferreira dos Santos, 1987. Thrice is the charm, so roll the dice, it won’t harm.

Originalmente publicado em 16 de setembro de 2009.

mescla de purpurina com circuito integrado (…) Um bem? Um mal? Quem viver verá.”

CONTRACAPA

E quantos ainda vivem? E quantos não estão cegos?

índice

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

2. DO BOOM AO BLIT AO BLIP

Inclui wikia sobre John Barth

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

Inclui wikia sobre o dadá Rudolf Schwarzkogler

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

Menos coisas do que parece mudaram desde os anos 80: o U2 ainda faz um estrondoso sucesso e tenho um computador a minha frente. Qual a razão? O autor é um visionário ou a História está desacelerando? A fase crítica, a da elaboração do manifesto, teria passado? Agora havemos de ver mais VIDA do que MORTE?

O PRINCÍPIO DO SCAT: “A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a próxima vez.” Sintomático dos ingleses, segundo Latour; sintomático dos franceses que fedem à bosta, segundo Henfil.

Alternativa diferente das anteriores: o Brasil sentiu isso mais tarde – o escritor captou as tendências descritas somente no Primeiro Mundo. É só pensar nas manifestações pró-aborto: nosso espectro é defasado. E agora a moda é o do contra… Retroação. (2023)

Na cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você.”

ACIMA DO BEM E DO MAL: “Por que o niilismo voltou à boca dos filósofos?” Mas quando é que saiu desde a década de 1880?!

Digamos que o dia agitado do urbanóide retratado equivalha a meu ciclo semanal… (2009, quando morava com os pais, que ‘funcionavam’ num ciclo com esta duração)

Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme” É necessário morrer (dormir) mil vezes… O outro lado da moeda – em relação ao niilismo clássico – é oco.

A fábrica suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno” Já foi-se o tempo.

Os modernistas (vejam Picasso) complicaram a arte por levá-la demasiado a sério. Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo.” Querer não é poder.

A CRIANÇA RADIOSA vs. O ANDRÓIDE MELANCÓLICO: “o fantasma pós-moderno (…) A rigor, nada tem a ver com o Brasil, embora já se assista a um trailer desse filme por aqui”

É preciso sofrer para enxergar algum sentido. Nós, brasileiros, fomos tetracampeões em sofrimento recentemente.

(2009) Quando me torno forte e apólogo do devir, logo surgem vaidades econômicas dos pais, amigos paralisantes, universidade estressante e malditos insetos que não tratam de cessar – combinação explosiva. O clima neste deserto já está há um ano insuportável (quase dois! – 2010), e qualquer retiro imaginável é apenas para lugares piores. Não calculo a possibilidade dessa luta não dar em nada. Meu sonho é centrífugo à realidade jovem do celular-câmera-Orkut-baladas-funcionalismo. Eu quero apenas duas coisas: colchão velho¹ e distância (paradigma do conhaque e da atmosfera puída e calada). As fases passam (C. e reclamação na mesa)… O pior de todos os infernos sem dúvida é o Inferno Tecnológico. Ou o deserto do real a-tecnológico involuntário. Ridiculerói na Terra da Música.

¹ (P.S. 2023) Alergia a ácaros torna este velho ‘mandamento’ proibitivo hoje!

DO TRAILER (TEASER!) AO LONGA: O que é não fugir, Jesus? O que é não consumir, Lúcia? O que é não tratar do cabelo no salão, Nadir? O que é ter um pobre na família, Aguiares? O que é não sair de casa no sábado, Eduardo? Todos estamos no mesmo barco – inclusive eco-chatos e maconheiros, não é, G.B.? Você sai muito de casa e toma muito suquinho? O quanto isso o elevou? Ao anonimato num jardim malpodado!

(O ruim de anotar as coisas é que a gente lembra das coisas! Inconscientemente, já havíamos nos vingado há muito tempo…)

preferimos o (…) simulacro ao real. E por quê? Porque desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade.” “Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza; intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais interessante que a própria realidade.” Quebra da tela da TV definitiva (resolução maior que a de qualquer olho humano) e multipolaridade, o caminho.

Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora (…) O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca.”

2. DO BOOM AO BIT AO BLIP

John Barth, The Floating Opera

______, Giles, o Menino Bode

______, Once Upon a Time: A Floating Opera

______, The Literature of Exhaustion, 1967 // “Barth has since insisted that he was merely making clear that a particular stage in history was passing, and pointing to possible directions from there. He later (1980) wrote a follow-up essay, The Literature of Replenishment, to clarify the point.” Curiosamente, Barth e (Roland) BarthES possuem trabalhos teóricos correlatos e coetâneos!

wiki: “Despite Barth’s influence on postmodern literature in America, his influence and publicity have decreased since his novels were published.”

Barth began his career with The Floating Opera and The End of the Road, two short realist novels that deal wittily with controversial topics, suicide and abortion respectively. They are straightforward realistic tales; as Barth later remarked, they ‘didn’t know they were novels’. § The Sot-Weed Factor (1960) was initially intended as the completing novel of a trilogy comprising his first 2 ‘realist’ novels, but, as a consequence of Barth’s maturation as a writer, it developed into a different project.”

Barth’s next novel, Giles Goat-Boy (about 800 pages), is a speculative fiction based on the conceit of the university as universe. Giles, a boy raised as a goat, discovers his humanity and becomes a savior in a story presented as a computer tape given to Barth, who denied that it was his work.”

The short story collection Lost in the Funhouse (1968) and the novella collection Chimera (1972) are even more metafictional than their 2 predecessors, foregrounding the writing process and presenting achievements such as a 7-deep nested quotation. Chimera shared the U.S. National Book Award for Fiction.”

The Floating Opera is a novel by American writer John Barth, first published in 1956 and significantly revised in 1967. Barth’s first published work, the existentialist and nihilist story is a first-person account of a day when protagonist Todd Andrews contemplates suicide. § Critics and Barth himself often pair The Floating Opera with Barth’s next novel, The End of the Road (1958); both were written in 1955, and they are available together in a one-volume edition. Both are philosophical novels; The End of the Road continues with the conclusions made about absolute values by the protagonist of The Floating Opera, and takes these ideas ‘to the end of the road’.”

EDITOR OU AÇOUGUEIRO? “After a string of publisher rejections, Appleton-Century-Crofts agreed to publish The Floating Opera in 1956, but stipulated it ‘conclude on a less nihilist note’; Barth complied and altered the ending. (…) Barth made a number of changes to the text for a revised edition from Anchor Books in 1967, including restoration of the original ending.”

Giles Goat-Boy (1966) is the 4th novel by American writer John Barth. It is a metafictional comic novel in which the universe is portrayed as a university campus in an elaborate allegory of both the hero’s journey and the Cold War. Its title character is a human boy raised as a goat, who comes to believe he is the Grand Tutor, the predicted Messiah. The book was a surprise best-seller for the previously obscure Barth, and in the 1960s had a cult status.”

Nathalie Sarraute (1900-1999), Portrait of a Man Unknown (Portrait d’un inconnu)

______, L’Ère du soupçon, 1956 (enssaio)

______, Tropismes

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

John Fowles, A Mulher do Tenente Francês

Donald Barthelme (1931-1989), Snow White (1967)

_____, Me and Miss Mandible (conto)

_____, The Joker’s Greatest Triumph (c.)

_____, The Balloon (c.)

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

EM NOME DA ARTE: O caso que sempre recordo, mas nunca sei dizer o nome do suicida: Rudolf Schwarzkogler (1940-69), vienês, precursor da arte performática, se matou em uma exibição apoteótica em 1969.

wiki: “He was born the son of a doctor who killed himself near Dubinniskij-Stalingrad after a serious war injury in which he lost both legs. In 1951 Schwarzkogler’s mother moved with her son to Lienz, where she married the sculptor Erich Unterweger. In 1954 he moved back to Vienna to live with his paternal grandmother and in 1956 to live with his other grandmother in Vienna. He continued to attend high school and in 1956 the federal trade school for one year.

In 1960, he met Hermann Nitsch, who had graduated from the ‘Graphische’ in 1958, and became friends with him. The following year he left graphic arts without a degree and worked in the summer as a student trainee for C.F. Boehringer und Soehne GmbH in Mannheim. In October he enrolled at the Academy of Applied Arts Vienna, but only attended it briefly. He was drafted into the military. He worked as a graphic artist and took part in campaigns by Viennese actionists such as Otto Muehl and Hermann Nitsch. Shortly afterwards he started his own actions.

Schwarzkogler devoted himself entirely to free art from 1965 and quit his job. He started out with horse betting and was interested in winning systems. In 1968 he took part in film projects. In 1969, he died after falling from the window of his apartment. He was buried at the Vienna Central Cemetery.” Ou não contaram a história direito (em alguma das fontes) ou a verdadeira história suicida era unicamente a de seu pai…

The enduring themes of Schwarzkogler’s works involved experience of pain and mutilation, often in an incongruous clinical context, such as 3rd Aktion (1965) in which a patient’s head swathed in bandages is being pierced by what appears to be a corkscrew, producing a bloodstain under the bandages. They reflect a message of despair at the disappointments and hurtfulness of the world.”

His first and most famous action was performed on February 6, 1965, titled Wedding: Schwarzkogler shows a private ritual with religious, shamanistic and alchemical elements at a table covered with a white tablecloth, on which there are dead fish, a dead chicken, various animal organs, eggs, colored liquids, a knife and scissors.”

FAQUIR EUNUCH NEWS? “Chris Burden once remarked that a 1970s Newsweek article, which had mentioned himself and Schwarzkogler, had misreported that Schwarzkogler had died by slicing off his penis during a performance. (…) The castration theme in some of them — for example, in Aktion 2 he posed with a sliced open fish covering his groin — have additionally fueled this myth. Additionally, the protagonist of the Aktion in which the cutting of a penis was simulated was not Schwarzkogler himself, but his friend and model, the renowned photographer Heinz Cibulka. When Schwarzkogler died, the series of performances had long been concluded. He was found beneath a window from which he had fallen, seemingly the victim of an accident. His death generated speculations and further myths.”

Castro a sociedade e mato o Ocidente, teria dito o ditador cubano.

Kurt Vonnegut, Cat’s Cradle (já recomendado em minha resenha de Symphony of The Night).

Robert Coover, The Public Burning

Robe-Grillet, La Maison de Rendez-Vous (Encontro em Hong Kong)

Italo Calvino, Cosmicomics

______, Se um viajante numa noite de inverno… (roleplaying game)

Günter Grass, O Tambor

______, O Linguado

NACIONAIS

Osman Lins, Avalovara

Ivan Ângelo, A Festa

Rubem Fonseca, O Cobrador

Victor Giudice, Bolero

Sérgio Sant’Anna, O Concerto de João Gilberto no RJ

CINEMA

Paris-Texas, Salve-se Quem Puder

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

Nietzsche entrou em (sic) moda nos anos 70 [na verdade dir-se-ia que na Europa entrou em moda nos 1900 e decaiu antes dos 1960!] e continua no hit-parade

A pós-modernidade é o momento em que tais valores [fim, unidade, verdade], ainda atentos e fortes durante a modernidade industrial, entram em decadência acelerada. Se isso vai dar ou não na transvaloração, no supra-homem, é outro papo.” O ‘velho’ papo: a) falta de conhecimento do método; b) imaturidade dos meios de produção.

Esse profeta, que pensava durante longas caminhadas, usaria hoje um walk-man sem som para melhor enxergar na confusão de nossa época.” Datado E adiantado.

Lyotard, A Condição Pós-moderna

(leitura atrasada!)

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

Madonna como a criança radiosa.

A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia – a doença da vontade – prevista por Nie. para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência” A melancolia ainda está muito longe de ser o non plus ultra de alguma coisa séria…

(2009) Woody Allen é o arquétipo do melancólico.

