A ÉTICA PROTESTANTE E O “ESPÍRITO” DO CAPITALISMO 2.0

Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2008

[Com múltiplas alterações]

GLOSSÁRIO INTRODUTÓRIO

ANABATISTAS

Ana – outra vez; i.e., de novo um batista (protestante). Vertente radical, atiçava camponeses a se revoltarem e pregava um retorno ao cristianismo primitivo, considerado por outras ordens cristãs como pagão. O “ana” foi acrescido pejorativamente pelos rivais, uma vez que esta seita extrema se caracteriza por permitir o batismo de – e só de – adultos. Como um adulto é geralmente um bebê que um dia fôra batizado por um padre católico, tem-se um re-batismo.

ANGLICANOS

Hibridismo entre a Igreja Católica e o protestantismo (os pastores têm autoridade sobre o rebanho, como o padre). Criticados pelos demais protestantes graças à suntuosidade cerimonial recorrente.

ARIANOS

De Arius (séc. III d.C.), que era contra o dogma da Santíssima Trindade. Jesus não era Filho de Deus, mas um homem mortal que não ressuscitou. Testa-de-ferro do antissemitismo (utilizada por outras seitas que não queriam essa mancha). Curiosamente, um judeu diria o mesmo sobre o Espírito Santo, Maria e Jesus… A diferença está somente em que cada qual pensa que é o povo eleito. Mas não percamos tempo tentando adivinhar ou interpretar o porquê de tantas sutilezas absurdas… O cristianismo não é coerente, como nenhuma religião apresenta elevada coerência interna fundamental.

BATISTAS

Bastante descentralizados em suas paróquias. Seguem o texto da Confissão de Westminster (1647). Alcunhas: “os independentes”, “congregacionalistas”.

CALVINISMO

Predeterminação do destino da alma. Calvino condena a grande maioria ao inferno de antemão.

CONFISSÃO DE AUGSBURGO

Rompimento formal com o papado.

CONFISSÃO DE WESTMINSTER

Melhor síntese da fé calvinista.

LUTERANOS

Pouco tratados em Weber. Um traço essencial que os distingue dos calvinistas: são mais ecumênicos e hierárquicos, estando mais próximos do catolicismo. Após o séc. XVI os luteranos recusaram em geral o epíteto de “reformadores” ou de “religião reformada”.

METODISTAS

Luteranos dissidentes dos luteranos ortodoxos. Americanos.

O PROBLEMA DA TEODICÉIA OU DIREITO DIVINO

A tentativa de explicar a injustiça do mundo, que emana de um Deus Bom e Todo-poderoso. Cerne da contradição lógica das religiões monoteístas. Recorre-se à retração da onipotência de Deus para que o livre-arbítrio torne-se possível, o que gera outros problemas derivados.

PIETISTAS

Surgidos do luteranismo, um século depois. Maior ênfase na interpretação da Bíblia, para a qual tendem a chegar a conclusões (não deixar versículos com significação ambígua em aberto). Ultra-moralistas.

PRESBITERIANOS

Ingleses que, diferentemente dos anglicanos, não são organizados em hierarquia.

PURITANOS

Não admitem qualquer igreja. De certo modo os calvinistas são um subconjunto dos puritanos. Outros puritanos – como os quakers – são ainda mais extremistas neste critério. Ultra-moralistas idem. Sobre a relação controversa entre puritanismo e calvinismo: “Para Weber, o puritanismo é cria do calvinismo, [embora] nem sempre [de forma] direta”. Weber, por praticidade, pode se referir ao conjunto dos protestantes, quando não com esta palavra, por “puritanos”, englobando todos os cismáticos (luteranos, calvinistas e todas as seitas aqui enumeradas).

QUAKERS

Protestantes radicais. São contra a igreja física e a instituição do batismo. Advogam que a consciência é a única ferramenta do fiel em sua dúvida quanto à salvação. Reúnem características pragmáticas que os filiam ao que há de mais capitalista e ocidental. Fortemente individualistas; presença na política ianque (origens do Partido Republicano).

RABINISMO

Judaísmo tardio.