(2023) E do pedófilo.

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

Alvin & Heidi Toffler, A Terceira onda Revolutionary Wealth, 2006. (atualização tardia) – desconfiar: sociologia norte-americana

Muniz Sodré, A Máquina de Narciso: Televisão, indivíduo e poder no Brasil, 4ed., 2001.

Umberto Eco (1932-2016), Viagem na irrealidade cotidiana, 1984. (arquivo da anna, inglês)

______, O fascismo eterno, 1997 (2018, trad. de Eliana Aguiar, Record). (exemplar impresso baratinho – 50p. – na Amazon)

Baudrillard, À sombra das maiorias silenciosas

[REPRISE] ANCESTRALIDADE EM CLASSE

Originalmente publicado em 17 de setembro de 2009.

Quando chegamos ao cume do tédio advêm algumas vontades esquisitas. À parte aquela de fuga do momento (estar em uma sala abafada, quase imóvel, a bunda doendo machucada pelo caráter tosco da carteira, exposição mecânica, dialética vã e vazia), quando o corpo se resigna e decerto se conforta com um tempo eterno (sempre foi assim!), começo a preparar tarefas, realizáveis sem sair do meu lugar. Exemplos: contar o número de pessoas alojadas, pensar detidamente sobre meu sábado, o que todas elas farão imediatamente ao ganharem a liberdade, do que meu corpo precisa, como ele se conforma agora, o deslocamento de cada sujeira da minha unha… Quando lerei os textos exigidos? O que o Douglas pensaria dessas elucubrações? É uma modalidade de estetização, um bricolage absurdo, abundante, num tal meio escasso – como seu maquinário faz nos sub-enredos (nas tramas em cascata) dos sonhos! Para quem o Thiago estava ligando? Será apenas para espantar o sono? Estou concretizando a meta minimalista de converter em narrativa cada momento (insight Pedro V.): essa vida de aluno, haverá algo tão agradável-no-melancólico para mim? Pareço um matusalém das salas de aula, sou um barbudo grisalho cheio de artimanhas. Quantas horas! Cada coçada de nariz, essa sensação de não estar em nenhum tempo, dissociado de pretéritos e destinos… Vício no ócio, não há outra explicação. E em expelir sangue (negro).¹ Salas semi-desertas e de “fim de curso”: panorama parecido com meu parto do Andarilho T…²

¹ (P.S. 2023:) Trata-se da cor da tinta da caneta.

² (P.S. 2023:) Conto iniciado em 2004. Retrabalhado e publicado em 2012 e novamente em 2016. Talvez venha a figurar na série CILA OU CARIBDE.

[REPRISE] [3-em-1] Hoje foi um grande dia. / E o tempo passou, e eu realmente voltei… / E 1, e 2, e 3…K.O.!

Originalmente postado em 2 de setembro de 2009

Hoje foi um grande dia. Nesta quarta-feira, que já acordei confundindo com uma sexta, com azia no estômago devido a um rodízio de pizzas na noite pregressa, aconteceram muitas coisas, embora eu ainda esteja no meio de seu curso (16:28)! Os “três mandamentos” inusitados e provocativos logo abaixo são apenas uma amostra das iluminações e bons augúrios que me foram permitidos desde seis e meia da manhã quando fui rudemente despertado até esta calorenta parte da tarde.

Não sem relação com toda essa riqueza acontecimental, decidi aprecer de novo no blog em tempo recorde. Aqui, abro as portas mais uma vez para o túnel do tempo da minhoca-autor:

(…)

E o tempo passou, e eu realmente voltei… E vou continuar voltando, mas comunico-vos que não nomearei mais artigos com o título TRANSCENDER. Apenas os que me compreendem menos mal adivinharão o porquê e não me interessa falar em vão para os outros. Não obstante, o que deve mudar é apenas isso: sempre escrevo, e como não há verdadeiras revoluções em nossas vidas, apenas explosões aparentes, serei sempre o mesmo, mesmo tendo mudado tanto, e o “projeto” continua, embora tácito… É difícil eu me arrepender de alguma coisa… Ah, como é bom aliviar as costas de um peso tenebroso!

E UM, E DOIS, E TRÊS… NOCAUTE!

UM

Sabe qual é a definição vulgar de trágico? Que o homem sabe que vai morrer. Sabe o que é ainda mais trágico? Que, sendo a única criatura que detém esse conhecimento, o homem é também o único que sabe rir.

DOIS

Desconfie dos moralistas.

TRÊS

Deus já não se sustém – nem como hipótese.

[REPRISE] NÃO ERA PRA CASAR

Originalmente postado em 29 de agosto de 2009

“Perder-se”: outra grande temática de reflexão, além d’“o retorno”! Excitação, adrenalina… Aventura: Valparaíso, Ingá, rodoviárias e ônibus. Longa noite: paradeiro inaudito. A vida como RPG. Ditadura do relógio em segundo plano. Caminho de leituras e afazeres até uma monografia: não outra que não um labirinto! Minhocão, subsolo, reentrâncias, números e siglas… Sagas em miniatura. Agora vejo essa tendência em tudo: na ebriedade, na Música, no futebol… Todo Link tem seu confortável domicílio perto de uma Sagrada Deku Tree, mas qual seria a graça se não explorasse? A vida sempre foi um JOGO! Com desespero e feridas reais, fica mais difícil de empunhar a espada sem pensar três vezes no que irá acontecer a seguir. Sair com febre: Guará e seus conjuntos, a casa do B. e a volta para casa – alguma dúvida do que é que eu queria? Com certeza não era dançar funk, beber cerveja ou transar com a irmã da R.! O fio de Ariadne não seria, aliás, o mouse? Redes de amigos, comunhões e desventuras – o risco de se danar, olhar para trás e não poder voltar… Autoconservação COINCIDE com automutilação.

Cadê seus instintos? Mulher, a víbora (no bom sentido): quase me faz pisar na Igreja. Por que me apaixonei por você e não por outra? Porque o pré-requisito fundamental mais importante até agora não escrevi: PERDER-SE COMIGO NO LAR DO MINOTAURO! Você foi minha Salomé, “não era pra casar”!

Estou na minha idade épica… Depois serei um daqueles velhos muito consultados? Frio na barriga, o maior dos imperativos por enquanto! Brasília de repente está em silêncio, silêncio que cheira a INTERROGAÇÃO. O que eu quero para o meu Messias? Por que tempestade dissipa?

Para suprimir o pornô… O pornô é terrível por causa da ânsia que provoca. Daí se vê que é bem uma coisa do estômago. Não tem coisa mais sem-graça que a mulher rendida, despida, em quem (na qual, objetal!) somente se enfia! Sempre achei o semi-nu, o decote, a fuga e a intriga mais espetaculares. Aquele momento intermediário no qual somos mais felizes. Omissão feminina. Desbravamento masculino – 1ª VEZ: E. se recusa a ir embora na noite escura, mas não se convida explicitamente a ficar, espera meus movimentos, logo vai me dar, sem me dar nada!…

RPG, leia-se: transportar as neuras convulsivas cerebrais para o plano da ação. Não é que os sistemas caprichem nos cenários e na física e esqueçam da psique das personagens. É que o ocidental travado tem o cérebro inchado e é enfermo do pé! Renasça, ó beleza automática! Hiei, meu alter ego lutador! Depois que se cumpriu uma missão colossal, uma tarefa muito laboriosa, o que resta? Ora, nada nunca foi de ninguém. O amor a um ser humano, uma jóia, uma pedra preciosa, a estima popular, tudo é passageiro. Mas é suficiente o seguinte: gana de algo mais, uma curiosidade que persiste… Gastar até o último cêntimo da sua centelha…

[REPRISE] #TRANSCENDER17 HEIDEGGER’S HEGEL’S PHENOMENOLOGY OF SPIRIT

Originalmente de agosto de 2009. Comentários atuais em azul.

A construção do sistema hegeliano – primeiramente, o autor necessitou recorrer ao fenômeno para dar suporte à continuidade de sua filosofia central (a Ciência e limites do conhecimento). Postumamente, deprecia o acontecimento e o relega a sub-seções em uma nova versão do sistema, doravante guiado pelo Espírito e pela Lógica (lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, “englobando-o”). O universo só pode surgir do Absoluto, mas é o material e explícito responsável por legitimá-lo como tal – o Universo é como o paradigma ególatra do homem que para fazer-se precisa ser reconhecido pelos outros. Nisso estaria o mistério do universo de se auto-desvelar “fingindo” ser outro para contemplar-se a si mesmo. Eu sou deus. Eu encerro o absoluto em meu caráter fugidio. Não devo me voltar para o universo em busca da Verdade: se ele sou eu, ela reside em mim, em meu devir. Aliás, ela o é. (Isso é exatamente o que Sartre dirá na introdução de sua Magnum opus.)

O problema do “saber absoluto” em Hegel e a constatação de que o Ser e a Verdade são quadros atemporais, desejo de fim e de morte, está no limite lógico do Ocidente e naturalmente antecede o devir nietzscheano. Hegel é o último grande herdeiro de Platão. (20-06-2023 Discordo desse ponto de vista. Já havia editado acima: Onde se lê “(lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, ‘englobando-o’)”, em 2009 se lia “lógica hegeliano-dialética, em oposição a Platão e Aristóteles, ou, como preferir, ‘compreendendo’ os dois)”. Catorze anos de leitura em filosofia mudaram minha exegese de Hegel. E não só de Hegel: Platão e Aristóteles são inconciliáveis.)

O século XX oferece um panorama engraçado: Camus insinua que o problema central da Filosofia deve ser “julgar se se deve viver”. Já Heidegger insinua que a grande questão é “o que é o ser”. Uma Filosofia da Morte que quer a vida e uma Filosofia do ser que deseja a morte! (20-06-2023 Leviano de minha parte tendo lido Heidegger muito pouco tipificá-lo assim com tamanha segurança.)

É banal discutir se a Filosofia é ou não Ciência. Ela existe meta-isso, além. Trata dos problemas da existência. Nietzsche é tachado de anti-filósofo por ser “Imoralista” e romper com os clássicos (na aparência). Sem embargo, seu trabalho sem dúvida é Filosofia Clássica. Talvez o problema seja a atual condição precária da disciplina…

O conhecimento absoluto é um espelho que quer ser olhado. Quem pode olhar? O discurso, o relativo, a própria “soma rumo ao supremo”. A História seria o movimento de auto-descoberta culminando na satisfação plenipotente do espírito. Para mim, tanto faz (volta ao primeiro tópico).

A consciência progride, por experiência, até a auto-consciência (20-06-2023 Esclarecimento: já há necessariamente auto-consciência na consciência – em Hegel –, que é consciência-de, e consciência-de-si, mas a didática exige uma exposição em etapas, gradual); esta por sua vez aspira imperfeitamente ao absoluto (os existencialistas apontariam um erro grosseiro aqui: não existe consciência que não seja consciência-de-si – como dito nos parênteses anteriores o eu de 2009 foi precipitado em não reconhecer que já havia a resposta a essa crítica dos existencialistas já em Hegel) dizendo-se isso mesmo (que é relativa, sabendo, pois, do que sabe)/ é um movimento de “absolvição”, de chegada ao espírito, o absoluto. O fenômeno é o espírito materializado. (20-06-2023 O espírito é o fenômeno teorizado.)

“A aparência formal pura do absoluto é a contradição”

“A fenomenologia do espírito é o genuíno e total aparecimento do espírito”

(Hegel e Heidegger são o Pai e o Filho: o Espírito Santo são os problemas para se fazerem entender; escrita embotada.) (20-06-2023 – haha!)

Os três primeiros capítulos são dedicados a esclarecer o jogo de linguagem por trás do título original da publicação mais conhecida de Hegel, Ciência da Fenomenologia do Espírito.

“O conhecimento absoluto é conhecimento e vontade ao mesmo tempo”

Atenção: as fenomenologias hegeliana e husserliana não batem. Apesar de todos os elogios e louvores de Heidegger a Hursserl, seu mestre, em Ser e Tempo. (Husserl é considerado uma “escola à parte” por Sartre, e assim deve ser lido.)

Hegel não deve ser interpretado, aqui, como um introdutor à filosofia: seu livro busca o “oposto” (uma escatologia filosófica), se pudéssemos assinalar de modo extremo, uma vez que lida de forma definitiva com o problema ocidental da possibilidade do conhecimento (uma potente auto-apresentação da senhora Razão – ele é o filósofo que pergunta já possuindo as respostas), inscrevendo-se no cume do Idealismo Alemão (curioso Heidegger tipificá-lo após criticar rótulos).

É, complementarmente, a espiral derradeira da escola racional, duramente golpeada, na seqüência pelo materialismo histórico e pelo irracionalismo nietzscheano.

“Em Filosofia, inexistem predecessores ou sucessores de um trabalho¹ (…) todo verdadeiro filósofo é contemporâneo dos outros filósofos”

¹ Talvez a frase mais conhecida de Heidegger.

Frase famosa e funesta. Quer dizer que Hegel nem mestre alternativo algum envelhece, e que sua doutrina é só uma doutrina. Uma vida que não se chama Georg Friedrich Hegel precisa de mais que uma doutrina.

Enxergo necessariamente o devir (20-06-2023 Quis dizer: filosofia do futuro) quando leio as intenções de Hegel (“o fim é o começo”).

Eu sou o Evangelho! “Deus” é a própria vontade do todo que em seus frangalhos se define, assim como a ausência de deus. Deus é e não é. Ou sou eu ou sou deus. Sou eu. Deus perde a relevância. Ou eu sou Deus. SINTO, LOGO EXISTO. EXISTO, LOGO SOU DEUS.

HENFIL NA CHINA (antes da Coca-Cola): releitura, 14 anos depois.

Postado originalmente em 10 de agosto de 2009 no extinto xtudotudo6.zip.net sob o título “TRANSCENDER-15”. Adaptado e atualizado.

18ª edição, 1987.

P. 13: “Eu ia me perguntando: qual é o objetivo da Europa? Revolucionar o mundo? Não mais. A busca da felicidade? Nenhum traço. Justiça social? Não me consta. L’amour? Nenhum indício. Então, para que vive a Europa? Para consumir até perder o sabor e aí precisar experimentar as próprias fezes como forma de excitar os sentidos anestesiados? Parti de Paris numa terça-feira, 19 de julho, sentindo cheiro de cocô. Tudo limpo. Sem mosquito. Mas tava lá o cheiro de cocô espiritual. Mas que fazem palácios, jardins e igrejas lindos, fazem.”

Ao contrário do governo brasileiro, o chinês preserva cada um dos traços culturais das etnias minoritárias.

P. 47: “Saio da França, chego na China e vejo o cocô adubando grande parte da agricultura chinesa. O cocô aqui trabalha duro em vez de ficar em orgias alienadas como na Europa.”

Notas engraçadas (ok, quase todas): o vaso chinês e o ato “de cócoras e sem encostar”: não é para o Henfil!

A China não se afigurava então como eminente poluidora!

Há sempre a briga pela maior produtividade – ainda que travestida ou “infantilizada”. Criam-se a tristeza e a fadiga típicas de sociedades industriais terceirizadas – não há escape, tudo integra a religião do progresso!

Henfil apareceu em um momento marcante para 900 milhões de pessoas: o relaxamento do regime, a Revolução Cultural.¹ Aspectos inflexíveis começavam a se liquefazer. 1977: faz um ano que Mao morreu. Quer-se escapar do revisionismo (ortodoxia à la Stalin) do Bando dos Quatro,² de dentro do qual a viúva de Tsé-tung³ exala seu fel.

¹ “Mao declared the Revolution over in 1969, but the Revolution’s active phase would last until at least 1971, when Lin Biao,a accused of a botched coup against Mao, fled and died in a plane crash. In 1972, the Gang of Four [vide ²] rose to power and the Cultural Revolution continued until Mao’s death and the arrest of the Gang of Four in 1976.” https://en.wikipedia.org/wiki/Cultural_Revolution

aLin Biao (Chinese: 林彪; 5 December 1907 – 13 September 1971) was a Chinese politician and Marshal of the People’s Republic of China who was pivotal in the Communist victory during the Chinese Civil War, especially in Northeast China from 1946 to 1949. Lin was the general who commanded the decisive Liaoshen and Pingjin Campaigns, in which he co-led the Manchurian Field Army to victory and led the People’s Liberation Army into Beijing. He crossed the Yangtze River in 1949, decisively defeated the Kuomintang and took control of the coastal provinces in Southeast China. He ranked 3rd among the Ten Marshals. Zhu De and Peng Dehuai were considered senior to Lin, and Lin ranked directly ahead of He Long and Liu Bocheng.” “Lin became more active in politics when named one of the co-serving Vice Chairmen of the Chinese Communist Party in 1958. He held the 3 responsibilities of Vice Premier, Vice Chairman and Minister of National Defense from 1959 onwards. To date, Lin is the longest serving Minister of National Defense of the People’s Republic of China. Lin became instrumental in creating the foundations for Mao Zedong’s cult of personality in the early 1960s, and was rewarded for his service in the Cultural Revolution by being named Mao’s designated successor as the sole Vice Chairman of the Chinese Communist Party, from 1966 until his death. § Lin died on 13 September 1971, when a Hawker Siddeley Trident he was aboard crashed in Öndörkhaan in Mongolia. The exact events of this incident have been a source of speculation ever since.” “Since the late 1970s, Lin and the wife of Mao, Jiang Qing, [vide ³] (along with the other members of the Gang of Four) have been labeled the 2 major ‘counter-revolutionary forces’ of the Cultural Revolution, receiving official blame from the Chinese government for the worst excesses of that period.” “The findings of Lin’s attempt to contact the Kuomintang supported earlier rumors from inside China that Lin was secretly negotiating with Chiang’s government in order to restore the Kuomintang government in mainland China in return for a high position in the new government. The claims of Lin’s contact with the Kuomintang have never been formally confirmed nor denied by either the governments in Beijing or Taipei.”

² “The Gang of Four (simplified Chinese: 四人帮; traditional Chinese: 四人幫; pinyin: Sì rén bāng) was a Maoist political faction composed of 4 Chinese Communist Party (CCP) officials. They came to prominence during the Cultural Revolution (1966–1976) and were later charged with a series of treasonous crimes. The gang’s leading figure was Jiang Qing (Mao Zedong’s last wife). The other members were Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, and Wang Hongwen.”

³ Jiang Qing (19 March 1914 – 14 May 1991), also known as Madame Mao, was a Chinese communist revolutionary, actress, and major political figure during the Cultural Revolution (1966–1976). She was the 4th wife of Mao Zedong, the Chairman of the Communist Party and Paramount leader of China. She used the stage name Lan Ping (藍蘋) during her acting career (which ended in 1938), and was known by many other names. Jiang was best known for playing a major role in the Cultural Revolution and for forming the radical political alliance known as the ‘Gang of Four’.” “At the height of the Cultural Revolution, Jiang held significant influence in the affairs of state, particularly in the realm of culture and the arts, and was idolized in propaganda posters as the ‘Great Flagbearer of the Proletarian Revolution’. In 1969, Jiang gained a seat on the Politburo. Before Mao’s death, the Gang of Four controlled many of China’s political institutions, including the media and propaganda. However, Jiang, deriving most of her political legitimacy from Mao, often found herself at odds with other top leaders. § Mao’s death in 1976 dealt a significant blow to Jiang’s political fortunes. She was arrested in October 1976 by Hua Guofengb and his allies, and was subsequently condemned by party authorities. Since then, Jiang has been officially branded as having been part of the ‘Lin Biao and Jiang Qing Counter-Revolutionary Cliques’ (林彪江青反革命集), to which most of the blame for the damage and devastation caused by the Cultural Revolution was assigned. Though she was initially sentenced to death, her sentence was commuted to life imprisonment in 1983. After being released for medical treatment, Jiang died by suicide in May 1991.”

b “In the struggle between Hua Guofeng’s and Deng Xiaoping’s followers, a new term emerged, pointing to Hua’s 4 closest collaborators, Wang Dongxing, Wu De, Ji Dengkui and Chen Xilian. In 1980, they were charged with ‘grave errors’ in the struggle against the Gang of Four and demoted from the Political Bureau to mere Central Committee membership.”

Jiang Qing

Quotations from Chairman Mao Tse-tung, 1964. “The most popular versions were printed in small sizes that could be easily carried and were bound in bright red covers, thus commonly becoming known internationally as the ‘Little Red Book’.”

Resolution on Certain Questions in the History of Our Party since the Founding of the People’s Republic of China, 1981. Vd. em

https://digitalarchive.wilsoncenter.org/document/resolution-certain-questions-history-our-party-founding-peoples-republic-china

(*) “The Five Black Categories (Chinese: 黑五; pinyin: Hēiwǔlèi) were classifications of political identity defined during the period of the Chinese Cultural Revolution (1966–1976) in the People’s Republic of China by Mao Zedong, who ordained that people in these groups should be considered enemies of the Revolution. The groups were:

Landlords (地主; dìzhǔ)

Rich farmers (; fùnóng)

Counter-revolutionaries (反革命; fǎngémìng)

Bad influencers (‘bad elements’) (坏分子; huàifènzǐ)

Right-wingers (右派; yòupài)” https://en.wikipedia.org/wiki/Five_Black_Categories

(*) “During the Cultural Revolution the Nine Black Categories were landlords, rich farmers, anti-revolutionaries, bad influences, right-wingers, traitors, spies, capitalist roaders and intellectuals. While often attributed to Mao Zedong, in 1977 Deng Xiaoping argued that it was the Gang of Four who came up with the phrase and that Mao himself saw intellectuals as having some value in society.” https://en.wikipedia.org/wiki/Stinking_Old_Ninth

* * *

P. 88: a excelente idéia dos feriados rotativos!

P. 92: “A China jamais, é o que sinto aqui, partirá para uma invasão no exterior. O perigo amarelo não existe.” Brilhante vislumbre à la dialética de Arrighi. Associação geo-econômica onde a expansão política é desprezada (anti-imperialismo): o que importa é a consolidação interna. Mais: “Nenhum outro povo é citado em nada, a não ser os russos que deverão (eles repetem isso toda hora) invadir a China mais dia menos dia”. A União Soviética é um gêmeo americano (para os líderes chineses de então). Os japoneses, outros. “Mas o que são 20, 30, 100 anos de comunismo para um homem de 20 mil anos? Minutos, talvez.”

Picles, capítulo das pp. 91-4: reflexões interessantíssimas e contraste com o american way. Gostaria de saber se todos lá, hoje (2009), ainda lêem o discutem saborosamente Marx…

P. 93: “Não há advogados na China.”

P. 94: os chineses tentavam a reforma urbana de Dahl, esvaziando as cidades e dispersando seu povo.

Corroborando Simmel (p. 100): “não há prostituição de forma alguma. Não fique em dúvidas. Há prostituição entre os índios?”. Para Henfil, o “problema sexual” chinês não é nenhum problema! Nós, os ocidentais, é que somos peritos em fundar dilemas insolúveis por meio de contrastes anti-naturais.

P. 113, sobre a punição ideológica: “O crime na China, realmente, não compensa.”

Como estão hoje os abrigos subterrâneos, as réplicas impecáveis de Pequim a 4, 8, 15m do piso das cidades? R (já em 2009): Esvaziados, mas conservados para o turismo.