SEPTUAGINTA

Uma seleção limitada dos livros do Antigo Testamento considerados canônicos, traduzidos por 70 sacerdotes do hebraico para o grego, em Alexandria.

* * *

Lutero é produto do misticismo panteísta alemão de circa 1300. Exalta a natureza, enxerga a obra de Deus em todos os detalhes. Beira a heresia. Aqui vê-se por que Lutero foi preterido na obra: a unio mystica é o contraponto da ascese espiritual. O homem religioso europeu pós-Reforma é um vitral em pedaços.

PARTE I – O PROBLEMA

1. CONFISSÃO RELIGIOSA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

O “Espírito” do título é o mundo desencantado, sem Deus, e por isso sem indivíduo também.

Pode-se dizer que Lutero foi o assassino de Deus, ao torná-lo transparente mediante a tradução das Escrituras ao alemão vulgar. A transcendência se tornou universal, o portão para o Paraíso muito largo. Lutero quase suprimiu a dialética do senhor e do escravo, convulsionando a Europa. Perto de Lutero, Calvino não só é menos revolucionário como aristocrático e elitista.

Os judeus são ricos porque são párias onde vão, o que fá-los voltar-se com muito privilégio para o sustento material.

Weber não dá crédito à tese dos “países mais ricos” estarem ligados ao Protestantismo. Caso contrário, a França seria mais pobre que países como a Polônia. Na Polônia a elite financeira era de reformados. Os huguenotes franceses também eram protestantes.

2. O “ESPÍRITO” DO CAPITALISMO

A Filosofia da avareza do “quaker” Benjamin Franklin: cada 50 centavos gastos num café deixariam de ser 100 libras no futuro. Comprar um café é o mesmo que atirar vultuosas notas ao mar.

O Norte americano não tinha intuitos comerciais, apenas pregadores: logo se tornou “próspero. O Sul, de finalidade mercantil, estagnou.

Jesuítas: protestantes disfarçados no campo católico.

3. O CONCEITO DE VOCAÇÃO EM LUTERO. O OBJETO DA PESQUISA

“Se alguém foi chamado já circunciso, não dissimule sua falta de prepúcio. Foi alguém chamado com prepúcio? Não se faça circuncidar.”

CONFISSÃO DIARISTA: Dia 17 de outubro, na biblioteca, compreendi eu ser o centro, não sendo-o. Essa dissimulação eterna entre unidade e caos. Me veio à tona um passado que eu não pude escolher que me tornou o que eu quis. Consonância cósmica. Há metafísica e não há.

Pascal, esse Janos da religião e da ética.

PARTE II – A ÉTICA PROFISSIONAL DO PROTESTANTISMO ASCÉTICO

1. OS FUNDAMENTOS RELIGIOSOS DA ASCESE IMANENTE

“o virtuose religioso pode certificar-se do seu estado de graça, quer se sentindo como receptáculo, quer como ferramenta da potência divina. No primeiro caso, sua vida religiosa tende para a cultura mística do sentimento; no segundo, para a ação ascética. Do primeiro tipo estava mais perto Lutero; o calvinismo pertencia ao segundo.”

O fim de semana é uma religião dos magos!

“os adeptos de Nietzsche reivindicam para a idéia de eterno retorno uma significação ética positiva. Só que se trata aqui da responsabilidade por uma vida futura com a qual o sujeito da ação não guarda nenhuma relação de continuidade de consciência [?!], enquanto para o puritano o futuro queria dizer: tua res agitur (Problema seu!).”

Se a certitudo salutis podia aparecer antes, então ou neste momento o indivíduo se desligava da ascese; ou se tornava um ultra-calvinista, porque sua certeza de salvação fazia de si um santo em vida.

grosso modo, grau ascendente de “puritanismo” pós-Reforma:

LUTERANISTA PIETISTA (menos o alemão) METODISTA¹ CALVINISTA² (descreve idealmente a ética ascética weberiana)

¹ Os metodistas eram mais pragmáticos que os pietistas e bastante mais conscientes de sua mudança de Weltanschauung da predestinação do que os luteranos, mas além de menos ascéticos que os calvinistas só surgiram temporalmente depois como seita organizada e descritível.

² Incluindo batistas, anabatistas, quakers e menonitas.

Quase todas as seitas resultam de cismas protestantes; a grande exceção são os batistas, que formaram voluntariamente um grupo à parte. Anabatistas são radicais “ermitãos trabalhadores”.

“A ascese cristã, que de início fugira do mundo para se retirar na solidão, a partir do claustro havia dominado eclesiasticamente o mundo, enquanto a ele renunciava. Ao fazer isso, no entanto, deixou de modo geral intacta a vida cotidiana no mundo com seu caráter naturalmente espontâneo. Agora (séc. XVI-XVII) ela ingressa no mercado da vida, fecha atrás de si as portas do mosteiro e se põe a impregnar com sua metódica justamente a vida mundana de todo dia, a transformá-la numa vida racional no mundo, (mas) não deste mundo nem para este mundo.”

O NOIVADO ENTRE RELIGIÃO CAROLA & CIÊNCIA: A ética pedagógico-protestante dá preferência à física, a disciplina racional que “desencanta o mundo”.

Religião ou economia, qual é a infraestrutura e qual é mero epifenômeno? Qual é o absoluto e incondicional e qual é a superestrutura? Debate superficial e seletivo. Marx e Weber eram inteligentes o bastante para não separar a justaposição indefinível destes dois aspectos humanos. A necessidade de separar em palavras era para fins didáticos ou polêmicos. Ambos são concordes, não rivais epistemológicos.

As democracias mais fracas do séc. XX vêm de tradição católica. O nazismo teria de advir do país da revolução luterana (o calvinismo incompleto, “místico”, apegado ao Pai-Führer).

Anedota: entre os quakers o ataque às imagens e rituais foi tão aberrante que gestos de etiqueta como “tirar o chapéu” se tornaram sinônimo de submissão espiritual – e portanto sinal ou sintoma ante-tempore de não-eleição, não-salvação no Fim dos Dias. Quaker = o caipira americano.

2. ASCESE E CAPITALISMO

O calvinismo evolui a uma heterodoxia (ou neo-ortodoxia fragmentada?): Baxter, o Puritano; Spener, o Pietista; Barclay, o Quacker.

“Perder tempo é o pior dos pecados.” Baxter

Daí a “tempo é dinheiro” não cu$ta muito (cof, cof)…

O repouso só é tolerável nos domingos.

Tomás de Aquino não tem ainda essa percepção sobre o trabalho.

Para Baxter, os ricos devem trabalhar tanto quanto os pobres; não é questão de dispor de capital que torne o desempenho de uma vocação facultativo, mas de cumprir um dever ineludível.

Baxter evoca esboços de conceitos que seriam desenvolvidos por Adam Smith. Ex: vantagem comparativa. Os trabalhadores devem se especializar. O artesão como “vadio”. Idade de ouro da carreira profissional.

“Não o trabalho em si, mas o trabalho profissional racional, é isso exatamente que Deus exige”

ENGENHARIA ESCRITURAL: Os trechos do Antigo e Novo Testamento propícios para seus sermões eram cuidadosamente pinçados; qualquer versículo cuja interpretação fosse contrária à ascese laboral era logo rechaçado. Guerra contra a magia e a transcendência.

Carlos I, Book of Sports

O primeiro estadista do “bem-estar social”.

O corpo continua sendo abjeto, porém, como é por meio dele que se restabelece a “graça para com Deus”, ele deve ser preservado pelo bem maior.

As seitas calvinistas eram originalmente inimigas do esporte, “prática francamente irracional”, incorrendo em desperdício de energia física, atividade vizinha das festas, da embriaguez e das apostas. Até mesmo banhos quentes deveriam ser evitados.

Os homens deviam usar roupas padronizadas, isto é, uniformes, para mostrar que não diferiam enquanto ovelhas do rebanho.

“a ascese era a força ‘que sempre quer o bem e sempre faz o mal’”

Resultado imediato: acumulação de capital mediante estímulo ao trabalho e concomitante coerção ascética à poupança.