Júlio Verne, As Atribulações de um Chinês na China

https://www.amazon.com.br/Atribula%C3%A7%C3%B5es-Chin%C3%AAs-China-Viagens-Maravilhosas-ebook/dp/B00H8CD1OU

Dazibaos, os fanzines chineses. “Longas seqüências de discussão eram postadas e apreciadas nos muros, como ocorre nas comunidades virtuais de hoje. (…) Em 1978, um dos mais importantes documentos da história chinesa, chamado A quinta modernização, foi um Dazibao. Ele proclamava a democracia como o último dos elementos necessários ao completo sucesso da revolução chinesa. Foi copiado e distribuído por todo o país, sob os auspícios do governo.” Em http://sinografia.blogspot.com/2011/04/o-que-e-dazibao.html#:~:text=Traduzindo%20literalmente%20do%20chin%C3%AAs%2C%20%C3%A9,feito%20artesanalmente%20ou%20a%20m%C3%A3o.

Inflação e impostos congelados. Como a China mudaria em três (duas) [2009] décadas!

A China de Mao é o lugar (extinto) onde a auto-suficiência está acima de tudo.

P. 156: “Sincera, cândida, ingênua, simples e comovente. As 5 palavras que mais usei para definir tudo na China.”

P. 163: “É bom saber que, ao contrário da Rússia e do Ocidente cristão, não se usa o choque elétrico na China.”

P. 164: “Nunca vi nada mais ‘católico’ que a China Comunista”

Quem É. U. A.nti-Cristo?

A diferença entre Stalin e Mao, ou entre a União Soviética e a China, era que o chinês era camponês, e o russo, burocrata alienado do povo e imerso nas relações de poder.

Cabelos longos na China: remetem à época imperial.

P. 204: “Talvez, na hora do pau, os camponeses resistam à tão temida ocupação estrangeira, mas os operários de fábricas como a de relógios vão é se identificar com os invasores estrangeiros. Eles já se identificam no comportamento. Dois autômatos, sejam eles chineses ou suíços, se beijam, sim senhor.”

P. 213: a “universidade parlamento”.

O pouco contato que eles têm pode ter ajudado a construção de um socialismo puro, mas poderá, no futuro, criar grandes danos quando o ‘civilizado’ chegar com suas gripes. Esta pureza chinesa não preocupa?” Terrível prenúncio da Covid!

A propaganda (não falo aqui da mídia – aliás, também da mídia!) ideológica – desde Pequim – é terrível, asfixiante [como tem de ser. P.S. 2023]. Talvez fosse, mas Henfil a sublinha na reta final do livro, quando está em Shangai. À página 225 explica o porquê: são seus anticorpos burgueses e a saudade da pátria entrando em ação!

P. 229: premonição sobre a poluição e a capacidade produtiva crescentes – competitividade e burocracia são males necessários na guerra do Capital.

P. 235: os camponeses cozinham com “biogás”: o próprio cocô vaporizado!

P. 247: fica evidente como está enraizada a noção de progresso, mesmo em culturas tão diferentes… A vontade para se atingir um fim, qualquer que ele seja…

P. 254: não pode haver arte medíocre.

Pp. 268-0: famílias que viviam em barcos e eram proibidas de aportar nas margens do rio! Os “favelados aquáticos”.

A terceira idade na China é uma fase digna da vida.

Cantão (Guangzhou), um bolsão de miséria: ainda que estejam extintos os tais “favelados aquosos”…

Atualização: “…the capital and largest city of Guangdong province in southern China. Located on the Pearl River about 120 km north-northwest of Hong Kong and 145 km north of Macau, Guangzhou has a history of over 2,200 years and was a major terminus of the maritime Silk Road; it continues to serve as a major port and transportation hub as well as being one of China’s 3 largest cities. … For a long time, the only Chinese port accessible to most foreign traders, Guangzhou was captured by the British during the First Opium War. No longer enjoying a monopoly after the war, it lost trade to other ports such as Hong Kong and Shanghai, but continued to serve as a major trans-shipment port. Due to a high urban population and large volumes of port traffic, Guangzhou is classified as a Large-Port Megacity, the largest type of port-city in the world. … Guangzhou is at the heart of the Guangdong–Hong Kong–Macau Greater Bay Area, the most-populous built-up metropolitan area in the world, which extends into the neighboring cities of Foshan, Dongguan, Zhongshan, Shenzhen and part of Jiangmen, Huizhou, Zhuhai and Macau, forming the largest urban agglomeration on Earth with approximately 65 million residents and part of the Pearl River Delta Economic Zone. … In the late 1990s and early 2000s, nationals of sub-Saharan Africa who had initially settled in the Middle East and Southeast Asia moved in unprecedented numbers to Guangzhou in response to the 1997/98 Asian financial crisis. The domestic migrant population from other provinces of China in Guangzhou was 40% of the city’s total population in 2008. Guangzhou has one of the most expensive real estate markets in China. … For 3 consecutive years (2013–2015), Forbes ranked Guangzhou as the best commercial city in mainland China. Guangzhou is highly ranked as an Alpha- (global first-tier) city together with San Francisco and Stockholm. It is a leading financial centre in the Asia-Pacific region and ranks 21st globally in the 2020 Global Financial Centres Index. As an important international city, Guangzhou has hosted numerous international and national sporting events, the most notable being the 2010 Asian Games, the 2010 Asian Para Games, and the 2019 FIBA Basketball World Cup. The city hosts 65 foreign representatives, making it the 3rd major city to host more foreign representatives than any other city in China after Beijing and Shanghai. As of 2020, Guangzhou ranks 10th in the world and 5th in China (after Beijing, Shanghai, Hong Kong and Shenzhen) for the number of billionaire residents by the Hurun Global Rich List. … and is home to many of China’s most prestigious universities, including Sun Yat-sen University, South China University of Technology, Jinan University, South China Normal University, South China Agricultural University, Guangzhou University, Southern Medical University, Guangdong University of Technology, Guangzhou Medical University, Guangzhou University of Chinese Medicine. … The English name ‘Canton’ derived from Portuguese Cantão or Cidade de Cantão, a blend of dialectical pronunciations of Guangdong (e.g., Cantonese Gwong2-dung1). Although it originally and chiefly applied to the walled city, it was occasionally conflated with Guangdong by some authors.” “Amid the closing months before total Communist victory, Guangzhou briefly served as the capital of the Republican government. Guangzhou was captured on 14 October 1949. Amid a massive exodus to Hong Kong and Macau, defeated Nationalist forces blew up the Haizhu Bridge across the Pearl River in retreat. The Cultural Revolution had a large effect on the city, with much of its temples, churches and other monuments destroyed during this chaotic period. § The People’s Republic of China initiated building projects including new housing on the banks of the Pearl River to adjust the city’s boat people to life on land. Since the 1980s, the city’s close proximity to Hong Kong and Shenzhen and its ties to overseas Chinese made it one of the first beneficiaries of China’s opening up under Deng Xiaoping. Beneficial tax reforms in the 1990s also helped the city’s industrialization and economic development.” https://en.wikipedia.org/wiki/Guangzhou

O banco que não é banco: vigia para que não ocorra o ciclo D-M-D’ (lucro).

Gostaria de saber em que pé anda a autonomia das comunas e lavouras camponesas na China das Olimpíadas! (2009)

P. 301: “É impossível utilizar a Rússia”

PROVA DA INEXISTÊNCIA DE DEUS!

“Deus” é sinônimo de onipotência, o conceito humano para o uno, ilimitado e intangível, uma chave de acesso ao transcendental via linguagem: quatro letras que encerram a idéia de tudo que está por trás da existência e da possibilidade de se ter qualquer idéia. Como tal, “Deus” cresceu com o homem. É seu mito, sua raiz. A determinado ponto foi sistematizado em escrituras – o que não o desvencilha do paradigma panteísta, não obstante: panteísmo é a crença de Deus sendo tudo e todas as coisas. O universo, a natureza. Aqui está o ponto a que desejava chegar para comprovar a inexistência de Deus, se é que o leitor não preferirá legitimá-lo de uma forma diferente… (vide adiante) Serei lógico; acompanhe:

O caráter de onipotência de Deus é sua definição pura. Significa que para tal entidade inexiste o impossível. A realidade inteira é o desenrolar de sua vontade. Como tal, só pode ser ele mesmo (o que é vontade de Deus é deus, e não há o que não seja): voltamos ao Panteísmo, ainda que sejais cristãos. Se tudo é deus, eu também sou deus. Afirmar deus é negar-me a mim mesmo. Penso que sou livre para escrever que sou livre. Tenho autonomia na decisão. A simples crença na assertiva basta ao leitor a fim de negar Deus. Porém, sigamos adiante, rumo aos limites da argumentação: se se aceita que eu sou Deus para não negá-lo, eu me anulo. Eu existo – o leitor existe – e aceitar-se como Deus representando a própria impossibilidade do Ser de existir é pífio. Existo e por isso automaticamente Deus deve ser negado.

Ainda que eu fosse Deus – esse é o único método, entenda o leitor, de poder afirmá-lo (a legitimação em “forma diferente” supracitada) –, ou tudo sou eu (tudo que acontece é minha vontade – sua liberdade acabou de ser formalmente morta), ou eu sou uma PARTÍCULA de Deus. Mas um poder infinito não se divide: a principal característica divina é a unidade, é ser a arrumação coerente do todo. Não existe, portanto, essa conveniente solução intermediária. Retomando, há dois (ou três) paradigmas: 1) TUDO é Deus (e sua Vontade), sob o alto preço de não existirmos (nossas individualidades não passam de ilusão, falsas consciências de Deus regidas por uma, e só uma, verdadeira consciência); 2) NADA é Deus. Esta possibilidade permanece de pé, pois permite que existamos; 3) O indivíduo é DEUS. Incabível. Porém, interessante observar que “3)” não existe senão como subconjunto de “1)”. Deus não pode ser um subconjunto, nem mesmo possuir um subconjunto! Deus não pode existir se há no universo qualquer consciência que levante o problema. Perdemos um deus no momento em que passamos a acreditar nele.

16/08/2008

POR QUE VOCÊ NÃO LUTA?