“A história inteira das regras das ordens monásticas é em certo sentido uma luta perpetuamente renovada com o problema do efeito secularizante dos haveres” “O mesmo também vale em maior escala para a ascese imanente do puritanismo” Os mais críticos em relação a esse trabalho de Sísifo acabaram por estruturar a seita metodista.

“robinsonada”: Qualquer raciocínio caricato que define o Homo oeconomicus. Robinson Crusoe promoveu uma divisão de trabalho esquizofrênica em sua ilha deserta a fim de “enriquecer” e aproveitar melhor o tempo. Curiosamente esta idéia lhe veio após ler a Bíblia.

O que fazer com os franciscanos, p.ex.? Eles tinham sua utilidade: enquanto houvesse quem pedisse esmolas, haveria o crente enriquecido que as dava, respeitando seus próprios mandamentos, aliviando a consciência. Na Inglaterra é notório o aumento da miséria (o bem que traz o mal).

“Solução do dilema”: o capitalista que obtém lucro e reinveste no próprio negócio amplia a glória divina; o empregado, sem os meios, edifica sua existência ao vender sua força de trabalho.

De passagem, podemos afirmar que Freud se enganou (além de tudo o mais!) em sua simbologia fezes = dinheiro. O correto seria leite = dinheiro. Mammon, mamonismo, mamona, mamão, peito, mamilo e leite. Sanguessuga e parasita. Seiva da árvore da vida, lobo do homem. Matar para comer. Lentamente. Os mais próximos, sem tabu. Bezerro de ouro contra Moisés. A brancura que escorre junto com o sangue. Alguns são simplesmente alérgicos a ele, é de nascença. Sucção, palpitação. Vacas magras. Safra gorda. Desmame traumático. A queda. Não é possível a auto-suficiência.

Estética da mudança: os ingleses e o insípido canto coral. “o que se ouve o mais das vezes a título de ‘canto coral’ é uma gritaria insuportável para ouvidos alemães”

A Holanda em seus últimos anos de supremacia no mercado mundial: “os pregadores ingleses evocavam o exército holandês quando queriam ilustrar a confusão babélica das línguas.”

“em Shakespeare, ódio e desprezo pelos puritanos não perdem a chance de se manifestar a cada passo de sua obra” “Ainda em 1777 a cidade de Birmingham denegou autorização para a abertura de um teatro sob o pretexto de que iria fomentar o ‘ócio’, sendo portanto prejudicial ao comércio.”

“o Quaker era a ‘lei da utilidade marginal’ ambulante.”

“Quem se diverte em esclarecer uma idéia seguindo-a até suas últimas consequências, lembre-se daquela teoria de certos milionários americanos segundo a qual não se deve deixar para os filhos os milhões adquiridos só para não privá-los do benefício moral que só a obrigação de trabalhar e lucrar por sua própria conta e risco pode dar: hoje, evidentemente, isso não passa de uma bolha de sabão ‘teórica’.”

Consumação de uma tragédia (outro sintoma): os reformados ianques tinham horror à obesidade. Hoje são obesos e ociosos.

“Quis o destino que o manto do santo se convertesse numa rígida gaiola de ferro!”

“O rosto corado e alegre do Iluminismo não parece menos fadado a empalidecer e embotar, e a idéia do ‘dever profissional’ ronda nossa vida como um fantasma das crenças religiosas do passado.”

Todo funcionário público é ateu – minha alma só serena e encontra sua salvação ao mergulhar nas perturbações da minha vocação de escritor.

Uma das passagens mais brilhantes e memoráveis da “sociologia” (totalmente tributária de Nietzsche e da crítica econômica que nunca coadunou com a utopia positivistóide desta ‘ciência’):

“Ninguém sabe ainda quem no futuro vai viver nesta gaiola, e se ao cabo desse desenvolvimento-monstro (I) hão de surgir profetas inteiramente novos, (II) ou um vigoroso renascer de velhas idéias e antigos ideais, (III) ou se o que vai restar não será uma petrificação chinesa, arrematada com uma espécie convulsiva de auto-suficiência. Então, para os ‘últimos homens’ desse desenvolvimento cultural, bem poderiam tornar-se verdade as palavras: ‘Especialistas sem espírito, trocistas sem coração: esse Nada imagina ter chegado a um grau de humanidade nunca antes alcançado!’.”

Chega mesmo a arrepiar.

(I) Zaratustra ainda não está maduro.

(II) Ainda não.

(III) Talvez Zaratustra morra ainda em botão, ‘velhas tradições’ nunca se revigorem, e nosso destino seja a prisão de aço inoxidável e vidro blindado do “budismo chinês”, ocidentalizado. O último homem é o prisioneiro inconsciente. Voltamos a Platão. Não avançamos sequer um passo. Volta a esperança pelo número I. A contradição: só num estado de Nirvana auto-suficiência, petrificação e agitação poderiam coexistir.

Recomendação: Para mais sobre a “igreja invisível”, ler artigo de W., As seitas protestantes e o Espírito (…). Ainda é difícil encontrar esse artigo traduzido. Talvez no original ou em inglês.

ON THE EMBASSY – Aeschines (trad. de Charles Darwin Adams, Cambridge, 1919.)

Discurso em autodefesa, contra as acusações de Demóstenes, promotor do caso. O contexto histórico é Atenas sob a dominação de Filipe da Macedônia. A “Embaixada” se refere a uma comitiva de dez embaixadores escolhidos por Atenas para negociarem a paz na Macedônia. Tanto Ésquines como Demóstenes faziam parte desta dezena. Ambos têm versões diferentes sobre quem dos dois agira como traidor da pátria na mal-sucedida viagem. Demóstenes possui um discurso, a que este retorque, chamado hoje, para diferenciá-lo de seu homônimo (e antípoda), On the FALSE Embassy.

“But when it is a question of solicitude for the interests of the state, one solitary man stands out in all his speech—Demosthenes; all the rest are traitors! For he has unceasingly insulted us and poured out his slanderous lies, not upon me alone, but upon the rest as well”

“But we, who have shrines and family tombs in our native land, and such life and intercourse with you as belong to free man, and lawful marriage, with its offspring and connections, we while at Athens were worthy of your confidence, or you would never have chosen us, but when we had come to Macedonia we all at once turned traitors! But the man who had not one member of his body left unsold, posing as a 2nd Aristeides <the Just>, is displeased, and spits on us, as takers of bribes.

“and when Pausanias was coming back to contend for the throne,¹ an exile then, but favoured by opportunity and the support of many of the people, and bringing a Greek force with him, and when he had already seized Anthemon, Therma, Strepsa and certain other places, at a time when the Macedonians were not united, but most of them favoured Pausanias: at this crisis the Athenians elected Iphicrates as their general to go against Amphipolis [no tempo desta ação, future colônia ateniense; ex-colônia ateniense, no momento do discurso de Ésquines]—for at that time the people of Amphipolis were holding their city themselves and enjoying the products of the land.” Vê-se, também, por extensão, que neste tempo Atenas formava uma coalisão imperialista com a Macedônia.

¹ Da dividida Macedônia. Segue explicação do tradutor: “Amyntas, king of Macedonia, left 3 sons, Alexander, Perdiccas, and Philip. Alexander succeeded his father, but after a short reign he was assassinated. His mother Eurydice with her paramour Ptolomaeus took the throne. Her power was threatened by Pausanias, a member of a rival princely house.”

(*) “Amyntas, hard pressed by his Illyrian and Thessalian neighbors, had at one time been driven from his throne by a rival prince. After 2 years, he was restored to power by help of Sparta and Athens. [!] It is conjectured that this was the occasion of his adoption of the Athenian Iphicrates, one of the most capable leaders of mercenary troops.”

Toda a controvérsia do princípio do discurso de defesa está em que a Macedônia tomou Anfípolis para si. Mas teria sido direito de conquista, subtraindo-a dos atenienses, ou uma “tirania”, uma usurpação de uma ainda-colônia de Atenas? Melindres e filigranas…

Ésquines diz que Demóstenes, o último da comitiva a falar com Filipe, desmaiou de nervoso.