A visão de que cada nação possui o governo que merece é ilusória e precisa ser abolida. Sequer há o que se pode chamar de nação, e não porque o Estado-nação não respeite nações, mas porque o próprio conceito de nação está seriamente em xeque. Não existe o povo, por mais que o tópico-frasal da sociologia coaja qualquer sociólogo incipiente a dizer o contrário. O que acontece em um país como o nosso é a tendência auto-implosiva do Capital: uma plutocracia que impede o movimento revolucionário, porquanto este só representa perigo sendo massivo. Uma vez que estão destruídas as condições para que ele o seja (tome como base a mídia brasileira, que impossibilita o menor pensamento transgressor), fica na mão do indivíduo consciente a decisão: dada a impossibilidade democrática de atingir minhas metas e a inviabilidade de qualquer negociação pacífica com o Estado e demais forças, baluartes da moral do Ocidente, diria um Nietzsche, eu devo lutar e arriscar a piorar ainda mais drasticamente minhas condições de existência neste mundo ou eu devo me conformar, manter minha propriedade, minha liberdade, enfim, meus direitos civis, minha relação com a família, meus estudos e meu emprego? Parece que, diante de impasse de tal ordem, sempre escolheremos a segunda opção. Mas, para ser auxiliado por um provérbio simples contudo verdadeiro, “nada é eterno”. O que se depreende disso? Aparentemente, o momento da luta pela ruptura irreversível do sistema é invariavelmente empurrado para frente e jamais concretizado. Não há como imaginarmos, de fato, que poderia haver uma “anarquização” da sociedade moderna a ponto de transformar poderios incalculáveis como o produto nacional bruto e o exército americanos em cenários tão imprevisíveis quanto as Farc no território colombiano ou as milícias mexicanas em guerra de trincheiras com o Estado. A própria constituição do rebelde como exceção é a quase refutação de qualquer esperança. Para a vida dos ainda vivos no momento deste texto, e do seu autor, o cenário é tão ou mais desanimador: escolho minha profissão estável, minha ficha criminal limpa e meu conhecimento socrático-cristão a contragosto, mesmo ciente de que são postulados inversamente proporcionais à “sociedade” como se constitui de fato (não passando de idealismos vis, disfarçáveis para alguns, mas intransponíveis para todos), por julgar que só encurtaria minha vida se lutasse contra tudo e todos, ou reduziria cabalmente meu já ridículo quinhão. Faticamente, assim funcionam as coisas. Onde está, então, a mágica que torna o inimigo invencível do homem um respeitante do ditado de que “nada seja eterno”? Nele próprio. O invencível (figura sem corpo, apenas a idéia que temos enquanto somos escravos do próprio Ideal) é a vítima derradeira de seu próprio sucesso. As contradições do Capitalismo tornam-se mais agudas à medida que seu êxito se torna mais inquestionável. Há um ponto de ruptura nas auto-vitórias do maleável Capital e da casca de todo seu conteúdo, a moral do Ocidente. As fendas já aparecem. Existe um momento em que as condições de existência do regime não podem ser mantidas nem que se o almejasse: contramedidas apenas aceleram o colapso, e por mais que tal lição seja aprendida o colapso, em si, não pode ser evitado. Não procede a crítica de Marx de que “o que um homem vê, os outros vêem, ou o vêem vendo”, apontando para o fato de que, se o homem faz sua História, então ao se corrigir o rumo da História que Marx queria levar a cabo, a história realizada é o Capitalismo (Fim da História, no qual já depositei minhas fichas). Digamos que apenas se espera pelo inevitável. Longe de uma visão de espírito (neo-hegeliana), trata-se da constatação, pelo homem que se enrolou no pólo natureza-cultura, de que ele, o homem, junto de seus produtos, é a natureza. E pulsa. Como vida, não pode se negar a vivê-la excedendo o limite “x”. Esse limite “x” é o dia da derrocada do sistema capitalista em decorrência das próprias ultra-contradições e da soma das vontades individuais da grande maioria de manter o sistema intacto (o que implodirá as últimas ilusões de chances que tais grupos poderiam possuir). Não me encarem como um profeta, mas como um bom leitor. Sigamos…: a saturação da moral do Ocidente se avizinha. O tal dilema da escolha pessoal, lutar ou se conformar, deixará de fazer sentido. Será o momento de cada um agarrar sua oportunidade. Obviamente, muitos se recusarão a agarrá-la, mas cada fracasso terá seu papel: amantes da vida precisam de seres humanos inferiores para exercerem sua dominação (paradigma natural). Não desejo ser mal-interpretado. Significa que o homem moderno não rompe integralmente com seu passado, uma vez que coexistirá (e coexiste, pois há homens modernos hoje, embora não no comando do que quer que seja) com os pseudo-modernos, criaturas que atualmente parecem ditar a História e que no entanto não compreendem ou não podem evitar o problema futuro de ter compreendido hoje que não se tratam de indivíduos modernos, mas entes mais fracos, pré-modernos, pré-históricos. A diferença fundamental é que no leme da embarcação histórica encontraremos, na coexistência reformulada do fim do Capital, os modernos. Lembre-se que, coletivamente, ao olhar ao redor, jamais fomos modernos. Se você é um moderno e guarda seu tesouro, sua vida pré-moderna será transcendida e transvalorada logo. É bem verdade que muitos nessas circunstâncias morreram sem ver a verdadeira Aufklärung sangrenta. E outros vão morrer. Mas isso fazia parte da modernidade deles. Há alguns modernos que vêm antes dos outros. Nem por isso são menos modernos. A História está sendo feita, não há Idealismo em minha convicção: é que os modernos dão suas parcelas de contribuição desde muito antes deste texto, que aliás nasceu de seus esforços; e embora isoladamente esses esforços não consigam vencer o inimigo chamado de “o invencível”, quem está tramando, neste exato minuto, em laboratório, a própria e inaudita morte são os pré-modernos, figuras que já divisam sua extinção no horizonte (nenhuma contramedida pode surtir efeito se se permanece no âmbito da visão progressista autofágica). Se há algo de desesperador na vida, é a vida, aquela mesma que cria o sentimento do desespero (e já é um privilégio usufruí-lo!), que recai no auto-perceptível fatalismo. Alguns andam lendo meu blog e me apelidando de oráculo. Porém, eu sou o oráculo do fim dos oráculos: a única e caprichosa meta-tendência quem traça são vocês. A tendência do auto-expurgo do mundo. O Ocidente é um monstro que se come a si mesmo e quanto mais come mais julga o prato delicioso sendo portanto apenas bom senso e não qualquer dom premonitório que me permite asseverar que ele nunca deixará de se comer até que suas funções vitais sejam desligadas – porque ele acredita piamente que está cada vez mais corpulento, quando seu aspecto ao observador alheio (o moderno, imerso no estômago do monstro e que pode ser ejetado na ocasião oportuna) é o do definhamento. E não há meios de um monstro que só triturou tudo com seus dentes de repente aprender a fazer outra coisa… É a natureza desse bicho que se crê anti-natural e imortal. Mas o que é a imortalidade? Tem-se de estar vivo para não estar morto, ou para pensar nesses dilemas. E a vida não pode ser anti-natural, posto que da natureza provém. Portanto, sem sentido, o monstro explode. Esse bicho acredita no Fim da História. Mas a natureza não acredita em equilíbrios…

27/07/2008

O VICE-CAMPEONATO MAIS ARDIDO DE TODOS OS TEMPOS

Originalmente publicado em 3 de julho de 2008. Auspiciosamente republicado hoje para comemorar uma derrota brasileira no Maracanã!

Na virada do dia 2 para o dia 3 de julho de 2008 o futebol se deparou com um dos resultados mais justos de que já se teve notícia ao cabo de uma competição de suma importância, neste caso a glória máxima das equipes sul-americanas, a única escola que realmente importa quando se fala na modalidade, paradoxal e curiosamente, criada pelos sensaborões ingleses.

O Fluminense sucumbiu diante da Liga Deportiva Universitaria de Quito. Esperou-se ansiosamente para que o mundo da bola voltasse a seu estado de coerência habitual (ainda que este seja permeado de caixinhas e mais caixinhas de surpresas!). Explica-se: a própria galgada do time das Laranjeiras à decisão da Libertadores da América foi a mais infamante injúria, um descaminho que nem cem Sobrenaturais de Almeida poderiam explicar. Não foi apenas sorte, uma cadeia de eventos fortuitos. As leis da termodinâmica precisaram ser estilhaçadas durante vários minutos das rodadas de quartas e semi-finais, o que obviamente favoreceu o time que levaria franca desvantagem nos seguintes confrontos: Os Badalados do Rio de Janeiro X São Paulo FC e Os Badalados do Rio de Janeiro X Boca Juniors. Dissequemos a quase-desgraça que se anunciava e que só deixou de se abater sobre o planeta (ou a América, o Planeta Bola) no último instante, roteiro muito semelhante, aliás, a um drama hollywoodiano, em que o final é inevitavelmente a felicidade geral. (Exclui-se da conta os condoídos da longa noite.)

O CAPITÓLIO DA JUSTIÇA

A mídia não merecia. A imprensa nacional – vendida a interesses escusos, que variam de sediar uma competição de envergadura, tal qual uma Copa do Mundo, algo totalmente descabido para nosso patamar civilizatório, à manipulação de horários de jogos e sabotagem moral de equipes estrangeiras – não merecia. A Globo, sobretudo, não merecia – e quebrou a cara (ou as lentes tão caras de suas câmeras pouco ou nada imparciais, se é que é possível divagar sobre níveis de imparcialidade… Não percamos tempo com a raça dos jornalistas!). O Fluminense – de história microscópica diante de outros Golias brasileiros – não merecia. Renato Gaúcho, o técnico mais prepotente do novo milênio, não merecia. Washington, um atacante com dificuldades visíveis de domínio de bola abençoado em uma série de lances pela eliminação temporária das leis da Física, merecia ainda menos. A Unimed e seu patrocínio desmedido – somas desproporcionais aplicadas em uma instituição duvidosa – tampouco merecia. O presidente do Fluminense, Horcades, envolto em corrupção, não o merecia. O FUTEBOL, Ó DEUS DO CÉU, LOUVADOS SEJAM PELÉ, OS DRIBLES BEM-FEITOS, A SEMPRE BEM-VINDA COMPETÊNCIA, A BOLA REDONDA… NÃO MERECIA VER UM TIME RECALCITRANTE SE SAGRAR CAMPEÃO CONTINENTAL! Se me perguntarem “entre a mídia e o Fluminense, fica com quem?”, respondo que ambos se merecem.

A única concessão a essas entidades, retirando-se, claro, o futebol, é o direito ao choro copioso. Quem diria: botafoguenses, vascaínos (estes sempre na sarjeta) e flamenguistas (acometidos de um terrível desastre no meio do torneio), além de muitas outras torcidas, se é que não todas (exasperadas com o pedantismo sem-fim do sr. Renato), são os que deitam e rolam ao mirar a desolação vizinha. O chororô já deu muito o que falar em 2008, mas ainda não tinha assumido PROPORÇÕES OCEÂNICAS como nesta madrugada! O pior é que para as vítimas ainda não foi decretado o desfecho: este poderá vir de forma sobretudo lancinante, à última rodada do Campeonato Brasileiro. A tabela dirá por mim… As promissórias da ascensão precoce do time de Magno Alves à série A no triênio 99-2000-2001, fiada pelo Diabo, vencem em dezembro.

CASUALIDADES QUE ENCERRAVAM UM “MALDOSO” PROPÓSITO FINAL

Um acidente aos 48 do segundo tempo que de repente assume, nas bocas dos fanfarrões, aspecto de “superioridade técnica e tática inquestionáveis”. Massacres, domínios plenipotentes de um time sobre o outro no transcorrer de etapas inteiras, que redundam na ausência de gols, fosse por chutes tortos, fosse por defesas não mais que estupidamente improváveis de um goleiro sem um pingo de talento. Gols nascidos absolutamente no reino do absurdo, sempre um ou dois ou três minutos em seqüência a gols legítimos, auferidos pelos oponentes, equipes verdadeiramente qualificadas (gols que o Fluminense sofria e que devolvia, em surtos de loucura e histeria indizíveis, o que em circunstâncias normais seria um suicídio tático – ataques infecundos seguidos por contra-ataques mortais). Eis aí ingredientes que, detonados pela pólvora da vontade de ser macho de um indivíduo rabugento no comando de onze panacas, fazem explodir o Maracanã: para variar, no sentido negativo. Esses latinos de “abroad” muito se comprazem em murchar nossas surreais ostentações. O Brasil nunca foi o melhor em nada. Apenas em “colocar a culpa em alguém”. Essa é uma especialidade ibérica que migrou para a “nação da cana”.

A pronunciada “sorte de campeão”, que acompanhava o Fluminense há 5 rodadas (que eu chamo de “ruptura das forças forte, fraca, eletromagnética, gravitacional e do que mais a Física um dia descobrir”), se tornou o mais trucidante azar de vice, confirmando a aura maldita do Mário Filho. Tudo conspirou, afinal, para que a soberba do Renatão grassasse a cada dia, para que o time chegasse inesperadamente aonde chegou… até tudo escapar pelos dedos num chute da marca da cal. O próprio Washington, fonte de piadinhas geográficas endereçadas aos são-paulinos (a escala antes de Tokyo onde acabaram por interromper a viagem), foi quem sepultou, ironia das ironias, o “sonho”. Alguém duvida da incapacidade de sonhos que desrespeitam a Física tornarem-se reais? Não preciso prosseguir com a humilhação. Há silêncios que ferem como adagas. Calar-me-ei até o epílogo do ano, quando duas autênticas potências do futebol se confrontarão em busca de um título do mundo: quem ganhar será um campeão válido! Por ora, o simples desenrolar da realidade já se encarregou de sobrepujar a injustiça das últimas semanas…

A CHAVE UNIVERSAL DAS RELIGIÕES E DO HOMEM

8 de agosto de 2009

Em um dos pólos temos a humanidade terrena frágil, projeto passageiro, que um dia sucumbirá diante do Apocalipse. A alma, no entanto, é eterna, porque assim quer o Espírito Santo. O oposto exato se dá entre os helênicos, como também entre aqueles do Leste, os mais velhos do mundo, antípodas destes crentes-no-além: a vida é linear e chega a um termo, embora as gerações se sucedam e reapareçam na sua estrutura de círculo. Todas as crenças humanas através de cada século e milênio oscilam entre essas duas cosmovisões, maneiras de conceber e criar seus universos.

No meu lastro mais remoto, deuses. No espectro mais distante do horizonte, deidades outrossim. O que ocorre para que eu seja tão débil e de carne? Porque apenas os deuses se inferiorizam diante de minha luz! Hoje também estou no Olimpo e vivo com meus irmãos. Nossos nomes serão alterados, mas nossos feitos preservados.

ACERCA DA AUTO-IMAGEM

Texto recuperado de sábado, 18 de julho de 2009 – com supressões para preservar identidades de terceiros

Sobre o incômodo de ser filmado, fotografado, gravado e exibido por aí. Essa “Síndrome de Glauber Rocha” (que declarou que quem se sentia à vontade à frente de uma câmera segurando um microfone deveria ter sérios distúrbios mentais) sentida na carne por quem, após o momento de aperto, pergunta ao amigo mais próximo: “Como me saí?”.

“Esse constante mal-estar, que é a captação da alienação de meu corpo como irremediável, pode determinar psicoses como a ereutofobia; tais psicoses nada mais são que a captação metafísica e horrorizada da existência de meu corpo para outro.” SARTRE, Jean-Paul, O Ser e o Nada, p. 443 [negrito meu]

Quanto mais amor-próprio, mais náusea (a nomenclatura é sartriana) diante dessas representações “objetivas”. A prova de que eu não estou equivocado é que me gosto ao espelho. Talvez já não me goste no espelho do elevador, acompanhado. Talvez deteste essas minhas extremidades anti-Popeye. Gostava de ser tão maior que minhas namoradas – estilo protetor. Outrossim, o beijo é sempre belo. Não cheguei à louvação do sexo-espelhado de D., no entanto!

Deve ser a natureza da lente viscosa do equipamento, que tira meu brilho e minha luz. O sol é meu amigo! Os lixos se sentem coesos entre si. Mas basta ver uma mulher para saber que ela se detesta quando acorda.

“Diz-se comumente que o tímido se sente ‘embaraçado pelo próprio corpo’. Na verdade, esta expressão é imprópria: eu não poderia ficar embaraçado pelo meu corpo tal como o existo. Meu corpo tal como é para o outro é que poderia me embaraçar.” Ibid.

Ninguém tem vergonha de sua voz idiossincrática. Minha neurose platônica: quem sabe os outros me percebam como eu realmente sou! Desses trastes, quem é que consegue se ler imaginando um ser brônzeo como eu detratando aquilo tudo, aquele castelinho de areia? De pavão a verme num segundo.

Narcisista? Eu diria que esse mundo da super-exposição é o contrário! Álbuns do Orkut: como alguém gostaria de ser visto. L., a magra. T., o sério. Eu, o melhor. Ma., a mulher. B., a sedutora. Me., a misteriosa, psicodélica, elegante. Tai, a audaz. Iza, a mínima. Tc.: ainda mais bela e irresistível. Dh.: suprema e centro do universo. S.: o eterno boêmio. F.: a despojada. Mas eu… eu matei meu alter ego, me tornei o alter ego dos outros. “Que foto horrível!” “Obrigado pelo elogio, sem tonsilas!”. E aí vem a tendência das fotos de banheiro, das fotos de chupeta…

Concluindo: não se trata de uma lei “quão menos satisfeito consigo, mais o sujeito se apreciará em terceira pessoa”; o artista é a refutação disso e é o meu ideal. Ele se exprime bem. Um texto meu é o ápice da beleza. Devo maximizar isso corporalmente. Creio que vim tendo o êxito que é possível. E, aliás, quanto à lei, pelo contrário, eu até exagero nesse desagrado. Uma gorda horrorosa seria realista. São “sem conserto”: a vantagem da graciosa. O fraco: desenvoltura que parece maior na foro (“sou ela!”).

Outra coisa: por que sempre me decepcionava com as fotos dela? Se já a via assim! Fusão de essências?

Explicação do meu ideal e síntese do meu dilema amoroso:

O que se sucede é que meu tipo de arte vai CONTRA toda a estética. Só mulheres esquisitas podem vir a gostar de mim. Mas minha carga já é forte demais para eu ter o mesmo tipo de preferência… Eis o impasse! É como se houvesse dois Rafaéis: o jovem hedonista de 21 e o mestre trágico par excellence. Eu quero a bela, harmônica, simétrica, sensível a minha assimetria.

“jamais encontro meu corpo-Para-outro como obstáculo; ao contrário, é porque nunca está aí, porque permanece inapreensível, que tal corpo pode ser importuno (…) Eis por que o empenho do tímido, após constatar a inutilidade de suas tentativas, consistirá em suprimir seu corpo-Para-outro.” [sublinhado meu]

ADEUS VIDA BOA

Escrito originalmente em 13 de março de 2009

Deve significar alguma coisa o fato de eu morar no quinto andar, ter 20 anos de idade e uma média normal de ascensos e descensos e nunca ter ficado preso no elevador. Qual seria a reação de um aparvalhado que se vê preso em uma caixa de metal? Chamar alguém, apertar botões, resignar-se? O celular deveria ser usado apenas de terça a quinta, se é que se me entende.¹ Não sendo emergência digna do Corpo de Bombeiros, o telefone serviria tão-somente para avisar os pais. Descendo ou subindo? Indo ou voltando? Sozinho e faminto? O fluxo burocrático e estomacal também fazem a diferença. Se acompanhado, do sexo oposto? Quão íntima? O mais curioso é que nesses casos – sempre, aliás – o vizinho é o menos próximo. Sou muito mais vizinho dos mendigos e dos “inganados” (perdão, ingazeiros) que do Aloísio. Perder-se-ia uma prova ou um dia de trabalho? Ou um gol do Ronaldo…

¹ Post-scriptum 11/03/2021: Meus pais nunca estavam por perto entre sexta e segunda-feira.

Quando escrevo, explodo. É a única forma de “dopar” minha acelerada pulsação mental. Doutores indômitos receitariam drogas. Acho que não preciso de drogas receitadas…

Preciso ser contra atletinhas de futebol americano, namoradeiros e namoradeiras incipientes e, sem dúvida, universitários sem noção do ridículo e do vidro blindado. Por que não largo esta caneta soerguida por algo flácido e promovo gastos de energia melhores? Talvez eu devesse ouvir a fase pop do Metallica, ler meu trigésimo quinto livro – nessas férias – ou simplesmente filar alguns salgados… Durante todo o jantar de gala, quem riu de maneira mais franca de meu humor tolo foi a empregada. Aliás, é preciso que essa hesitação em hora de chamar o servo pelo nome seja pontuada. Ter vergonha de ter um subordinado – porque o real embaraço é não saber lavar os pratos.

Quanto ao iPod, ele é o novo cachorro: a equivalência em miniatura do dono, só que um pouco mais esperto.

Acabo de desentalar minha garganta – em tempos de inchaço. Maldita e derradeira estação.

Uma coisa que andei notando é que todos aqueles que precisam ser rivais eternos só não rescindiram o contrato – ou perfuraram o duelo – por ocasiões extraordinárias. Exceções das exceções, a exata probabilidade de complexos de molécula virarem célula, é do que chamo:

  • Meu vizinho e amigo de infância e sua família tão elevada (“eles rezam muito, eu já estou no céu” – e eles têm três carros, eu sou Napoleão!) jamais terem encontrado referências negativas deles mesmos em mim – falo mal pelas costas e sobretudo pela frente, porém, quando mais seria necessário, para o blog leitor não há! Um mundo de malversações que se dissipa sem que o afeto pelo filho seja sequer ameaçado – talvez a mais grave ofensa por mim praticada, a seus olhos lívidos, seja meu cabelo grande. “Vais pegar uma pneumonia!”

  • Meu pai segue inabalável como herói e anti-herói da trama;

  • Aqueles que deviam ser esquecidos e deserdados voltam como bumerangue! E aqueles que, penso, estão no rol dos lembrados, estes são bumerangues falsificados. Luciana “do Bar” e tucano malvado prosseguem no jogo – peões. Mas não a prima do curitibano abobalhado. Priscilas e Patrícias diante das quais o melhor é não fazer nada.

CONSIDERAÇÕES AMBÍGUAS A RESPEITO DAS PERSONALIDADES NA HISTÓRIA (Série RETROCEDER, capítulo VIII) (republicação)

Texto originalmente publicado em 8 de julho de 2009, porém escrito (sem boa parte dos parênteses) em 22 de março de 2009

PERGUNTA: Como a história se divide em dois, ou melhor, como precisamente ela se desenrola, tomando por base os principais autores e idéias dos espectros trágico e cristão que conhecemos? O tempo retilíneo cristão dá sinais, pelo meu intermédio, de que não tem a mínima capacidade de contra-atacar. Uma segunda pergunta é: eu tenho uma repetição na História circular, assim como um antípoda perfeito? Na verdade dir-se-ia que tenho infinitos, mas só preciso de um (dois) exemplo(s), o igual e o imensamente diferente – as sociedades, por mais contingentes, também parecem obedecer tão-somente a uma dupla de deuses, que se revezam no trono (Dioniso e Apolo).

 

Se temos Nietzsche e Sócrates, as duas pedras-de-toque do movimento da roda, resta uma indagação: se o alemão está “na base” do círculo, Sócrates está a 360° dali – ou seja, ALI, num novo círculo –, a 180° dali (no ponto mais distante do primeiro no perímetro da roda)…? E uma segunda indagação: se Nietzsche e Sócrates se encontram em opostos, o caminho de um a outro é uma “marcha a ré” ou uma seta de mão única? Se o primeiro for verdadeiro, é um semi-círculo e não uma circunferência. Além disso, os primeiros pensadores que vêm depois de Sócrates são “iguais” aos primeiros depois de Nietzsche (embora de sinal trocado) ou iguais essencialmente aos últimos antes de Nietzsche (decorrência da dúvida do fluxo)?



Obviamente, não existe alguém idêntico a mim depois de Cristo, tão-somente um perfeito anti-eu. Meu próximo eu, assim como meu eu anterior, são impossíveis de encontrar em registros históricos e estão, respectivamente, no fim da próxima era cristã e no começo da era grega (aqui eu ainda não havia desenvolvido o pensamento circular completo!). A questão não aborda, portanto, dois Nietzsches (espaço de 5000 anos, do que nada sabemos), mas um Nietzsche e um Sócrates e como essa dicotomia se constituiu. Se os pós-modernos são sofistas, parece que a roda está girando em sentido contrário (exatamente!). Então, retrocedendo (talvez o leitor mais atento já tenha entendido por que escolhi o termo acima para batizar esta série de resgates de artigos), encontraremos o legado de Sócrates: Marx é Platão, Hegel é Aristóteles. São Tomás é Agostinho.