“he … having forgotten what he had written, was unable to recover himself; nay, on making a 2nd attempt, he broke down again. Silence followed; then the herald bade us withdraw.”

“And when we were all dining together at Larisa, he made fun of himself and the embarrassment which had come upon him in his speech, and he declared that Philip was the most wonderful man under the sun.”

“In referring to me he said something like this: that I had not disappointed the hopes of those who elected me to the embassy. And to cap it all he moved that each of us be crowned with a garland of wild olive because of our loyalty to the people, and that we be invited to dine on the morrow in the Prytaneum. To prove that I have spoken to you nothing but the truth, please let the clerk take the decree, and let him read the testimony of my colleagues in the embassy.”

“Then he went on and said <See how briefly I will report all the rest. To Aeschines Philip seemed to be eloquent, but not to me; nay, if one should strip off his luck and clothe another with it, this other would be almost his equal.”

“that you may know, fellow citizens, that when it is a question of speaking in the city’s behalf, Demosthenes is helpless, but against those who have broken bread with him and shared in the same libations, he is a practised orator.”

“You find, therefore, that it was not Philocrates and I who entered into partnership in the negotations for the peace, but Philocrates and Demosthenes.”

“For it the presiding officers gave no opportunity for discussion in the 2nd meeting, it is impossible that I spoke then. And if my policy was the same as that of Philocrates, what motive could I have had for opposing on the first day, and then after an interval of a single night, in the presence of the same listeners, for supporting?”

A História (antiga, moderna, ambas?) divide a Guerra Atenas Contra Macedônia ou Liga Atenéia x Filipe II em duas, mas podemos encará-la como uma grande conflagração continuada, com esparsas tréguas. A Guerra de Tróia, por sinal, contemplou mais armistício do que combates, durando de 9 a 10 anos…

“and instead of respect and the hegemony of Hellas, Athens had a name that stank like a nest of Myonnesian¹ pirates. And Philip from his base in Macedonia was no longer contending with us for Amphipolis, but already for Lemnos, Imbros, and Scyros, our own possessions, while our citizens were abandoning Chersonese, the undisputed property of Athens.”

¹ Ilha dos Ratos, mostrando que corsários sempre foram depreciados como animais de rapina ou até coisa pior!

“charge the peace not to the ambassadors, but to the commanders o four arms.”

“Such was the situation of the city, such the circumstances under which the debate on the peace took place. But the popular speakers arose and with one consent ignored the question of the safety of the state, but called on you to gaze at the Propylaea of the Acropolis, and remember the battle of Salamis, and the tombs and trophies of our forefathers.”

(*) “Aristotle tells us that it was Cleophon who introduced the 2 obol donation from the treasury to provide a free seat in the theatre for every citizen who applied for it. This was the beginning of the Theorika, recognized in the time of Aeschines as one of the greatest abuses in the democracy.”

“Finally they brought the city to such a pass that she was glad to make peace, giving up everything, tearing down her walls [como bem visto nos discursos de Lísias no seclusão], receiving a garrison and a Lacedaemonian governor, and surrendering the democracy to the Thirty, who put 1500 citizens to death without a trial.”

“For Atrometus, our father, whom you slander, though you do not know him and never saw what a man he was in his prime—you, Demosthenes, a descendant through your mother of the nomad Scythians—our father went into exile in the time of the Thirty, and later helped to restore the democracy”

“But you find fault with my service as ambassador to Arcadia and my speech before the Ten Thousand there, and you say that I have changed sides—yourself more slave than freeman, all but branded as a runaway! (…) I acknowledge that I advised the people to come to terms with Philip, and to make the peace, which you, Demosthenes, now hold disgraceful, you who never had a weapon of war in your hands—but which I declare to be much more honourable than the war.”

“But if the responsibility for the wars is to be laid upon the ambassadors, while the generals are to receive the rewards, the wars you wage will know neither truce nor herald of peace, for no man will be willing to be your ambassador.”