Operação inversa: se os estóicos e os eudemonistas são os existencialistas, Zenão e Epicuro seriam Camus e Sartre (retificação póstuma: Zenão e Epicuro são posteriores a Sócrates!). Homero seria Shakespeare. Cristo estaria vindo… Ou quem sabe já veio… Quem seria meu antagonista ideal (eu já me fiz essa pergunta infindáveis vezes)? Alguém lutando por ordem antes do surgimento de Sócrates faz mais sentido que depois… Do lugar onde estou não posso analisar, dados os pontos cegos? (Ou talvez eu não queira analisá-los; ou não se pode tirar conclusões; ou as conclusões que se podem tirar são que “as peças não se mexem após esse acréscimo de sabedoria”.)



Inconcluso (intensa pesquisa histórica dos séculos VI a.C. a III a.C.? Se eu tiver descoberto uma lei do cosmo eu terei sido implacável na minha busca pela Verdade. O que um gauche aspirante a professor preocupado com seu futuro de longo prazo teria feito para se resolver?).



Prever quando um gênio irá nascer e o que ele terá para dizer”



Comte ficou datado muito depressa” – corrobora a contra-mão



(Três dias depois desse manuscrito durante uma aula na universidade eu teria a idéia de escrever “Hegel, Marx e Nietzsche: Aristóteles, Platão e Sócrates de cabeça para baixo”, como se anteviu pelo fim do penúltimo parágrafo – vide arquivo –, o que responde algumas das dúvidas listadas acima (já “proto-respondidas”, em negrito). O “pulo do gato” foi ter lido a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de autoria do jovem Marx.)

REFLEXÕES (SOBRE TOLSTOI, NABOKOV E OUTROS)

Publicado originalmente em 4 de janeiro de 2009

“Exprimia uma vontade de sentar-se debaixo de uma árvore no meio do nada e nunca mais ser encontrado”

Escrever um livro: só quando eu tiver o meu espaço, os meus pensamentos, o controle sobre as coisas e, o principal, poucas coisas.

Pensei em alguém com um colchão e um conhaque em um cômodo – cubículo – de paredes descascadas. Havia ainda um lavabo mínimo e uma “louça de cozinha” – na verdade outra pia simples, no próprio quarto. Seu hábito preferencial é caminhar sem trajeto fixo enquanto fuma e pensa. Pensa cometer um crime. Está desempregado e seu dinheiro se aproxima do fim. Não pensa em pedir auxílio para a família. Retraiu-se, escondeu-se de todos os amigos, desde que está alojado ali. Fará uns bicos por alguns fins de semana. Lavar carros, atuar como garçom. Mas não pensa em converter mais nada em rotina. Pensa na prostração que o levaria à morte por inanição. Mas se julga de índole fraca para isso – acabaria desistindo. Talvez um crime banal e a reclusão com subsistência subvencionada pelo Estado? É branco e sua família acabaria por interceder. Um jovem de berço ligeiramente nobre já não pode pensar em uma vida de cárcere… A não ser que fizesse da fuga sua única constância. Que matasse alguém que não podia matar e tivesse de se considerar um foragido irrecuperável. Matar o pai! Brilhante, porém nada inédito. E agora tudo não passava de idéia mal-resolvida… De sua vida pregressa, nada se sabe OU não se trata de alguém demitido, mas de um professor que declinou do magistério – e que antes disso se envolvia com alunas, estabelecia rixas com seus colegas e adulterava provas. Tinha toda a capacidade normal atribuível a um jovem recém-egresso de um bom curso de sociologia. Dir-se-ia que suas leituras complementares até excederam sua formação superior – ele sentia que sabia até demais. Fosse por relativa insegurança na transmissão do conteúdo em sala, pela falta de sentido disso ou por não encontrar público real para suas palavras, o mérito é de difícil julgamento, recusou-se a respeitar as normas de seu ofício. Uma catarse? Uma vingança! Decidiu não mais simular indiferença em relação às cantadas das garotas. Teriam 15 anos, assim como todos os meninos. E nenhum entendimento da vida que os esperava nos próximos dez. Muitos pegariam em revólveres, fariam supletivo porque haviam largado a escola ou iriam conseguir, eventualmente, uma bolsa para se formarem. Mas não seria comum. Não seria interessante. Melhor pensar que todos os alunos não passavam de imprestáveis, lixos sociais. Teria sido então que seu apreço pelo ser humano havia decaído tanto que automaticamente matou. Acasalou com a pupila e depois sentiu nojo – decidiu ignorar que tivesse pais ou a obrigação de ir à escola no dia seguinte. OU como cometer um crime? São muitos eventos, mas nenhum dignificante para um escasso grande homem. Seu dever autorizaria sua morte, seu ingresso no anel, seu infinito, sem um grande ato? Decidiu amealhar fundos para conseguir exibição nacional: excesso de cocaína e invasão do congresso? Não, bobo demais. Talvez se tornasse um traficante e com isso se comprouvesse. Os objetivos se tornaram pequenos demais. Nada de ser pássaro-apolíneo-solitário.

…Essas idéias são boas, mas o ideal é “normalizar” o personagem e elaborar um elenco que interaja bem.

CONHAQUE E ALL-STAR PRETO: SONHOS DE UM EX-FUTURO PROFESSOR

5 de agosto de 2008

Algo me aflige. E não é como antigamente. Subitamente sinto-me atrofiado: faz tempo que não utilizo polegar e indicador para escrever (a dupla dinâmica). E já há um tempo o ruído do ônibus da madrugada me seduz. NÃO É COMO DAS OUTRAS VEZES!

Não quero mais compartilhar esse excerto – como faria em janeiro, em julho, dia 4 de agosto…

Do que eu preciso? A solidão é a companhia pela qual meu coração neste segundo bate forte. As asas libertadoras da moral dos pais.

Estou farto de não poder caminhar, fumar e ser livre. De escrever o que devia FAZER.

Pouco valor tem a forma. E o conteúdo – se mentira. Passemos à natureza:

Rotina, tempo, submissão – 3 problemas.

Contingência, desamarrar-me, voar.

Neste verbo há algo de encantador: na minha insônia, muito mais. Quero a bem-aventurança – e nada de herança. De que me vale a avareza?

Ninharias. Eu, podendo, atirava fora a TV. Lembrei-me há 10 minutos do Carlos Gomes. A cibercultura –outrossim a Morte de GAIA (o que fazer?).

Quero caminhar até saber o que fazer. Já NÃO DEPENDO DE NENHUMA PARAFERNÁLIA ELETRÔNICA, NEM STRICTO SENSU… Que diabo é o latim?

Eu sou, de fato, MANÍACO?

Vêm meus surtos piorando?

Poderá ser uma virilidade extrema que a sociedade mata. Mas encontro chaveiros esparsos, se as portas estão trancadas!

Ludibrio… com a linguagem.

A resposta da RUA está na CASA.

Uma geladeira dispondo de conhaque; tênis e meias sempre embotados. A esquina, moradia. EU DEMANDO SOLIDÃO. SOLIDÃO INCLUSIVE OBJETAL.

HEGEL, MARX E NIETZSCHE: ARISTÓTELES, PLATÃO E SÓCRATES DE CABEÇA PARA BAIXO

Texto originalmente publicado em 26 de março de 2009

Na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, o Marx jovem lança os postulados da sua futura filosofia iconoclasta trans-moderna. A partir da página 108 (edição de A Questão Judaica que contém o excerto no apêndice) a covardia alemã e o estado de subserviência da cultura teutônica tornam-se palpáveis.

Quais são os principais sinais de que uma cultura começa a evaporar (entra em decadência)? Um inequívoco é a transformação do que foi trágico em Comédia. O Estado alemão do século XIX, comandado por kaisers que tentam ser ingleses, é a sátira do Antigo Regime. Segundo Karl Marx, tendemos a nos despedir de um processo histórico de modo alegre, rememorando suas facetas risíveis. O mesmo se sucede hoje, na Pós-Modernidade: todas as Artes e todas as Ciências são auto-comediantes. Chegou-se ao ponto de as comédias de comédias proliferarem: Guerra nas Estrelas, uma paráfrase cósmica dos combates épico-medievais (George Lucas bebe da fonte de Tolkien), é a série campeã de referências divertidas nos filmes e seriados americanos. No âmbito político, ver Chávez, o Carlitos do Socialismo, o último adeus da alternativa falha ao Capitalismo clássico.

Voltando à Alemanha, inscrevia-se o país em uma situação tão peculiar que se poderia defini-la no entreposto entre o esgotamento do mundo idealista e o não-saber-o-que-fazer. Isso implicava refutar qualquer filosofia e, tacitamente, aceitar o destino fatal, o cumprimento da mesma filosofia (de qualquer modo, a maneira mais ágil de transvalorar, se não fosse a única)! Se tudo por enquanto (anos 1840) fôra teoria (imaginação), amanhã o que faríamos não seria prática, mas tão-somente reflexo do que viemos a ser… Até que o movimento iniciado gere um colapso extraordinário e outro projeto renasça das cinzas – Holocausto? Por colapso sem proporções, certamente quer-se dizer o fracasso e a humilhação alemães, o débito pelo progressivismo tedesco no século em que a Inglaterra não queria guerrear.

A Alemanha havia cumprido sua função intelectual antes do mundo – Hegel é quem disso se apercebe, sendo simultaneamente aquele que arremata esta compreensão, assim como um protagonista de García Márquez fadado a desaparecer lendo um texto sobre si –, mas parou em 1900. Os dois filósofos de mais renome que sucederam Hegel são os pássaros do devir do mundo moderno.

Hegel percebeu que quando o homem se dava conta de que estava preso numa cadeia de fatos já projetados, aí nascia a História. Marx apenas reforçou esse juízo com sua pseudo-inversão. Talvez Nietzsche não tenha reforçado muito mais, porém foi categórico. O que é do futuro do projeto realmente autônomo é de lá e é apenas uma meta do observador daqui, QUE AINDA NÃO SUPEROU A SI MESMO. Marx se engana no derradeiro pingo de seu trabalho, quando, consciente de que o homem que ainda não se superou jamais teria respostas definitivas para problemas como esse (simplesmente o da auto-superação da humanidade!), ainda assim afirma que a chave da transvaloração é o proletário. Nietzsche não cita diretamente nenhuma fórmula capaz de subverter o Cristianismo, o espírito iluminista e os Estados-nações. Não há fórmulas. A fórmula é decidida pela própria existência a cada segundo transcorrido – a única menção mais clara de Friedrich Nietzsche ao atingimento do Übermensch consta do princípio de Vontade de Potência e é um duplo alerta: caso as categorias do niilismo se mostrem invencíveis, justo no momento em que o homem teria mais força e capacidade para ultrapassá-las, tendo chegado tão longe, isto significaria que ou os modos de produção não estão maduros o suficiente ou ainda não se encontrou o modo adequado. Talvez essa seja a linha mais enigmática do legado deste último filósofo, o Sócrates depois de Cristo. Provavelmente as duas coisas vêm juntas, e ainda que não se possa pressenti-las no horizonte o pensador do martelo, morto em 1900, nos envia preces otimistas (especialmente a nós): não importa o dia em que cheguem, os novos valores um dia vão chegar…

NOTA CONCLUDENTE: Por incapacidade total de que me entendam adotarei silêncio rotundo e constante sobre as coisas da vida em conversas. Lembre-se sempre: é melhor para a alma forte ser centrípeta que centrífuga, e aliás é o único pathos que ela conhece para si. Respirar o ar do crepúsculo e sê-lo, ser mais imperioso que qualquer jovem, que quaisquer pés sobre o asfalto. Auto-satisfação comigo mesmo e com minha majestade. A onda do mar navega milhas e milhas antes de arrebentar. Escolherei o pedregal.