“Demosthenees, who just now burst into tears here at mention of Cersobleptes, tried to shut him out of the alliance. (…) and my accuser has dared to tell you that it was I who drove Critobulus, Cersobleptes’ ambassador, from the ceremony—in the presence of the allies, under the eyes of the generals, after the people had voted as they did! Where did I get all that power?”

“you preserve for all time in the public archives your decrees, together with their dates and the names of the officials who put them to vote.”

“And do you put on airs before these jurymen, as though they did not know that you are the bastard son of Demosthenes the cutler?” Não é a primeira vez que Ésquines utiliza o fato de a mãe de Demóstenes não ser cidadã ateniense como argumento extra, ad hominem.

“For it serves you, as it does all liars, to confuse the dates, but it serves me to give the events in their order”

“At the same time I reviewed [to Phillip] from the beginning the story of the founding of the shrine, and of the first synod of the Amphictyons that was ever held; and I read their oaths, in which the men of ancient times swore that they would raze no city of the Amphictyonic states, nor shut them off from flowing water either in war or in peace; that if anyone should violate this oath, they would march against such an one and raze his cities; and if any one should violate the shrine of the god or be accessory to such violation, or make any plot against the holy places, they would punish him with hand and foot and voice, and all their power. To the oath was added a mighty course.”

“in the apportionment of the day eleven jars of water have been assigned to my defence.(*)

(*) How long a time would be occupied by the running of one amphora of water through the clepsydra, we have no means of knowing.”

“Would it not, then, be monstrous treatment for me if I should be convicted when my accuser is Demosthenes, the paid servant of Thebes and the wickedest man in Hellas, while my advocates are Phocians and Boeotians?”

“For you, Demosthenes, fabricated these charges against me, but I will tell my story, as I was taught to do from childhood, truthfully. Yonder is my father, Atrometus; there are few older men among all the citizens, for he is now 94 years old. When he was a young man, before the war destroyed his property, he was so fortunate as to be an athlete; banished by the Thirty, he served as a soldier in Asia, and in danger he showed himself a man (…) and he helped in the restoration of the democracy

It is my good fortune, too, that all the members of my mother’s family are free-born citizens; and today I see her here before my eyes in anxiety and fear for my safety. And yet, Demosthenes, this mother of mine went out to Corinth an exile, with her husband, and shared the disasters of the democracy; but you, who claim to be a man—that you really are a man I should not venture to say—you were once indicted for desertion, and you saved yourself by buying off the man who indicted you, Nicodemus of Aphidna, whom afterward you helped Aristarchus to destroy; wherefore you are polluted, and have no right to be invading the market-place.”

(*) “The murder of Nichodemus by Aristarchus, a young friend of Demosthenes, was a notorious case, but the attempts of Demosthenes’ enemies to connect him with it were entirely unsuccessful.”

“But you dared to speak about my wife’s family also—so shameless you are and so inherently thankless, you that have neither affection nor respect for Philodemus, the father of Philon and Epicrates, the man by whose good offices you were enrolled among the men of your deme, as the elder Paeanians know.”

“But see how far back his preparations for this accusation go. For there is a certain Olynthians living here, Aristophanes by name. Demosthenes was introduced to him by some one, and having found out that he is an able speaker, paid extravagant court to him and won his confidence; this accomplished, he tried to persuade him to give false testimony against me before you, promising, namely, to give him 500 drachmas on the spot, if he would consent to come into court and complain of me, and say that I was guilty of drunken abuse of a woman of his family, who had been taken captive; and he promised to pay him 500 more when he should have given the testimony.

But Aristophanes answered him, as he himself told the story, that Demosthenes had entirely misjudged his character, for he could do nothing of the sort. (…) Please call Aristophanes the Olynthian (…) and call those who heard his story and reported it to me—Dercylus, of the deme Hagnus, the son of Autocles, and Aristeides of Cephisia, the son of Euphiletus.”

“Ofttimes whole peoples suffer from one man

Whose deeds are sinful and whose purpose base.”

Hesiod

“You wrote a speech for the banker Phormion and were paid for it: this speech you communicated to Apollodorus, who was bringing a capital charge against Phormion.”