MINHA INTEMPESTIVA III: DAS VÁRIAS METÁFORAS QUE EU ENCARNO

Publicado originalmente em 7 de fevereiro de 2009 – editado

“Eu me arrependo de tal coisa.” Essa é uma frase corriqueira em nossas vidas. Mas tão comum quanto perecível. Quando se tem maturidade suficiente para se aperceber dos jogos de ação-e-reação que nos constroem e do papel do sentimento de culpa em cima de nossos atos, enfim, quando o sujeito apreende a “irrevogabilidade do crime” e enceta a direcionar seus erros a seu favor, tem-se finalmente autoridade para proferir a frase: “Todo arrependimento tem uma data de validade”. Se nem todos têm, é melhor embarcar na ilusão de que determinada ferida irá cicatrizar – ou não se consegue viver uma vida. Atente para meu exemplo: pelo menos um ano me arrastando em sonhos para ser readmitido no Colégio Militar. Mas eu engolia o dissabor com meu orgulho de leão (e não de pavão, que é um ser belo porém fraco) e não contava a ninguém – muito menos aos pais. Eis que quando a oportunidade se insinuou, piscou, tremeluziu… eu já me havia apoderado dela. Bingo! Todo arrependimento é vencível – seja pela ação do tempo, seja pela labuta individual (obviamente, essa é uma categorização como todas as outras: falsa, pedagógica).

Eu não me arrependo de descartar amigos. Talvez eu me arrependa de não descartar mais… Tenho de reconhecer que meu lugar jamais foi fora do reino burguês. Apesar de jamais ter sido dentro. É hora de cortar os laços que ainda restam para ser cortados. Não tenho mais amigos ricos e frescos. Sou tão estranho no ninho que ainda que com um bom porte, roupas adequadas e um celular da moda, não me confundiriam com um deles. Portanto, as badaladas do relógio hoje indicam: é tempo de se desfazer de quem te olha com estranheza não por estares de fora, mas por estares intrometido. Como disse, arrepender-se é ou precipitado ou vão. Claro que se trata de figura de linguagem – todo ser humano se arrepende e ponto. Resta saber, contudo, o que se faz a respeito dessa angústia de não poder alterar o passado.

Minha vingança é atroz porque me vingo de mim mesmo. E quando reconheço o erro, resta muito pouco para os idiotinhas fazerem. Quem sabe já se conformar com o prejuízo seja a melhor saída para eles. Um ex-amigo que está indo para o saco nesta temporada chama-se *******, o adolescente de meia-idade, o Peter Pan ébrio e urbanóide que se dedica ao ofício de ser o contrário do que a cara estampa a cada finalzinho de semana, para descontar a frustração existencial. Evidentemente, a cada criancice, o ser humano faz questão de propagar sua moral antípoda: “aprenda com os mais velhos”. Precisa de um Cristo a cada sexta-feira porque a mão está cravejada de calos demais para que dê outros três passos adiante com a cruz nas costas. Talvez a madeira deste Pinóquio esteja tão podre que ele não se vê mais capaz de pressentir o mal que devém. Ele espera que um terremoto o avise, sem embargo o tremor de terra é o próprio mal do qual ele deveria ter sido alertado…

Um pobre diabo desses, quando cair em si, vai notar o bilhete premiado que lhe escapou pelas mãos graças ao vento e que, quando estava prestes a reaver, escorreu pelo bueiro. Por um acaso um bilhete se arrepende de não ter sido de algum vencedor? Se não se está com o bilhete, a vitória é só um sonho perdido. O bilhete faz o vencedor. Nem que passe a ser benquisto, para o próprio gozo de si, o destino de se colocar fora de qualquer alcance no submundo, e deixar a mesquinhez lá em cima se acumular. Se todo o ouro volta ao dono, o único dono é o fluir ininterrupto, porque nesta aventura não há retorno – e se houvesse o dono já não seria o mesmo.

É chegado o momento, em suma, de singrar por novas águas, o que implica a deserção de marujos saudosistas em excesso. Nada de velhacos com manias de meninice, nada de bufões. Daqui em diante, que o capitão prepare o convés, a proa e o casco – e, porventura, se algo der errado, o bote salva-vidas.

Há dois anos que não me apaixono. Quantas recaídas? Vou me sujar de novo? Me sentar naqueles sofás carcomidos por traças?

Aos parasitas: aqui estão as chaves, mas é bom olharem para o chão antes de entrar, porque esqueci de dizer que moro numa imensidão. Uma imensidão que para pequenos praticantes da punga não tem nada de inteligível, é só uma queda no vazio.

Eu sou perigoso. Não ofenda o solitário. Eu não tenho absolutamente nada a perder, em nenhuma transação termodinamicamente cogitável. Um espírito como o meu — possui a sabedoria de cem deuses, e o conhecimento do veneno específico de cada um que tem o azar de me surgir como pusilânime. Principalmente os outrora-outra-coisa. Eu emito sinais claros de que estou prestes a fazer uma “burrada”. Como não se precavem, os vizinhos indômitos levam um caixote: do cimo da onda – domadores do mar! – aos arrecifes. Se ter Napoleão como escada é o ideal, a meta máxima, tombar dessa escada deve ser o que deixa o cotovelo mais roxo: e se alguém nunca está tão elevado quanto quando sobre um lance de escadas, também nunca esteve em maior risco. Eu sou o homem-dos-riscos. De que me importaria o juízo alheio, se só eu me leio?

O trapézio que eu era, o palhaço que eu fui, viraram o fogo dos aros, as facas dos alvos e as luzes do palco. Sem mim vocês não são nada. Mas comigo estarão mortos ou ofuscados.

DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO

Originalmente publicado em 22 de janeiro de 2009

Lendo CartaCapital e a matéria sobre o barulho crescente de São Paulo e juntando isso com o Necrose de Edgar Morin eu cheguei a um importante insight: contrariando – ou, antes, solvendo a dúvida da – minha nota prévia (abaixo) sobre o horror nuclear, o grande fenômeno que parece demarcar o início da derrocada do Ocidente e que sucede imediatamente o ponto máximo da era fabril é mesmo a Segunda Guerra Mundial. Agosto de 1944, para ser mais exato. Neste momento os embriões congelados das criaturas e coisas trágicas começam a fermentar. Este é meu procurado “turning point” da transmutação de todos os valores. É a este momento de sangue semita-japonês que Nietzsche se referia com garbo meio século antes. Apesar de índices enganadores como o neoliberalismo pujante dos anos 80-90, isto já é decadência, pois o fôlego dos Estados representou a espoliação das massas, assim como o poderio soviético nos anos 50-60 é a demonstração de que a assim chamada cultura moderna não consegue sustentar seus ideais, embarca com fé numa nova solução, uma resposta para a crise, a qual irá tombar.

A Liberdade, dilema sempre central – cuja apoteose se deu na Revolução Francesa, durante a qual o homem estava no ponto-médio entre o servilismo feudal e a escravidão humanitário-democrática (julgando-se vitorioso sobre a primeira condição e ignorante da segunda) –, chegou ao paroxismo da sua auto-destruição com vistas a tornar-se soberana: abdiquemos de nossa liberdade individual, como autores de escolhas, e sacrifiquemos o czar, defensor de uma liberdade antiga e ultrapassada, para que as vozes sábias do Partido Comunista nos ordenem como há de ser daqui em diante, sem Deus. Esse era o teor do discurso, se pudéssemos ter ouvido francamente.

É conhecido o cenário vigente de proto-deuses que ainda concorrem para tomar o lugar da falida deidade cristã, do envelhecimento e pacificação da população, da desertificação, da mentira do crédito e da busca pela vivência alternativa, seja ainda parcialmente consumista ou radicalmente eremita, mas sempre mais “Gaia”. A aceleração que é ininterrupta ao expectador é aparência. Não existe expectador, todos estão do lado de dentro do trem-bala. Talvez por isso não percebam, mas a sensação de velocidade se intensifica não porque os trilhos sejam percorridos mais rapidamente, mas porque as edificações do último milênio vão desabando em ruínas como nunca antes. Se Guy Debord soubesse que seu retrato não passa de aparência…

Este escrito é de alguém lúcido, no olho do furacão. Minha única ressalva é: não admito a ingenuidade de que novas catástrofes não ocorrerão e que a transição será tranqüila – vide proliferação nuclear entre nações do Terceiro Mundo. Intentei apenas descrever qual momento histórico era o ápice da contradição, entre tantos episódios, passados e vindouros.

Escrevi em 7 de dezembro (com reformulações na data presente para tornar o manuscrito acessível):

Terão sido as Guerras Mundiais e a Guerra Fria – o século XX – o estopim do processo de loucura niilista por que perpassa a humanidade, ou a a-humanidade, o ocidente decadente? Teremos a tranqüilidade de dizer que doravante o anel exibe sua curva ascensional rumo à idade de ouro trágica? Ou é necessário mais um esforço, um empenho sublime, um contagiante acesso de fúria, uma alta da maré tanto mais feroz para nosso século quanto o que a onda nazista representou para o rochedo outrora tão vacilante, inconsistente? Este, o rochedo da capacidade de assombro humano – o que hoje nos assombraria, para além de duas nuvens de cogumelo? O que será isso, ó Mãe-Natureza? De uma coisa tem-se a certeza: não existe fim de mundo, ou fim da História…

“No princípio, era a ação!” Wolfgang von Goethe

“O sociólogo precisa entender o que é apurar necessidades. Eu trato do que é inevitável a longo alcance.” O Autor

“Existem pessoas centrípetas e centrífugas. Algumas empobrecem sua essência ao longo da vida, dissipam suas energias. Eu reúno o gasto sem propósito ao meu redor para realizar meus projetos” O Autor

A VENDETA E O MAL-ENTENDIDO: O CENTRO, A LENTE E O REBANHO

Originalmente publicado em 13 de janeiro de 2009

Hoje a chamada “instância central” dita o comportamento humano. Porém, não existe qualquer fonte objetiva – mediana social – quando se fala em homem. O indivíduo contemporâneo é apenas uma planta adulterada – o rascunho original está perdido. Com respeito a qualquer grandeza e dignidade na palavra “homem”, elas vêm do próprio ente, não da transferência de responsabilidades ao vazio. A proibição da vingança pessoal é o indício mais claro dessa falência moderna do homem: o Estado é o responsável por julgar, vigiar a condenação, condenação que ele próprio criou… Mas quem é o Estado? Não se trata de um homem maior e mais poderoso – trata-se da covardia dos pequenos reunida. Sentimentos agregados de vergonha jamais fariam frente a um gênio indivisível, ainda que renegado – por isso nem se pode falar em Napoleão, que já em seu tempo foi a esperança do “século”, até sucumbir à máquina burocrática.

Quando o Estado é questionado há cheiro de grandeza – ressurreição? Exceto quando esta revolta é inspirada por outro “centro neutro” ao invés das pessoas. De novo a ingerência do espaço vazio! A lente midiática atua como um segundo detrator da verdadeira assunção de responsabilidade. É um Estado sem sede ou exército – ou talvez essa assertiva seja muito ingênua. A vendeta da televisão é apenas outra cadeira elétrica. Não há aí punição com as próprias mãos. Há apenas uma sujeira anônima – no íntimo, esse anonimato é uma confissão de culpa geral, em uníssono. Uma sociedade que gostaria de ser queimada na fogueira. Quem é o carrasco?

A conversão da imprensa dos magnatas em “cada um emite a sua notícia”, paradoxalmente uma tendência em propulsão graças a um grupelho de bilionários, que começa a falir os jornais e vê a infinitude dos blogs no espectro, é uma resposta inicial de uma mãe-natureza que nunca morre, de uma história que não acaba. Digamos que daqui a duas décadas já esteja bem mais claro o “olho por olho”. Eu quero ser reconhecido por isso! Quem grita mais alto passa a ser ouvido: a atração será a magnitude do próprio eu, nada de cunhadismo – que cunhadismo? Um brasão de família que volte a arder! – ou venalidade. Já há blogueiros que não silenciam barato…