“I fought in the battle of Mantineia, not without honour to myself or credit to the city. I took part in the expeditions to Euboea, and at the battle of Tamynae as a member of the picked corps I so bore myself in danger that I received a wreath of honour then and there, and another at the hands of the people on my arrival home; for I brought the news of the Athenian victory, and Temenides, taxiarch of the tribe Pandionis, who was despatched with me from camp, told here how I had borne myself in the face of the danger that befell us.”

“In former days, after the battle of Salamis, our city stood in high repute, and although our walls had been thrown down by the barbarians yet so long as we had peace with the Lacedaemonians we preserved our democratic form of government.”

“and we held the democratic constitution unshaken. But meanwhile men who were neither free by birth nor of fit character had intruded into our body politic, and finally we became involved in war again with the Lacedaemonians, this time because of the Aeginetans.”

(*) “Ver Andocides, On the Peace with the Lacedaemonians”

“a creature who is no man—no better in spirit than a woman.”

“Is he not indeed to be pitied who must look into the sneering face of an enemy, and hear with his ears his insults? But nevertheless I have taken the risk, I have exposed my body to the peril.”

TESES SOBRE O CONCEITO DA HISTÓRIA – Benjamin (trad. Sérgio Paulo Rouanet), 1940.

“O fantoche chamado <materialismo histórico> ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.”

“<A verdade nunca nos escapará>” — essa frase de Gottfried Keller caracteriza o ponto exato em que o historicismo se separa do materialismo histórico.”

“Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tristeza.”

“Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie.”

“O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX <ainda> sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.”

“as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas iluminariam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a água marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem.”

“A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados.”

“A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o actual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante.”

“O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico. No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres.”

“O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada.”

“Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos.”

L’ENCYCLOPÉDIE – AB

AB

“AB, s. m. onzieme mois de l’année civile des Hébreux, & le cinquieme de leur année ecclésiastique, qui commence au mois de Nisan. Le mois ab répond à la Lune de Juillet, c’est-à-dire à une partie de notre mois du même nom & au commencement d’Août. Il a 30 jours. Les Juifs jeûnent le premier jour de ce mois, à cause de la mort d’Aaron, & le neuvieme, parce qu’à pareil jour le Temple de Salomon fut brûlé par les Chaldéens; & qu’ensuite le second Temple bâti depuis la captivité, fut brûlé par les Romains. Les Juifs croyent que ce fut le même jour que les Envoyés qui avoient parcouru la Terre de Chanaan, étant revenus au camp, engagerent le peuple dans la révolte. Ils jeûnent aussi ce-jour-là en mémoire de la défense que leur fit l’Empereur Adrien de demeurer dans la Judée, & de regarder même de loin Jérusalem, pour en déplorer la ruine. Le 18e jour du même mois, ils jeûnent à cause que la lampe qui étoit dans le Sanctuaire, se trouva éteinte cette nuit, du tems d’Achaz. [?] Les Juifs qui étoient attentifs à conserver la mémoire de tout ce qui leur arrivoit, avoient encore un jeûne [não confundir jejum com jovem] dont parle le Prophete Zacharie, institué en mémoire & en expiation du murmure des Israélites dans le désert, lorsque Moyse eut envoyé de Cades-barné des espions dans la Terre promise. Les Juifs disent aussi que dans ce mois les 2 Temples ont été ruinés, & que leur grande Synagogue d’Alexandrie fut dispersée. L’on a remarqué que dans ce même mois ils avoient autre-fois été chassés de France, d’Angleterre & d’Espagne. (G)

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AB, s.m. en hébreu signifie père; d’où les Chaldéens & les Syriens ont fait abba, les Grecs abbas, conservé par les Latins, d’où nous avons formé le nom d’Abbé. Saint Marc & Saint Paul ont employé le mot syriaque ou chaldaïque abba, pour signifier Pere, parce qu’il etoit alors commun dans les Synagogues & dans les premieres assemblées des Chrétiens. C’est pourquoi abba Pater dans le Saint Marc 14, & dans le Saint Paul aux Romains 8, n’est que le même mot expliqué, comme s’ils disoient: abba, c’est-à-dire, mon pere.” Mon dieu sacré!